Ekeys, 3 DEBATE 30483-Texto Do Artigo-87807-1-6-20200520 (p.8-26)
Ekeys, 3 DEBATE 30483-Texto Do Artigo-87807-1-6-20200520 (p.8-26)
30483
ARTIGO
Introdução
A
o receber o convite para este texto provocador da seção debates da Revista
Argumentum, que tem neste volume como tema central as políticas de saúde
mental no Brasil e no plano internacional: tendências e desafios, decidi tomar a
liberdade de retomar aqui o argumento central de meu livro publicado em 2016
(“Reforma psiquiátrica, tempos sombrios e resistência” [VASCONCELOS, 2016]), e
propor um foco um pouco mais ampliado para esta discussão. Naquela obra, mais como
cientista político do que psicólogo, procurei desenvolver algumas hipóteses. Em
primeiro lugar, de que o movimento antimanicomial e seus principais representantes
teóricos vêm apresentando uma tendência de pensar a política de saúde mental em si
mesma, de forma isolada da conjuntura histórica mais ampla e das demais políticas
sociais, e têm mobilizado seus militantes para a luta, durante as últimas décadas, tendo
como mote principal a interpelação de sua implicação pessoal e profissional com o
processo de reforma psiquiátrica e com o movimento antimanicomial. Podemos traduzir
isso nas seguintes expressões frequentes: vamos segurar a reforma psiquiátrica à unha,
ou ...com o nosso próprio corpo . Em segundo lugar, esse tipo de interpelação, no atual
contexto de deterioração das condições de trabalho na rede de saúde e saúde mental,
tem levado nossos trabalhadores de saúde e saúde mental a três consequências
preocupantes: (a) esgotamento (burn out) (SELIGMANN-SILVA, 2011), ou segundo
outros autores, também à fadiga por compaixão (LAGO; CODO, 2010); (b) a práticas
burocráticas e defensivas, tendentes ao encaminhamento não responsável ou a
atendimentos frios e insensíveis; ou (c) a simplesmente abandonar o campo da saúde
mental. Assim, o livro convida os leitores para se capacitarem para uma análise mais
cuidadosa da conjuntura econômica, política e social, no sentido de compreender os
‘sinais da história’; de planejar melhor os recuos quando são necessários ou inevitáveis;
Psicólogo e Cientista político. Doutor pela London School of Economics and Political Science. Professor
aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. (UFRJ, Rio de Janeiro, Brasil). Militante dos
movimentos de reforma psiquiátrica e luta antimanicomial no Brasil. E-mail:
[email protected].
© A(s) Autora(s)/O(s) Autor(es). 2019 Acesso Aberto Esta obra está licenciada sob os termos da Licença
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Eduardo Mourão VASCONCELOS
Em outras palavras, pretendo desenvolver neste ensaio a hipótese de que a atual crise
das políticas sociais e de saúde mental no Brasil e no mundo tem raízes muito mais
profundas do que imaginamos, em um projeto histórico operado a meu ver por um novo
ciclo qualitativamente diferenciado das políticas neoliberais a nível mundial. No Brasil,
nós, da esquerda, estamos desorientados com as características similares ao fascismo
que esse ciclo apresenta. Alguns de nossos companheiros de luta, muitas vezes sem
grande esforço de análise, ficam mais na indignação, como se nosso governo estivesse
sido apropriado apenas por um grupo de políticos do tipo baixo clero, de orientação
fascista, orientado por um guru amalucado como o Olavo de Carvalho. Em um nível mais
aprofundado, boa parte de nossas análises e ações são marcadas pela denúncia de
retrocessos nos direitos políticos e sociais, e de como eles retomam as raízes da política
e da cultura da ditadura civil-militar, ou ainda determinantes mais antigos, de nosso
passado colonial, escravista, patriarcal e homofóbico, dimensões que não foram
devidamente elaboradas e superadas no período da pós-redemocratização. Isso é em
parte real e correto, mas tendemos a esquecer que o fenômeno é também mundial, que
atinge inúmeros países até mesmo de forte tradição liberal ou social democrata, seja
tendo seus movimentos sociais e partidos de ultradireita ou neonazistas assumindo
diretamente o governo, seja tendo crescimento de forma assustadora em seus
parlamentos, como indicado mais abaixo. Em suma, o atual flash back de retomada dos
