DADOS DE ODINRIGHT
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A Dulce Pandolfi, pela virtude discreta e
heroica na resistência à ditadura, o
bronze etéreo destas palavras
À memória de meu pai,
Marcello Marques Soares
Sumário
Introdução — Rio de Janeiro: A grande guerra contra o clichê
1. Tiros na madrugada
2. Linha Vermelha
3. Você está proibido de morrer
4. Mangueira, quinze anos depois
5. “Don’t be lazy”
6. A mulher incomum
7. É tanta coisa que nem cabe aqui
8. Festas cariocas
9. Pedra da Gávea
Agradecimentos
Introdução
Rio de Janeiro: A grande guerra
contra o clichê
Rio de Janeiro é um clichê global poderoso que está em
xeque. A cidade rebelou-se contra seu retrato. O Dorian
Gray urbano precisa da degradação de sua imagem-fetiche
para libertar-se do feitiço e viver, assumindo os riscos e as
novas possibilidades. Cumpre destruir a imagem encantada
e deixar morrer o que sobreviveu às custas da fantasia
benevolente. Esta é a exigência dos milhões de cariocas
que se revoltam contra a domesticação imposta pela
história edulcorada que contamos a nós mesmos sobre o
que somos. Esta é a agenda de quem ama a liberdade e a
justiça, nas suas mais variadas acepções. O tempo da
autoindulgência acabou. O Rio atravessa um momento
doloroso e fecundo de perigo e reinvenção. A estação de
fúria e tempestades não anula o mar, o sol, o esplendor da
Mata Atlântica e a dança infinita, mas estilhaça ilusões e
incinera a pachorra pusilânime dos cartões-postais.
Uma cidade troca a pele como a serpente. Mudam as
cores, os tons, a sensibilidade, as relações que lhe dão
corpo e energia. Escrever sobre o Rio de Janeiro, hoje,
requer afinidade com a pulsação acelerada de um processo
de mudança que rasga a pele sem norte político claro, sem
projeto coletivo compartilhado, sem lideranças e
protagonistas reconhecidos, sem que a pele alternativa
tenha sido gestada pela evolução orgânica. O risco mais
imediato é a exposição excessiva sem mediações. O corpo
fica vulnerável. As mediações institucionais tornam-se mais
importantes do que nunca, mas teriam de se adaptar às
novas circunstâncias, posto que, tal como hoje atuam e dão-
se a perceber, são parte do problema.
O Rio de Janeiro clichê é a cidade da festa, do samba, da
sensualidade hedonista, do Carnaval e do futebol, das
praias e da natureza prodigiosa, da fraternidade acolhedora,
do malandro virtuoso, do improviso criativo, da alegria e da
espontaneidade. Enfim, a cidade maravilhosa, cantada em
prosa e verso e vendida nos pacotes turísticos mundo afora.
Seria um equívoco negar a presença de várias dessas
qualidades. Entretanto, nem de longe elas suplantam outros
aspectos francamente negativos da experiência urbana
carioca. O que parece interessante na conjuntura do Rio de
Janeiro é a repulsa não apenas a essas situações objetivas
que afetam milhões de pessoas, mas também ao clichê que
congelou uma imagem idealizada. A rebelião contra o cliché
tem mobilizado sobretudo os jovens, embora sensibilize
segmentos bem mais amplos da população. Perceberam
que a imagem não é só um erro. É um mapa que orienta
comportamentos e percepções cotidianos. Não é apenas um
retrato falso, mas um modelo restritivo que aprisiona, em
uma identidade, a pluralidade de modos de ser e sentir.
Se a velha ordem desfaz-se, grão a grão, se o clichê está
em chamas, qual ponto de vista adotar para testemunhar
esse processo? A primeira pessoa impõe-se como a
perspectiva mais razoável e honesta. Sobretudo quando o
mundo que balança e vai cedendo lugar a outro repercute
tanto em dimensões subjetivas e na vida privada quanto em
níveis substantivos e na esfera pública. É interessante
registrar que, nesse trânsito entre mundos, sutileza e
estrondo substituem-se a todo momento e, por vezes,
confundem-se, a depender da sensibilidade do observador.
Até porque os mundos distintos, ou antagônicos,
conviverão. Pureza é a qualidade da teoria, não da história,
muito menos das histórias contadas de pontos de vista
particulares.
Por isso, este livro permite-se começar e concluir com a
radicalização do ponto de vista adotado, a primeira pessoa.
O capítulo inicial descreve minha travessia pelo poder, dos
bastidores aos porões. Relato o choque acidental, no Rio de
Janeiro, com os futuros donos do poder nacional, nos
primórdios do primeiro escândalo de corrupção dos
governos petistas, o Mensalão, e os desdobramentos
inesperados de uma trama quase inverossímil.
O segundo capítulo conta uma visita ao outro lado do
poder, ou ao poder da margem, e revela como é difícil
erguer pontes quando as instituições são cúmplices de
iniquidades.
O terceiro capítulo abdica da primeira pessoa e rasura as
subjetividades, deixando à mostra atos e falas em sua
crueza objetiva, por vezes assustadora. Atualmente,
escândalos de corrupção no Brasil, não só no Rio, referem-
se a cifras bilionárias, tornando as quantias mencionadas
neste capítulo quase pueris e irrelevantes. Todavia,
relevantes são as condições que tornam possível o
casamento perverso entre o crime e a política, inclusive
aquela que se faz em nome dos interesses populares. Tudo
começa na província. O relato é um flash da barbárie, mas
também o flagrante da decência e da coragem, no exercício
da profissão e na política. Um retrato da história em
andamento, em múltiplas vozes e contradições. A narrativa
foi montada com base em entrevistas, observações diretas
e depoimentos, reunidos ao longo dos últimos vinte anos.
Cada episódio retrata situações reais, alusivas a
personagens existentes, embora a sequência não seja
exata, as conexões tenham sido redesenhadas, os nomes,
trocados, e nem sempre as falas correspondam aos
discursos efetivamente pronunciados, ainda que a intenção
tenha sido captar o essencial de seu conteúdo e das formas
de expressão dos protagonistas. Este foi o meio encontrado
para produzir uma narrativa tão fiel quanto possível às
circunstâncias nas quais crime e política se encontram, no
Rio de Janeiro, incluindo a região metropolitana, da qual a
capital é indissociável.
O quarto capítulo testemunha uma situação dramática e
extrema, em que Estado e sociedade, representantes
governamentais e a comunidade da mais icônica das
favelas cariocas, a Mangueira, defrontam-se e dialogam, a
partir do reconhecimento da verdade, tomada como base
para uma reconciliação democrática. O caso mostra que a
mudança é possível, ainda que tenham sido efêmeras
aquelas conquistas.
O quinto capítulo, em terceira pessoa, conta a história de
um brilhante e ousado estudante carioca de economia, que,
nos anos 1970, enriqueceu da noite para o dia, no embalo
das ondas, que lhe apetecia surfar, e do mercado de
capitais, do qual tornou-se operador destemido. Abatido por
uma desilusão amorosa, abandonou o porto seguro e
lançou-se ao mar, literalmente. Velejou durante oito anos,
cruzando os oceanos. Mergulhou na cultura hedonista e
contemplativa da maconha e do haxixe, até que a Era de
Aquarius virou pó. Retornou ao Rio, tentou terno e gravata,
mas naufragou na depressão e no vício. Convidado por um
velho amigo sul-africano a resolver de uma vez a vida,
curou-se da dependência, comendo o pão que o diabo
amassou, e partiu ao encalço da fortuna. Trocou suas
habilidades náuticas e financeiras pela perspectiva de
ganhar muito dinheiro, negociando com europeus e
colombianos. Atravessou o Atlântico em sua derradeira
aventura e acabou sendo detido, em Londres, e condenado
a 24 anos de prisão por associação ao tráfico de duas
toneladas de cocaína. Dividiu sua pena entre penitenciárias
de segurança máxima inglesa e carioca, tendo a
oportunidade de experimentar o inferno em duas línguas e
dois estilos: asséptico, frio e claustrofóbico; contagioso,
pútrido e abrasador. Tony hoje está bem, livre, e ainda
anseia pelo mar. Sem nostalgia.
O sexto capítulo volta a adotar o ponto de vista externo. O
relato é construído na terceira pessoa. O esforço de
afastamento é correspondente à intensidade das emoções
envolvidas nos episódios relatados. Escrever em primeira
pessoa condenaria a narrativa ao grito de dor e ao silêncio.
Como exprimir o indizível? Como retratar a perversão em
estado puro, manifestada na tortura? Como descrever a
rotinização da tortura como prática institucionalizada e
política de Estado? No capítulo, acompanho a viagem ao
inferno de uma jovem e bela brasileira que disse não à
ditadura e acabou presa, nos anos 1970, no Rio de Janeiro.
Foi usada como cobaia em aulas de tortura, esteve próxima
da destruição física e psicológica, mas sobreviveu. Hoje é
uma respeitada historiadora, que mantém o espírito elevado
e ajuda alunos e colegas a pensar e construir um futuro
democrático, para que nunca mais o país e a cidade sejam
palcos da suprema iniquidade de que ela foi vítima. Nunca
mais. Sua história jamais havia sido publicada.
O sétimo capítulo conta o que aconteceu na noite de 20
de junho de 2013, quando o Rio de Janeiro saiu do armário
ou, como diziam os ativistas, despertou. Um milhão de
pessoas tomaram a avenida Getúlio Vargas. Foi a maior
manifestação espontânea da história da cidade e do país.
Não havia lideranças partidárias ou sindicais, nem centro ou
organizadores. A massa nas ruas dialogava com o
imaginário transnacional, excitado pela Primavera Árabe, as
ocupações na Europa e nos Estados Unidos, e a emergência
de novos protagonistas, novos repertórios e novas
dramaturgias políticas. Depois da memória da ditadura,
prenúncios de transformações profundas: a cidade gestando
outra, como disse Eduardo Giannetti. O Rio de Janeiro
tremia, sacudido pelo deslocamento de placas tectônicas
sociais e culturais. Nada seria como antes. O clichê estava
deposto.
O oitavo capítulo mescla pontos de vista internos e
externos para contar histórias cariocas regidas pela
ambiguidade: a hospitalidade ambivalente; a festa
imaginária que celebra o clichê, realizando-o; e a antítese
do clichê festivo e lúbrico, dramatizado, paradoxalmente,
com a volúpia erótica do sexo recalcado.
O último capítulo é um depoimento autobiográfico, cujo
foco é o laço entre público e privado, política e afetos
pessoais, o épico nacional e o romance familiar. Este novelo
frequentemente escapa aos relatos históricos. Aqui,
considero-o decisivo, em todas as dimensões e escalas. A
pequena anedota idiossincrática engendra a matriz de
padrões coletivos: modos de pensar e agir, narrar, esquecer
e lembrar. Por outro lado, o breve gesto infantil pode
constituir um elo persistente entre individualidades e o
grande roteiro político em que estão metidas. Minha
biografia não é mais interessante, reveladora ou importante
do que qualquer outra. Contudo, como as demais, serve
para contar a história da ditadura, iniciada com o golpe de
1964: fora de nós, dentro de nós e entre nós, brasileiros,
especialmente cariocas. Em nenhuma outra cidade o regime
militar mostrou suas garras tão cedo e em tamanha escala.
Escolhi minha trajetória porque a conheço melhor,
sobretudo nos detalhes aparentemente insignificantes. A
ditadura durou até 1985. A primeira Constituição
efetivamente democrática da história do Brasil foi
promulgada em 1988. Desde então houve muitos avanços,
mas nem de longe têm sido suficientes.
Enquanto relata episódios diferentes, tematizando
distintos aspectos da vida social carioca, cada capítulo abre
uma janela sobre o Rio de Janeiro. A leitura não oferece
chaves e resiste a sínteses. A complexidade é maior do que
qualquer esforço interpretativo que pretenda englobar todas
as dimensões. Contudo, o núcleo persistente transparece na
paisagem e reaparece em todas as janelas: as
desigualdades, o racismo, a degradação da política, a
violência do Estado e o ódio que se derrama sobre a cidade,
mudando seu tom e colocando em risco a beleza
exuberante e a dança infinita.
1. Tiros na madrugada
Em 1o de janeiro de 2003, Lula tomou posse na
presidência da República e eu fui nomeado secretário
nacional de Segurança Pública. Mudei-me para um hotel em
Brasília, mas retornava à minha cidade sempre que
possível. Um mês depois, o porteiro do prédio em que meus
pais moram desde os anos 1960, em Laranjeiras, onde
cresci e me hospedava quando estava no Rio, foi
despertado da sonolência na madrugada quente, típica do
verão carioca. Levantou-se da cadeira, circundou a mesa,
adiantou-se até o limite do portão gradeado, atrás do jardim
que separa o prédio da calçada.
Naquela parte do bairro nada acontecia, sobretudo à
noite. Mesmo nas piores épocas do Rio de Janeiro, quando a
decadência econômica e a crise social transbordavam numa
espiral efervescente de violência, nos anos 1980 e 1990,
aquela região permaneceu mais ou menos imune ao
contágio.
O porteiro foi espiar mais de perto. Não lhe passou pela
cabeça a imprudência de sua curiosidade. O carro não
estacionou nem voltou a mover-se. O motor permanecia
ligado. Namorados despedindo-se atrás dos vidros escuros?
O automóvel lembrava uma viatura policial
descaracterizada. Não parecia a embalagem de uma cena
romântica. Um homem saiu à direita do motorista. A porta
ficou aberta. Afastou-se do carro, lentamente, de costas, em
direção ao meio da rua deserta, mantendo-se de frente para
a portaria, olhando para o alto do prédio. Quase ao mesmo
tempo, outros dois homens abriram as portas traseiras,
saltaram com agilidade e se posicionaram ao lado do
primeiro.
O porteiro intuiu que alguma coisa estava para acontecer
e congelou. Alguma coisa muito ruim e significativa, que ele
contaria aos netos. Suspendeu a respiração. Os três
estavam armados. Percebeu que contar aos netos talvez
fosse um cálculo otimista quando os três começaram a
atirar. Jogou-se no chão e mal pôde ver os homens
enfiarem-se no carro, que saiu cantando pneu. Os tiros de
pistola quebraram janelas de diversos apartamentos em
vários dos nove andares. O porteiro custou a livrar-se de um
torpor agora muito diferente do sono. Tinha a impressão de
que a temperatura despencara como se a cidade tropical
dos biquínis e das praias, em pleno verão calcinante,
mergulhasse na idade do gelo.
O telefonema de minha mãe me acordou, em Brasília,
antes que meus assessores, os policiais e os repórteres
entrassem em cena. Não demorei a entender o que tinha
acontecido. Decifrei o recado, imediatamente. Não havia
qualquer sutileza na mensagem. Explico.
Quando meu trabalho no governo começava a engrenar,
fui procurado por alguns homens da Polícia Rodoviária
Federal, no Rio de Janeiro. Precisavam falar comigo,
privadamente. A conversa foi curta e objetiva. Eles
confiavam em mim o suficiente para se arriscarem a trazer-
me denúncias muito graves sobre o então superintendente,
o homem que comandava a instituição no Rio. As
informações eram inacreditáveis e envolviam receptação de
carga roubada, adulteração de combustível, contrabando e
outros crimes. Os esquemas estavam documentados e as
descrições eram realmente impressionantes. Havia fotos de
um galpão no qual entravam e saíam caminhões
transportando combustível adulterado. Imagens de
operações nas rodovias federais que cruzavam o estado do
Rio de Janeiro e relatos sobre como se processavam para
camuflar cargas roubadas e furtadas. A blitz era realizada
depois que os veículos envolvidos no esquema eram
avisados e se detinham em postos de gasolina, no vizinho
estado de São Paulo, aguardando o sinal.
Pedi aos policiais que indicassem dois colegas para
acompanhar-me, imediatamente, a Brasília. Telefonei ao
diretor-geral da PRF — o comandante nacional da instituição
— e o convidei para uma reunião, em meu gabinete, na
capital federal. Tomamos o primeiro voo. A reunião foi tensa.
O diretor custou a convencer-se. Ironizou as acusações,
desprezou as evidências, duvidou de cada denúncia. Nosso
relacionamento não era dos melhores. A cordialidade era
estritamente protocolar. Ele sabia que eu havia sido
contrário à sua nomeação pelo ministro da Justiça, que,
aliás, nesse caso, apenas atendia à orientação da Casa Civil.
O que estava por trás daquele movimento de peças era a
manobra política ao velho estilo: o governo federal aceitara
indicação de um governador do sul do país em troca de
apoio no Congresso Nacional. Antes da decisão, fui visitá-lo
em seu estado. Quis ouvi-lo sobre sua instituição. Que
diagnóstico fazia? Quais propostas defendia? Como avaliava
a crise nacional da segurança pública e de que forma sua
corporação poderia contribuir para mudanças substanciais?
O candidato a diretor-geral nada tinha a dizer. Era um
homem simpático, bem entrosado com o governador, com
aguçado faro político.
A reunião começava a dar voltas em torno dos mesmos
pontos. O diretor-geral mostrava-se firmemente refratário a
qualquer atitude. Limitava-se a desqualificar argumentos e
relatos. Senti a necessidade de elevar o tom. Exigi a
exoneração do superintendente do Rio de Janeiro. Mesmo
que tudo fosse um engano, um mal-entendido ou uma
armação, o fato é que ele não poderia continuar ocupando
um cargo de confiança de tamanha responsabilidade,
enquanto o caso não fosse esclarecido. Finalmente, o diretor
rendeu-se, quando ameacei ir diretamente ao presidente.
Eu estava blefando. O presidente deixara de receber o
segundo escalão desde a posse. O núcleo duro blindara o
gabinete. Mas estávamos no início do mandato. O diretor
não tinha ideia de como as coisas funcionavam. Talvez
imaginasse que os militantes do PT éramos todos íntimos e
decidíamos em assembleia permanente. Ele provavelmente
me atribuía mais poder do que eu tinha. Fiz o possível para
não o dissuadir. Passei-lhe a mensagem velada de que,
recusando-se a tomar a providência cabível, ele se tornaria
tão vulnerável quanto o funcionário que protegia. Sua
atitude poderia ser interpretada como cumplicidade ou, na
melhor das hipóteses, resistência a adaptar-se aos métodos
éticos e transparentes de nosso governo. Passara o tempo
das conciliações corporativistas.
Na manhã seguinte o Diário Oficial registrava a
exoneração do posto de superintendente da PRF no Rio de
Janeiro, que é um cargo de confiança — não houve
demissão da polícia, evidentemente, porque isso requer
longo processo, que envolve investigação e, claro, amplo
direito de defesa.
Em torno do meio-dia, o superintendente afastado passou
a me telefonar insistentemente. Assessores que atendiam
meu celular estranharam a atitude e perceberam a
indisfarçável agressividade no tom da voz. Estranharam
porque os policiais costumam respeitar a hierarquia e a
disciplina, mesmo em situações tensas. Ligar diretamente a
um secretário nacional não ocorre nunca a um profissional
de posição subalterna. Não que eu me importasse com
essas coisas. Mas era significativo. O recado que me
mandava, repetidamente, era o seguinte: ele sabia que fora
eu o responsável por sua exoneração. Que não era justo;
não podia acontecer.
Atribuímos a impertinência à revolta natural, sobretudo
em se sabendo das consequências, uma vez que, dados os
motivos, a exoneração seria apenas o primeiro passo de um
procedimento de apuração, administrativo e criminal. Isso
caíra como uma bomba na vida do superintendente. Era
compreensível o desespero. A impunidade se tornou tão
comum no Brasil que rompê-la causa perplexidade.
Não dei maior importância aos telefonemas.
Uma hora depois, recebemos um comunicado urgente do
departamento de inteligência da Secretaria de Segurança
do estado do Rio de Janeiro. O Disque Denúncia, serviço
gratuito de denúncias anônimas, recebera informação de
que essa mesma pessoa estaria preparando um atentado
contra mim. Era muita coincidência, ainda que isso pudesse
vir de inimigos do ex-superintendente, interessados em
levá-lo ainda mais para o fundo. Em ambientes minados,
nunca se sabe. De todo modo, nos vimos obrigados, eu e
minha equipe, a intensificar as medidas de segurança. Até
porque eu estava de partida para o Rio.
À noite, na rua do Catete, bairro carioca de classe média,
o segundo carro de minha segurança — passei a circular
com dois — identificou um Passat branco com quatro
homens nos seguindo. Numa manobra ágil, o Passat foi
fechado, mas o motorista desconhecido foi ainda mais
rápido, subiu na calçada e fugiu pela contramão por uma
rua lateral. O carro da segurança não tinha licença para
segui-lo, porque a norma elementar recomenda cautela com
esses movimentos que podem ser meras ações
diversionistas, realizadas exatamente com a intenção de
atrair a atenção do veículo que atua na cobertura, deixando
o alvo vulnerável. Descobrimos, em seguida, que a placa do
Passat era fria.
Dois ou três dias depois, aconteceu o ataque ao prédio.
Começaram a chegar outros recados supostamente
oriundos do ex-superintendente, o homem cuja exoneração
eu provocara: “quem ri por último ri melhor”. As mensagens
mencionavam um nome e garantiam que essa pessoa
substituiria o superintendente exonerado. Tratava-se,
diziam, de gente sua. Gente de seu grupo político. Eu não
perdia por esperar.
Levei o caso ao ministro da Justiça, meu superior
hierárquico. Aliás, compartilhei com ele todos os lances do
episódio, desde o início.
Aproximadamente uma semana depois dos tiros em
Laranjeiras, o ex-superintendente sofreu um atentado e
quase perdeu um braço. Sobreviveu por milagre. Nosso
pessoal da inteligência correu à delegacia e constatou uma
curiosa interferência de seu irmão, policial civil, no boletim
de ocorrência, o qual registrava apenas uma tentativa de
assalto. Aos poucos, deciframos o enigma: o ex-
superintendente, provavelmente, já havia recebido — antes
da exoneração — pagamentos por “serviços” ou “produtos”
que não poderia mais entregar em função da perda do
cargo.
Avisei ao ministro sobre mais esse lance e lhe pedi todo o
cuidado na nomeação do substituto. Solicitei à direção-geral
da Polícia Federal que determinasse uma investigação
imediata e rigorosa.* O quadro se tornava cada vez mais
complicado e a cada dia mais tenso.
Alguns dias depois, em Brasília, cedo pela manhã, senti
um soco na boca do estômago quando li o Diário Oficial, o
órgão que divulga as decisões do Poder Executivo, levado a
mim por um assessor inteiramente transtornado. O ministro
da Justiça nomeara a tal pessoa que o ex-superintendente
anunciara em seus recados irônicos e ameaçadores. Desci
aos saltos a escada privativa que ligava meu gabinete ao do
ministro. Entrei sem fôlego e sem voz. Ele estava de pé e se
antecipou. Sabia por que eu estava ali e imaginava meu
sentimento. Ele próprio estava muito chateado e
desconfortável, mas, infelizmente, fora impossível impedir a
nomeação. José Dirceu já havia negociado com Roberto
Jefferson aquela superintendência e o acordo tinha sido
fechado.
José Dirceu era ministro da Casa Civil. O homem forte do
governo Lula. Seria primeiro-ministro se o regime fosse
parlamentarista. Ajudara a fundar e organizar o Partido dos
Trabalhadores, o qual presidira, e coordenara a campanha
vitoriosa à presidência. Uma espécie de Bismarck
bolchevique. Ele cairia dois anos depois sob acusação de ter
montado o maior esquema — até aquele momento — de
corrupção política da história do Brasil para comprar apoio
de parlamentares. Foi denunciado por Roberto Jefferson,
deputado federal pelo Rio de Janeiro e presidente do Partido
Trabalhista Brasileiro. Para comprovar a acusação, Jefferson
agiu como camicase: confessou o próprio envolvimento, o
que lhe custou o mandato parlamentar. Ambos foram
condenados à prisão pelo Supremo Tribunal Federal, em
2013. Dirceu, a sete anos e onze meses, e a pagar multa de
676 mil reais; Jefferson, a sete anos e catorze dias, e à
multa de 746,2 mil reais. As condenações não se referiam
ao episódio relatado, o qual não envolvia provas de que
houvesse interesses subalternos — a menos que assim se
qualifique a troca de um tratamento estritamente
profissional da Segurança Pública por acordos políticos em
torno de cargos e aparelhamento institucional.
O ex-superintendente exonerado foi preso pela Polícia
Federal em 2004. As acusações confirmaram-se. Ele havia
sido indicado pelo deputado Jefferson, assim como seu
sucessor o seria.
Talvez o mais extraordinário desta história seja seu
desfecho premonitório. Quando o ministro mencionou os
nomes de Dirceu e Jefferson, eu me surpreendi, porque
nunca os ouvira pronunciados na mesma frase, e como
aliados. É verdade que política exige flexibilidade,
concessões, negociação. Mas há limites. Percebi que os
limites estavam sendo ultrapassados. Já vivenciara outras
circunstâncias que abalaram minha confiança no Partido dos
Trabalhadores e em alguns de seus líderes. Mas, naquele
momento, fui tomado por um sentimento fundo que me
prostrou. Fiquei frente a frente com minha impotência.
Houve um precedente que transformava o que estava
acontecendo em um grande constrangimento político e
pessoal.
No período de transição entre os governos Fernando
Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, entre outubro
e dezembro de 2002, dezesseis associações estaduais de
policiais rodoviários federais me solicitaram uma audiência
conjunta. Eles acreditavam que eu viria a ocupar alguma
posição destacada no governo Lula, que assumiria em
janeiro de 2003. Naquela época, eu era apenas membro do
grupo de transição, porém o único representante das áreas
de Justiça e Segurança. Portanto, mesmo que o prognóstico
que faziam não se confirmasse, minha responsabilidade era
repassar recomendações às futuras autoridades
governamentais, o que tornava nosso encontro
suficientemente relevante. A maior sala do andar foi
pequena para receber tanta gente. Apesar das cadeiras
extras, formando um segundo círculo em torno da mesa
ovalada, muitos visitantes ficaram de pé.
A reunião foi comovente para qualquer pessoa que
vivenciasse o dia a dia das instituições policiais e soubesse
quão difícil era (e continua sendo) a luta contra a corrupção.
Por intermédio de seus porta-vozes, me disseram que
estavam ali para me fazer um único pedido. Eu estava mais
do que preparado para lhes explicar quão difícil seria para o
presidente, no começo do mandato, elevar salários e
benefícios, por mais merecidos que fossem. A situação
econômica era grave. O medo do suposto radicalismo
socializante de Lula afugentara capitais e desestabilizara a
moeda. O dólar havia disparado e o país enfrentava grande
crise de confiança no mercado internacional. Tinha na ponta
da língua as justificativas com as quais tentaria persuadir
meus interlocutores a aceitar uma trégua e ter paciência.
— Um único pedido — disse o líder do grupo,
pausadamente, redobrando a força do que viria a seguir. —
Que o próximo governo não faça o que os anteriores
fizeram, e que está acabando conosco.
Não rompi o silêncio que tomou conta da sala e deu um
tom de gravidade àquele instante. Esperei. O orador
continuou:
— Que o governo Lula não aparelhe a Polícia Rodoviária
Federal, não entregue aos políticos mais poderosos de cada
estado a nomeação do superintendente estadual. Até hoje,
sempre foi assim. Isso nos humilha, arruína a carreira e a
instituição, e inviabiliza nosso trabalho. Como agir com
isenção se o cargo mais importante em cada estado
pertence, na prática, ao chefe político, aliado ao governo
federal? Se o senhor quer saber quem manda pra valer na
PRF, em primeiro lugar esqueça a natureza federal da
instituição. Ela está fatiada. A resposta está no poder
político local. Quer saber quem manda na PRF no estado da
Bahia? Antonio Carlos Magalhães. No Pará? Jader Barbalho.
No Maranhão? José Sarney. A PRF virou moeda de troca para
o jogo político.
O rapaz falava com emoção.
Afirmei que jamais me esqueceria daquele encontro,
porque o que se passava ali era inusitado. Nunca havia
participado de uma reunião de tipo eminentemente sindical
sem que se cogitassem os temas corporativos. Os policiais
estavam ali para pedir ajuda no combate à corrupção e no
esforço de qualificar seu desempenho. Que os futuros
governantes pelo menos não atrapalhassem. Não pediram
mais nada. Só desejavam ser respeitados, que sua
instituição fosse respeitada, que o interesse público fosse
respeitado. Ainda há esperança de que a gente construa, no
Brasil, uma república democrática digna deste nome, foi o
que eu disse. E o fiz com sinceridade. Completei: aumento
salarial eu não poderia prometer, mas respeito e combate à
corrupção, não só prometo: garanto. Mesmo que eu não
venha a participar do governo, lhes afirmo que nunca mais
haverá negociata política em torno de cargos na PRF.
A memória daquela tarde não combinava com o lamento
blasé do ministro, que driblava o inconveniente como quem
desvia de uma poça de lama na calçada sem deter-se. Havia
uma agenda urgente a cumprir. Não fazia sentido perder
tempo com miudezas. O ministro não disse nada disso.
Deixou entrever. Era um homem elegante e sofisticado.
Dedicou ao incidente a atenção que se devota a um
incidente. Diante dele alinhavam-se desafios maiores. As
paredes de vidro do belo prédio de Oscar Niemeyer
projetavam o gabinete sobre a Esplanada e a praça dos Três
Poderes. O ministro tinha os olhos postos nos interesses
superiores da nação e da classe operária. Seu horizonte era
a história. O que me restava, além da pusilanimidade?
Deixei o gabinete com a cabeça pesada, as barbas de
molho, uma vergonha acabrunhante e o desejo de chutar o
balde.
O problema é que, em certa medida, este melancólico e
deprimente roteiro era previsível. A certeza com que me
dirigi aos policiais rodoviários federais durante a transição
expressava mais vontade do que convicção e confiança. Ao
tentar convencê-los com tanta veemência, no fundo,
buscava convencer-me a mim mesmo.
O ano anterior tinha sido intenso. Lula era candidato à
presidência pela quarta vez e com chances efetivas de
vencer. No Rio de Janeiro, fui convidado a candidatar-me a
vice-governador, na chapa da ex-senadora petista Benedita
da Silva, então vice-governadora do Estado, que assumiria o
governo provisoriamente a partir de abril de 2002 e se
candidataria à reeleição em outubro. O governador Anthony
Garotinho, também candidato à presidência, teria de se
desincompatibilizar, passando o governo à sua vice,
Benedita. Depois de hesitar por algum tempo, aceitei sob
duas condições, que discutimos em um jantar no Leme.
Bené, como era chamada carinhosamente, deveria governar
de modo transparente e em diálogo estreito com os
movimentos sociais, compondo um secretariado pluralista,
com nomes respeitáveis da sociedade civil, tecnicamente
experimentados, sem vínculos partidários. Se governasse
assim por nove meses, teria chances reais de vencer as
eleições. Mesmo que fosse derrotada, deixaria um legado
inspirador. Temíamos que Garotinho deixasse uma bomba
armada para explodir no colo da substituta: cofres vazios,
dívidas vencidas, contratos descumpridos, serviços
suspensos, folha salarial sem cobertura, ausência de
informações. Por isso, disse a Bené que minha segunda
condição era que ela se comprometesse a submeter as
contas públicas e a situação financeira do Estado a uma
auditoria independente, assim que assumisse o governo. Se
não fizesse isso, correria o risco de herdar o caos e ser
acusada por desmandos que não seriam dela.
Naquela noite tudo fluía às mil maravilhas. Bené
concordou com as condições. Brindamos à nossa parceria.
Ela é uma mulher extraordinária. A primeira negra, ex-
moradora de favelas, ex-empregada doméstica, a ocupar
posições de destaque na República. Estar a seu lado na
chapa majoritária do PT, no Rio de Janeiro, era um privilégio,
que eu estava disposto a honrar com meu trabalho. A
primeira tarefa que me passou, confirmando na prática a
disposição de cumprir nosso acordo, foi justamente iniciar
consultas informais com vistas à composição de um
secretariado de nível ministerial.
Algumas decepções abalaram minha ingenuidade tardia.
Em fins de março de 2002, às vésperas de assumir o
governo, depois de um dia inteiro de discussões sobre a
composição do governo, em sua casa, em Jacarepaguá,
Bené anunciou o secretariado. Os nomes não eram
suprapartidários nem consagrados por larga experiência. O
governo foi composto, salvo exceções, por militantes
petistas vinculados a deputados, candidatos à reeleição, e
alguns técnicos por eles indicados. Em vez de sinalizar com
a perspectiva de um grande governo, ainda que em curto
período, à altura da gravidade dos desafios impostos pela
realidade crítica do estado do Rio de Janeiro, Bené
mostrava, com indisfarçável constrangimento, que se
rendera ao condomínio de interesses eleitoreiros de seu
partido. À frente do governo, encontrou um quadro
financeiro-administrativo deteriorado. A situação era muito
mais séria do que antecipáramos. Não havia recursos nem
para cumprir os compromissos mais imediatos com os
programas sociais indispensáveis à sobrevivência dos mais
pobres. A revolta popular contra o novo governo estava
contratada. Só restava um meio de evitar a injusta
transferência de responsabilidades: a auditoria externa. Mas
a providência tinha de ser tomada com urgência ou não
haveria como desarmar a bomba política. A governadora
recusou-se a convocar a auditoria, o que significava que ela
agia contra seus interesses, o bom senso, o compromisso
assumido comigo e os apelos da militância partidária. Por
quê?
Eu lhe telefonava todos os dias. Ela deixou de atender ou
responder às chamadas. Quando ligava de volta, uma
semana depois, suas primeiras palavras eram,
sistematicamente:
— Luiz Eduardo, você não atende meus telefonemas, não
retorna. Onde está você? Por que não quer falar comigo?
Mudei de tática. Troquei os telefonemas por visitas ao
Palácio. Ela não tinha como negar-se a me receber. Os
encontros eram frustrantes, difíceis e desalentadores. A
governadora respondia aos questionamentos com
emocionada descrição sobre a complexidade do momento, a
violência dos ataques que sofria, as injustiças de que estava
sendo vítima. Concluía, sem abordar diretamente a proposta
de auditoria, afirmando entre lágrimas que precisava mais
do que nunca de apoio, solidariedade e compreensão, não
de mais cobranças e pressões. Eu entendia o recado e me
retirava, frequentemente me sentindo mais culpado e
confuso do que indignado. Entretanto, a repetição do script
diluiu a carga emocional das primeiras visitas, a tal ponto
que consegui exorcizar os fantasmas da culpa e afirmar
minha posição de modo mais assertivo. Nem assim obtive
qualquer resposta clara. Contudo, nossa relação
permaneceu afetuosa do início ao fim daquele calvário que
culminaria em nossa derrota eleitoral, no Rio de Janeiro,
cujo impacto foi em parte neutralizado pela vitória de Lula,
no pleito nacional.
Minhas suspeitas só foram confirmadas em 2003.
Visitando-a em seu gabinete na Esplanada dos Ministérios,
em Brasília, a nova ministra do Desenvolvimento Social
admitiu que não convocou a auditoria porque estava
impedida de fazê-lo. O veto era parte do acordo secreto que
Lula e José Dirceu haviam firmado com Garotinho, antes de
Bené assumir o governo do Rio. Ela pouparia Garotinho e
assumiria as responsabilidades pela crise; em troca, ele
apoiaria Lula no segundo turno das eleições presidenciais.
Lula e Dirceu negociaram o futuro do Rio de Janeiro no
tabuleiro do projeto de poder nacional. Venceu as eleições,
no Rio, a esposa do ex-governador, Rosinha Garotinho. O
Rio que se danasse. Benedita foi recompensada com o
ministério. Como candidato a vice-governador entrei de
gaiato no navio. Não era à vera a candidatura ao governo
do estado do Rio. Bené foi escalada para o sacrifício. Nossa
chapa estava destinada à derrota.
Nada disso chega aos pés do que aconteceu no front da
campanha. Certa manhã, chegando ao comitê, travei com
minha secretária um diálogo mais ou menos assim:
— Sabe aquele sujeito chato, que já ligou mil vezes?
Eu não sabia o que dizer, porque sujeito chato não era um
tipo exatamente incomum naquele contexto. Ela continuou:
— Aquele inconveniente, que liga todo dia. Já esgotei a
enciclopédia de desculpas.
Sugeri que ela dissesse que eu estava com viagem
marcada e não sabia quando voltaria.
— Foi o que eu disse.
Então pronto, respondi. Mas ela não se deu por satisfeita:
— Aí é que está o problema. Mandou perguntar qual era o
voo. Ele acompanharia o senhor, pra poder conversar.
Reagi com perplexidade. Cheguei a pensar que minha
auxiliar estivesse brincando. O cara disse isso?
— A secretária dele.
Concluí que o sujeito realmente queria falar comigo. Não
mediria obstáculos. Venceria pela insistência. Melhor render-
me logo e me poupar do desgaste. Nunca ouvira seu nome
antes. Eu procurava evitar reuniões com pessoas
desconhecidas. Se tivesse de ocorrer, que o local fosse
público. Haveria um seminário sobre violência em um
conhecido hotel da Zona Sul. Marquei o encontro no lobby.
Ao fim da tarde, depois do debate acadêmico, enquanto
me dirigia à recepção, um homem de meia-idade
aproximou-se, sorriu, disse meu nome, apresentou-se.
Cumprimentamo-nos e nos sentamos em torno de uma
pequena mesa, no café do hotel. Seguiram-se os minutos
mais tensos e perturbadores daquele período de minha
vida. Ele foi direto ao ponto:
— O esquema de arrecadação montado no Rio para a
campanha nacional é coisa de amador. Mal rende 300 mil
por mês. Essa coisa de bicheiro, maquininha de azar, bingo,
isso é mixaria e pode criar dificuldades, o senhor sabe. Dá
uma merreca e acaba dando merda.
E expôs sua proposta, que renderia vários milhões
mensais para as campanhas nacional e estadual, dos quais
um percentual ficaria comigo e com a governadora, “por
fora”, depois de descontada a parte dele, evidentemente.
Garantiu que sabia como fazer e que tudo seria conduzido,
profissionalmente, com plena segurança. Só seriam
necessárias algumas posições estratégicas no governo do
Rio para seus operadores. Descreveu em detalhes o mapa
do governo. Referiu-se aos canais possíveis de drenagem do
dinheiro público, em alguns órgãos e secretarias: onde se
situavam, na máquina do Estado, os rios caudalosos, quais
eram seus principais afluentes. Soava como um hidrólogo
experiente. O homem era um conhecedor profundo do
métier. Eloquente, rápido, preciso. Um verdadeiro
corruptólogo.
Na primeira oportunidade, disse que não me cabia indicar
nomes para compor o governo e que nada sabia sobre o
esquema a que aludira no começo da conversa. Levantei-
me, desejei-lhe boa tarde, acenei para minha secretária que
aguardava em outro espaço do lobby e saí do hotel com a
cabeça pegando fogo.
Impossível saber se havia algo errado ou não. Na dúvida,
não podia me omitir. A primeira providência foi compartilhar
com a governadora o que eu ouvira. Ela reagiu como
sempre, lamentando que, em vez de ajudá-la, eu só lhe
trouxesse problemas. Não comentou o conteúdo da
conversa, mas desabafou. Seus nervos estavam em
pandarecos. As pressões eram terríveis. Demandas,
cobranças, críticas, ela mal conseguia respirar. Vida pessoal,
nem pensar. O governo girava em falso, fazendo das tripas
coração para pelo menos pagar o Cheque Cidadão, o
programa social mais popular, e o salário dos funcionários.
Já desistira de investimentos e mesmo do custeio cujos
efeitos não fossem dramáticos. As contas não fechavam. A
situação era mais do que crítica, pré-falimentar.
Convoquei uma reunião com deputados estaduais e
federais do Partido dos Trabalhadores, em minha casa.
Chamei os mais próximos e comprometidos com a pauta da
ética na política. Contei a conversa com o corruptólogo e
lhes confessei minha preocupação de que o relato sobre o
esquema com o bicheiro pudesse ser verdadeiro. A reunião
terminou sem que ninguém dissesse nada minimamente
objetivo. Alguns me olhavam como se eu tivesse acabado
de chegar de Marte, outros me pareceram irônicos, alguns
chegaram a balbuciar algo como “não me surpreenderia”. A
mensagem foi unânime: toquemos em frente nossas
campanhas. Temos muito a fazer e pouco tempo até as
eleições. Não é hora de parar para discutir o sexo dos anjos.
Tentei então a cartada final. Dois dirigentes nacionais
viriam ao Rio de Janeiro poucos dias depois. Agendei um
jantar. Convidei minha mulher. Encontramo-nos no
restaurante Alho e Óleo, no Flamengo. A conversa foi
agradável, apesar da tensão natural que cercava o tema.
Narrei os fatos, dei nomes aos bois, pedi que investigassem
e, caso confirmassem a procedência do relato, que
pusessem imediato termo àquilo. Assinalei que, além de
trair nossos princípios, em nome dos quais nos dedicávamos
à política, em nome dos quais Lula era candidato à
presidência, negociar com bicheiro tornava refém da máfia
mais tosca o mais importante projeto popular e democrático
de nossa história. Tratava-se de uma aventura
absolutamente irresponsável. Caso existisse alguma coisa,
claro. A receptividade foi discreta mas amigável, o que me
encheu de esperança. Se houvesse algo, seria resolvido.
Naquela noite dormi como havia tempos não conseguia.
Dois dias depois, pela manhã, um antigo companheiro que
se tornara membro destacado do governo estadual, por
minha indicação, telefonou. Pediu que o esperasse. Estava a
caminho. Não quis antecipar o assunto. A visita foi breve.
Viera passar-me uma informação. Caberia a mim decidir o
que fazer com ela. Fazia-o por dever de lealdade. Participara
de uma reunião do núcleo duro do governo estadual, o
grupo que efetivamente decidia. Resolveram excluir-me da
campanha. Informalmente, por suposto. Eu perceberia aos
poucos. Meu nome desapareceria das faixas, das filipetas,
dos posters. E o principal, eu estava fora da TV e do rádio.
Tampouco seria convidado para reuniões do comando da
campanha. Agradeci, trocamos algumas ideias e ele voltou
para o olho do furacão.
Considerei a hipótese de renunciar à candidatura. Não era
viável. Não era um caminho responsável. Colocaria em risco
a campanha nacional, por menos que eu falasse, por mais
que inventasse justificativas pessoais, subjetivas. A
renúncia do candidato do PT a vice-governador do Rio tinha
tudo para ser explorada como um escândalo de alto
potencial explosivo. Eu não conseguiria sobreviver com a
culpa de ter contribuído para uma eventual derrota de Lula.
Além disso, o partido se mostrava autoritário e arbitrário,
sem dúvida, mas não havia indícios objetivos, além da
palavra de um escroque, de que o esquema corrupto fosse
verdadeiro. Talvez me excluíssem por eu ousar pôr em
dúvida a direção nacional. Quem sabe eu errara mesmo? O
melhor a fazer talvez fosse procurar o presidente do partido,
sem intermediários. Esta atitude reduziria as chances de
interpretações paranoicas... Tarde demais. Tratava-se de
reduzir danos, engolir a indignação e conviver com a nova
realidade, procurando adotar a postura mais discreta
possível.
A chapa Benedita-Luiz Eduardo perdeu no Rio. A chapa
Lula-José Alencar venceu no pleito nacional. Celebrações
dos militantes do PT tomaram as ruas. A derrota no Rio se
eclipsava ante a conquista da presidência. Juntei-me a eles.
Um pedaço das emoções permanecia à sombra, mas eu
confiava no futuro do país sob a liderança daquele ex-
operário nordestino extraordinário.
Poucos dias depois, em Brasília, um amigo gaúcho,
deputado federal pelo PT, Marcos Rolim, ativista dos direitos
humanos, diante de colegas parlamentares, perguntou a
José Dirceu, então presidente do partido, que papel Luiz
Eduardo desempenharia no governo Lula. A resposta o
surpreendeu, embora não a mim, quando ouvi seu relato:
— No que depender de mim, nenhum.
Ante a perplexidade de Rolim, explicou:
— Ele boicotou nossa campanha no Rio.
A despeito de resistências, fui convidado para compor a
equipe de transição e, na sequência, a assumir a secretaria
nacional de Segurança Pública. Em outubro de 2003, fui
instado a pedir exoneração. Foram dez meses intensos que
culminaram numa armadilha. Um dossiê apócrifo forjado no
interior do próprio Ministério da Justiça, do qual minha pasta
fazia parte, chegou à mídia, recheado de graves acusações,
entre elas a de que eu estaria praticando nepotismo. Esta
denúncia tornou-se a mais notória porque foi destacada nas
manchetes, mas havia outras bem mais abjetas. Só tive
acesso às calúnias quando já eram notícias nacionais. Logo
descobri a procedência e, ao pedir ajuda de quem tinha o
poder para esclarecer a falsidade das injúrias, me deparei
com os autores da artimanha. Sentime o personagem
encarnado por Mia Farrow no filme de Roman Polanski, O
bebê de Rosemary. Sozinha, acuada, ela recorre ao único
aliado confiável, o médico. Tarde demais: ele orquestrava o
ardil de que ela seria vítima. Recorri ao então presidente do
PT, José Genoíno. Dispensei sua defesa. Eu mesmo me
defenderia. As acusações eram muito toscas, sem qualquer
fundamento. Pedi-lhe apenas que me prometesse o
seguinte: caso ficasse provado que o dossiê apócrifo fora
obra de militantes do partido, eles seriam punidos conforme
as normas pertinentes. À tarde, Genoino reuniu a imprensa
e pontificou:
— Luiz Eduardo age como um gambá: exala mau cheiro
para ocultar seus delitos.
Eu saíra do governo poucos dias antes desta declaração.
Redigi de imediato carta ao presidente estadual do PT, Jorge
Bittar, solicitando desligamento do partido.
Dois anos depois de minha exoneração, grandes
escândalos começaram a espocar, envolvendo as principais
lideranças do partido. Em 2005, chegaram à mídia cenas
gravadas em vídeo, nas quais, em 2002, um expoente do
partido no Rio negociava 300 mil reais com um bicheiro.
Verbas públicas da loteria do Estado seriam desviadas.
No final de 2003, fora do governo, então no auge de sua
popularidade, poucos interlocutores estavam dispostos a
ouvir minha versão. Naquele momento, quem colocava em
dúvida o compromisso ético do PT, a probidade imaculada
do governo federal, não merecia crédito. Abatido pela crise,
minutos antes de me despedir da equipe e deixar minha
função, pedi à secretária que telefonasse à organizadora do
encontro nacional de juízes, dra. Andréa Pachá, cancelando
minha participação. O recado era simples: quem foi
convidado a proferir a palestra inaugural do evento, na
Bahia, em Salvador, não fui eu, foi o secretário nacional de
Segurança Pública, cargo que, a partir daquela data, eu não
mais ocuparia. Portanto, que a anfitriã recebesse meus
agradecimentos e minhas desculpas pelo inconveniente,
mas eu não iria. Andréa insistiu. Fora eu o convidado, não o
titular da secretaria. A reiteração calorosa da juíza me
comoveu e convenceu.
Seis meses antes, a pleno vapor à frente da secretaria,
recebi um recado por meio de um antigo conhecido carioca,
que fez questão de marcar audiência e viajar a Brasília para
transmiti-lo. Ele me antecipara tratar-se de caso importante
e delicado. O recado era de Lulu, Luciano Barbosa da Silva,
o dono da Rocinha, o líder do tráfico na maior favela da
Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele era conhecido por distinguir-
se do estereótipo: não era violento, não agredia policiais,
não violava direitos dos moradores. Por tudo isso, e por
auxiliar uns e outros em momentos de dificuldade, era
querido e respeitado na comunidade. Lulu me pedia ajuda
para sair da favela, abandonar o tráfico, deixar o crime e
recomeçar a vida. Estava convicto de que aquela vida não
levava a nada, mas não confiava na polícia e na Justiça o
suficiente para entregar-se. Estava convencido de que não
sobreviveria à prisão. Esta é a sina de toda liderança
criminosa no Rio de Janeiro: é preciso manter-se fiel à
criminalidade mesmo contra a vontade. Afinal, como
renunciar ao crime quando se sabe demais, quando a
própria vida representa um risco para a banda podre da
polícia? Pode-se sobreviver ao ato da prisão, à primeira
noite no cárcere, mas dificilmente se vai muito além dos
primeiros dias. O assassinato no cárcere é mascarado com
facilidade. Versões mentirosas são verossímeis o bastante
para apaziguar ímpetos investigativos, e o corporativismo
da corregedoria a predispõe a oferecer sua cota de
colaboração aos colegas suspeitos. Este tipo de assassinato
chama-se queima de arquivo e faz parte da rotina carioca.
Aí está o paradoxo da corrupção policial. Funciona à
perfeição para traficantes e demais criminosos profissionais,
porque lhes proporciona cumplicidade e lhes garante
liberdade de ação, ainda que implique partilha proporcional
dos lucros. Por outro lado, se houver ruído na comunicação
e o acordo por alguma razão for rompido, pode-se chegar ao
pior dos mundos. Presos, os criminosos que, na véspera,
eram sócios dos policiais, convertem-se em seus delatores
potenciais. Por isso, têm consciência de que é elevada a
chance de que venham a ser executados.
Lulu queria fugir da Rocinha, romper com o Comando
Vermelho, a facção criminosa de que fazia parte, e sumir,
cair no mundo. Eu poderia de alguma forma ajudá-lo? Como
pessoa, gostaria de lhe dar a mão e colaborar para salvar
sua vida. Preferia apostar que o futuro lhe reservaria destino
mais saudável e pacífico se ele estivesse longe do crime e
da prisão. Seria melhor para ele, para a sociedade, para
todo mundo — ou quase, como depois compreenderia. Mas
o papel institucional que me cabia cumprir me obrigava a
contribuir para sua prisão. Como o secretário poderia ajudá-
lo a fugir da Justiça? Claro que não. Portanto, não havia
alternativa senão enviar a Luciano Barbosa da Silva, em
resposta a seu pedido de ajuda, a seguinte mensagem: o
secretário nacional de Segurança Pública manda dizer que,
se tiver informações sobre seu paradeiro, vai agir para
prendê-lo; o indivíduo Luiz Eduardo lhe deseja sorte na nova
etapa de sua vida longe do crime. Frustrante, ambíguo, mas
verdadeiro.
Um semestre depois deste episódio, no final de outubro
de 2003, era minha vez de mudar de vida. Arrumei as
malas, esvaziei as gavetas, gravei no HD externo a memória
do trabalho realizado, agradeci aos auxiliares, recomendei
que permanecessem em suas posições até que meu
substituto fosse nomeado e compusesse sua equipe, e que
cooperassem para que a transição transcorresse sem
traumas. Simulei serenidade e resignação, exatamente o
avesso do que se passava em meu espírito. Em Salvador, os
magistrados anfitriões desdobraram-se para que eu não
fosse consumido pela depressão. Já fora do governo e ainda
sem acesso ao dossiê, do qual só conhecia os pontos
esparsos que a mídia publicara, fui entrevistado por uma
importante revista semanal. O repórter me ligou sexta-feira
à noite, por volta das dez horas. Queria ouvir minha defesa.
Eu lhe disse que não sabia qual o teor das acusações. Como
poderia defender-me? O celular falhava. Saí do restaurante
e busquei algum local em que a conexão fosse melhor.
Movia o corpo como um dançarino desengonçado, tentando
captar o fio esgarçado do som cada vez mais picotado e
longínquo. A bateria aproximava-se do fim. Eu teria poucos
minutos para entender as denúncias e responder a cada
uma. O repórter insistia na urgência. Estava fechando a
matéria e me concedia a oportunidade de apresentar minha
versão. Sua voz entrecortada indicava que tampouco ele me
ouvia suficientemente. Eu gritava de cá, ele de lá, num
esforço derradeiro de diálogo, até que a ligação caiu. Como
a origem do telefonema era protegida — em meu visor lia-
se “desconhecido” —, eu não tinha como ligar de volta.
Aguardei no pátio do restaurante, sozinho, sem cabeça para
contemplar o mar deslumbrante de Salvador, perdido como
o cão da piada, aquele que despenca do caminhão de
mudança no meio do caminho.
Devastado, o mundo desabando sobre a cabeça, faltava
ânimo para sair do quarto na manhã de sábado, assistir a
palestras, interagir, nadar na piscina do hotel, passear na
orla. Por isso, não hesitei em aceitar o convite de uma
amiga baiana para visitar o terreiro de candomblé que ela
frequentava, cuja fama se espalhara por todo o país. Já
passava das dezessete horas quando chegamos. O espaço
no alto da colina era desconcertante, assim como o são os
rituais dessa tradição. Antes das preces e celebrações,
entrei na fila para receber a benção da mãe de santo, suas
palavras, sua proteção.
Enquanto aguardava ao lado de minha mulher,
contemplava o bosque e sua alma de vento. Entre galhos e
palmas, flashes do mar e as sombras pontiagudas da
cidade. A casa grande aberta a quem chegasse. Atabaques
repicam: couro de percussão, punhos dos ogãs, garra das
nações negras, colares e pulseiras de grãos, o friso
esmaltado das jarras, mil potes pequeninos e o dourado
solar da palha. A serena ansiedade de nós todos em fila e o
trânsito agitado dos filhos de santo que se preparam para a
gira.
Nesse momento toca meu ombro a mão de um homem.
Sussurra alguma coisa e sorri. Diz meu nome. Quer saber se
sou eu mesmo. Sim, sou eu, respondo. Pois não nos
encontráramos antes, ele prossegue, ainda que nos
conhecêssemos à distância. Inspeciono o rosto da pessoa e
sua estranheza aos poucos retrai-se. Reconheço os traços
gradualmente, como se na sombra se infiltrasse uma
identidade, até que face e nome coincidem.
E assim cumprimentei Lulu pela primeira e última vez.
— Pois é, larguei tudo — ele disse, baixinho. — Deixei pra
trás a vida no crime. Abandonei Rocinha, tráfico, tudo. Sei
que as coisas não estão boas pro senhor também. Espero
que elas melhorem.
Agradeci, desejei que ele conseguisse recomeçar em paz
e fosse feliz. Era tão melhor ver um homem livre com luz
nos olhos do que um criminoso atrás das grades, preso ao
passado. Minha mulher ouvia a conversa. Aproximou-se de
Lulu e lhe pediu que não voltasse ao Rio.
— Você vai ser chamado de volta — ela disse —, vai sentir
vontade de voltar, vai ser muito pressionado a voltar. Não
ceda. Não recue. Não retorne. Nunca. Não olhe pra trás.
Guarde o que lhe digo. Por sua felicidade, por sua vida. Siga
adiante.
Mesmo sussurrando, Miriam adotou um tom bíblico que
me assustou. Endossei a mensagem. Insisti. Não esqueça o
que ela lhe disse, Lulu. Ela tem razão. Não volte para o Rio,
nunca mais, por nenhum motivo. Ele pareceu compreender
e concordar. Estava seguro e nos transmitiu confiança. Senti
alegria por ele. E afeto como se por um irmão, fodido como
eu, pernas enfiadas na merda, sacudindo a carcaça e
olhando o céu para fingir que não era isso um homem.
Lulu foi baleado e morto à queima-roupa por um policial
em 14 de abril de 2004. Cercado em sua casa, na Rocinha,
não resistiu à voz de prisão. Rendeu-se. Desceram com ele
algemado. A população correu às janelas, saiu às ruas da
favela, em silêncio. A tropa do Bope, desfilando morro
abaixo, exibiu seu troféu. Fizeram-no sentar-se numa
mureta de pedra, no largo a céu aberto. Sem anúncio prévio
ou motivo aparente, o policial que se sentara a seu lado
ergueu subitamente a pistola e atirou em sua cabeça. O
estampido pouco antes do anoitecer encerrava a história de
Luciano. Centenas de moradores consternados lotaram o
cemitério São João Batista para prestar-lhe a última
homenagem. Portavam faixas e gritavam “polícia
assassina”. À noite, o noticiário da TV afirmava que os
manifestantes estariam a soldo de traficantes. Nenhuma
informação sobre o sentimento que nutriam por um
delinquente pacífico, amigo da comunidade, provedor onde
o Estado estava ausente. Segundo a versão oficial, a força
pública cumprira seu dever: o homem armado resistira e
terminara alvejado na troca de tiros. Mais um “auto de
resistência”. Em 2004, foram 983 no estado do Rio, os quais
não estão incluídos entre os 6438 homicídios dolosos
computados naquele ano.
A mídia não noticiou, blogs não divulgaram, investigações
não informaram por que Lulu voltou. A polícia carioca
descobriu que ele pretendia refugiar-se na casa da mãe, no
interior de um estado nordestino. Localizou-o no caminho,
pouco depois de nos encontrarmos em Salvador. Não houve
prisão, nem qualquer registro. Foi sequestrado e
chantageado. Se quisesse viver, tinha de voltar para o Rio.
