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Ekeys, 3 DEBATE 30483-Texto Do Artigo-87807-1-6-20200520 (p.8-26)

O artigo discute a gravidade do neoliberalismo radical pós-2008 e suas implicações nas políticas de saúde mental no Brasil e no mundo. O autor argumenta que a crise atual das políticas sociais e de saúde mental é resultado de um projeto neoliberal global que gera uma crise civilizatória, exigindo uma análise mais profunda e estratégias de resistência. A obra convida à reflexão sobre as condições históricas e sociais que moldam a luta pela reforma psiquiátrica e a resistência ao retrocesso dos direitos sociais.

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Ekeys, 3 DEBATE 30483-Texto Do Artigo-87807-1-6-20200520 (p.8-26)

O artigo discute a gravidade do neoliberalismo radical pós-2008 e suas implicações nas políticas de saúde mental no Brasil e no mundo. O autor argumenta que a crise atual das políticas sociais e de saúde mental é resultado de um projeto neoliberal global que gera uma crise civilizatória, exigindo uma análise mais profunda e estratégias de resistência. A obra convida à reflexão sobre as condições históricas e sociais que moldam a luta pela reforma psiquiátrica e a resistência ao retrocesso dos direitos sociais.

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DOI: http://10.18315/argumentum.v12i2.

30483

ARTIGO

A gravidade do neoliberalismo radical pós 2008 e nossas


estratégias de resistência
The threat of radical neoliberalism after 2008 and our strategies for resistance

Eduardo Mourão VASCONCELOS


https://orcid.org/0000-0002-3490-3596

Introdução

A
o receber o convite para este texto provocador da seção debates da Revista
Argumentum, que tem neste volume como tema central as políticas de saúde
mental no Brasil e no plano internacional: tendências e desafios, decidi tomar a
liberdade de retomar aqui o argumento central de meu livro publicado em 2016
(“Reforma psiquiátrica, tempos sombrios e resistência” [VASCONCELOS, 2016]), e
propor um foco um pouco mais ampliado para esta discussão. Naquela obra, mais como
cientista político do que psicólogo, procurei desenvolver algumas hipóteses. Em
primeiro lugar, de que o movimento antimanicomial e seus principais representantes
teóricos vêm apresentando uma tendência de pensar a política de saúde mental em si
mesma, de forma isolada da conjuntura histórica mais ampla e das demais políticas
sociais, e têm mobilizado seus militantes para a luta, durante as últimas décadas, tendo
como mote principal a interpelação de sua implicação pessoal e profissional com o
processo de reforma psiquiátrica e com o movimento antimanicomial. Podemos traduzir
isso nas seguintes expressões frequentes: vamos segurar a reforma psiquiátrica à unha,
ou ...com o nosso próprio corpo . Em segundo lugar, esse tipo de interpelação, no atual
contexto de deterioração das condições de trabalho na rede de saúde e saúde mental,
tem levado nossos trabalhadores de saúde e saúde mental a três consequências
preocupantes: (a) esgotamento (burn out) (SELIGMANN-SILVA, 2011), ou segundo
outros autores, também à fadiga por compaixão (LAGO; CODO, 2010); (b) a práticas
burocráticas e defensivas, tendentes ao encaminhamento não responsável ou a
atendimentos frios e insensíveis; ou (c) a simplesmente abandonar o campo da saúde
mental. Assim, o livro convida os leitores para se capacitarem para uma análise mais
cuidadosa da conjuntura econômica, política e social, no sentido de compreender os
‘sinais da história’; de planejar melhor os recuos quando são necessários ou inevitáveis;


Psicólogo e Cientista político. Doutor pela London School of Economics and Political Science. Professor
aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. (UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil). Militante dos
movimentos de reforma psiquiátrica e luta antimanicomial no Brasil. E-mail:
[email protected].

© A(s) Autora(s)/O(s) Autor(es). 2019 Acesso Aberto Esta obra está licenciada sob os termos da Licença
Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR), que permite
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Eduardo Mourão VASCONCELOS

de identificar as pequenas brechas para práticas inovadoras, que serão fundamentais em


conjuntura mais favoráveis no futuro; e fundamentalmente, para desenvolver uma
visada mais alongada para a história humana, capaz de nos induzir a necessária paciência
histórica para poder resistir e continuar lutando durante este período sombrio, que dá
sinais claros de que não será curto. Assim, neste texto de abertura de debate, quero
retomar estas hipóteses e aprofundá-las ainda mais, no sentido de pensar a atual crise
da política de saúde mental no contexto das tendências emergentes da conjuntura
histórica, que na minha opinião está mostrando mudanças qualitativas profundas, para
as quais considero que nós, da esquerda brasileira formada nas lutas sociais e políticas
das décadas de 1970 a 2000, estamos despreparados e desorientados.

Assim, se quisermos discutir e traçar estratégias de resistência e luta com maior


efetividade, tema a ser retomado brevemente no final deste ensaio, temos que ampliar
nosso enquadramento e análise da conjuntura mundial e brasileira, reconhecendo o
caráter global e multidimensional do projeto histórico neoliberal em sua versão mais
radical, gerador de uma crise civilizatória que aponta para a barbárie, mesmo que isso,
num primeiro momento, possa nos parecer longe demais de nossa realidade, ou
desanimador e pessimista demais.

Em outras palavras, pretendo desenvolver neste ensaio a hipótese de que a atual crise
das políticas sociais e de saúde mental no Brasil e no mundo tem raízes muito mais
profundas do que imaginamos, em um projeto histórico operado a meu ver por um novo
ciclo qualitativamente diferenciado das políticas neoliberais a nível mundial. No Brasil,
nós, da esquerda, estamos desorientados com as características similares ao fascismo
que esse ciclo apresenta. Alguns de nossos companheiros de luta, muitas vezes sem
grande esforço de análise, ficam mais na indignação, como se nosso governo estivesse
sido apropriado apenas por um grupo de políticos do tipo baixo clero, de orientação
fascista, orientado por um guru amalucado como o Olavo de Carvalho. Em um nível mais
aprofundado, boa parte de nossas análises e ações são marcadas pela denúncia de
retrocessos nos direitos políticos e sociais, e de como eles retomam as raízes da política
e da cultura da ditadura civil-militar, ou ainda determinantes mais antigos, de nosso
passado colonial, escravista, patriarcal e homofóbico, dimensões que não foram
devidamente elaboradas e superadas no período da pós-redemocratização. Isso é em
parte real e correto, mas tendemos a esquecer que o fenômeno é também mundial, que
atinge inúmeros países até mesmo de forte tradição liberal ou social democrata, seja
tendo seus movimentos sociais e partidos de ultradireita ou neonazistas assumindo
diretamente o governo, seja tendo crescimento de forma assustadora em seus
parlamentos, como indicado mais abaixo. Em suma, o atual flash back de retomada dos
componentes políticos, sociais e culturais mais sombrios da história brasileira não é
aleatório, é interpelado por forças econômicas, políticas e sociais mais amplas e
poderosas a nível mundial. E além disso, tem várias dimensões orgânicas, muitas das
quais progressivas, sejam ambientais, tecnológicas e informacionais, com fortes
repercussões na questão social e na organização do trabalho, na troca diária de
mensagens e dados pelas pessoas comuns, e também nos processos de subjetivação de
cada um de nós, e que atingem em cheio os padrões até então reconhecidos da vida e
dos valores políticos, morais e éticos. Ou seja, não estaremos aqui considerando apenas
os processos econômicos e políticos estruturais, como nas análises marxistas mais

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convencionais, mas também aspectos da cultura política e dos processos de subjetivação,


bem como acontecimentos históricos singulares que contribuíram para aprofundar essas
tendências.

