A INFLUÊNCIA DAS CONTRIBUIÇÕES DA METODOLOGIA
DE PAULO FREIRE NO PROCESSO DE ENSINO-
APRENDIZAGEM DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
NO BRASIL
Paulo Freire deixou contribuições valiosas para o processo de ensino-aprendizagem da
Educação de Jovens e Adultos. Uma das contribuições mais importantes, é retirar do
professor o papel de detentor do saber e transferir para o aluno o papel de construtor e
modificador de seus conhecimentos.
De acordo Torres (2002, p. 219), “impulsionar e levar à frente uma alfabetização
popular requer, como condição, uma autêntica confiança no povo como protagonista
ativo e sujeito de suas próprias transformações históricas”. Para que o educando da
classe de jovens e adultos expresse seus conhecimentos prévios e participe da
construção de novos saberes, é necessário que o professor, além de proporcionar um
ambiente confortável, de confiança, estimule-o a participar do seu processo de ensino-
aprendizagem, ajudando-o à desconstruir a ideia de que não sabe nada e de que só o
professor sabe tudo. Pois, a partir do momento em que o professor auxilia o aluno a
redescobrir-se como ser ativo do seu processo de educação, é que este participará de
forma eficaz, tentando saciar a sede de aprender a leitura e a escrita, como também, a
perceber o seu papel dentro do mundo em que está inserido.
Acreditar na capacidade de aprender de cada um constitui-se fator
preponderante para o resgate da auto-confiança, indispensável na
aprendizagem, porém desacreditada e marginalizada, ao longo de
praticamente todas as suas experiências, junto à sociedade letrada.
(FUCK, 2002, p. 92).
O que Paulo Freire mais defendia em suas teorias era a importância de resgatar a auto-
confiança do educando. Sem acreditar em si mesmo e em sua capacidade, o educando
não tem como libertar-se de sua condição social.
Segundo Snyder (1974) apud Candau (2002, p. 63), “é indispensável que a teoria tenha
já nascido de uma prática real naqueles a quem se dirige, que seja tomada de consciência
da prática ou, pelo menos, dos sentimentos que os animam e que eles gostariam de ver
encarnados na prática”. A partir do momento em que há o interesse de buscar na
realidade do educando, elementos que embasem a construção de instrumentos que
viabilizem a aprendizagem deste, o ensino se dará de forma progressiva. Pois, Paulo
Freire aborda em sua teoria da educação, conhecida como ‘Método Paulo Freire’, que é
a partir do conhecimento prévio do educando, que o professor usará os instrumentos
adequados para a mediação e reconstrução de informações. Nada que venha pronto,
principalmente da parte do docente, pode trazer resultados eficazes e significativos.
Toda e qualquer técnica que, antecipadamente, estabeleça passos a
serem uniformemente seguidos, não tem condições de atingir
minimamente os alfabetizandos adultos, que por via de regra se
concentraram em classes populares, uma vez que não levam em conta
esse processo, pelo qual passa o alfabetizando , moldando o ensino
somente na lógica do sistema da escrita. E neste caso até se alfabetiza,
ou seja, se transforma homens em robôs. Na medida porém que esses
robôs perderem seus programadores (professores), perdem também sua
ação. (FUCK, 2002, p. 92).
Devido a perceber essa robotização dos educandos jovens e adultos, Paulo Freire
criticava as cartilhas e as frases sem significado real. Os alunos não necessitam ser
copistas e decoradores de palavras, eles precisam compreendê-las dentro do seu
universo vocabular, para que depois venham a dominar a leitura e a escrita. A
aprendizagem não deve se dar de forma que os alunos memorizem palavras e depois as
esqueça. O que se pretendia nos círculos de cultura e o que ainda se pretende, é que o
aluno domine o processo que o leva a ler e a escrever, ou seja, tenha autonomia para
ressignificar seus conhecimentos.
Socialmente e culturalmente, a pessoa letrada já não é a mesma que era
quando analfabeta ou iletrada, ela passa a ter uma outra condição social
e cultural – não se trata propriamente de mudar de nível ou de classe
social, cultural, mas de mudar seu lugar social, seu modo de viver na
sociedade, sua inserção na cultura – sua relação com os outros, com o
contexto, com os bens culturais torna-se diferente. (SOARES, 2003, p.
37).
É necessário promover uma inquietação no educando, para que ele sinta a necessidade
da mudança do seu papel dentro da sua sociedade. Quando o aprendente conseguir fazer
a leitura do seu mundo, vai enxergar-se como ser ativo e não passivo, o que o levará à
mudança de comportamento e até mesmo, à mudança da aceitação de sua posição na
sociedade. Posição esta, que é imposta pelo sistema que os massacra.
