Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.62, n.1, p.
192-199, 2010
Doses e fontes de nitrogênio na recuperação de pastagens do capim-marandu
[Nitrogen doses and sources on pasture recuperation of grass marandu]
K.A.P. Costa1, V. Faquin2,4, I.P. Oliveira3
1
Universidade de Rio Verde
Caixa Postal 104
75901-970 – RioVerde, GO
2
Departamento de Ciência do Solo - UFLA, – Lavras, MG
3
Faculdade Montes Belos – São Luis de Montes Belos, GO
4
Bolsista do CNPq
RESUMO
Avaliaram-se o efeito de doses e fontes de nitrogênio na recuperação do capim-marandu, por um período
de três anos, em pastagem estabelecida há mais de 10 anos, com baixa produção de forragem. O
delineamento experimental foi em blocos completos ao acaso, com três repetições. Nas parcelas foi
utilizado o fatorial 2 x 4, sendo duas fontes de nitrogênio (sulfato de amônio e uréia) e quatro doses de
nitrogênio (0, 100, 200 e 300kg ha-1 ano-1). Nas subparcelas, foram alocados os três anos (2004, 2005 e
2006), referentes ao tempo de recuperação da pastagem. A aplicação de nitrogênio foi determinante para a
recuperação do capim-marandu. A maior produção de massa seca foi observada no segundo ano e o maior
teor de proteína bruta no terceiro ano de recuperação da pastagem. As maiores doses de nitrogênio
promoveram acréscimos lineares na produção de massa seca e redução nos teores de fibra em detergente
neutro e fibra em detergente ácido. O sulfato de amônio promoveu maior produção de massa seca do que
a ureia, em todas as doses e anos avaliados.
Palavras-chave: Brachiaria brizantha, composição bromatológica, massa seca, sulfato de amônio, ureia
ABSTRACT
The effects of nitrogen doses and sources were evaluated on pasture recuperation of grass marandu, in a
three-year period. The pasture was established for more than ten years and it was presenting low herbage
production being considered in moderate degradation phase. The experiment was arranged in a
randomized complete block design with split-plots and three replications, in a 2x4 factorial, being two
sources of N (ammonium sulphate and urea) and four doses of N (0, 100, 200, and 300kg ha-1 yr-1). The
time of pasture evaluation was represented by the years 2004, 2005, and 2006. The highest dry matter
production was observed in the second year and the highest crude protein in the third one. The highest
nitrogen doses promoted linear increase on dry mass production and decrease in fiber concentration and
in neutral and acid detergents. Ammonium sulphate resulted in higher dry mass production than urea in
all doses applied and evaluated years.
Keywords: Brachiaria brizantha, dry mass, bromatologic composition, ammonium sulphate, urea
INTRODUÇÃO milhões de hectares de pastagens, sendo 20%
dessa área constituída de pastagens degradadas,
As gramíneas do gênero Brachiaria ocupam apenas com plantas forrageiras desse gênero
posição de destaque na pecuária brasileira. (Bonfim-da-Silva e Monteiro, 2006). A forma
Estima-se que, no Brasil, existam cerca de 200 extrativista de exploração pecuária vem
aumentando as áreas degradadas de pastagem ou
Recebido em 9 de maio de 2009
Aceito em 29 de janeiro de 2010
E-mail:
[email protected] Doses e fontes de nitrogênio...
em processo de degradação. Na degradação das MATERIAL E MÉTODOS
pastagens, a produtividade e a composição
botânica podem ser substancialmente alteradas O experimento foi realizado de julho de 2003 a
ao longo do tempo, devido ao declínio da março de 2006, na Fazenda Modelo da
fertilidade do solo e ao manejo inadequado das Universidade Estadual de Goiás (UEG), em São
plantas forrageiras. O esgotamento da fertilidade Luís de Montes Belos, GO, a 579m de altitude,
do solo, em consequência da ausência de 16o31’30’’de latitude Sul e 50o22’ 20’’ de
adubação, tem sido apontado como uma das longitude Oeste. Predomina na região o clima
principais causas da degradação de pastagens tropical de savana do tipo Aw, conforme
cultivadas. A recuperação das pastagens é um classificação de Koppen, com chuvas
dos caminhos para reversão dessa situação, e concentradas no verão (outubro-abril) e estação
uma das formas de alcançar esse objetivo é seca no inverno (maio-setembro).
