A Cadeirada arrebatadora
O político mafioso e a cadeira senciente
Loretta Lins
Cadeirada arrebatadora: o político mafioso e a cadeira
senciente
Copyright © 2024 Loretta Lynn.
Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte do conteúdo desse livro poderá ser reproduzida
em qualquer meio ou forma — impresso, digital, áudio ou visual —
sem a expressa autorização. Sob penas criminais e ações civis.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e os
acontecimentos são fictícios. Qualquer semelhança com a realidade
é coincidência.
Dedicatória
Dedico esse livro a todos que fazem edit, vocês realmente me
convenceram a parar tudo o que estava fazendo e escrever esse livro. Só o
Brasil é capaz de nos dar momentos tão icônicos como esse.
Também dedico para Ruby, muito obrigada por me pedir para escrever
esse livro.
Sumário
Nota da Autora
Alerta de conteúdo
Idealização
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Epílogo
Agradecimentos
Quem é a louca dessa autora?
Playlist
Cadeira de aço- Zé Neto & Cristiano
CADEIRADA DO DATENA - Christopher Luz e Mc Siena
Ultraviolence- Lana Del Rey
Bratt- Charli XCX
Beijos, blues e poesia- Seu Desejo
Stay with me- Sam Smith
I’m yours- Jason Mraz
Margareth- Lana Del Rey
Nota da Autora
Cheguei com mais um lançamento completamente duvidoso. Meu
psiquiatra ainda não sabe das coisas que escrevo para a internet, mas posso
garantir que os meus remédios estão em dia, ou quase isso.
Esse livro demorou para lançar, muito mais do que eu estava prevendo.
Sendo honesta com vocês, meu plano era fazer uma história curtinha com
apenas trinta páginas e lançar. Era para ser algo descomplicado com um hot
duvidoso.
Se você chegou aqui e deu uma olhada nas especificações do livro na
Amazon, sabe que meus planos não deram certo. Em meio ao processo de
escrita, percebi haver muito mais história para contar, sentimentos para
explorar e alguns elementos para trabalhar. Então trinta páginas viraram cem,
no word porque quando vai para a Amazon sempre há um acréscimo.
Imagino que todos tenham uma determinada expectativa ao começar
esse livro, mas antes disso, gostaria de revelar que tive bastante liberdade
poética aqui. Todos sabemos que minha inspiração veio de um momento
histórico da televisão brasileira, mas tirando a cadeirada, você irá perceber
que meus personagens são pessoas novas, são apenas personagens. Então, vá
de mente aberta para esse livro.
Sei que todos estão ansiosos pelo lançamento do nosso chupa cu, eu
também estou, mas com os acontecimentos recentes da minha vida, tive que
tirar alguns trabalhos que tinha na geladeira e refazê-los. Esse é o caso dos
meus próximos lançamentos, eles são manuscritos que foram escritos antes e
depois do chuveiro. Eles já estavam com algumas páginas escritas, histórias
planejadas, mas faltava trabalhá-los.
Sou uma grande fã de livros curtinhos, já que escrevo para entreter,
fazer com que as pessoas gargalhem dos meus absurdos. Quando comecei o
chupa cu, percebi que ele não seria tão curto assim e decidi deixá-lo como o
primeiro livro que lançarei em 2025.
Com tudo isso dito, quero lhes desejar uma ótima leitura e se você
chegou aqui, quero convidá-los a me seguir nas redes sociais e acompanhar
os meus próximos lançamentos ou, se preferir, pode me seguir no meu perfil
original com o meu nome real para obter algumas fofoquinhas do mundinho
literário.
Sim, eu sou uma leitora assídua e fofoqueira no meu tempo livre.
Alerta de conteúdo
Antes de listar os conteúdos que serão encontrados, gostaria de alertá-
los que não é aconselhável usar cadeiras ou pedaços de madeira para
atividades duvidosas, seu uso é extremamente perigoso e pode fazer mal para
a saúde.
Por motivos literários, nesse texto você encontrará a descrição de um
óleo de peroba aromatizado, vegano e seguro para o consumo. Porém,
gostaria de enfatizar que tal produto não existe e o uso e consumo de óleo de
peroba pode fazer mal à saúde. Por favor, considere esse óleo de peroba parte
da construção de um mundo ficcional.
Em último lugar, gostaria de ressaltar, mais uma vez, que descrito nesse
livro é ficção, qualquer semelhança com a realidade é coincidência.
Portanto, teremos:
Sexo explícito com uma cadeira, ou melhor, um cadeira. O
objeto em questão tem pensamentos safados e desejos
obscuros pela pessoa que o possui.
Linguagem imprópria e explícita.
Inserção de um pau de madeira em lugares que nunca
deveriam ser inseridos.
Torção de pau de madeira e mudança no formato do pênis.
Utilização incorreta de óleo de peroba.
Frot ou frotting.
Rope bunny.
Role play invertido de cadeira.
Sempre vale lembrar que esta obra não é um romance dark, nem tem a
pretensão de ser, apesar do livro em alguns momentos assumir um tom
relativamente sombrio, assim como a moral de nosso protagonista ser
completamente questionável.
Essa obra é curtinha, nela não há pretensão de se ensinar uma lição ou
trabalhar profundamente os traumas dos protagonistas. Por isso, algumas
partes podem parecer corridas.
Para aqueles que me perguntaram nas redes sociais, sim, eu realmente
considero este livro um monster romance, mesmo que o personagem
principal não seja um monstro clássico tipo um orc, ou um ogro.
Esclarecido isso, desejo que vocês tenham uma boa leitura, espero que
se divirtam tanto quanto eu.
Beijos, Loretta
Idealização
Antes de começarmos, gostaria de compartilhar algo com vocês.
Quando esse livro era apenas mais uma ideia na minha pequena mente,
relativamente perturbada, eu gastei muito tempo falando com minhas amigas
e tentando idealizar como nossa cadeira senciente seria. Uma de minhas
amigas, Estella, que também é autora, além de ser uma arquiteta magnífica,
fez alguns esboços de como nossa cadeira poderia ser.
Com o tempo, a ideia evoluiu e amadureceu, a cadeira tomou forma e
se tornou algo ligeiramente diferente, mas gostaria de compartilhar esses
esboços com vocês.
Prólogo
Cadeira
em sempre fui uma cadeira, pelo contrário, eu já fui um homem, uma
N pessoa com meus próprios pensamentos, vontades e bom gosto, mas
agora tudo que resta de mim são pedaços de madeira e uma estampa
brega florida que nem minha falecida avó teria coragem de colocar em casa.
Eu nunca fui um homem que apreciei os pequenos momentos da vida,
mas é estranho que agora esses momentos ínfimos são tudo o que mais
desejo. Quando fecho os meus olhos, metaforicamente falando, a primeira
coisa que vem a minha mente é a saudade de sentir o vento batendo contra o
meu rosto, a nostalgia de andar para onde quero e a sensação da grama contra
os meus pés descalços.
Mesmo que tenha trabalhado duro e tentado ao máximo construir uma
carreira fabulosa no mundo da moda, essa não é a razão pela qual eu gostaria
de voltar a ser humano. Na verdade, a cada dia que passa minhas memórias
sobre esses momentos que considerava importantes estão se apagando, se
extinguindo da minha mente. Quanto eu não daria para sentir, mesmo que
seja apenas uma vez, o gosto de um sorvete?
A falta de autonomia é o que mais detesto, preso nesta forma não posso
decidir o que acontece com o meu corpo. Se meus donos desejam que eu
fique na ala oeste e seja banhado pelo sol da tarde, eu sou colocado lá e passo
meus dias sentindo o terrível calor do sol e me preocupando se essa estampa
horrível vai se desbotar mais ainda.
O bom gosto não é algo que se adquire, é algo do qual você já nasce
sabendo, como respirar. Por isso, meu maior castigo não é ficar preso nessa
forma inútil, é saber que minha superfície é coberta pela estampa mais
horrível que já foi criada no mundo. Cada dia eu tinha que torcer para não ser
posicionado em frente a um espelho e lembrado dessa aberração da moda.
Se eu pudesse voltar no tempo e refazer minhas escolhas, eu faria, mas
agora é tarde demais para isso. Acho que todos sabemos, ou temos uma
noção, do quão errado é o adultério, eu costumava a me perguntar o porquê
as pessoas continuavam tanto tempo preso nesses relacionamentos
extraconjugais, eu até julgava e culpava a amante. Quando você não tem
noção de que seu namorado é casado a culpa é de quem?
Eu não queria isso, sempre fui uma pessoa contra traição, mas o
primeiro homem que me tratou com palavras doces e fez com que me
apaixonasse de verdade, também foi o responsável por me deixar desse jeito:
preso e indefeso.
É difícil encontrar um namorado trabalhando no mundo da moda, existe
muita competição e desavenças para isso, mesmo vindo dos modelos. Eu era
só um aspirante a estilista, sendo estagiário de uma marca grande e Theo era
dos nomes em ascensão no mundo da moda, alguns diziam que ele poderia
até ser o novo rosto do momento.
Ele era charmoso, carismático e muito manipulador. Queria dizer que
nos meses que ficamos juntos vi os sinais e indícios que ele tinha uma esposa,
mas acho que estava muito cego pelo amor para perceber qualquer coisa e,
honestamente, se ela não tivesse batido na minha porta, acho que nunca
saberia que ele estava me usando. Eu era apenas mais um dos mecanismos
que ele utilizava para fazer o seu nome, subir no mundo da moda.
Apesar de tudo o que aconteceu, eu não culpo a esposa dele por me
transformar nesse móvel obsoleto, ela estava tão machucada e despedaçada
quanto eu. A culpa é toda dele que nos colocou nessa posição.
Eu me lembro de tudo com uma estranha clareza, era uma manhã de
sábado e eu estava sozinho no meu apartamento. Depois de todo o meu
esforço eu havia sido promovido e enfim tinha um final de semana para
descansar, mas antes que pudesse tomar o café da manhã, uma mulher tocou
minha campainha.
Ela não fez nenhuma introdução ou tentou se explicar, foi direto ao
assunto antes mesmo de entrar pela minha porta da frente. Em algum
momento, entre me confrontar e contar sua história, eu me vi sendo reduzido
a um simples objeto.
É estranho como a magia funciona, em um momento eu tinha noção
que era um homem e no próximo estava completamente consciente de que
era uma cadeira. Meus sentidos foram praticamente extintos, não havia mais
como sentir gostos ou cheiros, mas peculiarmente meu tato se expandia por
toda a minha superfície, minha consciência permanecia intacta e, de alguma
forma, eu ainda consigo enxergar o meu entorno.
Deixando a porta aberta, ela saiu do meu apartamento e eu fui
esquecido ali, na minha própria casa. Aquele foi o fim da minha humanidade,
da vida que conheci e por mais depressivo que possa soar, eu não deixei nada
para trás, nenhuma família ou amigo. Eu era um homem egoísta e me despedi
da vida humana como tal, sozinho e sem ninguém no mundo para sentir a
minha falta, lamentar a minha perda.
De todas as crueldades que ela poderia ter feito, fui deixado de frente a
um espelho, encarando a minha nova realidade. Toda vez que olhava para
mim mesmo, a única coisa que conseguia ver era o mal gosto da minha nova
vida, com suas pernas de madeira velha e desgastada com alguns riscos,
estampa de rosas-vermelhas grandes e um tecido beje que me dava uma
eterna aparência de sujo.
De todos os tecidos finos que já toquei e roupas que criei, fui deixado
sem nenhuma dignidade, sem brilho ou sofisticação. Fui eternamente preso
ao mal gosto. Sempre me gabei por ser um homem bonito, mas agora não
poderia nem mesmo me considerar um móvel elegante.
Nos dias que se seguiram, tentei de tudo para conseguir me mover, mas
meu corpo já não era mais meu, não existem movimentos voluntários em uma
cadeira ou até mesmo vontade própria. Fiquei lá, parado, na mesma posição
que ela havia me deixado e esperando que alguém percebesse que não estava
mais aqui.
Um dos meus vizinhos percebeu a porta semiaberta e chamou o síndico
que entrou no meu antigo apartamento com a polícia. Esse foi o último
momento que falaram o meu nome em voz alta, um nome que passei minha
vida se esforçando para ser conhecido e que agora está completamente
perdido na minha memória.
Não demorou para que fosse considerado desaparecido e com o tempo,
possivelmente morto. Porém, isso não foi tão rápido quanto imaginava, eu
fiquei alguns meses parado na minha sala, olhando todas as minhas coisas
ruírem e os meus sonhos se tornarem nada.
Nenhum apartamento fica vazio para sempre, existe um momento que a
vida deve continuar e os mortos são eventualmente esquecidos. O meu
apartamento foi leiloado, assim como eu e todos os móveis e a partir daí os
últimos traços que restavam de mim foram apagados. Eu havia, oficialmente,
começado minha vida como uma cadeira doméstica.
De casa em casa, fui mudando de dono, passando de dono. Primeiro,
fui comprado por um idoso que gostava de leilões, ele era cuidadoso comigo
e sua casa era incrivelmente tranquila. Vivi com ele até o dia de sua morte,
quando seus filhos entraram na casa dele e decidiram fazer um pequeno bazar
com seus preciosos móveis. Gosto de pensar que fui para ele a mesma
companhia que ele foi para mim.
Depois disso, fui para a casa de uma mãe solteira. Ela era cuidadosa e
me lavava com frequência, eu gostava dela, mas não suportava seus filhos
que gostavam de me pintar de todas as cores possíveis, manchando minha
superfície e danificando meu estofado permanentemente com canetinha
verde.
Porém, minha sorte mudou quando conheci meu terceiro dono, um
homem sedutor, mas que também era um trambiqueiro e charlatão. Para seus
clientes, ele dizia se chamar Giovanni, um italiano nascido em Florença com
uma mãe brasileira. Artista de berço que se encantou com nosso país e
decidiu criar raízes. Ele é um artesão que cria mobílias formidáveis a mão e
as vende a um preço justo.
Quando as luzes se apagam e as portas se fecham, ele é Lindomar,
nascido em Guarulhos e filho de pais brasileiros, mas de alguma maneira esse
homem musculoso, dos olhos castanhos profundos e incrivelmente
pecaminoso, conseguiu enganar metade da alta sociedade. Suas peças de arte,
incrivelmente únicas e extremamente exclusivas, na verdade, são peças de
segunda mão que ele compra em brechós e reforma, vendendo pelo preço
mais alto possível. Foi isso que aconteceu comigo.
Acho que de certa forma, ele foi o único que se importou comigo,
lustrando minha madeira e a esfregando de uma forma que ninguém nunca
esfregou antes. Em suas mãos cheias de calos eu encontrava meu paraíso,
sendo reformado e tratado como um rei.
Finalmente, depois de tanto sofrimento, minha estampa foi trocada, não
era o ideal, mas acredito que o veludo preto passa uma impressão muito
melhor do que as flores desbotadas. Meu sofrimento não acabou, mas se
tornou muito mais suportável, já que tenho a certeza de que voltei a ser
bonito, pelo menos para os padrões de beleza de uma cadeira.
Com suas mãos fortes e ferramentas modernas ele me desfez, tirando
cada parafuso que me mantinha junto. Depois, arrancou meu estofado como
se fosse um enchimento barato e começou a lixar todas as peças de madeira
que consistiam em mim.
Não demorou muito para que o desespero se tornasse outra coisa e
gradualmente ganhei vida em suas mãos. Ele era um artista e me transformou,
me deixou muito melhor do que aquela bruxa um dia previu. Em pouco
tempo fui do lixo ao luxo, me tornando uma verdadeira cadeira de rico.
Cada vez que ele lustrava levemente minha madeira com sua flanela
amarela anti-risco, sentia um arrepio pelo meu corpo todo. Quando usava seu
pincel, sempre aplicava a pressão certa para me deixar delirante. Realmente
gostava quando ele passava suas mãos lentamente pelas minhas pernas para
verificar se minha pintura ainda estava molhada.
As manhãs quentes eram as melhores, Giovanni costumava tirar sua
camisa e me tratar gentilmente, alisando meu veludo, reforçando minhas
juntas e me dizendo o quão bonito eu era. Nem se tentasse, eu conseguiria
esquecer a maneira como ele pregou meu estofado com seu grampeador
profissional de alta pressão, a cada grampo que ele colocava no lugar, seu
bíceps se contraía de uma forma deliciosa, mas eu só soube o que era o
verdadeiro paraíso quando ele usou sua tachadeira pneumática em mim, eu
juro que conseguia ver o suor escorrendo pelo seu tanquinho musculoso. Se
eu fosse um homem, teria matado para ter um namorado como ele.
Nosso tempo foi extremamente curto, mas inesquecível. Sei que ele é
um trambiqueiro, mas só um verdadeiro artista poderia ter me deixado tão
exuberante.
Tudo isso foi há um tempo e simplesmente não consigo ficar bravo
com ele. É verdade que fui usado e descartado como se nosso tempo
compartilhado não tivesse nenhum significado, mas ele me levou a Paolo
Manchetti, o homem mais bonito que já vi em toda a minha vida.
Eu nunca imaginei como seria a existência de uma cadeira, se me
perguntasse enquanto era humano, provavelmente te chamaria de louco por
contemplar tal coisa, mas acho que se houvesse levado essa pergunta a sério,
nunca teria pensado que uma cadeira poderia carregar tantos sentimentos
consigo.
Tipicamente, não sou uma cadeira que fica em um quarto, eu sou muito
bonito e caro para isso, pelo menos desde a minha reforma. Não sou o tipo de
cadeira que se coloca na sala de jantar ou se esconde dos olhos das pessoas,
eu devo ser admirado, contemplado e reverenciado. Por isso gosto de Paolo,
ele me aprecia da maneira correta, me coloca no pedestal que eu sei que
mereço.
Nunca imaginei dizer isso, mas ser uma cadeira faz muito bem para
minha autoestima.
Diferente dos meus antigos donos, Paolo sabe tratar uma cadeira.
Desde que me mudei para sua casa não tenho que me preocupar mais com
sentir camadas de pó se formando na minha superfície, pessoas me riscando,
farelos entrando no meu estofado e principalmente, não tenho que me
preocupar com outras pessoas sentando em mim, afinal de contas sou uma
cadeira monogâmica e não gosto de ser dividido.
Claro, eu não sou iludido, sei que ele senta em outras cadeiras e eu o
detesto por isso, por desfrutar de outros confortos acolchoados e dar um
tratamento semelhante a elas, mesmo tendo consciência de que sou a única
cadeira verdadeiramente mágica que há.
Particularmente, eu não me considerava um homem emocionado ou
que facilmente me apaixonava, mas sendo um cadeira, incapaz de me
comunicar com os outros ou viver minha vida livremente, acabo me
segurando em todo e qualquer sentimento que resta em meu corpo, mesmo
que não seja recíproco.
Talvez seja porque Paolo é o dono mais bonito que já tive, mas não
posso evitar me apaixonar por ele. Seu rosto levemente oval, com sua
mandíbula bem demarcada, seus olhos cor de chocolate derretido e seus
lábios levemente carnudos formam um conjunto difícil de resistir, mas acho
que o que me conquistou é sua ternura e a maneira como fala comigo quando
estamos sozinhos. Nossa conexão foi praticamente instantânea.
