IDEOLOGIA DO RACISMO NO BRASIL:
INDIVIDUAL, INSTITUCIONAL E ESTRUTURAL
Dra. Maria das Graças Gonçalves1
Raça e Racismo
O pensamento sobre raças humanas nasceu na Europa, no século XIX, calcado em
teorias do evolucionismo e darwinismo social. Criou-se uma ideologia, uma pseudociência, a
Eugenia, que agregou características psicológicas, morais, intelectuais e estéticas aos traços
fenotípicos dos indivíduos. Essa pseudociência, ainda hoje, orienta modos de perceber, agir,
interagir, e tem função social específica: a perpetuação da supremacia branca.
No Brasil, temos como principais defensores dessas teorias racistas Sílvio Romero e
Raimundo Nina Rodrigues. Esses senhores classificaram o povo negro como maléfico para o
Brasil, e propuseram encarar o problema da negrura da população com estratégias de
branqueamento. Assim surgiam a ideologia do branqueamento e o mito da democracia racial2
que se traduzem em forte pressão cultural exercida pela hegemonia branca para que o/a
negro/a "se clareasse" no corpo e na mente, assimilando moralidades, atitudes e valores
culturais eurocêntricos como passaporte emancipatório. Ancoradas nessas ideias surgiram
várias políticas estatais de acolhida aos imigrantes brancos, por exemplo, a Lei 601/1850, que
lhes concedia ajudas de custo para a viagem até aqui, terras públicas e títulos de propriedade,
enquanto, para negros/as que aqui já estavam, nenhuma política de amparo social pós
abolição foi executada.
Nos dias atuais, a ciência afirma que todos pertencemos à mesma raça humana. Porém,
a discriminação racial, os preconceitos raciais e as ideologias sustentáveis do racismo,
persistem na mentalidade do mundo contemporâneo. Essa ferida social repugnante esconde
relações de poder e dominação, e naturaliza as desigualdades sociais, que sustentam a ideia
falsa de que o mundo é constituído de humanos superiores de pele branca, pessoas bonitas,
inteligentes, bem-sucedidas, e, humanos inferiores, pessoas escuras, consideradas feias,
menos capazes, malsucedidas. O preconceito racial (pensamentos e sentimentos pejorativos
em relação aos negros e negras) e a discriminação racial (distinção nas atitudes, com prejuízo
para negros) são imbricados na dinâmica das relações pessoais e institucionais no Brasil e são
determinantes inquestionáveis das desigualdades, expostas em índices estatísticos de todos
1
Dra. em Educação/USP/ Prof. Associada UFF/RJ.
2
Principal referência para esse arranjo de ideias está na obra do antropólogo Gilberto Freyre, Casa Grande e
Senzala, de 1933. Obra que mostra nosso país como um paraíso racial, vigorando uma fantasia de convívio
harmonioso entre brancos, negros e índios.
os setores da nossa vida social, como saúde, emprego, moradia, educação e ações de violência
nas quais negros são vítimas.
Como ilustração desses índices de desigualdades, constatamos, por exemplo, através
de dados do IBGE, que 56% do povo brasileiro são pessoas pretas e pardas, e são elas, também,
que perfazem a grande maioria nas faixas da pobreza (71%) e da extrema pobreza (73%).
No tocante à educação básica, tema de nosso maior interesse, as análises dos
indicadores apontam que negros tem maior histórico de evasão e baixo desempenho, segundo
o IBGE (2018), o analfabetismo da população, na faixa de 15 anos ou mais, é de 9,1 % para
negros/as, e 3,9% para brancos. Em 2019, na faixa de jovens entre 14 e 29 anos, fora da escola,
71% eram negros/as, e apenas 27% brancos, condição que pouco muda em 2022 (após a
pandemia), quando 70% fora da escola são negros/as e 28% dos brancos. Já, para quem tem
ensino médio completo, para a faixa de 25 anos ou mais, o índice dos negros/as é de 40,3% e
dos brancos é de 55,8% (PNAD, 2019). Pela análise desses índices, estudiosos concluem que
crianças e jovens negros, no Brasil, vivenciam, diariamente nas escolas, impedimentos,
bloqueios e exclusões, causados por violências psicológicas, sociais e tisicas, embasadas
apenas na raça, etnia ou origem.
Racismo Individual, Institucional e Estrutural
O racismo é um mecanismo perverso, organizador das discrepâncias sociais, estruturante do
nosso pensamento individual e das relações institucionais. Desde a escravidão e colonização,
por meio de processos econômicos, culturais, políticos e psicológicos, os brancos progridem à
custa da população negra (Hasenbalg & Silva, 1988). Considerado um organieador da nossa
sociedade, o racismo se manifesta, principalmente, nas interações individuais e institucionais.
