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Narcisismo Na Cultura - o Ideal Do Eu

O documento aborda o narcisismo e o ideal do eu, explorando suas origens e manifestações na cultura contemporânea, com ênfase nas contribuições de Freud e Lacan. A autora analisa como o narcisismo se relaciona com questões sociais atuais, como consumismo e intolerância, e destaca a importância dos movimentos populares na superação desses desafios. O texto conclui que a psicanálise oferece uma perspectiva valiosa sobre a constituição do sujeito e suas interações culturais.

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Narcisismo Na Cultura - o Ideal Do Eu

O documento aborda o narcisismo e o ideal do eu, explorando suas origens e manifestações na cultura contemporânea, com ênfase nas contribuições de Freud e Lacan. A autora analisa como o narcisismo se relaciona com questões sociais atuais, como consumismo e intolerância, e destaca a importância dos movimentos populares na superação desses desafios. O texto conclui que a psicanálise oferece uma perspectiva valiosa sobre a constituição do sujeito e suas interações culturais.

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DOI: 10.5935/0102-7395.v45n86.

09

Eliana Rodrigues Pereira Mendes

Narcisismo na cultura: o ideal do eu1


Eliana Rodrigues Pereira Mendes
1
Resumo
A autora apresenta uma abordagem do narcisismo e do ideal do eu desde o seu conceito inicial até
suas manifestações na cultura contemporânea. Mostra sua trajetória ao longo da obra freudiana e
as contribuições de Lacan ao tema. Analisa brevemente a presença do narcisismo e dos ideais do
eu nos tempos atuais, mostrando os impactos no sujeito através das tecnologias da informação,
. do consumismo exagerado, da corrupção política, dos racismos e da intolerância às diferenças
sexuais. Termina apontando a importância dos movimentos populares, propiciados pela própria
cultura, para o enfrentamento desses conflitos.

Palavras-chave: Narcisismo primário e secundário, Ideal do eu e eu ideal, Cultura contempo-


a rânea, Consumismo e corrupção, Diferenças sexuais.

O narcisismo é uma poderosa


blindagem a favor da vida.
Coutinho Jorge

Narcisismo: o conceito rente à estrutura psíquica. O conceito de


O termo “narcisismo”, que dentro da narcisismo, nesse contexto, diz respeito à
tradição grega significa o amor da pessoa criança e ao tipo de escolha que ela faz de
por si mesma, foi primeiro apresentado por sua pessoa como objeto de amor, numa fase
Ovídio, poeta romano nascido em 43 a.C., em que ainda não tem plena capacidade
cuja obra máxima foi Metamorfoses, na de se voltar para os objetos externos. Essa
qual apresentou o mito e o personagem de oposição de libido do eu e libido do objeto
a Narciso, que, ao ver sua imagem refletida não desaparece, e as duas permanecem,
o nas águas do rio, sem saber que aquela hipoteticamente, num movimento de
u era a sua própria imagem, apaixona-se báscula entre si. A primeira reformulação
por si mesmo e rejeita Eco, a ninfa que o da teoria das pulsões faz desaparecer a
desejava. Torturado pelo sentimento de separação entre as pulsões do eu (pulsões
o fascínio pela imagem, acaba por perceber de autoconservação) e as pulsões sexuais
a que aquela era a imagem de si mesmo. Isso (pulsões de procriação), em que o eu é um
o faz se agredir e sangrar até a morte, para grande depositário da libido.
se transformar então numa flor. Em 1920, em Além do princípio de
Em 1914, com o estudo de Freud So- prazer, Freud vai falar da nova dicotomia
o bre o narcisismo: uma introdução o termo das pulsões, com a nomeação de uma
à adquire a posição de um conceito teórico. pulsão de vida (que engloba as pulsões do
o Freud considera o narcisismo não apenas eu e as pulsões sexuais) e uma pulsão de
e um desvio sexual, mas um elemento ine- morte. Seus últimos trabalhos vão falar da
a
1. Conferência apresentada na jornada promovida pela Rede Americana de Psicanálise (RAP) Sua majestade, o
a eu, narcisismo na teoria, na clínica e na cultura do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro, realizada no nos dias 31
mar. e 1.º abr. 2023.