Diante de contextos históricos como este, gostaria de lembrar da interpelação de


Gramsci sobre a necessidade do pessimismo da razão e do otimismo da prática. Contudo,
proponho matizá-la com uma distinção que considero importante, sobre a natureza do
discurso que utilizo aqui. A partir de uma diferenciação entre diferentes tipos de
discurso, que sistematizei em um de meus volumes sobre Karl Marx e a subjetividade
humana (VASCONCELOS, 2010), penso que os argumentos que pretendo desenvolver
aqui se encaixam mais claramente no discurso do tipo acadêmico, voltado para um
público com maior capacidade reflexiva e de reconhecer mais abertamente as agruras e
contradições profundas da história humana. Como sou também um militante
antimanicomial, muito vezes convidado a falar para grupos e coletivos de militantes
trabalhadores, usuários de serviços e seus familiares, utilizo nestas ocasiões um discurso
mais diretamente político que, embora sempre sustentado academicamente, tende a se
focar mais nas mediações, contradições e brechas em um plano político mais imediato e
microsocial, e mais especificamente dentro do campo da saúde mental, visando
fundamentalmente gerar esperança de um futuro melhor e mobilizar para as lutas
possíveis do momento. O presente ensaio visa mostrar desafios profundos, complexos,
polêmicos, para muitos dos quais penso que ainda não temos uma reflexão mais
sistemática, e nem mesmo estratégias claras de como enfrentá-los. Assim, considero que
o presente ensaio constitui uma provocação e um convite a nossos colegas
principalmente da esfera acadêmica, mas também a lideranças políticas, para se
debruçarem sobre eles, para podermos avançar na compreensão do momento mais
global em que vivemos, reconhecendo uma relativa inevitabilidade histórica de alguns
retrocessos, como subsídio de fundo para a discussão das estratégias teóricas, e práticas
de nossas lutas mais gerais do campo da esquerda e da saúde mental. Assim, não teremos
condições de tratar aqui das mediações diretas com as políticas sociais e de saúde mental
na esfera nacional, estadual e municipal, que possibilitam identificar mais
concretamente as brechas para lutas e resistência, embora haja rápidas indicações disso
no final, no sentido de mostrar a necessidade e a possibilidade dessa resistência.

A caracterização mais conhecida das principais ideias e políticas neoliberais

As teorias neoliberais tiveram suas formulações iniciais a partir do final da década de


1930, particularmente no colóquio de Lippman, em 1938, em Paris, propondo reduzir
radicalmente os componentes de políticas públicas de bem estar social, inspiradas nas
primeiras experiências nacionais europeias a partir de 1880, no socialismo soviético e nas
políticas de New Deal nos Estados Unidos, após a crise de 1929, sistematizadas
principalmente por Keynes (1883-1946) e seguidores. A partir daí, os principais teóricos
neoliberais, tais como Hayek (1899-1992), da Escola Austríaca, e Friedman (1912-2006),
da Escola de Chicago, defenderam de forma mais sistemática políticas de austeridade
fiscal, redução da esfera e das ações estatais, privatização das propriedades e dos serviços
públicos, controle dos sindicatos dos trabalhadores, desregulamentação dos fluxos de
capital, e impostos e tarifas favoráveis ao grande capital, suprimindo seus aspectos
redistributivos. Estas ideias ficaram praticamente restritas ao ambiente acadêmico

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durante o ciclo keynesiano de desenvolvimento dos chamados estados de bem estar


social, mais fortemente assentados em países europeus, até a década de 1970, quando
foram aplicadas inicialmente na ditadura chilena liderada por Pinochet, assessorado
pelos economistas formados na Escola de Chicago (que incluía o nosso atual ministro da
Economia, Paulo Guedes). Várias destas políticas foram impostas aos demais países de
Terceiro Mundo, particularmente pelo Fundo Monetário Internacional, como exigências
para a aceitação de pacotes de ajuda financeira. Na virada dos anos 1970-80, os governos
de Margareth Thatcher, na Inglaterra, e Ronald Reagan, nos EUA, iniciaram sua
implementação em seus respectivos países, difundindo-as assim para os demais países
desenvolvidos, bem como atingindo em cheio, a partir do final da década de 1980, os
países até então reunidos na União Soviética, que passaram então por uma transição
rapidíssima e violenta de um socialismo burocrático e de estatismo extremo, para uma
gestão inteiramente neoliberal da economia e das políticas públicas.

No plano internacional, a figura do Estado-Nação com relativa autonomia e soberania


para realizar pactos sociais, mediante políticas sociais, e para manter a demanda
agregada da economia interna, inspiradas na abordagem keynesiana, foi gradualmente
desconstruída, em favor da livre circulação de mercadorias e de capitais, perspectiva
fomentada pelas agências internacionais. A emergência econômica da China e mais
tarde de outros países populosos ou com amplo exército de reserva, como a Índia, com
taxas altas de crescimento econômico e políticas internas de ausência quase total de
direitos trabalhistas e previdenciários, estimulou a colocação de seus produtos baratos
no mercado mundial, estimulando ainda mais os ideais neoliberais de nivelamento por
baixo dos salários, perda substantiva de direitos do trabalho e de deslocamento de
unidades de produção industrial e de serviços para estes países, fomentando um
processo de desindustrizalização em inúmeros outros países, desenvolvidos ou não. Esse
processo, somado à introdução da informática e robótica nas linhas de produção,
aumentou ainda mais as taxas de desemprego, de desempregados que não procuram
trabalho (desalento), e o mercado informal de trabalho.

Estas mudanças na esfera mais diretamente econômica foram acompanhadas de


profundas transformações ideológicas, culturais e subjetivas, deslocando o cidadão com
demandas econômicas e sociais, muitas delas coletivas, forçando-o a se moldar ao status
de um sujeito fortemente individualizado, competitivo, portador de capital humano,
flexível, estimulado a ter múltiplas aptidões e competências operativas e
organizacionais, com forte acento no empreendedorismo pessoal, ethos embalado por
um crescimento vertiginoso da literatura de auto ajuda. Na base mais pobre da
sociedade, temos um aumento vertiginoso do desemprego estrutural, fomentado
também pela automatização crescente do processo de trabalho na indústria e nos
serviços, transformando parcelas cada vez maiores da população economicamente ativa
em população sobrante, deslocando-a para o mercado informal de trabalho ou
simplesmente sem qualquer possibilidade de ser inserida economicamente e de gerar
renda para si e sua família.

Essas mudanças exigiram, por sua vez, novas formas de gestão de governo, que
transportam a racionalidade de livre regulação do mercado para as agências de governo,
e governos reformatados para servir os mercados, que por sua vez, também realimentam

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os valores, ideologias e culturas neoliberais a serem difundidas na vida social como um


todo.

