Acerca Da Viagem de Vasco Da Gama - Rainer Daehnhardt
Acerca Da Viagem de Vasco Da Gama - Rainer Daehnhardt
A VIAGEM DE
VASCO DA GAMA
ACERCA DA VIAGEM DE
VASCO DA GAMA
Título:
Acerca da Viagem de Vasco da Gama
Autor:
Rainer Daehnhardt
Capa:
Vasco da Gama representado numa gravura
comemorativa do IV Centenário do Caminho Marítimo da índia.
Ilustrações:
Todos os objectos e gravuras contidos no livro
são da colecção Rainer Daehnhardt (mapas, portulanos...)
Coordenação e Revisão:
Eduardo Amarante / Dulce Abalada
Digitalização e Fotolitos:
Páginas Elétricas - Lisboa
Impressão e Acabamento:
Printer Portuguesa
Distribuição:
HT (Sul) / E.C.L. (Norte)
ISBN 972-8408-04-8
© Rainer Daehnhardt
Publicações Quipu
Rua Maria, 48-3° - 1170 LISBOA - Tel./Fax: 812 70 97
Rainer Daehnhardt
ACERCA DA VIAGEM DE
VASCO DA GAMA
Publicações Quipu
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
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ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
ACERCA DO AUTOR
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ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
PREFÁCIO
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A Marinha Portuguesa, que nesse ano de 1997 já festejara 0 seu Dia na data
em que se comemoravam 500 anos sobre a partida de Vasco da Gama, quis asso
ciar-se assim à organização duma exposição que também homenageava 0 grande
navegador, em contraste com o silêncio que a Nação e os seus responsáveis
resolveram guardar.
Como bem afirma Rainer Daehnhardt na introdução desta sua nova obra, a
identidade portuguesa corre 0 risco de se desvanecer.
Para mais e no nosso caso, parece que já não interessa dar a conhecer aos
jovens a História de Portugal nem os feitos dos nossos maiores. Os Portugueses
encontram-se assim numa encruzilhada da sua História e interrogam-se, com
ansiedade, sobre 0 que lhes reserva o futuro.
Esta talvez seja uma das razões do sucesso da exposição "Em Busca de
Cristãos e Especiarias", que tendo como pretexto fundamental a viagem do Gama,
aproveitou para traçar uma retrospectiva do nosso passado histórico, desde a for
mação da nacionalidade ao inicio da expansão extra-europeia.
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Algo se terá passado para se obter este efeito. A leitura das páginas que se
seguem talvez ajude o leitor a compreender melhor a razão do sucesso. Rainer
Daehnhardt, um estrangeiro só pelo passaporte, pois defende e exalta Portugal
como poucos Portugueses, conhece bem a nossa História e sabe dela colher os
devidos ensinamentos. As suas análises baseiam-se em documentação credível,
muitas vezes inédita e se se pode discordar das suas interpretações, por vezes
ousadas, já não será lícito acusá-lo de falta de rigor histórico.
Espero que o leitor desta nova obra de Rainer Daehnhardt encontre nestas
páginas a mesma motivação que tanto prendeu o visitante da exposição.
Capitão-de-Mar-e-Guerra
José Fernandes Martins e Silva
Director do Museu de Marinha
Lisboa, 6 de Abril de 1998
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
Ó ALMA PORTUGUESA
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Na pàgina anterior:
Do manuscrito comemorativo do IV Centenário da chegada de Vasco da Gama à índia, oferecido pelo Papa ao Rei
D. Carlos. Página dedicada por um membro da Academia Brasileira de Roma. Sabendo que em 1898 o Brasil já era
um Estado independente; sabendo que nessa altura já o próprio império do Brasil se tinha transformado em
república, tornou-se este texto do académico brasileiro dedicado ao monarca português numa corajosa demons
tração de um grito de revolta por um mundo que nos cerceia a nossa identidade histórica e, também, numa afir
mação eterna da identificação da alma portuguesa.
U
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
INTRODUÇÃO
elo que se agarra ao elo anterior, e que por sua vez tem a obrigação de servir de
suporte à futura geração. Ora, todos os que aprendem física sabem que a força
máxima de uma corrente é igual à do seu elo mais fraco. 0 elo mais fraco na
História de Portugal somos nós, a geração actual. Não foi o período de 1383, o de
1580 ou o de 1807, mas sim a época actual. Nunca Portugal viu tal sistemática anu
lação da sua identidade como no presente.
Para se saber quem se é, tem de se saber de quem se descende. Para isso é
necessário saber-se de história. Ainda há poucos anos o ensino da História fazia
parte da evolução de cada um. 0 primeiro passo para enfraquecer o nosso elo com
os nossos antepassados foi a decisão de tornar 0 ensino da História facultativo.
Centenas de milhares de alunos imediatamente desistiram desta temática, não se
apercebendo de que estavam a perder o acesso ao conhecimento da sua própria
identidade.
Como, apesar disso, ainda houve muitos estudantes que se inscreveram nos
cursos de História, não se deu nenhuma ajuda no sentido de lhes conseguir algu
ma chance de colocação no mercado de trabalho. É mais do que sabido entre os
estudantes universitários que 0 canudo de História só serve para pendurar na
parede, pois poucos conseguem uma colocação com base exclusivamente nesses
estudos.
Em seguida trocou-se 0 ensino da HISTÓRIA DE PORTUGAL pelo ensino da
HISTÓRIA DA EUROPA, cabendo a cada professor a decisão do maior ou menor peso
que resolvia dar à nossa História. Como se tudo isto não fosse suficiente, englobou-
-se recentemente 0 ensino dos DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES no título genéri
co do ensino da EXPANSÃO IBÉRICA.
Mesmo para aqueles que só tenham ligeiros conhecimentos acerca da gran
de diferença das formas de expansão do século XVI, tem que se considerar esta
decisão como um insulto aos antepassados, à verdade histórica e à nossa inteli
gência.
Todas as expansões de todos os povos em todas as épocas têm páginas negras
e assim também a Expansão Portugesa. Mas mesmo que somemos todas as páginas
negras da História de Portugal, nunca nos aproximaremos de nada que seja com
parável com 0 que aconteceu aos Aztecas no México, aos Incas no Perù ou aos
Guanches nas Canárias.
A fase inicial da Expansão Portuguesa foi organizada pela Ordem de Cristo,
uma organização religiosa militar, descendente da secção lusitana da Ordem
Templária e, por isso, baseada no cristianismo pregado pelos apóstolos de Jesus,
fraterno e universal. Como é que se pode pegar em nomes de homens iniciados,
escolhidos a dedo, não só por causa das suas capacidades marítimas e militares
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acerca da viagem deVASCO DA GAMA
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ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
mas, sobretudo, pela sua fidelidade à causa lusa e por serem considerados de con
duta ética e moral superior e metê-los agora, por mera conveniência política mo
mentânea, à mistura no mesmo caldeirão com um guardador de porcos, como foi
Francisco Pizarro? Este havia morto um homem numa taberna, em disputa por uma
mulher de má porte e, tendo de fugir à justiça, resolveu alistar-se numa armada
onde, utilizando a sua espada e matando diversos dos seus superiores hierárqui
cos, acabou por assumir a chefia de um exército que empregou na simples impo
sição do saque geral.
Esta injustiça para com a verdade do passado acaba por impôr a mais cruel
das sentenças: o esquecimento dos heróis pela nação por eles criada!
Terminou o ano de 1997. 0 ano do Quinto Centenário da partida da esquadra
que levou Vasco da Gama à índia. A Sociedade de Geografia de Lisboa, a Academia
de Marinha, o Museu de Marinha e 0 Grupo dos Amigos do Museu de Marinha
levaram a efeito colóquios e exposições sem os quais a data teria passado comple
tamente despercebida.
Que diferença em relação às Comemorações do Quarto Centenário, levadas a
cabo em todas as terras lusas no fim do século passado! Não foi só a bela emissão
dos selos comemorativos que nos ficou daquela época. Ficaram obras de arte da
ourivesaria e prataria, em tais quantidades que só demonstram que os respectives
artífices concorreram uns com os outros na apresentação das mais belas e espam-
panantes obras.
Os artistas plásticos, os poetas e dramaturgos, embebidos na vontade mútua
de demonstrar o seu regozijo pelo grande feito do século XV, deixaram-nos cente
nas, possivelmente até milhares de obras. E hoje? Que é deles?
