TEOREMA DE PASOLINI.
OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
Teorema de Pasolini. Ou o avanço no
niilismo na contemporaneidade 1
Miguel Angel de Barrenechea2
1. Introdução
No IX Encontro-Nietzsche, abriu-se um importante fórum
de reflexões e perspectivas sobre o cinema, sob a inspiração de
Deleuze, mas com a possibilidade de trazermos outras interpre-
tações filosóficas e/ou artísticas que pensem o cinema e a filosofia.
Nesse intuito, apresento neste artigo algumas ponderações
e impressões que até hoje me afetam, como as questões levanta-
das pelo impactante e controverso filme Teorema, de Pasolini.
Essa se mostrou uma curiosa empreitada. Pode parecer estranho
trazer à tona hoje uma reflexão sobre um cineasta do século XX e
um filme realizado no milênio passado, há mais de 50 anos. Esse
filme, elaborado e lançado no sugestivo e relevante ano de 1968,
em uma época de grande efervescência em toda a cultura ociden-
tal, foi marcante para a minha geração, sendo motivo de muitos
debates, reflexões e análises durante bastante tempo.
Não é possível separar o impacto desse filme do contexto
social, político e cultural do final da década de 1960 e início dos anos
1970, período fortemente marcado por transformações, com mu-
danças de valores e crenças no ocidente. É impossível não aludir
1 Esta é uma versão modificada da palestra apresentada no IX Encontro Schopenhauer-Nietzsche:
Filosofia e Cinema, organizado pelo grupo Apoena, sob a coordenação de Gustavo Costa, Ruy de Carvalho
e Thiago Motta, entre outros, em Fortaleza-CE, no Centro Cultural Dragão do Mar, em novembro de
2017. Outra versão deste texto será publicada na coletânea sobre Filosofia e Cinema, que está sendo
organizada por Rosa Maria Dias, da UERJ.
2 Miguel A. de Barrenechea é doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor
titular da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e pesquisador no Programa de
Pós-Graduação em Memória Social (PPGMS) desta Universidade.
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
ao maio francês, que justamente em 1968, durante um movimento
que congregou operários, estudantes e outros segmentos sociais –
geralmente deixados de lado, ou não contemplados – que se fizeram
ouvir, com bastante estardalhaço, nas ruas de Paris, com consignas,
como: “A imaginação ao poder” ou “Escandalizar os burgueses”.
Foi um momento de transvaloração dos valores, de crise do
domínio de concepções vigentes no mundo ocidental, mas prin-
cipalmente do modo de vida burguês, que foi colocado em xeque.
Nesse sentido, o maio francês, as revoltas acontecidas em todo
o mundo contra a guerra do Vietnã e contra o domínio imperial
dos Estados Unidos, o surgimento do movimento hippie como for-
ma de contracultura e outras manifestações culturais, sociais e
políticas, em muitos lugares do Ocidente, colocaram na berlinda
uma forma de ser capitalista, uma maneira de ser que conserva-
va valores, há longo tempo cultuados, e reeditavam uma tradi-
ção controladora, moralista, metafísica e religiosa. No evento Por
que Nietzsche?, realizado em Cerisy-la-Salle, Deleuze apresentou
importantes reflexões sobre o que denominou “pensamento nô-
made”: um pensamento que trazia uma força indomável, uma
máquina de guerra que contestava o domínio imperial de noções
impostas pela tradição filosófica do Ocidente3. Sob os ecos do
maio francês, Deleuze considerava Nietzsche a “aurora de uma
contracultura”, como o sintoma de um pensar que estava prestes
a quebrar os parâmetros de uma tradição sufocante e repressiva.
Para ele, Nietzsche seria como um pensador que trazia o noma-
dismo no pensar: que abria as portas à oxigenação de formas iné-
ditas de existência do homem no Ocidente4.
3 O encontro Nietzsche Aujourd’hui foi realizado em Cerisy-la-Salle, em julho de 1972, para refletir,
naquele período pós-maio francês, sobre a atualidade do pensamento de Nietzsche, contando, além de
Deleuze, com relevantes pensadores, como Klossowski, Lyotard, Löwith, Fink, Kofman, entre outros.
Empregamos, neste trabalho, a importante coletânea Nietzsche hoje? (SP: Brasiliense, 1986), organizada
por Scarlett Marton, contendo a tradução das mais relevantes palestras daquele encontro.
4 Deleuze, em “O pensamento nômade” (1986), do evento Nietzsche hoje?, mostra o singular lugar de
Nietzsche no pensamento ocidental; ele o considera o filosofo mais radical no ocidente, realizando uma
quebra de paradigmas teóricos, ainda de forma mais categórica do que Marx e Freud, indo além deles, e
inaugurando a “aurora de uma contracultura”: “Marx e Freud talvez sejam a aurora da nossa cultura, ele
[Nietzsche] é a aurora de uma contracultura” (p. 57).
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TEOREMA DE PASOLINI. OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
2. Pasolini: teoremas e problemas
Creio que Pasolini, um marxista convicto daqueles idos
anos 1960-1970 do século passado, embora contendo também, na
sua multifacetada personalidade, numerosas convicções religio-
sas, deixou-nos como legado uma obra instigante que, na minha
ótica, ainda ecoa e tem vigência, mesmo que o mundo tenha mu-
dado radicalmente de signos e orientações, depois de pouco mais
de meio século da elaboração de sua obra Teorema. Esse filme
causou um grande impacto nos meus anos de juventude, e afetou
muitos jovens e outros não tão jovens daquela época. Por isso,
creio que é importante tornar a refletir sobre Teorema nesta épo-
ca presente. A minha hipótese é de que a vigência da obra de
Pasolini ainda nos afeta e tem muito a nos dizer. Nesse sentido,
apoio-me na importante leitura de Deleuze, quando afirma em:
“O pensamento e o cinema”, que há duas instâncias na obra de
Pasolini, assim como na de outros cineastas. Há algo que afeta
o momento específico em que foi elaborado o filme, e outro que
o excede e ultrapassa as variáveis de tempo e espaço em que foi
concebido. Em outras palavras, há um aspecto problemático e
teoremático em cada filme:
Há duas instâncias matemáticas [em todo
filme] que estão sempre remetendo uma à
outra [...] são o teorema e o problema. Um
problema se encontra no teorema, e lhe dá
vida, mesmo privando-o de sua potência.
