Editorial
Filosofia: assim te quero!
Entre os dias 28 a 31 de agosto de 2024, o Estado do Ceará vivenciou mais uma vez o debate sobre a presença do ensino
de Filosofia nas escolas e universidades cearenses. O Encontro Cearense de Professores de Filosofia, presente e
reconhecido nacionalmente entre professores e pesquisadores de Filosofia, na sua 4ª Edição trouxe à tona o espírito
filosófico que alimenta o ensino e a filosofia cearense com a temática: Filosofia: assim te quero! A cidade de Sobral e a
Universidade Estadual do Vale do Acaraú – UVA acolheram e construíram diálogos potentes na busca de fortalecer não
apenas o ensino de filosofia mas uma cultura filosófica no Ceará.
É movidos com uma alegria coletiva que trazemos para este Dossiê da Revista Docentes, parte da produção científica
do evento. Nossa edição alinha a reflexão da prática docente de nossos professores pesquisadores da rede estadual
de educação, aqui representados por suas regiões, professores universitários e futuros docentes, acadêmicos que
envolvidos com o ensino da Filosofia e sua presença na formação dos jovens cearenses, somam na sua escrita a real
filosofia que almejam e constroem em sala de aula.
A filosofia que queremos, ao longo de quatro dias, foi alimentada por atividades que aconteceram nos espaços da UVA
e da Coded-CED com apresentações de comunicação, oficinas, minicursos, relatos de experiência, mesas redondas e
conferências. A leitora/o leitor encontrará nos textos a seguir os trabalhos de nossos colegas - que podem e devem
servir como provocações e reflexões à nossa própria produção, como também o convite à participação dos próximos
Encontros. Pensar na filosofia que queremos passa, incontornavelmente, pela alteridade e pela diferença.
Iniciamos nosso dossiê com a importante discussão a respeito dos gêneros de escrita filosóficos, a questão epistolar
aparece nesta edição no trabalho do Prof. Ricardo de Moura Borges, sob o título Cartas filosóficas em sala de aula: uma
experiência de Ensino de Filosofia no Ensino Médio, afinal, poucos gêneros são mais dialógicos do que a troca de cartas.
Nesse trabalho, pensa-se a prática das cartas filosóficas em sala de aula como uma experiência inovadora no ensino de
filosofia, especialmente no Ensino Médio. Ao escreverem cartas inspiradas nos pensamentos de filósofos antigos como
Aristóteles e Epicuro, os alunos não apenas se envolvem com conceitos como eudaimonía, amizade e felicidade
moderna, como também refletem profundamente sobre suas próprias existências. Essa abordagem ativa e criativa
torna a filosofia mais viva e acessível, permitindo aos estudantes se conectarem com os textos de forma prática e
pessoal. Através da escrita, os alunos expressam suas próprias reflexões filosóficas e, fazendo isso, tornam-se
protagonistas no processo de aprendizagem. Essa experiência revela como a filosofia pode ser potente e dinâmica,
não apenas como uma disciplina estática, mas como um campo de reflexão aberto e inacabado.
Husserl e a Filosofia que queremos ensinar do Prof. Jean Pierre Gomes Ferreira apresenta e questiona a proposta de
Husserl de uma filosofia transcendental para a filosofia, que nos desafia a refletir sobre a filosofia que queremos
ensinar. Ao propor uma unidade filosófica baseada na fenomenologia, Husserl busca superar a fragmentação das
filosofias ao retornar ao essencial e à intencionalidade do pensamento. No entanto, ao confrontar esse projeto com as
matrizes curriculares contemporâneas, fica evidente que a filosofia que praticamos e ensinamos vai além das
fronteiras de uma única tradição. A diversidade de abordagens filosóficas, como as que encontramos nos documentos
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curriculares e nas questões do Enem e da UECE, demonstra que a filosofia não deve ser reduzida a uma única origem
ou tradição, seja grega ou europeia. O ensino de filosofia, assim, deve abraçar essa pluralidade, ao mesmo tempo em
que busca a construção de uma filosofia que reflita as múltiplas perspectivas e histórias da sociedade atual.
A esperança, em Paulo Freire, não é apenas um ideal utópico, mas uma necessidade ontológica para o educador, uma
força vital que impulsiona tanto a prática pedagógica quanto a transformação social. No trabalho do Prof. Erison de
Sousa Silva, A esperança como necessidade ontológica do educador: notas filosóficas sobre Paulo Freire, encontramo-
nos com a proficuidade do pensamento de Paulo Freire e suas reverberações para pensarmos uma sala de aula com
filosofia, autonomia e respeito à diferença. Nesse sentido, o educador atua como mediador de um processo de
mudança, no qual a esperança se torna a alavanca para o questionamento das condições de opressão. A pedagogia
freiriana se fundamenta, assim, na alteridade e na solidariedade, utilizando a esperança como a virtude que permite ao
ser humano transcender a realidade imediata e projetar um futuro mais justo. A pedagogia, então, não é apenas uma
ação técnica, mas um movimento filosófico que remonta aos fundamentos da filosofia ocidental, como Tomás de
Aquino, que vê a esperança como virtude essencial à realização da potencialidade humana. Nesse sentido, a educação
pode (e deve) buscar ser esperançosa, para que possa ser emancipadora.
