OS
MAIAS
Episódios da Vida Romântica
- A crónica de costumes -
A par da intriga central, o narrador apresenta episódios onde é
possível observar as ações, as atitudes e os comportamentos do
protagonista da intriga principal – Carlos da Maia – e dos figurantes,
representantes de diferentes aspetos da sociedade portuguesa da altura.
O leitor é conduzido por Carlos aos locais frequentados pela
aristocracia e acede ao retrato de um país medíocre, apático, atrasado,
provinciano.
O narrador ironiza, critica, satiriza e deforma em excesso um ou
vários
traços caracterizadores da Nação, exprimindo assim a necessidade
urgente de reformar os hábitos, os costumes e a mentalidade de uma
gente tacanha, limitada e ridícula.
JANTAR NO HOTEL CENTRAL
• OBJETIVOS:
. homenagear o banqueiro Jacob Cohen;
. proporcionar a Carlos um primeiro contacto com o meio social lisboeta;
. apresentar a visão crítica de alguns problemas;
. Proporcionar a Carlos a visão de Maria Eduarda.
• INTERVENIENTES:
. João da Ega, promotor da homenagem e representante do Realismo/Naturalismo;
. Cohen, o homenageado, representante das Finanças;
. Tomás de Alencar, o poeta ultra-romântico;
. Dâmaso Salcede, o novo-rico, representante dos vícios do novo-riquismo
burguês;
. Carlos da Maia, o médico e o observador crítico;
. Craft, o britânico, representante da cultura artística e britânica.
TEMAS DISCUTIDOS
1.A Literatura e a crítica literária
1.1. A literatura
Tomás de Alencar – Ultrarromantismo VS João da Ega – Naturalismo
•Alencar opõe-se ao Naturalismo – o qual apelida de “excremento” - e,
sem grande poder argumentativo, refugia-se na moral, afirmando que o
Naturalismo é imoral:
“Então Alencar refugiou-se na “moralidade” como numa rocha sólida.”
•Ega parece não fazer qualquer distinção entre ciência e literatura,
chegando ao excesso de defender o cientificismo na literatura:
“(…) Ega trovejou: justamente o fraco do realismo estava em ser ainda
pouco científico (…). A forma pura da arte naturalista devia ser a
monografia, o estudo seco de um tipo, de um vício, de uma paixão, tal
como se se tratasse de um caso patológico, sem pitoresco e sem
estilo…”
1.2. A crítica literária
• Ega cita estrofes do poema “A Morte de Satanás”, da autoria de Simão
Craveiro (poeta realista); Alencar, que odiava o Craveiro, denuncia nessas
estrofes a existência de erros de gramática, um verso errado e plágio de
Baudelaire; assim, a crítica literária preocupava-se apenas com questões
formais em detrimento da dimensão temática e verdadeiramente poética
da literatura;
•Ega reage declamando um epigrama que Craveiro dedicara a Alencar,
claramente crítico ao ultrarromantismo que o caracterizava;
•Perdido o poder argumentativo, Alencar recorre à calúnia, à linguagem de
baixo nível, chamando "caloteiro" a Simão Craveiro e à sua irmã como
sendo uma "porca" e "meretriz de doze vinténs em Marco de Canaveses!“
• As limitações ideológicas e culturais acabam por estalar o verniz das
aparências quando Ega e Alencar, depois de usarem todos os argumentos
possíveis, partem para ataques pessoais que culminam numa quase cena
de pancadaria, Deste modo, é possível perceber que a crítica literária em
Portugal não tem qualquer dignidade, apenas se faz de calúnias, agressões
físicas…
2. As finanças
Cohen / João da Ega
•Durante o jantar, Ega procura confirmar com o banqueiro Cohen os
rumores de que o governo está a negociar com a banca um novo
empréstimo: «– Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O
empréstimo faz-se ou não se faz?». O banqueiro, lisonjeado pela atenção
dos companheiros, confirma a inevitabilidade do empréstimo público e
acrescenta que «A única ocupação mesmo dos ministérios era esta
–“cobrar o imposto” e “fazer o empréstimo”. E assim se havia de
continuar...». Percebe-se, assim, o estado deplorável das finanças
públicas e o endividamento do país;
•Cohen mostra o seu cinismo e calculismo nos comentários que tece
acerca da degradação financeira do país, sendo embora um dos
beneficiários da situação, dado o cargo que ocupa:
“- Num golpezinho muito seguro e muito a direito – disse o Cohen,
sorrindo. – Ah, sobre isso ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os
próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem
faz uma soma…”
3. A história política
•Ega considera que, ao invés de reformas (aquilo de que efetivamente o
país necessitava) só uma invasão espanhola nos salvaria, considerando
a raça portuguesa como a mais miserável e covarde da Europa:
“Nisto: no ressuscitar do espírito público e do génio português!
Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tínhamos de fazer um
esforço desesperado para viver.”
•Alencar mostra-se indignado com a posição de Ega;
•Ega reafirma que a invasão espanhola não significaria perda absoluta
da independência, referindo-se de modo depreciativo a todos os que
lutaram pela Restauração da Independência:
“Um receio tão estúpido é digno só de uma sociedade tão estúpida
como a do Primeiro de Dezembro.”
Deste jantar destacam-se os seguintes aspetos:
•A falta de personalidade:
. Alencar muda de opinião quando Cohen o pretende:
«O Cohen acudiu:
- Não senhor, Alencar, não senhor! Você também é dos tais…
Até lhe fica mal dizer isso…[…].
E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitado
diretor do Banco Nacional, […] admitiu que não deixava de haver
talento e saber.»
. Ega muda de opinião quando Cohen quer:
«- Este Cohen! – exclamava ele para os lados, - Que finamente
observado! Que traço adorável! Hem, Craft? Hem, Carlos?
Delicioso!»
• Dâmaso, cuja divisa é «Sou forte», aponta o caminho fácil de
fuga:
«- Se as coisas chegassem a esse ponto, se se pusessem assim
feias, eu cá, à cautela, ia-me raspando para Paris…
Ega triunfou, pulou de gosto na cadeira. Eis ali, no lábio sintético
de Dâmaso, o grito espontâneo e genuíno do brio português!
Raspar-se, pirar-se! […]»
• A incoerência: Alencar e Ega chegam a vias de facto e,
momentos depois, abraçam-se como se nada tivesse acontecido.
• Acima de tudo: a falta de cultura e de civismo domina as
classes mais destacadas, exceto Carlos e Craft; efetivamente, as
limitações culturais e morais não se ocultam à custa de ementas
afrancesadas, divãs de marroquim e ramos de camélias.
AS CORRIDAS DE CAVALOS
• As Corridas
1ª Corrida: a do 1º prémio dos “Produtos”
2ª Corrida: a do Grande Prémio Nacional
3ª Corrida: a do Prémio de El-Rei
4ª Corrida: a do Prémio de Consolação
• Visão Caricatural
- o hipódromo, improvisado, parecia um palanque real
- as pessoas não sabiam ocupar o seu lugar
- as senhoras traziam “vestidos sérios de missa”
- o bufete tinha um aspeto nojento
- a 1ª corrida terminou numa cena de pancadaria – por causa de uma
burla
- As 3ª e 4ª corridas terminaram grotescamente
Em tudo um provincianismo snob: um verniz postiço
Contradição flagrante entre o ser e o parecer
“Um sopro grosseiro de desordem reles passava sobre o hipódromo, desmanchando a linha
postiça de civilização e a atitude forçada de decoro…”
O espaço físico
•Largo de Belém - deserto
•tosca guarita
•as pessoas:
um trabalhador com um filho ao colo
a mulher, ambos pasmando
um garoto apregoando programas de corridas que ninguém comprava
•O hipódromo – desconsolado, provinciano
•tribuna real forrada de baetão vermelho
•duas tribunas públicas com o feitio de traves
•palanque de arraial
•fendas no tabuado
•o bufete: suja taberna
• Os jóqueis
• Os homens (O rei, o visconde de Darque, o marquês, o Conde de Gouvarinho,
o Taveira, o Steinbroken, o Teles da Gama, o Carlos, o Craft, o Clifford, o
Mendonça, o Vargas, o Vilaça, o Alencar…)
• As mulheres – visão caricatural da sociedade feminina
Em geral Em particular
. As que vêm no High Life dos . as duas irmãs do Taveira, magrinhas…
jornais . a viscondessa de Alvim, nédia e branca
. a Joaninha Vilar, cada vez mais cheia
. As dos camarotes de S.
