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Acerca Da Viagem de Vasco Da Gama - Rainer Daehnhardt

O livro 'Acerca da Viagem de Vasco da Gama' de Rainer Daehnhardt explora a importância histórica da viagem de Vasco da Gama e a identidade portuguesa em risco de desaparecer. O autor, com uma vasta experiência em história e armaria, defende a necessidade de resgatar o conhecimento sobre a história de Portugal e a relevância da exploração marítima. A obra também reflete sobre a influência da União Europeia e a perda de identidade cultural entre os portugueses.

Enviado por

Marcos Lordão
Direitos autorais
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Acerca Da Viagem de Vasco Da Gama - Rainer Daehnhardt

O livro 'Acerca da Viagem de Vasco da Gama' de Rainer Daehnhardt explora a importância histórica da viagem de Vasco da Gama e a identidade portuguesa em risco de desaparecer. O autor, com uma vasta experiência em história e armaria, defende a necessidade de resgatar o conhecimento sobre a história de Portugal e a relevância da exploração marítima. A obra também reflete sobre a influência da União Europeia e a perda de identidade cultural entre os portugueses.

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Rainer Daehnhardt

A VIAGEM DE

VASCO DA GAMA
ACERCA DA VIAGEM DE

VASCO DA GAMA
Título:
Acerca da Viagem de Vasco da Gama

Autor:
Rainer Daehnhardt

Capa:
Vasco da Gama representado numa gravura
comemorativa do IV Centenário do Caminho Marítimo da índia.

Ilustrações:
Todos os objectos e gravuras contidos no livro
são da colecção Rainer Daehnhardt (mapas, portulanos...)

Coordenação e Revisão:
Eduardo Amarante / Dulce Abalada

Digitalização e Fotolitos:
Páginas Elétricas - Lisboa

Composição e Arranjo Gráfico:


Publicações Quipu

Impressão e Acabamento:
Printer Portuguesa

Distribuição:
HT (Sul) / E.C.L. (Norte)

is Edição — Lisboa, Junho 1998

ISBN 972-8408-04-8

Depósito Legal N 122 950/98

© Rainer Daehnhardt

Publicações Quipu
Rua Maria, 48-3° - 1170 LISBOA - Tel./Fax: 812 70 97
Rainer Daehnhardt

ACERCA DA VIAGEM DE

VASCO DA GAMA

Publicações Quipu
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

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ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

ACERCA DO AUTOR

O autor é descendente de uma família de diplomatas e militares alemães radi­


cados em Portugal há dois séculos. Tendo estudado na Alemanha e em Portugal,
especializou-se numa temática invulgar: "0 estudo da evolução do Homem através
da arma e sua utilização”.

Eleito Presidente da Sociedade Portuguesa de Armas Antigas — Portuguese


Academy of Antique Arms —, cargo homologado pelo governo em 1972, mantém-se
nessas funções, representando Portugal em congressos internacionais e dando
conferências em muitas instituições europeias e americanas.

É autor de dezenas de livros e centenas de artigos, na sua maioria ligados à


armaria antiga, à História de Portugal ou à preocupação com a evolução da
Humanidade.

Os seus vastos conhecimentos devem-se não só ao grande número de docu­


mentos e obras de arte adquiridos mas, sobretudo, à sua incansável busca do saber,
que 0 faz percorrer o mundo à procura de respostas, comparando as mais diversas
fontes.

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ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

PREFÁCIO

A PROPÓSITO DO V CENTENÁRIO DA PARTIDA


DE VASCO DA GAMA PARA A ÍNDIA

Na inauguração duma mostra de cartografia por si apresentada numa galeria


de arte de Lisboa, Rainer Daehnhardt falou-me pela primeira vez na possibilidade
de o Museu de Marinha organizar uma exposição "gigantesca" — a expressão é sua
— onde se abordaria a temática da expansão portuguesa dos séculos XV e XVI e
para a qual contribuiria com o seu vastíssimo e muito valioso património.

Estávamos em 1989 e de imediato concordei com a sugestão, embora tivesse


de encontrar ainda a melhor data para a realizar. Esta impôs-se naturalmente
quando, pouco tempo depois, se começou a falar nas comemorações a levar a
efeito em 1997 para evocar 0 meio milénio da partida de Vasco da Gama para a sua
famosa viagem de descoberta.

Amadurecidos os planos, decidiu-se que a exposição seria essencialmente


didáctica e, por conseguinte, coincidente com um período escolar do ano lectivo de
1997-1998.

A organização do certame pertenceu ao Grupo de Amigos do Museu de


Marinha, à Sociedade Portuguesa de Armas Antigas e ao próprio Museu, mas não
hesito em afirmar que 0 principal obreiro foi Rainer Daehnhardt. Ele delineou a
exposição, propôs um título bem conseguido e de imediato aceite, redigiu os tex­
tos, que em perfeita harmonia com a Direcção do Museu foram, em alguns casos,
"suavizados" para não ferir susceptibilidades de ordem religiosa ou política, enfim,
seleccionou e ajudou a montar nas vitrinas e painéis milhares de peças das suas

9
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

colecções. 0 resultado foi uma notabilíssima exposição, inaugurada finalmente a 16


de Outubro e com encerramento previsto para o final do ano.

A Marinha Portuguesa, que nesse ano de 1997 já festejara 0 seu Dia na data
em que se comemoravam 500 anos sobre a partida de Vasco da Gama, quis asso­
ciar-se assim à organização duma exposição que também homenageava 0 grande
navegador, em contraste com o silêncio que a Nação e os seus responsáveis
resolveram guardar.

Aberto 0 certame, cedo nos apercebemos do interesse verdadeiramente ex-


cepcional que este estava a despertar junto dos visitantes, fossem eles estudantes
e professores, ou 0 público em geral.

Porquê tanto interesse? 0 que levaria milhares de portuguesas e portugueses


a passar horas naquela longa exposição e, muitas vezes, a voltar de novo?

Como bem afirma Rainer Daehnhardt na introdução desta sua nova obra, a
identidade portuguesa corre 0 risco de se desvanecer.

A emergência da União Europeia, com a consequente eliminação de fronteiras


e a livre circulação dos cidadãos, a criação de um Parlamento supra-nacional e, a
breve prazo, dum Banco Central Europeu, que coordenará a moeda única, são
alguns dos factos que já representam, ou irão representar em breve, realidades
perturbantes, geralmente mal explicadas, que deixam 0 cidadão comum perplexo e
preocupado.

Para mais e no nosso caso, parece que já não interessa dar a conhecer aos
jovens a História de Portugal nem os feitos dos nossos maiores. Os Portugueses
encontram-se assim numa encruzilhada da sua História e interrogam-se, com
ansiedade, sobre 0 que lhes reserva o futuro.

Esta talvez seja uma das razões do sucesso da exposição "Em Busca de
Cristãos e Especiarias", que tendo como pretexto fundamental a viagem do Gama,
aproveitou para traçar uma retrospectiva do nosso passado histórico, desde a for­
mação da nacionalidade ao inicio da expansão extra-europeia.

Lendo as centenas de impressões registadas no Livro do Visitante, avulta


como tema maior 0 agradecimento pela lição de história aprendida e pelo renascer
do orgulho de ser português.

10
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

Os textos que acompanhavam a exposição e que receávamos fossem dema­


siado longos, foram lidos em religioso silêncio por milhares de portugueses de
todas as idades e condições e, não raras vezes, assistimos ao laborioso trabalho
de visitantes que se davam ao incómodo de copiar, de pé, o que liam.

Algo se terá passado para se obter este efeito. A leitura das páginas que se
seguem talvez ajude o leitor a compreender melhor a razão do sucesso. Rainer
Daehnhardt, um estrangeiro só pelo passaporte, pois defende e exalta Portugal
como poucos Portugueses, conhece bem a nossa História e sabe dela colher os
devidos ensinamentos. As suas análises baseiam-se em documentação credível,
muitas vezes inédita e se se pode discordar das suas interpretações, por vezes
ousadas, já não será lícito acusá-lo de falta de rigor histórico.

Espero que o leitor desta nova obra de Rainer Daehnhardt encontre nestas
páginas a mesma motivação que tanto prendeu o visitante da exposição.

Capitão-de-Mar-e-Guerra
José Fernandes Martins e Silva
Director do Museu de Marinha
Lisboa, 6 de Abril de 1998
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

Ó ALMA PORTUGUESA

Ó Alma Portuguesa, agora exulta;


E, num protesto ousado,
Repele a ignara gente, que te insulta,
Clamando: Povo exausto e infortunado,
Que existe apenas pelo seu Passado!...
Dizê-lo deixarás, sem que o desmintas?
Queres tu, em sarcófago de gelo,
Dormir, sonhando com acções extintas?
Não; tu hás-de viver; e, ardendo em zelo,
Lutar com o mau Destino até vencê-lo!
Que te falta? Valor? Não. Esperança!
Em ti própria não crês; vagas aflita,
Na indecisão estranha que te agita,
E em pensamentos lúgubres te lança...
Mas também a esperança ressuscita!
Não muda a raça, embora o tempo mude.
Em ti, alma serena,
O génio não morreu, nem a virtude.
E inda nas mãos da lusa juventude,
Podem caber charrua, espada e pena...
Alma complexa, que o ímpeto guerreiro
Conduziu muito além da Taprobana;
E que exprimir soubeste, na profana
Graça dos fados e do romanceiro,
À tua lírica emoção humana;
Alma suave e pia,
Alma candente e heroica,
Leal no intento, simples na energia,
No sofrimento resignada e estoica,
Doce no amor, e na melancolia;
Eia, arranca de ti o manto escuro
Dessa austera, apagada e vil tristeza;
Seja-te ainda o Gama palinuro;
Há, quem sabe? outras índias no futuro,
Ó Alma Portuguesa!


ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

Na pàgina anterior:

Do manuscrito comemorativo do IV Centenário da chegada de Vasco da Gama à índia, oferecido pelo Papa ao Rei
D. Carlos. Página dedicada por um membro da Academia Brasileira de Roma. Sabendo que em 1898 o Brasil já era
um Estado independente; sabendo que nessa altura já o próprio império do Brasil se tinha transformado em
república, tornou-se este texto do académico brasileiro dedicado ao monarca português numa corajosa demons­
tração de um grito de revolta por um mundo que nos cerceia a nossa identidade histórica e, também, numa afir­
mação eterna da identificação da alma portuguesa.

U
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

INTRODUÇÃO

Todos os povos forjam a sua própria identidade através de milhões de acções,


criadas por vontades individuais que, conscientes disso ou não, agiram em con­
formidade. É no assumir do paralelismo destas mesmas formas de pensar e actuar
que nasce, mas também morre, a nacionalidade.
Quem arruma as suas preocupações na gaveta do "Se Deus quiser não há-de
ser nada”, convencido de que uma existência multissecular não se consegue apa­
gar rapidamente, está muito enganado. Basta olharmos para os mapas históricos
para encontrarmos centenas de países que já não existem. Onde estão os reinos
da Arménia, da Prussia, do Pegú ou do Arracão? Surgiram, viveram e desaparece­
ram no meio de tantos outros e hoje não passam de meras referências em mapas
antigos.
Como prognosticou Eça de Queiroz já no século passado, numa das suas car­
tas de Paris: "Qualquer dia Portugal já não é um país mas um local! Ainda por cima
mal frequentado!"
Para qualquer observador minimamente interessado no futuro de Portugal, já
se tornou hoje mais do que óbvio de que a IDENTIDADE PORTUGUESA está em risco
de desaparecer.
Quem se opuser a esta identificação, pensando que ela possa de alguma
forma virar-se contra outros povos coabitantes da nossa península ou outros para
lá dos Pirinéus, nunca compreendeu o que significa sentir-se português. Por assu­
mir uma identidade não significa que se esteja contra seja quem for.
Denegrir sistematicamente tudo o que é nosso, autoconsiderar-se europeu de
segunda, por vezes até terceiromundista, não encontrar nada de positivo na iden­
tidade própria, preferindo o servilismo em relação ao que vem de fora, é trair. Não
é só trair-se a si mesmo, a sua família e o seu país mas todas as gerações dos
antepassados e a sua inabalável fé na identidade.
Tudo o que somos e o que temos é o que os nossos antepassados nos sou­
beram transferir, o que soubemos preservar e eventualmente acrescentar!
A evolução de um povo é como uma longa corrente onde cada geração é um
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

elo que se agarra ao elo anterior, e que por sua vez tem a obrigação de servir de
suporte à futura geração. Ora, todos os que aprendem física sabem que a força
máxima de uma corrente é igual à do seu elo mais fraco. 0 elo mais fraco na
História de Portugal somos nós, a geração actual. Não foi o período de 1383, o de
1580 ou o de 1807, mas sim a época actual. Nunca Portugal viu tal sistemática anu­
lação da sua identidade como no presente.
Para se saber quem se é, tem de se saber de quem se descende. Para isso é
necessário saber-se de história. Ainda há poucos anos o ensino da História fazia
parte da evolução de cada um. 0 primeiro passo para enfraquecer o nosso elo com
os nossos antepassados foi a decisão de tornar 0 ensino da História facultativo.
Centenas de milhares de alunos imediatamente desistiram desta temática, não se
apercebendo de que estavam a perder o acesso ao conhecimento da sua própria
identidade.
Como, apesar disso, ainda houve muitos estudantes que se inscreveram nos
cursos de História, não se deu nenhuma ajuda no sentido de lhes conseguir algu­
ma chance de colocação no mercado de trabalho. É mais do que sabido entre os
estudantes universitários que 0 canudo de História só serve para pendurar na
parede, pois poucos conseguem uma colocação com base exclusivamente nesses
estudos.
Em seguida trocou-se 0 ensino da HISTÓRIA DE PORTUGAL pelo ensino da
HISTÓRIA DA EUROPA, cabendo a cada professor a decisão do maior ou menor peso
que resolvia dar à nossa História. Como se tudo isto não fosse suficiente, englobou-
-se recentemente 0 ensino dos DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES no título genéri­
co do ensino da EXPANSÃO IBÉRICA.
Mesmo para aqueles que só tenham ligeiros conhecimentos acerca da gran­
de diferença das formas de expansão do século XVI, tem que se considerar esta
decisão como um insulto aos antepassados, à verdade histórica e à nossa inteli­
gência.
Todas as expansões de todos os povos em todas as épocas têm páginas negras
e assim também a Expansão Portugesa. Mas mesmo que somemos todas as páginas
negras da História de Portugal, nunca nos aproximaremos de nada que seja com­
parável com 0 que aconteceu aos Aztecas no México, aos Incas no Perù ou aos
Guanches nas Canárias.
A fase inicial da Expansão Portuguesa foi organizada pela Ordem de Cristo,
uma organização religiosa militar, descendente da secção lusitana da Ordem
Templária e, por isso, baseada no cristianismo pregado pelos apóstolos de Jesus,
fraterno e universal. Como é que se pode pegar em nomes de homens iniciados,
escolhidos a dedo, não só por causa das suas capacidades marítimas e militares

16
acerca da viagem deVASCO DA GAMA

A Ordem Templária, já introduzida em terras lusas pela mãe de


D. Afnonso Henriques, teve como mentor o cisterciense S. Ber-
nardo, verdadeiro Pai da Europa, que nasceu como resultado do
seu pensamento político. A nível global, foi sua intenção unir o
mundo cristão para afastar o perigo causado pelo fundamenta-
lismo slâmico.
A Ordem de Cristo. D. Dinis cumpriu as ordens do papa de Avinháo,
dissolvendo a secção lusitana da Ordem Templária. Porém, salvou-
os do cárcere e da tortura, absolvendo-os em julgamento e meten
do-os todos na nova ordem religiosa-militar exclusivamente por­
tuguesa, denominada Ordem de Cristo, mãe de toda a expansão lusa.

