Para fazer 
Ilza Girardi 
Rodrigo Jacobus 
organizadores RÁDIO 
COMUNITÁRIA 
com “C” maiúsculo
Ilza Girardi 
Rodrigo Jacobus 
organizadores 
Para fazer 
RÁDIO 
COMUNITÁRIA 
com “C” maiúsculo 
Porto Alegre 
Inverno 2009
SUMÁRIO 
APRESENTAÇÃO.............................................................................................................. 6 
1 NOÇÕES INICIAIS....................................................................................................... 10 
2 UMA BREVE HISTÓRIA............................................................................................... 11 
3 MONTANDO UMA RÁDIO............................................................................................ 14 
4 RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS................................................................................17 
5 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL: O ALVOROÇO DA TRAJETÓRIA................... 21 
5.1 Mas afinal, quem faz o movimento das rádios comunitárias?............................22 
5.2 Tipos de emissoras comunitárias e a má fé dos oportunistas de plantão.........23 
5.3 Limites da burocracia: o que fazer para abrir uma rádio comunitária?............25 
5.4 A lei, ora a lei..........................................................................................................28 
5.5 A integração das mídias populares ...................................................................... 30 
5.6 A gestão: o maior dos desafios..............................................................................32 
6 COMUNICAÇÃO: AFINAL, PARA QUE SERVE ISSO?................................................34 
6.1 A comunicação em rádio........................................................................................35 
7 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO DE CONTEÚDOS PARA RÁDIO..............................36 
7.1 Funções em uma rádio...........................................................................................38 
7.2 Programação e programas.................................................................................... 40 
7.3 Gêneros....................................................................................................................42 
7.4 Outros recursos radiofônicos.................................................................................52 
7.5 Formas de realização do programa.......................................................................54 
7.6 Como captar as informações?...............................................................................55 
7.6.1 As fontes de informação.......................................................................................55 
7.6.2 Mas de onde tirar as notícias da comunidade?...................................................57 
7.7 Conselhos gerais sobre programas.......................................................................57 
7.8 Grade de Programação...........................................................................................59 
8 LOCUÇÃO.................................................................................................................... 61 
8.1 Entonação ...............................................................................................................62 
8.2 Ritmo........................................................................................................................63 
8.3 Atitude e improvisos...............................................................................................63 
8.4 Vocalização e dicção..............................................................................................63 
8.5 Higiene vocal...........................................................................................................65 
8.6 Dicas para uma boa locução..................................................................................65 
9 PREPARANDO O PROGRAMA....................................................................................66 
9.1 Idéia.........................................................................................................................66 
9.2 Sinopse....................................................................................................................66 
9.3 Pré-pauta.................................................................................................................67 
9.4 Pauta........................................................................................................................67 
9.5 Pré-roteiro...............................................................................................................68 
9.6 Roteiro.....................................................................................................................69 
9.6.1 Exemplo explicativo de roteiro..............................................................................69 
9.7 Depois que o programa vai ao ar..........................................................................74 
10 ÚLTIMAS REFLEXÕES..............................................................................................75 
REFERÊNCIAS................................................................................................................76 
ANEXO: DEFENDA-SE!...................................................................................................79 
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Para fazer 
RÁDIO COMUNITÁRIA 
com “C” maiúsculo 
Organização: Ilza Girardi e Rodrigo Jacobus 
Textos: Bruno Lima Rocha, Carlos Bencke, David Rubbo, 
Eduardo da Camino, Ilza Girardi, João Ângelo Zanuzzi, Larissa 
de David, Leandro Belloc, Luís Eduardo Tebaldi Gomes, Natacha 
Marins, Natália Ledur Alles, Neusa Maria Bongiovanni Ribeiro, 
Paulo Ulbrich, Rodrigo Jacobus, Tiago Jucá e Vinícius Bastiani 
Revisão geral: Bruno Lima Rocha, Ilza Girardi, Natália Ledur 
Alles e Rodrigo Jacobus 
Revisão técnica: Cida Golin 
Normatização e Catalogação: 
Miriam Moema Loss - CRB 10/801 
Edição: Rodrigo Jacobus 
Ilustração capa: Rafael Costa 
Ilustrações: Rafael Costa, Ivan Vieira e Sylvio Ayala 
Colaboração: Diogo Cristofolini e Ivan Vieira (edição de arte), 
Bruno Lima Rocha e Natália Ledur Alles (edição de texto), 
rádios A Voz do Morro FM, Quilombo FM, Integração FM, Santa 
Isabel FM, Coletivos Repórter Popular e Combate Audiovisual 
(construção dos conteúdos) 
Apoio: Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e 
Sociedade (CEPOS/UNISINOS); Núcleo de Ecojornalistas (NEJ); 
Revolução de Idéias e Editorial; Gráfica da UFRGS 
Realização: Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
(UFRGS): Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação 
(FABICO), Programa de Pós-Graduação em Comunicação e 
Informação (PPGCOM); Associação Brasileira de Radiodifusão 
Comunitária - Rio Grande do Sul (ABRAÇO-RS) 
Tiragem: 3000 exemplares 
P221 Para fazer rádio comunitária com “C” maiúsculo. / Ilza Girardi, Rodrigo 
Jacobus, organizadores ; Bruno Lima Rocha ... [et al.]. – Porto Alegre : 
Revolução de Idéias, 2009. 
p. : il. 
ISBN 978-85-60359-03-5 
1. Rádio comunitária – Gestão. 2. Rádio comunitária – Cidadania. 
3. Radiojornalismo. I. Girardi, Ilza Maria Tourinho. II. Jacobus, Rodrigo 
Maciel. III. Rocha, Bruno Lima. 
CDU 654.195
APRESENTAÇÃO APRESENTAÇÃO 
APRESENTAÇÃO 
Ilza Maria Tourinho Girardi* 
Rodrigo Jacobus** 
Refazer a trajetória que resultou nesta cartilha Para fazer RÁDIO COMUNITÁRIA 
com “C” maiúsculo é muito gratificante. De modo muito pessoal e otimista, acre-ditamos 
que uma boa idéia, dedicada em beneficiar o todo, termina por propiciar 
inexplicáveis coincidências e facilita o andamento de projetos inspirados em nobres inten-ções. 
Foi o que aconteceu entre nós, nos seis anos que se passaram desde o lançamento 
da Cartilha (sem frescura) da Rádio Comunitária, em 2002, pela disciplina Projeto 
Experimental em Jornalismo III: Comunidade, no 8º semestre da habilitação em Jornalismo 
do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 
Mesmo tomando rumos diferentes, nunca perdemos o contato, tampouco a relação de 
amizade que se estabeleceu. Quando nos reencontramos no corredor da Faculdade de 
Biblioteconomia e Comunicação (FABICO) no início do primeiro semestre de 2008, agora 
no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação (PPGCOM), comentamos 
sobre a cartilha de 2002: as dificuldades em unir teoria e prática, os erros e acertos, os 
conflitos e frustrações resultantes de toda a experiência. Empecilhos à parte, a procura pelo 
livreto, ainda que esparsa ao longo destes anos, surgia como indicação de que o esforço 
não havia sido em vão. Restavam poucas unidades de uma tiragem de 1000 exemplares, e 
surpreendentemente ainda havia procura pela tal cartilha. 
Partindo deste quadro inicial, resolvemos (re)inventar outra missão. Entre um comen-tário 
aqui, um aparte acolá, eis que começamos a montar uma estratégia para a reedição da 
cartilha de 2002. Novamente envolvendo os alunos da disciplina Projeto Experimental em 
Jornalismo III: Comunidade: dessa vez, os voluntários foram Carlos Bencke e Luís Eduar-do 
Tebaldi Gomes, que colaboraram na revisão e reformulação de parte dos textos. Tam- 
* Jornalista, doutora em Ciências da Comunicação, professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação 
em Comunicação e Informação (FABICO/UFRGS), onde também leciona na graduação. Através da disciplina 
Projeto Experimental em Jornalismo III: Comunidade desenvolve, junto aos estudantes, diversos projetos 
para disponibilizar instrumentos, tecnologias e reflexões que facilitem a comunicação dos grupos entre si e 
com os demais setores da sociedade. Através da mesma disciplina, há vários anos trabalha junto à FASE-RS 
(Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul) com crianças e adolescentes em 
estado de vulnerabilidade social, portadores de sofrimento psíquico e/ou em conflito com a lei. 
e-mail: ilza.girardi@ufrgs.br 
** Jornalista, mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação (FABICO/ 
UFRGS). Atua na comunicação comunitária através do jornal Repórter Popular e colabora na construção 
de uma rede de comunicação popular através do Coletivo Repórter Popular. Também é membro do Grupo 
de Pesquisa em Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS / UNISINOS). 
e-mail: rodrigojacobus@gmail.com 
bém convidamos a participar desta empreitada o jornalista e cientista político Bruno Lima 
Rocha, coordenador de formação da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária do 
Rio Grande do Sul (ABRAÇO-RS), fervoroso militante engajado na luta por um espaço mais 
justo e adequado ao papel das rádios comunitárias frente aos latifúndios da comunicação no 
Brasil. Da mesma forma, Natália Ledur Alles, nossa querida colega no mestrado do PPG-COM/ 
UFRGS, prontificou-se a colaborar diante da afinidade de intenções que a vasta área 
da comunicação comunitária nos propicia – Natália participa do jornal Boca de Rua, fruto de 
um projeto realizado junto a moradores de rua de Porto Alegre. Caminhos que se cruzaram 
na sala de aula, em eventos, na convivência cotidiana... Tínhamos em comum o fato de es-tarmos 
engajados em atividades preocupadas com a realidade de setores marginais da so-ciedade, 
fator determinante para nossa união. Convidamos ainda o ilustrador Rafael Costa, 
o publicitário Diogo Cristofolini e o artista plástico Ivan Vieira para a edição de arte. Rafa-el, 
comunicador da Quilombo FM, Diogo e Ivan, ambos formados pela UFRGS, são também 
colaboradores voluntários do jornal popular independente Repórter Popular. Também Cida 
Golin, professora do PPGCOM e de rádio na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação 
da UFRGS, colaborou com preciosas sugestões na revisão técnica da cartilha, sendo peça 
fundamental na nossa intenção em aproximar a universidade e a prática nas rádios comu-nitárias. 
No esforço de fazer esta interação, reunimos Cida com comunicadores populares, 
em um esfuziante debate sobre o assunto, realizado no dia 18 de outubro de 2008 na Escola 
Porto Alegre (EPA), junto à comunidade do Morro Santana – deixamos um grande MUITO 
OBRIGADO ao povo das rádios A Voz do Morro (Morro Santana), Quilombo FM (Restinga), 
Integração FM (Cachoeirinha), Santa Isabel FM (Viamão), Coletivos Repórter Popular 
e Combate Audiovisual. É preciso citar ainda a bibliotecária Miriam Loss, que colaborou 
com a normatização e catalogação na fase final da elaboração deste livreto. E fundamen-talmente 
lembrar a FABICO e o PPGCOM (UFRGS), que viabilizaram esta produção, e a 
ABRAÇO-RS, pela disposição em veicular este material junto a comunicadores populares. 
E o Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS/UNISINOS), 
o Núcleo de Ecojornalistas (NEJ), a editora Revolução de Idéias e a Gráfica da UFRGS, 
cujos apoios vêm somar ainda mais forças a essa batalha. A todos que se envolveram e/ou 
apoiaram esta iniciativa, direta ou indiretamente, nossos sinceros agradecimentos. 
Na cartilha de 2002, fomos movidos basicamente por um envolvimento com a Rádio 
Restinga FM. Na época, tal qual nesta reedição, pretendíamos fazer uma troca de conheci-mentos. 
Aprender com o pessoal da Restinga que fazia rádio e, em troca, levar um pouco 
do que estudávamos na universidade. Muita gente empenhou-se nessa tarefa. Além de 
nós, os alunos David Rubbo, Eduardo da Camino, João Ângelo Zanuzzi, Larissa 
de David, Leandro Belloc, Natacha Marins, Paulo Ulbrich, Tiago Jucá e Vinícius 
Bastiani. A Profa.Dra. Neusa Maria Bongiovanni Ribeiro forneceu boa parte do material 
teórico. O jornalista e fanzineiro Sylvio Ayala e o já citado Ivan Vieira contribuíram com as 
ilustrações. Como sinal de consideração a estes voluntários da primeira edição, reiteramos 
que muito do que está aqui, textos e ilustrações, foi aproveitado da cartilha anterior.
APRESENTAÇÃO APRESENTAÇÃO 
Assim como nesta reedição, na época também queríamos, de alguma forma, reforçar o 
trabalho de aproximação da universidade com comunidades organizadas em torno de possíveis 
estruturas de transformação social. E, de lá para cá, as rádios comunitárias cada vez mais têm 
mostrado o seu potencial neste sentido. Infelizmente, no dia 15 de agosto de 2002, quatro meses 
após o lançamento da antiga cartilha, a rádio comunitária Restinga FM foi interditada pela Agência 
Nacional de Telecomunicações (ANATEL), sem mandato ou ordem judicial. Assim como tantas 
outras que não conseguiram a tal concessão para funcionamento, a chamada outorga. Estranha-mente, 
os radares do órgão que fecha as rádios comunitárias por funcionarem sem concessão 
não detectam aquelas comerciais e até públicas cujas concessões estão vencidas. Nesse contex-to, 
a cartilha assume mais importância, pois, como antes, nossa intenção é continuar ajudando 
na capacitação de pessoas envolvidas com as autênticas rádios comunitárias. Dessa vez, porém, 
em um projeto mais ambicioso, que envolve a ABRAÇO-RS na aplicação deste material. Muito 
além de distribuir um material didático de qualidade, acreditamos que é fundamental difundir a 
idéia de construir uma rede de comunicação democrática organizada, combativa e atuante. 
No entanto, é importante ressaltar que não significa que tenhamos a intenção, com esta 
cartilha, de desconsiderar a formação para o exercício do jornalismo. Aliás, nossa preocu-pação 
também passa pelo ensino praticado nas faculdades, voltado em grande parte para o 
mercado, bem como pela prática com pouca ou nenhuma orientação realizada nas rádios “al-ternativas”, 
muitas vezes ainda distante das responsabilidades que envolvem a comunicação 
massiva, mesmo que em menor escala. Reconhecemos que o mercado de trabalho remu-nerado 
para os jornalistas de formação ainda está muito restrito às grandes redes empresa-riais, 
comprometidas com interesses privados e institucionais que, em geral, comprometem 
a função social da profissão. Por outro lado, temos uma enorme falta de coesão e condições 
no exercício do jornalismo no âmbito comunitário, onde oportunistas ocupam espaços que 
deveriam estar desempenhando um papel contra-hegemônico. Na realidade, há uma grande 
confusão que atravessa esta prática, seja profissional ou amadora, em um momento que 
deveríamos priorizar uma união por algo maior e mais nobre. O verdadeiro dilema que se 
apresenta passa por romper com o conservadorismo e o individualismo que impedem uma 
reflexão mais humana e profunda do que realmente está em jogo. Sem alternativas viáveis 
à sobrevivência do profissional, jornalistas de formação inevitavelmente terminarão, em sua 
grande maioria, servindo aos cartéis e oligopólios da comunicação, atuando na manutenção 
dos interesses de grandes empresários da comunicação, políticos profissionais, igrejas clien-telistas 
e seus respectivos aliados. Reivindicamos aqui que, se somente a propaganda insti-tucional 
pública investida nos meios privados fosse redirecionada para as redes comunitárias 
de comunicação, teríamos condições mais dignas para o exercício da profissão também nes-te 
âmbito. E a possibilidade de ampliação do mercado de trabalho para além das trincheiras 
do interesse privado, com profissionais servindo comunidades ao invés de empresas. 
A ausência de formação mínima e auxílio técnico dedicado são carências comuns a boa 
parte dos meios de comunicação comunitários. São aspectos que inevitavelmente colocam 
as rádios comunitárias em desvantagem brutal frente às comerciais, em especial nas cida-des 
onde há um grande número de emissoras. Sabe-se que ainda assim estas emissoras 
sobrevivem, mas é incontestável que maior suporte e qualificação poderiam ajudar a apri-morar 
suas produções, impulsionando o desenvolvimento do seu potencial criativo frente 
às conservadoras e repetitivas emissoras comerciais. Mas não se pode pressupor que os 
comunicadores comunitários vão ficar esperando de braços cruzados até que oportunidades 
surjam. Isso não vai ocorrer. Também não se pode afirmar que estes comunicadores não 
querem aprender, nem sentem falta de apoio ou orientação. Afinal, a grande maioria se 
engaja voluntariamente, e precisa dividir o tempo dedicado à rádio com outras responsabi-lidades, 
como o trabalho e a família. É neste ponto que pensamos na universidade pública 
como um aparato solidário à disposição da sociedade, colaborando na busca de alternativas 
sustentáveis, amparadas na construção e exercício da cidadania. E a participação do cidadão 
somente se efetiva quando existem amplos espaços de comunicação. Neste sentido, a rádio 
comunitária é um lugar privilegiado de distribuição de poder, cujo potencial está em pleno 
desenvolvimento. Já é conhecida e temida pelos segmentos que ganham com a concentra-ção 
da mídia, cujos lucros caminham lado-a-lado com o aumento da injustiça social. 
Esta singela cartilha é resultado de um grande esforço coletivo por uma rede de co-municação 
mais democrática. Surge como uma proposta justamente no ano em que a I 
Conferência Nacional de Comunicação eclode com o tema “Comunicação: meios para a 
construção de direitos e de cidadania na era digital”. Sugere uma alternativa ao profissional 
do jornalismo. Propõe uma aproximação entre o ensino das faculdades de comunicação e 
uma atividade mais liberta, distinta da realizada no âmbito empresarial. Indica uma estraté-gia 
de organização para as rádios comunitárias, alertando comunicadores e comunidades 
para a importância e responsabilidade destes veículos. Aproxima teoria e prática, tentando, 
assim, alimentar a formação de uma rede comprometida com os anseios populares. Um 
modesto ferramental em auxílio a uma comunicação social mais ética, livre e consciente 
do seu papel junto às comunidades onde se insere. 
Porto Alegre, julho de 2009. 
Rafael Costa
10 NOÇÕES INICIAIS UMA BREVE HISTÓRIA 11 
1 NOÇÕES INICIAIS 
A comunicação é para todos e é direito de todos. Os brasileiros têm o direito à 
informação e à expressão garantidos pelo artigo 220 da nossa Constituição 
Federal. Aliás, o Brasil assinou o Pacto de San Jose da Costa Rica, em 1969, 
durante a Convenção Americana de Direitos Humanos . Neste pacto, está escrito 
que toda pessoa é livre para receber e difundir informações, sem que haja abuso 
de “[...] controles oficiais ou particulares de papel de imprensa, de freqüências 
radioelétricas ou de equipamentos e aparelhos usados na difusão de informação”. 
Assim, além de receber informação, cada pessoa pode também comunicar, 
ou seja, pesquisar, produzir e distribuir informações através de diversos meios 
de comunicação, abordando assuntos que domina, contando sobre a realidade 
em que vive, os problemas que ela e seus vizinhos encontram, as novidades que 
interessam à comunidade. Afinal, as pessoas mais indicadas para falarem sobre 
determinada realidade são aquelas que a vivenciam. É muito mais legítimo que um 
morador de um bairro ou cidade fale sobre como é morar lá, quais os problemas, 
quais as necessidades, do que alguém de fora, que não acompanha de perto os 
acontecimentos do local. Isto vale não só para um bairro, mas também para ca-tegorias 
de trabalhadores, setores sociais, defensores de uma causa específica e 
mesmo em todos os temas onde tenha gente envolvida e organizada em torno de 
OBJETIVOS COMUNS – por isso, falamos em COMUNIDADE. 
Para que essas informações sejam conhecidas pela maior quantidade de pes-soas, 
o rádio é o veículo de comunicação mais indicado. Ele está presente na maio-ria 
das casas, não é caro e, diferentemente dos jornais e outros meios escritos, 
não exige que as pessoas saibam ler para que possam compreender. Pelo rádio, as 
mensagens podem ser ouvidas coletivamente, em grandes grupos, em família, en-tre 
amigos, fazendo com que mais pessoas compartilhem o conhecimento e tam-bém 
os sentimentos despertados pelas notícias, músicas e outras informações. 
As RÁDIOS chamadas COMUNITÁRIAS devem ser realmente DEMOCRÁTI-CAS. 
A sua grande vantagem sobre as rádios comerciais é justamente a pos-sibilidade 
de qualquer pessoa da comunidade par ticipar. Além disso, são mais 
específicas, falam sobre assuntos locais, que dizem respeito à comunidade e 
que normalmente não são noticiados em emissoras comerciais. Assim, são 
capazes de mobilizar a população a buscar melhorias na qualidade de vida, 
formando identidade coletiva, abrindo espaço para a exigência de direitos e 
mudanças no que não está sendo cumprido nem atendido. Através das rádios 
comunitárias, pessoas e vozes que dificilmente são ouvidas nas redes comer-ciais 
têm espaço para suas manifestações. 
Para saber mais, ver: 
http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/legislacao-pfdc/docs_convencao/convencao_americana_dir_humanos.pdf 
Mesmo que o Brasil venha a adotar oficialmente o sistema digital de trans-missão, 
o sistema analógico continuará existindo e sendo utilizado por muitos 
anos, inclusive pelas rádios comerciais, já que para ter acesso ao que essas rádios 
emitem o ouvinte precisa ter um receptor digital. Assim, as rádios que optarem 
pelo sistema digital provavelmente continuarão operando no sistema analógico por 
bastante tempo, até que a maioria dos ouvintes disponha desse receptor. As rádios 
comunitárias, então, não precisam se preocupar com o fim do sistema analógico 
de transmissão, pelo menos por enquanto. Além disso, uma série de problemas de 
funcionamento fez com que o Ministro das Comunicações, Hélio Costa, recuasse 
na adoção do padrão americano de rádio digital, o IBOC (In Band on Channel), 
também conhecido como HD Radio . Pelo menos por algum tempo, os planos para 
o uso de rádio digital no Brasil estão suspensos. 
Pela importância que a comunicação produzida localmente assume na vida 
das pessoas atingidas, pelo papel do rádio como meio para informação, difusão 
do conhecimento e mobilização com possibilidades de transformação da realidade, 
as rádios comunitárias deveriam ser mais utilizadas e valorizadas. Esta cartilha, 
portanto, tem como objetivo auxiliar na reflexão sobre o papel da rádio comunitária 
e sua atuação – e também servir como referência para auxiliar tecnicamente na 
produção, planejamento e gestão das rádios e programas a serem veiculados. 
2 UMA BREVE HISTÓRIA 
De um modo geral, a invenção do rádio é creditada ao físico italiano Guglielmo 
Marconi, que em 1896 conseguiu realizar a primeira transmissão confirmada 
de ondas sem uso de fio a uma distância de aproximadamente 3 quilômetros. 
Mas há controvérsias quanto ao assunto. Entre 1893 e 1894, o padre gaúcho Roberto 
Landell de Moura, conhecido como Padre Cientista, já havia realizado experiências 
do tipo. Conforme relata o Jornal do Commercio de 10 de junho de 1900, Landell de 
Moura teria feito uma apresentação pública de suas experiências com transmissões 
sem fios a uma distância aproximada de 8 km em linha reta, em um lugar conhecido 
como Alto de Santana, em São Paulo. O ato foi presenciado por autoridades brasileiras 
e britânicas. O padre chegou a patentear seus inventos no Brasil e nos Estados Uni-dos. 
No ano de 1904, o Patent Office de Washington concedeu-lhe patentes para um 
transmissor de ondas (771917), um telefone sem fio (775337) e um telégrafo sem 
fio (775846). No entanto, Marconi consta como inventor do rádio por ter registrado o 
primeiro transmissor de sinais à distância. 
A primeira emissora de rádio a operar com licença comercial foi a KDKA, nos Es-tados 
Unidos, na cidade de Pittsburgh, em 1920. Era a concretização de um processo 
Para saber mais, ver matéria de Ethevaldo Siqueira para o Estado de São Paulo de 28 de dezembro de 
2008 em: http://www.ethevaldo.com.br/Generic.aspx?pid=458
12 UMA BREVE HISTÓRIA UMA BREVE HISTÓRIA 13 
Rafael Costa 
que começou no século dezenove, a partir da industrialização e do crescimento das 
relações comerciais. A sociedade da época já contava com soluções como o telégrafo 
sem fios e o rádio como meio de comunicação bidirecional, usados para trocar men-sagens 
entre dois sujeitos afastados fisicamente. Foi David Sarnoff, um russo radicado 
nos Estados Unidos, que lançou a idéia de transformar o rádio em um meio de comuni-cação 
massiva, em carta à empresa Marconi Company, posteriormente transformada 
na Radio Corporation of America (RCA). A idéia de Sarnoff não foi inicialmente bem 
recebida. Coube à Westinghouse Electric Company, a partir de experiências de trans-missão 
do engenheiro Frank Conrad, impulsionar a idéia de Sarnoff. Conrad introduziu 
os principais conceitos de radiodifusão a partir das transmissões experimentais reali-zadas 
de sua garagem, em Wilkinsburg, no estado norte-americano da Pensilvânia: as 
idéias de estação, público, programas e anúncios. Atento à popularidade da experiên-cia 
de Conrad refletida na venda de aparelhos receptores, o então vice-presidente da 
Westinghouse, Harry P. Davis, convenceu a empresa a criar a KDKA. 
No Brasil, o marco inicial da transmissão radiofônica ocorre em setembro de 1922, 
com a transmissão de discursos do presidente Epitácio Pessoa e trechos da ópera O 
Guarani de Carlos Gomes, durante a exposição comemorativa do centenário da Indepen-dência, 
no Rio de Janeiro. No ano seguinte, o rádio iniciaria sua trajetória no país com a 
instalação da primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada 
por Edgard Roquette-Pinto, um idealista, defensor da necessidade de transmitir educação 
e cultura aos brasileiros espalhados por todas as regiões do país. Era uma rádio de caráter 
cultural/educativo, cujo slogan manifestava suas intenções: “Trabalhar pela cultura dos 
que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. 
Na década de 1920, o rádio brasileiro caracterizou-se pela produção de programas 
simples, informativos e musicais, resultado da falta de investimentos no setor. Mas nos 
anos de 1930, o rádio recebeu autorização oficial para veiculação de anúncios, através 
do Decreto n° 21.111, de 1° de março de 1932. Empresas começaram a patrocinar as 
radionovelas, programas de auditórios, musicais e humorísticos. Paralelamente, a audi-ência 
do rádio começou a crescer, motivada pelo barateamento do custo dos aparelhos 
receptores. Este cenário vai desembocar na chamada época de ouro da rádio, que inicia-se 
nos anos de 1940 e prolonga-se até metade dos anos de 1950. A publicidade também 
influiu diretamente na introdução do jornalismo radiofônico no Brasil, em especial durante 
a Segunda Guerra Mundial. Em agosto de 1941, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro e a 
Record, em São Paulo, transmitiram a primeira edição do Repórter Esso, patrocinado pela 
multinacional Esso/Standard Oil, a Esso Brasileira de Petróleo. Posteriormente o noticiário 
estendeu-se para Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pernambuco, nas Rádios Farroupilha, 
Inconfidência e Jornal do Comércio respectivamente. Com uma fórmula importada dos 
Estados Unidos (United Press International), o informativo, que permaneceu no ar durante 
27 anos, introduziu no Brasil um modelo de noticiário ágil e estruturado, linear, direto, 
corrido e sem adjetivações, que tornou-se sinônimo de credibilidade e abrangência. Tanto 
que, quando a Rádio Tupi, no Rio de Janeiro, noticiou o fim da Segunda Guerra, antecipan-do- 
se ao Repórter Esso, ninguém acreditou, tamanho era o prestígio do programa. 
A partir da metade dos anos de 1960, o rádio começa a registrar uma queda de 
audiência decorrente da popularização da televisão. A diminuição das verbas publi-citárias, 
a repetição dos mesmos tipos de programas e a transferência de profissio-nais 
para a televisão estão entre as principais causas para a decadência do veículo. 
O rádio, então, passa a produzir uma maior variedade de programas musicais, de 
notícias e esportivos, e acaba superando a necessidade de contar com grandes as-tros 
populares. O surgimento do transistor também traria um novo fôlego ao rádio, 
individualizando a audiência e possibilitando o fácil transporte do aparelho receptor. 
Assim, o rádio passa a acompanhar o ouvinte. Nos estádios de futebol, passa a ser 
um companheiro quase inseparável. Com a crescente massificação dos automóveis 
e dos transportes coletivos, torna-se um importante meio de comunicação durante 
os trajetos, assumindo definitivamente algumas de suas características mais mar-cantes, 
como a prestação de serviços e a utilidade pública em tempo real . 
Para saber mais, ver o livro Rádio: o veículo, a história e a técnica, de Luiz Artur Ferrareto (p. 79-191) 
e A informação no rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos, de Gisela Swetlana 
Ortriwano (p. 13-27).
14 MONTANDO UMA RÁDIO MONTANDO UMA RÁDIO 15 
3 MONTANDO UMA RÁDIO 
De modo simplificado, a rádio transmite sons (a mensagem), através de ondas 
eletromagnéticas que se propagam pelo ar a partir de um sistema emissor 
(estação de rádio/comunicador) a um sistema receptor (aparelho de rádio/ 
ouvinte). Ao pensar em montar uma rádio, é preciso primeiro pensar neste esquema 
inicial, que é uma síntese do funcionamento de todo o processo: 
ESTAÇÃO DE RÁDIO  ONDAS ELETROMAGNÉTICAS  APARELHO DE RÁDIO 
COMUNICADOR  MENSAGEM  OUVINTE 
Assim, é preciso um local para a rádio. Depois, planejar as instalações do estúdio: 
• É preciso levar em conta que as ondas de rádio FM se propagam em linha reta. 
Se houver obstáculos no caminho, como edifícios e montanhas, o sinal vai ficar 
comprometido e não vai chegar a todos os lugares. Assim, quanto mais alto e 
aberto for o local, melhor será a transmissão. O ponto também deve ser central 
na comunidade, para atingir o máximo possível de residências; 
• Para as instalações ideais do estúdio, recomenda-se um espaço com área míni-ma 
de 22m², que pode ser dividido em 4 ou 5 compartimentos. Nestes ficarão 
o estúdio, um banheiro, sala do transmissor e recepção, sendo que o estúdio 
poderá ser dividido ainda em cabine de locução e sala de operação. Para o local 
de locução, sugere-se utilizar algum isolamento acústico, que pode ser impro-visado 
reaproveitando-se espuma de colchão, caixas de ovos e isopor. Lem-brando 
que, ao reciclar estes materiais, está se prestando um grande serviço 
ao meio ambiente – em especial o isopor, que é um produto muito poluente; 
Ivan Vieira 
• Quando há sala de operação e locução separadas, costuma-se colocar uma 
janela de vidro para comunicação visual entre o operador e o locutor. Sugere-se 
também que o transmissor fique em ambiente separado dos equipamentos 
de áudio para evitar interferências; 
• Para iluminação, pode-se utilizar lâmpadas comuns incandescentes e sugere-se 
piso acarpetado para o chão; 
• É melhor também que as mesas e cadeiras da cabine de locução não façam 
ruídos, sendo que a mesa pode ser forrada com algum tecido grosso, tipo de 
estofamento de carro, para abafar ruídos indesejáveis. A mesa de operação fica 
melhor se disposta em forma de letra "U", com 1,80m de largura por 1,80m de 
comprimento (quadrada), com um vão interno de 1 metro. A altura recomenda-da 
fica entre 85cm e 80cm, dependendo do porte médio dos operadores; 
• A distribuição dos equipamentos deve observar também padrões ergométricos, 
de modo que todos os equipamentos deverão estar ao alcance das mãos de 
maneira confortável e operacional; 
• Sugerem-se ainda três aterramentos independentes e distantes um do outro, 
sendo um para os equipamentos de som, outro para o transmissor e outro para 
o para-raios, que, por questões de segurança, é altamente recomendado. 
Claro que isso é uma situação ideal, de custo mais alto, que exige muito trabalho. 
Em grande parte das rádios comunitárias, muitos destes elementos são improvisados e 
a rádio entra no ar da mesma forma, com banquinho de madeira e mesa de cozinha, um 
aparelho 3-em-1 velho, tudo instalado nos fundos da casa de alguém. Mas fica a suges-tão 
para que a comunidade se organize e estabeleça metas para, aos poucos, aprimorar 
e qualificar a sua rádio. Na Internet, é possível encontrar empresas especializadas que 
fazem toda a instalação, mas obviamente estes profissionais cobram por isso. 
Os equipamentos básicos para o funcionamento de uma rádio são: 
• Microfone, tocadores de CD e/ou DVD/MP3, toca-fitas, toca-discos, entre 
outros, que permitem reproduzir voz, músicas, ruídos e efeitos acústicos; 
• Computador: com o computador pode-se automatizar uma série de procedi-mentos 
e reproduzir músicas, dispensando até os tocadores de CD ou apare-lhos 
de som. Além disso, se houver uma conexão com a Internet, é possível 
buscar informações para os noticiários, colocar uma página on-line, instalar 
uma rádio web com programação simultânea e utilizar programas de mensa-gens 
instantâneas para se comunicar com os ouvintes; 
• Chave híbrida: possibilita transmissões pelo telefone. Com a chave hí-brida 
é possível fazer reportagens ao vivo com repórteres nos locais dos 
acontecimentos (por telefone) ou ainda realizar programas interativos 
com a participação de ouvintes;
16 MONTANDO UMA RÁDIO RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS 17 
Rafael Costa 
• Mesa de som: também conhecido como “mixer”, permite controlar, separar 
ou misturar todos os sons gerados pelos aparelhos citados anteriormente. É a 
mesa que possibilita aquela musica baixinha de fundo (a chamada “cortina”) 
enquanto o locutor fala; 
• Equalizador: é um aparelho opcional, cuja maior função é ajustar a quali-dade 
do som; 
• Gerador de estéreo: neste aparelho o som adquire característica de estéreo, o 
que permite os sons em dois canais para dois ou mais alto-falantes, transmitin-do 
aquela sensação de distribuição espacial; 
• Transmissor: transforma e transmite para a antena as ondas de rádio FM numa 
freqüência determinada – é onde se define o “canal” da rádio; 
• Antena: transmite as ondas que serão captadas pelos rádios FM da região 
quando sintonizados na freqüência estabelecida no transmissor. A antena deve 
ficar o mais próxima possível do transmissor, para não haver perda de ganho 
do sinal. Para uma montagem segura, sugere-se um alicerce de no mínimo 1/4 
de profundidade em relação ao tamanho da torre e pelo menos três estirantes 
de sustentação a cada seis metros de altura, formando um ângulo de no míni-mo 
30º em relação ao eixo da torre. Se possível, instale um para-raios a dois 
metros acima da antena e um metro longe do seu eixo – lembrando que este 
item é muito importante para a segurança (um raio na antena pode ser fatal 
não apenas para o equipamento, como também para quem estiver na rádio, 
especialmente quem estiver no estúdio operando com o equipamento). 
Com 4 a 5 mil reais já é possível montar uma boa rádio – um kit completo para 
transmissão, com transmissor de 25W, gerador de estéreo, cabos e antena sai por 
uns 2 mil reais. Uma mesa de som, 600 reais. Uma chave híbrida sai por uns 150 
reais. Aí tem os microfones (pelo menos dois), um computador ou aparelho de CD 
ou toca-discos, ou todos eles, de acordo com a possibilidade de investimento. Uma 
comunidade com poucos recursos pode montar uma rádio também, desde que haja 
boa vontade e participação popular. Pode-se organizar algum evento para angariar 
fundos, ou ainda uma rifa beneficiária. Houve casos em que moradores da comunida-de 
doavam os aparelhos: um doou o microfone, outro o transmissor, um outro cedeu 
um aparelho de som, e a rádio entrou no ar . Se houver recursos suficientes, pode-se 
ainda colocar uma conexão com a Internet, que dá acesso a muito conteúdo gratuito, 
um outro computador, que pode ser utilizado para gravação, ou ainda um transmissor 
intermediário conhecido como enlace (“link”), possibilitando transmissões a alguns 
quilômetros de distância do estúdio. Com este tipo de recurso, podem-se fazer trans-missões, 
por exemplo, diretamente dos jogos e eventos da comunidade, como os 
campeonatos de futebol de várzea ou festas da comunidade . 
4 RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS 
A idéia de emissoras alternativas e autônomas, desvinculadas dos padrões 
institucionais impostos pelo controle estatal, não é recente. Embora o 
termo rádio livre esteja mais associado às emissoras que surgem nos 
anos de 1970, o fenômeno existe desde o início da radiodifusão. Mas foi na 
década de 1970, associado a movimentos liber tários europeus, em especial na 
Itália e na França, que ganhou impulso político, proliferando-se em emissoras 
locais de pouco alcance. Acredita-se que a primeira rádio de caráter livre te-nha 
sido uma emissora sindical que surgiu na Áustria em 1925. No Brasil, por 
exemplo, a rádio DKI – A Voz do Juqueri, atual Rádio Cultura de São Paulo, foi 
Para saber mais, ver o livro Trilha apaixonada e bem-humorada do que é e de como fazer rádios 
comunitárias na intenção de mudar o mundo, de Dioclécio Luz. 
Para saber mais, ver: cartilha Rádio comunitária: como produzir conteúdo para agricultura familiar, 
da ABRAÇO-RS, ou as cartilhas da Rede Viva Favela, disponíveis em http://www.redevivafavela.com.br/.
18 RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS 19 
ao ar ilegalmente em 1933. E manteve esta condição por três anos, até sofrer 
intervenção policial e legalizar-se, em 1936, quando assumiu a nomenclatura 
atual . Por isso, o fenômeno não é tão recente quanto alguns podem pensar. 
Porém, o quadro se intensifica durante a ditadura militar. Transmissões clan-destinas 
eram realizadas em unidades móveis, utilizando baterias de automóvel. 
O objetivo era dificultar a localização, driblando o for te controle e a censura. 
Uma das primeiras experiências da qual se tem registro na época foi a da Rádio 
Paranóica, em Vitória do Espírito Santo, em outubro de 1970. Criada por dois 
meninos, um de dezesseis e um de quinze anos, utilizava o bordão “Paranóica, 
a única que não entra em cadeia com a Agência Nacional”. Como resultado, 
o mais novo foi preso e acusado de subversão, embora nem soubesse direito 
o que isso significava. A Paranóica foi interditada, mas voltou a funcionar em 
1983 e se manteve no ar até a segunda metade dos anos 90 com o nome de 
Rádio Sempre Livre. Outras experiências significativas foram a Rádio Spectro, 
de Sorocaba (SP), em 1976 e a Rádio Globo de Criciúma (SC), em 1978. Mas 
é impor tante ressaltar que, por este período, as rádios eram inspiradas mais 
por um espírito de rebeldia sem muito compromisso, sem grandes pretensões 
ou causas. De um modo geral, eram jovens entusiastas que queriam apenas 
praticar a ar te da radiofonia. 
Na década de 1980, o fenômeno começou a ganhar mais impulso. Os primei-ros 
anos foram marcados pelo movimento de jovens de Sorocaba (SP), que, em 
iniciativas individuais, se apropriaram das ondas livres do rádio com emissoras 
de baixa potência com programações alternativas às das emissoras FM. A grande 
quantidade de técnicos e estudantes de eletrônica nesta cidade, a ociosidade do 
período das férias escolares, os esquemas em revistas importadas e a facilidade 
em conseguir peças em qualquer loja especializada criavam um contexto propício 
para este fenômeno localizado. Mas estas emissoras tocavam muita música e o 
playlist não era muito diferente das rádios oficiais. Em 1981 já se tem o registro de 
pelo menos 6 estações em Sorocaba: Estrôncio 90, Alfa 1, Colúmbia, Fênix, Star 
e Centaurus. Durante o verão de 1982 chegaram a ser registradas 42 emissoras 
clandestinas na cidade, que posteriormente seriam perseguidas e aniquiladas pela 
fiscalização do extinto Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL). 
Em 1984, as estações já não passavam de 15. Com a repressão, o discurso que 
inicialmente não tinha base ideológica passa a voltar-se contra o monopólio das 
FMs. A partir de 1985, o fenômeno começa a proliferar-se ainda mais. Em São 
Paulo, surgem as rádios Xilik, Vírus, Dengue, Seilá e Totó Ternura. Em 1986, surge 
no Rio de Janeiro a Frívola City. Na década de 90, várias outras surgem, cada uma 
com sua história e suas características: Reversão, Nova Geração, Muda e Onze 
Para saber mais, ver o artigo de Antonio Adami e Carla Reis Longhi, O Rádio Com Sotaque Paulista: 
Rádio DKi “A Voz do Juqueri”, disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/ 
resumos/R1927-1.pdf. 
Sylvio Ayala 
são alguns exemplos. Também começam a aparecer com mais freqüência as com 
perfil religioso, como a Free FM. Mas é neste período que começam a surgir várias 
rádios de caráter comunitário, como a Rádio Sabiá do Recife (PE), Rádio Popular 
Santa Amélia de Curitiba (PR), Rádio Calabar de Salvador (BA), Rádio Popular de 
Heliópolis e Rádio do Povo (SP), Rocinha e Rádio Saara (RJ), Rádio Favela de Belo 
Horizonte (MG), entre outras. As rádios livres são emissoras que podem ou não 
ter um cunho político, podendo ser motivadas também por intenções religiosas, 
pornográficas, comerciais ou simplesmente entusiásticas. Por isso, diferenciam-se 
das comunitárias, cujos objetivos vão além das experiências de caráter pessoal/in-dividual 
e/ou isoladas do local onde se estabelecem. 
Há ainda outras experiências de caráter popular que, em alguns casos, acabam 
resultando em emissoras radiofônicas. O uso de cornetas ou alto-falantes fixados 
em postes, popularmente conhecidos em alguns lugares como “rádio-poste”, é
20 RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 21 
uma experiência de comunicação comunitária bastante difundida em função do seu 
baixo custo e da fácil implementação. Normalmente são instaladas em paróquias, 
mercados, praças ou feiras, enfim, em locais públicos onde haja grande concen-tração 
ou circulação de pessoas. A maior desvantagem deste sistema está no fato 
de que o ouvinte não pode “trocar” de estação, pois os alto-falantes “falam” para 
todo mundo, inclusive para quem não quer ouvir. 
