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a queda do céu
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papel deste livro provém de florestas que foram gerenciadas de maneira
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além de outras fontes de origem controlada.
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davi kopenawa e bruce albert
A queda do céu
Palavras de um xamã yanomami
Tradução
Beatriz Perrone-Moisés
Prefácio
Eduardo Viveiros de Castro
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Copyright © 2010 by Plon
Este livro foi publicado com o apoio do Instituto Socioambiental e do Instituto Arapyaú
Cet ouvrage, publié dans le cadre du Programme d’Aide à la Publication 2011 Carlos Drummond de Andrade
de la Médiathèque de la Maison de France, bénéficie du soutien de l’ambassade de France au Brésil.
Este livro, publicado no âmbito do programa de apoio à publicação 2011 Carlos Drummond de Andrade
da Mediateca da Maison de France, contou com o apoio da Embaixada da França no Brasil.
Edição apoiada pelo Goethe-Institut no âmbito do projeto “Amazônia — Teatro música em três partes”.
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Título original
La Chute du ciel: Paroles d’un chaman yanomami
Capa
Alceu Chiesorin Nunes
Foto de capa
Sem título, da série Identidade, Claudia Andujar, 1976. Técnica fotografia: gelatina de prata sobre
papel Ilford Multigrade peso duplo com banho de selênio. Cortesia Galeria Vermelho
Preparação
Ana Cecília Agua de Melo
Índices
Luciano Marchiori
Revisão
Jane Pessoa
Isabel Jorge Cury
[2015]
Todos os direitos desta edição reservados à
editora schwarcz s.a.
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 — São Paulo — sp
Telefone: (11) 3707-3500
Fax: (11) 3707-3501
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)
Kopenawa, Albert, Bruce, Davi
A queda do céu : Palavras de um xamã yanomami / Davi
Kopenawa e Bruce Albert ; tradução Beatriz Perrone-Moisés;
prefácio de Eduardo Viveiros de Castro — 1a
ed. — São Pau­
lo :
Com­pa­nhia das Letras, 2015.
Título original: La Chute du ciel : Paroles d’un chaman
yanomami.
isbn 978-85-359-2620-0
1. Índios da América do Sul 2. Índios Yanomami — Brasil
Biografia3.ÍndiosYanomami—Brasil—Século20 4.Kopenawa,
Davi 5. Xamanismo — Brasil — Século 20 6. Xamãs — Brasil —
Biografia i. Albert, Bruce. ii. Título.
15-05316 cdd-980.41
Índice para catálogo sistemático:
1. Xamanismo Yanomami : Povos indígenas : Cultura :
América do Sul 980.41
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[…] Antes mesmo da chegada dos brancos, a mitologia ameríndia
dispunha de esquemas ideológicos nos quais o lugar dos invasores
parecia estar reservado: dois pedaços de humanidade, oriundos da
mesma criação, se juntavam, para o bem e para o mal. Essa solida-
riedade de origem se transforma, de modo comovente, em solidarie-
dade de destino, na boca das vítimas mais recentes da conquista,
cujo extermínio prossegue, neste exato momento, diante de nós. O
xamã yanomami — cujo testemunho pode ser lido adiante — não
dissocia a sina de seu povo da do restante da humanidade. Não são
apenas os índios, mas também os brancos, que estão ameaçados
pela cobiça de ouro e pelas epidemias introduzidas por estes últimos.
Todos serão arrastados pela mesma catástrofe, a não ser que se com-
preenda que o respeito pelo outro é a condição de sobrevivência de
cada um. Lutando desesperadamente para preservar suas crenças e
ritos, o xamã yanomami pensa trabalhar para o bem de todos, in-
clusive seus mais cruéis inimigos. Formulada nos termos de uma
metafísica que não é a nossa, essa concepção da solidariedade e da
diversidade humanas, e de sua implicação mútua, impressiona pela
grandeza. É emblemático que caiba a um dos últimos porta-vozes
de uma sociedade em vias de extinção, como tantas outras, por nos-
sa causa, enunciar os princípios de uma sabedoria da qual também
depende — e somos ainda muito poucos a compreendê-lo — nossa
própria sobrevivência.
Claude Lévi-Strauss (1993, p. 7).
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A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em des-
truí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o
chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar
no calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa. Os espíritos xa-
piri, que descem das montanhas para brincar na floresta em seus
espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão
mais chamá-los e fazê-los dançar para nos proteger. Não serão ca-
pazes de espantar as fumaças de epidemia que nos devoram. Não
conseguirão mais conter os seres maléficos, que transformarão a flo-
resta num caos. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os
brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando
não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai
desabar.
Davi Kopenawa
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Sumário
Prefácio — O recado da mata — Eduardo Viveiros de Castro.  .  .  .  .  . 11
Prólogo.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 43
mapas .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 55
Palavras dadas.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 63
devir outro
1. Desenhos de escrita .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  69
2. O primeiro xamã.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 80
3. O olhar dos xapiri.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  88
4. Os ancestrais animais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110
5. A iniciação.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  132
6. Casas de espíritos.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  156
7. A imagem e a pele .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 174
8. O céu e a floresta .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  193
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a fumaça do metal
9. Imagens de forasteiros.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 221
10. Primeiros contatos.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 235
11. A missão .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 254
12. Virar branco?.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 274
13. O tempo da estrada .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 291
14. Sonhar a floresta.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 311
15. Comedores de terra.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 334
16. O ouro canibal.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 356
a queda do céu
17. Falar aos brancos.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .375
18. Casas de pedra.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 394
19. Paixão pela mercadoria.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 406
20. Na cidade.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 421
21. De uma guerra a outra .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 439
22. As flores do sonho.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 454
23. O espírito da floresta.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 467
24. A morte dos xamãs.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 488
Palavras de Omama.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 499
Postscriptum — Quando eu é um outro (e vice-versa).  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 512
anexos
i. Etnônimo, língua e ortografia.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 553
ii. Os Yanomami no Brasil.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 557
iii. A respeito de Watoriki.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 564
iv. O massacre de Haximu .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 571
Glossário etnobiológico .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 583
Glossário geográfico .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 599
Notas.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 609
Agradecimentos.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 692
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Referências bibliográficas.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 694
Créditos dos mapas.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 708
índices
Índice temático.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 711
Índice de entidades xamânicas e cosmológicas.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . 723
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Prefácio
O recado da mata
Eduardo Viveiros de Castro
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
[…] a máquina do mundo, repelida se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Carlos Drummond de Andrade
Enfim vem à luz, na elegante tradução de Beatriz Perrone-Moisés, a edição
em português de A queda do céu. Cinco anos se passaram desde sua publicação
em francês, na sexagenária e prestigiosa coleção Terre Humaine, em que este
livro brilha com uma intensidade talvez só comparável à do segundo volume da
coleção, Tristes trópicos —* do qual, aliás, A queda do céu pode ser visto como
uma variante forte, no sentido que a mitológica estrutural professada pelo autor
de Tristes trópicos dá a essa noção. Ou, melhor ainda, o livro de Kopenawa e
Albert é, relativamente a seu ilustre predecessor, um exemplo daquela ‘trans-
formação canônica’ que Lévi-Strauss entendia ser o princípio dinâmico da mi-
topoese, a “dupla torção” pela qual se complicam (e se coimplicam) a necessi-
dade semiótica e a contingência histórica, a razão analítica e a razão dialética.**
Se isso torna A queda do céu muito diferente de Tristes trópicos, também o co-
* Lévi-Strauss, 1955.
** Ver o texto fundamental de Mauro Almeida, “A fórmula canônica do mito”, 2008. (Neste prefá-
cio, as aspas duplas indicam citações ou expressões criadas por outros autores, mencionados ou
não, inclusive, bem entendido, Kopenawa e Albert; as aspas simples, exceto quando ‘embutidas’
em citações, indicam expressões aproximativas ou intenção irônica [‘scare quotes’] de minha
parte.)
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necta estrategicamente com ele, e por diversos caminhos. Mas nenhum deles é
circular; menos ainda é caminho batido, como nos casos de emulação ou de
epigonia despertados por Tristes trópicos. A queda do céu, antes que meramen-
te completando, ainda que com chave de ouro, o projeto aberto pela obra revo-
lucionária de 1955 — o da invenção de uma narrativa etnográfica ao mesmo
tempo poética e filosófica, crítica e reflexiva —, relança-o em uma vertiginosa
trajetória espiral (uma espiral logarítmica, não arquimediana) que desloca, in-
verte e renova o discurso da antropologia sobre os povos ameríndios, redefinin-
do suas condições metodológicas e pragmáticas de enunciação. “Caminhamos.”
Tardou, alguns dirão, a publicação de A queda do céu em nosso país,*
onde nasceu o autor principal, onde o livro foi quase inteiramente elaborado
e ao qual ele privilegiadamente se refere. Mas para uma obra de mais de sete-
centas páginas, que levou vinte anos sendo gestada, que tem atrás de si trinta
de convivência entre os signatários de um “pacto etnográfico” (em cujas entre-
linhas se firma um pacto xamânico) sem precedentes na história da antropo-
logia e cerca de quarenta de contato do etnólogo-escritor com o povo do xamã-
-narrador, cinco anos não chega a ser muito tempo. E a hora é boa.
Este é um livro sobre o Brasil, sobre um Brasil — decerto, ele é ostensiva-
mente ‘sobre’ a trajetória existencial de Davi Kopenawa, em que o pensador e
ativista político yanomami, falando a um antropólogo francês, discorre sobre
a cultura ancestral e a história recente de seu povo (situado tanto em terras
venezuelanas quanto em brasileiras), explica a origem mítica e a dinâmica in-
visível do mundo, além de descrever as características monstruosas da civili-
zação ocidental como um todo e de prever um futuro funesto para o planeta —,
mas, de um modo muito especial, é um livro sobre nós, dirigido a nós, os
brasileiros que não se consideram índios. Pois com a A queda do céu mudam-
-se o nível e os termos do diálogo pobre, esporádico e fortemente desigual
entre os povos indígenas e a maioria não indígena de nosso país, aquela com-
posta pelo que Davi chama de “Brancos” (napë).** Nele aprendemos algo de
* A Harvard University Press publicou a tradução em inglês, The Falling Sky: Words of a Yano-
mami Shaman, em 2013.
** O termo yanomami napë, originalmente utilizado para definir a condição relacional e mutável
de ‘inimigo’, passou a ter como referente prototípico os ‘Brancos’, isto é, os membros (de qualquer
cor) daquelas sociedades nacionais que destruíram a autonomia política e a suficiência econô-
mica do povo nativo de referência. O Outro sem mais, o inimigo por excelência e por essência,
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essencial sobre o estatuto ontológico e ‘antropológico’ dessa maioria — são
espectros canibais que esqueceram suas origens e sua cultura —, onde ela vi-
ve — em altas e cintilantes casas de pedra amontoadas sobre um chão nu e
estéril, em uma terra fria e chuvosa sob um céu em chamas —, e com o que ela
sonha, assombrada por um desejo sem limites — sonha com suas mercadorias
venenosas e suas vãs palavras traçadas em peles de papel. Essa maioria, como
eu disse, somos, entre outros, nós, os brasileiros ‘legítimos’, que falam o portu-
guês como língua materna, gostam de samba, novela e futebol, aspiram a ter
um carro bem bacana, uma casa própria na cidade e, quem sabe, uma fazenda
com suas tantas cabeças de gado e seus hectares de soja, cana ou eucalipto. A
maioria dessa maioria acha, além disso, que vive “num país que vai pra frente”,
como cantava o jingle dos tempos daquela ditadura que imaginamos pertencer
a um passado obsoleto.
Do ponto de vista, então, dos povos autóctones cujas terras o Brasil ‘in-
corporou’, os brasileiros não índios — tão vaidosos como nos sintamos de
nossa singularidade cultural perante a Europa ou os Estados Unidos, isso quan-
do não nos envaidecemos justo do contrário — são apenas “Brancos/inimigos”
como os demais napë, sejam estes portugueses, norte-americanos, franceses.
Somos representantes quaisquer desse povo bárbaro e exótico proveniente de
além-mar, que espanta por sua absurda incapacidade de compreender a flores-
ta, de perceber que “a máquina do mundo” é um ser vivo composto de incon-
táveis seres vivos, um superorganismo constantemente renovado pela ativida-
de vigilante de seus guardiões invisíveis, os xapiri, imagens ‘espirituais’ do
mundo que são a razão suficiente e a causa eficiente daquilo que chamamos
Natureza — em yanomami, hutukara —, na qual os humanos estamos imersos
por natureza (o pleonasmo se autojustifica). A ‘alma’ e seus avatares leigos
é o ‘Branco’. Outras línguas indígenas do país conheceram deslocamentos análogos, em que
palavras designando o ‘inimigo’ ou ‘estrangeiro’ — e normalmente especificadas por determina-
tivos distinguindo as diferentes etnias indígenas (ou comunidades da mesma etnia) em posição
de hostilidade/alteridade — passaram a ser usadas sem maiores especificações para designar o
Branco, que passou assim a ser ‘o Inimigo’. A possibilidade de que essa sinonímia ‘Branco =
Inimigo = Outro’ contraefetue uma identidade genérica “Índio” e uma sinonímia etnopolítica
‘Índio = “Parente” = Eu’ é algo explorado de modo variável, instável e, como se pode imaginar,
problematicamente estratégico pelos povos indígenas (ver, por exemplo, a reflexão irônica de
Krenak, 2015, pp. 55-6).
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modernos, a ‘cultura’, a ‘ciência’ e a ‘tecnologia’, não nos isentam nem nos
ausentam desse comprometimento não desacoplável com o mundo,* até por-
que o mundo, segundo os Yanomami, é um plenum anímico, e porque uma
verdadeira cultura e uma tecnologia eficaz consistem no estabelecimento de
uma relação atenta e cuidadosa com “a natureza mítica das coisas” —** quali-
dade de que, justamente, os Brancos carecemos por completo. Pode-se dizer
de nós, então, o que o narrador diz dos maus caçadores yanomami, aqueles que
costumam guardar para si as presas que matam (e por isso os animais se furtam
a eles) — que “apesar de terem os olhos abertos, não enxergam nada” (p. 474).
Com efeito, se as profecias justificadamente pessimistas de Davi se concretiza-
rem, só começaremos a enxergar alguma coisa quando não houver mais nada
a ver. Aí então poderemos, como o poeta, “avaliar o que perdemos”.
Uma expressão feliz de Patrice Maniglier, pela qual esse filósofo define o
que chamou de mais alta promessa da antropologia, a saber, “devolver-nos uma
imagem de nós mesmos na qual não nos reconheçamos”,*** ganha em A queda
do céu um sentido simétrico e inverso ao sentido visado, o que, longe de des-
mentir, enriquece a definição com uma inesperada dobra irônica adicional.
Impossível, de fato, não nos reconhecermos nessa caricatura fielmente disfor-
me de nós ‘mesmos’ desenhada, para nosso escarmento, por esse ‘nós’ outro,
esse outro que entretanto insiste em nos advertir que somos, ao fim e ao cabo
(mas talvez apenas ao fim e ao cabo), todos os mesmos, uma vez que, quando
a floresta acabar e as entranhas da terra tiverem sido completamente destroça-
das pelas máquinas devoradoras de minério, as fundações do cosmos ruirão e
* Para um documento que afirma precisamente o contrário, e que vem assim servir de prova da
estupidez incurável dos Brancos — ou pelo menos da fração mais agressiva de seu segmento
modernizador —, veja-se o “An Ecomodernist Manifesto” (<www.ecomodernism.org/manifes-
to>), lançado recentemente pelo Breakthrough Institute, um think tank antiambientalista e pró-
-nuclear californiano, onde se defende a viabilidade de um “desacoplamento” (decoupling) entre
uma desejada hiperaceleração tecnológica e qualquer impacto ambiental. Tudo para maior glória
de um “capitalismo pós-industrial [?] e vibrante”, como dizem os executivos do bi em outro
texto (cf. Danowski e Viveiros de Castro, 2015, p. 67).
** Expressão que consta do poema “A máquina do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade,
reproduzido na epígrafe deste prefácio.
*** “[N]ous renvoyer de nous-mêmes une image où nous ne nous reconnaissons pas”, Maniglier, 2005,
pp. 773-4.
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o céu desabará terrível sobre todos os viventes. Isso já aconteceu antes, lembra
o narrador. O que é o modo índio de dizer que acontecerá de novo.
A queda do céu é um acontecimento científico incontestável, que levará,
suspeito, alguns anos para ser devidamente assimilado pela comunidade antro-
pológica. Mas espero que todos os seus leitores saibam identificar de imediato
o acontecimento político e espiritual muito mais amplo, e de muito grave sig-
nificação, que ele representa. Chegou a hora, em suma; temos a obrigação de
levar absolutamente a sério o que dizem os índios pela voz de Davi Kopenawa —
os índios e todos os demais povos ‘menores’ do planeta, as minorias extranacio-
nais que ainda resistem à total dissolução pelo liquidificador modernizante do
Ocidente. Para os brasileiros, como para as outras nacionalidades do Novo
Mundo criadas às custas do genocídio americano e da escravidão africana, tal
obrigação se impõe com força redobrada. Pois passamos tempo demais com o
espírito voltado para nós mesmos, embrutecidos pelos mesmos velhos sonhos
de cobiça e conquista e império vindos nas caravelas, com a cabeça cada vez
mais “cheia de esquecimento”,* imersa em um tenebroso vazio existencial, só de
raro em raro iluminado, ao longo de nossa pouco gloriosa história, por lampe-
jos de lucidez política e poética. Davi Kopenawa ajuda-nos a pôr no devido
lugar as famosas “ideias fora do lugar”, porque o seu é um discurso sobre o lugar,
e porque seu enunciador sabe qual é, onde é, o que é o seu lugar. Hora, então,
de nos confrontarmos com as ideias desse lugar que tomamos a ferro e a fogo
dos indígenas, e declaramos “nosso” sem o menor pudor; ideias que constituem,
* Esta é uma expressão recorrente nos discursos de Kopenawa para designar a deficiência mental-
-espiritual mais marcante dos Brancos. Recordo que Lévi-Strauss deu enorme importância ao
motivo do esquecimento na mitologia indígena, a ponto de defini-lo como “uma verdadeira ca-
tegoria do pensamento mítico” (Lévi-Strauss, 1973, p. 231; 1983, p. 253). Ao longo do livro, Davi
repassa por diversas daquelas “patologias da comunicação” que o autor das Mitológicas identifica
como centrais no dramatismo dos mitos, todas elas, no caso presente, afetando ‘privilegiadamen-
te’ os Brancos — olvido, surdez, cegueira, “língua de espectro” (incompreensível), palavras men-
tirosas, narcisismo metafísico. Mas essas patologias semióticas, justo como as patologias biológi-
cas xawara, podem acabar por contaminar aqueles Yanomami que, cegos ao mundo dos xapiri,
passam a desejar as mercadorias dos Brancos e literalmente perdem o rumo, pois seu pensamen-
to se torna emaranhado e sombrio como as trilhas ruins da floresta (ver o parágrafo final do
capítulo 14).
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antes de mais nada, uma teoria global do lugar, gerada localmente pelos povos
indígenas, no sentido concreto e etimológico desta última palavra.* Uma teoria
sobre o que é estar em seu lugar, no mundo como casa, abrigo e ambiente, oikos,
ou, para usarmos os conceitos yanomami, hutukara e urihi a: o mundo como
floresta fecunda, transbordante de vida, a terra como um ser que “tem coração
e respira” (p. 468), não como um depósito de ‘recursos escassos’ ocultos nas
profundezas de um subsolo tóxico — massas minerais que foram depositadas
no inframundo pelo demiurgo para serem deixadas lá, pois são como as fun-
dações, os sustentáculos do céu —; mas o mundo também como aquela outra
terra, aquele ‘suprassolo’ celeste que sustenta as numerosas moradas transpa-
rentes dos espíritos, e não como esse ‘céu de ninguém’, esse sertão cósmico que
os Brancos sonham — incuráveis que são — em conquistar e colonizar. Por
isso Davi Kopenawa diz que a ideia-coisa “ecologia” sempre fez parte de sua
teoria-práxis do lugar:
Na floresta, a ecologia somos nós, os humanos. Mas são também, tanto quanto
nós, os xapiri, os animais, as árvores, os rios, os peixes, o céu, a chuva, o vento e o
sol! É tudo o que veio à existência na floresta, longe dos brancos; tudo o que ainda
não tem cerca. As palavras da ecologia são nossas antigas palavras, as que Oma-
ma [o demiurgo yanomami] deu a nossos ancestrais. Os xapiri defendem a flo-
resta desde que ela existe. Sempre estiveram do lado de nossos antepassados, que
por isso nunca a devastaram. Ela continua bem viva, não é? Os brancos, que an-
tigamente ignoravam essas coisas, estão agora começando a entender. É por isso
que alguns deles inventaram novas palavras para proteger a floresta. Agora dizem
que são a gente da ecologia porque estão preocupados, porque sua terra está fi-
cando cada vez mais quente. […] Somos habitantes da floresta. Nascemos no cen-
tro da ecologia e lá crescemos. (p. 480. Eu sublinho.)
O mundo visto então — melhor, vivido — a partir daqui, do ‘centro da
* “Indígena — etim lat. indigena,æ, ‘natural do lugar em que vive, gerado dentro da terra que lhe
é própria’” (Houaiss e Villar, 2009. Eu sublinho). Essa ‘propriedade’, permito-me interpretar, é um
atributo imanente ao sujeito, não uma relação extrínseca com um objeto apropriável. Não são
poucos os povos indígenas do mundo a afirmar que a terra não lhes pertence, pois são eles que
pertencem à terra.
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ecologia’, do coração indígena dessa vasta e ilimitada Terra cosmopolítica on-
de se distribuem nomadologicamente as inumeráveis gentes terranas,* e não
como uma esfera abstrata, um globo visto de fora, cercado e dividido em ter-
ritórios administrados pelos Estados nacionais, épuras da alucinação euroan-
tropocêntrica conhecida pelos nomes de “soberania”, “domínio eminente”,
“projeção geopolítica” e fantasmagorias do mesmo quilate. Talvez seja mesmo
chegada a hora de concluir que vivemos o fim de uma história, aquela do Oci-
dente, a história de um mundo partilhado e imperialmente apropriado pelas
potências europeias, suas antigas colônias americanas e seus êmulos asiáticos
contemporâneos. Caberia a nós portanto constatar, e tirar daí as devidas
­
consequências, que “o nacional não existe mais; só há o local e o mundial”.** Dir-
-se-á que tal declaração é conversa de europeu decadente, fantasia de ‘localista’
romântico, mantra de anarquista irresponsável, isso se não for, Deus nos pro-
teja, um arroto do ‘libertarianismo’ à americana, aquele sinistro fascismo su-
premacista do indíviduo macho branco armado que grassa em nosso Grande
Irmão do Norte. O que cabe a nós, brasileiros — dizemos com a cabeça ergui-
da —, é construir a Pátria Socialista do Porvir, o prometido país de classe média
e feliz, sustentado por um Estado forte capaz de defendê-lo contra a cobiça
inter­nacional,*** ou, para sermos ‘proativos’, capaz de fazê-lo ingressar no clube
seleto dos patrões deste mundo. Mas, se o nacional vai de fato — aguardemos —
deixando de existir lá fora (só que nunca houve lá fora, pois o aqui dentro
sempre foi, e continua sendo, uma das ‘dependências’ do lá fora), é provável que
o conceito do nacional acabe mudando mundialmente de lugar, isto é, de sen-
tido, e isso até mesmo ‘aqui dentro’. No mínimo, talvez comecemos a nos dar
conta de que se continuarmos a destruir obtusamente o local, este local do
mundo que chamamos de ‘nosso’ — mas quem detém, para além do mero di-
* O conceito de “nomadologia” é tomado aqui de Deleuze e Guattari (1997 [1980], cap. 12), que
interpretam a raiz grega -nem (da qual deriva o polissêmico nomos) em sentido rigorosamente
antipodal ao consagrado por Carl Schmitt, ou seja, como distribuição-dispersão dos homens e
demais viventes sobre a terra, antes que como distribuição-repartição da terra entre os homens
com seus rebanhos (ver Sibertin-Blanc, 2013) — e, portanto, analogiza Schmitt, como repartição
da Terra inteira entre os Estados-nação europeus. Para o conceito de “terrano”, tomado de Bruno
Latour, ver a exposição de Danowski e Viveiros de Castro, 2014.
** “Appel de la Destroika”, 2015.
*** Sem abrir mão de algumas ‘parcerias estratégicas’, é claro. La Cina è vicina…
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reito pronominal, o fato brutalmente proprietarial deste possessivo? —,* não
sobrarão nem fundos nem fundamentos para construirmos qualquer nacional
que seja, anacrônico ou futurista. O Brasil é grande, mas o mundo é pequeno.
A queda do céu é rico em lições, entre outras, sobre a incompetência eficaz,
a irrelevância maligna, o ufanismo bufão da teoria e prática da governamenta-
lidade ‘nacional’, esse nomos antinômico que estria e devasta simultaneamente
um espaço que ele imagina instituir quando é, na verdade, literalmente supor-
tado por ele. O Estado nacional? Muito bem, muito bom; mas, muito antes
dele, há os espíritos invisíveis da floresta, as fundações metálicas da terra, a
fumaça diabólica das epidemias e a doença degenerativa do céu — e nada dis-
so tem fronteira, porteira ou bandeira. Os xamãs e seus xapiri  ** não carecem
de passaporte nem de visto dado por gente; são eles que veem, se forem bem-
-vistos pela onividente gente invisível da floresta… O Brasil? — O Brasil, na
imagem tão bela e melancólica de Oswald de Andrade, já foi “uma república
federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”. Hoje, ele está mais para uma
corporação empresarial coberta a perder de vista por monoculturas transgêni-
cas e agrotóxicas, crivada de morros invertidos em buracos desconformes de
onde se arrancam centenas de milhões de toneladas de minério para exporta-
ção, coberta por uma espessa nuvem de petróleo que sufoca nossas cidades
enquanto trombeteamos recordes na produção automotiva, entupida por mi-
lhares de quilômetros de rios barrados para gerar uma energia de duvidosíssi-
ma ‘limpeza’ e ainda mais questionável destinação, devastada por extensões de
floresta e cerrado, grandes como países, derrubadas para dar pasto a 211 mi-
lhões de bois (hoje mais numerosos que nossa população de humanos).*** En-
quanto isso, a gente… Bem, a gente continua dizendo adeus — às árvores.
Adeus a elas e à República, pelo menos em seu sentido original de res publica,
de coisa e causa do povo.
* Ver “Quem são os proprietários do Brasil”, 2015.
** As noções são praticamente sinônimas em yanomami: “xamã” se diz xapirit th
ë pë, “gente-espí-
rito”.
*** Como disse recentemente Davi Kopenawa em um encontro no Rio de Janeiro, “o governo quer
transformar o Brasil em um campo de futebol”. Somos o segundo maior produtor de carne bo-
vina do planeta, perdendo apenas para a Índia, país que parece estar se convertendo rapidamen-
te de uma religião em outra no que tange a suas vacas, a saber, passando da veneração hinduísta
ao massacre capitalista.
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* * *
O depoimento-profecia de Kopenawa aparece, assim, em boa hora; porque
a hora, claro está, é péssima. Neste momento, nesta República, neste governo,
assistimos a uma concertada maquinação política que tem como alvo as áreas
de preservação ambiental, as comunidades quilombolas, as reservas extrativis-
tas e em especial os territórios indígenas. Seu objetivo é consumar a ‘liberação’
(a desproteção jurídica) do máximo possível de terras públicas ou, mais geral-
mente, de todos aqueles espaços sob regimes tradicionais ou populares de ter-
ritorialização que se mantêm fora do circuito imediato do mercado capitalista
e da lógica da propriedade privada, de modo a tornar ‘produtivas’ essas terras,
isto é, lucrativas para seus pretendentes, os grandes empresários do agronegócio,
da mineração e da especulação fundiária, vários deles aboletados nas poltronas
do Congresso, muitos apenas pagando a seus paus-mandados para ali ‘opera-
rem’. Na verdade, são os Três Poderes da nossa República Federativa que vêm
costurando uma ofensiva criminosa contra os direitos indígenas,* conquistados
a duras penas ao longo da década entre 1978, ano do ‘Projeto de emancipação’
da ditadura (o qual deu espetacularmente com os burros n’água), e 1988, ano
da ‘Constituição cidadã’ que reconheceu os direitos originários dos povos in-
dígenas sobre suas terras, consagrando e perenizando o instituto fundamental
do indigenato. Esse acolhimento dos índios como uma categoria sociocultural
diferenciada de pleno e permanente direito dentro da nação suscitou uma feroz
determinação retaliativa por parte do sistema do latifúndio, que hoje ocupa
vários ministérios, controla o Congresso e possui uma legião de serviçais no
Judiciário. Chovem, de todas as instâncias e níveis dos poderes constituídos,
tentativas de desfigurar a Constituição que os constituiu, por meio de projetos
legislativos, portarias executivas e decisões tribunalícias** que convergem no
* Ver a entrevista de Henyo Barretto a Clarissa Presotti, “Três poderes contra os direitos indíge-
nas”. Disponível em: <www.portalambiental.org.br/pa/noticias?id=134>. Acesso em: 1 jun. 2015.
** Vide a famigerada lista das “condicionantes” e a contestação do princípio do indigenato pela
tese do “marco temporal”, emergidas da decisão pelo stf relativa ao caso da terra Raposa-Serra
do Sol (Roraima). Ambas, condicionantes e tese, embora de questionável efeito vinculante, já
tiveram um preocupante impacto anti-indígena nas diversas instâncias do Judiciário. Ver também
Capiberibe e Bonilla, 2014, para uma cobertura exaustiva, mas já desatualizada (pois a ofensiva
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propósito de extinguir o espírito dos artigos da Lei Maior que garantem os
direitos indígenas.*
O presente governo, e refiro-me aqui ao Executivo, desde sua comandan-
te até seus ordenanças ministeriais, vem se mostrando o de pior desempenho,
desde a nossa tímida redemocratização, no tocante ao respeito a esses direitos,
agravando a já péssima administração anterior sob a mesma gerência: proce-
dimentos de demarcação e homologação de terras indígenas praticamente nu-
los; políticas de saúde mais que omissas, desastrosas para as comunidades in-
dígenas; uma indiferença quase indistinguível da cumplicidade diante do
genocídio praticado continuadamente e às escâncaras sobre os Guarani-Kaio-
wá, ou periodicamente e ‘por descuido’ sobre os Yanomami e outros povos
nativos, bem como diante do assassinato metódico de lideranças indígenas e
ambientalistas pelo país afora — quesito no qual o Brasil é, como se sabe, cam-
peão mundial.
Veja-se, por fim, mas não por menos lamentável, a joia da coroa da supre-
ma mandatária da República, a saber, a construção a toque de caixa, por me-
gaempreiteiras de capital privado a serviço do poder público e/ou vice-versa,
ao arrepio insolente da legislação e às custas de ‘financiamentos’ de dimensões
obscenas, feitos com o chamado dinheiro do povo, de dezenas de hidrelétricas
na bacia amazônica, que trarão gravíssimos danos à vida de centenas de povos
indígenas e de milhares de comunidades tradicionais —** para não falarmos
é uma Blitzkrieg), dos projetos de lei ou emenda constitucional em tramitação no Congresso cujo
objetivo é reduzir os direitos indígenas, quando não reverter seus efeitos já consolidados.
* Há quem entenda ou defenda — estou entre eles — que o estatuto próprio dos índios seria bem
mais que o de uma categoria sociocultural especial de cidadão. Ele definiria uma multiplicidade
política diferenciada, inserida por autoconsentimento em um Estado com vocação ‘plurinacional’.
E, se formos aos finalmentes, como se diz, suspeito que a visão oficial antiga (ainda viva na cabe-
ça de tanta gente), pré-Constituição de 1988, sobre os índios no Brasil — segundo a qual a con-
dição indígena era transitória, votada inexoravelmente à assimilação pela “comunhão nacional”,
ao passo que esta última era subentendida ser permanente, em outras palavras, eterna — poderá
ser objetivamente virada de ponta-cabeça em um futuro não muito remoto. Pois não é impossí-
vel que os povos indígenas, com sua “máquina territorial primitiva” que antecede milênios ao
“aparelho de captura” dos Estados nacionais implantados nas Américas, perdurem após o colap-
so de muitos, senão de todos, nossos orgulhosos Entes Soberanos, em um mundo que promete
ser materialmente muito diferente daquele em que vivemos hoje — o qual, como se sabe, foi
construído graças à invasão, ao saque e à limpeza étnica das Américas.
** Chamam-se “populações tradicionais” (“ribeirinhas”, “caboclas”) aquelas comunidades campo-
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nas dezenas de milhares* de outras espécies de habitantes da floresta, que vivem
nela, dela e com ela; que são, enfim, a floresta ela própria, o macrobioma ou
megarrizoma autotrófico que cobre um terço da América do Sul e cuja estru-
tura lógico-metafísica, se me permitem a expressão, se encontra claramente
exposta por Kopenawa em A queda do céu. Mas de que vale tudo isso perante
as leis inexoráveis da Economia Mundial e o objetivo supremo do Progresso
da Pátria? A entropia crescente se transfigura dialeticamente em antropia triun-
fante. E ainda se diz que são os índios que creem em coisas impossíveis.
Em suma, o que a ditadura empresarial-militar não conseguiu arrasar, a
coalizão comandada pelo Partido dos… Trabalhadores! vai destruindo, com
eficiência estarrecedora. Seu instrumento material para tanto são as mesmas
forças político-econômicas que apoiaram e financiaram o projeto de poder da
ditadura. Tal ‘eficiência’ destrutiva, note-se bem, anda longe da “destruição
criadora” marxista e schumpeteriana, valha o que esta ainda valer nos sombrios
tempos que correm. Não há absolutamente nada de criador, e menos ainda de
criativo, no que a classe dominante e seu órgão executivo fazem na Amazônia.
O que falta em inteligência e descortino sobra em ganância e violência.
As invasões das terras dos Yanomami por garimpeiros — e suas conse-
nesas e extrativistas da bacia amazônica cuja consciência da relação com os povos indígenas que
as precederam parece ter sido, em alguns casos, abolida. A cultura trazida pelos imigrantes
‘brancos’ (de origem principalmente nordestina) que se fundiram com o ‘substrato’ autóctone
recalcou toda memória nativa e se orientou mimeticamente para o Brasil oficial. Na maioria dos
casos, porém, a relação apenas entrou em situação de latência, exprimindo-se ‘vestigialmente’
por automatismos práticos e idiomatismos simbólicos. Essa aparente perda de consciência, assim,
tem se mostrado cada vez mais frequentemente como sendo não tanto uma ruptura definitiva
mas antes um longo desmaio — uma espécie de coma étnico do qual a Amazônia ‘cabocla’ come-
ça a despertar, como atesta o fato de que, hoje, apenas no Médio Solimões, cerca de duzentas
comunidades tradicionais reivindicam sua “passagem para indígena”, isto é, sua condição de ti-
tulares dos direitos reconhecidos no artigo 231 da Constituição Federal (Deborah Lima et al.,
2015, citando dados de Rafael Barbi para os rios Copacá, Tefé, Uarini, Jutaí, Caiambé e Mineruá;
as Reservas de Mamirauá e Amanã respondem por cinquenta comunidades desse total). O fenô-
meno é geral no ‘Brasil profundo’, e parece ainda mais paradoxal quando se constata que ele vai
se tornando mais intenso à medida que esse Brasil profundo ‘vem à superfície’, isto é, se moder-
niza, inserindo-se nas redes por onde circulam os fluxos semiótico-materiais que atravessam o
planeta, do dinheiro à internet.
* Ou seriam centenas de milhares? Nem sequer sabemos ao certo quantas espécies existem — e
quantas vão desexistindo — na região.
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quências em termos de epidemias, estupros, assassinatos, envenenamento dos
rios, esgotamento da caça, destruição das bases materiais e dos fundamentos
morais da economia indígena — se sucedem com monótona frequência, se-
guindo a oscilação das cotações do ouro e de outros minerais preciosos no
mercado mundial. No dia mesmo em que escrevo este parágrafo (7 de maio de
2015), leio a notícia de que uma “organização criminosa de extração de ouro”
em território yanomami, que movimentou cerca de 1 bilhão de reais nos últi-
mos dois anos, foi desmantelada pela Polícia Federal (em um acesso inédito de
eficiência que deve ter lá seus motivos). O esquema tinha a participação de
servidores públicos locais — entre eles, funcionários da Funai —, intermedia-
ção de joalherias das grandes cidades da Amazônia e financiamento por “em-
presários do ramo localizados, principalmente, em São Paulo”.* Davi Kopena-
wa vem sendo ameaçado repetidamente de morte, desde pelo menos 2014, por
ter denunciado a situação. E como se lerá neste livro (ver especialmente o cap.
15), foi sua consternação atônita ao testemunhar a sucessão de catástrofes de-
sencadeadas pela corrida do ouro na terra yanomami, entre os anos 1975 e
1990 — desde a construção mal-inacabada da rodovia Perimetral Norte, na
primeira metade da década de 1970, até a maciça invasão garimpeira, estimu-
lada pelos militares, a partir da implantação do Projeto Calha Norte no gover-
no Sarney, em 1985 —,** foram essa raiva e essa perplexidade, transformadas
em convicção militante,*** que levaram Kopenawa a se engajar na dupla posição
de xamã e de diplomata (trata-se, como veremos, de uma só e mesma posição).
Ele inverteu assim a polaridade de sua função de intérprete a serviço dos Bran-
* Disponível em: <amazoniareal.com.br/pf-desarticula-organizacao-criminosa-de-extracao-de-
-ouro-na-reserva-yanomami/>.
** Lembremos ainda que, em 1987-9, com a transição para nossa ‘plena democracia’ praticamen-
te completada, os militares interditavam formalmente o território yanomami aos antropólogos
e outros pesquisadores, enquanto facilitavam a entrada dos garimpeiros.
*** “Ao ver os cadáveres sendo arrancados da terra, também eu chorei. Pensei, com tristeza e raiva:
‘O ouro não passa de poeira brilhante na lama. No entanto, os brancos são capazes de matar por
ele! Quantos mais dos nossos vão assassinar assim? E depois, suas fumaças de epidemia vão
comer os que restarem, até o último? Querem que desapareçamos todos da floresta?’. A partir
daquele momento, meu pensamento ficou realmente firme. Entendi a que ponto os brancos que
querem nossa terra são seres maléficos. Sem isso, talvez tivesse continuado como muitos dos
nossos que, na ignorância, fazem amizade com eles apenas para pedir arroz, biscoitos e cartu-
chos!” (p. 344. Eu sublinho.)
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cos, que desempenhou por algum tempo como funcionário da Funai, para se
tornar o intérprete e o defensor permanente de seu povo contra os Brancos,
como descreve perspicazmente Albert.*
O sistema do garimpo é semelhante ao do narcotráfico, e, em última aná-
lise, à tática geopolítica do colonialismo em geral: o serviço sujo é feito por
homens miseráveis, violentos e desesperados, mas quem financia e controla o
dispositivo, ficando naturalmente com o lucro, está a salvo e confortável bem
longe do front, protegido por imunidades as mais diversas. No caso do garim-
po nos Yanomami, o dispositivo, como é de notório conhecimento nos meios
especializados, envolve políticos importantes de Roraima, alguns deles defen-
sores destacados, no Congresso, de reformas ‘liberalizantes’ da legislação mi-
nerária relativa às terras indígenas. Esses próceres não aparecem na notícia
sobre o desmantelo da operação criminosa mais recente. Duvido que apareçam.
Quem sabe, nem sequer existam. O povo inventa muito…
Mas não temos a exclusividade do ruim; nossa estupidez etnocida, ecoci-
da, e em última análise suicida, não é sequer original. A concorrência interna-
cional é fortíssima. O diagnóstico e o prognóstico contidos em A queda do céu
não concernem apenas aos brasileiros. Neste momento, assistimos a uma mu-
dança do equilíbrio termodinâmico global sem precedentes nos últimos 11 mil
anos da história do planeta, e, associada a ela, a uma inquietação geopolítica
inédita na história humana — se não em intensidade (ainda), certamente em
extensão, na medida em que ela afeta literalmente ‘todo (o) mundo’. Neste
momento, portanto, nada mais apropriado que venha dos cafundós do mundo,
dessa Amazônia indígena que ainda vai resistindo, mesmo combalida, a suces-
sivos assaltos; que venha, então, dos Yanomami, uma mensagem, uma profecia,
um recado da mata alertando para a traição que estamos cometendo contra
nossos conterrâneos — nossos co-terranos, nossos co-viventes —, assim como
contra as próximas gerações humanas; contra nós mesmos, portanto. O que
* Além de toda a massa de informações e esclarecimentos que se encontram dispersos, ou antes,
organizados no minucioso aparelho de notas, podemos ler nos anexos finais do livro, compostos
por Bruce Albert, um resumo conciso da história de vida de Davi Kopenawa e da interação do
povo yanomami com os diversos agentes da civilização que os assedia, dos missionários ameri-
canos da New Tribes Mission até os funcionários da Funai, da malfadada Perimetral Norte até as
sucessivas invasões garimpeiras. Os números registrados pelo autor — de invasores brancos, de
índios mortos, de terras arrasadas — são assustadores; deixo ao leitor a tarefa de constatá-los.
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lemos em A queda do céu é a primeira tentativa sistemática de “antropologia
simétrica”, ou “contra-antropologia”,* do Antropoceno, a época geológica atual
que, na opinião crescentemente consensual dos especialistas, sucedeu ao Ho-
loceno, e na qual os efeitos da atividade humana — entenda-se, a economia
industrial baseada na energia fóssil e no consumo exponencialmente crescen-
te de espaço, tempo e matérias-primas — adquiriram a dimensão de uma for-
ça física dominante no planeta, a par do vulcanismo e dos movimentos tectô-
nicos. Ao mesmo tempo uma explicação do mundo segundo outra cosmologia
e uma caracterização dos Brancos segundo outra antropologia (uma contra-
-antropologia), A queda do céu entrelaça esses dois fios expositivos para chegar
à conclusão de uma iminência da destruição do mundo, levada a cabo pela
civilização que se julga a delícia do gênero humano — essa gente que, liberta
de toda ‘superstição retrógrada’ e de todo ‘animismo primitivo’, só jura pela
santíssima trindade do Estado, do Mercado e da Ciência, respectivamente o
Pai, o Filho e o Espírito Santo da teologia modernista.** Tal credo fanático, de
resto, é costumeiramente empurrado goela baixo dos índios por um estranho
instrumento, ao mesmo tempo arcaico e modernizador, o Teosi (Deus) dos
missionários evangélicos norte-americanos que Davi conheceu tão bem, esses
insuportáveis operadores de telemarketing do Capital.
Uma outra razão para saudarmos a boa hora em que A queda do céu se
torna acessível ao leitorado brasileiro é que ele vem compensar, melhor, des-
moralizar a aparição por aqui do último rebento de um personagem lamentá-
vel da antropologia amazônica. Refiro-me ao livro recente de Napoleon Chag-
non, protagonista de episódios ‘controversos’ da história da relação entre os
Yanomami e a ciência ocidental, dos quais o mínimo que se pode dizer é que
certos protocolos éticos básicos da pesquisa foram ali violados. Como o sensa-
cionalismo, a burrice reacionária e o preconceito racista vendem bem, o livro
* Falo em “antropologia simétrica” em sentido próximo mas não idêntico àquele em que Bruno
Latour (1994) emprega esse conceito. Poderia também ter convocado a noção de “antropologia
reversa” de Roy Wagner (2010), que se aplicaria bastante bem ao ‘ecologismo xamânico’ de Ko-
penawa. Albert fala em uma “contra-antropologia histórica do mundo branco” (p. 542) contida
na narrativa de Davi, em sentido talvez análogo àquele que proponho em Métaphysiques canni-
bales, quando caracterizo o perspectivismo indígena como uma “contra-antropologia multina-
turalista” (Viveiros de Castro, 2009, p. 61).
** Viveiros de Castro, 2011, p. 318.
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de Chagnon, publicado nos Estados Unidos em 2013, não demorou a ser tra-
duzido no Brasil e posicionado com a devida fanfarra pela empresa responsá-
vel.* As reminiscências de Chagnon, antropólogo que, ao contrário do coautor
de A queda do céu, cessou todo contato relevante com os Yanomami já lá vão
décadas, consistem essencialmente em uma longa e ressentida autojustificação,
um acerto de contas cheio de acusações de “esquerdismo” contra seus críticos,
e em uma reapresentação salmodiada de seus dogmas teóricos, cujas supostas
evidências etnográficas e estatísticas foram refutadas por uma quantidade de
pesquisadores. Campeão de uma das versões menos sofisticadas da sociobio-
logia humana, disciplina (?) que não chega a impressionar, em geral, nem pela
sofisticação teórica nem pela fecundidade de suas conjecturas, Chagnon difun-
diu uma imagem dos Yanomami como “povo feroz” (título de seu livro mais
famoso), uma tribo de gente suja, primitiva e violenta, verdadeiros figurantes
de um grand-guignol hobbesiano. Tal clichê etnocêntrico foi repetidas vezes
usado contra os Yanomami pelos muitos agentes dos Brancos — burocratas,
missionários, políticos — interessados em lhes roubar a terra e/ou as almas. O
pesquisador norte-americano defende, entre outras ideias bizarras, a tese de
que o povo de Davi Kopenawa é constituído por autômatos genéticos movidos
pelo imperativo de maximização do potencial reprodutivo dos grandes ‘mata-
dores’, os homens que teriam na sua conta o maior número de inimigos mortos
em combate. Isso foi demonstrado ser um equívoco grotesco de interpretação
das práticas guerreiras yanomami, diretamente ligadas não a condicionamentos
genéticos, mas a um sistema sociopolítico sofisticado e a um dispositivo ritual
funerário de forte densidade simbólica, ambos por sua vez associados a uma
visão da vida e da morte, do espaço e do tempo, da fisiologia humana e da es-
catologia cósmica da qual podemos ter uma ideia lendo a esplêndida exposição
feita em diversos capítulos de A queda do céu.** Os livros de Chagnon são mui-
to populares nos cursos de introdução à antropologia das universidades dos
* A editora do livro de Chagnon pertence ao grupo Folha, que edita o jornal Folha de S.Paulo. O
mesmo encontra-se à venda no site do jornal. Não o referimos na bibliografia deste prefácio por
motivos de higiene.
** O leitor de formação ou vocação antropológica não pode deixar de completar a exposição de
Davi Kopenawa com um estudo da tese inédita de Bruce Albert (1985) sobre a organização social
e ritual dos Yanomami sul-orientais, focada no complexo funerário e na teoria da periodicidade
fisiológica, sociológica e escatológica nele implicada.
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Estados Unidos — não por acaso, já que seus ‘Yanomami’ se parecem muito
mais com certos modelos masculinos dominantes naquele país do que com os
índios homônimos. O autor tornou-se também uma espécie de mascote da
vertente mais obtusamente cientificista (não confundir com científica) da aca-
demia norte-americana, onde, entre defensores da Big Science e saudosistas da
Guerra Fria, pontificam psicossociobiólogos de credenciais duvidosas, vulga-
rizadores especializados na distorção da teoria darwinista de modo a transfor-
má-la em uma apologia do individualismo rugged, uma justificação da domi-
nação masculina e, mais ou menos disfarçadamente, do racismo. Resta-nos
esperar que o presente livro de Kopenawa e Albert, já traduzido nos Estados
Unidos, possa servir de antídoto a esse festival de boçalidade reacionária. E que
esta edição brasileira dificulte um pouco sua proliferação por aqui, no país dos
Pondés, dos Narloch, dos Reinaldos Azevedos e dos Rodrigos Constantinos.
A queda do céu será um divisor de águas, como eu já disse, na relação in-
telectual e política entre índios e não índios nas Américas. Verdade que não
faltam livros de memórias indígenas, nos sentidos lato ou estrito do termo,
tanto auto como heterobiografias, especialmente de membros dos povos situa-
dos na América do Norte.* Os próprios compatriotas de Davi Kopenawa con-
tam com um relato autobiográfico importante, o de Helena Valero, uma jovem
do povo Baré raptada por uma comunidade dos Yanomami em 1936, junto aos
quais viveu por vários anos.** Registrem-se ainda os vários depoimentos precio-
sos que vêm se acumulando, como os relatos que o Instituto Socioambiental
publicou sobre as visões indígenas a respeito da origem e natureza dos Brancos
(Ricardo, Org., 2000), ou o recentíssimo livro de entrevistas de Ailton Krenak
(2015), outro destacado líder e pensador indígena, cuja trajetória biográfica
apresenta diferenças significativas em relação à de Kopenawa, o que não os
* Várias dessas biografias de índios norte-americanos estão publicadas na coleção Terre Humai-
ne, da editora Plon. Na verdade (ver Calavia, 2012, nota 4), os testemunhos autobiográficos pro-
venientes de povos colonizados antecedem de muito a antropologia como disciplina, e o mesmo
se diga das autoetnografias (pense-se em Guamán Poma de Ayala, por exemplo).
** Valero, 1984. A história de Helena Valero foi contada pela primeira vez, de forma algo truncada,
em um livro publicado em 1965, em italiano, pelo médico Ettore Biocca. A versão francesa do
livro de Biocca foi publicada na coleção Terre Humaine em 1968.
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impediu de formarem lado a lado na mesma frente de combate durante as úl-
timas décadas.
Mas A queda do céu é um ‘objeto’ inédito, compósito e complexo, quase
único em seu gênero. Pois ele é, ao mesmo tempo: uma biografia singular de
um indivíduo excepcional, um sobrevivente indígena que viveu vários anos em
contato com os Brancos até reincorporar-se a seu povo e decidir tornar-se
xamã; uma descrição detalhada dos fundamentos poético-metafísicos de uma
visão do mundo da qual só agora começamos a reconhecer a sabedoria; uma
defesa apaixonada do direito à existência de um povo nativo que vai sendo
engolido por uma máquina civilizacional incomensuravelmente mais podero-
sa; e, finalmente, uma contra-antropologia arguta e sarcástica dos Brancos, o
“povo da mercadoria”,* e de sua relação doentia com a Terra — conformando
um discurso que Albert (1993) caracterizou, lapidarmente, como uma “crítica
xamânica da economia política da natureza”.
O livro se destaca de seus aparentes congêneres, antes de mais nada, pela
densidade e solidez inauditas de seu contexto de elaboração, que pôs frente a
frente, em um diálogo ‘entrebiográfico’ que é também a história de um proje-
to político convergente, um pensador indígena com uma longa e dolorosa ex-
periência ‘pragmática’ (mas também intelectual) do mundo dos Brancos, ob-
servador sagaz de nossas obsessões e carências, e um antropólogo com uma
longa experiência ‘intelectual’ (mas também prática, e não isenta de dificulda-
des) do mundo dos Yanomami — autor que chegou a esta obra a quatro mãos
já de posse de um saber etnográfico que conta entre as mais importantes con-
tribuições ao estudo dos povos amazônicos, e cuja biografia é quase tão ‘anô-
mala’ em sua recusa a se deixar capturar pela carreira acadêmica quanto a do
xamã-narrador. Recorrendo a uma distinção que me foi sugerida por Vinciane
Despret para pensar um problema semelhante, pode-se dizer que nem Kope-
nawa nem Albert são exatamente representativos de seu meio e repertório so-
ciocultural originais — Amazônia e xamanismo yanomami, Europa e antro-
pologia universitária francesa —, mas que é justamente essa condição de
enunciadores em posição atípica, fronteiriça ou ex-centrada, que os torna re-
presentantes ideais de suas respectivas tradições, capazes de mostrar do que elas
* Que melhor nome se poderia cunhar para a civilização capitalista? O capital inteiro em um
simples etnônimo…
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são capazes, uma vez libertas de seu ensimesmamento e de seu ‘monolinguis-
mo’ cosmológico; quando essas tradições são forçadas, em outras palavras —
pelas circunstâncias históricas e pela força de caráter do protagonista, em um
caso, pelo compromisso existencial e pela disciplina intelectual do seu colabo-
rador, no outro —, a negociarem a diferença intercultural até o ponto de uma
mútua e imensamente valiosa ‘entretradução’, tanto mais valiosa quanto mais
ciente de suas imperfeições, suas aproximações equívocas, suas equivalências
impossíveis e, contas feitas (conclusão que é de minha exclusiva responsabili-
dade), sua incompatibilidade metafísica e antropológica absoluta, que só será
superada, temo, com a destruição material ou espiritual da civilização de ori-
gem de um ou outro dos interlocutores. E como já sugeri em uma nota mais
acima, não está claro qual das duas cederá primeiro, diante das condições ma-
teriais inimagináveis que nos aguardam no “tempo das catástrofes”, na “bar-
bárie por vir”.*
Este livro é excepcional, em segundo lugar, pela felicidade das decisões
propriamente tradutivas, tanto aquelas que procuram superar a grande distân-
cia entre a ‘enciclopédia’ e a ‘semântica’ das respectivas línguas-culturas como
aquelas que dizem respeito às convenções de textualização de um discurso oral,
ao seu agenciamento enunciativo e às dimensões pragmáticas e metapragmá-
ticas do texto. Essas decisões são exaustivamente discutidas no Postscriptum de
Albert, parte de A queda do céu que mereceria um estudo especial por seu
conteúdo crítico-reflexivo e sua perspectiva ‘em abismo’, metatextual — aspec-
tos que interpelam diretamente os etnógrafos e, de modo geral, todos aqueles
cujo ofício é transmitir, isto é, transformar, a palavra alheia. O Postscriptum
retraça a história do pacto entre o coautor e Davi Kopenawa que desembocou
neste livro; rememora (memorializa) as peripécias de uma vocação e as vicis-
situdes de uma pesquisa de campo realizada, em larga medida, durante os ne-
gros tempos de nossa ditadura militar, quando antropólogos — essa gente
comunista e maconheira — vivendo entre selvagens binacionais não eram na-
* Ver Stengers, 2009; Danowski e Viveiros de Castro, 2014. Recordem-se aqui as palavras de
Russel Means, o célebre ativista Oglala Lakota, pronunciadas nos longínquos idos de 1980, o que
lhes dá um caráter quase profético: “E quando a catástrofe tiver terminado, nós, os povos indíge-
nas americanos, ainda estaremos aqui para povoar o hemisfério. Pouco importa se estivermos
reduzidos a um punhado de gente vivendo no alto dos Andes. O povo indígena americano so-
breviverá; a harmonia será restabelecida. É isso a revolução”.
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da bem-vindos, ainda mais se fossem estrangeiros; e tece reflexões altamente
pertinentes sobre as condições de uma escrita etnográfica pós-colonial, tanto
do ponto de vista político-diplomático de sua possibilidade e pertinência como
daquele retórico-epistêmico de seu estilo, em todos os sentidos possíveis dessa
última palavra.
Prevejo que os críticos ‘sociológicos’, os que escrevem sem parar e sem
temer o paradoxo sobre os perigos da textualização — da inscrição e tradução
engessadoras de uma oralidade fluida, vibrátil, ‘autêntica’ (a qual, suponho,
deveria idealmente ser capaz de se transmitir por telepatia para uma audiência
também monolíngue) —, verão uma boa dose de ‘artificialidade’ neste livro,
visto que a narrativa de Kopenawa aqui publicada é o resultado de um cuida-
doso trabalho de composição — como o é, surpresa!, toda escritura etnográfi-
ca, biográfica, ficcional ou qualquer outra. O que temos diante de nós é uma
edição, explicitamente reconstruída, resumida e homogeneizada, de milhares
de folhas de transcritos de diversos ciclos de entrevistas, gravadas ao longo de
doze anos, em situações as mais diversas; um texto em francês (em português)
que procurou manter os torneios e maneirismos característicos da língua de
origem, mas recusando qualquer ‘primitivização’ pitoresca da língua de desti-
no — ao contrário, inovando poeticamente e renovando ritmicamente a prosa-
-padrão dessa língua. Destaque-se, por fim, uma organização capitular que
obedece a uma rigorosa simetria, criando uma ressonância interna entre vários
capítulos e desdobrando o livro em um tríptico cujo quadro central — que
conta a catastrófica colisão dos Yanomami com os Brancos e o modo como
esse malencontro determinou a vida e a vocação do narrador — é ladeado por
uma seção inicial, que descreve a formação xamânica de Davi Kopenawa por
seu sogro, bem como situa os parâmetros cosmológicos nativos, e por outra
seção, final, em que o narrador comenta a experiência antropológico-xamâni-
ca adquirida nas viagens àquela parte do hemisfério norte que os brasileiros
ainda chamamos de ‘Primeiro Mundo’ (Estados Unidos, França, Inglaterra),
lugar dos ancestrais dos napë canibais que vieram comer a terra dos Yanoma-
mi depois de terem devorado a sua própria. Para ainda maior simetria, o tríp-
tico é emoldurado por uma dupla introdução (assinada uma por Albert, a ou-
tra por Kopenawa) e uma dupla conclusão (idem) — sem falar na dupla
epígrafe geral, uma de Lévi-Strauss, a outra ainda de Kopenawa —, em um
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dualismo que marca insistentemente (já ia escrevendo “obsessivamente”…) a
dualidade das vozes entrelaçadas.
Ali então onde aqueles que acreditam em uma naturalidade imanente do
discurso do Outro — mas só se são eles que o repercutem; os críticos da Pre-
sença costumam tornar-se seus campeões quando estão presentes a ela — irão
ver, suspeito, artifício arquitetônico, artefato textual, quiçá contrafação ideo-
lógica piedosa em A queda do céu, ali eu vejo, ao contrário, uma mostra do mais
alto “engenho e arte” de que é capaz a escritura antropológica. Vejo um dos
raríssimos exemplos recentes de verdadeira invenção reflexiva no plano das
técnicas de textualização etnográfica, por um lado (talvez só comparável, mu-
tatis mutandis, ao que fez Marilyn Strathern para a Melanésia),* e de renovação
radical de um gênero distintivo da tradição francesa, a cavaleiro entre a etno-
logia e a literatura, por outro lado.** O coautor antropólogo está ciente dos
riscos das decisões tomadas — o escrúpulo é talvez a atitude mais marcante nas
intervenções do escritor branco deste livro, desde o meticuloso aparelho de
notas que acompanham a narrativa de Davi até o paradigmático Postscriptum,
e dele aos Anexos, aos glossários, aos diversos índices, à conscienciosa biblio-
grafia. Albert está perfeitamente a par das controvérsias acesas pela crise pós-
-modernista em torno da (auto)biografia como gênero, da tensão entre o Eu
do narrador e o do escritor, da “economia da pessoa” implicada na etnografia
e do processo de “delegação ontológica” que veio renová-la (Salmon, 2013), da
alteridade ‘própria’ a toda autoria e sobretudo da assimetria inerente à “situa-
ção etnográfica” e suas consequências epistêmicas (Zempléni, 1984; Viveiros
de Castro, 2002), assimetria irredutível que o escriba/escritor de A queda do
céu procura compensar, sem jamais pretender escondê-la, por um conjunto de
soluções narrativas postas sob o signo do “menor dos males” (p. 536). Esta
última expressão me parece particularmente feliz para caracterizar a essência
do gênero etnográfico — “conhecimento aproximado” por natureza, diria Ba-
chelard (ou antes, ‘por cultura’) —, e, mais geralmente, para designar a sensa-
ção de perda inevitável suscitada por todo trabalho de tradução, seja esta inter-
linguística, intercultural, intersemiótica, ou mesmo, como constatamos
* Ver, naturalmente, Strathern, 2006, mas também o importante artigo “O efeito etnográfico” em
Strathern, 2014 (cap. 12).
** Ver Debaene, 2010.
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dolorosamente em nossa própria vida, interpessoal — para não falar naquela
obscura, incessante e equívoca tradução intrapessoal que se estabelece no tu-
multo de nossas múltiplas vozes ‘internas’, sob a pressão implacável do incons-
ciente. E como pouco importa, no final das contas, que a perda seja de fato
puramente imaginária. Mais um equívoco (inevitável?) sobre o equívoco.
Pelo que precede, suspeita-se que o livro terá muita coisa a ensinar aos
antropólogos e a outros estudiosos ou hermeneutas das vozes indígenas, seja
sob o modo do exemplo dado pela narrativa de Davi Kopenawa, seja sob o
modo da reflexão que nos é apresentada nesse Postscriptum. O autor deste úl-
timo, retomando um artigo que publicou anos atrás (Albert, 1997), define ali o
que chama de pacto etnográfico. O “pacto” começa pelo respeito aos três impe-
rativos básicos de todo engajamento do antropólogo com um povo indígena:
Em primeiro lugar, evidentemente, fazer justiça de modo escrupuloso à imaginação
conceitual de [seus] anfitriões; em seguida, levar em conta com todo o rigor o con-
texto sociopolítico, local e global, com o qual sua [deles] sociedade está confronta-
da; e, por fim, manter um olhar crítico sobre o quadro da pesquisa etnográfica em
si (p. 520).
A habilidade — o gosto e o talento — que mostra cada etnógrafo no cum-
prir igualmente bem as três exigências é, como se sabe, muito variável.* Mas,
de qualquer forma, elas não são o bastante. Como prossegue Albert, o etnógra-
fo deve estar preparado para compreender que o objetivo principal dos seus
* O fato de que Albert coloque como primeiro e óbvio (“evidentemente”) imperativo o respeito
escrupuloso à “imaginação conceitual” de seus anfitriões não é, penso, acidental, exprimindo uma
determinada concepção da antropologia (Viveiros de Castro, 2009, p. 7) que está longe de ser
compartilhada por todos os praticantes da disciplina (id., 1999). Muitos deles entendem, ao con-
trário, que o segundo imperativo é o alfa e o ômega do trabalho etnográfico — a sociedade do
nativo é reduzida a seus “contextos sociopolíticos”, que o observador textualizará segundo sua
própria ‘imaginação conceitual’. Outros, por fim, preferem dedicar-se com exclusividade a obe-
decer ao terceiro imperativo — e com isso a crítica ao quadro da pesquisa etnográfica (de prefe-
rência a pesquisa de outros etnógrafos) vem tomar o lugar da pesquisa etnográfica ela mesma,
ignorando assim a advertência de Marilyn Strathern: “As etnografias são construções analíticas
de acadêmicos; os povos que eles estudam não o são” (Strathern, 2006, p. 23).
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interlocutores indígenas — e o fundamento de sua cooperação — é o de con-
verter o pesquisador em um aliado político, em seu representante diplomático
ou intérprete junto à sociedade de onde ele provém, invertendo assim, tanto
quanto possível, os termos da “troca desigual subjacente à relação etnográfica”
(p. 521) . Os nativos aceitam se objetivar perante o observador estrangeiro na
medida em que este aceite (e esteja tecnicamente preparado para isso) repre-
sentá-los adequadamente perante a sociedade que os acossa e assedia — tal é o
“pacto etnográfico”, mediante o qual os sentidos político e científico da ideia
de ‘representação’ são levados por força (pela força das coisas) a coincidir. Isso
supõe, entretanto, que o pesquisador, ao assumir a função de enviado diplo-
mático dos nativos junto a seu próprio ‘povo’, possa e deva fazê-lo “sem por
isso abrir mão da singularidade de sua própria curiosidade intelectual (da qual
dependem, em grande parte, a qualidade e a eficácia de sua mediação)” (p. 522).
Esta última ressalva me parece extremamente importante. Não basta com-
padecer-se da sorte do colonizado. Não é suficiente mostrar generosas dispo-
sições emancipatórias para com o nativo, nem imaginar-se dotado dos instru-
mentos teórico-políticos capazes de libertá-lo de sua sujeição — instrumentos
de libertação que, o mais das vezes, vêm da mesma caixa de ferramentas que
os instrumentos de sujeição, como diversos ‘nativos’ já observaram (Means,
1980; Nandy, 2004; Rivera Cusicanqui, 2014). Os numerosos trechos do depoi-
mento de Kopenawa nos quais somos confrontados a ações (ou inações) abo-
mináveis dos Brancos, nos quais assistimos à tragédia de famílias ou aldeias
inteiras dizimadas por epidemias trazidas por supostos benfeitores dos Yano-
mami, à súbita redução a uma mendicância abjeta de comunidades que, havia
pouco, eram íntegras e orgulhosas, às invasões sucessivas por agentes da des-
truição material e moral de um povo — nada disso soa, em A queda do céu,
apenas como mais uma daquelas litanias dilacerantes que muitos Brancos,
sejam eles acadêmicos, teólogos da libertação, jornalistas, militantes da causa
indígena, todos eles, insisto, obviamente bem-intencionados (mesmo os que
conseguiram sua tenure graças à desgraça alheia), repetem à exaustão. E se
nada nas palavras de Kopenawa soa assim — apenas assim —, é porque elas se
inscrevem em um livro composto a partir de um ponto de vista teoricamente
preparado para dar sentido a essas catástrofes, situando-as nos quadros con-
ceituais de um ‘mundo vivido’ singular, o que as dota de uma significação in-
finitamente mais rica que a de um exemplo entre outros da miséria humana.
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Em poucas palavras, sem a “curiosidade intelectual” que moveu o antropólogo
escritor, e sem a curiosidade (contra-)antropológica que moveu o xamã-nar-
rador, não haveria este livro, ou ele seria ininteligível.
Cabe aqui ser direto, e marcar um ponto. Por muito que tenham ajudado
o escritor antropólogo de A queda do céu a entender a situação neocolonial e
hipercapitalista que enfrentam as minorias étnicas no Brasil, inspirando-o a
formular o instigante programa teórico de um “trabalho de campo pós-mali-
nowskiano” (Albert, 1997), a verdade é que a escola do chamado “contato in-
terétnico” (ou “fricção”, idem) e seus desdobramentos em uma doutrina da
“etnicidade” — tendências hegemônicas na antropologia brasileira durante
todo o último quartel do século passado —, como, igualmente ou sobretudo,
os escritos de etnógrafos militantes de… concedamos, ‘esquerda’, cujo exemplo
mais destacado é Terence Turner, autor de uma laboriosa teoria paramarxista
de uma passagem “de cosmologia a ideologia” que teria miraculado os Kaya-
pó — a verdade é que nenhum dos autores representativos dessas posições
‘radicais’ (mas quem não se considera radical?) chegou nem sequer perto de
abrir a fenda na muralha dialógica erguida entre índios e brancos que A queda
do céu teve a capacidade de abrir. É evidente que a formação teórica de Albert,
sua “curiosidade intelectual” de base ‘estruturalista’,* é responsável pela sinto-
nização do ouvido analítico do antropólogo na frequência de onda da imagi-
* A queda do céu está firmemente alicerçada na etnografia contida na tese do coautor francês
(Albert, 1985) sobre as representações da doença, o espaço político e o sistema ritual dos Yano-
mami, onde as influências da antropologia lévi-straussiana, em particular das Mitológicas, são
transparentes. Que a voz da epígrafe “branca” escolhida como abertura do livro tenha sido a de
Lévi-Strauss antes que a de Albert ele mesmo, ao contrário das metades “indígenas” das duas
epígrafes, dos dois prólogos e das duas conclusões, sempre de Kopenawa, marca duas coisas:
primeiro, que o livro é ‘de Davi’ — são suas palavras que (se) contam, como indica o subtítulo
do livro —, mas ele foi escrito por Bruce, a quem não caberia obviamente epigrafar-se a si mes-
mo; segundo, que o personagem ‘totêmico’ maior da formação teórica e da sensibilidade etno-
lógica de Bruce Albert é, já o dissemos, Claude Lévi-Strauss. Como ele o é, aliás, do autor deste
prefácio; o generoso convite a escrevê-lo, tenho a veleidade de imaginar, talvez seja um sinal de
reconhecimento dessa fraternidade clânica. Os numerosos ‘estigmas de estruturalismo’ dispersos
no aparelho de notas e comentários de A queda do céu não deixarão de intrigar, e muito possi-
velmente irritar, certos leitores antropólogos que permanecem incapazes de entender a afinida-
de profunda entre a concepção e a prática da antropologia por Lévi-Strauss, de um lado, e o
projeto etno(bio)gráfico, o engajamento existencial e o ativismo político do coautor francês do
presente livro, de outro.
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nação conceitual de Kopenawa, o qual, por sua vez, coproduziu com seu ‘pac-
tário’ francês um discurso que vai muito além da denúncia e da
lamentação — pois a condenação irrevogável do narrador sobre o que se pode
esperar de nossa “civilização” é precedida (e derivada) de uma ampla exposição
filosófica dos fundamentos de um mundo indígena, em seu triplo aspecto on-
tológico, cosmológico e antropológico. Registre-se, por fim, que o engajamen-
to vital com os Yanomami — traduzido em um dos trabalhos de campo de mais
longa duração na história da etnologia amazônica —, que incluiu a montagem
de serviços emergenciais de saúde, levantamentos epidemiológicos, projetos
de proteção ambiental, estudos das dimensões etnoecológicas e etnogeográficas
da economia indígena, denúncias insistentes e penosamente documentadas à
imprensa, uma exaustiva atividade nas ongs de apoio à causa indígena, nada
disso impediu o coautor branco deste livro de fazer apostas ambiciosamente
criativas, fora do diapasão assistencialista ou ativista, como a do encontro entre
os xamãs yanomami e um grupo de artistas ocidentais de vanguarda patroci-
nado pela Fundação Cartier, em 2003 (Albert e Kopenawa, 2003). Recusar aos
índios uma interlocução estética e filosófica radicalmente ‘horizontal’ com
nossa sociedade, relegando-os ao papel de objetos de um assistencialismo ter-
ceirizado, de clientes de um ativismo branco esclarecido, ou de vítimas de um
denuncismo desesperado, é recusar a eles sua contemporaneidade absoluta.
Nosso tempo é o tempo do outro, para glosarmos, e invertermos, a bandeira
que Johannes Fabian agitava em 1983.* Pois os tempos são outros. E o outro,
mais ainda.
Não caberia, em todos os sentidos, resumir aqui a narrativa de Davi Ko-
penawa, cujo interesse extravasa em muito as questões e querelas ‘antropológi-
cas’ acima expostas. Pois o que realmente importa é como este livro pode dar a
pensar aos não antropólogos; o que conta é o que Davi Kopenawa tem a dizer,
a quem souber ouvir, sobre os Brancos, sobre o mundo e sobre o futuro. Que
seu repertório conceitual e seu universo de referências sejam muito estranhos
ao nosso só torna mais urgente e inquietante sua ‘profecia xamânica’, cada vez
menos ‘apenas’ imaginária e cada vez mais parecida com a realidade. Como
* Fabian, 1983.
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observou Bruno Latour, falando da crise da ontologia dos Modernos e da ca-
tástrofe ambiental planetária a ela associada, assistimos hoje a um “[r]etorno
progressivo às cosmologias antigas e às suas inquietudes, as quais percebemos,
subitamente, não serem assim tão infundadas” (Latour, 2012, p. 452). Ressalve-
-se apenas o “antigas” na frase acima — pois o que “percebemos, subitamente”,
é que elas são nossas contemporâneas; se precederam as nossas, nunca deixaram
de coexistir com elas e, como já dissemos, não é impossível que sobrevivam a
elas. Não faltam indícios da pertinência, cujo ‘localismo’ poético só torna mais
inquietantes, das previsões do xamã yanomami. Para quem estiver interessado,
tomemos apenas um exemplo entre muitos, em uma tradução científica (isto é,
culturalmente ‘normal’ para os Brancos) das observações de Davi a respeito dos
“comedores de terra”, os “queixadas monstruosos” ou os “tatus gigantes” que
devoram a substância do planeta, uma leitura do estudo recente de Ugo Bardi
(2014) sobre o esgotamento das reservas minerais mundiais é altamente reco-
mendável.
Há, entretanto, duas pequenas passagens de A queda do céu que me tocam
especialmente, por resumirem de modo epigramático o que eu chamaria a
diferença indígena. A primeira é uma citação, em epígrafe ao capítulo 17, “Fa-
lar aos Brancos”, de um diálogo havido no dia 19 de abril de 1989 (o “Dia do
Índio”) entre o general Bayma Denys, ministro-chefe da Casa Militar durante
o governo Sarney — sempre ele —, e Davi Kopenawa. Quase conseguimos ou-
vir o tom arrogante e complacente com que o dignitário militar, provavelmen-
te obrigado a jogar conversa fora com um índio qualquer durante aquela te-
diosa efeméride, pergunta a Davi:
O povo de vocês gostaria de receber informações sobre como cultivar a terra?
Ao que o impávido xamã replica:
Não. O que eu desejo obter é a demarcação de nosso território.
Pano rápido… O que me fascina nesse diálogo, além, naturalmente, da
soberba indiferença à farda demonstrada por Kopenawa, é a presunção do
general, que imagina poder ensinar aos senhores da terra como cultivá-la —
convicto de que, povo da natureza, os índios não entendiam nada de cultura,
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Bayma Denys devia pensar que os Yanomami eram ‘nômades’ ou algo as-
sim —; que acredita, ademais, que os pobres índios estavam sequiosos de beber
dessa ciência agronômica possuída pelos Brancos, a ciência que nos abençoa
com pesticidas cancerígenos, fertilizantes químicos e transgênicos monopolis-
tas, enquanto os Yanomami se empanturram com o produto de suas roças
impecavelmente ‘agrobiológicas’. Mais fascinante ainda, porém, é a total inver-
são de conceitos proposta por Davi em sua réplica, verdadeiro contragolpe de
mestre espadachim. O general fala em “terra”, quando deveria estar falando é
em “território”. Fala em ensinar a cultivar a terra, quando o que lhe compete,
como militar a soldo de um Estado nacional, topográfico e agronomocrático,
é demarcar o território. Bayma Denys não sabe do que sabem os Yanomami; e,
aliás, o que sabe ele de terra? Mas Kopenawa sabe bem o que sabem os Brancos;
sabe que a única linguagem que eles entendem não é a da terra, mas a do ter-
ritório, do espaço estriado, do limite, da divisa, da fronteira, do marco e do
registro. Sabe que é preciso garantir o território para poder cultivar a terra. Faz
tempo que ele aprendeu a regra do jogo dos Brancos, e nunca mais esqueceu.
Veja-se esta sua entrevista ao Portal Amazônia, concedida exatamente 26 anos
após o colóquio com o general:
Quem ensinou a demarcar foi o homem branco. A demarcação, divisão de terra,
traçar fronteira é costume de branco, não do índio. Brasileiro ensinou a demarcar
terra indígena, então a gente passamos a lutar por isso. Nosso Brasil é tão grande
e a nossa terra é pequena. Nós, povos indígenas, somos moradores daqui antes
dos portugueses chegarem.
Lutei pela terra Yanomami para que o meu povo viva onde eles nasceram e
cresceram, mas o registro de demarcação da terra Yanomami não está comigo,
está nas mãos do governo. Mesmo diante das dificuldades, o tamanho da nossa
terra é suficiente para nós, desde que seja mesmo somente para nós e não preci-
samos dividir com os garimpeiros e ruralistas.*
A segunda passagem, e aqui transcrevo diretamente (não conseguiria fazer
melhor…) três parágrafos do comentário que Déborah Danowski e eu tecemos
* Pontes, 2015.
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sobre ela em Há mundo por vir?,* equivale a um tratado inteiro de contra-an-
tropologia dos Brancos:
Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente de-
les. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não conse-
gue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. […] Ficam sempre
bebendo cachaça e cerveja, que lhes esquentam e esfumaçam o peito. É por isso
que suas palavras ficam tão ruins e emaranhadas. Não queremos mais ouvi-las.
Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele
nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos,
pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem
muito, mas só sonham consigo mesmos. (p. 390. Eu sublinho.)
O vão desejo de ignorar a morte está ligado, segundo Kopenawa, à fixação
dos Brancos na relação de propriedade e na forma-mercadoria. Eles são “apai-
xonados” pelas mercadorias, às quais seu pensamento permanece completa-
mente “aprisionado”. Recordemos que os Yanomami não só valorizam ao ex-
tremo a liberalidade e a troca não mercantil de bens como destroem todas as
posses dos mortos.**
E então, a volta do parafuso: “[Os Brancos] dormem muito, mas só sonham
consigo mesmos” (p. 390). Esse é, talvez, o juízo mais cruel e preciso até hoje
enunciado sobre a característica antropológica central do “povo da mercadoria”.
A desvalorização epistêmica do sonho por parte dos Brancos vai de par com sua
autofascinação solipsista — sua incapacidade de discernir a humanidade secre-
ta dos existentes não humanos — e sua avareza ‘fetichista’ tão ridícula quanto
* Ver Danowski e Viveiros de Castro, 2015, pp. 98 ss. Esse livro, como tantos outros textos recen-
tes de minha (co)autoria, faz largo uso das palavras de Davi Kopenawa e do apoio de Bruce Albert.
Apenas por isso os cito de modo tão imodestamente abundante neste prefácio.
** A morte é o fundamento, no sentido de razão, da “economia da troca simbólica” dos Yanoma-
mi. Tudo isso se acha desenvolvido no artigo seminal de Albert (1993) sobre a “crítica xamâni-
ca da economia política da natureza” veiculada no discurso de Kopenawa, crítica essa que inclui
uma apreciação sarcástica do fetichismo da mercadoria próprio dos Brancos, bem como de sua
relação intrínseca com o canibalismo.
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incurável, sua crisofilia. Os Brancos, em suma, sonham com o que não tem
sentido.* Em vez de sonharmos com o outro, sonhamos com o ouro.
É interessante notar, por um lado, que há algo de profundamente perti-
nente do ponto de vista psicanalítico no diagnóstico de Kopenawa sobre a vida
onírica ocidental — sua Traumdeutung é de fazer inveja a qualquer pensador
freudo-marxista —, e, de outro lado, que seu diagnóstico nos paga com nossa
própria moeda falsa: a acusação de uma projeção narcisista do Ego sobre o
mundo é algo a que os Modernos sempre recorreram para definir a característica
antropológica dos povos “animistas” — Freud foi, como se sabe, um dos mais
ilustres defensores dessa tese. No entender desses que chamamos animistas, ao
contrário, somos nós, os Modernos, que, ao adentrarmos o espaço da exterio-
ridade e da verdade — o sonho —, só conseguimos ver reflexos e simulacros
obsedantes de nós mesmos, em lugar de nos abrirmos à inquietante estranhe-
za do comércio com a infinidade de agências, ao mesmo tempo inteligíveis e
radicalmente outras, que se encontram disseminadas pelo cosmos. Os Yano-
mami, ou a política do sonho contra o Estado: não o nosso “sonho” de uma
sociedade contra o Estado, mas o sonho tal como ele é sonhado em uma socie-
dade contra o Estado.
Começamos este prefácio evocando a relação complexa de A queda do céu
com Tristes trópicos. Voltemos então a este último, recordando um episódio
célebre em que Lévi-Strauss conta seu diálogo com Luís de Sousa Dantas, o
embaixador brasileiro em Paris, às vésperas de embarcar para São Paulo, nos
idos de 1934. No decorrer de um jantar de cerimônia, o jovem futuro professor
da usp indaga do embaixador do país para onde se dirigia sobre os índios do
Brasil. É então que ouve, perplexo e consternado, da boca do diplomata:
Índios? Hélas, meu caro senhor, há muitos lustros que eles desapareceram, todos.
Esta é uma página muito triste, muito vergonhosa da história de meu país. […]
* O sonho, particularmente o sonho xamânico induzido pelo consumo de alucinógenos, é a via
régia do conhecimento dos fundamentos invisíveis do mundo, tanto para os Yanomami como
para muitos outros povos ameríndios. Ver Viveiros de Castro, 2007.
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Como sociólogo, o senhor irá descobrir coisas apaixonantes no Brasil, mas índios,
nem pense nisso, o senhor não encontrará um só… (Lévi-Strauss, 1955, p. 51.)
Estou convencido de que o sr. Luís de Sousa Dantas realmente não sabia
que ainda havia índios no país que representava — uma ignorância tão vergo-
nhosa quanto a história dos massacres evocada pelo pobre embaixador.* E
naturalmente que Lévi-Strauss, como se sabe, encontrou índios no Brasil. Se
chegasse hoje, encontraria muitos mais; pois eis que agora, oitenta anos mais
tarde, não só há cada vez mais índios no Brasil como estes constituíram seus
próprios embaixadores, nas figuras de Raoni, Mário Juruna, Ailton Krenak,
Alvaro Tukano, Marçal de Sousa, Angelo Kretã e tantos outros — entre os
quais, il va sans dire, Davi Kopenawa.
A queda do céu é, de fato, um documento exemplarmente diplomático. O
pacto etnográfico de que fala Albert é indistinguível do ‘pacto xamânico’ que
transparece em todas as páginas da narrativa de Davi. “Para nós, a política é
outra coisa” — recordemos a frase, tirada da citação de Davi mais acima. Como
registra Albert em seu Postscriptum, a estrutura enunciativa deste livro alta-
mente complexo envolve uma pluralidade de posições: a do narrador, que ado-
ta diferentes registros em diferentes momentos de sua narrativa; a de seu sogro
indígena, que de certa forma o salvou dos Brancos, ao iniciá-lo no xamanismo;
a dos xapiri de quem fala o narrador e que falam pela sua boca; a do intérprete
branco que, falando em yanomami, procura navegar entre a língua do narra-
dor, as numerosas expressões em português que pontuam seu discurso e o
francês em que traduz a narrativa… Na verdade, essas “palavras de um xamã
yanomami” — subtítulo de A queda do céu — são mais que isso: são palavras
xamânicas yanomami, são uma performance xamânico-política, por outras
palavras, uma performance cosmopolítica ou cósmico-diplomática (“para nós
a política é outra coisa”), em que pontos de vista ontologicamente heterogêneos
são comparados, traduzidos, negociados e avaliados. O xamanismo, aqui, é a
continuação da política pelos mesmos meios. A queda do céu é uma sessão
xamânica, um tratado (no duplo sentido) político e um compêndio de filosofia
yanomami, a qual — como talvez se possa dizer de toda a filosofia amazôni-
* Massacres postos na conta exclusiva dos portugueses, em um distante e brutal século xvi, como
se lê na passagem integral acima resumida.
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ca — é essencialmente um onirismo especulativo, em que a imagem tem toda
a força do conceito, e em que a experiência ativamente ‘extrospectiva’ da via-
gem alucinatória ultracorpórea ocupa o lugar da introspecção ascética e medi-
tabunda.
Muitos estudos antropológicos ganhariam insuspeitos sentido e relevância
ao serem ‘tratados’ pela sessão xamânica encenada em A queda do céu. Mas
tomo a liberdade de sugerir ao leitor que a mais alta significação poética deste
livro excepcional, significação que em nada diminui, muito pelo contrário, sua
verdade histórica, etnográfica, ecológica e filosófica, talvez se torne ainda mais
comovente — isto é, capaz de nos pôr em movimento junto com ela — se, ao
fechá-lo, abramos o conto “O recado do morro”, que está no Corpo de baile de
Guimarães Rosa. O título deste prefácio, “O recado da mata”, foi-nos, de resto,
inspirado por uma alusão de José Miguel Wisnik (2014) ao conto de Rosa.
Todos se recordarão que naquela narrativa desfila uma caravana de persona-
gens literalmente excêntricos, exteriores, nômades ou eremitas, trogloditas,
loucos, profetas, andarilhos, uma gente que ouve inquietantes mensagens da
natureza a que permanecemos surdos — esquecidos, diria Davi. O recado do
morro (a mensagem foi originalmente emitida pelo Morro da Garça, marco
geográfico central na paisagem do conto), ouvido primeiro pelo bizarro ere-
mita Gorgulho, avisa de sinistra conspiração, anuncia uma morte à traição; mas
tudo vem vazado em uma linguagem mítica e apocalíptica (constantemente
deformada e transformada à medida que vai circulando pelo sertão) que pare-
ce puramente delirante a todos os demais personagens, entre os quais um padre
e um naturalista — exceto a um poeta-cantador, que percebe epifanicamente
a transcendental importância do que é transdito naquela algaravia heráldica e
hieroglífica, e a sublima em um ‘romance’ cantado. As palavras do romance
finalmente penetram no espírito um tanto “curto e obscuro” da vítima da mor-
te anunciada, Pedro Orósio, um camponês livre, geralista de pura e poderosa
cepa, um terrano dos pés à cabeça, que acaba por entender o recado e escapa,
no último segundo, da cilada assassina movida por seus rivais amorosos. Ima-
gine então o leitor que o xamã-narrador d’A queda do céu seria como uma
síntese algo improvável do Gorgulho e de Nominedômine; que Pedro Orósio
fosse o brasileiro — o caboclo terrano — que todos, no fundo, somos quando
sonhamos, tão raramente, com um outro ‘nós-mesmos’, e que o antropólogo-
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-escriba fosse como um análogo do cantador Laudelim, o único a penetrar não
a referência da mensagem cifrada, mas, muito mais importante, seu sentido.
Davi é o elo crucial da rede, o ponto final da série de personagens ‘excên-
tricos’ de “O recado do morro” — com efeito, quem mais fora do centro e do
Um, da fumaça das cidades e do brilho assassino do metal, do que um índio,
um homem do fundo do mato que firmou um pacto xamânico com as legiões
de duplos invisíveis da floresta —, com os xapiri que transmitem o recado ci-
frado da mata. Um recado, recordemos, ominoso. Um aviso. Uma advertência.
Uma última palavra.
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Prólogo
Este livro, ao mesmo tempo relato de vida, autoetnografia e manifesto
cosmopolítico, convida a uma viagem pela história e pelo pensamento de um
xamã yanomami, Davi Kopenawa. Nascido há seis décadas no norte da Ama-
zônia brasileira, no alto rio Toototobi (am), num mundo ainda muito afastado
dos brancos, Davi Kopenawa viu-se confrontado desde a infância, no decorrer
de uma existência muitas vezes épica, com os sucessivos protagonistas do avan-
ço da fronteira regional (agentes do Serviço de Proteção aos Índios [spi], mili-
tares da Comissão Brasileira Demarcadora de Limites [cbdl], missionários
evangélicos, trabalhadores de estradas, garimpeiros e fazendeiros). Seus relatos
e reflexões, que coletei e transcrevi em sua língua, antes de reordená-los e re-
digi-los em francês, propiciam uma visão inédita, tanto por sua intensidade
poética e dramática como por sua perspicácia e humor, do malencontro histó-
rico entre os ameríndios e as margens de nossa “civilização”.
Davi Kopenawa quis, desde o início de nossa colaboração, que seu teste-
munho atingisse a maior audiência possível. Este prólogo se propõe, portanto,
a oferecer alguns elementos de referência, indispensáveis para orientar mini-
mamente os leitores interessados na aventura de sua leitura. Apresenta inicial-
mente um brevíssimo apanhado a respeito dos Yanomami do Brasil e sua
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história; em seguida, um resumo da biografia de Davi Kopenawa, autor das
palavras que constituem a fonte viva deste livro, bem como algo do percurso
do autor destas linhas, que buscou restituir seu saber e o sabor em forma es-
crita. Trata enfim, muito rapidamente, de nosso encontro e de nossa cola­
boração, bem como da produção deste texto e de seu conteúdo. Todos esses
­
temas são desenvolvidos de modo mais consistente nos Anexos e no Postscrip-
tum do livro, para os leitores cuja curiosidade mova para além desta sucinta
apresentação.
os yanomami do brasil
Os Yanomami1
constituem uma sociedade de caçadores-coletores e agri-
cultores de coivara que ocupa um espaço de floresta tropical de aproximada-
mente 230 mil quilômetros quadrados, nas duas vertentes da serra Parima,
divisor de águas entre o alto Orinoco (no sul da Venezuela) e a margem es-
querda do rio Negro (no norte do Brasil).2
Formam um vasto conjunto lin-
guístico e cultural isolado, subdividido em várias línguas e dialetos aparen-
tados. Sua população total é estimada em mais de 33 mil pessoas repartidas
em cerca de 640 comunidades,3
o que faz deles um dos maiores grupos ame-
ríndios da Amazônia que conservam em larga medida seu modo de vida
tradicional.
No Brasil, o território yanomami, homologado em 1992 com o nome de
Terra Indígena Yanomami, estende-se por 96650 quilômetros quadrados no
extremo norte da Amazônia, ao longo da fronteira com a Venezuela. Conta
com uma população de aproximadamente 21600 pessoas, repartidas em pouco
menos de 260 grupos locais. Cada uma dessas comunidades é em geral forma-
da por um conjunto de parentes cognáticos cujas famílias estão idealmente
unidas por laços de intercasamento repetidos por duas ou mais gerações, e que
reside em uma ou várias casas comunais de forma cônica ou troncônica.4
Os primeiros contatos, esporádicos, dos Yanomami do Brasil com os
brancos, coletores de produtos da floresta, viajantes estrangeiros, militares
das expedições de demarcação de fronteiras ou agentes do spi datam do início
do século xx. Entre as décadas de 1940 e 1960, algumas missões (católicas e
evangélicas) e postos do spi se instalaram na periferia de suas terras, abrindo
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assim os primeiros pontos de contato regular, fontes de obtenção de bens
manufaturados e também de vários surtos de epidemias letais. No início da
década de 1970, esses primeiros avanços da fronteira regional seriam brusca-
mente intensificados, primeiro pela abertura de um trecho da Perimetral
Norte ao sul das terras yanomami em 1973 e, passados dez anos de trégua,
com a irrupção de uma corrida pelo ouro sem precedentes em sua região
central, em 1987. A construção da estrada foi abandonada em 1976, e a inva-
são dos garimpeiros, relativamente contida a partir de meados da década de
1990. Entretanto, intensas atividades de garimpo foram retomadas nestes
últimos anos e, além disso, a integridade da Terra Indígena Yanomami vem
sofrendo novas ameaças, tanto de companhias mineradoras como da frente
agropecuária local, interessadas em expandir suas atividades no oeste do es-
tado de Roraima.
davi kopenawa, xamã e porta-voz yanomami
Davi Kopenawa nasceu por volta de 1956, em Marakana, grande casa
comunal de cerca de duzentas pessoas, situada na floresta tropical de piemon-
te do alto rio Toototobi, no extremo norte do estado do Amazonas, próximo
à fronteira com a Venezuela. Desde o final da década de 1970, reside na co-
munidade de seus sogros, no sopé da “Montanha do Vento” (Watoriki), na
margem direita do rio Demini, a menos de cem quilômetros a sudeste do rio
Toototobi.
Quando criança, Davi Kopenawa viu seu grupo de origem ser dizimado
por duas epidemias sucessivas de doenças infecciosas propagadas por agentes
do spi (1959-60) e, depois, por membros da organização norte-americana New
Tribes Mission (1967). Foi submetido por algum tempo ao proselitismo desses
missionários, que se estabeleceram no rio Toototobi a partir de 1963. Deve a
eles seu nome bíblico, a aprendizagem da escrita e um apanhado pouco
atraente do cristianismo. Apesar da curiosidade inicial, não demorou a se
indignar com seu fanatismo e obsessão pelo pecado. Rebelou-se finalmente
contra sua influência no final da década de 1960, após ter perdido a maior
parte dos seus durante uma epidemia de varíola transmitida pela filha de um
dos pastores.
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Adolescente e órfão, revoltado por sucessivos lutos devidos às doenças
dos brancos, mas ainda intrigado pelo seu poderio material, Davi Kopenawa
deixou sua região natal para trabalhar num posto da Fundação Nacional do
Índio (Funai),5
no baixo rio Demini, em Ajuricaba. Lá se esforçou, em suas
próprias palavras, para “virar branco”. Tudo o que conseguiu foi contrair
tuberculose. Essa desventura lhe valeu uma longa permanência no hospital,
onde aproveitou para aprender alguns rudimentos de português. Uma vez
curado, pôde voltar a sua casa no rio Toototobi, mas só por algum tempo. Em
1976, após a abertura da Perimetral Norte, foi contratado como intérprete da
Funai. Assim, durante alguns anos, percorreu quase toda a terra yanomami,
tomando consciência de sua extensão e de sua unidade cultural, para além
das diferenças locais. A experiência lhe deu também um conhecimento mais
preciso da obsessão predatória dos que ele chama de “Povo da Mercadoria”,
e da ameaça que ela representa para a permanência da floresta e a sobrevi-
vência de seu povo.
Finalmente, cansado de suas peregrinações de intérprete, Davi Kopenawa
se instalou definitivamente em Watoriki, no início da década de 1980, depois
de ter se casado com a filha do “grande homem” (pata th
ë) da comunidade.
Este, xamã renomado, iniciou-o em sua arte e, tradicionalista convicto, tem
sido desde então seu mestre de pensamento. Essa iniciação foi, para Davi Ko-
penawa, a ocasião de uma volta às origens, graças à qual pôde retomar uma
vocação xamânica manifestada desde a infância mas interrompida pela chega-
da dos brancos. Posteriormente, serviu-lhe de alicerce para desenvolver uma
reflexão cosmológica original a respeito do fetichismo da mercadoria, da des-
truição da floresta amazônica e das mudanças climáticas.6
No final da década de 1980, mais de mil Yanomami morreram no Brasil,
vítimas das doenças e da violência que acompanharam a invasão de seu terri-
tório por cerca de 40 mil garimpeiros. Davi Kopenawa ficou transtornado com
esse drama, que reavivou nele velhas lembranças do extermínio dos seus pelas
epidemias (xawara) dos brancos quando era criança. Depois de anos engajado
para conseguir a legalização das terras yanomami, ele então se envolveu numa
campanha internacional em defesa de seu povo e da Amazônia. Sua experiên-
cia inédita dos brancos, sua incomum firmeza de caráter e a legitimidade de-
corrente de sua iniciação xamânica rapidamente fizeram dele um porta-voz
destacado da causa yanomami. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, visitou
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vários países da Europa e os Estados Unidos. Em 1988, recebeu o prêmio Global
500 das Nações Unidas, por sua contribuição à defesa do meio ambiente. Em
1989, a ong Survival International o convidou a receber em seu nome o prêmio
Right Livelihood, considerado o prêmio Nobel alternativo, por atrair a atenção
internacional sobre a situação dramática dos Yanomami no Brasil. Em maio de
1992, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e De-
senvolvimento, no Rio de Janeiro (eco-92 ou Rio-92), obteve finalmente a ho-
mologação da Terra Indígena Yanomami por parte do governo brasi­
leiro. Em
1999, foi condecorado com a Ordem de Rio Branco, pelo então presidente Fer-
nando Henrique Cardoso, “por seu mérito excepcional”.
Davi Kopenawa é um homem de personalidade complexa e carismática,
ora tenso e pensativo, ora caloroso e bem-humorado. Todos os episódios de
sua trajetória pessoal evidenciam sua curiosidade intelectual fora do comum,
sua determinação inabalável e sua admirável coragem. Ele tem seis filhos, entre
os quais uma menininha adotada há poucos anos, e quatro netos que ele e a
esposa, Fátima, cobrem de carinho e atenção. Vive com a mulher e os filhos
menores num setor da grande casa coletiva de Watoriki igual a todos os demais.
Apesar da fama, cultiva um altivo desprezo pelas coisas materiais, e só sente
algum orgulho quando perturba a arrogante surdez dos brancos. Suas ativida-
des preferidas são, na floresta, responder aos cantos dos espíritos e, nas cidades,
falar em defesa de seu povo. É hoje uma liderança yanomami muito influente
e um xamã respeitado. Defensor incansável da terra e dos direitos dos Yano-
mami, continua zelando com rigor pela tradição de seus maiores, em particu-
lar de seu saber xamânico. Desde 2004, é presidente fundador da associação
Hutukara, que representa a maioria dos Yanomami no Brasil.7
Em dezembro
de 2008, recebeu uma menção de honra especial do prestigioso prêmio Barto-
lomé de Las Casas, concedido pelo governo espanhol pela defesa dos direitos
dos povos autóctones das Américas e, em 2009, foi condecorado com a Ordem
do Mérito do Ministério da Cultura brasileiro.
bruce albert, etnólogo
Nascido em 1952 no Marrocos, doutor em antropologia pela Université
de Paris x-Nanterre (1985) e pesquisador sênior do Institut de Recherche pour
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le Développement (ird, Paris), comecei a trabalhar com os Yanomami do
Brasil em março de 1975. Tinha acabado de completar 23 anos e de me formar
numa Paris de ciências humanas efervescentes. Ainda embriagado de leituras
etnográficas, me vi de repente mergulhado no faroeste amazônico dos confins
do Brasil com a Venezuela, na região do alto rio Catrimani. Esgueirando-se
por entre os caminhões e escavadeiras gigantes dos canteiros da Perimetral
Norte, ou desarmando com humor as boas intenções invasivas de um pitores-
co padre italiano, os Yanomami me seduziram imediatamente pela elegância
jovial e irônica. Revoltado com o espetáculo lastimável das megalomaníacas
obras viárias rasgando a floresta a esmo, com seu cortejo de doenças e devas-
tação, entendi que para mim nenhuma etnografia seria possível sem um en-
volvimento duradouro ao lado do povo com quem tinha resolvido trabalhar.
Minhas inclinações pessoais certamente me predispunham mais à busca de
um saber vivido e ao engajamento social do que às ambições acadêmicas. As-
sim, o trabalho de etnólogo apresentou-se imediatamente a mim como um
misto de busca intelectual e modo de vida; isso antes de se tornar uma profis-
são — profissão cujos ritos institucionais, aliás, nunca me atraíram. Desde
então, minha existência assumiu as consequências desse primeiro encontro
com os Yanomami na forma de uma aventura de “participação observante”
de (muito) longo prazo, sem que o engajamento pessoal afetasse o gosto pela
reflexão antropológica.
Paralelamente ao meu trabalho de pesquisa sobre vários aspectos da so-
ciedade e do pensamento yanomami, participei em 1978 da fundação, em São
Paulo, da ong Comissão Pró-Yanomami (ccpy),8
que conduziu com Davi Ko-
penawa uma campanha de catorze anos até obter, em 1992, a homologação da
Terra Indígena Yanomami. Durante quase trinta anos, a ccpy levou adiante
programas de saúde, de educação bilíngue e de proteção ambiental, de cuja
implementação participei diretamente.9
Acabei conseguindo aprender razoa-
velmente uma das línguas yanomami; justamente a que é falada na região on-
de nasceu e hoje reside Davi Kopenawa. Viajo à terra yanomami praticamente
todos os anos há quatro décadas e, como terá ficado claro, estou ligado a Davi
Kopenawa por uma longa história de amizade e lutas compartilhadas.
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o encontro e a colaboração
Encontrei Davi Kopenawa pela primeira vez em 1978, em circunstâncias
ao mesmo tempo ambíguas e divertidas, às quais voltarei no Postscriptum
deste livro. Ambos tínhamos vinte e poucos anos. Eu estava começando uma
segunda etapa de trabalho de campo etnográfico entre os Yanomami. Já tinha
convivido durante um ano com os Yanomami do alto Catrimani, entre 1975
e 1976. Davi Kopenawa era intérprete nos postos abertos pela Funai ao longo
da Perimetral Norte, cuja construção tinha sido interrompida dois anos antes.
Mais tarde, em 1981, passei seis meses em sua região natal, nas proximidades
do rio Toototobi, e nos encontramos mais uma vez. Pude então conhecer os
lugares e personagens importantes de sua infância e adolescência. Finalmente,
a partir de 1985, sua atual aldeia, Watoriki, tornou-se o destino preferencial
de minhas visitas às terras yanomami. Além disso, conheço seu sogro e men-
tor xamânico, bem como os demais habitantes da comunidade em que ele se
casou, desde minha primeira viagem em 1975 pelo alto rio Catrimani, região
de que são originários.
Desde 1985, minhas relações de amizade com Davi Kopenawa foram se
estreitando cada vez mais, no decorrer de minhas longas estadias em sua casa
de Watoriki e também como resultado da cumplicidade gerada pelo engaja-
mento compartilhado contra a corrida do ouro, que então devastava as terras
yanomami. O projeto deste livro, que Davi Kopenawa me pediu que escreves-
se para divulgar suas palavras, só pôde se concretizar graças a essa confiança e
parceria. Deita raízes na revolta e na angústia de Davi Kopenawa diante do
extermínio de seu povo pelos garimpeiros, no final da década de 1980. As gra-
vações que serviram de base para as sucessivas versões do manuscrito começa-
ram em dezembro de 1989 e prosseguiram, no ritmo de minhas viagens à ter-
ra yanomami ou de eventos indigenistas nas cidades, até o início da década de
2000. Trata-se, portanto, de um conjunto de falas, narrativas e conversas, gra-
vadas em yanomami, em geral sem roteiro, ao longo de mais de dez anos, a
respeito de sua vida, de seu saber xamânico e de sua experiência do mundo dos
brancos. Como todos terão desconfiado, recompor esse vasto e complexo ar-
quipélago de palavras yanomami no conjunto de capítulos de um texto desti-
nado à publicação em francês (e depois em português) não foi tarefa das mais
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simples: as vicissitudes dessa redação serão igualmente relatadas em detalhes
no Postscriptum que encerra este volume.
o livro
O depoimento de Davi Kopenawa é o primeiro relato interno sobre a
sociedade, a história recente e a cultura dos Yanomami desde a publicação de
Yanoama. Dal racconto di una donna rapita dagli Indi, a biografia de Helena
Valero, cativa dos Yanomami durante 24 anos, editada pelo biólogo italiano
Ettore Biocca em 1965. Sinal dos tempos: ainda que esses dois livros tratem de
experiências situadas em épocas sucessivas, um na Venezuela e o outro no
Brasil (Helena Valero volta à sociedade dos brancos em 1956, ano do nasci-
mento de Davi Kopenawa), a identidade e a trajetória dos narradores se in-
vertem.
Yanoama reconstituía as atribulações de uma menina brasileira captu-
rada pelos índios aos treze anos, em 1932, numa época em que os guerreiros
yanomami do interflúvio entre o alto rio Negro e o canal de Cassiquiare lu-
tavam para expulsar os coletores de produtos da floresta que estavam inva-
dindo suas terras.10
A narrativa de Davi Kopenawa, por sua vez, descreve o
itinerário pessoal e as meditações sobre os brancos de um xamã e porta-voz
yanomami contemporâneo. Cobre um período que vai de sua primeira in-
fância, antes do estabelecimento, em 1963, do primeiro posto missionário em
sua região natal, até sua singular odisseia pelo mundo dos brancos a partir da
década de 1970.
Contudo, este livro não é uma etnobiografia clássica. Não se trata de um
relato de vida solicitado e reconstruído por um “redator fantasma”, a partir de
seu próprio projeto de registro documental, à moda dos clássicos norte-ame-
ricanos do gênero no começo do século passado.11
Tampouco é uma autobio-
grafia pertencente a um gênero narrativo tradicional, transcrita e traduzida por
um antropólogo fazendo as vezes de mero secretário etnográfico. Os registros
do depoimento de Davi Kopenawa não cabem nos cânones autobiográficos
clássicos (nossos ou dos Yanomami).12
Os relatos dos episódios cruciais de sua
vida mesclam inextricavelmente história pessoal e destino coletivo. Ele se ex-
pressa por intermédio de uma imbricação complexa de gêneros: mitos e nar-
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51
rativas de sonho, visões e profecias xamânicas, falas reportadas e exortações
políticas, autoetnografia e antropologia simétrica. Além disso, este livro nasceu
de um projeto de colaboração situado na interseção, imprevisível e frágil, de
dois universos culturais. Sua produção, oral e escrita, foi portanto constante-
mente atravessada pelas visadas discursivas cruzadas de seus autores, um xamã
yanomami versado no mundo dos brancos e um etnógrafo com longa familia-
ridade com o de seus anfitriões.
Num momento crítico de sua vida e da existência de seu povo, Davi Ko-
penawa resolveu, em função de meu envolvimento intelectual e político junto
aos Yanomami, confiar-me suas palavras. Pediu-me que as pusesse por escrito
para que encontrassem um caminho e um público longe da floresta. Desejava
desse modo não apenas denunciar as ameaças que sofrem os Yanomami e a
Amazônia, mas também, como xamã, lançar um apelo contra o perigo que a
voracidade desenfreada do “Povo da Mercadoria” faz pesar sobre o futuro do
mundo humano e não humano. Os dizeres de Davi Kopenawa constroem, as-
sim, um complexo hipertexto cosmológico e etnopolítico, tecido num esforço
inédito de auto-objetivação e de persuasão, resultante de uma história e de um
engajamento pessoal que conferem a seu relato uma singularidade radical, in-
clusive no universo yanomami.
De minha parte, me esforcei por restituir a sensibilidade poética e a den-
sidade conceitual de suas palavras, numa tradução tão próxima quanto possí-
vel, mas evidentemente usando uma forma de escrita e de composição capaz
de torná-las mais facilmente acessíveis a um público de não especialistas. Além
disso, afora este breve prólogo e alguns outros elementos de peritexto (“Notas”,
“Postscriptum” e “Anexos”), postos tão discretamente quanto possível a servi-
ço de sua melhor compreensão, evitei deliberadamente soterrar as falas e nar-
rativas de Davi Kopenawa num quadro interpretativo redutor, ou entrecortá-
-las com lembretes complacentes de minha presença ou dos meus estados de
espírito. É oferecendo-as ao leitor assim, antes de qualquer comentário, em
toda a potência de sua alteridade singular, que espero ter honrado o melhor
que pude a tarefa de que ele me incumbiu, de fazer com que suas palavras
fossem ouvidas e tivessem efeito em nosso mundo.
Este livro é composto de três partes. A primeira (“Devir outro”) relata os
primórdios da vocação xamânica e, em seguida, a iniciação de Davi Kopenawa
sob a orientação do sogro. Descreve ainda sua concepção da cosmologia e do
12959 - A queda do céu.indd 51 8/10/15 12:29 PM
52
trabalho xamânico yanomami, com base no saber adquirido graças à escuta
dos antigos xamãs que o iniciaram. A segunda parte (“A fumaça do metal”)
trata do encontro — seu e de seu grupo, e depois de seu povo — com os bran-
cos. Abre com os rumores xamânicos que precederam os primeiros contatos e
termina com a irrupção mortífera dos garimpeiros, depois de passar pela che-
gada dos missionários e pela abertura da estrada Perimetral Norte. A terceira
parte (“A queda do céu”) evoca, ao contrário, o périplo realizado por Davi
Kopenawa para denunciar o extermínio dos seus e a devastação da floresta,
saindo da sua comunidade para visitar grandes cidades, primeiro no Brasil,
depois na Europa e nos Estados Unidos. Este último relato, construído na for-
ma de uma série de viagens xamânicas, é entremeado com meditações compa-
rativas a partir de uma etnografia crítica de certos aspectos de nossa sociedade,
e desemboca numa profecia cosmoecológica sobre a morte dos xamãs e o fim
da humanidade.
grafia, pronúncia e glossários
Para ter uma ideia da pronúncia das palavras e expressões yanomami
presentes neste livro, basta que o leitor tenha em mente algumas indicações
elementares (os sons não mencionados aqui correspondem aproximadamente
aos do português). No registro das vogais: ë equivale ao e mudo do francês e
do português europeu e i (i tachado) é pronunciado entre i e u. Quanto às
consoantes: hw
é pronunciado como um h aspirado, com os lábios em forma
de círculo, th
é pronunciado como um t seguido de um leve sopro. Para maio-
res informações sobre a língua falada por Davi Kopenawa e sua grafia, veja-se
o anexo i no final deste volume.
Todas as palavras e expressões yanomami citadas no texto estão em itáli-
co, enquanto as palavras que Davi Kopenawa às vezes diz em português, nas
gravações a partir das quais trabalhamos, estão assinaladas em negrito em sua
primeira ocorrência. A transcrição das onomatopeias, tão saborosas e finamen-
te codificadas em yanomami, foi limitada ao máximo para tornar o texto mais
leve. Por outro lado, foram mantidas algumas interjeições utilizadas de modo
recorrente para introduzir falas citadas. São elas: asi!, que indica raiva; awei!,
que marca aprovação; haixopë!, que denota a recepção (com aprovação) de uma
12959 - A queda do céu.indd 52 8/10/15 12:29 PM
53
informação nova; ha!, que marca a surpresa (satisfeita e/ou irônica); hou!, que
denota irritação; ma!, que expressa reprovação; e, finalmente, oae!, que marca
uma súbita lembrança.
A numeração atribuída aos 35 mitos (M4 a M362) citados nas notas cor-
responde à da compilação de Wilbert e Simoneau, na qual eu os publiquei em
1990 (ver referências bibliográficas). Os leitores mais curiosos poderão consul-
tar essa coletânea para aprofundar seu conhecimento da mitologia e da cosmo-
logia yanomami. A identificação das espécies vegetais e animais mencionadas
no texto é fornecida nos glossários reunidos no fim da obra, onde se encontram
também observações relativas a etnônimos e topônimos e às notas explicativas,
numeradas por capítulo. Todos os desenhos inseridos no texto foram feitos por
Davi Kopenawa.
B.A.
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mapas
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Terra Indígena Yanomami no Brasil
Le territoire yanomami au Brésil
(Terra Indígena Yanomami)
VENEZUELA
COLOMBIE
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PARAGUAY
URUGUAY
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ARGENTINE
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Terra indigena Yanomami
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VENEZUELA
BRASIL
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PARAGUAI
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CHILE
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BOLÍVIA
Brasília
Terra Indígena Yanomami
São Paulo
Rio de Janeiro
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Rio Solimões
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0 500 1000 km
Rio Amazonas
L
12959 - A queda do céu.indd 56 8/10/15 12:29 PM
Situação da Terra Indígena Yanomami
Situation de la Terra Indígena Yanomami
VENEZUELA
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Barcelos
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COLÔMBIA
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Barcelos
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Mapa detalhado da Terra Indígena Yanomami
(topônimos em português)
0 50 100 km
Altitude supérieure à 500 m
Limite du territoire yanomami au Brésil
(Terra Indígena Yanomami)
Autres Terres Indigènes
Limite Roraima/Amazonas
Venezuela
Route goudronnée
« Perimetrale Norte » (tronçon subsistant)
« Perimetrale Norte » (tronçon abandonné)
« Perimetrale Norte » (tracé prévu)
Capitale d’État
Villes
VENEZUELA
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Pico da Neblina
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Santa Isabel
do Rio Negro
Missão
Toototobi
Posto Balawaú
Posto
Surucucus
Cachoe
dos Índ
Altitude superior a 500 m
Limite da Terra Indígena
Yanomami no Brasil
Outras terras indígenas
Divisa Roraima-Amazonas
Venezuela
Estrada asfaltada
Perimetral Norte (parte restante)
Perimetral Norte (parte abandonada)
Perimetral Norte (traçado previsto)
Capital do estado
Cidades
VENEZUELA
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Rio Lobo d’Almada
Rio Novo
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Rio Jundiá
Jutaí
Rio Cutaíba
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Rio Uraricoera
Rio Apiaú
Rio Couto de Magalhães BOA VISTA
Alto Alegre
Caracaraí
Mucajaí
Iracema
Rorainópolis
Amajari
Posto
Ajarani
Posto Ajuricaba (Genipapo)
Missão
Catrimani
Posto
Demini
Antigo posto
Mapulaú
são
otobi
sto
ucus
Posto Paapiú
Posto
Ericó
Cachoeira
dos Índios
Vila
Surumu
Sentido Manaus
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SERRA MELO NUNES
BRASIL
Coupe
Coupe
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Mapa detalhado dos principais
topônimos citados em yanomami
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Altitude supérieure à 500 m
Zone des savanes ltitude de
la Serra Parima
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Frontière Bresil / Venezuela
Anciens sites
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0
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Altitude superior a 500 m
Área de savana
Limite da Terra Indígena Yanomami
Fronteira Brasil-Venezuela
Aldeias antigas
25 50 km
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Makuta asihipi
Hewë nahipi
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Localização das etnias citadas
Ye’kuana
Ye’kuana
Bahuana
Bahuana
Pauxiana
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Ye’kuana
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Ye’kuana
Bahuana
Bahuana
Pauxiana
Pauxiana
Ye’kuana
Ye’kuana
Makuxi
Taurepang
Wapixana
Taurepang
Makuxi
Wapixana
Waimiri-
Atroari
Waimiri-
Atroari
Tariano
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Warekena
Tariano
Tukano
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Tikuna
Maitha
Maitha
Watata si
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0 200 400 km
Rio Solimões
COLÔMBIA
VENEZUELA
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BOLÍVIA
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ATLÂNTICO
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PARAGUAI
Rio de Janeiro
São Paulo
Brasília
0 500 km
Detalhe do mapa abaixo
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L
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63
Palavras dadas
Gosto de explicar essas coisas para os brancos, para eles poderem
saber.
Davi Kopenawa*
Faz muito tempo, você veio viver entre nós e falava como um fantasma.1
Aos poucos, você foi aprendendo a imitar minha língua e a rir conosco. Nós
éramos jovens, e no começo você não me conhecia. Nossos pensamentos e
nossas vidas são diferentes, porque você é filho dessa outra gente, que chama-
mos de napë.2
Seus professores não o haviam ensinado a sonhar, como nós
fazemos. Apesar disso, você veio até mim e se tornou meu amigo. Você ficou
do meu lado e, mais tarde, quis conhecer os dizeres dos xapiri, que na sua lín-
gua vocês chamam de espíritos.3
Então, entreguei a você minhas palavras e lhe
pedi para levá-las longe, para serem conhecidas pelos brancos, que não sabem
nada sobre nós. Ficamos muito tempo sentados, falando, em minha casa, ape-
sar das picadas das mutucas e piuns. Poucos são os brancos que escutaram
nossa fala desse modo. Assim, eu lhe dei meu histórico, para você responder
aos que se perguntam o que pensam os habitantes da floresta. Antigamente,
nossos maiores4
não contavam nenhuma dessas coisas, porque sabiam que os
* Turner & Kopenawa, 1991, p. 63. Entrevista de Davi Kopenawa a Terence Turner, representan-
te da comissão especial da American Anthropological Association, formada em 1991 para inves-
tigar a situação dos Yanomami no Brasil
12959 - A queda do céu.indd 63 8/10/15 12:30 PM
64
brancos não entendiam sua língua. Por isso minha fala será algo de novo, para
aqueles que a quiserem escutar.
Mais tarde, eu disse a você: “Se quiser pegar minhas palavras, não as des-
trua. São as palavras de Omama5
e dos xapiri. Desenhe-as primeiro em peles
de imagens,6
depois olhe sempre para elas. Você vai pensar: “Haixopë! É essa
mesmo a história dos espíritos!”. E, mais tarde, dirá a seus filhos: “Estas pala-
vras escritas são as de um Yanomami, que há muito tempo me contou como
ele virou espírito e de que modo aprendeu a falar para defender a sua floresta”.
Depois, quando essas fitas em que a sombra das minhas palavras está presa
ficarem imprestáveis, não as jogue fora.7
Você só vai poder queimá-las quando
forem muito velhas e minhas falas tiverem já há muito tempo sido tornadas
desenhos que os brancos podem olhar. Inaha th
a? Está bem?
Como eu, você ficou mais experiente com a idade. Você desenhou e fixou
essas palavras em peles de papel, como pedi. Elas partiram, afastaram-se de
mim. Agora desejo que elas se dividam e se espalhem bem longe, para serem
realmente ouvidas. Eu lhe ensinei essas coisas para que você as transmita aos
seus; aos seus mais anciãos, aos seus pais e sogros, aos seus irmãos e cunhados,
às mulheres que você chama de esposas, aos rapazes que irão chamá-lo de sogro.
Se lhe perguntarem: “Como você aprendeu essas coisas?”, você responderá: “Mo-
rei muito tempo nas casas dos Yanomami, comendo sua comida. Foi assim que,
aos poucos, sua língua pegou em mim. Então, eles me confiaram suas palavras,
porque lhes dói o fato de os brancos serem tão ignorantes a seu respeito”.
Os brancos não pensam muito adiante no futuro. Sempre estão preocu-
pados demais com as coisas do momento. É por isso que eu gostaria que eles
ouvissem minhas palavras através dos desenhos que você fez delas; para que
penetrem em suas mentes. Gostaria que, após tê-las compreendido, dissessem
a si mesmos: “Os Yanomami são gente diferente de nós, e no entanto suas
palavras são retas e claras. Agora entendemos o que eles pensam. São palavras
verdadeiras! A floresta deles é bela e silenciosa. Eles ali foram criados e vivem
sem preocupação desde o primeiro tempo. O pensamento deles segue cami-
nhos outros que o da mercadoria. Eles querem viver como lhes apraz. Seu
costume é diferente. Não têm peles de imagens, mas conhecem os espíritos
xapiri e seus cantos. Querem defender sua terra porque desejam continuar
12959 - A queda do céu.indd 64 8/10/15 12:30 PM
65
vivendo nela como antigamente. Assim seja! Se eles não a protegerem, seus
filhos não terão lugar para viver felizes. Vão pensar que a seus pais de fato
faltava inteligência, já que só terão deixado para eles uma terra nua e queima-
da, impregnada de fumaças de epidemia e cortada por rios de águas sujas!”.
Gostaria que os brancos parassem de pensar que nossa floresta é morta e
que ela foi posta lá à toa. Quero fazê-los escutar a voz dos xapiri, que ali brin-
cam sem parar, dançando sobre seus espelhos resplandecentes. Quem sabe
assim eles queiram defendê-la conosco? Quero também que os filhos e filhas
deles entendam nossas palavras e fiquem amigos dos nossos, para que não
cresçam na ignorância. Porque se a floresta for completamente devastada, nun-
ca mais vai nascer outra. Descendo desses habitantes da terra das nascentes dos
rios, filhos e genros de Omama. São as palavras dele, e as dos xapiri, surgidas
no tempo do sonho, que desejo oferecer aqui aos brancos. Nossos antepassados
as possuíam desde o primeiro tempo. Depois, quando chegou a minha vez de
me tornar xamã, a imagem de Omama as colocou em meu peito. Desde então,
meu pensamento vai de uma para outra, em todas as direções; elas aumentam
em mim sem fim. Assim é. Meu único professor foi Omama. São as palavras
dele, vindas dos meus maiores, que me tornaram mais inteligente. Minhas
palavras não têm outra origem. As dos brancos são bem diferentes. Eles são
engenhosos, é verdade, mas carecem muito de sabedoria.
Eu não tenho velhos livros como eles, nos quais estão desenhadas as his-
tórias dos meus antepassados.8
As palavras dos xapiri estão gravadas no meu
pensamento, no mais fundo de mim. São as palavras de Omama. São muito
antigas, mas os xamãs as renovam o tempo todo. Desde sempre, elas vêm pro-
tegendo a floresta e seus habitantes. Agora é minha vez de possuí-las. Mais
tarde, elas entrarão na mente de meus filhos e genros, e depois, na dos filhos e
genros deles. Então será a vez deles de fazê-las novas. Isso vai continuar pelos
tempos afora, para sempre. Dessa forma, elas jamais desaparecerão. Ficarão
sempre no nosso pensamento, mesmo que os brancos joguem fora as peles de
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papel deste livro em que elas estão agora desenhadas; mesmo que os missioná-
rios, que nós chamamos de “gente de Teosi”,9
não parem de dizer que são
mentiras. Não poderão ser destruídas pela água ou pelo fogo. Não envelhecerão
como as que ficam coladas em peles de imagens tiradas de árvores mortas.
Muito tempo depois de eu já ter deixado de existir, elas continuarão tão novas
e fortes como agora. São essas palavras que pedi para você fixar nesse papel,
para dá-las aos brancos que quiserem conhecer seu desenho. Quem sabe assim
eles finalmente darão ouvidos ao que dizem os habitantes da floresta, e come-
çarão a pensar com mais retidão a seu respeito?
Eu, um Yamomani, dou a vocês, os brancos,
esta pele de imagem que é minha.
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devir outro
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1. Desenhos de escrita
Pintura corporal.
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Sem que soubéssemos, forasteiros decidiram subir os rios e entraram em
nossa floresta. Não sabíamos nada a seu respeito. Nem sequer sabíamos por
que queriam se aproximar de nós. Certo dia, chegaram até nossa casa grande
de Marakana, no alto Toototobi. Eu era bem pequeno. Quiseram me dar um
nome, “Yosi”.1
Mas achei-o muito feio e não aceitei. Soava como o nome de
Yoasi, o irmão mau de Omama. Pensei que tal nome levaria os meus a zomba-
rem de mim. Omama tinha muita sabedoria. Ele soube criar a floresta, as mon-
tanhas e os rios, o céu e o sol, a noite, a lua e as estrelas. Foi ele que, no primei-
ro tempo, nos deu a existência e estabeleceu nossos costumes. Ele também era
muito bonito. Seu irmão Yoasi, ao contrário, tinha a pele coberta de manchas
esbranquiçadas e só fazia coisas ruins.2
Por isso eu fiquei bravo. Mas esses
primeiros forasteiros logo foram embora e seu nome ruim foi junto.
Depois de algum tempo, outros brancos chegaram. Esses ficaram. Cons-
truíram casas para viver perto de nós. Repetiam sem parar o nome daquele que
os criou. Por isso, para nós, tornaram-se a gente de Teosi. Foram eles que me
nomearam “Davi”, antes mesmo de os meus familiares me darem um apelido,
conforme o costume dos nossos antigos. Os brancos me disseram que esse
nome vinha de peles de imagens em que estão desenhadas as palavras de Teo-
si. É um nome claro, que não se pode maltratar.3
Fiquei com ele desde então.
Antes de os brancos aparecerem na floresta, distribuindo seus nomes a
esmo,4
tínhamos os apelidos que nos davam nossos familiares. Porém, entre nós,
não são nem as mães nem os pais que dão nome às crianças. Estes só se dirigem
a seus filhos pequenos com o termo “õse!” [filho/filha], os quais chamam ambos
de “napa!” [mãe]. Mais tarde, quando crescerem, chamarão ao pai de outro
modo: “hw
apa!” [pai!].5
São os membros da família,6
tios, tias ou avós, que atri-
buem o apelido à criança. Em seguida, as outras pessoas da casa que o escuta-
ram começam a usá-lo. Depois, a criança cresce com esse apelido e aos poucos
ele se espalha de casa em casa. Quando se torna adulta, o nome acaba ficando
associado a ela.7
Assim, chamaram a um dos irmãos de minha mulher de Wari,
porque quando era pequeno resolveu plantar de brincadeira uma árvore wari
mahi atrás de sua casa. Minha mulher foi apelidada Rããsi, “Doentia”, pois fica-
va enferma a maior parte do tempo. Outros de nós se chamam Mioti, “Dormi-
nhoco”, Mamoki prei, “Olhos grandes”, ou Nakitao, “Fala alto”.8
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Contudo, na idade adulta, gente de longe, por maldade, às vezes acrescenta
outros apelidos aos da infância.9
Mas essas são palavras muito feias. Fazem isso
só para maltratar as pessoas que designam, pois entre nós é um insulto pronun-
ciar o nome de alguém em sua presença ou diante dos seus.10
Assim é. Não
gostamos de ouvir nosso nome, nem mesmo nosso apelido de criança. Isso nos
deixa furiosos de verdade. E se alguém o pronunciar em voz alta, vingamo-nos
em seguida, fazendo o mesmo. É assim que trocamos insultos, expondo nossos
nomes aos ouvidos de todos. De modo que aceitamos ter nomes, contanto que
fiquem longe de nós. São os outros que os usam, sem que saibamos. Mas acon-
tece às vezes de apelidos de infância serem pronunciados na presença das crian-
ças. Porém, assim que elas começam a crescer, isso deve acabar. Na adolescência,
ninguém quer mais ouvir esses apelidos. A pessoa fica furiosa de ouvir seu nome
ser pronunciado; tem vontade de se vingar e fica muito brava.
Quando me tornei homem, outros brancos resolveram me dar um nome
mais uma vez. Dessa vez, era o pessoal da Funai. Começaram a me chamar de
Davi “Xiriana”. Mas esse novo nome não me agradou. “Xiriana” é como são
chamados os Yanomami que vivem no rio Uraricaá, muito distante de onde eu
nasci.11
Eu não sou um “Xiriana”. Minha língua é diferente da dos que vivem
naquele rio. Apesar disso, tive de mantê-lo. Tive inclusive de aprender a dese-
nhá-lo quando fui trabalhar para os brancos, porque já o tinham desenhado
numa pele de papel.12
Meu último nome, Kopenawa, veio a mim muito mais tarde, quando me
tornei mesmo um homem. Esse é um verdadeiro nome yanomami. Não é nem
nome de criança nem um apelido que outros me deram. É um nome que ganhei
por conta própria.13
Na época, os garimpeiros tinham começado a invadir nos-
sa floresta. Tinham acabado de matar quatro grandes homens yanomami, lá
onde começam as terras altas, a montante do rio Hero u.14
A Funai me enviou
para lá para encontrar seus corpos na mata, no meio de todos aqueles garim-
peiros, que bem teriam gostado de me matar também. Não havia ninguém
para me ajudar. Tive medo, mas minha raiva foi mais forte. Foi a partir de
então que passei a ter esse novo nome.
Só os espíritos xapiri estavam do meu lado naquele momento. Foram eles
que quiseram me nomear. Deram-me esse nome, Kopenawa, em razão da fúria
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que havia em mim para enfrentar os brancos. O pai de minha esposa, o grande
homem de nossa casa de Watoriki, ao pé da montanha do vento, tinha me feito
beber o pó que os xamãs tiram da árvore yãkoana hi.15
Sob efeito do seu poder
vi descer em mim os espíritos das vespas kopena. Disseram-me: “Estamos com
você e iremos protegê-lo. Por isso você passará a ter esse nome: Kopenawa!”.
Esse nome vem dos espíritos vespa que beberam o sangue derramado por Aro-
wë, um grande guerreiro do primeiro tempo. Meu sogro fez suas imagens des-
cerem e as deu a mim com seu sopro de vida.16
Foi então que eu pude ver esses
espíritos vespa dançarem pela primeira vez.17
E quando contemplei também a
imagem de Arowë, de quem só tinha ouvido o nome até então, disse a mim
mesmo: “Haixopë! Então foi esse antepassado que pôs em nós a coragem guer-
reira! Esse é o verdadeiro rastro daquele que nos ensinou a bravura!”.18
Arowë nasceu nas terras altas, na floresta daqueles a quem chamamos Gen-
te da Guerra.19
Era muito agressivo e destemido.20
Atacava sem trégua as casas
próximas à sua. A cada vez, os parentes de suas vítimas cercavam-no e, por vin-
gança, flechavam-no, um após o outro. Depois, quando seu sopro parecia ter
parado e ele aparentava estar mesmo morto, abandonavam seu cadáver coberto
de sangue no chão da floresta. Então, os guerreiros matadores21
diziam a si mes-
mos: “Está bom, ele vai apodrecer aqui e nosso rancor será apaziguado!”, e iam
embora, satisfeitos com a vingança. A uma dada altura, exaustos, faziam uma
parada na mata e, despreocupados, tomavam banho num igarapé. Contudo, o
cadáver de Arowë sempre voltava à vida depois de ter sido abandonado. Era tão
resistente que ninguém podia acabar com ele. Voltava a si e saía no encalço de seus
agressores, alcançava-os e flechava-os, até o último. Acontecia sempre do mesmo
modo. Ninguém conseguia matar Arowë. Ele era mesmo muito tenaz e belicoso.
Com o passar do tempo, seus inimigos, perplexos, perguntavam-se: “O
que faremos? Como conseguiremos fazer com que morra para sempre?”. Al-
guém propôs: “Vamos decapitá-lo!”. Todos concordaram e se puseram logo a
caminho para tentar acabar com ele. Crivaram de novo o corpo de Arowë de
flechas e, dessa vez, não se contentaram em deixá-lo por morto no chão da
floresta. Cortaram-lhe a cabeça e, assim, apesar de todos os seus esforços, Aro-
wë não foi mais capaz de escapar da vingança de seus inimigos. Recobrou um
sopro de vida e tentou recolocar a própria cabeça no pescoço várias vezes, mas
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em vão. Acabou morrendo mesmo. Então, seu fantasma se dividiu e se propa-
gou para longe, em todas as direções. Foi assim que ele nos ensinou a coragem
guerreira. Que os brancos não pensem que os Yanomami são valentes à toa.
Devemos nossa valentia a Arowë.22
O cadáver decapitado de Arowë jazia sobre as folhas secas que cobriam o
solo. Todo o seu sangue tinha se esparramado pelo chão, aos poucos. Então, as
vespas da floresta se reuniram com as formigas xiho e kaxi nas folhas ensan-
guentadas para se fartarem. Foi assim, sorvendo o sangue de Arowë, que elas
ficaram agressivas, e sua picada, tão dolorosa. Quando vemos um ninho de
vespas numa árvore, não ousamos chegar perto. São muitas as vespas na mata,
e outras tantas suas imagens. Por isso também as fazemos descer como espíri-
tos xapiri, para atacar os seres maléficos23
ou flechar os xapiri guerreiros dos
xamãs distantes. Passei a ter o nome de Kopenawa porque se parece com o dos
espíritos vespa cujas imagens vi beber o sangue do grande guerreiro Arowë
quando tomei o pó de yãkoana. Assim recebi esse nome para defender os meus
e proteger nossa terra, pois foi Arowë, no primeiro tempo, que ensinou a bra-
vura a nossos antepassados.
Se os brancos não tivessem entrado em nossa floresta quando eu era crian-
ça, com certeza eu teria me tornado um guerreiro e, tomado pela raiva, teria
flechado outros Yanomami por vingança. Cheguei a pensar nisso. Mas nunca
matei ninguém. Sempre contive meus maus pensamentos acima de mim e fiquei
quieto, lembrando-me dos brancos. Dizia a mim mesmo: “Se eu flechar um dos
nossos, esses forasteiros que cobiçam a floresta dirão que sou mau e não tenho
nenhuma sabedoria. Não farei isso, porque são eles que nos matam com suas
doenças e suas espingardas. Hoje, é contra eles que devo dirigir meu rancor”.
Assim, pouco a pouco, meu nome foi ficando mais longo. Primeiro foi Da-
vi, o nome que os brancos me atribuíram na infância, depois foi Kopenawa, o
que me deram mais tarde os espíritos vespa. E por fim acrescentei Yanomami,
que é palavra sólida que não pode desaparecer, pois é o nome do meu povo. Eu
não nasci numa terra sem árvores. Minha carne não vem do esperma de um
branco.24
Sou filho dos habitantes das terras altas da floresta e caí no solo da va-
gina de uma mulher yanomami. Sou filho da gente à qual Omama deu a existên-
cia no primeiro tempo. Nasci nesta floresta e sempre vivi nela. Hoje, meus filhos
e netos, por sua vez, nela crescem. Por isso meus dizeres são os de um verdadei-
ro yanomami. São palavras que me ficaram na solidão, depois da morte de meus
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antigos. São palavras que os espíritos me deram em sonho e também palavras
que vieram a mim escutando as maledicências dos brancos a nosso respeito.
Estão enraizadas com firmeza no fundo de meu peito. São essas as palavras que
eu gostaria de fazer ouvir, agora, com a ajuda de um branco que pode fazer com
que sejam escutadas por aqueles que não conhecem nossa língua.
Vocês não me conhecem e nunca me viram. Vivem numa terra distante.
Por isso quero que conheçam o que os nossos antigos me ensinaram. Quando
eu era mais jovem, não sabia nada. Depois, pouco a pouco, comecei a pensar
por conta própria. Hoje, todas as palavras que os antigos possuíam antes de mim
são claras em minha mente. São palavras desconhecidas pelos brancos, que
guardamos desde sempre. Desejo, portanto, falar-lhes do tempo muito remoto
em que os ancestrais animais se metamorfosearam e do tempo em que Omama
nos criou, quando os brancos ainda estavam muito longe de nós. No primeiro
tempo, o dia não acabava nunca. A noite não existia. Para copular sem serem
vistos, nossos ancestrais tinham de se esconder na fumaça de suas fogueiras.
Afinal flecharam os grandes pássaros da noite, os Titi kiki, que choravam no-
meando os rios, para que a escuridão descesse sobre eles.25
Além disso, eles se
transformavam em caça sem parar. Assim, foi depois de todos terem virado ani-
mais, depois de o céu ter caído, que Omama nos criou tais como somos hoje.26
Nossa língua é aquela com a qual ele nos ensinou a nomear as coisas. Foi
ele que nos deu a conhecer as bananas, a mandioca e todo o alimento de nossas
roças,27
bem como todos os frutos das árvores da floresta. Por isso queremos
proteger a terra em que vivemos. Omama a criou e deu a nós para que vivês-
semos nela. Mas os brancos se empenham em devastá-la, e, se não a defender-
mos, morreremos com ela.
Nossos antepassados foram criados nesta floresta há muito tempo. Ainda
não sei muito a respeito desse primeiro tempo. Por isso penso muito nele. As-
sim meus pensamentos, quando estou só, nunca são calmos. Busco no fundo
de mim as palavras desse tempo distante em que os meus vieram a existir.
Pergunto-me como seria a floresta quando era ainda jovem e como viviam
nossos ancestrais antes da chegada das fumaças de epidemia28
dos brancos.
Tudo o que sei é que, quando essas doenças ainda não existiam, o pensamento
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de nossos maiores era muito forte. Viviam na amizade entre os seus e guerrea­
vam para se vingar de inimigos. Eram como Omama os havia criado.
Hoje, os brancos acham que deveríamos imitá-los em tudo. Mas não é o
que queremos. Eu aprendi a conhecer seus costumes desde a minha infância e
falo um pouco a sua língua. Mas não quero de modo algum ser um deles. A
meu ver, só poderemos nos tornar brancos no dia em que eles mesmos se
transformarem em Yanomami. Sei também que se formos viver em suas cida-
des, seremos infelizes. Então, eles acabarão com a floresta e nunca mais deixa-
rão nenhum lugar onde possamos viver longe deles. Não poderemos mais ca-
çar, nem plantar nada. Nossos filhos vão passar fome. Quando penso em tudo
isso, fico tomado de tristeza e de raiva.
Os brancos se dizem inteligentes. Não o somos menos. Nossos pensamen-
tos se expandem em todas as direções e nossas palavras são antigas e muitas.
Elas vêm de nossos antepassados. Porém, não precisamos, como os brancos,
de peles de imagens para impedi-las de fugir da nossa mente. Não temos de
desenhá-las, como eles fazem com as suas. Nem por isso elas irão desaparecer,
pois ficam gravadas dentro de nós. Por isso nossa memória é longa e forte. O
mesmo ocorre com as palavras dos espíritos xapiri, que também são muito
antigas. Mas voltam a ser novas sempre que eles vêm de novo dançar para um
jovem xamã, e assim tem sido há muito tempo, sem fim. Nossos xamãs mais
antigos nos dizem: “Agora é sua vez de responder ao chamado dos espíritos.
Se pararem de fazê-lo, ficarão ignorantes. Perderão seu pensamento e por mais
que tentem chamar a imagem de Teosi para arrancar seus filhos dos seres ma-
léficos, não conseguirão”.
As palavras de Omama e as dos xapiri são as que prefiro. Essas são minhas
de verdade. Nunca irei rejeitá-las. O pensamento dos brancos é outro. Sua
memória é engenhosa, mas está enredada em palavras esfumaçadas e obscuras.
O caminho de sua mente costuma ser tortuoso e espinhoso. Eles não conhecem
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de fato as coisas da floresta. Só contemplam sem descanso as peles de papel em
que desenharam suas próprias palavras. Se não seguirem seu traçado, seu pen-
samento perde o rumo. Enche-se de esquecimento e eles ficam muito ignoran-
tes. Seus dizeres são diferentes dos nossos. Nossos antepassados não possuíam
peles de imagens e nelas não inscreveram leis. Suas únicas palavras eram as que
pronunciavam suas bocas e eles não as desenhavam, de modo que elas jamais
se distanciavam deles. Por isso os brancos as desconhecem desde sempre.
Eu não aprendi a pensar as coisas da floresta fixando os olhos em peles de
papel. Vi-as de verdade, bebendo o sopro de vida de meus antigos com o pó de
yãkoana que me deram. Foi desse modo que me transmitiram também o sopro
dos espíritos que agora multiplicam minhas palavras e estendem meu pensa-
mento em todas as direções. Não sou um ancião e ainda sei pouco. Entretanto,
para que minhas palavras sejam ouvidas longe da floresta, fiz com que fossem
desenhadas na língua dos brancos. Talvez assim eles afinal as entendam, e
depois deles seus filhos, e mais tarde ainda, os filhos de seus filhos. Desse mo-
do, suas ideias a nosso respeito deixarão de ser tão sombrias e distorcidas e
talvez até percam a vontade de nos destruir. Se isso ocorrer, os nossos não mais
morrerão em silêncio, ignorados por todos, como jabutis escondidos no chão
da floresta.
A imagem de Omama disse a nossos antepassados: “Vocês viverão nesta
floresta que criei. Comam os frutos de suas árvores e cacem seus animais.
Abram roças para plantar bananeiras, mandioca e cana-de-açúcar. Deem gran-
des festas reahu!29
Convidem uns aos outros, de diferentes casas, cantem e
ofereçam muito alimento aos seus convidados!”. Não disse a eles: “Abandonem
a floresta e entreguem-na aos brancos para que a desmatem, escavem seu solo
e sujem seus rios!”. Por isso quero mandar minhas palavras para longe. Elas
vêm dos espíritos que me acompanham, não são imitações de peles de imagens
que olhei. Estão bem fundo em mim. Faz muito tempo que Omama e nossos
ancestrais as depositaram em nosso pensamento e desde então nós as temos
guardado. Elas não podem acabar. Se as escutarem com atenção, talvez os bran-
cos parem de achar que somos estúpidos. Talvez compreendam que é seu pró-
prio pensamento que é confuso e obscuro, pois na cidade ouvem apenas o ruído
de seus aviões, carros, rádios, televisores e máquinas. Por isso suas ideias cos-
tumam ser obstruídas e enfumaçadas. Eles dormem sem sonhos, como macha-
dos largados no chão de uma casa. Enquanto isso, no silêncio da floresta, nós,
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xamãs, bebemos o pó das árvores yãkoana hi, que é o alimento dos xapiri.
Estes então levam nossa imagem para o tempo do sonho. Por isso somos capa-
zes de ouvir seus cantos e contemplar suas danças de apresentação enquanto
dormimos. Essa é a nossa escola, onde aprendemos as coisas de verdade.
Omama não nos deu nenhum livro mostrando os desenhos das palavras
de Teosi, como os dos brancos. Fixou suas palavras dentro de nós. Mas, para que
os brancos as possam escutar, é preciso que sejam desenhadas como as suas. Se
não for assim, seu pensamento permanece oco. Quando essas antigas palavras
apenas saem de nossas bocas, eles não as entendem direito e as esquecem logo.
Uma vez coladas no papel, permanecerão tão presentes para eles quanto os
desenhos das palavras de Teosi, que não param de olhar.30
Isso talvez os faça
dizer: “É verdade, os Yanomami não existem à toa. Não caíram do céu. Foi
Omama que os criou para viverem na floresta”. Por enquanto, os brancos con-
tinuam mentindo a nosso respeito, dizendo: “Os Yanomami são ferozes. Só pen-
sam em fazer guerra e roubar mulheres. São perigosos!”. Tais palavras são nos-
sas inimigas e nós as odiamos. Se fôssemos ferozes de verdade, forasteiro algum
jamais teria vivido entre nós.31
Ao contrário, tratamos com amizade os que
vieram à nossa terra para nos visitar. Moraram em nossas casas e comeram
nossa comida. Essas palavras torcidas são mentiras de maus convidados. Ao
retornarem a suas casas, poderiam ter dito a todos, ao contrário: “Os Yanomami
amarraram minha rede em sua casa e com generosidade me ofereceram sua
comida. Que vivam na floresta como seus antepassados antes deles! Que seus
filhos sejam muitos e sempre saudáveis! Que continuem caçando, dando festas
reahu e fazendo dançar seus espíritos xapiri!”.
Em vez disso, nossas palavras foram enredadas numa língua de fantasma,
cujos desenhos tortos se espalharam entre os brancos, por toda parte. E acaba-
ram voltando para nós. Foi doloroso e revoltante para nós, pois tornaram-se
palavras de ignorância. Não queremos mais ouvir essas velhas palavras a nosso
respeito. Pertencem aos maus pensamentos dos brancos. Tampouco quero
ouvi-los repetir: “As palavras dos Yanomami para defender a floresta são men-
tira. Ela logo estará vazia. Eles são poucos e vão todos virar brancos!”. Por isso
quero fazer com que essas palavras ruins sejam esquecidas e substituídas pelas
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minhas, que são novas e direitas. Ao escutá-las, os brancos não poderão mais
pensar que somos como seres maléficos ou caça na floresta.
Quando seus olhares acompanharem o traçado de minhas palavras, vocês
saberão que estamos ainda vivos, pois a imagem de Omama nos protege. En-
tão, poderão pensar: “Eis aí belas palavras! Os Yanomami continuam vivendo
na floresta como seus antepassados. Residem em grandes malocas, onde dor-
mem em suas redes, perto de suas fogueiras. Comem banana e mandioca de
suas roças. Flecham os animais na floresta e pescam peixes em seus rios. Pre-
ferem sua comida aos alimentos mofados dos brancos, fechados em caixinhas
de ferro ou estojos de plástico. Convidam uns aos outros, de casas diferentes,
para dançar durante suas grandes festas reahu. Fazem descer seus espíritos
xapiri. Falam sua própria língua. Seus cabelos e olhos continuam semelhantes
aos de Omama. Não viraram brancos. Continuam vivendo nas mesmas terras
que, do alto de nossos aviões, parecem vazias e silenciosas. Nossos pais já
causaram a morte de muitos de seus maiores. Não devemos continuar nesse
mau caminho”.32
Longe de nossa floresta, há muitos outros povos além de nós. Contudo,
nenhum deles tem um nome semelhante ao nosso. Por isso devemos continuar
vivendo na terra em que Omama nos deixou no primeiro tempo. Somos seus
filhos e genros. Mantemos o nome que nos deu. Desde que nos encontraram,
os brancos não param de nos perguntar: “Quem são vocês? De onde vêm? Co-
mo se chamam?”. Querem saber o que nosso nome, Yanomami, significa. Por
que tamanha insistência? Alegam que é para pensar direito. Achamos que, ao
contrário, isso é ruim para nós. Que resposta lhes daremos?33
Queremos prote-
ger nosso nome. Não nos agrada repeti-lo a torto e a direito. Seria maltratar a
imagem de Omama. Não é assim que falamos. Por isso, ninguém quer respon-
der às suas perguntas.
Somos habitantes da floresta. Nossos ancestrais habitavam as nascentes
dos rios muito antes de os meus pais nascerem, e muito antes do nascimento
dos antepassados dos brancos. Antigamente, éramos realmente muitos e nossas
casas eram muito grandes. Depois, muitos dos nossos morreram quando che-
garam esses forasteiros com suas fumaças de epidemia e suas espingardas. Fi-
camos tristes, e sentimos a raiva do luto demasiadas vezes no passado. Às vezes
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até tememos que os brancos queiram acabar conosco. Porém, a despeito de
tudo isso, depois de chorar muito e de pôr as cinzas de nossos mortos em es-
quecimento,34
podemos ainda viver felizes. Sabemos que os mortos vão se jun-
tar aos fantasmas de nossos antepassados nas costas do céu, onde a caça é
abundante e as festas não acabam. Por isso, apesar de todos esses lutos e pran-
tos, nossos pensamentos acabam se acalmando. Somos capazes de caçar e de
trabalhar de novo em nossas roças. Podemos recomeçar a viajar pela floresta e
a fazer amizade com as pessoas de outras casas. Recomeçamos a rir com nossos
filhos, a cantar em nossas festas reahu e a fazer dançar os nossos espíritos xa-
piri. Sabemos que eles permanecem ao nosso lado na floresta e continuam
mantendo o céu no lugar.
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2. O primeiro xamã
O filho de Omama.
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81
Foi Omama que criou a terra e a floresta, o vento que agita suas folhas e
os rios cuja água bebemos. Foi ele que nos deu a vida e nos fez muitos. Nossos
maiores nos deram a ouvir seu nome desde sempre. No começo, Omama e seu
irmão Yoasi vieram à existência sozinhos. Não tiveram pai nem mãe. Antes
deles, no primeiro tempo, havia apenas a gente que chamamos yarori.1
Esses
ancestrais eram humanos com nomes de animais e não paravam de se trans-
formar. Assim, foram aos poucos se tornando os animais de caça que hoje
flechamos e comemos. Então, foi a vez de Omama vir a existir e recriar a flo-
resta, pois a que havia antes era frágil. Virava outra sem parar, até que, final-
mente, o céu desabou sobre ela. Seus habitantes foram arremessados para de-
baixo da terra e se tornaram vorazes ancestrais de dentes afiados a quem
chamamos aõpatari.2
Por isso Omama teve de criar uma nova floresta, mais sólida, cujo nome
é Hutukara. É também esse o nome do antigo céu que desabou outrora. Oma-
ma fixou a imagem dessa nova terra e esticou-a aos poucos, cuidadosamente,
do mesmo modo como espalhamos o barro para fazer placas de cerâmica
mahe.3
Em seguida, cobriu-a com pequenos traços apertados, pintados com
tintura de urucum, parecidos com desenhos de palavras. Depois, para evitar
que desabasse, plantou nas suas profundezas imensas peças de metal, com as
quais também fixou os pés do céu.4
Sem isso, a terra teria ficado arenosa e
quebradiça e o céu não teria permanecido no lugar. Mais tarde, com o metal
que ficou, depois de fazer com que ficasse inofensivo, Omama também fabricou
as primeiras ferramentas de nossos ancestrais.5
Finalmente, assentou as mon-
tanhas na superfície da terra, para evitar que as ventanias de tempestade a fi-
zessem tremer e assustassem os humanos. Também desenhou o primeiro sol,
para nos dar luz. Mas era por demais ardente e ele teve de rejeitá-lo, destruin-
do sua imagem. Então, criou aquele que vemos até hoje no céu, bem como as
nuvens e a chuva, para poder interpô-los quando esquenta demais. Isso ouvi
os antigos contarem.
Omama criou também as árvores e as plantas, espalhando no solo, por
toda parte, as sementes de seus frutos. Os grãos germinaram na terra e deram
origem a toda a floresta em que vivemos desde então. Foi assim que cresceram
as palmeiras hoko si, maima si e rioko si, as árvores apia hi, komatima hi, maki-
na hi, oruxi hi e todas as outras de que tiramos nosso alimento. No início, seus
galhos eram nus. Depois, frutos se formaram. Então, Omama criou as abelhas,
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que vieram morar nelas e sorver o néctar das flores com que produzem seus
vários tipos de mel.
No início, também não existiam os rios; as águas corriam debaixo da ter-
ra, bem fundo. Só se ouvia seu ronco, ao longe, como o de fortes corredeiras.
Formavam um enorme rio que os xamãs nomeiam Motu uri u. Certo dia, Oma-
ma trabalhava em sua roça com o filho, que começou a chorar de sede. Para
matar-lhe a sede, ele perfurou o solo com uma barra de metal.6
Quando a tirou
da terra, a água começou a jorrar violentamente em direção ao céu e jogou
para longe o menino que se aproximara para bebê-la. Lançou também para o
céu todos os peixes, raias e jacarés. Subiu tão alto que um outro rio se formou
nas costas do céu, onde vivem os fantasmas de nossos mortos. Em seguida, a
água foi se acumulando na terra e começou a correr em todas as direções, for-
mando os rios, os igarapés e os lagos da floresta.
No início, nenhum ser humano vivia ali. Omama e seu irmão Yoasi viviam
sozinhos. Nenhuma mulher existia ainda. Os dois irmãos só vieram a conhecer
a primeira mulher muito mais tarde, quando Omama pescou a filha de Tëpërë-
siki num grande rio.7
No início, Omama copulava na dobra do joelho de seu
irmão Yoasi. Com o passar do tempo, a panturrilha deste ficou grávida, e foi
assim que Omama primeiro teve um filho.8
Porém, nós, habitantes da floresta,
não nascemos assim. Nós saímos, mais tarde, da vagina da esposa de Omama,
Th
uëyoma,9
a mulher que ele tirou da água. Os xamãs fazem descer sua imagem
desde sempre. Chamam-na também Paonakare. Era um ser peixe que se deixou
capturar na forma de uma mulher. Assim é. Se Omama não a tivesse pescado
no rio, talvez os humanos continuassem a copular atrás do joelho!
Mais tarde, Omama ficou furioso com seu irmão Yoasi, porque este, con-
tra a sua vontade, tinha feito surgir na floresta os seres maléficos das doenças,
os në wãri,10
e também os da epidemia xawara, que, como eles, são comedores
de carne humana. Yoasi era mau e seu pensamento, cheio de esquecimento.
Omama era quem tinha criado o sol que não morre nunca. Não falo aqui do
sol moth
oka, cujo calor cobre a floresta, e que é visto pelas pessoas comuns, mas
da imagem do sol.11
Assim é. O sol e a lua têm imagens que só os xamãs são
capazes de fazer descer e dançar. Elas têm a aparência de humanos, como nós,
mas os brancos não são capazes de conhecê-las.
Omama queria que fôssemos imortais, como o ser sol chamado de Mo-
th
okari  12
pelos xamãs. Queria fazer bem as coisas e pôr em nós um sopro de
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vida realmente sólido. Por isso, buscou na floresta uma árvore de madeira
dura para colocá-la de pé e imitar a forma de sua esposa. Escolheu para tanto
uma árvore fantasma pore hi, cuja pele se renova continuamente. Queria in-
troduzir a imagem dessa árvore em nosso sopro de vida, para que este perma-
necesse longo e resistente.13
Assim, quando envelhecêssemos, poderíamos mu-
dar de pele e esta ficaria sempre lisa e jovem. Teria sido possível rejuvenescer
continuamente e não morrer nunca. Era o que Omama desejava. No entanto,
Yoasi, aproveitando-se da ausência do irmão, tratou de colocar na rede da
mulher de Omama a casca de uma árvore de madeira fibrosa e mole, a que
chamamos kotopori usihi. Então, a casca acabou se dobrando num lado da
rede e começou a pender para o chão. Imediatamente, os espíritos tucano co-
meçaram a entoar seus pungentes lamentos de luto.14
Omama ouviu-os e ficou
furioso com o irmão. Mas era tarde demais, o mal estava feito. Yoasi tinha nos
ensinado a morrer para sempre. Tinha introduzido a morte, esse ser maléfico,
em nossa mente e em nosso sopro,15
que por esse motivo se tornaram tão frá-
geis. Desde então, os humanos estão sempre perto da morte. Também por isso
às vezes chamamos os brancos de Yoasi th
ëri, Gente de Yoasi. Suas mercadorias,
suas máquinas e suas epidemias, que não param de nos trazer a morte, também
são, para nós, rastros do irmão mau de Omama.
Foi também Yoasi que criou o ser lua Poriporiri. Por isso este também não
para de morrer. Poriporiri é um homem que viaja todas as noites através da
imensidão do céu, sentado em sua canoa, como uma espécie de avião. No co-
meço, é um rapaz, mas, dia após dia, vai envelhecendo. Quando termina sua
viagem, está seco e seus cabelos ficaram brancos. Ele acaba morrendo. Então,
suas filhas começam a chorar por ele sem descanso, junto com os espíritos
tucano. Suas lágrimas se tornam fortes chuvas que caem longamente na flores-
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ta. Depois de algum tempo, quando o corpo do pai já se decompôs, elas reco-
lhem seus ossos com cuidado. Então eles desabrocham novamente e Poripori-
ri volta à vida. Assim é. O ser lua é também coisa da morte. Yoasi quis assim
porque lhe faltava sabedoria. Omama, ao contrário, queria realmente que fôs-
semos eternos. Se tivesse estado só, não morreríamos jamais e nosso sopro de
vida sempre teria o mesmo vigor. Mas não foi assim e, infelizmente, Yoasi fez
nossos ancestrais se tornarem outros.
Por isso Omama finalmente criou os xapiri, para podermos nos vingar das
doenças16
e nos proteger da morte a que nos sujeitou seu irmão mau. Então ele
criou os espíritos da floresta urihinari, os espíritos das águas mãu unari e os
espíritos animais yarori. Depois, escondeu-os, até que seu filho se tornasse
xamã, no topo das montanhas e nas profundezas do mato. Antes, eu achava
que os xapiri tinham vindo a existir por si sós, mas estava enganado. Mais
tarde, quando pude vê-los e ouvir seus cantos, realmente entendi quem eram.
O pai de minha esposa conta também que foi a esposa de Omama, a mulher
das águas, quem primeiro pediu que os xapiri fossem trazidos à existência.
Somos seus filhos e nossos antepassados tornaram-se numerosos a partir dela.
Por isso, depois de ter procriado, perguntou ao marido: “O que faremos para
curar nossos filhos se ficarem doentes?”. Era essa a sua preocupação. O pensa-
mento do marido, Omama, continuava no esquecimento. Por mais que seu
espírito buscasse, ele se perguntava em vão o que poderia ainda criar. A mulher
das águas lhe disse então: “Pare de ficar aí pensando, sem saber o que fazer.
Crie os xapiri, para curarem nossos filhos!”. Omama concordou: “Awei! São
palavras sensatas. Os espíritos irão afugentar os seres maléficos. Arrancarão
deles a imagem dos doentes e as trarão de volta para seus corpos!”. Foi assim
que ele fez aparecer os xapiri, tão numerosos e poderosos quanto os conhece-
mos hoje.
Mais tarde, o filho de Omama tornou-se um rapaz e seu pai quis que ele
aprendesse a fazer dançar os xapiri para poder tratar os seus. Buscou uma ár-
vore yãkoana hi na floresta e disse ao filho: “Com esta árvore, você irá preparar
o pó de yãkoana! Misture com as folhas cheirosas maxara hana e as cascas das
árvores ama hi e amath
a hi e depois beba! A força da yãkoana revela a voz dos
xapiri. Ao bebê-la, você ouvirá a algazarra deles e será sua vez de virar espírito!”.
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Depois, soprou yãkoana nas narinas do filho com um tubo de palmeira horo-
ma.17
Omama então chamou os xapiri pela primeira vez e disse: “Agora, é sua
vez de fazê-los descer. Se você se comportar bem e eles realmente o quiserem,
virão a você para fazer sua dança de apresentação e ficarão ao seu lado. Você
será o pai deles. Assim, quando seus filhos adoecerem, você seguirá o caminho
dos seres maléficos que roubaram suas imagens para combatê-los e trazê-las de
volta! Você também fará descer o espírito japim ayokora18
para regurgitar os
objetos daninhos que você terá arrancado de dentro dos doentes. Assim você
poderá realmente curar os humanos!”. Foi desse modo que Omama revelou a
seu filho — o primeiro xamã — o uso da yãkoana e lhe ensinou a ver os espíri-
tos que acabara de trazer à existência. Nossos maiores continuaram a seguir o
rastro de suas palavras até hoje. Por isso, continuamos a beber yãkoana para
fazer os xapiri dançar. Não fazemos isso à toa. Fazemos porque somos habitan-
tes da floresta, filhos e genros de Omama.
O filho de Omama escutou atentamente as palavras do pai e concentrou
seu pensamento nos xapiri. Entrou em estado de fantasma e tornou-se outro.19
Então pôde contemplar a beleza da dança de apresentação dos espíritos. Tor-
nou-se xamã depressa, porque soube demonstrar amizade a todos. Os xapiri já
tinham o olhar fixado nele desde que era bem pequeno e seu pai tinha falado
a respeito deles muitas vezes. Agora, tinha crescido e eles finalmente tinham
vindo em grande número. Podia vê-los descer, resplandecentes de luz, e escu-
tar seus cantos melodiosos. Então, exclamou: “Pai! Agora conheço os espíritos
e eles se juntaram do meu lado! De agora em diante, os humanos vão poder se
multiplicar e combater as doenças!”. Omama era o único a conhecer os xapiri
e os deu ao filho porque, se morresse sem ter ensinado suas palavras, jamais
teria havido xamãs na floresta. Não queria que os humanos ficassem sem nada
e causassem dó. Por isso, fez de seu filho o primeiro xamã. Deixou-lhe o cami-
nho dos xapiri antes de desaparecer. Foi o que ele quis.
Disse a ele estas palavras: “Com estes espíritos, você protegerá os humanos
e seus filhos, por mais numerosos que sejam. Não deixe que os seres maléficos
e as onças venham devorá-los. Impeça as cobras e escorpiões de picá-los. Afas-
te deles as fumaças de epidemia xawara. Proteja também a floresta. Não deixe
que se transforme em caos. Impeça as águas dos rios de afundá-la e a chuva de
inundá-la sem trégua. Afaste o tempo encoberto e a escuridão. Segure o céu,
para que não desabe. Não deixe os raios caírem na terra e acalme a gritaria dos
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trovões! Impeça o ser tatu-canastra Wakari de cortar as raízes das árvores e o
ser do vendaval Yariporari de vir flechá-las e derrubá-las!”. Essas foram as
palavras que Omama deu ao filho. Por isso, até hoje os xamãs continuam de-
fendendo os seus e a floresta. Mas também protegem os brancos, apesar de
serem outra gente, e todas as terras, até as mais imensas e distantes.
O filho de Omama primeiro tomou yãkoana com o pai. Depois continuou
a bebê-la sozinho, mais e mais, para chamar cada vez mais espíritos e poder
conhecer todos os seus cantos. Era deslumbrante quando fazia dançar suas
imagens. Era um rapaz muito bonito, tinha a pele coberta de urucum bem
vermelho e desenhos de um negro brilhante. Suas braçadeiras de crista de mu-
tum prendiam muitas caudais de arara-vermelha, pingentes de rabo de tucano
e buquês de penas paixi.20
Tinha os olhos escuros, e os cabelos cobertos de
penugem hõromae, de um branco resplandecente.21
Tinha também uma pele
de rabo de macaco cuxiú-negro em torno da cabeça.22
Dançava lentamente,
com as costas bem curvadas para trás. Ver a beleza dos xapiri o enchia de feli-
cidade. Chamava-os e os fazia descer sem parar. Trazia-os no pensamento, de
verdade. Era assim porque tinha sido gerado pelo esperma de Omama, que é
o criador dos xapiri.
Acho que o filho de Omama, hoje, está morto. Sua imagem, porém, ainda
existe, muito longe daqui, onde os rios deságuam, do lado do nascer do sol, ou
talvez no céu. Eu a vi no tempo do sonho, junto com a de nossa floresta, aos
prantos. Esta, doente e transformada em fantasma pelas fumaças de epidemia,
pedia aos xapiri para curá-la e acabar com o sofrimento causado pelo furor dos
brancos. Implorava-lhes que limpassem as árvores e tornassem suas folhas bri-
lhantes de novo; que fizessem crescer suas flores e lhe devolvessem a fertilidade.
Dizia a eles: “Vocês são meus, devem vingar-me!”. Vejo tudo isso em sonho
porque, tornado fantasma com a yãkoana durante o dia, o meu interior se trans-
formou.23
Senão, eu não poderia falar assim.
O filho de Omama foi o primeiro a virar espírito, antes de qualquer outro.
Foi o primeiro a estudar e a ver as coisas com a yãkoana. Depois dele, muitos
de nossos ancestrais se tornaram xamãs. Ele lhes mostrou como fazer dançar
os espíritos. Disse a eles, como Omama lhe havia ensinado: “Quando os seres
maléficos da floresta capturarem a imagem de seus filhos para devorá-la,24
os
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87
xapiri irão recuperá-la e vingá-los!”. Foi seguindo essas palavras que os nossos
maiores se puseram a beber pó de yãkoana e a admirar o esplendor dos espíri-
tos. É isso que fazemos até hoje. Por isso é tão comum ver os xamãs trabalhan-
do em nossas casas.25
Sem eles, seriam vazias e silenciosas. Assim é. Essas pa-
lavras são antigas mas nunca vão desaparecer, porque são muito bonitas e o
valor delas é muito alto.
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3. O olhar dos xapiri
Espírito xapiri.
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Quando eu era bem pequeno, meu pensamento ainda estava no esqueci-
mento. Entretanto, costumava ver em sonho seres assustadores que chamamos
yai th
ë.1
Por isso era comum me ouvirem falar e chorar durante a noite. Vivía-
mos então em Marakana, uma antiga casa no alto rio Toototobi.2
Só alguns
meninos de nossa casa sonhavam assim. Não sabíamos o que nos atrapalhava
o sono, mas eram já os xapiri que vinham a nós. Por isso, mais tarde, uma vez
adultos, quisemos beber o pó de yãkoana para nos tornarmos xamãs. As outras
crianças cresceram sem jamais ter entendido o que nos amedrontava tanto.
Foi nessa época que vi os espíritos pela primeira vez. Era noite, e o calor
do fogo me adormecia aos poucos na rede de minha mãe. Passado algum tem-
po, as imagens dos xapiri começaram a descer em minha direção. Faziam com
que eu me tornasse fantasma e me enviavam o sonho.3
Um caminho de luz se
estendia então diante de meus olhos, e seres desconhecidos vinham ao meu
encontro. Pareciam surgir de muito longe, mas eu conseguia enxergá-los. Pa-
reciam humanos minúsculos, com os cabelos cobertos de penugem branca e
uma faixa de rabo de macaco cuxiú-negro amarrada ao redor da testa.
Aproximavam-se bem devagar, mergulhados numa luz ofuscante, agitan-
do folhas de palmeira hoko si amarelas. Com enfeites de caudais de arara-
-vermelha e uma profusão de buquês de penas paixi brilhantes e coloridas nos
braços, cobertos de urucum, lançavam gritos ensurdecedores, como um grupo
de convidados chegando a uma festa reahu. Eram muitos, e fixavam seus olhos
sobre mim. Era bonito, mas assustador, pois eu jamais tinha visto espíritos até
então.
Quando eles por fim se aproximavam de mim, meu ventre caía de medo.
Eu não entendia o que estava acontecendo comigo. Começava a chorar e gritar,
chamando minha mãe. Depois, acordava em sobressalto e ouvia sua voz doce
dizendo: “Não chore. Você não vai mais sonhar, não tenha medo. Agora, dur-
ma sem chorar. Acalme-se”. Muito mais tarde, já xamã, compreendi que os
seres inquietantes que tinha visto em meus sonhos eram espíritos de verdade.
Então, pensei: “Eram os xapiri mesmo que vinham a mim! Por que não res-
pondi a eles antes?”.4
Naquele tempo, os espíritos vinham me visitar o tempo todo. Queriam
mesmo dançar para mim; mas eu tinha medo deles. Esses sonhos duraram
toda a minha infância, até eu me tornar adolescente. Primeiro, eu via a clari-
dade cintilante dos xapiri se aproximando, depois eles me pegavam e me leva-
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vam para o peito do céu. É verdade, eu costumava sobrevoar a floresta em meus
sonhos! Meus braços se transformavam em asas, como as de uma grande arara-
-vermelha. Eu podia então contemplar o topo das árvores abaixo de mim, como
de um avião. Mas às vezes, de repente, começava a despencar no vazio e entra-
va em pânico. Então meu sonho era interrompido e eu acordava aos prantos.
Não era à toa que eu sonhava que voava com tanta frequência. Os xapiri
não paravam de carregar minha imagem para as alturas do céu com eles. É o
que acontece quando eles observam com afeto uma criança adormecida para
que se torne um xamã. Dizem a si mesmos: “Mais tarde, quando ela crescer,
dançaremos ao seu lado!”; e continuam prestando atenção. Assim, não param
de fazê-la sonhar, e de assustá-la. Por isso ela vira fantasma quando dorme.
Não está doente, mas se agita na rede, chorando e gritando. A ponto de alguns
adultos da casa ficarem irritados por serem acordados pela choradeira. Mas
não é manha. Só as crianças que veem os xapiri em sonho gritam durante a
noite. Não fosse por isso, dormiriam sossegadas, como as outras crianças.
Em meus sonhos, os espíritos amarravam as cordas de minha rede bem
alto no céu. Era como se longas antenas de rádio fossem esticadas ao meu lado
e funcionassem como caminhos para os xapiri e seus cantos chegarem até mim,
assim como o caminho das palavras do telefone dos brancos. Eu ficava deitado,
bem calmo, mas sentia minha rede crescendo e crescendo. Depois, era como
se eu também estivesse ficando cada vez maior, junto com ela. Apesar de eu
não passar de um menino, tinha a sensação de ficar imenso. Olhava ao meu
redor, mas tudo o que via era um grande vazio. Dava vertigem. O peito do céu
parecia estar perto, ao alcance de minhas mãos. Vinha de lá um rumor, como
o da gritaria dos grupos de dançarinos nas festas reahu: “Aõ! Aõ! Aõ!  
”. Eram
os xapiri que vinham na minha direção, dançando, mas eu não conseguia dis-
tingui-los ainda muito bem. Depois de algum tempo, tudo cessava. Eu come-
çava a acordar, com dificuldade, ainda me sentindo enorme. Então, quando eu
voltava ao tamanho normal, pensava, aflito: “Continuo pequeno! Como é que
eu pude ficar tão enorme?”, e acabava voltando a dormir.
Em outros momentos, eu via de novo a floresta a partir do peito do céu.
Porém, dessa vez, uma grande montanha de pedra aparecia de repente, tão
alta quanto a que se vê de nossa casa de Watoriki. Elevava-se em silêncio, per-
to de mim. Na verdade, estava bem distante, mas sua imagem quase tocava em
mim. Eu não tirava os olhos de suas encostas. Tinha medo, e me perguntava:
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“O que é isso? O que está acontecendo comigo?”. Bem mais tarde, compreendi
por que costumava ver essa serra de pedra em sonho. Omama criou as monta-
nhas para esconder o caminho que tomou ao fugir. Elas não estão na floresta
à toa. Embora pareçam ser impenetráveis aos olhos de quem não é xamã, na
verdade são casas de espíritos.5
Contudo, naquele tempo, eu era bem pequeno,
e não sabia nada a esse respeito. Não sabia ainda quem são os xapiri, nem
mesmo sabia de verdade que existiam!
Também costumava sonhar que animais me atacavam na floresta. O pri-
meiro que me lembro de ter visto foi uma grande anta. Parecia muito ameaça-
dora e começou a me perseguir. Eu tive medo de ser pisoteado, por isso subi
depressa numa árvore, para escapar. Mas ela começou a crescer cada vez mais
e, por fim, me alcançou nas alturas. Agachado num galho, imóvel, eu a obser-
vava se aproximando, morto de medo. Então, no momento exato em que ia me
pegar, gritei e acordei de repente. Mais tarde entendi que era a imagem do
ancestral Anta, Xamari, que queria dançar para mim.6
Também costumava ser aterrorizado em sonho por uma enorme onça. Ela
seguia minhas pegadas na floresta e se acercava cada vez mais. Eu corria o mais
rápido possível, mas não conseguia despistá-la. Acabava tropeçando na vege-
tação emaranhada e caía diante dela, que então pulava sobre mim. Mas bem
no instante em que ela ia me comer eu acordava, chorando. Às vezes, eu ten-
tava fugir dela trepando numa árvore. Mas ela vinha atrás de mim, subindo
pelo tronco com suas garras afiadas. Amedrontado, eu me escondia nos galhos
mais altos. Não tinha mais para onde escapar. A única coisa que eu podia fazer
para me salvar era me jogar do alto da árvore na qual eu tinha me refugiado.
Desesperado, eu agitava os braços no vazio, como asas, e, de repente, conseguia
voar! Planava em círculos, bem alto acima da floresta, como um urubu. No
final, me via de pé, numa outra floresta, noutra margem, e a onça temida não
podia mais me alcançar.
Às vezes eu era perseguido, em meus sonhos, por um bando de queixadas.
Eles me perseguiam para me pisotear e me morder. Eu podia ouvir suas temí-
veis presas batendo atrás de mim, na mata. Mas conseguia me livrar delas,
subindo numa árvore e, ao chegar ao topo, voava mais uma vez no peito do
céu. Em outros sonhos, me via perto de um olho-d’água, preso na lama por
uma enorme sucuri, que tentava me sufocar e me engolir. Ou ainda pescava na
beira de um rio quando dele saía de surpresa um enorme jacaré preto, que se
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arrastava em minha direção. Eu saía correndo, mas ele me perseguia, e eu não
conseguia deixá-lo para trás, apesar da dificuldade que ele tinha em se movi-
mentar pelo mato rasteiro.
Acontecia também de eu sonhar que inimigos atacavam nossa casa. Eram
gente das terras altas, moradores do lugar chamado Hw
axi th
a, nas nascentes
do Orinoco e do Parima. Esses guerreiros, cobertos de pintura preta,7
surgiam
de repente no meio de nossa casa de Marakana e começavam a disparar suas
flechas em todas as direções. Eu sentia muito medo. As cordas de seus arcos
estalavam sem parar e meus maiores, atingidos pelas flechadas, iam caindo um
após o outro. Então, eu tentava fugir, esgueirando-me para fora da casa. Mas
um grupo de guerreiros começava a me perseguir. Eu corria com todas as mi-
nhas forças pela floresta para escapar deles. Subia um morro e em seguida es-
calava uma montanha íngreme. Chegando ao topo, saltava e, mais uma vez,
conseguia alçar voo. Os guerreiros então ficavam parados em cima de um ro-
chedo e me acompanhavam com os olhos, sem poder fazer nada. Então eu saía
do meu sono.
Outras vezes, sonhava que trepava numa grande árvore rapa hi de flores
amarelas. Subia com cuidado, me agarrando ao tronco. Passava além dos seus
galhos principais e prosseguia até o topo. De lá, podia avistar a floresta longe,
em todas as direções. Via outras casas, um grande rio, montanhas e colinas.
Via também macacos-aranha pulando de árvore em árvore, papagaios voando
e bandos de queixadas fuçando o solo. Era muito bonito. Depois de algum
tempo, ficava com vontade de descer. Então olhava para baixo e, de repente,
todos os galhos pelos quais tinha subido pareciam estar fora de alcance. Preo-
cupado, pensava: “Como vou descer? Em que vou me apoiar?”. Não sabia o que
fazer. Tentava abraçar o tronco, mas sua casca ficava cada vez mais escorrega-
dia. De repente, minhas mãos se soltavam. Eu então despencava no vazio bem
depressa, direto para o chão. Nesse instante eu acordava de repente. Aterrori-
zado, perguntava a mim mesmo: “O que aconteceu comigo?”.
Outras vezes ainda, eu respondia ao chamado das mulheres das águas que
chamamos de mãuyoma.8
São as filhas de Tëpërësiki, o sogro de Omama; as
irmãs da esposa que este pescou no primeiro tempo. Eu mergulhava nas pro-
fundezas de um grande rio para me juntar a elas. Para minha grande surpresa,
sem me molhar nem um pouco, chegava ao interior de uma grande casa. Tudo
ali era seco e via-se tão bem como no exterior. O sol refletido acima na super-
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fície da água iluminava-lhe a praça central. Eu ficava de pé, sem mover um
dedo, olhando com calma ao meu redor. Várias portas davam para caminhos
abertos na floresta. Eu observava o movimento das filhas e noras de Tëpërësiki,
que entravam e saíam da casa com seus filhos. Achava-as muito bonitas. Ape-
sar de morrer de medo do pai delas, não podia parar de admirá-las. Mas assim
que tentava segui-las, acordava de sobressalto. Às vezes, bastava eu me virar
em direção à porta pela qual tinha entrado para o sonho acabar. Então, lamen-
tava muito não ter podido ficar na casa da gente das águas.
No dia seguinte, perguntava a meu padrasto:9
“De quem é a casa debaixo
do rio que eu vi no meu sono? Era tão bonita, gostaria de ter ficado admiran­
do-a por mais tempo”. Ele então me explicava com gentileza: “Você foi à casa
onde o sogro de Omama vive com os espíritos peixe, os espíritos jacaré e os
espíritos sucuri. Os xapiri estão começando a querê-lo de verdade. Mais tarde,
quando você se tornar adolescente, se quiser conhecer o poder da yãkoana,
abrirei de verdade os caminhos deles para você”. Esse sonho se repetia muito,
pois quando eu era criança passava bastante tempo pescando nos rios. Por isso
a gente das águas não parava de capturar minha imagem, para me fazer sonhar.
Às vezes, eram imagens de outros seres desconhecidos que se apresen-
tavam a mim durante o sono, como a do japim ayokora. Os enfeites deles
eram deslumbrantes, de muitas cores reluzentes. Sua dança de apresentação
e seus cantos eram magníficos. Ao contrário dos demais, esse espírito não me
dava medo. Sentia-me feliz por poder admirá-lo. Acontecia também de eu
ver o espírito lua, que parece um humano envolto por um halo de claridade
intensa. Voava em minha direção e chegava bem perto de mim, e de repente
começava a dar gargalhadas. Mostrava seus caninos proeminentes, enquanto
sua barba e seus cabelos luminosos tremulavam na escuridão. Depois, desa-
parecia de repente, do lado da jusante do céu, onde o sol se levanta.10
Ainda
me lembro dessa imagem que me apavorava tanto! Os seres desconhecidos
que apareciam em meus sonhos de criança eram espíritos xapiri que me olha-
vam e se interessavam por mim. Naquela época, eu ainda não sabia disso.
Todas as imagens que via em sonho me deixavam muito apreensivo. Só bem
mais tarde, quando meus antigos me deram de beber o poder da yãkoana,
compreendi que, desde aquele tempo, tinham vindo ao meu encontro para
que eu me tornasse um xamã.
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Quando eu chorava ou gritava durante a noite, as pessoas de nossa casa
costumavam ficar irritadas. Então, meu padrasto, com paciência, explicava a
eles: “Os espíritos olham esse menino e ele se comporta como um fantasma.
Por isso geme e fala durante o sono”. Assim como minha mãe, ele cuidava
muito bem de mim. Era um homem de sabedoria, um grande xamã. Quando
eu acordava aos prantos, à noite, ele me tranquilizava, dizendo: “Saia desse
sonho, volte desse estado de fantasma! Não tenha medo! São os ancestrais
animais yarori que você está vendo. Quando você crescer, se quiser, farei com
que beba pó de yãkoana e eles construirão sua casa junto de você. Então será
sua vez de poder chamá-los”.11
Depois, fazia passes sobre mim com as duas
mãos, enquanto soprava. Eu ia me acalmando aos poucos. Porém, alguns dias
depois, tudo recomeçava. Os xapiri voltavam a mim, incontáveis. Retomavam
sua dança de apresentação numa luz ofuscante e desapareciam assim que eu
acordava. Meu padrasto me consolava de novo: “Não tema! Você vai crescer e,
quando for adulto, será um grande xamã, deveras capaz de fazer dançar os
espíritos. Protegerá seus filhos e as pessoas de sua casa contra os seres maléficos
e saberá curá-los quando adoecerem”. Ao escutar essas palavras, eu me acal-
mava e voltava a dormir.
Como eu, meu filho mais velho se inquietou muito durante a infância.
Nunca teve o sono tranquilo. Os espíritos também tinham posto os olhos nele.
Sonhava que caçava, que viajava. Costumava ver os espíritos dançando à noite.
Então, eu dizia a mim mesmo que, mais tarde, seria a minha vez de fazê-lo
beber yãkoana. Mas agora que ele se tornou adulto, não sei se ainda vê os xa-
piri durante o sono. Tornou-se professor e está sempre muito ocupado com as
palavras dos brancos. Talvez tenha medo de esquecer os desenhos de palavras
que aprendeu12
se concentrar seu pensamento nos espíritos. Talvez tenha sido
enfraquecido por pensar demais nas mulheres. Não sei. Quando eu era criança,
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meu padrasto sempre me manteve longe das mulheres. Cuidou de mim para
que eu pudesse me tornar xamã de verdade.
Minha mãe, ele, minha irmã e eu vivíamos afastados dos outros. Costu-
mávamos morar numa casinha no lugar chamado de Th
ooth
oth
opi, longe das
pessoas da casa grande de Marakana.13
De modo que eu não vivia na compa-
nhia de suas filhas e irmãs. Por isso, quando criança, eu temia as mulheres.
Quando acontecia de eu me encontrar perto delas, dizia: “Não se aproximem!
Não quero sentir o cheiro das folhas de mel puu hana que enfeitam seus braços!
Eu viraria a cabeça e ficaria enjoado”. É verdade, o perfume dessas folhas afu-
genta os espíritos, que temem aquelas que as usam como se fossem seres peri-
gosos. Se os rapazes começarem a copular cedo demais, os espíritos não virão
dançar para eles. Ficam enojados com o seu cheiro de pênis e os consideram
sujos. Não vêm mais visitar seus sonhos. Do mesmo modo, detestam os jovens
caçadores que comem suas próprias presas. Estes também não sonham.14
Assim
é. Os xapiri preferem os meninos que crescem sem olhar para as mulheres.
Quando se é jovem, o bom é andar sempre na floresta. É ruim ficar pen-
sando o tempo todo em mulheres e em comer suas vulvas.15
É deplorável passar
as noites a desejá-las a ponto de atravessar a casa engatinhando para encontrá-
-las às escondidas em suas redes.16
Melhor preocupar-se em ser bom caçador,
sempre ficando atento à caça na floresta. Só desse modo um rapaz pode agradar
aos espíritos, que então virão a ele por pensar que ele lhes pertence. Assim, mais
tarde, estarão dispostos a dançar para fazer dele um xamã.
Foi o que me aconteceu quando era menino. Cresci passando meu tempo
na floresta e foi assim que comecei, pouco a pouco, a ver os xapiri. Ficava con-
centrado na caça e, durante a noite, as imagens dos ancestrais animais se apre-
sentavam a mim. Seus enfeites e pinturas brilhavam de modo cada vez mais
nítido em meus sonhos. Podia também escutá-los quando falavam e quando
gritavam. Esse tipo de coisa acontecia muito às crianças dos nossos maiores,
no tempo em que os brancos ainda estavam longe da nossa floresta. Mas, des-
de que eles se aproximaram de nós, os meninos e os rapazes não são mais como
éramos antigamente. Hoje, é comum terem medo do poder da yãkoana. Te-
mem morrer e às vezes chegam a mentir para si mesmos, pensando que um dia
poderão virar brancos.17
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Quando eu era menino, também costumava adoecer. Era muito frágil. Os
seres maléficos da floresta e os da epidemia não paravam de implicar comigo.
Com o tempo, os xamãs começaram a se cansar de trabalhar tanto para me
curar. Então, estenderam minha imagem numa tipoia yaremaxi   18
e a esconde-
ram na casa do espírito morcego. A salvo, na escuridão, ficava fora do alcance
dos predadores. Por mais que eles procurassem por toda parte, não conseguiam
mais encontrá-la. Assim faziam os antigos xamãs. Para protegerem as criancinhas
das doenças, eles às vezes também as escondiam na canoa do espírito anta.19
Sua própria filha cuidava dos pequenos: lavava-os, ninava-os, brincava com eles
enquanto navegava pelas águas, longe dos seres famintos de carne humana. Foi
assim que eu finalmente parei de ficar doente com tanta frequência.
Conforme tiravam as doenças de meu corpo com seus passes, os xamãs
mais velhos de nossa casa iam também colocando em mim, aos poucos, as
imagens de enfeites preciosos que são dos xapiri.20
Amarraram em meus braços
braçadeiras de crista de mutum e botaram nelas penas caudais de arara. Colo-
caram penas de papagaio nos lóbulos de minhas orelhas. Cobriram meus ca-
belos de penugem branca e amarraram uma faixa de rabo de macaco cuxiú-
-negro em torno de minha testa. Nenhum desses enfeites era visível aos olhos
de fantasma da gente comum. Mas suas imagens estavam lá, presas a mim com
firmeza, e protegiam o menininho que eu era. Alertavam os espíritos quando
seres maléficos se aproximavam. Eles então tinham tempo de avisar seus pais,
os xamãs, que assim podiam afugentá-los a tempo.
Os xamãs daquele tempo também me adornaram com os enfeites do es-
pírito anta, para que eu me tornasse um grande caçador.21
Pois quando um
rapaz usa esses objetos preciosos, as antas se apaixonam por ele. Preferem-no
a qualquer outro. Quando o veem andando na floresta, pensam: “Que caçador
magnífico! Está à minha procura, devo ir em sua direção!”. Sem isso, nenhuma
anta iria se deixar flechar com tanta facilidade, só para aplacar a fome de carne
dos anciãos! Assim, acho que os xamãs amarram esses enfeites no braço dos
meninos para que, mais tarde, cacem para eles, e não lhes falte carne de caça
na velhice.
Graças a todos esses enfeites, os xapiri me olhavam com carinho e eu
sempre via suas imagens em sonho. A vinda dessas imagens coloca as crianças
em estado de fantasma durante o sono, como acontecia comigo. Isso também
aconteceu com a mais velha de minhas três filhas. Penachos de penas paixi dos
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espíritos foram colocados nela também quando era ainda bebê! Ela sonhava
muito e muitas vezes gritava de medo durante a noite. Entrava com facilidade
em estado de fantasma. Poderia ter se tornado xamã.22
Os espíritos olhavam
para ela com interesse, como haviam feito comigo. Quando ainda era uma
menininha, antes de sua primeira menstruação, ela às vezes me dizia: “Pai! Mais
tarde, quando eu for mais forte, eu gostaria muito de ver a beleza dos espíritos
como você. Você vai me dar yãkoana para beber!”. Mas, agora, é adulta e está
casada. Talvez ainda sonhe com os espíritos, mas não fala mais nisso. Seu pen-
samento está ocupado com muitas outras coisas.
Às vezes, os xapiri fixam seu olhar nas crianças só porque bebem mel
demais.23
Nós o preparamos diluindo-o em água; as crianças gostam dessa be-
bida. Um de meus cunhados, que também era um grande xamã, me dava bas-
tante quando eu era pequeno. Dizia: “Beba este mel que acabo de preparar para
você! Quando você crescer, poderá fazer dançar os espíritos, como eu!”. Era bem
doce, eu gostava e tomava muito mesmo. Em seguida, satisfeito, eu caía no sono.
Entrava logo em estado de fastasma e começava a sonhar. Via tudo com tanta
clareza quanto em pleno dia. Ouvia gritos, vozes e silvos agudos. Via os animais
correndo na floresta e, ao longe, os xapiri, dançando com alegria. Depois os
espíritos abelha se aproximavam de mim para brincar. Eu ficava então mergu-
lhado numa luz tão intensa que me assustava e eu acabava em prantos. Assim
era. O mel é o alimento preferido dos espíritos e, quando as crianças tomam
muito mel, os xapiri aparecem muito em seus sonhos, mesmo que elas ainda
não sejam capazes de reconhecê-los.
Quando fiquei maior, às vezes o irmão de minha mãe, meu padrasto e
outros xamãs de nossa casa me ofereciam um pouco de pó de yãkoana.24
Assim,
quando se reuniam para afastar os espíritos maléficos e eu estava brincando
nas proximidades, eles me chamavam: “Venha cá! Experimente o poder da
yãkoana! Entre em estado de fanstasma e, mais tarde, você se tornará xamã!”.
Eu ficava um tanto intimidado, mas mesmo assim aceitava algumas pitadas que
eu tomava sozinho, ou então me aproximava deles para soprarem um pouco
em minhas narinas. Ficava muito curioso quanto ao que poderia ver. Deitava
em minha rede e ficava assim, parado. Aos poucos ia virando fantasma e, quan-
do anoitecia, sonhava sem parar. Então, podia ver as magníficas imagens dos
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ancestrais animais, dos espíritos do céu e dos rios. Isso me acontecia muitas
vezes, pois quando eu era pequeno, gostava de experimentar o pó de yãkoana.
Foi assim que me fizeram crescer.