componentes políticos, sociais e culturais mais sombrios da história brasileira não é
aleatório, é interpelado por forças econômicas, políticas e sociais mais amplas e
poderosas a nível mundial. E além disso, tem várias dimensões orgânicas, muitas das
quais progressivas, sejam ambientais, tecnológicas e informacionais, com fortes
repercussões na questão social e na organização do trabalho, na troca diária de
mensagens e dados pelas pessoas comuns, e também nos processos de subjetivação de
cada um de nós, e que atingem em cheio os padrões até então reconhecidos da vida e
dos valores políticos, morais e éticos. Ou seja, não estaremos aqui considerando apenas
os processos econômicos e políticos estruturais, como nas análises marxistas mais
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Essas mudanças exigiram, por sua vez, novas formas de gestão de governo, que
transportam a racionalidade de livre regulação do mercado para as agências de governo,
e governos reformatados para servir os mercados, que por sua vez, também realimentam
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Além disso, um dos efeitos colaterais adicionais mais drásticos de todas estas
transformações na esfera mundial foi, sem dúvida alguma, a perda da regulação sobre os
efeitos ambientais do crescimento econômico, e particularmente sobre o aquecimento
global, pela destruição das florestas e áreas verdes e uso intensivo de combustíveis
fósseis, que liberam carbono na atmosfera, acentuando o efeito estufa. Isso tem gerado
aumento gradual da temperatura no planeta, degelo nos polos e nas cadeias de
montanhas mais altas, aumentando o nível dos oceanos, com enorme risco para
inúmeras espécies vivendo nos mares e continentes, aumento da frequência e
periculosidade de eventos climáticos radicais (secas, incêndios florestais, enchentes,
tempestades, furacões etc) e diminuição acentuada da oferta de água doce e potável no
planeta, o que aponta para o acirramento de conflitos e guerras pelo acesso a água.
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na conjuntura mundial que se abre após a crise econômica e financeira de 2008. Para
isso, é preciso revisitar brevemente as ideias chaves dos mais importantes pensadores e
atores políticos neoliberais.
Para a autora, a base da nova forma de gestão dos indivíduos, e não mais do social, está
na lógica orgânica e dinâmica do mercado e da moral, que unem os humanos de forma
independente das ideias racionais, da coerção e da regulação/punição estatal. Nesta
formulação, haveria uma desmassificação dos coletivos gerados por situações comuns,
tal como o de proletarização dos trabalhadores, por meio de estratégias de
empreendedorismo, responsabilização pessoal, transformação de suas habilidades em
‘capital humano’, reinserção na família e comunidade, e realocação de suas necessidades
em práticas de autoprovisão, no cuidado dos filhos, educação, saúde, aparência e
provisão para a velhice, tornando-os mais resilientes às crises e recessões econômicas.
Lares urbanos com quintais poderiam produzir hortas e galinhas, e os desproletarizados
e dessindicalizados poderiam entrar na economia da terceirização, transformando suas
pequenas posses, qualidades e seu tempo em fontes de capitalização, arrendando seus
quartos no Airbnb, trabalhando no Uber ou em aplicativos de entrega, compartilhando
veículos e bicicletas (tema abordado mais à frente), ou simplesmente em ‘bicos’ de vários
tipos. Assim, para Brown, os intelectuais neoliberais defendem o argumento de que
estaria ‘salvando’ e resgatando o indivíduo, a família e os vínculos comunitários da
‘desintegração típica’ ou da ‘aparente extinção’ provocada pela modernidade tardia,
transformando-os em capital humano, como unidades familiares ou comunitárias
econômico-morais. Essa característica nos ajuda a compreender melhor a aliança que os
atores políticos neoliberais têm construído com os setores religiosos evangélicos mais
conservadores, que os apoiam maciçamente nos processos eleitorais e na legitimação de
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suas gestões políticas, tema tratado em detalhe em outro trabalho de minha autoria
(VASCONCELOS; CAVALCANTE, 2019).