0 Vaticano ofereceu ao Rei de Portugal um livro manuscrito, exemplar único,
comemorativo do grande feito de Vasco da Gama. Nele, não só o próprio Papa e
muitos dos seus cardeais, mas também os principais historiadores e artistas da
época preencheram as páginas com as suas pinturas, os seus desenhos, suas líricas
e mensagens que muito nos honram. Qual foi o destino desta obra? Emigrou para o
estrangeiro, acabando por ser vendida em leilão!
Atrevemo-nos a perguntar: terá também Portugal emigrado para 0 estran
geiro? Terá também Portugal sido vendido em leilão?
Quem souber a resposta que o diga e assuma!
Facto é que entre as grandes viagens do homem, em toda a evolução da
humanidade, é a de Vasco da Gama que ocupa um lugar de grande destaque.
Olhando para as consequências directas na sua época, até foi bem mais importante
do que a de Cristóvão Colombo. E como esta foi homenageada, ainda há tão poucos
anos!
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ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
Do manuscrito comemorativo do IV Centenário da chegada de Vasco da Gama à índia, oferecido pelo Papa ao Rei D. Carlos. Início
do texto manuscrito pelo Cardeal Vicente Vannutelli aos 20 de Maio de 1898, data exacta do centenàrio da chegada a Calecut.
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
Com Vasco da Gama fizeram-se 170 homens ao mar. Sabiam a grande tarefa
que os esperava e as incertezas da sua concretização. 116 destes homens não
voltaram!
Foi pesado o preço em vidas que esta viagem custou!
É terrível a sentença do esquecimento premeditado que a actual geração lhes
aplicou!
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ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA
A janela da Casa do Capítulo do Convento de Cristo em Tornar, onde a ideia da viagem nasceu.
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A VIAGEM DE
VASCO DA GAMA
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA
Urna caravela no mar alto. 0 pouco que sabemos acerca dos homens que as construíram e nelas
navegaram é o suficiente para nos impor profundo respeito pelas suas acções, nascidas da sua
inabalável fé em Deus e na terra que os viu nascer.
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ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA
A História não é uma ciência exacta, qual matemática ou química, mas sim
uma tentativa de compreensão de acontecimentos há muito ocorridos. Como
destes só nos chegam, habitualmente, poucos dados, para mais dificilmente inves
tigáveis, tomou-se o hábito de repetir o que gerações antes da nossa já diziam.
Conscientes destas limitações, urge que haja vontade para investigar,
começando por colocar dúvidas sobre as "verdades intocáveis” que sempre nos
foram ensinadas, confrontando-as com fontes normalmente não estudadas. Facil
mente nos apercebemos de dois factores perigosos e constantes:
São pois estes dois factores, a que a História se encontra normalmente sujei
ta, que a distanciam das outras ciências!
É óbvio que 0 presente se explica, normalmente, pela interpretação do pas
sado. Se os factos presentes são já, muitas vezes, interpretados tendenciosa
mente, pouco nos admira que a interpretação do passado seja um verdadeiro
"campo de batalha” entre a verdade dos factos e a conveniência ou inconveniên
cia da sua revelação, o que, não raras vezes, leva à "reinterpretação" quando não
mesmo à sua omissão pura e simples. Este distanciamento entre a realidade his
tórica e 0 que dela se conta é, por vezes, flagrante, chamando-nos à reflexão.
(’) Conforme a sua apresentação na Exposição à mesma dedicada que se realizou na CORDOARIA NACIONAL em
Lisboa, desde 17 de Outubro de 1997 a 22 de Fevereiro de 1998. Organizada pelo Museu de Marinha com o apoio do
GAMMA (Grupo de Amigos do Museu de Marinha) e da SPAA (Sociedade Portuguesa de Armas Antigas - Portuguese
Academy of Antique Arms), tornou-se na maior e mais didáctica homenagem do V Centenário da partida de Vasco
da Gama para a índia.
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ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
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D. Manuel I, já Grão-Mestre da Ordem de Cristo e seu mais dinâmico organizador, herdou
a Coroa de Portugal, tornando-se num dos mais poderosos monarcas que este mundo viu.
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
piloto João Coimbra e como escrivão João de Sá. O comando da caravela Bérrio
(assim chamada por ter sido comprada a um piloto de Lagos com esse nome) foi
confiado a Nicolau Coelho, tendo Pedro Escobar como piloto e Álvaro de Braga
como escrivão. Como transporte das reservas de mantimentos foi usado o navio
S. Miguel, cujo comando foi entregue a um homem da casa dos Gama, de nome
Gonçalo Nunes.
Como homem prudente, ordenou Vasco da Gama, aos que deviam acompa
nhá-lo, que enquanto estivessem desembarcados aprendessem, tanto quanto pos
sível, carpintaria, serralharia e outros ofícios, que pudessem vir a ser úteis no mar,
tendo encontrado, para esta atitude, a mais decidida aprovação por parte do
próprio Rei.
D. Manuel elevou para sete cruzados o soldo dos marinheiros, o que era uma
soma apreciável para aquele tempo. Mandou ainda que fossem dados a Vasco da
Gama 2.000 cruzados de ajudas de custo e outros 2.000 a seu irmão.
No dia 7 de Julho de 1497, estando completos todos os preparativos, Vasco da
Gama, seu irmão e Nicolau Coelho foram piedosamente velar, em oração e peni
tência, na capela de Nossa Senhora do Restelo.
No dia 8 veio el-Rei com padres que celebraram missa e, em seguida, os
navegadores, acompanhados por el-Rei, dirigiram-se processionalmente para 0
cais de Belém, do qual já tantos outros navegadores haviam partido (este caís,
enterrado no séc. XIX, foi redescoberto durante as obras do Centro Cultural de
Belém e infelizmente destruído), seguidos pelos olhares e as lágrimas de imensa
multidão.
A pequena frota levantou ferro e saiu da barra. Nas "Lendas da índia” de
Gaspar Correia, vêm mencionados os objectos e alfaias que iam a bordo-, além de
armas, jóias e gomis, panos de ouro e seda, iam os navios carregados com
"...muitas conservas, águas minerais, e em cada nao todalas cousas de botica pera
doentes, e mestre, e clérigo para confessar”. Vasco da Gama ia munido de quantas
instruções o conhecimento científico da época lhe podia providenciar, como seria
de esperar numa expedição, já há muito intentada por D. João II e meditada por
homens como Bartolomeu Dias e Péro da Covilhã. No dia 15 do mês de Julho
chegou a pequena armada à altura das Ilhas Canárias, onde se demorou algum
tempo com pesca para víveres, seguindo depois até à altura do Rio do Ouro, onde
sobreveio um nevoeiro que separou os navios, que só se tornaram a reunir no dia
26 na Ilha do Sal, em Cabo Verde. No dia 27 avistaram a Ilha de S. Tiago, onde se
abasteceram de água e lenha.
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Arcanjo S. Miguel, escultura do reinado de D. Afonso V. 0 culto
deste padroeiro da lusa gente nasceu da ancestral veneração a Capacete bizantino. Foi a queda de Bizâncio, em 1453, que dei
Endovélico, uma das principais divindades lusitanas. S. Miguel, aqui origem ao pedido papal no sentido de todos os reis da cristandadt
representado como guerreiro peregrino, manteve-se como protec assumirem uma cruzada geral contra o Islão. A viagem de Vasco d<
tor da Expansão Portuguesa. Gama foi, também, consequência deste compromisso.
COMPASSOS
SÉC. XV E XVI
ESCUDO QUATROCENTISTA
PORTUGUÊS
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ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA
Rota da primeira viagem de Vasco da Gama, baseada no estudo do Almirante Gago Coutinho.
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Rota da primeira viagem de Vasco da Gama apresentada nas Comemorações de 1898.
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
sabemos! É, porém, interessante notar que não é feita qualquer menção às difi
culdades resultantes da falta de água doce que, de resto, durante todo o relato, é
um problema constante, não sendo possível navegar mais do que duas semanas
sem ter que reabastecer-se de água potável. Aqui decorrem doze semanas sem que
nenhuma dificuldade seja mencionada.
Quando, na viagem de volta, na travessia do indico, se passa um longo perío
do sem abastecimento de água potável, morre cerca de metade da tripulação e
muitos dos que chegam vivos à costa africana acabam por ali ser enterrados por
os seus corpos não terem aguentado. A desidratação (por falta de água doce) e o
escorbuto (por falta de alimentos frescos) tornaram-se a principal causa de morte
da maioria dos portugueses que não voltaram desta viagem. 0 relato desta tra
vessia do índico, que também levou três meses, distancia-se fortemente do da
travessia do Atlântico Sul.