17
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

mas, sobretudo, pela sua fidelidade à causa lusa e por serem considerados de con­
duta ética e moral superior e metê-los agora, por mera conveniência política mo­
mentânea, à mistura no mesmo caldeirão com um guardador de porcos, como foi
Francisco Pizarro? Este havia morto um homem numa taberna, em disputa por uma
mulher de má porte e, tendo de fugir à justiça, resolveu alistar-se numa armada
onde, utilizando a sua espada e matando diversos dos seus superiores hierárqui­
cos, acabou por assumir a chefia de um exército que empregou na simples impo­
sição do saque geral.
Esta injustiça para com a verdade do passado acaba por impôr a mais cruel
das sentenças: o esquecimento dos heróis pela nação por eles criada!
Terminou o ano de 1997. 0 ano do Quinto Centenário da partida da esquadra
que levou Vasco da Gama à índia. A Sociedade de Geografia de Lisboa, a Academia
de Marinha, o Museu de Marinha e 0 Grupo dos Amigos do Museu de Marinha
levaram a efeito colóquios e exposições sem os quais a data teria passado comple­
tamente despercebida.
Que diferença em relação às Comemorações do Quarto Centenário, levadas a
cabo em todas as terras lusas no fim do século passado! Não foi só a bela emissão
dos selos comemorativos que nos ficou daquela época. Ficaram obras de arte da
ourivesaria e prataria, em tais quantidades que só demonstram que os respectives
artífices concorreram uns com os outros na apresentação das mais belas e espam-
panantes obras.
Os artistas plásticos, os poetas e dramaturgos, embebidos na vontade mútua
de demonstrar o seu regozijo pelo grande feito do século XV, deixaram-nos cente­
nas, possivelmente até milhares de obras. E hoje? Que é deles?
0 Vaticano ofereceu ao Rei de Portugal um livro manuscrito, exemplar único,
comemorativo do grande feito de Vasco da Gama. Nele, não só o próprio Papa e
muitos dos seus cardeais, mas também os principais historiadores e artistas da
época preencheram as páginas com as suas pinturas, os seus desenhos, suas líricas
e mensagens que muito nos honram. Qual foi o destino desta obra? Emigrou para o
estrangeiro, acabando por ser vendida em leilão!
Atrevemo-nos a perguntar: terá também Portugal emigrado para 0 estran­
geiro? Terá também Portugal sido vendido em leilão?
Quem souber a resposta que o diga e assuma!
Facto é que entre as grandes viagens do homem, em toda a evolução da
humanidade, é a de Vasco da Gama que ocupa um lugar de grande destaque.
Olhando para as consequências directas na sua época, até foi bem mais importante
do que a de Cristóvão Colombo. E como esta foi homenageada, ainda há tão poucos
anos!

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ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

Do manuscrito comemorativo do IV Centenário da chegada de Vasco da Gama à índia, oferecido pelo Papa ao Rei D. Carlos. Início
do texto manuscrito pelo Cardeal Vicente Vannutelli aos 20 de Maio de 1898, data exacta do centenàrio da chegada a Calecut.
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

Com Vasco da Gama fizeram-se 170 homens ao mar. Sabiam a grande tarefa
que os esperava e as incertezas da sua concretização. 116 destes homens não
voltaram!
Foi pesado o preço em vidas que esta viagem custou!
É terrível a sentença do esquecimento premeditado que a actual geração lhes
aplicou!

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ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

A janela da Casa do Capítulo do Convento de Cristo em Tornar, onde a ideia da viagem nasceu.

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A VIAGEM DE

VASCO DA GAMA
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

Urna caravela no mar alto. 0 pouco que sabemos acerca dos homens que as construíram e nelas
navegaram é o suficiente para nos impor profundo respeito pelas suas acções, nascidas da sua
inabalável fé em Deus e na terra que os viu nascer.

25
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

A VIAGEM DE VASCO DA GAMA r)

A História não é uma ciência exacta, qual matemática ou química, mas sim
uma tentativa de compreensão de acontecimentos há muito ocorridos. Como
destes só nos chegam, habitualmente, poucos dados, para mais dificilmente inves­
tigáveis, tomou-se o hábito de repetir o que gerações antes da nossa já diziam.
Conscientes destas limitações, urge que haja vontade para investigar,
começando por colocar dúvidas sobre as "verdades intocáveis” que sempre nos
foram ensinadas, confrontando-as com fontes normalmente não estudadas. Facil­
mente nos apercebemos de dois factores perigosos e constantes:

i) A História é, com muita frequência, escrita pelo vencedor e na versão para


ele mais conveniente;
2) Tanto o poder dos Estados como 0 das Igrejas usurparam pseudo-direitos de
censura, exigindo, assim, que o passado seja interpretado conforme a sua vontade.

São pois estes dois factores, a que a História se encontra normalmente sujei­
ta, que a distanciam das outras ciências!
É óbvio que 0 presente se explica, normalmente, pela interpretação do pas­
sado. Se os factos presentes são já, muitas vezes, interpretados tendenciosa­
mente, pouco nos admira que a interpretação do passado seja um verdadeiro
"campo de batalha” entre a verdade dos factos e a conveniência ou inconveniên­
cia da sua revelação, o que, não raras vezes, leva à "reinterpretação" quando não
mesmo à sua omissão pura e simples. Este distanciamento entre a realidade his­
tórica e 0 que dela se conta é, por vezes, flagrante, chamando-nos à reflexão.

(’) Conforme a sua apresentação na Exposição à mesma dedicada que se realizou na CORDOARIA NACIONAL em
Lisboa, desde 17 de Outubro de 1997 a 22 de Fevereiro de 1998. Organizada pelo Museu de Marinha com o apoio do
GAMMA (Grupo de Amigos do Museu de Marinha) e da SPAA (Sociedade Portuguesa de Armas Antigas - Portuguese
Academy of Antique Arms), tornou-se na maior e mais didáctica homenagem do V Centenário da partida de Vasco
da Gama para a índia.

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ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

A VIAGEM DE VASCO DA GAMA mudou de tal forma a história mundial que


não pode ser comparada com nenhuma outra, pois não houve outra viagem com
tamanhas consequências. Por isso mesmo ela deve ser estudada pelos únicos
ângulos reais e possíveis. Estes são, em primeiro lugar, os documentos sobre­
viventes a ela ligados e, em segundo lugar, mas não de menor importância, a con­
juntura geral de que ela se tornou o expoente máximo.
As grandes viagens de descobrimento portuguesas não se fizeram por aven-
tureirismo de alguém que se sentia com vontade e capacidade para levar a cabo
uma tarefa de gigante. A escolha fazia-se por decisão do Rei, com base nas infor­
mações e propostas dos seus conselheiros, dos quais se destacavam os Cavaleiros
da Ordem de Cristo. Já aqui reside uma das grandes diferenças entre a Expansão
Portuguesa e a de outras nações europeias da mesma época.
A maioria dos navegadores estrangeiros mais reputados dessa época não
teriam sido aceites, por razões éticas e morais, para o serviço do Rei de Portugal.
Surge então a justificada pergunta: PORQUÊ VASCO DA GAMA?
Tratava-se de um membro de uma família que, desde longa data, tinha dado
provas de fidelidade ao Rei, amor à Pátria, capacidade e dedicação para levar a
bom termo as tarefas assumidas. Um antepassado seu havia já pelejado com
D. Afonso III pela conquista do Algarve aos mouros. Um outro esteve ao lado de
D. Dinis na batalha do Salado. Os Gamas foram Alcaides-mor de Sines e Gentil-
-homens da câmara de D. Afonso V, de D. João II e do Infante D. Fernando.
Estevão da Gama, pai de Vasco da Gama, foi vedor da Casa do Príncipe
D. Afonso (filho de D. João II). Vasco da Gama nasceu em Sines do casamento de
D. Estevão da Gama e D. Isabel Sodré. Diz a tradição que Vasco da Gama, sempre
que passava pelo porto de Sines, saudava a terra que lhe fora berço, descarregan­
do as bombardas da sua nau. Revelou desde muito novo aptidões excepcionais, a
que se juntava uma grande força de vontade.
Habituámo-nos a ver Vasco da Gama geralmente representado como um
navegador muito idoso. Facto é, porém, que contava apenas 28 anos de idade
quando D. Manuel I, confiando na sua competência, o escolheu para a grandiosa
empresa de finalizar o descobrimento do Caminho Marítimo para a índia, contor­
nando 0 continente africano.
Estava Vasco da Gama em Estremoz quando 0 monarca o mandou chamar e
o nomeou "capitão-mór da armada de quatro velas grossas", que mandara aprestar
com o objective de concretizar 0 seu intento. Vasco da Gama escolheu para a ex­
pedição homens da sua confiança; reservou para si 0 comando da nau S. Gabriel,
tendo por piloto Péro de Alenquer e por escrivão Diogo Dias, irmão de Bartolomeu
Dias. A nau S. Rafael era comandada por seu irmão Paulo da Gama, levando como

28
D. Manuel I, já Grão-Mestre da Ordem de Cristo e seu mais dinâmico organizador, herdou
a Coroa de Portugal, tornando-se num dos mais poderosos monarcas que este mundo viu.
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

piloto João Coimbra e como escrivão João de Sá. O comando da caravela Bérrio
(assim chamada por ter sido comprada a um piloto de Lagos com esse nome) foi
confiado a Nicolau Coelho, tendo Pedro Escobar como piloto e Álvaro de Braga
como escrivão. Como transporte das reservas de mantimentos foi usado o navio
S. Miguel, cujo comando foi entregue a um homem da casa dos Gama, de nome
Gonçalo Nunes.
Como homem prudente, ordenou Vasco da Gama, aos que deviam acompa­
nhá-lo, que enquanto estivessem desembarcados aprendessem, tanto quanto pos­
sível, carpintaria, serralharia e outros ofícios, que pudessem vir a ser úteis no mar,
tendo encontrado, para esta atitude, a mais decidida aprovação por parte do
próprio Rei.
D. Manuel elevou para sete cruzados o soldo dos marinheiros, o que era uma
soma apreciável para aquele tempo. Mandou ainda que fossem dados a Vasco da
Gama 2.000 cruzados de ajudas de custo e outros 2.000 a seu irmão.
No dia 7 de Julho de 1497, estando completos todos os preparativos, Vasco da
Gama, seu irmão e Nicolau Coelho foram piedosamente velar, em oração e peni­
tência, na capela de Nossa Senhora do Restelo.
No dia 8 veio el-Rei com padres que celebraram missa e, em seguida, os
navegadores, acompanhados por el-Rei, dirigiram-se processionalmente para 0
cais de Belém, do qual já tantos outros navegadores haviam partido (este caís,
enterrado no séc. XIX, foi redescoberto durante as obras do Centro Cultural de
Belém e infelizmente destruído), seguidos pelos olhares e as lágrimas de imensa
multidão.
A pequena frota levantou ferro e saiu da barra. Nas "Lendas da índia” de
Gaspar Correia, vêm mencionados os objectos e alfaias que iam a bordo-, além de
armas, jóias e gomis, panos de ouro e seda, iam os navios carregados com
"...muitas conservas, águas minerais, e em cada nao todalas cousas de botica pera
doentes, e mestre, e clérigo para confessar”. Vasco da Gama ia munido de quantas
instruções o conhecimento científico da época lhe podia providenciar, como seria
de esperar numa expedição, já há muito intentada por D. João II e meditada por
homens como Bartolomeu Dias e Péro da Covilhã. No dia 15 do mês de Julho
chegou a pequena armada à altura das Ilhas Canárias, onde se demorou algum
tempo com pesca para víveres, seguindo depois até à altura do Rio do Ouro, onde
sobreveio um nevoeiro que separou os navios, que só se tornaram a reunir no dia
26 na Ilha do Sal, em Cabo Verde. No dia 27 avistaram a Ilha de S. Tiago, onde se
abasteceram de água e lenha.

30
Arcanjo S. Miguel, escultura do reinado de D. Afonso V. 0 culto
deste padroeiro da lusa gente nasceu da ancestral veneração a Capacete bizantino. Foi a queda de Bizâncio, em 1453, que dei
Endovélico, uma das principais divindades lusitanas. S. Miguel, aqui origem ao pedido papal no sentido de todos os reis da cristandadt
representado como guerreiro peregrino, manteve-se como protec­ assumirem uma cruzada geral contra o Islão. A viagem de Vasco d<
tor da Expansão Portuguesa. Gama foi, também, consequência deste compromisso.

COMPASSOS
SÉC. XV E XVI

Espada e adaga utilizadas pelos navegadores lusos. As ferra­


Compassos do séc. XV-XVI usados por navegadores portugueses.
mentas com as quais se escreveram as principais páginas da
As mãos que deles se serviram exprimiam vontades de homens
evolução da humanidade que couberam à lusa gente.
que se identificavam pienamente com Portugal e sua missão.
Peitoral quatrocentista português ostentando a Cruz de Cristo. 0 coração
que bateu por detrás desta chapa forjada à bigorna, ainda sabia o que é
Armadura quatrocentista portuguesa. bem e o que é mal e agia de acordo com isso.

ESCUDO QUATROCENTISTA
PORTUGUÊS

Escudo quatrocentista português. Ligeiro, de tiras de cabedal


sobrepostas e por nós copiado dos hispano-mouriscos, só servia Morrião de um capitão português. Nascido na bigorna, de diversas par»?i
contra flechas e para diminuir a força do golpe da cimitarra cravadas entre si, ostenta bem visível, em ferro cinzelado, o símbolo da C~-
mourisca. No Ultramar, rapidamente o substituímos pelo escudo de Cristo, sobreposto pela Esfera Armilar. Assim, até o guerreiro mostra i
de ferro, muito mais pesado. Na luta corpo-a-corpo, até deste que a missão portuguesa era levar o Cristianismo a todo o globo terrestre
abdicámos, utizando a adaga de mão esquerda em seu lugar.
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

MAS QUAL FOI A ROTA APÓS A PARTIDA DE CABO VERDE?

O simples facto de existirem diversas versões oficiais revela o elevado grau


de desentendimento entre os especialistas nesta matéria. O que, por sua vez, se
deve, essencialmente, à escassez de dados concretos. Vasco da Gama não nos
deixou nenhum diário de bordo, não sobreviveu nenhum portulano da viagem e,
tudo o que temos para provar a existência desta viagem são as cartas escritas por
D. Manuel I aos Reis Católicos e ao representante português na Corte Papal. Para
além destas cartas temos somente, ou melhor dizendo, felizmente, os apontamen­
tos deixados por um membro das suas tripulações, cuja autoria é atribuída a
Álvaro Velho. Não se trata de um diário de bordo, mas simplesmente de uma lista
de acontecimentos de que o autor considerou interessante tomar apontamentos.
Ela é, por si só, muito incompleta embora nos ofereça dados preciosos. Temos
assim de admitir que tudo o que sabemos é muito pouco e este muito pouco
sofreu, por sua vez, variadíssimas interpretações.
Surge, por exemplo, a velha questão da rota seguida. Terá Vasco da Gama
visto o Brasil ou mesmo tocado nele, ou não? Não podemos responder, com segu­
rança, nem sim nem não. Pura e simplesmente não o sabemos! 0 facto de os his­
toriadores, genericamente falando, atribuírem o descobrimento do Continente
Sul-Americano a Pedro Álvares Cabral, na data de 1500, não é por si só prova ne­
nhuma de que os portugueses não tenham já lá estado muito antes.
0 Almirante, navegador, geógrafo e historiador Gago Coutinho, possuidor de
uma rara conjugação de conhecimentos, conheceu bem os ventos e as correntes
do Atlântico-Sul e estudou todos os dados disponíveis sobre a viagem de Vasco da
Gama. O Almirante não afirma que Vasco da Gama tenha tocado o Brasil, mas colo­
ca a sua rota de tal maneira próxima da costa brasileira que esta possibilidade se
tornou uma hipótese muito viável. Não existindo provas em favor de nenhuma das
versões, não devemos declarar peremptoriamente que não nem que sim. Trata-se
de uma das grandes questões que, por enquanto, se mantêm ainda sem resposta
até que surja alguma prova concreta.
Um aspecto interessante nesta questão é a completa ausência de dados,
durante três meses, no roteiro da viagem de Vasco da Gama, precisamente entre
a partida de Cabo Verde, a 3 de Agosto de 1497, e a chegada à costa africana, perto
do Cabo da Boa Esperança, a 4 de Novembro de 1497.
Estes três meses de viagem constituem um grande enigma, nunca devida­
mente discutido!
Com excepção da menção de uma baleia e de algumas aves, nada nos é reve­
lado. Terão sido arrancados do relato por razões de segredo de Estado? Não 0

33
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

Rota da primeira viagem de Vasco da Gama, baseada no estudo do Almirante Gago Coutinho.