Além disso, um dos efeitos colaterais adicionais mais drásticos de todas estas
transformações na esfera mundial foi, sem dúvida alguma, a perda da regulação sobre os
efeitos ambientais do crescimento econômico, e particularmente sobre o aquecimento
global, pela destruição das florestas e áreas verdes e uso intensivo de combustíveis
fósseis, que liberam carbono na atmosfera, acentuando o efeito estufa. Isso tem gerado
aumento gradual da temperatura no planeta, degelo nos polos e nas cadeias de
montanhas mais altas, aumentando o nível dos oceanos, com enorme risco para
inúmeras espécies vivendo nos mares e continentes, aumento da frequência e
periculosidade de eventos climáticos radicais (secas, incêndios florestais, enchentes,
tempestades, furacões etc) e diminuição acentuada da oferta de água doce e potável no
planeta, o que aponta para o acirramento de conflitos e guerras pelo acesso a água.

Durante a década de 2000, dado o ritmo acelerado da economia chinesa e mundial, e a


forte demanda por comodities produzidas por países periféricos, o Brasil e alguns outros
países latino-americanos tiveram a possibilidade de um pequeno avanço relativo em
termos de conquistas sociais. A conjuntura econômica mundial favorável foi capitalizada
politicamente por partidos de centro-esquerda e esquerda, o que possibilitou alguns
avanços na distribuição de renda e nas políticas sociais, em países como Brasil (gov.
Lula), Argentina, Uruguai, Equador, Bolívia, Venezuela e Nicarágua. Este pequeno
intervalo é interrompido a partir de 2008, com a crise e recessão internacional gerada
pela irresponsável bolha imobiliária e financeira nos EUA, processo que se expandiu para
todo o mundo capitalista, atingindo também os países centrais, e neles, particularmente
os países da União Europeia um pouco mais frágeis do ponto de vista econômico, tais
como a Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e Grécia. No Brasil, as políticas anticrise
implementadas a partir de 2008, no segundo governo Lula, e no primeiro governo Dilma,
até 2013, conseguiram atrasar a chegada desta crise no Brasil, mas depois desse ano, a
crise aberta na economia foi inevitável, gerando ou contribuindo também para uma crise
política profunda.

As estratégias de desmonte do social, do político e da democracia dos


intelectuais neoliberais, e sua radicalização após a crise de 2008

Para o enquadre da hipótese de um projeto gerador de crise civilizacional e barbárie, que


propus acima, gostaria de me referenciar, particularmente nos próximos trechos, em
uma obra cuja leitura recomendo fortemente, Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão
da política antidemocrática no Ocidente, de Wendy Brown (2019), professora de Ciência
Política da Universidade de Berkeley, EUA, a partir do seu resgate dos debates e análises
de acadêmicos de esquerda gerados pela ascensão de Trump ao poder naquele país em
2016. O livro foi publicado lá em 2019, mas teve tradução imediata e publicação neste
mesmo ano também aqui no Brasil. O caráter cosmopolita desta discussão é
fundamental, para nos remeter a dimensões mais globais que muitas vezes são pouco
valorizadas no debate brasileiro, como indicado acima, pois as principais características
da atual política brasileira foram, em primeiro lugar, explicitamente inspiradas em
estratégias já desenhadas pelos intelectuais neoliberais há décadas, e foram radicalizadas

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na conjuntura mundial que se abre após a crise econômica e financeira de 2008. Para
isso, é preciso revisitar brevemente as ideias chaves dos mais importantes pensadores e
atores políticos neoliberais.

Para Brown, os principais intelectuais do neoliberalismo, como também seus principais


atores políticos, propuseram efetivamente um ataque conceitual, normativo e prático às
ideias de sociedade e de social como terreno que propicia a justiça e o bem comum.
Hayek foi o formulador mais rigoroso deste ataque, sistematizando os seus “[...]
fundamentos epistemológicos, ontológicos, políticos e econômicos e até mesmo morais
[...]” (BROWN, 2019, p. 41), descritos em sua obra, mas impossíveis de serem
reproduzidos aqui. No entanto, podemos citar aqui um breve trecho de síntese:

[...] ‘Sociedade’ é um termo pejorativo para a direita hoje, que denuncia os


‘guerreiros da justiça social’ (social justice warriors) por minar a liberdade com
uma agenda tirânica de igualdade social, de direitos civis, de ação afirmativa e
até mesmo de educação pública. O neoliberalismo tinha o franco objetivo de
desmantelar o Estado social, seja privatizando-o (a revolução de Reagan-
Thatcher), seja delegando suas tarefas (a ‘Grande Sociedade’ do Reino Unido e
os ‘mil pontos de luz’ de Bush), seja eliminando completamente tudo o que
resta de bem-estar social ou ‘desconstruindo o Estado administrativo’ (o
objetivo de Steve Bannon1 para a presidência de Trump. Em cada caso, não é
apenas a regulação e a redistribuição sociais que são rejeitadas como
interferência inapropriada nos mercados ou como assaltos à liberdade. A
dependência da democracia em relação à igualdade política também é alijada
(BROWN, 2019, p. 38-39).

Para a autora, a base da nova forma de gestão dos indivíduos, e não mais do social, está
na lógica orgânica e dinâmica do mercado e da moral, que unem os humanos de forma
independente das ideias racionais, da coerção e da regulação/punição estatal. Nesta
formulação, haveria uma desmassificação dos coletivos gerados por situações comuns,
tal como o de proletarização dos trabalhadores, por meio de estratégias de
empreendedorismo, responsabilização pessoal, transformação de suas habilidades em
‘capital humano’, reinserção na família e comunidade, e realocação de suas necessidades
em práticas de autoprovisão, no cuidado dos filhos, educação, saúde, aparência e
provisão para a velhice, tornando-os mais resilientes às crises e recessões econômicas.
Lares urbanos com quintais poderiam produzir hortas e galinhas, e os desproletarizados
e dessindicalizados poderiam entrar na economia da terceirização, transformando suas
pequenas posses, qualidades e seu tempo em fontes de capitalização, arrendando seus
quartos no Airbnb, trabalhando no Uber ou em aplicativos de entrega, compartilhando
veículos e bicicletas (tema abordado mais à frente), ou simplesmente em ‘bicos’ de vários
tipos. Assim, para Brown, os intelectuais neoliberais defendem o argumento de que
estaria ‘salvando’ e resgatando o indivíduo, a família e os vínculos comunitários da
‘desintegração típica’ ou da ‘aparente extinção’ provocada pela modernidade tardia,
transformando-os em capital humano, como unidades familiares ou comunitárias
econômico-morais. Essa característica nos ajuda a compreender melhor a aliança que os
atores políticos neoliberais têm construído com os setores religiosos evangélicos mais
conservadores, que os apoiam maciçamente nos processos eleitorais e na legitimação de

1 Uma explicação sobre Steve Banon está disponível mais à frente.

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suas gestões políticas, tema tratado em detalhe em outro trabalho de minha autoria
(VASCONCELOS; CAVALCANTE, 2019).

Segundo Brown (2019), há nas formulações das teorias neoliberais um deslocamento do


conceito de liberdade, que é arrancada do social, sem preocupações com as
consequências sociais e com a sociedade como um todo, em seu bem comum,
reduzindo-a à ausência de coerção e regulação. O conceito é então reconstruído com
novos fundamentos jurídicos. A justiça se referiria apenas a princípios corretos e
conhecidos por todos, aplicados universalmente, e não a resultados e efeitos, e todo jogo
tem vencedores e perdedores, como no processo da evolução biológica. Isso legitimaria,
portanto, em nome da ‘liberdade’, a privação de direitos sociais como moradia,
assistência à saúde e educação.