A problemática se distingue da teoremáti-
ca (ou o construtivismo, da axiomática) no
fato de que o teorema desenvolve relações
intrínsecas de princípio a consequências,
enquanto o problema faz intervir um acon-
tecimento de fora, ablação, adjunção, sec-
ção, que constitui suas próprias condições e
determina o “caso” ou os casos [...]. (DELEU-
ZE, 2005, p. 210-11).
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
Em outras palavras, em um filme teoremático – conforme
interpreta Deleuze – encontramos um aspecto demonstrativo,
gradual e conclusivo, em que a obra se desenvolve do princípio
ao fim como um silogismo. Nesse tipo de filme encontramos uma
série de provações imagísticas que iriam de “imagens-premissas”
a “imagens conclusivas”. O filme teoremático constituiria um uni-
verso em si mesmo, fechado, monádico, que se desenrola do início
ao fim, como uma demonstração intrínseca, onde não há um fora,
uma exterioridade, tudo está nele, tudo começa e conclui nele. Daí
Deleuze afirmar que, por exemplo, o filme Salò, os 120 dias de
Sodoma, no qual os horrores do fascismo são denunciados na sua
total brutalidade, constitui um universo fechado, que se delimita
– e se esgota, como um teorema morto – em um pequeno povoado
tomado pelas forças brutais da ocupação:
[...] em Salò, não há mais problema, porque
não há mais fora: Pasolini encena, nem mes-
mo o fascismo in vivo, mas o fascismo encur-
ralado, fechado na cidadezinha, reduzido a
uma interioridade pura, coincidindo com as
condições de fechamento em que se desen-
volviam as demonstrações de Sade. Salò,
os 120 dias de Sodoma é um puro teorema
morto, um teorema de morte, como o queria
Pasolini [...]. (DELEUZE, 2005, p. 211).
Outra coisa é o filme problemático: justamente Teorema,
não fazendo jus ao seu nome, é uma película não teoremática; ao
contrário, longe de concluir ou esgotar-se nas suas imagens, no
seu devir fílmico, abre-se a um fora, a uma exterioridade; não se
reduz ao que colocam suas imagens, convoca sempre novos sen-
tires e pensamentos. Teorema, como todo filme problema, é um
aberto que convoca o aberto, que nos coloca na indecisão, na inda-
gação, na encruzilhada. Deleuze continua sua análise afirmando:
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Teorema é um problema vivo. Daí a insis-
tência de Pasolini, em Teorema, em invocar
um problema para o qual não converge,
como para o ponto sempre extrínseco do
pensamento, o ponto aleatório, o leimotiv do
filme: “estou obcecado por uma questão que
não posso responder”. Longe de restituir ao
pensamento o saber, ou a certeza interior
que lhe falta, a dedução problemática põe o
impensado no pensamento, pois o destitui
de qualquer interioridade para abrir nele
um fora, um avesso irredutível, que devora
sua substância. (DELEUZE, 2005, p. 211-12).
Nesse sentido interpretativo, hoje, aqui e agora, neste sé-
culo XXI, creio ser possível dialogarmos com uma obra de arte do
milênio passado. Acredito que Teorema é uma obra problemática,
no sentido que demonstrou Deleuze, e por isso nos convoca a re-
fletir, a indagar, e a tomar decisões hermenêuticas, a exigirmos
escolhas interpretativas ainda hoje. Trata-se de um cinema de
poesia, um cinema do aberto, que com uma série de imagens, me-
táforas, parábolas excede o seu próprio tempo-espaço e conversa
conosco. Não é à toa que uma das imagens mais recorrentes é a
do deserto ou da desertificação que atinge o homem contemporâ-
neo. E uma das palavras mais repetidas pelas personagens, nos
raros diálogos do filme, é “il vuoto”, o vácuo, o vazio que açoita o
homem atual.
Conforme a distinção deleuziana, Teorema, de Pasolini, é
um filme problema, uma obra de arte em estado de indecisão,
de indagação, que convoca ainda numerosas interpretações, ima-
gens, percepções, que ainda ecoam e nos desafiam. A partir dessa
convocatória interpretativa, na sequência, a minha proposta her-
menêutica sobre o filme será articular essa obra de arte com a
problemática da morte de Deus, ainda nos nossos dias.
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
3. Teorema e a morte de Deus
Neste momento da minha reflexão, acho importante aludir
a um texto basilar de Nietzsche, aforismo 125, de A gaia ciên-
cia, O homem louco, no qual se apresenta um sugestivo relato
de um homem louco que anunciaria a morte de Deus. A partir
dessa imagem pretendo abordar algumas questões fundamentais
do filme, para, em uma segunda parte desta reflexão, analisar os
desdobramentos desse processo de necrose do divino nos nossos
dias, articulada com a questão da vigência de Teorema na atua-
lidade.
O homem louco se lançou no meio deles [daqueles que es-
tavam na praça do mercado] e trespassou-os com seu olhar. “Para
onde foi Deus”? gritou ele, já lhes direi! Nós o matamos – vocês e
eu. Somos todos os seus assassinos! Mas como fizemos isso! Como
conseguimos beber inteiramente o mar? Que nos deu a esponja
para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do
seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos
nós? Não caímos continuamente? [...] Existem ainda “em cima” e
“embaixo”? Não vagamos, como que através de um nada infinito?
Não sentimos o sopro do vácuo? Não anoitece eternamente? [...]
Deus está morto! [...] Nunca houve um ato maior – e quem vier de-
pois de nós pertencerá [...] a uma história mais elevada que toda
a história até então (NIETZSCHE, 2001, 125, O homem louco).5
Nesta passagem paradigmática de A gaia ciência, a mor-
te de Deus está ilustrada com dramáticas e terríveis imagens.