No entanto, a autora reconhece que esta racionalidade neoliberal “[...] não causou a
insurgência da extrema direita no Ocidente de hoje [...]” (BROWN, 2019, p. 16), mas “[...]
preparou o terreno para as forças ferozmente antidemocráticas na segunda década do
século XXI[...]” (BROWN, 2019, p. 16). Para isso, segundo ela, contribuíram vários
processos e eventos:
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De meu ponto de vista, é preciso ampliar um pouco mais a análise da autora. Temos
experiências históricas similares ao longo do século XX, em conjunturas de profunda e
continuada crise econômica e social, nas quais a burguesia liberal, defensora da
democracia formal e de alguns direitos humanos, não consegue encaminhar respostas
consideradas adequadas de saída da crise. Neste contexto, as forças antidemocráticas,
de ultradireita ou fascistas, que se mantinham sob o manto político da direita liberal,
ganham autonomia e partem para uma carreira política autônoma. Isso aconteceu após
a crise gerada pela I Guerra Mundial (1914-1918) e pela crise de 1929, dando origem ao
nazismo alemão e ao fascismo italiano2. A meu ver, há algumas semelhanças claras com
o que estamos vivendo hoje. Para exemplificar isso, basta vasculharmos os processos
eleitorais nos últimos anos, nos quais tivemos ou ainda temos vários países centrais com
forças ou partidos políticos de extrema direita no poder ou participando dele: os EUA
(Trump), Reino Unido (Boris Johnson), Israel, Dinamarca, Hungria, Finlândia, Áustria,
Polônia, Eslovênia e Itália. Em países com tradição democrática mais sólida, como a
França, Holanda e Inglaterra, bem como no Parlamento Europeu, os partidos de extrema
direita tiveram um crescimento significativo nas últimas eleições de 2019. No Oriente, a
Índia está sendo governada por um governo de ultradireita, com claro alinhamento a
Trump e Bolsonaro, e com forte componente de discriminação legal contra os islâmicos.
Além disso, em relação ao trabalho de Brown (2019), penso que é preciso mostrar de
forma mais enfática a importância das transformações profundas geradas pelas novas
tecnologias digitais, e as novas forças políticas e estratégias utilizadas pela ultradireita
para promover o desmonte da democracia em cada país e no nível mundial. Assim, as
estratégias originalmente pensadas pelos intelectuais neoliberais passam a ser
atualizadas de forma mais orgânica e com alta capacidade técnica de sistematização e
adaptação para cada país, de entronização nos processos eleitorais e na vida política e
difusão em todo o mundo, por meio de poderosas agências internacionais de
ultradireita, do tipo Think Tanks (de elaboração de pensamento econômico e político
estratégico, formação de quadros, financiamento de ações e articulação política e
cultural para implementá-las), empresas de big data (capazes de processar informações
em uma escala gigantesca), espionagem digital em larga escala e difusão em massa de
2 O conceito de fascismo é complexo e multifacetado, com variações nos países onde aconteceu, mas
temos em nossa memória da história do século XX essas duas experiências marcantes: o fascismo
italiano e o nazismo alemão, que mostraram um enorme potencial destrutivo, levando a maioria dos
países à Segunda Guerra Mundial e ao holocausto. Para os interessados no tema, recomendo ler pelo
menos o verbete Fascismo no clássico Dicionário de política, de Norberto Bobbio e outros (BOBBIO et
al., 1995). Abaixo, temos algumas das características típicas do fascismo identificadas por eles, e que
têm elementos similares no contexto atual:
- sistema autoritário de dominação, com base em partido e organizações de massa;
- ideologia fundada no culto de chefe ou grande líder, que pode ser oriundo de um setor específico da
classe média; desprezo pela democracia liberal, e oposição frontal ao socialismo e comunismo;
- aniquilamento das oposições, incluindo o uso de violência e do terror;
- aparelho de propaganda baseado no controle das informações e meios de comunicação de massa;
- tentativa de integrar nas estruturas de controle do partido e do Estado à totalidade das relações
econômicas, políticas e culturais.
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Esse tema mereceria uma vasta análise e debate, impossível neste texto, e assim só as
linhas mais gerais serão indicadas. Estamos atravessando uma transição dramática e
profunda, de uma sociedade industrial para uma sociedade de serviços. Para
exemplificar, para o conhecido economista Marcio Pochmann, o setor industrial
brasileiro representa menos de 10% do PIB, com cerca de quatro quintos dos
trabalhadores concentrados no setor de serviços, com um desmoronamento do emprego
clássico, pela precarização dos seus vínculos: “Eles não estão mais concentrados em
grandes fábricas, mas em shopping centers, complexos hospitalares, prestando serviços
para condomínios de ricos. A classe trabalhadora está cada vez mais ligada a um trabalho
imaterial e submetida a nova organização temporal e espacial. Essa nova realidade não
faz parte do discurso dos sindicatos e dos nossos partidos. [Nós, da esquerda] estamos
com uma retórica envelhecida” (PORCHMANN apud WEISSHEIMER, 2019, não
paginado).