34
Rota da primeira viagem de Vasco da Gama apresentada nas Comemorações de 1898.
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

sabemos! É, porém, interessante notar que não é feita qualquer menção às difi­
culdades resultantes da falta de água doce que, de resto, durante todo o relato, é
um problema constante, não sendo possível navegar mais do que duas semanas
sem ter que reabastecer-se de água potável. Aqui decorrem doze semanas sem que
nenhuma dificuldade seja mencionada.
Quando, na viagem de volta, na travessia do indico, se passa um longo perío­
do sem abastecimento de água potável, morre cerca de metade da tripulação e
muitos dos que chegam vivos à costa africana acabam por ali ser enterrados por
os seus corpos não terem aguentado. A desidratação (por falta de água doce) e o
escorbuto (por falta de alimentos frescos) tornaram-se a principal causa de morte
da maioria dos portugueses que não voltaram desta viagem. 0 relato desta tra­
vessia do índico, que também levou três meses, distancia-se fortemente do da
travessia do Atlântico Sul.
Não existe nenhuma prova de que Vasco da Gama se tenha reabastecido na
costa sul-americana ou em alguma ilha adjacente. Existe, no entanto, a hipótese
de o ter feito e, por razões de segredo de Estado, tal facto não poder ser mencio­
nado. Do mesmo modo, também não existe nenhuma certeza de não o ter feito.
Devemos, humildemente, reconhecer a nossa falta de conhecimentos nesta
matéria e deixar esta pergunta em aberto até alguma futura geração descobrir
dados concretos para melhor esclarecer esta questão assaz pertinente.

4 de Novembro de 1497
Chegada a uma baía no Sul de África, à qual se deu 0 nome de Baía de Santa
Helena, perto de um rio que se denominou de Santiago (hoje Berg River).
No contacto com os indígenas, nesta parte sul de África, mostrou-se-lhes
CANELA E CRAVO mas aqueles não os conheciam. Tratou-se, porém, da primeira
demonstração da BUSCA DE ESPECIARIAS no roteiro da viagem.

19 de Novembro de 1497
Passagem pelo Cabo da Boa Esperança.

25 de Novembro de 1497
Chegada a Angra de São Brás (hoje Mossel Bay). Nesta desfez-se a nau dos
mantimentos, tendo os tripulantes desta sido recolhidos nos outros navios.

7 de Dezembro de 1497
Partida de Angra de São Brás, onde foram vistos indígenas a derrubar a Cruz
e o Padrão aí colocados por ordem de Vasco da Gama.

36
As Canárias, primeira paragem de
reabastecimento na viagem de Vasco da Vasco da Gama, D. Manuel 1 e 0 Arquipélago
Gama de Cabo Verde, segunda paragem de reabas­
tecimento.

0 retorno pelo índico, devido á ausência


de água potável, na viagem da ilha de
Angediva até Melinde, causou a maior
parte das mortes desta expedição. A sede
e o escorbuto ceifaram a vida a tantos que
numa nau já só havia sete homens em pé e
na outra oito. Chegando a Melinde, deu-se
de beber e comer aos então ainda sobre­
viventes, de que poucos resistiram. Dos
170 homens que acompanharam Vasco da
Gama na viagem, 116 não voltaram e na
sua grande maioria encontram-se enterra­
dos em Melinde.

idêntico Sul, o primeiro grande enigma desta Passagem pelo Cabo da Boa Esperança. Martin
Eem. Não sabemos ao certo a rota. Não sabe- Waldseemüller, o cartógrafo alemão, mostra o
s se ou onde recebeu reabastecimento. 0 se- monarca português no Canal de Madagascar,
?do da Coroa desceu como um véu sobre tudo montando um peixe, levando 0 ceptro real
eue a este enigma esteja ligado. Na nossa numa mão, a bandeira das quinas com a cruz
õca acerca do Reino do Preste João e tendo o cristã na outra e assumindo-se, desde
nhecimento de que povos africanos ociden- Neptuno, como primeiro Rei dos Mares.
s lhe eram tributáveis, demos o nome de
DCEANUS AETHIOPICUS" a este grande mar.
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

15 de Dezembro de 1497
Após grande temporal, chegada aos Ilhéus Chãos (hoje Bird Islands).

16 de Dezembro de 1497
Passagem pelo Rio do Infante (hoje Great Fish River).

28 de Dezembro de 1497
Perda de uma âncora e fortes dificuldades de navegação acrescidas da falta
de água potável.

12 de Janeiro de 1498
Chegada à "Terra da Boa Gente” e ao Rio do Cobre (hoje Inharrime River)
onde já haviam sido vistos navios como os nossos.

24 de Janeiro de 1498
Chegada ao "Rio dos Bons Sinais” (hoje Rio de Quelimane). Tomou-se mais
água e limparam-se os navios.

24 de Janeiro de 1498
Partida do "Rio dos Bons Sinais".

2 de Março de 1498
Chegada à Ilha de Moçambique. Ali encontrou-se CRAVO, PIMENTA E GENGI­
BRE em navios de mercadores muçulmanos. Falam de CRISTÀOS (possivelmente
copias) e do PRESTE JOÃO da Abissínia. Também se fala de DOIS CRISTÀOS
CATIVOS DA ÍNDIA (primeira menção a CRISTÀOS SÀO-TOMENSES). Estas menções
no roteiro sáo prova evidente dos objectivos da expedição, pois que até o mari­
nheiro, autor dos apontamentos, achou por bem mencionar a BUSCA DE CRISTÀOS
E ESPECIARIAS e seus resultados no decorrer da viagem.

10 de Março de 1498
Chegada à Ilha de São Jorge. Os muçulmanos de Moçambique descobrem que
a armada é de cristãos e resolvem tomá-la e matar os cristãos, porém os seus
planos foram descobertos.

29 de Março de 1498
Depois de muitas lutas e traições saíram destas ilhas.

38
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

Entrada no Indico, numa gravura quinhentista. Chegada à Ilha de Moçambique.

DESCOBERTAS PORTUGUESAS NO ÍNDICO

Portulano de Luís Teixeira Alvernaz oferecendo mais de 500


Um portulano português mostrando o índico e diversas nomes portugueses de portos no índico.
das praças portuguesas.

39
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

i de Abril de 1498
Chegada às Ilhas de Querimba.

4 de Abril de 1498
Chegada a Quiloa.

7 de Abril de 1498
Chegada a Mombaça. Dizia-se que metade da população era cristã. Encon­
traram-se, porém, DOIS MERCADORES CRISTÃOS (possivelmente coptas), que
mostraram uma carta, que veneravam, com o desenho do Espírito Santo. Encon-
trou-se também muito CRAVO, PIMENTA E GENGIBRE.

15 de Abril de 1498
Chegada a Melinde. Aqui, também se encontrou muito CRAVO, PIMENTA,
GENGIBRE E NOZ MOSCADA. No porto estavam QUATRO NAVIOS DE CRISTÃOS,
QUE ERAM ÍNDIOS (CRISTÃOS SÃO-TOMENSES). Quando chegaram ao navio de
Paulo da Gama, onde o Capitão-Mor se encontrava, ali lhe mostraram UM RETÁ­
BULO, REPRESENTANDO NOSSA SENHORA COM JESUS CRISTO NOS BRAÇOS, AO PÉ
DA CRUZ, E OS APÓSTOLOS.
"Naquele dia foi o Capitão-Mor andar nos batéis, por junto da vila, ATI­
RARAM DAS NAUS DOS CRISTÃOS ÍNDIOS MUITAS BOMBARDAS E LEVANTAVAM AS
MÃOS QUANDO OS VIAM PASSAR, DIZENDO TODOS COM MUITA ALEGRIA:
'CHRISTE! CHRISTE! E neste dia pediram eles licença ao Rei de Melinde para lhes
deixar fazer festa aos portugueses. E como veio a noite, fizeram muita festa, e ati­
raram muitas bombardas, e lançavam foguetes e davam grandes gritos."
O documento diz ainda que 0 Rei de Melinde deu a Vasco da Gama UM PILO­
TO CRISTÃO. Outros cronistas porém, identificam-no com 0 célebre piloto árabe
Ibn Madjid.

24 de Abril de 1498
Partida de Melinde e de África.

18 de Maio de 1498
Chegada à índia de que se sabia ter cidades mouras e CIDADES CRISTÃS, bem
como ESPECIARIAS em abundância.

20 de Maio de 1498
Chegada a Kappa e a Pandarane.

40
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

Mombaça. Contados com cristãos e especiarias. A chegada à índia, representada por Martin Walssemüller.

Matra, divindade hindu tomada pelos nossos navegadores como representação local
de Nossa Senhora com o Menino Jesus. Exemplar do século IX.
41
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

2i de Maio de 1498
Desembarcou 0 primeiro português, um degredado de nome João Nunes, que
foi a Calecut, onde encontrou dois mouros de Tunes (um deles chamado Mon-
çaide, que ficou nosso amigo). Sabiam falar castelhano e genovês. As primeiras
palavras que dirigiram ao português foram: "QUE DIABO TE DEU! O QUE TE
TROUXE PARA CÁ?”. Ao que o português respondeu: "VIMOS EM BUSCA DE
CRISTÀOS E ESPECIARIAS!”.
Estas curtas palavras, nestas circunstâncias, são a explicação mais precisa e
mais sintética das razões da Expansão Portuguesa, bem demonstrativas do grande
distanciamento relativamente ao motivo das expansões dos outros povos.

27 de Maio de 1498
Entrada no porto de Calecut. A partir deste ponto surge, nitidamente, uma
interpretação errada de quem é cristão ou não. 0 autor do roteiro, ou não soube
distinguir os Cristãos de São Tomé dos Hindus, ou terá recebido ordens para não
os distinguir. Cristóvão Colombo já tinha dado ordem para todos os membros da
sua tripulação jurarem, sobre os Santos Evangelhos, que as ilhas que tinham
acabado de encontrar, eram adjacentes à índia e que os habitantes seriam, por
isso, Indianos. Não possuímos quaisquer dados que nos provem que tenha havido
uma ordem dada, neste sentido, por Vasco da Gama e é possível que o autor deste
manuscrito os tenha, de facto, confundido. Um dado a favor da tese de que o erro
na distinção se ficou a dever a Álvaro Velho, a quem a autoria do roteiro é atribuí­
da e não a Vasco da Gama, vem do facto de, nas cartas de D. Manuel I (a primeira
aos Reis Católicos e a segunda ao representante de Portugal em Roma), ser reve­
lada uma substancial diferença na interpretação do Cristianismo Indiano. Facto é
que já havia milhões de cristãos na índia quando os portugueses lá chegaram e
que, mais tarde, uma delegação dos CRISTÃOS DE S. TOMÉ DO MALABAR ofereceu
um ceptro de um dos seus antigos Reis Cristãos Indianos, para que Vasco da Gama
0 entregasse ao Rei de Portugal. Tratou-se de uma submissão voluntária, por parte
da população cristã indiana para aceitar o Rei de Portugal como seu Rei.

28 de Maio de 1498
Vasco da Gama é recebido pelo Samorim de Calecut. Quando este lhe per­
gunta ao que vinha, respondeu Vasco da Gama: "Que havia sessenta anos que os
Reis de Portugal mandavam em cada ano navios para descobrir 0 CAMINHO PARA
A ÍNDIA PORQUE SABIAM QUE POR ESTES LADOS HAVIA REIS CRISTÀOS COMO
ELES, e que, por esta razão, mandava descobrir esta terra, e não porque lhes fosse
necessário ouro, nem prata, porque tinham tanto em abundância, que lhes não era

42
Calecut. Uma gravura a cobre quinhentista.

Uma delegação de cristãos são-tomenses indianos entrega a Vasco da Gama o ceptro do seu antigo Rei Cristão do índico para que ele o leve
ao Rei de Portugal e este os receba como seus novos súbditos.
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

necessário have-lo desta terra". Mais disse: "Que agora um Rei, que se chamava
D. Manuel, lhe mandara fazer estes três navios, e o mandara por Capitão-Mor
deles; e lhe dissera que ELE SE NÃO TORNASSE PARA PORTUGAL, ATÉ QUE LHE
NÃO DESCOBRISSE ESTE REI DOS CRISTÃOS E QUE, SE SE TORNASSE, QUE LHE
MANDARIA CORTAR A CABEÇA”. 0 Samorim perguntou-lhe: "Se vinha descobrir
PEDRAS OU HOMENS?” Ao que Vasco da Gama respondeu que era embaixador e
não mercador, que buscava homens e que não trazia ouro para comprar.

30 de Maio de 1498
Vasco da Gama levou cartas de amizade de D. Manuel I para 0 primeiro Rei
Cristão do Malabar que eventualmente encontrasse. Como 0 Samorim (termo que
significa Imperador) de Calecut era hindu e muito rodeado por comerciantes
muçulmanos, que temiam pelo seu já multissecular monopólio do negócio entre a
índia e o Mediterrâneo, surgiu a dificuldade na tradução da carta que Vasco da
Gama teve de entregar. Havia consigo duas versões, uma em português e outra em
árabe. Vendo a inimizade claramente demonstrada pelos muçulmanos de Calecut,
pediu ao Samorim que chamasse um cristão para traduzir a carta. 0 Samorim man­
dou chamar um rapaz cristão, mas este não foi capaz de 1er a carta em árabe, aca­
bando esta por ser traduzida por alguns mercadores muçulmanos. 0 Samorim ape­
nas deu ouvidos aos muçulmanos e o mau trato aos portugueses tornou-se uma
constante. Até 0 primeiro árabe com quem os portugueses tinham falado, 0 mer­
cador de Tunes chamado Monçaide, teve de fugir para bordo das naus portugue­
sas, por os outros mercadores muçulmanos o terem difamado como espião do Rei
de Portugal e roubado todas as suas mercadorias.

29 de Agosto de 1498
Após este autêntico fracasso diplomático, largou-se de volta a Portugal,
levando a bordo alguns homens de Calecut que tinham caído em mãos portugue­
sas. A ideia era levá-los a Portugal, tratá-los bem e trazê-los de volta com a próxi­
ma esquadra, para que 0 seu reaparecimento e 0 que trariam para contar falasse
por si e facilitasse 0 próximo encontro.