Outra interessante experiência de comunicação participativa à distância são 
os chamados cassete-fórums. Originários do Uruguai no final da década de 1970, 
consistem em um sistema onde grupos trocam fitas-cassetes com debates em 
torno de um tema comum definido a partir de uma mensagem distribuída por uma 
coordenação central. As fitas são enviadas para esta coordenação, que analisa as 
mensagens, edita com a opinião de todos os grupos e grava em uma nova fita que 
é reenviada para todos. O fórum pode continuar indefinidamente, até que o assunto 
seja considerado esgotado. Com a popularização da informática e da Internet, a 
proposta do cassete-fórum perde um pouco da sua força inicial. Mas a idéia de 
produzir discussões grupais à distância através da comunicação oral pode ser rea-daptada 
aos novos recursos tecnológicos, preservando a essência desta iniciativa 
popular. É possível encontrar na Internet softwares gratuitos para conferências, 
de modo a realizar experiências similares, porém em tempo real. Para tanto, é ne-cessário 
que cada grupo possua pelo menos um computador com Internet banda 
larga e um bom microfone, que consiga captar a voz dos participantes. Outra pos-sibilidade 
é manter a estrutura original do cassete-fórum, mas utilizando a troca de 
arquivos de áudio, como os MP3, ao invés de fitas-cassete . 
Há ainda uma experiência mais recente, ainda em fase de apropriação e de-senvolvimento. 
Tratam-se das chamadas “rádios web”, emissoras que transmitem 
sua programação através da Internet utilizando uma tecnologia chamada streaming. 
Funcionam exatamente como uma rádio que opera por ondas, podendo inclusive ser 
incorporadas e utilizar o equipamento já existente. A diferença é que o sinal é trans-mitido 
pela Internet, sendo conseqüentemente recebido pelo mesmo meio. Assim, as 
“rádios web” não podem ser sintonizadas em um aparelho de rádio convencional. É 
uma tendência a ser explorada e já é possível ouvir este tipo de emissora em alguns 
modelos de celulares, por exemplo. É uma questão de tempo para esta tecnologia po-pularizar- 
se. Uma das grandes vantagens deste sistema é que não existem limitações 
para quantidade de emissoras, nem regulamentação (pelo menos por enquanto) . 
Para saber mais, ver a dissertação de Marisa Meliani, Rádios livres, o outro lado da voz do Brasil, 
de 1995, ou o texto de Rodney Brocanelli, Rádios Livres - Breve História, disponível em: http://www. 
locutor.info/Biblioteca/Radios_Livres.doc, ou ainda os livros Comunicação nos movimentos populares: 
a participação na construção da cidadania de Cicilia Peruzzo (p. 241-258) e No ar... uma rádio 
comunitária de Denise Maria Cogo (p. 73-91). 
Um bom tutorial para montar este tipo de emissora pode ser encontrado na página Projeto Dissonante 
em: http://bill.dissonante.org/site/index.php?arquivo=comofazer. 
5 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL: 
O ALVOROÇO DA TRAJETÓRIA 
As rádios livres dos anos de 1980 apresentavam um caráter mais experimental. 
No decorrer daquela década, o movimento popular vai se apropriando da comu-nicação 
social, e constitui a Frente Nacional pela Democracia na Comunica-ção, 
muito atuante durante o processo da Assembléia Constituinte (1986-1987). Esta 
pressão teve como fruto o texto da Constituição de 1988. O Capítulo V nos Artigos 220, 
221, 222 e 223 assegura este direito. No Art. 223 está escrito: “deve ser observado 
o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal”. Para sim-plificar, 
significa que o povo brasileiro tem o direito de ter e gerir um sistema público 
não-estatal de informação, comunicação e cultura. Como, de lá para cá, os governos 
jamais respeitaram este direito, foi e continua sendo necessário conquistá-lo. 
Antes da promulgação da Lei do Serviço de Radiodifusão Comunitária em 
1998 (conhecida como Lei 9612/98), uma parte dos comunicadores populares bra-sileiros 
já entendia a comunicação social como fundamental para a radicalização 
democrática e para os movimentos sociais. O grau de organização necessária para 
fundar uma entidade nacional é atingido no ano de 1996. É quando nasce a idéia de 
Rafael Costa
22 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 23 
representação legal e social das emissoras comunitárias de rádio. Recebe o nome de 
Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (ABRAÇO) e tenta pressionar o 
primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998) a assinar uma lei que 
legalize as emissoras populares, até então consideradas ilegais. 
Uma década já havia se passado desde que se formou a base constitucional pro-pondo 
um sistema público não-estatal de comunicação social. Na ponta desta luta, 
com perfil diferente da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) e da Executiva Na-cional 
de Estudantes de Comunicação Social (ENECOS), começam a surgir inúmeras 
iniciativas populares. Frente à pressão, o então Ministro das Comunicações do primei-ro 
governo de FHC, Sérgio Motta, assina no ano de 1998 a Lei 9612/98. Esta lei, na 
teoria, regula um modelo de rádios comunitárias de baixa potência. Mas, na prática, 
os problemas desta lei e suas conseqüências são tema de constantes debates . 
O fato é que a partir da base legal, mesmo que pouco regulada, o que era quase 
fora de controle se torna totalmente incontrolável, tanto para o Estado quanto para 
as forças sociais organizadas em torno da democratização da comunicação social 
no Brasil. Desde que a lei foi promulgada, os governos têm fechado, em média, uma 
rádio por dia. Infelizmente, a formação de um suposto “movimento” ainda sofre com 
a escassez de comunicadores conscientes do seu papel social, ou seja, gente capaz, 
dedicada, atuante e responsável dentro deste cenário. Na verdade, a montagem do 
sistema público não-estatal está se desenvolvendo com muita dificuldade a partir dos 
esforços do movimento popular dedicado a esta causa10. 
5.1 Mas afinal, quem faz o movimento 
das rádios comunitárias? 
Diferente de outros setores dos movimentos sociais, a balbúrdia entre identidades 
no movimento das rádios comunitárias no Brasil afeta diretamente a construção 
da organização destes comunicadores populares. Nas rádios comunitárias, cabem 
todos, incluindo diferentes motivações e projetos, independente de ideologias. A 
diversidade sempre é positiva, mas a falta de objetivo estratégico gera a um sem 
número de posições confusas e conflitantes, dificultando a articulação. 
Já são mais de 3.300 rádios comunitárias com outorga definitiva e outras 15.000 
que estão no ar brigando pela legalização. Neste total, incluímos emissoras com outor- 
Para saber mais, ver também o texto de Márcia Detoni, Desenvolvimento da radiodifusão comunitária 
no Brasil, localizado no blog da professora de comunicação da PUC/RS Beatriz Dornelles em: 
http://biadornelles.blogspot.com/2005/09/desenvolvimento-da-radiodifuso.html e http://biadornelles. 
blogspot.com/2005/09/desenvolvimento-da-radiodifuso_22.html. 
10 Para saber mais sobre a legislação para rádios comunitárias, ver http://www.mc.gov.br/radiodifusao/ 
legislacao/sonora/radcom. 
ga, com pedido de outorga, as lacradas e apreendidas, bem como aquelas que estão 
funcionando sem nenhuma garantia legal. As Rádios Comunitárias autênticas, “com C 
maiúsculo”, tanto no projeto quanto na motivação, são minoria dentro do contexto ge-ral. 
Em média, uma emissora comunitária movimenta de 20 a 50 pessoas diretamente 
envolvidas. Esta base é composta, em geral, por rádio-amantes. Assim, o problema 
termina sendo conceitual. Boa parte dos animadores de rádios têm compromissos e 
participação social em diversos níveis. Mas até chegar a ser uma participação cons-ciente 
da importância social deste tipo de rádio, o que caracteriza as comunitárias 
“com C maiúsculo”, existe um abismo. Enfim, falta responsabilidade para com a pro-posta 
essencialmente democrática destes veículos. Na estimativa mais modesta, o 
conjunto das rádios comunitárias movimenta mais de 300.000 ativistas-comunicado-res 
diretos. Estão na ponta da luta pela democracia na comunicação brasileira. Mas, 
muitas vezes, nem sabem onde se posicionam, e terminam ganhando maior consci-ência 
quando ocorre alguma repressão por parte da ANATEL / Polícia Federal11. 
Ivan Vieira 
5.2 Tipos de emissoras comunitárias e 
a má fé dos oportunistas de plantão 
Em meio às diferenças que caracterizam a riqueza das comunitárias, é possível 
identificar alguns tipos de emissoras. Algumas rádios nem sempre estão ade-quadas 
à essência das idéias que devem orientar a conduta deste tipo de veículo 
11 Para saber mais, ver o artigo de Adilson Vaz Cabral Filho e Bruno Lima Rocha, O empoderamento 
popular por meio das rádios comunitárias: uma análise crítica em: http://www.estrategiaeanalise.com. 
br/ler02.php?idsecao=922050d4e7d85ffb0ce2211f87d218b7&&idtitulo=6cdace326048c1a0a88784e 
31c10100c.
24 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 25 
de comunicação. Por isso, podem ser chamadas de pseudocomunitárias (falsas 
comunitárias). Grosso modo, as emissoras que se dizem comunitárias podem ser 
classificadas em quatro tipos mais comuns: 
• Rádios Comunitárias: mesmo sem outorga ou não operando conforme o 
projeto original, têm a intenção de funcionamento democrático, abrindo suas 
portas e estimulando a participação da comunidade onde estão inseridas. 
Portanto, são as comunitárias “com C maiúsculo”; 
• Rádios Livres: como já visto, são emissoras que não estão necessariamente 
em busca do amparo legal nem preocupadas em recompor o tecido social em 
torno da sua prática. Mas têm importante papel ao confrontar o coronelismo 
eletrônico, ou seja, a posse e utilização política das estações de rádio e tele-visão 
por grupos e familiares de elites normalmente políticas e/ou religiosas; 
Assim como as comunitárias “com C maiúsculo” sem outorga, são comu-mente 
rotuladas como rádios “piratas”; 
• Picaretárias: é uma expressão empregada para a emissora “comunitária” 
de intenção comercial e/ou de propriedade de políticos profissionais. Estas 
emissoras usam brechas da lei para brigar pela outorga de comunitária, mas 
adotam práticas mais comuns às comerciais, sendo utilizadas em benefício 
e/ou promoção do(s) seu(s) proprietário(s). São comunitárias de fachada, 
normalmente absorvidas pela prática do coronelismo eletrônico; 
• Neopentecostais: são emissoras de pequenas igrejas neopentecostais, evan-gélicas 
e/ou católicas, congregações de menor poder aquisitivo, ou mesmo 
corporações religiosas sem um grande veículo de comunicação à sua disposi-ção. 
Assim como as “picaretárias”, também são compostas por oportunistas 
de plantão que conseguem outorga de comunitária e utilizam o veículo para fins 
específicos ou particulares. Mesmo em menor escala que as “picaretárias”, 
não deixam de incorporar certas práticas comuns ao coronelismo eletrônico; 
Entre as práticas que são mais comuns em rádios comerciais, e que são normal-mente 
incorporadas pelas “pseudocomunitárias”, podemos citar: 
• venda de espaço na emissora; 
• vínculo do tipo “chapa branca”, com relações de subordinação ou parceria 
com os poderes políticos locais; 
• apoio cultural na forma de jabá, veiculando uma grande quantidade de “abra-ços” 
e “parabenizações” para comerciantes da região. Muitas vezes, este jabá 
nem entra no caixa da rádio, indo direto para o bolso de quem captou o apoio; 
• É comum vermos comunicadores de emissoras com outorga de comunitária 
lançando-se para vereador e/ou apoiando candidaturas, direta ou indireta-mente 
Bem como outros eventos de ordem particular/privada. A intenção, 
nestes casos, é pura e simplesmente a promoção e o benefício pessoal12. 
5.3 Limites da burocracia: o que fazer 
para abrir uma rádio comunitária? 
Podem pleitear uma rádio comunitária somente as fundações e as associações co-munitárias 
sem fins lucrativos, legalmente constituídas e registradas, com sede 
na comunidade em que pretendem prestar o serviço, cujos dirigentes sejam brasi-leiros 
natos ou naturalizados há mais de dez anos, maiores de 18 anos, residentes e 
domiciliados na comunidade. A fundação/associação candidata a prestar serviço de 
RÁDIO COMUNITÁRIA, não deverá, de forma alguma, ter ligação de qualquer tipo e 
natureza com outras instituições. Nos respectivos estatutos deve constar o objetivo 
de “executar o Serviço de Radiodifusão Comunitária”. Para dar encaminhamento à 
legalização da rádio é necessário: 
• Retirar da página na Internet do Ministério das Comunicações o "formulário de 
demonstração de interesse em instalar rádio comunitária". O formulário deve 
ser preenchido e enviado por via postal ou pela Internet; 
12 Para saber mais, ver a pesquisa Coronelismo eletrônico de novo tipo (1999-2004) de Venício A. de 
Lima e Cristiano Aguiar Lopes, disponível em: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/download/ 
Coronelismo_eletronico_de_novo_tipo.pdf. 
Ivan Vieira
26 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 27 
• Aguardar um comunicado com o número do processo. Então, deve-se espe-rar 
a publicação no Diário Oficial da União ou verificar na página do Ministério 
das Comunicações (MC) o "Aviso de Habilitação". Este aviso indica as locali-dades 
e as coordenadas geográficas onde há disponibilidade de canal para a 
execução do serviço; 
• Apresentar a documentação para a seleção da autorização no prazo máximo 
de 45 dias: 
a) cópia de comprovante de inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurí-dicas 
do Ministério da Fazenda – CNPJ/MF; 
b) Estatuto Social, devidamente registrado; 
c) Ata de constituição da entidade e Ata de eleição da diretoria em exercício, 
devidamente registradas; 
d) relação contendo o nome de todos os associados pessoas naturais, com 
o número do CPF, número do documento de identidade e órgão expedidor 
e endereço de residência ou domicílio, bem como de todos os associados 
pessoas jurídicas, com o número do CNPJ, número de registro no órgão 
competente e endereço da sede; 
e) prova de que seus diretores são brasileiros natos ou naturalizados há mais 
de dez anos e maiores de dezoito anos ou emancipados; 
f) manifestação de apoio à iniciativa, formulada por pessoas jurídicas le-galmente 
constituídas e sediadas na área pretendida para a execução do 
serviço ou na área urbana da localidade, conforme o caso, ou firmada por 
pessoas naturais que tenham residência ou domicílio nessa área; 
g) declaração, assinada pelo representante legal, especificando o endereço 
completo da sede da entidade; 
h) declaração, assinada pelo representante legal, de que todos os seus diri-gentes 
residem na área da comunidade a ser atendida pela estação ou na 
área urbana da localidade, conforme o caso; 
i) declaração, assinada por todos os diretores, comprometendo-se ao fiel 
cumprimento das normas estabelecidas para o serviço; 
j) declaração, assinada pelo representante legal, de que a entidade não é 
executante de qualquer modalidade de serviço de radiodifusão, inclusive 
comunitária, ou de qualquer serviço de distribuição de sinais de televisão 
mediante assinatura, bem como de que a entidade não tem como integran-te 
de seu quadro diretivo ou de associados, pessoas que, nessas condi-ções, 
participem de outra entidade detentora de outorga para execução de 
qualquer dos serviços mencionados; 
k) declaração, assinada pelo representante legal, constando a denominação 
de fantasia da emissora, se houver; 
l) declaração, assinada pelo representante legal, de que o local pretendido 
para a instalação do sistema irradiante possibilita o atendimento do dis-posto 
no subitem 18.2.7.1 ou 18.2.7.1.1, disposto na Norma Complemen-tar 
n° 1/2004; 
m) declaração, assinada por profissional habilitado ou pelo representante le-gal 
da entidade, confirmando as coordenadas geográficas, na padroniza-ção 
GPS-SAD69 ou WGS84, e o endereço proposto para instalação do 
sistema irradiante; 
n) declaração, assinada pelo representante legal, de que a entidade apresen-tará 
Projeto Técnico, de acordo com as disposições da Norma Comple-mentar 
n° 01/2004, e com os dados indicados em seu requerimento, caso 
seja selecionada; 
o) comprovante de recolhimento da taxa relativa às despesas de cadas-tramento. 
p) requerimento de autorização (Modelo A-2), no original ou cópia autentica-da, 
devidamente assinado pelo representante legal da entidade; 
• Após a fase de habilitação, inicia-se a seleção. As rádios selecionadas devem, 
então, apresentar o Projeto Técnico em prazo máximo de 30 dias. Este pro-jeto 
deve conter o Formulário Padronizado Modelo A-3, mais uma declaração 
(uma espécie de declaração de obediência às normas da ANATEL), planta de 
arruamento, diagrama de irradiação horizontal da antena transmissora, duas 
declarações de um profissional habilitado para a tarefa, um parecer conclu-sivo 
com o aval deste profissional e, por fim, Anotação de Responsabilidade 
Técnica (ART) referente à instalação proposta13; 
• Aguardar a emissão de uma licença (OUTORGA), que passa por um parecer 
da Consultoria Jurídica do MC encaminhado ao Ministério das Comunicações, 
que, por sua vez, emite uma Portaria autorizando a execução do Serviço de 
Radiodifusão Comunitária; 
13 Os formulários e modelos da documentação estão disponíveis em http://www.mc.gov.br/radio-comunitaria/ 
formularios.
28 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 29 
• Após a emissão da Portaria pelo MC, a autorização só terá validade após tam-bém 
passar pela Presidência da República e ser autorizada pelo Congresso 
Nacional (Câmara e Senado) através de um Decreto Legislativo. Se o ato de 
autorização permanecer mais de 90 (noventa) dias sem que a Portaria tenha 
sido aprovada ou rejeitada, o Ministério das Comunicações poderá expedir 
uma autorização provisória para que a emissora comece a funcionar (final-mente!). 
Mas se o Congresso Nacional não aprovar a Portaria, a autorização 
perde a validade e a rádio deve parar as transmissões; 
• A ANATEL indica o canal (freqüência) apropriado, respeitando um limite de 
4 km entre as emissoras para evitar interferências, pois é indicado um único 
canal para cada município; 
• A outorga valerá por dez anos, podendo ser prorrogada apenas se a entidade 
executar o serviço de forma apropriada14. 
5.4 A lei, ora a lei... 
A Lei 9612/98 tem vários problemas e costuma ser um empecilho para a conquista 
de uma rádio comunitária. Tudo começa pelo padrão da outorga, anterior à pró-pria 
lei, e que passa pelo Congresso Nacional. Na média, um em cada três congres-sistas 
(deputados e senadores) é dono ou testa de ferro de emissora de rádio e/ou 
14 Para saber mais, ver o manual Como instalar uma rádio comunitária em http://www.mc.gov.br/ 
radio-comunitaria/manual e o texto Rádio Comunitária em http://www.mc.gov.br/radiodifusao/perguntas-frequentes/ 
radio-comunitaria, ambos na página do Ministério das Comunicações. 
TV. É por isso que, a cada duas rádios comunitárias outorgadas, uma sai através da 
chamada “cota parlamentar”. Mas, na mídia comercial, a situação é ainda pior. Todas 
as rádios e TVs comerciais conseguem suas licenças com a intermediação de algum 
político. Portanto, e apesar das conquistas já alcançadas, as regras que regulam 
as telecomunicações no Brasil ainda apresentam muitos problemas e precisam de 
mudanças. Observando a Lei 9612/98, podemos constatar que: 
• A Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) exige que as rádios tra-balhem 
com equipamento homologado. Ou seja, somente os transmissores, 
moduladores, compressores e antenas com a plaquinha de metal com o lo-gotipo 
da ANATEL podem ser usados. E todos devem operar na mesma fre-qüência 
em um mesmo município. Segundo a lei, o transmissor deve ter até 
25 W (potência), antena de até 30 metros e alcance de um quilômetro, com 
outros três quilômetros em volta sem nenhuma interferência de outra rádio. 
O problema é que estes equipamentos, com estas especificações, emitem 
os sinais radioelétricos (“as ondas do rádio”) numa distância de, no mínimo, 
10 quilômetros de raio. Assim, mesmo trabalhando com material apropriado, 
uma rádio, ainda que homologada pela ANATEL, pode ser multada o tempo 
todo ou interferir em outra comunitária a cinco quilômetros de distância; 
• Isso parte de um conceito mal pensado de comunidade. É difícil entender por 
que foi definido que uma comunidade existe no máximo em 4 km de entorno. 
Nas áreas rurais, por exemplo, uma comunidade pode ter mais de 40 km na 
sua volta. Por isso, uma norma mais apropriada para as rádios concederia 
uma licença para operação dentro do município para onde transmitem ou, 
pelo menos, se adequaria à realidade das comunidades onde se inserem; 
• Pela lei, não é permitido inserir propaganda comercial, a não ser sob a forma 
de apoio cultural, de estabelecimentos localizados na área de cobertura da 
rádio comunitária, o que inviabiliza bastante a sustentabilidade destas emis-soras. 
Com financiamento público complementando suas fontes, somado ao 
apoio da economia local de pequena escala e transmitindo para todo o muni-cípio, 
é possível que não apenas se sustentem, mas também produzam renda 
distribuída, mesmo que modesta, para as comunidades onde estão inseridas. 
Tal prática, somada à possibilidade de aproximação e organização destas co-munidades 
em torno da rádio, pode propiciar condições de vida melhores, 
principalmente nos âmbitos econômico, cultural e social; 
• Também “é vedada a formação de redes na exploração do Serviço de Radio-difusão 
Comunitária, excetuadas as situações de guerra, calamidade pública 
e epidemias, bem como as transmissões obrigatórias dos Poderes Executivo, 
Judiciário e Legislativo, definidas em leis.” Desse modo, a lei isola as emisso-ras 
comunitárias, impossibilitando que as pequenas comunidades limitadas a 
um quilômetro de raio possam se articular e se comunicar como uma comu- 
Ivan Vieira
30 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 31 
nidade real, em torno de suas necessidades, interesses e reivindicações co-muns. 
Uma inexplicável discriminação às comunitárias, já que as emissoras 
comerciais têm total liberdade para trabalhar em rede; 
• Porém, a lei apresenta uma parte interessante na definição dos parâmetros 
que caracterizam uma rádio comunitária. Em primeiro lugar, qualquer morador 
da comunidade pode se associar na entidade que mantém a rádio. A rádio 
comunitária, na base da lei, não tem e nem pode ter dono. É obrigatória a 
veiculação de uma programação voltada para a cultura regional, apoiando 
manifestações culturais, artísticas e folclóricas, tradições e hábitos sociais, 
serviços e atividades educacionais. Além do mais, deve funcionar com uma 
diretoria eleita, manter assembléias regulares e apoiar-se em um Conselho 
Comunitário, que deve fiscalizar a emissora. No Conselho, devem estar no mí-nimo 
cinco entidades, com pessoa jurídica, que tenham suas sedes na mesma 
comunidade da rádio. Mas, mesmo frente a estes aspectos positivos da lei, há 
problemas. Como já vimos, muitas legalizadas (com outorga) são vítimas do 
coronelismo eletrônico e da apropriação indevida deste tipo de veículo, sem 
que haja nenhuma represália a estas práticas – a lei não é cumprida quando 
deveria ser. Outro problema diz respeito às dificuldades para constituir a pes-soa 
jurídica, conforme manda a lei. Com o CNPJ das associações de comuni-cação 
comunitária, mantém-se uma estrutura legal mínima. Porém, é preciso 
reconhecer que isto, ao mesmo tempo, é um freio para os mais assustados e 
um convite à criminalização das associações. Existindo um titular da pessoa 
jurídica, o Estado tem a quem processar. É o famoso bode expiatório, que fica 
exposto a multas e outras formas de repressão. Além disso, se por um lado a 
base jurídico-legal permite a briga na lei, gerando jurisprudência, a excessiva 
preocupação com a normatização do setor pode paralisá-lo. Ainda mais no 
Brasil, onde o patrimônio público não-estatal costuma ser terra de ninguém. 
5.5 A integração das mídias populares 
Cada rádio comunitária tem de lutar para sobreviver, mas tem uma compensa-ção. 
Quanto menor o município ou mais pobre é a região de onde se transmite, 
maior é a audiência das rádios comunitárias. Mas esta popularidade fica abafada 
pelo conjunto das mídias comerciais. Isto porque, o monopólio das comunica-ções 
conta com vários meios integrados, transmitindo de forma complementar. 
Um cidadão acorda e liga a TV, vai para o trabalho escutando rádio ou lendo o 
jornal, volta para sua casa e liga de novo a televisão. Se ele vai acessar a internet 
e quer se informar, abre primeiro um grande portal, que também é de propriedade 
de um grande grupo econômico de mídia. Este cerco vicioso é uma espécie de 
ditadura que tem de ser combatida. 
Sylvio Ayala 
A inserção das rádios comunitárias precisa ser complementada por outras mí-dias. 
Uma solução barata é que cada emissora tenha sua própria página de internet, 
nem que seja apenas um blog gratuito. E, através de servidores também gratuitos, 
transmita de forma simultânea sua programação por radiofreqüência (através da an-tena) 
e pela rede de computadores (rádio web). Dá para pôr a rádio na Internet com 
50 ouvintes simultâneos e sem nenhum custo. Se tiver bom trânsito no local, con-segue 
se coordenar com as publicações impressas do entorno da rádio, ou mesmo 
participar de uma mídia impressa semanal ou mensal. Uma solução simples para 
difundir a rádio e os pontos de vista do povo, é retomar os jornais murais, as pinturas 
em muros (muralismo), a colagem periódica de cartazes informativos e todas as 
formas de comunicação de baixo custo e fácil acesso. Nenhuma mídia ou tecnologia 
exclui a outra. Assim, um panfleto rodado em mimeógrafo pode ser acompanhado 
de uma cadeia de mensagens de SMS através de celulares pré-pagos. Ou um jornal 
impresso em preto e branco com apenas uma página frente e verso pode ter o com-plemento 
de um portal de informações. 
Com criatividade e perseverança, é possível romper com o cerco informativo da 
grande mídia comercial. Pouco se sabe sobre o próprio bairro ou questões funda-mentais 
do nosso município. Enquanto isso, somos “contaminados” com uma boa
32 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 33 
dose de lixo cultural. As rádios comunitárias são a ponta da lança de uma luta pela 
própria identidade, pelo direito a falar pelas próprias vozes do povo. Nas áreas anexas 
aos estúdios podem ser montadas bibliotecas ou clubes do livro. Os discos em vinil e 
as fitas cassetes podem ser doados para os acervos das emissoras. Videotecas com 
baixíssimo custo podem se tornar o embrião de cineclubes nestes espaços de convi-vência 
e alegria gerados pelas emissoras da comunidade. Mas, para cada boa idéia, 
é preciso pelo menos uma pessoa responsável pela sua execução. Alguém disposto, 
honesto, sincero e livre da influência dos aproveitadores e oportunistas de plantão. 
5.6 A gestão: o maior dos desafios 
Movimento popular implica necessariamente em disputar os direitos, muitas ve-zes 
acima dos limites da lei. Mas é importante formalizar tal prática em uma 
luta organizada no dia-a-dia. Pois, em geral, somos invisíveis para a opinião pública. 
A capacidade de mobilização autônoma é uma necessidade na disputa por uma vi-sibilidade 
que realmente chame a atenção para os problemas da comunidade. Bem 
ou mal, temos mídia própria, porém desorganizada e fragmentada. Construir uma 
base participante, formada por comunicadores e ouvintes em torno de uma rádio 
comunitária, é um bom instrumento para aglutinar pessoas e alavancar a prática de 
um autêntico poder popular. É um exercício conjunto do poder, seja no papel de mero 
ouvinte, seja no envolvimento direto com os processos de produção, planejamento e 
gestão da comunicação. 
A manifestação coletiva implica em negociação coletiva. A luta popular na forma 
orgânica de um movimento de massas (ainda que desorganizado), necessariamente 
tem de ser materializada em uma forma direta de negociar e avançar em conquistas e 
direitos. É preciso criar canais de participação abertos, que estimulem também a fisca-lização 
constante do veículo por parte de toda a comunidade. A intermediação avulsa 
de políticos profissionais é um problema permanente. Estes representantes individuais 
costumam ter mais visibilidade e gravitação do que centenas de emissoras que muitas 
vezes nem se reconhecem como “parceiras”. A construção da identidade coletiva pas-sa 
pela luta por liberdade de antena e uma definição de objetivos a ser alcançados por 
todos os meios de luta popular realmente interessados em transformar a realidade. 
De todos os setores que defendem a democracia na comunicação, o movimento 
de rádios comunitárias tem um dos perfis mais populares. Não poderia ser diferente. 
O rádio, como um todo, é o meio de comunicação mais difundido e com o maior 
número de adeptos, em uma ligação até sentimental. É um poder que emana da mí-dia 
falada, da oralidade. Mas é preciso trabalhar duro, praticar a desobediência civil, 
romper lacres, combater a repressão e seguir no ar. 
Falta muita coisa, embora a caminhada já tenha começado. Organizando e co-nectando 
10% das rádios outorgadas já serão mais de 300 emissoras, formando 
uma enorme rede. E com isso, estará sendo dada uma grande contribuição para 
a luta popular no Brasil. A tarefa é tão urgente quanto o combate ao monopólio e à 
distribuição e manutenção de concessões que reforçam privilégios, orientadas quase 
que exclusivamente para o lucro, priorizando o interesse privado em detrimento do 
público. É preciso lutar por financiamento público e uma nova regulamentação, mais 
adequados à importância da comunicação comunitária no processo de democrati-zação 
da sociedade. 
A comunicação é um forte combustível da ideologia. Quem somos e o que pen-samos 
ser está atravessado pela mídia comercial e monopolista. Assim, refletir sobre 
como é formado este conjunto de idéias e tentar compreender aquilo que pensamos 
sobre nós mesmos é outro grande desafio. A linguagem, aquilo que pensamos, ouvi-mos 
e falamos, carrega os conceitos (e preconceitos). Sem linguagem, não há pos- 
Sylvio Ayala
34 COMUNICAÇÃO: PARA QUE SERVE? COMUNICAÇÃO: PARA QUE SERVE? 35 
sibilidade de nos comunicarmos entre iguais. Com a linguagem implantada dentro de 
nossas mentes, terminamos por pensar com idéias que deveríamos combater. Por 
isso, a busca por linguagens que expressem o poder popular é uma das missões do 
movimento de radiodifusão comunitária organizado em torno da ABRAÇO e um dos 
grandes objetivos desta cartilha15. 
6 COMUNICAÇÃO: 
AFINAL, PARA QUE SERVE ISSO? 
A comunicação e a educação estão intimamente ligadas. A comunicação é a 
forma de expressar o que se quer dizer, com um determinado conhecimento, 
para alguém que quer compreender a mensagem a ser dita. Já a educação, 
por meio de um processo de formação, torna o indivíduo apto a organizar as idéias e, 
a partir daí, comunicar-se de forma eficiente. Nós só vamos nos comunicar bem se 
organizarmos nossas idéias de forma clara e direta, com um aprendizado que nos dê 
conhecimento sobre o que queremos expressar, utilizando uma linguagem adequada. 
No caso específico da radiodifusão comunitária, o papel do rádio e a defesa do 
direito a transmissão por radiofreqüência têm uma importância central para o avanço 
das identidades populares. Este veículo sempre teve o potencial para cumprir este 
papel, sendo por diversas vezes instrumentalizado por governos. E mesmo sob estes 
controles, o que se verificou foi a manifestação da cultura popular, ainda que emara-nhada 
com o chamado populismo. 
São protagonistas da comunicação social aqueles que exercem o direito de 
se comunicar. Partindo da lógica da relação emissor-receptor, observamos que os 
comunicadores comunitários ocupam o papel de encurtar a distância no processo 
comunicacional. Esta capacidade atua em todas as esferas da vida. A rádio e a pro-dução 
integrada de audiovisual de baixo custo potencializam os empreendimentos 
econômicos da região sob cobertura da emissora comunitária. Muitas vezes, uma 
iniciativa de economia dentro da mais plena informalidade, mas com muitos freqüen-tadores 
de uma região metropolitana periférica, ganha legitimação quando anunciada 
em uma rádio comunitária. 
15 Para aprofundar o conceito e as propostas quanto ao sistema público não-estatal de comunicação 
social, bem como os conceitos relacionados discutidos nesta cartilha, ver também a página da Ciranda 
international de l’information independente em http://www.ciranda.net/spip/article1211.html?lang=fr e 
os textos Rádio comunitária, educomunicação e desenvolvimento, de Cicilia Peruzzo (p. 69), Rádios 
comunitárias: exercício da cidadania na estruturação dos movimentos sociais, de Márcia Vidal Nunes 
(p. 95) e Para reinterpretar a comunicação comunitária, de Raquel Paiva (p. 133), todos no livro O 
Retorno da comunidade: (os novos caminhos do social). 
6.1 A comunicação em rádio 
Ivan Vieira 
• Transmissão e recepção instantâneas e simultâneas (quando eu estou fa-lando 
numa rádio alguém pode me escutar na sua casa); 
• A comunicação é de pouca duração (porque a mensagem não pode ser 
guardada como num jornal impresso); 
• É um sistema de custo relativamente baixo, tanto para o emissor quanto para 
o receptor: a instalação de uma emissora de rádio é muito mais barata que 
a de uma emissora de televisão (e um aparelho de rádio também custa bem 
menos que um televisor); 
• A recepção pode ser feita independente das condições ambientais existen-tes 
(se o receptor estiver dirigindo, ou trabalhando, ou lavando roupa, pode 
ouvir a rádio ao mesmo tempo); 
• Possibilita boa interação com os receptores, seja por telefone, torpedos, 
mensagens instantâneas ou correio eletrônico. No caso das rádios comuni-tárias, 
pode ser uma excelente forma de aproximação com a audiência; 
• A comunicação entre o emissor e o receptor acontece apenas por meio do 
som, sem qualquer visualização (a rádio só trabalha com palavras, músicas, 
ruídos, silêncios, sons diversos - não há um sistema de sinais para que o 
receptor veja a mensagem como na TV e demais veículos).
36 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 37 
7 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO DE 
CONTEÚDOS PARA RÁDIO 
Para que a rádio tenha êxito junto à comunidade e prospere, é preciso um míni-mo 
de planejamento para o funcionamento da emissora, de modo a criar uma 
identidade que ajudará a criar um vínculo com os ouvintes. Isso passa por 
pensar a infra-estrutura, a inserção na comunidade, o universo cultural do local, a 
auto-sustentação, a política de comunicação e a instrumentalização técnica das equi-pes 
envolvidas. Boa parte destes elementos já foi discutida ao longo desta cartilha. 
Resta aprofundar um pouco a discussão sobre a instrumentalização técnica para as 
equipes, alguns elementos que ainda podem ajudar quanto ao planejamento da rádio 
e a produção de conteúdos/mensagens. 
A rádio emite PROGRAMAS, espaços que, em geral, têm um título (nome), ho-rário 
de emissão e duração fixas, dedicados a temas concretos. Normalmente, a 
emissora comercial possui um departamento específico que cuida de toda a progra-mação. 
Isso inclui todas as inserções comerciais, jornalísticas, musicais, gravadas 
ou ao vivo. Este departamento cuida do aproveitamento do espaço e o tempo utiliza-do 
para divulgação das mensagens na rádio. Mas, a programação das comunitárias 
segue uma lógica diferente em vários aspectos. O caráter associativo, de controle 
aberto e coletivo, propicia maior liberdade, independência e autonomia na criação do 
programa. Mas infelizmente tal possibilidade pode ser mal explorada, especialmente 
quando se comete o erro de reproduzir a lógica das emissoras comerciais. 
Para romper com a lógica convencional, não podemos esquecer, em primeiro 
lugar, que a comunitária se trata de um serviço de utilidade pública e não um negócio, 
como no caso da comercial. Isso implica em compromisso tanto com a democracia 
interna na associação como no posicionamento voltado para o interesse da comuni-dade 
e da sua organização. Também significa uma programação de resgate à denún-cia, 
o microfone aberto todo o tempo, o estímulo a crítica e a paixão pela polêmica. 
Não significa que não podemos utilizar os mesmos enfoques e recursos profissionais 
a que estamos habituados a ouvir nas comerciais. Mas sempre levando em conta os 
princípios que devem diferenciar as comunitárias, principalmente no que diz respeito 
ao conteúdo. Também não significa que os programas tenham que ter um caráter 
estritamente sociológico, político ou econômico, deixando de lado outras manifesta-ções 
culturais. É fundamental haver espaço para o lazer e a fantasia para trazer maior 
atratividade às comunitárias. Isso faz parte do universo de interesses das pessoas, 
na busca de felicidade. As possíveis transformações da sociedade, embora seja uma 
coisa muito séria, vai muito além da aparência carrancuda comum a muitos partidos 
e movimentos de esquerda que têm este objetivo. Com criatividade, alegria, boa von-tade 
e honestidade, pode-se construir uma grande mobilização em torno da rádio. 
É preciso ficar muito atento a algumas práticas suspeitas comuns nas rádios 
comerciais, que são drasticamente nocivas à proposta das rádios comunitárias. 
Emissoras “chapa branca” (bajuladoras de governos e autoridades em troca de pri-vilégios) 
ou “jabazeiras” (jabá são as matérias, opiniões e comentários pagos) são 
um desserviço para a luta pela democracia na comunicação. É importante lembrar 
que só tem medo da verdade quem tem o rabo preso ou está sujo na praça. A comu-nicação 
popular aqui proposta não pode estar a serviço de nenhum segmento social 
ou corrente de pensamento. Está a serviço do povo, com todos os seus defeitos e 
virtudes, e deve aprender a lidar com isso. Não se trata apenas de um movimento 
de mídia, e menos ainda de mídia de alguém especificamente. Talvez por isso, ca-racteriza- 
se por ter uma das bases mais perseguidas e criminalizadas da democracia 
brasileira. É o exercício diário da desobediência civil, buscando aliados nos setores 
mais humildes da sociedade. Buscando transformar o jornalismo e a cultura popular 
em ferramentas na luta pelo direito a uma comunicação social para todos. 
Ao planejar a rádio comunitária, lembre-se que a censura interna tem de ser supe-rada 
pelo debate e a polêmica para o estabelecimento da política editorial, dos objetivos 
e da formatação dos programas e do próprio veículo. Assim como da sustentação fi-nanceira, 
que deve buscar a autonomia perante quaisquer poderes. Sejam locais ou não, 
privados ou públicos, de caráter pessoal ou mesmo grupos que tentem usar a estrutura 
em benefício próprio ou para fins eleitoreiros, como no caso de algumas igrejas e parti- 
Rafael Costa
38 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 39 
dos políticos. Abra espaço para a publicidade (apoio cultural) dos pequenos negócios de 
sua comunidade, como o sapateiro, a doceira, a lanchonete, o açougue, o pipoqueiro, o 
vendedor de rua, cobrando pouco, é claro. Lembre-se que o objetivo é sustentar e me-lhorar 
a rádio e não “parasitar” a vizinhança. É preciso lutar por recursos em publicidade 
dos órgãos públicos do estado, município ou federal, em especial as de utilidade pública, 
como campanhas de vacinação, por exemplo. As pessoas da comunidade ou sócios 
da associação também podem pagar um valor simbólico por mês, como R$ 1,00, por 
exemplo. Sindicatos e outras associações que têm um pouco mais de recurso podem 
pagar um pouco mais. Promova campanhas e eventos, como festas e bingos. E não se 
esqueça de prestar contas do que recebe e gasta de maneira mais transparente possível, 
pois isso vai trazer credibilidade à rádio. Uma boa maneira de fazer isso é apresentar 
regularmente o extrato de alguma conta poupança, que pode ser aberta no nome da 
associação para esse fim. Este extrato pode ser fixado na rádio para quem quiser ver. 
Acima de tudo, a busca pela verdade liberta. É preciso cuidado para não reproduzir 
relações de dependência e subordinação. Assim como é preciso atenção para não repro-duzir 
o modelo comercial e as artimanhas embutidas na moral destes meios. Não se deve 
cair na tentação de apenas “falar o que o povo quer ouvir”. É uma luta para que as vozes 
do povo organizado em suas comunidades possam ser ouvidas e compreendidas16. 
7.1 Funções em uma rádio 
Embora as rádio comunitária, de um modo geral, sejam geridas com muito sacrifício e 
dedicação de voluntários, nem tudo precisa ser feito sozinho, de modo isolado. Exis-tem 
funções que podem ser divididas na realização de um programa. Há um aspecto mui-to 
positivo nisso, pois permite a integração e aproximação de participantes, estimulando 
o trabalho coletivo. Além disso, pode ser uma forma de facilitar a vida dos envolvidos e 
qualificar o programa, pois o trabalho fica dividido, tem mais cabeças para pensar e expe-riências 
para compartilhar. As funções mais comuns no exercício da radiodifusão são: 
• Produtor: é aquele que prepara o programa para ser apresentado. Faz a pes-quisa 
e monta o texto, seleciona as músicas, marca as entrevistas e confirma 
tudo para ver se na hora vai dar tudo certo; 
• Apresentador ou Locutor: é o que fala no microfone, lê o texto, improvisa, e 
faz comentários; 
• Repórter: é o que sai para coletar as informações, investigando através de 
entrevistas e pesquisa; 
• Técnico de som ou operador: é o responsável pela operação dos equipamen-tos 
no estúdio, descritos anteriormente. 
16 Para saber mais, ver os livros Comunicação nos movimentos populares: a participação na cons-trução 
da cidadania, de Cicilia Peruzzo (p. 142-158) e No ar... uma rádio comunitária de Denise Maria 
Cogo (p. 135-148). 
Acontece que muitas vezes uma só pessoa faz tudo isso nas rádios comunitárias 
devido à escassez de voluntários para ajudar. O mais importante é que cada etapa da 
construção do programa seja planejada, para que a qualidade seja a melhor possível. 