trabalhar com a reconstituição da fertilidade do
solo, esgotada pelos anos sucessivos de A área utilizada de pastagem foi de 882m2,
exploração extrativista, sem a devida atenção ao dividida em três blocos de 294m2, com parcelas
manejo da pastagem e correção/manutenção da individuais de 20m2 e área útil de 6m2. A
fertilidade do solo, levando essas pastagens à pastagem já se encontrava estabelecida há mais
degradação (Costa et al., 2009). Assim, o de 10 anos, com baixa produção de forragem, em
fornecimento de nutrientes, em quantidades e estágio moderado de degradação, devido à
proporções adequadas, particularmente o exploração intensiva com animais e falta de
nitrogênio, assume importância fundamental no reposição de nutrientes no solo.
processo produtivo de pastagens. Isso porque o
nitrogênio do solo, proveniente da mineralização O delineamento experimental utilizado foi o de
da matéria orgânica, não é suficiente para atender blocos completos ao acaso, com três repetições.
à demanda de gramíneas com potencial Nas parcelas, foi utilizado o esquema fatorial 2 x
produtivo (Fagundes et al., 2006). 4, sendo duas fontes de nitrogênio, (sulfato de
amônio e uréia), e quatro doses de nitrogênio (0,
Dois aspectos são fundamentais no manejo da 100, 200 e 300kg ha-1 ano-1). Nas subparcelas,
adubação nitrogenada: a fonte e o parcelamento foram alocados os três anos, (2004, 2005 e 2006)
das doses para diminuir principalmente as perdas referentes ao tempo de avaliação da pastagem.
por volatilização e lixiviação. Com isso, tem-se
melhor aproveitamento do nitrogênio pela planta, O solo foi classificado como Latossolo
redução das perdas e manutenção de taxas de Vermelho, de textura argilosa, cujas médias das
acúmulo mais uniforme de massa seca pela características químicas do solo, na profundidade
planta (Werner et al., 2001). de 0-20cm nos anos estudados, estão
apresentadas na Tab. 1. A metodologia utilizada
Bonfim-da-Silva e Monteiro (2006), em estudo na análise de solo foi a descrita por Silva (1999).
de doses de nitrogênio e enxofre em pastagem
degradada de capim-braquiária, verificaram que As adubações de manutenção, em todos os anos
as doses de nitrogênio foram determinantes para de recuperação da pastagem, foram realizadas
a produção de massa seca das lâminas foliares e com base nos resultados das análises dos solos de
dos colmos mais bainhas. Resultados positivos cada ano. No primeiro ano (2003), foram
de adubação nitrogenada no capim-braquiária aplicados 500kg ha-1 de calcário dolomítico com
também foram obtidos por Santos Júnior e 85% de PRNT em cobertura 60 dias antes do
Monteiro (2003); Alexandrino et al. (2005), período chuvoso. Em setembro, após as
Oliveita et al. (2005), Batista e Monteiro (2006). primeiras chuvas, foram aplicados 150kg ha-1 de
Considerando a importância da adubação P2O5, 80kg ha-1 de K2O e 30kg ha-1 de FTE BR-
nitrogenada em pastagem, essa pesquisa teve o 12, utilizando como fontes: superfosfato simples,
objetivo de avaliar o efeito de doses e fontes de cloreto de potássio e fritas, respectivamente.
nitrogênio na recuperação do capim-marandu,
por um período de três anos.
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Costa et al.
Tabela 1. Resultados das determinações químicas do solo (análises realizadas antes da aplicação dos
fertilizantes em cada ano)
Característica do solo 2003 2004 2005
pH (água) 5,2 5,1 4,6
Al (cmolc dm-3) 0,0 0,1 0,2
H + Al (cmolc dm-3) 3,9 4,5 5,3
Ca (cmolc dm-3) 2,70 2,79 2,20
Mg (cmolc dm-3) 1,00 0,91 0,23
K (cmolc dm-3) 0,42 0,23 0,11
P- Mehlich1 (mg dm-3) 1,3 6,4 1,8
SO4-2 (mg dm-3) 9,8 18,9 30,0
Cu (mg dm-3) 0,4 1,7 1,0
Zn (mg dm-3) 0,2 2,9 0,7
Fe (mg dm-3) 13,0 30,0 31,3
Mn (mg dm-3) 27,4 41,0 15,6
MOS (g dm-3) 11,0 18,0 20,0
CTC pH 7,0 (cmolc dm-3) 8,0 8,4 7,8
V (%) 51,5 46,7 32,5
MOS: matéria orgânica do solo; CTC: capacidade de troca cátion; V: saturação por bases.