Não se trata da morte de nenhuma figura considerada divina;
não se alude a Cristo, Maomé, Buda. Através dessa parábola,
Nietzsche torna-se numa espécie de hermeneuta dos infernos
da Modernidade e também, no meu entender, dos infernos da
5 Emprego, para a tradução dos textos de Nietzsche, a versão canônica, KSA, Organizada por Colli
e Montinari (1967-77); também me apoio nas traduções ao português de Paulo César de Souza, da
Companhia das Letras de A gaia ciência (2001); Ecce homo (2000) e a versão da Civilização Brasileira,
traduzida por Mario Silva, de Assim falou Zaratustra (1998).
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TEOREMA DE PASOLINI. OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
contemporaneidade.6 A queda de valores milenares, de verdades
consideradas imutáveis, a quebra do centro luminoso (“Que fize-
mos nós, ao desatar a terra do seu sol”), matriz de toda certeza, o
esvaziamento de ideais que pareciam perenes, nos colocou cara a
cara com a intempérie, com o vácuo, com a espreita do nada, da
ausência total de sentido e de parâmetros (“Não vagamos, como
que através de um nada infinito? Não sentimos o sopro do vá-
cuo?”). Parece, conforme relata Nietzsche, no século XIX, que as
escalas axiológicas periclitaram, quebraram-se as hierarquias,
não podemos definir em cima ou embaixo (“Existem ainda o ‘em
cima’ e o ‘embaixo’?”). Parece que caímos permanentemente, que
entramos num espiral desértico, numa pororoca que soa a oco.
Trata-se do diagnóstico nietzschiano de um universo que entrou
na mais profunda crise.
Se tentássemos estabelecer um paralelo com outras épo-
cas, é possível perceber que o homem moderno e o contempo-
râneo vivem em uma situação de maior precariedade que em
outros tempos. Assim, por exemplo, o homem antigo sentia que
era possuidor de um ethos, uma morada, um lugar seguro, um
porto do qual partir, sair e ao qual retornar; tinha um lar, uma
casa, uma base sólida. O homem medieval, por sua vez, acreditava
em um Deus redentor, com uma vida eterna post mortem, à qual
poderíamos aceder apenas cumprindo os ditames celestiais, até
retornar ao ansiado paraíso; já os modernos ainda sonharam com
outra entidade quase divina, a ciência, que se tornou um canto de
sereias: o conhecimento científico parecia trazer, após o esgota-
mento da crença no mundo inteligível, do pretenso ultramundo ju-
daico-cristão, também promessas reconfortantes e infalíveis: pos-
tulou-se um saber que proporcionaria um progresso, uma ordem
permanente. A razão iluminaria de forma clara e distinta todos
os âmbitos da realidade. Em um universo sem deuses, a ciência
6 Abordei algumas questões sobre o anúncio da morte de Deus e o avanço no niilismo, no meu livro
Nietzsche e a alegria do trágico (2014), particularmente no capítulo 3: “Nova era trágica: para além da
metafísica”.
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
permitiria desvendar todos os âmbitos da realidade e outorgaria
a compreensão de todos os entes, isto é, o domínio de tudo o exis-
tente. As ideologias redentoras fizeram sua parte, desde os ideais
da Revolução Francesa, que prometia uma humanidade demo-
crática em que todos os homens seriam iguais, livres e frater-
nos, até as consignas anarquistas e socialistas que prometeram
a felicidade na terra, a partir da máxima dourada do marxismo:
“A cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas
necessidades”. Parecia possível aceder ao paraíso na terra. O ho-
mem não deixava de se iludir com sonhos, agora não metafísicos,
mas científicos, políticos. O telos salvador parecia muito perto
de todos os homens, na possibilidade de concretizar na terra as
crenças utópicas. 7
Contudo, Nietzsche e seu homem louco vieram quebrar as
expectativas desses exultantes modernos, e, como consequência,
estragaram – a posteriori – a nossa festa nessa conturbada con-
temporaneidade. O centro acabou; o horizonte calmo esgotou-se e
o universo mostrou sua pior face, sua perspectiva mais tenebro-
sa. A modernidade – tão cheia de proclamas e promessas prome-
teicas – não instaurou a justiça, a harmonia, a ordem cósmica, a
solidariedade entre os homens. Quanto mais ciência mais igno-
rância houve, quanto mais os sistemas políticos prometeram jus-
tiça, equilíbrio, integração de todos, avançaram as injustiças, os
desequilíbrios, as guerras e a exclusão. Longe de atingir qualquer
situação confortável ou ideal, o homem começou a constatar a
sua precariedade e sua inconsistência existencial. Nesse sentido,
podemos considerar todas as personagens de Teorema como es-
pécies ou tipos de homens loucos, assassinos de Deus, argonautas
sem bússola, perdidos nos labirintos do vácuo.
7 Nesta questão é importante aludir às análises de Viesenteiner (2006) Ansell-Pearson (1997) e Wotling
(1995).
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TEOREMA DE PASOLINI. OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
4. Teorema, il vuoto e nós: o deserto está aumentando
Começo este item tecendo algumas sumárias considera-
ções sobre Teorema, de Pasolini. Parto desta, como uma obra em
aberto, como cinema de poesia, como testemunha de uma arte
e de um pensar do século XX.8 Depois abordo a interpretação
nietzschiana da morte de Deus, da desertificação ou necrose do
divino, presente em alguns aforismos, como no citado d’A gaia
ciência, 125. Após introduzir os problemas levantados por Paso-
lini, em Teorema, e aludir à compreensão do niilismo em Niet-
zsche, o meu objetivo é pensar algumas questões presentes hoje,
nesta segunda década do terceiro milênio, nos nossos dias tão
conturbados, cansados, esgotados, revoltados. Então, tentarei ma-
quinar esses autores tão diferentes (Pasolini e Nietzsche), isto é,
procurarei me apropriar das ideias e das narrativas desses dois
artistas-pensadores para tecer algumas considerações, a fim de
desenvolver algumas teses, alguns diagnósticos e prognósticos
sobre esses nossos tão problemáticos dias.