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Narcisismo na cultura: o ideal do eu

oposição entre natureza e cultura e as vi- sismo e relação objetal. A permanência


cissitudes que advêm disso. As dicotomias do bebê humano em sua bolha narcísica
mantêm a tensão da obra freudiana. Nelas não pode se manter para sempre. É com
está presente a ideia de conflito, inerente a entrada do Outro que se estabelece
à psicanálise. primariamente a passagem para a cultura.
A localização do narcisismo primário é Quanto ao narcisismo secundário, sua
enigmática e mais fácil de ser confirmada definição é menos problemática, e a for-
por dedução retroativa. O narcisismo pri- mulação da segunda tópica não modifica
mário é um berço simbólico que antecipa seu conceito. O narcisismo secundário
o próprio nascimento do bebê. Este já é não se limita a casos extremos, pois o in-
pensado e falado por seus pais, que esco- vestimento libidinal do eu coexiste com os
lhem seu nome e lhe fazem atribuições investimentos objetais em todos os seres
que correspondem ao seu próprio desejo humanos. O próprio Freud afirma que
de genitores. existe um equilíbrio de energia entre as
Para Lacan, o narcisismo do bebê é duas formas de investimento que partici-
constituído pelo olhar do Outro parental, pam de Eros, que são a pulsão de vida e a
assim como se dá a erogeinização de seu sua luta contra as pulsões de morte.
corpo também pelo Outro. Na verdade,
todas as pulsões, na teoria lacaniana, O ideal do eu
obedecem a uma demanda do Outro. Às A princípio, a criança era seu próprio ide-
diversas fases da libido que correspondem al, o substituto do narcisismo perdido na
ao organismo vivo do bebê, Lacan acres- infância. A renúncia à onipotência infantil
centa a linguagem, que é o que distingue e ao delírio de grandeza, típicos do narci-
o bebê humano de todas as outras formas sismo infantil é o que vai propiciar o surgi-
de vida. Através dela a criança vai sendo mento de outro ideal. Essa renúncia existe
gradativamente banhada no caldo da como produto da submissão às proibições
cultura que lhe é trazido pelo Outro ex- feitas pelas figuras parentais, alojadas na
perimentado. posição de modelo no momento em que
Sua Majestade, o bebê, que demonstra a estrutura edípica começa a declinar. Tal
o encantamento dos pais por seu rebento, renúncia situa-se na posição do recalque,
nada mais é do que a manifestação de seu processo que tem sua sede no eu e cuja
próprio narcisismo abandonado, em cujo realização exige um critério de avaliação.
lugar se constituiu gradativamente seu É com a entrada do Outro, representante
ideal do eu. da cultura, que advirá o ideal do eu, com o
Através da construção do estádio do qual o eu ideal, onipotente por excelência,
espelho, desenvolvida em 1949, por La- necessitará se confrontar. Dessa passagem
can, vão sendo trabalhados os primórdios surgirá o recalque.
da constituição do eu. Paralelamente ao Lacan (1963/1995), ao escrever sobre
olhar da mãe, há um empréstimo do seu o relatório de Daniel Lagache, sublinha a
tesouro de significantes ofertados ao bebê, passagem em que diz que a criança, mesmo
que vai se constituindo como eu. antes de seu nascimento, é como um ser
Para Freud, a constituição do eu é do desejo de outros, já traz consigo uma
um precipitado das relações objetais com expectativa, projetos e atributos e vai ser
o Outro. Uma unidade comparável ao eu sob esses anseios que ela vai ficar sufoca-
não se dá como pronta sem a construção da. Mas é também a partir dessa reserva
do narcisismo secundário, que aparece de atributos que ela vai achar um lugar.
nessa intercessão. Temos, então, formada Os pais, investindo narcisisticamente na
a seguinte equação: autoerotismo, narci- criança, a colocam no campo do Outro,
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Eliana Rodrigues Pereira Mendes