Não existe nenhuma prova de que Vasco da Gama se tenha reabastecido na
costa sul-americana ou em alguma ilha adjacente. Existe, no entanto, a hipótese
de o ter feito e, por razões de segredo de Estado, tal facto não poder ser mencio
nado. Do mesmo modo, também não existe nenhuma certeza de não o ter feito.
Devemos, humildemente, reconhecer a nossa falta de conhecimentos nesta
matéria e deixar esta pergunta em aberto até alguma futura geração descobrir
dados concretos para melhor esclarecer esta questão assaz pertinente.
4 de Novembro de 1497
Chegada a uma baía no Sul de África, à qual se deu 0 nome de Baía de Santa
Helena, perto de um rio que se denominou de Santiago (hoje Berg River).
No contacto com os indígenas, nesta parte sul de África, mostrou-se-lhes
CANELA E CRAVO mas aqueles não os conheciam. Tratou-se, porém, da primeira
demonstração da BUSCA DE ESPECIARIAS no roteiro da viagem.
19 de Novembro de 1497
Passagem pelo Cabo da Boa Esperança.
25 de Novembro de 1497
Chegada a Angra de São Brás (hoje Mossel Bay). Nesta desfez-se a nau dos
mantimentos, tendo os tripulantes desta sido recolhidos nos outros navios.
7 de Dezembro de 1497
Partida de Angra de São Brás, onde foram vistos indígenas a derrubar a Cruz
e o Padrão aí colocados por ordem de Vasco da Gama.
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As Canárias, primeira paragem de
reabastecimento na viagem de Vasco da Vasco da Gama, D. Manuel 1 e 0 Arquipélago
Gama de Cabo Verde, segunda paragem de reabas
tecimento.
idêntico Sul, o primeiro grande enigma desta Passagem pelo Cabo da Boa Esperança. Martin
Eem. Não sabemos ao certo a rota. Não sabe- Waldseemüller, o cartógrafo alemão, mostra o
s se ou onde recebeu reabastecimento. 0 se- monarca português no Canal de Madagascar,
?do da Coroa desceu como um véu sobre tudo montando um peixe, levando 0 ceptro real
eue a este enigma esteja ligado. Na nossa numa mão, a bandeira das quinas com a cruz
õca acerca do Reino do Preste João e tendo o cristã na outra e assumindo-se, desde
nhecimento de que povos africanos ociden- Neptuno, como primeiro Rei dos Mares.
s lhe eram tributáveis, demos o nome de
DCEANUS AETHIOPICUS" a este grande mar.
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA
15 de Dezembro de 1497
Após grande temporal, chegada aos Ilhéus Chãos (hoje Bird Islands).
16 de Dezembro de 1497
Passagem pelo Rio do Infante (hoje Great Fish River).
28 de Dezembro de 1497
Perda de uma âncora e fortes dificuldades de navegação acrescidas da falta
de água potável.
12 de Janeiro de 1498
Chegada à "Terra da Boa Gente” e ao Rio do Cobre (hoje Inharrime River)
onde já haviam sido vistos navios como os nossos.
24 de Janeiro de 1498
Chegada ao "Rio dos Bons Sinais” (hoje Rio de Quelimane). Tomou-se mais
água e limparam-se os navios.
24 de Janeiro de 1498
Partida do "Rio dos Bons Sinais".
2 de Março de 1498
Chegada à Ilha de Moçambique. Ali encontrou-se CRAVO, PIMENTA E GENGI
BRE em navios de mercadores muçulmanos. Falam de CRISTÀOS (possivelmente
copias) e do PRESTE JOÃO da Abissínia. Também se fala de DOIS CRISTÀOS
CATIVOS DA ÍNDIA (primeira menção a CRISTÀOS SÀO-TOMENSES). Estas menções
no roteiro sáo prova evidente dos objectivos da expedição, pois que até o mari
nheiro, autor dos apontamentos, achou por bem mencionar a BUSCA DE CRISTÀOS
E ESPECIARIAS e seus resultados no decorrer da viagem.
10 de Março de 1498
Chegada à Ilha de São Jorge. Os muçulmanos de Moçambique descobrem que
a armada é de cristãos e resolvem tomá-la e matar os cristãos, porém os seus
planos foram descobertos.
29 de Março de 1498
Depois de muitas lutas e traições saíram destas ilhas.
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ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA
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ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
i de Abril de 1498
Chegada às Ilhas de Querimba.
4 de Abril de 1498
Chegada a Quiloa.
7 de Abril de 1498
Chegada a Mombaça. Dizia-se que metade da população era cristã. Encon
traram-se, porém, DOIS MERCADORES CRISTÃOS (possivelmente coptas), que
mostraram uma carta, que veneravam, com o desenho do Espírito Santo. Encon-
trou-se também muito CRAVO, PIMENTA E GENGIBRE.
15 de Abril de 1498
Chegada a Melinde. Aqui, também se encontrou muito CRAVO, PIMENTA,
GENGIBRE E NOZ MOSCADA. No porto estavam QUATRO NAVIOS DE CRISTÃOS,
QUE ERAM ÍNDIOS (CRISTÃOS SÃO-TOMENSES). Quando chegaram ao navio de
Paulo da Gama, onde o Capitão-Mor se encontrava, ali lhe mostraram UM RETÁ
BULO, REPRESENTANDO NOSSA SENHORA COM JESUS CRISTO NOS BRAÇOS, AO PÉ
DA CRUZ, E OS APÓSTOLOS.
"Naquele dia foi o Capitão-Mor andar nos batéis, por junto da vila, ATI
RARAM DAS NAUS DOS CRISTÃOS ÍNDIOS MUITAS BOMBARDAS E LEVANTAVAM AS
MÃOS QUANDO OS VIAM PASSAR, DIZENDO TODOS COM MUITA ALEGRIA:
'CHRISTE! CHRISTE! E neste dia pediram eles licença ao Rei de Melinde para lhes
deixar fazer festa aos portugueses. E como veio a noite, fizeram muita festa, e ati
raram muitas bombardas, e lançavam foguetes e davam grandes gritos."
O documento diz ainda que 0 Rei de Melinde deu a Vasco da Gama UM PILO
TO CRISTÃO. Outros cronistas porém, identificam-no com 0 célebre piloto árabe
Ibn Madjid.
24 de Abril de 1498
Partida de Melinde e de África.
18 de Maio de 1498
Chegada à índia de que se sabia ter cidades mouras e CIDADES CRISTÃS, bem
como ESPECIARIAS em abundância.
20 de Maio de 1498
Chegada a Kappa e a Pandarane.
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ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA
Mombaça. Contados com cristãos e especiarias. A chegada à índia, representada por Martin Walssemüller.
Matra, divindade hindu tomada pelos nossos navegadores como representação local
de Nossa Senhora com o Menino Jesus. Exemplar do século IX.
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ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
2i de Maio de 1498
Desembarcou 0 primeiro português, um degredado de nome João Nunes, que
foi a Calecut, onde encontrou dois mouros de Tunes (um deles chamado Mon-
çaide, que ficou nosso amigo). Sabiam falar castelhano e genovês. As primeiras
palavras que dirigiram ao português foram: "QUE DIABO TE DEU! O QUE TE
TROUXE PARA CÁ?”. Ao que o português respondeu: "VIMOS EM BUSCA DE
CRISTÀOS E ESPECIARIAS!”.
Estas curtas palavras, nestas circunstâncias, são a explicação mais precisa e
mais sintética das razões da Expansão Portuguesa, bem demonstrativas do grande
distanciamento relativamente ao motivo das expansões dos outros povos.