Pasolini abriu, com Teorema, problemas, enigmas, inda-
gações; lançou, para os anos vindouros, imagens instigantes que
ainda nos assombram. A história de Teorema é conhecida. Relem-
bro apenas alguns detalhes. O foco das ações acontece no seio de
uma família burguesa, cujo pater-famílias, Paolo, é dono de uma
fábrica, que gerencia com entusiasmo e com empenho diário. É
casado, há muitos anos, com Lucia, bela dona italiana, integrante
de uma família burguesa tradicional. Ela cumpre com as funções
esperadas: atender a casa, com seus coadjuvantes serviçais, cui-
dar da mesa, do jardim, da comida, da educação dos seus filhos,
que já estão entrando na vida adulta. Lucia é a mãe da família que
guarda zelosamente as aparências, isto é, deve ser casta, pura,
8 Vejamos a caracterização de cinema de poesia, em Pasolini, conforme a definição de Muller (2007, p.
81): “Quando Pasolini fala em cinema de poesia [...] não é apenas um cinema de belas imagens (muito
pelo contrário, Pasolini cultuava o feio e pobre), mas um cinema em que as imagens se pensam. Para ele,
o cinema de poesia era apenas uma etapa para a poetização da própria indústria (e não apenas a indústria
cinematográfica), que se daria pari passu com a poetização da vida e das relações sociais.”
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
religiosa, dedicada e deve aparentar justamente essa dedicação,
pureza, religiosidade e castidade. Mas como tudo aquilo que é
máscara, pose, impostura: soa a vácuo, ao nada. Não à toa que
com seu marido, após mais de trinta 30 anos juntos, convivem
gregária e rotineiramente; sem qualquer vestígio de paixão ou
desejo, que talvez nos idos anos da sua juventude, tenham sentido
um por outro. Agora, ambos são, de alguma forma, uma espécie
de “vizinhos” entediados, que dividem o mesmo teto, a mesma
cama, a mesma rotina, repetição e fastio.
Eles são pais de um casal de filhos, Pietro e Odette, bem
educados, bem formados, em boas escolas, já encaminhados a rea-
lizarem estudos “superiores”. Pietro é o filho mais alegre, mais
engraçado da família. Estuda artes, admira o pintor Bacon, é figu-
ra querida na turma de estudantes, e já namora uma jovem, que
o admira e o acompanha alegremente. Já Odette, a outra filha, é
uma jovem linda, mas um tanto problemática, pois tem uma exa-
gerada devoção pelo pai, a quem venera, ao ponto de guardar, com
zelo e profundo afeto, imagens dele em um álbum de fotografias.
Essa veneração exagerada lhe traz conflitos com o jovem que a
paquera, que se burla de sua acentuada admiração pela imagem
paterna. A jovem, talvez apaixonada pelo seu pai, não consegue
lidar da forma esperada com os jovens da sua idade; então a sua
sexualidade aparece incipiente e indefinida.
O contexto desse quadro familiar burguês é uma bela man-
são, em Milan, talvez num bairro um pouco afastado do centro da
cidade, com um grande jardim, com um grande parque, cuidado
de forma zelosa e fervorosa pela empregada da casa, Emília. Ela
é uma dedicada serviçal, de idade indefinida, oriunda de uma fa-
mília pobre de um bairro rural, afastado do grande centro indus-
trial onde vive a família. Emília realiza suas tarefas com esmero
e respeito; atende as exigências dos seus patrões, com precisão
e delicadeza, até usa luvas brancas durante o serviço das refei-
ções familiares. Outro aspecto importante da sua personalidade
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TEOREMA DE PASOLINI. OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
é sua devoção religiosa. No seu quarto, em seu armário pessoal,
guarda com muito carinho estampas religiosas, às quais venera
diariamente.
Nessa breve descrição de uma família burguesa típica ita-
liana, comandada por um poderoso dono de fábrica, não encon-
tramos nada muito singular ou extraordinário. Até na grande
mansão familiar não vemos grandes luxos nem obras de arte, ou
detalhes de requinte, não há nenhum estilo singular nesse ha-
bitat. Tudo se passa em uma cotidianidade previsível, seguindo
um percurso “normal”, que parece afastar toda dramaticidade,
todo conflito, toda crise ou ruptura. Se as relações familiares são
convencionais e “mornas”, não há nada que pareça atentar contra
o equilíbrio, tudo é ordinário e comum. Não há grandes perigos,
não há grandes emoções nem alegrias nem grandes tristezas.
Tudo é conforto morno.
5. O extraordinário: a ruptura da ordem estabele-
cida e o “visitante”
“O emissário de fora é a instância a partir da qual cada
membro da família sente um acontecimento ou afeto decisivo,
constituindo um caso problema, ou a seção de uma figura hiper
espacial.” (DELEUZE, 2005, p. 211).
Em um dado momento de tensão dramática no filme Teore-
ma, aparece o extraordinário no seio da mediocridade burguesa.
No dia a dia, na rotina incessante de uma família que se repete
como tantas outras, na sequência dos anos, das horas, das gera-
ções calcadas umas a outras, irrompe algo inusitado. Quebram-se
os dias e as horas. O dente da rotina explode perante o fora do
comum. Perante o sagrado? Pasolini brinca com os signos, com as
imagens, com as parábolas.
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
Aparece em cena uma espécie de anunciador angélico de
algo vindouro. Angelino é o personagem parábola que se apre-
senta justamente, deliberadamente, como metáfora cinematográ-
fica, como imagem-brinquedo de um ator que aparece brincalhão,
agitando suas mãos como asas, como insinuando sua procedên-
cia ultraterrena. Essa curiosa figura de anjo, construído ainda
com traços terrenos (como seu manifesto desejo pela empregada
da casa) e humanos, entrega um enigmático telegrama. Ele traz
um quase obsoleto meio de comunicação do século passado, que
era relevante nesses tempos. Um telegrama sempre trazia algo
importante, grave, inusitado, nas formas de comunicação desses
dias. O Angelino anunciador é de, alguma forma, humano-dema-
siado-humano: brinca com Emília, a empregada, solicitando um
beijo pelo seu trabalho anunciador: “Quem anuncia sua chegada
é um carteiro eufórico que chega à casa da família como se fosse
um pássaro balançando os braços, como se estivesse voando. A
alegoria do anjo é nítida, pois Pasolini o nomeia como Ângelo, o
anjo mensageiro.” (SOUZA, 2016, p. 60).