com os significantes que lhe cabem. do ideal do eu como sendo formada por
A partir desse referencial simbólico, a identificações com os pais e seus substi-
criança construirá sua imagem, com o tutos sociais.
que é necessário para ser amada e para Nas Novas conferências introdutórias
corresponder ao que a alteridade espera sobre psicanálise (Freud, 1933/1974), o
dela. No seminário 1: Os escritos técnicos ideal do eu aparece como um precipitado
de Freud, Lacan (1953-1954/1986) vai da antiga representação parental e como
diferenciar o eu ideal do ideal do eu: o eu uma função do supereu.
ideal é uma instância imaginária, a ima- O termo “supereu” aparece como tal
gem no espelho, uma projeção. O ideal no artigo O ego e o isso (Freud, 1923/1974),
do eu se constitui numa introjeção e é o mas já tinha sido apontado por Freud em
modelo simbólico que guia o eu ideal. Para 1914, quando falou sobre o narcisismo.
Coutinho Jorge (2023), o eu ideal é uma Aparece como uma instância psíquica
figura de onipotência, e o ideal do eu é a especial, que atuaria a partir do ideal do
dialetização dessa onipotência. eu, exigindo satisfação narcísica e, ao mes-
O conceito do ideal do eu é bastante mo tempo, observando o eu e mostrando
polêmico e sofre várias modificações na o quanto ele está longe desse ideal. Mais
teoria freudiana. Aparece pela primeira tarde, a consciência moral é trazida a partir
vez em Sobre o narcisismo: uma introdução da crítica dos pais e da sociedade.
(1914/1974). Nesse texto, a criança, no Em O mal-estar na civilização, Freud
seu narcisismo infantil, tem a si mesma (1930/1974) vai falar que a severidade do
como seu próprio ideal e se atribui uma supereu nem sempre se liga à severidade
perfeição imaginária. Quando se vê sendo dos pais, mas está principalmente ligada à
alvo das reprimendas de terceiros e pelo pulsão de morte. A lei do supereu é uma lei
aparecimento de seu próprio julgamento insensata, que, ao mesmo tempo em que
crítico, sente uma ferida narcísica, ao se proíbe o gozo, também o incita (Lacan,
confrontar com o ideal do eu. O fato é 1953-1954/1986). O comando supere-
que ela não está disposta a desistir de sua goico seria: Goza, goza, seu filho da puta!
perfeição narcisista infantil perdida, e o Em A dissecção da personalidade psíqui-
ideal do eu passa a ser o confronto com ca, Freud (1933/1974) diz que o supereu
essa perfeição. tem como uma de suas funções ser veículo
do ideal do eu. Mas o supereu não tem
Trajetória do ideal do eu como função ser modelo, tal qual o ideal
Em 1917, nas Conferências introdutórias do eu, que está do lado da lei, ou com a
sobre psicanálise (Freud, 1917/1974), o ide- introjeção da autoridade parental. Ao
al do eu passa a ser um subcomponente do contrário, o supereu, feroz e tirânico, fala
eu, carregado de uma consciência moral. muito mais de uma quebra desse modelo
No texto Psicologia das massas e análise simbólico.
do eu (Freud, 1921/1974), o ideal do eu
aparece como uma instância separada do O narcisismo na cultura
eu, que tem a capacidade de entrar em No capítulo VI de O mal-estar na civiliza-
conflito com ele. Entre suas várias funções ção, Freud (1930/1974) apresenta a luta
estão a auto-observação, a consciência entre as pulsões libidinais e as agressivas.
moral, a censura onírica e a participação A inclinação para a agressão aparece
no processo de recalque. como uma disposição pulsional original
O eu e o isso (Freud, 1923/1974) e autossubsistente, constituindo-se no
mostra o ideal do eu já identificado com maior empecilho à civilização e na prin-
o supereu. O texto ainda fala da origem cipal representante da pulsão de morte.
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Narcisismo na cultura: o ideal do eu

