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Defina o evolucionismo cultural em Lewis Morgan e Edward Tylor, destacando os conceitos,
os “objetos” e métodos de pesquisa empregados pelos dois autores
A teoria do evolucionismo cultural surge no século XIX, num contexto científico marcado por
uma tradição antropológica na qual a forma de explicar os fenômenos culturais era
evolucionista, onde havia um progresso direcionado de formas simples às complexas, da
homogeneidade à heterogeneidade, das atrasadas às avançadas.
Este progresso se daria através de um caminho a ser trilhado por todas as sociedades,
numa trajetória vista como obrigatória, unilinear e ascendente, partindo do estágio
“selvagem”, passando pela barbárie até chegar à civilização. E as diferenças eram
justificadas pelo fato das sociedades estarem em estágios diferentes. A partir do
pressuposto da origem
comum e da evolução, os antropólogos deveriam estudar os povos antigos ou a cultura
primitiva para traçar essa trajeto.
Os evolucionistas utilizam o método comparativo para poderem provar como esses povos
eram simples e como haviam evoluído procedendo primeiro ao desmembramento da
cultura, numa espécie de “dissecação”, agrupando o s artefatos culturais dos grupos por
“tipos” semelhantes e depois os classificando de acordo com a escala evolutiva. Este
método se assemelha com o das ciências naturais onde a classificação facilitava o
domínio sobre o objeto estudado. Era também objetivo mútuo descobrir leis gerais para
explicar as mudanças culturais, pois assim aproximariam a antropologia do que se
entendia por cientificidade no momento.
Para Morgan a evolução estabelecia a ordem do progresso pelo qual todas as sociedades
humanas passaram: “pode-se afirmar agora, com base em convincente evidência, que
a selvageria precedeu a barbárie em todas as tribos da humanidade, assim como se
sabe que a barbárie precedeu a civilização. A história da raça hum ana é uma só – na
fonte e, na experiência, no progresso ”. Sendo assim a trajetória da humanidade
era uniforme, unilinear e ascendente. Morgan acreditava que como uma raça única, a
humanidade teve uma única origem, a partir da qual seguiu a trajetória do progresso,
passando ou estando em um dos três períodos: selvageria, (subdividida em inicial,
intermediário ou final ) barbárie(subdividida da mesma forma) e a civilização, dividida em
antiga e moderna. Para Morgan “essas três distintas condições estão conectadas umas às
outras numa seqüência de progresso que é tanto natural como necessária ”. As fases
da evolução cultural da humanidade, dizem respeito, cada uma a “uma cultura distinta e
representará um modo de vida particular”. As evidências do progresso eram as
invenções e descobertas e as instituições primárias, principalmente, a família, o governo
e a propriedade, que teriam se iniciado durante a selvageria. São essas evidências que
delimitam o início e o fim de um período. A sociedade a qual Morgan vivia e para ele era
referência ocupava patamar de destaque em sua construção teórica, pois ele a entendia
como civilizada e acreditava que todas as outras sociedades deveriam percorrer um
caminho para alcançar o estimado status de civilização. Tal pensamento foi
determinante para legitimar as práticas imperialistas que os europeus emplacaram contra
os diferentes.
Tylor nos apresenta a sua definição de cultura ou civilização como sendo aquilo que é
adquirido pelo homem como membro de uma sociedade: é aquele todo complexo que
inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e quaisquer outras capacidades e
hábitos adquiridos . Ele defende que ela “possa ser investigada segundo princípios gerais”.
A cultura teria uma uniformidade devida “à ação uniforme de causas uniformes ” e uma
variação de grau atribuída aos “estágios de desenvolvimento ou evolução ” No presente
texto, Tylor defende que o estudo da cultura e da vida humana deve estar atrelado a
cientificidade, que naquele momento tinha viés positivista e racionalista, seguindo o
modelo das ciências naturais ; ele entendia que esse estudo deve ser um “ramo da
ciência natural”, pois a história da humanidade faz parte da espécie animal e, portanto, é
possível e desejável que se defina leis, princípios gerais, se faça classificação e comparação,
e os testes de recorrência dos fatos. Sendo assim a tarefa da etnografia é “a investigação
da s causas que produziram os fenômenos de cultura e das leis às quais estão subordinados
”. O etnógrafo terá que pensa como a cultura pode ser classificada em estágios numa
ordem evolutiva? Tylor propõe que a comparação deve ser feita entre elementos da
cultura, pois “ um primeiro passo no estudo da civilização é dissecá-la em detalhes e,
em seguida, classificá-los em seus grupos apropriados” Tylor afirma que a comparação,
deveria ser entre “raças que se encontram em torno do mesmo grau de civilização . Tylor
também era adepto da teoria monogenista e defendia que a variabilidade cultural era
resultado do processo evolutivo.
“para o presente propósito, parece tanto possível quanto desejável eliminar
considerações de variedades hereditárias, ou raças humanas, e tratar a humanidade
como homogênea em natureza, embora situada em diferentes graus de civilização. Os
detalhes da pesquisa provarão, parece-me, que estágios de cultura podem ser
comparados sem levar em conta o quanto tribos que usam o mesmo implemento,
seguem o mesmo costume ou acreditam no mesmo mito podem diferir em sua
configuração corporal e na cor de pele e cabelo”
Um importante elemento que ajudaria a traçar o curso da evolução seria as
“sobrevivências”, pois como seriam “processos, costumes, opiniões [...] que, por força do
hábito, continuaram a existir num novo estado de sociedade diferente daquele no qual
tiveram sua origem ”, seriam evidências, “provas e exemplos de uma condição mais
antiga de cultura que evoluiu em uma mais recente”. Pensar em graus de cultura
torna -se uma atitude depreciativa na medida em que os costumes, hábitos, etc. do outro
se tornam primitivos, não evoluídos segundo o julgamento do antropólogo, tal postura
era a base do evolucionismo cultural que estruturava uma análise verticalizada e
hierarquizante.
O conceito de Relativismo C ul t ural, cunhado por Boss, rompeu com os fundamentos
dos antropólogos evolucionista sociais que lhe precedera, os quais concebiam ideia de
que haviam culturas mais atrasadas do que outra s, numa escala que partia dos mais
atrasados, ditas “sociedades primitivas para as mais adiantadas, “evoluídas ”, como a
sociedade europeia da época. Inicialmente Boas contradisse o conceito de
cultura primitiva que ue no senso comum caracterizava as estruturas soc ia is e técnicas
pouco diversificadas social, intelectual emocionalmente. Para Boa s não haveria relação
recíproca entre estes aspectos da vida étnica. Ele principiou divergindo das ideias
comuns na antropologia da época, de que as culturas mais simples antecedentes as culturas
mais complexas. Boas tomou como exemplos o s povos australianos, cuja cultura
material era muito pobre, mas cuja organização social era altamente complexa; por outro
lado, os índios da Califórnia produziam segundo ele, excelente trabalho técnico e
artístico, porém não revelavam uma complexidade correspondente em outros s aspectos
da sua vida. Assim, ele deduziu que o conceito de mais avançado ou menos avançado é
relativo. A título de exemplo, Boas chamou a atenção para as diferenças de status cultural
existentes e entre as populações rurais pobres da Europa e da América e os mais
ativos representantes da cultura moderna contemporâneos.