O enigmático telegrama é entregue ao pater familias jus-
tamente na hora do encontro cotidiano, no ritual do almoço fa-
miliar. Paolo lê o telegrama rapidamente e a imagem que foca
o telegrama justamente encobre quem é o autor da mensagem,
colocando ainda mais mistério nessa situação já inusitada e mis-
teriosa.
A mensagem anuncia a vinda de um visitante. Um ignoto
hóspede, que nem sequer saberemos o nome, ao longo do filme. O
hóspede não é nomeado, não é chamado. Surge o sem nome, sem
designação, que se constitui como o próprio inusitado, o extraor-
dinário. Eis a imagem de um personagem em aberto, sem defini-
ção, sem traços que o identifiquem claramente. Nada sabemos de
sua procedência, de sua origem, profissão, nacionalidade etc. Ele
aparece como o súbito, o inesperado, o que invade o cotidiano; que
muito mais do que isso: irá romper toda tranquilidade, toda roti-
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TEOREMA DE PASOLINI. OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
na, toda a ordem estabelecida no seio dessa família: “O hóspede
é como um vírus que reposiciona os corpos de todos. Produz, por
sua presença, uma espécie de corte nas imagens estagnadas da
vida de todos os personagens. Ele fala muito pouco, escuta. Não
tem nome. Em seu silêncio ele opera como um disparador do va-
zio que habita cada personagem.” (SOUZA, 2016, p. 60).
5.1. O visitante e a redenção na carne
É importante ressaltar que no momento da chegada do
visitante há uma ruptura significativa na narrativa cinemato-
gráfica. Até esse momento, a película estava filmada em preto
e branco; não havia falas, apenas uma música clássica de fundo.
Agora, nesse momento de quebra fílmica e narrativa, abandona-
-se o preto e branco e a história ganha cores, as personagens ga-
nham sons. E o visitante? Trata-se de um jovem alto, bonito, de
olhos azuis, cuja chegada acontece justamente em uma festa fami-
liar. Em tempo de celebração, em tempo do não ordinário, chama
a atenção de todos. Parece ser de outro lugar. É estrangeiro? É
de outra cidade? Apenas sabemos que fala a língua comum, fala
italiano, como todos. Nessa festa, Lúcia, a dona de casa; Odette,
sua filha; e Pietro, o seu filho, ficam encantados com o visitan-
te. Todos admiram a sua beleza, a sua presença; todos os jovens
da festa também o admiram. Poucas palavras se cruzam, mas os
olhares, as miradas indagam, com estupor e reverência: quem é
esse recém-chegado?
A ordem habitual das coisas começa a mudar; tudo começa
a ruir. Por quê? Porque o visitante começa a ativar afetos recôn-
ditos, atiça emoções represadas, faz explodir impulsos ocultos.
Essa chegada irá pouco a pouco desmontar as bases cotidianas
dessa família. Se todos habitam um universo morno, de insignifi-
cantes paixões, de fracas emoções, de inércia e rotina, nada será
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
igual, nada ficará estável, nas mesmas bases familiares. Pode-se
se pensar na chegada de uma espécie de divindade, que retorna
ao mundo para reavivar o pathos do sagrado? É factível entender
essa figura como um medium, como um alegre mensageiro, como
uma espécie de Cristo redivivo? É possível, pelo menos, afirmar
que irrompe uma figura sui generis, instigante, abrasadora. Paso-
lini mostra um ser inusitado, que irá avivar todas as paixões na
família; contudo, ele é ser mundano e carnal; essa figura extraor-
dinária não é ascética, moral, negadora dos sentidos, dos desejos,
dos impulsos terrestres. “Este hóspede aciona e convoca em cada
personagem um desejo até então silenciado. Sua presença é cau-
sa de desejo e é impressionante no filme como o visitante tem a
potência de acolher as formas tão diversas de desejos que lhe são
endereçados.” (SOUZA, 2016, p. 60).
Ao contrário, o visitante é uma figura mundana, é um hós-
pede que desata violentas paixões carnais. Em uma família sem
afetos, ele é um visitante altamente erótico. Esse ser extraordiná-
rio traz um sentido para vidas sem significado; ele aviva todos os
sentidos através do corpo, do sexo, dos apetites, das paixões, dos
gozos, das penetrações. Pasolini não concede ao ascetismo, à re-
pressão; ele não identificará esse “mensageiro” com as religiões,
com as morais repressoras e castradoras. Se há alguma redenção
na vida, na terra, ela nascerá dos afetos, do desejo, do erotismo.
Assim, o último anjo não é ascético, mas sensual e provocador.
Nessa grande transmutação, cada um dos integrantes da família
e também a empregada se rendem, um a um, ao desejo pelo visi-
tante; ao amor por ele. Todos eles serão atraídos poderosamente
pelo intruso, e se entregam ao êxtase dos corpos, ao encontro se-
xual, à comunhão carnal.
Emília será a primeira a realizar o encontro erótico com
o desconhecido; misturando êxtase místico e fervor erótico, en-
trega-se com total paixão ao visitante; ela intui que esse visitan-
te é emissário do sagrado, uma espécie de intermediário divino.
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TEOREMA DE PASOLINI. OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
Ao contemplá-lo, extasiada, procura suas estampas religiosas; no
momento em que sente um profundo desejo ainda é capturada
pela culpa inoculada pela religião tradicional. Por isso, logo tenta
a morte como forma de autopunição, pelo ato que considera peca-
minoso. Contudo, o visitante – alheio a qualquer ascetismo ou re-
jeição dos sentidos – a redime no encontro e na possessão carnal.