Além disso, ele também possui a bunda mais bonita que já sentou em
mim, ela é tão firme que parece uma obra de arte. Definitivamente, não sei
quanto tempo ele passa na academia para esculpir essa maravilhosa perfeição.
Nem mesmo Michelangelo ousaria esculpir com precisão tal formosura. Seu
formato arredondado e cheio é de tirar o fôlego e quando ele o deposita sobre
mim, eu vou à loucura, sentindo sua dureza sobre minha delicada superfície
aveludada.
Quando ele se arruma no lugar para tentar arranjar uma posição mais
confortável, esfregando delicadamente seus glúteos sobre meu estofado, é
quando eu me sinto irrevogavelmente deslumbrado. Melhor do que o
sentimento dele sobre mim, é a sensação de ser agraciado com fricção de seu
tecido caro de sua roupa contra o meu veludo macio, me lembrando o quanto
sou apreciado pelo meu humano.
Suas costas musculosas também são incríveis, com uma envergadura
perfeita e uma rigidez sensual, lembrando-me dos músculos que residem por
baixo de tais ternos sobre medida. Seus músculos apoiados em meu encosto
são um constante lembrete do quão delicioso é esse homem.
Sei que é errado, eu sou apenas uma cadeira e ele um político, mas não
posso evitar ficar completamente fascinado com suas manias e trejeitos. É
inegável que somos uma boa dupla já que quando ele trabalha, sou aquele
que o sustenta, quando precisa de descanso me torno o seu pilar, equilibrando
e distribuindo o seu peso, mas principalmente quando ele dorme, eu sou
aquele que resta lhe confortando e garantindo uma boa noite de sono, mesmo
que ele não tenha intenção de dormir em seu escritório.
Com seus ternos sob medida e cabelo preto perfeitamente penteado, eu
aposto que ele deve ser um homem extremamente cheiroso. Se pudesse
driblar essa maldição, mesmo que só por um momento, eu gastaria todo o
tempo com ele, sentindo o seu cheiro e apreciando o seu gosto.
Paolo pode não fazer ideia, mas somos almas gêmeas.
Capítulo 1
Paolo
Algumas pessoas não conseguem fugir do seu próprio destino, elas
podem tentar, lutar e fingir que ele não existe, mas elas sempre vão voltar
para onde nunca deveriam ter saído, Plínio Manchetti é um exemplo disso,
ele tentou, mas nunca conseguiu.
Sentado na mesa, observo enquanto ele e o meu tio conversam. É obvio
para qualquer um desta sala o quão debilitado ele está, mas ninguém fala
sobre isso, ninguém se importa, eles só querem saber da família e dos
patrimônios.
Meu tio, com seus olhos castanhos característicos da família, arruma
seus óculos de grau, mesmo assim não enxerga o quão magro meu pai está, a
cadeira de rodas que agora parece ser uma constância em sua vida ou como
ele mal consegue comer algo durante todo o jantar.
— Ele não está indo muito bem nas pesquisas — fala enquanto olha
para mim.
Mesmo separado por uma mesa, posso ver o olhar de reprovação do
meu pai. Ele acha que fiz algo errado quando durante a campanha eu apenas
segui suas regras e garanti que nenhum escândalo vazasse.
— Estou em segundo lugar, — anuncio, em uma tentativa de aliviar a
situação — não é uma posição tão ruim se considerarmos que essa é minha
primeira candidatura e que ela foi feita de última hora.
Limpando o canto da minha boca com o guardanapo de tecido, uso da
pausa dramática para rebater o meu tio, refrescando sua memória sobre os
últimos escândalos envolvendo o seu candidato.
Em poucos segundos, sua pele pálida fica vermelha devido à raiva e
ele me encara abertamente.
— Estou confiante que com um pouco de tempo, conseguirei aumentar
a minha posição — asseguro para o meu pai.
— Não temos muito tempo…
— E a culpa é de quem? — interrompe meu pai — se o seu antigo
candidato não fosse tão ambicioso, ele não teria chamado atenção para o
nosso esquema de lavagem de dinheiro.
Ele fica quieto e posso ver a culpa em seu semblante. O plano nunca foi
que participasse da política, pelo contrário, Plínio queria que eu assumisse
seu lugar administrando os negócios ilegais da família. Infelizmente, o
político escolhido pelo meu tio se revelou um grande problema para todos
nós.
Em meio a essa crise, Plínio viu apenas uma solução, ele sabia que era
necessário que uma pessoa de confiança da família vencesse as eleições para
garantir uma certa imunidade para nossa família. Sem me consultar, ele
decidiu que eu era a pessoa mais adequada para esse cargo.
— Desculpa, eu prometo que isso nunca mais vai acontecer — fala o
meu tio, em uma tentativa de dissipar a raiva do meu pai.
— Eu sei, não vai acontecer porque Paolo cuidará disso.
Um silêncio se estende entre eles, ambos se encarando e esperando para
ver o que meu tio irá fazer.
De uma hora para outra, a espaçosa sala de jantar com sua mesa de
carvalho com doze lugares, parece incrivelmente pequena, como se não
houvesse espaço para todos. Logicamente, eu sei que o pé direito duplo
garante isso, mas a presença deles é sufocante.
— Sim, o jovem Paolo tem um talento natural para resolver problemas
— diz, suspirando.
Olhando na minha direção, sob o olhar do meu pai, ele abre um sorriso
que não poderia ser mais falso. Essa é sua estratégia, na frente do chefe da
família tudo está sempre bem, como se confiasse em mim, mas a verdade é
que ele está louco para pegar a minha posição, para ser aquele que gerenciará
o dinheiro, principalmente porque sabemos que o chefe da família está mais
debilitado com o passar do tempo.
Embaixo da mesa, cerro meus punhos ao redor do guardanapo de
tecido, amassando o monograma da minha família, mas não deixo minha
irritação transparecer, imito o seu sorriso falso e tento convencer o meu pai,
assim como ele. Tudo que eu queria é levantar dessa cadeira e gritar, com os
dois. Eu não fui feito para essa vida, eu não quero isso.
Se minha mãe estivesse viva ela nunca iria permitir que eu fizesse parte
desta vida e acho que nem mesmo o meu pai iria querer isso. Houve um
tempo em que ele era um homem diferente, que sua carranca constante não
existia e eu só via sorrisos em seu rosto.
Naquela época, nossa vida não era tão luxuosa, não tínhamos
empregados nem uma casa tão grande. Éramos apenas três crianças dividindo
um quarto apertado em um apartamento minúsculo com nossos pais.
Porém, um dia minha mãe foi embora e levou consigo todos os sorrisos
do grande Plínio Manchetti. Eu não poderia ter mais de dez anos naquela
época, mal compreendia completamente o que estava acontecendo ao nosso
redor, mesmo assim entendi que ela se foi e levou uma parte dele consigo.
Depois disso, nós viemos para essa casa e nossa vida nunca mais foi a
mesma.
Acho que qualquer criança que cresceu em meio a pobreza ficaria
maravilhada por ter acesso a coisas que nunca imaginou que pudessem
existir. Claro, estávamos devastados pela minha mãe, mas encontramos
conforto nos presentes que o meu avô me dava. O pai do meu pai e dono de
todo esse império.
Consequentemente, meu pai que antes era presente começou a se
distanciar cada vez mais de nós e nossa família que antes era completamente
unida, caiu aos pedaços. Só quando cresci, entendi a complexidade por trás
de nossas vidas, da nossa história.
Acontece que minha mãe, filha única de uma família incrivelmente
prestigiada, conheceu meu pai durante seus anos de faculdade e engravidou
do meu irmão mais velho. Obviamente, por ser de uma família criminosa,
eles o desaprovaram e proibiram o seu romance. Além disso, seus pais
planejavam colocar a criança para adoção quando nascesse.
Como em qualquer história de amor adolescente, eles queriam ficar
juntos. Meu pai procurou meu avô para pedir ajuda, mas ele negou, alegando
que uma garota como minha mãe poderia trazer muitos problemas.
Sem nenhuma saída, eles fugiram juntos, de ambas as famílias. Com os
anos eles foram felizes, tiveram mais filhos e nossa vida realmente era
tranquila, mesmo sem muito dinheiro. Com a sua morte meu pai perdeu o
emprego e não tinha como sustentar três crianças sozinho.
Ao final, mesmo que ele desejasse viver uma vida digna, voltou para
casa, roubou a posição do meu tio e começou a ajudar meu avô com seus
esquemas criminosos de colarinho branco.
— Talvez, devêssemos fazer algo grande, você não acha? — pergunta
meu tio, me tirando dos meus pensamentos. Pelo sorriso maldoso estampado
na sua cara, sei que ele percebeu minha distração e está usando esse momento
para me humilhar.
— Claro, por que não? — respondo, em uma tentativa de encobrir
minha breve desatenção.
— No que você está pensando? — pergunta meu pai, com sua voz
rouca. Seus movimentos estão mais lentos e sua mão não consegue mais
manter o aperto firme em seu garfo. Ele claramente exibe sinais de que está
cansado, mas devido a sua teimosia, continua a conversa como se não fosse
nada.
— Talvez devêssemos fazer um debate aqui em casa…
— Debates devem acontecer em solo neutro, todo mundo sabe disso.
Normalmente, meu tio ficaria carrancudo e faria um comentário
levemente maldoso, mas ele não parece se abalar comigo, pelo contrário, seu
sorriso fica maior do que antes.
— Poderíamos fazer um debate. Logicamente não chamaríamos de
debate, mas algum tipo de entrevista coletiva com os candidatos e ao, mesmo
tempo, transmissão ao vivo.
— Não acho…
— Isso é uma ideia fenomenal, ouvi dizer que as redes sociais são
ótimas para aumentar a elegibilidade do candidato. Você não acha filho?
— Sim, definitivamente, mas quem seria o louco a concordar com isso?
— pergunto e imediatamente me arrendo das escolhas de palavras vendo o
incômodo no rosto do meu pai — Quero dizer, quem vocês querem convidar?
— Obviamente o Damascena — responde o meu tio.
— Ele está em primeiro lugar nas pesquisas duvido que…
— Alguém como ele dificilmente recusaria um desafio.
Nos encaramos e não há nada que eu possa dizer para contrariá-lo. Ele
sabe que venceu, sabe que é aquele que terá a última palavra. Ao seu lado, ele
acena para que sua enfermeira o leve até seu quarto.
O barulho emborrachado das rodas de sua cadeira contra o piso de
mármore, é o único som que escutamos. Quando meu pai sai, ao invés de um
confronto, ele apenas sorri como se houvesse vencido alguma competição
besta e sai da sala de jantar, me deixando sozinho à mesa.
Olhando para o café da manhã, percebo o exagero de comida, pelo
menos, para apenas três pessoas, mas seria aceitável se fôssemos cinco. O
único problema é que meus irmãos se recusam a assumir algum tipo de
responsabilidade na vida. Henrique, meu irmão mais velho, vive para gastar o
dinheiro da família, festas, shows e apostas, toda noite ele sai e só retorna
depois do almoço.
Andres, meu irmão do meio, não se interessa por nada. Ele é
simplesmente preguiçoso por natureza, passando boa parte do seu tempo
trancado em seu quarto falando com seus amigos. Não me lembro da última
vez que o vi, mesmo com uma casa grande como a nossa, é esperado que
nossos caminhos se cruzem em algum momento, mas isso não acontece.
Então, desde que me entendo por gente, sou obrigado a ser o filho
exemplar e agradar o meu pai. Todas as expectativas que um dia ele teve para
nós, hoje recaem sobre mim e com o avanço de sua doença, me vi abaixando
a cabeça e fazendo tudo que era esperado de mim.
Eu só queria ser livre, para viver a minha vida do jeito que eu quiser,
igual os meus irmãos.
Capítulo 2
Cadeira
sol da manhã entra pelas imponentes janelas do escritório, iluminando a
O mesa oval de carvalho e as demais cadeiras, principalmente aquela
coisa horrorosa ergonômica coberta em couro legítimo que muitos
ousam chamar de cadeira de escritório. Não sei qual é o sentindo de gastar
um material tão nobre em algo tão horrendo que tem rodinhas no lugar dos
pés. Algumas cadeiras são simplesmente mais bonitas do que as outras.
Em condições normais, qualquer cadeira ficaria com ciúmes dela ou ao
menos se sentiria intimidada pelo seu tamanho exagerado. Quando entram
nesse escritório, posso não ser a peça central ou a cadeira que fica atrás do
computador, mas sou aquela que tem um lugar privilegiado na sombra,
aquela protegida dos danos dos raios UV, aquela que ele mais gosta de sentar
em cima.
Na minha opinião, o design modernista não combina tanto com Paolo,
com suas obras de arte abstratas penduradas, uma luz central branca
depressiva e livros de capa dura que nunca o vi lendo, apesar dele ser um
homem que lê bastante. Até mesmo o carrinho de bebidas ao meu lado está
quase intocado, tirando o licor de cachaça que ele bebe periodicamente.
Nada aqui foi sua escolha. Quando vem trabalhar, não é a cadeira
ergonômica que escolhe, sou eu, mesmo que tente se acostumar com ela. Ele
não gosta das rodinhas, se incomoda como elas deslizam pelo chão de taco.
A única coisa que parece fazê-lo genuinamente feliz, é o roseiral
branco que fica bem em frente a sua janela. Em momentos do dia, ele aprecia
sua beleza com lágrimas nos olhos e um sorriso triste, um que me diz que ele
está lembrando de alguém muito especial.
Escuto o barulho da chave abrindo a porta e não demora muito para que
o veja, entrando no escritório. Seu terno azul-marinho tem um caimento
perfeito no seu corpo, acentuando seus quadris estreitos e suas coxas grossas.
Ele tem passado muito tempo na academia recentemente, é visível o quanto
seus braços parecem muito mais fortes e esculpidos.
Um dos detalhes que mais amo sobre seu estilo é sua recusa em usar
gravata. Sei que para outras pessoas, leigas, isso seria insignificante, mas toda
vez que ele deixa seu colarinho levemente aberto dando um ar jovial ao seu
look, posso dar uma olhada no seu pescoço másculo e no seu pomo de adão
sensual. Se tivesse uma boca com toda certeza marcaria seu pescoço para que
todos saibam que ele já tem um dono.
Sei que isso nunca acontecerá, mas a ilusão é minha única forma de
escapismo e ele é a luz do meu dia. Quando sai do escritório, a única coisa
que quero fazer é poder vê-lo novamente, eu conto as horas para ter apenas
um vislumbre do seu rosto bonito.
Em meio a monotonia de ser uma cadeira, ele faz cada segundo valer a
pena. Eu não tenho olhos para poder piscar, mas se o tivesse não piscaria com
medo de perder cada detalhe sobre ele.
É interessante pensar que dentre todos os botões que decoram meu
tecido e dão forma ao meu estofado, dois deles desempenham a função de
olhos humanos. Quando Giovanni estava me mudando, fiquei com medo de
que na minha nova forma não houvesse botões para eu enxergar o mundo,
mas felizmente ele os manteve, só que usou materiais de melhor qualidade do
que tinha antes.
Diferente dos outros dias, em que Paolo chega e vai direto para sua
mesa, ele muda a sua direção, vindo direto para mim. Estive tão ocupado com
sua beleza que mal notei sua expressão sombria e seus ombros tensos. Algo
aconteceu.
Confirmando minhas suspeitas, ele vai direto em direção ao carrinho de
bebidas, pegando um copo grande de uma das gavetas e despejando uma
quantidade significativa de licor, praticamente ele enche até a borda.
No meio do caminho ele desiste, colocando o copo contra o carrinho e
despejando um pouco do licor no chão. Olhando para bagunça, vejo a
frustração estampada no seu rosto.
Paolo não é a pessoa mais animada ou feliz, mesmo assim ele nunca se
comportou dessa maneira antes, pelo menos não nesse nível. Vivendo com
ele há mais de um ano, já testemunhei diversos momentos, diversas emoções,
mas nada tão extremo. É como se ele estivesse perdendo o controle bem na
minha frente.
— Beber não vai adiantar de nada, sabe? — pergunta para a sala vazia.
Ele suspira e esfrega os seus olhos. Acho que é isso que mais gosto
nele, de todas as pessoas que já me possuíram, ele é o único que conversa,
que se expressa. Uma pessoa sensata pode dizer que ele está falando com o
nada, com ninguém em particular, mas eu não sou sensato, prefiro acreditar
que é comigo que ele me vê como alguém e não como um objeto.
— Eu não sei se aguento isso — fala com os olhos cheios de lágrimas,
se segurando para não chorar — Eu não quero viver assim para o resto da
minha vida, não quero ir em programas, fazer discursos e seguir com os
esquemas dessa família.
Esgotado emocionalmente, Paolo se senta no chão, ao meu lado, com
suas pernas esticadas, apoiando o seu tronco no carrinho e olhando na direção
daquelas obras de arte monótonas que decoram sua parede.
O silêncio se estende entre nós e consigo ouvir sua respiração
desacelerando. Arrumando-se no chão, em uma tentativa de ficar confortável,
ele diminui a distância que nos separa e encosta seu braço esquerdo em uma
das minhas pernas.
A diferença de temperatura é gritante, mas fico com meu veludo todo
arrepiado sentindo sua pele contra a minha madeira, na verdade, estou
sentindo o seu terno, mas a pele dele continua lá, um pouco encoberta por
tecido. Ele se arruma de novo, acidentalmente se esfregando em uma das
minhas pernas.
Começo a sentir um misto de sentimentos, com meu veludo arrepiado,
meu enchimento pesado e uma sensibilidade em minhas pernas. Demora um
pouco para perceber que este é o equivalente de estar excitado para uma
cadeira.
— Por que tenho que ser aquele que faz tudo? — pergunta,
continuando o seu monólogo — meus irmãos não fazem nada e meu pai não
liga para eles, mas sou obrigado a fazer tudo que ele pede, sou obrigado a ter
um estilo de vida que nunca pedi. Cadê a justiça?
Transferindo o peso do seu corpo, sinto ele apoiando todo o lado do seu
tronco, ao mesmo tempo que curva sua cabeça e descansa no meu acento. Se
antes ele estava encostado no meu lado, agora ele está na minha frente,
evitando os meus braços revestidos com couro.
Por um segundo, esqueço de tudo que ele está passando. Faz muitos
anos que não senti afeto, não de verdade e senti-lo contra mim, nessa posição,
faz com que me lembre de todas às vezes que me senti sozinho, todas as
noites frias que fiquei parado no escuro desejando que essa maldição acabe.
— Estou cansado de me sentir tão sozinho, de sentir que só tenho valor
enquanto for útil para ele — sussurra, fechando a sua mão na base da minha
perna, bem próximo de onde ela encontra o chão.
A solidão é um sentimento difícil de se livrar, eu sei como é isso,
porque antes mesmo de ser uma cadeira, eu me sentia sozinho. Pensando
bem, esse sentimento foi o que me levou a me apaixonar e ignorar todos os
comportamentos suspeitos dele.