. as Pedrosas, banqueiras
Carlos
. a condessa de Soutal, desarranjada
. As das terças-feiras dos . a condessa de Gouvarinho, a sensual
Gouvarinhos . D. Maria da Cunha, desenvolta
. a ministra da Baviera, a vasta baleia
Vestidos sérios de missa . a Concha, a prostituta
. a Pinheiro, a mais magra
Peles murchas, gastas, moles
CHÁ DOS GOUVARINHO
Participam no chá Carlos da Maia, a Condessa de
Gouvarinho e duas senhoras vestidas de preto. A estes
junta-se, posteriormente, o Conde de Gouvarinho.
JANTAR DOS GOUVARINHO
• Objetivos:
Objetivos
.Reunir a alta burguesia e aristocracia
.Reunir a camada dirigente do país
.Radiografar a ignorância das classes dirigentes
da nação
• Alvos visados
. Conde de Gouvarinho e Sousa Neto
Conde de Gouvarinho Sousa
Neto
.voltado para o passado .acompanha as conversas sem
.tem lapsos de memória intervir
.comenta desfavoravelmente as .desconhece o sociólogo Proudhon
mulheres .defende a imitação do estrangeiro
.revela uma visível falta de cultura .não entra nas discussões
.não acaba nenhum assunto .acata todas as opiniões, mesmo
.não compreende a ironia sarcástica absurdas
do Ega .defende a literatura de folhetins
.vai ser ministro de cordel
.é deputado
CONCLUSÃO: Superficialidade dos juízos dos mais
destacados funcionários do Estado; incapacidade de
diálogo por manifesta falta de cultura
O JORNALISMO (TAIS JORNAIS, TAL PAÍS)
• Objetivos - Passar em revista a situação do jornalismo
nacional;
- Confrontar o nível dos jornais com a situação do
país.
A “Corneta do Diabo” “A Tarde”
. O diretor é o Palma Cavalão, um . O diretor é o deputado Neves
imoral . Recusa publicar a carta de
. A redação é um antro de retratação de Dâmaso porque o
porcaria confunde com um seu
.Publica um artigo contra Carlos correligionário político
mediante dinheiro . Desfeito o engano, serve-se da
.Vende a tiragem do número do mesma carta como meio de
jornal onde saíra o artigo vingança contra o inimigo político
.Publica folhetinzinhos de baixo . Só publica artigos ou textos dos
nível seus correlegionários políticos
O baixo nível; a intriga suja; o compadrio
político
SARAU DO TEATRO DA
TRINDADE
Episódio de festa – retórica e música
• Objetivos:
. ajudar as vítimas das inundações do Ribatejo;
. apresentar um tema querido da sociedade lisboeta: a oratória;
. reunir novamente as várias camadas das classes mais
destacadas, incluindo a família real;
. criticar o Ultrarromantismo que encharcava o público;
. contrastar a festa com a tragédia causada pelas inundações.