A partir dos resultados da análise em amostra de tesoura de aço, à altura de 20cm da superfície do
solo do segundo ano (2004), foi realizada solo. Após cada corte de avaliação, foi realizado
adubação de manutenção com 50kg ha-1 de P2O5 o corte de uniformização de toda a área
e 100kg ha-1 de K2O, provenientes das fontes de experimental, na mesma altura de corte das
superfosfato simples e cloreto de potássio, plantas avaliadas, sendo retirado o resíduo
respectivamente. No terceiro ano de recuperação, resultante dessa uniformização.
2005, foram aplicados 150kg ha-1 de P2O5, 120kg
ha-1 de K2O e 20kg ha-1 de FTE BR-12, na forma O material coletado no campo foi acondicionado
de super fosfato simples, cloreto de potássio e em saco plástico, identificado e enviado ao
fritas, respectivamente. Toda a adubação de laboratório, onde foi pesado para determinação
manutenção nos três anos foi realizada com uma da massa verde coletada por parcela e,
única aplicação em cobertura, antes dos posteriormente, foi retirada uma amostra
fertilizantes nitrogenados, no início do período representativa da forragem de aproximadamente
chuvoso (setembro). 500g. Em seguida, o material foi colocado em
estufa de ventilação forçada de ar, com
A adubação nitrogenada em cada ano foi temperaturas entre 58º e 65ºC, por 72 horas, para
aplicada em cobertura, parcelada em três épocas, determinação da matéria seca parcial. Após a
após cada corte de avaliação da planta forrageira. secagem, as amostras foram moídas em moinho
A primeira aplicação foi realizada em dezembro, do tipo Willey, com peneira de 1mm,
a segunda em janeiro e a terceira em fevereiro, armazenadas em sacos plásticos e identificadas.
com intervalo de trinta dias.
A produção de massa seca por hectare foi
Foram realizados três cortes da planta forrageira determinada pela pesagem de todo o material da
por ano, no período das águas. O primeiro 30 área útil da parcela e corrigida pelo teor de
dias após a aplicação dos fertilizantes matéria seca obtido após o processamento das
nitrogenados (janeiro); o segundo 30 dias após o amostras.
primeiro (fevereiro) e o terceiro 30 dias após o
segundo (março). Durante a condução do experimento, foram
monitoradas diariamente as temperaturas médias
A planta forrageira foi coletada com auxílio de e as precipitações pluviais, cujos resultados são
um quadrado de ferro de 1m x 1m e cortada, com mostrados na Fig. 1.
194 Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.62, n.1, p.192-199, 2010
Doses e fontes de nitrogênio...
32,0 600
Precipitação (mm)
Temperatura ( oC)
30,0 500
400
28,0
300
26,0
200
24,0 100
22,0 04 0
05
06
4
6
03
04
05
04
05
06
/0
/0
/0
n/
n/
n/
z/
z/
z/
v/
v/
v/
ar
ar
ar
de
ja
de
ja
de
ja
fe
fe
fe
m
m
Meses do Ano
Temperatura média Precipitação
Figura 1. Temperaturas médias (ºC) e precipitações pluviais (mm) observadas em São Luís de Montes
Belos, GO.
A análise bromatológica foi realizada para A magnitude do efeito das fontes de nitrogênio
determinação da proteína bruta (PB), da matéria foi considerada pequena, devido à aplicação de
seca (MS), da fibra em detergente neutro (FDN) enxofre em todas as parcelas, proveniente da
e da fibra em detergente ácido (FDA), conforme adubação de manutenção dos três anos, com
metodologia de Silva e Queiroz (2002). aplicação do superfosfato simples, pois houve
enxofre suficiente para nivelar o efeito
Os dados obtidos receberam tratamento diferencial entre as fontes nitrogenadas
estatístico pelo software Sisvar 4,6 (Ferreira, utilizadas. É importante ressaltar que, em áreas
1999). Inicialmente, foi realizada a análise de que recebem grande quantidade de adubo
variância para as combinações das doses e fontes nitrogenado, faz-se necessário o suprimento de
de nitrogênio, em que o ano foi considerado enxofre para maximizar a resposta da forrageira,
como parcela subdividida no tempo. Em função principalmente em áreas degradadas, com baixo
da significância para essas variáveis, ajustaram- teor de matéria orgânica, onde, normalmente, os
se curvas de regressão. Utilizou-se o nível de teores de enxofre-sulfato encontram-se com
significância de 5% em todos os testes baixa disponibilidade no solo (Bonfim-da-Silva e
estatísticos. Monteiro, 2006). Mattos e Monteiro (2003)
relataram que, em pastagem degradada de capim-
RESULTADOS E DISCUSSÃO braquiária, o enxofre contribui de forma efetiva
na recuperação da planta forrageira, aumentando
A produção de massa seca do capim-marandu foi a produção e melhorando o seu valor nutritivo.