De forma semelhante, a abordagem da esfera da política é também completamente


reconceitualizada pelos intelectuais neoliberais. Brown (2019) assinala que, embora eles
tenham visões diferenciadas em relação ao político, visões estas que ela examina com
mais detalhe em sua obra, todos eles se opuseram ao ideal de sociedades politicamente
planejadas ou reguladas, procurando conter radicalmente as formas de poder político,
subordinando-os à economia e às exigências do mercado. Eles se opunham em especial
às ideias de soberania popular e soberania política, como impróprias para as sociedades
‘livres’. O ataque comum é principalmente contra as formas de “[...] democracia robusta
– movimentos sociais, participação política direta ou demandas democráticas ao Estado
- que identificaram como totalitarismo, o fascismo ou o governo da plebe” (BROWN,
2019, p. 75). Friedman e Hayek apostaram mais na organicidade das regras do mercado
se expandindo para a esfera do político, enquanto os autores mais recentes e com viés
ainda mais autoritário, chamados por Brown de ordoliberais, não rejeitam a soberania
do Estado, apenas buscam “[...] desdemocratizar o Estado e substituí-lo por outro,
suportado pela expertise técnica, dirigido por autoridades competentes e devotado aos
princípios de uma economia competitiva e liberalizada” (BROWN, 2019, p. 93). E resume
criticamente, dizendo que, apesar das diferenças, o efeito mais geral destas abordagens
é “[...] gerar uma cultura antidemocrática desde baixo, ao mesmo tempo em que constrói
e legitima formas antidemocráticas de poder estatal desde cima” (BROWN, 2019, p. 39).

No entanto, a autora reconhece que esta racionalidade neoliberal “[...] não causou a
insurgência da extrema direita no Ocidente de hoje [...]” (BROWN, 2019, p. 16), mas “[...]
preparou o terreno para as forças ferozmente antidemocráticas na segunda década do
século XXI[...]” (BROWN, 2019, p. 16). Para isso, segundo ela, contribuíram vários
processos e eventos:

- a crise econômica e financeira de 2008 e anos seguintes;


- o desenvolvimento da Internet e de uma mídia altamente setorizada e isolada,
particularmente nas redes sociais;
- várias crises econômico/sociais e conflitos armados, como a guerra na Síria, a criação
do Estado Islâmico e a guerra de gangues na Guatemala, gerando uma onda de
refugiados e migrantes para a Europa e Estados Unidos;
- o declínio e sucateamento das políticas sociais, com efeitos arrasadores para os que
vivem do trabalho (BROWN, 2019).

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A esse tópico, creio ser interessante acrescentar a difusão da automatização e a crise de


desindustrialização em vários países, mesmo centrais, com aumento do desemprego e
empobrecimento de vastos setores de trabalhadores e da classe média, já indicados
acima.

De meu ponto de vista, é preciso ampliar um pouco mais a análise da autora. Temos
experiências históricas similares ao longo do século XX, em conjunturas de profunda e
continuada crise econômica e social, nas quais a burguesia liberal, defensora da
democracia formal e de alguns direitos humanos, não consegue encaminhar respostas
consideradas adequadas de saída da crise. Neste contexto, as forças antidemocráticas,
de ultradireita ou fascistas, que se mantinham sob o manto político da direita liberal,
ganham autonomia e partem para uma carreira política autônoma. Isso aconteceu após
a crise gerada pela I Guerra Mundial (1914-1918) e pela crise de 1929, dando origem ao
nazismo alemão e ao fascismo italiano2. A meu ver, há algumas semelhanças claras com
o que estamos vivendo hoje. Para exemplificar isso, basta vasculharmos os processos
eleitorais nos últimos anos, nos quais tivemos ou ainda temos vários países centrais com
forças ou partidos políticos de extrema direita no poder ou participando dele: os EUA
(Trump), Reino Unido (Boris Johnson), Israel, Dinamarca, Hungria, Finlândia, Áustria,
Polônia, Eslovênia e Itália. Em países com tradição democrática mais sólida, como a
França, Holanda e Inglaterra, bem como no Parlamento Europeu, os partidos de extrema
direita tiveram um crescimento significativo nas últimas eleições de 2019. No Oriente, a
Índia está sendo governada por um governo de ultradireita, com claro alinhamento a
Trump e Bolsonaro, e com forte componente de discriminação legal contra os islâmicos.

Além disso, em relação ao trabalho de Brown (2019), penso que é preciso mostrar de
forma mais enfática a importância das transformações profundas geradas pelas novas
tecnologias digitais, e as novas forças políticas e estratégias utilizadas pela ultradireita
para promover o desmonte da democracia em cada país e no nível mundial. Assim, as
estratégias originalmente pensadas pelos intelectuais neoliberais passam a ser
atualizadas de forma mais orgânica e com alta capacidade técnica de sistematização e
adaptação para cada país, de entronização nos processos eleitorais e na vida política e
difusão em todo o mundo, por meio de poderosas agências internacionais de
ultradireita, do tipo Think Tanks (de elaboração de pensamento econômico e político
estratégico, formação de quadros, financiamento de ações e articulação política e
cultural para implementá-las), empresas de big data (capazes de processar informações
em uma escala gigantesca), espionagem digital em larga escala e difusão em massa de
2 O conceito de fascismo é complexo e multifacetado, com variações nos países onde aconteceu, mas
temos em nossa memória da história do século XX essas duas experiências marcantes: o fascismo
italiano e o nazismo alemão, que mostraram um enorme potencial destrutivo, levando a maioria dos
países à Segunda Guerra Mundial e ao holocausto. Para os interessados no tema, recomendo ler pelo
menos o verbete Fascismo no clássico Dicionário de política, de Norberto Bobbio e outros (BOBBIO et
al., 1995). Abaixo, temos algumas das características típicas do fascismo identificadas por eles, e que
têm elementos similares no contexto atual:
- sistema autoritário de dominação, com base em partido e organizações de massa;
- ideologia fundada no culto de chefe ou grande líder, que pode ser oriundo de um setor específico da
classe média; desprezo pela democracia liberal, e oposição frontal ao socialismo e comunismo;
- aniquilamento das oposições, incluindo o uso de violência e do terror;
- aparelho de propaganda baseado no controle das informações e meios de comunicação de massa;
- tentativa de integrar nas estruturas de controle do partido e do Estado à totalidade das relações
econômicas, políticas e culturais.

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fake news, com efeitos ontológicos, epistemológicos e subjetivos profundos, geradores


do fenômeno denominado de pós-verdade, tema da seção mais abaixo.

A radicalização das mudanças na esfera do trabalho sob comando da ultradireita

Esse tema mereceria uma vasta análise e debate, impossível neste texto, e assim só as
linhas mais gerais serão indicadas. Estamos atravessando uma transição dramática e
profunda, de uma sociedade industrial para uma sociedade de serviços. Para
exemplificar, para o conhecido economista Marcio Pochmann, o setor industrial
brasileiro representa menos de 10% do PIB, com cerca de quatro quintos dos
trabalhadores concentrados no setor de serviços, com um desmoronamento do emprego
clássico, pela precarização dos seus vínculos: “Eles não estão mais concentrados em
grandes fábricas, mas em shopping centers, complexos hospitalares, prestando serviços
para condomínios de ricos. A classe trabalhadora está cada vez mais ligada a um trabalho
imaterial e submetida a nova organização temporal e espacial. Essa nova realidade não
faz parte do discurso dos sindicatos e dos nossos partidos. [Nós, da esquerda] estamos
com uma retórica envelhecida” (PORCHMANN apud WEISSHEIMER, 2019, não
paginado).