Nas escolas que atendem à Educação de Jovens e Adultos, Paulo Freire e o seu método
são extremamente citados. Não daria para separar o nome desse teórico da educação, da
própria Educação de Jovens e Adultos. Apesar de diversas escolas afirmarem que
utilizam o ‘Método Paulo Freire’, este já não é mais seguido fielmente. Pois, o governo
não deseja que os educandos tenham um nível extremamente alto, de criticidade, quanto
à sua posição social e política. A verdadeira intenção política fica nítida quando as
escolas recebem pouco ou nenhum auxílio financeiro para a classe de jovens e adultos,
quando os professores para essa modalidade de ensino são despreparados e, por falta de
material adequado, utilizam recursos direcionados ao ensino infantil, quando não há
reformas nas escolas, trazendo extremo desconforto para pessoas que vem de trabalhos
exaustivos. Outro fato é que, na metodologia desenvolvida por Paulo Freire, o professor
teria que dispor de um tempo maior para a construção do conhecimento advindo do
educando, o que não acontece. O sistema restringe o tempo, os conteúdos e aborda de
forma superficial a cultura da classe desprivilegiada, para que não fuja de forma tão
radical, do que determina a LDB.
Os sites das secretarias de educação, tanto estadual, quanto municipal, deveriam tratar
do Plano Plurianual de Alfabetização de forma clara e aberta ao público. Atualmente,
só a Secretaria do Estado da Bahia disponibiliza esse plano para os internautas, expondo
até mesmo as abordagens que serão utilizadas. As Secretarias de Educação de outros
estados brasileiros, via site, não disponibilizam informações necessárias para que seja
feita uma avaliação da forma com que o processo de ensino-aprendizagem acontece. O
que também não garante que esse planejamento seja seguido à risca.
Segundo a Secretaria de Educação do Estado da Bahia (2007), uma das abordagens a
ser desenvolvida na concepção de educação é a sociocultural, do teórico Paulo Freire.
Essa abordagem considera que a especificidade da educação de jovens e adultos está
fundamentada na experiência dos educandos.
[...] A prática educativa se revela na relação entre educador e educando
como sujeitos do processo de ensino-aprendizagem, que juntos
problematizam os conhecimentos oriundos da realidade social,
construindo, assim, uma prática de educação. Nesta perspectiva,
alfabetizar jovens e adultos é considerá-lo sujeitos do mundo e com o
mundo, dando-lhes condições de ler e escrever a realidade global a
partir do seu lugar social, transformando-os em autores da sua própria
história e co-autores da história do seu país. (BRASIL, 2007, p. 06).
O planejamento da alfabetização de jovens e adultos do estado da Bahia,
burocraticamente, trata da concepção de educação de Paulo Freire, como uma das suas
abordagens utilizadas. Porém, o seu tão conhecido ‘método’, não é aplicado nas escolas
com o segmento de EJA.
O que ainda se vê da influência de Paulo Freire nas escolas é o incentivo ao diálogo, a
posição dos alunos em semicírculo, para que todos se vejam, o uso das sílabas que
formam as palavras geradoras. A cultura local tende a ser valorizada à medida em que
os educandos vão tendo a liberdade de expor suas ideias e conhecimentos. Por esse
motivo o diálogo tem uma importância ímpar dentro da sala de aula.
De acordo Gadotti (1989, p. 46), “para Paulo Freire, o diálogo faz parte da própria
natureza humana. Os seres humanos se constroem em diálogos, pois são essencialmente
comunicativos. Não há progresso humano sem diálogo. Para ele, o momento do diálogo
é o momento para transformar a realidade e progredir”. Fica, portanto, evidente a
importância do diálogo para a progressão do processo de ensino-aprendizagem da
Educação de Jovens e Adultos. Pois, parte dos educandos dessa modalidade de ensino,
foram alunos que, outrora, não tiveram a liberdade de expressar-se em sala de aula, não
tinham no professor um mediador de novos conhecimentos. Ao contrário, eram tratados
como depósitos de informações, característica típica da concepção tradicionalista, o que
contribuiu para desestimulá-los a continuar na escola em período regular.
Dos componentes do ‘Método Paulo Freire’, tais como o círculo de cultura, os
animadores de debate, as fichas de cultura, as fichas fonéticas, o levantamento
vocabular, entre outros, pouco restou para influenciar a educação atual. Porém, a
valorização dos conhecimentos prévios do educando, a posição dos alunos em
semicírculo, o levantamento vocabular, o respeito a sua cultura e o trabalho com sílabas,
mesmo que de forma não tão fiel ao ‘Método Paulo Freire’, influencia o processo de
ensino-aprendizagem que se dá, atualmente, nas escolas do segmento de EJA em todo
o Brasil.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Educação de Jovens e Adultos no Brasil, desde o Império, já demonstrava o descaso
da parte do poder público e o despreparo do corpo docente atuante. O governo agia de
forma demagógica, quando aparentava preocupar-se em educar o povo que, em sua
maioria, era iletrado. As leis criadas no Brasil Império chegavam a ser imorais, pois
excluíam a população desfavorecida de todo e qualquer benefício que estas leis
pudessem proporcionar. Em resultado de tamanha exclusão, formou-se uma
predominância de pessoas dominadas, desfavorecidas, e o que é pior, passivas em
relação às suas posições na sociedade em que estavam inseridas.