27 de Maio de 1498
Entrada no porto de Calecut. A partir deste ponto surge, nitidamente, uma
interpretação errada de quem é cristão ou não. 0 autor do roteiro, ou não soube
distinguir os Cristãos de São Tomé dos Hindus, ou terá recebido ordens para não
os distinguir. Cristóvão Colombo já tinha dado ordem para todos os membros da
sua tripulação jurarem, sobre os Santos Evangelhos, que as ilhas que tinham
acabado de encontrar, eram adjacentes à índia e que os habitantes seriam, por
isso, Indianos. Não possuímos quaisquer dados que nos provem que tenha havido
uma ordem dada, neste sentido, por Vasco da Gama e é possível que o autor deste
manuscrito os tenha, de facto, confundido. Um dado a favor da tese de que o erro
na distinção se ficou a dever a Álvaro Velho, a quem a autoria do roteiro é atribuí
da e não a Vasco da Gama, vem do facto de, nas cartas de D. Manuel I (a primeira
aos Reis Católicos e a segunda ao representante de Portugal em Roma), ser reve
lada uma substancial diferença na interpretação do Cristianismo Indiano. Facto é
que já havia milhões de cristãos na índia quando os portugueses lá chegaram e
que, mais tarde, uma delegação dos CRISTÃOS DE S. TOMÉ DO MALABAR ofereceu
um ceptro de um dos seus antigos Reis Cristãos Indianos, para que Vasco da Gama
0 entregasse ao Rei de Portugal. Tratou-se de uma submissão voluntária, por parte
da população cristã indiana para aceitar o Rei de Portugal como seu Rei.
28 de Maio de 1498
Vasco da Gama é recebido pelo Samorim de Calecut. Quando este lhe per
gunta ao que vinha, respondeu Vasco da Gama: "Que havia sessenta anos que os
Reis de Portugal mandavam em cada ano navios para descobrir 0 CAMINHO PARA
A ÍNDIA PORQUE SABIAM QUE POR ESTES LADOS HAVIA REIS CRISTÀOS COMO
ELES, e que, por esta razão, mandava descobrir esta terra, e não porque lhes fosse
necessário ouro, nem prata, porque tinham tanto em abundância, que lhes não era
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Calecut. Uma gravura a cobre quinhentista.
Uma delegação de cristãos são-tomenses indianos entrega a Vasco da Gama o ceptro do seu antigo Rei Cristão do índico para que ele o leve
ao Rei de Portugal e este os receba como seus novos súbditos.
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
necessário have-lo desta terra". Mais disse: "Que agora um Rei, que se chamava
D. Manuel, lhe mandara fazer estes três navios, e o mandara por Capitão-Mor
deles; e lhe dissera que ELE SE NÃO TORNASSE PARA PORTUGAL, ATÉ QUE LHE
NÃO DESCOBRISSE ESTE REI DOS CRISTÃOS E QUE, SE SE TORNASSE, QUE LHE
MANDARIA CORTAR A CABEÇA”. 0 Samorim perguntou-lhe: "Se vinha descobrir
PEDRAS OU HOMENS?” Ao que Vasco da Gama respondeu que era embaixador e
não mercador, que buscava homens e que não trazia ouro para comprar.
30 de Maio de 1498
Vasco da Gama levou cartas de amizade de D. Manuel I para 0 primeiro Rei
Cristão do Malabar que eventualmente encontrasse. Como 0 Samorim (termo que
significa Imperador) de Calecut era hindu e muito rodeado por comerciantes
muçulmanos, que temiam pelo seu já multissecular monopólio do negócio entre a
índia e o Mediterrâneo, surgiu a dificuldade na tradução da carta que Vasco da
Gama teve de entregar. Havia consigo duas versões, uma em português e outra em
árabe. Vendo a inimizade claramente demonstrada pelos muçulmanos de Calecut,
pediu ao Samorim que chamasse um cristão para traduzir a carta. 0 Samorim man
dou chamar um rapaz cristão, mas este não foi capaz de 1er a carta em árabe, aca
bando esta por ser traduzida por alguns mercadores muçulmanos. 0 Samorim ape
nas deu ouvidos aos muçulmanos e o mau trato aos portugueses tornou-se uma
constante. Até 0 primeiro árabe com quem os portugueses tinham falado, 0 mer
cador de Tunes chamado Monçaide, teve de fugir para bordo das naus portugue
sas, por os outros mercadores muçulmanos o terem difamado como espião do Rei
de Portugal e roubado todas as suas mercadorias.
29 de Agosto de 1498
Após este autêntico fracasso diplomático, largou-se de volta a Portugal,
levando a bordo alguns homens de Calecut que tinham caído em mãos portugue
sas. A ideia era levá-los a Portugal, tratá-los bem e trazê-los de volta com a próxi
ma esquadra, para que 0 seu reaparecimento e 0 que trariam para contar falasse
por si e facilitasse 0 próximo encontro.
30 de Agosto de 1498
0 autor do roteiro informa, após a saída da índia, que desta terra de Calecut
vai "A ESPECIARIA QUE SE COME EM PONENTE E EM LEVANTE, E EM PORTUGAL, E
BEM ASSIM EM TODAS AS PROVÍNCIAS DO MUNDO. Calecut tem a sua própria co
lheita de MUITO GENGIBRE, PIMENTA E CANELA”. Informa também que há canela
ainda mais fina que vem do Ceilão e cravo de Malaca.
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ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
Malaca, conquistada em 1511 por Afonso de Albuquerque. Nas palavras de Tomé Pires, 0 boticário português que em Malaca
viveu de 1512 a 1515: "Quem for senhor de Malaca tem entre mãos 0 pescoço de Veneza".
Portugueses na índia, vistos por Linschoten no séc. XVI. 0 sombreiro representado é o antepassado do nosso chapéu-de-chuva.
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA
Uma grande fusta de guerra da Ordem de Cristo no índico, vista por Linschoten no séc. XVI.
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0 Rajá de Cochim, o nosso mais fiel aliado no Malabar, visto por Linschoten no séc. XVI.
Cochin
Pirogas de Cochim e almadias de Goa, vistas por Linschoten no séc. XVI. Ainda hoje estes navios têm as tábuas cosidas umas às outras.
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
15 de Setembro de 1498
Encontrou-se uma ilha adjacente à índia à quai se deu 0 nome de Santa
Maria e onde se colocou outro padrão. Os habitantes trouxeram muito pescado e
diziam ser cristãos. Tal é altamente provável, pois ainda hoje parte substancial da
população piscatória do sul da índia é CR1STÀ-SÃO TOMENSE. Deixou-se esta ilha
e seus habitantes com muita amizade.
20 de Setembro de 1498
Chegou-se à ilha de Angediva (ao sul de Goa) e encontrou-se um homem que
disse ser cristão, e que, quando soube serem os portugueses igualmente cristãos,
muito se alegrou. Voltou com amigos que ajudaram na aguada e disseram haver
muita canela na sua terra, mas não outras especiarias.
5 de Outubro de 1498
Depois de mais traições e da decisão de se queimar uma das naus por já ter
mos perdido 60 homens, a maioria por doença, largou-se em direcçâo a África. A
travessia levou três meses, com muitas calmarias e ventos contrários, adoentan
do toda a gente. Os homens ainda capazes de navegar, em cada uma das duas naus
restantes, eram apenas sete ou oito.
2 de Janeiro de 1499
Chegou-se a Mogadixo.
7 de Janeiro de 1499
Chegou-se a Melinde, onde foram muito bem recebidos pelo Rei, que ajudou
com carneiros e frutos. As laranjas ajudaram, mas para muitos foi demasiado
tarde, acabando por aí ficar enterrados. Trouxeram igualmente galinhas e ovos.
Vasco da Gama perguntou ao Rei de Melinde se podia colocar um padrão em sinal
de amizade. 0 Rei concordou e ofereceu um olifante (buzina em marfim trabalha
do). Mandou também um mancebo, para que 0 Rei de Portugal soubesse quanto
ele desejava a sua amizade.
12 de Janeiro de 1499
Passou-se por Mombaça.
i de Fevereiro de 1499
Chegou-se à ilha de S. Jorge, frente a Moçambique, onde se colocou outro
padrão.
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ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
3 de Março de 1499
Chegou-se a Angra de São Brás onde se tomou muita água e lobos marinhos
para salgar.
20 de Março de 1499
Passou-se pelo Cabo da Boa Esperança.
10 de Julho de 1499
A nau Bérrio entrou na barra de Lisboa comandada por Nicolau Coelho, que
deu o seu relato a D. Manuel I, o que gerou a carta deste aos Reis Católicos. Vasco
da Gama porém, tinha os seus marinheiros todos doentes e seu irmão moribundo,
acabando por arribar à Ilha Terceira, onde Paulo da Gama veio a falecer.
29 de Agosto de 1499
Vasco da Gama chega a Lisboa e dá o seu relato a D. Manuel 1, o que causou
a grande diferença na interpretação dos contactos Luso-Cristáos-Indianos entre
as duas cartas enviadas por este monarca acerca da mesma viagem.