Já a civilização é um processo a serviço trar que nós, seres humanos, não somos
de Eros, cujo trabalho é combinar entre donos de nossa própria casa e que somos
si os seres humanos, promovendo a união falados e antecedidos por uma polifonia
de famílias, lugares, povos e nações numa de vozes que nos constituem.
grande unidade: a unidade da espécie hu- Com seu trabalho, Freud traz à luz
mana. As duas pulsões andam lado a lado uma outra cena até então oculta na escu-
na evolução da civilização, nessa contenda ridão da nossa memória. Essa instância,
entre as duas forças antagônicas. ainda não reconhecida, alojada no mais
O capítulo VII discute o aparecimento profundo do psiquismo, pode fazer uma
do supereu e do sentimento de culpa que irrupção a qualquer momento, quando
o acompanha. Esse sentimento tem uma menos se espera: o inconsciente. Essa
dupla origem: o medo da autoridade e o criação propicia a consideração das subje-
medo do próprio supereu, quando este já tividades, outro fator preponderante para
foi introjetado. A severidade do supereu inaugurar um novo capítulo na história das
é uma continuação da severidade da au- mentalidades.
toridade exterior, à qual ele sucedeu e em Ao considerar a normalidade como
parte substituiu. um conceito econômico e a sexualidade
O capítulo final VIII vai falar que o como um continuum desde o nascimento
supereu é uma instância inferida por Freud até a morte do ser humano, Freud intrigou
e a consciência é uma função dessa ins- seus contemporâneos, mas principalmente
tância. A integração a uma comunidade trouxe uma pergunta sobre a constituição
humana tem sempre uma renúncia a ser do sujeito: o que faz do Homem um ser
feita em termos da própria satisfação das humano? A psicanálise, na sua trajetória
pulsões. Pode-se dizer que a comunidade subversiva e libertária, propiciou ques-
dá origem a um supereu sob cuja influência tões que ela mesma hoje é convocada a
se processa o desenvolvimento cultural. O responder.
supereu de uma época de civilização tem Ainda na segunda década do século,
origem semelhante à do supereu individu- acontece a Primeira Guerra Mundial, que
al. Ele se baseia na impressão deixada atrás porá em confronto as nações da Europa,
de si pelas personalidades dos grandes tidas como altamente “civilizadas”. Essa
líderes da época. Freud faz uma menção à guerra proporcionou uma validação para
ética, que pode ser a nascente psicanálise, trazendo uma
visão pulsional dos processos históricos
[...] considerada como uma tentativa te- coletivos. Na guerra, a pulsão é superdi-
rapêutica, como um esforço por alcançar, mensionada: pode-se ver que a tradição
através de uma ordem do supereu, algo é extremamente precária e a cultura tem
que não foi conseguido até agora por meio limitações. Além disso, tudo o que é pro-
de quaisquer outras atividades culturais duzido pelo ser humano é relativo. E nessa
(Freud, 1930/1974, p. 167). circunstância de um conflito armado, há
uma quebra dos padrões de normalidade.
A cultura contemporânea A Segunda Guerra Mundial traz uma fe-
O século XX, no qual Freud escreveu a rocidade ainda maior do que a primeira,
maioria de seus textos, foi um tempo de o que também muda os comportamentos
enormes mudanças numa tal velocidade vigentes.
nunca antes vista num período histórico. A partir da metade do século XX, nos
Nessa esteira de transformações, surge a anos 1950 e 1960 a cultura vai viver uma
psicanálise, conhecimento novo que pro- intensa mutação. Num esforço de situar
piciou a ruptura na racionalidade, ao mos- a nova realidade complexa e distópica,
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Eliana Rodrigues Pereira Mendes