Meus parentes mais velhos também me davam um pouco no final de fes-
tas reahu, quando os homens a tomam juntos, no centro da casa, antes de da-
rem início aos seus diálogos yãimuu.25
Faziam-me cheirar um pouco, duas ou
três vezes. Aí, a força da yãkoana me pegava e em seguida me fazia morrer.26
Eu rolava e me debatia no chão, como um fantasma. Não via mais nada à minha
volta, nem a casa, nem seus moradores.27
Gemia e chamava minha mãe: “Na-
paaa! Napaaa!”. Minha pele permanecia estirada no chão, enquanto os xapiri
pegavam minha imagem e a levavam para longe, muito ligeiros. Eu voava com
eles até as costas do céu, onde vivem os mortos, ou para o mundo subterrâneo
dos ancestrais aõpatari. No final, me traziam de volta ao lugar onde jazia minha
pele e eu recobrava consciência. Nessa época, eu estava mais crescido e já não
tinha nenhum medo do poder da yãkoana. Sem ela, eu não teria visto todas
essas coisas em meus sonhos. Não foi mingau de banana nem mingau de pu-
punha que me fez sonhar quando criança!28
Menos ainda o perfume inebrian-
te das folhas de mel usadas pelas mulheres!
Se os xamãs mais velhos de minha casa não me tivessem feito beber o pó
de yãkoana, eu não teria sido capaz de matar minha primeira anta quando
ainda era bem novo e, uma vez adulto, não teria jamais vindo a ser bom caçador.
Sim, é verdade, matei minha primeira anta sozinho, e mal tinha chegado à
adolescência!29
Tudo porque eu já tinha visto em sonho a imagem desse ances-
tral animal. Assim foi. Eu tinha saído para caçar sozinho. Meu padrasto me
havia emprestado sua espingarda, recém-trocada com os brancos.30
Já tinha
caminhado durante bastante tempo na floresta quando, de repente, percebi uma
forma escura na beira do caminho. Tive medo e pensei, inquieto: “O que pode
estar assim deitado no mato?”. Então, reconheci a sombra de uma anta. Vi seus
olhos fitando-me na penumbra. Fiquei apavorado. Meu coração batia no peito
e pensei: “E se de repente ela me atacar? As antas são perigosas! Se eu atirar
nela, ela vai se virar para me morder ou me pisotear”. Então recuei e comecei a
tomar o caminho de volta correndo. Eu já tinha sonhado com antas ou outros
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animais — queixadas, veados e jacarés — que me perseguiam na floresta para
me machucar. Por isso saí correndo daquele modo!
Não fui muito longe, porém. Parei de correr e esperei que meu pensamen-
to voltasse a ficar calmo. Voltei sem fazer barulho para a anta, que continuava
deitada no mesmo lugar. Olhou para mim de novo. Dessa vez, fiquei calmo.
Olhei com o canto dos olhos e localizei uma árvore na qual poderia subir se ela
decidisse me atacar. Em seguida, fabriquei uma peconha de cipó masi e encai-
xei meus pés nela.31
Depois, devagar, mirei e atirei. Assim que o estrondo do
cartucho soou, joguei a espingarda no chão depressa e subi na árvore. Mas a
anta, apesar de ferida, não quis me atacar como eu achei que fosse. Rolou no
chão soltando um grunhido de dor e logo tentou fugir na direção oposta. Ao
ver isso, perdi todo o medo, desci de meu refúgio, e enfiei outro cartucho em
minha espingarda. A anta continuava deitada, exposta, e ainda tentando se
levantar. Mirei de novo, me aproximando dela, e atirei. Dessa vez, ela morreu
no ato.
Aí voltei para nossa casa correndo e, assim que cheguei, me precipitei até
meu padrasto para anunciar a novidade: “Xoape!32
Acabo de matar uma anta
com a sua espingarda!”. Ele parecia mesmo surpreso e, na hora, não acreditou:
“Você não está mentindo? É verdade? Onde ela está?”. Respondi orgulhoso: “É
verdade! Não está longe daqui, rio abaixo, onde está o tronco tombado de uma
árvore rapa hi!”. Ele ainda não parecia estar convencido: “Está morta mesmo?”.
Insisti, com energia: “Awei! Está caída na beira do caminho! É verdade!”. Afi-
nal, ele resolveu exortar nossos familiares: “Vamos trinchar a anta que meu
enteado acaba de matar!”. Depois fomos todos juntos buscar a carne do animal,
que é muito pesado.
Meu padrasto aproveitou para me dizer que eu tinha feito bem em aban-
donar minha presa na floresta. Ensinou-me que, quando se mata uma anta, é
melhor não tocá-la e nem mesmo respirar seu cheiro. Deve-se deixá-la onde
caiu e voltar depois com parentes para trazer a carne. Caso contrário, o caçador
que a matou corre o risco de ficar panema para sempre. Depois dessa, matei
muitas outras antas. Mas essa foi a primeira mesmo. Eu sonhava sem parar
naquela época, por isso me tornei bom caçador. Agora, já não sou tão bom.
Trabalhei demais com os brancos na floresta e eles me fizeram comer minhas
próprias presas muitas vezes. Isso me fez perder a habilidade na caça.
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Quando se é criança, aprende-se a pensar direito aos poucos. Vamos nos
dando conta de que os xapiri existem mesmo e de que as palavras dos maiores
são verdadeiras. Compreendemos pouco a pouco que os xamãs não agem como
fantasma à toa. Depois de um tempo, o pensamento se concentra nas palavras
dos espíritos e a vontade de vê-los fica muito grande. Nos apegamos à ideia de
que um dia vamos poder pedir aos xamãs mais experientes para soprarem pó
de yãkoana em nosso nariz e eles nos darão os cantos de seus espíritos.33
Foi
assim que aconteceu comigo antigamente. Os xapiri vinham muito me visitar
em sonho. Desse modo, começaram a me conhecer bem. Diziam para mim:
“Como você responde ao nosso chamado, vamos dançar para você e pendurar
nossas redes na sua casa de espíritos”. Durante toda a minha infância, nunca
parei de ouvir seu chamado. Mais tarde, tornei-me adolescente, e então jovem
adulto, e isso continuou. Nunca dormia sem vê-los descer para mim. Deixaram
de me amedrontar e parei de chorar durante a noite. Mas eu continuava falando
e gritando durante o sono. De manhã, meus familiares me perguntavam: “O
que está acontecendo? Você está se tornando xamã?”. Eu apenas respondia que
não sabia.
Entre nós, é assim. Primeiro os xapiri olham com afeto para a pessoa,
quando é criança. Então ela fica sabendo que estão interessados nela e que vão
esperar até ficar adulta para se revelarem de verdade. Depois, conforme cresce,
eles continuam a observá-la e a testá-la. Por fim, se a pessoa quiser, pode pedir
aos xamãs mais velhos de sua casa para lhe darem yãkoana para beber. Eles
então abrirão para ela os caminhos pelos quais os espíritos virão dançar e cons-
truir sua casa. Durante a infância, vira-se fantasma de vez em quando, nada
mais. Só se pode conhecer os xapiri de verdade depois de ter bebido yãkoana
por muito tempo. A partir daí, eles não saem mais de seu sonho. É assim que
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alguém se torna de fato um homem espírito! Então, durante o tempo do sonho,
os xamãs veem apenas a dança de apresentação dos xapiri. Não pensam mais
em seus filhos, sua roça, nos que visitam sua casa ou na vulva de sua mulher,
como fazem os homens comuns.
Com os filhos de xamã as coisas se passam de outro modo. Eles nasceram
do esperma dos espíritos.34
Assim, tornam-se outros antes mesmo de começar
a beber o pó de yãkoana. São os xapiri que seu pai tinha que copularam com
sua mãe para fazê-los nascer. Por isso, na verdade, eles não provêm do esperma
de seu pai humano. É mesmo o xamã quem come a vulva de sua esposa, sim,
mas, por intermédio dele, são seus xapiri que a engravidam. Assim é. Os filhos
de xamã nascem e tornam-se espíritos sozinhos. Seguem o caminho de seus
pais. As mulheres da gente das águas yawarioma apoderam-se deles assim que
ficam adolescentes para levá-los para sua casa no fundo dos rios. Contudo,
isso só ocorre se tiverem mesmo a floresta no pensamento e passarem a maior
parte do tempo caçando, sem prestar atenção nas mulheres. Os espíritos olham
os hábeis caçadores com bons olhos. Sabem que eles gostam da caça, que se-
guem sem descanso as pistas de suas presas e as flecham com habilidade. Assim,
andando o tempo todo pela floresta, os rapazes acabam tornando-se outros
durante o sono. Começam a sonhar com os xapiri sem parar. Estes os olham e
se apaixonam por eles. Dizem a si mesmos: “Queremos descer e instalar nossa
casa junto dele! Ele gosta da caça, vamos mostrar a ele nossa dança de apresen-
tação. Quem sabe ele nos quer?”.
A gente das águas são grandes caçadores. É por essa razão que se afeiçoam
aos rapazes cujo pensamento se concentra na caça. Consideram-nos como ver-
dadeiros habitantes da floresta.35
Por isso suas irmãs gostam de se apoderar de
suas imagens para fazê-los se tornar espíritos. Quando são pegos desse modo,
os rapazes entram em estado de fantasma. Começam a correr pela floresta e
ficam gritando, exaltados: “Aë! Aë! Aë!”. É desse modo que as mulheres das
águas os atraem para longe, até sua casa. Apaixonados, ficam lá muito tempo.
Afinal, quando elas os deixam voltar para casa, eles recuperam a consciência e
se veem de repente sozinhos, perdidos numa floresta desconhecida. Então di-
zem a si mesmos: “Oae! Minha verdadeira casa fica bem longe daqui!” e retor-
nam para junto dos seus.
A gente das águas são os filhos, genros, filhas e noras de Tëpërësiki, o sogro
de Omama, que lhe trouxe as plantas que cultivamos em nossas roças. São os
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donos da floresta e dos cursos d’água. Parecem com humanos, têm mulheres
e filhos, mas vivem no fundo dos rios, onde são multidões. São mesmo exce-
lentes caçadores! Percorrem sem trégua seus caminhos na floresta, flechando
araras, tucanos, papagaios, pássaros hëima si e todos os outros tipos de caça.36
Porém, jamais comem suas próprias presas. Acham que seria uma coisa assus-
tadora, como nós também pensamos. Antes as oferecem a suas irmãs, que são
muitas e muito bonitas. Essa gente das águas mora junto com o pai, Tëpërësiki,
e também com os espíritos poraquê, sucuri e jacaré. Suas redes ficam pendu-
radas umas ao lado das outras, no seco, como as nossas em nossas casas. São
eles que os olhos de fantasma das pessoas comuns veem como peixes. No en-
tanto, suas imagens também se tornam xapiri que os xamãs fazem dançar.
Omama pegou pelo braço uma dessas mulheres das águas, a filha de
Tëpërësiki que chamamos Th
uëyoma. Mas não a pescou como um peixe. Foi o
pai de minha esposa que me contou isso.37
Omama foi até o rio com um feitiço
amoroso na ponta de um cipó. Quando chegou à beira, lançou a linha e sua
isca. A mulher das águas o viu aproximar-se e o achou bonito. Então, se agar-
rou ao cipó e se deixou tirar para fora da água. Omama cheirava bem, pegou
seu braço e a içou para a beira. Depois se casou com ela e é dela que nós viemos.
Hoje, são essas mesmas filhas de Tëpërësiki que fazem os rapazes cheirar
feitiços amorosos xõa para capturar suas imagens e fazê-los se tornar outros.
À tarde, quando caçamos longe na floresta, podemos ouvir seus murmúrios. E
se um jovem caçador as encontra, apoderam-se dele. Mas, antes de aparecer
para ele, indagam-se: “Ele é mesmo bonito e bem cuidado?”. Sem que ele saiba,
cheiram sua pele. Inspecionam sua língua, seu peito e seu pênis. Examinam
suas unhas. Perguntam-se: “Será que é bom caçador? Não come as próprias
presas?”. Só decidem levá-lo consigo se ele for de seu agrado. Se gostarem
mesmo dele, depois o levam para sua casa debaixo d’água.
É assim que acontece. Os rapazes começam perdendo consciência de tan-
to perseguir a caça na floresta. Sentem-se muito fracos e vão se tornando fan-
tasma pouco a pouco. Os animais de que se aproximam olham bem para eles
e começam a rir, como humanos. Os que são flechados por eles gemem de dor.
As árvores falam com eles e as folhas tocam neles como mãos.38
Então, as mu-
lheres das águas, aproveitando-se de sua fraqueza, chamam-nos e levam suas
imagens até sua casa, onde os retêm por muito tempo. É durante essa estadia
nas profundezas dos rios que eles começam a se tornar outros. Elas os mantêm
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deitados em suas redes, os abraçam e assim os fazem esquecer tudo. Riem deles
quando lhes fazem perguntas e nunca respondem. Finalmente, quando conse-
guem escapar e voltar para suas casas, elas os seguem até lá. Escondem-se no
fundo, atrás de suas redes, e permanecem ainda por algum tempo ao lado deles.
É assim que, depois, os rapazes pedirão aos xamãs mais antigos de suas casas
que lhes deem pó de yãkoana para beber.
Os filhos de xamãs, como eu disse, são também filhos de espíritos. É por
isso que a gente das águas yawarioma os reconhece como genros e suas filhas
se apoderam deles tão depressa. Eu sou só um filho de ser humano. Meu pai
não era xamã, não conhecia os xapiri. Assim, eu não sabia nada disso quando
era adolescente. As mulheres das águas nunca me levaram para sua casa, nunca
me deitaram em suas redes. Preferem os filhos de xamãs. Assim é. Apesar disso,
eu nunca deixei de ver os xapiri em sonho, desde que era pequeno, mesmo sem
saber quem eram. Foi só muito mais tarde, já adulto, que apresentei meu nariz
aos xamãs mais velhos para que me dessem seus espíritos. Senti vontade disso
por conta própria. Achei que seria bonito poder ver as coisas de verdade e assim,
aos poucos, fui me afeiçoando aos xapiri.
A única coisa que me aconteceu na floresta quando era adolescente foi ser
atacado pelos espíritos dos queixadas.39
Naquela época, eu não parava de caçar
com os homens de minha casa. Certa vez, tínhamos perseguido um bando
desses porcos-do-mato40
por bastante tempo. Era um final de tarde. Tínhamos
conseguido cercá-los. Eles tinham desacelerado e estavam ao nosso alcance.
Preparamo-nos para flechá-los, cada qual de um lado. Como os outros caça-
dores, escolhi uma presa e retesei meu arco com calma. Porém, de repente, os
queixadas se dispersaram para todos os lados. Parte do bando deu meia-volta
e veio correndo na minha direção. De repente, me vi cara a cara com aqueles
animais, correndo enfurecidos para cima de mim. Aterrorizado, tentei escapar
subindo numa árvore jovem, mas acabei tropeçando e caí. O choque com o
solo foi violento e desmaiei por um instante. Foi tudo muito rápido. Apesar
disso, os queixadas tiveram tempo de saltar por cima de mim, como se eu fos-
se só um tronco caído no chão. Passaram por cima de meu peito, um depois
do outro, muito depressa, sem me tocar. Eram muitos, e cheiravam muito mal.
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O ranger de suas presas era aterrorizante. Foi nesse momento, acho, que suas
imagens me atacaram. Na hora, porém, não percebi nada.
Depois de passarem, me levantei, ainda tremendo de medo, e me juntei a
meus companheiros, que tinham conseguido flechar vários deles. Não disse
nada acerca de minha desventura. Trinchamos a caça abatida e colocamos os
pedaços em jamaxins trançados com folhas de palmeiras maima si e kõanari
si. Anoitecia, e estávamos muito longe de nossa casa. Decidimos acampar em
plena floresta, e cozinhar tripas de queixada em embrulhos de folhas, para
acalmar nossa fome de carne.41
Uma vez satisfeito, adormeci com tranquilida-
de. Mas no meio da noite comecei a me sentir muito mal. Acordei sobressalta-
do e, de repente, vi tudo à minha volta com olhos de fantasma. Comecei a
vomitar. Então, pensei: “Os queixadas são ancestrais mesmo!42
Fui atacado por
suas imagens e são elas que me deixam doente!”. No dia seguinte, voltamos
para a nossa casa. Eu estava muito fraco, não podia carregar nada. Na noite
seguinte, continuava doente. Dormi de novo em estado de fantasma. Foi nesse
momento que os espíritos queixada começaram a me aparecer em sonho. Um
número incontável deles escapava de um enorme buraco na terra, do qual saía
também um vendaval. Dançavam devagar com seus enfeites de penas, sobre
um espelho que refletia uma luminosidade ofuscante. Isso durou muito tempo
e, de repente, desapareceram. Então, acordei e pensei: “O que está acontecendo
comigo? Como eu vou poder sarar?”.
Algum tempo depois, o marido da irmã de minha mãe, que também era
um grande xamã, tentou expulsar o mal que estava em mim. Mas assim que ele
começou sua cura, desmaiei. Fiquei inerte, largado em minha rede. Então, a
mãe de meu padrasto, que era uma mulher muito velha, pegou uma panela
cheia de água e derramou-a aos poucos sobre mim. Acabei recobrando a cons-
ciência. Meu fantasma retornou à minha pele e voltei a mim. Quando abri os
olhos, vi minha mãe, sua irmã, uma filha de seu irmão43
e minha avó chorando
perto de minha rede, como se eu já estivesse morto! Em seguida, o xamã pros-
seguiu seu trabalho por um longo tempo e, por fim, fiquei curado.
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Foi só o que aconteceu comigo quando eu era apenas um adolescente. Eu
nunca fui levado pelas mulheres das águas. Contudo, no tempo dos antigos,
era comum elas se apoderarem da imagem dos rapazes. Por isso eles de repen-
te saíam correndo pela floresta e desapareciam, e foi assim que muitos deles se
tornaram xamãs. Meu padrasto, que me criou em Marakana, me contou isso
várias vezes, pois ele mesmo tivera essa experiência no passado. Agora eu gos-
taria de relatar suas palavras, para que os brancos possam ouvi-las. Eis o que
ele me contou:44
“Quando eu era adolescente, meu pensamento começou a virar outro e
foi assim que eu me tornei xamã. Um dia, eu estava caçando papagaios na
floresta. Podia ouvir o tumulto de suas brincadeiras nas árvores, acima de mim.
De repente, vi um ser das águas andando em minha direção. Era imponente.
Tinha muitas caudais de arara, rabos de tucano e despojos multicolores de
pássaros wisawisama si fixados em suas braçadeiras de cristas de mutum. Via-
-se, pelos enfeites, que era um grande caçador. Aproximou-se devagar de mim
e declarou: ‘Tente flechar os papagaios de onde está!’. Surpreso e temeroso,
perguntei: ‘Quem é você?’. Só respondeu: ‘Eu? Eu quero comer os papagaios
que você flechar. Vá mais para lá e tente! Mas não fleche o corpo, mire na goela,
justo abaixo do bico!’. Fiz o que me dizia. Flechei um primeiro papagaio, depois
um outro, bem como ele havia indicado. Então, segurou meu braço e disse:
‘Cunhado! Está bom, basta! Vou mandar minha irmã vir buscar suas presas!’.45
Eu sentia muito calor e suava muito. Meu pensamento ia se perdendo aos
poucos. Fiquei no mesmo lugar, calado e imóvel, de pé ao lado dos papagaios
mortos caídos no chão. Algum tempo depois, uma mulher das águas abriu
caminho na floresta até onde eu estava.
“As folhas das árvores começaram a tremular ao vento e a floresta se en-
cheu de uma luz tremulante. Ela se aproximou de mim a pequenos passos. Seus
lábios sorriam, pois ela queria fazer sua magia amorosa agir sobre mim. Era
belíssima. Tinha olhos lindos e a vulva bem curta, sem pelos pubianos. Reco-
mecei a flechar papagaios para ela. Mas assim que começavam a cair rodopian-
do, seus gritos se transformavam em cantos de espíritos xapiri: ‘Arererererere!  ’.
A mulher das águas então recolhia seus despojos um por um, aprovando com
alegria: ‘Awei! Muito bem! Você é um ótimo caçador! Continue flechando
esses papagaios!’. E os pássaros continuaram caindo, conforme eu os atingia,
um por um: ‘Arererererere! Arererererere! Arererererere!  ’. Mas, assim que to-
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cavam o solo, minhas flechas, enfiadas em seus corpos, se transformavam em
cobras! E quando eu tentava pegá-los, elas me picavam! Minha visão ia se
turvando cada vez mais e eu mal distinguia as coisas ao meu redor. Eu sentia
que estava perdendo a consciência.
“A cada vez, a mulher das águas chegava bem perto de mim rindo, com
uma vozinha doce: ‘He he he he!’. Depois, recolhia as flechas e as entregava
para mim: ‘Tome, pegue, eis o que você está procurando!’. Assim que eu ten-
tava pegá-las, no entanto, saíam voando, emitindo o mesmo canto de espírito:
‘Arererererere!’. Conforme o tempo passava, fui me tornando outro de verdade
e foi meu arco que eu senti sair voando: ‘Arererererere!’. Estava cada vez mais
inquieto e ficava me perguntando o que ia acontecer comigo. Estava por intei-
ro dominado pela magia amorosa daquela filha de Tëpërësiki. Então, de repen-
te, os espíritos da floresta começaram a afluir em minha direção! As imagens
das folhas e das raízes de todas as árvores desceram primeiro, lançando gritos
de alegria e assobiando com suas flautas de bambu purunama usi.46
Tinham os
cabelos cobertos de penugem branca, faixas de rabo de macaco cuxiú-negro
em torno da cabeça e braçadeiras de cristas de mutum guarnecidas com muitas
caudais de arara-vermelha. Chegaram em seguida as imagens dos cupins, que
me carregaram nas costas, correndo para todos os lados. Depois foi a vez das
imagens das pedras, que quase me derrubaram e esmagaram, e então a do céu,
que veio me arrancar a língua. E então, outros xapiri levaram meus olhos para
longe e foi assim que eu mesmo comecei a me tornar espírito.47
“Afinal, a irmã do ser das águas agarrou meu pulso e me arrastou pela
floresta. Comecei a correr ao lado dela, destroçando os galhos do mato rastei-
ro conforme passava. Estava muito exaltado e não parava de gritar: ‘Aë! Aë! Aë!
Uma mulher yawarioma está me levando! A luz me cega! Tenho medo! Aë! Aë!
Aë!’. Ninguém além de mim podia vê-la e, no entanto, eu estava mesmo cor-
rendo com ela! Seu caminho era muito quente e eu estava molhado de suor.
Não via mais nada ao meu redor. Não teria sido capaz de reconhecer meus
familiares nem minha própria casa. Tinha virado outro. Corri assim por mui-
to tempo, atravessando florestas desconhecidas. No final, esgotado, parei numa
clareira, bem longe de onde morava. A mulher das águas então me tranquili-
zou, sempre com uma voz doce: ‘Não tenha medo! Falta pouco agora. Estamos
perto da casa de meu pai’. Depois desse breve descanso, recomeçamos a correr,
ainda mais depressa, em seu caminho sinuoso através da mata.
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“De repente, ouvi o rugido de uma onça com seu filhote. Amedrontado,
alertei logo minha companheira: ‘Vamos embora deste caminho, ele vai nos
devorar!’. Ela não parecia preocupada e tentou de novo me acalmar: ‘Não tenha
medo! Essa onça é minha, não vai nos atacar’. Mas isso não me tranquilizava
nem um pouco, e eu insisti: ‘Estou com muito medo! Vamos dar a volta, mes-
mo assim’. Ela voltou a responder com doçura: ‘Não, ela não vai devorá-lo. É
mansa. Não há o que temer’. Como eu teimava, nos afastamos um pouco.
Porém, por mais que eu tratasse de me desviar do animal, ele estava sempre no
nosso caminho. Assim é. As onças são os cães de caça da gente das águas.
“Por fim, chegamos a uma vasta extensão de água escura no meio da flores-
ta. Permaneci de pé na beira, imóvel. Continuava muito inquieto. Aí, a mulher
das águas designou com os lábios a superfície do lago e me disse: ‘Chegamos à
casa de meu pai. Vamos! Entremos!’. Protestei com energia: ‘Não! Não quero
mergulhar nesse lago! É fundo demais! Jacarés-açus vão me devorar! Vou me
afogar!’. Ela respondeu sorrindo: ‘Não tenha medo! Você não vai se afogar e não
há jacarés-açu aqui. Esta água é só a parte de fora de nossa casa. A porta fica logo
ali’. Apesar dessas palavras, eu continuava resistindo. Então ela mergulhou na
minha frente, depois voltou à superfície me mostrando um punhado de terra e
disse: ‘Veja! Está seca! Vem do chão de nossa casa. A porta está bem aqui, perti-
nho! Atravesse-a e verá com seus próprios olhos. É verdade!’. Eu ainda hesitava,
então ela me agarrou pelo pulso e me levou para debaixo da água.
“Aterrorizado, eu achava que ia afundar direto para o fundo do lago. Mas
logo me vi no seco, dentro de uma casa imponente, cercada de grandes roças
de banana, mandioca, cará, taioba, batata-doce e cana-de-açúcar. Parecia com
nossas casas, mas era bem maior. O pai da moça, Tëpërësiki, estava deitado em
sua rede de um lado, e todos os seus filhos instalados do outro lado. Olhei de
longe para ele, mas sua filha me alertou: ‘Nem pense em chegar perto de meu
pai, senão ele irá engoli-lo no mesmo instante!’. Suas várias irmãs, em compen-
sação, nos receberam com alegria. Cercaram-me assim que cheguei e demons-
traram muita amizade. A moça que tinha me atraído à floresta era a mais velha.
Além dessas meninas, só havia dois rapazes, que eram seus irmãos. Um deles
disse às moças: ‘Parem de fazer tanto barulho! Pai vai acordar!’. Então, a mu-
lher de Tëpërësiki, cuja rede estava pendurada abaixo da do marido, disse em
voz baixa: ‘Filha! Você chegou?’. E, sem olhar para mim, acrescentou: ‘Dê esses
carás de comer a esse aí que está agachado ao seu lado! Ofereça-lhe mingau de
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banana para beber! E também batata-doce! Não o deixe com fome!’.48
A gente
das águas pratica o serviço da noiva turahamuu e nós seguimos seu exemplo.49
Por isso, quando um adolescente se torna xamã, chama de “sogro” e “sogra” os
pais da mulher yawarioma que o raptou. Assim é.
“Depois de eu ter comido à vontade, as moças vieram, uma por uma,
rindo, deitar na minha rede para brincar comigo. Um dos irmãos as avisou de
novo para não levantarem a voz. Mas seu pai acabara acordando e já se ouvia
sua voz grave ressoando pela casa toda. As filhas, no entanto, não pareciam
preocupadas. Continuaram vindo a mim, uma depois da outra, para brincar e
namorar. Eu estava seduzido por sua magia amorosa. Por isso fiquei assim com
elas por muito tempo. Pouco a pouco, fui me transformando para me tornar
xamã. Enquanto isso, Tëpërësiki tinha começado a entoar seus cantos, para que
eu os conhecesse. Salmodiava-os e, de tempos em tempos, cuspia no chão os
objetos que acabara de nomear: pontas de flecha de bambu, grandes frutos
oblongos da árvore aro kohi e até queixadas e antas, pois sua boca era mesmo
enorme!50
Desse modo eu aprendi as palavras que permitem regurgitar as subs-
tâncias de feitiçaria, as armas dos espíritos e o algodão ardente dos seres malé-
ficos que estão no corpo dos doentes. Tëpërësiki assim me deu a boca dos es-
píritos japim ayokora.
“Porém, passado algum tempo, começou a ficar cansado. Parou de cantar
e de expectorar objetos. Exausto, suspirava fundo. Aí, exclamou: ‘Façam o vi-
sitante se agachar perto de mim! Tenho mesmo muita fome!’. Ele queria me
engolir! Seus filhos, que haviam permanecido na casa para fabricar pontas de
flecha, o impediram de me pegar. Para enganá-lo, responderam: ‘Ele não pode
ir agora. Ainda está ocupado fazendo amizade com nossas irmãs’. Apesar dis-
so, Tëpërësiki mandou me chamar diversas vezes. Mas os rapazes sempre con-
tavam a mesma mentira. Desistiu, acabou retomando seus cantos. Então seus
filhos disseram baixinho a uma de minhas companheiras: ‘Irmã! Agora volte
para a floresta com nosso cunhado! Leve-o até sua casa!’.
“Foi assim que por fim voltei para casa. A mulher das águas que tinha me
acompanhado dormiu a noite toda em minha rede, colada em mim. Depois,
quando amanheceu, levou-me de volta para junto dos seus. E tudo recomeçou.
A mãe dela me deu de comer, suas irmãs brincaram comigo e seu pai me deu
a escutar seus cantos. Depois, uma outra moça levou-me de volta para casa e,
ao amanhecer, parti de novo com ela, correndo e gritando na floresta. Isso
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tudo se reproduzia dia após dia. Cada vez era uma mulher das águas diferente
que me levava para longe e me trazia para casa. Eu estava mesmo cativo de sua
magia amorosa, e foi desse modo que me tornei xamã. É assim que acontece.
Quando a imagem de um rapaz é capturada pelas filhas de Tëpërësiki, ele foge
de casa todos os dias, para só retornar após o anoitecer. Mas já não reconhece
ninguém ali. Tornado outro, parte ao raiar do dia em sua corrida pela floresta.
Por mais que seus familiares tentem mantê-lo à força em sua rede, não conse-
guem. Ele não é capaz de resistir ao chamado dessas mulheres yawarioma.
Ninguém mais as vê, mas elas estão sempre a seu lado. Suas corridas pela flo-
resta levam-no para bem longe de sua casa. Pode até mesmo entrar e sair de
casas de desconhecidos sem se dar conta, pois o intenso brilho do caminho da
gente das águas na floresta o deixa cego. Assim, as mulheres yawarioma podem
mantê-lo em seu poder por muito tempo. No fim, os xamãs de sua casa terão
de trazer sua imagem de volta para que ele volte a si.”
Foi desse modo que, antigamente, meu padrasto se tornou xamã, no tem-
po em que era jovem. Naquela época, flechava muitas antas, era um grande
caçador. Por isso as irmãs da gente das águas o pegaram. Para virar outro, ele
não se contentou em pedir aos mais velhos que o fizessem beber o pó de yãkoa­
na. Não se tornou xamã à toa. Dizem que seu pai também era um grande xamã,
cuja boca sabia regurgitar os objetos maléficos.51
Seguiu-lhe as pegadas. Eu não
fui seduzido pelas mulheres yawarioma. Apenas sonhei com elas algumas ve-
zes. Não nasci do esperma dos espíritos, como os filhos de xamãs. Os xapiri
somente dançaram em meus sonhos quando eu era pequeno, sem que eu os
reconhecesse. Isso aconteceu muito antes de o pai de minha esposa abrir os
caminhos deles para mim. De fato, foi ele que me enfraqueceu com a yãkoana
e o pó de paara, para que os espíritos aceitassem instalar sua casa junto de
mim.52
Antes, eles deviam me achar muito feio e sujo. Deviam hesitar em che-
gar perto de mim! Mas, a partir do momento em que meu sogro me fez beber
yãkoana, pude enfim admirar sua real beleza.
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4. Os ancestrais animais
Dança dos espíritos.
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Os xapiri são as imagens dos ancestrais animais yarori que se transforma-
ram no primeiro tempo. É esse o seu verdadeiro nome. Vocês os chamam
“espíritos” mas são outros.1
Vieram à existência quando a floresta ainda era
jovem. Os nossos antigos xamãs os faziam dançar desde sempre e, como eles,
nós continuamos até hoje. Quando o sol se levanta no peito do céu, os xapiri
dormem. Quando volta a descer, à tarde, para eles o alvorecer se anuncia e eles
acordam. Nossa noite é seu dia. De modo que, quando dormimos, os espíritos,
despertos, brincam e dançam na floresta. Assim é. São muitos mesmo, pois não
morrem nunca. Por isso nos chamam “pequena gente fantasma” — pore th
ë pë
wei! — e nos dizem: “Vocês são fantasmas estrangeiros2
porque são mortais!”.
Assim é. Em seus olhares, já somos fantasmas, porque, ao contrário deles, so-
mos fracos e morremos com facilidade.
Os xapiri, no entanto, se parecem com os humanos. Mas seus pênis são
muito pequenos e suas mãos só têm alguns dedos. São minúsculos, como poeira
de luz, e são invisíveis para a gente comum, que só tem olhos de fantasma. Só
os xamãs conseguem vê-los. Os espelhos sobre os quais dançam são imensos.
Seus cantos são magníficos e potentes. Seu pensamento é direito e trabalham
com empenho para nos proteger. Porém, se nos comportarmos mal com eles,
podem também ficar muito agressivos e nos matar. Por isso às vezes nos dão
medo. Também são capazes de devastar as árvores da floresta em sua passagem
e até de cortar o céu, por mais imenso que seja.3
Os verdadeiros xapiri são mui-
to valentes! Apenas alguns deles se mostram fracos e covardes. Estes têm medo
dos seres maléficos e da epidemia xawara.
Os espíritos se deslocam por toda a floresta, como nós, quando caçamos.
Mas eles não andam sobre as folhas podres e na lama, eles voam. Também se
banham nos rios, como nós quando sentimos calor, mas o fazem em águas
puras que só eles conhecem. Também têm filhos, mas os seus são tantos e
tantos que acham que os brancos têm muito poucos. Além disso, mesmo que
fiquem muito velhos e cegos, os xapiri permanecem imortais. Por isso eles
aumentam sem parar na floresta. Os que dançam para os xamãs não passam
de uma pequena parte deles.
Para vê-los de verdade, é preciso beber o pó de yãkoana durante muito
tempo e que os nossos xamãs mais velhos abram os caminhos deles até nós.
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Isso leva muito tempo. Tanto quanto os filhos de vocês levam para aprender
os desenhos de suas palavras. É muito difícil. Contudo, quando faço dançar
meus xapiri, às vezes os brancos me dizem: “Não se vê nada! Só se vê você
cantando sozinho! Onde é que estão seus espíritos?”. São palavras de ignoran-
tes. O pó da árvore yãkoana hi não fez morrer seus olhos, como os dos xamãs.
Então, por não poderem ver os xapiri, seu pensamento permanece fechado.
Assim é. Os xapiri só dão a ouvir suas vozes se seu pai, o xamã, morrer com a
yãkoana. Quando têm fome eles a bebem através dele. Só então podem descer
sobre seus espelhos. Eles também morrem com a yãkoana, como seu pai, e as-
sim começam a dançar e cantar para ele. Sem isso, não poderiam ser vistos.
A imagem dos xapiri é muito reluzente. Estão sempre limpos, porque não
vivem na fumaça das casas e não comem carne de caça como nós fazemos. Seus
corpos nunca ficam cinzentos, sem pintura nem enfeites, como os nossos. Eles
são cobertos de tinta fresca de urucum e enfeitados com pinturas de ondula-
ções, linhas e manchas de um preto brilhante. São muito perfumados. Quando
brincam com as mulheres dos seres do vento, às vezes se pode sentir no ar da
floresta o cheiro do urucum e dos feitiços de caça que trazem ao redor do pes-
coço. A brisa de seu voo espalha odores tão intensos quanto os dos perfumes
dos brancos. Mas a pintura dos xapiri é um de seus bens preciosos. Provém dos
odores misturados das coisas da floresta e não tem o cheiro acre e perigoso do
álcool dos perfumes da cidade.
Seus braços são enfeitados com muitos penachos de penas de papagaio e
caudais de arara fincadas em braçadeiras de belas miçangas lisas e coloridas,4
com muitas e muitas caudas de tucano e despojos multicolores de pássaros
wisawisama si pendurados. Têm um porte muito imponente! Foi Omama que
os ensinou a se enfeitar assim. Quis que fossem magníficos para vir nos mostrar
sua dança de apresentação. Entretanto, existem também xapiri muito velhos,
que já dançavam para nossos ancestrais. Estes têm cabelos brancos e barba.
Alguns têm o crânio quase todo sem cabelo. Até os seres maléficos os temem!
São verdadeiros antepassados. Todos os outros, mais jovens, têm os cabelos
pretos e lisos e faixas de rabo de macaco cuxiú-negro em torno da cabeça, que
realçam a abundância de sua cabeleira. Seus olhos não são avermelhados nem
claros demais. Negros e límpidos, veem muito longe. Suas cabeças são cobertas
de penugem branca; emana deles uma luminosidade deslumbrante que os pre-
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cede por onde forem. É um ornamento que só eles possuem. Por isso os xapiri
cintilam como estrelas que se deslocam pela floresta.
Os lóbulos de suas orelhas são também enfeitados com caudais de papa-
gaio e despojos de pássaros hëima si. Seus dentes são imaculados e brilhantes
como estilhaços de vidro. Quando são pequenos demais ou se falta algum, eles
os substituem por pedaços de espelho que pedem a Omama para se embelezar.
Alguns chegam a enfeitá-los com penas multicolores de pássaros sei si, como
fazem os brancos com seus dentes de ouro. Outros possuem longos caninos,
afiados e amedrontadores, com os quais dilaceram os espíritos maléficos. Ou-
tros ainda têm olhos atrás da cabeça! São espíritos das florestas longínquas. São
mesmo outros! Assim é. Não se deve pensar que todos os espíritos são belos!
Em suas danças de apresentação, os xapiri agitam jovens folhas desfiadas
de palmeira hoko si, de um amarelo intenso e brilhante. Movem-se em ritmo
lento, flutuando com leveza no mesmo lugar, acima do solo, como num voo de
beija-flor ou de abelha. Sopram em tubos de bambu punurama usi, gritam de
alegria e cantam com uma voz poderosa. Seus cantos melodiosos são inume-
ráveis. Não param de entoá-los, um após o outro, sem interrupção. Alguns
deles também possuem dentes que emitem um som modulado: “Arerererere!”.
E outros têm unhas compridas, que usam como apitos de silvo agudo: “Kriii!
Kriii! Kriiii!”. Ficam muito satisfeitos de mostrar sua dança de apresentação
para nós! Seus movimentos são mesmo magníficos! Eles dançam com fervor,
como jovens convidados que entram na casa de seus anfitriões.5
Mas são ainda
muito mais belos!
Os cantos dos espíritos se sucedem um após o outro, sem trégua. Eles vão
colhê-los nas árvores de cantos que chamamos amoa hi. Omama criou essas
árvores de línguas sábias no primeiro tempo, para que os xapiri possam ir lá
buscar suas palavras. Param ali para coletar o coração de suas melodias, antes
de fazerem sua dança de apresentação para os xamãs. Os espíritos dos sabiás
yõrixiama e os dos espíritos japim ayokora6
— e também os dos pássaros siti-
pari si e taritari axi — são os primeiros a acumular esses cantos em grandes
cestos sakosi.7
Colhem-nos um a um, com objetos invisíveis, parecidos com os
gravadores dos brancos. Mas são tantos que nunca conseguem esgotá-los!
Entre esses espíritos pássaro, os dos sabiás yõrixiama são de fato os sogros
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dos cantos, seus verdadeiros donos. Esses xapiri são a imagem dos pássaros
cujo canto melodioso ouvimos pela manhã e à noite na floresta. Assim é. Cada
xapiri possui seus próprios cantos: os espíritos tucano e araçari, os espíritos
papagaio, os espíritos da ararinha weto mo, os dos pássaros xotokoma e yõria-
ma e todos os outros. Os cantos dos xapiri são tão numerosos quanto as folhas
de palmeira paa hana que coletamos para cobrir o teto de nossas casas, até mais
do que todos os brancos reunidos. Por isso suas palavras são inesgotáveis.
Omama plantou essas árvores de cantos nos confins da floresta, onde a
terra termina, onde estão fincados os pés do céu sustentado pelos espíritos
tatu-canastra e os espíritos jabuti. É a partir de lá que elas distribuem sem tré-
gua suas melodias a todos os xapiri que correm até elas. São árvores muito
grandes, cobertas de penugem brilhante de uma brancura ofuscante. Seus tron-
cos são cobertos de lábios que se movem sem parar, uns em cima dos outros.
Dessas bocas inumeráveis saem sem parar cantos belíssimos, tão numerosos
quanto as estrelas no peito do céu. Mal um deles termina, outro continua. As-
sim, proliferam sem fim. Suas palavras não se repetem jamais. Por isso os xa-
piri, mesmo sendo tantos, podem obter delas todos os cantos que desejarem,
sem nunca esgotá-los. Eles escutam essas árvores amoa hi com muita atenção.
O som de suas palavras penetra neles e se fixa em seu pensamento. Capturam-
-nos como os gravadores dos brancos, nos quais Omama também colocou uma
imagem de árvore de cantos.8
É assim que conseguem aprendê-los. Sem eles,
não poderiam fazer sua dança de apresentação.
Todos os cantos dos espíritos provêm dessas árvores muito antigas. Des-
de o primeiro tempo, é delas que obtêm suas palavras. Seus pais, os xamãs, não
fazem senão imitá-los para permitir que sua beleza seja ouvida pela gente co-
mum. Não se deve pensar que os xamãs cantam por conta própria, à toa. Eles
reproduzem os cantos dos xapiri, que penetram um depois do outro em suas
orelhas, como em microfones. Assim é. Mesmo os cantos heri, que se cantam
quando há comida em abundância nas festas reahu, são imagens de melodias
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que vieram das árvores amoa hi.9
Os convidados que gostam deles os guardam
então no peito para poderem cantá-los depois, quando derem festas em suas
casas. É assim que esses cantos se espalham de casa em casa.
Há dessas árvores de cantos em todos os limites da floresta, para além de
nossa terra, e ainda além da dos Xamath
ari, e das montanhas onde vivem os
Horepë th
ëri.10
Mas são outras. Assim, há tantos tipos de árvores amoa hi quan-
to nossos modos de falar.11
De modo que os xapiri que descem na floresta
possuem uma infindável quantidade de cantos diferentes. É por isso que os
xamãs visitantes de casas distantes podem nos dar a ouvir cantos desconheci-
dos. Há muitas dessas árvores amoa hi também nos confins da terra dos bran-
cos, para além da foz dos rios.12
Sem elas, as melodias de seus músicos seriam
fracas e feias. Os espíritos sabiá levam a eles folhas cheias de desenhos que
caíram dessas árvores de canto. É isso que introduz belas palavras na memória
de sua língua, como ocorre conosco. As máquinas dos brancos fazem delas
peles de imagens que os seus cantores olham, sem saber que nisso imitam
coisas vindas dos xapiri. Por isso os brancos escutam tanto rádios e gravadores!
Mas nós, xamãs, não precisamos desses papéis de cantos. Preferimos guardar
a voz dos espíritos no pensamento.13
Assim é. Transmito estas palavras pois eu
mesmo vi, após nossos maiores, os inumeráveis lábios moventes das árvores
de cantos e a multidão dos xapiri se aproximando delas. Eu as vi de perto, em
estado de fantasma, depois de meu sogro ter me dado de beber o pó de yãkoa-
na. Eu ouvi mesmo suas melodias infinitas se entrelaçando sem parar!
Os xapiri nunca se deslocam na floresta como nós. Descem até nós por
caminhos resplandecentes de luz, cobertos de penugem branca, tão fina quanto
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os fios das teias de aranha warea koxiki que flutuam no ar. Esses caminhos se
ramificam para todos os lados, como os que saem de nossas casas. Sua rede cobre
toda a nossa floresta. Eles se bifurcam, se cruzam e até se superpõem, para mui-
to além dela, por toda a vasta terra a que chamamos urihi a pree ou urihi a pata,
e que os brancos chamam de mundo inteiro. Foram abertos pelos antigos xamãs
que os fizeram dançar muito antes de nós, desde o primeiro tempo.
Os xapiri, para quem tudo é perto, vêm por esses caminhos um atrás do
outro, com muita leveza, suspensos nas alturas. Então é possível vê-los cintilar
numa luminosidade lunar, na qual seus enfeites de penas tremulam, flutuando
devagar, no ritmo de seus passos. Suas imagens são mesmo magníficas! Alguns
desses caminhos são bem largos, como suas estradas à noite, salpicadas de luzes
de faróis de carros, e os mais reluzentes são os dos espíritos mais antigos. Ficam
vindo em nossa direção sem parar, acumulados em filas sem número. Suas
imagens são as de todos os habitantes da floresta que descem do peito do céu,
um depois do outro, com seus filhotes. As araras-vermelhas, amarelas e azuis,
os tucanos, papagaios, jacamins, mutuns, cujubins, gaviões herama, wakoa e
kopari, morcegos e urubus são muitos na floresta, não é? E os jabutis, tatus,
antas, veados, jaguatiricas, onças-pintadas, suçuaranas, cutias, queixadas, ma-
cacos-aranha e guaribas, preguiças e tamanduás? E os pequenos peixes dos rios,
poraquês, piranhas, peixes pintados kurito e arraias yamara aka, então?
Todos os seres da floresta possuem uma imagem utupë. São essas imagens
que os xamãs chamam e fazem descer. São elas que, ao se tornarem xapiri, exe-
cutam suas danças de apresentação para eles. São elas o verdadeiro centro, o
verdadeiro interior dos animais que caçamos. São essas imagens os animais de
caça de verdade, não aqueles que comemos! São como fotografias14
destes. Mas
só os xamãs podem vê-las. A gente comum não consegue. Em suas palavras, os
brancos diriam que os animais da floresta são seus representantes.15
O guariba
iro que flechamos nas árvores, por exemplo, é outro que sua imagem Irori, o
espírito do guariba, que os xamãs podem chamar a si. Essas imagens de animais
tornados xapiri são muito bonitas mesmo quando fazem suas danças de apre-
sentação para nós, como os convidados no começo de uma festa reahu. Os
animais da floresta, em comparação com elas, são feios. Existem, sem mais. Não
fazem senão imitar suas imagens. Não passam de comida para os humanos.
No entanto, quando se diz o nome de um xapiri, não é apenas um espíri-
to que se nomeia, é uma multidão de imagens semelhantes. Cada nome é úni-
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co, mas os xapiri que designa são sem número. São como as imagens dos espe-
lhos que vi em um dos hotéis onde dormi na cidade. Eu estava sozinho diante
deles mas, ao mesmo tempo, tinha muitas imagens idênticas espalhadas neles.
Assim, há um só nome para a imagem da anta xama enquanto xapiri, mas
existem muitíssimos espíritos anta que chamamos de xamari pë.16
É assim com
todos os xapiri. Há quem pense que cada um é único, mas suas imagens sempre
são muito numerosas. Apenas seus nomes não o são. São como eu, de pé dian-
te dos espelhos do hotel. Parecem únicos, mas suas imagens se justapõem ao
longe sem fim.
As imagens de animais que os xamãs fazem dançar não são dos animais
que caçamos. São de seus pais, que passaram a existir no primeiro tempo. São,
como disse, as imagens dos ancestrais animais que chamamos yarori.17
Há
muito e muito tempo, quando a floresta ainda era jovem, nossos antepassados,
que eram humanos com nomes animais, se metamorfosearam em caça. Hu-
manos-queixada viraram queixadas; humanos-veado viraram veados; huma-
nos-cutia viraram cutias. Foram suas peles que se tornaram as dos queixadas,
veados e cutias que moram na floresta.18
De modo que são esses ancestrais
tornados outros que caçamos e comemos hoje em dia. As imagens que fazemos
descer e dançar como xapiri, por outro lado, são suas formas de fantasma.19
São
seu verdadeiro coração, seu verdadeiro interior. Os ancestrais animais do pri-
meiro tempo não desapareceram, portanto. Tornaram-se os animais de caça
que moram na floresta hoje. Mas seus fantasmas também continuam existindo.
Continuam tendo seus nomes de animais, mas agora são seres invisíveis. Trans-
formaram-se em xapiri que são imortais. Assim, mesmo quando a epidemia
xawara tenta queimá-los ou devorá-los, seus espelhos sempre voltam a desa-
brochar. São verdadeiros maiores. Não podem desaparecer jamais.
É verdade. No primeiro tempo, quando os ancestrais animais yarori se
transformaram, suas peles se tornaram animais de caça e suas imagens, espíri-
tos xapiri. Por isso estes sempre consideram os animais como antepassados,
iguais a eles mesmos, e assim os nomeiam. Nós também, por mais que coma-
mos carne de caça, bem sabemos que se trata de ancestrais humanos tornados
animais. São habitantes da floresta, tanto quanto nós. Tomaram a aparência de
animais de caça e vivem na floresta porque foi lá que se tornaram outros. Con-
tudo, no primeiro tempo, eram tão humanos quanto nós. Eles não são diferen-
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tes. Hoje, atribuímos a nós mesmos o nome de humanos, mas somos idênticos
a eles. Por isso, para eles, continuamos sendo dos seus.
Os xapiri, apesar de serem sem número, habitam todos no topo dos mor-
ros e das montanhas. É sua morada. Não pensem que a floresta é vazia. Embo-
ra os brancos não os vejam, vivem nela multidões de espíritos, tantos quantos
animais de caça. Por isso suas casas são tão grandes. Tampouco pensem que as
montanhas estão postas na floresta à toa, sem nenhuma razão. São casas de
espíritos; casas de ancestrais. Omama as criou para isso. São muito valiosas
para nós. É do topo delas que os xapiri descem para as terras baixas, por onde
andam e se alimentam, como os animais que caçamos. É também de lá que eles
vêm a nós quando bebemos yãkoana para chamá-los e fazê-los dançar.
A casa do pai de minha esposa fica aos pés de um maciço rochoso que
chamamos Watoriki, a Montanha do Vento. Essa montanha é também a casa
de xapiri antigos, que lá vivem em grande número: espíritos do vendaval Ya-
riporari, espíritos arara, espíritos japim ayokora, espíritos galo-da-serra, espí-
ritos macaco-aranha e macaco-prego, espíritos anta, espíritos veado e espíritos
suçuarana e onça-pintada. Graças a esses xapiri, o vento e a chuva descem das
alturas para espalhar-se por toda a floresta, tornando-a fresca e úmida. Aqueles
de nós que não são xamãs, do mesmo modo que os brancos, não percebem
nada disso. Os espíritos são invisíveis para seus olhos de fantasma e eles só
veem os animais de caça de que se alimentam. Apenas os xamãs são capazes de
contemplar os xapiri, pois, tornados outros com a yãkoana, podem também
vê-los com olhos de espíritos.20
Foi Omama que criou as montanhas, como a de Watoriki. Fincou-as no
chão da floresta para que a terra fique no lugar e não trema. Aconteceu assim.
Uma certa manhã, seu filho flechava passarinhos nas roças próximas da casa
com seu arco de criança. De repente, escutou um chamado ecoando na flores-
ta: “Si ekeke! Si ekeke!”. Amedrontado, pensou que o que ouvia era a voz de um
ser maléfico que se gabava de esfolar os humanos, cantando para quem quises-
se ouvir: “Rasgar a pele! Rasgar a pele!”.21
E foi correndo alertar Omama: “Pai!
alguém está vindo, dizendo que vai nos esfolar vivos!”. Aflito, Omama pergun-
tou a ele: “O que diz mesmo esse ser maléfico?”. Seu filho imitou o canto que
acabara de ouvir: “Si ekeke! Si ekeke! Si ekeke!”. Na verdade, era apenas o canto
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de um passarinho si ekekema! Mas Omama, enganado pelo que o filho dizia,
ficou também com medo e exclamou: “Aaaaa! É verdade! Um ser maléfico
está vindo para nos esfolar vivos!”. Ele temia o retorno de Xinarumari, o dono
do algodão que, outrora, esfolara um caçador que havia encontrado em seu
caminho.22
Por isso, tomado de pânico, fugiu logo na direção do sol nascente.
Além disso, para não ser seguido, cuidou de apagar suas pegadas, plantando
atrás de si grandes folhas de palmeira hoko si. Foram essas palmas que se trans-
formaram, uma depois da outra, em picos rochosos espalhados por nossa ter-
ra e pela terra dos brancos, nos lugares onde faz muito frio. Omama assentou
essas montanhas sobre a terra para firmá-la e para os xapiri nelas morarem.23
Foi assim que ele deixou nossa floresta e aqui abandonou nossos ancestrais.
Tudo isso por causa do grito de um passarinho! Ele foi para tão longe em di-
reção ao nascente que chegou até a terra de vocês e para além da Europa e do
Japão, lá onde o caminho do sol sai de debaixo da terra. Depois de ter lá criado
os brancos, morreu; e, hoje, apenas sua imagem, na forma de fantasma, conti-
nua existindo. É ela que os grandes xamãs fazem descer bebendo yãkoana.
Os xapiri nunca se deslocam pela terra. Acham-na suja demais, coberta
de detritos e excrementos. O solo sobre o qual dançam parece vidro e brilha
com uma luz deslumbrante. É feito do que nossos maiores chamavam mireko
ou mirexi. São objetos preciosos que só eles têm. São resplandecentes e trans-
parentes, mas muito sólidos. Os brancos diriam que são espelhos. Mas não são
espelhos para se olhar, são espelhos que brilham.24
Omama também os colocou
acima da terra no primeiro tempo, para que os espíritos pudessem ali executar
suas danças de apresentação. Enfeitou-lhes a superfície fulgurante com dese-
nhos de peles de onça. Com o urucum dos xapiri, traçou também fileiras aper-
tadas de pontos e traços pequenos, linhas sinuosas e círculos.25
Por fim, ador-
nou-a de penugem branca. Esses espelhos cobrem a floresta desde o primeiro
tempo, e os espíritos se deslocam sobre eles sem parar, brincando, dançando
ou guerreando. Foi nesses espelhos que vieram à existência e é deles que des-
cem em nossa direção. É também neles que depositam nossa imagem quando
nos fazem xamãs.
Grandes espelhos estão dispostos onde o filho de Omama e, depois dele,
nossos ancestrais se tornaram xamãs pela primeira vez. Estão colocados bem
no centro de nossa terra, nos campos que se estendem para além das terras
altas do rio Parima.26
Foi ali que os xapiri foram criados. Lá se encontram os
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espelhos dos espíritos que imitam as palavras dos habitantes das terras altas e
os dos espíritos de língua xamath
ari que bebem o pó paara e, mais adiante, os
dos espíritos que imitam o falar waika de nossos antigos.27
Assim, há vastos
espelhos-pais no meio, com outros menores ao redor, espalhados como clarei-
ras, onde os xapiri fazem paradas para se enfeitarem, antes de começar suas
danças de apresentação.
Os espelhos dos xapiri são muitos ao longo de seus caminhos na floresta,
pois pertencem a todos os espíritos das folhas, dos cipós, das árvores, bem
como aos dos ancestrais animais. Eles sempre param nesses lugares abertos,
como fazem os convidados, para descansar, comer e, sobretudo, se arrumar.
Cobrem-se de tintura de urucum, colocam tufos de penas paixi e de caudais de
arara em suas braçadeiras de crista de mutum, colam penugem branca sobre
os cabelos, fabricam apitos de bambu purunama usi e desfiam as folhas novas
de palmeira hoko si que vão agitar enquanto dançam. Uma vez prontos, orga-
nizam-se em longas filas e, em altos brados, começam, alegres, a vir em nossa
direção.
Quando bebemos yãkoana, seu poder cai em nós com força, bate de re-
pente na nuca. Então, morremos e logo viramos fantasmas. Enquanto isso, os
espíritos se alimentam de seu pó através de nós, que somos seus pais. Depois,
se aproximam devagar, cantando e dançando nos espelhos, descendo de suas
casas presas no peito do céu.28
Neles se movem com ânimo, sem tocar jamais
o nosso chão, cobertos de enfeites de penas e brandindo seus facões, machados
e flechas, prontos para combater os seres maléficos. Das alturas, avistam ao
longe toda a floresta e nos avisam dos males que nos ameaçam: “Vem vindo a
epidemia xawara! Um ser në wãri se aproxima para devorá-los! Os trovões e o
vendaval estão enfurecidos!”. Depois, quando seu pai não quer mais imitá-los,
regressam com seus espelhos para suas casas, levando seus cantos para o peito
do céu. O xamã então volta a usar sua língua de fantasma.
Watoriki, a Montanha do Vento, perto da qual vivemos, é, como eu disse,
uma casa de espíritos. Os xapiri que nela vivem são os verdadeiros donos da
floresta à sua volta. É o espaço externo de sua casa. Por ela andam, folgueiam
e descansam de suas brincadeiras. Muitos espelhos cercam esse maciço rocho-
so. Lá estavam bem antes de nossa chegada. Por isso, no momento de construir
nossa casa, nossos antigos xamãs tiveram de afastá-los com cuidado e gentile-
za, informando os espíritos de sua intenção. O sítio de Watoriki também é
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cercado de muitos caminhos, pertencentes a todos os espíritos dos animais, das
árvores e das águas. Gente comum não vê os espelhos, mas para os xapiri eles
são tão visíveis quanto é para nós a praça central de nossa casa! Cobrem a flo-
resta em toda a sua extensão, e nós, humanos, vivemos no meio deles. Sem nos
darmos conta, os espíritos estão o tempo todo indo e voltando e correndo com
alegria por eles, produzindo uma brisa fresca. Assim é. O vento não surge do
nada na floresta, como pensam os que ignoram a existência dos xapiri. Vem
do movimento da corrida invisível dos espíritos que nela vivem.
Em todos os lugares onde vivem humanos, a floresta é assim povoada de
espíritos animais. São as imagens de todos os seres que andam pelo solo, sobem
pelos galhos ou possuem asas, as imagens de todas as antas, veados, onças, ja-
guatiricas, macacos-aranha e guaribas, cutias, tucanos, araras, cujubins e jaca-
mins. Os animais que caçamos só se deslocam na floresta onde há espelhos e
caminhos de seus ancestrais yarori que se tornaram espíritos xapiri. Quando
olham para a floresta, os brancos nunca pensam nisso. Mesmo quando a so-
brevoam em seus aviões, não veem nada. Devem pensar que seu chão e suas
montanhas estão ali à toa, e que ela não passa de uma grande quantidade de
árvores. Entretanto, os xamãs sabem muito bem que ela pertence aos xapiri e
que é feita de seus inúmeros espelhos. Os espíritos que vivem nela são muito
mais numerosos do que os humanos e todos os demais habitantes da floresta
os conhecem!
Omama multiplicou-os e espalhou-os em todas as direções de nossa terra
e muito além, do outro lado das águas, até a terra dos brancos.29
Os xapiri que
vêm dessas terras distantes são mesmo magníficos! Outrora, seguiram Omama
em sua fuga e ele os tem mantido junto de si desde então. Esconde-os, pois são
os mais belos e poderosos dos espíritos. São, por exemplo, as lindas imagens dos
japins ayokora, cuja boca é capaz de regurgitar os objetos dos seres maléficos e
as plantas de feitiçaria que extraem do corpo dos doentes. Os xapiri de nossa
floresta são os que Omama aqui deixou. São muitos, e ele considerou que nos
bastariam. Contudo, são mais fracos e menos sagazes do que os que levou con-
sigo para a terra dos brancos, onde são tão numerosos quanto na nossa. Os
brancos, porém, não os veem. Seus antepassados talvez os conhecessem? Mas
hoje seus filhos e netos os esqueceram. É verdade, Omama é ciumento de seus
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espíritos! É seu verdadeiro pai. É seu dono, como dizem os brancos, e não quer
que sejam maltratados. Se os enviasse com generosidade a jovens de pênis mal-
cheiroso, que comem sal demais e respondem a eles numa língua torta, eles
fugiriam logo, furiosos e enojados. Omama não quer isso. Por essa razão os
mantém ao seu lado e só os manda um por um, apenas quando são xamãs já
instruídos que os chamam. Não cede tão fácil seus mais belos xapiri! Só os
deixa partir para junto de xamãs que reconhece e cujo porte aprecia. Começa
por identificar seus ornamentos e diz a si mesmo: “Haixopë! Esses humanos são
os meus de verdade!”. Depois deixa partir alguns espíritos em direção a eles:
“Muito bem! Podem levá-los e fazê-los dançar longe de mim!”.
É desse modo que devemos pedir nossos espíritos mais poderosos à ima-
gem de Omama, e apenas os xamãs experientes podem fazê-lo. Se um jovem
iniciando paramentado com desleixo tentasse, Omama, furioso, iria rejeitá-lo
na hora, declarando: “Você está muito feio! Onde estão suas caudais de arara?
Seus braços estão nus! Onde está sua faixa de rabo de macaco cuxiú-negro?
Seus cabelos são ralos! Onde estão seus brincos de papagaio e de pássaro hëima
si? Você não os quer? Então, não é dos nossos! Você só sabe se embrulhar em
roupas de branco! Você é vazio! Não me peça nada!”. Assim é. Se Omama não
nos enviasse seus mais belos xapiri, eles não viriam a nós por conta própria!
No começo, quando a pessoa ainda é ignorante, só chegam espíritos das folhas,
dos cupinzeiros, da lenha, dos tições e da poeira! São xapiri que falam língua
de fantasma e se aproximam apenas para testar o iniciando, para preparar sua
boca e varrer a clareira onde os verdadeiros espíritos virão se instalar mais
tarde. Omama só nos envia espíritos realmente capazes de enfrentar as doenças
e as fumaças de epidemia quando nos tornamos xamãs experientes. No final,
quando ficamos mais velhos e temos o peito mais robusto, ele faz chegar a nós
os poderosos espíritos dos japins ayokora.
Vindo de muito longe, os poucos xapiri que Omama nos concede no iní-
cio vão chamando outros de casa em casa ao longo de todo o seu caminho e os
atraem com eles. São muito poucos no começo, mas devagar suas vozes se
juntam umas às outras e vão aumentando conforme avançam em nossa dire-
ção. Enfeitados com ornamentos luminosos, juntam-se numa vasta tropa que
emite altos clamores. Quando passam diante da casa de outros espíritos, estes
são contagiados por sua empolgação e perguntam: “Aonde vão tão animados?”.
Então, são convidados a se juntar ao grupo, que vai crescendo cada vez mais:
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“Vamos dançar na casa dos fantasmas, venham conosco! Vamos lá, todos jun-
tos!”. É assim que acontece. Quando respondemos com empenho aos cantos
dos xapiri que vêm a nós, eles vão ficando cada vez mais numerosos, e cada vez
mais eufóricos; no final, é uma multidão que chega para fazer sua dança de
apresentação.
Minha esposa, a quem eu falava sobre isso, certo dia me perguntou: “Mas,
se Omama não gosta de dar seus espíritos mais belos, como você diz, os xapiri
que vocês costumam fazer dançar são fracos e feios?”. Protestei logo, explican-
do: “Não! Não é isso! São os humanos que são medonhos comparados aos es-
píritos! Os xapiri, que são nossos filhos, ao contrário, são belíssimos! No entan-
to, os mais bonitos deles só vêm aos poucos, com trabalho. Assim é!”. Ela então
respondeu: “Awei! Entendi. São como você diz! Se eu fosse xamã, também po-
deria vê-los!”. É verdade. Algumas mulheres se tornam xamãs do mesmo jeito
que os homens. Acontece quando o pai é xamã e elas nascem do esperma de
seus espíritos, pois, como eu disse, quando um xamã copula com sua mulher,
seus espíritos fazem o mesmo. Então, quando essas moças chegam à puberdade,
os xapiri manifestam sua vontade de dançar para elas. Se elas não tiverem medo
de responder aos seus cantos, eles irão se instalar com elas para valer.
Era assim que ocorria com as filhas de nossos maiores. Elas não se torna-
vam xamãs à toa! Seguiam os passos de seus pais e, como eles, tratavam dos
doentes e afugentavam os seres maléficos. No começo, elas não deviam se dei-
xar sujar pelos homens. Porém, mais tarde, quando seus espíritos estivessem
bem assentados, podiam tomar marido. Hoje ainda existem algumas mulheres
xamãs, sobretudo nas terras altas. Quando essas moças têm juízo, não se dão
aos rapazes cedo demais. Crescem sem homens e, desse modo, os espíritos
continuam dançando para elas por muito tempo. São seus pais que chamam
os xapiri para elas e fazem com que suas casas sejam construídas junto delas.
Entre nós, nas terras baixas, isso também acontece, mas não dura. Os rapazes
acabam copulando cedo demais com essas moças e elas logo param de respon-
der aos espíritos. Foi o que aconteceu com a filha que meu padrasto teve com
uma mulher xamath
ari, no rio Parawa u. Seu pai era um grande xamã e ela
começou a ver e fazer dançar os xapiri como ele. Mas era muito bonita, os
homens a desejavam demais e o cheiro de pênis deles os espantou. Se não fos-
se por isso, ela teria se tornado xamã de verdade.
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Embora as imagens dos ancestrais animais sejam de fato muito numerosas
na floresta, não são as únicas que vivem nela.30
Os xamãs também fazem descer
como xapiri as imagens de todos os seus outros habitantes: das árvores, das
folhas e dos cipós, e ainda dos méis, da terra, das pedras, das águas, das corre-
deiras, do vento ou da chuva. Não são menos numerosas e, quando chegam
juntas para fazer sua dança de apresentação, são mesmo magníficas! Os xamãs
podem ainda fazer dançar a imagem dos seres maléficos në wãri, que nos de-
voram como caça na mata.31
É assim a imagem do ser da seca, Omoari, que
ataca os humanos quando pescam com timbó no verão,32
e do ser do anoitecer,
Weyaweyari, ladrão de imagem das crianças que ficam brincando fora de casa
até tarde. Podem chamar também o espírito sucuri Õkarimari, que mata as
mulheres fazendo-as abortar, e o espírito do antigo fantasma Poretapari, que
nos atinge com suas pontas de flecha com curare.33
São espíritos perigosos e
ferozes, que ficam com raiva quando estão com fome ou lhes falta tabaco.
No entanto, nem todos os xapiri são habitantes da floresta. Alguns deles
são imagens dos seres que moram nas costas do céu ou mais além. Também
são temíveis, como o espírito gavião Koimari, que talha as crianças com seu
facão afiado,34
o espírito borboleta Yãpimari, que leva embora suas imagens,
ou o espírito raio Yãpirari, que se faz descer com raiva num estrondo de luz
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para assustar os inimigos. Há ainda o espírito sol Moth
okari, da boca cheia de
sangue, que provoca febre nas crianças amarrando-as com o algodão escaldan-
te fiado por sua esposa, antes de devorá-las. E também as imagens dos seres do
céu novo que chamamos tukurima mosi.35
Esse céu, transparente e frágil, fica
muito além do que podemos ver com nossos olhos. É habitado por seres mos-
cas prõõri, seres insetos warusinari e seres urubu watupari e hw
akohw
akori.36
No mundo debaixo da terra, onde reinam a escuridão e uma chuva sem fim,
tudo é podre. No entanto, muitos outros xapiri vêm de lá! Esses são as imagens
dos ancestrais aõpatari, que devoram as substâncias de feitiço e os seres malé-
ficos jogados pelos xamãs em suas curas. Há ainda o ser do caos, Xiwãripo,37
com seus espíritos queixada, Titiri, o espírito da noite, Ruëri, o espírito do
tempo encoberto, e Motu uri, o das águas subterrâneas.
Os xapiri costumam ser magníficos de ver, como o espírito do vendaval,
Yariporari, que dança com leveza em meio a turbilhões de penugem branca,
agitando imensas folhas de palmeira hoko si desfiadas, que ondulam em seu
sopro poderoso. Por outro lado, as imagens dos seres maléficos në wãri podem
ser apavorantes!38
Como, por exemplo, a do espírito onça Iramari, que brande
seu facão afiado espalhando fagulhas, ou a do espírito algodão Xinarumari,
com suas garras, seus ornamentos candentes e sua longa cauda venenosa. Há
também as imagens espantosas do fantasma de xamã morto Poreporeri, com
seu crânio careca e seu rosto descarnado, e a do espírito lua Poriporiri, com sua
barba rala e seus caninos afiados. Há ainda a do ser das cheias, Riori, de corpo
peludo e purulento, a da sucuri Õkarimari, cuja rede exala um fedor apimen-
tado e que dança em seu caminho de brasa com seu enorme pênis em ereção,
ou a do grande ser gavião Ara poko, de olhos vidrados, que balança um longo
algodão incandescente com que amarra suas presas. Quando alguém se torna
xamã e os vê dançar pela primeira vez, esses xapiri maléficos são mesmo mui-
to assustadores! Porém, depois que amarram suas redes em nossa casa de es-
píritos, acabamos nos acostumando com eles, apesar de continuarem sendo
muito ferozes e briguentos.
Assim é. As imagens que os xamãs fazem dançar são sem número e suas
palavras são mesmo infindáveis! Existem ainda muitos outros xapiri dos quais
não falei. Como os espíritos do céu, hutukarari, que vêm e vão numa claridade
ofuscante, com as cabeças cobertas de penugem imaculada. E as mulheres es-
píritos waikayoma, que flecham as miçangas,39
e os espíritos das árvores de
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cantos, amoa hiri. E a imagem do menino vingador Õeõeri, que nos ensinou a
guerra no primeiro tempo, e a de Remori, o espírito zangão que deu aos bran-
cos sua língua emaranhada. Há ainda os xapiri dos ancestrais dos brancos,
criados por Omama, que chamamos napënapëri. E ainda o antigo espírito guer-
reiro Aiamori, e Wixiari, o espírito de morte que engole o sopro de vida dos
inimigos. Existem inclusive espíritos dos cães, hiimari, das panelas, hapakari,
e do fogo, wakëri! Essas palavras sobre os seres cujas imagens fazemos dançar
não acabam nunca! Nenhum gravador jamais poderá esgotar a multidão de
suas palavras!
Os xapiri de um xamã o chamam de “pai” porque permanecem junto dele,
que os alimenta de pó de yãkoana. Não o chamam de nenhum outro modo. Se
o pai não os incomodar com o cheiro das folhas de mel que enfeitam as braça-
deiras das mulheres, se imitar seus cantos com acerto e se beber yãkoana fre-
quentemente para fazê-los dançar, os espíritos, satisfeitos, ficam com ele. Bem
alimentados, exclamam com alegria: “Nosso pai nos trata bem! Sabe responder
a nossas palavras!”. Se, ao contrário, ficam com fome e irritados, se sentem mal-
tratados e acabam fugindo de volta para o lugar de onde vieram, para nunca
mais voltar. A yãkoana é seu verdadeiro alimento. Quando seu pai a bebe, far-
tam-se dela através dele. Morrem sob seu efeito, do mesmo modo que ele. Então,
ficam muito felizes e seus cantos se tornam esplêndidos!
Quando eu era mais novo, ficava me perguntando se os xapiri podiam
morrer, como os humanos. Hoje sei que, apesar de minúsculos, são poderosos
e imortais. Assim, os espíritos que nossos antepassados faziam dançar conti-
nuam vivos, mesmo muito tempo após a morte dos xamãs que os tinham. É
verdade. Depois da morte daquele a quem chamavam “pai”, os xapiri reconhe-
cem seu filho ou genro e se interessam por ele. Quando ele morrer, descem
para junto de seus filhos que, por sua vez, vão beber yãkoana para alimentá-los.
Assim é desde sempre. A esses xapiri dos antigos xamãs que voltam para dan-
çar para os vivos chamamos de espíritos órfãos, xapiri hapara pë.40
O pai que
os fazia dançar outrora já não existe. Porém, apesar da morte deste, as casas e
espelhos de seus espíritos seguem existindo. Seus olhos, seus adornos de plu-
mas e sua pintura de urucum são sempre magníficos. Eles continuam gostando
dos humanos e persistem em descer para perto de nós. Assim, quando um
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antigo xamã ainda em vida indica um rapaz aos olhos de seus xapiri, estes o
reconhecerão e descerão para junto dele quando seu pai morrer. Eu tenho
poucos desses espíritos órfãos, pois, no tempo em que nossos antigos ainda
viviam, eu ainda não bebia yãkoana. Não puderam me dar seus xapiri antes de
morrerem e portanto eles não se lembram de mim. Na verdade, um único
grande xamã, que morreu entre nós há algum tempo, me apresentou a seus
espíritos em vida. Eles reconhecem em mim os ornamentos de seu falecido pai:
os tufos de penas paixi de suas braçadeiras, suas faixas de rabo de macaco
cuxiú-negro e os rastros de seu urucum. Por isso continuam descendo a mim.
Esses espíritos hapara pë se parecem muito com seus finados pais. Assim, quan-
do vêm dançar em forma de fantasma, vemos através deles os antigos xamãs
que os tinham, e sua lembrança volta a nós com muita saudade.
Não pensem que os xapiri são apenas espíritos homens. Numerosas mu-
lheres espíritos também fazem sua dança de apresentação para os xamãs! Nós
as chamamos de yaroriyoma pë, as mulheres espíritos animais, e também as
mulheres espíritos th
uëyoma pë.41
São as filhas, irmãs, noras e esposas dos xapi-
ri. Dentre elas, muitas são belíssimas jovens mulheres espíritos quati, mas so-
bretudo mulheres espíritos cipó kumi, hábeis no preparo de encantamentos
amorosos.42
Os espíritos homens só executam suas danças de apresentação
depois de terem sido atraídos por esses espíritos mulheres, que os precedem
sempre. Seus feitiços alegram-nos e assim elas conseguem fazer com que as
sigam, mesmo os que estão com preguiça ou emburrados.
Nossas esposas, e até nossas filhas moças, parecem bem feiosas em com-
paração com as mulheres espíritos, que são capazes de fascinar e provocar
ciúmes em todos os xapiri! Elas são de fato maravilhosas! Têm lindos olhos
puxados e seus cabelos negros são muito finos. Suas franjas são realçadas por
uma linha de penugem de um branco luminoso. Os bastonetes que enfeitam
suas bocas são decorados com pequenas penas pretas de crista de mutum.43
Os
lóbulos de suas orelhas são enfeitados com flores brancas das árvores weri nahi
ou flores vermelhas das árvores ata hi, com caudais verdes de papagaio werehe
e penas multicolores do pássaro wisawisama si. Sua pele macia é pintada com
urucum brilhante. Dançam com muita graça, às vezes com seus bebês nas cos-
tas dormindo na tipoia.
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Os xapiri homens se apaixonam por elas sem dificuldade! Por isso essas
mulheres espíritos sempre os precedem. Eles se juntam com muita pressa para
segui-las, vindos de todos os lados, cada vez mais numerosos. Nunca dançam
sozinhos, entre eles. Seu olhar é atraído pela grande beleza dessas mulheres
espíritos, que os seduz e os apaixona. Eles avançam dando gritos de alegria e
incentivam uns aos outros a dançar. Os espíritos homens só ficam mesmo fe-
lizes de fazer sua dança de apresentação quando se juntam com as mulheres
xapiri! É por isso que são sempre elas as primeiras a dançar, como nossas
mulheres, nas festas reahu. Os espíritos homens respondem ao seu chamado e
seguem seus movimentos. Elas então fingem rejeitá-los, mas eles não param de
tentar se aproximar. São mesmo muito apaixonados por elas! Não fosse isso,
os xapiri não se apressariam tanto para dançar!
Os espíritos não são como os animais nem como os humanos. São outros.
Não bebem água dos rios nem comem carne de caça. Detestam tudo o que é
salgado ou grelhado e só gostam de coisas doces. Os espíritos abelha se alimen-
tam do néctar de flores, como as das árvores pahi hi, hotorea kosihi, xitopari hi
e masihanari kohi. Os espíritos vespa preferem suco de bananas maduras. Os
espíritos macaco-aranha, tucano, mutum e jacamim bebem o suco das frutas
das palmeiras hoko si e maima si, ou das árvores hayi hi, xaraka ahi e apia hi. Já
os espíritos anta obtêm a imagem de sua gordura a partir dos frutos da árvore
oruxi hi. Não se pode pensar que os alimentos dos espíritos animais são iguais
aos nossos. Eles se alimentam das imagens do que chamamos në rope, a rique-
za da floresta.44
São alimentos de verdade, ao mesmo tempo saborosos e livres
de qualquer sujeira. Bebem apenas a água perfumada que vem das montanhas
altas. É por essa razão que até seus excrementos perfumam. Os nossos empes-
teiam porque a caça que comemos se decompõe em nós. Já o corpo dos xapiri
não contém nenhuma carne podre, de modo que mesmo seus peidos espalham
um perfume agradável! Aliás, eles costumam cheirá-los nas mãos em concha.
É, para eles, uma energia que não querem perder. Os odores de nossos alimen-
tos e a fumaça de nossas casas lhes parecem sujos e malcheirosos. Até a fragrân-
cia das folhas de mel nos braços de nossas mulheres os enoja. Entre eles, apenas
os espíritos onça devoram caça, ao passo que os dos seres maléficos,45
como o
espírito gavião Koimari, são também comedores de homem. Assim como os
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espíritos urubu, que vêm de além do céu e têm um apetite insaciável por gor-
dura humana. Esses xapiri são perigosos e podem voar muito longe para devo-
rar as crianças de casas desconhecidas. Às vezes chegam a atacar adultos, e até
xamãs. São cruéis; não se alimentam de flores; longe disso!
Os xapiri apreciam o tabaco tanto quanto nós. Seus rolos de tabaco, po-
rém, não se parecem nada com os nossos.46
São minúsculos e de uma brancura
resplandecente. Fabricam-nos com folhas de tabaco celeste do espírito lagarta
Yoropori.47
Os espíritos do jupará, do guariba, das abelhas, das borboletas e dos
lagartos, todos usam esse mesmo tabaco. Assim como o espírito lua Poropori-
ri e o espírito trovão Yãrimari. Mas é sempre o espírito do grande caracol
warama aka que tem a brejeira mais grossa e mais úmida.48
Assim é. Quando
falta tabaco aos velhos xapiri, o tempo fica encoberto. Ficam irritados e param
de trabalhar para segurar a chuva e o vento, que vão ganhando força. Mas,
quando ficam satisfeitos e apaziguados por um bom rolo de folhas de tabaco
debaixo do lábio, acalmam-se e o tempo clareia.
Os xapiri são também guerreiros valentes, e suas armas são muito perigo-
sas. Possuem bordunas pesadas e lâminas de ferro imensas, que chamamos si-
parari, como as que são agitadas pelos espíritos cobra karihirima kiki e pelos
espíritos jacaré durante suas danças de apresentação.49
São como sabres de po-
der.50
Não se parecem em nada, porém, com as espadas que os brancos conhe-
cem. Altas como o céu, são luminosas e brilhantes como espelhos. São feitas de
outro aço, afiado e cortante, que é o pai do metal. Por isso suas feridas são tão
mortais para os seres maléficos në wãri. Outros espíritos, como os dos escor-
piões e os das vespas, também disparam sobre eles flechas com pontas embebi-
das em curare — a picada desses insetos por acaso não é dolorosa? Certos xa-
piri, como o espírito preguiça, possuem espingardas vindas dos espíritos
ancestrais dos brancos, os napënapëri. Ameaçam com elas os trovões para si-
lenciá-los e abrem fogo sobre os në wãri e seus cães de caça. Outros xapiri lutam
com lanças, como o espírito da arraia yamara aka — o ferrão desse peixe é
perigoso, não? Outros ainda, como os espíritos morcego, utilizam zarabatanas
para soprar plantas de feitiçaria sobre seus adversários. Outros, enfim, como o
espírito do escaravelho maika, lançam sobre os seres maléficos bolas de piche
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mai koko51
em chamas ou, como o espírito pedra Maamari, esmagam-nos com
seu próprio peso.
É com essas armas que os xapiri se esforçam para nos curar. É com suas
presas afiadas que os espíritos queixada despedaçam os seres maléficos que se
apoderam das imagens das crianças, e com suas mãos habilidosas que os espí-
ritos macaco-aranha desfazem os nós dos laços de algodão que as mantêm
presas. Do mesmo modo, são as mandíbulas dos espíritos dos peixes pequenos
yaraka si que retalham os rastros de doença,52
como os peixinhos disputam os
restos de caça abatida jogados nos igarapés. Depois, os espíritos abelha e for-
miga os devoram aos poucos, do mesmo modo que esses insetos se juntam
sobre o sangue dos animais que estão sendo trinchados.53
Os espíritos poraquê,
por fim, são capazes de fulminar a epidemia xawara com seus raios, ao passo
que o espírito lua a dilacera com suas presas afiadas.
Acontece também, muitas vezes, de os xapiri guerrearem para nos proteger
de outros espíritos hostis, enviados por xamãs inimigos distantes. Eis o que ocor-
re. Na direção do poente, vivem os espíritos dos xamãs xamath
ari, enquanto do
lado das terras altas estão os dos Parahori. Para esses xapiri, os nossos são espí-
ritos waika.54
Todos são muito valentes e dispostos a lançar ataques para se vin-
garem. Em comparação com eles, somos todos covardes! Muitas vezes, trocamos
insultos e ameaças, mas é raro nos flecharmos para valer. Já os xapiri nunca se
contentam com palavras. Guerreiam com ferocidade e para matar mesmo! Os
espíritos dos gaviões-tesoura witiwitima namo, dos pequenos gaviões teateama
e das andorinhas xiroxiro, por exemplo, combatem entre si com pedaços de
pedra que arrancam das montanhas! São tão rápidos que ninguém consegue
seguir sua pista. Atacam de repente e logo desaparecem nos ares, para reapare-
cerem de novo noutro lugar, atacar e sumir mais uma vez, bem depressa.
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Os xapiri guerreiros colocam em suas flechas pontas de lascas celestes, de
um brilho ofuscante, como um metal luminoso.55
Vão buscá-las nos confins da
floresta, onde o céu se aproxima da terra e o sol desaparece. Com essas pontas
muito poderosas, nunca erram seus alvos, mesmo a enormes distâncias. Podem
também pegar seus adversários e prendê-los em grandes caixas de metal pare-
cidas com prisões, ou colá-los no peito do céu com piche, e deixá-los lá até
morrerem. Às vezes dançam brandindo imensos braseiros vindos de terras
distantes, a que chamam mõruxi wakë. Esses fogos se parecem com o que os
brancos chamam de vulcão. Queimam e devastam tudo em sua passagem. Os
espíritos os usam para aterrorizar seus inimigos e incendiar suas casas. Assim
é. Quando xapiri enviados por xamãs inimigos se aproximam de nós, nossos
próprios espíritos os combatem com uma valentia implacável.
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5. A iniciação
Espelhos dos espíritos.
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Já adulto, os xapiri ainda me amedrontavam durante o sono, do mesmo
modo que antes, durante a minha infância em Marakana. Contudo, eu ainda
não tinha bebido o pó de yãkoana e não os conhecia de verdade. Eu continuava
sendo uma pessoa comum, meu peito era oco. Em meus sonhos, só os percebia
na forma de penugens de um branco ofuscante, como um enxame luminoso
ao longe. Não fazia ideia do que eram de fato! Eu só me tornava fantasma du-
rante a noite, e nunca dormia tranquilo. Por isso o meu padrasto sempre quis
fazer de mim um xamã. Quando eu era criança, ele costumava me dizer: “Assim
que você crescer, vou lhe dar meus espíritos mais bonitos! Abrirei seus cami-
nhos! Vou chamá-los e abrir uma clareira para que venham a você!”.
Na época, isso me assustava e eu respondia: “Ainda sou muito pequeno,
não quero!”. Apesar disso, não parei de virar outro quando dormia e os xapiri
sempre visitavam meus sonhos. Mantinham os olhos fixos em mim. Só assim
alguém pode sonhar como se também fosse um espírito. Senão, sonha apenas
com as coisas que viu durante o dia, como as pessoas comuns. Certos rapazes
viram outros porque os xapiri chegam a eles quando caçam na floresta. Não
foi o meu caso. Eles sempre me visitaram durante o tempo do sonho. Olhavam
para mim com afeto e queriam se aproximar porque reconheciam em mim as
marcas de seus enfeites, que eu trazia desde bem pequeno.
Quando fui trabalhar para os brancos no posto da Funai de Demini, no
sopé da Montanha do Vento, meus sonhos assustadores não tinham parado.1
Algumas luas após minha instalação, o pai de minha futura esposa e seus fami-
liares decidiram vir morar na região.2
Construíram ali uma nova casa. Assim,
me acostumei a deixar o posto Demini depois do meu trabalho com os brancos
para ir dormir lá. A casa era muito menor do que a nossa atual em Watoriki e
mais distante do posto do que estamos agora. Quando dormia lá, meu sono era
muito agitado. Meus antigos pesadelos recomeçavam, ainda mais frequentes, e
eu virava outro quase todas as noites. De manhã, quando acordávamos, as pes-
soas da casa costumavam me dizer: “Você não para de se comportar como um
fantasma enquanto dorme!”. E mesmo quando eu, de vez em quando, ia para a
cidade com o pessoal da Funai, isso continuava. Eles também me diziam que
eu não parava de falar e de me agitar durante a noite.
Mais tarde, acabei falando a respeito de tudo isso com o meu sogro, que é
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um grande xamã. Perguntei a ele: “Por que eu durmo tão mal? Que visões são
essas que tanto me assustam durante o sono?”. Ele me escutou com atenção, e
depois explicou: “Você fica falando e gritando durante o sono? E se agita como
um fantasma na noite? São os xapiri que o fazem virar outro e o assustam
quando você dorme. Não se preocupe! Eles só querem lhe mostrar sua dança
de apresentação, para virem morar com você. Para isso fazem você virar espí-
rito como eles. Quando o curaram, ainda pequeno, há muito tempo, nossos
antigos xamãs puseram em você enfeites de espírito. Por isso os xapiri o reco-
nhecem e vêm a você com tanta vontade agora! Você não vira fantasma à toa!”.
Ao escutá-lo, meu pensamento vacilava e eu não sabia o que dizer de tudo
aquilo. Acabei respondendo apenas: “Não sei!”. Então, ele me perguntou: “Isso
acontece com você quando está acordado?”.3
Disso eu tinha certeza: “Ma! Só
vejo os espíritos virem a mim quando estou dormindo”. Então, ele acrescentou:
“Bom! Pare de gritar à toa durante a noite! Não aja mais como fantasma sem
motivo! Beba yãkoana comigo e responda aos espíritos que o querem. Assim
você poderá tratar sua gente. Se quiser, apresente-me suas narinas para que eu
lhe dê o sopro de vida dos xapiri. Vou fazê-lo virar espírito mesmo!”.
Preocupado e indeciso, fiz perguntas a respeito dos xapiri: “Como eles
são? São muito belos mesmo? São poderosos? Podem nos matar? Se não con-
seguirmos responder a eles, ficam perigosos?”. Ele me respondeu apenas: “Se
você não se tornar xamã, ficará desamparado quando tiver filhos e eles adoe-
cerem!”. Então eu disse a mim mesmo: “Haixopë! Entendi! É minha vez de
imitar nossos maiores, que viram espíritos desde sempre! Não conheci nossos
avós, mas sei que foram grandes xamãs. Devo seguir seus passos e fazer dançar
os espíritos que eles tiveram antes de mim!”. Desde a infância, eu costumava
ver os xapiri em sonho e já tinha pensado que seria bom tornar-me xamã para
saber curar. Mas, como ainda não podia conhecê-los de fato, me sentia perdi-
do. Avaliava que, se os meus ficassem doentes, eu não poderia fazer nada para
vingá-los dos seres maléficos e das fumaças de epidemia.
Então, finalmente tomei uma decisão e respondi: “Awei! Quero tentar
beber yãkoana. Não sei nada dessas coisas, mas quero mesmo conhecer a be-
leza e a força dos xapiri! Quero virar espírito!”. Meu sogro olhou para mim
sorrindo e replicou: “É mesmo? Você não vai ter medo?”. Eu retruquei: “Ma!
Quero mesmo seguir o caminho dos nossos maiores! Quero poder continuar
a fazer descer os espíritos quando eles não estiverem mais aqui! Quero beber
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yãkoana para que meus olhos morram por sua vez!”. Foi depois disso que ele
começou a me dar seus espíritos, soprando pó de yãkoana em minhas narinas
pela primeira vez. É um ancião, um grande xamã. Seus xapiri são muitos e
fortes. Seu pensamento vai muito longe e sua casa de espíritos é muito alta.
Foi generoso da parte dele me dar assim o sopro de vida de seus próprios
xapiri, pois ele quis mesmo fazer de mim um xamã! Foi na casa dele, a primei-
ra casa dos habitantes da floresta da Montanha do Vento perto do posto de
Demini, que eu fui iniciado.4
Na época, eu ainda trabalhava como intérprete
da Funai. Mas o branco que era então chefe do posto não tentou me impedir
de beber yãkoana e de me tornar xamã. Ele não gostava de mim e mantinha
distância. Não estava interessado no que eu podia fazer. Na maior parte do
tempo, ele só me ignorava.
Foi assim que aconteceu. Comecei a beber yãkoana num certo dia no tem-
po da seca. A casa estava quase vazia. Não era um período de festa reahu, porque
os xapiri preferem o silêncio. Não gostam de descer quando a casa daquele que
os chama está cheia, barulhenta e enfumaçada. No dia anterior, na floresta, meu
sogro tinha cortado e colocado no fogo tiras de casca da árvore yãkoana hi.
Tinha recolhido sua resina vermelha e cozinhado num pote de cerâmica. Na
manhã seguinte, se pôs a pulverizá-la com muito cuidado. Quando terminou,
me chamou e me disse para eu me agachar diante dele. O sol já estava bem alto
no céu. A yãkoana recém-preparada tinha um cheiro muito forte.5
Então ele
começou a soprar grandes quantidades de pó em cada uma de minhas narinas,
com um tubo de madeira de palmeirinha horoma. Soprava com força e reco-
meçou várias vezes. Era a primeira vez que eu inalava tanta yãkoana assim!
Eu estava muito ansioso, porque estava longe de conhecer todo o poder
dela! Então, de repente, sua imagem, Yãkoanari, bateu em minha nuca com
força e me jogou para trás, no chão. Desmaiei logo e fiquei estirado na praça
central, em estado de fantasma. Durou bastante tempo. A yãkoana tinha me
matado mesmo! Depois de um tempo voltei a mim um pouco e comecei a
gemer. Meu ventre caía de medo e eu fiquei imóvel, prostrado na poeira. Devia
mesmo dar pena de ver! Minha cabeça doía muito! Achei que não iria sobre-
viver. Eu estava cada vez mais apavorado. No entanto, apesar do medo, me
agachei de novo na frente do meu sogro e continuei aproximando as narinas,
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deixando escapar um lamento a cada nova dose de yãkoana: “Aaaa! Estou vi-
rando outro! Aaaa!”.
Não nos tornamos xamãs comendo carne de caça ou plantas das nossas
roças, e sim graças às árvores da floresta. É o pó de yãkoana, tirado da seiva das
árvores yãkoana hi, que faz com que as palavras dos espíritos se revelem e se
propaguem ao longe. A gente comum é surda a elas mas, quando nos tornamos
xamãs, podemos ouvi-las com clareza. A yãkoana, como eu disse, é o alimento
dos xapiri. Eles a chamam raxa yawari u, o mingau de pupunha da gente das
águas. Bebem-na sem descanso, com avidez. Assim que sua força aumenta, eles
a absorvem através do seu pai, o xamã, pois a yãkoana penetra nele pelo nariz,
que é a entrada de sua casa de espíritos.6
Então, são muitos os xapiri a alimen-
tar-se dela. Por isso o xamã não desaba no chão. Ao beber yãkoana, ele só entra
em estado de fantasma e seus espíritos, uma vez satisfeitos, descem em seus
espelhos, alastrando por toda parte o cheiro suave de suas pinturas de urucum.
O poder da yãkoana é forte e dura muito tempo. Apesar de ser menos
luminoso e violento do que o do pó de paara, tirado das sementes chatas da
árvore paara hi, que os Xamath
ari usam. Existem várias yãkoana. Dentre elas,
é o pó de yãkoana haare a o mais poderoso.7
Se alguém a beber sem cautela, a
imagem dessa yãkoana atingirá seu crânio com um violento golpe de machado
e o jogará no chão. Desmaiará logo, e não voltará a si tão cedo, sobretudo se
for misturada com pó de paara! Logo depois de beber yãkoana, os xapiri se
apoderam da imagem de seu pai, o xamã, e levam-na consigo para longe em
seus voos, enquanto a pele dele fica estirada no chão. Por mais que as distâncias
pareçam ser longas a nossos olhos de fantasma, não o são de modo algum
para os espíritos, que são muito ligeiros. Quando descem a nós, mal temos
tempo de escutar um zumbido e eles já pegaram nossa imagem, para perdê-la
muito longe dali.
Yãkoanari é o nome do pai da yãkoana. Sua imagem continua morando
onde Omama, há muito tempo, deu de beber desse pó a seu filho, que foi o
primeiro xamã. Yãkoanari é um antepassado de verdade, um espírito muito
poderoso. Nas palavras dos brancos, é o dono da yãkoana. O poder de seu pó
é tamanho que faz explodir na pessoa uma luz deslumbrante, que cega. Por
isso, quando a pessoa não o conhece, ela é logo derrubada com muita força e
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despenca no chão. Fica se debatendo para todos os lados, com o ventre tomado
de terror. Depois fica lá, na poeira, sem consciência, por bastante tempo. Foi o
que aconteceu comigo na primeira vez. Mais tarde, porém, quando a pessoa se
acostuma ao uso da yãkoana, isso passa, e ela já não cai mais no chão gemendo
e se contorcendo. Apesar da força intensa e repentina da yãkoana, ela consegue
ficar de pé e aí pode virar xapiri de verdade, dançando e cantando sem trégua.
Os espíritos da yãkoana, chamados yãkoanari e ayukunari,8
ficam ao nosso
lado. Ajudam-nos a pensar direito e nossas palavras não param de aumentar e
esticar graças a eles. É a yãkoana que nos permite, guiados pelos xamãs mais
experientes, ver os caminhos dos espíritos e os dos seres maléficos. Sem ela,
seríamos ignorantes.
Tornados fantasmas durante o dia ou durante o tempo do sonho, é com
ela que estudamos. Sem tomar yãkoana, como eu disse, não se sonha de ver-
dade. Ao contrário, quem dorme sob o poder dela continua vendo dançar e
cantar os espíritos durante o sono. O corpo fica deitado na rede, mas os xapiri
levantam voo com a imagem e fazem ver coisas desconhecidas. Levam a me-
mória da pessoa consigo, em todas as direções da floresta, do céu e debaixo da
terra. Se não fosse assim, no sonho veríamos apenas humanos, como nós. Só
veríamos nossos próximos, gente caçando ou trabalhando na roça. Assim é.
Não pensem que os xapiri se manifestam apenas durante o dia, quando se
bebe yãkoana! Ao contrário, continuam cantando para nós durante a noite. O
tempo todo exigem que o pai os escute: “Não adormeça! Responda, não seja
preguiçoso! Senão, vamos abandoná-lo!”. Se o xamã ficasse com o nariz gru-
dado nas cinzas da sua fogueira a roncar, seus xapiri ficariam muito descon-
tentes. Sairiam de sua casa de espíritos sem ele saber, um por um, e jamais
voltariam. É por isso que, em nossas casas, sempre se ouvem os xamãs cantan-
do durante a noite.
Durante todo o tempo em que meu sogro soprou yãkoana em minhas
narinas, nunca deixou ninguém se aproximar de mim. Eu ficava deitado numa
rede de casca. Até minha esposa devia manter distância. Ela vinha apenas de
tempos em tempos, para alimentar minha fogueira com lenha, com muito cui-
dado. Tudo devia permanecer silencioso ao meu redor. Não se pode fazer ba-
rulho ao andar, nem deixar cair um fardo de lenha perto de alguém que está
tomando yãkoana pela primeira vez! Os xapiri podem fugir no mesmo instan-
te. Eles são muito ariscos e desaparecem assim que os humanos fazem muito
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barulho. Não estão acostumados a isso. Suas casas são muito silenciosas. Por
isso, os xamãs tomam muito cuidado para não assustá-los.
Eu tinha de evitar me movimentar demais. Os espíritos também se recu-
sam a vir dançar junto a quem não para de se mexer. Eles só se aproximam com
muita cautela, e só depois de os antigos xamãs terem limpado bem o chão ao
redor, recobrindo-o de penugem branca. Meu sogro me alertava: “Os xapiri
detestam água fria. Lave-se só com água morna na casa! Não vá à floresta tomar
banho na água do rio! Os espelhos dos espíritos vão se quebrar. Os caminhos
deles vão arrebentar”. É verdade. Os caminhos dos xapiri, finos e transparentes
como fios de aranha, são muito frágeis. Dizia-me também: “Quando as pessoas
assarem carne no fogo, deixe-as comer sozinhas, não peça nada a elas! Você
não deve comer caça. Os espíritos detestam fumaça e cheiro de grelhado. Eles
não têm fome de carne, como nós, humanos. Eles só comem alimentos doces.
Também não beba água do rio! Não se preocupe, logo sua vontade de comer e
de beber vai sumir!”.
No começo, passei mesmo muita fome, a ponto de chorar! Mas é assim,
não se pode ver os xapiri e tornar-se xamã cochilando com a barriga cheia de
carne e mandioca! Eu também tinha muita sede. Minha língua ficou toda seca.
No entanto, alguns dias depois, minha fome e minha sede acabaram. Os espí-
ritos as jogaram para longe de mim. Eu não sentia mais nada. Via uma cuia
cheia de água, mas já não tinha vontade nenhuma de beber. As pessoas ao meu
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redor comiam queixada mas eu também não tinha mais vontade de comer.
Bastava-me inalar o pó de yãkoana, dose após dose, mais e mais. Os xapiri não
paravam de dançar em volta de mim, e eram eles que me alimentavam. Viran-
do outro, eu começava a absorver uma comida invisível que eles colocavam na
minha boca enquanto eu dormia. Em meu sonho, os espíritos ficavam repetin-
do: “Coma, essa é a nossa comida! Recuse carne e não use mais tabaco! Tam-
pouco tome banho! Você não deve chegar perto das mulheres! O cheiro de seus
enfeites de folhas de mel é perigoso. Se você nos quer mesmo, escute nossa voz
e repita as palavras de nossos cantos!”. Então eu sentia o perfume de sua pin-
tura de urucum e de suas plantas mágicas se espalhando em volta de mim. Eu
estava muito fraco, mas, enquanto dormia, comia com prazer o que me davam.
Isso durou um bom tempo, uns cinco dias ou mais. Durante todo esse
tempo, meu sogro não parou de soprar yãkoana em minhas narinas. Fui fican-
do cada vez mais magro e minhas costelas começaram a aparecer. Estava mui-
to sujo, e tinha os olhos fundos de fome e de sede. Quase não comi nem bebi
durante esse período, só uns poucos alimentos doces: um pouco de mingau de
banana ou garapa de cana. Não comia carne, nem banana-da-terra assada na
brasa, nem mandioca, nem batata-doce, nem nada. E não usava brejeira de
tabaco. De outro modo, eu teria dito palavras de fantasma em vez de responder
direito aos cantos dos espíritos. Eu só bebia yãkoana, sem parar. Os espíritos
das vespas kopena e das abelhas xaki iam pouco a pouco devorando toda a
gordura de meu corpo. Já quase nada restava de minha carne. Minha aparência
era de dar pena e eu só conseguia emitir um fiozinho de voz, quase inaudível.
Fiquei muito fraco, de dar dó. Já não tinha sopro de vida. Todos os restos de
comida e carne apodrecidos tinham desaparecido de minhas entranhas. Os
xapiri tinham me enfraquecido de fome e de sede. Tinham me feito emagrecer
de verdade. Eu estava limpo e cheiroso como devia. Assim é. Os espíritos nos
observam e nos cheiram de longe antes de se aproximarem. Se nos acharem
gordos e fedidos, saem correndo. O fedor esfumaçado dos caçadores que co-
mem da própria caça os faz vomitar. Se o aprendiz de xamã for um deles,
cospem nele e exclamam: “Ele tem o peito de quem devora as próprias presas.9
Que imundo! A carne dele é amarga e malcheirosa! Tem gosto de carne quei-
mada! Seu peito cheira a mulher, empesteia com o cheiro das folhas de mel
delas!”. Por isso a primeira coisa que fazem os xamãs mais velhos que nos dão
seus espíritos é nos limpar. Devem nos livrar de todos os restos de caça, de
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todos os cheiros de carne queimada e apodrecida que ficam em nós. Devem
também nos lavar de todo cheiro de pênis. Então podem nos fazer virar espí-
ritos, como eles próprios há muito tempo. Enquanto estivermos sujos e fedo-
rentos, os xapiri se recusarão a vir dançar para nós.
Durante todo o tempo em que eu bebia yãkoana, minha mulher ficou
apreensiva e um pouco descontente comigo. Perguntava-se por que eu queria
beber yãkoana e ver os xapiri, se era para sofrer tanto. Quando me viu fraco,
só pele e osso, acabou chorando. Depois me disse: “Antes de meu pai tê-lo
feito inalar yãkoana, eu estava enfurecida com a sua decisão. Mas agora sinto
muita pena de você!”. Os demais habitantes da casa estavam tão preocupados
quanto ela, vendo-me naquele estado inquietante. Mas eu não sentia sofrimen-
to nenhum, porque queria muito me tornar xamã! Assim é. Para receber os
espíritos do xamã mais velho que nos dá a beber yãkoana, é preciso estar de
estômago vazio. No começo, seu pó deve ser nosso único alimento. Quando,
por fim, nossas entranhas ficam bem limpas, então os xapiri podem vir a nós.
Então pode-se recomeçar a comer um pouquinho, mas apenas comida que
não tenha sido grelhada, nem tenha sal, nem seja ácida. Só se pode ingerir
alimentos brancos e sem gosto, como mingau de banana-da-terra ou filés de
peixinhos cozidos numa folha, e também garapa de cana, mamão e, sobretudo,
mel diluído em água. Essa bebida é, de fato, capaz de nos pôr em estado de
fantasma e de nos fazer virar espíritos. O mel é mesmo o alimento preferido
dos xapiri, que se nutrem de flores e frutas da floresta. Assim que o jovem
xamã o engole, seus espíritos se fartam de mel através dele e ficam muito con-
tentes. Por isso, os xapiri dizem ao iniciando: “Viremos a você, mas você deve
comer como nós, comida doce! Não fique impaciente para devorar carne!”.
Assim, quando vemos abelhas nas árvores, já não podemos mais achar que são
meras abelhas. Sabemos que são também xapiri, que só gostam de sabores
açucarados e perfumados. Como eu disse, os espíritos não comem mandioca e
carne como nós. Tampouco bebem da água dos igarapés da floresta. São bebe-
dores de néctar de flores. Por isso eles só ficam felizes em descer para nós
quando apenas nos nutrimos dos alimentos que eles apreciam. Mais tarde,
porém, depois de os espíritos onça, suçuarana e jaguatirica terem vindo a nós,
podemos voltar a comer carne. Aí, os xamãs mais velhos nos dizem: “Awei! Seu
espírito onça dançou, você agora pode matar a sua fome de caça! Mas se tem-
perar com pimenta, vai precisar lavar muito bem a boca!”.
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É desse modo que eles protegem os xapiri que fazem descer para nós.
Hoje, é minha vez de alertar os rapazes que querem se tornar xamãs: “Não vão
ao rio atrás das mulheres! Não fiquem comendo sem parar! Se vocês não se
contiverem, não serão capazes de ver os xapiri! Nunca vão ouvir seus cantos!
Eles não vão querer dançar para vocês!”. Se xamãs mais experientes não ficas-
sem atentos, junto conosco, quando bebemos yãkoana pela primeira vez, cor-
reríamos o risco de não ter nenhum cuidado e maltratar os espíritos. Furiosos
diante dessa falta de respeito, eles poderiam nos golpear com seus facões e nos
matar. Mas apesar de temermos o poder deles, nosso desejo de fazê-los dançar
como nossos ancestrais é mais forte. É assim porque somos habitantes da
floresta.
É verdade que os xapiri às vezes nos apavoram. Podem nos deixar como
mortos, desabados no chão e reduzidos ao estado de fantasmas. Mas não se
deve achar que nos maltratam à toa. Querem apenas enfraquecer nossa cons-
ciência, pois se ficássemos apenas vivos, como a gente comum, eles não pode-
riam endireitar nosso pensamento. Sem virar outro, mantendo-se vigoroso e
preocupado com o que nos cerca, seria impossível ver as coisas como os espí-
ritos as veem. Por isso os xapiri dizem do iniciando: “Se continuar robusto, não
ouvirá nossa voz!”. Então, os espíritos morcego sopram em nós suas plantas de
feitiçaria, para nos enfraquecer e nos manter em estado de fantasma. Os xapiri
também se aplicam em tirar de nós o menor cheiro de restos de comida, pois
são muito preocupados com limpeza. Por isso, quando encontram qualquer
pedaço de carne em putrefação sobrando em nossas entranhas, reduzem-no a
pedacinhos e jogam longe. Também lavam cuidadosamente nossa boca e peito,
para acabar com todo o cheiro de carne queimada. Friccionam nossa pele até
apagar dela tanto as fragrâncias das mulheres como os cheiros de fumaça, os
odores da cópula e fedores de excrementos. Se a pele estiver contaminada pela
epidemia xawara, não hesitam em arrancá-la como a de um sapo venenoso
yoyo, para jogá-la no rio. Depois, nos esfregam com vigor, usando água dos
igarapés das montanhas. E por fim nos recobrem com uma nova pele, enfeitada
com penugem branca e pintura de urucum. São os espíritos das folhas, dos cipós
e das árvores que vêm nos limpar primeiro. São eles também que rasgam nosso
peito e aumentam seu tamanho para que os outros xapiri possam nele construir
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sua casa. Assim é. Quem ainda tem alguma sujeira fica com língua de fantasma
e não consegue responder aos xapiri.
Outros espíritos nos fazem renascer como crianças. Assim voltamos a ser
recém-nascidos, ainda vermelhos do sangue do parto. Então as mulheres espí-
ritos cortam nosso cordão umbilical e nos lavam com água límpida. Colocam-
-nos sobre um leito de penugem branca, no qual gesticulamos como bebês!
Quando choramos, as mulheres espíritos dos macacos cairara e das ariranhas
proro nos embalam em seus braços.10
Amamentam-nos e cuidam de nós. E mais
tarde, quando largamos o seio e crescemos, elas nos ensinam os cantos dos
xapiri: “Arerererere!”. Então, é a vez de os espíritos da árvore wari mahi e da
águia mohuma nos cobrirem o corpo e o rosto com uma penugem de um
branco luminoso e brilhante.11
Depois a imagem de Omama e as dos demais
xapiri nos oferecem seus enfeites. Amarram uma faixa de rabo de macaco
cuxiú-negro em torno de nossas testas e prendem em nossas braçadeiras tufos
de penas de papagaio e caudais de arara. E finalmente enfeitam nossos corpos
com desenhos de urucum vermelho e preto.
Quando ficamos assim arrumados, carregam-nos para as costas do céu e
lá nos depositam no meio de uma clareira, onde fazem sua dança de apresen-
tação. O chão dessa clareira é um grande espelho salpicado de penugem bran-
ca que cintila com uma luminosidade ofuscante. É tudo ao mesmo tempo mag-
nífico e apavorante. É nossa imagem que os xapiri levam desse modo, para
consertá-la. Primeiro a extraem de dentro de nosso corpo, para depositá-la em
seus espelhos celestes. Enquanto isso nossa pele, muito enfraquecida, queda-se
estendida na praça de nossa casa, na floresta. Então os espíritos extraviam nos-
so pensamento e nossa língua, para nos ensinar a sua. Depois nos dão a conhe-
cer o desenho da floresta, para que possamos protegê-la. Os xapiri são estupen-
dos e resplandecentes. Parecem muito pequenos e frágeis, mas são muito
poderosos. A partir de seus espelhos, revelam-nos a aproximação das fumaças
de epidemia, dos seres maléficos da floresta ou dos espíritos do vendaval. Os
brancos não conhecem isso. No entanto, é assim que, desde sempre, nossos
maiores têm se tornado xamãs. Apenas seguimos seus passos.
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Quando o pai de minha esposa me fez virar outro, tudo ocorreu como
acabo de descrever. Com a yãkoana, ele primeiro tirou de mim todo o vigor.
O seu espírito, que chamamos Yãkoanari, foi comendo minha carne aos pou-
cos. Fiquei tão fraco que dava dó! Os xapiri então lavaram do meu peito todo
cheiro ácido e salgado. Limparam também minhas entranhas de todos os restos
de carne putrefata. Fizeram-me perder toda a força e fizeram-me voltar a ser
um bebê. Depois de algum tempo, meu sogro chamou outros espíritos para
virem se instalar comigo. Disse a eles: “Este rapaz, a quem dou de beber yãkoa­
na, deseja-os e quer virar espírito por sua vez! Vocês aceitam fazer sua dança
de apresentação para ele?”. E os xapiri lhe responderam: “Awei! É um dos seus.
Dançamos para os seus ancestrais desde sempre. Conhecemos vocês. Já que é
a vez dele de nos querer, viremos dançar para ele!”.
Encorajado por essas palavras, meu sogro continuou a me fazer beber yãko-
ana com firmeza, para que eu pudesse pensar direito. É assim que estudamos
para nos tornarmos xamãs. O maior que chama os espíritos por nós deve, ao
longo do dia, soprar o alimento deles em nossas narinas. Então, pouco a pouco,
durante a noite, acabamos por vê-los se aproximando, dançando com alegria, e
isso não para mais. Foi o que meu sogro fez por mim. Revelou-me o caminho
dos xapiri, fez com que descessem e os deu para mim. É um grande xamã, um
homem muito sábio. Ele não queria que pudessem me chamar de mentiroso.
Assim é. Seguimos desde sempre as palavras que Omama deu a seu filho: “Se
você quer mesmo ver os xapiri e ser capaz de responder a eles, precisa beber
yãkoana muitas vezes. Precisa ficar sem se mexer na sua rede e parar de comer
e de copular a qualquer hora. Nesse caso, os xapiri ficarão satisfeitos. Senão, vão
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achá-lo sujo e fugirão”. Por isso o pai de minha esposa me alertou: “Agora vai
ser preciso que seus pensamentos permaneçam calmos e que você responda aos
xapiri com atenção, ou eles ficarão enfurecidos e poderão maltratá-lo!”.
Sob o efeito da yãkoana, fiquei muito tempo estendido no chão, incons-
ciente. Então, os espíritos onça e veado se aproximaram e começaram a me
lamber a pele com a ponta de suas línguas ásperas. Assim provaram minha
carne, para saber se ainda estava ácida ou salgada. Perguntavam-se: “Como ele
está? Vamos conseguir limpá-lo e consertá-lo?”. Os xapiri começam a nos ava-
liar desse modo. Assim, se constatarem que nosso peito está enfumaçado de-
mais, contaminado pelos restos de nossas próprias presas ou fedendo a pênis,
rejeitam-nos logo, golpeando-nos com violência. Em seguida, os espíritos dos
carrapatos pirima ãrixi agarraram minha imagem com a boca, enquanto os
espíritos do céu a levaram nas alturas, para depositá-la sobre seus espelhos.
Depois, bebi mais e mais yãkoana. Aí foi a vez de as imagens das mulheres das
águas me assustarem. Antes de Omama ter feito jorrar os rios da terra, elas vi-
viam no mundo subterrâneo. São as irmãs de sua esposa. São seus feitiços de
amor que fazem os rapazes se tornar xamãs.
Essas imagens só descem a nós se tivermos o corpo esvaziado de carne de
caça; depois de termos também parado de comer bananas e mandioca, e até de
beber água. Não descem enquanto a yãkoana não tiver consumido nossa carne
a ponto de ficarmos esqueléticos mesmo. São muito belas e de valor muito
alto. Apenas os xamãs mais experientes podem chamá-las para nós. Assim que
chegam, elas também tratam de nos examinar com cuidado. Então, se nos
considerarem aceitáveis, levam-nos consigo. Quando isso acontece com um
jovem iniciando, ele se precipita de repente para fora de sua casa, como um
fantasma. E começa a correr para longe, na floresta, fora das trilhas, gemendo
e chamando a mãe aos berros: “Aaa! Napaaa! Aaa! Napaaa!”. Só voltará para
junto dos seus bem mais tarde, quando um xamã mais velho sair em busca
dele para trazê-lo de volta. Foi isso que me aconteceu! De tanto beber yãkoana,
as imagens dos espíritos da floresta e das mulheres das águas vieram a mim
durante o dia e me levaram consigo. Saí correndo, em estado de fantasma,
seguindo suas luzes, que se afastavam ao longe, à minha frente. Segui seus ca-
minhos na floresta por muito tempo, sem parar de gritar: “Aë! Aë! Aë!”. Corri
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muito, até o limite de minhas forças! Mas o pai de minha esposa, temendo que
eu me perdesse para sempre, me protegeu. Interveio para evitar que as mulhe-
res espíritos me levassem para a casa delas, debaixo d’água. Então, elas me
largaram no chão da floresta, inconsciente, e meu sogro enviou seus próprios
xapiri para me levarem de volta para casa.
No começo, quando a pessoa ainda não conhece o poder da yãkoana, não
fica de pé muito tempo. Foi também o que aconteceu comigo. Sua força me fez
morrer e me jogou para trás na hora. Então rolei no chão, me contorcendo de
pavor e gemendo: “Akaaa! Akaaa!”. Apesar de eu ter virado fantasma, os xa-
piri ainda permaneciam invisíveis. Isso me deixava muito ansioso! Não parava
de perguntar a mim mesmo: “Por que ainda não vejo nada?”. Assim se passaram
vários dias sem que os espíritos se manifestassem aos meus olhos. Eu transpi-
rava muito e minha pele estava coberta de poeira. Estava atormentado e muito
agitado. Bebia yãkoana sem descanso e tinha medo. Quanto mais fraco eu me
sentia, mais o seu poder me parecia apavorante. É por isso que poucos rapazes
ousam apresentar o nariz aos xamãs experientes! E quando o fazem, muitas
vezes desistem logo, com medo de morrer. Eu, no entanto, quis continuar,
porque apesar do pavor que sentia, eu queria mesmo conhecer os xapiri.
Foi por isso que, no começo, tive muito medo de não conseguir vê-los. É
verdade! Tomava yãkoana sem parar, mas não via nada. Isso costuma aconte-
cer, mas eu não sabia. Quando se começa a beber yãkoana, de fato, não se vê
nada. A cabeça dói muito e o pensamento continua fechado. A pessoa vai en-
fraquecendo cada vez mais e desmaia o tempo todo. Só isso. Os xapiri não se
revelam de imediato a quem bebe yãkoana pela primeira vez e, se a pessoa não
for vigilante, fica por isso mesmo. Os espíritos começam a fazer sua dança de
apresentação só depois de terem estendido o iniciando sobre seus espelhos. De
modo que é preciso passar várias noites em estado de fantasma e ficar muito
fraco antes de os xapiri se manifestarem.
Primeiro nos contemplam, das alturas do céu. Veem-nos estirados e ex-
postos, na forma de uma pequena mancha clara no chão. Depois começam a
descer em nossa direção, porque nos querem de verdade. Nós, no começo,
apenas ouvimos suas vozes vindo das lonjuras. Aí, de repente, se aproximam
de nós e pegam nossa imagem antes mesmo de os termos avistado. Assim é.
No primeiro dia, a pessoa não vê nada mesmo. No dia seguinte, já não é capaz
de distinguir o dia da noite, nem de dormir. No outro dia, vai ficando cada vez
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mais fraca. Mais um dia e, finalmente, os xapiri começam a aparecer. O ini-
ciando não sente mais fome nem sede. Não sabe mais o que é dor nem sono.
Os espíritos da yãkoana devoraram sua carne e seus olhos morrem. É nesse
momento que começa a ver despontar uma claridade imensa e ofuscante. Dis-
tingue-se a tropa dos xapiri que cantam vindo em nossa direção. Chamados
pelos xamãs mais velhos, dos confins do céu, eles se aproximam de nós devagar,
dançando em seus caminhos luminosos. Os que vêm à frente, ainda poucos,
vão chamando os demais por onde passam. Vão se juntando assim, aos poucos,
até formarem uma multidão barulhenta.
Foi assim que aconteceu comigo, e fiquei apavorado, porque nunca tinha
visto nada igual. Os sonhos que tinha desde pequeno eram pouca coisa com-
parados àquilo! Quando vi pela primeira vez os xapiri descendo para mim, aí
sim, entendi o que é medo! O que comecei a ver, antes de distingui-los com
nitidez, era de fato aterrorizante. Primeiro, a floresta se transformou num imen-
so vazio que ficava rodopiando em torno de mim. Depois, de repente, a luz
explodiu num estrondo. E tudo ficou impregnado de uma claridade ofuscante.
Eu só via a terra e o céu de muito longe, semeados de penugem branca cintilan-
te. Essas pequenas penas luminosas cobriam tudo, flutuando leves no ar. Não
havia mais sombra em lugar algum. Eu via tudo de cima, de uma altura assus-
tadora. Então compreendi que estava começando a me tornar outro de verdade.
Disse a mim mesmo: “O meu sogro sabe mesmo dos espíritos! Por isso conhe-
ce tão bem a floresta! Ele não estava mentindo!”.
Quando os espíritos querem nos pôr à prova, arrancam nossa imagem e
vão depositá-la bem longe, nas costas do céu. São os espíritos das árvores do
pó paara, o pai da yãkoana, e os espíritos da floresta urihinari que levam assim
nossa imagem e nosso sopro, para estendê-los sobre seus espelhos. É desse
modo que nos tornamos xamãs de verdade. Foi o que me aconteceu, e foi mes-
mo muito doloroso! Meu pensamento estava preso no esquecimento e minha
pele jazia no chão, inerte. Os meus se diziam: “Dá pena vê-lo assim, largado
como um morto jogado na poeira!”. Mas não era isso. Meu corpo de fato esta-
va derrubado no chão, mas os xapiri seguravam minha imagem sobre seus
espelhos, no mais alto do céu. Por isso, eu sentia vertigens e tinha tanto medo
de cair! Estava suspenso acima de um enorme abismo, deitado em um amon-
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toado de penugem branca. Já não distinguia as pessoas da casa ao meu redor.
Só podia ouvir suas vozes, como grunhidos roucos e desarticulados. Pareciam
vozes de seres maléficos. Era tudo muito apavorante!
Aí, de repente, tudo à minha volta começou a ficar coberto de flores ama-
relas e brancas, como as das árvores masihanari kohi e weri nahi. Então, vários
caminhos luminosos foram se desenrolando desde os confins do céu. Ondulavam
em minha direção e ouvia-se uma algazarra confusa vindo deles. Apreensivo, eu
me perguntava o que podia ser aquilo. Dizia a mim mesmo: “O que são esses
seres desconhecidos que se aproximam? O que farão de mim?”. Eu era ainda tão
ignorante! Perguntei a meu sogro: “Já são coisas de espíritos?”. E ele confirmou:
“Awei! Os xapiri estão começando a se aproximar de você. Vão chegando aos
poucos, mas você ainda não pode enxergá-los. Só irá mesmo vê-los quando ficar
muito fraco e tiver mesmo virado outro!”. É o que acontece quando o iniciando
começa a virar espírito e seu pensamento ainda está na busca.
Então, agachado ao meu lado, o pai de minha esposa começou a me en-
sinar a ouvir os cantos dos espíritos. Dizia: “Se você quer mesmo tornar-se
xamã, deve responder à voz deles imitando seus cantos e falando com eles. É
claro que no começo você não vai conseguir. Mas, aos poucos, eles vão lhe
revelar suas palavras. Sua boca não deve ter medo! Mesmo que você ainda não
cante bem, eles ficarão satisfeitos só por você responder. Pensarão: ‘Muito
bem! Ele nos quer mesmo!’. Caso contrário, se você não fizer nenhum esforço
e não se comportar como eles esperam, vão maltratá-lo. Se você magoar os
espíritos, eles vão matá-lo e fugirão para bem longe!”. Tendo escutado essas
palavras, um tanto aflito, me esforcei para ouvir a voz dos xapiri e tentar
responder-lhes direito!
Quando se começa a beber yãkoana, não se percebe nada do canto dos
espíritos. É preciso que eles antes tirem de nossas orelhas tudo o que as entope
e nos impede de ouvi-los. Em seguida, eles começam a se manifestar enquanto
dormimos, dando a escutar, aos poucos, sua cantoria. Bem no começo, eu não
sabia nada dos xapiri. Apesar de ficar tomando yãkoana o tempo todo, não os
via e ainda nem sequer ouvia suas vozes! Isso me atormentava, e eu dizia a mim
mesmo: “O que está contecendo comigo? Morro e ajo como um fantasma, mas
não adianta! Inspiro pena rolando na poeira, tudo isso por nada! O que fazer?
Se eu não vir os xapiri, será que devo fingir?”. Mas eu não queria mentir! Todos
os resíduos de comida tinham desaparecido de minhas entranhas e eu estava
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muito fraco mesmo. Minha própria carne tinha virado carne de fantasma. As-
sim, antes de ser capaz de ver os espíritos, comecei me esforçando muito para
ouvir suas palavras. Como me havia recomendado meu sogro, fui tentando,
aos poucos, imitar seus cantos.
Foi ele que começou a ensiná-los a mim. Apresentou-me aos xapiri, como
sempre fizeram nossos ancestrais com seus filhos e genros. Então, de tanto
prestar atenção, comecei a poder ouvir as palavras dos espíritos. Eles trocaram
minha língua e minha garganta pelas deles. E assim, aos poucos, seus cantos
foram se revelando a mim e se tornando claros. Comecei a cantar como eles.
Mas foi tudo muito devagar. Não se pode ser impaciente nesse caso. Deve-se
tentar pouco a pouco imitar a última parte das palavras do canto dos espíritos.12
É assim que se consegue começar a escutá-los de verdade, e foi o que eu fiz. E
finalmente eles livraram minhas orelhas de tudo o que as entupia.
Meu ouvido explodiu com um ruído surdo. Depois comecei, ainda sem
ver nada, a perceber uma melodia bem fraca. Algo como o zumbido de um
enxame de pernilongos. Era o sibilo das flautas de bambu purunama usi que
os espíritos sopram enquanto dançam. Seu som agudo vinha de muito longe e
ia se aproximando devagar. De repente, espalhou-se um outro som, dessa vez
grave, como um vento rodopiando por toda a extensão da floresta. Foi então
que comecei a distinguir ao longe, vindos dos confins do céu, os gritos e cantos
dos xapiri que se aproximavam de mim. Apesar da distância, suas vozes iam
ficando cada vez mais precisas. As pessoas comuns não podiam ouvi-las, mas
para quem tinha se tornado fantasma eram perfeitamente claras.
No momento em que, finalmente, os xapiri revelam suas vozes, o medo
desaparece e, mesmo largado na poeira, sente-se uma intensa alegria! Aí é pre-
ciso se esforçar para responder, para que fiquem felizes de nos escutar e nos
incentivem com seus clamores. Foi assim que, apesar de todo o medo, comecei
a cantar. Ainda só percebia sonoridades muito fracas. Apesar disso, decidi res-
ponder à voz dos xapiri, ecoando-a. Então comecei a ouvir de volta suas excla-
mações de alegria: “Awei! Dessa vez ele está respondendo como se deve!”. Suas
vozes me pareciam muito nítidas. Satisfeito, me apliquei a imitá-los, repetidas
vezes, sem descanso. Diante de meus esforços, eles vieram me ajudar. Disseram
a si mesmos: “Ele não deve estar nos ouvindo bem. Recomecemos! Como fazer
para que nossas palavras sejam audíveis para ele?”. Então retomavam seus can-
tos, subindo o tom de suas vozes mais e mais. Foi assim que, por fim, consegui
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ouvi-los de verdade e cantar como eles. Quando o iniciando se aplica a respon-
der aos xapiri, as imagens do sabiá yõrixiama e da árvore de cantos reã hi des-
cem rapidamente a ele.13
Essas imagens nos emprestam suas gargantas e refor-
çam nossa língua. Desse modo, as palavras do canto dos espíritos aumentam
depressa em nós, como num gravador. Bebemos yãkoana com os olhos cravados
em sua dança de apresentação e perdemos todo o receio de cantar diante das
pessoas de nossa casa. Foi isso mesmo o que aconteceu comigo!
Depois de tanto tempo, eu metia medo de tão magro. Tinha o rosto co-
berto de muco e de pó de yãkoana. Estava morto sob o seu poder e meus olhos
eram os de um fantasma. Os espíritos tinham limpado todo o interior de meu
corpo. Vários dias haviam passado antes de eu, por fim, começar a vê-los dan-
çar. Eu mesmo tinha me tornado um deles. As vozes e danças dos espíritos
haviam se tornado as minhas. Agora eles estavam satisfeitos de verdade. Assim
é. Os xapiri ficam felizes quando lhes respondemos fazendo vibrar a língua:
“Arerererere!”. Assim que nos escutam imitando seus cantos, gritam de satis-
fação e afluem de todos os lados com clamores de júbilo, como convidados a
uma festa reahu: “Aë! Aë! Aë!”. Caso contrário, se a resposta de nossos cantos
tem pouca energia, eles se irritam logo por não serem desejados. Então come-
çam a nos insultar: “Hou! Sua voz é feia e tremida! Você está muito sujo! Fede
a pênis e é um covarde! Se tem medo de nós, não nos chame!”. Ficam furiosos
se o iniciando fica só se contorcendo na poeira e proferindo palavras de fan-
tasma, sem responder como esperam. Dizem a si mesmos: “Hou! E contudo,
nosso canto é claro! Esse fantasma é mesmo surdo! Não nos vê? Será que está
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dormindo? Não nos quer? Insiste em nos fazer vir de longe para dançar para
ele e, agora, fica mudo!”.
Se não bebermos yãkoana com aplicação e não cantarmos para eles, os
xapiri se recusam a vir se instalar junto de nós. Nunca chegam perto das pes-
soas comuns, que se contentam em viver deitadas em suas redes. Consideram-
-nas sujas e acham que são incapazes de ouvir suas vozes. Se um iniciando
chamar os espíritos à toa, dirão que tem gosto amargo, e irão zombar de sua
voz de fantasma. Será chamado de preguiçoso e censurado por não fazê-los
dançar. Exasperados, eles acabarão por cuspir nele e cobri-lo de cinzas, antes
de fugirem para longe. Quando isso acontece com um jovem aprendiz xamã,
ele começa a definhar. Fica magro e feio logo em seguida. Em vez de virar es-
pírito, corre o risco de morrer.
A pessoa que quer se tornar xamã também não deve deixar seus olhos se
moverem demais de um lado para outro, observando os habitantes da casa ou
mesmo olhando para o chão. Por isso eu me esforçava para manter o olhar
sempre voltado para o céu. Sem isso, eu jamais teria podido ver os espíritos
descerem. Meus olhos eram os de um fantasma e eu já não via nada à minha
volta. Minha visão e meu pensamento estavam concentrados nos xapiri. E as-
sim, com o passar do tempo, eles acabaram se manifestando. Finalmente pude
vê-los vindo em minha direção das alturas do céu, numa imensa luminosidade
pulsante. Desciam muito devagar e se juntavam, mais e mais numerosos, numa
chuva ofuscante de penugem branca. A vibração poderosa de seus cantos ia se
aproximando aos poucos: “Arerererere!”. Puseram-se a turbilhonar ali mesmo
nos ares, como uma multidão de colibris. Fui aos poucos conseguindo distin-
guir seus ornamentos resplandecentes: braçadeiras de crista de mutum e peitos
de jacamim, faixas de rabo de macaco cuxiú-negro e cabelos recobertos de
penugem de gavião e de urubu-rei. Seus dentes imaculados cintilavam e sua
pele brilhava de desenhos de urucum vermelho e preto. Giravam em redor de
mim, dançando e lançando gritos exaltados. A partir desse instante, meu sono
fugiu. Eu estava deitado na praça central de nossa casa e a floresta à minha
volta havia desaparecido. Só fazia contemplar a dança dos xapiri.
Eles me fizeram outro para que eu não minta.
Quiseram mesmo me fazer virar espírito.
Fizeram desaparecer a floresta e a substituíram por uma terra coberta de
penugem branca. Deitaram minha imagem no peito do céu, no centro de seu
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espelho. Era apavorante, mas meu medo se dissipou logo, pois tudo o que eu
via era magnífico. Apesar da distância, eu distinguia com nitidez os xapiri e
seus adornos coloridos e brilhantes. Olhavam todos para mim. A sua tropa
descia dos confins do céu, carregada por milhares de trilhas reluzentes que
ondulavam nos ares. Eram tão velozes quanto aviões, e produziam uma ven-
tania poderosa. Aquela distância imensa não era nada para eles. Afluíam sem
parar, inumeráveis, vindo de todas as direções, como imagens de televisão.
Depois iam pouco a pouco se juntando diante de mim, como convidados a uma
festa reahu amontoados na porta da casa de seus anfitriões, ansiosos para fazer
sua dança de apresentação.
Seus caminhos, até então quase imperceptíveis, iam ficando cada vez mais
nítidos e brilhantes. Finos como teias de aranha, flutuavam cintilando nos ares
e vinham se prender junto de mim, um após o outro. Assim é. Os xapiri sempre
são precedidos pelas imagens de seus caminhos. Eles vão se colando, um por
um, na borda do espelho em que o jovem xamã está deitado. Fixam-se ali como
as imagens de fotografia dos brancos. Deve-se então ficar esticado bem reto,
para que os caminhos não quebrem e os espíritos possam chegar até nós. De-
pois, usam nossos braços e pernas como caminhos, nos quais nossos cotovelos
e joelhos são clareiras, onde param para descansar. Por fim, entram pela boca
para dentro do peito, que é a casa na qual farão sua dança de apresentação.
Os xapiri chegam bem apertados uns contra os outros em fileiras deslum-
brantes, cobertos de pinturas de urucum e de enfeites de penas de todas as
cores. O som de suas vozes é poderoso e seus cantos são melodiosos. Quando
finalmente se consegue vê-los, são de uma grande beleza. Evitam a sujeira do
chão ficando sempre suspensos nos ares. Omama, que é quem os envia, torna-os
capazes de voar com velocidade graças a uma imagem de avião que lhe perten-
ce.14
Essa imagem é muito poderosa, carrega todos os xapiri em seu voo, apesar
de serem tantos. Assim eles se deslocam acima da floresta, além do céu e debai-
xo da terra. Chegam até nós sobre vastos espelhos resplandecentes que amarram
nas alturas. Ali dançam, como os convidados a uma festa reahu na praça central
da casa à qual foram chamados. As mulheres dos ancestrais animais e as da
gente das águas entram primeiro, agitando folhas jovens de palmeira hoko si
desfiadas. Avançam e recuam devagar, bem alinhadas, batendo os pés no chão
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em ritmo. São magníficas! Em seguida, os espíritos masculinos se lançam e
dançam por sua vez, percorrendo um grande círculo com clamores jubilosos.
Os xapiri são grandes dançarinos, e muito divertidos. Os ancestrais ani-
mais yarori até conseguiram fazer Jacaré rir com suas danças, a ponto de deixar
o fogo cair de sua boca, não é mesmo?15
Por isso nos esforçamos para seguir-
-lhes o exemplo, quando é nossa vez de nos tornarmos espírito. Imitamos os
ancestrais tamanduá, macaco-aranha, veado e anta; imitamos também o espí-
rito lua Poriporiri, o espírito raio Yãpirari, o espírito do céu Hutukarari e mui-
tos outros! Os modos de dançar dos espíritos são tão diversos quanto são dife-
rentes seus cantos. Quando seguimos seus movimentos, são suas imagens que
nos pegam pelo braço e nos ensinam a seguir seus passos com segurança. Se
ficarmos envergonhados, com as pernas duras, eles ficam impacientes e nos
repreen­
dem: “Siga-me! Olhe! Esse é o meu modo de dançar! Preste atenção!”.
E nos levam com seus movimentos, para que nossos gestos sejam tão graciosos
quanto os deles. Percorrem o círculo de seu espelho, indo e vindo, com uma
impressionante agilidade. Deslocam-se devagar, avaliando o interior da nova
casa de espíritos na qual estão prestes a se instalar: “Será bela o suficiente? Seu
chão é liso e brilhante como deve?”.
Porém, apesar de toda a sua beleza, a dança de apresentação dos xapiri é
também apavorante. Eles evoluem em volta de nosso corpo estendido em seus
espelhos e agitam imensas lâminas de metal brilhante. Ficam nos observando,
julgando nossa força e nossa aparência. Quando completam o giro voltam ao
seu ponto de partida, passando ao nosso lado. Então, de repente, um deles se
vira e nos golpeia nas costas com o gume afiado de seu enorme facão. O golpe
nos atinge sem que ele levante a arma. É o balanço da lâmina amarrada em suas
costas que nos machuca com violência. A dor é intensa e nos faz cair desmaia-
dos em seguida. Então os xapiri desaceleram o passo, param e, imóveis, ficam
nos observando.
Os xapiri que nos ferem desse modo são os espíritos agressivos da cobra
grande waroma kiki e do jacaré gigante poapoa. Como eu disse, certos xapiri
podem ser muito perigosos. É o caso de Ara poko, o chefe dos seres maléficos
gavião koimari. Quando um xamã faz descer sua imagem, os outros devem se
interpor, para evitar que o sopro de sua cauda venenosa atinja as crianças da
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casa. Quando o fazemos dançar pela primeira vez, esse espírito nos fere com
crueldade. Assim é. Aos espíritos não basta dançar para nós. Ao chegarem, nos
machucam e recortam nosso corpo. Cortam-nos o tronco, as pernas e o pes-
coço. Cortam também nossa língua, jogando-a longe, pois só emite palavras de
fantasma. Arrancam nossos dentes, que consideram sujos e cariados. Jogam
fora nossas entranhas cheias de resíduos de carne de caça que os enojam. Então,
substituem tudo isso pela imagem de suas próprias línguas, dentes e vísceras.
É desse modo que nos põem à prova.
Foi o que me aconteceu e eu tive muito medo! Esses xapiri antigos são
muito aterrorizantes! Aproximaram-se de mim em silêncio, no final de sua
dança de apresentação. Não pareciam ameaçadores. Mas de repente senti suas
lâminas me atingindo com toda a força. Partiram-me o corpo de um só golpe,
no meio das costas! Sob o choque, lancei um longo gemido de dor. Mas nem
por isso pararam! Depois de me terem talhado em dois, cortaram-me a cabeça.
Então vacilei, e desabei em prantos. Meu pensamento estava desviado e eu ti-
nha ficado cego, como um cão morto no chão. Fiquei assim prostrado por
muito tempo, sem nenhuma sensação. Enquanto isso, os espíritos continuavam
dançando ao meu redor sem que eu percebesse nada.
Recobrei a consciência algum tempo depois. Parei de beber yãkoana e meu
pensamento se acalmou. Comecei então a sentir o sofrimento lancinante dos
ferimentos que os xapiri me haviam infligido. Sentia dores terríveis na nuca e
nas costas, onde eles me haviam atingido. Só conseguia andar curvado, como
se tivesse me tornado um ancião! No começo, tudo isso é aterrorizante, pois a
pessoa se pergunta se os espíritos não têm, afinal, a intenção de matá-lo! É
verdade! Porém, com o passar do tempo, as dores intensas das feridas vão di-
minuindo aos poucos, embora a pessoa continue dolorida. Foi o que eu senti
e dava mesmo pena me ver! De fato, meu sogro não me poupou quando me
deu seus espíritos!
Sempre que novos xapiri vêm a nós, golpeiam-nos do mesmo modo com
suas grandes lâminas de metal. Fazem isso já no começo, antes mesmo de po-
dermos distinguir suas imagens. Depois recomeçam, quando já estamos esten-
didos em seu espelho e começamos a vê-los dançando à nossa volta. Contudo,
não se deve pensar que isso acontece somente quando se bebe yãkoana pela
primeira vez. Acontece de novo mais tarde, mesmo depois que temos uma
grande casa de espíritos e nos tornamos xamãs experientes! Assim, a cada vez
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que chegam a nós, novos espíritos nos ferem com a mesma violência. É isso
que vai deixando as costas e a nuca dos xamãs tão doloridas! São essas as partes
do corpo que os xapiri atingem de preferência, e o sofrimento que nos causam
é sempre muito forte. Não pensem que estou mentindo! É mesmo pavoroso!
Sentimo-nos retalhados por toda parte e trespassados por dores agudas e pro-
fundas!
Todavia, quando os fazemos descer para curar os nossos, os xapiri não nos
atacam assim. Ao contrário, chegam com valentia para atacar os espíritos ma-
léficos da epidemia xawara. Tampouco nos retalham quando os chamamos
apenas para fazê-los dançar. De modo que não são os xapiri já instalados em
nossa casa de espíritos que nos ferem. São aqueles que, vindos das lonjuras,
fazem pela primeira vez sua dança de apresentação para nós. São os novos
espíritos, que vão chegando a nós aos poucos, com o passar do tempo. São
muito numerosos, e por isso os velhos xamãs trazem tantas feridas. Quando se
tornam idosos, suas costas vão ficando cada vez mais frágeis e doloridas!
Depois de me cortarem, os xapiri fugiram depressa com as partes de meu
corpo que tinham acabado de trinchar, para longe da nossa floresta, muito além
da terra dos brancos. Eu tinha perdido a consciência e foi minha imagem que
eles desmembraram, enquanto minha pele permanecia no chão. Voaram para
um lado com meu torso e para o outro com meu ventre e minhas pernas. Car-
regaram minha cabeça numa direção, e minha língua em outra. Foram as ima-
gens dos sabiás yõrixiama, dos japins ayokora e dos pássaros sitipari si, todos
donos dos cantos, que arrancaram minha língua. Pegaram-na para refazê-la,
para torná-la bela e capaz de proferir palavras sábias. Lavaram-na, lixaram-na
e alisaram-na, para poder impregná-la com suas melodias. Os espíritos das ci-
garras a cobriram com penugem branca e desenhos de urucum. Os espíritos do
zangão remoremo moxi16
a lamberam para livrá-la aos poucos de suas palavras
de fantasma. Por fim, os espíritos sabiá e japim puseram nela as de seus magní-
ficos cantos. Deram-lhe a vibração de seu chamado: “Arerererere!”. Tornaram-na
outra, luminosa e brilhante como se emitisse raios. Foi assim que os xapiri
prepararam minha língua. Fizeram dela uma língua leve e afinada.17
Tornaram-
-na flexível e ágil. Transformaram-na numa língua de árvore de cantos, uma
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verdadeira língua de espírito. Foi então que eu pude enfim imitar suas vozes e
responder a suas palavras com cantos direitos e claros.
Mais tarde, os xapiri vieram juntar novamente os pedaços de meu corpo
que haviam desmembrado. Porém recolocaram meu torso e a minha cabeça na
parte de baixo de meu corpo e, ao inverso, minha barriga e minhas pernas na
parte de cima. É verdade! Reconstruíram-me às avessas, colocando meu pos-
terior onde era meu rosto e minha boca onde era meu ânus! Depois, na junção
das duas partes de meu corpo recolado, puseram um largo cinturão de penas
multicoloridas de pássaros hëima si e wisawisama si. Também trocaram minhas
entranhas por vísceras de espíritos, menores e de um branco deslumbrante,
enroladas com delicadeza e cobertas de penugem luminosa. Depois substituí-
ram minha língua pela que tinham consertado, e fixaram em minha boca den-
tes tão belos quanto os deles, coloridos como a plumagem dos pássaros sei si.
Também trocaram minha garganta por um tubo, que chamamos purunaki,
para eu poder aprender a cantar seus cantos e a falar com clareza. Esse tubo é
a laringe dos espíritos. É dele que vem o sopro de suas vozes. É uma porta
pela qual nossas palavras podem sair belas e direitas.
Tudo aconteceu exatamente como eu contei até agora. Eu tinha acabado
de tomar yãkoana com um grande xamã, meu sogro, pela primeira vez. Os
espíritos tinham me posto à prova antes mesmo de eu conhecê-los de verdade.
Porém, apesar dos ferimentos dolorosos que me haviam infligido, eu conti-
nuava vivo. Meu sangue não tinha escoado e eu nem conseguia ver as feridas
que tinham me obrigado a suportar! Então, assim que eles recompuseram as
partes de meu corpo, meu pensamento começou a desabrochar de novo. Senti-
-me acordar, imerso no perfume forte da tinta de urucum com que me tinham
pintado e na fragrância de suas plantas mágicas yaro xi e aroari. A tropa dos
xapiri recém-chegados permanecia junto a mim, todos imóveis, no brilho de
seus adornos magníficos. Tinham concluído sua dança de apresentação. Ago-
ra estavam ansiosos para construir uma casa nova na qual pudessem se instalar!
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6. Casas de espíritos
Habitação, espelhos e caminhos dos espíritos.
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Quando se morre pela primeira vez sob efeito da yãkoana, os xapiri que
vieram fazer sua dança de apresentação para nós ainda não têm casa onde
possam se instalar. Depois de terem cantado e dançado por muito tempo, ficam
de pé, ou agachados, pensando: “Hou! Se este lugar continuar vazio, se não
houver habitação para receber-nos, não ficaremos aqui!”. Por isso nossos xa-
mãs mais velhos fazem dançar em primeiro lugar os xapiri que vêm abrir a
clareira onde será erguida a casa de espíritos do iniciando. Vêm primeiro as
imagens das aves que sabem varrer o solo da floresta para buscar alimento:
espíritos dos jacamins, dos cujubins, dos mutuns, dos inhambuaçus, e também
das perdizes pokara, bem como das aves formigueiras makoa hu e maka wati-
xima. Em seguida, para limpar os detritos e a poeira da clareira que acabou de
ser aberta, chegam os espíritos das folhas, dos cipós, das árvores e das raízes, e
depois os do vento iprokori, da brisa wahariri e das águas. Ao final, os xapiri
das pedras e dos cupinzeiros espalham penugem branca por toda parte. Todos
esses primeiros espíritos se sucedem assim, dançando de modo desajeitado, um
após o outro, em grande número. Acotovelam-se e atropelam-se numa grande
confusão. Não possuem verdadeiros cantos, só têm língua de fantasmas. Não
conhecem as verdadeiras palavras da floresta, pois estão próximos demais de-
la. Esses primeiros xapiri vêm apenas preparar o terreno para a nova casa de
espíritos a ser edificada. Por isso, assim que termina sua dança de apresentação,
desaparecem logo nas alturas do céu.
Os xamãs mais velhos que nos fazem beber o pó de yãkoana devem então
afastar do lugar vários espíritos ruins. Devem primeiro espantar os espíritos
repugnantes das lesmas warama aka. Mas devem também repelir os espíritos
de casa, como os das cinzas yupu uxiri, dos tições wakoxori, das redes de algo-
dão rio kohiri, dos cestos de carga wiiri1
e dos aventais pubianos pesimari. De
fato, se todos esses espíritos de casa viessem dançar para o iniciando, os verda-
deiros xapiri se recusariam a chegar perto dele e fariam fracassar sua vontade
de se tornar xamã, pois tais espíritos são incapazes de combater os seres malé-
ficos e suas mãos não têm habilidade para curar. Assim é.
Logo que a clareira é aberta e seus entornos estão protegidos, outros xa-
piri começam a descer das lonjuras, trazendo consigo a nova casa de espíritos
do iniciando, já toda construída. Os espíritos macaco-aranha seguram e puxam
a ponta de seu teto, para enganchá-la no peito do céu. Os espíritos celestes
hutukarari sustentam todo o seu peso, enquanto os espíritos do vendaval ya-
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riporari a empurram em direção ao zênite. Todos esses xapiri trabalham duro,
todos juntos, pois os postes de uma casa de espíritos são feitos de árvores com-
paradas às quais as da floresta parecem bem mirradas! Seus troncos são imen-
sos, inteiriços, e seu peso é enorme. Não se trata de meros postes de madeira
cuja base acaba apodrecendo, como os de nossas casas. São resistentes como
barras de metal. São estacas do céu, e pesam tanto quanto ele.
Os xapiri, apesar de serem minúsculos, conseguem levá-los nos braços
erguidos acima da cabeça. Vão se juntando, cada vez mais numerosos, dançan-
do devagar, de frente para trás, na clareira em que irão depositar a nova casa.
Soltam volumosos clamores de esforço e alegria, acompanhados pelas estridu-
lações agudas de suas flautas de bambu.2
Depois vão pouco a pouco aproxi-
mando do céu a cumeeira das estacas que formam o teto, e os espíritos macaco-
-aranha, já pendurados naquelas alturas, içam-na para junto de si. É muito
difícil, porque essas imensas estacas balançam na violenta ventania celeste.
Oscilam, pesadamente, de um lado para o outro. Os xapiri têm de se esforçar
muito para diminuir seu movimento. Lançam gritos de alerta no meio do tu-
multo: “Aë! Aë! Vamos derrubar, vamos cair, cuidado!”. Tudo isso é muito
apavorante. Só os espíritos são capazes de fazer algo assim.
Por fim conseguem enfiar a ponta das estacas do teto no peito do céu com
tal vigor que o perfuram com um enorme estalo. Nesse momento, os espíritos
macaco-aranha pegam suas extremidades e as torcem, para amarrá-las juntas,
com cordas besuntadas de piche celeste. Os espíritos preguiça enfiam ali pre-
gos, atirados com suas espingardas, enquanto os espíritos dos ancestrais bran-
cos napënapëri as mantêm imobilizadas, com longos espetos de metal. Quando
terminam o seu trabalho, a nova casa de espíritos está firmemente presa no
peito do céu pelo teto. Seus postes não podem mais balançar com estrondo no
vazio. Os espíritos da aranha warea koxiki então a cobrem rapidamente com
folhas trazidas em grandes fardos pelos espíritos tamanduá-bandeira. Por fim,
toda ela é enfeitada com motivos desenhados pelos espíritos da jiboia. É assim
que acontece. Os xapiri que trabalham para trazer uma nova casa de espíritos
são poucos, e eles partem assim que terminam seu trabalho. Mais tarde, são
outros xapiri, vindos de todos os lados da floresta, do céu e do mundo debaixo
da terra, que virão nela dançar e se instalar.
Essas casas de espíritos não são erguidas na terra como as nossas, e tam-
pouco são construídas da mesma maneira. São mesmo outras! Os xapiri, en-
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viados por Omama, trazem-nas consigo de muito longe, já prontas, com seus
postes e o seu teto já amarrados. Porém, como temem poeira e sujeira, não
dançam no chão dessas casas, como fazemos nas nossas. A praça central delas
parece uma vasta superfície de vidro limpo, liso e cintilante. Os ancestrais dos
brancos há muito tempo resolveram imitar esse vidro dos espíritos, por isso
seus filhos e genros continuam a fabricá-lo. Em sua língua, dizem que é trans-
parente. Nós dizemos que possui valor de brilho, në mirexi. Os espelhos dos
xapiri também são muito frágeis. Por isso os xamãs protestam se alguém bate
o pé com muita força ao lado deles, perto do lugar onde estão fazendo dançar
os espíritos. Os xapiri detestam esses ruídos surdos, que lhes dão a impressão
de que se quer afugentá-los. Eles podem se irritar e ferir quem se encontrar nos
arredores. Eles têm também horror da imundície do chão, como eu disse, e por
isso só se deslocam sobre espelhos cobertos de penugem resplandecente e per-
fumados de tinta de urucum. Quando os chamamos para repelir os seres ma-
léficos ou a epidemia xawara, não são suas casas inteiras que descem a nós.
Somente seus espelhos, que ficam suspensos nos ares, sobre os quais fazem sua
dança de apresentação.
Os xapiri que virão morar na nova casa de espíritos trazida para um jovem
xamã não vêm se instalar sozinhos, por iniciativa própria. Os xamãs mais ve-
lhos que sopram o pó de yãkoana nas narinas do iniciando devem primeiro
mandar seus próprios xapiri chamá-los. Para esse fim despacham as imagens
do galo-da-serra, da pomba e do pássaro tãrakoma.3
Só elas sabem como con-
vidar os demais xapiri, que não respondem a nenhum outro chamado. Esses
emissários viajam para longe, passando de uma casa de espíritos a outra, para
convidar seus moradores e animá-los a virem com eles. Partem ao seu encon-
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tro cheios de ânimo, em todas as direções onde possam encontrá-los. Intriga-
dos, os outros xapiri que os veem passar lhes perguntam: “O que estão fazendo?
Para onde vão assim tão alegres?”. Os espíritos mensageiros aproveitam então
para estimulá-los a se juntar a eles, e descer até o rapaz que está bebendo yãkoa­
na. Fazem diálogos de convite hiimuu4
com seus grandes homens, para con-
vencê-los a se instalar em grande número na nova casa de espíritos do inician-
do. Louvam a beleza da habitação e os incitam a acompanhá-los: “Venham
todos! Não estão ansiosos para vir conosco? Venham fazer sua dança de apre-
sentação na casa de nosso pai! É a vez dele de se tornar xamã!”. Os xapiri
convidados então respondem alegremente: “Awei! Belas palavras, essas! Vamos
todos com eles!”. E vão formando um grupo cada vez maior.
São as mulheres xapiri que incentivam os espíritos masculinos a dançar na
nova casa de espíritos, assim como são nossas mulheres que, muitas vezes, nos
convencem a comparecer a uma festa reahu. Quando as mulheres se entusias-
mam, os homens, mesmo que sejam preguiçosos ou rabugentos, acabam também
se alegrando! Acontece o mesmo com os xapiri. Eles só se animam quando se-
guem as mulheres-espírito, como eu disse. Por isso o xamã mais velho que inicia
um jovem faz descer essas mulheres xapiri primeiro, com seus feitiços amorosos
e perfumes inebriantes. Assim que elas passam diante dos homens xapiri, eles se
apaixonam por elas e começam a segui-las, dançando com todo o ardor. Os
demais espíritos escutam sua algazarra eufórica, como os convidados a uma
festa reahu, em seu acampamento na floresta, escutam de longe a vozearia de
seus anfitriões.5
Como eles, ficam sem sono, impacientes para fazer sua entrada
dançando sobre o espelho da nova moradia e pendurar nela suas redes. As mu-
lheres xapiri, no entanto, só aceitam vir dançar se a casa de espíritos de um
iniciando estiver realmente pronta para recebê-las. Como as esposas de nossos
convidados, elas são muito prevenidas! Não querem se arriscar a tomar chuva
numa clareira recém-aberta nem pisar no solo lamacento de uma construção em
andamento! Se a habitação destinada a acolhê-los ainda estiver inacabada, ou se
se sentirem apertados nela, os xapiri ficam muito desgostosos e se retiram sem
mais tardar. Furiosos por terem sido enganados, desaparecerão para sempre.
Em compensação, se a nova casa for ampla e bela, ficam ansiosos para
dançar e morar nela. Então afluem por inúmeros caminhos que descem de
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onde o céu se aproxima da terra. São as trilhas que nossos grandes xamãs de
outrora abriram para eles. Os espíritos se deslocam por eles com muito barulho,
cortando tudo em sua passagem com fúria. A terra voa em pedaços e as árvores
tombam com estrondo atrás deles. A força e a violência de sua marcha fazem
nosso ventre cair de pavor. Porém, apesar desse tumulto, começa-se a perceber
a aproximação de sua algazarra e depois, cada vez com mais nitidez, o som
melodioso de suas vozes. Pode-se então distinguir os cantos magníficos dos
espíritos dos sabiás yõrixiama, dos japins ayokora e dos pássaros sitipari si.
Então os xapiri acabam se revelando a nossos olhos aterrorizados. Brandem
imensos sabres, projetando raios de luz em todas as direções, como se agitassem
espelhos à sua volta. Avançam numa luminosidade ofuscante, como a dos faróis
dos carros à noite. É por isso que muitos rapazes ficam com medo e desistem
para sempre de se tornarem xamãs.
Por fim, os espíritos se agrupam em torno da nova casa do iniciando e vão
entrando, um a um, pela porta onde desemboca seu caminho, como fazem
visitantes por ocasião de uma festa reahu. Começam então sua apresentação
no espelho da praça central, com movimentos muito lentos. Cada um dança e
canta a seu modo. São enfeitados como convidados, o corpo pintado de uru-
cum e decorado com desenhos pretos, braçadeiras cheias de caudais de arara-
-vermelha e cabelos cobertos de penugem branca reluzente. Dançam numa luz
resplandecente, agitando graciosamente palmas novas desfiadas, de um ama-
relo brilhante. Entoam sem parar, um depois do outro, cantos muito bonitos.
Sopram com energia em suas finas flautas de bambu e soltam gritos de alegria.
O ritmo poderoso de seus passos bate no chão com golpes surdos. No tumulto
e na luz cintilante, sua pintura de urucum exala um perfume inebriante. De-
pois, de repente, tudo para e volta o silêncio.
Uma vez acabada sua dança de apresentação, os xapiri começam a se ins-
talar em sua nova casa, amarrando suas redes nas estacas. Alguns, no entanto,
só encostam nelas, enquanto outros se penduram na parte mais alta ou se ins-
talam no chão mesmo. Continuam usando seus adornos de penas e suas faixas
de rabo de macaco cuxiú-negro ao redor da testa. Mas depositam a seus pés suas
flautas de bambu, seus facões, os cestos sakosi que contêm seus cantos e as folhas
de palmeira que agitavam em suas danças. Quando a casa é espaçosa, eles se
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instalam primeiro na base dos postes, depois vão se amontoando em fileiras
cerradas, incontáveis, até o topo. Contudo, mais tarde, conforme novos espíritos,
cada vez mais numerosos, continuarem a chegar, essa primeira casa não será
suficiente. Será preciso ampliá-la sempre, para que os novos possam se instalar.
Assim, pouco a pouco, outras habitações anexas serão acrescentadas, em cima
dela ou coladas nas laterais, empilhadas umas sobre as outras, como vespeiros.6
Por isso as casas de espíritos dos grandes xamãs chegam a ser tão altas e vastas,
escoradas em incontáveis postes, altos como árvores komatima hi e aro kohi.
No começo, quando os xapiri de um jovem xamã ainda são recém-chega-
dos, sua primeira casa é baixa e estreita. Não podem juntar-se nela em grande
número, e nem vale a pena chamar outros. Contudo, foi o que eu fiz! No co-
meço, eu era ignorante e impaciente. Queria obter xapiri demais de uma só vez.
Por isso, vários dos que vieram a mim naquele momento logo fugiram, dizen-
do: “Espere! Você ainda é jovem! Voltaremos para dançar mais tarde! Não
seja tão impaciente!”. Assim é. Conforme vai ganhando idade, um xamã con-
tinua chamando novos xapiri e, com isso, sua casa de espíritos não para de
crescer. Aos poucos outras habitações vão se juntando a ela, arrimadas umas
nas outras de todos os lados. Por isso, com o tempo, a casa de espíritos de um
xamã antigo se parece com os edifícios de uma cidade grande e pode ultrapas-
sar as costas do céu.
Nessas habitações, os xapiri não se misturam. Na casa dos espíritos da
anta, só moram espíritos desse animal, acompanhados de seus genros, os espí-
ritos dos pássaros herama e xoapema. Os espíritos do vendaval yariporari e os
dos trovões yãrimari também moram juntos. Mas na moradia dos espíritos
sapo yoyo, só há espíritos yoyori. Numa vasta casa de espíritos, feita de várias
habitações coladas umas às outras, há muitas portas: a dos espíritos zangão
remoremo moxi, a dos espíritos sucuri e, na parte de baixo, a dos espíritos do
caos Xiwãripo. No alto ficam as dos espíritos gavião koimari e dos espíritos raio
yãpirari. Quando essas portas são muito estreitas, os xapiri logo se põem a
aumentá-las a golpe de facão, para poder entrar em maior número!
Cada uma dessas habitações tem um único nome de espírito, mas os que
nela vivem, todos semelhantes, são inúmeros. Esse nome é o nome da casa e do
espelho dos xapiri, é o enfeite deles.7
São tantos quantos os nomes de espíritos.
Assim, têm nome o espelho do espírito jiboia, o do espírito onça, o do espírito
tatu e o do espírito cutia. Existem também os dos espíritos japim ixaro e napore,
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os dos espíritos tucano e morcego, do espírito abelha koxoro e do espírito cigar-
ra, bem como os dos espíritos lagarto ou minhoca. E ainda o espelho do espírito
da noite Titiri, o da gente das águas yawarioma, do espírito fantasma dos xamãs,
Poreporeri, do espírito guerreiro Aiamori. Mas existem além disso todas as mo-
radias de espíritos que nos deram os nossos vizinhos Xamath
ari.8
Antigamente,
nossos maiores conheciam os xapiri deles mas não os imitavam. Foi só depois
de terem experimentado seu pó paara, quando eu ainda era criança, que nossos
pais finalmente escutaram os cantos desses novos xapiri. Por isso eles agora
instalam suas habitações ao lado das nossas casas de espíritos. Ocorre o mesmo
com os xapiri da gente das terras altas, que nossos ancestrais conheciam, ao
contrário, desde o tempo de Omama.
Numa casa de espíritos, as habitações dos espíritos maléficos de um gran-
de xamã ficam penduradas no ponto mais alto do teto, para além das costas do
céu, ao passo que as de seus espíritos bons estão situadas na parte de baixo, no
peito da casa. Os xapiri famintos de carne humana devem ser mantidos à dis-
tância, pois são muito perigosos e ferozes. Poderiam atacar os parentes de seu
pai. Nossos mais antigos xamãs, que são os únicos a tê-los, só os fazem descer
para vingar a morte de nossos filhos que são devorados por xamãs inimigos de
longe.9
São as imagens do gavião Koimari, da sucuri, da cobra waroma kiki e
da onça; e também as do ser da seca, Omoari, de seus genros, os espíritos ci-
garra e borboleta, e de seus cães de caça, os espíritos lagarta.10
E ainda as ima-
gens do ser sol Omamari, do vendaval, do raio e da lua; dos fantasmas dos
xamãs mortos, dos espíritos mosca e urubu e das lagartas venenosas kraya.
Contudo, nem todos os espíritos do topo da casa são maléficos. Lá se encon-
tram também os espíritos das abelhas koxoro e õi e o de seu dono, o pássaro
maihiteriama, que viaja com elas bem alto no céu para guerrear contra os seres
das doenças e das epidemias. As habitações dos demais ancestrais animais que
sabem curar ficam todas a meia altura. Em compensação, embaixo de tudo
estão as habitações dos xapiri que chegaram primeiro: são as imagens dos sa-
pos, árvores, folhas e cipós. Finalmente, as dos espíritos macaco-aranha, dos
macacos cuxiús-pretos, das araras-azuis e dos gaviões kopari ficam um pouco
afastadas da casa, acima dela, pois estes estão encarregados de vigiar as redon-
dezas para protegê-la de ataques de xapiri inimigos.
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Os tetos das casas de espíritos, como eu disse, não são feitos de palmas paa
hana como as nossas. São cobertas com folhas sólidas, brilhantes como espelhos
e salpicadas de penugem luminosa. Foi assim que Omama as criou no primei-
ro tempo. Por isso são tão esplêndidas! Todavia, sua cobertura também se es-
traga. Suas folhas murcham, enegrecem e se desmancham, como as de nossas
casas. Se não forem trocadas, e os xapiri tiverem de viver numa casa arruinada,
em silêncio e famintos, seu pai acaba adoecendo. Então os outros xamãs deve-
rão tratá-lo e consertar o teto danificado de sua casa de espíritos. Do mesmo
modo, quando um xamã fica muito velho, eles precisam arrancar os antigos
postes da casa de seus xapiri, cujas bases estão podres, para substituí-los por
peças de madeira nova.
Nunca é bom para um xamã descuidar de sua casa de espíritos. Quando
fica deteriorada e enegrecida pela fumaça, ou o chão em volta dela fica coberto
de cipós de cabaça pora axi, como o local de uma casa abandonada, ele pode
ficar muito doente. Alguns de nossos maiores chegaram a morrer por causa
desse abandono. Sabemos disso e estamos atentos. A morte sabe se aproximar
com prontidão do xamã que deixa a sua casa de espíritos envelhecer sem mo-
tivo. Por isso, ele deve se dedicar o tempo todo a cuidar de sua manutenção.
Para manter boa saúde, deve renovar seu teto de folhas e limpar bem sua cla-
reira quando é preciso. Mas isso não é tudo. É também necessário que ele dê
de beber yãkoana com frequência aos espíritos que a habitam. Caso contrário,
eles fugirão e sua moradia, uma vez abandonada, envelhecerá por si só, vazia e
silenciosa. Os xapiri não permanecem na sua casa se seu pai não cuidar bem
deles. Não basta chamá-los e deixar que se instalem sem se preocupar com eles.
Se são abandonados sem comer, se não puderem dar a ouvir seus cantos ou
forem incomodados pelo barulho, pelo cheiro de podre e de fumaça, não de-
moram a partir, deixando para trás apenas redes vazias. Assim é. Deve-se tam-
bém cuidar de fazer descer e dançar os xapiri jovens depois dos mais velhos
que, no começo, quando de nossa iniciação, foram os primeiros a chegar. Assim
o xamã também evita envelhecer depressa demais.
No começo, como outros, eu pensava que os xapiri moravam no peito dos
xamãs. Mas estava errado, não é verdade. Suas casas não podem se situar tão
perto da terra, ao alcance de nossa fumaça e de nossos fedores! Ficam noutro
lugar, penduradas bem alto no peito do céu. Por isso os xapiri podem contem-
plar a floresta toda, por maior que seja. Das alturas em que estão, nada escapa
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a seus olhos, nem nos confins da terra e do céu. Na verdade, são as imagens
deles, e as de seus espelhos, que moram no peito dos xamãs.11
Assim é. Uma
casa de espíritos nada se assemelha a uma casa comum. Seus esteios imitam o
interior do peito do xamã, o pai dos xapiri.12
As clavículas de seu torso são as
vigas que sustentam o círculo do teto. Seus quadris são a base dos postes que a
assentam no chão. Sua boca e garganta são a porta principal. Seus braços e
pernas são os caminhos que conduzem a ela. Seus joelhos e cotovelos são cla-
reiras-espelhos, onde os espíritos fazem uma parada antes de entrar.
Assim, se um xamã for muito magro e seu peito estreito demais, a casa de
seus espíritos será apertada. Não poderão aumentar. Será preciso ampliá-la,
rasgando-a para que novos xapiri possam nela se instalar. Casa de espíritos
pequena demais não dá nada de bom. Precisa ser grande como uma monta-
nha.13
Por isso, quando uma pessoa enfurecida quer insultar um xamã, dispara:
“Seu peito é oco! Você diz que tem muitos xapiri mas é mentira. Você é fraco
e sua casa de espíritos é estreita demais, atulhada e sombria!”. É também por
isso que, quando o peito de um rapaz é amargo, salgado e enfumaçado, os
xapiri o consideram sujo e se recusam a mudar-se para lá. Quando, ao contrá-
rio, o torso de um iniciando é largo, assim será sua casa de espíritos e os xapi-
ri serão muito numerosos para vir dançar nela. E se o novo xamã for mesmo
corpulento, ela será imensa, como o edifício das Nações Unidas.14
Quando a pessoa é jovem e quer beber yãkoana pela primeira vez, ainda
não sabe nada dos xapiri. Os xamãs mais velhos dizem apenas: “Venha se aga-
char do meu lado! Os espíritos virão a você, farão sua dança de apresentação!”.
Depois, sopram o pó que prepararam em suas narinas. Então, com muito medo
de virar fantasma, a pessoa se pergunta, aflita: “O que vai acontecer comigo?”.
Depois, os iniciadores chamam os xapiri para ela e, derrubada pela força da
yãkoana, com o olhar fixo nas alturas, de repente seu pensamento se abre. Co-
meça enfim a ouvir os cantos dos espíritos e, pouco depois, eles começam a se
revelar a seus olhos. Foi desse modo que os grandes xamãs de minha casa me
deram seus xapiri e os fizeram construir sua casa para mim. Foram mesmo
muito generosos! É bem verdade que senti muito medo, às vezes. Apesar disso,
continuei, sem nunca querer desistir. Bebi yãkoana sem trégua. Meu pensamen-
to estava concentrado em seu poder, pois tudo o que eu queria era ver os espí-
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ritos. E quando finalmente pude admirar sua dança de apresentação, isso me
encheu de alegria! Disse a mim mesmo: “Eis aí então, os xapiri que nossos an-
cestrais faziam descer desde o primeiro tempo! Agora eu realmente os vi, com
meus próprios olhos!”.
Após terminar de beber yãkoana com meu sogro, meu corpo foi lavado
com água quente e coberto de pintura de urucum. Enquanto isso, os espíritos
continuavam a me visitar dançando, e eu falava com eles em silêncio. Conhecia
ainda muito pouca coisa, e não sabia como fazer. Perguntava a mim mesmo:
“Como devo cantar? É assim mesmo?”. Não estava nem um pouco seguro de
mim! No começo, como eu disse, não se enxergam bem os espíritos, e é beben-
do yãkoana mais e mais que se consegue vê-los com nitidez. E assim fui con-
tinuando a aprender, do mesmo modo que os brancos estudam, de aula em
aula, para meu pensamento ficar de fato direito. Comecei a tomar yãkoana
sozinho, durante a tarde, e depois recomeçava no dia seguinte, e nos outros
ainda. Continuava assim sem trégua, dias inteiros. Foi desse modo que, aos
poucos, fui começando a entender as palavras dos xapiri e que meu pensamen-
to pôde aprender a se estender em todas as direções. Desde então, os espíritos
da floresta e do céu não pararam mais de vir a mim.
Depois de ter bebido yãkoana pela primeira vez, é preciso seguir se com-
portando sem desvios para continuar a ver os xapiri. De modo que principian-
tes imprudentes logo os espantam, pondo-se a comer com gula carne de caça
assada ou querendo recomeçar a namorar de imediato. Então, os espíritos que
tinham vindo a eles alegres e dispostos lhes darão as costas, enjoados e furiosos:
“Hou! Como ele é nojento! Está pensando que vamos morar no meio desse
fedor horrível!”. Também é preciso sempre alimentar os xapiri com zelo. Se
ficarem sem comida, protestam enraivecidos contra o jovem xamã: “Ele nos
mata de fome! Nunca bebe yãkoana! Deve ser porque não nos quer de verda-
de!”. E assim desaparecem logo, à revelia daquele que os tinha chamado. O
xamã iniciante fica pensando que eles ainda moram em sua casa de espíritos,
mas não é nada disso. As redes dos xapiri que tinha recebido já ficaram vazias.
Deles só restam palavras em sua boca! Por mais que continue fingindo evocar
seus nomes, fala apenas de redes rejeitadas e enfeites abandonados. Os verda-
deiros espíritos já estarão muito longe, de volta às montanhas de onde haviam
descido. O xamã mais velho que os dera sabe muito bem que eles deixaram o
iniciando. Repreende-o: “Hou! Você espantou meus xapiri! O que você fez?
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Não sabe? Seu peito fede a queimado e pênis, é por isso!”. Assim ninguém
pode fingir ignorância e se perguntar: “Como é possível que meus espíritos
tenham fugido?”.
Depois de ter sido posto à prova pela força da yãkoana, aquele que quer
se tornar xamã deve continuar a bebê-la sozinho, sem parar. Caso contrário,
não conseguirá. Mesmo quem tem um pai xamã que lhe dá seus próprios es-
píritos, se não responder a eles com empenho, não dá em nada. Se eu não ti-
vesse continuado a tomar yãkoana com determinação, sem o apoio de meus
parentes mais velhos, tudo estaria terminado para mim. Logo teria voltado à
minha fala de fantasma! Não teria mais sido capaz de responder aos cantos dos
espíritos. Então, as pessoas de minha casa teriam começado a pensar: “Que
mentiroso! Nunca revela nenhuma palavra das terras distantes de onde descem
os xapiri! A boca dele fala sem saber nada. Só faz imitar o poder da yãkoana!
Seria melhor calar a boca e ficar cochilando na rede!”. Quando um jovem xamã
só consegue balbuciar seus cantos, é o que as pessoas acham. E se apenas can-
tarolar sem dizer uma palavra, não tardarão a caçoar dele: “Ele só tem espíritos
de folhas e de cupinzeiros! Só sabe chamar xapiri de brasa de fogueira ou de
cesto de mulher! Não sabe nos dar a ouvir a língua dos ancestrais animais!”.
Em compensação, se for capaz de trazer em seus cantos falas de lugares distan-
tes, quem o escutar ficará mais sábio por isso e pensará: “É verdade! Ele faz
mesmo dançar os espíritos, ele os conhece de verdade! Traz até nós dizeres
vindos de outras terras, que desconhecemos!”.
Gente comum tem medo do poder da yãkoana e não pode ver os xapiri
dançando e trabalhando. Ouvem somente as palavras de seus cantos. É por
isso que quando viramos espíritos, os moradores de nossa casa e os nossos
hóspedes prestam atenção. Parecem estar concentrados em suas ocupações,
mas não ficam indiferentes ao que ouvem. Pensam: “Haixopë! É assim mesmo!
Se eu fosse xamã, trabalharia como eles! Eles veem e falam de coisas que nós
não conhecemos!”. Até quem está comendo presta atenção nos cantos dos
xamãs. Todos querem escutar as palavras dos espíritos que carregaram suas
imagens para os confins da floresta e do céu, ou para além das águas até a ter-
ra dos ancestrais dos brancos.15
Esses lugares parecem estar fora do alcance da
visão de fantasma dos humanos. Mas os xapiri, que de lá descem num instan-
te, não param de descrevê-los em seus cantos.
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É assim que os xamãs revelam aos que as desconhecem as coisas que viram
em estado de fantasma, acompanhando o voo de seus espíritos. Suas palavras,
inumeráveis, possuem valor muito alto. É por isso que eles as dão a ouvir por
tanto tempo, uma após a outra. Ao verem suas imagens, evocam as palavras
dos ancestrais tornados animais no primeiro tempo, as da gente do céu e do
mundo subterrâneo e as palavras de Omama, que deu os xapiri ao seu filho, o
primeiro xamã. Essas falas dos espíritos se parecem com as palavras das rádios,
que dão a ouvir relatos vindos de cidades remotas, do Brasil e de outros países.
Quem as escuta pode então pensar direito e dizer a si mesmo: “É verdade!
Esse homem virou mesmo espírito! Desconhecemos realmente as palavras que
seus cantos revelam!”.
Assim é. Não viramos espíritos sozinhos, para nós mesmos! Todos escu-
tam com muita atenção as palavras dos xapiri: adultos, jovens e até crianças.
As pessoas comuns não sabem nada dos lugares que os espíritos evocam. Seu
entendimento é curto demais. Por falta de ver os espíritos em sonho, seus
pensamentos não são muitos e nunca se afastam muito delas. Ficam gravados
em suas caçadas, nos objetos de troca ou nas mulheres que desejam. Só conhe-
cem os lugares que eles mesmos visitaram ou nos quais viveram. Assim, quan-
do bebem o pó de yãkoana no fim das festas reahu, os rapazes que não são
xamãs rolam de medo na poeira, chamando as mães! Em lugar de cantos, só se
ouvem deles lamentos e gemidos: “Mãe! Mãe! Jogue água na minha cabeça!
Estou virando outro, estou com medo!”. Os xamãs, ao contrário, se esforçam
sem trégua para responder aos xapiri. Os cantos dos espíritos sempre estão
atrás deles, e nunca os deixam mudos.
A pessoa que quer que nossos xamãs mais experientes lhe façam beber
yãkoana e lhe deem seus próprios espíritos, precisa querer muito e não mentir.
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Precisa pedir com muita vontade. No começo, a casa que abriga os primeiros
xapiri de um iniciando não é nada imponente. Mas, aos poucos, seus iniciado-
res fazem vir outros, cada vez mais numerosos, de todas as direções da floresta
e do céu. Suas habitações coladas umas nas outras vão formando com o tempo
uma morada cada vez maior e mais alta. É nesse momento que o jovem xamã
começa a ter sabedoria e a ser capaz de curar os seus. Assim é. Tudo o que eu
contei até agora é o que me aconteceu quando, ficando adulto, eu quis fazer
dançar os espíritos e pensar direito graças às palavras deles. Disse aos xamãs
mais antigos da minha casa: “Quero mesmo fazer descer os xapiri! Ensinem-me
seus caminhos!”. Então eles aceitaram me dar de beber o pó de yãkoana e fazer
descer os xapiri até mim. Ninguém chama os espíritos sozinho, do nada. Eles
jamais chegariam a nós se não tivessem sido convidados por quem os conhece
muito bem. Primeiro é preciso pedir àqueles que os tinham bem antes de nós
para abrir seus caminhos. Quando esse pedido é feito, aquele que nos dá seus
espíritos nos deixa escolher os que preferimos. Depois os vai passando para nós,
um por um. Mas se não pedirmos com determinação, demonstrando muita
vontade, os xapiri pensam que não os queremos de verdade e se recusam a
chegar perto.
É desse modo que estudamos para fazer descer e dançar os espíritos. Nos-
sos xamãs mais experientes são nossos professores. Fazem-nos beber yãkoana
e estão sempre ao nosso lado. São eles que nos dão nossos primeiros xapiri: os
espíritos do galo-da-serra, dos tucanos e queixadas; os da preguiça, do jupará
e das borboletas. Fazem isso só por generosidade. No entanto, se tiverem von-
tade de nos testar, podem nos fazer penar por muito tempo antes de nos per-
mitirem ver mesmo os espíritos! Quando nos dão seus xapiri, sopram pó de
yãkoana em nossas narinas com seu próprio sopro de vida. De modo que a
yãkoana que bebemos não é um mero pó. Com ela os espíritos se lançam para
dentro de nós como se fossem grãos de poeira. É assim que obtemos nossos
primeiros xapiri. Quando bebe o sopro de vida de um xamã mais velho, a pes-
soa sente uma fraqueza súbita e o choque a faz cambalear! E quando se trata
de um guerreiro valente, seu sopro de vida nos faz corajosos também. O mesmo
ocorre quando é um bom caçador.16
No meu caso, foram o pai de minha esposa e, logo depois, outros antigos
xamãs de nossa casa de Watoriki e dos rios Wayahana u e Parawa u que, no
começo, se alternaram para me fazer beber yãkoana. Vários deles se foram há
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muito tempo. Para virar outro, preferi pedir o sopro de vida de grandes xamãs.
Não quis apresentar meu nariz a moleques que falam dos xapiri sem nem ao
menos conhecê-los. Se tivesse feito isso, eu, como eles, só poderia mentir. Eram
grandes homens mesmo os que me fizeram ver os espíritos pela primeira vez.
Deram-me os seus xapiri com seu sopro de vida e, desde então, guardo esse
sopro em mim. Nunca me enganaram. É por isso que os espíritos que me de-
ram sempre descem quando os chamo. Continuam cantando e dançando du-
rante meu sono, e outros xapiri, órfãos dos antigos xamãs mortos, que os se-
guem, vão aos poucos vindo a mim. E assim minha casa de espíritos continua
crescendo.
Os xamãs que me iniciaram nada me pediram em troca de seus xapiri. Se
o tivessem feito, eu lhes teria oferecido facões, redes, panelas e muitas outras
mercadorias. Eu estava mesmo decidido a beber yãkoana para poder virar es-
pírito como eles. Queria que meu pensamento ficasse direito e se estendesse ao
longe por múltiplos caminhos. Queria ganhar conhecimento. Não queria ficar
sozinho, desamparado em minha ignorância, depois da morte de nossos mais
velhos xamãs. Se os meus parentes mais experientes não tivessem insuflado
yãkoana nas minhas narinas, se não tivessem feito entrar em mim o sopro de
seus espíritos, eu nunca teria podido virar outro realmente. Se eu tivesse comi-
do e copulado sem medida, não teria podido tornar-me xamã como eles. Meu
pensamento teria permanecido entupido e eu jamais teria visto os espíritos.
Apresentei meu nariz para beber o pó de yãkoana para que meus pensamentos
pudessem viajar em todas as direções da floresta e do céu. Queria mesmo ver
os ancestrais animais de que meus avós me haviam falado tantas vezes. Assim
é. Se eu não tivesse tido essa vontade tão firme, hoje ficaria o tempo todo dei-
tado na rede, como tantos outros.
Contudo, ao me fazer beber yãkoana, meu sogro me meteu muito medo.
Não é um homem corpulento, mas sua valentia é grande e seus espíritos são
muito numerosos. Quando, há muito tempo, seus pais e avós morreram, os
xapiri deles não foram embora. Instalaram-se todos na casa de espíritos dele.
Por isso ela ficou tão grande. Sua ponta ultrapassa de muito as costas do céu!
Até mesmo os demais xamãs sentem medo e dizem dele: “É um verdadeiro
antigo, um xamã muito poderoso!”. Os espíritos dele me deixaram apavorado.
Fizeram-me atravessar o peito do céu de lado a lado, envolvido numa clarida-
de ofuscante. Apesar disso, quis voar com eles ainda mais longe. Acabei che-
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gando tão alto que pensei que fosse morrer. De repente, tive receio de não
poder mais voltar à floresta e de cair longe, num local desconhecido. Ao me
fazer beber yãkoana, o pai de minha esposa quis evitar que eu pensasse que os
xapiri são mentira. Ele me pôs à prova mesmo!
Fez com que eles cortassem a floresta a meus pés me dando a sensação de
cair sem fim. Também os fez retalhar o céu e depois ocultá-lo quase que por
completo. Ele não passava então de um pontinho brilhante muito distante, do
tamanho de uma mera penugem branca. Cheguei a chorar de pavor! Os espí-
ritos podem ser muito aterrorizantes! São seres desconhecidos, por isso. Os
xapiri das mulheres das águas e os das mulheres das miçangas waikayoma
carregaram minha imagem para bem longe. Fizeram-me correr com elas até o
limite de minhas forças, tropeçando na floresta durante dias a fio. Perderam-
-me na vegetação emaranhada e só me deixaram voltar para casa depois de
anoitecer. Assim foi.
Meu sogro não mentiu e não quis fazer de mim um mentiroso. Deu-me
realmente o conhecimento dos xapiri. No começo, quando eu ainda não sabia
nada a respeito deles, às vezes pensava: “Será que ele está mentindo e nos en-
ganando?”. No entanto, depois de ter visto os espíritos com meus próprios
olhos, quando ele os fez dançar para mim, minhas dúvidas se foram. Hoje,
apenas penso com nostalgia no quanto os nossos maiores eram mesmo grandes
xamãs! Por isso eu continuo a querer imitá-los, virando espírito como eles
faziam antes de mim. Assim, quando meus familiares adoecem, bebo yãkoana
para expulsar seus males. Para curá-los, ataco os seres maléficos que tentam
devorá-los, extraio as pontas de flecha de seus duplos animais e afasto as fuma-
ças de epidemia xawara que os queimam.
Um xamã sempre quer fazer crescer sua casa de espíritos. Se ela ficar es-
treita e baixa demais, ele nunca vai ser capaz de curar ninguém. Somente aque-
les que possuem uma casa de espíritos muito alta sabem curar, porque seus
xapiri são muitos e poderosos. Porém, para que isso aconteça, não basta apre-
sentar o nariz aos xamãs mais velhos uma vez só. É preciso recomeçar muitas
vezes e isso leva muito tempo. A cada vez, esses grandes xamãs têm de despa-
char novamente seus espíritos mensageiros para convidar novos xapiri, que,
felizes por serem chamados, virão por sua vez se instalar na casa de espíritos
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do jovem iniciando. Conhecer bem os espíritos nos exige tanto tempo quanto
aos brancos é necessário para aprender em seus livros. Cada vez que bebemos
pó de yãkoana, os xapiri descem de suas casas fincadas no peito do céu. Vêm
a nós dançando sobre seus espelhos, como imagens de televisão. Seguem ca-
minhos invisíveis à gente comum, delicados e luminosos como os que os bran-
cos chamam de eletricidade. É por isso que seu brilho deslumbrante desapa-
rece assim que se rompem. Esses incontáveis caminhos de espíritos vêm de
muito longe, mas chegam perto dos xamãs num instante, como as palavras no
telefone.
Depois de já termos bebido yãkoana muitas vezes com os xamãs mais
experientes, e se eles tiverem sido generosos, muitos outros xapiri vêm a nós
sem dificuldade, cada vez mais numerosos. Um deles começa a descer sozinho,
de muito longe. Depois, vai chamando outros ao longo do caminho, e estes
exclamam alegremente: “Nosso pai nos chama! Ele nos quer! Vamos fazer nos-
sa dança de apresentação para ele!”. É assim que os xapiri de um jovem xamã
vão aumentando aos poucos. Quanto mais ele bebe yãkoana e vai virando
outro, sua língua vai ficando mais firme e ele para de falar como um fantasma.
É então que as palavras dos espíritos realmente se revelam a ele. Eles não param
de entoar seus cantos, um após o outro, conforme ouvem o iniciando respon-
der a seus chamados. Assim que um xapiri termina a sua melodia, recua en-
quanto outro começa a fazer soar a sua, e assim por diante, sem descanso. Suas
palavras, vindas das árvores de cantos dos confins da terra, nunca têm fim.
Porém, para que o jovem xamã possa obter tão belos cantos é preciso, como eu
disse, que os xapiri substituam aos poucos sua garganta pela deles. De outro
modo o iniciando continuaria cantando tão mal quanto os brancos. Tudo isso
é tão difícil quanto aprender a desenhar palavras em peles de papel. A mão
fica dura no começo, o traço muito torto. É mesmo medonho! Por isso, é pre-
ciso afinar a língua para os cantos dos espíritos tanto quanto é preciso amole-
cer a mão para desenhar letras.
Depois, conforme vamos ficando mais velhos, os xapiri continuam vindo,
cada vez em maior número, para nossas casas de espíritos. Nas dos xamãs mais
antigos, chegam a descer sozinhos, enquanto eles dormem, depois de terem
bebido yãkoana durante todo o dia. Vêm para dançar por conta própria, só
porque sentem saudade; já não precisam ser chamados. São espíritos desco-
nhecidos, vindos de muito longe, que grandes xamãs mortos fizeram dançar
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antigamente. Os xamãs de hoje os recebem em suas casas de espíritos e os
fazem dançar de novo, como haviam feito seus pais e seus avós antes deles. É
assim que, desde o primeiro tempo, os xapiri nunca pararam de vir para per-
to de nós.
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7. A imagem e a pele
Espíritos guerreiros.
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Os brancos costumam me perguntar por que, um dia, eu decidi pedir aos
xamãs mais velhos de nossa casa que me dessem seus espíritos. Respondo que
me tornei xamã como eles para ser capaz de curar os meus. É a verdade. Se os
xapiri não nos vingassem, afastando os seres maléficos e as fumaças de epide-
mia, ficaríamos sempre doentes. Omama, no primeiro tempo, advertiu nossos
ancestrais: “Se vocês beberem yãkoana, poderão trazer de volta a imagem de
seus filhos capturados por seres maléficos. Se não forem capazes de chamar os
xapiri para protegê-los, darão pena diante do sofrimento deles e chorarão sua
morte em vão!”. Só os espíritos sabem arrancar o mal do mais profundo de nós
e jogá-lo para longe.1
São imortais e muito hábeis em nos curar. É por isso que
os apreciamos tanto e os fazemos dançar até hoje. Há muito tempo, antes de
os remédios dos brancos chegarem até nós, nossos antigos xamãs contavam
apenas com eles para vingar seus familiares, crianças, mulheres ou velhos. Be-
biam pó de yãkoana, faziam descer seus espíritos, armavam tocaia com eles
para atacar o mal e afugentá-lo.2
É verdade que nem sempre tinham sucesso e,
apesar de tudo, algumas crianças acabavam sendo devoradas pelos seres malé-
ficos das doenças.3
Não era diferente dos médicos dos brancos, que às vezes
tentam tratar as pessoas com remédios que não prestam! Depois do trabalho
dos xamãs, as esposas de nossos maiores, que eram muito sábias, também usa-
vam plantas de cura da floresta.4
Com elas esfregavam ou banhavam os corpos
dos doentes que tinham acabado de escapar da devoração por seres maléficos
ou espíritos da epidemia.5
Hoje, é uma pena, são poucas as mulheres que ainda
sabem usar essas plantas. As pessoas continuam pensando que só os xapiri
podem mesmo curar os doentes, mas contam também com a ajuda dos remé-
dios dos brancos.
Antigamente, antes de os brancos chegarem à nossa floresta, morria-se
pouco. Um ou outro velho ou velha desapareciam, de tempos em tempos,
quando seus cabelos já tinham ficado bem brancos, seus olhos cegos, suas car-
nes secas e flácidas. Seu peito virava outro, acometido pelo mal da fumaça.