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aSâïWja 1S&Í MïO 1 'ijjïiiiGO li 1)3Iolirzli^^
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A BUSCA DE CRISTÃOS NA
Reconhecendo a Abissínia como o Reino do Preste João. 0 Preste João das índias, cruzes de benzer coptas com o feitio da
nossa cruz de Aviz e uma tampa de arca das Sagradas Escrituras.
Escrita copta geez em pergaminho e papel e tripticos Tecidos cristãos-coptas dos primeiros séculos da era cristã.
em madeira e pedra.
ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
Frontispício do "ATLAS UNIVERSAL PORTUGUEZ". Primeiro Atlas impresso português, datado de 1814 e oferecido a D. João VI (Principe
Regente). Durante o seu exílio no Brasil resolveu-se — por causa do desaparecimento nào só da cartografia corno de outra documen
tação relativa aos Descobrimentos, no terramoto de 1755 — ensinar a História Portuguesa ao nosso monarca, baseada nas obras
estrangeiras de Guthrie, Bonne, Laurie e Elliot.
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Frontispício do exemplar do Atlas pelo
qual tanto D. Carlos, como D. Manuel II,
aprenderam a História dos Descobri
mentos Portugueses. Obra de mérito do
Tenente Coronel Alfredo Oscar D’Aze
vedo May que, porém, publica os mapas
de Guillard e Aillaud.
É sabido que Vasco da Gama não foi o primeiro português a chegar ao índico.
Péro da Covilhã já partira de Lisboa em 1487 para trazer novas sobre a rota das
especiarias e o Reino do Preste João. Com pleno conhecimento do árabe e do
hebraico, fez-se às índias disfarçado de mercador muçulmano. Infelizmente, não
chegou até aos nossos dias o relato enviado por Péro da Covilhã da Abissínia
através de comerciantes hebreus. Nem sequer podemos afirmar que este relato
tenha chegado a Lisboa antes da partida de Vasco da Gama, influenciando assim a
sua rota.
Para podermos ter alguma luz sobre 0 que Vasco da Gama esperava encon
trar, ou sobre 0 que D. Manuel 1 0 mandou descobrir, fica-nos, como fonte, 0 rela
to da sua viagem, geralmente atribuído a Álvaro Velho, um simples acompanhante,
obviamente não iniciado nos segredos da Coroa Portuguesa. Porém, existe uma
outra fonte à qual, que eu saiba, nunca se deu a devida importância na questão
dos conhecimentos que existiam em Portugal sobre os Cristãos do índico antes da
viagem de Vasco da Gama. Trata-se do globo de Martin Behaim, por muitos errada
mente chamado Martinho da Bohémia. Este comerciante alemão, oriundo da
cidade de Nuremberga, vivia em Portugal, com estreita ligação aos descobridores
portugueses. Casado nos Açores com a filha do Capitão Donatário da Ilha do Faial,
teve oportunidades de sobra para se integrar nos assuntos náuticos e beber das
primeiríssimas fontes. Autoconvencido e distorcendo a verdade, apresentou-se
em Portugal como grande cosmógrafo nórdico, amigo íntimo dos maiores cientis
tas de então. Conseguindo boa aceitação na Corte de Lisboa chegou a fazer parte
da Junta dos matemáticos de D. João IL Revisitando a sua cidade natal de Nurem
berga, intitulou-se amigo íntimo do Rei de Portugal e por este armado cavaleiro e
primeiro cartógrafo, indo ao ponto de auto-atribuir-se a descoberta da rota pelo
Cabo, dizendo que ele e Diogo Cão, comandando duas caravelas, tinham descober-
(') Palestra do GAMMA (Grupo de Amigos do Museu de Marinha) proferida por Rainer Daehnhardt no Padrão dos
Descobrimentos, em 25 de Setembro de 1997.
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ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
0 globo de Behaim datado de 1492. Fala do Cristianismo na África Oriental, nas ilhas do índico e do martírio do
Apóstolo São Tomé na índia. Tudo conhecimentos prévios à viagem de Vasco da Gama.
0 mapa-mundi da Crónica de Nuremberga, publicada em 1493. Todos os conhecimentos do chamado outro lado do
globo baseavam-se até então nos conhecimentos romanos do cartógrafo alexandrino Cláudio Ptolomeu, acrescen
tados com fábulas e lendas sempre férteis entre os navegadores.
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MAPA MUNDI Di ALBERTO OÛRER. 1515
O mundo descoberto pelos portugueses na sua apresentação feita em 1515 por Alberto Dürer ao Imperador alemão
Maximiliano I. Este monarca sempre mostrou grande interesse por Portugal, entrando nas suas batalhas com o estandarte
da águia imperial alemã de um lado e a bandeira das quinas do outro, o que é compreensível por ter sido filho da Infanta
D. Leonor de Portugal, neta de D. João I e filha de D. Duarte.
A trasladação dos ossos de S. Tomé (únicos conhecidos dum Apóstolo) de Meliapor a Goa.
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ACERCA'DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
acesso a estes dados, antes pelo contrário. Behaim deve ter tido o primeiro conhe
cimento dos dados de Marco Polo através dos portugueses! O irmão do Infante
D. Henrique, D. Pedro, tinha visitado Veneza e recebido o manuscrito original
como oferta dos Doges, que sempre consideraram os contos de Marco Polo como
lendários e sem qualquer aproveitamento científico. O recebimento deste impor
tante manuscrito em mãos portuguesas, considerado um facto histórico durante
séculos, chegou a ser posto em dúvida no nosso século. Porém, redescobriu-se a
lista dos livros deixados por D. Afonso V e nela vem mencionado este valioso ma
nuscrito. Não é para admirar que as primeiras edições impressas desta narração
de viagens ao Extremo-Oriente tenham surgido precisamente na Alemanha e em
Portugal. Os nossos primeiros tipógrafos eram, em grande parte, alemães que
mantiveram férteis contactos com os seus colegas nas suas cidades de origem.
Assim, tanto em Nuremberga como em Lisboa, sabia-se muito acerca destes
relatos. Mas as indicações geográficas de Polo eram tão imprecisas que tinha de
haver outras fontes de informação para poder colocar alguns dos dados. Quando
estes faltaram Behaim não se preocupou e improvisou, inventando-os, dentro do
que lhe parecia lógico. Assim, inventou a existência dum grande mar, anexo ao
índico, com terras e cidades portuárias, oferecendo a seguinte legenda explicati
va: "Este mar, terras e cidades pertencem todas ao grande imperador Preste Joào
da índia''.
Em relação a este lendário monarca, oferece Behaim diversas informações:
"Neste país reside o poderoso imperador conhecido por Mestre João que foi
nomeado soberano pelos três Reis Magos, Gaspar, Baltazar e Melchior na terra dos
mouros. Seus descendentes são bons cristãos e há muitos reis entre eles". Noutra
legenda repete parcialmente e contradiz a anterior: "Todas estas terras, mares e
ilhas, estes países e reinos foram oferecidos pelos três Reis Magos ao Imperador
Preste João. Antigamente eram todos cristãos mas no presente nem 72 cristãos
podem ser encontrados entre eles". Behaim desejou, obviamente, representar
todos os conhecimentos que tinha. Se os mesmos se contradiziam, isso não 0 preo
cupava. Pelo sim, pelo não, apresentava ambas as versões, confiante de que pelo
menos uma estaria certa.
A Ilha de Madagascar (estamos perante a mais antiga referência a esta ilha,
oficialmente então ainda não descoberta), é apresentada com a seguinte legenda:
"Os navegadores da índia, onde São Tomé jaz enterrado e do país Malabar vão com
as suas embarcações a esta ilha Madagascar normalmente em 20 dias, mas no seu
retorno ao Malabar raras vezes conseguem chegar aos seus lares em 3 meses por
causa das correntes do mar que aqui costumam se dirigir fortemente ao sul. Isto
escreve Marco Polo no seu 39 capítulo do seu 3 livro". Temos aqui uma indicação
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ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA
pessoal de Behaim acerca da origem deste conhecimento, o que me leva a crer que
os navegadores portugueses, através dos seus mestres escolares tivessem também
conhecimento dos mesmos factos. Podemos então concluir que Vasco da Gama já
tinha conhecimento das dimensões do índico antes de nele entrar, sabendo da
existência da Ilha de Madagascar antes do descobrimento oficial da mesma e
sabendo também do perigo das fortes correntes ao sul da referida ilha. Assim, é
lógico que Gama tenha escolhido a rota ao norte de Madagascar, mantendo-se
junto à costa oriental africana cortando o índico, em linha recta, de Melinde a
Calecut. Após dobrar o Cabo da Boa Esperança poderia parecer mais rápido, para
chegar à índia, passar ao sul de Madagascar, mas esta rota foi anulada no início da
nossa navegação no índico, surgindo só muito mais tarde e, normalmente, no
caminho do regresso, tal como Behaim indicara, em 1492, como sendo a mais con
veniente.