Uma das mudanças mais significativas neste processo após a crise de 2008 tem sido o
crescimento da chamada gig economy ou ‘uberização’ das relações de trabalho, nas quais
milhares de trabalhadores autônomos prestam serviços para grandes empresas, por meio
de aplicativos. A maioria de nós moradores de cidades grandes e médias no Brasil
conhecem o fenômeno dos motoristas da Uber e outros aplicativos, bem como os
entregadores de alimentos e encomendas em geral. No entanto, poucos de nós estão
atentos às consequências sociais profundas deste processo, e para isso recomendo
assistir dois filmes recentes. O primeiro é Você não estava aqui (Sorry, we missed you),
em filme premiado terminado em 2018, dirigido pelo ingles Ken Loach, e recém lançado
no Brasil (fevereiro de 2020), sobre um entregador de encomendas em vans e sua família,
no interior da Inglaterra. O outro é um documentário brasileiro de curta metragem,
intitulado Vidas entregues, de 2019, dirigido por Renato Biar, e disponível no Youtube, e
que aborda a rotina de entregadores de aplicativos de comida por bicicleta na cidade do
Rio de Janeiro, ganhando entre 20 a 50 reais por dia.
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média em todos os países e uma criação nos dois extremos: significativa dos empregos
muito qualificados e limitada dos menos qualificados” (ANTÓN, 2019, não paginado).
Assim, no atual “[...] contexto de desigualdade, o sentido e a dimensão do impacto da
revolução tecnológica no emprego depende da orientação política do poder econômico-
financeiro e institucional, da regulamentação da globalização neoliberal e das
características das políticas públicas” (ANTÓN, 2019, não paginado). Em outras palavras,
esse processo é altamente dependente das relações de poder político nos processos de
produção, distribuição e informação, com possibilidades reais no sentido de “[...]
revalorizar a importância do trabalho não mercantil e a justa divisão de toda a carga
social [...]”(ANTÓN, 2019, não paginado), como também na direção de “[...] um plano de
garantias de rendas sociais que busca enfrentar a vulnerabilidade social e a pobreza e
fomentar a integração social, a igualdade, e a cidadania social, renovando o contrato
social de reciprocidade de direito4s e deveres e a função do trabalho” (ANTÓN, 2019,
não paginado).
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- ao vasculhar as redes sociais de cada eleitor, com seus likes e dislikes, o software
investiga cerca de 5.000 ou mais pontos de informação;
- o software analisa esse conjunto de dados e cria um perfil psicológico e político-
ideológico de cada eleitor, capaz de prever seu comportamento político;
- isso permite criar um perfil detalhado de grupos de eleitores, e criar uma propaganda
específica ou fake news capazes de sensibilizar cada um dos grupos de eleitores;
- a estratégia visa criar medo e ódio, dividir para reinar, e destruir as bases das
instituições democráticas.
O filme ainda lista as atuações mais importantes e recentes da empresa, Além da eleição
de Trump nos EUA, tivemos também a de Macri na Argentina, a campanha do Brexit na
Inglaterra, e eleições políticas em Gana, Lituânia, Quenia, Romenia, Miamar (na
campanha de ódio, expulsão e/ou genocídio de toda uma etnia muçulmana que vivia no
país), e em inúmeros outros países.
Estas tecnologias também criam ‘bolhas de comunicação’ mais estáveis para fins
políticos e ideológicos, criando e espalhando fake news via computadores/robôs de
repetição, em mensagens para milhões de pessoas nas redes sociais. Hoje, é de
conhecimento público que parte significativa das pessoas só se informa por elas, sem
acesso ao debate e ao contraditório, gerados mesmo que de forma limitada pela mídia
convencional. E sobretudo, faz parte da mesma estratégia também atacar o jornalismo
mais sério, particularmente aqueles com um perfil mais investigativo e/ou crítico.