30 de Agosto de 1498
0 autor do roteiro informa, após a saída da índia, que desta terra de Calecut
vai "A ESPECIARIA QUE SE COME EM PONENTE E EM LEVANTE, E EM PORTUGAL, E
BEM ASSIM EM TODAS AS PROVÍNCIAS DO MUNDO. Calecut tem a sua própria co­
lheita de MUITO GENGIBRE, PIMENTA E CANELA”. Informa também que há canela
ainda mais fina que vem do Ceilão e cravo de Malaca.

44
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

Malaca, conquistada em 1511 por Afonso de Albuquerque. Nas palavras de Tomé Pires, 0 boticário português que em Malaca
viveu de 1512 a 1515: "Quem for senhor de Malaca tem entre mãos 0 pescoço de Veneza".

Especiarias do índico vistas por Linschoten no séc. XVI.


Goa. capital do Vice-Rei da índia Portuguesa, cuja jurisdição ia desde o Cabo da Boa Esperança até Nagasaqui. Foi um dos maiores
reinos alguma vez existentes. Gravura de Allard, séc. XVII.

Portugueses na índia, vistos por Linschoten no séc. XVI. 0 sombreiro representado é o antepassado do nosso chapéu-de-chuva.
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

Uma grande fusta de guerra da Ordem de Cristo no índico, vista por Linschoten no séc. XVI.

47
0 Rajá de Cochim, o nosso mais fiel aliado no Malabar, visto por Linschoten no séc. XVI.

Cochin

Pirogas de Cochim e almadias de Goa, vistas por Linschoten no séc. XVI. Ainda hoje estes navios têm as tábuas cosidas umas às outras.
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

15 de Setembro de 1498
Encontrou-se uma ilha adjacente à índia à quai se deu 0 nome de Santa
Maria e onde se colocou outro padrão. Os habitantes trouxeram muito pescado e
diziam ser cristãos. Tal é altamente provável, pois ainda hoje parte substancial da
população piscatória do sul da índia é CR1STÀ-SÃO TOMENSE. Deixou-se esta ilha
e seus habitantes com muita amizade.

20 de Setembro de 1498
Chegou-se à ilha de Angediva (ao sul de Goa) e encontrou-se um homem que
disse ser cristão, e que, quando soube serem os portugueses igualmente cristãos,
muito se alegrou. Voltou com amigos que ajudaram na aguada e disseram haver
muita canela na sua terra, mas não outras especiarias.

5 de Outubro de 1498
Depois de mais traições e da decisão de se queimar uma das naus por já ter­
mos perdido 60 homens, a maioria por doença, largou-se em direcçâo a África. A
travessia levou três meses, com muitas calmarias e ventos contrários, adoentan­
do toda a gente. Os homens ainda capazes de navegar, em cada uma das duas naus
restantes, eram apenas sete ou oito.

2 de Janeiro de 1499
Chegou-se a Mogadixo.

7 de Janeiro de 1499
Chegou-se a Melinde, onde foram muito bem recebidos pelo Rei, que ajudou
com carneiros e frutos. As laranjas ajudaram, mas para muitos foi demasiado
tarde, acabando por aí ficar enterrados. Trouxeram igualmente galinhas e ovos.
Vasco da Gama perguntou ao Rei de Melinde se podia colocar um padrão em sinal
de amizade. 0 Rei concordou e ofereceu um olifante (buzina em marfim trabalha­
do). Mandou também um mancebo, para que 0 Rei de Portugal soubesse quanto
ele desejava a sua amizade.

12 de Janeiro de 1499
Passou-se por Mombaça.

i de Fevereiro de 1499
Chegou-se à ilha de S. Jorge, frente a Moçambique, onde se colocou outro
padrão.

49
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

3 de Março de 1499
Chegou-se a Angra de São Brás onde se tomou muita água e lobos marinhos
para salgar.

20 de Março de 1499
Passou-se pelo Cabo da Boa Esperança.

O roteiro ainda menciona uma chegada, a 16 de Abril, a Santiago de Cabo


Verde e uma outra, a 25 de Abril, à Serra Leoa, mas nada mais nos conta, ofere­
cendo assim mais perguntas do que respostas.
Porém, com base em outras fontes, temos ainda os seguintes dados:

10 de Julho de 1499
A nau Bérrio entrou na barra de Lisboa comandada por Nicolau Coelho, que
deu o seu relato a D. Manuel I, o que gerou a carta deste aos Reis Católicos. Vasco
da Gama porém, tinha os seus marinheiros todos doentes e seu irmão moribundo,
acabando por arribar à Ilha Terceira, onde Paulo da Gama veio a falecer.

29 de Agosto de 1499
Vasco da Gama chega a Lisboa e dá o seu relato a D. Manuel 1, o que causou
a grande diferença na interpretação dos contactos Luso-Cristáos-Indianos entre
as duas cartas enviadas por este monarca acerca da mesma viagem.

A empresa, verdadeiramente colossal, assombrou 0 mundo. D. Manuel I


acrescentou de imediato ao seu título de REI DE PORTUGAL, o de SENHOR DA CON­
QUISTA, NAVEGAÇÁO E COMÉRCIO DA ETIÓPIA, ARÁBIA, PÉRSIA E ÍNDIA e com
esta legenda se cunhou uma grande moeda de ouro, no valor de dez cruzados, que
se chamou 0 PORTUGUÊS e que, por via cambial, chegou a ser internacionalmente
conhecido pelo ESCUDO PORTUGUÊS. Um exemplar sobrevivente desses dias vale
hoje cerca de DEZ MIL CONTOS.
D. Manuel deu 0 senhorio de Sines a Vasco da Gama, fez-lhe doação de mil
cruzados em ouro e 300.000 reais de renda anual para ele e todos os seus descen­
dentes, elevando-o a ALMIRANTE DO MAR DA ÍNDIA. Foi-lhe conferida igualmente
a mercê de tratamento de Dom, não só a ele, mas também aos seus descendentes,
que deveriam conservar o apelido GAMA, em memória de tão grande feito.
Analisando 0 roteiro, e na ausência de melhores fontes, fica-nos a convicção
de que as ORDENS RÉGIAS, para esta grande viagem, foram de facto 0 seguimento
das directrizes da ORDEM TEMPLÁRIA interpretadas pela ORDEM DE CRISTO e seu

50
aSâïWja 1S&Í MïO 1 'ijjïiiiGO li 1)3Iolirzli^^
Na página anterior:

A chegada de Vasco da Gama a Lisboa.


ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

mais destacado membro, o INFANTE D. HENRIQUE, quando dizia: "Trazei-me notí­


cias do Reino do Preste João!". As ordens de D. Manuel 1 devem ter sido: "ENVIO-
-VOS NA BUSCA DE CRISTÃOS E ESPECIARIAS, TERMINAI 0 TRABALHO HÁ TANTO
INICIADO". A ideia que sempre esteve por detrás da Expansão Portuguesa foi a
aproximação aos cristãos coptas de África e aos cristãos são-tomenses do índico
para que com eles se formasse uma aliança contra o Islão, que tinha então posto
em causa a sobrevivência da Europa Cristã.

A chegada ao Malabar, na busca de cristãos e especiarias.

53
A BUSCA DE CRISTÃOS NA

VIAGEM DE VASCO DA GAMA


"TRAZEI-ME NOTÍCIAS DO REINO DO PRESTE JOÃO"
Infante D. Henrique

Reconhecendo a Abissínia como o Reino do Preste João. 0 Preste João das índias, cruzes de benzer coptas com o feitio da
nossa cruz de Aviz e uma tampa de arca das Sagradas Escrituras.

Turíbulos de formas diferentes de interpretação do Cristianismo


no Malabar. 0 primeiro, cristão são-tomense; o segundo, por­
tuguês gótico, católico-apostólico-romano (oferecido em Nossa Senhora e cruzes de benzer coptas. A força do
Cochim, possivelmente da nossa primeira igreja na Ásia); o ter­ Cristianismo na África Oriental.
ceiro. cristão sírio-caldeu.

Escrita copta geez em pergaminho e papel e tripticos Tecidos cristãos-coptas dos primeiros séculos da era cristã.
em madeira e pedra.
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

Frontispício do "ATLAS UNIVERSAL PORTUGUEZ". Primeiro Atlas impresso português, datado de 1814 e oferecido a D. João VI (Principe
Regente). Durante o seu exílio no Brasil resolveu-se — por causa do desaparecimento nào só da cartografia corno de outra documen­
tação relativa aos Descobrimentos, no terramoto de 1755 — ensinar a História Portuguesa ao nosso monarca, baseada nas obras
estrangeiras de Guthrie, Bonne, Laurie e Elliot.

59
Frontispício do exemplar do Atlas pelo
qual tanto D. Carlos, como D. Manuel II,
aprenderam a História dos Descobri­
mentos Portugueses. Obra de mérito do
Tenente Coronel Alfredo Oscar D’Aze­
vedo May que, porém, publica os mapas
de Guillard e Aillaud.

Carimbo da Biblioteca de D. Carlos, Rei de


Portugal, colocado no "ATLAS UNIVERSAL
PORTUGUEZ”.

EX-LIBRIS de D. Manuel II colocado na obra "ATLAS


6o UNIVERSAL PORTUGUEZ".
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

A BUSCA DE CRISTÃOS NA VIAGEM DE VASCO DA GAMA °

É sabido que Vasco da Gama não foi o primeiro português a chegar ao índico.
Péro da Covilhã já partira de Lisboa em 1487 para trazer novas sobre a rota das
especiarias e o Reino do Preste João. Com pleno conhecimento do árabe e do
hebraico, fez-se às índias disfarçado de mercador muçulmano. Infelizmente, não
chegou até aos nossos dias o relato enviado por Péro da Covilhã da Abissínia
através de comerciantes hebreus. Nem sequer podemos afirmar que este relato
tenha chegado a Lisboa antes da partida de Vasco da Gama, influenciando assim a
sua rota.
Para podermos ter alguma luz sobre 0 que Vasco da Gama esperava encon­
trar, ou sobre 0 que D. Manuel 1 0 mandou descobrir, fica-nos, como fonte, 0 rela­
to da sua viagem, geralmente atribuído a Álvaro Velho, um simples acompanhante,
obviamente não iniciado nos segredos da Coroa Portuguesa. Porém, existe uma
outra fonte à qual, que eu saiba, nunca se deu a devida importância na questão
dos conhecimentos que existiam em Portugal sobre os Cristãos do índico antes da
viagem de Vasco da Gama. Trata-se do globo de Martin Behaim, por muitos errada­
mente chamado Martinho da Bohémia. Este comerciante alemão, oriundo da
cidade de Nuremberga, vivia em Portugal, com estreita ligação aos descobridores
portugueses. Casado nos Açores com a filha do Capitão Donatário da Ilha do Faial,
teve oportunidades de sobra para se integrar nos assuntos náuticos e beber das
primeiríssimas fontes. Autoconvencido e distorcendo a verdade, apresentou-se
em Portugal como grande cosmógrafo nórdico, amigo íntimo dos maiores cientis­
tas de então. Conseguindo boa aceitação na Corte de Lisboa chegou a fazer parte
da Junta dos matemáticos de D. João IL Revisitando a sua cidade natal de Nurem­
berga, intitulou-se amigo íntimo do Rei de Portugal e por este armado cavaleiro e
primeiro cartógrafo, indo ao ponto de auto-atribuir-se a descoberta da rota pelo
Cabo, dizendo que ele e Diogo Cão, comandando duas caravelas, tinham descober-

(') Palestra do GAMMA (Grupo de Amigos do Museu de Marinha) proferida por Rainer Daehnhardt no Padrão dos
Descobrimentos, em 25 de Setembro de 1997.

61
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

to a passagem do Atlântico para o índico em 1484. A vontade de ser um "grande


descobridor" não foi só sua, destacando-se três nomes que bem poderíamos clas­
sificar como sendo os três grandes mentirosos do fim do século XV. São eles:
Américo Vespucci, Cristobal Colon e Martin Behaim. Coloco Vespucci em primeiro
lugar. 0 nosso Almirante, cientista e historiador, Gago Coutinho, estudou as cinco
cartas atribuídas a Vespucci e que deram fundamento à sua obra, chegando à con­
clusão de que a sua famosa primeira viagem nunca se realizou, que a sua quarta
viagem é relatada por quem nem sequer 0 acompanhou e que na sua segunda e
terceira viagens não passou de lastro, pois foi enviado como astrónomo e revelou
total incapacidade para preencher estas funções. A obra Terra Nova de Américo
Vespucci, ainda publicada durante a sua vida e estadia em Espanha, nunca por ele
refutada, classifica-o de Almirante de Esquadra, dando-lhe a honra de ter sido o
descobridor do continente americano em 12 mil léguas, desde a Flórida até ao Rio
da Prata. Gago Coutinho chama à obra "Lendas da América' e tal deve-se não só
ao facto de atribuir 150 anos de idade a índios e por considerar um deles campeão
por ter comido trezentos colegas, mas sim, e em primeiro lugar, devido aos gravís­
simos erros de distâncias e rumos, que desmascaram um profundo desconheci­
mento de navegação e uma acumulação de simples mentiras. Na figura e obra de
Cristóvão Colombo também encontramos uma rede onde a verdade e a mentira se
entrelaçam e a conveniência de mitos rapidamente se tornam em apresentação de
factos considerados reais. Destes três, curiosamente, foi Behaim quem mais direc-
tamente se envolveu com Portugal e seus navegadores e do qual se pode esperar
ter tido maior acesso aos conhecimentos lusos. Porém, a sua obra parece-me ser
a menos estudada e a mais empregue como conto dos contadores de lendas.
Descontando as mentiras e as lendas nas obras destes três, ainda nos fica o
suficiente para não os anularmos de todo. A mais concreta, e por isso também a
mais facilmente atacável obra que nos ficou deles, é o globo, também chamado
"maçã terrestre”, que Martin Behaim elaborou no ano de 1492 por ordem do
Conselho Municipal de Nuremberga. Trata-se do mais antigo globo ainda exis­
tente, o mesmo que mais tarde, em 1515, serviu a Albrecht Durer para inventar a
sua grelha que permitia a representação bidimensional dum corpo tridimensional,
mostrando, simultaneamente, ao Imperador da Alemanha, 0 que os Portugueses
estavam a descobrir na Ásia.
Sabemos que Martin Behaim era mau comerciante, mau cartógrafo e mau
contador da verdade. Porém, é indiscutivelmente, 0 autor do único globo terrestre
quatrocentista sobrevivente e, assim, estudável, que nos pode revelar algo sobre
os conhecimentos já existentes em Portugal sobre a Ásia antes da partida de Vasco
da Gama em 1497. Neste prisma estamos perante uma fonte de peso! Pondo de

62
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

0 globo de Behaim datado de 1492. Fala do Cristianismo na África Oriental, nas ilhas do índico e do martírio do
Apóstolo São Tomé na índia. Tudo conhecimentos prévios à viagem de Vasco da Gama.

0 mapa-mundi da Crónica de Nuremberga, publicada em 1493. Todos os conhecimentos do chamado outro lado do
globo baseavam-se até então nos conhecimentos romanos do cartógrafo alexandrino Cláudio Ptolomeu, acrescen­
tados com fábulas e lendas sempre férteis entre os navegadores.

63
MAPA MUNDI Di ALBERTO OÛRER. 1515

O mundo descoberto pelos portugueses na sua apresentação feita em 1515 por Alberto Dürer ao Imperador alemão
Maximiliano I. Este monarca sempre mostrou grande interesse por Portugal, entrando nas suas batalhas com o estandarte
da águia imperial alemã de um lado e a bandeira das quinas do outro, o que é compreensível por ter sido filho da Infanta
D. Leonor de Portugal, neta de D. João I e filha de D. Duarte.