— A pior parte é que não consigo negá-lo, não sei dizer não, porque em
algum lugar na minha cabeça, eu me sinto culpado, sinto que sou ainda
aquele garotinho que perdeu a mãe e que tem que agradá-lo. Como se fosse a
minha responsabilidade não criar problemas, como se tivesse que o
compensar por todos os inconvenientes que meus irmãos causam.
Algo molhado cai no meu encosto e percebo ser uma lágrima. Seu
aperto sobre mim aumenta e sinto como se estivesse lhe dando algum tipo de
consolo. Nesse momento, tudo que queria era ser alguém, ter braços
funcionais para poder abraçá-lo, ter uma boca para dizer que entendo o que
ele está passando, mas acima de tudo, eu queria ser humano para acabar com
sua solidão.
— Em algum lugar da minha cabeça, sei que não sou o responsável
pela morte dela — comenta, se abrindo mais comigo — Eu não sou o
motorista bêbado que bateu no nosso carro, mas sou o único sobrevivente
daquele acidente.
Suas lágrimas começam a rolar, molhando ainda mais meu estofado.
Ele tenta conter seus soluços, mas não consegue. Sua dor é tão palpável que
parece minha, como se estivéssemos compartilhando o mesmo trauma.
Em muitos aspectos, vejo muito de mim refletido nele, na sua dor.
Quando minha avó morreu, fiquei tão devastado quanto ele, me jogando no
trabalho e fazendo de tudo para reprimir esse sentimento, mas a grande
questão é que determinadas emoções como o luto, não podem ser suprimidas
por muito tempo. Uma hora você sente, independente de quanto tempo se
passou.
— Quando estava no hospital, eu escutei meu pai falando que preferia
que minha mãe estivesse viva e não eu, — fala entre soluços — desde então,
eu tento compensar ele por essa decepção, porque em alguns dias, eu também
acho que ela deveria ser a sobrevivente.
Tudo fica quieto ao meu redor, ele para de corar, mas ainda continua
procurando o meu conforto. O seu cabelo faz cócegas contra o meu estofado
molhado, mas eu não me importo desde que ele se sinta melhor.
Esse momento dura por mais alguns segundos, mas gostaria que
durasse muito mais. Eu havia esquecido como era sentir o calor humano,
como era se aconchegar em alguém. Agora, com ele se afastando, só quero
repetir esse sentimento, reviver esse momento. Até mesmo uma cadeira
merece carinho.
— Muito obrigado por me escutar — para a minha surpresa, ele fala
olhando diretamente para mim. Meu pobre coração de espuma mal pode
aguentar o sorriso deslumbrante que ele dá enquanto enxuga seus olhos. Não
é um sorriso de felicidade, é um sorriso triste que parte o meu coração.
Logo, seu sorriso é substituído por uma expressão de preocupação.
Seus olhos estão fixos nas minhas pernas e pela primeira vez nesta minha
interminável existência de cadeira, sinto-me nu sob o seu olhar. Minha
vontade é de me cobrir, achar um tecido e enrolar em minhas pernas nuas.
— A sua madeira não está tão brilhante quanto costumava ser —
comenta baixinho — acho que um leve polimento é tudo que você precisa
para parecer mais nova.
Levantando, ele atravessa a sala e abre uma das gavetas e pega um
frasco rosa que nunca vi antes. Automaticamente, um cheiro de morango
dispersa pelo ar e ele faz careta. Virando a garrafa, ele se concentra no rótulo.
— Óleo de peroba aromatizado, vegano e comestível. Ideal para casas
com crianças! — lê em voz alta — Mais tarde terei uma conversa com a
minha assistente, ela comprou o óleo errado, mas por agora é isso que temos.
Ainda com a gaveta aberta, ele estende a mão pegando uma de suas
flanelas super macias. Esse não é um evento atípico, na verdade, Paolo
sempre foi muito cuidadoso com sua mobília. Frequentemente, ele gosta de
polir seus móveis deixando-os praticamente novos.
É por isso que aquela aberração ergonômica de rodinhas ainda continua
aqui, toda vez que há um dano, ele sempre arruma um jeito de polir e hidratar
o couro. Posso não ser muito paciente, mas aguardo ansiosamente o dia em
que ela será descartada.
Parando na minha frente, ele se ajoelha e espalha uma quantidade
generosa do óleo na flanela laranja. Suspirando, Paolo começa a esfregar o
pano na minha perna dianteira esquerda. Da base até onde ela se encontra
com a parte de baixo do meu acento.
Não é a primeira vez que ele faz isso comigo, mas é a primeira que me
sinto extremamente excitado com essa simples ação. Talvez seja o fato de
que ele está mantendo um aperto firme em volta da minha perna ou talvez,
seja a situação como um todo, eu não sei. Só tenho certeza de que cada vez
que ele esfrega, vigorosamente, a flanela, eu vejo estrelas.
— Acho que negligenciei um pouco você, — comenta ao olhar a leve
camada de poeira que sai no pano — vou lhe compensar por isso.
Mais determinado que nunca, ele passa para a próxima perna dianteira,
mantendo um aperto mais forte e me fazendo ficar ainda mais excitado. Para
minha surpresa, não é muito diferente de quando eu tinha um pau, se eu
pudesse falar, imploraria para continuar, para me dar muito mais do que isso.
Se eu achava que antes havia encontrado o meu prazer nessa estranha
forma, é porque não havia sentido sua mão nas minhas pernas traseiras. A
cada esfregada, eu sinto meu veludo pulsando, meus botões ficando frouxos e
uma necessidade de me esfregar contra ele.
Quando ele termina com a minha última perna e começa a esfregar a
parte de baixo do meu acento, eu fico delirante ao mesmo tempo que minha
visão fica turva. Uma coisa extremamente inesperada acontece, sinto um
líquido grosso saindo de dentro de minhas pernas e formando pequenas poças
no chão de taco.
Acabei de gozar, mas não qualquer líquido, eu gozei seiva. Talvez seja
um efeito colateral da estranha magia que me transformou em cadeira, talvez
seja instintivo, mas tenho completa certeza de que gozei seiva.
Capítulo 3
Paolo
cho que tudo começou depois que minha mãe faleceu, eu era uma
A criança naquela época, meu pai estava ausente e meus irmãos não se
importavam comigo, então me vi procurando apoio e conforto em
meios alternativos, em lugares onde eu sabia que não haveria rejeição. Nos
objetos inanimados.
Naquela época, eu roubei o pente de cabelo da minha mãe e o guardei
como o bem mais precioso, ninguém achou estranho, mas com o tempo as
coisas foram evoluindo, tomando um rumo inesperado. Basicamente, eu criei
um vínculo com ele e vi, em um simples pente, um amigo, alguém tão
afetado pela perda quanto eu.
Vendo como conversava sozinho com o pente, não demorou muito para
virar chacota entre meus irmãos. Com a chegada da adolescência, eles se
tornaram cruéis e acharam divertido quebrar o meu amigo.
Perder ele foi como perder a minha mãe novamente, como reviver
aquele luto. Desde então, aprendi a ser discreto com minhas amizades
peculiares, evitando conversar em público e demonstrar o quantos eles
verdadeiramente significam para mim.
Quando, por acaso, entrei na loja de móveis artesanais de Giovanni e
me deparei com sua cadeira vintage, eu soube que ela seria minha mais nova
amiga. Não sei explicar ao certo, mas houve uma conexão instantânea, uma
necessidade de comprá-la, possuí-la.
Desde então sinto que essa conexão cresceu, que nos tornamos bons
amigos. Quando estou no escritório, ainda com medo de que alguém me veja
conversando com objetos, falo sozinho, fingindo que estou resmungando para
ninguém em particular, mas na minha cabeça é com ela que estou
conversando.
Levado pelas minhas emoções, cometi o erro crucial de falar
abertamente com ela, principalmente com as cortinas abertas e a porta
destrancada, qualquer um poderia entrar aqui e se deparar com a cena, mas
não consegui evitar, eu precisava de um conforto que só ela poderia dar.
Quando deitei meu rosto contra o seu acento, sentindo a macieza de seu
veludo tocando a minha pele, me acalmei e senti o conforto que minha
família há muito tempo esqueceu que existia.
Como uma forma de agradecer por todo o conforto que me deu, resolvi
cuidar da sua madeira, deixá-la brilhante e sem poeira. É descuidado, eu sei,
mas não me importo, só quero me sentir livre, sentir que tenho algum
controle na minha vida. Então, dei o meu melhor para que ela seja a mais
elegante possível.
Dando um passo para trás com a intenção de inspecionar os resultados,
observo algo muito estranho, um líquido transparente começa a empossar em
cada uma das pernas. Confuso, olho para cima, pensando que pode ser uma
goteira, mas não é. Nem mesmo quando estico a minha mão consigo sentir
algo.
Ainda mais intrigado, seguro os seus braços e levanto as suas pernas
dianteiras, mantendo as traseiras apoiadas no chão. Inusitadamente, as poças
não são tão líquidas como imaginei, elas parecem mais grossas, quase numa
consistência similar à de um mingau.
Não diria que sou uma pessoa naturalmente curiosa, mas não pude
evitar me ajoelhar no chão e tocar o estranho líquido. Eu não sou louco, uso
apenas um dedo para mergulhar na poça e depois levo ao meu nariz. Seu
cheiro é incrivelmente doce, mais doce que o aroma de morango do óleo de
peroba.
Esfregando um dedo no outro, percebo o quão pegajoso esse líquido é.
Assim que afasto meus dedos, vejo pequenos fios translúcidos se formando.
É estranho e hipnotizante em partes iguais.
Uma batida na porta me interrompe e me deixa assustado, fazendo com
que levante muito rápido e arrume minhas roupas. Olhando para as poças,
percebo que elas parecem muito suspeitas e entro em pânico com a
perspectiva de alguém entrar aqui e questionar o que estava fazendo.
— Paolo? — fala a minha assistente pessoal e, temporariamente,
coordenadora da minha campanha.
— Espera um pouquinho, já vou sair — falo, sentindo-me mais
aliviado.
Sofia sabe que não pode entrar no meu escritório sem permissão, ela
sempre foi excelente em seguir algumas exigências estranhas que tenho e
nunca questionar a estranheza do meu pedido.
Apesar de ser destinado para o trabalho, não vejo esse escritório como
tal, na verdade, ele é mais como um reduto que uso para pensar, fugir das
pessoas quando elas estão me atormentando. É bom usar da desculpa de que
se está trabalhando.
Guardando o óleo de peroba e a flanela na gaveta, tento fazer um
lembrete mental de que devo colocá-la para lavar mais tarde. Não é a melhor
saída deixá-la armazenada em um local fechado, mas acho uma opção muito
melhor do que deixá-la em cima da mesa ou jogada na cadeira. Certamente se
um dos trabalhadores da propriedade passassem em frente a janela e vissem
isso, chamariam pessoas para limparem o meu escritório e não quero isso
nesse momento, não com aquela coisa estranha embaixo da cadeira.
Olhando uma última vez para a cadeira, eu abro a porta e saio para o
corredor, encontrando Sofia com uma prancheta na mão. Seus cabelos
cacheados estão impecáveis, o vestido envelope roxo cai muito bem com sua
pele morena e seus olhos âmbar. Ela é a personificação de profissionalismo e
respeito, sendo uma das melhores funcionárias que já contratei desde que
comecei a trabalhar com o meu pai.
— Encontrei o Sr. Manchetti no meio do caminho…
— Então imagino que você já saiba da novidade — comento, ainda
chateado que meu pai tenha cedido as loucuras do meu tio. Não há nenhuma
possibilidade de que isso dê certo, uma live de debate é uma jogada arriscada
e tem tudo para dar errado.
— Será quase impossível transformar a sala de estar em uma sala de
debate até as oito horas da noite, mas…
— O que você disse?
Sofia não é uma pessoa muito expressiva, mas durante cinco segundos
seu rosto exibe claros sinais de preocupação. Não acredito que meu pai
armou tudo pelas minhas costas.
— Quando encontrei o Sr. Manchetti, ele me deu instruções claras de
sua visão para os eventos de hoje à noite.
— Hoje à noite — repito, um pouco confuso com a rapidez dos
acontecimentos.
A última vez que vi meu pai foi no café da manhã, isso foi há uma
hora, não posso acreditar na sua rapidez. Concordei com tudo que ele me
instruiu, esperava que ao menos ele confiasse o suficiente para me deixar ter
um pouco de autonomia, mas novamente não é isso que aconteceu.
— Sim, ele falou com a equipe do candidato Damacena e foi esse
horário que eles combinaram.
Estou magoado e ferido, mas não sei por que esperava um resultado
diferente quando sempre foi assim.
— Quais são os detalhes que falta escolher?
— A comida e a organização da sala — responde, mas até eu consigo
dizer que há um olhar de pena em seus olhos. Sou apenas um fantoche para
eles.
— Quantas pessoas estamos esperando? — pergunto evitando o seu
olhar.
O nosso jardineiro passa no final do corredor, vejo o exato momento
que ele atravessa de um lado para o outro com sua tesoura de poda,
assoviando e sorrindo de orelha a orelha. Quando foi a última vez que me
senti animado assim?
— Esperamos por volta de trinta e seis jornalistas, mas até o momento
apenas vinte e sete confirmaram presença.
— Acho que a escolha mais sensata são canapés, nada muito elaborado.
Em relação a bebida, talvez devêssemos optar por sucos ou refrigerantes, mas
nada com álcool, não queremos nenhuma confusão.
Ela anota em sua prancheta tudo o que digo, sua atenção não está
focada em mim, mas na tarefa que ela tem pela frente. Mesmo a essa
distância, consigo ver o seu olhar determinado, me passando uma pequena
esperança de que tudo ficará bem no final. Afinal de contas, meu tio é uma
cobra e sei que ele fará de tudo para que esse evento falhe, provando para
meu pai que não sou diferente dos meus irmãos.
Sinceramente, eu queria desistir, queria me dar por vencido e
simplesmente deixar o meu tio fazer o que ele quiser, mas eu não posso, não
posso falhar com o meu pai, não posso decepcioná-lo.
Segurando a maçaneta, planejo terminar esse encontro o mais rápido
possível, quero arrumar a bagunça do escritório antes de começar a treinar,
em voz alta, os meus discursos e propostas.
— Em relação aos móveis…
— No jardim tem um pequeno galpão com algumas cadeiras
montáveis, meu pai usava para alguns eventos, mas para os candidatos você
pode pegar as cadeiras do escritório. Não me interessa qual você pegará para
o Damascena, mas eu quero que seja usada a minha cadeira aveludada no
meu lado, pode ser?
— Claro, sem problema nenhum — ela responde.
Se concentrando em sua prancheta uma última vez, ela preenche mais
algumas informações e depois dá as costas, me deixando sozinho nesse
corredor.
Eu não quero isso, mas agora terei que correr contra o tempo para
conseguir me preparar para essa live debate. Estou tão cansado de tudo isso.
Capítulo 4
Cadeira
uando fui transformado em cadeira, parado em meio a minha própria
Q sala, sem poder ser capaz de me mover, fui consumido por um misto de
emoções, mas a principal delas era a dor de ter sido traído. Agora, com
as mãos da assistente de campanha sobre mim, me ajustando bem onde o
outro candidato deveria ficar, sinto tudo novamente, mas dessa vez dói muito
mais do que antes. Meu coração se despedaça e fica amarelado como espuma
velha usada demais e como espuma velha, eu fui descartado por ele.
A maior dor é que depois de uma das sensações mais avassaladoras que
senti enquanto cadeira, ele simplesmente voltou, limpou a bagunça e me
deixou sozinho naquele escritório. O dia todo, fiquei esperando por ele,
ansioso para o que virá a seguir, mas quando entraram no escritório e falaram
que eu seria a cadeira de um tal Damascena, me senti usado, deprimido.
Eu sei que o natural seria pensar que talvez seja algum tipo de
confusão, que essa estagiária me colocou no lugar errado, mas se aprendi
algo morando aqui, é que dificilmente um erro é feito nessa casa,
principalmente quando o assunto é política. Paolo é muito perfeccionista com
suas coisas para que erros sejam cometidos, eu estou aqui porque ele quer.
Com ajuda de outra assistente, ela me ajusta atrás de um púlpito, meio
escondido do público em potencial, mas um lembrete constante da minha
insignificância, nessa sala eu sou apenas mais um objeto, sem valor ou
significado. Olhando para o lado, me deparo com a cadeira ergonômica
horrorosa de Paolo, com seu ridículo apoio reforçado para lombar e seu couro
desidratado. Ela zomba de mim, em um lembrete constante de que aquele
momento que compartilhei com Paolo, não significou nada para ele.
Eu sou único, mas estou cansado de me sentir solitário.
— Nossa, essa cadeira parece tão confortável — comenta uma das
meninas, depositando sua mão sobre o meu acolchoado e fazendo pressão em
minha espuma. Em meio as emoções que estou sentindo, isso deveria me
passar algum conforto, mas só sinto o peso da traição caindo sobre mim mais
uma vez.
Não quero sentir suas mãos, não preciso da atenção de todos os
repórteres que estarão nessa casa ou das câmeras que se voltarão para mim.
Em outra vida, eu ficaria totalmente feliz com toda essa atenção, mas agora a
única atenção que me importa é a dele. Quero sentir as mãos de Paolo
passando de leve sobre meu tecido macio, quero escutar sua voz quando ele
não fala com ninguém em particular e quero sentir ele sentando em cima de
mim, com seus glúteos firmes se espalhando e se acomodando em meu
acolchoado.
A menina que me elogiava solta uma leve risada e aproveita esse
pequeno momento, para se sentar. Sua bunda é flácida e pequena, me
deixando totalmente desconfortável ao sentir sua pele meio suada contra meu
encosto delicado. Seu cabelo solto faz cócegas contra as minhas costas de
madeira e me sinto cada vez mais miserável, enganado.
Suas mãos suadas que outrora me tiraram do maior conforto que uma
vez conheci, agora se apoiam contra os meus braços, apertando as hastes e
deixando uma marca de mão na única região do meu corpo revestido em
couro legítimo. Como se não bastasse me machucar, agora ela me marca, me
mancha com suas mãos suadas e unhas mal-feitas.
— Nossa Cecília, você deveria se sentar aqui, é realmente muito
confortável — fala alegremente, me deixando mais bravo. Como ela ousa se
aproveitar desse momento para sentar em mim? Eu não sou um banco de
ônibus feito para qualquer um, eu sou uma cadeira fina, requintada. Não fui
feito para todas as bundas.
Para minha sorte, alguns funcionários que trabalham com a organização
do evento entram pela porta, atrapalhando os seus planos e me deixando
aliviado. Sem pensar duas vezes, elas se levantam e voltam a trabalhar,
organizando a sala e se focando na agenda política de Paolo.
Se antes eu acreditava que estava sozinho quando não tinha ninguém ao
meu redor, agora me sinto completamente desolado. Faz tempo que vi tantas
pessoas ao meu redor e enquanto eles correm pela sala, arrumando a plateia e
providenciando uma mesa, me lembro da minha vida, das coisas que
costumava fazer no meu tempo livre.