Um grupo poderoso da Polícia Civil fluminense precisava de
sua eficiência gerencial, de sua experiência na logística, de
sua autoridade, de seus contatos com fornecedores, de sua
liderança e habilidade para evitar disputas entre as facções,
tão perniciosas para a estabilidade dos acordos entre
traficantes e policiais, tão danosas para a prosperidade do
mercado varejista de drogas. É o tráfico que garante a
segurança, porque sem ela a opinião pública, amplificada
pela mídia, cobra intervenção, prisões e apreensões. A
atmosfera propicia ações repressivas. Resultado: aumenta a
sensação de insegurança e declinam as vendas, porque os
consumidores, amedrontados, evitam subir a favela ou
perambular nas cercanias. Policiais corruptos não podiam
prescindir de Lulu, sobretudo no verão que se aproximava,
prometendo aquecimento do consumo e elevação da
margem de lucro. Contavam com a tranquilidade da favela
sob o comando de Lulu e o sucesso de seus negócios.
Encravada no coração da área mais rica da cidade, a
Rocinha era a joia da coroa do tráfico no Rio.
Luciano não teve escolha. Foi obrigado a cancelar os
planos e entregar-se aos policiais, antigos sócios. Ele
conhecia o risco de virar estátua de pedra, mas não havia
alternativa a olhar para trás. Depois que foi devolvido ao
caldeirão da Rocinha, quando ambições já tinham sido
atiçadas por seu afastamento e alianças anteriores,
desestabilizadas, Lulu teve que resistir a tentativas de
invasão e participar da guerra entre as facções. O verão
havia passado, enchendo os cofres de todos os acionistas
do empreendimento. A polícia já podia prescindir de Lulu,
sobretudo na nova conjuntura: o confronto entre gangues
ocupava as manchetes, acuando politicamente o governo e
recomendando às autoridades a exibição de uma ovelha
sacrificial que encarnasse o mal a ser expiado. Depois de
nosso encontro improvável, Lulu viveu pouco menos de seis
meses. Ele dizia a quem se dispusesse a ouvir o que lhe
aconteceria, e me enviou recados sobre o destino que o
aguardava. Morreu como previra, sem que os que torcíamos
por uma segunda chance o pudéssemos salvar.
Haverá ironia maior do que esta história para uma cidade
que se vangloria de belezas e virtudes, para um país que se
diz democrático, para uma justiça que reivindica este
nome?
* No Brasil, há duas polícias com autoridade nacional, sob o controle do
Ministério da Justiça e, portanto, do governo federal: a Polícia Federal, cuja
responsabilidade é investigar crimes federais; e a Polícia Rodoviária Federal,
cuja atribuição é fiscalizar e patrulhar as rodovias federais em todos os estados.
2. Linha Vermelha
Seis horas da tarde, segunda-feira quente, o vento
vergando guarda-chuvas na avenida Venezuela, centro do
Rio, uma das raras referências aos vizinhos da América do
Sul. Os prédios e condomínios dos novos-ricos na Barra da
Tijuca, Zona Oeste da cidade, preferem Pigalle, Villa
Toscana, Residence du Soleil, Palace des Princes, Versailles.
Os shoppings não disfarçam a filiação anglófona: Downtown,
New York City Center, Fashion Mall.
Da avenida Venezuela chega-se à Rodrigues Alves. Mais
cinco minutos, à Rio Branco. No vértice, a praça Mauá
histórica dos marinheiros mantém a pose, austera e puta. E
o vozerio é incansável como uma procissão de fanáticos.
Cigarros cintilando, bigodes e paletós.
A velha praça resiste à esgrima entre empreiteiras,
sobrados e ambientalistas. Ali se concentram a decadência
da cidade e a ânsia atabalhoada de renovação. Nas
madrugadas, moradores de rua e migrantes ilegais
abrigam-se em acomodações coletivas caindo aos pedaços.
A praça Mauá deságua no pavoroso corredor de armazéns
do Cais do Porto, escurecidos pelo viaduto em demolição.
Inaugurado em 2013, o Museu de Arte do Rio, branco feito a
baleia-azul, domina a paisagem mutante como uma profecia
ou uma declaração essencial sobre alguma coisa importante
e esquecida.
Os cariocas não costumam ter paciência para o conceito.
Sabemos de nós apenas o que nos confidenciam o espelho
— as imagens das TVS e dos celulares — e as contorções
meio exibicionistas da estética nativa. Aqui somos menos
resignados que a média dos brasileiros. Séculos de
desigualdades e hipocrisia das elites racistas infiltram-se
democracia adentro, avacalhando instituições nobres e a
ideia de equidade, proclamada com pompa e circunstância
na Constituição de 1988. As massas mergulham no oceano
evangélico pentecostal em busca de batismo, solidariedade
e pertencimento, sossego, redenção espiritual e um
repertório de valores que justifique o capitalismo, autorize a
felicidade nesse mundo, não no outro, e lhes dê a senha e o
dicionário. O povo trabalhador quer que lhe traduzam a
língua capciosa do mercado, porque é, hoje, o código do
que se chama realidade, a língua que seus filhos balbuciam
e seus netos vão falar. Eles precisam ser poliglotas, não
desejam perder o português, a tradição, e sonham mover-se
no mundo novo com a bússola da ética a tiracolo. Querem
aprender a ler a cartilha do lucro, da iniciativa, do
empreendimento e do risco, sem perder a compaixão, esse
tesouro que herdaram dos antepassados. O século XXI
brasileiro é veloz e esquisito, embora atraente — “Veja o
que aconteceu com os vizinhos aqui da favela: subiram na
vida, viajaram de avião, o filho mais novo chegou à
universidade, quem diria? Tudo tão rápido.”
Os ideólogos da esquerda perderam a esperança na
dialética redentora quando o presidente Lula rendeu-se aos
limites da política institucional, espremida entre a economia
globalizada e o simbolismo inverossímil de um mito que
outrora mereceu nome respeitável: “soberania” — naquela
época, Google era uma onomatopeia e os bichos falavam.
No Rio, toca-se a vida. Pragmatismo é o bom senso dos
realistas. A rotina segue entre pernadas, pouco sono e
muito calor, música, cerveja, intermináveis viagens em
trens e ônibus entupidos de gente, saudações efusivas,
preces, gestos de carinho e uma incrível dose de violência,
inclusive por parte das polícias, cuja brutalidade assassina
compete de igual para igual com qualquer guarda
pretoriana das ditaduras sangrentas que florescem no
planeta. Os cariocas seguem seu destino com uma dose
ainda mais incrível de fair play e humor. Em vez de
desesperar, quando falta a luz e o ar, dançamos, cantamos,
batemos tambor e os deuses nos despertam do pesadelo.
Pelo menos por algumas horas tudo parece de novo
possível. Somos felizes feito o diabo.
Seis horas da tarde, segunda-feira, avenida Venezuela.
Confiro o endereço, passo a porta de vidro escuro — que
abre e fecha, eletronicamente — e apresento a carteira de
identidade na portaria a uma das recepcionistas. Ela me
aponta a câmera, pede que tire os óculos, pergunta aonde
vou, interfona para o escritório de advocacia no vigésimo
andar, estende a mão com o crachá sem levantar os olhos e
volta-se para o próximo na fila. O controle é mais frágil do
que o outro, que conheci pouco antes. No prédio faltava,
sobretudo, a liturgia da segurança. Na favela, sobrava
liturgia. E segurança.
Quatro horas e meia antes de subir ao vigésimo andar
para cumprir a promessa que fizera mais cedo a um
desconhecido, chego pontualmente ao lugar marcado.
Sento à mesa da lanchonete na praça de alimentação de
um shopping na Zona Norte que faz imenso sucesso desde
que o aumento da renda do trabalhador e o acesso ilimitado
ao crédito tornaram possível a realização do sonho de
consumo da maioria da população. Os intelectuais esnobam
as ilusões que o capitalismo vende embutidas nas
quinquilharias que produz. Os pobres sabem a diferença que
o micro-ondas e o ar refrigerado podem fazer na vida de
uma família de três gerações que batalha doze horas por
dia e se amontoa, à noite, em dois quartos asfixiantes.
Saboreiam o prazer e o orgulho de curtir o que antes era
conforto (ou fetiche) privativo dos patrões.
Estou vestido conforme combinado: camiseta verde, jeans
e tênis cinza. O intermediário de todo o arranjo labiríntico
tinha sido vizinho durante muitos anos de um ex-aluno meu,
que crescera numa das favelas que formam o complexo da
Maré. Verde é escolha minha. A única regra inegociável
proíbe o vermelho. Nas comunidades sob domínio do
Terceiro Comando é proibido usar a cor do inimigo. O
Comando Vermelho foi pioneiro na organização do crime no
Rio de Janeiro e reinou absoluto no universo marginal desde
os anos 1970, até que a disputa pelo mercado de drogas
suscitou o nascimento da primeira facção rival, o Terceiro
Comando. A dinâmica dos conflitos acabou precipitando a
organização de outro grupo, Amigos dos Amigos, conhecido
pela sigla ADA.
Um homem na faixa dos 35 anos se aproxima. Não hesita.
Tenho a impressão de que me conhece, o que torna
irrelevante o cuidado que eu havia tido em descrever meu
figurino. Diz meu nome, cita o ex-aluno, conta que
cresceram juntos, explica que sua tarefa se restringe a
levar-me até o posto de gasolina na entrada da favela, onde
outro intermediário me espera. Pergunta se estou de
acordo, se podemos ir. Pago o café e seguimos até seu
carro.
Chegamos ao posto antes da hora prevista, mas a pessoa
que passará o recado a quem, finalmente, me conduzirá ao
destino, já está ali. O ex-vizinho de meu aluno pede que eu
aguarde em seu carro enquanto certifica-se de que tudo
está em ordem. Dirige-se até o rapaz de óculos escuros
recostado na motocicleta. O motoqueiro dispara favela
adentro sem nenhum esforço para manter-se discreto. Em
poucos minutos, um carro modesto sai da favela, pisca o
farol e estaciona na lateral do posto de gasolina. O rapaz
que me encontrara no shopping retorna a seu carro, onde
estou, e me pede para acompanhá-lo. Caminhamos até o
automóvel que piscou o farol. Ele diz ao motorista quem
sou, pergunta se meu anfitrião está à minha espera, se está
tudo certo, e despede-se. Cumprimento o motorista, cujo
nome nunca é pronunciado, sento a seu lado e partimos.
Suponho que ele saiba tanto quanto eu qual será o enredo
da aventura. Provavelmente, só lhe deram a ordem de
buscar-me e levar-me ao chefe. Não lhe cabe fazer
perguntas. Seguimos em silêncio. Quanto menos eu falar,
melhor. Quanto mais me expuser, mais me arrisco a errar.
Até porque não faço a menor ideia sobre o que seja um erro
nesse contexto.
Ao contrário do que a presteza do percurso até ali me
autoriza a supor, o trecho restante é o mais demorado e
difícil. Fui de casa ao shopping em cerca de uma hora e de
lá ao posto em meia hora. Nenhum obstáculo além do
trânsito. No interior da favela, somos abordados umas dez
vezes. Em cada parada, o carro é vistoriado, sem que
tenhamos de deixá-lo. Os vidros abertos permitem a
fiscalização rápida. Ainda assim, a sequência de paradas é
exasperante. Os vigias são rapazes de bermuda e sandália
de dedo, sem camisa, alguns com pistolas, outros com fuzis,
montados em motos ou sentados ao redor de barracas, nas
quais exibem as drogas à venda. Em cada ponto de
fiscalização a história se repete, sem farsa nem graça. Sou
um forasteiro no império de meu anfitrião. Meu guia
reproduz a mesma toada:
— O professor aqui veio ver o homem.
O fiscal faz contato com alguém. Nem sempre se
entendem. A comunicação é cautelosa mas incompetente.
Por que repetir sempre a mesma explicação? Percebo que o
motorista perdeu-se ou dirige em círculos. Passamos pelos
mesmos lugares uma e outra vez. Não digo nada. Já estive
ali para debates com a comunidade, promovidos por ONGs
locais. Não conheço bem o território, mas o suficiente para
ter certeza de que há algo de teatral naquilo tudo. Uma
única hipótese me soa plausível: querem verificar se vim
sozinho. Finalmente, uma hora depois de entrar na favela,
chegamos a um largo repleto de soldados do tráfico.
Agradeço e desligo o celular. Avisara à minha mulher que
ela deveria ligar a meu ex-aluno e a um amigo, líder
comunitário, caso eu não voltasse nem desse notícia até as
22 horas. Fecho a porta, despeço-me do motorista e espero.
Os homens me observam. Balanço a cabeça à guisa de
cumprimento. Um rapaz se afasta do grupo, estende a mão
sem dizer o próprio nome e me aponta um carro. Ambos nos
sentamos. Ele move a chave e dá a partida.
O jovem a meu lado é o inimigo público número 1. A
prioridade zero no momento é manter-se vivo. Seus olhos
não param. Movem-se como as antenas dos insetos de vida
breve e extremidades velozes. De todos os encontros com
homens notáveis do submundo carioca, este é o mais
imprevisível. Não estou ali para entrevistar o chefe do
tráfico local. Ele não me concederia o privilégio. Não há
tempo a perder com autopromoção. Desde que o famoso e
temido traficante Márcio José Sabino Pereira, vulgo
Matemático, foi executado pela Polícia Civil numa operação
de guerra em Vila Aliança, alvejado por um sniper de um
helicóptero, em 11 de maio de 2012, caiu sobre os ombros
de meu interlocutor a responsabilidade de liderar o Terceiro
Comando em toda a cidade. Sua prontidão me transmite
confiança e me deixa inquieto. Zelando por sua vida,
garante minha sobrevivência — mas até onde vai a
capacidade de uma facção criminosa ante 55 mil policiais
do estado do Rio de Janeiro? Quantos seriam deslocados
para um confronto derradeiro na Maré? A mídia anuncia
para breve a retomada do território perdido para o tráfico.
Posso observá-lo de perfil, mas devo manter-me alerta,
um olho em meu interlocutor, o outro nas ruas estreitas que
desfilam diante de nós. No traçado da favela horizontal, as
vielas de terra batida se não são sinuosas e intransitáveis
são perpendiculares, o que faz de cada curva uma
incógnita. Redobro a atenção depois das guinadas súbitas e
me apoio no assento quando o movimento me faz adernar
para um lado, para o outro. Aonde ele me leva? Nem eu
nem ele usamos cinto de segurança. A qualquer momento
podemos nos deparar com as viaturas policiais que
patrulham a área. Precisamos manter à nossa disposição
toda a mobilidade que o carro, as sinapses e o preparo físico
nos ofereçam. Ele diz que não, não há motivo para temer.
Por que então a pistola em cima do console? Por que o
automóvel que acompanha o nosso, em que se comprimem
cinco de seus soldados armados com granadas e fuzis? Por
que exibir o poder nesse cortejo bélico, em plena tarde de
sol? O bonde vem pesado, a chapa vai ferver: é esta a
mensagem aos moradores? Não faço nenhuma pergunta.
Estou ali para ouvir. Foi ele quem me pediu que viesse.
Para me tranquilizar, expõe em detalhes sua filosofia
prática: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra. É
melhor ser amado que temido, mas ser temido é mais
eficiente, desde que o medo não alimente o ódio, fonte de
traições”. Não é verdade, ele não diz nada disso, mas fala
sobre a vida e a situação-limite a que foi conduzido, e me
lembro de Maquiavel. Tenho a impressão de que, refletindo
sobre a própria experiência, ele aprendeu cedo as lições de
anatomia política do mestre florentino. Ele garante que o
Terceiro Comando está pronto para o que der e vier. Pelo
menos ali, no quartel-general, não faltam disciplina,
munição e planejamento. Enquanto dirige com a mão
esquerda, ergue o rádio com a direita, mostra como
funciona, chama seus olheiros:
— Na escuta? Algum problema na área?
A voz metálica atende em tom militar e vocabulário de
menino do subúrbio:
— Na paz. Beleza, mano.
Ele olha para mim, orgulhoso. Tenho a impressão de que
há alguma coisa lúdica naquela performance. Parece que
ele tenta flagrar sob minha atenção algum sinal de fascínio.
O menino sorri debaixo da couraça do personagem.
Empunha o rádio e repete a operação algumas vezes. Tira o
olho da rua para checar os pontos como se passasse em
revista sua tropa. Dezesseis postos de controle espalhados
pelo território e acessíveis a um toque no rádio, um em
cada canal. Os falcões mantêm vigília permanente. A
analogia com a menor ave de rapina se justifica: a função
de vigilância, no tráfico, é atribuída sobretudo aos mais
jovens. Muitas vezes, não basta manter-se alerta. Suas
tarefas exigem destreza no manejo de armas de fogo.
— Qualquer parada estranha, neguinho bate um rádio —
ele diz. — A gente tem toda a segurança.
Na verdade, talvez nem precisasse desse esquema
profissional de controle dos pontos estratégicos da favela.
Ele me conta que comprou policiais em todos os batalhões,
inclusive no Bope, no Choque e na Core, as unidades de
elite das Polícias Militar e Civil. O que ele sabe sobre
corrupção nas instituições policiais é suficiente para salvá-lo
ou condená-lo à morte. Suponho que os policiais prefiram
adotar a política de boa vizinhança. Afinal, ele é uma fonte
inesgotável de dinheiro e não teria por que denunciar seus
cúmplices de uniforme e carteira oficial. Custam caro, mas
lhe garantem a estabilidade dos negócios e a constância do
rendimento, omitindo-se ou informando sobre eventuais
operações repressivas e possíveis ataques do Comando
Vermelho ou do ADA, as facções rivais.
Mesmo confiando na qualidade do sistema de vigilância
de meu interlocutor, volta e meia minha atenção flutua.
Qual o propósito do passeio que ele me proporciona? Aos
poucos me convenço de que não vamos a lugar nenhum.
Por alguma razão, ele acha mais seguro conversar comigo
em trânsito. Talvez tema uma emboscada se
conversássemos em um lugar fixo. Eu poderia ser o cavalo
de Troia, agente com a missão de localizá-lo. Não faz
sentido. Se me pediu que viesse encontrá-lo é porque
conhece minha história, sabe ao menos o suficiente para
deduzir que esse tipo de papel não cabe em minha
biografia. Penso que a viagem sem destino e razão funciona
bem como metáfora, mas a manobra súbita para desviar do
vira-lata injeta adrenalina em meu metabolismo e dissolve o
devaneio.
— Estou exausto. Passei a noite acordado. Esses dias têm
sido difíceis.
Ele diz que a invasão policial é iminente. Os policiais que
estão em sua folha de pagamento lhe informaram que uma
incursão devastadora vai preceder a retomada do território
e a implantação da UPP.
As Unidades de Polícia Pacificadora são um programa do
governo do Estado que goza de bastante prestígio na classe
média, agrada os moradores das favelas atendidas durante
algum tempo até que se revela mais do mesmo, o que aliás
seria previsível, uma vez que as polícias não sofreram
qualquer reforma. Embora haja centenas de favelas na
cidade, há UPPs em apenas algumas dezenas. As escolhidas
formam o cinturão olímpico, quer dizer, situam-se nas áreas
mais prósperas da cidade e cercam as regiões nas quais
serão realizados os Jogos Olímpicos em 2016. O complexo
da Maré é formado por dezessete favelas, onde vivem 140
mil pessoas. Situa-se às margens da via expressa que liga o
aeroporto internacional às principais zonas da cidade. Por
isso, o governo decidiu estender até ali o programa das
UPPs. É estratégico conquistar o território da Maré, há anos
sob o domínio das três facções em que se divide o tráfico de
drogas no estado e na cidade: Comando Vermelho, Amigos
dos Amigos, ou ADA, e Terceiro Comando. Como os grupos
criminosos não se entendem, em vez de tríplice aliança,
constituiu-se, no coração da Maré, a “faixa de Gaza”, onde
se encontram as fronteiras das áreas sob controle das três
forças, um dos espaços mais violentos do Rio,
frequentemente conflagrado.
As polícias agem como quarta facção, porque respeitam a
legalidade tanto quanto os traficantes. Pior, tratam os
moradores como virtuais inimigos. Segmentos policiais
corruptos oscilam entre os negócios e o confronto. Em vez
de duas opções opostas, adesão ou guerra, esta última, a
guerra, com frequência, visa apenas impor aos traficantes
um aumento no preço da cumplicidade policial. O confronto
armado, portanto, faz parte do repertório das táticas
promíscuas. Guerra é parte do negócio. Para as polícias, a
guerra é o negócio por outros meios. No repertório de atos
corruptos, inclui-se o aluguel, por uma noite, a alguma
facção, da viatura blindada usada para invadir favelas, o
famigerado Caveirão, símbolo da brutalidade policial,
porque muitas vezes, em lugar de proteger os policiais,
humilha os moradores com insultos gritados pelo alto-
falante e atira a esmo, promovendo o caos e atingindo
vítimas inocentes. O preço do aluguel por uma noite gira em
torno de 30 mil dólares.
Outra prática comum e bem remunerada é a prisão de
lideranças dos grupos rivais, facilitando à facção
beneficiada a tomada de territórios alheios, aos quais
correspondem nichos de mercado até então sob monopólio
do grupo inimigo. Uma variante é a apreensão de armas e
drogas para revenda aos mesmos donos anteriores ou a
seus oponentes.
Mas atenção: há gente boa e honesta nas polícias do Rio,
profissionais honrados que arriscam a vida para cumprir seu
dever constitucional ainda que recebam salários indignos.
Eles também são severamente prejudicados pelos colegas
criminosos, que, além de se corromperem, perpetram
execuções extrajudiciais, torturam, incursionam favela
adentro irresponsavelmente, desrespeitando os direitos à
cidadania e à segurança dos grupos sociais mais pobres e
vulneráveis. Característico do Brasil e do Rio é o fato de que
os alvos da violência do Estado que se realiza por meio das
polícias são sempre pobres e, com frequência, negros. Entre
2003 e 2014, inclusive, 10 699 pessoas foram mortas em
ações policiais no estado do Rio de Janeiro. O racismo está
impregnado nas instituições da Justiça criminal.
— Não vejo saída.
Ele se inclina para a frente, diminui a velocidade: — As
coisas se complicaram. Os homens vão invadir pra me
quebrar. Fiquei importante demais. Depois que mataram o
Matemático, virei a bola da vez. Eu sei demais.
De fato, vivo e preso ele seria uma ameaça a toda a
hierarquia das polícias. Sua memória é um arquivo
explosivo da degradação institucional carioca. A polícia fará
o possível para livrar-se dele antes de preparar a instalação
da UPP. Meu interlocutor transformou-se no alvo mais
cobiçado justamente por ser o mais temido. Os policiais
corruptos são experientes na arte de queimar arquivos
humanos. As histórias são de arrepiar. Pergunto se posso
ajudar de alguma maneira. Ele balança a cabeça. Não
entendo se o movimento significa “não” ou “não sei”. Digo
que pretendo fazer o que estiver a meu alcance para
prevenir a perda de mais vidas, a dele e a dos moradores da
Maré — seria improvável uma operação policial cirúrgica,
que eliminasse o líder e se retirasse sem danos a terceiros.
Sentado no carro em movimento a seu lado me torno seu
irmão.
Por mais que evite cogitar a hipótese de que a temida
incursão policial coincida com meu passeio pela
comunidade no automóvel do dono da favela — é assim que
são chamados os líderes do tráfico nas comunidades
cariocas —, nem sempre tenho sucesso. Não seria, eu
pergunto, mais prudente sumir? Dar um tempo?
— É o que eu devia fazer, mas não posso. Até dei uma
saída, mas voltei logo. Minha responsabilidade é muito
grande. A comunidade precisa de mim. Tenho família, mãe,
filho pequeno, meus companheiros. Não posso sair e deixar
meus companheiros.
Você se sente responsável pela comunidade?
— Claro. Se a polícia barbarizasse só com a gente, tudo
bem, é do jogo, guerra é guerra. Eu sinto a perda de um
companheiro mas sei que faz parte. Agora, escrachar a
comunidade não pode, não aceito. E é o que eles fazem.
São uns covardes. Matam inocentes. Não querem saber.
Mas a polícia invade porque vocês estão aqui. São vocês
que colocam em risco a vida da comunidade. Ele discorda.
Se o grupo dele não estiver ali, outro estará e a polícia agirá
do mesmo modo. Esse hipotético outro grupo de traficantes
dificilmente respeitaria a comunidade como ele, é o que ele
diz. Não acredito, não coincide com depoimentos de alguns
moradores. Mas é verdade que há grupos mais violentos e
que, na ausência de meu interlocutor e do grupo que ele
lidera, a situação poderia agravar-se.
— E tem o seguinte, cara: se eu me entregar você acha
que vão me deixar ir a julgamento, puxar cana, essas
coisas? Se me pegarem eles me quebram logo.
Tem razão, penso mas não digo. Ele quer saber o que eu
acho do AfroReggae, uma ONG muito bem-sucedida que
oferece a jovens do tráfico oportunidades de emprego e
apoio legal. Falo com entusiasmo dos projetos. Ele me
interrompe:
— Ouvi umas coisas.
O quê?
— Umas coisas — ele repete. — Não sei. Não confio.
Ele quer saber o que eu acho do dirigente da organização.
Dou meu testemunho carinhoso sobre a trajetória de José
Júnior. Ele muda de assunto. Poucas semanas depois eu
entenderia a hesitação. Líderes do Comando Vermelho
presos em penitenciária de segurança máxima planejavam
o assassinato de Júnior. Felizmente, o complô foi descoberto
e abortado. Ele quer ficar longe de encrencas com a facção
inimiga. Já basta o cerco policial que se avizinha.
— Tentei um acordo com o pessoal do lado de lá.
Noto que ele tem um certo pudor em nomear os inimigos.
O pessoal de lá?
— Do Comando Vermelho.
Sei.
— Não querem conversa.
Você vai insistir?
— O caminho vai ser esse, não tem outro.
E o ADA?
— Quero falar com eles também.
Indago por que é tão difícil um acordo entre as três
facções.
— São as histórias. As pessoas e as histórias.
Acho que entendo: os que decidem em cada lado estão
enredados numa trama de ódio. Uma espiral de vinganças.
Por outro lado, o mercado já está geograficamente dividido.
A disputa por acesso a consumidores não seria obstáculo
insuperável.
— Um dia vai acontecer, é a realidade.
Deduzo que ele vê o acordo como um recuo tático,
imposto pela correlação de forças. Há uma crise no
movimento — esta é a palavra que designa o tráfico. Será
que não há outra fonte de dificuldades? Eu acho que o
modo como vocês se organizam e fazem o negócio das
drogas não funciona mais, não tem futuro. Pensa bem. Todo
mundo diz que você é inteligente, gosta de ler e escrever.
Ninguém lidera um grupo tão unido por tanto tempo e
conquista o respeito da comunidade se não tiver virtudes.
Você não é só temido. Não sinto ódio nas pessoas que se
referem a você aqui na comunidade, mesmo criticando o
que você faz e desejando que o tráfico acabe. Acho que a
maioria não quer você morto. Quer se livrar do tráfico, mas
torce para que você ache o seu caminho e siga sua vida. Ele
diz que sabe disso e que gosta, sim, de ler, mas que não é
bom na escrita. Pergunta se eu gostaria de escrever sua
história. Ele diz que leu dois de meus livros e viu os filmes
Tropa de Elite 1 e 2. Gostou muito.
— Minha vida dá um filme. Um dia na minha vida dá um
livro e um filme. Se você quiser passar uns dias aqui, vai
escrever o terceiro livro e depois vão fazer o terceiro filme.
Enquanto fala, ele parece divagar. Em alguns momentos
sinto que estamos menos em uma conversa e mais em uma
sequência de declarações pontuadas por silêncios e minhas
intervenções. É como se eu não estivesse ali e só voltasse à
cena para autorizá-lo a pensar em voz alta. Talvez seja
decisivo para essa estranheza o fato de que ambos olhamos
para frente, não para o outro, ainda que eu intercale a
atenção à rua e ao perfil de meu interlocutor. Como ele
dirige, volta-se menos para mim. Retorno ao tema: você não
acha que o tráfico já era? Quer dizer, esse tipo de coisa: ter
de montar um pequeno exército, treinar o pessoal, manter a
disciplina, sustentar e estimular o grupo para que o astral
da tropa continue elevado mesmo com tantas perdas e
riscos, sofrimentos, perseguições, vidas angustiadas e sem
futuro. Vocês gastam fortunas comprando armas e policiais.
Não dormem direito. Mal podem curtir o que faturam.
Muitos de vocês morrem antes dos trinta anos. A maioria.
Para quê?
— Estou muito cansado, cara, muito, e ainda por cima
peguei uma gripe foda.
Imagino, eu digo. Quero retomar o fio da meada, mas ele
me mostra uma linda menina que caminha do lado
esquerdo e para, quando avista o carro. Ele reduz a marcha.
— Minha mulher. Vou dar uma paradinha pra pegar uns
remédios. Ela comprou pra mim.
O carro estanca, ele abaixa o vidro, me apresenta à
esposa.
— Um amigo.
Cumprimentamo-nos com algumas interjeições ligeiras e
simpáticas, ela deposita no colo do marido um pacote e
despeja em seu ouvido um catálogo de recomendações
clínicas — você precisa descansar, se alimentar, tomar os
remédios, beber muita água. Ele depressa desembrulha,
separando as caixas e os vidros até achar o comprimido que
procura. Agradece. Manda um beijo. Sobe o vidro e
voltamos a circular. Ela trouxe uma farmácia inteira pra
você.
— Ela cuida de mim.
No meio de tantos problemas, existe a recompensa, uma
mulher especial. Ele sorri com o canto do lábio.
— Você acha certo proibir drogas e acusar quem negocia
de criminoso hediondo?
Não, acho errado, uma hipocrisia com resultados
desastrosos para todos. Acho que as drogas deveriam ser
legalizadas como o álcool e o cigarro, que são as piores, as
que matam mais gente. Mas acho totalmente errado vocês
traficarem contra a lei e com uso de violência. Não é assim
que se muda a lei. E a violência é um absurdo.
— Você acha que nós é que somos violentos?
Acho que vocês são violentos e os policiais também.
Mesmo que seja ilegal, haveria uma forma menos destrutiva
de negociar as drogas. Menos destrutiva até para vocês.
Abandonar essa coisa maluca que é se armar, organizar
uma tropa, controlar uma favela, expor os moradores a
riscos diários. Vocês poderiam morar nos mais diferentes
lugares e vender as drogas a quem quisesse comprar, sem
armas, circulando pela cidade, como acontece na Europa,
nos Estados Unidos. É mais barato para vocês e provoca
muito menos violência.
— Vai acontecer.
Você me disse que duas coisas vão acontecer: o acordo
entre as facções e a mudança no funcionamento do tráfico.
Se for verdade, o que a UPP está fazendo é apressar esse
processo. A instalação da UPP é uma oportunidade para o
tráfico se modernizar, abandonar o domínio territorial e
desistir das armas, da violência. E negociar um acordo, se
unificar. É uma oportunidade não para deixar de traficar,
mas para mudar o jeito de fazer isso, concorda? Ele não
responde. Tenho vontade de rir com aquela conclusão que
me ocorre: o maior programa governamental contra o
tráfico impulsionaria sua modernização, tornando-o mais
lucrativo e atraente, dando-lhe sobrevida, portanto,
tornando-o mais forte, economicamente mais racional. Além
de tudo, a UPP está estimulando a união das facções, de cuja
divisão depende parte das estratégias da segurança pública
e, indiretamente, uma boa parcela da renda que
suplementa os baixos salários dos policiais. Fico em silêncio
saboreando a ironia. Ele me chama de volta à realidade:
— Cometi crimes, mas não todos de que me acusam.
Pergunto se ele tem advogado. Em vez de responder, ele
proclama a inocência pela maior parte dos crimes que a
polícia e a mídia lhe atribuem.
— Nunca matei.
Mas vocês recebem a polícia à bala.
— A polícia invade atirando.
Então como é que você sabe que nunca matou? Ele volta
a declarar sua inocência e eu repito a primeira pergunta.
— Tive advogado, agora estou sem nenhum.
Pronto, aí está a chance de contribuir para a defesa de
sua vida e a criação de uma saída honrosa e legal daquela
sinuca de bico em que ele está, ruminando a contagem
regressiva noite adentro. Proponho a ele um advogado. Eu
me disporia a identificar algum bom profissional que
estivesse disposto a arriscar seu prestígio, gratuitamente,
construindo um caminho que tornasse atraente para meu
interlocutor entregar-se à Justiça, salvando sua vida e
esvaziando um polo de ameaça permanente à comunidade.
Uma boa ação, embora incerta e perigosa. Tenho certeza de
que haverá algum excelente advogado disposto a ajudar.
Você se entregaria à Justiça, se contasse com a orientação
de um profissional respeitável e experiente? Eu me refiro a
um advogado em condições de separar as acusações falsas
dos crimes realmente cometidos, pelos quais você assumiria
responsabilidade e cumpriria as penas que viessem a ser
determinadas nas sentenças. Você faria um sacrifício, mas
equilibrado e justo, quer dizer, que corresponderia à
punição pelo que você fez, não pelo que não fez. Seria um
caminho para evitar que você seja morto como o
Matemático, e que seus companheiros sofram o mesmo
destino. Você estaria disposto a se entregar? Ele repete o
prognóstico:
— Eles me matam na hora, cara.
A voz dele tem o efeito de uma desaceleração. Sinto que
meu otimismo está fora de tom, longe das coisas como elas
são. Passa pela cabeça que não tenho mais idade para
romantismo. Sinto vergonha e temo que ele me tome por
idiota, um velho ingênuo e patético, ou um manipulador
teleguiado fazendo pouco do interlocutor. As especulações
são interrompidas por uma hipótese maluca que cai como
uma pedra. Escuta, acabo de ter uma ideia. Imagina a
seguinte imagem correndo o mundo, nas primeiras páginas
dos jornais, nas televisões, na internet: você ajoelhado aos
pés do papa Francisco. Ele abençoando o jovem que até
então era visto como o traficante mais perigoso do Rio de
Janeiro. Você se arrepende, decide se entregar e a alta
hierarquia da Igreja católica assume o compromisso de
negociar com o Estado e a Justiça a garantia de que seus
direitos serão plenamente respeitados.
— Só se fosse um milagre — ele diz com um meio sorriso.
O papa faz milagres, respondo.
— Direitos de preso respeitados no Brasil? Só milagre
mesmo.
Esse milagre a benção pública do papa faria. Um gesto
exorbitante, fora da ordem, em rede transnacional,
transmitido ao vivo. É como se você passasse a ser
protegido por um manto sagrado. A visibilidade mundial
fecharia seu corpo, blindaria você contra qualquer atentado
da polícia à sua vida. Sua sobrevivência e sua integridade
se tornariam questão de Estado. Isso é notícia no mundo
todo. O traficante mais procurado do Rio se entrega ao
papa. Já pensou? O papa chega ao Rio daqui a um mês e
pouco. Vai ser o grande acontecimento do ano. Maior do que
a Copa das Confederações. Ele vai comandar a Jornada
Mundial da Juventude. Vai rezar missa para milhões de
pessoas. Vem gente de toda parte. A mídia de todo o mundo
estará na cidade.
— É complicado.
Eu sei, claro que é muito complicado, mas não é
impossível. Tenho contatos na Igreja. Quem sabe? Se você
quiser, posso tentar. Você sairia logo daqui, ficaria recolhido
em um retiro, acompanhado por padres e bispos. Eles se
certificariam de que você não está mais em contato com o
tráfico, um advogado prepararia a parte legal de sua
rendição, mas você teria de estar mesmo decidido a
começar outra vida depois de cumprir a pena que a Justiça
determinasse. Isso também ajudaria a que a sentença fosse
a menor possível e tornaria seu retorno à liberdade, depois
da prisão, muito mais fácil. Você teria mais oportunidades e
sofreria menos preconceitos.
— Não estou preparado.
Pensa bem. Uma saída negociada com orientação jurídica
e mediação da Igreja evita que você, sua família, seus
companheiros sejam mortos ou esculachados.
— Não dá, cara. Não estou preparado pra isso, não. Tenho
minha mulher, meu filho, a família, meus amigos, no fim de
semana jogo meu futebol.
Percebo que minha imaginação, já por si mesma
excessiva, ali, contagiada pela vontade de viver que ele
exala, acaba por me afastar da realidade.
— Complicado.
No caminho ele aponta para as calçadas, as pessoas
andando, paradas, conversando, entrando e saindo das
lojas e das casas. Nenhum sinal de que se inquietem.
Ninguém estranha a passagem estrepitosa do homem mais
poderoso do pedaço. Ele passeia como um espectro
arrastando as correntes de seu bonde pesado. Dois carros
escuros: o nosso com o ar-condicionado ligado e vidros
opacos, que dificultam a identificação de quem o ocupa; o
outro, a segurança que nos acompanha, com vidros abertos,
os fuzis espetados para o alto, um paliteiro letal.
Atravessamos cada quarteirão lentamente.
— É melhor a gente fazer o retorno aqui. Dali pra lá não é
bom ir agora, não.
Ele diz alguma coisa pelo rádio, o carro de trás ultrapassa
o nosso e bloqueia o fluxo incessante de motos, bicicletas e
Kombis que a viela estreita, à frente, jorra em profusão. Ele
gira a direção hidráulica com destreza e abre os vidros. É o
suficiente para a invasão sonora. Cães latem em coro, alto-
falantes anunciam liquidações, rádios comunitárias
oferecem atendimento legal para casais em crise, crianças
correm atrás da bola, o funk ecoa a mil na van sem porta, o
alarido metálico da fé declama salmos e convoca para a
maratona de orações. “Aceita Jesus”, conclama a voz
imperiosa. Hoje à noite o pastor promete tirar o diabo do
corpo de quem estiver possuído por alguma entidade
cultuada na umbanda. O carro recua bem devagar até
quase o muro do outro lado da rua e evita por um triz o
emaranhado dos fios que ligam a laje, o poste e um buraco
na parede da lan house, à meia altura. A manobra exige
esforço do motorista porque a rua é muito estreita.
Paramos. Ele saúda alguém pelo nome, acena para um
grupo que joga botão na mesa verde ao lado da entrada do
bar e faz um sinal para o homem de meia-idade. Um sinal
preciso, suponho. A pessoa responde com um gesto exato,
que meu interlocutor compreende e eu, não. O cheiro de
gordura vem da bancada azul, emoldurada por anéis de
fumaça que espantam os mosquitos e se dissolvem,
misturando-se à poeira. Um par de motos parte em
velocidade depois de reverências a meu interlocutor: dois
rapazes com fuzis e pistolas em uma delas; um casal, na
outra. A mulher exibe as coxas na garupa e o homem, fuzil
a tiracolo, exibe a moça como troféu. Coreografia barata do
velho machismo latino. Ele fecha os vidros do carro com um
toque. Estamos de volta. Não consigo descobrir se a partida
das motos em velocidade e a agitação da rapaziada tem
qualquer significado especial. Digo qualquer coisa para
fingir uma serenidade que não existe. O fato é que ele
continua em silêncio e parece um pouco mais tenso do que
antes, ou talvez seja a amplificação de meus sentidos
provocada pela eletricidade da atmosfera. É inevitável
refletir sobre o cotidiano da guerra, as dificuldades
extremas, o sobressalto. Pergunto a mim mesmo até que
ponto o horror cede e se dilui na rotina. Eu deveria pensar
nas crianças deitadas no chão do pátio da escola,
escondidas debaixo das carteiras nas salas de aula, ouvindo
os estampidos e tremendo, acossadas pela memória de
tantos cadáveres, rastros de sangue, buracos de grosso
calibre nos postes, nas paredes das casas, e pelas histórias
de terror que os vizinhos contam, das quais aos poucos elas
começam a fazer parte. Eu deveria pensar nelas, mas penso
em mim.
Ele me distrai com elogios a seu governo:
— Olha as pessoas. Elas estão tranquilas, se sentem
seguras comigo por perto. Eu garanto a segurança delas.
Elas não precisam de UPP, de polícia, de nada disso. Somos
nós que damos a segurança pra elas. Quem traz o medo, a
violência, a insegurança é a polícia. As pessoas têm medo e
raiva dos polícias. Pode perguntar pra qualquer um. O
morador vai te dizer. A comunidade prefere a gente.
Ele insiste nos benefícios que seu comando proporciona.
Não, você sabe e eu sei que não é verdade. Onde há uma
arma e um homem de prontidão para garantir a segurança,
o que existe não é segurança. As pessoas podem se sentir
defendidas, protegidas, mas estarão inseguras, e sabem
disso. Elas se conformam porque não têm alternativa. Assim
como você não pode se entregar à polícia e à Justiça, as
pessoas não podem pedir ajuda à polícia e à Justiça. Nem
você, nem elas confiam nas instituições. Vou falar com toda
sinceridade: no seu caso, e em tantos outros, eu preferiria
que houvesse uma solução voltada para a vida, não para a
vingança. O que se chama Justiça criminal retributiva não
passa de vingança autorizada pelo Estado. Ficaria feliz se
pudesse dizer a você: o passado foi esquecido, vamos
construir o futuro. Comece de novo sua vida longe do crime.
Leve com você a memória das coisas boas, as amizades, a
lealdade, a coragem, a liderança, a capacidade agregadora,
o pique, a iniciativa, o empreendedorismo. Deixe o resto
para trás.
— Você propôs anistia.
Ele sabe. Penso em lhe perguntar quem lhe havia
contado, mas apenas confirmo. Aconteceu em 1999, quando
fui subsecretário de Segurança do estado do Rio de Janeiro.
Foi um escândalo, mas houve quem entendesse e apoiasse.
Abrir, por um período restrito, uma porta de saída permitiria
que muita gente envolvida no crime pulasse fora do barco a
tempo de salvar-se. Beneficiaria milhares de jovens que se
comprometeram, por exemplo, com o tráfico de drogas e
não sabem como cair fora, seja porque entregar-se à polícia
é suicídio, seja porque seus companheiros considerariam
traição, seja porque não teriam o que fazer para ganhar a
vida legalmente. A sociedade ganharia se eles
abandonassem o crime. Provavelmente, uma medida assim
ousada afastaria do crime mais gente do que anos de
atividades policiais, com menos custos e riscos, e de modo
mais sustentável, porque a reincidência seria menor. Cada
preso custa ao erário, em média, quase mil dólares por mês.
Os recursos economizados financiariam o fornecimento de
alimentação, complementação educacional e moradia aos
beneficiários do programa — e seus familiares —, distante
do local em que atuavam. Dois anos de apoio e reinserção
no mercado de trabalho seriam perfeitamente viáveis com o
corte de despesas nas prisões e nos procedimentos policiais
e judiciais. Se o propósito é reduzir a criminalidade e a
violência, por que não? Os envolvidos ganham uma segunda
chance para respeitar a vida e os direitos alheios, e a
sociedade investe não para punir, mas para garantir a
equidade na provisão de oportunidades, princípio
constitucional descumprido pelo Estado. Ou seja, a
sociedade dá a si mesma uma segunda chance para ser
menos injusta.
— Ouvi falar da anistia. Por isso quis conversar com você.
Não foi fácil ter de explicar que a proposta foi rechaçada e
esquecida.
Quando alguém torce o nariz para a anistia — ou o salvo-
conduto, seu nome técnico — e profere a sábia ponderação,
“a ideia é polêmica”, respondo: imensamente polêmica.
Assim que você sugerir alguma coisa melhor, passo a
defender sua tese. Se sua proposta for a transformação do
sistema de segurança pública e justiça criminal, eu direi que
sim, e que isso provavelmente virá, na medida em que o
país se torne mais democrático e fiel à Constituição.
Contudo, enquanto o processo histórico segue seu curso
convulsionado e imprevisível, o que será dos milhares de
jovens induzidos a manter-se no crime por falta de saídas
institucionalizadas, capazes de lhes garantir os direitos,
cobrando-lhes os deveres?
Fim da linha. Avistamos o largo do qual partimos. Ele
rompe o silêncio:
— Quer dizer, cara, que a anistia não tem nenhuma
chance?
Em vez de responder, insisto pela enésima vez, correndo
o risco de ouvir um insulto: posso procurar um bom
advogado? Não seria bom trocar ideias com um profissional
que avaliasse todas as acusações contra você e
recomendasse uma estratégia de defesa? Enquanto isso, eu
tentaria conversar com algumas entidades até descobrir um
meio seguro de você se entregar à Justiça.
— Isso não existe, cara. Pra mim, não. — Ele diz mais uma
vez.
Ficamos em silêncio um bom tempo, mas não é o ponto
final na conversa. Sem motivo aparente ele muda de
opinião:
— Procura o advogado.
Feliz como se o tivesse ajudado, lhe pergunto se aceitaria
marcar o encontro fora dali. No momento, me ocorre que
dificilmente os bons advogados ou as boas advogadas de
cujos nomes logo me lembro se disporiam a percorrer
aquele circuito. Não por medo, mas senso de
responsabilidade. E talvez uma dose de medo também. Por
que não?
Ele estaciona o carro.
— A gente não se conhece pra ter confiança. Precisa de
tempo. Sair daqui é muito perigoso.
Penso em desejar a ele paz e felicidades. A ele e à família.
E que ele tenha coragem de se entregar e reinventar, mais
tarde, um dia. Não digo nada. Ele pode muito bem imaginar.
Afinal, eu estou ali.
A cena derradeira cospe ácido em meus olhos: vinte ou
trinta homens celebram a chegada do carregamento de
armas. Retiram-nas das caixas. Um deles, pouco mais que
um menino, embora forte, suspende o fuzil acima da
cabeça, orgulhoso, saudando o chefe que sai do carro e
caminha em sua direção. Outro rapaz parece não ver nada à
frente, como se estivesse em êxtase. Ajeita-se ao redor do
fuzil, fazendo o corpo girar em torno do novo eixo. Em festa,
os soldados do Terceiro Comando mal percebem minha
presença. Sem despedidas, me retiro. Imagino uma frase
que flagre a cena e me ocorre descrevê-la como um ritual
movido a testosterona em que os personagens ostentam
dentes e marra.
O carro que me trouxera está à espera. O trajeto de volta
me deixa no ponto de encontro, um bar de nome estranho
na esquina do beco sem nome, onde um segundo carro me
aguarda e me leva para outro ponto, fora da favela, no
campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, perto da
Ilha do Governador. São cinco horas da tarde. Digo ao
motorista do terceiro carro que tenho de ir ao centro da
cidade. Telefono a um amigo e peço que me receba depois
do expediente. Um dos melhores advogados do país. Ele
sabe que se o procuro assim é porque o assunto é grave e
urgente. Confirmo o endereço. Anoto no celular. O motorista
diz alguma coisa. Não consigo prestar atenção às suas
histórias. Seguimos rumo à Linha Vermelha, símbolo da
cidade. Enquanto margeamos a Maré vagarosamente,
amarrados pelo nó do tráfego, sinto vergonha de meu país.*
* Meu interlocutor na visita à Maré foi preso por vinte policiais federais, sem
oferecer resistência, sozinho, em um apartamento longe da favela, em 2014.
3. Você está proibido de morrer
O dia amanhece quente na Baixada Fluminense, região
metropolitana do Rio de Janeiro, parte do que alguns
chamam Grande Rio. A luminosidade repica no metal de
carros, ônibus, motos, vans, amarrados no tráfego pesado,
empoeirado e barulhento. Os ruídos aquecem ainda mais a
paisagem solar e excessivamente colorida. Sérgio, conforme
destacou ao compartilhar sua aventura comigo, vê-se
obrigado a usar os óculos escuros que trouxe da Europa.
Mesmo dentro do táxi. Ele conversa com Mariana ao celular:
— Você me conhece. Eu sou desse jeito. Prefiro assim.
Sozinho. Mais um na multidão. Assim eu vou sentir mais ou
menos…
O táxi para e Sérgio interrompe por um segundo a frase
para pagar ao motorista. Abre a porta, segurando o celular
e, olhando o imenso prédio do hospital público, um pouco
assustado e um pouco deslumbrado com o momento que
está vivendo, continua a falar.
—… o que as pessoas sentem quando chegam aqui. Já
cheguei. Depois te ligo.
Contempla o hospital e o tumulto de pacientes, familiares,
ambulâncias, funcionários, ambulantes vendendo água e
sanduíches. Atravessa o “pátio dos milagres” e entra no
prédio, abrindo espaço entre filas e um arquipélago de
pequenos grupos até o balcão de atendimento. Alguns
brigam, vociferam contra o abandono e a humilhação,
lançam imprecações sem destinatário identificável, outros
conversam em voz baixa, alguns se movimentam com
ansiedade, quase em círculo, uma senhora ameaça
desmaiar, grávidas amontoam-se, mães carregam no colo
crianças febris, alguém reclama de dor, enfermeiras,
enfermeiros e funcionários passam celeremente em todas
as direções. Alguns empurram pacientes em macas.
Sérgio consegue, finalmente, a atenção de uma
atendente. Observa que ela está pintada demais para a
função que desempenha. A dissintonia contagia o ambiente
e torna tudo ainda mais confuso. Dirige-se a ela: — Eu tenho
uma audiência com o doutor…
Nesse instante, como uma caravana no deserto, cruza o
saguão de entrada um senhor obeso e baixo, de jaleco
branco, em torno de sessenta anos, cercado por quatro
seguranças altos e fortes, ostensivamente armados e com
coletes à prova de bala. Sérgio suspende o que dizia à
atendente e acompanha com o olhar a passagem teatral do
diretor, em seguida continua: — Ele vai a um safári?
A moça o encara, aturdida. Ele explica:
— Caçada.
Ela então responde:
— Mais ou menos, só que ele é a caça. O que é que você
quer?
— Tenho uma audiência com…
— Aqui não tem isso, não. Tem consulta, exame, cirurgia
ou reunião.
— Reunião.
A atendente complementa:
— Está marcado? Com quem?
— Dr. Franco Emiliano.
— Você é o caçador?
A moça fala ao telefone e volta-se para Sérgio:
— Identidade.
Recebe o documento, registra o número, dá-lhe um
crachá e informa:
— Vem uma pessoa te buscar. Pode esperar ali ao lado.
Sem lhe dar mais atenção, grita:
— Próximo.
Após dez minutos de espera, Sérgio resolve dar uma volta
no pátio e se depara com uma cena dramática. Na porta da
funerária São Tomé, situada nos fundos do hospital, uma
senhora puxa o marido pelo braço. Ele se chama Nelson,
todos na favela em que moram o chamam Nelsinho. Está
desnorteado, xingando aos berros, “vampiros, vampiros
filhos da puta”. A esposa tenta controlá-lo: — Para, para, sai
daí. Sai. Já chega perder um filho. Pra você é pouco? Quer
mais desgraça? Quer você também morrer? Quer me deixar
viúva, é isso que você quer?
O sobrinho adolescente do casal, Deco, abraça o tio. Uma
senhora idosa consola a mãe traumatizada e a leva para o
pátio. Faz bem tomar um ar e caminhar um pouco. Nelson
desvencilha-se e entra novamente na funerária sombria.
Deco não consegue detê-lo. Aos prantos e gritos, projeta-se
em seu encalço. Agarrado pelo rapaz, o tio vocifera,
dirigindo-se ao funcionário, esticando seus nervos até o
limite: — Vampiro, monstro. Chupa o sangue dessa besta,
aqui, suga o sangue desse animal. Leva o que quiser. Já
perdi tudo o que tinha. Perdi meu filho. Vampiro. Filho da
puta.
O funcionário da funerária afasta-se de algumas pessoas
com as quais discutia preços de sepultamento e modelos de
caixão, aproxima-se com a destreza fria de um profissional e
despeja o mantra que a repetição o fez decorar: — Lamento
por seu filho, já falei isso. Mas não vou poder estar fazendo
nada. Lei é lei. Se tá certo ou tá errado, não é problema
meu. É a lei do município: morreu aqui, enterra aqui. Pra
liberar o corpo pra ser enterrado em outro município, vai ter
de estar pagando a taxa de quatrocentos reais. Pode ler. Taí
na parede. É lei.
Deco permanece abraçado ao tio, que soluça, calado.
Do outro lado do pátio, nos fundos do hospital, um
despachante aproxima-se da mãe e da senhora idosa, que
caminham abraçadas.
— Com licença. Sei que o momento é impróprio, mesmo
assim tomo a liberdade de solicitar a atenção das senhoras.
É que eu acho que posso ajudar. Soube que as senhoras são
familiares do… do jovem… que tristeza… Deus o guarde,
Deus acolha sua alma… o jovem que perdeu tragicamente a
vida no acidente de automóvel, na via Dutra, de
madrugada. O jovem que dirigia o Fiesta azul, placa SEG
2537.
As duas ouvem, atônitas, e choram. O homem não
desiste:
— Sei o que é a dor de perder um filho. Também perdi
meu filho. Que Deus o tenha. Mas nessa hora um dinheiro
inesperado ajuda, ajuda, sim, ajuda muitíssimo. Que mau
gosto falar em dinheiro. É quase uma blasfêmia. Mas ajuda.
E é por isso que lhes pergunto se as senhoras sabem que
têm direito a receber o DPVAT, o seguro obrigatório veicular.
São dois mil reais. Se as senhoras me autorizarem, eu cuido
de tudo. Posso antecipar agora mesmo o dinheiro. Sem
burocracia, dor de cabeça, perda de tempo. Basta assinar.
Uma viatura da Polícia Militar passa lentamente, ocupada
apenas por um soldado, motorista, e um sargento, ao qual
várias pessoas que circulam por ali prestam reverência. Ou
prestam contas, diretamente, aproximando-se da janela,
numa cerimônia que mescla o beija-mão ao molha-mão:
marcadores do jogo do bicho, ambulantes, motoristas das
vans, funcionários da funerária e da casa de flores. O
despachante cumprimenta à distância, dizendo-lhe em voz
alta: — Sargento, um dia muito triste, muito triste.
Estica o braço e leva a mão ao ombro da mãe, enquanto a
senhora que a acompanha segura o documento que o
homem lhe passara, mas não o lê. Ele se afasta em direção
à viatura policial e fala, discretamente, virando o polegar
para baixo: — Parado, muito parado.
Do lado oposto do pátio, Deco, que acalmara o tio, volta à
funerária, contaminado pela revolta e grita para o
funcionário: — É problema seu, sim. Todo mundo sabe que
os donos dessa merda de funerária são os vereadores
Tonico do Posto e Beto Churrasco. Todo mundo sabe que
eles arrendaram o cemitério municipal. Que bosta de lei é
essa? Quem fez essa lei? Os vereadores. Então a lei é sua. O
problema é seu. Vai se foder.
O rapaz parte para cima do funcionário e os papéis
invertem-se: agora é Nelson quem agarra o sobrinho. Caem
juntos por cima de coroas de flores.
Os gritos e barulhos na funerária chamam a atenção das
duas senhoras e do sargento, que faz um sinal para o
motorista. A manobra é rápida. O militar desce da viatura,
pesado, suando muito, uniforme decomposto. Do interior da
funerária, o funcionário lhe acena e diz alto, em meio ao
tumulto de vozes e gente: — Sargento, onde você se meteu,
cara? Não pode sair daí. Olha a merda. Olha a merda.
Abre os braços ao lado de duas mulheres assustadas, que
parecem mãe e filha, e trabalham na funerária. Cadeiras,
caixões e coroas de flores tombaram e os dois, tio e
sobrinho, estão atracados no chão. Não se sabe quem está
contendo quem, nem mesmo quem está mais emocionado e
indignado. Assim que o sargento entra no estabelecimento
segurando o fuzil, sem apontá-lo, tio e sobrinho levantam-se
e afastam-se. O militar reconhece Nelson.
— É o Nelsinho. Só podia ser. Tu só sabe arrumar
confusão?
— Eu vou denunciar vocês todos, vou acabar com a raça
de vocês.
Do outro lado do pátio, a mãe toma o documento das
mãos da senhora que a acompanha e o devolve ao
despachante, dizendo-lhe: — Meu filho foi morto pela
milícia. Mais de trinta tiros. Mais de trinta.
Sérgio não sabe se deve intervir. Decide voltar ao lobby.
Aguarda mais alguns minutos e resolve aproveitar a
oportunidade para explorar o terreno. Disfarça e se infiltra
hospital adentro, observando cada detalhe. Sente um misto
de perplexidade, desânimo e indignação. Saca do bolso o
celular e começa a filmar o que vê: doentes abandonados
em macas no corredor, toalhas acumuladas e poças sujas
no chão, iluminação precária. Subitamente, é abalroado por
um segurança, que o lança de ombro contra uma porta
entreaberta. Desaba sobre a porta e quase cai. Equilibra-se
e tenta recompor-se. Está numa pequena área de serviço,
junto a uma escada. O segurança o agarra pelos ombros e o
encara como um cão selvagem prestes a devorar a presa.