A trasladação dos ossos de S. Tomé (únicos conhecidos dum Apóstolo) de Meliapor a Goa.

64
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

lado a confusão geográfica oriunda da sua interpretação pessoal, principalmente


baseada, no que diz respeito à Ásia, nos mapas ptolemaicos e nos relatos de Marco
Polo, temos, porém, de reconhecer factos reais. Assim, apresenta-nos numa costa
"pseudo-indiana" os reinos de "Surate, Maabar, Koulao e Kael”. Não se trata de
fantasia, pois existiam os reinos de Surate, Malabar e Coulâo. No lugar geografi­
camente identificável com o seu Kael, pintado com grande destaque, situa-se
Calecut, o primeiro alvo da navegação portuguesa. Kael deve ser Calecut. As
primeiras quatro letras até condizem, embora por ordem diferente. Este pequeno
erro, como o da abreviatura, pode até nem ser erro de Behaim visto o seu globo
ter sido diversas vezes "restaurado" e nomes que não se conseguiam 1er bem rece­
beram nova pintura por cima. Assim, Kalekut pode ter sido facilmente transfor­
mado em Kael. Em Calecut reinava o Samorim, ou seja, o Imperador, enquanto nos
reinos vizinhos reinavam os Rajas, que significava os Reis. Assim se compreende
que Vasco da Gama tenha procurado, acima de tudo, a aceitação do Samorim. Mas,
de certa forma, chegou tarde! Séculos antes já ali se tinham instalado os comer­
ciantes árabes e, logicamente, não viam com bons olhos o aparecimento dum forte
concorrente europeu. Daí as traições e inimizades e ps constantes conselhos ne­
gativos enviados pelos principais cortesãos de Calecut ao seu Samorim. Este,
embora hindu e, por isso, bastante tolerante em questões religiosas, encontrava-
-se dependente dos fortes tributos que o comércio entre a Costa do Malabar e o
Médio Oriente lhe ofereciam e não ia mudar uma política ancestral de favoritismo
pró-árabe.
Quem visitar, hoje, o sul da índia fica surpreendido com o facto de as liga­
ções aéreas directas de Calecut náo serem para as cidades vizinhas de Cochim,
Goa ou Bombaim, nem para Nova Delhi sequer, mas sim para Riade, capital da
Arábia Saudita, Barein, Qatar e os Emirados Árabes, tudo terras da Península
Arábica. Isto demonstra que meio milénio no contexto da história da Ásia é pouco
tempo e que o favoritismo pró-árabe de Calecut se mantém. Ainda hoje Calecut é
o mais forte enclave pró-árabe de Kerala. Até a inimizade dos habitantes de
Cochim (os melhores e mais fiéis aliados que, de início, os Portugueses encon­
traram na índia), contra os de Calecut pode ser hoje facilmente sentida.
No seu globo terrestre, Behaim não só demonstra a importância de Calecut
e do negócio das especiarias, como aponta, geograficamente na índia, um local,
indicando que foi ali que o Apóstolo São Tomé foi morto por uma flecha. Refere-
-se, obviamente, a Meliapor, mais tarde rebaptizada pelos portugueses de "cidade
de São Tomé". Este foi o único apóstolo do qual se encontrou, até hoje, o local de
enterro. Behaim pode ter tirado este e muitos outros dados, da obra de Marco
Polo, mas isto não significa que os navegadores portugueses não tivessem também

65
ACERCA'DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

acesso a estes dados, antes pelo contrário. Behaim deve ter tido o primeiro conhe­
cimento dos dados de Marco Polo através dos portugueses! O irmão do Infante
D. Henrique, D. Pedro, tinha visitado Veneza e recebido o manuscrito original
como oferta dos Doges, que sempre consideraram os contos de Marco Polo como
lendários e sem qualquer aproveitamento científico. O recebimento deste impor­
tante manuscrito em mãos portuguesas, considerado um facto histórico durante
séculos, chegou a ser posto em dúvida no nosso século. Porém, redescobriu-se a
lista dos livros deixados por D. Afonso V e nela vem mencionado este valioso ma­
nuscrito. Não é para admirar que as primeiras edições impressas desta narração
de viagens ao Extremo-Oriente tenham surgido precisamente na Alemanha e em
Portugal. Os nossos primeiros tipógrafos eram, em grande parte, alemães que
mantiveram férteis contactos com os seus colegas nas suas cidades de origem.
Assim, tanto em Nuremberga como em Lisboa, sabia-se muito acerca destes
relatos. Mas as indicações geográficas de Polo eram tão imprecisas que tinha de
haver outras fontes de informação para poder colocar alguns dos dados. Quando
estes faltaram Behaim não se preocupou e improvisou, inventando-os, dentro do
que lhe parecia lógico. Assim, inventou a existência dum grande mar, anexo ao
índico, com terras e cidades portuárias, oferecendo a seguinte legenda explicati­
va: "Este mar, terras e cidades pertencem todas ao grande imperador Preste Joào
da índia''.
Em relação a este lendário monarca, oferece Behaim diversas informações:
"Neste país reside o poderoso imperador conhecido por Mestre João que foi
nomeado soberano pelos três Reis Magos, Gaspar, Baltazar e Melchior na terra dos
mouros. Seus descendentes são bons cristãos e há muitos reis entre eles". Noutra
legenda repete parcialmente e contradiz a anterior: "Todas estas terras, mares e
ilhas, estes países e reinos foram oferecidos pelos três Reis Magos ao Imperador
Preste João. Antigamente eram todos cristãos mas no presente nem 72 cristãos
podem ser encontrados entre eles". Behaim desejou, obviamente, representar
todos os conhecimentos que tinha. Se os mesmos se contradiziam, isso não 0 preo­
cupava. Pelo sim, pelo não, apresentava ambas as versões, confiante de que pelo
menos uma estaria certa.
A Ilha de Madagascar (estamos perante a mais antiga referência a esta ilha,
oficialmente então ainda não descoberta), é apresentada com a seguinte legenda:
"Os navegadores da índia, onde São Tomé jaz enterrado e do país Malabar vão com
as suas embarcações a esta ilha Madagascar normalmente em 20 dias, mas no seu
retorno ao Malabar raras vezes conseguem chegar aos seus lares em 3 meses por
causa das correntes do mar que aqui costumam se dirigir fortemente ao sul. Isto
escreve Marco Polo no seu 39 capítulo do seu 3 livro". Temos aqui uma indicação

66
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

pessoal de Behaim acerca da origem deste conhecimento, o que me leva a crer que
os navegadores portugueses, através dos seus mestres escolares tivessem também
conhecimento dos mesmos factos. Podemos então concluir que Vasco da Gama já
tinha conhecimento das dimensões do índico antes de nele entrar, sabendo da
existência da Ilha de Madagascar antes do descobrimento oficial da mesma e
sabendo também do perigo das fortes correntes ao sul da referida ilha. Assim, é
lógico que Gama tenha escolhido a rota ao norte de Madagascar, mantendo-se
junto à costa oriental africana cortando o índico, em linha recta, de Melinde a
Calecut. Após dobrar o Cabo da Boa Esperança poderia parecer mais rápido, para
chegar à índia, passar ao sul de Madagascar, mas esta rota foi anulada no início da
nossa navegação no índico, surgindo só muito mais tarde e, normalmente, no
caminho do regresso, tal como Behaim indicara, em 1492, como sendo a mais con­
veniente.
Behaim faz bastante confusão quanto às ilhas do índico, mencionando algu­
mas delas como sendo habitadas por cristãos. Mostra-nos uma ilha de homens e
outra de mulheres, que se podiam encontrar uma vez por ano, e que eram cristãos,
tendo um bispo que os governava sob as ordens do arcebispo de Socotra. Esta é
mais correctamente apresentada com a seguinte legenda: "Socotra é uma ilha que
dista 500 milhas italianas das ilhas dos homens e das mulheres. Seus habitantes
são cristãos e um arcebispo é o seu soberano". Estas indicações são preciosas e
explicam o porquê das constantes ligações das frotas portuguesas com a ilha de
Socotra, que não podem ser só justificadas pela necessidade de água doce, pois
esta também se encontrava noutros lugares. A descoberta de cristãos em Socotra,
a construção de uma igreja pelos portugueses, a protecção lusa oferecida a estes
cristãos, tudo isto se tornou já previsível pela simples leitura do globo que nos foi
deixado por Behaim! Quando São Francisco Xavier chegou ao índico, visitou
primeiro a ilha de Socotra e ficou espantado por aí encontrar cristãos com história
própria e multissecular. Quando chegou ao Malabar e se encontrou com os princi­
pais representantes dos milhões de cristãos de São Tomé indianos não os con­
seguiu convencer que receberiam proveito religioso se se ligassem à forma
romana do cristianismo. Foi por esta razão que se fez ao Extremo-Oriente, já que
no índico pouco tinha para realizar.
Behaim também nos indicou que a costa oriental africana foi cristianizada
pelo apóstolo São Mateus, 0 que é outro facto histórico, e fala-nos do grande
imperador Minupia's da Abissínia e do seu povo cristão, que negoceia em ouro e
marfim. Tudo isto são factos concretos, que os portugueses puderam depois com­
provar. Behaim, obviamente, não faz nenhuma distinção entre cristãos católicos
apostólicos romanos, cristãos coptas, cristãos nestorianos, cristãos sírio-caldeus

67
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

ou cristãos são-tomenses. Para ele bastou a indicação de serem cristãos e para os


portugueses, até ao fim do reinado de D. Manuel I, também!
Se olharmos agora para o relato da primeira viagem de Vasco da Gama à
índia, atribuído a Álvaro Velho, não só encontramos uma não existência de dife­
renciação entre cristãos católicos apostólicos romanos, cristãos copias e cristãos
são-tomenses, como até uma errada interpretação dos hindus, sendo classificados
como cristãos. Não se pode esperar profundos conhecimentos teológicos dum
simples marinheiro português, que só fez o seu relato para a sua própria memória
e não para qualquer instituição científica.
Como o seu relato é normalmente tomado como fonte única acerca desta
viagem, dá-se pouco peso às suas menções sobre o encontro com os cristãos, con­
siderando-se estas como "confusões sem interesse". Álvaro Velho mencionou
estes encontros como simples curiosidades, dando pessoalmente mais relevo à
procura de especiarias e outras possibilidades de trocas comerciais. Um mari­
nheiro dos nossos dias certamente teria feito um relato parecido e isso não nos
deve surpreender. Mesmo assim é interessante verificar que Álvaro Velho men­
ciona especiarias 13 vezes e cristãos 49 vezes. Entre estas 49 vezes há dez menções
incorrectas, onde se fala de hindus chamando-os cristãos e isto apenas a partir da
chegada a Calecut. Em 39 vezes aplica correctamente a classificação de "cristão",
embora não diferencie entre católicos apostólicos romanos, copias ou são-
-tomenses, sendo todas estas três categorias por ele encontradas. Assim, não
temos 0 direito de classificar as suas observações como fantasiosas. Surge-nos
mesmo a pergunta: até que ponto Vasco da Gama queria que a sua tripulação con­
siderasse os hindus encontrados em Calecut como cristãos? Haverá aqui uma
ligeira semelhança com Colon que obrigava os seus companheiros, sob juramento,
a chamar às terras descobertas "índia" e aos seus habitantes "indianos"?
Sobre este aspecto é interessante 1er as cartas enviadas por D. Manuel I aos
Reis Católicos e a Roma, após a chegada do primeiro e segundo navios que
voltaram da descoberta do Caminho Marítimo para a índia. 0 primeiro navio a
chegar foi 0 Bérrio de Nicolau Coelho. 0 Rei comunicou então aos Reis Católicos a
descoberta do Caminho Marítimo para a índia pela rota africana, mencionando
que a gente encontrada era "cristã, posto que não fosse tão confirmada na fé”. Um
mês e meio depois chegou 0 navio São Gabriel e D. Manuel I enviou uma carta,
datada de 28 de Agosto de 1499, ao Cardeal Protector, D. Jorge da Costa, nosso
representante em Roma, para informar o Papa, dizendo que o Samorim e o seu
povo se deviam ter por hereges, dada a forma da sua cristandade. A diferença da
interpretação régia sobre a religião do Samorim e seu povo entre a chegada do
primeiro navio e o segundo é importante e leva-me a concluir que não sabíamos

68
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

Cálice e caixa para hóstias dos cristãos sírio-caldeus da índia.

À esquerda, a mais antiga candela pendente cristã são-tomense por nós


até hoje encontrada. Data do primeiro milénio. No meio da corrente
mostra a coroa, a pomba do Espírito Santo e a Cruz (um conjunto de
símbolos ainda hoje profundamente enraizados no culto do Espírito
Santo nos Açores). Da sua base, onde se coloca óleo de coqueiro, sai
uma flor de lótus cujas pétalas representam as cabeças dos Apóstolos.
À direita, um cálice nestoriano, também do primeiro milénio, que pela
sua dimensão nos mostra ser comunitário. No centro, uma grande cruz
cristã são-tomense em pau-santo encimada pela pomba do Espírito
Santo.

69
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

Monge arménio da ORDEM DE SANTO ANTÓNIO. A única representação


conhecida desta ordem, que muito peso teve tanto para os copias como
para os nestorianos e cristãos de São Tomé.

Monge nestoriano (os cristãos de São Tomé eram nestorianos).

70
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

Na pagina anterior:

Jesus e os Apóstolos. Do lado esquerdo vê-se S. Tomé Didimo, ou seja, irmão (irmão gémeo ou irmão mais amigo)
de Cristo. Xilogravura da Crónica de Nuremberga, atribuída a Alberto Durer, 1493.

72
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

AS CRUZES ABEXINS DO GOLFO DE MARTABÃO À


CIDADE DE S. TOMÉ NA
COSTA DO COROMANDEL

Cruzes processionals coptas e Gondara, capital abexim no planalto da 0 índico e o Golfo de Bengala, mostrando não só Diu, Damão e Goa
África Oriental, onde todos os edifícios em pedra foram construídos no Malabar e a cidade de S. Tomé, local do martírio do único
como gesto de amizade por parte da lusa gente. Apóstolo de que se descobriu um túmulo, na Costa do Coromandel.
Também mostra, no Golfo de Bengala, os principais reinos produ­
tores dos famosos potes de especiarias, nomeadamente Martabão,
Pegu, Arracão, Sião e Birmânia.

Duas cruzes cristão-indianas em ferro lavrado a ouro utilizadas pelos cristãos de São Tomé da costa do Coromandel.
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

CANDEIAS HINDUS E CRISTÃS

DE S. TOMÉ DA ÍNDIA

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Candeias litùrgicas do Malabar, parecidas mas, no entante t®*


* *
diferentes. As do lado esquerdo são todas cristãs sã>
-tomenses. As do lado direito são todas hindus.

• àj

A
XS^eíA w

Candela litùrgica cristã são-tomense da costa do


Mostra o símbolo da cruz. Em ambas as candeias se
seu símbolo principal ladeada pelo do sol e da lua, ou sea 1
dia" e "a noite”, significando "sempre", ou seja "sempre -
ou "sempre cristão”.
A laje do túmulo do Apóstolo São Tomé, descoberta pelos portugueses
em Meliapor, na índia, durante o reinado de D. João III. Tanto a cruz,
parecida com a de Aviz, como a pomba, símbolo do Espírito Santo, eram
bem conhecidas dos navegadores lusos.