Extinguiam-se assim aos poucos, pela simples razão de que já não comiam nem
bebiam mais. Morriam como deve ser, em idade muito avançada. Acontecia
de feiticeiros inimigos oka matarem um idoso, um rapaz ou uma mulher. Por
vezes, mulheres velhas, já querendo morrer, faleciam também dos ferimentos
de seu duplo animal rixi, flechado por caçadores distantes. Outras vezes, um
convidado enraivecido pegava a terra do rastro dos passos de um de seus anfi-
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triões, a esfregava com plantas de feitiçaria hw
ëri kiki e a dava à mordida de uma
cobra ou, então, vertia à noite, em sua comida, veneno de pelos queimados de
macaco-aranha paxo uku.6
Outras vezes ainda, guerreiros inimigos surgiam e
matavam uma ou duas pessoas ao alvorecer, em casa. Mas eram sobretudo os
seres maléficos da floresta que tentavam capturar as imagens dos humanos
para devorá-las. Eram eles que os xamãs deviam atacar sem trégua para curar
os seus. Por mais que os nossos maiores se maltratassem de uma casa a outra
com substâncias de feitiçaria, acabavam sempre sarando, pois os xamãs conse-
guiam tirá-las de seus corpos e arremessá-las para debaixo da terra. Eram de
fato poucas as pessoas pelas quais se ouviam prantos funerários. Os xapiri eram
os médicos de nossos antigos, desde sempre. Por isso eu quis por minha vez
conhecê-los e possuí-los.
Outrora, na floresta não existiam todas as epidemias gulosas de carne
humana que chegaram acompanhando os brancos. Hoje, os xapiri só conse-
guem conter a epidemia xawara quando ainda é muito jovem, antes de ela ter
quebrado os ossos, rasgado os pulmões e apodrecido o peito dos doentes. Se os
espíritos a detectarem a tempo, e vingarem suas vítimas sem demora, elas po-
dem se recuperar. Esses novos males que os brancos chamam malária, pneu-
monia e sarampo, porém, são outros. Vêm de muito longe e os xamãs nada
sabem a seu respeito. Por mais que se esforcem para enfrentá-los, nada os
atinge. Seus esforços são inúteis e morremos logo, um depois do outro, como
peixes envenenados por timbó.7
Os xapiri só sabem combater as doenças da
floresta, que conhecem desde sempre. Quando tentam atacar os espíritos da
epidemia xawara, que chamamos de xawarari, eles acabam por devorá-los
também, como aos humanos.8
Por isso, apesar de os xapiri saberem curar,
hoje em dia os xamãs também precisam contar com o auxílio dos remédios dos
brancos para manter essas doenças longe de nós.
Nós, xamãs, continuamos bebendo yãkoana para que os xapiri se alimen-
tem por nosso intermédio. Se não comem yãkoana, esfomeados e enfurecidos,
não dançam mais para nós. Para que o façam, é preciso que, como nós, seus
pais, possam morrer e virar fantasmas. Eles só vêm a nós depois de terem se
fartado de yãkoana. Então, seus espelhos descem devagar do peito do céu,
antes deles. Aí, param de repente, suspensos nos ares, e assim ficam. Os xapiri
vão descendo sobre eles, uns após os outros, fazendo sua bela dança de apre-
sentação. São as imagens dos ancestrais animais, de Omama, de sua esposa
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Th
uëyoma e de todas as outras mulheres das águas. São os espíritos do céu, dos
trovões e do sol; os dos antigos brancos, os napënapëri, e muitos outros. Então,
seus pais, os xamãs, imitam-nos um a um, cantando e dançando. Eles mesmos
viram espíritos.
Os xapiri se deslocam flutuando nos ares a partir de seus espelhos, para
vir nos proteger. Ao chegarem, nomeiam em seus cantos as terras distantes de
onde vêm e as que percorreram. Evocam os locais onde beberam a água de um
rio doce, as florestas sem doenças onde comeram alimentos desconhecidos, os
confins do céu onde não há noite e ninguém jamais dorme. Quando o espírito
papagaio termina seu canto, o espírito anta começa o dele; depois é a vez do
espírito onça, do espírito tatu-canastra e de todos os ancestrais animais. Cada
um deles primeiro oferece suas palavras, para então perguntar por que seu pai
os chamou e o que devem fazer.
Aí os xapiri ficam empenhados em curar as doenças. Os espíritos cutia,
cutiara e paca arrancam o mal fincado nas imagens dos humanos por seres
maléficos. Os espíritos dos tucaninhos aroaroma koxi o picotam e os dos pás-
saros kusãrã si o despedaçam.9
Os espíritos dos girinos e dos sapos yoyo o
resfriam em suas bocas. Os espíritos das mulheres das águas dançam enquan-
to embalam as crianças com febre e as banham com suas mãos delicadas, antes
de os espíritos da noite as colocarem ao abrigo, na escuridão. As mulheres
espíritos das miçangas waikayoma lavam as queimaduras das plantas de feiti-
çaria e os ferimentos de flecha. As mulheres espíritos arco-íris hokotoyoma
refrescam o corpo dos doentes com água e os espíritos anta lambem suas feri-
das. Os espíritos da árvore masihanari kohi lhes dão novas forças. Assim que
um espírito acaba seu trabalho, volta para seu espelho e aguarda até os outros
terminarem o deles. Pode demorar muito, mas é desse modo que os doentes
podem mesmo conseguir sarar. Depois de todos os xapiri terem cantado, uns
depois dos outros, e de seu pai tê-los imitado, chega por fim o espírito do anoi-
tecer, Weyaweyari, que encerra as danças e permite ao xamã parar de virar
outro. Então, todos os seus espíritos voltam para o peito do céu com seus es-
pelhos, levando consigo todos os magníficos cantos dos quais têm tanto ciúme.
Quando nos encontram na floresta, os seres maléficos në wãri nos consi-
deram como suas presas.10
Veem-nos como macacos-aranha e a nossos filhos
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como papagaios. É verdade! É o nome que nos dão. De modo que nunca pode-
ríamos sobreviver sem a proteção dos xapiri, que os në wãri temem como ini-
migos ferozes. Quando o tempo está encoberto e, de manhã, a escuridão demo-
ra a levantar, se um desses seres avista um caçador na floresta, logo tenta pegar
sua imagem. Leva-a para casa e a guarda numa caixa de madeira ou num gran-
de saco, para devorá-la mais tarde.
As casas dos në wãri são abarrotadas de mercadorias ardentes e impreg-
nadas de vertigem, depositadas ou penduradas de todos os lados. São tantas
que dão medo. Essas habitações se parecem com os barracões dos garimpeiros
na floresta e com as casas dos brancos na cidade. Quando um desses seres
maléficos resolve nos atacar, começamos de repente a gemer de dor em nossas
redes. Porém, não é o corpo que ele dilacera com suas garras, e sim a imagem,
que mantém presa, escondida em seu antro distante. Então, se os xapiri não
forem depressa arrancá-la dele, ele a devora por completo e o doente logo
morre. Por isso os xamãs tratam de nos vingar sem demora! Sob o comando
de um deles, mais experiente, enviam rapidamente seus xapiri em busca das
pegadas do ser maléfico. Quando chegam à sua casa, remexem tudo à procura
da imagem da vítima. Derrubam todas as mercadorias que encontram. Quan-
do finalmente acham a imagem cativa, eles a libertam e fogem com ela. Quan-
do voltam para casa, recolocam a imagem dentro do corpo do doente, que
acaba se recuperando. É desse modo que os espíritos trabalham para nos curar!
No entanto, para eles custa muito perseguir os seres maléficos, que têm
caminhos estreitos, emaranhados e bem escondidos no mato. É preciso ter
paciência para procurá-los e ir atrás de seus rastros. Por isso, são vários xapiri
que se dedicam a rastrear os në wãri, como os espíritos dos cães de caça e os
dos caititu poxe, que farejam suas pegadas e, principalmente, os espíritos gavião
koimari, capazes de seguir as pistas mais complicadas, nos ares ou debaixo da
terra, no vento e na noite. Mas os xapiri mais habilidosos na perseguição aos
seres maléficos são seus próprios genros! Conhecem bem suas trilhas e, como
não temem sua hostilidade, são os únicos que podem se aproximar deles facil-
mente. Por isso, esses xapiri tomam a frente das expedições lançadas nessas
buscas. Tão logo avistam os seres maléficos, fingem começar com eles um
diálogo de convite hiimuu, só para ganhar sua confiança. Porém, de repente,
começam a golpeá-los com seus facões, seguidos sem demora por todos os
outros espíritos que os acompanham.
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De modo que são os genros de Omoari, o ser maléfico da seca, que se
aproximam do sogro primeiro: os xapiri cigarra, borboleta e lagarto, e também
os espíritos do zangão remoremo moxi, dos pássaros hãtãkua mo, kõõkata mo
e õkraheama, bem como do grande lagarto teiú wasikara.11
Mas a trilha de
Omoari queima como uma senda de brasas e os espíritos dos sapos yoyo, hwa-
th
upa e prooma koko têm de ficar jogando nela panelas de água, para os xapiri
enviados na perseguição não queimarem os pés. Os espíritos cachoeira porari
e os das ariranhas proro e kana, por sua vez, devem também ficar molhando os
espíritos sapo, para protegê-los do calor. Por fim, quando os xapiri batedores
se aproximam da casa de Omoari a ponto de ficar ao alcance da voz, param e
se atocaiam na beira dos caminhos próximos. Então, mal seus genros começam
a conversar com o ser maléfico, atacam-no de surpresa, protegidos pelo espí-
rito fantasma Porepatari, que lhes dá suas pontas de curare.12
Golpeiam com
força a boca de Omoari e quebram seus dentes, para que largue a imagem do
humano que capturou. Se ele a tiver escondido, os espíritos macaco-de-cheiro
e quati a procuram por toda parte e destroem ruidosamente o interior da casa
do raptor. Os demais xapiri agarram e seguram o ser maléfico, torcendo-lhe os
braços. Apertam-lhe o pescoço e, por fim, o derrubam no chão. Então, os es-
píritos jacaré o golpeiam com seus poderosos facões. Os espíritos macaco-
-prego o flecham de todos os lados. Os espíritos dos grandes bichos-preguiça
disparam sobre ele com suas espingardas. Os espíritos jupará o esfolam vivo.
O espírito do grande escaravelho simotori o cega com um líquido fervente e lhe
corta a garganta. Os espíritos maléficos onça o queimam e os espíritos dos lagos
yokotori o afogam. É somente ao cabo de todos esses esforços que os xapiri
conseguem, finalmente, fazer com que solte a imagem de sua vítima.
Então, os espíritos raio rompem as amarras que a prendem, e a libertam.
Os espíritos dos pequenos bichos-preguiça e do araçari aroaroma koxi a sus-
tentam pelo torso e enxotam as filhas de Omoari que chegam vociferando pa-
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ra acudir o pai. Também quebram as garras de seus cães, e afugentam os seus
demais animais de estimação, lagartas kraya e cobras gigantes. Os xapiri saem
então correndo, fugindo com a imagem do doente em estado de fantasma.
Depois de ela ser levada de volta à sua morada, os espíritos da rã hraehraema
a limpam e os espíritos da irara Hoari a banham em água misturada com mel.
Os espíritos das mulheres das águas a enfeitam com tufos de penas e os espíri-
tos do urucum a cobrem com sua tintura vermelha. Os espíritos veado e onça
lambem seus olhos e peito com suas línguas ásperas, para que o doente recobre
a consciência. Os espíritos abelha umedecem sua boca ressecada e amarga com
água de cura, para que sua saliva volte e ele possa comer de novo. É desse mo-
do que os xamãs devem trabalhar para curar as crianças raptadas pelos seres
maléficos në wãri. Precisam ser mesmo muito valentes e rápidos. Se seus xapi-
ri demorarem a se pôr a caminho, os në wãri já terão começado a devorar a
imagem da vítima e será impossível para eles trazê-la de volta incólume. A
doença da criança se agrava muito e com certeza ela acaba morrendo.
Os xapiri que, com bravura, descem ao nosso chamado para enfrentar os
seres maléficos e nos vingar são mesmo muito numerosos! Além daqueles de
que falei, há também os espíritos morcego, que têm fogos para se guiar na es-
curidão e sopram flechinhas nos olhos dos në wãri, para cegá-los. Os espíritos
estrela pirimari mordem seus rins e ventre com os dentes afiados, antes de
cortarem seus braços. Os espíritos vespa os flecham, os espíritos do gavião
witiwitima namo os dilaceram com suas lâminas afiadas e os espíritos quati os
golpeiam com suas bordunas. Os espíritos onça os rasgam em pedaços e os
espíritos tamanduá os perfuram com suas presas potentes.13
Os espíritos das
árvores aro kohi, apuru uhi, komatima hi e oruxi hi os empurram e derrubam.
Os das árvores wari mahi batem neles com toda a força. Com o crânio aberto,
cobertos de ferimentos e atordoados, os seres maléficos acabam vacilando. Os
xapiri então podem agarrá-los e obrigá-los a largar suas presas. Assim é e não
digo tudo isso sem saber. Eu mesmo muitas vezes vi os espíritos dançar antes
de ir combater os në wãri. Juntam-se nas alturas do céu antes de atacar, tão
alto e em tão grande número que os olhos nem conseguem abarcar! São aguer-
ridos e muito valorosos. Por isso só eles são capazes de trazer de volta as ima-
gens de nossas crianças capturadas por Omoari, o ser do tempo seco, e também
de extrair da vagina de nossas mulheres que ardem em febre o pênis peludo e
purulento de Riori, o ser do tempo das cheias. Só eles podem curar aqueles que
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foram flechados pelo ser verme Moxari14
por comer seus restos de frutas po-
dres, e correm o risco de ser degolados por seus cães. Só eles, finalmente, po-
dem afastar para longe todos esses seres de doença, como faz o espírito da
ventania Watorinari, que os varre com seu sopro violento.
Contudo, não são apenas os seres maléficos que nos atacam e nos fazem
adoecer. Também podemos morrer quando gente muito distante, como os
Parahori das altas terras, flecham nossos duplos animais, que chamamos rixi.15
O animal rixi das mulheres é o cachorro do mato hoahoama, e o dos homens
o gavião-real mohuma. Esses duplos animais, que são também os de nossos
antepassados, vivem na floresta junto de gente desconhecida, no alto rio Pari-
ma, perto de uma grande cachoeira chamada Xama si pora, protegida por in-
contáveis vespeiros e pelas borrascas de ventos poderosos. Então, se caçadores
desse lugar flecharem um animal rixi, o ferimento chega logo até nós e pode
matar um morador de nossa casa. Assim é. Só nossa pele fica aqui, deitada na
rede. Nosso verdadeiro interior está lá, muito longe dela. Quando o animal
rixi de uma pessoa daqui é atingido e tenta fugir correndo ou voando na dis-
tante floresta das altas terras, a pessoa fica doente e logo entra em estado de
fantasma. Sente de repente uma dor muito aguda no local em que a ponta de
flecha entrou no animal, seja ponta de bambu, seja ponta de osso de macaco.16
É por isso que, quando inimigos distantes flecham nossos duplos animais, logo
ficamos doentes.
Quando isso acontece, os xamãs de nossa casa despacham rapidamente
seus xapiri para socorrer o duplo animal que acaba de ser flechado. Seu espíri-
to do vendaval se lança sobre os caçadores inimigos para que percam o rumo
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na floresta, enquanto seus espíritos gavião koimari os atacam sem piedade.
Então, os espíritos dos macacos purupuru namo acorrem para ajudar e escon-
der o animal rixi ferido. Quando fica fora de perigo, arrancam a ponta de flecha
de seu corpo e tentam recolocá-lo em sua toca ou ninho. Quando os xapiri vêm
socorrer um animal rixi, tratam de levá-lo de volta para junto da grande ca-
choeira de águas turbilhonantes, onde vivem seus semelhantes. Mas depois
disso ainda é preciso tratar o ser humano que o ferimento do duplo colocou
em estado de fantasma. São então os espíritos macaco-aranha e guariba que se
encarregam de extrair a ponta de flecha que atingiu o animal rixi. Em seguida
a entregam aos espíritos do japim ayokora que por fim a fazem ser cuspida
pelos xamãs, à vista de todos. Só assim o doente poderá realmente sarar. Con-
tudo, se o duplo não for logo tirado do alcance dos caçadores, pode ser que o
encontrem. Se isso acontecer e derem cabo dele com uma bordunada, o doente
morre de repente e em seguida seus parentes começam a chorá-lo.
Alguns de nós, poucos, querem ser donos de coisas de feitiçaria que cha-
mamos hw
ëri.17
É gente cuja mão quer deixar um rastro de raiva.18
Quando um
deles é convidado a uma festa reahu, esconde essas substâncias em seu estojo
de pontas de flechas de bambu. Ao chegar, faz sua dança de apresentação e,
depois do anoitecer, começa a revelar sua hostilidade, provocando os anfitriões
no decorrer dos diálogos wayamuu.19
Mais tarde, resolve brigar com a esposa
de um deles, porque teria rejeitado seus avanços. Então tenta se vingar, tornan-
do-a estéril, usando plantas manaka ki e xapo kiki. Pode ainda acontecer que,
por despeito, jogue outras feitiçarias sobre um de seus anfitriões, que lhe recu-
sou um facão, ou sobre outro, que julgou sovina demais com a comida. Antiga-
mente, os maiores maltratavam uns aos outros desse modo com bastante fre-
quência. Hoje em dia é mais raro. A maioria de nós não conhece realmente o
uso dessas coisas maléficas hw
ëri. Até evitamos tocá-las com medo de adoecer-
mos nós mesmos! Isso no entanto não impede alguns de nós de querer saciar
seu rancor com essas coisas ruins.
Assim que um convidado projeta ou esfrega uma feitiçaria hw
ëri em um
de seus anfitriões às escondidas, ele começa a se sentir mal. Quando acaba a
festa reahu, ele sente uma violenta dor de cabeça e em seguida é queimado por
uma febre alta. Sua visão fica amarelada, e ele vê a floresta girar diante de seus
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olhos. Fica tonto e suas orelhas começam a apitar. Então, mesmo que ele não
consulte logo os xamãs de sua casa, eles entendem por conta própria a gravi-
dade da doença e vão querer começar a vingá-lo imediatamente, para destruir
o mal que o atingiu.20
Quando isso ocorre, o próprio doente não diz nada. Fica
apenas deitado na rede, em estado de fantasma. São os parentes que falam por
ele. De modo que quando a mãe ou a irmã de um homem declara, em voz alta,
“Osema está muito doente!21
Jogaram nele uma coisa de feitiçaria hw
ëri!”, os
xamãs que a ouvem prestam atenção e reúnem-se logo para começar a beber
pó de yãkoana juntos.
Então, assim que seus olhos morrem sob efeito dela, põem-se a procurar
o mal dentro do corpo do doente. Quando o encontram, arrancam-no para
retalhá-lo, queimá-lo e lançar seus detritos longe, embaixo da terra. Só assim
o paciente poderá se restabelecer. O mal dos hw
ëri é muito poderoso. Emite um
zumbido intenso. Os olhos dos xamãs os veem como enxames de abelhas ou
de pernilongos; como uma nuvem amarela e laranja pregada à imagem do
doente. Avistam ao mesmo tempo a planta de feitiçaria de que eles provêm, na
forma de brotos novos saindo do chão da floresta. Seus xapiri devem então
tratar de arrancá-los, apesar do cheiro nauseabundo que têm. Os espíritos tatu-
-canastra e queixada os desenraízam e queimam. Os espíritos abelha repoma
cavam um buraco no chão,22
pelo qual os espíritos jupará, macaco-aranha e
macaco cuxiú-negro jogam seus restos calcinados no chão, para alimentar os
vorazes ancestrais aõpatari que caíram embaixo da terra com o céu do primei-
ro tempo. Esses restos de coisas de feitiçaria são vistos como caça pelos aõpa-
tari, bem como os cadáveres de seres maléficos ou da epidemia destroçados
pelos espíritos dos xamãs. Quando os devoram, vingam-nos de todas essas
coisas ruins que nos atormentam. Assim, logo que escutam os xapiri trabalhan-
do, gritam: “O que vocês vão nos mandar? É caça! Joguem rápido! Estamos
muito famintos! É bem gorda, pelo menos?”. Os espíritos então atiram essa
comida para debaixo da terra, e os aõpatari seguem sua queda com os olhos,
exclamando com avidez: “Caça! Aaa! Olhem só essa carne! Aaa!  ”. Assim que
cai na floresta deles, a cortam e comem gulosamente em meio a uma agitação
confusa. São mesmo insaciáveis, e não compartilham nada entre eles. Tanto
que é comum ouvirmos uma de suas velhas, Okosioma, chorando de fome
porque não lhe deram tripas de caça! Seus dentes são afiados como lâminas de
ferro. Não são humanos mesmo! No entanto dizem que somos seus antigos
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parentes que ficaram acima deles. Do mundo de baixo, ouvem os discursos
hereamuu de nossos grandes homens como se fossem trovoadas vindo do céu,23
do mesmo modo que ouvimos as arengas dos seres trovão saudando a chegada
dos fantasmas às costas do céu como estrondos de tempestade.
Também pode haver, entre os convidados a uma festa reahu, gente vinga-
tiva que realmente deseja fazer sofrer as pessoas que a recebem, por mais que
lhe ofereçam comida e a tratem com amizade. Acontece às vezes, pois, de um
visitante coletar a terra da pegada de um dos seus anfitriões e esfregá-la com
coisas de feitiçaria, para que morra de doença.24
Isso pode ocorrer quando um
homem é convidado a uma casa da qual um dos antigos guerreiros flechou seu
pai. Assim, tão logo ele põe os olhos sobre o homem em estado de homicida, a
raiva do luto volta e ele pensa: “Asi! Foi ele mesmo que matou meu pai quando
eu era criança!”. Então recolhe sua pegada às escondidas, para poder se vingar,
mesmo depois de tanto tempo. Às vezes, porém, um convidado malvado pode
fazer o mesmo movido apenas pela raiva que sente, por ciúme de uma mulher
ou em reação à avareza de quem o convidou. É verdade! O visitante hostil re-
colhe a terra dos passos de sua vítima, embrulha-a com cuidado em folhas e
esconde o embrulho em seu estojo de pontas de flecha. Quando volta para casa,
depois da festa reahu, espera algum tempo antes de entregar o embrulho a vi-
sitantes de uma floresta distante, convidados em sua casa. É essa gente que, no
final, vai esfregá-lo com coisas de feitiçaria, pois são inimigos do homem a
quem ele quer prejudicar, gente de muito longe que jamais visita sua casa.25
Mais tarde, os inimigos primeiro dividem a terra da pegada em vários
pacotinhos de folhas que chamamos mae haro, pacotes de pegadas. Escondem
a maior parte deles no chão, atrás de sua casa ou na floresta. Em seguida, esfre-
gam um deles, rolando-o na palma da mão, com argila, coisas de feitiçaria e
plantas hore kiki, que tornam covarde. A vítima adoece sem tardar e começa a
arder em febre, enquanto a perna que corresponde à pegada começa a inchar.
Então, se os inimigos quiserem matá-lo logo, amarram o embrulhinho de terra
num bastão e o dão a picar várias vezes por uma cobra jararaca, que chamamos
karihirima kiki. Assim faziam os nossos antigos e algumas pessoas ruins fazem
ainda hoje. Nesse caso, assim que o pacote de folhas é desfeito pelas mordidas
da jararaca e ela recua, os feiticeiros exclamam: “Cobra! Fuja logo! Vá se escon-
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der num buraco na terra ou nas folhas do chão! Fique de tocaia!”. Assim, ela
acabará mordendo a pessoa visada e a matará. Um dia, enfraquecida, a vítima
irá cambaleando até a floresta para defecar. Tornada fantasma sob efeito da
feitiçaria, andará sem tomar cuidado. Então, uma jararaca escondida não tar-
dará a mordê-la e, dessa vez, ela falecerá logo. Ninguém poderá mais curá-la!
Em compensação, se os pacotes de pegadas forem apenas esfregados com
coisas de feitiçaria e enterrados, os xamãs podem recuperá-los e curar o doente.
Porém, para isso precisam encontrar todos eles e desfazê-los, um por um. Só
então a vítima deixa o estado de fantasma e pode sarar. São os espíritos da cutia,
da cutiara e do rato paho que procuram os pacotes de pegadas, farejando e
arranhando o chão. Quando os acham, desamarram-nos e rasgam-nos com
suas facas afiadas, capazes de vencer os barbantes mais resistentes. Depois,
espalham seu conteúdo na floresta. Às vezes, porém, os dão, ainda amarrados,
aos espíritos japim ayokora, que os fazem ser regurgitados pelos xamãs à vista
de todos os moradores da casa do doente.
Quem está trabalhando sozinho na roça também pode ser atacado por
feiticeiros inimigos oka chegando das terras altas ou da floresta dos Xamath
ari.
Eles vêm de casas distantes, viajam à noite, e podem se emboscar na borda da
floresta para soprar em nós suas feitiçarias hw
ëri. Possuem zarabatanas de ma-
deira de palmeira horoma, com as quais lançam flechinhas que levam amarrada
uma bola de algodão contendo plantas maléficas.26
Esses projéteis atingem a
nuca da pessoa visada e as substâncias ruins que contêm logo se espalham por
todo o seu corpo. Em seguida ela começa a se sentir muito fraca. Tomada de
tonturas, para de trabalhar e se agacha em sua roça, desnorteada, lançando um
suspiro profundo. Os feiticeiros oka então saem de seus esconderijos e se jogam
sobre ela. Aproveitando-se de sua fraqueza, arrastam-na para a floresta próxima.
Quebram seus membros, as costas e a nuca, torcendo-os ou usando como apoio
um pedaço de pau. Depois a abandonam, agonizante, no chão da floresta. Mui-
tas vezes, eles ainda tratam de apagar as marcas de sua agressão, com passes
sobre o corpo da vítima, para que ela possa voltar para casa sem revelar o ata-
que. Depois, colocam-na de pé e lhe dizem: “Volte para casa e não pronuncie
uma palavra a nosso respeito! Não revele nossa presença! Apenas diga aos seus:
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‘Senti-me mal enquanto estava trabalhando na roça! Deve ter sido Omoari, o
ser do tempo seco, que me golpeou!’”.
A vítima dos oka então volta para casa. Reaviva sua fogueira e, em estado
de fantasma, deita na rede. Depois repete as palavras dos feiticeiros, atribuindo
seu mal-estar a Omoari. Então seu estado se agrava de repente. Nesses casos,
mesmo que os xamãs comecem logo a combater seu mal, não há o que fazer.
Nada conseguirão. O doente morre muito depressa, pois seus ossos já foram
todos quebrados dentro do corpo. Não há nada mesmo a fazer! Só é possível
tratar uma vítima de feiticeiros oka se ela tiver sido atingida apenas por suas
substâncias hw
ëri, antes de terem tempo de quebrar seus ossos. Mas isso só
acontece com pessoas precavidas, que fogem assim que sentem o impacto das
flechinhas dos oka na nuca. Nesse caso, os xamãs ainda podem destruir o poder
das substâncias maléficas que afetaram a pessoa e curá-la.27
Gente comum não vê a imagem dos doentes para além de suas peles. Só
os xapiri conseguem. Por isso são capazes de arrancar do corpo deles as presas
e os algodões em brasa deixados pelos seres maléficos, as pontas de flecha que
feriram seus animais rixi, as armas dos xapiri inimigos, as plantas de feitiçaria.
Podem, do mesmo modo, extrair o mal Kamakari, que devora os ossos e os
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dentes,28
e rasgar as teias de aranha que escurecem a visão, ou recuperar os
pacotes de terra das feitiçarias de pegadas. Os xapiri também sabem fazer sair
todos esses objetos maléficos pela boca de seu pai, o xamã, à vista de todos.
Assim permitem que ele nos livre de todas as coisas ruins que nos deixam
doentes, mesmo as que estão mais fincadas no fundo de nosso corpo. Não é
por nada que dizemos que os xapiri são poderosos! São sobretudo os espíritos
do japim ayokora e da anta que têm o poder de fazer os xamãs regurgitarem,29
e também o espírito do tucano, o do urutau wayohoma e outros, que vão se
revezando quando os primeiros ficam exaustos.30
Contudo, de todos esses xapiri, os mais habilidosos em extrair doenças e
aplacar dores são mesmo os espíritos dos japins ayokora. Os espíritos cutia e
paca no começo ajudam a localizar o mal no corpo do doente, para poder ar-
rancá-lo e expulsá-lo para longe de nós. Quem tem esses espíritos fica menos
preocupado quando os filhos adoecem. São nossos verdadeiros médicos. Os dos
brancos abrem barrigas e peitos com lâminas de ferro, muitas vezes sem saber
o que procuram, e acabam só deixando grandes cicatrizes. Já os nossos espíritos
ayokorari tratam os doentes por dentro, sem derramar sangue. Sei disso porque
eu mesmo já fui curado por esses espíritos, quando um ser maléfico Poreporeri,
espectro de antigos xamãs, me atacou. Um de meus olhos tinha virado outro e,
de repente, não podia mais se mexer. Ficava parado e minha pálpebra não fe-
chava mais. Minha boca também tinha se transformado em boca de fantasma,
dormente e torta nos cantos. Foram dois grandes xamãs de Watoriki, hoje fale-
cidos, que me curaram com seus espíritos japim ayokora. Esses xapiri extraíram
as coisas ruins colocadas em mim pelo ser maléfico espectro. Desamarraram os
cordões de algodão com os quais ele puxava os lados de meu rosto e permitiram
aos pais regurgitá-los. Depois, lavaram seus rastros com água de cura. Foi assim
que eu me recuperei; não precisei ir à cidade para isso.31
Apenas alguns dos mais antigos xamãs têm esses xapiri, e só os transmi-
tem com parcimônia. Quando eles querem mesmo se instalar na casa de espí-
ritos de um xamã, costumam vir por conta própria. Se alguém tentar chamá-los
sozinho, aproximam-se desconfiados e fogem num piscar de olhos, logo que
são incomodados por barulho, fumaça ou cheiro de carne queimada. Desapa-
recem para nunca mais voltar. Por isso os xamãs cuidam muito bem deles. São
também protegidos com muito zelo por seus genros, os xapiri das vespas ku-
rira. Só vêm com vontade àqueles que já os têm há tempos.32
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Aconteceu de esses espíritos descerem a mim enquanto eu dormia. Pude
assim contemplar em meu sonho as imagens cintilantes dos japins ayokora,
ixaro e napore dançando em tropa barulhenta e, em seguida, as dos pássaros
wayohoma e taritari axi. Vinham acompanhadas pelo espírito onça, que regur-
gita os pacotes de terra de pegadas pesados demais para eles, e espíritos jacaré,
arara, tucano e queixada. Todos esses xapiri estavam cobertos de soberbos
adornos de plumas. Os espíritos do japim ayokora eram porém os mais belos.
Sobressaíam mesmo entre todos os outros. Vivem muito longe, numa floresta
magnífica, junto de um grande rio a que os xamãs chamam de rio das vespas
kurira, protegidos pelos gigantescos ninhos desses espíritos guerreiros. São
incontáveis e entoam cantos esplêndidos sem parar, um após o outro. Meu
sogro levou-me até lá, com seus próprios xapiri, para eu poder conhecê-los.
São meus espíritos preferidos, e sempre guardo seu caminho em meu pensa-
mento. Gostaria mesmo de conhecê-los mais e instalá-los em minha casa de
espíritos como meus antepassados fizeram muito antes de mim!
A maior parte dos xapiri se comporta de modo amigável. Alguns deles, no
entanto, se mostram muito agressivos e vagam pela floresta só para matar; eu
já falei disso. Grandes xamãs de muito longe podem assim viajar na forma de
espíritos maléficos e roubar as imagens de nossas crianças para comer.33
­Anciãos
das distantes casas Xamath
ari de Iwahikaropë ou de Konapuma às vezes nos
agridem desse modo!34
Chegam a enviar onças e cobras perto de nossa casa
para nos atacar. Seus espíritos guerreiam sem trégua contra os nossos e nos
crivam de flechas com pontas afiadas que nos causam fortes dores. Essa gente
distante não nos conhece. Porém basta um de seus filhos falecer por ter sido
desmamado cedo demais35
para verem aí o rastro de nossas mãos e nos acusa-
rem com rancor. Então, enraivecidos, enviam até nós xapiri hostis em busca de
vingança. Mas estão enganados, nossos espíritos nunca vão à guerra na casa
deles para devorar suas crianças.36
Enfrentam apenas os seres maléficos e as
fumaças de epidemia dos brancos. Deixa-nos furiosos que essa gente sem juízo
fique tentando matar nossas crianças sem razão! Nunca tomamos a iniciativa
de atacar outras casas desse modo, pois tememos que as represálias não acabem
nunca. Mas quando seus moradores vêm agredir nossos familiares, também não
hesitamos em nos vingar. Mandamos até eles nossos xapiri famintos de carne
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humana. Assim é. Quando um grande xamã de uma aldeia distante mata um
de nossos filhos, respondemos a sua agressão da mesma maneira. Nossos espí-
ritos maléficos voam logo até sua casa e lá também devoram uma criança, como
se fosse um papagaio. E quando queremos pôr fim à malevolência de um desses
xamãs de longe, são os mesmos espíritos que enviamos para matá-lo. Envere-
dam por caminhos tortos, surpreendem os xapiri deles, cercam-nos e acabam
com os mais valentes. Depois destroem furiosamente sua casa de espíritos, in-
cendeiam-na e jogam n’água seus restos calcinados. E, por fim, atacam o próprio
xamã, golpeando-o com seus facões antes de derramar seu sangue no rio, para
não deixar nenhuma pista de quem o matou.
Esses xapiri agressivos são imagens de seres maléficos në wãri, que faze-
mos descer só para nos vingar. Além de suas armas assustadoras, possuem
várias coisas de doença.37
O espírito do céu Hutukarari, por exemplo, enfia na
imagem de suas vítimas lascas brilhantes de estrela, de que ninguém pode ficar
curado. O espírito do ser maléfico Herona38
despeja nelas uma urina tão peri-
gosa quanto o curare, enquanto Mõeri, o espírito da tontura, golpeia sua nuca
violentamente, fazendo a floresta rodar em torno delas. Quando guerreiam,
esses xapiri são muito perigosos mesmo! Os espíritos gavião koimari vão na
frente, conduzidos pelo mais terrível deles, Ara poko. Brandem cordas incan-
descentes e lâminas de ferro afiadas para amarrar e trinchar suas vítimas. Fe-
rozes espíritos onça iramari os acompanham, com seus facões cortantes, e
também espíritos do dono do algodão, Xinarumari, que aprisiona as crianças
em seus enfeites ardentes. Também há entre eles espíritos sucuri, que copulam
com as mulheres grávidas sem elas saberem, fazendo aprodrecer os fetos den-
tro delas, ou que sodomizam os homens, cujas vísceras começam então a inchar
até explodir. Mas existem ainda muitos outros xapiri de seres maléficos, como
os espíritos peixe yurikori, que retalham a língua e a garganta das crianças, e os
espíritos estrela pirimari, que as dilaceram com seus dentes afiados. Esses xa-
piri perigosos só atacam gente de outras casas bem distantes. Aqui na nossa, ao
contrário, ficam empenhados em nos curar, como os demais espíritos. São
muito valentes no combate aos seres maléficos. São seus semelhantes; por isso
os conhecem bem! Assim, os espíritos gavião koimari sabem rastreá-los até suas
habitações, altas como montanhas, e os espíritos sucuri são capazes de amarrá-
-los para ficarem quietos. Os espíritos do dono do algodão Xinarumari também
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sabem renovar a pele das crianças quando fica coberta de feridas infeccionadas
e não para de apodrecer. Assim é.
Os xapiri inimigos estão sempre tentando burlar a vigilância dos xamãs
da casa que vão atacar. Voam muito depressa, mas nunca se deslocam em linha
reta, nem em plena vista. Tratam de dissimular e embaralhar seus caminhos
com desvios constantes, para passar despercebidos. Quando querem capturar
uma criança em nossa casa, primeiro vão para muito longe na direção oposta,
até a terra dos brancos. Depois, voltam em segredo por uma trilha tortuosa,
mas agora voando nas profundezas do mundo subterrâneo. Assim, primeiro
parecem sumir ao longe, tão longe que o próprio xamã que os envia acaba por
perdê-los de vista. Porém, quando já foram até esquecidos, surgem de repente
do chão da casa na qual vêm buscar sua presa. Sopram coisas de feitiçaria por
toda a casa, para atordoar os xamãs que poderiam ameaçá-los. Depois escolhem
como vítima uma bela criança, forte e alegre, que estiver brincando.
Os espíritos gavião e onça então se lançam sobre a criança para esquartejá-
-la ferozmente com seus facões. Ela imediatamente começa a gemer de terror e
cai no chão. Em seguida, os espíritos do dono do algodão cobrem sua cabeça,
peito e ventre com seus enfeites de doença em brasa. Os olhos da criança come-
çam a revirar, e ela começa a arder em febre. Alguém pode pensar que foi atin-
gida por uma planta de feitiçaria waka moxi.39
Mas não é nada disso. É, com
certeza, sinal desses xapiri inimigos! Sem demora levam embora a imagem fe-
rida da vítima, enquanto a pele dela, vazia, jaz no chão da casa. Então, a criança
desmaia e entra em estado de fantasma. A essa altura, se os espíritos lua come-
çarem a cortá-la em pedaços para devorá-la junto com os demais espíritos ma-
léficos, é tarde demais para curá-la. Ela morre em pouco tempo, apesar de todos
os esforços dos xamãs da casa para vingá-la dos xapiri hostis que capturaram
sua imagem. Nada mais podem fazer. Contudo, se os xamãs forem precavidos
e beberem yãkoana assim que a criança desmaiar, ainda será possível encontrar
a pista dos agressores. Poderão enviar seus próprios espíritos maléficos para
resgatar a imagem dela, antes de os xapiri inimigos a devorarem. Se a criança
ferida, amarrada com laços de algodão em fogo, ainda não tiver sido lacerada,
pode sarar. Depois de trazê-la de volta para junto dos seus, os xamãs limpam
depressa o interior de seu corpo, até ela voltar a si e se recuperar.
As pessoas que devoram assim a imagem das crianças são sempre xamãs
antigos, inimigos poderosos e ferozes, cujas casas de espíritos estão lotadas de
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xapiri muito perigosos. Apesar disso, os espíritos maléficos de um xamã tam-
bém podem sair em busca de presas por conta própria, independentemente do
pai. Voam então até casas distantes, para caçar, impelidos por sua fome de
carne humana. Chegam para devorar as crianças, que tomam por caça, e só
voltam para casa depois de se fartar com sua gordura. Quando o xamã percebe
a malvadeza, lamenta, contrariado: “Hou! O que meus xapiri foram fazer? Não
os mandei para a guerra! Eu não disse nada a eles!”. Quando os espíritos de um
xamã matam, dizemos que ele está õnokae, pois está farto de carne humana. A
testa dele fica úmida, gordurosa e grudenta, como a dos guerreiros que come-
ram inimigos com suas flechas ou a de alguém que matou o animal rixi de um
morador de uma casa distante.40
Então, devem ficar deitados ao lado de sua
fogueira, imóveis, e devem jejuar, para o estado de õnokae secar, depois de um
certo tempo. Assim é. Tememos muito esses xamãs distantes que enviam seus
espíritos guerreiros até nós, mas quando eles nos atacam, nos vingamos deles
da mesma maneira!
É assim que morrem os humanos. Os fantasmas de nossos maiores faleci-
dos sempre querem levar os vivos para junto deles, nas costas do céu.41
É ver-
dade. Os mortos sentem saudade daqueles que deixaram, sozinhos, na terra.
Dizem a si mesmos: “Os meus são tão poucos, têm tanta fome, nessa floresta
infestada de epidemia xawara e de seres maléficos! Sinto muita pena deles!
Tenho de ir depressa buscá-los!”. Por isso os vemos em sonho, com a mesma
aparência de antes de morrerem. Mas se eles não pararem de descer para cha-
mar os vivos, estes vão ficar cada vez mais afetados pela saudade. Alguns podem
até acabar morrendo por isso. Nesse caso, os xamãs devem despachar seus xa-
piri, para repelir os fantasmas de volta para as costas do céu. Os xapiri lhes
dizem: “Ma! Parem de descer! Fiquem longe de nós! Deixem-nos viver por um
tempo aqui nesta floresta! Mais tarde vamos nos juntar a vocês! Não tenham
tanta pressa em nos chamar para perto!”.42
Ao que os fantasmas retrucam: “Ma!
Vocês deveriam é ter pressa de voltar a nós!”. E novamente os xapiri: “Ma! Não
estamos sofrendo! Voltaremos a vocês, é claro! Mas sem pressa! Retornem para
o lugar de onde vieram!”.
É assim que os xapiri e os fantasmas se falam. Ouvi-os depois de ter bebi-
do yãkoana, e durante o tempo do meu sonho. Se os xapiri não intercedessem
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assim, os fantasmas saudosos logo levariam todos os parentes consigo para as
costas do céu e os humanos não parariam de morrer, um depois do outro,
depressa demais. Não seria boa coisa! Os fantasmas, ao contrário de nós, vivem
por muito tempo. Mas, mesmo assim, até eles acabam morrendo. Então, depois
de virarem seres mosca e urubu, vão morar ainda mais longe nas alturas, de-
baixo de um céu novo, ainda jovem e transparente, que está acima desse cujo
peito avistamos da terra.
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8. O céu e a floresta
Espelhos e caminhos dos espíritos.
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Quando, às vezes, o peito do céu emite ruídos ameçadores, mulheres e
crianças gemem e choram de medo. Não é sem motivo! Todos tememos ser
esmagados pela queda do céu, como nossos ancestrais no primeiro tempo.
Lembro-me ainda de uma vez em que isso quase aconteceu conosco. Eu era
jovem na época.1
Estávamos acampados na floresta, perto de um braço do rio
Mapulaú. Tínhamos saído, com alguns homens mais velhos, à procura de uma
moça do rio Uxi u que tinha sido levada por um visitante de uma casa das
terras altas, a montante do rio Toototobi. Anoitecia. Não havia nenhum ruído
de trovão, nenhum raio no céu. Tudo estava em silêncio. Não chovia, e não se
sentia nenhum sopro de vento. No entanto, de repente, ouvimos vários estalos
no peito do céu. Foram se sucedendo, cada vez mais violentos, e pareciam bem
próximos. Era mesmo muito assustador!
Aos poucos, todos se puseram a gritar e soluçar de pavor no acampamen-
to: “Aë! O céu está despencando! Vamos todos morrer! Aë!”. Eu também tinha
medo. Ainda não havia me tornado xamã, e perguntava a mim mesmo, muito
inquieto: “O que vai acontecer conosco? Será que o céu vai mesmo cair em
cima de nós? Vamos todos ser arremessados para o mundo subterrâneo?”.
Naquela época, ainda havia grandes xamãs entre nós, pois muitos de nossos
maiores ainda estavam vivos. Então, vários deles começaram a trabalhar juntos
para segurar a abóbada celeste. No tempo antigo, seus pais e avós haviam en-
sinado esse trabalho a eles, que por isso foram capazes de impedir mais essa
queda. Assim, depois de algum tempo tudo se acalmou. Mas estou certo de que,
uma vez mais, o céu tinha mesmo ameaçado se quebrar acima de nós. Sei que
isso já ocorreu, muito longe da nossa floresta, lá onde a abóbada celeste se
aproxima das bordas da terra. Os habitantes dessas regiões distantes foram
exterminados, porque não souberam segurar o céu. Mas aqui onde vivemos ele
é muito alto e mais sólido. Acho que é porque moramos no centro da vastidão
da terra.2
Um dia, porém, daqui a muito tempo, talvez acabe mesmo despen-
cando em cima de nós. Mas enquanto houver xamãs vivos para segurá-lo, isso
não vai acontecer. Ele vai só balançar e estalar muito, mas não vai quebrar.3
É
o meu pensamento.
Todos os seres que moram na floresta têm medo de ser eliminados pela
imensidão do céu, até os espíritos. É isso, finalmente, que a gente de nossas
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casas receia, é isso que a faz chorar. Todos bem sabem que o céu já caiu sobre
os antigos, há muito tempo. Conheço um pouco dessas palavras a respeito da
queda do céu. Escutei-as da boca dos homens mais velhos, quando era criança.
Foi assim. No início, o céu ainda era novo e frágil. A floresta era recém-chegada
à existência e tudo nela retornava facilmente ao caos. Moravam nela outras
gentes, criadas antes de nós, que desapareceram. Era o primeiro tempo, no qual
os ancestrais foram pouco a pouco virando animais de caça. E quando o centro
do céu finalmente despencou, vários deles foram arremessados para o mundo
subterrâneo. Lá se tornaram os aõpatari, ancestrais vorazes de dentes afiados
que devoram todos os restos de doença que os xamãs jogam para eles, embaixo
da terra. Continuam morando lá, junto do ser do vendaval, Yariporari, e do ser
do caos, Xiwãripo. Vivem ali também na companhia de seres queixadas, vespas
e vermes tornados outros.
As costas desse céu que caiu no primeiro tempo tornaram-se a floresta em
que vivemos, o chão no qual pisamos. Por esse motivo chamamos a floresta
wãro patarima mosi, o velho céu, e os xamãs também a chamam hutukara, que
é mais um nome desse antigo nível celeste. Depois, um outro céu desceu e se
fixou acima da terra, substituindo o que tinha desabado. Foi Omama que fez o
projeto, como dizem os brancos. Pensou no melhor modo de torná-lo sólido e
introduziu em todo o céu varas de seu metal, que enfiou também na terra,
como se fossem raízes.4
Por isso, este novo céu é mais sólido do que o anterior,
e não vai desmanchar com tanta facilidade. Nossos xamãs mais antigos sabem
tudo isso. Sempre que o céu começa a tremer e ameaça arrebentar, enviam sem
demora seus xapiri para reforçá-lo. Sem isso, o céu já teria desabado de novo
há muito tempo!
A gente do primeiro tempo não era tão sabida. Mas se esforçaram muito
tentando impedir a queda do primeiro céu. Transtornados de medo, cortaram
estacas frágeis demais, na madeira mole e nos troncos esburacados das árvores
tokori e kahu usihi. A maior parte desses ancestrais foi esmagada ou lançada
para debaixo da terra, a não ser num lugar, onde o céu se apoiou num cacauei-
ro, que vergou sob o peso mas não quebrou. Isso foi no centro de nossa flores-
ta, onde estão as colinas que chamamos horepë a.5
Um papagaio werehe foi
mordiscando o retalho de céu preso no cacaueiro e aos poucos abriu nele um
buraco, por onde essas gentes do primeiro tempo conseguiram escapar. No
final, saíram na floresta das costas do céu, onde continuaram vivendo. Os xa-
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mãs chamam-nos hutu mosi horiepë th
eri pë, a gente que saiu do céu. Mas esses
ancestrais acabaram desaparecendo. Viraram outros e foram levados pelas
águas, ou foram queimados quando a floresta toda se incendiou, há muito
tempo.6
Isso é o que sei. Viemos à existência depois deles, e foi nossa vez de
existir e aumentar. De modo que somos os fantasmas da gente que saiu do céu.
Quando um xamã muito velho fica doente por um longo período e acaba
se extinguindo por si só, seus xapiri, em silêncio, vão aos poucos deixando sua
casa de espíritos. Abandonada, ela começa a desabar. Não acontece nada além
disso. Por outro lado, se um xamã ainda jovem tiver uma morte violenta, fle-
chado por guerreiros ou comido por feiticeiros inimigos, seus espíritos ficam
enfurecidos. O céu escurece e chove sem parar. A ventania bate com força nas
árvores da floresta, os seres trovão berram com violência, enquanto os seres raio
explodem com estrondo. A chuva não para e os espíritos do céu despejam in-
contáveis cobras sobre a terra. Os espelhos dos espíritos onça se despregam e
essas feras começam a rondar por toda a floresta. Tudo isso acontece quando
morre um xamã que tinha uma casa de espíritos muito alta.7
Então seus xapiri
ficam furiosos por terem ficado órfãos, e querem quebrar o céu por vingança.
Os espíritos dos pica-paus ëxama e xoth
eth
ma, e depois os dos pássaros yõkihima
usi, golpeiam o peito dele com toda a força de seus machados e facões afiados.
Pedaços inteiros da abóbada celeste começam a quebrar, com estrondos tão
fortes que até os xamãs sobreviventes ficam apavorados!8
Então eles devem
despachar depressa seus próprios espíritos, para consertá-la e conter a fúria dos
xapiri órfãos.
O céu se move, é sempre instável. O centro ainda está firme, mas as bei-
radas já estão bastante gastas, ficaram frágeis. Ele se torce e balança, com esta-
los aterrorizantes. Os pés que o sustentam nos confins da terra tremem tanto
que até os xapiri ficam apreensivos! Um deles, porém, o espírito macaco-ara-
nha, mostra ser de todos o mais corajoso. Vindo de muito longe, ele é sempre
o primeiro a segurar os pedaços de céu que se desgarram e a tentar reforçá-lo.
Não é um macaco da floresta, é um ser celeste, um espírito antigo e poderoso
de mãos muito habilidosas. Ele no entanto não conseguiria fazer esses conser-
tos sozinho. Muitos outros espíritos o auxiliam, como os do macaco-da-noite,
do jupará, da irara hoari e do esquilo wayapaxi. Mas ele também chama como
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reforço os espíritos celestes hutukari, os espíritos raio yãpirari e os espíritos
trovão yãrimari.
Todos esses xapiri chegam em grande número. Arrancam os machados e
facões das mãos dos espíritos órfãos enfurecidos. Abraçam-nos, fazem com que
se agachem e procuram acalmá-los. Depois, juntando forças, procuram impe-
dir que o céu danificado desabe. Os espíritos preguiça atiram varetas de metal
com suas espingardas, para preencher as brechas. Os espíritos formiga ahõrõ-
ma asi despejam visgo nas rachaduras para vedá-las. Então, os estalos vão pa-
rando aos poucos. No fim, quando o silêncio retorna à floresta, a gente de
nossas casas — e até quem costuma duvidar dos xamãs — diz a si mesma: “Não
é mentira! Eles viram espíritos mesmo e sabem conter a queda do céu!”. Nossos
ancestrais sabem fazer esse trabalho desde o primeiro tempo. Se não o tivessem
feito, a abóbada celeste já teria despencado sobre nós há muito tempo. Mas
apesar de todos esses esforços o céu continua instável e frágil, à mercê dos es-
píritos dos xamãs mortos que sempre querem recortá-lo.
Os xapiri também trabalham sem descanso para impedir a floresta de
retornar ao caos. Quando a chuva cai sem parar e o céu fica coberto de nuvens
baixas e escuras durante dias, a um dado momento, não aguentamos mais. Fi-
camos sem poder caçar nem abrir roças novas para plantar bananeiras. Temos
pena de nossas mulheres e crianças, que ficam com fome de carne de caça. Fi-
camos cansados da umidade e também temos vontade de comer peixe.9
Então,
acabamos pedindo ajuda aos xamãs mais antigos, conhecedores do ser da chu-
va Maari, para que o convençam a parar. Então, logo bebem yãkoana e come-
çam a trabalhar. Seus espíritos limpam o peito do céu, e depois vão chamar o
ser sol Moth
okari e Omoari, o do tempo seco. Depois, viram a chave das águas
de chuva e trazem de volta a claridade do céu. Quando eu era criança, muitas
vezes vi meu sogro trabalhar assim para fazer a chuva recuar e alegrar a flores-
ta. Chamamos isso de fazer payëmuu.
Durante o tempo da cheia, as filhas e filhos do ser da chuva, Maari, e do
tempo encoberto, Ruëri, dançam alegremente acima da floresta, agitando folhas
novas de palmeira hoko si, como os convidados durante a dança de apresenta-
ção. Se as palmas estiverem muito úmidas, a chuva não acaba mais! Então, os
espíritos das cigarras rõrõkona, kutemo, kreemo e tãitãima, bem como os dos
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japins kori, ixaro e napore, têm de pegá-las e levantá-las para perto do calor do
sol. Enquanto as sacodem para secá-las, começa a soprar uma brisa. É o vento
de verão, que chamamos iproko. Todos esses xapiri são as filhas e genros do ser
do tempo seco, Omoari. Por isso sabem fazer esse trabalho tão bem. Mas, para
que o aguaceiro termine mesmo, ainda é preciso que os espíritos do pica-pau
ëxama e do lagarto roha levantem o pênis do ser da chuva e o amarrem em
torno de sua cintura.10
A outros xapiri caberá, em seguida, deitá-lo na rede e
lhe oferecer tabaco para aplacar sua ira. Depois, com muito cuidado, devem
tirar de sua cabeça o grande cocar de plumas úmidas, para pô-lo a secar tam-
bém. É assim que a luz do sol e o calor podem enfim voltar à floresta. A estação
seca se instala e as águas começam a baixar. Os brancos não conhecem as
imagens do ser da chuva e de seus filhos. Com certeza acham que a chuva cai
do céu à toa! Eu, ao contrário, as contemplei muitas vezes em meu sonho, do
mesmo modo que meus maiores as viram antes de mim. Assim é. As palavras
da gente da floresta são outras.
A estiagem tampouco pode voltar enquanto as filhas de Motu uri, o ser das
águas subterrâneas, continuarem brincando eufóricas nos rios. Os xamãs então
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devem enviar seus espíritos para acabar com suas brincadeiras e levá-las de
volta para o seco. São os espíritos das cigarras e borboletas que se encarregam
disso, em companhia da mulher, das filhas e das noras do ser sol Moth
okari.
Depois, o espírito do fogo celeste Th
orumari ainda tem de flechar o próprio
Motu uri, puxá-lo pelos braços e queimá-lo.11
Por último, o espírito do pássaro
kõromari perfura o solo com sua barra de ferro, para que as águas escorram
para debaixo da terra; só então o nível dos rios começa a baixar. Mas, para fazer
cessar a chuva e a cheia, os xapiri também podem lidar com a árvore da chuva,
Maa hi. É gigantesca, e de suas folhas escorre água o tempo todo. Os xamãs
antigos a conhecem bem; meu sogro me contou que cresce nos confins da terra
e do céu. É a morada dos seres da noite titiri e dos seres minhoca horemari.
Quando a árvore Maa hi floresce, começa a chover na floresta e as águas
dos rios sobem. Para fazê-la parar de escorrer, os espíritos dos japins napore e
dos macacos guariba devem sacudir sua ramagem com força para fazer cair as
flores. Depois, os espíritos arara devem cortar os seus galhos, auxiliados pelo
espírito anta, que os acompanha com sua grande canoa. Quando isso ocorre,
a árvore da chuva é rodeada de calor e ouvem-se as cigarras. Os espíritos gen-
ro do ser do tempo seco vão buscar o sogro e, para chamá-lo de volta à flores-
ta, entoam com ele um diálogo de convite hiimuu. Recolhem para ele os peixes
mortos dos igarapés, que vão secando. Ao final, ele concorda em começar a
voltar do lugar distante em que tinha se refugiado. Assim é. Omoari, o ser da
seca, não responde nem aos espíritos das folhas e das árvores nem aos ances-
trais animais. Se os xapiri que conhece não fossem buscá-lo, ele não viria por
conta própria. Então, a umidade e a escuridão tomariam toda a floresta para
sempre e, com o tempo, ela acabaria retornando ao caos.
Quando querem acabar com a gritaria dos seres trovão, os xapiri vão à
casa deles, nas costas do céu. Agacham-se perto deles e os repreendem: “Sua voz
nos incomoda! O que vocês estão fazendo? Por que não ficam calados?”. Os
trovões, furiosos, logo ameaçam golpeá-los. Porém, para aquietá-los e demons-
trar amizade, os espíritos se deitam em suas redes, como se faz com um cunha-
do.12
Oferecem-lhes alimento e tabaco. Às vezes, também sopram um pouco de
pó de yãkoana em suas narinas, para acalmá-los. Assim, aos poucos, os trovões
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200
acabam se calando. Se não fosse isso, o estrondo da tempestade não cessaria
nunca, como acontecia no primeiro tempo.
Trovão era então um animal;13
parecia uma grande anta que vivia num
rio, perto de uma cachoeira. No começo, nossos ancestrais não o conheciam.
Mas ficavam exasperados de tanto ouvir sua voz potente ressoando na floresta.
Cansados, resolveram fazê-lo ficar quieto e o flecharam. Depois cortaram seus
despojos, tomando muito cuidado para não espalhar seu sangue pelo chão.
Cozinharam suas carnes com cuidado e as comeram com gosto. No final dessa
refeição, um dos caçadores, satisfeito e brincalhão, propôs insistentemente um
pedaço de fígado cru que havia sobrado ao genro de Trovão, o ancestral do
pássaro hw
ãihw
ãiyama. Ele, furioso, deu um golpe repentino na mão do incon-
veniente e o pedaço de carne foi projetado para as costas do céu, onde reviveu
e se multiplicou por toda parte, como milhares de trovões de voz retumbante.
São eles que ouvimos hoje em dia, acima da floresta, e que os xamãs têm de
convencer a ficar em silêncio.
Os seres raio, por sua vez, parecem araras cobertas de faíscas de luz que,
quando batem estrondosamente as asas, projetam reflexos deslumbrantes. São
muito poderosos, e quando sentem fome, logo demonstram toda a sua raiva.
Seus pés de fogo caem do peito do céu na floresta, com um barulho horrível.
Por isso os xamãs também tratam de conter sua fúria. Para amansá-los, fazem
dançar suas próprias imagens e as enviam de volta a eles na forma de xapiri.
Esses espíritos então agarram os seres raio, para tentar chamá-los à razão: “Ma!
Não sejam tão raivosos! Não destruam a floresta dessa maneira! Outras gentes
moram nela! Os humanos têm filhos lá!”. Depois, brincam com eles, fazem-lhes
cócegas; ou, se não ficarem quietos, acabam batendo neles, e os repreendem
com severidade. Então eles se acalmam e voltam a ficar em silêncio; e a tem-
pestade se cala na floresta.
O ser do vendaval, Yariporari, também é muito perigoso.14
Cultiva em sua
imensa roça muitas canas-de-flecha. Quando parte em guerra, vai atirando fle-
chas por toda a floresta com muita raiva. Sua força é tão aterradora que até os
xapiri têm medo a cada vez que ele passa, revirando tudo. Sacode nossas casas
e derruba as grandes árvores sobre nossos acampamentos. Destroça as ramadas,
emaranha o mato rasteiro e bate violentamente contra os troncos. O ser tatu-
-canastra Wakari sempre o acompanha, cortando as raízes com seu enorme
facão. Yariporari é um vendaval terrível, que caiu debaixo da terra no primeiro
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tempo. Fica escondido num buraco fundo, coberto por uma tampa pesada, que
às vezes é levantada pelos xapiri por vingança quando estão em luto pelo pai,
ou por xamãs enfurecidos contra seus inimigos. Então ele surge com toda a sua
força, devastando com violência a floresta e aterrorizando seus habitantes.
Quando isso acontece, os espíritos dos pássaros witiwitima namo, xiroxiro e
teateama, acompanhados dos espíritos gavião koimari, tentam agarrá-lo e amar-
rá-lo. Em seguida, tratam de destruir suas plantações de canas-de-flecha antes
de prendê-lo de novo no mundo subterrâneo. De outro modo, sua fúria acaba-
ria aniquilando tudo na floresta e nos varrendo para longe. Antes de meus
iniciadores me fazerem conhecer o espírito do vendaval Yariporari, eu não pen-
sava que pudesse existir um ser maléfico tão poderoso debaixo da terra! Apesar
de ele ser tão perigoso, os xamãs experientes são capazes de fazer dançar tam-
bém a imagem dele como xapiri. Mas então é seu espírito antigo, seu espírito
pai, que fazemos descer para espantar as fumaças de epidemia com que os bran-
cos enchem a floresta. Assim é. Sem o trabalho dos xamãs, voltaria ao caos
depressa. A chuva e a escuridão, a raiva dos trovões, dos raios e do vendaval não
cessariam nunca. Só os xapiri podem protegê-la e fortalecê-la. Por isso seguimos
as pegadas de nossos ancestrais, virando espíritos com a yãkoana. Isso deixa os
xapiri felizes e, assim, eles continuam cuidando de nós. Os brancos não sabem
nada dessas coisas. Se contentam em pensar que somos mais ignorantes do que
eles, apenas porque sabem fabricar máquinas, papel e gravadores!
As pessoas também se queixam junto aos xamãs quando o tempo seco
dura demais, quando as bananeiras e a cana-de-açúcar definham nas roças e os
cursos d’água na floresta se esgotam. Então, para pôr fim à seca, eles tratam de
trazer de volta para a floresta o ser maléfico do tempo úmido,15
Toorori, que é
também o dono da chuva. Para convidá-lo a retornar, enviam até ele os xapiri
das cheias, das chuvas e do caos, que são as imagens dos seres maléficos Riori,
Maari e Xiwãripo. Depois juntam a eles, como reforço, as imagens dos seres do
tempo encoberto e da noite, Ruëri e Titiri. Então, Toorori, calcinado e encarqui-
lhado, consegue arrancar-se da barriga do ser sol, Moth
okari, que o tinha engo-
lido. Joga água sobre a própria cabeça e, aos poucos, vai voltando à vida. Aí
começa a se vingar, passando ele a ocupar toda a floresta. Quando isso ocorre,
a chuva finalmente volta a cair.
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Sem conhecer o trabalho dos antigos xamãs, assim mesmo tentei, certa
vez, fazer voltar o tempo das chuvas. Foi aqui, em Watoriki, já faz algum tem-
po.16
A seca não terminava. O calor ia aumentando. O ser sol Moth
okari tinha
descido do peito do céu e tinha realmente baixado os pés na floresta. Omoari,
o ser do tempo seco, parecia querer se instalar nela para sempre. Tinha secado
todos os cursos d’água e se fartado de peixes e jacarés. Tinha torrado as árvores
e assado a terra. As pedras ficaram em brasa. Os animais e os humanos passa-
vam sede. Era o tempo de queimar as roças, como de costume. Mas o vento
carregou fagulhas para o mato, que estava muito seco, com o chão coberto de
folhas mortas. Então, a floresta à nossa volta começou a queimar. Depois, o
incêndio foi aos poucos se propagando para todos os lados. Quando o fogo é
assim tão poderoso, vira um outro ser, muito perigoso, que se apropria de todas
as árvores à sua volta para construir sua casa. Chegou até mesmo a subir as
encostas da Montanha do Vento, perto da nossa casa, onde os seres maléficos
da floresta cultivam suas plantas de feitiçaria. Ficamos muito preocupados,
temendo que as chamas as queimassem, espalhando sobre nós uma epidemia
xawara. A fumaça só aumentava, sem parar. Primeiro, elevou-se bem alto, no
peito do céu. Depois recaiu sobre nós, cada vez mais baixa e densa, e cobriu
toda a floresta. Nossos olhos estavam irritados e o peito muito seco. Não en-
xergávamos mais nada à nossa volta e tossíamos sem parar. Era muito difícil
respirar. Tínhamos medo de tudo pegar fogo e acabarmos morrendo sufocados.
Temíamos por nossos filhos, nossa casa e nossas roças.
Então, com meu sogro e todos os xamãs de Watoriki, e alguns outros que
avisamos por rádio,17
bebemos pó de yãkoana e começamos a trabalhar para
atrair a chuva. Primeiro fizemos dançar a imagem de Omama, para bater no
fogo e esmagá-lo. Depois, chamamos os espíritos dos trovões e os de seus gen-
ros, para despejarem as águas do céu sobre o braseiro. Fizemos também dançar
a imagem do ser do vendaval, para que ela empurrasse a fumaça no céu e a
expulsasse para longe de nós. Assim, pouco a pouco, o fogo começou a dimi-
nuir. Nossos espíritos então afugentaram o ser do tempo seco, Omoari, com
palavras hostis: “Volte para a sua casa! Não vá querer se instalar aqui, senão
toda a floresta vai queimar, e seus habitantes junto!”. Em seguida, começaram
a chamar de volta o ser do tempo das chuvas, Toorori, para limpar a floresta.
Trabalhamos assim durante dias, até que, finalmente, a chuva começou a
cair. Se não tivéssemos feito isso, todas as árvores teriam sido incendiadas, até
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na terra dos brancos, porque aquele não era um fogo qualquer. Era um ser
maléfico muito perigoso, um espírito fogo comedor de gente que chamamos
naikiari wakë. Era o espírito do fogaréu mõruxi wakë, que saiu da terra, o mes-
mo que consumiu toda a floresta no primeiro tempo. Esse fogo vem de onde
mora o sol e, no lugar em que vive, as águas estão sempre fervendo. Seu repre-
sentante é o que os brancos chamam de vulcão. É tão poderoso que queima até
a areia e as pedras. Em seus discursos, à noite, nossos mais velhos xamãs nos
falaram várias vezes do incêndio que, no tempo de Omama, devastou as terras
altas da floresta. Contaram-nos que, em certos lugares, as árvores jamais vol-
taram a crescer. As terras sem árvores nas nascentes dos rios, que chamamos
purusi, são as marcas do caminho desse antigo incêndio. Não apareceram ali
sozinhas, à toa!18
Noutros lugares, ao contrário, a floresta cresceu de novo,
porque o ser da riqueza da terra, que chamamos Huture ou Në roperi, trabalhou
sem parar para replantá-la. É um trabalhador incansável. Repovoou o solo
calcinado com todas as suas árvores e plantas da roça — mandioca, bananeiras
e pupunheiras rasa si — para nossos ancestrais, seus filhos e netos poderem
comer. Se ele não tivesse existido, teríamos ficado famintos para sempre e da-
ríamos muita pena!
Antigamente, nossos maiores, quando se tornavam xamãs sob efeito das
folhas de feitiçaria hayakoari hana,19
eram capazes de chamar as imagens dos
queixadas e, assim, de atrair essa caça para perto de suas casas. Um dos antigos
xamãs de nossa casa, que eu chamava de cunhado, sabia fazer dançar esses es-
píritos queixada, mas já não vive. Quando morreu, vi sua casa de espíritos de-
sabar e, na queda, rasgar os frágeis caminhos desses xapiri. Ele nos havia pre-
venido: “Assim que meu fantasma tiver partido para as costas do céu, vocês não
verão mais queixadas na floresta. Ficarão se lamentando de fome de carne!”.
Mas ninguém pensou em dizer a ele, enquanto estava vivo: “Awei! Quero eu
também saber como cuidar dos caminhos dos espíritos queixada para impedir
que fujam!”. Eu mesmo não disse nada. Na época, ainda era ignorante. Se eu
tivesse feito isso, quem sabe essa caça não teria desaparecido de nossa floresta
durante tanto tempo?20
Mas na época ninguém teve a sabedoria de segurar os
caminhos desses espíritos!
Só os antigos xamãs sabiam fazer os queixadas saírem da terra, chamando
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sua imagem. Antigamente, essas folhas hayakoari hana eram muito usadas
como planta de feitiçaria. Mas são folhas que pertencem aos espíritos do céu.
Por isso quem era atingido por elas virava outro e logo via dançar a imagem
do ser Hayakoari, que parece uma anta. Os doentes então começavam a gesti-
cular e a gritar, e então disparavam para fora de suas casas. Mas não era na
floresta que corriam tão exaltados. Sem que seus próximos pudessem vê-la, era
sua imagem que fugia, montada no ser anta Hayakoari, que a levava para casa.
Ficavam assim perdidos na floresta por muito tempo e lá viravam outros. Era
então que começavam a realmente ver dançar as imagens dos ancestrais quei-
xada. No final, acabavam deixando o caminho de Hayakoari e iam se acalman-
do aos poucos. Retornavam a suas casas, guiados pelos xapiri dos xamãs que
tinham vindo socorrê-los. Sem isso, teriam morrido de fome e de cansaço,
esquecidos sobre o espelho de Hayakoari.
Mais tarde, quando eles mesmos se tornaram xamãs experientes, eram
capazes de abrir os caminhos dos ancestrais queixada worëri e fazer suas ima-
gens descerem novamente até eles. Para chamá-las, mandavam primeiro os
espíritos do pássaro xotokoma,21
que são seus genros. Esses emissários corta-
vam as árvores para abrir uma entrada na floresta para seus sogros. Nela pen-
duravam magníficos adornos de miçanga para atraí-los. Depois faziam ressoar
o chamado de suas flautas de bambu th
ora, para que os espíritos queixada vies-
sem dançar junto do xamã que os enviara. Então, os queixadas também se
aproximavam de nossas casas para serem caçados. Era assim que nossos maio-
res trabalhavam para saciar a fome de carne dos seus. Os caminhos dos espíri-
tos queixada são, no entanto, muito frágeis. Assim que morre o pai deles, os
caminhos arrebentam e voltam para debaixo da terra. Então, por mais esforço
que os outros xamãs façam para trazê-los de volta, não conseguem. Os ances-
trais queixada ficam no mundo subterrâneo, até que outro rapaz se torne xamã
sob efeito das folhas hayakoari hana e reaprenda a chamá-los.
As antas, por sua vez, só aparecem na floresta ao alcance dos caçadores
quando os xamãs fazem vir a imagem do seu ancestral, que chamamos de Xa-
mari. Para isso, devem enviar primeiro seus espíritos jaguatirica e cão de caça
para rastreá-lo e, em seguida, os espíritos dos pássaros xoapema, dos gaviões
herama e dos pica-paus ëxëma, para chamá-lo. Sem isso, Xamari continuaria
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navegando em sua canoa por rios distantes e as antas não apareceriam na flo-
resta. As antas gostam de passar muito tempo folgando na água, não é? Os es-
píritos de todos os pássaros de que falei são seus genros.22
Por isso ele atende
ao chamado de suas flautas e aceita seu convite: “Sogro! Venha a nós! Temos
fome de carne! Temos desejo de você!”. Assim, logo depois de terem feito ami-
zade com seu sogro Xamari, eles amarram uma corda em sua canoa e o rebocam
até a margem, com a ajuda do espírito da ariranha kana. O ancestral anta então
desce de sua embarcação, e volta a entrar na floresta. Seus genros, solícitos, in-
dicam a ele onde encontrar seu alimento preferido, as frutas das palmeiras rio
kosi e ëri si, e também as das árvores apia ki, oruxi hi, makina hi, hapakara hi e
pirima ahith
oth
o. É desse modo que os xamãs atraem as antas para a terra firme,
para podermos caçá-las na floresta.
Mesmo assim, elas só podem ser achadas por caçadores muito especiais;
os que em nossa língua chamamos xama xio.23
São caçadores que têm neles as
imagens do espírito anta e de seus genros, mesmo sem serem xamãs. Elas des-
cem a eles e amarram suas redes em seus peitos, porque os pais deles já eram
grandes rastreadores de antas. Não fosse a grande habilidade desses caçadores
xama xio, nós jamais comeríamos carne dessa caça. É verdade. Quem vai caçar
preocupado com outras coisas, sem muito empenho, nunca avista uma anta.
Encontra apenas jabutis no chão da floresta! Ao contrário, um caçador apai-
xonado pela imagem do ancestral Anta, que realmente sente saudade dela,24
logo depara com um desses animais, longe na floresta ou perto de casa.
Era assim que nossos xamãs antigos traziam para nossa floresta os quei-
xadas e as antas, e também os macacos-aranha, os papagaios, os mutuns e os
veados. Bebiam yãkoana e faziam dançar as imagens dos ancestrais animais
yarori. E quando faziam descer a si os espíritos arara, logo víamos esses pássa-
ros surgindo perto de nossa casa. Era assim mesmo. Os animais só ficam felizes
quando ouvem os cantos dos xapiri, e estes não gostam que seus pais fiquem
preguiçando na rede, sem beber yãkoana. Assim é. A caça só fica fácil de matar
se os xamãs fizerem descer as imagens de seus ancestrais. Nossos maiores ti-
nham muito conhecimento e sabiam fazer bem esse trabalho. Não ficavam
cantando à toa, como costumam pensar os brancos, pois se os xamãs não tra-
balharem sem descanso, os animais de caça ficam irritados e muito ariscos. Se
é assim, as presas não param de se queixar dos caçadores: “Ma! São outras
gentes. Tratam-nos sem nenhum respeito. Despejam de uma maneira suja o
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caldo de nosso cozimento para fora de suas casas! Atiram sem consideração
nossas ossadas e peles na floresta! É de dar dó! Vamos ficar longe deles!”. Os
animais também são humanos. Por isso se afastam de nós quando são maltra-
tados. No tempo do sonho, às vezes ouço suas palavras de desgosto quando
querem se negar aos caçadores. Quando se tem mesmo fome de carne, é pre-
ciso flechar a presa com cuidado, para que morra na hora. Assim, ela ficará
satisfeita por ter sido morta com retidão. Caso contrário, fugirá para bem lon-
ge, ferida e furiosa com os humanos.
Quando as árvores da floresta não carregam frutos, os japins kori e napore
e as gralhas piomari namo não se reúnem nelas. Nenhuma outra ave tampouco
se aproxima. Assim é. Os papagaios, tucanos, araras, mutuns, jacamins, cujubins
e perdizes pokara costumam vir comer nas árvores logo depois dos japins e das
gralhas. Alimentam-se dos restos destes, das frutas que seus bandos barulhen-
tos bicam no topo das árvores ou fazem cair no chão. Por isso os xamãs fazem
dançar os espíritos japim e gralha, para que as outras caças aladas voltem a ficar
abundantes na floresta. As imagens dessas aves fazem amadurecer os frutos das
árvores para alimentar todos os outros espíritos pássaros que as seguem de
perto. Quem nunca bebeu yãkoana não se dá conta disso. Apenas ouve o canto
dos xamãs durante a noite, sem entender o que estão fazendo. Porém, se não há
comida nas árvores e a floresta tem valor de fome, eles enviam seus xapiri japim
e gralha para bem longe, em direção ao poente, para de lá trazerem a imagem
de seus frutos. Quando retornam, os demais espíritos pássaros exclamam, ale-
gres e ansiosos: “Awei! Finalmente vamos comer! Vamos pedir a eles nossa par-
te da comida que trazem! Parece gostosa! Estamos famintos e sofridos!”. Depois,
todos se precipitam sobre a tão desejada comida, num enorme bando, eufórico
e voraz. Só assim a caça alada começa a reaparecer na floresta! Volta para bem
longe de nós, no começo, e depois vai pouco a pouco se aproximando de nossas
casas. Então, os caçadores, animados, espalham a notícia: “A caça está comendo
perto de tal rio, e lá perto daquele grupo de árvores, e também naquele outro
lugar!”.
Era esse, antigamente, o trabalho de nossos grandes xamãs para atrair a
caça para a nossa floresta. Hoje, perdemos esse conhecimento e muitos de
nossos pais já o tinham esquecido antes de nós. Só os nossos verdadeiros maio-
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res tinham capacidade para isso. Conseguiam juntar uma multidão de papa-
gaios e araras nas palmeiras hoko si e õkarasi si, onde brincavam, pouco des-
confiados; e ficavam ali parados, ao alcance dos caçadores, mordiscando as
folhas novas. É verdade! Meus avós, quando viviam, há muito tempo, na nas-
cente do rio Toototobi, tinham mesmo esse poder. Às vezes faziam uso dele,
para as pessoas de sua casa poderem se fartar da carne dessas aves e se enfeitar
com suas penas. Sua preocupação era manter sua gente feliz. E quando os seus
ficavam com muita fome de carne, chegavam até a trazer caça da floresta dos
fantasmas, que fica nas costas do céu! Mandavam então seus xapiri espantarem
as presas lá em cima, para fazê-las cair na terra. Os xamãs sabem: a floresta dos
fantasmas é coberta de árvores sempre carregadas de frutos e os queixadas, os
macacos-aranha, os mutuns e os cujubins são nela muito mais numerosos do
que aqui embaixo!
As árvores da floresta e as plantas de nossas roças também não crescem
sozinhas, como pensam os brancos. Nossa floresta é vasta e bela. Mas não o é
à toa. É seu valor de fertilidade que a faz assim. É o que chamamos në rope.25
Nada cresceria sem isso. O në rope vai e vem, como um visitante, fazendo cres-
cer a vegetação por onde passa. Quando bebemos yãkoana, vemos sua imagem
que impregna a floresta e a faz úmida e fresca. As folhas de suas árvores apa-
recem verdes e brilhantes e seus galhos ficam carregados de frutos. Vê-se tam-
bém grande quantidade de pupunheiras rasa si, cobertas de pesados cachos de
frutos, pendurados na parte de baixo de seus troncos espinhosos, e imensas
plantações de bananeiras e pés de cana-de-açúcar. Esse valor de fertilidade da
terra está ativo por toda parte. É ele que faz acontecer a riqueza da floresta e
que, desse modo, alimenta os humanos e a caça. É ele que faz sair da terra todas
as plantas e frutos que comemos.26
Seu nome é o de tudo o que prospera, tanto
nas roças como na floresta.27
No primeiro tempo, Omama colocou esse valor de fertilidade dentro de
nossa terra e sua imagem foi se espalhando por toda a sua extensão, antes de
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chegar à terra dos brancos. Seu verdadeiro centro se encontra onde moramos,
onde Omama veio a ser. É verdade. Na floresta, habitamos no lugar onde vive
o pai da fertilidade në rope, o lugar de sua origem. É por isso que a imagem
dele, que chamamos Në roperi, dança com os espíritos dos ancestrais animais
que os xamãs fazem descer. Assim, quando a floresta tem valor de fome, eles
podem beber yãkoana para trazer de volta a imagem de seu valor de fertilidade.
Em nossa casa de Watoriki, porém, não precisamos fazer esse trabalho. Nossa
terra é bela e impregnada de riqueza.28
O ser maléfico da fome, que chamamos
de Ohinari, permanece longe dela e a imagem da fertilidade dança junto a nós
desde que viemos morar aqui. Faz crescer as frutas das árvores e as plantas das
roças com muita generosidade, após cada período de chuva. Tudo cresce com
fartura, e a caça se alimenta de abundância, nas árvores, no chão e na água.
Në roperi, a imagem da riqueza da floresta, se parece com um ser humano,
mas é invisível à gente comum. Só deixa aparecer para seus olhos de fantasma
o alimento que faz crescer, e apenas os xamãs podem realmente contemplar sua
dança de apresentação. Na frente dela vem um bando barulhento de espíritos
japim e gralha, acompanhado por uma multidão de espíritos arara, papagaio,
tucano e mutum. Esses xapiri que carregam consigo os demais pássaros são os
companheiros da imagem da fertilidade, são seus ajudantes. Ela nunca dança
sem eles. Os xamãs os fazem descer quando as pessoas de sua casa têm fome,
pois onde seus chamados não são ouvidos não cresce alimento algum. Foram
esses ancestrais animais que, no primeiro tempo, descobriram e espalharam
por toda parte a fertilidade da terra. É por isso que os pássaros de hoje, que são
seus fantasmas, continuam comendo os frutos da floresta. São representantes
deles. É o que dizem os nossos mais velhos xamãs. Porém, são também rique-
za da floresta as imagens das abelhas yamanama, que fazem desabrochar as
flores das árvores e espalham o açúcar por seus frutos, assim como pelos do
mamoeiro e da cana-de-açúcar. São ainda as imagens das mulheres bananeiras
e das árvores aro kohi e wari mahi, de folhagem tão densa.29
Nas terras altas,
são as imagens dos gaviões witiwitima namo que tornam abundantes as lagar-
tas kaxa, as frutas das árvores momo hi e das palmeiras xoo mosi, bem como as
flores comestíveis das árvores nãi hi.
Assim que o chamado estridente dos espíritos japim e gralha ecoa de todos
os lados, começa também a se fazer ouvir o canto grave de Në roperi, o espírito
da fertilidade. Ele chega dançando alegremente, trazendo nas costas todos os
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alimentos da floresta. Parece um ser humano, mas é outro. É muito mais lindo.
Seus olhos são bonitos e seus cabelos são como uma cascata de flores amarelas
e brancas. Seu corpo é recoberto de penugem luminosa e ele tem em torno da
testa uma faixa de rabo de macaco cuxiú de um preto intenso. Evolui devagar,
seguido por um cortejo de imagens de árvores, cipós e folhas. Vem envolto
numa nuvem ruidosa de espíritos de pássaros multicoloridos: sei si, hutureama
nakasi, japins ayokora e araçaris. Acompanha-o uma multidão de ancestrais
animais yarori e de espíritos da floresta urihinari, agitando palmas novas des-
fiadas, num inebriante perfume de flores. Dança no meio deles agitando os
frutos da floresta que traz consigo, eles também cobertos de penugem de um
branco resplandecente. Eu já vi dançar essa imagem da riqueza da floresta no
tempo do sonho, depois de ter bebido o pó de yãkoana durante o dia todo. É
mesmo esplêndida! Cheguei até a sentir na minha boca o sabor macio e doce
de suas frutas maduras!
Assim é. Uma vez terminada sua dança de apresentação, o espírito Në
roperi alimenta o xamã que o chamou e vem instalar seu espelho na casa de
espíritos dele, numa habitação à parte, como os demais xapiri. A partir desse
momento, o xamã saberá trazer de volta a fertilidade da floresta para junto dos
seus. Sem ninguém saber, ele fará crescer todas as plantas e curará sua esteri-
lidade. Assim que faz dançar Në roperi, as flores começam a desabrochar nas
árvores. Em seguida, os galhos ficam férteis e carregados de frutas. Se o espíri-
to da fertilidade não descesse com seus espíritos japim e gralha, nossa floresta
permaneceria com valor de fome e a caça não andaria nela. São as imagens
desses pássaros que fazem crescer os alimentos, os dos animais e os nossos.
Depois, é Omoari, o ser do tempo seco, com o calor que deposita no solo, que
ajuda a amadurecer as frutas da floresta, pois ele também as come.
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Nossos maiores bebiam o pó de yãkoana e exortavam seus espíritos di-
zendo: “Nossas mulheres e crianças estão esfomeadas! Façam crescer novamen-
te os alimentos da floresta!”. Então os enviavam em busca da imagem da ferti-
lidade në rope, muito longe, onde vive o dono dela, o ser Huture, e eles a traziam
de volta. Aí, nas pegadas de retorno dos xapiri, as plantas cresciam nas roças e
as árvores floresciam. A imagem da fertilidade chegava à nossa floresta e depois
prosseguia para além dela. Hoje, não temos tanto conhecimento quanto nossos
antigos xamãs, mas apesar disso tentamos seguir o caminho deles. Antes de
morrerem, não nos ensinaram a trazer de volta a fertilidade da floresta. Mesmo
assim aprendemos a virar espíritos por nossa vez, e também chegamos a co-
nhecer sua imagem, fazendo-a dançar no tempo do sonho. Assim é. Quando a
riqueza da floresta se afasta de nossas casas, não retorna por conta própria. Os
xamãs têm de se esforçar muito para trazer de volta sua imagem, pois sem ela
os frutos das árvores e as plantas das roças param de crescer. Depois disso,
precisam continuar trabalhando muito para retê-la, pois ela pode fugir a qual-
quer momento e nunca mais voltar.
Quando isso acontece, é porque Ohinari, o ser da fome, instalou-se na
floresta no lugar dela. Vindo de muito longe, de onde os brancos não têm nada
mais o que comer, ele fica de tocaia para nos maltratar. Por mais que plantemos
e trabalhemos duro, nada cresce em nossas roças, nem bananeira, nem man-
dioca, nem cana-de-açúcar! Todas as plantas cultivadas definham e, na flores-
ta, os galhos das árvores continuam vazios. A caça vai rareando. Então, dize-
mos: “Urihi a në ohi! A floresta tem valor de fome!”. Ohinari é o que os brancos
chamam de pobreza. É um ser maléfico que mata aos poucos. Quando decide
se instalar na floresta, pode permanecer muito tempo no mesmo lugar. Aí as
pessoas logo ficam sem nada para comer. Dia após dia, ele sopra seu pó de
yãkoana nas narinas delas, fazendo-as virar outras. Então, elas ficam cada vez
mais fracas. Seus membros não têm mais energia e elas sentem fortes tonturas.
Seus ouvidos entopem, sua voz seca e seus olhos vazios causam dó. Definham
aos poucos, e acabam desmaiando. Depois morrem, só pele e osso.
Para evitarem que isso aconteça, os xamãs devem beber mais e mais yãko-
ana, para enviar seus xapiri em busca da imagem da fertilidade em florestas
distantes, ou até mesmo nas costas do céu. É verdade. Como eu disse, existe
um valor de fertilidade në rope acima de nós. É o dos fantasmas e dos seres
trovão, que também se alimentam de plantas de suas roças e de frutas de sua
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floresta, cheia de árvores oruxi hi, mõra mahi, yawara hi e muitas outras. Sua
fertilidade é muito grande mesmo, e os espíritos japim e gralha são capazes de
trazê-la para nós. Mas os fantasmas podem, também, por conta própria, resol-
ver fazer cair um pouco dessa riqueza entre os humanos. Isso às vezes aconte-
ce, durante suas festas, quando, depois de saciados, entoam seus cantos heri e
ouvem as mulheres dos vivos se queixar de fome, pedindo a eles um pouco de
seus restos. Nos lugares em que eles se mostram generosos, os frutos das árvo-
res da floresta e das pupunheiras rasa si ficam muito abundantes mesmo, e os
humanos, felizes, podem fartar-se deles à vontade.
No primeiro tempo, foi Koyori, o ancestral Saúva, que, quando a floresta
ainda estava se transformando, descobriu nela o valor de fertilidade das roças
e o transmitiu a nós.30
Mas não é ele quem faz crescer as árvores. É Omama.
Koyori trabalhava sozinho na floresta durante o dia todo, tanto que suas longas
ausências intrigavam seus próximos. Ele os despistava, afirmando que andava
derrubando árvores à cata de mel selvagem. Mas estava mentindo! Na verdade,
sem que ninguém soubesse, ele passava o tempo todo abrindo uma roça, cada
vez mais imensa. Naquele tempo ainda não existia, porém, nenhuma planta
cultivada. Para fazer com que surgissem da terra, Saúva apenas batia com o pé
no chão repetindo: “Que se espalhem as raízes destas plantas! O milho vai sair
aqui! As bananeiras aqui!”. Então, os pés de milho e as bananeiras logo come-
çavam a crescer diante dos olhos. A sogra de Saúva se chamava Poomari. Tinha
um gênio difícil e reclamava do genro sem parar. Ficava enfurecida com o fato
de ele passar tanto tempo na floresta em vez de lhe trazer comida. Certo dia,
exasperada, insultou-o, fazendo piadas a respeito de seu traseiro arqueado. Ele
então resolveu se vingar. Mandou-a ir buscar milho cada vez mais longe em sua
roça, para que acabasse se perdendo em suas vastas plantações. Foi o que acon-
teceu. Desamparada, transformou-se em pássaro poopoma. Até hoje seu canto
pode ser ouvido nas roças: “Pooo! Pooo! Pooo!   ”. Quanto ao genro, metamorfo-
seou-se em saúva koyo.
Desde então, os xamãs sabem fazer descer as imagens de Koyori e de sua
sogra Poomari. Ouvi seus cantos quando o pai de minha esposa as fazia dançar
e as vi muitas vezes quando sonhava, depois de ter bebido yãkoana. Essas ima-
gens também possuem o valor de fertilidade da terra. Foi desse modo que ela
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apareceu. No tempo em que Koyori veio a ser, ainda não existiam roças. As
pessoas só comiam frutos da floresta. Foi ele que pediu as plantas cultivadas ao
ser da fertilidade Në roperi. Foi ele o primeiro a fazer crescer milho, bananeiras,
mandioca, taioba e cará. Ele nos ensinou esse trabalho. De modo que se um
homem tem em si a imagem de Koyori, mesmo não sendo xamã, ela vai ajudá-
-lo a trabalhar em sua roça sem descanso, com saúde ou doente. Jamais será
visto cochilando na rede. Ela lhe dará vontade de abrir cada vez mais parcelas,
para plantar todos os tipos de alimento. Assim é. Para o trabalho de roça, imi-
tamos também a imagem do lagarto gigante wãsikara, que nos torna capazes
de trabalhar debaixo de sol, sem esmorecer. Essas imagens passam de pai para
filho, pelo esperma, pelo sangue que vem do esperma.31
Elas não podem ser
vistas. Ficam fundo dentro da gente, no nosso pensamento, dentro de nosso
fantasma, no interior de nossa própria imagem.32
Nas roças, são os espíritos da juriti horeto que cuidam das bananeiras.
Plantam-nas com os humanos, e acompanham seu crescimento, pois também
são mulheres espíritos de fertilidade në ropeyoma. Entretanto, são os espíritos
morcego e macaco-aranha que brincam e copulam com os brotos de bana-
neira quando ainda são moças.33
Fecundam-nas com seu valor de fertilidade
e elas então começam a ficar carregadas de cachos volumosos.34
É verdade.
As bananas não nascem sozinhas à toa! As bananeiras são mulheres-plantas.
Seus frutos nascem porque elas ficam grávidas e parem. É assim com tudo o
que cresce nas roças e na floresta. As mulheres-plantas primeiro ficam grá-
vidas. A gravidez dura algum tempo, e depois elas dão à luz. É então que seus
frutos aparecem. Eles nascem como os humanos e os animais. É por isso que
os moradores de uma casa costumam recorrer aos xamãs quando suas bana-
neiras custam a crescer ou quando precisam dispor logo de uma grande
quantidade de bananas para dar uma festa reahu e suas roças ainda são no-
vas. Pedem a eles que façam dançar seus espíritos morcego e macaco-aranha,
para que engravidem as mulheres-bananeiras e seus frutos se desenvolvam
depressa. Então, esses xapiri colocam seus filhos e o sabor do açúcar nos
brotos novos das bananeiras,35
como os humanos com seu esperma nas suas
mulheres. É desse modo que procedem; muitas vezes os vi copular no tempo
do meu sonho.
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Por sua vez, os espíritos do tatu-canastra waka são os donos dos tubércu-
los de mandioca e de sua fertilidade.36
Plantam-nos junto com os humanos e
são eles que os fazem crescer. Assim, o homem que possui dentro dele a ima-
gem desse animal com certeza terá uma bela plantação de mandioca. Essa ima-
gem irá ajudá-lo quando trabalhar na roça e seus braços estarão impregnados
de valor de fertilidade. Os tubérculos de seus pés de mandioca ficarão longos
e firmes. Assim é. Se pedirmos a eles, os xamãs podem também chamar e fazer
dançar o espírito tatu-canastra e seu valor de fertilidade, para engrossar os
tubérculos de uma plantação de mandioca que não está produzindo bem. No
caso das pupunheiras rasa si, os xamãs também podem fazer descer o espírito
do pássaro marokoaxirioma,37
que fecunda a imagem das mulheres-palmeiras
raxayoma passando em volta de seus pescoços o ovo de seus frutos. Estes então
se põem a crescer em profusão e, para que seus cachos pesados não caiam
antes da hora, o espírito japim napore deve dar tipoias às mães, que os levam
nelas como recém-nascidos.38
Finalmente, são os espíritos arara que se encar-
regam de fazer com que amadureçam.
É o espírito do turiri yõriama, por sua vez, que faz crescer as taiobas aria
si. Os xamãs também podem chamar sua imagem e fazer dançar seu valor de
fertilidade para aumentar seus tubérculos. Por outro lado, é simplesmente a
terra da floresta que faz crescer os carás; a terra à qual o ancestral saúva Koyo-
ri deu fertilidade no primeiro tempo.39
É também a imagem dele que faz crescer
os pés de milho, como ele fez outrora, batendo o pé no chão. Nossos maiores,
há muito tempo, costumavam dar suas festas reahu oferecendo milho a seus
convidados.40
Hoje, porém, já não o cultivamos muito. O ancestral saúva Koyo-
ri é o verdadeiro dono da fertilidade do solo da floresta. A cana e a batata-doce
também crescem graças a ele. Não precisamos ficar regando a terra, como os
brancos, para que haja muito alimento em nossas roças! O valor de fertilidade
da floresta basta. Sem ele, as plantas ficariam feias e mirradas.
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* * *
Quando o que plantamos em nossas roças não cresce mesmo, chegamos
a pensar, às vezes, que xamãs inimigos podem ter desviado o valor de fertilida-
de da floresta para longe de nós. Mas também pode acontecer de algum xamã
de uma casa amiga levá-lo embora sem querer. Assim, numa festa reahu, algum
convidado empanturrado pode roubar em sonho a imagem da fertilidade da
floresta de seus anfitriões. Tornado fantasma sob o efeito da enormidade de
mingau de banana que estes o fizeram beber,41
pode levar para sua própria
casa os espíritos morcego que fizeram crescer aquelas frutas, para que passem
a dançar na sua roça. Assim é. Quem bebe muito mingau de banana ou de
pupunha numa festa vira outro e, à noite, as imagens da fertilidade dessas
frutas vêm visitá-lo. Ocorreu comigo, certa vez, numa festa reahu na casa dos
Xamath
ari do rio Kapirota u. Tinha tomado tanto mingau de pupunha que
trouxe de lá a imagem do pássaro marokoaxirioma que as tinha feito crescer!
Apareceu de repente enquanto eu dormia, e me seguiu no caminho de volta,
para fazer crescer minhas próprias plantações, em Watoriki. Meus anfitriões
perceberam, mas não guardaram rancor. Disseram-me apenas: “Pode ficar com
a fertilidade dessas frutas! Faremos vir outra às nossas roças!”. Porém, mesmo
quando a riqueza de nossas plantações é assim levada por um xamã visitante,
isso não dura muito. Continua havendo muita fertilidade në rope na floresta, e
se nossas roças ficam com valor de fome, basta bebermos yãkoana para trazê-
-la de volta para junto de nossa casa. Por fim, se for preciso, é também possível
emprestar a fertilidade da floresta de uma casa amiga. Nesse caso, dizemos aos
seus moradores: “Os meus estão passando fome, porque minhas plantações
não estão crescendo bem. Gostaria de conseguir o valor de fertilidade que vo-
cês têm! Mas não sei como fazer!”. Então, os xamãs daquela casa, para mostrar
sua generosidade, farão dançar sua imagem para dá-la a nós.
Os animais são como os humanos. Nós ficamos satisfeitos quando nossas
roças se enchem de cachos de bananas e de pupunhas; eles ficam felizes quando
há muitos frutos nas árvores da floresta.42
Estes são o alimento deles assim como
aqueles são os nossos, pois os animais que caçamos são os fantasmas de nossos
ancestrais transformados em caça no primeiro tempo. Uma parte desses ante-
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passados foi arremessada no mundo subterrâneo quando o céu desabou. Outra
ficou na floresta, na qual nós também viemos a ser criados, e virou caça. Damos
a eles o nome de caça, mas o fato é que somos todos humanos. Assim é. Quando
a riqueza da floresta vai embora, os animais ficam esqueléticos e vão rareando,
pois é ela que costuma fazer a caça prosperar. Com ela, os animais encorpam e
fazem filhotes, que por sua vez crescem e se multiplicam porque comem seus
frutos maduros e doces.43
Para viver, suas imagens devem se alimentar da imagem
do valor de fertilidade da floresta. Por isso os xamãs também fazem descer a
imagem da gordura da caça, junto com a da fertilidade da terra. Essa gordura das
antas, dos queixadas e dos macacos-aranha vem de para além da terra dos an-
cestrais dos brancos. É ela que engorda também o gado deles e faz alguns ficarem
tão enormes! Nós a chamamos yarori pë wite, a gordura dos espíritos animais.
Para trazê-la até sua floresta, os xamãs têm de despachar para longe os
xapiri dos pássaros napore e hutuma.44
Ela vem de um ser muito antigo que,
aos olhos dos xamãs, parece um macaco-aranha gigante. Este ser fica escondi-
do a montante do céu, onde nasce o sol. É muito barrigudo, porque guarda em
si toda a gordura da caça, que só cede aos poucos, com avareza.45
De modo que,
quando ele demora a distribuí-la, os animais podem continuar magros e fracos
demais para serem caçados. Porém, quando sua imagem resolve dançar na
floresta, todos eles começam a engordar novamente: macacos, veados, antas,
queixadas, mutuns, cujubins, araras e papagaios, e também jabutis e peixes.
Assim, quando dormimos em estado de fantasma, saciados de caça gorda, so-
mos nós que encorpamos por efeito da imagem dessa gordura! Bebendo yãkoa­
na, só uma vez vi esse ser macaco-aranha gigante. Quando ele quer fazer en-
gordar a caça que lhe pertence, apenas sua imagem anda pela floresta. Pelo
caminho, ele vai repartindo a gordura por todos os animais, por conta própria.
Somente os mais antigos xamãs são capazes de chamá-lo para engordar a caça.
Eu ainda não sei fazer isso, e não quero fingir. Tentarei quando tiver certeza
de conhecê-lo de verdade. Não quero ser como esses xamãs que querem enga-
nar quem os ouve, e ficam se gabando de fazer descer xapiri que mal viram e
de quem não sabem quase nada!
Os xapiri se movimentam e trabalham na floresta, nas costas do céu e na
terra, em todas as direções, inumeráveis e potentes, para nos proteger. Atacam
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sem trégua os seres maléficos e as epidemias que querem nos devorar. Limpam
o útero das mulheres esterilizadas por substâncias de feitiçaria xapo kiki, e co-
pulam com elas para que voltem a ter filhos de seus maridos.46
Eles reforçam a
floresta quando ela vira outra e quer se transformar de novo. Sem eles, as plan-
tas das roças não cresceriam, as árvores não dariam frutos e a caça ficaria magra.
A floresta só teria valor de fome. Eles seguram o céu quando ameaça desabar,
contêm a ira dos trovões, afastam as filhas do ser da chuva e prendem os ventos
de tempestade; advertem o ser do tempo encoberto e atrasam o do anoitecer.
Afastam o espírito da noite e chamam o orvalho, para que a aurora desponte
mais depressa. Eles contêm o ser do caos Xiwãripo, que quer emaranhar a flo-
resta quando cheira o sangue menstrual das moças que saíram cedo demais da
reclusão. Mandam de volta para as costas do céu as cobras e os escorpiões que
de lá caíram. Mantêm fechado o espelho dos espíritos onça, para impedi-los de
sair da terra, do lugar em que nossos ancestrais encontraram o ovo que lhes deu
origem. É verdade, as onças nasceram de um ovo! No primeiro tempo, foi en-
contrado boiando na água, por velhas que tinham ido coletar caranguejos e
camarões num igarapé. Curiosas, aproximaram-se dele e ouviram que emitia
um rugido surdo. Carregaram-no num cesto até sua casa, onde nossos ances-
trais, perplexos, por fim o cozinharam e comeram. Porém, sem pensar, jogaram
os pedaços da sua casca na floresta, que se transformaram e se espalharam por
toda a floresta como onças!
Assim é. Os xapiri nos protegem contra todas as coisas ruins: a escuridão,
a fome e a doença. Afastam-nas e combatem-nas sem descanso. Se não fizessem
esse trabalho, nós daríamos dó! O vendaval, os raios e a chuva não nos deixa-
riam um momento de trégua; a cheia dos rios inundaria a floresta continua-
mente. Ela ficaria infestada de cobras, escorpiões e onças, invadida pelos seres
maléficos das epidemias. A noite envolveria tudo. Teríamos de ficar escondidos
em nossas casas, esfomeados e apavorados. Começaríamos, então, a virar ou-
tros, e o céu acabaria caindo novamente. Por isso nossos ancestrais começaram
a fazer dançar os xapiri no primeiro tempo. Sua preocupação, desde sempre,
foi proteger os seus, como Omama havia ensinado ao seu filho. Nós apenas
seguimos suas pegadas. Os xamãs yanomami não trabalham por dinheiro, co-
mo os médicos dos brancos. Trabalham unicamente para o céu ficar no lugar,
para podermos caçar, plantar nossas roças e viver com saúde. Nossos maiores
não conheciam o dinheiro. Omama não lhes deu nenhuma palavra desse tipo.
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O dinheiro não nos protege, não enche o estômago, não faz nossa alegria. Para
os brancos, é diferente. Eles não sabem sonhar com os espíritos como nós.
Preferem não saber que o trabalho dos xamãs é proteger a terra, tanto para nós
e nossos filhos como para eles e os seus.
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a fumaça do metal
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9. Imagens de forasteiros
Enganador e demiurgo.
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Eu acredito, junto daqueles que conhecem essas regiões distantes,
misteriosas e desertas, que, contanto que elas permaneçam no esta-
do atual, ou seja, desprovidas de recursos e dominadas pelas ferozes
hordas de Marakanãs, de Kirishanas [Yanomami] e de tantos ou-
tros que as infestam, as solidões da Parima permanecerão inacessí-
veis aos homens civilizados e envoltas nos mistérios que a cercam
até os dias de hoje.
F. X. Lopes de Araujo, 1884
Comissão Brasileira Demarcadora de Limites
Antigamente, os brancos não existiam. Foi o que me ensinaram os nossos
antigos, quando eu era criança. Omama vivia então na floresta, com seu irmão
Yoasi e sua esposa, Th
uëyoma, que os xamãs também chamam de Paonakare.
Seu sogro, Tëpërësiki, morava numa casa no fundo das águas. Não havia mais
ninguém. Assim era. Omama deu-nos a vida muito antes de criar os brancos,
e era também ele que, antes deles, possuía o metal. As primeiras peças de ferro
utilizadas por nossos ancestrais foram as que Omama deixou para trás na flo-
resta, quando fugiu para longe, a jusante de todos os rios. Eles não tinham
machados e facões de verdade, como hoje.1
Amarravam pedaços de ferro usa-
dos num cabo para fazer machadinhas.2
Essas ferramentas eram muito poucas
nas casas dos antigos. Só alguns homens mais velhos as possuíam e as deixavam
bem guardadas. Trabalhavam com esses pedaços de ferro que chamavam de
ferramentas de Omama, porque eram muito resistentes.3
Os outros homens as
tomavam emprestadas, um depois do outro, para abrir suas roças. Os visitantes
de casas amigas também vinham pedir permissão para utilizá-las. Naquele tem-
po era assim. Os objetos dos brancos ainda não estavam por toda parte como
agora! Por isso penso hoje na dificuldade do trabalho de nossos maiores e isso
me leva a não querer ter muitas mercadorias.
Só Omama possuía o metal, e trabalhava com ele em sua roça desde sem-
pre. No primeiro tempo, chegou até a se transformar numa barra de ferro, de
medo do sogro! Ele tinha acabado de pescar a filha de Tëpërësiki no rio, quan-
do este resolveu lhe fazer uma visita. No caminho levava um enorme e pesado
saco de folhas de palmeira trançadas, cheio de brotos de bananeira, manivas
de mandioca, cará, taioba e batata-doce, cana-de-açúcar, sementes de tabaco,
mamão e milho. Vinha ensinar Omama a cultivar plantas de roça. Porém, de
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longe, ele fazia um barulho amedrontador, como de furacão ou de trator. Com
pavor de encontrar o sogro, Omama se transformou num instante em peça de
metal e se fincou no chão de sua casa.4
Seu irmão Yoasi logo quis imitá-lo, mas
transformou-se numa simples cavadeira de madeira de palmeira.5
Por fim, o
sogro Tëpërësiki entrou na casa e, ao ver apenas a filha, perguntou: “Onde está
seu marido?”. Ela indicou com os lábios a barra de ferro. “Onde está seu cunha-
do?” Ela apontou o pedaço de madeira. Tëpërësiki então declarou: “Vocês vão
plantar as coisas que eu trouxe e multiplicá-las. Quando tiverem filhos, e os
humanos forem muitos, eles poderão se alimentar delas!”. Depois dessas pala-
vras, retornou à sua casa debaixo d’água. Assim foi. São esses os alimentos que
comemos até hoje. Mas não foi o sogro que deu o metal a Omama, ele já o
possuía. Bebendo yãkoana, eu já o vi se transformar em ferramenta de aço. Sua
imagem continua fincada lá onde isso ocorreu, nas terras altas, nas nascentes
de todos os rios. Depois disso, voltou à forma humana e ensinou nossos ances-
trais a trabalhar com esse metal em suas roças.
Os nossos maiores não usavam facas. Destrinchavam a caça com lâminas
de bambu. Esmagavam os ossos das presas com pedaços de madeira dura. Tam-
bém pescavam com anzóis feitos de osso de tatu ou com os espinhos encurva-
dos de cipó ërama th
oth
o amarrados com a fibra das folhas da planta yãma asi. As
mulheres ralavam mandioca em pedras ou na casca rugosa da árvore operema
axihi.6
Os homens faziam fogo esfregando brocas de cacaueiro entre as mãos.
As pessoas cortavam o cabelo com lascas de taboca afiadas ou com dentes de
piranha. Não havia pente. Ajeitavam os cabelos com o caroço espinhoso das
frutas da árvore ruapa hi. Tampouco havia espelhos. Quando alguém queria
depilar as sobrancelhas ou se pintar, tinha de pedir a outra pessoa para fazê-lo.
No final das festas reahu, trocavam arcos, flechas, estojos de bambu, pontas de
flecha, adornos de plumas, tabaco, tinta de urucum, cabaças, cães, redes de al-
godão e potes de cerâmica. Nossos maiores, no rio Toototobi, tinham um ban-
co de argila. Eram as mulheres que faziam a cerâmica que os homens trocavam
com gente de outras casas. Assim era a vida naquele tempo. Ouvi meu padras-
to falar de tudo isso muitas vezes, quando era criança. Naquela época, não havia
quase nenhuma coisa dos brancos. Não havia ainda nenhuma de suas redes,
nem panelas de alumínio, nem chapas de beiju feitas de tampas de barril de
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metal. Os homens dormiam em redes de entrecasca7
ou de algodão. As mulhe-
res cozinhavam em panelas de barro e assavam os beijus em placas de argila.
No primeiro tempo, os brancos estavam muito longe de nós. Ainda não
tinham trazido o sarampo, a tosse e a malária para nossa floresta.8
Nossos an-
cestrais não adoeciam tanto quanto nós, hoje. Gozavam de boa saúde a maior
parte do tempo e, quando morriam, as fumaças de epidemia não sujavam seus
fantasmas. Agora, quando alguém morre de doença de branco, até seu espectro
é infestado, e volta para as costas do céu com febre. Seu sopro de vida e sua
carne ficam contaminados até lá! Antes, tampouco ficávamos doentes todos ao
mesmo tempo. As pessoas não morriam tanto! Os espíritos maléficos në wãri
comiam a imagem de um homem aqui, ou de uma mulher ali. Uma moça fa-
lecia quando um caçador distante flechava seu duplo animal rixi. Uma criança
era devorada pelos espíritos de xamãs inimigos. Por vezes, um ancião morria
de repente, antes da hora. Então a gente das outras casas próximas era convi-
dada e todos choravam juntos. Quando achavam que feiticeiros inimigos oka
tinham soprado no falecido um pó de feitiçaria e tinham quebrado seus ossos,
um grupo de guerreiros logo partia para vingá-lo. Chorava-se um ancião que
morrera desse modo; depois, mais tarde, podia ser uma mulher. Também acon-
tecia de alguém ser flechado por inimigos. De tempos em tempos alguém mor-
ria de picada de cobra, ou um velho começava a tossir sem parar e acabava
falecendo. Assim era. As pessoas só morriam de vez em quando.
Naquele tempo, os Yanomami amavam de verdade a beleza e o frescor da
floresta. Os mais idosos se extinguiam como brasas de fogueira, quando tinham
a cabeça branca e os olhos cegos. Ficavam então secos como árvores mortas e
se quebravam. Havia muitos xamãs naquela época. Costumavam fazer dançar
seus espíritos, para curar os doentes. Depois as mulheres mais velhas esfrega-
vam remédios da floresta em seus corpos. Quando as pessoas se sentiam mal,
também bebiam mel selvagem, e isso as curava. Nossos maiores conheciam
bem todas essas coisas. Hoje já não é mais assim. Os garimpeiros sujaram a
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floresta para valer. Ela ficou impregnada de fumaça de epidemia e fomos pegos
num frenesi de morte. No rio Toototobi, onde vivi na infância, éramos muito
numerosos. Havia três grandes casas perto umas das outras. Eram muitos an-
ciãos. Depois os brancos chegaram, com suas febres e seu sarampo, e muitos
dos nossos morreram. Hoje quase não há mais grandes xamãs, nossas casas
ficaram muito menores e morremos jovens.
Quando Omama criou nossos ancestrais e ensinou a eles as coisas deste
mundo, eles tinham o pensamento tranquilo. Abriam novas roças na floresta
e trabalhavam nelas com dedicação. Plantavam bananeiras, mandioca, cana,
cará, taioba, batata-doce, milho e tabaco. Tinham também muitas pupunheiras.
Sua preocupação era ter grandes roças, para que os convidados de suas festas
reahu fossem muitos e, satisfeitos, lembrassem sua generosidade com belas
palavras. E quando as roças começavam a produzir, partiam todos juntos para
caçar longe na floresta. Então flechavam grandes quantidades de macacos, an-
tas e queixadas, e os moqueavam antes de trazê-los de volta para casa. Depois
se convidavam entre as casas, durante toda a estação seca.
Os convidados enfeitavam o cabelo com penugem de urubu branco e co-
locavam em volta da testa faixas de rabo de macaco cuxiú-negro. Cobriam o
rosto e o corpo com tinta fresca de urucum e sobre ela traçavam ondas, círcu-
los ou pontilhados em preto. Usavam brincos de penas de papagaio e peitos
turquesa de pássaro hëima si nas orelhas. Punham em suas braçadeiras de al-
godão longas caudais de arara-vermelha e tufos de penas brancas e pretas de
cujubim. Prendiam nelas rabos de tucano e despojos alaranjados de galo-da-
-serra. Ficavam muito bonitos, e dançavam com muita animação, para fazer
boa figura na casa de seus anfitriões. Depois, uns e outros se ofereciam comida:
enormes quantidades de mingau de banana, de pupunha ou de macaxeira. À
noite, homens e mulheres entoavam cantos heri em sequência e faziam brin-
cadeiras, enquanto dançavam com alegria. Às vezes, formavam-se casais. Os
convidados homens pegavam pelo pulso parceiras escolhidas entre as filhas e
esposas de seus anfitriões. É o que os antigos chamavam de hakimuu.9
Mas não
era raro os pais ou maridos se irritarem! Então, começavam brigas e os adver-
sários se alternavam dando socos no peito um do outro com o punho fechado,
para acabar com a raiva. Se estivessem muito furiosos mesmo, e não conseguis-
sem se acalmar, então davam bordunadas na cabeça um do outro. Era o único
jeito de pôr fim à sua raiva!
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O pensamento dos maiores só ficava realmente sofrido quando morria
um dos seus familiares. E, se tivesse sido comido por inimigos, a raiva de seu
luto só podia ser aplacada quando o tivessem vingado. Então bebiam as cinzas
de seus ossos com mingau de banana numa festa reahu e partiam para a guer-
ra. O pensamento dos xamãs estava sempre fixado em seus xapiri. Quando
ficavam velhos, transmitiam-nos aos mais jovens, fazendo-os beber o pó de
yãkoana por seu turno. Assim davam a eles seu sopro de vida e palavras de
verdade. Diziam: “Estes são os espíritos que Omama criou para ficarem ao
nosso lado. São seres poderosos e imortais!”. Eram essas coisas que ocupavam
a mente dos antigos. Seu pensamento ainda não estava obscurecido pelas mer-
cadorias dos brancos e por suas epidemias.
Nossos maiores amavam suas próprias palavras. Eram muito felizes assim.
Suas mentes não estavam fixadas noutro lugar. Os dizeres dos brancos não ti-
nham se intrometido entre eles. Trabalhavam com retidão e falavam do que
faziam. Possuíam seus próprios pensamentos, voltados para os seus. Não fica-
vam o tempo todo repetindo: “Um avião vai pousar amanhã! Visitantes brancos
vão chegar! Vou pedir facões e roupas!” ou então “Garimpeiros estão se aproxi-
mando! A malária deles é perigosa, vai nos matar!”. Hoje, todas essas falas a
respeito dos brancos atrapalham nossos pensamentos. A floresta perdeu seu
silêncio. Palavras demais nos vêm das cidades. Vários de nós foram até elas,
para tratar de doenças ou defender nossa floresta.10
Brancos visitam sempre
nossas casas. Suas palavras entram em nossa mente e a tornam sombria. Esses
forasteiros não param de nos preocupar, mesmo quando estão longe de nós.
Nosso pensamento fica emaranhado com palavras sobre os garimpeiros
que comem a terra da floresta e sujam nossos rios, com palavras sobre colonos
e fazendeiros que queimam todas as árvores para dar de comer a seu gado, com
palavras sobre o governo que quer abrir nela novas estradas e arrancar minério
da terra.11
Tememos a malária, a gripe e a tuberculose. Nossa mente fica o tem-
po todo centrada nas mercadorias. Os nossos passam muito tempo ansiosos em
obter mercadorias: facões, machados, anzóis, panelas, redes, roupas, espingardas
e munição. Os jovens passam o tempo todo jogando futebol na praça central da
casa, enquanto os xamãs estão trabalhando ali ao lado. Eles não prendem mais
o pênis com um barbante de algodão amarrado em torno da cintura, como os
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nossos maiores faziam. Usam bermudas, querem escutar rádio e acham que
podem virar brancos. Esforçam-se muito para balbuciar a língua de fantasma
deles e às vezes até pensam em deixar a floresta. Mas não sabem nada a respei-
to do que os brancos realmente são. O pensamento desses jovens ainda está
obstruído. Por mais que tentem imitar os forasteiros que encontram, isso nun-
ca vai dar nada de bom. Se continuarem nesse caminho escuro, vão acabar só
bebendo cachaça e se tornando tão ignorantes quanto eles.
Os maiores não pensavam nem um pouco nessas coisas de branco. Hoje,
nossos olhos e ouvidos passam muito tempo dirigidos para longe da floresta,
alheios a nossos próximos. As palavras sobre os brancos emaranham as nossas
e as deixam esfumaçadas, confusas. Isso nos deixa aflitos. Tentamos então
afrouxar nosso pensamento e tranquilizá-lo. Dizemos a nós mesmos que os
xamãs irão nos vingar contra as doenças dos brancos e que não morreremos
todos. Pensamos que nossas festas reahu vão continuar, apesar de tudo. Mas
sabemos também que as palavras dos brancos só iriam sumir mesmo de nossa
mente se eles parassem de se aproximar de nós e de destruir a floresta. Tudo
então voltaria a ser silencioso como antigamente e ficaríamos de novo sozinhos
na floresta. Nosso espírito se aquietaria e voltaria a ser tão tranquilo quanto o
de nossos ancestrais no primeiro tempo. Mas é claro que isso não vai mais
acontecer.
Bem antes de encontrarem brancos na floresta, nossos maiores já sabiam
fazer dançar a imagem de seus ancestrais. Vinham de uma terra muito distante,
a jusante dos rios, onde Omama fez os brancos virem à existência. Desde tem-
pos muito antigos os xamãs chamam tais imagens de napënapëri.12
Eles já as
conheciam quando os avós dos atuais brancos ainda nem tinham nascido e a
terra deles ainda era só uma floresta sem caminhos. Esses espíritos dos antigos
brancos até hoje descem a nós das alturas do céu do levante. Vêm de lá onde os
pés do céu se apoiam na terra; vêm da floresta longínqua para a qual a imagem
de Omama fugiu após sua morte. Mas essa distância não é nada para esses
xapiri forasteiros, que voam muito ligeiro. Seus caminhos são fios de luz bri-
lhante, como o risco dos fogos th
oru wakë que atravessam o peito do céu duran-
te a noite. Quando outros espíritos chamam por eles, escutam seus cantos com
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prazer e ficam ansiosos para segui-los. É assim que chegam até nós. No come-
ço são poucos, mas devagar vão formando uma tropa cada vez maior.
Os primeiros forasteiros cujas imagens os antigos xamãs faziam descer
chamavam-se Watata si. Não eram brancos, de que ainda mal tinham ouvido
falar e que chamavam então de napë kraiwa pë.13
Os Watata si moravam num
braço do curso médio do rio Parima.14
Os homens desse povo tinham o cabelo
cortado como o nosso. Usavam tangas de tecido vermelho e, nos pulsos, mui-
tos fios apertados de miçangas. Também usavam brincos feitos de estilhaços
de espelho e rabos de tucano. As mulheres escondiam o púbis com longos
aventais de contas coloridas. Bebiam caxiri. Era deles que, havia já muito tem-
po, vinham os pedaços de metal usado, retalhos de tecido, miçangas e raladores
de mandioca que nossos maiores usavam. Eles iam também buscar esses bens
de troca nos Maith
a, outra gente, que estavam mais perto deles.15
Em compen-
sação, levavam para eles grandes novelos de algodão. Era uma viagem muito
longa, e muitos deles voltavam com a doença da tosse.
Hoje, esses povos não existem mais e já faz muito tempo que os nossos
xamãs não fazem mais descer os espíritos dos seus antigos. Em lugar deles,
chamam os xapiri dos ancestrais dos forasteiros da cidade. Nós os conhecemos
bem, e sabemos também fazer dançar suas imagens. Possuem aviões, e são
guerreiros muito valentes. São parecidos com os brancos mas, comparados a
eles, são muito bonitos. Não são humanos. Esses espíritos napënapëri são mui-
to altos. São também muito diferentes dos espíritos da floresta e dos ancestrais
animais. Vêm vestidos com uniformes brancos, como camisas bem compridas.
Seus olhos são cobertos por peles de metal brilhante. São óculos, semelhantes
a espelhos, que lhes permitem enxergar de muito longe os seres maléficos.
Trazem na cabeça chapéus de ferro em brasa, que assustam as fumaças de
epidemia. Têm a barba cerrada como rabos de macaco cuxiú-negro, e cabelos
negros como os de Omama, que os envia a nós. Carregam pesadas lâminas de
metal, para ferir seus inimigos. São espadas de ferro muito compridas e resis-
tentes. Ficam amarradas em torno de seus braços e cinturas. Quando uma
delas quebra, trocam-na logo por uma nova e, quando são atacados, essas pe-
sadas peças de aço cintilante rebatem os golpes de seus inimigos.16
Esses espíritos dos brancos são as imagens dos Hayowari th
ëri, um grupo
de ancestrais yanomami levados pelas águas e transformados por Omama em
forasteiros.17
Vieram a existir no primeiro tempo, na terra em que seus pais
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haviam sido criados antes deles. São os fantasmas dos primeiros brancos; são
ancestrais brancos tornados outros que agora dançam para nós como espíritos
xapiri. São eles os verdadeiros donos do metal de Omama. Foram eles que
ensinaram os brancos de hoje a fabricar aviões, objetos para captar os cantos e
as peles de imagens. São capazes de limpar a floresta inteira, espantando as
fumaças de epidemia xawara. Só eles a conhecem realmente, porque ela tam-
bém vem dos brancos. Por isso sabem tão bem fazê-la largar a imagem dos que
ela quer devorar e arrancá-la dela. Os outros xapiri são fracos e despreparados
diante dela. Ficam sem saber como curar. Assim é. Nossos antigos xamãs pos-
suíam palavras sobre os brancos desde sempre. Já tinham contemplado sua
terra longínqua e ouvido sua língua emaranhada muito antes de encontrá-los.
Conheciam bem as imagens de seus ancestrais que ferviam o metal e costuma-
vam fazê-las descer quando estudavam, bebendo yãkoana. Depois, seus filhos
e netos continuaram fazendo o mesmo. E nós também as chamamos, até hoje.
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Mas não pensem que fazemos dançar as imagens dos brancos que estão perto
de nós. Estes só querem nossa morte. Querem tomar nosso lugar na floresta e
são nossos inimigos. Não queremos ver suas imagens!
Os espíritos napënapëri são incontáveis na terra dos brancos. Protegem-
-nos com empenho das epidemias que lá se propagam. Por isso seus familiares
não morrem vítimas delas tanto quanto os nossos! São esses espíritos que dão
conhecimento aos médicos deles. Nós, xamãs, apreciamos bastante a valentia
desses espíritos e muitos gostariam de saber fazê-los descer. Mas não é fácil.
Como eu disse, nem sempre Omama se mostra generoso com seus xapiri. Cos-
tuma guardar a seu lado os mais poderosos, e só nos cede os mais fracos! Os
brancos curandeiros das cidades, chamados de rezadores,18
sabem fazer descer
a imagem dos napënapëri do mesmo jeito. Mas também são avarentos em re-
lação a eles. Não basta beber yãkoana para que esses espíritos dos ancestrais
brancos venham a nós por vontade própria. Tanto que meu sogro, que é um
grande xamã, nunca os viu quando era jovem e ainda vivia nas terras altas. Só
desceram a ele bem mais tarde, quando a malária quase o matou. Foram eles
que o curaram e, desde então, ele pode chamá-los quando quiser.
Aconteceu o mesmo comigo quando eu era mais novo. Os seres da epide-
mia, que chamamos xawarari, tinham me atacado e eu estava muito ferido.
Fiquei péssimo e achava mesmo que ia morrer. Dormia em estado de fantasma.
Tinha muita dificuldade para respirar e de meu peito só saía um sopro fraco e
ruidoso. Foi então que eu vi os espíritos dos ancestrais dos brancos descerem
a mim pela primeira vez. Chegaram de repente, para combater os seres xawa-
rari prestes a me devorar. Traspassaram-nos com suas lâminas de ferro, depois
cortaram seus braços e furaram seus olhos! Foi assim que eu pude, finalmente,
escapar da morte. Desde então, continuo fazendo descer a imagem desses es-
píritos napënapëri que me vingaram da doença com tanta valentia. O espelho
de dança deles está instalado na minha casa de espíritos e sempre respondo a
seus cantos enquanto bebo o pó de yãkoana. Às vezes, são eles que vêm me
visitar por conta própria, no tempo do sonho. Então, faço-os dançar em silên-
cio. Não canto em voz alta durante a noite porque tenho receio de as pessoas
reclamarem: “Fique quieto! Está perturbando o nosso sono! Queremos dormir!
Você está nos incomodando com sua cantoria!”. Esses espíritos dos antigos
brancos se dirigem a mim na fala de fantasma deles. Apesar disso, posso com-
preendê-los, porque com o tempo, a partir da adolescência, acabei aprendendo
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um pouco dessa linguagem de branco. Posso então transmitir suas falas aos
que me ouvem quando viro espírito. Nossos avós nada sabiam dos brancos.
Quando os antigos xamãs faziam dançar esses espíritos estrangeiros, apenas
imitavam sua fala emaranhada, sem entender nada.
Foi Omama que nos criou, mas foi também ele que fez os brancos virem à
existência. Há apenas um único e mesmo céu acima de nós. Só há um sol, uma
lua apenas. Moramos em cima da mesma terra. Os brancos não foram criados
por seus governos. Eles vêm da fábrica de Omama! São seus filhos e genros,
tanto quanto nós. Ele os criou há muito tempo, da espuma do sangue de nossos
ancestrais, os habitantes de Hayowari. Hayowari é o nome de uma colina, si-
tuada entre as nascentes do rio Parima e as do alto Orinoco, que chamamos
Hw
ara u. É lá que fica a origem dos rios, onde Omama furou o solo de sua roça
para aplacar a sede do filho.19
Quando eu era criança, meu padrasto me falou
bastante dessa gente de outrora e hoje, tendo eu mesmo me tornado xamã, me
acontece muitas vezes de ver suas imagens e ouvir suas palavras. Por isso posso
falar dessas coisas. Omama criou os Yanomami depois de ter pescado a filha de
Tëpërësiki, o ser do fundo das águas. Ele copulou com ela e foi a partir do ven-
tre dela que nos tornamos muitos. As pessoas de Hayowari faziam parte dos
habitantes da floresta do primeiro tempo. Eram os filhos de Omama e de sua
mulher, Th
uëyoma. Tornaram-se forasteiros bem mais tarde, depois de Omama
ter feito a água jorrar do chão e ter fugido para bem longe, a jusante de todos
os rios, em direção à terra dos brancos.20
Esses ancestrais de Hayowari viraram outros durante uma festa reahu à
qual tinham convidado seus aliados, para enterrar as cinzas dos ossos de um
dos seus. Aconteceu assim: era o último dia, logo antes de os convidados, que
eram muitos, irem embora para suas casas. O homem encarregado de distribuir
entre eles a caça moqueada das cinzas do morto21
colocou no centro da casa
um montículo de pó de yãkoana sobre uma placa de cerâmica. Um grupo de
convidados e anfitriões foi se formando em torno dele, conversando, e come-
çou a inalar grandes quantidades desse pó. Era forte, e todos fungavam com
sonoras exclamações de aprovação. Passou-se algum tempo, e os homens foram
formando pares, agachados cara a cara, para iniciar um diálogo yãimuu. Sub-
metidos ao poder da yãkoana, todos logo ficaram muito exaltados.22
Batiam-se
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nos flancos com a palma da mão para pontuar as palavras. Ao cabo de algum
tempo, sua raiva aumentou tanto que começaram a se alternar dando socos no
peito uns dos outros. Um grupo de convidados formou-se para atacar um dos
anfitriões, que tinha ficado isolado. Do outro lado da casa, a mãe dele, mulher
idosa, começou a insultá-los furiosamente, para vingá-lo. Depois, chamou aos
berros o marido da filha, para vir acudir o cunhado. O rapaz ainda estava re-
cluso num recinto de folhas yipi hi com a esposa, que acabara de ter a primei-
ra menstruação.23
Ao ouvir o chamado da sogra, saiu correndo para vingar o
cunhado, sem pensar no perigo.
A floresta ainda era jovem naquele tempo. Por isso, assim que o rapaz pôs
o pé para fora da reclusão, o ser do caos Xiwãripo começou a amolecer e a
desfazer a terra ao redor dele. Então, de repente, Motu uri u, o rio do mundo
subterrâneo, irrompeu com toda a força, abrindo um enorme rasgo no chão.
Num instante, a violenta torrente cobriu toda a floresta ao redor e despedaçou
a casa da gente de Hayowari. Foi mesmo aterrador! Todos foram levados pela
força das águas, ainda agachados, cantando ou se batendo no peito. Era possí-
vel ouvir seus gritos se perdendo ao longe, conforme eram carregados rio abai-
xo. Alguns tentaram fugir na floresta: viraram veados. Outros tentaram subir
nas árvores: se metamorfosearam em cupinzeiros. A maior parte se afogou, ou
foi comida por ariranhas kana e enormes jacarés pretos poapoa. É por isso que,
ainda hoje, os xamãs têm de trabalhar para impedir a água de Motu uri u de
jorrar de debaixo da terra. O enorme buraco de onde ela emergiu em Hayowa-
ri no tempo antigo ainda é visível nas terras altas, apesar de ter sido coberto
pela floresta. É possível vê-lo de avião, nas nascentes do Orinoco e dos rios
Catrimani e Parima. Também chamamos esse lugar de Xiwãripo.
Essas águas que surgiram com tanta violência do chão em seguida fizeram
uma longa curva, descendo as colinas para se espalhar longe pela floresta, em
direção ao nascer do sol.24
Quando atingiram o lugar onde as terras ficam pla-
nas e ventosas, começaram a girar com rapidez num enorme redemoinho.
Depois foram pouco a pouco perdendo velocidade e o movimento delas foi se
acalmando. Ficaram assim desde então, imóveis, formando um lago vasto co-
mo o céu. É o que os brancos chamam de mar. Um vendaval Yariporari vive
no centro dessa imensa extensão de água, em cujas profundezas vivem pora-
quês gigantes e seres redemoinho tëpërësiri,25
que engolem os humanos. Escon-
dem-se lá também enormes peixes-epidemia, de dentes afiados e cuja cauda
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lança raios, e seres girinos gigantes enfurecidos, que destroem as embarcações
dos brancos.26
Dos Yanomami que se afogaram nas águas surgidas do rio Motu uri u não
restou nada senão vastas manchas de espuma de sangue, levadas pelas corren-
tes para jusante, até onde os rios se tornam muito largos. Foram descendo
devagar até o lugar onde Omama se instalou depois de ter fugido das terras
altas. Assim que ele as viu, aproximou-se para recolher pouco a pouco, num
cesto pequeno, a espuma vermelha que flutuava em sua direção. Em seguida,
depositou-a com cuidado na margem, e começou a dar-lhe forma com as mãos.
Ela se aqueceu, e novos humanos acabaram surgindo dela. Primeiro foi uma
espuma quase sem cor que passou boiando. Omama juntou-a em montículos,
que trouxe à vida colocando-os numa terra distante, do outro lado das águas
paradas. É a terra dos ancestrais dos brancos que vocês chamam de Europa. De
modo que ele criou primeiro aqueles que nossos maiores nomeavam napë
kraiwa pë; essa gente de pele tão branca quanto seu papel. Com a espuma aver-
melhada cada vez mais escura que a corrente carregava, criou depois outros
forasteiros. Dessa vez, era gente que se parece conosco. Instalou-os perto de
nós, na mesma floresta. Foi assim que ele trouxe a espuma de nossos ancestrais
mortos de volta para de onde viera e guardou sua imagem na terra do Brasil,
que é para nós a terra de Omama. São eles que nossos maiores chamavam
napë pë yai, os “verdadeiros forasteiros”, os outros índios: os Pauxiana, os Wa-
tata si e as gentes do baixo rio Demini, que foram antigamente nossos vizi-
nhos,27
e também os Ye’kuana, os Makuxi, os Tukano, os Wajãpi, os Kayapó e
muitos outros.28
Foi Remori, o espírito do zangão alaranjado remoremo moxi, que deu aos
brancos sua língua emaranhada. A fala deles parece mesmo o zumbido dos
zangões, não é? Colocou neles uma garganta diferente da nossa. Remori vivia
ao lado de Omama, nos vastos bancos de areia29
da jusante dos grandes rios. Foi
Omama que, querendo dar nova vida à espuma da gente de Hayowari, pediu a
ele para insuflar uma outra língua nos forasteiros que tinha acabado de criar.
Por isso nossos maiores não entendiam nada do que lhes diziam os primeiros
brancos que encontraram. Sua fala confusa era para eles realmente horrível de
ouvir! Quando lhes dirigiam a palavra, tentavam prestar atenção, mas não con-
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seguiam entender nada. Então pensavam, perplexos: “O que será que eles que-
rem dizer? É só esta a fala que conseguem proferir? Que modo medonho de se
expressar! Será essa a língua dos fantasmas? Não; deve ser outro linguajar, a
fala de zumbido que Remori deu aos forasteiros!”.
Por mais que tentassem imitar os brancos, nunca chegavam a nada que
fosse compreensível. Só conseguiam pronunciar palavras feias e tortas. As nos-
sas são bem diferentes. São palavras de habitantes da floresta que nos ensinou
Omama, e os brancos não as podem entender. Assim é. Omama e Remori re-
solveram que as gentes diferentes que tinham criado não deviam ter a mesma
língua. Acharam que o uso de uma só língua provocaria conflitos constantes
entre eles, pois as más palavras de uns poderiam ser ouvidas sem dificuldade
por todos os demais. Por isso deram outros modos de falar aos forasteiros, e
depois os separaram em terras diferentes. Então, ao fazerem surgir neles todas
essas línguas, disseram-lhes: “Vocês não entenderão as palavras dos outros e,
assim, só irão brigar entre si. O mesmo acontecerá com eles”.
Omama, Remori e os habitantes de Hayowari desapareceram de nossa
floresta há muito tempo. Mas isso só aos olhos da gente comum. Pois os xamãs
sabem que seus fantasmas continuam lá. Fazem dançar suas imagens e sempre
dão a ouvir seus cantos. Quando eu era mais jovem e escutava os adultos vi-
rando espíritos, eu perguntava a mim mesmo: “Como eles fazem? De onde vêm
realmente essas palavras do começo do tempo?”. Mais tarde, quando foi minha
vez de beber yãkoana, os xamãs mais velhos fizeram essas imagens descerem
para mim. Foi então que eu também pude ver a gente de Hayowari carregada
pelas águas de Motu uri u e os imensos bancos de areia onde vive Remori.
Desde então, continuo sempre a admirar as imagens do primeiro tempo nos
sonhos de meu sono de fantasma.30
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10. Primeiros contatos
Os brancos.
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Nas nascentes do rio Toototobi se encontram casas dos Uaicás [Ya-
nomami], interligadas por numerosos caminhos que se dirigem a
leste […] e a oeste […]. Seria difícil calcular o número de Índios que
habitam esse rio. Parece, no entanto, que são numerosos.
M. de L. Jovita, 1948
Comissão Brasileira Demarcadora de Limites
Meu pai morreu quando eu ainda era bem pequeno. Contaram-me os an-
ciãos do rio Toototobi que foram feiticeiros inimigos oka que o mataram. Esta-
va trabalhando em sua roça havia algum tempo, quando começou a sentir fome.
Entrou na floresta para coletar frutos de palmeira yoi si. Os oka aproveitaram
para soprar nele um pó de feitiçaria hw
ëri com suas zarabatanas. Ele começou a
se sentir mal e desmaiou. Então eles o pegaram, e em seguida quebraram-lhe os
ossos dos membros, do pescoço e dos rins. Disseram-me também que o grupo
de feiticeiros era conduzido pelo grande homem da gente do rio Hero u, com
seus aliados do alto rio Mucajaí, a gente de Amikoapë. Na época, todos eles
ainda eram muitos e eram nossos inimigos. Não faz muito tempo que eu soube
disso, pelo pai de minha esposa. Ninguém me havia dito nada até então. Se eu
tivesse sabido disso quando era mais jovem, talvez tivesse matado esse inimigo
do Hero u em estado de homicida õnokae, para vingar meu pai.1
Mas hoje, já se
passou muito tempo, e não sinto mais raiva. Além do que o homem já morreu
de malária, quando os garimpeiros invadiram toda a floresta dele.
Quando meu pai faleceu, minha mãe ainda me carregava no colo; não
tenho nenhuma lembrança dele. Não sei seu nome. Ninguém me revelou, nem
mesmo minha mãe. Minha irmã mais velha, do mesmo modo, jamais falou
comigo de nosso pai. Sua boca, com certeza, tinha medo. Só os anciãos, que o
conheceram na juventude, sabem seu nome. Talvez às vezes falem dele entre
si. Não sei. Mas acho que o pai de minha esposa sabe. Porém, todos devem
temer minha reação, pensando: “Se pronunciamos o nome do pai dele, Davi
vai ficar furioso!”. Assim, meu pensamento permaneceu fechado. Entre nós,
quando morre alguém, seu nome é silenciado para sempre. Se uma pessoa
descuidada por acaso o pronunciar diante de seus parentes, eles serão tomados
pela dor e pela saudade, a ponto de ficar enfurecidos. Então vão tratar de se
vingar, pela feitiçaria ou com suas flechas. Somente pessoas distantes podem
evocar o nome de um morto, mas só na ausência de gente da casa dele. Caso
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contrário, não se diz nada. É por isso que, quando morre o pai de uma criança
pequena, nenhum dos adultos que o conheceu jamais lhe revelará seu nome.
Ela jamais saberá.
Às vezes falo dessa época de minha infância quando respondo às pergun-
tas dos brancos. Faço-o sem raiva, pois seu pensamento ignora todas essas
coisas sobre nossos nomes. Eles não temem proferir os próprios nomes nem
os de seus mortos, sem moderação! Não é assim entre nós. Um homem fica
logo com raiva se seu nome for pronunciado diante dele e, após sua morte,
será proibido por seus familiares com muita cautela.2
Assim nós somos. Recu-
samo-nos a revelar os nomes dos nossos mortos porque damos a eles muito
valor. Temos muito respeito por eles. De modo que achamos que os brancos
gostam de maltratar seus próprios falecidos. Prendem-nos debaixo da terra e
insultam-nos, evocando seus nomes o tempo todo! Pergunto-me como podem
chorá-los depois de se comportarem assim! Nós pranteamos todos juntos os
nossos mortos, durante muito tempo, mas sem jamais nomeá-los.
Após o falecimento de meu pai, outro homem tomou minha mãe como
esposa. Eu ainda era bebê, e ele me levou junto com ela. Esse homem me pro-
tegeu e me criou. Ele me alimentou e me fez crescer com a carne de sua caça e
o mel selvagem que coletava, com as bananas e a mandioca que cultivava.
Hoje ele está muito velho e vive longe, numa outra casa. Não o vejo muito, mas
o tenho com afeto em meu pensamento. Às vezes vou visitá-lo, levando mer-
cadorias. Também envio enfermeiros brancos, para que cuidem dele, de modo
que o protejo como ele fez por mim há muito tempo.3
É um grande xamã, e
gostava muito de nos fazer ouvir suas palavras dos tempos antigos. Quando eu
era pequeno, costumava me falar dos ancestrais que viraram caça no primeiro
tempo. Contava-me também como Omama veio à existência e fez de seu filho
o primeiro xamã, e como mais tarde criou os forasteiros. Contava-me tudo
isso com zelo, durante a noite, enquanto eu, deitado na minha rede, olhava o
fogo em que minha mãe soprava de tempos em tempos. Ele não queria que eu
crescesse na ignorância. Ainda hoje, quando vejo os espíritos dançarem em
meu sonho, lembro-me de suas palavras, que continuam sempre vivas na mi-
nha mente. Ele estava sempre brincando e sorrindo, mas era também um guer-
reiro muito temido. Tinha em si as imagens de Aiamori, o ser da guerra, e de
Õeõeri, o ancestral que nos ensinou a flechar nossos inimigos. Foi ele que vin-
gou a morte de meu pai, pois eram amigos. Meu pai era mais jovem do que ele,
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que o chamava de cunhado. Costumavam caçar juntos. Naquele tempo, nossos
antigos não hesitavam em comer os inimigos que tivessem matado um dos
seus. Eram muito valentes. Não o vingavam às escondidas, soprando de longe
pós de feitiçaria sobre quem o tinha matado. Preferiam juntar um grupo de
guerreiros e usar suas flechas.
Quando criança, vivi num lugar que era chamado de Marakana, na beira
do rio Toototobi. Foi lá que meu pai morreu. Na época do meu nascimento, a
clareira aberta no local ainda era bem recente. Os nossos parentes tinham aber-
to novas roças, mas ainda viviam na floresta, num grande acampamento de
tapiris.4
Meu padrasto me contou isso. Eu mesmo não me lembro. Criança assim
pequena ainda não tem realmente consciência das coisas. Os adultos falam com
os pequenos, mas a mente deles ainda está fechada. As palavras ainda não che-
gam a se fixar nela de fato. Só mais tarde, conforme crescem, seus pensamentos
começam a se juntar uns aos outros e sua consciência se põe a florescer. Ainda
guardo algumas lembranças do tempo da casa de Marakana. Não me lembro,
porém, de ter visto os meus pais e avós plantarem seus esteios nem cobri-la com
folhas de palmeira paa hana. Só me lembro da casa já construída. Era muito
ampla, e morava nela muita gente mesmo. No começo, eram ali dois grupos
reunidos, pois estávamos em guerra com a gente do rio Mapulaú e do alto Ca-
trimani, que moravam a uns dias de caminhada.5
Voltaram a se separar mais tarde, porque brigavam muito entre si. Depois
de Marakana, foram construídas três casas, bastante próximas umas das ou-
tras.6
A nossa ficava rio acima, num lugar chamado Wari mahi, o lugar da
sumaúma. Os outros tinham se instalado um pouco a jusante, também perto
da margem do rio Toototobi. Mas logo meu padrasto começou a se distanciar
da gente de Wari mahi. Passou a viver com eles só de vez em quando. Tinha
construído sozinho uma casa menor e aberto uma roça a meio dia de caminha-
da rio abaixo. Morávamos lá, com minha mãe, minha irmã mais velha e uma
outra família. O lugar se chamava Th
ooth
oth
opi, o lugar dos cipós.7
Passávamos
lá a maior parte do tempo, e pouco visitávamos Wari mahi. Meu padrasto não
gostava de morar lá, porque achava que havia gente demais. Creio que julgava
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a casa muito barulhenta. Por isso, depois de Marakana, cresci sobretudo em
Th
ooth
oth
opi.8
Lembro-me bem desse período de minha infância. Foi aquele em que
minha mente se abriu, graças à carne de caça e aos alimentos da roça que me
dava meu padrasto. Levava-me com ele em todas as suas viagens. Íamos sempre
a festas reahu nas casas de nossos aliados. Partíamos também em expedições
de muitos dias na mata, durante as quais morávamos em acampamentos de
tapiris. Os nossos antigos acampavam desse modo por longos períodos, para
caçar e coletar frutos.9
Naquele tempo da minha infância, passávamos real-
mente muito tempo na floresta. Hoje em dia, menos. Os rapazes gastam o seu
tempo rondando os postos dos brancos. Eu, ao contrário, cresci na floresta,
bebendo mel selvagem o tempo todo. Foi isso que tornou meu pensamento
reto e permitiu que ele se ampliasse. Desde muito pequeno, comecei a observar
os mais velhos, quando saíam para caçar ou iam trabalhar nas roças. Foi tam-
bém nessa época que os vi, pela primeira vez, dançando para se apresentar nas
festas reahu em casas amigas e imitando os espíritos urubu para partir em
guerra contra seus inimigos.10
Minha mãe costumava também me levar com ela à floresta, para pegar
caranguejos-de-água-doce, pescar com timbó ou coletar todos os tipos de fru-
tos. Eu ainda a acompanhava à nossa roça quando ela ia colher mandioca ou
banana, ou rachar lenha com o machado. Depois, assim que fiquei um pouco
mais crescido, os adultos começaram a me chamar para acompanhá-los nas
caçadas. Eu os seguia pela mata, ainda coberta de orvalho, e, quando eles fle-
chavam animais pequenos, os davam a mim dizendo: “Leve esta caça, na volta
você vai comê-la!”. Éramos, na época, um pequeno grupo de meninos da mes-
ma idade. Os outros eram um pouco mais velhos do que nós. Crescemos indo
sempre caçar e pescar juntos. Também ocupávamos nosso tempo imitando
tudo o que faziam os adultos. Foi assim que, pouco a pouco, começamos a
pensar direito. Flechávamos todos os tipos de passarinhos e lagartos, na flores-
ta ou nas roças vizinhas. E os trazíamos de volta, entrando orgulhosos, como
caçadores, em nossa grande casa. Moqueávamos as presas e organizávamos
pequenas festas reahu com essa “caça”, como víamos fazer os mais velhos.11
Estes nos encorajavam, brincando. Acrescentavam a nossas presas pedaços de
caça de verdade. Então entoávamos alegremente cantos heri, como se costuma
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fazer quando a comida de um reahu é farta. Também imitávamos a dança de
apresentação de nossos convidados. Dançávamos inclusive em pequenos casais,
segurando as meninas pelo pulso, como os adultos, em certas noites de festa.
Divertíamo-nos muito mesmo!
Tudo isso ocorria na praça central da casa. Os adultos olhavam para nós
e riam muito. Divertiam-se em nos ver parodiá-los com tanta ousadia. Não
tínhamos medo nenhum! Fingíamos beber o pó de yãkoana, como fazem todos
os homens no último dia do reahu. Imitávamos também sua raiva no decorrer
dos diálogos yãimuu. Agachados aos pares, maltratávamo-nos segurando uns
aos outros pelo pescoço. Como eles, cantávamos gritando nos ouvidos dos
nossos parceiros e batendo com a palma da mão em seus flancos. Os únicos
adultos que não ousávamos imitar eram os xamãs. Os adultos nos tinham aler-
tado. É perigoso demais, pois seus xapiri poderiam se irritar com isso e se
vingar. Era assim que vivíamos. Só tomávamos como exemplo as maneiras de
nossos maiores. Não queríamos imitar os brancos, como costumam fazer as
crianças de hoje, quando fabricam aviõezinhos de madeira e jogam bola. Não
escutávamos o barulho dos rádios, nem o dos gravadores. Nossos ouvidos só
davam atenção às palavras dos nossos e às vozes da floresta.
Nossos maiores convidavam gente de outras casas a suas festas reahu
para beber mingau de banana-da-terra e oferecer porções de carne moqueada.
Muitas vezes brigavam uns com os outros. Então, desafiavam-se aos gritos,
exaltados, e insultavam seus adversários pronunciando seus nomes raivosa-
mente. Depois batiam na cabeça uns dos outros, em alternância, com longas
bordunas. Enfrentavam-se assim para vingar roubos de alimento em suas ro-
ças, porque tinham ciúmes de mulheres ou apenas porque tinham xingado um
ao outro de covarde. Eu os observava de longe, um pouco assustado, e dizia a
mim mesmo: “Haixopë! É assim que se deve lutar para aplacar a própria ira!”.
Além disso, às vezes se lançavam em incursões de guerra contra seus inimigos.
Na época, guerreavam em direção ao levante, contra os antigos da gente do
rio Catrimani — que então viviam no rio Mapulaú —, e, por vezes, em direção
ao poente, contra os Xamath
ari do alto rio Demini.12
Como eu disse, meu
padrasto era muito valente, sempre pronto para vingar nossos mortos. Naque-
le tempo, ele flechou um bom número de nossos inimigos do Catrimani, e
tirou dos Xamath
ari as duas irmãs que são até hoje suas esposas.13
Eu vivia com
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ele quando lançou todos esses ataques, junto com outros guerreiros do rio
Toototobi. Vi-os muitas vezes se alinharem com seus arcos e flechas na praça
central de nossa casa e imitarem os espíritos urubu antes de se pôr a cami-
nho.14
Meu pensamento se fixava neles e eu pensava: “É assim que devemos
nos vingar! Quando for mais velho, vou me juntar a eles!”. Eu era jovem de-
mais para isso, e lamentava muito não poder acompanhar os adultos! Mas foi
assim, observando-os constantemente, que meu pensamento se tornou mais
sabido e que eu cresci.
Antes de chegar a Marakana, nossos antigos ocuparam muitas outras ro-
ças nas terras altas. Moraram muito tempo, por exemplo, no lugar do sapo
yoyo — que chamanos de Yoyo roopë, nas nascentes do rio Toototobi.15
Meu
padrasto costumava falar muito dessa floresta, pois viveu lá muito tempo quan-
do era jovem. De lá, os antigos iam até os Xamath
ari que moravam no rio
Kapirota u, em busca de ferramentas de metal, já que os antigos Watata si do
rio Parima tinham ficado distantes demais.16
Os Xamath
ari as obtinham des-
cendo o curso do Demini até os barracos dos brancos que viviam às margens
do rio Aracá. Estes pescavam tartarugas e coletavam castanha-do-pará, balata
e fibras de piaçava.17
A gente do Kapirota u, embora vivesse longe rio acima,
conhecia bem esses brancos do rio. Costumava ir visitá-los e, na estação seca,
trabalhava para eles durante várias luas. Conseguia assim objetos manufatura-
dos de todos os tipos.18
Foi por intermédio deles que nossos maiores encontra-
ram esses ribeirinhos, muito distantes de suas casas, pela primeira vez. Não foi,
porém, pelo mero prazer de admirá-los que se aproximaram dos forasteiros.
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Na verdade, o que sentiam era mais temor do que outra coisa, e não sem razão.
Tanto que um dia essa gente ofereceu a eles comida com veneno, e vários an-
ciãos acabaram morrendo. Isso aconteceu perto das corredeiras do rio Aracá,
que os brancos chamam de Cachoeira dos Índios. Escutei essa história da boca
do meu padrasto, quando eu era criança. Ele a contava de vez em quando,
quando exortava a gente de nossa casa, durante a noite, com seus discursos
hereamuu sobre os tempos antigos.
Não apenas para obter fósforos, panelas de alumínio ou sal. Sabiam fazer
fogo com brocas de cacaueiro, suas esposas cozinhavam em potes de cerâmica
e salgavam suas bananas cozidas com cinzas de cipó yopo una. O que eles que-
riam dos brancos do rio eram suas ferramentas de metal novinhas, algo que
realmente não tinham. Naquela época era muito difícil consegui-las. Com mui-
to esforço, conseguiam trazer dessas longas viagens apenas alguns facões, às
vezes um machado. Isso lhes permitia abrir novas roças, maiores do que antes,
e cultivar as plantas com que poderiam alimentar suas famílias. Mas ainda ti-
nham de emprestar uns aos outros as raras ferramentas, como haviam feito no
passado com os pedaços de ferro conseguidos com os Watata si do rio Parima.
Assim, quando um homem tinha terminado de abrir sua roça, outro podia
abrir a sua, e depois outro, e outro, se revezando. No final, as ferramentas eram
emprestadas para gente de casas vizinhas, como outrora. Os antigos me con-
taram isso muitas vezes quando eu era criança.
Quanto a mim, encontrei pela primeira vez brancos quando ainda era
muito pequeno. Não sabia ainda nada a respeito deles. Na verdade, nem mesmo
pensava que tais seres pudessem existir! Era gente da Inspetoria e soldados da
Comissão de Limites.19
Chegaram, certo dia, até nossa casa de Marakana. Ti-
nham subido o rio em nossa direção durante dias e dias, amontoados em gran-
des canoas a motor carregadas de alimento e caixas de mercadorias. Eram mui-
tos. Um grupo deles entrou de repente na nossa casa para pedir ajuda aos
nossos parentes. Estavam recrutando homens para acompanhá-los e transpor-
tar seus pesados carregamentos pela floresta. Pretendiam chegar até as nascen-
tes dos rios, para lá cavar buracos e plantar grandes pedras retas. Nossos antigos
nada compreendiam de sua língua de fantasma. Por fim, um Xamath
ari que
tinha conseguido uma esposa entre nós falou com eles. Ele já conhecia bem os
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brancos por ter trabalhado a jusante, no rio Aracá, perto da Cachoeira dos Ín-
dios, e tinha aprendido um pouco a língua deles. Esses brancos da Comissão de
Limites trabalharam na região das terras altas de nossa floresta durante várias
luas, e um dia foram embora, tão de repente quanto tinham chegado.20
Não me lembro de tudo o que aconteceu nessa época, porque é muito
antigo. Mas não esqueci a chegada desses forasteiros, porque me deixaram
apavorado! Aliás, assim que a vinda deles foi anunciada, todas as mães de Ma-
rakana preveniram seus filhos pequenos: “Os napë estão chegando! Escondam-
-se! Senão, eles podem levá-los embora!”. E em seguida os fizeram ficar atrás
das redes, encobertos pela lenha encostada na parede da casa.21
As crianças
maiores, como minha irmã mais velha, fugiram por conta própria, para se
refugiar na floresta. Minha mãe me fez agachar ao seu lado e depois me cobriu
com o grande cesto de cipó que usava para carregar lenha. Eu estava apavora-
do, mas ela conseguiu me acalmar, me dizendo baixinho: “Não tenha medo, os
brancos não vão vê-lo! Só fique quieto!”. Uma vez protegido dos olhares, me
senti um pouco mais seguro. Então fiquei encolhido, em silêncio, observando
o grupo de visitantes brancos que entrava em nossa casa através da malha da
cesta. Achava-os de uma feiura terrível e meu coração batia forte no peito.
Tinha muita vontade de fugir, como os grandes, mas não queria chamar a
atenção. E assim tive de esperar por muito tempo, imóvel, segurando a respi-
ração, até os forasteiros irem embora e minha mãe me libertar!
As mães de nossa casa temiam que os brancos levassem seus filhos peque-
nos. Tinham muito medo mesmo de que os roubassem! Os antigos se lembra-
vam de que os soldados da Comissão de Limites já tinham levado com eles
crianças yanomami, quando, antigamente, subiram o rio Mapulaú pela primei-
ra vez.22
Naquela época, nossos maiores viviam nas terras altas, em Yoyo roopë.
Mas gente do Mapulaú tinha contado a eles que os brancos tinham pedido
vários de seus filhos. Ninguém queria dar os filhos, é claro! Mas todos receavam
o furor das epidemias dos brancos, caso recusassem. Então, o grande homem
da gente do Mapulaú acabou dando a eles um menininho e uma menininha,
que não eram filhos da gente de sua casa. Eram cativos, trazidos de uma incur-
são guerreira aos Yawari, que então viviam no alto rio Catrimani.23
Ouvi meus
pais e meus avós contarem essa história muitas vezes. Por isso eu tinha tanto
medo dos brancos! Temia muito que quisessem levar a mim também! Até
agora me pergunto o que aqueles forasteiros queriam fazer com as crianças
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yanomami. Talvez quisessem criá-las, para mais tarde enviá-las de volta, para
pedir aos nossos grandes homens permissão para trabalhar na nossa floresta?
Não sei.
Hoje, nossas crianças não têm mais medo dos brancos. Mas eu, antes, ti-
nha pavor deles! Eram mesmo outros. Eu os observava de longe e pensava que
pareciam seres maléficos da floresta! Ficava apavorado só de vê-los! Tinham
uma aparência horrível. Eram feios e peludos. Alguns eram de uma brancura
assustadora. Perguntava a mim mesmo o que podiam ser seus sapatos, relógios
e óculos. Esforçava-me para prestar atenção, tentando compreender suas pa-
lavras, mas não adiantava nada. Pareciam barulhos soltos! Além do mais, eles
manipulavam sem parar vários tipos de coisas que me pareciam tão estranhas
e assustadoras quanto eles próprios. Aliás, mesmo muito tempo depois dessa
primeira visita, bastava um desses brancos querer se aproximar de mim para
eu sair correndo, aos prantos. Eles realmente me apavoravam! Eu tinha medo
até da luz que saía de suas lanternas. Mas temia ainda mais o ronco de seus
motores, as vozes de seus rádios e os estampidos de suas espingardas. O cheiro
de sua gasolina me deixava enjoado. A fumaça de seus cigarros me dava medo
de adoecer. Em suma, eu pensava que deviam mesmo ser seres maléficos në
wãri, famintos de carne humana!
Em Marakana, os adultos não tiveram tanto medo dos brancos quanto
nós, as crianças. Eles os conheciam um pouco. Muitos já tinham se encontra-
do com eles durante viagens de troca rio abaixo. O que deixou a todos apavo-
rados, no entanto, foram os aviões que sobrevoaram nossas casas várias vezes.
Ninguém jamais tinha visto um avião.24
Assim que se ouvia o seu zumbido,
homens, mulheres e crianças saíam correndo o mais rápido possível para se
espalhar e se esconder pela floresta. Os anciãos achavam que aqueles seres
voadores desconhecidos podiam cair e incendiar tudo na floresta. Pensavam
que iríamos todos morrer, e às vezes tinham tanto medo que choravam quan-
do falavam disso! Foi assim que aconteceu. Nossos pais e avós desconfiavam
dos brancos, e sempre temeram suas fumaças de epidemia. No entanto, jamais
se preocuparam em saber o que os trouxera à nossa floresta. Não sabiam que
tinham vindo para demarcar a fronteira do Brasil no meio de nossa terra.
Mostraram-se hospitaleiros e amigáveis. Juntaram-se de bom grado para
acompanhá-los, transportando sua comida e suas ferramentas de metal em
grandes cestos cargueiros. Apenas observaram os forasteiros com curiosidade,
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enquanto abriam largas trilhas na mata e plantavam grandes pedras nas nas-
centes dos rios. Jamais teriam imaginado que, mais tarde, os filhos e netos
daquela gente voltariam, tão numerosos, para tirar ouro dos rios e alimentar
seu gado na floresta derrubada. Nunca pensaram que esses brancos um dia
poderiam querer expulsá-los de sua própria terra. Ao contrário, uma vez pas-
sado o receio inicial, nossos antigos ficaram felizes com a visita daquela gente
outra. Ao longo dos dias, examinavam atentamente as caixas cheias de facões
e machados que tinham subido com eles o rio Demini.25
Um único pensamen-
to ocupava então suas mentes: “A partir de agora, nunca mais vão nos faltar
ferramentas de metal!”.
Muito mais tarde, já adulto, comecei a me perguntar o que os brancos
tinham vindo fazer em nossa floresta naquele tempo. Acabei entendendo que
queriam conhecê-la para desenhar seus limites e, assim, poder se apoderar
dela. Nossos antigos não sabiam imitar a língua daqueles forasteiros. Por isso
os deixaram chegar perto de suas casas sem hostilidade. Se tivessem entendido
as palavras deles tão bem quanto as nossas, com certeza os teriam impedido
de entrar em sua floresta com tanta facilidade! Acho, no final, que foram en-
ganados por aqueles napë que exibiam seus objetos manufaturados com boas
palavras: “Vamos ficar amigos! Vejam, estamos dando uma grande quantida-
de de nossos bens de presente a vocês! Não estamos mentindo!”. Aliás, é sem-
pre assim que os brancos começam a falar conosco! Depois, logo atrás deles,
chegam os seres de epidemia xawarari e então começamos a morrer um atrás
do outro! Nossos antigos ainda não sabiam nada desse perigo. Queriam apenas
trocar facões, machados, roupas, arroz, sal e açúcar. Dirigiam-se aos brancos
repetindo alegremente algumas palavras deles, como papagaios. Pensavam:
“Esses forasteiros são amistosos! Eles são muito generosos!”. Mas estavam
equivocados! Assim que conseguiram os preciosos objetos e alimentos que
tanto desejavam, ficaram doentes e depois começaram a morrer em série, um
por um. Dói-me pensar nisso. Foram enganados por essas mercadorias e mor-
reram todos só por isso. Foi assim que desapareceram quase todos os meus
maiores, só por querer fazer amizade com os brancos. Depois da morte deles,
fiquei só, com minha raiva. Ela nunca mais me deixou desde então. É ela que
hoje me dá a força de lutar contra os forasteiros que só pensam em queimar as
árvores da floresta e sujar os rios como bandos de queixadas. Sempre fico
consternado quando olho para o vazio na floresta em que meus parentes eram
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tão numerosos. A epidemia xawara nunca foi embora de nossa terra e, desde
então, os nossos continuam morrendo do mesmo modo.
No começo, os nossos antigos limpavam bem os facões que recebiam dos
brancos, antes de levá-los para casa. Mergulhavam na água dos igarapés e es-
fregavam bastante com areia. De fato, as lâminas dessas ferramentas eram pe-
gajosas e exalavam um inquietante odor adocicado. Vinham besuntadas de
gordura e embaladas em peles de papel.26
Assim que os brancos abriam seus
enormes caixotes de madeira para distribuir esses facões, saíam deles volutas
de uma fina poeira perfumada. O odor era muito forte e se espalhava por toda
parte. Todas as mercadorias deles eram impregnadas desse cheiro: facões, ma-
chados e tesouras; e também os tecidos de algodão, as redes. Nossos pais e avós
não tinham nariz de branco. Reconheciam de longe o cheiro nauseante das
ferramentas de metal. Consideravam-no perigoso e o temiam, porque os fazia
tossir e adoecer logo depois que as pegavam.27
Os velhos, as mulheres e as
crianças morriam desse sopro cheiroso muito depressa. Por isso o chamaram
poo pë wakixi, a fumaça do metal. Pensaram que era essa a origem das epide-
mias xawara que os devoravam.28
Naquele tempo, nossos antigos sabiam pou-
co dos brancos. Não conheciam o cheiro deles, nem o de seus objetos. Por isso
aqueles odores lhes pareceram tão intensos e assustadores. Era para eles como
quando um jovem caçador é surpreendido pela primeira vez pelo cheiro de um
bando de queixadas na mata! Eles nunca tinham cheirado nada parecido com
aquilo, e isso os deixava muito preocupados.
Naquela época, os brancos também distribuíam grandes quantidades de
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cortes de tecido vermelho. Os homens faziam tangas com ele. Mas esse tecido
de algodão também era muito perigoso. Pouco depois de receber um corte
dele, as pessoas começavam a tossir e seus olhos infeccionavam.29
Por isso os
tecidos foram chamados de th
oko kiki, coisas da tosse. São bens de troca ma-
léficos, produzidos pelos antigos brancos em terras afastadas, com o algodão
de árvores de epidemia xawara hi.30
A imagem deles aparecia aos olhos dos
antigos xamãs que combatiam sua doença na forma de farrapos de tecido de
um vermelho intenso. Hoje, usamos bermudas e outras roupas.31
Mas ainda
desconfiamos das peças de algodão vermelho.32
O mal delas castigou muito
nossos antepassados. Quando os brancos as rasgavam, saía uma fumaça en-
joativa que deixava todos doentes. O peito de nossos pais e de nossos avós era
fraco demais para resistir a ela, e a tosse os matava depressa. Essa poeira
malcheirosa vinha dos armazéns onde os brancos empilhavam as peças de
pano para guardá-las; era o cheiro da fumaça do motor das máquinas que o
haviam tecido.
O mesmo medo tinham nossos antigos da fumaça dos pedaços de objetos
que os brancos jogavam no fogo. Quando os viam queimando revistas, por exem-
plo, pensavam: “A fumaça dessas peles de imagens, com seus desenhos vermelhos
e pretos, é perigosa! Vai nos cortar a garganta e machucar o peito. Sua tosse vai
acabar nos matando!”. Temiam também a fumaça de tabaco queimado que os
forasteiros engoliam sem parar.33
Na verdade, todos os objetos dos brancos afe-
tavam nossos maiores com seu poder de doença: os facões, os tecidos, os papéis,
os cigarros, os sabões e as coisas de plástico. Sua fumaça estranha se espalhava
entre eles, e todos os que viessem a respirá-la muito de perto se punham logo a
tossir e a vomitar.34
Sem remédios, os matava muito depressa. Até as coisas de
árvores de canto que os forasteiros chamavam de gaita faziam as pessoas adoe-
cerem! Quando as distribuíam, todos os rapazes tentavam soprar nelas por di-
versão, como se fossem flautas purunama usi. Logo em seguida começavam a
sentir dor de garganta e os espíritos da tosse passavam a dilacerar-lhes o peito.35
Assim foi. Os objetos dos brancos eram muito perigosos para os nossos antigos.
Eles não os conheciam e jamais tinham visto nada assim. Tinham nascido muito
longe das cidades e das fábricas, no meio da floresta. Por dentro, seu corpo era
muito vulnerável às fumaças de todas essas mercadorias.
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Mais tarde, recebemos em Marakana a visita de outros brancos da Inspe-
toria. Trouxeram várias espingardas para nos dar de presente. Deram uma, no-
vinha, a meu padrasto, que era o grande homem de nossa casa. Foram tratados
por nossos maiores como amigos, e ficaram conosco algum tempo, como con-
vidados. Então, seu chefe, que se chamava Oswaldo, começou a querer uma de
nossas mulheres. Desejava uma das moças da gente de Sina th
a, cuja casa era
um pouco a jusante da nossa.36
Eu a chamava de irmã. Ela acabara de ter a pri-
meira menstruação. Oswaldo morava numa pequena cabana que a gente de
Sina th
a tinha construído para ele nas imediações. Ele começou a oferecer car-
ne de caça e farinha de mandioca aos pais da moça, como nós fazemos para
obter uma esposa. A mente dele estava fixada na beleza da menina. Ele queria
mesmo copular com ela. Insistia cada vez mais para tê-la. Meu padrasto teria
concordado em cedê-la, temendo a ira dele se recusasse, mas as pessoas mais
velhas de Sina th
a eram contra. Os pais e avós da jovem não queriam aquilo de
jeito nenhum. Sabiam que o branco jamais ficaria com ela na floresta. Tinham
receio de que ele a levasse rio abaixo, e que acabasse por abandoná-la na cidade
depois de algum tempo.37
Sabiam que nunca mais iriam revê-la. Além disso, um
rapaz de sua casa já a tinha pedido em casamento.
No começo, Oswaldo esforçou-se por demonstrar amizade por todos. Seus
lábios sorriam por qualquer razão. Acabou se irritando, porém, com a persis-
tente recusa à sua vontade. Começou a fazer reclamações o tempo todo. Depois,
certa vez, surpreendeu a moça deitada na rede do seu jovem prometido. O
desejo dele se transformou imediatamente em fúria. Juntou suas coisas e foi
embora sem dizer uma palavra. Desceu o rio com a raiva plantada no peito.
Ninguém ouviu mais falar dele por um tempo. Certo dia, porém, ele voltou à
casa dos Sina th
a. Pediu de novo a moça aos pais. Dessa vez, já não sorria. Tinha
o rosto crispado e hostil. Diante de mais uma recusa, pôs-se a ameaçar o pessoal
da casa com fúria: “Quero essa mulher já! Se não a derem para mim, faço todos
morrerem!”. Nossos antigos eram valorosos e não se deixaram impressionar
nem um pouco por aquela raiva vinda de seu desejo de copular!38
Não tinham
a menor intenção de deixá-lo levar a moça e não cederam. Ninguém descon-
fiava de que Oswaldo dizia a verdade e tinha mesmo decidido se vingar. Assim
foi. A gente de Sina th
a não deu a devida importância às ameaças dele.
Alguns deles me contaram que, cada vez mais enfurecido, ele enterrou
perto da casa, durante a noite, uma caixa de metal contendo uma poderosa
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fumaça de epidemia. No dia seguinte, o calor do sol foi intenso e a caixa es-
quentou debaixo da terra. Após algum tempo, o veneno fez explodir a tampa
e deixou escapar uma fumaça espessa que invadiu tudo. Mas meu padrasto me
disse que não tinha acontecido assim. Contou-me que Oswaldo, para se vingar,
chamou o namorado da moça a um lugar onde tinha escondido um embrulho
no chão. Saía dele uma corda reta comprida, à qual ateou fogo, com folhas
secas amarradas numa pequena vara. Assim que o fogo começou a se propagar,
Oswaldo correu para um lugar seguro. Pouco depois, o pacote explodiu debai-
xo da terra, como um enorme tiro de espingarda. Torrões de terra foram lan-
çados em todas as direções e uma densa nuvem de fumaça envolveu de repen-
te a casa de Sina th
a.39
Apavorados com a explosão, seus moradores, inquietos,
se perguntavam o que aconteceria com eles.
Certo tempo depois, Oswaldo fugiu, vociferando em sua língua de fantas-
ma. Ninguém entendeu o que dizia. Porém, pouco tempo após sua partida, todos
começaram a morrer em Sina th
a, um atrás do outro. Isso aconteceu durante
uma festa reahu. As mulheres ainda estavam ralando a mandioca dos beijus que
seriam distribuídos aos convidados com carne moqueada. De repente, vários
anciãos adoeceram e um deles acabou morrendo. O cadáver foi embrulhado
pelos seus num saco de folhas de palmeira e amarrado no tronco de uma peque-
na árvore na floresta.40
Choraram o morto e acabaram de preparar as provisões
do reahu, que distribuíram às pressas entre seus convidados, para sua viagem de
retorno. Entretanto, as crianças começaram a arder em febre. Em seguida, foram
todos os moradores da casa atingidos pelo mal. Então, tomados de pânico, os
que ainda podiam fazê-lo fugiram correndo pela floresta, para todos os lados.
A fumaça de Oswaldo não era uma mera doença da tosse. As vítimas,
queimando de febre, tinham coceiras insuportáveis e sua pele se desfazia em
pedaços. Elas não ficavam doentes por muito tempo, morriam logo, uma de-
pois da outra.41
Não demorou para haver cadáveres por todos os lados na casa
de Sina th
a, tombados no chão ou encolhidos em suas redes. Muitos também
morreram subitamente nas roças, na floresta ou na beira do rio. Os espíritos
xawarari da epidemia devoraram com voracidade um grande número de mu-
lheres, velhos e crianças, bem como vários xamãs. A moça que Oswaldo tanto
desejava tampouco escapou. Foi o que me relataram mais tarde os poucos
adultos que tinham conseguido fugir e sobreviver a essa epidemia. Passado
algum tempo, voltaram para casa e encontraram os cadáveres em putrefação
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por toda parte. Então recolheram e incineraram os ossos de seus parentes de-
funtos e não pararam de chorar durante todo o tempo que passaram enchendo
um grande número de cabaças com as cinzas. Mas a fumaça das piras desses
mortos de epidemia também era perigosa e vários deles vieram por sua vez a
falecer. Era apavorante! Os raros sobreviventes, em prantos, foram tomados
por uma profunda raiva de luto. Resolveram se vingar de Oswaldo, que tinha
fugido em estado de homicida õnokae logo depois de fazer estourar sua fuma-
ça de epidemia.42
Buscaram-no, para flechá-lo, até no posto dos brancos da
Inspetoria, em Ajuricaba, a jusante.43
Em vão. Ele deve ter se escondido em
Manaus e nunca mais retornou à nossa floresta.
Assim nossos maiores foram dizimados pela primeira vez. Antes dessa
epidemia, ainda eram muito numerosos. Hoje, restam poucos.44
Somente a
gente de Yoyo roopë conseguiu escapar dessa epidemia, liderada por meu pa-
drasto. Oswaldo tinha amizade por ele. Sempre lhe trazia presentes. Contou-me
que, quando o pessoal de Sina th
a começou a adoecer e Oswaldo estava a pon-
to de embarcar em sua canoa a motor para escapar, ele o alertou dizendo: “Vá
embora deste lugar! Não chegue perto dessas pessoas, ou ficará contaminado
também! Vão todos morrer! Estou muito furioso com eles! Deixe que morram,
não volte à casa deles! Alerte os seus e se refugiem na floresta, bem longe, senão
vocês também vão desaparecer!”. Tendo ouvido essas palavras, meu padrasto
logo começou a incentivar as pessoas de nossa casa a fugir: “A epidemia xawa-
ra está perto! Precisamos abandonar tudo e partir ao alvorecer! Não devemos
ir chorar os mortos de Sina th
a, ou morreremos também!”. Contudo, no dia
seguinte, alguns hesitaram em partir. Para acabar com a indecisão deles, meu
padrasto ateou fogo à nossa casa. Era um grande homem, muito valoroso mes-
mo! Foi assim que deixamos a região de Marakana, às pressas. Então ficamos
viajando, de acampamento em acampamento, descendo o rio Demini até bem
longe. Ficamos escondidos na floresta durante várias luas e, por fim, voltamos
a nos instalar em nosso local de Th
ooth
oth
opi, a alguma distância de Marakana.
Se não tivéssemos fugido, a maioria de nós também teria morrido por causa
dessa epidemia. Apenas alguns dos nossos morreram, afinal, porque durante
a viagem, e contrariando a opinião de meu padrasto, tinham voltado para bus-
car mandioca em nossas roças velhas, passando por Sina th
a.
Com que Oswaldo fez explodir essa epidemia? Eu não sei, mas os brancos
devem saber! Nossos ancestrais desconheciam a febre ardente dessas fumaças
de epidemia. Seus corpos eram frescos como a floresta em que sempre viveram,
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sem remédio nem vacina. Talvez Oswaldo tenha posto fogo no pó que usam
para explodir grandes rochas?45
Seja como for, bastou que nossos antigos ina-
lassem essa fumaça desconhecida para morrerem todos, como peixes que ain-
da não conhecem o poder letal das folhas do veneno de pesca koa axihana. Foi
assim, perto de Marakana, que tomamos conhecimento da potência da epide-
mia xawara dos brancos. Entendemos então o quanto eram perigosos para nós!
Agora, já faz muito tempo. Apesar disso, os sobreviventes ainda se lembram
da fumaça que Oswaldo espalhou por vingança. Falam disso até hoje com seus
netos. Não queremos mais passar por tamanho sofrimento. Já foram demais
os nossos que morreram das epidemias xawara espalhadas pelos brancos. Nós,
que somos o que resta de nossos maiores, queremos voltar a ser tão numerosos
quanto eles foram antigamente. Não queremos mais ficar morrendo antes da
idade. Queremos nos extinguir só quando tivermos nos tornado velhos de
cabeça branca, já encolhidos, descarnados e cegos. Queremos que o ser da
morte, que chamamos Nomasiri, e o da noite, Titiri, só nos façam desaparecer
quando tiver realmente chegado a hora. Então, ficaremos felizes de morrer,
pois teremos vivido bastante tempo, como acontecia com nossos antepassados,
antes de encontrarem os brancos. Em Marakana, os nossos parentes eram
muito numerosos e gozavam todos de plena saúde quando foram dizimados
de repente — mulheres, crianças e velhos. Por isso suas mortes me enfurecem
até hoje. Essas palavras de luto existem em mim desde a minha infância, e é
delas também que me vem a força para falar duro com os brancos.
Quando viram aqueles forasteiros pela primeira vez, nossos maiores acha-
ram que fossem fantasmas. Ficaram com muito medo, e disseram a si mesmos:
“Devem ser os fantasmas dos mortos que voltam entre nós!”.46
Mais tarde, en-
tenderam que podia tratar-se dos ancestrais de Hayowari que Omama havia
transformado em estrangeiros napë. Pensaram então que aqueles habitantes de
terras longínquas deviam ter retornado à floresta por generosidade, para trazer
suas mercadorias para os Yanomami, que não possuíam nenhuma.47
Hoje, nin-
guém mais pensa nada disso! Vimos os brancos espalharem suas epidemias e
nos matarem com suas espingardas. Vimo-los destruírem a floresta e os rios.
Sabemos que podem ser avarentos e maus e que seu pensamento costuma ser
cheio de escuridão. Esqueceram que Omama os criou. Perderam as palavras de
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seus maiores. Esqueceram o que eram no primeiro tempo, quando eles também
tinham cultura.48
Omama depositou a espuma com a qual criou os antigos brancos muito
longe de nossa floresta. Deu-lhes uma outra terra, distante, para nos proteger
de sua falta de sabedoria. Mas eles copularam sem parar e tiveram mais e mais
filhos. Então, foram tomados de euforia, fabricando um sem-número de mer-
cadorias e máquinas. E acabaram achando sua própria terra apertada. Ainda
guardavam de seus avós antigas palavras acerca dos habitantes de Hayowari e
sua floresta. Então declararam a seus filhos: “Existe, bem longe, uma outra
terra, muito bonita, onde há muito tempo Omama criou os nossos antepassa-
dos. Os habitantes da floresta dos quais se originaram ainda vivem lá. Não são
outra gente diferente de nós!”. Tais palavras devem ter se espalhado entre os
brancos de antigamente, já que acabaram atravessando o grande lago que os
separava de nós. Navegaram nele durante várias luas, em grandes canoas. Es-
caparam do vendaval e dos seres maléficos que povoam o centro dessas águas.
E, por fim, conseguiram retornar a esta terra do Brasil.
Contudo, as verdadeiras palavras de Omama já não existiam neles havia
muito tempo. Foi seu irmão mau, Yoasi, criador da morte, que os conduziu até
nós, como um pai guia seus filhos. Os ancestrais que os brancos chamam de
portugueses eram mesmo filhos de Yoasi. Mal haviam chegado, já começaram
a mentir aos habitantes da floresta: “Somos generosos, e somos seus amigos!
Vamos lhes dar mercadorias e compartilhar nossa comida! Viveremos com
vocês e ocuparemos esta terra juntos!”. Depois, conversaram entre eles e co-
meçaram a vir, cada vez mais numerosos, para a terra do Brasil. No começo,
seduzidos pela beleza da floresta, mostraram-se amigos de seus habitantes. Em
seguida, começaram a construir casas. Foram abrindo roças cada vez maiores,
para cultivar seu alimento, e plantaram capim por toda parte, para o seu gado.
Suas palavras começaram a mudar. Puseram-se a amarrar e a açoitar as gentes
da floresta que não seguiam suas palavras. Fizeram-nas morrer de fome e can-
saço, forçando-as a trabalhar para eles. Expulsaram-nas de suas casas para se
apoderar de suas terras. Envenenaram sua comida, contaminaram-nas com
suas epidemias. Mataram-nas com suas espingardas e esfolaram seus cadáveres
com facões, como caça, para levar as peles para seus grandes homens. Os xamãs
conheciam todas essas antigas palavras. Tinham-nas ouvido ao fazerem dançar
a imagem desses primeiros habitantes da floresta.49
Contam os brancos que um português disse ter descoberto o Brasil há
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253
muito tempo.50
Pensam mesmo, até hoje, que foi ele o primeiro a ver nossa
terra. Mas esse é um pensamento cheio de esquecimento! Omama nos criou,
com o céu e a floresta, lá onde nossos ancestrais têm vivido desde sempre.
Nossas palavras estão presentes nesta terra desde o primeiro tempo, do mesmo
modo que as montanhas onde moram os xapiri. Nasci na floresta e sempre
vivi nela. No entanto, não digo que a descobri e que, por isso, quero possuí-la.
Assim como não digo que descobri o céu, ou os animais de caça! Sempre esti-
veram aí, desde antes de eu nascer. Contento-me em olhar para o céu e caçar
os animais da floresta. É só. E é esse o único pensamento direito. Antigamente,
nossos maiores não ficavam se perguntando “será que os brancos existem?”.
Como eu disse, seus xamãs já faziam descer a imagem dos ancestrais desses
forasteiros muito antes de seus filhos chegarem até nós. As imagens dos antigos
brancos dançavam para eles, que cantavam e dançavam imitando suas palavras
enroladas. As pessoas comuns escutavam essa língua de fantasma com curio-
sidade, e pensavam: “Gostaria muito de conhecer essa gente outra! Como se-
rão? Será que vou poder vê-los um dia?”.
Nossos espíritos xapiri viajam para muito longe, até os confins da terra e
do céu. Por isso nossos maiores também conheciam desde sempre o grande lago
que os brancos atravessaram. Costumavam fazer dançar sua imagem com as dos
seres da tempestade e dos redemoinhos que o povoam. Suas águas provêm do
grande rio que irrompeu do mundo subterrâneo em Hayowari, que eles chama-
vam Hw
ara u.51
Foi com sua espuma que Omama criou os forasteiros. De modo
que nossos antigos xamãs já falavam dos brancos muito antes de eles nos encon-
trarem na floresta. Seus antepassados não descobriram esta terra, não! Chegaram
como visitantes! Porém, logo depois de terem chegado, não pararam mais de
devastá-la e de retalhar sua imagem em pedaços, que começaram a repartir entre
si. Alegaram que estava vazia para se apoderar dela, e a mesma mentira persiste
até hoje. Esta terra nunca foi vazia no passado e não está vazia agora! Muito
antes de os brancos chegarem, nossos ancestrais e os de todos os habitantes da
floresta já viviam aqui. Esta é, desde o primeiro tempo, a terra de Omama. Antes
de serem dizimados pelas fumaças de epidemia, os nossos eram aqui muito nu-
merosos. Naqueles tempos antigos, não havia motores, nem aviões, nem carros.
Não havia óleo nem gasolina. Os homens, a floresta e o céu ainda não estavam
doentes de todas essas coisas.
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11. A missão
Xawara: a epidemia canibal.
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255
Eles são completamente selvagens, não usam nenhuma roupa e estão
muito enraizados na bruxaria e na adoração ao demônio […].
V. Bartlett, 1961
New Tribes Mission
Meus maiores encontraram pela primeira vez a gente de Teosi numa visi-
ta aos Xamath
ari instalados perto do posto Ajuricaba, a jusante, no rio Demini.1
Esses brancos, que eles nunca tinham visto, disseram que queriam conhecer
sua casa de Marakana. Começava a estação chuvosa e os rios estavam enchen-
do. Os forasteiros os convidaram então a entrar num pesado barco a motor e
a subir o Demini com eles. Passados alguns dias, chegaram à foz do rio Tooto-
tobi. Todos os nossos estavam reunidos num grande acampamento na floresta.
Éramos muito numerosos naquela época. Havia tapiris de folhas ruru asi es-
palhados por toda parte. Foi meu padrasto que me contou isso. Os nossos
antigos tinham acabado de lançar uma incursão guerreira contra a gente do
alto rio Catrimani.2
Temendo represálias, tinham deixado Marakana e se re-
fugiado na floresta por algum tempo.3
Apesar disso, os brancos insistiram em
ir à nossa casa. Alguns homens acabaram concordando em acompanhá-los,
para pegar cachos de banana em suas roças. Os brancos foram, assim, visitar
Marakana e, vários dias depois, retornaram a nosso acampamento.4
Depois,
sem explicação alguma, desceram o rio em direção ao posto Ajuricaba. Várias
luas passaram. Foram então os soldados da Comissão de Limites que, por sua
vez, vimos aparecer no rio Toototobi. Trabalharam nas terras altas por bastan-
te tempo, para plantar grandes pedras nas nascentes dos rios, e então foram
embora eles também, sem uma palavra, rio abaixo.5
Foi-se uma estação seca, chegou depois outra. Então, a gente de Teosi
acabou voltando.6
No começo, eram somente visitantes. Ainda não tinham
aberto o caminho de avião nem construído suas casas em nossa floresta. Os
homens mais velhos apenas os convidaram a amarrar suas redes nos esteios de
nossa casa. Então, pela primeira vez, deram-nos a ouvir os cantos de Teosi
numa máquina, e em seguida recitaram por um longo tempo as palavras dele.7
Assim foi. Naquela época, os missionários ainda moravam longe de nós. Esta-
vam instalados no posto Ajuricaba, junto com o pessoal da Inspetoria e os
Xamath
ari.8
Mas o chefe de posto não gostava deles.9
Por isso resolveram aban-
donar os Xamath
ari e fazer amizade com nossos antigos, dizendo que queriam
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256
morar em nossa terra. Porém, desde a primeira visita daquela gente de Teosi a
Marakana, muitos dos nossos tinham sido devorados pela fumaça de epidemia
do branco do spi de que falei, Oswaldo.10
Nossos maiores tinham quase todos
falecido. Tínhamos virado outra gente. Na volta de uma festa reahu em Warë-
pi u,11
em um grupo das terras altas que também tinha sido dizimado pela
epidemia, meu padrasto tinha decidido ficar morando em nossa casa de Th
oo-
th
oth
opi. Todos os sobreviventes de Wari mahi o seguiram. Os de Sina th
a, por
sua vez, permaneceram um pouco a montante, próximo de um antigo acam-
pamento da Comissão de Limites. Então, após essa nova estadia entre nós, a
gente de Teosi voltou para Ajuricaba. Dessa vez, no entanto, não demoraram
a subir novamente o rio. Escolheram se instalar perto da roça de Th
ooth
oth
opi,
aberta por meu padrasto. Deram ao lugar, em sua língua de branco, o nome de
“Toototobi”. Acharam a floresta bela ali. Começaram a construir suas casas e
a plantar para o próprio sustento.12
Foi assim que a gente de Teosi começou a
viver junto de nós.
No começo, só sabiam sua língua de fantasma. Às vezes, bem que tentavam
cantar ou falar como nós, mas não compreendíamos grande coisa do que que-
riam dizer e isso nos fazia rir!13
Contudo, aos poucos, começaram a desenhar
nossas palavras em peles de papel para poderem imitá-las. E assim, passado
algum tempo, conseguiram falar com a língua mais direita. Foi então que co-
meçaram a nos amedrontar com as palavras de Teosi, e a nos ameaçar constan-
temente: “Não masquem folhas de tabaco! É pecado, sua boca vai ficar queima-
da! Não bebam o pó de yãkoana, seu peito ficará enegrecido de pecado! Não
riam e não copulem com as mulheres dos outros, é sujo! Não roubem o que lhes
é recusado, é errado! Teosi só ficará satisfeito com vocês se responderem a ele!”.14
Era assim mesmo. Repetiam sem parar o nome de Teosi, em todas as suas falas:
“Aceitem as palavras de Teosi! Retornemos juntos para Teosi! Foi Teosi quem
nos enviou! Teosi nos mandou para proteger vocês! Não recusem, ou queimarão
após a morte no grande fogo de Xupari!15
Se seguirem Satanasi16
e suas palavras,
vão queimar lá com ele e vai ser de dar dó! Se, ao contrário, vocês todos imita-
rem Teosi como nós, um dia, quando ele decidir, Sesusi17
descerá até nós e po-
deremos vê-lo aparecer nas nuvens!”.
Eram palavras muito diferentes das de nossos antigos. Nunca tínhamos
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escutado tais coisas! Nada sabíamos de Teosi nem de Satanasi. Nem sequer
havíamos jamais ouvido seus nomes ser pronunciados, tampouco o de Sesusi.