- tentar recontar a história da humanidade e de cada país. Ex.: negar o holocausto; negar
o golpe e da ditadura civil-militar no Brasil entre 1964 e 1984;
- desqualificar as ciências, as evidências tecnocientíficas e o debate intelectual. Ex.:
difundir a versão criacionista do mundo indicada na Bíblia, ou de que a Terra é plana,
ou rejeitar as amplas evidências do aquecimento global provocado pela ação humana;
- desqualificar o debate político e a liberdade de imprensa, bases para a tomada de
decisões políticas e para a democracia;
- promover uma estratégia diversionista, como ‘cortina de fumaça’, para medidas
impopulares e problemas graves do governo;
- valorizar o senso comum e a opinião das lideranças políticas carismáticas e de pseudo-
intelectuais. Ex.: Olavo de Carvalho;
- gerar massas com comportamentos fundamentalistas e fascistas;
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Este último tópico aponta para um fenômeno gravíssimo, pelo qual a guerra psicológica
apresenta profundas consequências também epistemológicas e mesmo ontológicas, no
sentido de um profundo niilismo3. Significa que as evidências científicas ou técnicas, e
seu debate, na busca de uma melhor aproximação da verdade sobre cada um dos
fenômenos naturais, humanos e sociais, passam a ser completamente desprezados,
valorizando-se apenas as versões sobre eles. Assim, o poder de persuasão das mídias
sociais, com o suporte das poderosas organizações que difundem as fake news e
promovem verdadeiras bolhas de comunicação, passam a ter um poder incontrolável de
influenciar e manipular amplamente a opinião pública e processos políticos e eleitorais,
com um enorme risco de solapar as próprias bases da democracia como regime político.
Para exemplificar a importância deste fenômeno no mundo atual, o Oxford Dictionaries,
departamento da Universidade de Oxford responsável pela produção de seus
dicionários, elegeu em 2016 o termo pós-verdade como a palavra do ano na língua inglesa
(FÁBIO, 2016).
A meu ver, o melhor exemplo do uso das estratégias de pós-verdade na esfera política é
a atuação da própria empresa Cambridge Analytica e de seu dono, Steve Bannon. Ele
criou o grupo internacional The Movement, para se contrapor à Internacional Socialista.
O próprio Eduardo Bolsonaro foi escolhido como representante da América Latina, e
organizou em dezembro de 2018, em Foz do Iguaçu, a primeira Cúpula Conservadora
das Américas (ZANINI, 2019). Uma reportagem mais recente publicada pelo confiável
jornal inglês The Guardian (FRESH, 2020), em 4 /01/20, mostrou que o processo gerado
contra a empresa no parlamento inglês acabou estimulando um vazamento de mais de
100 mil de seus documentos internos, revelando uma atuação com manipulações
diversas, até aquela data, em 64 países!
E não paramos apenas neste ponto, pois ainda temos as novas tecnologias de deepfakes,
nome dado aos vídeos falsos para gerar desinformação. Em seminário ocorrido em
meados de outubro de 2019, promovido pela Associação Nacional de Jornais, em São
Paulo, foi feito esse alerta para este novo fenômeno preocupante, os deepfakes, ou seja,
a capacidade de produção e disseminação de vídeos falsos, produzidos por inteligência
artificial a partir de fotos (SEMINÁRIO..., 2019). Segundo as fontes divulgadas no
seminário, atualmente 96% desses vídeos são referentes a imagens sexuais, geralmente
de celebridades, sem qualquer consentimento. Além disso, os analistas informam que é
quase impossível distinguir os vídeos fakes dos vídeos reais, o que pode levar a uma
verdadeira epidemia de falsidades, injúrias e difamações. É possível imaginar as
implicações do eventual uso desses vídeos já nas eleições de 2020 e de 2022 em nosso
país?
3Entre os filósofos mais modernos, foi certamente Nietzche o autor mais influente e complexo na defesa
do niilismo. Para criticar a cultura ocidental pelo menos a partir de Sócrates, portanto desde a cultura
grega clássica, ele afirma que toda a cultura ocidental gerou apenas ilusões, tornando supérflua toda a
busca da verdade, e gerando uma existência humana cada vez mais insegura e violenta (BOBBIO et al,
1995, p. 825).
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Além dos efeitos diretamente políticos, é preciso também estar atento aos mecanismos
de ação e efeitos subjetivos e psicossociais das novas tecnologias de poder digital e de
informação. Para isto, sugiro a leitura da obra Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas
técnicas de poder, do filósofo coreano Byung-Chul Han, com tradução em português
publicada em 2018 (HAN, 2018), contendo uma coletânea de ensaios críticos breves, às
vezes polêmicos e unilaterais, mas bastantes sugestivos e provocativos. Han propõe
analisar esses processos pela utilização dos conceitos foucaultianos de poder disciplinar
e biopolítica, este último entendido como uma forma de poder sobre os corpos. Vejamos
algumas indicações ilustrativas deste tipo de análise. Para o autor, o novo sujeito
neoliberal do empreendedorismo, como descrito acima, se julga livre de uma coerção
externa visível, mas acaba atuando e se explorando de forma até mesmo apaixonada, em
uma luta contra si mesmo, com forte suporte da literatura de autoajuda, como um
sujeito focado no desempenho e no sucesso de sua própria empresa ou de seu trabalho.