CHAMANDO O ESPÍRITO SANTO

Réplica de candela gigante cristã são-tomense (2,5 metros de altura) da


igreja de Trichur de Kerala que recentemente aceitou o Papa João Paulo
II como seu líder espiritual. Este, em extraordinária demonstração não
só do seu pensamento mas da sua acção ecuménica, deslocou-se à
índia, aceitando esta comunidade e acendendo a candela cristã são-
-tomense em reconhecimento da sua origem.
Sinos e cruz dos cristãos são-tomenses indianos.

75
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

Um sistro faraònico do segundo milénio antes de Cristo (encontraram-


-se diversos no túmulo de Tut-Ank-Amon). Simbolizam a necessidade
de tudo se ter de manter em contínua agitação, de que o nascimento da
alma no corpo e a corrupção deste (a morte), são apenas diferentes Um sistro copta com inscrição em gée e encabeçaoo pj
estados da nossa movimentação, como a criação e transmissão dos símbolo da cruz. Proveniente do Culto a ísis, a Virgem
sons e seus efeitos. O oferecimento de uma roca em prata a uma crian­ Mundo. Só proibido num concílio do século VI, man**
ça, no dia do seu baptismo, é a reminiscência cristã-ocidental deste -se no cristianismo copta até aos nossos dias.
ancestral instrumento de som.

ANKH, a cruz ansada do Egipto faraónico, simbolizando a


"CHAVE DA VIDA". Como o cristianismo copta nasceu em
Alexandria, berço da cultura ptolemaica (greco-egípcia), não
é de espantar que se represente o MESTRE ANCIÀO (Santo
Antão faleceu com 105 anos), como PRESTE JOÃO, ladeado
pelos seus dois leões, dando-se-lhe a configuração do ANKH.
Desta forma, simbolizava-se o PRESTE JOÃO através da CHAVE PRESTE JOÃO simbolizando a "CHAVE DA VIDA". Os contornos í
DA VIDA ou, noutras palavras, através do PRESTE JOÃO seu corpo e 0 seu halo dão, precisamente, 0 "ANKH”, símbc :
alcançava-se a VIDA ETERNA. vida desde a era faraónica.
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

da existência de hindus. Behaim também não os menciona no seu globo. Só


sabíamos diferenciar os muçulmanos dos não muçulmanos na costa do Malabar.
Na realidade, encontrou-se em Calecut uma convivência de diversas religiões.
Assim, havia uma população maioritariamente hindu, por sua vez subdividida nas
suas diversas castas, ao lado da qual coexistiam fortes núcleos muçulmanos e
cristãos são-tomenses. Estes não se distinguem pelas suas roupas dos hindus. Até
os objectos de culto, como, por exemplo, as candeias, são extremamente pareci­
dos. Na minha última viagem ao Indostão assisti a um casamento cristão são-
-tomense e tive, na ocasião, dificuldade em distinguir os hindus dos cristãos são-
-tomenses. Na única gravura antiga que conheço onde se representa a delegação
dos cristãos são-tomenses do Malabar a entregar o ceptro do seu Rei Cristão
Ancestral a Vasco da Gama, com o pedido deste o entregar ao Rei de Portugal para
que o mesmo seja o seu Rei, apresenta o autor estes cristãos malabáricos como se
de muçulmanos se tratassem, com turbantes, o que é um erro. Não creio que Vasco
da Gama mentisse ao Rei acerca do cristianismo estranho encontrado na índia. 0
que nos faltava era a diferenciação entre hindus e cristãos são-tomenses. Para
Vasco da Gama o inesperado foi o facto de os soberanos da índia serem só muçul­
manos ou hindus. Os cristãos encontrados não eram soberanos, mas simples
pescadores ou comerciantes, visto grande parte dos mesmos — já na altura da
cristianização da índia por São Tomé e São Mateus e, mais tarde, pelos cristãos
nestorianos vindos da Síria e Babilónia —, terem sido recrutados entre a popu­
lação piscatória e a hebraica. Esta tinha-se estabelecido no Malabar, séculos antes
de Cristo, em fuga de Nabucodonosor. Competia a Vasco da Gama encontrar o
Reino Cristão da índia. Encontrou reinos cristãos em mãos de hindus, entre os
quais viviam cristãos. Mas isto levou tempo a esclarecer e só se clarificou, de vez,
com a segunda armada destinada à índia, a de Pedro Alvares Cabral.
No relato da primeira viagem por Álvaro Velho mencionam-se diversos
encontros no índico com cristãos. Podemos hoje dizer quais dos encontros foram
com coptas e quais com cristãos são-tomenses. Os que salvaram Vasco da Gama
da traição e lhe mostraram as suas sagradas escrituras com o símbolo da pomba
do Espírito Santo, eram coptas. A alegria sentida por ambas as partes em todos
estes encontros entre cristãos foi imensa e reveladora de uma vontade mútua de
aliança contra o Islão.
Álvaro Velho descreve o desembarque do primeiro português da armada de
Vasco da Gama perto de Calecut, um degredado, que encontra dois mercadores
muçulmanos, um dos quais de Tunes, que falava castelhano. Quando este, com
grande espanto, se vê confrontado com o português e lhe pergunta o que vinha
buscar tão longe, teve como resposta cinco palavras que, ao mesmo tempo, nos

77
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

oferecem a análise mais cristalina das razões e ordens que estavam por detrás da
Expansão Portuguesa no índico: "Vimos buscar cristãos e especiarias!". Foi isso o
que se ordenou e foi isso que se cumpriu! A busca era destinada aos cristãos e às
especiarias, nesta ordem de prioridades! 0 próprio Vasco da Gama explicou ao
Samorim as razões da sua viagem da seguinte forma: "Que havia sessenta anos que
os Reis antecessores mandavam cada ano navios a descobrir contra aquelas
partes, porquanto sabiam que em aquelas partes havia reis cristãos, como eles, e
que D. Manuel lhe dissera que ele se não tornasse para Portugal até que lhe não
descobrisse este rei de cristãos". 0 que o Rei iniciado português pretendia não era
só descobrir o caminho marítimo para a índia e a aquisição de especiarias direc-
tamente nas suas fontes, mas também e, provavelmente em primeiro lugar, uma
aliança com os cristãos do índico, nomeadamente os coptas da Abissínia e os
cristãos de São Tomé da ilha de Socotra e da índia, o que aliás mais tarde se veio
a realizar.
Vivemos num mundo intelectualmente degenerado, onde a vertente mate­
rialista é a principal mola real de acção, o que torna difícil a compreensão de uma
época onde os valores espirituais se colocavam acima dos materiais. 0 reconheci­
mento do porquê que estava por detrás das directrizes deixadas pelo Infante
D. Henrique no estímulo a favor da navegação lusa, oferece-nos uma imagem bas­
tante diferente da que genericamente se instalou hoje acerca da época dos desco­
brimentos. Podemos afirmar com razão, que a vertente espiritual foi da máxima
importância durante a fase inicial da Expansão Portuguesa, distanciando-a radi­
calmente das formas de expansão que então se deram por iniciativa de outras
nações europeias.
As duas grandes riquezas que vieram para Portugal durante o reinado de
D. Manuel I foram:
• uma material, através da aquisição directa das especiarias;
• e outra espiritual, através do abraço português aos cristãos coptas da
Abissínia e aos cristãos são-tomenses do índico.

Devemos assim reconhecer que a busca dos cristãos distanciou-nos dos


outros europeus, elevando parte dos descobrimentos lusos a um alto nível civi-
lizacional, onde se arriscaram vidas e bens, para plantar a semente da concórdia
entre diferentes formas do cristianismo.
O nosso ensino falha por não divulgar as verdadeiras razões que estão por
detrás das mais significativas páginas da evolução da humanidade, escritas pela
gente lusa. Na Busca dos Cristãos e das Especiarias fizeram-se os portugueses ao
mar e só é justo que tal seja devidamente relembrado.

78
Na página anterior:

D. Cristóvão da Gama lutando na África Oriental para manter a


Abissínia em mãos cristãs.
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

Mapa quinhentista da Ásia, da autoria de Abraham Ortelius,


A volta pelo Atlântico. A caravela "Bérrio" chegou primeiro a
mostrando como único brasão o da Casa Real Portuguesa, visto o
Lisboa. A nau S. Gabriel chegou com bastante atraso, devido à
comércio asiático então a ela estar sujeito.
morte de Paulo da Gama, enterrado na Ilha Terceira.

Escudo abexim guarnecido a prata. Imaginem-se os primeiros dos Salva de prata indo-portuguesa quinhentista, misturando motivos por­
nossos navegadores contornando o continente africano, subindo o tugueses com outros do Indostão. Raparigas tocando guitarra por­
indico e entrando no Mar Vermelho. De repente, encontram-se em tuguesa, a suástica na sua forma de roda celeste, animais e flores em
frente de guerreiros que ostentam a nossa cruz templária como sua abundância.
protectora. É óbvio que, perante isso, mostrámos as nossas cruzes e,
então, abexins e portugueses caíram nos braços uns dos outros.
Cristãos de culturas e mundos totalmente diferentes encontraram-se
e aliaram-se! 81
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

Turcos asiáticos, os principais opositores à expansão lusa. Gravura a cobre de Mallet, 1683.

82
QUESTÕES EM TORNO DA DISSERTAÇÃO

"A BUSCA DE CRISTÃOS


NA VIAGEM DE VASCO DA GAMA"
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

QUESTÕES EM TORNO DA DISSERTAÇÃO


A BUSCA DE CRISTÃOS NA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

O que procurávamos nós na índia?

R.D.: Acho errada a forma como o relato atribuído a Álvaro Velho sempre serviu
para ridicularizar Vasco da Gama, dizendo-se que não sabia o que era um templo
hindu e que não conseguia ver a diferença entre o cristianismo e o hinduísmo. Nós
não temos um único relato de Vasco da Gama! Temos o globo de Martim Behaim,
datado cinco anos antes da partida de Vasco da Gama e, fora isso, só temos o rela­
to de um acompanhante da viagem de Vasco da Gama, que atribuímos a Álvaro
Velho e que só vai até à Serra Leoa. Acaba aí, não fala em absolutamente mais
nada! Não é um relato científico, é um relato de curiosidades escrito por alguém
que fez a viagem e se lembrou de tirar apontamentos.
É errado, com base nisto, afirmar que Vasco da Gama não sabia a diferença entre
cristãos e hindus! Porque nós não sabemos. Não lemos nem vimos o relato que
Vasco da Gama fez a D. Manuel 1! Nem sabemos se existe ou se alguma vez iremos
ter acesso a ele.
0 que notei foi uma grande diferença entre a carta de D. Manuel aos Reis
Católicos, depois da chegada do primeiro navio, e a carta de D. Manuel ao Papa,
depois da chegada do segundo navio, onde vinha Vasco da Gama e cujo atraso se
deveu à morte de Paulo da Gama, que foi enterrado na Ilha Terceira. Seja como
for, há dois relatos diferentes: o que veio pela caravela "Bérrio” e o que veio pela
nau "S. Gabriel" de Vasco da Gama.
0 que para mim é um facto histórico são as ordens que D. Manuel deu a Vasco da
Gama! Vasco da Gama diz: "Cristãos e especiarias!’’. E quando o primeiro por­
tuguês sai da armada de Vasco da Gama, na Costa do Malabar, fala com dois co­
merciantes muçulmanos, um dos quais sabia falar castelhano. E as suas palavras
são; "Hombre! Que diablo! Que buscas aqui?!’’. Ao que o português responde:
"Cristãos e especiarias!”. E nesta ordem de sequência! O que nós procurámos, em

85
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

primeiro lugar, naquela viagem, foram cristãos. Para mim, a viagem de Vasco da
Gama foi, em primeiro lugar, uma viagem de pesquisa diplomática. Ele nem sequer
levou mercadoria suficiente para fazer um grande negócio! A mercadoria que
levou, que apresentou na praia, era absolutamente ridícula! Aquilo, para mim, foi
uma tentativa diplomática. Claro, tentativa de também encaminhar o lado comer­
cial, que depois cresceu. Mas, a meu ver, nunca foi dado o devido relevo à busca
dos cristãos por parte de Vasco da Gama e essa busca, no entanto, é fundamental.
Depois do reinado de D. João III, o Pio, todo o conhecimento dessa busca dos
cristãos foi radicalmente banida de todas as nossas universidades; ninguém mais
podia falar acerca disso, porque esses tais cristãos abexins ou são-tomenses
foram todos classificados de hereges e por causa disso era como se não existis­
sem.

O Professor mencionou que lhe falaram em 20 milhões de cristãos naquela época.


Portugal, na altura, teria um milhão de habitantes...

R.D.: Eu estou a falar de 20 milhões na índia. 20 milhões na índia é pouca gente.


Recordo que, ainda hoje, no sul da índia, existem dois milhões de cristãos são-
-tomenses, E nós ai, infelizmente, escrevemos uma página muito negra. No ano de
1599 deu-se 0 Sínodo de Diamper, onde foi dada a ordem de queimar todos os
livros sagrados dos cristãos da índia e acabar com todos os seus ritos. A nossa
única desculpa foi que estávamos sob o domínio de Castela. Os documentos origi­
nais estão no Palácio da Ajuda.

Resposta a uma senhora que pede que aprofunde um pouco o tema da mudança
de atitude — que aconteceu a partir de certa altura — em relação à tolerância para
com outras formas de cristianismo.

R.D.: Essa questão é talvez a mais importante que surgiu até agora. Porque, de
facto, há uma grande diferença entre a Expansão Portuguesa inicial e a que se faz
a partir de uma certa altura. 0 grande problema residia numa só frase: D. Manuel
I era cristão e 0 papa era católico! Aí é que está a ruptura total! E a ruptura dá-se
porque D. Manuel, como cristáo e corno antigo Grão-Mestre da Ordem de Cristo e,
sob esse ponto de vista, descendente de toda a problemática e de toda a iniciação
templária, era um homem que já tinha uma enorme carga de aprendizagem com o
Oriente. E a aprendizagem com o Oriente ensinou-nos a tolerância. E isso, infeliz­
mente, era uma coisa que em Roma, naquela época, não existia. D. Manuel man­
dou 40 e tal fidalgos portugueses a Roma e mandou 400 e tal a Lalibela, na

86
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

Etíopes, moçambicanos e cristãos da África Oriental, vistos por Linschoten no séc. XVI.

Habitantes do Reino de Pegu, das Ilhas Molucas e cristãos são-tomenses da índia, vistos por Linschoten no séc. XVI.

87
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

A laje inscrita com o Padre Nosso em língua Malaialam, conforme publicado por Philipus Baldaeus,
padre holandês que assistiu às conquistas das feitorias portuguesas no séc. XVII.