Só conhecíamos as palavras de Omama e de Yoasi. Contudo, naquele tempo,
nossos antigos tinham muito receio dos brancos. Muitos deles tinham acabado
de ser devorados pela fumaça de epidemia de Oswaldo. Acharam que a gente
de Teo­si podia estar dizendo a verdade. Ficaram inquietos ao ouvir aquelas
palavras desconhecidas. Por isso começaram todos a imitá-los, inclusive os
grandes homens e os xamãs. Dava dó de ver! Ainda penso nisso muitas vezes,
até hoje. A gente de Teosi demonstrava abertamente sua raiva contra os ho-
mens que, apesar de tudo, tinham coragem de continuar fazendo dançar os
espíritos. Diziam-lhes sem parar que eram maus e que seu peito era sujo. Cha-
mavam-nos de ignorantes. E ameaçavam sempre: “Parem de fazer dançar seus
espíritos da floresta, isso é mau! São demônios que Teosi rejeitou! Não os cha-
mem, eles são de Satanasi! Se continuarem assim ruins e persistirem em não
amar Sesusi, quando vocês morrerem serão jogados no grande fogo de Xupari!
Vão dar dó de ver! Sua língua vai ressecar e sua pele vai estourar nas chamas!
Parem de beber o pó de yãkoana! Teosi vai fazê-los morrer! Vai quebrá-los com
suas próprias mãos, porque é muito poderoso!”.
Essas más palavras, repetidas sem descanso, acabaram assustando os xa-
mãs, que não mais ousaram beber yãkoana, nem cantar durante a noite. Ape-
nas se perguntavam quem poderia ser Teosi para querer maltratá-los daquele
modo. Omama nunca tinha dito coisas assim. Nossos maiores só conheciam a
beleza e a força dos xapiri e preferiam seus cantos a qualquer outra coisa. Não
entendiam por que os brancos tinham começado a falar tão mal com eles. As
novas palavras que diziam os deixavam confusos e ansiosos. Então, um a um,
começaram a rejeitar seus próprios espíritos, que foram embora. Os últimos
grandes xamãs não tinham coragem de chamá-los nem mesmo para curar os
doentes. Emudeceram eles também. Diante disso, todos os outros moradores
de nossas casas, pouco a pouco, acabaram aceitando as palavras de Teosi.
Assim que os missionários terminaram de construir suas casas em Tooto-
tobi, foram morar lá com suas mulheres e filhos. A partir de então, começamos
todos a imitar as palavras de Teosi exatamente como eles faziam. Todos os dias,
a gente de nossa casa se reunia ao chamado deles, mesmo as crianças e os velhos.
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Era de manhã muito cedo. Fazia frio e sentíamos sono, mas tínhamos de ir as-
sim mesmo!18
Cada qual pensava consigo mesmo: “Se eu não imitar Teosi com
os outros, vou arder sozinho no fogo de Xupari!”. Assim, apesar do sono, aca-
bávamos descendo de nossas redes. Éramos muito dóceis naquele tempo! Se-
guíamos tudo o que nos dizia o pessoal de Teosi. Quando estávamos todos
reunidos, os brancos se punham a cantar: “Quem criou o sol? Não fui eu que o
criei! Foi Teosi quem o criou! Quem criou a lua? Não fui eu que a criei! Foi
Teosi quem a criou! Quem criou a floresta? Não fui eu que a criei! Foi Teosi
quem a criou! Quem criou a caça e os peixes? Não fui eu que os criei! Foi Teo-
si quem os criou!”. Cantavam também que Teosi havia feito existir a terra e o
céu, a luz e a noite, o vento e a chuva. Contavam como havia também dado
vida a Adão e Eva: “Foi Teosi que nos pôs no mundo. Pegou barro, amassou com
as mãos e transmitiu-lhe seu sopro de vida para criar um homem. Seu nome
era Adão. Mais tarde, fez com que dormisse e arrancou-lhe uma costela para
criar uma mulher. Foi também ele que deu filhos às mulheres. Teosi é muito
poderoso! Nós o chamamos de Pai! Ele nos faz felizes. Aceitem as palavras
dele. Mais tarde, ele virá buscar vocês e os levará consigo”.19
Perguntávamos a eles: “Mas onde afinal vive esse que vocês chamam de
Teosi?”. Respondiam: “Mora para além do céu. Está construindo lá nossas ca-
sas. É por isso que ainda não veio nos buscar em pessoa. Mas já nos enviou seu
filho, Sesusi, para lavar a sujeira de nosso peito com seu sangue. É com Teosi
que iremos viver para sempre após a morte. Não morremos de verdade!”.
­
Ouvindo isso, dizíamos a nós mesmos: “Está bem! Vamos imitar Teosi, como
fazem os brancos. Assim nosso peito permanecerá limpo. E, quando desapa-
recermos, iremos morar com ele!”. Os missionários nos falavam de Teosi,
mostrando-nos imagens, dizendo: “Estas são as palavras da Bíblia!”.20
Então,
pensávamos: “Talvez as coisas tenham acontecido como alegam. Estariam di-
zendo a verdade aqueles forasteiros? Talvez as palavras de Teosi sejam mesmo
verdadeiras!”. Era assim que conseguiam nos enganar. Suas palavras desenca-
minhavam nosso pensamento e nos deixavam preocupados. Uma vez reunidos,
depois de termos cantado e escutado os brancos, tentávamos falar com Teosi
um de cada vez, como eles. Todo mundo tinha de fazer isso! Os homens e as
mulheres, tanto os jovens quanto os mais velhos. Primeiro fechávamos os
olhos, com a cabeça entre as mãos.21
Então, falávamos em voz alta, sem medo.
Quando queríamos sucesso na caça, dizíamos: “Pai Teosi, você é bom. Só você
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é generoso. Quero ir caçar hoje. Proteja-me das cobras. Torne suas presas ino-
fensivas. Faça com que fujam quando eu me aproximar. Proteja-me das formi-
gas xiho. Tire a dor da picada delas. Foi você que criou os animais de caça.
Ponha-os no meu caminho na floresta. Todos temos fome de carne. Faça com
que eu encontre uma anta. Vou flechá-la e lhe direi obrigado. Iremos comê-la
todos juntos. Ficaremos de barriga cheia e felizes. E se eu comer anta demais,
proteja-me da diarreia. Se não, envie-me macacos guaribas e mutuns. Irei fle-
chá-los também. Mostre-me um jacaré, para que eu o golpeie. Torne-o covar-
de, para que não me morda caso eu pise nele por descuido. Ou então faça com
que eu descubra pelo menos um jabuti no chão da floresta. Eu falarei ‘obriga-
do’! Faça isso e poderemos achar que você é realmente bom!”.22
Os adultos também falavam com Teosi a respeito das mulheres. Diziam:
“Pai Teosi, você é bom. Sou feliz graças a você. Nenhum outro é tão grande.
Expulse Satanasi para longe de mim quando ele me faz olhar para a mulher de
outro. Impeça-me de escutá-lo quando me diz: ‘Olhe aquela mocinha, é tão
bonita, coma a vulva dela!’. Faça-me copular apenas com minha esposa. Basta
querermos fazer amizade com uma mulher, Satanasi nos torna lúbricos. É mau!
Só você pode fazê-lo recuar. Você tem de me fazer forte!”. Os xamãs também
pediam a Teosi para lavar-lhes o peito: “Pai Teosi, meu peito está sujo. Lave-o
com o sangue de Sesusi. Quando os espíritos xapiri se aproximarem de mim,
expulse-os, mande-os de volta para de onde vieram. É Satanasi que os conduz
e me manda fazê-los dançar. Teosi, quero fazer descer os seus espíritos em
lugar deles. Você, que criou os anjos, envie-os para mim! Só eles são realmente
belos e poderosos”.
Também costumávamos cantar: “Pai Teosi! Amamos seu filho Sesusi.
Quando ele descer do céu, seguiremos seu caminho. Iremos viver com ele na
sua floresta, onde não há feiticeiros inimigos, nem cobras, nem espinhos, nem
formigas kaxi. Cá embaixo, a floresta é hostil. Por isso queremos nos juntar a
você. Assim, não passaremos mais fome, pois na sua casa há pão e café em
abundância. Seremos felizes, comeremos à vontade. Nosso pai Teosi é genero-
so. Sua floresta é magnífica. Vou para junto de Teosi! Na casa dele, não mais
farei o mal. Não comerei a vulva de nenhuma mulher que não seja minha es-
posa. Junto dele, não ficarei mais doente e não morrerei nunca! Tenho medo
de queimar no fogo de Xupari com Satanasi. Apenas os que ignoram a palavra
de Teosi nele perecerão. Eu chegarei à floresta de Teosi! Teosi é muito podero-
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so. Não temo mais os feiticeiros inimigos. Teosi sabe tornar seus malefícios
inofensivos. Por mais que tentem soprar em mim com suas zarabatanas, não
conseguirão mais me matar. Joguei meus temores para longe de mim. Viverei
com meu pai Teosi. Seguirei Sesusi!”.
Essas palavras de Teosi são palavras de outra gente. Não são as de nossos
antepassados. Apesar disso, naquele tempo, nos esforçávamos por repeti-las
sem parar na companhia dos brancos. Às vezes, alguns de nós começavam a
rir às escondidas quando alguém enrolava a língua e os imitava desajeitada-
mente. Eu mesmo zombei assim dos outros muitas vezes! Mas dentro de mim,
pensava: “Devemos dar dó de ver! Fechamos os olhos para falar com Teosi e
não vemos nada. Dirigimo-nos a ele sem nem ao menos saber quem ele é!”. É
verdade, cada um de nós tentava, no fundo do peito, se dirigir a Teosi. Mas por
mais que nossos ouvidos estivessem atentos, não ouvíamos nunca suas pala-
vras. Por isso, naquela época, eu costumava me perguntar: “Com que se pare-
ce a voz de Teosi? Será que um dia vai finalmente responder?”.
Algum tempo depois de ter se instalado em Toototobi, a gente de Teosi
pediu a todos os homens adultos para se reunirem. Então declarou, sem muita
explicação: “É preciso que vocês abram uma longa clareira, que será um cami-
nho de avião. Outros brancos que, como nós, possuem as palavras de Teosi logo
descerão nele!”. Nossos antigos então obedeceram, e começaram a trabalhar sob
a direção de um novo missionário que acabara de chegar, um brasileiro que se
chamava Chico. Os demais eram gente merikano.23
Nossos pais trabalharam
duro mesmo para abrir a pista!24
Por mais que fossem resistentes no trabalho,
dava dó de vê-los derrubando grandes árvores a machadadas, sob o sol escal-
dante, dias a fio. Chico era muito agressivo. Repisava as palavras de Teosi e só
interrompia para dar ordens. Assim que um homem parava para descansar um
pouco, ele gritava, com raiva: “Volte ao trabalho! Não fique sem fazer nada! Se
você não trabalhar, não vai receber nada!”. Era muito penoso. Havia muitas
grandes árvores komatima hi no lugar que os brancos tinham escolhido para
fazer descer seu avião, e o caminho que haviam traçado na floresta era deveras
longo. Muitos de nossos antigos chegaram até a se perguntar se não era um
lugar para acolher a descida de Teosi! Queriam tanto vê-lo com os próprios
olhos! Então, trabalharam sem descanso e sem reclamar. Mas os missionários
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não tinham dito isso, embora não parassem de repetir que um dia Teosi baixa-
ria das alturas do céu. Diziam: “Teosi logo virá nos buscar. Quando ele chegar,
vocês ouvirão o som de uma flauta vindo das nuvens. Por enquanto, ele ainda
está preparando nossas casas e mantimentos para nos receber no céu. É preciso
aguardar! Ele tem muito trabalho, pois nós, gente de Teosi, somos muito nume-
rosos!”. Então, nossos antigos pensavam que talvez aquelas palavras fossem
verdadeiras. Ficavam pensativos, indagando-se: “Teosi vai mesmo descer até
nós? Será logo ou daqui a muito tempo?”. Assim, no dia em que o primeiro avião
da gente de Teosi se aproximou no céu, todos se reuniram, temerosos, atrás dos
missionários, para vê-lo descer na nova pista de pouso. Eles tinham muito me-
do, como no tempo dos aviões da Comissão de Limites, bem antes disso. É
verdade. Nossos maiores ainda não conheciam muito bem os brancos. Tinham
se deixado enganar pelas repetidas palavras dos missionários sobre a vinda de
Teosi. Que nunca tinham explicado para que servia aquele caminho de avião.
Jamais perguntaram a opinião dos nossos. Tinham apenas prometido presentes,
para que parassem de ter medo e trabalhassem.25
Foi Chico, o brasileiro, que começou a nos fazer duvidar das palavras
daqueles brancos. Tínhamos curiosidade, e fazíamos a ele muitas perguntas a
respeito de Teosi: “Que aparência tem ele? Como é o som de sua voz? Como
ele fala?”. A todas as perguntas Chico se limitava a responder sempre a mesma
coisa: “Teosi é Tupã, o Trovão!”.26
Isso nos irritava, pois era uma mentira des-
carada. Sabíamos muito bem que no primeiro tempo a voz sonora de Trovão
tinha exasperado nossos ancestrais, que por fim o flecharam e devoraram!27
Chico se enfurecia com facilidade e falava muito mal conosco. Às vezes, tam-
bém tentava nos assustar. Como na vez em que ficou furioso porque crianças
tinham surrupiado melancias que ele tinha plantado ao longo da pista do avião.
Para desencorajar os pequenos, plantou uma estaca na frente de sua plantação
e amarrou nela uma espingarda, com o gatilho amarrado a um cipó. E declarou
a todos que a arma abriria fogo sobre qualquer um que se aproximasse de suas
melancias. Noutra ocasião, mandou-nos segui-lo até sua roça de milho. Então,
começou a despejar nervosamente um pó branco sobre as espigas das plantas.
Devia ser pó para matar mosquitos e baratas. Depois, ameaçou-nos de novo:
“Agora, se vocês continuarem a roubar meu milho, vão morrer!”. Na mesma
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época ele também gritou, cheio de raiva, com um xamã que recusava as pala-
vras de Teosi: “Vou matá-lo e beber seu sangue! Gosto de beber sangue de Ya-
nomami!”. Mas a bravata, longe de assustar o rapaz, apenas enfureceu a ele e
aos seus.28
Os irmãos dele logo vieram acudi-lo e enfrentaram Chico, gritando
tanto quanto ele. E depois o advertiram: “Se você diz possuir as palavras de
Teosi, não se dirija a nós com palavras tão más. É pecado! E da próxima vez
que você ameaçar matar um dos nossos, não hesitaremos em flechá-lo como
a um inimigo!”.
Certo dia, um grupo de caçadores foi pedir cartuchos a Chico. De má
vontade, ele concordou em lhes dar alguns, antes de esconder o restante.
Tamanha sovinice irritou os homens, pois os missionários, no tempo de suas
primeiras visitas, sempre tinham se mostrado generosos para conquistar sua
amizade. Então resolveram esperar que Chico estivesse de costas para surru-
piar o resto da munição. Quando ele se deu conta, ficou furioso de novo e
começou a berrar: “Vocês todos são maus! Quero que morram!”. Diante de
tanta raiva, meu padrasto decidiu recuperar o que restava dos cartuchos jun-
to aos caçadores. Devolveu-os ao Chico, que acabou se acalmando. Em segui-
da, passaram-se várias luas, e a história já tinha quase sido esquecida. Porém,
de súbito, ficamos todos doentes, abalados por uma violenta epidemia de
sarampo.29
Sem demora vários dos nossos morreram, mais uma vez. Então,
Chico foi embora depressa, para trabalhar em Surucucus, uma outra missão
do pessoal de Teosi, nas terras altas.30
Desesperados e furiosos devido a todas
aquelas mortes, tão pouco tempo depois das de Marakana, os poucos adultos
mais velhos sobreviventes quiseram se vingar. Tinham certeza de que Chico
tinha feito queimar uma fumaça de epidemia para puni-los pelo roubo dos
cartuchos. Achavam que tinha fugido de repente por estar em estado de ho-
micida õnokae e ter medo de os sobreviventes quererem flechá-lo. E era mes-
mo o caso! Mas nenhum daqueles guerreiros jamais tinha matado um bran-
co. Só sabiam flechar seus inimigos na floresta. Hesitaram, e o tempo foi
passando. Acabaram desistindo da vingança. Chico deve a isso o fato de estar
ainda vivo.
Conhecíamos pouco os brancos naquele tempo, como eu disse. Ainda os
temíamos muito. Eles, em compensação, não tinham medo de nós. Com cer-
teza nos achavam bastante dóceis. Deviam mesmo pensar que éramos covardes!
Por isso nos tratavam sem cuidado. Naquela época, antes da epidemia, havia
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dois americanos na missão. O que chamávamos de Kixi se enfurecia muito
rápido, como Chico.31
Ralhava conosco o tempo todo, repetindo: “Vocês estão
sendo enganados por Satanasi! É por causa dele que vocês são ladrões! Vocês
pertencem a ele e vão todos arder no fogo de Xupari!”. Toda essa raiva cessou,
porém, de repente, num dia em que meu padrasto quase o matou. Exasperado
por tantas más palavras de raiva, acabou por golpeá-lo. O missionário ficou
com muito medo e, depois disso, parou de falar conosco daquele jeito ruim.
Isso aconteceu no começo, quando ainda aceitávamos as palavras de Teosi. O
filho mais velho de meu padrasto era ainda criancinha.32
Divertia-se flechando
lagartos e passarinhos nas imediações da missão. De repente, uma de suas
flechinhas ruhu masi   33
foi se fincar no telhado de palha da habitação de um dos
brancos. Para recuperá-la, ele foi buscar uma estaca e encostou-a na parede da
casa. Subiu por ela com cuidado. Quando chegou em cima do telhado, tentou
diversas vezes alcançar a flechinha com a ponta de seu arco, para trazê-la para
junto de si. O missionário, que estava chegando, o viu. Achou que tentava
entrar em sua casa afastando as palmas do telhado. Correu na direção dele aos
berros, e o mandou descer. O menino, assustado, obedeceu, mas nem bem
tocou no solo o homem começou a surrá-lo com um pedaço de pau chato que
tinha pegado no chão.
Não longe dali, perto do rio, meu padrasto e outros homens preparavam
a argila para as paredes de uma nova casa da gente de Teosi. Uma de suas filhas
apareceu de repente, correu até ele e lhe contou, exaltada, o ocorrido: “O bran-
co acabou de bater no meu irmãozinho! A boca dele está sangrando!”. Ao
ouvir essas palavras, meu padrasto saiu correndo em direção à missão. Assim
que viu o sangue de seu filho pequeno, foi tomado de raiva. Lançou-se imedia-
tamente sobre o missionário, brandindo sua enxada. Ele era muito valente, e
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as palavras de Teosi não lhe tinham tirado a coragem! O branco, apavorado,
tentou acalmá-lo: “Espere! Não fique bravo! Devemos conversar juntos com
Teosi!”. Meu padrasto não respondeu. Só tentou bater com a enxada na cabeça
dele! Mas ainda estava longe demais, e não acertou. Tentou então atingi-lo de
novo, mas o missionário, muito apavorado, conseguiu se esquivar do golpe,
repetindo sem parar: “Não bata em mim! Devemos conversar juntos com ­
Teosi!
Vamos conversar com Teosi! Vamos conversar com Teosi!”. Meu padrasto,
ainda enfurecido, acabou jogando a enxada no chão e começou a socar o rosto
do missionário com o punho direito. Este tentou se defender. Mas depois de
receber um soco muito forte no nariz, não foi mais capaz de resistir ao ímpeto
do adversário. A mulher e a filha dele tentaram segurar meu padrasto. Seu filho
pequeno tentava bater-lhe nas costas. Em vão. Ele os empurrou para longe, um
após o outro. No final, estavam todos aos prantos, amedrontados e sem poder
fazer nada. O missionário continuava de pé, em estado de fantasma, e ia desa-
bando aos poucos, gemendo a cada golpe, sem reagir. Por fim, meu padrasto
apanhou um pau para acabar com ele, mas a esposa do branco se agarrou à
arma desesperadamente, para impedi-lo. Foi nesse momento que Chico che-
gou. Voltava de uma visita rio acima, à gente de Sina th
a. Quando viu Kixi
prestes a desabar e meu padrasto brandindo sua borduna, jogou a mochila e
disparou em direção a eles. Segurou meu padrasto pela cintura e gritou: “Não
faça isso! Pare! Pare de bater nele! É seu amigo!”. Foi assim que finalmente
conseguiu conter a raiva dele. Kixi estava em péssimo estado, coberto de sangue
e atordoado pelos socos. Tinha escapado da morte por pouco! Sua mulher o
arrastou em seguida para dentro de casa, para tratar dele. Lá permaneceram
trancados o restante do dia. No dia seguinte, o branco reapareceu, com o rosto
inchado e vários dentes quebrados. Logo depois foi a Manaus para colocar
outros novinhos.
A epidemia de sarampo nos atingiu na missão algum tempo depois do
roubo dos cartuchos de Chico e de meu padrasto ter surrado o missionário. Um
avião chegou. Kixi estava voltando de Manaus com a família. Sua filha pequena
tinha pegado a doença lá sem ele saber. Só percebeu após chegarem à nossa
floresta.34
Foi o que ele nos disse depois. Mas quem sabe ele também desejou
nossa morte, como o Chico? Ele devia estar mesmo furioso depois do que o
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meu padrasto havia feito com ele! Vários de nós pensamos, então, que ele po-
deria ter trazido uma fumaça de epidemia dentro de uma caixa de ferro e po-
deria tê-la aberto entre nós para se vingar. Mas ninguém viu nada explodir
como no tempo de Oswaldo, em Marakana.35
Não sei! É também verdade que
Kixi nos alertou a respeito da doença da filha. Assim que percebeu que ela es-
tava com febre, começou a nos dizer: “Não se aproximem mais de minha filha!
Fiquem longe dela! Ela está doente, tem sarampo! Vai contaminar todos vocês!
Vocês vão morrer!”. Mas já era tarde demais. Alguns de nós a tinham carregado
no colo, outros tinham brincado com ela. Chico, em compensação, nunca disse
uma palavra sequer. Jamais tentou nos avisar. É também por esse motivo que,
mais tarde, os sobreviventes da epidemia quiseram flechá-lo.
Essa epidemia começou a nos devorar durante uma festa reahu. Nossos
antigos tinham chamado à nossa casa de Toototobi gente de Warëpi u, que
vivia rio acima, nas terras altas. Eles não tinham mandioca suficiente em suas
roças para a festa que pretendiam dar. Meu padrasto os tinha convidado para
se servirem das roças dele. Tinha também proposto que viessem caçar conosco,
para juntar a carne necessária.36
De modo que, assim que os visitantes chega-
ram, todos os homens da casa partiram para uma caçada de vários dias. Mas
os caçadores acabaram voltando muito mais cedo do que o previsto. Só tinham
flechado duas antas. Na mata, vários deles tinham começado a arder em febre.
O mesmo acontecia em nossa casa. Foi assim que a doença começou a escure-
cer nossos pensamentos.
Apesar disso, os preparativos para a festa prosseguiram durante alguns
dias. Um grupo de mulheres foi para as roças colher mandioca. Descascaram-
-nas e as empilharam num lado da praça central e depois cobriram com folhas
de bananeira. No dia seguinte, começaram a ralar a mandioca para preparar a
farinha dos beijus a serem servidos como acompanhamento da carne moquea­
da. A essa altura, a febre já tinha atingido a maior parte das pessoas da casa. No
dia seguinte, só havia um punhado de mulheres que ainda tinham forças para
assar os beijus. Muitos pensaram que podia ser uma simples doença da tosse e
não se preocuparam muito. Mas estavam enganados. Era sarampo mesmo, que
é muito mais perigoso para nós. Nós o chamamos sarapo a wai.37
Quase todos
foram contaminados em pouco tempo, tanto os nossos quanto os convidados
de Warëpi u. Logo depois a doença se espalhou para Sina th
a. Então, mais uma
vez, como tinha acontecido em Marakana, as pessoas começaram a morrer
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uma atrás da outra, dentro de casa e na floresta; tanto crianças quanto adultos,
homens e mulheres. A pele deles ficava coberta de placas avermelhadas, e eles
ficavam se arranhando, tentando acalmar a coceira, já em carne viva. Perdiam
todo o cabelo e o rosto ficava inchado. Eram tomados por uma tosse forte e
constante; ardiam em febre.
No começo da epidemia, o missionário mandou os que ainda não tinham
sido atingidos cortar lenha em grande quantidade, para aquecer os doentes.
Assim, com os demais adolescentes ainda saudáveis, passei meu tempo rachan-
do a machadadas troncos de árvores mortas nas roças. Porém, logo fui eu mes-
mo pego pela doença. Aquela epidemia xawara era muito voraz mesmo! Tinha
muita fome de carne humana e quase me matou também. Fiquei tão mal que
acabei perdendo a consciência. Virei fantasma e a febre me queimava por toda
parte. Comecei a ver em sonho o peito do céu desabando sobre a terra.38
Os
xamãs de nossa casa trabalhavam freneticamente para segurá-lo. Mas nada
adiantava. O céu balançava com estrondo e continuava rachando e se desman-
chando de ponta a ponta. Pedaços enormes se soltavam com estalos ensurde-
cedores. Depois caíam devagar sobre mim, brilhando num clarão ofuscante.
Todos os moradores de nossa casa choravam e até os xamãs gritavam de medo.
Eu tinha certeza de que o céu estava desabando sobre a floresta e iria esmagar
todos os humanos. Comecei também eu a berrar de pavor. Mas, de repente,
voltei a mim. Então, mais calmo, exclamei em voz alta: “Que pavor! Acabo de
ver o céu quebrando e caindo sobre nós!”. Fiquei de fato muito doente naquela
epidemia! Apesar disso, no final consegui escapar da morte. O pessoal de Teosi
chamou seu avião com um médico e remédios para cuidar de nós.39
Foi desse
modo que minha irmã mais velha e eu conseguimos sarar. Meu padrasto tam-
bém sobreviveu, embora tenha realmente chegado a agonizar. Todos os nossos
parentes já estavam aos prantos em torno dele e tinham preparado um saco de
folhas e estacas, para colocar seu cadáver na floresta.40
Foi o que aconteceu. Eu
ainda não conhecia bem os xapiri naquela época, mas penso que devem ter me
protegido mesmo assim.41
É certamente graças a eles que ainda estou aqui para
contar esta história e é também por isso que, mais tarde, me tornei xamã.
Meu tio,42
de quem eu gostava muito, foi o primeiro a adoecer em Tooto-
tobi, antes de a epidemia se espalhar por toda a nossa casa. O missionário o
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tinha advertido de que a filha estava doente. Mas ele não lhe deu ouvidos e se
aproximou dela para lhe falar com carinho. Assim, foi ele o primeiro contami-
nado. Depois morreu muito depressa, antes de todos os outros. Ficou tão doente
que já tinha virado fantasma. Os xamãs fizeram de tudo para tentar curá-lo. Mas
suas mãos tiveram de desistir, e não conseguiram proteger a imagem dele. En-
quanto trabalhavam, tentei me aproximar dele várias vezes, porque estava mui-
to aflito com sua doença. Mas os outros adultos me impediram. De modo que
eu nunca mais o vi. Só escutei, de longe, a notícia de sua morte. A partir de
então, me senti realmente só. Esse tio era muito afetuoso comigo e me protegia.
Carregava-me no colo e costumava me dar comida. A morte dele me deixou
muito triste mesmo. Eu não parava mais de chorar. Os homens mais velhos da
nossa casa acharam, no começo, que feiticeiros inimigos do alto rio Mucajaí,
descendentes da gente de Amikoapë, tinham soprado nele pós maléficos, antes
de lhe quebrarem os ossos.43
Mas não era isso. Logo depois de seu fantasma ter
ido para as costas do céu, outras pessoas da aldeia foram ficando doentes e
morreram do mesmo modo que ele. Foi mesmo a epidemia xawara que o ma-
tou. É por isso que, se eu fosse adulto, acho que teria flechado o missionário
para vingar a morte dele. Mas eu não passava de um menino e tinha muito
medo dos brancos. Mais tarde, enquanto crescia, nunca deixei de pensar nesse
tio. Ele tinha me feito refletir, dizendo: “Quando eu morrer, você deve ir embo-
ra para junto dos brancos. Não fique nesta casa, ninguém mais aqui será seu
amigo de verdade. São gente outra!”. Sempre guardei essas palavras comigo. Foi
lembrando delas que, mais tarde, já adolescente, deixei minha aldeia de Tooto-
tobi e desci o rio, para trabalhar no posto de Ajuricaba.
Depois de meu tio, foi minha mãe que a epidemia devorou. Começou a
arder em febre. Ainda era jovem e muito forte. No entanto, morreu em alguns
dias. Aconteceu tão de repente que nem pude cuidar dela. Eu mesmo estava
em estado de fantasma, e não a vi morrer. Ainda hoje me recordo disso com
uma grande dor. Os missionários, poupados por sua própria epidemia, puse-
ram minha mãe na terra à minha revelia, em algum lugar perto da missão
Toototobi. Minha irmã mais velha e nossos demais parentes também estavam
muito doentes. Meu padrasto agonizava. Nenhum de nós pôde impedi-los.
Enterraram do mesmo modo muitos dos nossos. Eu soube disso bem mais
tarde, depois de ficar curado. Mas nunca consegui saber onde minha mãe tinha
sido sepultada. O pessoal de Teosi nunca disse, para nos impedir de recuperar
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as ossadas. Por causa deles, nunca pude chorar minha mãe como faziam nossos
antigos. Isso é uma coisa muito ruim.44
Causou-me um sofrimento muito pro-
fundo, e a raiva dessa morte fica em mim desde então. Foi endurecendo com
o tempo, e só terá fim quando eu mesmo acabar.
Após a morte, nosso fantasma não vai viver junto de Teosi, como dizem
os missionários. Ele se separa de nossa pele e vai morar noutro lugar, longe dos
brancos. Nossos defuntos moram nas costas do céu, onde a floresta é bela e
rica em caça. Suas casas lá são muitas e suas festas reahu nunca param. Vivem
felizes, sem dores nem doenças. Vistos de lá de cima, somos nós que causamos
dó! Os mortos ficam tristes por nos terem abandonado na terra, sozinhos, com
fome e ameaçados pelos seres maléficos. Por isso minha mágoa é um pouco
aplacada quando penso que minha mãe vive feliz na floresta dos fantasmas, na
companhia de todos os nossos parentes falecidos. É verdade. Somos nós, os
poucos humanos que sobraram, que ficamos sofrendo na floresta, longe de
nossos mortos.
Durante essa nova epidemia, os missionários nunca desistiram de nos fa-
lar de Teosi. Ao contrário, impediram os xamãs ainda saudáveis de nos tratar!
Ficavam repetindo: “Não façam descer seus espíritos; eles pertencem a Satana-
si! É Teosi que, ao contrário, vai curar os doentes. E os que morrerem voltarão
a viver junto dele. Serão felizes lá! Não se preocupem!”. Receosos, os xamãs
obedeceram e não fizeram nada. Não combateram os espíritos da epidemia. Não
tentaram vingar seus próximos que estavam agonizando. Muitos dos doentes
ficaram apavorados diante desse abandono e, com certeza, morreram por esse
motivo. Assim penso eu. Dessa vez, a maioria dos poucos adultos que tinham
escapado da epidemia de Marakana morreu. Esses antigos tinham sabedoria e
cuidavam de nós. De repente, já não estavam mais entre nós. Quando volto a
pensar naquele tempo, fico mudo e recolhido na minha rede. Tudo isso me
atormenta e eu jamais pude esquecer. Meus pensamentos vão seguindo um ao
outro melancolicamente, sem parar. Então, para tentar acalmá-los, digo a mim
mesmo que aqueles que fizeram desaparecer nossos maiores um dia perecerão
por sua vez, causando a mesma tristeza entre seus próximos.
Todas essas mortes, juntando-se às de Marakana, encheram de angústia
e raiva o peito dos sobreviventes.45
Começaram a falar duro com os missioná-
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rios: “Vocês pretendem que Teosi cuida de nós. Vocês nos deram o nome dele
e, no final, são vocês que nos fazem morrer! Não queremos mais escutar suas
palavras! Teosi não afastou o mal para longe de nós! Ao contrário, deixou-nos
ser devorados pela epidemia de vocês!”. Estávamos todos desamparados e fu-
riosos. Foi preciso muito tempo antes de nossos pensamentos conseguirem se
acalmar. Os brancos da missão não reagiram à nossa raiva. Apenas repetiam:
“Foi Teosi que os protegeu! Foi ele que os curou! Falamos com ele o tempo
todo! Ele estava do seu lado e é todo-poderoso! Foi ele que fez fugir a epidemia
xawara. Levou os mortos de vocês para a casa dele. Não fiquem tristes, estão
vivendo felizes com ele!”.46
Lembro-me muito bem de tudo isso. Naquela épo-
ca, eu era rapaz e os missionários queriam muito me convencer. Não paravam
de me dizer a mesma coisa: “Escute! Você tem de aceitar Teosi e as palavras
dele, pois se morrer irá para o céu, e ele cuidará de você!”.
Então, depois de todo aquele sofrimento, e diante da insistência dos bran-
cos, voltamos a pensar que talvez o que diziam de Teosi fosse verdade. Volta-
mos, afinal, a ter medo deles como antes, deles e daquele cujo nome invocavam
a torto e a direito. Dizíamos a nós mesmos: “Talvez Teosi quisesse mesmo que
os nossos se juntassem aos fantasmas dos antepassados nas costas do céu?
Talvez ele logo desça na floresta para que morramos todos também e nos leve
consigo? Será que não deveríamos aceitar suas palavras, para evitar sua raiva e
nunca queimar na fogueira de Xupari?”. Nosso pensamento estava na dúvida
e, assim, passamos a escutar com temor e docilidade os discursos dos missio-
nários outra vez.47
Pouco depois, meu padrasto aceitou até ser mergulhado por
eles no rio Toototobi, para ser batizado.48
Depois todos seguiram seu exemplo
e quiseram voltar a ser crentes.49
Chico, que tinha deixado Toototobi logo depois da epidemia, voltou então
para a missão.50
Dizia-se homem de Teosi, mas era muito diferente dos demais
missionários. Não tinha esposa nem filhos. Vivia só e, com o passar do tempo,
deve ter pensado: “Por que não arranjo uma mulher yanomami?”. Ele emprega-
va uma mocinha para cuidar de sua casa, lavar sua roupa e sua louça. Era uma
moko, uma menina nova com os seios ainda duros e pontudos. Era muito bo-
nita e ele se pôs a desejá-la. Sempre dava a ela alimentos e roupas.51
Estava
gostando dela e começou a comer sua vulva. Passado algum tempo, quis tomá-
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-la por esposa de verdade. Resolveu pedi-la ao meu padrasto sem contar aos
outros missionários. Disse a ele: “Vivo sozinho há muito tempo e quero que
essa moça seja minha! Eu também preciso de uma esposa!”. Pergunto-me por
quê, mas meu padrasto acabou se deixando convencer. Por fim, concordou em
dá-la a ele. Acho que deve ter pensado que, se recusasse, Chico poderia ficar
furioso e querer se vingar com uma nova fumaça de epidemia, como Oswaldo
tinha feito em Marakana! Eu fiquei muito desgostoso com tudo aquilo. A moça
era parente minha e todos sabiam que Chico já tinha engravidado uma jovem
mulher casada na aldeia. Enfurecia-me o fato de ele, mesmo assim, continuar
pretendendo fazer parte da gente de Teosi! Tudo isso era muito ruim. Desde que
chegara à missão, Chico não parava de nos dizer: “Não cobicem a mulher dos
outros, não as chamem para copular na floresta! É pecado!”. Ele nos tinha en-
ganado bem com todas as suas mentiras!
Por causa disso, o pessoal de Toototobi ficou novamente com raiva. Co-
meçaram a enfrentá-lo sem medo: “Como é que você pode imitar as palavras
de Teosi e cometer você mesmo os pecados de que fala? Então você mentiu
para nós!”. Chico respondia, irritado: “Não estou cometendo pecado, quero me
casar com ela. Não desejo a mulher de outro. Sempre obedeço Teosi!”. Mas
nossos antigos retorquiam: “Mentira! Vá pedir uma esposa à sua gente, em
Manaus. As mulheres dos brancos são muitas! Se você se casar com uma mu-
lher da sua terra e imitar Teosi com retidão, nós o seguiremos! Mas se continuar
assim querendo copular com nossas meninas, uma depois da outra, é porque
está nos enganando! Você é mau! Se fosse mesmo filho de Teosi, ficaria sem
mulher em vez de comer a vulva de nossas filhas e esposas! Você costuma dizer
que somos falsos e você nos imita! É porque suas palavras de Teosi são menti-
ras e seu pensamento está cheio de esquecimento!”.
Nossos antigos achavam que, se os brancos eram portadores das palavras
de Teosi como afirmavam, não podiam tocar em nossas mulheres. Caso o fi-
zessem, significaria que eram mentirosos e que Teosi não existia. Depois da
epidemia, estavam todos abalados pela lembrança de seus mortos e atormen-
tados pelas palavras dos missionários. O comportamento de Chico deixou-os
mais confusos e furiosos. Perderam então toda a vontade de imitar aqueles
brancos que, afinal, não lhes pareciam ser mais do que impostores. Voltaram
a se mostrar negligentes em relação às palavras de Teosi. Alguns de nós ainda
as escutavam de tempos em tempos, é verdade. Porém, aos poucos, todos foram
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perdendo o interesse por elas. Os missionários ainda tentavam nos falar o
quanto podiam de Sesusi e do pecado. Mas nossos ouvidos tinham ficado sur-
dos. Chico continuava repetindo suas ameaças: “Se Teosi não estiver no pen-
samento de vocês e se vocês não o amarem, ele os fará morrer!”. Mas ele tinha
feito coisas ruins demais em Toototobi. Até os outros brancos acabaram per-
cebendo! O chefe do pessoal de Teosi mandou-o de volta para Manaus, onde
ele, por fim, deixou de ser missionário.52
Nós também terminamos com as
palavras de Teosi.53
As enganações de Chico nos tinham feito refletir e jogamos
fora todas aquelas palavras de mentira e medo.
Naquela época, meu padrasto chegou até a ameaçar o pessoal de Teosi com
sua espingarda! Isso aconteceu porque um xamã reputado, que ele chamava de
cunhado, morreu de repente durante uma visita à nossa aldeia. Era um grande
homem, vindo de uma casa das nascentes do Orinoco chamada Maamapi. Era
um grande amigo dele. Certo dia, ele estava limpando o caminho do avião da
missão, a pedido dos brancos. Começou a sentir uma dor aguda no ventre.
Teria sido flechado pelos xapiri de um xamã inimigo? Caçadores distantes
teriam ferido seu duplo animal? Não sei. A doença não durou muito. Seu esta-
do logo piorou e ele começou a sentir dores atrozes. No entanto, nenhum de
nossos xamãs tentou arrancar de sua imagem as pontas de flecha que tanto o
atormentavam. Nem meu padrasto nem nenhum dos outros. Eles já não ousa-
vam chamar seus xapiri para curar. Tinham-nos rejeitado e não bebiam mais
yãkoana para alimentá-los e fazê-los dançar. Temiam as reprimendas dos bran-
cos e só se dirigiam a Teosi.
Meu padrasto, que então ainda era crente, tentou curar o visitante com as
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palavras que tinha recebido dos missionários. Pediu a Teosi que deixasse viver
seu amigo: “Teosi, eu o chamo de Pai. Trago-o em meu pensamento. Você é
bom. Só você pode nos curar. Foi você que criou a floresta e o céu. Só você é
tão poderoso. Os xapiri são fracos. Meu cunhado está agonizando. Tire a dor
de seu ventre. Se ele ficar curado, lhe agradecerei. Se voltar à vida como Sesusi,
ficarei satisfeito com você. Se morrer, ficarei muito triste. E então pensarei,
enfurecido, que suas palavras são apenas mentiras!”. Passou uma noite inteira
ajoelhado junto ao doente, que se contorcia de dor. Manteve a cabeça baixa, o
rosto entre as mãos. Imitava com obstinação as palavras de Teosi. Dava mesmo
dó de ver! O amigo não parava de gemer e repetia: “Dói muito! Eu vou mor-
rer!”. De repente, não se ouviu mais sua voz. Parou de respirar. Então, todas as
pessoas da casa se aproximaram de sua rede para dar início às lamentações de
luto. Meu padrasto permaneceu agachado com a mãe do morto, uma mulher
muito velha. Chorou com ela durante muito tempo antes de a dor de seu so-
frimento se transformar em raiva. Então, declarou diante de todos os que cho-
ravam com ele: “A partir de hoje, não imitarei mais à toa as palavras de Teosi,
que deixou morrer meu cunhado sem fazer nada!”. Era de manhã cedo. O
defunto ainda estava na rede. Meu padrasto foi à floresta, nas proximidades,
para preparar a armação de estacas sobre a qual o cadáver seria colocado. De-
pois voltou para casa atravessando a missão, que era perto. Viu de longe o
pessoal de Teosi concentrado em suas orações. Um deles o chamou: “Venha
conosco! Vamos juntos conversar com Teosi! Não fique triste. Ele o protege!”.
Meu padrasto seguiu adiante sem responder, com o ódio de seu luto cravado
no peito.
Foi buscar a espingarda. Depois voltou, com a arma na mão, até a casa
onde os brancos estavam reunidos. Estavam cantando as palavras de Teosi e
insistiram mais uma vez para que viesse se juntar a eles. Ainda mudo, ele se
ajoelhou entre eles, com a espingarda. Os cantos deles atiçaram sua fúria.
Quando pararam de cantar, disseram que era a vez de ele imitar as palavras de
Teosi. Meu padrasto permaneceu em silêncio. Escutava, ao longe, os choros de
luto que continuavam saindo de nossa casa. De repente, ele se pôs a gritar: “Ma!
Não vou mais cantar para Teosi! Não quero mais mentir! Ele não faz nada
para nos curar! Só os nossos xapiri trabalham realmente para nos defender! O
Teosi de vocês não passa de um preguiçoso. Dei ouvidos a vocês e me dirigi a
ele, pois vocês tinham dito para mim que ele sabia curar. Ele não fez nada por
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meu cunhado. Agora, acabou! Perdi toda a alegria. Só me resta minha raiva!”.
Surpresos com o tom exaltado de suas palavras, os missionários o fitaram com
olhos amedrontados. Meu padrasto continuou gritando, de pé diante deles,
agitando a arma: “Joguei fora as palavras de Teosi! Nunca mais vou falar nisso!
Não quero mais fazer sofrer os meus com essas mentiras! Teosi deixou morrer
aquele que estamos chorando. Estou furioso! Agora só tenho uma vontade:
matá-los!”. Então ele enfiou um cartucho na espingarda e a apontou na direção
dos brancos, que fugiram imediatamente. Mas um deles, que chamávamos de
Purusi, ficou plantado na entrada da casa, diante de meu padrasto, que conti-
nuava gritando: “Vocês fogem como covardes, mas vão morrer assim mesmo!
Você, que ficou aí, vou matá-lo primeiro! Estou furioso! Asi!  ”.
O americano, apesar de ser adulto, de repente começou a chorar de medo.
Achava mesmo que meu padrasto ia atirar nele. Suplicou-lhe, soluçando: “Não
me mate! Não quero morrer de uma de suas balas!”.54
Tinha desabado no chão.
Meu padrasto o agarrou com uma mão pela camisa para levantá-lo, sem parar
de gritar: “Pare de chorar como uma criança! Ponha-se ereto! Quero matá-lo
de pé!”. Naquele tempo, ele era um bravo e temido guerreiro. Porém, ele não
matou o missionário. Deve ter ficado com pena de vê-lo naquele estado. No
passado, aquele homem o havia tratado com amizade e lhe dera mercadorias.55
Por fim, baixou o cano da espingarda e o deixou fugir para junto dos outros
brancos, que estavam trancados em outra construção. Então meu padrasto
voltou à nossa casa, onde reencontrou o círculo de pessoas que ainda choravam
em volta da rede do defunto. Fez um breve discurso hereamuu para que o ca-
dáver fosse embrulhado num saco de folhas de palmeira e levado para a flores-
ta ali perto, para ficar exposto. Alguns homens se encarregaram do fardo fu-
nerário, seguidos por um grupo de mulheres em prantos. Uma vez cumprida
essa tarefa, os lamentos de luto recomeçaram com mais vigor. Todos estavam
tomados de tristeza e raiva. Meu padrasto continuou carregando a dor pela
morte do amigo por muito tempo depois desse dia. Nunca mais se juntou aos
missionários para cantar e parou de dar ouvidos aos discursos e reprimendas
deles. Começou a denunciar as palavras de Teosi como mentira dos brancos.56
Mais tarde, ele inclusive se afastou da missão Toototobi e foi viver bem longe,
no alto rio Wanapi u.
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12. Virar branco?
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Davi ainda enfrenta alguns problemas mas continua a mostrar pro-
gresso espiritual e suas leituras caminham bem.
The Toototobi gang, 1970b
New Tribes Mission
Quando eu era criança, os missionários quiseram a todo custo me fazer
conhecer Teosi. Não esqueço essa época da missão Toototobi. Às vezes me
lembro de tudo. Então digo a mim mesmo que Teosi talvez exista, como aque-
les brancos tanto insistiam. Não sei. Mas, em todo caso, tenho certeza há
muito tempo de não querer mais ouvir suas palavras. Os missionários já nos
enganaram o suficiente naquele tempo! Cansei de ouvi-los dizer: “Sesusi vai
chegar! Vai descer até vocês! Chegará em breve!”. Mas o tempo passou e eu
ainda não vi nada! Então fiquei farto de escutar essas mentiras. Os xamãs por
acaso ficam repetindo essas coisas à toa, sem parar? Não: bebem o pó de yãkoa­
na e logo fazem descer a imagem de seus espíritos. E só. Por isso, quando me
tornei adulto, decidi fazer dançar os xapiri como os antigos faziam no tempo
da minha infância. Desde então, só escuto a voz deles. Talvez Teosi se vingue
de mim e me faça morrer por isso. Pouco importa, não sou branco. Não que-
ro mais saber dele. Ele não é nem um pouco amigo dos habitantes da floresta.
Ele não cura nossas crianças. Tampouco defende nossa terra contra os garim-
peiros e fazendeiros. Não é ele que nos faz felizes. Suas palavras só conhecem
ameaça e medo.
É verdade. Até hoje, a gente de Teosi não desistiu de me assustar! Quando
os encontro por acaso, continuam me dizendo: “Davi, seu pensamento está
escurecido! Satanasi se apoderou de você! Se continuar dando ouvido às pala-
vras dele, vai arder no grande fogo de Xupari! Pare de responder aos xapiri,
para que seu pensamento possa se abrir novamente com as palavras de Teosi!
É ele que vai realmente protegê-lo!”. Mas já não sou mais criança, não tenho
mais medo de responder a eles: “Já escutei demais suas tapeações, naquele
tempo. Basta! Como podem vocês pretender que seu Teosi quer nos proteger
quando ele fica ameaçando nos jogar numa fogueira? Se pudéssemos vê-lo,
talvez temêssemos sua ira a ponto de nos submetermos. Mas só sabemos dele
o que vocês dizem e nunca pudemos vê-lo! Então, se vocês querem imitar as
palavras dele, façam isso sozinhos, fechados em suas casas. Eu nunca mais
quero ouvi-las!”. Hoje, essas falas torcidas dos missionários não me inquietam
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mais. Após minha morte, os dizeres e cantos da gente de Teosi não serão mais
nada. Meu fantasma estará feliz nas costas do céu, com os de todos os nossos
antigos xamãs mortos. Assim é. Os Yanomami são mais numerosos nas costas
do céu do que aqui embaixo, na terra!
As palavras de Teosi pertencem aos brancos. Antigamente, eram desco-
nhecidas na floresta. Surgiram entre nós há pouco tempo. Nenhum de nós
jamais as havia dito antes de os missionários chegarem com elas. Por isso não
as compreendemos realmente. Só conhecemos um pequeno trecho delas, a
montante.1
Porém, nosso pensamento é incapaz de desdobrá-las em todas as
direções, como fazemos com as dos xapiri. Se continuarmos a ouvi-las e segui-
-las sem razão, acabaremos esquecendo os dizeres de nossos maiores. Aí, os
brancos dirão que somos crentes, mas nosso pensamento terá só ficado tão
esquecido quanto o da gente da cidade, que não sabe nada da floresta. Hoje,
porém, é o contrário que ocorre. Muito poucos de nós ainda imitam Teosi, e
os xamãs não temem os missionários como antigamente. Os xapiri continuam
a nos fazer escutar seus cantos, que são nossa verdadeira língua.
Até hoje, mesmo com a yãkoana, nunca conseguimos ver dançar a ima-
gem de Teosi! Por mais que fechemos os olhos e nos esforcemos muito, como
eu cheguei a fazer, é sempre em vão. Teosi morreu e seu fantasma desapareceu
além do céu. Não é possível vê-lo nem ouvi-lo. No entanto, outrora, quando
eu mesmo virei fantasma sob efeito da epidemia xawara, vislumbrei um gran-
de pedaço de tecido branco que flutuava no ar, sem pés. Era difícil enxergá-lo
com clareza, mas havia em torno dele padres e freiras sentados em volta de uma
grande mesa.2
Então acordei e depois, quando adormeci de novo, nunca mais
voltei a vê-lo. Mas talvez a imagem de Teosi seja também aquilo que os espíri-
tos chamam de Wãiwãiri? É um ser de pele flácida e luminosa que, quando
aparece, só fica dançando no mesmo lugar, em tremedeiras moles e assustado-
ras.3
Eu nunca o vi, mas o meu sogro me falou dele algumas vezes, quando
bebíamos a yãkoana juntos. Disse-me que essa imagem, que fazia descer de vez
em quando, trazia em torno do pescoço um longo tecido coberto de desenhos
de escrita pretos e que talvez fosse essa a imagem de Teosi.
Meu sogro, como eu disse, é um grande xamã. Nossos antigos abriram eles
mesmos os caminhos de seus xapiri para ele. Ele morreu várias vezes e seus
espíritos sempre o trouxeram de volta à vida. Foi morrendo desse modo que
ele também viu Omama e Teosi se enfrentarem. Contou-me como ambos sur-
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giram, juntos, quando a floresta começou a existir. Mas Teosi logo ficou furio-
so contra Omama, por achá-lo habilidoso demais. Sua capacidade de criar as
coisas da floresta o deixava enciumado. De raiva, acabou matando-o. Então
Omama, tornado fantasma, vingou-se de Teosi e, por sua vez, destruiu-o. De-
pois disso, o fantasma de Teosi foi morar além do céu, acima da terra dos
brancos. O de Omama permaneceu acima de nossa floresta, próximo dos xa-
piri. Desde então, as imagens dos dois ficaram afastadas uma da outra. Tudo
isso aconteceu depois que Omama fugiu de nossa floresta em direção a jusan-
te dos rios, onde criou os brancos.4
Hoje Teosi está morto, tanto quanto Omama. Deles só restam os nomes,
seus valores de fantasma. A imagem de Teosi talvez cuide dos brancos. Eles
devem saber. Nós, em todo caso, sabemos muito bem que ela não protege na-
da os habitantes da floresta! Os missionários costumavam repetir que Teosi
criou a terra e o céu, as árvores e as montanhas. Mas, para nós, suas palavras
só trouxeram para a floresta os espíritos de epidemia que mataram nossos
maiores, e todos os seres maléficos que, desde então, nos queimam com suas
febres e nos devoram o peito, os olhos e o ventre. É por isso que, para nós,
Teosi é antes o nome de Yoasi, o irmão mau de Omama, o que nos ensinou a
morrer.5
Omama, por outro lado, criou os xapiri para nos vingar das doenças,
e a yãkoana para podermos fazer dançar suas imagens. Quis, com sabedoria,
defender os habitantes da floresta de Nomasiri, o ser da morte.
No começo, Omama não era o único a ter xapiri. Teosi os criou no mesmo
tempo. São eles que os missionários chamam de anjos. No entanto, Teosi aca-
bou sendo agressivo com eles, porque não lhe obedeciam. Então, expulsou-os
para longe, acusando-os de serem sujos e preguiçosos. Ao ver isso, Omama os
chamou para perto de si e os transformou em xapiri. Deu a eles seus ornamen-
tos resplandecentes e seus cantos magníficos. De modo que eles são muito mais
belos do que os humanos; são mesmo como os espíritos deles que os brancos
nos disseram ser anjos.6
A beleza e o poder dos xapiri não tardaram a causar
inveja em Teosi. Por isso, como eu disse, ele acabou matando Omama, que era
o pai deles. Ele não morreu sem motivo! É também por isso que, até hoje, a
gente de Teosi guarda tanto rancor contra os xamãs que fazem dançar esses
espíritos. É o que eu penso.
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Os missionários têm um livro a partir do qual espalham as palavras de
Teosi. Costumavam dizer, olhando para ele, que Sesusi iria clarear nosso peito e
lavar nosso pensamento. Não paravam de declarar que Teosi não gosta de quem
faz descer os espíritos, de quem usa folhas de tabaco, de quem rouba das roças
dos outros ou de quem copula com mulheres casadas. Também repetiam sem-
pre que Teosi tem aversão pelos que se enfrentam com bordunas, conduzem
expedições de feitiçaria ou mostram bravura na guerra. Porém, para nós, tudo
isso não passa de um monte de palavras tortas. Omama sempre demonstrou
amizade por nós, não importa o que façamos. Ele nunca pretendeu lavar o
peito de ninguém! Sua imagem não fica nos dizendo sem parar: “Vocês são
maus! Se recusarem minhas palavras, farei com que sejam queimados vivos ou
carregados pelas águas! Farei tremer a terra da floresta sob seus pés!”. Ela apenas
nos diz: “Vocês são como eram seus antigos! Continuem seguindo os rastros
deles! Um dia, vocês morrerão; por isso, enquanto estão vivos, não devem temer
nada!”. Assim é. Ignoramos aquilo que a gente de Teosi, para nos assustar, cha-
ma a todo instante de pecado. Não somos ruins; só não somos brancos! Somos
como nossos antepassados sempre foram antes de nós.
Para nós, todas essas palavras de branco a respeito de Teosi são sem valor.
Se a imagem de um de meus filhos for capturada por um ser maléfico gavião
koimari, de nada vai adiantar eu esconder o rosto com as mãos para falar com
Teosi tentando curá-lo, em vez de chamar meus xapiri. Se eu apenas fechar as
pálpebras como se estivesse dormindo, para dizer “Pai Teosi, proteja esta crian-
ça!”, ninguém vai responder: “Awei!   Vou cuidar dele!”. Meu filho morrerá e só
me restará minha dor. É só. Quando se imitam as palavras de Teosi não se vê
nada: nem os seres maléficos, nem o mal das plantas de feitiçaria, nem os espí-
ritos da epidemia. Teosi deve ser preguiçoso, já que não faz esforço algum para
nos curar, nem quando estamos agonizando. Morremos à toa, sem ele nem se
preocupar. Ao contrário, os xapiri demonstram muito empenho em nos vingar.
Por isso censuram Teosi como faríamos com um xamã indolente: “Os brancos
dizem que você é poderoso. Você alega saber curar, mas nunca o vemos traba-
lhar! Você nunca sai da rede! Você foge da luta contra os seres maléficos!
Você só sabe ficar repetindo palavras de medo e de morte!”.
No começo, nossos antigos se aproximaram da gente de Teosi para con-
seguir deles algumas mercadorias e medicamentos. Ainda que fosse pouco,
naquela época não havia outras coisas dos brancos em nossa floresta. Depois,
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os missionários não pararam de amedrontá-los com Satanasi e o grande fogo
de Xupari. Então, por medo, muitos de nós acabaram por imitá-los. Contudo,
aquelas palavras nunca conseguiram lavar nosso peito como diziam aqueles
brancos. Nenhum de nós parou de ficar com raiva nem de querer se vingar.
Ninguém parou de mentir ou de desejar as mulheres. Aí, o tempo passou e,
pouco a pouco, todos foram voltando às nossas verdadeiras palavras. Foi o que
aconteceu com o meu padrasto em Toototobi. No início, ele se esforçou muito
para falar com Teosi como os americanos faziam. Ficava repetindo, depois
deles: “Sesusi, limpe meu peito! Afugente os espíritos para longe de mim!”.
Apesar disso, os xapiri não pararam de querer descer para ele e Teosi nunca
conseguiu mandá-los embora. Então ele perdeu o medo de voltar a beber yãkoa­
na. Assim é. Continuaremos fazendo dançar as imagens dos ancestrais animais
para curar os nossos enquanto estivermos vivos, pois somos habitantes da flo-
resta. Não ficamos, como os missionários, fechados o tempo todo em nossas
casinhas, fingindo falar com Teosi e comendo sozinhos!7
Contudo, quando eu era pequeno, em Toototobi, gostava de escutar a gen-
te de Teosi.8
Se eles tivessem se comportado melhor conosco, será que eu teria
continuado a imitá-los? Não sei. Eles me ensinaram, como às demais crianças,
a desenhar as palavras de nossa língua, e depois a reconhecer os números que
os brancos usam para fazer contas.9
Depois, presentearam-me com várias peles
de imagens sobre a gente de Israel e sobre Sesusi.10
Deram-me também um livro
grande em que estavam desenhadas as palavras de Teosi. Eu gostava de ouvi-los
falar daquelas coisas antigas. Teria gostado de falar com Teosi e, sobretudo, de
poder vê-lo. Pretendia mesmo tornar-me um dos seus, embora de tanto ouvir
proferir seu nome eu temesse sua ira. Para dizer a verdade, eu tinha mais curio-
sidade pelas novas palavras dos brancos do que pelas de nossos antigos! Além
disso, naquela época, meu padrasto e meu cunhado tinham rejeitado seus xa-
piri e tinham virado crentes.11
Nosso pensamento estava fixado em Teosi e no
fogo de Xupari. É claro que quando imitávamos as palavras dos brancos acabá-
vamos por confundi-las um pouco. Mas, de tanto repeti-las, ficavam cada vez
mais firmes em nós. Íamos visitar as casas de nossos aliados e falávamos para
eles ao modo dos missionários:12
“Aceitem Teosi e recebam suas palavras! Foi
ele que criou os homens e as mulheres. Foi ele que criou os alimentos da flores-
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ta e das roças. Foi ele que criou os peixes e a caça, os macacos e as antas!”. Os
americanos estavam satisfeitos conosco. Diziam que éramos realmente gente
de Teosi, tanto quanto eles. Contudo, não compreendía­
mos bem aquelas pala-
vras de branco. Não eram as de nossos antepassados, que nunca nos haviam
dito: “Pai Teosi existe, ele nos protege!”. Nem conhecíamos esse nome antes da
chegada daqueles forasteiros. Só queríamos palavras diferentes das nossas! Di-
zíamos a nós mesmos: “Esses brancos são outra gente, têm outros espíritos.
Talvez Teosi exista mesmo! Será tão poderoso quanto dizem?”.
De modo que, no começo, escutei bastante os missionários. Desejava se-
guir suas palavras e me esforçava para imitá-las. Ficava feliz de ser considerado
como um deles. Eles já tinham mergulhado minha cabeça na água do rio Too-
totobi tapando o meu nariz, como um pastor. Eu tinha mesmo feito amizade
com Teosi! E no entanto, quando eu ficava só e queria falar com ele, não con-
seguia; nem mesmo podia vê-lo em meus sonhos. Além disso, os brancos, ape-
sar dos meus esforços, continuavam falando duro comigo: “Davi, você está em
pecado, é ruim! Não use brejeira de tabaco! Não deseje mulheres casadas! Não
beba o pó de yãkoana! Satanasi está enganando você! Temos pena de você, vai
queimar na fogueira de Xupari!”. Com o passar do tempo, escutar essas censu-
ras constantes acabou enfraquecendo as palavras de Teosi em mim. Elas só
pareciam saber falar de pecado e recriminações. Eu estava começando a ficar
cansado delas. E, por fim, tudo aquilo me deixou furioso. Dizia a mim mesmo:
“Entendi bem as palavras de Teosi. Agora sou um dos filhos dele. Meu peito
ficou limpo. Apesar disso, esses brancos não param de me acusar de ser mau.
Por quê?”. Então, comecei a rebater: “Não falem comigo assim! Não quero mais
ouvir tantas palavras ruins! Agora chega de me dizer isso tudo! Se tentarem me
assustar repetindo essas coisas o tempo todo, vou acabar achando que só que-
rem mentir para mim!”.
Eu não tinha meu pai desde a minha primeira infância. Meu padrasto já
tinha outras mulheres e filhos pequenos.13
Os que tinham cuidado mais de
mim, minha mãe e meu tio, tinham partido havia pouco. Desesperava-me a
ideia de ter de crescer sem nunca mais revê-los. Atormentava-me a dor de seu
luto. Agora eu me sentia só em nossa casa de Toototobi. É claro que não estava
realmente sozinho, mas já não tinha ali familiares para cuidar de mim e me
alimentar. Passava a maior parte do tempo triste ou com raiva. Não pensava
em nada a não ser em fugir.14
Não parava de pensar: “Aqui não tenho mais
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ninguém. Quero desaparecer, bem longe daqui, na terra dos brancos. Quero
viver com eles e virar um deles!”. Eu estava mesmo tomado por essa ideia. Não
queria mais viver em nossa casa, nem ver nossa floresta. Tinha decidido aban-
doná-las para sempre. Virar branco — eu não pensava noutra coisa. Não tinha
mais vontade nenhuma, entretanto, de imitar Teosi como antes. Os missioná-
rios tinham me enganado cobrindo-me de recriminações. Eu queria esquecer
todas as palavras que haviam me dado. Quando refletia sobre isso, a única
coisa que me vinha à mente era que Teosi tinha deixado morrer meus parentes.
Isso me revoltava. Dizia a mim mesmo: “Pouco importa! Agora não me inco-
moda morrer. Não sou filho de branco. Que a epidemia devore também a mim
e que eu queime com Satanasi!”. Foi com esses pensamentos que, no final,
resolvi deixar nossa casa de Toototobi. Assim que tive a oportunidade, fui
trabalhar no posto Ajuricaba da Funai, rio abaixo, na beira do Demini. Lá co-
mecei a viver junto com outros brancos, que não falavam de Teosi. Os discur-
sos dos missionários foram se apagando aos poucos de minha memória e aca-
bei por esquecê-los.
Naquela época, o pessoal da Funai, que tinha substituído os antigos da
Inspetoria, vinha muitas vezes nos visitar em Toototobi para fazer trocas.15
Trocávamos com eles castanhas-do-pará e também peles de jaguatirica, de ari-
ranhas kana, de veados e queixadas.16
Eles nos traziam facões, facas e macha-
dos, anzóis e linha, redes e algumas roupas, e ainda espingardas e cartuchos.
Às vezes nos ajudavam com remédios. E também impediam os brancos que
moravam a jusante do rio de entrar em nossa floresta. Por tudo isso, eu achava
bom que viessem nos visitar. Eu já tinha crescido, mas ainda frequentava a
escola da missão. Achava que seria bom para mim aprender outro costume.17
Eu já tinha me tornado adolescente e agora podia deixar os meus e viajar lon-
ge, para outras terras. Eu queria conhecer outras gentes.18
Naquele tempo, era
nisso que eu ficava pensando sem parar!
Os funcionários da Funai que vinham a Toototobi para comerciar com
meus parentes não se interessavam nem um pouco por mim. Para eles, eu
ainda era uma criança. Porém, um dia perguntaram a meu padrasto se eu podia
ir trabalhar com eles no posto Ajuricaba. Ele recusou logo, pois me considera-
va jovem demais para partir sozinho com os brancos. Então eles levaram outros
rapazes, mais velhos do que eu. Mas parece que não ficaram nada satisfeitos
com o trabalho deles, pois logo os mandaram de volta. Mais tarde, durante
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outras visitas, um homem da Funai insistiu novamente junto a meu padrasto
para que eu fosse trabalhar com ele. Prometeu que me traria de volta a Tooto-
tobi algum tempo depois. Dessa vez, eu tinha crescido e estava mais sabido.
Tinha começado a me acostumar com aqueles novos brancos. Meu padrasto
me perguntou se eu queria mesmo ir com eles. Respondi que era isso mesmo
que eu queria. Então, dessa vez, ele acabou concordando: “Está bem! Vá traba-
lhar com esses forasteiros! Mas fique atento! Preste muita atenção nas doenças
deles e nas onças na floresta! Não faça besteiras e não se meta em enrascadas!”.
Ditas essas palavras, acabei partindo com o pessoal da Funai.19
O homem que tinha insistido para que eu o acompanhasse pretendia me
instalar na casa dele, a jusante do posto Ajuricaba, para que eu trabalhasse
para ele. O chefe do posto da Funai, Esmeraldino, percebeu e isso o desagradou.
Chamou-me de lado e me disse: “Não vá com esse sujeito. Ele vai fazer você
trabalhar para ele sem descanso. Você vai passar fome, vai dar dó de ver! Venha
se instalar conosco, no posto. Você pode nos ajudar na cozinha, cuidar da
comida e da louça!”. Então eu segui o conselho e fiquei com ele em Ajuricaba.
Foi assim que eu comecei a trabalhar com a gente da Funai pela primeira vez.20
Eu era ajudante do cozinheiro do posto. Rachava lenha, acendia o fogo e ia
buscar água no rio. Punha a carne de caça para assar. Lavava os pratos, os ta-
lheres e as panelas. E ainda pescava e caçava. Eu tinha muito trabalho mesmo
e não tinha tempo para a preguiça! Apesar disso, eu gostava de viver junto com
os brancos e de realizar as tarefas de que me incumbiam. Eu tinha acabado de
ficar adolescente e, com eles, eu aprendia muitas coisas. Tinha muita vontade
de conhecê-los melhor e de imitá-los.
No entanto, naquela época, eu ainda não sabia grande coisa a respeito
deles. Conhecia um pouco os missionários, mas não os brancos de Ajuricaba,
que estavam perto, mas eram muito diferentes. Na verdade, eu até receava ter
de falar com eles. Eles não conheciam a minha língua e eu não entendia quase
nada do que diziam. Então, no posto da Funai, eu só trabalhava, sem dizer uma
palavra, esforçando-me para seguir as ordens que me davam: “Venha cá! Vá
para lá! Vá rachar lenha! Vá pescar!”. Eu conseguia não me equivocar demais
porque os Xamath
ari do lugar, que falavam um pouco de português, me ajuda-
vam a entender o que o pessoal do posto me dizia. Eu queria mesmo conhecer
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os brancos. Por isso eu os escutava com muita atenção. No entanto, minha
boca tinha medo de falar com eles. Eu não dizia a mim mesmo: “Vou aprender
a língua deles!”. Antes me esforçava para capturar suas palavras uma por uma,
para fixá-las em mim. Mas não era nada fácil. Custou-me muito reunir algumas
delas em minha mente. Mas, pouco a pouco, as que eu conseguia reconhecer
aumentaram. Eu continuava mudo, mas estava começando a compreender o
que o pessoal do posto me dizia. Aí, minha boca acabou perdendo o medo.
Então, me arrisquei a proferir algumas daquelas palavras estranhas com uma
língua torcida. Mas o que eu dizia soava muito feio. Era só fala de fantasma
mesmo!
O pessoal da Funai tinha me dado uma rede de algodão bem grande e
vários tipos de roupa.21
Tudo aquilo me deixava feliz. Dizia a mim mesmo: “Por
que não imitar os brancos e virar um deles?”. Eu só queria uma coisa: parecer
com eles. Por isso, observava-os o tempo todo em silêncio, com muita atenção.
Queria assimilar tudo o que diziam e faziam. Eu já estava acostumado a usar
bermudas. A gente de Teosi já tinha distribuído várias desde que começaram
a morar conosco, para escondermos o pênis. Eu também conhecia chinelos.
Contudo, nunca tinha usado calça comprida, nem sapatos fechados, nem ca-
misas, menos ainda óculos! Quando eu via os brancos vestindo suas calças,
pensava: “Vou esconder minhas pernas como eles!”. Quando calçavam seus
sapatos, dizia a mim mesmo: “Vou fechar meus pés do mesmo jeito para an-
dar!”. Quando trajavam suas camisas, imaginava: “Eu também vou me embru-
lhar num belo tecido desses!”. Os óculos eram o que mais me impressionava,
e eu ficava esperançoso: “Um dia vou poder esconder meus olhos como eles!”.
Reparava em seus relógios de pulso, que me causavam também muita inveja:
“Seria tão bom enrolar essa coisa em torno do pulso para poder seguir o sol,
mesmo à noite!”. Eram só esses os meus pensamentos naquela época.
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Eu não parava de pensar em quando fosse adulto e dizia a mim mesmo:
“Um dia, vou ter um motor de popa para correr pelos rios para todos os lados
com uma canoa grande, como os brancos!”. Meu pensamento estava mesmo
fixo em suas mercadorias. Naquela época, eu acreditava que eram capazes de
fabricá-las eles mesmos, quando quisessem! Aqueles objetos novos obscure-
ciam meu espírito e me faziam esquecer todo o resto. Eu já não trazia em meu
pensamento nem meus parentes nem minha antiga casa de Toototobi. Se os
brancos que me levaram com eles tivessem sido moradores do rio, daquela
gente que vive rio abaixo, ao longo do rio Demini, acho que nunca teria volta-
do para a nossa floresta. Teria me tornado homem entre os pescadores de
tartarugas ou os coletores de fibra de piaçava. E se tivessem concordado em me
dar uma de suas filhas, eu teria tomado esposa entre eles e teria ficado de fato!
Se tivesse mesmo desejado virar branco, eu teria me perdido entre os habitan-
tes do rio e com certeza estaria vivendo lá até hoje.
Não digo mentiras. Aconteceu com um dos rapazes de nossa antiga casa
de Marakana. Para mim, era um cunhado. Era mais velho do que eu. Ele já era
adulto quando eu ainda não passava de um menino. Isso foi há muito tempo.
Depois da epidemia de Oswaldo, ele tinha ido embora para o posto Ajuricaba,
como eu faria mais tarde. Trabalhou lá por algum tempo, e depois seguiu rio
abaixo com um branco que já tinha trabalhado para a Inspetoria. Este tinha se
instalado no baixo Demini, longe do posto Ajuricaba, perto de um lago. Tinha
aberto lá uma roça e vivia da captura de tartarugas para vender.22
Ele caçava e
também vendia peles de animais. Trabalhava só, e por isso chamou o jovem
yanomami para vir ajudá-lo. Que acabou ficando por lá. Não queria mais vol-
tar a viver conosco, pois não encontrava esposa entre nós.23
Quando partiu de
Marakana rio abaixo, parou em nossa pequena casa de Th
ooth
oth
opi e anunciou
a meu padrasto: “Xoape!24
Vou descer de canoa até os brancos!”. Este lhe res-
pondeu: “Está bem. Vá, e não se esqueça de nos trazer espingardas!”.
Então o rapaz respondeu: “Xoape! Só vou voltar quando você estiver cego,
quando sua cabeça tiver ficado branca e seus lábios tiverem ficado bem fini-
nhos. Só voltarei para chorar a sua morte!”. Aí seguiu viagem. Nunca mais
voltou a morar entre nós. No entanto, muito tempo depois, cheguei a revê-lo.
De vez em quando ele subia o rio até o posto Ajuricaba, onde eu trabalhava, e
também o encontrei mais tarde em Manaus. Sempre que me via, ele me acon-
selhava a me mostrar dócil com os brancos. Às vezes, me dizia também: “Por
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que você não vem morar comigo rio abaixo, com os habitantes do rio? Eles vão
lhe dar de comer. É verdade!”. Ouvindo-o, pensava que um dia, talvez, eu se-
guisse o seu exemplo. Porém, como eu trabalhava para a gente da Funai, eles
não deixaram eu me perder, como ele, entre os ribeirinhos do rio Demini. Foi
assim mesmo. Ele começou a beber cachaça sem parar e acho que o peito dele
acabou sendo pego pela doença. Nunca mais o vi desde aquela época. Ele mor-
reu entre os brancos, sem jamais ter voltado à nossa floresta. No começo, eu
pensava do mesmo modo que ele. Foi só bem mais tarde, quando entendi que
os brancos podiam ser maus, que minha mente se afastou de tais pensamentos.
Quando eu trabalhava em Ajuricaba, certo dia o chefe do posto, Esmeral-
dino, me levou com ele para Manaus. Descemos o rio Demini, depois o rio
Negro, de canoa a motor, durante dias e dias.25
Quanto mais nos aproximáva-
mos, mais eu ficava ansioso para ver pela primeira vez a cidade da qual tanto
tinha ouvido falar! Porém, no final, quando chegamos, fiquei um pouco decep-
cionado. Acostamos num lugar afastado de todas as casas e lá permanecemos
durante toda a nossa estadia. Dormíamos no barco, no porto. À noite, eu via
vários tipos de luzes passando em todas as direções ao nosso redor: os barcos
que se cruzavam no rio, os grandes aviões que nos sobrevoavam26
e os carros
enfileirados ao longe na beira. Eu não me sentia nada tranquilo. Perguntava-me,
inquieto, o que haveriam de ser todos aqueles fogos na escuridão. E de dia, ha-
via tanta gente e barulho ao longo do rio! Uma multidão de brancos se agitava
de um lado para o outro, gritando nomes de peixes — “Jaraqui! Curimatã! Tam-
baqui! Surubim! Tucunaré!” — e de frutas de palmeira — “Açaí! Bacaba! Buriti!”.
Tudo isso para trocá-los por pedaços de papel velho. Naquele tempo, eu não
sabia o que era dinheiro e ainda ignorava que sem isso não se podia comer nem
beber na cidade. Observava todos aqueles brancos com um certo receio. Eram
tantos, e se atropelavam em todos os sentidos, como formigas xirina! Dizia a
mim mesmo: “Nossos antigos não imaginavam que os brancos fossem tão nu-
merosos e que tivessem tanta fartura de comida! E todas essas máquinas para
correr por toda parte, na água, na terra e no ar! É de fato muito assustador!”.
Eu não parava de olhar apreensivo para o céu a cada jato que passava
sobre nós. É claro que eu conhecia desde criança os aviões pequenos dos mis-
sionários, que de tempos em tempos aterrissavam em Toototobi. Mas não ima-
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ginava que existissem aviões tão enormes nem que fossem tantos!27
Sobretudo,
eu nunca tinha visto um carro. Por isso, sempre ficava muito aflito quando
tinha de andar a pé na cidade, para ir até a casa da Funai. Permanecia em aler-
ta constante, vigiando sempre o movimento dos carros, de um lado e do outro.
Tinha medo de me atropelarem e me esmagarem em seu caminho. Pareciam
tão pesados! Observava-os de longe, e tentava fixar meu olhar nas rodas, que
me intrigavam. Ficava me perguntando: “O que será isso? Serão como jabutis
de ferro?28
Será que têm espécies de mãos e de pés? Como podem se movimen-
tar tão depressa?”. No começo, eu não me dava conta de que as rodas dos
carros giravam. Achava que corriam! Ainda não sabia nada das coisas da cida-
de! Principalmente, eu nunca tinha visto tantos brancos. Estavam por toda
parte! Imaginava que eles não deviam parar de copular, para terem se tornado
tão numerosos, e que era por isso que alguns deles queriam vir morar na nos-
sa floresta. Entretanto, nada disso me preocupava muito. Eu apenas pensava:
“Os brancos são outra gente, por isso são tão estranhos. Mais tarde, quando os
conhecer melhor, vou me sentir mais calmo na presença deles”. Na verdade,
eu só queria uma coisa: virar um deles. Eu ainda era muito jovem, e bem igno-
rante! Naquele tempo, ainda estava longe de me perguntar: “Se todos esses
brancos continuarem aumentando ao nosso redor, o que vai acontecer conos-
co mais tarde?”.
Por fim, algo ruim aconteceu comigo no posto Ajuricaba. Meu peito foi
pego pela tuberculose. A doença me foi transmitida por um jovem xamath
ari,
que por sua vez tinha sido contaminado em Manaus. Era sua primeira vez lá,
como havia sido para mim. Mas ele já trabalhava para os brancos do rio havia
um bom tempo. Tinham até lhe dado uma esposa. Então ele acabou ficando na
cidade por muito tempo, porque gostava muito de viver na companhia dos
brancos. Além disso, tinha se acostumado a beber cachaça, como eles. Passado
algum tempo, começou a tossir cada vez mais. Já estava muito doente quando
foi ver um médico, que lhe recomendou parar de beber e tomar remédios.
Tentou até mandá-lo para o hospital logo. Mas o rapaz se recusava a ser tratado
pelos brancos. Foi ficando tão doente que só pensava em morrer. Então resolveu
fugir de volta para a sua aldeia. Tinha ficado muito magro e não parava de
tossir cuspindo sangue. Apesar disso, quando chegou ao posto Ajuricaba, o pes-
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soal da Funai deixou que ele se instalasse no mesmo quarto que eu. Comíamos
na mesma panela. Compartilhávamos os mesmos pratos e canecas. Às vezes, ele
me dava seu resto de café. Naquela altura, eu achava que a tosse dele não pas-
sava de um tipo de gripe. Ainda não sabia que a tuberculose é uma doença tão
perigosa e letal. Tampouco ele sabia. Os brancos não nos disseram nada. Então,
eu vivi assim ao lado dele por um bom tempo, e aí, de repente, ele morreu. A
doença dele já tinha entrado no meu peito havia muito tempo.
De modo que, certo dia, voltando de uma visita a Toototobi, Esmeraldino,
o chefe do posto, me encontrou em Ajuricaba ardendo em febre, prostrado na
rede. Eu estava me sentindo péssimo e não parava de tossir. Ele tinha afeto por
mim e ficou preocupado ao me ver tão mal. Primeiro tentou me tratar lá mes-
mo. Mas não deu em nada. Meu estado se agravou e, de qualquer modo, já não
havia mais remédio no posto. Acabou achando que seria mais prudente me
levar para a cidade. Ele estava realmente decidido a me ajudar. Então, descemos
o rio Demini numa canoa com motor de popa, até a foz, para chegar à cidade
de Barcelos. Ele me levou logo para o hospital. Mas eu não pude ficar lá, porque
o médico nos disse que não tinha nenhum medicamento contra a tuberculose.
Aconselhou-nos a ir para Manaus, onde seria mais fácil me tratar. Seguimos
viagem, portanto, dessa vez descendo o rio Negro. Outros homens da Funai
nos acompanhavam. Havia também Yo, um jovem japonês que viera de muito
longe para nos visitar na floresta.29
Assim que chegamos a Manaus, Esmeraldino me levou para um hospital30
e me deixou lá com outro médico. Então, eu me vi sozinho naquela cidade, a
me perguntar, apreensivo, o que seria de mim. Naquele tempo, eu nem sempre
compreendia muito bem o que os brancos me diziam. Felizmente, logo encon-
trei no hospital alguém que eu conhecia. Era Chico, o antigo missionário bra-
sileiro que os americanos tinham expulsado de Toototobi! Ele agora trabalha-
va para a Funai, e também tinha ficado doente. Apesar de tudo o que tinha
acontecido, para mim era bom que ele estivesse lá, porque falava a minha lín-
gua. Então, o médico disse a ele para me perguntar se havia sangue na minha
saliva. Respondi que sim, e que sentia uma dor aguda ao respirar. Além disso,
ele estava vendo que eu não parava de tossir. Compreendeu que a tuberculose
me comia o peito. Mas não me explicou nada. Só avisou o pessoal da Funai.
Foram eles que, mais tarde, me relataram o que o médico havia dito. Ele reco-
mendou também que eu ficasse no hospital por um bom tempo. Ao receber a
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notícia, eu não me queixei nem tive medo. Aceitei tudo sem discutir, porque
realmente queria ficar curado. Não queria por nada levar aquela doença para
a floresta, para contaminar os meus.
Acho que fiquei naquele hospital por um ano. Foi demorado, muito de-
morado mesmo! Se eu quisesse, teria podido fugir, como muitos fazem.31
Mas
nunca tive essa intenção, porque não queria morrer como o rapaz xamath
ari de
Ajuricaba que tinha passado sua doença para mim. Além disso, as pessoas do
hospital me tratavam bem, e eu me acostumei com elas. Então, passei meu
tempo deitado num quarto, sem fazer besteiras, tomando remédios todos os
dias. Não fiquei irrequieto. Tinha resolvido esperar calmamente até que me
dissessem que eu estava curado e que podia deixar o hospital. No começo, como
em Ajuricaba, continuei observando os brancos à distância, sem dizer uma pa-
lavra, só para conhecê-los. Só que dessa vez tive de ficar confinado com eles por
um período muito longo, sozinho e sem nada mais para fazer! Os outros doen-
tes, as enfermeiras e os médicos sempre faziam esforços para falar comigo. En-
tão, caprichei para imitar suas palavras, uma por uma, devagar, como um pa-
pagaio werehe. Havia também uma escola no hospital. Eu compareci algumas
vezes, mas não aprendi grande coisa. O importante é que eu tinha feito um
amigo entre os doentes. Foi ele que me ensinou muitas palavras e um pouco de
escrita. Era muito melhor para mim ficar livre e aprender com ele. Foi assim
que eu perdi o medo de falar com os brancos. Eu lhes pedia água, comida, coi-
sas assim. Seu modo de falar foi ficando cada vez mais claro para mim. Aos
poucos, também fui conseguindo me fazer entender melhor. No entanto, eu
passava a maior parte do tempo sozinho e sempre pensava na floresta com
saudade. Assim o tempo foi passando, devagar, muito devagar mesmo!
Certo dia, porém, o médico deve ter dito ao pessoal da Funai: “Davi não
está mais doente. Matamos a tuberculose dele!”. Pois de repente vieram anun-
ciar que eu estava curado. Eu não esperava por isso! Fiquei tão feliz de estar de
novo em boa saúde e de poder afinal sair do hospital! Então, Esmeraldino, o
chefe do posto de Ajuricaba, veio me buscar e me levou para a casa dele. Cui-
dou de mim, mais uma vez, com amizade. Sem a ajuda dele, com certeza eu
teria morrido daquela doença. Porém, quando fiquei curado, não queria mais
voltar a trabalhar no posto Ajuricaba. O pessoal da Funai de Manaus também
achava que eu devia voltar para casa, em Toototobi. Disseram-me: “Davi, ago-
ra você conhece as palavras dos brancos. Você deve voltar para junto dos seus.
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Seu lugar é lá. Você vai ajudá-los. E mais tarde, quando você for mesmo adul-
to, se quiser, poderá vir trabalhar conosco”. Essas palavras me pareceram boas.
Então, a Funai me levou de volta para Toototobi. Não foram os meus que me
chamaram de volta, não. Eu resolvi por conta própria voltar a viver na minha
floresta e, assim, a vontade de virar branco foi aos poucos desaparecendo de
minha mente.
Hoje, às vezes eu fico acordado no meio da noite e me sinto só no meio das
pessoas adormecidas na nossa grande casa de Watoriki. Então, meus pensamen-
tos vão escapando para longe, um seguindo o outro, sem que eu consiga detê-
-los. Fico me agitando na rede, sem conseguir dormir. Penso em nossos ances-
trais que, no primeiro tempo, se transformaram em caça. Não paro de me
perguntar: “Onde os seres da noite vieram realmente à existência? Como era o
céu no primeiro tempo? Quem o criou? Para onde foram os fantasmas de todos
os que morreram antes de nós?”. Então, por fim, meu espírito se acalma e eu
consigo descansar. Muitas vezes, também, pensamentos acerca dos brancos vêm
me atormentar. Aí penso: “Quando minha mãe me levava no colo, esses foras-
teiros ainda estavam muito longe de nós. Não sabíamos nada deles. Nossos
maiores não desconfiavam que um dia eles matariam quase todos nós! Hoje
compreendo que eles destroem nossa floresta e nos maltratam somente porque
somos gente diferente deles. Por isso, se tentarmos imitá-los, as coisas vão ficar
mesmo muito ruins para nós!”.
Quando penso em tudo isso, o sono foge para longe de mim. O tempo de
minha adolescência está muito distante agora. Contudo, ainda me lembro de
que outrora me esforcei para parecer com os brancos, em vão. Escondi meus
olhos atrás de óculos escuros e meus pés dentro de sapatos. Penteei o cabelo de
lado e coloquei um relógio no braço. Aprendi a imitar o modo de falar deles.
Mas isso não deu em nada de bom. Mesmo embrulhado dentro de uma bela
camisa, dentro de mim eu continuava sendo um habitante da floresta! Por isso
costumo repetir aos rapazes de nossa casa: “Talvez vocês estejam pensando em
virar brancos um dia? Mas isso é pura mentira! Não fiquem achando que bas-
ta se esconder nas roupas deles e exibir algumas de suas mercadorias para se
tornar um deles! Acreditar nisso só vai confundir seus pensamentos. Vocês vão
acabar preferindo a cachaça às palavras da floresta. Suas mentes vão se obscu-
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recer e, no final, vocês vão morrer por isso!”. É verdade. As palavras de Omama
e as dos xapiri são muito antigas. Só elas podem nos fazer felizes. Imitar as de
Teosi e dos brancos não nos vale de nada. Elas só podem nos atormentar. É por
isso que penso que devemos seguir os rastros de nossos antepassados, assim
como os brancos seguem os dos deles.
Hoje, é verdade, eu continuo escondendo meu pênis numa bermuda. É
um hábito que adquiri com a gente de Teosi, quando era pequeno. Também é
verdade que conheço um pouco a língua dos brancos. Porém, imito-a de ma-
neira desajeitada, apenas quando vou à cidade ou para conversar com eles na
floresta. Então, como antigamente, me esforço para fazer como papagaio, na
tentativa de me fazer compreender. Mas assim que fico só entre os meus, minha
boca se fecha para essas palavras estranhas. Elas fogem para longe de meu
pensamento, minha língua endurece e não pode mais pronunciá-las. A mente
dos rapazes que querem virar brancos está cheia de fumaça! É por isso que,
quando me tornei adulto, decidi guardar em mim os dizeres de nossos avós,
mesmo se eles morreram há muito tempo. É com os cantos dos xapiri que meu
pensamento pode se estender até as nascentes dos rios ou para florestas distan-
tes e, mais além, até os pés do céu. É com elas que eu posso ver o que os nossos
antigos conheceram antes de mim, que posso contemplar as imagens do pri-
meiro tempo, tais como eles as fizeram descer, muito antes de eu nascer. Assim
é. Nunca vou querer deixar de imitar nossos antepassados, pois esse é nosso
verdadeiro modo de ficar sábio.
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13. O tempo da estrada
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Um grupo de aproximadamente cinquenta índios, nus, gesticulando
e falando muito, mas com demonstrações de amizade, foi encontra-
do pelos operários que constroem a rodovia Perimetral Norte, perto
de Caracaraí. Os índios lhes ofereceram flechas e colares, e recebe-
ram redes. O grupo de trabalhadores foi levado ao chefe da comu-
nidade — instalada exatamente no traçado da estrada —, mas não
conseguiu compreender coisa alguma do que ele lhes disse. Enten-
deram, contudo, que os índios não querem violência, embora sejam
grandes e fortes.
O Estado de S. Paulo, 29 nov. 1973.
Uma terra tão rica quanto esta não pode se dar ao luxo de deixar
meia dúzia de tribos de índios entravar seu desenvolvimento.
Coronel R. Pereira, governador do Território de Roraima
Jornal de Brasília, 1 mar. 1975.
Depois de curado da tuberculose, voltei para junto dos meus e retomei
minha vida na floresta. Então o tempo foi passando até que um dia Chico, o
antigo missionário que eu tinha encontrado no hospital de Manaus, apareceu
de novo em Toototobi para um trabalho da Funai. Tinha subido o rio até nossa
casa para recrutar gente para ajudá-lo. Queria fazer contato1
com Yanomami
que nunca tinham visto brancos, no alto rio Catrimani, numa floresta distante
e sem caminhos. Era um trabalho para a Funai, pois, naquela época, os brancos
tinham decidido abrir uma estrada na nossa terra.2
Contudo, essas gentes que
Chico buscava eram para nós inimigos e mal os conhecíamos. Antigamente, o
pessoal do pai de minha esposa costumava guerrear contra eles. Mas só era
para vingar a morte de pessoas mais velhas, que os feiticeiros oka deles tinham
matado. Sempre os chamaram de Moxi hatëtëma.3
Esse grupo nunca os tinha
atacado abertamente, com flechas; só às escondidas, com suas zarabatanas de
feitiçaria. Nunca tinham feito amizade com os brancos e não possuíam nenhu-
ma de suas mercadorias. Abriam suas roças com machadinhas de pedra.4
Vários de nós aceitaram acompanhar Chico nessa viagem:5
meu padrasto
e eu, três outros homens de nossa casa e um Xamath
ari que morava a jusante,
na beira do rio Toototobi.6
Havia também um outro branco cujo nome esque-
ci. Da missão, descemos de canoa com motor de popa até a foz do rio Mapulaú.
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Depois, subimos esse rio durante algum tempo e chegamos a uma casa habita-
da pelos antigos de Watoriki, o pessoal daquele que, mais tarde, viria a ser meu
sogro. Viviam naquele tempo à beira do Werihi sihipi u, um pequeno braço do
Mapulaú. Paramos lá para pernoitar. Mas logo entendemos que eles acabavam
de ser vítimas de uma epidemia. Mal tinham terminado a festa de cremação de
seus mortos. Seus convidados eram os moradores de Sina th
a e de Hero u, que
tinham parentes casados entre eles.7
Os ossos dos falecidos já tinham sido quei-
mados e pilados. Suas cinzas tinham sido guardadas em cabaças seladas com
cera de abelha.8
Porém, como a fumaça dos mortos de epidemia é perigosa,
várias outras pessoas tinham morrido pouco após a cremação, logo antes de
nossa chegada. De modo que, quando entramos na casa, todos estavam ator-
mentados pelo luto e ainda em prantos.
Por isso só dormimos lá uma noite. Partimos no dia seguinte, de madru-
gada. Chico antes nos deu ordem para esconder na floresta parte de nossas
provisões e dos objetos de troca destinados aos Moxi hatëtëma.9
Levávamos
carga demais. Em seguida, descemos novamente o rio Mapulaú, até dar com o
curso principal do rio Demini e, por fim, a jusante, entramos num outro
afluente dele, que chamamos Haranari u. Mas nossa canoa ainda estava pesa-
da demais para aquele igarapé. De modo que subi-lo foi muito custoso. O leito
ia ficando cada vez mais entulhado de troncos de árvore e cipós. Exaustos,
acabamos desistindo da navegação. Montamos um acampamento na margem
e descarregamos a canoa. De lá, prosseguimos a pé, para montante, atravessan-
do uma floresta desconhecida. Era muito difícil avançar no mato fechado. Ape-
sar de tudo, não desanimamos e continuamos alegres, porque meu padrasto,
que abria caminho com seu facão, não parava de nos divertir com suas piadas.
Era um homem valente e que gostava de fazer rir. Ao cabo de três dias de ca-
minhada, chegamos enfim ao sopé de um grande pico rochoso que chamamos
Weerei kiki. Pernoitamos lá e, nos dias que seguiram, procuramos rastros dos
Moxi hatëtëma na floresta, durante muito tempo. Mas não encontramos nada.
A região estava mesmo vazia de qualquer humano. No final, Chico desistiu e
voltamos para a missão Toototobi. Tudo aquilo para nada. Eu soube mais tar-
de que os Moxi hatëtëma moravam muito longe dali, no alto rio Apiaú!
Foi nessa viagem que comecei a conhecer melhor o pessoal do pai de
minha futura esposa, que eram os moradores da casa de Werihi sihipi u, onde
tínhamos parado na ida. Quando criança, tinha ouvido falar deles, porque fi-
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zeram guerra por muito tempo contra nossos antigos, que os chamavam Mai
koxi. No entanto, eu só os havia encontrado uma vez, pouco antes de ir traba-
lhar no posto Ajuricaba. A gente de Teosi queria que eles viessem morar mais
perto da missão. Para convencê-los a se aproximar, primeiro tinham sobrevoa­
do a casa deles e jogado flechas e objetos de troca na mata. Em seguida, nos
mandaram de Toototobi numa expedição para entrar em contato com eles.
Mas tínhamos pegado gripe sem saber e, após alguns dias de caminhada, está-
vamos todos doentes! Então, ardendo em febre, resolvemos voltar. Afinal fo-
ram os de Werihi sihipi u que, algum tempo depois, vieram nos visitar em
Toototobi por iniciativa própria. Chegaram um dia, de repente, sem que os
esperássemos. Escutamos suas palavras de amizade e depois abrimos um ca-
minho entre nossa casa e a deles. Foi assim que começamos a nos visitar.10
Na volta dessa viagem em busca dos Moxi hatëtëma, eu não fiquei em
Toototobi. Chico propôs que eu continuasse trabalhando para ele e eu resolvi
segui-lo.11
Depois da minha tuberculose, meu padrasto não queria que eu vol-
tasse para junto dos brancos. Mas eu não lhe dei ouvidos. Eu já tinha esquecido
a cidade e meu desejo de virar branco. Porém, nesse meio-tempo, um outro tio
meu tinha morrido também. Feiticeiros inimigos das terras altas tinham sopra-
do nele plantas maléficas e quebrado seus ossos. Então, eu voltei a conhecer a
ira do luto e da solidão. Por isso fui embora com o Chico. É verdade que ele
tinha agido mal em relação a nós no passado, e nossos antigos continuavam
ressentidos com ele. Mas eu ainda era uma criança quando ele trabalhou na
missão em Toototobi. Fazia muito tempo que ele tinha ido embora. Meu pen-
samento tinha se aquietado e eu tinha esquecido tudo aquilo. Eu sou assim.
Minha raiva não dura muito quando não vejo mais as pessoas que a provoca-
ram. Além disso, Chico tinha me ajudado quando eu estava no hospital. E tam-
bém tinha prometido que eu iria morar com ele e que me daria comida. Parecia
querer cuidar de mim. Então, comecei a ficar amigo dele e fui morar com ele
em Manaus.
Ele residia na casa do pai, um pouco afastada da cidade, na mata. Ficamos
por lá algum tempo. Porém, para viver entre os brancos, eu precisava daquelas
peles de papel velho que chamam de dinheiro. Então, Chico arrumou um tra-
balho para mim. Pela manhã, eu tinha de encher baldes de água numa fonte e
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depois ir vendê-los nas vizinhanças. Era assim que eu conseguia ganhar dinhei-
ro para pagar minha comida. À tarde, eu também lavava piscinas em casas
grandes. Nesse caso, era para pagar ao Chico por algumas mercadorias que ele
comprava para mim, como bermudas, camisas, cuecas, uma rede e sabão. De
modo que foi ele quem realmente me ensinou a trabalhar para os brancos.
Costumava repetir: “Na cidade, se você for preguiçoso, ninguém terá amizade
por você! Os brancos só gostam de gente trabalhadora. Não fique achando que
eles dão dinheiro aos folgados!”. Algum tempo depois, ele encontrou outra
casa e fomos morar nela. Então, graças a ele, o pessoal da Funai resolveu me
chamar de volta. Sabiam que eu era trabalhador; e agora que eu conhecia me-
lhor a língua dos brancos, me pediram para servir de intérprete. Foi assim que
eu voltei a trabalhar na floresta com o Chico.12
Dessa vez, saímos de Manaus num barco grande, de dois andares, em
direção ao rio Branco. Era a plena estação seca. As águas estavam muito baixas.
Subimos o rio devagar, e depois entramos num de seus afluentes, o rio Catri-
mani, até a foz de um riozinho chamado Igarapé Castanho. Lá havia uma casa
yanomami cujos habitantes trabalhavam para os brancos ribeirinhos.13
Fizemos
ali uma parada. O barco grande nos deixou na beira e depois voltou a descer o
rio. Nós então continuamos subindo o Catrimani numa pequena canoa com
motor de popa. Foi longo e penoso, porque aquele rio é cortado por muitas
cachoeiras. Durante toda a viagem, só cruzamos com um caçador branco que
descia para jusante. Paramos, e Chico o chamou para conversar. Ao ver que
sua canoa estava carregada de peles de ariranha e de jaguatirica, começou a
falar com ele num tom furioso. Aí confiscou sua carga e mandou-o de volta
para casa, avisando que era proibido aos brancos caçar na nossa floresta. De-
pois disso, continuamos subindo o rio, até a residência dos padres da missão
Catrimani. Acampamos lá e largamos a canoa, porque é impossível passar pe-
las cachoeiras rio acima. Prosseguimos nossa viagem a pé pela floresta. Eu es-
tava com Chico e com mais dois homens da Funai, um índio sateré-mawé e
um tikuna. Um yanomami da aldeia da missão viera conosco. Caminhamos
durante dias a fio em direção ao alto Catrimani. Passamos primeiro pelos mo-
radores de Makuta asihipi, depois pelos de Mani hipi, de Hw
aya u e de Uxi u.
A partir de lá, prosseguimos nossa marcha ao longo da margem do rio Lobo
d’Almada, até seu curso superior. Chegamos a uma última casa, habitada pela
gente do pai de minha futura esposa, que tínhamos visitado com Chico em
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nossa viagem pelo Mapulaú. Depois de nossa passagem anterior, eles tinham
abandonado Werihi sihipi u e se refugiado nesse antigo local, que chamavam
Hapakara hi. Já tinham vivido lá antigamente, antes de tentarem se aproximar
da missão Toototobi, respondendo ao chamado da gente de Teosi. Quase todos
eles tinham sido devorados pela recente epidemia xawara, e os sobreviventes
tinham ficado amedrontados. Por isso resolveram voltar e ir morar novamen-
te nas terras altas do rio Catrimani, longe dos brancos.
A fumaça de epidemia os atingiu quando estavam terminando a constru-
ção de uma grande habitação a jusante do igarapé Werihi sihipi u. Foi o que me
contaram. O pai de minha futura esposa morava lá com o irmão mais velho,
que era o grande homem da casa. Era um ancião, grande xamã. Certa tarde,
escutaram o zumbido de um helicóptero dando voltas acima da floresta. Era
tempo da seca. As águas estavam baixas. O rio estava cheio de bancos de areia
e de praias. Depois de algum tempo, o helicóptero acabou pousando numa
dessas praias, longe da casa. Então o silêncio voltou momentaneamente. Aí saiu
de novo e desapareceu no céu. Preocupados, os de Werihi sihipi u se pergun-
tavam o que aqueles forasteiros tinham vindo fazer na terra deles. Mais tarde,
já de noite, ouviram uma forte explosão. Pensaram que os brancos deviam ter
deixado na areia uma coisa de fogo desconhecida e perigosa, que tinha provo-
cado a detonação; algo como as bombas que tinham começado a usar para
abrir a estrada deles na floresta.14
No dia seguinte, o grande homem de Werihi
sihipi u decidiu ir até lá para verificar de que se tratava. Um grupo de rapazes,
interessados sobretudo em trazer dessa visita mercadorias abandonadas, jun-
tou-se a ele. Não demoraram a chegar à margem do rio, mas só encontraram,
numa praia, papéis sujos, latas, botas de borracha e um chapéu de palha. Viram
as pegadas dos pés do helicóptero e dos passos de seus ocupantes. Mas desco-
briram também vários buracos cavados um ao lado do outro na areia. Pergun-
tavam-se o que os brancos queriam fazer com aquilo. Não havia mais nada. No
final, cansados de ficar procurando à toa, os de Werihi sihipi u retornaram à
sua casa.
Algum tempo depois, seu grande homem adoeceu e morreu de repente.
Em seguida, todos os moradores da casa começaram a arder em febre. Tremiam
sem parar e sentiam uma sede insaciável. Não entendiam o que estava aconte-
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cendo com eles. Não era uma doença da tosse qualquer.15
Logo várias outras
pessoas também morreram. As vítimas tombavam uma depois da outra, cada
vez em maior número, sobretudo as mulheres e as crianças. Alguns doentes
tentaram fugir para a floresta, mas lá morreram do mesmo modo. Ao final,
pouca gente sobreviveu a essa voraz fumaça de epidemia. A casa de Werihi
sihipi u era grande, mas, em muito pouco tempo, a doença a deixou quase es-
vaziada de todos os seus moradores.16
O que tinham vindo fazer os brancos que
desceram daquele helicóptero? Será que o que eles queimaram tinha mesmo
contaminado a gente de Werihi sihipi u? Não sei. Gostaria de ter examinado
eu mesmo aqueles buracos na areia. Chico me disse que também tinha procu-
rado na beira do rio, mas não tinha achado mais nada. Será que aqueles bran-
cos tinham feito explodir uma fumaça de epidemia como a de Oswaldo em
Marakana, quando eu era criança? No entanto, eles não estavam bravos com
os habitantes daquela casa.17
Nem mesmo os tinham encontrado! Talvez qui-
sessem matá-los para esvaziar a floresta e poder vir extrair minérios mais tarde?
Nunca pude compreender o que realmente tinha acontecido.
Depois de nossa parada na casa de Hapakara hi, no alto rio Lobo d’Almada,
continuamos, com Chico e os outros, em direção à foz do rio Mapulaú. Quando
chegamos, a floresta estava silenciosa. Só tinha restado, na região, a antiga casa
abandonada da gente de Werihi sihipi u. Mesmo assim, Chico resolveu construir
ali um novo posto da Funai. Queria atrair para lá a gente de todas as casas do
rio Lobo d’Almada que acabávamos de visitar.18
Assim começamos a limpar e
queimar um pedaço de floresta a montante, perto da foz de um igarapé chama-
do Maima siki u. Chico queria plantar lá uma roça quando voltássemos para a
região, no começo da época das chuvas. Porém, naquele momento, ele tinha
muita pressa de ir embora. Por isso tivemos de realizar todo esse trabalho em
alguns dias, antes de regressar para Manaus.
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Acabamos ficando na cidade apenas o tempo de uma lua nova, antes de
voltarmos para o Mapulaú. Dessa vez, não fomos a pé. Para chegarmos até lá,
subimos o rio Demini de canoa com motor de popa, desde o posto Ajuricaba.19
Foi muito mais fácil! Mas tivemos de parar a jusante da roça que tínhamos
começado a abrir na vez anterior, por causa das cachoeiras. Então, Chico en-
controu um outro lugar para instalar seu posto do Mapulaú. Escolheu um
antigo local onde o pessoal da Inspetoria tinha se instalado muito tempo antes,
quando a Comissão de Limites subiu o rio Demini pela primeira vez.20
Limpa-
mos o mato e construímos sem demora duas casinhas de tábuas de madeira
manaka si cobertas de folhas paa hana. Tínhamos pressa, porque a época das
chuvas estava chegando.21
Em seguida voltamos às antigas roças abandonadas
pelos de Werihi sihipi u. Ficamos tirando a vegetação emaranhada durante
vários dias. Queríamos pegar brotos de bananeira para nossa nova roça.
Nem bem tínhamos terminado esse serviço, o pai de minha futura esposa
e seus dois cunhados, acompanhados pelas esposas e filhos, chegaram de repen-
te a Werihi sihipi u. Vinham do alto rio Lobo d’Almada para colher taioba e
bananas em suas antigas roças.22
Ficaram se perguntando quem teria limpado
suas plantações abandonadas! Era o fim da tarde. Dormiram em sua antiga
casa e só vieram ao nosso encontro no dia seguinte. Chico perguntou a eles se
podíamos arrancar os brotos de bananeira de que precisávamos, e depois os
convidou a virem se instalar perto do novo posto. Eles aceitaram. Naquele tem-
po, com Chico, era preciso trabalhar sem descanso! Então, plantamos às pressas
uma boa parcela de bananeiras e cana-de-açúcar. Depois preparamos tudo o
que era necessário para nos instalarmos de fato naquele novo lugar. Informados
de nossa presença, os de Werihi sihipi u que tinham permanecido na casa de
Hapakara hi abriram um caminho do rio Lobo d’Almada até o Mapulaú. Aí
começaram a vir nos visitar com regularidade. Depois, os do rio Toototobi fi-
zeram o mesmo e, por sua vez, começaram a vir buscar mercadorias conosco.
Passei bastante tempo com Chico naquele posto do Mapulaú, mas acabei
me cansando. Não sou preguiçoso, não, mas ele me fez trabalhar demais. Não
parava de me dar ordens! Mandava-me desmatar, cortar os esteios e rachar as
ripas de madeira de palmeira para a construção das casas. Era eu também que
tinha de coletar todas as folhas para cobri-las e penar sem trégua para plantar
a roça nova. Apesar disso, Chico nunca parecia satisfeito. Ficava irritado co-
migo por qualquer coisa. Tinha chamado uma jovem de Werihi sihipi u para
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ajudá-lo no posto, e como no tempo da missão, tinha feito dela sua mulher.
Essa moça tinha sido casada com meu padrasto de Toototobi, que a tinha re-
jeitado havia pouco. Então ela tinha voltado a Werihi sihipi u, para junto dos
seus, solteira. Por isso Chico a chamou para perto dele. Ele tinha muito ciúme.
Nenhum homem podia chegar perto dela. Mas a moça às vezes passava diante
do lugar em que eu estava trabalhando e conversava comigo. Assim, um dia,
Chico nos viu compartilhando comida, junto com outros Yanomami. Estáva-
mos fazendo brincadeiras e rindo. Ele logo me puxou de lado e, muito irritado,
me perguntou se eu copulava com ela. Eu neguei. Disse a ele que a tratava
apenas com amizade, nada mais. Ele não acreditou em mim e começou a me
detestar. Ficou realmente enraivecido de ciúme! Chegou a me ameaçar, aos
berros: “Não chegue perto dela! Quero-a só para mim! Tome cuidado!”. Essas
ameaças me enfureceram. Retruquei, no mesmo tom: “Você é mau e seu pen-
samento é vazio! Você é branco. Vá buscar uma mulher em Manaus, em vez
de pegar as nossas e ainda ficar com ciúme!”. Ele acabou me enxotando do
posto: “Não quero mais você aqui! Vá, vá embora para a sua casa!”. Tudo isso
me deixou furioso com ele. Entendi melhor por que os meus não queriam mais
saber dele em Toototobi! Então resolvi voltar para a cidade, para contar tudo
aquilo ao pessoal da Funai. Assim, fui embora para Manaus com um índio
xikrin que trabalhava conosco.
O delegado da Funai de lá,23
Porfírio, que achava que eu ainda estava no
Mapulaú com Chico, ficou muito surpreso de me ver chegar de repente, sozi-
nho, à sua sala. Perguntou-me: “O que você está fazendo aqui? O que aconte-
ceu? Por que o Chico o deixou sair do posto?”. Contei tudo a ele: “Foi o Chico
que me mandou embora, por ciúme. Tomou por mulher uma moça yanomami
e não me deixa nem falar com ela. Mas ela é uma das nossas mulheres, e aque-
la floresta não é dele!”. Porfírio escutou minhas palavras com atenção. Parecia
contrariado. Então, respondeu: “Você tem razão, Chico agiu mal! Vocé é um
Yanomami, ele não deve maltratá-lo assim!”. Era um homem sábio. Mais tarde,
chamou Chico de volta e o mandou trabalhar num outro lugar, na região de
Surucucus, onde a floresta tinha acabado de ser invadida por garimpeiros em
busca de cassiterita.24
Depois de o Chico ter deixado o Mapulaú, foi um outro
homem do posto, um índio tukano, que ficou durante um tempo com a mulher
yanomami dele. Depois foi a vez de ele ir embora, deixando-a sozinha no meio
do caminho, grávida, longe dos seus. No final, foi um Xamath
ari que se casou
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com ela em Ajuricaba. Ela ainda mora lá. O novo posto que tínhamos aberto
no Mapulaú ficou desativado. Nenhum branco jamais voltou lá. Mais tarde, os
de Werihi sihipi u acabaram pondo fogo nele, com tudo o que tinha ficado
dentro, inclusive o rádio. Estavam furiosos por terem sido abandonados, ape-
sar das promessas de Chico. Além disso, uma nova fumaça de epidemia aca-
bava de atingir seus parentes que tinham ficado no alto rio Lobo d’Almada.25
Assim terminou meu primeiro trabalho para a Funai. Em seguida, Porfírio,
o delegado de Manaus, mandou-me para um outro posto, Iauaretê, que acabara
de ser aberto no alto rio Negro, a montante de São Gabriel da Cachoeira, onde
vivem os Tukano.26
Devia ser para me afastar da nossa floresta, já que eu não
queria mais trabalhar lá com Chico. Quando chegamos a Iauaretê, o chefe do
posto, que tinha vindo comigo de Manaus, resolveu que eu devia ir trabalhar
com os Maku. São habitantes da floresta, que viviam muito longe dos brancos,
perto de uma montanha chamada de Serra dos Porcos. Ele me acompanhou até
lá e depois foi embora depressa, deixando-me sozinho. Fiquei naquele lugar por
bastante tempo. Estava um tanto inquieto, porque os Maku são gente outra, que
eu não conhecia.27
Eu não entendia nada da língua deles e eles nada sabiam da
língua dos brancos. Ficava preocupado, e dizia a mim mesmo: “Como é que eu
vou viver com eles? Eles não entendem uma palavra do que eu digo e falam
uma língua como a dos fantasmas!”. Mas fiquei contente, porque eles se torna-
ram meus amigos e, sem me entender, alimentaram-me com generosidade du-
rante todo o tempo que passei com eles.
Nessa época, eu também trabalhei a montante, no rio Negro, com outros
habitantes da floresta, perto da fronteira da Venezuela. Acho que se chamavam
Warekena. Não sei ao certo. Lembro-me apenas de que falavam mais uma
língua outra. Era muito difícil para mim trabalhar no alto rio Negro. Aquela
floresta pertence a outras gentes, diferentes da minha. Eles são muito numero-
sos e cada um tem uma língua diferente.28
Eu nunca sabia como falar com eles.
Por causa disso, sempre me sentia mal fazendo aquele trabalho. Então, decidi
não permanecer naquela região. Pedi para ir embora e o pessoal da Funai me
chamou de volta a Manaus. Dessa vez, resolveram fazer com que eu estudasse
para me tornar agente de saúde.29
Comecei a aprender como fazer engolir re-
médios, atar curativos e até dar injeções. Eu era muito aplicado. Queria mesmo
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saber como curar ao modo dos brancos. Porém, eu tinha dificuldade em en-
tender o que eles me explicavam. Eu era muito jovem e ainda imitava muito
mal a fala deles. Além disso, da escrita eu só sabia o pouco que tinha aprendido,
ainda criança, na escola da missão Toototobi, em minha própria língua. Eu não
conseguia ler as peles de papel dos remédios. A Funai tinha me mandado ir
estudar com outros índios, que já viviam com os brancos havia muito tempo.
Pensavam que eu fosse como eles. Mas aquelas palavras de forasteiros não eram
tão claras para mim quanto para eles. Eu era recém-saído da floresta.30
De modo que, assim que terminei o curso, o novo delegado da Funai, que
tinha substituído Porfírio, me mandou de volta para casa, em Toototobi, sem
explicações. Tudo aconteceu muito depressa. Ele me disse apenas uma coisa:
“Volte para trabalhar na sua aldeia, com os seus. Você vai lhes dar remédios
para curá-los!”. Ele me colocou num avião e, de repente, eu estava de volta em
Toototobi. Foi só. Pouco tempo depois, um dos missionários veio até mim e
anunciou: “Você não trabalha mais para a Funai, eles o despediram!”. Aquele
novo delegado da Funai não gostava mesmo de mim. Era ruim e não tinha
nenhuma amizade pelos habitantes da floresta. Deve ter pensado: “Não sei o
que fazer com esse Davi. Não quero mais vê-lo, que volte para a casa dele, na
floresta!”. E no entanto eu tinha me esforçado muito em Manaus, para apren-
der as palavras dos brancos, e poder tratar como eles. Eu tinha me comportado
bem e nunca bebi cachaça. Não imagino o que possa ter feito para o delegado
me enxotar daquele jeito, sem me dizer nem uma só palavra! Decerto era co-
varde e não ousou falar comigo olhos nos olhos. Assim é. Quase me tornei
agente de saúde! Eu tinha começado a estudar, gostava daquilo. Mas como a
Funai tinha me rejeitado daquele modo, fiquei furioso e desisti da ideia. Pensei:
“Tanto faz! Esse delegado da Funai não passa de um ignorante!”. E decidi vol-
tar a viver em paz entre os meus, em Toototobi, como antes.
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Porém, mais uma vez, não durou muito. Algum tempo depois, outros
brancos chegaram a Toototobi. Era o pessoal do serviço de combate à malária.
Já os conhecíamos, porque às vezes vinham borrifar em nossas casas um re-
médio para matar os mosquitos. Dessa vez, tinham vindo capturar piuns que
chamamos ukuxi para pesquisar uma doença que causa cegueira.31
Tinham
ouvido dizer que eu falava a língua dos brancos. Então, pouco depois de che-
garem, mandaram me chamar. Pediram-me para ajudá-los: “Não sabemos
como nos fazer compreender e não conseguimos trabalhar! Você, que conhe-
ce nossas palavras, fique do nosso lado!”. Foi o que eu fiz e, pouco a pouco,
eles viram que eu me virava bem como intérprete. De modo que, quando
terminaram seu trabalho em Toototobi, pediram-me para acompanhá-los:
“Venha conosco! Temos amizade por você. Você vai continuar trabalhando
para nós e nós lhe pagaremos por isso!”. Eles ainda tinham de ir a vários lu-
gares de nossa floresta, aos rios Mucajaí e Catrimani, e depois às altas terras,
em Surucucus.
Como a febre da malária ardia em mim, resolvi ir com eles, pelo menos
para que me tratassem. Mas eu não estava só nessa viagem. Vinham também
conosco alguns parentes idosos de Toototobi vitimados pela doença dos piuns
que os brancos estavam procurando. Devíamos todos ser mandados para o
hospital. Um aviãozinho veio nos buscar para nos levar até a cidade. Foi assim
que conheci Boa Vista pela primeira vez!32
Fazia tempo que eu ouvia falar de
lá, mas nunca tinha ido. Quando cheguei, achei que era um lugar bonito. Na-
quela época, era uma cidade pequena. Não havia ladrões e os brancos ainda
não se matavam entre si. Era possível manter o espírito tranquilo. Ninguém lá
conhecia os Yanomami ainda. Era bom. Podíamos ir aonde quiséssemos sem
medo. Os brancos eram amigáveis. Mas mudou muito desde então. Chegaram
muitos garimpeiros e as ruas se encheram de palavras hostis contra nós. Hoje
em dia, tenho até medo de andar por lá sozinho. No tempo do pessoal da ma-
lária, passei a maior parte do meu tempo em Boa Vista no hospital, como em
Manaus! Eu me tratava e cuidava dos mais velhos, que não falavam a língua
dos brancos. Depois, quando passamos a nos sentir melhor, começamos a fazer
visitas aos missionários de Toototobi, que também têm casas em Boa Vista.
Mas não era para imitar Teosi junto com eles que íamos até lá, não! O que que-
ríamos mesmo, trabalhando para eles, era ganhar alguns papéis de dinheiro.
Gostávamos muito das grandes redes de algodão e das outras mercadorias que
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tínhamos visto nas lojas da cidade! Para consegui-las, precisávamos capinar os
quintais das casas dos brancos, como na missão. Todo o tempo que passamos
com eles era dedicado a isso!
Um pouco mais tarde, depois de eu ficar curado, o pessoal da malária
voltou a pedir que eu os acompanhasse. Eu tinha gostado de ajudá-los. Tinham
me tratado bem, e o serviço que me davam não era difícil. Eu tinha vontade de
seguir com eles em outras viagens. Porém, um dia, deixando o hospital para ir
trabalhar para os missionários, encontrei na rua um Yanomami que saía da
casa da Funai ali perto. Era um Xamath
ari do rio Cauaboris, do grupo dos Wa-
wanawë th
ëri. Tinha deixado seus parentes ainda muito jovem. O pessoal da
Funai o tinha trazido junto com eles. Chamava-se Ivanildo. Eu já o tinha en-
contrado em Manaus, no tempo em que trabalhava com Chico. Agora, ele era
intérprete na estrada que os brancos tinham começado a abrir em nossa flores-
ta e que chamavam de Perimetral Norte.33
Depois de ter cruzado comigo, Iva-
nildo tinha falado de mim a um chefe de posto que eu também conhecera em
Manaus, Amâncio. Amâncio estava trabalhando em Boa Vista na época. Ele
pediu a Ivanildo para me levar ao escritório da Funai da cidade para encontrá-
-lo. Eu fiquei curioso, então fui lhe fazer uma visita para conversar um pouco.
Assim que cheguei, Amâncio anunciou que iríamos juntos encontrar o
delegado. Então, ambos começaram a me dizer: “Você não deve mais acompa-
nhar o pessoal da malária! Somos nós, a Funai, que cuidamos realmente dos
índios, você tem de trabalhar conosco!”. Insistiram muito para que eu voltasse
a trabalhar na Funai. Isso me surpreendeu e, no começo, eu não queria nem
escutar! Não fazia muito tempo que o delegado de Manaus tinha me mandado
embora sem explicações. Agora, de repente, o de Boa Vista resolvia me afastar
do pessoal da malária, que me tratava tão bem! Dentro de mim, isso me deixou
irado. Disse a mim mesmo: “O pensamento desses brancos é mesmo enfuma-
çado!”. Respondi logo, um tanto irritado: “Não! Não quero mais trabalhar pa-
ra a Funai. Já fiz isso, no posto Ajuricaba e no rio Mapulaú, depois estudei em
Manaus para ser agente de saúde. No fim, me jogaram de volta na floresta sem
me dizer nem uma palavra! Seus grandes homens não têm nenhuma sabedoria
e não gostam de mim. Não me incomodo de trabalhar com os brancos, mas
não quero me deixar destratar desse jeito! Prefiro ajudar o pessoal da malária!”.
Apesar dessas palavras de recusa, o delegado de Boa Vista continuou in-
sistindo, falando duro comigo. Advertiu-me de que o pessoal da malária só
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podia me dar trabalho se a Funai permitisse, porque eu era índio.34
Amâncio
acrescentou: “O delegado que o mandou embora de Manaus era ruim. Aqui, é
uma outra Funai, é um outro delegado que manda.35
Ele é um homem de bem
e quer mesmo que você trabalhe para nós. Você não pode recusar assim!”.
Então repetiram tudo isso várias vezes e Amâncio parecia estar mesmo deter-
minado a me ter trabalhando com ele.36
De modo que acabei falando de tudo
isso com o pessoal da malária, e eles me responderam: “A Funai não quer que
você trabalhe conosco porque você é um deles. Muito bem. Já que eles o que-
rem tanto, volte para eles!”. Foi assim que acabei voltando mais uma vez para
a Funai. Foi afinal Amâncio que me convenceu, prometendo que eu iria traba-
lhar junto aos meus. Disse-me: “Vamos morar no posto Ajarani,37
é na sua
floresta. Vamos ajudar os Yanomami que vivem naquela região. Vamos defen-
dê-los juntos, eles precisam, porque a estrada acaba de chegar até eles!”. Sem
essas palavras, eu jamais teria aceitado. Naquele tempo, eu não sabia quase
nada. Captava um pouco as palavras dos brancos, mas não compreendia seu
pensamento. Meu espírito ainda estava hesitante. Eu tinha escutado Amâncio,
e pensei que ali talvez estivesse um branco que pensa com retidão. Quando
dava ordens, na Funai de Boa Vista, declarava a todo mundo que defendia os
Yanomami. Eu acreditei. Nada sabia dele, exceto o que fazia diante de meus
olhos ou o que me declarava quanto ao que pretendia fazer.
Assim, ele repetia que não deixaria nossa floresta ser invadida pelos bran-
cos. E, de fato, muitas vezes ele realmente agia em nossa defesa. Naquela época,
ele tinha muito dinheiro da Funai. Quando os garimpeiros invadiram a região
de Surucucus pela primeira vez, foi ele que os expulsou.38
Ele também manda-
va aviões para trazer médicos. Ajudava-nos desse modo. E além disso viajava
muito comigo, para conhecer nossa floresta. Assim, subimos juntos o alto rio
Demini, bem a montante, perto da fronteira da Venezuela, no rio Taraú. Che-
gamos juntos até as casas de Xamath
ari que nunca tinham visto brancos.39
Ele
apreciava meu trabalho e tinha verdadeira amizade por mim. Estou certo disso.
Ele me ajudou, e muitas vezes me apoiou dentro da Funai. Sem isso, eu já não
estaria trabalhando lá há muito tempo. Porém, quando eu soube mais tarde
que ele tinha ajudado os militares de Brasília a dividir nossa floresta em peque-
nos pedaços, como cercados para o gado,40
não gostei. Apesar da amizade, acho
que ele me enganou, escondendo de mim essas palavras. Isso me contrariou
muito mesmo.
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* * *
Assim que concordei em ir com ele, Amâncio me mandou buscar minha
carteira de identidade esquecida em Toototobi.41
Quando retornei, ele logo fez
novos papéis da Funai para mim. Depois fomos trabalhar no posto de que ele
havia me falado, à beira da Perimetral Norte.42
Na época, não passava de um
casebre perto do rio Ajarani, onde vivem os Yanomami que chamamos Yawari.43
Foram eles os primeiros a ver os brancos arrancarem o chão da floresta com
suas máquinas gigantes, para abrir a estrada.44
Quando elas entraram na nossa
terra, eu ainda estava longe. Acompanhava Chico em sua busca sem rumo pelos
Moxi hatëtëma, e depois estive na região de Iauaretê, perdido entre os Maku! Só
vi o traçado da estrada quando ele já tinha entrado floresta adentro, quase até
o rio Demini. Mas Chico já havia me falado um pouco a respeito dela, quando
estávamos no Mapulaú. Explicou-me: “Os brancos estão abrindo um grande
caminho na floresta. Estão vindo em nossa direção, a partir de sua aldeia de
Caracaraí. Depois vão atravessar o Demini e seguir para bem longe, até os Tuka-
no!”. Ele também conversava sobre isso às vezes por rádio, com outros homens
da Funai. Eu não compreendia tudo o que diziam, mas o que entendia bastava
para me deixar preocupado.
Quando eu era criança, os brancos subiram os rios e começaram a fazer
morrer nossos antigos em grande número. Depois voltaram, de avião e de he-
licóptero. Então suas fumaças de epidemia, mais uma vez, fizeram morrer mui-
tos de nós. Agora, eles tinham resolvido abrir uma de suas estradas até o meio
de nossa floresta, e suas doenças iriam com certeza devorar os que tinham so-
brevivido. Eu ficava pensando em tudo isso, quando estava sozinho no posto da
Funai. Isso me atormentava e me entristecia. Dizia a mim mesmo: “Os brancos
rasgam a terra da floresta. Derrubam as árvores e explodem as colinas. Afugen-
tam a caça. Será que agora vamos todos morrer das fumaças de epidemia de suas
máquinas e bombas?”. Eu já sabia que essa estrada só iria nos trazer coisas ruins.
Ninguém nos tinha avisado antes de as obras começarem. Chico só tinha dito
umas poucas palavras a respeito para a gente de Werihi sihipi u, quando abrimos
o posto de Mapulaú. Eu tinha tentado alertá-los contra as doenças que iriam,
mais uma vez, se espalhar pela nossa floresta. Porém, pouco depois eu iria em-
bora para Manaus, devido à minha briga com Chico. No caminho, vi apenas o
desmatamento do traçado da estrada, que tinha começado. Havia por toda par-
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te pequenos grupos de brancos com roupas rasgadas trabalhando com macha-
dos.45
As máquinas grandes ainda não tinham chegado.
As palavras a respeito da estrada que eu conseguia compreender naquele
tempo me assustavam também por uma outra razão além das doenças. Eu tinha
ouvido gente da Funai contar que, para abrir o trecho que liga Manaus a Boa
Vista, os soldados tinham atirado nos Waimiri-Atroari e jogado bombas em sua
floresta.46
Eles eram guerreiros valorosos. Não queriam que a estrada atravessas-
se suas terras. Atacaram os postos da Funai para que os brancos não entrassem
onde eles viviam. Foi isso que deixou os militares enfurecidos. Ouvindo essa
história, comecei a temer que os soldados resolvessem nos tratar do mesmo
jeito! Porém, por sorte, isso nunca aconteceu.47
Muitos foram, porém, as mulhe-
res, crianças e velhos que morreram entre nós por causa da estrada.48
Não foram
mortos pelos soldados, é verdade. Mas foram as fumaças de epidemia trazidas
pelos operários que os devoraram. E, mais uma vez, ver morrer os meus daque-
le modo me revoltou. As coisas só faziam se repetir, desde a minha infância.
Então, a dor da morte dos meus, outrora, em Toototobi, voltou. A raiva do luto
invadiu novamente o meu pensamento: “Esse caminho dos brancos é muito
ruim! Os seres da epidemia xawarari vêm seguindo por ele, atrás das máquinas
e dos caminhões. Será que sua fome de carne humana vai nos matar a todos, um
depois do outro? Terão aberto a estrada para silenciar a floresta de nossa pre-
sença? Para aqui construir suas casas, sobre os rastros das nossas? Serão eles
realmente seres maléficos, já que continuam nos maltratando assim?”.
Nossos antigos não tinham essas preocupações, porque não sabiam de
nada quanto à estrada. Os homens do governo não os reuniram para ouvir a
voz deles. Não perguntaram a eles: “Podemos abrir esse caminho nas suas
terras? O que acham? Vocês não vão ficar com medo?”. Os poucos brancos que
tinham falado do seu traçado não explicaram quase nada. Nem o pessoal da
Funai nem o de Teosi os tinham preparado para o que estava por vir. A mim,
que falo a língua dos brancos, tinham mandado trabalhar bem longe, em Iaua-
retê. De modo que, certo dia, as máquinas chegaram à floresta sem que nenhu-
ma palavra as tivesse precedido. Então, nossos grandes homens, mantidos na
ignorância, não se mostraram hostis com os brancos da estrada. Nem os do rio
Ajarani, nem os do Catrimani, do Mapulaú ou do Aracá disseram nada.49
Pen-
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saram que, acontecesse o que acontecesse, a floresta nunca iria desaparecer e
continuariam vivendo nela como sempre tinham feito. Pensaram também que
poderiam conseguir muito alimento e mercadorias dos brancos. Sabiam que o
pessoal da estrada jogava essas coisas de seus aviões e distribuía tudo genero-
samente.50
Ignoravam completamente as verdadeiras intenções dos brancos. E
eu, no Mapulaú, era jovem demais para convencê-los da ameaça que pairava
sobre eles. Então, desci o rio para Manaus sozinho, guardando no peito minha
preocupação e minha tristeza.
Mais tarde, os primeiros operários que eu tinha visto derrubando as árvo-
res no traçado da estrada a machadadas foram embora. Outros, muito mais
numerosos, chegaram em seguida. Começaram a rasgar a terra da floresta com
enormes tratores amarelos. Dessa vez, a gente de Werihi sihipi u entendeu que a
estrada ameaçava chegar muito perto deles. Eles tinham sido convidados a uma
festa reahu na casa dos habitantes de Hewë nahipi, no rio Jundiá. Os brancos
estavam trabalhando a menos de um dia de caminhada a jusante, às margens do
rio Catrimani.51
Foi quando meu futuro sogro e os seus ouviram pela primeira
vez o zumbido contínuo de suas máquinas. Se espantaram, mas seus anfitriões
explicaram: “São os brancos, rio abaixo, que estão abrindo um caminho e arran-
cando o chão da floresta!”. Ficaram perplexos, mas pouco falaram do assunto.
Voltaram para casa com aquelas palavras guardadas no pensamento.
Pouco tempo depois, eles próprios também começaram a ouvir de sua
casa a voz dos grandes tratores que remexiam a terra. Jamais tinham escutado
um ruído assim na floresta. No começo, parecia estar longe. Mas foi se aproxi-
mando e tornou-se mais distinto dia após dia. Sua inquietação aumentou e eles
se perguntaram o que poderia estar vindo assim em sua direção. Nunca tinham
visto as enormes máquinas dos brancos que abrem estradas. Seu zumbido sur-
do, que não parava, soava para eles como o de seres maléficos devastando tudo
em sua passagem. Agora podiam ouvi-lo noite e dia, sem descanso, e se per-
guntavam, aflitos:52
“Será que os brancos vão destruir a nossa casa também,
rasgando a terra até nós? Ou vão explodi-la e queimar nela todos nós?”. Seus
temores não davam trégua e as explosões das bombas quebrando a rocha dos
morros apavorava-os mais do que tudo. No verão anterior, a fumaça de epide-
mia do helicóptero tinha devorado a maioria deles. Vários temiam que isso
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voltasse a ocorrer: “Será que os brancos da estrada vão nos fazer adoecer e
morrer de novo? Se isso acontecer, desta vez não vai sobrar ninguém para
juntar nossas ossadas e chorar por nós!”. Tinham restado tão poucos sobrevi-
ventes da gente de Werihi sihipi u que se perguntavam se agora a fumaça das
máquinas acabaria com eles de vez. Todos tinham muito medo, tanto os mais
velhos quanto os mais jovens. Mesmo assim, alguns adolescentes estavam
curiosos para ver mais de perto o que acontecia. Às vezes exclamavam: “Vamos
até o caminho dos brancos! Pediremos espingardas e cartuchos a eles!”. Apesar
de seus receios, estavam tomados pelo desejo de mercadorias. Então, um gru-
po pequeno se reunia e se punha a caminho, guiado pelo rugido longínquo dos
tratores. Mas sempre davam meia-volta antes de chegar à estrada. O medo era
mais forte e os fazia mudar de opinião. No último momento, sempre diziam a
si mesmos: “Se formos até lá, vamos morrer!”, e nunca ousaram se arriscar até
o lugar onde as máquinas dos brancos rasgavam a terra da floresta.
Então, a época das chuvas chegou e as obras da estrada pararam de repen-
te. Todos os brancos e seus tratores e caminhões foram embora. Mais tranqui-
los, o pai de minha futura esposa e os seus ficaram perto do posto Mapulaú. O
resto do grupo voltou para sua antiga casa de Hapakara hi, no alto rio Lobo
d’Almada. A floresta tinha voltado a ficar silenciosa. Mas foi então que a epi-
demia xawara retornou, de repente. Todos os habitantes das casas do Lobo
d’Almada estavam reunidos para uma festa reahu numa delas, chamada Hw
aya u.
Havia lá também gente de Hero u, vinda do alto rio Mucajaí, onde, na época,
ainda não havia nenhum branco. Quase não possuíam objetos manufaturados
naquela época. Assim, durante a festa, dedidiram descer o rio, até os padres da
missão Catrimani, para obter terçados, miçangas e panelas. Ao cabo de alguns
dias de trabalho, voltaram para Hw
aya u com as coisas que desejavam. Contu-
do, sem que soubessem, como tinha ocorrido antes em Toototobi, os missio-
nários do Catrimani tinham trazido da cidade uma criança doente de saram-
po.53
De modo que os homens de Hero u carregaram essa epidemia xawara com
suas mercadorias até a casa onde acontecia a festa reahu. Dessa vez, ninguém
viu explodir fumaça. No entanto, os mais velhos que sobreviveram se lembra-
ram de que um padre da missão os tinha visitado no Lobo d’Almada pouco
antes, e que alguns deles tinham roubado mercadorias suas. Pensaram que ele
podia ter feito queimar aquela epidemia por vingança. Por isso, chamaram
essa doença de “fumaça de epidemia do padre”, patere xawara a wakixi.
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Eu mesmo não sei o que realmente aconteceu. Foi o que ouvi dizer. Seja
como for, perto do final da festa, todos os que estavam reunidos em Hw
aya u
começaram a arder em febre. Então, tomados de pânico, os convidados fugi-
ram, tentando escapar da voracidade dos seres da epidemia, que chamamos
xawarari. Não adiantou! Foram atrás deles, até a sua casa, e os devoraram a
todos. E assim, em pouco tempo, todas as aldeias do rio Lobo d’Almada ficaram
esvaziadas da maioria de seus habitantes.54
Os convidados de Hero u moravam
a vários dias de caminhada. Por isso, só eles não levaram a doença até os seus.
Muitos morreram no caminho, na floresta. Outros mal conseguiram sobrevi-
ver. Um deles ficou estendido no chão, inconsciente, durante vários dias. As
formigas comeram-lhe os olhos e ele ficou cego, mas não morreu. O sarampo
era muito perigoso para os mais velhos, cuja carne jamais havia conhecido tal
doença. Era o mesmo mal que tinha devorado todos os meus parentes em
Toototobi quando eu era criança. Hoje, os poucos idosos das casas do rio Lobo
d’Almada e da do pai de minha esposa, Watoriki, onde vivo agora, são sobre-
viventes dessas epidemias do tempo da estrada. Desde então, os brancos aban-
donaram seu caminho de cascalho ao silêncio. Está quase todo coberto de ma-
to denso. Mas a floresta já foi suja por doenças que não vão mais sair dela.
Os brancos da estrada não queimaram fumaça de epidemia como a de
Oswaldo em Marakana e a do helicóptero em Werihi sihipi u. Dessa vez, os
seres da epidemia xawarari só escoltaram suas máquinas e caminhões até nós.
Costumam acompanhar os brancos por onde forem, porque estes são seus so-
gros.55
Mantêm os olhos fixos neles e se deslocam seguindo seus rastros. É assim
que conseguem nos encontrar na floresta. São seres maléficos ávidos de gordu-
ra humana. Apenas os xamãs podem vê-los. Os xapiri tentam expulsá-los assim
que se aproximam de nós. Porém, quando não conseguem afugentá-los, os xa-
warari instalam suas redes nas nossas casas e vão nos devorando à vontade, sem
pressa. Não matam todo mundo de uma só vez, não. Comem primeiro um
grupo de gente, e voltam em seguida para devorar uma parte dos sobreviventes.
Caso alguns homens e mulheres consigam escapar deles, mais tarde irão atacar
seus filhos. É assim que esses seres maléficos vão aos poucos esvaziando a flo-
resta de seus habitantes.
As fumaças das máquinas e dos motores são perigosas para os habitantes
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da floresta. Trata-se também de fumaça de metal, fumaça de epidemia. Jamais
tínhamos cheirado tal coisa antes da chegada dos brancos. Nós somos outros.
Nossa carne não tem marcas de vacina e não temos remédio contra as epide-
mias xawara. Nossos antigos sempre foram protegidos das doenças pelo frescor
da floresta. Somos de outro sangue. Nunca vivemos, como os brancos, em
terras ardentes e sem árvores, percorridas por máquinas em todo lugar. No
primeiro tempo, nossos maiores viviam sozinhos na floresta, longe das merca-
dorias e dos motores. Essas fumaças de epidemia têm um cheiro ruim que
cortou o sopro de vida deles. Desde que as respiraram, morreram todos, uns
após os outros. E, ainda hoje, as gentes das terras altas continuam morrendo
disso.56
Eu gostaria de ter dito aos brancos, já na época da estrada: “Não voltem
à nossa floresta! Suas epidemias xawara já devoraram aqui o suficiente de nos-
sos pais e avós! Não queremos sentir tamanha tristeza de novo! Abram os ca-
minhos para seus caminhões longe da nossa terra!”. Mas não ousei me dirigir
a eles. Eu ainda era jovem demais e tinha pouco conhecimento. Não sabia o
que é defender a floresta. Não sabia como fazer ouvir minha voz nas cidades.
Foi apenas mais tarde, depois de a estrada ter rasgado a floresta, que comecei
a pensar com mais firmeza. Comecei a sonhar cada vez mais com a floresta que
Omama criou para nós e, pouco a pouco, suas palavras aumentaram e se for-
taleceram dentro de mim.
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14. Sonhar a floresta
A floresta retalhada.
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O índio Davi Xiriana Yanomami, que fala e compreende o portu-
guês, chamou nossa atenção […]. Nós conversamos com ele por um
bom tempo e ele demonstrou plena consciência do mundo para além
da região à sua volta, assim como da necessidade de estudar.
A. M. da Paixão, 1977
Antropóloga da Funai
Um dia fui de caminhonete com Amâncio do posto Ajarani, onde traba-
lhávamos, até o fim da nova estrada. Chegamos assim, pela primeira vez, ao
sopé dos grandes morros de pedra que chamamos de Watoriki, a Montanha
do Vento, e os brancos chamam de serra do Demini. Lá encontramos os aloja-
mentos de um antigo canteiro de obras. Tudo estava abandonado desde o úl-
timo tempo das chuvas. Amâncio gostou muito do lugar, porque a floresta lá
é muito bonita, e logo declarou, animado: “Vamos abrir um novo posto aqui e
sair do Ajarani!”. Contudo, não havia naquela época nenhuma casa yanomami
na região. A floresta ao redor era silenciosa. Só havia sinais de uma antiga roça
abandonada, destruída pelo avanço das obras da estrada. Apesar do vazio da-
quela floresta, Amâncio resolveu instalar lá um novo posto da Funai. Deu-lhe
o nome de posto Demini1
e prometeu atrair para perto dele Yanomami de
outras florestas. Então limpamos tudo, para ocupar as casas abandonadas. De-
pois, como era época de seca, começamos a abrir uma roça grande, para ali-
mentar nossos futuros convidados. Um pouco mais tarde, plantamos nela bro-
tos de bananeira e cana-de-açúcar, que trouxemos do posto Ajarani. Muitos
outros agentes da Funai vieram nos ajudar e todos trabalharam sem descanso
sob as ordens de Amâncio.2
Passado um certo tempo, gentes dos rios Catrimani, Ajarani e Toototobi
começaram a fazer visitas regulares ao novo posto. Mas essas visitas não bas-
tavam para Amâncio. Ele queria mesmo é que um desses grupos mudasse para
a região do Demini. Assim, acabou me pedindo para chamar primeiro o pessoal
de uma aldeia muito longe dali, perto da missão dos Padres, no rio Catrimani,
os Opiki th
ëri.3
Apesar da distância, aceitaram o convite e vieram construir uma
nova casa perto do posto. Prometeram se instalar lá definitivamente, apesar de,
no final, não terem feito nada disso! Na verdade, eles nunca pararam de ir e vir
entre o Demini e sua antiga casa do Catrimani. A nova floresta na qual tinham
vindo se instalar os deixava inquietos, pois era de fato muito distante da sua.
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Temiam as gentes dos rios Toototobi e Mapulaú, que lhes eram hostis e mora-
vam a poucos dias de caminhada. A desconfiança não era infundada: algum
tempo depois de terem se estabelecido no Demini, guerreiros de Toototobi
conduziram uma incursão até o posto, para vingar a morte de um dos seus. O
homem tinha adoecido na volta de uma festa reahu na casa de Hewë nahipi, no
rio Jundiá, para a qual os Opiki th
ëri também tinham sido convidados. Os do
Toototobi logo os acusaram de tê-lo matado com uma substância de feitiçaria
paxo uku espalhada numa das cabaças de mingau de banana que ele bebeu.4
Por pouco esses guerreiros de tocaia na floresta não flecharam os Opiki th
ëri
bem no meio do posto Demini! Só desistiram por causa da presença dos bran-
cos ao lado dos Yanomami que pretendiam atingir.
Mas além disso outra coisa não ia bem com eles. O grande homem dos
Opiki th
ëri era muito velho e tinha várias mulheres.5
Era muito ciumento e
costumava ficar bravo por causa da mais nova. Quando isso acontecia, ele às
vezes saía do posto com os seus por algum tempo. Assim, certo dia, ao ama-
nhecer, vários de seus filhos vieram a mim com palavras feias. Estavam todos
exaltados, me acusando de namorar com a jovem esposa do pai deles, que tinha
se mudado, na véspera, para um dos alojamentos da Funai: “Você trabalha com
os brancos, mas seu pensamento está cheio de esquecimento! Você está comen-
do a vulva dessa mulher, por isso a está escondendo! Você é ruim!”. Foi o que
me disseram. Mas era tudo mentira. A verdade é que ela queria largar do ma-
rido velho e só tinha se refugiado no quarto dos seus dois irmãos que trabalha-
vam no posto Demini. Os filhos de seu esposo, no entanto, pensavam que eu
a tinha atraído lá para mim! Depois disso, eu também fiquei irritado e respon-
di: “Tudo isso não passa de mentira! Os irmãos dessa mulher estão cuidando
dela. Não pensem que ela veio para o posto por minha causa!”. Mas eles esta-
vam tão tomados pela raiva que foram embora pouco tempo depois, com o pai
e toda a sua gente, de volta para sua antiga floresta do rio Catrimani. Nunca
mais voltaram.
Após a partida dos Opiki th
ëri, foi a vez de o grupo dos sobreviventes de
Werihi sihipi u se aproximar do posto Demini. Era o pessoal de meu futuro
sogro. Eles me conheciam bem, do tempo em que eu estava com Chico no
posto do rio Mapulaú. Os outros, aqueles que tinham queimado o posto da
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Funai, ficaram na sua antiga casa de Hapakara hi, lá onde a epidemia xawara
os tinha atingido um pouco antes, na região do alto Lobo d’Almada. Havíamos
visto passar duas estações de chuvas desde que os brancos tinham parado de
traballhar na estrada. Homens de Toototobi voltando do posto Demini tinham
informado os de Werihi sihipi u de que eu tinha começado a trabalhar com a
gente da Funai. Eles nunca tinham chegado perto do antigo canteiro de obras
da estrada quando os brancos estavam trabalhando. Mas, como a floresta tinha
recuperado seu silêncio, decidiram vir me visitar. O irmão mais novo de minha
futura esposa foi seu primeiro emissário. Viu que os Opiki th
ëri tinham deixado
o lugar e que só moravam no posto o pessoal da Funai e alguns Yanomami que
trabalhavam lá como eu. Eu disse a ele que o chefe do posto, Amâncio, gostaria
que seu pessoal viesse se instalar na região. Então, ele retornou com essas pala-
vras para casa.
Pouco tempo depois, foi seu pai que veio até o Demini. Estava acompa-
nhado por dois rapazes. Foi sua primeira visita.6
Naquele tempo, ele era robus-
to e ainda viajava muito. Tinha aberto um caminho novo na floresta, desde sua
casa de Werihi sihipi u até a estrada. Em seguida, viera por ela até a serra Wa-
toriki. Desde que Chico tinha abandonado o posto Mapulaú, não havia mais
brancos naquela floresta, e os de Werihi sihipi u não tinham mais mercadorias
e se sentiam desprovidos. Por isso, meu futuro sogro tinha vindo buscar sal,
anzóis e ferramentas no novo posto da Funai. Ele também estava muito preo-
cupado, porque os visitantes de outras casas andavam levando para a casa de-
le muitas doenças de branco.7
Declarou para mim: “Não queremos mais viver
sozinhos na floresta, precisados de tudo. Também não paramos de ser atacados
pela epidemia xawara. Agora queremos mudar para perto dos medicamentos
dos brancos”. Respondi a ele: “Essas são palavras sábias! Venham se instalar
perto daqui, poderemos tratar e ajudar a sua gente!”.
Foi assim que aconteceu. É verdade que Amâncio tinha pedido que eu o
convidasse para se aproximar do posto Demini. Mas ele só concordou porque
já tinha decidido vir para mais perto! Agora era o grande homem de sua casa.
Seu irmão mais velho e quase todos os seus tinham sido devorados pela epide-
mia do helicóptero e depois pela do padre da missão Catrimani. Achava que
toda aquela mortandade tinha de parar. Não queria que sua floresta envelhe-
cesse só, vazia e silenciosa, coberta de ossadas perdidas de seus parentes. Por
isso tinha decidido abandonar sua roça do rio Mapulaú e se acercar da Funai,
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perto da serra Watoriki. Mas não se estabeleceu logo perto do posto. Primeiro
se instalou com os seus a um dia de caminhada, na margem do rio Haranari u,
onde o traçado da estrada termina. Abriram lá uma nova roça e começaram a
construir uma casa pequena. Contudo, antes mesmo de comerem as bananas
que tinham plantado,8
abandonaram essa casa e construíram uma nova, um
pouco mais perto de Watoriki. Depois de algum tempo, avançaram mais em
direção ao posto e, dessa vez, construíram uma casa muito maior, e depois
outra e outra ainda, cada vez mais perto. Por fim, tornaram-se, desde então, os
Watoriki th
ëri, a gente da Montanha do Vento.9
Mas, antes de deixar o rio Mapulaú, o grande homem da gente de Werihi
sihipi u já tinha me prometido uma de suas filhas em casamento. Quando fazia
algum tempo que eu estava trabalhando no posto Demini, decidi tirar uma
folga para ir visitar meus parentes em Toototobi. Sentia saudade de minha irmã,
que ainda morava lá, e, apesar de estar órfão, ainda tinha lá umas tias maternas
que eu chamava de mãe e de quem também tinha saudades.10
E assim me pus a
caminho para essa longa viagem. Andei vários dias e dormi várias noites na
floresta. Então fiz uma parada na casa do rio Mapulaú, onde ainda vivia meu
futuro sogro. Mas ele não estava. Tinha viajado fazia algum tempo para as terras
altas, convidado para uma festa reahu oferecida pelos seus que ainda moravam
na antiga casa de Hapakara hi, no alto rio Lobo d’Almada. Apenas sua mulher e
seus cunhados tinham ficado em Werihi sihipi u. Dormi lá e segui viagem no dia
seguinte. No final, depois de mais uma noite na floresta, cheguei a Toototobi. Lá
também estavam acontecendo preparativos para uma festa ­reahu, dessa vez nu-
ma das casas do pessoal de Sina th
a. Emissários acabavam de ser despachados
para convidar os habitantes de Hewë nahipi, no rio Jundiá, e os de Hapakara hi,
que tinham acabado de terminar seu próprio reahu, entre os quais se encontra-
va meu futuro sogro. Foi assim que, finalmente, eu o vi chegar a Toototobi, de-
pois de ter me desencontrado dele por pouco em Werihi sihipi u! Ele fez sua
dança de apresentação com os demais convidados e se instalou na casa de seus
anfitriões, na qual eu mesmo estava morando havia pouco.
Agora éramos muitos ali, e todos estavam eufóricos. Bananas-da-terra e
pupunhas tinham sido reunidas em abundância. Os caçadores da casa tinham
posto para moquear grandes quantidades de macacos-aranha e queixadas. Na
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noite seguinte, as mulheres começaram a entoar seus cantos heri com muita
alegria. Então, um dos grandes homens da casa começou a incentivar os rapa-
zes: “Não sejam covardes! Imitem os modos de nossos antigos! Peguem as
moças pelo punho e cantem com elas! Façam hakimuu”.11
Desafiados por essas
palavras, vários convidados aceitaram. Eu era um deles. Peguei a filha adoles-
cente do grande homem de Werihi sihipi u pelo braço e dançamos assim du-
rante toda aquela primeira noite. Depois recomeçamos nas duas noites seguin-
tes! Era uma moça bonita, que ainda tinha os seios pontudos.12
Enquanto se faz
hakimuu, quando as fogueiras da casa se apagam no meio da noite, muitas
vezes os rapazes aproveitam a escuridão para se esgueirar para fora da casa e
copular com a parceira. Mas não foi o meu caso, pois a ideia de me tornar pai
cedo demais me assustava. Só fiz essas coisas com minha futura esposa bem
mais tarde, depois de o pai dela tê-la mandado amarrar sua rede ao lado da
minha, quando nos aproximamos de verdade.
Ao cabo de alguns dias, os alimentos do reahu de Toototobi acabaram. A
festa estava por terminar e se aproximava a hora de partir. Os de Sina th
a então
entabularam um diálogo yãimuu com seus convidados, antes de trocarem com
eles flechas, algodão, miçangas, panelas e facões. Depois entregaram a cada um
deles uma provisão de beiju e carne moqueada, para a volta. Os de Hewë nahi-
pi e de Hapakara hi se prepararam para retornar ao rio Catrimani. Minha
folga também tinha terminado e eu decidi ir junto com eles até o posto Demi-
ni, onde fariam uma parada antes de voltarem para suas casas. Todos os con-
vidados já tinham desamarrado suas redes e empacotado os objetos de troca
que tinham acabado de conseguir. Começamos a sair da casa de nossos anfi-
triões, um após o outro. Porém, no instante em que a contornávamos para
pegar um caminho em direção à floresta, meu futuro sogro me chamou: “Davi,
você está indo embora?”. Respondi: “Awei! Estou voltando para Demini, tra-
balhar para a Funai!”. Ele prosseguiu: “Estou pensando em lhe dar minha filha
em casamento. Por que você não a quereria como esposa?”. Surpreso, não
consegui pronunciar uma só palavra. Os meus, em Toototobi, jamais haviam
me dado uma esposa. Ele foi o primeiro a me fazer essa proposta. E insistiu:
“Pegue-a! Leve-a consigo. Irei ter com vocês mais tarde!”. Então fiquei parado,
muito envergonhado, sem saber o que dizer. No fim, consegui responder ape-
nas: “Não sei bem. Aceito ser marido dela, mas só se eu lhe agradar e ela me
quiser. Mas talvez já haja um outro homem no pensamento dela? Com certeza
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há rapazes de sua casa que a desejam como esposa, não é? Se eu a pegar como
esposa no lugar deles, não vão gostar. Recolherão a terra da minha pegada com
raiva e a darão a inimigos distantes, para que estes a esfreguem com plantas de
feitiçaria!”.13
Ele me tranquilizou sorrindo: “Ma! Ninguém vai fazer isso! Ela
não tem nenhum marido em vista. Está realmente solteira!”. Eu não sabia mais
o que dizer. Sem responder, segui em frente, me juntando aos outros convida-
dos. Fizemos uma última parada na floresta, não longe da casa que tínhamos
acabado de deixar, antes de começarmos nossa longa viagem pela mata.
Eu nunca tinha pensado em declarar a meu futuro sogro: “Eu desejo sua
filha!14
Quero-a como esposa!”. Eu não a conhecia nem um pouco. Nunca tinha
sequer chegado perto dela antes dessas noites de festa. No entanto, já sentia sua
falta. Eu tinha me apegado a ela quando dançamos juntos. E também tinha
amizade pelo pai dela. Além disso, ele tinha acabado de ser muito generoso
comigo. Tinha me dado a filha por iniciativa própria, sem que eu pedisse nada.
Então, eu disse a mim mesmo: “Hou! Se eu não responder à oferta dele agora,
ele vai ficar bravo comigo e não vou poder revê-lo tão cedo. E se, mais tarde,
eu resolver ir até ele pedir a filha, é ele que não vai responder!”. Eu também
temia que, diante de minha recusa, começassem a falar mal de mim: “Demos
uma esposa ao Davi, mas ele ficou com medo de aceitar! É covarde mesmo! Dá
dó de ver!”. Por outro lado, também me preocupava a ideia de que Amâncio,
quando eu voltasse ao posto Demini, pudesse me mandar trabalhar longe, nas
terras altas ou alhures. Eu não queria tomar esposa e abandoná-la em seguida,
como costumam fazer os jovens que pedem uma mulher cedo demais. Não
queria tratá-la mal, deixando-a só o tempo todo. Meu pensamento estava mes-
mo confuso!
Porém, de repente, resolvi dar meia-volta. Voltei então sozinho à casa dos
Sina th
a e declarei a meu futuro sogro: “Se você quer mesmo me dar sua filha,
eu a aceito!”. Não me respondeu nada, mas assim que a noite começou a cair,
mandou-a amarrar sua rede junto da minha. Então, um dos homens mais
velhos da casa dos de Sina th
a me encorajou: “Não tenha medo de tomar essa
moça por esposa!”. Respondi-lhe: “Awei! Não sei o que é estar casado, mas vou
tentar!”. Ele retorquiu: “Ma! O pai dela a deu mesmo a você, não tema! Você
não é um fraco, não deve agir como um medroso! Precisa desposá-la de ver-
dade, não apenas tentar!”. Repliquei: “Não tenho medo! Mas estou preocu-
pado, pois se ficar aqui tempo demais, a Funai vai me despedir! Os brancos
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me deram um tempo de folga, como fazem para eles mesmos. Esse tempo
acabou, é isso que me deixa ansioso!”. Ele continuou me tranquilizando: “Não
fique impaciente! Não tenha medo dos brancos! Você voltará para eles depois!
Eles esperarão por você, azar deles!”. Ao escutar tais palavras, refleti com cal-
ma e meu pensamento ficou sereno. É verdade. Eu era jovem e nunca tinha
pensado em me casar. Isso me deixava um pouco apreensivo. De fato, desde
que eu me tornara adolescente, tinha um pouco de medo das mulheres. Minha
mãe e meu padrasto costumavam me prevenir contra elas: “Ma! Não fique
olhando para as moças, é sujo! Se você copular cedo demais, será um mau
caçador e jamais poderá se tornar xamã! Espere até ser adulto, e então poderá
se casar de verdade!”. Por causa disso, eu ainda não tinha me aproximado das
moças. Até tentava fugir delas, aliás! Mas então tinha realmente chegado a
hora de eu ter uma esposa!15
Enquanto ainda estávamos na casa do pessoal de Sina th
a, emissários dos
Xamath
ari do rio Jutaí vieram convidá-los, por sua vez, para uma festa reahu.
Meu recém-sogro e os seus então desistiram de voltar para casa e resolveram
acompanhar seus anfitriões até essa nova festa. Recém-casado, eu não podia
não me juntar a eles, e assim, pusemo-nos a caminho, todos juntos. Os homens
mais velhos de Sina th
a pretendiam enfrentar os Xamath
ari numa luta de socos
no peito, para aplacar sua raiva contra eles. Mas não me lembro quais eram as
queixas nessa querela. Palavras más a seu respeito lhes tinham sido relatadas?
Ou talvez alguém tivesse tentado raptar uma de suas filhas? Já não sei. Porém,
no decorrer de nossa viagem, os de Sina th
a desistiram de lutar. Talvez tenham
mudado de ideia devido à minha presença? Seja como for, uma vez instalados
nos abrigos na mata, nas proximidades da casa de seus anfitriões, só trocaram
palavras de amizade com os emissários que vieram lhes trazer cestos de carne
moqueada e beiju. No decorrer do diálogo de convite hiimuu que travaram com
eles, no entanto, mostraram-se irritados e ansiosos por enfrentá-los. Os homens
de Sina th
a não reagiram, e inclusive declararam no final, para apaziguá-los:
“Ma! Não queremos brigar! Viemos para comer suas comidas! Queremos fazer
nossa dança de apresentação e demonstrar a vocês nossa amizade! Não viemos
para socar seu peito!”. Assim, no final, a festa reahu transcorreu sem nenhum
enfrentamento!
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Terminada essa festa entre os Xamath
ari, retornamos a Toototobi. Preo-
cupado com minha longa ausência, agora eu queria realmente voltar para o
posto Demini. Então, meu sogro declarou: “Leve minha filha com você. Irei me
juntar a vocês mais tarde!”. Assim, tomei o caminho de volta com minha mu-
lher, acompanhado por um dos irmãos dela e alguns moradores de Toototobi
curiosos para conhecer o lugar onde eu trabalhava. Naquela época, o pessoal
da Funai me mandava de um lado para o outro de nossa floresta, eu não para-
va de viajar! Meu sogro tinha me oferecido a filha para eu parar de me deslocar
tanto. Tinha me dito: “Agora que eu lhe dei uma esposa, você tem de morar
conosco!”. Sua intenção era mesmo me manter perto dele. Pouco depois, ele
deixou sua casa do rio Mapulaú e começou a se aproximar do posto Demini,
no rio Haranari u. O fato de ter ganhado uma esposa, porém, não fez minhas
idas e vindas acabarem. Quando cheguei a Demini, Amâncio não ficou bravo
comigo pelo atraso, pois sabia que eu estava com os meus, na floresta. Mas
precisava que eu fosse outra vez trabalhar algum tempo no posto Ajarani, no
começo da estrada. Então fui e, dessa vez, minha jovem esposa me acompa-
nhou. Naquela época, ela não conhecia nada dos costumes dos brancos. Era
como antigamente as filhas de nossos maiores eram. Muito jovenzinha, uma
moko, e muito acanhada. Sempre fugia assim que um forasteiro tentava falar
com ela! Para que ela pudesse ficar no posto da Funai, ensinei-a a se cobrir com
um vestido e a comer com garfo. Assim, ficamos juntos no Ajarani por algum
tempo. Depois, acabei tendo de levá-la de volta para junto dos seus, pois o pes-
soal da Funai me mandou de novo para outra região, mais longe.
Naquele tempo, eu ainda atuava como intérprete. Era empregado do pos-
to Demini e sempre voltava para lá. Mas a Funai de Boa Vista sempre me
chamava e pedia que eu fosse ajudar brancos que queriam trabalhar na nossa
floresta e tinham medo de ficar lá sozinhos. Eram pessoas que nada sabiam dos
Yanomami, tinham até medo de ser flechados!16
Assim, eu me deslocava mui-
tas vezes para acompanhá-los. Trabalhava duro, mas não me queixava. Como
intérprete, eu pensava em ajudar mais aos meus do que aos brancos. Dizia
para mim mesmo: “Os habitantes da floresta que eu visito em minhas viagens
são Yanomami como eu. Devo ficar ao lado deles, ajudando, porque não falam
nenhuma outra língua a não ser a nossa. Eles não sabem o que fazer quando
brancos chegam às suas casas. Além disso, os médicos não podem tratá-los sem
entender o que dizem. De modo que devo continuar esse trabalho!”. Todas
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essas viagens por nossa floresta e pelas cidades acabaram fazendo com que eu
entendesse melhor o que estava ocorrendo com a nossa terra. Graças a essa
experiência, pouco a pouco, fui me tornando adulto e ganhando sabedoria. Foi
por causa dessas viagens que comecei a pensar: “Você deve proteger sua gente!
Precisa defender a floresta!”. Antes disso, eu não passava de uma criança e
estava muito longe de pensar direito!
Enquanto eu ia e vinha, minha esposa ficava sozinha com o pai. Ele a tinha
dado para mim pensando em me fixar, mas eu ainda me ausentava com bas-
tante frequência. Apesar disso, ele não me fazia nenhuma crítica. Pelo contrá-
rio, pensava: “Os brancos o escolheram para trabalhar com eles. É por isso que
ele viaja muito. Assim seja!”. Eu lhe havia explicado meu trabalho: “Eu fiz
papéis com o pessoal da Funai. E agora, se não me apresentar quando me cha-
marem, não me darão mais dinheiro. Aí, quando vocês me pedirem mercado-
rias, nem eu nem vocês teremos nada!”. Em vez de abrir roças e caçar para ele
em compensação por meu casamento, eu lhe dava objetos de troca que com-
prava na cidade.17
Naquela época, comprei muitas redes, panelas e ferramentas
para ele e para meus cunhados! Também o presenteei com uma espingarda
novinha. Mas nem ele nem os filhos eram exigentes. Contentavam-se com
pouco. Trazia presentes para eles de cada viagem e eles nunca reclamavam de
mim. Se eu tivesse voltado de mãos vazias, porém, suas palavras poderiam ter
mudado! Meu sogro teria ficado irritado e com certeza teria dito: “Pare de
viajar se não é capaz de voltar com mercadorias! Onde estão as lâminas de
machado, os facões, facas, anzóis e linha de pesca dos brancos? Você acha
mesmo que é bom ficar perambulando pelas cidades deles para nada? Dá dó
você deixar seu sogro em estado de fantasma, sem tabaco!”.
Contudo, passado algum tempo, minhas viagens começaram a rarear. Os
brancos estavam começando a nos conhecer melhor. Tinham menos medo de
nós. Tinham se dado conta de que na verdade eram os Yanomami que os te-
miam! Devem ter começado a pensar: “Achávamos que esses índios eram fe-
rozes, mas são eles que têm medo de nós! Não precisamos mais do Davi, po-
demos viajar sozinhos!”. E foi isso mesmo que começaram a fazer. Então pude
viver mais tranquilo com a gente do pai de minha esposa, os habitantes da
Montanha do Vento, em Watoriki. Meu sogro tinha deixado o rio Haranari u
havia já algum tempo, e queria se aproximar um pouco mais do posto, para eu
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poder ir morar com ele de fato. Como os brancos me deixavam um pouco mais
folgado, dessa vez trabalhei bastante na construção de sua nova casa.18
Passaram-se várias secas e várias chuvas sem que eu tivesse de viajar muito
pela Funai. Amâncio tinha deixado Demini havia tempos e outros brancos de
Boa Vista tinham vindo, um atrás do outro, para substituí-lo como chefe do
posto.19
Eram todos gente de pensamento curto, que detestavam os habitantes
da floresta. Passavam seu tempo com raiva e só faziam repetir que éramos ruins
e preguiçosos. Na verdade, só pensavam em fugir para a cidade com qualquer
desculpa. O primeiro deles era um garimpeiro que tinha sido expulso das terras
altas no tempo da estrada.20
Era trabalhador, mas não gostava de viver na flores-
ta. Só estava interessado no dinheiro da Funai.21
E sentia falta da mulher. Pensa-
va muito nela, ficava triste e sempre estava ansioso para ir ao encontro dela. Não
permaneceu muito tempo no posto Demini. Depois dele, veio um outro homem
que tinha dirigido a caminhonete de Amâncio anteriormente. Esse motorista
também não queria morar na floresta. Ficava voltando para Boa Vista logo que
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podia, e lá passava a maior parte do tempo. Durante os raros períodos que pas-
sava conosco, trabalhava muito pouco e não parava de me dar ordens. Além
disso, se mostrava avarento para com a gente de Watoriki. Não lhes dava sequer
a mandioca das roças do posto, que eles mesmos tinham plantado! Isso os dei-
xava com muita raiva! De modo que ele também não durou muito no Demini!
O seguinte era um outro motorista de Amâncio. Esse nos detestava mes-
mo! Era também o mais preguiçoso de todos. Quase nunca saía da rede. Não
fazia nada por si mesmo. Ocupava o tempo lançando gritos e injúrias contra
nós. Ainda por cima, outros brancos me contaram mais tarde que ele tinha
tuberculose! A gente de Watoriki logo se enojou dele. A mim, ele fazia trabalhar
sem descanso e nunca estava satisfeito com nada que eu tivesse feito. Por mais
que eu lhe obedecesse, ralhava comigo o tempo todo. Não gostava de mim e
não parava de me maltratar sempre que podia. Queria que eu fosse seu cozi-
nheiro, por exemplo, mas se recusava muitas vezes a comer o que eu prepara-
va. Certa vez, fiz um caldo de jabuti e ofereci a ele. Ele ficou furioso, dizendo
que era sujo e que um branco como ele jamais engoliria aquilo. Essas palavras
me revoltaram, e gritei para ele: “A caça da floresta não é suja! Cozinhe você
mesmo, ou encontre uma mulher que aceite preparar comida para você! Você
só sabe ficar sentado ou dormindo! Não consegue nem se alimentar por conta
própria! Se você trabalhasse, eu continuaria cozinhando. Mas você não passa
de um preguiçoso. Nunca mais farei nada para você! Pare de enganar o pessoal
da Funai fingindo que você trabalha aqui! Você mente só para ficar com o
dinheiro deles! Acha que pode dar uma de chefe, mas você não é um grande
homem. Não passa de um ignorante!”. Tais palavras o encheram de raiva. Co-
meçou a me insultar e a me ameaçar: “Se você continuar, vou matá-lo!”. Furio-
so eu também, retruquei: “Não tenho medo de você! Sou um Yanomami! Se
você ficar alardeando que quer me matar, vou flechá-lo!”. Daquela vez, chega-
mos bem perto de nos matar! Mas ele, surpreso diante da minha reação, acal-
mou-se, e eu acabei não precisando flechá-lo. Mais tarde, queixei-me dele ao
delegado da Funai em Boa Vista. Era um homem que tinha amizade por nós.22
Escutou-me e convocou aquele chefe de posto ruim para falar com ele, também
com severidade: “Você não faz nada! Só fica dormindo de barriga cheia e ber-
rando o tempo todo contra os Yanomami! Não quero mais você no posto
Demini!”. Ele nunca mais voltou.
Veio outro homem em seu lugar, um gordo, que também era mau e mui-
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to violento. Esse também não gostava de nós, e até parecia ter medo de nós!
Desde que chegou, andava sempre com um revólver na cintura. Devia pensar
que o pessoal de Watoriki iria atacá-lo e que poderia se defender com ele! E
além disso gostava de mostrar para nossas filhas e mulheres aquelas imagens
em que os brancos copulam mostrando seus pênis e vulvas. Isso me deixou
com muita raiva. Disse a ele: “Pare de mostrar essas porcarias!”. Então, ele
também começou a me detestar. Proibiu-me inclusive de tocar nas provisões
do posto. Isso me irritava porque não era certo, e protestei: “Não esconda sua
comida assim! Devemos comer juntos. Faço parte do pessoal da Funai tanto
quanto você!”. Ele nem quis saber. Isso me chateou de novo, e além disso eu
não gostava que ele carregasse uma arma entre nós. Então, eu disse a ele: “Se
quiser viver conosco, esconda esse revólver! Aqui não é casa de soldados,
você não precisa dele! Os Yanomami não gostam disso. Você não vai atrás de
feiticeiros inimigos na floresta com essa arma, então guarde-a! Além disso,
você não passa de um sovina! Se continuar assim, não vamos mais querer
você aqui!”. Ele então retrucou, rindo de mim: “Entendi! É você, Davi, o che-
fe de posto! Está me mandando embora da Funai, é isso?”. Respondi: “Não,
não sou nem chefe nem um homem mais velho. Mas apesar de ainda ser jo-
vem, não vou aceitar o que você está fazendo aqui! Ninguém é agressivo com
você. Ninguém o ameaçou! Você fica mostrando esse revólver a todos porque
é contra nós! Seu medo é que é mentira! Você é que é violento e quer nos
matar, não o contrário!”.23
Algum tempo depois dessa briga, o tal chefe de posto voltou de repente
para Boa Vista. O delegado da Funai tinha se mudado e Amâncio tinha toma-
do o lugar dele.24
Ordenou ao homem gordo que parasse de se comportar mal
conosco. Ele tentou se defender, alegando que era falta de comida o que tinha
provocado nossa briga. Acrescentou que só voltaria para a floresta com novas
provisões. Amâncio as prometeu e mandou-o voltar sem demora para Demini.
Apesar disso, o homem recusou. Aí Amâncio ficou contrariado mesmo, e o
ameaçou: “Se você recusar, não vai mais ser chefe de posto!”. E como ele con-
tinuava tendo amizade por mim, acrescentou: “Está certo: a partir de agora é
o Davi quem vai substituí-lo!”. Então aquele branco me detestou ainda mais.
Como o que tinha sido mandado embora antes dele, ficou furioso com o fato
de o delegado ter me dado razão! Ambos acabaram ficando na cidade, com a
raiva deles guardada no peito. Nunca mais retornaram a Watoriki e eu conti-
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nuo trabalhando lá até hoje! Certa vez, um presidente da Funai até tentou me
mandar embora, mas mudou de ideia em seguida.25
Fiquei firme no meu lugar
e nunca mais houve chefes de posto brancos maus em Demini.
Quando comecei a trabalhar na estrada, ouvi pela primeira vez o pessoal
da Funai falar em fechar nossa floresta. Chamavam isso de demarcação. Di-
ziam-me às vezes: “Vamos cercar a terra dos Yanomami e defendê-la. Se garim-
peiros, colonos ou fazendeiros invadirem a floresta, vamos mandá-los de volta
para o lugar de onde vieram!26
Se caçadores vierem roubar peles de ariranha,
jaguatirica ou onça, ou flechar tartarugas, vamos expulsá-los! Aqui é uma terra
indígena. Depois da demarcação, eles nunca mais vão poder entrar!”. Gostei
muito dessas palavras. Disse a mim mesmo: “Isso é bom! Também eu quero que
nossa floresta seja fechada, como dizem eles. Haverá uma barreira onde come-
ça a terra dos brancos.27
Vai impedir a entrada de quem não queremos e deixa-
rá passar quem nós convidarmos. O caminho da floresta vai ser nosso!”. Mais
tarde entendi, porém, que aquelas palavras eram tortas e que o pessoal da Funai
não dizia tudo o que pensava. Diziam que iam fechar nossa floresta, é verdade.
Mas o que queriam mesmo, e isso nos esconderam, era dividi-la em pedacinhos
para nos prender neles.28
Apesar dessas mentiras, guardei em mim os dizeres da Funai sobre a de-
marcação de nossa terra e, pouco a pouco, eles foram fazendo seu caminho em
meu pensamento. Viajando pela estrada, pude observar o rastro de destruição
que os brancos deixavam atrás de si. Observava a floresta ferida e, no fundo de
mim, pensava: “Por que as máquinas deles arrancaram todas essas árvores e
essa terra, com tanto esforço? Para nos deixar esse caminho de cascalho aban-
donado debaixo do sol? Para que gastar seu dinheiro desse jeito, quando em
suas cidades há tantas crianças dormindo no chão, como cachorros?”. Ao lon-
go de toda a estrada espalhavam-se enormes manchas de floresta incendiada
pelos colonos e fazendeiros. O sol queimava e a terra tinha sido desnudada. Eu
me dizia também: “Esses brancos são realmente inimigos da floresta! Não sa-
bem comer o que vem dela. Só conseguem arrasá-la, como as saúvas koyo. E
tudo isso para não cultivar nada! Só para semear capim, que abandonam assim
que mirra e o gado começa a emagrecer!”. Tempos depois, viajei de ônibus de
Boa Vista até Manaus, por outra estrada, a que atravessa a terra dos Waimiri-
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-Atroari. Pensei mais uma vez naqueles habitantes da floresta, que foram mui-
to corajosos, negando-se a ceder o território de seus antepassados. Mesmo
assim, no final a estrada acabou atravessando a terra deles e os brancos, de
raiva, fizeram-nos morrer quase todos.29
A floresta deles foi picotada por todos
os lados. Esses pensamentos me deixavam triste. Dizia a mim mesmo: “Os
brancos não possuem sabedoria nenhuma. Dizem que o Brasil é muito grande.
Então, por que ficam vindo de todas as partes para ocupar nossa floresta e
devastá-la? Cada um deles não tem sua própria terra, onde sua mãe o fez nas-
cer?”. Pensava também, com tristeza, em nossos antigos, que desde a infância
eu tinha visto serem devorados um a um pelas epidemias, e em todos os nossos
que não tinham parado de morrer desde a abertura da estrada.
Naquela época, outros brancos também tinham começado a falar em de-
fender nossa floresta. Não eram gente do governo. Chamavam-se ccpy.30
Vin-
dos de longe, eles trabalhavam sozinhos, no canto deles. No começo, ainda não
tínhamos amizade e não falavam comigo. Só nos olhávamos de longe, descon-
fiados. Eu trabalhava em Demini com a Funai e eles deviam pensar que eu me
opunha a eles. Eu não tinha nada contra eles, mas o chefe de posto do Demini,
Amâncio, não gostava deles e vivia dizendo coisas ruins a seu respeito. Não
queria que eu fosse visitá-los. Repetia muitas vezes: “Não vá escutar essa gente!
Eles são estrangeiros. Desconfie deles! Querem roubar sua floresta. É por isso
que fingem defendê-la!”.31
No começo, o pessoal da ccpy só tinha falado de
seus projetos aos habitantes do rio Catrimani, onde tinham começado seu tra-
balho. Mostraram a eles mapas em que tinham desenhado a imagem de nossa
terra. Mas os Yanomami daquela região ainda não entendiam bem as coisas de
branco. Devem ter se perguntado o que eram aquelas grandes peles de papel
que aquela gente agitava diante deles falando em fechar a floresta!
Só fui conversar com o pessoal da ccpy muito tempo mais tarde, depois
de Amâncio ter deixado o posto Demini. Às vezes eu cruzava com um deles,
Carlo, que morava em Boa Vista, porque a casa deles não era muito longe da
Funai. Ele sempre se mostrava amigável. Então, por fim, resolvi lhes fazer uma
visita, para escutar suas verdadeiras palavras.32
Primeiro, eu disse a eles: “Vocês
querem proteger nossa floresta sem falar comigo? O que têm a me dizer a res-
peito disso? Não quero que meu pensamento fique no esquecimento!”. Eles me
responderam: “Davi, você tem de defender a sua floresta, porque se não o fizer
você mesmo, cada vez mais brancos virão trabalhar aqui e muitos dos seus
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ainda vão morrer!”. Isso me espantou. O pessoal da Funai de fato já tinha fa-
lado comigo em fechar nossa floresta. Mas nunca me disseram que eu mesmo
deveria lutar por isso! Então, compreendi que essas novas palavras eram direi-
tas. Expliquei a eles meu próprio pensamento: “Seus dizeres são sensatos. É
verdade. Mas se vocês sozinhos falarem em proteger nossa floresta, os outros
brancos não vão lhes dar ouvidos. Vão chamá-los de mentirosos. E se os Ya-
nomami não puderem escutá-los na língua deles, permanecerão surdos tam-
bém!”. Foi depois dessa conversa que o pessoal da ccpy começou a me ajudar
a viajar até as cidades para defender nossa terra.33
Naquela época, bandos de garimpeiros estavam começando a invadir os
rios Uraricaá e Apiaú.34
Então, tive de deixar novamente minha casa em Wato-
riki. Agora, porém, não se tratava mais de ir ajudar o pessoal da Funai. Comecei
a viajar para contar a todos os brancos de longe como os garimpeiros transfor-
mavam nossos rios em lodaçais e sujavam a floresta com fumaças de epidemia.
Nessas viagens, ouvi pela primeira vez outros índios defendendo suas terras com
palavras firmes. Ao escutá-los, compreendi que não podia ficar mudo esperan-
do que outros lutassem em meu lugar para proteger os meus. Meu pensamento
ganhou firmeza e minhas palavras aumentaram. Resolvi falar como eles. De
modo que foi ao ouvi-los que realmente aprendi a defender minha floresta. Os
brancos que tinham se tornado meus amigos me incentivaram a falar, é verda-
de. Mas nunca me ensinaram como fazê-lo! Entre nós, são os grandes homens
que, com seus discursos hereamuu, nos inculcam desde a infância o modo de
proferir palavras direitas e sábias. Porém, não foram nem meus parentes nem
os brancos que me ensinaram a falar para proteger a floresta. Eu me virei sozi-
nho, apesar de no começo não ter a menor ideia de como fazer isso.
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Mas antes de os garimpeiros chegarem em grande número à nossa flores-
ta e antes de eu começar a falar para os brancos, eu tinha me tornado xamã.
Minhas viagens pela Funai tinham diminuído. Meu pensamento tinha recupe-
rado a calma. Eu tinha pedido a meu sogro que me fizesse beber o pó de yãkoa­
na. Ele tinha aberto os caminhos dos xapiri para mim e tinha dito a eles para
construírem para mim uma casa de espíritos no peito do céu. Eles então tinham
começado a vir se instalar nela, em número cada vez maior, e assim eu tinha
me tornado um xamã mais experiente. Isso foi depois do nascimento de meu
primeiro filho. Eu tinha ficado mais firme e mais esperto.35
Eu já tinha dado
atenção às palavras sobre nossa terra que ouvira da boca do pessoal da Funai e
depois da ccpy. Elas tinham começado a fazer seu caminho em mim. Para
dizer a verdade, não deixavam mais o meu pensamento. Tornado fantasma, no
tempo do sonho ou sob efeito da yãkoana, eu costumava ver os brancos reta-
lhando nossa terra, como fazem com a deles. Isso me deixava muito aflito e
logo a imagem de Omama chegava a mim. Eu me dizia então: “Mas o que os
brancos querem? Por que maltratam tanto a floresta? Não era essa a vontade
de Omama, que a criou! Se, depois de tê-los criado, eles os mandou viver tão
longe, era mesmo para que não devastassem nossa floresta! Não podemos acei-
tar que voltem para desenhá-la e recortá-la desse modo! Talvez seja essa a
vontade dos grandes homens deles. Mas, se cedermos, morreremos todos!”.
Com nossas palavras, dizemos que os antigos brancos desenharam sua terra
para retalhá-la. Primeiro cobriram-na de traços entrecruzados, formando re-
cortes, e, no meio deles, pintaram manchas redondas.36
É assim que os xamãs
podem vê-la. Esse traçado de linhas e pontos, como manchas de onça, parece
deixá-la muito mais bonita. Porém, esses desenhos são em seguida colados num
livro e aqueles que querem plantar sua comida nesses pedaços têm de devolver
seu valor. Assim, os brancos alegam que esses desenhos de terra têm um preço,
e é por isso que os trocam por dinheiro.
Omama não quis, no entanto, que o mesmo ocorresse com nossa floresta.
Disse aos ancestrais dos brancos, quando os criou: “A terra das gentes da flo-
resta não será desenhada. Permanecerá inteira. De outro modo, eles não pode-
rão mais abrir nela suas roças ou caçar como quiserem e acabarão todos mor-
rendo. Vocês podem dividir a terra que dei a vocês, mas fiquem longe da deles!”.
Apesar dessas antigas palavras, o pensamento dos brancos permanece cheio de
esquecimento. Eles não sabem sonhar e não sabem como fazer dançar as ima-
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gens de seus antepassados. Se as escutassem, elas os impediriam de invadir
nossa terra. Seus chefes, ao contrário, não param de dizer: “Somos poderosos!
Somos donos de toda a floresta. Que morram seus habitantes! Estão morando
nela à toa, num solo que nos pertence!”. Esses brancos só pensam em cobrir a
terra com seus desenhos, para fatiá-la e acabar nos dando apenas uns poucos
pedaços, cercados por seus garimpos e plantações. Depois disso, satisfeitos, vão
declarar: “Eis a sua terra. Fiquem satisfeitos, nós a estamos dando a vocês!”.
Nossa floresta está sempre bela e fresca, mesmo quando a chuva rareia. O
poder de sua fertilidade në rope mantém suas árvores vivas. Ela está situada no
centro do antigo céu Hutukara, onde está enterrado o metal de Omama, nas
nascentes dos rios. Para além de seus limites, no território dos brancos à nossa
volta, há somente terras feridas, de onde vêm todas as fumaças de epidemia.37
Viajei bastante de avião por cima da floresta e em suas beiras só vi árvores mor-
tas, de que o fogo matou até as sementes, escondidas no chão. Vi a terra dos
brancos se estendendo ao longe, retalhada por todos os lados e coberta de capim
ralo. Não há mais nenhuma folhagem e o solo desses lugares logo vai ser só areia.
Mas os brancos não querem ouvir nossas palavras. Só pensam em tornar
nossa terra tão nua e ardente quanto o descampado em volta de sua cidade de
Boa Vista. Esse é o único pensamento deles quando olham para a floresta.
Devem achar que nada pode acabar com ela. Estão enganados. Ela não é tão
grande quanto lhes parece. Aos olhos dos xapiri, que voam além das costas do
céu, ela parece estreita e coberta de cicatrizes. Traz nas bordas as marcas de
queimadas dos colonos e dos fazendeiros e, no centro, as manchas da lama dos
garimpeiros. Todos a devastam com avidez, como se quisessem devorá-la. Os
xamãs estão vendo que ela sofre e que está doente. Tanta destruição nos deixa
muito preocupados. Tememos que a floresta acabe revertendo ao caos e ani-
quilando os humanos, como ocorreu no primeiro tempo.38
Nossos espíritos
xapiri ficam muito apreensivos ao observar a terra machucada e tornada fan-
tasma. Retornam de seus voos ao longe chorando suas feridas em seus cantos.
Ouvi muitas vezes suas vozes lamentarem, enquanto eles levavam minha ima-
gem às lonjuras para me mostrar a devastação.
Meu sogro não viajou tão longe quanto eu na terra dos brancos. No entan-
to, é um xamã antigo e seus espíritos já conhecem todas essas coisas. Quando
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conto a ele minhas viagens, declara apenas: “Você diz palavras verdadeiras! O
pensamento dos brancos é cheio de ignorância. Eles não param de devastar a
terra em que vivem e de transformar as águas que bebem em lodaçal!”. Foi ele
quem me deu sabedoria, me propiciando contemplar o que os xapiri veem.
Costumava me chamar e dizer: “Venha cá! Vou alargar seu pensamento. Você
não deve envelhecer sem se tornar um verdadeiro homem espírito. Senão, ja-
mais poderá ver a imagem da floresta com os olhos dos xapiri!”.39
Então, eu me
agachava e bebia yãkoana com ele durante um longo tempo. Aos poucos, meus
olhos morriam sob a potência de seu pó. Era assim que, depois de eu ter virado
fantasma, os espíritos de meu sogro me carregavam até o peito do céu. Voavam
em alta velocidade com minha imagem e meu sopro vital. Minha pele perma-
necia no chão da casa, enquanto meu interior atravessava as alturas. Então, de
repente, eu era capaz de ver do mesmo modo que os xapiri e, assim, tudo se
esclarecia. Eu via, de um lado, a beleza de nossa floresta e, do outro, a terra dos
brancos, devastada e coberta de desenhos e recortes, como uma velha pele de
papel rasgada. Na escuridão, Titiri, o espírito da noite, fazia cintilar as cicatrizes
como fachos de luz dispersos. Conseguia ver até as montanhas, bem longe, re-
cortadas no primeiro tempo pelos ancestrais dos brancos, para edificar suas
casas de pedra.40
Os espíritos de Omama  41
e os espíritos do céu contemplavam
a terra como uma vastidão de imagem e me diziam: “A floresta só não parece
ter fim aos olhos de fantasma dos humanos. De onde a vemos, porém, não
passa de uma manchinha na terra. Fiquem atentos, os brancos ameaçam acabar
com ela depressa! Vão derrubar todas as suas árvores e, uma vez desnudada,
será deles!”.
Com meu sogro, eu fazia também dançar os espíritos dos antigos brancos,
os napënapëri, que nos mostravam a imagem das peles de papel com as quais
os de hoje pretendem dividir nossa terra.42
As imagens dos napënapëri e as de
Omama caminham juntas. São do mesmo tipo, pois foi Omama que criou esses
ancestrais dos brancos. Na língua de fantasma deles, os espíritos nos diziam:
“Retornamos de terras longínquas que os brancos desenharam e desmataram.
Fiquem atentos! Sua floresta já está coberta por esses mesmos desenhos. Eles
querem se apoderar dela. Já estão bem perto e vão comendo suas beiradas sem
trégua. Se continuarem avançando, ela vai acabar retornando ao caos e vocês
vão morrer com ela. Defendam sua terra, cercando-a com nossas estacas de
metal. Assim, os que querem destruí-la não poderão entrar!”. Os napënapëri
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também nos falavam dos lugares onde os brancos fabricam suas máquinas e
motores, em terras de águas sujas, cheias de barulho e enevoadas de fumaças
de epidemia.
O espírito zangão Remori, que, no primeiro tempo, deu a esses forasteiros
sua língua emaranhada, também dançava para nós. Quando voltava de outras
áreas devastadas, avisava: “A jusante, a floresta está muito doente, os brancos
não param de maltratá-la! Virou outra e muitos deles lá morrem de fome ou
são devorados pelos incontáveis seres maléficos que ali moram!”. Outras vezes,
eram as imagens dos animais dos antigos brancos, bois e cavalos, que desciam
a nós e nos davam a ouvir suas palavras aflitas sobre as terras áridas e as quei-
madas das grandes fazendas na beira das estradas. É desse modo que os xapiri
contam a seus pais tudo o que viram, venham eles de terras ressecadas e sem
árvores, de imensos lagos agitados por constantes tempestades ou do grande
vazio para além do céu. Os habitantes de nossas casas, que nada sabem desses
lugares, podem então escutar suas palavras através do canto dos xamãs e, assim,
conhecê-los por sua vez. O mesmo acontece quando os xamãs fazem ouvir a
voz dos ancestrais animais do primeiro tempo. Seus fantasmas estão hoje mui-
to longe de nossa floresta. Mas os xapiri são capazes de descer até eles. É por
isso que também nos trazem as palavras de suas imagens.43
Foi assim que, com os espíritos, compreendi que a floresta não é infinita
como eu pensava antes. Vi as marcas calcinadas e os recortes que a cercam de
todos os lados. Agora sei que se os brancos continuarem avançando, vão fazê-
-la desaparecer bem depressa. Já estão dizendo que ela é grande demais para
nós. É mentira, claro. Ela não é tão vasta como se pensa e logo será a única
floresta ainda viva. Se nada soubéssemos dos xapiri, do mesmo modo nada
conheceríamos da floresta, e seríamos tão desmemoriados quanto os brancos.
Não pensaríamos em defendê-la. Os espíritos receiam que os brancos devastem
todas as suas árvores e seus rios. São eles que dão suas palavras aos xamãs.