Os Oradores
Rufino Alencar
. Tópicos de bacharel transmontano: a . Propõe o tema da democracia
fé, a esmola, a sua aldeia, a imagem romântica
do “Anjo da Esmola”; . Desfasamento entre a realidade e
. Desfasamento entre a realidade e o o discurso
discurso . Excessivo lirismo carregado de
. Falta de originalidade: recorre a conotações sociais
lugares comuns, retórica oca e balofa . Exploração do público seduzido
. Aclamação pelo público tocado no por excessos estéticos
seu sentimentalismo, ainda muito estereotipados
romântico . Aclamação do público
Pianista - Cruges
. Toca a sonata patética de Beethoven, que o público
desconhece e aborrece, à qual uma das Pedrosa chama
“Sonata Pateta”, provocando um mar de riso.
. Fiasco total: preferiam um fadinho de Lisboa; a sala fica
vazia (cultura do High Life!).
As classes dirigentes alheadas da realidade; uma
sociedade deformada pelos excessos líricos do
Ultrarromantismo
PASSEIO FINAL DE CARLOS E
EGA
• Hotel Bragança
Carlos e Ega almoçam em amena cavaqueira. Destacam-se:
. A ociosidade voluntária de Ega e o seu envelhecimento
. A política, uma ocupação dos inúteis
. A visita do Alencar, mais velho, mas sempre com verve romântica
. A visita do Cruges, mais velho, mas sempre bom compositor
. O convite de Carlos para um jantarinho à Portuguesa
• A Romagem Sagrada
Largo de Camões No Ramalhete
Nada mudara. Camões triste. A passagem pelo inferno: a catarse
A mesmice. A estagnação. Um ar de claustro abandonado.
A ociosidade Os móveis quebrados ou embrulhados
em lençóis (morte).
O famoso jardim: a ferrugem cobria os
membros de Vénus Citereia; o cipreste
e o cedro envelheciam juntos; a
Pelo Chiado cascata – a água caía gota a gota.
Nada mudara. Ramalhete em ruína = Lisboa em
O Dâmaso, mais velho, mais nédio, ruína = Portugal em ruína
casado e traído.
O Craft, doente, alcoolizado.
O Taveira sempre com espanholas.
A besta do Steinbroken, em Atenas..
Pela Avenida
O obelisco; os prédios velhos mas repintados; o
castelo, sórdido e tarimbeiro.
A nova geração, ajanotada, ociosa…
O Eusébio, casado com uma mulher que o desanca
O Cavalão, tornado político.
O Alencar, o único português genuíno.
• Conclusão…
Completo fracasso de Carlos e Ega: o seu permanente
Romantismo – indivíduos inferiores que se governam
na
vida pelo sentimento e não pela razão.
• A teoria definitiva
“Nada desejar e nada recear” (fatalismo muçulmano)
Na prática…
“ […] os dois amigos romperam a correr desesperadamente […]”
Contradição fundamental entre o pensar e o agir – tema
fundamental que percorre toda a obra
MENSAGEM D’ OS MAIAS
• As personagens representam os males de Portugal
e o fracasso sucessivo das diferentes correntes
estético-literárias.
Este fracasso parece dever-se, não às correntes em si, mas às
características do povo português:
- a predileção pela forma em detrimento do conteúdo;
- o diletantismo que impede a fixação num trabalho sério e
interessante;
- a atitude "romântica" perante a vida que consiste em
desculpar sistematicamente os próprios erros e falhas e dizer
"Tudo culpa da sociedade".
• Final pessimista do romance?
Portugal não tem viabilidade de se tornar um país europeu:
A passagem pelo Ramalhete não constitui a catarse porque Carlos regressa ao
ponto de partida – o Hotel Bragança; o Ramalhete em ruínas prefigura um
Portugal sem futuro.
• Final otimista do romance?
Portugal tem hipóteses de modificar a sua situação:
Nada há de definitivo, há que viver. O renascer de Carlos é significativo: corre
em busca da vida e para a vida. O que é necessário é que Portugal tenha a
sua catarse (simbolizada pela passagem pelo Ramalhete) que, segundo Eça
afirma noutros textos, passará por uma catástrofe que purificará Portugal.