Parado aqui, como uma estátua sem ter autonomia sobre nada que
acontece comigo, eu testemunho a vida, vejo ela acontecendo em frente aos
meus olhos, passando diante de mim. Lentamente, minha dor se transforma
em raiva, ao passo que as vozes ao meu redor vão aumentando. Tenho
vontade de gritar, vontade de mostrar a todos que estou aqui, que também sou
alguém. Posso ser uma cadeira, mas também sou uma pessoa, mesmo que
toda a humanidade que um dia possuí foi roubada de mim, como num
simples passe de mágica.
Do outro lado da sala, um dos funcionários xinga e dá um chute em
uma das cadeiras enquanto os demais riem da cara dele. Eu sei que sou a
única cadeira mágica aqui, sei que essa é só mais uma cadeira de plástico que
um dos repórteres usará, mas não posso evitar ficar indignado e revoltado
com toda essa situação, com toda a crueldade.
Não aguento e desvio meus olhos de toda a situação, em um esforço
para tentar controlar minha raiva. No canto esquerdo da sala, um pequeno
bufê está sendo montado pelo pessoal da cozinha. Não são comidas
extremamente refinadas, apenas alguns canapés básicos. Minha raiva volta a
se tornar dor e saudade pela minha antiga vida. Não me lembro quais eram
minhas comidas favoritas, nem sei se eu tinha alguma. Quando foi a última
vez que comi?
Em meio a sentimentos e questionamentos o tempo passa, os ponteiros
do relógio dançam, indo para frente, mas nunca para trás. Em um momento
eles correm, fazendo com que perca noção da vida ao meu redor, mas no
próximo ele demora, quase não passa e nesses instantes me vejo acordado,
consciente da vida, daquilo que tive e nunca mais terei. Talvez a esperança
seja algo exclusivo dos humanos.
Sabe, eu fui criado pela minha avó. Quando era pequeno, minha mãe
sofreu com depressão pós-parto e minha avó costumava dizer que era porque
ela era muito nova para tamanha responsabilidade. Seu namorado terminou o
relacionamento quando soube que estava grávida e todos os sonhos que ela
tinha foram interrompidos.
Eu não sei se esses foram seus reais motivos, o que sei que um dia ela
simplesmente me deixou na porta da minha avó e nunca mais voltou. Eu
tinha apenas cinco anos na época e não conseguia entender o que havia feito
de errado para afastar a minha mãe.
Desde então, minha avó que já era bem idosa, fez de tudo para me criar
decentemente, para me tornar o homem que um dia já fui. Não havia
julgamento em seus olhos, assim como ela também não me culpava por tudo,
pelo menos, não como minha mãe fazia. Por isso, meus anos com ela só
poderiam ser descritos como calmos. Eu realmente gostava da maneira pacata
como ela vivia a vida.
Gosto de pensar que fiz companhia a ela em sua velhice, já que minha
mãe era filha única e não havia ninguém para cuidar ou morar com ela em
sua antiga casa. Mesmo que o começo da minha vida pareça um tanto quanto
triste, assim como a minha realidade atual, os anos que passei com aquela
velhinha, foram os melhores da minha vida. Eu fui feliz. Eu vivi uma vida
feliz.
Um de seus maiores ensinamentos é que eu não deveria ficar com raiva
de idosos, mesmo que alguns merecessem. Por isso, quando o outro
candidato entrou pela porta, chegando antes mesmo de toda a imprensa, com
sua bengala de madeira, passos lentos e um rosto enrugado, me senti culpado
por ficar revoltado, não era culpa dele que meu dono havia me traído.
A maioria dos funcionários havia deixado o salão há muito tempo, mas
alguns ainda persistiam dando os últimos retoques. Logo, quando o candidato
entrou com sua equipe de campanha e seus seguranças, ele conseguiu fazer
uma inspeção minuciosa em cada canto da sala.
Apesar de idoso, sua voz era muito profunda e calma, fazendo com que
todos aos seu redor tenham uma confiança muito grande nele. Acho que é
isso que acontece quando se passa muitos anos sendo comentarista de
futebol, você acaba desenvolvendo um magnetismo capaz de cativar os
outros ao seu redor.
Não parece que essa é sua primeira candidatura oficial, pelo contrário, a
maneira como ele discute suas propostas e avalia os problemas sofridos pelo
nosso país com tamanha seriedade, faz com que acreditemos que ele tem uma
experiência prévia, que ele realmente se importa.
Paolo tem muito o que trabalhar, não é por acaso que Damascena está
no topo das pesquisas. Meu dono pode ser mais novo, porém não passa tanta
segurança quanto ele.
Quando, do outro lado da sala, perto da porta, seus olhos caíram sobre
mim e sobre o púlpito, uma estranha sensação eriçou a minha superfície
macia, me passando um mau pressentimento. Apesar de amável, seus olhos
castanhos me davam, medo. Sinto que algo ruim acontecerá hoje e não gosto
disso.
Capítulo 5
Paolo
alta menos de uma hora para o debate começar e estou completamente
F nervoso, sei que fui isento de todo o trabalho que envolve a organização
do evento, mas isso não quer dizer que não havia tarefas que deveria
cumprir, discursos para pensar e respostas para formular. Honestamente, nem
sei como tive tempo para limpar toda a bagunça do escritório.
Minha tarde se resumiu em tentar me recompor ao mesmo tempo que
entro em pânico em meio de multidões. Definitivamente, não tenho aptidão
para ser político, nem sei como meu pai acreditou no contrário.
A única razão por subir nas pesquisas, foi pelo apoio de alguns outros
políticos e o investimento de dinheiro da família. Não pelas minhas
habilidades, mas ainda continuo surpreso com a rapidez que conquistei votos,
principalmente se considerar que entrei faz pouco tempo, sem nenhum
histórico prévio.
Se fosse em outras circunstâncias, até poderia ficar feliz, comemorar
essa vitória, mas não consigo dormir a noite com o pensamento das coisas
ilícitas que terei que fazer em nome do meu pai. As pessoas merecem mais,
elas merecem um candidato que trará avanços verdadeiros e se importará com
mazelas de um país, não eu ou qualquer pessoa relacionada a nós.
É estranho como essa culpa é nova, antes eu sabia o que minha família
fazia, mas ainda conseguia ignorar isso, conseguia deitar minha cabeça sobre
o travesseiro e ter uma excelente noite de sono. Era fácil ignorar o que não se
está vendo, pelo menos não com os seus olhos. Por isso, eu fiz um plano de
governo considerando alguns setores que deverão ser melhorados.
Se for para roubar dinheiro do governo, como minha família faz há
inúmeras gerações, quero pelo menos ajudar um pouco, ajudar com o que
puder. A pior parte é que não sei se estou fazendo isso pelas pessoas ou por
minha consciência.
Atravessando o corredor da nossa casa, paro bem em frente a porta do
quarto do meu pai, alinhando o meu terno e garantindo que pareça impecável
para ele. A boa educação é uma exigência dessa casa, mesmo que minha
chegada esteja sendo aguardada, já que ele insistiu para que nos
encontrássemos antes do debate, por isso bato na sua porta, aguardando que
ele me autorize a entrar.
Não me descreveria como uma pessoa ansiosa, mas odeio essa
necessidade que ele tem de demonstrar poder, sempre que me chama espero
longos minutos para que me autorize a entrar, é como se meu pai estivesse
jogando algum tipo de jogo psicológico comigo, um que ele precisa reafirmar
constantemente quem manda.
Para minha surpresa, quem abre a porta não é ele ou um de seus
assistentes, é a sua enfermeira, uma loira baixinha com um sorriso
encantador. Nos seus cinquenta anos de idade e com uma vasta experiência
com home cara, ela tem sido a maior responsável por auxiliar o meu pai com
a doença, já que ele recusa a receber ajuda de qualquer pessoa.
Meu pai é uma pessoa vaidosa, sempre preferindo receber a todos no
seu escritório e recusando a demonstrar o quanto é afetado por sua doença,
mas agora, entrando no seu quarto, eu percebo o quanto ele está debilitado.
Faz um tempo que não atravesso essas portas, da última vez me deparei
com um lugar com paredes escuras e móveis pintados de cinza, existia muito
espaço ocioso, mas meu pai não ligava para isso, ele sempre foi uma pessoa
prática.
Entretanto, agora me deparo com um quarto totalmente diferente. Eu
sabia que suas portas foram ampliadas para comportar a cadeira de rodas,
mas agora me deparo com um quarto todo adaptado, com barras,
equipamentos tecnológicos e outros utensílios destinados a facilitar sua vida.
As paredes escuras tornaram-se mais claras, ajudando a passar uma
ideia de calmaria, paz. Sua cama alta, havia-se tornado baixa e muito mais
tecnológica que antes, com um controle acoplado para incliná-la e seu
banheiro ultramoderno, agora era completamente adaptado e podia-se ver
uma cadeira dentro do box.
Eu já chorei hoje, mas sinto como se estivesse prestes a chorar
novamente, apesar de tudo ele é o meu pai e sinto muito por tudo que está
acontecendo com ele, por tudo que aconteceu. Meu pai está deitado na cama,
com sua pele incrivelmente pálida e bolsas sob os seus olhos.
— Boa tarde, pai — digo, tentando disfarçar a emoção na minha voz.
— Eu não gosto dessa roupa, você vai com ela para o debate? —
pergunta carrancudo.
— Eu estava planejando ir, o que há de errado com ela?
Ao meu lado, Quitéria a enfermeira, sorri ignorando o mau-humor do
meu pai, as enfermeiras antes dela não duravam uma semana no trabalho,
mas ela parece ter tanta habilidade que consegue driblar o coração peludo do
meu pai. Fechando a porta atrás de mim, ela indica para que sente na poltrona
próxima à cama. Fico impressionado com o quanto ela sorri, mas ao mesmo
tempo sinto-me contente por saber que meu pai está sendo bem cuidado por
ela.
Infelizmente, a poltrona não é tão macia quanto pensei, na verdade ela
é bem dura, fazendo com que me sinta completamente desconfortável. Se não
soubesse que ela é feita de tecido, poderia jurar que era de pedra.
Eu sou muito exigente para cadeiras, poucas conseguem me agradar,
mas claro é difícil me satisfazer quando eu já conheço a perfeição. Se
pudesse, correria até o meu escritório e arrastaria minha cadeira de veludo
preto até aqui, mas para o meu azar, sou obrigado a me contentar com isso.
— Você me chamou aqui para falar da minha roupa? — pergunto, um
pouco desapontado com sua reprovação.
Quanto mais rápido souber o motivo dele me querer aqui, mais tempo
tenho para me familiarizar com a sala antes que todos os repórteres cheguem.
— Não, eu quero falar sobre o debate — declara me pegando de
surpresa.
Ao deixar instruções específicas com a minha assistente, eu imaginei
que tudo já estava arranjado e planejado para a live. Eu não esperava que ele
me chamasse aqui para discutir meus sentimentos, mas também não sei se há
algo para se falar sobre o debate.
— O que há com o debate? — pergunto, demonstrando abertamente
minha confusão — Tudo já não está acertado?
— Não, ainda não definimos o que você vai falar — responde, fazendo
com que fique bravo com ele.
Achei que dessa vez as coisas seriam diferentes, mas novamente o meu
pai está controlando tudo, cada aspecto da minha vida. Ele está roubando a
minha autonomia.
— Eu pensei que poderia falar o que quisesse — digo, em uma
tentativa de fazê-lo ver o quão errado é isso.
— Pensou errado, esse é o seu primeiro debate…
— Eu achei que você confiasse em mim — talvez seja infantil da
minha parte, mas me sinto incrivelmente magoado por sua interferência, suas
palavras. É como se eu fosse um prisioneiro dessa casa.
— Não é sobre confiança é sobre a família, sobre o nosso dinheiro! —
grita, fazendo com que até a enfermeira se assuste.
Talvez tenha sido a agitação, mas ele começa a tossir. A enfermeira é
mais rápida do que eu, ela pega a água e corre para tentar ajudá-lo. Quando o
copo finalmente está em suas mãos e ele bebe do líquido cristalino, ela ajeita
sua almofada, tentando deixá-lo mais confortável.
Não é necessária nenhuma palavra, ela consegue me repreender com
apenas um olhar. É como se a mulher sorridente que abriu a porta não
existisse mais.
— O que você quer que eu fale? — pergunto, me sentindo
envergonhado pelo meu comportamento.
— Eu quero que você humilhe o Humberto — ele vai direto ao ponto.
— O quê? — pergunto, me recusando a aceitar que meu pai está me
pedindo para difamar a imagem de alguém ao vivo.
Humilhar um candidato é uma estratégia muito baixa, até mesmo para o
meu pai, não consigo acreditar que ele me pediu algo assim.
— Você é jovem, essa é sua principal característica e arma contra ele.
Quero que você use isso ao seu favor, mostre para eles que você é a melhor
opção enquanto ele é apenas um velho caquético.
— Eu não posso fazer isso…
— Ele está no topo das pesquisas, a melhor maneira de subir é mostrar
que ele é incapaz, que não tem como dar conta do trabalho.
Um silêncio tenso se estende entre nós. Estou em um impasse, mesmo
que seja um pedido do meu pai, não quero fazer isso com alguém.
— Eu não posso — repito, pontuando cada palavra.
— Eu estou morrendo e você é a única pessoa que pode continuar com
esse império, — afirma, muito sério — você sabe que seus irmãos são
incapazes e o seu tio, se assumir o meu lugar, não vai dividir o dinheiro com
vocês, ele é muito ganancioso para isso. Paolo, meu filho, você tem que fazer
isso.
Odeio isso, enquanto eles estão vivendo suas vidas não ligando para
amanhã, eu sou obrigado a ficar aqui e viver uma vida que não desejo. Eu só
quero fugir, correr para um lugar que eu não conheço ninguém e recomeçar
de novo.
— Eu faço isso — declaro, sem conseguir olhar nos seus olhos. Eu sei
que meu pai está morrendo, mas mesmo assim fico com raiva dele, com raiva
de toda a situação.
— Pode ir, era só isso que gostaria de falar.
Levantando, eu saio o mais rápido que consigo dali, mas quando
atravesso o corredor para voltar ao meu quarto, vejo meu tio saindo de
fininho com uma mala. Ele olha para um dos lado e vai de fininho, tentando
não ser visto por ninguém. Tenho um mau pressentimento sobre isso.
Respirando fundo, decido me concentrar no que é mais importante, no
debate que está por vir. Porém, o que mais me deixa animado é a expectativa
de encontrar minha cadeira amiga lá, eu não sentirei como se estivesse
sozinho.
Capítulo 6
Cadeira
esde o momento que Humberto Damascena entrou por aquela porta,
D cada segundo se arrastou. Posso ter desenvolvido uma certa simpatia
por ele, mas isso não significa que devo achá-lo legal, pelo contrário,
ele é muito enfadonho.
Na primeira oportunidade que teve, sentou-se em cima de mim e se
recusou a sair, as pessoas chegavam perto e ele repetia o mesmo discurso
como se não soubesse falar de outra coisa. Em meio a uma dessas conversas
até senti um escape de ar saindo de seus glúteos e estremecendo o meu
tecido. Ele soltou um pum em cima de mim.
Gradualmente, os jornalistas entraram pela porta, mas Paolo não
poderia ser visto em nenhum lugar. Mesmo com raiva dele, sinto falta de ver
o seu rosto magnífico e sua mandíbula bem definida.
Faltando dez minutos para o debate, o moderador chegou. Na minha
época de humano, não era uma pessoa que passava muito do meu tempo
assistindo debates políticos, mas eu definitivamente não esperar que um
moderador se parecesse assim.
Com um poncho de lhama roxo, uma calça social preta e mocassins
vermelhos, ele parece um desastre da moda. Nem mesmo a beleza de um
cabelo cacheado perfeito, olhos verdes e lábios carnudos compensam a sua
roupa feia.
Alguém precisa lhe dizer o quão horrendo é o seu look, porque assim
que ele entra na sala, todos parecem encará-lo. Até mesmo o chato do
candidato Damascena ri, mas de uma maneira muito mais discreta do que
outros jornalistas.
— Onde eles arrumaram esse garoto? — o candidato pergunta
discretamente para sua assistente.
— Ele é jornalista bem famoso nas redes sociais…
— Lembre-me, novamente, porque estou fazendo isso mesmo — fala
ranzinza.
— Porque você precisa de eleitores mais jovens.
Para a surpresa de todos, Paolo demora a chegar. O mediador fica bem
ao centro do palco entre os candidatos, mas escolhe se isolar de todos e não
interagir. Durante todo o tempo, ele escolhe permanecer de pé e fica
revisando suas anotações e potenciais perguntas.
Tentando trapacear, Damascena conversa com o rapaz, procurando
desculpas para falar sobre o debate. Apesar de sua aparência peculiar, ele é
muito inteligente, pois sempre arruma uma maneira de contornar suas
perguntas.
A um minuto do início, Paolo atravessa as portas acompanhado de sua
assistente pessoal, Sofia. Ele está divino, como sempre sua roupa está
impecável, só que desta vez ele usar um terno preto completo, com uma blusa
de botões por baixo, gravata de listras e um sapato elegante.
É difícil ficar bravo com ele, principalmente com um rosto tão
angelical desses. Porém, a traição é algo que nenhum rosto bonito pode
justificar, ele me deu prazer, me fez gozar, para depois me condenar a ser
espremido por outro homem, para ser sentado por outro alguém.
Atravessando a sala e subindo a escada do palco improvisado, Paolo
para quando me vê embaixo de Damascena, suas feições exibem um misto de
raiva e incredulidade. Sofia, pela primeira vez em sua vida, parece
preocupada.
Ele não me traiu. Contra todas as possibilidades, o meu posicionamento
foi um erro. As meninas que me pegaram no escritório se confundiram, essa é
a única explicação plausível.
— Humberto Damascena — fala Paolo, da maneira mais cordial
possível, esticando sua mãe e esperando que ele aceite seu cumprimento.
Lentamente, Damascena olha de cima a baixo, esnobando o meu
querido Paolo.
— Prazer em conhecê-lo meu jovem — diz, aceitando sua mão — você
é muito educado para um ladrãozinho de merda.
— Acho que você deve escutar isso a todo momento, mas você parece
mais velho do que aparenta, tem certeza de que não está mentindo sua idade?
— comenta com o seu sorrisinho provocador — Já conheci múmias muito
mais jovens do que você.
O cumprimento dura mais tempo do que o normal. Enquanto eles
apertam suas mãos, se encaram como se estivessem uma luta de MMA e não
um debate civilizado.
— Agora, você poderia fazer o favor de tirar sua bunda centenária da
minha cadeira favorita?
Sinto o meu coração de espuma voltar a bater novamente, em meio a
toda essa multidão, ele acabou de anunciar, publicamente, que sou sua
cadeira favorita.
— Essa é sua cadeira? Que notícia infeliz!
— Sim, parece que a organização se confundiu. Agora, você se levantar
ou precisa que eu chame alguém para te ajudar?
