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As Universidades Públicas em Tempos Neoliberais - Caderno CRH

O dossiê especial discute os desafios enfrentados pelas universidades públicas em um contexto neoliberal, destacando a crise de financiamento e a perda de autonomia. Os artigos abordam a relação entre a educação e a financeirização, além de analisar as consequências das políticas de austeridade e a precarização do trabalho docente. A reflexão coletiva busca entender como as universidades podem resistir e se reinventar diante das pressões externas e internas que ameaçam sua missão crítica e formativa.

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As Universidades Públicas em Tempos Neoliberais - Caderno CRH

O dossiê especial discute os desafios enfrentados pelas universidades públicas em um contexto neoliberal, destacando a crise de financiamento e a perda de autonomia. Os artigos abordam a relação entre a educação e a financeirização, além de analisar as consequências das políticas de austeridade e a precarização do trabalho docente. A reflexão coletiva busca entender como as universidades podem resistir e se reinventar diante das pressões externas e internas que ameaçam sua missão crítica e formativa.

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Graça Druck, João Carlos Salles, Roberto Leher

AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS EM TEMPOS NEOLIBERAIS

DOSSIÊ ESPECIAL
Graça Druck*
João Carlos Salles**
Roberto Leher***

INTRODUÇÃO

As universidades públicas têm uma di- tiplas desigualdades, como um modelo com
nâmica singular. Seu modelo, suas mazelas e valor intrínseco que, por conseguinte, só pode
mesmo seus sonhos não podem ser compreen- ter como horizonte uma nação radicalmente
didos com independência do contexto em que democrática, a crise é deveras profunda.
se instalam nem das tarefas que lhes atribuí- Entre a resistência que a universidade
mos. Vivem, assim, o infortúnio das políticas pode apresentar e a destruição aparentemente
neoliberais como uma tragédia única, sendo inelutável que a ameaça, desenha-se o espa-
infelizes à sua maneira, a um só tempo mitiga- ço de uma reflexão urgente e cuidadosa sobre
da em certos aspectos e agravada intensamente os desafios atuais colocados às universidades
em outros. públicas e aqueles de longa duração, desde o
Para quem vê as universidades como um imediato dos números à derrisão dos valores.
instrumento provisório, desvinculado de um O presente dossiê é parte desse esforço de re-
projeto de nação, talvez não haja sequer uma flexão e de resistência.
crise, mas sim um novo cenário de oportunida- A tragédia é, decerto, um tanto mitigada Cad. CRH, Salvador, v. 38, p. 1-6, e025017, 2025
des. Porém, para quem a compreende como in- por ser a universidade um lugar natural de re-
trinsecamente vinculada à superação de múl- sistência e reflexão. A seu passado e presente de
lutas, agrega-se o fato de que, em nosso país, a
* Universidade Federal da Bahia (UFBA). Faculdade de Fi-
losofia e Ciências Humanas. universidade pública concentra quase toda pes-
Rua Aristides Novis, 197. Federação. Cep: 40210-730. Sal- quisa e oferece os melhores centros de formação.
vador – Bahia – Brasil. [email protected]
https://orcid.org/0000-0003-0363-6883 Logo, como lugar de produção do conhecimento,
** Universidade Federal da Bahia (UFBA). Faculdade de é também espaço de crítica, com grande capaci-
Filosofia e Ciências Humanas.
Rua Aristides Novis, 197. Federação. Cep: 40210-730. Sal- dade de fazer repercutir posições e propagar sua
vador – Bahia – Brasil. [email protected]
https://orcid.org/0000-0002-4872-3465 luta. Com efeito, nos momentos em que sofreu
*** Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Faculda- maior ataque, grandes atos foram promovidos e,
de de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação.
Avenida Pasteur, 250. Cep: 22290-240. Rio de Janeiro – Rio por sua própria natureza, constituiu-se em con-
de Janeiro – Brasil. [email protected]
https://orcid.org/0000-0002-5063-8753 traexemplo ao obscurantismo (Salles, 2020).