Quando o Brasil tornou-se uma república, as pessoas acreditavam na mudança política
e social do país. A esperança de igualdade, de melhoria de vida, estava nos corações do
povo brasileiro. Contudo, a elite da época continuava a dominar a sociedade e a ludibriar
o povo, o qual não possuía um senso crítico para perceber-se como modificador desta
sociedade opressora.
A educação deveria ser prioridade na política brasileira. Por não trazer receita para os
cofres públicos, a educação no Brasil, nunca foi tratada da forma que deveria. Os ideais
das campanhas políticas, sempre trataram da educação e da erradicação do
analfabetismo, mas embutido em frases rebuscadas, sempre esteve o ideal supremo, o
de não permitir que o povo brasileiro se tornasse crítico, pensante, consciente de sua
situação social e consciente também da opressão da elite, a qual era minoria.
Os cidadãos brasileiros, os quais ousaram fazer a diferença, se permitindo educar e
serem educados, de forma a incentivar a reação da massa oprimida contra seus
opressores, foram massacrados pela ditadura militar, sendo exilados do país, presos,
mortos, violentados.
O professor Paulo Freire, um dos presos políticos da época da ditadura militar, foi um
cidadão que lutou para que o povo se tornasse consciente da sociedade a qual estava
inserido e que pudesse fazer a sua própria leitura de mundo. Para isso, criou o seu tão
famoso método, através do qual mudaria a história da Educação de Jovens e Adultos no
Brasil, pois não somente faria do educando um sujeito letrado, mas faria deste um ser
crítico e consciente. Todo o amor dedicado à educação, custou à Paulo Freire a sua
liberdade e resultou na sua expulsão do país.
As décadas de 60 e 70 foram as mais repressivas da história da educação brasileira.
Neste período a educação regrediu de tal maneira, que reflete até os dias atuais. A
educação que foi violentamente interrompida para o povo brasileiro, foi aproveitada
pelos países, desenvolvidos, pois Paulo Freire pôde contemplá-los com seus
conhecimentos inovadores. Os países desenvolvidos tornaram-se cada vez mais
desenvolvidos. Os países em subdesenvolvidos, os quais receberam Paulo Freire,
puderam aproveitar o seu importante apoio na área da educação e o Brasil continuou no
seu declínio educacional.
Com o retorno dos exilados políticos, no Brasil começou uma corrida contra o tempo,
para que se amenizassem os efeitos negativos no âmbito educacional, causados pela
ditadura militar. Contudo, quando um governante preocupa-se com a educação do país,
principalmente com a modalidade de jovens e adultos e inicia-se um progresso nesta
área, o seu sucessor não dá continuidade ao processo educacional e este acaba por
regredir, no que resulta em um descompasso na área da educação.
Quando se fala da Educação de Jovens e Adultos, logo é citado o nome de Paulo Freire
e o seu ‘método’. Entretanto, os docentes continuam despreparados para lecionarem
para o público de jovens e adultos. O governo persiste no mesmo descaso de décadas
atrás, não proporcionando estrutura adequada para as escolas, formação adequada para
os docentes e material didático para os educandos.
Os professores afirmam utilizar o ‘Método Paulo Freire’, mas demonstram claramente
que desconhecem a essência do método. Em sala de aula, o que ainda se vê da
metodologia de Paulo Freire é o diálogo e, por algumas vezes, a posição dos alunos em
semicírculo. Um número reduzido de professores, que afirmam utilizar o método, fazem
o levantamento vocabular e fazem o uso das palavras geradoras.
O Brasil possui um campo educacional amplo, porém com investimentos insuficientes.
Não tem como se fazer a educação e por ela ser feito se esta é pouco valorizada. A
Educação de Jovens e Adultos deveria ser o centro das atenções no âmbito educacional,
pois o país tem uma dívida considerável com o povo ao que se refere a esta modalidade
de educação.
A educação brasileira requer mais atenção dos poderes públicos, requer também a
elaboração de projetos educacionais eficazes, que proporcionem um ensino de
qualidade. A Visão governamental não deve estar enfocada somente no Ensino Infantil,
por serem os futuros contribuintes dos cofres públicos. Mas o governo deve ter uma
visão panorâmica, abrangendo
em potencial a Educação de Jovens e Adultos, a qual é formada por pessoas que são o
alicerce de outras e que, saindo da condição de analfabetos, serão agentes
multiplicadores de educação, incentivando os seus filhos a continuarem na escola e
reduzindo, de forma significativa, a taxa de analfabetos no Brasil.