Ele me quer a todo custo, estou aliviado em saber que ele é fiel a mim,
fiel a nosso relacionamento de homem e cadeira. Porque, ao final do dia, é
em mim que ele quer sentar.
— São só cadeiras, não precisamos fazer tamanho alvoroço por uma
questão tão trivial.
— Eu sei, mas…
— A live debate vai começar, acho melhor ir para o seu lugar.
Mesmo a essa distância, consigo ver o tamanho da carranca de Paolo,
consigo perceber o quão incomodado ele está por essa troca involuntária. Eu
sei que ele quer insistir, quer convencê-lo a fazer a troca, mas com o começo
iminente do debate, ele é obrigado a simplesmente seguir para o seu lugar.
Quando percebe que a cadeira ergonômica foi a escolhida para ele,
percebo a saudade em seu olhar, o desejo de me possuir e descansar os seus
glúteos em meu macio estofado com toque aveludado. Para uma cadeira
como eu, esse olhar de desejo é o equivalente a um flerte, já que na mesma
hora sinto borboletas no meu estofado.
Entretanto, nem toda felicidade é plena, em meio a essas boas notícias,
sou obrigado a aturar esse idoso. Nada contra idoso, meu problema é com a
sua bengala, mais especificamente com a mania que ele tem de batê-la contra
as minhas pernas. A cada minuto que meu amado Paolo fala, ele insiste em
brincar com sua bengala como se fosse um lápis, chacoalhando para frente e
para trás, tocando na minha madeira nobre e deixando riscos em sua
superfície impecável.
Não há nenhum óleo de peroba nesse mundo que reverta os danos que
ele está me causando. Mesmo com a ponta sendo emborrachada, eu sinto os
danos que ele está me causado, sua violência disfarçada de mania. O que uma
cadeira tem que fazer para ter o mínimo de dignidade hoje em dia?
O debate começa com um tom acalorado, com Damascena trocando
farpas com meu amor. O moderador parece feliz a cada mentira que ele
inventa e não sei se é muito profissional de sua parte, mas ele deixou o
candidato ultrapassar o tempo permitido.
O tempo parece passar rápido e não consigo me concentrar no que eles
dizem, a única coisa que consigo fazer é admirar Paolo, a maneira como seu
cabelo cai no seu rosto quando ele fala com seriedade, como sua mão grande
pega no microfone e como o seu pomo de adão sobe e desce quando ele
engole em seco.
Percebo a crescente tensão no ambiente. Paolo olha de soslaio se
sentindo incomodado com o meu tratamento, com a tortura que Damascena
impõe com sua bengala. Seus olhos se estreitam, suas sobrancelhas estão
franzidas e seus lábios pressionado. O idoso que está sentado em mim
também sente essa tensão e imediatamente posso sentir suas costas ficando
eretas, arrumando sua postura em um claro gesto reativo.
— … quando falamos sobre a presidência de um país, estamos nos
referindo ao maior cargo político que há. As competências de um presidente
vão muito além de apenas aparecer e tirar fotos, é sobre o comprometimento
com o povo. Como o senhor planeja ter esse compromisso, quando
obviamente mal consegue comparecer em um debate?
— O que você está insinuando, seu mafioso de merda? — pergunta
Humberto, se levantando rapidamente, tão rápido que até eu fico chocado
com sua vitalidade recém-descoberta.
— Candidato Damascena, agora é a vez do candidato Manchetti falar,
você terá tempo para responder durante a sua retórica! — uma chuva de
flashes de câmeras se segue, todas focadas em Damasceno e sua raiva
aparente — Candidato Manchetti, pode continuar.
Paolo dá um sorriso de canto de boca. Há fogo em seus olhos e
qualquer idiota nessa sala pode perceber o quão satisfeito ele está com a
reação de Humberto. Ele quer isso, deseja o caos e o que vem com ele. Paolo
não gosta quando outras pessoas mechem no que é seu e eu tenho certeza de
que ele fará Humberto se arrepender de um dia ter sentado em sua cadeira
favorita.
— Candidato, a sua pergunta pode ter atrapalhado o meu tempo, mas
irei respondê-la. Eu não estou insinuando nada, não sou um homem de
insinuações como o senhor, que não tem coragem de fazer nenhuma
afirmação ou apresentar dados concretos. O que estou falando aqui, de uma
maneira bem clara para que todos os telespectadores entendam, é que você
está claramente mal de saúde, além de já ter atingido uma idade avançada.
Como o eleitor terá alguma confiança no senhor quando é óbvio que você não
conseguirá completar o seu mandato? Aliás, caso consiga…
Eu estava muito enganado quando achei que havia presenciado
Humberto em sua plena vitalidade e força. Em um momento que só pode ser
descrito como plena fúria, ele larga sua bengala e pega as minhas costas. Sua
pegada é, surpreendentemente, firme e ele consegue me segurar sem muito
esforço.
Enquanto cadeira, tenho muitas qualidades, mas nenhuma delas é ser
leve. Infelizmente com as adições implantadas por Giovanni, eu fiquei mais
pesado do que era antes, mas de alguma maneira, talvez movido pela ira, o
idoso consegue me levantar, não apenas me afastando levemente do chão,
não, ele me levanta completamente.
Se fosse em outro contexto e com outra pessoa, a sensação dele
escorregando suas mãos pelas minhas costas e apoiando na minha parte de
baixo, o que deveria ser minha bunda, teria eriçado todo o meu veludo, mas
agora só consigo sentir o desconforto que isso causa. Faz muito tempo desde
que alguém me apoiou dessa maneira firme e me tocou como ele toca, nem
mesmo Giovanni se atreveu a explorar esta região.
Nesse momento, percebo que mesmo velho, ele tem pegada. Através da
madeira, sinto a firmeza de seus calos e a força de suas mãos enrugadas. A
simples lembrança de como Paolo esfregou minhas pernas e me fez gozar, me
deixa querendo mais, ansiando por um toque humano.
Todo corpo tem seus desejos, até o corpo desta simples cadeira. Por
isso, leva um tempo para que eu volte a me concentrar na situação e me
lembre do que está realmente em jogo aqui. Sinto-me culpado, em meio a
algo tão perigoso para meu doce Paolo, me deixei ser levado pela luxúria.
Não importa a pegada dele, sempre serei leal ao meu dono, meu amor.
Como cadeira, não tenho vontade própria, autonomia sobre o meu
corpo, mas se tivesse, nunca deixaria ele me tocar ou esfregar suas mãos em
regiões tão delicadas. Meu coração já tem dono e não pretendo traí-lo.
Em um movimento que só pode ser descrito como acrobático, ele me
vira no ar e me levanta acima de sua cabeça. Não vejo o mundo da mesma
maneira, tudo está de cabeça para baixo. Agora, ele tem uma de suas mãos
em meu assento e a outra no meu encosto. Seu aperto é tão firme que
dificilmente cairia no chão.
— Candidato, não! — grita o mediador ao perceber que estou com as
minhas pernas voltadas para o ar e que Damascena marcha em direção a
Paolo. Todos os jornalistas escutam o apelo e a sala fica completamente em
silêncio. Desta posição, posso observar todos os rostos em choque, como se
eles não acreditassem no que estão testemunhando bem a sua frente.
Damascena não para, ele continua andando para frente.
Consequentemente, em uma tentativa de se proteger, o mediador deixa sua
posição, saindo do meio dos candidatos e pulando do palco. Quando ele
finalmente cai no chão, bem em frente a primeira fileira de cadeiras, posso
escutar o seu gemido, indicando que ele se machucou no processo.
Olhando para a cena bem a minha frente, o rapaz parece uma berinjela
madura, todo esparramado no chão com o seu poncho ridículo. Um dos seus
sapados desapareceu no meio do caminho, mas ele não deixa que isso o
impeça de se levantar e sair correndo da sala.
— Eu te desafio a fazer isso! — fala Paolo, quebrando o silêncio que
reina na sala. Todos os repórteres permaneceram parados em seus lugares, de
uma maneira bem similar a estátuas em um jardim, como se esperassem por
algo. Quando Damascena não para e continuar a marchar, suas câmeras
começam a disparar e sou cegado momentaneamente pelos flashes.
Entre um clarão e outro, vejo o momento exato que, ao fundo da sala,
uma jornalista se destaca em meio à multidão. Demora alguns segundos para
notar que ela subiu em cima de sua própria cadeira. Seus braços estão
balançando no ar, bem acima de sua cabeça em uma tentativa de chamar a
atenção.
Pelo canto do olho, Humberto parece pegar o movimento, ele vira seu
rosto e olha bem em sua direção. Eu me sinto aliviado, momentaneamente.
— Joga a cadeira! — fala, animada.
Lentamente, o alívio torna-se desespero. De tudo que ela poderia falar,
nunca pensei que fosse incentivar a violência contra o meu amor. Percebendo
o rumo dessa confusão, os seguranças parecem se lembrar de suas funções,
desgrudando da parede e abrindo caminho em meio à multidão de fotógrafos.
Os flashes continuam sendo disparados, mas agora os jornalistas estão
indo à loucura, a cada passo que Humberto dá, eles se aproximam mais do
palco, desejando ter uma visão privilegiada do que poderia ser descrito como
um potencial momento histórico.
Olhando para Paolo, percebo que ele permanece no mesmo lugar. O
outro candidato não o intimida e ele está disposto a mostrar isso.
— Não se enganem, ele não tem força suficiente para isso — diz Paolo,
em meio a todo caos.
Acredito em sua declaração, já que Damascena está cambaleando, seu
rosto está vermelho e seus braços tremem devido ao esforço. Usando a ira
como combustível e reunindo a força que ainda lhe resta, eu sou jogado em
meio ao ar, bem em direção a Paolo.
Eu gostaria de dizer que sua mira não era certeira ou que sua visão foi
afetada por todos os flashes das câmeras, mas infelizmente, posso sentir o
momento exato que a quina do meu braço atinge o supercílio de Paolo.
Nós dois caímos no chão, não muito longe um do outro. Para minha
surpresa, sou atingido por uma dor horrível que se estende por toda a
extensão do meu corpo. Enquanto vivi como cadeira, nunca senti dor, mas
agora eu sinto.
Olhando em direção a Humberto, vejo o idoso recuperando seu fôlego
devido a todo o esforço. Os seguranças finalmente nos alcançam e começam
a ajudar Paolo que está com o seu rosto todo ensanguentado. Quando percebe
a aproximação, o idoso me pega do chão e me joga novamente sobre o meu
dono.
Dessa vez, eu o acerto no braço e saio voando em direção à plateia,
derrubando um grupo de repórteres e caindo direto no chão. Mesmo que eu
tenha sido jogado com menos força dessa vez, meu corpo dói mais do que
nunca devido à queda.
Finalmente, os seguranças conseguem conter os candidatos e todos os
jornalistas ficam decepcionados com essa intervenção. Porém, mesmo com
dois homens o segurando, Humberto continua xingando Paolo e falando as
maiores obscenidades.
O homem ao qual devoto o meu coração, é encaminhado para o
hospital por toda a sua equipe e lentamente o salão fica vazio, mas continuo
aqui, indefeso, com minhas pernas viradas para cima.
A culpa e a frustração caem sobre mim. Culpa por não poder parar todo
o ataque de Humberto e frustração por não poder me mover. Eu fui usado e
machucado, mas continuo aqui, continuo esparramado para quem quiser me
ver.
Eu quero chorar, gritar ou bater em alguém, quero me sentir aliviado,
irado e indignado. Quero me sentir uma pessoa de novo, alguém que tem
autonomia sobre seu corpo, sobre sua vida.
Então rezo, sem palavras, para que alguém me encontre e me coloque
de pé novamente.
Capítulo 7
Paolo
u nunca me senti tão irado na vida quanto hoje, até mesmo quando meus
E irmãos quebraram o pente da minha mãe eu não fiquei com tanta raiva
assim, mas olhando para Damascena enquanto se senta na minha cadeira
favorita, sinto como se pudesse cometer um assassinato bem em frente às
câmeras.
Nunca fui um homem que gostou de humilhar outra pessoa,
principalmente uma lenda da televisão esportiva, mas aproveitei cada
segundo desse debate, cada momento que vi seu rosto se retorcendo de raiva.
Ele não pode simplesmente sentar na minha cadeira e não esperar uma
retaliação.
Honestamente, até o momento que entrei naquela sala eu não tinha
nada contra ele, inclusive estava decidido a ser cordial e desobedecer ao meu
pai, mas ele tinha suas mãos fincadas sobre um dos meus objetos. Algumas
pessoas não merecem a bondade de nosso coração.
Talvez eu tenha sido arrogante demais, porém nunca achei que ele teria
força suficiente para conseguir me acertar. Eu sei que pessoas com raiva
conseguem fazer coisas que até o diabo dúvida, mas levantar a minha cadeira
de mogno estava muito além de suas competências.
Quando levantou a levantou acima de sua cabeça, senti meu coração se
acelerar, ele não tem o direito de fazer isso, de machucar um dos meus bens
mais preciosos. Um osso pode ser remendado, mas um dano nesse mogno
perfeito, liso e lustroso, não tem conserto, apenas a substituição.
Nesse momento eu não pensei direito, apenas sabia que deveria salvá-la
dos danos a longo prazo. Eu poderia ter saído do meio do caminho, poderia
desviar, mas isso significava que seu dano seria maior, que ela bateria direto
no chão. Então fiz a única coisa que pensei naquele momento, usei meu corpo
como escudo, amortecendo sua queda e tentando preservar sua madeira
nobre.
Senti o exato momento que sua quina arredondada cortou meu
supercílio, o sangue jorrou, mas a única coisa que conseguia pensar era se
minha cadeira havia sobrevivido ao impacto e se ela tinha algum dano
permanente.
Mesmo me acertando, levei alguns segundos para perceber que
Damascena não estava satisfeito, ele queria me machucar mais, meu sangue
não era o bastante. Então, ele me acertou novamente, jogou ela no meu corpo,
mas não tive tanta sorte quando da primeira vez, não consegui amortecer sua
queda.
Vê-la caindo do palco em direção aos jornalistas foi incrivelmente
doloroso. Ela ficou com suas pernas para cima e seu estofado aveludado
virados para baixo. Não conseguia ver claramente os danos que lhe foram
inferidos, mas sei que algo deve ter acontecido.
Os seguranças que estavam nos seus cantos, nos abordam separando a
briga, mas isso não foi o suficiente para me separar daquele velho, ele ainda
continuou me xingando e chamando de nomes horríveis.
Eu tentei, de todas as formas, alcançar minha cadeira, tentei me
desvencilhar de todos aqueles homens, mas não consegui. Quando a
ambulância chegou, ela ficou naquela posição indigna e qualquer um poderia
vê-la assim.
Eu estava na minha casa, cercado por minha família, mas quando a
ambulância chegou não havia ninguém para me acompanhar, apenas a minha
assistente pessoal. Porém, eu sei que ela só me acompanhou porque é o seu
trabalho, sua tarefa fazer isso.
Deitado na maca, com os paramédicos me atendendo, tudo que consigo
pensar é na minha cadeira e na solidão que ela está sentindo. Eu também
sinto, também estou sozinho, sem ninguém para me ajudar.
— Podemos usar isso ao nosso favor — fala Sofia, sem ao menos olhar
nos meus olhos.
Deitado, eu consigo ver apenas o teto da ambulância e nada mais.
Mesmo com a sirene ligada, ela não entende a gravidade de toda a situação.
Minha roupa está arruinada, cheia de sangue, mas ela só vê dados e
pesquisas, não um ser humano.
— Como assim? — pergunto, em uma tentativa de trazê-la para a
realidade, de fazer com que ela me veja de verdade.
— Um candidato agressivo é incapaz de exercer um mandato, ainda
mais um idoso delirante como ele.
Para minha decepção, ela continua olhando o maldito tablet, continua
ignorando a gravidade de toda a situação.
— Você quer usar o isso contra ele?
— Você não vê isso, é a nossa chance de ganhar!
Ao final do dia, isso é a única coisa que importa para eles, ganhar. Eu
não sou uma pessoa aos seus olhos, eu sou um meio para um fim, um objeto
destinado a lhes trazer lucro e prestígio.
Quando foi a última vez que fui eu mesmo?
Capítulo 8
Paolo
travessando as portas francesas com o óleo de peroba em minhas mãos,
A me deparo com uma bagunça. Eu sei que o debate foi uma confusão,
mas ver a consequência disso bem a minha frente, é algo totalmente
diferente. Principalmente porque me deparo com o descaso dos funcionários
que não arrumaram esse lugar, apenas algumas coisas pontuais como a mesa
de canapés.
Tenho consciência que está tarde e não é à obrigação deles, mas ver
minha cadeira na mesma posição degradante que aquele idiota a deixou, é de
partir o coração. Andando em meio as outras cadeiras caídas e alguns objetos
perdidos, chego bem em frente ao palco para ver a extensão dos seus danos.
Não preciso me curvar para perceber que uma de suas pernas tem uma
marca da bengala. Sinto-me extremamente culpado, eu sou o dono dela, sou
aquele que deveria protegê-la, mas deixei que um idiota tirasse proveito de
uma situação e a machucasse.
— Me desculpa — falo, sem me importar que alguém entre e me veja
conversando com um móvel — Eu deveria ter cuidado de você, é minha
culpa.
Delicadamente, eu a coloco de pé, verificando se não há nenhum outro
dano. Esfregando seu encosto macio, sinto uma lágrima cair dos meus olhos e
percebo que estou chorando por tudo que ela passou.
— Tudo vai ficar bem, eu te prometo. Nós ficaremos bem.
Quando eu era mais novo, minha mãe costumava beijar minhas feridas
e dizia ser o seu segredo mágico, apenas um beijo fazia poderia sarar.
Obviamente eu sei que é mentira, sei que nenhum beijo consegue melhorar
um machucado, mesmo assim, me curvo e beijo a cadeira, não é nada
obsceno, eu apenas encosto os meus lábios contra o seu encosto. Dura apenas
um segundo, mas quando me afasto, vejo que algo estranho acontece.
Olhando mais atentamente, observo pequenos movimentos no veludo,
como se algum tipo de animal estivesse preso sob o tecido, depois escuto um
barulho que se assemelha muito a madeira sendo quebrada. Imediatamente,
meus olhos se voltam para suas pernas, mas sou surpreendido quando, no
lugar de quatro pernas de madeira vejo seis e duas delas são do mesmo tecido
que a reveste.
Dando um passo para trás, tento me afastar do que está acontecendo
bem diante dos meus olhos. Por alguns segundos, considero se deveria voltar
ao hospital, porque definitivamente parece que tenho uma concussão.
Entretanto, um gemido sexy chama minha atenção e a curiosidade vence.
Minha cadeira parece se transforma bem na minha frente. As
ondulações do tecido tornam-se mais violentas, ao mesmo tempo que seus
braços se tornam mãos feitas de couro. Logo, observo o nascimento de um
ser completo e humanoide.