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ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

Abissínia, para ajudar o Negus. D. Manuel mandou adquirir em todo o Portugal


uma biblioteca de 2.500 volumes — estou a falar de incunábulos e de livros de
horas, página por página pintados à mão —, e mandou oferecê-los ao Negus da
Abissínia. Se hoje se descobrisse essa biblioteca, seria uma coisa simplesmente
fabulosa! D. Manuel cometeu um enorme "crime”: todas as tipografias existentes
no fim do século XV estavam na Europa e sob a alçada da censura oficial da Igreja.
E D. Manuel, apesar disso, ofereceu uma tipografia com "x” peças de maquinaria,
com "x” moldes de fundição das letras, ao Negus da Abissínia! E o Negus da
Abissínia, com essa tipografia, podia divulgar a sua versão do cristianismo! Isso
era considerado altamente inconveniente.
Portugal era um país pequeno e internacionalmente tolerado... por ser pequeno.
De repente, este país pequeno começou a sair e começou a crescer. A crescer
geográfica e economicamente e com peso político internacional. E isto começou a
ser mal visto em alguns lugares. Os maiores inimigos que Portugal teve nessa
altura foram dois: Roma e Veneza. Devo dizer que Veneza enviou artilheiros dos
mais sofisticados ao rei de Cambaia para combater os portugueses. Veneza enviou
artilharia com fundidores artilheiros ao Samorim de Calecut para combater os por­
tugueses. Veneza enviou mesmo uma esquadra inteira: uma esquadra que foi cons­
truída no Mediterrâneo, desmontada em Alexandria, transportada para 0 Suez, aí
remontada e oferecida ao respective Paxá, porque eram barcos de alto bordo e
capazes de fazerem frente a esquadras portuguesas. Aliás, o filho que D. Francisco
de Almeida perdeu em Chaul, morreu em combate contra essa esquadra, esquadra
essa financiada, orquestrada e oferecida por Veneza. Mas, política e diplomatica­
mente, não nos convinha dizer isso.
Ainda sou do tempo em que se tinha de aprender que as invasões que se davam
em Angola eram financiadas somente pelos marxistas. Pois eu comprei milhares
de armas apreendidas aos inimigos e qual foi o meu espanto quando vi: Spring­
field, Massachusetts! Uma grande parte das armas utilizadas pelos terroristas, em
Angola, era oferecida pelo governo americano! Mas oficialmente não se podia
dizer isso. E no século XVI não se podia dizer que nós estávamos a lutar contra
Veneza e contra Roma. Grande parte dos Papas tinham fortes ligações com Veneza.
E Roma e Veneza agiam interligadas. Um pormenor, como exemplo; o nosso
Afonso de Albuquerque, a dada altura, fez uma sugestão de génio. Há três cidades
santas maometanas: Meca, Medina e Jerusalém. Meca e Medina são difíceis de
atingir. Jerusalém fica relativamente perto da costa mediterrânica. E Afonso de
Albuquerque planeou tomar Jerusalém. 0 Negus da Abissínia ofereceu três mil
cavalos. E Afonso de Albuquerque preparou três mil cavaleiros. Pediu autorização
a D. Manuel para tomar Jerusalém. D. Manuel mandou uma carta ao Papa, pedin­

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ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

do-lhe a bênção para essa cruzada e o Papa proíbe-a totalmente! São pequenos
pormenores que nos fazem pensar.
0 problema é que Portugal cresceu depressa demais. E como cresceu depressa
demais, de repente passou a ter inimigos muito fortes. Sobretudo na alta finança
internacional. Reparem num pormenor que aqui foi mencionado há pouco-, a
importância da pimenta. Portugal fez um golpe de mestre com a pimenta! Quem
dirigia o valor da pimenta na Europa eram os comerciantes de Veneza. A pimenta
vinha por caravanas e por navios muçulmanos, atravessando muitos caminhos, la
para Constantinopla ou Alexandria, mas chegava sempre à Europa através de
Veneza. E era um pequeno grupo de comerciantes venezianos que estabelecia o
valor das especiarias e que, por sua vez, as vendia aos outros. Mas eles é que esta­
beleciam os valores! E não eram nada meigos. Quando Portugal passou a importar
directamente as especiarias, o que é que Portugal fez? Nós ainda hoje temos um
local chamado Praça do Comércio. A pimenta vinha naqueles grandes potes marta-
bans, naquelas bilhas enormes. Eram postos nas balanças e eram os comerciantes
da Flandres, de Hamburgo, de Londres, de Bremen, de Paris, até de Itália, que vi­
nham a Portugal e que, em disputa pública, em leilão, arrematavam esses potes de
especiarias. Isso significou que o valor das especiarias baixou imediatamente. E
como o valor das especiarias baixou, cortaram-se aqueles imensos intermediários
e Portugal ganhou na mesma um dinheirão. Mas como o valor baixou de repente
a nível internacional, foi possível lançar no mercado europeu especiarias a um
preço tão baixo que mesmo as donas-de-casa de um nível social inferior se po­
diam dar ao luxo, de vez em quando, de condimentar as suas comidas com as espe­
ciarias. Isto mudou por completo a forma de alimentação europeia. Como o
número de pessoas que queriam especiarias era cada vez maior, os portugueses
podiam trazer mais especiarias e conseguiam lançá-las todas no mercado. E ga­
nharam imenso com isso. Quem permitiu a primeira disputa aberta na balança do
mercado livre foram os portugueses, em Lisboa. E com isso cortaram o tal
monopólio de Veneza. Esta cidade do Adriático foi, durante muitos séculos, a
porta de entrada das mercadorias da Ásia. E, de repente, passou a ser Lisboa, o
que significou que Portugal ganhou um incrível inimigo: Veneza. E este inimigo uti­
lizou as suas influências em Roma contra nós. Depois, Portugal caiu no "erro" de
abraçar cristãos em África, em Socotorá, no Malabar e em Coromandel, cristãos
esses que eram convictos, mas que não se submetiam à hierarquia de Roma. Isto
foi demais... e Portugal foi "condenado à morte”! Alcácer-Quibir foi só uma conse­
quência disso. D. João II morreu envenenado. D. Manuel I, muito provavelmente,
também morreu envenenado. Os nove filhos de D. João 111 morreram todos de
mortes muito estranhas. Até mesmo o pai de D. Sebastião morreu i8 dias antes do

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Na pàgina anterior:

Rota da Carreira das índias copiada dum portulano português por Lidl, de Viena.
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

Lisboa, a entrada do Tejo e a costa de Cascais até Belém,


vistas por navegadores quinhentistas alemães ao serviço
da Coroa de Portugal.

Um naufrágio português no Canal de Moçambique. Gravura a cobre de cerca de 1600.

93
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA

nascimento do próprio filho. E depois, a organização obreira de toda esta cons­


piração pegou no Infante, uma criança de poucas semanas, e entregaram-na a dois
padres jesuítas para que a educassem.
Portugal cresceu demais. Portugal estava a interpretar uma forma de cristianismo
que não era a forma de cristianismo que naquela altura Roma defendia e isso teve
muito graves consequências. Por isso, historicamente, a mudança de atitude na
Expansão Portuguesa deu-se durante o reinado de D. João Hl. Não é por acaso que
ele é chamado "o Pio". Foi D. João Hl quem introduziu a Inquisição em Portugal e
depois em Goa. Por que razão a Inquisição foi instalada em Goa? Para converter
hindus? Para converter muçulmanos? Não! Foi para destruir os cristãos que lá
existiam e que não se submetiam a Roma! Este foi o grande crime que nós come­
temos e do qual não temos sequer conhecimento.

94
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

Cochim, primeiro poiso das ossadas de Vasco da Gama, navegador português que cumpriu a sua razão de existência.

95
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

CONCLUSÕES

Durante séculos, por sistemática omissão da questão cristã, fomos mal infor­
mados sobre a viagem de Vasco da Gama à índia.
Com o cada vez mais crescente materialismo racionalista, ensinado após a
Revolução Francesa, por toda a Europa, e com a ausência da menção da principal
razão de toda esta viagem, que foi a procura de aliança com os cristianismos do
índico, instalou-se a interpretação de que a viagem se realizou, exclusivamente,
por razões comerciais.
A esta versão, nitidamente tendenciosa e imposta tanto pelos historiadores
eclesiásticos — que não consentiam em classificar como cristãos os que abraçavam
a fé de Cristo, mas que não se submetiam a Roma —, como pelos historiadores
"encartados", sujeitos às conveniências políticas, juntou-se, mais recentemente,
uma nova versão. Esta, ainda mais perturbante do que as anteriores, nega toda a
necessária objectividade que deve distanciar conceitos éticos e morais actuais, dis­
tintos dos que outrora regiam as mentes, acabando por atribuir a Vasco da Gama e
sua viagem um carimbo de "pirataria". Aos incautos, apresenta-se, assim, uma das
páginas mais significativas escritas pela lusa gente na evolução geral da huma­
nidade, como um acto terrível, que não nos honra e mais merece ser esquecido!
Primeiro a Igreja, depois a Filosofia Materialista e agora a Política Servilista
Escravizante conseguiram, com esta sistemática detracção, deturpar por completo
a Verdade Histórica.
Quer se queira, quer não, os factos históricos são os seguintes:
i) Com a queda de Constantinopla (1453), caiu a grande barreira cristá que 0
Império Bizantino havia criado contra 0 avanço do Islão em direcção à Europa;
2) 0 Papa pediu a todos os Reis da Cristandade que assumissem uma Guerra
Santa, uma NOVA CRUZADA GERAL contra o Islão;
3) D. Afonso V aceitou esta Cruzada, criando a Ordem da Espada, divulgada
pela cunhagem e circulação das moedas chamadas "espadins” e empenhou-se em
conquistar praças muçulmanas norte-africanas. Começou, assim, a vertente lusa
desta Cruzada Global;

97
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

4) A viagem de Vasco da Gama foi:


a) Uma preparação para levar esta Guerra Santa até ao índico;
b) Uma acção diplomática para unir os Cristãos Coptas e os Cristãos São-
-Tomenses do índico à Ordem de Cristo;
c) A procura das especiarias também teve peso, mas secundário, quando
comparado com a procura de Cristãos;
5) A dificuldade em distinguir Hindus de Cristãos São-Tomenses ainda hoje se
mantém. As suas vestes e as suas alfaias religiosas são muito parecidas.
6) Vasco da Gama falhou na sua tentativa de aliança com 0 Samorim, mas
estabeleceu altas esperanças em alianças LUSO-COPTAS e LUSO-CRISTÃO-SÃO-
-TOMENSES.
7) 0 fortalecimento das ligações entre a ORDEM DE CRISTO e os CRISTÀOS DO
ÍNDICO teve importantíssimas consequências:
a) Os Cristãos Abexins aliaram-se aos portugueses, construindo-se uma
aliança baseada na fraternidade cristã, com vertente militar, comercial,
pedagógica, missionària e de ajuda humanitária;
b) Os Cristãos São-Tomenses entregaram a Vasco da Gama 0 ceptro do seu
antigo Rei Cristão do índico, pedindo que o Rei de Portugal os aceitasse
como seus súbditos. 0 luso monarca teve assim milhões de súbditos nas
costas do índico, sem possuir sequer um palmo de terra na Ásia!
c) D. Manuel 1 apresentou ao Papa este novo e intercontinental Império,
baseado na mútua aceitação de cristãos por cristãos, para ser reconhe­
cido como Imperador;
d) Os Papas quinhentistas porém, classificaram estas formas de cristianis­
mo como heresias, proibindo quaisquer contactes;
e) Por esta razão, omitiu-se, genericamente, na maioria dos nossos livros
de História, a existência destes contactos, bem como 0 principal motivo
para a realização da viagem de Vasco da Gama. Fomos enganados!

98
CRONOLOGIA DOS
DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

CRONOLOGIA DOS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES

Qualquer lista deste género deveria começar com o seguinte aviso: "SALVO
MELHOR CRITÉRIO". As nossas vidas são meros períodos de aprendizagem. Cada dia
tem as suas lições, análises e conclusões. O que parece "certo" durante longos
anos, pode vir a ser rectificado por novos dados que nos provam que, "afinal não
foi bem assim". 0 costume universitário de defender teimosamente as versões con­
sideradas "certas", simplesmente por terem sido ensinadas durante gerações, ou
por serem as politicamente mais "correctas", representa a antítese da Ciência. Nem
tudo o que se ensina corresponde à verdade histórica! Muitas conclusões devem
ser revistas por terem sido construídas em frágeis pés de barro. A criação de temá­
ticas "tabus" acorda, ainda mais, a vontade dos investigadores em se debruçarem,
a fundo, sobre a respectiva matéria, ao menos para descobrir o "porquê” da razão
do ocultar de certos factos.
Como exemplo recente temos o caso do massacre da floresta de Katyn. Ainda
há vinte anos atrás se ensinava que os alemães tinham morto todos os oficiais pola­
cos aprisionados. Diversos oficiais alemães, de altas patentes, foram enforcados
pelos russos e americanos, com base nesta acusação. Porém, as recentes mudanças
políticas em Moscovo chegaram ao ponto de o Presidente Gorbatchev reconhecer,
publicamente, que estes polacos tinham sido mortos pela polícia política soviética.
Um dos mais destacados oficiais desta força de elite policial soviética foi mais longe
e explicou, pormenorizadamente, como tudo ocorreu. Deve-se a ele a explicação
de um grande enigma nesta questão: cerca de onze mil oficiais polacos foram apri­
sionados pelos soviéticos e quinze mil foram mortos...! 0 que aconteceu foi que se
haviam elaborado listas prévias de toda a "inteligência polaca”. Como estes seres
pensantes eram politicamente inconvenientes para o estabelecimento de um obe­
diente estado-satélite, prenderam-se estas personagens e fuzilaram-se as mesmas
junto com os oficiais para que a Polónia não renascesse! Os novos livros de História
já são hoje obrigados a reverem esta questão e a informarem sobre o que se sabe.
Hoje ensina-se que foi no dia 22 de Julho de 1969 que, pela primeira vez, um

[OI
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

ser humano pisou o solo lunar. A viagem da tripulação da nave Apoio il e os


primeiros passos de Neil Armstrong na Lua, foram um marco histórico na evolução
da humanidade, muitas vezes comparados com a viagem de Vasco da Gama. Mas
será uma indiscutível verdade histórica que, de facto, esta tenha sido a primeira
vez? Tudo parece indicar que sim. Porém, há relatos na Bíblia acerca das viagens de
Matusalém e também em livros sagrados orientais que nos falam de viagens no
espaço e no tempo que não são de menosprezar. Terá sido por essa razão que o
Livro de Enoch, filho de Matusalém, foi banido do Velho Testamento?
Nos anos 6o e 70 tive muitos contactos com pessoas que trabalhavam para a
NASA e alegrei-me com eles pelo sucesso da chegada do Homem à Lua. Na qualida­
de de "Visiting Professor”, dei palestras no Smithonian Institut em Washington, na
Arizona Historical Society, em Phoenix e no Harvard Club, em Nova Iorque, a con­
vite da National Academy for School Executives. Fiquei amigo de diversos cientis­
tas americanos, tendo-os recebido também em minha casa. Por duas vezes tive
assim visitas de astronautas americanos e, nas longas e interessantíssimas conver­
sas, notei sempre uma certa hesitação em passar da "versão oficial" para a "real".
Tocando especificamente nesta questão da chegada do Homem à Lua, tive que
enfrentar a barreira do "conhecimento altamente classificado" que não pode ser
transmitido. Fiquei com a noção de que esta data de 1969, embora a oficial, pre­
sente em todos os nossos livros de História, talvez não seja tão segura como nos
parece.
Estes exemplos, aqui apresentados exclusivamente para nos acordarem para
a constante necessidade da reconfirmação até ao aparecimento de novos dados,
devem-nos consciencializar sobre as limitações das nossas "certezas".
É por isso que uma CRONOLOGIA não pode ser considerada completa ou dog­
mática, estando sempre sujeita ao aparecimento de novos dados.
Tendo tudo isso em conta, oferecemos aqui 0 seguinte-.

Séc. I — Embarcações lusas são mencionadas, em plena época romana, como


tendo aparecido na Grã-Bretanha.
Séc. V — Uma expedição Vândala-lusa vai de Cartago às Canárias.
Séc. V — A armada vândala, construída com apoio luso, aniquila a do Império
Romano Ocidental e apodera-se das Baleares, da Córsega, Sardenha, Sicília, Malta,
desembarcando na península italiana e tomando Roma.
Séc. V — A armada vândala, construída com apoio luso, aniquila a do Império
Romano Oriental e apodera-se da Líbia, do Egipto e da Palestina, divulgando 0
Cristianismo (na sua versão ariana de Arius, bispo de Alexandria) por toda a bacia
do Mediterrâneo.