Pisa no celular de Sérgio e lhe aplica um golpe que o
imobiliza. Com a mão livre, aciona o rádio e diz: — Peguei
um jornalista, copiou?
Auxiliado por um colega, o segurança leva Sérgio ao
gabinete do diretor. Uma das paredes está coberta de
monitores que recebem imagens de câmeras situadas em
distintas unidades do hospital. A outra, de diplomas
relativos a cursos de medicina e prêmios hípicos. De pé
estão três seguranças, dois dos quais Sérgio identificara. Ele
os vira passar na caravana, blitz ou safári, quando
aguardava atendimento no lobby. O outro acabara de
capturá-lo, com a gentileza típica do ofício.
Desconcertado, despenteado, camisa rasgada, Sérgio está
sentado numa cadeira, diante do diretor, que o encara,
clinicamente, refestelado em uma poltrona confortável. Ao
lado há um sofá, outras duas cadeiras, outra poltrona e a
mesa de trabalho coberta de papéis, dois rádios e um colete
à prova de balas, três livros de medicina na vertical,
apoiados por cavalos de bronze, uma foto do diretor mais
jovem, montando um cavalo elegante e recebendo um
troféu; uma pequena estátua de São Jorge dominando o
dragão e um busto, em cuja base lê-se: Hipócrates. A
autoridade máxima do hospital, finalmente, quebra o gelo:
— Você pediu uma reunião comigo… Sérgio, é este seu
nome, não é?… E eu aceitei porque você se apresentou pelo
telefone à minha secretária como médico, não como
jornalista.
— Eu sou médico.
— Então que história é essa de fotografia?
— Que história é essa de agredir jornalista?
— Porra, você é médico ou jornalista?
Sérgio não hesita. Responde como se tivesse dedicado a
vida a ensaiar a degustação daquelas palavras: — Diretor
de hospital.
— Que hospital?
— Este.
— Que brincadeira é essa?
— O senhor esqueceu que houve eleição para prefeito?
Vai haver mudanças na saúde, a começar pelo hospital.
— Eu não fui informado.
— Está sendo agora.
O diretor faz um sinal para os seguranças se retirarem e
aguarda, enquanto saem. Em seguida, eleva o tom: — Isso é
modo de comunicar a uma autoridade com o meu currículo,
com o meu histórico de serviços prestados a esse
município?
— Isso é modo de tratar um jornalista?
— Caralho, você é jornalista ou é o quê? É uma
pegadinha? Você está filmando essa merda dessa conversa?
— Cheguei aqui com a melhor intenção. Vim conversar
com o senhor com todo respeito. Vim como um cidadão
qualquer, pra começar a conhecer de verdade o hospital. Ia
falar sobre a substituição antes que ela se oficializasse pra
combinar uma transição tranquila, cooperativa, que fosse
boa pra todos. Sobretudo para o hospital e a população. Mas
onde é que eu me meti? O diretor anda cercado de
capangas armados dentro do hospital. O gabinete é um
bunker. Quase apanho de um jagunço. Isso aqui é um
faroeste?
— Sérgio, você está vindo de onde? Marte?
— Alemanha.
— Marte.
— Fiz o doutorado.
— E caiu de paraquedas no caldeirão do Rio de Janeiro. A
teoria aqui é outra, rapaz.
— A teoria é sempre outra. Tenho muitos anos de clínica
no Rio. Trabalhei quinze anos em hospitais privados, mas
voltei disposto a me engajar na saúde pública. O prefeito é
jovem, ousado, idealista, me conhece há muito tempo: fui
colega, na verdade discípulo de seu pai, que era médico,
grande médico.
— Você fala do novo prefeito como se ele fosse um amigo.
Tira o cavalo da chuva.
Enquanto fala, o diretor levanta-se, livra-se do jaleco
branco, veste o colete, tira o paletó que estava no espaldar
da cadeira atrás da mesa, abre uma gaveta, pega uma
pistola e a prende atrás, no cinto.
— O senhor vai sair? Não vamos conversar?
Sérgio levanta-se.
— O sujeito que estava aqui antes de mim foi
assassinado. O infeliz que ocupou essa posição antes dele
pediu o boné e saiu do país. O novo prefeito pode ser
idealista, ousado, qualquer coisa, mas amigo…
Abre a porta pesada do bunker e diz, antes de sair,
deixando Sérgio sozinho:
— Amigo, não.
Sozinho no bunker gelado, Sérgio recorda a conversa,
duas semanas antes, com o prefeito eleito. Um pouco mais
velho e, sobretudo, com muito menos preparo físico, ele se
esforça para acompanhar Luiz Claudio em sua corrida
matinal. Ambos são seguidos ao longe por dois seguranças,
que também correm. Todos vestem camiseta com a frase
“Nada deve parecer impossível de mudar”. Sérgio mal
consegue correr, mas seu interlocutor, além de acelerar o
ritmo, fala sem dificuldade: — A região metropolitana do
Rio, sem contar a capital, tem 4 milhões de habitantes, 70%
sem saneamento básico, morando em qualquer lugar. As
cidades crescem sem plano diretor, sem respeito ao meio
ambiente, sem estratégia de desenvolvimento, com
máquinas públicas que não funcionam. Só servem pra
empregar parentes e cabos eleitorais dos políticos. A
educação abandonada. A saúde sucateada. É aí que você
entra.
Luiz Claudio diminui as passadas até parar. Sérgio faz o
mesmo e dobra-se sobre si mesmo, suando em profusão.
Luiz enxuga o rosto e a cabeça, e completa: — Olha, Sérgio,
você sabe que nosso hospital é um tremendo desafio. Ele é
municipal, mas, na prática, atende o povo de toda a
Baixada, quando não da capital. Não vai ser fácil. Eu preciso
de você. Quero que você seja o novo diretor. Te dou carta
branca. Mas, escuta…
Sorri e, de frente para Sérgio, põe-lhe as mãos nos
ombros e fala com o tom meio sério, meio brincalhão: —
Você vai ter que assumir comigo três compromissos. Presta
atenção: melhorar os serviços, acabar com a corrupção e
não morrer.
Sérgio encara o amigo com o fôlego que lhe resta. Luiz
insiste:
— O último é o mais importante. Tô falando sério, meu
irmão. Você está proibido de morrer.
Ambos sorriem e caminham abraçados.
Sérgio desperta do breve transe, olha o gabinete à sua
volta como se ainda não acreditasse ou não entendesse o
que ouvira, vira e ainda via à sua volta. Finalmente, dirige-
se à porta do bunker.
Uma caminhonete negra, imponente, importada atravessa
a aridez da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Raríssimos
veículos trafegam pela estrada semideserta. Na frente, um
homem de meia-idade, gordo, baixo, ostentando cordões de
ouro e anéis de praxe, sua profusamente a despeito do ar-
condicionado sueco. Chama-se Camargo Quebra-Ossos.
Sargento Camargo, da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Dono
de milícia. E o magro que dirige, camisa colorida, idade
indiscernível, resmungando contra os buracos, é o cabo
Meneses. Atrás está o deputado Ivo Cury Lizio, novo sócio
da firma — é como eles chamam: firma —, boa pinta, trinta
e poucos anos. Os vidros escurecidos, blindados, deixam
claro que alguma coisa se perde na tradução do sol metálico
da cidade para a obscuridade daquele gabinete móvel da
milícia.
O carro perde velocidade, abruptamente. Inclinando-se
para a direita sobre o corpo do outro, o motorista pergunta:
— Não é o filho da puta do Nelsinho?
O gordo responde com uma interrogação:
— Aquele de bicicleta?
Segue-se um instante de imobilidade.
O veículo arranca de supetão, pois, tendo ultrapassado o
ciclista, o motorista decide abordá-lo, o que exige manobra
de 180 graus. A caminhonete retorna e para do lado oposto.
O gordo salta com surpreendente e improvável agilidade de
atleta, braço direito pendendo, colado ao corpo. Cruza a
estrada e se materializa diante da bicicleta como se fosse
uma entidade brotando do asfalto. O rapaz freia e apoia a
perna no chão. Diz alguma coisa inaudível, mas certamente
diz alguma coisa, porque vê-se o movimento labial do
ciclista. A porta da direita está escancarada e agora é o
motorista que se esgueira pela porta da esquerda. O
deputado está sozinho no carro.
O gordo ergue o braço que guardara artificialmente junto
à lateral do corpo e dispara a pistola. Cabe ao motorista o
ato final, que não é propriamente o tiro de misericórdia —
essa palavra não descreve nada do que se passa —, mas a
assinatura. Por isso levara consigo o fuzil. Por isso a rajada
sobre o corpo mesmo depois que ele se reduzira a um
boneco desfigurado.
Voltam ao carro, os dois, e o deputado se esgueira para
espiar o que restara do homem e de sua cabeça. Mal tem
tempo de abrir a porta para vomitar na estrada. O gordo
não perdoa: — Porra, compadre. Qual é? A gente acabou de
almoçar.
O político cospe, limpa a boca no lenço, recua para dentro
do veículo, bate a porta. Em silêncio.
Motor acionado, a caminhonete refaz os 180 graus e
retoma seu destino original. Completando o círculo, atropela
o homem assassinado.
Sentindo o solavanco e a batida no fundo do carro, o
deputado não resiste à súbita intimidade com o cadáver e
devolve, torrencialmente, o conclave de proteínas que
reunira no banquete de campanha. E o gordo, inconsolável:
— Que merda. Puta que o pariu. O carro está limpinho, saiu
ontem da revisão.
Algumas pessoas caminham à beira da estrada. À
distância, parecem assustadas e debandam. Passa um Gol
1000 velho e enferrujado. O motorista diminui a velocidade,
mas volta a acelerar quando percebe que os assassinos,
armados, continuam na cena do crime. Nada detém os três
cavaleiros do apocalipse. Seguem rumo à vitória eleitoral e
ao sucesso. A vítima não passa de um acidente de percurso,
rapidamente corrigido pela destreza dos matadores e
suprimido dos registros da memória pela pusilanimidade do
deputado.
No fim da tarde, Manuela está chocada diante do corpo
fuzilado no acostamento. Ela o descobre e volta a cobri-lo.
Muita gente cerca o cadáver, dificultando o trânsito, que é
pequeno. Afasta-se e fala ao celular: — Cardoso, manda
uma equipe pra cá. Eu vim sozinha. Pelo menos um
fotógrafo. Manda o Barros. Rápido. Mataram um líder
comunitário. É. Parece que ele denunciou milicianos. Vou te
dar o endereço. Como assim, qual o interesse de mais um
crime na Zona Oeste? E daí se forem todos milicianos? E
daí, Cardoso? É claro que não somos um jornal
sensacionalista. Eu sei o que é um jornal sério, Cardoso. Sei
muito bem.
A repórter desliga o celular, os olhos cheios d’água.
Pela manhã, ela entra na sala do jovem editor com um
jornal dobrado na mão.
— Um cafezinho, Manuela?
Ela se senta, calada.
— Por que é que você está tão brava?
— Isso é o que seu jornal sério fez.
Bate com o jornal dobrado sobre a mesa e aponta a nota
diminuta sob o título “Homicídio vira rotina na zona oeste”.
E continua: — Isso é uma sacanagem, Cardoso. Um trabalho
porco.
— Eu sei que te custou um dia de trabalho viajar até
aquele fim de mundo. Olha, Manuela, o jornal valoriza seu
esforço, mas…
— Que merda, Cardoso. Você não sabe mais a diferença
entre o desvio da carga de um açougue e o assassinato de
uma liderança popular.
— Manuela, o nosso leitor…
— Nosso leitor o quê, Cardoso? O nosso leitor prefere não
ficar sabendo, porque ninguém morreu no quintal dele?
Porque não é Ipanema que está fedendo a pólvora e
cadáver? Porque quem morreu era negro, pobre, morava na
periferia?
— Se a gente der muita atenção à guerra de tráfico e
milícia, o jornal vai virar um obituário, ou um boletim
policial.
— Não foi guerra entre traficantes, nem entre milicianos.
Tem uma vítima que não era bandido. Era líder popular.
Enquanto seus leitores ficam curtindo a vista pro mar, uma
onda gigante está se formando na Zona Oeste e na Baixada,
terras de ninguém. Uma onda que vai tomar de assalto a
Assembleia Legislativa, as polícias, a Justiça e vai varrer do
mapa o mundinho dos seus leitores.
— Manuela, vamos fazer uma coisa. Vou te oferecer uma
oportunidade. Você merece. Vamos criar uma coluna no
caderno de cultura pra você. Com sua foto ao lado.
— Talvez um dia esta história seja contada e as
responsabilidades sejam distribuídas entre nós todos.
Manuela levanta-se e sai.
Uma semana depois, Sérgio está na antessala da direção,
cercado de médicos, enfermeiros e funcionários, que o
cumprimentam. O grupo sai e uma jovem aproxima-se e diz,
entregando-lhe um envelope: — A carta de demissão.
— Por quê?
— Muda o diretor, muda a secretária. Não é assim?
— Não. Dessa vez não é só o diretor que está mudando. É
o método, a prática, a cabeça. Fica tranquila.
Ele procura ler o nome no crachá, mas ela lhe poupa o
esforço:
— Mariângela.
— Prazer, Mariângela. Vamos acertar detalhes da agenda.
Dirige-se à porta em que se lê “Gabinete do diretor”, mas
é retido pela secretária: — Dr. Sérgio, tem umas pessoas
esperando o senhor.
— Na minha sala? Lá dentro?
A secretária faz o sinal afirmativo com a cabeça. Mas ele
permanece atônito.
— Como assim?
Não espera a resposta. Entra e encontra dois homens, um
que parece ter o dobro da idade do outro. Ambos,
imediatamente, levantam-se e se apresentam: — Ramires.
Prazer.
— Ramires Filho. Como vai o senhor?
Sérgio procura controlar a irritação:
— Não sabia que tínhamos marcado essa audiência.
O pai toma a iniciativa:
— Desculpe, diretor. Nós marcamos com o dr. Franco
Emiliano. Aí aconteceu a mudança…
— Qual é o assunto?
— Só pra nos apresentar ao senhor. Sei que o senhor está
chegando, ainda não teve tempo de se informar. Nós
vencemos a licitação das ambulâncias.
Sérgio, entre a ironia e a perplexidade, diz:
— Das ambulâncias.
O filho explica:
— Dez ambulâncias e duas UTIs móveis.
— A empresa de vocês…
— Soluções Econômicas S.A.
Sérgio pondera:
— Soluções… não me lembro.
— A sede fica em Cuiabá.
— Cuiabá, Mato Grosso. E vocês vieram até o estado do
Rio, participar da licitação.
— O deputado Ivo Cury Lízio foi o autor da emenda
parlamentar.
Sérgio começa a situar-se. Murmura como que a confirmar
a informação que acaba de ouvir: — A verba vem de
emenda parlamentar.
— O senhor sabe como funciona, não é? Todo deputado
tem direito a destinar alguns milhões a alguma obra social.
Eles costumam escolher alguma iniciativa de interesse
público em seu município. Muitos deles ficam perdidos, sem
saber o que escolher. Nós ajudamos. Chegamos cedo, no
início do ano, apresentamos uma iniciativa importante, com
forte impacto para os eleitores, resolvemos toda a parte
burocrática, negociamos com o Ministério da Saúde,
acertamos tudo. Quando o órgão municipal faz a licitação, a
gente já acertou com o pessoal do ministério e do
município. Todo mundo ganha, sobretudo a população. É um
sistema muito ágil e seguro.
Ramires Filho complementa:
— Estamos no Brasil quase todo. Participamos de mais de
trezentas licitações.
O pai é mais preciso:
— Trezentas e catorze. O Ivo é quem cuida dos negócios
do município em Brasília. Representa o prefeito.
O filho enfatiza:
— Trabalha com o prefeito. São muito afinados.
Sérgio intervém para lembrar um detalhe:
— O prefeito mudou.
— Mas o município continua existindo e não sobrevive
sem conexões políticas federais.
Ramires Filho, imprescindível:
— Parcerias.
O pai retoma o fio da meada:
— O fato é que o deputado Ivo Cury Lízio, inclusive, já
recebeu.
Sérgio engole em seco:
— O deputado recebeu.
— Pois é. Nós ainda não, porque houve a eleição no meio.
Mas já entregamos as ambulâncias e antecipamos a parte
do Ivo, pra ajudar na campanha dos vereadores ligados a
ele.
Sérgio esclarece:
— Que agora vão fazer oposição ao novo prefeito.
Ramires Filho vai ao ponto:
— Doutor, o senhor sabe muito bem que não existe
oposição no município. A gente sempre se ajeita.
Sérgio insiste:
— A realidade política agora é diferente.
— Mas a saúde não pode parar.
Ramires ergue-se e se prepara para cumprimentar o
diretor e retirar-se.
Ramires Filho, patriota:
— A saúde não pode depender de eleição, não é, diretor?
Pai e filho preparam-se para sair.
— Meu cartão. Pode contar conosco. Tudo o que a saúde
municipal precisar, é só dizer. A gente facilita e resolve
rápido. Obrigado, doutor.
Cumprimentam o diretor e saem.
Duas semanas depois, Aureliano aproveita o domingo de
sol forte para oferecer um churrasco em seu sítio na região
de Pedra de Guaratiba, no município do Rio de Janeiro.
Apesar de seus 66 anos, mantém o porte atlético. Alto,
bonito como um ator italiano, veste calça e camiseta
cavada brancas, deixando à mostra três tatuagens. Usa
sandálias de couro indianas, quase como um monge hare
krishna. O sítio, famoso entre empresários que abriram
caminho à bala, políticos, policiais, milicianos e artistas
populares, tem um heliponto no terraço da mansão, piscina
com ondas artificiais, haras sofisticado, campo de pouso
com um jatinho estacionado, campos de tênis e futebol,
academia de ginástica e um estande de tiro.
O anfitrião circula entre os diferentes grupos que se
espalham nos cenários do sítio. No jardim, com mesas e
cadeiras sob barracas de sol, homens e mulheres
conversam, bebem e comem churrasco. Enquanto gira o
corpo, Aureliano exibe as três tatuagens: uma explosão
atômica na forma clássica do cogumelo, a pomba da paz e
Las Vegas: o nome da cidade emoldurando um imponente
cassino.
— A força, a força de não usar a força e a simulação da
força, porque o jogo… o que é que faz o jogo? Finge que é
guerra.
Silvinha, mulher de seios e coxas fartos, tira a dúvida:
— Las Vegas?
— Las Vegas, templo do jogo. O grande teatro da guerra
que não existe.
Ela diz algo baixinho ao pé do ouvido de Aureliano, que
responde em voz alta:
— Tá brincando, meu anjo? Não acredito. Há quanto
tempo você está casada com o coronel Saraiva?
Ela ergue dois dedos, enquanto mastiga um quitute, um
copo na outra mão, achando tudo muito engraçado. O
anfitrião não se conforma: — Ô, Saraiva, vem cá,
Saraivinha.
O coronel tem dez anos menos que Saraiva, mas parece
mais velho, atrás da pança inchada. Aproxima-se, copo na
mão, e ouve a recriminação teatral de Aureliano: — Não tem
vergonha nessa cara? Tua mulher tá dizendo umas coisas…
Tá pegando mal pra ti… Tu nunca levou tua esposa a Las
Vegas?
O marido de Silvinha argumenta:
— Las Vegas é um poço sem fundo pra perder dinheiro.
— Que mané dinheiro, Saraivinha. Corta essa, compadre.
Aureliano dirige-se à esposa do coronel:
— Sua graça?
— Silvinha.
— Silvinha, sabe quanto esse cara de pau faturou ano
passado?
Desloca-se até um grupinho que conversa entre si, alguns
sentados, outros de pé, comendo e bebendo, e puxa pelo
braço Aírton, Ivo Cury, o inspetor Sarmento e Roni
Anderson. Continua seu sermão: — Ouve essa. Vem cá. Você
também. Sabem o que esse cara de pau… Coronel Saraiva!
Porra, tô falando contigo.
Saraiva dá meia-volta e diz:
— Fala, chefe.
— Esse cara de pau nunca levou a mulher a Las Vegas.
Os homens falam ao mesmo tempo:
— Que maldade, Saraivinha.
— Perversidade.
— Não tem uma ONG de defesa das mulheres que faça
alguma coisa?
Ivo Cury é enfático:
— Festa pra mim é Las Vegas: Natal, Réveillon, Semana
Santa. Papai adorava.
O anfitrião o corrige:
— Mentira, teu pai adorava Punta del Este, que Deus o
tenha. Ele pegava ali o meu jatinho, com umas
namoradinhas… O caso é que o cara de pau do Saraiva,
escuta, Silvinha, é o maior mão de vaca. Não quer gastar
dinheiro em Las Vegas. Ouve, meu anjo: sabe o que ele
faturou, ano passado, só na segurança…
Aproxima-se do rosto do coronel e olha em seus olhos,
ironicamente, alterando comicamente a voz: — Aquela
segurança que ele bota os PMs pra fazer pagando uma
merreca…
Volta a falar normalmente, olhando sobretudo para
Silvinha:
— Só na segurança das casas de show na via Dutra, das
saunas em Morro Agudo, do cassino em Caxias, do Bingo
em Meriti, do bicho em Mesquita, Belfort Roxo, São Gonçalo
e Santa Cruz?
Fala baixinho, no ouvido de Silvinha. Só ela ouve, mas ela
repete em voz alta:
— Milhões? Milhões? Dez?
Dá um grito agudo. Os cães começam a ladrar.
Saraiva dirige-se, severo, à esposa e lhe tira o copo da
mão, enquanto ela, resistindo, brada: — Que ódio,
Saraivinha. Que ódio. E eu fazendo economia no shopping.
Saraiva está disposto a encerrar a brincadeira:
— Chega, já disse que chega. Passou da conta.
Aírton sussurra para Roni e Sarmento:
— Sem contar as maquininhas caça-níqueis, a pirataria y
otras cositas más.
Sarmento completa:
— O Saraiva se fodeu em Morro Agudo. Todo o esquema
do hospital. Quem se safou foi o Ivo Cury, que já tinha
embolsado a parte dele no negócio das ambulâncias, antes
de dar merda.
Roni pergunta a Sarmento:
— Saraivinha não tava pra perder o comando da Baixada,
com as mudanças na PM?
— Os coronéis já se acertaram. Tratado de Tordesilhas.
Roni intervém:
— Abençoado por Aureliano e o alto clero.
Aírton provoca:
— Aprenderam com os delegados. Mas vocês sabem
quem está se fodendo de verde e amarelo? Carlinhos
Tanajura. O Macedo e o Ramos também.
Roni acrescenta:
— Vi o Macedo por aí. Tá com uma mulher que parece um
carro alegórico.
Sarmento e Aírton falam ao mesmo tempo:
— O pessoal dos transportes.
— E do lixo, e das clínicas conveniadas com o SUS. O tal
Sérgio Borba cortou todos os repasses.
Roni traz a visão mais ampla e apurada, própria ao político
tarimbado:
— O problema é esse moço, Luiz Claudio: bonitinho, mas
ordinário.
Sarmento, o inspetor da PRF, não faz por menos:
— Alguém tem de tomar uma atitude.
Roni, rápido no gatilho:
— Vou tomar minha cerveja.
Afasta-se do grupo, apanha uma tulipa de chope na
bandeja de um garçom e caminha na direção da piscina,
repleta de crianças, suas jovens mães e babás vestidas de
branco.
Do outro lado da piscina, próximo ao campo de futebol
gramado onde uma pelada está sendo jogada, há um
quiosque servindo bebidas, batatas fritas e sanduíches, e
dois banheiros. Um carro com a mala aberta garante a trilha
sonora, tocando música sertaneja. Ivo Cury, com seu
inconfundível cabelo artificialmente tingido de amarelo-ovo,
aproxima-se de um grupo de que fazem parte o sargento
Camargo Quebra-Ossos, da Polícia Militar, ostentando
cordões de ouro e anéis, e o cabo Meneses, trajando
indefectível camisa colorida. Este lhe estende um espeto e
prepara-se para lhe servir uma fatia de carne.
— Pega um prato aí, deputado. Uma carninha.
Ivo estica os lábios e mostra os dentes:
— Tá sangrando.
Outro grupo reúne-se sob uma ampla tenda, com garçons,
freezer ligado a gerador e bandejas com pastéis e empadas
circulando. Aureliano e Otacílio conversam de pé, sob a
tenda, afastados dos demais. Quando vê Roni aproximar-se
da tenda, o anfitrião faz-lhe um sinal.
— Tá sendo bem tratado, Roni?
Dirigindo-se a Otacílio:
— Conhece o deputado Roni Anderson?
— Quem não conhece o deputado?
— Otacílio Alves, muito prazer.
Roni estende a mão e balança a cabeça. Aureliano
prossegue:
— Foi bom você chegar, Roni. Tava dizendo aqui pro nosso
amigo que não discrimino partido. Apoio o partido que o
Roni preside como apoio todos os que formam com a gente.
Não interessa a ideologia.
Roni concorda:
— Ideologia não existe mais. É coisa do século passado.
Esse negócio de direita e esquerda hoje só existe pra dançar
bolero.
Otacílio é a simpatia em pessoa:
— … que não existe mais.
Riem os três, até Aureliano retomar a palavra:
— Não discrimino partido, Otacílio. Se o seu partido, o
PSTdoB, quiser formar com a gente… Meus amigos, eu
fortaleço. Com inimigo, não tem conversa.
Roni segue a mesma linha:
— Unir as forças é bom pra gente, é bom pro Brasil. O
João Daniel me procurou com uma história…
Otacílio antecipa:
— A eleição.
— Uma história da gente indicar o vice…
Quem se surpreende é Aureliano, dirigindo-se a Roni:
— Vice do Pedro Raimundo? Olha que ele é o futuro
presidente, hein?
— Uma conversinha sedutora, danada.
Otacílio abre o jogo:
— Nossos partidos juntos, ninguém segura. A gente
carrega o peso da tradição esquerdista. A ideia de Pedro
Raimundo é mostrar uma cara diferente, mais amena, mais
palatável pra classe média. Seu partido viria a calhar,
deputado. Reforçaria essa nova cara.
Roni puxa-lhe o tapete:
— Só tem um porém: seu partido manda flores, faz
declaração de amor e ao mesmo tempo apunhala a gente
pelas costas?
— Eu sei do que o senhor tá falando. Mas, pode ter
certeza: não é o partido, não. Pelo contrário. É coisa pessoal
do Luiz Claudio. Isso vai mudar.
Aureliano aporta à conversa sua autoridade:
— Otacílio, diz ao João Daniel e ao Pedro Raimundo que
nós somos o polo dinâmico da região metropolitana do Rio
de Janeiro. Construímos a ferro e fogo a unidade da Baixada.
Olha essa tenda. Quase todos os prefeitos da região tão
aqui. Tem juiz, desembargador, empresário, artista, jogador
de futebol. Essa é a nossa força. Nós elegemos juntos e
governamos juntos.
Roni não perde a oportunidade:
— Mas não dá pra assistir de braço cruzado ao que tá
acontecendo: um aventureiro tá destruindo o que foi
construído com tanto suor.
— E sangue, Roni. Minha família derramou sangue nessa
terra.
Quinze dias depois da posse, Sérgio aceita encontrar-se
com o ex-diretor, Franco Emiliano, no almoxarifado vazio do
hospital. Emiliano olha pelo basculante e apoia o braço em
um caixote. Sérgio mantém-se de pé diante dele, os braços
cruzados.
— Olha, Sérgio, o que você está fazendo é muito
arriscado. Outros, antes de você, seguiram esse caminho e
acabaram mal. Estou alertando porque já estive em seu
lugar. Sei como são essas coisas. Prefeito novo, impetuoso,
idealista e você acha que pode tudo. Que vai ter respaldo.
Só que, quando vier a cobrança, a vida é sua. Não é do
prefeito. Você está juntando muita gente contra você. Está
declarando guerra em muitas frentes ao mesmo tempo: o
cemitério e a funerária; o seguro obrigatório, o DPVAT, que
envolve muita gente, escritórios de advocacia,
despachantes; os convênios com as clínicas; os
fornecedores do hospital; e, agora, essa história da licitação
das ambulâncias. Você rompeu um acordo que já tinha sido
negociado. O Ramires foi pego de surpresa. Se sentiu traído.
Ele ganhou a licitação. O deputado Ivo Cury já tinha
recebido. É muito dinheiro. Você está brincando com fogo.
Sérgio parte para cima de Emiliano e o agarra pela gola
do paletó:
— Escuta aqui, seu filho da puta. Eu vim até esse porão te
ouvir porque ainda te dava um crédito de confiança. Médico
e tal. Mas você é só um bandido. Bandido de merda. Um
velho filho da puta fazendo o papel de menino de recado
pra me ameaçar. Então, leva um recado pra sua quadrilha:
vão se foder. E diz a eles que o prefeito também mandou
um recado.
Sérgio dá um tapa violento com a mão aberta no rosto de
Emiliano, fazendo-o quase girar na direção da porta.
Aproximadamente quinze dias após o episódio no
almoxarifado, Lucas e Manuela estão no interior da viatura
descaracterizada da Polícia Civil do Rio de Janeiro, vidros
fechados, ar-refrigerado ligado, estacionada entre muitos
outros carros, sob árvores, numa praça cercada de prédios
residenciais de classe média e pequeno comércio.
Finalmente, ouvem duas vozes masculinas em som
metálico captado pelo receptor na maleta que grampeia
celulares: — Alô, Teixeira, até que enfim, hein? Tu não me
atende mais não, é?
— Fala, Netinho, desembucha logo que eu tô no meio de
uma parada.
— Quem tem de falar é tu. O patrão não vai esperar mais
não.
— Diz a ele que vai rolar, mas tem de ser na hora certa.
— Quando vai ser a hora certa?
— Ele vai ficar sabendo. Antes, tenho que falar
pessoalmente com o patrão. Tu acha que eu vou mandar
quebrar uma autoridade sem aprovação dele? Se tu quiser
fazer o serviço por conta própria, o problema é teu.
— Mas o filho da puta está se metendo em tudo. Está
prejudicando o patrão.
— Eu sei e ele sabe. Mas as coisas não são assim. O cara
joga xadrez. Política é um quebra-cabeça.
— Quebra-cabeça. Agora, sim, papo reto. Gostei. Ó, mais
um dia, copiou? Só um dia.
Lucas pega a cuia, a garrafa térmica e serve-se de
chimarrão. Oferece a Manuela. Ele sequer consegue
entender gosto tão bizarro.
— Como é que você pode tomar chimarrão num calor
desses?
— Me acalma.
Manuela rende-se:
— Me dá.
Ele verte água quente e lhe passa a cuia e a bomba. Ela
suga a bomba e pensa alto: — Uma autoridade
atrapalhando negócios que envolvem o patrão. Esse patrão
só pode ser Aureliano, o velho bicheiro, o avô dos
milicianos. É, Lucas, o velho rei da Baixada continua dando
as cartas.
— Está tudo errado, Manuela. Você não podia estar aqui.
Isso é totalmente irregular.
— Ih! Para. Muda o disco. Que saco. Tudo é irregular,
Lucas. Tudo.
— Não é, não.
Vira os olhos para o lado, como se focalizasse fixamente
lugar nenhum e diz:
— Morro Agudo.
Olha para Manuela e continua:
— A escuta é legal.
Endireita-se no banco e se prepara para ligar o carro.
Prossegue:
— Mas o juiz não autorizou que uma repórter ficasse
ouvindo o grampo.
Começa a manobrar para sair da vaga. Manuela responde:
— Você me devia essa. Quem te passou as pistas do
assassinato do Nelsinho? Ou você acha que as testemunhas
teriam coragem de contar pra um policial o que me
contaram? Todo mundo na Zona Oeste sabe que denunciar
miliciano significa morte. E você me deve outras coisas
também, não é, inspetor Lucas? Além do mais, sou a sua
única garantia. Quem mais testemunharia a seu favor se o
mundo caísse em sua cabeça?
— O mundo não cai, assim.
— O delegado Selton?
— Só conheço um lugar em que o mundo está caindo.
Arranca em velocidade, driblando o trânsito.
— Se o mundo cair na sua cabeça, Lucas, caiu na do
Selton antes.
— O velho mundo. Ruindo.
— Não conte com o Selton. Nem que ele quisesse.
— Manuela, eu sou o elo mais fraco, onde a corrente
arrebenta primeiro.
Lucas continua dirigindo muito rápido.
— Não. Nesse caso, não. A diferença entre vocês é só o
salário. Inspetor ganha o quê? Metade do salário de
delegado?
— Quem dera.
— Você e Selton estão juntos em tudo. E quem representa
ameaça maior à chefia? O delegado. Ele pode virar chefe.
Você, não. Ei, aonde é que você tá indo?
O carro acelera. Nas cercanias da praça central do
município de Morro Agudo, na região metropolitana do Rio
de Janeiro, um grande engarrafamento os obriga a
estacionar o carro e seguir a pé. Manuela ainda não
entendeu aonde estão indo com tanta pressa. Descobrem-
se no meio de uma manifestação diante do prédio da
prefeitura. Há lixo acumulado em todo canto. Centenas de
pessoas de aparência pobre gritam slogans indignados
contra o prefeito. Nos cartazes, leem-se: “Fora, Luiz
Claudio”; “Queremos nossos empregos de volta”.
Os dois movimentam-se com dificuldade entre os
manifestantes. Ela fotografa e filma com seu celular. Lucas
observa. Os populares cantam: “Você pagou com traição a
quem sempre lhe deu a mão”. De cima do carro de som, um
vereador baixinho e careca vocifera: — O povo lhe deu a
mão e o voto, prefeito, mas sua resposta foi demissão em
massa. Quer fazer economia? Corta seu salário. Caiu a
máscara: o jovem líder bonitinho e simpático, na verdade, é
neoliberal. Você está condenando à miséria milhares de
trabalhadores e suas famílias.
Uma vereadora de meia-idade, cabelos curtos e lábios
artificialmente aumentados, toma-lhe o microfone: — Em
nome dos vereadores de Morro Agudo, como presidente da
Câmara, garanto a vocês: não vamos aceitar de braços
cruzados o sofrimento do povo. Vamos à luta. Vamos
decretar o impeachment do prefeito. Fora, Luiz Claudio,
traidor do povo, neoliberal.
Os dois políticos pintam o rosto de preto e a massa copia
o gesto, repetindo o bordão: “Neoliberal, tu é o Demo, é o
mal”. Várias pessoas circulam entre os manifestantes
distribuindo tinta. Em seguida, o primeiro vereador a falar,
ainda em cima do carro, apresenta outro orador, o deputado
Ivo Cury Lízio, jovem em seus trinta anos, cabelos
oxigenados: — Está aqui, com a gente, quem nunca deixou
de estar com o povo. Nosso representante em Brasília, o
deputado Ivo Cury Lízio, a quem tenho a honra de passar a
palavra.
— Os caras pintadas de Morro Agudo vão expulsar o
prefeito cara de pau. Primeiro, foi a limpeza urbana. O
prefeito rompeu o contrato com a empresa de coleta de lixo
e a cidade virou um lixo. Ele acha muito bonito romper
contrato. Acha revolucionário romper contrato. Depois foi o
caos nos transportes. As empresas reduziram a circulação
de ônibus, porque o prefeito não quer pagar a dívida do
município. E agora vocês são desprezados e enxotados feito
bichos. Está na hora do povo enxotar Luiz Claudio: xô,
prefeito! Xô, prefeito.
A massa repete o bordão.
No interior de seu gabinete, Luiz Claudio observa a
manifestação pelas frestas da persiana, aparentemente
sereno. O gabinete está repleto de secretários e assessores.
Todos permanecem em silêncio, à espera de suas
orientações.
— Nós sabemos o que está acontecendo. O nome é
chantagem. Outros chamam política. Duas mil pessoas
foram demitidas porque ocupavam cargos de confiança por
indicação de vereadores e não trabalhavam. São cabos
eleitorais. Só tem um jeito pra virar o jogo. Jogar. Então,
anote aí, Narinha: no Diário Oficial de amanhã sai a
readmissão do pessoal ligado a 55% dos vereadores. Vamos
dividir os canalhas e garantir a maioria. Já estive do outro
lado. Sei como se faz. De qualquer modo, vai ser um
avanço: 45% de economia.
Na praça, diante do prédio da prefeitura, Lucas puxa
Manuela pelo braço até um ponto relativamente vazio e lhe
diz, quase no ouvido: — O alvo está ali.
Aponta, discretamente, para o gabinete do prefeito, no
lado esquerdo do prédio, no andar superior. Ela completa: —
O tal idealista, bonitinho.
— Neoliberal.
Manuela fotografa a janela do gabinete, enquanto seu
parceiro observa todo o ambiente. Ela comenta: — Faz
sentido.
— É onde o mundo está caindo. Morro Agudo. Não há
outra cidade no reino de Aureliano em que a velha ordem
esteja afundando.
— E quando o mundo cai, cai sempre na cabeça de
alguém. O que você vai fazer?
Lucas ouve a pergunta já com o rádio na mão, disparando
uma ligação. Curva-se sobre a mão em concha e se afasta
para falar.
— Doutor Selton?
No interior do gabinete, Narinha, a mais antiga auxiliar do
prefeito, chama Luiz Claudio a um canto e sussurra,
mostrando-lhe o celular: — Prefeito, o delegado Selton Cruz.
— Federal?
— Não. Polícia Civil. Urgente.
— A secretária dele fez a ligação?
— Ele mesmo.
— Faz o seguinte, Narinha. Liga pro Carlos e vê se ele
conhece. Se não conhece, pede pra descobrir quem é. Usa o
rádio.
— E ao delegado? Digo que você liga depois?
O prefeito faz um gesto, pedindo que a moça lhe passe o
celular. Atende com alegria contagiante.
— Doutor Selton, que prazer falar com o senhor.
Na manhã seguinte, bem cedo, Luiz Claudio sai do prédio
onde mora ao lado de um segurança. Ambos vestem roupas
esportivas. Encontram Lucas diante de duas viaturas
policiais descaracterizadas, no interior das quais só
permanecem os respectivos motoristas. Em torno de Lucas
estão cinco seguranças vestindo terno preto. O prefeito ri,
quase gargalha. Cumprimenta-o e diz: — Rapaz, mas o que
é isso? Meu irmão, que doideira. Quando a gente conversou,
ontem, eu pensei que fosse uma coisa mais discreta.
Saúda toda a tropa, estendendo a mão a cada um. Lucas
contesta:
— Melhor a gente não arriscar, prefeito.
— Lucas, é demais. Não tenho jeito pra isso, não. Vai ser
uma comédia eu correndo com a tropa de elite.
Conduzindo o prefeito para um ponto em que tenham
mais privacidade e reduzindo o tom de voz, Lucas lhe diz: —
O colega que passou a noite na escuta do grampo captou a
informação de que o ataque vai acontecer hoje. Duas
pessoas estão sendo presas nesse momento. Se elas
falarem a tempo…
Luiz Claudio sente o golpe. Olha para o lado, olha para
cima, como se contasse os andares de seu prédio.
— Vai ser um ataque? Ataque como?
— Um atentado. Não sabemos.
— Uma bomba no gabinete?
— Tem um pessoal de confiança fazendo a varredura no
seu gabinete.
— E aqui em casa?
— Vai ficar vigiada vinte e quatro horas.
— Clara e as crianças já saíram da cidade, como você
recomendou.
— Os mandantes do atentado devem ter avaliado que, se
alguma coisa ocorresse hoje contra o senhor, haveria
milhares de suspeitos.
— O pessoal que eu exonerei.
— E os familiares, os vereadores, sei lá. Pra quem precisa
confundir a polícia com pistas falsas, esse é o momento.
— O perigo não vem daí? Você acha que não? Hoje não
tem corrida. Vou me vestir.
No carro do prefeito estão o motorista e um segurança, na
frente; Luiz Claudio e Lucas, no banco de trás. O veículo
rompe com dificuldade o tráfego pesado. Três carros
parecem seguir o automóvel oficial da prefeitura. Um
motoboy desloca-se rápido em sua direção. Lucas tenta
manter-se sereno, mas seu olhar paranoico parece
antecipar a eclosão de um ataque. Luiz Claudio recorre à
ironia para aliviar a tensão: — Se atirarem no carro, Lucas,
já era. Não é blindado, não.
— Eu sei. Mas nosso grupo é muito bom. Tá todo mundo
ligado.
Uma ambulância em péssimo estado de conservação
ultrapassa vários veículos. Quando emparelha com o
terceiro carro do comboio, é fechada, bruscamente. Esse
movimento, que provoca uma pequena batida e um tumulto
de buzinas e freadas, permite que os dois automóveis da
frente livrem-se da possível ameaça. A ambulância retoma
seu caminho, agora em rumo que a afasta da comitiva. Não
se sabe se havia alguma intenção criminosa.
O prefeito se esforça por acompanhar, através das janelas
fechadas e escuras, os movimentos que envolvem a
ambulância. É ele quem de novo quebra o silêncio: — A
gente pode ter colocado a vida de alguém em risco.
— Ou salvado a vida de alguém em risco.
— Que vergonha essa ambulância. Tá caindo aos pedaços.
Ela é o risco.
— É do município?
— Do nosso hospital. Vergonha, hein?
— Mas o senhor acabou de assumir. Não deu tempo. O
povo entende.
— Mais ou menos. Quando souberem que a gente está
devolvendo dez novinhas e duas UTIs móveis…
— Devolvendo?
— Superfaturadas. Lucas, você sabe que a saúde é a
maior fonte de corrupção?
— Esse processo, a devolução, o senhor já…?
Lucas interrompe o que dizia, agita-se e olha para frente.
O prefeito retoma a palavra: — Doutor Sérgio descobriu a
maior sacanagem. Escândalo nacional.
— Quantas pessoas participaram disso?
— Difícil dizer, mas, pensa bem, são mais de trezentos
municípios envolvidos em todo o país, deputados, gente do
Ministério da Saúde.
— E aqui na cidade?
— A antiga direção do hospital, pelo menos.
— Alguém desse grupo seria ligado ao Aureliano
Bernardes?
— Não sei. Não sei.
Lucas tira um caderninho do bolso e o consulta,
avidamente, até que, de súbito, Luiz Claudio lembra-se: — A
verba veio de emenda parlamentar do Ivo Cury.
— Não sei quem é… Mentira. Sei, sim. Estava na
manifestação.
— O pai dele foi delegado. Liderou grupo de extermínio
nos anos oitenta. Foi do SNI, nos anos setenta. Há pouco
tempo montou a milícia mais poderosa da Baixada e da
Zona Oeste da capital.
— Que currículo, meu Deus.
— Curriculum mortis. Como era o nome dele, Lucas?
— Como é mesmo o sobrenome do filho?
— Ivo Cury Lízio.
— Delegado Lízio.
— Romano Lízio.
— Exatamente, prefeito. Delegado Romano Lízio. Era ele
quem comandava a segurança do Aureliano.
— Quem você acha que financia as campanhas do Ivo?
— Sérgio é o… O senhor mencionou um nome… Sérgio?
— Diretor do hospital.
— Quem faz a segurança dele?
— Tá brincando?
— É igual ao senhor? Pior?
Luiz Claudio, aparentando tanta ansiedade — aflição,
quase desespero — quanto Lucas, aciona o celular. Lucas
completa seu próprio raciocínio suspenso: — Posso ter
cometido um erro. Prefeito, liga…
Luiz Claudio já está colado ao celular, esperando ouvir a
voz de Sérgio do outro lado. O prefeito pensa alto: — Não
atende. Sérgio, atende, caralho.
— A essa hora, onde…
Nesse momento, Sérgio dirige seu carro, ouvindo música
clássica em alto volume, vidros fechados, ar-refrigerado
ligado, por uma rua de mão única pouco movimentada, com
duas faixas de trânsito. Trafega na faixa da esquerda. Uma
moto com dois homens de capacetes negros e casacos
negros de couro segue o carro de Sérgio, mas são
ignorados. Adiante, há uma curva à esquerda.
Ainda antes da curva, o carona da moto usa um rádio.
No alto de um poste, depois da curva, um rapaz, vestido
como funcionário de companhia de luz, atende um rádio e
movimenta algum instrumento junto a conexões, no fio de
luz.
Cem metros adiante, o sinal de trânsito localizado no
cruzamento passa, de imediato, do verde para o vermelho e
congela. Cerca de trinta metros antes do sinal, outros dois
homens, também de capacetes negros e casacos negros de
couro, estão sentados em outra motocicleta, parada à beira
da calçada do lado direito da mão.
Sérgio, relaxado, faz a curva à esquerda, lentamente. Seu
celular, no assento ao lado, acende e apaga, mas não é
escutado, porque o som da música se eleva ainda mais. O
carro de Sérgio aproxima-se do sinal. A moto que o seguia
ultrapassa-o, fura o sinal e desaparece, em velocidade.
Sérgio está inteiramente envolvido pela música, olhando o
sinal vermelho, o carro em ponto morto do lado esquerdo. A
motocicleta, antes parada junto à calçada do lado direito,
desloca-se para o centro da rua, ocupando lugar na pista da
direita e se aproximando cuidadosamente do carro de
Sérgio. O carona está com uma pistola na mão direita.
Subitamente, entra na rua a ambulância caindo aos
pedaços, vindo de onde Sérgio viera, em velocidade e com
a sirene ligada. Os dois homens na moto olham para trás e
hesitam. A ambulância acelera, tomando a pista da direita,
na qual está a moto que desliza devagar para emparelhar
com o carro de Sérgio. A ambulância se aproxima e não
reduz a velocidade.
Sérgio olha pelo espelho retrovisor, vê a ambulância e
avança um pouco para a esquerda, quase subindo na
calçada, abrindo todo o espaço possível para a ambulância
passar. A moto cambaleia, porque o piloto a joga para a
direita, deixando espaço para a ambulância — não por
solidariedade, mas por instinto de sobrevivência —, no
mesmo momento em que o carona aponta a pistola contra o
carro.
Explode o vidro da janela direita e um impacto violento
aquece o braço direito de Sérgio, quase na altura do ombro,
como se um maçarico estivesse ligado. Por puro reflexo, ele
abre a porta e se joga de lado para fora do carro, enquanto
ouve outras explosões, que, aos poucos, compreende serem
tiros. O motorista da moto não tem alternativa senão
aprumá-la, arrancando em velocidade e furando o sinal para
sumir. Um instante depois dos disparos, a moto já afastada
do carro o suficiente para não ser abalroada, a ambulância
passa também avançando o sinal, mas freia em seguida, no
meio do cruzamento, quando seu motorista dá-se conta de
que passara no meio de um atentado. Várias pessoas
correm de todos os lados em direção à vítima, tombada no
meio-fio.
À noite, no quarto do hospital, Sérgio recobra a
consciência e olha em volta, entubado e com soro, o ombro
e o braço enfaixados, cercado por um médico, uma
enfermeira, Mariana, sua mulher, Lucas e o prefeito.
Mariana afaga sua cabeça.
— Tá tudo bem, meu amor. Vai ficar tudo bem.
Luiz Claudio segura a mão do amigo e lhe diz:
— Deu tudo certo, meu irmão. Sua equipe maravilhosa
cuidou muito bem de você, não é, doutor? O dr. Paulo
Roberto tá aqui com a gente. Os bandidos só acertaram seu
braço, graças a Deus. E tá aqui o detetive Lucas, meu anjo
da guarda que eu vou emprestar a você. Nem se preocupe
com segurança. A equipe do Lucas tá lá fora e ele não vai
desgrudar de você.
No lobby do hospital, Lucas aproxima-se de Manuela, que
o aguardava:
— Sérgio está fora de perigo.
— Graças a Deus.
— Teixeira e Netinho foram presos.
— Nossa, Lucas, enfim, só boas notícias.
— Espera. Tem mais. Não comemora ainda. A chefia da
polícia determinou que ficassem acautelados no batalhão
prisional da PM, porque são policiais militares.
— Isso é uma loucura. Os caras vão fugir.
— E por que eles foram mandados pra lá?
— Vocês não fizeram nada?
— Dr. Selton ficou louco, falou com Deus e o mundo, mas
quem manda na polícia é o diabo.
No conforto de seu quarto na Zona Sul carioca, Manuela
dorme. O celular toca. Ela custa a acordar. Finalmente,
desperta, assustada, e atende: — Cinco e meia da manhã,
Lucas. O quê? Tá brincando. Não ficaram presos nem vinte e
quatros horas. Vou divulgar no site do jornal. Obrigado, tá?
Você vai continuar aí no hospital?
São seis e meia da manhã. Lucas praticamente não
dormiu. Chamado por seu superior, volta para a sede da
delegacia em que está lotado, na área central do Rio de
Janeiro. Entra na delegacia, discretamente, e se dirige ao
gabinete do delegado. Diante da porta blindada, que parece
cofre de banco, usa a identificação do polegar, passa um
cartão e digita uma senha. A porta abre-se, majestosa, para
uma ilha de alta tecnologia, contrastando com o aspecto de
espelunca da delegacia.
Dr. Selton está de costas, sentado numa poltrona no
centro da sala redonda. Oito monitores laterais exibem
imagens georreferenciadas. Apenas dois detetives auxiliam
o delegado, pilotando todo o sistema. Ele assiste ao que
está sendo projetado na grande tela central. Sem voltar-se
para Lucas, diz com sua voz de tenor: — Olha pra isso. Meu
informante no batalhão prisional plantou o chip, o micro GPS,
na roupa do Teixeira.
Com uma caneta laser, o delegado vai desenhando no
mapa eletrônico projetado na tela. Lucas pergunta: — O
senhor acompanhou o percurso que ele fez, na fuga.
— Pouco depois que ele saiu do espaço do batalhão
prisional, pela mudança de velocidade, identificamos o
ponto exato e a hora em que ele entrou em algum veículo.
— Conseguiram fotos do local no departamento de
trânsito?
— Senta.
Selton, sempre de costas, bate numa cadeira a seu lado.
— Senta pra não cair.
Lucas obedece e tenta adivinhar:
— Era uma viatura policial.
— Se fosse isso, seria o óbvio. Paulino, mostra a foto.
A imagem projetada na tela grande é a de uma viatura da
Polícia Rodoviária Federal.
Lucas murmura:
— Cacete.
— Tem mais. Otávio, projeta a imagem de satélite do local
onde ele está agora.
Selton mostra com o laser no mapa eletrônico, antes que
o mapa seja substituído pela imagem em zoom de uma
região suburbana, próxima à avenida Brasil. Gradualmente,
o foco permite que se veja a imagem um pouco borrada de
um depósito que parece abandonado, cercado de muros,
dentro do qual há grande movimento de caminhões-
tanques. Na medida em que o zoom aproxima a imagem,
Selton vai narrando o que vê: — Avenida Brasil, ali. Campo
Grande está do outro lado… Tá se localizando?
O estranho cenário, mistura de fábrica abandonada e
depósito de grandes máquinas, com tanques e caminhões,
aparece na tela. Percebe-se movimento intenso na área
interna, cercada pelos muros altos. O delegado indaga: —
Sabe o que é isso? Uma indústria clandestina para
adulteração de combustível.
— Tem algum registro legal de fachada? Testas de ferro?
O delegado troca de óculos e lê um pequeno texto
impresso.
— Igreja Evangélica do Renascimento Eterno.
Responsáveis legais: Etelvino Lins e Aírton Neves. Etelvino
Lins é o nome do sogro do inspetor Sarmento,
superintendente da Polícia Rodoviária Federal no Rio de
Janeiro. Desse Aírton Neves não sabemos nada.
— Vamos estourar o depósito e prender todo mundo em
flagrante?
— Calma, Lucas. Tem mais gente nisso. O monstro deve
ser maior. A gente só tá vendo a cauda. Vamos dar o bote
na hora certa.
No início da noite do dia seguinte, no gabinete de Luiz
Claudio, o prefeito diz a Sérgio, cujo braço não está mais
enfaixado.
— Não é isso, pelo amor de Deus.
— Eu sei, tô brincando. Mas ainda acho que é muito cedo.
O trabalho mal começou.
— Está aqui, no seu relatório: 347 novos protocolos já
formulados e implementados. Concluída a qualificação do
pessoal para aplicação dos novos métodos e procedimentos
em cada área do hospital. Uma revolução, Sérgio.
— Primeiros passos.
— Você ficou maior que Morro Agudo. O partido precisa de
você pra governar o Brasil. Não sou eu quem está dizendo.
Lembra quem disse?
— Um afago do João Daniel. Só isso.
— Você não conhece o João.
— Como não? Tenho a maior admiração. O cara liderou a
luta clandestina contra a ditadura. Comeu o pão que o diabo
amassou com a maior dignidade. Aqui entre nós, ele é maior
que Pedro Raimundo. Eu acho.
— Ele também acha. Esse é o problema.
— Pedro é o carisma. João Daniel é a organização, a
cabeça, a estratégia.
— Mas quem fala com o povo, com a alma do povo, é o
Pedro.
— Eles se complementam.
— Quem dera, dr. Sérgio. Essa é a embalagem romântica,
bonitinha, pra inglês ver. Na verdade, se odeiam. Assim que
surja uma oportunidade, Pedro joga o João na fogueira. Quer
apostar? Mas primeiro tem que vencer as eleições. E pra
vencer, vai precisar do João. E de você.
— Quer dizer que me filiei a um ninho de cobra?
— Não se faça de bobo, dr. Sérgio. De bobo você não tem
nada. Sua exoneração sai amanhã no Diário Oficial. Você é
um homem livre para se dedicar inteiramente à campanha.
Bem-vindo ao mundo cão da política.
Sérgio abraça Luiz Claudio e se dirige à porta do gabinete,
quando o prefeito arremata: — Se cuida, hein? Não esquece
nosso plano: meta número 1, não morrer.
— Olha quem fala. Cara de pau. Lucas me disse que você
se recusa a continuar com a segurança que ele montou.
— Tá louco. Aquilo é um exército. Fica tranquilo. Hoje, a
última coisa que nossos inimigos querem é chamar mais
ainda a atenção da polícia e da mídia pra Morro Agudo.
Apesar de tudo, meu irmão, apesar de tudo, a gente não
desiste. Como é aquela frase do Brecht que você citou outro
dia?
— Está no fim da Alma boa de Setsuan: “Como vocês
viram, não tem solução. Mas tem de ter”.
Luiz Claudio ergue a xícara de café. Um brinde ao futuro.
4. Mangueira, quinze anos depois
Delegado Frazão entra esbaforido em meu gabinete bem
cedo, na manhã de segunda-feira.
— Não marquei audiência, secretário, desculpe, mas é
uma emergência.
O hábito entre policiais e jornalistas é dirigir-se ao
subsecretário de Segurança abolindo o prefixo. Em troca,
nos encontros cotidianos, todos os delegados da Polícia Civil
— de primeira, segunda ou terceira classe — são apenas
delegados, e os tenentes-coronéis da Polícia Militar,
coronéis. Estamos em 1999 e Frazão é candidato
permanente à chefia de sua corporação. Cascudo,
experiente, atingira o estágio superior da carreira e dirige o
setor mais importante das investigações criminais.
Aperto sua mão úmida. Ele está acima do peso e
vermelho como uma ponta de cigarro tragada no escuro. O
suor escorre pescoço abaixo. Camisa aberta colorida
mostrando cordão dourado tem sido a marca registrada de
bicheiros e policiais civis. Frazão foge ao estereótipo. Prefere
camisas discretas, abotoadas, ocultando o cordão. Esta é
clara, leve, e gruda no dorso encharcado. Ele evita os anéis
exóticos, itens que substituíram os dentes de ouro no
repertório de extravagâncias do submundo carioca. A
cabeça em outro lugar, Frazão respira como um animal a
caminho do abate. Ajeita a Glock, eterna companheira,
presa na calça, atrás, e não esconde o sinal de incômodo no
rosto. Senta-se olhando o quadro, à esquerda, em que anoto
o andamento dos projetos. O movimento é instintivo, um
impulso automático para desviar os olhos. Seu foco não são
os projetos. O encontro entre nós é delicado. Não somos
propriamente amigos, nem mesmo colaboradores. Ele
responde a denúncias em foros internacionais de direitos
humanos dos quais eu era consultor antes de integrar o
governo. O constrangimento é mútuo. Agimos como se não
houvesse cadáveres amontoados na sala, entre nós, mas a
atmosfera é irrespirável.
— Vim do hospital direto pra cá.
Pela primeira vez concentra-se em mim.
— Tive um piripaque.
Fala com dificuldade. Não sei se por motivos físicos.
— Não dormi.
Isso explica as olheiras e a palidez.
— Passei a noite toda segurando um pessoal. Até as cinco
da manhã. Achei que não ia conseguir. O senhor não tem
ideia. Não faz a menor ideia. Quando a turma se revolta,
não tem controle. Ninguém controla. O senhor mexeu onde
não devia. Quer criticar, critica. Quer punir, pune. Não tem
problema. Não tem nenhum problema. Mas não pode
criticar a polícia publicamente.