Essa é a coisa mais estranha e espetacular que já ousei testemunhar na
minha vida. Em um momento havia uma cadeira, mas agora há uma pessoa,
um ser. Ele se estende na minha frente, se levantando e usando suas pernas
como apoio. Sempre me considerei um homem alto com meus 1,80 m de
altura, mas ele me ultrapassa, tendo facilmente mais de dois metros.
Agora, há um corpo feito inteiramente de veludo na minha frente, pelo
menos quase de veludo, seus braços são de mogno, formando um complexo
desenho de músculos, suas mãos são de couro, dando a impressão que ele
colocou algum tipo de luva por cima.
Entretanto, o que me fascina é a formação da parte inferior. Bem na
minha frente, vejo as antigas pernas da cadeira penduradas na região que
deveria ser sua pélvis. Gradualmente, a madeira se curva e os pés se juntam
formando um pênis de madeira.
Estranhamente, o risco que Damascena deixou com sua bengala
permanece na madeira. Bem na ponta do seu pau, vejo o risco, dando um
estranho charme para o seu membro.
Não sei se ousaria chamar o membro de pênis, visivelmente ele é um
formato cilíndrico, sem a presença de uma cabeça, mas é inconfundível que
este membro se estende bem a sua frente, muito mais longo e grosso do que
qualquer pau que já vi na minha vida.
Estranhamente, sou surpreendido pela sua beleza do seu rosto, com
seus olhos de botão revestido, boca de veludo carnuda e um narizinho muito
fofo que dá a ele um ar angelical.
Observando todo o conjunto, sinto-me muito mal por ter chamando a
minha cadeira de ela por todo esse tempo, eu sei que esse é o pronome
correto para quando se refere a uma cadeira, mas não há dúvidas que ele é
uma cadeira macho, pelo menos não com aquele tamanho de pau.
Ele fica tão surpreso quanto eu, pois balança suas mãos na frente do
rosto não acreditando no que acabou de acontecer. Passando por mim, vai até
onde estava a antiga mesa de canapés e para em frente a um espelho de corpo.
Eu não sei o que fazer, sinto como se meus pés estivessem colados no
chão. Parado, eu observo enquanto ele se olha no espelho, virando de um
lado para o outro.
Depois de um tempo, ele parece acreditar em toda a situação e volta a
se lembrar de que eu também estou na sala.
— Paolo? — fala, me assustando.
— Você sabe o meu nome? — é besta perguntar isso depois que ele
falou em alto e bom som, mas preciso saber se ele se lembra dos dias que
passamos juntos, dos momentos que dividimos. Será que ele continuará
sendo o meu amigo agora que é um homem?
— Sim, eu meio que estava consciente enquanto era uma cadeira —
admite, com suas bochechas assumindo um tom mais escuro, dando a
impressão de que está ruborizando.
Porém, o alívio de saber que ele se lembra do nosso tempo juntos, é
substituído pela culpa dos recentes eventos. Ele não mereceu passar por tudo
aquilo.
— Sinto muito pelo que ...
— Não é sua culpa que ele me jogou — declara, me surpreendendo —
você está bem?
Ele se preocupa comigo? É difícil acreditar nisso, mas parece muito
genuíno, como se houvesse reciprocidade em todos os meus sentimentos.
— Você é a primeira pessoa que me pergunta isso hoje — admito
baixinho, evitando o seu olhar e observando o meu sapato. Nunca fui uma
pessoa muito tímida, mas existe algo nele que desperta esse meu lado.
— Eu me importo com você — fala com a sua voz grossa e sexy,
fazendo com que meu coração se acelere e meu pau fique duro.
Eu não sou um pervertido, nunca fiz coisas inadequadas com a minha
cadeira, ou com os objetos que eram meus amigos, sempre foi uma questão
de conexão emocional, mesmo que minha conexão com ele seja forte. Porém,
agora que ele é uma pessoa, não posso negar esse sentimento, esse desejo
obscuro de me entregar, de sentir.
— Eu estou bem, foi só um corte pequeno — comento.
— Ainda assim você foi para o hospital, tem certeza de que realmente
está bem?
— Eu fui por causo do meu braço, eles acharam que eu poderia ter
fraturado.
Um silêncio se estende entre nós e fico desconfortável em sua presença,
tento ao máximo não olhar para baixo e encarar o seu pau, mas meu olhar é
atraído para aquela região.
— E o braço está fraturado? — pergunta tão desconcertado quanto eu.
— Não, o mais grave é o corte.
Nos encaramos, um silêncio se estende carregado de coisas que
queremos dizer, mas não conseguimos. Ele é lindo, deslumbrante e sua
madeira é a mais lustrosa que existe, principalmente agora que elas se
juntaram nesse pau de tirar o fôlego. O que eu não faria para me sentar nele
novamente?
Atravessando a sala em minha direção, ele para bem na minha frente.
Estendendo a sua mão, ele toca o meu supercílio, onde tenho meus pontos e o
curativo. Instintivamente, faço careta e vejo o desconforto no seu rosto.
— Doeu muito? — pergunta e eu fico um pouco mais apaixonado por
ele.
— Não tanto quanto deve ter doído para você — comento, tentando dar
mais uma inspecionada e ver se há mais danos nele.
— Sabe, eu me importo, você não precisa mentir como você faz com as
outras pessoas — ele comenta e percebo que durante todo esse tempo ele
esteve lá, me assistindo.
— Eu também me importo com você — talvez seja loucura, mas a
solidão que sentia parece ter sido reprimida, diminuído.
— Você não merece se sentir tão sozinho Paolo — comenta e percebo
que ele viu toda a cena mais cedo, ele esteve lá e sentiu minhas lágrimas —
eu também me sentia sozinho, eu ficava preso em um mesmo lugar, sem
poder me mover.
— Imagino que deve ser um alívio, ter pernas. Agora você pode ir para
onde quiser…
— Mas eu não quero, não quero ir para nenhum lugar. Eu quero ficar
com você.
Eu sinto essa conexão inexplicável entre nós, mas não poderia
adivinhar que ele também sente isso. É loucura, ele não é nem mesmo
humano, mas ao seu lado eu me sinto alguém.
— Qual o seu nome? — pergunto culpado, por não saber nada sobre
ele.
— Você só vai me deixar ficar aqui se eu disser o meu nome?
— Sim, assim que você disser o seu nome, podemos oficialmente nos
considerar amigos — assim que as palavras deixam a minha boca, percebo
que cometi um erro, já que ele parece ficar triste com a minha afirmação.
O meu pobre coração se quebra em muitos pedaços, ele quer ficar em
um lugar familiar, mas não sei se ele quer ser meu amigo.
Ele disse que se lembra do período que era uma cadeira, mas e se essas
memórias forem ruins para ele? Desde que o vi, não pensei nessa
possibilidade. Além disso, ele provavelmente sabe tudo sobre mim, mas eu
não sei nada dele, não sei como foi parar nessa forma ou se ele já foi uma
pessoa um dia.
— Eu não lembro do meu nome, mas não quero ser seu amigo, eu
quero ser muito mais do que isso.
Em um momento estamos separados e no próximo ele me beija com
sua boca aveludada, não é um beijo de língua, mas é o suficiente para me
fazer sentir no céu.
— Eu quero você — anuncia no meu ouvido, bem baixinho
Capítulo 9
Cadeira
— Essa é minha primeira vez — fala baixinho sem encontrar os meus
olhos.
Por um momento não sei o que dizer ou como reagir a essa sua
declaração. Eu sei que Paolo nunca mentiria para mim, mas isso não pode ser
verdade, um homem tão bonito e gentil como ele deve ter muitos
pretendentes. Ficamos parados em meio ao pandemônio, mas nada disso
parece importar perante a guerra que há dentro do meu coração de espuma.
— Você nunca…
— Não — admite, encontrando meus olhos e suspirando — você se
importa com isso?
Eu me importo com isso? Sim. De todas as pessoas com a qual ele
poderia dividir esse momento especial, ele me escolheu, mesmo com minha
aparência nada agradável. Esse momento significa tudo para mim.
— Desde que você não se importe que sou um homem cadeira, eu não
me importarei que você seja virgem.
O rubor se espalha por suas bochechas enquanto ele diminui a distância
entre nós. Nossos olhos se encontram e sua respiração assume um ritmo
irregular, uma clara demonstração de excitação. Suas mãos se apoiam no meu
peito musculoso e ele fecha os olhos lentamente, esperando que eu tome
iniciativa. Devido à nossa diferença de tamanho, tenho que me curvar para
conseguir beijá-lo, mas assim que sinto seus lábios sobre os meus, nada disso
parece importar. O mundo poderia acabar, mas eu não ligaria para isso,
definitivamente sou a cadeira mais feliz que já existiu.
Estou faminto por ele, o desejo me consome e sua bunda firme
preenche os meus pensamentos. Por muito tempo, meu veludo só sentiu a sua
superfície, mas agora finalmente adentrarei em suas profundezas glúteas, não
só isso, mas ele confia em mim para explorar seu interior jamais desbravado.
Nunca tive uma língua de veludo antes, mas devo admitir que é
hipnotizante beijá-lo. O molhado se encontra com o seco, o veludo com a
carne. A cada segundo que nossas línguas se encontram, posso sentir suas
papilas gustativas dançando com o meu tecido em um tango incrivelmente
apaixonado, um encontro inesquecível.
É verdade que não tenho lábios, minha boca é só mais um orifício
artificial do meu corpo, mas a pressão de seus lábios fartos é completamente
cativante. Mesmo com nossas texturas diferentes, complementamos um ao
outro e nos entregamos a esse momento único. Tudo é novo nesse corpo,
inclusive meu pau de madeira que se torna mais rígido a cada segundo.
Não faz sentido, por natureza a madeira é um material rígido, mas a
magia que vive em meu corpo faz coisas estranhas, coisas que antes julguei
serem impossíveis. Assim como a madeira foi contorcida para formar meu
pau, ela também assumiu a característica de ficar duro ou semirrígido
dependendo da minha excitação. Infelizmente, minhas bolas não são feitas do
mesmo material, elas são de veludo como o resto do meu corpo, dando um
estranho contraste para a minha região íntima.
Não sou exatamente uma pessoa e não sei se um dia sequer serei
humano novamente, mas não deixarei que isso me impeça de viver, de correr
atrás do que desejo.
Sentindo essa protuberância entre nós, ele interrompe nosso beijo,
dando um pequeno passo para trás e vejo o exato momento em que seus olhos
se arregalam ao perceber que estou completamente ereto. Existem, coisas que
nem mesmo uma ex-cadeira como eu pode evitar, Paolo é tão lindo e beija
tão bem que só um toque seu é suficiente para levantar a minha madeira. Eu
sei que sou grande e grosso, mas não quero assustá-lo, pelo menos não agora.
— É sua primeira vez, tem certeza disso? — pergunto baixinho.
Ele é tudo que eu sempre quis, mesmo quando era apenas uma cadeira.
Porém, eu nunca faria nada sem seu consentimento, sem que ele me garanta
que quer também. Eu não me importo em esperar para que ele esteja pronto
ou simplesmente em ser seu amigo, eu me contentaria em amá-lo de longe se
ele disser que não me deseja. Só porque não sou um homem, isso não
significa que não tenho humanidade.
— Eu quero que seja com você — declara com a sua boca inchada do
nosso beijo.
Vejo a determinação estampada em sua cara, ele não parece ter mais
nenhuma dúvida sobre nós. Se aproximando novamente de mim, ele descansa
suas mãos no meu peitoral e me olha sobre os seus longos cílios.
— Você é a única pessoa que eu quero — declara me surpreendendo.
— Eu não sou uma pessoa, eu sou um monstro.
— Não, você não é — a maneira que ele fala, faz com que eu acredite
em suas palavras, que eu me sinto bonito nessa forma.
Mesmo assim, eu preciso garantir que não há mais dúvidas. Uma das
minhas mãos desliza pelas suas costas e finalmente consigo apalpar sua
bunda firme. Olhando em seu rosto, espero ver a incerteza novamente, mas
me deparo com a teimosia, com um homem que já colocou uma ideia na
cabeça e não desistirá.
Não desejo ver o arrependimento no seu rosto, não quero que ele se
sinta receoso por dormir comigo, mesmo que eu não seja um monstro aos
seus olhos.
— Quero que você me mostre o que fazer…
Existe um toque de malícia em seus olhos que nunca vi antes. Não sei
se entendi direito, mas parece que Paolo quer mais do que apenas perder sua
virgindade.
— O que você quer dizer com isso? — pergunto, mas não há nenhuma
resposta, ele apenas ruboriza mais do que antes — Quero te agradar, é um
momento especial para você, mas não posso fazer isso se não me dizer, com
todas as palavras, o que espera de mim.
— Eu sou virgem, mas não ingênuo.
— Não imaginava que fosse — falo, passando minha mão
delicadamente no seu rosto, fazendo carinho e deixando ele mais a vontade
para se abrir comigo.
— Eu sempre me senti excitado com a ideia de homens mandando em
mim — murmura tão baixinho que tenho que me esforçar para escutá-lo.
— Então é isso que você quer, que eu mande em você?
— Sim.
Não digo para ele, mas isso também me excita. Quando era humano
nunca fui muito mandão na cama, pelo contrário, mas após passar tanto
tempo preso dentro do meu próprio corpo aceitando o controle que os outros
tinham sobre mim, me sinto aliviado em assumir o controle de toda a
situação. De liderar alguém, nem que seja só para o sexo.
De certa forma, acho que meu exterior monstruoso reflete meu interior,
por tanto tempo fui uma cadeira que não sei mais me comportar
decentemente como um homem, ainda mais na cama. Droga, eu nem mesmo
lembro mais o meu nome.
Paolo suspira, me tirando dessa espiral de pensamentos e nos
separamos novamente. Mesmo com a distância entre nós, sinto seus olhos
queimando sobre mim com uma determinação inabalável e, nesse momento,
sei que nada fará com que ele mude de ideia.
— Você vai…
— Sim, mas antes algo a fazer — seus olhos encontram os meus e ele
arqueia suas sobrancelhas de uma maneira provocativa.
— Tenho?
O exterior de menino tímido se desfaz gradualmente, a cada segundo
que passamos juntos ele assume mais confiança, sentindo-se à vontade na
minha presença. Sexo é sobre isso, não apenas intimidade, é sobre confiar na
outra pessoa, no seu parceiro.
Ele não é o único que está mudando, eu estou me sentindo mais
humano a cada momento que divido com ele. Sua confiança faz com que
esqueça que não sou o homem que um dia fui.
Precisando tocá-lo, diminuo a distância que nos separa e coloco minha
mão na sua nuca, agarrando seu cabelo e nos deixando cara a cara. Devo
admitir, fui um pouco mais bruto que o normal, mas ele parece gostar quando
me comporto dessa maneira.
— Você trouxe aquele óleo de peroba vegano que pode ser ingerido?
— pergunto de maneira provocativa.
— Sim — responde baixinho, um pouco confuso.
Aumentando o meu aperto sobre o seu cabelo, inclino sua cabeça para
cima, quero olhar em seus olhos quando falar o que tenho a dizer. Nunca fui
muito mandão na cama, mas estou pronto para tentar, por ele.
— Eu quero que você pegue o óleo e lustre a minha madeira, humano!
— O quê?
— Hoje quem manda sou eu. Você obedecerá a sua cadeira e se
reclamar demais, no final da noite, sentarei em você!
Eu solto seu cabelo e ele se afasta perplexo, mesmo assim noto a
maneira que sua respiração está superficial, suas pupilas dilatadas e a marca
em sua calça sob medida. Ele fica parado, me encarando como se não
houvesse entendido nada do que disse ou como se não esperasse por isso.
— O óleo de peroba — repito pontuando cada palavra e quebrando o
seu transe.
Em meio a bagunça, observo enquanto Paolo dá as costas para mim e
se dirige até a pequena garrafa que ele deixou perto da entrada. Por sua vez,
eu procuro uma cadeira para me sentar, mas nenhuma parece capaz de me
acomodar ou aguentar o meu peso. Olhando por cima do ombro, vejo o palco
pelo qual fui jogado e tenho uma ideia genial.
Do outro lado da sala, com o óleo de peroba em suas mãos ele me
observa confuso enquanto subo a escada e coloco aquela aberração de cadeira
ergonômica no meio do palco.
Sentindo-me um pouco poderoso tendo meu corpo sobre o meu
comando novamente, eu jogo o púlpito, fazendo com que ele caia bem em
frente as cadeiras usadas pelos jornalistas.
Paolo me olha de uma maneira interrogativa, mas não ousa falar nada.
Eu me sento na cadeira e o encaro enquanto ele permanece parado com o óleo
em suas mãos.
Talvez eu seja um homem possessivo, porque nesse exaro momento,
sentado na cadeira ergonômica horrível, sinto-me a cadeira vitoriosa, aquele
que finalmente ficará com Paolo e não tenho vergonha de esfregar isso bem
na cara dela.
— Vem, meu humano, está na hora de você passar o óleo de peroba na
sua cadeira favorita. A menos que você não queira lustrar a minha madeira.
Meu pau de madeira, sem brilho, está mais duro do que nunca e um
líquido incolor começa a sair de sua ponta. Não sou especialista em biologia,
mas de alguma forma tenho certeza que é seiva de árvore. Talvez seja devido
à magia.
Chegando ao palco, seu nervosismo é palpável. Parado bem ao final da
escada, ele brinca com o olho de peroba, passando de uma mão para a outra,
enquanto caminha devagar até onde estou. Ele não sabe o que fazer, mas
escolhe confiar em mim, na minha experiência.
— Você está demorando muito, — provoco com um sorrisinho,
tentando quebrar o clima e deixá-lo mais à vontade
Paolo ri e esse é um dos sons mais bonitos que já escutei na vida. Eu
me sinto genuinamente feliz com esse momento. Estendendo a mão, ele me
passa o óleo enquanto me observa com seus grandes olhos castanhos.
Quando era uma cadeira, eu detestava esse óleo, o quão grosso era e o
seu cheiro de morango. Eu sei que ele é uma alternativa ecologicamente
correta e segura para as casas com crianças, mas nunca entendi a razão de
preferir isso ao óleo real. Entretanto, agora não poderia estar mais feliz por
sua escolha, nós realmente vamos nos divertir com isso.
— De joelhos — ordeno, ao mesmo tempo que abro minhas pernas
para ele se acomode entre elas.
Por cima dos ombros, ele olha para a porta fechada como se esperasse
que alguém entrasse. Estendendo o meu braço, pego o seu queixo e o viro
para frente, para mim.
— Só tem eu e você aqui, — ressalto — mas se quiser desistir…
— Não
Sem esperar que eu termine minha frase, ele segue as minhas ordens se
ajoelhando entre as minhas pernas e ficando com o meu pau bem a sua frente.
Abrindo a embalagem de óleo de peroba, eu derramo seu conteúdo em
minhas madeira. Ao invés de apenas usar uma pequena quantidade, eu não
paro, continuo derramando óleo sobre o meu pau até o óleo preencher toda a
minha superfície.
— Agora, humano, você vai polir a minha madeira com as mãos!
