Escola Secundária de José Estêvão
Sumário
1. A ideologia no romance – o olhar crítico de Carlos e de Ega no
reencontro com Lisboa:
1.1. a visão do espaço da cidade;
1.2. a visita ao Ramalhete;
1.3. a “teoria definitiva da vida” – o desfecho.
Lisboa, 10 anos mais tarde (em 1887) (Cap. XVIII)
“Estavam no Loreto” (pág. 697)
Após a
Catástrofe
Maria vai Carlos parte
para Paris para uma
com a viagem pelo
filha mundo
Dez anos mais tarde,…
Carlos reencontra-se com Ega
e vão rever Lisboa. No centro a “estátua triste de Camões”
“NADA MUDARA”
Texto da página 697
“NADA MUDARA”:
Carlos vê:
A mesma • sentinela sonolenta em volta da estátua
Os mesmos • reposteiros (das igrejas)
O mesmo • ar mudo e deserto (do Hotel Aliança)
Às mesmas portas • sujeitos que lá deixara
já assim encostados
já assim melancólicos
lá estacionavam
apagados
murchos
A ESTAGNAÇÃO de um país! colarinhos à moda
Ainda no Loreto, a “estátua triste de Camões” Símbolo de uma época
áurea do país
porque “nada mudara”!... Impossível cantar novas epopeias…
Carlos observa:
“A uma esquina, vadios em farrapos fumavam”
“E na esquina defronte, na Havanesa, fumavam
também outros vadios, de sobrecasaca, politicando.”
Ironia
Neologismo
Por oposição, o povo trabalhava: os batedores
fustigavam as pilecas, as varinas meneavam os
quadris, ágeis.
E Carlos comenta com Ega:
“Isto é horrível, quando se vem de fora! Não é a cidade, é a gente. Uma gente feíssima, encardida, molenga,
reles, amarelada, acabrunhada!...”
E a cidade, como estava?
Abriu-se uma Avenida (Avenida da Liberdade) (pág. 701)
com um obelisco, ao fundo, com borrões de bronze
no pedestal
Os prédios foram repintados; o lajedo reluzia com cal
nova
Mas…
Aquele “luxo barato” (“domingueiro”)
terminava, repentinamente, em “montões de cascalho”
(como se o fôlego de transformação se tivesse esgotado)
Representação simbólica de um Portugal pretensamente
moderno e cosmopolita.
Página 706
E depois do passeio pela
cidade, vão rever o
Ramalhete…
Os dois amigos percorrem,
comovidos, os vários
espaços, agora despidos,
abandonados, com móveis
O Ramalhete “amortalhados”
Essa emoção é ainda mais intensa quando reveem o escritório de Afonso
O narrador interrompe o dramatismo do momento, atenuando-a com uma situação caricata, quase ridícula e
cómica, em que Carlos e Ega têm um ataque violento e imparável de espirros provocado pela pimenta que
Vilaça mandara espalhar no escritório, para conservar os móveis.
É agora o jardim do Ramalhete que prende a atenção de Carlos e de Ega (pág. 710)
A estátua da Vénus estava coberta por uma
ferrugem verde
“O cipreste e o cedro envelheciam juntos, como
dois amigos num ermo”
“mais lento corria o
prantozinho da cascata”
Abandono
Sugestões de:
Solidão
Fim
Um “olhar” ao jardim do Ramalhete – um olhar à família / um olhar ao país
Antes das obras Depois de habitado Após a catástrofe
Quintal inculto, abandonado Tinha um ar simpático Tinha a melancolia de um retiro
esquecido
Um cipreste e um cedro O cipreste e o cedro O cipreste e o cedro juntos como
envelhecendo juntos dois amigos num ermo
como dois amigos
Uma estátua de mármore, A Vénus com um tom claro A Vénus enferrujada
enegrecendo a um canto de estátua de parque
Uma cascatazinha seca A água abundava na Mais lento corria o prantozinho
cascatazinha deliciosa da cascata
A Família Maia Portugal
A “morte” O rejuvenescimento A “morte”
Páginas 714…
Ao deixarem o Ramalhete, Carlos confessa, comovido, a Ega:
- “É curioso! Só vivi dois anos nesta casa, e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!”
“Ega não se admirava. Só ali, no Ramalhete, ele vivera realmente daquilo que dá sabor e relevo à vida
– a paixão.” (discurso indireto livre)
E neste momento, em que fazem uma retrospetiva da sua vida, Carlos e Ega chegam a
algumas conclusões:
não passam de românticos, que se governam na vida pelo sentimento e não
pela razão;
Falharam a vida (“Falhámos a vida, menino!” (p.713), embora, em sua opinião, todo o
mundo a falhe.
“Não vale a pena viver (pág. 715)” (Carlos), a não ser para satisfazer “o estômago” (Ega)
– e riram ambos desta conclusão
E ainda assentaram a “teoria definitiva da vida”, que consiste em:
Nada desejar e nada recear;
Não ter esperanças nem desapontamentos;
“Fatalismo
Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com tranquilidade; muçulmano”
Aceitar a inutilidade de todo o esforço (não vale a pena dar
um passo), porque tudo termina em desilusão e poeira
Fica, assim, firmada a atitude de desistência e de conformismo dos dois amigos!
Eram seis e um quarto! Os dois amigos iam jantar com Vilaça e os “rapazes” ao Hotel
Bragança.
“Oh, diabo!...”
Já estavam atrasados 15m.!
Ao fundo da rua, surge o americano. E eles correm,
ofegantes
“Ainda o apanhamos!”
“Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes
cortava a face:
- Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito,
não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do «Americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro
esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente
pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.”
A atitude de desistência e de conformismo é transmitida:
pela acumulação/anáfora de palavras de sentido negativo – “não” e “nem”
pela utilização de vocábulos/expressões relativos a esse campo lexical – “acabou-se”, “não vale a pena”
“Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes
cortava a face:
- Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito,
não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do «Americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro
esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente
pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.”
A incoerência de Carlos e de Ega na sua teoria de vida é transmitida:
pelo contraste entre o que vão dizendo (não vale a pena esforçar-se para nada) e o que fazem (correr para
apanhar o americano) – expresso através de verbos de ação (“lançaram o passo”, “romperam a correr”),
reforçados pelos advérbios “largamente” e “desesperadamente” e pelo adjetivo “ofegante”.
(Dicotomia dizer/fazer; pensar/agir)
pela ironia presente em todo este trecho final e que veicula a ideologia que percorre o romance
“Os Maias encerram um pensamento, destinam-se a fazer pensar.”
J. Prado Coelho
A pensar…
Em Portugal na 2.ª metade do século XIX – é um país antiquado, sem caráter, corrupto, que
imita o que é estrangeiro, que não evolui,… mas que quer parecer moderno e cosmopolita!
Na burguesia de oitocentos – é provinciana, inculta, antiquada, boémia, ociosa, … mas
que quer parecer “chic” e na moda!
Nos jovens que eram uma promessa de mudança e se conformaram, nada fazendo e
nada desejando, aceitando tudo,…
A pensar, ainda, …
Que poderá haver uma Esperança!...
Carlos e Ega, apesar de tudo, ainda correm para apanhar o americano…
Ainda há uma luz, ao fundo, o luar ilumina a noite!
“Ainda o apanhamos!”
Eça de Queirós retrata, no romance, o
Eça de Queirós ainda explica Portugal?
Portugal de oitocentos.