102
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

Séc. XII — Uma expedição moçárabe sai de Lisboa em direcção aos Mares da
Islândia, descendo de seguida aos Açores. Desembarcando numa das ilhas do
Atlântico, provavelmente a actual São Miguel, segue depois para as Canárias, onde
a tripulação acaba por ser presa e mais tarde largada na costa norte-africana.
Séc. XIII — Embarcações de pesca e comerciais portuguesas percorrem o Mar
do Norte e o Mediterrâneo.
Ano 1415 — D. João I e seus filhos surgem com uma armada de 220 embarcações
frente à costa norte-africana e acabam por tomar Ceuta.
Ano 1416 — Frei Gonçalo Velho alcança o Cabo Não, fazendo um levantamento car­
tográfico de toda a costa norte-africana até este ponto.
Ano [419 — João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira descobrem a Ilha de Porto
Santo, a primeira do Arquipélago da Madeira a ser descoberta.
Ano 1419 — Zarco, Teixeira e Perestrelo descobrem a Ilha da Madeira.
Ano 1420 — Inicia-se a colonização portuguesa das ilhas da Madeira e de Porto
Santo, ambas até então desabitadas.
Ano 1432 — Frei Gonçalo Velho Cabral chega à Ilha de Santa Maria nos Açores.
Ano 1434 — Gii Eanes consegue passar 0 Cabo Bojador, 0 ancestral limite psicológi­
co da navegação costeira africana.
Ano 1437 — Expedição militar portuguesa à costa africana para tomar Tânger, com
trágicas consequências.
Ano 1440 — Dinis Fernandes e Antâo Gonçalves descobrem a Costa de Sene Gâmbia.
Ano 1441 — Antão Gonçalves descobre Asagete e 0 Rio do Ouro.
Ano 1443 — Nuno Tristão descobre a [lha das Garças.
Ano 1444 — Eanes e outros continuam na descoberta parcial de mais e mais zonas
desconhecidas da costa africana.
Ano 1445 — Gonçalo de Sintra chega ao Cabo Branco mas acaba por ser morto.
Ano 1446 — Nuno Tristão e 18 dos seus companheiros continuam a descobrir mais
zonas da linha costeira africana, mas acabam por ser mortos por indí­
genas com azagaias envenenadas.
Ano 1447 — Dinis Dias e Cadamosto chegam à Guiné.
Ano 1458 — D. Afonso V envia uma expedição a África e toma a praça de Alcácer-
-Seguer.
Ano 1460 — António da Noia, em serviço do Rei de Portugal, descobre o Arquipé­
lago de Cabo Verde.
Ano 1462 — Pedro de Sintra chega à Guiné.
Ano 1462 — João Vaz Corte Real e Álvaro Martins Homem chegam à Terra Nova tam­
bém chamada TERRA DO BACALHAU (Newfoundland). Enquanto todas
as expedições no seguimento da linha costeira africana são organizadas

103
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

pela Ordem de Cristo ou por directas ordens régias, as expedições dos


Açores em direcção ao Ocidente, embora permitidas pelo Rei, sâo de
total iniciativa, financiamento e risco dos que nelas se arriscam.
Ano 1469 - Fernào Gomes prossegue o descobrimento da linha costeira africana
que se segue à Guiné.
Ano 1470/71 — João de Santarém e Péro Escobar descobrem as ilhas de São Tomé,
Príncipe e Ano Bom.
Ano 1471 — D. Afonso V conquista Arzila e ocupa Tânger.
Ano 1472 — João Afonso de Aveiro descobre o Reino de Benim.
Ano 1474 — Rui Sequeira e Lopo Gonçalves descobrem o Cabo topo e o de Santa
Catarina. Também se descobrem as ilhas mais ocidentais do Arquipé­
lago dos Açores, chamadas Ilhéus Floridos das Flores e do Corvo. Muito
provavelmente nesse mesmo ano descobrem-se as Antilhas.
Ano 1482 — Diogo de Azambuja começa por construir a Fortaleza da Mina.
Ano 1485 — Diogo Cão descobre o Rio Congo e 0 Reino de Mani.
Ano 1485 — Dias de Novais chega à Baía de Luanda.
Ano i486 — D. João II oferece privilégios especiais ao cavaleiro alemão Fernão de
Ulm, capitão da Ilha Terceira, por ter feito uma viagem a ocidente dos
Açores à sua custa e descoberto uma grande ilha e terra firme e uma
ilha que se presume ser a das Sete Cidades.
Ano 1487 — Bartolomeu Dias passa pelo Cabo da Boa Esperança.
Ano 1487 — Péro da Covilhã e Afonso Paiva viajam disfarçados pelo Mediterrâneo
para chegarem ao Reino do Preste Joâo.
Ano 1490 — Péro da Covilhã chega à índia pela rota árabe. Atinge Calecut como
comerciante a bordo de uma embarcação muçulmana e segue para a
Etiópia e Sofala na costa ocidental africana.
Ano 1492 - - Cristóvão Colombo, ao serviço oficial de Castela, chega às Antilhas.
Ano 1495 — João Fernandes Lavrador e Péro de Barcelos pesquisam as costas do
continente norte-americano a partir da, desde então, chamada Terra
do Lavrador.
Ano 1497 — Vasco da Gama passa 0 Cabo da Boa Esperança e chega ao Natal.
Ano 1498 — Vasco da Gama chega a Melinde na África Oriental, atravessa o índico
e chega à índia.
Ano 1500 — Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil, também chamado TERRA DE
SANTA CRUZ, TERRA DE VERA CRUZ, TERRA DO PAU BRASIL ou TERRA
PAPAGALLI.
Ano 1500 — Gaspar Corte Real continua a pesquisa das linhas costeiras norte-ame­
ricanas ligadas à Terra do Lavrador.

104
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

Ano 1501 — João da Nova descobre as ilhas da Ascensão e de Santa Helena.


Ano 1502 — Pedro Álvares Cabral chega a Cochim e Patlá percorrendo toda a Costa
do Kerala.
Ano 1503 — Vasco da Gama descobre as Seychelles.
Ano 1504 — topo de Abreu chega a Aden.
Ano 1505 — Lourenço de Almeida chega ao Ceilão (Sri-Lanka).
Ano 1506 — Tristào da Cunha descobre a costa ocidental do Madagascar.
Ano 1508 — Diogo de Solis, ao serviço de Castela, descobre o Rio de la Piata e a
Argentina.
Ano 1511 — Garcia de Noronha descobre os Rochedos de São Pedro.
Ano 1511 — António de Abreu chega a Sumatra, Java e à Malásia.
Ano 1512 — Mascarenhas descobre as Ilhas de Mascarenhas, a de Rodrigues e a de
Reunião.
Ano 1515 — Jorge Álvares chega à China.
Ano 1516 — Duarte Coelho chega aos Reinos de Bengala, Arracão, Pegu, Martabão,
Sião e à Cochinchina (Vietname).
Ano 1517 — Portugueses entram na China pela província de Guangdong começando
o trato com Cantão.
Ano 1517 — Portugueses chegam a Timor.
Ano 1517 — Fernão Peres de Andrade viaja por toda a China.
Ano 1519 — Martim Vaz descobre a ilha Vaz.
Ano 1519 — Fernão de Magalhães parte, sob bandeira de Leão e Castela, para a
primeira circum-navegação do planeta. A intenção era chegar só às
Molucas indo e vindo pelo Pacífico. A impossibilidade de voltar pelo
Pacífico obrigou à circum-navegação já após a morte de Magalhães nas
Filipinas.
Ano 1520 — Fernão de Magalhães passa o estreito de Magalhães, do qual aliás já
possuía cartas portuguesas.
Ano 1521 — Fernão de Magalhães entra no Pacífico.
Ano 1522 — Cristóvão Mendonça chega á Austrália.
Ano 1525 — Gomes de Sequeira também chega à Austrália.
Ano 1525 — João Fagundes descobre as Ilhas Fagundes e explora a costa de Chesa­
peake.
Ano 1526 — Jorge Menezes descobre a Nova Guiné e entra no Mar de Banda.
Ano 1537-58 — Fernão Mendes Pinto viaja pela índia, Cochinchina, Tartália e a
China.
Ano 1542 — João Rodrigues Cabrilho, sob bandeira de Castela, explora a costa cali­
forniana.

105
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

Ano 1543 — Fernão Mendes Pinto, com dois companheiros, chega ao Japão, onde
acabam por introduzir a espingarda e o parafuso, dois elementos téc­
nicos que revolucionam não só a história mas toda a evolução do
Extremo Oriente.
Ano 1578 — Luís Teixeira representa no seu portulano o conhecimento português de
toda a costa da Noruega até à Peninsula Russa de Nova Zembla.
Ano 1588 — Maldonado vai por Spitzbergen (passagem noroeste)
Ano 1595 — Queiroz descobre as Novas Hébridas e as ilhas Marquesas.
Ano 1606 — Manuel Godinho de Herédia chega à Austrália.
Ano 1701 — David Melgueiro, sob bandeira francesa, veleja do Japão a Portugal pela
passagem noroeste (Spitzbergen), já anteriormente conquistada por
João Martins.

Esta lista nada mais pretende ser do que uma pequena achega a uma temáti­
ca tão vasta e tão discutível que jamais estará completa e sem ferrenha oposição.
0 terramoto de 1755, com a destruição da Casa da índia no lado oriental do Terreiro
do Paço de Lisboa, onde se guardavam os nossos portulanos e diários de bordo,
anularam, de vez, a hipótese de se poder fazer um levantamento mais rigoroso,
mais completo e menos discutível.

106
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA

BIBLIOGRAFIA

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108
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA

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Europa-América. Edição sob os auspícios do Comissariado para a XVII Exposição Europeia de
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MARKUS ARMSTRONG, Fé Cristã e Filosofia Grega. Lisboa, 1970.
MARTIM DE ALBUQUERQUE, A Torre do Tombo e os seus Tesouros. Edições Inapa. Lisboa, 1990.
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MIGUEL DE CASTANHOSO, Dos Feitos de D. Cristóvão da Gama em Etiópia. Publicação da Socie­
dade de Geografia de Lisboa, 1898.
NORMAN COHN, Na Senda do Milénio — Milenaristas Revolucionários e Anarquistas Místicos da
Idade Média. Lisboa, 1980.
OLIVEIRA MARTINS, História da Civilização Ibérica. Lisboa, 1879.
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PIGAFETTA, A Report of the Kingdom of Congo. Edição inglesa de 1597.
QUIRINO DA FONSECA, Os Navios do Infante D. Henrique. Lisboa, 1958.
RAINER DAEHNHARDT, Die Geschichte Schreibt der Sieger. Leonberg, 1986.
RAINER DAEHNHARDT, Os Descobrimentos Portugueses e a Expansão Marítima. Lisboa, 1989.
RAINER DAEHNHARDT, Alguns Segredos da História Luso-Alemã. Lisboa. 1990.
RAINER DAEHNHARDT, Para Além da Taprobana - de Lisboa a Nagasaqui. Catálogo da Exposição
no Palácio Nacional de Mafra. 1994.
RAINER DAEHNHARDT, A Missão Templária nos Descobrimentos. Edições Nova Acrópole. Lisboa,
1991.
RAINER DAEHNHARDT, A Espada dos Navegadores. Lisboa, 1994.
Dr. RAOUF HABIB, The History of the Coptic Art G its Coptic Museum. Cairo, ca. 1970.
RAYMOND BEAZLEY, 0 Infante D. Henrique e o Início dos Descobrimentos Modernos. Porto, 1945.
RICHARD HENRY MAJOR, Vida do Infante D. Henrique. Lisboa, 1876.
RUDOLF STEINER, The Mission of the Archangel Michael. Dornach, 1919.
SATURNINO MONTEIRO, Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa (vol. V) 1604-1625. Livraria
Sá da Costa Editora.
SEBASTIAN MUNSTER, Cosmographia. Basel, 1544.
SÉRGIO LUÍS DE CARVALHO, A Ilha do Ouro, 1554-1582, Os Portugueses no Japão. Texto Editora.
Lisboa, 1993.
SOUSA VITERBO, Trabalhos Náuticos dos Portugueses. Lisboa, ca. 1900
TIM DOWLEY, Die Geschichte des Christentums. Wuppertal, 1979.
VIEIRA GUIMARÃES, A Ordem de Christo. Lisboa, 1936.
Dr. WULF METZ, Weltreligionen. Wuppertal, 1983.

Obras Gerais:
Anais da Academia Portuguesa de História, vol. IX. Lisboa, 1945.
Arquivo dos Açores, Ponta Delgada, 1885.
As Religiões do Mundo. Círculo de Leitores, 1993.
Der Grosse Brockhaus-Handbuch des Wissens. Leipzig, 1929.
Descobrimentos Portugueses. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1988. Edição
comemorativa dos Descobrimentos Portugueses.

109
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

Die Portugiesen in Indien. Catálogo da Exposição no Kunsthistorisches Museum Wien (21 de Out.
1992 a 10 de Jan. 1993).
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Editorial Enciclopédia, Limitada. Ca. 1950.
História da Expansão Portuguesa no Mundo, 3 volumes. Editorial Ática. Lisboa, 1937.
História dos Descobrimentos e Expansão Portuguesa. Universidade Aberta. 1990.
Historien der Kõnigsreich Híspannien. 1589.
Meyers Konversationslexikon. Leipzig, 1893.
The Cross in the Early Church. Cairo, ca. 1970.

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ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA

OUTRAS OBRAS DO AUTOR

* Homens, Espadas e Tomates


* Acerca das Armaduras de D. Sebastião

OBRAS DO AUTOR EM PREPARAÇÃO

* Páginas Secretas da História de Portugal (vol. I e II num só)


* Dos Açores à Antárctida: um dos grandes segredos do séc. XX (em trilogia)
* D. Manuel I e o Grande Segredo dos Reis Iniciados de Portugal

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Rua Maria, 48-3° — 1170 LISBOA — Tel/Fax: 812 70 97

Ui
orque j realidade dos factos é o rochedo que serve de apoio ao farol...

Porque a luz é a verdade que ilumina o caminho de todos os que procuram...

Porque a História não é uma ciência exacta, qual matemática ou química, mas sim uma tenta­
tiva de compreensão de acontecimentos há muito ocorridos...

Porque ela é, com demasiada frequência, escrita pelo vencedor e na versão para ele mais con­
veniente...

Porque tanto o poder dos Estados como o das Igrejas usurparam pseudo-direitos de censura,
exigindo assim que o passado seja interpretado conforme a sua vontade...

Porque o presente se explica pela interpretação do passado e deste só nos chegaram versões
tendenciosamente deturpadas, tornando-se necessário ganhar coragem e ousadia para
aprofundar questões...

Porque a viagem de Vasco da Gama à índia foi, durante séculos de ensino, olhada como uma
tentativa meramente comercial...

Porque recentemente, chegou mesmo a ser apresentada como simples acçáo de pirataria,
responderemos, levantando-lhe o véu...

Porque temos o direito à verdade e a devemos à memória dos nossos antepassados, pesqui­
saram-se, agora, as verdadeiras razões desta viagem que foi uma das mais importantes
páginas da História da Evolução da Humanidade, escrita pela lusa gente...

Porque 500 anos de obscurantismo forçado são demais...

Porque o peso da verdade dos factos ocorridos nos explica as ordens de um dos maiores
monarcas e o seu cumprimento por um dos seus grandes cavaleiros...

Porque a beleza do conhecimento nos abre uma nova porta de compreensão para todo o pas­
sado e nos da acesso à dignidade da nossa identidade...

Por tudo isso e por muito mais, esta obra teve de surgir e agora!

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