e descrever a cultura de forma crítica, muitos podem ter acesso. As distâncias


muitas obras foram produzidas, desde se encurtam, numa nova dimensão de
a literatura ficcional, com o Admirável tempo e espaço, onde se pode ao mesmo
mundo novo (Aldous Huxley, 1932); 1984 tempo estar em lugares diferentes. As
(George Orwell, 1949); Fahrenheit 451 telas passam a dominar todas as comuni-
(Ray Bradbury, 1953), até ensaios de pen- cações, que agora podem ser feitas simul-
sadores, filósofos e sociólogos. Entre esses, taneamente através da voz e do olhar. As
temos: A era do vazio e O império do efêmero comunicações em rede, a cada dia com
(Gilles Lipovetsky, 1983, 1987); A cultura recursos mais avançados, tornam o mundo
do narcisismo (Christopher Lash, 1979); O uma aldeia global. Assistimos à criação de
declínio do homem público e A corrosão do aplicativos, como Facebook, WhatsApp,
caráter (Richard Sennett, 1977, 1999); A Google, Instagram, Chat GPT e toda uma
cultura do espetáculo (Guy Debord, 1992); gama de possibilidades de comunicação e
A modernidade líquida e Vida líquida (Zyg- informação, pondo em cena a inteligência
munt Bauman, 2001, 2005); A sociedade artificial.
do cansaço e A agonia de Eros (Byung Chul A pulsão escópica, o olhar, funciona
Han, 2010, 2012); O eu soberano: ensaio predominantemente, num mundo onde
sobre as derivas identitárias (Elizabeth as imagens são cada vez mais importan-
Roudinesco, 2022) e muitos outros. Todos tes, em detrimento do simbólico, que se
esses títulos são alguns significantes que encontra enfraquecido. Parecer feliz é uma
definem nosso mundo contemporâneo. exigência ainda maior do que ser feliz. A
Assistimos à dissipação dos valores fruição dos momentos bons se torna frag-
até então respeitados, que começam a ser mentada com a interrupção do tempo para
duramente questionados, com o apare- as fotos, roubando a espontaneidade do
cimento de novas configurações não só momento. O registro da cena visa o olhar
na vida material, mas principalmente na do outro, sua aprovação, sua inveja. As
vida psíquica. O desalojamento da figura selfies apresentam o Eu soberano à frente,
masculina, no mundo ocidental, dos lares dominando cenários variados. Hoje os
para a guerra, faz com que o trabalho fe- adolescentes, presas fáceis de gadgets e da
minino seja necessário nas várias classes premência de contato, trazem o mundo
sociais, o que vai transformando a autori- na palma da mão, com tudo que precisam
dade patriarcal, com gradativo declínio da para se instruir e se distrair.
figura masculina. A própria ciência, num O ideal do eu está muito mais próximo
avanço significativo, consegue propiciar das figuras da rede do que estaria dos pais
a fertilização de um óvulo por um esper- ou dos educadores em outros tempos. O
matozoide, o que já não depende de um fascínio pelas figuras midiáticas é muito
encontro sexual, mas de uma manipulação mais forte do que pelas figuras parentais,
encomendada, na qual a figura masculina muitas vezes ausentes e pouco preparadas
se esvanece. O grande desenvolvimento para o embate educativo. O número de
da tecnologia em geral, já começado antes, likes na rede pode levar alguém ao céu ou
com o século das luzes, vai modificando os ao inferno, assim como se cria a ilusão de
modos de produção, descartando certas seguidores voláteis que não comparecem
profissões e fazendo surgir outras. na hora em que a solidão aparece e se
Entre essas evoluções, as técnicas da precisa de um abraço amigo.
informática vão se aperfeiçoando ainda Mas não se pode demonizar ou san-
mais, deixando de se apresentar com um tificar a informática. Ela veio para ficar
maquinário lento e pesado para chegar e tanto podemos nos encantar com um
a um objeto pequeno e portátil, ao qual movimento espontâneo e poderoso de
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Narcisismo na cultura: o ideal do eu