A terminologia jurídica utiliza conceitos de injúria racial (qualquer atitude ou tratamento dado
à pessoa ou a grupos minoritários que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo
ou exposição indevida, em razão da cor, etnia, procedência ou religião) e de racismo para
tipificar os crimes que prejudicam negros pela raça, ambos crimes com igual gravidade no
Código Penal.
Racismo Individual
Na dimensão individual, o racismo tende a ser considerado de natureza psicológica e não
política. São atitudes pessoais, motivadas pelo ódio de uma pessoa pela outra sem qualquer
explicação, apenas pela sua própria imoralidade ou autoritarismo. Ele se manifesta por meio
de estereótipos, comportamentos e interesses pessoais. Segundo Almeida (2018), é um
fenômeno ético ou psicológico de caráter individual ou coletivo, atribuído a grupos isolados, ou
ainda a uma "irracionalidade" a ser combatida no campo jurídico. (p. 28). Porém, argumenta o
autor, essas análises são frágeis por suas características a-históricas e ausência de reflexões
sobre os efeitos dos enormes crimes afetos aos negros, sob o abrigo da lei, da moral e da
religião (p. 28).
Racismo Institucional
O racismo institucional tem se firmado nos debates acadêmicos e políticos, sem negar
a sua dimensão individual. A expressão do racismo das instituições sociais, políticas e
econômicas, opera quando se marginaliza e rejeita os indivíduos negros, mulheres e indígenas,
seja de modo velado ou explícito. Desse modo, dissimuladamente ou não, no interior de
organizações, empresas, grupos, associações e instituições congêneres, se recusam, inibem,
coagem e humilham pessoas com base na sua cor escura. Tal marginalização se dá quando se
prefere, opta, ou oferece tratamento diferenciado a um/a branco/a, de forma direta ou
indireta, cujo resultado dessa escolha tende a privilegiá-lo/a em detrimento do/a negro/a, sem
qualquer motivo oficial. O racismo institucional se apoia em normas, práticas,
comportamentos e atitudes prejudiciais às pessoas negras, negando-lhes os direitos e
oportunidades, providos pelo Estado, instituições e organizações.
O racismo institucional é silencioso, direto e indireto, por vezes formal e por outras
informal, não é midiático, não polemiza, mas se expressa nos dados da vida social da população
negra, consolidando o fracasso político do Estado na promoção dessa parte da população!
Racismo estrutural
O que mantém as desigualdades raciais, de maneira secular, é a manutenção das
formas estruturais arcaicas de nossa sociedade, advindas do modelo colonial escravocrata,
calcadas na exploração da população negra. São práticas, hábitos, situações e explicações que
promovem cotidianamente a segregação e o preconceito. Segundo Almeida (2018, p.36), a
dimensão mais profunda do racismo contra os negros está na estrutura imaginária da
constituição do tecido social e se expressa no nível institucional e no nível individual.
O racismo praticado pelas instituições consolida, concretiza ou materializa as ideias da
vida social que tem em si o racismo orgânico. Dito de modo mais direto: as instituições são
racistas porque a sociedade é racista. No caso das crianças e jovens, negros/as, há muita
omissão sobre o cotidiano de humilhações e constrangimentos que sofrem nas instituições
educativas (entre outras), não apenas por causa da aparência do corpo, do rosto e da cor
escura, mas também pela religiosidade de matriz africana, pela orientação sexual e região de
origem.
Ser antirracista, promover a saúde mental das pessoas subalternizadas pelo racismo,
colaborar pela emancipação social dos corpos negros e pela equidade no acesso aos bens
sociais, são compromissos de trabalho de todos os envolvidos em políticas públicas; ainda que
seja brutal essa luta contra a maré silenciosa e dissimulada que atravessa nossa história até os
dias atuais.
Referências
ALMEIDA, S.L. O que é racismo estrutural. QBH: Letramento, 2018.
FREYRE, G. Casa Grande e Senzala. 47aed. SP, Global, 2003.
HASENBALG, C. A. Entre o mito e os fatos: racismo e relações raciais no Brasil (pp. 235-
249). ln: Maio, M. C. & Santos, R. V. (Orgs.), Raça, ciência e sociedade. RJ: Fiocruz /CCBB, 1996.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE), 2019-2020.
IBGE, PNAD Contínua-Educação 2019.
MUNANGA, K. Palestra: Uma Abordagem Conceituai Das Noções De Raça, Racismo,
Identidade e Etnia. Seminário Nacional Relações Raciais e Educação, 3. RJ: PENESB, 2003.