influenciada pelas doses e fontes de nitrogênio e
doses de nitrogênio e anos de recuperação. O aumento da produção de massa seca, obtida
Quanto ao efeito de doses e fontes de nitrogênio, com a aplicação de 300kg ha-1 ano-1 de
verificaram-se ajustes lineares da regressão para nitrogênio, foi de 78% e 71% em relação à
a produção de massa seca em função das doses testemunha, para o sulfato de amônio e ureia,
de nitrogênio, para ambas as fontes (Fig. 2a). Na respectivamente. Estes resultados indicam a
dose máxima de nitrogênio, a produção de massa importância da adubação nitrogenada para a
seca na fonte de sulfato de amônio foi 18% mais recuperação do capim-marandu, aspecto já
elevada que na fonte de ureia. Isso pode ser mencionado por Bonfim-da-Silva e Monteiro
explicado em função das transformações da ureia (2006). Ydoyaga et al. (2006), ao trabalharem
no solo, resultando em maiores perdas de com métodos de recuperação de pastagens de
nitrogênio por volatilização de amônia. Oliveira Brachiaria decumbens, confirmaram essa
et al. (2007) relataram que as perdas por importância, ao verificarem que a adubação
volatilização de amônia na ureia exigem atenção nitrogenada proporcionou aumento de 34% na
especial, principalmente quando aplicada a lanço produção de massa seca na dose máxima
em cobertura. estudada (100kg ha-1).
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Costa et al.
(a) (b)
12000 12000
2 2
Sulfato de amônio: Y = 2801,20 + 25,6470N; R = 0,99 (P<0,05) 2004: Y = 3226,00 + 19,1150N; R = 0,97 (P<0,05)
2 2
Ureia: Y = 2807,10 + 19,7310N; R = 0,98 (P<0,05) 2005: Y = 2848,70 + 20,7320N; R = 0,99 (P<0,05)
M assa seca (kg ha ano )
10000 2006: Y = 2819,20 + 25,0020N; R2 = 0,97 (P<0,05)
-1
10000
Massa seca (kg ha )
-1
-1
8000
8000
6000
6000
4000
4000
2000
0 2000
0 100 200 300 0 100 200 300
-1 -1
Nitrogênio (kg ha-1) Nitrogênio (kg ha ano )
Figura 2. Produção de massa seca em função das doses e fontes de nitrogênio (a) e doses de nitrogênio e
anos de recuperação (b) do capim-marandu (médias de três cortes por ano).
A produção de massa seca teve comportamento solo, as perdas por volatilização podem atingir
diferenciado na recuperação do capim-marandu, até 80% do nitrogênio aplicado na forma de
nos anos avaliados (Fig. 2b). Nos três anos, ureia, comprometendo a produtividade da planta
houve ajuste linear do efeito do nitrogênio na forrageira.
produção de massa seca. Nos anos de 2004 e
2005, em que as condições foram mais A produção de massa seca obtida na dose
favoráveis ao crescimento da forrageira quanto à máxima foi de 9.512; 10.075 e 8.498kg ha-1, para
precipitação e à temperatura (Fig. 1), houve os anos de 2004, 2005 e 2006, respectivamente.
resposta acentuada ao nitrogênio na produção de Primavesi et al. (2006), ao trabalharem com duas
massa seca, possibilitando discriminar diferenças fontes (nitrato de amônio e ureia) e quatro doses
significativas na produção em comparação com o de nitrogênio (0, 200, 400 e 800kg ha-1) em
ano de 2006. Brachiaria brizantha cv. Marandu, observaram
que a produção da forragem na fonte de nitrato
A maior produção de forragem, em todas as de amônio foi superior à da ureia, atingindo
doses de nitrogênio estudadas, foi observada no produções de 13.070 e 12.328kg ha-1 de massa
ano de 2005, quando ocorreu distribuição mais seca, respectivamente, nas doses máximas.