Capítulo 10
Paolo
le me enxerga. Toda vez que sinto seus olhos de botão me vigiando,
E observando meus movimentos, sei que ele me deseja de verdade. Não
sou o político ou o filho de um mafioso, eu sou apenas Paolo.
Pode ser muita ingenuidade da minha parte, mas a conexão que senti no
dia que o vi pela primeira vez está mais forte, mais sólida. Ele não é apenas
um móvel que eu converso esporadicamente ou um objeto que considero ser
meu amigo, ele é uma pessoa, alguém real que me valoriza e me entende, mas
acima de tudo ele é o único que se importa.
Quando ele se transformou em um homem e nossos olhares se
cruzaram pela primeira vez, eu sabia que ele não era o único a se livrar de
uma maldição, uma jaula, eu também havia me livrado de uma. Por anos,
estive atendendo expectativas irreais, me forçando a ser quem esperavam que
fosse, mas não mais.
A solidão que sentia, o medo da rejeição não estão mais aqui. Eu tenho
alguém ao meu lado, mesmo que essa pessoa não seja totalmente humana. Na
verdade, isso não importa, eu só quero sentir o seu toque na minha pele e o
nosso amor sendo concretizado.
Esse é o meu primeiro passo para a liberdade e o darei com ele. Se um
homem pode se livrar de uma maldição devido a um simples beijo, eu
também posso me livrar dessa vida que nunca desejei, que foi imposta no
momento que nasci.
Eu sei que parece contraditório querer ser mandado e desejar a
liberdade, mas é diferente, estou seguindo suas ordens, suas instruções,
porque desejo, não porque sou obrigado. Eu tenho o poder de escolha aqui. A
qualquer momento que quiser posso parar, posso falar que mudei de ideia e
sei que ele vai me respeitar.
Tantas vezes eu já fiz isso, mas essa é a primeira vez que me ajoelho
perante sua forma meio humana. Sua voz arrepia os pelos do meu braço e me
faz ficar duro com o pensamento do que ele pode sussurrar no meu ouvido.
Seu sorriso malicioso confirma que ele gosta dessa visão, gosta de me olhar
indefeso esperando uma de suas ordens.
O óleo de peroba cai sobre seu pau de uma maneira muito tentadora e
me aproximo para sentir o cheiro de morango. Porém, esse não é o único
cheiro que sinto, há também um cheiro doce, profundo, que é extremamente
familiar.
Olhando para a ponta de seu pau, onde há uma pequena abertura, vejo
um líquido espesso e transparente saindo dele. Demora um tempo, mas
percebo que esse líquido é igual às poças que se formaram na cadeira.
— Esse líquido…
— Se você esfrega a madeira de um homem com tanto vigor, não
deveria ficar surpreso em encontrar esse resultado — fala, chegando perto de
mim.
— Mas você era uma cadeira — respondo, tentando encontrar algum
sentido em tudo isso.
— Uma cadeira mágica.
Só a lembrança me dá água na boca, é difícil resistir a vontade de
estender minha língua e lambê-lo. A pior parte é que seu pau me lembra
muito um pão trançado, com suas antigas pernas retorcidas uma sobre as
outras. Eu quero colocá-lo dentro da minha boca, quero sentir o gosto .
— Não! — fala ao ver as minhas intenções estampadas no meu rosto —
Mais tarde teremos tempo para isso, agora você vai polir a minha madeira
com suas mãos fortes.
Demora um pouco para perceber que ele me deu ordens, estou muito
distraído com meus pensamentos safados e com a possibilidade das coisas
que faremos mais tarde.
Pegando na base de sua madeira, sou obrigado a usar minhas duas mãos
para conseguir segurá-lo plenamente, é impressionante a sua grossura depois
que as quatro pernas da cadeira se juntaram, deixando sua base mais grossa e
sua ponta um pouco mais fina. É quase como se ele tivesse um formato
cônico, só que sem a ponta.
Não importa quanto tente, é impossível desviar o olhar de seu pau
amadeirado, mesmo que ele não seja humano, não vejo a hora de tê-lo dentro
de mim. Usando minhas mãos, começo a explorar o seu comprimento e
espalhar o óleo derramado.
Não aplico muita pressão. Eu sei que seu pau é feito de madeira, um
material resistente e teoricamente duro, mas se ele conseguiu gozar enquanto
era uma cadeira, isso significa que deve haver um certo nível de sensibilidade
em sua madeira. Por isso, começo o esfregando de leve, testando o quanto de
força que ele quer que aplique ao seu redor.
Chegando na sua ponta, uso o meu dedão para espalhar um pouco do
seu pré-gozo. Ele joga sua cabeça para trás e geme alto, abrindo mais suas
pernas e segurando o meu cabelo com uma de suas mãos.
— Mais forte — murmura entre gemidos.
Aumentando o meu aperto contra o seu pau, começo a esfregar mais.
Vendo um movimento estranho atrás de seu pau, percebo que meu homem
cadeira tem bolas que por não serem tão grandes, acabam sendo encobertas
pela visão de sua madeira colossal.
Com a minha mão esquerda bem lambuzada do óleo de peroba, escolho
o momento que ele fecha seus olhos, perdido em seu prazer, para pegar uma
de suas bolas na minha mão. Imediatamente, sou lembrado do nosso beijo, já
que sua bola tem um toque tão aveludado quanto sua língua.
Não consigo resistir e sou tomado pela necessidade de apertá-lo,
fazendo que meu cadeirão se deleite com o sentimento. Se antes eu achava
que ele estava gemendo alto, agora ele está praticamente gritando, não
demorará muito para gozar.
— Ainda não — ele geme, aumentando o aperto no meu cabelo,
fazendo com que eu pare.
Enquanto isso, continuo ajoelhado, sem saber o que fazer. Ele larga o
meu cabelo, segurando os braços da cadeira e tentando acalmar sua
respiração.
— Eu fiz algo errado? — pergunto um pouco inseguro.
Sei que quando é sua primeira vez sempre há um erro ou algo que se
poderia fazer melhor, entendo isso, mas ainda tenho a ideia de que a minha
primeira vez será algo perfeito.
— Não, — fala com a sua voz grossa — mas quero gozar com você.
Não quero fazer isso sozinho.
Meu coração se acelera e me apaixono um pouco mais por ele.
Significa muito para mi que ele queira dividir algo tão especial comigo, eu sei
que ele não é virgem como eu, mas de certa forma essa também é sua
primeira vez.
Sem palavras, eu apenas balanço a minha cabeça afirmativamente,
deixando o rubor se espalhar pelas minhas bochechas. Eu não preciso
esconder nada dele, isso é incrivelmente libertador.
— Senta na sua cadeira — ele fala, dando tapinhas em uma de suas
coxa.
Se antes eu achava que ele era macio enquanto cadeira, eu estava
completamente errado. Não sei se é mágica ou apenas uma impressão, mas
quando sento no seu colo e encosto as minhas costas no seu peito, sinto uma
suavidade que nunca vista antes. É sensual e acolhedor ao mesmo tempo.
Com suas mãos grandes, ele começa a abrir botão por botão da minha
camisa, esfregando a textura do couro contra a minha pele.
— Você foi um dono tão bom para essa cadeira e está na hora de ser
recompensado — murmura no meu ouvido.
Quando minha camisa está completamente aberta, ele respira fundo na
minha nuca, depositando um beijo ao mesmo tempo que começa a massagear
um dos meus mamilos. A sensação é incrível, jogando minha cabeça para
trás, deixo ser levado, gemendo alto e rebolando contra o seu pau duro de
madeira.
— Mostre para elas que você me pertente — em pânico, abro meus
olhos para ver que está nos vigiando, mas não há ninguém aqui. Esta sala está
tão vazia quanto no momento que entrei.
— Quem? — pergunto confuso, tentando entender a quem ele está se
referindo.
— As cadeiras, mostre para elas que você é o meu humano.
Isso não é possível, mas está acontecendo. Ele está com ciúmes das
demais cadeiras. Olhando ao redor, percebo que estamos bem no centro,
visível para qualquer cadeira.
Beijando o meu pescoço, ele usa sua outra mão para abrir minha
braguilha e abaixar a minha cueca. Pegando o meu pau em suas mãos, ele
aperta levemente a cabeça me deixando completamente delirante.
Com os óleos fechados, sinto o cheiro de morango se intensificando ao
nosso redor e não demora muito para sentir o óleo sendo despejado no meu
pau. Ele não economiza, e posso senti-lo escorrendo pelas minhas roupas.
Levantando um pouco dos meus quadris, eu o incentivei a continuar
esfregando o meu pau.
— Não, você ainda não vai gozar assim — declara, me deixando
surpreso.
— Não? — pergunto entre respirações.
— Eu quero esfregar o meu pau no seu, quero que sinta a minha
madeira escorregadia contra a sua pele.
Queria lhe dar uma resposta boa e coerente, mas estou muito perdido
no meu próprio prazer para conseguir formar palavras audíveis, eu apenas
apoio minha cabeça em seu peito e gemo, sentindo-o esfregar, pela última
vez, o meu pau com a sua mão.
Como um cavalheiro que é, ele levanta me segurando no colo e me
coloca em pé, delicadamente. Sua figura se estende sobre a minha e em
silêncio, ele começa a tirar todas as minhas roupas do corpo, começando com
a minha camisa e terminando com a minha cueca.
Assim que fico sem as roupas, ele me beija novamente, devorando
minha boca e esfregando minha língua com as suas aveludada. É como
lamber um algodão-doce que não se dissolve.
— Coloque uma perna de cada lado.
Segurando minha bunda, ele separa minhas pernas e me levanta até que
nossos quadris estão na mesma altura. Para me apoiar, coloco minhas mãos
ao redor do seu pescoço.
Tudo acontece muito rápido, em um momento estou no meio do palco
dando um verdadeiro show pornô para um bando de cadeiras e depois ele me
carrega até um dos cantos, apoiando minhas costas com a parede, sem ao
menos quebrar o nosso beijo.
Com nossos paus perfeitamente alinhados e lubrificados, ele faz o que
prometeu, começa a esfregar um no outro. Nesse momento eu sabia que
estava acabado, a fricção de seu pau de madeira contra a minha carne é uma
das melhores sensações que já senti.
Separando nossas bocas, ele volta a beijar o meu pescoço, se
esfregando freneticamente em mim. No começo eu não sabia muito o que
fazer, mas comecei a imitá-lo movendo os meus quadris.
Ofegante, ele começou a gemer alto contra meu ouvido, se deixando
levar pelo prazer. Em pouco tempo entendi que ele estava mais próximo do
que eu, mas para minha surpresa, ele deslizou o seu dedo com lubrificante na
minha bunda, imitando os movimentos dos seus quadris e essa foi a minha
perdição.
Nós gozamos ao mesmo tempo, fazendo uma verdadeira bagunça.
Capítulo 11
Cadeira
u sou a fera e ele minha bela, como um conto de fadas seu beijo me
E despertou dessa maldição, me trouxe de volta a vida devolvendo minha
voz, minha humanidade e esperança. Ainda me parece surreal que um
beijo seja o suficiente para me libertar de uma prisão que durou tantos anos,
mas quem sou eu para julgar o poder do amor verdadeiro?
Por natureza, sempre fui uma pessoa cética, raramente acreditada em
coisas sem nenhum embasamento científico, até mesmo quando era criança,
sentia dificuldade em acreditar nas mesmas coisas que meus colegas, como a
fada do dente ou o papai Noel. Por isso, quando me transformei em cadeira
demorei um tempo para entender e acreditar no que estava acontecendo ao
meu redor.
Eu não sou mais esse homem, mas continuo longe de ser uma pessoa
que acredita em qualquer mágica do mundo. Acho que encontrei meu
equilíbrio acreditando na mágica do amor, na mágica do beijo de Paolo.
Depois que gozamos juntos, eu o carreguei até o seu quarto e
aproveitamos para conversar sobre tudo que não tivemos tempo. Eu contei
um pouco sobre a minha história e ele me contou sobre os seus sentimentos,
sobre como se sentia conectado a minha forma de cadeira.
Pode ser precipitado de nossa parte, transar primeiro e se conhecer
depois, mas estivemos apaixonados por tanto tempo que não havia como
evitar. Se aprendi algo vivendo como uma cadeira é que a vida é muito curta
para deixarmos momentos incríveis passarem.
Ser um cadeira já foi empecilho suficiente para o nosso amor, não
podemos deixar que pequenos detalhes nos impeçam de ter o que queremos.
Somo dois homens adultos que se amam, nada mais importa.
Ao meu lado da cama, Paolo dorme tranquilamente, roncando baixinho.
Observando seu peito subindo e descendo, um sorriso se forma em meu rosto
e me sinto satisfeito por ser a razão dele dormir tão profundamente. A
madeirada de ontem anoite o cansou, mas não é minha culpa que me sinto
revitalizado quando ele passa óleo de peroba no meu pau.
Nesse momento, quando o silêncio reina entre nós e ele está
completamente tranquilo ao meu lado, eu me sinto sortudo. Quando era uma
cadeira, só poderia sonhar com momentos como esse, mas essa é minha
realidade, esse é o meu homem.
Ainda dormindo, Paolo suspira e se aproxima de mim, deitando sua
cabeça em meu peito aveludado. Automaticamente, meus braços vão ao seu
redor e eu o abraço, sentindo a textura de sua pele contra a minha. Seu cabelo
preto se espalha pelo meu peito e sinto cócegas nos lugares onde as pontas do
seu cabelo fazem contato com minha pele.
É difícil acreditar como um dos piores dias de nossas vidas, também se
tornou um dos melhores. Não mentirei, o debate marcou profundamente a
carreira de Paolo, para pior. Desde então estão surgindo vários memes na
internet com matérias negativas ao seu respeito.
É verdade quando dizem que jornalistas não dormem.
Quando Paolo beijou meu encosto e me transformou em um homem
cadeira, uma promessa foi feita, uma que não era necessário nenhum tipo de
palavra, mas que estava muito clara: daquele dia eu seria seu protetor. Minha
forma é monstruosa demais para ser considerado um cavalheiro de armadura
brilhante, mas esse serei eu toda vez que alguém ameaçar o meu amor, serei
aquele que partirá para o seu resgate, sempre.
Se eu pudesse, entraria na internet e apagaria todos esses comentários
negativos, todos esses memes ridículos sobre ele, mas não posso. Tudo que
posso fazer é permanecer aqui, aquecendo seu corpo sonolento e
confidenciando que o amo.
Eu sei que pode parecer pouco tempo para se sentir perdidamente
apaixonado por alguém, mas estou inegavelmente apaixonado por ele, pelos
momentos que me proporciona e por tudo que já vivemos juntos, mesmo
quando eu era apenas uma cadeira. A vida é muito curta para se perder
tempo, no meu coração de espuma, eu sinto que ele é meu verdadeiro amor, o
único que terei para o resto de minha vida.
Nunca me senti dessa maneira, nunca tive tanta certeza, acho que talvez
essa seja a graça do amor, quando ele acontece não há mais dúvidas, há
apenas esse sentimento e as duas pessoas que o sentem. Se eu tivesse que ser
uma cadeira pelos próximos anos eu seria, viveria esse inferno novamente se
isso significasse que ficaríamos juntos no final.
— Bom dia — murmura Paolo. Sua voz está rouca e é a coisa mais
sensual que já escutei em toda a minha vida.
— Bom dia, dorminhoco — respondo e é impossível conter o meu
sorriso.
Vendo a minha felicidade, ele também sorri e sou agraciado com a sua
covinha fofa. Levantando a cabeça do meu peito, ele se apoia e me beija da
maneira mais apaixonada possível. Nesse momento, mesmo que seja um
fantasma da minha vida anterior, sinto o meu coração bater no peito
desenfreadamente.
Eu não tenho um coração, sei que meu corpo todo é preenchido por
uma espuma mágica, mas a cada momento que nos tocamos e nos beijamos,
eu o sinto batendo. É bobo, mas gosto de pensar que por ele, eu tenho um
coração.
Descansando sua cabeça no meu peito, escuto quando ele suspira.
Aproveitando nosso momento de paz, passo meus dedos pelo seu cabelo,
fazendo cafuné na sua cabeça e sentindo seus fios sedosos por entre os meus
dedos.
Enquanto estamos perdidos nesse momento, aproveitando o nosso
amor, começo a escutar um barulho distante. A cada segundo, esse som
torna-se mais alto e percebo que ele é composto por diversas vozes.
— O que é isso? — pergunta Paolo, ficando tenso nos meus braços.
Ele não espera que eu responda, rapidamente se levanta da cama e vai
até a janela. Por um tempo, ele apenas segura a cortina, sem fazer nenhum
movimento para abri-las, escutando o barulho aumentar.
Quando tem coragem de ver o que está acontecendo, as cortinas não
são plenamente abertas, pelo contrário, ele apenas abre uma pequena fresta, o
suficiente para que apenas ele olhe o que está acontecendo.
Uma das maiores desvantagens de ser um homem cadeira grande é que
também sou pesado, por isso cada movimento meu é incrivelmente lento e
desengonçado. Demora mais do que eu imaginava para levantar da cama e
quando chego na janela, me deparo com o meu amor em pânico.
— Paolo? — pergunto, ao mesmo tempo que coloco minha mão em seu
ombro.
Seu olhar está preso a sua frente e não há nenhuma resposta, é como se
eu não estivesse aqui, como se fosse incapaz de me ver. Não gosto disso, não
gosto de me sentir invisível na minha própria casa, esse sentimento carrega
memórias sombrias e faz com que eu me sinta inútil novamente.
— Paolo? — pergunto novamente, mas ele continua sem me responder.
Preocupado, tento olhar por cima do seu ombro, mas não consigo ver
nada além do jardim. Pelo estado que ele está, duvido que as plantas sejam o
seu maior problema.
Eu sei que deveria ser mais paciente, mas nesse momento estou quase
desesperado. Colocando minha mão em cima da sua, tiro o tecido da cortina
de seu aperto, abrindo completamente e deixando a visão da janela
desobstruída.
Sempre soube que meu namorado tinha dinheiro. Quando olhava para o
luxo dos móveis que me cercavam e o tamanho do cômodo que estava
confinado, eu vislumbrava um pouco do seu mundo, mas nunca tive completa
noção de toda sua fortuna.
A casa na qual estamos é uma mansão suntuosa que foi feita com
dinheiro ilícito da sua família, mas o tamanho do jardim é o que realmente
entrega que ele tem dinheiro. Para a minha surpresa, além destes jardins, me
deparo com uma multidão em frente ao seu portão.
— Eles querem a minha cabeça — sussurra Paolo, bem a minha frente.
Queria desmenti-lo e falar que eles estão aqui por outro motivo, mas eu
não posso mentir, não para ele. Algumas pessoas em meio a toda multidão,
seguram cartazes dizendo: cadeirada no mafioso, outros, simplesmente
seguram cadeiras nas mãos, prontos para jogá-las nele. Em meio a tudo isso,
está Humberto com um megafone nas mãos, instruindo todos a arrombar o
portão.
— Os seguranças irão impedi-los de entrar aqui — murmuro baixinho,
ao mesmo tempo que esfrego suas costas em um gesto de conforto.