http://dx.doi.org/10.9771/ccrh.v38i0.65016 / Caderno CRH – ISSN: 1983-8239

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AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS EM TEMPOS NEOLIBERAIS

Por outro lado, é agravada sua tragédia, e economia, constituindo uma contribuição
pois o ataque concertado à educação não está multidisciplinar.
restrito a ações de governos protofascistas. É clara a confluência dos textos, bem
Longe disso. O mais insidioso ataque tem sido como sua complementaridade. Suas análises
uma retirada progressiva do oxigênio, uma tratam de valores mais amplos da academia,
mudança que vai operando como um ajuste de dos fenômenos da financeirização, do papel
camadas tectônicas, para o qual contribui em dos Estados nos países da periferia, das políti-
muito a cumplicidade interna de muitos sujei- cas de austeridade fiscal, da disputa pelo fun-
tos de sua própria comunidade, que se veem do público e do avanço da espoliação do capi-
seduzidos ou estimulados por valores próprios talismo, inclusive pela utilização de tecnolo-
da dinâmica neoliberal. Com isso, o projeto gias as mais avançadas. Conforma-se, assim, o
mesmo da universidade, que bem deveria ali- quadro mais geral em que se situa o crescente
nhar-se com projetos de longa duração, vê-se processo de neoliberalização da educação em
rebaixado e amesquinhado por propósitos uti- geral, da sua subordinação ao mercado e a seus
litaristas e práticas que reproduzem a hetero- valores, transformando o ensino e a pesquisa,
nomia cultural em diversas dimensões. O re- e mostrando, ao fim e ao cabo, por que os go-
sultado é trágico, à semelhança de um talento vernos neoliberais se confrontam com as uni-
suspenso, uma vocação negada, uma promessa versidades, enquanto espaços de manifestação
reiterada e, todavia, nunca cumprida. e resistência (Laval, 2019).
A universidade atual não está imune a Por outro lado, os artigos têm objetos e
uma nova ordem do capital que engendra novas recortes diferentes, desenvolvendo análises no
dimensões da geoeconomia do conhecimento, plano teórico e de conjunturas históricas espe-
assim como não escapam nossos governantes cíficas, como o caso das universidades públicas
da sina de traçarem os rumos, de fazerem es- brasileiras, contemplando a questão orçamen-
colhas, em meio a circunstâncias históricas tária, a precarização do trabalho, as lutas de
específicas. Da mesma forma, a universidade resistências e as práticas sindicais. Testamos,
necessária, não sendo uma palavra de ordem pois, o próprio valor de uma colaboração inter-
vazia, precisa traduzir-se em um novo contex- disciplinar, uma vez que os autores reunidos
to, cobrando-nos uma reflexão mais cuidadosa são estudiosos de várias áreas do conhecimen-
e fina. O dossiê apresenta uma reflexão teórica to, com trajetórias acadêmicas bem-marcadas
que percorre várias dimensões das transfor- em diversas instituições (UFBA, UFRJ, UFG,
mações das universidades e da produção do USP e Paris-Nanterre), sendo reconhecidos por
conhecimento no capitalismo contemporâneo sua experiência como docentes das universi-
– marcado por um processo inédito de finan- dades públicas e por sua produção científica.
Cad. CRH, Salvador, v. 38, p. 1-6, e025017, 2025

ceirização, pela reestruturação das relações de O texto de Olgária Matos, “Universidade


trabalho, mediadas pela atual revolução tecno- e Eros”, é inspirador e necessário, desenhando
lógica, por perigosa crise socioambiental e pela como que um pano de fundo a nossas refle-
hegemonia neoliberal. xões. Afinal, não se pode discutir a dura rea-
O dossiê abarca diferentes temas e obje- lidade das universidades descolando-a de uma
tos que se articulam na crítica ao neoliberalis- justificação sobre o sentido mesmo da produ-
mo e em suas manifestações na produção do ção científica e o da formação acadêmica, que
conhecimento crítico, cujo “lócus” principal deveriam encontrar na universidade sua reali-
está nas universidades. Para isso, reúne dez zação mais refinada. Olgária Matos mostra, no
autores de universidades brasileiras e de uma entanto, que a universidade contemporânea se
universidade estrangeira, de várias áreas do inscreve no desaparecimento do papel filosófi-
conhecimento: filosofia, sociologia, educação co e existencial da cultura. Afinal, a Universi-