Não há intervalo. Frazão fala sem parar.
— Não pode punir assim, dizendo que o policial errou.
Divulgando que a polícia errou. Sem respaldo, a polícia para.
E se o governo diz que a polícia erra, ela perde a
autoridade. Pior que parar é agir pra botar as coisas em
seus devidos lugares. Quando meu pessoal resolve agir,
secretário, muito vagabundo vai pra vala.
Rememorando a cena, me ocorre a imagem de um cantor
de ópera na igreja, possesso, sussurrando uma ameaça no
ouvido do inimigo.
— Eles queriam matar uns doze ou treze de umas favelas
e deixar na sua porta e na porta do governador. Pelo menos
uns doze ou treze. E diziam que a conta ainda estava
barata.
O sangue pulsa na carótida do delegado. Ele transfere a
mim sua taquicardia. A corrente se fecha.
— Dessa vez, eu consegui. Mas não vou conseguir
controlar o pessoal numa próxima vez. Não pode haver uma
próxima vez.
O delegado move outra peça de um xadrez que começara
a ser jogado três dias antes.
Claro que o subsecretário de Segurança, este sou eu, não
está pensando em nada disso na manhã do dia 14 de maio
de 1999, sexta-feira. Estou ali no centro do estrado
improvisado em que se reúnem as autoridades para
celebrar a concessão de comendas a cidadãos que se
destacaram no apoio moral e material ao batalhão da Polícia
Militar de Copacabana. Iniciativa do coronel Mello, querido
pelos membros dos clubes e das associações benemerentes
do bairro. Ele já havia sido agraciado pelos que agora
homenageia. A troca de pequenas honrarias preenche o
tempo dos aposentados, comove as famílias e me exaspera.
Sou eu de pé ao lado do comandante geral da Polícia Militar,
coronel Sérgio da Cruz, perfilado para o hino nacional que a
banda arranca a seco dos metais. Por que a PM mantém uma
banda? Porque há uma agenda de solenidades cuja
cenografia desanda sem a trilha sonora que amarra os
pontos soltos da dramaturgia aos papéis e personagens.
Sou um deles, atado pela gravata ao formalismo da
cerimônia por quase já duas horas, parte do tempo sob o sol
carioca sempre causticante, com tanto por fazer.
Estou no cargo há quatro meses e meio, e me atribuí a
missão de mudar o mundo — pelo menos o mundo perverso
produzido por ações policiais escandalosamente
caracterizadas por racismo, misoginia, homofobia e o viés
de classe. O Brasil transitou da ditadura à democracia com
a promulgação da Constituição em 1988, mas as marcas da
longa história escravagista e autoritária não se dissolveriam
por mera decisão legislativa. Sobretudo nessa área sensível,
em que o Estado mostra suas garras mais ostensivamente,
facultando o uso da força comedida a homens e mulheres
formados na tradição da guerra ao inimigo interno.
Alheio a devaneios políticos, o comandante do batalhão
de Copacabana lê o discurso recheado de citações poéticas,
louvando os homenageados. O comandante-geral diz
algumas palavras depois de mim. Agradeço, saúdo,
parabenizo. O ritmo desacelera, novamente. Volto a sentar.
Vamos ouvir agora o representante dos agraciados,
escolhido por ser o mais idoso — o que não é pouca coisa
naquele grupo de anciãos.
Copacabana é um bairro envelhecido. A maior
concentração de idosos do país. E de turistas. Lugar de
música, memória, comércio e trânsito frenético. Talvez a
imagem mais frequentemente associada ao Rio de Janeiro,
em todo o mundo, seja sua silhueta em arco, espelhada no
traçado sinuoso das calçadas à beira-mar, entre o Pão de
Açúcar e as pedras molhadas do forte no extremo oposto.
O celular vibra sob o paletó. Discretamente, o retiro do
bolso e o arrasto rente ao corpo até a altura dos joelhos.
Peço licença aos dois coronéis com um aceno sutil e me
afasto da aglomeração. Suponho que eles deduzam que eu
não cometeria a descortesia de sair em meio à fala do
porta-voz dos cidadãos se não houvesse uma razão de força
maior. A força maior é o governador. Ele pergunta onde
estou. Diz que a Mangueira desceu e tomou a avenida que
fica embaixo da favela. Milhares de pessoas no asfalto em
pé de guerra. Alguma coisa nebulosa, porém grave,
aconteceu. Não sabe mais do que isso. O secretário, coronel
da PM Josias Quintal, está no interior do estado. Não tem
como chegar com urgência. A liderança é minha. Pede que
eu vá para lá, imediatamente, e entre em contato com o
comandante-geral da PM. O coração em sobressalto, mal
tenho fôlego para tranquilizá-lo. A voz se antecipa ao
raciocínio e lhe diz mais ou menos: “Estou com ele. Vamos
juntos. Já”. Enquanto caminho tão veloz quanto possível de
volta ao pódio das autoridades para convocar meu parceiro,
o pensamento me informa que não havia sido adestrado
para lidar com multidões em fúria.
Minha atenção flutua. Entrego o corpo ao piloto
automático: desculpas, breves justificações, deslocamento
até a viatura do comandante-geral — mais bem aparelhada
que a minha. Deixamos um rastro de perplexidade e
desapontamento. Sentamos no banco de trás. À frente, um
segurança ao lado do motorista, como de praxe. O segundo
carro também é blindado, transporta quatro seguranças,
além do motorista, e se comunica conosco pelo rádio, em
frequência especial. Outro rádio do primeiro carro está
ligado na frequência-padrão da Polícia Militar, o que nos
permite acompanhar o fluxo das notícias que começam a
desenhar o que teria ocorrido na comunidade da Mangueira.
Policiais civis teriam subido o morro de madrugada. Na
operação, um jovem da comunidade foi baleado e morreu.
Não sabemos ainda qual teria sido a missão.
No Brasil, a divisão entre policiais civis e militares
corresponde à separação entre funções investigativas e
ostensivas. Portanto, se os limites que separam as
responsabilidades institucionais foram respeitados, os
policiais civis só poderiam ter subido a Mangueira para
realizar alguma investigação — ou estavam lá por motivos
privados, escusos ou não. Investigar à noite soa improvável,
porque seria difícil ocultar-se dos traficantes e de seus
olheiros. Algumas vezes, policiais civis são convocados a
entrar em favelas para prender alguém, mas não
cumpririam ordem de prisão de madrugada numa área
dominada por grupos armados. A menos que estivessem
infiltrados e tenham sido identificados — não é disso que se
trata, certamente. As leis brasileiras não favorecem a
prática, porque a promiscuidade entre muitos policiais e
criminosos é tradicionalmente elevada e a brecha legal
tenderia a inviabilizar o combate à corrupção.
Antes de consultar diretamente o chefe da Polícia Civil
para esclarecer a natureza dos fatos e ouvir a versão dos
envolvidos, concluo que o mais provável é que as fronteiras
institucionais tenham sido novamente ignoradas e que
policiais civis tenham montado uma ação para apreender
armas e drogas. Não seria novidade. As corporações
competem entre si e gastam boa parte da energia
atropelando-se mutuamente. Entretanto, fazer uma
operação desse tipo à noite é no mínimo estranho e
suspeito. A política da secretaria veta incursões bélicas,
porque os riscos para a comunidade superam quaisquer
eventuais benefícios. Ligo para o chefe da Polícia Civil. Ele
tampouco sabe do que se trata. Parece absurdo, e é. A
secretaria de Segurança não tem controle sobre as polícias.
Sequer seus comandantes as controlam. Elas são menos
instituições do que arquipélagos, formados por unidades
relativamente autônomas, movidas pelos mais diversos
apetites. Por isso, construir condições de governabilidade é
a tarefa prioritária e mais desafiadora.
A vantagem das viaturas é sua capacidade de driblar
congestionamentos, avançar sinais, fazer milagres no
trânsito. Peço a opinião do coronel Cruz, sempre discreto.
Ele está tão perdido quanto eu. Do Estado-Maior vem a
informação de que o Batalhão de Choque já está na área.
Chegou antes de nós. A notícia não me tranquiliza. Ao
contrário, me deixa mais apreensivo. De que seria capaz a
tropa que traz no nome sua vocação? Os vidros escuros do
carro tornam a paisagem do Rio de Janeiro insólita e
sombria. Procuro me preparar para o imprevisível, o que é
uma contradição em termos. Milhares de pessoas descendo
a favela. A cena excitou a imaginação dos revolucionários
românticos dos anos 1960 e destilou o medo da classe
média conservadora. A música popular usou e abusou dessa
imagem e a inscreveu nos enredos mais variados. De tão
banal, esterilizou-se.
A avenida debaixo do morro da Mangueira é uma via
importante. Liga a Zona Norte ao centro da cidade, o
subúrbio tradicional decadente e o núcleo urbano em que as
instituições públicas mantêm suas sedes, herança do tempo
em que o Rio era a capital do país. A favela da Mangueira
situa-se nas vizinhanças do Maracanã e da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro. Ela dá o nome a uma das mais
antigas e queridas escolas de samba e inspirou dezenas e
dezenas de canções que constituem patrimônio valiosíssimo
da música popular brasileira. Em outras palavras, o dia 14
de maio não seria como qualquer outro no calendário da
cidade, tanto quanto a história da Mangueira não se
confundia com qualquer outra no repertório da sociedade.
O carro nos deixa a poucos metros das posições mais
recuadas da tropa de choque da Polícia Militar. Com
dificuldade, me esgueirando entre os soldados, posso ver
um longo trecho da avenida deserta e, ao fundo, a massa
humana atrás de uma linha imaginária, a uns duzentos ou
150 metros da barreira militar. A tropa de choque aguarda
ordens, protegida por escudos, capacetes, coletes e fuzis.
Tenho de agir rápido para que as expectativas dos dois
lados não sejam dominadas pelo medo e precipitem uma
tragédia. Ouço breve relato do comando da tropa. Nada que
já não soubéssemos. Percebo que o informe é dirigido ao
coronel Cruz. Eu não existo. O comandante da tropa de
choque me ignora. A ideia de um comando civil não tem
lugar no código policial militar. Há muita coisa por trás
disso. De fato, boa parte da história do poder no Brasil. Não
faria sentido fingir que estou no comando e dar ordens aos
berros. Seria patético e ineficiente. Digo ao coronel Cruz que
não permita que a tropa use armas ou avance em nenhuma
circunstância. Não importa o que aconteça, ele deve manter
seus homens em posição exclusivamente defensiva. Em
nenhuma hipótese, coronel. A ênfase e a redundância são
um esforço que faço para compensar a ambiguidade de
meu papel. Não temo a massa do outro lado. Temo o
descontrole da tropa de choque. Temo seu compromisso
atávico com a violência. Temo os automatismos que o
racismo produz.
Atravesso as filas de policiais. Não sei quantos são.
Cinquenta, setenta, cem. Há soldados de diferentes
batalhões, liderados pelo Choque. Outras guarnições estão
chegando. Sigo além da linha frontal. Estou na avenida
vazia. Coronel Cruz me acompanha. Intuo que a presença
do comandante-geral a meu lado não seria oportuna. A
ambiguidade tem dois lados: reduz minha autoridade diante
dos militares, mas talvez facilite o diálogo com a
comunidade. Peço que o coronel fique. Justifico: preciso do
senhor aqui, à frente da tropa, para impedir decisões
precipitadas. Ele compreende. Não questiona. Recua.
Prossigo sozinho. Sei que me observam. Pelo menos os que
estão na frente da aglomeração. Não tenho ideia do
número. Mil? Três mil? Cinco mil? Impossível pensar nisso. Já
ouço as vozes, os gritos, a babel vulcânica. Decido manter a
gravata e o paletó. Chega de farsa. Esse povo teve uma
overdose de hipocrisia ao longo da vida. Eu ali represento o
Estado. O terno é meu uniforme. Tento esvaziar a cabeça. A
avenida está repleta de símbolos do ódio: vejo algumas
granadas, pedaços de pau, pedras. A caminhada é
demorada. As vozes estão mais próximas. Já vejo indivíduos
recortados contra a multidão.
Finalmente, vejo rostos, homens, mulheres, crianças, e a
massa de gente começa a fazer sentido. Esse momento é ao
mesmo tempo estimulante e ameaçador. Sou a extensão da
polícia. Sou parte do que provoca a revolta, a fúria, o
desespero, a indignação. As pessoas me abordam por todos
os lados, mas só as crianças me tocam. Elas procuram o
contato físico mesmo quando não dizem nada. Parecem
todos tão atordoados quanto eu. Caminho para o meio da
multidão como quem entra mar adentro. Não há espaço
vazio. Se eu o crio com meus passos, ele é logo preenchido
num frenesi de pernas e braços que se empurram. Não
encostam em mim, mas me envolvem completamente.
E então um fenômeno inverossímil acontece — confesso
que não acreditaria se lesse esta descrição em um livro.
Formam-se círculos ao meu redor, como se um diretor de
teatro marcasse as cenas para que evocassem o coro grego.
Círculos me envolvem como se eu tivesse sido jogado
dentro d’água, disparando as ondulações. O primeiro é
composto por crianças. São elas que me põem na roda,
assim que entro no território ocupado pelos moradores da
Mangueira. Choram, algumas convulsivamente, e falam aos
berros, competindo entre si por minha atenção, puxando
minhas mãos e se acercando tanto quanto podem, como se
o destino da roda fosse um largo abraço coletivo, comovido
e reparador. Decifro poucas palavras e com dificuldade
reconstituo a história que me contam. As frases saem em
desalinho e se superpõem. Cada menina, cada menino
lança em minha direção um pedaço da história, se
esgoelando para que eu ouça em meio à tempestade de
vozes, usando até o limite sua força, falando com o corpo
inteiro, vergando-se sobre si mesmos, como se nada fosse
mais importante no mundo que me fazer compreender.
A história é esta: um adolescente foi morto a tiros por
policiais em um beco e o crime tem testemunhas. Um jovem
que era muitas coisas diferentes e queridas: colega, amigo,
irmão, parente, vizinho, sobrinho de alguém, neto de
alguém, filho de alguém. Foi executado. E elas, as crianças,
estão com muita raiva, e medo também, muito medo.
As crianças são substituídas pelas mulheres. Mulheres de
todas as idades, a partir da adolescência. Elas refazem a
performance dramática das crianças. Choram. Estão
desesperadas. Falam por cima das falas das outras, sempre
aos gritos. Não me tocam, mas disputam cada palmo para
trazer a voz até a órbita de minha atenção. A história que as
crianças contaram é reproduzida com mais detalhes. Olho
nos olhos e ouço com todo interesse, mas só posso fazer
isso com uma pessoa de cada vez, o que frustra as demais.
Elas percebem que a comunicação falha. Seu esforço para
suplantar os obstáculos só aumenta a agonia e o ruído. O
coro não está sincronizado. Talvez esteja, se entendermos
que o significado a transmitir é a incomunicabilidade. O que
está sendo tematizado por todos nós, coletivamente, é a
impossibilidade de comunicação entre a sociedade e o
Estado, os policiais e a comunidade. Parece exagero retórico
mencionar o teatro grego a céu aberto, sob o sol de rachar
dos trópicos. Entretanto, estou convencido de que
experimentamos uma representação inconsciente coletiva
sem que nenhuma das pessoas envolvidas na manifestação
tivesse consciência disso, nem eu. As emoções
compartilhadas desse jeito torrencial jogam luz sobre a
incomunicabilidade e, ao fazê-lo, comunicam. O coro de
tantas vozes dissonantes ajuda a abrir brechas de
comunicação ao criar uma linguagem comum aquém das
palavras. É incrível que essas coisas aconteçam sem que
ninguém oriente e organize, mas esse é o poder da
inteligência coletiva, aquilo que os antropólogos chamam
cultura.
Depois das mulheres é a vez dos homens. A multidão
silencia. A narrativa é a mesma das crianças e das
mulheres, porém audível e clara. Eles acrescentam uma
explicação. O adolescente foi executado por policiais civis
que invadiram a favela para extorquir os traficantes. Sua
morte é a resposta ao fracasso das negociações para
aumentar o valor do arrego, isto é, a propina, o valor pago
pelos traficantes para que a polícia não perturbe seus
negócios. Era um menino desarmado, repetem os homens.
Não tinha nada com isso.
É raro encontrar alguém disposto a correr o risco de
perder a vida para prestar um depoimento que endosse a
denúncia contra policiais. Até porque dificilmente a
investigação concluirá pela culpa dos acusados, a despeito
da participação de testemunhas que os incriminem.
Tampouco é comum realizar perícia no local do crime, cuja
classificação inicial, aliás, o desqualifica. Quando policiais,
em seu turno de trabalho, atiram e matam, as mortes são
descritas nos registros oficiais como autos de resistência,
quer dizer, são definidas como mortes provocadas pelas
próprias vítimas, as quais teriam resistido, armadas, à
autoridade policial, colocando em risco a vida dos homens
da lei. Por isso, com frequência, policiais convocados para
operações em favelas levam consigo o kit-vela: uma
segunda arma para deixar na mão do cadáver e outros itens
que podem ser úteis para falsificar evidências.
Olho para as pessoas ao meu redor e digo mais ou menos
o seguinte, depois que um dos homens grita “silêncio”:
É difícil acreditar, mas podemos fazer as coisas de um
modo diferente. O que aconteceu nesta madrugada não
deveria ter acontecido. Não pode continuar se repetindo. O
melhor que a gente pode fazer para acabar com tantas
mortes bárbaras é dar uma resposta imediata, clara, hoje,
agora. O governo, por um lado, vocês, por outro. Para isso,
vou precisar de sua ajuda. Vou exigir que a perícia seja feita
no local das mortes, mas as testemunhas não podem se
omitir. Garanto a segurança delas.
Várias vozes simultâneas me questionam. Ir à delegacia
para depor contra policiais é suicídio. Ninguém vai. Insisto.
Reafirmo que estarei junto das testemunhas e que eu
mesmo as ouvirei, ao lado do próprio chefe da Polícia Civil
em quem deposito toda a confiança.
Subitamente, todos à minha volta desatam a falar aos
gritos como se uma bomba de vozes explodisse. Não
entendo o que acontece. Ninguém responde ao que propus,
sequer notam minha presença. Os homens que dialogavam
comigo olham para o mesmo lado e ecoam gritos que vêm
de longe. Inúmeros braços se erguem, apontando para
alguém ou alguma coisa. Os mais jovens pulam para buscar
uma visão mais ampla. Minha primeira impressão é que
uma ameaça iminente esteja dispersando a massa.
Entretanto, como todos correm na mesma direção, deduzo
que estou enganado. Permaneço estático, perplexo, por
alguns segundos, até concluir que só me resta correr
também, acompanhando a multidão. Desvencilhando-me da
parede humana à minha frente, consigo ver a cena inteira:
dois homens fogem em desabalada carreira, um deles com
uma câmera longa e pesada na mão. Não parecem
cinegrafistas. Pedras e pedaços de pau voam acima de
minha cabeça. Os homens em fuga são os alvos. Os jovens
mais fortes e velozes disparam em seu encalço. Os homens
vão ao encontro da tropa de choque. A avenida tem dois
níveis, cada um com quatro pistas para automóveis. Eles
escapam pelo nível mais baixo. O espaço está vazio, mas os
mais rápidos se colocam em pontos estratégicos de onde
talvez possam atingi-los. A chuva de pedras pode ferir
qualquer pessoa. Continuo correndo com o fluxo e peço que
parem, aos brados, não joguem pedras, deixem os homens
escapar. A tropa assume posição de combate. Deixo os dois
homens em fuga e reúno toda a energia que me resta para
alcançar o ponto do qual possa ser ouvido pela tropa. Não
há tempo para digitar o número do comandante-geral. Não
disponho de rádio. Tudo o que faço é improvisado. Gritar e
correr são atividades concorrentes, quase mutuamente
excludentes. Reduzo a velocidade. Abro e fecho os braços
em cruz sobre a cabeça, ordenando aos policiais que não
atirem, não avancem, os homens escaparão, os homens que
fogem não serão alcançados, não serão atingidos. É isso
que penso. É cada vez mais provável que eles escapem sem
um arranhão daquela tempestade no deserto da Idade da
Pedra. Grito agora aos manifestantes. Falo na linguagem
dos sinais, que ignoro. Como gritar por gestos? Faço a
mímica grotesca do negativo: não, não, parem. Não joguem
mais pedras. Deixem os dois homens em paz. Voltem.
Vamos continuar nossa conversa. Os homens e sua câmera
desaparecem no meio dos policiais. Viro as costas para a
tropa e tento me comunicar com a multidão, que agora
ocupa ambos os níveis da avenida, sem a mesma
densidade. Já não correm. Hesitam, coletivamente, sobre o
que fazer, aonde ir. Procuro me fazer entender por gestos.
Aponto o lugar em que estávamos antes da caçada ao
cameraman e seu parceiro. Começo a me deslocar para lá e
convoco todos os que me veem e captam o sentido de meu
movimento.
Confesso que nesse momento sou uma pilha de ódio.
Estou pronto para explodir como a massa de manifestantes
pouco antes. Ódio dos idiotas que talvez tenham posto tudo
a perder. Os imbecis que apontaram a câmera tão sutil
quanto uma bandeira hasteada ou um fuzil. Uma câmera de
filmagem que não pesa menos de sete quilos e que deve ter
sido usada a última vez por um serviço secreto no filme A
Pantera Cor-de-Rosa. O propósito dos homens com a
câmera era filmar os manifestantes, em especial os que
falavam comigo. Evidente. O povo da Mangueira reconhece
esse tipo de personagem com facilidade. Sobretudo se os
Sherlock Holmes de opereta se destacam da aglomeração e
filmam as pessoas que participam com sua possante
câmera do tamanho de um braço. Depois descubro que os
patéticos P-2 (esse é o nome da equipe de investigação
sigilosa da Polícia Militar, que, por extensão, nomeia
também seus membros) posicionaram-se sob uma árvore,
na ilha que divide os dois níveis da avenida. Identificados,
foram imediatamente definidos por todos — sem que fosse
necessário qualquer palavra ou argumento — como agentes
policiais infiltrados para delatar quem acusasse os policiais.
Os dois sujeitos agiam na contramão do que eu tentava
fazer. Demoliam minha credibilidade. Ou poderiam ter
provocado esse resultado. Confesso que não entendo por
que o episódio não me desmoralizou nem cancelou as
negociações. A probabilidade de me preservar era remota.
Equivalente às chances de não ser atingido por uma pedra
em queda livre. O fato é que safei-me do pior. Talvez porque
os manifestantes tenham percebido minha própria
indignação com o que aconteceu. Talvez porque tenham
intuído que não me arriscaria tanto se a intenção fosse
apenas flagrar os acusadores, como de hábito.
De volta à arena da negociação. Em ondas, a multidão
retoma seu lugar. Eu, no meio dela, repito a proposta. Os
mesmos homens estão ao meu redor. Repetem a resposta.
Não adianta oferecer garantias de segurança. Quem
acredita que seja possível proteger um cidadão, morador de
favela, se a fonte da ameaça é policial? Quem protege a
pessoa vulnerável? Policiais. A equação não fecha. No Brasil,
não fecha. Muito menos no Rio de Janeiro. Seria preciso
muita ingenuidade. Eles têm razão. Concordo e recuo. Os
argumentos são convincentes. Reformulo minha proposta.
Daqui a duas horas venho à favela com o chefe da Polícia
Civil para tomar os depoimentos das testemunhas. Qualquer
casa ou entidade comunitária se transformará em unidade
móvel da polícia, uma delegacia provisória. Eles podem
escolher o espaço que julgarem mais adequado. E o sigilo
do inquérito será garantido.
Olham um para o outro, deliberam rapidamente e aceitam
a proposta. Em contrapartida, devem liberar a via para o
trânsito. A cidade tem de retomar sua rotina. Preparo-me
para lhes apresentar essa exigência, que me parece a
consequência natural de nosso acordo, quando outra
intervenção inesperada interrompe a conversa. Como um
raio, o barulho ensurdecedor do helicóptero da polícia
desaba sobre nós e vira o cenário de ponta-cabeça.
Nem mais nem menos: o helicóptero da Polícia Civil dá
rasantes sobre a multidão. A experiência é diferente de tudo
o que eu vivenciara antes. Não sei qual a sensação dos
tripulantes, particularmente o que sente o policial preso por
um cinto, aquele que se projeta para fora da abertura
lateral esquerda do helicóptero empunhando um fuzil.
Suponho que lhe proporcione algum tipo de gozo perverso,
porque ele gargalha enquanto finge que metralha a massa
na rua. Não disfarça a atuação. Seu teatro humilhante
funciona. A máquina e seu anexo — o homem que ri,
imitando uma chacina aérea — tem a propriedade de
intimidar. Sobretudo quando se equilibra sobre as milhares
de pessoas e desce lentamente, oscilando e elevando o
volume do ruído até que ninguém consegue ser ouvido pelo
parceiro ao lado. A performance aérea espalha na massa a
mensagem viral do medo. Para reduzir a experiência a uma
palavra, eu diria: impotência. Os rasantes sinistros,
seguidos da representação aviltante do riso e do massacre,
agridem a sensibilidade do mais frio mortal. O cinismo do
Estado e a hostilidade policial, expressos nos gestos
sórdidos do sniper, são a continuidade das execuções
noturnas por outros meios.
Embora intimidado como todo mundo, ponho minha
emoção mais intensa na resposta àquela agressão
arbitrária. É preciso substituir o sentimento de impotência
que aniquila pela afirmação da autoridade. Urgentemente.
Ligo para o chefe da Polícia Civil, a quem a equipe voadora
se reporta. Nunca havia me dirigido naqueles termos a meu
amigo, o delegado Carlos Alberto D’Oliveira. Nunca lhe dera
uma ordem, muito menos aos gritos. Agora, não tenho
alternativa:
— Mande o helicóptero que sobrevoa a Mangueira
retornar à base imediatamente e determine a prisão em
flagrante do sniper por abuso de autoridade, quebra de
decoro, traição ao código de ética e ameaça ao
subsecretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro e a
outras 4999 pessoas.
Carlos Alberto mal tem tempo de dizer que está surpreso,
que não mandou helicóptero nenhum sobrevoar a
manifestação. Desligo e vejo a interrogação estampada nos
que escutaram o que eu disse. Em menos de um minuto o
helicóptero faz manobra arriscada e se afasta em alta
velocidade. O grupo à minha volta acompanha o efeito do
telefonema. Há um quê de incredulidade no ar. Enfim,
parece que os porta-vozes da comunidade começam a se
convencer de que tenho algum poder e minha proposta
deve ser levada a sério.
Em torno das três e meia, na Vila Olímpica da Mangueira,
acompanho o chefe e a vice-chefe da polícia, Martha Rocha,
e alguns poucos auxiliares, na oitiva dos familiares e das
testemunhas. A vítima se chamava Alex dos Santos. Tinha
catorze anos.
À noite, a bateria do celular e minha energia estão no fim.
A caminho de casa, por volta das dez horas, recebo
telefonema do comandante-geral da PM. Más notícias: morte
na favela da Coroa. Outra vez, um adolescente. Outra vez, a
polícia. Com uma diferença: os policiais envolvidos são
militares. Coronel Cruz me alerta, provavelmente temendo
que se repetissem as cenas da Mangueira, colocando sua
instituição na berlinda. Nesse caso, diz ele, tudo indica que
os policiais falam a verdade. Eles mesmos se apresentaram
à delegacia e levaram a arma encontrada com o jovem que
morreu, uma pistola Glock. A resistência estaria
configurada, legitimando a ação dos soldados. O
comandante conclui: conheço meus homens. Eles não
entregariam uma Glock se estivessem montando uma farsa.
Adoram essa arma. Ela é caríssima.
Não discuto com meu amigo, Sergio da Cruz. Ele é sério e
eu não o confrontaria por discordar, em tese, de sua
opinião. Mas o fato é que conheço dezenas de
circunstâncias em que a Glock é a desculpa perfeita, por
suscitar exatamente o raciocínio que o coronel me expõe.
Nos últimos segundos de vida do celular, o coronel avisa
que moradores da Coroa e familiares do jovem morto estão
a caminho do Primeiro Batalhão da PM, do qual fazem parte
os policiais envolvidos na morte do menino. A comunidade
da Coroa é um enclave entre o centro da cidade e os bairros
de Santa Teresa e do Rio Comprido. Sua localização é
estratégica, porque situa-se acima do túnel Santa Bárbara,
ligação do centro com a Zona Sul, a área mais afluente.
Essa informação é relevante para que se compreenda o
impacto de manifestações naquela região.
Desisto do descanso. Chego ao batalhão com os que
protestam. Convido-os a entrar, mas sou barrado. Os
guardas não me reconhecem. Chamam o comandante do
batalhão, o que provoca uma situação constrangedora para
todos. Nesse clima de mal-entendidos, tem início a reunião
emergencial no salão nobre da unidade militar. Aos prantos,
amparados por representantes da associação de moradores,
parentes, vizinhos e amigos nos dizem que Rodrigo Marques
da Silva tinha quinze anos, era o melhor aluno de sua
turma, querido por todos e incapaz de portar uma arma ou
envolver-se com tráfico de drogas. Toda a favela o conhecia
e estaria pronta a testemunhar, coletiva ou individualmente,
sobre os hábitos e a personalidade do jovem. Várias pessoas
assistiram ao crime e se disporiam a depor. Numa
atmosfera de profunda comoção, os presentes denunciam
os policiais pelo assassinato a sangue frio. Relatam ainda
uma cena brutal: os assassinos afastam a mãe, debruçada
sobre o corpo do filho, aos pontapés e arrastam o cadáver
pelo braço, favela abaixo, exibindo a presa abatida sem
qualquer pudor, certos da impunidade. Rodrigo preparava
com colegas da escola e vizinhos a tabela do campeonato
de futebol que organizariam na comunidade. Ouviram
disparos e dispersaram. Eram policiais subindo o morro para
renegociar o arrego. Rodrigo teve a infelicidade de ser visto
correndo. Foi alvejado nas costas.
Minha cota de revolta não está esgotada, apesar do que
houve antes naquele dia. Proponho o mesmo
encaminhamento. Prometo iniciar a oitiva lá mesmo, na
favela da Coroa, e colher os depoimentos, em conjunto com
policiais de minha estrita confiança. Carlos Alberto já está
comprometido com a investigação na Mangueira. Temos de
descentralizar. Os casos se multiplicam. Contudo, é
indispensável acompanhar de perto cada um. A resposta da
secretaria e do governo tem de ser forte e nítida. O segundo
episódio no mesmo dia demonstra que não se trata de fatos
isolados e excepcionais. Essa é a rotina de dor e iniquidade
do Rio de Janeiro. As vítimas são sempre pobres e quase
sempre negras. Isso diz algo sobre essa cidade, esse país?
Seguem-se dois dias dramáticos, em que está em jogo o
futuro do Rio, pelo menos o futuro próximo, numa das áreas
mais importantes para a qualidade de vida, sobretudo dos
jovens negros e pobres dos bairros populares. Avanços e
recuos do governo, pressões pesadas sobre Carlos Alberto,
ataques de traficantes à cidade, oscilações na mídia, as
duas posições buscando o apoio da opinião pública para
viabilizar, politicamente, sua vitória. Uma delas se afirma
como contracorrente, rompendo a tradição. A outra defende
o modelo convencional de funcionamento das polícias e o
padrão de relacionamento há décadas estabelecido com as
favelas e periferias. Explico.
Sábado, dia 15 de maio, voltamos à Mangueira bem cedo
para continuar o trabalho. Carlos Alberto me alerta sobre a
insurreição que está em marcha na Polícia Civil. Ele
compreende minha posição, concorda com os ideais, mas
acha que a correlação de forças interna não permite esse
passo. Avalia que terminará destituído e que talvez nem eu
resista muito tempo. Isso para ficarmos no plano da política.
Prefere não especular sobre os riscos à nossa segurança
pessoal.
O governador me telefona no meio de uma entrevista
radiofônica e me põe no ar. Reitera seu compromisso com o
fim da violência policial e diz que esse caso será exemplar.
Servirá de modelo para a nova atitude da secretaria de
Segurança, das polícias e do governo. Ao vivo, informa que
visitará a comunidade ainda pela manhã. O corre-corre da
mídia e dos políticos, inclusive e especialmente dos
oportunistas, transforma a Mangueira em palco para o
grande evento. Nenhum governador subira um morro para
pedir perdão a uma família e a uma comunidade atingidas
pela brutalidade do Estado antes de Anthony Garotinho —
este é o apelido que ele converteu em nome próprio. Nada
apagará o mérito pela ousadia: nem o nome com prazo de
validade — como costumava dizer um dos mais importantes
jornalistas brasileiros, Marcos Sá Corrêa —, nem sua carreira
posterior que o conduziria a direções tão diferentes.
A reação de policiais insatisfeitos não demoraria a mostrar
sua força. Não estavam acostumados a ser contestados,
avaliados, criticados, investigados. E, curiosamente, por
mais surpreendente que pareça, sua reação contaria com a
inadvertida ajuda de traficantes. Para o negócio de drogas e
armas, seria mais vantajoso manter o clima de hostilidade
entre polícia e comunidade. Pagar propina é menos oneroso
e arriscado do que lidar com uma instituição policial mais
competente e respeitada pela comunidade. O ódio popular à
polícia torna a presença armada de bandos de traficantes
menos humilhante, repulsiva e temível. Em uma palavra,
mais tolerável. Como costumam dizer os moradores de
áreas sob o domínio do tráfico, a situação é péssima e
perigosa, mas seus líderes são mais previsíveis do que os
policiais, que incursionam em operações bélicas ou
aparecem, episodicamente, pelos mais variados motivos.
Não há nada mais aterrador do que o poder imprevisível,
porque a imprevisibilidade impede a adoção de qualquer
estratégia de sobrevivência e eleva a insegurança à
potência máxima.
À tarde, passo no cemitério para prestar minha
solidariedade à família de Rodrigo e subo à Coroa, conforme
combinara. Começa a oitiva das testemunhas. Os
depoimentos são contundentes. A perícia será como sempre
inconclusiva, porque os policiais desfizeram a cena do crime
e tornaram impraticável a investigação técnica. O exame
balístico seria definitivo se muitos policiais não tivessem o
hábito de usar armas particulares nesse tipo de situação.
Armas que depois desaparecem. Apresentadas e analisadas
são as oficiais. A Glock não pertencia à vítima. Meu
ceticismo estava certo. Coronel Cruz, errado.
Desço a favela da Coroa e me deparo com caixotes
obstruindo a entrada do túnel Santa Bárbara. Retiro,
pessoalmente, os obstáculos, cruzo o túnel e contato
colegas de minha equipe que permanecem no morro.
Consultada, a família de Rodrigo nega apoio à ação. A
notícia circula na favela: foram traficantes os responsáveis
pela tentativa de bloqueio da pista. Sigo para Ipanema,
onde daria uma entrevista à TV ao vivo sobre os últimos
acontecimentos. É necessário conquistar a opinião pública
para a importância de afirmar a legalidade, impondo limites
à violência policial. Sigo preocupado, ainda que as
informações provenientes da Coroa sugiram tranquilidade. A
família de Rodrigo reconhece nosso esforço e, por extensão,
seus vizinhos e amigos.
Durante a entrevista, chegam notícias desastrosas. A
pista debaixo da Coroa foi obstruída novamente e, dessa
vez, ônibus foram esvaziados e incendiados dentro do túnel.
Está declarada a guerra entre traficantes do morro da Coroa
e a polícia. Paradoxalmente, uma guerra que, por atingir a
cidade, a sociedade em seu conjunto, fortalece a Polícia
Militar e, por consequência, também a Polícia Civil. Um
fortalecimento que, considerando-se a conjuntura, revigora
os setores que resistem às mudanças, defendem soluções
repressivas violentas e procuram provar o erro de nossa
abordagem crítica. Nessa noite, o governador será
bombardeado por visitas e telefonemas de policiais da
chamada velha escola, secundados por seus aliados
políticos. A tropa de choque conservadora, a pretexto de
colaborar com o governo na restauração da ordem e da paz,
pedirá minha cabeça e a de Carlos Alberto D’Oliveira.
Um dia, ele me contaria essa história e eu lhe perguntaria:
governador, qual é a ordem a ser restaurada?
Dois dias depois, o delegado Frazão aparece em meu
gabinete à beira de uma síncope, depois de uma noite em
claro para impedir que policiais subissem favelas para
matar uns doze ou treze e deixar os corpos em minha porta
e na porta do governador. Ele me diz:
— O senhor não pode fazer uma coisa dessas nunca mais
ou eu não respondo mais pelo pessoal. Quer criticar, critica.
Quer punir, tudo bem, pune, não tem problema. Mas sem
alarde, discretamente, sigilosamente. Roupa suja se lava em
casa. Senão o senhor vai enlamear o nome de nossa
corporação. E isso a turma não vai admitir. Isso não posso
aceitar. É a imagem da autoridade policial que está em jogo,
secretário. O senhor sabe que Polícia Militar não tem
autoridade jurídica. Quem tem autoridade, no sentido
jurídico da palavra, é a Polícia Civil. Nós somos, na verdade,
a única instituição policial. Manchar a imagem da instituição
é inadmissível.
Quando o sangue ferve, as palavras saem sem censura, e
eu não posso me dar ao luxo de aprofundar a crise por falta
de autocontrole. Então, terceirizo a resposta para um
personagem imaginário que me representa nessas horas,
digamos, mais intensas. O personagem mantém a calma,
fala com delicadeza e ponderadamente. Não cede à retórica
inflamada que o militante dos direitos humanos sopra em
seus ouvidos. Minha voz diz ao dr. Frazão, docemente, que a
imagem de ambas as instituições policiais do Rio de Janeiro
não é boa, segundo as pesquisas de opinião. Pelo contrário,
é bastante ruim. Se a sua preocupação é a imagem, o
melhor a fazer é reconhecer os problemas, com
transparência, e agir de modo a despertar a confiança
popular perdida. Uma crítica pública, o reconhecimento dos
erros, o pedido de perdão e o compromisso com a mudança
valem muito mais para a imagem das instituições do que os
chavões sempre repetidos, nos quais a grande maioria não
acredita.
— Veja o caso do helicóptero, secretário. Não houve erro.
Não escondo minha perplexidade. Ele prossegue:
— Não houve. Tecnicamente, o policial que apontava a
arma não errou. Agiu como tinha de agir. Excelente
profissional.
A boa técnica recomenda simular uma chacina, às
gargalhadas? A técnica determina posicionar o helicóptero a
poucos metros da multidão? Com que propósito? Dispersá-
la? Assustar as pessoas? E se alguém armado, digamos, um
provocador, atira no policial que está com metade do corpo
para fora da aeronave? Poderia atingi-lo ou não. Qual seria a
resposta? Atirar contra alguém misturado a milhares de
pessoas? Quais seriam as consequências? O que justificaria
uma ação com esse nível de risco para os manifestantes?
Esse recurso técnico seria aplicado num bairro nobre da
cidade? Uma manifestação de estudantes de uma
universidade de elite receberia a mesma abordagem? Ou a
técnica varia conforme a cor da pele, a classe social e o
território?
— Se o senhor quer discutir ideologia…
Não se trata de técnica nem de ideologia, delegado, mas
de bom senso e de fatos. Vou lhe dizer uma coisa, dr. Frazão
— ousei esticar a corda um pouco mais. Tomo a liberdade de
compartilhar com o senhor minha opinião. No meu modo de
ver, tecnicamente falando, acho que o senhor deveria ter
dado voz de prisão a esses policiais que tinham a intenção
de matar uns doze ou treze em algumas favelas. O senhor
fez o que pôde para dissuadi-los e virou a noite tentando
convencê-los a não matar inocentes, aleatoriamente, para
se vingarem de mim e do governador. E eu lhe ficarei
eternamente grato por isso. Seu gesto foi nobre, delegado.
Mas, tecnicamente, cabia prendê-los.
A conversa não termina bem para nenhum de nós. Nem
eu nem o delegado temos força suficiente para vencer. As
ambiguidades e contradições nos manteriam sob tensão até
o desenlace final. O grupo de policiais que quase leva dr.
Frazão ao enfarto na noite de 16 para 17 de maio de 1999
talvez seja o mesmo que agiu como se cumprisse a ameaça,
meses depois. Não há como ter certeza.
Carlos Alberto D’Oliveira foi exonerado no dia 13 de
dezembro de 1999. Eu caí no dia 17 de março de 2000.
5. “Don’t be lazy”
Tony, Antonio Lemos Bisneto, carioca, preso em Londres
por associação ao tráfico internacional de duas toneladas de
cocaína e submetido ao mais longo julgamento criminal da
história britânica moderna — catorze meses —, foi
condenado a 24 anos e repatriado ao Brasil, onde cumpriu
os dois anos finais de sua pena, depois que seu status legal
foi redefinido e sua pena, reduzida, aplicando-se a
legislação nacional.
Na Inglaterra, Tony pagou oito anos da sentença, no
presídio mais seguro do país, e foi considerado um dos
criminosos mais perigosos sob a tutela da Coroa. Passou
quatro anos solitário na caixa-forte em que o meteram —
uma espécie de cofre impenetrável, instalado no centro de
um bunker inexpugnável. Uma prisão dentro de outra.
Segurança máxima talvez seja um eufemismo na
identificação do tipo de cárcere. A cada quarenta minutos,
dia e noite, um guarda abria a pequena escotilha de que se
divisava o interior da cela, observava o apenado e redigia
uma breve descrição do que vira em um livro
exclusivamente dedicado a essa rotina. Por exemplo: “9h00:
o prisioneiro está sentado na beira da cama com os braços
apoiados nos joelhos, olhando a parede”; “9h40: o
prisioneiro permanece sentado na cama, olhando a parede”;
“10h20: o prisioneiro está agitado. Move-se em círculos,
dando voltas na cela”.
Tony tangenciou a loucura, privado de liberdade,
privacidade, contatos humanos e acesso a áreas não
cimentadas, claustrofóbicas e cobertas — o banho de sol
era semanal e exigia postar-se num círculo estreito, sob a
brecha que se abria entre as plataformas blindadas do teto,
operadas por um técnico. As cartas eram lidas pelas
autoridades, o que exigia tradução e, consequentemente,
tempo — meses —, seja na remessa, seja na recepção.
Deslocamentos reduziam-se ao estritamente indispensável,
mas, quando ocorriam, cercavam-se de cuidados especiais e
mobilizavam recursos diversos: dois BMWs e dois Land
Rovers para escoltar a viatura blindada que o levava —
algemado, os tornozelos acorrentados —, e o helicóptero
que completava o controle do trajeto. Nos raros
deslocamentos interurbanos, um pequeno avião, voando em
círculos, substituía o helicóptero.
O SONHO HEDONISTA E O PESADELO DA DROGA
O envolvimento de Tony com as drogas foi gradual e
remonta à sua juventude. Ainda cursando a faculdade de
economia, em meados dos anos 1970, no Rio de Janeiro,
Tony teve muito sucesso em seu trabalho no mercado de
capitais. Conjugando talento e sorte, em um período
particularmente favorável à especulação financeira, ganhou
uma pequena fortuna. Casou-se e divorciou-se, em seis
meses. A esposa o traiu com o melhor amigo. Tony perdeu a
mulher de sua vida e o amigo mais próximo. Sobretudo,
perdeu o prumo e o rumo. O chão fugiu-lhe sob os pés.
Deprimiu-se, chorou, desesperou-se. O ombro materno foi
fundamental, mas, claro, insuficiente. Mila, até hoje —
talvez para evadir-se da culpa que as mães sentem ou, o
que dá no mesmo, para evitar que se busquem matrizes
anteriores —, atribui a esse incidente amoroso a raiz dos
problemas subsequentes. Tony tirou um mês de férias. Foi
para a Europa. Viajou de terno e gravata e voltou tatuado,
de bermuda e sandálias. Deixou o cabelo crescer. Descobriu
que a Era de Aquarius — já em seus estertores — era um
barato e que havia muito mais entre o céu e a terra do que
os aviões de carreira, a grana, a profissão e o conforto
urbano. Havia barcos e mares que ele nunca navegara.
Havia sol e prazeres a curtir. Havia conquistas náuticas à
sua espera. Abria-se, na vida de Tony, a temporada das
grandes navegações. Ele comprou um veleiro e cruzou
oceanos, em duas etapas de quatro anos. Velejando,
conheceu a francesa Angélique, que se tornaria sua
segunda esposa e a mãe de seus filhos, os amores de sua
vida, Ana e Michel. Ao elenco dos prazeres hedonistas que
envolviam sexo sob o sol, maconha e haxixe,
acrescentaram-se, de início com parcimônia, a cocaína e a
morfina.
Dez anos depois, casal e filhos voltaram ao Rio de Janeiro.
Tony rendeu-se à gravata e empregou-se numa produtora
de cinema. Vendeu o veleiro para sustentar a família. Os
barcos e o mar ficaram para trás. As drogas, não. Uma
delas, a morfina, invadiu sua vida e quase o expulsa de lá.
Foi por causa dela que o passado retornaria com força e que
futuras ligações perigosas se estabeleceriam.
Numa tarde ensolarada na Marina da Glória, em que
aproveitava o horário de almoço para contemplar a
constelação de iates e imaginar um futuro que lhe
devolvesse a felicidade que a droga lhe roubara, Tony ouviu
seu nome. Uma voz conhecida o chamava. De um dos
barcos, acenava um velho companheiro inglês, Gordon
Wright, parceiro de festas e viagens, que se dividia entre o
Caribe, a Inglaterra, a África do Sul e os oceanos. Convidou-
o para entrar a bordo e lhe mostrou a razão pela qual
visitava o Rio: malas, maletas e valises. Sugeriu a Tony que
abrisse qualquer uma. Eram dólares. Muitos dólares. Dez
milhões, para ser exato. Tony manteve-se ali, um momento,
aturdido. Nunca vira tanto dinheiro em espécie, nem em
seus tempos de Bolsa de Valores. A missão a que o amigo
se dedicava era espantosamente simples: cabia-lhe
entregar as malas a quem as pedisse. Servia de senha a
menção ao valor contido em uma delas. O amigo pretendia
partir para Cape Town tão logo concluísse sua tarefa. Pediu
a Tony um favor pelo qual pagaria em dólares: um quilo de
pó. Era um modesto mimo para colegas sul-africanos.
Dois dias depois, Tony lhe entregou a encomenda. Gordon
Wright tinha experiência suficiente para perceber que
alguma coisa estava errada. Retirou-se, pesou o pacote e
confirmou a suspeita: Tony lhe vendera 750 gramas como
se fossem um quilo. De volta ao convés, olhou Tony nos
olhos e calou-se. Ele sabia que o velho companheiro carioca
jamais trairia sua confiança, muito menos daquela forma
tão vulgar, se um cataclismo não estivesse acontecendo.
Tony estremeceu. Nunca sentiu tanta vergonha na vida.
Nunca se imaginara um ladrão mesquinho e desleal,
vendendo a alma por uma mixaria — 250 gramas de pó. O
amigo lhe perguntou se o problema era cocaína. Tony
confessou: morfina. Tirou da pochete um maço de dólares e
o enfiou no bolso de Tony.
— Você escolhe — ele disse. — Compra uma passagem
aérea e vem passar um tempo comigo, em Cape Town, e eu
te ajudo a largar o vício. Ou compra morfina e acaba de se
detonar. Se pica até morrer. Você decide.
Tony optou pelos dois: comprou morfina e a passagem. No
aeroporto sul-africano, emocionado com a lembrança dos
filhos, jogou no vaso sanitário a droga que levara e fechou-
se no apartamento do amigo até moer os ossos, metabolizar
o veneno, roer os braços, maldizer o planeta, mastigar
lábios e pedras, jogar-se contra a parede, vomitar a alma.
Saiu à rua um mês e meio depois, pálido feito papel, quinze
quilos mais magro e limpo, livre da morfina. Gordon Wright
orgulhou-se de Tony, de sua força de vontade titânica, de
sua coragem, e o presenteou com uma viagem de volta ao
Rio em seu veleiro e a apresentação de uma pessoa muito
especial, que lhe ofereceria oportunidades para ganhar
dinheiro numa escala inaudita. Passadas poucas semanas,
já no Rio de Janeiro, Tony conheceu Albino, o fantasma, por
cujo convite envolveu-se, gradualmente, em transações
ilícitas internacionais.
ALBINO TECE A REDE ENTRE LONDRES E A SELVA AMAZÔNICA
Albino aparecia e desaparecia como um fantasma. Era um
mago nessa arte. Mais que rigoroso, obsessivo em matéria
de segurança, ele só admitia ser visto por algum parceiro
depois de certificar-se de que a pessoa não estava sendo
seguida, o que obrigava seu interlocutor a caminhar alguns
quilômetros, atendendo a sucessivas chamadas em
diferentes telefones públicos, antes de ter o privilégio de
tocá-lo, vê-lo, conversar com ele. Valia a pena obedecer,
paciente e diligentemente, porque encontrar o fantasma era
um prazer — e um prazer compensador. Entre os poucos do
círculo de Tony que o conheciam, era tido como um
personagem caloroso, gentil, sempre preocupado em saber
notícias da família do parceiro, indagando sobre cada um
pelo nome e quase invariavelmente portando propostas
irrecusáveis. Tony jamais chegou a saber qual era sua
nacionalidade. Ninguém conseguia descobrir nada sobre ele
— de onde vinha, para onde ia, quantas redes de tráfico
comandava, quais seus contatos na ponta da produção da
droga (cultivo, coleta, acondicionamento e fornecimento
atacadista), no vértice do financiamento das operações e na
seara da política. Falava inglês e espanhol como nativo.
Talvez fosse um americano-mexicano — ou o inverso.
Eventualmente, visitava a casa de seus parceiros. Levava
flores para a esposa, vinho para o jantar e uma lembrança
delicada para as crianças. Na intimidade, comportava-se
com a simpatia extrovertida e doce de um membro da
família. Depois de uma visita, podia passar vários anos sem
dar notícia. Seu traço mais marcante e paradoxal era ser, de
fato, albino, contrariando sua vocação camaleônica de
misturar-se com o ambiente e não chamar a atenção,
sumindo sem deixar pista. Era inacreditável que
conseguisse não deixar rastro, sendo tão diferente.
Sua rotina lhe impunha muita mobilidade. Na verdade,
não se tratava, propriamente, de rotina, ainda que alguns
trajetos ele tivesse de repetir, mesmo que fosse com
variação de rotas. Por exemplo, viajar ao interior da
Colômbia para negociar com os barões dos cartéis. Segundo
o que Albino confidenciou a Tony, esses encontros eram
breves e deixavam um saldo de poucas palavras, meia
tonelada de cocaína pura e 150 milhões de libras. O
itinerário era quase onírico. Em Bogotá, tomava um avião
de carreira para Pasto, cidade histórica localizada ao pé do
vulcão Galeras, onde o aguardavam os chefes dos cartéis.
O aeroporto situa-se dezenas de milhas abaixo da cidade,
mas muito acima da altitude de cruzeiro dos voos
comerciais que atravessam a cordilheira dos Andes,
serpenteando entre magníficas colunas naturais. Por isso,
quando o comissário de bordo avisa que é hora de apertar
os cintos para a aterrissagem, o avião se inclina quase 45
graus e sobe, arrancando toda a potência de suas turbinas.
Finalmente, aprumado, prepara-se para descer,
identificando, primeiro, a direção do vento, porque o
modesto aeroporto ocupa de um extremo a outro, sem
bordas ou proteção, uma alça de pedra debruçada sobre o
abismo.
A tarefa de Albino era, via de regra, fazer a carga chegar a
seu destino, estocá-la, distribuí-la entre negociantes
varejistas, receber o pagamento e ressarcir os fornecedores
colombianos. Estes controlavam a produção e se
responsabilizavam pela primeira etapa do transporte, que
era aérea e levava o produto da selva ao oceano, onde,
lançado em caixas de cigarro de vinte quilos, era recolhido
por embarcações comandadas pelo grupo de Albino.
Cada decolagem custava, aos barões do tráfico, 150 mil
dólares, pagos a militares que controlavam as pistas. A
licença especial tinha validade para apenas um dia por
semana. Era preciso sorte, porque o mau tempo inviabiliza
decolagens e pousos na floresta. A autonomia de voo dos
pequenos aviões empregados nesse tipo de operação era
de oitocentas milhas, o que significa quatrocentas para ir e
quatrocentas para voltar. As pistas ficavam a cerca de cem
milhas da costa. Portanto, os barcos do grupo de Albino
tinham de recolher a carga, no máximo, a trezentas milhas
do litoral. A entrega da carga fazia-se em mar aberto e
revolto. A embarcação jogava na água uma pequena balsa,
da qual se afastava entre quinze e 25 metros. O avião
aproximava-se, voando em círculos, a baixa altitude. Em
cada sobrevoo rasante, arremessava, entre a balsa e o
veleiro, três caixas de cigarro, de dois metros quadrados.
Quando elas caíam exatamente entre o barco e a balsa, a
ação dos homens que estavam a bordo era facilitada, ainda
que a recuperação das caixas exigisse força, coragem e
perícia. Quando piloto e copiloto erravam o alvo, impunha-
se um deslocamento quase heroico dos dois marinheiros
que tripulavam a balsa, abrindo caminho entre ondas
oceânicas. Não raro, algumas caixas se perdiam. Tudo
correndo bem, 25 caixas eram recuperadas e estocadas no
barco, que fazia uma parada técnica em alguma ilha do
Caribe antes de seguir para seu destino final, que podia ser
Miami, mas, na maioria das vezes, era um porto inglês.
No trajeto entre o Caribe e a Inglaterra, quem
sobrevoasse o veleiro veria duas mulheres de biquíni
tomando sol, deitadas de bruços, ao lado de um homem de
sunga sentado, com os braços apoiados na toalha sob o
corpo. No barco, o cenário — extraordinariamente
persuasivo — podia ser montado e desmontado com
facilidade. Encobertos pelo cenário falso, vários homens
trabalhavam e guardavam as 25 caixas de cigarro de vinte
quilos.
Quando atingia o limite das águas territoriais inglesas, o
veleiro aguardava a aproximação de um barco de menor
envergadura, com dois casais a bordo, que tinha saído de
um porto inglês, naquele mesmo dia, para onde retornará,
imediatamente. Toda a carga era transferida. O barco
romântico e inofensivo, que não fez mais que um breve
trajeto doméstico, escapará à vigilância quando voltar para
casa. O veleiro, sim, será vistoriado. Mas chegará limpo com
os papéis em dia e sem qualquer sinal de que cumpria
missão importante. Logo após o transbordo das caixas, o
veleiro desfazia-se de todo equipamento tecnológico
sofisticado de comunicação e navegação internacional.
Lançar ao mar material valioso era o preço a pagar pela
segurança. O investimento compensava.
Um cuidado adicional útil para a eventualidade de
inspeção em alto-mar era a pintura da linha d’água do
veleiro acima do que seria correto. A intenção era disfarçar
o peso que estava sendo transportado. Observando-se à
distância, deduzia-se que o barco deslizava leve sobre as
ondas e não levava consigo mais do que a tripulação.
Uma vez no porto, o barco, recepcionado por grupos de
amigos, era descarregado. As caixas eram conduzidas para
vans, que as estocavam em garagens, de onde seriam
repassadas a distribuidores locais.
O preço final do pó pago pelos consumidores nas ruas da
Europa e dos Estados Unidos (isso vigia, então, e continua
vigendo, hoje) corresponde a um valor muito superior aos
custos envolvidos na produção, na logística do transporte,
na estocagem e na distribuição, porque a droga que chega a
quem cheira a cocaína tem um grau de pureza que costuma
variar entre 15% e 30%. Isso significa que cada grama de
pó exportado pelos fornecedores se multiplica três ou seis
vezes no mercado varejista. Essa é a margem de lucro que
mantém a economia da droga aquecida no mundo
globalizado, com ou sem crise. Cento e cinquenta milhões
de libras podem proporcionar um retorno bruto, portanto, de
alguma coisa entre 450 e 900 milhões de libras. Para meia
tonelada de cocaína pura, o retorno líquido corresponderia
ao ganho bruto menos cerca de 200 milhões. Nada mal —
Tony costumava dizer a si mesmo — para um ramo de
atividade econômica, a despeito de perdas circunstanciais
com apreensões e prisões. O empreendimento de Albino
cobria eventuais prejuízos e uma certa taxa de perdas podia
ser perfeitamente absorvida, sem afetar o rendimento dos
negócios. Os barões da droga costumavam dividir entre si a
provisão de Albino, porque assim preveniam-se contra
eventuais perdas.