E essa nova forma de exploração acaba tomando tudo aquilo que antes era associado
apenas à esfera privada e à liberdade, como a emoção, criação, otimização estética (via
cirurgias plásticas e academias), o jogo, a autorevelação e autoexposição voluntária, em
um ritmo alucinado de comunicação permanente. Os que fracassam, são levados não a
questionar o sistema, mas a se culpar. E assim, a depressão e o burn out (esgotamento)
se constituem como as formas de sofrimento psíquico mais comuns.
Por outro lado, a condição de cidadão ativo, como fenômeno político complexo, é
transformada na condição de consumidor, passivo, que apenas reage como que
reclamando da política, da mesma forma que reclama de uma mercadoria com
problemas. Em consequência, os políticos e partidos são transformados em
fornecedores, que têm que satisfazer seus eleitores como se fossem consumidores ou
clientes. Além disso, os sistemas de big data são constituídos como um instrumento
político eficiente, tornando possível prognósticos detalhados do comportamento de
cada indivíduo. Assim, a própria pessoa é transformada em coisa, pois é quantificável,
mensurável e controlável.
Para avançar na analisar na comunicação digital, Han (2018) propõe uma diferenciação
entre emoção/afeto, caracterizados pela descarga imediata, e o sentimento, que leva a
uma narrativa, se prolongando mais no tempo, com efeitos mais racionalizáveis, e com
baixo efeito performativo, ou seja, que não leva a uma ação imediata. Assim, a
comunicação digital favorece muito mais a descarga imediata e fugaz da emoção/afeto,
deixando-as correrem livres, e é fortemente performativa. Ainda segundo Han (2018), a
pressão pela aceleração do fluxo comunicacional acaba gerando uma ditadura da
emoção, pré-reflexiva e mais compatível com os apelos imediatos de consumo, com a
temporalidade imediata dos games, cuja lógica é entronizada nos processos de trabalho,
e com as interpelações dirigidas para a inteligência emocional, que promovem a
motivação para o trabalho, tanto em si mesmo, como para os seus eventuais
subordinados.
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um maior controle das mensagens mais agressivas; as próprias fake news; e o anonimato
relativo das mensagens reencaminhadas. Tudo isso colabora para fomentar
posicionamentos e julgamentos peremptórios, e fácil depredação moral das pessoas
físicas e autoridades nas mídias sociais.
No atual projeto radical de atuação das políticas neoliberais, além dos processos já
indicados acima, estão sendo reatualizadas, em vários países, novas ‘velhas’ formas
violentas de gestão de populações despossuídas ou consideradas ‘indesejáveis’ pelas
elites. Entre estes grupos populacionais, estão os imigrantes, negros, indígenas e outras
minorias étnicas; população favelada ou em situação de rua; mulheres; pessoas com
deficiência ou com transtorno mental; pessoas com problemas decorrentes do uso de
drogas; traficantes de drogas; infratores da lei etc.
Autores como o sociólogo de origem francesa e atuante nos EUA Loïc Wacquant (2001,
2006) já vem denunciando desde a virada da década de 2000 a tendência ao
encarceramento em massa dessas populações nos EUA e em diversos países centrais,
sendo que na maioria desses países o sistema carcerário é terceirizado, no qual empresas
lucram vendendo seus serviços ao Estado. No caso de imigrantes, impõe-se a proibição
de entrada, expulsão ou status de ilegalidade/clandestinidade, sem acesso a direitos
básicos de cidadania, gerando guetos e novas formas de exploração do trabalho, muitas
vezes em situação análoga à escravidão.