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Graça Druck, João Carlos Salles, Roberto Leher

dade humanista – fundada no ideário de forma- periféricos. Por isso, mais especificamente, o
ção intelectual através dos saberes científicos, artigo evidencia as suas particularidades nos
filosóficos, históricos, geográficos e literários – países de capitalismo dependente, com a cons-
cedeu há muito à indústria do entretenimento, tituição, a partir da crise do “Desenvolvimen-
cujo sintoma mais expressivo foi a substituição tismo” nesses países (anos 1980), de um novo
da Escola pela indústria dos Esportes. modo de dependência, no qual se destacam
Com efeito, Filosofia e Ciência perderam a reconfiguração do Estado e a transferência
na Universidade a autonomia de pesquisa e a de excedentes, da periferia para o centro, na
pluralidade das investigações, sob os imperati- forma de novos tipos de rendas financeiras e
vos da produtividade, do controle pelos núme- de renda-conhecimento. O texto de Filgueiras
ros e do fetiche da inovação permanente. Sob analisa as especificidades no caso do Brasil,
os auspícios da temporalidade acelerada das um dos principais países de capitalismo de-
tecnologias e do mercado globalizado, a hege- pendente, com o destaque para a crise do Pa-
monia da racionalidade técnica impacta todas drão de Desenvolvimento de Substituição de
as esferas da vida e a subjetividade, a Univer- Importação (anos 1980) e a sua transição para
sidade vem sofrendo constantes processos de o Padrão Liberal-Periférico na década de 1990.
deslegitimação e desinstitucionalização, com Tomando a situação bem mais concreta
a ruptura de sua história e dos laços de con- e, de certo modo, bem mais perversa do orça-
fiança e solidariedade transmitidos, antes, ao mento das universidades federais, o texto de
longo das gerações. Olgária Matos sugere, pois, João Carlos Salles, Nelson Amaral e Weber Sil-
ser urgente retornar às questões primeiras da va Júnior, “Universidades Federais Brasileiras:
Universidade Cultural, aos saberes clássicos Autonomia Subtraída por Mecanismos de Fi-
e vernáculos, face à crise antigenealógica do nanciamento?”, mostra e denuncia o progres-
mundo contemporâneo. Retornar a valores sivo descompromisso com o financiamento
universalistas e bem mais generosos da uni- público da educação superior, apontando, em
versidade, aqueles constituídos das diferenças particular, como a manutenção do orçamento
entre temporalidades, espaços e experiências, inscrito na Lei Orçamentária Anual (LOA) é
tornar-se-ia uma ação espiritual e política con- insuficiente inclusive para vir a ser rodada a
tra os agrupamentos isolacionistas, sendo uma matriz ANDIFES (Andifes, 1994), sendo ade-
tarefa mais que atual do pensamento. mais grave, por desigual e desarticulador da
Tendo em conta uma dimensão mais gestão orgânica das universidades, a destina-
ampla, de alcance mundial, o artigo de Luiz ção de verbas por meio de emendas e termos
Filgueiras, “Mundialização Financeira e capi- de execução descentralizada.
talismo periférico: nova forma de dependência Não custa lembrar que a autonomia Cad. CRH, Salvador, v. 38, p. 1-6, e025017, 2025

e a reconfiguração do Estado”, tem como ob- universitária é um princípio inscrito na Cons-