Mantendo-se a dinâmica exportadora bem azeitada, a
médio prazo o lucro é garantido. Por isso mesmo, é elevada
a capacidade de reposição de pessoal nas operações de
lavagem de dinheiro, transporte de valores e de carga,
distribuição e venda. Tony era considerado um operador
competente e confiável para as transações financeiras e o
transporte de dinheiro. Foi assim que ingressou na rede,
consolidou sua reputação no grupo diminuto que interagia
com ele e conquistou a confiança tanto de Albino quanto
das demais lideranças de que ouvia falar, mas não
conheceu. A despeito de sua especialidade, Tony não se
furtou a ajudar em outras funções. Foi o que aconteceu no
capítulo derradeiro de sua vida no submundo do tráfico
transnacional de drogas — seria melhor dizer: no mundo
marinho do trânsito internacional de veleiros e pó.
PACTO FÁUSTICO COM O FANTASMA
Em seu último encontro com Albino, no Rio de Janeiro, em
1998, depois do zigue-zague costumeiro e da sequência de
chamadas nos telefones públicos do Leblon, Tony recebeu
quatro tarefas e o código da missão: “Don’t be lazy”. As
expressões boas para código são as fáceis de memorizar,
que possuem dez letras e não as repetem: cada letra
corresponde a um número, de um a zero, na ordem da
leitura. O código permite manter clandestinas senhas e
contas bancárias, números de telefone e detalhes de
endereços, voos, datas e horários. Outra tática: com
equipamento simples, a equipe clona telefones e usa os
números avulsos, aleatoriamente, para dificultar a
identificação das chamadas.
Em pagamento pelas quatro tarefas, Tony receberia uma
fortuna: 1 milhão de libras. O suficiente para abandonar a
vida clandestina e se dedicar aos filhos, como sonhava.
Queria conviver mais com eles, acompanhá-los, apoiá-los.
Ser o pai que ele achava que não tinha sido, ainda que os
filhos, que sempre o idolatraram, discordassem, então,
pelos sinais que emitiam (isso não se diz com palavras).
A primeira tarefa era treinar DaCosta, um frentista
inexperiente que Albino recrutara na Barra da Tijuca, e levá-
lo consigo na viagem à Inglaterra.
Educar DaCosta exigiria tempo, porque, na vida
clandestina, a experiência é a principal tutora. Mesmo
assim, havia o que ensinar. Por exemplo: como levar 100 mil
dólares colados ao corpo de um país a outro, ludibriando a
segurança em aeroportos estreitamente vigiados?
Confrontado com a pergunta, DaCosta respondeu como o
comum dos mortais, as pessoas de bom senso: “Evitando
chamar a atenção; transmitindo tranquilidade; agindo com
naturalidade”. Errado. Tony mostrou ao neófito que se todo
mundo pensa do mesmo jeito, com a polícia não seria
diferente, ou seja, os policiais ficariam atentos para quem
demonstrasse absoluta tranquilidade. Nada mais insuspeito
do que alguém, buscando driblar a vigilância, chamar sobre
si a atenção, deixando o casaco cair, tropeçando na própria
maleta, derrubando os documentos e fazendo o detector de
metais apitar, mantendo moedas no bolso — tirá-las, em
seguida, com alarde e desculpas enfáticas, vale um salvo-
conduto. Tony explicou tudo isso, mostrou como se faz,
ensinou a usar o código, a clonar telefones, a andar pelas
ruas driblando possível vigilância e a identificar lugares
adequados para conversas reservadas — o centro
descampado do Hyde Park, por exemplo, de onde se tem
amplo controle visual, com horizonte de 360 graus. A regra
é ser paranoico, mesmo sem motivo aparente. O perigo
nunca é aparente. Tudo pode ser uma cilada. Qualquer
vestígio pode ser fatal.
A segunda era realizar as costumeiras operações
bancárias, distribuir parte do dinheiro obtido na primeira
fase das transações em curso e transportar outra parte a
paraísos fiscais e ao Brasil.
A terceira tarefa era restabelecer contato com o segmento
da rede que se afastou, quando foi preso um membro da
tribo de Albino, em julho daquele mesmo ano, traído por um
distribuidor varejista de um subúrbio londrino, que havia
sido detido e acabara seduzido pelas vantagens da delação
premiada.
Sem essa costura de que Tony se encarregara, a
mercadoria trazida da Colômbia e já estocada não teria
canais de escoamento.
A quarta e última tarefa — porém decisiva — era, em
Londres, cobrar a dívida de um distribuidor varejista, que se
recusara a efetuar o pagamento a um emissário de Albino,
sob alegação de que a pessoa estaria sendo seguida. Tony
foi autorizado a ameaçá-lo com os “índios”.
A COREOGRAFIA SELVAGEM DOS "ÍNDIOS"
Quem negociava com Albino sabia que traições poderiam
ser punidas com a morte. Na Europa e nos Estados Unidos,
a execução ficava a cargo dos “índios”, matadores
profissionais oriundos de países distantes (frequentemente,
da Europa Oriental), cuja função se esgotava com o
cumprimento de uma única execução. Eles entravam e
saíam do país no mesmo dia. Não falavam com ninguém.
Dirigiam-se a determinado endereço, onde encontravam
mapas, arma, foto e as informações necessárias sobre a
vítima, local e horário do homicídio. Realizavam o planejado,
conforme as instruções, e deixavam o país imediatamente.
Os “índios” nunca foram identificados. Daí o peso da
fórmula call the indians, que Albino só enunciava em inglês
e pronunciava apenas em casos extremos. Na América
Latina, o sistema se adaptava às realidades locais, que não
exigiam soluções tão dispendiosas.
Poucos meses antes da última missão de Tony, Albino
convocou um “índio” para eliminar o delator, em Londres —
aquele mesmo que provocou a prisão de um membro do
grupo de Albino, interrompendo as conexões entre o
atacado e o varejo. Interrupção que caberia a Tony reverter.
Chegando a Londres e tendo acomodado DaCosta no
hotel, Tony marcou encontro com o devedor. Depois de
transitar pelo labirinto em que transformou seu trajeto,
chegou ao restaurante e avisou ao interlocutor que o “índio”
seria chamado se ele repetisse a história de que não
poderia saldar a dívida porque quem lhe cobrava estaria
sendo seguido. Tendo ouvido esse alerta, o homem lhe disse
que não poderia sequer conversar sobre a dívida — que ele
reconhecia e estava disposto a pagar — porque Tony estava
sendo seguido.
De volta à estaca zero, passou à tarefa seguinte, tratando
da questão financeira, da qual se desembaraçou com
sucesso e que lhe rendeu seu pagamento antecipado — a
mala lhe foi entregue por um velho companheiro de equipe.
Nesse dia, teve sorte e azar — foi o que pensou. Azar,
porque um acidente de trânsito pôs a cidade de pernas para
o ar, provocando transtornos imensos para qualquer
pequeno deslocamento. Sorte, pelo mesmo motivo. Não
seria mais necessário tanto zigue-zague por ruas, avenidas,
travessas laterais, metrôs, táxis. O tumulto funcionaria
como barreira intransponível para uma eventual vigilância.
Aproveitou para esconder a mala, usando a técnica e a
experiência que acumulara. Nos dias subsequentes,
acompanhado pelo discípulo (que antes permanecera no
hotel), ajudou a restabelecer a conexão perdida, ensinando-
o a não poupar caminhadas e deslocamentos por metrô aos
extremos da cidade, antes de dirigir-se ao endereço
acordado.
Concluídos os trabalhos com êxito parcial, Tony levou
DaCosta ao aeroporto. Só depois que a porta da aeronave
fechou, DaCosta respirou em paz. No entanto, a porta foi
reaberta e ele, preso, com 35 mil dólares. Negou que
conhecesse Tony, mesmo depois que lhe apresentaram as
imagens internas do aeroporto. Suas declarações foram tão
absurdas que acabaram por inocentá-lo, no julgamento —
um idiota manipulado. Algumas horas depois, ao
amanhecer, Tony dormia profundamente e sonhava com um
episódio real — um encontro assustador com baleias, na
travessia do Atlântico. O estrondo provocado pelo impacto
da baleia gigante no veleiro devolveu-o ao quarto de hotel.
Batiam à porta, furiosamente. Era a polícia. Pouco depois,
policiais federais brasileiros chegavam ao seu apartamento,
no Rio, com mandado de busca. Foi assim que Angélique e
Ana ficaram sabendo que Tony tinha sido preso, em
Londres, sob acusação de traficar duas toneladas de
cocaína, das quais uma parte (cerca de quinhentos quilos)
havia sido apreendida em Londres e seus subúrbios. Ana
apressou-se em tirar Michel de casa. Já na rua, ligou para
Rogério, o policial que namorava, com quem pensava em
casar-se. Aos prantos, disse que o amor entre os dois
tornara-se impossível — explicou o que poderia representar
para a carreira de Rogério a prisão do sogro, mas, no fundo,
temia que o sogro tivesse sido traído pelo genro. Levaria
anos para desfazer-se da suspeita, mas o laço já se
rompera.
Naquele mesmo dia, 24 de fevereiro de 1999, à exceção
de Albino, todo o grupo com o qual Tony interagia foi preso.
REGINA VERSUS ANTONIO LEMOS BISNETO
Durante o julgamento, Tony viu e ouviu suas conversas
secretas no Hyde Park. Elas foram filmadas e gravadas, em
alto e bom som, graças à tecnologia sofisticada que ele
ignorava e contra a qual não se protegera. Viu seu trajeto
urbano, em zigue-zague, exibido na tela e, portanto,
reduzido ao patético. Assistiu a dezenas e dezenas de horas
de filmagem, ouviu sua voz em centenas de telefonemas,
viu inúmeras fotos e descobriu que havia 28 agentes
espionando-o, dia e noite — sete em cada turno de seis
horas. Soube, então, que o interlocutor ao qual se dirigira
para cobrar a dívida falava a verdade. Tony foi seguido todo
o tempo e todos os seus movimentos foram relatados em
documentos policiais, ou registrados. A exceção havia sido a
tarde de uma terça-feira chuvosa, quando um grave
acidente de trânsito tumultuou a vida da cidade. Sobre
aquelas horas decisivas, não havia registro ou relato. Ficou
patente que as operações na Colômbia e no Caribe não
eram conhecidas pela polícia, assim como seu principal
artífice, Albino.
No tribunal, Tony conheceu de perto o teatro arcaico do
poder, do qual participou como ator coadjuvante — aquele
cujo papel apenas destaca a proeminência do protagonista.
A cabeleira admirável do juiz Arthur Brown não lhe conferia
o aspecto bufo que Tony suspeitara, quando, já preso,
conjeturava sobre o julgamento. Pelo contrário, ela lhe
infundia uma aura ancestral de autoridade e o convertia em
um personagem atemporal. Causou-lhe tamanha impressão
o brilho do magistrado, a acuidade de sua percepção, a
velocidade de seu raciocínio, a extensão de seu saber, que
não lhe restaram argumentos para justificar qualquer
vestígio de ressentimento. Mesmo porque o juiz parecia
esconder uma fonte inesgotável de compaixão, o que talvez
o fizesse sofrer, uma vez que sua função o obrigava a
aplicar, friamente, a lei. Tony sentia essa estranha,
paradoxal e subterrânea identificação afetiva com o juiz —
além da admiração pela figura paternal, obviamente
paternal, a despeito do esforço extenuante de dissimulação.
Mais de um ano após a abertura dos trabalhos, Tony pisou
pela última vez o tablado secular do templo da Justiça
britânica sem mágoa. Exausto, nervos em frangalhos,
coração apertado, mas sem mágoa. Cada qual em seu
lugar, cada um persistindo no destino ditado por sua função.
Ele compreendia, perfeitamente, que a Promotoria cumpria
seu dever quando o caçava, o atormentava com suas
tenazes, o acuava. Tudo se resumia a uma espécie de ira
profissional. Era do jogo. Sabia disso.
Seus advogados, regiamente pagos pelo Estado,
organizavam-se segundo uma hierarquia rigorosa de três
níveis, cabendo exclusivamente ao principal defensor, mais
idoso e experiente, a representação em juízo.
Tony foi consultado sobre a hipótese da delação premiada.
Não seria necessário denunciar ninguém. Bastaria dar os
endereços de alguns imóveis comprados com dinheiro do
tráfico e vários anos de pena seriam economizados. O juiz
decidiria quantos. Mesmo assim, Tony resistiu. Foi fiel até o
fim aos seus parceiros de aventura; seja porque se via como
um sujeito ético — entendendo a ética à sua maneira —,
seja porque talvez estivesse fazendo seus próprios cálculos,
levando em conta fatores que só ele vislumbrava. Afinal, a
deslealdade tem seu preço.
Houve muitos momentos difíceis: a leitura da sentença
talvez tenha sido o pior de todos. O meritíssimo Arthur
Brown deixou de lado seu tom irônico e a formal dicção
blasé, com que procurava disfarçar, no dia a dia do
julgamento, sua nada britânica e pouco apropriada
inclinação passional por tomar partido e emocionar-se —
sempre a favor de quem, em cada contexto, ocupava a
posição mais frágil e vulnerável. Voltou-se para Tony e, do
alto de sua autoridade, disse-lhe — ou assim ouviu o réu:
— Você cometeu crimes graves, acima de qualquer
dúvida, conforme suficientemente comprovado. Contudo,
não gostaria que este fosse o último capítulo de sua vida.
Por isso, vou abater sua pena. Vou lhe dar uma pena menor
do que deveria. Em vez de 27 anos... vou condená-lo a... 24
anos.
Não era ironia. Arthur Brown simpatizou com Tony. E sabia
valorizar cada ano — em seus setenta e muitos já vividos.
Apenas uma experiência rivalizava com esse momento,
em intensidade. Pouco depois de completar um mês
ocupando o que Tony chamava, ironicamente, patíbulo — a
cadeira destinada à pessoa a ser inquirida, no julgamento
—, ou seja, depois de trinta dias na mira da Justiça,
submetido ao escrutínio meticuloso (“e sádico”, ele dizia) da
Promotoria, seu depoimento dissecado no confronto com
testemunhas e com registros visuais e sonoros produzidos
pela polícia, Tony desabou. Manteve-se firme, sentado, mas
sua mente entrou em curto. Passou a acompanhar os
acontecimentos que protagonizava do alto da sala do
tribunal, vendo-se mover-se, responder às perguntas, tomar
água, contemplando a coreografia dos funcionários, a
energia febril dos estenógrafos, o desassossego dos
advogados, a expectativa de policiais, peritos e
testemunhas, a imobilidade concentrada do júri. Observava
o ritual de cima, no canto superior da altíssima parede,
flutuando fora de seu corpo. Doloroso, aterrorizante e
constrangedor. Como pedir que a sessão fosse interrompida
sob o argumento de que o réu estava flutuando fora do
corpo? Como solicitar a suspensão dos trabalhos até que o
réu voltasse a habitar o próprio corpo? Não havia como
escapar ao ridículo. Por isso, a única solução que ocorreu a
Tony foi, resignando-se ao patético, dirigir-se ao juiz e lhe
pedir que parasse a inquirição porque ele estava flutuando
fora do corpo. O magistrado acatou a solicitação, convocou
uma psiquiatra para examinar o réu e, ante protestos da
Promotoria, determinou a suspensão do julgamento por
duas semanas.
Se, nesse ponto, rir for inevitável, o leitor deveria tentar
controlar-se. Não é nada fácil flutuar fora do corpo. Nem
prazeroso, ao contrário do que possa parecer. Naquele
instante, a experiência acabou vindo a calhar. Mas a
sensação, Tony atesta, é mesmo devastadora.
Enquanto Tony esteve preso na Inglaterra, apesar dos
fortes laços afetivos, as dificuldades e barreiras fizeram com
que as visitas da família fossem raras — duas ou três. A
primeira, dois anos após a prisão, fixou-se na memória de
todos com especial intensidade. Ana, a filha, então com 21
anos; Michel, o filho, com doze; e Mila, a mãe de Tony,
sobrevoaram o mesmo oceano que ele cruzara tantas vezes
em seu veleiro. Submeteram-se ao ritual da revista
sucessivas vezes, conduzidas por diferentes equipes.
Monitorados em detalhes pelo sistema interno de câmeras,
avançaram etapa por etapa, ao longo de muitas horas,
antecipando com ansiedade crescente a emoção do
reencontro. Quando, finalmente, viram-se frente a frente,
Tony chorou pela primeira vez diante dos filhos.
VISITA AO BUNKER
Michel saltou-lhe ao colo e adormeceu, confortado pelo
cheiro do pai. Mais tarde, explicaria por que, a despeito de
tudo, a admiração pelo pai mantém-se inabalável:
— Ele nunca tocou numa arma; sempre detestou
violência. Vendia porque compravam. O produto que
negociava é perigoso para a saúde? Tudo bem, é perigoso...
como as bebidas e os cigarros. Vá você explicar isso à
rainha ou à minha avó!
O pai seria vítima da hipocrisia de um sistema falido.
Michel fez-se dono de seu nariz, muito cedo, bem antes
de tornar-se, para desespero da mãe, atleta — mais que
isso: virtuose — do esporte ultrarradical que a França
inventou e exporta para o Brasil: o parkour, uma espécie de
coreografia urbana que submete a linha reta a uma torção
barroca, por prazer estético e amor ao risco.
Curiosamente, ambos os traços marcaram a vida de seu
pai: a rejeição da linha reta para qualquer percurso e a
sedução do perigo. Os trajetos tortuosos foram também a
sina dos “índios”, de Albino e dos policiais, que espelhavam,
por dever de ofício, o serpentear de seus alvos.
O atleta do parkour, em velocidade, escala viadutos, pula
de um prédio a outro, equilibra-se na ponta extrema da
catedral e, sobretudo, evita, sistematicamente, o óbvio, o
prático, o rotineiro. Devota-se à celebração do excesso, do
descontínuo e do inútil (subvertendo o princípio que rege as
metrópoles). Em seu universo, é vazio o enunciado segundo
o qual a linha reta é a menor distância entre dois pontos.
Tony, Albino, os “índios” e seus vigias, sem a perícia e a
arte desses atletas, tampouco adotam a linha reta para se
deslocar de um ponto a outro — ou para pensar, estabelecer
relações, alcançar seus objetivos, identificá-los,
compreendê-los e extrair deles todas as consequências.
Um filho aventureiro, destemido e talentoso, de ideias
originais e um pouco cínico, reconhece Tony, “mas um poço
de afeto, de que eu não canso de me orgulhar”,
complementa. Foi morar na França com a mãe francesa,
recebeu a nacionalidade e passou a tratar a irmã como uma
segunda mãe — por bons motivos. Durante alguns anos,
quando amargava uma depressão precoce, Michel
convenceu Ana a viver com ele e a madrasta, em Paris — o
que valeu à sua irmã a cidadania francesa.
Logo que Michel pulou nos braços do pai, Mila não vacilou
e bradou contra as restrições da disciplina carcerária
britânica, que a impedia de abraçar o próprio filho, mas não
hesitou em repreendê-lo, por trair — ela exclamava — a
história honrada de sua família e “conspurcar” — escolheu o
verbo a dedo, no repertório refinado a que não renunciava
— a reputação que o pai construíra com o trabalho honesto
de toda uma vida.
Ana acabou por ditar o tom à visita, apelando à
sensibilidade da avó — cobrando-lhe, pelo menos, bom
senso — e ocupando o tempo com ponderações práticas
sobre o futuro, porque havia futuro, havia esperança — ela
garantia —, havia liberdade depois das provações. No que
dependesse dela, o destino de Tony seguiria um plano
lúcido. Estava disposta a implementá-lo, “custasse o que
custasse”, insistia com energia, em seu tom habitual — uma
espécie singular e meio paradoxal de pragmatismo
exuberante e carismático. Custasse o que fosse, não
importava. De fato, seis anos depois daquela promessa,
tendo sacrificado parte de sua juventude na busca dos
caminhos, rompido com seu namorado — um policial do
Bope — quando seu pai foi preso, por precaução e uma
vaga e improvável suspeita, tendo negociado com
advogados e persuadindo políticos, ela trouxe seu pai de
volta ao Brasil e, na sequência, dois anos mais tarde,
devolveu-lhe a liberdade. As leis brasileiras sendo mais
brandas, a longa sentença foi reduzida. Essa foi a principal
razão pela qual Tony comemorou a migração da assepsia
pan-óptica inglesa para a insalubridade miserável das
prisões brasileiras.
DE VOLTA AO RIO
Ao todo, Tony ficou mais de quatro anos enjaulado em
cofres dentro de cofres, na Inglaterra, e quase três anos
preso em galerias comuns. Chegou ao Brasil em 19 de maio
de 2006 para completar no Rio de Janeiro o cumprimento da
pena, que seria adaptada à legislação nacional, a qual lhe
facultaria o direito à progressão de regime, nos momentos
adequados, para o semiaberto, o aberto e a liberdade
condicional. No retorno, sua primeira paisagem nativa foi o
aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, São Paulo. Quando
finalmente aterrissou no Santos Dumont, no Rio de Janeiro
que amava tanto, não resistiu. Teve de secar o rosto com os
punhos algemados.
Seu percurso pelos cárceres cariocas o assustou, por mais
que acreditasse estar preparado para o choque. A mudança
de ares correspondeu a um salto entre mundos inteiramente
diferentes. O isolamento asséptico e enlouquecedor dos
cofres britânicos foi sucedido pelo terror de masmorras
subterrâneas fervendo em fogo brando e constante.
Quando considerou a hipótese de transferência para o
Brasil, para o Rio, especificamente, ponderou muita coisa,
mas não comparou as condições materiais oferecidas aos
prisioneiros na Inglaterra e em seu país. A ideia de voltar
era mais poderosa. Sua mãe o alertara. Tony ria quando
imaginava o calor. A carta da mãe referia-se à temperatura
nos cárceres como uma das fontes de martírio. Os sujeitos
eram cozidos vivos. O fedor era insuportável. O ambiente,
repugnante. As doenças, graves como a tuberculose. A mãe
avisava, como se ele, um carioca, não soubesse. Tudo era
nojento, ela escreveu, da alimentação aos colchões,
infestados de pulgas e carrapatos. Tony ria quando pensava
nessa fauna minúscula e nos roedores. Sentia-se uma
reencarnação de Noé. Dispunha-se a levar consigo toda
essa enciclopédia de abjeções desde que se salvasse do
claustro asséptico que lhe cabia, como hóspede maldito da
rainha. Abria os braços ao bendito calor tropical: evocava
turbinas, vapores, a fervura de asfaltos e praias. Imaginava
com gosto o suor escorrendo. Maldizia o frio nórdico. Era,
sempre fora, animal do sol, bicho de verão. Bem-vindo, o
calor. Os conselhos maternos perdiam-se nesse patriotismo
tardio e visceral.
Sonhou anos e anos com a volta ao Rio. Queria sentir o
cheiro da maresia. Finalmente, lá estava ele, suado e
algemado, em pleno Rio de Janeiro. Em pouco tempo, a
realidade amarrou as fantasias na coleira. Em menos de 24
horas, as percepções de Tony ajustaram seus ponteiros com
a sensibilidade materna. Quando foi apresentado à prisão
carioca típica, as fichas caíram. Contudo, além das fichas,
logo começariam a cair moedas. Entre as glórias infames do
velho Rio de Janeiro inclui-se a corrupção. Não raro, compra-
se e vende-se a solidariedade informal das autoridades.
Família com posses é o principal ativo na economia
clandestina do cárcere brasileiro. Assim Tony foi abrindo
passagem, em meio a carnificinas e descalabros, e
conseguiu vaga numa cela especial, a uma distância mais
ou menos segura dos confins da civilização, onde
permaneceu de maio a agosto.
Ao chegar, finalmente, à delegacia em cujo cárcere
aguardaria transferência para uma das temidas
penitenciárias de Bangu, mandaram que ele entregasse
todos os seus pertences, mas o pouparam da máquina zero,
que raspava o cabelo dos demais na mão ágil do barbeiro
de plantão. Chamaram-no de senhor. Ele achou aquele
tratamento sinal importante. Não sabia de quê. Depois
entendeu: era branco e de família de classe média. Tinha
potencial para abonar os baixos salários dos representantes
do Estado brasileiro. Antes que Tony abrisse a boca, os
policiais da DP e os faxinas, presos que atuavam como
auxiliares informais, já tinham identificado seu ponto forte e
seu ponto fraco: o bolso e o medo. Foi conduzido à galeria
subterrânea, onde os presos se amontoavam. O cicerone
deixou que Tony caminhasse devagar, provocando nele a
certeza de que tinha chegado sua hora. A idealização do
calor tropical, cultivada no inverno inglês, derreteu, como
todas as outras colunas de seu otimismo. Desfizeram-se
todas elas, em instantes. A mãe não tinha exagerado:
cinquenta graus. Centenas de homens seminus, famélicos,
espremidos, falando as línguas do ódio ou pendurados em
redes feito pássaros abatidos em pleno voo. Era preciso
revezar com os demais. O espaço não era suficiente para
que todos ficassem de pé ao mesmo tempo. A rede era a
solução. O cheiro de esgoto e enxofre borrifava as narinas.
Viam-se roedores, poças de sangue e vômito espraiadas em
afluentes de urina. Na medida em que Tony passava rente
às grades, os presos o fitavam. Estavam ali cerca de
quinhentas pessoas comprimidas. Era o trailer do Rio de
Janeiro e do Brasil, que ele reencontrava.
Tony sentiu medo. Mais do que no veleiro, nas noites de
tempestade. Medo comparável só havia sentido quando o
veleiro sofreu um ataque de baleias, no oceano Atlântico, e
quando viu um tubarão aproximar-se dos companheiros de
viagem, no mar Vermelho. Pavor maior só quando saiu do
corpo, no julgamento.
Parou, examinou o interior da cela e preparou-se para
entrar. Reparou que ao fundo os homens seminus faziam
fila. Esforçando-se, percebeu que a fila se movia mas não
diminuía. O que explicava o moto contínuo era o chuveiro.
Havia um chuveiro. O oásis. Os homens punham o corpo
debaixo da água fria por alguns segundos. Molhados,
arrastavam-se para o final da fila.
Antes que o pavor o dominasse, o faxina lhe disse:
— Tu não precisa ficar aqui.
Tony ainda demorou um pouco para reconectar. Fuso
horário, jet lag, readaptação, emoções fortes, muita
informação concentrada. O cérebro deu um tilt. Ele
encarava o faxina sem vê-lo. E o ouvia mal.
— Tu não tá montado na grana? Então...
— Posso ficar em outro lugar?
— Se puder pagar.
— Quanto?
— Depende.
— Quanto você quer?
— Não quero nada. Sigo a tabela. As coisas aqui estão
organizadas.
— Quanto?
— No momento, os dois quartos especiais com cama
separada e ar-refrigerado estão ocupados. Tem um quarto
maior, na ala social. Mas não tem ar-refrigerado, nem cama
separada. Só beliche.
— Tudo bem, tudo bem. Só não quero ficar aqui.
— São oito camas, quatro beliches, mas tem oito
aparelhos de televisão. Tem um chuveiro e uma geladeira.
— Quanto?
— Dois mil reais de entrada, mais duzentos por semana.
— Tudo bem.
O faxina encerrou o passeio. Missão cumprida. Vendeu a
vaga. O cliente sequer regateou. O método era infalível. Se
o cliente não tivesse o dinheiro, daria um jeito de arranjar.
Todo mundo dava um jeito de escapar da fossa imunda.
Quer dizer, quase todo mundo. Aos miseráveis, a fossa.
DESATINOS DO AMOR NA MANHÃ DE CARNAVAL
Poucos meses depois de instalar-se na cela especial da
delegacia, ainda à espera de vaga na penitenciária de
Bangu, onde cumpriria o restante da pena, Tony foi
surpreendido. O responsável pela guarda dos presos
aproxima-se das grades e o chama. Alguém quer vê-lo. Não
é dia de visita. Ele acha tudo muito estranho. O isolamento
por oito anos em penitenciária de segurança máxima
inglesa excitou sua propensão à paranoia. O contraste com
a década no mar liquidou sua bússola psicológica.
— Está aí uma pessoa pra falar com você. Vem comigo.
— Meu advogado?
Tony estende os braços e encolhe os punhos para as
algemas.
— Minha filha?
— Um policial.
Tony tenta acalmar-se, a cabeça a mil. O guarda
completa:
— Do Bope.*
Caminham pelo corredor principal da delegacia e entram
em uma sala ampla, onde nunca estivera. O guarda retira-
se e o deixa sozinho. O ambiente e o tempo são
combustíveis perfeitos para a fabulação persecutória.
— Tony.
Com o uniforme negro, a arma visível e a caveira no boné,
o policial negro do Bope na soleira da porta sorri.
— Tony, dê cá um abraço.
Avança de braços e sorriso abertos. Tony não consegue
acreditar. É Rogério Mendes, o rapaz que teria sido seu
genro se não tivesse ocorrido o que ocorreu. Abraçados,
Mendes explica, enquanto a emoção derrete aos poucos o
tom hierático da caserna:
— Cara, que alegria, que alegria rever você, que alegria.
O estremecimento do guerreiro desmonta as defesas de
Tony e ele, finalmente, compreende, ao escutar o desabafo
do major:
— Não era racismo, não era racismo. Era tráfico. Ainda
bem, meu amigo. Ainda bem.
Afasta-se, encara o quase sogro, volta a abraçá-lo:
— Tráfico tudo bem, acontece. Pode acontecer a uma
pessoa.
Afasta-se de novo e diz a Tony, as mãos em seus ombros,
olhando-o com ternura:
— Não era racismo.
Esta história começou nos anos 1990. Rogério Mendes
encantou-se pela bela, precoce, assertiva e ativa filha de
Tony Lemos Bisneto. A moça apaixonou-se pelo jovem
policial do Bope: bonito, charmoso, atlético, honesto,
carinhoso, trabalhador, corajoso. Além disso, a postura e a
farda eram uma galeria ambulante de símbolos da
virilidade. A vida de Rogério dava um livro. E deu: livro e
filme. À noite, participava de incursões bélicas às favelas
para localizar e executar traficantes. Ao amanhecer, voltava
ao quartel sede do batalhão, tomava um banho, trocava de
roupa, perfumava-se, fazia um lanche reforçado, metia a
farda na mochila e pegava um ônibus para a Gávea, bairro
afluente da Zona Sul da cidade. Passava as manhãs na
universidade de elite em que estudava direito. Seus colegas
eram jovens ricos que consumiam as drogas vendidas pelos
jovens pobres que ele caçava à noite. Não demorou a
perceber o óbvio: os jovens ricos, raramente molestados
pela polícia, eram brancos; os jovens pobres,
continuamente perseguidos, torturados e executados pela
polícia, eram negros.
Tony já estava envolvido no tráfico internacional de drogas
quando sua filha e o jovem capitão se conheceram. Não lhe
pareceu uma boa ideia conviver com um oficial do Bope.
Pediu à filha que não convidasse mais o rapaz para subir ao
apartamento da família. Que se encontrassem na rua e
fizessem seus programas fora de casa. Não se sentia bem
com a presença de um intruso, por mais educado que fosse.
Mais não disse. Nem era preciso. Não restou à filha
alternativa à verdade. Aliás, além de batalhadora por suas
convicções e seus amores, ela era conhecida entre os
amigos pela franqueza, o que, eventualmente, a fazia soar
agressiva. Quando transmitiu o recado do pai, o namorado
acusou o golpe. A hostilidade doeu-lhe tanto porque não era
original. Replicava uma rotina de separações e rejeições,
inaugurada pelo abandono paterno. Em seu caso, o racismo
brasileiro, o racismo carioca, tão meticulosamente
mascarado pela retórica da democracia racial, encontrava
eco dentro de sua própria casa, no coração de sua biografia.
O pai não o rejeitou pela cor, mas o rejeitou — e isso basta.
A ferida original não cicatrizou. Foi reaberta ao longo da
vida nas tramas da discriminação.
O namoro virou noivado, mas foi subitamente desfeito em
ritmo de drama e suspense. Na sexta-feira de Carnaval, em
fevereiro de 1999, a filha de Tony acordou feliz. A manhã
estava radiante. Ela e Rogério decidiram, dois dias antes,
tornar-se noivos. O casamento ficaria para o segundo
semestre. Aproveitariam o Carnaval para uma viagem
romântica, trailer da lua de mel. A noiva pulou da cama
cedo. Queria fazer compras no supermercado e deixar a
geladeira abastecida para a madrasta e o irmãozinho de
sete anos. Rogério passaria de carro para buscá-la às dez.
Pouco antes das oito, o café ainda na mesa, a madrasta
regando as flores na varanda e o menino jogando video
game, soou a campainha. Esquisito. O porteiro sempre
avisava antes que alguém subisse. Daquela vez, não avisou.
A noiva abriu a porta. Um policial federal mostrou a
identificação, perguntou-lhe se aquela era a casa de Tony
Lemos Bisneto. Ela confirmou:
— Sou filha dele.
O policial não a poupou:
— Seu pai foi preso em Londres por associação ao tráfico
de duas toneladas de cocaína.
O mundo desabou. Nada fazia sentido. Um engano terrível
estava acontecendo. Só poderia ser um mal-entendido. O
policial exibiu o mandado de busca e apreensão. Outros
chegavam para auxiliá-lo. A filha de Tony não queria que o
irmão assistisse ao espetáculo constrangedor e traumático.
Pediu para sair com o menino. Puxou-o pelo braço, tomou o
elevador, saiu do prédio. Viaturas policiais ocupavam a
calçada. Ela evitava chorar para não assustar o irmãozinho,
que felizmente parecia mais interessado nas primeiras
fantasias que a véspera de Carnaval trazia às ruas de
Ipanema, na vizinhança da praia. O cenário montava-se aos
poucos para a grande festa: banhistas em trajes sumários;
batuques, biritas e vozes em coro diante dos bares, os
copos nas mãos; coreografia hipnótica das mulheres,
antecipando o transe do samba; a atmosfera inebriante da
festa que celebra a sensualidade, o ritmo e as inversões.
O mundo da filha de Tony virava de ponta-cabeça.
Imagens, sentimentos, palavras, hipóteses giravam
desgarrados de conexões lógicas até que, passeando
aleatoriamente com o irmão no painel ensolarado do litoral,
sua racionalidade rigorosa impôs ordem ao caos e os
fragmentos se agruparam em relações de causa e efeito: a
prisão do pai poderia provocar a ruína de seu noivo, o
colapso de sua carreira, à qual ele dedicava toda a energia
com tanto sacrifício. Os policiais federais logo descobririam
que Rogério Mendes namorava a filha de um traficante
internacional. Era preciso evitar que o noivo viesse buscá-la.
Mesmo isso seria insuficiente. Era preciso terminar o
noivado. Em benefício do futuro da pessoa que ela amava e
que não merecia pagar pelos pecados de seu pai, se é que
ele os cometera. Ela duvidava. Acreditava na inocência do
pai. Caminhando entre foliões, enquanto a cidade
mergulhava numa outra realidade e as pessoas
preparavam-se para vibrar em outra sintonia, ela permitiu
que uma diabólica associação de ideias se apossasse de sua
consciência e lhe devastasse o coração: talvez Rogério já
soubesse da prisão; talvez tivesse colaborado; talvez o
namoro lhe fosse conveniente para outros objetivos. Ambas
as hipóteses conduziam à mesma conclusão: era preciso dar
fim ao relacionamento. Arrasada pela mutilação a que se
condenou, ligou o celular, telefonou ao noivo e lhe disse que
não viesse, que o pai estava preso em Londres, que não
poderia haver nada entre eles.
Nunca mais se viram.
Muitos anos depois, Rogério Mendes soube da
transferência de Tony para o Brasil. Foi visitá-lo — a alma
leve. Não era racismo.
Dez anos depois do julgamento, dois anos após a
extradição para o Brasil, Tony voltou à liberdade.** A vida de
um egresso não é fácil. Aos 58 anos, sob o peso do estigma,
nada é simples: nem achar um emprego, nem suportar o
desgaste de uma adolescência tardia. No entanto,
encontrou forças para recomeçar e navegar por outros
mares. Tem sido feliz com os filhos, a nova esposa e uma
indestrutível vontade de viver a liberdade reconquistada.
Apesar de tudo, continua afirmando que nada se compara à
beleza do Rio de Janeiro.
* O Bope é uma unidade especial da Polícia Militar do Rio de Janeiro, famosa
pela brutalidade ilegal, a bravura legal e, durante muito tempo, a honestidade.
** O relato biográfico completo está em Luiz Eduardo Soares, Tudo ou nada
(Nova Fronteira, 2012). Os nomes foram mudados.
6. A mulher incomum
Estamos em 13 de agosto de 1970. Nove horas da noite.
O Brasil, sob ditadura desde 1964, mergulhara nas trevas
do obscurantismo, da perseguição política e da censura em
13 de dezembro de 1968, quando um golpe dentro do golpe
marcou a radicalização do regime militar. Dulce e Alexandre
tinham decidido morar juntos havia poucos dias. Apesar do
afeto, o fator determinante era a segurança. O nomadismo
cansava, mas era necessário. Cada mudança resultava de
avaliações cuidadosas sobre riscos e alternativas. A tensão
dava o tom. Curtir um cotidiano tranquilo não era possível,
por mais agradável que fosse aquele apartamento modesto
mas bem situado, no bairro aprazível desde o nome: Jardim
Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro. Ambos
pernambucanos, conheceram-se e apaixonaram-se no
Recife. No Rio, solitários como convinha à vida clandestina,
praticamente só tinham um ao outro. A clandestinidade era
uma obsessão indispensável para a segurança de ambos,
ainda que o âmbito de sua prática política estivesse
reduzido, porque a repressão prendera e matara boa parte
da militância e dizimara as organizações de esquerda. O
que restava fazer era manter vivos os sobreviventes. A vida
de Dulce e a política embaralharam-se desde cedo, a tal
ponto que sair de sua cidade natal tornou-se imprescindível.
No caso de Alexandre, a imersão na vida clandestina era
parcial. Combinava-se com as responsabilidades
acadêmicas. Ele usava o nome verdadeiro e escrevia sua
tese de doutorado no Instituto Nacional de Matemática Pura
e Aplicada, instituição de prestígio internacional. Uma
espécie de refúgio de talentos excepcionais. Ilha de
excelência protegida dos olhares persecutórios da ditadura
pela natureza abstrata de seu objeto de estudo. Fugira do
Recife logo depois de 1964 e estudara engenharia mecânica
no interior do estado do Rio.
Nove e meia. A rua é tranquila. Os únicos ruídos vêm das
TVs ligadas na vizinhança. Por isso, quando ouvem passos
próximos à porta o coração dispara. Não é comum, mas
tampouco impossível que algum vizinho precisasse de
alguma coisa. Alguém de fora do prédio não poderia ser,
porque o portão fica trancado e não há porteiro. Antes que
pensamentos deste tipo se completem, vinte homens
armados com fuzis, metralhadoras e pistolas invadem o
apartamento. O casal não tem armas em casa, nem há
como fugir.
Dulcinha tinha quinze anos quando, ainda morando no
Recife, seu mundo começou a cair. Na manhã do dia 31 de
março de 1964, a caminho da escola com o pai, encontrou o
vizinho fazendo a barba no quintal, navalha na mão,
espelho amparado no pote de espuma sobre o muro. Ele
sorriu, cumprimentou pai e filha, passou a toalha no rosto e
justificou o semblante tranquilo: “General Justino está
conosco”. Sua palavra tinha peso, e o aliado, Justino Alves
Bastos, tropas, armas e munição: era comandante do 4o
Exército. O vizinho era Pelópidas da Silveira, vice-
governador de Pernambuco. Havia sido prefeito do Recife e
passaria à história como modernizador e democrata. Nas
eleições de 1962 uniu-se ao líder reformista Miguel Arraes e
o ajudou a eleger-se governador de Pernambuco.
A serenidade do vice-governador dissolveu a atmosfera
intoxicante de boatos e maus presságios. No entanto, a
tensão inundava a cidade. Dulce, seus irmãos, seus pais e a
parte da família identificada com o governo Arraes
mergulhavam numa história envenenada. A ansiedade
alongava as horas até que as rádios e os telefonemas
sepultaram as últimas esperanças. Anoitecia. Luiz Pandolfi e
Eurico Chaves Filho, pai e tio, não puderam protegê-la da
cena. A imagem sintetizaria todo um período da história do
Brasil e lançaria a menina para dentro de suas trevas. Como
quem dá de comer à besta, os dois homens abasteciam
uma fogueira com os livros da biblioteca que era o orgulho
supremo do pai. Enquanto a cultura jurídica ardia e a
literatura virava cinzas, as chamas na cidade escura, aos
olhos da menina, velavam o fim do mundo — tal como ela o
conhecia. Luiz Pandolfi era advogado trabalhista, professor
universitário e crítico literário. Eurico Chaves Filho, juiz do
trabalho, era outro personagem ativo na cidade, estreito
colaborador do governo Arraes.
Na virada para o dia 1o de abril de 1964, qualquer pessoa
vagamente ligada ao governo Arraes ou a movimentos
sociais passava a ser vulnerável. Livros seriam a prova
inconteste do crime. Os golpistas invadiriam qualquer casa,
cujo significado portanto esvaziava-se, na mesma toada em
que a privacidade perdia o valor. Quando a ditadura se
consolidasse, o que não demorou a acontecer, não só os
adeptos do governo deposto como todos os críticos do novo
regime estariam expostos à ação repressiva da polícia
política. Livros precisavam sumir. Cartas, documentos,
jornais, anotações, os vestígios de ideias comprometidas
com reformas sociais tornaram-se inflamáveis. A prudência
recomendava baixar o tom da voz e a cabeça: cada
interlocutor poderia ser um informante. Naquela noite
distante, em 31 de março de 1964, ao lado do fogo, Dulce
testemunhou a tragédia política brasileira em sua versão
mais didática. A mais gráfica e brutal desfilaria diante dela
no dia seguinte.
Em 1o de abril, o golpe já era uma realidade. O novo
poder e seus tentáculos estaduais começavam a se
organizar, mas, para os defensores da legalidade
constitucional violada pelos militares, as incertezas só não
eram maiores que a certeza da derrota. Divulgaram-se as
primeiras listas com os prováveis cassados, banidos da vida
política, expulsos do serviço público, inclusive da
universidade, cujos passaportes seriam invalidados: os
nomes de Luiz Pandolfi e Eurico Chaves Filho estavam lá. No
meio da tarde, balbúrdia e vozerio atraíram a curiosidade
amedrontada de Dulce. Ela correu até a esquina da rua
Guedes Pereira com a avenida asfaltada. Gritos, insultos, a
menina não tinha força para empurrar tantos adultos,
meter-se entre eles e ver o que estava acontecendo, lá bem
no meio da confusão. Ela queria espiar quem ia ali no centro
do tumulto entre palavrões, estalos de corrente na pista,
pequenas explosões do couro no corpo do animal. Gregório
Bezerra, braços amarrados, os pés queimados em ácido,
apanhando ao longo do caminho, foi puxado, às vezes
arrastado, por uma viatura militar até o cárcere. Pequenas
pedras do chão e fragmentos dos mais diversos materiais
entranharam-se em seus pés em tamanha quantidade e de
forma tão profunda, que sua filha ainda as extraía com
pinça, em visitas à cela, seis meses depois. Membro do
Partido Comunista Brasileiro, de origem camponesa,
Gregório ficou preso até setembro de 1969, quando foi
incluído na lista dos presos políticos trocados pelo
embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick e pôde
exilar-se.
Dulce voltou para casa trêmula e confusa. O golpe de
Estado agarrava o espírito da menina, a mulher que ela viria
a ser, dando-lhe um nó que os ligaria para sempre numa só
história. A política para Dulce, assim como para tantos de
sua geração, longe de ser uma área de interesse ou um tipo
de atividade, tornou-se desde aí o modo pelo qual
experimentaria a relação consigo mesma e com os outros, o
sentido da vida.
Em 13 de agosto de 1970, o começo dessa história não
tem mais importância. Nem a memória nem o sonho vence
o medo. Vinte agentes da repressão política armados
invadem o apartamento de Alexandre e Dulce. É prodigiosa
sua capacidade de aterrorizar, o que em tese tornaria a
violência física dispensável. Nem por isso a tropa abdica de
exercê-la. Avança como a infantaria de uma força de
ocupação, destruindo obstáculos, revirando tudo o que
esteja à frente, deixando claro que o limite de suas ações é
ditado por seu próprio arbítrio. A inspeção demora-se sobre
os indícios dos crimes mais graves. Primeiro, a papelada de
Alexandre, repleta de fórmulas insondáveis, provavelmente
os planos criptografados de ataques a centros nevrálgicos
do poder. Eram esboços de capítulos de sua tese de
doutorado em matemática. Alexandre explica, nega,
pondera. Em vão. O comandante está convicto de que no
interrogatório a verdade será extraída como um tumor. Sem
anestesia. A segunda prova é o molho de chaves na
mesinha da sala. Para que tanta chave? Os militares
supõem ter descoberto o mapa da mina que os levaria aos
aparelhos onde se escondiam os subversivos. O líder da
operação vibra, indiferente à justificativa de Dulce: são
cópias das chaves da portaria e do apartamento. A terceira
evidência comprometedora é a carta de dona Carmen para
Dulcinha, sobretudo este parágrafo cifrado: “Se você
precisar de qualquer coisa, minha filha, lembre-se de seus
primos. Pra isso existem as famílias, não é? Dinheiro, abrigo,
qualquer aperto, não hesite em recorrer a eles. O R. está
morando em Copacabana, na DF 50X, apartamento XX
[escrevia os números]. A Lurdinha, lembra da Lurdinha?,
manda sempre beijos pra você. Diz que quando você voltar
do Chile, gostaria que você fosse ao Rio visitá-la, matar
saudades. Ela vive em Botafogo, na rua B…”. A mãe
extremosa dava os endereços dos parentes para que a filha
se sentisse amparada e contasse com apoio, em caso de
necessidade. Sua preocupação com a vigilância sobre a filha
levou-a a censurar as próprias palavras, inventando senhas
sob a forma de abreviaturas. A imaginação ardilosa de dona
Carmen não ia além, mas foi o esforço de não dizer,
dizendo, que abriu os olhos da repressão, sugerindo a
hipótese de que talvez houvesse ali algo mais. Não havia.
Contudo, custou a prisão aos parentes citados. Um dos
episódios continha ingredientes de comédia em meio ao
drama. O primo recebia amigos para uma festa quando o
comando operacional do Exército invadiu seu apartamento.
Todos os convidados foram presos. A reunião social foi
confundida com um encontro político sob o disfarce de
música, dança e bebidas. Cada convidado que tocava a
campainha, antes de compreender que caíra numa
armadilha, era levado a confirmar que fora chamado pelo
dono da casa. Prevenia-se desse modo a desculpa de que o
suspeito enganara-se de prédio ou apartamento e sequer
conhecia o alvo principal, organizador da reunião.
Dulce tem 21 anos. A linha política de sua organização, a
Aliança Libertadora Nacional, vinha sendo questionada por
ela, por alguns companheiros de militância e pela realidade.
O poder do Estado era desproporcional. Tudo o que se
erguia para lhe fazer sombra definhava, parecia cada vez
menor, mais frágil e vulnerável, quase pueril. A ditadura
esmagava sem pudor toda oposição. A crença de que o
enfrentamento quixotesco serviria de exemplo ao povo
oprimido e o faria levantar-se do chão, assim como uma
faísca incendeia o mato seco, contrastava com o que se via
nas ruas, nas praças, no campo, na mídia censurada e
cooptada. As rotinas se reproduziam, as semanas davam
voltas ao redor de si mesmas, e o medo empurrava as
coisas todas para frente como esteiras de tanques
arrastadas por correias dentadas.
“Se há coisas que devem ser feitas, vocês devem fazê-las
rapidamente e retomar rápido os procedimentos normais”,
disse Henry Kissinger, secretário de Estado norte-
americano, ao chanceler argentino Cesar Augusto Guzzetti,
em junho de 1976.* O alerta de Kissinger soava como uma
autorização. Mais que isso, uma prescrição. Constituía um
movimento preventivo aos prováveis efeitos da eleição de
Jimmy Carter, que tomaria posse na presidência dos Estados
Unidos em 20 de janeiro de 1977, e ao impacto da nova lei
promulgada pelo Congresso norte-americano, suspendendo
qualquer tipo de ajuda a países que violassem os direitos
humanos. Era preciso agir rápido antes que a nova
legislação entrasse em vigor. Exterminar uma geração.
Lançar em voos rasantes milhares ao mar amarrados a
pedras. Fulminar celeremente qualquer vestígio de
resistência ao regime despótico. Não foi o caso do Brasil.
Quando a ditadura brasileira alcançou a voltagem mais
elevada, entre 1969 e 1974, não havia motivo para
açodamento nem atropelos. Cada torturador tinha o tempo
que lhe apetecesse para cravar na carne de sua vítima o
aço do terror. E manipular para cima e para baixo a máquina
dos tormentos, mover as garras eletrificadas para dentro
das mucosas inflamadas, despedaçar o corpo, instilar o
pânico, brincar com a morte. Menos nas 24 ou 48 horas
seguintes à prisão. Setenta e duas, talvez. No decurso dos
primeiros dias, sobretudo do primeiro, era preciso ser
profissionalmente cruel e veloz, aplicando a carga máxima
de dor que uma pessoa pudesse suportar para extrair as
informações imprescindíveis, cujo prazo de validade
esgotava-se em um, dois ou três dias após a queda. “O
próximo ponto, onde será? Quando? Com quem você se
encontraria? Quais os endereços dos aparelhos que você e
seus companheiros frequentam?” Se a confissão não fosse
obtida de imediato, a notícia da prisão chegaria ao grupo,
os aparelhos seriam desmontados e os encontros,
desmobilizados.
O segredo estava na identificação dessa medida fugidia,
variável, idiossincrática: a intensidade da dor que a pessoa
pudesse suportar. A competência do torturador residia na
calibragem da carnificina. A imprudência mata a galinha dos
ovos de ouro, conta o ditado popular. Avançando-se com
muita sede ao pote, quebra-se-o. A equipe de tortura e os
oficiais supervisores não queriam quebrar o pote, pelo
menos enquanto não tivessem absoluta certeza de o
haverem esvaziado inteiramente. De que serviriam o
cadáver estéril da galinha e o pote em pedaços? Nem ovos
de ouro nem informações. Perde-se a fortuna por excesso de
ambição. Que proveito poder-se-ia extrair de uma
subversiva morta?
O brutamontes bate, o troglodita ataca, o sanguinário
despedaça o alvo do ódio até o limite de sua energia. Mas
essa gana por violência na diversidade de suas formas não
basta para fazer de alguém um torturador eficiente, um
verdadeiro profissional do interrogatório forçado. O ofício
requer autocontrole para administrar o ímpeto assassino
com a precisão de um geômetra. Por outro lado, exige a
vocação sádica, sem cujo vigor passional o talento para o
cálculo seria ocioso. A ditadura brasileira formou inúmeros
torturadores de escol, recrutados nas polícias e nas Forças
Armadas, Exército, Marinha e Aeronáutica. Homens com
sangue nos olhos e nas mãos — não há relatos do
envolvimento de mulheres —, orgulhosos de sua prática,
leais à política de Estado que lhes cumpria implementar,
muitas vezes condecorados pelos generais de plantão.
Alguns ainda estão vivos. Arrastam a sombra na coleira, a
maioria desdenhando com escárnio as denúncias que não
cessam. A patologia institucionalizou-se. As Forças Armadas
ignoram o passado. Os torturadores de todas as patentes
envelhecem em meio ao alarido festivo dos bisnetos nos
almoços de domingo. Distraídos, escorregam para a
senilidade, essa melancólica inocência tardia. Aí está a
decrepitude a serviço da amnésia histórica.
Dulce queria acreditar que não a matariam. Sua prisão
seria logo reconhecida pela família, porque a falta de
notícias funcionaria como um código. Além disso, a prisão
dos parentes, em circunstâncias patéticas, comprovaria o
fato. Só Dulce mantinha vínculos com uma organização
clandestina. Os laços de Alexandre com o Partido Comunista
Brasileiro, que provocaram sua fuga do Recife, em 1964,
foram esgarçados por tantos desacordos e decepções e já
não existiam. Por que os torturadores matariam a menina
pernambucana sem nenhum papel de destaque numa
organização que se esfacelava? No Recife ela havia ocupado
função de liderança, cooperando no recrutamento de muita
gente, mas sua participação vinha sendo reduzida porque
se expusera demais. Sua permanência no Recife tornara-se
perigosa para ela e para a ALN. Era imperioso mudar-se para
uma cidade realmente grande, onde ninguém a conhecesse
— ou quase ninguém. O Rio de Janeiro venceu a
concorrência com São Paulo porque Alexandre estava lá. E
também porque ela adorava o Rio.
O amor pela cidade não era novidade. Em dezembro de
1963, em vez do tradicional baile dos quinze anos, ritual de
passagem que as meninas aguardavam com ansiedade,
cujo ápice era a valsa dançada com o pai, a família decidiu
que viajar de navio para o Rio seria muito mais divertido.
Embarcaram com Dulce para a ex-capital do Brasil, os pais,
a avó, uma prima e três irmãos. A cidade era puro
deslumbramento. A experiência combinava fantasia, cenário
exuberante e novidades sedutoras, como um beijo, um
chope, o primeiro porre, a sensação de liberdade. O bairro
de Ipanema era a visão do paraíso, e sua aura licenciosa
autorizava a ousadia de um biquíni, inteiramente vetado
pela tradição conservadora pernambucana. Enquanto os
pais se entretinham com museus e pontos turísticos, as
meninas e os meninos divertiam-se na praia e nos
barezinhos.
Dulce foi ao Rio uma segunda vez para curtir a cidade, em
1967, acompanhando um grupo de estudantes. Na terceira
viagem, em 1969, tinha uma tarefa desafiadora a cumprir.
Em fevereiro de 1970, não podia mais ficar no Recife. Rio de
Janeiro era o destino natural.
Sim, era muito importante acreditar nisso às nove e meia
da noite do 13 de agosto de 1970: não a matariam. Dizia a
si mesma que não a matariam, saiu de casa encapuzada e
algemada, ouvindo ameaças, repetindo em silêncio que
sobreviveria. Afinal, para os algozes, que proveito haveria
em sua morte? Ao longo de muitas horas, atravessando a
madrugada, ela trancou-se num estado de espírito que não
permitia hesitações. Estava ciente de que o pior seria dar
aos poucos o que os torturadores queriam. Oferecer
fragmentos de informação, gradualmente, anima os
interrogadores a seguir adiante, porque deduzem que o
método funciona e terão sucesso com perseverança e a
progressiva intensificação dos tormentos. É a desgraça do
prisioneiro. Dulce sentia-se culpada pela prisão de
Alexandre e pela hipótese de que parentes poderiam
amargar a mesma sorte. Jurou para si mesma que ninguém
mais pagaria preço tão alto por uma opção política que era
exclusivamente sua. Pensou nos pais, nos irmãos no Recife.
Talvez a mistura do medo com a culpa tenha provocado
uma espécie de paralisia, um curto circuito que,
paradoxalmente, protegeu-a e a fortaleceu.
Chegaram ao que parecia ser o limite. Os choques a
devastavam, mas ela se mantinha calada após cada
corrente de espasmos. Era necessário mudar o método.
Tentariam o soro da verdade. Desamarraram-na e a
desceram do pau de arara. Suas articulações estavam
moídas. Impossível manter-se de pé. Jogaram-na sobre a
cadeira do dragão. Minutos depois, o médico entrou na sala
sem demonstrar dúvidas quanto ao procedimento. Procurou
sua veia e, fleumático, certeiro, injetou-lhe o líquido oleoso.
Dulce não perdeu a sanidade, mas teve a impressão de
afastar-se um pouco do espaço ao redor. As percepções
perderam o viço. O médico retirou-se. Voltaria a encontrá-la
muitas vezes.
O teatrinho do bom e do mau inquiridor era um clichê. Por
isso, mesmo dopada, Dulce não se surpreendeu quando foi
conduzida a outra sala, autorizada a sentar-se, e ouviu a
conversa educada, quase amistosa, de um agente que não
estivera na sala roxa, onde ela sofrera a primeira sessão de
tortura. Amanhecia o dia 14. Foram muitas horas na sala
roxa. Entre desmaios e desespero, perde-se a noção do
tempo. O espaço pintado para assombrar ficava no subsolo
do quartel do exército localizado na rua Barão de Mesquita,
no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Área de
classe média. Dulce foi transportada de casa para o DOI-Codi
separada dos demais presos.