Finalmente, ele olha para longe, distanciando-se da realidade oferecida
pela janela e olhando nos meus olhos de botão. Lágrimas escorrem pelo seu
rosto e o medo toma conta dele.
— Eu não sei se eles conseguem — confessa, com sua voz doce.
— Como assim? — pergunto meio confuso
— Eles são muitos — afirma desesperançoso.
Eu o abraço em uma tentativa de confortá-lo. A multidão fica mais
violenta a cada segundo e os seguranças não vão conseguir afastá-los por
muito tempo. Damasceno parece pronto para fazer a revolução francesa
acontecer novamente e eu não posso deixar que Paolo se machuque.
— Nós podemos fugir pelos fundos, a entrada dos funcionários é do
outro lado…
— Acho que eles cercaram a casa — suspira
Eu abro a minha boca e estou pronto para dar mais uma sugestão,
porém um barulho alto vem da porta e para nossa surpresa, damos de cara
com o pai de Paolo e a enfermeira dele.
Capítulo 12
Paolo
esde o momento que beijei minha cadeira e ela se transformou em um
D homem deslumbrante, cada segundo da minha vida parece um sonho
maluco, primeiro a manifestação e Humberto Damascena na frente da
minha casa, depois me deparo com o meu pai na porta do meu quarto, de
boca aberta, vendo eu e meu cadeirão nus, abraçados perto da janela.
Para minha surpresa, nem ele, nem Quitéria fizeram um escândalo com
toda a situação. Eu amo o meu cadeira, mas sei que sua aparência pode
assustar os outros. A enfermeira abre um sorriso para nós e meu pai desvia o
olhar.
Em uma tentativa de manter o resto de nossa dignidade, eu vou até o
guarda-roupa pegar o meu roupão enquanto cadeiro usa o lençol da cama
para tentar cobrir o seu pau de madeira.
— O que está acontecendo aqui? — pergunta ríspido.
Eu não sei o que responder, não sei como contar para ele que meu
namorado um dia já foi uma cadeira e que agora ele é um homem cadeira ou
a coisa mais próxima a isso. Honestamente não me importo com a
classificação, eu me importo com o seu coração, mas meu pai não é assim,
ele é o tipo de pessoa que gosta de rótulos.
Pensando bem, eu nem sei se estamos namorando. Passamos a noite
explorando nossos corpos e conversando, mas não tocamos no assunto, não
definimos o nosso relacionamento.
— Eu sou o namorado dele, Senhor — fala meu cadeirão,
interrompendo meus pensamentos e se aproximando do meu pai para
cumprimentá-lo.
Pela primeira vez na vida, Plínio Manchetti, parece desconcertado. Ele
aperta a mão do meu namorado, mas a todo momento evita olhar o volume da
sua madeira no lençol. Meu homem é superdotado.
— Qual o seu nome, meu jovem?
Dessa vez, quem fica sem ter o que falar é o meu amor. Ele parece
envergonhado ao mesmo tempo que meu pai parece perdido em meio a tantas
informações. A única pessoa sensata é Quitéria que está sorrindo de orelha a
orelha, como se fosse algum tipo de mãe orgulhosa.
— Ele não se lembra…
— Eu era uma cadeira — completa, como se isso fosse explicação
suficiente.
O coitado do meu pai parece mais perdido e confuso a cada palavra que
falamos. Porém, sinto uma felicidade que não sei descrever, depois de muito
tempo, aquela carranca finalmente saiu do seu rosto e agora consigo ver mais
do homem que lembro da minha infância.
— Você era uma cadeira? — Ele olha para Quitéria que apenas ri da
sua confusão. Sua mão desliza para o ombro dele e fico desconfiado se esses
dois tem algum tipo de relacionamento nada profissional.
— Sim, foi assim que eu e o seu filho nos conhecemos — responde
meu cadeirão, voltando para o meu lado e passando um de seus braços sobre
o meu ombro.
Ele beija a minha testa e sinto minhas bochechas corando. Olho para
meu pai e vejo um olhar de saudade nos seus olhos. Não preciso ser um gênio
para adivinhar que ele está pensando na minha mãe, relembrando seus
momentos juntos.
— Você começou um relacionamento com ele enquanto era uma
cadeira?
— Não! Que coisa horrível, — respondo, perplexo com sua linha de
pensamento — eu o esperei virar um homem cadeira para isso.
— Como? Esquece, eu realmente não quero saber.
Quitéria ri e todos ficamos perdidos, como se não soubéssemos o que
fazer a seguir. Meu pai tinha uma expressão constante de confusão colada no
seu rosto, meu cadeirão ainda segurava o lençol tentando esconder o seu pau
e eu não sabia o eu dizer.
— Você está bem? — pergunta, quebrando o silêncio entre nós.
Não posso ver meu rosto, mas sei que é a minha vez de ter uma
expressão confusa no rosto. Plínio Manchetti não é esse tipo de homem, ele
não se preocupa, geralmente quando nos encontramos, ele me obriga a fazer
algo que ele quer e depois vai embora.
Quando me candidatei para a presidência não foi muito diferente, ele
simplesmente entrou no meu quarto, exibiu que eu me candidatasse e depois
me deixou sozinho, sem saber o que fazer a seguir.
— Sim eu…
— Olha, eu vim aqui devido à manifestação lá fora, nós temos que sair
da propriedade, é mais seguro assim — declara, me lembrando do que está
acontecendo ao nosso redor.
Volto a ficar preocupado, eu não gosto disso. Sempre fui o tipo de
pessoa que arrumava uma saída para um problema, mas agora eu não consigo
pensar em nada para garantir nossa segurança.
A pior parte é que falhei com ele, o decepcionei. A tarefa era fácil, ser
candidato e subir nas pesquisas de intenção de voto, mas duvido que alguém
queira votar em mim, pelo menos depois do incidente de ontem.
— Pai, me desculpa, eu juro que farei de tudo…
— Não, já chega Paolo — fala rispidamente.
— Me desculpa…
— Se tem alguém que precisa se desculpar aqui sou eu, eu sinto muito
meu filho. Sua mãe não quis essa vida para nós e eu não deveria ter te
obrigado a isso.
Olhando para ele, lembro da minha infância e dos meus dias felizes. Sei
que Plínio não é muito de demonstrar sentimentos, mas eu quero chorar, eu
finalmente estou tendo o meu pai de volta.
— O luto faz coisas estranhas com as pessoas e sinto muito pela
maneira que te tratei. Você nunca quis ser candidato e olha onde chegamos?
— Não é sua culpa, você precisava de alguém para continuar o seu
trabalho — tento consolá-lo
— Foi injusto da minha parte jogar a responsabilidade da vida dos seus
irmãos sobre você, foi errado. Ontem à noite, assistindo o meu filho se
machucar, eu entendi que não é esse tipo de vida que eu quero para você. Eu
me importo e quero que seja livre para fazer suas escolhas e encontrar o
amor.
Não consigo me segurar, as lágrimas escorrem pelo meu rosto e abraço
meu cadeirão.
— Eu já encontrei o amor.
— Você me ama? — pergunta emocionado. Durante o tempo que
ficamos juntos compartilhamos muitas coisas, mas nunca nos declaramos,
pelo menos não tão abertamente.
— Sim, eu te amo.
Sem pensar duas vezes, ele se ajoelho no chão, pegando a minha mão.
— Paolo, você quer casar comigo?
Choro ainda mais e escuto o exato momento que a multidão, com suas
cadeiras baratas, consegue arrombar o portão de entrada.
— Vamos morrer — comento, um pouco desesperado.
— Não, eu chamei um helicóptero — afirma o meu pai.
— Para onde nós vamos? — pergunto, um pouco cético do plano.
— Não é obvio? Vamos para um lugar que ninguém nos conhece…
— Você é um homem cadeira…
— Nós vamos dar um jeito nisso.
— Mas…
Meu homem nunca foi muito paciente, pelo menos nãos desde que ele
virou um homem cadeira. Tirando suas mãos da minha, ele abraça minha
cintura e aproveita o momento para me jogar sobre o seu ombro, como um
saco de batatas.
— O que você está fazendo?
— Eu estou te sequestrando meu amor, cansei de pedir, você vai se
casar comigo.
Epílogo
Cadeira- Duas semanas depois
lgum sábio disse que as melhores coisas da vida são aquelas que
A esperamos, que temos paciência para cultivar. Queria dizer que nesse
meio tempo aprendi a arte da paciência, mas infelizmente não. Não sei
se é possível, mas acho que estou mais impaciente do que antes.
Hoje é um dia memorável para o nosso relacionamento, nós daremos
um passo importante, adentrar a lugares jamais explorados. Finalmente,
Paolo se entregará completamente.
A ansiedade toma conta do meu corpo, já que desde que chegamos
aqui, estive preparando meu doce Paolo para esse momento. Eu sou um
homem cadeira com um pau avantajado, não poderia apenas transar com meu
amor, apesar de querer muito. Felizmente tivemos o auxílio de alguns plugs
para nos ajudar nessa tarefa.
Ontem, quando percebi que ele estava pronto para me aceitar dentro de
sua caverna obscura, mal consegui me conter de felicidade, mas esse é um
momento especial e deve ser tratado como tal.
Olhando para fora da janela, admiro o luar e a maneira como a brisa
noturna sopra em meio as cortinas de linho. Essa casa é a nossa cara, uma
mistura de simplicidade e sofisticação, além de ser um presente do meu
sogro.
Depois que fomos resgatados, Plínio comprou essa casa em uma ilha
isolada, ela não é deserta, mas cumpre o seu papel. Depois do debate, ele
sabia que ainda há pessoas bravas com meu homem, pessoas que fariam de
tudo para machucá-lo, por isso estamos aqui, no nosso pequeno e adorável
refúgio.
Em relação aos seus irmãos, eles foram com o Plínio para outra cidade
e agora estão aprendendo a ter responsabilidade. Meu sogro está fazendo com
que eles trabalhem duro todos os dias. Estou feliz que ele está tentando se
reconectar com seus filhos e fazer parte de nossas vidas.
Para a nossa surpresa, descobrimos que Ricardo estava trabalhando
secretamente com Damascena em um grande esquema para ganhar a
presidência. Aparentemente, ambos boicotaram o antigo candidato para fazê-
lo sair da corrida presidencial. A proposta era que Ricardo apresentaria
Humberto e eles desviariam dinheiro da operação.
Entretanto, tudo deu errado quando Plínio ficou com raiva e retirou seu
irmão do esquema de lavagem de dinheiro. Em meio a ganância e desespero,
ambos decidiram agir pelas suas costas para ganhar sozinhos a presidência.
Infelizmente, a violência no debate e a revolta das cadeiras foram
planejados com antecedência. Porém, o meu sogro é muito mais espero do
que eles, com a ajuda de algumas de suas conexões, fez com que vários
escândalos de Damascena viessem à tona.
Depois de toda a revolta, Plínio decidiu mudar de vida e seguir os
desejos de sua falecida esposa vivendo com dignamente, longe do império de
dinheiro sujo da sua família. Nada muda de uma hora para outra, mas está
acontecendo gradualmente.
Felizmente, Plínio tem um incentivo extra para isso, ele encontrou o
amor novamente nos braços de Quitéria e ambos estão confiantes que
conseguem enfrentar sua doença, principalmente com a perspectiva de um
novo tratamento no mercado.
Atravessando nossa sala ampla e integrada com a cozinha moderna,
vou em direção ao nosso quarto. Eu gosto como a maioria das paredes são
claras, passando uma sensação de paz e sossego para nós.
A vida é boa e tranquila, com noites quentes e delirantes. Eu não sei
como será nosso futuro, mas garantirei que Paolo seja feliz.
Um gemido baixinho faz com que desvie o olhar da janela, me
lembrando da situação no meu quarto. Sorrio para o nada, atravessando a sala
e entrando no corredor com o óleo de peroba nas mãos.
Com a porta aberta, vejo meu amor amordaçado e amarrado de bruços
na cama, do jeitinho que ele gosta. Com ajuda de um travesseiro, seus glúteos
firmes estão projetados para cima, em um convite excitante.
Antes de atravessar o batente da porta, já estou espirrando o óleo em
minhas mãos, ansioso para o que está por vir. Ele tenta falar alguma coisa
mais a mordaça não deixa.
— Garotos levados não merecem ser ouvidos, meu amor — falo, dando
um tapa em sua bunda.
Normalmente, uma pessoa se encolheria e afastaria, mas esse não é o
caso de Paolo, suas amarras esticam em uma tentativa de chegar mais perto
da palma da minha mão. Minha maior qualidade é minha mão encouraçada,
eu sei que ele gosta de sentir o impacto do couro contra sua pele.
— Parece que alguém está gostando muito do meu castigo — comento,
dando mais dois tapas, cada um em um glúteo.
O óleo deixa sua bunda perfeitamente redonda com um brilho único e
um cheiro maravilhoso de morango. Chegando perto, dou uma lambida para
provar o óleo, deixando minha língua escorregar pelo meio.
Dessa vez, não é um gemido de necessidade que escuto, é um de
frustração. Meu amor é tão impaciente quanto eu, sempre querendo apressar
as coisas.
— Hoje, quem vai sentar em você sou eu!
Anuncio, chegando perto dele e sentando em cima dele, bem nas suas
costas. Esse é um jogo que gostamos de jogar no nosso tempo livro, ele é
minha cadeira e eu sou seu mestre. Paolo sente prazer em se submeter.
Para garantir que ele não se machuque, distribuo o peso do meu corpo e
tento colocar mais força nos meus pés. Tudo aqui é sobre prazer, eu nunca
conseguiria machucar meu Paolo, não de verdade.
Ainda com o óleo na mão, eu jogo uma quantidade generosa em sua
bunda, deixando escorrer e lambuzar nossa roupa de cama, ele reclama, mas
não consigo entender completamente o que está falando.
— Cadeiras não reclamam! — falo, dando outro tapa em sua bunda.
Suas exigências continuam, ele murmura através da mordaça, puxa as
amarras e empina a bunda em um convite delicioso. Pegando um punhado de
seu cabelo, levanto sua cabeça do travesseiro e olho bem no fundo dos seus
olhos, vendo a rebelião, a necessidade de desobedecer.
— Cadeira também não se movem, elas ficam paradinhas e aceitam o
que seus mestres fazem — falo com uma voz aveludada, deslizando dois
dedos dessa vez.
Não tenho pressa, controlo a minha ansiedade e levo o meu tempo
massageando sua bunda, ele tenta rebolar, tenta se mover, mas é em vão.
O sofrimento e a luxúria estão estampados no seu rosto, eu não quero
machucá-lo, mas com um olhar desses eu não consigo resistir e com essa cara
não consigo negar nada a ele.
Levantando, espalho uma quantidade generosa do óleo no meu pau de
madeira, Paolo olha por cima do ombro ansioso para que eu o preencha de
todas as maneiras possíveis.
Segurando seu quadril, vou gradualmente, lento e devagar. Ele é tão
apertado que começo a gemer, mas me esforço ao máximo para não me
deixar ser levado por esse prazer.
— Porra, você é apertado.
Ele resmunga e eu nunca senti nada assim, mesmo quando era humano
e namorava. Sexo com ele é outra coisa, é como se nossas almas se
conectassem, como se fôssemos um.
Percebendo que seus resmungos não pararam e ele continua tentando
me falar algo, solto sua mordaça, com medo de que pode ser alguma situação
urgente. Eu nunca poderia viver sabendo que um dia o machuquei.
— Não quero que você pare ou seja cauteloso, eu quero mais, eu quero
sentir a única e verdadeira madeirada — fala me deixando surpreso.
— Foi você que pediu — comento, sorrindo.
Curvando e enterrando o meu rosto em seu pescoço, me entrego a essa
sensação, esse sentimento. olhos o que ele quer, a verdadeira madeirada.
Nesse momento, eu pareço um homem possuído, indo com força e
sentindo sua bunda se apertar contra minha madeira lustrosa. Todo o óleo de
peroba é de grande ajuda e eu deslizo com facilidade, conseguindo enterrar
todo o meu pau dentro dele.
Não demora muito para gozarmos e logo em seguida o desamarro.
Abraçando o meu corpo e descansando sua cabeça no meu peito, ele suspira e
fecha os olhos devido ao cansaço.
— Você já escolheu um nome?
— Eu gosto de Mognaldo.
FIM
Agradecimentos
Por incrível que pareça, com o avanço da minha carreira, também
aumenta a lista de pessoas que devo agradecer e que influenciam diretamente
no meu trabalho.
Primeiro, quero começar com as minhas amigas autoras, conviver com
elas e trocar experiências realmente me ajuda muito com a minha escrita, eu
levo seus concelhos no meu coração e nos meus manuscritos. Anna Alister,
Dani Camponello, Jay Mairon e Sebastian, eu não sei o que seria dos meus
livros e da minha carreira sem vocês, se consigo conquistar pessoas com
minhas histórias devo tudo aos seus constantes feedbacks e trocas de
experiências.
Em segundo lugar, quero agradecer aos meus amigos criadores de
conteúdo que constantemente leem os meus trabalhos e me incentivam a
continuar com as minhas loucuras: Jude, Pâmela, Esther, Mialle, Ruby, Carol
Moon, Yaya, Fernanda, Paulo Ratz, Rodolfo e Emelly. Também gostaria de
agradecer a todos os criadores de conteúdo que leram o meu livro, muito
obrigada por terem dado uma chance para o livro do chuveiro, vocês
ajudaram o meu livro a encontrar o seu público, sou eternamente grata a isso.
Não seria eu se não reservasse esse espaço a Rafa booktok. Todos os
dias, eu tenho a honra de te chamar de amiga e isso é uma das melhores
coisas do mundo. Do meu primeiro até meu último trabalho, eu continuarei te
agradecendo, porque se não fosse seus constantes incentivos, eu nunca teria
chegado aqui, se Loretta Lins existe é devido a você. Nesses últimos anos, eu
sinto que nossa amizade pavimenta constantemente o caminho da minha vida.
Eu te amo.
Quero reservar esse espaço para agradecer os meus amigos pessoais,
alguns de vocês estão comigo desde a época que escrevia fanfics e poemas,
testemunhando o crescimento e amadurecimento da minha escrita, assim
como da minha carreira: Isa e Anna. Quem diria que aquela garotinha um dia
viraria uma autora?
Por último, mas não menos importante, quero agradecer minha mãe,
você sempre foi a pessoa que mais me incentivou em toda a minha vida, que
colocou o primeiro livro nas minhas mãos e me ensinou o quão maravilhoso é
esse mundo da literatura. Eu realmente espero que você nunca leia os meus
trabalhos, mas se leu e chegou aqui, devo te alertar que a maçã não cai longe
da árvore.
Quem é a louca dessa autora?
Loretta Lins é um pseudônimo para uma autora brasileira de romances
diferenciados. Apaixonada por monster romance desde sempre, dedico o meu
tempo a escrever as histórias mais bizarras que consigo pensar. Além disso,
sou uma romântica de carteirinha que sempre garante um final feliz para
meus protagonistas. Atualmente, meu principal foco são histórias curtinhas
com um hotzão duvidoso.