jetivo discutir as relações existentes entre os tituição Federal de 1988, sendo a garantia de
principais fenômenos que caracterizam mun- financiamento das universidades inscrita na
dialmente o capitalismo contemporâneo – o Lei de Diretrizes e Bases (LDB). O que se ve-
neoliberalismo, a reestruturação produtiva e rifica, entretanto, ao longo dos 36 anos de vi-
a financeirização da acumulação de capital – gência da Constituição de 1988 é a introdução
que foram se delineando, e retroagindo mu- de uma série de mecanismos associados ao fi-
tuamente, ao longo de quase 50 anos. Embora nanciamento que impedem a realização desse
presentes em todos os países, produtos de uma marco legal, entre os quais a implementação
nova fase da mundialização do capital, eles se de mecanismos de austeridade, a presença
expressam de forma diferente (em grau, qua- progressiva de emendas e Transferência Ele-
lidade e consequências) em países centrais e trônica Disponível (TEDs) e o frequente recur-

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AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS EM TEMPOS NEOLIBERAIS

so a contingenciamentos e bloqueios. O texto tuiu e promoveu o princípio da concorrência e


de Salles, Amaral e Silva Júnior tem, então, o o modelo empresa por meio da adoção de práti-
objetivo de, em primeiro lugar, analisar o mon- cas de gestão baseadas em critérios de “eficiên-
tante de recursos financeiros associados às cia”, produtividade e resultados mensuráveis,
UFs e que ficam disponíveis para um real exer- alterando profundamente a organização do
cício da autonomia universitária, examinando trabalho nas instituições de ensino, particular-
os montantes de recursos presentes nos diver- mente nas universidades públicas brasileiras. O
sos mecanismos estabelecidos que promovem texto apresenta o debate conceitual sobre neoli-
uma subtração da autonomia universitária e, beralismo e analisa as reformas do Estado brasi-
em seguida, simular um mecanismo de “finan- leiro desde os anos 1990 até o período recente,
ciamento permanente” dos recursos de custeio discutindo a reestruturação do serviço público
e capital para as UFs, tal como originariamente brasileiro nesse contexto e examina como a ado-
proposto pela Andifes em 2013. ção do princípio da concorrência e do modelo
Não é por acaso que tamanha restrição empresarial alterou a organização do trabalho
orçamentária se verifica, como se fora resultan- na universidade, num quadro de subfinancia-
te de uma diminuição absurda de seu valor pe- mento público, acarretando a precarização do
rante a sociedade. Como bem mostra Vladimir trabalho docente, expressa em um conjunto de
Safatle, em “A Universidade como Alvo Global”, indicadores típicos da “universidade operacio-
a universidade pública é uma instituição que se nal” (Chaui, 2001), em que o professor poliva-
tornou nos últimos anos espaço de interven- lente torna-se também um professor “business”,
ções violentas de toda ordem. Desde acusações ou “um empresário de si mesmo” tão em moda
de islamo-guachismo em países como a França em tempos neoliberais.
até intervenção em campi contra estudantes em No seu artigo “Universidade, Sindicato
solidariedade com a causa palestina nos EUA e e Trabalho Docente: Descontinuidades 1960-
Alemanha, o que vemos é a universidade públi- 2024”, Roberto Leher nos devolve a um campo
ca como espaço de tensionamento social. Essas de luta essencial à defesa da universidade. Em
ações policiais e estatais visam redimensionar seu artigo, Leher mostra como a função social
a universidade, cortando-a de sua dimensão da universidade no capitalismo dependente
crítica e alinhando-a ao horizonte hegemôni- resulta da correlação de forças advinda tanto
co de gestão das crises sociais. Em seu artigo, das particularidades do padrão de acumulação
Vladimir Safatle analisa as condições para que do capital e das formas de heteronomia cultu-
a universidade preserve sua capacidade crítica ral, como das expectativas sociais de frações
em meio ao horizonte de desmonte neoliberal. internas da comunidade universitária. Leher
Concomitante a esse ataque externo, te- propugna que as universidades federais brasi-
Cad. CRH, Salvador, v. 38, p. 1-6, e025017, 2025