Lúcia, a casta (frígida?) dona de casa, custódia das aparên-
cias e da ordem e assepsia familiar, deseja ardentemente possuir
esse visitante, quebrando todos os preconceitos, entregando-se
em um gozo sem limites, para além de toda culpa, de todo julga-
mento sobre bem e mal. Já Pedro, o filho da família, tornar-se-á
amante do visitante; também inicialmente tomado pela culpa, ele
sente vergonha do desejo, mas logo encontra o acolhimento eró-
tico desse recém-chegado, num gozo do amor ilimitado. Odette,
sua irmã, pouco depois será amada e possuída; como finalmente
Paolo, o pater familias, símbolo-mor da ordem familiar e da moral
tradicional, que finalmente se entregará fervorosamente à paixão
carnal pelo hóspede.
5.2. O visitante: as paixões e a partida
O visitante traz amor, desejo, comunhão carnal e encontro
afetivo a todos os integrantes de uma família, cujos laços eram
superficiais, banais, periféricos. É possível entender essa figura
de Teorema, como uma visita sagrada, como aquele que religa,
que reconstrói o sentido, o valor da vida humana para vidas-sem-
-sentido. Contudo, essa visita deve entender-se como tal; como
visita, como instigação, como desafio radical para uma transfor-
mação substancial das existências. O visitante chegou para mos-
trar o valor do erotismo, dos afetos, dos laços, mas ele deve partir
e abandonar essa família, que agora precisa procurar seus pró-
prios sentidos, e refundar seus próprios afetos e laços. Isso fica
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
claro quando outro telegrama misterioso anuncia que o visitante
deve partir. Ele deve ir embora. Ele irá deixar essa família de
uma forma tão misteriosa e intempestiva, tanto quanto foi a sua
inesperada chegada. O emissário do extraordinário está prestes
a partir; o sagrado – nessa visão terrestre, carnal, sexual do di-
vino – deixa o homem livrado a sua própria sorte; agora ele deve
reconstruir seu caminho e cada um dos integrantes da família
deverá refazer seus valores, reinventar significados.
Mas nenhum deles – à exceção da personagem mais sim-
ples da história, justamente a empregada doméstica, Emília
– terá a capacidade, após a ausência do visitante, de encontrar
novos sentidos para sua existência. Todos caem novamente no
vácuo, como admite Lucia: novamente il vuoto tomará conta de
tudo. Deleuze comenta que todos os personagens sofrerão a dor
profunda da perda, do vácuo; eles são vítimas da sua própria in-
suficiência, sua inconsistência, sua cristalização e petrificação
interna: “Cada caso, cada seção, será considerada uma múmia, a
filha paralisada, a mãe mobilizada em sua busca amorosa, o filho
com os olhos tampados urinando na tela de pintor, a empregada
atormentada pela levitação mítica, o pai animalizado, naturaliza-
do.” (DELEUZE, 2005, p. 211).
A ausência do visitante tornou-se um desafio – uma falta,
um vácuo – insuportável para todos os integrantes da família.
Cada um deles tentou reencontrar desesperadamente o afeto, a
paixão, que em um momento de suas vidas os libertou do sem
sentido; mas, ao mesmo tempo, lhes revelou justamente o vácuo
que até então dominava suas existências. A partida do visitante
os esgota, os petrifica.
Lucia, a dona de casa, tenta desesperadamente encon-
trar um jovem semelhante ao visitante que partiu; procura uma
paixão próxima, em relações efêmeras com amantes ocasionais;
finalmente se recolhe desesperada numa igreja de campanha,
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TEOREMA DE PASOLINI. OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
tranca-se em uma capela, como se o recolhimento ascético pu-
desse restaurar a sua paixão perdida. Odette, a filha, incapaz de
suportar a perda, pretende reeditar o erotismo e o amor, percor-
rendo uma e outra vez os passos realizados, os lugares frequenta-
dos e as imagens fotografadas do visitante, tentando reconstruir
o percurso desse amado, mas perante a total impossibilidade
de restituir o já vivido, fecha-se ao mundo, recolhe-se catatônica
numa reversão psicótica. Pietro, o filho, abandona a casa paterna
e quer morar sozinho e dedicar-se à arte; ele trata de restaurar
o sentido de sua vida através da pintura; tenta uma e outra vez
registrar um azul, algo celestial, algo original e inédito; reconhe-
ce, no entanto, que é um impostor, um incapaz, um idiota, que faz
de sua arte uma brincadeira, uma grotesca tentativa de encobrir
o seu vácuo. Finalmente, Paolo, o pater familias, também tomado
pelo desespero, pelo vazio do amor perdido, entrega sua fábrica
aos operários, abandona todo labor, toda tarefa e numa estação de
trens se desnuda, despe-se de todos os seus bens, de todos seus
pertences, de toda sua vida passada. Numa sugestiva imagem e
instigante parábola cinematográfica, com inevitáveis alusões bí-
blicas, aparece extraviado, perdido no deserto.
A única que consegue reencontrar um sentido é a mais
simples de todas as personagens, justamente Emília, a emprega-
da, que abandona a casa dos patrões e retorna a sua cidade natal.
Nela, fica numa contemplação estática, sentada em um banco,
ilhada, em silêncio, perto dos seus familiares e dos seus antigos
vizinhos. Todos eles percebem nela uma mudança fundamental,
uma transformação radical; ao ponto de considerá-la uma espécie
de iluminada, ou uma figura sagrada ou santa, tocada pelo divino.
Esses vizinhos a visitam, como numa peregrinação, até ela rea-
lizar “milagres”, como curar crianças. Emília chega a levitar e se
alimenta apenas de urtigas, rejeitando qualquer outro alimento;
até mudar a sua fisionomia pela ingestão de chá de urtigas. Final-
mente, pede para ser enterrada, para encher, segundo suas pró-
~ 77 ~
NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
prias palavras, o fosso onde se deita, com suas próprias lágrimas.