É importante pelo menos fazer a pesquisa e o roteiro, conforme vamos aprender 
mais adiante. Caso for possível e viável financeiramente, seria muito interessante a 
rádio contratar profissionais que pudessem dedicar-se às tarefas mais técnicas. Isso 
propiciaria mais tempo e disposição para a comunidade protagonizar a comunicação, 
através da criação e participação nos programas. Mas duas restrições devem ser ob-servadas 
neste sentido. Estes profissionais devem ser preferencialmente contratados 
entre os moradores da comunidade, privilegiando a geração de renda junto à área de 
transmissão da rádio e estimulando a busca por formação adequada. Além disso, 
esta proximidade é muito importante para garantir a familiarização com os assuntos 
da comunidade. E este procedimento também prestigiaria as categorias da área de 
comunicação, abrindo caminhos para um novo nicho de mercado para este tipo de 
profissional, quase sempre recrutado pela grande indústria da comunicação. Uma 
segunda restrição diz respeito ao papel destes profissionais na rádio comunitária, 
que deve ser estritamente técnico, como um funcionário da emissora. É preciso ficar 
sempre atento ao fato de que a gestão da rádio deve ser exercida coletivamente, de 
modo a evitar um encastelamento tecnocrático por parte destes. Como morador da 
região, este profissional pode participar das decisões, mas jamais pode reivindicar 
privilégios em função do seu posto. 
Ivan Vieira 
Exercício 1 
Escolha duas funções dentre as apresentadas, às quais você gostaria de realizar na 
sua rádio. Exponha sua resposta para a turma e justifique o porquê da escolha.
40 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 41 
7.2 Programação e programas 
A programação em si, é o conjunto ordenado de tudo o que é transmitido pela rádio, 
ou seja, todos os programas veiculados. Não existe uma regra fixa sobre os tipos 
de programas para rádio. Os diversos tipos podem confundir-se, dependendo da cria-tividade 
empenhada na produção e até de ponto de vista. Mas, para fins didáticos, ci-tamos 
seis tipos mais comuns, conforme o que é veiculado nas rádios comunitárias: 
a) Noticiários 
São os programas de divulgação de notícias, mais vinculados à prática padrão 
do jornalismo. Na rádio comunitária, é importante dar destaque às notícias da comu-nidade, 
do município e da região. 
b) Formativos/educativos 
Programas educativos devem ter uma preocupação com a cultura e a educação. 
O objetivo é aumentar o conhecimento do ouvinte sobre o tema apresentado. Os pro-gramas 
musicais,por exemplo, podem informar sobre tipos de música, resgatando, 
por exemplo, a cultura nativa. Outro exemplo é o dos programas femininos, dirigidos 
a donas-de-casa, que podem falar sobre problemas de higiene na alimentação, saú-de, 
cuidados com crianças. O fundamental é ter um bom profissional da área para 
falar: médicos, psicólogos, professores, nutricionistas e outros. 
c) Lazer/diversão 
Os programas só de música são o exemplo mais comum deste tipo de pro-grama. 
Mas é possível, por exemplo, produzir programas de humor, com um 
locutor divertido e/ou um bom contador de piadas. Existem as radionovelas, por 
exemplo, que fizeram muito sucesso no passado, mas hoje em dia são muito 
raras. Esta experiência já foi resgatada em algumas rádios comunitárias. Pode-se 
também realizar programas com jogos, perguntas e testes de conhecimento, dis-tribuindo 
brindes que podem ser doados por estabelecimentos da região. Neste 
tipo de programa, o limite é a criatividade de quem o faz. 
d) Esportivos 
Embora possam ser identificados como programas de lazer/diversão, pode-se 
enquadrá-los em uma categoria específica, tamanha é a audiência deste tipo 
de programa. Só para se ter uma idéia, nas rádios AM comerciais, eles são a 
parte mais popular da programação. O futebol não é o único esporte sobre as 
quais as emissoras falam, mas é o principal. Na rádio comunitária, deve-se dar 
destaque ao esporte local, cobrindo, por exemplo, os times de futebol popu-larmente 
conhecidos como “da várzea” ou ainda competições estudantis em 
escolas da região. 
e) Cultura local/comunitários 
São programas voltados especificamente à constante prestação de serviços 
à comunidade, buscando a intimidade entre a rádio e os ouvintes. Os programas 
de cultura local são destinados a divulgar os espetáculos, inaugurações, feiras, 
rodeios, encontros, cursos, peças de teatro, filmes, entre outras atrações cul-turais 
da comunidade. Promovem as agendas com a programação cultural da 
região de abrangência, procurando sempre estimular e popularizar estes eventos 
entre os ouvintes. Divulgar estas atividades, em especial as gratuitas, é uma 
ótima maneira para promover o acesso e o compartilhamento destas culturas 
para a população. Para este tipo de programa, pode ser bem interessante o uso 
do já citado enlace (“link”), possibilitando a transmissão diretamente do local do 
evento. Já os chamados programas comunitários servem como um canal para 
atender aos anseios da comunidade, buscando soluções de problemas especí-ficos 
da região. Aqui entram também ofertas de trabalho, achados e perdidos, 
bem como reclames de ouvintes. Este tipo de programa é muito importante para 
a rádio comunitária. Suas informações podem ser reutilizadas em forma de notas 
que podem entrar em qualquer outro programa. Mas é prudente não confundir 
com os programas de caráter popularesco das rádios comerciais, onde comuni-cadores 
carismáticos praticam assistencialismo de resultados, explorando casos 
policiais e escândalos de modo sensacionalista e dramático. 
Sylvio Ayala
42 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 43 
f) Místicos/religiosos 
São programas que divulgam crenças e/ou cultos, expressando espiritualida-des 
vinculadas às mais diversas religiões existentes. Podem tronar-se problemá-ticos 
para a rádio, na medida em que geram uma segmentação que não faz parte 
do que é comum a todos, do comunitário. Respeitando-se o direito às diferentes 
crenças, onde cada uma vê deus de uma forma, não seria correto dar espaço a 
uma religião sem dar às outras. Para atender esta demanda, corre-se o risco de 
“entupir” a programação com programas religiosos de pastores, padres, mães de 
santo, gurus e bruxos. Por isso, sugere-se, se for o caso, reservar um horário ou 
espaço específico para este tipo de programa, que será dividido entre as diversas 
correntes de forma igual. De modo que, a cada programa, seja apresentada uma 
visão diferente do assunto sem a necessidade de censurar ninguém. 
Exercício 2 
A partir de suas experiências, gosto pessoal e conhecimento do assunto, crie um 
programa de rádio. Você pode se inspirar nos tipos de programas citados acima. 
Crie um título (nome), sugestão de horários de emissão e duração fixos e uma 
rápida apresentação do seu programa, tentando imaginar como ele vai ser produzi-do. 
Não se preocupe com todos os detalhes. Neste momento, o mais importante é 
criar uma idéia do que você gostaria de ouvir na sua rádio comunitária, levando em 
conta tudo o que já foi estudado. Exponha para a turma e discuta a sua idéia. 
7.3 Gêneros 
Esta classificação dos programas não é fixa porque um programa de diversão pode 
ser formativo e vice-versa. O esportivo, por exemplo, pode conter a narração ao 
vivo dos jogos de futebol, debates e entrevistas antes e depois dos jogos, repor-tagens 
jornalísticas e boletins informativos. Definir um tipo é apenas um artifício 
para dar coesão e identidade ao programa. Por isso, vamos pensar em uma outra 
divisão, que chamaremos gêneros. Esta divisão pode se aplicar a todos os tipos de 
programas, definindo o estilo, o modo como o programa vai ser conduzido. Diferente 
do tipo, que define a identidade do programa, o gênero pode variar em um mesmo 
programa, criando uma identidade mais eclética. Um programa sobre cultura local 
pode adotar entrevistas e debates em um dia e apresentar músicas de artistas locais 
em outro, por exemplo. Ou ainda misturar todos estes gêneros em um só programa. 
Em um noticiário, por exemplo, temos os chamados gêneros jornalísticos, que são 
as diferentes formas como as notícias podem ser apresentadas. Vamos sugerir basi-camente 
sete gêneros mais comuns: 
a) Mesa redonda: debate e painel 
Com este tipo de programa se aborda um tema de interesse para o público atra-vés 
de um diálogo entre as personalidades envolvidas ou conhecedoras de um tema. 
Elas são convidadas para que apresentem suas argumentações a favor ou contra. No 
caso do debate, são pessoas com pontos de vista diferentes e o objetivo é o con-fronto 
de opiniões. Já no painel, os convidados expõem opiniões que se complemen-tam, 
proporcionando um quadro mais completo sobre o assunto. O programa deve, 
de preferência, ser conduzido por um apresentador/moderador, que deve procurar 
manter-se imparcial e à margem da discussão. Este moderador é importante para 
amenizar conflitos e dividir os tempos de fala, impedindo que algum dos convidados 
“tome conta” do assunto ou até mesmo que o programa vire uma bagunça com todo 
mundo falando ao mesmo tempo. Ele tem que regular as intervenções e fazer que 
sejam proporcionais, concedendo espaço para todas as perspectivas. É importante 
que, de tempos em tempos, o moderador reapresente o tema e os convidados, para 
situar os ouvintes que estão sintonizando a rádio ao longo do programa; 
b) Entrevista 
É um modelo jornalístico que acontece através do diálogo entre o entrevistador 
e o entrevistado, que é um protagonista de algo. Nas rádios comunitárias, é uma 
ótima forma para a manifestação dos moradores da comunidade, permitindo que se 
conheçam melhor. A entrevista abre um amplo espaço de participação, para que as 
pessoas possam falar da sua realidade, operando diretamente no sentido da identida-de 
local. Elas podem despertar o espírito de solidariedade enquanto dão voz a quem 
normalmente não tem acesso aos grandes meios. Nem por isso, entretanto, deve-se 
chegar ao extremo de abrir o microfone para qualquer um dizer qualquer coisa, pois 
não é esta a função de uma rádio comunitária. É preciso ter claro que a entrevista 
deve servir para comunicar alguma coisa, informar os ouvintes, os leitores ou os te-lespectadores 
sobre determinado fato que, de preferência, interesse à comunidade. 
Para planejar melhor a entrevista, podemos classificá-la de acordo com os objetivos: 
• esclarecimento – aquelas que servem para se conhecer melhor o assunto 
que se está tratando ou para esclarecer um assunto confuso do conhecimen-to 
do entrevistado; 
• análise – aquelas que servem para se entender melhor os problemas ou para 
se descobrir as causas dos mesmos. Também servem para aprofundar algu-mas 
respostas superficiais; 
• ação – servem para passar da teoria à prática, para que os entrevistados ex-pressem 
as ações que vão desenvolver em relação aos problemas analisados; 
• personalidade – quando o interesse é a própria pessoa que estamos entre-vistando, 
o importante é conhecer a vida dessa pessoa.
44 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 45 
Como preparar a entrevista: 
 O entrevistador deve ter bem claro antes do início da entrevista o tema que 
será abordado; 
 Selecionar o entrevistado mais adequado para falar sobre o tema; 
 Se o entrevistador não conhece o tema, deve antes consultar e ler o máximo 
possível de textos sobre o assunto. Quanto mais o entrevistador estiver infor-mado, 
mais ele poderá tirar do entrevistado; 
 O entrevistador deve anotar os pontos principais para, depois, questionar o 
entrevistado; 
 Pode-se conversar com o entrevistado sobre o assunto, para que ele seja 
bem entendido em todos os seus detalhes, mas não deve ensaiar, porque 
mata a espontaneidade do diálogo. Não se deve dizer ao entrevistado quais 
as perguntas que vão ser feitas. 
A estrutura da entrevista: 
 No início tem que apresentar o convidado e dizer por que ele foi convidado 
(com alguns dados que justifiquem a presença); 
 É importante que o entrevistador ordene as perguntas com uma certa lógica. 
É bom preparar um questionário, mas o entrevistador deve ter a capacidade 
de modificar as perguntas no transcorrer da entrevista e descobrir em cada 
resposta algo que encaminhe à pergunta seguinte; 
 Como na mesa-redonda, lembre-se de reapresentar o tema e o entrevistado 
durante a entrevista; 
 No final da entrevista, é importante que se faça um resumo dos principais 
pontos abordados; 
 Ao encerrar, agradecer ao convidado pela presença. 
Como fazer uma entrevista? 
 O entrevistador ocupa o lugar do público e deve, portanto, falar com palavras 
simples e populares, que todos os ouvintes entendam; 
 O entrevistador deve tomar cuidado para não demonstrar que sabe mais que 
o entrevistado, porque pode constrangê-lo e deixá-lo nervoso. Lembre-se que 
o entrevistado é quem está ali para falar do assunto, senão não precisava a 
entrevista; 
 Na medida do possível, não dar opinião ao formular as perguntas nem acres-centar 
às respostas comentários pessoais, pelas mesmas razões do item 
anterior; 
 O entrevistador deve criar um clima comunicativo, começando pelas pergun-tas 
mais simples e menos complexas e incômodas, para que o entrevistado 
vá relaxando aos poucos. Lembre-se que muitas pessoas costumam ficar 
muito constrangidas diante do microfone; 
 Procurar fazer perguntas curtas, que permitam respostas completas; 
 Se a resposta do entrevistado começar a ficar muito longa, o entrevistador 
deve intervir com outra pergunta, para dar uma quebrada e a entrevista não 
ficar muito cansativa; 
 O entrevistador tem que saber ouvir o entrevistado - isto é muito importante 
porque vai permitir novas perguntas, explorando os novos caminhos que po-dem 
resultar da conversação; 
 Não tem que tomar para si o microfone, de modo algum; 
 Tem que ter um tom vivo e animado, de interesse na conversa, estimulando o 
entrevistado a falar; 
 Não manipular a entrevista. Cada pergunta deve ser uma decorrência do as-sunto 
que está sendo tratado, para que o ouvinte fique bem esclarecido acer-ca 
dele. O entrevistador não deve fazer perguntas de tal maneira que não deixe 
alternativa ao entrevistado senão dar razão a ele; 
 Se a entrevista for feita por telefone do estúdio, evite falar mais alto. Evite 
fazer os tiques telefônicos (sim, hum-hum, ok...). Se for externa, num local 
fora do estúdio, é importante testar antes o gravador, as pilhas, ter fita limpa, 
buscar um lugar tranqüilo e mover o gravador colocando-o próximo à boca do 
entrevistado e do próprio entrevistador; 
 É importante salientar que o entrevistador deve descobrir o seu próprio método 
de fazer a entrevista, aquele que melhor se encaixa com a sua personalidade. 
Sylvio Ayala
46 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 47 
c) Comentário 
É um gênero radiofônico mais criativo e serve para expressar a postura ideológi-ca 
da emissora ou do seu autor. O comentário tem que ajudar a uma melhor compre-ensão 
da atualidade e dar aos ouvintes os elementos necessários para interpretá-la. 
Preparação: 
 Seleciona-se o tema e avalia-se apenas um ponto de referência para desen-volvê- 
lo, porque, do contrário, pode-se criar confusão com a ampliação do 
assunto. Esta seleção pode ser feita pelo próprio comentarista ou pela equipe 
de produção, caso exista uma. Os temas da atualidade devem ser analisados, 
com suas maiores repercussões, e selecionados para comentar, determinan-do 
as linhas do comentário; 
 Pesquisa-se o tema em vários locais. É necessário que se esteja atualizado 
com informações gerais da imprensa, de livros, revistas, Internet, etc; 
 Então, é feito um esquema do que será dito, seguindo a seguinte estrutura: 
REDAÇÃO: 
 Linguagem clara e popular, o mais correta possível; 
 Utilizar o humor, a surpresa, ditados populares, usar comparações com fatos 
da realidade dos ouvintes; 
 Cuidar para não fazer um texto sofisticado. 
LOCUÇÃO: 
 O comentário tem que ser lido pelo autor do texto ou falado de improviso, mas 
com domínio do assunto. É a pessoa que pensa sobre o tema, que entende o 
significado do que quer dizer e se identifica com o assunto. Ele transmite uma 
opinião formada por conceitos, idéias e sentimentos; 
 O tom usado é de interpretação, e não de uma notícia; 
 Não tem que ser como uma aula, onde o professor fica acima do aluno. O 
locutor deve estar no mesmo nível do ouvinte, conversar com ele. O ritmo tem 
que ser pausado e explicativo; 
 Ao expressar o pensamento, deve-se ter cuidado para não ser demagógico. 
Para evitar isso, é importante ter controle dos termos e não apoiar os argu-mentos 
em autoridade moral de pessoas ou crenças. Não se deve ter medo 
de questionar. Deve-se tomar cuidado para não manipular a informação em 
favor próprio. 
Rafael Costa 
d) Musical 
É um gênero que pode adaptar-se a qualquer tipo de programa. Aliás, ele é funda-mental 
para atrair e preservar os ouvintes. Mas é muito importante zelar pela qualidade 
do que é tocado na rádio. Lembre-se que não é uma rádio comercial, então não dá 
para se limitar a tocar só as músicas da moda. É preciso pesquisar, conhecer músicas 
novas e antigas para sempre oferecer ao ouvinte uma cultura diferente da grande mídia. 
Também inclui a música dos moradores da comunidade. Prestigie e divulgue a arte lo-cal, 
mas também estimule a qualidade do que é produzido. Discuta com a comunidade 
e sempre procure selecionar o que vai ser tocado a partir de critérios adequados para 
uma rádio comunitária, levando em conta o seu papel social. Tocar qualquer coisa só 
porque é a música de um amigo não deixa de ser uma forma de jabá. 
e) Notícia 
A compreensão sobre o que é uma notícia muda de acordo com quem a está 
gerando. E isso de acordo com alguns critérios de proximidade, atualidade, conse-qüências, 
impacto, relevância e universalidade. Segundo o Dicionário Aurélio, notí-cia 
é “informação, exposição curta de um assunto”. Em termos mais jornalísticos, 
conforme o Dicionário de Comunicação, é um “relato de fatos ou acontecimentos 
atuais, de interesse e importância para a comunidade, e capaz de ser compreen-dido 
pelo público”. Assim, o que é notícia para a Rede Globo, por exemplo, nem
48 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 49 
sempre é interessante para o entendimento de uma rádio comunitária. E o contrário 
também é verdadeiro. 
Ao pensarmos a informação, temos que construí-la de uma forma clara para que seja 
bem compreendida pelo nosso público. Destacamos a seguir alguns pontos a se observar. 
LIDE: É um termo criado a partir da palavra inglesa “lead”, que significa “guia” ou 
“o que vem à frente”. De modo bem simplificado, é uma base inicial para construir 
uma notícia. Um alicerce que fornece ao ouvinte as informações básicas sobre o 
tema abordado, procurando prender a sua atenção. Embora um pouco contestado 
pelas modernas teorias de jornalismo, ainda oferece uma solução bastante didática 
e eficiente para a construção de notícias, agrupando as principais informações de 
um acontecimento. Assim, a idéia do LIDE sugere que, para melhor compreensão da 
notícia, é importante responder pelo menos às seguintes perguntas: 
O QUE aconteceu? Descrever com precisão o fato; 
Com QUEM aconteceu? Quem organiza, quem realizou, suas características; 
QUANDO aconteceu? A data, hora ou turno em que aconteceu o fato – falar do antes 
e do depois; 
ONDE aconteceu? Falar do lugar onde o fato aconteceu, endereço ou localidade; 
COMO aconteceu? Falar do jeito como aconteceu o fato noticiado; 
POR QUE aconteceu? Falar das causas que provocaram o fato e, se possível, das 
conseqüências. 
Uma dica para ajudar a decidir se a informação que você tem pode ou não virar 
notícia, é verificar, por exemplo, se ela encaixa em algum dos seguintes tópicos: 
 Mais importante, assuntos relevantes para a comunidade; 
 O mais caro ou barato, o que aumentou ou baixou de preço; 
 Tragédias e problemas que assolam a comunidade; 
 Fatos recentes, que acabaram de acontecer; 
 Coisas incomuns, curiosidades ou causos; 
 O que vai acontecer, novidades e serviços disponíveis; 
 Os últimos ou mais à margem, projetos solidários que merecem ajuda; 
 Os primeiros, maiores, que destacam-se por mérito e precisam de apoio. 
Numa rádio comunitária, as notícias devem ser dadas conforme sua importân-cia, 
nessa ordem: 
Comunidade; 
Município/Região; 
Estado; 
País; 
América Latina; 
Mundo. 
A estrutura da notícia: 
 Priorizar os dados mais importantes para a informação a ser dada; 
 Na medida do possível, tem que ter pelo menos os principais dados conforme 
proposta do LIDE; 
 Caso necessário e possível, um corpo formado por parágrafos onde acres-centamos 
dados novos e recordamos alguns dos mais importantes; 
 Um fechamento com os dados para que o ouvinte recorde o fato e/ou fique 
com a perspectiva das conseqüências; 
 É possível ainda adicionar algum comentário ou entrevista que possa dar 
mais vibração, se for o caso, mesclando recursos de outros gêneros. 
A linguagem da notícia: 
 É dupla, porque além da gramática em si, tem a linguagem do sentido que se dá 
a ela, que interfere na forma como o ouvinte vai recebê-la; 
 Tem que ser de uso corrente e compreensível para todos que a ouvem (se for 
usada uma palavra que seja difícil, tem que explicar o que significa); 
 Especialmente para o rádio, usar palavras curtas, frases curtas e com estru-tura 
lógica. Tem que usar sinônimos, evitando ao máximo repetir palavras. 
1. 
2. 
3. 
4. 
5. 
6. 
Ivan Vieira
50 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 51 
A duração das notícias 
 Existe um padrão internacional, que sugere tempos, de modo a prender a 
atenção do ouvinte. Mas não é uma regra geral, apenas uma sugestão visan-do 
tornar o noticiário mais atraente; 
 Sugere-se entre 15 segundos e 30 segundos para os flashes informativos; 
 Sugere-se entre 30 segundos e 1 minuto e 30 segundos para as notícias que 
só têm textos; 
 No máximo 2 minutos para as reportagens, sempre cuidando para não tornar 
o programa cansativo; 
 Em média, 12 linhas de uma lauda compõem um minuto. Uma lauda é uma 
folhinha com 12 linhas de 65 ou 72 caracteres (toques datilográficos), que 
contém várias informações e critérios para orientar o locutor. 
Há diferentes formas de narrar as notícias. Algumas formas adotadas são: 
 Notícias que só têm texto: são as notícias que o locutor lê, de preferência 
têm que ser curtas; 
 Notícias com texto e sonora: são notícias que têm texto com trecho(s) de 
entrevista(s) ou mesmo entrevista(s) completa(s), ou ainda enquetes, para ilus-trar 
a informação. Servem para dar mais credibilidade às informações, romper 
com a monotonia, ampliar o tema e aumentar a participação popular; 
 Boletim: notícia feita por um correspondente, um repórter que narra os fa-tos 
noticiosos produzidos no local onde eles estão acontecendo. Este tipo 
de notícia pode ter só texto ou texto e sonora. Podem ter uma abertura feita 
no estúdio pelo apresentador do programa. Na maioria das vezes, estas 
notícias são transmitidas ao vivo e, portanto, é necessário saber improvisar 
e fazer um roteiro mínimo prévio com destaque para os itens mais impor-tantes 
do acontecimento. 
É necessário também que se pense alguns CRITÉRIOS PARA A MONTAGEM do 
noticiário. Os critérios podem variar entre: 
 geográfico - local, regional, nacional e internacional; 
 por assuntos - política, economia, social, cultura; 
 por atualidade - a notícia mais nova é a primeira; 
 pode-se fazer uma mistura entre esses critérios. Mas o importante mesmo é 
pensar a organização do noticiário; 
 as notícias de maior importância têm que estar entre as manchetes, que são 
lidas com destaque. As manchetes vão no início do programa e dão uma idéia 
pro ouvinte do que o programa vai falar. Se quisermos, podemos fazer um 
resumo do que falamos no fim do programa. As manchetes e resumos têm 
que ser com frases curtas e completas, mas não telegráficas. 
f) Reportagem e rádio-documentário 
O mais simples é pensar a reportagem como uma notícia aprofundada. O rádio-documentário 
segue a mesma linha, e não é muito precisa a diferença entre estes 
dois gêneros. Ambos buscam ir além da notícia comum. A idéia é fugir do superficial, 
abordar os detalhes do fato, do assunto, que não podem ser esclarecidos em poucos 
segundos ou linhas. A boa reportagem é fruto de um esforço de contatar as fontes, 
colher o maior número de informações possíveis e verificar a veracidade delas. Por 
isso, demora mais tempo para ser produzido. Em alguns casos, pode levar meses 
até ser concluído. O livro Rádio: o veículo, a história e a técnica, de Luiz Artur Ferra-reto, 
sugere que o rádio-documentário “baseia-se em uma pesquisa de dados e de 
arquivos sonoros, reconstituindo ou analisando um fato importante”. Inclui recursos 
de sonoplastia, montagens e elaboração de um roteiro prévio para conduzir melhor 
seu andamento. Em síntese, tratam-se de grandes matérias, com inserção de diver-sas 
entrevistas gravadas e uma série de informações sobre determinado assunto. 
O importante é o repórter trazer diversos aspectos da questão abordada, ponto e 
contraponto, de modo a ampliar a reflexão do ouvinte. 
g) Revista 
Quando se fala em revista logo se pensa em revistas de papel. Certo? Sim e não. 
No rádio também existe revista. Rádio revista é mais um tipo de programa que pode 
ser produzido no rádio. Muitos dos programas que se escuta no rádio são do tipo 
revista porque apresentam entrevistas, informações e diversão. Como numa revista 
de papel, mas sem as fotos. Uma boa revista de rádio é um programa muito ágil e 
gostoso de escutar porque sabe misturar informação e diversão na medida certa. 
A rádio revista pode ter um tema só, tipo revista esportiva, ou ser uma revista de 
atualidades e passar notícias gerais, sempre passando informações práticas para a 
vida das pessoas. Podem ter a duração de 15, 30, 45 minutos, até uma ou duas ho-ras, 
dependendo da programação, da disponibilidade dos locutores/apresentadores, 
da idéia do programa. As revistas podem ser diárias ou semanais. 
É um programa com conteúdos variados, ligados por um apresentador, que vai 
marcando o estilo. Estes conteúdos podem ser considerados como micro-espaços 
do programa, em alguns casos fixos. A revista utiliza os diferentes gêneros jornalís-ticos: 
a entrevista, a conversação, o debate, comentário etc, todos falando de temas 
da atualidade, além de gêneros de entretenimento, como uma conversa de análise, a 
radionovela, apresentações musicais e por aí afora. 
A linguagem é de fácil compreensão. Para se ter uma boa audiência em temas 
muito complexos, o apresentador pode criar formas de se colocar mais próximo do 
público. Normalmente a revista é feita ao vivo e o roteiro não está fechado. Há possi-bilidade 
da entrada de um repórter a qualquer momento, por exemplo.
52 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 53 
IMPORTANTE! Uma rádio comunitária não precisa, nem deve fazer tudo como numa 
rádio grande, comercial. A comunidade pode falar na sua língua e inventar coisas 
novas, diferentes e criativas. O rádio é um meio de comunicação muito rico e, se for 
encarado com prazer e alegria, é um brinquedo com diversas maneiras de se jogar. 
7.4 Outros recursos radiofônicos 
O rádio é o veículo de mais baixo custo para ser instalado. Conseguir colocar a 
emissora no ar é o primeiro passo, mas os programas devem ter qualidade. Para 
isso, além do cuidado com o conteúdo e com as informações veiculadas, o rádio 
oferece diversos recursos sonoros que podem ser usados para enriquecer a produção. 
Um programa que é totalmente falado, todo o tempo, é cansativo para o comunicador 
e também para quem está ouvindo. Mesmo que a emissora não tenha muito dinheiro, 
com criatividade há como inventar maneiras de construir uma identidade para cada 
programa: dá para colocar músicas, vinhetas e outros elementos que o veículo possi-bilita, 
que deixam o programa mais interessante e prendem a atenção. Mas essas alter-nativas 
não devem ser usadas em excesso, ou corre-se o risco de que se torne chato. 
Além disso, a tecnologia permite que os conteúdos sejam aperfeiçoados e que 
outras pessoas participem do programa, mesmo que não possam estar presentes no 
estúdio no momento da gravação ou veiculação. 
VINHETA DE APRESENTAÇÃO: é a abertura do programa, com locução e mú-sica. 
Ela deve ser simples e fácil de recordar, para que a audiência reconheça o 
que está começando. Para a escolha da música da vinheta temos que pensar no 
conteúdo que vai ser abordado e no público ouvinte, para que tenha relação com 
a “cara” que queremos que o programa tenha; 
VINHETAS DE PASSAGEM: pedaços de músicas para dar destaque ou separar 
as notícias. Não são músicas inteiras nem trechos muito longos; 
EFEITOS ESPECIAIS: são sons que podem sugerir imagens ou imitar realidades. 
Por exemplo, a chuva, o ruído do tráfego, uma porta que se fecha, um telefone 
tocando. O mais comum é que sejam sons pré-gravados, mas também é pos-sível 
fazer direto no estúdio com alguns materiais baratos e fáceis de encontrar. 
São a essência da chamada sonoplastia; 
SILÊNCIO: é a ausência de qualquer som, palavra ou música. Por mais que pa-reça 
contraditório utilizar o silêncio como um recurso radiofônico, ele serve para 
valorizar os sons precedentes ou posteriores. Um silêncio medido e intencional 
pode provocar sensações, emoções e idéias. Também serve para dar um mo-mento 
de respiro ao comunicador e à audiência para que as informações sejam 
organizadas e assimiladas. Só não pode ser muito demorado, pois os ouvintes 
podem pensar que a emissora saiu do ar ou que o comunicador se perdeu na 
condução do programa; 
RECURSOS DE INTERAÇÃO: hoje em dia, há várias possibilidades de os ouvin-tes 
participarem sem que precisem ir até o estúdio. Podem ser disponibilizados 
para os ouvintes: 
• um número de telefone celular para que sejam enviados torpedos (mensagens 
de celular); 
• um endereço para correio eletrônico (e-mail) do programa, da rádio ou do 
apresentador; 
• endereços eletrônicos para mensagens instantâneas, como o Windows Live 
Messenger ou o Skype, ferramentas que possibilitam a troca em tempo real de 
mensagens, por vezes com o uso de som e imagem. 
Sylvio Ayala
54 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 55 
Assim, enquanto estiver fazendo e veiculando o programa, o comunicador ou 
seus ajudantes podem receber dicas e avisos, informações que podem ser repassadas 
à comunidade. Também é possível levantar questionamentos e obter respostas que 
demonstram o que os ouvintes pensam. Desta forma, o programa fica ainda mais inte-ressante 
para quem está escutando e as pessoas se sentem mais próximas à rádio; 
RECURSOS PARA ENTREVISTAS: nem sempre os entrevistados podem com-parecer 
à emissora na hora do programa. Isso pode ser resolvido através de 
outros recursos. A entrevista pode acontecer pelo celular, que é configurado na 
opção viva-voz e assim todos escutam o que está sendo dito. Também pode ser 
concedida pelo Skype, um programa de computador que permite comunicação 
de voz instantânea (e também de vídeo) gratuita e pela Internet. 
ATENÇÃO! É preciso ter cuidado com o ruído, que são os sons indesejados que 
podem ser escutados por quem acompanha a programação da rádio. Os ruídos di-ficultam 
a transmissão e a recepção das mensagens. Alguns exemplos de ruído são 
o barulho das folhas de papel sendo mexidas, o pigarro ou espirros do apresentador, 
risadas e cochichos, além de interferências na transmissão do som. 
7.5 Formas de realização do programa 
A execução do programa pode ser feita basicamente de 2 formas: 
AO VIVO: exige planejamento, coordenação e entrosamento da equipe. Isto é mui-to 
importante, porque a chance de ocorrer erros é maior. Tem como vantagem a 
instantaneidade, a participação no ar do ouvinte e a comunicação espontânea en-tre 
os membros. O programa ao vivo pode usar arquivos gravados, como reporta-gens, 
entrevistas, enquetes. Isto sem falar nas músicas e cortinas, essenciais em 
qualquer programa de rádio. O programa ao vivo ocupa o estúdio de rádio e deixa 
as portas abertas para a participação e visitas espontâneas e inesperadas. 
PROGRAMA GRAVADO: pode ser feito como se fosse ao vivo ou seguir um rotei-ro 
fechado. A vantagem é que se pode ouvir e analisar o que foi gravado, com a 
possibilidade de corrigir os erros. A desvantagem é o tempo gasto na produção 
e a ausência de interação com os ouvintes. 
Exercício 3 
Agora todos já escolheram alguma função e têm uma idéia de programa. Então: 
a) Junte-se aos colegas que escolheram o mesmo tipo de programa que você; 
b) Tente formar grupos de modo a compor uma equipe de rádio, a partir das 
funções definidas: produção, locução, reportagem e operação. É importante 
tentar compor grupos nos quais as funções fiquem bem divididas. Não adian-ta, 
por exemplo, uma equipe com 3 operadores e um repórter. Seja flexível e 
pense no coletivo. Caso haja necessidade, assuma mais de uma função; 
c) Cada grupo deve debater de modo a construir um programa de rádio, reali-zando 
o planejamento e a produção. Criem um novo título ou aproveitem a 
idéia já criada por um dos membros da equipe. Definam opções de horários 
de emissão e duração (mais de uma opção, para negociar na composição da 
grade de programação), de acordo com a disponibilidade de cada um; 
d) Incluam gêneros e outros recursos radiofônicos ao programa, definindo como 
será todo o andamento dentro do tempo proposto. Definam a(s) forma(s) de 
realização, tentando construir um roteiro completo do início ao fim; 
e) Montem um esquema num papel, mas não se preocupem com a formalidade. 
Façam do jeito que quiserem. Ao final, façam uma exposição para a turma, 
debatendo cada programa apresentado. 
7.6 Como captar as informações? 
É importante lembrar que a informação é a essência da comunicação. Assim, 
a informação divulgada deve ser cuidadosamente estudada e selecionada. 
Deve atender e defender os interesses da maioria sem jamais abrir mão de cri-térios 
morais básicos como justiça, igualdade, solidariedade e verdade. Sempre 
de modo a colaborar no processo de esclarecimento, através da polêmica e da 
reflexão crítica, na construção de um canal de manifestação do poder popular, 
em especial no caso das rádios comunitárias. Conforme já visto, não deve, em 
hipótese alguma, ceder em defesa ou promoção de interesses e benefício de gru-pos 
ou indivíduos cujos objetivos estão acima ou divergem do interesse da co-letividade 
a quem a rádio comunitária deve representar. Por trás disto, está uma 
característica fundamental do autêntico jornalismo combativo, que deve ser a 
base da informação veiculada nestas emissoras: a CREDIBILIDADE. Se o ouvinte 
não acreditar no que ouve ou suspeitar que está sendo enganado, provavelmente 
vai trocar de estação. Talvez, em um cenário mais dramático, não volte mais a 
ouvir o programa ou a rádio. Sempre se lembre disso ao veicular informações no 
ar, pois o que está dito não tem volta. Depois de dito, só restará a retratação. E, 
de qualquer modo, a credibilidade já poderá ter sido comprometida. 
7.6.1 As fontes de informação 
De uma forma simplista, pode-se dizer que fonte é tudo o que fornece infor-mações 
para a construção do programa. Mas nunca esqueça a CREDIBILIDADE no 
momento de escolher as fontes. No caso de pessoas, procure sempre gravar os de-poimentos 
– assim não restará margem de dúvida sobre a autenticidade da fonte. Em
56 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 57 
alguns casos de exceção, é possível preservar a fonte, garantindo o seu anonimato. 
Mas, nestes casos, é fundamental que tal fonte seja de extrema confiança e, por al-guma 
razão, seja conveniente que seu nome não apareça. Ainda assim, é importante 
que o ouvinte tenha pelo menos uma noção da origem da informação, com alguma 
pista do local ou da procedência desta fonte. Senão, a tal CREDIBILIDADE pode ficar 
comprometida. O ideal é sempre identificar a fonte e evitar o anonimato. Em caso 
de dúvida, cruze a opinião da fonte suspeita com outras fontes. Para a maioria das 
pessoas que estão ouvindo um programa não é interessante conhecer uma opinião 
se não se sabe quem a deu. É um dos aspectos fundamentais que vai diferenciar a 
notícia da “fofoca”. 
Além das pessoas, existem outras fontes úteis para a construção de uma maté-ria, 
como, por exemplo: 
 jornais, revistas, outras rádios, telejornais e agências de notícias: tome 
cuidado para não reproduzir simplesmente o que é veiculado pela mídia 
em geral. Muitas vezes, tais informações são carregadas com uma postu-ra 
tendenciosa, vinculada a interesses em desacordo com a proposta das 
comunitárias; 
 documentos e bibliotecas: enciclopédias renomadas e documentos emi-tidos 
por instituição com credibilidade são ótimas fontes. No caso dos 
livros, procure informar-se sobre os autores para compreender melhor 
suas idéias e intenções; 
 correspondentes: jornalistas que trabalham para a emissora ou o pro-grama 
que têm como tarefa recolher periodicamente os fatos da sua área 
para enviar com a sua própria voz; 
 Internet: a rede mundial de computadores oferece de tudo, o que presta e 
aquilo que não é confiável. Dentro da mídia descentralizada, existem de-zenas 
de blogs, portais, páginas e fontes de informação populares muito 
interessantes. Dentre estas, estão dezenas de páginas com arquivos de 
conteúdos de áudio e que podem ser baixados gratuitamente. A pesquisa 
permanente é a melhor maneira de se informar e buscar os bons conteúdos 
da internet. Mas aqui, as fontes são sempre suspeitas. Priorize pesquisas 
fatuais, com dados brutos e legalmente respaldados, tais como o Institu-to 
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Tribunal Superior Eleitoral 
(TSE), Controladoria-Geral da União (CGU), etc. Além de portais renomados 
de movimentos populares, jornalismo de investigação e instituições de en-sino. 
Eles darão mais credibilidade às informações veiculadas. 
7.6.2 Mas de onde tirar as notícias da comunidade? 
Dos próprios moradores, com suas denúncias e reclamações, por telefone ou no 
boca-a-boca. Na comunidade, quase todas as pessoas se conhecem e sabem o que 
está acontecendo com seus vizinhos e parentes. Se cada um que trabalha na rádio le-var 
uma notícia por dia, o locutor já vai ter alguma coisa para falar no programa. Outra 
boa idéia é montar uma equipe de repórteres populares da comunidade. Isso rompe 
com a situação de mero receptor do ouvinte. Tente recrutar um grupo de ouvintes que 
esteja sempre ligado ao programa. Eles podem entrar ao vivo de qualquer telefone e 
comentar sobre o assunto do programa. Estes repórteres populares também podem 
fazer pesquisas e entrevistas junto à população, abordando o tema em discussão. O 
único porém é que esta idéia precisa de uma chave híbrida para ser implementada. 
Lembre-se de priorizar as notícias da comunidade, da cidade, da região, do es-tado, 
do país e do continente, nessa ordem. Por último, em casos mais importantes 
como guerras, as notícias do mundo, que podem ser tiradas dos jornais diários e em 
grandes portais da Internet. A rádio comunitária também deve sempre tentar conse-guir 
assinaturas cortesia dos principais jornais da cidade. 
Exercício 4 
A partir do exercício 3, as equipes devem buscar informações para fazer pelo menos 
uma notícia para inserir no programa. Esta notícia deve ser relativa a algum aconteci-mento 
da comunidade. Faça pesquisa, entreviste pessoas. Agora chegou o momento 
de ser um repórter popular. 
7.7 Conselhos gerais sobre programas 
Para que realmente o rádio seja importante para quem estiver ouvindo, é im-portante 
lembrar-se de quatro palavrinhas básicas: 
INTELIGIBILIDADE: a informação que vai ao ar tem que ser compreensível. Esta 
é a condição que permite que um programa, uma informação, seja direta. E isto 
se consegue pelos seguintes pontos: 
 O SOM TEM QUE SER LIMPO E DEPENDE DE UM BOM SISTEMA TÉCNICO: 
equipamentos e aparatos de gravação e transmissão, com uma correta 
modulação na mesa de controle, a combinação de sons deve ser agradá-vel, 
conectando as vozes que irão ao ar com os outros sons que podem 
ser utilizados. Bom tratamento acústico do estúdio, utilização adequada 
do microfone etc.; 
 IDÉIAS PRECISAS: para que a informação seja entendida, devem ser bem 
delimitadas e definidas as idéias que serão expostas. Faça um bom plane-jamento, 
prepare-se para o programa;
58 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 59 
 CONCEITOS SIMPLES: sempre se deve ter em mente que os ouvintes for-mam 
um grupo diferente entre si. Por isso, os conceitos emitidos devem 
ser simplificados ao máximo, com a intenção de serem compreendidos 
por todos. 
CORREÇÃO: toda a informação deve ser correta e, além disso, seu conteúdo 
deve aproximar-se ao máximo dos fatos, através de uma investigação o mais 
completa possível. 
RELEVÂNCIA: uma informação é relevante quando o ouvinte, ao escutar o pro-grama, 
se sente parte integrante desse programa. É muito importante, portanto, 
chamar a atenção para coisas que sejam relevantes a ele. Para que isso acon-teça, 
precisamos conhecer a audiência, quem está nos escutando. Devemos 
conhecer estas pessoas, saber qual é o seu perfil. Quando se faz um programa, 
precisamos sempre nos colocar no lugar do ouvinte, imaginar o que ele já sabe, 
o que ele gostaria de falar e não pode, que pergunta ele gostaria de fazer, mas 
nunca se sentiu encorajado a fazer. A rádio comunitária parte do senso comum 
e politiza o cotidiano com os temas urgentes de uma coletividade. 
LINGUAGEM: tem que ser rica e nativa. As concordâncias verbais são importan-tes, 
mas não são fundamentais. A essência do rádio na comunidade é a franqueza 
e a espontaneidade, falando ao microfone como conversamos com um vizinho. 