Permanecem sempre ao nosso lado, e são os primeiros a combater para salva-
guardar nossa terra. Os espíritos napënapëri fixaram lâminas de ferro em todo
o seu contorno, para que os garimpeiros, colonos e fazendeiros não se aproxi-
mem de nossas casas. Os espíritos de Omama plantaram em seu centro a ima-
gem de uma barra de metal cercada de vendavais que derrubam os aviões e
helicópteros dos garimpeiros na floresta. É graças a esses xapiri que ela ainda
não está toda invadida. Mas meu sogro e eu não fazíamos dançar apenas a
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imagem dos ancestrais napënapëri e a de Omama para manter os brancos à
distância. Quando me via voltar da cidade muito preocupado, também me
chamava para beber yãkoana para obscurecer o espírito dos políticos que que-
rem retalhar nossa terra. Então fazíamos descer juntos os espíritos da vertigem
mõeri, para confundir seus olhos e emaranhar os desenhos de suas peles de
papel. Assim era. Meu sogro é um grande xamã dono de incontáveis xapiri e
foi ele quem me ensinou a fazê-los dançar para defender a floresta.
Eu não detenho toda a sabedoria dos nossos antigos. No entanto, desde
criança, sempre quis entender as coisas. Depois, uma vez adulto, foram as pala-
vras dos espíritos que me fizeram mais inteligente e sustentaram meu pensa-
mento. Agora sei que nossos ancestrais moraram nesta floresta desde o primei-
ro tempo e que a deixaram para nós para vivermos nela também. Eles nunca a
maltrataram. Suas árvores são belas e sua terra é fértil. O vento e a chuva con-
servam seu frescor. Nós comemos seus animais, seus peixes, os frutos de suas
árvores e seu mel. Bebemos a água de seus rios. Sua umidade faz crescer as
bananeiras, a mandioca, a cana-de-açúcar e tudo o que plantamos em nossas
roças. Viajamos por ela para comparecer às festas reahu a que somos convida-
dos. Nela fazemos nossas expedições de caça e coleta.44
Os espíritos nela vivem
e circulam por toda parte à nossa volta. Omama criou esta terra e aqui nos deu
a existência. Pôs no seu chão as montanhas, para mantê-la no lugar, e fez delas
as casas dos xapiri, que deixou para que cuidassem de nós. É nossa terra e essas
são palavras verdadeiras.
Ver os brancos rasgarem a floresta com suas máquinas e a sujarem com
suas fumaças de epidemia me deixou furioso. Antigamente, eles moravam mui-
to longe de nós, pensando que para além deles só havia um grande vazio. Não
é verdade. No primeiro tempo, Omama só os manteve afastados de nossa flo-
resta para que não pudessem se aproximar dela. Avisou os ancestrais deles:
“Esta é a minha terra. Vocês, gente de Teosi, que não têm nenhuma sabedoria,
irão viver noutro lugar, bem longe dela, para não devastá-la. Só meus filhos
permanecerão aqui, pois têm amizade por ela!”. É por isso que os brancos ti-
veram tanta dificuldade para chegar até nós, mesmo com seus barcos a motor
e depois seus aviões. Nossos rios são cortados por inúmeras cachoeiras e nossa
floresta é coberta de morros e serras que se interpõem no caminho deles. Que-
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remos continuar vivendo nela sozinhos, com a mente calma, como nossos
antepassados antigamente. Não queremos mais morrer antes de envelhecer.
Não queremos mais que nossos filhos e nossas mulheres chorem de fome.
Quando nos misturamos com os brancos, tudo começa a dar errado. Eles nos
prometem mercadorias, quando só pensam em roubar nossa terra. Disparam
suas espingardas contra nós quando ficam bravos. Começam a pegar nossas
mulheres. Ficamos doentes o tempo todo e não podemos mais caçar nem cul-
tivar nossas roças. No final, morremos quase todos de suas epidemias xawara.
Os espíritos de nossos xamãs antigos, que têm amizade pela floresta, não
nos permitem deixar seus inimigos se instalarem nela — garimpeiros, fazen-
deiros e madeireiros. Essa gente só sabe desmatá-la e sujá-la. Querem nos eli-
minar, para construir cidades no lugar de nossas casas abandonadas. Isso, po-
rém, não nos entristece, pois os xapiri estão sempre ao nosso lado para nos dar
coragem: “Muitos de vocês morreram, mas se defendem sua floresta, voltarão
a ser muitos! Suas mulheres ainda vão lhes dar muitos filhos! Seus maiores se
foram, mas as palavras de Omama ainda estão em vocês, sempre igualmente
novas. Vocês têm sabedoria e, enquanto estiverem vivos, jamais cederão sua
terra!”. Desde o tempo da estrada, penso muitas vezes em todas essas coisas a
respeito de nossa floresta. Tudo isso faz crescer cada vez mais em mim palavras
para recusar a abertura de nossa terra para os brancos. Quero que meus filhos,
seus filhos e os filhos de seus filhos possam nela viver em paz, como nossos
antigos antes de nós. Esse é todo o meu pensamento e meu trabalho. Sou xamã
e vejo todas essas coisas bebendo yãkoana e no meu sonho. Meus espíritos
xapiri nunca ficam quietos. Viajam sem descanso para terras distantes, para
além do céu e do mundo debaixo da terra. Voltam de lá para me dar suas pa-
lavras e me avisar sobre o que viram. É através de suas palavras que sou capaz
de compreender todas as coisas da floresta.
Os xamãs, como eu disse, não dormem como os demais homens. De dia,
bebem o pó de yãkoana e fazem dançar seus espíritos diante de todos. À noite,
porém, os xapiri continuam dando-lhes a ouvir seus cantos no tempo do so-
nho. Saciados de yãkoana, não param nunca de se deslocar e seus pais, em
estado de fantasma, viajam por intermédio deles. É desse modo que os xamãs
conseguem sonhar com as terras devastadas que cercam a nossa floresta e com
a ebulição das fumaças de epidemia que surgem delas. Só os xapiri nos tornam
realmente sabidos, porque quando dançam para nós suas imagens ampliam
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nosso pensamento. De modo que se eu não tivesse me tornado xamã, jamais
saberia como fazer para defender a floresta. Gente comum não pensa nessas
coisas. Quando vê chegar garimpeiros ou outros brancos, seu espírito perma-
nece vazio. Contenta-se então em sorrir, pedindo comida ou mercadorias. Não
se pergunta: “O que devo pensar desses brancos? O que eles vêm fazer na flo-
resta? Serão perigosos? Devo defender minha terra e expulsá-los?”. Não, seu
pensamento fica plantado em seus pés, sem poder avançar. Só consegue dizer
a si mesma: “Para que se preocupar? A floresta é muito grande e não pode ser
destruída. Vou é tentar conseguir roupas e cartuchos!”. Quando o pensamen-
to dos nossos fica assim confuso, é como uma trilha ruim na floresta. A gente
segue por ela com dificuldade no meio da vegetação emaranhada e sombria,
tropeçando, e acaba por cair num buraco ou num igarapé, tem os olhos furados
por espinhos ou é mordido por uma cobra. Eu, ao contrário, quis tomar um
caminho livre, cuja claridade se abre ao longe diante de mim. Esse caminho é
o de nossas palavras para defender a floresta.
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15. Comedores de terra
Os garimpeiros e o pai do ouro.
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A pista do posto de Paapiú parece um cenário da Guerra do Vietnã.
Um avião pousa ou decola a cada cinco minutos. Uma ronda inces-
sante de helicópteros sobrevoa a floresta. […] O posto da Funai está
abandonado. Seringas e medicamentos estão amontoados em desor-
dem, misturados a latas de cerveja vazias. O registro dos tratamen-
tos é folheado pelo vento. O rádio desapareceu […]. Os Yanomami
estão abandonados aos garimpeiros. O ronco dos motores só para
após o anoitecer. Então — me diz um idoso —, nós escutamos um
ruído muito pior: o de nossas crianças chorando de fome
Senador Severo Gomes
Folha de S.Paulo, 18 jun. 1989
Depois de ter voltado a trabalhar para a Funai, tinha visto os brancos
rasgarem o chão da floresta para construir uma estrada. Eu os tinha visto der-
rubar suas árvores e queimá-las para plantar capim. Eu conhecia o rastro de
terras vazias e de doenças que deixam atrás de si. Apesar disso, sabia ainda
pouca coisa a respeito deles. Foi quando os garimpeiros chegaram até nós que
realmente entendi de que eram capazes os napë! Multidões desses forasteiros
bravos surgiram de repente, de todos os lados, e cercaram em pouco tempo
todas as nossas casas. Buscavam com frenesi uma coisa maléfica da qual jamais
tínhamos ouvido falar e cujo nome repetiam sem parar: oru — ouro. Começa-
ram a revirar a terra como bandos de queixadas. Sujaram os rios com lamas
amareladas e os enfumaçaram com a epidemia xawara de seus maquinários.1
Então, meu peito voltou a se encher de raiva e de angústia, ao vê-los devastar
as nascentes dos rios com voracidade de cães famintos. Tudo isso para encon-
trar ouro, para os outros brancos poderem com ele fazer dentes e enfeites, ou
só para esconder em suas casas! Naquela época, eu tinha acabado de aprender
a defender os limites de nossa floresta. Ainda não estava acostumado à ideia de
que precisava também defender suas árvores, seus animais, seus cursos d’água
e seus peixes. Mas entendi logo que os garimpeiros eram verdadeiros comedo-
res de terra e que iam devastar tudo na floresta. Essas novas palavras me vieram
aos poucos, durante minhas viagens por nossa terra e entre os brancos. Fixa-
ram-se em mim e aumentaram aos poucos, ligando-se umas às outras, até fazer
um longo caminho em minha mente. Foi com elas que comecei a falar nas ci-
dades, embora minha língua parecesse, em português, ainda tão torta como a
de um fantasma!
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Se deixarmos os garimpeiros cavarem por toda parte, como porcos-do-
-mato, os rios da floresta logo vão se transformar em poças lamacentas, cheias
de óleo de motor e lixo. Eles também lavam o pó de ouro misturando-o com o
que chamam de azougue. Os outros brancos chamam isso de mercúrio.2
Todas
essas coisas sujas e perigosas fazem as águas ficarem doentes e tornam a carne
dos peixes mole e podre. Quem os come corre o risco de morrer de disenteria,
descarnado, com violentas dores de barriga e tonturas. Os donos das águas são
os espíritos das arraias, dos poraquês, das sucuris, dos jacarés e dos botos. Eles
vivem na casa de Tëpërësiki, seu sogro, com o ser do arco-íris, Hokotori. Se os
garimpeiros sujarem as nascentes dos rios, todos eles morrerão e as águas de-
saparecerão com eles. Fugirão de volta para dentro da terra. Aí, como podere-
mos matar nossa sede? Morreremos todos com os lábios ressecados.
Os motores e as espingardas dos garimpeiros espantarão toda a caça e
acabarão também por nos deixar esfomeados. Antigamente, eram muitos os
queixadas na floresta. Depois da chegada dos garimpeiros, seus bandos desa-
pareceram.3
Logo os caçadores passaram a não encontrar nenhum em parte
alguma, mesmo indo muito longe de suas casas. A floresta tinha ficado ruim e
se enchera de fumaças de epidemia xawara. Os antigos xamãs que sabiam fazer
dançar a imagem dos espíritos queixada foram mortos pelas doenças. Então,
os espelhos desses xapiri foram quebrados e seus caminhos foram cortados. Os
queixadas são ancestrais humanos. Viraram caça ao cair no mundo subterrâ-
neo, quando o céu desabou, no primeiro tempo. Por isso eles têm muita sabe-
doria. Serem obrigados a viver emagrecidos e doentes, numa floresta devasta-
da, deixou-os enfurecidos. Voltaram para dentro da terra, por onde passa o
caminho do sol, e os xapiri fecharam de novo o buraco no qual sumiram.4
Antigamente, nossos maiores não ficavam morrendo à toa. Desde a che-
gada dos garimpeiros é diferente. A maior parte de nossos pais e avós foi de-
vorada por suas doenças. Nas terras altas, muitos dos nossos estão agora mo-
rando em casas desabadas, cobertas de lonas de plástico velho. Os jovens,
órfãos, não abrem mais roças e não vão mais caçar. Ficam na rede o dia todo,
ardendo em febre. É por tudo isso que não queremos garimpeiros na floresta
em que Omama criou nossos ancestrais. O pensamento desses brancos está
obscurecido por seu desejo de ouro. São seres maléficos. Em nossa língua, os
chamamos de napë worëri pë, os “espíritos queixada forasteiros”, porque não
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param de remexer os lamaçais, como porcos-do-mato em busca de minhocas.
Por isso também os chamamos de urihi wapo pë, os “comedores de terra”.5
Os garimpeiros primeiro apareceram em nossa floresta no alto rio Apiaú,
perto de uma antiga roça dos Moxi hatëtëma, a gente que procuramos em vão
junto com Chico no tempo da estrada.6
Foram os habitantes do rio Lobo
d’Almada que nos avisaram de sua presença. Um dos homens mais velhos de
sua casa tinha acabado de morrer. Eles atribuíram sua morte à mão de feiticei-
ros dos Moxi hatëtëma. Tomados pela raiva do luto, resolveram lançar um reide
para vingá-lo. Uma tropa de guerreiros se pôs a caminho, em direção ao alto
rio Apiaú. Mas não encontraram nenhuma casa inimiga. Por outro lado, acaba-
ram topando com um grande acampamento de brancos! Um dos nossos, que
tinha se casado com uma mulher do rio Lobo d’Almada, veio nos visitar pouco
depois e nos deu a notícia: “Encontramos brancos no rio Apiaú, estão escavan-
do a terra e sujando o rio! Já são muitos!”. Os grandes homens de nossa casa
então fizeram discursos hereamuu e resolveram expulsar aqueles comedores de
terra da floresta.
Eu, de minha parte, chamei em seguida a Funai pelo rádio, para pedir
ajuda a Amâncio, o antigo chefe do posto Demini, que agora era delegado em
Boa Vista. Achei que podia contar com ele. Mas ele me respondeu que eu era
funcionário da Funai e que devia ir eu mesmo expulsar os garimpeiros do
Apiaú!7
Fiquei decepcionado, mas não preocupado demais, porque sabia que
não estava sozinho e que meus parentes estariam comigo na expedição. No dia
seguinte, todos os homens de Watoriki se reuniram, liderados pelos mais ve-
lhos. Formamos um grupo, armados de arcos e flechas, e então partimos para
o rio Catrimani. Chegamos após dois dias de caminhada pelo antigo traçado
da estrada. Na região desse rio, em torno da missão dos Padres, há várias casas
amigas. Elas nos hospedaram à noite. Pedimos nelas tropas de guerreiros como
reforço. Depois, enquanto subíamos o Catrimani, os homens do Lobo d’Almada
que tinham achado o acampamento dos brancos se juntaram a nós. No final,
éramos realmente muitos! Mas o alto rio Apiaú ainda estava longe, e tivemos
de dormir três noites e andar dias a fio na floresta, até chegarmos lá. Então,
fizemos uma parada numa clareira, perto do acampamento dos garimpeiros.
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Já descansados, nos pintamos com tinta preta, como fazem os guerreiros antes
de atacar.
Depois começamos a cercar o acampamento dos brancos, com os arcos
retesados, prontos para disparar nossas flechas.8
Tudo estava silencioso, a maio-
ria dos garimpeiros estava trabalhando longe dali, chafurdando em seus buracos
de ouro.9
Por debaixo das lonas de plástico azul dos barracos, só ouvimos as
vozes de dois deles. Deviam ter começado a beber cachaça havia algum tempo,
pois já estavam bêbados e falavam como fantasmas. Avançamos na direção
deles, devagar, sem nenhum ruído. Quando finalmente perceberam nossa pre-
sença, pareciam aterrorizados. Ficaram imóveis e mudos. Aí, de repente, um
deles tentou desajeitadamente pegar sua espingarda. Mirou e chegou perto de
atirar, mas seu companheiro, que parecia ser o chefe daquela gente, o impediu:
“Não atire! Não atire!”. Ele tinha se dado conta de que éramos muitos e de que
se um de nós fosse ferido, os dois seriam crivados de flechas em seguida.
Então me aproximei, para falar com eles. Como os demais guerreiros, eu
estava pintado de preto dos pés à cabeça. Disse a eles, em português: “Boa
tarde!”. Surpresos por eu conhecer sua língua e amedrontados, perguntaram-
-me: “Quem são vocês? O que querem conosco?”. Respondi apenas: “Somos
habitantes da floresta, Yanomami!”. Ainda muito apreensivos, tentaram me
amansar: “Estão com fome? Querem algo para comer? Peguem nossa comida!”.
Recusei logo: “Não, não queremos comer, queremos falar!”. Começaram a se
acalmar um pouco. Depois, aos poucos, outros garimpeiros foram chegando e
eu me dirigi também a eles: “Não viemos para fazer guerra, mas para pedir a
vocês que saiam deste lugar. Queremos convencê-los com nossas palavras, não
com nossas flechas. Vocês destroem a floresta, pensando que está vazia, mas
não está. Há nela muitas de nossas casas e nós bebemos a água desses rios que
vocês sujam!”.
Um pouco mais sóbrio, o chefe dos garimpeiros começou a mentir para
mim: “Não sabíamos que os Yanomami viviam nesta floresta, senão nem te-
ríamos começado a trabalhar aqui!”. Retruquei: “É nossa terra. Vocês com
certeza viram as roças antigas perto do seu acampamento. Foram plantadas por
nossa gente. A floresta que Omama nos deu vem até aqui. Foi ela que viu nas-
cer nossos antepassados e é sob o seu abrigo que nascem nossos filhos. Vocês
não podem vir devastá-la como bem quiserem. Convoque seus homens e vol-
tem todos para suas casas! Omama nunca enviou seus ancestrais para fuçar o
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solo de nossa floresta como queixadas, para matar os habitantes dela com suas
epidemias e suas espingardas! E depois, para que vir trabalhar aqui? Na flores-
ta, vocês passam os dias chafurdando na lama e ficam doentes o tempo todo.
Para que sofrer desse jeito? O Brasil é muito grande. Não faltam outras terras
para vocês. Parem de cobiçar a da gente da floresta. Vão trabalhar nas suas
terras, longe daqui!”. Falei firme com eles, durante um bom tempo. Porém, no
final, responderam apenas: “Está bem, vamos embora, mas daqui a algum tem-
po, primeiro precisamos terminar nosso trabalho aqui”.
Depois disso, fomos até os buracos de ouro em que estavam trabalhando
outros garimpeiros. Então foi a nossa vez de ficarmos surpresos, porque eram
de fato muito numerosos, muito mais do que nós! Para acharem a poeira bri-
lhante que ficavam procurando sem parar nos igarapés, tinham cavado por
toda parte grandes fossas ladeadas de montes de cascalho. Todos os igarapés
estavam cheios de lama amarelada, sujos de óleo de motor e cobertos de peixes
mortos. Nas margens, desmatadas, havia máquinas rugindo com um barulho
ensurdecedor e sua fumaça empesteava a floresta nos arredores. Era a primei-
ra vez que eu via garimpeiros trabalhando. Pensei: “Hou! Isso é péssimo. Esses
brancos parecem querer devorar a terra, como tatus-canastra e queixadas! Se
deixarmos seu número aumentar, vão devastar a floresta toda, do mesmo jeito
que estão fazendo aqui. Precisamos mesmo expulsá-los!”. Então, me dirigi aos
garimpeiros num tom mais duro: “Parem as máquinas e juntem suas coisas!
Vocês têm de ir embora já! Vocês reviram o solo dos rios e sujam as águas, os
rastros que vocês deixam na floresta são perigosos para nós!”. Porém, mais uma
vez, responderam apenas: “Sim, depois, quando tivermos acabado nosso ser-
viço!”. E acrescentaram: “Saiba que assim que as notícias deste ouro forem
ouvidas na cidade, outros garimpeiros vão vir para cá, e depois outros e mais
outros! Pode nos expulsar agora, mas não vai adiantar nada!”. Essa resposta me
deixou exasperado. Mas eles já eram numerosos demais, e bem armados, para
se assustarem com nossas flechas.
Então, guardando minha raiva em mim, pude apenas retrucar que volta-
ríamos, em maior número, e acompanhados por funcionários da Funai e agen-
tes da Polícia Federal. Finalmente, resolvemos partir, sem termos podido fazer
nada. Era final de tarde. Os garimpeiros nos convidaram a passar a noite em
seu acampamento. Recusamos, porque temíamos que tentassem nos atacar
durante o sono. Resolvemos então nos instalar na floresta, longe deles. Ansio-
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sos, ficamos em alerta até amanhecer, sem conseguir dormir direito. No dia
seguinte, tomamos o caminho de volta. Foi assim que, pela primeira vez, tentei,
junto com os meus, defender a floresta contra os garimpeiros.
Assim que retornamos a Watoriki, chamei pelo rádio o delegado da Funai
em Boa Vista, para contar a ele nossa viagem. Expliquei que já havia garimpei-
ros demais na floresta para podermos expulsá-los sozinhos. Voltei a lhe pedir
ajuda, e com urgência, antes que fossem tantos no rio Apiaú que seria impossí-
vel expulsá-los de lá. Depois, as luas foram passando, sem eu receber nenhuma
palavra da cidade. Eu estava aflito e decepcionado, achava que o delegado não
se preocupava conosco. Porém, certo dia fui avisado de surpresa da aterrissa-
gem de um grupo de policiais federais na pista da missão do rio Catrimani.
Policiais militares e um funcionário da Funai tinham vindo com eles. A men-
sagem me alegrou muito. Então eu, de minha parte, juntei os homens de Wa-
toriki e nos pusemos em marcha para ir ao encontro daqueles brancos que ti-
nham resolvido nos ajudar. Chegando a Catrimani, voltamos a pedir o reforço
dos guerreiros das casas vizinhas da missão e, juntos, começamos a subir no-
vamente o rio em direção ao acampamento dos garimpeiros do Apiaú. Dessa
vez, porém, a viagem durou muito mais tempo, porque os brancos não sabem
andar na floresta. São muito lentos e se queixam constantemente de cansaço ou
de sede! Não param de perguntar se vamos chegar logo ou de se largar pelas
beiras do caminho! O chefe dos federais reclamava de dor no joelho e tínhamos
de ficar à sua espera muitas vezes. E ainda por cima tínhamos de transportar
uma grande quantidade de alimento para eles: carne-seca, feijão, arroz e farinha
de mandioca. Disseram-me que pesava quatrocentos quilos. Nós carregávamos
tudo, mas eram eles que não avançavam! Já os garimpeiros não são tão fracos!
São seres maléficos, espíritos queixada, é por isso que sabem andar tão bem na
floresta com cargas enormes, sem sentir dor nem cansaço.
Por fim, uma semana depois, chegamos ao acampamento dos garimpeiros.
Estavam instalados no mesmo lugar e eram ainda mais numerosos. Mas, dessa
vez, vínhamos na companhia dos federais! Dirigi-me logo aos barracos cober-
tos de lona de plástico com um jovem policial do sul que, este sim, tinha se
mostrado resistente na floresta. Quando me viram, os garimpeiros pensaram
que era apenas mais um grupo de Yanomami. Aproximaram-se sem descon-
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fiança. Mas, de repente, distinguiram o uniforme de meu companheiro e as
letras amarelas em seu colete: “Polícia Federal”. Aí sentiram medo e ficaram
paralisados de um momento para o outro. O policial declarou, com firmeza:
“Não resistam! Viemos para expulsá-los da terra dos Yanomami!”. Os olhos
dos garimpeiros se cravaram nele, cheios de surpresa e raiva, mas não ousaram
protestar. Então, antes da chegada da noite, os federais instalaram conosco seu
acampamento, próximo ao dos garimpeiros. Depois, no dia seguinte, começa-
ram a reuni-los e a mandá-los embora, um por um, a pé pela floresta, de volta
para a cidade. Mas esvaziar aquele acampamento de garimpeiros levou muito
tempo! Tinham se tornado muitos mesmo! De modo que dormimos noites e
noites no rio Apiaú, antes de cessarem os ruídos das máquinas e o rumor dos
homens. Mas um dia, finalmente, a floresta voltou a ficar silenciosa e quase já
não restava comida. Era hora de partir. Os federais, assustados com o caminho
que tínhamos percorrido na vinda, não queriam mais andar na floresta. Fica-
ram lá mesmo e nós voltamos sozinhos até a missão Catrimani, com uma
mensagem pedindo para chamar um helicóptero para transportá-los. Dessa
vez, ficamos satisfeitos. Tínhamos conseguido, pela primeira vez, expulsar ga-
rimpeiros de nossa terra!
Contudo, o chefe do acampamento do rio Apiaú tinha dito a verdade. Ape-
sar de todos os nossos esforços, os garimpeiros logo voltaram para a floresta e
seu número não parou de crescer.10
Isso foi me deixando cada vez mais preo-
cupado. Perguntava a mim mesmo: “Se aumentarem a ponto de ninguém mais
ser capaz de expulsá-los, os habitantes da floresta vão todos desaparecer?”. En-
tão tentei, repetidas vezes, pedir à Funai para montar novas expedições para
tirar os garimpeiros de nossa terra. Cheguei até a ir a Brasília, para falar com o
presidente da Funai.11
Em vão. Respondeu-me apenas: “Não tenho dinheiro
para mandar todos esses garimpeiros de volta para casa, o número deles au-
mentou demais! Os lugares onde trabalham são como ninhos de vespas. Se
tentarmos expulsá-los, vão se jogar para cima dos policiais para se vingar! Estão
armados e são muito briguentos!”. Então voltei para casa, triste e com o peito
cheio de raiva.
Dois dias depois, outras palavras ruins chegaram até mim. Os garimpeiros
tinham acabado de assassinar vários parentes da região do rio Hero u, perto do
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posto da Funai de Paapiú.12
Eles tinham começado por devastar os afluentes
do alto rio Apiaú. Depois, começaram a se espalhar a partir de lá, rio acima,
para o lado das terras altas. E tinham por fim desembocado no rio Hero u,
onde subitamente acharam muito ouro. A partir desse momento, foram toma-
dos por um frenesi de urubus esfomeados.13
Apesar de ser impossível comer
ouro, parecia que eles queriam devorar todo o chão da floresta! Foi assim que
acabaram matando os habitantes do Hero u que atravancavam seu avanço.
Estes tinham acabado de aprender a procurar ouro, com os Yanomami do rio
Uraricaá, que chamamos Xiriana.14
Os garimpeiros vindos do rio Apiaú even-
tualmente encontraram o lugar em que eles estavam trabalhando. Ficaram
surpresos com a quantidade de ouro que encontraram lá. Então, vieram de
todos os lados, em grande número, para cavar o leito dos igarapés vizinhos. A
gente do Hero u ficou apreensiva e com raiva de ver todos aqueles brancos
entrando na sua floresta. Então, certo dia, resolveram expulsá-los.
Instalaram um acampamento de tapiris longe deles, e lá deixaram mulhe-
res e crianças. No dia seguinte, um grupo de guerreiros saiu em direção aos
buracos onde os garimpeiros trabalhavam. Um grande homem, que eu chama-
va de sogro, estava à frente deles. Decerto pensava: “Eu sou valente! Vai ser
fácil afugentar esses forasteiros!”. Todos sabiam que os napë não costumavam
se mostrar corajosos e que seria fácil intimidá-los e depois roubar suas armas.
Uma vanguarda de quatro guerreiros experientes entrou de repente no acam-
pamento dos garimpeiros, onde havia apenas um pequeno grupo de homens
desocupados. Alguns jovens yanomami permaneceram emboscados, no limiar
da floresta. Já no local, um dos quatro guerreiros exigiu que um dos garimpei-
ros lhe desse sua espingarda. Este não se deixou impressionar, e recusou. O
guerreiro insistiu e deu-lhe um soco no rosto. O garimpeiro, furioso, não cedeu
e empurrou o adversário com força, até fazê-lo cair. Depois, sem soltar a es-
pingarda, pegou com a outra mão um revólver 38 que levava na cintura e atirou
nele, à queima-roupa, quando ele estava tentando se levantar. Então, os outros
garimpeiros se aproximaram do corpo que jazia na lama, para terem certeza
de que estava mesmo morto. Ao ver isso, o genro do guerreiro assassinado, que
estava de tocaia na floresta, apoiou a espingarda no ombro e atirou num dos
brancos, para vingar o sogro, e o matou.
Os garimpeiros, surpresos, revidaram logo, matando dois outros guerrei-
ros que ainda estavam perto. O último deles, evitando os tiros, jogou-se no chão
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e rolou para baixo de um talude de cascalho. Mas assim que se levantou, para
fugir para dentro da floresta, acabou sendo atingido nas costas por uma bala e
caiu, sem movimento. Um grupo de garimpeiros conseguiu chegar até ele e o
liquidou a facadas. Em seguida, o rapaz que tinha vingado o sogro deu de cara
na floresta com o chefe dos garimpeiros, um grandão barbudo, e também o
matou. Por fim, outro guerreiro conseguiu dar um tiro de espingarda num
outro garimpeiro que fugia pelo matagal. A essas alturas, assustados com os
tiros, a maior parte dos que estavam trabalhando nos buracos de ouro vizinhos
abandonou suas máquinas e saiu correndo em todas as direções pela floresta
ao redor. Foi o que me contaram os do Hero u.
Assim que o delegado da Funai de Boa Vista recebeu a notícia do ocorri-
do, me mandou para o posto Paapiú. Cheguei lá sozinho. As mulheres ainda
tinham as maçãs do rosto negras de lágrimas e pó. Os do Hero u, carregando a
tristeza do luto, vieram ao meu encontro. Mostraram-me nos dedos, várias
vezes, com muita raiva, o número dos que tinham caído: “Um homem, um
outro, um outro e mais um outro! Seus cadáveres ainda estão lá na floresta,
onde foram mortos! Temos de ir buscá-los!”. Eles só tinham achado o cadáver
do grande homem que eu chamava de sogro, que fora ferido e liquidado a fa-
cadas pelos garimpeiros. Tinham conseguido suspendê-lo numa armação de
paus na floresta e começado a chorá-lo, como costumamos fazer. No dia se-
guinte, um funcionário da Funai e seis federais chegaram a Paapiú para me
ajudar. O local onde tinha ocorrido o conflito ficava a várias horas de cami-
nhada do posto. Pusemo-nos a caminho sem tardar. Quando chegamos ao
acampamento dos garimpeiros, estava vazio. Os policiais quiseram começar
pela busca dos cadáveres dos brancos. O primeiro deles, morto no garimpo,
tinha sido enterrado. Só encontramos um outro corpo nas redondezas. Era o
do chefe barbudo dos garimpeiros. Não conseguimos recuperar o último ca-
dáver perdido na mata. Em seguida, encontramos o lugar onde os garimpeiros
tinham enterrado os três Yanomami que tinham matado. Achamos depressa,
porque era uma cova rasa. Não tinham tido tempo de disfarçá-la com cuidado.
Então começamos a tirar os corpos da terra.
Os de Hero u que tinham vindo conosco nos ajudaram. Pedi também aos
federais para montarem guarda, para que os nossos pudessem cuidar de seus
mortos sem medo. Havia muitas mulheres. Todos estavam em prantos. Desen-
terrados os cadáveres, seus próximos os puseram em grandes sacos de folha de
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palmeira e os amarraram com ripas de madeira. Ergueram-nos na floresta,
sobre armações de estacas arrancadas do acampamento dos garimpeiros, e
depois todos voltaram para suas casas, rio abaixo. Ao ver os cadáveres sendo
arrancados da terra, também eu chorei. Pensei, com tristeza e raiva: “O ouro
não passa de poeira brilhante na lama. No entanto, os brancos são capazes de
matar por ele! Quantos mais dos nossos vão assassinar assim? E depois, suas
fumaças de epidemia vão comer os que restarem, até o último? Querem que
desapareçamos todos da floresta?”. A partir daquele momento, meu pensamen-
to ficou realmente firme. Entendi a que ponto os brancos que querem nossa
terra são seres maléficos. Sem isso, talvez tivesse continuado como muitos dos
nossos que, na ignorância, fazem amizade com eles apenas para pedir arroz,
biscoitos e cartuchos!
Pouco depois, os garimpeiros começaram a retornar ao acampamento
abandonado. Traziam muita carga de equipamento e provisões que tinham
escondido na mata. Então, os federais se aproximaram deles. Eu estava com
eles, ao passo que os demais Yanomami, desconfiados, ficaram escondidos na
floresta ao redor. Os policiais mandaram os garimpeiros se reunirem, deposi-
tarem suas cargas e suas armas. Todos eles costumavam trabalhar com suas
espingardas de caça ou rifles a tiracolo e um revólver na cintura. Mal disfar-
çando sua raiva, começaram a obedecer. Não diziam uma palavra, mas seus
olhos eram muito hostis. Perguntaram-me, em tom ameaçador: “É você o che-
fe dos Yanomami? Foi você que chamou os federais?”. Eu não me sentia tran-
quilo no meio de todos aqueles brancos armados, que tinham acabado de ma-
tar vários dos nossos. Contudo, minha revolta era maior do que o meu medo.
Retruquei logo que os Yanomami não têm chefe e que eles tinham de ir embo-
ra de nossa floresta. E acrescentei em seguida, dirigindo-me aos policiais: “Vo-
cês têm de expulsar todos esses comedores de terra, porque se continuarem
vindo tantos, morreremos todos, do mesmo modo que os homens que acaba-
mos de tirar do chão da floresta!”. Foi assim que aconteceu. Depois de termi-
narem de juntar as armas dos garimpeiros, os federais montaram um acampa-
mento e ficaram à espera do helicóptero e dos reforços que tinham pedido. Eu
não quis ficar naquele lugar. Sabia que, assim que pudessem, os garimpeiros
tentariam me matar para se vingar. Então parti com os outros Yanomami e o
homem da Funai de volta para o posto Paapiú. Não tínhamos comido nada e
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estávamos exaustos. No dia seguinte, um avião pequeno me levou de volta
para casa, em Watoriki, com toda a tristeza e o tormento do que acabara de ver.
Algum tempo depois, os garimpeiros voltaram para Paapiú e penetraram
em massa nas terras altas de nossa floresta. Desmataram por toda parte para
abrir pistas para seus aviões e helicópteros, que cruzavam o céu constantemen-
te. Numerosos como saúvas koyo, passavam em colunas cerradas ao redor das
casas yanomami. As mulheres tinham medo de sair até para pegar água! A
floresta ficou vazia de caça e os maridos pararam de caçar. Todos permaneciam
prostrados em suas redes, derrubados por febres incessantes. Sem poderem
cultivar suas roças, pensaram que fossem morrer de fome. Os grandes homens,
que antes falavam com sabedoria, tinham sido assassinados por ter enfrentado
com bravura os garimpeiros ou então tinham morrido de malária e pneumonia.
Apenas alguns órfãos com o pensamento perdido tinham sobrevivido, e men-
digavam comida e roupas junto aos garimpeiros. Todos os caminhos tinham
virado lodaçais de queixadas e os rios tinham sido reduzidos a poças de água
barrenta. Um sem-número de brancos escavava freneticamente a terra da flo-
resta empesteada pela fumaça de epidemia xawara de seus motores. Até o che-
fe do posto da Funai de Paapiú acabou fugindo, assustado tanto com as amea-
ças dos garimpeiros quanto com suas doenças.15
Na estação seca seguinte, garimpeiros chegaram também à nossa casa de
Watoriki.16
Quando surgiram, eu estava no posto de Demini, com minha mu-
lher e meus filhos. Só havia um outro Yanomami trabalhando lá. O pequeno
grupo de garimpeiros saiu da floresta, carregando pesados fardos de alimentos
e mercadorias. Vieram em nossa direção. Todos vestiam shorts e camisetas
rasgadas. Seus pés estavam escondidos em chuteiras. Estavam armados com
espingardas de caça e revólveres calibre 38. Quando os vi, logo pensei que
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talvez nossos cadáveres logo fossem encontrados na terra rasa, como os da
gente de Hero u. Contudo, apesar de meus temores, não me movi e esperei que
falassem comigo. Então eles fingiram amizade por nós: “Estamos aqui para
ajudá-los! Vamos ensiná-los a procurar ouro. Assim vocês conseguirão muitas
mercadorias. Seremos generosos com vocês!”. Interrompi-os para responder
que não queria escutar aquelas mentiras. “Acabo de ver o modo como vocês
mataram nossos parentes em Paapiú! Vi como vocês comem a terra da flores-
ta e sujam os rios como porcos-do-mato! A verdade é que vocês vão nos fazer
passar fome e morrer com suas fumaças de epidemia! Voltem para suas casas!”.
Contrariados por essas palavras, continuaram mentindo mesmo assim: “Sere-
mos poucos trabalhando aqui! Mandaremos vir alimentos e remédios para
vocês!”. Retorqui: “Mais mentiras! Vocês vão aumentar sem parar e logo terão
esquecido essas palavras de amizade! Vão começar a beber cachaça sem parar.
Aí vão começar a pegar nossas mulheres e a nos matar! Depois, nossos jovens
vão ficar preguiçosos e ignorantes por causa de sua comida! Vão embora! Não
queremos vocês aqui!”. Ao ouvirem isso, ficaram ainda mais descontentes, mas,
como eram poucos e estavam inquietos diante de minha hostilidade, acabaram
indo embora, seguindo caminho em direção ao final da estrada, para o lado do
rio Haranari u.
Porém, algum tempo depois, outro grupo deles chegou a Watoriki. Dessa
vez eram mais numerosos, mas as mentiras eram as mesmas: “Queremos pro-
curar ouro aqui com vocês! Somos amigos! Davi, vamos fazer de você um
grande chefe!”. Ouvir essas palavras tortas repetidas mais uma vez me deixou
furioso. Respondi: “Não sei me fazer de chefe e não como ouro! Não me im-
porto com essa poeira brilhante na areia. Não sou jacaré para querer engoli-la!
Não quero nada de vocês e não vamos deixá-los trabalhar aqui!”. Dessa vez,
não tínhamos sido pegos de surpresa por sua chegada. Todos os homens de
Watoriki tinham se reunido em volta deles, empunhando arcos e flechas, com
o corpo pintado de preto, como guerreiros. As mulheres, enquanto isso, grita-
vam e jogavam nos intrusos suas plantas de feitiçaria hore kiki, a fim de torná-
-los medrosos.17
Estávamos prontos para nos defender sozinhos, sem a polícia
federal. Falei duro de novo com os garimpeiros, para avisá-los de que os fle-
charíamos se tentassem ficar na nossa floresta. Eles estavam nervosos e hostis,
mas não ousaram insistir e acabaram indo embora no rastro dos que os haviam
precedido.
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Passou-se mais algum tempo. Aí, caçadores de nossa casa encontraram
um novo grupo de garimpeiros que acabara de se instalar nas proximidades.
Pus-me a caminho logo, com um grupo de guerreiros. Dormimos uma noite
na floresta, para pegar os intrusos de surpresa na manhã seguinte. Eles já ti-
nham instalado um acampamento e começado a cavar a terra. Também tinham
desmatado uma clareira, para um avião poder jogar provisões para eles. Mais
uma vez, comecei a falar com firmeza, para mandá-los embora: “Não queremos
que procurem ouro aqui! É nossa terra e vamos defendê-la! Saiam antes de
ficarmos bravos e antes de suas mães terem de chorar suas mortes!”. Escuta-
ram-me, sem saber o que responder. O avião que esperavam não tinha vindo.
Famintos e maltrapilhos, estavam de dar dó. Então, por fim, não disseram
nada e foram embora, como os outros, mas, dessa vez, na direção contrária, a
da missão do rio Catrimani. Alguns dias depois, o avião deles aterrissou no
posto Demini. Era o chefe de todos aqueles garimpeiros que tentavam trabalhar
na nossa floresta. Tinha vindo trazer arroz, farinha de mandioca, feijão, leite
em pó, biscoitos, café e açúcar. Os outros garimpeiros nos tinham falado dele.
Tinham-nos contado que era um homem bravo e destemido. Chamavam-no
de Zeca Diabo.18
Porém, para nós, não passava de mais um garimpeiro como
os outros. Então, assim que saiu de seu avião, declarei a ele: “Nem vale a pena
descarregar suas provisões! Já expulsamos todo o seu pessoal da nossa flores-
ta!”. Contrariado, replicou: “Não é verdade! Quero ouvir isso deles próprios!”.
Então ele depositou todos os seus sacos de comida no final da pista do posto
Demini e em seguida saiu a pé em busca de seus peões. Viera acompanhado
por um Yanomami do rio Ajarani que tinha trazido de Boa Vista e com quem
eu também falei duro antes de saírem. Dava-me muita raiva um dos nossos
ajudar um garimpeiro!
Enquanto isso, foi a vez de um avião da Funai aterrissar no posto Demini.
O médico que desceu dele me perguntou o que eram aqueles sacos no final da
pista. Contei a ele da chegada de Zeca Diabo. Ele me escutou e disse que eu
podia confiscar os víveres e distribuí-los às pessoas de Watoriki. Respondi:
“Está bem, vamos escondê-los na floresta e os comeremos mais tarde! Assim
os garimpeiros não poderão ficar aqui!”. No dia seguinte, Zeca Diabo e seu guia
yanomami voltaram ao posto Demini. Tinham andado bastante na floresta. O
branco dava dó de ver. Ele estava de havaianas e seus pés estavam inchados e
cheios de bolhas. O short tinha se esfregado contra a parte interna das coxas e
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a pele estava em carne viva. Seu guia estava apreensivo por nos ver tão furiosos
contra ele. Nem bem chegaram, declarei: “Agora só lhes resta voltar a pé para
o lugar de onde vieram! Nenhum avião virá mais buscá-los!”.
Os jovens de nossa casa estavam muito exaltados e ameaçadores. Queriam
matar o chefe dos garimpeiros. Mas os mais velhos não pretendiam deixar que
fizessem isso. Queriam apenas assustar Zeca Diabo. De repente, este se deu
conta de que seu carregamento todo tinha desaparecido e seus olhos davam
pena de ver. Tínhamos deixado só a rede dele. Todo o restante havia sido es-
condido, até suas roupas e documentos! Começou a gritar: “Onde estão minhas
provisões? Onde vocês esconderam minhas coisas?”. Então eu menti a ele, di-
zendo que a Funai tinha levado tudo e que ele recuperaria suas coisas em Boa
Vista. Ele não se deixou enganar, mas foi ficando cada vez mais nervoso, pois
começava a ter medo do que poderíamos fazer com ele. Ele estava sozinho entre
nós. Não havia mais avião para levá-lo nem rádio para chamar Boa Vista.
Anoiteceu, e ele dormiu no posto Demini. No dia seguinte pela manhã,
um avião de garimpeiros sobrevoou a pista várias vezes, cada vez mais baixo.
Postamo-nos no meio da pista, com nossos arcos e flechas. O piloto ficou com
medo e logo foi embora para Boa Vista. Zeca Diabo ainda dormiu três noites
sob nossa guarda. Queríamos pô-lo realmente à prova! Ele ainda tentava men-
tir para nós, mas estava cada vez mais fraco e amedrontado. Afinal, um outro
avião veio sobrevoar o posto Demini. Dessa vez já estávamos cansados do Ze-
ca Diabo, então deixamos o avião aterrissar. Para terminar, o pintamos dos pés
à cabeça com pasta de urucum misturada com fuligem.19
Só deixamos nele o
short e foi assim que o despachamos para a cidade, todinho pintado de preto!
Nem bem viu o avião na pista, ele que se achava tão terrível, começou a correr
afobado em sua direção. O homem que acompanhava o piloto abriu a porta do
aparelho sem nem parar o motor. Mal Zeca Diabo teve tempo de subir e o pi-
loto, tão apavorado quanto ele, manobrou na pista para decolar de novo às
pressas. Zeca Diabo nunca mais tentou voltar à nossa casa, nem aliás nenhum
outro garimpeiro depois dele!
Durante toda essa época da invasão dos garimpeiros, eu não conseguia
mais dormir direito. Sozinho no posto Demini, não parava de pensar nos nos-
sos que eles tinham assassinado ou que estavam morrendo de malária.20
Não
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parava de pensar na floresta, que tinha ficado tão doente quanto os humanos.
Meus pensamentos se seguiam um ao outro, a noite toda, sem trégua, até o
amanhecer. Minha esposa e filhos dormiam ainda ao meu lado, tranquilos,
quando eu via, afinal, despontar o dia, sem ter fechado os olhos. Eu me sentia
muito agitado e o sono sempre fugia para longe de mim. E mesmo quando, às
vezes, eu conseguia tirar uma soneca, nunca dormia em paz. Jovem xamã, fazia
pouco tempo que eu tinha me tornado outro. Assim, quando sonhava, não
parava de ver garimpeiros me atacando. Estavam furiosos porque eu queria
tirá-los de nossa terra. Via-os indicando meu nome aos feiticeiros das cidades,
os rezadores que, como os nossos xamãs, possuem espíritos perigosos.21
Para
se vingarem, pediam a eles para me enfraquecer e me calar. Diziam: “Precisa-
mos nos livrar desse Davi, que quer nos impedir de trabalhar na floresta! Ele
sabe nossa língua e é nosso inimigo. Estamos cheios dele, está nos atrapalhan-
do! Esses Yanomami são sujos e preguiçosos. Têm de desaparecer para poder-
mos procurar ouro em paz! É preciso enfumaçá-los de epidemias!”. Então eu
via os espíritos maléficos daqueles rezadores vindo de helicóptero em minha
direção. Eles me ameaçavam e tentavam me matar. O Exército também estava
contra nós naquela época. Queria retalhar nossa terra em pedaços para deixar
entrar os garimpeiros.22
Então via as imagens de espíritos soldados, com seus
chapéus de ferro e seus aviões de guerra, tentando me pegar para me trancafiar
e me maltratar. Meus espíritos purusianari, porém, rechaçavam os agressores
com valentia. Esses xapiri são as imagens de guerreiros muito valentes, que
também possuem armas de brancos.23
Eles desciam em meu sonho para com-
bater os espíritos soldados. Arrancavam seus caminhos para carregá-los para
o peito do céu. Depois os cortavam de repente e todos despencavam no vazio.
Os espíritos que os rezadores possuem se parecem com nossos xapiri, mas
são outros. Não são, como os nossos, imagens de verdadeiros seres maléficos
da floresta ávidos de carne humana, como as do gavião Koimari, da onça Ira-
mari e do sol Moth
okari. Tampouco são imagens de ancestrais animais. São
mais fracos e se parecem com brancos, com roupas e óculos. Estão armados de
facas, espingardas e revólveres. É com essas armas que nos combatem. Eles
também são capazes de fazer suas vítimas perderem o juízo ou adoecerem. No
entanto, os rezadores só fazem suas rezas para enviar esses espíritos em troca
de dinheiro. Nós não fazemos dançar nossos xapiri por dinheiro! Nós os cha-
mamos, sem contrapartida, para proteger nossas crianças e nossa floresta. Os
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rezadores dizem, na sua língua, que podem “estragar outra pessoa”. Foi o que
tentaram fazer comigo. Enviaram seus espíritos para me machucar e me fazer
cair na vertigem. Se tivessem conseguido, minha imagem, enfraquecida e de-
sorientada, teria despencado das alturas do céu para se espatifar no chão. Mas
não deu certo, meus xapiri estavam atentos e guerrearam com bravura contra
seus seres maléficos. Por mais que tentassem me atingir e me fazer perder a
coragem, os rezadores nunca conseguiram. Eram fracos demais para resistir à
potência de meus espíritos, que, sempre alertas, os repeliam rapidamente. En-
quanto meu corpo estava cá embaixo no sono, meus xapiri armavam tocaia em
inumeráveis caminhos e cuidavam de minha imagem nas alturas do céu. Assim
que os espíritos dos rezadores tentavam se aproximar, atacavam-nos de sur-
presa e os derrotavam num instante. Os espíritos da vertigem mõeri os desen-
caminhavam, depois os espíritos lua os queimavam com seus fogos, enquanto
os espíritos do dono do algodão finalmente os esfolavam vivos.
Bem no começo, quando eu ainda não conhecia os malfeitos dos rezadores,
seus espíritos maus até conseguiram me confinar numa espécie de prisão, como
se fossem policiais. Foram os xapiri dos xamãs mais antigos de nossa casa que
conseguiram me libertar e depois me vingar. Seus espíritos gavião koimari es-
trangularam os dos rezadores com ataduras de algodão em brasa, enquanto seus
espíritos sucuri os sodomizavam para explodir suas entranhas. E por fim os
prenderam num tecido de metal que a imagem de Omama lhes tinha dado
para me proteger.24
Era uma espécie de roupa muito pesada que os xapiri vestem
em suas vítimas pela cabeça. Nenhuma chave pode abri-la e ela não tem nenhu-
ma abertura. Cola na pele, e nunca mais é possível se livrar dela. Assim, os es-
píritos dos rezadores, aterrorizados, acabaram fugindo para longe de mim. Po-
rém voltaram, muitas vezes, para me atacar durante o sono. Não me davam
trégua naquela época! Por causa deles, eu me sentia mal com frequência. Faziam
tudo o que podiam para me assustar e me acovardar. Queriam mesmo desen-
caminhar meu pensamento e me tornar medroso, para me calar.
Os brancos dizem que em suas cidades há muitos desses rezadores, e que
são potentes. O primeiro que vi foi em Boa Vista. Alguém o apontou, de longe,
me dizendo que ele, como eu, era xamã. E acabei encontrando um outro ho-
mem que, esse, se gabava de sê-lo. Era um antigo garimpeiro que tinha sido
contratado pela Funai para fazer consertos no posto Demini. Certo dia, duran-
te a sua folga, veio visitar nossa casa de Watoriki. De repente, enquanto olhava
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meu sogro fazendo dançar seus xapiri, declarou-me: “Eu também sei curar,
como ele. Sou um rezador!”. Depois disso, voltou a se gabar do mesmo modo
diversas vezes. Então, um dia acabei respondendo: “Eu gostaria de ver como
você chama os seus espíritos para curar os brancos! Pois nós não fazemos rezas
com os olhos fitando peles de papel. Tornamo-nos nós mesmos xapiri, beben-
do o pó de yãkoana. Experimente!”. Desconfiado, ele hesitou, mas apesar dis-
so aproximou o nariz para receber o pó. Soprei um pouco em suas narinas. Aí
ele ficou com medo logo, pois o poder da yãkoana é de fato muito forte. Co-
meçou a tremer e cambalear em nossa casa. Por pouco não despencou no chão.
De repente, saiu correndo para o posto, gemendo. Com tão pouco pó ele já
estava em estado de fantasma! O tal rezador não era xamã, não passava de um
branco mentiroso qualquer. Nós xamãs não vemos os xapiri com o nariz sem
gosto25
e sem que nossos olhos morram com a yãkoana! Cantarolando de olhos
fechados, como esses brancos, não se vê nada!
Naquela época, os brancos tinham acabado de matar Chico Mendes, que
também defendia a floresta contra os fazendeiros.26
Então, fiquei precavido. Eu
sabia que os garimpeiros, os que eu tinha expulsado da nossa floresta e todos
os outros a quem tivessem falado de mim, me detestavam. Tinham dito meu
nome em todos os cantos de Boa Vista. Eu costumava cruzar seus olhares hos-
tis na rua. Via que eram olhos de inimigos mesmo e entendia o quanto teriam
gostado de me fazer sumir. Eu evitava ir à cidade, porque achava que acabariam
me matando. Quando tinha de ir, nunca andava sozinho e não me demorava.
Só dormia na casa de meus amigos da ccpy. Zeca Diabo, aquele que eu tinha
mandado embora de Demini pintado de preto, esse passou muito tempo me
procurando para se vingar! Mas nunca conseguiu me pegar de surpresa e, ape-
sar de sua raiva, deve ter acabado por se cansar. Se eu não fosse tão atento, já
não estaria mais vivo há tempos! Outros garimpeiros até me ameaçaram em
plena rua: “Não adianta se esconder, vamos encontrá-lo quando estiver sozinho
e vamos matá-lo! Estamos cheios de você não nos deixar trabalhar no mato!”.
Então, respondi com raiva: “Vocês pensam mesmo que os Yanomami são co-
vardes? Para nós, vocês não passam de ladrões de terra. Se vocês são mesmo
valentes, não fiquem apenas me ameaçando quando estou sozinho na cidade.
Venham então me matar bem no meio da minha casa. Que todos os meus pa-
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rentes e os xapiri possam vê-los e ouvi-los! Não fiquem se achando corajosos
só porque exibem espingardas e revólveres para nada! Se nos odeiam tanto e
querem mesmo nos eliminar, não fiquem apenas bravateando comigo! Venham
matar todos os Yanomami, até o último, com suas mulheres e filhos! Queimem
todas as nossas casas com suas bombas! Caso contrário, parem de falar à toa
como covardes e vão embora!”.
De modo que eu presumia que um dia os garimpeiros viriam me matar
na minha casa, na floresta. Naquele tempo, eu vivia no posto da Funai de De-
mini, com minha mulher e meus filhos. Os nossos moravam perto dali, na
grande casa de Watoriki. À noite, eu costumava me perguntar se os brancos
não estariam chegando para arrombar a porta do posto e acabar comigo. Nun-
ca dormia em paz, permanecia sempre alerta. Estava apreensivo pelos meus,
mas não tinha realmente medo. Senão, teria me escondido bem longe na flo-
resta, para que ninguém pudesse me encontrar! Apenas pensava que, se viesse
a morrer, viveria de novo como um fantasma nas costas do céu, sem mais
tormento. Além disso, eu sabia que meus xapiri não parariam de dançar em
volta de meus ossos, que, mesmo queimados e socados, continuariam valendo
para eles mais do que ouro. Sabia, também, que me vingariam dos brancos que
tivessem me assassinado. Porém, ao final, os garimpeiros nunca ousaram vir
me matar durante o meu sono. O espírito do antigo ser fantasma Porepatari
deve tê-los feito desistir de se aventurar na floresta à noite!27
É perigoso se opor aos garimpeiros. Eles são muitos e todos carregam
facas, espingardas e revólveres. Também têm dinamite, aviões, helicópteros e
rádios. Nós só temos nossos arcos e flechas. Porém, apesar disso, eu nunca vou
mudar de opinião, continuarei sempre lutando contra eles! E continuarei a
fazê-lo mesmo morto, por intermédio de meus xapiri órfãos! Por isso eu repli-
cava aos garimpeiros que me ameaçavam com palavras duras: “Quando vocês
tiverem me matado e estiverem em estado de homicida õnokae, o espírito Ka-
makari vai devorar seus olhos e deixá-los cegos.28
Seus intestinos vão se decom-
por e eu não morrerei sozinho! Não pensem que o seu sopro de vida é mais
longo do que o dos habitantes da floresta! Só o das pedras não tem fim. Eu não
tenho medo de morrer. Só me atormenta a morte de nossas crianças, que suas
epidemias devoram. Mas vocês também deveriam ficar preocupados! Se ma-
tarem todos os xamãs, seus espíritos maléficos atacarão seus parentes também
e vocês nada poderão fazer. Seus médicos desconhecem o poder da yãkoana e
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a ira dos xapiri. Trabalharão à toa e vocês vão chorar tanto quanto nós estamos
chorando agora!”.
Quando os primeiros garimpeiros chegaram para procurar ouro nos iga-
rapés da floresta, eram poucos e as gentes das terras altas nada sabiam sobre
eles. Viviam muito longe dos brancos e possuíam apenas algumas lâminas de
faca e de machado quebradas. Sentiam falta dessas coisas dos brancos. Foi isso
que as levou a receber os garimpeiros sem desconfiança. O desejo pelas merca-
dorias e alimentos dos forasteiros encolheu seus espíritos. Não pensaram em
nada mais. Foi assim que os garimpeiros conseguiram enganá-las e matá-las
quase todas antes mesmo de poderem reagir. Se tivessem sabido o que aqueles
brancos iam fazer, nunca teriam deixado que se aproximassem daquele jeito! É
o que penso. Aconteceu como há muito tempo, em Toototobi, na minha infân-
cia. Os homens das casas das terras altas ficaram contentes com a vinda dos
recém-chegados. Por falta de conhecimento, pensaram: “Talvez esses estrangei-
ros não sejam maus! Sabem ser generosos!”. Então começaram a trocar com eles
cachos de bananas por arroz e farinha de mandioca. Depois tomaram gosto
pelos alimentos dos brancos e ficaram cada vez mais preguiçosos. Os rapazes
pararam de carregar flechas e depois até de fabricá-las. Então os garimpeiros
começaram a alimentá-los com seus restos. Os jovens não se deram conta de
que os napë zombavam deles e os chamavam de urubus e de cães. Todos para-
ram de caçar e, pouco a pouco, foram parando também de cuidar das roças.
Ficaram animados com a ideia de que a comida dos brancos nunca lhes faltaria:
“Esses forasteiros não são sovinas! Seu arroz e sua carne em estojo de metal são
deliciosos. Vejam todos os alimentos que descem sem parar de seus aviões! Não
seria bom se eles se instalassem perto de nós e continuassem a nos alimentar
assim?”. Seu pensamento se tornou obscuro diante da beleza das grandes redes
de algodão, das panelas de metal e das espingardas novas dos brancos. Nem
prestavam mais atenção nos próprios filhos e deixaram os garimpeiros pegarem
suas mulheres. Seu pensamento passava o dia todo tomado só pela palavra das
mercadorias. Não paravam de pedir, em língua de fantasma: “Quero uma faca,
um facão, uma bermuda, sandálias, cartuchos, biscoitos, sardinhas!”. Suas an-
tigas palavras sobre a floresta e as roças encolheram em suas mentes até silen-
ciarem. Nunca mais se ouviu eles dizerem: “Amanhã, ao nascer do sol, vamos
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flechar guaribas! Vamos às roças, plantar brotos de bananeira!”. Pouco a pouco,
viravam outros e dava dó ouvi-los. Vê-los secava o pensamento.29
Depois, de
repente, todos foram pegos pela doença da fumaça do ouro. Esfomeados e ar-
dendo em febre, começaram a morrer um depois do outro. As mulheres novas
foram ficando cada vez menos numerosas. Logo não havia mais crianças nem
velhos nas casas vazias e frias. Os poucos sobreviventes estavam descarnados e
cobertos de impetigo. Só então começaram a se preocupar com a chegada dos
garimpeiros! Foi nesse estado que encontrei as gentes do Hero u quando fui
buscar os cadáveres de seus grandes homens enterrados pelos garimpeiros. Sou
filho dos antigos que Omama criou na floresta no primeiro tempo. Ver tudo o
que vi nas terras altas me deixou com muita raiva mesmo. Fiquei arrasado ao
ver os meus morrendo assim por causa do seu desconhecimento dos brancos,
sem saber se defender. Por isso comecei a viajar para terras distantes para falar
contra os garimpeiros e suas fumaças de epidemia. Se a floresta e os Yanomami
não estivessem morrendo desse jeito, eu jamais teria feito todas essas viagens!
Teria ficado sossegado em minha casa de Watoriki, junto aos meus familiares.
Os brancos talvez pensem que pararíamos de defender nossa floresta caso
nos dessem montanhas de suas mercadorias. Estão enganados. Desejar suas
coisas tanto quanto eles só serviria para emaranhar nosso pensamento. Perde-
ríamos nossas próprias palavras e isso nos levaria à morte. Foi o que sempre
ocorreu, desde que nossos antigos cobiçaram as suas ferramentas pela primei-
ra vez, há muito tempo. Essa é a verdade. Recusamo-nos a deixar que destruam
nossa floresta porque foi Omama que nos fez vir à existência. Queremos apenas
continuar vivendo nela do nosso jeito, como fizeram nossos ancestrais antes de
nós. Não queremos que ela morra, coberta de feridas e dejetos dos brancos.
Ficamos com raiva quando eles queimam árvores, rasgam a terra e sujam os
rios. Ficamos com raiva quando nossas mulheres, filhos e idosos morrem sem
parar de fumaça de epidemia. Não somos inimigos dos brancos. Mas não que-
remos que venham trabalhar em nossa floresta porque não têm como nos com-
pensar o valor do que aqui destroem. É o que penso.
Eu não sei fazer contas como eles. Sei apenas que a terra é mais sólida do
que nossa vida e que não morre. Sei também que ela nos faz comer e viver. Não
é o ouro, nem as mercadorias, que faz crescer as plantas que nos alimentam e
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que engordam as presas que caçamos! Por isso digo que o valor de nossa flo-
resta é muito alto e muito pesado.30
Todas as mercadorias dos brancos jamais
serão suficientes em troca de todas as suas árvores, frutos, animais e peixes. As
peles de papel de seu dinheiro nunca bastarão para compensar o valor de suas
árvores queimadas, de seu solo ressequido e de suas águas emporcalhadas.
Nada disso jamais poderá ressarcir o valor dos jacarés mortos e dos queixadas
desaparecidos. Os rios são caros demais e nada pode pagar o valor dos animais
de caça. Tudo o que cresce e se desloca na floresta ou sob as águas e também
todos os xapiri e os humanos têm um valor importante demais para todas as
mercadorias e o dinheiro dos brancos. Nada é forte o bastante para poder res-
tituir o valor da floresta doente. Nenhuma mercadoria poderá comprar todos
os Yanomami devorados pelas fumaças de epidemia. Nenhum dinheiro pode-
rá devolver aos espíritos o valor de seus pais mortos!
É por isso que devemos nos recusar a entregar nossa floresta. Não quere-
mos que se torne uma terra nua e árida cortada por córregos lamacentos. Seu
valor é alto demais para ser comprada por quem quer que seja. Omama disse
a nossos ancestrais para viverem nela, comendo seus frutos e seus animais,
bebendo a água de seus rios. Nunca disse a eles para trocarem a floresta e os
rios por mercadoria ou dinheiro! Nunca os ensinou a mendigar arroz, peixe
em lata de ferro ou cartuchos! O sopro de nossa vida vale muito mais! Para
saber disso, não preciso ficar com os olhos cravados em peles de imagens, como
fazem os brancos. Basta-me beber yãkoana e sonhar escutando a voz da flores-
ta e os cantos dos xapiri.
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16. O ouro canibal
Xawara: a fumaça do metal.
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357
Os brancos não entendem que, ao arrancar minérios da terra, eles
espalham um veneno que invade o mundo e que, desse modo, ele
acabará morrendo.
Davi Kopenawa
BBC Wildlife, 5 maio 1990
As coisas que os brancos extraem das profundezas da terra com tanta
avidez, os minérios e o petróleo,1
não são alimentos. São coisas maléficas e
perigosas, impregnadas de tosses e febres,2
que só Omama conhecia. Ele porém
decidiu, no começo, escondê-las sob o chão da floresta para que não nos dei-
xassem doentes. Quis que ninguém pudesse tirá-las da terra, para nos proteger.
Por isso devem ser mantidas onde ele as deixou enterradas desde sempre. A
floresta é a carne e a pele de nossa terra, que é o dorso do antigo céu Hutukara
caído no primeiro tempo.3
O metal que Omama ocultou nela é seu esqueleto,
que ela envolve de frescor úmido. São essas as palavras dos nossos espíritos,
que os brancos desconhecem. Eles já possuem mercadorias mais do que sufi-
cientes. Apesar disso, continuam cavando o solo sem trégua, como tatus-ca-
nastra. Não acham que, fazendo isso, serão tão contaminados quanto nós so-
mos. Estão enganados.
Muitas vezes pensei, durante a noite, nessas coisas debaixo da terra que
os brancos cobiçam tanto. Perguntava a mim mesmo: “Como teriam vindo a
existir? De que são feitas?”. Por fim, os xapiri me permitiram ver sua origem
no tempo do sonho. O que os brancos chamam de “minério” são as lascas do
céu, da lua, do sol e das estrelas que caíram no primeiro tempo.4
Por isso
nossos antigos sempre nomearam o metal brilhante mareaxi ou xitikarixi,
que é também o nome das estrelas.5
Esse metal debaixo da terra vem do an-
tigo céu Hutukara que desabou antigamente sobre os nossos ancestrais.6
Tor-
nado fantasma durante o sono, eu também vi os brancos trabalhando com
esses minérios. Arrancavam e raspavam grandes blocos deles, com suas má-
quinas, para fazer panelas e utensílios de metal. Porém, não pareciam se dar
conta de que esses fragmentos de céu antigo são perigosos. Ignoravam que
sai deles uma fumaça de metal densa e amarelada, uma fumaça de epidemia
tão poderosa que se lança como uma arma para matar os que dela se aproxi-
mam e a respiram.
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Penso que na verdade não foi Omama que criou esse metal.7
Encontrou-o
no solo e com ele escorou a nova terra que acabara de criar, antes de cobri-la
com árvores e espalhar os animais de caça pela floresta. Ao descobri-lo, pensou
que os humanos poderiam utilizá-lo para abrir suas roças com menos trabalho.
Contudo, por precaução, só deixou a nossos ancestrais alguns fragmentos de-
le depois de torná-los inofensivos. Com eles puderam fabricar machadinhas.
Omama ocultou sua parte mais dura e maléfica no frescor da terra, debaixo dos
rios. Temia que seu irmão Yoasi fizesse mau uso dele. De modo que deu a
nossos ancestrais o metal menos nocivo, mas também o menos resistente. Dis-
se a eles: “Tomem esses poucos pedaços para trabalhar em suas roças e não
desejem mais! Guardarei o restante, que é perigoso! Ele agora pertencerá aos
espíritos!”. Esse outro metal, o de Omama, muito pesado e ardente, é o verda-
deiro metal. É o mais sólido, mas também o mais temível. Se ele não o tivesse
ocultado desse modo, Yoasi, sempre desastrado, logo teria revelado sua exis-
tência a todos e desse modo a floresta já teria sido destruída por completo há
muito tempo!
Porém, apesar da prudência de Omama, Yoasi conseguiu assim mesmo
fazer chegar a notícia da existência desse metal aos ancestrais dos brancos. Por
isso eles acabaram por atravessar as águas para vir à sua procura na terra do
Brasil. Não é à toa que os brancos querem hoje escavar o chão de nossa flores-
ta. Eles não sabem, mas as palavras de Yoasi, o criador da morte, estão neles.
Assim é. Os garimpeiros são filhos e genros de Yoasi. Tornados seres maléficos,
esses brancos só fazem seguir seus passos. São comedores de terra cheios de
fumaças de epidemia. Acham-se todo-poderosos mas seu pensamento é cheio
de escuridão. Eles não sabem que Yoasi colocou também a morte nesses miné-
rios que tanto buscam. Omama os escondeu para que o choro do luto não nos
atormentasse sem trégua. Ao contrário, deu-nos os xapiri, para podermos nos
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curar. Nós somos seus genros e filhos. É por isso que tememos arrancar essas
coisas ruins da terra. Preferimos caçar e abrir roças na floresta, como ele nos
ensinou, em vez de cavar seu solo como tatus e queixadas!
Com suas máquinas, os garimpeiros só conseguiram até agora sugar pó de
ouro do fundo dos rios. Mas esses são apenas os filhos do metal. Os brancos
ainda não conhecem o pai do ouro,8
que está escondido bem mais fundo, no
centro das terras altas, onde Omama veio à existência. Sem que o saibam, é esse
verdadeiro metal de Omama que os garimpeiros querem atingir. Vi-os muitas
vezes em sonho destruir a floresta toda à sua procura. Ficam seguindo a pista de
seus destroços em todas as direções. Mas é sempre em vão, porque Omama o
soterrou no mais fundo da terra e os xapiri ficam desviando a atenção deles. As-
sim que se aproximam, os espíritos da vertigem mõeri os desorientam e os espí-
ritos tatu-canastra os envolvem numa fumaça impenetrável. Omama enterrou
esse metal junto ao ser do caos Xiwãripo. Cercado por espíritos do vendaval
Yariporari, está também sob a guarda dos espíritos guerreiros napënapëri dos
ancestrais brancos. Se os brancos de hoje conseguirem arrancá-lo com suas bom-
bas e grandes máquinas, do mesmo modo que abriram a estrada em nossa flo-
resta, a terra se rasgará e todos os seus habitantes cairão no mundo de baixo.
Esse metal das profundezas é tão duro que pode cortar pedras sem se
estragar. Os outros minérios, como o ouro, a cassiterita ou até o ferro, estão
mais próximos da superfície do solo, por isso são mais frágeis. As lâminas de
faca perdem o corte e as de machado se quebram. As panelas furam e ficam
amassadas. É por isso que os brancos ficam procurando sem trégua esse metal
verdadeiro, que não se deteriora. Eles ainda não estão satisfeitos com as mer-
cadorias e máquinas fabricadas até o momento com os minérios que conse-
guiram arrancar do solo. Agora querem possuir objetos que não envelhecem
e jamais se degradam. Porém, tudo isso vai acabar mal, pois, como eu disse,
essas coisas do fundo da terra são muito perigosas. Se os brancos um dia che-
gassem até o metal de Omama, a poderosa fumaça amarelada de seu sopro se
espalharia por toda parte, como um veneno tão mortal quanto o que eles
chamam de bomba atômica.
Os minérios ficam guardados no frescor do solo, debaixo da terra, da flo-
resta e de suas águas. Estão cobertos por grandes rochas duras, pedregulhos
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ocos, pedras brilhantes, cascalho e areia. Tudo isso contém seu calor, como uma
geladeira de vacinas. Já disse: essas coisas caídas do primeiro céu são muito
quentes. Se forem todas postas a descoberto, incendiarão a terra. Esfriando no
solo elas só exalam um sopro invisível, que se propaga por suas profundezas
como uma brisa úmida. Mas quando a floresta se aquece sob o sol, esse sopro
pode se tornar perigoso. É por isso que deve permanecer preso no frio do solo,
onde as pedras e a areia, como uma tampa de panela, retêm seu vapor maléfico
e o impedem de se espalhar.
Não foi portanto à toa que Omama soterrou o ferro, o ouro, a cassiterita
e o urânio,9
deixando acima do solo só nossos alimentos. Assim guardados
pelo frio dos seres da terra que chamamos maxitari e do ser maléfico do tempo
chuvoso, Ruëri, os minérios não representam perigo. Mas se os brancos os
arrancarem todos do solo, afugentarão o vento fresco da floresta e queimarão
seus habitantes com sua fumaça de epidemia. Nem as árvores, nem os rios, nem
mesmo os xapiri poderão conter seu calor. Então, ao ficar sem peixes para
comer e sem néctar de flores para beber, o ser sol Moth
okari, que é também um
ser onça, descerá à terra, enfurecido, para devorar os humanos como se fossem
macacos moqueados. Depois, mais tarde, quando os brancos tiverem acabado
de extrair todos os minérios, seu calor irá se dissipar e a terra se resfriará pou-
co a pouco, pois são eles que aquecem suas profundezas. A lâmina dos macha-
dos não fica mesmo ardente sob o sol? Assim é. De dia, o sol é muito forte e
não deixa o frio do ceú descer à terra. De noite, é o calor que ficou no metal da
terra que o empurra para as alturas. Onde o solo é muito quente, é porque no
mais fundo dele há pedras e metais. Onde o solo é vazio, faz muito frio, as
nuvens são baixas e quase não se vê o sol. Deve ser o caso das terras distantes
de onde os ancestrais dos brancos já extraíram todo o minério.
Omama escondeu seu metal lá no meio dos morros das terras altas, onde
também fez jorrar os rios. É de lá que surgem os ventos e o frescor da floresta.
É de lá que vem sua fertilidade. Quando fazemos dançar a imagem desse pai
dos minérios, ela se apresenta a nós como uma montanha de ferro subterrânea,
cheia de imensas hastes fincadas em todos os lados. Omama a colocou nas
profundezas do solo para manter a terra no lugar e impedir que a ira dos trovões
e dos raios a faça tremer e a desloque. Cravou-a lá como nós fazemos com os
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postes de nossas casas, para que elas não balancem durante as tempestades.
Assim, esse ferro está enfiado na terra como as raízes das árvores. Ele a mantém
firme como espinhas fazem com a carne dos peixes e esqueletos com a de nos-
so corpo. Torna-a estável e sólida, como nosso pescoço faz nossa cabeça ficar
reta. Sem essas raízes de metal, ela começaria a balançar e acabaria desabando
sob nossos pés. Isso não acontece em nossa floresta, pois ela está no centro da
terra, onde esse metal de Omama está soterrado. No entanto, entre os brancos,
em seus confins, onde o solo é mais friável, acontece às vezes de ela tremer e se
romper, destruindo cidades.
Se os brancos começarem a arrancar o pai do metal das profundezas do
chão com seus grandes tratores, como espíritos de tatu-canastra,10
logo só res-
tarão pedras, cascalho e areia. Ele ficará cada vez mais frágil e acabaremos todos
caindo para debaixo da terra. É o que vai ocorrer se atingirem o lugar em que
mora Xiwãripo, o ser do caos, que, no primeiro tempo, transformou nossos
ancestrais em forasteiros.11
O solo, que não é nada grosso, vai começar a rachar.
A chuva não vai mais parar de cair e as águas vão começar a transbordar de suas
rachaduras. Então, muitos de nós serão lançados à escuridão do mundo subter-
râneo e se afogarão nas águas de seu grande rio, Moto uri u. Escavando tanto,
os brancos vão acabar até arrancando as raízes do céu, que também são susten-
tadas pelo metal de Omama. Então ele vai se romper novamente e seremos
aniquilados, até o último. Esses pensamentos me atormentam muito. Por isso
levo em mim as palavras de Omama para defender nossa floresta. Os brancos
não pensam nessas coisas. Se o fizessem, não arrancariam da terra tudo o que
podem, sem se preocupar. É para acabar com isso que quero fazer com que eles
ouçam as palavras que os xapiri me deram no tempo do sonho.
Meu sogro é um grande xamã, como eu disse. É muito sábio. Ninguém tem
mais conhecimento do que ele em Watoriki. Foi ele o primeiro a ver a imagem
do metal de Omama e a fazê-la descer. Desde então, os demais xamãs de nossa
casa também a fazem dançar. No meu caso, foi primeiro no sonho que vi o pai
do ouro e dos outros minérios. Aconteceu quando, doente de malária, ardendo
em febre e tornado fantasma, minha imagem foi levada pelo espírito da terra,
Maxitari, até o mais profundo do mundo subterrâneo. É por essa razão que
posso falar disso! A imagem do pai do ouro é gigantesca e impregnada de fu-
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maça de epidemia. Trata-se de um ser maléfico assustador e feroz, capaz de nos
cortar a garganta, de dilacerar nossos pulmões e de secar nosso sangue. Os
brancos têm de saber disso e desistir de se apoderar do metal de Omama. Talvez
seja o mais belo e o mais sólido que eles possam encontrar para fabricar suas
máquinas e mercadorias, mas é perigoso demais para os humanos.
Para nossos maiores, o ouro não passava de pontinhos brilhantes na areia
dos rios, como o que chamamos mõhere.12
Coletavam-no para fabricar uma
substância de feitiçaria com a qual cegavam as pessoas com quem estavam
bravos. Antigamente, esse pó de metal13
era muito temido. Hoje, os rapazes não
sabem mais para que serve. Há muito dele no igarapé perto de nossa casa, mas
ninguém ousa tocá-lo, com medo de perder a visão. Meu sogro, que é um
homem dos tempos antigos, chama-o hipërea,14
o pó que cega. Ele também faz
descer a imagem do pai de seu metal, Hipëreri, que vem de debaixo da terra. É
por isso que chamamos os fragmentos de metal brilhante que os garimpeiros
tiram do leito dos rios oru hipëre a, o pó de cegueira do ouro. Quando os bran-
cos arrancam os minérios da terra, trituram-nos com suas máquinas e depois
os aquecem em suas fábricas. Ele então exala uma poeira fina, que se propaga
como uma brisa invisível em suas cidades. É uma coisa de feitiçaria perigosa,
que entra nos olhos e vai estragando a vista. Por isso tantas crianças dos bran-
cos são obrigadas a prender os olhos atrás de cacos de vidro para ler seus de-
senhos de escrita!
As palavras da imagem de Omama nos ensinam a recear o ouro e os de-
mais minérios. Trata-se de coisas maléficas desconhecidas e temíveis, que só
provocam doença e morte. O ouro, quando ainda é como uma pedra, é um ser
vivo. Só morre quando é derretido no fogo, quando seu sangue evapora nas
grandes panelas das fábricas dos brancos. Aí, ao morrer, deixa escapar o peri-
goso calor de seu sopro,15
que chamamos de oru a wakixi, a fumaça do ouro.
Ocorre o mesmo com todos os minérios, quando são queimados. É por isso
que a fumaça dos metais, do óleo dos motores, das ferramentas, das panelas e
de todos os objetos que os brancos fabricam se misturam e se espalham por
suas cidades. Esses vapores, quentes, densos e amarelados como gasolina, co-
lam no cabelo e nas roupas. Entram nos olhos e invadem o peito. É um veneno
que suja o corpo dos brancos das cidades, sem que o saibam. Depois, toda essa
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fumaça maléfica flui para longe e, quando chega até a floresta, rasga nossas
gargantas e devora nossos pulmões. Queima-nos com sua febre e nos faz tossir
sem trégua, e vai nos enfraquecendo, até nos matar. Antigamente, pensávamos
que chegava até nós sem motivo, ao acaso. Mais tarde, porém, nossos espíritos
xapiri viajaram até as remotas terras dos brancos. Lá viram todas as suas fábri-
cas e nos trouxeram palavras delas.
Agora sabemos de onde provém essa fumaça maléfica. É a fumaça do
metal, que também chamamos de fumaça dos minérios. São todas a mesma
fumaça de epidemia xawara,16
que é nossa verdadeira inimiga. Omama enter-
rou os minérios para que ficassem debaixo da terra e não pudessem nunca nos
contaminar. Foi uma decisão sábia e nenhum de nós jamais teve a ideia de
cavar o solo para tirá-los da escuridão! Essas coisas maléficas permaneciam
bem enterradas, e nossos maiores não ficavam doentes o tempo todo, como
ficamos hoje. Todavia, os brancos, tomados por seu desconhecimento, puse-
ram-se a arrancar os minérios do solo com avidez, para cozê-los em suas fá-
bricas. Não sabem que, fazendo isso, liberam o vapor maléfico de seu sopro.
Este sobe então para todas as direções do céu, até chocar-se com seu peito.
Depois volta a cair sobre os humanos, e é assim que acaba nos deixando doen-
tes. Seu veneno é terrível. Não sabemos o que fazer para resistir a ele. É por
isso que ficamos tão aflitos. Apesar de toda essa fumaça de epidemia não estar
ainda tão alta acima de nossa terra, espalha-se e acumula-se sem parar. Já se
alastra por toda parte nas cidades em que se encontram as fábricas dos bran-
cos.17
Agora, os garimpeiros estão empesteando a floresta com os gases de seus
motores e os vapores do ouro e do mercúrio que eles queimam juntos.18
De-
pois, antes de venderem seu ouro na cidade, guardam-no em caixas de ferro
que, aquecidas pelo sol, também exalam eflúvios ruins. Depositam no solo
sacos cheios de cassiterita, que também disseminam fumo de doença. Então,
todas essas fumaças, levadas pelo vento, caem sobre a floresta e sobre nós.
Tudo isso se mistura, para se tornar uma única epidemia xawara, que disse-
mina por toda parte febre, tosse e outras doenças desconhecidas e ferozes que
devoram nossas carnes. Essa xawara que invade a floresta inteira vai fazer de
nós tatus esfumaçados para saírem da toca! Se o pensamento dos brancos não
mudar de rumo, tememos morrer todos antes de eles mesmos acabarem se
envenenando com ela!
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Quando essa fumaça densa e pegajosa nos atinge pela primeira vez, é
muito perigosa para nossas crianças, nossas mulheres e nossos idosos. Eles
têm uma carne que ainda desconhece sua força maléfica e, assim, ela consegue
matá-los quase todos de uma vez. Foi o que aconteceu com meus parentes, no
passado, com a epidemia de sarampo de Toototobi, aquela que por pouco não
matou a mim também!19
Agora, é a malária dos garimpos, também muito
agressiva, que tememos. Assim é. O sopro vital dos habitantes da floresta é
frágil diante dessas fumaças de xawara. Leva muito tempo até que nossa car-
ne aprenda a endurecer e a resistir a elas. Mas não é à toa. Nossos antigos ja-
mais tinham respirado esses eflúvios de morte. Seu corpo tinha permanecido
frio na floresta das terras altas. Quando essas fumaças surgiram, não tiveram
forças para se defender. Todos arderam em febre e logo ficaram como fantas-
mas. Faleceram rapidamente, em grande número, como peixes na pesca com
timbó. Foi assim que os primeiros brancos fizeram desaparecer quase todos
os nossos antigos.
Antigamente, nossos avós também detinham coisas de feitiçaria, como
folhas oko xi, hayakoari e parapara hi, que usavam para enviar fumaças de
epidemia famintas de carne humana sobre seus inimigos.20
Essas plantas eram
temidas e poderiam ter dizimado também os brancos se tivessem queimado no
meio de suas cidades! Nossos maiores partiam com essas plantas em expedições
secretas de feiticeiros oka e as jogavam no fogo perto das casas que queriam
contaminar. Assim que a fumaça caía sobre seus habitantes, eles não demora-
vam a morrer, um atrás do outro. Essas fumaças de xawara eram mesmo mui-
to temíveis! A da planta oko xi, que pertencia às mulheres velhas, por exemplo,
atingia primeiro os homens mais vigorosos, antes de liquidar em seguida as
moças mais belas. Só escapavam dela alguns velhos e adultos descarnados. Foi
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o que ouvi contar quando era criança. Os maiores não nos deixaram essas
plantas de feitiçaria. Elas se perderam. Não sabemos mais usá-las. Se assim não
fosse, eu diria: “É verdade, possuímos plantas ruins que um dia servirão para
nos vingar daqueles que nos mataram!”. Mas não temos mais nada disso. Ape-
nas ouvimos falar quando éramos novos. Em compensação, o que conhecemos
bem, desde a infância, são as fumaças de epidemia dos brancos que devoraram
todos os nossos parentes!
Outrora, antes da chegada da estrada e dos garimpeiros, foram os brancos
dos rios21
que primeiro fizeram queimar epidemias xawara contra nossos an-
tigos. Por raiva, faziam explodir nos ares ou esquentavam em caixas de metal
coisas desconhecidas que logo propagavam uma fumaça de morte. Agora,
porém, não é mais assim. Os brancos espalham suas fumaças de epidemia por
toda a floresta à toa, sem se dar conta de nada, só arrancando o ouro e os ou-
tros minérios da terra. Os vapores que saem desses metais são tão fortes e
perigosos que até a fumaça da cremação dos ossos de suas vítimas é envene-
nada. Assim, as poucas pessoas que sobrevivem a uma epidemia também mor-
rem logo depois de respirar essa fumaça. Mas não somos só nós que sofremos
dessa doença do minério. Os brancos também são contaminados e no fim ela
os come tanto quanto a nós, pois a epidemia xawara, em sua hostilidade, não
tem nenhuma preferência! Embora pensem morrer de uma doença comum,
não é o caso. São atingidos, como nós, pela fumaça dos minérios e do petróleo
escondidos por Omama debaixo da terra e das águas. Fazem-na jorrar por
toda parte, ao extrair e manipular essas coisas ruins. Chamam isso de poluição.
Mas para nós é sempre fumaça de epidemia xawara.22
Apesar de sofrerem
também, eles não querem desistir. Seu pensamento está todo fechado. Só se
importam em cozinhar o metal e o petróleo para fabricar suas mercadorias.
Por isso a xawara consegue guerrear sem trégua contra humanos. São esses os
dizeres de nossos antigos que, como meu sogro, são grandes xamãs. São as
palavras dos xapiri que eles nos transmitem. São elas que eu gostaria que os
brancos ouvissem.
Hoje, esse mal cresce e se alastra por toda parte, e não paramos de morrer
por sua causa. Em todos os lugares onde vivem brancos, a fumaça dos minérios
aumenta. Antigamente, eles ficavam bem longe de nós, em suas cidades. Mas
hoje se aproximaram e vamos ficando cada vez menos numerosos, pois suas
fumaças de epidemia estão sempre nos rodeando. Nossos xapiri tentam incan-
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savelmente atacá-las e empurrá-las para longe da floresta, mas elas não param
de voltar. Para nós, xamãs, é um grande tormento não conseguir repeli-las. Se
elas nos matarem todos, ninguém poderá compensar o valor de tantas mortes.
Nossos mortos são já muito mais numerosos no dorso do céu do que nós, vivos,
na floresta. Nem o dinheiro nem as mercadorias dos brancos os farão descer
de novo entre nós! E a floresta devastada tampouco poderá jamais ser curada,
ficará ferida e doente para sempre.
O que chamamos de xawara são o sarampo, a gripe, a malária, a tubercu-
lose e todas as doenças de brancos que nos matam para devorar nossa carne.
Gente comum só conhece delas os eflúvios que as propagam. Porém nós, xamãs,
vemos também nelas a imagem dos espíritos da epidemia, que chamamos de
xawarari. Esses seres maléficos se parecem com os brancos, com roupas, óculos
e chapéus, mas estão envoltos numa fumaça densa e têm presas afiadas. Entre
eles estão os seres da tosse, th
okori, que rasgam as gargantas e os peitos,23
ou os
seres da disenteria, xuukari, que devoram as entranhas,24
e também os seres do
enjoo, tuhrenari, os da magreza, waitarori, e os da fraqueza, hayakorari. Eles não
comem caça nem peixe. Só têm fome de gordura humana e sede de nosso san-
gue, que bebem até secar. Para conseguirem chegar até nós, sabem escutar de
longe a algazarra que sobe de nossas aldeias. Então se acercam de nossas casas
durante a noite e penduram suas redes ao nosso lado sem que possamos vê-los.
Aí, antes de começar a nos matar, fazem-nos beber um líquido gordurento que
nos deixa fracos e doentes.
Em seguida, buscam entre os nossos filhos os mais bonitos e mais gordi-
nhos. Capturam-nos e os prendem em grandes sacos, para levá-los para casa.
Às vezes cortam logo a garganta de alguns, enfiam-nos em espetos de ferro e
os assam para comer ali mesmo. Então, se nossos xapiri não reagirem imedia-
tamente para livrá-los, morrem. Depois disso, os xawarari atacam os idosos e
as mulheres cujo sopro de vida é mais fraco. Começam por degolar um grupo
inteiro com seus facões, depois descansam um pouco antes de voltar em bus-
ca de novas presas. Vão assim juntando aos poucos grandes quantidades de
cadáveres, para moqueá-los como se fossem caça. Só param a matança quan-
do consideram que juntaram carne humana suficiente para satisfazer sua vo-
racidade.
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Esses seres maléficos da epidemia são mesmo ferozes e gulosos! Assim
que se apoderam das imagens de suas vítimas, decapitam-nas e despedaçam-
-nas. Devoram em seguida seus corações e engolem seu sopro de vida. Dei-
xam suas vísceras para os cães de caça que trazem consigo.25
Chupam a me-
dula de seus ossos e os jogam para esses animais esfomeados, que os roem
com estalos ruidosos. É por isso que a epidemia xawara nos faz sentir tanta
dor na barriga, nos braços e nas pernas! Depois, os xawarari cozinham os
corpos destrinchados de suas presas como um amontoado de macacos-aranha
em grandes bacias de metal,26
borrifando-os com óleo escaldante. É isso que
nos faz arder de febre! Uma vez cozidas, guardam essas carnes em grandes
caixas de ferro para comer mais tarde. Preparam assim latas de carne huma-
na em grandes quantidades, como os brancos fazem com seus peixes e seus
bois. Mais tarde, quando seus víveres começam a acabar, mandam de novo
seus empregados27
caçar as imagens de mais vítimas entre nós. Gritam: “Vão
buscar crianças humanas bem gordas para mim! Estou faminto! Comeria uma
perna com prazer!”. Então, uma vez saciados, nos deixam em paz por algum
tempo. Eles não têm pressa. Quando voltam a sentir fome, retornam, mais e
mais, para devorar nossos filhos, nossas mulheres e nossos idosos, pois nos
consideram sua caça. É desse modo que a epidemia xawara vai nos diziman-
do aos poucos.
Esses seres xawarari moram em casas repletas de mercadorias e comida,
como os acampamentos de garimpeiros. É lá que cozinham as carnes dos habi-
tantes da floresta. Restos de seus banquetes canibais ficam pendurados por
todos os cantos da casa, pois eles guardam os crânios e parte dos ossos dos
humanos que devoram, como nós fazemos com a caça que comemos.28
Suas
redes, aliás, são feitas de pele humana. Para fabricá-las, esfolam o corpo inteiro
de suas vítimas antes de pô-las para assar. As cordas dessas redes são confec-
cionadas com a pele dos dedos das mãos e dos pés dos cadáveres, costurada
com máquinas. São mesmo seres maléficos! Na juventude, eu ficava apavorado
quando minha imagem acompanhava os xamãs mais velhos até as casas desses
comedores de homens. Até hoje me lembro do medo que sentia!
A epidemia xawara prospera onde os brancos fabricam seus objetos e
onde os armazenam. Sua fumaça surge deles e das fábricas em que cozem os
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minérios de que são feitos. É por isso que a doença e a morte golpeiam os
habitantes da floresta assim que estes começam a desejar as mercadorias. O
fato de acumular com sofreguidão roupas, panelas, facões, espelhos e redes
atrai o olhar dos seres da epidemia, que então pensam: “Essa gente gosta de
nossas mercadorias? Ficaram nossos amigos? Vamos lhes fazer uma visita!”.
Chegam logo seguindo os brancos em suas canoas, aviões e carros, sem que se
possa vê-los. Os grandes rios, as estradas e as pistas de pouso são seus cami-
nhos e portas de entrada na floresta.29
É acompanhando os objetos dos brancos
que acabam vindo se instalar em nossas casas, como convidados invisíveis. De
modo que, para nós, as mercadorias têm valor de epidemia xawara.30
É por
isso que as doenças sempre as seguem. É com peças de metal31
que esses males
nos dilaceram a garganta ou nos furam os olhos e o crânio. Acontece sempre
do mesmo modo. Os seres maléficos xawarari não tiram os olhos das merca-
dorias, para onde quer que elas vão, mesmo muito longe das cidades. Quando
um avião carregado voa para nossa floresta, eles seguem atentamente o seu
trajeto. Depois, nem bem ele aterrissa, começam a buscar humanos para de-
vorar nos arredores. Contudo, suas vítimas não podem vê-los chegar. Só os
xapiri conseguem.
Quando morremos sob efeito da yãkoana, nossos xapiri se deslocam para
as alturas, no peito do céu. Seu olhar então contempla a floresta como de um
avião. Assim, localizam a fumaça de epidemia logo que ela aumenta e vem em
nossa direção. Então os espíritos napënapëri, imagens dos ancestrais dos bran-
cos, nos alertam: “A epidemia xawara está vindo e sua fumaça se avermelha!
Está pondo o céu em estado de fantasma e devora todos os humanos ao longo
de seu caminho! Devemos rechaçá-la para longe!”. Esses xapiri são também os
primeiros a atacá-la, golpeando-a com suas imensas barras de ferro. Só eles
conhecem bem a fumaça do metal e são capazes de lhe arrancar as vítimas. Os
napënapëri se parecem com os brancos que nos ajudam na defesa da floresta
contra os garimpeiros. Levam com eles muitos outros xapiri no combate contra
os seres xawarari da epidemia. Os espíritos os espicaçam com suas flechas ve-
nenosas, enquanto os espíritos jacaré os golpeiam com seus pesados facões. Os
espíritos das abelhas bravas xaki e pari os retalham e os das cobras waroma os
perfuram. Os espíritos guerreiros Õeõeri e Aiamori acorrem em grande núme-
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ro para crivá-los de flechas. Os espíritos tamanduá e tatu-canastra os estraça-
lham com suas facas afiadas.32
Os espíritos urubu os despedaçam. As imagens
dos seres maléficos da sucuri e do dono do algodão Xinarumari os agarram,
para sufocá-los e esfolá-los. Os espíritos das grandes árvores aro kohi e masiha-
nari kohi os esmagam com a ajuda do espírito pedra Maamari. Depois, os espí-
ritos do zangão remoremo moxi,33
do besouro hõra e do vendaval Yariporari
também prendem as cabeleiras de suas fumaças no avião de Omama, para ar-
rastá-las para as lonjuras de onde vieram.
Todos os xapiri mais valentes descem para lutar contra a epidemia xawa-
ra e se juntam numa tropa incontável para enfrentá-la. Encaram-na com mui-
ta coragem e contra-atacam sem descanso, como verdadeiros soldados, sem
nunca recuar. Se tivessem medo, ela não pararia mais de nos devorar, até o
último! Porém, ao final, quando ela se torna por demais perigosa, para livrar
os seus da morte, os xamãs chegam a fazer dançar a própria imagem dela, que
chamam de Xawarari. Essa imagem é mesmo a da epidemia xawara, mas,
tornada espírito xapiri, luta valentemente contra ela, juntando-se, assim, aos
espíritos napënapëri dos antigos brancos em seu combate contra a fumaça do
metal.34
Era desse modo que os grandes xamãs de nossos antigos às vezes con-
seguiam fazer recuar esse mal perigoso e curar suas vítimas. Então, seus espí-
ritos abelha repoma podiam abrir a terra e jogar os cadáveres dos seres da
epidemia no mundo subterrâneo, onde se espatifavam e alimentavam os vora-
zes ancestrais aõpatari.
Contudo, o mais frequente é a epidemia xawara mostrar-se mais resis-
tente à investida dos xamãs do que os espíritos maléficos da floresta. Quando
isso acontece, os esforços dos xapiri para destruí-la são inúteis. Por mais que
a enfrentem com todas as suas forças, ela não parece ser afetada por seus gol-
pes. Bem no alto do céu, torna-se por demais agressiva e poderosa. Não tem
mais medo de nada. As mãos dos espíritos não conseguem agarrá-la e suas
armas não são capazes de atingi-la. Por mais que a façam recuar com suas
investidas, ela sempre volta ao ataque, cada vez mais forte e resistente. Nem
mesmo os seres da chuva maari conseguem expulsá-la do céu. A xawara é
muito difícil de combater, porque é rastro de outras gentes. Ela não vem da
nossa floresta. Seus seres maléficos xawarari são mais numerosos do que os
garimpeiros, até mais do que todos os brancos! É difícil juntar tantos xapiri
para combatê-los! É por isso que os xamãs os temem e, muitas vezes, não têm
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coragem de enfrentá-los. Já a epidemia xawara não hesita em se voltar contra
os espíritos dos xamãs e capturá-los. Destrói suas casas e os prende em caixas
de metal ardente. Aí, se outros xapiri intrépidos não vierem libertá-los, seu
sopro de vida seca e eles falecem. Então, os seres da epidemia moqueiam seus
cadáveres antes de devorá-los, como fazem com os humanos. Se isso acontece,
seus pais, os xamãs, morrem muito depressa. Os xapiri, em compensação,
sempre acabam voltando à vida. Eles são imortais.35
Onde os seres da epidemia
vomitam seus ossos, eles eclodem de novo com seus espelhos e voltam a ga-
nhar corpo em seguida.
Hoje, os seres maléficos xawarari não param de aumentar. Por isso, a fu-
maça de epidemia está tão alto no peito do céu. Mas as orelhas dos brancos não
escutam as palavras dos espíritos! Eles só prestam atenção no seu próprio dis-
curso e nunca se dão conta de que é a mesma fumaça de epidemia que envene-
na e devora suas próprias crianças. Seus grandes homens continuam mandan-
do os genros e os filhos arrancarem da escuridão da terra as coisas maléficas
que alastram as doenças de que sofremos todos. Assim, o sopro da fumaça dos
minérios queimados se espalha por toda parte. O que os brancos chamam de
o mundo inteiro36
fica corrompido pelas fábricas que produzem todas as suas
mercadorias, suas máquinas e seus motores. Por mais vastos que sejam a terra
e o céu, suas fumaças acabam por se dispersar em todas as direções e todos são
atingidos por elas: os humanos, os animais, a floresta. É verdade. Até as árvores
ficam doentes. Tornadas fantasmas, perdem as folhas, ficam ressecadas e se
quebram sozinhas. Os peixes também morrem pela mesma causa, na água suja
dos rios. Com a fumaça dos minérios, do petróleo, das bombas e das coisas
atômicas, os brancos vão fazer adoecer a terra e o céu. Então, os ventos e tem-
pestades acabarão entrando também em estado de fantasma. No final, inclusive
os xapiri e a imagem de Omama serão atingidos!
É por isso que nós, xamãs, estamos tão atormentados. Quando a epidemia
xawara nos ataca ela cozinha nossa imagem em gasolina e petróleo, dentro de
suas panelas de ferro. Isso nos faz virar outros e sonhar o tempo todo. Então
vemos as imagens de todos os brancos que estão em busca do metal que tanto
cobiçam. Vemos as fumaças das inúmeras tropas de seres maléficos xawarari
que os acompanham por toda parte, e os enfrentamos com firmeza com nossos
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xapiri. Somos habitantes da floresta e não queremos que os nossos morram.
Os brancos por acaso pensam que Teosi conseguirá fazer a fumaça de suas fá-
bricas desaparecer do céu? Estão equivocados. Levada pelo vento bem alto, até
o seu peito, já está começando a sujá-lo e queimá-lo. É verdade, o céu não é tão
baixo quanto parece a nossos olhos de fantasma e fica tão doente quanto nós!
Se tudo isso continuar, sua imagem vai ser esburacada pelo calor das fumaças
de minério. Então derreterá aos poucos, como um saco de plástico jogado na
fogueira, e os trovões enfurecidos não pararão mais de vociferar. Isso ainda não
está acontecendo porque seus espíritos hutukarari não param de jogar água
nele para resfriá-lo. Mas essa doença do céu é o que nós, xamãs, mais tememos.
Os xapiri e todos os outros habitantes da floresta também estão muito aflitos,
pois, se o céu acabar pegando fogo, desabará mais uma vez. Então, seremos
todos queimados e, como nossos ancestrais do primeiro tempo, arremessados
no mundo debaixo da terra.
São essas as palavras de nossos grandes homens, que se tornaram xamãs
muito antes de nós. Foi o que eles viram em sonho e é o que relatam os cantos
de seus xapiri. Nós, xamãs, como eu disse, sonhamos com tudo aquilo que
queremos conhecer. Quando bebemos o pó de yãkoana, primeiro vemos o pai
do ouro e dos minérios no fundo da terra, envolto pelas volutas pegajosas de
suas fumaças de epidemia. À noite, tornados fantasma durante o sono, ainda
sonhamos muito tempo com isso, através de nossos xapiri. Foi assim que,
tornando-me espírito com meu sogro e os outros velhos xamãs de nossa casa,
aprendi a conhecer a epidemia do ouro, que nomeamos oru xawara. Esses
grandes homens me ensinaram a pensar longe e foi com eles que a imagem de
Omama me permitiu ver todas essas coisas. Se eu tivesse ficado só trabalhan-
do para os brancos, se meu sogro não tivesse me chamado para perto dele,
meu pensamento teria ficado curto demais. É por isso que agora quero que os
brancos, por sua vez, ouçam estas palavras. Trata-se de coisas das quais nós,
xamãs, falamos entre nós muitas vezes. Não queremos que extraiam os miné-
rios que Omama escondeu debaixo da terra porque não queremos que as fu-
maças de epidemia xawara se alastrem em nossa floresta. Assim, meu sogro
costuma me dizer: “Você deve contar isso aos brancos! Eles têm de saber que
por causa da fumaça maléfica dessas coisas que eles tiram da terra estamos
morrendo todos, um atrás do outro!”. É o que agora estou tentando explicar
aos brancos que se dispuserem a me escutar. Com isso, talvez fiquem mais
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sensatos? Porém, se continuarem seguindo esse mesmo caminho, é verdade,
acabaremos todos morrendo. Isso já aconteceu com muitos outros habitantes
da floresta nesta terra do Brasil, mas desta vez creio que nem mesmo os bran-
cos vão sobreviver.
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a queda do céu
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17. Falar aos brancos
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“O povo de vocês gostaria de receber informações sobre como culti-
var a terra?”
“Não. O que eu desejo obter é a demarcação de nosso território.”
Diálogo entre o general R. Bayma Denys
e Davi Kopenawa, durante audiência com
o presidente José Sarney, 19 abr. 1989
Pouco antes da alvorada ou no início da noite, nossos grandes homens,
que chamamos pata th
ë pë,1
costumam dirigir-se à gente de suas casas em lon-
gos discursos. Incentivam-nos a caçar e a trabalhar em suas roças. Evocam o
primeiro tempo dos ancestrais tornados animais e se expressam com sabedoria.
Damos a esse modo de falar o nome de hereamuu.2
Só os homens de mais
idade falam assim. Eu, ao contrário, tive de aprender a discursar diante dos
brancos quando era muito jovem. É verdade! Eu já me dirigia com firmeza a
eles, enquanto ainda nem ousava falar ao modo dos pata th
ë pë em minha pró-
pria casa! Minha boca tinha vergonha, pois se eu tivesse me arriscado a exortar
os meus, eles teriam zombado de mim com dureza. Teriam declarado, irritados,
que um homem jovem não pode mandar3
nos mais velhos e ninguém teria
levado adiante minhas palavras. Teria mesmo dado pena de ver! Por isso, eu
não dizia nada, com medo de caçoarem de mim. Apenas me esforçava para me
tornar tão sabido quanto meus pais e sogros, e achava que ainda estava longe
disso. Dizia a mim mesmo, em silêncio, que, se eu quisesse chegar lá, meu
pensamento tinha de permanecer concentrado nos xapiri que os nossos gran-
des xamãs tinham me dado.
Quando se é jovem, ainda não se sabe nada. O pensamento é cheio de
olvido. É só muito mais tarde, uma vez adulto, que se pode tomar dentro de si
as palavras dos antigos. Isso vai sendo feito aos poucos. As crianças dos brancos
têm de aprender a desenhar suas palavras torcendo os dedos desajeitados por
muito tempo e com os olhos sempre cravados em peles de imagens. Entre nós,
os rapazes que querem conhecer os xapiri têm de vencer o medo e deixar que
os mais velhos soprem o pó de yãkoana em suas narinas. É doloroso, e também
demora muito. Depois, eles têm de continuar trabalhando por conta própria,
esforçando-se para ligar seus pensamentos um ao outro, o mais longe que pu-
derem. É por isso que, na época em que eu era um jovem xamã, eu estudava
com aplicação as coisas que o poder da yãkoana me permitia ver. Porém, quan-
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do eu queria dar minhas palavras à gente de minha casa, eu não me arriscava
a entoar discursos hereamuu! Eu me contentava em transmiti-las nos diálogos
cantados wayamuu da primeira noite de nossas festas reahu. É o que deve fazer
quem não é ainda um homem mais velho.
Acontece assim. Os jovens — moradores e convidados — começam a can-
tar respondendo uns aos outros, aos pares, de pé um diante do outro, na praça
central da casa. Quando terminam, vão sendo substituídos aos poucos pelos
homens mais experientes, que vão se sucedendo sem descanso até o meio da
noite. É isso que chamamos de wayamuu. As palavras desses diálogos se alon-
gam muito. São como as notícias de rádio dos brancos. Nelas relatamos o que
ouvimos em visita a outras casas. É assim que, às vezes, alertamos nossos con-
vidados de que pessoas de longe têm raiva deles e querem desafiá-los com a
borduna ou até flechá-los. Nesses diálogos falamos também dos males que
afligem os nossos. Evocamos os que foram mordidos por cobra, os que tiveram
seu duplo animal rixi ferido por caçadores inimigos, aqueles cujos ossos foram
quebrados por feiticeiros oka e os que foram devorados pela epidemia xawara.
Depois, no meio da noite, quando findam as palavras do wayamuu, os homens
mais velhos, anfitriões e visitantes, se agacham cara a cara, muito perto um do
outro. Dão então início a um outro diálogo cantado — dizemos fazer yãimuu.4
As palavras de yãimuu são próximas e mais inteligentes. Penetram mais fundo
dentro de nós. Enquanto faz wayamuu, a pessoa ainda não dá a conhecer o que
realmente quer dizer. Ainda fala com uma língua de fantasma. Quando os
grandes homens querem mesmo conversar e pôr fim às brigas que os opõem,
usam o yãimuu. Se um visitante contar, irritado, as palavras ruins sobre os seus
que boatos atribuem a seus anfitriões, será alertado: “Esqueça essas palavras
tortas! Continuemos amigos! Minhas reais palavras são belas! Não dê ouvidos
àquelas que essa gente de longe tornou outras! São mentirosos!”. Então o visi-
tante se acalma e responde: “Haixopë! Bem! Eis aí uma fala direita mesmo! Não
quero mais escutar essas palavras feias, que nos fariam dar bordunadas na
cabeça ou flechadas uns nos outros! Sejamos amigos!”. Quando fazem yãimuu,
os grandes homens da casa também avisam seus convidados de que irão cha-
má-los para enterrar as cinzas dos ossos de seus mortos. Quando é assim, di-
zem: “Queremos terminar esta cuia pora axi diante de seus olhos! Vamos pô-la
em esquecimento juntos! É isso que queremos!”. Se não falarmos às claras fa-
zendo yãimuu, as pessoas podem ficar com raiva, alegando que foram mantidas
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na ignorância. É também durante o yãimuu que se pedem mercadorias numa
festa — panelas ou redes, machados, facões e facas, anzóis ou fósforos. É por
intermédio do yãimuu, ainda, que um rapaz faz o seu pedido por uma esposa
e propõe trabalhar para o futuro sogro. Este então responderá: “Venha se ins-
talar ao meu lado e fique com minha filha! Mas não a deseje sem devolver o
que vale! Quando você vier morar junto comigo, terá de saciar minha fome de
caça e trabalhar na minha roça! Aí sim eu vou lhe dar uma mulher!”.
Foi Titiri, o espírito da noite, que no primeiro tempo ensinou o uso do
wayamuu e do yãimuu.5
Fez isso para que pudéssemos fazer entender uns aos
outros nossos pensamentos, evitando assim que brigássemos sem medida. Po-
rém, antes disso, Titiri, furioso, devorou Xõemari, o ser da alvorada, para que
ele parasse de voltar sem parar desde a jusante do céu, caminhando à frente de
sua trilha de luz.6
Desde então, o fantasma de Xõemari só pode interromper a
escuridão uma única vez, no raiar do dia. Então, Titiri disse a nossos ancestrais:
“Que essa fala da noite fique no fundo de seu pensamento! Graças a ela, vocês
serão realmente ouvidos por aqueles que vierem visitá-los”. É por isso que
continuamos a discursar desse modo em nossas festas reahu, do anoitecer até
o amanhecer, primeiro fazendo o wayamuu e depois o yãimuu. Assim, as pa-
lavras desses diálogos não pararam de crescer em nós até hoje. Titiri as fez se
multiplicarem, para que pudéssemos conversar entre as casas e pensar direito.
São o âmago de nossa fala. Quando dizemos as coisas só com a boca, durante
o dia, não nos entendemos de fato.7
Escutamos o som das palavras que nos são
dirigidas, mas as esquecemos com facilidade. Durante a noite, ao contrário, as
palavras ditas em wayamuu ou em yãimuu vão se acumulando e penetram no
fundo de nosso pensamento. Revelam-se com toda a clareza e podem ser efe-
tivamente ouvidas. É por essa razão que, no começo, eu preferia dialogar assim
na escuridão, para falar aos nossos grandes homens de coisas de muito longe
que eles ainda não conheciam. Desse modo, minha iniciativa não os deixava
contrariados. Mesmo quando eu lhes dizia: “Não desejem os alimentos dos
brancos! Não são bons para nós! É comida velha, que eles deixam mofando,
escondida em suas casas! A riqueza da floresta está aí para nos alimentar! Bas-
ta-nos caçar e abrir grandes roças! É daí que vem a comida de verdade!”, eles
respondiam, sem animosidade: “Awei! Você, que defende nossa floresta, quan-
do nos dá assim suas palavras, nos alerta contra as coisas ruins dos brancos.
Faz bem de nos manter atentos!”.
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* * *
Era assim, naquela época. Os meus já sabiam que eu fazia ouvir minhas
palavras sobre nossa terra entre os brancos, muito longe de nossa floresta. No
entanto, em nossa casa, em Watoriki, me diziam: “Mais tarde, quando tiver fica-
do mais velho, você poderá, se quiser, aconselhar-nos com suas palavras de
hereamuu. Por enquanto, contente-se em nos fazer ouvi-las durante os diálogos
wayamuu e yãimuu. É bom assim!”. Entre nós, acontece desse modo. É depois
de ganhar idade e adquirir sabedoria que um homem pode começar a arengar
os habitantes de sua casa. No começo, tenta lançar de vez em quando conselhos
a respeito da caça ou do trabalho das roças. Se ligar bem suas palavras e os jo-
vens seguirem suas falas, continua tentando. Porém, se ninguém reagir ou al-
guém o recriminar, para imediatamente e sente vergonha. Diz a si mesmo: “As
pessoas recebem minhas palavras com hostilidade. Preferem escutar os discur-
sos dos mais velhos! Devo ter paciência e imitar seus modos!”. Depois, com o
passar do tempo, se os seus acabarem por levar em consideração suas exorta-
ções, sua boca vai aos poucos perdendo o medo. Então ele poderá falar com
sabedoria, nas pegadas daqueles que o precederam nessas falas de grande ho-
mem. Terá começado a fazer discursos de hereamuu ainda jovem adulto e irá
continuar até a velhice.
Foi esse o caminho que procurei seguir. Hoje, às vezes tento falar em he-
reamuu.8
Se as pessoas de minha casa começam a prestar atenção no que digo,
continuo. Senão, volto a emudecer e fico quieto na minha rede. Até agora, não
falei desse modo muitas vezes. Sempre receio que os homens mais velhos, exas-
perados, me façam calar: “Você faz esses discursos achando que virou um gran-
de homem, ao que parece! Não é o caso mesmo! Suas palavras nos irritam.
Você é jovem demais, trate portanto de trabalhar em silêncio para alimentar
sua família em lugar de exortar os outros!”. Todavia, meu sogro nunca se mos-
trou hostil às minhas falas, muito pelo contrário. Isso me dá força. Ele me diz,
às vezes: “É bom que você fale assim, porque estou ficando velho. Quando eu
não estiver mais aqui, você irá continuar em meu lugar!”. Aí, eu respondo:
“Sogro, se um dia o senhor se for e a epidemia xawara me deixar vivo, então
sim, ficarei para falar seguindo seus passos! Faça descer em mim seu espírito
gavião Kãomari   9
para minha fala ficar tão ágil e firme quanto a sua! Depois,
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será a minha vez de morrer, pois hoje os brancos não nos deixam mais viver
muito tempo!”.
Mais tarde, eu com certeza terei vários genros. Quando for a hora, vou
mandá-los trabalhar na minha roça e caçar para mim. Então poderei falar em
hereamuu de verdade, como os homens mais velhos que me precederam. Direi
aos maridos de minhas filhas: “Eu vou ficar em casa. Vocês vão derrubar as
árvores grandes de minha roça! Vão flechar caça e coletar frutos de palmeira
hoko si para mim!”. Mas não quero ter de lhes dar ordens o tempo todo. Quan-
do são espertos, os genros trabalham por conta própria, sem o sogro precisar
falar demais. Eu só lhes darei instruções se não souberem o que fazer. Direi:
“Abram uma nova roça e plantem banana, mandioca e cana-de-açúcar, para
não passarmos fome. Não quero passar a vergonha de ter de pedir minha co-
mida aos outros!”. E quando eu tiver ficado mais velho ainda, será a minha vez
de contar aos mais jovens o que conheci desde a infância. Falarei de todos os
brancos que encontrei e de tudo o que vi em minhas viagens a lugares distantes.
Desse modo, terão mais conhecimento das coisas.
Se eu me contentar em lhes falar com a boca, sem fazer discursos como os
dos grandes homens, não vai dar certo. Eles vão ouvir o som de minha voz, mas
continuarão procurando seus pensamentos, a se perguntar: “O que vai acon-
tecer conosco? Será que outros brancos mais vão entrar na floresta para tomar
nossa terra?”. Se eu não os fizer ouvir minha voz em hereamuu, minhas pala-
vras não vão entrar em seu pensamento. Eles não vão compreender mesmo as
coisas. De modo que, se eu quiser que se ponham a pensar direito, preciso falar
com eles desse modo muitas vezes. É por isso que estou começando a fazê-lo
agora, dizendo-lhes: “As terras desmatadas que se estendem ao redor de nossa
floresta são as de outra gente! Não tentem ir viver lá! Vocês serão maltratados
e só conseguirão trazer de volta doenças que devorarão todos os seus familiares!
Também não fiquem vagando o tempo todo pelas casas de nossos aliados. Suas
visitas vão acabar cansando. Os parentes que os receberem vão ficar com ciú-
mes de suas esposas e com suspeitas em relação às filhas. Ficarão furiosos com
vocês. Vocês vão brigar e eles vão querer bater em vocês! Melhor ficarem tran-
quilos, trabalhando junto aos seus!”.10
Explico-lhes também que é preciso ago-
ra pôr um fim à hostilidade entre nossas casas, e que devemos parar de nos
maltratar uns aos outros, com bordunadas na cabeça ou nos flechando por
vingança. Bem sei que alguns deles devem pensar que meus dizeres se devem
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à covardia, mas não é verdade. O que eu quero é que mostremos nossa valentia
sobretudo nos defendendo contra os que querem devastar nossa terra. São eles
nossos verdadeiros inimigos! Nós, habitantes da floresta, somos a mesma gen-
te, devemos ser amigos! Esse é o começo de minhas falas aos rapazes. Mais
tarde, quando for minha vez de me tornar um grande homem, serão mais ex-
tensas e mais sábias.
Para ser capaz de proferir discursos em hereamuu com firmeza, é preciso
conseguir a imagem do gavião kãokãoma, que tem uma voz potente. Chama-
mo-la Kãomari. É ela que dá vigor às palavras de nossas exortações. Desce em
nós por conta própria, não é preciso ser xamã. Então deixamos que se instale
em nosso peito, onde permanece invisível.11
Ela indica à nossa garganta como
falar bem. Faz surgir nela as palavras, umas depois das outras, sem que se
misturem ou percam sua força. Permite-nos estender em todas as direções as
palavras de um pensamento ágil. Com ela, nossa língua fica firme, não falha e
não fica ressecada. Os que não acolhem essa imagem no peito, ao contrário,
fazem discursos desajeitados, com falas encolhidas. Seus dizeres são hesitantes
e sua voz treme. Exprimem-se como fantasmas e dão pena de ouvir! Os gran-
des homens, que têm no peito a imagem do gavião kãokãoma, ao contrário,
sabem proferir exortações longas e potentes. Eles são hábeis em convencer os
rapazes a seguir suas palavras. Nunca os chamam de preguiçosos, para não os
deixar irados e reticentes. Dizem-lhes, ao contrário: “Estamos todos com fome
de carne. Vão flechar caça! Sigam as pegadas de uma anta e todos ficaremos de
barriga cheia!”, ou então: “Abram grandes roças, vai haver fartura de comida!
Seus filhos não vão ficar gemendo, pedindo de comer! Vocês não terão de
passar a vergonha de mandar suas mulheres à roça dos outros!12
Poderemos
chamar muitos convidados para nossas festas!”. Com a mesma habilidade en-
caminham as mulheres à pesca com timbó, quando os rios estão baixos, e re-
comendam aos homens que armazenem cachos de bananas verdes, para que
amadureçam em suas casas, e os encarregam de preparar as carnes moqueadas
e os beijus para as festas reahu. Assim é. Os grandes homens arengam as pes-
soas de suas casas durante a noite e elas, mesmo que permaneçam em silêncio
e pareçam estar dormindo, escutam com atenção. Ao nascer do dia, seu espí-
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rito desperta e dizem a si mesmas: “Haixopë! Aquelas eram boas palavras!
Vamos responder seguindo os seus conselhos!”.
No entanto, é muito comum os homens mais velhos apenas discorrerem
com sabedoria, sem dar nenhuma instrução. Nesse caso falam somente para
que seus ouvintes possam ganhar conhecimento. Assim, quando um grande
homem acorda, antes do amanhecer, na hora do orvalho, pode enumerar em
hereamuu as antigas florestas onde seus pais e avós viveram, descendo aos
poucos das terras altas.13
Evoca o lugar onde nasceu e aqueles onde cresceu.
Relembra a casa onde começou a caçar lagartos e passarinhos com flechinhas,
aquela em que chegou à puberdade e sua garganta imitou o mutum14
e aquela
em que tomou esposa. Relata o que observou da vida dos antigos em sua ju-
ventude: suas viagens de uma casa à outra, as festas reahu às quais se convida-
vam, as incursões guerreiras que faziam para se vingar. Explica como eram
aqueles tempos distantes, quando as mercadorias dos brancos ainda eram uma
raridade. E se estiver um pouco insatisfeito com a preguiça de seus genros,
aproveita para acrescentar: “Quando eu era jovem, as coisas não eram como
hoje. Eu caçava sem descanso para fartar meus sogros de carne de caça! Fle-
chava muitas antas, queixadas e macacos-aranha! Todos tinham o prazer de
esfregar seus dentes com a carne de minhas presas!15
E isso apesar de a floresta
das terras altas onde vivíamos ser escarpada e sua vegetação muito emaranha-
da! Naquele tempo, eu era muito bom caçador! Hoje, os rapazes voltam muitas
vezes de mãos vazias. Com certeza comem eles mesmos as poucas presas que
conseguem flechar!”.
Já os xamãs, em seus discursos de hereamuu, falam sobretudo do tempo
dos antepassados animais yarori. Costumam iniciar assim: “No primeiro tem-
po, nossos ancestrais viraram outros, transformaram-se em veados, antas, ma-
cacos e papagaios”. Prosseguem então com o relato das desventuras de alguns
deles e narram como se metamorfosearam. Contam também como uma mulher
menstruada sentada no chão da floresta virou um rochedo e de que modo os
macacos-aranha lhe arrancaram o braço tentando colocá-la de pé.16
Evocam os
choros agudos de Õeõeri, o recém-nascido que feiticeiros inimigos abandona-
ram num ninho de formigas kaxi depois de matarem sua mãe.17
Relatam como
o ancestral irara Hoari afugentou as abelhas, cujos méis até então era fácil pegar
no pé das árvores.18
Descrevem o modo como o ancestral saúva koyo foi abrin-
do em segredo uma imensa roça de milho na floresta, para fazer a sogra se
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perder nela.19
Dão a ouvir ainda palavras sobre os lugares onde seus espíritos
desceram, para além do céu, no mundo subterrâneo ou na terra dos brancos.
É assim que ensinam as coisas para as pessoas comuns; para as pessoas que não
conhecem os ancestrais animais, nem todos os mundos distantes, cujas imagens
não são capazes de fazer descer. De modo que, sem saberem o que pensar, só
prestam atenção nos cantos dos xamãs, para conhecer o que estes puderam ver
depois de beber yãkoana.
Meus pais e avós cresceram nas terras altas, muito longe dos brancos, de
suas estradas e cidades. Quando estes começaram a subir os rios, bem antes de
eu nascer, nossos maiores já eram adultos havia um bom tempo. Suas línguas
tinham se endurecido em seu falar próprio e eles tiveram grande dificuldade
para imitar o idioma dos forasteiros. Quando os encontravam, pediam merca-
dorias apenas com gestos e umas poucas palavras enroladas. Nem de longe
pensavam em defender sua terra! Nem desconfiavam que um dia os brancos
poderiam invadir a floresta para cortar-lhe as árvores, abrir estrada e escavar o
leito dos rios em busca de ouro! Perguntavam-se apenas por que aquela gente
estranha tinha subido os rios até eles. Conversavam bastante a respeito disso,
mas suas palavras nunca saíram da floresta para serem ouvidas.
Muito tempo depois, eu cresci e veio a minha vez de ficar adulto. Vivi e
trabalhei bastante com os brancos e, aos poucos, suas palavras foram entrando
em mim. Então, quando voltei para a floresta e percebi que os meus ainda não
conseguiam entendê-los, pensei: “Eu ainda sou jovem, mas já sei um pouco de
português. No primeiro tempo, Omama nos deu essa terra. Vivo aqui agora
com minha esposa e meus filhos e levo esta floresta em meu pensamento. Ca-
be a mim defendê-la, não?”. Depois, meu espírito prosseguiu nesse caminho:
“Somos os filhos e netos de guerreiros que não tinham medo de flechar seus
inimigos. As imagens de Õeõeri e Aiamori ensinaram a valentia a nossos ante-
passados e continuam presentes entre nós! Não quero me comportar como um
covarde diante dos forasteiros que nos maltratam!”. Foi assim que, pouco a
pouco, resolvi fazer chegar aos brancos os pensamentos dos habitantes da flo-
resta e lhes falar com firmeza, inclusive em suas cidades. Eu estava com muita
raiva. Não queria que os meus continuassem morrendo devorados por suas
epidemias xawara. Minha intenção era dizer a eles o quanto, apesar de seu
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engenho para fabricar mercadorias, o pensamento de seus grandes homens
está cheio de esquecimento. Se assim não fosse, por que iriam eles querer des-
truir a floresta e nos maltratar desse jeito?
Então, os grandes homens de nossa casa me incentivaram: “Awei! Você
irá falar em hereamuu aos brancos. Nós não podemos ir tão longe, até as casas
deles e, além disso, eles não nos entenderiam. Você sabe imitar a língua deles.
Irá dar a eles nossas palavras. Não tenha medo deles! Responda-lhes no mesmo
tom! Enquanto isso, de longe, estaremos com você defendendo a floresta e seus
habitantes, fazendo dançar nossos xapiri!”. Ouvir essas boas palavras me dei-
xou feliz. De sua parte, meu sogro acrescentou: “Apesar da distância, meus
espíritos não vão perdê-lo de vista! Se os brancos se mostrarem hostis, eles o
protegerão com bravura!”. Ele é mesmo um homem sábio e bom. Sempre cui-
dou de mim durante as minhas viagens. Por isso, ao partir, eu tranquilizava
minha mulher e meus filhos: “Não se preocupem! Os brancos não vão me
matar! Se tentarem me atacar, nosso grande homem vai me vingar!”. Assim,
meu pensamento ficava mais tranquilo. Dizia a mim mesmo: “Está bem! Vou
defender a nossa floresta! Falarei aos brancos com força, sem ter medo de fazê-
-los escutar minhas verdadeiras palavras!”.
Naquela época, os espíritos napënapëri dos ancestrais brancos me visita-
vam com frequência. Os grandes xamãs de nossa casa os chamavam a mim me
fazendo beber o pó de yãkoana. Então eles desciam dançando com a imagem
de Omama, que é seu criador. Vinham com eles as imagens de Remori, o espí-
rito zangão que deu aos forasteiros sua língua de fantasma, e de Porepatari, o
antigo espectro que, há muito tempo, aprendeu a imitá-los. Porepatari costuma
trocar com os napënapëri peles de felinos por espingardas e cartuchos. É um
grande caçador. Desloca-se o tempo todo pela floresta à noite, invisível como
um sopro de vento. Dele só se ouve o chamado: “yãri! yãri! yãri!”.20
Caça onças
que, como ele, são muito agressivas. Às vezes lhe acontece de flechar árvores,
ou até humanos, que fere com pontas de curare das quais nunca vão ficar cura-
dos. É um grande ancestral, de fato um habitante da floresta. Cuida dela e dos
xapiri que nela brincam. Alegra-se diante da beleza deles. Se não ouvir seus
cantos, fica enfurecido conosco: “Não há mais xamãs entre vocês? Vocês estão
dormindo? Seus peitos ficaram sujos demais?”. Foram as imagens de Remori e
Porepatari que colocaram em mim suas gargantas de espírito, para eu poder
imitar a fala dos brancos. Ensinaram-me a pronunciar suas palavras uma após
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a outra com mais destreza e firmeza. Introduziram em mim a língua dos ante-
passados napënapëri. Sozinho eu não teria conseguido e jamais teria sido capaz
de fazer discursos nessa linguagem outra!
A primeira vez que falei da floresta longe de minha casa foi durante uma
assembleia na cidade de Manaus. Mas não foi diante de brancos, e sim de outros
índios! Era a época em que os garimpeiros estavam começando a invadir nossas
terras, nos rios Apiaú e Uraricaá. Então, Ailton Krenak e Álvaro Tukano, lide-
ranças da União das Nações Indígenas, me convidaram a falar.21
Disseram-me:
“Você deve defender a floresta de seu povo conosco! Precisamos falar juntos
contra os que querem se apossar de nossas terras! Senão, vamos acabar todos
desaparecendo, como nossos antigos antes de nós!”. Mas eu não sabia falar
daquele jeito e o sopro de minha palavra ainda era curto demais! Apesar disso,
não recuei. Cheio de apreensão, me esforcei por dizer, pela primeira vez, pala-
vras firmes sobre os garimpeiros que sujavam nossos rios e nos matavam com
suas fumaças de epidemia. Algum tempo depois, foram os Makuxi que me con-
vidaram a uma de suas grandes assembleias. Foi em Surumu, nas terras deles,
nos campos de nosso estado de Roraima.22
Encorajaram-me de novo a falar:
“Venha defender sua floresta entre nós, do mesmo jeito que o fazemos para
nossa terra!”. Dessa vez era uma reunião bem maior. Havia gente de muitos
outros povos e os brancos também eram numerosos. Eu não tinha ideia de
como iria conseguir discursar diante de toda aquela gente sentada com os olhos
pregados em mim! No começo, apenas prestei atenção no modo como os outros
falavam antes de mim. Escutei primeiro os Makuxi e os Wapixana, que falaram
um depois do outro contra os fazendeiros, dizendo: “Esses brancos querem nos
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mandar embora das terras onde os nossos antepassados viviam, dizendo que
pertencem a eles! Estamos cercados pelo arame farpado e pelo gado deles. Quei-
mam nossas casas, xingam-nos e batem em nós! Mais tarde vão querer fazer o
mesmo com os Yanomami. Mas se juntarmos todas as nossas palavras contra
eles, vão recuar, porque não passam de mentirosos!”.
Naquela época, eu temia ter de falar diante de um grupo de desconhecidos,
longe da minha floresta e, ainda por cima, na linguagem dos brancos! Minhas
palavras ainda eram poucas e torcidas. Eu ainda nem tinha ousado discursar
em hereamuu em minha própria casa! Estava aflito e meu coração batia forte
no peito. Ainda não sabia fazer sair as palavras de minha garganta, uma atrás
da outra! Dizia a mim mesmo: “Mas como é que eu vou fazer isso? Como é que
os brancos falam nessas ocasiões? Por onde começar?”. Eu procurava com an-
siedade o começo das palavras que podia dar a ouvir. Minha boca estava seca
de medo. E, por fim, chegou a minha vez de falar! Fiquei muito envergonhado
e devia dar mesmo dó de ver! Então, falei de repente o que tinha em mente
naquele instante: “Eu não sei falar como os brancos! Quando tento imitá-los,
minhas palavras fogem ou se emaranham na minha boca, mesmo que meu
pensamento permaneça reto! Minha língua não seria tão enrolada se eu esti-
vesse falando aos meus, na minha língua! Mas pouco importa: já que vocês me
dão ouvidos, vou tentar! Desse modo minhas palavras se fortalecerão e talvez
um dia sejam capazes de deixar preocupados os grandes homens dos brancos!”.
Então prossegui, me esforçando para seguir o modo dos que tinham falado
antes de mim. Mas eu disse sobretudo o que realmente achava dos garimpeiros:
“São outra gente, comedores de terra, seres maléficos! Seu pensamento é vazio
e estão impregnados de epidemia! Precisamos impedi-los de sujar nossos rios
e expulsá-los da floresta. Por que eles não trabalham em sua própria terra?
Quando eu era criança, quase todos os meus parentes faleceram devido às
doenças dos brancos. Não quero que isso continue!”. Acho que foram essas as
primeiras palavras que eu disse. Depois, fui aos poucos tentanto estendê-las e
torná-las mais claras. Com certeza só consegui fazer isso porque a raiva estava
em mim! Na verdade, ela me tomava havia muito tempo, desde que os meus
tinham morrido em Toototobi e eu mesmo tinha escapado por pouco da epi-
demia de sarampo dos missionários.23
Algum tempo depois, meu sogro e eu convidamos à nossa casa, em Wa-
toriki, os moradores de várias outras aldeias yanomami. Queríamos reunir uma
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primeira assembleia yanomami para falar de nossa terra. Outros índios também
vieram de muito longe para se juntar a nós, como Ailton Krenak e Anine Suruí,
da União das Nações Indígenas. Havia também lideranças makuxi e alguns
brancos nossos amigos.24
Cada um teve sua vez de falar para defender a nossa
floresta. No final, fizemos uma dança de apresentação de festa reahu e ofere-
cemos uma grande quantidade de carne de queixada moqueada a nossos con-
vidados.25
Depois dessa reunião, também fui candidato a deputado no que os
brancos chamavam de Constituinte, em Brasília.26
Naquela época, me dirigi
repetidas vezes aos outros índios de Roraima em assembleias e também pelo
rádio. Fiz isso para experimentar a política dos brancos, para aprender alguma
coisa. Mas isso não durou muito e eu não ganhei!27
Pouco depois, os garimpei-
ros se tornaram cada vez mais numerosos nas terras altas de nossa floresta,
saqueando as nascentes dos rios e destruindo seus habitantes com suas epide-
mias.28
Então comecei a viajar muitas vezes para as grandes cidades dos bran-
cos, muito longe de minha casa. Lá eu me juntava com outros habitantes da
floresta, vindos de todos os lados, para falar contra os garimpeiros, os fazen-
deiros e os madeireiros que invadem nossas terras. A partir desse momento,
não tive mais de procurar as palavras. Minha raiva aumentava cada vez mais e
eu queria que todos os brancos soubessem o que estava acontecendo na flores-
ta. Foi assim que aprendi a fazer longos discursos diante deles e que aumenta-
ram em mim as palavras para lhes falar com firmeza.
Depois de Manaus e Brasília, conheci São Paulo. Foi a primeira vez que
viajei tão longe por cima da grande terra do Brasil. Compreendi então o quan-
to é imenso o território dos brancos para além de nossa floresta e pensei: “Eles
ficam agrupados numas poucas cidades espalhadas aqui e ali! Entre elas, no
meio, é tudo vazio! Então por que querem tanto tomar nossa floresta?”. Esse
pensamento não parou mais de voltar em minha mente. Acabou por fazer sumir
o que restava de meu medo de falar! Tornou minhas palavras mais sólidas e lhes
permitiu crescer cada vez mais. De modo que eu costumava declarar aos bran-
cos que me escutavam: “Suas terras não são realmente habitadas! Seus grandes
homens resguardam-nas com avareza, para mantê-las vazias. Não querem ceder
nem um pedaço delas a ninguém. Preferem mandar sua gente esfomeada comer
nossa floresta!”. E acrescentava: “No passado, muitos dos nossos morreram por
causa das doenças de vocês. Hoje, não quero que nossos filhos e netos morram
da fumaça do ouro! Mandem os garimpeiros embora de nossas terras! São seres
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maléficos, de pensamento obscuro. Não passam de comedores de metal cober-
tos de epidemia xawara. Vamos acabar por flechá-los e, se for assim, muitos
ainda vão morrer na floresta!”. Era difícil. Eu tinha de dizer tudo isso numa
fala que não é a minha! Contudo, movida pela revolta, minha língua ia ficando
mais ágil e minhas palavras menos enroladas. Muitos brancos começaram a
conhecer meu nome e quiseram me escutar. Incentivaram-me, dizendo que
achavam bom que eu defendesse a floresta. Isso me deixou mais confiante.
Alegrava-me que eles me entendessem e se tornassem meus amigos. Naquela
época, falei muito nas cidades. Achava que se os brancos pudessem me ouvir,
acabariam convencendo o governo a não deixar saquear a floresta. Foi com
esse único pensamento que comecei a viajar para tão longe de casa.
Desde então, não parei mais de falar aos brancos. Meu coração parou de
bater tão rápido quando me olham e minha boca perdeu a vergonha. Meu peito
tornou-se mais forte e minha língua perdeu a rigidez. Se as palavras se atrapa-
lhassem em minha garganta, saindo apenas numa voz fina e vacilante, os que
tivessem vindo me ouvir diriam a si mesmos: “Por que afinal esse índio quer nos
falar? Esperávamos dele palavras de sabedoria, mas ele não diz nada! Tem medo
demais!”. Por isso eu sempre trato de falar com coragem! Não quero que pensem:
“Os Yanomami são tolos e não têm nada a dizer. Nem conseguem falar direito
conosco! Só sabem ficar parados, com o olhar perdido, mudos e amedrontados!”.
Essa ideia bastou para me irritar e me fazer falar com energia! Os brancos bem
podem manter os olhos cravados em mim para tentar me intimidar. Não dá em
nada! Eu continuo fazendo ressoar minhas palavras assim mesmo! Começo
dizendo a eles: “Vocês que me escutam, vocês são para nós estrangeiros que
chamamos de napë. Eu sou filho da gente que Omama criou na floresta no pri-
meiro tempo. Eu nasci de seu esperma e de seu sangue!29
Como meus antepas-
sados, tenho em mim o valor de sua imagem! É por isso que defendo a terra que
ele lhes deixou!”. Então, prossigo: “Vocês são outra gente. Vocês não dão festas
reahu. Vocês não sabem fazer dançar os xapiri. Nós somos o pouco de habitan-
tes da floresta sobreviventes das fumaças de epidemia de seus pais e avós. É por
isso que quero lhes falar. Hoje, não permaneçam surdos a minhas palavras e
proíbam os seus de destruir nossa terra e acabar conosco também!”.
Falar da morte de meus maiores me entristece, e a ira de seu luto imedia-
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tamente volta ao meu peito. Minhas palavras endurecem e os que me escutam
são tomados de aflição. Permanecem em silêncio, seus olhos dão dó. Então,
insisto com força: “Vocês não entendem por que queremos proteger nossa
floresta? Perguntem-me, eu responderei! Nossos antepassados foram criados
com ela no primeiro tempo. Desde então, os nossos se alimentam de sua caça
e de seus frutos. Queremos que nossos filhos lá cresçam rindo. Queremos vol-
tar a ser muitos e continuar a viver como nossos antigos. Não queremos virar
brancos! Olhem para mim! Imito a sua fala como um fantasma e me embrulho
em roupas para vir lhes falar. Porém, em minha casa, falo em minha língua,
caço na floresta e trabalho em minha roça. Bebo yãkoana e faço dançar meus
espíritos. Falo a nossos convidados em diálogos wayamuu e yãimuu! Sou ha-
bitante da floresta e não deixarei de sê-lo! Assim é!”.
Antigamente, os brancos falavam de nós à nossa revelia e nossas verda-
deiras palavras permaneciam escondidas na floresta. Ninguém além de nós
podia escutá-las. Então, comecei a viajar para que as pessoas das cidades por
sua vez as ouvissem. Onde podia, espalhei-as por suas orelhas, em suas peles
de papel e nas imagens de sua televisão. Elas se propagaram para muito longe
de nós e, ainda que acabemos desaparecendo mesmo, continuarão existindo
longe da floresta. Ninguém poderá apagá-las. Muitos brancos agora as conhe-
cem. Ao ouvi-las, começaram a pensar: “Foi um filho dos antigos habitantes
da floresta que nos falou. Ele viu com seus próprios olhos os seus parentes
arderem em febre e seus rios se transformarem em lamaçais! É verdade!”.
Nossas palavras para defender a floresta nos foram dadas por Omama.
Sua força provém da imagem dos ancestrais do primeiro tempo, de quem
somos os fantasmas.30
Foram eles que nos ensinaram a valentia que me per-
mite falar com firmeza aos grandes homens dos brancos. Por isso, ficam preo-
cupados quando minhas palavras invadem seu pensamento: “Hou! Essa gente
da floresta não tem medo! Suas palavras são duras e eles não recuam!”. Na
primeira vez em que me dirigi ao presidente do Brasil, pedi a ele que expul-
sasse os garimpeiros de nossa floresta.31
Ele me respondeu, com hesitação: “São
numerosos demais! Não tenho nem aviões nem helicópteros suficientes para
tanto! Não tenho dinheiro!”. Repetiu-me essas mentiras como se eu fosse des-
provido de pensamento! Eu trazia em mim a revolta de minha floresta des-
truída e de meus parentes mortos. Retruquei que com aquelas palavras tortas
ele só queria nos enganar e deixar que nossa terra fosse invadida. Depois acres-
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centei que para falar assim ele devia ser um homem fraco com o espírito cheio
de esquecimento, de modo que não podia pretender ser um grande homem
de verdade.
Quando eu era mais jovem, costumava me perguntar: “Será que os brancos
possuem palavras de verdade? Será que podem se tornar nossos amigos?”. Des-
de então, viajei muito entre eles para defender a floresta e aprendi a conhecer
um pouco o que eles chamam de política. Isso me fez ficar mais desconfiado!
Essa política não passa de falas emaranhadas. São só as palavras retorcidas
daqueles que querem nossa morte para se apossar de nossas terras.32
Em muitas
ocasiões, as pessoas que as proferem tentaram me enganar dizendo: “Sejamos
amigos! Siga o nosso caminho e nós lhe daremos dinheiro! Você terá uma casa,
e poderá viver na cidade, como nós!”. Eu nunca lhes dei ouvidos. Não quero me
perder entre os brancos. Meu espírito só fica mesmo tranquilo quando estou
rodeado pela beleza da floresta, junto dos meus. Na cidade, fico sempre ansioso
e impaciente. Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos
gente diferente deles. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e
obscuro. Não consegue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a
morte. Ficam tomados de vertigem, pois não param de devorar a carne de seus
animais domésticos, que são os genros de Hayakoari, o ser anta que faz a gente
virar outro.33
Ficam sempre bebendo cachaça e cerveja, que lhes esquentam e
esfumaçam o peito. É por isso que suas palavras ficam tão ruins e emaranhadas.
Não queremos mais ouvi-las. Para nós, a política é outra coisa. São as palavras
de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no
tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não
sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham com eles mes-
mos. Seu pensamento permanece obstruído e eles dormem como antas ou ja-
butis. Por isso não conseguem entender nossas palavras.
Não temos leis desenhadas em peles de papel e desconhecemos as pala-
vras de Teosi. Em compensação, possuímos a imagem de Omama e a de seu
filho, o primeiro xamã. Elas são nossa lei e governo. Nossos antigos não ti-
nham livros. As palavras de Omama e as dos espíritos penetram em nosso
pensamento com a yãkoana e o sonho. E assim guardamos nossa lei dentro de
nós, desde o primeiro tempo, continuando a seguir o que Omama ensinou a
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nossos antepassados. Somos bons caçadores porque ele fez entrar em nosso
sangue as imagens dos gaviões wakoa e kãokãoma. Não precisamos ensinar
nossos filhos a caçar. Bem jovens, começam por flechar lagartos e passarinhos
e depois, quando crescem, vão caçar animais maiores. Omama nos deu tam-
bém as plantas de nossas roças, que lhe foram dadas pelo sogro, vindo das
profundezas das águas. Ensinou-nos o modo de construir nossas casas e de
cortar nossos cabelos. Ensinou-nos a dar nossas festas reahu e a pôr em esque-
cimento as cinzas de nossos mortos. Transmitiu-nos todas as palavras de nos-
so saber. Já os brancos têm escolas para isso. O que eles chamam de educação,
para nós são as palavras de Omama e dos xapiri, os discursos hereamuu de
nossos grandes homens, os diálogos wayamuu e yãimuu de nossas festas. Por
isso, enquanto vivermos, a lei de Omama permanecerá sempre no fundo de
nosso pensamento.
É em virtude dela que não maltratamos a floresta, como fazem os bran-
cos. Sabemos bem que, sem árvores, nada mais crescerá em sua terra endu-
recida e ardente. Comeremos o quê, então? Quem irá nos alimentar se não
tivermos mais roças nem caça? Certamente não os brancos, tão avarentos que
vão nos deixar morrer de fome. Devemos defender nossa floresta para poder-
mos comer mandioca e bananas quando temos a barriga vazia, para poder-
mos moquear macacos e antas quando temos fome de carne. Devemos tam-
bém proteger seus rios, para podermos beber e pescar. Caso contrário, vão
nos restar apenas córregos de água lamacenta cobertos de peixes mortos.
Antigamente, não éramos obrigados a falar da floresta com raiva, pois não
conhecíamos todos esses brancos comedores de terra e de árvores. Nossos
pensamentos eram calmos. Escutávamos apenas nossas próprias palavras e
os cantos dos xapiri. É o que queremos poder voltar a fazer. Não falo da flo-
resta sem saber. Contemplei a imagem da fertilidade de suas árvores e a da
gordura de seus animais de caça. Escuto a voz dos espíritos abelha que vivem
em suas flores e a dos seres do vento que mandam para longe as fumaças de
epidemia. Faço dançar os espíritos dos animais e dos peixes. Faço descer a
imagem dos rios e da terra. Defendo a floresta porque a conheço, graças ao
poder da yãkoana. Seu espírito, Urihinari, e o de Omama só são visíveis aos
olhos dos xamãs. São suas palavras que dou a ouvir agora. Não são coisas que
vêm só do meu pensamento.
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Quando vou às cidades em visita, não paro de pensar em tudo isso. Eu vi
coisas perigosas com meus xapiri. Quero alertar os brancos antes que acabem
arrancando do solo até as raízes do céu. Se os seus grandes homens conheces-
sem a fala de nossos diálogos yãimuu, eu poderia realmente lhes dizer meu
pensamento. Agachados um diante do outro, discutiríamos por muito tempo,
nos batendo nos flancos. Minha língua seria mais hábil do que a deles e eu lhes
falaria com tanto vigor que eles ficariam esgotados. Acabaria desse modo por
atrapalhar suas palavras de inimizade! Porém, os brancos ignoram completa-
mente nossos modos de dialogar. Quando acontece de nos escutarem durante
as festas reahu, perguntam-se, confusos: “Mas o que são esses cantos? O que
eles estão dizendo?”. Como se se tratasse de meros cantos heri!34
No entanto,
se pudessem me compreender, eu lhes diria em yãimuu: “Parem de fingir que
são grandes homens, vocês dão dó de ver! Farei calar suas más palavras! Se o
seu pensamento não estivesse tão fechado, vocês expulsariam os comedores de
terra de nossa floresta! Vocês alardeiam que queremos recortar uma parte do
Brasil só para nós.35
São mentiras para roubar nossa terra e nos prender em
cercados, como galinhas! Vocês nada sabem da floresta. Só sabem derrubar e
queimar suas árvores, cavar buracos e sujar seus rios. Porém, ela não lhes per-
tence e nenhum de vocês a criou!”.
Todas essas palavras se acumularam em mim desde que conheci os bran-
cos. Hoje, contudo, não me contento mais em guardá-las no fundo de meu
peito, como fazia quando era mais jovem. Quero que sejam ouvidas em suas
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cidades, onde quer que isso seja possível. Então, talvez acabem dizendo a si
mesmos: “É verdade! Nossos grandes homens não possuem sabedoria alguma!
Não os deixemos devastar a floresta!”. Sei que seus chefes não aceitarão com
facilidade o que digo, pois seu pensamento ficou cravado nos minérios e nas
mercadorias por tempo demais. No entanto, os que nasceram depois deles e irão
substituí-los talvez me compreendam um dia. Ouvirão minhas palavras ou ve-
rão o desenho delas enquanto ainda forem jovens. Elas vão penetrar em suas
mentes e eles assim terão muito mais amizade pela floresta. Eis por que eu
quero falar aos brancos. Quando eu era criança, não pensava que aprenderia
sua língua e menos ainda que poderia discursar entre eles! Não me perguntava
como eram suas cidades. Tampouco me questionava quanto a seus pensamen-
tos ou ao que poderiam dizer entre eles. Eu simplesmente os temia e, assim que
se aproximavam de mim, fugia gritando! Gostava de estar na floresta, gostava
de escutar as palavras dos meus e de conversar com meu padrasto. Ouvi-lo falar
de caçadas e de festas reahu me alegrava. Eu era feliz assim e se os brancos e suas
epidemias não tivessem começado a devorar os meus parentes, talvez ainda o
fosse. Uma vez adulto, a chegada repentina dos garimpeiros me fez refletir mui-
to. Disse a mim mesmo: “Hou! Eu não sabia, mas os brancos sempre foram os
mesmos, bem antes de eu nascer! Eles já queriam arrancar da floresta balata,
castanhas-do-pará, cipós masi e peles de onça, do mesmo jeito que hoje querem
lá achar ouro. É por causa dessa ganância que quase todos os nossos antigos
morreram!”. Hoje, não falo de tudo isso à toa. Jamais esqueci a tristeza e a raiva
que senti diante da morte dos meus parentes quando era criança.
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18. Casas de pedra
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Sou um índio do Brasil. É a primeira vez que viajo longe do meu
país. Meu nome é Davi Kopenawa. Eu vivo numa casa na floresta
com os meus parentes. Vim aqui pela primeira vez para falar do
meu povo. Os meus estão morrendo de epidemias ou assassinados.
São os garimpeiros que causam suas mortes. Eles querem nos des-
truir. Mas eu não quero que meu povo desapareça.
Davi Kopenawa
Câmara dos Comuns, Londres, 4 dez. 1989
(arquivos Survival International)
As viagens que fiz para defender nossa floresta contra os garimpeiros aca-
baram me levando para muito além do Brasil. Assim, certo dia, brancos que
tinham escutado meu nome me chamaram de uma terra longínqua, da qual eu
não sabia nada, a Inglaterra. Eu aceitei o convite, porque tinha curiosidade de
conhecer aquela gente distante que parecia ter amizade por nós.1
Era a primei-
ra vez que eu deixava nossa casa de Watoriki para voar num avião por tanto
tempo. Era tão longe que eu acabei chegando até a terra dos antigos brancos,
que eles chamam de Europa. Então, pude ver com meus próprios olhos os ves-
tígios das casas dos primeiros forasteiros de pele clara, os napë kraiwa pë, que
Omama criou há muito tempo com o sangue da antiga gente de Hayowari.2
Durante essa viagem, os amigos ingleses que cuidaram de mim me leva-
ram para conhecer um lugar onde os antepassados dos brancos viveram e tra-
balharam há muito tempo. Vi um círculo de grandes blocos de pedra erguidos
no chão.3
Pensei logo que tinham sido plantados ali por Omama em sua fuga
em direção ao sol nascente e que o círculo que formavam era o que restava de
sua antiga casa.4
São rochas altas e muito pesadas, como as grandes estacas de
uma moradia. Parecem postes de pedra. Omama decidiu construir sua morada
desse modo porque a pedra não apodrece e, portanto, nunca morre. Mas não
fez esse trabalho sozinho. Todos os antigos brancos se juntaram a ele, tanto
velhos como jovens. Devem ter sofrido muito para levantar e içar aqueles blo-
cos enormes! Como eram muito numerosos, Omama com certeza os ensinou
a construir casas de pedra, para não destruir todas as árvores de sua floresta.
Foi o que pensei. Aí, depois de ter visto tudo isso, à noite, durante o meu sono,
os espíritos levaram minha imagem e me falaram a respeito dessas linhas de
rochas. Apresentaram-me a passagem do ser sol Moth
okari a jusante do céu e
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o caminho pelo qual os xapiri dessas terras longínquas vêm dançar até nós.
Mostraram-me também o lugar do qual o ser vendaval Yariporari empurrava
as fumaças de epidemia para longe dos antigos brancos e aquele onde apren-
deram a morrer e enterrar os ossos dos seus mortos numa fossa tampada por
uma imensa rocha.
Ter visto os rastros desses ancestrais, mortos há tanto tempo, me deu dó.
Entristeceu-me tanto quanto ver os das antigas roças de nossos avós na flores-
ta. Os que ergueram aquelas grandes pedras foram os primeiros forasteiros
criados por Omama com a espuma do sangue de nossos antepassados carrega-
dos pelas águas do mundo subterrâneo. A terra dos primeiros brancos pode
parecer muito distante da nossa, mas não devemos ter dúvida: trata-se da mes-
ma e única terra. Só que se separou no tempo em que os nossos ancestrais de
Hayowari se tornaram outros. Foi arrancada pela força das águas que jorraram
do chão, e depois foi carregada para longe, até se fixar onde está hoje. Então,
foi bem longe de nós que nossos antepassados, depois de virarem brancos, fi-
xaram essas grandes pedras no chão. Elas marcam os limites onde sua floresta
à deriva parou, nos confins da terra, sustada pelos pés do céu. De modo que
essas pedras alinhadas marcam os contornos da antiga terra dos primeiros
brancos. Quis Omama que fossem assim dispostas para que nem eles nem seus
filhos as esquecessem. Essa terra, que chamei eropa urihi a, é deles desde que
ali foram criados. Ninguém além deles jamais viveu lá.
Agora faz muito tempo que Omama se foi. No entanto, essas rochas fica-
ram de pé até hoje. Foi mesmo por isso que ele, no passado, decidiu utilizar
blocos tão imponentes. Quis que permanecessem no lugar após sua morte pa-
ra os brancos poderem continuar a olhá-los e dizer a si mesmos: “Esses são os
rastros de Omama, que criou nossos antepassados!”. Ele pensou que, sem isso,
eles ficariam confusos, perguntando-se em vão como vieram à existência. To-
davia, todos os jovens que, hoje, vão ver essas pedras sem temer a ventania que
as cerca parecem perdidos. Seus pais perderam as palavras sobre elas e não
podem transmiti-las a eles. Então, ficam olhando para elas longamente, sem
reconhecê-las. Perguntam-se apenas como os antigos conseguiram levantar
tanto peso!
Essas rochas erguidas por Omama e pelos antigos brancos não devem ser
destruídas. Os fantasmas desses antepassados continuam ali presentes, bem co-
mo junto das ossadas enterradas aos pés dessas pedras. Se fossem derrubadas,
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sua lei seria abolida e esquecida. Essa lei é o saber de seus antepassados. É a
memória e o âmago do pensamento dos que nasceram depois deles. É para os
brancos o que as palavras de Omama são para nós. Se essa lei, essa marca do
primeiro tempo deixar de ficar levantada entre eles, perderão para sempre as
medidas. Não pararão mais de maltratar a terra e de matar uns aos outros. Os
antigos brancos que tanto se esforçaram para erguer essas pedras o fizeram para
que pudessem ser contempladas depois de sua morte e sua memória não se per-
desse. Trouxeram-nas de muito longe, sem máquinas. Foi assim que inventaram
a pena do trabalho. Quanto a nós, habitantes da floresta, foi Koyori, o ancestral
Saúva, que nos ensinou a dura labuta das roças sob o sol ardente.5
Se as máquinas
dos brancos derrubarem essas grandes pedras de Omama, os fantasmas de seus
ancestrais ficarão furiosos. Pensarão que aqueles que hoje em dia pretendem ser
grandes homens em sua terra já não possuem nenhuma sabedoria.
Depois de ter aceitado partir para a Inglaterra, fiquei preocupado com a
ideia de ir para tão longe dos meus e do apoio dos outros xamãs de minha casa.
Para dizer a verdade, ter de voar até a terra onde Omama criou os antepassados
dos brancos me inquietava bastante. Por isso, antes de minha partida, pedi a meu
sogro para se manter atento e me ajudar durante a viagem. Ele então começou
a me proteger, me dando seus conselhos de xamã antigo. Recomendou-me que
só levasse comigo alguns de meus xapiri e guardasse todos os outros em sua
casa de espíritos, acima de nossa floresta. Em seguida ergueu seus caminhos bem
alto no peito do céu, para que não fossem arrancados pelo avião que iria me
levar. É verdade. Os espíritos, apesar de sua potência, são tão leves quanto penu-
gem. Sem essa precaução, eles poderiam ter morrido sufocados ou ter sido leva-
dos pelos ventos para os confins da terra. E se lá se perdessem ou fossem captu-
rados por seres maléficos, eu poderia ter morrido. Assim, para me protegerem, os
grandes xamãs de Watoriki trataram de fechar todos os seus espelhos, para que
não se afastassem até meu retorno. Depois teceram sobre sua morada um reves-
timento sólido e cercaram-na com um sopro poderoso, para torná-la inacessível.
Apenas meus espíritos mais sabidos e mais resistentes puderam seguir
comigo nessa viagem até a terra dos primeiros brancos. Eram eles a imagem de
Omama, que sustenta o voo dos aviões com um caminho de metal no céu, e a
do antigo espectro caçador, Porepatari, que foi o primeiro a trocar com os
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brancos. Mas outros xapiri também me acompanharam para me defender,
como o espírito jacaré, com seu grande facão, e o de Xinarumari, o do dono do
algodão, com sua cauda venenosa. Sem a proteção desses xapiri, os espíritos
maléficos de longínquos xamãs estrangeiros poderiam ter me enfraquecido e
me atordoado de vertigem ou até mesmo provocado a queda do avião em que
eu me encontrava. Ao contrário, sabendo que estavam comigo, eu não tinha
medo de nada e pude guardar minhas forças para fazer com que minhas pala-
vras fossem ouvidas pelos brancos.
No entanto, os meus xapiri que tiveram de permanecer na floresta ficaram
apreensivos quando me viram desaparecer nas lonjuras e se preocuparam du-
rante toda a minha viagem! Por isso, o espírito lua, Poriporiri, esforçou-se para
manter a claridade de seus olhos fixada sobre mim, para que eu não perdesse o
caminho de volta. Já os espíritos macaco-aranha emitiram chamados o tempo
todo, para terem notícias de meu paradeiro. Durante a noite, tornado fantasma
sob o efeito de alimentos desconhecidos, eu costumava ouvir em sonho seus
clamores aflitos: “Onde é que foi parar nosso pai? Vai acabar se perdendo! Que
volte para nós bem depressa! Esses forasteiros de longe vão maltratá-lo! Ele vai
ficar doente!”. Então, os xapiri que me acompanhavam os tranquilizavam: “Ma!
Ele está aqui conosco! Passa bem! Não sejam impacientes! Não é tão longe, ele
vai voltar logo! Se ouvirem gritar a voz dos trovões, não fiquem assustados! É
só porque estão com raiva da morte de outros xamãs!”.6
Foi assim que eu me preparei, da primeira vez, para ir à terra dos antigos
brancos. Antes disso, eu não era tão prudente! Viajava por toda parte, sem me
preocupar com o que podia acontecer com meus xapiri. Certa vez, quase mor-
ri por isso, e não foi durante uma viagem para muito longe de casa, não! Na
verdade, ocorreu nas terras altas de nossa floresta, quando de uma visita à gen-
te de Tëpë xina, perto do posto da Funai de Surucucus. Eu estava acompanhado
por brancos que tinham vindo pegar imagens de nós.7
Mas me afastei deles,
porque meus parentes de lá tinham me convidado a beber o pó de yãkoana com
eles. Assim, comecei a fazer descer meus espíritos e parei de prestar atenção nos
forasteiros que tinham vindo comigo. Então, de repente, eles apontaram para
nós uma luz tão intensa que nos cegou a todos. Eu conhecia os brancos, mas
ainda não sabia nada de seus modos de capturar imagens para a sua televisão,
que também chamamos de amoa hi, árvore de cantos.8
Foi apavorante! Meus
espíritos, que ainda dançavam perto do chão, foram imediatamente atraídos na
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direção da máquina apontada para nós. Foram enganados pela luz ofuscante
que a envolvia. Lembrou-lhes a de seus caminhos e de sua casa. Perderam-se
seguindo-a e foram logo aspirados para dentro da máquina, onde ficaram pre-
sos. Alguns dias depois, retornei a Watoriki e, sem meus xapiri, adoeci. Fui
tomado de vertigens e fiquei muito fraco. Balbuciava como um fantasma. Meu
sogro, inquieto, me perguntou: “O que você fez com os seus espíritos? Deu-os
para alguém? Fugiram?”. Eu estava muito ansioso e achei que não sobreviveria.
Sabia que assim que os xapiri deixam seu pai, ele fica vazio e corre o risco de
morrer em seguida. No entanto, um de meus cunhados — um grande xamã que
não vive mais — entendeu que a máquina de televisão os tinha tragado como
penugens brilhantes e que eles tinham ficado colados dentro dela. Com muito
trabalho, ele conseguiu arrancá-los de lá e levá-los de volta à sua casa de espíri-
tos no peito do céu. Foi muito competente e, assim, eu pude me recuperar sem
demora. Depois ele me advertiu contra minha imprudência e, desde então, sem-
pre segui seu conselho: “Nunca mais viaje com seus espíritos junto dos brancos!
Eles vão capturá-los de novo e, da próxima vez, você vai morrer!”. É por causa
de tudo isso que, hoje em dia, somente alguns xapiri mais poderosos podem me
acompanhar em minhas viagens, para me proteger.
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As terras distantes dos antepassados dos brancos são terras de espíritos.9
Grande parte dos xapiri que dançam para nós vem de lá. É o caso dos espíritos
forasteiros napënapëri e do espírito zangão Remori, que lhes ensinou sua língua
enrolada, e de vários outros. Por isso é tão perigoso ir de avião para essas re-
giões, que são o lugar de origem de tantos xapiri. Para um xamã, voar em di-
reção à terra-espelho10
dos espíritos que descem até ele e ver-se de repente
cara a cara com eles significa correr o risco de morte imediata. Mas nossos
xapiri são muito sábios e não permitem que isso aconteça! Ninguém pode ir
para o lugar de onde eles vêm! Se um xamã se dirigisse para a terra-espelho
deles à sua revelia, eles a esconderiam assim que ele se aproximasse. Então, em
vez de atingi-la, ele continuaria avançando no vazio e acabaria passando por
ela sem jamais tê-la visto!
Foi o que me aconteceu durante essa primeira viagem à terra dos antigos
brancos. No momento de aterrissar lá, vi da janela do avião um enorme espelho
com reflexos ofuscantes vindo ao meu encontro em alta velocidade. Foi muito
amedrontador, pois na época eu não sabia nada dessas coisas! Meus olhos fi-
caram cativos daquela intensa luminosidade por muito tempo. Fui tomado de
vertigem e um profundo torpor me invadiu. Compreendi então que estava me
aproximando de uma terra de espíritos muito poderosos. Aí, senti que des-
maiava. Mas, no exato momento em que eu achava que ia atingir o espelho e
morrer, ele se virou, para tomar, em outra parte, o lugar da terra de onde eu
vinha. É verdade! Os xapiri, ao me verem chegar, fizeram-no girar diante de
mim, para eu poder passar adiante sem me chocar com ele. E quando o avião
estava prestes a pousar, seu caminho já se assentava sobre uma nova terra, que
eles tinham estendido à minha frente. O imenso espelho ofuscante sumiu de
repente, foi se desvanecendo atrás de mim, enquanto um outro chão tomava
seu lugar diante de meus olhos. De modo que, em vez de desmaiar e morrer
em seguida, senti apenas uma profunda sonolência. Se os espíritos daquelas
regiões distantes não tivessem girado seu espelho para tirá-lo do meu caminho
desse modo, meu corpo teria sido levado de volta a Watoriki logo depois, para
os meus, aos prantos, o amarrarem na floresta e depois queimarem meus ossos!
É por isso que não é nada sensato pensar que não existem xapiri na terra
dos brancos! Onde vivem? Como na nossa floresta, o vento lá não sopra sem
razão e a chuva não cai sozinha! Mas os seres da escuridão e do caos ali estão
mais perto. Faz muito frio. A noite cai depressa e dura muito. Os brancos de
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hoje em dia não sabem nada a respeito dos espíritos que habitam essas regiões
e nunca pensam neles. E no entanto eles existem, desde sempre, desde muito
antes de esses forasteiros terem sido criados. São muito numerosos. Foi por
isso mesmo que fui tomado de vertigem ao me aproximar de sua moradia! Nós,
xamãs, conhecemos esses xapiri porque os fazemos descer na floresta quando
bebemos yãkoana. Eles vivem no frescor das terras altas, longe dos brancos e
de suas cidades enfumaçadas. Vi com meus próprios olhos as montanhas onde
ficam suas casas. Seus topos são cobertos de uma brancura tão brilhante quan-
to um monte de penugem luminosa. Viajei até lá em sonho quando ardia de
malária, e lá descobri a fonte de água pura cercada de vento glacial em que
esses xapiri se banham e matam a sede. Brincam nela alegremente, apesar do
frio, e suas mãos são tão geladas quanto ela. É por isso que sabem tão bem curar
as febres! De lá também vêm os embrulhos de água vendidos pelos brancos
para matar a sede.11
É a mesma água que a dos picos rochosos de nossa flores-
ta. Nós a chamamos mãu krouma u, a água da rã krouma, ou mãu pora u, a
água das cachoeiras.
Ainda que os brancos atuais da Europa tenham se esquecido disso, os
espíritos que vivem em sua terra são as imagens de seus ancestrais, mortos há
muito tempo. São as imagens dos primeiros forasteiros de língua de fantasma
que os xamãs chamam de napënapëri. Foram eles que lhes transmitiram suas
palavras. Foram eles que fixaram as pedras altas da casa de Omama e que cria-
ram as mercadorias, as peles de papel e os remédios. Quando de minha primei-
ra viagem àquelas terras distantes, muitas vezes vi dançar suas imagens. Des-
ciam em meu sonho na forma de fantasmas, como fazem os xapiri na floresta.
Chegavam a mim com tanta facilidade porque eu dormia no lugar onde, no
primeiro tempo, Omama criou os forasteiros com a espuma do sangue dos
antigos habitantes de Hayowari.
Os espíritos napënapëri querem também preservar a beleza de sua terra-
-espelho e protegê-la das fumaças de epidemia. Contudo, os brancos de hoje
não sabem mais cuidar dela e ignoram essas imagens, que são as de seus ante-
passados. Isso também me preocupa. No tempo antigo, os brancos as conhe-
ciam e as faziam dançar como nós. Eles sabiam imitar-lhes os cantos e cons-
truir-lhes casas para os jovens poderem por sua vez se tornar xamãs. Mas os
que nasceram depois deles acabaram criando as cidades. Aí, foram pouco a
pouco deixando de ouvir as palavras desses espíritos antigos. Depois os livros
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fizeram com que fossem esquecidos e eles por fim as renegaram. Teosi, como
eu disse, tinha ciúme da beleza das palavras dos xapiri. Não parou de falar mal
deles: “Não escutem esses espíritos que sujam seu peito! São habitantes da
floresta, são ruins! Não passam de bichos! Parem de chamar suas imagens,
contentem-se em comê-los! Olhem, em vez delas, minhas palavras coladas em
peles de papel!”.12
Assim, as palavras de raiva de Teosi se espalharam por toda
parte e expulsaram os cantos dos xapiri dos pensamentos dos antigos brancos.
Suas mentes ficaram confusas e obscurecidas, sempre em busca de novas pa-
lavras. No entanto, os espíritos daquelas terras distantes não morreram. Con-
tinuam morando nas montanhas que Omama lhes deu como moradia e descem
de lá apenas para os xamãs capazes de vê-los.
Durante essa viagem, eu muitas vezes dormi em estado de fantasma depois
de ter comido alimentos dos brancos que eu não conhecia. Foi assim que so-
nhando, certo dia, vi a imagem das mulheres abelha do primeiro tempo. Elas
mesmas bradavam seus nomes para todos os lados, para chamar a atenção do
ancestral irara Hoari, que coletava seu mel aqui e ali. Acabaram por deixá-lo
atordoado com seus chamados incessantes e ele tropeçou numa raiz. Praguejou
com furor contra elas e as pôs para correr para todos os lados da floresta. Suas
imagens se refugiaram em todos os lugares onde até hoje os méis se escondem.13
Por isso agora é tão difícil achar ninhos de abelha no mato! Algumas inclusive
fugiram até os brancos, que as guardam desde então em grandes caixas de ma-
deira. Nossos maiores faziam dançar esses espíritos abelha desde sempre. Foram
eles que vieram falar comigo no sonho, para me comunicar sua inquietação:
“Você, que sabe virar espírito, fale duro com os forasteiros, eles vão escutá-lo!
Os brancos não têm mesmo sabedoria nenhuma! Devem parar de maltratar as
árvores da floresta! Logo já não haverá nenhuma flor perfumada para nos ali-
mentar e fazer mel. Se continuar assim, será a nossa vez de morrermos todos!”.
É verdade. As abelhas também são xapiri, por isso suas imagens falaram assim
comigo durante o sono. No dia seguinte, revelei sua queixa aos que tinham
vindo me escutar. Ouvir o sofrimento daqueles espíritos e pensar que os bran-
cos os maltratam tanto me deu dó. Esses ancestrais abelhas se sentem ameaça-
dos e, como nós, querem defender a floresta em que foram criados. As abelhas
são muito inteligentes e trabalham sem descanso nas flores que vão procurar
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longe, de árvore em árvore, para fabricar seus méis. É por isso que eles são tão
saborosos e que nós, tanto crianças quanto adultos, os apreciamos tanto. Cortar
as árvores é destruir seus caminhos na floresta. Sem árvores em floração, elas
não saberão mais onde trabalhar e fugirão para sempre de nossa terra. Por isso
eu declarei aos brancos: “Vocês repetem muito que amam o que chamam de
natureza. Se é mesmo o caso, parem de só discursar, defendam-na de verdade!
Vocês precisam nos ajudar a proteger o que ainda resta da floresta. Todos os
seus habitantes já nos falam com medo de desaparecer. Vocês não veem dançar
suas imagens e não ouvem seus cantos em seus sonhos. Os xamãs, ao contrário,
sabem escutar sua angústia e elas lhes pedem para falar com vocês, para que a
sua gente pare de comer a floresta”.
Quando retornei dessa longa estadia na terra dos antigos brancos, foi bom
reencontrar minha rede em nossa casa de Watoriki. Mas assim que me instalei
nela senti uma violenta tontura. Depois de ter voado tanto tempo de avião, o
solo da floresta girava sem parar sob meus pés. Eu só conseguia ficar com o
olhar fixo diante de mim, como um fantasma. Meu pensamento estava comple-
tamente obstruído e eu caía no sono o tempo todo. Eu não queria parecer
preguiçoso, então tentei ir caçar. Mas não havia o que fazer, eu já não via mais
nada à minha volta na floresta e não conseguia distinguir caça alguma. Estava
tão fraco que tropeçava a cada passo, e fui obrigado a deitar no chão várias
vezes. Voar para aquela terra de espíritos tão distante tinha me feito virar outro
e, se os xamãs que haviam me iniciado não tivessem me protegido, eu talvez
tivesse falecido!
Pouco antes de meu retorno, os xapiri que tinham me escoltado na viagem
voltaram à floresta como batedores, para anunciar minha chegada. Depois dei-
taram em suas redes, para recuperar as forças. Os que eu tinha deixado para
trás ficaram felizes ao saber que eu estava perto: “Haixopë! Pai está a caminho!
Finalmente está voltando para nós! Nada de ruim aconteceu com ele! Está
salvo! Aë! Aë!   ”. Esperavam-me impacientes, porque estavam famintos. Então,
os grandes xamãs de minha casa trabalharam junto comigo. Ajudaram-me a
recolocar os caminhos dos meus espíritos no peito do céu, para expulsar o sono
que tinha tomado conta de mim. Bebi o pó de yãkoana com eles dia após dia,
para recomeçar a alimentar os xapiri que eu tinha deixado para trás havia tan-
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to tempo. Então, uma vez saciados, não pararam mais de cantar e dançar para
mim alegremente. Foi assim que eu pude me restabelecer aos poucos, e é sem-
pre isso que eu faço quando volto para casa após uma longa visita entre os
brancos. Sem isso, a vertigem e a tontura não me largariam mais.
Se um xamã não alimentar seus espíritos com yãkoana como deve, eles
sofrem de fome, como os humanos. Como eu disse, esse pó é a sua comida.
Não se pode de jeito nenhum deixá-los abandonados em suas redes, sobretudo
os mais jovens! Se seu pai não os fizer dançar e cantar sempre que têm vontade,
sentem-se abandonados. Isso os deixa irritados e começam a se queixar dele:
“É um preguiçoso com fala de fantasma! Chamou-nos para nada! Na verdade,
ele nos esquece e não quer saber de nós! Não vamos nos deixar maltratar assim,
voltemos para onde viemos!”. Então, se o xamã insistir em não cuidar deles,
acabam fugindo mesmo de sua casa de espíritos. Se, ao contrário, beber o pó
de yãkoana com frequência, eles ficam muito felizes. Entoam seus cantos com
tamanha animação que a alegria de suas vozes vai atraindo outros xapiri a vir
se instalar junto dele.
Os antepassados dos brancos não cuidaram da floresta em que vieram à
existência como os nossos. Cortaram quase todas as suas árvores para abrir
roças imensas. Vi com meus olhos o pouco que dela resta, como pequenas
manchas, aqui e ali. No entanto, Omama lhes havia ensinado a construir casas
de pedra, para evitar desmatar tudo. Havia dito a eles: “Os postes de madeira
apodrecem e devem ser sempre trocados. Cortem grandes rochas e plantem-nas
no chão para construir suas habitações. Assim, só trabalharão uma vez e pou-
parão as árvores que lhes dão seus frutos e cujas flores alimentam as abelhas!”.
Esses antigos forasteiros começaram a entalhar as rochas com seus machados.
Depois de um tempo ficaram mais engenhosos. Fabricaram ferramentas para
cortar pedras menores e misturaram um barro que, ao secar, endurece e as
cola umas às outras. Conseguiram construir casas de pedra cada vez mais sóli-
das. Ficaram satisfeitos com elas e então tiveram a ideia de desenhar a terra em
torno de cada uma delas. Então descobriram a beleza das mercadorias e puse-
ram-se a fabricá-las sem parar. Aí elas aumentaram tanto que tiveram de cons-
truir novas habitações para guardá-las e distribuí-las.14
Edificaram-nas também
para acumular e esconder o alimento de suas roças. Quando essas casas de
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pedra proliferaram, ligaram umas às outras com caminhos emaranhados e de-
ram a tudo isso o nome de “cidade”. Foi assim que a floresta desapareceu aos
poucos de sua terra, com os animais que nela moravam. Mantiveram apenas
alguns animais vivos e os cercaram de estacas. Guardaram outros, mortos, em
caixas de vidro, para que seus filhos pudessem contemplá-los como lembran-
ças.15
Muito longe de minha casa, era nisso tudo que eu pensava ao andar nas
cidades dos antigos brancos. Pela primeira vez, via sua terra com meus próprios
olhos. Então, passeava por toda parte, sem dizer uma palavra, observando com
atenção as casas e as pessoas. Meus pensamentos se estendiam sem parar em
todas as direções. Eu queria muito compreender o que via!
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19. Paixão pela mercadoria
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O que fazem os brancos com todo esse ouro? Por acaso, eles o
­comem?
Davi Kopenawa
Tribunal permanente dos povos sobre
a Amazônia brasileira, Paris, 13 out. 1990
No começo, a terra dos antigos brancos era parecida com a nossa. Lá eram
tão poucos quanto nós agora na floresta. Mas seu pensamento foi se perdendo
cada vez mais numa trilha escura e emaranhada. Seus antepassados mais sábios,
os que Omama criou e a quem deu suas palavras, morreram. Depois deles, seus
filhos e netos tiveram muitos filhos. Começaram a rejeitar os dizeres de seus
antigos como se fossem mentiras e foram aos poucos se esquecendo deles.
Derrubaram toda a floresta de sua terra para fazer roças cada vez maiores.
Omama tinha ensinado a seus pais o uso de algumas ferramentas metálicas.
Mas já não se satisfaziam mais com isso. Puseram-se a desejar o metal mais
sólido e mais cortante, que ele tinha escondido debaixo da terra e das águas. Aí
começaram a arrancar os minérios do solo com voracidade. Construíram fá-
bricas para cozê-los e fabricar mercadorias em grande quantidade. Então, seu
pensamento cravou-se nelas e eles se apaixonaram por esses objetos como se
fossem belas mulheres. Isso os fez esquecer a beleza da floresta. Pensaram:
“Haixopë! Nossas mãos são mesmo habilidosas para fazer coisas! Só nós somos
tão engenhosos! Somos mesmo o povo da mercadoria!1
Podemos ficar cada vez
mais numerosos sem nunca passar necessidade! Vamos criar também peles de
papel para trocar!”. Então fizeram o papel de dinheiro proliferar por toda par-
te, assim como as panelas e as caixas de metal, os facões e os machados, facas
e tesouras, motores e rádios, espingardas, roupas e telhas de metal.2
Eles tam-
bém capturaram a luz dos raios que caem na terra. Ficaram muito satisfeitos
consigo mesmos. Visitando uns aos outros entre suas cidades, todos os brancos
acabaram por imitar o mesmo jeito. E assim as palavras das mercadorias e do
dinheiro se espalharam por toda a terra de seus ancestrais. É o meu pensamen-
to. Por quererem possuir todas as mercadorias, foram tomados de um desejo
desmedido.3
Seu pensamento se esfumaçou e foi invadido pela noite. Fechou-
-se para todas as outras coisas. Foi com essas palavras da mercadoria que os
brancos se puseram a cortar todas as árvores, a maltratar a terra e a sujar os
rios. Começaram onde moravam seus antepassados. Hoje já não resta quase
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nada de floresta em sua terra doente e não podem mais beber a água de seus
rios. Agora querem fazer a mesma coisa na nossa terra.
Na nossa língua, demos aos objetos dos brancos o nome de matihi.4
Usa-
mos essa palavra para falar das mercadorias, mas ela existia muito antes de
esses forasteiros chegarem até nossa floresta. É uma palavra muito antiga, uma
palavra do começo.5
Antigamente, eram outras coisas que nossos maiores no-
meavam com ela. Chamavam de matihi todos os adornos com que se arruma-
vam para as festas reahu:6
os tufos de caudais de arara, os rabos de tucano, as
braçadeiras de cristas de mutum e jacamim que ornavam seus braços e as pe-
quenas penas de papagaio e cujubim que enfiavam no lobo das orelhas. Também
caçavam pássaros sei si, hëima si e wisawisama si, pela beleza de seus despojos,
que também nomeavam matihi. Assim, antes de uma festa reahu, os grandes
homens que convidavam seus aliados nunca deixavam de exortar os rapazes de
sua casa, clamando: “Vão flechar matihi, para não parecerem feios e maus caça-
dores em sua dança de apresentação!”. As moças, cheias de admiração, diziam
dos rapazes que usavam muitos desses adornos de penas: “Como está lindo!
Está coberto de matihi!”. E os outros habitantes da casa aprovavam: “Awei! Ele
é um ótimo caçador de matihi!”.7
Assim era. Para nós, xamãs, essa palavra é
também muito valiosa porque nomeia bens que pertencem a Omama e aos
xapiri que ele criou. A visão desses enfeites torna nosso pensamento claro e
forte. Por essa razão, a palavra que os designa também tem valor de espírito: ela
evoca a beleza dos xapiri que são seus donos e nos faz pensar neles.8
Contudo, quando um de nós morre, também chamamos matihi os ossos
que recolhemos de suas carnes putrefatas para queimar. Depois, suas cinzas
são moídas num pilão e guardadas numa pequena cabaça pora axi. Também
essa cabaça de cinzas tem o mesmo nome: matihi. Os ossos dos mortos e suas
cinzas são coisas que não se pode destratar! Por isso a força dessa palavra,
matihi, está associada desde sempre a eles. Se um convidado descartar as cinzas
funerárias que lhe foram confiadas, enfrentará em seguida a vingança dos fa-
miliares do morto.9
Se disser: “Joguei na floresta o resto das cinzas de sua ca-
baça pora axi; não era muito seu amigo!” e alguém for contar isso aos parentes
do falecido, eles vão ficar enfurecidos e logo vão querer brigar! Também vão
ficar furiosos se a pessoa encarregada de enterrar as cinzas ao lado de sua fo-
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gueira durante uma festa reahu as despejar no fogo por descuido. Ninguém
destrata as cinzas dos ossos de um morto sem consequência! E quando são as
de um homem valente e trabalhador, ou de um antigo xamã que sabia mesmo
mandar para longe os seres maléficos, tomamos mais cuidado ainda! Não é à
toa que chamamos as cinzas e os ossos de nossos mortos de matihi! Nossos
antepassados nos deram essa palavra poderosa, porque o valor que damos a
essas coisas é maior até do que o que os brancos dão ao ouro que tanto cobiçam.
Quando viram a profusão de objetos estranhos que eram guardados nos
acampamentos dos brancos, nossos antigos, que nunca tinham visto nada pa-
recido, ficaram muito excitados.10
Foi então que, pela primeira vez, puderam
ver facões e machados novos, panelas de metal brilhante, grandes espelhos,
peças de pano vermelho, redes enormes de algodão colorido e espingardas
barulhentas como trovões. Então pensaram: “Todas essas coisas são realmente
lindas! Esses forasteiros devem ser mesmo muito habilidosos, já que tudo o que
tocam fica tão bonito! Devem ser mesmo engenhosos, para possuírem tantos
objetos valiosos!”. Foi assim que começaram a desejar muito as mercadorias
dos brancos e deram a elas também o nome de matihi, como se fossem adornos
de plumas ou cinzas dos ossos dos mortos. Depois, conforme as foram conhe-
cendo melhor, deram um nome a cada uma delas, para poderem pedi-las aos
forasteiros.11
Estavam muito empolgados, e ainda nem imaginavam que esses
objetos novos traziam em si as epidemias xawara e a morte.
Os objetos que fabricamos, e mais ainda os dos brancos, podem durar
muito além do tempo que vivemos. Eles não se decompõem como as carnes de
nosso corpo. Os humanos adoecem, envelhecem e morrem com facilidade. Já
o metal dos facões, dos machados e das facas fica coberto de ferrugem e sujeira
de cupim, mas não desaparece tão depressa! Assim é. As mercadorias não mor-
rem. É por isso que não as juntamos durante nossa vida e nunca deixamos de
dá-las a quem as pede. Se não as déssemos, continuariam existindo após nossa
morte, mofando sozinhas, largadas no chão de nossas casas. Só serviriam para
causar tristeza nos que nos sobrevivem e choram nossa morte. Sabemos que
vamos morrer, por isso cedemos nossos bens sem dificuldade. Já que somos
mortais, achamos feio agarrar-se demais aos objetos que podemos vir a ter. Não
queremos morrer grudados a eles por avareza. Por isso eles nunca ficam muito
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tempo em nossas mãos! Nem bem acabamos de consegui-los e logo os damos
a outros que, por sua vez, os querem. E assim as mercadorias se afastam de nós
depressa e vão se perder nas lonjuras da floresta, carregadas pelos convidados
de nossas festas reahu ou por outros visitantes. Desse modo, tudo está bem.
Seguimos as palavras de nossos ancestrais, que nunca possuíram todos esses
bens trazidos pelos brancos.
Quando um xamã morre, seu fantasma não leva nenhuma das suas coisas
para as costas do céu, mesmo que seja muito avarento! Os objetos que tinha
fabricado ou conseguido por troca são abandonados na terra e só fazem ator-
mentar os vivos, atiçando a saudade. Então dizemos que esses objetos estão
órfãos e que nos causam pesar, porque estão marcados pelo toque do faleci-
do.12
Por isso, se um de meus filhos ou minha mulher morressem, as coisas
em que costumavam mexer guardariam o rastro de seus dedos. Eu teria de
queimá-las chorando, para acabarem para sempre. Como eu disse, as merca-
dorias duram muito tempo, ao contrário dos humanos. Por isso devem ser
destruídas quando morre o dono, mesmo que seus familiares precisem delas.
Assim é. Nunca guardamos objetos que trazem a marca dos dedos de uma
pessoa morta que os possuía!
Somos diferentes dos brancos e temos outro pensamento. Entre eles,
quando morre um pai, seus filhos pensam, satisfeitos: “Vamos dividir as mer-
cadorias e o dinheiro dele e ficar com tudo para nós!”. Os brancos não des-
troem os bens de seus defuntos, porque seu pensamento é cheio de esqueci-
mento. Eu não diria a meu filho: “Quando eu morrer, fique com os machados,
as panelas e os facões que eu juntei!”. Digo-lhe apenas: “Quando eu não estiver
mais aqui, queime as minhas coisas e viva nesta floresta que deixo para você.
Vá caçar e abrir roças nela, para alimentar seus filhos e netos. Só ela não vai
morrer nunca!”. É verdade. Achamos ruim ficar com os pertences de um mor-
to. Nos causa pesar. Nossos verdadeiros bens são as coisas da floresta: suas
águas, seus peixes, sua caça, suas árvores e frutos. Não são as mercadorias! É
por isso que quando alguém morre logo damos um fim em todos os seus ob-
jetos. Trituramos seus colares de miçangas, queimamos sua rede, suas flechas,
sua aljava, suas cabaças e adornos de plumas. Amassamos suas panelas e as
jogamos no rio. Quebramos seu facão contra uma pedra e depois escondemos
os estilhaços num cupinzeiro. Tratamos de não deixar sobrar nenhum rastro
seu. Raspamos o chão onde ele se acocorava e o lugar onde amarrava as cordas
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de sua rede nos esteios da casa. Foi o que as palavras de Omama ensinaram a
nossos antepassados e nós seguimos o caminho deles. Não é coisa recente, não!
É desse modo que os vivos conseguem estancar a tristeza que sentem quando
veem objetos e rastros deixados pelos que não estão mais na terra. Assim, sua
dor vai passando e seu pensamento pode ir se acalmando aos poucos. Caso
contrário, a saudade dos mortos e a raiva de seu luto nunca mais teriam fim.
As pedras, as águas, a terra, as montanhas, o céu e o sol nunca morrem,
como também os xapiri. São seres que não podem ser destruídos e que dizemos
parimi, eternos.13
O sopro de vida dos humanos, ao contrário, é muito curto.
Vivemos pouco tempo. Epidemias xawara, espíritos maléficos e feiticeiros ini-
migos nos devoram facilmente. Por isso pensamos em nossos próximos e nas
pessoas de quem somos amigos. Pensamos que se eles morressem, iríamos nos
arrepender de não termos sido generosos o bastante com eles. Dizemos a nós
mesmos: “Hou! Por falta de sabedoria fui tão sovina! Não satisfiz seus pedidos
e agora essa lembrança me entristece!”. E depois, sabendo que nós mesmos não
vamos demorar a morrer, não queremos também deixar para trás objetos cuja
visão só vai deixar os nossos aflitos.
É por isso que, quando um visitante de uma casa amiga nos pede merca-
dorias, não recusamos. Ao contrário, dizemos a ele: “Awei! Pegue esse facão e
fique com ele! Assim, se eu me for, você vai fazer luto por mim? Vai mesmo
lamentar por mim?”. E ele então responde: “Ma! Você é generoso! Vou ser de
todos aquele que vai chorá-lo com mais pesar!”. E, por fim, acrescentamos: “Se
uma picada de cobra me matar, quebre a coisa que acabo de lhe dar e esconda
os pedaços no lodo do fundo do rio!”. Não pedimos nada em troca. Deixamos
isso para outra ocasião, depois.14
Só no caso de o convidado querer nosso arco
é que podemos pedir o dele em troca na hora. Nessas conversas, os grandes
homens também podem dizer: “Meus cabelos já estão brancos e os forasteiros
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estão perto de nós. Suas fumaças de epidemia não tardarão a me devorar e vou
deixar os meus tristes. Estou velho e já causo dó de ver! A morte logo vai me
fazer largar minhas posses, por isso lhe dou estas mercadorias!”. São palavras
como essas que costumamos usar para falar de nossos bens. Os brancos são
outra gente. Eles acumulam muitas mercadorias e sempre as guardam junto de
si, enfileiradas em tábuas de madeira no fundo de suas casas. Deixam que en-
velheçam por bastante tempo antes de minguar algumas a contragosto. Quan-
do as pedimos, ficam desconversando e fazendo promessas para não ter de
entregá-las. Ou então exigem que antes trabalhemos para eles por um bom
tempo. De todo modo, no final, eles não nos dão nada ou então só coisas já
gastas, exigindo ainda mais trabalho em retribuição! Comportam-se como um
mau sogro que engana seu futuro genro fazendo-o trabalhar sem nunca lhe dar
a filha. Promete-a quando ainda é criança, e depois, quando ela fica moça,
começa a achar desculpas para adiar a hora de mandá-la ir amarrar sua rede
perto do genro ou, pior, acaba por dá-la a outro homem!
