Escola Secundária de José Estêvão
Sumário
1. O 2.º nível de ação - “Episódios da vida romântica”:
1.1. síntese de alguns episódios – os seus objetivos; a visão
caricatural de um espaço social / de um país;
1.2. análise textual referente a um excerto das Corridas de
cavalos, no Hipódromo de Belém.
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“Episódios da vida romântica”
Recordando …
2.º nível de ação (subtítulo do romance)
crónica de costumes da vida cultural e social
o retrato da alta burguesia lisboeta da 2.ª metade do século XIX e de um
país ainda profundamente romântico
diversos episódios (Jantar no Hotel Central; corridas de cavalos no Hipódromo,
Sarau no Teatro da Trindade, …)
Personagens tipo
É nestes episódios que “o monóculo satírico de Eça mais se evidencia.”
Dicotomia SER / PARECER
A crítica
A caricatura
Tal Espaço / Tal País
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Os Tipos sociais da crónica de costumes
Ilustram determinadas mentalidades, profissões, posições políticas, económicas, culturais.
São personagens planas, não agem de forma inovadora ou inesperada, são dotadas de
"tiques", trejeitos e pormenores físicos sistematicamente repetidos quando ocorre a sua
intervenção na ação.
ALENCAR – O poeta, representa o Ultrarromantismo, com todos os seus exageros e
contradições.
COHEN – Judeu banqueiro, é o representante da alta finança decadente.
CONDE DE GOUVARINHO – Representa a classe política dirigente, de retórica oca e banal. Encarna
as características negativas dos políticos do constitucionalismo regenerador.
EUSEBIOZINHO - Representa a educação deformante, associada a uma mentalidade doentiamente
romântica.
PALMA "CAVALÃO" - Simboliza o jornalista oportunista e sem escrúpulos, a corrupção, o clientelismo
na imprensa.
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DÂMASO - Simboliza os vícios, as futilidades e as imoralidades que
invadem o país: o exibicionismo, a vaidade, o novo-riquismo, a
corrupção. Reflete o provincianismo da alta burguesia lisboeta que
contrasta com as suas aspirações de cosmopolitismo. “chique a valer!”
CRAFT – Inglês, rico, boémio, colecionador de bricabraque, é um observador distante que não se
coaduna com a monotonia e futilidade da capital (aluga a “Toca” a Carlos e a Maria Eduarda)
CRUGES - É o artista/pianista frustrado que não encontra um público que o aprecie e o mereça.
STEINBROKEN – Diplomata, representante oficial da Finlândia, revela o juízo que o estrangeiro faz de
Portugal. Pela neutralidade que manifesta em relação a assuntos discutidos e posições a tomar, e pelo
tempo que dedica a burocracias, é de crer que o estrangeiro tem consciência da monotonia e estagnação
que caracterizava o Portugal da Regeneração.
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O Jantar no “Hotel Central”
(capítulo VI)
Objetivos:
- homenagear o banqueiro Cohen (iniciativa de Ega)
- apresentar a visão crítica de alguns temas (literatura; política e finanças)
- proporcionar a Carlos um primeiro contacto com a vida social lisboeta
- (relação com a intriga principal) proporcionar a Carlos a 1.ª visão de M.ª
Eduarda
Visão caricatural:
Hipocrisia das relações sociais (Ega é amante de Raquel, a mulher do banqueiro Cohen)
Snobismo – ementa francesa
Comportamento deplorável: a sobremesa “alastrava-se” sobre a toalha, pontas de cigarro
nos pratos, cadeira caída, … a elegante sala “tomava um ar de taverna” Ostras
Sole normande
Coscuvilhice/intriguice (a vida alheia)
Poulet aux
Superficialidade e falta de convicção na abordagem de temas importantes champignons
Petits pois “à la
Irresponsabilidade da classe dirigente e da elite em Portugal
Cohen”
Ananás 5
Principais Temas abordados (Pág. 162…):
1. Literatura – opõe o Ultrarromantismo ao Realismo/Naturalismo
Tomás de Alencar Ega
- Poeta ultrarromântico - Defende o Realismo/Naturalismo
- Opõe-se com veemência ao Realismo/Naturalismo: - Considera que a literatura se deve
literatura imoral, “excremento” aproximar da ciência
Carlos e Craft
- recusam o ultrarromantismo de Alencar
- recusam o exagero de Ega
- Carlos acha intoleráveis os ares científicos do Realismo e defende que o carácter se manifesta pela ação
- Craft defende a arte como idealização do que há de melhor na natureza; defende a arte pela arte
Proximidade da posição do narrador /Eça
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Principais Temas abordados:
2. Finanças e Política:
Cohen, o banqueiro, reconhece, de forma descontraída e até divertida a total dependência de
Portugal dos empréstimos do estrangeiro;
“lava as mãos” e afirma, sorrindo, que Portugal está à beira da falência, ia para a bancarrota “num
galopezinho muito seguro e muito a direito”
Ega defende o fim da monarquia, a instalação da república e a anexação a Espanha
Dâmaso Salcede afirma que, se a situação em Portugal ficasse “feia”, se “raspava” para Paris
(“Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro…”)
Conclusões a retirar:
Dicotomia SER / PARECER: A elite é rude, provinciana, possui comportamentos
grosseiros /quer parecer elegante, cosmopolita
Tal Jantar / Tal País: Um país irresponsável, provinciano, ocioso, sem gente de fibra
para o mudar
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As Corridas de cavalos no Hipódromo
(capítulo X pág. 313…)
Objetivos:
- Tentativa de igualar/imitar Lisboa às capitais europeias
- Novo contacto de Carlos com a alta sociedade (o “High Life”) lisboeta
- (relação com a intriga principal) Carlos procura no hipódromo M.ª Eduarda
Visão caricatural:
O hipódromo parecia um “palanque de arraial”
O bufete (bar) tinha um aspeto nojento
A 1.ª corrida terminou numa cena de pancadaria
Os burgueses vestiram-se de forma desadequada ao evento
O ambiente não era de festa, mas de enfado
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Atentemos em alguns excertos textuais (pág.314):
O Espaço físico O Espaço social Sugestões de:
No centro, como perdido no largo espaço verde, negrejava, no
brilho do Sol, um magote apertado de gente, com algumas Espaço desleixado, feito à pressa,
carruagens pelo meio, donde sobressaíam tons claros de sombrinhas, provinciano – desadequado face à
o faiscar de um vidro de lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. suposta elegância do evento, onde
Para além, dos dois lados da tribuna real forrada de um baetão até o Rei estaria presente.