mos uma desintegração cabal de sua higidez leiras experenciaram três contextos de mudan-
institucional nos próprios mecanismos de pre- ças acentuadas, caracterizadas como desconti-
carização do trabalho, dos quais a universidade nuidades, entre 1960 e 2024. A efetivação do
não foi poupada. O artigo de Graça Druck e Sel- golpe empresarial-militar, por meio da contrar-
ma Silva, “A Precarização do Trabalho Docente revolução preventiva, impediu o movimento
nas Universidades Federais”, reflete exatamente de reforma universitária que ganhava força en-
sobre tal precarização do trabalho, partindo do tre 1960 e 1964 e instaurou o modelo da cha-
pressuposto de que ela é uma das expressões mada modernização conservadora que alterou
de um processo mais geral de reestruturação profundamente a universidade. No contexto
do serviço público, decorrente da emergência e de crise estrutural a que se refere Filgueiras,
fortalecimento do Estado neoliberal. No caso do na segunda metade dos anos 1970, a criação da
sistema educacional, essa reestruturação insti- Associação Nacional dos Docentes do Ensino

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Graça Druck, João Carlos Salles, Roberto Leher

Superior logrou obstaculizar a fragmentação mas também entre os estabelecimentos públi-


pretendida das universidades como centros de cos. Ela opera em todos os níveis, regional, na-
excelência e instituições de ensino, por meio cional e internacional. Tem múltiplos efeitos,
da conquista da carreira nacional, da autono- nomeadamente na “governança” das universi-
mia universitária e da gratuidade nos estabe- dades e até no comportamento de estudantes
lecimentos oficiais na Constituição de 1988. e professores. Esta transformação é global, diz
Finalmente, as políticas de austeridade e de respeito a estruturas, modos de regulação e prá-
contenção orçamentária que se aprofundaram ticas. Por muito tempo, isso foi pouco compre-
a partir de 2015 estão contribuindo para a pre- endido teoricamente, porque realizado através
sença direta do capital nas universidades, alte- de reformas e mutações parciais, como respos-
rando sua função social. O autor conclui que ta a um paradigma coerente, que só pode ser
as lutas não podem estar restritas ao setor de apreendido reconstruindo a sua gênese e a sua
educação, pois sem obstar a austeridade e agir coerência. O artigo de Laval busca definir e ex-
contra o encolhimento do público não mercan- por as principais articulações da episteme ca-
til, a nação perderá espaços vivos de criação de pitalista, isto é, a concepção original do conhe-
conhecimento original imprescindível para a cimento e da verdade que acompanha o desen-
superação dos grandes problemas dos povos. volvimento do capitalismo, desde o utilitarismo
A investigação de Leher contempla até até a ideologia do cérebro-máquina, passando
meados de 2024, ano em que importante greve pelas teorias do conhecimento-informação e
nacional dos docentes exacerbou as contradi- do capital humano, pois segundo o autor, sem
ções sobre a concepção atual e futura das uni- compreender este paradigma, é difícil opor um
versidades. Sistematiza questões como a quebra paradigma alternativo que seja mais igualitário
da solidariedade intergeracional e a subordina- e que respeite mais os valores da verdade.
ção do trabalho docente aos determinantes que Os artigos deste dossiê nos lançam a di-
produzem a heteronomia, a exemplo do pro- versas dimensões. Eles nos situam no debate
jeto Future-se e afins, em que a incorporação de valores e das implicações da técnica, dos
do ethos do chamado capitalismo acadêmico efeitos de políticas orçamentárias e de ataques
recontextualizado pelo capitalismo dependen- midiáticos, do contexto particular das políti-
te pode comprometer a função estratégica da cas de austeridade do capitalismo neoliberal,
universidade. Enfatiza a importância de núcle- da universidade brasileira às transformações
os críticos nas universidades capazes de prota- mais amplas da academia em todo o mundo.
gonizar projetos autopropelidos de nação que Tomados, assim, em conjunto e em sua singu-
assegurem o bem-viver dos povos e o enfrenta- laridade, os textos trazem contribuições im-
mento dos grandes problemas da humanidade. portantes para a reflexão sobre a universidade Cad. CRH, Salvador, v. 38, p. 1-6, e025017, 2025