Como eu disse, nós, Yanomami, nunca guardamos os objetos que fabrica-
mos ou que recebemos, mesmo que nos façam falta depois. Damos logo a quem
os pede e, assim, eles se afastam depressa de nós e vão passando de mão em mão
sem parar, até longe. Por isso não temos realmente bens próprios. Quando con-
seguimos um facão novo dos brancos, logo depois o entregamos a algum con-
vidado que o deseja numa festa reahu. Então dizemos a ele: “Sou um habitante
da floresta, não quero ter muitas mercadorias como um branco! Tome esta
velha peça de metal que nos vem de Omama. Já a usei o suficiente! Não vou
negá-la a você! Leve-a consigo! Vai poder abrir uma roça nova com ela! E depois
irá dá-la a outra pessoa! Então, fale de mim para quem ficar com ela e seus
parentes. Quero que tenham amizade por mim longe de minha casa! Mais tar-
de, será minha vez de lhe pedir algo!”. Depois, o convidado, uma vez de volta
entre os seus, não vai demorar para dar o mesmo facão a outro visitante. E as-
sim, de mão em mão, ele vai acabar chegando até desconhecidos numa floresta
distante. É assim que nossos facões com cabos envoltos em fio de ferro enrola-
do vão do Brasil até os Xamath
ari do rio Siapa, na Venezuela, e que, por outro
lado, muitos de seus facões de pontas largas e curvadas chegam até nós.
Acontece o mesmo quando conseguimos miçangas com os brancos. Fica-
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mos com elas muito pouco tempo antes de escaparem para longe de nós! Pri-
meiro as repartimos entre o pessoal de casa. Depois, basta sermos convidados
a uma festa reahu por nossos aliados do rio Toototobi para as trocarmos com
eles por outros objetos. Em seguida o pessoal do Toototobi vai visitar os Weyuku
th
ëri do alto Demini, com quem por sua vez fazem outras trocas. E depois são
os Weyuku th
ëri que vão levar nossas miçangas mais longe ainda, rio acima,
para outros Xamath
ari das terras altas que são seus aliados. Elas acabam che-
gando assim até a gente do rio Siapa, como nossos facões! No final, elas terão
viajado para bem longe de nós, acompanhadas de boas palavras a nosso respei-
to: “Awei! São gente generosa mesmo, são amigos! Eles são muito valentes, é
por isso que demonstram tanta largueza!”.15
Quando os moradores dessas casas
distantes ouvem essas belas palavras, logo pensam que seria bom abrir uma
senda nova na floresta para vir visitar nossa casa e obter os bens que desejam de
nossas mãos. Dão-lhe então o nome de “caminho de pessoas generosas”.16
En-
tão, satisfeitos, podem declarar, apontando para a entrada de sua casa: “Essa é
uma porta de generosidade! Abre-se para uma trilha de mercadorias!”.17
Esse é o nosso costume, tanto com os objetos que fabricamos como com
as mercadorias que nos vêm dos brancos. Eles, no entanto, costumam pensar
que queremos muito os seus bens só porque os pedimos constantemente. Mas
não é verdade! Nenhum de nós deseja suas mercadorias só para empilhá-las em
casa e vê-las ficando velhas e empoeiradas! Ao contrário, não paramos de trocá-
-las entre nós, para que nunca se detenham em suas jornadas. São os brancos
que são sovinas e fazem as pessoas sofrerem no trabalho para estender suas
cidades e juntar mercadorias, não nós! Para eles, essas coisas são mesmo como
namoradas! Seu pensamento está tão preso a elas que se as estragam quando
ainda são novas ficam com raiva a ponto de chorar! São de fato apaixonados
por elas! Dormem pensando nelas, como quem dorme com a lembrança sau-
dosa de uma bela mulher. Elas ocupam seu pensamento por muito tempo, até
vir o sono. E depois ainda sonham com seu carro, sua casa, seu dinheiro e todos
os seus outros bens — os que já possuem e os que desejam ainda possuir. Assim
é. As mercadorias deixam os brancos eufóricos e esfumaçam todo o resto em
suas mentes. Nós não somos como eles. Mais do que nos objetos que queremos
possuir, é nos xapiri que nosso pensamento fica concentrado, pois só eles são
capazes de proteger nossa terra e de afastar para longe de nós tudo o que é pe-
rigoso.18
Se os brancos pudessem, como nós, escutar outras palavras que não as
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da mercadoria, saberiam ser generosos e seriam menos hostis conosco. Também
não teriam tanta gana de comer nossa floresta.
Trocamos bens entre nós generosamente para estender a nossa amizade. Se
não fosse assim, seríamos como os brancos, que maltratam uns aos outros sem
parar por causa de suas mercadorias. Quando visitantes querem os objetos que
temos, dá dó vê-los se lamentando por não os terem e desejá-los tanto. Então,
logo os damos a eles, para conquistar sua afeição. Dizemos: “Awei! Leve estas
mercadorias e sejamos amigos! Consegui-as com outra gente. Não são restos da
minha mão.19
Não importa, leve-as assim mesmo e, mais tarde, não deixe de
dá-las por sua vez aos que vierem visitar sua casa!”. Nossa boca teme recusar os
pedidos de nossos convidados. Não temos mãos estreitas como os brancos!20
Quando temos dois facões, damos um deles tão logo alguém pede. Se só temos
um, lamentamos: “Ma! Estou tão necessitado quanto você! Não posso dá-lo ago-
ra porque não teria com que trabalhar em minha roça e os meus acabariam
passando fome!”. Mas prometemos conseguir outro logo para poder dá-lo numa
próxima visita. Se respondemos aos pedidos de nossos convidados com falas
sovinas, vão embora chateados e cheios de palavras ruins, e isso nos deixa tristes.
Quando o caminho que leva a uma outra casa não é para nós uma trilha
de mercadorias, dizemos que tem valor de inimizade.21
Nesse caso, podemos
guerrear contra as gentes às quais ele leva, se acharmos que uma das nossas
mulheres ou velhos pode ter sido morto por seus feiticeiros oka. Ao contrário,
quando entramos pela primeira vez em contato com os habitantes de uma
casa desconhecida para fazer amizade, trocamos com eles tudo o que temos.
Chamamos isso de rimimuu.22
Se agirmos de outro modo, vão pensar que es-
tamos escondendo nossa hostilidade. Se for o caso, eles logo fogem, com medo
de que nossa única intenção seja pegar a terra de suas pegadas para esfregá-las
com plantas de feitiçaria. Quando eu era criança, em Marakana, meus pais e
avós fizeram contato com os Weyuku th
ëri do alto Demini, que nunca tinham
visto antes. Encontraram-se por acaso na floresta e fizeram amizade com eles
dando-lhes a maior parte dos objetos que levavam consigo. É o nosso costume.
Achamos que é assim, ganhando o rastro de outra pessoa, que ficamos amigos
dela.23
Nossos maiores, antigamente, pensaram que os brancos agiriam desse
modo com eles. Estavam muito enganados! Ao contrário, foi sem dizer uma
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palavra que os grandes homens desses forasteiros despacharam seus genros e
filhos para a nossa floresta, para pegar balata, peles de onça e ouro. Nós somos
diferentes. Nós nunca pensamos em mandar os nossos para a terra dos brancos
sem dizer nada, só para tirar dela tudo o que tem!
Quando somos generosos, visitantes e convidados voltam para suas casas
satisfeitos e alegres. Se, ao contrário, ficamos avarentos, eles partem com o peito
cheio de raiva, porque recusar-lhes bens equivale a uma declaração de inimizade.
Então, tomados pelo rancor, vão querer se vingar, com substâncias de feitiçaria
hw
ërit. Pensarão, irritados: “Se esse homem é sovina, não vamos mais amarrar
nossas redes em sua casa! Só queremos visitar homens generosos! O que é que
ele está pensando? Sua avareza não vai poder evitar que ele morra! E quando seu
fantasma o tiver deixado, não vamos chorá-lo! Não portaremos a ira e a tristeza
de seu luto! Que morra sozinho com suas mercadorias!”. Ou então, se estiverem
muito furiosos mesmo: “Que homem pão-duro e ruim! Não vai ficar muito
tempo vivo junto aos seus! Vai morrer logo, porque algum guerreiro enfurecido
vai acabar por flechá-lo!”. Então, com raiva, entregam o avarento aos seres ma-
léficos, ao espírito da noite, Titiri, e ao da morte, Nomasiri: “Mais tarde, quando
você morrer, vai se calar, não vai se mexer e não será mais nada!”. Ao contrário,
se um grande homem da casa demonstra largueza em relação às mercadorias que
conseguiu juntar, dizemos que ele sabe manter um verdadeiro caminho de ho-
mem generoso. Assim, as pessoas que receberam seus bens o elogiam junto àque-
les a quem por sua vez os dão. E estes de novo irão dá-los a outros visitantes,
levando ainda mais longe a reputação de sua generosidade.
Desse modo, palavras elogiosas a respeito desse grande homem vão se
espalhando pela floresta. Acompanham os pensamentos de muitos homens e
mulheres, mesmo muito distantes de sua casa. Ficam com ele em mente como
se estivessem apaixonados por ele! E costumam dizer dele: “Awei! Ele é um
homem generoso! Sabe distribuir os objetos logo que chegam até ele. Nunca
dá apenas coisas estragadas! Ele sabe mesmo se desfazer daquilo que suas mãos
tocam!”. Ou então: “É um grande homem! Sabe dar generosamente! Muitos
pedem o que ele possui, mas ele nunca responde com palavras ruins de avare-
za! Ele só para de dar quando não tem mais nada e fica realmente desprovido!”.
Diz-se que a imagem de vida nõreme desses grandes homens que sabem tão
bem agradar aos outros com sua generosidade é poderosa. Diz-se também que
ela os torna inteligentes e valentes.24
Quando um deles se mostra desinteressa-
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do a ponto de abrir mão de todos os seus bens, até os mais belos e os mais
novos, as pessoas quase ficam assustadas. Exclamam: “Esse homem não sabe
mesmo o que é a avareza! É um verdadeiro filho de Omama! Deve haver um
motivo para tanta generosidade! Deve ser sua bravura que o torna tão genero-
so. Sua imagem de vida é muito forte! Deve ser um guerreiro muito corajo-
so!”.25
E até se perguntam se toda aquela generosidade não esconderia intenções
agressivas, fazendo brincadeiras: “Aquele homem mete medo! Será que não
está tentando nos enganar? Essa generosidade toda não seria um engodo, para
ganhar nossa confiança e depois nos flechar?”.
Quando morre um sovina, nem uma pessoa sequer faz luto por ele. É ver-
dade. Ninguém pode ter amizade ou saudade de alguém que sempre ignorou o
sofrimento dos que passam necessidade. As pessoas só comentam sua morte,
dizendo: “É bom assim! Ele não parava de nos encher de raiva com suas recusas.
Não vamos ficar tristes! Ele não tinha nenhuma generosidade e não se preo-
cupava conosco!”. E então os bens que deixou são destruídos e jogados fora, sem
saudade da sua ausência. Ao contrário, se é um homem generoso que morre,
todos ficam muito comovidos e muitos são os que choram com dor mesmo. Se
tiver sido morto por flechas ou zarabatanas inimigas, muitos também estarão
dispostos a vingá-lo! Quando se lembram de sua generosidade, seus parentes e
seus amigos ficam atormentados de tristeza. Lamentam-se durante muito tem-
po, exclamando toda a saudade que sentem. Quando o sofrimento é grande
demais, aos prantos batem as palmas das mãos ou dão batidinhas na testa e nas
mãos do defunto. Se for um xamã, seus espíritos choram do mesmo modo.
Logo depois que uma pessoa morre, como eu disse, seus próximos come-
çam a destruir tudo o que ela possuía ou tocava quando em vida. As plantas de
sua roça são cortadas e arrancadas, as árvores em que subiu são derrubadas. A
casca dos postes da casa onde pendurava a rede e a terra em que pisava na sua
casa são raspadas. As folhas paa hana do telhado acima de sua fogueira são
retiradas e queimadas. Os cabelos de sua esposa e filhos são cortados. Apenas
algumas de suas coisas são guardadas: pontas de flecha, adornos de plumas,
uma aljava de bambu. Todas serão destruídas mais tarde, durante as lamenta-
ções das festas reahu em que suas cinzas serão postas em esquecimento. Assim,
todos os rastros do que tocou devem ser apagados.26
Porém, aqueles que cos-
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tumam chorá-lo podem, se quiserem, guardar os bens que o defunto lhes deu
antes de morrer. Diz-se então que são objetos orfãos, hamihi.27
Quem os detém
deve cuidar bem deles e não dá-los a ninguém, sobretudo não a visitantes de
longe. Deve conservá-los por muito tempo, até estragarem ou, às vezes, até ele
mesmo morrer. Depois serão queimados por seus próximos. De modo que se
um amigo me der uma espingarda numa festa reahu e morrer logo depois, fi-
carei com ela porque ainda estou vivo. Mas, se eu morrer, minha mulher e meu
cunhado a destruirão. E, do mesmo modo, se eu morrer antes de meu sogro
ele poderá ficar com o que eu dei a ele para ter sua filha em casamento. Em
compensação, minha esposa destruirá todas as coisas que toquei e que ficaram
em nosso lar. É assim que deve ser.
Quando queimamos os ossos de um homem pródigo, qualquer que tenha
sido a causa de seu falecimento, somos especialmente cuidadosos com os ossos
de suas mãos. São para nós objetos preciosos, pois era com elas que ele distri-
buía com generosidade alimentos e bens. Olhar para os ossos de seus dedos
após sua morte nos enche de tristeza e saudade. Por isso prestamos muita
atenção para não perder nenhum pedacinho durante a cremação. Homens e
mulheres reunidos lamentam em torno da pira falando deles, enquanto quei-
mam os bens do defunto: “Osema,28
suas mãos nos causam muita dor! Sentimos
tanta falta de sua generosidade!”. Chamamos esses lamentos de pokoomuu.29
Os familiares próximos do morto choram lembrando seus gestos passados e
louvando sua generosidade, sua valentia e sua alegria. Então, às vezes, convi-
dados de casas amigas comem um pouco das cinzas de seus ossos ainda quen-
tes, tiradas do fundo do pilão em que acabaram de ser moídas.30
Misturam
numa panela de mingau de banana e bebem tudo com muito cuidado, até a
última gota.31
São sobretudo os Xamath
ari que fazem isso. Nós achamos que é
perigoso engolir cinzas frescas dos mortos. Eles fazem isso para trazer a si a
imagem do sopro de vida do defunto e, assim, poder pegar a imitação de seu
princípio de vida nõreme.32
Nossos antigos preferiam esfregar as cinzas dos
ossos dos homens valentes com urucum na testa e no peito dos rapazes jovens.
Chamavam a imagem da bravura guerreira do falecido para contagiar os jovens
e torná-los corajosos. Fizeram isso em mim muitas vezes quando era novo, eu
me lembro. Assim é. Em seguida, após a cremação, os amigos do morto que
vieram de outras casas pedem a seus familiares cabaças de suas cinzas, para
poder enterrá-las mais tarde em suas casas, durante suas próprias festas reahu.
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Levam também alguns de seus pertences, para queimá-los chorando, porque
tinham afeto por ele. Esses são nossos costumes quando morre um homem
muito amado, porque era valente, bom e generoso.
Todos levam no pensamento os homens sempre dispostos a dar sem ava-
reza o que possuem. Sejam brancos ou Yanomami, não gostamos de avarentos!
Eu mesmo não sinto vontade de possuir mercadorias. Meu pensamento não
consegue se fixar nelas. No começo, são atraentes, mas se estragam depressa e
então começamos a sentir falta delas. Não quero pensar em coisas assim! Só a
floresta é um bem de alto valor! As facas gastam, os facões ficam desbeiçados,
as panelas ficam pretas, as redes furam e as peles de papel do dinheiro derretem
na chuva. Já as folhas das árvores podem murchar e cair, porém sempre voltam
a crescer, bonitas e brilhantes como eram antes! As poucas mercadorias que
tenho me bastam e não desejo ter mais. Além disso, depois de consegui-las na
cidade, no final sempre as distribuo às gentes das casas amigas que vêm dos
rios Toototobi, Demini e Catrimani nos visitar. Tanto que, depois, minha mu-
lher e meus filhos chegam a ficar sem nada! Os visitantes então me dizem:
“Pedimos estes objetos a você porque sabemos que é generoso. Se fosse sovina,
teríamos ficado em casa sem dizer uma palavra!”. E eu lhes respondo: “Awei!
Dou-lhes facões e machados para abrirem roças, fósforos para enfumaçar tatus,
anzóis para pescar e panelas para cozinhar a caça, porque nos falta argila desde
que nossos antigos saíram das terras altas! Os brancos agora estão perto de nós,
mas são avarentos. Por isso, não falem mal de mim — dou a vocês o pouco que
consigo tirar deles, com muito esforço!”. Assim é. Só penso nas mercadorias
para distribuí-las. Se tivesse um montão delas, como os brancos têm, iria dá-las
a todos os que me pedissem, dizendo: “São suas! Peguem e alegrem-se! É para
distribuí-las à larga que fabrico tantas!”.
Mas os brancos são gente diferente de nós. Devem se achar muito espertos
porque sabem fabricar multidões de coisas sem parar. Cansaram de andar e,
para ir mais depressa, inventaram a bicicleta. Depois acharam que ainda era
lento demais. Então inventaram as motos e depois os carros. Aí acharam que
ainda não estava rápido o bastante e inventaram o avião. Agora eles têm muitas
e muitas máquinas e fábricas. Mas nem isso é o bastante para eles. Seu pensa-
mento está concentrado em seus objetos o tempo todo. Não param de fabricar
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e sempre querem coisas novas. E assim, não devem ser tão inteligentes quanto
pensam que são. Temo que sua excitação pela mercadoria não tenha fim e eles
acabem enredados nela até o caos. Já começaram há tempos a matar uns aos
outros por dinheiro, em suas cidades, e a brigar por minérios ou petróleo que
arrancam do chão. Também não parecem preocupados por nos matar a todos
com as fumaças de epidemia que saem de tudo isso.33
Não pensam que assim
estão estragando a terra e o céu e que nunca vão poder recriar outros.
Suas cidades estão cheias de casas em que um sem-número de mercadorias
fica amontoado, mas seus grandes homens nunca as dão a ninguém. Se fossem
mesmo sábios, deveriam pensar que seria bom distribuir tudo aquilo antes de
começar a fabricar um monte de outras coisas, não é? Mas nunca é assim! Quan-
do os visitamos na cidade, quando é que os ouvimos dizer: “Levem todos os fa-
cões e panelas que estão vendo! Não quero deixá-los aqui envelhecendo por mais
tempo! Distribuam entre os seus de graça e falem a eles de mim!”? Ao contrário,
os brancos costumam empilhar seus bens de modo mesquinho e guardá-los
trancados. Por sinal, sempre levam com eles muitas chaves, que são as das casas
em que escondem seus pertences. Vivem com medo de ser roubados. E, ao final,
só os dão com muita má vontade, ou sobretudo os trocam por peles de papel que
também acumulam, pensando em se tornar grandes homens. Devem pensar,
com satisfação: “Faço parte do povo da mercadoria e das fábricas!34
Só eu possuo
todas essas coisas! Sou inteligente! Sou um homem importante, sou rico!”.
Quando eu era jovem e visitei pela primeira vez a cidade de Manaus e
depois Boa Vista, aqueles amontoados de mercadorias empoeiradas me deixa-
vam confuso. Perguntava a mim mesmo por que razão tamanha quantidade de
ferros de machado e redes, fabricados havia tanto tempo, ficavam envelhecen-
do assim, atulhados sobre tábuas até mofar, sem ser distribuídos para ninguém.
Só bem mais tarde entendi que os brancos tratam suas mercadorias como se
fossem mulheres por quem estão apaixonados. Só querem pegá-las para depois
ficar de olho nelas com ciúme. Acontece a mesma coisa com seus alimentos,
que sempre empilham em suas casas. Quando pedimos, nunca os dão sem
antes nos fazer trabalhar para eles. Nós não somos gente que recusa comida a
visitantes! Quando nossas roças estão cheias de mandioca e de bananas, mo-
queamos bastante caça e convidamos os moradores das casas vizinhas para
saciar sua fome numa festa reahu. Assim que se instalam em suas redes, depois
de sua dança de apresentação, oferecemos a eles, sem sovinice, grandes quantias
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de mingau de banana-da-terra, num tronco de árvore escavado no centro da
casa.35
Nós os fazemos beber até ficar com a barriga inchada e acabar vomitan-
do!36
Decerto não dizemos a eles: “Ma! Não me peçam nada para comer! Pri-
meiro trabalhem nas nossas roças! Tragam caça! Vão buscar água e lenha para
nós! O valor de nossas bananas é muito alto! São caras!”.37
A comida dos brancos não tem um valor tão grande quanto eles preten-
dem! Como a nossa, ela desaparece assim que é engolida e acaba virando fezes!
Suas mercadorias também não são tão preciosas quanto eles dizem. É só o
pavor que eles têm de sentir falta delas que os faz aumentar seu valor. Uma vez
velhos e cegos, dará mesmo dó vê-los ainda agarrados a elas! Mas, quando
morrerem, vão ter de largar todos esses objetos de qualquer jeito! Aí vão aban-
doná-los quer queiram quer não e seus parentes não vão parar de se desenten-
der para pegá-los. Isso tudo é ruim! Fabricando e manuseando tantas merca-
dorias, os brancos devem pensar que ganham muito renome. Mas não é nada
disso. Para que assim fosse, teriam de ser menos mesquinhos! Aí, quem sabe,
gente distante, como nós, acabaria falando deles com contentamento e os guar-
daria no pensamento.
Nós, habitantes da floresta, só gostamos de lembrar dos homens generosos.
Por isso temos poucos bens e estamos satisfeitos assim. Não queremos possuir
grandes quantidades de mercadoria. Isso confundiria nossa mente. Ficaríamos
como os brancos. Estaríamos sempre preocupados: “Awei! Quero ter aquele ob-
jeto! E também quero aquele outro, e o outro, e mais aquele!”. Não acabaria
nunca! Então, a nós basta o pouco que temos. Não queremos arrancar os miné-
rios da terra, nem que suas fumaças de epidemia acabem caindo sobre nós! Que-
remos que a floresta continue silenciosa e que o céu continue claro, para poder-
mos avistar as estrelas quando a noite cai. Os brancos já têm metal suficiente
para fabricar suas mercadorias e máquinas; terra para plantar sua comida; tecidos
para se cobrir; carros e aviões para se deslocar. Apesar disso, agora cobiçam o
metal de nossa floresta, para fabricar ainda mais coisas, e o sopro maléfico de
suas fábricas está se espalhando por toda parte. Os espíritos do céu que chama-
mos hutukarari ainda estão segurando seu peito longe de nós. Porém, mais
adiante, depois que eu e os outros xamãs morrermos, talvez sua escuridão desça
sobre nossas casas e, então, os filhos de nossos filhos não verão mais o sol.
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20. Na cidade
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São como formigas. Andam para um lado, viram de repente e con-
tinuam para outro. Olham sempre para o chão e nunca veem o céu.
Davi Kopenawa
Newsweek, 29 abr. 1991, sobre
os habitantes de Nova York
Antes de conhecer a terra dos antigos brancos, viajei algumas vezes até ela
em sonho, para muito longe da floresta, e pude assim contemplar durante o
sono a imagem de suas cidades. Via na noite uma multidão de casas muito
altas e cintilantes de luz que, por dentro, me pareciam ser todas revestidas de
peles de animais de caça, lisas e macias como a dos veados. Ao acordar, confu-
so, perguntava aos xamãs de nossa casa: “O que são essas coisas estranhas que
me apareceram no sono? O que vai acontecer comigo?”. Eles me respondiam:
“Ma! Não fique aflito! Em breve, brancos vindos de terras distantes irão chamá-
-lo para perto deles. Devem estar falando de você, por isso você viu suas casas!”.
Bem mais tarde, quando afinal visitei suas cidades grandes, me lembrei de meus
antigos sonhos e disse a mim mesmo: “Haixopë! Era assim mesmo que me
apareciam quando os espíritos levavam minha imagem até lá!”. Naquela época,
eu ainda tinha receio de fazer viagens para tão longe, pois, como eu disse, é
muito perigoso aproximar-se dos lugares de onde descem nossos xapiri. Con-
tudo, meu sogro e os outros grandes xamãs de nossa casa me protegiam. Assim,
apesar de minhas apreensões, continuei indo até esses lugares longínquos para
melhor conhecer os brancos e defender nossa floresta. Na verdade, se eu não
tivesse baixado da minha rede para fazer isso, nenhum de nós poderia tê-lo
feito em meu lugar.
Assim, parti para uma outra cidade da terra dos antigos brancos onde ti-
nha sido convidado a falar. Chamam-na Paris.1
Eu só conheço o lugar pelo
nome que deram a ele os meus xapiri: kawëhei urihi, a terra que treme. Deram-
-lhe esse nome porque assim que pus os pés lá, ao descer do avião, me senti
cambaleante. Apesar de o solo parecer firme, eu só conseguia andar de modo
vacilante, como se avançasse num atoleiro que afundava sob cada um de meus
passos. Parecia que eu estava de pé numa canoa no meio do rio! Assim, desde
a minha chegada, me perguntei, ansioso, se aquela terra não ia mesmo me fazer
virar outro! É verdade. Deve ser estável para os que lá cresceram desde a infân-
cia, mas para a gente da floresta que faz descer espíritos xapiri de lá, parece
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balançar o tempo todo. Por sinal, foi certamente sua imagem trêmula que seus
habitantes imitaram para fabricar os caminhos escorregadios em que se deslo-
cam.2
Acima dela, o céu é baixo e sempre coberto de nuvens. A chuva e o frio
parecem não terminar nunca. Fica perto das beiradas do nível terrestre, e os
seres subterrâneos da noite e do caos, Titiri e Xiwãripo, não devem estar longe.3
Os brancos talvez não saibam disso, mas os xapiri sabem.
Nessa cidade de Paris, multidões de carros e ônibus corriam o dia todo,
fazendo um barulho ensurdecedor, apertados no meio das casas. A terra de lá
é toda escavada de túneis sem fim, como se fossem de grandes minhocas.
Longos trens de metal não paravam de andar por eles com grande estrondo,
deslizando em barras de ferro há muito arrancadas das profundezas do chão.
É também por isso que me parecia que o chão tremia o tempo todo, mesmo
durante a noite. Para quem sempre dormiu no silêncio da floresta, essas vi-
brações são muito inquietantes. Os brancos não parecem percebê-las, porque
estão acostumados a nunca deixar sua terra em paz. Mas eu não parava de
pensar que ela devia virar outra por causa do barulho e da agitação que a mal-
tratavam sem trégua. Por isso virei fantasma tantas vezes durante aquela via-
gem! À noite, quase não dormia e, durante o dia, tinha de me encontrar com
um monte de desconhecidos e lhes falar durante muito tempo. Fazia um frio
horrível e eu cochilava o tempo todo. Mas nunca me queixei. Durante essas
longas viagens, quando fico ansioso, muito longe de casa, não falo com nin-
guém a respeito de minhas aflições, pois meus xapiri me tornaram prudente.
Apenas penso dentro de mim mesmo: “É uma terra distante e são gente dife-
rente, não se deve reclamar!”.
Porém, certa noite, me senti ainda mais estranho. Pouco antes de viajar,
tinha pegado malária e a febre me queimava novamente. Fiquei encolhido na
cama, num quarto de hotel, no alto de um prédio grande. Eu tinha conseguido
adormecer havia pouco quando, de repente, tive a impressão de ser tragado
por um imenso vazio. Em seguida, grandes pedaços de terra abaixo de mim
desmoronaram e a casa onde eu estava se desmontou inteira com grande es-
tardalhaço. Aí, começei a cair sem parar. Era apavorante! Mas, por fim, os xa-
piri que me acompanhavam conseguiram segurar minha imagem. Fizeram
explodir acima de mim um paraquedas de luz, que me desacelerou, e o fantas-
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ma de Omama me agarrou logo antes de eu desaparecer no mundo subterrâ-
neo. Então, de súbito, despertei no meio da noite. Não sabia mais onde estava
e quase gritei de pavor. Porém, consegui manter a calma. Levantei-me com
dificuldade, sem dizer uma palavra, e depois, aos poucos, acordei de fato. Vol-
tei a distinguir as coisas ao meu redor. Então, pensei: “Oae! Ainda estou vivo!
Os espíritos napënapëri dos antigos brancos quiseram testar minha força e meu
conhecimento! Foi a partir desta terra que nossos antigos abriram seus cami-
nhos para poder vir dançar em nossa floresta!”. Esses espíritos forasteiros exa-
minaram com curiosidade meu rosto, meus olhos e meus cabelos, que são
diferentes daqueles dos brancos. Observaram também com atenção os adornos
dos xapiri que me acompanhavam. Disseram a si mesmos: “Hou! Será que são
habitantes da floresta, filhos de Omama?”. Por isso vieram me visitar e me
puseram à prova.
Durante as noites seguintes, pude percorrer em sonho o lugar onde vivem
esses espíritos dos ancestrais brancos, escondidos no frescor das altas monta-
nhas. Assim eu pude conhecer muitos desses xapiri estrangeiros de danças
magníficas, que se refugiaram nas alturas depois de os brancos terem passado
muito tempo sem chamá-los. Também pude ver as árvores amoa hi, imaculadas
e brilhantes, onde colhem seus cantos. São xapiri poderosos, que Omama nos
manda só de vez em quando. Eles sabem arrancar e regurgitar as doenças tão
bem como nossos espíritos japim ayokorari. São melhores do que qualquer
outro para derrotar os seres maléficos da epidemia. Suas imagens me encora-
jaram muitas vezes, durante o sono, a falar com os brancos com energia e co-
ragem. Diziam-me: “Fique atento! Dê a eles suas palavras numa voz firme, e
não se deixe enganar por vagas mentiras! Eles têm de defender a floresta de
fato! Se todas as suas árvores grandes forem derrubadas e queimadas, não vol-
tarão a crescer. Por mais que os brancos tentem plantar outras, nunca terão a
força das que o ser da fertilidade Në roperi fez crescer no primeiro tempo. Só
elas sabem fazer o vento e a chuva circularem em suas copas, para que os espí-
ritos das plantas e dos animais possam matar a sede e se banhar. Sem elas, a
terra morrerá!”.
À noite, naquela cidade, os brancos que me acompanhavam me mostra-
ram uma espécie de casa muito alta e pontuda, feita de metal, como uma gran-
de antena coberta de cipós de luz cintilante.4
Acho que foi construída para ser
admirada pelas pessoas que vêm de outras terras, e é exatamente isso que fa-
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zem! Durante o dia, olham para ela durante muito tempo e a acham muito
bonita. Pegam imagens dela uma atrás da outra. Enquanto isso, a gente do
lugar deve pensar: “Ha! Como somos espertos e ricos, nós que construímos
algo tão lindo!”. É só. Ninguém pensa além disso. No entanto, apesar de nin-
guém saber, essa construção é em tudo semelhante à imagem das casas de
nossos xapiri, cercada por todos os lados de inúmeros caminhos luminosos. É
verdade! Aquela claridade cintilante é a do metal dos espíritos! Os brancos
daquela terra devem ter capturado a luz dos seres raio yãpirari para prendê-la
nessa antena! Ao observá-la, eu pensava: “Hou! Esses forasteiros ignoram a
palavra dos espíritos, mas, apesar disso, sem querer, imitaram suas casas!”.
Isso me deixou confuso. Porém, apesar da semelhança, a luz daquela casa de
ferro parecia sem vida. Não saía dela nenhum som. Se fosse viva, como uma
verdadeira casa de espíritos, ouviríamos brotar de sua luminosidade o sibilar
incessante dos cantos de seus habitantes. Seu cintilar propagaria as vozes ao
longe. Mas não era o caso. Ela ficava inerte e silenciosa. Foi apenas durante o
tempo do sonho, fazendo dançar sua imagem, que pude ouvir a voz dos espí-
ritos dos antigos brancos e das mulheres estrangeiras waikayoma, cobertas de
miçangas, que moram em sua terra.
Num outro dia, meus amigos brancos também me mostraram, passando
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de carro, uma grande pedra enfiada no chão, no meio da cidade. Disseram-me
que os antigos daquela terra a tinham trazido de um outro país distante, onde
foram guerrear antigamente.5
Então, sem responder, pensei apenas: “Hou! Os
brancos de longe também não têm tanta sabedoria quanto pretendem! Não
param de repetir que é ruim nos flecharmos uns aos outros por vingança. E no
entanto, seus próprios antepassados eram belicosos a ponto de ir até lugares
muito remotos só para saquear a terra de gente que não tinha feito nada a eles!
Digam o que disserem, o sangue e o fantasma do ser da guerra Aiamori se di-
vidiram e se espalharam pela terra deles tanto quanto pela nossa!”. Em outra
ocasião, levaram-me para visitar uma grande casa que os brancos chamam de
museu.6
É um lugar onde guardam trancados os rastros de ancestrais dos ha-
bitantes da floresta que se foram há muito tempo. Vi lá uma grande quantida-
de de cerâmicas, de cabaças e de cestos; muitos arcos, flechas, zarabatanas,
bordunas e lanças; e também machados de pedra, agulhas de osso, colares de
sementes, flautas de taquara e uma profusão de adornos de penas e de miçan-
gas. Esses bens, que imitam os dos xapiri,7
são mesmo muito antigos e os fan-
tasmas dos que os possuíram estão presos neles. Pertenceram um dia a grandes
xamãs que morreram há muito tempo. As imagens desses antepassados foram
capturadas ao mesmo tempo que esses objetos foram roubados pelos brancos,
em suas guerras. Por isso digo que são posses dos espíritos. No entanto, as
imagens desses ancestrais, retidas há tanto tempo nessas casas distantes, não
podem mais vir até nós para dançar. Não somos mais capazes de fazer ouvir
suas palavras na floresta, pois seus caminhos até nós foram cortados há tempo
demais. Na barulheira de suas cidades, os brancos não sabem mais sonhar com
os espíritos.8
Por isso ignoram todas essas coisas. Mas eu reconheci logo aque-
les bens preciosos dos antigos e fiquei muito preocupado. Pensei: “Hou! Tran-
cando-os para expô-los ao olhar de todos, os brancos demonstram falta de
respeito para com esses objetos que pertenciam a ancestrais mortos. Não se
pode destratar assim bens ligados aos xapiri e à imagem de Omama!”.
Em caixas de vidro colocadas lado a lado, via-se uma profusão de adornos
de rabo de tucano, junto com despojos sarapintados de pássaros hëima si e
wisawisama si, que a gente das águas, grandes caçadores, flecha sem trégua com
suas zarabatanas de taquara branca.9
Havia também muitos adornos de contas
de vidro coloridas, pertencentes às imagens das mulheres estrangeiras waikayo-
ma. Eram elas que teciam as braçadeiras, cintos e saias de miçanga vindos de
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longe, que nossos antigos também chamavam de objetos preciosos matihi.10
Para juntar essas contas de olhos vermelhos, brancos, azuis e amarelos, as mu-
lheres espírito tinham de furar suas imagens com flechinhas ruhu masi.11
Já os
brancos as fabricam hoje em dia com máquinas, em grandes quantidades. As
que as waikayoma flechavam eram bem diferentes, pois se tratava de bens dos
espíritos. Eram vivas e pareciam criancinhas. Logo que as flechinhas das mu-
lheres espírito as atingiam, gemiam de dor e choravam como recém-nascidos:
“Õe, õe, õe!  
”. Então, as waikayoma as enfiavam uma por uma num barbante
que passavam por suas feridas. Formavam assim longos colares, que usavam
no pescoço e cruzavam sobre o peito, para exibi-los em suas danças de apre-
sentação. Possuíam grandes quantidades dessas crianças-miçanga, com as quais
fabricavam vários tipos de enfeites magníficos, brilhantes e lisos. Foram essas
mulheres espírito waikayoma que ensinaram o nome das contas de vidro para
nossos ancestrais. Assim, quando nossos antigos xamãs lhes perguntavam de
onde vinham, respondiam apenas: “Nós as chamamos de õha kiki, topë kiki!  12
São bens dos xapiri! Nós os flechamos numa terra distante de onde descemos
para vir até vocês!”.
Também pude ver, no museu daquela cidade, machados de pedra com os
quais os antigos habitantes da floresta abriam suas roças, anzóis de ossos de
animais que usavam para pescar, os arcos com os quais caçavam, as panelas de
barro em que cozinhavam sua caça e braçadeiras de algodão que teciam. Deu-
-me muita pena ver todos aqueles objetos abandonados por antigos que se
foram há tanto tempo. Mas sobretudo vi lá, em outras caixas de vidro, cadáve-
res de crianças com a pele enrugada. Tudo isso acabou me deixando furioso.
Pensei: “De onde vêm esses mortos? Não seriam os antepassados do primeiro
tempo? Sua pele e ossos ressecados dão dó de ver! Os brancos só tinham ini-
mizade com eles. Mataram-nos com suas fumaças de epidemia e suas espin-
gardas para tomar suas terras. Depois guardaram seus despojos e agora os
expõem aos olhos de todos!13
Que pensamento de ignorância!”. Aí, de repente,
comecei a falar de modo duro com os brancos que me acompanhavam: “É
preciso queimar esses corpos! Seus rastros devem desaparecer! É mau pedir
dinheiro para mostrar tais coisas! Se os brancos querem mostrar mortos, que
moqueiem seus pais, mães, mulheres ou filhos, para expô-los aqui, em lugar de
nossos ancestrais! O que eles pensariam se vissem seus defuntos exibidos assim
diante de forasteiros?”. Surpresos com o tom de minha voz, meus guias me
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perguntaram se eu estava mesmo com muita raiva. Então expliquei meu pen-
samento: “Awei! Ver tudo isso me deixa muito triste! Os brancos não deviam
tratar tão mal esses antigos mortos, colocando-os assim à vista de todos, cer-
cados dos objetos que deixaram ao morrer. O mesmo vale para todos esses
despojos e ossadas de animais. São ancestrais animais cujas imagens os xamãs
faziam dançar. Eles também não devem ser maltratados assim. Se os brancos
quiserem, que ponham no lugar ossos de galinhas, cavalos, carneiros ou bois!”.
No final, os que me escutavam, constrangidos, tentando me acalmar, respon-
deram: “Não fique tão chateado! Tudo isso está exposto apenas para todos
poderem conhecer!”.
Mas eu não estava de acordo, e continuei: “É ruim guardar trancados
nesta casa longínqua os bens dos habitantes da floresta que foram mortos no
passado pelas doenças e armas dos brancos! Essas pessoas foram criadas no
primeiro tempo. São, desde sempre, os verdadeiros donos da floresta. Seus
objetos pertencem aos xapiri e a Omama. Fico muito aflito de vê-los expostos
desse modo! Quero olhar só coisas bonitas, não coisas da morte. Prefiro ver
imagens do céu, do sol, das montanhas, da chuva, do dia e da noite — tudo o
que não morre nunca. Os humanos somem muito depressa e, assim que seu
sopro de vida é cortado, só inspiram tristeza e saudade. Os brancos podem
mostrar o que quiserem em seus museus, mas não coisas vindas de fantasmas.
Enquanto estamos vivos, podem expor nossas imagens e objetos em suas cida-
des à vontade, para explicar a seus filhos como vivemos e, assim, ajudar a
proteger nossa floresta. Mas exibir dessa maneira cadáveres ressecados e obje-
tos órfãos dos primeiros habitantes da floresta só pode me deixar infeliz e me
atormentar. É algo muito ruim para mim!”.
Antigamente, toda a terra do Brasil era ocupada por povos como o nosso.
Hoje, está quase vazia de nossa gente e o mesmo acontece no mundo inteiro.
Quase todos os povos da floresta desapareceram. Os que ainda existem, aqui e
ali, são apenas o resto dos muitos que os brancos mataram antigamente para
roubar suas terras. Depois, com a testa ainda cheia da gordura desses mortos,14
esses mesmos brancos se apaixonaram pelos objetos cujos donos tinham ma-
tado como se fossem inimigos! E desde então, guardam-nos fechados no vidro
de seus museus, para mostrar a seus filhos o que resta daqueles que seus antigos
fizeram morrer! Mas essas crianças, quando crescerem, vão acabar perguntan-
do para seus pais: “Hou! Esses objetos são muito bonitos, mas por que vocês
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destruíram seus donos?”. Então, eles só poderão responder: “Ma! Se essa gen-
te ainda estivesse viva, estaríamos pobres! Estavam atrapalhando! Se não tivés-
semos tomado sua floresta, não teríamos ouro!”. Porém, apesar de tudo isso,
os brancos não se incomodam nem um pouco em exibir os despojos daqueles
que mataram! Nós nunca faríamos uma coisa dessas!
Afinal, depois de ver todas as coisas daquele museu, acabei me pergun-
tando se os brancos já não teriam começado a adquirir também tantas de nos-
sas coisas só porque nós, Yanomami, já estamos começando também a desa-
parecer. Por que ficam nos pedindo nossos cestos, nossos arcos e nossos
adornos de penas, enquanto os garimpeiros e fazendeiros invadem nossa terra?
Será que querem conseguir essas coisas antecipando a nossa morte? Será que
depois vão querer levar também nossas ossadas para suas cidades? Uma vez
mortos, vamos nós ser expostos do mesmo modo, em caixas de vidro de algum
museu? Foi o que tudo aquilo me fez pensar. Disse a mim mesmo que se damos
aos brancos nossas braçadeiras de mutum e nossos adornos de rabos de tucano,
nossa tinta de urucum, nossas aljavas e nossas flechas, para deixar que tudo
isso seja trancado nas suas casas ou nos seus museus, aos poucos perderemos
nossa beleza e nos tornaremos maus caçadores. Nossos ornamentos de penas
de arara, de papagaio e de cujubim, nossos despojos de galo-da-serra e de pás-
saros sei si são bens preciosos, que pertencem à gente das águas.15
Quando os
levam embora consigo, os brancos capturam também as imagens desses ani-
mais e as guardam presas bem longe da floresta. É isso que vai acabar nos fa-
zendo ficar feios e panema.
Mais tarde, quando retornei dessa viagem a Paris, assim que cheguei à
minha casa de Watoriki, achei realmente que logo fosse morrer. Eu estava mui-
to fraco e tinha tonturas e sono o tempo todo. Não conseguia mais acordar
direito. Depois, comecei a sentir que minhas pernas ficavam pesadas e ador-
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mecidas também. Mesmo me beslicando, não sentia mais nada. Ficava deitado
na rede e ia perdendo consciência aos poucos. Não enxergava mais minha mu-
lher e meus filhos, que estavam bem perto, nem minha própria rede! Tinha
entrado em estado de fantasma e, de repente, minhas pernas ficaram paralisa-
das por completo. Eu estava de volta à floresta, mas minha imagem continuava
dormindo no peito do céu. Tudo isso estava acontecendo, eu sabia, porque tinha
pisado nas terras de onde vêm os xapiri dos antigos brancos. Eu os conhecia e
já os tinha feito dançar com meu sogro. Contudo, aproximar-me tanto de seus
locais de origem tinha me feito virar outro, como na primeira vez. A imagem
de Omama tinha me protegido durante toda a viagem, mas foi na volta que
fiquei todo entorpecido. Tive de passar vários dias em casa, prostrado perto do
fogo, para secar minhas carnes encharcadas do frio úmido daquelas terras dis-
tantes. Depois, fui aos poucos recomeçando a beber o pó de yãkoana. Então, os
meus xapiri que tinham me acompanhado na viagem despertaram e se aque-
ceram. Descansados, recuperaram a energia e comecei eu também a me resta-
belecer.
Agora eu realmente sabia o quanto tais viagens são perigosas para os xa-
mãs! No entanto, passadas algumas luas, no final do tempo da seca, amigos
brancos me chamaram novamente para longe da floresta. Todos os meus esta-
vam morrendo de malária e, perto de onde moramos, a maioria dos brancos
parecia não escutar minhas queixas. Por isso aceitei, mais uma vez, sair de
casa para ir falar diante dos grandes homens de uma outra cidade, bem maior
do que todas as que eu tinha conhecido até então. Seus habitantes a nomeiam
Nova York. Eu queria obter o apoio deles, para que convencessem o governo
de nossa terra do Brasil a impedir os garimpeiros de saquear nossa floresta e
exterminar todos os seus habitantes.16
Quando cheguei a Nova York, fiquei
surpreso, pois aquela cidade parece um amontoado de montanhas de pedra
onde os brancos vivem empilhados uns sobre os outros! E a seus pés, multidões
de pessoas andavam muito depressa, em todos os sentidos, tão numerosas co-
mo formigas! Disse a mim mesmo que aqueles brancos deviam ter construído
suas casas como penhascos depois de terem derrubado todas as suas florestas
e começado a fabricar, pela primeira vez, mercadorias em enormes quantida-
des. Com certeza pensaram: “Somos muitos, sabemos guerrear com valentia e
temos muitas máquinas! Vamos construir casas gigantes para enchê-las de
mercadorias que todos os outros povos vão cobiçar!”.
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No entanto, se no centro dessa cidade as casas são altas e belas, nas bordas,
estão todas em ruínas. As pessoas que vivem nesses lugares afastados não têm
comida e suas roupas são sujas e rasgadas. Quando andei entre eles, olharam
para mim com olhos tristes.17
Isso me deu dó. Os brancos que criaram as mer-
cadorias pensam que são espertos e valentes. Mas eles são avarentos e não
cuidam dos que entre eles não têm nada. Como é que podem pensar que são
grandes homens e se achar tão inteligentes? Não querem nem saber daquelas
pessoas miseráveis, embora elas façam parte do seu povo. Rejeitam-nas e dei-
xam que sofram sozinhas. Nem olham para elas e, de longe, apenas as chamam
de pobres. Chegam até a tirar delas suas casas desmoronadas. Obrigam-nas a
ficar fora, na chuva, com seus filhos. Devem pensar: “Moram em nossa terra,
mas são outra gente. Que vivam longe de nós, catando sua comida no chão,
como cães! Nós, enquanto isso, vamos aumentar nossos bens e nossas armas,
sozinhos!”. Fiquei assustado de ver aquilo!
Durante essa viagem, voltei a ter crises de malária.18
Além disso, perto do
lugar onde me hospedaram, havia muito barulho. As pessoas do outro lado da
rua costumavam cantar e gritar durante a noite. Isso me deixava apreensivo e
agitado. Eu dormia em estado de fantasma e frequentemente tinha tonturas e a
visão embaçada. Então, como nas outras cidades grandes que eu tinha visitado,
vi descer no meu sono os espíritos dessas terras dos antigos brancos. Vinham
um atrás do outro no meu sonho, cada vez mais numerosos. Primeiro eu via
dançar as imagens dos seres trovão, depois a dos seres raio e dos ancestrais
onça. Também costumava ver uma multidão barulhenta de espíritos japim
ayokorari que vinha até mim de suas montanhas distantes. Esses xapiri sabem
tirar as doenças e trabalham ao lado dos médicos. Por isso costumam aparecer
durante os sonhos dos xamãs que ardem em febre.
Certa noite, foi a imagem de uma moça das águas, uma irmã de Th
uëyoma,
a esposa que Omama pescou no primeiro tempo, que me apareceu. Seus olhos
e cabelos negros eram muito bonitos. Eu via com clareza seus jovens seios des-
pontando, mas a parte de baixo de seu corpo era como de peixe. Ela derramava
água com delicadeza sobre minha testa febril e assim me fazia voltar à vida. Há
muito tempo, essa moça dos rios deixou nossa floresta e se perdeu muito longe,
nos confins das águas. É por isso que sua imagem vive hoje debaixo de uma
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grande ponte desta cidade de Nova York.19
Vi que os brancos sabem desenhá-la
e me disseram que lhe dão o nome de sereia. Ela ficou lá onde a grande enchen-
te que carregou nossos ancestrais de Hayowari parou para formar o oceano.20
É o lugar onde hoje se encontra o ponto de amarração de todos os rios, que
chamamos u monapë. Se os cursos d’água não fossem presos desse modo, vol-
tariam para as profundezas da terra, que secaria para sempre.
Naquela cidade, na verdade não foi a altura dos prédios o que mais me
assustou. Foram outras coisas, que se revelaram durante os meus sonhos. As-
sim, certa noite, vi também o céu ser incendiado pelo calor da fumaça das
fábricas. Os trovões, os seres raios e os fantasmas dos antigos mortos estavam
cercados de chamas imensas. Depois, o céu começou a desmoronar sobre a
terra com grande estrondo. Isso sim era mesmo assustador! Onde os brancos
vivem, o céu é baixo e eles não param de cozer grandes quantidades de miné-
rio e de petróleo. Por isso as fumaças de suas fábricas sobem sem trégua para
o peito do céu. Isso o torna muito seco, quebradiço e inflamável como gasoli-
na. Ressecado pelo calor, torna-se frágil e se desfaz em pedaços, como uma
roupa velha. Tudo isso preocupa muito os xapiri. Em meu sonho, eles tenta-
vam curar o céu doente, fazendo girar a chave da chuva, para afastar a raiva
do braseiro que o devorava. Exaltados, despejando torrentes de água sobre as
chamas, gritavam para os brancos: “Se vocês destruírem o céu, vão todos mor-
rer com ele!”. Mas estes não davam nenhuma atenção a seus gritos de alerta.
E eu não falei desse sonho a ninguém, porque estava longe de minha casa e
dos meus. Assim é. Se os espíritos não continuarem inundando o céu daque-
le jeito, ele vai acabar queimando por inteiro. Meu sogro me falou desse tra-
balho deles assim que começou a me fazer beber yãkoana, antes mesmo de eu
me tornar xamã de fato.
Noutra ocasião, em Nova York, fui espantado durante o sono pelos estalos
e estrondos surdos do céu, que parecia começar a se mover pesadamente sobre
a cidade. Então, acordei sobressaltado e me levantei. Fiquei um tempo sem me
mover, de pé, me segurando para não gritar de pavor. Mais uma vez, pensei:
“Hou! Esta é uma outra terra, não posso me deixar levar pelo medo, ou os
brancos vão achar que enlouqueci!”. Aos poucos, fui tentando me acalmar.
Depois, o barulho do céu parou, mas eu comecei a ouvir a voz de sua imagem,
que os xamãs nomeiam Hutukarari. Ela me dizia: “Ma! Não é nada! Fiz isso
para testar sua vigilância! Às vezes faço o mesmo para que os brancos me ou-
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çam, mas não adianta nada! Só os habitantes da floresta mantêm os ouvidos
abertos, pois sabem virar espíritos com a yãkoana. Os dos brancos ficam sem-
pre fechados. Por mais que eu tente assustá-los para alertá-los, eles permane-
cem surdos como troncos de árvore! Mas você me ouviu, isso é bom!”.
Naquele tempo, pensei que a cidade de Nova York devia ser o lugar onde
os brancos começaram, antigamente, a arrancar o metal da terra, a encher suas
casas de mercadorias e a inventar as peles de papel do dinheiro. Ouvi dizer que
é lá que fabricam aquelas coisas de ferro brilhante que passam no céu como
cometas e que chamam de satélites. Vi também que os olhos das pessoas da-
quela terra estão mais estragados do que em outros lugares pela fumaça do
metal e seu pó de cegueira.21
Na floresta, não temos nem fábricas nem carros e
nossos olhos são límpidos. Em Nova York, tanta gente parecia ter a vista ruim!
Até mesmo as crianças e os jovens tinham os olhos cobertos por vidros para
ver melhor! Também pensei, naquela cidade, que os brancos que a construíram
maltrataram os primeiros habitantes daquelas regiões do mesmo modo que os
do Brasil nos maltratam hoje. Sua terra era bela, fértil e cheia de caça. Os bran-
cos chegaram e logo quiseram tomar posse dela. Pensavam que aquelas pessoas
estavam atrapalhando, então as consideraram seus inimigos e começaram a
destruí-las. Os antigos brancos dos Estados Unidos eram de fato maus e muito
belicosos, vi isso num livro!22
Foi para mim um tormento pensar em todos
aqueles humanos parecidos conosco que morreram naquele país. Pensei que
muitos deles deviam morar naquela terra de Nova York antes de sua floresta ser
arrasada para dar lugar a todas essas casas de pedra. Os brancos de lá deviam
detestá-los tanto quanto nos odeiam os garimpeiros e fazendeiros no Brasil.
Devem ter pensado: “Vamos acabar com esses índios sujos e preguiçosos! Va-
mos tomar o lugar deles nesta terra! Seremos os verdadeiros americanos, por-
que somos brancos! Somos mesmo espertos, trabalhadores e poderosos!”. Seu
fascínio pelas mercadorias, estradas, trens e depois aviões não parou de aumen-
tar. Foi com esses pensamentos de mentira que começaram a fazer morrer as
gentes da floresta, antes de roubarem sua terra e dar a ela um nome seu: Ame-
rica. É com as mesmas palavras que os garimpeiros e fazendeiros querem se
livrar de nós no Brasil: “Os Yanomami são apenas seres da floresta, não são
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humanos! Pouco importa que morram, eles são inúteis e nós vamos trabalhar
de verdade no lugar deles!”.
Fora da cidade de Nova York, levaram-me para visitar o que resta do
povo que os antigos brancos mataram outrora naquela terra para tomar seu
lugar. Seu nome é Onondaga.23
Chamo-os de Yanomae th
ë pë, como nós, não
só porque se parecem conosco, mas também porque são a gente que foi criada
no primeiro tempo nessa terra dos Estados Unidos, como nós mesmos o fomos
em nossa floresta. Em suas casas, vi muitos adornos de penas. São gente que
ainda tem xapiri e sabe fazê-los dançar. Quando fui visitá-los, os homens me
chamaram e eu me sentei com eles para ouvir suas palavras. Afastaram as mu-
lheres e as crianças. Queimaram tabaco e fizeram descer seus espíritos. Seus
antigos eram caçadores de grandes águias que voam alto no céu, como o temí-
vel gavião-real mohuma em nossa terra. Fabricavam cocares magníficos com
suas penas. Também caçavam outros animais, que eu nem sabia que existiam,
como os ursos e os bisões. Seus xamãs até hoje fazem dançar a imagem desses
ancestrais animais. Os Onondaga também bebem o suco doce das árvores de
sua floresta,24
como nós bebemos o mel das abelhas. Antigamente, a terra em
que viviam seus antepassados era muito vasta, mas a que os brancos deixaram
para eles é estreita e fica bem ao lado de uma cidadezinha. Levaram-me com
eles para andar por ela. Deu-me muita pena! Estão ilhados num pedacinho de
terra de nada! Os colonos, os fazendeiros e os mineiros mataram seus ances-
trais. Eles bem que tentaram mandá-los embora, mas só tinham flechas e não
conseguiram se defender contra tantas espingardas dos brancos. Uma vez di-
zimados e vencidos, receberam apenas aquele bocado de terra. Então, pensei:
“Hou! É assim que os brancos querem tratar também todos os habitantes da
floresta no Brasil! É só isso que eles fazem desde sempre! Vão matar toda a
caça, os peixes e as árvores. Vão sujar todos os rios e os lagos, e no final toma-
rão posse do que resta de nossas terras. Não vão deixar nada vivo! Pensam que
não somos humanos e nos detestam igualmente a todos! No entanto, mesmo
sendo gente diferente dos brancos, temos boca e olhos, sangue e ossos, como
eles! Todos vemos a mesma luz. Todos temos fome e sede. Todos temos a
mesma dobra atrás dos joelhos para poder andar! De onde vem essa brutal
vontade deles de destruir a floresta e seus habitantes?”.
Eram todas essas coisas que me acordavam durante a noite, em Nova
York, e, assim, meus pensamentos ficavam passando de uma para outra sem
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trégua, até o amanhecer. Eu também dizia a mim mesmo: “Os antigos brancos
desenharam o que chamam de suas leis em peles de papel, mas para eles pare-
ce que não passam de mentiras! Na verdade, eles só escutam as palavras da
mercadoria!”. Eu ficava atormentado e não conseguia voltar a dormir. A trilha
de minhas ideias se afastava e se desdobrava sem parar, em todas as direções,
em viagens cada vez mais distantes. É assim a cada vez que sou obrigado a
dormir numa cidade grande para falar aos brancos. Estou sempre em busca de
outras palavras; palavras que eles ainda não conhecem. Quero que se surpreen­
dam e que prestem atenção. Penso em nossos ancestrais e no modo como vi-
viam, penso nas palavras de Omama e nas dos espíritos. Busco palavras muito
antigas. Nem sempre são as que ouvi da boca de meus pais e avós. São palavras
que vêm do primeiro tempo, mas que, apesar disso, vou buscar no fundo de
mim. No começo, não conhecíamos os brancos e menos ainda suas cidades.
Porém, desde que eu era criança, eles não param de aumentar e de se aproximar
de nós para destruir nossa terra. Há tempos os garimpeiros reviram o leito de
nossos rios e logo as mineradoras vão querer escavar as profundezas do chão
da floresta. Os fazendeiros e colonos não param de incendiar suas bordas. Por
isso hoje eu busco palavras poderosas, para dizer o quanto tudo isso me deixa
com raiva. Não quero nada além da floresta e sua caça, os rios e seus peixes, as
árvores, seus frutos e seus méis. Quero tudo isso para meus filhos e os filhos
deles poderem continuar vivendo bem depois de minha morte. Só isso.
Ter conhecido as terras dos antigos brancos durante minhas viagens me
deixou pensativo. Com certeza, suas cidades são belas de ver, mas, por outro
lado, a agitação de seus habitantes é assustadora. Trens correm o tempo todo
debaixo da terra, carros no chão coberto de cimento e aviões atravessam sem
trégua o céu encoberto. As pessoas vivem amontoadas umas em cima das ou-
tras e apertadas, excitadas como vespas no ninho. Tudo isso causa tontura e
obscurece o pensamento. O barulho contínuo e a fumaça que cobre tudo im-
pedem de pensar direito. Deve ser mesmo por isso que os brancos não conse-
guem nos ouvir! Assim que lhes dirigimos a palavra, a maioria deles responde:
“Os habitantes da floresta não passam de mentirosos! Vamos continuar man-
dando nossas máquinas para a frente! Arrancaremos minério da terra o quan-
to quisermos!”. Contudo, nossos dizeres sobre a terra e o céu não são mentiras.
São palavras verdadeiras que os xamãs receberam da imagem de Omama e dos
xapiri. Os brancos, com suas mentes fincadas nas mercadorias, não querem
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saber de nada. Continuam a estragar a terra em todos os lugares onde vivem,
mesmo debaixo das cidades onde moram! Nunca passa pela cabeça deles que
se a maltratarem demais, ela vai acabar revertendo ao caos. Seu pensamento
está cheio de esquecimento e vertigem. Por isso eles não têm medo de nada e
acham que estão a salvo de tudo. Quando visitei a terra de seus ancestrais,
entendi que era o lugar onde todas essas coisas começaram. Foi daquelas re-
giões distantes que eles se aproximaram pouco a pouco da nossa floresta, para
continuar destratando a terra e instalando nela suas fábricas.
Para mim, não é nada agradável viver na cidade. Meu pensamento lá fica
irrequieto e meu peito apertado. Não durmo bem, só como coisas estranhas e
vivo com medo de ser atropelado por um carro! Nunca consigo pensar com
calma. É um lugar que realmente provoca muita aflição. Os brancos pedem
dinheiro para tudo o tempo todo, até para beber água e urinar! Aonde quer que
se vá, há uma multidão de gente que se apressa para todos os lados sem que se
saiba por quê. Anda-se depressa no meio de desconhecidos, sem parar e sem
falar, de um lugar para outro. A vida dos brancos que se agitam assim o dia
todo como formigas xiri na parece triste. Eles estão sempre impacientes e te-
merosos de não chegar a tempo a seus empregos ou de serem despedidos.
Quase não dormem e correm sonolentos durante o dia todo. Só falam de tra-
balho e do dinheiro que lhes falta. Vivem sem alegria e envelhecem depressa,
sempre atarefados, com o pensamento vazio e sempre desejando adquirir novas
mercadorias. Então, quando seus cabelos ficam brancos, eles se vão e o traba-
lho, que não morre nunca, sobrevive sempre a todos. Depois, seus filhos e
netos continuam fazendo a mesma coisa.
Omama com certeza não quis nos maltratar desse jeito! Para os habitantes
da floresta, as cidades dos brancos são empesteadas por um cheiro ruim de
queimado e de epidemia xawara.25
Lá as pessoas trabalham em estado de fan-
tasma e não param de engolir o vento das fumaças das fábricas e das máquinas.
Elas entram no nariz, na boca e nos olhos; colam nos cabelos de todos. Assim
seu peito fica enegrecido. Por isso os brancos ficam doentes com tanta frequên-
cia, apesar de todos os seus remédios. Mesmo que os médicos abram seu peito,
barriga e olhos, nada resolve. O esperma dos pais cuja carne está impregnada
dessa fumaça de epidemia adoece e, por isso, seus filhos nascem com defeitos.
É a fumaça do metal que causa tudo isso. Na cidade, nunca é possível ouvir
com clareza as palavras que nos são dirigidas. As pessoas precisam ficar coladas
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uma na outra para poderem se ouvir. O zumbido das máquinas e dos motores
atrapalha todos os outros sons; a algazarra das rádios e televisões confunde
todas as outras vozes. É por causa de toda essa barulheira na qual eles se apres-
sam durante o dia que os brancos estão sempre preocupados. Seu coração ba-
te depressa demais, seu pensamento fica emaranhado de tonturas e seus olhos
estão sempre em alerta. Acho que esse ruído contínuo impede seus pensamen-
tos de se juntarem um ao outro. Acabam lá parados, espalhados a seus pés, e é
assim que se fica bobo. Mas talvez os brancos gostem desse barulho que os
acompanha desde a infância? Para os que cresceram no silêncio da floresta, ao
contrário, a barulheira das cidades é dolorosa. É por isso que, quando fico lá
muito tempo, minha mente fica tampada e vai se enchendo de escuridão. Fico
ansioso e não consigo mais sonhar, porque meu espírito não volta à calma.
Eu nasci na floresta, e por isso prefiro viver nela. Só posso ouvir os cantos
dos xapiri e sonhar com eles cercado de sua tranquilidade. Gosto do silêncio
dela, apenas quebrado pelos chamados fortes dos pássaros hwãihwãiyama, os
gritos roucos das araras, o choro dos tucanos, os berros dos bandos de macacos
iro ou o trinado dos papagaios. Essas vozes agradam a meus ouvidos. Quando
volto de minhas viagens entre os brancos, depois de algum tempo a tontura
deixa meus olhos e meu pensamento volta à claridade. Não ouço mais os carros,
nem as máquinas, nem os aviões. Só escuto os sapos tooro e as rãs krouma
chamando a chuva na floresta. Só escuto o sussurro das folhas no vento e o
estrondo dos trovões no céu. As palavras sem sabedoria dos políticos da cida-
de vão aos poucos desaparecendo no sossego de meu sono. Fico calmo de
novo, caçando e fazendo dançar meus espíritos. A floresta é muito bonita de
ver. É fresca e cheirosa. Quando andamos por ela para caçar ou viajar, sentimo-
-nos alegres, com o espírito calmo. Escutamos ao longe o chiado das cigarras,
as lamúrias dos mutuns e jacamins e os gritos dos macacos-aranha nas árvores.
Nossa preocupação é aquietada. Então nossos pensamentos podem seguir um
ao outro sem se atrapalhar.
É por tudo isso que quero viver na floresta, como fizeram meus antepas-
sados antes de mim. Sou neto deles e quero seguir suas pegadas. Às vezes imi-
to a língua dos brancos e até possuo algumas de suas mercadorias. Não tenho,
porém, desejo algum de me tornar um deles. Em suas cidades não é possível
conhecer as coisas do sonho. Nelas não conseguem ver as imagens dos espíritos
da floresta e dos ancestrais animais. Seu olhar está preso no que os cerca: as
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mercadorias, a televisão e o dinheiro. Por isso eles nos ignoram e ficam tão
pouco preocupados se morremos de suas fumaças de epidemia. Nós, contudo,
temos pena dos brancos. Suas cidades são muito grandes e eles vivem desejan-
do um monte de objetos bonitos, mas, quando ficam velhos ou enfraquecidos
pela doença, de repente têm de abandonar todos eles, que logo se apagam de
suas mentes. Só lhes resta então morrer sós e vazios. Mas eles nunca querem
pensar nisso, como se não fossem deixar de existir eles também! Se pensassem,
talvez não fossem tão ávidos das coisas de nossa terra e tão hostis para conosco.
São esses os pensamentos que ocupam minhas noites nas cidades, onde nunca
consigo dormir direito.
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21. De uma guerra a outra
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Descrevo os Yanomami como “o povo feroz” pois é a única expressão
que pode representá-los com precisão. É a imagem que eles têm de si
mesmos e é assim que gostariam de ser lembrados pelos outros povos.
Napoleon A. Chagnon, 1968, p. 1.
Durante minhas viagens às distantes terras dos brancos, ouvi alguns deles
declararem que nós, Yanomami, gostamos de guerra e passamos nosso tempo
flechando uns aos outros. Porém os que dizem essas coisas não conhecem nada
de nós e suas palavras só podem ser equivocadas ou mentirosas. É verdade, sim,
que nossos antigos guerreavam,1
como os antigos dos brancos faziam naqueles
tempos. Mas os deles eram muito mais perigosos e ferozes do que os nossos.
Nós nunca nos matamos sem medida, como eles fizeram. Não temos bombas
que queimam todas as casas e seus moradores junto! Quando, às vezes, nossos
antigos queriam flechar seus inimigos, as coisas eram muito diferentes. Procu-
ravam atingir sobretudo os guerreiros que já tinham matado seus parentes e que
por isso chamavam de õnokaerima th
ë pë.2
Tomados pela raiva do luto de seus
mortos, eles conduziam ataques até conseguir se vingar desse modo. Esse é o
nosso costume. Só buscamos vingança quando um dos nossos morre por flecha
ou zarabatana de feitiçaria.3
Se guerreiros de outra aldeia matam um dos nossos,
os filhos, irmãos, cunhados e genros do defunto vão atrás de suas pegadas para
flechá-los de volta. Se feiticeiros inimigos oka destroem um de nossos grandes
homens, acontece o mesmo. Mas não ficamos nos flechando sem parar, por
nada! Se fosse o caso, eu diria, pois gosto das palavras de verdade. Alguns bran-
cos chegaram até a afirmar que somos tão hostis entre nós que não podem nos
deixar viver juntos na mesma terra!4
Mais outra grande mentira! Nossos ances-
trais viviam na mesma floresta havia muito tempo, muito antes de ouvirem
falar dos brancos. Essa gente mentirosa acredita mesmo que somos tão perigo-
sos quanto os soldados dos brancos em suas guerras? Não. Só quer espalhar más
palavras sobre nós porque precisa da ajuda delas para conseguir se apoderar de
nossa terra. Mas não é pela beleza de suas árvores, animais e peixes que os bran-
cos a desejam. Não. Eles não têm mais amizade pela floresta do que pelos seres
que a habitam. O que querem mesmo é derrubá-la, para engordar seu gado e
arrancar tudo o que podem tirar do seu chão.
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A valentia guerreira, que chamamos waith
iri, veio a existir há muito tem-
po. Surgiu na floresta, bem antes de os brancos nos conhecerem, e não foi por
acaso.5
Foram o menino guerreiro Õeõeri, Arowë, o valente, e o temível espíri-
to Aiamori que a deram a conhecer no primeiro tempo.6
Desde então, as ima-
gens desses ancestrais descem até nós desde onde um dia viveram, na terra dos
Xamath
ari.7
Õeõeri era um recém-nascido.8
Feiticeiros inimigos mataram sua
mãe logo depois de ela ter dado à luz no chão da floresta. Abandonaram o
bebê órfão sobre um ninho de formigas kaxi. Então, aos poucos, por causa da
dor de suas queimaduras e no desespero de seu choro, o menino começou a
virar outro. Cresceu muito depressa e logo se tornou um guerreiro valente.
Atacou então a casa dos Xamath
ari matadores de sua mãe tantas vezes seguidas
que acabou com eles todos e, por isso, adoeceu depois de ter comido tantos
inimigos. Por fim, os fantasmas dos xamãs da casa de suas vítimas, a pretexto
de curá-lo, por sua vez o mataram. Desde então, os ataques continuaram entre
as casas de nossos ancestrais, e os guerreiros mais agressivos foram tomados
pela exaltação de flechar uns aos outros como caça. No tempo dos nossos an-
tigos, é verdade que os Xamath
ari guerreavam muito entre si. Matavam primei-
ro um ou dois homens numa casa vizinha. Então, os habitantes daquela casa
choravam seus mortos e depois atacavam seus agressores para se vingar, e as-
sim os reides entre uns e outros não tinham fim. Depois, o esperma e o sangue
dos guerreiros belicosos eram transmitidos para seus filhos. Assim, estes se-
guiam os passos dos pais e cresciam com a mesma agressividade dentro deles.
Por isso eram chamados Niyayopa th
ëri, a Gente da Guerra. Esse era o nome
que os antigos davam aos Xamath
ari que habitavam os campos além das nas-
centes do Hwara u,9
lá onde ficou o fantasma de Õeõeri. Não lhe deram esse
nome à toa! Eram gente belicosa mesmo! Eram guerreiros que ficavam anima-
dos para matar, pensando nos choros de luto de seus inimigos, como caçadores
alegres por terem matado suas presas. Foram eles que ensinaram nossos an-
cestrais a se flechar uns aos outros e, a partir de então, eles continuaram. A
imagem dessa Gente da Guerra continua existindo nas terras altas de nossa
floresta, onde seus filhos continuam brigando entre si, seguindo o rastro de
seus antepassados. Foi a partir desses primeiros guerreiros que se espalhou
entre nós o costume de se atacar entre uma casa e outra. A imagem dessa gen-
te se dividiu e se espalhou por toda parte. Foi assim que o fantasma da agres-
sividade e da valentia guerreira waith
iri se alastrou por nossa floresta e mais
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além, entre os xapiri que chamamos purusianari,10
bem como entre os brancos.
É por isso que, desde então, todos conhecem a raiva e a guerra.
Porém, o que os brancos chamam de “guerra” em sua língua é algo de que
não gostamos. Eles afirmam que os Yanomami não param de se flechar, mas são
eles que realmente fazem guerra! Nós, com certeza, não combatemos uns aos
outros com a mesma dureza que eles. Se um dos nossos é morto pelas flechas
ou pela zarabatana de feitiçaria de um inimigo, apenas revidamos do mesmo
jeito, procurando matar o culpado que se encontra em estado de homicida
õnokae. É muito diferente das guerras nas quais os brancos não param de fazer
sofrer uns aos outros! Eles combatem em grandes grupos, com balas e bombas
que queimam todas as casas que encontram. Matam até mulheres e crianças!11
E não é para vingar seus mortos, pois eles não sabem chorá-los do nosso modo.
Movem suas guerras só por terem ouvido palavras de afronta, por terras que
cobiçam ou das quais querem arrancar minério e petróleo. Não é assim com os
garimpeiros? Brigam o tempo todo por seu ouro, bebem muita cachaça e, vi-
rando fantasmas, se enfrentam como galinhas ou cães famintos, até se matarem.
Fazem tudo isso por cobiça do ouro e nunca choram seus mortos: abandonam-
-nos embaixo do chão da floresta! Porém, no primeiro tempo, não foi por cau-
sa de terra, de ouro ou de petróleo que Õeõeri fez surgir a valentia guerreira
waith
iri! Não foi por cobiça dessas coisas que os Niyayopa th
ëri ensinaram nos-
sos ancestrais a se flechar! Nós, habitantes da floresta, guerreamos apenas para
nos vingar, por raiva do luto que sentimos quando alguém mata um dos nossos.
Não ficamos nos flechando a torto e a direito, sem boas razões! Choramos
nossos mortos por muito tempo, durante várias luas, pois carregamos sua dor
no fundo de nós e não paramos de querer vingá-los. Por isso nossos ancestrais
apreciavam a bravura guerreira tanto quanto os dos brancos amavam suas mer-
cadorias!
Embora os brancos se achem espertos, seu pensamento fica cravado nas
coisas ruins que querem possuir,12
e é por causa delas que roubam, insultam,
combatem e por fim matam uns aos outros. É também por causa delas que
maltratam tanto todos os que atrapalham sua ganância. É por isso que, no final,
o povo realmente feroz são eles! Quando fazem guerra uns contra os outros,
jogam bombas por toda parte e não hesitam em incendiar a terra e o céu. Eu
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os vi, pela televisão, combatendo com seus aviões por petróleo.13
Diante daque-
les fogaréus, de onde saíam imensas colunas de fumaça preta, pensei, apreen-
sivo, que elas poderiam um dia chegar até nossa floresta e que os xapiri não
conseguiriam dispersá-las. Mais tarde, revi muitas vezes essa mesma guerra no
tempo do sonho. Isso me preocupou muito, porque pensava: “Hou! Esse povo
é mesmo muito agressivo e perigoso! Se nos atacasse desse modo, iria nos re-
duzir a nada, e a fumaça de epidemia de suas bombas14
logo acabaria com os
poucos sobreviventes!”.
Os brancos escondem o corpo de seus mortos debaixo da terra, em lugares
que chamam de cemitério. Eu os vi com meus próprios olhos. Já nossos maio-
res, desde o primeiro tempo, enterravam ou bebiam as cinzas dos ossos de
nossos mortos. Os brancos não fazem guerra por seus cemitérios. Nós, ao con-
trário, só guerreamos pelo valor das cabaças de cinza de nossos defuntos mor-
tos por inimigos.15
Essas são as únicas palavras de guerra verdadeiras para nós.
Somos outra gente. Só nos flechamos quando queremos resgatar o valor do
sangue de um dos nossos; só quando queremos tornar recíproco o estado de
homicida õnokae16
daqueles que o mataram. Isso não acontece o tempo todo e
não atacamos gente de outras casas por nenhuma outra razão. Mas quando os
parentes de um morto sabem onde moram os guerreiros que o flecharam, lan-
çam em seguida um ataque para vingá-lo.17
E quando se trata de feiticeiros oka
que quebraram os ossos de um grande homem, acontece o mesmo. Assim que
visitantes trazem notícias sobre a casa de onde podem ter vindo, um grupo de
guerreiros parte imediatamente em busca de vingança.18
Então choramos o falecido com muita raiva. Seus próximos queimam suas
pontas de flecha enquanto se lamentam com muita dor. Seus ossos também são
queimados e suas cinzas são guardadas, para encher várias cabaças pora axi.
Mas parte dessas cinzas novas é esfregada no chão pelos guerreiros que querem
vingá-lo, enquanto imitam a imagem da onça. Fazem isso para poder enganar
os que o mataram, para poderem pegá-los de surpresa e revidar.19
Depois, co-
bertos de tintura preta,20
eles se juntam no centro da casa com seus arcos e
flechas. Então, agora imitando a imagem do urubu, começam a jogar no chão
pacotes de ossos de caça que tinham presos na boca com um cipó.21
Para afas-
tarem o medo que poderia enfraquecê-los, os xamãs em seguida fazem descer
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para junto deles a imagem dos ancestrais que, no primeiro tempo, fizeram
chegar a bravura guerreira à floresta e, depois, as dos espíritos macaco-prego,
para torná-los vigilantes em combate.22
Chamam também as imagens de guer-
ra wainama e õkaranama, que irão na frente deles durante suas incursões.23
Depois fazem dançar as imagens de comedores de gente que chegarão a seu
lado para devorar seus inimigos, como as do urubu, da onça e do gavião hera-
ma,24
e também as das moscas e dos vermes, e ainda das abelhas xaki, õi e
wakopo, que se alimentam de sangue e carne putrefata.25
Por fim, fazem tam-
bém descer a eles as imagens de seres de morte que os precederão até seus
inimigos, como as dos espíritos funerários yorohiyoma e hixãkari, espíritos de
mau agouro õrihiari e espíritos da fome de carne humana naikiari.26
Depois de
tudo isso, antes de se porem a caminho, os guerreiros treinam flechando cupin-
zeiros ou pacotes de folhas de palmeira hoko si representando inimigos, para
testar sua habilidade.27
É o que faziam nossos antigos antes de partir para um
reide. Enviavam todas essas imagens funestas para a casa da gente que iriam
atacar, para matá-la mais facilmente. Seus xapiri também destruíam as casas
de espíritos dos xamãs inimigos que poderiam se opor a eles e depois, com a
chegada de todas essas imagens de morte, os guerreiros mais valentes dentre
seus adversários ficavam enfraquecidos e não podiam mais combater.
Mais tarde, depois do primeiro ataque lançado na cremação dos ossos do
falecido, seus filhos, sua mulher e seus cunhados choram-no de novo durante
um reahu no qual as cinzas do alto de sua cabaça funerária são enterradas à
beira do fogo de sua viúva.28
Então são convidados homens de outras aldeias,
a quem se pede, num diálogo de convite hiimuu, que se juntem aos guerreiros
da casa que sairão num novo ataque para vingar o defunto. Se não conseguirem
flechar nenhum inimigo nessas primeiras tentativas, tudo recomeça do mesmo
modo durante vários reahu, com as cinzas do meio e depois do fundo da caba-
ça funerária.29
E por fim, quando ela fica vazia, quando a raiva do luto passa,
as incursões guerreiras também cessam.30
É assim que acontece. Quando uma
morte se deve a um rastro de flecha, as cinzas do defunto nunca são sepultadas
enquanto ele não estiver realmente vingado. Mas isso pode demorar um certo
tempo. Muitas vezes, os atacantes não encontram os inimigos que procuram,
porque mudaram de casa ou se refugiaram em acampamentos na floresta. E
mesmo quando conseguem localizá-los, nem sempre conseguem atingir os
guerreiros reputados que querem flechar para aplacar sua vingança. Pode tam-
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bém acontecer de os habitantes da casa atacada estarem atentos e repelirem
seus agressores com saraivadas de flechas assim que os avistam! Assim é. En-
quanto suas mãos não atingem quem procuram, enquanto não tiverem flecha-
do um homem em estado de homicida õnokae, os parentes do defunto partem
em novos ataques depois de cada reahu.31
As pessoas guardam mesmo o rancor32
das cabaças cinerárias dos ossos
de seus mortos. É por isso que querem tanto que seus inimigos sintam o mes-
mo. Os guerreiros valentes são incitados à vingança pelas lágrimas dos órfãos,
pelos lamentos das mulheres, pelo sofrimento de todos os parentes dos faleci-
dos. A dor e o choro do luto duram várias luas, enquanto as cinzas funerárias
não forem postas em esquecimento. Para nós, essas palavras sobre as cabaças
de cinzas pora axi são de fato fortes e de muito valor. Nossos maiores as man-
tinham desde o primeiro tempo. São ainda guardadas pela Gente da Guerra,
que continua vivendo nas terras altas da nossa floresta. Assim, quando um
homem de idade, um grande homem, é flechado por inimigos, ou quando seus
ossos são quebrados por feiticeiros oka, seus parentes logo partem para a guer-
ra movidos pelo rancor de suas cinzas. Seus filhos, irmãos, cunhados e sogros
choram-no com grande tristeza e querem resgatar o valor de seu sangue. Nisso
imitam o que nos ensinou Õeõeri, o menino guerreiro que, no primeiro tempo,
vingou sua mãe, morta por feiticeiros xamath
ari. Nossos ancestrais seguiram
suas pegadas e nossos avós e pais depois deles. Nada disso é de hoje!
No entanto, nossos antigos não lançavam ataques guerreiros todos os dias!
Eu os vi partir em guerra apenas algumas vezes quando era criança. Só iam por
raiva de luto e para vingar seus mortos. Tentavam flechar inimigos depois de
sepultar as cinzas de seus parentes mortos, querendo tornar recíproco o estado
de homicida õnokae. Procuravam flechar os guerreiros que tinham matado seus
parentes e só. Não flechavam qualquer um! Os brancos não podem dizer que
somos maus e ferozes apenas porque queremos vingar nossos mortos! Não
matamos ninguém por mercadorias, por terra ou por petróleo, como eles fa-
zem! Brigamos por seres humanos. Guerreamos pela dor que sentimos por
nossos parentes recém-falecidos.
Nossos antigos podiam se mostrar belicosos, é verdade, mas depois de
algum tempo, quando os guerreiros mais agressivos tinham sido mortos de
ambos os lados, faziam chegar a seus inimigos palavras de paz, por intermédio
de outras casas. Avisavam que não iriam mais atacar e os incitavam a fazer
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amizade. Então estes, cansados dos contínuos ataques, ousavam fazer-lhes uma
visita para tentar se reconciliar. Chamamos isso de fazer rimimuu.33
Apesar da
desconfiança, os ânimos voltavam a se acalmar e as pessoas conseguiam se
entender. Porém, acontecia às vezes, passadas várias luas, de palavras más se-
rem novamente trocadas e de outra pessoa ser flechada.34
Então as incursões
recomeçavam por algum tempo, antes de cessarem outra vez, do mesmo modo.
Assim, uma vez mortos os poucos grandes guerreiros em estado de homicida
õnokae,35
os outros homens, menos briguentos, sempre acabavam querendo
fazer as pazes. Então, eram as mulheres mais velhas que tomavam a dianteira
para proteger as pessoas de sua casa, pois as mulheres não levam flechas. Elas
chegavam perto da casa dos inimigos e gritavam: “Não tenham medo, não
fujam! Aë! Somos mulheres, não nos flechem! Aë! Viemos como amigas! Aë!”.
Desse modo, elas restabeleciam o contato e os homens podiam vir algum tem-
po depois para entabular um diálogo de convite hiimuu com seus antigos ad-
versários.36
Então pronunciavam palavras de amizade e reafirmavam o fim das
hostilidades: “Awei! Vamos parar de atacar! Vamos parar de nos maltratar!
Sejamos amigos! Estamos cansados de chorar os nossos! Não queremos mais
guerrear sem trégua! Chega! Dá dó não podermos nem abrir nossas roças, nem
caçar, nem pegar água sem medo de sermos flechados! Queremos que nossos
filhos parem de chorar de fome e de sede!”.
Então o medo acabava de ambos os lados e as pessoas começavam a pen-
sar: “Awei! É uma boa coisa! Vou poder conseguir bens deles e vamos ficar
amigos!”. E se punham a trocar redes, panelas, facões e machados, facas, mi-
çangas, algodão, tabaco e cães. Após esse primeiro contato, eles continuavam
se visitando e dando objetos uns aos outros com generosidade. Isso durava
algum tempo, e aí acabavam se casando entre eles e não deixavam mais de ser
amigos. Era isso que faziam nossos maiores quando estavam fartos de se fle-
char, porque se nunca tivessem posto um fim a suas vinganças, teriam conti-
nuado a guerrear sem trégua e teriam todos morrido! Há muito tempo, a gen-
te do pai de minha esposa fez amizade com meus avós desse modo. Naquela
época, moravam no rio Catrimani e de lá costumavam lançar incursões guer-
reiras contra nossas casas do alto rio Toototobi.37
Isso durou bastante tempo,
mas, por fim, retomaram contatos pacíficos e nós, que crescemos depois deles,
continuamos amigos até hoje. Foi por isso que eu pude vir a me casar com uma
de suas filhas!
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Antigamente, nossos guerreiros se flechavam desse modo, é verdade. In-
clusive lançaram muitos reides naqueles tempos em que eu não tinha nascido.
Porém, era uma época em que os maiores dos brancos também faziam guerras,
e muito grandes. Nossos antigos apenas se maltratavam com plantas de feiti-
çaria hw
ëri e só combatiam com flechas de suas roças e pontas de curare dos
cipós da floresta. Não atacavam queimando multidões de pessoas com foguetes
e bombas! Com certeza, não somos nós o povo feroz! Nossos antepassados e,
ainda hoje, as gentes nossas das terras altas nunca fariam incursões guerreiras
para matar muitas pessoas de uma vez.38
Quando nossos guerreiros lançam
vários ataques seguidos para vingar um morto, é porque costuma demorar
bastante tempo até que consigam flechar seus inimigos, que estão sempre aler-
tas! No final, a duras penas, chegam a matar um ou dois guerreiros renomados
de uma casa, e depois um de outro grupo, que veio em reforço. É só. Uma vez
mortos esses homens que estavam em estado de homicida õnokae e sepultadas
as cinzas de suas vítimas, acaba tudo. Isso basta. A raiva passa, os pensamentos
se acalmam. Como eu disse, são de preferência os homens mais agressivos e
valentes que são visados. Contudo, tomados pela raiva, os guerreiros que cer-
cam uma casa podem às vezes flechar outros homens, inocentes da morte que
querem vingar.39
Isso pode acontecer. Dito isso, ao contrário dos brancos, ja-
mais irão matar mulheres e crianças, como fizeram os garimpeiros que massa-
craram os habitantes de Hw
axima u.40
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Antigamente, há muito tempo mesmo, meus avós viviam nas terras altas,
perto das nascentes do Orinoco. Eles ainda não conheciam as epidemias xawa-
ra; eram muito numerosos e suas casas eram próximas umas das outras. Na-
quela época, guerreavam sobretudo contra os Hayowa th
ëri, que eram Xama-
th
ari cujas casas se encontravam a jusante das suas, em direção ao poente.41
Porém, cansados de serem atacados sem trégua, meus antigos acabaram se
afastando e se instalando no alto rio Toototobi, no limite da terra que ocupa-
vam até então.42
Aí as incursões dos Xamath
ari cessaram. Porém, mais tarde,
pouco antes de eu nascer, os reides recomeçaram, agora em direção ao nascen-
te, primeiro contra a gente de Amikoapë, que vivia nas nascentes do rio Muca-
jaí, e, depois, contra a gente do alto rio Catrimani, que os nossos chamavam de
Mai koxi.43
Foi isso que, criança, eu ouvia meu padrasto, o segundo marido de
minha mãe, contar em seus discursos hereamuu. No entanto, se esses antigos
se flecharam assim, não era de modo algum para tentar se apoderar de regiões
da floresta que cobiçavam! Seus reides sempre se deviam, ao contrário, à raiva
e à dor causadas pelas cinzas de seus mortos. Os brancos podem dizer que isso
é “fazer guerra” como eles fazem, mas nós só chamamos essas incursões de
niyayu, flechar-se uns aos outros.
Por fim, meus antigos chegaram a Marakana, um lugar nas terras baixas
do rio Toototobi, onde vivi quando era pequeno. Naquela época, ainda guer-
reavam bastante, sobretudo contra os Mai koxi. Mas às vezes também lançavam
ataques contra os habitantes de Hw
axi, próximos das nascentes do rio Parima,
ou contra a gente de Ariwaa, um grupo xamath
ari que vivia no alto Demini,44
ou então eram atacados por eles. Assim era, naquele tempo! Os xamãs faziam
descer e dançar as imagens da Gente da Guerra constantemente. Assim, os
homens de nossa casa ficavam valentes e não tinham medo de ir flechar os
guerreiros ou feiticeiros distantes que tinham matado seus próximos. No en-
tanto, mais tarde, quando cresci, meus antigos pararam de guerrear.45
Encon-
travam-se então muito longe das terras altas onde vive o fantasma de Õeõeri,
que lhes tinha ensinado o desejo de vingança. Já os que ainda vivem perto das
nascentes dos rios, nas colinas, continuam se flechando até hoje, pois foi lá que
nasceu a valentia guerreira waith
iri. Assim é. Meu padrasto me contou muitas
vezes como, quando era novo, tinha ido à guerra para vingar o pai, morto por
guerreiros xamath
ari. Foi assim que ele se tornou um homem valente, passan-
do pela reclusão dos guerreiros homicidas que chamamos de õnokaemuu. Mais
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tarde, ele também vingou meu pai, que era seu amigo, e a mãe de minha mãe,
cujos ossos foram quebrados por feiticeiros oka vindos de Amikoapë, quando
andava sozinha na floresta. Depois, vingou ainda vários de seus cunhados e
sogros, mortos em ataques lançados pelos Mai koxi. Lembro-me bem de tê-lo
visto, quando era criança, se pôr a caminho para flechar inimigos. Era muito
valente mesmo! Mas tudo isso aconteceu há muito tempo. Agora, ele é um
homem idoso, parou de guerrear há muito tempo. Vingou-nos suficientemen-
te no passado. Ele me disse que já bastava; que tinha resgatado o valor de todas
aquelas mortes e que estavam pagas. Está bem assim.
Não era de modo algum por causa das mulheres que nossos antigos guer-
reavam, como os brancos às vezes dizem!46
Eles só partiam para atacar, como
contei, quando todos estavam tomados pela raiva do luto e queriam flechar os
que tinham matado o parente que choravam. Às vezes chamavam guerreiros de
casas vizinhas para acompanhá-los em suas incursões. Então matavam alguns
inimigos, e seus parentes, enlutados por sua vez, também procuravam se vingar.
De modo que esses ataques mútuos duravam um certo tempo, até que, de ambos
os lados, as cinzas dos ossos dos defuntos tivessem todas sido postas em esque-
cimento. Era o que acontecia. Tratava-se de vingar os mortos, não de brigar por
mulheres. Vi isso muitas vezes durante a minha infância. Meu padrasto, que era,
como disse, um guerreiro muito temido, nunca foi à guerra por causa de histó-
rias de mulheres! Liderou muitos ataques contra inimigos distantes, mas foi
sempre por causa da raiva do luto, para vingar os mortos de nossa casa. Ele
jamais teria deixado vivos guerreiros em estado de homicida õnokae que tives-
sem matado seus próximos! Não parava de resgatar o sangue de nossos mortos,
devorando os inimigos do mesmo modo que eles tinham comido os de nossa
casa. Esse era, desde o primeiro tempo, o modo de pensar que a Gente da Guer-
ra tinha ensinado aos nossos maiores.
Quanto às brigas por causa de mulheres, é diferente. Quando um homem
tenta pegar a mulher de um de seus anfitriões durante uma visita ou uma festa
reahu, os adversários — se o marido se dispuser a combater — se revezam
para bater um no outro na cabeça, com bordunas compridas que chamamos
anomai.47
Não se vai à guerra por causa disso! Causa muitos sangramentos,
mas o crânio é duro e a pessoa continua viva.48
É assim que acabamos com a
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raiva provocada pelo ciúme, porque a dor é rápida para acalmar os ânimos! É
isso que de fato acontece entre nós quando alguém deseja a mulher de outro!
Os homens fingem desprezo, declarando que o sexo das mulheres cheira mal,
mas isso não os impede de se enfrentarem furiosamente para conservar a es-
posa! Seu pensamento fica cravado nela e não hesitam em brigar pela mulher
com ardor. Os brancos também dizem que somos maus e agressivos porque
brigamos para guardar nossas mulheres. No entanto, eles fazem o mesmo em
suas cidades! Vi isso diversas vezes! Quando um marido percebe que a mulher
faz amizade com outro homem, fica enraivecido. Furioso, xinga o rival e logo
quer brigar. E também maltrata a mulher, chega às vezes a matá-la. Por que
falam tão mal de nós, afinal?
Quando eu era criança, nossos antigos não costumavam brigar por causa
de mulheres. Isso ocorria, é claro, mas demorava muito antes de recomeçar.
Lembro-me de que certa vez aconteceu isso por causa de uma de minhas irmãs
adolescentes, em Marakana. Ela tinha sido dada pelo pai a um genro que tinha
trabalhado muito para consegui-la, mas ela preferia um rapaz de uma casa
vizinha, que achava bonito e por quem estava apaixonada. Ela o queria de
verdade e acabou fugindo com ele. Isso enfureceu o homem a quem ela tinha
sido prometida. Então, os próximos da moça seguiram a raiva de seu futuro
marido e brigaram com os de seu amante. Bateram forte na cabeça uns dos
outros, mas nem por isso se mataram! Bastou causarem essa dor uns aos outros
para acalmar sua ira. Não queriam partir para as flechas, pois faziam parte da
mesma gente e nossos antigos só lançavam ataques guerreiros contra casas
distantes, habitadas por outras gentes.49
Era isso o que acontecia; mas as pessoas
também brigavam com exaltação e se batiam na cabeça com borduna por ou-
tros motivos: por bananas ou mercadorias roubadas, por palmeiras rasa si cor-
tadas em suas roças, por acampamentos na floresta derrubados ou por provi-
sões de beiju jogadas no mato pelos convidados na volta de uma festa reahu.
Nesses casos, do mesmo modo, bastava que os adversários cobrissem de sangue
o couro cabeludo um do outro e sentissem muita dor para a raiva passar. Então
diziam, atordoados e exaustos: “Está bem, chega!”.
É verdade que, quando as pessoas brigam por ciúme de uma mulher, po-
de acontecer de o marido, se for muito agressivo, acabar atirando uma flecha
no rival ou até na própria esposa. Nesse caso, seus próximos ficam enfurecidos
e querem flechá-lo do mesmo modo. Então, se durante essa troca de flechas
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alguém vier a morrer, os adversários entram logo em guerra por causa do valor
de raiva da flecha que matou.50
Furiosos contra aquele que se tornou um ho-
micida õnokae, os parentes da vítima em seguida decidem matá-lo por vingan-
ça. Mas esse tipo de coisa acontece poucas vezes. É preciso que o marido ciu-
mento seja muito agressivo e fique mesmo enfurecido. Foi o que sempre me
disseram. Em nossa casa, isso nunca aconteceu, ou pelo menos nunca ouvi os
mais velhos contarem tais coisas. Para nós, se uma moça casada fugir com
outro homem, as palavras verdadeiras são as do combate de borduna entre
gente das casas do marido e do amante. Quando é assim, como ninguém mor-
re, a raiva dos adversários passa. Eles param de se maltratar e os ânimos final-
mente se acalmam. Ninguém pensa mesmo em guerrear só por isso!
Às vezes brigamos de outro modo, só para pôr fim a nossa irritação contra
gente de casas amigas. Isso acontece quando falam mal de nós e essas más
palavras chegam até nossos ouvidos através de algum visitante de passagem,
ou de algum dos nossos que se casou ou está trabalhando por lá para ter uma
esposa. Então convidamos os maledicentes para uma festa reahu e, assim que
entabulamos com eles um diálogo yãimuu, pedimos que confirmem o boato
que ouvimos: “É verdade que vocês nos chamaram de medrosos?”. Se um deles
tiver a coragem de responder “Awei! Foi isso mesmo que eu disse! São palavras
de verdade! Vocês são covardes e têm medo de nos enfrentar!”, ficamos logo
tomados de raiva. Aí começamos a maltratá-los, agarrando e torcendo seus
pescoços enquanto prosseguimos nosso diálogo cantado.51
Depois, enfurecido
pela troca de provocações, um dos nossos dirá a eles: “Asi! Quero pôr seu pei-
to à prova!”. Então, aos pares, anfitriões e convidados vão se enfrentar, se re-
vezando para dar socos no torso, ou tapas fortes no flanco um do outro.52
Além
disso, se estiverem com muita raiva mesmo, os adversários podem colocar uma
pedra dentro do punho cerrado ou então propõem bater no peito um do outro
com a parte chata de seus facões, para causar bastante sofrimento. É assim que
acontece, é verdade. Porém, nesse caso também, ninguém morre! Brigamos
desse jeito só para que as pessoas de outras casas parem de espalhar mentiras
a nosso respeito. É nosso costume, desde sempre. Quando a raiva se finca em
nosso peito, as imagens da onça e dos quatis dançam em nós e nos tornam
agressivos e destemidos.53
Exaltados, ficamos logo prontos para pegar nossas
bordunas ou bater no peito de nossos adversários. Maltratamos assim uns aos
outros porque só a dor pode aplacar nossa ira. Era esse o modo de nossos an-
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cestrais e continua sendo o nosso, porque, se ficarmos apenas repetindo pala-
vras ruins com rancor, a raiva nunca desaparece de verdade de dentro de nós.
Se nossos maiores tivessem mesmo matado uns aos outros como alegam
alguns brancos, seus ataques guerreiros nunca teriam acabado desde o primei-
ro tempo e todos teriam morrido! Não é o caso. Nossos pais e avós eram muito
numerosos no passado. Não foram suas próprias flechas que os mataram quase
todos, foram as fumaças de epidemia dos brancos! Desde que esses forasteiros
chegaram à floresta, paramos de nos flechar em quase todos os lugares.54
Todos
os grandes guerreiros de antigamente faleceram, devorados um atrás do outro
pelas epidemias xawara. É claro que ainda existem homens valentes entre nós,
mas eles perderam a vontade de guerrear. É o que acontece conosco, em nossa
casa de Watoriki. As palavras da guerra não desapareceram de nossa mente, mas,
hoje, não queremos mais nos maltratar uns aos outros desse modo.55
Preferimos
conversar para tentar conter nossa raiva. Ninguém mais tenta nos flechar e nós
fazemos o mesmo. Assim, quando, às vezes, suspeitamos que um de nós pode
ter sido atacado por feiticeiros oka, ficamos apenas pensando: “Que inimigos
distantes poderiam ter vindo até aqui para soprar suas feitiçarias sobre um de
nós?”. Não passa disso, não atacamos ninguém. Aqueles que, como eu, cresceram
após a morte de nossos antigos, não querem mais mortes por flecha entre nós.
Os brancos nos cercaram e, desde então, não param de nos destruir com suas
doenças e suas armas. Por isso penso que não devemos mais fazer sofrer a nós
mesmos como faziam nossos maiores, quando estavam sozinhos na floresta.
Eu nunca participei de um reide guerreiro. É verdade. Não sei o que é
flechar um ser humano, nem como é ficar deitado na rede sem comer, como
fazem os guerreiros õnokae depois de terem matado. Prefiro que não vivamos
mais assim. Nossos maiores possuíam as palavras sobre a guerra e a reclusão
dos matadores õnokaemuu desde sempre. Tinham o costume de se vingar de
seus inimigos muito antes de os brancos se aproximarem de nós. Mas hoje
nossos verdadeiros inimigos são os garimpeiros, os fazendeiros e todos os que
querem se apoderar de nossa terra. É contra eles que devemos dirigir nossa
raiva.56
É o que eu acho. No presente, é mais sensato pensar em nossos rios
cheios de lama e em nossa floresta incendiada do que em nos flechar uns aos
outros! Devemos pensar: “Awei! A fumaça de epidemia xawara é nosso verda-
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deiro inimigo! É ela que nos faz virar fantasmas e devora casas inteiras da
nossa gente! Que nossos desejos de vingança se fixem nela! Vamos esquecer as
coisas da guerra!”. Alguns de nós, nas terras altas, ainda gostam de se flechar,
é verdade. Mas eu, que viajo para falar duro aos brancos para defender nossa
terra e nossa vida, não quero mais isso. Digo às pessoas de todas as casas que
visito em nossa floresta: “Se estiverem com raiva, briguem com palavras! Deem
socos no peito uns dos outros! Façam sangrar o crânio de seus desafetos com
bordunas! Mas não pensem mais em se flechar e se matar! Só a epidemia xa-
wara dos brancos nos odeia a ponto de querer nos destruir. Vamos parar de
guerrear entre nós e fixar nosso pensamento neles e na sua hostilidade contra
nós!”. São estas as minhas palavras.
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22. As flores do sonho
Espelhos e caminhos dos espíritos.
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Eu não vi as coisas de que eu falo no papel dos livros nem em peles
de imagens. Meu papel está dentro de mim e me foi transmitido
pelas palavras dos meus maiores.
Davi Kopenawa
Survival International Public Meeting, 5 dez. 1989,
em Londres (arquivos Survival International)
A força do pó de yãkoana vem das árvores da floresta. Quando os olhos
dos xamãs morrem sob seu efeito, descem para eles os espíritos da mata, que
chamamos urihinari,1
os das águas, que chamamos mãu unari, bem como os
dos ancestrais animais yarori. Por isso, apenas quem toma yãkoana pode de
fato conhecer a floresta. Nossos antigos faziam dançar todos esses espíritos
desde o primeiro tempo. Eles nada sabiam do costume dos brancos de desenhar
suas palavras.2
Estes, por sua vez, ignoram tudo das coisas da floresta, pois não
são capazes de realmente vê-las.3
Só sabem dela as linhas de palavras que vêm
de sua própria mente. Por isso só têm pensamentos errados a seu respeito. Já
os xamãs não desenham nenhum dizer sobre ela, nem rabiscam traçados da
terra.4
Com sabedoria, não as tratam tão mal quanto os brancos. Bebem yãkoa­
na para poder contemplar suas imagens, em vez de reduzi-las a alinhamentos
de traços tortuosos. Seu pensamento guarda as palavras do que viram sem ter
de escrevê-las. Os brancos, ao contrário, não param de fixar seu olhar sobre os
desenhos de suas falas colados em peles de papel e de fazê-los circular entre
eles. Desse modo, estudam apenas seu próprio pensamento e, assim, só conhe-
cem o que já está dentro deles mesmos. Mas suas peles de papel não falam nem
pensam. Só ficam ali, inertes, com seus desenhos negros e suas mentiras. Pre-
firo de longe as nossas palavras! São elas que quero ouvir e continuar seguindo.
Por manterem a mente cravada em seus próprios rastros, os brancos ignoram
os dizeres distantes de outras gentes e lugares. Se tentassem escutar de vez em
quando as palavras dos xapiri, seu pensamento talvez fosse menos tacanho e
obscuro. Não se empenhariam tanto em destruir a floresta enquanto fingem
querer defendê-la com leis que desenham sobre peles de árvores derrubadas!
O que os brancos chamam de papel, para nós é papeo siki, pele de papel, ou
utupa siki, pele de imagens, pois é tudo feito da pele das árvores.5
Ocorre o mesmo
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com o que chamam de dinheiro. Também não passa de peles de árvores que eles
escondem sob uma palavra de mentira só para enganar uns aos outros! Disseram-
-me que os brancos fabricam seu papel triturando madeira. Com certeza não foi
Omama quem os ensinou a fazer isso! Seus ancestrais, cansados de desenhar em
peles de animais, certo dia, devem ter decidido por conta própria matar as árvo-
res para fazer papel. Desde então, têm de triturar grandes quantidades delas para
fabricá-lo. Não se preocupam nem um pouco com o fato de as árvores proverem
o alimento dos espíritos das abelhas e de todos os animais com asas! Por isso
também chamo seu papel de “pele de floresta”, urihi siki.
O líquido que os brancos chamam de tinta e que utilizam para traçar seus
desenhos de palavras, acho que deve ser outra coisa que, há muito tempo, seus
antigos começaram a tirar da floresta. Vermelho ou preto, vem das tinturas de
urucum dos espíritos, parecidas com as que usamos em nossa pele, mas que são
outras, e muito mais bonitas. Foi Omama que as introduziu dentro das árvores,
no primeiro tempo.6
Primeiro ensinou seu uso aos xapiri que tinha acabado de
criar, para poderem se pintar e se perfumar para suas danças de apresentação.
Assim, fazem parte dos bens preciosos dos xapiri. Em seguida, ensinou nossos
antepassados a enfeitar seus corpos nas festas reahu, para imitarem a beleza dos
ancestrais animais e não mais exporem a feiura de uma pele cinzenta.7
Desde
aquele tempo, esses desenhos de urucum são os que preferimos.
Mais tarde, Omama também distribuiu a beleza dessas tinturas pelas ár-
vores da terra dos antigos brancos. Eles, porém, não demoraram a estragá-las,
desviando seu uso. Foi assim que começaram a cozinhá-las em fábricas, para
pintar peles de imagens e desenhar suas palavras em peles de papel. Nós somos
outra gente. Só desenhamos em nosso corpo, como nos ensinaram Omama e
nossos antepassados.8
Foi Yoasi, por inveja do irmão, que desajeitou essas an-
tigas palavras antes de colocá-las na mente dos brancos. Então eles pararam de
pintar a própria pele e passaram a só usar as tinturas na pele de seu papel. Acho
que Yoasi é quem os ancestrais dos brancos nomearam Teosi.9
Sim, é verdade.
Os brancos são mesmo gente de Yoasi! Nós, ao contrário, somos os filhos de
Omama e por isso seguimos a retidão de suas palavras. Assim, nas festas reahu
e quando fazemos dançar nossos espíritos, enfeitamos nossos corpos com pin-
turas de urucum vermelho e preto, cobrimos os cabelos com penugem branca,
prendemos caudais de arara em nossas braçadeiras e penas de papagaio no
lóbulo das orelhas.
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Os dizeres de nossos ancestrais nunca foram desenhados. São muito an-
tigos, mas continuam sempre presentes em nosso pensamento, até hoje. Con-
tinuamos a revelá-los a nossos filhos, que, depois da nossa morte, farão o mes-
mo com os seus. As crianças não conhecem os xapiri. No entanto, prestam
atenção nos cantos dos xamãs que os fazem dançar em nossas casas. É desse
modo que, aos poucos, as palavras dos maiores vão fazendo seu caminho nos
pequenos. Depois, quando ficam adultos, tornam-se por sua vez capazes de
dá-las a ouvir. É assim que transmitimos nossa história,10
sem desenhar nossas
palavras. Elas vivem no fundo de nós. Não deixamos que desapareçam. Desse
modo, quando um rapaz quer por sua vez virar espírito, pede aos xamãs reno-
mados de sua casa para lhe darem seus xapiri. Estes então lhe transmitem an-
tigas palavras, que se instalam nele e vão se renovando e aumentando com o
passar do tempo.
Os brancos, por outro lado, não param de querer desenhar suas palavras.
Essa também não é coisa que lhes foi ensinada por Omama! Deve ser porque
suas mentes são mesmo muito esquecidas! Seus ancestrais devem ter criado
esses desenhos para poder seguir seus pensamentos. Talvez tenham pensado,
outrora: “Vamos desenhar o que dizemos, e assim talvez nossas palavras não
fujam mais para longe de nós”. É verdade. Suas palavras não parecem se firmar
por muito tempo em suas mentes. Se escutarem muitas delas sem marcar seu
traçado, elas logo desaparecem de seu pensamento. Quando guardam uns
desenhos delas, ao contrário, no dia seguinte, depois de as terem esquecido,
podem lembrar de repente: “Oae! É isso! As coisas são mesmo como eu as
pintei nessa pele de papel!”. É o costume deles. Fazem isso o tempo todo; se-
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não, esqueceriam em seguida tudo o que dizem! Eles gostam muito das peles
de imagens, como seus antigos antes deles, porque são outra gente. Deve ser
algo bom para o pensamento deles. Guardam suas velhas palavras desenhan-
do-as e dão a elas o nome de história. Depois, ficam olhando por muito tem-
po para elas e acabam conseguindo fixá-las no pensamento. Então dizem a si
mesmos: “Haixopë! Esse é o desenho das palavras de nossos maiores e o que
eles nos ensinaram! Devemos seguir suas pegadas e imitá-los!”. É assim que
os jovens brancos aprendem a pensar com as palavras que lhes deram seus
pais. Assim acham que, como eles, serão capazes de fabricar máquinas e mo-
tores, ou que serão professores, enfermeiros ou pilotos de avião. É assim que
eles começam a estudar.
Nós somos habitantes da floresta. Nosso estudo é outro. Aprendemos as
coisas bebendo o pó de yãkoana com nossos xamãs mais antigos. Nos fazem
virar espírito e levam nossa imagem muito longe, para combater os espíritos
maléficos ou para consertar o peito do céu. É assim que os antigos xamãs nos
fazem conhecer os xapiri, abrem seus caminhos até nós e os mandam construir
nossas casas de espíritos. Nos ensinam também a palavra de seus cantos e a fazem
crescer em nosso pensamento.11
Sem o apoio desses grandes xamãs, nós nos
perderíamos no vazio ou despencaríamos na fogueira de mõruxi wakë.12
É assim
que aprendemos a pensar direito com os xapiri. É esse o nosso modo de estudar
e, assim, não precisamos de peles de papel. O poder da yãkoana nos basta! É ela
que faz morrer nossos olhos e abre nosso pensamento. É verdade. Com olhos de
vivente, não é possível ver realmente as coisas. As palavras que contam como os
humanos vieram a existir pertencem a Omama. São muito numerosas. Os gran-
des homens as revelam a nós em seus discursos, falando dos lugares onde seus
pais e avós viveram no passado. Quando se tornam espíritos, os xamãs também
as dão para nós em seus cantos. Na verdade, nunca paramos de escutá-las! É
desse modo que elas se fixam firmemente dentro de nós e nunca se perdem. Os
jovens que as ouviram muitas vezes desde pequenos acabam por guardá-las.
Quando se tornam adultos, fazem com que se multipliquem neles e as transmi-
tem por sua vez aos mais novos; e isso se repete sempre, sem fim.
Apesar disso, os brancos acham que não sabemos nada, apenas porque
não temos traços para desenhar nossas palavras em linhas.13
Outra grande
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mentira! Nós só ficaríamos ignorantes mesmo se não tivéssemos mais xamãs.
Não é porque nossos maiores não tinham escolas que eles não estudavam.
Somos outra gente. É com a yãkoana e com os espíritos da floresta que apren-
demos. Morremos bebendo o pó da árvore yãkoana hi, para que os xapiri levem
nossa imagem para longe. Assim podemos ver terras muito distantes, subir
para o peito do céu ou descer ao mundo subterrâneo. Trazemos palavras des-
conhecidas desses lugares, para que os habitantes de nossa casa possam ouvi-
-las. Esse é nosso modo de ficar sabedor, desde sempre. Não é possível desenhar
as palavras dos espíritos para ensiná-las, pois são inumeráveis e não têm fim.
Não daria em nada querer escrevê-las todas. Quando os brancos estudam,
cravam seu olhar em velhos desenhos de palavras. Depois relatam seu con-
teúdo uns aos outros. Não veem nem ouvem eles mesmos as imagens dos seres
do primeiro tempo, por isso não podem conhecê-las de fato. Nós, ao contrário,
sem caneta nem peles de papel, viramos fantasmas com a yãkoana para ir
muito longe, contemplar a imagem dos seres no tempo do sonho. Então, os
xapiri nos ensinam suas palavras e é desse modo que nosso pensamento pode
se expandir em todas as direções. Sem nos juntarmos com nossos antigos pa-
ra beber yãkoana e sem fazermos descer os espíritos da floresta, não podería-
mos aprender nada.
Com o pó que sopram em nossas narinas, nossos xamãs mais velhos nos
dão o sopro de vida de seus espíritos e este se apodera de nós.14
É assim que
podemos acompanhá-los quando eles mesmos se tornam xapiri e nos fazem
conhecer muitos lugares desconhecidos. Aí, felizes por nos encontrarem, os
outros espíritos se aproximam com alegria para construir suas casas junto de
nós. Seus cantos penetram em nós e vão se tornando cada vez mais numero-
sos. Mesmo que, às vezes, os espíritos sabiá yõrixiamari e japim ayokorari
devam escondê-los nas alturas do céu para protegê-los da temível inveja dos
xamãs inimigos. Sem a palavra dos xapiri, não teríamos nenhum conheci-
mento e não poderíamos dizer coisa alguma. Poderíamos até fingir imitá-los,
sem nunca os termos visto, mas isso não daria em nada. Um jovem xamã não
pode evocar as terras distantes dos espíritos se sua imagem já não tiver sido
levada até elas pelos xapiri de seus antigos. Quando isso ocorre de verdade,
ao escutarem seus cantos, as pessoas comuns dirão: “Essas são palavras ver-
dadeiras! Ele viu aquilo de que fala! As palavras de seus cantos vêm de muito
longe! São mesmo dizeres outros! Como gostaríamos de conhecer esses luga-
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res de onde vêm os xapiri, como ele!”. Os mais velhos que o iniciaram tam-
bém irão escutá-lo, deitados em suas redes, e dirão satisfeitos: “Awei! Essas
são palavras claras e belas! Agora você conhece de fato as coisas!”. E quando
o jovem xamã escutar essas palavras, ficará feliz também! Porém, se tiver
bebido yãkoana à toa, só para mentir e enganar seus ouvintes, só conseguirá
pronunciar palavras feias e confusas. Nesse caso, os mais velhos, muito des-
gostosos, se queixarão dele com raiva: “Ma! Sua língua ainda é língua de
fantasma e seu pensamento é só mentira! Ele não conhece nenhuma palavra
verdadeira e não é capaz de falar das terras distantes de onde descem os espí-
ritos. Ele não viu nada!”.
Os xapiri vêm de muito longe e seu número não para de aumentar enquan-
to vêm vindo em nossa direção. Seus cantos nos ensinam as palavras dos lugares
desconhecidos de onde vêm. Se quisermos conseguir essas palavras de sabedo-
ria, temos de responder aos espíritos assim que ouvimos seus cantos se aproxi-
mando. É desse modo que eles nos tornam inteligentes. Estudando sob a orien-
tação de nossos xamãs mais velhos, não temos a menor necessidade de olhar
para peles de papel! É dentro de nossa cabeça, em nosso pensamento,15
que
essas palavras de espírito se ligam uma à outra e se estendem sem parar, até
muito longe. As pessoas comuns não são assim. Elas apenas vivem, dormem e
comem; e só. Preparam as penas de suas flechas e vão caçar. Plantam brotos de
bananeira em suas roças e nada mais. Nunca pensam nas palavras dos xapiri.
Temem a yãkoana e acham que, se viessem a inalá-la, morreriam. Seu pensa-
mento é fechado e curto. O mesmo acontece com os brancos que não estudam.
Os brancos não se tornam xamãs. Sua imagem de vida nõreme é cheia de
vertigem. Os perfumes que passam e o álcool que bebem tornam seu peito
demasiado odorante e quente. É por isso que ele fica vazio.16
Eles não têm nem
casa nem cantos de espíritos. Nenhum adorno de penas ou miçangas perten-
cente aos xapiri foi colocado em suas imagens por seus antigos. Quando dor-
mem, só veem no sonho o que os cerca durante o dia. Eles não sabem sonhar
de verdade, pois os espíritos não levam sua imagem durante o sono. Nós, xamãs,
ao contrário, somos capazes de sonhar muito longe. As cordas de nossas redes
são como antenas por onde o sonho dos xapiri desce até nós diretamente. Sem
elas, ele deslizaria para longe, e não poderia entrar em nós. Por isso nosso sonho
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é rápido, como imagens de televisão vindas de terras distantes. Nós sonhamos
desse jeito desde sempre, porque somos caçadores que cresceram na floresta.
Omama pôs o sonho dentro de nós quando nos criou. Somos seus filhos, e por
isso nossos sonhos são tão distantes e inesgotáveis.
Os brancos dormem deitados perto do chão, em camas, nas quais se agi-
tam com desconforto. Seu sono é ruim e seu sonho tarda a vir. E quando afinal
chega, nunca vai longe e acaba muito depressa. Não há dúvida de que eles têm
muitas antenas e rádios em suas cidades, mas estes servem apenas para escutar
a si mesmos. Seu saber não vai além das palavras que dirigem uns aos outros
em todos os lugares onde vivem. As palavras dos xamãs são diferentes. Elas
vêm de muito longe e falam de coisas desconhecidas pelas pessoas comuns. Os
brancos, que não bebem yãkoana e não fazem dançar os espíritos, as ignoram.
Não são capazes de ver Hutukarari, o espírito do céu, nem Xiwãripo, o do caos.
Tampouco veem as imagens dos ancestrais animais yarori, nem as dos espíritos
da floresta, urihinari. Omama não lhes ensinou nada disso. Seu pensamento
fica esfumaçado porque eles dormem amontoados uns em cima dos outros em
seus prédios, no meio dos motores e das máquinas.
Nós somos outros. Quando nossos olhos, durante o dia, morrem com o
pó de yãkoana, à noite dormimos em estado de fantasma. Assim que adorme-
cemos, os xapiri começam a descer em nossa direção. Não é preciso beber
yãkoana de novo. Seus cantos misturados ressoam de repente na noite, como
os gritos estridentes dos bandos de papagaios nas árvores. E logo percebemos,
na escuridão, seus inúmeros caminhos luminosos enredados se aproximando,
cintilantes como o brilho da lua. Então começamos a responder a seus chama-
dos e, assim, seu valor de sonho chega a nós.17
Nosso corpo permanece deitado
na rede, mas nossa imagem e nosso sopro de vida voam com eles. A floresta se
afasta rapidamente. Logo não vemos mais suas árvores e nos sentimos flu-
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tuando sobre um enorme vazio, como num avião. Voamos em sonho, para
muito longe de nossa casa e de nossa terra, pelos caminhos de luz dos xapiri.
De lá pode-se ver todas as coisas do céu, da floresta e das águas que os nossos
antigos viram antes de nós. O dia dos espíritos é nossa noite, é por isso que eles
se apossam de nós durante o sono, sem sabermos. É esse, como eu disse, nosso
modo de estudar. Nós, xamãs, possuímos dentro de nós o valor de sonho dos
espíritos. São eles que nos permitem sonhar tão longe.18
Por isso suas imagens
não param de dançar perto de nós quando dormimos. Bebendo yãkoana, não
cochilamos à toa. Sempre estamos prontos para sonhar. Tornados fantasmas,
percorremos sem trégua terras distantes, fazendo amizade com os xapiri de
seus habitantes. É assim que os xamãs sonham!
Os homens comuns são diferentes. Seu pensamento costuma ficar crava-
do nas mulheres, e de tanto inalar o perfume de seus adornos de penas puu
hana o peito deles acaba cheirando a pênis! Então, os espíritos, com raiva,
nunca olham para eles. Por isso sonham pouco, apenas com coisas muito pró-
ximas e, mesmo assim, esquecem-nas assim que acordam. Veem apenas suas
caçadas e pescarias na floresta e seu trabalho nas roças. Sonham com onças,
cobras ou seres maléficos në wãri. Reveem suas danças de apresentação ou seus
combates durante as festas reahu. Pensam nos reides guerreiros de que parti-
ciparam ou em seus feitiços amorosos.19
Sonham com as mulheres que desejam,
com pessoas de outras aldeias de quem são amigos ou então com os mortos de
quem têm saudade. Dormem em estado de fantasma e sua imagem sai deles,
como a dos xamãs. Mas nunca se afasta muito. Entre eles, apenas os bons ca-
çadores podem sonhar um pouco mais longe.
Os brancos, quando dormem, só devem ver suas esposas, seus filhos e
suas mercadorias. Devem pensar com preocupação em seu trabalho e em suas
viagens. Com certeza não podem ver a floresta como nós a vemos! Nós, xamãs,
somos diferentes. Não nos contentamos em dormir. Durante o nosso sono, os
xapiri estão sempre olhando para nós e querendo falar conosco. Por isso nós
também os vemos e podemos sonhar com eles. Eles nos chamam: “Pai, está
nos escutando? Seus ouvidos estão tampados? Responda!”. Aí começamos a
sonhar e eles chegam até nós envoltos em sua luz intensa. Sem eles, jamais
poderíamos sonhar desse modo! Muitas vezes nos acordam para nos alertar:
“Pai! Um desconhecido se aproxima! Será que é um ser maléfico?”. Respon-
demos: “O que está acontecendo? Haixopë! É verdade! O ser da seca Omoari
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está chegando perto de nossa casa!”. Em seguida partem ao seu encontro para
combatê-lo. Muitas vezes também nos chamam apenas porque querem que
escutemos seus cantos. O pai deles, o xamã, está dormindo, mas eles estão
acordados e querem trabalhar. Pensam: “Hou! É ruim dormir assim! Não que-
remos essa preguiça! Temos de fazer nossa dança de apresentação!”. É verda-
de! Se os xapiri não tivessem o olhar fixado em nós, não poderíamos sonhar
tão longe. Apenas dormiríamos como lâminas de machado no chão da casa.
Nós, habitantes da floresta, viemos do esperma e do sangue de Omama,
que era um verdadeiro sonhador.20
Foi ele que, no primeiro tempo, plantou
na terra que acabara de criar a árvore dos sonhos, que chamamos Mari hi.
Desde então, assim que as flores de seus galhos desabrocham, elas nos enviam
o sonho.21
Foi assim que ele o pôs em nós, permitindo que nossa imagem se
desloque enquanto dormimos. Nós o possuímos através do sangue de nossos
maiores. Quando somos crianças, muitas vezes exageramos bebendo mel sel-
vagem ou mingau quente de banana. Aí, empanturrados, adormecemos em
estado de fantasma e começamos a sonhar, vendo coisas desconhecidas. Na
adolescência, passamos nosso tempo andando na floresta, onde seguimos as
pistas da caça sem descanso. É então que nosso pensamento pouco a pouco
se concentra nos xapiri. Vamos nos apaixonando por eles, como se fossem
moças! Começamos a ver em sonho as imagens dos ancestrais animais que
acompanham nossas caminhadas pela floresta. Primeiro são as dos gaviões
wakoa e kãokãoma,22
e também as da gente das águas que, como eles, são
grandes caçadores. Depois vemos aparecer espíritos onça, queixada, macaco-
-aranha e anta, bem como muitas outras imagens de animais de caça que
ainda não conhecíamos. Quando os xapiri se interessam por nós desse modo,
assim que adormecemos os vemos dançar e os ouvimos cantar. Eles se jun-
tam, inúmeros, bem alto no peito do céu, à nossa volta. É assim que temos
nossos primeiros sonhos na companhia deles. Mais tarde, adultos, bebemos
yãkoana com os grandes xamãs que realmente os conhecem, para que abram
os seus caminhos para nós. Essas trilhas são brilhantes, finas e transparentes
como fios de aranha ou linha de pesca. Elas se prendem ao longo de nossos
braços e pernas. Os xapiri descem por elas e então rasgam nosso peito, para
abrir nele uma grande clareira onde farão sua dança de apresentação.23
É as-
sim que nossa imagem pode segui-los no tempo do sonho, até para além da
terra dos ancestrais dos brancos.
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Quando eu era criança, não parava de voar sonhando, bem alto no peito
do céu ou no mais fundo das águas. Por isso, mais tarde, pedi a meu sogro que
me fizesse beber yãkoana. Não me tornei xamã à toa. Meu pensamento nunca
se fixou em mulheres ou mercadorias! Ao contrário, sempre tive curiosidade
de conhecer melhor os espíritos, pois as imagens e cantos do sonho que eles
nos enviam são de uma beleza muito grande. Esses foram meus estudos, desde
sempre. Os xamãs que usam os adornos dos xapiri e possuem seus cantos so-
nham com muita sabedoria. Tomados pelo poder das árvores da floresta, acom-
panham-nos em seus voos mais distantes, até terras vazias e planas onde só
moram espíritos magníficos. Podem ver as imagens de nossos ancestrais que
se tornaram animais no primeiro tempo, bem como as de Omama e dos seus.
Localizam ao longe as fumaças de epidemia e os seres maléficos que se aproxi-
mam para nos devorar. Podem também ir até a terra dos antigos brancos e
fazer dançar seus espíritos napënapëri.
Enquanto os xapiri se apoderavam de minha imagem, eu também pude
contemplar na noite tudo o que meus antepassados conheceram antes de mim.
Vi Omama furar a terra com sua barra de ferro comprida para fazer surgir os
rios e todos os seus peixes, jacarés e sucuris.24
Vi-o pescar sua mulher Th
uëyoma
e receber as plantas cultivadas de seu sogro, vindo do fundo das águas. Vi dan-
çar a imagem de seu filho, quando se tornou o primeiro de nossos xamãs. Vi,
quando a noite ainda não existia, nossos antepassados acenderem grandes fo-
gueiras de folhas verdes, para poder copular ocultos pela fumaça. Vi os ances-
trais animais fazendo Jacaré rir, para roubar o fogo que caiu de sua boca. Vi
Formiga perder a sogra em sua imensa roça de milho. Vi a floresta queimar no
primeiro tempo, até sobrarem apenas campos onde as árvores não nascem
mais. Também entrei várias vezes, desconfiado, nas casas abarrotadas de seres
maléficos da floresta. Voei, apavorado, no grande vazio wawëwawë a que fica
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além da terra e do céu. Pude ver o espírito macaco-aranha, que chamamos de
genro do sol, comer seus frutos de calor sem queimar a boca. Vi-o conter a
queda do céu e jogar picos rochosos uns contra os outros para testar sua soli-
dez. Vislumbrei na escuridão os espíritos morcego tremendo de frio enquanto
roíam as beiras do céu e soprando em suas zarabatanas de feitiçaria. Vi o espí-
rito do grande escaravelho simotori recortar o topo das montanhas para abrir
suas roças. Ouvi os espíritos abelha tagarelando sem parar nas árvores, para
defender a floresta. E vi também, na terra dos brancos, muito antes de ir até lá,
as máquinas que correm sem pés de que me falavam os meus pais e avós.25
Voando desse modo na companhia dos xapiri, meus sonhos nunca têm
fim. Percorrem sem trégua a floresta, as montanhas, as águas e todas as direções
do céu e da terra. O sopro de vida dos espíritos está em mim, é o que me per-
mite ver todas essas coisas. Eles me chamam durante a noite, e então eu não
paro de imitar seus cantos enquanto me desloco com eles. No entanto, quando
estou longe de casa, me contento em contemplar a beleza deles em silêncio,
pois minha voz poderia atrair a maldade de feiticeiros ou espíritos inimigos. É
assim que eu costumo sonhar. Hoje, porém, muitas vezes são também os espí-
ritos da epidemia xawarari que levam minha imagem no tempo do sonho.
Então, ardendo em febre e tornado fantasma, combato durante o sono os bran-
cos e seus soldados, que não param de atiçar minha raiva. Meus xapiri, muito
valentes, atacam-nos sem trégua com seus facões e flechas, para vingar os
maus-tratos a que sujeitam os habitantes da floresta.
Nós, Yanomami, quando queremos conhecer as coisas, esforçamo-nos pa-
ra vê-las no sonho. Esse é o modo nosso de ganhar conhecimento. Foi, portan-
to, seguindo esse costume que também eu aprendi a ver. Meus antigos não me
fizeram apenas repetir suas palavras. Fizeram-me beber yãkoana e permitiram
que eu mesmo contemplasse a dança dos espíritos no tempo do sonho. Deram-
-me seus próprios xapiri e me disseram: “Olhe! Admire a beleza dos espíritos!
Quando estivermos mortos, você continuará a fazê-los descer, como nós faze-
mos hoje. Sem eles, seu pensamento não poderá entender as coisas. Continuará
na escuridão e no esquecimento!”. Foi assim que eles me abriram os caminhos
dos xapiri e fizeram crescer meu pensamento. Agora, vou envelhecendo e, por
minha vez, trato de transmitir essas palavras aos jovens, para que elas não se
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percam e jamais sejam esquecidas. Se eu não tivesse conhecido os espíritos,
teria permanecido ignorante e falaria sem saber algum. Graças a eles, ao con-
trário, minhas palavras podem seguir uma à outra e se estender por todas as
partes onde se deslocam. Podem falar de todas as terras desconhecidas de onde
descem. É esse nosso modo de ficar sabido. Nós, habitantes da floresta, nunca
esquecemos os lugares distantes que visitamos em sonho. De manhã, quando
acordamos, suas imagens permanecem vivas em nossa mente. Ao evocá-las,
pensamos, satisfeitos: “Essa é a beleza dos xapiri que os antigos conheceram
antes de nós! É assim que, desde o primeiro tempo, eles dão a ouvir seus cantos
e dançam para se apresentar!”. Essas imagens permanecem nítidas e sempre
voltam em nosso pensamento. As palavras dos espíritos que as acompanham
também ficam dentro de nós. Não se perdem jamais. Esse é nosso histórico. É
a partir delas que podemos pensar com retidão. É por isso que eu digo que
nosso pensamento é parecido com as peles de imagens nas quais os brancos
guardam os desenhos das falas de seus maiores.
Depois, fazemos com que essas palavras vindas do valor de sonho dos es-
píritos sejam ouvidas pelas pessoas de nossas casas. Nós não as enganamos,
como fizeram no passado os de Teosi, que ficavam repetindo: “Sesusi vai descer
na floresta! Se ele quiser, hoje ou amanhã, vai chegar entre nós!”. Mas o tempo
passou e nada aconteceu. Nós, xamãs, nunca falamos desse modo. Jamais ilu-
dimos os nossos só olhando desenhos de palavras para poder falar. Não preci-
samos cravar o nosso olhar em peles de papel para nos lembrarmos das palavras
dos xapiri! Elas estão coladas em nosso pensamento e surgem em nossos lábios,
sem fim, assim que viramos espíritos. É por isso que somos capazes de revelá-las
em seguida aos que nos escutam. São essas palavras sobre as coisas que vi em
sonho que eu tento explicar aos brancos para defender a floresta. Se eu não ti-
vesse nenhuma casa de espíritos e fosse incapaz de ver qualquer coisa, não teria
nada a dizer. Meus olhos dariam dó de ver, minha voz seria hesitante e quem
me escutasse logo perceberia a ignorância e o medo entorpecendo minha boca.
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23. O espírito da floresta
Urihi a, a terra-floresta.
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468
Acho que vocês deveriam sonhar a terra, pois ela tem coração e
respira.
Davi Kopenawa
Entrevista a F. Watson (Survival International),
Boa Vista, jul. 1992
Como eu disse, o pensamento dos xamãs se estende por toda parte, debai-
xo da terra e das águas, para além do céu e nas regiões mais distantes da flores-
ta e além dela. Eles conhecem as inumeráveis palavras desses lugares e as de
todos os seres do primeiro tempo. É por isso que amam a floresta e querem
tanto defendê-la. A mente dos grandes homens dos brancos, ao contrário, con-
tém apenas o traçado das palavras emaranhadas para as quais olham sem parar
em suas peles de papel. Com isso, seus pensamentos não podem ir muito longe.
Ficam pregados a seus pés e é impossível para eles conhecer a floresta como nós.