 Deve-se cuidar para não usar expressões que sirvam de muletas, como 
“né”, “assim, ó”, “pois é”, “hum”, ”sim”, etc.; 
 Não usar expressões vazias e adjetivos em abundância. Procure usar subs-tantivos 
comuns de fácil entendimento e, se tiver que optar entre um subs-tantivo 
positivo e outro negativo, prefira sempre o positivo. Tenha cuidado 
com os pronomes, pois eles podem causar confusões; 
 É importante que o texto seja limpo e de fácil visualização. O indicado é 
escrever em espaço duplo, em linhas curtas de 60 toques, sem separar as 
palavras no final da linha e só escrever numa face do papel. As palavras 
mais difíceis devem ser escritas com destaque - em maiúsculas, separadas 
em sílabas ou sublinhadas, conforme veremos mais adiante; 
 As frases devem ser escritas para serem faladas e não para serem lidas. Os 
sinais de pontuação usados são ponto, para pausas longas, e vírgula, para 
pausas curtas. Também pode-se usar a barra, ( “/” ) como alternativa para 
pausas longas entre uma frase e outra; 
 Ao usar siglas, explicar no mínimo uma vez o que ela significa; 
 Não usar abreviaturas quando se escreve. Todas as palavras devem ser 
bem pronunciadas; 
 Os números devem ser escritos por extenso. Ao expor um número ou pro-porção, 
é fundamental que seja dado um exemplo compreensível para uma 
pessoa simples; 
 É melhor que os verbos sejam usados no presente e no futuro ao invés 
do passado; 
 O rádio tem um potencial que não pode ser comparado aos demais veícu-los, 
como o jornal, a tv e o cinema. Mas, para que isso se torne concreto, 
é preciso utilizar ao máximo os recursos que ele oferece, como a música, a 
palavra, a voz, os ruídos, os silêncios, etc. 
7.8 Grade de Programação 
Quanto mais tempo a rádio da comunidade conseguir ficar no ar, melhor. Mas, para 
isso acontecer, além de estimular a participação, é preciso planificar os progra-mas 
a partir dos horários especificados, dividindo o espaço para os participantes. As-sim, 
é necessário a construção de uma grade de programação. Algumas rádios comu-nitárias 
conseguem se manter no ar por bastante tempo. Mas, mesmo que sua rádio 
não fique tanto tempo no ar, é muito importante organizar os horários com as pessoas 
que fazem os programas. Esta grade deve ser fixada nos estúdios da rádio para que 
todos possam ver e acompanhar os horários. A grade também deve ser colocada na 
página de Internet da rádio, caso exista. Pode ainda ser divulgada na comunidade em 
cartazes fixados em escolas e estabelecimentos ou em panfletos. Distribuir a grade é 
uma boa propaganda para divulgar a emissora e atrair ouvintes e participantes. 
Ivan Vieira
60 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO LOCUÇÃO 61 
Não há muito mistério para fazer a grade. É preciso reunir todos os programas, 
com os seguintes dados: dia da semana e horário de apresentação; título (nome) do 
programa; nome da equipe ou pessoa responsável; uma breve descrição do progra-ma. 
Depois, organize uma lista destes programas linearmente, de forma a simplificar 
a visualização e compreensão. Uma maneira bem comum de fazer isso é dispor os 
programas um embaixo do outro em uma lista simples. Outra é fazer uma tabela, com 
os dias da semana nas colunas e horários nas linhas. Depois é só preencher os espa-ços 
com as informações de cada programa. A tabela permita uma visualização geral 
da grade, sendo melhor para a organização do todo. Mas, dependendo do tamanho 
do papel, fica um pouco difícil colocar a descrição dos programas dentro de cada 
quadradinho da tabela. As descrições são muito importantes para quem não conhece 
a rádio. Permite às pessoas saber sobre o que trata cada programa, despertando a 
curiosidade e atraindo ouvintes. Eis um breve exemplo: 
DE SEGUNDA A SEXTA: 
05:00 – Coração Nativo – Fulano de Tal e Beltrano da Silva 
Música nativista, tradicional e contemporânea, abrindo espaço para novos talen-tos. 
Cobertura de eventos nos rodeios e prestação de serviços à comunidade. 
08:40 – Amor, meu grande amor – Antônio Amado e equipe 
Programa voltado para as mulheres da comunidade – horóscopo, delegacia de 
mulher, sexualidade, saúde, espiritualidade, família e beleza, aberto à participa-ção 
de ouvintes. 
09:30 – Samba no Quintal – Nego da Ginga, Pé de Valsa e Totó 
Convidados, entrevista e o melhor do samba de raiz. Resgata a memória mu-sical 
e abre espaço para novos talentos, transmitindo ao vivo de botecos e 
pagodes da comunidade. 
11:05 – A Hora do Rock – Emiliano Maluco e Chico Fedor 
Rock, rap, punk, reggae, metal, ska, e outros. Espaço para novos talentos do 
morro e do asfalto, buscando a integração destes segmentos. 
13:30 – Cabeça Aberta – Régis Pimenta 
Debates e entrevistas sobre comportamento, sexo, drogas, a política e a vida na 
comunidade. Dicas culturais e música nativa de qualidade. 
E assim por diante, até preencher todos os espaços ou contemplar todos os pro-gramas. 
Não esqueça do sábado e do domingo, que são dias que as pessoas mais 
ficam em casa. Podem ainda existir programas que são apresentados durante todo o 
dia, ao longo da programação. Por exemplo: 
Informe Farroupilha 
Todos os dias, das 09:00 às 18:00, no intervalo entre programas – Sérgio 
Cabeção e Rui da ABRAÇO apresentam 10 minutos de noticiário, com muita 
informações novinha sobre e para comunidade. 
Na medida do possível, é muito importante manter os horários rigidamente. Os 
ouvintes se habituam a ouvir um determinado programa em uma determinada hora, 
criando uma relação de identificação com a programação. Então não dá para ficar mu-dando 
a grade o tempo todo, nem ficar fazendo rotatividade de horários, porque isso, 
na prática, não dá muito certo e acaba incomodando parte da audiência. A pessoa liga 
o rádio e espera ouvir este ou aquele apresentador, ou um tipo de música do seu gos-to. 
Pode acabar criando uma imagem errada de que a rádio é uma bagunça ou que não 
dá certo mesmo. E aí é ponto para as comerciais. O rádio costuma criar um vínculo 
entre o ouvinte e o tempo. Ele é a informação, a diversão e a reflexão, mas também é 
uma espécie de relógio para muita gente. Ficar atento à rigidez dos horários é muito 
importante. E evitem faltar aos programas ou chegar muito atrasados. Faz parte do 
comprometimento assumido com a comunidade. Procurem construir uma programa-ção 
o mais plural possível para a rádio. E não esqueçam que as rádios comunitárias 
devem abrir espaço para todas as tendências, possibilitando a todos participar. 
Exercício 5 
Desenvolvam uma grade de programação com os programas desenvolvidos nos 
exercícios anteriores. Não se esqueçam de incluir na grade as informações sugeridas 
para que os ouvintes saibam o máximo possível sobre o que está rolando na rádio e 
quem está por lá. Tentem ser flexíveis quanto aos horários, pensando sempre no que 
é melhor para a comunidade. 
8 LOCUÇÃO 
A voz é a vibração sonora que os seres humanos produzem através de seus ór-gãos, 
especialmente a laringe. O ar é combustível essencial para a nossa voz, 
por isso a respiração adequada é uma das partes mais importantes da nossa 
fala. Uma postura adequada também é essencial. 
A voz é o instrumento de quem trabalha como comunicador de uma rádio. Ela 
não pode ser usada de qualquer jeito. É a ferramenta essencial para o desempenho do 
trabalho na rádio e, por isso, é necessário educá-la e cuidá-la. A locução radiofônica 
deve ser feita de forma natural, como se fosse uma conversa com o ouvinte. Utilize o 
mínimo necessário de leitura no microfone e fuja das palavras complicadas. É impor-tante 
salientar que a chamada “voz de rádio” está ultrapassada. Ter um vozeirão não 
significa que a pessoa deve trabalhar no rádio.
62 LOCUÇÃO LOCUÇÃO 63 
A voz é muito mais do que palavras, muitas vezes o significado do que queremos 
dizer está na maneira como dizemos isso. Algumas questões são importantes para 
compreender como isso tudo funciona. Na seqüência, veremos alguns elementos de-terminantes 
na locução e de que modo podemos melhor aproveitá-los. 
8.1 Entonação 
O jeito que você fala também é importante. O sentido da frase vai depender de 
como cada um expressa a informação: perguntando, exclamando, rindo, cho-rando, 
xingando. O ritmo que o comunicador usa também colabora para manter o 
ouvinte “ligado”. Se for monótono, lento, cansa o ouvinte e ele muda de estação. Se 
for rápido demais, ele não entende nada e também se aborrece. O melhor é combinar 
ritmos rápidos e lentos. 
É claro que cada tipo de programa e cada locutor tem o seu próprio estilo. É 
preciso cuidar pra que o público entenda o sentido do que foi dito e não pense que 
alguém está lendo tudo “na latinha”. 
Exercício 6 
Ler a frase abaixo de várias formas: (1) interrogativa, (2) enunciativa, (3) exclamati-va, 
(4) chorando, (5) rindo, (6) como num informativo. 
TOMA ESTA FACA QUE DA ROÇA ELA VEM. ELA TEM PONTA? PONTA ELA TEM! 
8.2 Ritmo 
É a repetição mais ou menos cíclica das coisas (pode ser sons, gestos, rítmo de 
vida, cardíaco etc). Na rádio, o ritmo tem um papel muito importante. É com ele 
que vamos atrair a atenção do ouvinte ou perdê-la. Se combinamos ritmos rápidos e 
lentos, se fizermos uma mistura ágil, o ouvinte vai estar atento. Mas se fazemos um 
ritmo monótono podemos afastar o ouvinte. 
Exercício 7 
Ler uma notícia e comentar como foi a leitura. Utilize vários textos com sentidos 
diferentes. Faça a interpretação de uma notícia de jornal. 
8.3 Atitude e improvisos 
A atitude depende do tipo de programa. Mas é importante manter a credibilidade e o 
respeito pela audiência, e para isso é necessário controlar o meio em que estamos 
trabalhando, evitar erros e saber exatamente sobre o que estamos falando. E para manter 
o respeito é necessário que se saiba a quem estamos nos dirigindo. Não é a mesma coisa 
fazer um programa de música para adolescentes e falar sobre música clássica. Além 
disso, o bom locutor conhece e respeita sua audiência. Fala a mesma língua de quem está 
escutando seu programa e procura manter isso. O melhor improviso é aquele que está pre-viamente 
preparado. É importante saber o que vamos falar, conhecer o tema, preparar um 
esquema dos pontos que queremos abordar, ter segurança ao falar, ter um vocabulário rico 
e não ter vergonha. A tranqüilidade se adquire com a experiência. Até que não se tenha a 
experiência, deve-se escrever tudo o que é importante para falar ao vivo e de improviso. 
Exercício 8 
Repita o exercício anterior, fazendo uma parceria com algum colega. Durante a locu-ção, 
procure acrescentar algum improviso. 
8.4 Vocalização e dicção 
A locução radiofônica tem que ser feita de forma natural, como se falássemos. 
Deve-se evitar fazer apenas a leitura dos textos. Então, para uma boa locução é 
preciso estar atento à vocalização e dicção, que é a articulação clara das palavras e 
dos sons para que todos entendam o que está sendo transmitido. É a pronúncia de 
todas as sílabas, de preferência dando a cada letra o seu som exato. 
Sylvio Ayala
64 LOCUÇÃO LOCUÇÃO 65 
Exercício 9 
Antes de começar, faça uma série de aquecimento: 
a) Realize alongamentos de relaxamento cervical, costas, pescoço, ombros; ajudam 
na postura; 
b) Emita bocejos forçados, com sons. Isso ajuda na articulação; 
c) Circule a língua ao redor da boca e como se estivesse varrendo o céu da boca; 
d) Para projetar a voz, simule mastigações forçadas. Primeiro sem som e depois com som. 
A seguir, passe aos exercícios: 
1. Mover a língua e pronunciar sons problemáticos: palavras no plural, palavras 
com “x”, com “z”, com “sc” e outras. 
2. Fazer uma lista de palavras para pronunciar. Colocar uma caneta na boca para 
exercitar. Fazer uma leitura de um texto articulando exageradamente as palavras. 
Não tenha medo de nenhuma palavra, faça o exercício sem pressa e sem vergonha, 
procurando ouvir o som da sua própria voz. Repita em voz alta as palavras a seguir: 
8.5 Higiene vocal 
É uma série de cuidados que devemos ter com a nossa voz para evitar o apareci-mento 
de alterações e doenças e para termos uma voz mais bonita e saudável. 
 Evite fumo, álcool e drogas, pois atacam diretamente o nosso aparelho respi-ratório 
e fonador, causando prejuízos a voz; 
 Evite atos vocais inadequados, como pigarrear, tossir com força e competir 
com os sons de fundo; 
 Evite o contato com fumaças tóxicas e outros tipos de poluição; 
 Em caso de ter alergias que atacam a voz, siga corretamente as orientações 
médicas e evite situações de risco; 
 Alimente-se adequadamente; prefira comidas leves, verduras e frutas antes 
de realizar atividades que necessitem da voz. Evite alimentos e bebidas gela-das. 
E, especialmente, beba muita água; 
 A produção da voz consome bastante energia, portanto, descanse bastante; 
 Evite lugares com ar condicionado e mudanças bruscas de temperatura. 
8.6 Dicas para uma boa locução 
Locução das notícias: 
 Os textos têm que ser bem lidos e comentados, evitando erros (para transmi-tir 
credibilidade), mas o tom tem que ser o mais natural possível; 
 A dicção tem que ser o mais correta e clara possível, pois é fundamental que 
o ouvinte entenda o que você está falando; 
 É recomendado ler as notícias previamente para entendê-las, sublinhar sem-pre 
que houver dificuldade com alguma palavra e definir a pronúncia; 
 O ritmo da leitura tem que ser variado para romper a monotonia. Não pode 
ser muito rápido, por que o ouvinte pode não entender o que está sendo 
dito. E também não deve ser muito lento, porque o ouvinte pode perder a 
atenção; 
 Não esqueça de ser natural, como se estivesse conversando; 
 Evite redundância. Exemplos: subir para cima, adiar para depois, manter o 
mesmo time, etc; 
 Fuja de chavões, clichês e jogos de palavras desnecessários. 
Outras dicas que não podemos esquecer: 
 Não imite a horrível característica artificial que tanto ouvimos nas rádios em 
geral, parecendo uma voz máscula, varonil; 
 Nunca tape seu ouvido com uma mão, para ouvir-se melhor. Isso só piora; 
 Nunca contraia a garganta para manter a respiração. Isto produz uma explo-são 
inicial ao falar e compromete a produção de uma voz suave e natural; 
IOGURTE 
AÇÚCAR 
TESTEMUNHA 
ESTUPRO 
ARTIFÍCIO 
BÚSSOLA 
SUAR 
FARSANTE 
ASSOVIAR 
ESTOURO 
CENOURA 
TROUXA 
TESOURA 
BEBEDOURO 
BISCOITO 
AÇOUGUE 
DOUTOR 
GÍRIA 
ADEREÇO 
TÉCNICO 
ACESSÓRIOS 
PROBLEMAS 
CARROCERIA 
CAÇAMBA 
BAGAÇO 
CICLONE 
ENTRETIDO 
CINAMOMO 
CISNE 
FÓSFORO 
ERUPÇÃO 
SALSICHA 
SOBRANCELHA 
ENTRETENIMENTO 
AUTORIDADE 
FALSIFICADO 
ASSÉDIO 
ACESSÍVEL 
CESARIANA 
RESIDÊNCIA 
DOMICÍLIO 
SOBREMESA 
TIREÓIDE 
FUSÍVEL 
DROGAS 
VESÍCULA 
HERBICIDA 
ADVOGADO 
AZUCRINANDO 
EMBRIAGADO 
ENXURRADA 
SÊMEN 
EXORCISTA 
TÓXICO 
INTOXICAÇÃO 
TRÁFICO 
ARQUITETURA 
REPOLHO 
PRECISAR 
ANTEONTEM 
3. A repetição de trava-línguas também ajuda bastante na dicção. Repita estes 
exemplos abaixo em voz alta e pausadamente: 
O RATO ROEU A ROUPA DO REI DE ROMA. // DENTRO DA JARRA TEM UMA ARANHA; 
NEM A ARANHA ARRANHA A JARRA, NEM A JARRA ARRANHA A ARANHA. // O PEI-TO 
DO NEGRO PEDRO É PRETO. // TRÊS TIGRES TRISTES NOS TRILHOS DO TREM.
6 PREPARANDO O PROGRAMA PREPARANDO O PROGRAMA 67 
 Ao fazer uma produção, escolha as vozes e suas personalidades, bem como 
a personalidade para cada texto que vai ser interpretado. É preciso manter as 
vozes para não descaracterizar a(s) personalidade(s) criada(s); 
 Experimente contrastar as vozes, uma mais grave com outra brilhante, mais 
alta; a voz de barítono contra a de um contralto, a de uma criança travessa 
com a de uma menina doce. Com esta variedade, pode ser pintado um quadro 
vivo e interessante. Use a palavra e a voz humana em toda a extensão de suas 
possibilidades; 
 Dê um ritmo agradável, que não seja monótono para quem estiver ouvindo. 
Seja vivo e interessante; 
 A postura é essencial para a nossa fala. 
9 PREPARANDO O PROGRAMA 
Depois de estabelecida a proposta do programa e a que ele se destina, é rele-vante 
pensarmos na produção. Independente da linha e do estilo que forem 
escolhidos para o programa, precisa-se considerar os itens seguintes. Eles 
são importantes para que a proposta fique clara e os ouvintes consigam identificá-la 
– e não tenham a impressão de que quem está conduzindo está perdido, não domina 
o conteúdo ou não participou do processo de produção. 
9.1 Idéia 
É a inspiração, o elemento básico que o programa quer abordar (exemplos: re-forma 
agrária, medicamentos genéricos, evento na comunidade). Esta idéia é 
a espinha dorsal do programa. Ela deve estar presente em todas as fases do tra-balho. 
Para o programa ser completo, ele deve partir de três idéias iniciais: a idéia 
temática, (a nossa visão sobre o tema), a idéia narrativa (como vamos transmitir 
a temática - através de notícias, entrevistas, debates), e a idéia poética (como os 
apresentadores vão conduzir o programa, a linguagem a ser utilizada, a utilização 
de música etc.). As idéias podem surgir de duas maneiras: uma adaptação de 
um produto que já existe (uma discussão da comunidade, um evento que está 
sendo realizado) ou uma reunião da equipe que produz o programa (no caso de 
ele acontecer com uma freqüência definida). 
9.2 Sinopse 
É o desenvolvimento escrito da idéia, um texto em que deve ser apresentado o 
conteúdo do programa. A sinopse deve ser breve, incluindo os aspectos mais 
importantes que precisam ser abordados. Além disso, a sinopse tem que definir: o 
horário que o programa vai ao ar, a duração, o público a que ele se destina, se ele 
vai ser ao vivo ou gravado e os meios humanos - quantas pessoas são necessárias 
e quem está disponível. 
9.3 Pré-pauta 
Pré-pauta e pauta são tarefas que devem ser realizadas por quem ficar responsável 
pelas reportagens. A pré-pauta é um resumo do programa, indicando as reporta-gens 
que vão ao ar e o tempo de duração. As matérias não devem ser muito longas, 
para o ouvinte não se distrair. Uma boa condução segura um tema no ar por até 10 
ou 12 minutos por bloco. Uma rádio comunitária pode compensar a falta de recursos 
e de reportagem na rua com participação, comentários explicativos e polêmicas: 
BLOCO 1 
Matéria sobre enchentes e como está a situação da população atingida pe-las 
chuvas – 1min 30seg 
Matéria sobre início das aulas e condições das escolas estaduais – 1min 
30seg 
BLOCO 2 
Entrevista com morador do bairro que colaborou com as vítimas das en-chentes 
– 2min 
Enquete com população sobre preços do material escolar – 1min 
Exercício 10 
Junte-se à sua equipe para elaborar uma pré-pauta para dois blocos de 5 a 10 minu-tos 
para veicular na rádio da sua comunidade. Procurem mesclar informações gerais, 
sobre sua cidade e país, com assuntos que são interessantes para os moradores em 
seu bairro. Definam quantas matérias o programa terá, qual a duração de cada uma 
e a ordem em que elas vão ao ar. Apresentem a idéia aos colegas. 
9.4 Pauta 
São as tarefas dos repórteres, dando dicas de como elas devem ser realizadas. A 
pauta deve conter um indicativo de tempo máximo e mínimo para a reportagem, 
bem como os aspectos importantes a serem destacados. Resumindo, a pauta possui 
elementos para ajudar o repórter a entender o assunto e indicações de fontes para as 
entrevistas e/ou de informantes no local do acontecimento a ser coberto. A existência de 
uma pauta enriquece o produto final e organiza as idéias da equipe que está trabalhando. 
Observe o exemplo, baseado na primeira matéria do BLOCO 1 da pré-pauta acima:
68 PREPARANDO O PROGRAMA PREPARANDO O PROGRAMA 69 
MATÉRIA DA ENCHENTE NO BAIRRO GLÓRIA 
 Visitar o bairro da Glória para fazer entrevistas com as crianças e mora-dores 
atingidos pela enchente. 
 Registrar o que a enchente causou, se há mortos, feridos e desabrigados. 
 Perguntar como a população está sendo assistida, entrevistar representantes 
de entidades e do governo que estão colaborando com a recuperação do local. 
 Apresentar os casos mais graves e destacar um que chame mais a aten-ção. 
Na Rua da Assunção, 250 crianças estão num barracão aguardando a 
ajuda do governo, pois elas perderam tudo. 
 Já foi marcado horário com o representante da Associação dos Moradores: 10 
horas na rua do Senhor Pelegrino, 520 - Bairro da Glória. Procurar por José Alves. 
Tempo: 1min 30seg 
Repórter: Maria Luiza Bernardes 
Exercício 11 
Agora, elaborem a pauta de dois dos assuntos escolhidos para o programa no exer-cício 
anterior. Reflita sobre os gêneros a utilizar e entrevistas que poderiam ser inte-ressantes. 
Seria importante fazer uma enquete? Que livros, revistas, jornais e outros 
recursos o repórter pode consultar para conseguir mais dados e informações? 
9.5 Pré-roteiro 
É um esboço do roteiro, mais simplificado, onde deve constar a ordem em que as 
reportagens, entrevistas e enquetes vão ao ar e o tempo aproximado: 
Apresentação: 1min 
Vinheta para as manchetes: 10seg 
Manchetes: 1min 
BLOCO 1 
1) Reportagem sobre enchentes – 1min 30seg 
2) Nota sobre enchentes em outras localidades do estado – 30seg 
3) Entrevista com representantes da prefeitura sobre as enchentes – 1min 
4) Previsão do tempo para a região sul – 30seg 
BLOCO 2 
5) Reportagem sobre volta às aulas – 1min 30seg 
6) Entrevista com mãe de aluno – 1min 
9.6 Roteiro 
É a “cara” final do programa, planejado e organizado. Ele é feito depois de todas as 
partes estarem prontas e redigido na seqüência em que elas vão ao ar, com os 
dados essenciais para que toda a equipe acompanhe com facilidade o que está sendo 
gravado ou transmitido. O roteiro traz também os textos que vão ser lidos pelos locu-tores, 
como pequenas notas e a introdução para as reportagens. Também aparecem 
no roteiro as orientações para os técnicos: a duração de cada parte, o trecho inicial e 
o trecho final de cada reportagem gravada. É recomendado que sejam feitas cópias 
do roteiro para distribuir para os apresentadores e o técnico. Assim, não há o risco 
de ninguém esquecer o que teria que falar ou fazer. 
Convém aos participantes ler o roteiro antes do programa, para que qualquer 
dúvida seja solucionada. Quando há nomes e palavras difíceis a serem faladas, por 
exemplo, o apresentador pode treinar antes a pronúncia. Sem esquecer, é claro, que 
as palavras difíceis, na medida do possível, devem ser evitadas. Especialmente por 
se tratar de uma rádio comunitária, cujo objetivo é se aproximar ao máximo da popu-lação 
local. Por isso, fale a língua do seu ouvinte, do seu povo. 
9.6.1 Exemplo explicativo de roteiro: 
Para ajudar na compreensão das convenções utilizadas em um roteiro para rádio, 
o exemplo a seguir possui diversos elementos explicados ao seu final. Basta conferir 
o número: a FICHA TÉCNICA escrita abaixo, por exemplo, é a de número “1”. 
RÁDIO COMUNITÁRIA 
NEGRINHO DO PASTOREIO FM 
JORNAL DA COMUNIDADE 
FICHA TÉCNICA1 
APRESENTADORES: Luís Antônio de Assis Brasil e Dilamar Machado. 
PRODUÇÃO: Charles Kiefer, Mário Quintana e Ana Maria Machado. 
TÉCNICA: Érico Veríssimo. 
DATA DA GRAVAÇÃO: 15 de junho de 2008. 
VEICULAÇÃO: 15 de junho de 2008 - 19h. 
SINTESE: Programa informativo diário. 
TEMPO DURAÇÃO: 11 minutos.
70 PREPARANDO O PROGRAMA PREPARANDO O PROGRAMA 71 
INÍCIO 
TEC RODA VINHETA DE APRESENTAÇÃO 
(CD Nº1, FAIXA 1) TMP 15” E VAI A BG²// 
LOC 1 - Está no ar o JORNAL DA COMUNIDADE3, a sua voz 
no rádio. // 
LOC 2 - Os destaques do noticiário de hoje são: // 
LOC 1 - Enchentes atingem mais de cem famílias4 no 
bairro da GLÓRIA. // 
LOC 2 - Aulas recomeçam mesmo com falta de professores. 
// 
TEC SOBE BG 5” E CORTA 
LOC 1 - As fortes chuvas da noite passada provocaram 
alagamentos em várias regiões da cidade. / No 
bairro da GLÓRIA, mais de trezentas pessoas 
ficaram desabrigadas. A repórter MARIA DINORAH 
esteve lá e entrevistou os moradores.// 
TEC RODA REPORTAGEM DA ENCHENTE 
(FITA Nº3) TMP 1’43” E CORTA 
DEIXA INICIAL: “AQUI NO BAIRRO DA GLÓRIA...”5 
DEIXA FINAL: “...ATÉ A SEMANA QUE VEM.” 
(continuação - pg. 2 - Jornal da Comunidade) 
LOC 2 – AGENDA: Domingo, às oito horas da noite, tem 
show com grupo de rap RACIONAIS MC’S no pavilhão 
do CORPO DE BOMBEIROS. / Vamos conferir agora 
uma das músicas do disco do grupo SO-BRE-VI-VEN- 
DO NO IN-FER-NO6. // 
TEC RODA CD RACIONAIS MC’S 
(“SOBREVIVENDO NO INFERNO”, FAIXA 8) TMP 6’01” E BG 
LOC 2 – Segunda-feira, dia 28 de fevereiro, às sete 
e meia da manhã7, acontece a volta às aulas 
nas escolas estaduais e municipais de PORTO 
ALEGRE. / Estão matriculados aqui nas escolas 
da comunidade dois mil 537 jovens8. / Na maior 
escola municipal do bairro, a MACHADO DE ASSIS, 
são esperados mais de 500 estudantes. / 
LOC 1 – Conversamos com a diretora da escola, MARILENE 
FELINTO. (9)?MARILENE, como estão os preparativos 
para receber os estudantes segunda-feira? // 
TEC RODA ENTREVISTA COM MARILENE FELINTO 
(FITA Nº5) TMP 0’47” E CORTA 
DEIXA INICIAL: “A ESCOLA MACHADO DE ASSIS...” 
DEIXA FINAL: “... SE NÃO HOUVEREM OUTROS IMPREVISTOS.”
72 PREPARANDO O PROGRAMA PREPARANDO O PROGRAMA 73 
(continuação - pg. 3 - Jornal da Comunidade) 
LOC 1 – Nas escolas estaduais, a falta de professores 
ameaça três quartos dos estabelecimentos de 
ensino da nossa comunidade. / O chefe da nona 
delegacia de polícia, HAROLDO DE SOUZA, garante 
que haverá policiamento nas ruas na manhã de 
segunda-feira para coibir eventuais protestos 
de pais e alunos que ficarem sem aulas. / Para 
reclamações sobre falta de professores, pode 
ser procurada a SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO 
no telefone 3-3-2-5-6-5-9-110. // 
LOC 2 – A delegacia do PROCON esteve autuando a FARMÁCIA 
DO RINCÃO, aqui no bairro. / O motivo foi a 
cobrança de uma taxa de dez por cento11 sobre o 
preço dos medicamentos genéricos. / Em alguns 
casos, a diferença no preço chegava a cinco 
reais. // 
LOC 1 – O programa de hoje está terminando. / Produção 
e apresentação de CHARLES QUIFER12, MÁRIO 
QUINTANA e ANA MARIA MACHADO. / Na técnica, 
ÉRICO VERÍSSIMO. / Boa noite. // 
LOC 2 – Boa noite e até a próxima edição. //13 
TEC RODA VINHETA DE APRESENTAÇÃO 
(CD Nº1, FAIXA 1) TMP 15” E CORTA 
FIM 
TEMPO TOTAL: 11’01”14 
LEGENDA PARA ENTENDER O ROTEIRO 
(1) A ficha técnica identifica o programa, quem participou dele e a data e hora que ele vai ao ar. 
Apresentadores, produtores, editores e técnicos devem ser apresentados no final para que 
o ouvinte saiba quem foram os responsáveis pelo programa. 
(2) Todas as entradas de material gravado (músicas, reportagens, depoimentos etc) devem 
ser identificados para o operador da técnica. As indicações devem deixar bem claro onde 
está o material, quanto tempo dura (que é representado por apóstrofe para minutos e aspas 
para segundos – exemplo: 1min e 10seg = 1’ 10”), a entrada e o que fazer depois que ela 
terminar (“vai a BG” significa que a gravação fica bem baixinho, fazendo um fundo en-quanto 
o locutor lê o texto; “corta” significa que a entrada deve encerrar logo após o tempo 
marcado). 
(3) Nomes próprios e palavras difíceis devem sempre ser escritos em letras maiúsculas. 
(4) Quando se deseja que o locutor enfatize uma determinada informação, deve-se sublinhar 
o trecho. 
(5) Quando é indicado para o técnico a entrada de uma reportagem, deve-se colocar as deixas 
inicial e final (4 ou 5 palavras) para que ele sabe exatamente com que palavras inicia e 
encerra a gravação. 
(6) Palavras complicadas para a leitura devem ser escritas em maiúsculas e separadas em 
sílabas. 
(7) Data e hora são escritos de maneira coloquial, ou seja: sete da manhã, três e meia da tarde. 
As horas sempre vão por extenso. Só não se esqueça de indicar em que parte do dia ocor-reu 
ou vai acontecer algo, para os ouvintes não ficarem com a informação incompleta. 
(8) Números são mais fáceis de ler quando escritos da seguinte forma: 
- entre 1 e 9: por extenso; 
- entre 10 e 999: em números; 
- a partir de 1000: por extenso; 
- números fracionados: por extenso; 
- números ordinais: por extenso. 
Quando for o caso, deve-se escrever o número de forma mista, como foi feito no exemplo 
de roteiro. 
(9) Para que o locutor possa ler uma frase interrogativa com a entonação certa, deve-se indicar 
colocando um ponto de interrogação antes da frase. 
(10) Telefones são escritos com hífens entre os números. 
(11) Porcentagens e valores em dinheiro são sempre escritos por extenso. 
(12) Palavras com pronúncia diferenciada devem ser escritas como se lê, mesmo que esteja 
incorreto. 
(13) Sempre que se encerra um texto a ser lido no rádio, deve-se utilizar 2 barras ( “//” ) para 
indicar ao locutor que ali é o fim. 
(14) No final, sempre se faz a soma do tempo total do programa, incluindo o tempo das vinhetas, 
gravações, músicas, comerciais (quando for o caso) e TODOS os textos lidos pelo locutor. 
Recomenda-se que, ao ser digitado em computador, a fonte utilizada para o roteiro seja a 
Courier New, pois todos os seus caracteres têm o mesmo tamanho. Assim, pode-se contar 
que, na média, cada linha de texto equivale a 5 segundos de leitura.
74 PREPARANDO O PROGRAMA ÚLTIMAS REFLEXÕES 75 
Exercício 12 
Baseando-se no exemplo acima, junte a sua equipe e faça o roteiro para o programa 
planejado a partir do exercício 3. Escreva os textos para os locutores, coloque as 
matérias na ordem, escolha os trechos das entrevistas que vão ser colocados no ar e 
escreva as orientações para o técnico. Não esqueça dos tempos das matérias e das 
entrevistas. Ao final, comparem com o que haviam desenvolvido antes e apresentem 
o roteiro aos colegas. 
9.7 Depois que o programa vai ao ar 
A equipe do programa deve se reunir para avaliar se a idéia inicial foi bem executa-da. 
Deve também ser comparado o planejamento inicial do programa com aquilo 
que foi ao ar. Uma forma fácil de avaliação é gravar e escutar coletivamente o progra-ma. 
Os resultados devem ser avaliados de acordo com o que foi produzido e o jeito 
que foi feito. Quando for debatido o programa, deve entrar em debate a participação 
dos ouvintes, através de chamadas telefônicas, mensagens de celular, correio eletrô-nico, 
MSN, visitas ao estúdio na hora do programa ou conversas fora do ar. Se houver 
polêmica sobre algum ponto, pode-se retomar o assunto no próximo programa. As 
discussões continuam na reunião que vai elaborar o próximo programa. 
10 ÚLTIMAS REFLEXÕES 
Aprender a negociar é muito importante, é um mo-mento 
de grande reflexão. A contaminação do 
culto ao ego que é propagada pela grande mídia, 
este mundo ilusório de grandes astros e estrelas, inevi-tavelmente 
reflete na cultura e na nossa forma de pensar. 
Para o trabalho que envolve a radiodifusão comunitária, 
a importância do que está em jogo está muito acima de 
quaisquer desejos pessoais ou problemas de carência 
afetiva mal resolvidos. Procurem trabalhar a sua convi-vência 
com os seus vizinhos e colegas de comunidade. 
Aprendam a receber críticas, mas sem levá-las para o 
lado pessoal. E aprendam a reconhecer a dedicação dos 
outros sem sentir-se diminuído – algumas pessoas inco-modam- 
se com o talento alheio. É preciso aprender a elo-giar 
e receber elogios. Faz parte do desenvolvimento de 
relações afetivas saudáveis. Aos mais talentosos, apren-dam 
a compartilhar seu conhecimento com os outros e 
preservem sempre a humildade – habilidades maiores 
podem até mesmo resultar em maiores responsabilida-des 
e, às vezes, são um fardo pesado a ser carregado. 
Mas talento e competência não fazem necessariamente 
seres humanos melhores. E isso faz parte de um aspecto 
fundamental que nos difere da lógica da mídia comercial. 
Afinal de contas, é sempre importante lembrar que todos 
somos e sempre seremos ignorantes em algum aspecto 
– isso é uma máxima inquestionável desde o princípio da 
história da humanidade. Assim como é fato que todos 
queremos e buscamos, acima de tudo, carinho e atenção 
– cuja ausência, segundo grandes teorias da psicologia, 
são a origem de muitas de nossas tormentas espirituais. 
Prova de que, acima da realização puramente pessoal, 
compartilhar nossas experiências e cultivar relações fun-dadas 
na afetividade e no respeito mútuo, talvez ainda 
seja um dos grandes sentidos para a dádiva da vida. 
Exercício Final 
Reelaborar coletivamente a grade de programação para a rádio. Negociem os horá-rios, 
tentando ser flexíveis, pensando sempre no que é melhor para a rádio e conse-qüentemente 
para a comunidade. Em caso de impasses que não chegam a consen-so, 
optar por uma votação ou apelar para um sorteio. 
Ivan Vieira
67 REFERÊNCIAS REFERÊNCIAS 77 
REFERÊNCIAS 
ADAMI, Antonio; LONGHI, Carla Reis. O rádio com sotaque paulista: rádio DKI “A Voz 
do Juqueri”. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/ 
resumos/R1927-1.pdf>. Acesso em: 15 jan. 2009. 
AMARAL, Márcia Franz. Jornalismo popular. São Paulo: Contexto, 2006. 
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RADIODIFUSÃO COMUNITÁRIA-RS. Rádio 
comunitária: como produzir conteúdo para agricultura familiar. Porto Alegre: 
Produção Independente, 2007. 
BARBEIRO, Heródoto. Manual de radiojornalismo: produção, ética e internet. Rio 
de Janeiro: Campus, 2001. 
BARBOSA, Gustavo; RABAÇA, Carlos Alberto. Dicionário de comunicação. São 
Paulo: Ática, 1987. 
BRASIL. Ministério das Comunicações. Como instalar uma rádio comunitária: 
manual de orientação. Disponível em: <http://www.mc.gov.br/radio-comunitaria/ 
manual>. Acesso em: 10 jan. 2009. 
______. Legislação para rádios comunitárias. Disponível em: <http://www. 
mc.gov.br/radiodifusao/legislacao/sonora/radcom>. Acesso em: 10 jan. 2009. 
______. Rádio comunitária. Disponível em: <http://www.mc.gov.br/radiodifusao/ 
perguntas-frequentes/radio-comunitaria>. Acesso em: 10 jan. 2009. 
BRITTOS, Valério; LIMA ROCHA, Bruno. Da contra-informação ao pensamento 
único neoliberal: conceitos de crítica à indústria da mídia. Disponível em: <http:// 
www.estrategiaeanalise.com.br/teoria.php?seltitulo=420757fce1d843aa90021fac9e 
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BROCANELLI, Rodney. Rádios livres: Breve História. Disponível em: <http:// 
www.locutor.info/Biblioteca/Radios_Livres.doc>. Acesso em: 2 jan. 2009. 
CABRAL, Adílson; LIMA ROCHA, Bruno. O empoderamento popular por meio 
das rádios comunitárias: uma análise crítica. Disponível em: <http://www. 
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7&&idtitulo=6cdace326048c1a0a88784e31c10100c>. Acesso em: 31 mar 2009. 
COGO, Denise Maria. No ar... uma rádio comunitária. São Paulo: Paulinas, 1998. 
CIRANDA INTERNATIONAL DE L’INFORMATION INDEPENDENTE. Reforma política 
precisa democratizar a comunicação. Disponível em: <http://www.ciranda.net/ 
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DETONI, Márcia. Desenvolvimento da radiodifusão comunitária no Brasil. 
Disponível em: <http://biadornelles.blogspot.com/2005/09/desenvolvimento-da-radiodifuso. 
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FERRARETO, Luiz Artur. Rádio: o veículo, a história e a técnica. Porto Alegre: Sagra 
Luzzatto, 2001. 
HARTMANN, Jorge; MUELLER, Nelson (Org.). A comunicação pelo microfone. 
Petrópolis: Vozes, 1998. 
HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: o breve século 20 (1914-1991). São Paulo: 
Companhia das Letras, 1998. 
LIMA, Venício A. de; LOPES, Cristiano Aguiar. Coronelismo eletrônico de novo 
tipo (1999-2004). Disponível em: <http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/ 
download/Coronelismo_eletronico_de_novo_tipo.pdf>. Acesso em: 10 jan. 2009. 
LUZ, Dioclécio. Trilha apaixonada e bem-humorada do que é e de como 
fazer rádios comunitárias na intenção de mudar o mundo. Brasília: Produção 
Independente, 2001. 
MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como externsões do homem. São 
Paulo: Cultrix, 1964. 
MELIANI, Marisa. Rádios livres, o outro lado da voz do Brasil. 1995. Dissertação 
(Mestrado em Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes. Universidade de 
São Paulo. São Paulo, 1995. 
ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informação no rádio: os grupos de poder e a 
determinação dos conteúdos. São Paulo: Summus, 1985. 
PAIVA, Raquel (Org.). O Retorno da comunidade: os novos caminhos do social. 
Petrópolis: Vozes, 1998. 
PERUZZO, Cicilia M. Krohling. Comunicação nos movimentos populares: a 
participação na construção da cidadania. Petrópolis: Vozes, 1998. 
PRADA, Marcelo. Rádio 24 horas de jornalismo. São Paulo: Panda, 2000. 
PROCURADORIA FEDERAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO. Convenção Americana de 
Direitos Humanos: Pacto de San José da Costa Rica. Disponível em: 
<http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/legislacao-pfdc/docs_convencao/convencao_ 
americana_dir_humanos.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2008. 
PROJETO DISSONANTE. Como montar uma rádio web. Disponível em: <http://bill. 
dissonante.org/site/index.php?arquivo=comofazer>. Acesso em: 31 out. 2008.
78 REFERÊNCIAS ANEXO 79 
REDE VIVA FAVELA. Informações – Cartilhas. Disponível em: <http://www. 
redevivafavela.com.br/>. Acesso em: 15 jan. 2009. 
SILVA, Terezinha. Gestão e mediações nas rádios comunitárias: um panorama do 
estado de Santa Catarina. Chapecó, SC: Argos, 2008. 
SIQUEIRA, Ethevaldo. Hélio Costa abandona projeto de rádio digital. Disponível em: 
<http://www.ethevaldo.com.br/Generic.aspx?pid=458>. Acesso em: 2 jan. 2009. 
SOUZA, Ana Inês; COSTA, Rosa Maria Dalla (coord.). Rádios comunitárias: a voz da 
comunidade. Curitiba: CEFURIA, NCEP/UFPR, 2006. 
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL. Cartilha (sem frescura) da 
rádio comunitária. Porto Alegre: Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, 2002. 
VIGIL, José. Rádio revista de educação popular. São Paulo: Aler, 1986. 
ANEXO 
O texto a seguir foi reproduzido das páginas 23 e 24 da obra Rádios 
comunitárias: a voz da comunidade, publicado em maio de 2006 sob 
coordenação de Ana Inês Souza e Rosa Maria Dalla Costa, com texto de 
Larissa Limeira, edição de Anderson Moreira, arte de Lielson Zeni e Marcos Teixeira e 
colaboração de Carla Cobalchini e Daniela Mussi. A publicação é o primeiro caderno 
de uma série intitulada Comunicação e Cultura Popular, produzida pela CEFURIA e 
NCEP/UFPR. O texto selecionado aborda possíveis providências a serem tomadas 
em caso de intervenção à rádio por parte dos órgãos públicos responsáveis pelo 
controle, fiscalização e repressão do setor no Brasil. 