uniforme de chuvas, favorecendo a solubilização
e o aproveitamento dos fertilizantes nitrogenados As fontes de nitrogênio não influenciaram o teor
no solo. No ano de 2006, ocorreu queda de 11% de proteína bruta (PB) em todos os anos
em relação ao ano de 2004 na produção de avaliados. Contudo, observou-se significância
forragem na dose máxima aplicada de nitrogênio, para as doses de nitrogênio e anos de
devido à ocorrência de um veranico no mês de recuperação da pastagem. Houve aumento linear
janeiro, provocando deficit hídrico de 20 dias no teor PB (Fig. 3) com acréscimo nas doses de
logo após a aplicação da adubação nitrogenada. nitrogênio, para todos os anos de avaliação,
Provavelmente, essa queda na produção de sendo os maiores teores observados na dose de
forragem foi ocasionada pela volatilização de 300kg ha-1 de nitrogênio. Estes resultados
nitrogênio, na fonte de ureia, logo após a indicam que o capim-marandu sob lotação
aplicação, em função das altas temperaturas intermitente com adubação nitrogenada
observadas e da falta de umidade do solo, proporcionou uma dieta com teores de PB que
limitando, com isso, as respostas ao nitrogênio e não limitariam a atividade microbiana no rúmen
prejudicando a produção de massa seca. Sob (Nutrient..., 2001). Em estudo de doses de
condições de elevada temperatura, ausência de nitrogênio e fósforo no capim-braquiária,
precipitação pluvial imediatamente após a Magalhães et al. (2007) verificaram que apenas o
adubação e altas taxas de evaporação de água do nitrogênio influenciou nos teores de PB,
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Doses e fontes de nitrogênio...
mostrando aumento de 22,5% na dose 100kg de consumo pelos bovinos, em todos os anos de
ha-1 de nitrogênio, quando comparada com a não avaliação da pastagem. Esse fato é explicado
aplicação de nitrogênio. A elevação dos teores de pelo manejo de corte adotado, com períodos
PB sob doses de nitrogênio também foi relativamente curtos de rebrota (30 dias), o que
constatada por Lopes (2005), Mistura et al. proporcionou forragem de melhor qualidade.
(2007) e Benett et al. (2008).
As fontes de nitrogênio e os anos de recuperação
Os maiores teores de PB nas doses máximas da forrageira não influenciaram nos teores de
estudadas foram observados no ano de 2006, fibra em detergente neutro (FDN). Entretanto,
mostrando aumento de 47% e 32% em relação houve influência das doses de nitrogênio,
aos anos de 2004 e 2005, respectivamente. O promovendo redução nos teores de FDN, com
maior teor obtido em 2006 pode ser atribuído em aumento da aplicação do nitrogênio (Fig. 4a). As
função da menor produção de massa seca na dose médias ajustadas ficaram entre 70% a 64% para a
máxima aplicada de nitrogênio, ocasionado testemunha e a dose máxima estudada,
maior concentração de nitrogênio no tecido da respectivamente, mostrando redução de 8,9% em
planta (Costa et al., 2009) e influenciando no relação à testemunha. Essa redução com o
aumento do teor de PB. aumento das doses de nitrogênio é considerada
relevante para a melhoria do valor nutritivo da
Em estudo do efeito de fontes e doses de forragem e para o aumento do consumo de massa
nitrogênio na produção e na qualidade da seca pelos animais, pelo fato de o teor de FDN
forragem de capim-coastcross (Cynodon ser um importante parâmetro que define a
dactylon), Corrêa et al. (2007) verificaram que o qualidade da forragem, bem como limita a
aumento das doses nas duas fontes de nitrogênio capacidade ingestiva por parte dos animais.
incrementou o teor de PB da forragem, variado
de 14,7 a 15,3% para o nitrato de amônio e de Em estudos de doses de nitrogênio (100, 200,
13,4 a 14,3% para a ureia. 300, 400kg ha-1 ano-1) na composição
bromatológica do capim-elefante, Mistura et al.
20
2004: Y = 6,7790 + 0,0161N; R2 = 0,99 (P<0,05) (2007) verificaram que a adubação nitrogenada
2005: Y = 7,9650 + 0,0171N; R2 = 0,96 (P<0,05)
18 2006: Y = 7,9400 + 0,0313N; R2 = 0,95 (P<0,05) aumentou os teores de FDN. Outros autores,
entretanto, não detectaram diferenças acentuadas
Proteína bruta (%)
16
nos teores de FDN em resposta à adubação
14
nitrogenada (Costa et al., 2004).