seus usuários, como foi a Primavera árabe, rapinagem de tantos bens materiais, res-
levante sem líderes explícitos em países pondendo que, ao fazer suas transações
árabes contra a opressão, quanto nos in- escusas “estava em êxtase”. Cai-se num
dignarmos com a cultura nefasta das fake infindável deslizamento de objetos de
news e com as barbaridades da deep web ou desejo que acaba por trazer a angústia.
dark web, com seu rastro impune dos cri- A angústia (Lacan, 1962-1963/2005),
mes mais hediondos contra a humanidade. além de um afeto, é um tempo de passagem
O apelo ao social, a demonstração, entre o gozo e o desejo. Se o gozo repre-
o par antitético ver e ser visto dominam senta um excesso, o desejo é o que move
a cena e os sentimentos. A sociedade do na direção da verdade de cada um. Não se
consumo também é uma realidade que acede ao desejo sem que se sinta angústia.
hoje se impõe. Com a produção em massa Ela ocupa um tempo de desprender do
feita pelos países ricos, é urgente que se sentido que se dava a algo e que clama por
crie a necessidade do novo, que leva ao mudança. Quando há uma fixação nesse
maior consumo. Vemos que hoje o prin- desprendimento, é aí que a falta faz falta,
cípio da utilidade se tornou dependente porque se fica colado a uma representação
do princípio da realidade. qualquer que tampona essa falta. É o que
Para Freire Costa (2004) o consu- acontece na posição de um consumismo
mo está muito mais na redefinição dos cego ou no êxtase dos políticos corruptos.
ideais de felicidade do que na natureza Se a falta é obturada totalmente, o desejo
alienante das mercadorias. Para Bauman fica travado em seu movimento e tem
(1997), o objeto agrega valor social – e não lugar uma repetição interminável de uma
sentimental – a seu portador, um tipo de mesma cadeia onde se está aprisionado e,
passaporte que o identifica em qualquer por que não dizer, consumido. Consumidos
situação, lugar ou momento da vida. O ou desaparecidos como sujeitos estão os
ideal do eu se modifica. Estar feliz é sentir- que não desejam mais (Mendes, 2015).
-se corporalmente igual aos vencedores, Quanto ao racismo, o ideal do eu
às pessoas de grande visibilidade, como está sempre aquém do modelo oficial.
os astros e estrelas midiáticos. O corpo é A atriz Viola Davis, grande intérprete
o último reduto do qual se pode apossar e norte-americana do cinema e do teatro,
ornar como se queira. fala numa entrevista no Instagram, que o
Hoje se tem a figura do digital influen- máximo que a sociedade branca pode lhe
cer, alguém que foi ungido no altar do conceder é chamá-la de Meryl Streep pre-
consumo para ditar aos seguidores o que ta. É como se ela fosse apenas um rascunho
deve ou não deve ser usado, o que é certo em negativo, sem nunca poder brilhar com
sentir e como se comportar. A celebridade luz própria. A referência ainda é a branca.
hoje é a autoridade do provisório. Ídolos Nos anos 1960 foi necessário que um
são projetados e derrubados rapidamente. modelo de orgulho racial fosse referência
O supereu também se torna volátil nessas de fora para dentro: as grandes marchas
situações. O que vale é a aliança entre o e campanhas de Martin Luther King, nas
sucesso e a visibilidade. A ascensão social quais foram lançados slogans para desper-
idealizada se afasta da decência moral e tar o narcisismo massacrado da população
as duas não têm a possibilidade de estar negra, com as palavras de ordem: I am
juntas. somebody! [Eu sou alguém], Black is be-
Esse é também o caso da corrupção autiful! [Preto é belo], reforçadas ainda
política. A mulher de um ex-governador hoje. Seres invisíveis e sem procedência
do Rio de Janeiro justificou-se diante das definida, os pretos norte-americanos
acusações que lhe foram feitas, sobre a tiveram nessa mesma época um livro de
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Eliana Rodrigues Pereira Mendes

referências – Roots: the saga of an American A imprensa livre, assim como a litera-
Family, publicado em 1976 por Alex Haley. tura, o cinema, o teatro e as artes em geral
A saga de Kunta Kinté sustentou muitos têm muita importância para a aceitação
ideais do eu fragmentados. A última ma- e a inclusão desse segmento, com fatores
nifestação massiva contra o racismo: Black não só do esclarecimento público, mas
lives matter! [Vidas pretas importam] con- também da aceitação subjetiva de uma
vocou muito mais brancos do que antes. outra configuração sexual. Os movimentos
Mas ainda hoje assistimos supremacis- de liberação sexual promoveram significa-
tas brancos invadirem a sede do governo, tivas modificações jurídicas e políticas nas
berrando seus eus ideais representados por estruturas familiares.
uma figura caricata de poder. No Brasil de Com seu livro O Eu soberano: ensaio
hoje, onde antes se procurava branquear sobre as derivas identitárias ,Roudinesco
os pretos, como foi feito com Machado de (2022) afirma que as tais derivas vêm subs-
Assis, há toda uma política de incrementar tituindo as lutas coletivas. Não se pode
a participação dos negros, numa busca de pensar as sociedades sem algum universal:
trazê-los a uma cena da qual estiveram a liberdade, por exemplo, é sempre um
sempre afastados. valor. Depois do fracasso do comunismo
Com a população LGBTQIA+ acon- (já questionado e previsto por Freud no
tece o mesmo. As marchas de orgulho gay, Mal-estar na civilização), com a queda do
os reality shows que mostram pessoas desse muro de Berlim, os esforços coletivos para
segmento como elementos bem-sucedidos se manter a coesão da humanidade estão
e capazes de interagir proveitosamente muito diminuídos. Num mundo como o
com os não pertencentes a seu grupo, nosso não se tem o controle do que está
como The queer eye for the straight guy [Um por vir. É um mundo em desconstrução,
olhar gay para o cara hétero], falam em fa- mas o pensamento crítico deve ser man-
vor de uma interação pacífica e proveitosa tido, fazendo-se uma ligação da nossa
com essa parcela social. herança clássica com as novidades. Talvez
Também aqui a aceitação de fora assim se encontre alguma saída.
para dentro é muito importante para que Essas operações de reforço social e
se forme um ideal do eu cultural. Vários cultural trarão mudanças significativas
estudiosos do tema das sexualidades, como para o ideal do eu, formado tão precoce-
Thomas Laqueur (1992), consideram que mente na vida da criança? Até que ponto
o avanço da aceitação e a inclusão dos são eficazes para a construção ou recons-
sexualmente diferentes, não se deram em trução do ideal do eu? São perguntas que
função da ciência, mas em resposta às nos angustiam e para as quais buscamos
necessidades políticas fundamentais para a respostas.
construção da sociedade contemporânea. A pós-modernidade nos apresenta
As diversas formas de interpretar uma batalha de forças conflitivas: de um
o corpo e as diferenças entre os sexos lado as ofertas sedutoras para o eu ideal em
resultam não de um conhecimento espe- sua onipotência, sustentadas pelo império
cífico, mas de uma produção discursiva, das imagens e, do outro, um ideal do eu
explicitada principalmente dentro de um líquido, cujos fundamentos se mostram
contexto de lutas e conflitos em que estão tão fragmentados quanto o tempo em que
em jogo gênero e poder. Lopes (2017) vai vivemos.
dizer que as novas redesignações sexuais A nós, analistas, cabe o desafio de
não vieram da área médica ou psicana- saber lidar com isso. j
lítica, e sim foram impulsionadas pelos
grandes movimentos políticos e sociais.
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Narcisismo na cultura: o ideal do eu