DEFENDA-SE! 
Em algumas ocasiões, pode acontecer que a Polícia Federal e a Anatel promovam 
uma repressão violenta e muitas vezes ilegal contra as rádios comunitárias. Uma 
rádio comunitária só pode ser fechada ou lacrada com determinação constitucional. 
De forma que, se agentes da Anatel ou da Polícia Federal quiserem fechar sua rádio 
comunitária, não permita: 
PRIMEIRO: Chame a comunidade para defender a emissora e ser testemunha 
desse abuso. Use o microfone e o telefone. Monte uma rede de informações na 
comunidade. A comunidade deve estar preparada para avisar a todos quando apare-cerem 
agentes da Anatel ou da PF no lugar. 
SEGUNDO: Não deixe o agente entrar na sala ou residência sem que a justiça 
tenha dado permissão para isso e que você tenha sido comunicado anteriormente. 
Só permita a entrada dos agentes da Polícia Federal na rádio se apresentarem um 
mandado judicial. Só um juiz tem poder para determinar o lacre da emissora, a apre-ensão 
de equipamentos ou a prisão de alguém. 
TERCEIRO: Existe uma decisão do Supremo Tribunal Federal que diz que a Anatel 
não pode apreender ou lacrar equipamentos. É ilegal. Fale para o agente que lhe visitar. 
QUARTO: Se insistirem na arbitrariedade, vá à Delegacia de Polícia e de-nuncie 
esses agentes por abuso de autoridade, invasão de domicílio, danos 
morais, danos de patrimônio, fur to de equipamentos... Depois você entra com 
um processo contra a Anatel. No momento, é a pessoa física do agente que 
deve ser denunciada. Denuncie ao promotor local.
80 ANEXO 
QUINTO: Documente tudo. Anote o nome dos agentes, fotografe, grave 
em fita cassete, em vídeo. Deixe o microfone ligado, transmitindo para toda 
cidade. Lembre-se, porém, que eles estão numa atividade ilegal. Então farão de 
tudo para não se identificar e, se preciso, usarão de violência para evitar que 
a ação seja documentada. 
SEXTO: A comunidade deve ter um advogado instruído na matéria para 
defender a emissora e deixar bem claro aos agentes que eles estão cometendo 
um abuso de autoridade. E que eles serão processados, e não a Anatel. 
SÉTIMO: Para se prevenir da repressão, entre com mandado de segurança 
e habeas corpus preventivo. O mandado garante o patrimônio físico da rádio, 
evitando que lacrem ou apreendam equipamentos. O habeas corpus garante a 
integridade física; é um salvo-conduto para os dirigentes da emissora, impedindo 
que sejam presos pela PF. Caso tenha já havido a apreensão, entre com o man-dado 
de segurança solicitando a devolução e a volta da rádio ao ar. Muitos juízes 
têm acatado tais pedidos. 
ANOTAÇÕES
ANOTAÇÕES 
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL 
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação 
Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação 
Rua Ramiro Barcelos, 2705 - Campus Saúde - Bairro Santana - Porto Alegre - RS 
51 3308 5067 - http://www.ufrgs.br/FABICO - http://www.ppgcom.ufrgs.br 
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RADIODIFUSÃO 
COMUNITÁRIA DO RIO GRANDE DO SUL 
Rua Ramiro Barcelos 1017 - sala 407 - Centro - Santa Cruz do Sul - RS 
51 9336 9547 - http://www.abracors.org.br 
GRUPO DE PESQUISA COMUNICAÇÃO, 
ECONOMIA POLÍTICA E SOCIEDADE 
Av. Unisinos, 950 - Bairro Cristo Rei - São Leopoldo - RS 
51 3591 1122 - Ramal 1356 - http://www.grupocepos.net 
NÚCLEO DE ECOJORNALISTAS DO RIO GRANDE DO SUL 
Rua dos Andradas, 1270 - 13º andar - Centro 
Porto Alegre - RS - http://www.ecoagencia.com.br 
REVOLUÇÃO DE IDÉIAS E EDITORIAL 
Rua Guilherme Alves, 901/104 - Bairro Petrópolis 
Porto Alegre - RS - 51 3398 1916 
http://www.editorarevolucaodeideias.com.br
REALIZAÇÃO 
APOIO 
FABICO - PPGCOM 
ABRAÇO RS 
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE 
RADIODIFUSÃO COMUNITÁRIA - RS 
Esta singela cartilha é resultado 
de um grande esforço coletivo 
por uma rede de comunicação 
mais democrática. Surge como 
uma proposta justamente no 
ano em que a I Conferência 
Nacional de Comunicação eclode 
com o tema “Comunicação: 
meios para a construção de 
direitos e de cidadania na era 
digital”. Sugere uma alternativa 
ao profissional do jornalismo. 
Propõe uma aproximação entre 
o ensino das faculdades de 
comunicação e uma atividade 
mais liberta, distinta da realizada 
no âmbito empresarial. Indica 
uma estratégia de organização 
para as rádios comunitárias, 
alertando comunicadores e 
comunidades para a importância e 
responsabilidade destes veículos. 
Aproxima teoria e prática, tentando, 
assim, alimentar a formação de 
uma rede comprometida com os 
anseios populares. Um modesto 
ferramental em auxílio a uma 
comunicação social mais ética, livre 
e consciente do seu papel junto às 
comunidades onde se insere.

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Radio comunitaria com c maiusculo

  • 1. Para fazer Ilza Girardi Rodrigo Jacobus organizadores RÁDIO COMUNITÁRIA com “C” maiúsculo
  • 2. Ilza Girardi Rodrigo Jacobus organizadores Para fazer RÁDIO COMUNITÁRIA com “C” maiúsculo Porto Alegre Inverno 2009
  • 3. SUMÁRIO APRESENTAÇÃO.............................................................................................................. 6 1 NOÇÕES INICIAIS....................................................................................................... 10 2 UMA BREVE HISTÓRIA............................................................................................... 11 3 MONTANDO UMA RÁDIO............................................................................................ 14 4 RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS................................................................................17 5 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL: O ALVOROÇO DA TRAJETÓRIA................... 21 5.1 Mas afinal, quem faz o movimento das rádios comunitárias?............................22 5.2 Tipos de emissoras comunitárias e a má fé dos oportunistas de plantão.........23 5.3 Limites da burocracia: o que fazer para abrir uma rádio comunitária?............25 5.4 A lei, ora a lei..........................................................................................................28 5.5 A integração das mídias populares ...................................................................... 30 5.6 A gestão: o maior dos desafios..............................................................................32 6 COMUNICAÇÃO: AFINAL, PARA QUE SERVE ISSO?................................................34 6.1 A comunicação em rádio........................................................................................35 7 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO DE CONTEÚDOS PARA RÁDIO..............................36 7.1 Funções em uma rádio...........................................................................................38 7.2 Programação e programas.................................................................................... 40 7.3 Gêneros....................................................................................................................42 7.4 Outros recursos radiofônicos.................................................................................52 7.5 Formas de realização do programa.......................................................................54 7.6 Como captar as informações?...............................................................................55 7.6.1 As fontes de informação.......................................................................................55 7.6.2 Mas de onde tirar as notícias da comunidade?...................................................57 7.7 Conselhos gerais sobre programas.......................................................................57 7.8 Grade de Programação...........................................................................................59 8 LOCUÇÃO.................................................................................................................... 61 8.1 Entonação ...............................................................................................................62 8.2 Ritmo........................................................................................................................63 8.3 Atitude e improvisos...............................................................................................63 8.4 Vocalização e dicção..............................................................................................63 8.5 Higiene vocal...........................................................................................................65 8.6 Dicas para uma boa locução..................................................................................65 9 PREPARANDO O PROGRAMA....................................................................................66 9.1 Idéia.........................................................................................................................66 9.2 Sinopse....................................................................................................................66 9.3 Pré-pauta.................................................................................................................67 9.4 Pauta........................................................................................................................67 9.5 Pré-roteiro...............................................................................................................68 9.6 Roteiro.....................................................................................................................69 9.6.1 Exemplo explicativo de roteiro..............................................................................69 9.7 Depois que o programa vai ao ar..........................................................................74 10 ÚLTIMAS REFLEXÕES..............................................................................................75 REFERÊNCIAS................................................................................................................76 ANEXO: DEFENDA-SE!...................................................................................................79 Você pode: copiar, distribuir, exibir e executar a obra criar obras derivadas Sob as seguintes condições: Atribuição. Você deve dar crédito ao(s) autor(es) original(is), da forma especificada pelo(s) autor(es) ou licenciante(s). Uso Não-Comercial. Você não pode utilizar esta obra com finalidades comerciais. Compartilhamento pela mesma Licença. Se você alterar, transformar, ou criar outra obra com base nesta, você somente poderá distribuir a obra resultante sob uma licença idêntica a esta. Para cada novo uso ou distribuição, você deve deixar claro para outros os termos da licença desta obra. Qualquer uma destas condições podem ser renunciadas, desde que você obtenha permissão dos autores. Nada nesta licença prejudica ou restringe os direitos morais dos autores. • • • Para fazer RÁDIO COMUNITÁRIA com “C” maiúsculo Organização: Ilza Girardi e Rodrigo Jacobus Textos: Bruno Lima Rocha, Carlos Bencke, David Rubbo, Eduardo da Camino, Ilza Girardi, João Ângelo Zanuzzi, Larissa de David, Leandro Belloc, Luís Eduardo Tebaldi Gomes, Natacha Marins, Natália Ledur Alles, Neusa Maria Bongiovanni Ribeiro, Paulo Ulbrich, Rodrigo Jacobus, Tiago Jucá e Vinícius Bastiani Revisão geral: Bruno Lima Rocha, Ilza Girardi, Natália Ledur Alles e Rodrigo Jacobus Revisão técnica: Cida Golin Normatização e Catalogação: Miriam Moema Loss - CRB 10/801 Edição: Rodrigo Jacobus Ilustração capa: Rafael Costa Ilustrações: Rafael Costa, Ivan Vieira e Sylvio Ayala Colaboração: Diogo Cristofolini e Ivan Vieira (edição de arte), Bruno Lima Rocha e Natália Ledur Alles (edição de texto), rádios A Voz do Morro FM, Quilombo FM, Integração FM, Santa Isabel FM, Coletivos Repórter Popular e Combate Audiovisual (construção dos conteúdos) Apoio: Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS/UNISINOS); Núcleo de Ecojornalistas (NEJ); Revolução de Idéias e Editorial; Gráfica da UFRGS Realização: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO), Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação (PPGCOM); Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária - Rio Grande do Sul (ABRAÇO-RS) Tiragem: 3000 exemplares P221 Para fazer rádio comunitária com “C” maiúsculo. / Ilza Girardi, Rodrigo Jacobus, organizadores ; Bruno Lima Rocha ... [et al.]. – Porto Alegre : Revolução de Idéias, 2009. p. : il. ISBN 978-85-60359-03-5 1. Rádio comunitária – Gestão. 2. Rádio comunitária – Cidadania. 3. Radiojornalismo. I. Girardi, Ilza Maria Tourinho. II. Jacobus, Rodrigo Maciel. III. Rocha, Bruno Lima. CDU 654.195
  • 4. APRESENTAÇÃO APRESENTAÇÃO APRESENTAÇÃO Ilza Maria Tourinho Girardi* Rodrigo Jacobus** Refazer a trajetória que resultou nesta cartilha Para fazer RÁDIO COMUNITÁRIA com “C” maiúsculo é muito gratificante. De modo muito pessoal e otimista, acre-ditamos que uma boa idéia, dedicada em beneficiar o todo, termina por propiciar inexplicáveis coincidências e facilita o andamento de projetos inspirados em nobres inten-ções. Foi o que aconteceu entre nós, nos seis anos que se passaram desde o lançamento da Cartilha (sem frescura) da Rádio Comunitária, em 2002, pela disciplina Projeto Experimental em Jornalismo III: Comunidade, no 8º semestre da habilitação em Jornalismo do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mesmo tomando rumos diferentes, nunca perdemos o contato, tampouco a relação de amizade que se estabeleceu. Quando nos reencontramos no corredor da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO) no início do primeiro semestre de 2008, agora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação (PPGCOM), comentamos sobre a cartilha de 2002: as dificuldades em unir teoria e prática, os erros e acertos, os conflitos e frustrações resultantes de toda a experiência. Empecilhos à parte, a procura pelo livreto, ainda que esparsa ao longo destes anos, surgia como indicação de que o esforço não havia sido em vão. Restavam poucas unidades de uma tiragem de 1000 exemplares, e surpreendentemente ainda havia procura pela tal cartilha. Partindo deste quadro inicial, resolvemos (re)inventar outra missão. Entre um comen-tário aqui, um aparte acolá, eis que começamos a montar uma estratégia para a reedição da cartilha de 2002. Novamente envolvendo os alunos da disciplina Projeto Experimental em Jornalismo III: Comunidade: dessa vez, os voluntários foram Carlos Bencke e Luís Eduar-do Tebaldi Gomes, que colaboraram na revisão e reformulação de parte dos textos. Tam- * Jornalista, doutora em Ciências da Comunicação, professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação (FABICO/UFRGS), onde também leciona na graduação. Através da disciplina Projeto Experimental em Jornalismo III: Comunidade desenvolve, junto aos estudantes, diversos projetos para disponibilizar instrumentos, tecnologias e reflexões que facilitem a comunicação dos grupos entre si e com os demais setores da sociedade. Através da mesma disciplina, há vários anos trabalha junto à FASE-RS (Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul) com crianças e adolescentes em estado de vulnerabilidade social, portadores de sofrimento psíquico e/ou em conflito com a lei. e-mail: [email protected] ** Jornalista, mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação (FABICO/ UFRGS). Atua na comunicação comunitária através do jornal Repórter Popular e colabora na construção de uma rede de comunicação popular através do Coletivo Repórter Popular. Também é membro do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS / UNISINOS). e-mail: [email protected] bém convidamos a participar desta empreitada o jornalista e cientista político Bruno Lima Rocha, coordenador de formação da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária do Rio Grande do Sul (ABRAÇO-RS), fervoroso militante engajado na luta por um espaço mais justo e adequado ao papel das rádios comunitárias frente aos latifúndios da comunicação no Brasil. Da mesma forma, Natália Ledur Alles, nossa querida colega no mestrado do PPG-COM/ UFRGS, prontificou-se a colaborar diante da afinidade de intenções que a vasta área da comunicação comunitária nos propicia – Natália participa do jornal Boca de Rua, fruto de um projeto realizado junto a moradores de rua de Porto Alegre. Caminhos que se cruzaram na sala de aula, em eventos, na convivência cotidiana... Tínhamos em comum o fato de es-tarmos engajados em atividades preocupadas com a realidade de setores marginais da so-ciedade, fator determinante para nossa união. Convidamos ainda o ilustrador Rafael Costa, o publicitário Diogo Cristofolini e o artista plástico Ivan Vieira para a edição de arte. Rafa-el, comunicador da Quilombo FM, Diogo e Ivan, ambos formados pela UFRGS, são também colaboradores voluntários do jornal popular independente Repórter Popular. Também Cida Golin, professora do PPGCOM e de rádio na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, colaborou com preciosas sugestões na revisão técnica da cartilha, sendo peça fundamental na nossa intenção em aproximar a universidade e a prática nas rádios comu-nitárias. No esforço de fazer esta interação, reunimos Cida com comunicadores populares, em um esfuziante debate sobre o assunto, realizado no dia 18 de outubro de 2008 na Escola Porto Alegre (EPA), junto à comunidade do Morro Santana – deixamos um grande MUITO OBRIGADO ao povo das rádios A Voz do Morro (Morro Santana), Quilombo FM (Restinga), Integração FM (Cachoeirinha), Santa Isabel FM (Viamão), Coletivos Repórter Popular e Combate Audiovisual. É preciso citar ainda a bibliotecária Miriam Loss, que colaborou com a normatização e catalogação na fase final da elaboração deste livreto. E fundamen-talmente lembrar a FABICO e o PPGCOM (UFRGS), que viabilizaram esta produção, e a ABRAÇO-RS, pela disposição em veicular este material junto a comunicadores populares. E o Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS/UNISINOS), o Núcleo de Ecojornalistas (NEJ), a editora Revolução de Idéias e a Gráfica da UFRGS, cujos apoios vêm somar ainda mais forças a essa batalha. A todos que se envolveram e/ou apoiaram esta iniciativa, direta ou indiretamente, nossos sinceros agradecimentos. Na cartilha de 2002, fomos movidos basicamente por um envolvimento com a Rádio Restinga FM. Na época, tal qual nesta reedição, pretendíamos fazer uma troca de conheci-mentos. Aprender com o pessoal da Restinga que fazia rádio e, em troca, levar um pouco do que estudávamos na universidade. Muita gente empenhou-se nessa tarefa. Além de nós, os alunos David Rubbo, Eduardo da Camino, João Ângelo Zanuzzi, Larissa de David, Leandro Belloc, Natacha Marins, Paulo Ulbrich, Tiago Jucá e Vinícius Bastiani. A Profa.Dra. Neusa Maria Bongiovanni Ribeiro forneceu boa parte do material teórico. O jornalista e fanzineiro Sylvio Ayala e o já citado Ivan Vieira contribuíram com as ilustrações. Como sinal de consideração a estes voluntários da primeira edição, reiteramos que muito do que está aqui, textos e ilustrações, foi aproveitado da cartilha anterior.
  • 5. APRESENTAÇÃO APRESENTAÇÃO Assim como nesta reedição, na época também queríamos, de alguma forma, reforçar o trabalho de aproximação da universidade com comunidades organizadas em torno de possíveis estruturas de transformação social. E, de lá para cá, as rádios comunitárias cada vez mais têm mostrado o seu potencial neste sentido. Infelizmente, no dia 15 de agosto de 2002, quatro meses após o lançamento da antiga cartilha, a rádio comunitária Restinga FM foi interditada pela Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), sem mandato ou ordem judicial. Assim como tantas outras que não conseguiram a tal concessão para funcionamento, a chamada outorga. Estranha-mente, os radares do órgão que fecha as rádios comunitárias por funcionarem sem concessão não detectam aquelas comerciais e até públicas cujas concessões estão vencidas. Nesse contex-to, a cartilha assume mais importância, pois, como antes, nossa intenção é continuar ajudando na capacitação de pessoas envolvidas com as autênticas rádios comunitárias. Dessa vez, porém, em um projeto mais ambicioso, que envolve a ABRAÇO-RS na aplicação deste material. Muito além de distribuir um material didático de qualidade, acreditamos que é fundamental difundir a idéia de construir uma rede de comunicação democrática organizada, combativa e atuante. No entanto, é importante ressaltar que não significa que tenhamos a intenção, com esta cartilha, de desconsiderar a formação para o exercício do jornalismo. Aliás, nossa preocu-pação também passa pelo ensino praticado nas faculdades, voltado em grande parte para o mercado, bem como pela prática com pouca ou nenhuma orientação realizada nas rádios “al-ternativas”, muitas vezes ainda distante das responsabilidades que envolvem a comunicação massiva, mesmo que em menor escala. Reconhecemos que o mercado de trabalho remu-nerado para os jornalistas de formação ainda está muito restrito às grandes redes empresa-riais, comprometidas com interesses privados e institucionais que, em geral, comprometem a função social da profissão. Por outro lado, temos uma enorme falta de coesão e condições no exercício do jornalismo no âmbito comunitário, onde oportunistas ocupam espaços que deveriam estar desempenhando um papel contra-hegemônico. Na realidade, há uma grande confusão que atravessa esta prática, seja profissional ou amadora, em um momento que deveríamos priorizar uma união por algo maior e mais nobre. O verdadeiro dilema que se apresenta passa por romper com o conservadorismo e o individualismo que impedem uma reflexão mais humana e profunda do que realmente está em jogo. Sem alternativas viáveis à sobrevivência do profissional, jornalistas de formação inevitavelmente terminarão, em sua grande maioria, servindo aos cartéis e oligopólios da comunicação, atuando na manutenção dos interesses de grandes empresários da comunicação, políticos profissionais, igrejas clien-telistas e seus respectivos aliados. Reivindicamos aqui que, se somente a propaganda insti-tucional pública investida nos meios privados fosse redirecionada para as redes comunitárias de comunicação, teríamos condições mais dignas para o exercício da profissão também nes-te âmbito. E a possibilidade de ampliação do mercado de trabalho para além das trincheiras do interesse privado, com profissionais servindo comunidades ao invés de empresas. A ausência de formação mínima e auxílio técnico dedicado são carências comuns a boa parte dos meios de comunicação comunitários. São aspectos que inevitavelmente colocam as rádios comunitárias em desvantagem brutal frente às comerciais, em especial nas cida-des onde há um grande número de emissoras. Sabe-se que ainda assim estas emissoras sobrevivem, mas é incontestável que maior suporte e qualificação poderiam ajudar a apri-morar suas produções, impulsionando o desenvolvimento do seu potencial criativo frente às conservadoras e repetitivas emissoras comerciais. Mas não se pode pressupor que os comunicadores comunitários vão ficar esperando de braços cruzados até que oportunidades surjam. Isso não vai ocorrer. Também não se pode afirmar que estes comunicadores não querem aprender, nem sentem falta de apoio ou orientação. Afinal, a grande maioria se engaja voluntariamente, e precisa dividir o tempo dedicado à rádio com outras responsabi-lidades, como o trabalho e a família. É neste ponto que pensamos na universidade pública como um aparato solidário à disposição da sociedade, colaborando na busca de alternativas sustentáveis, amparadas na construção e exercício da cidadania. E a participação do cidadão somente se efetiva quando existem amplos espaços de comunicação. Neste sentido, a rádio comunitária é um lugar privilegiado de distribuição de poder, cujo potencial está em pleno desenvolvimento. Já é conhecida e temida pelos segmentos que ganham com a concentra-ção da mídia, cujos lucros caminham lado-a-lado com o aumento da injustiça social. Esta singela cartilha é resultado de um grande esforço coletivo por uma rede de co-municação mais democrática. Surge como uma proposta justamente no ano em que a I Conferência Nacional de Comunicação eclode com o tema “Comunicação: meios para a construção de direitos e de cidadania na era digital”. Sugere uma alternativa ao profissional do jornalismo. Propõe uma aproximação entre o ensino das faculdades de comunicação e uma atividade mais liberta, distinta da realizada no âmbito empresarial. Indica uma estraté-gia de organização para as rádios comunitárias, alertando comunicadores e comunidades para a importância e responsabilidade destes veículos. Aproxima teoria e prática, tentando, assim, alimentar a formação de uma rede comprometida com os anseios populares. Um modesto ferramental em auxílio a uma comunicação social mais ética, livre e consciente do seu papel junto às comunidades onde se insere. Porto Alegre, julho de 2009. Rafael Costa
  • 6. 10 NOÇÕES INICIAIS UMA BREVE HISTÓRIA 11 1 NOÇÕES INICIAIS A comunicação é para todos e é direito de todos. Os brasileiros têm o direito à informação e à expressão garantidos pelo artigo 220 da nossa Constituição Federal. Aliás, o Brasil assinou o Pacto de San Jose da Costa Rica, em 1969, durante a Convenção Americana de Direitos Humanos . Neste pacto, está escrito que toda pessoa é livre para receber e difundir informações, sem que haja abuso de “[...] controles oficiais ou particulares de papel de imprensa, de freqüências radioelétricas ou de equipamentos e aparelhos usados na difusão de informação”. Assim, além de receber informação, cada pessoa pode também comunicar, ou seja, pesquisar, produzir e distribuir informações através de diversos meios de comunicação, abordando assuntos que domina, contando sobre a realidade em que vive, os problemas que ela e seus vizinhos encontram, as novidades que interessam à comunidade. Afinal, as pessoas mais indicadas para falarem sobre determinada realidade são aquelas que a vivenciam. É muito mais legítimo que um morador de um bairro ou cidade fale sobre como é morar lá, quais os problemas, quais as necessidades, do que alguém de fora, que não acompanha de perto os acontecimentos do local. Isto vale não só para um bairro, mas também para ca-tegorias de trabalhadores, setores sociais, defensores de uma causa específica e mesmo em todos os temas onde tenha gente envolvida e organizada em torno de OBJETIVOS COMUNS – por isso, falamos em COMUNIDADE. Para que essas informações sejam conhecidas pela maior quantidade de pes-soas, o rádio é o veículo de comunicação mais indicado. Ele está presente na maio-ria das casas, não é caro e, diferentemente dos jornais e outros meios escritos, não exige que as pessoas saibam ler para que possam compreender. Pelo rádio, as mensagens podem ser ouvidas coletivamente, em grandes grupos, em família, en-tre amigos, fazendo com que mais pessoas compartilhem o conhecimento e tam-bém os sentimentos despertados pelas notícias, músicas e outras informações. As RÁDIOS chamadas COMUNITÁRIAS devem ser realmente DEMOCRÁTI-CAS. A sua grande vantagem sobre as rádios comerciais é justamente a pos-sibilidade de qualquer pessoa da comunidade par ticipar. Além disso, são mais específicas, falam sobre assuntos locais, que dizem respeito à comunidade e que normalmente não são noticiados em emissoras comerciais. Assim, são capazes de mobilizar a população a buscar melhorias na qualidade de vida, formando identidade coletiva, abrindo espaço para a exigência de direitos e mudanças no que não está sendo cumprido nem atendido. Através das rádios comunitárias, pessoas e vozes que dificilmente são ouvidas nas redes comer-ciais têm espaço para suas manifestações. Para saber mais, ver: http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/legislacao-pfdc/docs_convencao/convencao_americana_dir_humanos.pdf Mesmo que o Brasil venha a adotar oficialmente o sistema digital de trans-missão, o sistema analógico continuará existindo e sendo utilizado por muitos anos, inclusive pelas rádios comerciais, já que para ter acesso ao que essas rádios emitem o ouvinte precisa ter um receptor digital. Assim, as rádios que optarem pelo sistema digital provavelmente continuarão operando no sistema analógico por bastante tempo, até que a maioria dos ouvintes disponha desse receptor. As rádios comunitárias, então, não precisam se preocupar com o fim do sistema analógico de transmissão, pelo menos por enquanto. Além disso, uma série de problemas de funcionamento fez com que o Ministro das Comunicações, Hélio Costa, recuasse na adoção do padrão americano de rádio digital, o IBOC (In Band on Channel), também conhecido como HD Radio . Pelo menos por algum tempo, os planos para o uso de rádio digital no Brasil estão suspensos. Pela importância que a comunicação produzida localmente assume na vida das pessoas atingidas, pelo papel do rádio como meio para informação, difusão do conhecimento e mobilização com possibilidades de transformação da realidade, as rádios comunitárias deveriam ser mais utilizadas e valorizadas. Esta cartilha, portanto, tem como objetivo auxiliar na reflexão sobre o papel da rádio comunitária e sua atuação – e também servir como referência para auxiliar tecnicamente na produção, planejamento e gestão das rádios e programas a serem veiculados. 2 UMA BREVE HISTÓRIA De um modo geral, a invenção do rádio é creditada ao físico italiano Guglielmo Marconi, que em 1896 conseguiu realizar a primeira transmissão confirmada de ondas sem uso de fio a uma distância de aproximadamente 3 quilômetros. Mas há controvérsias quanto ao assunto. Entre 1893 e 1894, o padre gaúcho Roberto Landell de Moura, conhecido como Padre Cientista, já havia realizado experiências do tipo. Conforme relata o Jornal do Commercio de 10 de junho de 1900, Landell de Moura teria feito uma apresentação pública de suas experiências com transmissões sem fios a uma distância aproximada de 8 km em linha reta, em um lugar conhecido como Alto de Santana, em São Paulo. O ato foi presenciado por autoridades brasileiras e britânicas. O padre chegou a patentear seus inventos no Brasil e nos Estados Uni-dos. No ano de 1904, o Patent Office de Washington concedeu-lhe patentes para um transmissor de ondas (771917), um telefone sem fio (775337) e um telégrafo sem fio (775846). No entanto, Marconi consta como inventor do rádio por ter registrado o primeiro transmissor de sinais à distância. A primeira emissora de rádio a operar com licença comercial foi a KDKA, nos Es-tados Unidos, na cidade de Pittsburgh, em 1920. Era a concretização de um processo Para saber mais, ver matéria de Ethevaldo Siqueira para o Estado de São Paulo de 28 de dezembro de 2008 em: http://www.ethevaldo.com.br/Generic.aspx?pid=458
  • 7. 12 UMA BREVE HISTÓRIA UMA BREVE HISTÓRIA 13 Rafael Costa que começou no século dezenove, a partir da industrialização e do crescimento das relações comerciais. A sociedade da época já contava com soluções como o telégrafo sem fios e o rádio como meio de comunicação bidirecional, usados para trocar men-sagens entre dois sujeitos afastados fisicamente. Foi David Sarnoff, um russo radicado nos Estados Unidos, que lançou a idéia de transformar o rádio em um meio de comuni-cação massiva, em carta à empresa Marconi Company, posteriormente transformada na Radio Corporation of America (RCA). A idéia de Sarnoff não foi inicialmente bem recebida. Coube à Westinghouse Electric Company, a partir de experiências de trans-missão do engenheiro Frank Conrad, impulsionar a idéia de Sarnoff. Conrad introduziu os principais conceitos de radiodifusão a partir das transmissões experimentais reali-zadas de sua garagem, em Wilkinsburg, no estado norte-americano da Pensilvânia: as idéias de estação, público, programas e anúncios. Atento à popularidade da experiên-cia de Conrad refletida na venda de aparelhos receptores, o então vice-presidente da Westinghouse, Harry P. Davis, convenceu a empresa a criar a KDKA. No Brasil, o marco inicial da transmissão radiofônica ocorre em setembro de 1922, com a transmissão de discursos do presidente Epitácio Pessoa e trechos da ópera O Guarani de Carlos Gomes, durante a exposição comemorativa do centenário da Indepen-dência, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, o rádio iniciaria sua trajetória no país com a instalação da primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Edgard Roquette-Pinto, um idealista, defensor da necessidade de transmitir educação e cultura aos brasileiros espalhados por todas as regiões do país. Era uma rádio de caráter cultural/educativo, cujo slogan manifestava suas intenções: “Trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. Na década de 1920, o rádio brasileiro caracterizou-se pela produção de programas simples, informativos e musicais, resultado da falta de investimentos no setor. Mas nos anos de 1930, o rádio recebeu autorização oficial para veiculação de anúncios, através do Decreto n° 21.111, de 1° de março de 1932. Empresas começaram a patrocinar as radionovelas, programas de auditórios, musicais e humorísticos. Paralelamente, a audi-ência do rádio começou a crescer, motivada pelo barateamento do custo dos aparelhos receptores. Este cenário vai desembocar na chamada época de ouro da rádio, que inicia-se nos anos de 1940 e prolonga-se até metade dos anos de 1950. A publicidade também influiu diretamente na introdução do jornalismo radiofônico no Brasil, em especial durante a Segunda Guerra Mundial. Em agosto de 1941, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro e a Record, em São Paulo, transmitiram a primeira edição do Repórter Esso, patrocinado pela multinacional Esso/Standard Oil, a Esso Brasileira de Petróleo. Posteriormente o noticiário estendeu-se para Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pernambuco, nas Rádios Farroupilha, Inconfidência e Jornal do Comércio respectivamente. Com uma fórmula importada dos Estados Unidos (United Press International), o informativo, que permaneceu no ar durante 27 anos, introduziu no Brasil um modelo de noticiário ágil e estruturado, linear, direto, corrido e sem adjetivações, que tornou-se sinônimo de credibilidade e abrangência. Tanto que, quando a Rádio Tupi, no Rio de Janeiro, noticiou o fim da Segunda Guerra, antecipan-do- se ao Repórter Esso, ninguém acreditou, tamanho era o prestígio do programa. A partir da metade dos anos de 1960, o rádio começa a registrar uma queda de audiência decorrente da popularização da televisão. A diminuição das verbas publi-citárias, a repetição dos mesmos tipos de programas e a transferência de profissio-nais para a televisão estão entre as principais causas para a decadência do veículo. O rádio, então, passa a produzir uma maior variedade de programas musicais, de notícias e esportivos, e acaba superando a necessidade de contar com grandes as-tros populares. O surgimento do transistor também traria um novo fôlego ao rádio, individualizando a audiência e possibilitando o fácil transporte do aparelho receptor. Assim, o rádio passa a acompanhar o ouvinte. Nos estádios de futebol, passa a ser um companheiro quase inseparável. Com a crescente massificação dos automóveis e dos transportes coletivos, torna-se um importante meio de comunicação durante os trajetos, assumindo definitivamente algumas de suas características mais mar-cantes, como a prestação de serviços e a utilidade pública em tempo real . Para saber mais, ver o livro Rádio: o veículo, a história e a técnica, de Luiz Artur Ferrareto (p. 79-191) e A informação no rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos, de Gisela Swetlana Ortriwano (p. 13-27).
  • 8. 14 MONTANDO UMA RÁDIO MONTANDO UMA RÁDIO 15 3 MONTANDO UMA RÁDIO De modo simplificado, a rádio transmite sons (a mensagem), através de ondas eletromagnéticas que se propagam pelo ar a partir de um sistema emissor (estação de rádio/comunicador) a um sistema receptor (aparelho de rádio/ ouvinte). Ao pensar em montar uma rádio, é preciso primeiro pensar neste esquema inicial, que é uma síntese do funcionamento de todo o processo: ESTAÇÃO DE RÁDIO  ONDAS ELETROMAGNÉTICAS  APARELHO DE RÁDIO COMUNICADOR  MENSAGEM  OUVINTE Assim, é preciso um local para a rádio. Depois, planejar as instalações do estúdio: • É preciso levar em conta que as ondas de rádio FM se propagam em linha reta. Se houver obstáculos no caminho, como edifícios e montanhas, o sinal vai ficar comprometido e não vai chegar a todos os lugares. Assim, quanto mais alto e aberto for o local, melhor será a transmissão. O ponto também deve ser central na comunidade, para atingir o máximo possível de residências; • Para as instalações ideais do estúdio, recomenda-se um espaço com área míni-ma de 22m², que pode ser dividido em 4 ou 5 compartimentos. Nestes ficarão o estúdio, um banheiro, sala do transmissor e recepção, sendo que o estúdio poderá ser dividido ainda em cabine de locução e sala de operação. Para o local de locução, sugere-se utilizar algum isolamento acústico, que pode ser impro-visado reaproveitando-se espuma de colchão, caixas de ovos e isopor. Lem-brando que, ao reciclar estes materiais, está se prestando um grande serviço ao meio ambiente – em especial o isopor, que é um produto muito poluente; Ivan Vieira • Quando há sala de operação e locução separadas, costuma-se colocar uma janela de vidro para comunicação visual entre o operador e o locutor. Sugere-se também que o transmissor fique em ambiente separado dos equipamentos de áudio para evitar interferências; • Para iluminação, pode-se utilizar lâmpadas comuns incandescentes e sugere-se piso acarpetado para o chão; • É melhor também que as mesas e cadeiras da cabine de locução não façam ruídos, sendo que a mesa pode ser forrada com algum tecido grosso, tipo de estofamento de carro, para abafar ruídos indesejáveis. A mesa de operação fica melhor se disposta em forma de letra "U", com 1,80m de largura por 1,80m de comprimento (quadrada), com um vão interno de 1 metro. A altura recomenda-da fica entre 85cm e 80cm, dependendo do porte médio dos operadores; • A distribuição dos equipamentos deve observar também padrões ergométricos, de modo que todos os equipamentos deverão estar ao alcance das mãos de maneira confortável e operacional; • Sugerem-se ainda três aterramentos independentes e distantes um do outro, sendo um para os equipamentos de som, outro para o transmissor e outro para o para-raios, que, por questões de segurança, é altamente recomendado. Claro que isso é uma situação ideal, de custo mais alto, que exige muito trabalho. Em grande parte das rádios comunitárias, muitos destes elementos são improvisados e a rádio entra no ar da mesma forma, com banquinho de madeira e mesa de cozinha, um aparelho 3-em-1 velho, tudo instalado nos fundos da casa de alguém. Mas fica a suges-tão para que a comunidade se organize e estabeleça metas para, aos poucos, aprimorar e qualificar a sua rádio. Na Internet, é possível encontrar empresas especializadas que fazem toda a instalação, mas obviamente estes profissionais cobram por isso. Os equipamentos básicos para o funcionamento de uma rádio são: • Microfone, tocadores de CD e/ou DVD/MP3, toca-fitas, toca-discos, entre outros, que permitem reproduzir voz, músicas, ruídos e efeitos acústicos; • Computador: com o computador pode-se automatizar uma série de procedi-mentos e reproduzir músicas, dispensando até os tocadores de CD ou apare-lhos de som. Além disso, se houver uma conexão com a Internet, é possível buscar informações para os noticiários, colocar uma página on-line, instalar uma rádio web com programação simultânea e utilizar programas de mensa-gens instantâneas para se comunicar com os ouvintes; • Chave híbrida: possibilita transmissões pelo telefone. Com a chave hí-brida é possível fazer reportagens ao vivo com repórteres nos locais dos acontecimentos (por telefone) ou ainda realizar programas interativos com a participação de ouvintes;
  • 9. 16 MONTANDO UMA RÁDIO RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS 17 Rafael Costa • Mesa de som: também conhecido como “mixer”, permite controlar, separar ou misturar todos os sons gerados pelos aparelhos citados anteriormente. É a mesa que possibilita aquela musica baixinha de fundo (a chamada “cortina”) enquanto o locutor fala; • Equalizador: é um aparelho opcional, cuja maior função é ajustar a quali-dade do som; • Gerador de estéreo: neste aparelho o som adquire característica de estéreo, o que permite os sons em dois canais para dois ou mais alto-falantes, transmitin-do aquela sensação de distribuição espacial; • Transmissor: transforma e transmite para a antena as ondas de rádio FM numa freqüência determinada – é onde se define o “canal” da rádio; • Antena: transmite as ondas que serão captadas pelos rádios FM da região quando sintonizados na freqüência estabelecida no transmissor. A antena deve ficar o mais próxima possível do transmissor, para não haver perda de ganho do sinal. Para uma montagem segura, sugere-se um alicerce de no mínimo 1/4 de profundidade em relação ao tamanho da torre e pelo menos três estirantes de sustentação a cada seis metros de altura, formando um ângulo de no míni-mo 30º em relação ao eixo da torre. Se possível, instale um para-raios a dois metros acima da antena e um metro longe do seu eixo – lembrando que este item é muito importante para a segurança (um raio na antena pode ser fatal não apenas para o equipamento, como também para quem estiver na rádio, especialmente quem estiver no estúdio operando com o equipamento). Com 4 a 5 mil reais já é possível montar uma boa rádio – um kit completo para transmissão, com transmissor de 25W, gerador de estéreo, cabos e antena sai por uns 2 mil reais. Uma mesa de som, 600 reais. Uma chave híbrida sai por uns 150 reais. Aí tem os microfones (pelo menos dois), um computador ou aparelho de CD ou toca-discos, ou todos eles, de acordo com a possibilidade de investimento. Uma comunidade com poucos recursos pode montar uma rádio também, desde que haja boa vontade e participação popular. Pode-se organizar algum evento para angariar fundos, ou ainda uma rifa beneficiária. Houve casos em que moradores da comunida-de doavam os aparelhos: um doou o microfone, outro o transmissor, um outro cedeu um aparelho de som, e a rádio entrou no ar . Se houver recursos suficientes, pode-se ainda colocar uma conexão com a Internet, que dá acesso a muito conteúdo gratuito, um outro computador, que pode ser utilizado para gravação, ou ainda um transmissor intermediário conhecido como enlace (“link”), possibilitando transmissões a alguns quilômetros de distância do estúdio. Com este tipo de recurso, podem-se fazer trans-missões, por exemplo, diretamente dos jogos e eventos da comunidade, como os campeonatos de futebol de várzea ou festas da comunidade . 4 RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS A idéia de emissoras alternativas e autônomas, desvinculadas dos padrões institucionais impostos pelo controle estatal, não é recente. Embora o termo rádio livre esteja mais associado às emissoras que surgem nos anos de 1970, o fenômeno existe desde o início da radiodifusão. Mas foi na década de 1970, associado a movimentos liber tários europeus, em especial na Itália e na França, que ganhou impulso político, proliferando-se em emissoras locais de pouco alcance. Acredita-se que a primeira rádio de caráter livre te-nha sido uma emissora sindical que surgiu na Áustria em 1925. No Brasil, por exemplo, a rádio DKI – A Voz do Juqueri, atual Rádio Cultura de São Paulo, foi Para saber mais, ver o livro Trilha apaixonada e bem-humorada do que é e de como fazer rádios comunitárias na intenção de mudar o mundo, de Dioclécio Luz. Para saber mais, ver: cartilha Rádio comunitária: como produzir conteúdo para agricultura familiar, da ABRAÇO-RS, ou as cartilhas da Rede Viva Favela, disponíveis em http://www.redevivafavela.com.br/.