Behaim faz bastante confusão quanto às ilhas do índico, mencionando algu
mas delas como sendo habitadas por cristãos. Mostra-nos uma ilha de homens e
outra de mulheres, que se podiam encontrar uma vez por ano, e que eram cristãos,
tendo um bispo que os governava sob as ordens do arcebispo de Socotra. Esta é
mais correctamente apresentada com a seguinte legenda: "Socotra é uma ilha que
dista 500 milhas italianas das ilhas dos homens e das mulheres. Seus habitantes
são cristãos e um arcebispo é o seu soberano". Estas indicações são preciosas e
explicam o porquê das constantes ligações das frotas portuguesas com a ilha de
Socotra, que não podem ser só justificadas pela necessidade de água doce, pois
esta também se encontrava noutros lugares. A descoberta de cristãos em Socotra,
a construção de uma igreja pelos portugueses, a protecção lusa oferecida a estes
cristãos, tudo isto se tornou já previsível pela simples leitura do globo que nos foi
deixado por Behaim! Quando São Francisco Xavier chegou ao índico, visitou
primeiro a ilha de Socotra e ficou espantado por aí encontrar cristãos com história
própria e multissecular. Quando chegou ao Malabar e se encontrou com os princi
pais representantes dos milhões de cristãos de São Tomé indianos não os con
seguiu convencer que receberiam proveito religioso se se ligassem à forma
romana do cristianismo. Foi por esta razão que se fez ao Extremo-Oriente, já que
no índico pouco tinha para realizar.
Behaim também nos indicou que a costa oriental africana foi cristianizada
pelo apóstolo São Mateus, 0 que é outro facto histórico, e fala-nos do grande
imperador Minupia's da Abissínia e do seu povo cristão, que negoceia em ouro e
marfim. Tudo isto são factos concretos, que os portugueses puderam depois com
provar. Behaim, obviamente, não faz nenhuma distinção entre cristãos católicos
apostólicos romanos, cristãos coptas, cristãos nestorianos, cristãos sírio-caldeus
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Na pagina anterior:
Jesus e os Apóstolos. Do lado esquerdo vê-se S. Tomé Didimo, ou seja, irmão (irmão gémeo ou irmão mais amigo)
de Cristo. Xilogravura da Crónica de Nuremberga, atribuída a Alberto Durer, 1493.
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ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA
Cruzes processionals coptas e Gondara, capital abexim no planalto da 0 índico e o Golfo de Bengala, mostrando não só Diu, Damão e Goa
África Oriental, onde todos os edifícios em pedra foram construídos no Malabar e a cidade de S. Tomé, local do martírio do único
como gesto de amizade por parte da lusa gente. Apóstolo de que se descobriu um túmulo, na Costa do Coromandel.
Também mostra, no Golfo de Bengala, os principais reinos produ
tores dos famosos potes de especiarias, nomeadamente Martabão,
Pegu, Arracão, Sião e Birmânia.
Duas cruzes cristão-indianas em ferro lavrado a ouro utilizadas pelos cristãos de São Tomé da costa do Coromandel.
ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
DE S. TOMÉ DA ÍNDIA
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ACERCA DA VIAGEM DE V A S C 0 DA GAMA
oferecem a análise mais cristalina das razões e ordens que estavam por detrás da
Expansão Portuguesa no índico: "Vimos buscar cristãos e especiarias!". Foi isso o
que se ordenou e foi isso que se cumpriu! A busca era destinada aos cristãos e às
especiarias, nesta ordem de prioridades! 0 próprio Vasco da Gama explicou ao
Samorim as razões da sua viagem da seguinte forma: "Que havia sessenta anos que
os Reis antecessores mandavam cada ano navios a descobrir contra aquelas
partes, porquanto sabiam que em aquelas partes havia reis cristãos, como eles, e
que D. Manuel lhe dissera que ele se não tornasse para Portugal até que lhe não
descobrisse este rei de cristãos". 0 que o Rei iniciado português pretendia não era
só descobrir o caminho marítimo para a índia e a aquisição de especiarias direc-
tamente nas suas fontes, mas também e, provavelmente em primeiro lugar, uma
aliança com os cristãos do índico, nomeadamente os coptas da Abissínia e os
cristãos de São Tomé da ilha de Socotra e da índia, o que aliás mais tarde se veio
a realizar.
Vivemos num mundo intelectualmente degenerado, onde a vertente mate
rialista é a principal mola real de acção, o que torna difícil a compreensão de uma
época onde os valores espirituais se colocavam acima dos materiais. 0 reconheci
mento do porquê que estava por detrás das directrizes deixadas pelo Infante
D. Henrique no estímulo a favor da navegação lusa, oferece-nos uma imagem bas
tante diferente da que genericamente se instalou hoje acerca da época dos desco
brimentos. Podemos afirmar com razão, que a vertente espiritual foi da máxima
importância durante a fase inicial da Expansão Portuguesa, distanciando-a radi
calmente das formas de expansão que então se deram por iniciativa de outras
nações europeias.
As duas grandes riquezas que vieram para Portugal durante o reinado de
D. Manuel I foram:
• uma material, através da aquisição directa das especiarias;
• e outra espiritual, através do abraço português aos cristãos coptas da
Abissínia e aos cristãos são-tomenses do índico.
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Na página anterior:
Escudo abexim guarnecido a prata. Imaginem-se os primeiros dos Salva de prata indo-portuguesa quinhentista, misturando motivos por
nossos navegadores contornando o continente africano, subindo o tugueses com outros do Indostão. Raparigas tocando guitarra por
indico e entrando no Mar Vermelho. De repente, encontram-se em tuguesa, a suástica na sua forma de roda celeste, animais e flores em
frente de guerreiros que ostentam a nossa cruz templária como sua abundância.
protectora. É óbvio que, perante isso, mostrámos as nossas cruzes e,
então, abexins e portugueses caíram nos braços uns dos outros.
Cristãos de culturas e mundos totalmente diferentes encontraram-se
e aliaram-se! 81
ACERCA DA VIAGEM DE VASCO DA GAMA
Turcos asiáticos, os principais opositores à expansão lusa. Gravura a cobre de Mallet, 1683.
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QUESTÕES EM TORNO DA DISSERTAÇÃO
R.D.: Acho errada a forma como o relato atribuído a Álvaro Velho sempre serviu
para ridicularizar Vasco da Gama, dizendo-se que não sabia o que era um templo
hindu e que não conseguia ver a diferença entre o cristianismo e o hinduísmo. Nós
não temos um único relato de Vasco da Gama! Temos o globo de Martim Behaim,
datado cinco anos antes da partida de Vasco da Gama e, fora isso, só temos o rela
to de um acompanhante da viagem de Vasco da Gama, que atribuímos a Álvaro
Velho e que só vai até à Serra Leoa. Acaba aí, não fala em absolutamente mais
nada! Não é um relato científico, é um relato de curiosidades escrito por alguém
que fez a viagem e se lembrou de tirar apontamentos.
É errado, com base nisto, afirmar que Vasco da Gama não sabia a diferença entre
cristãos e hindus! Porque nós não sabemos. Não lemos nem vimos o relato que
Vasco da Gama fez a D. Manuel 1! Nem sabemos se existe ou se alguma vez iremos
ter acesso a ele.
0 que notei foi uma grande diferença entre a carta de D. Manuel aos Reis
Católicos, depois da chegada do primeiro navio, e a carta de D. Manuel ao Papa,
depois da chegada do segundo navio, onde vinha Vasco da Gama e cujo atraso se
deveu à morte de Paulo da Gama, que foi enterrado na Ilha Terceira. Seja como
for, há dois relatos diferentes: o que veio pela caravela "Bérrio” e o que veio pela
nau "S. Gabriel" de Vasco da Gama.