Aqui encontramos, no sugestivo filme de Pasolini, talvez
a única alusão a uma transcendência, ou a forças de um possível
“além”. Será que a trabalhadora, a empregada doméstica, a mais
simples de todas nessa sociedade burguesa injusta, torna-se jus-
tamente uma santa, uma figura ascética? Nesse ponto, Pasolini
parece se aproximar de alguns dados da transcendência, de uma
concepção metafísica ou religiosa. Contudo, Emília é apenas uma
das figuras da história, talvez a aparente “santificação” dela seja
uma espécie de licença poética para resgatar alguns aspectos da
sua crença marxista, e ainda de algumas nuances de suas convic-
ções cristãs, ou até mesmo católicas – segundo as quais os mais
pobres e simples estariam mais próximos da redenção, da salva-
ção, por serem os inermes e injustiçados na terra.
Mas, como apontei, esta é apenas mais uma entre tantas
imagens e metáforas de Teorema. A reflexão sobre essas imagens
e metáforas nos levaria a outros desdobramentos, que excedem o
foco deste artigo. Discuto, a seguir, as consequências dos percal-
ços das outras personagens, que mostram, ou podem ser enten-
didos ou interpretados, como afirmei no início, como aqueles que
padecem a partida ou perda do divino; como aqueles que sofrem
a morte de Deus ou um processo de desdivinização ou desertifica-
ção da vida no Ocidente.
6. Teorema e os nossos dias
Mais de meio século se passou desde a realização da obra
de Pasolini, Teorema. O mundo ocidental mudou muito desde o
final dos idos anos de 1960, daquela época de convulsões sociais,
de promessas utópicas de transformações sociais e políticas, de
possíveis transvalorações de todos os valores da vida burguesa.
Fenômenos significativos marcaram os anos finais do século XX,
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TEOREMA DE PASOLINI. OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
além de numerosas guerras, confrontos étnicos, religiosos, políti-
cos e sociais. O século XX foi justamente caracterizado por duas
guerras mundiais, genocídios, assassínios em massa, e repres-
sões brutais dos mais diversos grupos.
A queda do muro de Berlim significou o começo da de-
sagregação do universo soviético. O ano de 1989 significou o co-
meço do fim de uma ideologia que prometia a salvação na terra
de todos os trabalhadores, de todos os segmentos explorados do
mundo. A atomização do bloco soviético colocou em xeque todas
as utopias redentoras. Tanto as denominadas tendências de es-
querda quanto de direita perceberam que, aos poucos, todas as
concepções que visavam instaurar sistemas sociais perfeitos, que
eliminassem todas as injustiças, começaram a evidenciar sua in-
viabilidade. Não surgiu ainda o sistema que elimine a exploração,
a arbitrariedade. A máxima dourada: “A cada um segundo suas
necessidades, a cada um segundo suas capacidades” mostrou-se
incapaz de ser aplicada efetivamente na vida do homem.
Os tempos mudaram de forma radical, contundente. Hoje,
vemos outros signos e formas sociais. Surgiram outras relações
de forças talvez impensadas por Pasolini e por muitos integran-
tes da geração dos 1960 e 1970. O maio francês e as promessas re-
dentoras parecem cada vez mais longe, mais inviáveis. O axioma
dourado da “Imaginação ao poder” parece periclitado, esvaziado.
Que vemos nestas décadas iniciais do século XXI? Que vemos
neste incipiente século, neste incipiente milênio? Os fenômenos
virtuais e o auge irrestrito de tecnologias de comunicação virtual
estavam ainda longe da esfera de compreensão de Pasolini e mui-
to mais de Nietzsche. O homem hiperconectado dos nossos dias
não tem muito a ver com o burguês retratado pelo cineasta italia-
no, nem com o homem moderno questionado pelo filósofo alemão.
Contudo, creio que o processo de desertificação – simbolizado na
imagem nietzscheana da “Morte de Deus” – ou de ausência do
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
sagrado ou do extraordinário – retratada na partida do visitante
de Teorema – tem se aprofundado cada vez mais, nos dias atuais.
Sem dúvidas, estamos em um período de profunda desertificação,
de depressão individual e coletiva.
Vivemos a época do hipercapitalismo, do capitalismo de-
senfreado ou daquilo que poderíamos denominar “terrorismo do
capital”. Vige sem restrições, quase sem limitações, um sistema
do capital feroz, universalizado, que não quer freios, que não quer
normas no seu acionar; que se sabe vitorioso e o deseja todo para
si. O fluxo de capitais transnacionais almeja cada vez menos nor-
mas que pautem seu agir, como vemos atualmente no nosso país
e em muitos países da atualidade. A vitória desses capitais trans-
nacionais, gerenciado por gestores nacionais, mas que represen-
tam esses interesses externos e querem instaurar a sangue e fogo
todos os seus desejos: como relações de trabalho elásticas, frou-
xas, até mesmo reestabelecer, como aconteceu há pouco tempo
através insólitas e espúrias normas, a escravidão. Vemos uma
limitação drástica dos direitos sociais, o afrouxamento do espaço
público, a ampliação dos espaços particulares, e benesses cada
vez maiores para os grandes capitais.
Os capitais desejam que seu agir seja cada vez mais “livre”
e almejam que os trabalhadores contem com uma situação jurídi-
ca e efetiva e ainda mais precária. Nessa questão, quero lembrar
as ponderações de Vivien Forrester, ao prever os movimentos
desse universo globalizado, internacionalizado, obediente apenas
às vorazes necessidades dos detentores do capital. Segundo ela,
houve uma revolução silenciosa, gerenciada por um todo-podero-
so sem rosto, anônimo e incontestável: o mercado – enteléquia
que concentra o poder maior já conhecido na história. Vivemos
uma revolução silenciosa, não declarada, cujo poder irrestrito
dimana de sua instalação súbita, sigilosa, que inibiu qualquer
reação, qualquer contestação:
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TEOREMA DE PASOLINI. OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
Antes de tudo, atravessamos uma revolu-
ção sem perceber. Uma revolução radical,
muda, sem teorias declaradas, sem ideolo-
gias confessadas; ela se impôs por cima e
por meio de fatos silenciosamente estabe-
lecidos, sem nenhuma declaração, sem co-
mentários, sem o menor anúncio. [...] Por
que o regime real, sob o qual vivemos e
cuja autoridade nos mantém cada vez mais
sob seus domínios, não nos governa oficial-
mente, mas decide sobre as configurações,
o substrato que os governantes terão que
governar. (FORRESTER, 1997, p. 103-105).