12
10
A FDN representa a fração química da forrageira
que se correlaciona mais estreitamente com o
8
consumo voluntário dos animais, e valores acima
6 de 55% a 60% correlacionam-se de maneira
0 100 200 300
negativa (Van Soest, 1965). No presente
Nitrogênio (kg ha-1ano-1)
trabalho, os valores de FDN encontrados
Figura 3. Teores de proteína bruta (PB) na estiveram sempre acima do valor crítico de 55%
matéria seca, em função das doses de nitrogênio e, portanto, o consumo voluntário das forrageiras
e anos de recuperação do capim-marandu em pastejo poderia ser limitado no caso de uma
(médias de três cortes por ano). pressão de pastejo alta, que reduziria a
seletividade dos bovinos. Nussio et al. (2002)
Um aspecto importante a ser considerado no explicaram que forragens de alta digestibilidade
presente trabalho é a capacidade responsiva do de FDN proporcionam elevado potencial de
capim-marandu à adubação nitrogenada, consumo de massa seca e, consequentemente,
elevando o teor de PB para valores considerados maior produção de leite e de carne. Corrêa et al.
adequados para o desenvolvimento da planta (2007), ao estudarem o efeito de fontes e doses
forrageira e contribuindo efetivamente para a de nitrogênio na qualidade do capim-coastcross,
recuperação da pastagem. Mesmo no tratamento verificaram maiores teores de FDN, em relação
sem adubação nitrogenada, o teor de PB ficou aos encontrados neste trabalho. As médias
acima do nível crítico de 7%, limitante do obtidas da adubação com ureia e com nitrato de
amônio, independentemente das doses e dos
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Costa et al.
cortes, foram de 81,8% e 81,1%, redução no teor de FDA na dose máxima de 26%
respectivamente. em relação à não aplicação do nitrogênio. Esse
decréscimo é considerado importante, pois o teor
Apenas as doses de nitrogênio influenciaram nos de FDA avalia a digestibilidade do alimento.
teores de fibra em detergente ácido (FDA), Altos teores de FDA na planta forrageira
mostrando decréscimo linear com o aumento das diminuem a digestibilidade da massa seca,
doses de nitrogênio (Fig. 4b). As médias comprometendo o rendimento dos animais.
ajustadas ficaram entre 41,14% a 30,33%, com
(a) (b)
72 42
2
2 Y = 41,146 - 0,0360N; R = 0,98 (P<0,05)
Y = 70,447 - 0,0209N; R = 0,90 (P<0,05)
40
70
38
FDN (%)
68
FDA (%)
36
66 34
64 32
30
62
28
0 100 200 300 0 100 200 300
-1 -1
Nitrogênio (kg ha-1ano-1) Nitrogênio (kg ha ano )
Figura 4. Teores de fibra em detergente neutro (FDN) (a) e fibra em detergente ácido (FDA) (b) na
matéria seca, em função de doses de nitrogênio para o capim-marandu (média de três anos).
As adubações, principalmente a nitrogenada, REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
além de aumentarem a produção de massa seca,
aumentam o teor de PB da forragem e, em alguns ALEXANDRINO, E.; NASCIMENTO Jr., D.;
casos, diminuem o teor de fibra, contribuindo, REGAZZI, A.J. et al. Características
dessa forma, para a melhoria da sua qualidade morfogênicas e estruturais da Brachiaria
(Burton, 1998). Costa et al. (2004), trabalhando brizantha cv. Marandu submetida a diferentes
com doses de nitrogênio, potássio e enxofre no doses de nitrogênio e frequência de corte. Acta
capim-tanzânia, verificaram que a adubação Sci., v.27, p.17-24, 2005.
reduziu o teor de FDA, ficando em torno de
BATISTA, K.; MONTEIRO, F.A. Respostas
36,2%.
morfológicas e produtivas do capim-marandu
adubado com doses combinadas de nitrogênio e
CONCLUSÕES
enxofre. Rev. Bras. Zootec., v.35, p.1281-1288,
A aplicação de nitrogênio foi determinante para a 2006.
recuperação do capim-marandu. A maior BENETT, C.G.S.; BUZETTI, S.; SILVA, K.S. et
produção de massa seca foi observada no al. Produtividade e composição bromatológica do
segundo ano e o maior teor de PB no terceiro ano capim-marandu a fontes e doses de nitrogênio.
de recuperação da pastagem. As maiores doses Cienc. Agrotec., v.32, p.1629-1636, 2008
de nitrogênio promoveram acréscimos lineares
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