A sigla para Destacamento de Operações de Informações
—Centro de Operações de Defesa Interna era sinônimo de
sucursal do inferno para os que sabiam de sua existência. O
DOI-Codi era um departamento que reunia várias forças de
repressão, em especial do Exército, dedicado a investigar
crimes políticos, adotando a metodologia ortodoxa do
Estado brasileiro: a violência tecnicamente aplicada. Até fins
do século XIX, as vítimas eram os escravos. Depois do fim da
escravidão, em 1888, passaram a ser os pobres, sobretudo
negros. Finalmente, após o golpe de 1964 e até o fim da
ditadura, entre os alvos da violência estatal incluíram-se os
opositores do regime, opção que estendeu às camadas
médias da população o tratamento brutal. Com a
redemocratização, a história retomou o velho trilho e, a
despeito de mudanças significativas, as práticas cruéis
voltaram a apontar seu crivo seletivo para pobres e negros,
moradores de favelas e periferias. Os benefícios do Estado
democrático de direito ainda não chegaram à base da
pirâmide social.
Ao longo do regime militar, a novidade não se resumia à
ampliação do espectro de abrangência da violência do
Estado. Outro fenômeno extremamente grave contrariou a
tradição: em vez de delegar a tarefa às polícias, as Forças
Armadas sujaram as mãos, diretamente, na repressão
política. Isso não significa que as polícias não estivessem
presentes, atuando lado a lado com os militares, dos quais
recebiam ordens. Não por acaso, nas dependências do DOI-
Codi Dulce deparou-se com broches e anéis do esquadrão
da morte, a famigerada Scuderie Le Cocq, grupo de policiais
especializados em execuções extrajudiciais e outras
atividades do tipo. A tradicional promiscuidade brasileira,
especialmente carioca, entre a lei e o crime, as polícias e a
transgressão, exacerbou-se durante o regime militar, que
autorizou o vale-tudo da repressão política. Por isso, o
legado da ditadura à democracia foi o fortalecimento de
grupos policiais criminosos que se desgarraram
progressivamente das instituições, sem abandoná-las, e
passaram da justiça pelas próprias mãos ao crime como
negócio, investindo, por exemplo, na contravenção — o
chamado jogo do bicho — e no tráfico de drogas e armas.
O homem de fala mansa era muito alto e forte e disse a
Dulce que o pior já tinha passado, ela não seria mais
torturada. Bastava que declarasse quem encontraria no
próximo ponto, para onde estava marcado e a que horas,
quais os endereços dos aparelhos, a que dirigente se
reportava, quem eram os ativistas no Recife e no Rio.
Haveria depois uma ou outra pergunta, mas nada demais.
Por ora, seria suficiente responder àquelas que ele
formulara e tudo estaria encerrado. Dulce mostrou os lábios
queimados e sangrando, a língua inchada em carne viva, e
sussurrou com um fio de voz que não estava em condições
de falar. O agente pediu-lhe, então, que assinasse um
depoimento. Não era nada, prosseguiu, nada que já não se
soubesse, nada que prejudicasse alguém ou que a pudesse
comprometer diante dos antigos companheiros de
militância, e que a tornasse uma delatora. O documento era
necessário por razões burocráticas e simplesmente
atestaria que os agentes tinham realizado seu trabalho. O
homem admitiu que, com toda sua vasta experiência e
tendo ouvido o relato sobre o comportamento de Dulce na
sala roxa, era levado a concluir que ela estava mesmo
decidida a não abrir nenhuma informação. Por isso, não
estava lhe pedindo nada importante. Em seguida, estendeu-
lhe folhas de papel com o texto datilografado que lhe cabia
endossar. Nenhuma frase continha informação valiosa, ele
garantiu. Pode ver.
O homenzarrão abanou os papéis na frente dos olhos de
Dulce como se estivesse comprovando o que dissera. Assina
aqui. Ela mostrou as mãos desfiguradas pela profundidade
dos ferimentos, sobretudo nos dedos em que se prendia o
cordão metálico condutor da descarga elétrica, em rodízio
com a vagina, os bicos dos seios, os lábios e a língua, as
pontas das orelhas e os dedos mínimos dos pés, quase
amputados pela repetição dos choques. Os punhos, os
tornozelos e os joelhos também apresentavam lesões
graves porque, na sala roxa, ela permaneceu muitas horas
no pau de arara, apelido da barra de ferro suspensa na qual
se pendura a pessoa interrogada para atormentá-la de
modos variados, atando-se os pulsos aos tornozelos,
empregando-se os joelhos como alavanca. Mais do que na
cadeira do dragão, outro dispositivo utilizado para aplicar
choques, a mulher desnudada diante de um grupo de
homens no pau de arara expõe-se a humilhação extrema
quando submetida a choques elétricos intensos, indutores
do descontrole das funções corporais. A destruição
promovida pela dor física combina-se à tentativa de
decomposição moral. De tempos em tempos, seja para
despertá-la de um desmaio, seja porque Dulce mantinha-se
absolutamente refratária a pronunciar qualquer palavra, a
responder a qualquer pergunta, jogavam-lhe sobre o corpo
pendurado no varal obsceno um balde d’água gelada.
Sucediam-se os momentos mais temidos de sofrimento
mais agudo, porque o meio líquido potencializa a
transmissão da corrente elétrica e intensifica as descargas.
Ela entendeu o significado da expressão “ver estrelas”,
empregada para descrever a experiência da dor extrema.
Nesse caso, as chispas do espirro de fogo eram reais. A pele
alva relampejava.
Assina aqui, o homem insistiu com um tremor na voz que
traía alguma instabilidade abaixo da superfície. Dulce
mostrou de novo as mãos e compôs uma expressão facial
que sugeria a intenção de desobedecer. Passaram-se
poucos segundos, intervalo insuficiente para que as tensões
evoluíssem com alguma naturalidade e os sinais indiretos
fossem plenamente decodificados. Por isso, Dulce mal
compreendeu o que estava acontecendo quando o atleta da
mansidão projetou seus quase dois metros e mais de cem
quilos sobre o corpo fragilizado da prisioneira. Ela desabou
indefesa, as mãos atadas nas costas por algemas, e sentiu,
deitada no chão, a força descomunal dos chutes do homem
nas pernas, no ventre, no rosto, nos seios, até que se
esfumaram as últimas ondas de consciência. Os berros do
agente, enquanto ela os ouviu, proclamavam sua sentença
de morte e a liquidação de todos os subversivos sobre os
quais ele pusesse as mãos — e os pés. O ódio do carrasco
agia em seu lugar. A fúria se apossara dele. A violência se
desgarrara do homem e seguia golpeando como a cauda de
um animal morto. Dulce era bombardeada por flashes de
lucidez. No intervalo entre a escuridão e a dor, percebeu
que outros agentes acudiam, agarrando o mastodonte aos
gritos de que ela não podia morrer, não podia morrer.
Suspenso o espancamento, Dulce já não conseguia andar.
Foi depositada numa saleta escura de quatro metros
quadrados enquanto os agentes discutiam seu destino. Esse
lugar bizarro ficava no mesmo subsolo e servia para
remover a vítima por um breve período, enquanto as
equipes se revezavam ou a sala roxa fosse lavada. Dois
sentimentos atraíram o ânimo de Dulce para direções
opostas. Se não a matariam, não poderiam continuar a
torturá-la. Alívio, esperança, um gole de oxigênio em meio
ao cheiro de carne queimada e às dores que disputavam
sua atenção. Por outro lado, o pavor que a fez estremecer: o
lado esquerdo do corpo, ela não o sentia, não era capaz de
movê-lo. Antes de fecharem a porta do cubículo
claustrofóbico, entreouviu fragmentos de frases e
depreendeu que o motivo da divergência era o hospital do
Exército: deveriam interná-la ou não? Dulce torcia pela
hipótese da transferência. Sabia que muita gente tinha sido
torturada e morta nas dependências do hospital. Internada
ela não estaria segura. Entretanto, as chances de que a
deixassem recuperar-se, lhe dessem uma trégua, seria
maior do que no centro especializado em torturas onde
estava. Além disso, do hospital seria mais fácil que
vazassem notícias sobre ela e, quanto mais gente soubesse
de sua prisão e de seu estado, menos provável seria sua
execução.
Ela acabara de descobrir que as emoções dos
torturadores estão à flor da pele, o que significa que a
orientação de mantê-la viva não representa nenhuma
garantia de que ela sobreviva. Há explosões de fúria,
descontrole, erro de cálculo, acidentes de percurso,
esgotamento do lado de lá. O ódio não era a única
experiência que torturador e torturada compartilhavam.
Havia a exaustão, depois de uma noite inteira na câmara do
horror, ainda que as respectivas estafas não fossem
comparáveis por motivos óbvios. Mesmo assim, havia
desgaste. Alguns agentes pareciam frios, profissionais da
violência desprovidos de qualquer sinal de vida interior. Mas
a maioria dos que a torturaram não era assim: parecia
envolver-se, entregar-se à produção de sofrimento —
divertindo-se ou espumando de raiva. Talvez houvesse, para
o torturador, mais que prazer e ódio. Quem sabe um
vestígio de consciência moral, o que provocava culpa e
vergonha. Para eliminá-las, era preciso destruir suas
marcas. Desse modo, o ciclo se perpetuava: ferir e dissolver
a ferida, intensificando a brutalidade, até apagar do mapa
qualquer rastro que pudesse espelhar para o algoz sua
própria imagem degradada no corpo do outro.
Dulce não pensou em nada disso com a clareza
consciente de quem analisa um fenômeno. Há diferentes
modos de saber. Ali, o que ela aprendia ficava marcado no
corpo e em algum lugar da memória. Não tinha como
pensar em nada além da paralisia e da insensibilidade de
um braço, uma perna, mão, pé, um lado do rosto. Por mais
que soubesse que os agentes fariam tudo a seu alcance
para amedrontá-la, inclusive mentir, esteve próxima de
acreditar quando lhe asseguraram que jamais se
recuperaria, nunca teria filhos nem voltaria a andar, e que
sua vida estava definitiva e irremediavelmente arruinada.
Foi o que lhe disseram enquanto aplicavam os choques. Foi
o que confirmaram quando pediu atendimento médico
porque não sentia seu corpo.
Dulce percebeu que, na selvageria dos torturadores, havia
método. O louco, o frio ou o sádico, qualquer que fosse o
tipo do torturador ou o personagem que ele representava,
havia sempre a disciplina dos tormentos, que se
manifestava na gradação da dor e na modulação dos
efeitos, salvo na eventualidade da explosão de algum
brutamontes estressado e temperamental. Variavam a
intensidade e a qualidade do sofrimento. Parte da tática
adotada pelos inquisidores era a hostilidade jocosa, com a
finalidade de abalar mais profundamente a vítima. Os
choques elétricos eram classificados de acordo com a parte
do corpo em que se prendia o fio, sua duração e a voltagem
escolhida: maior, menor, estável, descontínua, crescente,
irregular, cadenciada por picos e súbitas interrupções. Sua
aplicação era antecedida pelo anúncio do título de cada
variante: “Viagem à Rússia”, “Viagem à China” e, o pior de
todos, o mais forte e longo, “Viagem a Cuba”.
Decidiram que Dulce não seria internada no hospital do
Exército. Improvisaram uma enfermaria numa cela em
algum andar superior, onde ela permaneceu por cerca de
uma semana, untada com pomadas, ingerindo
medicamentos, tomando soro. A tarefa agora era resistir ao
enlouquecimento. Fixar-se em alguma atividade. Não havia
o que fazer. Diariamente, faziam questão de deixar muito
claro que ela voltaria à sala roxa assim que suas condições
melhorassem. O medo de enlouquecer inspirou estranhos
entretenimentos, como calcular o número de estrias no
chão e a quantidade de granulações na parede. As sinapses
exercitadas, seria reduzido o tempo ocioso, berço dos
pesadelos. Outro método para resistir à loucura consistia
em trançar fios de palha puxados do colchão para logo
desfazer o trançado e enfiar a palha de volta no colchão,
antes que aparecesse alguém. Numa das celas estava
escrito: “Aqui a criança chora e a mãe não ouve”. Sem foco
alternativo, qualquer que fosse, mesmo o mais artificial,
restavam ao espírito a memória da dor e aquele anúncio
diabólico do desalento, que evocava a solidão absoluta do
ser humano diante do impensável, diante da realidade
traumática que ninguém consegue assimilar, compreender
e controlar. Dulce tremia ante o horror, não a morte; o
interminável, não o fim. Decidiu não se render. Exercitaria a
mente e renovaria o voto de travar-se. Não extrairiam dela o
que queriam. Ela não venceria a morte, nem eles, a vida.
Um dia a consideraram forte o suficiente para voltar à
sala roxa. Chegara o momento de a submeterem a outros
requintes de crueldade. Durante uma sessão de tortura,
abriram a porta e empurraram para dentro um jacaré. O
animal tinha cerca de um metro e provavelmente estava
bem alimentado, porque não a atacou. Passeou por seu
corpo e foi tudo. Rendeu-se ao convívio promíscuo com o
réptil, mais amedrontador do que perigoso.
Depois de alguns dias, Dulce passou a dividir a cela com
outras presas políticas. A vantagem era a solidariedade e os
cuidados proporcionados pelas presas políticas mais velhas
e experientes. Nunca a fraternidade, a empatia e a
compaixão lhe pareceram tão maravilhosamente centrais
para a sobrevivência do espírito, e do corpo. Aceitou rezar
com as religiosas, sem crer. Crer era irrelevante. Avocar
todas as forças, existentes ou não, lhe fazia bem. Pela
manhã, à tarde, à noite, não importava o horário, a
qualquer momento um soldado poderia vir buscar alguém.
Ninguém saía da cela senão para a tortura, não havia outra
hipótese. Por isso, o som de passos aproximando-se, o ruído
junto à porta, o movimento da porta se abrindo, a figura do
militar sem a bandeja com repolho prenunciavam o pior —
só serviam repolho em todas as refeições. Se o guarda
entrava sem bandeja, uma das presas seria levada para a
tortura. Todas se encolhiam. O agente fazia questão de
iniciar a tortura ali mesmo olhando para cada uma
fixamente, fingindo a dúvida, ironizando o medo que seu
jogo perverso espalhava na cela, saboreando o prazer de
assenhorear-se das emoções daquelas mulheres.
Finalmente, apontava para uma delas. As demais bradavam,
assassino, covarde. Não podiam mais do que isso. A presa
era encapuzada e levada à sala roxa, sujeita à covardia de
seu carcereiro ao longo do trajeto. Ele esticava a perna para
que ela tropeçasse, batia sua cabeça contra a parede,
informava a existência de degraus inexistentes. Divertindo-
se, fazia da travessia para o inferno a experiência de sua
antecipação. À noite, com frequência, oficiais superiores
visitavam as prisioneiras acompanhados por cães que
rivalizavam em ferocidade com seus condutores, os
anfitriões das autoridades. Essa aí levou um tombo na igreja
quando foi se confessar, não foi isso, minha santa? O militar
subalterno puxava um dos cães pela corrente e contava sua
piadinha, para o riso dos visitantes. Aquela caiu da bicicleta,
aquela outra ali apanhou tanto do marido que a gente teve
de trazer pra cá senão o cara acabava com ela, não foi,
putinha? Viu no que dá botar chifre em macho? Os
superiores sorriam, hieráticos, mantinham-se calados e só
eventualmente intervinham, proferindo algum breve
discurso exaltando a ordem, o progresso, a pátria, a família,
a propriedade, os bons costumes e os poderes constituídos.
Dulce estava próxima de completar o primeiro mês no DOI-
Codi quando a levaram à sala roxa para uma experiência
inusitada. A frequência da visita à câmara de tortura fora
reduzida na última semana, suscitando a esperança de que
o pior tivesse passado. Por isso, quando o soldado abriu a
porta da cela e apontou para ela, a angústia tomou conta.
Naquela manhã, não estavam apenas os quatro
torturadores que compunham a equipe de rotina. Havia
mais gente. Muito mais. Ela ouvia o murmúrio e não
compreendia o que era aquilo. Quando lhe arrancaram o
capuz, viu que muitos homens desconhecidos se
comprimiam de pé, cravando nela os olhos, enquanto os
agentes conhecidos a desnudavam e a penduravam no pau
de arara. O oficial que comandava os procedimentos dirigia-
se ao grupo explicando o potencial de cada movimento para
friccionar os ossos, esgarçar os músculos, rasgar a pele,
atingir os nervos, produzir dor em intensidades variáveis,
provocar o pavor com as alterações metodicamente
controladas, jogando com as expectativas e quebrando as
barreiras do pudor, da autoestima, do autodomínio. O
mestre expunha a teoria e exibia seus efeitos práticos,
determinando ao subordinado que manuseava o voltímetro
a elevação ou a diminuição da força dos choques elétricos,
e trocando, ele mesmo, os pontos no corpo que eram
queimados, um a um. Demonstrou à turma de aprendizes o
resultado que se obtinha molhando-se o corpo supliciado
com água gelada. Mostrou como evitar o lado esquerdo, do
coração, para não acelerar a morte indesejada. Apresentou
as técnicas para ocupar os intervalos entre ciclos de
choques elétricos, batendo nas solas dos pés ou em partes
especialmente sensíveis, com mais chances de minar
resistências. A violência das descargas, a sucessão de
golpes, as palavras neutras que descreviam seu impacto, os
anúncios dos atos seguintes em detalhes sádicos e o
ambiente que amplificava o horror atropelaram todos os
limites físicos e mentais. Era previsível que a vítima se
afogasse com o vômito e desmaiasse.
De volta à cela, abraçada aos prantos pelas
companheiras, Dulce recebeu a visita do médico que lhe
aplicara o soro da verdade no primeiro dia e supervisionara
o tratamento na enfermaria improvisada. Ele a examinou,
acompanhado de um militar, e proferiu o diagnóstico, ou a
sentença: aguenta mais. Não está bem, mas aguenta. Dois
soldados entraram na cela, agarraram-na e a arrastaram
para a sequência da aula. As mulheres na cela ecoaram os
gritos de Dulce, não, não, assassinos, ela vai morrer, vocês
vão matá-la, covardes.
Dessa vez, conduziram-na ao pátio. Amarraram-na a um
poste. O comandante da operação suspendeu o capuz para
lhe mostrar uma pistola municiada. Disse-lhe que sua morte
tinha sido decidida. Os alunos amontoavam-se, atentos.
Abaixou o capuz. Às cegas, tudo parecia mais assustador.
Aproximou a arma de sua cabeça, encostou o cano,
entreteve-se em longa peroração sobre o destino dos presos
que se recusam a colaborar e a importância de que sejam
eliminados os traidores da pátria, assinalando que qualquer
hesitação de um militar no cumprimento do dever é passível
de punição com a pena capital. Portanto, cumpria-lhe
executar aquela terrorista. Faria isso por amor ao Brasil.
Voltou a pressionar o cano da arma contra a têmpora de
Dulce, fez com que ela sentisse seu dedo deslizando
lentamente sobre o gatilho, e apertou-o. O clique desarmou
a tensão. Provisoriamente. Dulce tinha certeza de que não
queriam matá-la. A execução era uma pantomima. Mas
acidentes acontecem. Entre intenções e atos há falhas. Por
mais frio que fosse o professor, ele não disfarçava o ódio.
Por isso, cada simulação lhe custava o ar e quase a fazia
desfalecer. Sobreviveu de novo. Só relaxou quando, de volta
à cela, foi envolvida pelas companheiras em abraços e
soluços.
Dias depois vieram buscá-la à noite. Dulce estava
convencida de que não haveria mais surpresas. Vira tudo,
cruzara o inferno. Enganara-se. Conduziram-na à sala roxa e
lhe ordenaram que permanecesse de pé à espera do oficial
que comandaria o interrogatório. Procurou concentrar-se em
coisa nenhuma, esvaziar a mente, respirar. Ouvira dizer que
meditação ajuda a dissolver o desespero. Finalmente,
entrou o homem, observou-a como quem inspeciona carne
no açougue e lhe disse que daquela vez os choques
extrairiam a confissão, ou acabariam com ela. Sentou-se à
mesa, entreteve-se com papéis e carimbos, agiu como se
estivesse atarefado. Ergueu-se, movimentou-se como quem
se prepara para as providências que antecedem a tortura,
disse eu já volto e retirou-se. A madrugada avançou, suas
pernas bambearam, os pés adormeceram. O homem
retornou à sala e foi à mesa. Debruçou-se na papelada. Dez
minutos depois levantou-se, girou em torno de sua vítima,
dirigiu-se ao pau de arara para prepará-lo, deu sinais de que
chegara a hora, encarou Dulce ainda alerta, de pé. O algoz
lamentou: essa noite está difícil. Muito trabalho. Mas eu já
venho tratar do seu caso.
A opereta sádica foi encenada ainda uma ou duas vezes,
até que o homem encerrou a brincadeira perversa: essa
noite não vai dar, mas amanhã vou cuidar de você. A farsa
voltou a acontecer um par de vezes — apareciam no meio
da madrugada para levá-la — e teria aliviado a pressão
sobre Dulce, fazendo-a crer que dali em diante tudo se
reduziria às encenações, se os sustos não fossem
intercalados por sessões de tortura física. O teatro macabro
consistiu numa forma particularmente cruel de tortura
psicológica. O sobressalto persistia e não dava trégua
sequer à noite.
Durante o período em que sua filha esteve presa no Rio
de Janeiro, incomunicável, Luiz Pandolfi não descansou.
Mobilizou todos os contatos, contratou um dos melhores
advogados que defendiam presos políticos, procurou
inteirar-se do que poderia fazer para aliviar e abreviar o
martírio de Dulce. Descobriu que não havia o que fazer,
senão rezar e torcer para que o dr. Heleno Fragoso tivesse
algum sucesso, identificasse alguma brecha e conseguisse
algum progresso. No mínimo, o reconhecimento oficial de
que ela estava presa, e viva. Admitir a presença de uma
pessoa detida nas dependências de uma seção do Exército
representava uma vacina poderosa contra o
desaparecimento e o assassinato. Era um passo decisivo.
Fragoso conseguiu mais. Depois de mais de um mês de
isolamento, sem contatos, informações, notícias, pesando
cerca de quarenta quilos, Dulce foi retirada da cela,
encapuzada e temeu o pior. Puseram-na na caçamba de
uma viatura e a levaram a algum lugar. Conduziram-na
algemada e às cegas por espaços estranhos e lhe
ordenaram que se mantivesse de pé. Livraram-na do capuz.
Estava em uma sala vazia onde nunca estivera antes. A
porta abriu-se para seu pai entrar. Esse é um daqueles
momentos da vida. O abraço sem fim, tudo o que o
recolhimento defensivo tornara escasso na longa travessia
até ali. Havia pouco tempo e tanto para dizer. Ela sentia
necessidade de despejar a verdade num relato torrencial. O
pai não quis escutar. Ela compreendeu que não faria
diferença. Ele estava abalado, sentindo o corpo da filha, sob
seus braços, reduzido a pele e osso, ouvindo-a chorar em
seu ombro, frágil como as crianças vítimas da guerra ou da
fome. Luiz estava devastado pela impotência. Despediram-
se e ele seguiu, com o cunhado Mario, irmão de Carmen,
que morava no Rio e o aguardava na rua, para o setor de
emergência cardíaca do hospital mais próximo. Seus órgãos
todos compartilharam a dor.
Outros momentos que marcaram a vida para sempre e
mudaram o sentido das coisas, virando a realidade pelo
avesso, esfarelando teorias, foram três visitas à cela. A
primeira: um soldado abriu a porta e perguntou a Dulce se
gostaria de enviar uma carta à família. Ela hesitou,
imaginou armadilhas, mas não resistiu, aceitou papel e lápis
que o rapaz lhe oferecia, escreveu, entregou ao guarda e
soube, meses depois, que a família recebera. Na semana
seguinte, outro jovem militar entrou na cela e não a levou à
tortura nem lhe trouxe comida. Passou a Dulce, sem que ela
lhe tivesse pedido, um radinho de pilha. Durante quinze
minutos ela ouviu notícias, música, vozes humanas alheias
à órbita do cárcere. Era uma falha na placa de chumbo dos
dias e das horas. Ela tinha de manter o volume do rádio
próximo do inaudível. Se a transgressão fosse descoberta, o
jovem militar sofreria punições severas. Alguns dias depois,
o mesmo guarda permitiu que Dulce fosse até a porta da
cela onde estava Alexandre. Poucas palavras, pouquíssimo
tempo, nenhum toque, ou beijo, e era mais do que ela
sonhara.
A experiência da mais pura e gratuita compaixão
emociona Dulce até hoje. Contrabalança a descoberta do
mal em estado puro. Ela tocou os extremos daquilo que se
chama humano, o suficiente para desautorizar utopias e
para renová-las. Dulce ergue uma xícara de café ao lado do
gravador e sorri com a leveza dos que creem, puxa o ar
para não sufocar, devolve a xícara ao pires com os olhos
aguados, sem voz para prosseguir.
Nos anos 1970, a esquerda dividia-se quanto ao sentido
moral da delação. Alguns grupos defendiam a pena capital,
o famigerado “justiçamento”. Em outras palavras, o
assassinato de quem traísse a organização, confessando
vínculos e informando nomes de companheiros. O verbo
empregado era “trair” e aludia à incapacidade de suportar a
tortura. Sob a prática do justiçamento, que se resumiu a um
par de casos, talvez houvesse mais a intenção de impor ao
prisioneiro a resistência até o fim do que a afirmação de um
juízo moral. A lógica talvez fosse provocar na consciência do
preso o seguinte raciocínio: vou morrer de qualquer jeito —
se não delatar, nas mãos dos torturadores; se o fizer, nas
mãos dos companheiros. Então, melhor escolher o caminho
da honra e da fidelidade. Dulce nunca foi partidária desse
recurso autofágico à violência. Sua passagem pela sala
roxa, ainda que ela tenha sido uma das que resistiu, não
delatou e sobreviveu, tornou-a mais tolerante com os mais
fracos. Ninguém deveria ser culpabilizado por ser vítima, ela
diz. Quem eventualmente produz a confissão não é o
torturado, é a tortura.
Dulce oscilou entre dois polos: o ódio mortal ao delator e
o perdão. Um dia, ela pendurada no pau de arara, levaram à
sala roxa um rapaz que parecia bem vestido. Ele declinou o
nome pelo qual ela era conhecida na organização e
discorreu sobre seus atos e contatos clandestinos. Era um
membro de seu grupo político, com quem estivera várias
vezes e compartilhara responsabilidades. Ele mesmo, em
pessoa, de pé. Parecia alheio às condições humilhantes nas
quais encontrava a companheira.
A pusilanimidade despudorada doeu como a porrada do
inquisidor. Feriu-a e provocou-lhe engulhos como os que
sentia ao ver seus algozes mastigando sanduíches do Bob’s
enquanto a torturavam — fato comum. Não por acaso ela
passaria anos sem conseguir sequer olhar para fast-food. A
náusea acabou sendo, em sua memória, uma espécie de
depositário do terror, ou substituto deslocado da imagem
cuja lembrança é insuportável e tem de ser eliminada.
Meses depois, na primeira audiência da Justiça militar,
quando sua prisão já havia sido admitida formalmente e a
fase dos interrogatórios fora vencida, Dulce viu-se de novo
frente a frente com aquele companheiro que havia
encontrado meses antes na sala roxa. Ele esboçou um
movimento com a cabeça à guisa de cumprimento. Ela o
repeliu, ostensivamente, desviando o olhar. As audiências
eram a única oportunidade de denunciar as torturas
perpetradas nas dependências das Forças Armadas. Dulce
descreveu em detalhes os maus-tratos de que fora vítima.
Ninguém se iludia com aquela brecha de liberdade que
evocava o que se chamava justiça, sem exercê-la ou
respeitá-la, embora ninguém deixasse de registrar o que
passara. Mesmo que de nada servisse para a própria defesa,
quem sabe servisse ao futuro, se fosse preservado pela
burocracia da ditadura? A ditadura brasileira mantinha
alguns formalismos que outros regimes criminosos
desprezaram na América Latina, como a Argentina, o Chile e
o Uruguai. O formalismo mimetizava a institucionalidade
democrática, ainda que não lhe desse substância. Nem por
isso o teatro perdia sua relativa importância. Por exemplo,
para os registros dos fatos jamais admitidos oficialmente.
Dulce relatou o que lhe aconteceu. Chegou a vez do
rapaz. Indagado se sofrera alguma violência, negou. O
promotor, que sabia com quem lidava e por isso não temia
ouvir uma resposta sincera, perguntou o que havia com sua
mão direita. Dulce esticou a vista. O homem exibiu a mão
até então retraída e disse que tinha sofrido um acidente de
automóvel antes da prisão. A deformidade era anterior à
prisão. Dulce não percebera. Não tinha visto. A mão estava
mutilada, vincada por cicatrizes profundas, parecia não se
mover e era curva, formando um gancho monstruoso. Outro
preso, sentado ao lado de Dulce, sussurrou alguma coisa
parecida com “Você soube o que fizeram com ele?”. Dulce
compreendeu tudo de uma vez só. Aquele homem tinha sido
destruído. Quando entrara na sala roxa, provavelmente não
estava bem vestido, muito menos fleumático e indiferente.
Estava apenas vestido, o que pode parecer exorbitante
quando se está nua, pendurada no varal de ferro, exposta à
inspeção do voyeur. Não fazia sentido culpá-lo e odiá-lo.
Odiosa era a máquina de suplícios da ditadura. Foi o que
Dulce me disse, reiterando que o perdoara e que fizera
questão de passar perto dele, no final da audiência, para lhe
dizer, brevemente, quase murmurando, que não guardaria
mágoa, que estava tudo certo, que ele não deveria sentir-se
culpado.
As declarações de um companheiro destroçado sob
tortura, esticado ao limite da resistência física e psicológica,
não se comparam à denúncia profissional de quem se
infiltra para conquistar, e logo trair, a confiança. Cerca de
dois anos após a prisão de Dulce, seu pai precisou de um
“habite-se”, documento relativo à utilização de um imóvel
em Boa Viagem, bairro situado no litoral pernambucano.
Seu filho Roberto dirigiu-se ao Cenimar, departamento da
Marinha, no Recife, encarregado de expedi-lo. Explicou o
que procurava no guichê de informações e foi orientado a
falar com o capitão, que também se chamava Roberto.
Entrou na segunda sala à direita, conforme lhe indicaram.
Disse ao funcionário que procurava o capitão Roberto. O
moço lhe pediu que aguardasse. Finalmente, entrou na sala
o oficial: “Pois não”. Roberto Pandolfi calou-se. Mal teve
forças para balbuciar: “Capitão Roberto?”. O oficial
empertigou-se, assustado e hostil: “O que você está fazendo
aqui?”. O irmão de Dulce não respondeu. Saiu dali o mais
rápido que pôde, transpirando ódio e medo.
Capitão Roberto era Antônio, o professor particular de seu
irmão mais novo, Carlinhos, que frequentara a casa dos
Pandolfi antes da prisão de Dulce durante meses e
conquistara a simpatia do pai, apresentando-se como
homem de esquerda, sempre preocupado com Dulce, que
estaria no Chile, estudando. A tal ponto se tornara amigo da
família, que Luiz Pandolfi fazia questão de dar-lhe carona de
volta para casa, quando a aula terminava tarde. Antônio
costumava recusar, mas, ante a insistência, acabava por
aceitar a gentileza. Entretanto, nunca permitiu que Luiz o
levasse à sua casa. Dizia morar longe e indicava uma
determinada parada de ônibus. Chegar ali seria ajuda
suficiente. Em vez de duas ou três conduções, naquele
ponto poderia pegar o ônibus direto para casa, sem
baldeações. E assim conviveram meses a fio. Pouco depois
da prisão de Dulce, o professor de Carlinhos deu uma
desculpa e interrompeu as aulas. Nunca mais tiveram
notícias dele até o dia em que sua verdadeira identidade foi
descoberta por acaso, em meio a perambulações
burocráticas.
O choque desequilibrou toda a família, já fragilizada. A
sensação de ter abrigado o inimigo é poderosa. Escancara a
vulnerabilidade da casa, da família, de cada um de seus
membros, e infiltra um inquietante e difuso sentimento de
culpa. O real dá uma cambalhota e provoca uma espécie de
vertigem, misturando certezas com ambivalências. O
inimigo não só entrou na casa: aboletou-se no sofá,
conviveu na sala de jantar, compartilhou histórias falsas de
sua vida, tocou as emoções da família. Sobretudo,
desnorteou a bússola que distingue as coisas. Se Antônio
era Roberto, tudo era possível. Nenhuma insegurança é
maior do que a desestabilização do acordo firmado com os
mais próximos sobre o que seja a realidade.
Dulce esteve aproximadamente 45 dias no Departamento
de Ordem Política e Social, o Dops, unidade de repressão
política ligada à secretaria de Segurança Pública do Estado
do Rio de Janeiro. Em razão do convívio fraterno na cela
coletiva com outras presas políticas e da inexistência de
tortura, ameaças e visitas sádicas de autoridades
precedidas por cães ferozes, o Dops lhe pareceu o paraíso
na terra.
De toda a trama que enredou a biografia de Dulce à
história do país, um personagem destaca-se. Uma mulher.
Chamava-se Laura. Era prostituta. Passara uma noite com
um homem. Um entre tantos desconhecidos aos quais
prestara serviços sexuais. Não sabia quem era, aonde ia,
qual seu ofício ou sua idade, se era casado, solteiro ou
viúvo, se tinha filhos ou não, se era feliz. Nem mesmo sua
nacionalidade Laura sabia, porque o sotaque era esquisito,
mas, afinal, prostitutas não exigem que o freguês exiba o
passaporte. No entanto, ela entregou ao cliente um pedaço
de papel com seu nome e telefone para um possível
segundo encontro. O homem com sotaque esquisito era um
procurado militante uruguaio, ligado à organização dos
Tupamaros. Poucos dias depois, ele foi preso no Rio. O papel
estava em seu bolso. Laura foi presa imediatamente. No
início, ela não se assustou. Era relativamente comum a
prisão de prostitutas para averiguações. Provavelmente a
deteriam por algumas horas e a deixariam ir. Entretanto,
estranhou a abordagem e foi tomada pelo medo. Eram
tantos policiais. E não só policiais militares e civis, também
soldados do Exército. Vieram em diversas viaturas e a
encapuzaram. Semanas depois, jogaram-na numa cela do
DOI-Codi, onde Dulce estava sozinha. Laura seria liberada
em breve e não queriam que voltasse à rua enlouquecida. A
mulher estava transtornada demais para que a
devolvessem ao convívio do comum dos mortais.
Torturaram-na com a brutalidade habitual.
Dulce jamais esqueceria o pavor nos olhos de Laura, e
suas perguntas insistentes. A mulher não compreendia,
simplesmente não conseguia compreender. Já sofrera nas
mãos de policiais, mas não tinha ideia de que existisse
aquilo, nunca imaginou que existisse aquilo a que fora
submetida. Ela queria saber, precisava saber, implorava que
Dulce lhe explicasse:
— Quem são vocês? O que vocês fazem? Que crime foi
esse tão terrível de vocês? Por que eles têm tanto ódio de
vocês? Por que eles têm tanto ódio? Como é possível tanto
ódio?
Em 8 de dezembro de 1970, chegou a Dulce a notícia de
que o embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher, fora
sequestrado no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, por um
grupo comandado por Carlos Lamarca. Poucos dias depois,
Dulce foi levada ao Instituto Médico Legal para fazer exame
de corpo de delito. As marcas de tortura ainda estavam
visíveis. O médico lhe disse que possivelmente seu nome
constava na lista dos presos a serem libertados em troca da
liberdade do embaixador. A libertação de alguns presos
políticos era a exigência que o governo teria de acatar se
desejasse um final feliz. Ela recebeu a informação com
sentimentos ambivalentes. Seria maravilhoso sair da prisão,
mas a liberdade teria de ser aproveitada em algum país
estrangeiro que a acolhesse como asilada. Quem saberia
dizer quando a democracia seria restaurada no Brasil e,
portanto, quando ela poderia voltar para casa, rever sua
família, falar sua língua, reencontrar os amigos, respirar a
cultura brasileira, retomar seu casamento e uma carreira
profissional, voltar a participar da vida política? O exílio
seria o preço da liberdade, o que representava um
paradoxo. A liberdade possível coincidia com o
confinamento em determinado território. Por outro lado, se
permanecesse presa, talvez obtivesse a liberdade em pouco
tempo. O período do horror já havia sido superado. Talvez a
volta para casa já pudesse ser contemplada como o
desfecho de uma contagem regressiva relativamente curta.
As opiniões das colegas de cárcere penderam para a
liberdade imediata, ainda que no exílio. Um argumento
impôs-se: que segurança haveria dentro de uma cela sob a
tutela de um governo ditatorial? Nada garantia que a
suspensão das torturas fosse irreversível. Sobretudo como
forma de vingar o sequestro do embaixador. De fato, não
fazia sentido hesitar. Dulce preparou-se para a despedida.
Aos poucos, o clima de incerteza substituiu a esperança
pela angústia. As negociações entre o governo e o grupo
político responsável pela ação foram longas e difíceis.
Somente em 13 de janeiro de 1971 os setenta presos
libertados embarcaram para o Chile. Mas, antes disso, ainda
no final de dezembro, militares vieram buscá-la no Dops e a
puseram de novo na caçamba de uma viatura. Percorreram
muitos quilômetros por mais de uma hora. Dulce não via o
exterior. Não tinha a menor ideia de onde estava quando a
viatura estacionou.
Não demorou a certificar-se de que seu destino era uma
cela solitária na penitenciária feminina Talavera Bruce, no
bairro mais quente do Rio, Bangu. A temperatura superava
os cinquenta graus naquele vale da Zona Oeste, dentro da
cela. Dulce desesperou-se, gritou, pediu, implorou, exigiu
alguma palavra oficial, alguma explicação. Em vez de
liberdade, ela havia sido transferida para outra versão do
inferno. As condições eram infinitamente mais degradantes
do que aquelas a que se acostumara no Dops. Em lugar do
convívio com as parceiras de infortúnio, às quais devia a
restauração da saúde e do equilíbrio, sobre cujas bases
voltara a construir planos para o futuro, via-se condenada à
solidão e à mais absoluta imprevisibilidade. Enfim, a
insistência produziu uma resposta. Era isso mesmo, nenhum
erro, nenhum mal-entendido: ela não embarcaria para o
exílio. Viera para ficar. Talavera Bruce seria seu novo
endereço. Previsão não havia. O tempo seria aquele ditado
pelas autoridades e ponto final. Talvez anos, talvez décadas,
talvez para sempre. Dulce custou a compreender: as
cicatrizes ainda visíveis exportariam para além das
fronteiras a evidência incontornável das torturas,
confirmando as denúncias relativas ao caráter criminoso da
ditadura brasileira. Ela tinha de ficar no Brasil.
Na penitenciária, o mundo era o espaço minúsculo e
sufocante, a cama de cimento com um colchão, privada
sem tampo, pia alta, porta de ferro verde e olho mágico.
Não havia descarga na cela — era preciso bater na porta e
pedir ao guarda que acionasse o dispositivo. Aos poucos, foi
autorizada a receber visitas de parentes, como as presas
comuns, no dia especialmente dedicado a esse propósito.
Os deslocamentos para o pátio e o fim do isolamento total
permitiram que ela entrasse em contato com outras presas
políticas encarceradas em celas distantes. Foram seis
meses no bunker claustrofóbico. Não sofreu tortura, ainda
que o isolamento e as condições insalubres merecessem
qualificação análoga. A absoluta falta de perspectivas era
exasperante: não havia informação sobre qual seria seu
destino, por quanto tempo ficaria ali, o que viria depois. Em
fevereiro, casou-se com Alexandre. Era o único meio de
obter autorização para que ele a visitasse. Familiares de
Pernambuco enviaram por intermédio de dona Carmen
salgadinhos, doces e o bolo dos noivos. O juiz oficiou o
matrimônio e Dulce foi imediatamente devolvida à solitária.
Nada de comemorações, muito menos visita íntima —
invenção da democracia que se institucionalizaria muitos
anos depois. As amigas presas convenceram um guarda a
depositar na cama da noiva uma silhueta masculina
montada com retalhos de jornal.
Em junho de 1971, Dulce foi transferida para o presídio
Bom Pastor, situado dentro de um convento de freiras, no
Recife. A fila para visitá-la era interminável. Ela festejou o
retorno a sua cidade natal como um presente do destino. As
grades que havia nas janelas das acomodações eram de
tipo residencial; o tratamento, acolhedor. Uma espécie de
ensaio geral para a liberdade que viria em 14 de dezembro
de 1971, dia de seu aniversário. Um roteiro que inventasse
essa coincidência seria desqualificado por inverossímil.
Dulce voltou ao Rio de Janeiro, onde mora até hoje, para
retomar os estudos, os velhos planos e recomeçar. Haveria
ainda um longo percurso até tornar-se uma das principais
historiadoras do país.
* As informações estão nas 3700 horas de gravações secretas feitas pelo
presidente Richard Nixon, conforme divulgou a jornalista Dorrit Harazim, em seu
artigo, “Na roda-viva da história”, publicado em O Globo, em 10 de agosto de
2014.
7. É tanta coisa que nem cabe aqui
Na tarde do dia 20 de junho de 2013, entrevistei Dulce
Pandolfi pela segunda vez para o capítulo dedicado à sua
biografia, com a intenção de ilustrar o que foi o Rio de
Janeiro durante a ditadura militar, ou a que ponto a
dignidade humana tinha sido aviltada em pleno paraíso
tropical.
O prédio da Fundação Getulio Vargas fica na praia de
Botafogo, no Rio de Janeiro. O Centro de Pesquisa e
Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC)
ocupa o décimo quarto andar. Enquanto aguardava no
saguão, antes da entrevista, percebi que Oscar Niemeyer,
responsável pelo desenho do prédio, nos pregara uma peça.
O gênio permitiu-se algumas liberdades, inclusive esta:
frustrar quem acredita que contemplará uma das imagens
mais belas do mundo. Afinal, entre o prédio e a enseada
famosa, debaixo do Pão de Açúcar, nenhum obstáculo
bloqueia a vista. O grande arquiteto, como um
prestidigitador brincalhão, ou maldoso, apontou todas as
janelas para as laterais. Surrupiou o cenário e transferiu sua
exuberância para a imaginação de cada um.
Dulce chegou um pouco atrasada ao saguão,
desculpando-se. Lembrei a ela que era eu quem lhe devia
agradecimentos e a desculpa por ocupar tantas horas de
seu tempo, revolvendo lembranças traumáticas. Tomamos
um cafezinho como os brasileiros fazemos, especialmente
os cariocas, sempre que surge um intervalo em nossas
rotinas. Da cozinha seguimos para a sala de gravações.
Quando nos sentamos diante dos microfones, o ruído da
obra vizinha penetrou a proteção acústica do estúdio. Ao
lado do prédio antigo da Fundação Getulio Vargas, onde
estávamos, outro, pretensiosíssimo, crescia rápido. Mais um
projeto Niemeyer. As intervenções sonoras da nova
construção cheia de estilo, ampliando a área útil da FGV,
registravam em um nível sutil de minha mente o elo entre
dois ícones da história do Brasil: o arquiteto e o ditador.
Pensava em Getúlio Vargas, que comandou o Brasil com
mão de ferro, promoveu mudanças na economia e na
política, e governou o país por dezenove anos: de 1930 a
1945, e de 1950 a 1954. Os dois heróis modernizadores
estiveram associados às grandes transformações que
marcaram a sociedade no século XX: a urbanização, a
industrialização e a inclusão dos trabalhadores urbanos no
pacto social, graças à legislação trabalhista e às lutas
sociais. O elo entre ambos os personagens nos diz mais:
Niemeyer sempre foi um expoente do Partido Comunista,
ligado a Moscou, o qual aliou-se a Vargas, em 1945, apesar
da violenta repressão política de que fora vítima. O que os
unia eram o nacionalismo e a fé no desenvolvimento
econômico induzido pelo Estado.
Vargas retornou ao poder pelo voto, em 1950, e presidiu o
país em ambiente relativamente democrático até 1954.
Naquele ano, em 24 de agosto, matou-se para reverter um
golpe iminente. O suicídio foi sua última vitória política. O
gesto extremo adiou o golpe militar por dez anos. Niemeyer
faleceu em 5 de dezembro de 2012, dez dias antes de
completar 105 anos de idade. Foram dois polos opostos,
intimamente ligados pelo sonho modernista. Um deles
abreviou a própria vida, o outro converteu-se no principal
exemplo de longevidade, qualidade que emprestou à sua
obra. Vargas lançou as bases da indústria nacional.
Niemeyer deu forma a esse processo histórico, moldando os
produtos monumentais do progresso com seu traço
inconfundível. Depois da morte de Vargas, o próximo
presidente democraticamente eleito, Juscelino Kubitschek,
inspirado em seu legado, transferiu a capital para o centro-
oeste do país. Na semiaridez do cerrado, construiu Brasília.
A nova cidade destinava-se a encarnar o Brasil moderno,
como se fosse o retrato do futuro e sua antecipação. Os
parceiros de JK nesse projeto titânico foram Lúcio Costa e
Oscar Niemeyer. Os palácios do Planalto, da Alvorada, da
Justiça e o Itamaraty, assim como a Catedral de Brasília, a
Câmara Federal e o Senado da República seriam conhecidos
como os signos do novo Brasil, fruto do engenho de seu
povo.
Paralelamente, o Rio de Janeiro, mesmo depois de deixar
de ser a capital, em 1960, continuaria a figurar como a
imagem-símbolo do país. Brasília era razão e competência,
força de edificação dominando a natureza. O Rio era a
natureza. Essa equação simbólica era e continua sendo tão
forte que até os valores atribuídos à sociedade carioca
vinculam-se a dotes tidos por naturais, como o talento para
a dança, a musicalidade, ou a habilidade no manejo da
comunicação com os outros — qualidade que se bifurca em
duas linhas: a malandragem, moralmente ambivalente,
quando não negativa; e o dom da sociabilidade,
moralmente virtuosa. Observando o mundo a partir dessa
moldura dicotômica e simplista, é difícil, por exemplo,
reconhecer a presença forte da ciência na cidade. No
entanto, o Rio concentra o maior número de institutos de
pesquisa e instituições acadêmicas do país. Entre elas
destaca-se o Instituto Nacional de Matemática Pura e
Aplicada (Impa), onde formou-se o carioca Artur Ávila,
premiado em 2014 com a Medalha Fields, o Nobel da
matemática. O Rio de Janeiro costuma ser associado ao
Carnaval, à beleza das mulheres e da paisagem, à vocação
dionisíaca e festiva. As coisas não são bem assim. Esses
clichês têm origem em machismo, preconceitos, mitologias
e na mercantilização das imagens para atrair turistas e
elevar o moral popular, abalado todo santo dia pela
violência e pelas desigualdades. Todavia, quem negaria que
todo clichê tem sua cota de verdade?
Na sala de gravação cruzavam-se os sons oriundos de
duas fontes opostas: de um lado, a voz de Dulce, o indivíduo
esmagado pela onipotência autoritária do Estado; de outro,
a música do “progresso” — os repiques metálicos
bombando a pedra em meio à gritaria da matéria em
transformação. Rememorávamos o passado, enquanto, no
terreno contíguo, um certo futuro se insinuava. Cruzavam-
se em minha consciência a bandeira verde e amarela
tremulando com as efígies de Vargas e Niemeyer, e os
trapos da barbárie, os andrajos ensopados de sangue. O
dístico da bandeira brasileira é “ordem e progresso”. A
história de Dulce mostra a que preço a ordem tem sido
imposta para permitir o progresso, tal como o definem seus
beneficiários. Durante a ditadura, eram poucos. Nunca o
país havia sido tão desigual.
Dulce falou por cerca de duas horas e meia. Os últimos
minutos foram difíceis. Seu relato chegava a 13 de agosto
de 1970, às nove e meia da noite. Vinte homens armados
invadiam o apartamento e a levavam, encapuzada, para o
centro de tortura do Exército, mantido em parceria com
outras forças de repressão, no Rio de Janeiro. Ela conheceu
a sala roxa aos 21 anos de idade. Era preciso ganhar tempo:
Dulce pensava no que fazer enquanto os profissionais do
suplício a preparavam para a carnificina. Eu não queria
ouvir, ela não desejava continuar, pedi para
interrompermos, ela pediu que interrompêssemos, seus
olhos se encheram d’água, eu me envergonhei porque
tampouco conseguia conter a emoção e me culpei por
submetê-la àquilo.
Enchi um copo d’água para Dulce. Ela bebeu. O silêncio
foi preenchido pelas providências práticas — era preciso
guardar o caderno de anotações e combinar como seria
enviado o registro sonoro. Voltei a agradecer, prometi ligar
para marcar o próximo encontro. Eram dezessete horas,
hora marcada para a manifestação, que ocorreria por acaso
na avenida Presidente Vargas. Por acaso?
Não quer vir comigo, Dulce? Adoraria, ela disse, mas essa
foi uma das sequelas: agorafobia. No meio da multidão sinto
vertigem e falta de ar.
A despedida foi breve. Eu tinha de ir embora porque não
me saía da cabeça o relato da prisão. Não avançáramos
além da chegada ao DOI-Codi, à sala roxa, aos primeiros
choques.
Ela me levou ao elevador e voltou ao trabalho. Tinha
ainda tarefas a cumprir. Eu me dirigi ao metrô mais próximo,
no bairro do Flamengo. Andei sem prestar atenção aos
lugares, carros e pedestres. Como conciliar o ódio que
sentia com meus princípios pacifistas? A meu lado, dois
casais trocavam cartazes e riam dos dizeres, excitados
como quem corre atrasado para a festa. Entrei numa
lanchonete, pedi um café para ter direito de ir ao banheiro,
meti-me no cubículo fechado e me entreguei àquela
emoção. Aos poucos me recompus. Naquele instante, me
parecia impossível escrever sobre a história de Dulce. Voltei
ao salão central da lanchonete para tomar o café frio. Pedi
uma garrafa de água e olhei o movimento ao redor,
pacientemente. Decidi ficar ali até me certificar de que
estava pronto para retomar a caminhada ao metrô. Alguns
estudantes passavam a caminho da manifestação com suas
camisetas repletas de palavras. Falavam alto. Outros
respondiam no mesmo tom. Trocavam entre si gritos de
combate à política tradicional. E aos políticos. Algumas
estrofes soavam agressivas. Palavrões rimados alvejavam o
governador e o prefeito. O alarido remetia às tardes de
futebol, nos domingos de decisão de campeonato. Em
silêncio, um grupo de meninos e meninas de camisetas
pretas e bermurdas compridas pretas, tatuagens góticas e
piercings, ostentava um orgulho hierático que tinha sua
beleza. Observei com atenção as últimas duas garotas da
fila. Deviam ter menos de quinze anos. Tirei da mochila o
caderno de notas. Organizo melhor a cabeça escrevendo.
Abri o caderno, tentei encontrar o tom adequado e escrevi o
seguinte:
A mulher mais linda de sua geração fará 65 anos no dia 14 de dezembro
de 2013. Chama-se Dulce Pandolfi. É professora e pesquisadora do CPDOC,
unidade da Fundação Getulio Vargas, uma das principais instituições
acadêmicas do Rio de Janeiro. Veio do Recife com 21 anos para fazer a
revolução. Sua história sempre foi tabu. Forte demais para ser
mencionada. Impossível prever as emoções que precipitaria. Abordá-la
seria uma invasão de privacidade. Um abuso obsceno. Por isso, tenho
adiado a entrevista que gostaria de ter feito quando a conheci, em 1973.
Nunca ousei lhe pedir que me contasse em detalhes o que aconteceu. As
informações gerais bastavam. Contudo, ela resolveu colaborar com a
Comissão da Verdade criada pela Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro
e redigiu um depoimento corajoso e comovente, ainda que parcimonioso.
“Eu não conseguiria falar”, ela me disse, “por isso escrevi.” Mesmo
discreto, evitando detalhes e adjetivos, seu relato foi arrebatador. A porta
estava aberta para a entrevista postergada há quarenta anos. Confesso
que aquelas horas de entrevista me custaram mais do que as centenas de
outras que fizera em minha vida profissional. Sei que o melhor
entrevistador é o que desaparece, deixando que a entrevistada ocupe todo
espaço. Entretanto, aqui justifica-se focalizar a relação estabelecida no
diálogo, por motivos que espero esclarecer no decorrer do capítulo.
Descobri, escrevendo na mesa de mármore da
lanchonete, que eu e meus afetos deveríamos fazer parte
daquela história. Essa conclusão teve o efeito curioso e
apaziguador de permitir o encaixe entre a biografia de
Dulce, minha perturbação pessoal, meu ponto de vista
narrativo e a história do Rio de Janeiro, em suas faces
pública e privada. O Rio das catacumbas, sombrio, violento,
contrastava com o encanto solar e o hedonismo idealizado.
Para atravessar as fronteiras que separam essas dimensões,
eu me me convencia de que o livro precisava incorporar a
voz confessional, o que implicava escrevê-lo, portanto,
sempre que possível, na primeira pessoa.
Paguei a conta e voltei à rua.
Quase dezoito horas. A passeata já devia ter começado,
se bem que não seja fácil saber quando uma coisa dessas
começa e termina. Tratava-se da terceira mobilização no Rio
de Janeiro, no mês de junho, sem liderança, convocada nas
redes sociais. Originalmente, o motivo tinha sido a redução
das tarifas de ônibus. Depois da primeira passeata
dispersada com balas de borracha, spray de pimenta e
bombas de gás lacrimogêneo, o repúdio à violência policial
entrou na pauta. Outras bandeiras eram a mudança dos
velhos métodos políticos e o fim dos gastos bilionários com
os grandes eventos, Copa do Mundo e Olimpíadas.
Circulavam inúmeras outras denúncias e demandas. Elas
variavam de acordo com o gosto de cada participante, e
essa era uma das novidades. Cada pessoa deveria sentir-se
livre para levar às ruas sua reivindicação e entoar sua
palavra de ordem, ou de desordem. Depois das duas
primeiras manifestações, jornalistas, políticos e cientistas
sociais povoaram jornais, blogs, sites, canais de TV,
pronunciando-se sobre os eventos. No dia 17 de junho,
segunda-feira, o Rio suplantara São Paulo, reunindo cerca
de 100 mil pessoas na avenida Rio Branco, no centro da
cidade. São Paulo havia sido palco de algumas
manifestações que gradualmente vinham se tornando
maiores. Depois da primeira, que reunira 10 mil pessoas, a
grande mídia paulista exortou o governo a restabelecer a
ordem. Dois dias depois, em São Paulo, 30 mil pessoas
sofreram todo tipo de brutalidade na repressão promovida
pela polícia. Ironicamente, as principais vítimas foram
jornalistas. Gente gravemente ferida, violência selvagem
protagonizada pela tropa de choque e o cenário
convulsionado levaram os mesmos órgãos de imprensa a
criticar o governo, deslocando-se para uma posição mais
simpática aos manifestantes. A manifestação do dia 17 de
junho, no Rio, terminou em pancadaria. Diante do inusitado,
as interpretações eram as mais diversas e conflitantes: o
movimento é de direita, é fascista, é de esquerda, é
anarquista, é despolitizado, é contra tudo e contra todos, é
comandado por infiltrados a serviço deste ou daquele
interesse, é contra o governo federal, contra a mídia
convencional, e assim por diante.
Publiquei no jornal O Globo um artigo, conclamando os
analistas a renderem-se à ignorância. Melhor aceitar com
humildade e paciência a perplexidade ante aquele estado
de coisas formidável, inédito, inquietante e vibrante, do que
projetar sobre o fenômeno velhas categorias, as quais
apenas nos faziam ver aquilo que as manifestações não
eram: não eram organizadas, não tinham liderança nem
pauta unificada, não estavam ligadas a partidos ou
sindicatos nem se orientavam estrategicamente para
alcançar resultados claros, bem definidos e
consensualmente aprovados pelos manifestantes. Qual o
sentido de listar o que os eventos não tinham e não eram?
Afinal, as manifestações existiam e, existindo, haveriam de
ter algumas propriedades, certas características, um modo
de ser. Era hora de virar o discurso de cabeça para baixo e
inverter a perspectiva. Era tempo de descrever o que
acontecia com o espírito aberto, observando antes de
julgar, aposentando velhos conceitos. Meu artigo terminava
exortando os leitores a irem para as ruas experimentar
aquele processo diretamente.
Colunistas favoráveis ao governo federal, vinculados ao
Partido dos Trabalhadores, no poder desde 2003,
questionavam: por que a massa toma as ruas se as
desigualdades diminuíram no Brasil, na última década, mais
do que em toda a história anterior? Por que agora essa
inundação das ruas por multidões sem rumo? Deve ser
coisa da oposição conservadora, concluíam. A mim parecia
óbvio: a miséria não estimula ninguém a se mexer para
lutar por seus direitos. A indigência gera depressão e apatia.