Em parte, essa política já está sendo concretizada no Brasil, pelo número de mortos
vítimas de policiais. Em 2017, foram 4.222 casos em todo o país, constituindo a polícia
que mais mata no mundo. Só no estado do Rio de Janeiro, em 2018 foram 1.534 mortos
pela polícia, a maior número desde o início da série em 1998. De janeiro até setembro de
2019, tivemos 1.402 vítimas, que é quase metade de todos os homicídios (3.025) ocorridos
no mesmo período (HOMICÍDIOS..., 2019). Ou seja, estamos indo na direção de novos
recordes históricos. E as propostas para a área de segurança dos governos de Bolsonaro
e Witzel, do Rio de Janeiro, buscam:
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A gravidade do neoliberalismo radical pós 2008 e nossas estratégias de resistência
Essa tendência tem implicações profundas no campo dos direitos humanos, das políticas
sociais, da assistência social, da saúde e particularmente da saúde mental e drogas, como
também de políticas para deficientes, já que a maioria de nossos usuários de serviços,
sem condições de inclusão em condições de igualdade no mercado de trabalho e no
sistema educacional, tendem a sofrer formas de exclusão similares aos demais grupos
atingidos.
O premiado e elogiado filme brasileiro Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça Filho e
Juliano Dornelles, e lançado no Brasil em 2019, assumiu essa temática de forma original
e crítica, e a meu ver, é imprescindível de ser visto, estando já disponível no Youtube.
Considerações finais
À primeira vista, as tendências e questões abordadas neste ensaio podem parecer muito
distantes da visão ou do campo de atuação do cidadão comum ou do ativista, mais
ligados à especificidade de suas áreas de trabalho, como no caso da saúde mental e da
luta antimanicomial. No entanto, estas questões podem ditar as perspectivas concretas
da vida pessoal e social no mundo e no Brasil, particularmente se esse projeto neoliberal
radical tiver condições de ser implementado em toda a sua plenitude. Assim, cabe a nós
atuar em duas direções básicas, no curto e médio prazos.
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Eduardo Mourão VASCONCELOS
c) O processo político e econômico em países que passaram por ajustes neoliberais, mas
que nos últimos anos têm governos de centro-esquerda, e que estão gradualmente
recuperando os direitos econômicos, sociais e políticos da maioria da população: o caso
mais significativo aqui é Portugal, governado diretamente pelo Partido Socialista, de
centro, mas com o suporte da chamada Geringonça, uma aliança com partidos e
movimentos sociais de esquerda. O caso espanhol é mais instável, mas as últimas
eleições de 2019 caminharam também na mesma direção. Esses casos apontam para a
importância de uma frente política ampla, do tipo antifascista, no enfrentamento do
projeto neoliberal radical.
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A gravidade do neoliberalismo radical pós 2008 e nossas estratégias de resistência
pelo menos duas razões: eles deixam o governo fazer o jogo sujo das reformas neoliberais
sem ter o desgaste direto disso, bem como apoiam a espécie de semi-parlamentarismo
atual no Congresso, já que o governo decidiu não investir em uma base parlamentar de
apoio, o que gera capital político para suas lideranças, particularmente para Rodrigo
Maia. No entanto, o custo e os riscos associados aos desvarios políticos do governo têm
sido altos, levando recentemente a um relativo descolamento político, que pode implicar
em cisões significativas mais à frente, particularmente nas eleições presidenciais de 2022.
De forma similar, as relações com os setores militares revelam um processo do tipo
‘sanfona’, de sucessivas aproximações e ataques/distanciamentos. Estas cisões e
rachaduras no bloco do poder são significativas, e devem ser acompanhadas com
atenção.
Em segundo lugar, a meu ver, cabe continuar ou retomar, onde possível, nossa
militância de base e particularmente micropolítica nos movimentos sociais
populares e em nossa atuação como trabalhadores de políticas sociais. Mesmo em
conjunturas macropolíticas desfavoráveis, algumas mediações de prefeituras e governos
estaduais mais progressistas, como também de ONGs e entidades representativas de
profissionais, possibilitam não só manter a resistência, mas também avançar em alguns
projetos inovadores, mesmo que em pequena escala. No entanto, eles serão
fundamentais para apontar a renovação necessária de nossos projetos e políticas, quando
a conjuntura política for mais favorável. Pode ser alentador lembrar que nossa política
de reforma psiquiátrica, com serviços tais como os CAPS, que foram difundidos para
todo o país, só conseguiu ser implementada por que tivemos duas experiências piloto
fundamentais, ainda no final da década de 1980, em condições políticas nacionais muito
desfavoráveis, nas cidades de Santos e São Paulo.
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Eduardo Mourão VASCONCELOS
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Eduardo Mourão Vasconcelos
Militante dos movimentos de reforma psiquiátrica e luta antimanicomial no Brasil.
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