Por isso não se incomodam nada em destruí-la! Dizem a si mesmos que ela
cresceu sozinha e que cobre o
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  • 4. A marca fsc® é a garantia de que a madeira utilizada na fabricação do papel deste livro provém de florestas que foram gerenciadas de maneira ambientalmente correta, socialmente justa e economicamente viável, além de outras fontes de origem controlada. 12959 - A queda do céu.indd 2 8/10/15 12:29 PM
  • 5. davi kopenawa e bruce albert A queda do céu Palavras de um xamã yanomami Tradução Beatriz Perrone-Moisés Prefácio Eduardo Viveiros de Castro 12959 - A queda do céu.indd 3 8/10/15 12:29 PM
  • 6. Copyright © 2010 by Plon Este livro foi publicado com o apoio do Instituto Socioambiental e do Instituto Arapyaú Cet ouvrage, publié dans le cadre du Programme d’Aide à la Publication 2011 Carlos Drummond de Andrade de la Médiathèque de la Maison de France, bénéficie du soutien de l’ambassade de France au Brésil. Este livro, publicado no âmbito do programa de apoio à publicação 2011 Carlos Drummond de Andrade da Mediateca da Maison de France, contou com o apoio da Embaixada da França no Brasil. Edição apoiada pelo Goethe-Institut no âmbito do projeto “Amazônia — Teatro música em três partes”. Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009. Título original La Chute du ciel: Paroles d’un chaman yanomami Capa Alceu Chiesorin Nunes Foto de capa Sem título, da série Identidade, Claudia Andujar, 1976. Técnica fotografia: gelatina de prata sobre papel Ilford Multigrade peso duplo com banho de selênio. Cortesia Galeria Vermelho Preparação Ana Cecília Agua de Melo Índices Luciano Marchiori Revisão Jane Pessoa Isabel Jorge Cury [2015] Todos os direitos desta edição reservados à editora schwarcz s.a. Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32 04532-002 — São Paulo — sp Telefone: (11) 3707-3500 Fax: (11) 3707-3501 www.companhiadasletras.com.br www.blogdacompanhia.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil) Kopenawa, Albert, Bruce, Davi A queda do céu : Palavras de um xamã yanomami / Davi Kopenawa e Bruce Albert ; tradução Beatriz Perrone-Moisés; prefácio de Eduardo Viveiros de Castro — 1a ed. — São Pau­ lo : Com­pa­nhia das Letras, 2015. Título original: La Chute du ciel : Paroles d’un chaman yanomami. isbn 978-85-359-2620-0 1. Índios da América do Sul 2. Índios Yanomami — Brasil Biografia3.ÍndiosYanomami—Brasil—Século20 4.Kopenawa, Davi 5. Xamanismo — Brasil — Século 20 6. Xamãs — Brasil — Biografia i. Albert, Bruce. ii. Título. 15-05316 cdd-980.41 Índice para catálogo sistemático: 1. Xamanismo Yanomami : Povos indígenas : Cultura : América do Sul 980.41 12959 - A queda do céu.indd 4 8/10/15 12:29 PM
  • 7. […] Antes mesmo da chegada dos brancos, a mitologia ameríndia dispunha de esquemas ideológicos nos quais o lugar dos invasores parecia estar reservado: dois pedaços de humanidade, oriundos da mesma criação, se juntavam, para o bem e para o mal. Essa solida- riedade de origem se transforma, de modo comovente, em solidarie- dade de destino, na boca das vítimas mais recentes da conquista, cujo extermínio prossegue, neste exato momento, diante de nós. O xamã yanomami — cujo testemunho pode ser lido adiante — não dissocia a sina de seu povo da do restante da humanidade. Não são apenas os índios, mas também os brancos, que estão ameaçados pela cobiça de ouro e pelas epidemias introduzidas por estes últimos. Todos serão arrastados pela mesma catástrofe, a não ser que se com- preenda que o respeito pelo outro é a condição de sobrevivência de cada um. Lutando desesperadamente para preservar suas crenças e ritos, o xamã yanomami pensa trabalhar para o bem de todos, in- clusive seus mais cruéis inimigos. Formulada nos termos de uma metafísica que não é a nossa, essa concepção da solidariedade e da diversidade humanas, e de sua implicação mútua, impressiona pela grandeza. É emblemático que caiba a um dos últimos porta-vozes de uma sociedade em vias de extinção, como tantas outras, por nos- sa causa, enunciar os princípios de uma sabedoria da qual também depende — e somos ainda muito poucos a compreendê-lo — nossa própria sobrevivência. Claude Lévi-Strauss (1993, p. 7). 12959 - A queda do céu.indd 5 8/10/15 12:29 PM
  • 8. A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em des- truí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa. Os espíritos xa- piri, que descem das montanhas para brincar na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los e fazê-los dançar para nos proteger. Não serão ca- pazes de espantar as fumaças de epidemia que nos devoram. Não conseguirão mais conter os seres maléficos, que transformarão a flo- resta num caos. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar. Davi Kopenawa 12959 - A queda do céu.indd 6 8/10/15 12:29 PM
  • 9. Sumário Prefácio — O recado da mata — Eduardo Viveiros de Castro. . . . . . 11 Prólogo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 mapas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 Palavras dadas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 devir outro 1. Desenhos de escrita . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69 2. O primeiro xamã. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80 3. O olhar dos xapiri. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88 4. Os ancestrais animais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110 5. A iniciação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132 6. Casas de espíritos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156 7. A imagem e a pele . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 174 8. O céu e a floresta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193 12959 - A queda do céu.indd 7 8/10/15 12:29 PM
  • 10. a fumaça do metal 9. Imagens de forasteiros. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221 10. Primeiros contatos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235 11. A missão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 254 12. Virar branco?. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 274 13. O tempo da estrada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 291 14. Sonhar a floresta. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 311 15. Comedores de terra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 334 16. O ouro canibal. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 356 a queda do céu 17. Falar aos brancos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .375 18. Casas de pedra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 394 19. Paixão pela mercadoria. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 406 20. Na cidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 421 21. De uma guerra a outra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 439 22. As flores do sonho. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 454 23. O espírito da floresta. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 467 24. A morte dos xamãs. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 488 Palavras de Omama. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 499 Postscriptum — Quando eu é um outro (e vice-versa). . . . . . . . . . . . 512 anexos i. Etnônimo, língua e ortografia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 553 ii. Os Yanomami no Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 557 iii. A respeito de Watoriki. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 564 iv. O massacre de Haximu . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 571 Glossário etnobiológico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 583 Glossário geográfico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 599 Notas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 609 Agradecimentos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 692 12959 - A queda do céu.indd 8 8/10/15 12:29 PM
  • 11. Referências bibliográficas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 694 Créditos dos mapas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 708 índices Índice temático. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 711 Índice de entidades xamânicas e cosmológicas. . . . . . . . . . . . . . . 723 12959 - A queda do céu.indd 9 8/10/15 12:29 PM
  • 12. 12959 - A queda do céu.indd 10 8/10/15 12:29 PM
  • 13. 11 Prefácio O recado da mata Eduardo Viveiros de Castro Mas, como eu relutasse em responder a tal apelo assim maravilhoso, […] a máquina do mundo, repelida se foi miudamente recompondo, enquanto eu, avaliando o que perdera, seguia vagaroso, de mãos pensas. Carlos Drummond de Andrade Enfim vem à luz, na elegante tradução de Beatriz Perrone-Moisés, a edição em português de A queda do céu. Cinco anos se passaram desde sua publicação em francês, na sexagenária e prestigiosa coleção Terre Humaine, em que este livro brilha com uma intensidade talvez só comparável à do segundo volume da coleção, Tristes trópicos —* do qual, aliás, A queda do céu pode ser visto como uma variante forte, no sentido que a mitológica estrutural professada pelo autor de Tristes trópicos dá a essa noção. Ou, melhor ainda, o livro de Kopenawa e Albert é, relativamente a seu ilustre predecessor, um exemplo daquela ‘trans- formação canônica’ que Lévi-Strauss entendia ser o princípio dinâmico da mi- topoese, a “dupla torção” pela qual se complicam (e se coimplicam) a necessi- dade semiótica e a contingência histórica, a razão analítica e a razão dialética.** Se isso torna A queda do céu muito diferente de Tristes trópicos, também o co- * Lévi-Strauss, 1955. ** Ver o texto fundamental de Mauro Almeida, “A fórmula canônica do mito”, 2008. (Neste prefá- cio, as aspas duplas indicam citações ou expressões criadas por outros autores, mencionados ou não, inclusive, bem entendido, Kopenawa e Albert; as aspas simples, exceto quando ‘embutidas’ em citações, indicam expressões aproximativas ou intenção irônica [‘scare quotes’] de minha parte.) 12959 - A queda do céu.indd 11 8/10/15 12:29 PM
  • 14. 12 necta estrategicamente com ele, e por diversos caminhos. Mas nenhum deles é circular; menos ainda é caminho batido, como nos casos de emulação ou de epigonia despertados por Tristes trópicos. A queda do céu, antes que meramen- te completando, ainda que com chave de ouro, o projeto aberto pela obra revo- lucionária de 1955 — o da invenção de uma narrativa etnográfica ao mesmo tempo poética e filosófica, crítica e reflexiva —, relança-o em uma vertiginosa trajetória espiral (uma espiral logarítmica, não arquimediana) que desloca, in- verte e renova o discurso da antropologia sobre os povos ameríndios, redefinin- do suas condições metodológicas e pragmáticas de enunciação. “Caminhamos.” Tardou, alguns dirão, a publicação de A queda do céu em nosso país,* onde nasceu o autor principal, onde o livro foi quase inteiramente elaborado e ao qual ele privilegiadamente se refere. Mas para uma obra de mais de sete- centas páginas, que levou vinte anos sendo gestada, que tem atrás de si trinta de convivência entre os signatários de um “pacto etnográfico” (em cujas entre- linhas se firma um pacto xamânico) sem precedentes na história da antropo- logia e cerca de quarenta de contato do etnólogo-escritor com o povo do xamã- -narrador, cinco anos não chega a ser muito tempo. E a hora é boa. Este é um livro sobre o Brasil, sobre um Brasil — decerto, ele é ostensiva- mente ‘sobre’ a trajetória existencial de Davi Kopenawa, em que o pensador e ativista político yanomami, falando a um antropólogo francês, discorre sobre a cultura ancestral e a história recente de seu povo (situado tanto em terras venezuelanas quanto em brasileiras), explica a origem mítica e a dinâmica in- visível do mundo, além de descrever as características monstruosas da civili- zação ocidental como um todo e de prever um futuro funesto para o planeta —, mas, de um modo muito especial, é um livro sobre nós, dirigido a nós, os brasileiros que não se consideram índios. Pois com a A queda do céu mudam- -se o nível e os termos do diálogo pobre, esporádico e fortemente desigual entre os povos indígenas e a maioria não indígena de nosso país, aquela com- posta pelo que Davi chama de “Brancos” (napë).** Nele aprendemos algo de * A Harvard University Press publicou a tradução em inglês, The Falling Sky: Words of a Yano- mami Shaman, em 2013. ** O termo yanomami napë, originalmente utilizado para definir a condição relacional e mutável de ‘inimigo’, passou a ter como referente prototípico os ‘Brancos’, isto é, os membros (de qualquer cor) daquelas sociedades nacionais que destruíram a autonomia política e a suficiência econô- mica do povo nativo de referência. O Outro sem mais, o inimigo por excelência e por essência, 12959 - A queda do céu.indd 12 8/10/15 12:29 PM
  • 15. 13 essencial sobre o estatuto ontológico e ‘antropológico’ dessa maioria — são espectros canibais que esqueceram suas origens e sua cultura —, onde ela vi- ve — em altas e cintilantes casas de pedra amontoadas sobre um chão nu e estéril, em uma terra fria e chuvosa sob um céu em chamas —, e com o que ela sonha, assombrada por um desejo sem limites — sonha com suas mercadorias venenosas e suas vãs palavras traçadas em peles de papel. Essa maioria, como eu disse, somos, entre outros, nós, os brasileiros ‘legítimos’, que falam o portu- guês como língua materna, gostam de samba, novela e futebol, aspiram a ter um carro bem bacana, uma casa própria na cidade e, quem sabe, uma fazenda com suas tantas cabeças de gado e seus hectares de soja, cana ou eucalipto. A maioria dessa maioria acha, além disso, que vive “num país que vai pra frente”, como cantava o jingle dos tempos daquela ditadura que imaginamos pertencer a um passado obsoleto. Do ponto de vista, então, dos povos autóctones cujas terras o Brasil ‘in- corporou’, os brasileiros não índios — tão vaidosos como nos sintamos de nossa singularidade cultural perante a Europa ou os Estados Unidos, isso quan- do não nos envaidecemos justo do contrário — são apenas “Brancos/inimigos” como os demais napë, sejam estes portugueses, norte-americanos, franceses. Somos representantes quaisquer desse povo bárbaro e exótico proveniente de além-mar, que espanta por sua absurda incapacidade de compreender a flores- ta, de perceber que “a máquina do mundo” é um ser vivo composto de incon- táveis seres vivos, um superorganismo constantemente renovado pela ativida- de vigilante de seus guardiões invisíveis, os xapiri, imagens ‘espirituais’ do mundo que são a razão suficiente e a causa eficiente daquilo que chamamos Natureza — em yanomami, hutukara —, na qual os humanos estamos imersos por natureza (o pleonasmo se autojustifica). A ‘alma’ e seus avatares leigos é o ‘Branco’. Outras línguas indígenas do país conheceram deslocamentos análogos, em que palavras designando o ‘inimigo’ ou ‘estrangeiro’ — e normalmente especificadas por determina- tivos distinguindo as diferentes etnias indígenas (ou comunidades da mesma etnia) em posição de hostilidade/alteridade — passaram a ser usadas sem maiores especificações para designar o Branco, que passou assim a ser ‘o Inimigo’. A possibilidade de que essa sinonímia ‘Branco = Inimigo = Outro’ contraefetue uma identidade genérica “Índio” e uma sinonímia etnopolítica ‘Índio = “Parente” = Eu’ é algo explorado de modo variável, instável e, como se pode imaginar, problematicamente estratégico pelos povos indígenas (ver, por exemplo, a reflexão irônica de Krenak, 2015, pp. 55-6). 12959 - A queda do céu.indd 13 8/10/15 12:29 PM
  • 16. 14 modernos, a ‘cultura’, a ‘ciência’ e a ‘tecnologia’, não nos isentam nem nos ausentam desse comprometimento não desacoplável com o mundo,* até por- que o mundo, segundo os Yanomami, é um plenum anímico, e porque uma verdadeira cultura e uma tecnologia eficaz consistem no estabelecimento de uma relação atenta e cuidadosa com “a natureza mítica das coisas” —** quali- dade de que, justamente, os Brancos carecemos por completo. Pode-se dizer de nós, então, o que o narrador diz dos maus caçadores yanomami, aqueles que costumam guardar para si as presas que matam (e por isso os animais se furtam a eles) — que “apesar de terem os olhos abertos, não enxergam nada” (p. 474). Com efeito, se as profecias justificadamente pessimistas de Davi se concretiza- rem, só começaremos a enxergar alguma coisa quando não houver mais nada a ver. Aí então poderemos, como o poeta, “avaliar o que perdemos”. Uma expressão feliz de Patrice Maniglier, pela qual esse filósofo define o que chamou de mais alta promessa da antropologia, a saber, “devolver-nos uma imagem de nós mesmos na qual não nos reconheçamos”,*** ganha em A queda do céu um sentido simétrico e inverso ao sentido visado, o que, longe de des- mentir, enriquece a definição com uma inesperada dobra irônica adicional. Impossível, de fato, não nos reconhecermos nessa caricatura fielmente disfor- me de nós ‘mesmos’ desenhada, para nosso escarmento, por esse ‘nós’ outro, esse outro que entretanto insiste em nos advertir que somos, ao fim e ao cabo (mas talvez apenas ao fim e ao cabo), todos os mesmos, uma vez que, quando a floresta acabar e as entranhas da terra tiverem sido completamente destroça- das pelas máquinas devoradoras de minério, as fundações do cosmos ruirão e * Para um documento que afirma precisamente o contrário, e que vem assim servir de prova da estupidez incurável dos Brancos — ou pelo menos da fração mais agressiva de seu segmento modernizador —, veja-se o “An Ecomodernist Manifesto” (<www.ecomodernism.org/manifes- to>), lançado recentemente pelo Breakthrough Institute, um think tank antiambientalista e pró- -nuclear californiano, onde se defende a viabilidade de um “desacoplamento” (decoupling) entre uma desejada hiperaceleração tecnológica e qualquer impacto ambiental. Tudo para maior glória de um “capitalismo pós-industrial [?] e vibrante”, como dizem os executivos do bi em outro texto (cf. Danowski e Viveiros de Castro, 2015, p. 67). ** Expressão que consta do poema “A máquina do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade, reproduzido na epígrafe deste prefácio. *** “[N]ous renvoyer de nous-mêmes une image où nous ne nous reconnaissons pas”, Maniglier, 2005, pp. 773-4. 12959 - A queda do céu.indd 14 8/10/15 12:29 PM
  • 17. 15 o céu desabará terrível sobre todos os viventes. Isso já aconteceu antes, lembra o narrador. O que é o modo índio de dizer que acontecerá de novo. A queda do céu é um acontecimento científico incontestável, que levará, suspeito, alguns anos para ser devidamente assimilado pela comunidade antro- pológica. Mas espero que todos os seus leitores saibam identificar de imediato o acontecimento político e espiritual muito mais amplo, e de muito grave sig- nificação, que ele representa. Chegou a hora, em suma; temos a obrigação de levar absolutamente a sério o que dizem os índios pela voz de Davi Kopenawa — os índios e todos os demais povos ‘menores’ do planeta, as minorias extranacio- nais que ainda resistem à total dissolução pelo liquidificador modernizante do Ocidente. Para os brasileiros, como para as outras nacionalidades do Novo Mundo criadas às custas do genocídio americano e da escravidão africana, tal obrigação se impõe com força redobrada. Pois passamos tempo demais com o espírito voltado para nós mesmos, embrutecidos pelos mesmos velhos sonhos de cobiça e conquista e império vindos nas caravelas, com a cabeça cada vez mais “cheia de esquecimento”,* imersa em um tenebroso vazio existencial, só de raro em raro iluminado, ao longo de nossa pouco gloriosa história, por lampe- jos de lucidez política e poética. Davi Kopenawa ajuda-nos a pôr no devido lugar as famosas “ideias fora do lugar”, porque o seu é um discurso sobre o lugar, e porque seu enunciador sabe qual é, onde é, o que é o seu lugar. Hora, então, de nos confrontarmos com as ideias desse lugar que tomamos a ferro e a fogo dos indígenas, e declaramos “nosso” sem o menor pudor; ideias que constituem, * Esta é uma expressão recorrente nos discursos de Kopenawa para designar a deficiência mental- -espiritual mais marcante dos Brancos. Recordo que Lévi-Strauss deu enorme importância ao motivo do esquecimento na mitologia indígena, a ponto de defini-lo como “uma verdadeira ca- tegoria do pensamento mítico” (Lévi-Strauss, 1973, p. 231; 1983, p. 253). Ao longo do livro, Davi repassa por diversas daquelas “patologias da comunicação” que o autor das Mitológicas identifica como centrais no dramatismo dos mitos, todas elas, no caso presente, afetando ‘privilegiadamen- te’ os Brancos — olvido, surdez, cegueira, “língua de espectro” (incompreensível), palavras men- tirosas, narcisismo metafísico. Mas essas patologias semióticas, justo como as patologias biológi- cas xawara, podem acabar por contaminar aqueles Yanomami que, cegos ao mundo dos xapiri, passam a desejar as mercadorias dos Brancos e literalmente perdem o rumo, pois seu pensamen- to se torna emaranhado e sombrio como as trilhas ruins da floresta (ver o parágrafo final do capítulo 14). 12959 - A queda do céu.indd 15 8/10/15 12:29 PM
  • 18. 16 antes de mais nada, uma teoria global do lugar, gerada localmente pelos povos indígenas, no sentido concreto e etimológico desta última palavra.* Uma teoria sobre o que é estar em seu lugar, no mundo como casa, abrigo e ambiente, oikos, ou, para usarmos os conceitos yanomami, hutukara e urihi a: o mundo como floresta fecunda, transbordante de vida, a terra como um ser que “tem coração e respira” (p. 468), não como um depósito de ‘recursos escassos’ ocultos nas profundezas de um subsolo tóxico — massas minerais que foram depositadas no inframundo pelo demiurgo para serem deixadas lá, pois são como as fun- dações, os sustentáculos do céu —; mas o mundo também como aquela outra terra, aquele ‘suprassolo’ celeste que sustenta as numerosas moradas transpa- rentes dos espíritos, e não como esse ‘céu de ninguém’, esse sertão cósmico que os Brancos sonham — incuráveis que são — em conquistar e colonizar. Por isso Davi Kopenawa diz que a ideia-coisa “ecologia” sempre fez parte de sua teoria-práxis do lugar: Na floresta, a ecologia somos nós, os humanos. Mas são também, tanto quanto nós, os xapiri, os animais, as árvores, os rios, os peixes, o céu, a chuva, o vento e o sol! É tudo o que veio à existência na floresta, longe dos brancos; tudo o que ainda não tem cerca. As palavras da ecologia são nossas antigas palavras, as que Oma- ma [o demiurgo yanomami] deu a nossos ancestrais. Os xapiri defendem a flo- resta desde que ela existe. Sempre estiveram do lado de nossos antepassados, que por isso nunca a devastaram. Ela continua bem viva, não é? Os brancos, que an- tigamente ignoravam essas coisas, estão agora começando a entender. É por isso que alguns deles inventaram novas palavras para proteger a floresta. Agora dizem que são a gente da ecologia porque estão preocupados, porque sua terra está fi- cando cada vez mais quente. […] Somos habitantes da floresta. Nascemos no cen- tro da ecologia e lá crescemos. (p. 480. Eu sublinho.) O mundo visto então — melhor, vivido — a partir daqui, do ‘centro da * “Indígena — etim lat. indigena,æ, ‘natural do lugar em que vive, gerado dentro da terra que lhe é própria’” (Houaiss e Villar, 2009. Eu sublinho). Essa ‘propriedade’, permito-me interpretar, é um atributo imanente ao sujeito, não uma relação extrínseca com um objeto apropriável. Não são poucos os povos indígenas do mundo a afirmar que a terra não lhes pertence, pois são eles que pertencem à terra. 12959 - A queda do céu.indd 16 8/10/15 12:29 PM
  • 19. 17 ecologia’, do coração indígena dessa vasta e ilimitada Terra cosmopolítica on- de se distribuem nomadologicamente as inumeráveis gentes terranas,* e não como uma esfera abstrata, um globo visto de fora, cercado e dividido em ter- ritórios administrados pelos Estados nacionais, épuras da alucinação euroan- tropocêntrica conhecida pelos nomes de “soberania”, “domínio eminente”, “projeção geopolítica” e fantasmagorias do mesmo quilate. Talvez seja mesmo chegada a hora de concluir que vivemos o fim de uma história, aquela do Oci- dente, a história de um mundo partilhado e imperialmente apropriado pelas potências europeias, suas antigas colônias americanas e seus êmulos asiáticos contemporâneos. Caberia a nós portanto constatar, e tirar daí as devidas ­ consequências, que “o nacional não existe mais; só há o local e o mundial”.** Dir- -se-á que tal declaração é conversa de europeu decadente, fantasia de ‘localista’ romântico, mantra de anarquista irresponsável, isso se não for, Deus nos pro- teja, um arroto do ‘libertarianismo’ à americana, aquele sinistro fascismo su- premacista do indíviduo macho branco armado que grassa em nosso Grande Irmão do Norte. O que cabe a nós, brasileiros — dizemos com a cabeça ergui- da —, é construir a Pátria Socialista do Porvir, o prometido país de classe média e feliz, sustentado por um Estado forte capaz de defendê-lo contra a cobiça inter­nacional,*** ou, para sermos ‘proativos’, capaz de fazê-lo ingressar no clube seleto dos patrões deste mundo. Mas, se o nacional vai de fato — aguardemos — deixando de existir lá fora (só que nunca houve lá fora, pois o aqui dentro sempre foi, e continua sendo, uma das ‘dependências’ do lá fora), é provável que o conceito do nacional acabe mudando mundialmente de lugar, isto é, de sen- tido, e isso até mesmo ‘aqui dentro’. No mínimo, talvez comecemos a nos dar conta de que se continuarmos a destruir obtusamente o local, este local do mundo que chamamos de ‘nosso’ — mas quem detém, para além do mero di- * O conceito de “nomadologia” é tomado aqui de Deleuze e Guattari (1997 [1980], cap. 12), que interpretam a raiz grega -nem (da qual deriva o polissêmico nomos) em sentido rigorosamente antipodal ao consagrado por Carl Schmitt, ou seja, como distribuição-dispersão dos homens e demais viventes sobre a terra, antes que como distribuição-repartição da terra entre os homens com seus rebanhos (ver Sibertin-Blanc, 2013) — e, portanto, analogiza Schmitt, como repartição da Terra inteira entre os Estados-nação europeus. Para o conceito de “terrano”, tomado de Bruno Latour, ver a exposição de Danowski e Viveiros de Castro, 2014. ** “Appel de la Destroika”, 2015. *** Sem abrir mão de algumas ‘parcerias estratégicas’, é claro. La Cina è vicina… 12959 - A queda do céu.indd 17 8/10/15 12:29 PM
  • 20. 18 reito pronominal, o fato brutalmente proprietarial deste possessivo? —,* não sobrarão nem fundos nem fundamentos para construirmos qualquer nacional que seja, anacrônico ou futurista. O Brasil é grande, mas o mundo é pequeno. A queda do céu é rico em lições, entre outras, sobre a incompetência eficaz, a irrelevância maligna, o ufanismo bufão da teoria e prática da governamenta- lidade ‘nacional’, esse nomos antinômico que estria e devasta simultaneamente um espaço que ele imagina instituir quando é, na verdade, literalmente supor- tado por ele. O Estado nacional? Muito bem, muito bom; mas, muito antes dele, há os espíritos invisíveis da floresta, as fundações metálicas da terra, a fumaça diabólica das epidemias e a doença degenerativa do céu — e nada dis- so tem fronteira, porteira ou bandeira. Os xamãs e seus xapiri  ** não carecem de passaporte nem de visto dado por gente; são eles que veem, se forem bem- -vistos pela onividente gente invisível da floresta… O Brasil? — O Brasil, na imagem tão bela e melancólica de Oswald de Andrade, já foi “uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus”. Hoje, ele está mais para uma corporação empresarial coberta a perder de vista por monoculturas transgêni- cas e agrotóxicas, crivada de morros invertidos em buracos desconformes de onde se arrancam centenas de milhões de toneladas de minério para exporta- ção, coberta por uma espessa nuvem de petróleo que sufoca nossas cidades enquanto trombeteamos recordes na produção automotiva, entupida por mi- lhares de quilômetros de rios barrados para gerar uma energia de duvidosíssi- ma ‘limpeza’ e ainda mais questionável destinação, devastada por extensões de floresta e cerrado, grandes como países, derrubadas para dar pasto a 211 mi- lhões de bois (hoje mais numerosos que nossa população de humanos).*** En- quanto isso, a gente… Bem, a gente continua dizendo adeus — às árvores. Adeus a elas e à República, pelo menos em seu sentido original de res publica, de coisa e causa do povo. * Ver “Quem são os proprietários do Brasil”, 2015. ** As noções são praticamente sinônimas em yanomami: “xamã” se diz xapirit th ë pë, “gente-espí- rito”. *** Como disse recentemente Davi Kopenawa em um encontro no Rio de Janeiro, “o governo quer transformar o Brasil em um campo de futebol”. Somos o segundo maior produtor de carne bo- vina do planeta, perdendo apenas para a Índia, país que parece estar se convertendo rapidamen- te de uma religião em outra no que tange a suas vacas, a saber, passando da veneração hinduísta ao massacre capitalista. 12959 - A queda do céu.indd 18 8/10/15 12:29 PM
  • 21. 19 * * * O depoimento-profecia de Kopenawa aparece, assim, em boa hora; porque a hora, claro está, é péssima. Neste momento, nesta República, neste governo, assistimos a uma concertada maquinação política que tem como alvo as áreas de preservação ambiental, as comunidades quilombolas, as reservas extrativis- tas e em especial os territórios indígenas. Seu objetivo é consumar a ‘liberação’ (a desproteção jurídica) do máximo possível de terras públicas ou, mais geral- mente, de todos aqueles espaços sob regimes tradicionais ou populares de ter- ritorialização que se mantêm fora do circuito imediato do mercado capitalista e da lógica da propriedade privada, de modo a tornar ‘produtivas’ essas terras, isto é, lucrativas para seus pretendentes, os grandes empresários do agronegócio, da mineração e da especulação fundiária, vários deles aboletados nas poltronas do Congresso, muitos apenas pagando a seus paus-mandados para ali ‘opera- rem’. Na verdade, são os Três Poderes da nossa República Federativa que vêm costurando uma ofensiva criminosa contra os direitos indígenas,* conquistados a duras penas ao longo da década entre 1978, ano do ‘Projeto de emancipação’ da ditadura (o qual deu espetacularmente com os burros n’água), e 1988, ano da ‘Constituição cidadã’ que reconheceu os direitos originários dos povos in- dígenas sobre suas terras, consagrando e perenizando o instituto fundamental do indigenato. Esse acolhimento dos índios como uma categoria sociocultural diferenciada de pleno e permanente direito dentro da nação suscitou uma feroz determinação retaliativa por parte do sistema do latifúndio, que hoje ocupa vários ministérios, controla o Congresso e possui uma legião de serviçais no Judiciário. Chovem, de todas as instâncias e níveis dos poderes constituídos, tentativas de desfigurar a Constituição que os constituiu, por meio de projetos legislativos, portarias executivas e decisões tribunalícias** que convergem no * Ver a entrevista de Henyo Barretto a Clarissa Presotti, “Três poderes contra os direitos indíge- nas”. Disponível em: <www.portalambiental.org.br/pa/noticias?id=134>. Acesso em: 1 jun. 2015. ** Vide a famigerada lista das “condicionantes” e a contestação do princípio do indigenato pela tese do “marco temporal”, emergidas da decisão pelo stf relativa ao caso da terra Raposa-Serra do Sol (Roraima). Ambas, condicionantes e tese, embora de questionável efeito vinculante, já tiveram um preocupante impacto anti-indígena nas diversas instâncias do Judiciário. Ver também Capiberibe e Bonilla, 2014, para uma cobertura exaustiva, mas já desatualizada (pois a ofensiva 12959 - A queda do céu.indd 19 8/10/15 12:29 PM
  • 22. 20 propósito de extinguir o espírito dos artigos da Lei Maior que garantem os direitos indígenas.* O presente governo, e refiro-me aqui ao Executivo, desde sua comandan- te até seus ordenanças ministeriais, vem se mostrando o de pior desempenho, desde a nossa tímida redemocratização, no tocante ao respeito a esses direitos, agravando a já péssima administração anterior sob a mesma gerência: proce- dimentos de demarcação e homologação de terras indígenas praticamente nu- los; políticas de saúde mais que omissas, desastrosas para as comunidades in- dígenas; uma indiferença quase indistinguível da cumplicidade diante do genocídio praticado continuadamente e às escâncaras sobre os Guarani-Kaio- wá, ou periodicamente e ‘por descuido’ sobre os Yanomami e outros povos nativos, bem como diante do assassinato metódico de lideranças indígenas e ambientalistas pelo país afora — quesito no qual o Brasil é, como se sabe, cam- peão mundial. Veja-se, por fim, mas não por menos lamentável, a joia da coroa da supre- ma mandatária da República, a saber, a construção a toque de caixa, por me- gaempreiteiras de capital privado a serviço do poder público e/ou vice-versa, ao arrepio insolente da legislação e às custas de ‘financiamentos’ de dimensões obscenas, feitos com o chamado dinheiro do povo, de dezenas de hidrelétricas na bacia amazônica, que trarão gravíssimos danos à vida de centenas de povos indígenas e de milhares de comunidades tradicionais —** para não falarmos é uma Blitzkrieg), dos projetos de lei ou emenda constitucional em tramitação no Congresso cujo objetivo é reduzir os direitos indígenas, quando não reverter seus efeitos já consolidados. * Há quem entenda ou defenda — estou entre eles — que o estatuto próprio dos índios seria bem mais que o de uma categoria sociocultural especial de cidadão. Ele definiria uma multiplicidade política diferenciada, inserida por autoconsentimento em um Estado com vocação ‘plurinacional’. E, se formos aos finalmentes, como se diz, suspeito que a visão oficial antiga (ainda viva na cabe- ça de tanta gente), pré-Constituição de 1988, sobre os índios no Brasil — segundo a qual a con- dição indígena era transitória, votada inexoravelmente à assimilação pela “comunhão nacional”, ao passo que esta última era subentendida ser permanente, em outras palavras, eterna — poderá ser objetivamente virada de ponta-cabeça em um futuro não muito remoto. Pois não é impossí- vel que os povos indígenas, com sua “máquina territorial primitiva” que antecede milênios ao “aparelho de captura” dos Estados nacionais implantados nas Américas, perdurem após o colap- so de muitos, senão de todos, nossos orgulhosos Entes Soberanos, em um mundo que promete ser materialmente muito diferente daquele em que vivemos hoje — o qual, como se sabe, foi construído graças à invasão, ao saque e à limpeza étnica das Américas. ** Chamam-se “populações tradicionais” (“ribeirinhas”, “caboclas”) aquelas comunidades campo- 12959 - A queda do céu.indd 20 8/10/15 12:29 PM
  • 23. 21 nas dezenas de milhares* de outras espécies de habitantes da floresta, que vivem nela, dela e com ela; que são, enfim, a floresta ela própria, o macrobioma ou megarrizoma autotrófico que cobre um terço da América do Sul e cuja estru- tura lógico-metafísica, se me permitem a expressão, se encontra claramente exposta por Kopenawa em A queda do céu. Mas de que vale tudo isso perante as leis inexoráveis da Economia Mundial e o objetivo supremo do Progresso da Pátria? A entropia crescente se transfigura dialeticamente em antropia triun- fante. E ainda se diz que são os índios que creem em coisas impossíveis. Em suma, o que a ditadura empresarial-militar não conseguiu arrasar, a coalizão comandada pelo Partido dos… Trabalhadores! vai destruindo, com eficiência estarrecedora. Seu instrumento material para tanto são as mesmas forças político-econômicas que apoiaram e financiaram o projeto de poder da ditadura. Tal ‘eficiência’ destrutiva, note-se bem, anda longe da “destruição criadora” marxista e schumpeteriana, valha o que esta ainda valer nos sombrios tempos que correm. Não há absolutamente nada de criador, e menos ainda de criativo, no que a classe dominante e seu órgão executivo fazem na Amazônia. O que falta em inteligência e descortino sobra em ganância e violência. As invasões das terras dos Yanomami por garimpeiros — e suas conse- nesas e extrativistas da bacia amazônica cuja consciência da relação com os povos indígenas que as precederam parece ter sido, em alguns casos, abolida. A cultura trazida pelos imigrantes ‘brancos’ (de origem principalmente nordestina) que se fundiram com o ‘substrato’ autóctone recalcou toda memória nativa e se orientou mimeticamente para o Brasil oficial. Na maioria dos casos, porém, a relação apenas entrou em situação de latência, exprimindo-se ‘vestigialmente’ por automatismos práticos e idiomatismos simbólicos. Essa aparente perda de consciência, assim, tem se mostrado cada vez mais frequentemente como sendo não tanto uma ruptura definitiva mas antes um longo desmaio — uma espécie de coma étnico do qual a Amazônia ‘cabocla’ come- ça a despertar, como atesta o fato de que, hoje, apenas no Médio Solimões, cerca de duzentas comunidades tradicionais reivindicam sua “passagem para indígena”, isto é, sua condição de ti- tulares dos direitos reconhecidos no artigo 231 da Constituição Federal (Deborah Lima et al., 2015, citando dados de Rafael Barbi para os rios Copacá, Tefé, Uarini, Jutaí, Caiambé e Mineruá; as Reservas de Mamirauá e Amanã respondem por cinquenta comunidades desse total). O fenô- meno é geral no ‘Brasil profundo’, e parece ainda mais paradoxal quando se constata que ele vai se tornando mais intenso à medida que esse Brasil profundo ‘vem à superfície’, isto é, se moder- niza, inserindo-se nas redes por onde circulam os fluxos semiótico-materiais que atravessam o planeta, do dinheiro à internet. * Ou seriam centenas de milhares? Nem sequer sabemos ao certo quantas espécies existem — e quantas vão desexistindo — na região. 12959 - A queda do céu.indd 21 8/10/15 12:29 PM
  • 24. 22 quências em termos de epidemias, estupros, assassinatos, envenenamento dos rios, esgotamento da caça, destruição das bases materiais e dos fundamentos morais da economia indígena — se sucedem com monótona frequência, se- guindo a oscilação das cotações do ouro e de outros minerais preciosos no mercado mundial. No dia mesmo em que escrevo este parágrafo (7 de maio de 2015), leio a notícia de que uma “organização criminosa de extração de ouro” em território yanomami, que movimentou cerca de 1 bilhão de reais nos últi- mos dois anos, foi desmantelada pela Polícia Federal (em um acesso inédito de eficiência que deve ter lá seus motivos). O esquema tinha a participação de servidores públicos locais — entre eles, funcionários da Funai —, intermedia- ção de joalherias das grandes cidades da Amazônia e financiamento por “em- presários do ramo localizados, principalmente, em São Paulo”.* Davi Kopena- wa vem sendo ameaçado repetidamente de morte, desde pelo menos 2014, por ter denunciado a situação. E como se lerá neste livro (ver especialmente o cap. 15), foi sua consternação atônita ao testemunhar a sucessão de catástrofes de- sencadeadas pela corrida do ouro na terra yanomami, entre os anos 1975 e 1990 — desde a construção mal-inacabada da rodovia Perimetral Norte, na primeira metade da década de 1970, até a maciça invasão garimpeira, estimu- lada pelos militares, a partir da implantação do Projeto Calha Norte no gover- no Sarney, em 1985 —,** foram essa raiva e essa perplexidade, transformadas em convicção militante,*** que levaram Kopenawa a se engajar na dupla posição de xamã e de diplomata (trata-se, como veremos, de uma só e mesma posição). Ele inverteu assim a polaridade de sua função de intérprete a serviço dos Bran- * Disponível em: <amazoniareal.com.br/pf-desarticula-organizacao-criminosa-de-extracao-de- -ouro-na-reserva-yanomami/>. ** Lembremos ainda que, em 1987-9, com a transição para nossa ‘plena democracia’ praticamen- te completada, os militares interditavam formalmente o território yanomami aos antropólogos e outros pesquisadores, enquanto facilitavam a entrada dos garimpeiros. *** “Ao ver os cadáveres sendo arrancados da terra, também eu chorei. Pensei, com tristeza e raiva: ‘O ouro não passa de poeira brilhante na lama. No entanto, os brancos são capazes de matar por ele! Quantos mais dos nossos vão assassinar assim? E depois, suas fumaças de epidemia vão comer os que restarem, até o último? Querem que desapareçamos todos da floresta?’. A partir daquele momento, meu pensamento ficou realmente firme. Entendi a que ponto os brancos que querem nossa terra são seres maléficos. Sem isso, talvez tivesse continuado como muitos dos nossos que, na ignorância, fazem amizade com eles apenas para pedir arroz, biscoitos e cartu- chos!” (p. 344. Eu sublinho.) 12959 - A queda do céu.indd 22 8/10/15 12:29 PM
  • 25. 23 cos, que desempenhou por algum tempo como funcionário da Funai, para se tornar o intérprete e o defensor permanente de seu povo contra os Brancos, como descreve perspicazmente Albert.* O sistema do garimpo é semelhante ao do narcotráfico, e, em última aná- lise, à tática geopolítica do colonialismo em geral: o serviço sujo é feito por homens miseráveis, violentos e desesperados, mas quem financia e controla o dispositivo, ficando naturalmente com o lucro, está a salvo e confortável bem longe do front, protegido por imunidades as mais diversas. No caso do garim- po nos Yanomami, o dispositivo, como é de notório conhecimento nos meios especializados, envolve políticos importantes de Roraima, alguns deles defen- sores destacados, no Congresso, de reformas ‘liberalizantes’ da legislação mi- nerária relativa às terras indígenas. Esses próceres não aparecem na notícia sobre o desmantelo da operação criminosa mais recente. Duvido que apareçam. Quem sabe, nem sequer existam. O povo inventa muito… Mas não temos a exclusividade do ruim; nossa estupidez etnocida, ecoci- da, e em última análise suicida, não é sequer original. A concorrência interna- cional é fortíssima. O diagnóstico e o prognóstico contidos em A queda do céu não concernem apenas aos brasileiros. Neste momento, assistimos a uma mu- dança do equilíbrio termodinâmico global sem precedentes nos últimos 11 mil anos da história do planeta, e, associada a ela, a uma inquietação geopolítica inédita na história humana — se não em intensidade (ainda), certamente em extensão, na medida em que ela afeta literalmente ‘todo (o) mundo’. Neste momento, portanto, nada mais apropriado que venha dos cafundós do mundo, dessa Amazônia indígena que ainda vai resistindo, mesmo combalida, a suces- sivos assaltos; que venha, então, dos Yanomami, uma mensagem, uma profecia, um recado da mata alertando para a traição que estamos cometendo contra nossos conterrâneos — nossos co-terranos, nossos co-viventes —, assim como contra as próximas gerações humanas; contra nós mesmos, portanto. O que * Além de toda a massa de informações e esclarecimentos que se encontram dispersos, ou antes, organizados no minucioso aparelho de notas, podemos ler nos anexos finais do livro, compostos por Bruce Albert, um resumo conciso da história de vida de Davi Kopenawa e da interação do povo yanomami com os diversos agentes da civilização que os assedia, dos missionários ameri- canos da New Tribes Mission até os funcionários da Funai, da malfadada Perimetral Norte até as sucessivas invasões garimpeiras. Os números registrados pelo autor — de invasores brancos, de índios mortos, de terras arrasadas — são assustadores; deixo ao leitor a tarefa de constatá-los. 12959 - A queda do céu.indd 23 8/10/15 12:29 PM
  • 26. 24 lemos em A queda do céu é a primeira tentativa sistemática de “antropologia simétrica”, ou “contra-antropologia”,* do Antropoceno, a época geológica atual que, na opinião crescentemente consensual dos especialistas, sucedeu ao Ho- loceno, e na qual os efeitos da atividade humana — entenda-se, a economia industrial baseada na energia fóssil e no consumo exponencialmente crescen- te de espaço, tempo e matérias-primas — adquiriram a dimensão de uma for- ça física dominante no planeta, a par do vulcanismo e dos movimentos tectô- nicos. Ao mesmo tempo uma explicação do mundo segundo outra cosmologia e uma caracterização dos Brancos segundo outra antropologia (uma contra- -antropologia), A queda do céu entrelaça esses dois fios expositivos para chegar à conclusão de uma iminência da destruição do mundo, levada a cabo pela civilização que se julga a delícia do gênero humano — essa gente que, liberta de toda ‘superstição retrógrada’ e de todo ‘animismo primitivo’, só jura pela santíssima trindade do Estado, do Mercado e da Ciência, respectivamente o Pai, o Filho e o Espírito Santo da teologia modernista.** Tal credo fanático, de resto, é costumeiramente empurrado goela baixo dos índios por um estranho instrumento, ao mesmo tempo arcaico e modernizador, o Teosi (Deus) dos missionários evangélicos norte-americanos que Davi conheceu tão bem, esses insuportáveis operadores de telemarketing do Capital. Uma outra razão para saudarmos a boa hora em que A queda do céu se torna acessível ao leitorado brasileiro é que ele vem compensar, melhor, des- moralizar a aparição por aqui do último rebento de um personagem lamentá- vel da antropologia amazônica. Refiro-me ao livro recente de Napoleon Chag- non, protagonista de episódios ‘controversos’ da história da relação entre os Yanomami e a ciência ocidental, dos quais o mínimo que se pode dizer é que certos protocolos éticos básicos da pesquisa foram ali violados. Como o sensa- cionalismo, a burrice reacionária e o preconceito racista vendem bem, o livro * Falo em “antropologia simétrica” em sentido próximo mas não idêntico àquele em que Bruno Latour (1994) emprega esse conceito. Poderia também ter convocado a noção de “antropologia reversa” de Roy Wagner (2010), que se aplicaria bastante bem ao ‘ecologismo xamânico’ de Ko- penawa. Albert fala em uma “contra-antropologia histórica do mundo branco” (p. 542) contida na narrativa de Davi, em sentido talvez análogo àquele que proponho em Métaphysiques canni- bales, quando caracterizo o perspectivismo indígena como uma “contra-antropologia multina- turalista” (Viveiros de Castro, 2009, p. 61). ** Viveiros de Castro, 2011, p. 318. 12959 - A queda do céu.indd 24 8/10/15 12:29 PM
  • 27. 25 de Chagnon, publicado nos Estados Unidos em 2013, não demorou a ser tra- duzido no Brasil e posicionado com a devida fanfarra pela empresa responsá- vel.* As reminiscências de Chagnon, antropólogo que, ao contrário do coautor de A queda do céu, cessou todo contato relevante com os Yanomami já lá vão décadas, consistem essencialmente em uma longa e ressentida autojustificação, um acerto de contas cheio de acusações de “esquerdismo” contra seus críticos, e em uma reapresentação salmodiada de seus dogmas teóricos, cujas supostas evidências etnográficas e estatísticas foram refutadas por uma quantidade de pesquisadores. Campeão de uma das versões menos sofisticadas da sociobio- logia humana, disciplina (?) que não chega a impressionar, em geral, nem pela sofisticação teórica nem pela fecundidade de suas conjecturas, Chagnon difun- diu uma imagem dos Yanomami como “povo feroz” (título de seu livro mais famoso), uma tribo de gente suja, primitiva e violenta, verdadeiros figurantes de um grand-guignol hobbesiano. Tal clichê etnocêntrico foi repetidas vezes usado contra os Yanomami pelos muitos agentes dos Brancos — burocratas, missionários, políticos — interessados em lhes roubar a terra e/ou as almas. O pesquisador norte-americano defende, entre outras ideias bizarras, a tese de que o povo de Davi Kopenawa é constituído por autômatos genéticos movidos pelo imperativo de maximização do potencial reprodutivo dos grandes ‘mata- dores’, os homens que teriam na sua conta o maior número de inimigos mortos em combate. Isso foi demonstrado ser um equívoco grotesco de interpretação das práticas guerreiras yanomami, diretamente ligadas não a condicionamentos genéticos, mas a um sistema sociopolítico sofisticado e a um dispositivo ritual funerário de forte densidade simbólica, ambos por sua vez associados a uma visão da vida e da morte, do espaço e do tempo, da fisiologia humana e da es- catologia cósmica da qual podemos ter uma ideia lendo a esplêndida exposição feita em diversos capítulos de A queda do céu.** Os livros de Chagnon são mui- to populares nos cursos de introdução à antropologia das universidades dos * A editora do livro de Chagnon pertence ao grupo Folha, que edita o jornal Folha de S.Paulo. O mesmo encontra-se à venda no site do jornal. Não o referimos na bibliografia deste prefácio por motivos de higiene. ** O leitor de formação ou vocação antropológica não pode deixar de completar a exposição de Davi Kopenawa com um estudo da tese inédita de Bruce Albert (1985) sobre a organização social e ritual dos Yanomami sul-orientais, focada no complexo funerário e na teoria da periodicidade fisiológica, sociológica e escatológica nele implicada. 12959 - A queda do céu.indd 25 8/10/15 12:29 PM
  • 28. 26 Estados Unidos — não por acaso, já que seus ‘Yanomami’ se parecem muito mais com certos modelos masculinos dominantes naquele país do que com os índios homônimos. O autor tornou-se também uma espécie de mascote da vertente mais obtusamente cientificista (não confundir com científica) da aca- demia norte-americana, onde, entre defensores da Big Science e saudosistas da Guerra Fria, pontificam psicossociobiólogos de credenciais duvidosas, vulga- rizadores especializados na distorção da teoria darwinista de modo a transfor- má-la em uma apologia do individualismo rugged, uma justificação da domi- nação masculina e, mais ou menos disfarçadamente, do racismo. Resta-nos esperar que o presente livro de Kopenawa e Albert, já traduzido nos Estados Unidos, possa servir de antídoto a esse festival de boçalidade reacionária. E que esta edição brasileira dificulte um pouco sua proliferação por aqui, no país dos Pondés, dos Narloch, dos Reinaldos Azevedos e dos Rodrigos Constantinos. A queda do céu será um divisor de águas, como eu já disse, na relação in- telectual e política entre índios e não índios nas Américas. Verdade que não faltam livros de memórias indígenas, nos sentidos lato ou estrito do termo, tanto auto como heterobiografias, especialmente de membros dos povos situa- dos na América do Norte.* Os próprios compatriotas de Davi Kopenawa con- tam com um relato autobiográfico importante, o de Helena Valero, uma jovem do povo Baré raptada por uma comunidade dos Yanomami em 1936, junto aos quais viveu por vários anos.** Registrem-se ainda os vários depoimentos precio- sos que vêm se acumulando, como os relatos que o Instituto Socioambiental publicou sobre as visões indígenas a respeito da origem e natureza dos Brancos (Ricardo, Org., 2000), ou o recentíssimo livro de entrevistas de Ailton Krenak (2015), outro destacado líder e pensador indígena, cuja trajetória biográfica apresenta diferenças significativas em relação à de Kopenawa, o que não os * Várias dessas biografias de índios norte-americanos estão publicadas na coleção Terre Humai- ne, da editora Plon. Na verdade (ver Calavia, 2012, nota 4), os testemunhos autobiográficos pro- venientes de povos colonizados antecedem de muito a antropologia como disciplina, e o mesmo se diga das autoetnografias (pense-se em Guamán Poma de Ayala, por exemplo). ** Valero, 1984. A história de Helena Valero foi contada pela primeira vez, de forma algo truncada, em um livro publicado em 1965, em italiano, pelo médico Ettore Biocca. A versão francesa do livro de Biocca foi publicada na coleção Terre Humaine em 1968. 12959 - A queda do céu.indd 26 8/10/15 12:29 PM
  • 29. 27 impediu de formarem lado a lado na mesma frente de combate durante as úl- timas décadas. Mas A queda do céu é um ‘objeto’ inédito, compósito e complexo, quase único em seu gênero. Pois ele é, ao mesmo tempo: uma biografia singular de um indivíduo excepcional, um sobrevivente indígena que viveu vários anos em contato com os Brancos até reincorporar-se a seu povo e decidir tornar-se xamã; uma descrição detalhada dos fundamentos poético-metafísicos de uma visão do mundo da qual só agora começamos a reconhecer a sabedoria; uma defesa apaixonada do direito à existência de um povo nativo que vai sendo engolido por uma máquina civilizacional incomensuravelmente mais podero- sa; e, finalmente, uma contra-antropologia arguta e sarcástica dos Brancos, o “povo da mercadoria”,* e de sua relação doentia com a Terra — conformando um discurso que Albert (1993) caracterizou, lapidarmente, como uma “crítica xamânica da economia política da natureza”. O livro se destaca de seus aparentes congêneres, antes de mais nada, pela densidade e solidez inauditas de seu contexto de elaboração, que pôs frente a frente, em um diálogo ‘entrebiográfico’ que é também a história de um proje- to político convergente, um pensador indígena com uma longa e dolorosa ex- periência ‘pragmática’ (mas também intelectual) do mundo dos Brancos, ob- servador sagaz de nossas obsessões e carências, e um antropólogo com uma longa experiência ‘intelectual’ (mas também prática, e não isenta de dificulda- des) do mundo dos Yanomami — autor que chegou a esta obra a quatro mãos já de posse de um saber etnográfico que conta entre as mais importantes con- tribuições ao estudo dos povos amazônicos, e cuja biografia é quase tão ‘anô- mala’ em sua recusa a se deixar capturar pela carreira acadêmica quanto a do xamã-narrador. Recorrendo a uma distinção que me foi sugerida por Vinciane Despret para pensar um problema semelhante, pode-se dizer que nem Kope- nawa nem Albert são exatamente representativos de seu meio e repertório so- ciocultural originais — Amazônia e xamanismo yanomami, Europa e antro- pologia universitária francesa —, mas que é justamente essa condição de enunciadores em posição atípica, fronteiriça ou ex-centrada, que os torna re- presentantes ideais de suas respectivas tradições, capazes de mostrar do que elas * Que melhor nome se poderia cunhar para a civilização capitalista? O capital inteiro em um simples etnônimo… 12959 - A queda do céu.indd 27 8/10/15 12:29 PM
  • 30. 28 são capazes, uma vez libertas de seu ensimesmamento e de seu ‘monolinguis- mo’ cosmológico; quando essas tradições são forçadas, em outras palavras — pelas circunstâncias históricas e pela força de caráter do protagonista, em um caso, pelo compromisso existencial e pela disciplina intelectual do seu colabo- rador, no outro —, a negociarem a diferença intercultural até o ponto de uma mútua e imensamente valiosa ‘entretradução’, tanto mais valiosa quanto mais ciente de suas imperfeições, suas aproximações equívocas, suas equivalências impossíveis e, contas feitas (conclusão que é de minha exclusiva responsabili- dade), sua incompatibilidade metafísica e antropológica absoluta, que só será superada, temo, com a destruição material ou espiritual da civilização de ori- gem de um ou outro dos interlocutores. E como já sugeri em uma nota mais acima, não está claro qual das duas cederá primeiro, diante das condições ma- teriais inimagináveis que nos aguardam no “tempo das catástrofes”, na “bar- bárie por vir”.* Este livro é excepcional, em segundo lugar, pela felicidade das decisões propriamente tradutivas, tanto aquelas que procuram superar a grande distân- cia entre a ‘enciclopédia’ e a ‘semântica’ das respectivas línguas-culturas como aquelas que dizem respeito às convenções de textualização de um discurso oral, ao seu agenciamento enunciativo e às dimensões pragmáticas e metapragmá- ticas do texto. Essas decisões são exaustivamente discutidas no Postscriptum de Albert, parte de A queda do céu que mereceria um estudo especial por seu conteúdo crítico-reflexivo e sua perspectiva ‘em abismo’, metatextual — aspec- tos que interpelam diretamente os etnógrafos e, de modo geral, todos aqueles cujo ofício é transmitir, isto é, transformar, a palavra alheia. O Postscriptum retraça a história do pacto entre o coautor e Davi Kopenawa que desembocou neste livro; rememora (memorializa) as peripécias de uma vocação e as vicis- situdes de uma pesquisa de campo realizada, em larga medida, durante os ne- gros tempos de nossa ditadura militar, quando antropólogos — essa gente comunista e maconheira — vivendo entre selvagens binacionais não eram na- * Ver Stengers, 2009; Danowski e Viveiros de Castro, 2014. Recordem-se aqui as palavras de Russel Means, o célebre ativista Oglala Lakota, pronunciadas nos longínquos idos de 1980, o que lhes dá um caráter quase profético: “E quando a catástrofe tiver terminado, nós, os povos indíge- nas americanos, ainda estaremos aqui para povoar o hemisfério. Pouco importa se estivermos reduzidos a um punhado de gente vivendo no alto dos Andes. O povo indígena americano so- breviverá; a harmonia será restabelecida. É isso a revolução”. 12959 - A queda do céu.indd 28 8/10/15 12:29 PM
  • 31. 29 da bem-vindos, ainda mais se fossem estrangeiros; e tece reflexões altamente pertinentes sobre as condições de uma escrita etnográfica pós-colonial, tanto do ponto de vista político-diplomático de sua possibilidade e pertinência como daquele retórico-epistêmico de seu estilo, em todos os sentidos possíveis dessa última palavra. Prevejo que os críticos ‘sociológicos’, os que escrevem sem parar e sem temer o paradoxo sobre os perigos da textualização — da inscrição e tradução engessadoras de uma oralidade fluida, vibrátil, ‘autêntica’ (a qual, suponho, deveria idealmente ser capaz de se transmitir por telepatia para uma audiência também monolíngue) —, verão uma boa dose de ‘artificialidade’ neste livro, visto que a narrativa de Kopenawa aqui publicada é o resultado de um cuida- doso trabalho de composição — como o é, surpresa!, toda escritura etnográfi- ca, biográfica, ficcional ou qualquer outra. O que temos diante de nós é uma edição, explicitamente reconstruída, resumida e homogeneizada, de milhares de folhas de transcritos de diversos ciclos de entrevistas, gravadas ao longo de doze anos, em situações as mais diversas; um texto em francês (em português) que procurou manter os torneios e maneirismos característicos da língua de origem, mas recusando qualquer ‘primitivização’ pitoresca da língua de desti- no — ao contrário, inovando poeticamente e renovando ritmicamente a prosa- -padrão dessa língua. Destaque-se, por fim, uma organização capitular que obedece a uma rigorosa simetria, criando uma ressonância interna entre vários capítulos e desdobrando o livro em um tríptico cujo quadro central — que conta a catastrófica colisão dos Yanomami com os Brancos e o modo como esse malencontro determinou a vida e a vocação do narrador — é ladeado por uma seção inicial, que descreve a formação xamânica de Davi Kopenawa por seu sogro, bem como situa os parâmetros cosmológicos nativos, e por outra seção, final, em que o narrador comenta a experiência antropológico-xamâni- ca adquirida nas viagens àquela parte do hemisfério norte que os brasileiros ainda chamamos de ‘Primeiro Mundo’ (Estados Unidos, França, Inglaterra), lugar dos ancestrais dos napë canibais que vieram comer a terra dos Yanoma- mi depois de terem devorado a sua própria. Para ainda maior simetria, o tríp- tico é emoldurado por uma dupla introdução (assinada uma por Albert, a ou- tra por Kopenawa) e uma dupla conclusão (idem) — sem falar na dupla epígrafe geral, uma de Lévi-Strauss, a outra ainda de Kopenawa —, em um 12959 - A queda do céu.indd 29 8/10/15 12:29 PM
  • 32. 30 dualismo que marca insistentemente (já ia escrevendo “obsessivamente”…) a dualidade das vozes entrelaçadas. Ali então onde aqueles que acreditam em uma naturalidade imanente do discurso do Outro — mas só se são eles que o repercutem; os críticos da Pre- sença costumam tornar-se seus campeões quando estão presentes a ela — irão ver, suspeito, artifício arquitetônico, artefato textual, quiçá contrafação ideo- lógica piedosa em A queda do céu, ali eu vejo, ao contrário, uma mostra do mais alto “engenho e arte” de que é capaz a escritura antropológica. Vejo um dos raríssimos exemplos recentes de verdadeira invenção reflexiva no plano das técnicas de textualização etnográfica, por um lado (talvez só comparável, mu- tatis mutandis, ao que fez Marilyn Strathern para a Melanésia),* e de renovação radical de um gênero distintivo da tradição francesa, a cavaleiro entre a etno- logia e a literatura, por outro lado.** O coautor antropólogo está ciente dos riscos das decisões tomadas — o escrúpulo é talvez a atitude mais marcante nas intervenções do escritor branco deste livro, desde o meticuloso aparelho de notas que acompanham a narrativa de Davi até o paradigmático Postscriptum, e dele aos Anexos, aos glossários, aos diversos índices, à conscienciosa biblio- grafia. Albert está perfeitamente a par das controvérsias acesas pela crise pós- -modernista em torno da (auto)biografia como gênero, da tensão entre o Eu do narrador e o do escritor, da “economia da pessoa” implicada na etnografia e do processo de “delegação ontológica” que veio renová-la (Salmon, 2013), da alteridade ‘própria’ a toda autoria e sobretudo da assimetria inerente à “situa- ção etnográfica” e suas consequências epistêmicas (Zempléni, 1984; Viveiros de Castro, 2002), assimetria irredutível que o escriba/escritor de A queda do céu procura compensar, sem jamais pretender escondê-la, por um conjunto de soluções narrativas postas sob o signo do “menor dos males” (p. 536). Esta última expressão me parece particularmente feliz para caracterizar a essência do gênero etnográfico — “conhecimento aproximado” por natureza, diria Ba- chelard (ou antes, ‘por cultura’) —, e, mais geralmente, para designar a sensa- ção de perda inevitável suscitada por todo trabalho de tradução, seja esta inter- linguística, intercultural, intersemiótica, ou mesmo, como constatamos * Ver, naturalmente, Strathern, 2006, mas também o importante artigo “O efeito etnográfico” em Strathern, 2014 (cap. 12). ** Ver Debaene, 2010. 12959 - A queda do céu.indd 30 8/10/15 12:29 PM
  • 33. 31 dolorosamente em nossa própria vida, interpessoal — para não falar naquela obscura, incessante e equívoca tradução intrapessoal que se estabelece no tu- multo de nossas múltiplas vozes ‘internas’, sob a pressão implacável do incons- ciente. E como pouco importa, no final das contas, que a perda seja de fato puramente imaginária. Mais um equívoco (inevitável?) sobre o equívoco. Pelo que precede, suspeita-se que o livro terá muita coisa a ensinar aos antropólogos e a outros estudiosos ou hermeneutas das vozes indígenas, seja sob o modo do exemplo dado pela narrativa de Davi Kopenawa, seja sob o modo da reflexão que nos é apresentada nesse Postscriptum. O autor deste úl- timo, retomando um artigo que publicou anos atrás (Albert, 1997), define ali o que chama de pacto etnográfico. O “pacto” começa pelo respeito aos três impe- rativos básicos de todo engajamento do antropólogo com um povo indígena: Em primeiro lugar, evidentemente, fazer justiça de modo escrupuloso à imaginação conceitual de [seus] anfitriões; em seguida, levar em conta com todo o rigor o con- texto sociopolítico, local e global, com o qual sua [deles] sociedade está confronta- da; e, por fim, manter um olhar crítico sobre o quadro da pesquisa etnográfica em si (p. 520). A habilidade — o gosto e o talento — que mostra cada etnógrafo no cum- prir igualmente bem as três exigências é, como se sabe, muito variável.* Mas, de qualquer forma, elas não são o bastante. Como prossegue Albert, o etnógra- fo deve estar preparado para compreender que o objetivo principal dos seus * O fato de que Albert coloque como primeiro e óbvio (“evidentemente”) imperativo o respeito escrupuloso à “imaginação conceitual” de seus anfitriões não é, penso, acidental, exprimindo uma determinada concepção da antropologia (Viveiros de Castro, 2009, p. 7) que está longe de ser compartilhada por todos os praticantes da disciplina (id., 1999). Muitos deles entendem, ao con- trário, que o segundo imperativo é o alfa e o ômega do trabalho etnográfico — a sociedade do nativo é reduzida a seus “contextos sociopolíticos”, que o observador textualizará segundo sua própria ‘imaginação conceitual’. Outros, por fim, preferem dedicar-se com exclusividade a obe- decer ao terceiro imperativo — e com isso a crítica ao quadro da pesquisa etnográfica (de prefe- rência a pesquisa de outros etnógrafos) vem tomar o lugar da pesquisa etnográfica ela mesma, ignorando assim a advertência de Marilyn Strathern: “As etnografias são construções analíticas de acadêmicos; os povos que eles estudam não o são” (Strathern, 2006, p. 23). 12959 - A queda do céu.indd 31 8/10/15 12:29 PM
  • 34. 32 interlocutores indígenas — e o fundamento de sua cooperação — é o de con- verter o pesquisador em um aliado político, em seu representante diplomático ou intérprete junto à sociedade de onde ele provém, invertendo assim, tanto quanto possível, os termos da “troca desigual subjacente à relação etnográfica” (p. 521) . Os nativos aceitam se objetivar perante o observador estrangeiro na medida em que este aceite (e esteja tecnicamente preparado para isso) repre- sentá-los adequadamente perante a sociedade que os acossa e assedia — tal é o “pacto etnográfico”, mediante o qual os sentidos político e científico da ideia de ‘representação’ são levados por força (pela força das coisas) a coincidir. Isso supõe, entretanto, que o pesquisador, ao assumir a função de enviado diplo- mático dos nativos junto a seu próprio ‘povo’, possa e deva fazê-lo “sem por isso abrir mão da singularidade de sua própria curiosidade intelectual (da qual dependem, em grande parte, a qualidade e a eficácia de sua mediação)” (p. 522). Esta última ressalva me parece extremamente importante. Não basta com- padecer-se da sorte do colonizado. Não é suficiente mostrar generosas dispo- sições emancipatórias para com o nativo, nem imaginar-se dotado dos instru- mentos teórico-políticos capazes de libertá-lo de sua sujeição — instrumentos de libertação que, o mais das vezes, vêm da mesma caixa de ferramentas que os instrumentos de sujeição, como diversos ‘nativos’ já observaram (Means, 1980; Nandy, 2004; Rivera Cusicanqui, 2014). Os numerosos trechos do depoi- mento de Kopenawa nos quais somos confrontados a ações (ou inações) abo- mináveis dos Brancos, nos quais assistimos à tragédia de famílias ou aldeias inteiras dizimadas por epidemias trazidas por supostos benfeitores dos Yano- mami, à súbita redução a uma mendicância abjeta de comunidades que, havia pouco, eram íntegras e orgulhosas, às invasões sucessivas por agentes da des- truição material e moral de um povo — nada disso soa, em A queda do céu, apenas como mais uma daquelas litanias dilacerantes que muitos Brancos, sejam eles acadêmicos, teólogos da libertação, jornalistas, militantes da causa indígena, todos eles, insisto, obviamente bem-intencionados (mesmo os que conseguiram sua tenure graças à desgraça alheia), repetem à exaustão. E se nada nas palavras de Kopenawa soa assim — apenas assim —, é porque elas se inscrevem em um livro composto a partir de um ponto de vista teoricamente preparado para dar sentido a essas catástrofes, situando-as nos quadros con- ceituais de um ‘mundo vivido’ singular, o que as dota de uma significação in- finitamente mais rica que a de um exemplo entre outros da miséria humana. 12959 - A queda do céu.indd 32 8/10/15 12:29 PM
  • 35. 33 Em poucas palavras, sem a “curiosidade intelectual” que moveu o antropólogo escritor, e sem a curiosidade (contra-)antropológica que moveu o xamã-nar- rador, não haveria este livro, ou ele seria ininteligível. Cabe aqui ser direto, e marcar um ponto. Por muito que tenham ajudado o escritor antropólogo de A queda do céu a entender a situação neocolonial e hipercapitalista que enfrentam as minorias étnicas no Brasil, inspirando-o a formular o instigante programa teórico de um “trabalho de campo pós-mali- nowskiano” (Albert, 1997), a verdade é que a escola do chamado “contato in- terétnico” (ou “fricção”, idem) e seus desdobramentos em uma doutrina da “etnicidade” — tendências hegemônicas na antropologia brasileira durante todo o último quartel do século passado —, como, igualmente ou sobretudo, os escritos de etnógrafos militantes de… concedamos, ‘esquerda’, cujo exemplo mais destacado é Terence Turner, autor de uma laboriosa teoria paramarxista de uma passagem “de cosmologia a ideologia” que teria miraculado os Kaya- pó — a verdade é que nenhum dos autores representativos dessas posições ‘radicais’ (mas quem não se considera radical?) chegou nem sequer perto de abrir a fenda na muralha dialógica erguida entre índios e brancos que A queda do céu teve a capacidade de abrir. É evidente que a formação teórica de Albert, sua “curiosidade intelectual” de base ‘estruturalista’,* é responsável pela sinto- nização do ouvido analítico do antropólogo na frequência de onda da imagi- * A queda do céu está firmemente alicerçada na etnografia contida na tese do coautor francês (Albert, 1985) sobre as representações da doença, o espaço político e o sistema ritual dos Yano- mami, onde as influências da antropologia lévi-straussiana, em particular das Mitológicas, são transparentes. Que a voz da epígrafe “branca” escolhida como abertura do livro tenha sido a de Lévi-Strauss antes que a de Albert ele mesmo, ao contrário das metades “indígenas” das duas epígrafes, dos dois prólogos e das duas conclusões, sempre de Kopenawa, marca duas coisas: primeiro, que o livro é ‘de Davi’ — são suas palavras que (se) contam, como indica o subtítulo do livro —, mas ele foi escrito por Bruce, a quem não caberia obviamente epigrafar-se a si mes- mo; segundo, que o personagem ‘totêmico’ maior da formação teórica e da sensibilidade etno- lógica de Bruce Albert é, já o dissemos, Claude Lévi-Strauss. Como ele o é, aliás, do autor deste prefácio; o generoso convite a escrevê-lo, tenho a veleidade de imaginar, talvez seja um sinal de reconhecimento dessa fraternidade clânica. Os numerosos ‘estigmas de estruturalismo’ dispersos no aparelho de notas e comentários de A queda do céu não deixarão de intrigar, e muito possi- velmente irritar, certos leitores antropólogos que permanecem incapazes de entender a afinida- de profunda entre a concepção e a prática da antropologia por Lévi-Strauss, de um lado, e o projeto etno(bio)gráfico, o engajamento existencial e o ativismo político do coautor francês do presente livro, de outro. 12959 - A queda do céu.indd 33 8/10/15 12:29 PM
  • 36. 34 nação conceitual de Kopenawa, o qual, por sua vez, coproduziu com seu ‘pac- tário’ francês um discurso que vai muito além da denúncia e da lamentação — pois a condenação irrevogável do narrador sobre o que se pode esperar de nossa “civilização” é precedida (e derivada) de uma ampla exposição filosófica dos fundamentos de um mundo indígena, em seu triplo aspecto on- tológico, cosmológico e antropológico. Registre-se, por fim, que o engajamen- to vital com os Yanomami — traduzido em um dos trabalhos de campo de mais longa duração na história da etnologia amazônica —, que incluiu a montagem de serviços emergenciais de saúde, levantamentos epidemiológicos, projetos de proteção ambiental, estudos das dimensões etnoecológicas e etnogeográficas da economia indígena, denúncias insistentes e penosamente documentadas à imprensa, uma exaustiva atividade nas ongs de apoio à causa indígena, nada disso impediu o coautor branco deste livro de fazer apostas ambiciosamente criativas, fora do diapasão assistencialista ou ativista, como a do encontro entre os xamãs yanomami e um grupo de artistas ocidentais de vanguarda patroci- nado pela Fundação Cartier, em 2003 (Albert e Kopenawa, 2003). Recusar aos índios uma interlocução estética e filosófica radicalmente ‘horizontal’ com nossa sociedade, relegando-os ao papel de objetos de um assistencialismo ter- ceirizado, de clientes de um ativismo branco esclarecido, ou de vítimas de um denuncismo desesperado, é recusar a eles sua contemporaneidade absoluta. Nosso tempo é o tempo do outro, para glosarmos, e invertermos, a bandeira que Johannes Fabian agitava em 1983.* Pois os tempos são outros. E o outro, mais ainda. Não caberia, em todos os sentidos, resumir aqui a narrativa de Davi Ko- penawa, cujo interesse extravasa em muito as questões e querelas ‘antropológi- cas’ acima expostas. Pois o que realmente importa é como este livro pode dar a pensar aos não antropólogos; o que conta é o que Davi Kopenawa tem a dizer, a quem souber ouvir, sobre os Brancos, sobre o mundo e sobre o futuro. Que seu repertório conceitual e seu universo de referências sejam muito estranhos ao nosso só torna mais urgente e inquietante sua ‘profecia xamânica’, cada vez menos ‘apenas’ imaginária e cada vez mais parecida com a realidade. Como * Fabian, 1983. 12959 - A queda do céu.indd 34 8/10/15 12:29 PM
  • 37. 35 observou Bruno Latour, falando da crise da ontologia dos Modernos e da ca- tástrofe ambiental planetária a ela associada, assistimos hoje a um “[r]etorno progressivo às cosmologias antigas e às suas inquietudes, as quais percebemos, subitamente, não serem assim tão infundadas” (Latour, 2012, p. 452). Ressalve- -se apenas o “antigas” na frase acima — pois o que “percebemos, subitamente”, é que elas são nossas contemporâneas; se precederam as nossas, nunca deixaram de coexistir com elas e, como já dissemos, não é impossível que sobrevivam a elas. Não faltam indícios da pertinência, cujo ‘localismo’ poético só torna mais inquietantes, das previsões do xamã yanomami. Para quem estiver interessado, tomemos apenas um exemplo entre muitos, em uma tradução científica (isto é, culturalmente ‘normal’ para os Brancos) das observações de Davi a respeito dos “comedores de terra”, os “queixadas monstruosos” ou os “tatus gigantes” que devoram a substância do planeta, uma leitura do estudo recente de Ugo Bardi (2014) sobre o esgotamento das reservas minerais mundiais é altamente reco- mendável. Há, entretanto, duas pequenas passagens de A queda do céu que me tocam especialmente, por resumirem de modo epigramático o que eu chamaria a diferença indígena. A primeira é uma citação, em epígrafe ao capítulo 17, “Fa- lar aos Brancos”, de um diálogo havido no dia 19 de abril de 1989 (o “Dia do Índio”) entre o general Bayma Denys, ministro-chefe da Casa Militar durante o governo Sarney — sempre ele —, e Davi Kopenawa. Quase conseguimos ou- vir o tom arrogante e complacente com que o dignitário militar, provavelmen- te obrigado a jogar conversa fora com um índio qualquer durante aquela te- diosa efeméride, pergunta a Davi: O povo de vocês gostaria de receber informações sobre como cultivar a terra? Ao que o impávido xamã replica: Não. O que eu desejo obter é a demarcação de nosso território. Pano rápido… O que me fascina nesse diálogo, além, naturalmente, da soberba indiferença à farda demonstrada por Kopenawa, é a presunção do general, que imagina poder ensinar aos senhores da terra como cultivá-la — convicto de que, povo da natureza, os índios não entendiam nada de cultura, 12959 - A queda do céu.indd 35 8/10/15 12:29 PM
  • 38. 36 Bayma Denys devia pensar que os Yanomami eram ‘nômades’ ou algo as- sim —; que acredita, ademais, que os pobres índios estavam sequiosos de beber dessa ciência agronômica possuída pelos Brancos, a ciência que nos abençoa com pesticidas cancerígenos, fertilizantes químicos e transgênicos monopolis- tas, enquanto os Yanomami se empanturram com o produto de suas roças impecavelmente ‘agrobiológicas’. Mais fascinante ainda, porém, é a total inver- são de conceitos proposta por Davi em sua réplica, verdadeiro contragolpe de mestre espadachim. O general fala em “terra”, quando deveria estar falando é em “território”. Fala em ensinar a cultivar a terra, quando o que lhe compete, como militar a soldo de um Estado nacional, topográfico e agronomocrático, é demarcar o território. Bayma Denys não sabe do que sabem os Yanomami; e, aliás, o que sabe ele de terra? Mas Kopenawa sabe bem o que sabem os Brancos; sabe que a única linguagem que eles entendem não é a da terra, mas a do ter- ritório, do espaço estriado, do limite, da divisa, da fronteira, do marco e do registro. Sabe que é preciso garantir o território para poder cultivar a terra. Faz tempo que ele aprendeu a regra do jogo dos Brancos, e nunca mais esqueceu. Veja-se esta sua entrevista ao Portal Amazônia, concedida exatamente 26 anos após o colóquio com o general: Quem ensinou a demarcar foi o homem branco. A demarcação, divisão de terra, traçar fronteira é costume de branco, não do índio. Brasileiro ensinou a demarcar terra indígena, então a gente passamos a lutar por isso. Nosso Brasil é tão grande e a nossa terra é pequena. Nós, povos indígenas, somos moradores daqui antes dos portugueses chegarem. Lutei pela terra Yanomami para que o meu povo viva onde eles nasceram e cresceram, mas o registro de demarcação da terra Yanomami não está comigo, está nas mãos do governo. Mesmo diante das dificuldades, o tamanho da nossa terra é suficiente para nós, desde que seja mesmo somente para nós e não preci- samos dividir com os garimpeiros e ruralistas.* A segunda passagem, e aqui transcrevo diretamente (não conseguiria fazer melhor…) três parágrafos do comentário que Déborah Danowski e eu tecemos * Pontes, 2015. 12959 - A queda do céu.indd 36 8/10/15 12:29 PM
  • 39. 37 sobre ela em Há mundo por vir?,* equivale a um tratado inteiro de contra-an- tropologia dos Brancos: Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente de- les. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não conse- gue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. […] Ficam sempre bebendo cachaça e cerveja, que lhes esquentam e esfumaçam o peito. É por isso que suas palavras ficam tão ruins e emaranhadas. Não queremos mais ouvi-las. Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos. (p. 390. Eu sublinho.) O vão desejo de ignorar a morte está ligado, segundo Kopenawa, à fixação dos Brancos na relação de propriedade e na forma-mercadoria. Eles são “apai- xonados” pelas mercadorias, às quais seu pensamento permanece completa- mente “aprisionado”. Recordemos que os Yanomami não só valorizam ao ex- tremo a liberalidade e a troca não mercantil de bens como destroem todas as posses dos mortos.** E então, a volta do parafuso: “[Os Brancos] dormem muito, mas só sonham consigo mesmos” (p. 390). Esse é, talvez, o juízo mais cruel e preciso até hoje enunciado sobre a característica antropológica central do “povo da mercadoria”. A desvalorização epistêmica do sonho por parte dos Brancos vai de par com sua autofascinação solipsista — sua incapacidade de discernir a humanidade secre- ta dos existentes não humanos — e sua avareza ‘fetichista’ tão ridícula quanto * Ver Danowski e Viveiros de Castro, 2015, pp. 98 ss. Esse livro, como tantos outros textos recen- tes de minha (co)autoria, faz largo uso das palavras de Davi Kopenawa e do apoio de Bruce Albert. Apenas por isso os cito de modo tão imodestamente abundante neste prefácio. ** A morte é o fundamento, no sentido de razão, da “economia da troca simbólica” dos Yanoma- mi. Tudo isso se acha desenvolvido no artigo seminal de Albert (1993) sobre a “crítica xamâni- ca da economia política da natureza” veiculada no discurso de Kopenawa, crítica essa que inclui uma apreciação sarcástica do fetichismo da mercadoria próprio dos Brancos, bem como de sua relação intrínseca com o canibalismo. 12959 - A queda do céu.indd 37 8/10/15 12:29 PM
  • 40. 38 incurável, sua crisofilia. Os Brancos, em suma, sonham com o que não tem sentido.* Em vez de sonharmos com o outro, sonhamos com o ouro. É interessante notar, por um lado, que há algo de profundamente perti- nente do ponto de vista psicanalítico no diagnóstico de Kopenawa sobre a vida onírica ocidental — sua Traumdeutung é de fazer inveja a qualquer pensador freudo-marxista —, e, de outro lado, que seu diagnóstico nos paga com nossa própria moeda falsa: a acusação de uma projeção narcisista do Ego sobre o mundo é algo a que os Modernos sempre recorreram para definir a característica antropológica dos povos “animistas” — Freud foi, como se sabe, um dos mais ilustres defensores dessa tese. No entender desses que chamamos animistas, ao contrário, somos nós, os Modernos, que, ao adentrarmos o espaço da exterio- ridade e da verdade — o sonho —, só conseguimos ver reflexos e simulacros obsedantes de nós mesmos, em lugar de nos abrirmos à inquietante estranhe- za do comércio com a infinidade de agências, ao mesmo tempo inteligíveis e radicalmente outras, que se encontram disseminadas pelo cosmos. Os Yano- mami, ou a política do sonho contra o Estado: não o nosso “sonho” de uma sociedade contra o Estado, mas o sonho tal como ele é sonhado em uma socie- dade contra o Estado. Começamos este prefácio evocando a relação complexa de A queda do céu com Tristes trópicos. Voltemos então a este último, recordando um episódio célebre em que Lévi-Strauss conta seu diálogo com Luís de Sousa Dantas, o embaixador brasileiro em Paris, às vésperas de embarcar para São Paulo, nos idos de 1934. No decorrer de um jantar de cerimônia, o jovem futuro professor da usp indaga do embaixador do país para onde se dirigia sobre os índios do Brasil. É então que ouve, perplexo e consternado, da boca do diplomata: Índios? Hélas, meu caro senhor, há muitos lustros que eles desapareceram, todos. Esta é uma página muito triste, muito vergonhosa da história de meu país. […] * O sonho, particularmente o sonho xamânico induzido pelo consumo de alucinógenos, é a via régia do conhecimento dos fundamentos invisíveis do mundo, tanto para os Yanomami como para muitos outros povos ameríndios. Ver Viveiros de Castro, 2007. 12959 - A queda do céu.indd 38 8/10/15 12:29 PM
  • 41. 39 Como sociólogo, o senhor irá descobrir coisas apaixonantes no Brasil, mas índios, nem pense nisso, o senhor não encontrará um só… (Lévi-Strauss, 1955, p. 51.) Estou convencido de que o sr. Luís de Sousa Dantas realmente não sabia que ainda havia índios no país que representava — uma ignorância tão vergo- nhosa quanto a história dos massacres evocada pelo pobre embaixador.* E naturalmente que Lévi-Strauss, como se sabe, encontrou índios no Brasil. Se chegasse hoje, encontraria muitos mais; pois eis que agora, oitenta anos mais tarde, não só há cada vez mais índios no Brasil como estes constituíram seus próprios embaixadores, nas figuras de Raoni, Mário Juruna, Ailton Krenak, Alvaro Tukano, Marçal de Sousa, Angelo Kretã e tantos outros — entre os quais, il va sans dire, Davi Kopenawa. A queda do céu é, de fato, um documento exemplarmente diplomático. O pacto etnográfico de que fala Albert é indistinguível do ‘pacto xamânico’ que transparece em todas as páginas da narrativa de Davi. “Para nós, a política é outra coisa” — recordemos a frase, tirada da citação de Davi mais acima. Como registra Albert em seu Postscriptum, a estrutura enunciativa deste livro alta- mente complexo envolve uma pluralidade de posições: a do narrador, que ado- ta diferentes registros em diferentes momentos de sua narrativa; a de seu sogro indígena, que de certa forma o salvou dos Brancos, ao iniciá-lo no xamanismo; a dos xapiri de quem fala o narrador e que falam pela sua boca; a do intérprete branco que, falando em yanomami, procura navegar entre a língua do narra- dor, as numerosas expressões em português que pontuam seu discurso e o francês em que traduz a narrativa… Na verdade, essas “palavras de um xamã yanomami” — subtítulo de A queda do céu — são mais que isso: são palavras xamânicas yanomami, são uma performance xamânico-política, por outras palavras, uma performance cosmopolítica ou cósmico-diplomática (“para nós a política é outra coisa”), em que pontos de vista ontologicamente heterogêneos são comparados, traduzidos, negociados e avaliados. O xamanismo, aqui, é a continuação da política pelos mesmos meios. A queda do céu é uma sessão xamânica, um tratado (no duplo sentido) político e um compêndio de filosofia yanomami, a qual — como talvez se possa dizer de toda a filosofia amazôni- * Massacres postos na conta exclusiva dos portugueses, em um distante e brutal século xvi, como se lê na passagem integral acima resumida. 12959 - A queda do céu.indd 39 8/10/15 12:29 PM
  • 42. 40 ca — é essencialmente um onirismo especulativo, em que a imagem tem toda a força do conceito, e em que a experiência ativamente ‘extrospectiva’ da via- gem alucinatória ultracorpórea ocupa o lugar da introspecção ascética e medi- tabunda. Muitos estudos antropológicos ganhariam insuspeitos sentido e relevância ao serem ‘tratados’ pela sessão xamânica encenada em A queda do céu. Mas tomo a liberdade de sugerir ao leitor que a mais alta significação poética deste livro excepcional, significação que em nada diminui, muito pelo contrário, sua verdade histórica, etnográfica, ecológica e filosófica, talvez se torne ainda mais comovente — isto é, capaz de nos pôr em movimento junto com ela — se, ao fechá-lo, abramos o conto “O recado do morro”, que está no Corpo de baile de Guimarães Rosa. O título deste prefácio, “O recado da mata”, foi-nos, de resto, inspirado por uma alusão de José Miguel Wisnik (2014) ao conto de Rosa. Todos se recordarão que naquela narrativa desfila uma caravana de persona- gens literalmente excêntricos, exteriores, nômades ou eremitas, trogloditas, loucos, profetas, andarilhos, uma gente que ouve inquietantes mensagens da natureza a que permanecemos surdos — esquecidos, diria Davi. O recado do morro (a mensagem foi originalmente emitida pelo Morro da Garça, marco geográfico central na paisagem do conto), ouvido primeiro pelo bizarro ere- mita Gorgulho, avisa de sinistra conspiração, anuncia uma morte à traição; mas tudo vem vazado em uma linguagem mítica e apocalíptica (constantemente deformada e transformada à medida que vai circulando pelo sertão) que pare- ce puramente delirante a todos os demais personagens, entre os quais um padre e um naturalista — exceto a um poeta-cantador, que percebe epifanicamente a transcendental importância do que é transdito naquela algaravia heráldica e hieroglífica, e a sublima em um ‘romance’ cantado. As palavras do romance finalmente penetram no espírito um tanto “curto e obscuro” da vítima da mor- te anunciada, Pedro Orósio, um camponês livre, geralista de pura e poderosa cepa, um terrano dos pés à cabeça, que acaba por entender o recado e escapa, no último segundo, da cilada assassina movida por seus rivais amorosos. Ima- gine então o leitor que o xamã-narrador d’A queda do céu seria como uma síntese algo improvável do Gorgulho e de Nominedômine; que Pedro Orósio fosse o brasileiro — o caboclo terrano — que todos, no fundo, somos quando sonhamos, tão raramente, com um outro ‘nós-mesmos’, e que o antropólogo- 12959 - A queda do céu.indd 40 8/10/15 12:29 PM
  • 43. 41 -escriba fosse como um análogo do cantador Laudelim, o único a penetrar não a referência da mensagem cifrada, mas, muito mais importante, seu sentido. Davi é o elo crucial da rede, o ponto final da série de personagens ‘excên- tricos’ de “O recado do morro” — com efeito, quem mais fora do centro e do Um, da fumaça das cidades e do brilho assassino do metal, do que um índio, um homem do fundo do mato que firmou um pacto xamânico com as legiões de duplos invisíveis da floresta —, com os xapiri que transmitem o recado ci- frado da mata. Um recado, recordemos, ominoso. Um aviso. Uma advertência. Uma última palavra. 12959 - A queda do céu.indd 41 8/10/15 12:29 PM
  • 44. 12959 - A queda do céu.indd 42 8/10/15 12:29 PM
  • 45. 43 Prólogo Este livro, ao mesmo tempo relato de vida, autoetnografia e manifesto cosmopolítico, convida a uma viagem pela história e pelo pensamento de um xamã yanomami, Davi Kopenawa. Nascido há seis décadas no norte da Ama- zônia brasileira, no alto rio Toototobi (am), num mundo ainda muito afastado dos brancos, Davi Kopenawa viu-se confrontado desde a infância, no decorrer de uma existência muitas vezes épica, com os sucessivos protagonistas do avan- ço da fronteira regional (agentes do Serviço de Proteção aos Índios [spi], mili- tares da Comissão Brasileira Demarcadora de Limites [cbdl], missionários evangélicos, trabalhadores de estradas, garimpeiros e fazendeiros). Seus relatos e reflexões, que coletei e transcrevi em sua língua, antes de reordená-los e re- digi-los em francês, propiciam uma visão inédita, tanto por sua intensidade poética e dramática como por sua perspicácia e humor, do malencontro histó- rico entre os ameríndios e as margens de nossa “civilização”. Davi Kopenawa quis, desde o início de nossa colaboração, que seu teste- munho atingisse a maior audiência possível. Este prólogo se propõe, portanto, a oferecer alguns elementos de referência, indispensáveis para orientar mini- mamente os leitores interessados na aventura de sua leitura. Apresenta inicial- mente um brevíssimo apanhado a respeito dos Yanomami do Brasil e sua 12959 - A queda do céu.indd 43 8/10/15 12:29 PM
  • 46. 44 história; em seguida, um resumo da biografia de Davi Kopenawa, autor das palavras que constituem a fonte viva deste livro, bem como algo do percurso do autor destas linhas, que buscou restituir seu saber e o sabor em forma es- crita. Trata enfim, muito rapidamente, de nosso encontro e de nossa cola­ boração, bem como da produção deste texto e de seu conteúdo. Todos esses ­ temas são desenvolvidos de modo mais consistente nos Anexos e no Postscrip- tum do livro, para os leitores cuja curiosidade mova para além desta sucinta apresentação. os yanomami do brasil Os Yanomami1 constituem uma sociedade de caçadores-coletores e agri- cultores de coivara que ocupa um espaço de floresta tropical de aproximada- mente 230 mil quilômetros quadrados, nas duas vertentes da serra Parima, divisor de águas entre o alto Orinoco (no sul da Venezuela) e a margem es- querda do rio Negro (no norte do Brasil).2 Formam um vasto conjunto lin- guístico e cultural isolado, subdividido em várias línguas e dialetos aparen- tados. Sua população total é estimada em mais de 33 mil pessoas repartidas em cerca de 640 comunidades,3 o que faz deles um dos maiores grupos ame- ríndios da Amazônia que conservam em larga medida seu modo de vida tradicional. No Brasil, o território yanomami, homologado em 1992 com o nome de Terra Indígena Yanomami, estende-se por 96650 quilômetros quadrados no extremo norte da Amazônia, ao longo da fronteira com a Venezuela. Conta com uma população de aproximadamente 21600 pessoas, repartidas em pouco menos de 260 grupos locais. Cada uma dessas comunidades é em geral forma- da por um conjunto de parentes cognáticos cujas famílias estão idealmente unidas por laços de intercasamento repetidos por duas ou mais gerações, e que reside em uma ou várias casas comunais de forma cônica ou troncônica.4 Os primeiros contatos, esporádicos, dos Yanomami do Brasil com os brancos, coletores de produtos da floresta, viajantes estrangeiros, militares das expedições de demarcação de fronteiras ou agentes do spi datam do início do século xx. Entre as décadas de 1940 e 1960, algumas missões (católicas e evangélicas) e postos do spi se instalaram na periferia de suas terras, abrindo 12959 - A queda do céu.indd 44 8/10/15 12:29 PM
  • 47. 45 assim os primeiros pontos de contato regular, fontes de obtenção de bens manufaturados e também de vários surtos de epidemias letais. No início da década de 1970, esses primeiros avanços da fronteira regional seriam brusca- mente intensificados, primeiro pela abertura de um trecho da Perimetral Norte ao sul das terras yanomami em 1973 e, passados dez anos de trégua, com a irrupção de uma corrida pelo ouro sem precedentes em sua região central, em 1987. A construção da estrada foi abandonada em 1976, e a inva- são dos garimpeiros, relativamente contida a partir de meados da década de 1990. Entretanto, intensas atividades de garimpo foram retomadas nestes últimos anos e, além disso, a integridade da Terra Indígena Yanomami vem sofrendo novas ameaças, tanto de companhias mineradoras como da frente agropecuária local, interessadas em expandir suas atividades no oeste do es- tado de Roraima. davi kopenawa, xamã e porta-voz yanomami Davi Kopenawa nasceu por volta de 1956, em Marakana, grande casa comunal de cerca de duzentas pessoas, situada na floresta tropical de piemon- te do alto rio Toototobi, no extremo norte do estado do Amazonas, próximo à fronteira com a Venezuela. Desde o final da década de 1970, reside na co- munidade de seus sogros, no sopé da “Montanha do Vento” (Watoriki), na margem direita do rio Demini, a menos de cem quilômetros a sudeste do rio Toototobi. Quando criança, Davi Kopenawa viu seu grupo de origem ser dizimado por duas epidemias sucessivas de doenças infecciosas propagadas por agentes do spi (1959-60) e, depois, por membros da organização norte-americana New Tribes Mission (1967). Foi submetido por algum tempo ao proselitismo desses missionários, que se estabeleceram no rio Toototobi a partir de 1963. Deve a eles seu nome bíblico, a aprendizagem da escrita e um apanhado pouco atraente do cristianismo. Apesar da curiosidade inicial, não demorou a se indignar com seu fanatismo e obsessão pelo pecado. Rebelou-se finalmente contra sua influência no final da década de 1960, após ter perdido a maior parte dos seus durante uma epidemia de varíola transmitida pela filha de um dos pastores. 12959 - A queda do céu.indd 45 8/10/15 12:29 PM
  • 48. 46 Adolescente e órfão, revoltado por sucessivos lutos devidos às doenças dos brancos, mas ainda intrigado pelo seu poderio material, Davi Kopenawa deixou sua região natal para trabalhar num posto da Fundação Nacional do Índio (Funai),5 no baixo rio Demini, em Ajuricaba. Lá se esforçou, em suas próprias palavras, para “virar branco”. Tudo o que conseguiu foi contrair tuberculose. Essa desventura lhe valeu uma longa permanência no hospital, onde aproveitou para aprender alguns rudimentos de português. Uma vez curado, pôde voltar a sua casa no rio Toototobi, mas só por algum tempo. Em 1976, após a abertura da Perimetral Norte, foi contratado como intérprete da Funai. Assim, durante alguns anos, percorreu quase toda a terra yanomami, tomando consciência de sua extensão e de sua unidade cultural, para além das diferenças locais. A experiência lhe deu também um conhecimento mais preciso da obsessão predatória dos que ele chama de “Povo da Mercadoria”, e da ameaça que ela representa para a permanência da floresta e a sobrevi- vência de seu povo. Finalmente, cansado de suas peregrinações de intérprete, Davi Kopenawa se instalou definitivamente em Watoriki, no início da década de 1980, depois de ter se casado com a filha do “grande homem” (pata th ë) da comunidade. Este, xamã renomado, iniciou-o em sua arte e, tradicionalista convicto, tem sido desde então seu mestre de pensamento. Essa iniciação foi, para Davi Ko- penawa, a ocasião de uma volta às origens, graças à qual pôde retomar uma vocação xamânica manifestada desde a infância mas interrompida pela chega- da dos brancos. Posteriormente, serviu-lhe de alicerce para desenvolver uma reflexão cosmológica original a respeito do fetichismo da mercadoria, da des- truição da floresta amazônica e das mudanças climáticas.6 No final da década de 1980, mais de mil Yanomami morreram no Brasil, vítimas das doenças e da violência que acompanharam a invasão de seu terri- tório por cerca de 40 mil garimpeiros. Davi Kopenawa ficou transtornado com esse drama, que reavivou nele velhas lembranças do extermínio dos seus pelas epidemias (xawara) dos brancos quando era criança. Depois de anos engajado para conseguir a legalização das terras yanomami, ele então se envolveu numa campanha internacional em defesa de seu povo e da Amazônia. Sua experiên- cia inédita dos brancos, sua incomum firmeza de caráter e a legitimidade de- corrente de sua iniciação xamânica rapidamente fizeram dele um porta-voz destacado da causa yanomami. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, visitou 12959 - A queda do céu.indd 46 8/10/15 12:29 PM
  • 49. 47 vários países da Europa e os Estados Unidos. Em 1988, recebeu o prêmio Global 500 das Nações Unidas, por sua contribuição à defesa do meio ambiente. Em 1989, a ong Survival International o convidou a receber em seu nome o prêmio Right Livelihood, considerado o prêmio Nobel alternativo, por atrair a atenção internacional sobre a situação dramática dos Yanomami no Brasil. Em maio de 1992, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e De- senvolvimento, no Rio de Janeiro (eco-92 ou Rio-92), obteve finalmente a ho- mologação da Terra Indígena Yanomami por parte do governo brasi­ leiro. Em 1999, foi condecorado com a Ordem de Rio Branco, pelo então presidente Fer- nando Henrique Cardoso, “por seu mérito excepcional”. Davi Kopenawa é um homem de personalidade complexa e carismática, ora tenso e pensativo, ora caloroso e bem-humorado. Todos os episódios de sua trajetória pessoal evidenciam sua curiosidade intelectual fora do comum, sua determinação inabalável e sua admirável coragem. Ele tem seis filhos, entre os quais uma menininha adotada há poucos anos, e quatro netos que ele e a esposa, Fátima, cobrem de carinho e atenção. Vive com a mulher e os filhos menores num setor da grande casa coletiva de Watoriki igual a todos os demais. Apesar da fama, cultiva um altivo desprezo pelas coisas materiais, e só sente algum orgulho quando perturba a arrogante surdez dos brancos. Suas ativida- des preferidas são, na floresta, responder aos cantos dos espíritos e, nas cidades, falar em defesa de seu povo. É hoje uma liderança yanomami muito influente e um xamã respeitado. Defensor incansável da terra e dos direitos dos Yano- mami, continua zelando com rigor pela tradição de seus maiores, em particu- lar de seu saber xamânico. Desde 2004, é presidente fundador da associação Hutukara, que representa a maioria dos Yanomami no Brasil.7 Em dezembro de 2008, recebeu uma menção de honra especial do prestigioso prêmio Barto- lomé de Las Casas, concedido pelo governo espanhol pela defesa dos direitos dos povos autóctones das Américas e, em 2009, foi condecorado com a Ordem do Mérito do Ministério da Cultura brasileiro. bruce albert, etnólogo Nascido em 1952 no Marrocos, doutor em antropologia pela Université de Paris x-Nanterre (1985) e pesquisador sênior do Institut de Recherche pour 12959 - A queda do céu.indd 47 8/10/15 12:29 PM
  • 50. 48 le Développement (ird, Paris), comecei a trabalhar com os Yanomami do Brasil em março de 1975. Tinha acabado de completar 23 anos e de me formar numa Paris de ciências humanas efervescentes. Ainda embriagado de leituras etnográficas, me vi de repente mergulhado no faroeste amazônico dos confins do Brasil com a Venezuela, na região do alto rio Catrimani. Esgueirando-se por entre os caminhões e escavadeiras gigantes dos canteiros da Perimetral Norte, ou desarmando com humor as boas intenções invasivas de um pitores- co padre italiano, os Yanomami me seduziram imediatamente pela elegância jovial e irônica. Revoltado com o espetáculo lastimável das megalomaníacas obras viárias rasgando a floresta a esmo, com seu cortejo de doenças e devas- tação, entendi que para mim nenhuma etnografia seria possível sem um en- volvimento duradouro ao lado do povo com quem tinha resolvido trabalhar. Minhas inclinações pessoais certamente me predispunham mais à busca de um saber vivido e ao engajamento social do que às ambições acadêmicas. As- sim, o trabalho de etnólogo apresentou-se imediatamente a mim como um misto de busca intelectual e modo de vida; isso antes de se tornar uma profis- são — profissão cujos ritos institucionais, aliás, nunca me atraíram. Desde então, minha existência assumiu as consequências desse primeiro encontro com os Yanomami na forma de uma aventura de “participação observante” de (muito) longo prazo, sem que o engajamento pessoal afetasse o gosto pela reflexão antropológica. Paralelamente ao meu trabalho de pesquisa sobre vários aspectos da so- ciedade e do pensamento yanomami, participei em 1978 da fundação, em São Paulo, da ong Comissão Pró-Yanomami (ccpy),8 que conduziu com Davi Ko- penawa uma campanha de catorze anos até obter, em 1992, a homologação da Terra Indígena Yanomami. Durante quase trinta anos, a ccpy levou adiante programas de saúde, de educação bilíngue e de proteção ambiental, de cuja implementação participei diretamente.9 Acabei conseguindo aprender razoa- velmente uma das línguas yanomami; justamente a que é falada na região on- de nasceu e hoje reside Davi Kopenawa. Viajo à terra yanomami praticamente todos os anos há quatro décadas e, como terá ficado claro, estou ligado a Davi Kopenawa por uma longa história de amizade e lutas compartilhadas. 12959 - A queda do céu.indd 48 8/10/15 12:29 PM
  • 51. 49 o encontro e a colaboração Encontrei Davi Kopenawa pela primeira vez em 1978, em circunstâncias ao mesmo tempo ambíguas e divertidas, às quais voltarei no Postscriptum deste livro. Ambos tínhamos vinte e poucos anos. Eu estava começando uma segunda etapa de trabalho de campo etnográfico entre os Yanomami. Já tinha convivido durante um ano com os Yanomami do alto Catrimani, entre 1975 e 1976. Davi Kopenawa era intérprete nos postos abertos pela Funai ao longo da Perimetral Norte, cuja construção tinha sido interrompida dois anos antes. Mais tarde, em 1981, passei seis meses em sua região natal, nas proximidades do rio Toototobi, e nos encontramos mais uma vez. Pude então conhecer os lugares e personagens importantes de sua infância e adolescência. Finalmente, a partir de 1985, sua atual aldeia, Watoriki, tornou-se o destino preferencial de minhas visitas às terras yanomami. Além disso, conheço seu sogro e men- tor xamânico, bem como os demais habitantes da comunidade em que ele se casou, desde minha primeira viagem em 1975 pelo alto rio Catrimani, região de que são originários. Desde 1985, minhas relações de amizade com Davi Kopenawa foram se estreitando cada vez mais, no decorrer de minhas longas estadias em sua casa de Watoriki e também como resultado da cumplicidade gerada pelo engaja- mento compartilhado contra a corrida do ouro, que então devastava as terras yanomami. O projeto deste livro, que Davi Kopenawa me pediu que escreves- se para divulgar suas palavras, só pôde se concretizar graças a essa confiança e parceria. Deita raízes na revolta e na angústia de Davi Kopenawa diante do extermínio de seu povo pelos garimpeiros, no final da década de 1980. As gra- vações que serviram de base para as sucessivas versões do manuscrito começa- ram em dezembro de 1989 e prosseguiram, no ritmo de minhas viagens à ter- ra yanomami ou de eventos indigenistas nas cidades, até o início da década de 2000. Trata-se, portanto, de um conjunto de falas, narrativas e conversas, gra- vadas em yanomami, em geral sem roteiro, ao longo de mais de dez anos, a respeito de sua vida, de seu saber xamânico e de sua experiência do mundo dos brancos. Como todos terão desconfiado, recompor esse vasto e complexo ar- quipélago de palavras yanomami no conjunto de capítulos de um texto desti- nado à publicação em francês (e depois em português) não foi tarefa das mais 12959 - A queda do céu.indd 49 8/10/15 12:29 PM
  • 52. 50 simples: as vicissitudes dessa redação serão igualmente relatadas em detalhes no Postscriptum que encerra este volume. o livro O depoimento de Davi Kopenawa é o primeiro relato interno sobre a sociedade, a história recente e a cultura dos Yanomami desde a publicação de Yanoama. Dal racconto di una donna rapita dagli Indi, a biografia de Helena Valero, cativa dos Yanomami durante 24 anos, editada pelo biólogo italiano Ettore Biocca em 1965. Sinal dos tempos: ainda que esses dois livros tratem de experiências situadas em épocas sucessivas, um na Venezuela e o outro no Brasil (Helena Valero volta à sociedade dos brancos em 1956, ano do nasci- mento de Davi Kopenawa), a identidade e a trajetória dos narradores se in- vertem. Yanoama reconstituía as atribulações de uma menina brasileira captu- rada pelos índios aos treze anos, em 1932, numa época em que os guerreiros yanomami do interflúvio entre o alto rio Negro e o canal de Cassiquiare lu- tavam para expulsar os coletores de produtos da floresta que estavam inva- dindo suas terras.10 A narrativa de Davi Kopenawa, por sua vez, descreve o itinerário pessoal e as meditações sobre os brancos de um xamã e porta-voz yanomami contemporâneo. Cobre um período que vai de sua primeira in- fância, antes do estabelecimento, em 1963, do primeiro posto missionário em sua região natal, até sua singular odisseia pelo mundo dos brancos a partir da década de 1970. Contudo, este livro não é uma etnobiografia clássica. Não se trata de um relato de vida solicitado e reconstruído por um “redator fantasma”, a partir de seu próprio projeto de registro documental, à moda dos clássicos norte-ame- ricanos do gênero no começo do século passado.11 Tampouco é uma autobio- grafia pertencente a um gênero narrativo tradicional, transcrita e traduzida por um antropólogo fazendo as vezes de mero secretário etnográfico. Os registros do depoimento de Davi Kopenawa não cabem nos cânones autobiográficos clássicos (nossos ou dos Yanomami).12 Os relatos dos episódios cruciais de sua vida mesclam inextricavelmente história pessoal e destino coletivo. Ele se ex- pressa por intermédio de uma imbricação complexa de gêneros: mitos e nar- 12959 - A queda do céu.indd 50 8/10/15 12:29 PM
  • 53. 51 rativas de sonho, visões e profecias xamânicas, falas reportadas e exortações políticas, autoetnografia e antropologia simétrica. Além disso, este livro nasceu de um projeto de colaboração situado na interseção, imprevisível e frágil, de dois universos culturais. Sua produção, oral e escrita, foi portanto constante- mente atravessada pelas visadas discursivas cruzadas de seus autores, um xamã yanomami versado no mundo dos brancos e um etnógrafo com longa familia- ridade com o de seus anfitriões. Num momento crítico de sua vida e da existência de seu povo, Davi Ko- penawa resolveu, em função de meu envolvimento intelectual e político junto aos Yanomami, confiar-me suas palavras. Pediu-me que as pusesse por escrito para que encontrassem um caminho e um público longe da floresta. Desejava desse modo não apenas denunciar as ameaças que sofrem os Yanomami e a Amazônia, mas também, como xamã, lançar um apelo contra o perigo que a voracidade desenfreada do “Povo da Mercadoria” faz pesar sobre o futuro do mundo humano e não humano. Os dizeres de Davi Kopenawa constroem, as- sim, um complexo hipertexto cosmológico e etnopolítico, tecido num esforço inédito de auto-objetivação e de persuasão, resultante de uma história e de um engajamento pessoal que conferem a seu relato uma singularidade radical, in- clusive no universo yanomami. De minha parte, me esforcei por restituir a sensibilidade poética e a den- sidade conceitual de suas palavras, numa tradução tão próxima quanto possí- vel, mas evidentemente usando uma forma de escrita e de composição capaz de torná-las mais facilmente acessíveis a um público de não especialistas. Além disso, afora este breve prólogo e alguns outros elementos de peritexto (“Notas”, “Postscriptum” e “Anexos”), postos tão discretamente quanto possível a servi- ço de sua melhor compreensão, evitei deliberadamente soterrar as falas e nar- rativas de Davi Kopenawa num quadro interpretativo redutor, ou entrecortá- -las com lembretes complacentes de minha presença ou dos meus estados de espírito. É oferecendo-as ao leitor assim, antes de qualquer comentário, em toda a potência de sua alteridade singular, que espero ter honrado o melhor que pude a tarefa de que ele me incumbiu, de fazer com que suas palavras fossem ouvidas e tivessem efeito em nosso mundo. Este livro é composto de três partes. A primeira (“Devir outro”) relata os primórdios da vocação xamânica e, em seguida, a iniciação de Davi Kopenawa sob a orientação do sogro. Descreve ainda sua concepção da cosmologia e do 12959 - A queda do céu.indd 51 8/10/15 12:29 PM
  • 54. 52 trabalho xamânico yanomami, com base no saber adquirido graças à escuta dos antigos xamãs que o iniciaram. A segunda parte (“A fumaça do metal”) trata do encontro — seu e de seu grupo, e depois de seu povo — com os bran- cos. Abre com os rumores xamânicos que precederam os primeiros contatos e termina com a irrupção mortífera dos garimpeiros, depois de passar pela che- gada dos missionários e pela abertura da estrada Perimetral Norte. A terceira parte (“A queda do céu”) evoca, ao contrário, o périplo realizado por Davi Kopenawa para denunciar o extermínio dos seus e a devastação da floresta, saindo da sua comunidade para visitar grandes cidades, primeiro no Brasil, depois na Europa e nos Estados Unidos. Este último relato, construído na for- ma de uma série de viagens xamânicas, é entremeado com meditações compa- rativas a partir de uma etnografia crítica de certos aspectos de nossa sociedade, e desemboca numa profecia cosmoecológica sobre a morte dos xamãs e o fim da humanidade. grafia, pronúncia e glossários Para ter uma ideia da pronúncia das palavras e expressões yanomami presentes neste livro, basta que o leitor tenha em mente algumas indicações elementares (os sons não mencionados aqui correspondem aproximadamente aos do português). No registro das vogais: ë equivale ao e mudo do francês e do português europeu e i (i tachado) é pronunciado entre i e u. Quanto às consoantes: hw é pronunciado como um h aspirado, com os lábios em forma de círculo, th é pronunciado como um t seguido de um leve sopro. Para maio- res informações sobre a língua falada por Davi Kopenawa e sua grafia, veja-se o anexo i no final deste volume. Todas as palavras e expressões yanomami citadas no texto estão em itáli- co, enquanto as palavras que Davi Kopenawa às vezes diz em português, nas gravações a partir das quais trabalhamos, estão assinaladas em negrito em sua primeira ocorrência. A transcrição das onomatopeias, tão saborosas e finamen- te codificadas em yanomami, foi limitada ao máximo para tornar o texto mais leve. Por outro lado, foram mantidas algumas interjeições utilizadas de modo recorrente para introduzir falas citadas. São elas: asi!, que indica raiva; awei!, que marca aprovação; haixopë!, que denota a recepção (com aprovação) de uma 12959 - A queda do céu.indd 52 8/10/15 12:29 PM
  • 55. 53 informação nova; ha!, que marca a surpresa (satisfeita e/ou irônica); hou!, que denota irritação; ma!, que expressa reprovação; e, finalmente, oae!, que marca uma súbita lembrança. A numeração atribuída aos 35 mitos (M4 a M362) citados nas notas cor- responde à da compilação de Wilbert e Simoneau, na qual eu os publiquei em 1990 (ver referências bibliográficas). Os leitores mais curiosos poderão consul- tar essa coletânea para aprofundar seu conhecimento da mitologia e da cosmo- logia yanomami. A identificação das espécies vegetais e animais mencionadas no texto é fornecida nos glossários reunidos no fim da obra, onde se encontram também observações relativas a etnônimos e topônimos e às notas explicativas, numeradas por capítulo. Todos os desenhos inseridos no texto foram feitos por Davi Kopenawa. B.A. 12959 - A queda do céu.indd 53 8/10/15 12:29 PM
  • 56. 12959 - A queda do céu.indd 54 8/10/15 12:29 PM
  • 57. mapas 12959 - A queda do céu.indd 55 8/10/15 12:29 PM
  • 58. Terra Indígena Yanomami no Brasil Le territoire yanomami au Brésil (Terra Indígena Yanomami) VENEZUELA COLOMBIE ÉQUATEUR PARAGUAY URUGUAY PERU CHILI ARGENTINE BOLIVIE Brasilia Terra indigena Yanomami São Paulo Rio de Janeiro Rio N e g r o Rio Solimões R i o M adeira Amazone R i o X i n g u 0 500 1000 km BRÉSIL VENEZUELA BRASIL COLÔMBIA EQUADOR PARAGUAI URUGUAI PERU CHILE ARGENTINA BOLÍVIA Brasília Terra Indígena Yanomami São Paulo Rio de Janeiro Rio N e g r o Rio Solimões R i o M adeira R i o X i n g u 0 500 1000 km Rio Amazonas L 12959 - A queda do céu.indd 56 8/10/15 12:29 PM
  • 59. Situação da Terra Indígena Yanomami Situation de la Terra Indígena Yanomami VENEZUELA GUYANA COLOMBIE São Gabriel da Cachoeira Barcelos Boa Vista Caracaraí Manaus 0 200 400 km R i o N e g r o J a p u r á R i o S o l i m õ e s Canal du Cassiquiare ÉTAT DE RORAIMA ÉTAT DU PARÁ ÉTAT D'AMAZONAS O r é n o q ue R i o B r a n c o Serra Parima S i a p a R i o U r a r i c o e r a VENEZUELA GUI ANA COLÔMBIA São Gabriel da Cachoeira Iauaretê Barcelos Boa Vista Caracaraí Manaus 0 200 400 km R i o N e g r o J a p u r á R i o S o l i m õ e s Canal do rio Cassiquiare R i o B r a n c o R i o U r a r i c o e r a Pará Roraima Amazonas R i o S i a p a SERRA PARIMA R i o O r i n o c o Rio L 12959 - A queda do céu.indd 57 8/10/15 12:29 PM
  • 60. Mapa detalhado da Terra Indígena Yanomami (topônimos em português) 0 50 100 km Altitude supérieure à 500 m Limite du territoire yanomami au Brésil (Terra Indígena Yanomami) Autres Terres Indigènes Limite Roraima/Amazonas Venezuela Route goudronnée « Perimetrale Norte » (tronçon subsistant) « Perimetrale Norte » (tronçon abandonné) « Perimetrale Norte » (tracé prévu) Capitale d’État Villes VENEZUELA S E R R A P A R I M A Pico da Neblina Coupe Coupe Mission Toototobi Poste Balawaú Poste Surucucus Cachoe dos Índ Santa Isabel do Rio Negro Rio Aua r i s R i o P a r i m a R i o T o o t o t o b i R Rio P a d a u i r i Rio Taraú Rio Jutaí Ri Rio Cauaboris Rio Mara uiá R io Maiá Rio Negro Rio Aua r i s R i o P a r i m a R i o T o o t o t o b i R Rio P a d a u i r i Rio Taraú Rio Jutaí Ri Rio Cauaboris Rio Mara uiá R io Maiá Rio Negro Santa Isabel do Rio Negro Missão Toototobi Posto Balawaú Posto Surucucus Cachoe dos Índ Altitude superior a 500 m Limite da Terra Indígena Yanomami no Brasil Outras terras indígenas Divisa Roraima-Amazonas Venezuela Estrada asfaltada Perimetral Norte (parte restante) Perimetral Norte (parte abandonada) Perimetral Norte (traçado previsto) Capital do estado Cidades VENEZUELA S E R R A P A R I M A PICO DA NEBLINA Coupe Coupe L 12959 - A queda do céu.indd 58 8/10/15 12:29 PM
  • 61. Vers Manaus B R 1 7 4 S E R R A D O D E M I N I SERRA MELO NUNES BRÉSIL Coupe Coupe Poste Ajarani Poste Ajuricaba (Genipapo) Mission Catrimani Poste Demini Ex-poste Mapulaú sion otobi ste ucus Poste Paapiú Poste Ericó Cachoeira dos Índios Vila Surumu BOA VISTA Alto Alegre Caracaraí Mucajaí Iracema Rorainópolis Amajari Rio Mucajaí R i oApiaú R io B r a n c o Rio Catrimani a r i m a R i o T o o t o t o b i R i o D e m i n i Rio Urarica á Rio Ajarani Rio Aracá R i o A n a n aliu R i o M apulaú R io Couto de M. Rio Lobo d’A. Rio Novo I g a r a p é C a s t a n h o Rio Jundiá Jutaí Rio Cutaíba o Rio Uraricoera Rio Mucajaí R io B r a n c o Rio Catrimani a r i m a R i o T o o t o t o b i R i o D e m i n i Rio Urarica á Rio Ajarani Rio Aracá R i o A n a n aliú R i o M apulaú Rio Lobo d’Almada Rio Novo I g a r a p é C a s t a n h o Rio Jundiá Jutaí Rio Cutaíba o Rio Uraricoera Rio Apiaú Rio Couto de Magalhães BOA VISTA Alto Alegre Caracaraí Mucajaí Iracema Rorainópolis Amajari Posto Ajarani Posto Ajuricaba (Genipapo) Missão Catrimani Posto Demini Antigo posto Mapulaú são otobi sto ucus Posto Paapiú Posto Ericó Cachoeira dos Índios Vila Surumu Sentido Manaus B R - 1 7 4 S E R R A D O D E M I N I SERRA MELO NUNES BRASIL Coupe Coupe 12959 - A queda do céu.indd 59 8/10/15 12:30 PM
  • 62. Mapa detalhado dos principais topônimos citados em yanomami Niyayopa th eri Hw axi theri Hayowa th eri Amikoapë theri Arahai th eri Mai koxi Z Konapuma th eri Iwahikaropë th eri Ariwaa th eri Weyuku th eri Th ooth oth opi Wari mahi Marakana Sina th a Mõra mahi araopë Werihi sihipi u Hapa Yoyo roopë Xama xi pora Hayowari Hw ara u Kapirota u P a r awa u W a n a p i u P a xoto u W a r e pi u H w a xim u Amath a u Manito u Kõana u H e r o u Maima siki u Werihi s W e y a h a n a u Waka M a h a r u u H a r a n a r i u Ko VENEZUELA Niyayopa th ëri Hw axi thëri Hayowa th ëri Amikoapë theri Arahai th eri Mai koxi W VENEZUELA Coup Coup Konapuma th ëri Iwahikaropë th ëri Ariwaa th ëri Weyuku th ëri Th ooth oth opi Wari mahi Marakana Sina th a Mõra mahi araopë Werihi sihipi u Hapa Yoyo roopë Xama xi pora Hayowari Hw ara u Kapirota u P a r awa u W a n a p i u P a xoto u W a r e pi u H w a xim a u Amath a u Manito u Kõana u H e r o u Werihi s W e y a h a n a u Waka M a h a r u u H a r a n a r i u Ko L 12959 - A queda do céu.indd 60 8/10/15 12:30 PM
  • 63. oxi Moxi batetema (Yawari) Opiki th ëri Zeerei 0 Altitude supérieure à 500 m Zone des savanes ltitude de la Serra Parima Limite de la Terra Indigena Yanomami Frontière Bresil / Venezuela Anciens sites 25 50 km i u Hapakara hi Uxi u Mari hipi Makuta asihipi Hewë nahipi Waka th a u Hw aya u a siki u Werihi sih i p i u Kaxipi u W a k a t h a u Uxi u Waka th a u H a r a n a r i u Koloi u BRÉSIL oxi Moxi hatëtëma (Yawari) Weerei BRASIL 0 Coupe Coupe Altitude superior a 500 m Área de savana Limite da Terra Indígena Yanomami Fronteira Brasil-Venezuela Aldeias antigas 25 50 km i u Hapakara hi Uxi u Mari hipi Makuta asihipi Hewë nahipi Waka th a u Hw aya u Werihi sih i p i u Kaxipi u W a k a t h a u Uxi u Waka th a u H a r a n a r i u Kokoi u 12959 - A queda do céu.indd 61 8/10/15 12:30 PM
  • 64. Localização das etnias citadas Ye’kuana Ye’kuana Bahuana Bahuana Pauxiana Pauxiana Ye’kuana Ye’kuana Makuxi Taurepang Wapixana Taurepang Makuxi Wapixana Waimiri- Atroari Waimiri- Atroari Tariano Tukano Warekena Tariano Tukano Warekena Tikuna Tikuna Maitha Maitha Watata si Watata si R i o B r a n c o Rio Negro 0 200 400 km Rio Solimões COLOMBIE VENEZUELA GUYANA RORAIMA AMAPÁ AMAZONAS BRÉSIL Ye’kuana Ye’kuana Bahuana Bahuana Pauxiana Pauxiana Ye’kuana Ye’kuana Makuxi Taurepang Wapixana Taurepang Makuxi Wapixana Waimiri- Atroari Waimiri- Atroari Tariano Tukano Warekena Tariano Tukano Warekena Tikuna Tikuna Maitha Maitha Watata si Watata si R i o B r a n c o Rio Negro 0 200 400 km Rio Solimões COLÔMBIA VENEZUELA GUIANA RORAIMA AMAPÁ AMAZONAS BRASIL Apurinã Kayapó Krenak Maku Makuxi Munduruku Satéré- Mawé Suruí Tariano Tikuna Tukano Waiãpi Wapixana Warekena Xikrin Taurepang Waimiri- Atroari Amazone Rio Negr o Rio Solimões R i o M a d e ira R i o X i n g u BOLIVIE OCÉAN ATLANTIQUE PÉROU BRÉSIL PARAGUAY Rio de Janeiro São Paulo Brasília 0 500 km Apurinã Kayapó Krenak Maku Makuxi Munduruku Satéré- Mawé Suruí Tariano Tikuna Tukano Waiãpi Wapixana Warekena Xikrin Taurepang Waimiri- Atroari Rio Ama z o n a s Rio Negr o Rio Solimões R i o M a d e ira R i o X i n g u BOLÍVIA OCEANO ATLÂNTICO PERU BRASIL PARAGUAI Rio de Janeiro São Paulo Brasília 0 500 km Detalhe do mapa abaixo L L 12959 - A queda do céu.indd 62 8/10/15 12:30 PM
  • 65. 63 Palavras dadas Gosto de explicar essas coisas para os brancos, para eles poderem saber. Davi Kopenawa* Faz muito tempo, você veio viver entre nós e falava como um fantasma.1 Aos poucos, você foi aprendendo a imitar minha língua e a rir conosco. Nós éramos jovens, e no começo você não me conhecia. Nossos pensamentos e nossas vidas são diferentes, porque você é filho dessa outra gente, que chama- mos de napë.2 Seus professores não o haviam ensinado a sonhar, como nós fazemos. Apesar disso, você veio até mim e se tornou meu amigo. Você ficou do meu lado e, mais tarde, quis conhecer os dizeres dos xapiri, que na sua lín- gua vocês chamam de espíritos.3 Então, entreguei a você minhas palavras e lhe pedi para levá-las longe, para serem conhecidas pelos brancos, que não sabem nada sobre nós. Ficamos muito tempo sentados, falando, em minha casa, ape- sar das picadas das mutucas e piuns. Poucos são os brancos que escutaram nossa fala desse modo. Assim, eu lhe dei meu histórico, para você responder aos que se perguntam o que pensam os habitantes da floresta. Antigamente, nossos maiores4 não contavam nenhuma dessas coisas, porque sabiam que os * Turner & Kopenawa, 1991, p. 63. Entrevista de Davi Kopenawa a Terence Turner, representan- te da comissão especial da American Anthropological Association, formada em 1991 para inves- tigar a situação dos Yanomami no Brasil 12959 - A queda do céu.indd 63 8/10/15 12:30 PM
  • 66. 64 brancos não entendiam sua língua. Por isso minha fala será algo de novo, para aqueles que a quiserem escutar. Mais tarde, eu disse a você: “Se quiser pegar minhas palavras, não as des- trua. São as palavras de Omama5 e dos xapiri. Desenhe-as primeiro em peles de imagens,6 depois olhe sempre para elas. Você vai pensar: “Haixopë! É essa mesmo a história dos espíritos!”. E, mais tarde, dirá a seus filhos: “Estas pala- vras escritas são as de um Yanomami, que há muito tempo me contou como ele virou espírito e de que modo aprendeu a falar para defender a sua floresta”. Depois, quando essas fitas em que a sombra das minhas palavras está presa ficarem imprestáveis, não as jogue fora.7 Você só vai poder queimá-las quando forem muito velhas e minhas falas tiverem já há muito tempo sido tornadas desenhos que os brancos podem olhar. Inaha th a? Está bem? Como eu, você ficou mais experiente com a idade. Você desenhou e fixou essas palavras em peles de papel, como pedi. Elas partiram, afastaram-se de mim. Agora desejo que elas se dividam e se espalhem bem longe, para serem realmente ouvidas. Eu lhe ensinei essas coisas para que você as transmita aos seus; aos seus mais anciãos, aos seus pais e sogros, aos seus irmãos e cunhados, às mulheres que você chama de esposas, aos rapazes que irão chamá-lo de sogro. Se lhe perguntarem: “Como você aprendeu essas coisas?”, você responderá: “Mo- rei muito tempo nas casas dos Yanomami, comendo sua comida. Foi assim que, aos poucos, sua língua pegou em mim. Então, eles me confiaram suas palavras, porque lhes dói o fato de os brancos serem tão ignorantes a seu respeito”. Os brancos não pensam muito adiante no futuro. Sempre estão preocu- pados demais com as coisas do momento. É por isso que eu gostaria que eles ouvissem minhas palavras através dos desenhos que você fez delas; para que penetrem em suas mentes. Gostaria que, após tê-las compreendido, dissessem a si mesmos: “Os Yanomami são gente diferente de nós, e no entanto suas palavras são retas e claras. Agora entendemos o que eles pensam. São palavras verdadeiras! A floresta deles é bela e silenciosa. Eles ali foram criados e vivem sem preocupação desde o primeiro tempo. O pensamento deles segue cami- nhos outros que o da mercadoria. Eles querem viver como lhes apraz. Seu costume é diferente. Não têm peles de imagens, mas conhecem os espíritos xapiri e seus cantos. Querem defender sua terra porque desejam continuar 12959 - A queda do céu.indd 64 8/10/15 12:30 PM
  • 67. 65 vivendo nela como antigamente. Assim seja! Se eles não a protegerem, seus filhos não terão lugar para viver felizes. Vão pensar que a seus pais de fato faltava inteligência, já que só terão deixado para eles uma terra nua e queima- da, impregnada de fumaças de epidemia e cortada por rios de águas sujas!”. Gostaria que os brancos parassem de pensar que nossa floresta é morta e que ela foi posta lá à toa. Quero fazê-los escutar a voz dos xapiri, que ali brin- cam sem parar, dançando sobre seus espelhos resplandecentes. Quem sabe assim eles queiram defendê-la conosco? Quero também que os filhos e filhas deles entendam nossas palavras e fiquem amigos dos nossos, para que não cresçam na ignorância. Porque se a floresta for completamente devastada, nun- ca mais vai nascer outra. Descendo desses habitantes da terra das nascentes dos rios, filhos e genros de Omama. São as palavras dele, e as dos xapiri, surgidas no tempo do sonho, que desejo oferecer aqui aos brancos. Nossos antepassados as possuíam desde o primeiro tempo. Depois, quando chegou a minha vez de me tornar xamã, a imagem de Omama as colocou em meu peito. Desde então, meu pensamento vai de uma para outra, em todas as direções; elas aumentam em mim sem fim. Assim é. Meu único professor foi Omama. São as palavras dele, vindas dos meus maiores, que me tornaram mais inteligente. Minhas palavras não têm outra origem. As dos brancos são bem diferentes. Eles são engenhosos, é verdade, mas carecem muito de sabedoria. Eu não tenho velhos livros como eles, nos quais estão desenhadas as his- tórias dos meus antepassados.8 As palavras dos xapiri estão gravadas no meu pensamento, no mais fundo de mim. São as palavras de Omama. São muito antigas, mas os xamãs as renovam o tempo todo. Desde sempre, elas vêm pro- tegendo a floresta e seus habitantes. Agora é minha vez de possuí-las. Mais tarde, elas entrarão na mente de meus filhos e genros, e depois, na dos filhos e genros deles. Então será a vez deles de fazê-las novas. Isso vai continuar pelos tempos afora, para sempre. Dessa forma, elas jamais desaparecerão. Ficarão sempre no nosso pensamento, mesmo que os brancos joguem fora as peles de 12959 - A queda do céu.indd 65 8/10/15 12:30 PM
  • 68. 66 papel deste livro em que elas estão agora desenhadas; mesmo que os missioná- rios, que nós chamamos de “gente de Teosi”,9 não parem de dizer que são mentiras. Não poderão ser destruídas pela água ou pelo fogo. Não envelhecerão como as que ficam coladas em peles de imagens tiradas de árvores mortas. Muito tempo depois de eu já ter deixado de existir, elas continuarão tão novas e fortes como agora. São essas palavras que pedi para você fixar nesse papel, para dá-las aos brancos que quiserem conhecer seu desenho. Quem sabe assim eles finalmente darão ouvidos ao que dizem os habitantes da floresta, e come- çarão a pensar com mais retidão a seu respeito? Eu, um Yamomani, dou a vocês, os brancos, esta pele de imagem que é minha. 12959 - A queda do céu.indd 66 8/10/15 12:30 PM
  • 69. devir outro 12959 - A queda do céu.indd 67 8/10/15 12:30 PM
  • 70. 12959 - A queda do céu.indd 68 8/10/15 12:30 PM
  • 71. 1. Desenhos de escrita Pintura corporal. 12959 - A queda do céu.indd 69 8/10/15 12:30 PM
  • 72. 70 Sem que soubéssemos, forasteiros decidiram subir os rios e entraram em nossa floresta. Não sabíamos nada a seu respeito. Nem sequer sabíamos por que queriam se aproximar de nós. Certo dia, chegaram até nossa casa grande de Marakana, no alto Toototobi. Eu era bem pequeno. Quiseram me dar um nome, “Yosi”.1 Mas achei-o muito feio e não aceitei. Soava como o nome de Yoasi, o irmão mau de Omama. Pensei que tal nome levaria os meus a zomba- rem de mim. Omama tinha muita sabedoria. Ele soube criar a floresta, as mon- tanhas e os rios, o céu e o sol, a noite, a lua e as estrelas. Foi ele que, no primei- ro tempo, nos deu a existência e estabeleceu nossos costumes. Ele também era muito bonito. Seu irmão Yoasi, ao contrário, tinha a pele coberta de manchas esbranquiçadas e só fazia coisas ruins.2 Por isso eu fiquei bravo. Mas esses primeiros forasteiros logo foram embora e seu nome ruim foi junto. Depois de algum tempo, outros brancos chegaram. Esses ficaram. Cons- truíram casas para viver perto de nós. Repetiam sem parar o nome daquele que os criou. Por isso, para nós, tornaram-se a gente de Teosi. Foram eles que me nomearam “Davi”, antes mesmo de os meus familiares me darem um apelido, conforme o costume dos nossos antigos. Os brancos me disseram que esse nome vinha de peles de imagens em que estão desenhadas as palavras de Teo- si. É um nome claro, que não se pode maltratar.3 Fiquei com ele desde então. Antes de os brancos aparecerem na floresta, distribuindo seus nomes a esmo,4 tínhamos os apelidos que nos davam nossos familiares. Porém, entre nós, não são nem as mães nem os pais que dão nome às crianças. Estes só se dirigem a seus filhos pequenos com o termo “õse!” [filho/filha], os quais chamam ambos de “napa!” [mãe]. Mais tarde, quando crescerem, chamarão ao pai de outro modo: “hw apa!” [pai!].5 São os membros da família,6 tios, tias ou avós, que atri- buem o apelido à criança. Em seguida, as outras pessoas da casa que o escuta- ram começam a usá-lo. Depois, a criança cresce com esse apelido e aos poucos ele se espalha de casa em casa. Quando se torna adulta, o nome acaba ficando associado a ela.7 Assim, chamaram a um dos irmãos de minha mulher de Wari, porque quando era pequeno resolveu plantar de brincadeira uma árvore wari mahi atrás de sua casa. Minha mulher foi apelidada Rããsi, “Doentia”, pois fica- va enferma a maior parte do tempo. Outros de nós se chamam Mioti, “Dormi- nhoco”, Mamoki prei, “Olhos grandes”, ou Nakitao, “Fala alto”.8 12959 - A queda do céu.indd 70 8/10/15 12:30 PM
  • 73. 71 Contudo, na idade adulta, gente de longe, por maldade, às vezes acrescenta outros apelidos aos da infância.9 Mas essas são palavras muito feias. Fazem isso só para maltratar as pessoas que designam, pois entre nós é um insulto pronun- ciar o nome de alguém em sua presença ou diante dos seus.10 Assim é. Não gostamos de ouvir nosso nome, nem mesmo nosso apelido de criança. Isso nos deixa furiosos de verdade. E se alguém o pronunciar em voz alta, vingamo-nos em seguida, fazendo o mesmo. É assim que trocamos insultos, expondo nossos nomes aos ouvidos de todos. De modo que aceitamos ter nomes, contanto que fiquem longe de nós. São os outros que os usam, sem que saibamos. Mas acon- tece às vezes de apelidos de infância serem pronunciados na presença das crian- ças. Porém, assim que elas começam a crescer, isso deve acabar. Na adolescência, ninguém quer mais ouvir esses apelidos. A pessoa fica furiosa de ouvir seu nome ser pronunciado; tem vontade de se vingar e fica muito brava. Quando me tornei homem, outros brancos resolveram me dar um nome mais uma vez. Dessa vez, era o pessoal da Funai. Começaram a me chamar de Davi “Xiriana”. Mas esse novo nome não me agradou. “Xiriana” é como são chamados os Yanomami que vivem no rio Uraricaá, muito distante de onde eu nasci.11 Eu não sou um “Xiriana”. Minha língua é diferente da dos que vivem naquele rio. Apesar disso, tive de mantê-lo. Tive inclusive de aprender a dese- nhá-lo quando fui trabalhar para os brancos, porque já o tinham desenhado numa pele de papel.12 Meu último nome, Kopenawa, veio a mim muito mais tarde, quando me tornei mesmo um homem. Esse é um verdadeiro nome yanomami. Não é nem nome de criança nem um apelido que outros me deram. É um nome que ganhei por conta própria.13 Na época, os garimpeiros tinham começado a invadir nos- sa floresta. Tinham acabado de matar quatro grandes homens yanomami, lá onde começam as terras altas, a montante do rio Hero u.14 A Funai me enviou para lá para encontrar seus corpos na mata, no meio de todos aqueles garim- peiros, que bem teriam gostado de me matar também. Não havia ninguém para me ajudar. Tive medo, mas minha raiva foi mais forte. Foi a partir de então que passei a ter esse novo nome. Só os espíritos xapiri estavam do meu lado naquele momento. Foram eles que quiseram me nomear. Deram-me esse nome, Kopenawa, em razão da fúria 12959 - A queda do céu.indd 71 8/10/15 12:30 PM
  • 74. 72 que havia em mim para enfrentar os brancos. O pai de minha esposa, o grande homem de nossa casa de Watoriki, ao pé da montanha do vento, tinha me feito beber o pó que os xamãs tiram da árvore yãkoana hi.15 Sob efeito do seu poder vi descer em mim os espíritos das vespas kopena. Disseram-me: “Estamos com você e iremos protegê-lo. Por isso você passará a ter esse nome: Kopenawa!”. Esse nome vem dos espíritos vespa que beberam o sangue derramado por Aro- wë, um grande guerreiro do primeiro tempo. Meu sogro fez suas imagens des- cerem e as deu a mim com seu sopro de vida.16 Foi então que eu pude ver esses espíritos vespa dançarem pela primeira vez.17 E quando contemplei também a imagem de Arowë, de quem só tinha ouvido o nome até então, disse a mim mesmo: “Haixopë! Então foi esse antepassado que pôs em nós a coragem guer- reira! Esse é o verdadeiro rastro daquele que nos ensinou a bravura!”.18 Arowë nasceu nas terras altas, na floresta daqueles a quem chamamos Gen- te da Guerra.19 Era muito agressivo e destemido.20 Atacava sem trégua as casas próximas à sua. A cada vez, os parentes de suas vítimas cercavam-no e, por vin- gança, flechavam-no, um após o outro. Depois, quando seu sopro parecia ter parado e ele aparentava estar mesmo morto, abandonavam seu cadáver coberto de sangue no chão da floresta. Então, os guerreiros matadores21 diziam a si mes- mos: “Está bom, ele vai apodrecer aqui e nosso rancor será apaziguado!”, e iam embora, satisfeitos com a vingança. A uma dada altura, exaustos, faziam uma parada na mata e, despreocupados, tomavam banho num igarapé. Contudo, o cadáver de Arowë sempre voltava à vida depois de ter sido abandonado. Era tão resistente que ninguém podia acabar com ele. Voltava a si e saía no encalço de seus agressores, alcançava-os e flechava-os, até o último. Acontecia sempre do mesmo modo. Ninguém conseguia matar Arowë. Ele era mesmo muito tenaz e belicoso. Com o passar do tempo, seus inimigos, perplexos, perguntavam-se: “O que faremos? Como conseguiremos fazer com que morra para sempre?”. Al- guém propôs: “Vamos decapitá-lo!”. Todos concordaram e se puseram logo a caminho para tentar acabar com ele. Crivaram de novo o corpo de Arowë de flechas e, dessa vez, não se contentaram em deixá-lo por morto no chão da floresta. Cortaram-lhe a cabeça e, assim, apesar de todos os seus esforços, Aro- wë não foi mais capaz de escapar da vingança de seus inimigos. Recobrou um sopro de vida e tentou recolocar a própria cabeça no pescoço várias vezes, mas 12959 - A queda do céu.indd 72 8/10/15 12:30 PM
  • 75. 73 em vão. Acabou morrendo mesmo. Então, seu fantasma se dividiu e se propa- gou para longe, em todas as direções. Foi assim que ele nos ensinou a coragem guerreira. Que os brancos não pensem que os Yanomami são valentes à toa. Devemos nossa valentia a Arowë.22 O cadáver decapitado de Arowë jazia sobre as folhas secas que cobriam o solo. Todo o seu sangue tinha se esparramado pelo chão, aos poucos. Então, as vespas da floresta se reuniram com as formigas xiho e kaxi nas folhas ensan- guentadas para se fartarem. Foi assim, sorvendo o sangue de Arowë, que elas ficaram agressivas, e sua picada, tão dolorosa. Quando vemos um ninho de vespas numa árvore, não ousamos chegar perto. São muitas as vespas na mata, e outras tantas suas imagens. Por isso também as fazemos descer como espíri- tos xapiri, para atacar os seres maléficos23 ou flechar os xapiri guerreiros dos xamãs distantes. Passei a ter o nome de Kopenawa porque se parece com o dos espíritos vespa cujas imagens vi beber o sangue do grande guerreiro Arowë quando tomei o pó de yãkoana. Assim recebi esse nome para defender os meus e proteger nossa terra, pois foi Arowë, no primeiro tempo, que ensinou a bra- vura a nossos antepassados. Se os brancos não tivessem entrado em nossa floresta quando eu era crian- ça, com certeza eu teria me tornado um guerreiro e, tomado pela raiva, teria flechado outros Yanomami por vingança. Cheguei a pensar nisso. Mas nunca matei ninguém. Sempre contive meus maus pensamentos acima de mim e fiquei quieto, lembrando-me dos brancos. Dizia a mim mesmo: “Se eu flechar um dos nossos, esses forasteiros que cobiçam a floresta dirão que sou mau e não tenho nenhuma sabedoria. Não farei isso, porque são eles que nos matam com suas doenças e suas espingardas. Hoje, é contra eles que devo dirigir meu rancor”. Assim, pouco a pouco, meu nome foi ficando mais longo. Primeiro foi Da- vi, o nome que os brancos me atribuíram na infância, depois foi Kopenawa, o que me deram mais tarde os espíritos vespa. E por fim acrescentei Yanomami, que é palavra sólida que não pode desaparecer, pois é o nome do meu povo. Eu não nasci numa terra sem árvores. Minha carne não vem do esperma de um branco.24 Sou filho dos habitantes das terras altas da floresta e caí no solo da va- gina de uma mulher yanomami. Sou filho da gente à qual Omama deu a existên- cia no primeiro tempo. Nasci nesta floresta e sempre vivi nela. Hoje, meus filhos e netos, por sua vez, nela crescem. Por isso meus dizeres são os de um verdadei- ro yanomami. São palavras que me ficaram na solidão, depois da morte de meus 12959 - A queda do céu.indd 73 8/10/15 12:30 PM
  • 76. 74 antigos. São palavras que os espíritos me deram em sonho e também palavras que vieram a mim escutando as maledicências dos brancos a nosso respeito. Estão enraizadas com firmeza no fundo de meu peito. São essas as palavras que eu gostaria de fazer ouvir, agora, com a ajuda de um branco que pode fazer com que sejam escutadas por aqueles que não conhecem nossa língua. Vocês não me conhecem e nunca me viram. Vivem numa terra distante. Por isso quero que conheçam o que os nossos antigos me ensinaram. Quando eu era mais jovem, não sabia nada. Depois, pouco a pouco, comecei a pensar por conta própria. Hoje, todas as palavras que os antigos possuíam antes de mim são claras em minha mente. São palavras desconhecidas pelos brancos, que guardamos desde sempre. Desejo, portanto, falar-lhes do tempo muito remoto em que os ancestrais animais se metamorfosearam e do tempo em que Omama nos criou, quando os brancos ainda estavam muito longe de nós. No primeiro tempo, o dia não acabava nunca. A noite não existia. Para copular sem serem vistos, nossos ancestrais tinham de se esconder na fumaça de suas fogueiras. Afinal flecharam os grandes pássaros da noite, os Titi kiki, que choravam no- meando os rios, para que a escuridão descesse sobre eles.25 Além disso, eles se transformavam em caça sem parar. Assim, foi depois de todos terem virado ani- mais, depois de o céu ter caído, que Omama nos criou tais como somos hoje.26 Nossa língua é aquela com a qual ele nos ensinou a nomear as coisas. Foi ele que nos deu a conhecer as bananas, a mandioca e todo o alimento de nossas roças,27 bem como todos os frutos das árvores da floresta. Por isso queremos proteger a terra em que vivemos. Omama a criou e deu a nós para que vivês- semos nela. Mas os brancos se empenham em devastá-la, e, se não a defender- mos, morreremos com ela. Nossos antepassados foram criados nesta floresta há muito tempo. Ainda não sei muito a respeito desse primeiro tempo. Por isso penso muito nele. As- sim meus pensamentos, quando estou só, nunca são calmos. Busco no fundo de mim as palavras desse tempo distante em que os meus vieram a existir. Pergunto-me como seria a floresta quando era ainda jovem e como viviam nossos ancestrais antes da chegada das fumaças de epidemia28 dos brancos. Tudo o que sei é que, quando essas doenças ainda não existiam, o pensamento 12959 - A queda do céu.indd 74 8/10/15 12:30 PM
  • 77. 75 de nossos maiores era muito forte. Viviam na amizade entre os seus e guerrea­ vam para se vingar de inimigos. Eram como Omama os havia criado. Hoje, os brancos acham que deveríamos imitá-los em tudo. Mas não é o que queremos. Eu aprendi a conhecer seus costumes desde a minha infância e falo um pouco a sua língua. Mas não quero de modo algum ser um deles. A meu ver, só poderemos nos tornar brancos no dia em que eles mesmos se transformarem em Yanomami. Sei também que se formos viver em suas cida- des, seremos infelizes. Então, eles acabarão com a floresta e nunca mais deixa- rão nenhum lugar onde possamos viver longe deles. Não poderemos mais ca- çar, nem plantar nada. Nossos filhos vão passar fome. Quando penso em tudo isso, fico tomado de tristeza e de raiva. Os brancos se dizem inteligentes. Não o somos menos. Nossos pensamen- tos se expandem em todas as direções e nossas palavras são antigas e muitas. Elas vêm de nossos antepassados. Porém, não precisamos, como os brancos, de peles de imagens para impedi-las de fugir da nossa mente. Não temos de desenhá-las, como eles fazem com as suas. Nem por isso elas irão desaparecer, pois ficam gravadas dentro de nós. Por isso nossa memória é longa e forte. O mesmo ocorre com as palavras dos espíritos xapiri, que também são muito antigas. Mas voltam a ser novas sempre que eles vêm de novo dançar para um jovem xamã, e assim tem sido há muito tempo, sem fim. Nossos xamãs mais antigos nos dizem: “Agora é sua vez de responder ao chamado dos espíritos. Se pararem de fazê-lo, ficarão ignorantes. Perderão seu pensamento e por mais que tentem chamar a imagem de Teosi para arrancar seus filhos dos seres ma- léficos, não conseguirão”. As palavras de Omama e as dos xapiri são as que prefiro. Essas são minhas de verdade. Nunca irei rejeitá-las. O pensamento dos brancos é outro. Sua memória é engenhosa, mas está enredada em palavras esfumaçadas e obscuras. O caminho de sua mente costuma ser tortuoso e espinhoso. Eles não conhecem 12959 - A queda do céu.indd 75 8/10/15 12:30 PM
  • 78. 76 de fato as coisas da floresta. Só contemplam sem descanso as peles de papel em que desenharam suas próprias palavras. Se não seguirem seu traçado, seu pen- samento perde o rumo. Enche-se de esquecimento e eles ficam muito ignoran- tes. Seus dizeres são diferentes dos nossos. Nossos antepassados não possuíam peles de imagens e nelas não inscreveram leis. Suas únicas palavras eram as que pronunciavam suas bocas e eles não as desenhavam, de modo que elas jamais se distanciavam deles. Por isso os brancos as desconhecem desde sempre. Eu não aprendi a pensar as coisas da floresta fixando os olhos em peles de papel. Vi-as de verdade, bebendo o sopro de vida de meus antigos com o pó de yãkoana que me deram. Foi desse modo que me transmitiram também o sopro dos espíritos que agora multiplicam minhas palavras e estendem meu pensa- mento em todas as direções. Não sou um ancião e ainda sei pouco. Entretanto, para que minhas palavras sejam ouvidas longe da floresta, fiz com que fossem desenhadas na língua dos brancos. Talvez assim eles afinal as entendam, e depois deles seus filhos, e mais tarde ainda, os filhos de seus filhos. Desse mo- do, suas ideias a nosso respeito deixarão de ser tão sombrias e distorcidas e talvez até percam a vontade de nos destruir. Se isso ocorrer, os nossos não mais morrerão em silêncio, ignorados por todos, como jabutis escondidos no chão da floresta. A imagem de Omama disse a nossos antepassados: “Vocês viverão nesta floresta que criei. Comam os frutos de suas árvores e cacem seus animais. Abram roças para plantar bananeiras, mandioca e cana-de-açúcar. Deem gran- des festas reahu!29 Convidem uns aos outros, de diferentes casas, cantem e ofereçam muito alimento aos seus convidados!”. Não disse a eles: “Abandonem a floresta e entreguem-na aos brancos para que a desmatem, escavem seu solo e sujem seus rios!”. Por isso quero mandar minhas palavras para longe. Elas vêm dos espíritos que me acompanham, não são imitações de peles de imagens que olhei. Estão bem fundo em mim. Faz muito tempo que Omama e nossos ancestrais as depositaram em nosso pensamento e desde então nós as temos guardado. Elas não podem acabar. Se as escutarem com atenção, talvez os bran- cos parem de achar que somos estúpidos. Talvez compreendam que é seu pró- prio pensamento que é confuso e obscuro, pois na cidade ouvem apenas o ruído de seus aviões, carros, rádios, televisores e máquinas. Por isso suas ideias cos- tumam ser obstruídas e enfumaçadas. Eles dormem sem sonhos, como macha- dos largados no chão de uma casa. Enquanto isso, no silêncio da floresta, nós, 12959 - A queda do céu.indd 76 8/10/15 12:30 PM
  • 79. 77 xamãs, bebemos o pó das árvores yãkoana hi, que é o alimento dos xapiri. Estes então levam nossa imagem para o tempo do sonho. Por isso somos capa- zes de ouvir seus cantos e contemplar suas danças de apresentação enquanto dormimos. Essa é a nossa escola, onde aprendemos as coisas de verdade. Omama não nos deu nenhum livro mostrando os desenhos das palavras de Teosi, como os dos brancos. Fixou suas palavras dentro de nós. Mas, para que os brancos as possam escutar, é preciso que sejam desenhadas como as suas. Se não for assim, seu pensamento permanece oco. Quando essas antigas palavras apenas saem de nossas bocas, eles não as entendem direito e as esquecem logo. Uma vez coladas no papel, permanecerão tão presentes para eles quanto os desenhos das palavras de Teosi, que não param de olhar.30 Isso talvez os faça dizer: “É verdade, os Yanomami não existem à toa. Não caíram do céu. Foi Omama que os criou para viverem na floresta”. Por enquanto, os brancos con- tinuam mentindo a nosso respeito, dizendo: “Os Yanomami são ferozes. Só pen- sam em fazer guerra e roubar mulheres. São perigosos!”. Tais palavras são nos- sas inimigas e nós as odiamos. Se fôssemos ferozes de verdade, forasteiro algum jamais teria vivido entre nós.31 Ao contrário, tratamos com amizade os que vieram à nossa terra para nos visitar. Moraram em nossas casas e comeram nossa comida. Essas palavras torcidas são mentiras de maus convidados. Ao retornarem a suas casas, poderiam ter dito a todos, ao contrário: “Os Yanomami amarraram minha rede em sua casa e com generosidade me ofereceram sua comida. Que vivam na floresta como seus antepassados antes deles! Que seus filhos sejam muitos e sempre saudáveis! Que continuem caçando, dando festas reahu e fazendo dançar seus espíritos xapiri!”. Em vez disso, nossas palavras foram enredadas numa língua de fantasma, cujos desenhos tortos se espalharam entre os brancos, por toda parte. E acaba- ram voltando para nós. Foi doloroso e revoltante para nós, pois tornaram-se palavras de ignorância. Não queremos mais ouvir essas velhas palavras a nosso respeito. Pertencem aos maus pensamentos dos brancos. Tampouco quero ouvi-los repetir: “As palavras dos Yanomami para defender a floresta são men- tira. Ela logo estará vazia. Eles são poucos e vão todos virar brancos!”. Por isso quero fazer com que essas palavras ruins sejam esquecidas e substituídas pelas 12959 - A queda do céu.indd 77 8/10/15 12:30 PM
  • 80. 78 minhas, que são novas e direitas. Ao escutá-las, os brancos não poderão mais pensar que somos como seres maléficos ou caça na floresta. Quando seus olhares acompanharem o traçado de minhas palavras, vocês saberão que estamos ainda vivos, pois a imagem de Omama nos protege. En- tão, poderão pensar: “Eis aí belas palavras! Os Yanomami continuam vivendo na floresta como seus antepassados. Residem em grandes malocas, onde dor- mem em suas redes, perto de suas fogueiras. Comem banana e mandioca de suas roças. Flecham os animais na floresta e pescam peixes em seus rios. Pre- ferem sua comida aos alimentos mofados dos brancos, fechados em caixinhas de ferro ou estojos de plástico. Convidam uns aos outros, de casas diferentes, para dançar durante suas grandes festas reahu. Fazem descer seus espíritos xapiri. Falam sua própria língua. Seus cabelos e olhos continuam semelhantes aos de Omama. Não viraram brancos. Continuam vivendo nas mesmas terras que, do alto de nossos aviões, parecem vazias e silenciosas. Nossos pais já causaram a morte de muitos de seus maiores. Não devemos continuar nesse mau caminho”.32 Longe de nossa floresta, há muitos outros povos além de nós. Contudo, nenhum deles tem um nome semelhante ao nosso. Por isso devemos continuar vivendo na terra em que Omama nos deixou no primeiro tempo. Somos seus filhos e genros. Mantemos o nome que nos deu. Desde que nos encontraram, os brancos não param de nos perguntar: “Quem são vocês? De onde vêm? Co- mo se chamam?”. Querem saber o que nosso nome, Yanomami, significa. Por que tamanha insistência? Alegam que é para pensar direito. Achamos que, ao contrário, isso é ruim para nós. Que resposta lhes daremos?33 Queremos prote- ger nosso nome. Não nos agrada repeti-lo a torto e a direito. Seria maltratar a imagem de Omama. Não é assim que falamos. Por isso, ninguém quer respon- der às suas perguntas. Somos habitantes da floresta. Nossos ancestrais habitavam as nascentes dos rios muito antes de os meus pais nascerem, e muito antes do nascimento dos antepassados dos brancos. Antigamente, éramos realmente muitos e nossas casas eram muito grandes. Depois, muitos dos nossos morreram quando che- garam esses forasteiros com suas fumaças de epidemia e suas espingardas. Fi- camos tristes, e sentimos a raiva do luto demasiadas vezes no passado. Às vezes 12959 - A queda do céu.indd 78 8/10/15 12:30 PM
  • 81. 79 até tememos que os brancos queiram acabar conosco. Porém, a despeito de tudo isso, depois de chorar muito e de pôr as cinzas de nossos mortos em es- quecimento,34 podemos ainda viver felizes. Sabemos que os mortos vão se jun- tar aos fantasmas de nossos antepassados nas costas do céu, onde a caça é abundante e as festas não acabam. Por isso, apesar de todos esses lutos e pran- tos, nossos pensamentos acabam se acalmando. Somos capazes de caçar e de trabalhar de novo em nossas roças. Podemos recomeçar a viajar pela floresta e a fazer amizade com as pessoas de outras casas. Recomeçamos a rir com nossos filhos, a cantar em nossas festas reahu e a fazer dançar os nossos espíritos xa- piri. Sabemos que eles permanecem ao nosso lado na floresta e continuam mantendo o céu no lugar. 12959 - A queda do céu.indd 79 8/10/15 12:30 PM
  • 82. 2. O primeiro xamã O filho de Omama. 12959 - A queda do céu.indd 80 8/10/15 12:30 PM
  • 83. 81 Foi Omama que criou a terra e a floresta, o vento que agita suas folhas e os rios cuja água bebemos. Foi ele que nos deu a vida e nos fez muitos. Nossos maiores nos deram a ouvir seu nome desde sempre. No começo, Omama e seu irmão Yoasi vieram à existência sozinhos. Não tiveram pai nem mãe. Antes deles, no primeiro tempo, havia apenas a gente que chamamos yarori.1 Esses ancestrais eram humanos com nomes de animais e não paravam de se trans- formar. Assim, foram aos poucos se tornando os animais de caça que hoje flechamos e comemos. Então, foi a vez de Omama vir a existir e recriar a flo- resta, pois a que havia antes era frágil. Virava outra sem parar, até que, final- mente, o céu desabou sobre ela. Seus habitantes foram arremessados para de- baixo da terra e se tornaram vorazes ancestrais de dentes afiados a quem chamamos aõpatari.2 Por isso Omama teve de criar uma nova floresta, mais sólida, cujo nome é Hutukara. É também esse o nome do antigo céu que desabou outrora. Oma- ma fixou a imagem dessa nova terra e esticou-a aos poucos, cuidadosamente, do mesmo modo como espalhamos o barro para fazer placas de cerâmica mahe.3 Em seguida, cobriu-a com pequenos traços apertados, pintados com tintura de urucum, parecidos com desenhos de palavras. Depois, para evitar que desabasse, plantou nas suas profundezas imensas peças de metal, com as quais também fixou os pés do céu.4 Sem isso, a terra teria ficado arenosa e quebradiça e o céu não teria permanecido no lugar. Mais tarde, com o metal que ficou, depois de fazer com que ficasse inofensivo, Omama também fabricou as primeiras ferramentas de nossos ancestrais.5 Finalmente, assentou as mon- tanhas na superfície da terra, para evitar que as ventanias de tempestade a fi- zessem tremer e assustassem os humanos. Também desenhou o primeiro sol, para nos dar luz. Mas era por demais ardente e ele teve de rejeitá-lo, destruin- do sua imagem. Então, criou aquele que vemos até hoje no céu, bem como as nuvens e a chuva, para poder interpô-los quando esquenta demais. Isso ouvi os antigos contarem. Omama criou também as árvores e as plantas, espalhando no solo, por toda parte, as sementes de seus frutos. Os grãos germinaram na terra e deram origem a toda a floresta em que vivemos desde então. Foi assim que cresceram as palmeiras hoko si, maima si e rioko si, as árvores apia hi, komatima hi, maki- na hi, oruxi hi e todas as outras de que tiramos nosso alimento. No início, seus galhos eram nus. Depois, frutos se formaram. Então, Omama criou as abelhas, 12959 - A queda do céu.indd 81 8/10/15 12:30 PM
  • 84. 82 que vieram morar nelas e sorver o néctar das flores com que produzem seus vários tipos de mel. No início, também não existiam os rios; as águas corriam debaixo da ter- ra, bem fundo. Só se ouvia seu ronco, ao longe, como o de fortes corredeiras. Formavam um enorme rio que os xamãs nomeiam Motu uri u. Certo dia, Oma- ma trabalhava em sua roça com o filho, que começou a chorar de sede. Para matar-lhe a sede, ele perfurou o solo com uma barra de metal.6 Quando a tirou da terra, a água começou a jorrar violentamente em direção ao céu e jogou para longe o menino que se aproximara para bebê-la. Lançou também para o céu todos os peixes, raias e jacarés. Subiu tão alto que um outro rio se formou nas costas do céu, onde vivem os fantasmas de nossos mortos. Em seguida, a água foi se acumulando na terra e começou a correr em todas as direções, for- mando os rios, os igarapés e os lagos da floresta. No início, nenhum ser humano vivia ali. Omama e seu irmão Yoasi viviam sozinhos. Nenhuma mulher existia ainda. Os dois irmãos só vieram a conhecer a primeira mulher muito mais tarde, quando Omama pescou a filha de Tëpërë- siki num grande rio.7 No início, Omama copulava na dobra do joelho de seu irmão Yoasi. Com o passar do tempo, a panturrilha deste ficou grávida, e foi assim que Omama primeiro teve um filho.8 Porém, nós, habitantes da floresta, não nascemos assim. Nós saímos, mais tarde, da vagina da esposa de Omama, Th uëyoma,9 a mulher que ele tirou da água. Os xamãs fazem descer sua imagem desde sempre. Chamam-na também Paonakare. Era um ser peixe que se deixou capturar na forma de uma mulher. Assim é. Se Omama não a tivesse pescado no rio, talvez os humanos continuassem a copular atrás do joelho! Mais tarde, Omama ficou furioso com seu irmão Yoasi, porque este, con- tra a sua vontade, tinha feito surgir na floresta os seres maléficos das doenças, os në wãri,10 e também os da epidemia xawara, que, como eles, são comedores de carne humana. Yoasi era mau e seu pensamento, cheio de esquecimento. Omama era quem tinha criado o sol que não morre nunca. Não falo aqui do sol moth oka, cujo calor cobre a floresta, e que é visto pelas pessoas comuns, mas da imagem do sol.11 Assim é. O sol e a lua têm imagens que só os xamãs são capazes de fazer descer e dançar. Elas têm a aparência de humanos, como nós, mas os brancos não são capazes de conhecê-las. Omama queria que fôssemos imortais, como o ser sol chamado de Mo- th okari  12 pelos xamãs. Queria fazer bem as coisas e pôr em nós um sopro de 12959 - A queda do céu.indd 82 8/10/15 12:30 PM
  • 85. 83 vida realmente sólido. Por isso, buscou na floresta uma árvore de madeira dura para colocá-la de pé e imitar a forma de sua esposa. Escolheu para tanto uma árvore fantasma pore hi, cuja pele se renova continuamente. Queria in- troduzir a imagem dessa árvore em nosso sopro de vida, para que este perma- necesse longo e resistente.13 Assim, quando envelhecêssemos, poderíamos mu- dar de pele e esta ficaria sempre lisa e jovem. Teria sido possível rejuvenescer continuamente e não morrer nunca. Era o que Omama desejava. No entanto, Yoasi, aproveitando-se da ausência do irmão, tratou de colocar na rede da mulher de Omama a casca de uma árvore de madeira fibrosa e mole, a que chamamos kotopori usihi. Então, a casca acabou se dobrando num lado da rede e começou a pender para o chão. Imediatamente, os espíritos tucano co- meçaram a entoar seus pungentes lamentos de luto.14 Omama ouviu-os e ficou furioso com o irmão. Mas era tarde demais, o mal estava feito. Yoasi tinha nos ensinado a morrer para sempre. Tinha introduzido a morte, esse ser maléfico, em nossa mente e em nosso sopro,15 que por esse motivo se tornaram tão frá- geis. Desde então, os humanos estão sempre perto da morte. Também por isso às vezes chamamos os brancos de Yoasi th ëri, Gente de Yoasi. Suas mercadorias, suas máquinas e suas epidemias, que não param de nos trazer a morte, também são, para nós, rastros do irmão mau de Omama. Foi também Yoasi que criou o ser lua Poriporiri. Por isso este também não para de morrer. Poriporiri é um homem que viaja todas as noites através da imensidão do céu, sentado em sua canoa, como uma espécie de avião. No co- meço, é um rapaz, mas, dia após dia, vai envelhecendo. Quando termina sua viagem, está seco e seus cabelos ficaram brancos. Ele acaba morrendo. Então, suas filhas começam a chorar por ele sem descanso, junto com os espíritos tucano. Suas lágrimas se tornam fortes chuvas que caem longamente na flores- 12959 - A queda do céu.indd 83 8/10/15 12:30 PM
  • 86. 84 ta. Depois de algum tempo, quando o corpo do pai já se decompôs, elas reco- lhem seus ossos com cuidado. Então eles desabrocham novamente e Poripori- ri volta à vida. Assim é. O ser lua é também coisa da morte. Yoasi quis assim porque lhe faltava sabedoria. Omama, ao contrário, queria realmente que fôs- semos eternos. Se tivesse estado só, não morreríamos jamais e nosso sopro de vida sempre teria o mesmo vigor. Mas não foi assim e, infelizmente, Yoasi fez nossos ancestrais se tornarem outros. Por isso Omama finalmente criou os xapiri, para podermos nos vingar das doenças16 e nos proteger da morte a que nos sujeitou seu irmão mau. Então ele criou os espíritos da floresta urihinari, os espíritos das águas mãu unari e os espíritos animais yarori. Depois, escondeu-os, até que seu filho se tornasse xamã, no topo das montanhas e nas profundezas do mato. Antes, eu achava que os xapiri tinham vindo a existir por si sós, mas estava enganado. Mais tarde, quando pude vê-los e ouvir seus cantos, realmente entendi quem eram. O pai de minha esposa conta também que foi a esposa de Omama, a mulher das águas, quem primeiro pediu que os xapiri fossem trazidos à existência. Somos seus filhos e nossos antepassados tornaram-se numerosos a partir dela. Por isso, depois de ter procriado, perguntou ao marido: “O que faremos para curar nossos filhos se ficarem doentes?”. Era essa a sua preocupação. O pensa- mento do marido, Omama, continuava no esquecimento. Por mais que seu espírito buscasse, ele se perguntava em vão o que poderia ainda criar. A mulher das águas lhe disse então: “Pare de ficar aí pensando, sem saber o que fazer. Crie os xapiri, para curarem nossos filhos!”. Omama concordou: “Awei! São palavras sensatas. Os espíritos irão afugentar os seres maléficos. Arrancarão deles a imagem dos doentes e as trarão de volta para seus corpos!”. Foi assim que ele fez aparecer os xapiri, tão numerosos e poderosos quanto os conhece- mos hoje. Mais tarde, o filho de Omama tornou-se um rapaz e seu pai quis que ele aprendesse a fazer dançar os xapiri para poder tratar os seus. Buscou uma ár- vore yãkoana hi na floresta e disse ao filho: “Com esta árvore, você irá preparar o pó de yãkoana! Misture com as folhas cheirosas maxara hana e as cascas das árvores ama hi e amath a hi e depois beba! A força da yãkoana revela a voz dos xapiri. Ao bebê-la, você ouvirá a algazarra deles e será sua vez de virar espírito!”. 12959 - A queda do céu.indd 84 8/10/15 12:30 PM
  • 87. 85 Depois, soprou yãkoana nas narinas do filho com um tubo de palmeira horo- ma.17 Omama então chamou os xapiri pela primeira vez e disse: “Agora, é sua vez de fazê-los descer. Se você se comportar bem e eles realmente o quiserem, virão a você para fazer sua dança de apresentação e ficarão ao seu lado. Você será o pai deles. Assim, quando seus filhos adoecerem, você seguirá o caminho dos seres maléficos que roubaram suas imagens para combatê-los e trazê-las de volta! Você também fará descer o espírito japim ayokora18 para regurgitar os objetos daninhos que você terá arrancado de dentro dos doentes. Assim você poderá realmente curar os humanos!”. Foi desse modo que Omama revelou a seu filho — o primeiro xamã — o uso da yãkoana e lhe ensinou a ver os espíri- tos que acabara de trazer à existência. Nossos maiores continuaram a seguir o rastro de suas palavras até hoje. Por isso, continuamos a beber yãkoana para fazer os xapiri dançar. Não fazemos isso à toa. Fazemos porque somos habitan- tes da floresta, filhos e genros de Omama. O filho de Omama escutou atentamente as palavras do pai e concentrou seu pensamento nos xapiri. Entrou em estado de fantasma e tornou-se outro.19 Então pôde contemplar a beleza da dança de apresentação dos espíritos. Tor- nou-se xamã depressa, porque soube demonstrar amizade a todos. Os xapiri já tinham o olhar fixado nele desde que era bem pequeno e seu pai tinha falado a respeito deles muitas vezes. Agora, tinha crescido e eles finalmente tinham vindo em grande número. Podia vê-los descer, resplandecentes de luz, e escu- tar seus cantos melodiosos. Então, exclamou: “Pai! Agora conheço os espíritos e eles se juntaram do meu lado! De agora em diante, os humanos vão poder se multiplicar e combater as doenças!”. Omama era o único a conhecer os xapiri e os deu ao filho porque, se morresse sem ter ensinado suas palavras, jamais teria havido xamãs na floresta. Não queria que os humanos ficassem sem nada e causassem dó. Por isso, fez de seu filho o primeiro xamã. Deixou-lhe o cami- nho dos xapiri antes de desaparecer. Foi o que ele quis. Disse a ele estas palavras: “Com estes espíritos, você protegerá os humanos e seus filhos, por mais numerosos que sejam. Não deixe que os seres maléficos e as onças venham devorá-los. Impeça as cobras e escorpiões de picá-los. Afas- te deles as fumaças de epidemia xawara. Proteja também a floresta. Não deixe que se transforme em caos. Impeça as águas dos rios de afundá-la e a chuva de inundá-la sem trégua. Afaste o tempo encoberto e a escuridão. Segure o céu, para que não desabe. Não deixe os raios caírem na terra e acalme a gritaria dos 12959 - A queda do céu.indd 85 8/10/15 12:30 PM
  • 88. 86 trovões! Impeça o ser tatu-canastra Wakari de cortar as raízes das árvores e o ser do vendaval Yariporari de vir flechá-las e derrubá-las!”. Essas foram as palavras que Omama deu ao filho. Por isso, até hoje os xamãs continuam de- fendendo os seus e a floresta. Mas também protegem os brancos, apesar de serem outra gente, e todas as terras, até as mais imensas e distantes. O filho de Omama primeiro tomou yãkoana com o pai. Depois continuou a bebê-la sozinho, mais e mais, para chamar cada vez mais espíritos e poder conhecer todos os seus cantos. Era deslumbrante quando fazia dançar suas imagens. Era um rapaz muito bonito, tinha a pele coberta de urucum bem vermelho e desenhos de um negro brilhante. Suas braçadeiras de crista de mu- tum prendiam muitas caudais de arara-vermelha, pingentes de rabo de tucano e buquês de penas paixi.20 Tinha os olhos escuros, e os cabelos cobertos de penugem hõromae, de um branco resplandecente.21 Tinha também uma pele de rabo de macaco cuxiú-negro em torno da cabeça.22 Dançava lentamente, com as costas bem curvadas para trás. Ver a beleza dos xapiri o enchia de feli- cidade. Chamava-os e os fazia descer sem parar. Trazia-os no pensamento, de verdade. Era assim porque tinha sido gerado pelo esperma de Omama, que é o criador dos xapiri. Acho que o filho de Omama, hoje, está morto. Sua imagem, porém, ainda existe, muito longe daqui, onde os rios deságuam, do lado do nascer do sol, ou talvez no céu. Eu a vi no tempo do sonho, junto com a de nossa floresta, aos prantos. Esta, doente e transformada em fantasma pelas fumaças de epidemia, pedia aos xapiri para curá-la e acabar com o sofrimento causado pelo furor dos brancos. Implorava-lhes que limpassem as árvores e tornassem suas folhas bri- lhantes de novo; que fizessem crescer suas flores e lhe devolvessem a fertilidade. Dizia a eles: “Vocês são meus, devem vingar-me!”. Vejo tudo isso em sonho porque, tornado fantasma com a yãkoana durante o dia, o meu interior se trans- formou.23 Senão, eu não poderia falar assim. O filho de Omama foi o primeiro a virar espírito, antes de qualquer outro. Foi o primeiro a estudar e a ver as coisas com a yãkoana. Depois dele, muitos de nossos ancestrais se tornaram xamãs. Ele lhes mostrou como fazer dançar os espíritos. Disse a eles, como Omama lhe havia ensinado: “Quando os seres maléficos da floresta capturarem a imagem de seus filhos para devorá-la,24 os 12959 - A queda do céu.indd 86 8/10/15 12:30 PM
  • 89. 87 xapiri irão recuperá-la e vingá-los!”. Foi seguindo essas palavras que os nossos maiores se puseram a beber pó de yãkoana e a admirar o esplendor dos espíri- tos. É isso que fazemos até hoje. Por isso é tão comum ver os xamãs trabalhan- do em nossas casas.25 Sem eles, seriam vazias e silenciosas. Assim é. Essas pa- lavras são antigas mas nunca vão desaparecer, porque são muito bonitas e o valor delas é muito alto. 12959 - A queda do céu.indd 87 8/10/15 12:30 PM
  • 90. 3. O olhar dos xapiri Espírito xapiri. 12959 - A queda do céu.indd 88 8/10/15 12:30 PM
  • 91. 89 Quando eu era bem pequeno, meu pensamento ainda estava no esqueci- mento. Entretanto, costumava ver em sonho seres assustadores que chamamos yai th ë.1 Por isso era comum me ouvirem falar e chorar durante a noite. Vivía- mos então em Marakana, uma antiga casa no alto rio Toototobi.2 Só alguns meninos de nossa casa sonhavam assim. Não sabíamos o que nos atrapalhava o sono, mas eram já os xapiri que vinham a nós. Por isso, mais tarde, uma vez adultos, quisemos beber o pó de yãkoana para nos tornarmos xamãs. As outras crianças cresceram sem jamais ter entendido o que nos amedrontava tanto. Foi nessa época que vi os espíritos pela primeira vez. Era noite, e o calor do fogo me adormecia aos poucos na rede de minha mãe. Passado algum tem- po, as imagens dos xapiri começaram a descer em minha direção. Faziam com que eu me tornasse fantasma e me enviavam o sonho.3 Um caminho de luz se estendia então diante de meus olhos, e seres desconhecidos vinham ao meu encontro. Pareciam surgir de muito longe, mas eu conseguia enxergá-los. Pa- reciam humanos minúsculos, com os cabelos cobertos de penugem branca e uma faixa de rabo de macaco cuxiú-negro amarrada ao redor da testa. Aproximavam-se bem devagar, mergulhados numa luz ofuscante, agitan- do folhas de palmeira hoko si amarelas. Com enfeites de caudais de arara- -vermelha e uma profusão de buquês de penas paixi brilhantes e coloridas nos braços, cobertos de urucum, lançavam gritos ensurdecedores, como um grupo de convidados chegando a uma festa reahu. Eram muitos, e fixavam seus olhos sobre mim. Era bonito, mas assustador, pois eu jamais tinha visto espíritos até então. Quando eles por fim se aproximavam de mim, meu ventre caía de medo. Eu não entendia o que estava acontecendo comigo. Começava a chorar e gritar, chamando minha mãe. Depois, acordava em sobressalto e ouvia sua voz doce dizendo: “Não chore. Você não vai mais sonhar, não tenha medo. Agora, dur- ma sem chorar. Acalme-se”. Muito mais tarde, já xamã, compreendi que os seres inquietantes que tinha visto em meus sonhos eram espíritos de verdade. Então, pensei: “Eram os xapiri mesmo que vinham a mim! Por que não res- pondi a eles antes?”.4 Naquele tempo, os espíritos vinham me visitar o tempo todo. Queriam mesmo dançar para mim; mas eu tinha medo deles. Esses sonhos duraram toda a minha infância, até eu me tornar adolescente. Primeiro, eu via a clari- dade cintilante dos xapiri se aproximando, depois eles me pegavam e me leva- 12959 - A queda do céu.indd 89 8/10/15 12:30 PM
  • 92. 90 vam para o peito do céu. É verdade, eu costumava sobrevoar a floresta em meus sonhos! Meus braços se transformavam em asas, como as de uma grande arara- -vermelha. Eu podia então contemplar o topo das árvores abaixo de mim, como de um avião. Mas às vezes, de repente, começava a despencar no vazio e entra- va em pânico. Então meu sonho era interrompido e eu acordava aos prantos. Não era à toa que eu sonhava que voava com tanta frequência. Os xapiri não paravam de carregar minha imagem para as alturas do céu com eles. É o que acontece quando eles observam com afeto uma criança adormecida para que se torne um xamã. Dizem a si mesmos: “Mais tarde, quando ela crescer, dançaremos ao seu lado!”; e continuam prestando atenção. Assim, não param de fazê-la sonhar, e de assustá-la. Por isso ela vira fantasma quando dorme. Não está doente, mas se agita na rede, chorando e gritando. A ponto de alguns adultos da casa ficarem irritados por serem acordados pela choradeira. Mas não é manha. Só as crianças que veem os xapiri em sonho gritam durante a noite. Não fosse por isso, dormiriam sossegadas, como as outras crianças. Em meus sonhos, os espíritos amarravam as cordas de minha rede bem alto no céu. Era como se longas antenas de rádio fossem esticadas ao meu lado e funcionassem como caminhos para os xapiri e seus cantos chegarem até mim, assim como o caminho das palavras do telefone dos brancos. Eu ficava deitado, bem calmo, mas sentia minha rede crescendo e crescendo. Depois, era como se eu também estivesse ficando cada vez maior, junto com ela. Apesar de eu não passar de um menino, tinha a sensação de ficar imenso. Olhava ao meu redor, mas tudo o que via era um grande vazio. Dava vertigem. O peito do céu parecia estar perto, ao alcance de minhas mãos. Vinha de lá um rumor, como o da gritaria dos grupos de dançarinos nas festas reahu: “Aõ! Aõ! Aõ!   ”. Eram os xapiri que vinham na minha direção, dançando, mas eu não conseguia dis- tingui-los ainda muito bem. Depois de algum tempo, tudo cessava. Eu come- çava a acordar, com dificuldade, ainda me sentindo enorme. Então, quando eu voltava ao tamanho normal, pensava, aflito: “Continuo pequeno! Como é que eu pude ficar tão enorme?”, e acabava voltando a dormir. Em outros momentos, eu via de novo a floresta a partir do peito do céu. Porém, dessa vez, uma grande montanha de pedra aparecia de repente, tão alta quanto a que se vê de nossa casa de Watoriki. Elevava-se em silêncio, per- to de mim. Na verdade, estava bem distante, mas sua imagem quase tocava em mim. Eu não tirava os olhos de suas encostas. Tinha medo, e me perguntava: 12959 - A queda do céu.indd 90 8/10/15 12:30 PM
  • 93. 91 “O que é isso? O que está acontecendo comigo?”. Bem mais tarde, compreendi por que costumava ver essa serra de pedra em sonho. Omama criou as monta- nhas para esconder o caminho que tomou ao fugir. Elas não estão na floresta à toa. Embora pareçam ser impenetráveis aos olhos de quem não é xamã, na verdade são casas de espíritos.5 Contudo, naquele tempo, eu era bem pequeno, e não sabia nada a esse respeito. Não sabia ainda quem são os xapiri, nem mesmo sabia de verdade que existiam! Também costumava sonhar que animais me atacavam na floresta. O pri- meiro que me lembro de ter visto foi uma grande anta. Parecia muito ameaça- dora e começou a me perseguir. Eu tive medo de ser pisoteado, por isso subi depressa numa árvore, para escapar. Mas ela começou a crescer cada vez mais e, por fim, me alcançou nas alturas. Agachado num galho, imóvel, eu a obser- vava se aproximando, morto de medo. Então, no momento exato em que ia me pegar, gritei e acordei de repente. Mais tarde entendi que era a imagem do ancestral Anta, Xamari, que queria dançar para mim.6 Também costumava ser aterrorizado em sonho por uma enorme onça. Ela seguia minhas pegadas na floresta e se acercava cada vez mais. Eu corria o mais rápido possível, mas não conseguia despistá-la. Acabava tropeçando na vege- tação emaranhada e caía diante dela, que então pulava sobre mim. Mas bem no instante em que ela ia me comer eu acordava, chorando. Às vezes, eu ten- tava fugir dela trepando numa árvore. Mas ela vinha atrás de mim, subindo pelo tronco com suas garras afiadas. Amedrontado, eu me escondia nos galhos mais altos. Não tinha mais para onde escapar. A única coisa que eu podia fazer para me salvar era me jogar do alto da árvore na qual eu tinha me refugiado. Desesperado, eu agitava os braços no vazio, como asas, e, de repente, conseguia voar! Planava em círculos, bem alto acima da floresta, como um urubu. No final, me via de pé, numa outra floresta, noutra margem, e a onça temida não podia mais me alcançar. Às vezes eu era perseguido, em meus sonhos, por um bando de queixadas. Eles me perseguiam para me pisotear e me morder. Eu podia ouvir suas temí- veis presas batendo atrás de mim, na mata. Mas conseguia me livrar delas, subindo numa árvore e, ao chegar ao topo, voava mais uma vez no peito do céu. Em outros sonhos, me via perto de um olho-d’água, preso na lama por uma enorme sucuri, que tentava me sufocar e me engolir. Ou ainda pescava na beira de um rio quando dele saía de surpresa um enorme jacaré preto, que se 12959 - A queda do céu.indd 91 8/10/15 12:30 PM
  • 94. 92 arrastava em minha direção. Eu saía correndo, mas ele me perseguia, e eu não conseguia deixá-lo para trás, apesar da dificuldade que ele tinha em se movi- mentar pelo mato rasteiro. Acontecia também de eu sonhar que inimigos atacavam nossa casa. Eram gente das terras altas, moradores do lugar chamado Hw axi th a, nas nascentes do Orinoco e do Parima. Esses guerreiros, cobertos de pintura preta,7 surgiam de repente no meio de nossa casa de Marakana e começavam a disparar suas flechas em todas as direções. Eu sentia muito medo. As cordas de seus arcos estalavam sem parar e meus maiores, atingidos pelas flechadas, iam caindo um após o outro. Então, eu tentava fugir, esgueirando-me para fora da casa. Mas um grupo de guerreiros começava a me perseguir. Eu corria com todas as mi- nhas forças pela floresta para escapar deles. Subia um morro e em seguida es- calava uma montanha íngreme. Chegando ao topo, saltava e, mais uma vez, conseguia alçar voo. Os guerreiros então ficavam parados em cima de um ro- chedo e me acompanhavam com os olhos, sem poder fazer nada. Então eu saía do meu sono. Outras vezes, sonhava que trepava numa grande árvore rapa hi de flores amarelas. Subia com cuidado, me agarrando ao tronco. Passava além dos seus galhos principais e prosseguia até o topo. De lá, podia avistar a floresta longe, em todas as direções. Via outras casas, um grande rio, montanhas e colinas. Via também macacos-aranha pulando de árvore em árvore, papagaios voando e bandos de queixadas fuçando o solo. Era muito bonito. Depois de algum tempo, ficava com vontade de descer. Então olhava para baixo e, de repente, todos os galhos pelos quais tinha subido pareciam estar fora de alcance. Preo- cupado, pensava: “Como vou descer? Em que vou me apoiar?”. Não sabia o que fazer. Tentava abraçar o tronco, mas sua casca ficava cada vez mais escorrega- dia. De repente, minhas mãos se soltavam. Eu então despencava no vazio bem depressa, direto para o chão. Nesse instante eu acordava de repente. Aterrori- zado, perguntava a mim mesmo: “O que aconteceu comigo?”. Outras vezes ainda, eu respondia ao chamado das mulheres das águas que chamamos de mãuyoma.8 São as filhas de Tëpërësiki, o sogro de Omama; as irmãs da esposa que este pescou no primeiro tempo. Eu mergulhava nas pro- fundezas de um grande rio para me juntar a elas. Para minha grande surpresa, sem me molhar nem um pouco, chegava ao interior de uma grande casa. Tudo ali era seco e via-se tão bem como no exterior. O sol refletido acima na super- 12959 - A queda do céu.indd 92 8/10/15 12:30 PM
  • 95. 93 fície da água iluminava-lhe a praça central. Eu ficava de pé, sem mover um dedo, olhando com calma ao meu redor. Várias portas davam para caminhos abertos na floresta. Eu observava o movimento das filhas e noras de Tëpërësiki, que entravam e saíam da casa com seus filhos. Achava-as muito bonitas. Ape- sar de morrer de medo do pai delas, não podia parar de admirá-las. Mas assim que tentava segui-las, acordava de sobressalto. Às vezes, bastava eu me virar em direção à porta pela qual tinha entrado para o sonho acabar. Então, lamen- tava muito não ter podido ficar na casa da gente das águas. No dia seguinte, perguntava a meu padrasto:9 “De quem é a casa debaixo do rio que eu vi no meu sono? Era tão bonita, gostaria de ter ficado admiran­ do-a por mais tempo”. Ele então me explicava com gentileza: “Você foi à casa onde o sogro de Omama vive com os espíritos peixe, os espíritos jacaré e os espíritos sucuri. Os xapiri estão começando a querê-lo de verdade. Mais tarde, quando você se tornar adolescente, se quiser conhecer o poder da yãkoana, abrirei de verdade os caminhos deles para você”. Esse sonho se repetia muito, pois quando eu era criança passava bastante tempo pescando nos rios. Por isso a gente das águas não parava de capturar minha imagem, para me fazer sonhar. Às vezes, eram imagens de outros seres desconhecidos que se apresen- tavam a mim durante o sono, como a do japim ayokora. Os enfeites deles eram deslumbrantes, de muitas cores reluzentes. Sua dança de apresentação e seus cantos eram magníficos. Ao contrário dos demais, esse espírito não me dava medo. Sentia-me feliz por poder admirá-lo. Acontecia também de eu ver o espírito lua, que parece um humano envolto por um halo de claridade intensa. Voava em minha direção e chegava bem perto de mim, e de repente começava a dar gargalhadas. Mostrava seus caninos proeminentes, enquanto sua barba e seus cabelos luminosos tremulavam na escuridão. Depois, desa- parecia de repente, do lado da jusante do céu, onde o sol se levanta.10 Ainda me lembro dessa imagem que me apavorava tanto! Os seres desconhecidos que apareciam em meus sonhos de criança eram espíritos xapiri que me olha- vam e se interessavam por mim. Naquela época, eu ainda não sabia disso. Todas as imagens que via em sonho me deixavam muito apreensivo. Só bem mais tarde, quando meus antigos me deram de beber o poder da yãkoana, compreendi que, desde aquele tempo, tinham vindo ao meu encontro para que eu me tornasse um xamã. 12959 - A queda do céu.indd 93 8/10/15 12:30 PM
  • 96. 94 Quando eu chorava ou gritava durante a noite, as pessoas de nossa casa costumavam ficar irritadas. Então, meu padrasto, com paciência, explicava a eles: “Os espíritos olham esse menino e ele se comporta como um fantasma. Por isso geme e fala durante o sono”. Assim como minha mãe, ele cuidava muito bem de mim. Era um homem de sabedoria, um grande xamã. Quando eu acordava aos prantos, à noite, ele me tranquilizava, dizendo: “Saia desse sonho, volte desse estado de fantasma! Não tenha medo! São os ancestrais animais yarori que você está vendo. Quando você crescer, se quiser, farei com que beba pó de yãkoana e eles construirão sua casa junto de você. Então será sua vez de poder chamá-los”.11 Depois, fazia passes sobre mim com as duas mãos, enquanto soprava. Eu ia me acalmando aos poucos. Porém, alguns dias depois, tudo recomeçava. Os xapiri voltavam a mim, incontáveis. Retomavam sua dança de apresentação numa luz ofuscante e desapareciam assim que eu acordava. Meu padrasto me consolava de novo: “Não tema! Você vai crescer e, quando for adulto, será um grande xamã, deveras capaz de fazer dançar os espíritos. Protegerá seus filhos e as pessoas de sua casa contra os seres maléficos e saberá curá-los quando adoecerem”. Ao escutar essas palavras, eu me acal- mava e voltava a dormir. Como eu, meu filho mais velho se inquietou muito durante a infância. Nunca teve o sono tranquilo. Os espíritos também tinham posto os olhos nele. Sonhava que caçava, que viajava. Costumava ver os espíritos dançando à noite. Então, eu dizia a mim mesmo que, mais tarde, seria a minha vez de fazê-lo beber yãkoana. Mas agora que ele se tornou adulto, não sei se ainda vê os xa- piri durante o sono. Tornou-se professor e está sempre muito ocupado com as palavras dos brancos. Talvez tenha medo de esquecer os desenhos de palavras que aprendeu12 se concentrar seu pensamento nos espíritos. Talvez tenha sido enfraquecido por pensar demais nas mulheres. Não sei. Quando eu era criança, 12959 - A queda do céu.indd 94 8/10/15 12:30 PM
  • 97. 95 meu padrasto sempre me manteve longe das mulheres. Cuidou de mim para que eu pudesse me tornar xamã de verdade. Minha mãe, ele, minha irmã e eu vivíamos afastados dos outros. Costu- mávamos morar numa casinha no lugar chamado de Th ooth oth opi, longe das pessoas da casa grande de Marakana.13 De modo que eu não vivia na compa- nhia de suas filhas e irmãs. Por isso, quando criança, eu temia as mulheres. Quando acontecia de eu me encontrar perto delas, dizia: “Não se aproximem! Não quero sentir o cheiro das folhas de mel puu hana que enfeitam seus braços! Eu viraria a cabeça e ficaria enjoado”. É verdade, o perfume dessas folhas afu- genta os espíritos, que temem aquelas que as usam como se fossem seres peri- gosos. Se os rapazes começarem a copular cedo demais, os espíritos não virão dançar para eles. Ficam enojados com o seu cheiro de pênis e os consideram sujos. Não vêm mais visitar seus sonhos. Do mesmo modo, detestam os jovens caçadores que comem suas próprias presas. Estes também não sonham.14 Assim é. Os xapiri preferem os meninos que crescem sem olhar para as mulheres. Quando se é jovem, o bom é andar sempre na floresta. É ruim ficar pen- sando o tempo todo em mulheres e em comer suas vulvas.15 É deplorável passar as noites a desejá-las a ponto de atravessar a casa engatinhando para encontrá- -las às escondidas em suas redes.16 Melhor preocupar-se em ser bom caçador, sempre ficando atento à caça na floresta. Só desse modo um rapaz pode agradar aos espíritos, que então virão a ele por pensar que ele lhes pertence. Assim, mais tarde, estarão dispostos a dançar para fazer dele um xamã. Foi o que me aconteceu quando era menino. Cresci passando meu tempo na floresta e foi assim que comecei, pouco a pouco, a ver os xapiri. Ficava con- centrado na caça e, durante a noite, as imagens dos ancestrais animais se apre- sentavam a mim. Seus enfeites e pinturas brilhavam de modo cada vez mais nítido em meus sonhos. Podia também escutá-los quando falavam e quando gritavam. Esse tipo de coisa acontecia muito às crianças dos nossos maiores, no tempo em que os brancos ainda estavam longe da nossa floresta. Mas, des- de que eles se aproximaram de nós, os meninos e os rapazes não são mais como éramos antigamente. Hoje, é comum terem medo do poder da yãkoana. Te- mem morrer e às vezes chegam a mentir para si mesmos, pensando que um dia poderão virar brancos.17 12959 - A queda do céu.indd 95 8/10/15 12:30 PM
  • 98. 96 Quando eu era menino, também costumava adoecer. Era muito frágil. Os seres maléficos da floresta e os da epidemia não paravam de implicar comigo. Com o tempo, os xamãs começaram a se cansar de trabalhar tanto para me curar. Então, estenderam minha imagem numa tipoia yaremaxi   18 e a esconde- ram na casa do espírito morcego. A salvo, na escuridão, ficava fora do alcance dos predadores. Por mais que eles procurassem por toda parte, não conseguiam mais encontrá-la. Assim faziam os antigos xamãs. Para protegerem as criancinhas das doenças, eles às vezes também as escondiam na canoa do espírito anta.19 Sua própria filha cuidava dos pequenos: lavava-os, ninava-os, brincava com eles enquanto navegava pelas águas, longe dos seres famintos de carne humana. Foi assim que eu finalmente parei de ficar doente com tanta frequência. Conforme tiravam as doenças de meu corpo com seus passes, os xamãs mais velhos de nossa casa iam também colocando em mim, aos poucos, as imagens de enfeites preciosos que são dos xapiri.20 Amarraram em meus braços braçadeiras de crista de mutum e botaram nelas penas caudais de arara. Colo- caram penas de papagaio nos lóbulos de minhas orelhas. Cobriram meus ca- belos de penugem branca e amarraram uma faixa de rabo de macaco cuxiú- -negro em torno de minha testa. Nenhum desses enfeites era visível aos olhos de fantasma da gente comum. Mas suas imagens estavam lá, presas a mim com firmeza, e protegiam o menininho que eu era. Alertavam os espíritos quando seres maléficos se aproximavam. Eles então tinham tempo de avisar seus pais, os xamãs, que assim podiam afugentá-los a tempo. Os xamãs daquele tempo também me adornaram com os enfeites do es- pírito anta, para que eu me tornasse um grande caçador.21 Pois quando um rapaz usa esses objetos preciosos, as antas se apaixonam por ele. Preferem-no a qualquer outro. Quando o veem andando na floresta, pensam: “Que caçador magnífico! Está à minha procura, devo ir em sua direção!”. Sem isso, nenhuma anta iria se deixar flechar com tanta facilidade, só para aplacar a fome de carne dos anciãos! Assim, acho que os xamãs amarram esses enfeites no braço dos meninos para que, mais tarde, cacem para eles, e não lhes falte carne de caça na velhice. Graças a todos esses enfeites, os xapiri me olhavam com carinho e eu sempre via suas imagens em sonho. A vinda dessas imagens coloca as crianças em estado de fantasma durante o sono, como acontecia comigo. Isso também aconteceu com a mais velha de minhas três filhas. Penachos de penas paixi dos 12959 - A queda do céu.indd 96 8/10/15 12:30 PM
  • 99. 97 espíritos foram colocados nela também quando era ainda bebê! Ela sonhava muito e muitas vezes gritava de medo durante a noite. Entrava com facilidade em estado de fantasma. Poderia ter se tornado xamã.22 Os espíritos olhavam para ela com interesse, como haviam feito comigo. Quando ainda era uma menininha, antes de sua primeira menstruação, ela às vezes me dizia: “Pai! Mais tarde, quando eu for mais forte, eu gostaria muito de ver a beleza dos espíritos como você. Você vai me dar yãkoana para beber!”. Mas, agora, é adulta e está casada. Talvez ainda sonhe com os espíritos, mas não fala mais nisso. Seu pen- samento está ocupado com muitas outras coisas. Às vezes, os xapiri fixam seu olhar nas crianças só porque bebem mel demais.23 Nós o preparamos diluindo-o em água; as crianças gostam dessa be- bida. Um de meus cunhados, que também era um grande xamã, me dava bas- tante quando eu era pequeno. Dizia: “Beba este mel que acabo de preparar para você! Quando você crescer, poderá fazer dançar os espíritos, como eu!”. Era bem doce, eu gostava e tomava muito mesmo. Em seguida, satisfeito, eu caía no sono. Entrava logo em estado de fastasma e começava a sonhar. Via tudo com tanta clareza quanto em pleno dia. Ouvia gritos, vozes e silvos agudos. Via os animais correndo na floresta e, ao longe, os xapiri, dançando com alegria. Depois os espíritos abelha se aproximavam de mim para brincar. Eu ficava então mergu- lhado numa luz tão intensa que me assustava e eu acabava em prantos. Assim era. O mel é o alimento preferido dos espíritos e, quando as crianças tomam muito mel, os xapiri aparecem muito em seus sonhos, mesmo que elas ainda não sejam capazes de reconhecê-los. Quando fiquei maior, às vezes o irmão de minha mãe, meu padrasto e outros xamãs de nossa casa me ofereciam um pouco de pó de yãkoana.24 Assim, quando se reuniam para afastar os espíritos maléficos e eu estava brincando nas proximidades, eles me chamavam: “Venha cá! Experimente o poder da yãkoana! Entre em estado de fanstasma e, mais tarde, você se tornará xamã!”. Eu ficava um tanto intimidado, mas mesmo assim aceitava algumas pitadas que eu tomava sozinho, ou então me aproximava deles para soprarem um pouco em minhas narinas. Ficava muito curioso quanto ao que poderia ver. Deitava em minha rede e ficava assim, parado. Aos poucos ia virando fantasma e, quan- do anoitecia, sonhava sem parar. Então, podia ver as magníficas imagens dos 12959 - A queda do céu.indd 97 8/10/15 12:30 PM
  • 100. 98 ancestrais animais, dos espíritos do céu e dos rios. Isso me acontecia muitas vezes, pois quando eu era pequeno, gostava de experimentar o pó de yãkoana. Foi assim que me fizeram crescer. Meus parentes mais velhos também me davam um pouco no final de fes- tas reahu, quando os homens a tomam juntos, no centro da casa, antes de da- rem início aos seus diálogos yãimuu.25 Faziam-me cheirar um pouco, duas ou três vezes. Aí, a força da yãkoana me pegava e em seguida me fazia morrer.26 Eu rolava e me debatia no chão, como um fantasma. Não via mais nada à minha volta, nem a casa, nem seus moradores.27 Gemia e chamava minha mãe: “Na- paaa! Napaaa!”. Minha pele permanecia estirada no chão, enquanto os xapiri pegavam minha imagem e a levavam para longe, muito ligeiros. Eu voava com eles até as costas do céu, onde vivem os mortos, ou para o mundo subterrâneo dos ancestrais aõpatari. No final, me traziam de volta ao lugar onde jazia minha pele e eu recobrava consciência. Nessa época, eu estava mais crescido e já não tinha nenhum medo do poder da yãkoana. Sem ela, eu não teria visto todas essas coisas em meus sonhos. Não foi mingau de banana nem mingau de pu- punha que me fez sonhar quando criança!28 Menos ainda o perfume inebrian- te das folhas de mel usadas pelas mulheres! Se os xamãs mais velhos de minha casa não me tivessem feito beber o pó de yãkoana, eu não teria sido capaz de matar minha primeira anta quando ainda era bem novo e, uma vez adulto, não teria jamais vindo a ser bom caçador. Sim, é verdade, matei minha primeira anta sozinho, e mal tinha chegado à adolescência!29 Tudo porque eu já tinha visto em sonho a imagem desse ances- tral animal. Assim foi. Eu tinha saído para caçar sozinho. Meu padrasto me havia emprestado sua espingarda, recém-trocada com os brancos.30 Já tinha caminhado durante bastante tempo na floresta quando, de repente, percebi uma forma escura na beira do caminho. Tive medo e pensei, inquieto: “O que pode estar assim deitado no mato?”. Então, reconheci a sombra de uma anta. Vi seus olhos fitando-me na penumbra. Fiquei apavorado. Meu coração batia no peito e pensei: “E se de repente ela me atacar? As antas são perigosas! Se eu atirar nela, ela vai se virar para me morder ou me pisotear”. Então recuei e comecei a tomar o caminho de volta correndo. Eu já tinha sonhado com antas ou outros 12959 - A queda do céu.indd 98 8/10/15 12:30 PM
  • 101. 99 animais — queixadas, veados e jacarés — que me perseguiam na floresta para me machucar. Por isso saí correndo daquele modo! Não fui muito longe, porém. Parei de correr e esperei que meu pensamen- to voltasse a ficar calmo. Voltei sem fazer barulho para a anta, que continuava deitada no mesmo lugar. Olhou para mim de novo. Dessa vez, fiquei calmo. Olhei com o canto dos olhos e localizei uma árvore na qual poderia subir se ela decidisse me atacar. Em seguida, fabriquei uma peconha de cipó masi e encai- xei meus pés nela.31 Depois, devagar, mirei e atirei. Assim que o estrondo do cartucho soou, joguei a espingarda no chão depressa e subi na árvore. Mas a anta, apesar de ferida, não quis me atacar como eu achei que fosse. Rolou no chão soltando um grunhido de dor e logo tentou fugir na direção oposta. Ao ver isso, perdi todo o medo, desci de meu refúgio, e enfiei outro cartucho em minha espingarda. A anta continuava deitada, exposta, e ainda tentando se levantar. Mirei de novo, me aproximando dela, e atirei. Dessa vez, ela morreu no ato. Aí voltei para nossa casa correndo e, assim que cheguei, me precipitei até meu padrasto para anunciar a novidade: “Xoape!32 Acabo de matar uma anta com a sua espingarda!”. Ele parecia mesmo surpreso e, na hora, não acreditou: “Você não está mentindo? É verdade? Onde ela está?”. Respondi orgulhoso: “É verdade! Não está longe daqui, rio abaixo, onde está o tronco tombado de uma árvore rapa hi!”. Ele ainda não parecia estar convencido: “Está morta mesmo?”. Insisti, com energia: “Awei! Está caída na beira do caminho! É verdade!”. Afi- nal, ele resolveu exortar nossos familiares: “Vamos trinchar a anta que meu enteado acaba de matar!”. Depois fomos todos juntos buscar a carne do animal, que é muito pesado. Meu padrasto aproveitou para me dizer que eu tinha feito bem em aban- donar minha presa na floresta. Ensinou-me que, quando se mata uma anta, é melhor não tocá-la e nem mesmo respirar seu cheiro. Deve-se deixá-la onde caiu e voltar depois com parentes para trazer a carne. Caso contrário, o caçador que a matou corre o risco de ficar panema para sempre. Depois dessa, matei muitas outras antas. Mas essa foi a primeira mesmo. Eu sonhava sem parar naquela época, por isso me tornei bom caçador. Agora, já não sou tão bom. Trabalhei demais com os brancos na floresta e eles me fizeram comer minhas próprias presas muitas vezes. Isso me fez perder a habilidade na caça. 12959 - A queda do céu.indd 99 8/10/15 12:30 PM
  • 102. 100 Quando se é criança, aprende-se a pensar direito aos poucos. Vamos nos dando conta de que os xapiri existem mesmo e de que as palavras dos maiores são verdadeiras. Compreendemos pouco a pouco que os xamãs não agem como fantasma à toa. Depois de um tempo, o pensamento se concentra nas palavras dos espíritos e a vontade de vê-los fica muito grande. Nos apegamos à ideia de que um dia vamos poder pedir aos xamãs mais experientes para soprarem pó de yãkoana em nosso nariz e eles nos darão os cantos de seus espíritos.33 Foi assim que aconteceu comigo antigamente. Os xapiri vinham muito me visitar em sonho. Desse modo, começaram a me conhecer bem. Diziam para mim: “Como você responde ao nosso chamado, vamos dançar para você e pendurar nossas redes na sua casa de espíritos”. Durante toda a minha infância, nunca parei de ouvir seu chamado. Mais tarde, tornei-me adolescente, e então jovem adulto, e isso continuou. Nunca dormia sem vê-los descer para mim. Deixaram de me amedrontar e parei de chorar durante a noite. Mas eu continuava falando e gritando durante o sono. De manhã, meus familiares me perguntavam: “O que está acontecendo? Você está se tornando xamã?”. Eu apenas respondia que não sabia. Entre nós, é assim. Primeiro os xapiri olham com afeto para a pessoa, quando é criança. Então ela fica sabendo que estão interessados nela e que vão esperar até ficar adulta para se revelarem de verdade. Depois, conforme cresce, eles continuam a observá-la e a testá-la. Por fim, se a pessoa quiser, pode pedir aos xamãs mais velhos de sua casa para lhe darem yãkoana para beber. Eles então abrirão para ela os caminhos pelos quais os espíritos virão dançar e cons- truir sua casa. Durante a infância, vira-se fantasma de vez em quando, nada mais. Só se pode conhecer os xapiri de verdade depois de ter bebido yãkoana por muito tempo. A partir daí, eles não saem mais de seu sonho. É assim que 12959 - A queda do céu.indd 100 8/10/15 12:30 PM
  • 103. 101 alguém se torna de fato um homem espírito! Então, durante o tempo do sonho, os xamãs veem apenas a dança de apresentação dos xapiri. Não pensam mais em seus filhos, sua roça, nos que visitam sua casa ou na vulva de sua mulher, como fazem os homens comuns. Com os filhos de xamã as coisas se passam de outro modo. Eles nasceram do esperma dos espíritos.34 Assim, tornam-se outros antes mesmo de começar a beber o pó de yãkoana. São os xapiri que seu pai tinha que copularam com sua mãe para fazê-los nascer. Por isso, na verdade, eles não provêm do esperma de seu pai humano. É mesmo o xamã quem come a vulva de sua esposa, sim, mas, por intermédio dele, são seus xapiri que a engravidam. Assim é. Os filhos de xamã nascem e tornam-se espíritos sozinhos. Seguem o caminho de seus pais. As mulheres da gente das águas yawarioma apoderam-se deles assim que ficam adolescentes para levá-los para sua casa no fundo dos rios. Contudo, isso só ocorre se tiverem mesmo a floresta no pensamento e passarem a maior parte do tempo caçando, sem prestar atenção nas mulheres. Os espíritos olham os hábeis caçadores com bons olhos. Sabem que eles gostam da caça, que se- guem sem descanso as pistas de suas presas e as flecham com habilidade. Assim, andando o tempo todo pela floresta, os rapazes acabam tornando-se outros durante o sono. Começam a sonhar com os xapiri sem parar. Estes os olham e se apaixonam por eles. Dizem a si mesmos: “Queremos descer e instalar nossa casa junto dele! Ele gosta da caça, vamos mostrar a ele nossa dança de apresen- tação. Quem sabe ele nos quer?”. A gente das águas são grandes caçadores. É por essa razão que se afeiçoam aos rapazes cujo pensamento se concentra na caça. Consideram-nos como ver- dadeiros habitantes da floresta.35 Por isso suas irmãs gostam de se apoderar de suas imagens para fazê-los se tornar espíritos. Quando são pegos desse modo, os rapazes entram em estado de fantasma. Começam a correr pela floresta e ficam gritando, exaltados: “Aë! Aë! Aë!”. É desse modo que as mulheres das águas os atraem para longe, até sua casa. Apaixonados, ficam lá muito tempo. Afinal, quando elas os deixam voltar para casa, eles recuperam a consciência e se veem de repente sozinhos, perdidos numa floresta desconhecida. Então di- zem a si mesmos: “Oae! Minha verdadeira casa fica bem longe daqui!” e retor- nam para junto dos seus. A gente das águas são os filhos, genros, filhas e noras de Tëpërësiki, o sogro de Omama, que lhe trouxe as plantas que cultivamos em nossas roças. São os 12959 - A queda do céu.indd 101 8/10/15 12:30 PM
  • 104. 102 donos da floresta e dos cursos d’água. Parecem com humanos, têm mulheres e filhos, mas vivem no fundo dos rios, onde são multidões. São mesmo exce- lentes caçadores! Percorrem sem trégua seus caminhos na floresta, flechando araras, tucanos, papagaios, pássaros hëima si e todos os outros tipos de caça.36 Porém, jamais comem suas próprias presas. Acham que seria uma coisa assus- tadora, como nós também pensamos. Antes as oferecem a suas irmãs, que são muitas e muito bonitas. Essa gente das águas mora junto com o pai, Tëpërësiki, e também com os espíritos poraquê, sucuri e jacaré. Suas redes ficam pendu- radas umas ao lado das outras, no seco, como as nossas em nossas casas. São eles que os olhos de fantasma das pessoas comuns veem como peixes. No en- tanto, suas imagens também se tornam xapiri que os xamãs fazem dançar. Omama pegou pelo braço uma dessas mulheres das águas, a filha de Tëpërësiki que chamamos Th uëyoma. Mas não a pescou como um peixe. Foi o pai de minha esposa que me contou isso.37 Omama foi até o rio com um feitiço amoroso na ponta de um cipó. Quando chegou à beira, lançou a linha e sua isca. A mulher das águas o viu aproximar-se e o achou bonito. Então, se agar- rou ao cipó e se deixou tirar para fora da água. Omama cheirava bem, pegou seu braço e a içou para a beira. Depois se casou com ela e é dela que nós viemos. Hoje, são essas mesmas filhas de Tëpërësiki que fazem os rapazes cheirar feitiços amorosos xõa para capturar suas imagens e fazê-los se tornar outros. À tarde, quando caçamos longe na floresta, podemos ouvir seus murmúrios. E se um jovem caçador as encontra, apoderam-se dele. Mas, antes de aparecer para ele, indagam-se: “Ele é mesmo bonito e bem cuidado?”. Sem que ele saiba, cheiram sua pele. Inspecionam sua língua, seu peito e seu pênis. Examinam suas unhas. Perguntam-se: “Será que é bom caçador? Não come as próprias presas?”. Só decidem levá-lo consigo se ele for de seu agrado. Se gostarem mesmo dele, depois o levam para sua casa debaixo d’água. É assim que acontece. Os rapazes começam perdendo consciência de tan- to perseguir a caça na floresta. Sentem-se muito fracos e vão se tornando fan- tasma pouco a pouco. Os animais de que se aproximam olham bem para eles e começam a rir, como humanos. Os que são flechados por eles gemem de dor. As árvores falam com eles e as folhas tocam neles como mãos.38 Então, as mu- lheres das águas, aproveitando-se de sua fraqueza, chamam-nos e levam suas imagens até sua casa, onde os retêm por muito tempo. É durante essa estadia nas profundezas dos rios que eles começam a se tornar outros. Elas os mantêm 12959 - A queda do céu.indd 102 8/10/15 12:30 PM
  • 105. 103 deitados em suas redes, os abraçam e assim os fazem esquecer tudo. Riem deles quando lhes fazem perguntas e nunca respondem. Finalmente, quando conse- guem escapar e voltar para suas casas, elas os seguem até lá. Escondem-se no fundo, atrás de suas redes, e permanecem ainda por algum tempo ao lado deles. É assim que, depois, os rapazes pedirão aos xamãs mais antigos de suas casas que lhes deem pó de yãkoana para beber. Os filhos de xamãs, como eu disse, são também filhos de espíritos. É por isso que a gente das águas yawarioma os reconhece como genros e suas filhas se apoderam deles tão depressa. Eu sou só um filho de ser humano. Meu pai não era xamã, não conhecia os xapiri. Assim, eu não sabia nada disso quando era adolescente. As mulheres das águas nunca me levaram para sua casa, nunca me deitaram em suas redes. Preferem os filhos de xamãs. Assim é. Apesar disso, eu nunca deixei de ver os xapiri em sonho, desde que era pequeno, mesmo sem saber quem eram. Foi só muito mais tarde, já adulto, que apresentei meu nariz aos xamãs mais velhos para que me dessem seus espíritos. Senti vontade disso por conta própria. Achei que seria bonito poder ver as coisas de verdade e assim, aos poucos, fui me afeiçoando aos xapiri. A única coisa que me aconteceu na floresta quando era adolescente foi ser atacado pelos espíritos dos queixadas.39 Naquela época, eu não parava de caçar com os homens de minha casa. Certa vez, tínhamos perseguido um bando desses porcos-do-mato40 por bastante tempo. Era um final de tarde. Tínhamos conseguido cercá-los. Eles tinham desacelerado e estavam ao nosso alcance. Preparamo-nos para flechá-los, cada qual de um lado. Como os outros caça- dores, escolhi uma presa e retesei meu arco com calma. Porém, de repente, os queixadas se dispersaram para todos os lados. Parte do bando deu meia-volta e veio correndo na minha direção. De repente, me vi cara a cara com aqueles animais, correndo enfurecidos para cima de mim. Aterrorizado, tentei escapar subindo numa árvore jovem, mas acabei tropeçando e caí. O choque com o solo foi violento e desmaiei por um instante. Foi tudo muito rápido. Apesar disso, os queixadas tiveram tempo de saltar por cima de mim, como se eu fos- se só um tronco caído no chão. Passaram por cima de meu peito, um depois do outro, muito depressa, sem me tocar. Eram muitos, e cheiravam muito mal. 12959 - A queda do céu.indd 103 8/10/15 12:30 PM
  • 106. 104 O ranger de suas presas era aterrorizante. Foi nesse momento, acho, que suas imagens me atacaram. Na hora, porém, não percebi nada. Depois de passarem, me levantei, ainda tremendo de medo, e me juntei a meus companheiros, que tinham conseguido flechar vários deles. Não disse nada acerca de minha desventura. Trinchamos a caça abatida e colocamos os pedaços em jamaxins trançados com folhas de palmeiras maima si e kõanari si. Anoitecia, e estávamos muito longe de nossa casa. Decidimos acampar em plena floresta, e cozinhar tripas de queixada em embrulhos de folhas, para acalmar nossa fome de carne.41 Uma vez satisfeito, adormeci com tranquilida- de. Mas no meio da noite comecei a me sentir muito mal. Acordei sobressalta- do e, de repente, vi tudo à minha volta com olhos de fantasma. Comecei a vomitar. Então, pensei: “Os queixadas são ancestrais mesmo!42 Fui atacado por suas imagens e são elas que me deixam doente!”. No dia seguinte, voltamos para a nossa casa. Eu estava muito fraco, não podia carregar nada. Na noite seguinte, continuava doente. Dormi de novo em estado de fantasma. Foi nesse momento que os espíritos queixada começaram a me aparecer em sonho. Um número incontável deles escapava de um enorme buraco na terra, do qual saía também um vendaval. Dançavam devagar com seus enfeites de penas, sobre um espelho que refletia uma luminosidade ofuscante. Isso durou muito tempo e, de repente, desapareceram. Então, acordei e pensei: “O que está acontecendo comigo? Como eu vou poder sarar?”. Algum tempo depois, o marido da irmã de minha mãe, que também era um grande xamã, tentou expulsar o mal que estava em mim. Mas assim que ele começou sua cura, desmaiei. Fiquei inerte, largado em minha rede. Então, a mãe de meu padrasto, que era uma mulher muito velha, pegou uma panela cheia de água e derramou-a aos poucos sobre mim. Acabei recobrando a cons- ciência. Meu fantasma retornou à minha pele e voltei a mim. Quando abri os olhos, vi minha mãe, sua irmã, uma filha de seu irmão43 e minha avó chorando perto de minha rede, como se eu já estivesse morto! Em seguida, o xamã pros- seguiu seu trabalho por um longo tempo e, por fim, fiquei curado. 12959 - A queda do céu.indd 104 8/10/15 12:30 PM