Uma das mudanças mais significativas neste processo após a crise de 2008 tem sido o
crescimento da chamada gig economy ou ‘uberização’ das relações de trabalho, nas quais
milhares de trabalhadores autônomos prestam serviços para grandes empresas, por meio
de aplicativos. A maioria de nós moradores de cidades grandes e médias no Brasil
conhecem o fenômeno dos motoristas da Uber e outros aplicativos, bem como os
entregadores de alimentos e encomendas em geral. No entanto, poucos de nós estão
atentos às consequências sociais profundas deste processo, e para isso recomendo
assistir dois filmes recentes. O primeiro é Você não estava aqui (Sorry, we missed you),
em filme premiado terminado em 2018, dirigido pelo ingles Ken Loach, e recém lançado
no Brasil (fevereiro de 2020), sobre um entregador de encomendas em vans e sua família,
no interior da Inglaterra. O outro é um documentário brasileiro de curta metragem,
intitulado Vidas entregues, de 2019, dirigido por Renato Biar, e disponível no Youtube, e
que aborda a rotina de entregadores de aplicativos de comida por bicicleta na cidade do
Rio de Janeiro, ganhando entre 20 a 50 reais por dia.

No entanto, é necessário qualificar melhor esse processo como um todo, no sentido de


questionar a ideia de uma linearidade tecnológica inevitável e considerar também as
variáveis políticas que incidem sobre ele. De acordo com a análise realizada em 2019
sobre os principais países da OCDE por Antonio Antón, professor de sociologia
da Universidade Autônoma de Madri, não se trata de um desaparecimento linear do
emprego, mas uma reestruturação e um crescimento em ritmo menor da população. Há
sim um processo revolução tecnológica, gerando “[...] desemprego massivo, precarização
do emprego, desvalorização salarial, segmentação, segregação e desequilíbrio nas
relações trabalhistas [...]” (ANTÓN, 2019, não paginado), com diminuição “[...]
do emprego decente e de qualidade, e se gera empobrecimento, desigualdade e
incerteza” (ANTÓN, 2019, não paginado). Contudo, não se trata de um determinismo
tecnológico com desaparecimento do emprego formal: nos países da OCDE, “[...] nas
duas décadas entre 1995-2015, houve uma alta destruição do emprego de qualificação

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média em todos os países e uma criação nos dois extremos: significativa dos empregos
muito qualificados e limitada dos menos qualificados” (ANTÓN, 2019, não paginado).
Assim, no atual “[...] contexto de desigualdade, o sentido e a dimensão do impacto da
revolução tecnológica no emprego depende da orientação política do poder econômico-
financeiro e institucional, da regulamentação da globalização neoliberal e das
características das políticas públicas” (ANTÓN, 2019, não paginado). Em outras palavras,
esse processo é altamente dependente das relações de poder político nos processos de
produção, distribuição e informação, com possibilidades reais no sentido de “[...]
revalorizar a importância do trabalho não mercantil e a justa divisão de toda a carga
social [...]”(ANTÓN, 2019, não paginado), como também na direção de “[...] um plano de
garantias de rendas sociais que busca enfrentar a vulnerabilidade social e a pobreza e
fomentar a integração social, a igualdade, e a cidadania social, renovando o contrato
social de reciprocidade de direito4s e deveres e a função do trabalho” (ANTÓN, 2019,
não paginado).

As mudanças tecnológicas digitais e suas profundas implicações


epistemológicas, políticas e subjetivas, e sua apropriação atual pelas forças de
ultradireita

As novas tecnologias de computação e informação, a despeito de seus inúmeros aspectos


positivos de produção coletiva de conhecimento e informação, e de sua disseminação
horizontal em tempo real, acabaram gerando novas formas de poder e espionagem
digital, até agora incontroláveis. As agências de espionagem da CIA e do governo dos
EUA têm hackeado informações sigilosas de pessoas, autoridades, instituições e
empresas estratégicas em todo o mundo, investigando a corrupção em países nos quais
têm interesse em derrubar governos não aliados aos seus interesses estratégicos e
econômico-financeiros, e enfraquecer empresas concorrentes com as suas. Mais tarde,
Rússia e China também desenvolveram esses métodos. Para os interessados, o filme
Snowden, do famoso diretor de cinema crítico norte-americano Oliver Stone, lançado
em 2016, conta a história real do funcionário que vazou inúmeros dados da espionagem
realizada pelas agências de segurança dos EUA.

O passo seguinte tem sido, com financiamento de empresas e milionários locais,


interferir nos processos eleitorais, por meio de fundações e agências de ultradireita, que
manejam essas redes sociais e juízes, interpelando a luta contra a corrupção, para
promover a desestabilização e a queda desses governos. Esses métodos foram utilizados
nos últimos sete anos para derrubar governos não alinhados aos EUA no Paraguai, em
Honduras, e também no Brasil, na campanha anti-PT, promovendo o impeachment da
presidente Dilma Roussef e legitimando na sociedade a condenação e prisão do ex-
presidente Lula.

Outro exemplo importante é o da empresa de big data de informática, a Cambridge


Analytica, originalmente com sede na Inglaterra, de propriedade do milionário Steve
Bannon. Ela é capaz de mapear o perfil ideológico e pessoal de milhares de usuários no
Facebook, para vender para o marketing de grandes empresas e para campanhas
políticas. Uma análise mais recente desta empresa pode ser vista no documentário
Privacidade hackeada, de 2019, disponível na Internet e no Netflix, realizado pelos

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diretores norte-americanos Karim Amer e Jehane Nouaim. Eles mostram criticamente,


com farta documentação, não só os desdobramentos mais recentes da Cambridge
Analytica na Inglaterra e seus trabalhos em inúmeros países do mundo, mas também
revelam que essa tecnologia de big data constitui na verdade uma verdadeira arma de
guerra psicológica. Segundo o filme, esta estratégia opera da seguinte forma:

- ao vasculhar as redes sociais de cada eleitor, com seus likes e dislikes, o software
investiga cerca de 5.000 ou mais pontos de informação;
- o software analisa esse conjunto de dados e cria um perfil psicológico e político-
ideológico de cada eleitor, capaz de prever seu comportamento político;
- isso permite criar um perfil detalhado de grupos de eleitores, e criar uma propaganda
específica ou fake news capazes de sensibilizar cada um dos grupos de eleitores;
- a estratégia visa criar medo e ódio, dividir para reinar, e destruir as bases das
instituições democráticas.

O filme ainda lista as atuações mais importantes e recentes da empresa, Além da eleição
de Trump nos EUA, tivemos também a de Macri na Argentina, a campanha do Brexit na
Inglaterra, e eleições políticas em Gana, Lituânia, Quenia, Romenia, Miamar (na
campanha de ódio, expulsão e/ou genocídio de toda uma etnia muçulmana que vivia no
país), e em inúmeros outros países.