  • 10. 18 RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS 19 ao ar ilegalmente em 1933. E manteve esta condição por três anos, até sofrer intervenção policial e legalizar-se, em 1936, quando assumiu a nomenclatura atual . Por isso, o fenômeno não é tão recente quanto alguns podem pensar. Porém, o quadro se intensifica durante a ditadura militar. Transmissões clan-destinas eram realizadas em unidades móveis, utilizando baterias de automóvel. O objetivo era dificultar a localização, driblando o for te controle e a censura. Uma das primeiras experiências da qual se tem registro na época foi a da Rádio Paranóica, em Vitória do Espírito Santo, em outubro de 1970. Criada por dois meninos, um de dezesseis e um de quinze anos, utilizava o bordão “Paranóica, a única que não entra em cadeia com a Agência Nacional”. Como resultado, o mais novo foi preso e acusado de subversão, embora nem soubesse direito o que isso significava. A Paranóica foi interditada, mas voltou a funcionar em 1983 e se manteve no ar até a segunda metade dos anos 90 com o nome de Rádio Sempre Livre. Outras experiências significativas foram a Rádio Spectro, de Sorocaba (SP), em 1976 e a Rádio Globo de Criciúma (SC), em 1978. Mas é impor tante ressaltar que, por este período, as rádios eram inspiradas mais por um espírito de rebeldia sem muito compromisso, sem grandes pretensões ou causas. De um modo geral, eram jovens entusiastas que queriam apenas praticar a ar te da radiofonia. Na década de 1980, o fenômeno começou a ganhar mais impulso. Os primei-ros anos foram marcados pelo movimento de jovens de Sorocaba (SP), que, em iniciativas individuais, se apropriaram das ondas livres do rádio com emissoras de baixa potência com programações alternativas às das emissoras FM. A grande quantidade de técnicos e estudantes de eletrônica nesta cidade, a ociosidade do período das férias escolares, os esquemas em revistas importadas e a facilidade em conseguir peças em qualquer loja especializada criavam um contexto propício para este fenômeno localizado. Mas estas emissoras tocavam muita música e o playlist não era muito diferente das rádios oficiais. Em 1981 já se tem o registro de pelo menos 6 estações em Sorocaba: Estrôncio 90, Alfa 1, Colúmbia, Fênix, Star e Centaurus. Durante o verão de 1982 chegaram a ser registradas 42 emissoras clandestinas na cidade, que posteriormente seriam perseguidas e aniquiladas pela fiscalização do extinto Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL). Em 1984, as estações já não passavam de 15. Com a repressão, o discurso que inicialmente não tinha base ideológica passa a voltar-se contra o monopólio das FMs. A partir de 1985, o fenômeno começa a proliferar-se ainda mais. Em São Paulo, surgem as rádios Xilik, Vírus, Dengue, Seilá e Totó Ternura. Em 1986, surge no Rio de Janeiro a Frívola City. Na década de 90, várias outras surgem, cada uma com sua história e suas características: Reversão, Nova Geração, Muda e Onze Para saber mais, ver o artigo de Antonio Adami e Carla Reis Longhi, O Rádio Com Sotaque Paulista: Rádio DKi “A Voz do Juqueri”, disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/ resumos/R1927-1.pdf. Sylvio Ayala são alguns exemplos. Também começam a aparecer com mais freqüência as com perfil religioso, como a Free FM. Mas é neste período que começam a surgir várias rádios de caráter comunitário, como a Rádio Sabiá do Recife (PE), Rádio Popular Santa Amélia de Curitiba (PR), Rádio Calabar de Salvador (BA), Rádio Popular de Heliópolis e Rádio do Povo (SP), Rocinha e Rádio Saara (RJ), Rádio Favela de Belo Horizonte (MG), entre outras. As rádios livres são emissoras que podem ou não ter um cunho político, podendo ser motivadas também por intenções religiosas, pornográficas, comerciais ou simplesmente entusiásticas. Por isso, diferenciam-se das comunitárias, cujos objetivos vão além das experiências de caráter pessoal/in-dividual e/ou isoladas do local onde se estabelecem. Há ainda outras experiências de caráter popular que, em alguns casos, acabam resultando em emissoras radiofônicas. O uso de cornetas ou alto-falantes fixados em postes, popularmente conhecidos em alguns lugares como “rádio-poste”, é
  • 11. 20 RÁDIO LIVRE E OUTRAS IDÉIAS RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 21 uma experiência de comunicação comunitária bastante difundida em função do seu baixo custo e da fácil implementação. Normalmente são instaladas em paróquias, mercados, praças ou feiras, enfim, em locais públicos onde haja grande concen-tração ou circulação de pessoas. A maior desvantagem deste sistema está no fato de que o ouvinte não pode “trocar” de estação, pois os alto-falantes “falam” para todo mundo, inclusive para quem não quer ouvir. Outra interessante experiência de comunicação participativa à distância são os chamados cassete-fórums. Originários do Uruguai no final da década de 1970, consistem em um sistema onde grupos trocam fitas-cassetes com debates em torno de um tema comum definido a partir de uma mensagem distribuída por uma coordenação central. As fitas são enviadas para esta coordenação, que analisa as mensagens, edita com a opinião de todos os grupos e grava em uma nova fita que é reenviada para todos. O fórum pode continuar indefinidamente, até que o assunto seja considerado esgotado. Com a popularização da informática e da Internet, a proposta do cassete-fórum perde um pouco da sua força inicial. Mas a idéia de produzir discussões grupais à distância através da comunicação oral pode ser rea-daptada aos novos recursos tecnológicos, preservando a essência desta iniciativa popular. É possível encontrar na Internet softwares gratuitos para conferências, de modo a realizar experiências similares, porém em tempo real. Para tanto, é ne-cessário que cada grupo possua pelo menos um computador com Internet banda larga e um bom microfone, que consiga captar a voz dos participantes. Outra pos-sibilidade é manter a estrutura original do cassete-fórum, mas utilizando a troca de arquivos de áudio, como os MP3, ao invés de fitas-cassete . Há ainda uma experiência mais recente, ainda em fase de apropriação e de-senvolvimento. Tratam-se das chamadas “rádios web”, emissoras que transmitem sua programação através da Internet utilizando uma tecnologia chamada streaming. Funcionam exatamente como uma rádio que opera por ondas, podendo inclusive ser incorporadas e utilizar o equipamento já existente. A diferença é que o sinal é trans-mitido pela Internet, sendo conseqüentemente recebido pelo mesmo meio. Assim, as “rádios web” não podem ser sintonizadas em um aparelho de rádio convencional. É uma tendência a ser explorada e já é possível ouvir este tipo de emissora em alguns modelos de celulares, por exemplo. É uma questão de tempo para esta tecnologia po-pularizar- se. Uma das grandes vantagens deste sistema é que não existem limitações para quantidade de emissoras, nem regulamentação (pelo menos por enquanto) . Para saber mais, ver a dissertação de Marisa Meliani, Rádios livres, o outro lado da voz do Brasil, de 1995, ou o texto de Rodney Brocanelli, Rádios Livres - Breve História, disponível em: http://www. locutor.info/Biblioteca/Radios_Livres.doc, ou ainda os livros Comunicação nos movimentos populares: a participação na construção da cidadania de Cicilia Peruzzo (p. 241-258) e No ar... uma rádio comunitária de Denise Maria Cogo (p. 73-91). Um bom tutorial para montar este tipo de emissora pode ser encontrado na página Projeto Dissonante em: http://bill.dissonante.org/site/index.php?arquivo=comofazer. 5 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL: O ALVOROÇO DA TRAJETÓRIA As rádios livres dos anos de 1980 apresentavam um caráter mais experimental. No decorrer daquela década, o movimento popular vai se apropriando da comu-nicação social, e constitui a Frente Nacional pela Democracia na Comunica-ção, muito atuante durante o processo da Assembléia Constituinte (1986-1987). Esta pressão teve como fruto o texto da Constituição de 1988. O Capítulo V nos Artigos 220, 221, 222 e 223 assegura este direito. No Art. 223 está escrito: “deve ser observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal”. Para sim-plificar, significa que o povo brasileiro tem o direito de ter e gerir um sistema público não-estatal de informação, comunicação e cultura. Como, de lá para cá, os governos jamais respeitaram este direito, foi e continua sendo necessário conquistá-lo. Antes da promulgação da Lei do Serviço de Radiodifusão Comunitária em 1998 (conhecida como Lei 9612/98), uma parte dos comunicadores populares bra-sileiros já entendia a comunicação social como fundamental para a radicalização democrática e para os movimentos sociais. O grau de organização necessária para fundar uma entidade nacional é atingido no ano de 1996. É quando nasce a idéia de Rafael Costa
  • 12. 22 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 23 representação legal e social das emissoras comunitárias de rádio. Recebe o nome de Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (ABRAÇO) e tenta pressionar o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998) a assinar uma lei que legalize as emissoras populares, até então consideradas ilegais. Uma década já havia se passado desde que se formou a base constitucional pro-pondo um sistema público não-estatal de comunicação social. Na ponta desta luta, com perfil diferente da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) e da Executiva Na-cional de Estudantes de Comunicação Social (ENECOS), começam a surgir inúmeras iniciativas populares. Frente à pressão, o então Ministro das Comunicações do primei-ro governo de FHC, Sérgio Motta, assina no ano de 1998 a Lei 9612/98. Esta lei, na teoria, regula um modelo de rádios comunitárias de baixa potência. Mas, na prática, os problemas desta lei e suas conseqüências são tema de constantes debates . O fato é que a partir da base legal, mesmo que pouco regulada, o que era quase fora de controle se torna totalmente incontrolável, tanto para o Estado quanto para as forças sociais organizadas em torno da democratização da comunicação social no Brasil. Desde que a lei foi promulgada, os governos têm fechado, em média, uma rádio por dia. Infelizmente, a formação de um suposto “movimento” ainda sofre com a escassez de comunicadores conscientes do seu papel social, ou seja, gente capaz, dedicada, atuante e responsável dentro deste cenário. Na verdade, a montagem do sistema público não-estatal está se desenvolvendo com muita dificuldade a partir dos esforços do movimento popular dedicado a esta causa10. 5.1 Mas afinal, quem faz o movimento das rádios comunitárias? Diferente de outros setores dos movimentos sociais, a balbúrdia entre identidades no movimento das rádios comunitárias no Brasil afeta diretamente a construção da organização destes comunicadores populares. Nas rádios comunitárias, cabem todos, incluindo diferentes motivações e projetos, independente de ideologias. A diversidade sempre é positiva, mas a falta de objetivo estratégico gera a um sem número de posições confusas e conflitantes, dificultando a articulação. Já são mais de 3.300 rádios comunitárias com outorga definitiva e outras 15.000 que estão no ar brigando pela legalização. Neste total, incluímos emissoras com outor- Para saber mais, ver também o texto de Márcia Detoni, Desenvolvimento da radiodifusão comunitária no Brasil, localizado no blog da professora de comunicação da PUC/RS Beatriz Dornelles em: http://biadornelles.blogspot.com/2005/09/desenvolvimento-da-radiodifuso.html e http://biadornelles. blogspot.com/2005/09/desenvolvimento-da-radiodifuso_22.html. 10 Para saber mais sobre a legislação para rádios comunitárias, ver http://www.mc.gov.br/radiodifusao/ legislacao/sonora/radcom. ga, com pedido de outorga, as lacradas e apreendidas, bem como aquelas que estão funcionando sem nenhuma garantia legal. As Rádios Comunitárias autênticas, “com C maiúsculo”, tanto no projeto quanto na motivação, são minoria dentro do contexto ge-ral. Em média, uma emissora comunitária movimenta de 20 a 50 pessoas diretamente envolvidas. Esta base é composta, em geral, por rádio-amantes. Assim, o problema termina sendo conceitual. Boa parte dos animadores de rádios têm compromissos e participação social em diversos níveis. Mas até chegar a ser uma participação cons-ciente da importância social deste tipo de rádio, o que caracteriza as comunitárias “com C maiúsculo”, existe um abismo. Enfim, falta responsabilidade para com a pro-posta essencialmente democrática destes veículos. Na estimativa mais modesta, o conjunto das rádios comunitárias movimenta mais de 300.000 ativistas-comunicado-res diretos. Estão na ponta da luta pela democracia na comunicação brasileira. Mas, muitas vezes, nem sabem onde se posicionam, e terminam ganhando maior consci-ência quando ocorre alguma repressão por parte da ANATEL / Polícia Federal11. Ivan Vieira 5.2 Tipos de emissoras comunitárias e a má fé dos oportunistas de plantão Em meio às diferenças que caracterizam a riqueza das comunitárias, é possível identificar alguns tipos de emissoras. Algumas rádios nem sempre estão ade-quadas à essência das idéias que devem orientar a conduta deste tipo de veículo 11 Para saber mais, ver o artigo de Adilson Vaz Cabral Filho e Bruno Lima Rocha, O empoderamento popular por meio das rádios comunitárias: uma análise crítica em: http://www.estrategiaeanalise.com. br/ler02.php?idsecao=922050d4e7d85ffb0ce2211f87d218b7&&idtitulo=6cdace326048c1a0a88784e 31c10100c.
  • 13. 24 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 25 de comunicação. Por isso, podem ser chamadas de pseudocomunitárias (falsas comunitárias). Grosso modo, as emissoras que se dizem comunitárias podem ser classificadas em quatro tipos mais comuns: • Rádios Comunitárias: mesmo sem outorga ou não operando conforme o projeto original, têm a intenção de funcionamento democrático, abrindo suas portas e estimulando a participação da comunidade onde estão inseridas. Portanto, são as comunitárias “com C maiúsculo”; • Rádios Livres: como já visto, são emissoras que não estão necessariamente em busca do amparo legal nem preocupadas em recompor o tecido social em torno da sua prática. Mas têm importante papel ao confrontar o coronelismo eletrônico, ou seja, a posse e utilização política das estações de rádio e tele-visão por grupos e familiares de elites normalmente políticas e/ou religiosas; Assim como as comunitárias “com C maiúsculo” sem outorga, são comu-mente rotuladas como rádios “piratas”; • Picaretárias: é uma expressão empregada para a emissora “comunitária” de intenção comercial e/ou de propriedade de políticos profissionais. Estas emissoras usam brechas da lei para brigar pela outorga de comunitária, mas adotam práticas mais comuns às comerciais, sendo utilizadas em benefício e/ou promoção do(s) seu(s) proprietário(s). São comunitárias de fachada, normalmente absorvidas pela prática do coronelismo eletrônico; • Neopentecostais: são emissoras de pequenas igrejas neopentecostais, evan-gélicas e/ou católicas, congregações de menor poder aquisitivo, ou mesmo corporações religiosas sem um grande veículo de comunicação à sua disposi-ção. Assim como as “picaretárias”, também são compostas por oportunistas de plantão que conseguem outorga de comunitária e utilizam o veículo para fins específicos ou particulares. Mesmo em menor escala que as “picaretárias”, não deixam de incorporar certas práticas comuns ao coronelismo eletrônico; Entre as práticas que são mais comuns em rádios comerciais, e que são normal-mente incorporadas pelas “pseudocomunitárias”, podemos citar: • venda de espaço na emissora; • vínculo do tipo “chapa branca”, com relações de subordinação ou parceria com os poderes políticos locais; • apoio cultural na forma de jabá, veiculando uma grande quantidade de “abra-ços” e “parabenizações” para comerciantes da região. Muitas vezes, este jabá nem entra no caixa da rádio, indo direto para o bolso de quem captou o apoio; • É comum vermos comunicadores de emissoras com outorga de comunitária lançando-se para vereador e/ou apoiando candidaturas, direta ou indireta-mente Bem como outros eventos de ordem particular/privada. A intenção, nestes casos, é pura e simplesmente a promoção e o benefício pessoal12. 5.3 Limites da burocracia: o que fazer para abrir uma rádio comunitária? Podem pleitear uma rádio comunitária somente as fundações e as associações co-munitárias sem fins lucrativos, legalmente constituídas e registradas, com sede na comunidade em que pretendem prestar o serviço, cujos dirigentes sejam brasi-leiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, maiores de 18 anos, residentes e domiciliados na comunidade. A fundação/associação candidata a prestar serviço de RÁDIO COMUNITÁRIA, não deverá, de forma alguma, ter ligação de qualquer tipo e natureza com outras instituições. Nos respectivos estatutos deve constar o objetivo de “executar o Serviço de Radiodifusão Comunitária”. Para dar encaminhamento à legalização da rádio é necessário: • Retirar da página na Internet do Ministério das Comunicações o "formulário de demonstração de interesse em instalar rádio comunitária". O formulário deve ser preenchido e enviado por via postal ou pela Internet; 12 Para saber mais, ver a pesquisa Coronelismo eletrônico de novo tipo (1999-2004) de Venício A. de Lima e Cristiano Aguiar Lopes, disponível em: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/download/ Coronelismo_eletronico_de_novo_tipo.pdf. Ivan Vieira
  • 14. 26 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 27 • Aguardar um comunicado com o número do processo. Então, deve-se espe-rar a publicação no Diário Oficial da União ou verificar na página do Ministério das Comunicações (MC) o "Aviso de Habilitação". Este aviso indica as locali-dades e as coordenadas geográficas onde há disponibilidade de canal para a execução do serviço; • Apresentar a documentação para a seleção da autorização no prazo máximo de 45 dias: a) cópia de comprovante de inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurí-dicas do Ministério da Fazenda – CNPJ/MF; b) Estatuto Social, devidamente registrado; c) Ata de constituição da entidade e Ata de eleição da diretoria em exercício, devidamente registradas; d) relação contendo o nome de todos os associados pessoas naturais, com o número do CPF, número do documento de identidade e órgão expedidor e endereço de residência ou domicílio, bem como de todos os associados pessoas jurídicas, com o número do CNPJ, número de registro no órgão competente e endereço da sede; e) prova de que seus diretores são brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos e maiores de dezoito anos ou emancipados; f) manifestação de apoio à iniciativa, formulada por pessoas jurídicas le-galmente constituídas e sediadas na área pretendida para a execução do serviço ou na área urbana da localidade, conforme o caso, ou firmada por pessoas naturais que tenham residência ou domicílio nessa área; g) declaração, assinada pelo representante legal, especificando o endereço completo da sede da entidade; h) declaração, assinada pelo representante legal, de que todos os seus diri-gentes residem na área da comunidade a ser atendida pela estação ou na área urbana da localidade, conforme o caso; i) declaração, assinada por todos os diretores, comprometendo-se ao fiel cumprimento das normas estabelecidas para o serviço; j) declaração, assinada pelo representante legal, de que a entidade não é executante de qualquer modalidade de serviço de radiodifusão, inclusive comunitária, ou de qualquer serviço de distribuição de sinais de televisão mediante assinatura, bem como de que a entidade não tem como integran-te de seu quadro diretivo ou de associados, pessoas que, nessas condi-ções, participem de outra entidade detentora de outorga para execução de qualquer dos serviços mencionados; k) declaração, assinada pelo representante legal, constando a denominação de fantasia da emissora, se houver; l) declaração, assinada pelo representante legal, de que o local pretendido para a instalação do sistema irradiante possibilita o atendimento do dis-posto no subitem 18.2.7.1 ou 18.2.7.1.1, disposto na Norma Complemen-tar n° 1/2004; m) declaração, assinada por profissional habilitado ou pelo representante le-gal da entidade, confirmando as coordenadas geográficas, na padroniza-ção GPS-SAD69 ou WGS84, e o endereço proposto para instalação do sistema irradiante; n) declaração, assinada pelo representante legal, de que a entidade apresen-tará Projeto Técnico, de acordo com as disposições da Norma Comple-mentar n° 01/2004, e com os dados indicados em seu requerimento, caso seja selecionada; o) comprovante de recolhimento da taxa relativa às despesas de cadas-tramento. p) requerimento de autorização (Modelo A-2), no original ou cópia autentica-da, devidamente assinado pelo representante legal da entidade; • Após a fase de habilitação, inicia-se a seleção. As rádios selecionadas devem, então, apresentar o Projeto Técnico em prazo máximo de 30 dias. Este pro-jeto deve conter o Formulário Padronizado Modelo A-3, mais uma declaração (uma espécie de declaração de obediência às normas da ANATEL), planta de arruamento, diagrama de irradiação horizontal da antena transmissora, duas declarações de um profissional habilitado para a tarefa, um parecer conclu-sivo com o aval deste profissional e, por fim, Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) referente à instalação proposta13; • Aguardar a emissão de uma licença (OUTORGA), que passa por um parecer da Consultoria Jurídica do MC encaminhado ao Ministério das Comunicações, que, por sua vez, emite uma Portaria autorizando a execução do Serviço de Radiodifusão Comunitária; 13 Os formulários e modelos da documentação estão disponíveis em http://www.mc.gov.br/radio-comunitaria/ formularios.
  • 15. 28 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 29 • Após a emissão da Portaria pelo MC, a autorização só terá validade após tam-bém passar pela Presidência da República e ser autorizada pelo Congresso Nacional (Câmara e Senado) através de um Decreto Legislativo. Se o ato de autorização permanecer mais de 90 (noventa) dias sem que a Portaria tenha sido aprovada ou rejeitada, o Ministério das Comunicações poderá expedir uma autorização provisória para que a emissora comece a funcionar (final-mente!). Mas se o Congresso Nacional não aprovar a Portaria, a autorização perde a validade e a rádio deve parar as transmissões; • A ANATEL indica o canal (freqüência) apropriado, respeitando um limite de 4 km entre as emissoras para evitar interferências, pois é indicado um único canal para cada município; • A outorga valerá por dez anos, podendo ser prorrogada apenas se a entidade executar o serviço de forma apropriada14. 5.4 A lei, ora a lei... A Lei 9612/98 tem vários problemas e costuma ser um empecilho para a conquista de uma rádio comunitária. Tudo começa pelo padrão da outorga, anterior à pró-pria lei, e que passa pelo Congresso Nacional. Na média, um em cada três congres-sistas (deputados e senadores) é dono ou testa de ferro de emissora de rádio e/ou 14 Para saber mais, ver o manual Como instalar uma rádio comunitária em http://www.mc.gov.br/ radio-comunitaria/manual e o texto Rádio Comunitária em http://www.mc.gov.br/radiodifusao/perguntas-frequentes/ radio-comunitaria, ambos na página do Ministério das Comunicações. TV. É por isso que, a cada duas rádios comunitárias outorgadas, uma sai através da chamada “cota parlamentar”. Mas, na mídia comercial, a situação é ainda pior. Todas as rádios e TVs comerciais conseguem suas licenças com a intermediação de algum político. Portanto, e apesar das conquistas já alcançadas, as regras que regulam as telecomunicações no Brasil ainda apresentam muitos problemas e precisam de mudanças. Observando a Lei 9612/98, podemos constatar que: • A Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL) exige que as rádios tra-balhem com equipamento homologado. Ou seja, somente os transmissores, moduladores, compressores e antenas com a plaquinha de metal com o lo-gotipo da ANATEL podem ser usados. E todos devem operar na mesma fre-qüência em um mesmo município. Segundo a lei, o transmissor deve ter até 25 W (potência), antena de até 30 metros e alcance de um quilômetro, com outros três quilômetros em volta sem nenhuma interferência de outra rádio. O problema é que estes equipamentos, com estas especificações, emitem os sinais radioelétricos (“as ondas do rádio”) numa distância de, no mínimo, 10 quilômetros de raio. Assim, mesmo trabalhando com material apropriado, uma rádio, ainda que homologada pela ANATEL, pode ser multada o tempo todo ou interferir em outra comunitária a cinco quilômetros de distância; • Isso parte de um conceito mal pensado de comunidade. É difícil entender por que foi definido que uma comunidade existe no máximo em 4 km de entorno. Nas áreas rurais, por exemplo, uma comunidade pode ter mais de 40 km na sua volta. Por isso, uma norma mais apropriada para as rádios concederia uma licença para operação dentro do município para onde transmitem ou, pelo menos, se adequaria à realidade das comunidades onde se inserem; • Pela lei, não é permitido inserir propaganda comercial, a não ser sob a forma de apoio cultural, de estabelecimentos localizados na área de cobertura da rádio comunitária, o que inviabiliza bastante a sustentabilidade destas emis-soras. Com financiamento público complementando suas fontes, somado ao apoio da economia local de pequena escala e transmitindo para todo o muni-cípio, é possível que não apenas se sustentem, mas também produzam renda distribuída, mesmo que modesta, para as comunidades onde estão inseridas. Tal prática, somada à possibilidade de aproximação e organização destas co-munidades em torno da rádio, pode propiciar condições de vida melhores, principalmente nos âmbitos econômico, cultural e social; • Também “é vedada a formação de redes na exploração do Serviço de Radio-difusão Comunitária, excetuadas as situações de guerra, calamidade pública e epidemias, bem como as transmissões obrigatórias dos Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo, definidas em leis.” Desse modo, a lei isola as emisso-ras comunitárias, impossibilitando que as pequenas comunidades limitadas a um quilômetro de raio possam se articular e se comunicar como uma comu- Ivan Vieira
  • 16. 30 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 31 nidade real, em torno de suas necessidades, interesses e reivindicações co-muns. Uma inexplicável discriminação às comunitárias, já que as emissoras comerciais têm total liberdade para trabalhar em rede; • Porém, a lei apresenta uma parte interessante na definição dos parâmetros que caracterizam uma rádio comunitária. Em primeiro lugar, qualquer morador da comunidade pode se associar na entidade que mantém a rádio. A rádio comunitária, na base da lei, não tem e nem pode ter dono. É obrigatória a veiculação de uma programação voltada para a cultura regional, apoiando manifestações culturais, artísticas e folclóricas, tradições e hábitos sociais, serviços e atividades educacionais. Além do mais, deve funcionar com uma diretoria eleita, manter assembléias regulares e apoiar-se em um Conselho Comunitário, que deve fiscalizar a emissora. No Conselho, devem estar no mí-nimo cinco entidades, com pessoa jurídica, que tenham suas sedes na mesma comunidade da rádio. Mas, mesmo frente a estes aspectos positivos da lei, há problemas. Como já vimos, muitas legalizadas (com outorga) são vítimas do coronelismo eletrônico e da apropriação indevida deste tipo de veículo, sem que haja nenhuma represália a estas práticas – a lei não é cumprida quando deveria ser. Outro problema diz respeito às dificuldades para constituir a pes-soa jurídica, conforme manda a lei. Com o CNPJ das associações de comuni-cação comunitária, mantém-se uma estrutura legal mínima. Porém, é preciso reconhecer que isto, ao mesmo tempo, é um freio para os mais assustados e um convite à criminalização das associações. Existindo um titular da pessoa jurídica, o Estado tem a quem processar. É o famoso bode expiatório, que fica exposto a multas e outras formas de repressão. Além disso, se por um lado a base jurídico-legal permite a briga na lei, gerando jurisprudência, a excessiva preocupação com a normatização do setor pode paralisá-lo. Ainda mais no Brasil, onde o patrimônio público não-estatal costuma ser terra de ninguém. 5.5 A integração das mídias populares Cada rádio comunitária tem de lutar para sobreviver, mas tem uma compensa-ção. Quanto menor o município ou mais pobre é a região de onde se transmite, maior é a audiência das rádios comunitárias. Mas esta popularidade fica abafada pelo conjunto das mídias comerciais. Isto porque, o monopólio das comunica-ções conta com vários meios integrados, transmitindo de forma complementar. Um cidadão acorda e liga a TV, vai para o trabalho escutando rádio ou lendo o jornal, volta para sua casa e liga de novo a televisão. Se ele vai acessar a internet e quer se informar, abre primeiro um grande portal, que também é de propriedade de um grande grupo econômico de mídia. Este cerco vicioso é uma espécie de ditadura que tem de ser combatida. Sylvio Ayala A inserção das rádios comunitárias precisa ser complementada por outras mí-dias. Uma solução barata é que cada emissora tenha sua própria página de internet, nem que seja apenas um blog gratuito. E, através de servidores também gratuitos, transmita de forma simultânea sua programação por radiofreqüência (através da an-tena) e pela rede de computadores (rádio web). Dá para pôr a rádio na Internet com 50 ouvintes simultâneos e sem nenhum custo. Se tiver bom trânsito no local, con-segue se coordenar com as publicações impressas do entorno da rádio, ou mesmo participar de uma mídia impressa semanal ou mensal. Uma solução simples para difundir a rádio e os pontos de vista do povo, é retomar os jornais murais, as pinturas em muros (muralismo), a colagem periódica de cartazes informativos e todas as formas de comunicação de baixo custo e fácil acesso. Nenhuma mídia ou tecnologia exclui a outra. Assim, um panfleto rodado em mimeógrafo pode ser acompanhado de uma cadeia de mensagens de SMS através de celulares pré-pagos. Ou um jornal impresso em preto e branco com apenas uma página frente e verso pode ter o com-plemento de um portal de informações. Com criatividade e perseverança, é possível romper com o cerco informativo da grande mídia comercial. Pouco se sabe sobre o próprio bairro ou questões funda-mentais do nosso município. Enquanto isso, somos “contaminados” com uma boa
  • 17. 32 RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL RÁDIOS COMUNITÁRIAS NO BRASIL 33 dose de lixo cultural. As rádios comunitárias são a ponta da lança de uma luta pela própria identidade, pelo direito a falar pelas próprias vozes do povo. Nas áreas anexas aos estúdios podem ser montadas bibliotecas ou clubes do livro. Os discos em vinil e as fitas cassetes podem ser doados para os acervos das emissoras. Videotecas com baixíssimo custo podem se tornar o embrião de cineclubes nestes espaços de convi-vência e alegria gerados pelas emissoras da comunidade. Mas, para cada boa idéia, é preciso pelo menos uma pessoa responsável pela sua execução. Alguém disposto, honesto, sincero e livre da influência dos aproveitadores e oportunistas de plantão. 5.6 A gestão: o maior dos desafios Movimento popular implica necessariamente em disputar os direitos, muitas ve-zes acima dos limites da lei. Mas é importante formalizar tal prática em uma luta organizada no dia-a-dia. Pois, em geral, somos invisíveis para a opinião pública. A capacidade de mobilização autônoma é uma necessidade na disputa por uma vi-sibilidade que realmente chame a atenção para os problemas da comunidade. Bem ou mal, temos mídia própria, porém desorganizada e fragmentada. Construir uma base participante, formada por comunicadores e ouvintes em torno de uma rádio comunitária, é um bom instrumento para aglutinar pessoas e alavancar a prática de um autêntico poder popular. É um exercício conjunto do poder, seja no papel de mero ouvinte, seja no envolvimento direto com os processos de produção, planejamento e gestão da comunicação. A manifestação coletiva implica em negociação coletiva. A luta popular na forma orgânica de um movimento de massas (ainda que desorganizado), necessariamente tem de ser materializada em uma forma direta de negociar e avançar em conquistas e direitos. É preciso criar canais de participação abertos, que estimulem também a fisca-lização constante do veículo por parte de toda a comunidade. A intermediação avulsa de políticos profissionais é um problema permanente. Estes representantes individuais costumam ter mais visibilidade e gravitação do que centenas de emissoras que muitas vezes nem se reconhecem como “parceiras”. A construção da identidade coletiva pas-sa pela luta por liberdade de antena e uma definição de objetivos a ser alcançados por todos os meios de luta popular realmente interessados em transformar a realidade. De todos os setores que defendem a democracia na comunicação, o movimento de rádios comunitárias tem um dos perfis mais populares. Não poderia ser diferente. O rádio, como um todo, é o meio de comunicação mais difundido e com o maior número de adeptos, em uma ligação até sentimental. É um poder que emana da mí-dia falada, da oralidade. Mas é preciso trabalhar duro, praticar a desobediência civil, romper lacres, combater a repressão e seguir no ar. Falta muita coisa, embora a caminhada já tenha começado. Organizando e co-nectando 10% das rádios outorgadas já serão mais de 300 emissoras, formando uma enorme rede. E com isso, estará sendo dada uma grande contribuição para a luta popular no Brasil. A tarefa é tão urgente quanto o combate ao monopólio e à distribuição e manutenção de concessões que reforçam privilégios, orientadas quase que exclusivamente para o lucro, priorizando o interesse privado em detrimento do público. É preciso lutar por financiamento público e uma nova regulamentação, mais adequados à importância da comunicação comunitária no processo de democrati-zação da sociedade. A comunicação é um forte combustível da ideologia. Quem somos e o que pen-samos ser está atravessado pela mídia comercial e monopolista. Assim, refletir sobre como é formado este conjunto de idéias e tentar compreender aquilo que pensamos sobre nós mesmos é outro grande desafio. A linguagem, aquilo que pensamos, ouvi-mos e falamos, carrega os conceitos (e preconceitos). Sem linguagem, não há pos- Sylvio Ayala
  • 18. 34 COMUNICAÇÃO: PARA QUE SERVE? COMUNICAÇÃO: PARA QUE SERVE? 35 sibilidade de nos comunicarmos entre iguais. Com a linguagem implantada dentro de nossas mentes, terminamos por pensar com idéias que deveríamos combater. Por isso, a busca por linguagens que expressem o poder popular é uma das missões do movimento de radiodifusão comunitária organizado em torno da ABRAÇO e um dos grandes objetivos desta cartilha15. 6 COMUNICAÇÃO: AFINAL, PARA QUE SERVE ISSO? A comunicação e a educação estão intimamente ligadas. A comunicação é a forma de expressar o que se quer dizer, com um determinado conhecimento, para alguém que quer compreender a mensagem a ser dita. Já a educação, por meio de um processo de formação, torna o indivíduo apto a organizar as idéias e, a partir daí, comunicar-se de forma eficiente. Nós só vamos nos comunicar bem se organizarmos nossas idéias de forma clara e direta, com um aprendizado que nos dê conhecimento sobre o que queremos expressar, utilizando uma linguagem adequada. No caso específico da radiodifusão comunitária, o papel do rádio e a defesa do direito a transmissão por radiofreqüência têm uma importância central para o avanço das identidades populares. Este veículo sempre teve o potencial para cumprir este papel, sendo por diversas vezes instrumentalizado por governos. E mesmo sob estes controles, o que se verificou foi a manifestação da cultura popular, ainda que emara-nhada com o chamado populismo. São protagonistas da comunicação social aqueles que exercem o direito de se comunicar. Partindo da lógica da relação emissor-receptor, observamos que os comunicadores comunitários ocupam o papel de encurtar a distância no processo comunicacional. Esta capacidade atua em todas as esferas da vida. A rádio e a pro-dução integrada de audiovisual de baixo custo potencializam os empreendimentos econômicos da região sob cobertura da emissora comunitária. Muitas vezes, uma iniciativa de economia dentro da mais plena informalidade, mas com muitos freqüen-tadores de uma região metropolitana periférica, ganha legitimação quando anunciada em uma rádio comunitária. 15 Para aprofundar o conceito e as propostas quanto ao sistema público não-estatal de comunicação social, bem como os conceitos relacionados discutidos nesta cartilha, ver também a página da Ciranda international de l’information independente em http://www.ciranda.net/spip/article1211.html?lang=fr e os textos Rádio comunitária, educomunicação e desenvolvimento, de Cicilia Peruzzo (p. 69), Rádios comunitárias: exercício da cidadania na estruturação dos movimentos sociais, de Márcia Vidal Nunes (p. 95) e Para reinterpretar a comunicação comunitária, de Raquel Paiva (p. 133), todos no livro O Retorno da comunidade: (os novos caminhos do social). 6.1 A comunicação em rádio Ivan Vieira • Transmissão e recepção instantâneas e simultâneas (quando eu estou fa-lando numa rádio alguém pode me escutar na sua casa); • A comunicação é de pouca duração (porque a mensagem não pode ser guardada como num jornal impresso); • É um sistema de custo relativamente baixo, tanto para o emissor quanto para o receptor: a instalação de uma emissora de rádio é muito mais barata que a de uma emissora de televisão (e um aparelho de rádio também custa bem menos que um televisor); • A recepção pode ser feita independente das condições ambientais existen-tes (se o receptor estiver dirigindo, ou trabalhando, ou lavando roupa, pode ouvir a rádio ao mesmo tempo); • Possibilita boa interação com os receptores, seja por telefone, torpedos, mensagens instantâneas ou correio eletrônico. No caso das rádios comuni-tárias, pode ser uma excelente forma de aproximação com a audiência; • A comunicação entre o emissor e o receptor acontece apenas por meio do som, sem qualquer visualização (a rádio só trabalha com palavras, músicas, ruídos, silêncios, sons diversos - não há um sistema de sinais para que o receptor veja a mensagem como na TV e demais veículos).
  • 19. 36 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 37 7 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO DE CONTEÚDOS PARA RÁDIO Para que a rádio tenha êxito junto à comunidade e prospere, é preciso um míni-mo de planejamento para o funcionamento da emissora, de modo a criar uma identidade que ajudará a criar um vínculo com os ouvintes. Isso passa por pensar a infra-estrutura, a inserção na comunidade, o universo cultural do local, a auto-sustentação, a política de comunicação e a instrumentalização técnica das equi-pes envolvidas. Boa parte destes elementos já foi discutida ao longo desta cartilha. Resta aprofundar um pouco a discussão sobre a instrumentalização técnica para as equipes, alguns elementos que ainda podem ajudar quanto ao planejamento da rádio e a produção de conteúdos/mensagens. A rádio emite PROGRAMAS, espaços que, em geral, têm um título (nome), ho-rário de emissão e duração fixas, dedicados a temas concretos. Normalmente, a emissora comercial possui um departamento específico que cuida de toda a progra-mação. Isso inclui todas as inserções comerciais, jornalísticas, musicais, gravadas ou ao vivo. Este departamento cuida do aproveitamento do espaço e o tempo utiliza-do para divulgação das mensagens na rádio. Mas, a programação das comunitárias segue uma lógica diferente em vários aspectos. O caráter associativo, de controle aberto e coletivo, propicia maior liberdade, independência e autonomia na criação do programa. Mas infelizmente tal possibilidade pode ser mal explorada, especialmente quando se comete o erro de reproduzir a lógica das emissoras comerciais. Para romper com a lógica convencional, não podemos esquecer, em primeiro lugar, que a comunitária se trata de um serviço de utilidade pública e não um negócio, como no caso da comercial. Isso implica em compromisso tanto com a democracia interna na associação como no posicionamento voltado para o interesse da comuni-dade e da sua organização. Também significa uma programação de resgate à denún-cia, o microfone aberto todo o tempo, o estímulo a crítica e a paixão pela polêmica. Não significa que não podemos utilizar os mesmos enfoques e recursos profissionais a que estamos habituados a ouvir nas comerciais. Mas sempre levando em conta os princípios que devem diferenciar as comunitárias, principalmente no que diz respeito ao conteúdo. Também não significa que os programas tenham que ter um caráter estritamente sociológico, político ou econômico, deixando de lado outras manifesta-ções culturais. É fundamental haver espaço para o lazer e a fantasia para trazer maior atratividade às comunitárias. Isso faz parte do universo de interesses das pessoas, na busca de felicidade. As possíveis transformações da sociedade, embora seja uma coisa muito séria, vai muito além da aparência carrancuda comum a muitos partidos e movimentos de esquerda que têm este objetivo. Com criatividade, alegria, boa von-tade e honestidade, pode-se construir uma grande mobilização em torno da rádio. É preciso ficar muito atento a algumas práticas suspeitas comuns nas rádios comerciais, que são drasticamente nocivas à proposta das rádios comunitárias. Emissoras “chapa branca” (bajuladoras de governos e autoridades em troca de pri-vilégios) ou “jabazeiras” (jabá são as matérias, opiniões e comentários pagos) são um desserviço para a luta pela democracia na comunicação. É importante lembrar que só tem medo da verdade quem tem o rabo preso ou está sujo na praça. A comu-nicação popular aqui proposta não pode estar a serviço de nenhum segmento social ou corrente de pensamento. Está a serviço do povo, com todos os seus defeitos e virtudes, e deve aprender a lidar com isso. Não se trata apenas de um movimento de mídia, e menos ainda de mídia de alguém especificamente. Talvez por isso, ca-racteriza- se por ter uma das bases mais perseguidas e criminalizadas da democracia brasileira. É o exercício diário da desobediência civil, buscando aliados nos setores mais humildes da sociedade. Buscando transformar o jornalismo e a cultura popular em ferramentas na luta pelo direito a uma comunicação social para todos. Ao planejar a rádio comunitária, lembre-se que a censura interna tem de ser supe-rada pelo debate e a polêmica para o estabelecimento da política editorial, dos objetivos e da formatação dos programas e do próprio veículo. Assim como da sustentação fi-nanceira, que deve buscar a autonomia perante quaisquer poderes. Sejam locais ou não, privados ou públicos, de caráter pessoal ou mesmo grupos que tentem usar a estrutura em benefício próprio ou para fins eleitoreiros, como no caso de algumas igrejas e parti- Rafael Costa
  • 20. 38 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 39 dos políticos. Abra espaço para a publicidade (apoio cultural) dos pequenos negócios de sua comunidade, como o sapateiro, a doceira, a lanchonete, o açougue, o pipoqueiro, o vendedor de rua, cobrando pouco, é claro. Lembre-se que o objetivo é sustentar e me-lhorar a rádio e não “parasitar” a vizinhança. É preciso lutar por recursos em publicidade dos órgãos públicos do estado, município ou federal, em especial as de utilidade pública, como campanhas de vacinação, por exemplo. As pessoas da comunidade ou sócios da associação também podem pagar um valor simbólico por mês, como R$ 1,00, por exemplo. Sindicatos e outras associações que têm um pouco mais de recurso podem pagar um pouco mais. Promova campanhas e eventos, como festas e bingos. E não se esqueça de prestar contas do que recebe e gasta de maneira mais transparente possível, pois isso vai trazer credibilidade à rádio. Uma boa maneira de fazer isso é apresentar regularmente o extrato de alguma conta poupança, que pode ser aberta no nome da associação para esse fim. Este extrato pode ser fixado na rádio para quem quiser ver. Acima de tudo, a busca pela verdade liberta. É preciso cuidado para não reproduzir relações de dependência e subordinação. Assim como é preciso atenção para não repro-duzir o modelo comercial e as artimanhas embutidas na moral destes meios. Não se deve cair na tentação de apenas “falar o que o povo quer ouvir”. É uma luta para que as vozes do povo organizado em suas comunidades possam ser ouvidas e compreendidas16. 7.1 Funções em uma rádio Embora as rádio comunitária, de um modo geral, sejam geridas com muito sacrifício e dedicação de voluntários, nem tudo precisa ser feito sozinho, de modo isolado. Exis-tem funções que podem ser divididas na realização de um programa. Há um aspecto mui-to positivo nisso, pois permite a integração e aproximação de participantes, estimulando o trabalho coletivo. Além disso, pode ser uma forma de facilitar a vida dos envolvidos e qualificar o programa, pois o trabalho fica dividido, tem mais cabeças para pensar e expe-riências para compartilhar. As funções mais comuns no exercício da radiodifusão são: • Produtor: é aquele que prepara o programa para ser apresentado. Faz a pes-quisa e monta o texto, seleciona as músicas, marca as entrevistas e confirma tudo para ver se na hora vai dar tudo certo; • Apresentador ou Locutor: é o que fala no microfone, lê o texto, improvisa, e faz comentários; • Repórter: é o que sai para coletar as informações, investigando através de entrevistas e pesquisa; • Técnico de som ou operador: é o responsável pela operação dos equipamen-tos no estúdio, descritos anteriormente. 16 Para saber mais, ver os livros Comunicação nos movimentos populares: a participação na cons-trução da cidadania, de Cicilia Peruzzo (p. 142-158) e No ar... uma rádio comunitária de Denise Maria Cogo (p. 135-148). Acontece que muitas vezes uma só pessoa faz tudo isso nas rádios comunitárias devido à escassez de voluntários para ajudar. O mais importante é que cada etapa da construção do programa seja planejada, para que a qualidade seja a melhor possível. É importante pelo menos fazer a pesquisa e o roteiro, conforme vamos aprender mais adiante. Caso for possível e viável financeiramente, seria muito interessante a rádio contratar profissionais que pudessem dedicar-se às tarefas mais técnicas. Isso propiciaria mais tempo e disposição para a comunidade protagonizar a comunicação, através da criação e participação nos programas. Mas duas restrições devem ser ob-servadas neste sentido. Estes profissionais devem ser preferencialmente contratados entre os moradores da comunidade, privilegiando a geração de renda junto à área de transmissão da rádio e estimulando a busca por formação adequada. Além disso, esta proximidade é muito importante para garantir a familiarização com os assuntos da comunidade. E este procedimento também prestigiaria as categorias da área de comunicação, abrindo caminhos para um novo nicho de mercado para este tipo de profissional, quase sempre recrutado pela grande indústria da comunicação. Uma segunda restrição diz respeito ao papel destes profissionais na rádio comunitária, que deve ser estritamente técnico, como um funcionário da emissora. É preciso ficar sempre atento ao fato de que a gestão da rádio deve ser exercida coletivamente, de modo a evitar um encastelamento tecnocrático por parte destes. Como morador da região, este profissional pode participar das decisões, mas jamais pode reivindicar privilégios em função do seu posto. Ivan Vieira Exercício 1 Escolha duas funções dentre as apresentadas, às quais você gostaria de realizar na sua rádio. Exponha sua resposta para a turma e justifique o porquê da escolha.