No trabalho de Samuel Assis Donato Peixoto, O labirinto existencial: uma abordagem didática do absurdo em Camus, o
autor conecta a absurdidade (e sua consequente abertura à atribuição de sentido camusiana) à didática de fabricação
de conceitos, de Sílvio Gallo. A atividade Labirinto Existencial propõe uma abordagem provocadora, ao explorar o
pensamento de Albert Camus de forma lúdica e reflexiva. Centrada na filosofia na conceituação, a atividade permite
aos alunos vivenciar o conceito de absurdo e suas implicações existenciais, transformando a sala de aula em um
"laboratório de conceitos", onde eles criam e experimentam as ideias camusianas. Com metodologia colaborativa e
necessariamente aberta à sugestão feita pelos outros, é um trabalho extremamente fértil, que pode ser levado para as
salas de aula como forma de repensar as abordagens que damos à filosofia. O absurdo serve, mais uma vez, como uma
abertura ontológica para a busca de sentido e construção de sujeitos filosóficos. Seu impacto vai além do conteúdo, ao
transformar a aprendizagem em uma vivência que permite aos alunos conversar com o absurdo de suas existências e
as possibilidades de resistência e afirmação diante dele.
Com grande satisfação, a perspectiva farabiana de uma sociedade feliz é apresentada pela Profª. Virgínia Braga da
Silva Santos. no trabalho: Filosofia e religião enquanto métodos de aprendizagem na cidade virtuosa Farabiana. Falante
de muitas línguas, polímata de um Oriente Médio que se iluminava pelos pensamento dos clássicos gregos em
encontro com sábios árabes, persas, islâmicos e judaicos. O pensamento e a vida de Al-Farabi desafiam nossas noções
cristalizadas de nação-Estado e de ocidentalidade da filosofia. A construção de uma cidade virtuosa diz, assim,
respeito ao chão da sala de aula, já que fala da infinita diversidade humana, entretecida pela qualidade apenas de ser
humano. A relação entre religião e os outros saberes (ciência, arte, história etc) não é tensionada apenas no
pensamento do autor, mas na nossa realidade cotidiana. A noção farabiana de que a convivência entre filosofia e
religião é não apenas possível, como desejável, orienta para a importância dessas reflexões.
Os professores Kananda Vasconcelos Nascimento e David Machado de Oliveira no texto Um diálogo entre Giorgio
Agamben e Judith Butler: vida nua e vida precária, realizam o interessante encontro entre os pensamentos de Giorgio
Agamben e Judith Butler, inspirando-se, como fio condutor, na desumanização promovida pelas forças de Estado e
econômicas contra as vidas precarizadas. A nudez da vida é tematizada a partir do texto agambeniano como
ferramenta teórica disponível, também, à precariedade da vida pensada por Butler. Corpos negros, de mulheres,
LGBTQIA+ e com deficiência, ainda que não necessitem de essencialismos para se fundamentar enquanto sujeitos
agentes, são aqueles cuja vida estará precária e nua, nos extintores do capitalismo. Pensar com essas categorias invoca
a questão de que sala de aula queremos, o que, no fundo, espelha a relação entre o ensino de filosofia e ideação da
sociedade que queremos.
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A discussão trazida pelos professores Juliette de Sousa Vasconcelos e Luís Alexandre Dias do Carmo em , Conflito e
Resistência: um olhar a partir do opúsculo à paz perpétua de Immanuel Kant, faz a importante trajetória do pensamento
político na filosofia ocidental. Entre comparações e acentuações, demarca o território do agir político como problema,
ao mesmo tempo, político e filosófico. Entre conflitos e resistências, o horizonte delineado por Kant em À paz perpétua
desponta como possibilidade filosófica e histórica. Nestes tempos de ataques ao direito internacional, de invasão de
países menos poderosos por vizinhos mais ricos e armados, de genocídio da gente palestina, a pergunta kantiana
permanece: é possível pensar política sem violência?
A edição finaliza com a entrevista concedida pelo Prof. Dr. Darcísio Natal Muraro, em que o ensino de filosofia e a
filosofia do ensino de filosofia aparecem intrinsecamente ligados à experiência da pessoa, os múltiplos sentidos
passíveis de ser empregados à existência humana e na construção de uma prática de ensino que dê conta de
apresentar a filosofia como um horizonte em movimento aos aprendentes, aberto à significação que cada um dá, a
partir de sua biografia, às questões que filósofos e filósofas ensaiam responder há milhares de anos. Nesse enlace
teórico e existencial promovido pela filosofia pode estar o seu sentido no chão da sala de aula. Formar cidadãs e
cidadãos não como fim, mas como meio de propiciar na cidadania filosófica uma subjetividade atenta às questões que
estiveram nas origens da filosofia e nas novas questões que despontam em nossa época.
Assim, esta edição reflete o esforço contínuo de integrar a filosofia à vivência cotidiana em nosso Estado, não apenas
como um campo abstrato de estudos, mas como uma prática que, ao ser experimentada, transforma o olhar crítico do
aluno sobre si mesmo e o mundo. Os trabalhos e atividades propostos exemplificam esse movimento dinâmico e
provocador, no qual os conceitos se tornam instrumentos de reflexão existencial e de ação filosófica. Cada texto
apresentado neste número, com suas inquietações e desafios, nos convida a refletir sobre a filosofia que queremos
ensinar e, igualmente importante, sobre a filosofia que precisamos vivenciar. Ao pensarmos no papel da filosofia na
formação cidadã, na reflexão sobre a alteridade e nas práticas pedagógicas que reconhecem as diferenças, estamos,
na verdade, construindo as bases de uma educação que não se limita ao ensino de conceitos, mas que se estende à
formação de sujeitos filosóficos, capazes de lidar com as complexas questões de um mundo e um tempo plurais. A
filosofia, enquanto prática e vivência, deve continuar a se expandir, a se transformar, a se reinventar. Ela não é apenas
um campo acadêmico; é, acima de tudo, um horizonte aberto para o questionamento e a transformação social. Boa
leitura.
Prof. Carlos Getulio de Freitas Maia – IFCE
Profa. Roberta Liana Damasceno Costa – UERN e UniFanor
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