Estas tecnologias também criam ‘bolhas de comunicação’ mais estáveis para fins
políticos e ideológicos, criando e espalhando fake news via computadores/robôs de
repetição, em mensagens para milhões de pessoas nas redes sociais. Hoje, é de
conhecimento público que parte significativa das pessoas só se informa por elas, sem
acesso ao debate e ao contraditório, gerados mesmo que de forma limitada pela mídia
convencional. E sobretudo, faz parte da mesma estratégia também atacar o jornalismo
mais sério, particularmente aqueles com um perfil mais investigativo e/ou crítico.

As fake news constituem versões completamente distorcidas sobre eventos correntes,


processos históricos, científicos, sociais e políticos, radicalizando ao extremo as
estratégias de alguns dos intelectuais neoliberais descritas acima. Elas geralmente visam:

- tentar recontar a história da humanidade e de cada país. Ex.: negar o holocausto; negar
o golpe e da ditadura civil-militar no Brasil entre 1964 e 1984;
- desqualificar as ciências, as evidências tecnocientíficas e o debate intelectual. Ex.:
difundir a versão criacionista do mundo indicada na Bíblia, ou de que a Terra é plana,
ou rejeitar as amplas evidências do aquecimento global provocado pela ação humana;
- desqualificar o debate político e a liberdade de imprensa, bases para a tomada de
decisões políticas e para a democracia;
- promover uma estratégia diversionista, como ‘cortina de fumaça’, para medidas
impopulares e problemas graves do governo;
- valorizar o senso comum e a opinião das lideranças políticas carismáticas e de pseudo-
intelectuais. Ex.: Olavo de Carvalho;
- gerar massas com comportamentos fundamentalistas e fascistas;

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- e portanto, solapar as bases racionais da esfera pública e da gestão da questão social,


desestabilizar as instituições públicas e democráticas, gerar caos político e enfraquecer
a democracia como regime político.

Este último tópico aponta para um fenômeno gravíssimo, pelo qual a guerra psicológica
apresenta profundas consequências também epistemológicas e mesmo ontológicas, no
sentido de um profundo niilismo3. Significa que as evidências científicas ou técnicas, e
seu debate, na busca de uma melhor aproximação da verdade sobre cada um dos
fenômenos naturais, humanos e sociais, passam a ser completamente desprezados,
valorizando-se apenas as versões sobre eles. Assim, o poder de persuasão das mídias
sociais, com o suporte das poderosas organizações que difundem as fake news e
promovem verdadeiras bolhas de comunicação, passam a ter um poder incontrolável de
influenciar e manipular amplamente a opinião pública e processos políticos e eleitorais,
com um enorme risco de solapar as próprias bases da democracia como regime político.
Para exemplificar a importância deste fenômeno no mundo atual, o Oxford Dictionaries,
departamento da Universidade de Oxford responsável pela produção de seus
dicionários, elegeu em 2016 o termo pós-verdade como a palavra do ano na língua inglesa
(FÁBIO, 2016).

A meu ver, o melhor exemplo do uso das estratégias de pós-verdade na esfera política é
a atuação da própria empresa Cambridge Analytica e de seu dono, Steve Bannon. Ele
criou o grupo internacional The Movement, para se contrapor à Internacional Socialista.
O próprio Eduardo Bolsonaro foi escolhido como representante da América Latina, e
organizou em dezembro de 2018, em Foz do Iguaçu, a primeira Cúpula Conservadora
das Américas (ZANINI, 2019). Uma reportagem mais recente publicada pelo confiável
jornal inglês The Guardian (FRESH, 2020), em 4 /01/20, mostrou que o processo gerado
contra a empresa no parlamento inglês acabou estimulando um vazamento de mais de
100 mil de seus documentos internos, revelando uma atuação com manipulações
diversas, até aquela data, em 64 países!

E não paramos apenas neste ponto, pois ainda temos as novas tecnologias de deepfakes,
nome dado aos vídeos falsos para gerar desinformação. Em seminário ocorrido em
meados de outubro de 2019, promovido pela Associação Nacional de Jornais, em São
Paulo, foi feito esse alerta para este novo fenômeno preocupante, os deepfakes, ou seja,
a capacidade de produção e disseminação de vídeos falsos, produzidos por inteligência
artificial a partir de fotos (SEMINÁRIO..., 2019). Segundo as fontes divulgadas no
seminário, atualmente 96% desses vídeos são referentes a imagens sexuais, geralmente
de celebridades, sem qualquer consentimento. Além disso, os analistas informam que é
quase impossível distinguir os vídeos fakes dos vídeos reais, o que pode levar a uma
verdadeira epidemia de falsidades, injúrias e difamações. É possível imaginar as
implicações do eventual uso desses vídeos já nas eleições de 2020 e de 2022 em nosso
país?

3Entre os filósofos mais modernos, foi certamente Nietzche o autor mais influente e complexo na defesa
do niilismo. Para criticar a cultura ocidental pelo menos a partir de Sócrates, portanto desde a cultura
grega clássica, ele afirma que toda a cultura ocidental gerou apenas ilusões, tornando supérflua toda a
busca da verdade, e gerando uma existência humana cada vez mais insegura e violenta (BOBBIO et al,
1995, p. 825).

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Além dos efeitos diretamente políticos, é preciso também estar atento aos mecanismos
de ação e efeitos subjetivos e psicossociais das novas tecnologias de poder digital e de
informação. Para isto, sugiro a leitura da obra Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas
técnicas de poder, do filósofo coreano Byung-Chul Han, com tradução em português
publicada em 2018 (HAN, 2018), contendo uma coletânea de ensaios críticos breves, às
vezes polêmicos e unilaterais, mas bastantes sugestivos e provocativos. Han propõe
analisar esses processos pela utilização dos conceitos foucaultianos de poder disciplinar
e biopolítica, este último entendido como uma forma de poder sobre os corpos. Vejamos
algumas indicações ilustrativas deste tipo de análise. Para o autor, o novo sujeito
neoliberal do empreendedorismo, como descrito acima, se julga livre de uma coerção
externa visível, mas acaba atuando e se explorando de forma até mesmo apaixonada, em
uma luta contra si mesmo, com forte suporte da literatura de autoajuda, como um
sujeito focado no desempenho e no sucesso de sua própria empresa ou de seu trabalho.
E essa nova forma de exploração acaba tomando tudo aquilo que antes era associado
apenas à esfera privada e à liberdade, como a emoção, criação, otimização estética (via
cirurgias plásticas e academias), o jogo, a autorevelação e autoexposição voluntária, em
um ritmo alucinado de comunicação permanente. Os que fracassam, são levados não a
questionar o sistema, mas a se culpar. E assim, a depressão e o burn out (esgotamento)
se constituem como as formas de sofrimento psíquico mais comuns.

Por outro lado, a condição de cidadão ativo, como fenômeno político complexo, é
transformada na condição de consumidor, passivo, que apenas reage como que
reclamando da política, da mesma forma que reclama de uma mercadoria com
problemas. Em consequência, os políticos e partidos são transformados em
fornecedores, que têm que satisfazer seus eleitores como se fossem consumidores ou
clientes. Além disso, os sistemas de big data são constituídos como um instrumento
político eficiente, tornando possível prognósticos detalhados do comportamento de
cada indivíduo. Assim, a própria pessoa é transformada em coisa, pois é quantificável,
mensurável e controlável.