NARCISSISM IN CULTURE:
THE EGO IDEAL Referências
Anotações pessoais do seminário O Eu soberano,
Abstract de Elizabeth Roudinesco, assistido virtualmente
The author presents an approach to narcis- no dia 3 jun. 2022.
sism and the ego ideal, from its initial concept
Anotações pessoais dos Seminários de leitura
to its manifestations in contemporary culture.
de introdução ao narcisismo, de Sigmund Freud,
It shows his trajectory throughout Freud’s ministrados por Marco Antônio Coutinho Jorge,
work and Lacan’s contributions to the theme. em 25 jan., 1.º e 8 fev. 2023.
She briefly analyzes the presence of narcissism
and self-ideals in current times, showing the Anotações pessoais dos Seminários sobre a angústia,
ministrados por Gilda Vaz Rodrigues, no CPMG,
impacts on today’s subject, through computer
em mar., maio e ago. 2017.
technologies, exaggerated consumerism, po-
litical corruption, racism and intolerance of BAUMAN, Z. Postmodernity and its discontents.
sexual differences. She ends by pointing out Cambridge UK: Polity Press, 1997.
the importance of popular movements, fos-
COSTA, J. F. Declínio do comprador, ascensão
tered by culture itself, in facing these conflicts.
do consumidor. In: ______. O vestígio e a aura:
corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio
Keywords: Primary and secondary narcis- de Janeiro: Garamond, 2004. p. 131-183.
sism, Ego ideal and ideal ego, Contemporary
culture, Consumerism and corruption, Sexual FREUD, S. Além do princípio de prazer (1920).
In: ______. Além do princípio de prazer, psicologia
differences.
de grupo e outros trabalhos (1920-1922). Direção da
tradução: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago,
1974. p. 1385. (Edição standard brasileira das obras
completas de Sigmund Freud, 18).

FREUD, S. Conferência XXXI: A dissecção


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Narcisismo na cultura: o ideal do eu

Sobre a autora

Eliana Rodrigues Pereira Mendes


Psicóloga formada pela Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais.
Especialização em Psicologia Clínica.
Psicanalista formada pelo Círculo Psicanalítico
de Minas Gerais (CPMG) e Círculo Brasileiro
de Psicanálise (CBP).
Clínica particular desde 1971.
Coordenadora do Seminário de Psicanálise
e Cultura no CPMG, para formação
de novos psicanalistas.
Presidente do CPMG de 1997-1999
e de 2011-2014.
Vice-presidente do CPMG de 2017-2020.
Delegada do Brasil para a IFPS desde 1998.
Editora regional, para a América do Sul, da
revista International Forum
of Psychoanalysis (IFP) desde 1997.
Tem artigos publicados em livros
e revistas nacionais e internacionais.
Publicou três números da revista International
Forum of Psychoanalysis como editora convidada.

E-mail: [email protected]

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