Nem mesmo a informação sobre o que seja um direito está
disponível no ambiente de fome e desemprego. Mobilização
tende a ocorrer quando a qualidade de vida melhora e cada
um percebe que há mais a conquistar — ou o risco de
perder o que se obteve. A própria expansão do ensino leva
às pessoas a mensagem de que todos são iguais perante as
leis, todos são cidadãos, e se as desigualdades no acesso
aos direitos e à Justiça persistem, é porque algo está errado,
algo que pode e deve ser corrigido. E a mudança depende
da participação. Tanto se falou em cidadania no Brasil,
desde a promulgação da Constituição em 1988, que as
pessoas começaram a acreditar. Sobretudo quando as
palavras bonitas difundidas na propaganda e na escola
passaram a corresponder à experiência diária, mesmo que
apenas parcialmente. O tal protagonismo cidadão de que
falam os sociólogos ingressou aos poucos no vocabulário e
na prática cotidiana da sociedade, inclusive nas periferias e
favelas.
Na estação do metrô do Flamengo havia muita gente,
como sempre acontece na hora do rush. Planejei descer na
estação Uruguaiana, perto da avenida Presidente Vargas, o
local do ato. Mais gente foi tomando os vagões nas paradas
seguintes. Aos poucos percebi que a maior parte dos
passageiros se dirigia ao mesmo destino. Descemos em
bando na Uruguaiana. Na medida em que avançávamos
rumo às escadas estreitas que teríamos de subir para
chegar à rua, as pessoas se comprimiam, apertavam-se
umas contra as outras. Impossível evitar o contato físico.
Em alguns momentos senti os pés erguerem-se do chão.
Resistir seria inútil. Resolvi relaxar, entregar-me à onda
humana, manobrando para evitar as paredes e as barras da
escada. Algumas pessoas pediam calma, gritavam calma,
outras cantavam em coro marchinhas jocosas com críticas
ao governador. Jovens da mesma turma brincavam entre si.
Um deles insinuou em voz propositalmente alta que o
colega, já no alto da escada, estava feliz, curtindo o aperto
dos rapazes atléticos que o cercavam, na disposição
aleatória dos corpos. Outro berrou na outra ponta que o país
tinha de acabar com a homofobia: “Chega de piadinhas
babacas homofóbicas”. Ouvimos vozes dispersas apoiando
a crítica, até que um engraçadinho fez muita gente rir: “Me
cura, me cura. Quem pode me curar?”. Fazia blague ao
projeto da direita evangélica autorizando psicólogos a
realizar o que se convencionou chamar “cura gay”. A
suposição francamente homofóbica associava
homossexualidade a patologia. O projeto foi rejeitado no
Congresso Nacional mas provocou amplo debate. Enquanto
éramos quase cuspidos da estação pelo impulso coletivo, as
provocações foram substituídas por palavras de ordem, às
quais todos aderiram: “Vem, vem pra rua, vem”.
Na rua Uruguaiana, puxei fundo o ar para respirar sem
estorvo, passei a mochila para as costas. Não consegui
enxergar além de algumas dezenas de metros. Era óbvio
que a convocação pelas redes sociais fora bem-sucedida,
mas a Uruguaiana era relativamente estreita. A avenida
Presidente Vargas, com 85 metros de largura e 3,2
quilômetros de extensão (entre a igreja da Candelária e a
prefeitura), provavelmente dispersaria aquele mar de gente
num só gole. Ingressando na avenida, o que parecia ser
multidão revelar-se-ia um arquipélago de aglomerações
rarefeitas. Foi o que supus.
Caminhei com muita dificuldade em direção à avenida.
Encontrei colegas da universidade federal e estudantes,
mas logo percebi que o elenco incluía personagens de
variadas camadas sociais. A primeira percepção seria
confirmada ao longo da noite. O predomínio de jovens era
evidente, mas havia homens e mulheres de todas as idades,
negros e brancos. Ou seja, essa não parecia ser mais uma
mobilização tipicamente restrita à classe média. Finalmente,
cheguei à Presidente Vargas. Subi em um banco de cimento,
e ergui a cabeça tão alto quanto possível, levantei o braço e
fotografei, mirando o horizonte. A multidão era
impressionante e exerceu um efeito poderoso: as emoções
exorcizadas na lanchonete voltaram com força.
O fluxo me empurrava rumo ao extremo norte da avenida,
onde se localiza a prefeitura. Escurecia rápido. O céu de
cobre espirrava a luz artificial dos postes altíssimos e dos
faróis giratórios dos helicópteros. Os sons se engolfavam no
redemoinho de refrões, salvo quando um grande número
aderia a alguma palavra de ordem ou cantava em uníssono.
Centenas de moças e rapazes se divertiam acenando
pequenos cartazes e erguendo a mão com o dedo médio em
riste para o helicóptero que se deteve acima da área em
que estávamos. Vociferavam slogans contra a grande mídia.
Alguém de um bando que passava ao lado, abrindo uma
brecha para avançar mais rápido, corrigiu: “É da polícia, não
é da imprensa, não”. O alerta ecoou. Os gestos
prosseguiram, mas as imprecações mudaram. Ambas as
turmas vinham à minha direita.
Mais adiante, à esquerda, um bloco uniformizado,
vestindo as cores da bandeira nacional, cantava uma
ingênua marchinha que irritava os politizados: “Eu… sou
brasileiro, com muito orgulho e muito amor, ôôô”. Vaias
pipocaram aqui e ali, até contagiar a massa. Os ufanistas
calaram. Tentei seguir um grupo que caminhava e cantava
em coro, sob uma faixa “Evangélicos pelo passe livre”,
circundado por uma corda esticada nas laterais. Era difícil
manter o prumo porque todos se movimentavam, nem
sempre em paralelo. Grupos atropelavam-se, adernando
para um ou outro lado, em ângulos variáveis, e as ondas
eram incertas. Impossível cruzar lateralmente a multidão.
O vendedor de refrigerantes e sanduíches provavelmente
calculara uma féria fantástica, mas via-se arrastado e
arremetia seu isopor como um escudo, buscando um meio
de recuar e sair fora. Não ganharia nenhum trocado por ali e
ouvia algumas provocações cujo sentido, pelo que
depreendi, era algo do tipo:
— Junte-se a nós, você é um de nós, não finja que veio a
negócios, não tente lucrar justamente onde queimamos o
lucro em praça pública, não pose de espectador onde
incendiamos o capitalismo.
— Mas o cara é trabalhador — o outro acudia, temendo
que os ânimos saíssem do controle.
— Mais uma razão pra ele deixar de brincar.
— O sujeito está trabalhando.
— Esse biscateiro está sacaneando a gente, revolução não
é piquenique. Isso não é domingo na praia, nem jogo de
futebol. Sai daqui ou entra de vez.
— Deixa o homem trabalhar, cacete.
Empurraram-se os dois e outros os empurraram. O
vendedor, assustado, bateu em retirada como um gladiador
vencido.
Frases escritas nas camisas e nos pequenos cartazes
individuais compunham uma polifonia interminável: “Passe
livre”, “Não ao aumento das tarifas”, “Amor não é doença”,
“Preconceito se cura; amor, não”, “Homofobia é crime”, “Sai
do armário e vem pra rua”, “Toda forma de amor vale a
pena”, “Polícia pra quem precisa de polícia”,
“Desmilitarização já”, “A Polícia Militar tem que acabar”,
“Pelo fim da PM”, “Marcha da maconha, participe”,
“Legalize”, “Proibição das drogas = criminalização da
pobreza”, “Viva a Marcha das Vadias”, “Meu corpo me
pertence”, “Intolerância zero”, “Chega de violência: as
religiões afro-brasileiras merecem respeito”, “Não é pelos
vinte centavos” — a referência era o valor do aumento da
tarifa do ônibus —, “É tanta coisa que nem cabe aqui”,
“Basta de remoções”, “A cidade é de todos, não é parque
temático da especulação imobiliária”, “O Rio não é das
empreiteiras, é nosso”, “Fora, governador”, “Nós temos
futebol, a Coreia, educação. Vamos trocar?”, “Quero saúde
padrão Fifa”, “Fifa go home”, “Fuck Fifa”. Um homem alto,
fantasiado de judeu ortodoxo, empunhava um cartaz: “É
pelos vinte centavos, sim”.
Na avenida Presidente Vargas há prédios comerciais e
outros que pertencem a instituições estatais. A ponta
dianteira da manifestação já alcançara a prefeitura,
enquanto, no outro extremo, ainda havia alguns milhares
junto à Candelária. Dava para ver pela internet, nas
transmissões ao vivo da mídia tradicional e dos novos
veículos criados pelos midialivristas independentes, cujos
streamings eram difundidos diretamente do meio da massa.
O celular ampliava o alcance de cada manifestante,
enquanto houve sinal. Quando a tensão elevou-se, uma
hora depois, ninguém mais, na avenida, conseguia enviar
mensagens ou ter acesso à internet — coincidência?
Excesso de usuários? Intervenção política? Eu me
empenhava em acelerar o passo para chegar à prefeitura.
Muito difícil. A densidade da multidão obrigava a
acompanhar o ritmo médio. Passando sob prédios nos quais
ainda havia funcionários trabalhando, a massa entoava o
“Vem pra rua, vem”, e as luzes das salas piscavam. Era um
aceno solidário. Estimulados pelas respostas, o volume do
coro, embaixo, e o ritmo das piscadelas, em cima,
aumentavam.
No lado oposto, no sentido lateral, à direita da avenida
para quem mira o norte, aglomerações em alvoroço
indicavam algum problema. Gritos estridentes e pancadas
metálicas atravessavam o paredão acústico formado por
dezenas de milhares de vozes. Subi na escada de uma
passarela para observar. Muitos tiveram a mesma ideia ao
mesmo tempo. Nada era propriamente individual e solitário
na avenida. Amontoado entre vários, junto ao gradil, no
ponto mais alto, flagrei pessoas de preto batendo com
pedaços de pau, barras de ferro ou instrumentos
semelhantes em portas de aço. Não sei se desejavam
provocar danos materiais ou apenas contribuir com ruídos
diferentes para a cacofonia, nem consegui identificar a que
empresa ou instituição pertenceriam as portas. As
ondulações da massa lançavam jatos de pessoas em todas
as direções. Aos poucos, e depois velozmente, como se um
castelo de cartas desabasse numa cadência crescente, a
multidão próxima às portas atingidas e meus vizinhos, no
alto da passarela, crispados, roucos, mãos em conha ao
redor da boca, esgoelavam-se no coro vibrante: “Sem
violência, sem violência, sem violência”. Os black blocs, que
já haviam ensaiado ações diretas agressivas em passeatas
anteriores, faziam sua estreia em grande estilo numa das
maiores marchas da história política do país. A partir de
1968, estive em todas elas.
De cima da passarela, a cerca de dois quilômetros da
Candelária, contemplei a Presidente Vargas repleta. Não
creio que houvesse menos de 1 milhão de pessoas. O relato
de Dulce não me saía da cabeça. A multidão, vista de cima,
era uma placa uniforme resplandecente e ondulante. Os
torturadores que sobreviveram à idade e à culpa estariam
jantando àquela hora? Estariam colados à televisão,
atônitos, assistindo ao desfile da cidadania empoderada?
Um milhão de pessoas, quem poderia prever uma coisa
dessas? A longa procissão era pontilhada por sucessivas
saraivadas de flashes dos celulares. Culpa? Eles não sentem
culpa, pensei. Duvidei que algum dos algozes de Dulce
atravessasse insone a madrugada, assombrado pela cadeira
do dragão no centro da sala roxa. A juventude ali na
avenida não tinha a mínima ideia do que significara para a
minha geração a reconquista da democracia. Mas eles têm
razão, disse a mim mesmo, os jovens têm toda razão em
desejar mais, exigir mais, não se acomodar às conquistas
consolidadas.
Vieram à lembrança imagens de 1984, 10 de abril, terça-
feira. No fim da tarde, mais de 800 mil pessoas já tinham
chegado. Até que o último orador se despedisse, 1 milhão e
100 mil entoaram em coro inúmeras vezes: “Eleições
diretas, já”. A conjuntura era outra, mas a explosão de
vitalidade coletiva era a mesma. Os líderes políticos da
oposição à ditadura, alguns recém-chegados do exílio
graças à Anistia, convocaram a manifestação e falaram à
massa de um imenso palco, construído na frente da igreja
da Candelária. Todos queriam eleições diretas. Ou assim nos
fizeram crer — ainda que a alguns não conviessem, mas
essa digressão não importa. Naquele contexto, eleger o
presidente era sinônimo de liberdade, fim da censura,
prenúncio da convocação de uma Assembleia Constituinte.
Quando pisei na Presidente Vargas em abril de 1984, ainda
não tinha anoitecido. A experiência foi tão comovente
quanto em 2013. O mar de gente parecia infinito. Engolia as
diferenças de opinião, as nuances ideológicas, as
modulações da sensibilidade, as crenças de cada um, as
idades, nossas origens. Em 10 de abril de 1984 eu me
sentia exausto, absolutamente farto do regime autoritário. A
ditadura tinha desidratado dois terços de minha vida. De
1964 a 1984, tinham sido vinte anos de censura e medo. Eu
esgotara as energias na resistência clandestina. Minha
juventude consumiu-se na iminência da prisão, nas notícias
de companheiros destruídos pela tortura, mortos ou
desaparecidos. Queria a legalização de todos os partidos.
Mas o mundo de gente que encontrei na avenida engoliu o
cansaço, meus trinta anos, qualquer motivo supérfluo que
me separasse de quem estivesse a meu lado, esticando
comigo o pescoço para enxergar o locutor que
escutávamos. O som era bom. Depois que anoiteceu e as
estrelas políticas encheram o palco, e os artistas mais
queridos amontoaram-se a seu lado, nós cantamos o hino
nacional. Todos juntos. Fafá de Belém ao microfone, a
multidão à capela. Um milhão e 100 mil vozes. Brizola e
Ulysses Guimarães estavam lá. Os futuros presidentes,
Tancredo Neves, Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula,
também. Meio século de história reuniu-se na maior
manifestação que já se realizara no país. O célebre comício
das Diretas do Rio de Janeiro nunca fora igualado. Até 20 de
junho de 2013, nada tinha sido comparável. A emenda
Dante de Oliveira que propunha eleições diretas acabou
sendo rejeitada no Congresso em 25 de abril de 1984.
Obteve 298 votos favoráveis. Eram necessários 320. Mesmo
assim, a pressão abriu caminho para sucessivos avanços
democráticos que culminariam com a eleição indireta de
Tancredo Neves, o governo de seu vice, José Sarney, e a
convocação da Assembleia Constituinte, que promulgaria a
nova Constituição da República em 1988.
A passarela trepidou. Meu devaneio dissipou-se. O gradil
balançou quando os que desciam embolaram-se com os que
subiam. Coagulou-se uma bolha nervosa, uma pilha de
gente compacta e sem solução. Antecipando-se ao pânico
que fermentava — e disso dou testemunho, porque também
a mim pareceu inquietante a situação —, a turma do alto
gritou “Desce, desce”, e adicionou aos gritos argumentos
mais persuasivos, como a força do corpo projetada a favor
da gravidade. Vencemos a parada. Descemos na marra.
Acelerei o passo o quanto pude. Cruzei com os tipos mais
diversos. Famílias inteiras, andarilhos solitários como eu,
midialivristas entrevistando manifestantes e transmitindo
ao vivo por streaming, esvoaçantes hare krishnas
balançando sininhos, grupos de teatro da Baixada
Fluminense fantasiados de políticos mafiosos, cujos cartazes
estampavam menções solidárias ao passe livre, e centenas,
várias centenas, provavelmente milhares de pessoas com a
máscara do Anonymous enlaçando o pescoço, caída no
peito, ou erguida sobre a cabeça, ou cobrindo o rosto. O
espírito carnavalesco vinha à tona, aqui e ali, mas retraía-se
ante um estampido, refulgia na batucada e voltava a
encolher-se quando explosões assustavam a turma. Os
estampidos e as explosões tornaram-se mais frequentes e
próximos. O clima era cada vez mais denso, pesado, inflado
por um temor ainda vago, porém crescente. Vozes isoladas
retomaram o mantra, “Sem violência, sem violência”. De
novo, o mote contagiou a massa e ganhou força. O coro foi
acompanhado por um movimento que conquistou adeptos
num raio de cerca de trezentos metros: todos nos sentamos.
Era o meio de deter os fluxos erráticos que começavam a
desordenar a marcha, produzindo os primeiros sinais de
pânico e descontrole. Se não resistíssemos, se a manada
disparasse a toda velocidade na direção oposta à da
passeata, seria o caos. Uns aqui, outros ali levantaram-se,
dezenas, centenas, não saberia mais dizer quantos fomos
nos pondo de pé aos poucos, imitando a coreografia que
víamos ao redor. A massa cada vez mais compacta pôs-se
novamente a caminhar. Era natural a compactação sempre
que interrompíamos a marcha por algum motivo. Os que
vinham atrás encontravam a barreira humana e se
aglomeravam em suas margens, forçando passagem. Tentei
desembaraçar-me e buscar espaços mais vazios em que me
sentisse à vontade para girar o corpo e usar o celular com o
braço estendido, consultando a seguir a foto. Esse recurso
me dava uma ideia aproximada do que se passava à minha
volta. Outro expediente era recorrer à internet e procurar
transmissões diretas por streaming de outros locais da
manifestação ou imagens ao vivo dos canais de mídia
eletrônica. O truque esteve à mão até cortarem o acesso à
internet. Ou, como havia dito, as ligações serem derrubadas
pelo excesso de usuários. Insisto: nunca se chegou a
descobrir o que provocou nossa imensa solidão coletiva. Foi
o que senti quando perdi contato com a internet e a linha
telefônica, e percebi que acontecera simultaneamente com
todos que estavam próximos.
Aproveitei uma brecha que se abriu entre os blocos de
manifestantes e avancei rápido. Já estava a menos de
quinhentos metros da prefeitura quando voltaram a ressoar
explosões. A tropa de choque da Polícia Militar dispersava a
multidão com tiros de bala de borracha, bombas de efeito
moral, spray de pimenta e gás lacrimogêneo. Não havia
para onde fugir. Nas laterais e à frente, agrupavam-se os
militares prontos para repelir qualquer aproximação. Quem
estava na linha de frente da marcha via-se forçado a correr
para trás, isto é, na direção oposta ao sentido da passeata.
Por isso, o verbo correr não se aplica exatamente. Seria
mais apropriado dizer: tentava correr. Era impossível
atravessar em velocidade a barreira humana, por mais que
as sucessivas fileiras buscassem fazer o mesmo. Não havia
nem poderia haver sincronia entre os que escapavam aflitos
e as colunas mais recuadas, formadas pelos que nos
assustávamos com os estampidos, mas não éramos
diretamente atingidos pelas agressões policiais. Era inútil a
correria desabalada dos que vinham do front, desesperados
pela falta de ar, os olhos vermelhos e inchados,
eventualmente atingidos por algum petardo, tentando cobrir
o rosto com a camisa e cheirando vinagre — os mais
precavidos traziam consigo um kit-manifestação, repleto de
produtos eficazes para proteção contra ataques policiais. As
fileiras chocavam-se. O tumulto espalhava o pânico em
espasmos centrífugos. Suponho que, do ponto de vista de
quem estivesse nos helicópteros, o movimento se
assemelhasse a círculos concêntricos que se expandiam
gradualmente.
Alguns, depois muitos, enfim milhares em uníssono
gritavam “Não corre, não corre, não corre”. A sensação de
quem estava nas fileiras atingidas pelo estouro da boiada
era angustiante. Mesmo me esforçando para manter a
lucidez e a calma, tanto quanto a situação permitia,
tentando avaliar as alternativas com a frieza possível, eu
não antevia qualquer opção razoável. Impunha-se esperar e
torcer pelo melhor. Ou rezar. Esperar que a polícia
compreendesse que estava prestes a promover um
massacre. Esperar que as primeiras centenas ou milhares
de pessoas buscassem alguma solução menos temerária do
que o desespero e a tentativa de fuga. Esperar que as
colunas anteriores àquelas em que eu estava entendessem
a necessidade de inverter o rumo da marcha e
caminhassem de volta para a Candelária, sem sobressaltos
e atropelos, porém aplicando aos passos a máxima
agilidade que conseguissem. Esperar que aqueles que se
encontrassem próximos de ruas perpendiculares à avenida
Presidente Vargas saíssem por elas, desafogando a
multidão. O sentimento, em resumo, era de impotência. O
pior era constatar que havia entre nós idosos, idosas e pré-
adolescentes, quase crianças. Não se tratava de um grupo
homogêneo. Ninguém poderia em sã consciência supor que
o deslocamento de 1 milhão de pessoas fosse harmonioso e
suficientemente rápido para impedir o desastre.
As luzes daquela parte da avenida piscaram e se
apagaram. Intuí uma avalanche irresistível. A luz voltou sem
a potência anterior. Foi o suficiente para sustentar a
esperança de que sairíamos vivos dali. De repente, a
multidão à minha frente comprimiu-se em núcleos mais
densos, abrindo alguns espaços que pareciam poros de
respiração do grande organismo que formávamos, todos
juntos. Esses vazios eram penetrados por gente em fuga,
como se fossem canais de passagem labirínticos. A solução
engenhosa que o corpo coletivo inventou,
espontaneamente, governado por uma inteligência invisível,
não segurou a onda. Alguns ajuntamentos de pessoas
tombaram feito gravetos partidos na ventania. Outros e
outros mais se agarravam, empurravam-se, caíam e se
erguiam, levados pela enchente, amparados pela
solidariedade, desnorteados. As dezenas, as centenas, as
milhares de pessoas desgarradas de seus grupos vinham
em minha direção farejando brechas, anunciando o dilúvio.
Nessa hora o automatismo da autopreservação pôs o grito
em nossas bocas: “Não corre, não corre”. Milhares de vozes,
dezenas de milhares difundiram em uníssono o bom senso e
injetaram uma dose salvadora de racionalidade na manada
em que nos transformáramos: “Não corre, não corre”.
Quando olhei para trás, as fileiras anteriores já estavam
de costas, recuando. Se fôssemos rápidos evitaríamos o
pior. A nova expectativa positiva começou a contagiar
quem, um pouco antes, como eu, não via saída. “Vai dar
certo”, uns diziam aos outros. “Calma, pessoal, vamos
voltando com calma. Vai dar certo.” Falávamos em calma e
nos movimentávamos com a agilidade possível. Flashes
carregados de indignação traziam à minha mente a
brutalidade policial nas favelas, as centenas de execuções
extrajudiciais que se repetem todo ano, no Rio, sem que nós
nos revoltemos e ocupemos as ruas. Pois agora estávamos
ali também por isso, para que cessasse o massacre de
jovens pobres e negros.
Não sei quanto tempo durou o sufoco. Parecia uma
eternidade. Deixei de pensar no livro, na história do Rio, no
governo, no desgaste dos partidos e até mesmo no sentido
político daquele grande acontecimento. Minha consciência
rodopiou para o ralo da sobrevivência. Valores nobres
esfumavam-se — democracia, justiça, direitos humanos,
participação. De repente, uma nova alma das ruas aparecia,
menos idealizada: a alma rude das coisas, colada à
superfície dos fatos, a alma material que se confunde com
nossos corpos. Suor, dor nos pés, o pânico, uma sede
desatinada, a coluna em pandarecos, a audição prejudicada
por estampidos e pela gritaria interminável, os olhos
ardendo porque a nuvem de gás de pimenta acompanhou
quem dela fugia como uma sombra expansiva e pródiga.
Ali estavámos nós: a turba, a horda, a malta, a gangue.
Black bloc é meu irmão, tive vontade de dizer a quem
quisesse ouvir. O pavor me inspirou um jeito diferente de
perceber a experiência de que eu começava a sair. A
marcha refluía. Milhares recuavam em direção ao ponto de
partida, a Candelária, ou encontravam rotas de fuga nas
ruas laterais. Abriam-se picadas na vastidão da avenida. As
trilhas eram cada vez mais largas. Espaços vazios
retalhavam a manifestação, espalhando os blocos de gente
e formando arquipélagos onde antes havia placas
compactas.
A caminhada de volta era longa e penosa, embora o
esvaziamento progressivo da avenida a facilitasse. Meu
propósito era seguir em direção à Candelária e dobrar à
direita na avenida Passos, ou mais adiante na Rio Branco.
Supus que no ponto zero da Rio Branco, onde ela encontra o
aterro do Flamengo, próximo à beira-mar, eu encontraria
uma condução para casa, na Zona Sul. Se andasse até lá,
teria percorrido ao todo, desde que chegara à manifestação,
cerca de dez quilômetros. Naquela altura, recorreria ao
transporte que aparecesse primeiro: ônibus, metrô ou táxi.
Não era ainda meia-noite, talvez o metrô estivesse
funcionando. A menos que tivessem antecipado o
encerramento do serviço por razões de segurança.
Tivessem antecipado. Essa expressão me ocorreu com
naturalidade, o que me fez pensar sobre seu significado.
Não disse a mim mesmo que o serviço havia sido encerrado,
mas que o haviam encerrado. Ou seja, atribuí a interrupção
do funcionamento a um personagem, oculto mas poderoso,
alguém dotado de autoridade suficiente para tomar essa
decisão. Nesse caso, fazia sentido. Entretanto, deixa de ter
um significado assim objetivo quando empregamos a
expressão — e ela é muito comum na sociedade brasileira,
especialmente no Rio de Janeiro — para lavar as mãos
quanto a nossas responsabilidades e a transferir para um
elenco indefinido de personagens poderosos. Isso acontece
diariamente, diante das situações mais diversas. É comum
ouvir o taxista, o vizinho, o colega de trabalho afirmando:
“Olha lá. Está assim há um tempão. Eles não fazem nada.
Não estão nem aí. Não querem nem saber”. O problema
apontado pode ser um buraco na rua, um poste sem luz,
uma escola mal cuidada, uma construção deteriorada,
mendigos dormindo na rua, crianças pedindo esmola, um
sinal de trânsito apagado, um posto de saúde fechado, a
inflação subindo, o desemprego crescendo, a insegurança
avançando etc. Não importa o objeto da revolta: menor,
maior, provinciano, estrutural, municipal, federal. O que me
parece interessante e revelador é o caráter vago, difuso e
genérico do alvo da acusação. Os personagens
responsabilizados aparecem indicados pelo pronome “eles”.
Não era a primeira vez que refletia sobre esse hábito de
pensamento, de linguagem, que me soava a contrapartida
de um comportamento evasivo, omisso, individualista,
refratário a assumir qualquer responsabilidade e
protagonismo. Provoquei meus interlocutores algumas
vezes: eles quem? Ninguém soube responder. Eu insistia: os
políticos? os poderosos? as autoridades? os governantes? as
elites? os ricos? As reações vinham monossilábicas ou
ambíguas: “É, é, isso aí, sei lá, eles, eles”. Ou seja: os
outros. Não os outros parecidos com quem enuncia o
pronome “eles”. Os outros distantes, diluídos numa
coletividade diáfana, intocável, quase imaterial. Se são os
outros que fazem e desfazem, estou condenado à
impotência. A rigor, nada que não seja estritamente privado
me diz respeito. Dessa perspectiva, o espaço público está
longe de ser comum, longe de ser o lugar de todos. O
espaço público não é de ninguém. Por isso — prossegue
meu interlocutor imaginário —, não vejo mal em jogar lixo
na rua, nem me sinto corresponsável pelo que acontece ao
meu redor. Conclui-se, portanto, que nada há a fazer, senão
cuidar de si mesmo e de sua família. O mundo que se dane.
Deduz-se também que é perfeitamente justificável, para
quem é vítima da ação predatória deles, agir com vistas
apenas ao próprio interesse, independentemente das regras
e das leis.
O que sobra para quem recorre ao “eles”, pensando e
sentindo dessa forma? Além do sentimento de impotência e
do desprezo pelo que é público, sobra a experiência de
vitimização, devastadora da autoestima. Sobra o
ressentimento. A inapetência para a participação cívica.
Resta a impossibilidade de experimentar o “nós”. Se o
“eles” é vago e indeterminado, não há o “nós” consistente
do mútuo reconhecimento.
As manifestações tradicionalmente se organizavam em
torno de demandas específicas, sintetizadas nas grandes
faixas exibidas na abertura dos desfiles. Por outro lado, seus
porta-vozes ou líderes verbalizavam, em seus discursos e
pronunciamentos, as demandas ou as posições expressas
nas faixas. Para chegar à faixa-síntese percorria-se um
longo caminho, em cujo curso as mais distintas propostas
eram filtradas por assembleias e direções parciais. Os filtros
sucessivos correspondiam a poderes sobrepondo-se até o
vértice político. A síntese envolvia um certo tipo de
organização e de construção do poder no interior dos
movimentos sociais, dos partidos ou das entidades
sindicais. O resultado era a faixa-síntese. A quem se dirigia
a faixa, assim como os discursos que a reiteravam? Ao
Estado e seus ocupantes, aos governos e às autoridades
políticas do Legislativo. O interlocutor do movimento, em
geral, era o Estado. A faixa e suas letras maiúsculas
enviavam mensagens ao Estado, via mídia ou diretamente.
À minha direita, via-se o Campo de Santana, uma praça
larga e arborizada, circundada por grades, cuja área
corresponde a 155 mil e 200 metros quadrados. Foi o
impacto da imagem que me provocou essa viagem pelo
pronome “eles” e o lado sombrio da cultura carioca. As
grades estavam cobertas por pequenos cartazes colados
uns nos outros, empilhados uns sobre os outros,
equilibrados entre as barras de ferro, formando um
magnífico mural a céu aberto. Antes de sair da avenida, os
manifestantes depositavam seus pequenos cartazes
pessoais como totens, oferendas ou velas num altar
profano. Dando-se a volta em torno da praça, caminham-se
1300 metros. Quantos cartazes haveria ali? Meu primeiro
impulso foi fotografar o mosaico de palavras e tratá-lo como
uma instalação, a obra coletiva em que as escritas ligam
milhares de autores anônimos individuais a um novelo-
texto, circundando a grande praça. Contemplei a corrente
de papel e a comparei aos movimentos Occupy que se
tornaram comuns em todo o mundo. Havia naquela torre de
babel tombada, horizontal, uma espécie de variação original
das ocupações. Nem o nomadismo da marcha, nem o
sedentarismo da ocupação: um ato de demarcação
simbólica do território, que talvez remetesse ao desejo
coletivo de apropriar-se da cidade, fazê-la pública, salvá-la
da voracidade dos negócios.
Impossível fotografar. Não haveria braços nem bateria. E
talvez não fizesse sentido. Tratava-se de uma intervenção
em cadeia cuja beleza talvez estivesse em sua natureza
efêmera, típica de todo acontecimento. Havia incontáveis
cartazes, sim, contudo, provavelmente o mais importante
eram os inumeráveis atos de adesão ao gesto inaugural de
quem teve a primeira ideia e realizou a primeira ação,
prendendo seu cartaz na grade do Campo de Santana. Cada
cartaz era um ato cooperativo que estendia o primeiro,
repetindo-o, até que o mutirão demonstrasse a
extraordinária potencialidade da colaboração entre
indivíduos. Não foi preciso regra nem coerção. Nenhuma
gramática ordenou a criação. Ninguém e nenhuma entidade
reivindicou a autoridade legítima sobre o mural ou ousou
apresentar-se como canal de expressão de todas aquelas
vontades. Aquilo não cabia em nenhuma faixa dos comícios
tradicionais. E no entanto ali estava o “nós”, perdido na
mitologia ressentida e impotente do “eles”.
Tudo ficou claro de repente, óbvio e simples. Por um lado,
a grande faixa dos comícios tradicionais comunicava
mensagens sintéticas, fruto de filtros sucessivos, cujo
destinatário era o Estado — equivalente politizado e
racional do grande Outro fantasmagórico, indicado pelo
genérico “eles”. Por outro lado, nas manifestações de junho
de 2013, os pequenos cartazes customizados,
individualizados, escritos em letras pequenas que só
poderiam ser lidas de perto, endereçavam-se aos
interlocutores, a quem estivesse próximo e disposto a ler. O
destinatário, em vez do Estado ou do grande Outro, era o
outro ao lado, manifestante, igual, parceiro de caminhada.
O pequeno cartaz personalizado era um convite à conversa,
à troca, ao elo, ao jogo entre o eu e o tu. A formação da
coletividade estava em processo, mobilizando a lucidez
crítica e o inconsciente, a fala, a escrita e as coreografias.
Talvez a geração mais jovem tenha percebido, sem saber,
que a construção da sociedade brasileira permanece
incompleta. Nem tudo depende do Estado. Nem tudo pode
ser culpa, responsabilidade ou talento do Estado. A postura
que valoriza a corresponsabilização salva o indivíduo da
impotência, do ressentimento, do lugar de vítima. Um
individualismo carregado de possibilidades libertadoras e
criativas não se opõe à coletividade. A propagação desse
individualismo generoso pode ser a grande chance para
uma reinvenção mais democrática e justa da coletividade.
Acionei o aplicativo do celular e gravei a seguinte frase:
“Quem ousar escrever uma narrativa sintética sobre a
manifestação de 20 de junho de 2013 correrá o risco de
desperdiçar o que talvez seja essencial: a dispersão”.
Estava cansado. Confesso que a exaustão era mais
mental ou emocional do que física. De todo modo, decidi
que era hora de esquecer o compromisso com o livro e com
a política. Já fizera anotações suficientes para o capítulo que
pretendia escrever e dera minha modesta contribuição à
marcha, integrando-me a ela. Podia permitir-me relaxar, não
prestar atenção em mais nada, quem sabe tomar um chope
à espera de que a maior parte dos participantes
dispersasse. Afinal, a passeata fora um êxito e terminara,
ainda que os críticos provavelmente viessem a questionar
minha noção de êxito: qual era o objetivo? Foi alcançado?
Não era assim que me interessava medir o sucesso da
mobilização. Responderia aos críticos oportunamente. Era
tempo de descansar. Dever cumprido.
Engano meu.
Optei pela avenida Passos. O celular voltara a funcionar.
Muita gente caminhava sozinha, aos pares ou em grupo, em
silêncio, alguns, conversando animadamente, outros, sem
preocupações, sem hostilizarem-se. Fui informado de que
houvera episódios de violência policial contra manifestantes
que saíam da Presidente Vargas. Os ativistas não agrediram
policiais nem depredaram patrimônio. Já estavam dispersos.
Fugiram em direção ao largo de São Francisco e abrigaram-
se no prédio da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Colegas professores que se esconderam na universidade me
prestaram esse testemunho. Policiais pareciam sem
comando e sem estratégia. Essa fuga para a UFRJ daria lugar
à formação de um coletivo cujo papel seria importante nos
meses subsequentes. A repressão despropositada acabaria
contribuindo para a articulação de grupos em torno de
novas iniciativas no espaço público. Soube também que
agências bancárias tinham sido atingidas por mascarados.
Impossível saber se eram black blocs, agentes policiais
infiltrados ou provocadores a soldo de profissionais da
política com inconfessáveis intenções. Havia hipóteses para
todo gosto.
Na avenida Passos me sentia seguro. O clima era pacífico
até que duas viaturas passaram, fuzis à mostra. Policiais
observavam os pedestres com expressões pouco
profissionais. Divertiam-se. Subitamente, lançaram bombas
de efeito moral, que fazem barulho semelhante ao de
granadas reais, e espargiram gás de pimenta. A correria e
os gritos convulsionaram todo o espaço à minha volta. Cobri
o rosto com a mochila e a camisa e corri. Fiquei com a
impressão de que o ruído e os sinais de descontrole criavam
o cenário que os policiais desejavam para justificar o próprio
ato, retrospectivamente, por absurdo que fosse, e animar
sua disposição de repeti-lo e ampliar as provocações.
Brincavam conosco como gato e rato. A atmosfera saltou da
calma ao ódio num instante. Algumas pessoas que antes
não davam o menor sinal de que chutariam portas de aço
das lojas passaram a fazê-lo. Chutavam e gritavam,
furiosos, porque não podiam esmurrar seus agressores
sádicos. A revolta infiltrou-se como o fogo que inalávamos,
queimando olhos, vias nasais, garganta e pulmões.
Atravessei à esquerda, evitei o largo de São Francisco,
corri com um grupo de desconhecidos, chegamos à Rio
Branco e, finalmente, à Cinelândia. Tive pouco tempo para
descansar. Precisava de água e de um banheiro, mas os
bares e restaurantes se preparavam para fechar mais cedo.
Havia muita gente na Cinelândia. Nenhum tumulto. Blocos
de manifestantes narrando suas experiências, trocando
fotos e contando episódios de violência policial, que me
soariam exagerados se eu não tivesse testemunhado
pessoalmente exemplo análogo. Sentei um pouco na
escadaria da Câmara de vereadores ao lado de várias
outras pessoas. Conversávamos com estranhos, porque a
situação nos aproximava, sobretudo o repúdio a atitudes da
polícia. Prisões arbitrárias ainda eram raras, à época. Na
sequência do processo, tornar-se-iam frequentes. De novo,
viaturas policiais trouxeram pânico. Reduziram a velocidade
na avenida Rio Branco, recuaram na contramão até a
esquina do Teatro Municipal, miraram as aglomerações e
lançaram bombas e gás. Ouvimos tiros. Parecia que os
policiais consideravam as balas de borracha inócuas e as
usavam sem reserva e sem necessidade. A presença da
polícia, novamente, trouxe consigo desespero e alvoroço. A
instituição produzia o que pretendia combater. Os
profissionais da segurança deleitavam-se com o caos e,
como observara antes, aproveitavam-se para repetir a dose,
uma vez que, instalada a confusão, supostamente
justificavam-se seus atos.
Fugimos em bando para a Lapa, zona boêmia do centro da
cidade. Não havia ali viaturas policiais. Os restaurantes
estavam abertos. Muita gente comendo e bebendo em
mesinhas, nas calçadas. Entrei no primeiro em que
vislumbrei mesa vazia. Era preciso matar a sede e relaxar,
antes de planejar o retorno para casa — até a Lapa não
cruzei com nenhum tipo de transporte, nem carros privados.
Naveguei pela internet e assisti a imagens
impressionantes. A violência policial não se reduzia ao que
testemunhei. Houve circunstâncias muito mais graves. Mídia
Ninja e outros midialivristas transmitiram ao vivo do meio
da manifestação e tornaram-se mais importantes depois
que o evento parecia encerrado, porque acompanharam as
ações policiais, ou parte delas, mostrando com nitidez a
desproporção de sua brutalidade. Além dos repórteres-
militantes-ativistas das redes sociais que se valiam da
comunicação via internet, empregando os próprios
celulares, foi importante a iniciativa individual de centenas
de pessoas, cada uma com sua arma de defesa, o
smartphone, filmando ou difundindo imagens captadas nas
ruas. Muitas cenas de insensatez policial prescindiam de
comentários ou explicações. A rapidez com que se
espalhavam promovia a viralização das denúncias,
antecipando-se às justificativas oficiais e as tornando
obsoletas e insustentáveis. A crítica ao comportamento dos
policiais acompanhava em tempo real as práticas
condenáveis, sucedendo-se a elas como reações quase
automáticas, em frações de minutos.
Pouco depois de relaxar no interior de um restaurante
modesto mas aconchegante, sem o celular, cuja bateria
descarregara, ouviram-se algumas explosões distantes,
seguidas por outras mais próximas, depois pelo berreiro na
calçada e o corre-corre, até que a nuvem de gás alastrou-se,
embaçando as amplas janelas de vidro e encobrindo a vista
do exterior. Muita gente assustada, camisas no rosto,
cabeça abaixada, refugiou-se no restaurante. Duas ou três
pessoas passaram mal e foram atendidas por fregueses que
pareciam experientes na matéria. Esperei que a fumaça
sumisse, paguei a conta e saí. As ruas continuavam vazias e
as calçadas, cheias. Nenhum tumulto, senão os
desdobramentos da desordem provocada pelo ataque
policial. Ouvi alguns relatos, fiz algumas perguntas. A
história era sempre a mesma: os policiais divertiam-se,
hostilizavam os pedestres e lançavam bombas.
Uma viatura aproximava-se lentamente. As pessoas
fugiram. Busquei uma posição da qual pudesse enxergar o
rosto dos rapazes fardados, sem que eles pudessem me
atingir. Uma árvore favorecia a observação segura. A cerca
de dez metros de onde eu estava, vi os policiais rindo e
falando entre si. Dessa vez lançaram duas ou três bombas
de efeito moral para o interior de dois restaurantes abertos,
que atendiam a clientela em suas dependências e nas
mesas na calçada larga da Lapa. Já não havia ninguém
nessas mesas, mas muita gente se comprimia no interior,
sobretudo de um deles. A confusão foi enorme, porque o
barulho assusta, mas a fumaça produzida é inócua. O pior
foi o que se seguiu: lançaram gás de pimenta no amontoado
de pessoas que saía às pressas dos locais atingidos pelas
bombas. O pânico generalizou-se. A árvore não impedia a
passagem do gás. Eu também tive de buscar abrigo,
correndo com a mochila erguida e a camisa nos olhos
fechados, tentando prender a respiração. Por isso, não vi, só
ouvi o disparo. Um rapaz foi ferido no ombro por uma bala
de borracha. A viatura acelerou e desapareceu. Soube que
ele xingou os policiais e agitou os braços, indicando que
filmara a operação.
Retomei a caminhada à procura de transporte. Atravessei
o bairro da Glória. Na rua do Catete, andávamos dezenas de
pessoas quase em fila indiana pelas calçadas estreitas, sem
ousar qualquer depredação, mal nos falávamos, exaustos,
rumo ao Largo do Machado, onde possivelmente haveria
alguma condução. Ouvimos explosões à nossa frente mas
não recuamos, mesmo porque uma viatura nos
acompanhava à distância. De repente, o veículo policial
acelerou e repetiu o ataque padrão: bomba e gás. O
alvoroço nos obrigava a tentar saídas por ruas laterais.
Entretanto, elas seriam perigosas, porque a polícia com
mais facilidade nos encurralaria. Na praça do Largo do
Machado havia névoa e centenas de pessoas vagando,
vertendo garrafas d’água na cabeça, sem camisa. Ninguém
sabia o que fazer. Todos queriam voltar para casa e
dispersar, mas a polícia não permitia, rondando,
hostilizando, induzindo tumultos e reagrupamentos.
Suprema ironia. Segundo declarações à mídia do
comandante, no dia seguinte, a intenção de todas as
intervenções policiais militares teria sido sustar
depredações e dispersar aglomerações, sempre que elas
representassem ameaça ao patrimônio ou à integridade
física de alguém.
Continuei a caminhada agora sozinho pela rua das
Laranjeiras em direção ao Cosme Velho. Já havia percorrido
mais de vinte quilômetros. Estar ao lado de outros nos
vulnerabilizava a todos, porque os alvos policiais eram os
grupos. Por outro lado, andar sozinho talvez fosse ainda
mais arriscado, dada a disposição hostil dos policiais —
impossível prever a que brincadeiras submeteriam suas
vítimas eventuais. Por uma coincidência afortunada, vi um
táxi vazio passando em uma transversal. Fiz o sinal dos
náufragos. O motorista apiedou-se daquele velho
manifestante já andrajoso, a roupa e o corpo impregnados
de um odor cítrico nauseante e tóxico, vestígio do gás e da
névoa leitosa das bombas.
8. Festas cariocas
Recebi com alegria o telefonema da amiga sueca. Alegria
e surpresa. Ela chegaria na semana seguinte com todo o
grupo. Ficariam hospedados em um hotel, mas me
visitariam tão logo se recuperassem da longa viagem.
Queriam saborear a hospitalidade carioca e descobrir como
funcionava, na prática, nosso modo de vida tropical, fora
dos folhetos turísticos e dos filmes folclóricos.
Quando ela disse, poucos meses antes, em nossa
despedida, em Estocolmo, que viria ao Rio de Janeiro visitar-
me, pensei que a promessa fosse apenas a versão sueca do
papo de carioca. No Rio de Janeiro, para horror dos
brasileiros de outras regiões e confusão geral dos
estrangeiros, temos o hábito de prometer visitas que não
tencionamos realizar e de convidar amigos e conhecidos a
visitar-nos, ainda que dificilmente nos passe pela cabeça a
hipótese de que o convidado leve a sério nossas palavras
gentis e apareça em nossa casa. Convites do tipo e
promessas desta natureza fazem parte do rito convencional
das despedidas: “Apareça”, “Não deixe de me visitar”,
“Espero vocês lá em casa”, “Dê um pulo lá em casa”. Ou:
“Vamos nos encontrar”, “Vou passar em sua casa para um
café”, “Vou dar um pulinho em seu escritório para
colocarmos a conversa em dia”, “Vamos almoçar um dia
desses”, “Vou te ligar”. Frases assim são frequentes e não
pretendem comunicar o que significam para um ouvinte
desavisado.
Caso as promessas se cumprissem, os cariocas não
faríamos outra coisa senão visitar casas alheias e receber
visitas, tal a prodigalidade com que repetimos a fórmula.
Promessas desse gênero, no Rio, são formas polidas de
manifestar afeto e evitar a despedida. São formas de
sublimar a despedida. Para o carioca, explicitar o
afastamento o torna mais real e irreversível. Em vez de
adeus, o carioca diz até breve, até logo, e o faz evocando o
próximo encontro. A promessa e o convite expressam o
desejo de que o afastamento seja apenas um breve
intervalo na continuidade do convívio.
Quem lê este esclarecimento talvez o interprete como
uma confissão arrependida de faltas morais que deveriam
causar vergonha. Não é verdade. Se os cariocas se
sentissem culpados com este hábito, considerariam a si
mesmos falsos, mentirosos e manipuladores. Se os cariocas
vissem esta prática como um pecado, estariam admitindo
que ignoram o sentimento de responsabilidade e desprezam
o valor do compromisso entre as pessoas. Sua celebrada
disposição para a confraternização festiva e sua cultuada
índole sociável não passariam de máscaras para um
temperamento arredio e reservado. Isso não faz nenhum
sentido. Quem ousaria afirmar que nós, cariocas, somos, no
fundo, hermitões enrustidos, personalidades austeras e
circunspectas, cidadãos apolíneos e pudicos, disfarçados
sob fantasias dionisíacas?
O caso que passo a narrar me foi contado por dois
amigos, marido e mulher, cujos nomes estão aqui alterados.
O relato foi tão detalhado — um complementava e corrigia o
outro, quando os entrevistei —, que pude reproduzir os fatos
em detalhes como se os tivesse presenciado.
Paulo e Sofia viveram um episódio singular com um jovem
e simpático turista norueguês que conheceram na praia do
Leblon, em um sábado de muito sol. Conversaram um
pouco, dividiram uma cerveja com o rapaz e trocaram
cartões pessoais. No final da tarde, despediram-se com o
convencional “passa lá em casa”. Quando o casal, banho
tomado, preparava-se para sair de casa — haviam
combinado jantar com amigos —, a campainha soou. Sofia,
que já se vestira — estavam atrasados —, dirigiu-se à sala,
enxugando o cabelo. Abriu a porta e, por um instante,
sentiu-se paralisada e sem voz: o norueguês. Controlou-se,
cumprimentou o moço com naturalidade e lhe disse que
ficasse à vontade, voltaria em seguida. No banheiro, à beira
de um ataque de nervos, numa estabanada coreografia
muda, transmitiu a notícia ao marido. Paulo não entendeu
ou não acreditou. Ela tentou uma performance
extravagante, gritar, sussurrando:
— Ele está aqui.
— Ele, quem?
— O rapaz.
— Que rapaz, Sofia? Calma. Fala direito. Que rapaz?
— O moço, aquele, o turista da praia.
— O norueguês?
— Ele mesmo.
— O norueguês está aqui? Em nossa casa?
Sofia não precisou responder. Franziu os lábios, cerrou os
olhos e abriu os braços. Paulo tentou convencer-se, na
esperança de que tudo não passasse de um mal-entendido
ou de uma brincadeira da mulher:
— O norueguês da praia está em nossa casa.
Numa situação desconfortável é sempre útil culpar
alguém. Não resolve, mas canaliza a inconformidade. Paulo
foi o bode expiatório. Sofia não o poupou:
— Você convidou.
Quase completou: “… e ele veio”. Não foi necessário.
Paulo tinha entendido, perfeitamente.
— Como assim, “eu convidei”? Onde é que você está com
a cabeça?
— Você disse: “Passa lá em casa”. Disse ou não disse?
— Eu disse passa lá em casa. E daí? Sou um cara
educado.
— Pois é.
— Como “pois é”? O que você quer dizer com “pois é”?
Sofia fez menção de sair do banheiro e deixar Paulo
falando sozinho. Ele a deteve:
— Espera. Aonde você vai?
— O homem está lá na sala, sozinho. O que ele vai pensar
de nós? Que somos pessoas grosseiras. Que não sabemos
receber uma visita. Eu vou lá.
— Espera. Vamos pensar. O que é que nós vamos dizer?
Não podemos nos atrasar para o jantar.
— Pensa você em alguma coisa. No casal, o expert em
mentiras é você.
— Quer lavar a roupa suja, agora, Sofia? Não é hora pra
começar a briga de novo. Minha nossa senhora, não
mereço. Logo hoje. Como é que pode uma coisa dessas?
Bem que eu notei que o cara espichava o olho grande pra
cima de suas pernas.
— Para com isso, Paulo. Deixa de ser ridículo.
— Ah! Agora, estou entendendo. O gringo ficou louco com
seu biquíni. Eles não estão acostumados. Veem uma mulher
bonita, seminua, ficam doidinhos. Ainda mais com sol e
cerveja na cabeça a tarde inteira.
— Para de falar merda e inventa logo alguma coisa.
Alguma coisa verossímil, pelo amor de Deus. Enquanto isso,
eu vou dar atenção ao rapaz.
— Oferece uma bebida, um cafezinho, diz que estou me
arrumando.
A aflição prolongou-se, porque havia um complicador. O
carioca não admite marcar hora para o término de festas,
visitas ou jantares, e considera uma indelicadeza dos
anfitriões aceitar, sem resistência, sem manifestações de
inconformidade, a referência do visitante à necessidade de
encerrar a visita. A menção por parte do visitante ao
adiantado da hora e à conveniência de partir deve ser
repelida pelos anfitriões para demonstrar o valor que
atribuem ao visitante e àqueles momentos de convívio.
Bons cariocas, bem-educados, Paulo e Sofia tentaram
descobrir um caminho indolor para encurtar a conversa e
encerrar a visita, mas recusaram, polidamente, as
tentativas que o rapaz fazia de levantar-se e despedir-se. Os
anfitriões esperaram, em vão, que o jovem norueguês
decifrasse as ambivalentes regras do jogo e insistisse em
despedir-se, a despeito da efusiva resistência do casal. A
comédia de erros estendeu-se noite adentro, inviabilizou o
jantar programado e legou à madrugada — após a
sucessivamente postergada e tão desejada retirada do
visitante — um roteiro de conflitos e acusações mútuas que
entreteve o casal até o amanhecer.
Lembrei essa história quando convidei a amiga sueca e,
por seu intermédio, o grupo que a acompanhava, para uma
noite de queijos e vinhos em minha casa. Era convite para
valer. Não era sublimação de despedidas. Preparei com
esmero a recepção. Comprei os vinhos que o salário
permitia e os melhores queijos disponíveis na importadora
do bairro. A padaria fazia uns pãezinhos irresistíveis. Sentia
a obrigação de retribuir toda a gentileza dos suecos, que me
acolheram com comovente generosidade nas várias cidades
que visitei, de Uppsala a Malmo.
Os jantares que frequentei nas residências de familiares
dos amigos me lembravam os filmes maravilhosos de
Bergman com Liv Ullmann e Max von Sydow: a atmosfera
densa, contida, econômica nas palavras. À mesa, intervalos
silenciosos estendiam-se além da capacidade brasileira,
especialmente carioca, de controlar a ansiedade. Depois da
refeição, permanecíamos sentados em torno da mesa. Um
folheto era distribuído. Olhos postos nas letras, seguindo
disciplinadamente a ordem das canções, a música era
entoada em coro. A marcação era lenta. Os comensais não
me soavam propriamente entusiasmados. Não moviam o
corpo. Na verdade, o ritmo arrastado não estimulava o
movimento. As canções pareciam a continuidade natural do
jantar, que excluía sabores extremos e atitudes exaltadas.
Pelo menos essa foi minha impressão — preconceituosa,
provavelmente, como costumam ser as impressões dos
viajantes. Quando visitamos outros países, esperamos
encontrar nos outros o espelho de nós mesmos e nos
impedimos de aproveitar a experiência cuja riqueza está na
diferença. Confesso que não conseguia deixar de sentir
tédio com a monotonia das convenções. Talvez eu estivesse
revendo, mentalmente, os filmes suecos, em vez de me
abrir para a novidade.
Sexta-feira, 20h55, os convidados chegariam em cinco
minutos. Os suecos são pontuais. Restavam cinco minutos
para escolher, entre os CDs que eu previamente selecionara,
qual canção ofereceria a melhor trilha sonora para o
momento do reencontro. Pensei em receber os amigos ao
som de bossa nova, que forjou a sensibilidade carioca de
minha geração — João Gilberto cantando “Chega de
saudade” ou “Samba do avião”, Tom Jobim tocando “Wave”
ou “Garota de Ipanema”, João Donato tocando “Até quem
sabe” ou “Capim”. Hesitei. Meus convidados eram
politizados e talvez preferissem Caetano Veloso e Gilberto
Gil entoando “Tropicália 2”. Talvez fosse mais apropriado um
belo samba tradicional. Por fim, pus para tocar “O bêbado e
a equilibrista”, espécie de hino da anistia que Elis Regina
cantava lindamente. Os amigos suecos seriam acolhidos ao
som de João Bosco e Aldir Blanc, na voz de Elis: “Caía a
noite feito um viaduto e um bêbado trajando luto me
lembrou Carlitos…”. Consultei minha mulher, que não os
conhecia senão por meus relatos. Ela concordou com a
escolha.
O porteiro avisou que os treze convidados chegaram.
Verificamos a organização da mesa, a ordem das cadeiras, a
sobriedade do arranjo floral no centro da sala, a elegância
clássica dos pequenos objetos de arte nas prateleiras da
biblioteca. Diminuí o volume do som. O ambiente nos
pareceu suficientemente acolhedor e sereno. Abri a porta e
os esperei diante do elevador. Desejava que eles se
sentissem bem-vindos.
Saltaram aos brados em meus braços numa espécie de
frenesi passional. Gritavam meu nome em coro. Davam
vivas ao Rio de Janeiro. Diziam, apertando meus ombros,
que nunca tinham sido tão felizes quanto naquela semana
carioca. Exaltaram o calor. Referiam-se à temperatura e à
afetuosidade do povo. Não discerniram a música que vinha
do aparelho de som e se apressaram a trocar o disco.
Estavam ansiosos por ouvir os CDs que trouxeram,
comprados em barracas de camelôs na entrada da favela
que visitaram. Apresentei minha esposa. Todos a saudaram
carinhosamente, mas não esconderam a ansiedade pelo
som, pela cerveja, pela festa — trouxeram dúzias de cerveja
e mal provaram o vinho. Aumentaram o volume. Uma
corrente fez a casa toda vibrar ao som do funk. Lançaram-se
ao ar, homens e mulheres, os mais novos e os mais velhos,
remexendo os quadris em ondulações verticais e horizontais
sem o menor embaraço. O figurino feminino copiava os
trajes das meninas cariocas, cuja ousadia era sustentada
por atributos físicos ausentes em minhas amigas suecas.
Elas compensavam a falta de sintonia estética exagerando
na coreografia. Afinal, a sensualidade está ao alcance de
todos. O volume da música desestimulava a fala. A
conversa ali era outra. O grupo espalhou-se pelos dois
quartos, o corredor, a cozinha. Cantaram sem palavras e
dançaram até a exaustão. Formaram-se aqui e ali casais,
que logo se desfaziam e se misturavam ao grupo. Eu e
minha mulher observávamos aturdidos, confusos. Desde o
primeiro instante percebemos que seria impossível tentar
controlar o que quer que estivesse acontecendo em nossa
casa. Tentamos oferecer bebidas, queijos. Inútil. Nossos
convidados estavam no poder. A Bastilha tombou ao som do
funk mais furioso; o Palácio de Inverno foi invadido pela
massa imantada de erotismo; a geladeira foi logo
conquistada e caiu nas mãos dos rebeldes. Os anfitriões
resignamo-nos a nos divertir com o espetáculo. E a torcer
para que os vizinhos fossem tolerantes.
Seis horas depois, quando nos despedimos, os amigos
suecos estavam esgotados, embriagados e esfuziantes.
Cantavam alto no corredor do prédio. Na despedida, me
disseram:
— Muito obrigado, Luiz, muito obrigado por nos
proporcionar uma festa carioca de verdade. Essa noite foi
inesquecível. O Rio de Janeiro é mesmo uma cidade
maravilhosa.