No último texto do dossiê, temos um im- e sua defesa em tempos neoliberais – tempos
portantíssimo olhar externo à experiência geral que se mostram bem sombrios, no que se refere
da universidade, na voz do consagrado intelec- a valores mais generosos da vida em comum,
tual francês, Christian Laval. Em seu texto “A mesmo na aposta singular das universidades
Transformação Neoliberal da Universidade e públicas, destinadas que são à longa duração,
suas relações com a Episteme Capitalista”, La- na qual apenas podem coincidir com o projeto
val mostra como se torna cada vez mais eviden- de uma nação radicalmente democrática.
te e bem conhecida a lógica mercadológica das
universidades públicas e da educação em geral.
Recebido para publicação em 10 de janeiro de 2025
Essa transformação neoliberal do ensino Aceito para publicação em 03 de junho de 2025
superior passa essencialmente pela concorrên- Editor Chefe: Renato Francisquini Teixeira
cia entre estabelecimentos públicos e privados,

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AS UNIVERSIDADES PÚBLICAS EM TEMPOS NEOLIBERAIS

REFERÊNCIAS
ANDIFES. Matriz de Alocação de Recursos para as
Instituições Federais de Ensino Superior-1994. Brasília,
ANDIFES, 1994. Disponível em: https://www.andifes.
org.br/wpcontent/uploads/2021/07/Matriz-de-Alocacao-
de-Recursos-para-as-InstituicoesFederais-de-Ensino-
Superior.pdf. Acesso em: 10 out. 2024.
CHAUÍ, Marilena. Escritos sobre Universidade. São Paulo:
Ed Unesp, 2001.
SALLES, João Carlos. Universidade pública e democracia.
São Paulo: Boitempo, 2020.
LAVAL, Christian. A Escola não é uma empresa. São Paulo:
Boitempo, 2019.

CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA:
Graça Druck – Conceitualização. Escrita – esboço original. Escrita – revisão e edição.
João Carlos Salles – Conceitualização. Escrita – esboço original. Escrita – revisão e edição.
Roberto Leher – Conceitualização. Escrita – esboço original. Escrita – revisão e edição.

Graça Druck – Professora titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e da Pós-graduação


em Serviço Social da Universidade Federal da Bahia. Pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas
em Humanidades – CRH/FFCH/UFBA e do CNPq. Coordenadora do GT Neoliberalismo, Reformas e
Resistências, da ABET (Associação Brasileira de Estudos do Trabalho).
Cad. CRH, Salvador, v. 38, p. 1-6, e025017, 2025

João Carlos Salles – Licenciado e Mestre pela UFBA, sendo Doutor em Filosofia pela Unicamp. Membro
da Academia de Letras da Bahia e da Academia de Ciências da Bahia, é também pesquisador do CNPq.
Foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF), de 2002 a 2006 e da
Sociedade Interamericana de Filosofia (SIF), de 2013 a 2019. Foi Reitor da Universidade Federal da
Bahia (UFBA) por dois mandatos, de 2014 a 2022, tendo sido vice-presidente e presidente da Associação
Nacional de Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES). Autor de vários livros,
publicou mais recentemente: Gatos, Peixes e Elefantes: A Gramática dos Acordos Profundos (Aretê,
2024) e Entreato: Exercícios de Política e Filosofia (Quarteto, 2024).
Roberto Leher – Professor titular da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em
Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutor em Educação pela Universidade
de São Paulo. Desenvolve pesquisa em políticas públicas em educação. Foi reitor da UFRJ (2015-2019).
Pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Cientista de Nosso
Estado (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) e colaborador
da Escola Nacional Florestan Fernandes.

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