Diante dessa situação, vemos uma tentativa intensa por
superar o vácuo, por dar sentido a “vidas-sem-sentido”. Assisti-
mos ao profundo paradoxo de um homem que dispõe cada vez
mais de recursos científicos e técnicos para lidar com a realida-
de, mas que, paralelamente, perde o significado da vida. Alguns
têm cada vez mais objetos para agir no mundo (outros, ao contrá-
rio, carecem do mínimo e imprescindível). As descobertas cien-
tíficas parecem eliminar distâncias, curar doenças, promover o
conforto. Os meios de comunicação, os recursos virtuais e toda
uma parafernália de aparelhos eletrônicos permitem que o ho-
mem esteja “comunicado” instantaneamente com qualquer lugar
do mundo. A chamada “globalização”, em que todos os mercados
estão interconectados, em que nada parece distante, em que não
há objetos que não possam chegar às mãos dos possuidores de
capital, a princípio melhorou as nossas condições de vida, isto é,
melhorou a denominada vida capitalista.9
Paradoxalmente, mesmo com esse aumento de quantida-
des disponíveis de objetos para serem consumidos, sempre por
grupos limitados e excludentes, as vidas parecem cada vez me-
nos dignas de serem vividas. Aumenta o número de utensílios,
9 Nessa questão, e nas ponderações que se seguem, acho importante aludir às reflexões que levantei no
meu artigo: Ética na atualidade. Jornal Unirio Plural, Rio de Janeiro, 20 jul. 2008. p. 6-7.
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
mas o homem age como se carecesse de valores. Em um universo
sobrecarregado de objetos, tudo se acumula, mas parece que já
nada tem valor. Há um consumo cada vez maior, contudo parece
que nada desfrutamos. Nessa desenfreada compulsão de possuir,
nada gozamos. Vivemos em uma cultura da prótese, em que cada
vez mais se evidencia uma falta, uma carência que os objetos de-
vem preencher. Constata-se uma ausência de sentido. Tentamos
preencher essa ausência com objetos que disfarcem a insatisfação
subjetiva. Estamos constantemente procurando estímulos novos,
justamente porque perdemos a qualidade de vida (qualidade que,
por exemplo, as personagens de Teorema acharam finalmente
num encontro erótico, carnal, com o visitante). Carros novos são
permanentemente oferecidos, e também computadores cada vez
mais eficazes, celulares “mais completos”, terapias mais efetivas,
plásticas mais eficientes, livros de autoajuda mais convincentes,
religiões mais poderosas... Essa quantidade de objetos oculta a
drástica diminuição da nossa qualidade de vida. Mesmo assim,
acreditamos que nossas existências são mais produtivas.
Contudo, as vidas merecem ser vividas, celebradas; não
necessariamente deveriam ser produtivas. Para concretizar essa
lógica quantitativa, tudo deverá ser encontrado no shopping, nes-
se sacrossanto centro de consumo, onde tudo pode ser adquirido,
vendido e consumido. Todavia, lá não se vendem as intensidades,
as alegrias, os rituais. Como é impossível às personagens do Teore-
ma preencher a falta, o vácuo da ausência do genuíno encontro no
afeto, no erotismo, no religar dos corpos. O aspecto lúdico e criati-
vo do mundo (que essas personagens vivenciaram durante um li-
mitado momento, na fusão amorosa com o visitante), a possibilida-
de de celebrar a existência não precisa dessa excessiva quantidade
de objetos, dessa miríade de coisas para serem estocadas. Todos
sabem, mesmo que sejam experiências cada vez mais esquecidas,
do valor do sorriso, do abraço, da comunicação singela. Mais uma
vez, lembramos o encontro dos corpos e afetos do visitante com
todos os integrantes da família burguesa, em Teorema.
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TEOREMA DE PASOLINI. OU O AVANÇO NO NIILISMO NA CONTEMPORANEIDADE
Hoje um universo de próteses, de acessórios, esconde a dor,
a falta de significado da existência.
Nietzsche foi considerado o profeta do pessimismo e do
niilismo, que anunciou a morte de Deus, a queda de todos os va-
lores do Ocidente. Contudo, a tarefa de Nietzsche não foi apenas
negativa, diagnóstica de uma grande “doença” universal. Ele avis-
tou também a possibilidade de ultrapassar o niilismo que domina
uma época pragmática, utilitária e medíocre. Diante do domínio
dos objetos, das quantidades, dos instrumentos, seria possível –
na antevisão nietzschiana – uma grande reviravolta que permiti-
rá transvalorar valores, isto é, afirmar valores que se ocupem do
cuidado da vida, das intensidades, do jogo, das alegrias: “Trans-
valorar valores: eis a minha fórmula para um ato de suprema
autognose da humanidade, que em mim se fez gênio e carne.”
(NIETZSCHE, 2000, I, p. 109).
Transvalorar valores significa recuperar a qualidade de
vida. Além do fetichismo dos objetos, do consumo desenfreado,
é possível uma mudança de paradigmas. Além desse fetichismo
poderemos refundar avaliações que celebrem a vida, o corpo, a
arte, a possibilidade de brincar. A dinâmica do jogo – tal como
aparece na criança do Zaratustra – ou a dinâmica do erotismo
carnal, mundano, terrestre (como aparece nos encontros de cada
um dos integrantes de uma família com o visitante de Teorema)
estabelece a possibilidade de lidar com o mundo de forma lúdica,
ritual. Após a dura análise do diagnóstico do niilismo efetuado
por Nietzsche e da denúncia do processo de dessacralização, de
alguma forma, radiografado, filmado por Pasolini.
Quero finalizar lembrando uma imagem prognóstica que
abre portas e possibilidades, propondo a transvaloração axiológi-
ca, mesmo no meio da desertificação contemporânea, à imagem
do habitar lúdico e criativo da criança do Zaratustra: a criança é
“inocência e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda
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NIETZSCHE-SCHOPENHAUER – filosofia, cinema, cidade
que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer
‘sim’.” (NIETZSCHE, 1998, I, p. 53).
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