Aqueles momentos com os amigos suecos me ensinaram
que ninguém faz uma festa carioca tão genuína quanto os
turistas, porque eles realizam plenamente a imagem
idealizada do que é ou deveria ser uma festa genuinamente
carioca. Nós, os cariocas, dialogamos com as imagens sobre
nós mesmos, mas nos mantemos sempre a uma certa
distância, porque não há modelo ideal que resista às
impurezas do dia a dia e às variações das experiências
reais. Contudo, não nos iludamos, nós também nos guiamos
pelo clichê, sobretudo vivendo no Rio de Janeiro, este
poderoso e magnético clichê transnacional.
Estou convencido de que não devemos subestimar o
clichê. Ele não faz sucesso por acaso. Há algo de revelador
na caricatura. Menos na informação que sintetiza e mais no
fato de a sociedade autorizá-lo e reconhecê-lo. Isso significa
que ela acredita no retrato que se faz dela, o que, por sua
vez, implica o seguinte: crendo que seja verdade o que o
clichê diz a seu respeito, comporta-se em conformidade
com esta crença. A sociedade passa, então, a imitar o
retrato, tornando-o, a longo prazo, razoavelmente fiel à
experiência vivida. Em outras palavras, a hipótese contida
no clichê é menos uma representação das coisas como são
do que uma hipótese sobre como poderiam ser percebidas.
A hipótese, posta em circulação e encontrando boa
receptividade, passa a funcionar como aposta e prognóstico.
Na medida em que a sociedade aceita e adota o clichê, a
profecia que ele expressa e propaga termina por realizar-se.
Este raciocínio ajuda a compreender um episódio que
representou, de certo modo, a inversão do anterior: a
obsessão pelo sexo ou pela sensualidade dominou a cena,
mas, desta vez, com sinal negativo. Quando um clichê vira
de cabeça para baixo, nem por isso perde seu sentido
original. Torna-se apenas a caricatura do avesso. O clichê
Rio-cidade-maravilhosa transpira sensualidade e
malemolência, suscitando a ideia de que a sociedade
carioca cultua Baco sem descanso. Quando é posto de
ponta-cabeça, o clichê dá-nos o paradoxal espetáculo da
castidade erotizada, carregada nas tintas de uma estética
popular glamourosa e kitsch. É assim que entendo o relato a
seguir, fiel aos acontecimentos que presenciei, assim como
são reais os dois casos narrados anteriormente.
No primeiro semestre de 2007, cantores e cantoras
revezaram-se no palco da maior casa de espetáculos da
Baixada Fluminense, acompanhados pelo coro da audiência,
que sabia de cor cada hit evangélico. O palco tinha cerca de
setenta metros quadrados e dois metros de altura. As
mesas e cadeiras haviam sido removidas do auditório,
exceto as laterais e as que se situavam nos camarotes,
distribuídos em três andares. Formou-se assim um imenso
saguão capaz de acolher muita gente de pé. As canções
soavam redundantes e os berros não se distinguiam da
exaltação dos fãs nos shows de música sertaneja. Depois de
quase uma hora de apresentações dos ídolos gospel, o casal
de locutores que havia conduzido a festa até aquele
momento retirou-se para os bastidores sem explicações e as
luzes apagaram-se por um instante. Tempo suficiente para
que o pastor assumisse o comando num lance teatral,
postando-se no ponto exato do palco em que incidiria o foco
de luz. Parecia que a fonte luminosa era aquele homem de
estatura mediana, levemente desequilibrado por um
problema na perna esquerda que o fazia mancar, o rosto
assimétrico de ex-pugilista. Não fossem as marcas de uma
vida cheia de altos e baixos, que oscilara da miséria ao luxo,
da prisão ao sucesso midiático, sua idade não chocaria
expectativas: ele tinha apenas 45 anos. A luz confundia-se
com a aura de seu carisma. Dali em diante, ele pontificaria,
os gestos hipnóticos, a voz afetada de barítono, a retórica
de excessos. O mestre de cerimônias combinaria as funções
de sacerdote e pai. Famoso, temido e respeitado no
subúrbio e nas periferias do Rio de Janeiro, preparava-se
para celebrar o rito matrimonial de sua própria filha.
A multidão delirou. Eram cerca de 3 mil pessoas entoando
louvações ao Senhor. O pastor comandou os fiéis como se
estivesse num programa de auditório. Quando os brados lhe
pareciam fracos, caminhava agitado pelo palco e provocava
ao microfone:
— Não ouvi. Vocês disseram alguma coisa?
A massa repetia mais alto:
— Glória a Deus.
— Glória a quem? — ele insistia. Os convidados
exultavam. Estavam ali para presenciar o casamento do
ano. Alguns se gabavam: “da década”. Uma honra, um
privilégio. Os noivos eram estrelas do showbiz religioso.
Suas gravações gospel faziam enorme sucesso, não apenas
entre os fiéis de sua denominação pentecostal, fundada e
liderada pelo pai da noiva.
As palavras iniciais foram dirigidas aos presentes,
especialmente às autoridades, saudando-os, dando-lhes as
boas-vindas, agradecendo a manifestação carinhosa de
solidariedade. Seguiram-se preces e algumas reflexões
sobre a união entre os seres humanos sob a bênção divina,
que o casamento simbolizava, e cujo pressuposto era a
fidelidade. Finalmente, anunciou a abertura do ritual,
convocando os familiares e padrinhos dos noivos ao palco. A
multidão abriu-se como o mar no milagre de Moisés,
formando um corredor margeado pelos convidados que se
comprimiam e reacomodavam com uma disposição atlética.
A longa passarela foi iluminada, enquanto o maior dos
sucessos da noiva fazia tremer as caixas de som.
Recepcionou-os e, após um silêncio dramático, carregando
no entusiasmo, chamou os noivos. Despontou o noivo de
terno branco impecável ao lado do pai, antecedido por
damas de honra, crianças e adolescentes em seus vestidos
angelicais. Foram até o palco em passos ligeiros e acenos
sóbrios.
Enfim, mostraram-se sob o foco, no ponto extremo da
passarela, a noiva e seu pai, que furtivamente descera do
palco e contornara a casa de espetáculos até a entrada para
juntar-se à filha. O noivo já os aguardava no palco.
Precedidos pelo cortejo celestial, atravessaram
vagarosamente o oceano de convidados que erguiam os
braços e gritavam, histéricos. Ela, com a bata branca típica
de sua igreja, e o pai, de terno café com leite claro, sorriam.
De volta ao comando, o pastor proclama:
— A noiva, senhoras e senhores, e o noivo.
E os abraçou afetuosamente. A audiência veio abaixo.
Uma lágrima exigiu o lenço até então ausente na
coreografia da noiva. Ela agradecia à plateia acenando e, a
mão direita tocando o lábio, mandava beijos para todos os
lados. O casal postou-se de pé. O oficiante, mantendo-se
entre eles, recuou um pouco e lhes passou microfones. Os
noivos cantaram, dirigindo-se um ao outro. Encerrada a
canção, padrinhos ocuparam o espaço ao lado do respectivo
afilhado. Os familiares, ao fundo, até então sentados,
levantaram-se.
O pastor começou o discurso em tom tranquilo e
moderado, confessional, como se estivesse prestando um
testemunho privado, na intimidade de sua casa. Aos
poucos, seu pronunciamento ganhou velocidade e vigor,
aquecendo a temperatura ambiente, até desaguar numa
exaltação emocionada e contagiante, da qual retenho um
pequeno trecho:
— Eles nunca se tocaram, nunca viram o corpo nu, um do
outro. Ela é pura, imaculada. Essa moça tão bela não sabe o
que é o sexo. Vai se casar sem saber o que são as
provações da carne. Sequer imagina a sujeira do sexo, a
depravação. Abominou o pecado antes de conhecê-lo. Eu
sou testemunha. Como pai e pastor, como oficiante deste
casamento, declaro, diante de Deus e de todos vocês, meus
queridos irmãos, minhas queridas irmãs, que ela, ao longo
de seus 25 anos de vida, não olhou seu próprio corpo no
banho. Se isso aconteceu, foi por descuido, sem intenção,
um relance inocente. Garanto a vocês que, se este acidente
ocorreu, ela terá sentido um profundo mal-estar. Essa moça
faz jus ao branco de seu vestido. Nunca teve a consciência
do mal, da vulgaridade, da torpeza humana, nem se deixou
queimar pelo fogo do sexo que desgraça o mundo. Quando
a Bíblia, no Apocalipse, profetiza que o fogo consumirá a
terra, é do sexo que está falando. O sexo é a fonte de todo o
mal. A noiva, minha filha, eu tenho orgulho de trazê-la
virgem ao sagrado matrimônio, com a certeza de que
jamais o diabo libidinoso lambeu sua alma com a ponta da
língua em brasa. Estive a seu lado, sempre alerta. Nunca
Satanás torturou o espírito dessa menina com as labaredas
de seu tridente e os chifres ardentes do anticristo. Não
deixei. Fui seu escudo e hoje, glória a Deus, Jesus seja
louvado, hoje a entrego a seu noivo sem pecado.
A evocação da nudez solitária da filha, as referências
insistentes à luxúria, à volúpia, às paixões sensuais, ao
toque adiado, inflamaram a imaginação erótica e
magnetizaram a audiência, induzindo-a a compartilhar a
expectativa física dos nubentes. As imagens tóxicas foram
convocadas e banidas, banidas e convocadas. O ambiente
criava o espaço sagrado por meio de uma aproximação
quase promíscua com o sexo.
O pastor pediu ao noivo a leitura de um trecho da Bíblia.
Fez o mesmo com a filha, que não conseguiu disfarçar a voz
embargada. Dirigiu a ambos as perguntas de praxe, passou-
lhes as alianças, orou e os abençoou. Estavam casados. No
entanto, não encerrou a cerimônia. Chegara a hora de sua
confissão pública. Como se estivesse embriagado pela
mística do rito, derramou-se em homenagens à esposa, mãe
da noiva, e lhe implorou o perdão.
— Quando vejo aqui hoje esta mulher envelhecida,
desgastada pelos anos e pelo sofrimento, me envergonho,
ao mesmo tempo que elevo meu pensamento ao Senhor e
Lhe dou graças. Por muitos anos fui possuído pelo demônio
e me entreguei ao sexo, ao álcool e às drogas. Minhas
noites eram dissipação e orgias. Chegava em casa e batia
nessa mulher.
Relatou traições. Em vez de silêncio e perplexidade, a
multidão exultava ante cada revelação, declamando a
plenos pulmões frases bíblicas e louvações em frenesi
coletivo. Como num leilão, a cada peça exibida, a cada
pecado narrado em detalhes gráficos, sempre alusivos ao
sexo, ouviam-se lances, nesse caso eram sentenças como
“Cristo venceu”, “Glória”, “Vitória”, “Justa é a Sua Palavra”.
Mais funda a queda no inferno, mais efusiva a acolhida,
mais intensa a catarse mística. A comunidade em êxtase
amava a castidade com um fervor tão visceral que evocava
uma ambígua sensualidade. Praticava-se o paradoxal
exorcismo erótico da sexualidade, o culto de Baco às
avessas, evocando seu poder e sua provocação na mais
hedonista das casas de show, nos domínios de Dionísio, em
pleno Rio de Janeiro.
Em 2013, o pastor foi condenado, em primeira instância, a
quinze anos de prisão por estupro. Em 2014, voltou à
liberdade por decisão do Supremo Tribunal Federal, que
acolheu habeas corpus impetrado pela defesa. O pastor
está recorrendo e poderá ter a pena revista ou suspensa.
9. Pedra da Gávea
Vi o Rio de Janeiro pela primeira vez em 1959, quando
tinha cinco anos e minha família mudou-se da cidade
serrana onde nasci, Nova Friburgo, para Niterói. Vi o Rio da
janela do apartamento que se debruçava sobre a praia de
São Francisco. Meus pais não podiam pagar aluguel nas
áreas nobres. Fomos obrigados a viver naquele recanto
encantador, desprezado como se fosse uma espécie de
periferia à beira-mar. Nosso prédio era o único do bairro.
Havia um punhado de casas, duas escolas, o barbeiro, a
farmácia e o armazém de seu Horácio, onde meu pai me
mandava comprar-lhe cigarros, onde também me
autorizava, uma vez por mês, quando o salário lhe permitia
esta prodigalidade, buscar um guaraná para o almoço de
domingo. Lá na ponta, a igrejinha histórica escondia-se no
topo do morro. E, claro, havia os 750 metros de areia
branca, além do mar sereno, abraçado pela enseada. Tudo
isso me pertencia. Mas os adultos achavam que o lugar não
prestava, não tinha nada e ficava longe do centro, onde as
coisas realmente importantes aconteciam. O que me
importava era ter onde jogar futebol e poder enxergar a
cidade maravilhosa, acendendo e apagando seus faróis. O
queixo apoiado nos braços sobre o parapeito da janela da
sala, eu imaginava os dias e as noites naquele mundo
incrível, onde ficava o Maracanã.
Niterói era o paraíso: a paisagem exuberante do Rio
emoldurava sua tranquilidade provinciana. Claro que esta
descrição guarda uma dose de ironia que, à época, não
fazia sentido. As cidades são próximas, separadas apenas
pelo mar. O horizonte para quem passeia nas praias de
Niterói é o Rio dos cartões-postais: Corcovado, Pão de
Açúcar e o relevo sinuoso que os folhetos turísticos não
cansam de enaltecer e reproduzir. Nas tardes de domingo,
do outro lado do mar, o rádio de pilha colado ao ouvido, eu
visualizava mentalmente os jogos que os locutores
narravam. Do meu jeito, à distância, todo fim de semana eu
subia a rampa do maior estádio do mundo, o templo
sagrado do futebol.
A praia deserta nos dias de chuva, o silêncio na rua
estreita de paralelepípedos entre o prédio e a areia, a
solidão que só o radinho remediava — quando meu pai
permitia que eu o ligasse —, provocavam uma curiosa
melancolia, a ânsia para viver de uma vez o futuro que não
chegava nunca.
Enquanto as sombras rondavam a política, meu avô
pensava nas escolas para os netos. Apesar de morar em
Friburgo, acabou convencendo meus pais a mudarem-se
para o Rio. Ele lhes daria um apartamento. Meu sonho
estava prestes a se realizar. Naqueles anos, meus pais
tinham nos levado ao Rio algumas vezes. Em domingos
especiais, como a Páscoa, almoçávamos com a tia de minha
mãe na Penha, um bairro da Zona Norte, longe da orla.
Atravessávamos a baía nas barcas lentas e largas. Era
bonito, mas faltava conhecer Copacabana. Sobretudo,
faltava ir ao Maracanã. Meu avô era um português austero e
esperto, cuja saúde resistiria a mais de um século. Era
poliglota e autodidata, leitor de Eça de Queirós e Luís de
Camões, filho de camponeses, migrante clandestino na
Primeira Guerra. Viveu na rua, fundou sindicatos, abriu
caminho com a energia dos estivadores e terminou seus
dias salazarista, em guerra amorosa e constante comigo.
Mago das palavras, ainda que econômico em tudo o que
fazia, inclusive na fala, vovô convenceu um patrício que a
revolução comunista estava madura: questão de semanas.
O apartamento seria expropriado e invadido por famílias
miseráveis. Se o proprietário sobrevivesse, desse graças a
Deus, mas a propriedade privada, esta não tinha jeito,
estava com os dias contados. Era pegar ou largar. Fecharam
negócio por valores irrisórios. O gajo vendeu o apartamento
em Laranjeiras e fugiu com a família para Portugal. Um mês
e meio depois, cá no Brasil, o golpe militar garantiu a
propriedade ao preço da liberdade e de milhares de vidas.
Devo, portanto, a meu avô e ao medo, o lugar em que
cresci com meu irmão no Rio de Janeiro, onde meu pai viveu
até seus últimos dias, onde está minha mãe até hoje, lúcida
e vigilante. Por ironia e cambalhotas do destino, o medo,
generoso comigo na mudança para o Rio, infeccionou a
história de minha geração e envenenou minha juventude.
Rio de Janeiro, finalmente. Hora de festa. Ventos a favor.
Aportávamos em Laranjeiras, bairro do Fluminense Football
Club, meu clube do coração. O aniversário se aproximava.
Tinha certeza de que meu pai me levaria ao Maracanã
assim que a casa estivesse arrumada e a vida, normalizada.
Conheci a nova escola. O campo de futebol era respeitável.
Balizas de madeira. Tudo como manda o figurino, à exceção
das duas árvores frondosas na intermediária de cada lado.
Nada de mais para quem jogava na areia e tinha
experiência em ladeira de terra com bola oval. Seria apenas
um detalhe tático a considerar. Ao longo dos cinco anos em
que estudei no Zaccaria, só uma vez me empolguei demais
com o drible em velocidade pela direita e trombei com
aquele imenso zagueiro fixo. Não cheguei a quebrar os
dentes. O vexame foi maior do que a dor.
Enquanto a ida ao Maracanã aguardava uma
oportunidade adequada ao calendário de meu pai, minha
mãe apressou-se em realizar outro desejo do primogênito.
Fomos de ônibus elétrico à Cinelândia para minha primeira
aula de violão. Aquilo era uma vitória importante, que
encerrava um rocambolesco quiproquó em torno dos
costumes. Em 1960 ou 1961, cismei com o violão, para
desgosto de meu pai. “Coisa de malandro, vagabundo,
desocupado. Filho meu, violão, nunca.” Quando ele falava
assim, convinha não insistir. A alternativa era recorrer à
intermediação de minha mãe. A solução de compromisso foi
o violino. Afinal, eram parecidos na forma. Por outro lado, o
instrumento tinha nobreza. Um violinista é uma pessoa
respeitabilíssima. Aceitei, mas durou pouco. Quase
enlouqueci a família e os vizinhos, grasnando escala acima,
escala abaixo, fora do tom, riscando tímpanos. Faltava
destreza, do lado de cá, e paciência, do lado de lá. Próxima
parada, piano. Sendo minha mãe professora do
instrumento, qual o sentido de buscar outro? Ocorre que no
teclado reinava meu irmão, cujos dotes o levariam longe.
Minha mediocridade ostensiva e disciplinada era
humilhante. A inveja desprendeu-se da alma e tomou forma
e peso de coisa real que se vê e toca, como o piano, o
violino e os objetos que preenchem o mundo. Tudo bem,
melhor reconhecer e cair fora. No futebol, em compensação,
eu era bem melhor que ele.
Mudavam os tempos, mudamos de cidade, estávamos na
metrópole mais cosmopolita do país, mesmo já não sendo a
capital desde 1960. Tudo isso mais a insistência de minha
mãe fizeram meu pai mudar de ideia. O professor nos
atendeu, mostrou onde por as mãos, como flexionar os
dedos e afinar as cordas, ensinou as notas, os acordes
básicos e esbanjou talento nos trinados e harmônicos.
Infelizmente, a primeira aula foi também a última. O mestre
admirava Lênin, desprezava o papa e chocou minha mãe:
por ele, as igrejas seriam transformadas em bibliotecas.
Comunista.
Primeiros dias de março de 1964. Minha alegria cruzaria
com a violência, logo ali, na esquina. O Maracanã teria de
esperar. A inocência estava por um fio. Ao contrário das
expectativas, a vida não se normalizaria tão cedo. Em certo
sentido, nunca mais, porque os acontecimentos de março e
abril de 1964 deixariam marcas profundas o suficiente para
permanecer conosco para sempre.
No dia 13 de março, ouvi pelo rádio com meu pai, na sala
do novo apartamento, o discurso do presidente João Goulart
para 300 mil pessoas no comício da Central do Brasil, no Rio
de Janeiro. Ele prometia reformas de base, que proviriam
educação, saúde, terra e trabalho para todos. Respeitando a
Constituição. A massa aplaudia, mas exibia cartazes,
segundo os locutores, cobrando as reformas, na lei ou na
marra. Dias depois, marinheiros rebelados contra maus-
tratos e condições desumanas de trabalho conseguiram
abrir diálogo direto com Jango, enfurecendo os militares,
ciosos da disciplina. A agitação fritava os nervos da
sociedade. Fiz dez anos um dia antes do comício. Não
compreendia nada claramente. Mas me sentia ligado à
eletricidade do mundo. A política emocionava as pessoas à
minha volta, como acontecia no Maracanã. Eu era feito da
matéria com a qual se escrevia aquela história. Não sei o
que isso significa, mas o afirmo porque é verdade. Por isso,
lembro bem da voz do presidente, da dicção gaúcha
cantada, declinante, espichando para baixo as últimas
palavras das frases. Por que grudei no rádio no dia 13? Para
ficar ao lado de meu pai, certamente. E também para
decifrar o mistério da vida entre os outros.
Menos de uma semana depois, em 19 de março, uma
multidão equivalente foi às ruas em São Paulo, empunhando
cartazes do tipo: “Justiça social, sim, comunismo, não” e
“Reformas só dentro da Constituição”. Os sinos de todas as
igrejas repicaram quando a marcha começou. O movimento
era puxado por associações de senhoras católicas e contava
com o apoio do governador do estado, Ademar de Barros,
cuja esposa liderava a manifestação.
O que eu não sabia era o seguinte. Lideranças
esquerdistas, como Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes,
secretário-geral do ainda clandestino, porém atuante, PCB,
pisavam no acelerador. Políticos moderados, como Santiago
Dantas e Tancredo Neves, e até mesmo o governador
socialista de Pernambuco, Miguel Arraes, jogavam água na
fervura. Os comunistas eram minoria. Não tinham força
para fazer revolução nenhuma. Os Grupos dos Onze,
milícias brizolistas, não iriam a lugar nenhum. As Ligas
Camponesas, de Julião, no Nordeste, eram fortes, mas
circunscritas à região. Sofrer pressão da esquerda parecia
convir ao presidente, para contrabalançar a pressão ainda
mais forte da direita, comandada por Magalhães Pinto,
governador de Minas Gerais, e pelo incendiário Carlos
Lacerda, governador do estado da Guanabara — que, então,
correspondia à cidade do Rio de Janeiro. A radicalização dos
dois polos permitiria que Goulart se equilibrasse, ocupando
o centro político. Jango era um social-democrata moderado,
homem de centro-esquerda ligado a sindicatos, ex-ministro
do Trabalho de Getúlio Vargas. Planejava conduzir o barco
sem sobressaltos, consolidando conquistas sociais em
contexto democrático. Para viabilizar seu projeto, contava
com a estabilidade das instituições e o apoio de seu
dispositivo militar. A CIA, por intermédio do Instituto de
Pesquisa e Estudos Sociais, financiou eleições e difundiu
intensa propaganda, disseminando o medo e alardeando a
iminência da revolução comunista. A direita acumulava
força. As pequenas anedotas de meu cotidiano infantil
testemunham a eficácia do marketing paranoico — com a
involuntária e autodestrutiva colaboração de várias
lideranças esquerdistas. O risco para Jango era perder o
controle da polarização, anular o centro e terminar
submetido à gravitação imposta pelo polo mais poderoso. E
o polo mais poderoso é aquele que tem as armas.
Na hora H, quando a direita ergueu o punho para golpear
a Constituição e depor o presidente, faltou-lhe o dispositivo
militar. Por outro lado, as esquerdas se mostraram
incapazes de mobilizar a sociedade para resistir. Enquanto
isso, a Marinha norte-americana desencadeou a operação
Brother Sam, deslocando a frota do Caribe para a costa
brasileira. João Goulart decidiu deixar o país para evitar uma
guerra civil sangrenta e fadada à derrota. Morreu no exílio,
em 6 de dezembro de 1976.
Trinta e um de março, terça-feira, fim de tarde. Meu pai foi
à escola me buscar com minha avó materna. Boa coisa não
era. As caras deles não estavam boas. Mais estranho ainda:
muitos pais fizeram o mesmo. A rua do Catete era uma
barafunda de Gordinis, Dauphines, DKVs, Fuscas, Aero Willys.
O que quer que fosse, não atingia só minha família. A
conversa dos adultos no curto caminho para casa era
preocupante. Uma bomba estava prestes a explodir. Um
desastre. Uma hecatombe. Eles disfarçavam, o que só
piorava o clima, porque minha imaginação fervilhava. O
mal-estar cresceu. Quase não preguei os olhos naquela
noite. Mesmo que eu estivesse feliz, alguém consegue
dormir com o barulho das esteiras dos tanques rolando e
rasgando o asfalto? Alguém consegue dormir ouvindo a avó
rezando o terço e andando para cá e para lá no corredor, a
noite inteira? Eu me sentia rachado ao meio. Não queria que
Jango perdesse o jogo. O que ele dizia, o que diziam os que
estavam do lado dele parecia com o que eu tinha aprendido
a valorizar. As pessoas que eu via falar mal dele eram um
pouco parecidas com o que havia de pior em meu pai. As
rezas de minha avó, eu não gostava daquilo. Sentia raiva
por ter sido expulso da sala algumas vezes. Sentia uma
revolta feroz por ter apanhado injustamente. Achava errado
aquela coisa de hora disso e daquilo, o que podem as
crianças saber, o que não podem, o corte de cabelo tendo
de ser sempre o mesmo, príncipe danilo máquina 1, a missa
todo domingo em latim, interminável, a família cobrando a
medalha do primeiro lugar no final do ano, minha mãe
chorando quando lhe entreguei o boletim mensal com uma
nota 8,5, pela primeira e única vez. A missa era falsa,
artificial, ninguém suportava aquela chatice, ninguém
queria estar ali, mas estava e não fazia nada para mudar
aquilo. As medalhas eram latas velhas, não serviam para
nada, só para agradar as famílias e fazer a gente se achar
melhor do que os outros, mas eu sabia que, se não fosse
meu avô, nem na escola eu estaria, muito menos morando
no Rio de Janeiro, e que aquilo tudo era um teatro, uma
grande mentira. Não queria estar ao lado deles. Mas eles
eram minha família.
Caí no sono por pouco tempo. Lá pelas cinco da manhã
meu pai veio nos acordar, a mim e a meu irmão. Falou de
um modo tão diferente que nós nem hesitamos. Dei um
pulo, me vesti e corri à janela. O dia ainda estava
começando a clarear, mas dava para ver o canhão do
tanque apontado para minha janela. Levei um susto difícil
de descrever. A pessoa deve se sentir assim num assalto. Só
que, no roubo, a gente sabe o que quer o ladrão e vai logo
passando o dinheiro, o relógio, o que tiver à mão. Ali, eu não
sabia o que entregar. Muito depois compreenderia que a
gente entregava, ali, a liberdade, uma coisa que os adultos
tinham e que devia ser bacana. Anos mais tarde, conheci a
liberdade nos livros, como um conceito, e a exercitei como
uma experiência subjetiva. Só em 1985 a cidadania no
Brasil pôde sair do armário. Somente em 1988, promulgada
a Constituição democrática, a liberdade tornou-se um direito
e uma experiência pública.
O tanque apontava para minha janela porque o prédio em
que morávamos fica na rua das Laranjeiras, entre dois
palácios, o Laranjeiras e o Guanabara, que à época eram
ocupados, respectivamente, pelo presidente, quando vinha
ao Rio, e pelo governador. Em 1964, eram inimigos. Lacerda
era o braço civil do golpe. Esperava tropas que vinham de
Minas para encurralar Jango. Quanto aos militares, não se
sabia, com certeza, quem estava com quem. Até porque
nada era estático. Nessas horas, previsões se confirmam
porque as pessoas creem nelas. O senso de oportunidade
comanda. Elas aderem a quem oferece perspectivas de
poder. Quando o possível ganha o status de provável, torna-
se logo realidade. É a força gravitacional do poder.
O tanque estacionou na esquina da rua Gago Coutinho
com a rua das Laranjeiras. O alvo era o Palácio Guanabara.
Para atingi-lo, seria preciso que o projétil passasse por cima
de meu prédio. Nós morávamos no oitavo andar, o
penúltimo. A impressão era que mirava nossa janela.
Descemos para a garagem. Diante da portaria, havia um
pequeno jardim. Soldados armados estavam deitados,
amassando as plantas e misturados a elas, porque a farda
era camuflada, quer dizer, feita para que os homens
parecessem vegetais. Foi o que depreendi da explicação de
meu pai. Ele pediu autorização para sair. Agitou o lenço
branco para os dois lados. A rua estava dividida. Do lado
direito, uma fileira de sacos de areia sobre sacos de areia
protegia os soldados das forças legalistas. Eles estavam
postados de costas para o tanque. Os bicos dos fuzis e das
metralhadoras metiam-se entre os sacos ou repousavam
sobre a barricada. Do lado esquerdo, a tropa golpista
adotava o mesmo método. Claro, foram formados na
mesma escola, tiveram os mesmos professores, usavam os
mesmos uniformes e as mesmas armas. Os soldados se
entrincheiraram atrás dos sacos de areia. Para ser sincero,
quem me disse que eram de areia foi meu pai. Foi dele
também a informação sobre as armas. Eu estava tão
agitado que mal conseguia perceber os detalhes da
distribuição dos homens no terreno. Mais tarde concluí que
o teatro de operações éramos nós, nosso pedaço de rua.
Meu pai dirigia bem e driblou com habilidade as barreiras,
mas fez tudo bem devagarinho para não assustar os
homens armados até os dentes. Minha avó e minha mãe
estavam tão histéricas que congelaram, emudeceram.
Assim que pegou a estrada, meu pai pisou fundo. Foi a
única viagem de que me lembro em que minha mãe não
reclamou da velocidade.
Chegamos a Nova Friburgo em tempo recorde, menos de
três horas. No caminho, o rádio ia informando os nomes dos
estados conforme aderiam ao golpe. Foi naquela viagem
que aprendi o significado do verbo “aderir”. O castelo de
cartas tombou gradualmente ao longo do dia. Houve
assassinatos, no dia 1o de abril, mas disso pouco se sabe
até hoje. No dia seguinte, o golpe consolidou-se. Passava
pouco da meia-noite quando o presidente do Senado
Federal, Auro de Moura Andrade, contrariando o regimento,
decretou a vacância da presidência, apesar de o presidente
João Goulart ainda estar em solo nacional, em pleno
exercício de suas funções constitucionais, como asseverava
o comunicado do chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro,
encaminhado a Andrade e lido em plenário. Às 3h45 da
manhã do dia 2 de abril, Moura Andrade transmitiu a
presidência da República ao presidente da Câmara dos
Deputados, Ranieri Mazzilli, que a repassaria ao marechal
Castelo Branco em 11 de abril de 1964. Por isso,
historiadores afirmam, com razão, que o golpe não foi
apenas militar. Seria melhor descrevê-lo como civil-militar.
Quando Andrade entregou a presidência a Mazzilli, estava
acompanhado do presidente do Supremo Tribunal Federal,
Alvaro Ribeiro da Costa.
A serra é sinuosa. Eu sempre passava mal. Tinha de parar.
Não daquela vez. Fomos direto. Entramos em Friburgo
aliviados. Meu irmão tinha sede, minha avó estava
apertada, eu queria respirar, minha mãe não queria nada,
como sempre, só mesmo saciar nossas vontades, e meu pai
dirigia, concentrado, em silêncio. O rádio parava de
funcionar quando se atravessava a zona de sombra da Serra
do Mar. Meu pai não conseguiu estacionar em frente à casa
de meu avô. Muitos carros e jipes militares bloqueavam a
entrada. Mal tivemos tempo de esticar as pernas, fomos
supreendidos por um dos tios que passou por nós vestido de
uma forma estranha, com um colete igual ao dos militares e
uma arma de tamanho médio a tiracolo. Ele tinha pressa,
nem parou para nos beijar ou para dizer qualquer coisa.
Acenou, meteu a cabeça num capacete e entrou em um dos
jipes do Exército. A fila de carros começou a se mexer. Pelo
visto, meu tio era a cabeça da serpente. Ele saiu, os outros
o seguiram, roncando os motores e jogando fumaça em
nossa cara. Meu avô explicou que o filho ia encontrar-se
com o general Olímpio Mourão Filho, que vinha de Minas
Gerais à frente das tropas golpistas.
Passamos a tarde na garagem, ouvindo rádio. Não sei por
que diabos os homens da casa tínhamos de ficar ali. Não
lembro a razão, mas foi assim. As ondas sonoras chegavam
truncadas à serra. Muitas frases perdiam-se entre zumbidos
e interferências. Nítida para mim, e até hoje clara na
memória, era a voz de Lacerda, o governador do Rio,
entrincheirado no bunker do Palácio Guanabara. Ele se
comunicava por meio de alto-falantes espalhados ao redor,
e a rádio que ouvíamos retransmitia. “O Palácio está sendo
atacado. Estou aqui para matar e morrer […] Almirante
Aragão, assassino monstruoso, não se aproxime porque eu
te mato com meu revólver, canalha, bandido, traidor. A sua
hora chegou.” No final da tarde, a fatura estava liquidada.
Subimos para tomar café na sala. Meu avô ligou a TV, gesto
raro em seu cotidiano espartano e ascético, feito de pausa e
contenção, onde não se contavam piadas, não se permitiam
refrigerantes e outros excessos, onde jamais se ouviu um
palavrão, um pronome mal empregado, um erro de
concordância ou uma conjugação verbal trôpega.
Várias gerações da família reunidas na casa de meu avô,
ao anoitecer do dia 1o de abril, assistiram pela televisão a
proclamação da vitória, em imagens alvinegras trêmulas
como bandeiras ao vento. Os golpistas estavam no poder. O
clima doméstico era de uma quase euforia, refreada pela
austeridade que a presença de meu avô exalava. Eu não
compartilhava o sentimento dominante e mal o
compreendia. Amuado, dividido, balançado por emoções
contraditórias resistentes às palavras, não estava equipado
com o vocabulário ou os argumentos para processar
aqueles impulsos internos antagônicos. Soava justo
comemorar. Todos estavam felizes, o motivo devia ser bom,
e eu confiava em meus pais. Por outro lado, me parecia que
alguma coisa estava errada, porque havia conflitos entre os
adultos da família e disso nunca ninguém falava
abertamente. A mentira reinava, naquele dia como em
todos os encontros. Os tios nada diziam publicamente sobre
meu pai, mas eu sabia que não apreciavam sua falta de
ambição. Eu já ouvira comentários reservados, em natais e
aniversários, quando me infiltrava em rodas de adultos e
fingia brincar. Críticas pronunciadas em voz baixa — aprendi
que tudo o que era importante dizia-se à meia-voz —,
atribuindo nossa pobreza à pasmaceira típica do
funcionário, à mentalidade típica do servidor público, avesso
ao empreendedorismo de que se orgulhavam os tios e meu
avô. Por isso, foram contra o casamento da irmã com aquele
lambe-selos. Era como o chamavam. Não gostavam de meu
pai. As aparências eram mantidas com o sacrifício da
sinceridade. O modo extremamente autoritário como um
dos tios educava os filhos me revoltava: até o assovio era
banido. Naquele reino totalitário, a censura proibia todos os
meios de comunicação. Por isso, ali, eu era um agitador
perigoso, um Che Guevara de calças curtas. Não por acaso
fui expulso da casa daquele tio. Isso tudo me levava a intuir
que a alegria do dia 1o de abril era uma farsa. Eu não queria
fazer parte daquilo.
Queria, sim, fazer parte da festa no Maracanã.
Finalmente, ainda em 1964, convenci meu pai de que o Fla-
Flu de 18 de outubro era imperdível. Muita gente concordou.
Segundo informações oficiais, 136 mil pessoas pagaram
ingresso. Contando os convidados, os profissionais que
trabalhavam no estádio e os jornalistas, o número subia
acima dos 150 mil. Minha ansiedade por conhecer o
Maracanã era tanta que ardi de febre na noite de sábado.
Eu era dado a essas coisas. Os nervos mandavam no corpo.
Claro que escondi de minha mãe. Se ela percebesse, nada
de Maracanã. Meu pai teria um belo argumento para
cancelar o plano. A tarde só não seria completamente
gloriosa porque o Flamengo empatou no último minuto do
segundo tempo: três a três. Tudo me parecia absolutamente
fabuloso. Duas viradas. Primeiro, nós na frente. Depois, eles:
dois a um. No segundo tempo, passamos à frente. Não fosse
o pênalti já nos acréscimos, nosso triunfo seria memorável.
Mas aquela era a sina dos Fla-Flus, a imprevisibilidade, a
rivalidade, as reversões dramáticas. Por isso era o clássico
dos clássicos, o maior épico do futebol carioca. Meu ídolo, o
dramaturgo Nelson Rodrigues, tricolor fanático, escreveu
que o primeiro Fla-Flu, fenômeno cósmico, foi disputado dez
minutos antes do nada. Foi muita sorte ter ido pela primeira
vez ao Maracanã em um Fla-Flu, especialmente naquele.
Tanto quanto a partida, me emocionou a chegada ao
estádio. Deixamos o carro longe e seguimos a pé, meu pai e
eu de mãos dadas. Na medida em que nos aproximávamos,
o gigante crescia. Não sabia o que mais me comovia: o
monumento de pedra e aço maior do que tudo o que eu já
tinha visto, maior do que as fantasias, bem maior do que as
fotos e os filmes sugeriam; a profusão de bandeiras rubro-
negras e tricolores; ou a sinfonia desafinada, cada vez mais
intensa. Ou, quem sabe?, a realização do sonho do menino
que imaginava os jogos na janela, em São Francisco, de
mãos dadas com o pai. Ali minha mãe não cabia e meu
irmão era pequeno demais para a empreitada de risco.
Naquela época, futebol era para homens. Eu olhava para
cima, via meu pai, e apertava sua mão para não me perder.
Nos gols, ele me abraçava. Política nenhuma separaria dois
tricolores.
Mas são tantos os jogos, os caminhos das multidões, as
bandeiras, as palavras de pai e filho, as pausas, os cafés à
mesa da sala, os gestos adiados, as tardes esquecidas, os
crepúsculos dos domingos que morrem, as cinzas das coisas
que passam. Elas se acumulam nos cantos da casa e nós
passamos, desatentos. Foi por isso que, dali em diante, as
coisas pioraram. Não fosse por isso, pelo descuido, meu, de
meu pai, nada do que aconteceu a seguir precisava ter
acontecido. Porém, não faz sentido negar os fatos.
Minha divisão foi sendo aos poucos superada, na medida
em que fui assumindo gradualmente posições contrárias ao
regime militar. A tal ponto que, dois anos depois do golpe, já
não sentia a angústia da contradição interna, porque ela foi
substituída pelo antagonismo com meu pai. A contradição
externa não era menos dolorosa do que a interna,
entretanto, talvez fosse mais fácil de metabolizar. Na vida,
as mudanças costumam fluir imperceptivelmente,
sobretudo quando se está sofrendo a mutação das
mutações: virar adolescente. De repente, você já não é o
que era e ainda não é o que será. Só que você não viu isso
acontecer. Não acompanhou as sutis metamorfoses diárias.
A grande transformação é invisível no cotidiano.
Subitamente, lá está você, no alto, girando no espaço, sem
saber se o impulso no trampolim foi suficiente para não se
esborrachar na borda da piscina. Esse limbo é uma merda.
Enfim, um palavrão. Pronunciei o primeiro aos quinze anos.
Nessa matéria, fui fiel a meu pai e a meu avô. Ambos
abominavam a linguagem chula — era assim que a
denominavam. Aos doze anos, ainda era um tabu que eu
respeitava. Nisso meu pai e meu avô convergiam: a repulsa
à vulgaridade e o amor à palavra. Autodidatas, ambos
reverenciavam a língua. Os dicionários de meu pai eram os
únicos livros em nossa casa, antes de eu começar a juntar
dinheiro para comprar os meus. As estantes de meu avô
vergavam ao peso de gramáticas opulentas e dicionários.
Duvido que houvesse este relato não fosse a herança desta
obsessão.
A mudança, eu dizia, costuma ocorrer sem alarde, sem
que a identifiquemos, deixando-se ver apenas
retrospectivamente. Mas o que aconteceu em minha casa
foi diferente. Houve uma data, uma hora precisa. Primeiros
dias de agosto de 1966. Almoçávamos, eu, com doze anos,
meu irmão, meus pais e minha avó materna. Eu voltava de
férias no Espírito Santo, onde conheci um militante do
movimento estudantil, que devia ter dezesseis ou dezessete
anos. Conversamos na escadaria da igreja, onde eu
esperava por minha avó paterna. Política era o tema,
continuava se infiltrando no cotidiano. Confessei-lhe minha
convicção socialista. Ele me cumprimentou, disse que era a
única ideologia digna, porém corrigiu: as ideias que eu
descrevera não eram socialistas; eram comunistas. Sendo
assim, posto que meu pai fora o primeiro a saber de minha
fé socialista, achei justo que fosse o primeiro a ser
informado da novidade. Ao contrário do que ele me
explicara no corredor do apartamento em Niterói, enquanto
jogávamos bola, minhas ideias, na verdade, eram
comunistas. A explosão foi tamanha que me pegou de
surpresa. Acho que ele esqueceu aquela nossa conversa,
que tinha acontecido cinco anos antes. Do jeito que ele
esmurrou a mesa e berrou, só podia ser. Minha avó chorava
copiosamente. Minha mãe tentava consolá-la e acalmar
meu pai. Fui proibido de acabar o almoço e obrigado a ficar
no quarto dos fundos de castigo, o dia inteiro. Ouvia de
longe os suspiros da avó e alguns gritos esparsos de meu
pai. Minha sorte foi estar sentado na cabeceira oposta à de
meu pai. Minha mãe veio me visitar mais tarde. Trouxe o
resto do almoço, requentado. Perdi a fome. Como sempre,
ela tentou me fazer compreender o lado de meu pai. Eu
achava que tinha compreendido o suficiente. Preferi não
responder. Nisso eu era parecido com meu pai. O silêncio é
meu cabo de guerra. Ele queria briga, ia ter briga. Fizemos
ambos voto de silêncio, um com o outro. Ou melhor: contra
o outro. Não nos falamos por quase um ano. O que foi uma
pena, porque, com o astral da casa e a espontaneidade, foi-
se também pelo ralo o Maracanã.
Revendo hoje o episódio, salta aos olhos que, no fundo, eu
sabia que minha declaração detonaria a mina plantada no
meio da sala, entre nós. Nossa relação era um campo
minado. Contudo, talvez fosse isso o que eu quisesse.
Explodir de uma vez a mina, fazer em pedaços o
relacionamento que já estava em frangalhos e ver o que
aconteceria. Quem sabe o choque nos proporcionaria a
chance de começar de novo? Entre uma criança e sua
bandeira há sempre o pai, a mãe e as vicissitudes de uma
novela familiar. O fato é que a explosão, em vez de salvar,
bloqueou de vez os canais de diálogo e afeto. Por um longo
período, a ponte permaneceria tombada, em escombros; as
caravelas, queimadas. A mãe seria o pombo-correio e nos
manteria em armistício, ou seja, armados, embora evitando
a conflagração. Depois daquele almoço interrompido, o
clima familiar desandou. Só voltaria a ser o mesmo de antes
décadas depois.
Saí de casa muito cedo. Casei cedo demais, aos dezoito
anos, menos de doze meses depois de ingressar na
universidade. Pouco antes de conhecer minha primeira
esposa, vivi a segunda e mais séria convulsão familiar, que
apressou a saída de casa. A cena resume o nó que amarrou,
em minha história, a política e as relações familiares. Talvez
este emaranhado não tenha sido um caso isolado. Talvez
seja a trama de minha geração. Por isso, é provável que
uma narrativa em primeira pessoa, sincera e íntima, em
tom de testemunho, contribua para o conhecimento do que
foi a ditadura na vida dos que a experimentaram, do que
eram as relações familiares à sombra do autoritarismo, do
que foi o Rio de Janeiro para os que atravessaram a noite.
Ali estava a matriz do Rio feroz de hoje, policiais militares
invadindo favelas, o racismo envergonhado apontando o
alvo, as iniquidades naturalizadas, a indigência rompendo a
casca do clichê e os novos-ricos sonhando com Miami. Nos
meus dezoito anos, o Rio já não era mais a cidade dos anos
dourados. Nas décadas seguintes, seria marcada pela
decadência. O melhor que se podia fazer para descrever o
Rio, em minha juventude e em boa parte da vida adulta, era
calar sobre o presente e evocar o passado ainda recente,
embora idealizado. Mas havia a música e o futebol, que são
outros quinhentos.
Cheguei a tempo de jantar com meus pais e meu irmão.
Não costumava falar sobre mim, nem compartilhar em casa
o que fazia fora. Daquela vez tentei, estiquei a corda até o
limite, mas não aguentei. Precisava desabafar. Tinha sido
um dos piores dias de minha vida. M. T. desaparecera. A
polícia política a raptara. Ela era líder estudantil na PUC,
onde eu estudava. O movimento estudantil, como o sindical,
estava proibido; ainda assim nos reuníamos e procurávamos
resistir. M. T. era linda, suave e firme. E parecia tão frágil.
Gostava dela. Estávamos em 1972. A ditadura mergulhava
as garras empapadas de sangue onde quer que houvesse
vida minimamente independente e inteligente, e o mais
tênue sintoma de indignação. A desigualdade social atingia
patamares únicos. O arrocho salarial, a radicalização da
censura, a denúncia internacional das violações
sistemáticas perpetradas pelo Estado brasileiro exigiam
mais uma volta no torniquete da repressão, mais tortura,
mais assassinatos de opositores. Pois aconteceu: sumiram
com M. T. Eu e os colegas envolvidos com a política
estudantil fomos a todos os lugares possíveis. A
universidade foi solidária. Reitor e diretores fizeram
contatos com autoridades, correram atrás de algum indício
que nos desse uma pista sobre seu paradeiro. Se
identificássemos o local para onde a levaram, a ditadura
dificilmente teria como negar. E reconhecer a custódia de
um preso implicava admitir que a pessoa estava viva e que,
portanto, manter a pessoa viva era responsabilidade do
Estado. Quando eles queriam matar, matavam assim
mesmo, com a desculpa de que o preso tentara a fuga, se
suicidara ou resistira à prisão. De todo modo, cumpria a nós
tornar as coisas mais difíceis para os agentes da repressão.
Enquanto os representantes institucionais da universidade
se mexiam, eu e meus colegas visitamos algumas
personalidades. A última visita foi a mais importante:
conseguimos ser recebidos em caráter emergencial por um
eminente bispo da Igreja Católica.
Encerramos o dia sem qualquer sinal de M. T. Voltei para
casa com os nervos à flor da pele, imaginando, e temendo,
o pior. Controlei o desejo de compartilhar. Meu pai ligou a TV.
Ele gostava de jantar assistindo ao Jornal Nacional, da TV
Globo, o noticiário mais popular do país. Geralmente, eu
saía da sala ou virava o rosto, ostentando minha repulsa ao
telejornal, voz oficiosa da ditadura. Naquela noite, escapou.
A corda rompeu-se. Provoquei meu pai: “Como é que você
pode ver essas mentiras sem dizer nada? Hoje, uma amiga
foi raptada pela repressão. Está sendo torturada neste
extato instante, enquanto jantamos. Ninguém sabe se ela
vai sobreviver a esta noite”. Meu pai bateu forte: “Não se
deixe iludir pela propaganda comunista”. Insisti: “Quer dizer
que tortura é invenção dos comunistas?”. “E não é?” Todo o
poder que antes e depois daquele momento manteve, em
mim, os pedaços mais ou menos no lugar, virou fumaça. As
partes desgarraram-se do eixo gravitacional, que antes e
depois me acostumei a chamar eu. Braço para um lado,
razão para o outro, ódio borbulhando, a consciência
estilhaçada em volta do corpo que girava, e zás, atirei com
a força disponível um prato em direção à cabeça de meu
pai. Anos a fio o lanho fundo na parede sinalizava o ponto
em que o projétil espatifou-se, sem atingir meu pai,
fisicamente. Imagino que tenha saído do duelo tão morto
quanto eu. M. T. sobreviveu àquela noite infernal e a outras.
Foi barbaramente torturada. Liberada, exilou-se. De volta,
retomou sua vida com a integridade de sempre, e a
admiração dos amigos. Longe do Rio e da política. Mas o
inferno está lá, em algum lugar, como está aqui. Não há
inseticida, nem amnésia que o aniquile.
Precisei de tempo e coragem para desculpar-me com meu
pai. Ele aproveitou a oportunidade para desculpar-se por ter
quebrado meu violão. Era um instrumento de brinquedo que
ele destroçou, batendo no chão, porque me recusei a
escovar os dentes. Eu tinha cinco anos e venerava aquele
violão caríssimo, presente do lado rico da família, que nunca
poderia ser substituído. Acabáramos de nos mudar para
Niterói. O perdão pacifica. Ficaram elas por elas. O prato
pelo violão. Uma violência por outra. Afinal, sobrevivemos a
ambas. O país também precisou de tempo e coragem para
reconquistar a democracia. Assim como a sociedade, meu
pai avançou, abriu a cabeça, foi trabalhar na Ordem dos
Advogados do Brasil, cercou-se de interlocutores instruídos,
formados na matriz liberal, cujo papel na resistência à
ditadura foi importante. O destino o conduziu, por ironia, à
instituição que se destacaria nas denúncias à tortura.
Quando se aposentou, era um homem diferente. Eu
também.
Durante quase todo o período em que escrevi este livro,
meu pai aproximava-se do fim, lentamente, guardado dia e
noite por minha mãe. Por quase três anos, dividi meu tempo
entre o livro e meu pai. Nos últimos meses, já internado, ia
vê-lo diariamente. O hospital situa-se na Tijuca, bairro da
Zona Norte. De minha casa, o caminho mais curto é
também o mais atraente: o Alto da Tijuca, que atravessa a
Mata Atlântica, poderosa e exuberante, uma parte da cidade
inteiramente distinta da orla, pela qual, entretanto, o Rio é
mais conhecido. O cheiro, as cores, a luminosidade, a
escassez de gente e automóveis, as pracinhas provincianas,
o clima ameno, o ruído das folhas, os olhos d’água, os
pássaros, tudo é diferente. Na última noite, voltei para casa
depois de uma vigília de 48 horas. Precisava descansar.
Pouco depois, minha mulher telefonou. Estava chegando a
hora. Meti os pés nos sapatos, entrei automaticamente no
carro, ergui os olhos para reverenciar a Pedra da Gávea,
absoluta em sua majestade, e cruzei a Floresta da Tijuca.
Sabia que, quando passasse ali de novo, as coisas não
seriam mais as mesmas, as cores, os pássaros, os ruídos, o
clima, eu, o passado, o futuro e este livro. Nada seria igual,
ainda que a Pedra da Gávea seguisse engajada no eterno
movimento de manter-se fiel a si mesma, com sua
incorruptível e inesgotável determinação mineral.
Agradecimentos
Impossível ser suficientemente enfático para reconhecer o
que devo a minha esposa querida, parceira de trabalho e
companheira na militância pelos direitos humanos, Miriam
Krenzinger, primeira leitora, severa, certeira, incansável,
propositiva. Sem o seu apoio, suas dicas preciosas e a
cumplicidade de seu amor, não haveria este livro. Ele
tampouco existiria, como o concebi e o escrevi, não fosse a
disposição corajosa e generosa para compartilhar suas
memórias de Dulce Pandolfi, Marcos Sousa, Ronald Soares e
tantos outros, cujos nomes não podem ser mencionados.
Minha mãe, Marilina Soares, mesmo atravessando o
período mais difícil de sua vida, manteve sempre uma
reserva de energia para me ajudar de todas as formas
possíveis. Este livro também é para ela.
Natália Guindani, enteada e colega, ouviu os relatos e
discutiu suas faces ocultas, dividindo comigo momentos de
angústia com sua serenidade estoica e rara sensibilidade.
Giovana Silva, sobrinha gaúcha, que me enviou sopros de
inspiração. Sou grato a Liane por tudo, e por seu intermédio
agradeço a toda a família Krenzinger, especialmente à
querida Irene, minha sogra, a Helene, Flavio, Maninha e José
Carlos, Fernanda, Fabiana e Manuela. Vicente Guindani,
enteado e interlocutor, muito obrigado. Agradeço também a
meu irmão, Marcelo Bento Soares, à minha cunhada, Martha
Costa, às filhas Bruna e Paula Musumeci Soares, aos genros
Gabriel Sayad e Fábio Tomaz, aos queridos Luiz Carlos e
Sônia Dumontt, Celso e Marilza Athayde, assim como a
Antonio Carlos Carballo Blanco, Ibis Pereira, Robson
Rodrigues da Silva e Carlos Alberto D’Oliveira, cúmplices na
longa travessia. Também sou grato a Tiago Tostes e Elisa
Addor, e muito especialmente a meu neto Antonio Tostes,
que costumava sentar-se a meu lado, adiando o futebol,
para acompanhar meu trabalho, exigindo que eu fosse mais
claro.
Samuel Braun e Rudolph Hasan, ex-alunos, hoje colegas,
discutiram durante meses comigo as manifestações e me
ajudaram a compreendê-las. Os insights de Bruno Torturra
foram inspiradores. Tomaz Klotzel deu vida ao projeto em
vídeo Depois de Junho (disponível em
<depoisdejunho.com>), no qual debatemos a nova
sociedade emergente no Rio e no Brasil. Sergio Cohn e
Leandro Saraiva têm sido parceiros em muitos planos.
Agradeço a Écio Salles, Julio Ludemir, Heloisa Buarque,
Numa Ciro e Marcus Faustini por compartilharem comigo o
mergulho no Rio das periferias e na cultura das favelas. Sou
grato a João Trajano Sento-Sé, Marcos Rolim, Luiz Antonio
Martins, Raul e Bruno Jungmann, Átila Roque, Newton
Cannito, Beatriz Rezende, Helio R. Santos Silva, Bia Lessa e
Tiago Borba, Italo Moriconi, Alexandre Mathias, Ekke e Maria
Clara Binguemer, Ana Vitória Vieira Monteiro e Leona
Cavalli, Willian Gaertner, Pedro Abramovay, Rubem Cesar
Fernandes, Pedro Strozenberg, Jader Marques, Salo de
Carvalho, Daniel Segenreich, Maria Isabel Mendes de
Almeida e Eduardo Martins, Silvia Ramos e Julita Lemgruber,
Paulo Renato Vaz e Paulo Mantuano, Eugênio Davidovich,
José Padilha, Domingos de Oliveira e David Linger, pela
ajuda valiosa. Com Tiago Barboza tenho uma enorme dívida
de gratidão por sua competência, solidariedade e a
generosa dedicação.
Como seria inviável listar todos os amigos e colegas, e
todas as pessoas que me abriram portas, construíram
pontes, deram sugestões e tornaram possível este livro,
dirijo meus agradecimentos a Marcio Saraiva, em nome dos
demais. Agradeço a meus alunos da Uerj, na pessoa do
estimado Washington Pio, e aos funcionários, citando Sônia
Chaves Costa e Wagner Aguiar de Souza.
Ao longo dos quase três anos de trabalho, lendo e relendo
o material que eu produzia, criticando-o e sugerindo
alternativas, Flavio Moura me ensinou a identificar detalhes
que podem separar a água do vinho. Como escrever é,
entre outras coisas, tirar leite da pedra e ouro do nariz, a
ciência desse alquimista foi para mim inestimável. Agradeço
a Suketu Mehta, que me ajudou a encontrar a voz mais
adequada a cada narrativa. Sou grato a Lucia Riff, minha
agente literária, assim como a Marcus Wagner, Ernesto
Neto, Hermano Vianna, José Miguel Wisnik e Reinaldo
Moraes, que contribuíram mais do que provavelmente
imaginam.
Sou muito grato a Luiz Schwarcz, responsável pela
Companhia das Letras, pelo convite e a confiança, assim
como aos editores da Penguin.
GABRIEL SAYAD
LUIZ EDUARDO SOARES é escritor, dramaturgo, antropólogo e
pós-doutor em filosofia política. É professor da UERJ e foi visiting
scholar nas universidades Harvard, Columbia, Virginia e
Pittsburgh, nos Estados Unidos. Publicou quinze livros, entre eles
Meu casaco de general: Quinhentos dias no front da segurança
pública do Rio de Janeiro, publicado pela Companhia das Letras
e finalista do prêmio Jabuti, em 2000. Foi secretário nacional de
Segurança Pública, coordenador de Segurança, Justiça e
Cidadania do estado do Rio de Janeiro e secretário municipal em
Porto Alegre (RS) e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Copyright © 2015 by Luiz Eduardo Soares
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,
que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Capa
Retina_78
Preparação
Mariana Delfini
Revisão
Renata Lopes Del Nero Adriana Bairrada
ISBN 978-85-438-0402-6
Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA SCHWARCZ S.A.
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 — São Paulo — SP
Telefone (11) 3707-3500
Fax (11) 3707-3501
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Table of Contents
Rosto
Sumário
Introdução — Rio de Janeiro: A grande guerra contra o clichê
1. Tiros na madrugada
2. Linha Vermelha
3. Você está proibido de morrer
4. Mangueira, quinze anos depois
5. “Don’t be lazy”
6. A mulher incomum
7. É tanta coisa que nem cabe aqui
8. Festas cariocas
9. Pedra da Gávea
Agradecimentos
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Créditos