vermelho de mesa de repartição, erguiam-se as duas tribunas
públicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de
Espaço tristonho, uma “pasmaceira
arraial. A da esquerda, vazia, por pintar, mostrava à luz as fendas do
tabuado. Na da direita, besuntada por fora de azul-claro, havia uma tristonha” e não um ambiente de
fila de senhoras quase todas de escuro, encostadas ao rebordo, festa, de alegre convívio
outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o resto das bancadas
permanecia deserto e desconsolado, de um tom alvadio de madeira, Desadequação das toilettes
que abafava as cores alegres dos raros vestidos de Verão. Por vezes a
brisa lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das bandeirolas.
Descrição visualista / impressionista
Um grande silêncio caía do céu faiscante. (…)
Falava-se baixo, com passos lentos pela relva, entre leves
(a cor, a luz, as
fumaraças de cigarro. Ao lado de Carlos dois brasileiros queixavam-se hipálages)
do preço dos bilhetes, achando aquilo uma «sensaboria de rachar».
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As Senhoras (pág. 316)
Visão depreciativa:
— Vamos nós ver as mulheres — disse Carlos.
Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, numa A atitude
fila muda, olhando vagamente, como de uma janela em dia de
procissão,
estavam ali todas as senhoras que vêm no High Life dos jornais, as dos A desadequação dos trajes, dos
camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos. A maior parte tinha acessórios, da maquilhagem
vestidos sérios de missa grandes
. Aqui chapéus
e além um desses
A banalidade e provincianismo
emplumados à Gainsborough, que então se começavam a usar,
carregava de uma sombra maior o tom trigueiro de uma carinha miúda. E na luz O exagero provinciano
franca da tarde, no grande ar da colina descoberta,
as peles apareciam murchas, gastas,
moles, com um baço de pó de arroz. O desleixo
Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas, ambas
corretamente vestidas de xadrezinho : depois a Os recursos expressivos ao
viscondessa de corpete
Alvim, nédia
negroereluzente
branca, com o
de vidrilhos serviço da crítica/caricatura:
, tendo ao lado a sua terna
inseparável, a Joaninha Vilar, cada vez mais cheia, com um quebranto cada vez Adjetivação (dupla, tripla)
mais doce nos olhos pestanudos. (…) Ao
desarranjada, lado,
com umconversando com
ar de ter lama nasSteinbroken,
saias. a
condessa de Soutal, (…) diminutivo
— É um canteirinho de camélias meladas — disse o Taveira, repetindo um dito Metáfora irónica final
do Ega.
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Conclusões a retirar:
Dicotomia SER / PARECER: A elite é provinciana, possui comportamentos
desadequados e grosseiros /quer parecer elegante
e cosmopolita
Tais Corridas/ Tal País: Um país provinciano, ridículo, que quer imitar o
estrangeiro, mas não sabe nem pode
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O Sarau no “Teatro da Trindade”
(capítulo XVI pág. 586…)
Objetivos:
- organizado pela elite lisboeta para ajudar as vítimas das inundações do Ribatejo
- Denunciar a falta de cultura da alta burguesia, o seu mau gosto, a sua
preferência por temas lamechas, pela retórica oca e carregada de lugares-
comuns, a crítica ao Ultrarromantismo
- (relação com a intriga) Preparar a “Peripécia” – encontro de Ega com o Sr.
Guimarães e entrega do cofre de M.ª Monforte
Visão caricatural:
- As conversas fúteis, superficiais
- O comportamento incorreto e desadequado – conversas e risotas, há quem leia o jornal, …
- O desinteresse e o boicote à atuação de Cruges, que executa, ao piano, a “Sonata Patética” de Beethoven e
que a marquesa apelida de “Sonata Pateta”
- Saem cansados, “estafados” de tanta cultura - foram ao Sarau porque é necessário “levar a cruz ao Calvário”
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Conclusões a retirar:
Dicotomia SER / PARECER: A elite é inculta, possui comportamentos
grosseiros /quer parecer culta e elegante
Tal Sarau / Tal País: Um país provinciano, inculto, antiquado, parado no
tempo
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Escola Secundária de José Estêvão
Síntese
“Episódios da vida romântica”
o retrato de uma elite/ de um país atrasado, inculto, provinciano
que quer parecer cosmopolita, imitando o que considera “chic” na Europa,
e que acaba por ser uma caricatura grosseira e fazer uma triste
figura.
Mais vale ser do que parecer
(dito popular)
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