Para avançar na analisar na comunicação digital, Han (2018) propõe uma diferenciação
entre emoção/afeto, caracterizados pela descarga imediata, e o sentimento, que leva a
uma narrativa, se prolongando mais no tempo, com efeitos mais racionalizáveis, e com
baixo efeito performativo, ou seja, que não leva a uma ação imediata. Assim, a
comunicação digital favorece muito mais a descarga imediata e fugaz da emoção/afeto,
deixando-as correrem livres, e é fortemente performativa. Ainda segundo Han (2018), a
pressão pela aceleração do fluxo comunicacional acaba gerando uma ditadura da
emoção, pré-reflexiva e mais compatível com os apelos imediatos de consumo, com a
temporalidade imediata dos games, cuja lógica é entronizada nos processos de trabalho,
e com as interpelações dirigidas para a inteligência emocional, que promovem a
motivação para o trabalho, tanto em si mesmo, como para os seus eventuais
subordinados.

É possível complementar a análise de Han (2018) lembrando de outros aspectos deste


processo: a alta velocidade do fluxo atual de mensagens na Internet em tempo real; a
supressão nas mensagens escritas das mídias sociais das linguagens corporais, dos
elementos denotativos e conotativos, que na comunicação presencial tendem a exercer

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um maior controle das mensagens mais agressivas; as próprias fake news; e o anonimato
relativo das mensagens reencaminhadas. Tudo isso colabora para fomentar
posicionamentos e julgamentos peremptórios, e fácil depredação moral das pessoas
físicas e autoridades nas mídias sociais.

Em minha opinião, as indicações analíticas do coreano Han (2018) são sugestivas e


merecem o nosso interesse e discussão.

Novas ‘velhas’ formas violentas e radicais de gestão de ‘populações indesejáveis’

No atual projeto radical de atuação das políticas neoliberais, além dos processos já
indicados acima, estão sendo reatualizadas, em vários países, novas ‘velhas’ formas
violentas de gestão de populações despossuídas ou consideradas ‘indesejáveis’ pelas
elites. Entre estes grupos populacionais, estão os imigrantes, negros, indígenas e outras
minorias étnicas; população favelada ou em situação de rua; mulheres; pessoas com
deficiência ou com transtorno mental; pessoas com problemas decorrentes do uso de
drogas; traficantes de drogas; infratores da lei etc.

Autores como o sociólogo de origem francesa e atuante nos EUA Loïc Wacquant (2001,
2006) já vem denunciando desde a virada da década de 2000 a tendência ao
encarceramento em massa dessas populações nos EUA e em diversos países centrais,
sendo que na maioria desses países o sistema carcerário é terceirizado, no qual empresas
lucram vendendo seus serviços ao Estado. No caso de imigrantes, impõe-se a proibição
de entrada, expulsão ou status de ilegalidade/clandestinidade, sem acesso a direitos
básicos de cidadania, gerando guetos e novas formas de exploração do trabalho, muitas
vezes em situação análoga à escravidão.

Em países periféricos e particularmente latino-americanos, com uma longa história de


escravidão, genocídio e, ou extermínio de minorias étnicas, religiosas, de gênero ou
identidade sexual, ou de lideranças de movimentos sociais populares (DINIZ; CARINO,
2019), governos recentes de ultradireita estão sendo estimulados pela orientação
neoliberal mais radical e pelo lobby da indústria de armas, a implementar medidas de
‘necropolítica’ (MBAMBE, 2019), ou seja, de gerir esses grupos populacionais, pela
segregação radical e extermínio. Nesta perspectiva, a lógica de guerra que existia entre
as nações é interiorizada para uma espécie de ‘guerra interna’ ou ‘guerra urbana’. Jeff
Halper, um antropólogo israelense, chama esse processo de ‘palestinização do mundo’,
tomando por base as formas e tecnologias com que o complexo militar de segurança
israelense lida com a população palestina nos territórios ocupados, e que hoje estão
sendo vendidas ‘com sucesso’ no mundo todo (TELLES, 2019).

Em parte, essa política já está sendo concretizada no Brasil, pelo número de mortos
vítimas de policiais. Em 2017, foram 4.222 casos em todo o país, constituindo a polícia
que mais mata no mundo. Só no estado do Rio de Janeiro, em 2018 foram 1.534 mortos
pela polícia, a maior número desde o início da série em 1998. De janeiro até setembro de
2019, tivemos 1.402 vítimas, que é quase metade de todos os homicídios (3.025) ocorridos
no mesmo período (HOMICÍDIOS..., 2019). Ou seja, estamos indo na direção de novos
recordes históricos. E as propostas para a área de segurança dos governos de Bolsonaro
e Witzel, do Rio de Janeiro, buscam:

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- uma retórica de guerra;


- legalização ampla do porte de armas para civis, incluindo aquelas com maior poder de
fogo;
- a possibilidade do abate pela polícia de indivíduos portando armas ilegais;
- e a medida chamada de excludente de ilicitude, que constava do pacote do ministro
Sergio Moro para a área de segurança, pela qual policiais podem ser excluídos de
criminalização em caso de morte de civis, se o evento ocorrer em função de escusável
medo, surpresa ou violenta emoção. O discurso de Bolsonaro para defesa desta proposta
incluiu a seguinte frase: “Os caras (os bandidos) vão morrer na rua igual baratas, pô. E
tem que ser assim” (MAIA, 2019 apud BOLSONARO, 2019, não paginado).

Essa tendência tem implicações profundas no campo dos direitos humanos, das políticas
sociais, da assistência social, da saúde e particularmente da saúde mental e drogas, como
também de políticas para deficientes, já que a maioria de nossos usuários de serviços,
sem condições de inclusão em condições de igualdade no mercado de trabalho e no
sistema educacional, tendem a sofrer formas de exclusão similares aos demais grupos
atingidos.

O premiado e elogiado filme brasileiro Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça Filho e
Juliano Dornelles, e lançado no Brasil em 2019, assumiu essa temática de forma original
e crítica, e a meu ver, é imprescindível de ser visto, estando já disponível no Youtube.

Considerações finais

À primeira vista, as tendências e questões abordadas neste ensaio podem parecer muito
distantes da visão ou do campo de atuação do cidadão comum ou do ativista, mais
ligados à especificidade de suas áreas de trabalho, como no caso da saúde mental e da
luta antimanicomial. No entanto, estas questões podem ditar as perspectivas concretas
da vida pessoal e social no mundo e no Brasil, particularmente se esse projeto neoliberal
radical tiver condições de ser implementado em toda a sua plenitude. Assim, cabe a nós
atuar em duas direções básicas, no curto e médio prazos.