0 que para mim é um facto histórico são as ordens que D. Manuel deu a Vasco da
Gama! Vasco da Gama diz: "Cristãos e especiarias!’’. E quando o primeiro por
tuguês sai da armada de Vasco da Gama, na Costa do Malabar, fala com dois co
merciantes muçulmanos, um dos quais sabia falar castelhano. E as suas palavras
são; "Hombre! Que diablo! Que buscas aqui?!’’. Ao que o português responde:
"Cristãos e especiarias!”. E nesta ordem de sequência! O que nós procurámos, em
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ACERCA DA VIAGEM DE VAS C 0 DA GAMA
primeiro lugar, naquela viagem, foram cristãos. Para mim, a viagem de Vasco da
Gama foi, em primeiro lugar, uma viagem de pesquisa diplomática. Ele nem sequer
levou mercadoria suficiente para fazer um grande negócio! A mercadoria que
levou, que apresentou na praia, era absolutamente ridícula! Aquilo, para mim, foi
uma tentativa diplomática. Claro, tentativa de também encaminhar o lado comer
cial, que depois cresceu. Mas, a meu ver, nunca foi dado o devido relevo à busca
dos cristãos por parte de Vasco da Gama e essa busca, no entanto, é fundamental.
Depois do reinado de D. João III, o Pio, todo o conhecimento dessa busca dos
cristãos foi radicalmente banida de todas as nossas universidades; ninguém mais
podia falar acerca disso, porque esses tais cristãos abexins ou são-tomenses
foram todos classificados de hereges e por causa disso era como se não existis
sem.
Resposta a uma senhora que pede que aprofunde um pouco o tema da mudança
de atitude — que aconteceu a partir de certa altura — em relação à tolerância para
com outras formas de cristianismo.
R.D.: Essa questão é talvez a mais importante que surgiu até agora. Porque, de
facto, há uma grande diferença entre a Expansão Portuguesa inicial e a que se faz
a partir de uma certa altura. 0 grande problema residia numa só frase: D. Manuel
I era cristão e 0 papa era católico! Aí é que está a ruptura total! E a ruptura dá-se
porque D. Manuel, como cristáo e corno antigo Grão-Mestre da Ordem de Cristo e,
sob esse ponto de vista, descendente de toda a problemática e de toda a iniciação
templária, era um homem que já tinha uma enorme carga de aprendizagem com o
Oriente. E a aprendizagem com o Oriente ensinou-nos a tolerância. E isso, infeliz
mente, era uma coisa que em Roma, naquela época, não existia. D. Manuel man
dou 40 e tal fidalgos portugueses a Roma e mandou 400 e tal a Lalibela, na
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Etíopes, moçambicanos e cristãos da África Oriental, vistos por Linschoten no séc. XVI.
Habitantes do Reino de Pegu, das Ilhas Molucas e cristãos são-tomenses da índia, vistos por Linschoten no séc. XVI.
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A laje inscrita com o Padre Nosso em língua Malaialam, conforme publicado por Philipus Baldaeus,
padre holandês que assistiu às conquistas das feitorias portuguesas no séc. XVII.
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do-lhe a bênção para essa cruzada e o Papa proíbe-a totalmente! São pequenos
pormenores que nos fazem pensar.
0 problema é que Portugal cresceu depressa demais. E como cresceu depressa
demais, de repente passou a ter inimigos muito fortes. Sobretudo na alta finança
internacional. Reparem num pormenor que aqui foi mencionado há pouco-, a
importância da pimenta. Portugal fez um golpe de mestre com a pimenta! Quem
dirigia o valor da pimenta na Europa eram os comerciantes de Veneza. A pimenta
vinha por caravanas e por navios muçulmanos, atravessando muitos caminhos, la
para Constantinopla ou Alexandria, mas chegava sempre à Europa através de
Veneza. E era um pequeno grupo de comerciantes venezianos que estabelecia o
valor das especiarias e que, por sua vez, as vendia aos outros. Mas eles é que esta
beleciam os valores! E não eram nada meigos. Quando Portugal passou a importar
directamente as especiarias, o que é que Portugal fez? Nós ainda hoje temos um
local chamado Praça do Comércio. A pimenta vinha naqueles grandes potes marta-
bans, naquelas bilhas enormes. Eram postos nas balanças e eram os comerciantes
da Flandres, de Hamburgo, de Londres, de Bremen, de Paris, até de Itália, que vi
nham a Portugal e que, em disputa pública, em leilão, arrematavam esses potes de
especiarias. Isso significou que o valor das especiarias baixou imediatamente. E
como o valor das especiarias baixou, cortaram-se aqueles imensos intermediários
e Portugal ganhou na mesma um dinheirão. Mas como o valor baixou de repente
a nível internacional, foi possível lançar no mercado europeu especiarias a um
preço tão baixo que mesmo as donas-de-casa de um nível social inferior se po
diam dar ao luxo, de vez em quando, de condimentar as suas comidas com as espe
ciarias. Isto mudou por completo a forma de alimentação europeia. Como o
número de pessoas que queriam especiarias era cada vez maior, os portugueses
podiam trazer mais especiarias e conseguiam lançá-las todas no mercado. E ga
nharam imenso com isso. Quem permitiu a primeira disputa aberta na balança do
mercado livre foram os portugueses, em Lisboa. E com isso cortaram o tal
monopólio de Veneza. Esta cidade do Adriático foi, durante muitos séculos, a
porta de entrada das mercadorias da Ásia. E, de repente, passou a ser Lisboa, o
que significou que Portugal ganhou um incrível inimigo: Veneza. E este inimigo uti
lizou as suas influências em Roma contra nós. Depois, Portugal caiu no "erro" de
abraçar cristãos em África, em Socotorá, no Malabar e em Coromandel, cristãos
esses que eram convictos, mas que não se submetiam à hierarquia de Roma. Isto
foi demais... e Portugal foi "condenado à morte”! Alcácer-Quibir foi só uma conse
quência disso. D. João II morreu envenenado. D. Manuel I, muito provavelmente,
também morreu envenenado. Os nove filhos de D. João 111 morreram todos de
mortes muito estranhas. Até mesmo o pai de D. Sebastião morreu i8 dias antes do
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Rota da Carreira das índias copiada dum portulano português por Lidl, de Viena.
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Cochim, primeiro poiso das ossadas de Vasco da Gama, navegador português que cumpriu a sua razão de existência.
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CONCLUSÕES
Durante séculos, por sistemática omissão da questão cristã, fomos mal infor
mados sobre a viagem de Vasco da Gama à índia.
Com o cada vez mais crescente materialismo racionalista, ensinado após a
Revolução Francesa, por toda a Europa, e com a ausência da menção da principal
razão de toda esta viagem, que foi a procura de aliança com os cristianismos do
índico, instalou-se a interpretação de que a viagem se realizou, exclusivamente,
por razões comerciais.
A esta versão, nitidamente tendenciosa e imposta tanto pelos historiadores
eclesiásticos — que não consentiam em classificar como cristãos os que abraçavam
a fé de Cristo, mas que não se submetiam a Roma —, como pelos historiadores
"encartados", sujeitos às conveniências políticas, juntou-se, mais recentemente,
uma nova versão. Esta, ainda mais perturbante do que as anteriores, nega toda a
necessária objectividade que deve distanciar conceitos éticos e morais actuais, dis
tintos dos que outrora regiam as mentes, acabando por atribuir a Vasco da Gama e
sua viagem um carimbo de "pirataria". Aos incautos, apresenta-se, assim, uma das
páginas mais significativas escritas pela lusa gente na evolução geral da huma
nidade, como um acto terrível, que não nos honra e mais merece ser esquecido!
Primeiro a Igreja, depois a Filosofia Materialista e agora a Política Servilista
Escravizante conseguiram, com esta sistemática detracção, deturpar por completo
a Verdade Histórica.
