Censura no Brasil: O Silêncio Imposto e as Vozes que
Transbordaram
Censura é o veneno sorrateiro da liberdade. Ela não chega gritando. Chega cortando. Um
verso aqui, uma manchete ali, um filme proibido, um livro recolhido. Na história do Brasil, a
censura foi e ainda é uma ferramenta usada para controlar corpos, ideias, emoções e
revoltas. Mas também é um capítulo que mostra como a criação resiste — e sobrevive.
1. O que é censura?
Censura é o ato de proibir, restringir ou controlar a circulação de informações, ideias,
opiniões, obras artísticas e manifestações culturais.
Geralmente, ela é aplicada por governos autoritários, mas também pode vir de instituições
religiosas, empresas, grupos sociais ou até da própria sociedade (a chamada
"autocensura").
No Brasil, a censura tem uma longa história — e não ficou no passado.
2. Censura no Império e na República Velha
Desde o período colonial, a Coroa portuguesa já controlava o que podia ou não circular.
Com a chegada da imprensa ao Brasil, o controle aumentou.
No Império e na Primeira República, a censura era voltada principalmente para publicações
consideradas "subversivas" ou "imorais", afetando jornais, romances e peças de teatro.
3. Ditadura Militar (1964–1985): o auge do silêncio
Este foi o período mais brutal e sistemático de censura no país.
● Censura à imprensa: jornais e revistas tinham trechos cortados. Muitas vezes, os
espaços eram preenchidos com receitas de bolo ou poemas aleatórios, como forma
de protesto silencioso.
● Censura na música: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina e
tantos outros tiveram letras vetadas ou precisaram “codificar” suas críticas ao
regime.
● Cinema, teatro e literatura: obras inteiras foram proibidas, peças foram
desautorizadas, e autores perseguidos.
● Censura pessoal: artistas, professores, estudantes e intelectuais foram vigiados,
presos, exilados ou mortos.
4. A arte como resistência
Mesmo em meio à opressão, surgiram obras poderosas, cheias de metáforas, duplos
sentidos, ironias e códigos. A arte brasileira aprendeu a driblar a tesoura da censura com
criatividade feroz.
● “Pra não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré) virou hino da resistência.
● Chico Buarque escreveu com pseudônimo para escapar dos vetos.
● O Teatro Oficina, o Cinema Novo e os tropicalistas transformaram a dor em grito
coletivo.
5. E hoje? A censura acabou?
Não. A forma muda, mas o problema persiste:
● Censura moral e religiosa: proibição de exposições, perseguição a temas
LGBTQIA+, arte considerada “blasfema” ou “inadequada”.
● Pressão política: ataques a jornalistas, retirada de livros escolares, cortes de
verbas para produções culturais.
● Censura nas redes sociais: algoritmos que escondem conteúdos, discursos de
ódio travestidos de "liberdade de expressão", e silenciamentos disfarçados de
moderação.
6. Liberdade de expressão ≠ liberdade de opressão
Vale lembrar: liberdade de expressão não é um passe livre pra discurso de ódio.
Censurar uma ideia crítica é diferente de barrar falas que atacam vidas, culturas e
existências.
O desafio é equilibrar o direito de se expressar com o dever de respeitar o outro — e não
usar “liberdade” como escudo para o preconceito.
7. Conclusão
A história da censura no Brasil é, na real, uma história de resistência.
Porque sempre que tentaram calar vozes, essas vozes voltaram — cantando, escrevendo,
pintando, ocupando, vivendo.
E enquanto houver censura, haverá arte escapando por frestas.