  • 21. 40 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 41 7.2 Programação e programas A programação em si, é o conjunto ordenado de tudo o que é transmitido pela rádio, ou seja, todos os programas veiculados. Não existe uma regra fixa sobre os tipos de programas para rádio. Os diversos tipos podem confundir-se, dependendo da cria-tividade empenhada na produção e até de ponto de vista. Mas, para fins didáticos, ci-tamos seis tipos mais comuns, conforme o que é veiculado nas rádios comunitárias: a) Noticiários São os programas de divulgação de notícias, mais vinculados à prática padrão do jornalismo. Na rádio comunitária, é importante dar destaque às notícias da comu-nidade, do município e da região. b) Formativos/educativos Programas educativos devem ter uma preocupação com a cultura e a educação. O objetivo é aumentar o conhecimento do ouvinte sobre o tema apresentado. Os pro-gramas musicais,por exemplo, podem informar sobre tipos de música, resgatando, por exemplo, a cultura nativa. Outro exemplo é o dos programas femininos, dirigidos a donas-de-casa, que podem falar sobre problemas de higiene na alimentação, saú-de, cuidados com crianças. O fundamental é ter um bom profissional da área para falar: médicos, psicólogos, professores, nutricionistas e outros. c) Lazer/diversão Os programas só de música são o exemplo mais comum deste tipo de pro-grama. Mas é possível, por exemplo, produzir programas de humor, com um locutor divertido e/ou um bom contador de piadas. Existem as radionovelas, por exemplo, que fizeram muito sucesso no passado, mas hoje em dia são muito raras. Esta experiência já foi resgatada em algumas rádios comunitárias. Pode-se também realizar programas com jogos, perguntas e testes de conhecimento, dis-tribuindo brindes que podem ser doados por estabelecimentos da região. Neste tipo de programa, o limite é a criatividade de quem o faz. d) Esportivos Embora possam ser identificados como programas de lazer/diversão, pode-se enquadrá-los em uma categoria específica, tamanha é a audiência deste tipo de programa. Só para se ter uma idéia, nas rádios AM comerciais, eles são a parte mais popular da programação. O futebol não é o único esporte sobre as quais as emissoras falam, mas é o principal. Na rádio comunitária, deve-se dar destaque ao esporte local, cobrindo, por exemplo, os times de futebol popu-larmente conhecidos como “da várzea” ou ainda competições estudantis em escolas da região. e) Cultura local/comunitários São programas voltados especificamente à constante prestação de serviços à comunidade, buscando a intimidade entre a rádio e os ouvintes. Os programas de cultura local são destinados a divulgar os espetáculos, inaugurações, feiras, rodeios, encontros, cursos, peças de teatro, filmes, entre outras atrações cul-turais da comunidade. Promovem as agendas com a programação cultural da região de abrangência, procurando sempre estimular e popularizar estes eventos entre os ouvintes. Divulgar estas atividades, em especial as gratuitas, é uma ótima maneira para promover o acesso e o compartilhamento destas culturas para a população. Para este tipo de programa, pode ser bem interessante o uso do já citado enlace (“link”), possibilitando a transmissão diretamente do local do evento. Já os chamados programas comunitários servem como um canal para atender aos anseios da comunidade, buscando soluções de problemas especí-ficos da região. Aqui entram também ofertas de trabalho, achados e perdidos, bem como reclames de ouvintes. Este tipo de programa é muito importante para a rádio comunitária. Suas informações podem ser reutilizadas em forma de notas que podem entrar em qualquer outro programa. Mas é prudente não confundir com os programas de caráter popularesco das rádios comerciais, onde comuni-cadores carismáticos praticam assistencialismo de resultados, explorando casos policiais e escândalos de modo sensacionalista e dramático. Sylvio Ayala
  • 22. 42 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 43 f) Místicos/religiosos São programas que divulgam crenças e/ou cultos, expressando espiritualida-des vinculadas às mais diversas religiões existentes. Podem tronar-se problemá-ticos para a rádio, na medida em que geram uma segmentação que não faz parte do que é comum a todos, do comunitário. Respeitando-se o direito às diferentes crenças, onde cada uma vê deus de uma forma, não seria correto dar espaço a uma religião sem dar às outras. Para atender esta demanda, corre-se o risco de “entupir” a programação com programas religiosos de pastores, padres, mães de santo, gurus e bruxos. Por isso, sugere-se, se for o caso, reservar um horário ou espaço específico para este tipo de programa, que será dividido entre as diversas correntes de forma igual. De modo que, a cada programa, seja apresentada uma visão diferente do assunto sem a necessidade de censurar ninguém. Exercício 2 A partir de suas experiências, gosto pessoal e conhecimento do assunto, crie um programa de rádio. Você pode se inspirar nos tipos de programas citados acima. Crie um título (nome), sugestão de horários de emissão e duração fixos e uma rápida apresentação do seu programa, tentando imaginar como ele vai ser produzi-do. Não se preocupe com todos os detalhes. Neste momento, o mais importante é criar uma idéia do que você gostaria de ouvir na sua rádio comunitária, levando em conta tudo o que já foi estudado. Exponha para a turma e discuta a sua idéia. 7.3 Gêneros Esta classificação dos programas não é fixa porque um programa de diversão pode ser formativo e vice-versa. O esportivo, por exemplo, pode conter a narração ao vivo dos jogos de futebol, debates e entrevistas antes e depois dos jogos, repor-tagens jornalísticas e boletins informativos. Definir um tipo é apenas um artifício para dar coesão e identidade ao programa. Por isso, vamos pensar em uma outra divisão, que chamaremos gêneros. Esta divisão pode se aplicar a todos os tipos de programas, definindo o estilo, o modo como o programa vai ser conduzido. Diferente do tipo, que define a identidade do programa, o gênero pode variar em um mesmo programa, criando uma identidade mais eclética. Um programa sobre cultura local pode adotar entrevistas e debates em um dia e apresentar músicas de artistas locais em outro, por exemplo. Ou ainda misturar todos estes gêneros em um só programa. Em um noticiário, por exemplo, temos os chamados gêneros jornalísticos, que são as diferentes formas como as notícias podem ser apresentadas. Vamos sugerir basi-camente sete gêneros mais comuns: a) Mesa redonda: debate e painel Com este tipo de programa se aborda um tema de interesse para o público atra-vés de um diálogo entre as personalidades envolvidas ou conhecedoras de um tema. Elas são convidadas para que apresentem suas argumentações a favor ou contra. No caso do debate, são pessoas com pontos de vista diferentes e o objetivo é o con-fronto de opiniões. Já no painel, os convidados expõem opiniões que se complemen-tam, proporcionando um quadro mais completo sobre o assunto. O programa deve, de preferência, ser conduzido por um apresentador/moderador, que deve procurar manter-se imparcial e à margem da discussão. Este moderador é importante para amenizar conflitos e dividir os tempos de fala, impedindo que algum dos convidados “tome conta” do assunto ou até mesmo que o programa vire uma bagunça com todo mundo falando ao mesmo tempo. Ele tem que regular as intervenções e fazer que sejam proporcionais, concedendo espaço para todas as perspectivas. É importante que, de tempos em tempos, o moderador reapresente o tema e os convidados, para situar os ouvintes que estão sintonizando a rádio ao longo do programa; b) Entrevista É um modelo jornalístico que acontece através do diálogo entre o entrevistador e o entrevistado, que é um protagonista de algo. Nas rádios comunitárias, é uma ótima forma para a manifestação dos moradores da comunidade, permitindo que se conheçam melhor. A entrevista abre um amplo espaço de participação, para que as pessoas possam falar da sua realidade, operando diretamente no sentido da identida-de local. Elas podem despertar o espírito de solidariedade enquanto dão voz a quem normalmente não tem acesso aos grandes meios. Nem por isso, entretanto, deve-se chegar ao extremo de abrir o microfone para qualquer um dizer qualquer coisa, pois não é esta a função de uma rádio comunitária. É preciso ter claro que a entrevista deve servir para comunicar alguma coisa, informar os ouvintes, os leitores ou os te-lespectadores sobre determinado fato que, de preferência, interesse à comunidade. Para planejar melhor a entrevista, podemos classificá-la de acordo com os objetivos: • esclarecimento – aquelas que servem para se conhecer melhor o assunto que se está tratando ou para esclarecer um assunto confuso do conhecimen-to do entrevistado; • análise – aquelas que servem para se entender melhor os problemas ou para se descobrir as causas dos mesmos. Também servem para aprofundar algu-mas respostas superficiais; • ação – servem para passar da teoria à prática, para que os entrevistados ex-pressem as ações que vão desenvolver em relação aos problemas analisados; • personalidade – quando o interesse é a própria pessoa que estamos entre-vistando, o importante é conhecer a vida dessa pessoa.
  • 23. 44 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 45 Como preparar a entrevista:  O entrevistador deve ter bem claro antes do início da entrevista o tema que será abordado;  Selecionar o entrevistado mais adequado para falar sobre o tema;  Se o entrevistador não conhece o tema, deve antes consultar e ler o máximo possível de textos sobre o assunto. Quanto mais o entrevistador estiver infor-mado, mais ele poderá tirar do entrevistado;  O entrevistador deve anotar os pontos principais para, depois, questionar o entrevistado;  Pode-se conversar com o entrevistado sobre o assunto, para que ele seja bem entendido em todos os seus detalhes, mas não deve ensaiar, porque mata a espontaneidade do diálogo. Não se deve dizer ao entrevistado quais as perguntas que vão ser feitas. A estrutura da entrevista:  No início tem que apresentar o convidado e dizer por que ele foi convidado (com alguns dados que justifiquem a presença);  É importante que o entrevistador ordene as perguntas com uma certa lógica. É bom preparar um questionário, mas o entrevistador deve ter a capacidade de modificar as perguntas no transcorrer da entrevista e descobrir em cada resposta algo que encaminhe à pergunta seguinte;  Como na mesa-redonda, lembre-se de reapresentar o tema e o entrevistado durante a entrevista;  No final da entrevista, é importante que se faça um resumo dos principais pontos abordados;  Ao encerrar, agradecer ao convidado pela presença. Como fazer uma entrevista?  O entrevistador ocupa o lugar do público e deve, portanto, falar com palavras simples e populares, que todos os ouvintes entendam;  O entrevistador deve tomar cuidado para não demonstrar que sabe mais que o entrevistado, porque pode constrangê-lo e deixá-lo nervoso. Lembre-se que o entrevistado é quem está ali para falar do assunto, senão não precisava a entrevista;  Na medida do possível, não dar opinião ao formular as perguntas nem acres-centar às respostas comentários pessoais, pelas mesmas razões do item anterior;  O entrevistador deve criar um clima comunicativo, começando pelas pergun-tas mais simples e menos complexas e incômodas, para que o entrevistado vá relaxando aos poucos. Lembre-se que muitas pessoas costumam ficar muito constrangidas diante do microfone;  Procurar fazer perguntas curtas, que permitam respostas completas;  Se a resposta do entrevistado começar a ficar muito longa, o entrevistador deve intervir com outra pergunta, para dar uma quebrada e a entrevista não ficar muito cansativa;  O entrevistador tem que saber ouvir o entrevistado - isto é muito importante porque vai permitir novas perguntas, explorando os novos caminhos que po-dem resultar da conversação;  Não tem que tomar para si o microfone, de modo algum;  Tem que ter um tom vivo e animado, de interesse na conversa, estimulando o entrevistado a falar;  Não manipular a entrevista. Cada pergunta deve ser uma decorrência do as-sunto que está sendo tratado, para que o ouvinte fique bem esclarecido acer-ca dele. O entrevistador não deve fazer perguntas de tal maneira que não deixe alternativa ao entrevistado senão dar razão a ele;  Se a entrevista for feita por telefone do estúdio, evite falar mais alto. Evite fazer os tiques telefônicos (sim, hum-hum, ok...). Se for externa, num local fora do estúdio, é importante testar antes o gravador, as pilhas, ter fita limpa, buscar um lugar tranqüilo e mover o gravador colocando-o próximo à boca do entrevistado e do próprio entrevistador;  É importante salientar que o entrevistador deve descobrir o seu próprio método de fazer a entrevista, aquele que melhor se encaixa com a sua personalidade. Sylvio Ayala
  • 24. 46 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 47 c) Comentário É um gênero radiofônico mais criativo e serve para expressar a postura ideológi-ca da emissora ou do seu autor. O comentário tem que ajudar a uma melhor compre-ensão da atualidade e dar aos ouvintes os elementos necessários para interpretá-la. Preparação:  Seleciona-se o tema e avalia-se apenas um ponto de referência para desen-volvê- lo, porque, do contrário, pode-se criar confusão com a ampliação do assunto. Esta seleção pode ser feita pelo próprio comentarista ou pela equipe de produção, caso exista uma. Os temas da atualidade devem ser analisados, com suas maiores repercussões, e selecionados para comentar, determinan-do as linhas do comentário;  Pesquisa-se o tema em vários locais. É necessário que se esteja atualizado com informações gerais da imprensa, de livros, revistas, Internet, etc;  Então, é feito um esquema do que será dito, seguindo a seguinte estrutura: REDAÇÃO:  Linguagem clara e popular, o mais correta possível;  Utilizar o humor, a surpresa, ditados populares, usar comparações com fatos da realidade dos ouvintes;  Cuidar para não fazer um texto sofisticado. LOCUÇÃO:  O comentário tem que ser lido pelo autor do texto ou falado de improviso, mas com domínio do assunto. É a pessoa que pensa sobre o tema, que entende o significado do que quer dizer e se identifica com o assunto. Ele transmite uma opinião formada por conceitos, idéias e sentimentos;  O tom usado é de interpretação, e não de uma notícia;  Não tem que ser como uma aula, onde o professor fica acima do aluno. O locutor deve estar no mesmo nível do ouvinte, conversar com ele. O ritmo tem que ser pausado e explicativo;  Ao expressar o pensamento, deve-se ter cuidado para não ser demagógico. Para evitar isso, é importante ter controle dos termos e não apoiar os argu-mentos em autoridade moral de pessoas ou crenças. Não se deve ter medo de questionar. Deve-se tomar cuidado para não manipular a informação em favor próprio. Rafael Costa d) Musical É um gênero que pode adaptar-se a qualquer tipo de programa. Aliás, ele é funda-mental para atrair e preservar os ouvintes. Mas é muito importante zelar pela qualidade do que é tocado na rádio. Lembre-se que não é uma rádio comercial, então não dá para se limitar a tocar só as músicas da moda. É preciso pesquisar, conhecer músicas novas e antigas para sempre oferecer ao ouvinte uma cultura diferente da grande mídia. Também inclui a música dos moradores da comunidade. Prestigie e divulgue a arte lo-cal, mas também estimule a qualidade do que é produzido. Discuta com a comunidade e sempre procure selecionar o que vai ser tocado a partir de critérios adequados para uma rádio comunitária, levando em conta o seu papel social. Tocar qualquer coisa só porque é a música de um amigo não deixa de ser uma forma de jabá. e) Notícia A compreensão sobre o que é uma notícia muda de acordo com quem a está gerando. E isso de acordo com alguns critérios de proximidade, atualidade, conse-qüências, impacto, relevância e universalidade. Segundo o Dicionário Aurélio, notí-cia é “informação, exposição curta de um assunto”. Em termos mais jornalísticos, conforme o Dicionário de Comunicação, é um “relato de fatos ou acontecimentos atuais, de interesse e importância para a comunidade, e capaz de ser compreen-dido pelo público”. Assim, o que é notícia para a Rede Globo, por exemplo, nem
  • 25. 48 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 49 sempre é interessante para o entendimento de uma rádio comunitária. E o contrário também é verdadeiro. Ao pensarmos a informação, temos que construí-la de uma forma clara para que seja bem compreendida pelo nosso público. Destacamos a seguir alguns pontos a se observar. LIDE: É um termo criado a partir da palavra inglesa “lead”, que significa “guia” ou “o que vem à frente”. De modo bem simplificado, é uma base inicial para construir uma notícia. Um alicerce que fornece ao ouvinte as informações básicas sobre o tema abordado, procurando prender a sua atenção. Embora um pouco contestado pelas modernas teorias de jornalismo, ainda oferece uma solução bastante didática e eficiente para a construção de notícias, agrupando as principais informações de um acontecimento. Assim, a idéia do LIDE sugere que, para melhor compreensão da notícia, é importante responder pelo menos às seguintes perguntas: O QUE aconteceu? Descrever com precisão o fato; Com QUEM aconteceu? Quem organiza, quem realizou, suas características; QUANDO aconteceu? A data, hora ou turno em que aconteceu o fato – falar do antes e do depois; ONDE aconteceu? Falar do lugar onde o fato aconteceu, endereço ou localidade; COMO aconteceu? Falar do jeito como aconteceu o fato noticiado; POR QUE aconteceu? Falar das causas que provocaram o fato e, se possível, das conseqüências. Uma dica para ajudar a decidir se a informação que você tem pode ou não virar notícia, é verificar, por exemplo, se ela encaixa em algum dos seguintes tópicos:  Mais importante, assuntos relevantes para a comunidade;  O mais caro ou barato, o que aumentou ou baixou de preço;  Tragédias e problemas que assolam a comunidade;  Fatos recentes, que acabaram de acontecer;  Coisas incomuns, curiosidades ou causos;  O que vai acontecer, novidades e serviços disponíveis;  Os últimos ou mais à margem, projetos solidários que merecem ajuda;  Os primeiros, maiores, que destacam-se por mérito e precisam de apoio. Numa rádio comunitária, as notícias devem ser dadas conforme sua importân-cia, nessa ordem: Comunidade; Município/Região; Estado; País; América Latina; Mundo. A estrutura da notícia:  Priorizar os dados mais importantes para a informação a ser dada;  Na medida do possível, tem que ter pelo menos os principais dados conforme proposta do LIDE;  Caso necessário e possível, um corpo formado por parágrafos onde acres-centamos dados novos e recordamos alguns dos mais importantes;  Um fechamento com os dados para que o ouvinte recorde o fato e/ou fique com a perspectiva das conseqüências;  É possível ainda adicionar algum comentário ou entrevista que possa dar mais vibração, se for o caso, mesclando recursos de outros gêneros. A linguagem da notícia:  É dupla, porque além da gramática em si, tem a linguagem do sentido que se dá a ela, que interfere na forma como o ouvinte vai recebê-la;  Tem que ser de uso corrente e compreensível para todos que a ouvem (se for usada uma palavra que seja difícil, tem que explicar o que significa);  Especialmente para o rádio, usar palavras curtas, frases curtas e com estru-tura lógica. Tem que usar sinônimos, evitando ao máximo repetir palavras. 1. 2. 3. 4. 5. 6. Ivan Vieira
  • 26. 50 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 51 A duração das notícias  Existe um padrão internacional, que sugere tempos, de modo a prender a atenção do ouvinte. Mas não é uma regra geral, apenas uma sugestão visan-do tornar o noticiário mais atraente;  Sugere-se entre 15 segundos e 30 segundos para os flashes informativos;  Sugere-se entre 30 segundos e 1 minuto e 30 segundos para as notícias que só têm textos;  No máximo 2 minutos para as reportagens, sempre cuidando para não tornar o programa cansativo;  Em média, 12 linhas de uma lauda compõem um minuto. Uma lauda é uma folhinha com 12 linhas de 65 ou 72 caracteres (toques datilográficos), que contém várias informações e critérios para orientar o locutor. Há diferentes formas de narrar as notícias. Algumas formas adotadas são:  Notícias que só têm texto: são as notícias que o locutor lê, de preferência têm que ser curtas;  Notícias com texto e sonora: são notícias que têm texto com trecho(s) de entrevista(s) ou mesmo entrevista(s) completa(s), ou ainda enquetes, para ilus-trar a informação. Servem para dar mais credibilidade às informações, romper com a monotonia, ampliar o tema e aumentar a participação popular;  Boletim: notícia feita por um correspondente, um repórter que narra os fa-tos noticiosos produzidos no local onde eles estão acontecendo. Este tipo de notícia pode ter só texto ou texto e sonora. Podem ter uma abertura feita no estúdio pelo apresentador do programa. Na maioria das vezes, estas notícias são transmitidas ao vivo e, portanto, é necessário saber improvisar e fazer um roteiro mínimo prévio com destaque para os itens mais impor-tantes do acontecimento. É necessário também que se pense alguns CRITÉRIOS PARA A MONTAGEM do noticiário. Os critérios podem variar entre:  geográfico - local, regional, nacional e internacional;  por assuntos - política, economia, social, cultura;  por atualidade - a notícia mais nova é a primeira;  pode-se fazer uma mistura entre esses critérios. Mas o importante mesmo é pensar a organização do noticiário;  as notícias de maior importância têm que estar entre as manchetes, que são lidas com destaque. As manchetes vão no início do programa e dão uma idéia pro ouvinte do que o programa vai falar. Se quisermos, podemos fazer um resumo do que falamos no fim do programa. As manchetes e resumos têm que ser com frases curtas e completas, mas não telegráficas. f) Reportagem e rádio-documentário O mais simples é pensar a reportagem como uma notícia aprofundada. O rádio-documentário segue a mesma linha, e não é muito precisa a diferença entre estes dois gêneros. Ambos buscam ir além da notícia comum. A idéia é fugir do superficial, abordar os detalhes do fato, do assunto, que não podem ser esclarecidos em poucos segundos ou linhas. A boa reportagem é fruto de um esforço de contatar as fontes, colher o maior número de informações possíveis e verificar a veracidade delas. Por isso, demora mais tempo para ser produzido. Em alguns casos, pode levar meses até ser concluído. O livro Rádio: o veículo, a história e a técnica, de Luiz Artur Ferra-reto, sugere que o rádio-documentário “baseia-se em uma pesquisa de dados e de arquivos sonoros, reconstituindo ou analisando um fato importante”. Inclui recursos de sonoplastia, montagens e elaboração de um roteiro prévio para conduzir melhor seu andamento. Em síntese, tratam-se de grandes matérias, com inserção de diver-sas entrevistas gravadas e uma série de informações sobre determinado assunto. O importante é o repórter trazer diversos aspectos da questão abordada, ponto e contraponto, de modo a ampliar a reflexão do ouvinte. g) Revista Quando se fala em revista logo se pensa em revistas de papel. Certo? Sim e não. No rádio também existe revista. Rádio revista é mais um tipo de programa que pode ser produzido no rádio. Muitos dos programas que se escuta no rádio são do tipo revista porque apresentam entrevistas, informações e diversão. Como numa revista de papel, mas sem as fotos. Uma boa revista de rádio é um programa muito ágil e gostoso de escutar porque sabe misturar informação e diversão na medida certa. A rádio revista pode ter um tema só, tipo revista esportiva, ou ser uma revista de atualidades e passar notícias gerais, sempre passando informações práticas para a vida das pessoas. Podem ter a duração de 15, 30, 45 minutos, até uma ou duas ho-ras, dependendo da programação, da disponibilidade dos locutores/apresentadores, da idéia do programa. As revistas podem ser diárias ou semanais. É um programa com conteúdos variados, ligados por um apresentador, que vai marcando o estilo. Estes conteúdos podem ser considerados como micro-espaços do programa, em alguns casos fixos. A revista utiliza os diferentes gêneros jornalís-ticos: a entrevista, a conversação, o debate, comentário etc, todos falando de temas da atualidade, além de gêneros de entretenimento, como uma conversa de análise, a radionovela, apresentações musicais e por aí afora. A linguagem é de fácil compreensão. Para se ter uma boa audiência em temas muito complexos, o apresentador pode criar formas de se colocar mais próximo do público. Normalmente a revista é feita ao vivo e o roteiro não está fechado. Há possi-bilidade da entrada de um repórter a qualquer momento, por exemplo.
  • 27. 52 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 53 IMPORTANTE! Uma rádio comunitária não precisa, nem deve fazer tudo como numa rádio grande, comercial. A comunidade pode falar na sua língua e inventar coisas novas, diferentes e criativas. O rádio é um meio de comunicação muito rico e, se for encarado com prazer e alegria, é um brinquedo com diversas maneiras de se jogar. 7.4 Outros recursos radiofônicos O rádio é o veículo de mais baixo custo para ser instalado. Conseguir colocar a emissora no ar é o primeiro passo, mas os programas devem ter qualidade. Para isso, além do cuidado com o conteúdo e com as informações veiculadas, o rádio oferece diversos recursos sonoros que podem ser usados para enriquecer a produção. Um programa que é totalmente falado, todo o tempo, é cansativo para o comunicador e também para quem está ouvindo. Mesmo que a emissora não tenha muito dinheiro, com criatividade há como inventar maneiras de construir uma identidade para cada programa: dá para colocar músicas, vinhetas e outros elementos que o veículo possi-bilita, que deixam o programa mais interessante e prendem a atenção. Mas essas alter-nativas não devem ser usadas em excesso, ou corre-se o risco de que se torne chato. Além disso, a tecnologia permite que os conteúdos sejam aperfeiçoados e que outras pessoas participem do programa, mesmo que não possam estar presentes no estúdio no momento da gravação ou veiculação. VINHETA DE APRESENTAÇÃO: é a abertura do programa, com locução e mú-sica. Ela deve ser simples e fácil de recordar, para que a audiência reconheça o que está começando. Para a escolha da música da vinheta temos que pensar no conteúdo que vai ser abordado e no público ouvinte, para que tenha relação com a “cara” que queremos que o programa tenha; VINHETAS DE PASSAGEM: pedaços de músicas para dar destaque ou separar as notícias. Não são músicas inteiras nem trechos muito longos; EFEITOS ESPECIAIS: são sons que podem sugerir imagens ou imitar realidades. Por exemplo, a chuva, o ruído do tráfego, uma porta que se fecha, um telefone tocando. O mais comum é que sejam sons pré-gravados, mas também é pos-sível fazer direto no estúdio com alguns materiais baratos e fáceis de encontrar. São a essência da chamada sonoplastia; SILÊNCIO: é a ausência de qualquer som, palavra ou música. Por mais que pa-reça contraditório utilizar o silêncio como um recurso radiofônico, ele serve para valorizar os sons precedentes ou posteriores. Um silêncio medido e intencional pode provocar sensações, emoções e idéias. Também serve para dar um mo-mento de respiro ao comunicador e à audiência para que as informações sejam organizadas e assimiladas. Só não pode ser muito demorado, pois os ouvintes podem pensar que a emissora saiu do ar ou que o comunicador se perdeu na condução do programa; RECURSOS DE INTERAÇÃO: hoje em dia, há várias possibilidades de os ouvin-tes participarem sem que precisem ir até o estúdio. Podem ser disponibilizados para os ouvintes: • um número de telefone celular para que sejam enviados torpedos (mensagens de celular); • um endereço para correio eletrônico (e-mail) do programa, da rádio ou do apresentador; • endereços eletrônicos para mensagens instantâneas, como o Windows Live Messenger ou o Skype, ferramentas que possibilitam a troca em tempo real de mensagens, por vezes com o uso de som e imagem. Sylvio Ayala
  • 28. 54 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 55 Assim, enquanto estiver fazendo e veiculando o programa, o comunicador ou seus ajudantes podem receber dicas e avisos, informações que podem ser repassadas à comunidade. Também é possível levantar questionamentos e obter respostas que demonstram o que os ouvintes pensam. Desta forma, o programa fica ainda mais inte-ressante para quem está escutando e as pessoas se sentem mais próximas à rádio; RECURSOS PARA ENTREVISTAS: nem sempre os entrevistados podem com-parecer à emissora na hora do programa. Isso pode ser resolvido através de outros recursos. A entrevista pode acontecer pelo celular, que é configurado na opção viva-voz e assim todos escutam o que está sendo dito. Também pode ser concedida pelo Skype, um programa de computador que permite comunicação de voz instantânea (e também de vídeo) gratuita e pela Internet. ATENÇÃO! É preciso ter cuidado com o ruído, que são os sons indesejados que podem ser escutados por quem acompanha a programação da rádio. Os ruídos di-ficultam a transmissão e a recepção das mensagens. Alguns exemplos de ruído são o barulho das folhas de papel sendo mexidas, o pigarro ou espirros do apresentador, risadas e cochichos, além de interferências na transmissão do som. 7.5 Formas de realização do programa A execução do programa pode ser feita basicamente de 2 formas: AO VIVO: exige planejamento, coordenação e entrosamento da equipe. Isto é mui-to importante, porque a chance de ocorrer erros é maior. Tem como vantagem a instantaneidade, a participação no ar do ouvinte e a comunicação espontânea en-tre os membros. O programa ao vivo pode usar arquivos gravados, como reporta-gens, entrevistas, enquetes. Isto sem falar nas músicas e cortinas, essenciais em qualquer programa de rádio. O programa ao vivo ocupa o estúdio de rádio e deixa as portas abertas para a participação e visitas espontâneas e inesperadas. PROGRAMA GRAVADO: pode ser feito como se fosse ao vivo ou seguir um rotei-ro fechado. A vantagem é que se pode ouvir e analisar o que foi gravado, com a possibilidade de corrigir os erros. A desvantagem é o tempo gasto na produção e a ausência de interação com os ouvintes. Exercício 3 Agora todos já escolheram alguma função e têm uma idéia de programa. Então: a) Junte-se aos colegas que escolheram o mesmo tipo de programa que você; b) Tente formar grupos de modo a compor uma equipe de rádio, a partir das funções definidas: produção, locução, reportagem e operação. É importante tentar compor grupos nos quais as funções fiquem bem divididas. Não adian-ta, por exemplo, uma equipe com 3 operadores e um repórter. Seja flexível e pense no coletivo. Caso haja necessidade, assuma mais de uma função; c) Cada grupo deve debater de modo a construir um programa de rádio, reali-zando o planejamento e a produção. Criem um novo título ou aproveitem a idéia já criada por um dos membros da equipe. Definam opções de horários de emissão e duração (mais de uma opção, para negociar na composição da grade de programação), de acordo com a disponibilidade de cada um; d) Incluam gêneros e outros recursos radiofônicos ao programa, definindo como será todo o andamento dentro do tempo proposto. Definam a(s) forma(s) de realização, tentando construir um roteiro completo do início ao fim; e) Montem um esquema num papel, mas não se preocupem com a formalidade. Façam do jeito que quiserem. Ao final, façam uma exposição para a turma, debatendo cada programa apresentado. 7.6 Como captar as informações? É importante lembrar que a informação é a essência da comunicação. Assim, a informação divulgada deve ser cuidadosamente estudada e selecionada. Deve atender e defender os interesses da maioria sem jamais abrir mão de cri-térios morais básicos como justiça, igualdade, solidariedade e verdade. Sempre de modo a colaborar no processo de esclarecimento, através da polêmica e da reflexão crítica, na construção de um canal de manifestação do poder popular, em especial no caso das rádios comunitárias. Conforme já visto, não deve, em hipótese alguma, ceder em defesa ou promoção de interesses e benefício de gru-pos ou indivíduos cujos objetivos estão acima ou divergem do interesse da co-letividade a quem a rádio comunitária deve representar. Por trás disto, está uma característica fundamental do autêntico jornalismo combativo, que deve ser a base da informação veiculada nestas emissoras: a CREDIBILIDADE. Se o ouvinte não acreditar no que ouve ou suspeitar que está sendo enganado, provavelmente vai trocar de estação. Talvez, em um cenário mais dramático, não volte mais a ouvir o programa ou a rádio. Sempre se lembre disso ao veicular informações no ar, pois o que está dito não tem volta. Depois de dito, só restará a retratação. E, de qualquer modo, a credibilidade já poderá ter sido comprometida. 7.6.1 As fontes de informação De uma forma simplista, pode-se dizer que fonte é tudo o que fornece infor-mações para a construção do programa. Mas nunca esqueça a CREDIBILIDADE no momento de escolher as fontes. No caso de pessoas, procure sempre gravar os de-poimentos – assim não restará margem de dúvida sobre a autenticidade da fonte. Em
  • 29. 56 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 57 alguns casos de exceção, é possível preservar a fonte, garantindo o seu anonimato. Mas, nestes casos, é fundamental que tal fonte seja de extrema confiança e, por al-guma razão, seja conveniente que seu nome não apareça. Ainda assim, é importante que o ouvinte tenha pelo menos uma noção da origem da informação, com alguma pista do local ou da procedência desta fonte. Senão, a tal CREDIBILIDADE pode ficar comprometida. O ideal é sempre identificar a fonte e evitar o anonimato. Em caso de dúvida, cruze a opinião da fonte suspeita com outras fontes. Para a maioria das pessoas que estão ouvindo um programa não é interessante conhecer uma opinião se não se sabe quem a deu. É um dos aspectos fundamentais que vai diferenciar a notícia da “fofoca”. Além das pessoas, existem outras fontes úteis para a construção de uma maté-ria, como, por exemplo:  jornais, revistas, outras rádios, telejornais e agências de notícias: tome cuidado para não reproduzir simplesmente o que é veiculado pela mídia em geral. Muitas vezes, tais informações são carregadas com uma postu-ra tendenciosa, vinculada a interesses em desacordo com a proposta das comunitárias;  documentos e bibliotecas: enciclopédias renomadas e documentos emi-tidos por instituição com credibilidade são ótimas fontes. No caso dos livros, procure informar-se sobre os autores para compreender melhor suas idéias e intenções;  correspondentes: jornalistas que trabalham para a emissora ou o pro-grama que têm como tarefa recolher periodicamente os fatos da sua área para enviar com a sua própria voz;  Internet: a rede mundial de computadores oferece de tudo, o que presta e aquilo que não é confiável. Dentro da mídia descentralizada, existem de-zenas de blogs, portais, páginas e fontes de informação populares muito interessantes. Dentre estas, estão dezenas de páginas com arquivos de conteúdos de áudio e que podem ser baixados gratuitamente. A pesquisa permanente é a melhor maneira de se informar e buscar os bons conteúdos da internet. Mas aqui, as fontes são sempre suspeitas. Priorize pesquisas fatuais, com dados brutos e legalmente respaldados, tais como o Institu-to Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Controladoria-Geral da União (CGU), etc. Além de portais renomados de movimentos populares, jornalismo de investigação e instituições de en-sino. Eles darão mais credibilidade às informações veiculadas. 7.6.2 Mas de onde tirar as notícias da comunidade? Dos próprios moradores, com suas denúncias e reclamações, por telefone ou no boca-a-boca. Na comunidade, quase todas as pessoas se conhecem e sabem o que está acontecendo com seus vizinhos e parentes. Se cada um que trabalha na rádio le-var uma notícia por dia, o locutor já vai ter alguma coisa para falar no programa. Outra boa idéia é montar uma equipe de repórteres populares da comunidade. Isso rompe com a situação de mero receptor do ouvinte. Tente recrutar um grupo de ouvintes que esteja sempre ligado ao programa. Eles podem entrar ao vivo de qualquer telefone e comentar sobre o assunto do programa. Estes repórteres populares também podem fazer pesquisas e entrevistas junto à população, abordando o tema em discussão. O único porém é que esta idéia precisa de uma chave híbrida para ser implementada. Lembre-se de priorizar as notícias da comunidade, da cidade, da região, do es-tado, do país e do continente, nessa ordem. Por último, em casos mais importantes como guerras, as notícias do mundo, que podem ser tiradas dos jornais diários e em grandes portais da Internet. A rádio comunitária também deve sempre tentar conse-guir assinaturas cortesia dos principais jornais da cidade. Exercício 4 A partir do exercício 3, as equipes devem buscar informações para fazer pelo menos uma notícia para inserir no programa. Esta notícia deve ser relativa a algum aconteci-mento da comunidade. Faça pesquisa, entreviste pessoas. Agora chegou o momento de ser um repórter popular. 7.7 Conselhos gerais sobre programas Para que realmente o rádio seja importante para quem estiver ouvindo, é im-portante lembrar-se de quatro palavrinhas básicas: INTELIGIBILIDADE: a informação que vai ao ar tem que ser compreensível. Esta é a condição que permite que um programa, uma informação, seja direta. E isto se consegue pelos seguintes pontos:  O SOM TEM QUE SER LIMPO E DEPENDE DE UM BOM SISTEMA TÉCNICO: equipamentos e aparatos de gravação e transmissão, com uma correta modulação na mesa de controle, a combinação de sons deve ser agradá-vel, conectando as vozes que irão ao ar com os outros sons que podem ser utilizados. Bom tratamento acústico do estúdio, utilização adequada do microfone etc.;  IDÉIAS PRECISAS: para que a informação seja entendida, devem ser bem delimitadas e definidas as idéias que serão expostas. Faça um bom plane-jamento, prepare-se para o programa;
  • 30. 58 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO 59  CONCEITOS SIMPLES: sempre se deve ter em mente que os ouvintes for-mam um grupo diferente entre si. Por isso, os conceitos emitidos devem ser simplificados ao máximo, com a intenção de serem compreendidos por todos. CORREÇÃO: toda a informação deve ser correta e, além disso, seu conteúdo deve aproximar-se ao máximo dos fatos, através de uma investigação o mais completa possível. RELEVÂNCIA: uma informação é relevante quando o ouvinte, ao escutar o pro-grama, se sente parte integrante desse programa. É muito importante, portanto, chamar a atenção para coisas que sejam relevantes a ele. Para que isso acon-teça, precisamos conhecer a audiência, quem está nos escutando. Devemos conhecer estas pessoas, saber qual é o seu perfil. Quando se faz um programa, precisamos sempre nos colocar no lugar do ouvinte, imaginar o que ele já sabe, o que ele gostaria de falar e não pode, que pergunta ele gostaria de fazer, mas nunca se sentiu encorajado a fazer. A rádio comunitária parte do senso comum e politiza o cotidiano com os temas urgentes de uma coletividade. LINGUAGEM: tem que ser rica e nativa. As concordâncias verbais são importan-tes, mas não são fundamentais. A essência do rádio na comunidade é a franqueza e a espontaneidade, falando ao microfone como conversamos com um vizinho.  Deve-se cuidar para não usar expressões que sirvam de muletas, como “né”, “assim, ó”, “pois é”, “hum”, ”sim”, etc.;  Não usar expressões vazias e adjetivos em abundância. Procure usar subs-tantivos comuns de fácil entendimento e, se tiver que optar entre um subs-tantivo positivo e outro negativo, prefira sempre o positivo. Tenha cuidado com os pronomes, pois eles podem causar confusões;  É importante que o texto seja limpo e de fácil visualização. O indicado é escrever em espaço duplo, em linhas curtas de 60 toques, sem separar as palavras no final da linha e só escrever numa face do papel. As palavras mais difíceis devem ser escritas com destaque - em maiúsculas, separadas em sílabas ou sublinhadas, conforme veremos mais adiante;  As frases devem ser escritas para serem faladas e não para serem lidas. Os sinais de pontuação usados são ponto, para pausas longas, e vírgula, para pausas curtas. Também pode-se usar a barra, ( “/” ) como alternativa para pausas longas entre uma frase e outra;  Ao usar siglas, explicar no mínimo uma vez o que ela significa;  Não usar abreviaturas quando se escreve. Todas as palavras devem ser bem pronunciadas;  Os números devem ser escritos por extenso. Ao expor um número ou pro-porção, é fundamental que seja dado um exemplo compreensível para uma pessoa simples;  É melhor que os verbos sejam usados no presente e no futuro ao invés do passado;  O rádio tem um potencial que não pode ser comparado aos demais veícu-los, como o jornal, a tv e o cinema. Mas, para que isso se torne concreto, é preciso utilizar ao máximo os recursos que ele oferece, como a música, a palavra, a voz, os ruídos, os silêncios, etc. 7.8 Grade de Programação Quanto mais tempo a rádio da comunidade conseguir ficar no ar, melhor. Mas, para isso acontecer, além de estimular a participação, é preciso planificar os progra-mas a partir dos horários especificados, dividindo o espaço para os participantes. As-sim, é necessário a construção de uma grade de programação. Algumas rádios comu-nitárias conseguem se manter no ar por bastante tempo. Mas, mesmo que sua rádio não fique tanto tempo no ar, é muito importante organizar os horários com as pessoas que fazem os programas. Esta grade deve ser fixada nos estúdios da rádio para que todos possam ver e acompanhar os horários. A grade também deve ser colocada na página de Internet da rádio, caso exista. Pode ainda ser divulgada na comunidade em cartazes fixados em escolas e estabelecimentos ou em panfletos. Distribuir a grade é uma boa propaganda para divulgar a emissora e atrair ouvintes e participantes. Ivan Vieira
  • 31. 60 PLANEJAMENTO E PRODUÇÃO LOCUÇÃO 61 Não há muito mistério para fazer a grade. É preciso reunir todos os programas, com os seguintes dados: dia da semana e horário de apresentação; título (nome) do programa; nome da equipe ou pessoa responsável; uma breve descrição do progra-ma. Depois, organize uma lista destes programas linearmente, de forma a simplificar a visualização e compreensão. Uma maneira bem comum de fazer isso é dispor os programas um embaixo do outro em uma lista simples. Outra é fazer uma tabela, com os dias da semana nas colunas e horários nas linhas. Depois é só preencher os espa-ços com as informações de cada programa. A tabela permita uma visualização geral da grade, sendo melhor para a organização do todo. Mas, dependendo do tamanho do papel, fica um pouco difícil colocar a descrição dos programas dentro de cada quadradinho da tabela. As descrições são muito importantes para quem não conhece a rádio. Permite às pessoas saber sobre o que trata cada programa, despertando a curiosidade e atraindo ouvintes. Eis um breve exemplo: DE SEGUNDA A SEXTA: 05:00 – Coração Nativo – Fulano de Tal e Beltrano da Silva Música nativista, tradicional e contemporânea, abrindo espaço para novos talen-tos. Cobertura de eventos nos rodeios e prestação de serviços à comunidade. 08:40 – Amor, meu grande amor – Antônio Amado e equipe Programa voltado para as mulheres da comunidade – horóscopo, delegacia de mulher, sexualidade, saúde, espiritualidade, família e beleza, aberto à participa-ção de ouvintes. 09:30 – Samba no Quintal – Nego da Ginga, Pé de Valsa e Totó Convidados, entrevista e o melhor do samba de raiz. Resgata a memória mu-sical e abre espaço para novos talentos, transmitindo ao vivo de botecos e pagodes da comunidade. 11:05 – A Hora do Rock – Emiliano Maluco e Chico Fedor Rock, rap, punk, reggae, metal, ska, e outros. Espaço para novos talentos do morro e do asfalto, buscando a integração destes segmentos. 13:30 – Cabeça Aberta – Régis Pimenta Debates e entrevistas sobre comportamento, sexo, drogas, a política e a vida na comunidade. Dicas culturais e música nativa de qualidade. E assim por diante, até preencher todos os espaços ou contemplar todos os pro-gramas. Não esqueça do sábado e do domingo, que são dias que as pessoas mais ficam em casa. Podem ainda existir programas que são apresentados durante todo o dia, ao longo da programação. Por exemplo: Informe Farroupilha Todos os dias, das 09:00 às 18:00, no intervalo entre programas – Sérgio Cabeção e Rui da ABRAÇO apresentam 10 minutos de noticiário, com muita informações novinha sobre e para comunidade. Na medida do possível, é muito importante manter os horários rigidamente. Os ouvintes se habituam a ouvir um determinado programa em uma determinada hora, criando uma relação de identificação com a programação. Então não dá para ficar mu-dando a grade o tempo todo, nem ficar fazendo rotatividade de horários, porque isso, na prática, não dá muito certo e acaba incomodando parte da audiência. A pessoa liga o rádio e espera ouvir este ou aquele apresentador, ou um tipo de música do seu gos-to. Pode acabar criando uma imagem errada de que a rádio é uma bagunça ou que não dá certo mesmo. E aí é ponto para as comerciais. O rádio costuma criar um vínculo entre o ouvinte e o tempo. Ele é a informação, a diversão e a reflexão, mas também é uma espécie de relógio para muita gente. Ficar atento à rigidez dos horários é muito importante. E evitem faltar aos programas ou chegar muito atrasados. Faz parte do comprometimento assumido com a comunidade. Procurem construir uma programa-ção o mais plural possível para a rádio. E não esqueçam que as rádios comunitárias devem abrir espaço para todas as tendências, possibilitando a todos participar. Exercício 5 Desenvolvam uma grade de programação com os programas desenvolvidos nos exercícios anteriores. Não se esqueçam de incluir na grade as informações sugeridas para que os ouvintes saibam o máximo possível sobre o que está rolando na rádio e quem está por lá. Tentem ser flexíveis quanto aos horários, pensando sempre no que é melhor para a comunidade. 8 LOCUÇÃO A voz é a vibração sonora que os seres humanos produzem através de seus ór-gãos, especialmente a laringe. O ar é combustível essencial para a nossa voz, por isso a respiração adequada é uma das partes mais importantes da nossa fala. Uma postura adequada também é essencial. A voz é o instrumento de quem trabalha como comunicador de uma rádio. Ela não pode ser usada de qualquer jeito. É a ferramenta essencial para o desempenho do trabalho na rádio e, por isso, é necessário educá-la e cuidá-la. A locução radiofônica deve ser feita de forma natural, como se fosse uma conversa com o ouvinte. Utilize o mínimo necessário de leitura no microfone e fuja das palavras complicadas. É impor-tante salientar que a chamada “voz de rádio” está ultrapassada. Ter um vozeirão não significa que a pessoa deve trabalhar no rádio.