Em primeiro lugar, é preciso desenvolver nossa capacidade de acompanhar e


interpretar os ‘sinais dos tempos’, ou seja, de analisar a conjuntura histórica mais
ampla, no sentido de poder ter alguma previsão tanto dos desafios, como
também das possíveis contradições, que apontam para brechas e espaços
políticos de atuação e resistência. Neste sentido, considero fundamental acompanhar
particularmente os seguintes processos históricos que se desdobrarão no curto prazo:

a) As consequências da atual pandemia do corona vírus: na data em que estou finalizando


a escrita deste ensaio (17/03/20), já é possível prever que ela provocará uma crise
econômica e social mundial gravíssima, de consequências ainda imprevisíveis, que pode
por um lado fomentar a xenofobia contra estrangeiros e o fechamento de fronteiras.
Porém, do outro lado, pode chamar a atenção para a importância dos laços de
reciprocidade social, das políticas sociais, de medidas econômicas anticíclicas contra a
recessão, do tipo keynesiano, como os sistemas públicos de saúde, bem como de uma
gestão pública baseada em pesquisa científica e em uma imprensa séria e investigativa,

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exatamente na direção contrária do individualismo radical do neoliberalismo e das


opiniões e fake news colocadas goela abaixo da sociedade pelo poder das mídias sociais
das elites. Essas políticas foram sucateadas ou desmontados em muitos países sob gestão
neoliberal radical, deixando-os completamente despreparados para lidar com a
pandemia, e agora estão investindo pesado em recursos emergenciais, o que não
conseguirá aplacar a gravidade de seus efeitos. Os exemplos mais significativos até agora
são o próprio EUA, a Inglaterra, o Brasil e a Itália. Assim, crises sanitárias como essa,
apesar de todos os seus dramáticos e trágicos custos humanos, sanitários e sociais,
acabam por outro lado criando condições para resistirmos com mais argumentos às
tendências mais radicais do neoliberalismo.

b) Os processos políticos e eleitorais em curso em vários países, particularmente nos EUA,


Chile e no Brasil: Uma eventual reeleição de Trump nas eleições de 2020 naquele país
pode significar manter a legitimidade e a hegemonia mundial deste projeto neoliberal
radical, pelo peso geopolítico e econômico dos EUA no mundo. É interessante também
acompanhar processos eleitorais nos países com governos de ultradireita. Um bom
exemplo disso está na Hungria, onde tivemos recentemente as eleições para a prefeitura
de sua capital Budapeste, na qual ganhou uma aliança de centro-esquerda e verdes, de
clara oposição ao xenófobo e neonazista governo central. Outro caso significativo a ser
acompanhado com carinho é o processo político no Chile, onde uma insurreição popular
extremamente forte vem denunciando desde o ano passado as duras mazelas do projeto
neoliberal radical implementado desde a década de 1970 pela ditadura Pinochet.
Teremos em abril de 2020 um plebiscito para decidir se terão uma Assembleia
Constituinte exclusiva ou com metade dos parlamentares já eleitos, e que depois deverá
refazer a Constituição promulgada por Pinochet. De forma similar, as eleições
municipais deste ano no Brasil nos darão um termômetro mais realista das bases locais
que as forças de ultradireita têm no país e sua expressão na esfera política institucional.
Além disso, processos eleitorais são uma oportunidade de discutir mais amplamente as
plataformas de reivindicações e lutas do movimento antimanicomial, dos demais
movimentos sociais populares, bem como de reforçar nossas frentes parlamentares nas
câmaras de vereadores e, se possível, chegando a eleger alguns vereadores e prefeitos
sintonizados com nossos interesses e lutas.

c) O processo político e econômico em países que passaram por ajustes neoliberais, mas
que nos últimos anos têm governos de centro-esquerda, e que estão gradualmente
recuperando os direitos econômicos, sociais e políticos da maioria da população: o caso
mais significativo aqui é Portugal, governado diretamente pelo Partido Socialista, de
centro, mas com o suporte da chamada Geringonça, uma aliança com partidos e
movimentos sociais de esquerda. O caso espanhol é mais instável, mas as últimas
eleições de 2019 caminharam também na mesma direção. Esses casos apontam para a
importância de uma frente política ampla, do tipo antifascista, no enfrentamento do
projeto neoliberal radical.

d) No Brasil, os rumos políticos das forças de centro-direita e dos setores militares em


relação ao governo Bolsonaro: temos plena consciência de que, no Brasil, o grande
capital, os partidos de centro-direita e da grande imprensa apoiam abertamente a
política neoliberal de ajustes econômicos e administrativos do governo Bolsonaro. Há

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pelo menos duas razões: eles deixam o governo fazer o jogo sujo das reformas neoliberais
sem ter o desgaste direto disso, bem como apoiam a espécie de semi-parlamentarismo
atual no Congresso, já que o governo decidiu não investir em uma base parlamentar de
apoio, o que gera capital político para suas lideranças, particularmente para Rodrigo
Maia. No entanto, o custo e os riscos associados aos desvarios políticos do governo têm
sido altos, levando recentemente a um relativo descolamento político, que pode implicar
em cisões significativas mais à frente, particularmente nas eleições presidenciais de 2022.
De forma similar, as relações com os setores militares revelam um processo do tipo
‘sanfona’, de sucessivas aproximações e ataques/distanciamentos. Estas cisões e
rachaduras no bloco do poder são significativas, e devem ser acompanhadas com
atenção.

e) No Brasil, os rumos das forças de centro-esquerda e esquerda, no sentido de se


rearticular com suas bases populares e de superar a fragmentação gerada a partir das
eleições de 2018, para formar uma ampla aliança de centro-esquerda e esquerda, similar às
frentes antifascistas da história política do século XX: estão abertas as possibilidades não
só de atuar em greves e eventos de mobilizações de massa, como tivemos em 2019, como
também ir consolidando uma frente que supere a fragmentação política das forças de
centro-esquerda e esquerda, tanto na esfera das lutas e articulações na sociedade civil,
como também da luta política institucional e dos processos eleitorais. A nossa
participação nas eleições municipais de 2020 será um teste dos encaminhamentos nesta
direção.

Em segundo lugar, a meu ver, cabe continuar ou retomar, onde possível, nossa
militância de base e particularmente micropolítica nos movimentos sociais
populares e em nossa atuação como trabalhadores de políticas sociais. Mesmo em
conjunturas macropolíticas desfavoráveis, algumas mediações de prefeituras e governos
estaduais mais progressistas, como também de ONGs e entidades representativas de
profissionais, possibilitam não só manter a resistência, mas também avançar em alguns
projetos inovadores, mesmo que em pequena escala. No entanto, eles serão
fundamentais para apontar a renovação necessária de nossos projetos e políticas, quando
a conjuntura política for mais favorável. Pode ser alentador lembrar que nossa política
de reforma psiquiátrica, com serviços tais como os CAPS, que foram difundidos para
todo o país, só conseguiu ser implementada por que tivemos duas experiências piloto
fundamentais, ainda no final da década de 1980, em condições políticas nacionais muito
desfavoráveis, nas cidades de Santos e São Paulo.

Em suma, é preciso reconhecer que a história é sempre dinâmica, contraditória e


complexa. Nós, militantes mais antigos, que já atuávamos durante a ditadura, em
condições políticas muito mais desfavoráveis que a atual, temos a experiência concreta
deste olhar mais alongado para a história, e mostrar aos companheiros das novas
gerações que ela está sempre em movimento, e que há sempre esperança. Assim, o que
cabe a todos nós é manter sempre acesa essa chama da resistência, mesmo que a fogo
baixo ou apenas sob as cinzas, pois, mais à frente, é sempre possível soprar as brasas,
colocar mais lenha, e reacender a todo gás nossas labaredas éticas da solidariedade
humana e da justiça.
Rio de Janeiro, 17 de março de 2020.
Referências

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Argum., Vitória, v. 12, n. 2, p. 47-66, maio/ago. 2020.  ISSN 2176-9575
Eduardo Mourão VASCONCELOS

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Eduardo Mourão Vasconcelos
Militante dos movimentos de reforma psiquiátrica e luta antimanicomial no Brasil.
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