Quer se queira, quer não, os factos históricos são os seguintes:
i) Com a queda de Constantinopla (1453), caiu a grande barreira cristá que 0
Império Bizantino havia criado contra 0 avanço do Islão em direcção à Europa;
2) 0 Papa pediu a todos os Reis da Cristandade que assumissem uma Guerra
Santa, uma NOVA CRUZADA GERAL contra o Islão;
3) D. Afonso V aceitou esta Cruzada, criando a Ordem da Espada, divulgada
pela cunhagem e circulação das moedas chamadas "espadins” e empenhou-se em
conquistar praças muçulmanas norte-africanas. Começou, assim, a vertente lusa
desta Cruzada Global;
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CRONOLOGIA DOS
DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES
ACERCA DA VIAGEM DE VA S C 0 DA GAMA
Qualquer lista deste género deveria começar com o seguinte aviso: "SALVO
MELHOR CRITÉRIO". As nossas vidas são meros períodos de aprendizagem. Cada dia
tem as suas lições, análises e conclusões. O que parece "certo" durante longos
anos, pode vir a ser rectificado por novos dados que nos provam que, "afinal não
foi bem assim". 0 costume universitário de defender teimosamente as versões con
sideradas "certas", simplesmente por terem sido ensinadas durante gerações, ou
por serem as politicamente mais "correctas", representa a antítese da Ciência. Nem
tudo o que se ensina corresponde à verdade histórica! Muitas conclusões devem
ser revistas por terem sido construídas em frágeis pés de barro. A criação de temá
ticas "tabus" acorda, ainda mais, a vontade dos investigadores em se debruçarem,
a fundo, sobre a respectiva matéria, ao menos para descobrir o "porquê” da razão
do ocultar de certos factos.
Como exemplo recente temos o caso do massacre da floresta de Katyn. Ainda
há vinte anos atrás se ensinava que os alemães tinham morto todos os oficiais pola
cos aprisionados. Diversos oficiais alemães, de altas patentes, foram enforcados
pelos russos e americanos, com base nesta acusação. Porém, as recentes mudanças
políticas em Moscovo chegaram ao ponto de o Presidente Gorbatchev reconhecer,
publicamente, que estes polacos tinham sido mortos pela polícia política soviética.
Um dos mais destacados oficiais desta força de elite policial soviética foi mais longe
e explicou, pormenorizadamente, como tudo ocorreu. Deve-se a ele a explicação
de um grande enigma nesta questão: cerca de onze mil oficiais polacos foram apri
sionados pelos soviéticos e quinze mil foram mortos...! 0 que aconteceu foi que se
haviam elaborado listas prévias de toda a "inteligência polaca”. Como estes seres
pensantes eram politicamente inconvenientes para o estabelecimento de um obe
diente estado-satélite, prenderam-se estas personagens e fuzilaram-se as mesmas
junto com os oficiais para que a Polónia não renascesse! Os novos livros de História
já são hoje obrigados a reverem esta questão e a informarem sobre o que se sabe.
Hoje ensina-se que foi no dia 22 de Julho de 1969 que, pela primeira vez, um
[OI
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Séc. XII — Uma expedição moçárabe sai de Lisboa em direcção aos Mares da
Islândia, descendo de seguida aos Açores. Desembarcando numa das ilhas do
Atlântico, provavelmente a actual São Miguel, segue depois para as Canárias, onde
a tripulação acaba por ser presa e mais tarde largada na costa norte-africana.
Séc. XIII — Embarcações de pesca e comerciais portuguesas percorrem o Mar
do Norte e o Mediterrâneo.
Ano 1415 — D. João I e seus filhos surgem com uma armada de 220 embarcações
frente à costa norte-africana e acabam por tomar Ceuta.
Ano 1416 — Frei Gonçalo Velho alcança o Cabo Não, fazendo um levantamento car
tográfico de toda a costa norte-africana até este ponto.
Ano [419 — João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira descobrem a Ilha de Porto
Santo, a primeira do Arquipélago da Madeira a ser descoberta.
Ano 1419 — Zarco, Teixeira e Perestrelo descobrem a Ilha da Madeira.
Ano 1420 — Inicia-se a colonização portuguesa das ilhas da Madeira e de Porto
Santo, ambas até então desabitadas.
Ano 1432 — Frei Gonçalo Velho Cabral chega à Ilha de Santa Maria nos Açores.
Ano 1434 — Gii Eanes consegue passar 0 Cabo Bojador, 0 ancestral limite psicológi
co da navegação costeira africana.
Ano 1437 — Expedição militar portuguesa à costa africana para tomar Tânger, com
trágicas consequências.
Ano 1440 — Dinis Fernandes e Antâo Gonçalves descobrem a Costa de Sene Gâmbia.
Ano 1441 — Antão Gonçalves descobre Asagete e 0 Rio do Ouro.
Ano 1443 — Nuno Tristão descobre a [lha das Garças.
Ano 1444 — Eanes e outros continuam na descoberta parcial de mais e mais zonas
desconhecidas da costa africana.
Ano 1445 — Gonçalo de Sintra chega ao Cabo Branco mas acaba por ser morto.
Ano 1446 — Nuno Tristão e 18 dos seus companheiros continuam a descobrir mais
zonas da linha costeira africana, mas acabam por ser mortos por indí
genas com azagaias envenenadas.
Ano 1447 — Dinis Dias e Cadamosto chegam à Guiné.
Ano 1458 — D. Afonso V envia uma expedição a África e toma a praça de Alcácer-
-Seguer.
Ano 1460 — António da Noia, em serviço do Rei de Portugal, descobre o Arquipé
lago de Cabo Verde.
Ano 1462 — Pedro de Sintra chega à Guiné.
Ano 1462 — João Vaz Corte Real e Álvaro Martins Homem chegam à Terra Nova tam
bém chamada TERRA DO BACALHAU (Newfoundland). Enquanto todas
as expedições no seguimento da linha costeira africana são organizadas
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Ano 1543 — Fernão Mendes Pinto, com dois companheiros, chega ao Japão, onde
acabam por introduzir a espingarda e o parafuso, dois elementos téc
nicos que revolucionam não só a história mas toda a evolução do
Extremo Oriente.
Ano 1578 — Luís Teixeira representa no seu portulano o conhecimento português de
toda a costa da Noruega até à Peninsula Russa de Nova Zembla.
Ano 1588 — Maldonado vai por Spitzbergen (passagem noroeste)
Ano 1595 — Queiroz descobre as Novas Hébridas e as ilhas Marquesas.
Ano 1606 — Manuel Godinho de Herédia chega à Austrália.
Ano 1701 — David Melgueiro, sob bandeira francesa, veleja do Japão a Portugal pela
passagem noroeste (Spitzbergen), já anteriormente conquistada por
João Martins.
Esta lista nada mais pretende ser do que uma pequena achega a uma temáti
ca tão vasta e tão discutível que jamais estará completa e sem ferrenha oposição.
0 terramoto de 1755, com a destruição da Casa da índia no lado oriental do Terreiro
do Paço de Lisboa, onde se guardavam os nossos portulanos e diários de bordo,
anularam, de vez, a hipótese de se poder fazer um levantamento mais rigoroso,
mais completo e menos discutível.
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TODAS NAS
PUBLICAÇÕES QU1PU
Rua Maria, 48-3° — 1170 LISBOA — Tel/Fax: 812 70 97
Ui
orque j realidade dos factos é o rochedo que serve de apoio ao farol...
Porque a História não é uma ciência exacta, qual matemática ou química, mas sim uma tenta
tiva de compreensão de acontecimentos há muito ocorridos...
Porque ela é, com demasiada frequência, escrita pelo vencedor e na versão para ele mais con
veniente...
Porque tanto o poder dos Estados como o das Igrejas usurparam pseudo-direitos de censura,
exigindo assim que o passado seja interpretado conforme a sua vontade...
Porque o presente se explica pela interpretação do passado e deste só nos chegaram versões
tendenciosamente deturpadas, tornando-se necessário ganhar coragem e ousadia para
aprofundar questões...
Porque a viagem de Vasco da Gama à índia foi, durante séculos de ensino, olhada como uma
tentativa meramente comercial...
Porque recentemente, chegou mesmo a ser apresentada como simples acçáo de pirataria,
responderemos, levantando-lhe o véu...
Porque temos o direito à verdade e a devemos à memória dos nossos antepassados, pesqui
saram-se, agora, as verdadeiras razões desta viagem que foi uma das mais importantes
páginas da História da Evolução da Humanidade, escrita pela lusa gente...
Porque o peso da verdade dos factos ocorridos nos explica as ordens de um dos maiores
monarcas e o seu cumprimento por um dos seus grandes cavaleiros...
Porque a beleza do conhecimento nos abre uma nova porta de compreensão para todo o pas
sado e nos da acesso à dignidade da nossa identidade...
Por tudo isso e por muito mais, esta obra teve de surgir e agora!