  • 32. 62 LOCUÇÃO LOCUÇÃO 63 A voz é muito mais do que palavras, muitas vezes o significado do que queremos dizer está na maneira como dizemos isso. Algumas questões são importantes para compreender como isso tudo funciona. Na seqüência, veremos alguns elementos de-terminantes na locução e de que modo podemos melhor aproveitá-los. 8.1 Entonação O jeito que você fala também é importante. O sentido da frase vai depender de como cada um expressa a informação: perguntando, exclamando, rindo, cho-rando, xingando. O ritmo que o comunicador usa também colabora para manter o ouvinte “ligado”. Se for monótono, lento, cansa o ouvinte e ele muda de estação. Se for rápido demais, ele não entende nada e também se aborrece. O melhor é combinar ritmos rápidos e lentos. É claro que cada tipo de programa e cada locutor tem o seu próprio estilo. É preciso cuidar pra que o público entenda o sentido do que foi dito e não pense que alguém está lendo tudo “na latinha”. Exercício 6 Ler a frase abaixo de várias formas: (1) interrogativa, (2) enunciativa, (3) exclamati-va, (4) chorando, (5) rindo, (6) como num informativo. TOMA ESTA FACA QUE DA ROÇA ELA VEM. ELA TEM PONTA? PONTA ELA TEM! 8.2 Ritmo É a repetição mais ou menos cíclica das coisas (pode ser sons, gestos, rítmo de vida, cardíaco etc). Na rádio, o ritmo tem um papel muito importante. É com ele que vamos atrair a atenção do ouvinte ou perdê-la. Se combinamos ritmos rápidos e lentos, se fizermos uma mistura ágil, o ouvinte vai estar atento. Mas se fazemos um ritmo monótono podemos afastar o ouvinte. Exercício 7 Ler uma notícia e comentar como foi a leitura. Utilize vários textos com sentidos diferentes. Faça a interpretação de uma notícia de jornal. 8.3 Atitude e improvisos A atitude depende do tipo de programa. Mas é importante manter a credibilidade e o respeito pela audiência, e para isso é necessário controlar o meio em que estamos trabalhando, evitar erros e saber exatamente sobre o que estamos falando. E para manter o respeito é necessário que se saiba a quem estamos nos dirigindo. Não é a mesma coisa fazer um programa de música para adolescentes e falar sobre música clássica. Além disso, o bom locutor conhece e respeita sua audiência. Fala a mesma língua de quem está escutando seu programa e procura manter isso. O melhor improviso é aquele que está pre-viamente preparado. É importante saber o que vamos falar, conhecer o tema, preparar um esquema dos pontos que queremos abordar, ter segurança ao falar, ter um vocabulário rico e não ter vergonha. A tranqüilidade se adquire com a experiência. Até que não se tenha a experiência, deve-se escrever tudo o que é importante para falar ao vivo e de improviso. Exercício 8 Repita o exercício anterior, fazendo uma parceria com algum colega. Durante a locu-ção, procure acrescentar algum improviso. 8.4 Vocalização e dicção A locução radiofônica tem que ser feita de forma natural, como se falássemos. Deve-se evitar fazer apenas a leitura dos textos. Então, para uma boa locução é preciso estar atento à vocalização e dicção, que é a articulação clara das palavras e dos sons para que todos entendam o que está sendo transmitido. É a pronúncia de todas as sílabas, de preferência dando a cada letra o seu som exato. Sylvio Ayala
  • 33. 64 LOCUÇÃO LOCUÇÃO 65 Exercício 9 Antes de começar, faça uma série de aquecimento: a) Realize alongamentos de relaxamento cervical, costas, pescoço, ombros; ajudam na postura; b) Emita bocejos forçados, com sons. Isso ajuda na articulação; c) Circule a língua ao redor da boca e como se estivesse varrendo o céu da boca; d) Para projetar a voz, simule mastigações forçadas. Primeiro sem som e depois com som. A seguir, passe aos exercícios: 1. Mover a língua e pronunciar sons problemáticos: palavras no plural, palavras com “x”, com “z”, com “sc” e outras. 2. Fazer uma lista de palavras para pronunciar. Colocar uma caneta na boca para exercitar. Fazer uma leitura de um texto articulando exageradamente as palavras. Não tenha medo de nenhuma palavra, faça o exercício sem pressa e sem vergonha, procurando ouvir o som da sua própria voz. Repita em voz alta as palavras a seguir: 8.5 Higiene vocal É uma série de cuidados que devemos ter com a nossa voz para evitar o apareci-mento de alterações e doenças e para termos uma voz mais bonita e saudável.  Evite fumo, álcool e drogas, pois atacam diretamente o nosso aparelho respi-ratório e fonador, causando prejuízos a voz;  Evite atos vocais inadequados, como pigarrear, tossir com força e competir com os sons de fundo;  Evite o contato com fumaças tóxicas e outros tipos de poluição;  Em caso de ter alergias que atacam a voz, siga corretamente as orientações médicas e evite situações de risco;  Alimente-se adequadamente; prefira comidas leves, verduras e frutas antes de realizar atividades que necessitem da voz. Evite alimentos e bebidas gela-das. E, especialmente, beba muita água;  A produção da voz consome bastante energia, portanto, descanse bastante;  Evite lugares com ar condicionado e mudanças bruscas de temperatura. 8.6 Dicas para uma boa locução Locução das notícias:  Os textos têm que ser bem lidos e comentados, evitando erros (para transmi-tir credibilidade), mas o tom tem que ser o mais natural possível;  A dicção tem que ser o mais correta e clara possível, pois é fundamental que o ouvinte entenda o que você está falando;  É recomendado ler as notícias previamente para entendê-las, sublinhar sem-pre que houver dificuldade com alguma palavra e definir a pronúncia;  O ritmo da leitura tem que ser variado para romper a monotonia. Não pode ser muito rápido, por que o ouvinte pode não entender o que está sendo dito. E também não deve ser muito lento, porque o ouvinte pode perder a atenção;  Não esqueça de ser natural, como se estivesse conversando;  Evite redundância. Exemplos: subir para cima, adiar para depois, manter o mesmo time, etc;  Fuja de chavões, clichês e jogos de palavras desnecessários. Outras dicas que não podemos esquecer:  Não imite a horrível característica artificial que tanto ouvimos nas rádios em geral, parecendo uma voz máscula, varonil;  Nunca tape seu ouvido com uma mão, para ouvir-se melhor. Isso só piora;  Nunca contraia a garganta para manter a respiração. Isto produz uma explo-são inicial ao falar e compromete a produção de uma voz suave e natural; IOGURTE AÇÚCAR TESTEMUNHA ESTUPRO ARTIFÍCIO BÚSSOLA SUAR FARSANTE ASSOVIAR ESTOURO CENOURA TROUXA TESOURA BEBEDOURO BISCOITO AÇOUGUE DOUTOR GÍRIA ADEREÇO TÉCNICO ACESSÓRIOS PROBLEMAS CARROCERIA CAÇAMBA BAGAÇO CICLONE ENTRETIDO CINAMOMO CISNE FÓSFORO ERUPÇÃO SALSICHA SOBRANCELHA ENTRETENIMENTO AUTORIDADE FALSIFICADO ASSÉDIO ACESSÍVEL CESARIANA RESIDÊNCIA DOMICÍLIO SOBREMESA TIREÓIDE FUSÍVEL DROGAS VESÍCULA HERBICIDA ADVOGADO AZUCRINANDO EMBRIAGADO ENXURRADA SÊMEN EXORCISTA TÓXICO INTOXICAÇÃO TRÁFICO ARQUITETURA REPOLHO PRECISAR ANTEONTEM 3. A repetição de trava-línguas também ajuda bastante na dicção. Repita estes exemplos abaixo em voz alta e pausadamente: O RATO ROEU A ROUPA DO REI DE ROMA. // DENTRO DA JARRA TEM UMA ARANHA; NEM A ARANHA ARRANHA A JARRA, NEM A JARRA ARRANHA A ARANHA. // O PEI-TO DO NEGRO PEDRO É PRETO. // TRÊS TIGRES TRISTES NOS TRILHOS DO TREM.
  • 34. 6 PREPARANDO O PROGRAMA PREPARANDO O PROGRAMA 67  Ao fazer uma produção, escolha as vozes e suas personalidades, bem como a personalidade para cada texto que vai ser interpretado. É preciso manter as vozes para não descaracterizar a(s) personalidade(s) criada(s);  Experimente contrastar as vozes, uma mais grave com outra brilhante, mais alta; a voz de barítono contra a de um contralto, a de uma criança travessa com a de uma menina doce. Com esta variedade, pode ser pintado um quadro vivo e interessante. Use a palavra e a voz humana em toda a extensão de suas possibilidades;  Dê um ritmo agradável, que não seja monótono para quem estiver ouvindo. Seja vivo e interessante;  A postura é essencial para a nossa fala. 9 PREPARANDO O PROGRAMA Depois de estabelecida a proposta do programa e a que ele se destina, é rele-vante pensarmos na produção. Independente da linha e do estilo que forem escolhidos para o programa, precisa-se considerar os itens seguintes. Eles são importantes para que a proposta fique clara e os ouvintes consigam identificá-la – e não tenham a impressão de que quem está conduzindo está perdido, não domina o conteúdo ou não participou do processo de produção. 9.1 Idéia É a inspiração, o elemento básico que o programa quer abordar (exemplos: re-forma agrária, medicamentos genéricos, evento na comunidade). Esta idéia é a espinha dorsal do programa. Ela deve estar presente em todas as fases do tra-balho. Para o programa ser completo, ele deve partir de três idéias iniciais: a idéia temática, (a nossa visão sobre o tema), a idéia narrativa (como vamos transmitir a temática - através de notícias, entrevistas, debates), e a idéia poética (como os apresentadores vão conduzir o programa, a linguagem a ser utilizada, a utilização de música etc.). As idéias podem surgir de duas maneiras: uma adaptação de um produto que já existe (uma discussão da comunidade, um evento que está sendo realizado) ou uma reunião da equipe que produz o programa (no caso de ele acontecer com uma freqüência definida). 9.2 Sinopse É o desenvolvimento escrito da idéia, um texto em que deve ser apresentado o conteúdo do programa. A sinopse deve ser breve, incluindo os aspectos mais importantes que precisam ser abordados. Além disso, a sinopse tem que definir: o horário que o programa vai ao ar, a duração, o público a que ele se destina, se ele vai ser ao vivo ou gravado e os meios humanos - quantas pessoas são necessárias e quem está disponível. 9.3 Pré-pauta Pré-pauta e pauta são tarefas que devem ser realizadas por quem ficar responsável pelas reportagens. A pré-pauta é um resumo do programa, indicando as reporta-gens que vão ao ar e o tempo de duração. As matérias não devem ser muito longas, para o ouvinte não se distrair. Uma boa condução segura um tema no ar por até 10 ou 12 minutos por bloco. Uma rádio comunitária pode compensar a falta de recursos e de reportagem na rua com participação, comentários explicativos e polêmicas: BLOCO 1 Matéria sobre enchentes e como está a situação da população atingida pe-las chuvas – 1min 30seg Matéria sobre início das aulas e condições das escolas estaduais – 1min 30seg BLOCO 2 Entrevista com morador do bairro que colaborou com as vítimas das en-chentes – 2min Enquete com população sobre preços do material escolar – 1min Exercício 10 Junte-se à sua equipe para elaborar uma pré-pauta para dois blocos de 5 a 10 minu-tos para veicular na rádio da sua comunidade. Procurem mesclar informações gerais, sobre sua cidade e país, com assuntos que são interessantes para os moradores em seu bairro. Definam quantas matérias o programa terá, qual a duração de cada uma e a ordem em que elas vão ao ar. Apresentem a idéia aos colegas. 9.4 Pauta São as tarefas dos repórteres, dando dicas de como elas devem ser realizadas. A pauta deve conter um indicativo de tempo máximo e mínimo para a reportagem, bem como os aspectos importantes a serem destacados. Resumindo, a pauta possui elementos para ajudar o repórter a entender o assunto e indicações de fontes para as entrevistas e/ou de informantes no local do acontecimento a ser coberto. A existência de uma pauta enriquece o produto final e organiza as idéias da equipe que está trabalhando. Observe o exemplo, baseado na primeira matéria do BLOCO 1 da pré-pauta acima:
  • 35. 68 PREPARANDO O PROGRAMA PREPARANDO O PROGRAMA 69 MATÉRIA DA ENCHENTE NO BAIRRO GLÓRIA  Visitar o bairro da Glória para fazer entrevistas com as crianças e mora-dores atingidos pela enchente.  Registrar o que a enchente causou, se há mortos, feridos e desabrigados.  Perguntar como a população está sendo assistida, entrevistar representantes de entidades e do governo que estão colaborando com a recuperação do local.  Apresentar os casos mais graves e destacar um que chame mais a aten-ção. Na Rua da Assunção, 250 crianças estão num barracão aguardando a ajuda do governo, pois elas perderam tudo.  Já foi marcado horário com o representante da Associação dos Moradores: 10 horas na rua do Senhor Pelegrino, 520 - Bairro da Glória. Procurar por José Alves. Tempo: 1min 30seg Repórter: Maria Luiza Bernardes Exercício 11 Agora, elaborem a pauta de dois dos assuntos escolhidos para o programa no exer-cício anterior. Reflita sobre os gêneros a utilizar e entrevistas que poderiam ser inte-ressantes. Seria importante fazer uma enquete? Que livros, revistas, jornais e outros recursos o repórter pode consultar para conseguir mais dados e informações? 9.5 Pré-roteiro É um esboço do roteiro, mais simplificado, onde deve constar a ordem em que as reportagens, entrevistas e enquetes vão ao ar e o tempo aproximado: Apresentação: 1min Vinheta para as manchetes: 10seg Manchetes: 1min BLOCO 1 1) Reportagem sobre enchentes – 1min 30seg 2) Nota sobre enchentes em outras localidades do estado – 30seg 3) Entrevista com representantes da prefeitura sobre as enchentes – 1min 4) Previsão do tempo para a região sul – 30seg BLOCO 2 5) Reportagem sobre volta às aulas – 1min 30seg 6) Entrevista com mãe de aluno – 1min 9.6 Roteiro É a “cara” final do programa, planejado e organizado. Ele é feito depois de todas as partes estarem prontas e redigido na seqüência em que elas vão ao ar, com os dados essenciais para que toda a equipe acompanhe com facilidade o que está sendo gravado ou transmitido. O roteiro traz também os textos que vão ser lidos pelos locu-tores, como pequenas notas e a introdução para as reportagens. Também aparecem no roteiro as orientações para os técnicos: a duração de cada parte, o trecho inicial e o trecho final de cada reportagem gravada. É recomendado que sejam feitas cópias do roteiro para distribuir para os apresentadores e o técnico. Assim, não há o risco de ninguém esquecer o que teria que falar ou fazer. Convém aos participantes ler o roteiro antes do programa, para que qualquer dúvida seja solucionada. Quando há nomes e palavras difíceis a serem faladas, por exemplo, o apresentador pode treinar antes a pronúncia. Sem esquecer, é claro, que as palavras difíceis, na medida do possível, devem ser evitadas. Especialmente por se tratar de uma rádio comunitária, cujo objetivo é se aproximar ao máximo da popu-lação local. Por isso, fale a língua do seu ouvinte, do seu povo. 9.6.1 Exemplo explicativo de roteiro: Para ajudar na compreensão das convenções utilizadas em um roteiro para rádio, o exemplo a seguir possui diversos elementos explicados ao seu final. Basta conferir o número: a FICHA TÉCNICA escrita abaixo, por exemplo, é a de número “1”. RÁDIO COMUNITÁRIA NEGRINHO DO PASTOREIO FM JORNAL DA COMUNIDADE FICHA TÉCNICA1 APRESENTADORES: Luís Antônio de Assis Brasil e Dilamar Machado. PRODUÇÃO: Charles Kiefer, Mário Quintana e Ana Maria Machado. TÉCNICA: Érico Veríssimo. DATA DA GRAVAÇÃO: 15 de junho de 2008. VEICULAÇÃO: 15 de junho de 2008 - 19h. SINTESE: Programa informativo diário. TEMPO DURAÇÃO: 11 minutos.
  • 36. 70 PREPARANDO O PROGRAMA PREPARANDO O PROGRAMA 71 INÍCIO TEC RODA VINHETA DE APRESENTAÇÃO (CD Nº1, FAIXA 1) TMP 15” E VAI A BG²// LOC 1 - Está no ar o JORNAL DA COMUNIDADE3, a sua voz no rádio. // LOC 2 - Os destaques do noticiário de hoje são: // LOC 1 - Enchentes atingem mais de cem famílias4 no bairro da GLÓRIA. // LOC 2 - Aulas recomeçam mesmo com falta de professores. // TEC SOBE BG 5” E CORTA LOC 1 - As fortes chuvas da noite passada provocaram alagamentos em várias regiões da cidade. / No bairro da GLÓRIA, mais de trezentas pessoas ficaram desabrigadas. A repórter MARIA DINORAH esteve lá e entrevistou os moradores.// TEC RODA REPORTAGEM DA ENCHENTE (FITA Nº3) TMP 1’43” E CORTA DEIXA INICIAL: “AQUI NO BAIRRO DA GLÓRIA...”5 DEIXA FINAL: “...ATÉ A SEMANA QUE VEM.” (continuação - pg. 2 - Jornal da Comunidade) LOC 2 – AGENDA: Domingo, às oito horas da noite, tem show com grupo de rap RACIONAIS MC’S no pavilhão do CORPO DE BOMBEIROS. / Vamos conferir agora uma das músicas do disco do grupo SO-BRE-VI-VEN- DO NO IN-FER-NO6. // TEC RODA CD RACIONAIS MC’S (“SOBREVIVENDO NO INFERNO”, FAIXA 8) TMP 6’01” E BG LOC 2 – Segunda-feira, dia 28 de fevereiro, às sete e meia da manhã7, acontece a volta às aulas nas escolas estaduais e municipais de PORTO ALEGRE. / Estão matriculados aqui nas escolas da comunidade dois mil 537 jovens8. / Na maior escola municipal do bairro, a MACHADO DE ASSIS, são esperados mais de 500 estudantes. / LOC 1 – Conversamos com a diretora da escola, MARILENE FELINTO. (9)?MARILENE, como estão os preparativos para receber os estudantes segunda-feira? // TEC RODA ENTREVISTA COM MARILENE FELINTO (FITA Nº5) TMP 0’47” E CORTA DEIXA INICIAL: “A ESCOLA MACHADO DE ASSIS...” DEIXA FINAL: “... SE NÃO HOUVEREM OUTROS IMPREVISTOS.”
  • 37. 72 PREPARANDO O PROGRAMA PREPARANDO O PROGRAMA 73 (continuação - pg. 3 - Jornal da Comunidade) LOC 1 – Nas escolas estaduais, a falta de professores ameaça três quartos dos estabelecimentos de ensino da nossa comunidade. / O chefe da nona delegacia de polícia, HAROLDO DE SOUZA, garante que haverá policiamento nas ruas na manhã de segunda-feira para coibir eventuais protestos de pais e alunos que ficarem sem aulas. / Para reclamações sobre falta de professores, pode ser procurada a SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO no telefone 3-3-2-5-6-5-9-110. // LOC 2 – A delegacia do PROCON esteve autuando a FARMÁCIA DO RINCÃO, aqui no bairro. / O motivo foi a cobrança de uma taxa de dez por cento11 sobre o preço dos medicamentos genéricos. / Em alguns casos, a diferença no preço chegava a cinco reais. // LOC 1 – O programa de hoje está terminando. / Produção e apresentação de CHARLES QUIFER12, MÁRIO QUINTANA e ANA MARIA MACHADO. / Na técnica, ÉRICO VERÍSSIMO. / Boa noite. // LOC 2 – Boa noite e até a próxima edição. //13 TEC RODA VINHETA DE APRESENTAÇÃO (CD Nº1, FAIXA 1) TMP 15” E CORTA FIM TEMPO TOTAL: 11’01”14 LEGENDA PARA ENTENDER O ROTEIRO (1) A ficha técnica identifica o programa, quem participou dele e a data e hora que ele vai ao ar. Apresentadores, produtores, editores e técnicos devem ser apresentados no final para que o ouvinte saiba quem foram os responsáveis pelo programa. (2) Todas as entradas de material gravado (músicas, reportagens, depoimentos etc) devem ser identificados para o operador da técnica. As indicações devem deixar bem claro onde está o material, quanto tempo dura (que é representado por apóstrofe para minutos e aspas para segundos – exemplo: 1min e 10seg = 1’ 10”), a entrada e o que fazer depois que ela terminar (“vai a BG” significa que a gravação fica bem baixinho, fazendo um fundo en-quanto o locutor lê o texto; “corta” significa que a entrada deve encerrar logo após o tempo marcado). (3) Nomes próprios e palavras difíceis devem sempre ser escritos em letras maiúsculas. (4) Quando se deseja que o locutor enfatize uma determinada informação, deve-se sublinhar o trecho. (5) Quando é indicado para o técnico a entrada de uma reportagem, deve-se colocar as deixas inicial e final (4 ou 5 palavras) para que ele sabe exatamente com que palavras inicia e encerra a gravação. (6) Palavras complicadas para a leitura devem ser escritas em maiúsculas e separadas em sílabas. (7) Data e hora são escritos de maneira coloquial, ou seja: sete da manhã, três e meia da tarde. As horas sempre vão por extenso. Só não se esqueça de indicar em que parte do dia ocor-reu ou vai acontecer algo, para os ouvintes não ficarem com a informação incompleta. (8) Números são mais fáceis de ler quando escritos da seguinte forma: - entre 1 e 9: por extenso; - entre 10 e 999: em números; - a partir de 1000: por extenso; - números fracionados: por extenso; - números ordinais: por extenso. Quando for o caso, deve-se escrever o número de forma mista, como foi feito no exemplo de roteiro. (9) Para que o locutor possa ler uma frase interrogativa com a entonação certa, deve-se indicar colocando um ponto de interrogação antes da frase. (10) Telefones são escritos com hífens entre os números. (11) Porcentagens e valores em dinheiro são sempre escritos por extenso. (12) Palavras com pronúncia diferenciada devem ser escritas como se lê, mesmo que esteja incorreto. (13) Sempre que se encerra um texto a ser lido no rádio, deve-se utilizar 2 barras ( “//” ) para indicar ao locutor que ali é o fim. (14) No final, sempre se faz a soma do tempo total do programa, incluindo o tempo das vinhetas, gravações, músicas, comerciais (quando for o caso) e TODOS os textos lidos pelo locutor. Recomenda-se que, ao ser digitado em computador, a fonte utilizada para o roteiro seja a Courier New, pois todos os seus caracteres têm o mesmo tamanho. Assim, pode-se contar que, na média, cada linha de texto equivale a 5 segundos de leitura.
  • 38. 74 PREPARANDO O PROGRAMA ÚLTIMAS REFLEXÕES 75 Exercício 12 Baseando-se no exemplo acima, junte a sua equipe e faça o roteiro para o programa planejado a partir do exercício 3. Escreva os textos para os locutores, coloque as matérias na ordem, escolha os trechos das entrevistas que vão ser colocados no ar e escreva as orientações para o técnico. Não esqueça dos tempos das matérias e das entrevistas. Ao final, comparem com o que haviam desenvolvido antes e apresentem o roteiro aos colegas. 9.7 Depois que o programa vai ao ar A equipe do programa deve se reunir para avaliar se a idéia inicial foi bem executa-da. Deve também ser comparado o planejamento inicial do programa com aquilo que foi ao ar. Uma forma fácil de avaliação é gravar e escutar coletivamente o progra-ma. Os resultados devem ser avaliados de acordo com o que foi produzido e o jeito que foi feito. Quando for debatido o programa, deve entrar em debate a participação dos ouvintes, através de chamadas telefônicas, mensagens de celular, correio eletrô-nico, MSN, visitas ao estúdio na hora do programa ou conversas fora do ar. Se houver polêmica sobre algum ponto, pode-se retomar o assunto no próximo programa. As discussões continuam na reunião que vai elaborar o próximo programa. 10 ÚLTIMAS REFLEXÕES Aprender a negociar é muito importante, é um mo-mento de grande reflexão. A contaminação do culto ao ego que é propagada pela grande mídia, este mundo ilusório de grandes astros e estrelas, inevi-tavelmente reflete na cultura e na nossa forma de pensar. Para o trabalho que envolve a radiodifusão comunitária, a importância do que está em jogo está muito acima de quaisquer desejos pessoais ou problemas de carência afetiva mal resolvidos. Procurem trabalhar a sua convi-vência com os seus vizinhos e colegas de comunidade. Aprendam a receber críticas, mas sem levá-las para o lado pessoal. E aprendam a reconhecer a dedicação dos outros sem sentir-se diminuído – algumas pessoas inco-modam- se com o talento alheio. É preciso aprender a elo-giar e receber elogios. Faz parte do desenvolvimento de relações afetivas saudáveis. Aos mais talentosos, apren-dam a compartilhar seu conhecimento com os outros e preservem sempre a humildade – habilidades maiores podem até mesmo resultar em maiores responsabilida-des e, às vezes, são um fardo pesado a ser carregado. Mas talento e competência não fazem necessariamente seres humanos melhores. E isso faz parte de um aspecto fundamental que nos difere da lógica da mídia comercial. Afinal de contas, é sempre importante lembrar que todos somos e sempre seremos ignorantes em algum aspecto – isso é uma máxima inquestionável desde o princípio da história da humanidade. Assim como é fato que todos queremos e buscamos, acima de tudo, carinho e atenção – cuja ausência, segundo grandes teorias da psicologia, são a origem de muitas de nossas tormentas espirituais. Prova de que, acima da realização puramente pessoal, compartilhar nossas experiências e cultivar relações fun-dadas na afetividade e no respeito mútuo, talvez ainda seja um dos grandes sentidos para a dádiva da vida. Exercício Final Reelaborar coletivamente a grade de programação para a rádio. Negociem os horá-rios, tentando ser flexíveis, pensando sempre no que é melhor para a rádio e conse-qüentemente para a comunidade. Em caso de impasses que não chegam a consen-so, optar por uma votação ou apelar para um sorteio. Ivan Vieira
  • 39. 67 REFERÊNCIAS REFERÊNCIAS 77 REFERÊNCIAS ADAMI, Antonio; LONGHI, Carla Reis. O rádio com sotaque paulista: rádio DKI “A Voz do Juqueri”. Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2005/ resumos/R1927-1.pdf>. Acesso em: 15 jan. 2009. AMARAL, Márcia Franz. Jornalismo popular. São Paulo: Contexto, 2006. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RADIODIFUSÃO COMUNITÁRIA-RS. Rádio comunitária: como produzir conteúdo para agricultura familiar. Porto Alegre: Produção Independente, 2007. BARBEIRO, Heródoto. Manual de radiojornalismo: produção, ética e internet. Rio de Janeiro: Campus, 2001. BARBOSA, Gustavo; RABAÇA, Carlos Alberto. Dicionário de comunicação. São Paulo: Ática, 1987. BRASIL. Ministério das Comunicações. Como instalar uma rádio comunitária: manual de orientação. Disponível em: <http://www.mc.gov.br/radio-comunitaria/ manual>. Acesso em: 10 jan. 2009. ______. Legislação para rádios comunitárias. Disponível em: <http://www. mc.gov.br/radiodifusao/legislacao/sonora/radcom>. Acesso em: 10 jan. 2009. ______. Rádio comunitária. Disponível em: <http://www.mc.gov.br/radiodifusao/ perguntas-frequentes/radio-comunitaria>. Acesso em: 10 jan. 2009. BRITTOS, Valério; LIMA ROCHA, Bruno. Da contra-informação ao pensamento único neoliberal: conceitos de crítica à indústria da mídia. Disponível em: <http:// www.estrategiaeanalise.com.br/teoria.php?seltitulo=420757fce1d843aa90021fac9e d9aee5>. Acesso em: 31 mar. 2008. BROCANELLI, Rodney. Rádios livres: Breve História. Disponível em: <http:// www.locutor.info/Biblioteca/Radios_Livres.doc>. Acesso em: 2 jan. 2009. CABRAL, Adílson; LIMA ROCHA, Bruno. O empoderamento popular por meio das rádios comunitárias: uma análise crítica. Disponível em: <http://www. estrategiaeanalise.com.br/ler02.php?idsecao=922050d4e7d85ffb0ce2211f87d218b 7&&idtitulo=6cdace326048c1a0a88784e31c10100c>. Acesso em: 31 mar 2009. COGO, Denise Maria. No ar... uma rádio comunitária. São Paulo: Paulinas, 1998. CIRANDA INTERNATIONAL DE L’INFORMATION INDEPENDENTE. Reforma política precisa democratizar a comunicação. Disponível em: <http://www.ciranda.net/ spip/article1211.html?lang=fr>. Acesso em: 31 mar. 2008. DETONI, Márcia. Desenvolvimento da radiodifusão comunitária no Brasil. Disponível em: <http://biadornelles.blogspot.com/2005/09/desenvolvimento-da-radiodifuso. html> e <http://biadornelles.blogspot.com/2005/09/desenvolvimento-da- radiodifuso_22.html>. Acesso em: 27 mar. 2008. FERRARETO, Luiz Artur. Rádio: o veículo, a história e a técnica. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2001. HARTMANN, Jorge; MUELLER, Nelson (Org.). A comunicação pelo microfone. Petrópolis: Vozes, 1998. HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: o breve século 20 (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1998. LIMA, Venício A. de; LOPES, Cristiano Aguiar. Coronelismo eletrônico de novo tipo (1999-2004). Disponível em: <http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/ download/Coronelismo_eletronico_de_novo_tipo.pdf>. Acesso em: 10 jan. 2009. LUZ, Dioclécio. Trilha apaixonada e bem-humorada do que é e de como fazer rádios comunitárias na intenção de mudar o mundo. Brasília: Produção Independente, 2001. MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como externsões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964. MELIANI, Marisa. Rádios livres, o outro lado da voz do Brasil. 1995. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes. Universidade de São Paulo. São Paulo, 1995. ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informação no rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos. São Paulo: Summus, 1985. PAIVA, Raquel (Org.). O Retorno da comunidade: os novos caminhos do social. Petrópolis: Vozes, 1998. PERUZZO, Cicilia M. Krohling. Comunicação nos movimentos populares: a participação na construção da cidadania. Petrópolis: Vozes, 1998. PRADA, Marcelo. Rádio 24 horas de jornalismo. São Paulo: Panda, 2000. PROCURADORIA FEDERAL DOS DIREITOS DO CIDADÃO. Convenção Americana de Direitos Humanos: Pacto de San José da Costa Rica. Disponível em: <http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/legislacao-pfdc/docs_convencao/convencao_ americana_dir_humanos.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2008. PROJETO DISSONANTE. Como montar uma rádio web. Disponível em: <http://bill. dissonante.org/site/index.php?arquivo=comofazer>. Acesso em: 31 out. 2008.
  • 40. 78 REFERÊNCIAS ANEXO 79 REDE VIVA FAVELA. Informações – Cartilhas. Disponível em: <http://www. redevivafavela.com.br/>. Acesso em: 15 jan. 2009. SILVA, Terezinha. Gestão e mediações nas rádios comunitárias: um panorama do estado de Santa Catarina. Chapecó, SC: Argos, 2008. SIQUEIRA, Ethevaldo. Hélio Costa abandona projeto de rádio digital. Disponível em: <http://www.ethevaldo.com.br/Generic.aspx?pid=458>. Acesso em: 2 jan. 2009. SOUZA, Ana Inês; COSTA, Rosa Maria Dalla (coord.). Rádios comunitárias: a voz da comunidade. Curitiba: CEFURIA, NCEP/UFPR, 2006. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL. Cartilha (sem frescura) da rádio comunitária. Porto Alegre: Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, 2002. VIGIL, José. Rádio revista de educação popular. São Paulo: Aler, 1986. ANEXO O texto a seguir foi reproduzido das páginas 23 e 24 da obra Rádios comunitárias: a voz da comunidade, publicado em maio de 2006 sob coordenação de Ana Inês Souza e Rosa Maria Dalla Costa, com texto de Larissa Limeira, edição de Anderson Moreira, arte de Lielson Zeni e Marcos Teixeira e colaboração de Carla Cobalchini e Daniela Mussi. A publicação é o primeiro caderno de uma série intitulada Comunicação e Cultura Popular, produzida pela CEFURIA e NCEP/UFPR. O texto selecionado aborda possíveis providências a serem tomadas em caso de intervenção à rádio por parte dos órgãos públicos responsáveis pelo controle, fiscalização e repressão do setor no Brasil. DEFENDA-SE! Em algumas ocasiões, pode acontecer que a Polícia Federal e a Anatel promovam uma repressão violenta e muitas vezes ilegal contra as rádios comunitárias. Uma rádio comunitária só pode ser fechada ou lacrada com determinação constitucional. De forma que, se agentes da Anatel ou da Polícia Federal quiserem fechar sua rádio comunitária, não permita: PRIMEIRO: Chame a comunidade para defender a emissora e ser testemunha desse abuso. Use o microfone e o telefone. Monte uma rede de informações na comunidade. A comunidade deve estar preparada para avisar a todos quando apare-cerem agentes da Anatel ou da PF no lugar. SEGUNDO: Não deixe o agente entrar na sala ou residência sem que a justiça tenha dado permissão para isso e que você tenha sido comunicado anteriormente. Só permita a entrada dos agentes da Polícia Federal na rádio se apresentarem um mandado judicial. Só um juiz tem poder para determinar o lacre da emissora, a apre-ensão de equipamentos ou a prisão de alguém. TERCEIRO: Existe uma decisão do Supremo Tribunal Federal que diz que a Anatel não pode apreender ou lacrar equipamentos. É ilegal. Fale para o agente que lhe visitar. QUARTO: Se insistirem na arbitrariedade, vá à Delegacia de Polícia e de-nuncie esses agentes por abuso de autoridade, invasão de domicílio, danos morais, danos de patrimônio, fur to de equipamentos... Depois você entra com um processo contra a Anatel. No momento, é a pessoa física do agente que deve ser denunciada. Denuncie ao promotor local.
  • 41. 80 ANEXO QUINTO: Documente tudo. Anote o nome dos agentes, fotografe, grave em fita cassete, em vídeo. Deixe o microfone ligado, transmitindo para toda cidade. Lembre-se, porém, que eles estão numa atividade ilegal. Então farão de tudo para não se identificar e, se preciso, usarão de violência para evitar que a ação seja documentada. SEXTO: A comunidade deve ter um advogado instruído na matéria para defender a emissora e deixar bem claro aos agentes que eles estão cometendo um abuso de autoridade. E que eles serão processados, e não a Anatel. SÉTIMO: Para se prevenir da repressão, entre com mandado de segurança e habeas corpus preventivo. O mandado garante o patrimônio físico da rádio, evitando que lacrem ou apreendam equipamentos. O habeas corpus garante a integridade física; é um salvo-conduto para os dirigentes da emissora, impedindo que sejam presos pela PF. Caso tenha já havido a apreensão, entre com o man-dado de segurança solicitando a devolução e a volta da rádio ao ar. Muitos juízes têm acatado tais pedidos. ANOTAÇÕES
  • 42. ANOTAÇÕES UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação Rua Ramiro Barcelos, 2705 - Campus Saúde - Bairro Santana - Porto Alegre - RS 51 3308 5067 - http://www.ufrgs.br/FABICO - http://www.ppgcom.ufrgs.br ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RADIODIFUSÃO COMUNITÁRIA DO RIO GRANDE DO SUL Rua Ramiro Barcelos 1017 - sala 407 - Centro - Santa Cruz do Sul - RS 51 9336 9547 - http://www.abracors.org.br GRUPO DE PESQUISA COMUNICAÇÃO, ECONOMIA POLÍTICA E SOCIEDADE Av. Unisinos, 950 - Bairro Cristo Rei - São Leopoldo - RS 51 3591 1122 - Ramal 1356 - http://www.grupocepos.net NÚCLEO DE ECOJORNALISTAS DO RIO GRANDE DO SUL Rua dos Andradas, 1270 - 13º andar - Centro Porto Alegre - RS - http://www.ecoagencia.com.br REVOLUÇÃO DE IDÉIAS E EDITORIAL Rua Guilherme Alves, 901/104 - Bairro Petrópolis Porto Alegre - RS - 51 3398 1916 http://www.editorarevolucaodeideias.com.br
  • 43. REALIZAÇÃO APOIO FABICO - PPGCOM ABRAÇO RS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RADIODIFUSÃO COMUNITÁRIA - RS Esta singela cartilha é resultado de um grande esforço coletivo por uma rede de comunicação mais democrática. Surge como uma proposta justamente no ano em que a I Conferência Nacional de Comunicação eclode com o tema “Comunicação: meios para a construção de direitos e de cidadania na era digital”. Sugere uma alternativa ao profissional do jornalismo. Propõe uma aproximação entre o ensino das faculdades de comunicação e uma atividade mais liberta, distinta da realizada no âmbito empresarial. Indica uma estratégia de organização para as rádios comunitárias, alertando comunicadores e comunidades para a importância e responsabilidade destes veículos. Aproxima teoria e prática, tentando, assim, alimentar a formação de uma rede comprometida com os anseios populares. Um modesto ferramental em auxílio a uma comunicação social mais ética, livre e consciente do seu papel junto às comunidades onde se insere.