  • 107. 105 Foi só o que aconteceu comigo quando eu era apenas um adolescente. Eu nunca fui levado pelas mulheres das águas. Contudo, no tempo dos antigos, era comum elas se apoderarem da imagem dos rapazes. Por isso eles de repen- te saíam correndo pela floresta e desapareciam, e foi assim que muitos deles se tornaram xamãs. Meu padrasto, que me criou em Marakana, me contou isso várias vezes, pois ele mesmo tivera essa experiência no passado. Agora eu gos- taria de relatar suas palavras, para que os brancos possam ouvi-las. Eis o que ele me contou:44 “Quando eu era adolescente, meu pensamento começou a virar outro e foi assim que eu me tornei xamã. Um dia, eu estava caçando papagaios na floresta. Podia ouvir o tumulto de suas brincadeiras nas árvores, acima de mim. De repente, vi um ser das águas andando em minha direção. Era imponente. Tinha muitas caudais de arara, rabos de tucano e despojos multicolores de pássaros wisawisama si fixados em suas braçadeiras de cristas de mutum. Via- -se, pelos enfeites, que era um grande caçador. Aproximou-se devagar de mim e declarou: ‘Tente flechar os papagaios de onde está!’. Surpreso e temeroso, perguntei: ‘Quem é você?’. Só respondeu: ‘Eu? Eu quero comer os papagaios que você flechar. Vá mais para lá e tente! Mas não fleche o corpo, mire na goela, justo abaixo do bico!’. Fiz o que me dizia. Flechei um primeiro papagaio, depois um outro, bem como ele havia indicado. Então, segurou meu braço e disse: ‘Cunhado! Está bom, basta! Vou mandar minha irmã vir buscar suas presas!’.45 Eu sentia muito calor e suava muito. Meu pensamento ia se perdendo aos poucos. Fiquei no mesmo lugar, calado e imóvel, de pé ao lado dos papagaios mortos caídos no chão. Algum tempo depois, uma mulher das águas abriu caminho na floresta até onde eu estava. “As folhas das árvores começaram a tremular ao vento e a floresta se en- cheu de uma luz tremulante. Ela se aproximou de mim a pequenos passos. Seus lábios sorriam, pois ela queria fazer sua magia amorosa agir sobre mim. Era belíssima. Tinha olhos lindos e a vulva bem curta, sem pelos pubianos. Reco- mecei a flechar papagaios para ela. Mas assim que começavam a cair rodopian- do, seus gritos se transformavam em cantos de espíritos xapiri: ‘Arererererere!  ’. A mulher das águas então recolhia seus despojos um por um, aprovando com alegria: ‘Awei! Muito bem! Você é um ótimo caçador! Continue flechando esses papagaios!’. E os pássaros continuaram caindo, conforme eu os atingia, um por um: ‘Arererererere! Arererererere! Arererererere!  ’. Mas, assim que to- 12959 - A queda do céu.indd 105 8/10/15 12:30 PM
  • 108. 106 cavam o solo, minhas flechas, enfiadas em seus corpos, se transformavam em cobras! E quando eu tentava pegá-los, elas me picavam! Minha visão ia se turvando cada vez mais e eu mal distinguia as coisas ao meu redor. Eu sentia que estava perdendo a consciência. “A cada vez, a mulher das águas chegava bem perto de mim rindo, com uma vozinha doce: ‘He he he he!’. Depois, recolhia as flechas e as entregava para mim: ‘Tome, pegue, eis o que você está procurando!’. Assim que eu ten- tava pegá-las, no entanto, saíam voando, emitindo o mesmo canto de espírito: ‘Arererererere!’. Conforme o tempo passava, fui me tornando outro de verdade e foi meu arco que eu senti sair voando: ‘Arererererere!’. Estava cada vez mais inquieto e ficava me perguntando o que ia acontecer comigo. Estava por intei- ro dominado pela magia amorosa daquela filha de Tëpërësiki. Então, de repen- te, os espíritos da floresta começaram a afluir em minha direção! As imagens das folhas e das raízes de todas as árvores desceram primeiro, lançando gritos de alegria e assobiando com suas flautas de bambu purunama usi.46 Tinham os cabelos cobertos de penugem branca, faixas de rabo de macaco cuxiú-negro em torno da cabeça e braçadeiras de cristas de mutum guarnecidas com muitas caudais de arara-vermelha. Chegaram em seguida as imagens dos cupins, que me carregaram nas costas, correndo para todos os lados. Depois foi a vez das imagens das pedras, que quase me derrubaram e esmagaram, e então a do céu, que veio me arrancar a língua. E então, outros xapiri levaram meus olhos para longe e foi assim que eu mesmo comecei a me tornar espírito.47 “Afinal, a irmã do ser das águas agarrou meu pulso e me arrastou pela floresta. Comecei a correr ao lado dela, destroçando os galhos do mato rastei- ro conforme passava. Estava muito exaltado e não parava de gritar: ‘Aë! Aë! Aë! Uma mulher yawarioma está me levando! A luz me cega! Tenho medo! Aë! Aë! Aë!’. Ninguém além de mim podia vê-la e, no entanto, eu estava mesmo cor- rendo com ela! Seu caminho era muito quente e eu estava molhado de suor. Não via mais nada ao meu redor. Não teria sido capaz de reconhecer meus familiares nem minha própria casa. Tinha virado outro. Corri assim por mui- to tempo, atravessando florestas desconhecidas. No final, esgotado, parei numa clareira, bem longe de onde morava. A mulher das águas então me tranquili- zou, sempre com uma voz doce: ‘Não tenha medo! Falta pouco agora. Estamos perto da casa de meu pai’. Depois desse breve descanso, recomeçamos a correr, ainda mais depressa, em seu caminho sinuoso através da mata. 12959 - A queda do céu.indd 106 8/10/15 12:30 PM
  • 109. 107 “De repente, ouvi o rugido de uma onça com seu filhote. Amedrontado, alertei logo minha companheira: ‘Vamos embora deste caminho, ele vai nos devorar!’. Ela não parecia preocupada e tentou de novo me acalmar: ‘Não tenha medo! Essa onça é minha, não vai nos atacar’. Mas isso não me tranquilizava nem um pouco, e eu insisti: ‘Estou com muito medo! Vamos dar a volta, mes- mo assim’. Ela voltou a responder com doçura: ‘Não, ela não vai devorá-lo. É mansa. Não há o que temer’. Como eu teimava, nos afastamos um pouco. Porém, por mais que eu tratasse de me desviar do animal, ele estava sempre no nosso caminho. Assim é. As onças são os cães de caça da gente das águas. “Por fim, chegamos a uma vasta extensão de água escura no meio da flores- ta. Permaneci de pé na beira, imóvel. Continuava muito inquieto. Aí, a mulher das águas designou com os lábios a superfície do lago e me disse: ‘Chegamos à casa de meu pai. Vamos! Entremos!’. Protestei com energia: ‘Não! Não quero mergulhar nesse lago! É fundo demais! Jacarés-açus vão me devorar! Vou me afogar!’. Ela respondeu sorrindo: ‘Não tenha medo! Você não vai se afogar e não há jacarés-açu aqui. Esta água é só a parte de fora de nossa casa. A porta fica logo ali’. Apesar dessas palavras, eu continuava resistindo. Então ela mergulhou na minha frente, depois voltou à superfície me mostrando um punhado de terra e disse: ‘Veja! Está seca! Vem do chão de nossa casa. A porta está bem aqui, perti- nho! Atravesse-a e verá com seus próprios olhos. É verdade!’. Eu ainda hesitava, então ela me agarrou pelo pulso e me levou para debaixo da água. “Aterrorizado, eu achava que ia afundar direto para o fundo do lago. Mas logo me vi no seco, dentro de uma casa imponente, cercada de grandes roças de banana, mandioca, cará, taioba, batata-doce e cana-de-açúcar. Parecia com nossas casas, mas era bem maior. O pai da moça, Tëpërësiki, estava deitado em sua rede de um lado, e todos os seus filhos instalados do outro lado. Olhei de longe para ele, mas sua filha me alertou: ‘Nem pense em chegar perto de meu pai, senão ele irá engoli-lo no mesmo instante!’. Suas várias irmãs, em compen- sação, nos receberam com alegria. Cercaram-me assim que cheguei e demons- traram muita amizade. A moça que tinha me atraído à floresta era a mais velha. Além dessas meninas, só havia dois rapazes, que eram seus irmãos. Um deles disse às moças: ‘Parem de fazer tanto barulho! Pai vai acordar!’. Então, a mu- lher de Tëpërësiki, cuja rede estava pendurada abaixo da do marido, disse em voz baixa: ‘Filha! Você chegou?’. E, sem olhar para mim, acrescentou: ‘Dê esses carás de comer a esse aí que está agachado ao seu lado! Ofereça-lhe mingau de 12959 - A queda do céu.indd 107 8/10/15 12:30 PM
  • 110. 108 banana para beber! E também batata-doce! Não o deixe com fome!’.48 A gente das águas pratica o serviço da noiva turahamuu e nós seguimos seu exemplo.49 Por isso, quando um adolescente se torna xamã, chama de “sogro” e “sogra” os pais da mulher yawarioma que o raptou. Assim é. “Depois de eu ter comido à vontade, as moças vieram, uma por uma, rindo, deitar na minha rede para brincar comigo. Um dos irmãos as avisou de novo para não levantarem a voz. Mas seu pai acabara acordando e já se ouvia sua voz grave ressoando pela casa toda. As filhas, no entanto, não pareciam preocupadas. Continuaram vindo a mim, uma depois da outra, para brincar e namorar. Eu estava seduzido por sua magia amorosa. Por isso fiquei assim com elas por muito tempo. Pouco a pouco, fui me transformando para me tornar xamã. Enquanto isso, Tëpërësiki tinha começado a entoar seus cantos, para que eu os conhecesse. Salmodiava-os e, de tempos em tempos, cuspia no chão os objetos que acabara de nomear: pontas de flecha de bambu, grandes frutos oblongos da árvore aro kohi e até queixadas e antas, pois sua boca era mesmo enorme!50 Desse modo eu aprendi as palavras que permitem regurgitar as subs- tâncias de feitiçaria, as armas dos espíritos e o algodão ardente dos seres malé- ficos que estão no corpo dos doentes. Tëpërësiki assim me deu a boca dos es- píritos japim ayokora. “Porém, passado algum tempo, começou a ficar cansado. Parou de cantar e de expectorar objetos. Exausto, suspirava fundo. Aí, exclamou: ‘Façam o vi- sitante se agachar perto de mim! Tenho mesmo muita fome!’. Ele queria me engolir! Seus filhos, que haviam permanecido na casa para fabricar pontas de flecha, o impediram de me pegar. Para enganá-lo, responderam: ‘Ele não pode ir agora. Ainda está ocupado fazendo amizade com nossas irmãs’. Apesar dis- so, Tëpërësiki mandou me chamar diversas vezes. Mas os rapazes sempre con- tavam a mesma mentira. Desistiu, acabou retomando seus cantos. Então seus filhos disseram baixinho a uma de minhas companheiras: ‘Irmã! Agora volte para a floresta com nosso cunhado! Leve-o até sua casa!’. “Foi assim que por fim voltei para casa. A mulher das águas que tinha me acompanhado dormiu a noite toda em minha rede, colada em mim. Depois, quando amanheceu, levou-me de volta para junto dos seus. E tudo recomeçou. A mãe dela me deu de comer, suas irmãs brincaram comigo e seu pai me deu a escutar seus cantos. Depois, uma outra moça levou-me de volta para casa e, ao amanhecer, parti de novo com ela, correndo e gritando na floresta. Isso 12959 - A queda do céu.indd 108 8/10/15 12:30 PM
  • 111. 109 tudo se reproduzia dia após dia. Cada vez era uma mulher das águas diferente que me levava para longe e me trazia para casa. Eu estava mesmo cativo de sua magia amorosa, e foi desse modo que me tornei xamã. É assim que acontece. Quando a imagem de um rapaz é capturada pelas filhas de Tëpërësiki, ele foge de casa todos os dias, para só retornar após o anoitecer. Mas já não reconhece ninguém ali. Tornado outro, parte ao raiar do dia em sua corrida pela floresta. Por mais que seus familiares tentem mantê-lo à força em sua rede, não conse- guem. Ele não é capaz de resistir ao chamado dessas mulheres yawarioma. Ninguém mais as vê, mas elas estão sempre a seu lado. Suas corridas pela flo- resta levam-no para bem longe de sua casa. Pode até mesmo entrar e sair de casas de desconhecidos sem se dar conta, pois o intenso brilho do caminho da gente das águas na floresta o deixa cego. Assim, as mulheres yawarioma podem mantê-lo em seu poder por muito tempo. No fim, os xamãs de sua casa terão de trazer sua imagem de volta para que ele volte a si.” Foi desse modo que, antigamente, meu padrasto se tornou xamã, no tem- po em que era jovem. Naquela época, flechava muitas antas, era um grande caçador. Por isso as irmãs da gente das águas o pegaram. Para virar outro, ele não se contentou em pedir aos mais velhos que o fizessem beber o pó de yãkoa­ na. Não se tornou xamã à toa. Dizem que seu pai também era um grande xamã, cuja boca sabia regurgitar os objetos maléficos.51 Seguiu-lhe as pegadas. Eu não fui seduzido pelas mulheres yawarioma. Apenas sonhei com elas algumas ve- zes. Não nasci do esperma dos espíritos, como os filhos de xamãs. Os xapiri somente dançaram em meus sonhos quando eu era pequeno, sem que eu os reconhecesse. Isso aconteceu muito antes de o pai de minha esposa abrir os caminhos deles para mim. De fato, foi ele que me enfraqueceu com a yãkoana e o pó de paara, para que os espíritos aceitassem instalar sua casa junto de mim.52 Antes, eles deviam me achar muito feio e sujo. Deviam hesitar em che- gar perto de mim! Mas, a partir do momento em que meu sogro me fez beber yãkoana, pude enfim admirar sua real beleza. 12959 - A queda do céu.indd 109 8/10/15 12:30 PM
  • 112. 4. Os ancestrais animais Dança dos espíritos. 12959 - A queda do céu.indd 110 8/10/15 12:30 PM
  • 113. 111 Os xapiri são as imagens dos ancestrais animais yarori que se transforma- ram no primeiro tempo. É esse o seu verdadeiro nome. Vocês os chamam “espíritos” mas são outros.1 Vieram à existência quando a floresta ainda era jovem. Os nossos antigos xamãs os faziam dançar desde sempre e, como eles, nós continuamos até hoje. Quando o sol se levanta no peito do céu, os xapiri dormem. Quando volta a descer, à tarde, para eles o alvorecer se anuncia e eles acordam. Nossa noite é seu dia. De modo que, quando dormimos, os espíritos, despertos, brincam e dançam na floresta. Assim é. São muitos mesmo, pois não morrem nunca. Por isso nos chamam “pequena gente fantasma” — pore th ë pë wei! — e nos dizem: “Vocês são fantasmas estrangeiros2 porque são mortais!”. Assim é. Em seus olhares, já somos fantasmas, porque, ao contrário deles, so- mos fracos e morremos com facilidade. Os xapiri, no entanto, se parecem com os humanos. Mas seus pênis são muito pequenos e suas mãos só têm alguns dedos. São minúsculos, como poeira de luz, e são invisíveis para a gente comum, que só tem olhos de fantasma. Só os xamãs conseguem vê-los. Os espelhos sobre os quais dançam são imensos. Seus cantos são magníficos e potentes. Seu pensamento é direito e trabalham com empenho para nos proteger. Porém, se nos comportarmos mal com eles, podem também ficar muito agressivos e nos matar. Por isso às vezes nos dão medo. Também são capazes de devastar as árvores da floresta em sua passagem e até de cortar o céu, por mais imenso que seja.3 Os verdadeiros xapiri são mui- to valentes! Apenas alguns deles se mostram fracos e covardes. Estes têm medo dos seres maléficos e da epidemia xawara. Os espíritos se deslocam por toda a floresta, como nós, quando caçamos. Mas eles não andam sobre as folhas podres e na lama, eles voam. Também se banham nos rios, como nós quando sentimos calor, mas o fazem em águas puras que só eles conhecem. Também têm filhos, mas os seus são tantos e tantos que acham que os brancos têm muito poucos. Além disso, mesmo que fiquem muito velhos e cegos, os xapiri permanecem imortais. Por isso eles aumentam sem parar na floresta. Os que dançam para os xamãs não passam de uma pequena parte deles. Para vê-los de verdade, é preciso beber o pó de yãkoana durante muito tempo e que os nossos xamãs mais velhos abram os caminhos deles até nós. 12959 - A queda do céu.indd 111 8/10/15 12:30 PM
  • 114. 112 Isso leva muito tempo. Tanto quanto os filhos de vocês levam para aprender os desenhos de suas palavras. É muito difícil. Contudo, quando faço dançar meus xapiri, às vezes os brancos me dizem: “Não se vê nada! Só se vê você cantando sozinho! Onde é que estão seus espíritos?”. São palavras de ignoran- tes. O pó da árvore yãkoana hi não fez morrer seus olhos, como os dos xamãs. Então, por não poderem ver os xapiri, seu pensamento permanece fechado. Assim é. Os xapiri só dão a ouvir suas vozes se seu pai, o xamã, morrer com a yãkoana. Quando têm fome eles a bebem através dele. Só então podem descer sobre seus espelhos. Eles também morrem com a yãkoana, como seu pai, e as- sim começam a dançar e cantar para ele. Sem isso, não poderiam ser vistos. A imagem dos xapiri é muito reluzente. Estão sempre limpos, porque não vivem na fumaça das casas e não comem carne de caça como nós fazemos. Seus corpos nunca ficam cinzentos, sem pintura nem enfeites, como os nossos. Eles são cobertos de tinta fresca de urucum e enfeitados com pinturas de ondula- ções, linhas e manchas de um preto brilhante. São muito perfumados. Quando brincam com as mulheres dos seres do vento, às vezes se pode sentir no ar da floresta o cheiro do urucum e dos feitiços de caça que trazem ao redor do pes- coço. A brisa de seu voo espalha odores tão intensos quanto os dos perfumes dos brancos. Mas a pintura dos xapiri é um de seus bens preciosos. Provém dos odores misturados das coisas da floresta e não tem o cheiro acre e perigoso do álcool dos perfumes da cidade. Seus braços são enfeitados com muitos penachos de penas de papagaio e caudais de arara fincadas em braçadeiras de belas miçangas lisas e coloridas,4 com muitas e muitas caudas de tucano e despojos multicolores de pássaros wisawisama si pendurados. Têm um porte muito imponente! Foi Omama que os ensinou a se enfeitar assim. Quis que fossem magníficos para vir nos mostrar sua dança de apresentação. Entretanto, existem também xapiri muito velhos, que já dançavam para nossos ancestrais. Estes têm cabelos brancos e barba. Alguns têm o crânio quase todo sem cabelo. Até os seres maléficos os temem! São verdadeiros antepassados. Todos os outros, mais jovens, têm os cabelos pretos e lisos e faixas de rabo de macaco cuxiú-negro em torno da cabeça, que realçam a abundância de sua cabeleira. Seus olhos não são avermelhados nem claros demais. Negros e límpidos, veem muito longe. Suas cabeças são cobertas de penugem branca; emana deles uma luminosidade deslumbrante que os pre- 12959 - A queda do céu.indd 112 8/10/15 12:30 PM
  • 115. 113 cede por onde forem. É um ornamento que só eles possuem. Por isso os xapiri cintilam como estrelas que se deslocam pela floresta. Os lóbulos de suas orelhas são também enfeitados com caudais de papa- gaio e despojos de pássaros hëima si. Seus dentes são imaculados e brilhantes como estilhaços de vidro. Quando são pequenos demais ou se falta algum, eles os substituem por pedaços de espelho que pedem a Omama para se embelezar. Alguns chegam a enfeitá-los com penas multicolores de pássaros sei si, como fazem os brancos com seus dentes de ouro. Outros possuem longos caninos, afiados e amedrontadores, com os quais dilaceram os espíritos maléficos. Ou- tros ainda têm olhos atrás da cabeça! São espíritos das florestas longínquas. São mesmo outros! Assim é. Não se deve pensar que todos os espíritos são belos! Em suas danças de apresentação, os xapiri agitam jovens folhas desfiadas de palmeira hoko si, de um amarelo intenso e brilhante. Movem-se em ritmo lento, flutuando com leveza no mesmo lugar, acima do solo, como num voo de beija-flor ou de abelha. Sopram em tubos de bambu punurama usi, gritam de alegria e cantam com uma voz poderosa. Seus cantos melodiosos são inume- ráveis. Não param de entoá-los, um após o outro, sem interrupção. Alguns deles também possuem dentes que emitem um som modulado: “Arerererere!”. E outros têm unhas compridas, que usam como apitos de silvo agudo: “Kriii! Kriii! Kriiii!”. Ficam muito satisfeitos de mostrar sua dança de apresentação para nós! Seus movimentos são mesmo magníficos! Eles dançam com fervor, como jovens convidados que entram na casa de seus anfitriões.5 Mas são ainda muito mais belos! Os cantos dos espíritos se sucedem um após o outro, sem trégua. Eles vão colhê-los nas árvores de cantos que chamamos amoa hi. Omama criou essas árvores de línguas sábias no primeiro tempo, para que os xapiri possam ir lá buscar suas palavras. Param ali para coletar o coração de suas melodias, antes de fazerem sua dança de apresentação para os xamãs. Os espíritos dos sabiás yõrixiama e os dos espíritos japim ayokora6 — e também os dos pássaros siti- pari si e taritari axi — são os primeiros a acumular esses cantos em grandes cestos sakosi.7 Colhem-nos um a um, com objetos invisíveis, parecidos com os gravadores dos brancos. Mas são tantos que nunca conseguem esgotá-los! Entre esses espíritos pássaro, os dos sabiás yõrixiama são de fato os sogros 12959 - A queda do céu.indd 113 8/10/15 12:30 PM
  • 116. 114 dos cantos, seus verdadeiros donos. Esses xapiri são a imagem dos pássaros cujo canto melodioso ouvimos pela manhã e à noite na floresta. Assim é. Cada xapiri possui seus próprios cantos: os espíritos tucano e araçari, os espíritos papagaio, os espíritos da ararinha weto mo, os dos pássaros xotokoma e yõria- ma e todos os outros. Os cantos dos xapiri são tão numerosos quanto as folhas de palmeira paa hana que coletamos para cobrir o teto de nossas casas, até mais do que todos os brancos reunidos. Por isso suas palavras são inesgotáveis. Omama plantou essas árvores de cantos nos confins da floresta, onde a terra termina, onde estão fincados os pés do céu sustentado pelos espíritos tatu-canastra e os espíritos jabuti. É a partir de lá que elas distribuem sem tré- gua suas melodias a todos os xapiri que correm até elas. São árvores muito grandes, cobertas de penugem brilhante de uma brancura ofuscante. Seus tron- cos são cobertos de lábios que se movem sem parar, uns em cima dos outros. Dessas bocas inumeráveis saem sem parar cantos belíssimos, tão numerosos quanto as estrelas no peito do céu. Mal um deles termina, outro continua. As- sim, proliferam sem fim. Suas palavras não se repetem jamais. Por isso os xa- piri, mesmo sendo tantos, podem obter delas todos os cantos que desejarem, sem nunca esgotá-los. Eles escutam essas árvores amoa hi com muita atenção. O som de suas palavras penetra neles e se fixa em seu pensamento. Capturam- -nos como os gravadores dos brancos, nos quais Omama também colocou uma imagem de árvore de cantos.8 É assim que conseguem aprendê-los. Sem eles, não poderiam fazer sua dança de apresentação. Todos os cantos dos espíritos provêm dessas árvores muito antigas. Des- de o primeiro tempo, é delas que obtêm suas palavras. Seus pais, os xamãs, não fazem senão imitá-los para permitir que sua beleza seja ouvida pela gente co- mum. Não se deve pensar que os xamãs cantam por conta própria, à toa. Eles reproduzem os cantos dos xapiri, que penetram um depois do outro em suas orelhas, como em microfones. Assim é. Mesmo os cantos heri, que se cantam quando há comida em abundância nas festas reahu, são imagens de melodias 12959 - A queda do céu.indd 114 8/10/15 12:30 PM
  • 117. 115 que vieram das árvores amoa hi.9 Os convidados que gostam deles os guardam então no peito para poderem cantá-los depois, quando derem festas em suas casas. É assim que esses cantos se espalham de casa em casa. Há dessas árvores de cantos em todos os limites da floresta, para além de nossa terra, e ainda além da dos Xamath ari, e das montanhas onde vivem os Horepë th ëri.10 Mas são outras. Assim, há tantos tipos de árvores amoa hi quan- to nossos modos de falar.11 De modo que os xapiri que descem na floresta possuem uma infindável quantidade de cantos diferentes. É por isso que os xamãs visitantes de casas distantes podem nos dar a ouvir cantos desconheci- dos. Há muitas dessas árvores amoa hi também nos confins da terra dos bran- cos, para além da foz dos rios.12 Sem elas, as melodias de seus músicos seriam fracas e feias. Os espíritos sabiá levam a eles folhas cheias de desenhos que caíram dessas árvores de canto. É isso que introduz belas palavras na memória de sua língua, como ocorre conosco. As máquinas dos brancos fazem delas peles de imagens que os seus cantores olham, sem saber que nisso imitam coisas vindas dos xapiri. Por isso os brancos escutam tanto rádios e gravadores! Mas nós, xamãs, não precisamos desses papéis de cantos. Preferimos guardar a voz dos espíritos no pensamento.13 Assim é. Transmito estas palavras pois eu mesmo vi, após nossos maiores, os inumeráveis lábios moventes das árvores de cantos e a multidão dos xapiri se aproximando delas. Eu as vi de perto, em estado de fantasma, depois de meu sogro ter me dado de beber o pó de yãkoa- na. Eu ouvi mesmo suas melodias infinitas se entrelaçando sem parar! Os xapiri nunca se deslocam na floresta como nós. Descem até nós por caminhos resplandecentes de luz, cobertos de penugem branca, tão fina quanto 12959 - A queda do céu.indd 115 8/10/15 12:30 PM
  • 118. 116 os fios das teias de aranha warea koxiki que flutuam no ar. Esses caminhos se ramificam para todos os lados, como os que saem de nossas casas. Sua rede cobre toda a nossa floresta. Eles se bifurcam, se cruzam e até se superpõem, para mui- to além dela, por toda a vasta terra a que chamamos urihi a pree ou urihi a pata, e que os brancos chamam de mundo inteiro. Foram abertos pelos antigos xamãs que os fizeram dançar muito antes de nós, desde o primeiro tempo. Os xapiri, para quem tudo é perto, vêm por esses caminhos um atrás do outro, com muita leveza, suspensos nas alturas. Então é possível vê-los cintilar numa luminosidade lunar, na qual seus enfeites de penas tremulam, flutuando devagar, no ritmo de seus passos. Suas imagens são mesmo magníficas! Alguns desses caminhos são bem largos, como suas estradas à noite, salpicadas de luzes de faróis de carros, e os mais reluzentes são os dos espíritos mais antigos. Ficam vindo em nossa direção sem parar, acumulados em filas sem número. Suas imagens são as de todos os habitantes da floresta que descem do peito do céu, um depois do outro, com seus filhotes. As araras-vermelhas, amarelas e azuis, os tucanos, papagaios, jacamins, mutuns, cujubins, gaviões herama, wakoa e kopari, morcegos e urubus são muitos na floresta, não é? E os jabutis, tatus, antas, veados, jaguatiricas, onças-pintadas, suçuaranas, cutias, queixadas, ma- cacos-aranha e guaribas, preguiças e tamanduás? E os pequenos peixes dos rios, poraquês, piranhas, peixes pintados kurito e arraias yamara aka, então? Todos os seres da floresta possuem uma imagem utupë. São essas imagens que os xamãs chamam e fazem descer. São elas que, ao se tornarem xapiri, exe- cutam suas danças de apresentação para eles. São elas o verdadeiro centro, o verdadeiro interior dos animais que caçamos. São essas imagens os animais de caça de verdade, não aqueles que comemos! São como fotografias14 destes. Mas só os xamãs podem vê-las. A gente comum não consegue. Em suas palavras, os brancos diriam que os animais da floresta são seus representantes.15 O guariba iro que flechamos nas árvores, por exemplo, é outro que sua imagem Irori, o espírito do guariba, que os xamãs podem chamar a si. Essas imagens de animais tornados xapiri são muito bonitas mesmo quando fazem suas danças de apre- sentação para nós, como os convidados no começo de uma festa reahu. Os animais da floresta, em comparação com elas, são feios. Existem, sem mais. Não fazem senão imitar suas imagens. Não passam de comida para os humanos. No entanto, quando se diz o nome de um xapiri, não é apenas um espíri- to que se nomeia, é uma multidão de imagens semelhantes. Cada nome é úni- 12959 - A queda do céu.indd 116 8/10/15 12:30 PM
  • 119. 117 co, mas os xapiri que designa são sem número. São como as imagens dos espe- lhos que vi em um dos hotéis onde dormi na cidade. Eu estava sozinho diante deles mas, ao mesmo tempo, tinha muitas imagens idênticas espalhadas neles. Assim, há um só nome para a imagem da anta xama enquanto xapiri, mas existem muitíssimos espíritos anta que chamamos de xamari pë.16 É assim com todos os xapiri. Há quem pense que cada um é único, mas suas imagens sempre são muito numerosas. Apenas seus nomes não o são. São como eu, de pé dian- te dos espelhos do hotel. Parecem únicos, mas suas imagens se justapõem ao longe sem fim. As imagens de animais que os xamãs fazem dançar não são dos animais que caçamos. São de seus pais, que passaram a existir no primeiro tempo. São, como disse, as imagens dos ancestrais animais que chamamos yarori.17 Há muito e muito tempo, quando a floresta ainda era jovem, nossos antepassados, que eram humanos com nomes animais, se metamorfosearam em caça. Hu- manos-queixada viraram queixadas; humanos-veado viraram veados; huma- nos-cutia viraram cutias. Foram suas peles que se tornaram as dos queixadas, veados e cutias que moram na floresta.18 De modo que são esses ancestrais tornados outros que caçamos e comemos hoje em dia. As imagens que fazemos descer e dançar como xapiri, por outro lado, são suas formas de fantasma.19 São seu verdadeiro coração, seu verdadeiro interior. Os ancestrais animais do pri- meiro tempo não desapareceram, portanto. Tornaram-se os animais de caça que moram na floresta hoje. Mas seus fantasmas também continuam existindo. Continuam tendo seus nomes de animais, mas agora são seres invisíveis. Trans- formaram-se em xapiri que são imortais. Assim, mesmo quando a epidemia xawara tenta queimá-los ou devorá-los, seus espelhos sempre voltam a desa- brochar. São verdadeiros maiores. Não podem desaparecer jamais. É verdade. No primeiro tempo, quando os ancestrais animais yarori se transformaram, suas peles se tornaram animais de caça e suas imagens, espíri- tos xapiri. Por isso estes sempre consideram os animais como antepassados, iguais a eles mesmos, e assim os nomeiam. Nós também, por mais que coma- mos carne de caça, bem sabemos que se trata de ancestrais humanos tornados animais. São habitantes da floresta, tanto quanto nós. Tomaram a aparência de animais de caça e vivem na floresta porque foi lá que se tornaram outros. Con- tudo, no primeiro tempo, eram tão humanos quanto nós. Eles não são diferen- 12959 - A queda do céu.indd 117 8/10/15 12:30 PM
  • 120. 118 tes. Hoje, atribuímos a nós mesmos o nome de humanos, mas somos idênticos a eles. Por isso, para eles, continuamos sendo dos seus. Os xapiri, apesar de serem sem número, habitam todos no topo dos mor- ros e das montanhas. É sua morada. Não pensem que a floresta é vazia. Embo- ra os brancos não os vejam, vivem nela multidões de espíritos, tantos quantos animais de caça. Por isso suas casas são tão grandes. Tampouco pensem que as montanhas estão postas na floresta à toa, sem nenhuma razão. São casas de espíritos; casas de ancestrais. Omama as criou para isso. São muito valiosas para nós. É do topo delas que os xapiri descem para as terras baixas, por onde andam e se alimentam, como os animais que caçamos. É também de lá que eles vêm a nós quando bebemos yãkoana para chamá-los e fazê-los dançar. A casa do pai de minha esposa fica aos pés de um maciço rochoso que chamamos Watoriki, a Montanha do Vento. Essa montanha é também a casa de xapiri antigos, que lá vivem em grande número: espíritos do vendaval Ya- riporari, espíritos arara, espíritos japim ayokora, espíritos galo-da-serra, espí- ritos macaco-aranha e macaco-prego, espíritos anta, espíritos veado e espíritos suçuarana e onça-pintada. Graças a esses xapiri, o vento e a chuva descem das alturas para espalhar-se por toda a floresta, tornando-a fresca e úmida. Aqueles de nós que não são xamãs, do mesmo modo que os brancos, não percebem nada disso. Os espíritos são invisíveis para seus olhos de fantasma e eles só veem os animais de caça de que se alimentam. Apenas os xamãs são capazes de contemplar os xapiri, pois, tornados outros com a yãkoana, podem também vê-los com olhos de espíritos.20 Foi Omama que criou as montanhas, como a de Watoriki. Fincou-as no chão da floresta para que a terra fique no lugar e não trema. Aconteceu assim. Uma certa manhã, seu filho flechava passarinhos nas roças próximas da casa com seu arco de criança. De repente, escutou um chamado ecoando na flores- ta: “Si ekeke! Si ekeke!”. Amedrontado, pensou que o que ouvia era a voz de um ser maléfico que se gabava de esfolar os humanos, cantando para quem quises- se ouvir: “Rasgar a pele! Rasgar a pele!”.21 E foi correndo alertar Omama: “Pai! alguém está vindo, dizendo que vai nos esfolar vivos!”. Aflito, Omama pergun- tou a ele: “O que diz mesmo esse ser maléfico?”. Seu filho imitou o canto que acabara de ouvir: “Si ekeke! Si ekeke! Si ekeke!”. Na verdade, era apenas o canto 12959 - A queda do céu.indd 118 8/10/15 12:30 PM
  • 121. 119 de um passarinho si ekekema! Mas Omama, enganado pelo que o filho dizia, ficou também com medo e exclamou: “Aaaaa! É verdade! Um ser maléfico está vindo para nos esfolar vivos!”. Ele temia o retorno de Xinarumari, o dono do algodão que, outrora, esfolara um caçador que havia encontrado em seu caminho.22 Por isso, tomado de pânico, fugiu logo na direção do sol nascente. Além disso, para não ser seguido, cuidou de apagar suas pegadas, plantando atrás de si grandes folhas de palmeira hoko si. Foram essas palmas que se trans- formaram, uma depois da outra, em picos rochosos espalhados por nossa ter- ra e pela terra dos brancos, nos lugares onde faz muito frio. Omama assentou essas montanhas sobre a terra para firmá-la e para os xapiri nelas morarem.23 Foi assim que ele deixou nossa floresta e aqui abandonou nossos ancestrais. Tudo isso por causa do grito de um passarinho! Ele foi para tão longe em di- reção ao nascente que chegou até a terra de vocês e para além da Europa e do Japão, lá onde o caminho do sol sai de debaixo da terra. Depois de ter lá criado os brancos, morreu; e, hoje, apenas sua imagem, na forma de fantasma, conti- nua existindo. É ela que os grandes xamãs fazem descer bebendo yãkoana. Os xapiri nunca se deslocam pela terra. Acham-na suja demais, coberta de detritos e excrementos. O solo sobre o qual dançam parece vidro e brilha com uma luz deslumbrante. É feito do que nossos maiores chamavam mireko ou mirexi. São objetos preciosos que só eles têm. São resplandecentes e trans- parentes, mas muito sólidos. Os brancos diriam que são espelhos. Mas não são espelhos para se olhar, são espelhos que brilham.24 Omama também os colocou acima da terra no primeiro tempo, para que os espíritos pudessem ali executar suas danças de apresentação. Enfeitou-lhes a superfície fulgurante com dese- nhos de peles de onça. Com o urucum dos xapiri, traçou também fileiras aper- tadas de pontos e traços pequenos, linhas sinuosas e círculos.25 Por fim, ador- nou-a de penugem branca. Esses espelhos cobrem a floresta desde o primeiro tempo, e os espíritos se deslocam sobre eles sem parar, brincando, dançando ou guerreando. Foi nesses espelhos que vieram à existência e é deles que des- cem em nossa direção. É também neles que depositam nossa imagem quando nos fazem xamãs. Grandes espelhos estão dispostos onde o filho de Omama e, depois dele, nossos ancestrais se tornaram xamãs pela primeira vez. Estão colocados bem no centro de nossa terra, nos campos que se estendem para além das terras altas do rio Parima.26 Foi ali que os xapiri foram criados. Lá se encontram os 12959 - A queda do céu.indd 119 8/10/15 12:30 PM
  • 122. 120 espelhos dos espíritos que imitam as palavras dos habitantes das terras altas e os dos espíritos de língua xamath ari que bebem o pó paara e, mais adiante, os dos espíritos que imitam o falar waika de nossos antigos.27 Assim, há vastos espelhos-pais no meio, com outros menores ao redor, espalhados como clarei- ras, onde os xapiri fazem paradas para se enfeitarem, antes de começar suas danças de apresentação. Os espelhos dos xapiri são muitos ao longo de seus caminhos na floresta, pois pertencem a todos os espíritos das folhas, dos cipós, das árvores, bem como aos dos ancestrais animais. Eles sempre param nesses lugares abertos, como fazem os convidados, para descansar, comer e, sobretudo, se arrumar. Cobrem-se de tintura de urucum, colocam tufos de penas paixi e de caudais de arara em suas braçadeiras de crista de mutum, colam penugem branca sobre os cabelos, fabricam apitos de bambu purunama usi e desfiam as folhas novas de palmeira hoko si que vão agitar enquanto dançam. Uma vez prontos, orga- nizam-se em longas filas e, em altos brados, começam, alegres, a vir em nossa direção. Quando bebemos yãkoana, seu poder cai em nós com força, bate de re- pente na nuca. Então, morremos e logo viramos fantasmas. Enquanto isso, os espíritos se alimentam de seu pó através de nós, que somos seus pais. Depois, se aproximam devagar, cantando e dançando nos espelhos, descendo de suas casas presas no peito do céu.28 Neles se movem com ânimo, sem tocar jamais o nosso chão, cobertos de enfeites de penas e brandindo seus facões, machados e flechas, prontos para combater os seres maléficos. Das alturas, avistam ao longe toda a floresta e nos avisam dos males que nos ameaçam: “Vem vindo a epidemia xawara! Um ser në wãri se aproxima para devorá-los! Os trovões e o vendaval estão enfurecidos!”. Depois, quando seu pai não quer mais imitá-los, regressam com seus espelhos para suas casas, levando seus cantos para o peito do céu. O xamã então volta a usar sua língua de fantasma. Watoriki, a Montanha do Vento, perto da qual vivemos, é, como eu disse, uma casa de espíritos. Os xapiri que nela vivem são os verdadeiros donos da floresta à sua volta. É o espaço externo de sua casa. Por ela andam, folgueiam e descansam de suas brincadeiras. Muitos espelhos cercam esse maciço rocho- so. Lá estavam bem antes de nossa chegada. Por isso, no momento de construir nossa casa, nossos antigos xamãs tiveram de afastá-los com cuidado e gentile- za, informando os espíritos de sua intenção. O sítio de Watoriki também é 12959 - A queda do céu.indd 120 8/10/15 12:30 PM
  • 123. 121 cercado de muitos caminhos, pertencentes a todos os espíritos dos animais, das árvores e das águas. Gente comum não vê os espelhos, mas para os xapiri eles são tão visíveis quanto é para nós a praça central de nossa casa! Cobrem a flo- resta em toda a sua extensão, e nós, humanos, vivemos no meio deles. Sem nos darmos conta, os espíritos estão o tempo todo indo e voltando e correndo com alegria por eles, produzindo uma brisa fresca. Assim é. O vento não surge do nada na floresta, como pensam os que ignoram a existência dos xapiri. Vem do movimento da corrida invisível dos espíritos que nela vivem. Em todos os lugares onde vivem humanos, a floresta é assim povoada de espíritos animais. São as imagens de todos os seres que andam pelo solo, sobem pelos galhos ou possuem asas, as imagens de todas as antas, veados, onças, ja- guatiricas, macacos-aranha e guaribas, cutias, tucanos, araras, cujubins e jaca- mins. Os animais que caçamos só se deslocam na floresta onde há espelhos e caminhos de seus ancestrais yarori que se tornaram espíritos xapiri. Quando olham para a floresta, os brancos nunca pensam nisso. Mesmo quando a so- brevoam em seus aviões, não veem nada. Devem pensar que seu chão e suas montanhas estão ali à toa, e que ela não passa de uma grande quantidade de árvores. Entretanto, os xamãs sabem muito bem que ela pertence aos xapiri e que é feita de seus inúmeros espelhos. Os espíritos que vivem nela são muito mais numerosos do que os humanos e todos os demais habitantes da floresta os conhecem! Omama multiplicou-os e espalhou-os em todas as direções de nossa terra e muito além, do outro lado das águas, até a terra dos brancos.29 Os xapiri que vêm dessas terras distantes são mesmo magníficos! Outrora, seguiram Omama em sua fuga e ele os tem mantido junto de si desde então. Esconde-os, pois são os mais belos e poderosos dos espíritos. São, por exemplo, as lindas imagens dos japins ayokora, cuja boca é capaz de regurgitar os objetos dos seres maléficos e as plantas de feitiçaria que extraem do corpo dos doentes. Os xapiri de nossa floresta são os que Omama aqui deixou. São muitos, e ele considerou que nos bastariam. Contudo, são mais fracos e menos sagazes do que os que levou con- sigo para a terra dos brancos, onde são tão numerosos quanto na nossa. Os brancos, porém, não os veem. Seus antepassados talvez os conhecessem? Mas hoje seus filhos e netos os esqueceram. É verdade, Omama é ciumento de seus 12959 - A queda do céu.indd 121 8/10/15 12:30 PM
  • 124. 122 espíritos! É seu verdadeiro pai. É seu dono, como dizem os brancos, e não quer que sejam maltratados. Se os enviasse com generosidade a jovens de pênis mal- cheiroso, que comem sal demais e respondem a eles numa língua torta, eles fugiriam logo, furiosos e enojados. Omama não quer isso. Por essa razão os mantém ao seu lado e só os manda um por um, apenas quando são xamãs já instruídos que os chamam. Não cede tão fácil seus mais belos xapiri! Só os deixa partir para junto de xamãs que reconhece e cujo porte aprecia. Começa por identificar seus ornamentos e diz a si mesmo: “Haixopë! Esses humanos são os meus de verdade!”. Depois deixa partir alguns espíritos em direção a eles: “Muito bem! Podem levá-los e fazê-los dançar longe de mim!”. É desse modo que devemos pedir nossos espíritos mais poderosos à ima- gem de Omama, e apenas os xamãs experientes podem fazê-lo. Se um jovem iniciando paramentado com desleixo tentasse, Omama, furioso, iria rejeitá-lo na hora, declarando: “Você está muito feio! Onde estão suas caudais de arara? Seus braços estão nus! Onde está sua faixa de rabo de macaco cuxiú-negro? Seus cabelos são ralos! Onde estão seus brincos de papagaio e de pássaro hëima si? Você não os quer? Então, não é dos nossos! Você só sabe se embrulhar em roupas de branco! Você é vazio! Não me peça nada!”. Assim é. Se Omama não nos enviasse seus mais belos xapiri, eles não viriam a nós por conta própria! No começo, quando a pessoa ainda é ignorante, só chegam espíritos das folhas, dos cupinzeiros, da lenha, dos tições e da poeira! São xapiri que falam língua de fantasma e se aproximam apenas para testar o iniciando, para preparar sua boca e varrer a clareira onde os verdadeiros espíritos virão se instalar mais tarde. Omama só nos envia espíritos realmente capazes de enfrentar as doenças e as fumaças de epidemia quando nos tornamos xamãs experientes. No final, quando ficamos mais velhos e temos o peito mais robusto, ele faz chegar a nós os poderosos espíritos dos japins ayokora. Vindo de muito longe, os poucos xapiri que Omama nos concede no iní- cio vão chamando outros de casa em casa ao longo de todo o seu caminho e os atraem com eles. São muito poucos no começo, mas devagar suas vozes se juntam umas às outras e vão aumentando conforme avançam em nossa dire- ção. Enfeitados com ornamentos luminosos, juntam-se numa vasta tropa que emite altos clamores. Quando passam diante da casa de outros espíritos, estes são contagiados por sua empolgação e perguntam: “Aonde vão tão animados?”. Então, são convidados a se juntar ao grupo, que vai crescendo cada vez mais: 12959 - A queda do céu.indd 122 8/10/15 12:30 PM
  • 125. 123 “Vamos dançar na casa dos fantasmas, venham conosco! Vamos lá, todos jun- tos!”. É assim que acontece. Quando respondemos com empenho aos cantos dos xapiri que vêm a nós, eles vão ficando cada vez mais numerosos, e cada vez mais eufóricos; no final, é uma multidão que chega para fazer sua dança de apresentação. Minha esposa, a quem eu falava sobre isso, certo dia me perguntou: “Mas, se Omama não gosta de dar seus espíritos mais belos, como você diz, os xapiri que vocês costumam fazer dançar são fracos e feios?”. Protestei logo, explican- do: “Não! Não é isso! São os humanos que são medonhos comparados aos es- píritos! Os xapiri, que são nossos filhos, ao contrário, são belíssimos! No entan- to, os mais bonitos deles só vêm aos poucos, com trabalho. Assim é!”. Ela então respondeu: “Awei! Entendi. São como você diz! Se eu fosse xamã, também po- deria vê-los!”. É verdade. Algumas mulheres se tornam xamãs do mesmo jeito que os homens. Acontece quando o pai é xamã e elas nascem do esperma de seus espíritos, pois, como eu disse, quando um xamã copula com sua mulher, seus espíritos fazem o mesmo. Então, quando essas moças chegam à puberdade, os xapiri manifestam sua vontade de dançar para elas. Se elas não tiverem medo de responder aos seus cantos, eles irão se instalar com elas para valer. Era assim que ocorria com as filhas de nossos maiores. Elas não se torna- vam xamãs à toa! Seguiam os passos de seus pais e, como eles, tratavam dos doentes e afugentavam os seres maléficos. No começo, elas não deviam se dei- xar sujar pelos homens. Porém, mais tarde, quando seus espíritos estivessem bem assentados, podiam tomar marido. Hoje ainda existem algumas mulheres xamãs, sobretudo nas terras altas. Quando essas moças têm juízo, não se dão aos rapazes cedo demais. Crescem sem homens e, desse modo, os espíritos continuam dançando para elas por muito tempo. São seus pais que chamam os xapiri para elas e fazem com que suas casas sejam construídas junto delas. Entre nós, nas terras baixas, isso também acontece, mas não dura. Os rapazes acabam copulando cedo demais com essas moças e elas logo param de respon- der aos espíritos. Foi o que aconteceu com a filha que meu padrasto teve com uma mulher xamath ari, no rio Parawa u. Seu pai era um grande xamã e ela começou a ver e fazer dançar os xapiri como ele. Mas era muito bonita, os homens a desejavam demais e o cheiro de pênis deles os espantou. Se não fos- se por isso, ela teria se tornado xamã de verdade. 12959 - A queda do céu.indd 123 8/10/15 12:30 PM
  • 126. 124 Embora as imagens dos ancestrais animais sejam de fato muito numerosas na floresta, não são as únicas que vivem nela.30 Os xamãs também fazem descer como xapiri as imagens de todos os seus outros habitantes: das árvores, das folhas e dos cipós, e ainda dos méis, da terra, das pedras, das águas, das corre- deiras, do vento ou da chuva. Não são menos numerosas e, quando chegam juntas para fazer sua dança de apresentação, são mesmo magníficas! Os xamãs podem ainda fazer dançar a imagem dos seres maléficos në wãri, que nos de- voram como caça na mata.31 É assim a imagem do ser da seca, Omoari, que ataca os humanos quando pescam com timbó no verão,32 e do ser do anoitecer, Weyaweyari, ladrão de imagem das crianças que ficam brincando fora de casa até tarde. Podem chamar também o espírito sucuri Õkarimari, que mata as mulheres fazendo-as abortar, e o espírito do antigo fantasma Poretapari, que nos atinge com suas pontas de flecha com curare.33 São espíritos perigosos e ferozes, que ficam com raiva quando estão com fome ou lhes falta tabaco. No entanto, nem todos os xapiri são habitantes da floresta. Alguns deles são imagens dos seres que moram nas costas do céu ou mais além. Também são temíveis, como o espírito gavião Koimari, que talha as crianças com seu facão afiado,34 o espírito borboleta Yãpimari, que leva embora suas imagens, ou o espírito raio Yãpirari, que se faz descer com raiva num estrondo de luz 12959 - A queda do céu.indd 124 8/10/15 12:30 PM
  • 127. 125 para assustar os inimigos. Há ainda o espírito sol Moth okari, da boca cheia de sangue, que provoca febre nas crianças amarrando-as com o algodão escaldan- te fiado por sua esposa, antes de devorá-las. E também as imagens dos seres do céu novo que chamamos tukurima mosi.35 Esse céu, transparente e frágil, fica muito além do que podemos ver com nossos olhos. É habitado por seres mos- cas prõõri, seres insetos warusinari e seres urubu watupari e hw akohw akori.36 No mundo debaixo da terra, onde reinam a escuridão e uma chuva sem fim, tudo é podre. No entanto, muitos outros xapiri vêm de lá! Esses são as imagens dos ancestrais aõpatari, que devoram as substâncias de feitiço e os seres malé- ficos jogados pelos xamãs em suas curas. Há ainda o ser do caos, Xiwãripo,37 com seus espíritos queixada, Titiri, o espírito da noite, Ruëri, o espírito do tempo encoberto, e Motu uri, o das águas subterrâneas. Os xapiri costumam ser magníficos de ver, como o espírito do vendaval, Yariporari, que dança com leveza em meio a turbilhões de penugem branca, agitando imensas folhas de palmeira hoko si desfiadas, que ondulam em seu sopro poderoso. Por outro lado, as imagens dos seres maléficos në wãri podem ser apavorantes!38 Como, por exemplo, a do espírito onça Iramari, que brande seu facão afiado espalhando fagulhas, ou a do espírito algodão Xinarumari, com suas garras, seus ornamentos candentes e sua longa cauda venenosa. Há também as imagens espantosas do fantasma de xamã morto Poreporeri, com seu crânio careca e seu rosto descarnado, e a do espírito lua Poriporiri, com sua barba rala e seus caninos afiados. Há ainda a do ser das cheias, Riori, de corpo peludo e purulento, a da sucuri Õkarimari, cuja rede exala um fedor apimen- tado e que dança em seu caminho de brasa com seu enorme pênis em ereção, ou a do grande ser gavião Ara poko, de olhos vidrados, que balança um longo algodão incandescente com que amarra suas presas. Quando alguém se torna xamã e os vê dançar pela primeira vez, esses xapiri maléficos são mesmo mui- to assustadores! Porém, depois que amarram suas redes em nossa casa de es- píritos, acabamos nos acostumando com eles, apesar de continuarem sendo muito ferozes e briguentos. Assim é. As imagens que os xamãs fazem dançar são sem número e suas palavras são mesmo infindáveis! Existem ainda muitos outros xapiri dos quais não falei. Como os espíritos do céu, hutukarari, que vêm e vão numa claridade ofuscante, com as cabeças cobertas de penugem imaculada. E as mulheres es- píritos waikayoma, que flecham as miçangas,39 e os espíritos das árvores de 12959 - A queda do céu.indd 125 8/10/15 12:30 PM
  • 128. 126 cantos, amoa hiri. E a imagem do menino vingador Õeõeri, que nos ensinou a guerra no primeiro tempo, e a de Remori, o espírito zangão que deu aos bran- cos sua língua emaranhada. Há ainda os xapiri dos ancestrais dos brancos, criados por Omama, que chamamos napënapëri. E ainda o antigo espírito guer- reiro Aiamori, e Wixiari, o espírito de morte que engole o sopro de vida dos inimigos. Existem inclusive espíritos dos cães, hiimari, das panelas, hapakari, e do fogo, wakëri! Essas palavras sobre os seres cujas imagens fazemos dançar não acabam nunca! Nenhum gravador jamais poderá esgotar a multidão de suas palavras! Os xapiri de um xamã o chamam de “pai” porque permanecem junto dele, que os alimenta de pó de yãkoana. Não o chamam de nenhum outro modo. Se o pai não os incomodar com o cheiro das folhas de mel que enfeitam as braça- deiras das mulheres, se imitar seus cantos com acerto e se beber yãkoana fre- quentemente para fazê-los dançar, os espíritos, satisfeitos, ficam com ele. Bem alimentados, exclamam com alegria: “Nosso pai nos trata bem! Sabe responder a nossas palavras!”. Se, ao contrário, ficam com fome e irritados, se sentem mal- tratados e acabam fugindo de volta para o lugar de onde vieram, para nunca mais voltar. A yãkoana é seu verdadeiro alimento. Quando seu pai a bebe, far- tam-se dela através dele. Morrem sob seu efeito, do mesmo modo que ele. Então, ficam muito felizes e seus cantos se tornam esplêndidos! Quando eu era mais novo, ficava me perguntando se os xapiri podiam morrer, como os humanos. Hoje sei que, apesar de minúsculos, são poderosos e imortais. Assim, os espíritos que nossos antepassados faziam dançar conti- nuam vivos, mesmo muito tempo após a morte dos xamãs que os tinham. É verdade. Depois da morte daquele a quem chamavam “pai”, os xapiri reconhe- cem seu filho ou genro e se interessam por ele. Quando ele morrer, descem para junto de seus filhos que, por sua vez, vão beber yãkoana para alimentá-los. Assim é desde sempre. A esses xapiri dos antigos xamãs que voltam para dan- çar para os vivos chamamos de espíritos órfãos, xapiri hapara pë.40 O pai que os fazia dançar outrora já não existe. Porém, apesar da morte deste, as casas e espelhos de seus espíritos seguem existindo. Seus olhos, seus adornos de plu- mas e sua pintura de urucum são sempre magníficos. Eles continuam gostando dos humanos e persistem em descer para perto de nós. Assim, quando um 12959 - A queda do céu.indd 126 8/10/15 12:30 PM
  • 129. 127 antigo xamã ainda em vida indica um rapaz aos olhos de seus xapiri, estes o reconhecerão e descerão para junto dele quando seu pai morrer. Eu tenho poucos desses espíritos órfãos, pois, no tempo em que nossos antigos ainda viviam, eu ainda não bebia yãkoana. Não puderam me dar seus xapiri antes de morrerem e portanto eles não se lembram de mim. Na verdade, um único grande xamã, que morreu entre nós há algum tempo, me apresentou a seus espíritos em vida. Eles reconhecem em mim os ornamentos de seu falecido pai: os tufos de penas paixi de suas braçadeiras, suas faixas de rabo de macaco cuxiú-negro e os rastros de seu urucum. Por isso continuam descendo a mim. Esses espíritos hapara pë se parecem muito com seus finados pais. Assim, quan- do vêm dançar em forma de fantasma, vemos através deles os antigos xamãs que os tinham, e sua lembrança volta a nós com muita saudade. Não pensem que os xapiri são apenas espíritos homens. Numerosas mu- lheres espíritos também fazem sua dança de apresentação para os xamãs! Nós as chamamos de yaroriyoma pë, as mulheres espíritos animais, e também as mulheres espíritos th uëyoma pë.41 São as filhas, irmãs, noras e esposas dos xapi- ri. Dentre elas, muitas são belíssimas jovens mulheres espíritos quati, mas so- bretudo mulheres espíritos cipó kumi, hábeis no preparo de encantamentos amorosos.42 Os espíritos homens só executam suas danças de apresentação depois de terem sido atraídos por esses espíritos mulheres, que os precedem sempre. Seus feitiços alegram-nos e assim elas conseguem fazer com que as sigam, mesmo os que estão com preguiça ou emburrados. Nossas esposas, e até nossas filhas moças, parecem bem feiosas em com- paração com as mulheres espíritos, que são capazes de fascinar e provocar ciúmes em todos os xapiri! Elas são de fato maravilhosas! Têm lindos olhos puxados e seus cabelos negros são muito finos. Suas franjas são realçadas por uma linha de penugem de um branco luminoso. Os bastonetes que enfeitam suas bocas são decorados com pequenas penas pretas de crista de mutum.43 Os lóbulos de suas orelhas são enfeitados com flores brancas das árvores weri nahi ou flores vermelhas das árvores ata hi, com caudais verdes de papagaio werehe e penas multicolores do pássaro wisawisama si. Sua pele macia é pintada com urucum brilhante. Dançam com muita graça, às vezes com seus bebês nas cos- tas dormindo na tipoia. 12959 - A queda do céu.indd 127 8/10/15 12:30 PM
  • 130. 128 Os xapiri homens se apaixonam por elas sem dificuldade! Por isso essas mulheres espíritos sempre os precedem. Eles se juntam com muita pressa para segui-las, vindos de todos os lados, cada vez mais numerosos. Nunca dançam sozinhos, entre eles. Seu olhar é atraído pela grande beleza dessas mulheres espíritos, que os seduz e os apaixona. Eles avançam dando gritos de alegria e incentivam uns aos outros a dançar. Os espíritos homens só ficam mesmo fe- lizes de fazer sua dança de apresentação quando se juntam com as mulheres xapiri! É por isso que são sempre elas as primeiras a dançar, como nossas mulheres, nas festas reahu. Os espíritos homens respondem ao seu chamado e seguem seus movimentos. Elas então fingem rejeitá-los, mas eles não param de tentar se aproximar. São mesmo muito apaixonados por elas! Não fosse isso, os xapiri não se apressariam tanto para dançar! Os espíritos não são como os animais nem como os humanos. São outros. Não bebem água dos rios nem comem carne de caça. Detestam tudo o que é salgado ou grelhado e só gostam de coisas doces. Os espíritos abelha se alimen- tam do néctar de flores, como as das árvores pahi hi, hotorea kosihi, xitopari hi e masihanari kohi. Os espíritos vespa preferem suco de bananas maduras. Os espíritos macaco-aranha, tucano, mutum e jacamim bebem o suco das frutas das palmeiras hoko si e maima si, ou das árvores hayi hi, xaraka ahi e apia hi. Já os espíritos anta obtêm a imagem de sua gordura a partir dos frutos da árvore oruxi hi. Não se pode pensar que os alimentos dos espíritos animais são iguais aos nossos. Eles se alimentam das imagens do que chamamos në rope, a rique- za da floresta.44 São alimentos de verdade, ao mesmo tempo saborosos e livres de qualquer sujeira. Bebem apenas a água perfumada que vem das montanhas altas. É por essa razão que até seus excrementos perfumam. Os nossos empes- teiam porque a caça que comemos se decompõe em nós. Já o corpo dos xapiri não contém nenhuma carne podre, de modo que mesmo seus peidos espalham um perfume agradável! Aliás, eles costumam cheirá-los nas mãos em concha. É, para eles, uma energia que não querem perder. Os odores de nossos alimen- tos e a fumaça de nossas casas lhes parecem sujos e malcheirosos. Até a fragrân- cia das folhas de mel nos braços de nossas mulheres os enoja. Entre eles, apenas os espíritos onça devoram caça, ao passo que os dos seres maléficos,45 como o espírito gavião Koimari, são também comedores de homem. Assim como os 12959 - A queda do céu.indd 128 8/10/15 12:30 PM
  • 131. 129 espíritos urubu, que vêm de além do céu e têm um apetite insaciável por gor- dura humana. Esses xapiri são perigosos e podem voar muito longe para devo- rar as crianças de casas desconhecidas. Às vezes chegam a atacar adultos, e até xamãs. São cruéis; não se alimentam de flores; longe disso! Os xapiri apreciam o tabaco tanto quanto nós. Seus rolos de tabaco, po- rém, não se parecem nada com os nossos.46 São minúsculos e de uma brancura resplandecente. Fabricam-nos com folhas de tabaco celeste do espírito lagarta Yoropori.47 Os espíritos do jupará, do guariba, das abelhas, das borboletas e dos lagartos, todos usam esse mesmo tabaco. Assim como o espírito lua Poropori- ri e o espírito trovão Yãrimari. Mas é sempre o espírito do grande caracol warama aka que tem a brejeira mais grossa e mais úmida.48 Assim é. Quando falta tabaco aos velhos xapiri, o tempo fica encoberto. Ficam irritados e param de trabalhar para segurar a chuva e o vento, que vão ganhando força. Mas, quando ficam satisfeitos e apaziguados por um bom rolo de folhas de tabaco debaixo do lábio, acalmam-se e o tempo clareia. Os xapiri são também guerreiros valentes, e suas armas são muito perigo- sas. Possuem bordunas pesadas e lâminas de ferro imensas, que chamamos si- parari, como as que são agitadas pelos espíritos cobra karihirima kiki e pelos espíritos jacaré durante suas danças de apresentação.49 São como sabres de po- der.50 Não se parecem em nada, porém, com as espadas que os brancos conhe- cem. Altas como o céu, são luminosas e brilhantes como espelhos. São feitas de outro aço, afiado e cortante, que é o pai do metal. Por isso suas feridas são tão mortais para os seres maléficos në wãri. Outros espíritos, como os dos escor- piões e os das vespas, também disparam sobre eles flechas com pontas embebi- das em curare — a picada desses insetos por acaso não é dolorosa? Certos xa- piri, como o espírito preguiça, possuem espingardas vindas dos espíritos ancestrais dos brancos, os napënapëri. Ameaçam com elas os trovões para si- lenciá-los e abrem fogo sobre os në wãri e seus cães de caça. Outros xapiri lutam com lanças, como o espírito da arraia yamara aka — o ferrão desse peixe é perigoso, não? Outros ainda, como os espíritos morcego, utilizam zarabatanas para soprar plantas de feitiçaria sobre seus adversários. Outros, enfim, como o espírito do escaravelho maika, lançam sobre os seres maléficos bolas de piche 12959 - A queda do céu.indd 129 8/10/15 12:30 PM
  • 132. 130 mai koko51 em chamas ou, como o espírito pedra Maamari, esmagam-nos com seu próprio peso. É com essas armas que os xapiri se esforçam para nos curar. É com suas presas afiadas que os espíritos queixada despedaçam os seres maléficos que se apoderam das imagens das crianças, e com suas mãos habilidosas que os espí- ritos macaco-aranha desfazem os nós dos laços de algodão que as mantêm presas. Do mesmo modo, são as mandíbulas dos espíritos dos peixes pequenos yaraka si que retalham os rastros de doença,52 como os peixinhos disputam os restos de caça abatida jogados nos igarapés. Depois, os espíritos abelha e for- miga os devoram aos poucos, do mesmo modo que esses insetos se juntam sobre o sangue dos animais que estão sendo trinchados.53 Os espíritos poraquê, por fim, são capazes de fulminar a epidemia xawara com seus raios, ao passo que o espírito lua a dilacera com suas presas afiadas. Acontece também, muitas vezes, de os xapiri guerrearem para nos proteger de outros espíritos hostis, enviados por xamãs inimigos distantes. Eis o que ocor- re. Na direção do poente, vivem os espíritos dos xamãs xamath ari, enquanto do lado das terras altas estão os dos Parahori. Para esses xapiri, os nossos são espí- ritos waika.54 Todos são muito valentes e dispostos a lançar ataques para se vin- garem. Em comparação com eles, somos todos covardes! Muitas vezes, trocamos insultos e ameaças, mas é raro nos flecharmos para valer. Já os xapiri nunca se contentam com palavras. Guerreiam com ferocidade e para matar mesmo! Os espíritos dos gaviões-tesoura witiwitima namo, dos pequenos gaviões teateama e das andorinhas xiroxiro, por exemplo, combatem entre si com pedaços de pedra que arrancam das montanhas! São tão rápidos que ninguém consegue seguir sua pista. Atacam de repente e logo desaparecem nos ares, para reapare- cerem de novo noutro lugar, atacar e sumir mais uma vez, bem depressa. 12959 - A queda do céu.indd 130 8/10/15 12:30 PM
  • 133. 131 Os xapiri guerreiros colocam em suas flechas pontas de lascas celestes, de um brilho ofuscante, como um metal luminoso.55 Vão buscá-las nos confins da floresta, onde o céu se aproxima da terra e o sol desaparece. Com essas pontas muito poderosas, nunca erram seus alvos, mesmo a enormes distâncias. Podem também pegar seus adversários e prendê-los em grandes caixas de metal pare- cidas com prisões, ou colá-los no peito do céu com piche, e deixá-los lá até morrerem. Às vezes dançam brandindo imensos braseiros vindos de terras distantes, a que chamam mõruxi wakë. Esses fogos se parecem com o que os brancos chamam de vulcão. Queimam e devastam tudo em sua passagem. Os espíritos os usam para aterrorizar seus inimigos e incendiar suas casas. Assim é. Quando xapiri enviados por xamãs inimigos se aproximam de nós, nossos próprios espíritos os combatem com uma valentia implacável. 12959 - A queda do céu.indd 131 8/10/15 12:30 PM
  • 134. 5. A iniciação Espelhos dos espíritos. 12959 - A queda do céu.indd 132 8/10/15 12:30 PM
  • 135. 133 Já adulto, os xapiri ainda me amedrontavam durante o sono, do mesmo modo que antes, durante a minha infância em Marakana. Contudo, eu ainda não tinha bebido o pó de yãkoana e não os conhecia de verdade. Eu continuava sendo uma pessoa comum, meu peito era oco. Em meus sonhos, só os percebia na forma de penugens de um branco ofuscante, como um enxame luminoso ao longe. Não fazia ideia do que eram de fato! Eu só me tornava fantasma du- rante a noite, e nunca dormia tranquilo. Por isso o meu padrasto sempre quis fazer de mim um xamã. Quando eu era criança, ele costumava me dizer: “Assim que você crescer, vou lhe dar meus espíritos mais bonitos! Abrirei seus cami- nhos! Vou chamá-los e abrir uma clareira para que venham a você!”. Na época, isso me assustava e eu respondia: “Ainda sou muito pequeno, não quero!”. Apesar disso, não parei de virar outro quando dormia e os xapiri sempre visitavam meus sonhos. Mantinham os olhos fixos em mim. Só assim alguém pode sonhar como se também fosse um espírito. Senão, sonha apenas com as coisas que viu durante o dia, como as pessoas comuns. Certos rapazes viram outros porque os xapiri chegam a eles quando caçam na floresta. Não foi o meu caso. Eles sempre me visitaram durante o tempo do sonho. Olhavam para mim com afeto e queriam se aproximar porque reconheciam em mim as marcas de seus enfeites, que eu trazia desde bem pequeno. Quando fui trabalhar para os brancos no posto da Funai de Demini, no sopé da Montanha do Vento, meus sonhos assustadores não tinham parado.1 Algumas luas após minha instalação, o pai de minha futura esposa e seus fami- liares decidiram vir morar na região.2 Construíram ali uma nova casa. Assim, me acostumei a deixar o posto Demini depois do meu trabalho com os brancos para ir dormir lá. A casa era muito menor do que a nossa atual em Watoriki e mais distante do posto do que estamos agora. Quando dormia lá, meu sono era muito agitado. Meus antigos pesadelos recomeçavam, ainda mais frequentes, e eu virava outro quase todas as noites. De manhã, quando acordávamos, as pes- soas da casa costumavam me dizer: “Você não para de se comportar como um fantasma enquanto dorme!”. E mesmo quando eu, de vez em quando, ia para a cidade com o pessoal da Funai, isso continuava. Eles também me diziam que eu não parava de falar e de me agitar durante a noite. Mais tarde, acabei falando a respeito de tudo isso com o meu sogro, que é 12959 - A queda do céu.indd 133 8/10/15 12:30 PM
  • 136. 134 um grande xamã. Perguntei a ele: “Por que eu durmo tão mal? Que visões são essas que tanto me assustam durante o sono?”. Ele me escutou com atenção, e depois explicou: “Você fica falando e gritando durante o sono? E se agita como um fantasma na noite? São os xapiri que o fazem virar outro e o assustam quando você dorme. Não se preocupe! Eles só querem lhe mostrar sua dança de apresentação, para virem morar com você. Para isso fazem você virar espí- rito como eles. Quando o curaram, ainda pequeno, há muito tempo, nossos antigos xamãs puseram em você enfeites de espírito. Por isso os xapiri o reco- nhecem e vêm a você com tanta vontade agora! Você não vira fantasma à toa!”. Ao escutá-lo, meu pensamento vacilava e eu não sabia o que dizer de tudo aquilo. Acabei respondendo apenas: “Não sei!”. Então, ele me perguntou: “Isso acontece com você quando está acordado?”.3 Disso eu tinha certeza: “Ma! Só vejo os espíritos virem a mim quando estou dormindo”. Então, ele acrescentou: “Bom! Pare de gritar à toa durante a noite! Não aja mais como fantasma sem motivo! Beba yãkoana comigo e responda aos espíritos que o querem. Assim você poderá tratar sua gente. Se quiser, apresente-me suas narinas para que eu lhe dê o sopro de vida dos xapiri. Vou fazê-lo virar espírito mesmo!”. Preocupado e indeciso, fiz perguntas a respeito dos xapiri: “Como eles são? São muito belos mesmo? São poderosos? Podem nos matar? Se não con- seguirmos responder a eles, ficam perigosos?”. Ele me respondeu apenas: “Se você não se tornar xamã, ficará desamparado quando tiver filhos e eles adoe- cerem!”. Então eu disse a mim mesmo: “Haixopë! Entendi! É minha vez de imitar nossos maiores, que viram espíritos desde sempre! Não conheci nossos avós, mas sei que foram grandes xamãs. Devo seguir seus passos e fazer dançar os espíritos que eles tiveram antes de mim!”. Desde a infância, eu costumava ver os xapiri em sonho e já tinha pensado que seria bom tornar-me xamã para saber curar. Mas, como ainda não podia conhecê-los de fato, me sentia perdi- do. Avaliava que, se os meus ficassem doentes, eu não poderia fazer nada para vingá-los dos seres maléficos e das fumaças de epidemia. Então, finalmente tomei uma decisão e respondi: “Awei! Quero tentar beber yãkoana. Não sei nada dessas coisas, mas quero mesmo conhecer a be- leza e a força dos xapiri! Quero virar espírito!”. Meu sogro olhou para mim sorrindo e replicou: “É mesmo? Você não vai ter medo?”. Eu retruquei: “Ma! Quero mesmo seguir o caminho dos nossos maiores! Quero poder continuar a fazer descer os espíritos quando eles não estiverem mais aqui! Quero beber 12959 - A queda do céu.indd 134 8/10/15 12:30 PM
  • 137. 135 yãkoana para que meus olhos morram por sua vez!”. Foi depois disso que ele começou a me dar seus espíritos, soprando pó de yãkoana em minhas narinas pela primeira vez. É um ancião, um grande xamã. Seus xapiri são muitos e fortes. Seu pensamento vai muito longe e sua casa de espíritos é muito alta. Foi generoso da parte dele me dar assim o sopro de vida de seus próprios xapiri, pois ele quis mesmo fazer de mim um xamã! Foi na casa dele, a primei- ra casa dos habitantes da floresta da Montanha do Vento perto do posto de Demini, que eu fui iniciado.4 Na época, eu ainda trabalhava como intérprete da Funai. Mas o branco que era então chefe do posto não tentou me impedir de beber yãkoana e de me tornar xamã. Ele não gostava de mim e mantinha distância. Não estava interessado no que eu podia fazer. Na maior parte do tempo, ele só me ignorava. Foi assim que aconteceu. Comecei a beber yãkoana num certo dia no tem- po da seca. A casa estava quase vazia. Não era um período de festa reahu, porque os xapiri preferem o silêncio. Não gostam de descer quando a casa daquele que os chama está cheia, barulhenta e enfumaçada. No dia anterior, na floresta, meu sogro tinha cortado e colocado no fogo tiras de casca da árvore yãkoana hi. Tinha recolhido sua resina vermelha e cozinhado num pote de cerâmica. Na manhã seguinte, se pôs a pulverizá-la com muito cuidado. Quando terminou, me chamou e me disse para eu me agachar diante dele. O sol já estava bem alto no céu. A yãkoana recém-preparada tinha um cheiro muito forte.5 Então ele começou a soprar grandes quantidades de pó em cada uma de minhas narinas, com um tubo de madeira de palmeirinha horoma. Soprava com força e reco- meçou várias vezes. Era a primeira vez que eu inalava tanta yãkoana assim! Eu estava muito ansioso, porque estava longe de conhecer todo o poder dela! Então, de repente, sua imagem, Yãkoanari, bateu em minha nuca com força e me jogou para trás, no chão. Desmaiei logo e fiquei estirado na praça central, em estado de fantasma. Durou bastante tempo. A yãkoana tinha me matado mesmo! Depois de um tempo voltei a mim um pouco e comecei a gemer. Meu ventre caía de medo e eu fiquei imóvel, prostrado na poeira. Devia mesmo dar pena de ver! Minha cabeça doía muito! Achei que não iria sobre- viver. Eu estava cada vez mais apavorado. No entanto, apesar do medo, me agachei de novo na frente do meu sogro e continuei aproximando as narinas, 12959 - A queda do céu.indd 135 8/10/15 12:30 PM
  • 138. 136 deixando escapar um lamento a cada nova dose de yãkoana: “Aaaa! Estou vi- rando outro! Aaaa!”. Não nos tornamos xamãs comendo carne de caça ou plantas das nossas roças, e sim graças às árvores da floresta. É o pó de yãkoana, tirado da seiva das árvores yãkoana hi, que faz com que as palavras dos espíritos se revelem e se propaguem ao longe. A gente comum é surda a elas mas, quando nos tornamos xamãs, podemos ouvi-las com clareza. A yãkoana, como eu disse, é o alimento dos xapiri. Eles a chamam raxa yawari u, o mingau de pupunha da gente das águas. Bebem-na sem descanso, com avidez. Assim que sua força aumenta, eles a absorvem através do seu pai, o xamã, pois a yãkoana penetra nele pelo nariz, que é a entrada de sua casa de espíritos.6 Então, são muitos os xapiri a alimen- tar-se dela. Por isso o xamã não desaba no chão. Ao beber yãkoana, ele só entra em estado de fantasma e seus espíritos, uma vez satisfeitos, descem em seus espelhos, alastrando por toda parte o cheiro suave de suas pinturas de urucum. O poder da yãkoana é forte e dura muito tempo. Apesar de ser menos luminoso e violento do que o do pó de paara, tirado das sementes chatas da árvore paara hi, que os Xamath ari usam. Existem várias yãkoana. Dentre elas, é o pó de yãkoana haare a o mais poderoso.7 Se alguém a beber sem cautela, a imagem dessa yãkoana atingirá seu crânio com um violento golpe de machado e o jogará no chão. Desmaiará logo, e não voltará a si tão cedo, sobretudo se for misturada com pó de paara! Logo depois de beber yãkoana, os xapiri se apoderam da imagem de seu pai, o xamã, e levam-na consigo para longe em seus voos, enquanto a pele dele fica estirada no chão. Por mais que as distâncias pareçam ser longas a nossos olhos de fantasma, não o são de modo algum para os espíritos, que são muito ligeiros. Quando descem a nós, mal temos tempo de escutar um zumbido e eles já pegaram nossa imagem, para perdê-la muito longe dali. Yãkoanari é o nome do pai da yãkoana. Sua imagem continua morando onde Omama, há muito tempo, deu de beber desse pó a seu filho, que foi o primeiro xamã. Yãkoanari é um antepassado de verdade, um espírito muito poderoso. Nas palavras dos brancos, é o dono da yãkoana. O poder de seu pó é tamanho que faz explodir na pessoa uma luz deslumbrante, que cega. Por isso, quando a pessoa não o conhece, ela é logo derrubada com muita força e 12959 - A queda do céu.indd 136 8/10/15 12:30 PM
  • 139. 137 despenca no chão. Fica se debatendo para todos os lados, com o ventre tomado de terror. Depois fica lá, na poeira, sem consciência, por bastante tempo. Foi o que aconteceu comigo na primeira vez. Mais tarde, porém, quando a pessoa se acostuma ao uso da yãkoana, isso passa, e ela já não cai mais no chão gemendo e se contorcendo. Apesar da força intensa e repentina da yãkoana, ela consegue ficar de pé e aí pode virar xapiri de verdade, dançando e cantando sem trégua. Os espíritos da yãkoana, chamados yãkoanari e ayukunari,8 ficam ao nosso lado. Ajudam-nos a pensar direito e nossas palavras não param de aumentar e esticar graças a eles. É a yãkoana que nos permite, guiados pelos xamãs mais experientes, ver os caminhos dos espíritos e os dos seres maléficos. Sem ela, seríamos ignorantes. Tornados fantasmas durante o dia ou durante o tempo do sonho, é com ela que estudamos. Sem tomar yãkoana, como eu disse, não se sonha de ver- dade. Ao contrário, quem dorme sob o poder dela continua vendo dançar e cantar os espíritos durante o sono. O corpo fica deitado na rede, mas os xapiri levantam voo com a imagem e fazem ver coisas desconhecidas. Levam a me- mória da pessoa consigo, em todas as direções da floresta, do céu e debaixo da terra. Se não fosse assim, no sonho veríamos apenas humanos, como nós. Só veríamos nossos próximos, gente caçando ou trabalhando na roça. Assim é. Não pensem que os xapiri se manifestam apenas durante o dia, quando se bebe yãkoana! Ao contrário, continuam cantando para nós durante a noite. O tempo todo exigem que o pai os escute: “Não adormeça! Responda, não seja preguiçoso! Senão, vamos abandoná-lo!”. Se o xamã ficasse com o nariz gru- dado nas cinzas da sua fogueira a roncar, seus xapiri ficariam muito descon- tentes. Sairiam de sua casa de espíritos sem ele saber, um por um, e jamais voltariam. É por isso que, em nossas casas, sempre se ouvem os xamãs cantan- do durante a noite. Durante todo o tempo em que meu sogro soprou yãkoana em minhas narinas, nunca deixou ninguém se aproximar de mim. Eu ficava deitado numa rede de casca. Até minha esposa devia manter distância. Ela vinha apenas de tempos em tempos, para alimentar minha fogueira com lenha, com muito cui- dado. Tudo devia permanecer silencioso ao meu redor. Não se pode fazer ba- rulho ao andar, nem deixar cair um fardo de lenha perto de alguém que está tomando yãkoana pela primeira vez! Os xapiri podem fugir no mesmo instan- te. Eles são muito ariscos e desaparecem assim que os humanos fazem muito 12959 - A queda do céu.indd 137 8/10/15 12:30 PM
  • 140. 138 barulho. Não estão acostumados a isso. Suas casas são muito silenciosas. Por isso, os xamãs tomam muito cuidado para não assustá-los. Eu tinha de evitar me movimentar demais. Os espíritos também se recu- sam a vir dançar junto a quem não para de se mexer. Eles só se aproximam com muita cautela, e só depois de os antigos xamãs terem limpado bem o chão ao redor, recobrindo-o de penugem branca. Meu sogro me alertava: “Os xapiri detestam água fria. Lave-se só com água morna na casa! Não vá à floresta tomar banho na água do rio! Os espelhos dos espíritos vão se quebrar. Os caminhos deles vão arrebentar”. É verdade. Os caminhos dos xapiri, finos e transparentes como fios de aranha, são muito frágeis. Dizia-me também: “Quando as pessoas assarem carne no fogo, deixe-as comer sozinhas, não peça nada a elas! Você não deve comer caça. Os espíritos detestam fumaça e cheiro de grelhado. Eles não têm fome de carne, como nós, humanos. Eles só comem alimentos doces. Também não beba água do rio! Não se preocupe, logo sua vontade de comer e de beber vai sumir!”. No começo, passei mesmo muita fome, a ponto de chorar! Mas é assim, não se pode ver os xapiri e tornar-se xamã cochilando com a barriga cheia de carne e mandioca! Eu também tinha muita sede. Minha língua ficou toda seca. No entanto, alguns dias depois, minha fome e minha sede acabaram. Os espí- ritos as jogaram para longe de mim. Eu não sentia mais nada. Via uma cuia cheia de água, mas já não tinha vontade nenhuma de beber. As pessoas ao meu 12959 - A queda do céu.indd 138 8/10/15 12:30 PM
  • 141. 139 redor comiam queixada mas eu também não tinha mais vontade de comer. Bastava-me inalar o pó de yãkoana, dose após dose, mais e mais. Os xapiri não paravam de dançar em volta de mim, e eram eles que me alimentavam. Viran- do outro, eu começava a absorver uma comida invisível que eles colocavam na minha boca enquanto eu dormia. Em meu sonho, os espíritos ficavam repetin- do: “Coma, essa é a nossa comida! Recuse carne e não use mais tabaco! Tam- pouco tome banho! Você não deve chegar perto das mulheres! O cheiro de seus enfeites de folhas de mel é perigoso. Se você nos quer mesmo, escute nossa voz e repita as palavras de nossos cantos!”. Então eu sentia o perfume de sua pin- tura de urucum e de suas plantas mágicas se espalhando em volta de mim. Eu estava muito fraco, mas, enquanto dormia, comia com prazer o que me davam. Isso durou um bom tempo, uns cinco dias ou mais. Durante todo esse tempo, meu sogro não parou de soprar yãkoana em minhas narinas. Fui fican- do cada vez mais magro e minhas costelas começaram a aparecer. Estava mui- to sujo, e tinha os olhos fundos de fome e de sede. Quase não comi nem bebi durante esse período, só uns poucos alimentos doces: um pouco de mingau de banana ou garapa de cana. Não comia carne, nem banana-da-terra assada na brasa, nem mandioca, nem batata-doce, nem nada. E não usava brejeira de tabaco. De outro modo, eu teria dito palavras de fantasma em vez de responder direito aos cantos dos espíritos. Eu só bebia yãkoana, sem parar. Os espíritos das vespas kopena e das abelhas xaki iam pouco a pouco devorando toda a gordura de meu corpo. Já quase nada restava de minha carne. Minha aparência era de dar pena e eu só conseguia emitir um fiozinho de voz, quase inaudível. Fiquei muito fraco, de dar dó. Já não tinha sopro de vida. Todos os restos de comida e carne apodrecidos tinham desaparecido de minhas entranhas. Os xapiri tinham me enfraquecido de fome e de sede. Tinham me feito emagrecer de verdade. Eu estava limpo e cheiroso como devia. Assim é. Os espíritos nos observam e nos cheiram de longe antes de se aproximarem. Se nos acharem gordos e fedidos, saem correndo. O fedor esfumaçado dos caçadores que co- mem da própria caça os faz vomitar. Se o aprendiz de xamã for um deles, cospem nele e exclamam: “Ele tem o peito de quem devora as próprias presas.9 Que imundo! A carne dele é amarga e malcheirosa! Tem gosto de carne quei- mada! Seu peito cheira a mulher, empesteia com o cheiro das folhas de mel delas!”. Por isso a primeira coisa que fazem os xamãs mais velhos que nos dão seus espíritos é nos limpar. Devem nos livrar de todos os restos de caça, de 12959 - A queda do céu.indd 139 8/10/15 12:30 PM
  • 142. 140 todos os cheiros de carne queimada e apodrecida que ficam em nós. Devem também nos lavar de todo cheiro de pênis. Então podem nos fazer virar espí- ritos, como eles próprios há muito tempo. Enquanto estivermos sujos e fedo- rentos, os xapiri se recusarão a vir dançar para nós. Durante todo o tempo em que eu bebia yãkoana, minha mulher ficou apreensiva e um pouco descontente comigo. Perguntava-se por que eu queria beber yãkoana e ver os xapiri, se era para sofrer tanto. Quando me viu fraco, só pele e osso, acabou chorando. Depois me disse: “Antes de meu pai tê-lo feito inalar yãkoana, eu estava enfurecida com a sua decisão. Mas agora sinto muita pena de você!”. Os demais habitantes da casa estavam tão preocupados quanto ela, vendo-me naquele estado inquietante. Mas eu não sentia sofrimen- to nenhum, porque queria muito me tornar xamã! Assim é. Para receber os espíritos do xamã mais velho que nos dá a beber yãkoana, é preciso estar de estômago vazio. No começo, seu pó deve ser nosso único alimento. Quando, por fim, nossas entranhas ficam bem limpas, então os xapiri podem vir a nós. Então pode-se recomeçar a comer um pouquinho, mas apenas comida que não tenha sido grelhada, nem tenha sal, nem seja ácida. Só se pode ingerir alimentos brancos e sem gosto, como mingau de banana-da-terra ou filés de peixinhos cozidos numa folha, e também garapa de cana, mamão e, sobretudo, mel diluído em água. Essa bebida é, de fato, capaz de nos pôr em estado de fantasma e de nos fazer virar espíritos. O mel é mesmo o alimento preferido dos xapiri, que se nutrem de flores e frutas da floresta. Assim que o jovem xamã o engole, seus espíritos se fartam de mel através dele e ficam muito con- tentes. Por isso, os xapiri dizem ao iniciando: “Viremos a você, mas você deve comer como nós, comida doce! Não fique impaciente para devorar carne!”. Assim, quando vemos abelhas nas árvores, já não podemos mais achar que são meras abelhas. Sabemos que são também xapiri, que só gostam de sabores açucarados e perfumados. Como eu disse, os espíritos não comem mandioca e carne como nós. Tampouco bebem da água dos igarapés da floresta. São bebe- dores de néctar de flores. Por isso eles só ficam felizes em descer para nós quando apenas nos nutrimos dos alimentos que eles apreciam. Mais tarde, porém, depois de os espíritos onça, suçuarana e jaguatirica terem vindo a nós, podemos voltar a comer carne. Aí, os xamãs mais velhos nos dizem: “Awei! Seu espírito onça dançou, você agora pode matar a sua fome de caça! Mas se tem- perar com pimenta, vai precisar lavar muito bem a boca!”. 12959 - A queda do céu.indd 140 8/10/15 12:30 PM
  • 143. 141 É desse modo que eles protegem os xapiri que fazem descer para nós. Hoje, é minha vez de alertar os rapazes que querem se tornar xamãs: “Não vão ao rio atrás das mulheres! Não fiquem comendo sem parar! Se vocês não se contiverem, não serão capazes de ver os xapiri! Nunca vão ouvir seus cantos! Eles não vão querer dançar para vocês!”. Se xamãs mais experientes não ficas- sem atentos, junto conosco, quando bebemos yãkoana pela primeira vez, cor- reríamos o risco de não ter nenhum cuidado e maltratar os espíritos. Furiosos diante dessa falta de respeito, eles poderiam nos golpear com seus facões e nos matar. Mas apesar de temermos o poder deles, nosso desejo de fazê-los dançar como nossos ancestrais é mais forte. É assim porque somos habitantes da floresta. É verdade que os xapiri às vezes nos apavoram. Podem nos deixar como mortos, desabados no chão e reduzidos ao estado de fantasmas. Mas não se deve achar que nos maltratam à toa. Querem apenas enfraquecer nossa cons- ciência, pois se ficássemos apenas vivos, como a gente comum, eles não pode- riam endireitar nosso pensamento. Sem virar outro, mantendo-se vigoroso e preocupado com o que nos cerca, seria impossível ver as coisas como os espí- ritos as veem. Por isso os xapiri dizem do iniciando: “Se continuar robusto, não ouvirá nossa voz!”. Então, os espíritos morcego sopram em nós suas plantas de feitiçaria, para nos enfraquecer e nos manter em estado de fantasma. Os xapiri também se aplicam em tirar de nós o menor cheiro de restos de comida, pois são muito preocupados com limpeza. Por isso, quando encontram qualquer pedaço de carne em putrefação sobrando em nossas entranhas, reduzem-no a pedacinhos e jogam longe. Também lavam cuidadosamente nossa boca e peito, para acabar com todo o cheiro de carne queimada. Friccionam nossa pele até apagar dela tanto as fragrâncias das mulheres como os cheiros de fumaça, os odores da cópula e fedores de excrementos. Se a pele estiver contaminada pela epidemia xawara, não hesitam em arrancá-la como a de um sapo venenoso yoyo, para jogá-la no rio. Depois, nos esfregam com vigor, usando água dos igarapés das montanhas. E por fim nos recobrem com uma nova pele, enfeitada com penugem branca e pintura de urucum. São os espíritos das folhas, dos cipós e das árvores que vêm nos limpar primeiro. São eles também que rasgam nosso peito e aumentam seu tamanho para que os outros xapiri possam nele construir 12959 - A queda do céu.indd 141 8/10/15 12:30 PM
  • 144. 142 sua casa. Assim é. Quem ainda tem alguma sujeira fica com língua de fantasma e não consegue responder aos xapiri. Outros espíritos nos fazem renascer como crianças. Assim voltamos a ser recém-nascidos, ainda vermelhos do sangue do parto. Então as mulheres espí- ritos cortam nosso cordão umbilical e nos lavam com água límpida. Colocam- -nos sobre um leito de penugem branca, no qual gesticulamos como bebês! Quando choramos, as mulheres espíritos dos macacos cairara e das ariranhas proro nos embalam em seus braços.10 Amamentam-nos e cuidam de nós. E mais tarde, quando largamos o seio e crescemos, elas nos ensinam os cantos dos xapiri: “Arerererere!”. Então, é a vez de os espíritos da árvore wari mahi e da águia mohuma nos cobrirem o corpo e o rosto com uma penugem de um branco luminoso e brilhante.11 Depois a imagem de Omama e as dos demais xapiri nos oferecem seus enfeites. Amarram uma faixa de rabo de macaco cuxiú-negro em torno de nossas testas e prendem em nossas braçadeiras tufos de penas de papagaio e caudais de arara. E finalmente enfeitam nossos corpos com desenhos de urucum vermelho e preto. Quando ficamos assim arrumados, carregam-nos para as costas do céu e lá nos depositam no meio de uma clareira, onde fazem sua dança de apresen- tação. O chão dessa clareira é um grande espelho salpicado de penugem bran- ca que cintila com uma luminosidade ofuscante. É tudo ao mesmo tempo mag- nífico e apavorante. É nossa imagem que os xapiri levam desse modo, para consertá-la. Primeiro a extraem de dentro de nosso corpo, para depositá-la em seus espelhos celestes. Enquanto isso nossa pele, muito enfraquecida, queda-se estendida na praça de nossa casa, na floresta. Então os espíritos extraviam nos- so pensamento e nossa língua, para nos ensinar a sua. Depois nos dão a conhe- cer o desenho da floresta, para que possamos protegê-la. Os xapiri são estupen- dos e resplandecentes. Parecem muito pequenos e frágeis, mas são muito poderosos. A partir de seus espelhos, revelam-nos a aproximação das fumaças de epidemia, dos seres maléficos da floresta ou dos espíritos do vendaval. Os brancos não conhecem isso. No entanto, é assim que, desde sempre, nossos maiores têm se tornado xamãs. Apenas seguimos seus passos. 12959 - A queda do céu.indd 142 8/10/15 12:30 PM
  • 145. 143 Quando o pai de minha esposa me fez virar outro, tudo ocorreu como acabo de descrever. Com a yãkoana, ele primeiro tirou de mim todo o vigor. O seu espírito, que chamamos Yãkoanari, foi comendo minha carne aos pou- cos. Fiquei tão fraco que dava dó! Os xapiri então lavaram do meu peito todo cheiro ácido e salgado. Limparam também minhas entranhas de todos os restos de carne putrefata. Fizeram-me perder toda a força e fizeram-me voltar a ser um bebê. Depois de algum tempo, meu sogro chamou outros espíritos para virem se instalar comigo. Disse a eles: “Este rapaz, a quem dou de beber yãkoa­ na, deseja-os e quer virar espírito por sua vez! Vocês aceitam fazer sua dança de apresentação para ele?”. E os xapiri lhe responderam: “Awei! É um dos seus. Dançamos para os seus ancestrais desde sempre. Conhecemos vocês. Já que é a vez dele de nos querer, viremos dançar para ele!”. Encorajado por essas palavras, meu sogro continuou a me fazer beber yãko- ana com firmeza, para que eu pudesse pensar direito. É assim que estudamos para nos tornarmos xamãs. O maior que chama os espíritos por nós deve, ao longo do dia, soprar o alimento deles em nossas narinas. Então, pouco a pouco, durante a noite, acabamos por vê-los se aproximando, dançando com alegria, e isso não para mais. Foi o que meu sogro fez por mim. Revelou-me o caminho dos xapiri, fez com que descessem e os deu para mim. É um grande xamã, um homem muito sábio. Ele não queria que pudessem me chamar de mentiroso. Assim é. Seguimos desde sempre as palavras que Omama deu a seu filho: “Se você quer mesmo ver os xapiri e ser capaz de responder a eles, precisa beber yãkoana muitas vezes. Precisa ficar sem se mexer na sua rede e parar de comer e de copular a qualquer hora. Nesse caso, os xapiri ficarão satisfeitos. Senão, vão 12959 - A queda do céu.indd 143 8/10/15 12:30 PM
  • 146. 144 achá-lo sujo e fugirão”. Por isso o pai de minha esposa me alertou: “Agora vai ser preciso que seus pensamentos permaneçam calmos e que você responda aos xapiri com atenção, ou eles ficarão enfurecidos e poderão maltratá-lo!”. Sob o efeito da yãkoana, fiquei muito tempo estendido no chão, incons- ciente. Então, os espíritos onça e veado se aproximaram e começaram a me lamber a pele com a ponta de suas línguas ásperas. Assim provaram minha carne, para saber se ainda estava ácida ou salgada. Perguntavam-se: “Como ele está? Vamos conseguir limpá-lo e consertá-lo?”. Os xapiri começam a nos ava- liar desse modo. Assim, se constatarem que nosso peito está enfumaçado de- mais, contaminado pelos restos de nossas próprias presas ou fedendo a pênis, rejeitam-nos logo, golpeando-nos com violência. Em seguida, os espíritos dos carrapatos pirima ãrixi agarraram minha imagem com a boca, enquanto os espíritos do céu a levaram nas alturas, para depositá-la sobre seus espelhos. Depois, bebi mais e mais yãkoana. Aí foi a vez de as imagens das mulheres das águas me assustarem. Antes de Omama ter feito jorrar os rios da terra, elas vi- viam no mundo subterrâneo. São as irmãs de sua esposa. São seus feitiços de amor que fazem os rapazes se tornar xamãs. Essas imagens só descem a nós se tivermos o corpo esvaziado de carne de caça; depois de termos também parado de comer bananas e mandioca, e até de beber água. Não descem enquanto a yãkoana não tiver consumido nossa carne a ponto de ficarmos esqueléticos mesmo. São muito belas e de valor muito alto. Apenas os xamãs mais experientes podem chamá-las para nós. Assim que chegam, elas também tratam de nos examinar com cuidado. Então, se nos considerarem aceitáveis, levam-nos consigo. Quando isso acontece com um jovem iniciando, ele se precipita de repente para fora de sua casa, como um fantasma. E começa a correr para longe, na floresta, fora das trilhas, gemendo e chamando a mãe aos berros: “Aaa! Napaaa! Aaa! Napaaa!”. Só voltará para junto dos seus bem mais tarde, quando um xamã mais velho sair em busca dele para trazê-lo de volta. Foi isso que me aconteceu! De tanto beber yãkoana, as imagens dos espíritos da floresta e das mulheres das águas vieram a mim durante o dia e me levaram consigo. Saí correndo, em estado de fantasma, seguindo suas luzes, que se afastavam ao longe, à minha frente. Segui seus ca- minhos na floresta por muito tempo, sem parar de gritar: “Aë! Aë! Aë!”. Corri 12959 - A queda do céu.indd 144 8/10/15 12:30 PM
  • 147. 145 muito, até o limite de minhas forças! Mas o pai de minha esposa, temendo que eu me perdesse para sempre, me protegeu. Interveio para evitar que as mulhe- res espíritos me levassem para a casa delas, debaixo d’água. Então, elas me largaram no chão da floresta, inconsciente, e meu sogro enviou seus próprios xapiri para me levarem de volta para casa. No começo, quando a pessoa ainda não conhece o poder da yãkoana, não fica de pé muito tempo. Foi também o que aconteceu comigo. Sua força me fez morrer e me jogou para trás na hora. Então rolei no chão, me contorcendo de pavor e gemendo: “Akaaa! Akaaa!”. Apesar de eu ter virado fantasma, os xa- piri ainda permaneciam invisíveis. Isso me deixava muito ansioso! Não parava de perguntar a mim mesmo: “Por que ainda não vejo nada?”. Assim se passaram vários dias sem que os espíritos se manifestassem aos meus olhos. Eu transpi- rava muito e minha pele estava coberta de poeira. Estava atormentado e muito agitado. Bebia yãkoana sem descanso e tinha medo. Quanto mais fraco eu me sentia, mais o seu poder me parecia apavorante. É por isso que poucos rapazes ousam apresentar o nariz aos xamãs experientes! E quando o fazem, muitas vezes desistem logo, com medo de morrer. Eu, no entanto, quis continuar, porque apesar do pavor que sentia, eu queria mesmo conhecer os xapiri. Foi por isso que, no começo, tive muito medo de não conseguir vê-los. É verdade! Tomava yãkoana sem parar, mas não via nada. Isso costuma aconte- cer, mas eu não sabia. Quando se começa a beber yãkoana, de fato, não se vê nada. A cabeça dói muito e o pensamento continua fechado. A pessoa vai en- fraquecendo cada vez mais e desmaia o tempo todo. Só isso. Os xapiri não se revelam de imediato a quem bebe yãkoana pela primeira vez e, se a pessoa não for vigilante, fica por isso mesmo. Os espíritos começam a fazer sua dança de apresentação só depois de terem estendido o iniciando sobre seus espelhos. De modo que é preciso passar várias noites em estado de fantasma e ficar muito fraco antes de os xapiri se manifestarem. Primeiro nos contemplam, das alturas do céu. Veem-nos estirados e ex- postos, na forma de uma pequena mancha clara no chão. Depois começam a descer em nossa direção, porque nos querem de verdade. Nós, no começo, apenas ouvimos suas vozes vindo das lonjuras. Aí, de repente, se aproximam de nós e pegam nossa imagem antes mesmo de os termos avistado. Assim é. No primeiro dia, a pessoa não vê nada mesmo. No dia seguinte, já não é capaz de distinguir o dia da noite, nem de dormir. No outro dia, vai ficando cada vez 12959 - A queda do céu.indd 145 8/10/15 12:30 PM
  • 148. 146 mais fraca. Mais um dia e, finalmente, os xapiri começam a aparecer. O ini- ciando não sente mais fome nem sede. Não sabe mais o que é dor nem sono. Os espíritos da yãkoana devoraram sua carne e seus olhos morrem. É nesse momento que começa a ver despontar uma claridade imensa e ofuscante. Dis- tingue-se a tropa dos xapiri que cantam vindo em nossa direção. Chamados pelos xamãs mais velhos, dos confins do céu, eles se aproximam de nós devagar, dançando em seus caminhos luminosos. Os que vêm à frente, ainda poucos, vão chamando os demais por onde passam. Vão se juntando assim, aos poucos, até formarem uma multidão barulhenta. Foi assim que aconteceu comigo, e fiquei apavorado, porque nunca tinha visto nada igual. Os sonhos que tinha desde pequeno eram pouca coisa com- parados àquilo! Quando vi pela primeira vez os xapiri descendo para mim, aí sim, entendi o que é medo! O que comecei a ver, antes de distingui-los com nitidez, era de fato aterrorizante. Primeiro, a floresta se transformou num imen- so vazio que ficava rodopiando em torno de mim. Depois, de repente, a luz explodiu num estrondo. E tudo ficou impregnado de uma claridade ofuscante. Eu só via a terra e o céu de muito longe, semeados de penugem branca cintilan- te. Essas pequenas penas luminosas cobriam tudo, flutuando leves no ar. Não havia mais sombra em lugar algum. Eu via tudo de cima, de uma altura assus- tadora. Então compreendi que estava começando a me tornar outro de verdade. Disse a mim mesmo: “O meu sogro sabe mesmo dos espíritos! Por isso conhe- ce tão bem a floresta! Ele não estava mentindo!”. Quando os espíritos querem nos pôr à prova, arrancam nossa imagem e vão depositá-la bem longe, nas costas do céu. São os espíritos das árvores do pó paara, o pai da yãkoana, e os espíritos da floresta urihinari que levam assim nossa imagem e nosso sopro, para estendê-los sobre seus espelhos. É desse modo que nos tornamos xamãs de verdade. Foi o que me aconteceu, e foi mes- mo muito doloroso! Meu pensamento estava preso no esquecimento e minha pele jazia no chão, inerte. Os meus se diziam: “Dá pena vê-lo assim, largado como um morto jogado na poeira!”. Mas não era isso. Meu corpo de fato esta- va derrubado no chão, mas os xapiri seguravam minha imagem sobre seus espelhos, no mais alto do céu. Por isso, eu sentia vertigens e tinha tanto medo de cair! Estava suspenso acima de um enorme abismo, deitado em um amon- 12959 - A queda do céu.indd 146 8/10/15 12:30 PM
  • 149. 147 toado de penugem branca. Já não distinguia as pessoas da casa ao meu redor. Só podia ouvir suas vozes, como grunhidos roucos e desarticulados. Pareciam vozes de seres maléficos. Era tudo muito apavorante! Aí, de repente, tudo à minha volta começou a ficar coberto de flores ama- relas e brancas, como as das árvores masihanari kohi e weri nahi. Então, vários caminhos luminosos foram se desenrolando desde os confins do céu. Ondulavam em minha direção e ouvia-se uma algazarra confusa vindo deles. Apreensivo, eu me perguntava o que podia ser aquilo. Dizia a mim mesmo: “O que são esses seres desconhecidos que se aproximam? O que farão de mim?”. Eu era ainda tão ignorante! Perguntei a meu sogro: “Já são coisas de espíritos?”. E ele confirmou: “Awei! Os xapiri estão começando a se aproximar de você. Vão chegando aos poucos, mas você ainda não pode enxergá-los. Só irá mesmo vê-los quando ficar muito fraco e tiver mesmo virado outro!”. É o que acontece quando o iniciando começa a virar espírito e seu pensamento ainda está na busca. Então, agachado ao meu lado, o pai de minha esposa começou a me en- sinar a ouvir os cantos dos espíritos. Dizia: “Se você quer mesmo tornar-se xamã, deve responder à voz deles imitando seus cantos e falando com eles. É claro que no começo você não vai conseguir. Mas, aos poucos, eles vão lhe revelar suas palavras. Sua boca não deve ter medo! Mesmo que você ainda não cante bem, eles ficarão satisfeitos só por você responder. Pensarão: ‘Muito bem! Ele nos quer mesmo!’. Caso contrário, se você não fizer nenhum esforço e não se comportar como eles esperam, vão maltratá-lo. Se você magoar os espíritos, eles vão matá-lo e fugirão para bem longe!”. Tendo escutado essas palavras, um tanto aflito, me esforcei para ouvir a voz dos xapiri e tentar responder-lhes direito! Quando se começa a beber yãkoana, não se percebe nada do canto dos espíritos. É preciso que eles antes tirem de nossas orelhas tudo o que as entope e nos impede de ouvi-los. Em seguida, eles começam a se manifestar enquanto dormimos, dando a escutar, aos poucos, sua cantoria. Bem no começo, eu não sabia nada dos xapiri. Apesar de ficar tomando yãkoana o tempo todo, não os via e ainda nem sequer ouvia suas vozes! Isso me atormentava, e eu dizia a mim mesmo: “O que está contecendo comigo? Morro e ajo como um fantasma, mas não adianta! Inspiro pena rolando na poeira, tudo isso por nada! O que fazer? Se eu não vir os xapiri, será que devo fingir?”. Mas eu não queria mentir! Todos os resíduos de comida tinham desaparecido de minhas entranhas e eu estava 12959 - A queda do céu.indd 147 8/10/15 12:30 PM
  • 150. 148 muito fraco mesmo. Minha própria carne tinha virado carne de fantasma. As- sim, antes de ser capaz de ver os espíritos, comecei me esforçando muito para ouvir suas palavras. Como me havia recomendado meu sogro, fui tentando, aos poucos, imitar seus cantos. Foi ele que começou a ensiná-los a mim. Apresentou-me aos xapiri, como sempre fizeram nossos ancestrais com seus filhos e genros. Então, de tanto prestar atenção, comecei a poder ouvir as palavras dos espíritos. Eles trocaram minha língua e minha garganta pelas deles. E assim, aos poucos, seus cantos foram se revelando a mim e se tornando claros. Comecei a cantar como eles. Mas foi tudo muito devagar. Não se pode ser impaciente nesse caso. Deve-se tentar pouco a pouco imitar a última parte das palavras do canto dos espíritos.12 É assim que se consegue começar a escutá-los de verdade, e foi o que eu fiz. E finalmente eles livraram minhas orelhas de tudo o que as entupia. Meu ouvido explodiu com um ruído surdo. Depois comecei, ainda sem ver nada, a perceber uma melodia bem fraca. Algo como o zumbido de um enxame de pernilongos. Era o sibilo das flautas de bambu purunama usi que os espíritos sopram enquanto dançam. Seu som agudo vinha de muito longe e ia se aproximando devagar. De repente, espalhou-se um outro som, dessa vez grave, como um vento rodopiando por toda a extensão da floresta. Foi então que comecei a distinguir ao longe, vindos dos confins do céu, os gritos e cantos dos xapiri que se aproximavam de mim. Apesar da distância, suas vozes iam ficando cada vez mais precisas. As pessoas comuns não podiam ouvi-las, mas para quem tinha se tornado fantasma eram perfeitamente claras. No momento em que, finalmente, os xapiri revelam suas vozes, o medo desaparece e, mesmo largado na poeira, sente-se uma intensa alegria! Aí é pre- ciso se esforçar para responder, para que fiquem felizes de nos escutar e nos incentivem com seus clamores. Foi assim que, apesar de todo o medo, comecei a cantar. Ainda só percebia sonoridades muito fracas. Apesar disso, decidi res- ponder à voz dos xapiri, ecoando-a. Então comecei a ouvir de volta suas excla- mações de alegria: “Awei! Dessa vez ele está respondendo como se deve!”. Suas vozes me pareciam muito nítidas. Satisfeito, me apliquei a imitá-los, repetidas vezes, sem descanso. Diante de meus esforços, eles vieram me ajudar. Disseram a si mesmos: “Ele não deve estar nos ouvindo bem. Recomecemos! Como fazer para que nossas palavras sejam audíveis para ele?”. Então retomavam seus can- tos, subindo o tom de suas vozes mais e mais. Foi assim que, por fim, consegui 12959 - A queda do céu.indd 148 8/10/15 12:30 PM
  • 151. 149 ouvi-los de verdade e cantar como eles. Quando o iniciando se aplica a respon- der aos xapiri, as imagens do sabiá yõrixiama e da árvore de cantos reã hi des- cem rapidamente a ele.13 Essas imagens nos emprestam suas gargantas e refor- çam nossa língua. Desse modo, as palavras do canto dos espíritos aumentam depressa em nós, como num gravador. Bebemos yãkoana com os olhos cravados em sua dança de apresentação e perdemos todo o receio de cantar diante das pessoas de nossa casa. Foi isso mesmo o que aconteceu comigo! Depois de tanto tempo, eu metia medo de tão magro. Tinha o rosto co- berto de muco e de pó de yãkoana. Estava morto sob o seu poder e meus olhos eram os de um fantasma. Os espíritos tinham limpado todo o interior de meu corpo. Vários dias haviam passado antes de eu, por fim, começar a vê-los dan- çar. Eu mesmo tinha me tornado um deles. As vozes e danças dos espíritos haviam se tornado as minhas. Agora eles estavam satisfeitos de verdade. Assim é. Os xapiri ficam felizes quando lhes respondemos fazendo vibrar a língua: “Arerererere!”. Assim que nos escutam imitando seus cantos, gritam de satis- fação e afluem de todos os lados com clamores de júbilo, como convidados a uma festa reahu: “Aë! Aë! Aë!”. Caso contrário, se a resposta de nossos cantos tem pouca energia, eles se irritam logo por não serem desejados. Então come- çam a nos insultar: “Hou! Sua voz é feia e tremida! Você está muito sujo! Fede a pênis e é um covarde! Se tem medo de nós, não nos chame!”. Ficam furiosos se o iniciando fica só se contorcendo na poeira e proferindo palavras de fan- tasma, sem responder como esperam. Dizem a si mesmos: “Hou! E contudo, nosso canto é claro! Esse fantasma é mesmo surdo! Não nos vê? Será que está 12959 - A queda do céu.indd 149 8/10/15 12:30 PM
  • 152. 150 dormindo? Não nos quer? Insiste em nos fazer vir de longe para dançar para ele e, agora, fica mudo!”. Se não bebermos yãkoana com aplicação e não cantarmos para eles, os xapiri se recusam a vir se instalar junto de nós. Nunca chegam perto das pes- soas comuns, que se contentam em viver deitadas em suas redes. Consideram- -nas sujas e acham que são incapazes de ouvir suas vozes. Se um iniciando chamar os espíritos à toa, dirão que tem gosto amargo, e irão zombar de sua voz de fantasma. Será chamado de preguiçoso e censurado por não fazê-los dançar. Exasperados, eles acabarão por cuspir nele e cobri-lo de cinzas, antes de fugirem para longe. Quando isso acontece com um jovem aprendiz xamã, ele começa a definhar. Fica magro e feio logo em seguida. Em vez de virar es- pírito, corre o risco de morrer. A pessoa que quer se tornar xamã também não deve deixar seus olhos se moverem demais de um lado para outro, observando os habitantes da casa ou mesmo olhando para o chão. Por isso eu me esforçava para manter o olhar sempre voltado para o céu. Sem isso, eu jamais teria podido ver os espíritos descerem. Meus olhos eram os de um fantasma e eu já não via nada à minha volta. Minha visão e meu pensamento estavam concentrados nos xapiri. E as- sim, com o passar do tempo, eles acabaram se manifestando. Finalmente pude vê-los vindo em minha direção das alturas do céu, numa imensa luminosidade pulsante. Desciam muito devagar e se juntavam, mais e mais numerosos, numa chuva ofuscante de penugem branca. A vibração poderosa de seus cantos ia se aproximando aos poucos: “Arerererere!”. Puseram-se a turbilhonar ali mesmo nos ares, como uma multidão de colibris. Fui aos poucos conseguindo distin- guir seus ornamentos resplandecentes: braçadeiras de crista de mutum e peitos de jacamim, faixas de rabo de macaco cuxiú-negro e cabelos recobertos de penugem de gavião e de urubu-rei. Seus dentes imaculados cintilavam e sua pele brilhava de desenhos de urucum vermelho e preto. Giravam em redor de mim, dançando e lançando gritos exaltados. A partir desse instante, meu sono fugiu. Eu estava deitado na praça central de nossa casa e a floresta à minha volta havia desaparecido. Só fazia contemplar a dança dos xapiri. Eles me fizeram outro para que eu não minta. Quiseram mesmo me fazer virar espírito. Fizeram desaparecer a floresta e a substituíram por uma terra coberta de penugem branca. Deitaram minha imagem no peito do céu, no centro de seu 12959 - A queda do céu.indd 150 8/10/15 12:30 PM
  • 153. 151 espelho. Era apavorante, mas meu medo se dissipou logo, pois tudo o que eu via era magnífico. Apesar da distância, eu distinguia com nitidez os xapiri e seus adornos coloridos e brilhantes. Olhavam todos para mim. A sua tropa descia dos confins do céu, carregada por milhares de trilhas reluzentes que ondulavam nos ares. Eram tão velozes quanto aviões, e produziam uma ven- tania poderosa. Aquela distância imensa não era nada para eles. Afluíam sem parar, inumeráveis, vindo de todas as direções, como imagens de televisão. Depois iam pouco a pouco se juntando diante de mim, como convidados a uma festa reahu amontoados na porta da casa de seus anfitriões, ansiosos para fazer sua dança de apresentação. Seus caminhos, até então quase imperceptíveis, iam ficando cada vez mais nítidos e brilhantes. Finos como teias de aranha, flutuavam cintilando nos ares e vinham se prender junto de mim, um após o outro. Assim é. Os xapiri sempre são precedidos pelas imagens de seus caminhos. Eles vão se colando, um por um, na borda do espelho em que o jovem xamã está deitado. Fixam-se ali como as imagens de fotografia dos brancos. Deve-se então ficar esticado bem reto, para que os caminhos não quebrem e os espíritos possam chegar até nós. De- pois, usam nossos braços e pernas como caminhos, nos quais nossos cotovelos e joelhos são clareiras, onde param para descansar. Por fim, entram pela boca para dentro do peito, que é a casa na qual farão sua dança de apresentação. Os xapiri chegam bem apertados uns contra os outros em fileiras deslum- brantes, cobertos de pinturas de urucum e de enfeites de penas de todas as cores. O som de suas vozes é poderoso e seus cantos são melodiosos. Quando finalmente se consegue vê-los, são de uma grande beleza. Evitam a sujeira do chão ficando sempre suspensos nos ares. Omama, que é quem os envia, torna-os capazes de voar com velocidade graças a uma imagem de avião que lhe perten- ce.14 Essa imagem é muito poderosa, carrega todos os xapiri em seu voo, apesar de serem tantos. Assim eles se deslocam acima da floresta, além do céu e debai- xo da terra. Chegam até nós sobre vastos espelhos resplandecentes que amarram nas alturas. Ali dançam, como os convidados a uma festa reahu na praça central da casa à qual foram chamados. As mulheres dos ancestrais animais e as da gente das águas entram primeiro, agitando folhas jovens de palmeira hoko si desfiadas. Avançam e recuam devagar, bem alinhadas, batendo os pés no chão 12959 - A queda do céu.indd 151 8/10/15 12:30 PM
  • 154. 152 em ritmo. São magníficas! Em seguida, os espíritos masculinos se lançam e dançam por sua vez, percorrendo um grande círculo com clamores jubilosos. Os xapiri são grandes dançarinos, e muito divertidos. Os ancestrais ani- mais yarori até conseguiram fazer Jacaré rir com suas danças, a ponto de deixar o fogo cair de sua boca, não é mesmo?15 Por isso nos esforçamos para seguir- -lhes o exemplo, quando é nossa vez de nos tornarmos espírito. Imitamos os ancestrais tamanduá, macaco-aranha, veado e anta; imitamos também o espí- rito lua Poriporiri, o espírito raio Yãpirari, o espírito do céu Hutukarari e mui- tos outros! Os modos de dançar dos espíritos são tão diversos quanto são dife- rentes seus cantos. Quando seguimos seus movimentos, são suas imagens que nos pegam pelo braço e nos ensinam a seguir seus passos com segurança. Se ficarmos envergonhados, com as pernas duras, eles ficam impacientes e nos repreen­ dem: “Siga-me! Olhe! Esse é o meu modo de dançar! Preste atenção!”. E nos levam com seus movimentos, para que nossos gestos sejam tão graciosos quanto os deles. Percorrem o círculo de seu espelho, indo e vindo, com uma impressionante agilidade. Deslocam-se devagar, avaliando o interior da nova casa de espíritos na qual estão prestes a se instalar: “Será bela o suficiente? Seu chão é liso e brilhante como deve?”. Porém, apesar de toda a sua beleza, a dança de apresentação dos xapiri é também apavorante. Eles evoluem em volta de nosso corpo estendido em seus espelhos e agitam imensas lâminas de metal brilhante. Ficam nos observando, julgando nossa força e nossa aparência. Quando completam o giro voltam ao seu ponto de partida, passando ao nosso lado. Então, de repente, um deles se vira e nos golpeia nas costas com o gume afiado de seu enorme facão. O golpe nos atinge sem que ele levante a arma. É o balanço da lâmina amarrada em suas costas que nos machuca com violência. A dor é intensa e nos faz cair desmaia- dos em seguida. Então os xapiri desaceleram o passo, param e, imóveis, ficam nos observando. Os xapiri que nos ferem desse modo são os espíritos agressivos da cobra grande waroma kiki e do jacaré gigante poapoa. Como eu disse, certos xapiri podem ser muito perigosos. É o caso de Ara poko, o chefe dos seres maléficos gavião koimari. Quando um xamã faz descer sua imagem, os outros devem se interpor, para evitar que o sopro de sua cauda venenosa atinja as crianças da 12959 - A queda do céu.indd 152 8/10/15 12:30 PM
  • 155. 153 casa. Quando o fazemos dançar pela primeira vez, esse espírito nos fere com crueldade. Assim é. Aos espíritos não basta dançar para nós. Ao chegarem, nos machucam e recortam nosso corpo. Cortam-nos o tronco, as pernas e o pes- coço. Cortam também nossa língua, jogando-a longe, pois só emite palavras de fantasma. Arrancam nossos dentes, que consideram sujos e cariados. Jogam fora nossas entranhas cheias de resíduos de carne de caça que os enojam. Então, substituem tudo isso pela imagem de suas próprias línguas, dentes e vísceras. É desse modo que nos põem à prova. Foi o que me aconteceu e eu tive muito medo! Esses xapiri antigos são muito aterrorizantes! Aproximaram-se de mim em silêncio, no final de sua dança de apresentação. Não pareciam ameaçadores. Mas de repente senti suas lâminas me atingindo com toda a força. Partiram-me o corpo de um só golpe, no meio das costas! Sob o choque, lancei um longo gemido de dor. Mas nem por isso pararam! Depois de me terem talhado em dois, cortaram-me a cabeça. Então vacilei, e desabei em prantos. Meu pensamento estava desviado e eu ti- nha ficado cego, como um cão morto no chão. Fiquei assim prostrado por muito tempo, sem nenhuma sensação. Enquanto isso, os espíritos continuavam dançando ao meu redor sem que eu percebesse nada. Recobrei a consciência algum tempo depois. Parei de beber yãkoana e meu pensamento se acalmou. Comecei então a sentir o sofrimento lancinante dos ferimentos que os xapiri me haviam infligido. Sentia dores terríveis na nuca e nas costas, onde eles me haviam atingido. Só conseguia andar curvado, como se tivesse me tornado um ancião! No começo, tudo isso é aterrorizante, pois a pessoa se pergunta se os espíritos não têm, afinal, a intenção de matá-lo! É verdade! Porém, com o passar do tempo, as dores intensas das feridas vão di- minuindo aos poucos, embora a pessoa continue dolorida. Foi o que eu senti e dava mesmo pena me ver! De fato, meu sogro não me poupou quando me deu seus espíritos! Sempre que novos xapiri vêm a nós, golpeiam-nos do mesmo modo com suas grandes lâminas de metal. Fazem isso já no começo, antes mesmo de po- dermos distinguir suas imagens. Depois recomeçam, quando já estamos esten- didos em seu espelho e começamos a vê-los dançando à nossa volta. Contudo, não se deve pensar que isso acontece somente quando se bebe yãkoana pela primeira vez. Acontece de novo mais tarde, mesmo depois que temos uma grande casa de espíritos e nos tornamos xamãs experientes! Assim, a cada vez 12959 - A queda do céu.indd 153 8/10/15 12:30 PM
  • 156. 154 que chegam a nós, novos espíritos nos ferem com a mesma violência. É isso que vai deixando as costas e a nuca dos xamãs tão doloridas! São essas as partes do corpo que os xapiri atingem de preferência, e o sofrimento que nos causam é sempre muito forte. Não pensem que estou mentindo! É mesmo pavoroso! Sentimo-nos retalhados por toda parte e trespassados por dores agudas e pro- fundas! Todavia, quando os fazemos descer para curar os nossos, os xapiri não nos atacam assim. Ao contrário, chegam com valentia para atacar os espíritos ma- léficos da epidemia xawara. Tampouco nos retalham quando os chamamos apenas para fazê-los dançar. De modo que não são os xapiri já instalados em nossa casa de espíritos que nos ferem. São aqueles que, vindos das lonjuras, fazem pela primeira vez sua dança de apresentação para nós. São os novos espíritos, que vão chegando a nós aos poucos, com o passar do tempo. São muito numerosos, e por isso os velhos xamãs trazem tantas feridas. Quando se tornam idosos, suas costas vão ficando cada vez mais frágeis e doloridas! Depois de me cortarem, os xapiri fugiram depressa com as partes de meu corpo que tinham acabado de trinchar, para longe da nossa floresta, muito além da terra dos brancos. Eu tinha perdido a consciência e foi minha imagem que eles desmembraram, enquanto minha pele permanecia no chão. Voaram para um lado com meu torso e para o outro com meu ventre e minhas pernas. Car- regaram minha cabeça numa direção, e minha língua em outra. Foram as ima- gens dos sabiás yõrixiama, dos japins ayokora e dos pássaros sitipari si, todos donos dos cantos, que arrancaram minha língua. Pegaram-na para refazê-la, para torná-la bela e capaz de proferir palavras sábias. Lavaram-na, lixaram-na e alisaram-na, para poder impregná-la com suas melodias. Os espíritos das ci- garras a cobriram com penugem branca e desenhos de urucum. Os espíritos do zangão remoremo moxi16 a lamberam para livrá-la aos poucos de suas palavras de fantasma. Por fim, os espíritos sabiá e japim puseram nela as de seus magní- ficos cantos. Deram-lhe a vibração de seu chamado: “Arerererere!”. Tornaram-na outra, luminosa e brilhante como se emitisse raios. Foi assim que os xapiri prepararam minha língua. Fizeram dela uma língua leve e afinada.17 Tornaram- -na flexível e ágil. Transformaram-na numa língua de árvore de cantos, uma 12959 - A queda do céu.indd 154 8/10/15 12:30 PM
  • 157. 155 verdadeira língua de espírito. Foi então que eu pude enfim imitar suas vozes e responder a suas palavras com cantos direitos e claros. Mais tarde, os xapiri vieram juntar novamente os pedaços de meu corpo que haviam desmembrado. Porém recolocaram meu torso e a minha cabeça na parte de baixo de meu corpo e, ao inverso, minha barriga e minhas pernas na parte de cima. É verdade! Reconstruíram-me às avessas, colocando meu pos- terior onde era meu rosto e minha boca onde era meu ânus! Depois, na junção das duas partes de meu corpo recolado, puseram um largo cinturão de penas multicoloridas de pássaros hëima si e wisawisama si. Também trocaram minhas entranhas por vísceras de espíritos, menores e de um branco deslumbrante, enroladas com delicadeza e cobertas de penugem luminosa. Depois substituí- ram minha língua pela que tinham consertado, e fixaram em minha boca den- tes tão belos quanto os deles, coloridos como a plumagem dos pássaros sei si. Também trocaram minha garganta por um tubo, que chamamos purunaki, para eu poder aprender a cantar seus cantos e a falar com clareza. Esse tubo é a laringe dos espíritos. É dele que vem o sopro de suas vozes. É uma porta pela qual nossas palavras podem sair belas e direitas. Tudo aconteceu exatamente como eu contei até agora. Eu tinha acabado de tomar yãkoana com um grande xamã, meu sogro, pela primeira vez. Os espíritos tinham me posto à prova antes mesmo de eu conhecê-los de verdade. Porém, apesar dos ferimentos dolorosos que me haviam infligido, eu conti- nuava vivo. Meu sangue não tinha escoado e eu nem conseguia ver as feridas que tinham me obrigado a suportar! Então, assim que eles recompuseram as partes de meu corpo, meu pensamento começou a desabrochar de novo. Senti- -me acordar, imerso no perfume forte da tinta de urucum com que me tinham pintado e na fragrância de suas plantas mágicas yaro xi e aroari. A tropa dos xapiri recém-chegados permanecia junto a mim, todos imóveis, no brilho de seus adornos magníficos. Tinham concluído sua dança de apresentação. Ago- ra estavam ansiosos para construir uma casa nova na qual pudessem se instalar! 12959 - A queda do céu.indd 155 8/10/15 12:30 PM
  • 158. 6. Casas de espíritos Habitação, espelhos e caminhos dos espíritos. 12959 - A queda do céu.indd 156 8/10/15 12:30 PM
  • 159. 157 Quando se morre pela primeira vez sob efeito da yãkoana, os xapiri que vieram fazer sua dança de apresentação para nós ainda não têm casa onde possam se instalar. Depois de terem cantado e dançado por muito tempo, ficam de pé, ou agachados, pensando: “Hou! Se este lugar continuar vazio, se não houver habitação para receber-nos, não ficaremos aqui!”. Por isso nossos xa- mãs mais velhos fazem dançar em primeiro lugar os xapiri que vêm abrir a clareira onde será erguida a casa de espíritos do iniciando. Vêm primeiro as imagens das aves que sabem varrer o solo da floresta para buscar alimento: espíritos dos jacamins, dos cujubins, dos mutuns, dos inhambuaçus, e também das perdizes pokara, bem como das aves formigueiras makoa hu e maka wati- xima. Em seguida, para limpar os detritos e a poeira da clareira que acabou de ser aberta, chegam os espíritos das folhas, dos cipós, das árvores e das raízes, e depois os do vento iprokori, da brisa wahariri e das águas. Ao final, os xapiri das pedras e dos cupinzeiros espalham penugem branca por toda parte. Todos esses primeiros espíritos se sucedem assim, dançando de modo desajeitado, um após o outro, em grande número. Acotovelam-se e atropelam-se numa grande confusão. Não possuem verdadeiros cantos, só têm língua de fantasmas. Não conhecem as verdadeiras palavras da floresta, pois estão próximos demais de- la. Esses primeiros xapiri vêm apenas preparar o terreno para a nova casa de espíritos a ser edificada. Por isso, assim que termina sua dança de apresentação, desaparecem logo nas alturas do céu. Os xamãs mais velhos que nos fazem beber o pó de yãkoana devem então afastar do lugar vários espíritos ruins. Devem primeiro espantar os espíritos repugnantes das lesmas warama aka. Mas devem também repelir os espíritos de casa, como os das cinzas yupu uxiri, dos tições wakoxori, das redes de algo- dão rio kohiri, dos cestos de carga wiiri1 e dos aventais pubianos pesimari. De fato, se todos esses espíritos de casa viessem dançar para o iniciando, os verda- deiros xapiri se recusariam a chegar perto dele e fariam fracassar sua vontade de se tornar xamã, pois tais espíritos são incapazes de combater os seres malé- ficos e suas mãos não têm habilidade para curar. Assim é. Logo que a clareira é aberta e seus entornos estão protegidos, outros xa- piri começam a descer das lonjuras, trazendo consigo a nova casa de espíritos do iniciando, já toda construída. Os espíritos macaco-aranha seguram e puxam a ponta de seu teto, para enganchá-la no peito do céu. Os espíritos celestes hutukarari sustentam todo o seu peso, enquanto os espíritos do vendaval ya- 12959 - A queda do céu.indd 157 8/10/15 12:30 PM
  • 160. 158 riporari a empurram em direção ao zênite. Todos esses xapiri trabalham duro, todos juntos, pois os postes de uma casa de espíritos são feitos de árvores com- paradas às quais as da floresta parecem bem mirradas! Seus troncos são imen- sos, inteiriços, e seu peso é enorme. Não se trata de meros postes de madeira cuja base acaba apodrecendo, como os de nossas casas. São resistentes como barras de metal. São estacas do céu, e pesam tanto quanto ele. Os xapiri, apesar de serem minúsculos, conseguem levá-los nos braços erguidos acima da cabeça. Vão se juntando, cada vez mais numerosos, dançan- do devagar, de frente para trás, na clareira em que irão depositar a nova casa. Soltam volumosos clamores de esforço e alegria, acompanhados pelas estridu- lações agudas de suas flautas de bambu.2 Depois vão pouco a pouco aproxi- mando do céu a cumeeira das estacas que formam o teto, e os espíritos macaco- -aranha, já pendurados naquelas alturas, içam-na para junto de si. É muito difícil, porque essas imensas estacas balançam na violenta ventania celeste. Oscilam, pesadamente, de um lado para o outro. Os xapiri têm de se esforçar muito para diminuir seu movimento. Lançam gritos de alerta no meio do tu- multo: “Aë! Aë! Vamos derrubar, vamos cair, cuidado!”. Tudo isso é muito apavorante. Só os espíritos são capazes de fazer algo assim. Por fim conseguem enfiar a ponta das estacas do teto no peito do céu com tal vigor que o perfuram com um enorme estalo. Nesse momento, os espíritos macaco-aranha pegam suas extremidades e as torcem, para amarrá-las juntas, com cordas besuntadas de piche celeste. Os espíritos preguiça enfiam ali pre- gos, atirados com suas espingardas, enquanto os espíritos dos ancestrais bran- cos napënapëri as mantêm imobilizadas, com longos espetos de metal. Quando terminam o seu trabalho, a nova casa de espíritos está firmemente presa no peito do céu pelo teto. Seus postes não podem mais balançar com estrondo no vazio. Os espíritos da aranha warea koxiki então a cobrem rapidamente com folhas trazidas em grandes fardos pelos espíritos tamanduá-bandeira. Por fim, toda ela é enfeitada com motivos desenhados pelos espíritos da jiboia. É assim que acontece. Os xapiri que trabalham para trazer uma nova casa de espíritos são poucos, e eles partem assim que terminam seu trabalho. Mais tarde, são outros xapiri, vindos de todos os lados da floresta, do céu e do mundo debaixo da terra, que virão nela dançar e se instalar. Essas casas de espíritos não são erguidas na terra como as nossas, e tam- pouco são construídas da mesma maneira. São mesmo outras! Os xapiri, en- 12959 - A queda do céu.indd 158 8/10/15 12:30 PM
  • 161. 159 viados por Omama, trazem-nas consigo de muito longe, já prontas, com seus postes e o seu teto já amarrados. Porém, como temem poeira e sujeira, não dançam no chão dessas casas, como fazemos nas nossas. A praça central delas parece uma vasta superfície de vidro limpo, liso e cintilante. Os ancestrais dos brancos há muito tempo resolveram imitar esse vidro dos espíritos, por isso seus filhos e genros continuam a fabricá-lo. Em sua língua, dizem que é trans- parente. Nós dizemos que possui valor de brilho, në mirexi. Os espelhos dos xapiri também são muito frágeis. Por isso os xamãs protestam se alguém bate o pé com muita força ao lado deles, perto do lugar onde estão fazendo dançar os espíritos. Os xapiri detestam esses ruídos surdos, que lhes dão a impressão de que se quer afugentá-los. Eles podem se irritar e ferir quem se encontrar nos arredores. Eles têm também horror da imundície do chão, como eu disse, e por isso só se deslocam sobre espelhos cobertos de penugem resplandecente e per- fumados de tinta de urucum. Quando os chamamos para repelir os seres ma- léficos ou a epidemia xawara, não são suas casas inteiras que descem a nós. Somente seus espelhos, que ficam suspensos nos ares, sobre os quais fazem sua dança de apresentação. Os xapiri que virão morar na nova casa de espíritos trazida para um jovem xamã não vêm se instalar sozinhos, por iniciativa própria. Os xamãs mais ve- lhos que sopram o pó de yãkoana nas narinas do iniciando devem primeiro mandar seus próprios xapiri chamá-los. Para esse fim despacham as imagens do galo-da-serra, da pomba e do pássaro tãrakoma.3 Só elas sabem como con- vidar os demais xapiri, que não respondem a nenhum outro chamado. Esses emissários viajam para longe, passando de uma casa de espíritos a outra, para convidar seus moradores e animá-los a virem com eles. Partem ao seu encon- 12959 - A queda do céu.indd 159 8/10/15 12:30 PM
  • 162. 160 tro cheios de ânimo, em todas as direções onde possam encontrá-los. Intriga- dos, os outros xapiri que os veem passar lhes perguntam: “O que estão fazendo? Para onde vão assim tão alegres?”. Os espíritos mensageiros aproveitam então para estimulá-los a se juntar a eles, e descer até o rapaz que está bebendo yãkoa­ na. Fazem diálogos de convite hiimuu4 com seus grandes homens, para con- vencê-los a se instalar em grande número na nova casa de espíritos do inician- do. Louvam a beleza da habitação e os incitam a acompanhá-los: “Venham todos! Não estão ansiosos para vir conosco? Venham fazer sua dança de apre- sentação na casa de nosso pai! É a vez dele de se tornar xamã!”. Os xapiri convidados então respondem alegremente: “Awei! Belas palavras, essas! Vamos todos com eles!”. E vão formando um grupo cada vez maior. São as mulheres xapiri que incentivam os espíritos masculinos a dançar na nova casa de espíritos, assim como são nossas mulheres que, muitas vezes, nos convencem a comparecer a uma festa reahu. Quando as mulheres se entusias- mam, os homens, mesmo que sejam preguiçosos ou rabugentos, acabam também se alegrando! Acontece o mesmo com os xapiri. Eles só se animam quando se- guem as mulheres-espírito, como eu disse. Por isso o xamã mais velho que inicia um jovem faz descer essas mulheres xapiri primeiro, com seus feitiços amorosos e perfumes inebriantes. Assim que elas passam diante dos homens xapiri, eles se apaixonam por elas e começam a segui-las, dançando com todo o ardor. Os demais espíritos escutam sua algazarra eufórica, como os convidados a uma festa reahu, em seu acampamento na floresta, escutam de longe a vozearia de seus anfitriões.5 Como eles, ficam sem sono, impacientes para fazer sua entrada dançando sobre o espelho da nova moradia e pendurar nela suas redes. As mu- lheres xapiri, no entanto, só aceitam vir dançar se a casa de espíritos de um iniciando estiver realmente pronta para recebê-las. Como as esposas de nossos convidados, elas são muito prevenidas! Não querem se arriscar a tomar chuva numa clareira recém-aberta nem pisar no solo lamacento de uma construção em andamento! Se a habitação destinada a acolhê-los ainda estiver inacabada, ou se se sentirem apertados nela, os xapiri ficam muito desgostosos e se retiram sem mais tardar. Furiosos por terem sido enganados, desaparecerão para sempre. Em compensação, se a nova casa for ampla e bela, ficam ansiosos para dançar e morar nela. Então afluem por inúmeros caminhos que descem de 12959 - A queda do céu.indd 160 8/10/15 12:30 PM
  • 163. 161 onde o céu se aproxima da terra. São as trilhas que nossos grandes xamãs de outrora abriram para eles. Os espíritos se deslocam por eles com muito barulho, cortando tudo em sua passagem com fúria. A terra voa em pedaços e as árvores tombam com estrondo atrás deles. A força e a violência de sua marcha fazem nosso ventre cair de pavor. Porém, apesar desse tumulto, começa-se a perceber a aproximação de sua algazarra e depois, cada vez com mais nitidez, o som melodioso de suas vozes. Pode-se então distinguir os cantos magníficos dos espíritos dos sabiás yõrixiama, dos japins ayokora e dos pássaros sitipari si. Então os xapiri acabam se revelando a nossos olhos aterrorizados. Brandem imensos sabres, projetando raios de luz em todas as direções, como se agitassem espelhos à sua volta. Avançam numa luminosidade ofuscante, como a dos faróis dos carros à noite. É por isso que muitos rapazes ficam com medo e desistem para sempre de se tornarem xamãs. Por fim, os espíritos se agrupam em torno da nova casa do iniciando e vão entrando, um a um, pela porta onde desemboca seu caminho, como fazem visitantes por ocasião de uma festa reahu. Começam então sua apresentação no espelho da praça central, com movimentos muito lentos. Cada um dança e canta a seu modo. São enfeitados como convidados, o corpo pintado de uru- cum e decorado com desenhos pretos, braçadeiras cheias de caudais de arara- -vermelha e cabelos cobertos de penugem branca reluzente. Dançam numa luz resplandecente, agitando graciosamente palmas novas desfiadas, de um ama- relo brilhante. Entoam sem parar, um depois do outro, cantos muito bonitos. Sopram com energia em suas finas flautas de bambu e soltam gritos de alegria. O ritmo poderoso de seus passos bate no chão com golpes surdos. No tumulto e na luz cintilante, sua pintura de urucum exala um perfume inebriante. De- pois, de repente, tudo para e volta o silêncio. Uma vez acabada sua dança de apresentação, os xapiri começam a se ins- talar em sua nova casa, amarrando suas redes nas estacas. Alguns, no entanto, só encostam nelas, enquanto outros se penduram na parte mais alta ou se ins- talam no chão mesmo. Continuam usando seus adornos de penas e suas faixas de rabo de macaco cuxiú-negro ao redor da testa. Mas depositam a seus pés suas flautas de bambu, seus facões, os cestos sakosi que contêm seus cantos e as folhas de palmeira que agitavam em suas danças. Quando a casa é espaçosa, eles se 12959 - A queda do céu.indd 161 8/10/15 12:30 PM
  • 164. 162 instalam primeiro na base dos postes, depois vão se amontoando em fileiras cerradas, incontáveis, até o topo. Contudo, mais tarde, conforme novos espíritos, cada vez mais numerosos, continuarem a chegar, essa primeira casa não será suficiente. Será preciso ampliá-la sempre, para que os novos possam se instalar. Assim, pouco a pouco, outras habitações anexas serão acrescentadas, em cima dela ou coladas nas laterais, empilhadas umas sobre as outras, como vespeiros.6 Por isso as casas de espíritos dos grandes xamãs chegam a ser tão altas e vastas, escoradas em incontáveis postes, altos como árvores komatima hi e aro kohi. No começo, quando os xapiri de um jovem xamã ainda são recém-chega- dos, sua primeira casa é baixa e estreita. Não podem juntar-se nela em grande número, e nem vale a pena chamar outros. Contudo, foi o que eu fiz! No co- meço, eu era ignorante e impaciente. Queria obter xapiri demais de uma só vez. Por isso, vários dos que vieram a mim naquele momento logo fugiram, dizen- do: “Espere! Você ainda é jovem! Voltaremos para dançar mais tarde! Não seja tão impaciente!”. Assim é. Conforme vai ganhando idade, um xamã con- tinua chamando novos xapiri e, com isso, sua casa de espíritos não para de crescer. Aos poucos outras habitações vão se juntando a ela, arrimadas umas nas outras de todos os lados. Por isso, com o tempo, a casa de espíritos de um xamã antigo se parece com os edifícios de uma cidade grande e pode ultrapas- sar as costas do céu. Nessas habitações, os xapiri não se misturam. Na casa dos espíritos da anta, só moram espíritos desse animal, acompanhados de seus genros, os espí- ritos dos pássaros herama e xoapema. Os espíritos do vendaval yariporari e os dos trovões yãrimari também moram juntos. Mas na moradia dos espíritos sapo yoyo, só há espíritos yoyori. Numa vasta casa de espíritos, feita de várias habitações coladas umas às outras, há muitas portas: a dos espíritos zangão remoremo moxi, a dos espíritos sucuri e, na parte de baixo, a dos espíritos do caos Xiwãripo. No alto ficam as dos espíritos gavião koimari e dos espíritos raio yãpirari. Quando essas portas são muito estreitas, os xapiri logo se põem a aumentá-las a golpe de facão, para poder entrar em maior número! Cada uma dessas habitações tem um único nome de espírito, mas os que nela vivem, todos semelhantes, são inúmeros. Esse nome é o nome da casa e do espelho dos xapiri, é o enfeite deles.7 São tantos quantos os nomes de espíritos. Assim, têm nome o espelho do espírito jiboia, o do espírito onça, o do espírito tatu e o do espírito cutia. Existem também os dos espíritos japim ixaro e napore, 12959 - A queda do céu.indd 162 8/10/15 12:30 PM
  • 165. 163 os dos espíritos tucano e morcego, do espírito abelha koxoro e do espírito cigar- ra, bem como os dos espíritos lagarto ou minhoca. E ainda o espelho do espírito da noite Titiri, o da gente das águas yawarioma, do espírito fantasma dos xamãs, Poreporeri, do espírito guerreiro Aiamori. Mas existem além disso todas as mo- radias de espíritos que nos deram os nossos vizinhos Xamath ari.8 Antigamente, nossos maiores conheciam os xapiri deles mas não os imitavam. Foi só depois de terem experimentado seu pó paara, quando eu ainda era criança, que nossos pais finalmente escutaram os cantos desses novos xapiri. Por isso eles agora instalam suas habitações ao lado das nossas casas de espíritos. Ocorre o mesmo com os xapiri da gente das terras altas, que nossos ancestrais conheciam, ao contrário, desde o tempo de Omama. Numa casa de espíritos, as habitações dos espíritos maléficos de um gran- de xamã ficam penduradas no ponto mais alto do teto, para além das costas do céu, ao passo que as de seus espíritos bons estão situadas na parte de baixo, no peito da casa. Os xapiri famintos de carne humana devem ser mantidos à dis- tância, pois são muito perigosos e ferozes. Poderiam atacar os parentes de seu pai. Nossos mais antigos xamãs, que são os únicos a tê-los, só os fazem descer para vingar a morte de nossos filhos que são devorados por xamãs inimigos de longe.9 São as imagens do gavião Koimari, da sucuri, da cobra waroma kiki e da onça; e também as do ser da seca, Omoari, de seus genros, os espíritos ci- garra e borboleta, e de seus cães de caça, os espíritos lagarta.10 E ainda as ima- gens do ser sol Omamari, do vendaval, do raio e da lua; dos fantasmas dos xamãs mortos, dos espíritos mosca e urubu e das lagartas venenosas kraya. Contudo, nem todos os espíritos do topo da casa são maléficos. Lá se encon- tram também os espíritos das abelhas koxoro e õi e o de seu dono, o pássaro maihiteriama, que viaja com elas bem alto no céu para guerrear contra os seres das doenças e das epidemias. As habitações dos demais ancestrais animais que sabem curar ficam todas a meia altura. Em compensação, embaixo de tudo estão as habitações dos xapiri que chegaram primeiro: são as imagens dos sa- pos, árvores, folhas e cipós. Finalmente, as dos espíritos macaco-aranha, dos macacos cuxiús-pretos, das araras-azuis e dos gaviões kopari ficam um pouco afastadas da casa, acima dela, pois estes estão encarregados de vigiar as redon- dezas para protegê-la de ataques de xapiri inimigos. 12959 - A queda do céu.indd 163 8/10/15 12:30 PM
  • 166. 164 Os tetos das casas de espíritos, como eu disse, não são feitos de palmas paa hana como as nossas. São cobertas com folhas sólidas, brilhantes como espelhos e salpicadas de penugem luminosa. Foi assim que Omama as criou no primei- ro tempo. Por isso são tão esplêndidas! Todavia, sua cobertura também se es- traga. Suas folhas murcham, enegrecem e se desmancham, como as de nossas casas. Se não forem trocadas, e os xapiri tiverem de viver numa casa arruinada, em silêncio e famintos, seu pai acaba adoecendo. Então os outros xamãs deve- rão tratá-lo e consertar o teto danificado de sua casa de espíritos. Do mesmo modo, quando um xamã fica muito velho, eles precisam arrancar os antigos postes da casa de seus xapiri, cujas bases estão podres, para substituí-los por peças de madeira nova. Nunca é bom para um xamã descuidar de sua casa de espíritos. Quando fica deteriorada e enegrecida pela fumaça, ou o chão em volta dela fica coberto de cipós de cabaça pora axi, como o local de uma casa abandonada, ele pode ficar muito doente. Alguns de nossos maiores chegaram a morrer por causa desse abandono. Sabemos disso e estamos atentos. A morte sabe se aproximar com prontidão do xamã que deixa a sua casa de espíritos envelhecer sem mo- tivo. Por isso, ele deve se dedicar o tempo todo a cuidar de sua manutenção. Para manter boa saúde, deve renovar seu teto de folhas e limpar bem sua cla- reira quando é preciso. Mas isso não é tudo. É também necessário que ele dê de beber yãkoana com frequência aos espíritos que a habitam. Caso contrário, eles fugirão e sua moradia, uma vez abandonada, envelhecerá por si só, vazia e silenciosa. Os xapiri não permanecem na sua casa se seu pai não cuidar bem deles. Não basta chamá-los e deixar que se instalem sem se preocupar com eles. Se são abandonados sem comer, se não puderem dar a ouvir seus cantos ou forem incomodados pelo barulho, pelo cheiro de podre e de fumaça, não de- moram a partir, deixando para trás apenas redes vazias. Assim é. Deve-se tam- bém cuidar de fazer descer e dançar os xapiri jovens depois dos mais velhos que, no começo, quando de nossa iniciação, foram os primeiros a chegar. Assim o xamã também evita envelhecer depressa demais. No começo, como outros, eu pensava que os xapiri moravam no peito dos xamãs. Mas estava errado, não é verdade. Suas casas não podem se situar tão perto da terra, ao alcance de nossa fumaça e de nossos fedores! Ficam noutro lugar, penduradas bem alto no peito do céu. Por isso os xapiri podem contem- plar a floresta toda, por maior que seja. Das alturas em que estão, nada escapa 12959 - A queda do céu.indd 164 8/10/15 12:30 PM
  • 167. 165 a seus olhos, nem nos confins da terra e do céu. Na verdade, são as imagens deles, e as de seus espelhos, que moram no peito dos xamãs.11 Assim é. Uma casa de espíritos nada se assemelha a uma casa comum. Seus esteios imitam o interior do peito do xamã, o pai dos xapiri.12 As clavículas de seu torso são as vigas que sustentam o círculo do teto. Seus quadris são a base dos postes que a assentam no chão. Sua boca e garganta são a porta principal. Seus braços e pernas são os caminhos que conduzem a ela. Seus joelhos e cotovelos são cla- reiras-espelhos, onde os espíritos fazem uma parada antes de entrar. Assim, se um xamã for muito magro e seu peito estreito demais, a casa de seus espíritos será apertada. Não poderão aumentar. Será preciso ampliá-la, rasgando-a para que novos xapiri possam nela se instalar. Casa de espíritos pequena demais não dá nada de bom. Precisa ser grande como uma monta- nha.13 Por isso, quando uma pessoa enfurecida quer insultar um xamã, dispara: “Seu peito é oco! Você diz que tem muitos xapiri mas é mentira. Você é fraco e sua casa de espíritos é estreita demais, atulhada e sombria!”. É também por isso que, quando o peito de um rapaz é amargo, salgado e enfumaçado, os xapiri o consideram sujo e se recusam a mudar-se para lá. Quando, ao contrá- rio, o torso de um iniciando é largo, assim será sua casa de espíritos e os xapi- ri serão muito numerosos para vir dançar nela. E se o novo xamã for mesmo corpulento, ela será imensa, como o edifício das Nações Unidas.14 Quando a pessoa é jovem e quer beber yãkoana pela primeira vez, ainda não sabe nada dos xapiri. Os xamãs mais velhos dizem apenas: “Venha se aga- char do meu lado! Os espíritos virão a você, farão sua dança de apresentação!”. Depois, sopram o pó que prepararam em suas narinas. Então, com muito medo de virar fantasma, a pessoa se pergunta, aflita: “O que vai acontecer comigo?”. Depois, os iniciadores chamam os xapiri para ela e, derrubada pela força da yãkoana, com o olhar fixo nas alturas, de repente seu pensamento se abre. Co- meça enfim a ouvir os cantos dos espíritos e, pouco depois, eles começam a se revelar a seus olhos. Foi desse modo que os grandes xamãs de minha casa me deram seus xapiri e os fizeram construir sua casa para mim. Foram mesmo muito generosos! É bem verdade que senti muito medo, às vezes. Apesar disso, continuei, sem nunca querer desistir. Bebi yãkoana sem trégua. Meu pensamen- to estava concentrado em seu poder, pois tudo o que eu queria era ver os espí- 12959 - A queda do céu.indd 165 8/10/15 12:30 PM
  • 168. 166 ritos. E quando finalmente pude admirar sua dança de apresentação, isso me encheu de alegria! Disse a mim mesmo: “Eis aí então, os xapiri que nossos an- cestrais faziam descer desde o primeiro tempo! Agora eu realmente os vi, com meus próprios olhos!”. Após terminar de beber yãkoana com meu sogro, meu corpo foi lavado com água quente e coberto de pintura de urucum. Enquanto isso, os espíritos continuavam a me visitar dançando, e eu falava com eles em silêncio. Conhecia ainda muito pouca coisa, e não sabia como fazer. Perguntava a mim mesmo: “Como devo cantar? É assim mesmo?”. Não estava nem um pouco seguro de mim! No começo, como eu disse, não se enxergam bem os espíritos, e é beben- do yãkoana mais e mais que se consegue vê-los com nitidez. E assim fui con- tinuando a aprender, do mesmo modo que os brancos estudam, de aula em aula, para meu pensamento ficar de fato direito. Comecei a tomar yãkoana sozinho, durante a tarde, e depois recomeçava no dia seguinte, e nos outros ainda. Continuava assim sem trégua, dias inteiros. Foi desse modo que, aos poucos, fui começando a entender as palavras dos xapiri e que meu pensamen- to pôde aprender a se estender em todas as direções. Desde então, os espíritos da floresta e do céu não pararam mais de vir a mim. Depois de ter bebido yãkoana pela primeira vez, é preciso seguir se com- portando sem desvios para continuar a ver os xapiri. De modo que principian- tes imprudentes logo os espantam, pondo-se a comer com gula carne de caça assada ou querendo recomeçar a namorar de imediato. Então, os espíritos que tinham vindo a eles alegres e dispostos lhes darão as costas, enjoados e furiosos: “Hou! Como ele é nojento! Está pensando que vamos morar no meio desse fedor horrível!”. Também é preciso sempre alimentar os xapiri com zelo. Se ficarem sem comida, protestam enraivecidos contra o jovem xamã: “Ele nos mata de fome! Nunca bebe yãkoana! Deve ser porque não nos quer de verda- de!”. E assim desaparecem logo, à revelia daquele que os tinha chamado. O xamã iniciante fica pensando que eles ainda moram em sua casa de espíritos, mas não é nada disso. As redes dos xapiri que tinha recebido já ficaram vazias. Deles só restam palavras em sua boca! Por mais que continue fingindo evocar seus nomes, fala apenas de redes rejeitadas e enfeites abandonados. Os verda- deiros espíritos já estarão muito longe, de volta às montanhas de onde haviam descido. O xamã mais velho que os dera sabe muito bem que eles deixaram o iniciando. Repreende-o: “Hou! Você espantou meus xapiri! O que você fez? 12959 - A queda do céu.indd 166 8/10/15 12:30 PM
  • 169. 167 Não sabe? Seu peito fede a queimado e pênis, é por isso!”. Assim ninguém pode fingir ignorância e se perguntar: “Como é possível que meus espíritos tenham fugido?”. Depois de ter sido posto à prova pela força da yãkoana, aquele que quer se tornar xamã deve continuar a bebê-la sozinho, sem parar. Caso contrário, não conseguirá. Mesmo quem tem um pai xamã que lhe dá seus próprios es- píritos, se não responder a eles com empenho, não dá em nada. Se eu não ti- vesse continuado a tomar yãkoana com determinação, sem o apoio de meus parentes mais velhos, tudo estaria terminado para mim. Logo teria voltado à minha fala de fantasma! Não teria mais sido capaz de responder aos cantos dos espíritos. Então, as pessoas de minha casa teriam começado a pensar: “Que mentiroso! Nunca revela nenhuma palavra das terras distantes de onde descem os xapiri! A boca dele fala sem saber nada. Só faz imitar o poder da yãkoana! Seria melhor calar a boca e ficar cochilando na rede!”. Quando um jovem xamã só consegue balbuciar seus cantos, é o que as pessoas acham. E se apenas can- tarolar sem dizer uma palavra, não tardarão a caçoar dele: “Ele só tem espíritos de folhas e de cupinzeiros! Só sabe chamar xapiri de brasa de fogueira ou de cesto de mulher! Não sabe nos dar a ouvir a língua dos ancestrais animais!”. Em compensação, se for capaz de trazer em seus cantos falas de lugares distan- tes, quem o escutar ficará mais sábio por isso e pensará: “É verdade! Ele faz mesmo dançar os espíritos, ele os conhece de verdade! Traz até nós dizeres vindos de outras terras, que desconhecemos!”. Gente comum tem medo do poder da yãkoana e não pode ver os xapiri dançando e trabalhando. Ouvem somente as palavras de seus cantos. É por isso que quando viramos espíritos, os moradores de nossa casa e os nossos hóspedes prestam atenção. Parecem estar concentrados em suas ocupações, mas não ficam indiferentes ao que ouvem. Pensam: “Haixopë! É assim mesmo! Se eu fosse xamã, trabalharia como eles! Eles veem e falam de coisas que nós não conhecemos!”. Até quem está comendo presta atenção nos cantos dos xamãs. Todos querem escutar as palavras dos espíritos que carregaram suas imagens para os confins da floresta e do céu, ou para além das águas até a ter- ra dos ancestrais dos brancos.15 Esses lugares parecem estar fora do alcance da visão de fantasma dos humanos. Mas os xapiri, que de lá descem num instan- te, não param de descrevê-los em seus cantos. 12959 - A queda do céu.indd 167 8/10/15 12:30 PM
  • 170. 168 É assim que os xamãs revelam aos que as desconhecem as coisas que viram em estado de fantasma, acompanhando o voo de seus espíritos. Suas palavras, inumeráveis, possuem valor muito alto. É por isso que eles as dão a ouvir por tanto tempo, uma após a outra. Ao verem suas imagens, evocam as palavras dos ancestrais tornados animais no primeiro tempo, as da gente do céu e do mundo subterrâneo e as palavras de Omama, que deu os xapiri ao seu filho, o primeiro xamã. Essas falas dos espíritos se parecem com as palavras das rádios, que dão a ouvir relatos vindos de cidades remotas, do Brasil e de outros países. Quem as escuta pode então pensar direito e dizer a si mesmo: “É verdade! Esse homem virou mesmo espírito! Desconhecemos realmente as palavras que seus cantos revelam!”. Assim é. Não viramos espíritos sozinhos, para nós mesmos! Todos escu- tam com muita atenção as palavras dos xapiri: adultos, jovens e até crianças. As pessoas comuns não sabem nada dos lugares que os espíritos evocam. Seu entendimento é curto demais. Por falta de ver os espíritos em sonho, seus pensamentos não são muitos e nunca se afastam muito delas. Ficam gravados em suas caçadas, nos objetos de troca ou nas mulheres que desejam. Só conhe- cem os lugares que eles mesmos visitaram ou nos quais viveram. Assim, quan- do bebem o pó de yãkoana no fim das festas reahu, os rapazes que não são xamãs rolam de medo na poeira, chamando as mães! Em lugar de cantos, só se ouvem deles lamentos e gemidos: “Mãe! Mãe! Jogue água na minha cabeça! Estou virando outro, estou com medo!”. Os xamãs, ao contrário, se esforçam sem trégua para responder aos xapiri. Os cantos dos espíritos sempre estão atrás deles, e nunca os deixam mudos. A pessoa que quer que nossos xamãs mais experientes lhe façam beber yãkoana e lhe deem seus próprios espíritos, precisa querer muito e não mentir. 12959 - A queda do céu.indd 168 8/10/15 12:30 PM
  • 171. 169 Precisa pedir com muita vontade. No começo, a casa que abriga os primeiros xapiri de um iniciando não é nada imponente. Mas, aos poucos, seus iniciado- res fazem vir outros, cada vez mais numerosos, de todas as direções da floresta e do céu. Suas habitações coladas umas nas outras vão formando com o tempo uma morada cada vez maior e mais alta. É nesse momento que o jovem xamã começa a ter sabedoria e a ser capaz de curar os seus. Assim é. Tudo o que eu contei até agora é o que me aconteceu quando, ficando adulto, eu quis fazer dançar os espíritos e pensar direito graças às palavras deles. Disse aos xamãs mais antigos da minha casa: “Quero mesmo fazer descer os xapiri! Ensinem-me seus caminhos!”. Então eles aceitaram me dar de beber o pó de yãkoana e fazer descer os xapiri até mim. Ninguém chama os espíritos sozinho, do nada. Eles jamais chegariam a nós se não tivessem sido convidados por quem os conhece muito bem. Primeiro é preciso pedir àqueles que os tinham bem antes de nós para abrir seus caminhos. Quando esse pedido é feito, aquele que nos dá seus espíritos nos deixa escolher os que preferimos. Depois os vai passando para nós, um por um. Mas se não pedirmos com determinação, demonstrando muita vontade, os xapiri pensam que não os queremos de verdade e se recusam a chegar perto. É desse modo que estudamos para fazer descer e dançar os espíritos. Nos- sos xamãs mais experientes são nossos professores. Fazem-nos beber yãkoana e estão sempre ao nosso lado. São eles que nos dão nossos primeiros xapiri: os espíritos do galo-da-serra, dos tucanos e queixadas; os da preguiça, do jupará e das borboletas. Fazem isso só por generosidade. No entanto, se tiverem von- tade de nos testar, podem nos fazer penar por muito tempo antes de nos per- mitirem ver mesmo os espíritos! Quando nos dão seus xapiri, sopram pó de yãkoana em nossas narinas com seu próprio sopro de vida. De modo que a yãkoana que bebemos não é um mero pó. Com ela os espíritos se lançam para dentro de nós como se fossem grãos de poeira. É assim que obtemos nossos primeiros xapiri. Quando bebe o sopro de vida de um xamã mais velho, a pes- soa sente uma fraqueza súbita e o choque a faz cambalear! E quando se trata de um guerreiro valente, seu sopro de vida nos faz corajosos também. O mesmo ocorre quando é um bom caçador.16 No meu caso, foram o pai de minha esposa e, logo depois, outros antigos xamãs de nossa casa de Watoriki e dos rios Wayahana u e Parawa u que, no começo, se alternaram para me fazer beber yãkoana. Vários deles se foram há 12959 - A queda do céu.indd 169 8/10/15 12:30 PM
  • 172. 170 muito tempo. Para virar outro, preferi pedir o sopro de vida de grandes xamãs. Não quis apresentar meu nariz a moleques que falam dos xapiri sem nem ao menos conhecê-los. Se tivesse feito isso, eu, como eles, só poderia mentir. Eram grandes homens mesmo os que me fizeram ver os espíritos pela primeira vez. Deram-me os seus xapiri com seu sopro de vida e, desde então, guardo esse sopro em mim. Nunca me enganaram. É por isso que os espíritos que me de- ram sempre descem quando os chamo. Continuam cantando e dançando du- rante meu sono, e outros xapiri, órfãos dos antigos xamãs mortos, que os se- guem, vão aos poucos vindo a mim. E assim minha casa de espíritos continua crescendo. Os xamãs que me iniciaram nada me pediram em troca de seus xapiri. Se o tivessem feito, eu lhes teria oferecido facões, redes, panelas e muitas outras mercadorias. Eu estava mesmo decidido a beber yãkoana para poder virar es- pírito como eles. Queria que meu pensamento ficasse direito e se estendesse ao longe por múltiplos caminhos. Queria ganhar conhecimento. Não queria ficar sozinho, desamparado em minha ignorância, depois da morte de nossos mais velhos xamãs. Se os meus parentes mais experientes não tivessem insuflado yãkoana nas minhas narinas, se não tivessem feito entrar em mim o sopro de seus espíritos, eu nunca teria podido virar outro realmente. Se eu tivesse comi- do e copulado sem medida, não teria podido tornar-me xamã como eles. Meu pensamento teria permanecido entupido e eu jamais teria visto os espíritos. Apresentei meu nariz para beber o pó de yãkoana para que meus pensamentos pudessem viajar em todas as direções da floresta e do céu. Queria mesmo ver os ancestrais animais de que meus avós me haviam falado tantas vezes. Assim é. Se eu não tivesse tido essa vontade tão firme, hoje ficaria o tempo todo dei- tado na rede, como tantos outros. Contudo, ao me fazer beber yãkoana, meu sogro me meteu muito medo. Não é um homem corpulento, mas sua valentia é grande e seus espíritos são muito numerosos. Quando, há muito tempo, seus pais e avós morreram, os xapiri deles não foram embora. Instalaram-se todos na casa de espíritos dele. Por isso ela ficou tão grande. Sua ponta ultrapassa de muito as costas do céu! Até mesmo os demais xamãs sentem medo e dizem dele: “É um verdadeiro antigo, um xamã muito poderoso!”. Os espíritos dele me deixaram apavorado. Fizeram-me atravessar o peito do céu de lado a lado, envolvido numa clarida- de ofuscante. Apesar disso, quis voar com eles ainda mais longe. Acabei che- 12959 - A queda do céu.indd 170 8/10/15 12:30 PM
  • 173. 171 gando tão alto que pensei que fosse morrer. De repente, tive receio de não poder mais voltar à floresta e de cair longe, num local desconhecido. Ao me fazer beber yãkoana, o pai de minha esposa quis evitar que eu pensasse que os xapiri são mentira. Ele me pôs à prova mesmo! Fez com que eles cortassem a floresta a meus pés me dando a sensação de cair sem fim. Também os fez retalhar o céu e depois ocultá-lo quase que por completo. Ele não passava então de um pontinho brilhante muito distante, do tamanho de uma mera penugem branca. Cheguei a chorar de pavor! Os espí- ritos podem ser muito aterrorizantes! São seres desconhecidos, por isso. Os xapiri das mulheres das águas e os das mulheres das miçangas waikayoma carregaram minha imagem para bem longe. Fizeram-me correr com elas até o limite de minhas forças, tropeçando na floresta durante dias a fio. Perderam- -me na vegetação emaranhada e só me deixaram voltar para casa depois de anoitecer. Assim foi. Meu sogro não mentiu e não quis fazer de mim um mentiroso. Deu-me realmente o conhecimento dos xapiri. No começo, quando eu ainda não sabia nada a respeito deles, às vezes pensava: “Será que ele está mentindo e nos en- ganando?”. No entanto, depois de ter visto os espíritos com meus próprios olhos, quando ele os fez dançar para mim, minhas dúvidas se foram. Hoje, apenas penso com nostalgia no quanto os nossos maiores eram mesmo grandes xamãs! Por isso eu continuo a querer imitá-los, virando espírito como eles faziam antes de mim. Assim, quando meus familiares adoecem, bebo yãkoana para expulsar seus males. Para curá-los, ataco os seres maléficos que tentam devorá-los, extraio as pontas de flecha de seus duplos animais e afasto as fuma- ças de epidemia xawara que os queimam. Um xamã sempre quer fazer crescer sua casa de espíritos. Se ela ficar es- treita e baixa demais, ele nunca vai ser capaz de curar ninguém. Somente aque- les que possuem uma casa de espíritos muito alta sabem curar, porque seus xapiri são muitos e poderosos. Porém, para que isso aconteça, não basta apre- sentar o nariz aos xamãs mais velhos uma vez só. É preciso recomeçar muitas vezes e isso leva muito tempo. A cada vez, esses grandes xamãs têm de despa- char novamente seus espíritos mensageiros para convidar novos xapiri, que, felizes por serem chamados, virão por sua vez se instalar na casa de espíritos 12959 - A queda do céu.indd 171 8/10/15 12:30 PM
  • 174. 172 do jovem iniciando. Conhecer bem os espíritos nos exige tanto tempo quanto aos brancos é necessário para aprender em seus livros. Cada vez que bebemos pó de yãkoana, os xapiri descem de suas casas fincadas no peito do céu. Vêm a nós dançando sobre seus espelhos, como imagens de televisão. Seguem ca- minhos invisíveis à gente comum, delicados e luminosos como os que os bran- cos chamam de eletricidade. É por isso que seu brilho deslumbrante desapa- rece assim que se rompem. Esses incontáveis caminhos de espíritos vêm de muito longe, mas chegam perto dos xamãs num instante, como as palavras no telefone. Depois de já termos bebido yãkoana muitas vezes com os xamãs mais experientes, e se eles tiverem sido generosos, muitos outros xapiri vêm a nós sem dificuldade, cada vez mais numerosos. Um deles começa a descer sozinho, de muito longe. Depois, vai chamando outros ao longo do caminho, e estes exclamam alegremente: “Nosso pai nos chama! Ele nos quer! Vamos fazer nos- sa dança de apresentação para ele!”. É assim que os xapiri de um jovem xamã vão aumentando aos poucos. Quanto mais ele bebe yãkoana e vai virando outro, sua língua vai ficando mais firme e ele para de falar como um fantasma. É então que as palavras dos espíritos realmente se revelam a ele. Eles não param de entoar seus cantos, um após o outro, conforme ouvem o iniciando respon- der a seus chamados. Assim que um xapiri termina a sua melodia, recua en- quanto outro começa a fazer soar a sua, e assim por diante, sem descanso. Suas palavras, vindas das árvores de cantos dos confins da terra, nunca têm fim. Porém, para que o jovem xamã possa obter tão belos cantos é preciso, como eu disse, que os xapiri substituam aos poucos sua garganta pela deles. De outro modo o iniciando continuaria cantando tão mal quanto os brancos. Tudo isso é tão difícil quanto aprender a desenhar palavras em peles de papel. A mão fica dura no começo, o traço muito torto. É mesmo medonho! Por isso, é pre- ciso afinar a língua para os cantos dos espíritos tanto quanto é preciso amole- cer a mão para desenhar letras. Depois, conforme vamos ficando mais velhos, os xapiri continuam vindo, cada vez em maior número, para nossas casas de espíritos. Nas dos xamãs mais antigos, chegam a descer sozinhos, enquanto eles dormem, depois de terem bebido yãkoana durante todo o dia. Vêm para dançar por conta própria, só porque sentem saudade; já não precisam ser chamados. São espíritos desco- nhecidos, vindos de muito longe, que grandes xamãs mortos fizeram dançar 12959 - A queda do céu.indd 172 8/10/15 12:30 PM
  • 175. 173 antigamente. Os xamãs de hoje os recebem em suas casas de espíritos e os fazem dançar de novo, como haviam feito seus pais e seus avós antes deles. É assim que, desde o primeiro tempo, os xapiri nunca pararam de vir para per- to de nós. 12959 - A queda do céu.indd 173 8/10/15 12:30 PM
  • 176. 7. A imagem e a pele Espíritos guerreiros. 12959 - A queda do céu.indd 174 8/10/15 12:30 PM
  • 177. 175 Os brancos costumam me perguntar por que, um dia, eu decidi pedir aos xamãs mais velhos de nossa casa que me dessem seus espíritos. Respondo que me tornei xamã como eles para ser capaz de curar os meus. É a verdade. Se os xapiri não nos vingassem, afastando os seres maléficos e as fumaças de epide- mia, ficaríamos sempre doentes. Omama, no primeiro tempo, advertiu nossos ancestrais: “Se vocês beberem yãkoana, poderão trazer de volta a imagem de seus filhos capturados por seres maléficos. Se não forem capazes de chamar os xapiri para protegê-los, darão pena diante do sofrimento deles e chorarão sua morte em vão!”. Só os espíritos sabem arrancar o mal do mais profundo de nós e jogá-lo para longe.1 São imortais e muito hábeis em nos curar. É por isso que os apreciamos tanto e os fazemos dançar até hoje. Há muito tempo, antes de os remédios dos brancos chegarem até nós, nossos antigos xamãs contavam apenas com eles para vingar seus familiares, crianças, mulheres ou velhos. Be- biam pó de yãkoana, faziam descer seus espíritos, armavam tocaia com eles para atacar o mal e afugentá-lo.2 É verdade que nem sempre tinham sucesso e, apesar de tudo, algumas crianças acabavam sendo devoradas pelos seres malé- ficos das doenças.3 Não era diferente dos médicos dos brancos, que às vezes tentam tratar as pessoas com remédios que não prestam! Depois do trabalho dos xamãs, as esposas de nossos maiores, que eram muito sábias, também usa- vam plantas de cura da floresta.4 Com elas esfregavam ou banhavam os corpos dos doentes que tinham acabado de escapar da devoração por seres maléficos ou espíritos da epidemia.5 Hoje, é uma pena, são poucas as mulheres que ainda sabem usar essas plantas. As pessoas continuam pensando que só os xapiri podem mesmo curar os doentes, mas contam também com a ajuda dos remé- dios dos brancos. Antigamente, antes de os brancos chegarem à nossa floresta, morria-se pouco. Um ou outro velho ou velha desapareciam, de tempos em tempos, quando seus cabelos já tinham ficado bem brancos, seus olhos cegos, suas car- nes secas e flácidas. Seu peito virava outro, acometido pelo mal da fumaça. Extinguiam-se assim aos poucos, pela simples razão de que já não comiam nem bebiam mais. Morriam como deve ser, em idade muito avançada. Acontecia de feiticeiros inimigos oka matarem um idoso, um rapaz ou uma mulher. Por vezes, mulheres velhas, já querendo morrer, faleciam também dos ferimentos de seu duplo animal rixi, flechado por caçadores distantes. Outras vezes, um convidado enraivecido pegava a terra do rastro dos passos de um de seus anfi- 12959 - A queda do céu.indd 175 8/10/15 12:30 PM
  • 178. 176 triões, a esfregava com plantas de feitiçaria hw ëri kiki e a dava à mordida de uma cobra ou, então, vertia à noite, em sua comida, veneno de pelos queimados de macaco-aranha paxo uku.6 Outras vezes ainda, guerreiros inimigos surgiam e matavam uma ou duas pessoas ao alvorecer, em casa. Mas eram sobretudo os seres maléficos da floresta que tentavam capturar as imagens dos humanos para devorá-las. Eram eles que os xamãs deviam atacar sem trégua para curar os seus. Por mais que os nossos maiores se maltratassem de uma casa a outra com substâncias de feitiçaria, acabavam sempre sarando, pois os xamãs conse- guiam tirá-las de seus corpos e arremessá-las para debaixo da terra. Eram de fato poucas as pessoas pelas quais se ouviam prantos funerários. Os xapiri eram os médicos de nossos antigos, desde sempre. Por isso eu quis por minha vez conhecê-los e possuí-los. Outrora, na floresta não existiam todas as epidemias gulosas de carne humana que chegaram acompanhando os brancos. Hoje, os xapiri só conse- guem conter a epidemia xawara quando ainda é muito jovem, antes de ela ter quebrado os ossos, rasgado os pulmões e apodrecido o peito dos doentes. Se os espíritos a detectarem a tempo, e vingarem suas vítimas sem demora, elas po- dem se recuperar. Esses novos males que os brancos chamam malária, pneu- monia e sarampo, porém, são outros. Vêm de muito longe e os xamãs nada sabem a seu respeito. Por mais que se esforcem para enfrentá-los, nada os atinge. Seus esforços são inúteis e morremos logo, um depois do outro, como peixes envenenados por timbó.7 Os xapiri só sabem combater as doenças da floresta, que conhecem desde sempre. Quando tentam atacar os espíritos da epidemia xawara, que chamamos de xawarari, eles acabam por devorá-los também, como aos humanos.8 Por isso, apesar de os xapiri saberem curar, hoje em dia os xamãs também precisam contar com o auxílio dos remédios dos brancos para manter essas doenças longe de nós. Nós, xamãs, continuamos bebendo yãkoana para que os xapiri se alimen- tem por nosso intermédio. Se não comem yãkoana, esfomeados e enfurecidos, não dançam mais para nós. Para que o façam, é preciso que, como nós, seus pais, possam morrer e virar fantasmas. Eles só vêm a nós depois de terem se fartado de yãkoana. Então, seus espelhos descem devagar do peito do céu, antes deles. Aí, param de repente, suspensos nos ares, e assim ficam. Os xapiri vão descendo sobre eles, uns após os outros, fazendo sua bela dança de apre- sentação. São as imagens dos ancestrais animais, de Omama, de sua esposa 12959 - A queda do céu.indd 176 8/10/15 12:30 PM
  • 179. 177 Th uëyoma e de todas as outras mulheres das águas. São os espíritos do céu, dos trovões e do sol; os dos antigos brancos, os napënapëri, e muitos outros. Então, seus pais, os xamãs, imitam-nos um a um, cantando e dançando. Eles mesmos viram espíritos. Os xapiri se deslocam flutuando nos ares a partir de seus espelhos, para vir nos proteger. Ao chegarem, nomeiam em seus cantos as terras distantes de onde vêm e as que percorreram. Evocam os locais onde beberam a água de um rio doce, as florestas sem doenças onde comeram alimentos desconhecidos, os confins do céu onde não há noite e ninguém jamais dorme. Quando o espírito papagaio termina seu canto, o espírito anta começa o dele; depois é a vez do espírito onça, do espírito tatu-canastra e de todos os ancestrais animais. Cada um deles primeiro oferece suas palavras, para então perguntar por que seu pai os chamou e o que devem fazer. Aí os xapiri ficam empenhados em curar as doenças. Os espíritos cutia, cutiara e paca arrancam o mal fincado nas imagens dos humanos por seres maléficos. Os espíritos dos tucaninhos aroaroma koxi o picotam e os dos pás- saros kusãrã si o despedaçam.9 Os espíritos dos girinos e dos sapos yoyo o resfriam em suas bocas. Os espíritos das mulheres das águas dançam enquan- to embalam as crianças com febre e as banham com suas mãos delicadas, antes de os espíritos da noite as colocarem ao abrigo, na escuridão. As mulheres espíritos das miçangas waikayoma lavam as queimaduras das plantas de feiti- çaria e os ferimentos de flecha. As mulheres espíritos arco-íris hokotoyoma refrescam o corpo dos doentes com água e os espíritos anta lambem suas feri- das. Os espíritos da árvore masihanari kohi lhes dão novas forças. Assim que um espírito acaba seu trabalho, volta para seu espelho e aguarda até os outros terminarem o deles. Pode demorar muito, mas é desse modo que os doentes podem mesmo conseguir sarar. Depois de todos os xapiri terem cantado, uns depois dos outros, e de seu pai tê-los imitado, chega por fim o espírito do anoi- tecer, Weyaweyari, que encerra as danças e permite ao xamã parar de virar outro. Então, todos os seus espíritos voltam para o peito do céu com seus es- pelhos, levando consigo todos os magníficos cantos dos quais têm tanto ciúme. Quando nos encontram na floresta, os seres maléficos në wãri nos consi- deram como suas presas.10 Veem-nos como macacos-aranha e a nossos filhos 12959 - A queda do céu.indd 177 8/10/15 12:30 PM
  • 180. 178 como papagaios. É verdade! É o nome que nos dão. De modo que nunca pode- ríamos sobreviver sem a proteção dos xapiri, que os në wãri temem como ini- migos ferozes. Quando o tempo está encoberto e, de manhã, a escuridão demo- ra a levantar, se um desses seres avista um caçador na floresta, logo tenta pegar sua imagem. Leva-a para casa e a guarda numa caixa de madeira ou num gran- de saco, para devorá-la mais tarde. As casas dos në wãri são abarrotadas de mercadorias ardentes e impreg- nadas de vertigem, depositadas ou penduradas de todos os lados. São tantas que dão medo. Essas habitações se parecem com os barracões dos garimpeiros na floresta e com as casas dos brancos na cidade. Quando um desses seres maléficos resolve nos atacar, começamos de repente a gemer de dor em nossas redes. Porém, não é o corpo que ele dilacera com suas garras, e sim a imagem, que mantém presa, escondida em seu antro distante. Então, se os xapiri não forem depressa arrancá-la dele, ele a devora por completo e o doente logo morre. Por isso os xamãs tratam de nos vingar sem demora! Sob o comando de um deles, mais experiente, enviam rapidamente seus xapiri em busca das pegadas do ser maléfico. Quando chegam à sua casa, remexem tudo à procura da imagem da vítima. Derrubam todas as mercadorias que encontram. Quan- do finalmente acham a imagem cativa, eles a libertam e fogem com ela. Quan- do voltam para casa, recolocam a imagem dentro do corpo do doente, que acaba se recuperando. É desse modo que os espíritos trabalham para nos curar! No entanto, para eles custa muito perseguir os seres maléficos, que têm caminhos estreitos, emaranhados e bem escondidos no mato. É preciso ter paciência para procurá-los e ir atrás de seus rastros. Por isso, são vários xapiri que se dedicam a rastrear os në wãri, como os espíritos dos cães de caça e os dos caititu poxe, que farejam suas pegadas e, principalmente, os espíritos gavião koimari, capazes de seguir as pistas mais complicadas, nos ares ou debaixo da terra, no vento e na noite. Mas os xapiri mais habilidosos na perseguição aos seres maléficos são seus próprios genros! Conhecem bem suas trilhas e, como não temem sua hostilidade, são os únicos que podem se aproximar deles facil- mente. Por isso, esses xapiri tomam a frente das expedições lançadas nessas buscas. Tão logo avistam os seres maléficos, fingem começar com eles um diálogo de convite hiimuu, só para ganhar sua confiança. Porém, de repente, começam a golpeá-los com seus facões, seguidos sem demora por todos os outros espíritos que os acompanham. 12959 - A queda do céu.indd 178 8/10/15 12:30 PM
  • 181. 179 De modo que são os genros de Omoari, o ser maléfico da seca, que se aproximam do sogro primeiro: os xapiri cigarra, borboleta e lagarto, e também os espíritos do zangão remoremo moxi, dos pássaros hãtãkua mo, kõõkata mo e õkraheama, bem como do grande lagarto teiú wasikara.11 Mas a trilha de Omoari queima como uma senda de brasas e os espíritos dos sapos yoyo, hwa- th upa e prooma koko têm de ficar jogando nela panelas de água, para os xapiri enviados na perseguição não queimarem os pés. Os espíritos cachoeira porari e os das ariranhas proro e kana, por sua vez, devem também ficar molhando os espíritos sapo, para protegê-los do calor. Por fim, quando os xapiri batedores se aproximam da casa de Omoari a ponto de ficar ao alcance da voz, param e se atocaiam na beira dos caminhos próximos. Então, mal seus genros começam a conversar com o ser maléfico, atacam-no de surpresa, protegidos pelo espí- rito fantasma Porepatari, que lhes dá suas pontas de curare.12 Golpeiam com força a boca de Omoari e quebram seus dentes, para que largue a imagem do humano que capturou. Se ele a tiver escondido, os espíritos macaco-de-cheiro e quati a procuram por toda parte e destroem ruidosamente o interior da casa do raptor. Os demais xapiri agarram e seguram o ser maléfico, torcendo-lhe os braços. Apertam-lhe o pescoço e, por fim, o derrubam no chão. Então, os es- píritos jacaré o golpeiam com seus poderosos facões. Os espíritos macaco- -prego o flecham de todos os lados. Os espíritos dos grandes bichos-preguiça disparam sobre ele com suas espingardas. Os espíritos jupará o esfolam vivo. O espírito do grande escaravelho simotori o cega com um líquido fervente e lhe corta a garganta. Os espíritos maléficos onça o queimam e os espíritos dos lagos yokotori o afogam. É somente ao cabo de todos esses esforços que os xapiri conseguem, finalmente, fazer com que solte a imagem de sua vítima. Então, os espíritos raio rompem as amarras que a prendem, e a libertam. Os espíritos dos pequenos bichos-preguiça e do araçari aroaroma koxi a sus- tentam pelo torso e enxotam as filhas de Omoari que chegam vociferando pa- 12959 - A queda do céu.indd 179 8/10/15 12:30 PM
  • 182. 180 ra acudir o pai. Também quebram as garras de seus cães, e afugentam os seus demais animais de estimação, lagartas kraya e cobras gigantes. Os xapiri saem então correndo, fugindo com a imagem do doente em estado de fantasma. Depois de ela ser levada de volta à sua morada, os espíritos da rã hraehraema a limpam e os espíritos da irara Hoari a banham em água misturada com mel. Os espíritos das mulheres das águas a enfeitam com tufos de penas e os espíri- tos do urucum a cobrem com sua tintura vermelha. Os espíritos veado e onça lambem seus olhos e peito com suas línguas ásperas, para que o doente recobre a consciência. Os espíritos abelha umedecem sua boca ressecada e amarga com água de cura, para que sua saliva volte e ele possa comer de novo. É desse mo- do que os xamãs devem trabalhar para curar as crianças raptadas pelos seres maléficos në wãri. Precisam ser mesmo muito valentes e rápidos. Se seus xapi- ri demorarem a se pôr a caminho, os në wãri já terão começado a devorar a imagem da vítima e será impossível para eles trazê-la de volta incólume. A doença da criança se agrava muito e com certeza ela acaba morrendo. Os xapiri que, com bravura, descem ao nosso chamado para enfrentar os seres maléficos e nos vingar são mesmo muito numerosos! Além daqueles de que falei, há também os espíritos morcego, que têm fogos para se guiar na es- curidão e sopram flechinhas nos olhos dos në wãri, para cegá-los. Os espíritos estrela pirimari mordem seus rins e ventre com os dentes afiados, antes de cortarem seus braços. Os espíritos vespa os flecham, os espíritos do gavião witiwitima namo os dilaceram com suas lâminas afiadas e os espíritos quati os golpeiam com suas bordunas. Os espíritos onça os rasgam em pedaços e os espíritos tamanduá os perfuram com suas presas potentes.13 Os espíritos das árvores aro kohi, apuru uhi, komatima hi e oruxi hi os empurram e derrubam. Os das árvores wari mahi batem neles com toda a força. Com o crânio aberto, cobertos de ferimentos e atordoados, os seres maléficos acabam vacilando. Os xapiri então podem agarrá-los e obrigá-los a largar suas presas. Assim é e não digo tudo isso sem saber. Eu mesmo muitas vezes vi os espíritos dançar antes de ir combater os në wãri. Juntam-se nas alturas do céu antes de atacar, tão alto e em tão grande número que os olhos nem conseguem abarcar! São aguer- ridos e muito valorosos. Por isso só eles são capazes de trazer de volta as ima- gens de nossas crianças capturadas por Omoari, o ser do tempo seco, e também de extrair da vagina de nossas mulheres que ardem em febre o pênis peludo e purulento de Riori, o ser do tempo das cheias. Só eles podem curar aqueles que 12959 - A queda do céu.indd 180 8/10/15 12:30 PM
  • 183. 181 foram flechados pelo ser verme Moxari14 por comer seus restos de frutas po- dres, e correm o risco de ser degolados por seus cães. Só eles, finalmente, po- dem afastar para longe todos esses seres de doença, como faz o espírito da ventania Watorinari, que os varre com seu sopro violento. Contudo, não são apenas os seres maléficos que nos atacam e nos fazem adoecer. Também podemos morrer quando gente muito distante, como os Parahori das altas terras, flecham nossos duplos animais, que chamamos rixi.15 O animal rixi das mulheres é o cachorro do mato hoahoama, e o dos homens o gavião-real mohuma. Esses duplos animais, que são também os de nossos antepassados, vivem na floresta junto de gente desconhecida, no alto rio Pari- ma, perto de uma grande cachoeira chamada Xama si pora, protegida por in- contáveis vespeiros e pelas borrascas de ventos poderosos. Então, se caçadores desse lugar flecharem um animal rixi, o ferimento chega logo até nós e pode matar um morador de nossa casa. Assim é. Só nossa pele fica aqui, deitada na rede. Nosso verdadeiro interior está lá, muito longe dela. Quando o animal rixi de uma pessoa daqui é atingido e tenta fugir correndo ou voando na dis- tante floresta das altas terras, a pessoa fica doente e logo entra em estado de fantasma. Sente de repente uma dor muito aguda no local em que a ponta de flecha entrou no animal, seja ponta de bambu, seja ponta de osso de macaco.16 É por isso que, quando inimigos distantes flecham nossos duplos animais, logo ficamos doentes. Quando isso acontece, os xamãs de nossa casa despacham rapidamente seus xapiri para socorrer o duplo animal que acaba de ser flechado. Seu espíri- to do vendaval se lança sobre os caçadores inimigos para que percam o rumo 12959 - A queda do céu.indd 181 8/10/15 12:30 PM
  • 184. 182 na floresta, enquanto seus espíritos gavião koimari os atacam sem piedade. Então, os espíritos dos macacos purupuru namo acorrem para ajudar e escon- der o animal rixi ferido. Quando fica fora de perigo, arrancam a ponta de flecha de seu corpo e tentam recolocá-lo em sua toca ou ninho. Quando os xapiri vêm socorrer um animal rixi, tratam de levá-lo de volta para junto da grande ca- choeira de águas turbilhonantes, onde vivem seus semelhantes. Mas depois disso ainda é preciso tratar o ser humano que o ferimento do duplo colocou em estado de fantasma. São então os espíritos macaco-aranha e guariba que se encarregam de extrair a ponta de flecha que atingiu o animal rixi. Em seguida a entregam aos espíritos do japim ayokora que por fim a fazem ser cuspida pelos xamãs, à vista de todos. Só assim o doente poderá realmente sarar. Con- tudo, se o duplo não for logo tirado do alcance dos caçadores, pode ser que o encontrem. Se isso acontecer e derem cabo dele com uma bordunada, o doente morre de repente e em seguida seus parentes começam a chorá-lo. Alguns de nós, poucos, querem ser donos de coisas de feitiçaria que cha- mamos hw ëri.17 É gente cuja mão quer deixar um rastro de raiva.18 Quando um deles é convidado a uma festa reahu, esconde essas substâncias em seu estojo de pontas de flechas de bambu. Ao chegar, faz sua dança de apresentação e, depois do anoitecer, começa a revelar sua hostilidade, provocando os anfitriões no decorrer dos diálogos wayamuu.19 Mais tarde, resolve brigar com a esposa de um deles, porque teria rejeitado seus avanços. Então tenta se vingar, tornan- do-a estéril, usando plantas manaka ki e xapo kiki. Pode ainda acontecer que, por despeito, jogue outras feitiçarias sobre um de seus anfitriões, que lhe recu- sou um facão, ou sobre outro, que julgou sovina demais com a comida. Antiga- mente, os maiores maltratavam uns aos outros desse modo com bastante fre- quência. Hoje em dia é mais raro. A maioria de nós não conhece realmente o uso dessas coisas maléficas hw ëri. Até evitamos tocá-las com medo de adoecer- mos nós mesmos! Isso no entanto não impede alguns de nós de querer saciar seu rancor com essas coisas ruins. Assim que um convidado projeta ou esfrega uma feitiçaria hw ëri em um de seus anfitriões às escondidas, ele começa a se sentir mal. Quando acaba a festa reahu, ele sente uma violenta dor de cabeça e em seguida é queimado por uma febre alta. Sua visão fica amarelada, e ele vê a floresta girar diante de seus 12959 - A queda do céu.indd 182 8/10/15 12:30 PM
  • 185. 183 olhos. Fica tonto e suas orelhas começam a apitar. Então, mesmo que ele não consulte logo os xamãs de sua casa, eles entendem por conta própria a gravi- dade da doença e vão querer começar a vingá-lo imediatamente, para destruir o mal que o atingiu.20 Quando isso ocorre, o próprio doente não diz nada. Fica apenas deitado na rede, em estado de fantasma. São os parentes que falam por ele. De modo que quando a mãe ou a irmã de um homem declara, em voz alta, “Osema está muito doente!21 Jogaram nele uma coisa de feitiçaria hw ëri!”, os xamãs que a ouvem prestam atenção e reúnem-se logo para começar a beber pó de yãkoana juntos. Então, assim que seus olhos morrem sob efeito dela, põem-se a procurar o mal dentro do corpo do doente. Quando o encontram, arrancam-no para retalhá-lo, queimá-lo e lançar seus detritos longe, embaixo da terra. Só assim o paciente poderá se restabelecer. O mal dos hw ëri é muito poderoso. Emite um zumbido intenso. Os olhos dos xamãs os veem como enxames de abelhas ou de pernilongos; como uma nuvem amarela e laranja pregada à imagem do doente. Avistam ao mesmo tempo a planta de feitiçaria de que eles provêm, na forma de brotos novos saindo do chão da floresta. Seus xapiri devem então tratar de arrancá-los, apesar do cheiro nauseabundo que têm. Os espíritos tatu- -canastra e queixada os desenraízam e queimam. Os espíritos abelha repoma cavam um buraco no chão,22 pelo qual os espíritos jupará, macaco-aranha e macaco cuxiú-negro jogam seus restos calcinados no chão, para alimentar os vorazes ancestrais aõpatari que caíram embaixo da terra com o céu do primei- ro tempo. Esses restos de coisas de feitiçaria são vistos como caça pelos aõpa- tari, bem como os cadáveres de seres maléficos ou da epidemia destroçados pelos espíritos dos xamãs. Quando os devoram, vingam-nos de todas essas coisas ruins que nos atormentam. Assim, logo que escutam os xapiri trabalhan- do, gritam: “O que vocês vão nos mandar? É caça! Joguem rápido! Estamos muito famintos! É bem gorda, pelo menos?”. Os espíritos então atiram essa comida para debaixo da terra, e os aõpatari seguem sua queda com os olhos, exclamando com avidez: “Caça! Aaa! Olhem só essa carne! Aaa!  ”. Assim que cai na floresta deles, a cortam e comem gulosamente em meio a uma agitação confusa. São mesmo insaciáveis, e não compartilham nada entre eles. Tanto que é comum ouvirmos uma de suas velhas, Okosioma, chorando de fome porque não lhe deram tripas de caça! Seus dentes são afiados como lâminas de ferro. Não são humanos mesmo! No entanto dizem que somos seus antigos 12959 - A queda do céu.indd 183 8/10/15 12:30 PM
  • 186. 184 parentes que ficaram acima deles. Do mundo de baixo, ouvem os discursos hereamuu de nossos grandes homens como se fossem trovoadas vindo do céu,23 do mesmo modo que ouvimos as arengas dos seres trovão saudando a chegada dos fantasmas às costas do céu como estrondos de tempestade. Também pode haver, entre os convidados a uma festa reahu, gente vinga- tiva que realmente deseja fazer sofrer as pessoas que a recebem, por mais que lhe ofereçam comida e a tratem com amizade. Acontece às vezes, pois, de um visitante coletar a terra da pegada de um dos seus anfitriões e esfregá-la com coisas de feitiçaria, para que morra de doença.24 Isso pode ocorrer quando um homem é convidado a uma casa da qual um dos antigos guerreiros flechou seu pai. Assim, tão logo ele põe os olhos sobre o homem em estado de homicida, a raiva do luto volta e ele pensa: “Asi! Foi ele mesmo que matou meu pai quando eu era criança!”. Então recolhe sua pegada às escondidas, para poder se vingar, mesmo depois de tanto tempo. Às vezes, porém, um convidado malvado pode fazer o mesmo movido apenas pela raiva que sente, por ciúme de uma mulher ou em reação à avareza de quem o convidou. É verdade! O visitante hostil re- colhe a terra dos passos de sua vítima, embrulha-a com cuidado em folhas e esconde o embrulho em seu estojo de pontas de flecha. Quando volta para casa, depois da festa reahu, espera algum tempo antes de entregar o embrulho a vi- sitantes de uma floresta distante, convidados em sua casa. É essa gente que, no final, vai esfregá-lo com coisas de feitiçaria, pois são inimigos do homem a quem ele quer prejudicar, gente de muito longe que jamais visita sua casa.25 Mais tarde, os inimigos primeiro dividem a terra da pegada em vários pacotinhos de folhas que chamamos mae haro, pacotes de pegadas. Escondem a maior parte deles no chão, atrás de sua casa ou na floresta. Em seguida, esfre- gam um deles, rolando-o na palma da mão, com argila, coisas de feitiçaria e plantas hore kiki, que tornam covarde. A vítima adoece sem tardar e começa a arder em febre, enquanto a perna que corresponde à pegada começa a inchar. Então, se os inimigos quiserem matá-lo logo, amarram o embrulhinho de terra num bastão e o dão a picar várias vezes por uma cobra jararaca, que chamamos karihirima kiki. Assim faziam os nossos antigos e algumas pessoas ruins fazem ainda hoje. Nesse caso, assim que o pacote de folhas é desfeito pelas mordidas da jararaca e ela recua, os feiticeiros exclamam: “Cobra! Fuja logo! Vá se escon- 12959 - A queda do céu.indd 184 8/10/15 12:30 PM
  • 187. 185 der num buraco na terra ou nas folhas do chão! Fique de tocaia!”. Assim, ela acabará mordendo a pessoa visada e a matará. Um dia, enfraquecida, a vítima irá cambaleando até a floresta para defecar. Tornada fantasma sob efeito da feitiçaria, andará sem tomar cuidado. Então, uma jararaca escondida não tar- dará a mordê-la e, dessa vez, ela falecerá logo. Ninguém poderá mais curá-la! Em compensação, se os pacotes de pegadas forem apenas esfregados com coisas de feitiçaria e enterrados, os xamãs podem recuperá-los e curar o doente. Porém, para isso precisam encontrar todos eles e desfazê-los, um por um. Só então a vítima deixa o estado de fantasma e pode sarar. São os espíritos da cutia, da cutiara e do rato paho que procuram os pacotes de pegadas, farejando e arranhando o chão. Quando os acham, desamarram-nos e rasgam-nos com suas facas afiadas, capazes de vencer os barbantes mais resistentes. Depois, espalham seu conteúdo na floresta. Às vezes, porém, os dão, ainda amarrados, aos espíritos japim ayokora, que os fazem ser regurgitados pelos xamãs à vista de todos os moradores da casa do doente. Quem está trabalhando sozinho na roça também pode ser atacado por feiticeiros inimigos oka chegando das terras altas ou da floresta dos Xamath ari. Eles vêm de casas distantes, viajam à noite, e podem se emboscar na borda da floresta para soprar em nós suas feitiçarias hw ëri. Possuem zarabatanas de ma- deira de palmeira horoma, com as quais lançam flechinhas que levam amarrada uma bola de algodão contendo plantas maléficas.26 Esses projéteis atingem a nuca da pessoa visada e as substâncias ruins que contêm logo se espalham por todo o seu corpo. Em seguida ela começa a se sentir muito fraca. Tomada de tonturas, para de trabalhar e se agacha em sua roça, desnorteada, lançando um suspiro profundo. Os feiticeiros oka então saem de seus esconderijos e se jogam sobre ela. Aproveitando-se de sua fraqueza, arrastam-na para a floresta próxima. Quebram seus membros, as costas e a nuca, torcendo-os ou usando como apoio um pedaço de pau. Depois a abandonam, agonizante, no chão da floresta. Mui- tas vezes, eles ainda tratam de apagar as marcas de sua agressão, com passes sobre o corpo da vítima, para que ela possa voltar para casa sem revelar o ata- que. Depois, colocam-na de pé e lhe dizem: “Volte para casa e não pronuncie uma palavra a nosso respeito! Não revele nossa presença! Apenas diga aos seus: 12959 - A queda do céu.indd 185 8/10/15 12:30 PM
  • 188. 186 ‘Senti-me mal enquanto estava trabalhando na roça! Deve ter sido Omoari, o ser do tempo seco, que me golpeou!’”. A vítima dos oka então volta para casa. Reaviva sua fogueira e, em estado de fantasma, deita na rede. Depois repete as palavras dos feiticeiros, atribuindo seu mal-estar a Omoari. Então seu estado se agrava de repente. Nesses casos, mesmo que os xamãs comecem logo a combater seu mal, não há o que fazer. Nada conseguirão. O doente morre muito depressa, pois seus ossos já foram todos quebrados dentro do corpo. Não há nada mesmo a fazer! Só é possível tratar uma vítima de feiticeiros oka se ela tiver sido atingida apenas por suas substâncias hw ëri, antes de terem tempo de quebrar seus ossos. Mas isso só acontece com pessoas precavidas, que fogem assim que sentem o impacto das flechinhas dos oka na nuca. Nesse caso, os xamãs ainda podem destruir o poder das substâncias maléficas que afetaram a pessoa e curá-la.27 Gente comum não vê a imagem dos doentes para além de suas peles. Só os xapiri conseguem. Por isso são capazes de arrancar do corpo deles as presas e os algodões em brasa deixados pelos seres maléficos, as pontas de flecha que feriram seus animais rixi, as armas dos xapiri inimigos, as plantas de feitiçaria. Podem, do mesmo modo, extrair o mal Kamakari, que devora os ossos e os 12959 - A queda do céu.indd 186 8/10/15 12:30 PM
  • 189. 187 dentes,28 e rasgar as teias de aranha que escurecem a visão, ou recuperar os pacotes de terra das feitiçarias de pegadas. Os xapiri também sabem fazer sair todos esses objetos maléficos pela boca de seu pai, o xamã, à vista de todos. Assim permitem que ele nos livre de todas as coisas ruins que nos deixam doentes, mesmo as que estão mais fincadas no fundo de nosso corpo. Não é por nada que dizemos que os xapiri são poderosos! São sobretudo os espíritos do japim ayokora e da anta que têm o poder de fazer os xamãs regurgitarem,29 e também o espírito do tucano, o do urutau wayohoma e outros, que vão se revezando quando os primeiros ficam exaustos.30 Contudo, de todos esses xapiri, os mais habilidosos em extrair doenças e aplacar dores são mesmo os espíritos dos japins ayokora. Os espíritos cutia e paca no começo ajudam a localizar o mal no corpo do doente, para poder ar- rancá-lo e expulsá-lo para longe de nós. Quem tem esses espíritos fica menos preocupado quando os filhos adoecem. São nossos verdadeiros médicos. Os dos brancos abrem barrigas e peitos com lâminas de ferro, muitas vezes sem saber o que procuram, e acabam só deixando grandes cicatrizes. Já os nossos espíritos ayokorari tratam os doentes por dentro, sem derramar sangue. Sei disso porque eu mesmo já fui curado por esses espíritos, quando um ser maléfico Poreporeri, espectro de antigos xamãs, me atacou. Um de meus olhos tinha virado outro e, de repente, não podia mais se mexer. Ficava parado e minha pálpebra não fe- chava mais. Minha boca também tinha se transformado em boca de fantasma, dormente e torta nos cantos. Foram dois grandes xamãs de Watoriki, hoje fale- cidos, que me curaram com seus espíritos japim ayokora. Esses xapiri extraíram as coisas ruins colocadas em mim pelo ser maléfico espectro. Desamarraram os cordões de algodão com os quais ele puxava os lados de meu rosto e permitiram aos pais regurgitá-los. Depois, lavaram seus rastros com água de cura. Foi assim que eu me recuperei; não precisei ir à cidade para isso.31 Apenas alguns dos mais antigos xamãs têm esses xapiri, e só os transmi- tem com parcimônia. Quando eles querem mesmo se instalar na casa de espí- ritos de um xamã, costumam vir por conta própria. Se alguém tentar chamá-los sozinho, aproximam-se desconfiados e fogem num piscar de olhos, logo que são incomodados por barulho, fumaça ou cheiro de carne queimada. Desapa- recem para nunca mais voltar. Por isso os xamãs cuidam muito bem deles. São também protegidos com muito zelo por seus genros, os xapiri das vespas ku- rira. Só vêm com vontade àqueles que já os têm há tempos.32 12959 - A queda do céu.indd 187 8/10/15 12:30 PM
  • 190. 188 Aconteceu de esses espíritos descerem a mim enquanto eu dormia. Pude assim contemplar em meu sonho as imagens cintilantes dos japins ayokora, ixaro e napore dançando em tropa barulhenta e, em seguida, as dos pássaros wayohoma e taritari axi. Vinham acompanhadas pelo espírito onça, que regur- gita os pacotes de terra de pegadas pesados demais para eles, e espíritos jacaré, arara, tucano e queixada. Todos esses xapiri estavam cobertos de soberbos adornos de plumas. Os espíritos do japim ayokora eram porém os mais belos. Sobressaíam mesmo entre todos os outros. Vivem muito longe, numa floresta magnífica, junto de um grande rio a que os xamãs chamam de rio das vespas kurira, protegidos pelos gigantescos ninhos desses espíritos guerreiros. São incontáveis e entoam cantos esplêndidos sem parar, um após o outro. Meu sogro levou-me até lá, com seus próprios xapiri, para eu poder conhecê-los. São meus espíritos preferidos, e sempre guardo seu caminho em meu pensa- mento. Gostaria mesmo de conhecê-los mais e instalá-los em minha casa de espíritos como meus antepassados fizeram muito antes de mim! A maior parte dos xapiri se comporta de modo amigável. Alguns deles, no entanto, se mostram muito agressivos e vagam pela floresta só para matar; eu já falei disso. Grandes xamãs de muito longe podem assim viajar na forma de espíritos maléficos e roubar as imagens de nossas crianças para comer.33 ­Anciãos das distantes casas Xamath ari de Iwahikaropë ou de Konapuma às vezes nos agridem desse modo!34 Chegam a enviar onças e cobras perto de nossa casa para nos atacar. Seus espíritos guerreiam sem trégua contra os nossos e nos crivam de flechas com pontas afiadas que nos causam fortes dores. Essa gente distante não nos conhece. Porém basta um de seus filhos falecer por ter sido desmamado cedo demais35 para verem aí o rastro de nossas mãos e nos acusa- rem com rancor. Então, enraivecidos, enviam até nós xapiri hostis em busca de vingança. Mas estão enganados, nossos espíritos nunca vão à guerra na casa deles para devorar suas crianças.36 Enfrentam apenas os seres maléficos e as fumaças de epidemia dos brancos. Deixa-nos furiosos que essa gente sem juízo fique tentando matar nossas crianças sem razão! Nunca tomamos a iniciativa de atacar outras casas desse modo, pois tememos que as represálias não acabem nunca. Mas quando seus moradores vêm agredir nossos familiares, também não hesitamos em nos vingar. Mandamos até eles nossos xapiri famintos de carne 12959 - A queda do céu.indd 188 8/10/15 12:30 PM
  • 191. 189 humana. Assim é. Quando um grande xamã de uma aldeia distante mata um de nossos filhos, respondemos a sua agressão da mesma maneira. Nossos espí- ritos maléficos voam logo até sua casa e lá também devoram uma criança, como se fosse um papagaio. E quando queremos pôr fim à malevolência de um desses xamãs de longe, são os mesmos espíritos que enviamos para matá-lo. Envere- dam por caminhos tortos, surpreendem os xapiri deles, cercam-nos e acabam com os mais valentes. Depois destroem furiosamente sua casa de espíritos, in- cendeiam-na e jogam n’água seus restos calcinados. E, por fim, atacam o próprio xamã, golpeando-o com seus facões antes de derramar seu sangue no rio, para não deixar nenhuma pista de quem o matou. Esses xapiri agressivos são imagens de seres maléficos në wãri, que faze- mos descer só para nos vingar. Além de suas armas assustadoras, possuem várias coisas de doença.37 O espírito do céu Hutukarari, por exemplo, enfia na imagem de suas vítimas lascas brilhantes de estrela, de que ninguém pode ficar curado. O espírito do ser maléfico Herona38 despeja nelas uma urina tão peri- gosa quanto o curare, enquanto Mõeri, o espírito da tontura, golpeia sua nuca violentamente, fazendo a floresta rodar em torno delas. Quando guerreiam, esses xapiri são muito perigosos mesmo! Os espíritos gavião koimari vão na frente, conduzidos pelo mais terrível deles, Ara poko. Brandem cordas incan- descentes e lâminas de ferro afiadas para amarrar e trinchar suas vítimas. Fe- rozes espíritos onça iramari os acompanham, com seus facões cortantes, e também espíritos do dono do algodão, Xinarumari, que aprisiona as crianças em seus enfeites ardentes. Também há entre eles espíritos sucuri, que copulam com as mulheres grávidas sem elas saberem, fazendo aprodrecer os fetos den- tro delas, ou que sodomizam os homens, cujas vísceras começam então a inchar até explodir. Mas existem ainda muitos outros xapiri de seres maléficos, como os espíritos peixe yurikori, que retalham a língua e a garganta das crianças, e os espíritos estrela pirimari, que as dilaceram com seus dentes afiados. Esses xa- piri perigosos só atacam gente de outras casas bem distantes. Aqui na nossa, ao contrário, ficam empenhados em nos curar, como os demais espíritos. São muito valentes no combate aos seres maléficos. São seus semelhantes; por isso os conhecem bem! Assim, os espíritos gavião koimari sabem rastreá-los até suas habitações, altas como montanhas, e os espíritos sucuri são capazes de amarrá- -los para ficarem quietos. Os espíritos do dono do algodão Xinarumari também 12959 - A queda do céu.indd 189 8/10/15 12:30 PM
  • 192. 190 sabem renovar a pele das crianças quando fica coberta de feridas infeccionadas e não para de apodrecer. Assim é. Os xapiri inimigos estão sempre tentando burlar a vigilância dos xamãs da casa que vão atacar. Voam muito depressa, mas nunca se deslocam em linha reta, nem em plena vista. Tratam de dissimular e embaralhar seus caminhos com desvios constantes, para passar despercebidos. Quando querem capturar uma criança em nossa casa, primeiro vão para muito longe na direção oposta, até a terra dos brancos. Depois, voltam em segredo por uma trilha tortuosa, mas agora voando nas profundezas do mundo subterrâneo. Assim, primeiro parecem sumir ao longe, tão longe que o próprio xamã que os envia acaba por perdê-los de vista. Porém, quando já foram até esquecidos, surgem de repente do chão da casa na qual vêm buscar sua presa. Sopram coisas de feitiçaria por toda a casa, para atordoar os xamãs que poderiam ameaçá-los. Depois escolhem como vítima uma bela criança, forte e alegre, que estiver brincando. Os espíritos gavião e onça então se lançam sobre a criança para esquartejá- -la ferozmente com seus facões. Ela imediatamente começa a gemer de terror e cai no chão. Em seguida, os espíritos do dono do algodão cobrem sua cabeça, peito e ventre com seus enfeites de doença em brasa. Os olhos da criança come- çam a revirar, e ela começa a arder em febre. Alguém pode pensar que foi atin- gida por uma planta de feitiçaria waka moxi.39 Mas não é nada disso. É, com certeza, sinal desses xapiri inimigos! Sem demora levam embora a imagem fe- rida da vítima, enquanto a pele dela, vazia, jaz no chão da casa. Então, a criança desmaia e entra em estado de fantasma. A essa altura, se os espíritos lua come- çarem a cortá-la em pedaços para devorá-la junto com os demais espíritos ma- léficos, é tarde demais para curá-la. Ela morre em pouco tempo, apesar de todos os esforços dos xamãs da casa para vingá-la dos xapiri hostis que capturaram sua imagem. Nada mais podem fazer. Contudo, se os xamãs forem precavidos e beberem yãkoana assim que a criança desmaiar, ainda será possível encontrar a pista dos agressores. Poderão enviar seus próprios espíritos maléficos para resgatar a imagem dela, antes de os xapiri inimigos a devorarem. Se a criança ferida, amarrada com laços de algodão em fogo, ainda não tiver sido lacerada, pode sarar. Depois de trazê-la de volta para junto dos seus, os xamãs limpam depressa o interior de seu corpo, até ela voltar a si e se recuperar. As pessoas que devoram assim a imagem das crianças são sempre xamãs antigos, inimigos poderosos e ferozes, cujas casas de espíritos estão lotadas de 12959 - A queda do céu.indd 190 8/10/15 12:30 PM
  • 193. 191 xapiri muito perigosos. Apesar disso, os espíritos maléficos de um xamã tam- bém podem sair em busca de presas por conta própria, independentemente do pai. Voam então até casas distantes, para caçar, impelidos por sua fome de carne humana. Chegam para devorar as crianças, que tomam por caça, e só voltam para casa depois de se fartar com sua gordura. Quando o xamã percebe a malvadeza, lamenta, contrariado: “Hou! O que meus xapiri foram fazer? Não os mandei para a guerra! Eu não disse nada a eles!”. Quando os espíritos de um xamã matam, dizemos que ele está õnokae, pois está farto de carne humana. A testa dele fica úmida, gordurosa e grudenta, como a dos guerreiros que come- ram inimigos com suas flechas ou a de alguém que matou o animal rixi de um morador de uma casa distante.40 Então, devem ficar deitados ao lado de sua fogueira, imóveis, e devem jejuar, para o estado de õnokae secar, depois de um certo tempo. Assim é. Tememos muito esses xamãs distantes que enviam seus espíritos guerreiros até nós, mas quando eles nos atacam, nos vingamos deles da mesma maneira! É assim que morrem os humanos. Os fantasmas de nossos maiores faleci- dos sempre querem levar os vivos para junto deles, nas costas do céu.41 É ver- dade. Os mortos sentem saudade daqueles que deixaram, sozinhos, na terra. Dizem a si mesmos: “Os meus são tão poucos, têm tanta fome, nessa floresta infestada de epidemia xawara e de seres maléficos! Sinto muita pena deles! Tenho de ir depressa buscá-los!”. Por isso os vemos em sonho, com a mesma aparência de antes de morrerem. Mas se eles não pararem de descer para cha- mar os vivos, estes vão ficar cada vez mais afetados pela saudade. Alguns podem até acabar morrendo por isso. Nesse caso, os xamãs devem despachar seus xa- piri, para repelir os fantasmas de volta para as costas do céu. Os xapiri lhes dizem: “Ma! Parem de descer! Fiquem longe de nós! Deixem-nos viver por um tempo aqui nesta floresta! Mais tarde vamos nos juntar a vocês! Não tenham tanta pressa em nos chamar para perto!”.42 Ao que os fantasmas retrucam: “Ma! Vocês deveriam é ter pressa de voltar a nós!”. E novamente os xapiri: “Ma! Não estamos sofrendo! Voltaremos a vocês, é claro! Mas sem pressa! Retornem para o lugar de onde vieram!”. É assim que os xapiri e os fantasmas se falam. Ouvi-os depois de ter bebi- do yãkoana, e durante o tempo do meu sonho. Se os xapiri não intercedessem 12959 - A queda do céu.indd 191 8/10/15 12:30 PM
  • 194. 192 assim, os fantasmas saudosos logo levariam todos os parentes consigo para as costas do céu e os humanos não parariam de morrer, um depois do outro, depressa demais. Não seria boa coisa! Os fantasmas, ao contrário de nós, vivem por muito tempo. Mas, mesmo assim, até eles acabam morrendo. Então, depois de virarem seres mosca e urubu, vão morar ainda mais longe nas alturas, de- baixo de um céu novo, ainda jovem e transparente, que está acima desse cujo peito avistamos da terra. 12959 - A queda do céu.indd 192 8/10/15 12:30 PM
  • 195. 8. O céu e a floresta Espelhos e caminhos dos espíritos. 12959 - A queda do céu.indd 193 8/10/15 12:30 PM
  • 196. 194 Quando, às vezes, o peito do céu emite ruídos ameçadores, mulheres e crianças gemem e choram de medo. Não é sem motivo! Todos tememos ser esmagados pela queda do céu, como nossos ancestrais no primeiro tempo. Lembro-me ainda de uma vez em que isso quase aconteceu conosco. Eu era jovem na época.1 Estávamos acampados na floresta, perto de um braço do rio Mapulaú. Tínhamos saído, com alguns homens mais velhos, à procura de uma moça do rio Uxi u que tinha sido levada por um visitante de uma casa das terras altas, a montante do rio Toototobi. Anoitecia. Não havia nenhum ruído de trovão, nenhum raio no céu. Tudo estava em silêncio. Não chovia, e não se sentia nenhum sopro de vento. No entanto, de repente, ouvimos vários estalos no peito do céu. Foram se sucedendo, cada vez mais violentos, e pareciam bem próximos. Era mesmo muito assustador! Aos poucos, todos se puseram a gritar e soluçar de pavor no acampamen- to: “Aë! O céu está despencando! Vamos todos morrer! Aë!”. Eu também tinha medo. Ainda não havia me tornado xamã, e perguntava a mim mesmo, muito inquieto: “O que vai acontecer conosco? Será que o céu vai mesmo cair em cima de nós? Vamos todos ser arremessados para o mundo subterrâneo?”. Naquela época, ainda havia grandes xamãs entre nós, pois muitos de nossos maiores ainda estavam vivos. Então, vários deles começaram a trabalhar juntos para segurar a abóbada celeste. No tempo antigo, seus pais e avós haviam en- sinado esse trabalho a eles, que por isso foram capazes de impedir mais essa queda. Assim, depois de algum tempo tudo se acalmou. Mas estou certo de que, uma vez mais, o céu tinha mesmo ameaçado se quebrar acima de nós. Sei que isso já ocorreu, muito longe da nossa floresta, lá onde a abóbada celeste se aproxima das bordas da terra. Os habitantes dessas regiões distantes foram exterminados, porque não souberam segurar o céu. Mas aqui onde vivemos ele é muito alto e mais sólido. Acho que é porque moramos no centro da vastidão da terra.2 Um dia, porém, daqui a muito tempo, talvez acabe mesmo despen- cando em cima de nós. Mas enquanto houver xamãs vivos para segurá-lo, isso não vai acontecer. Ele vai só balançar e estalar muito, mas não vai quebrar.3 É o meu pensamento. Todos os seres que moram na floresta têm medo de ser eliminados pela imensidão do céu, até os espíritos. É isso, finalmente, que a gente de nossas 12959 - A queda do céu.indd 194 8/10/15 12:30 PM
  • 197. 195 casas receia, é isso que a faz chorar. Todos bem sabem que o céu já caiu sobre os antigos, há muito tempo. Conheço um pouco dessas palavras a respeito da queda do céu. Escutei-as da boca dos homens mais velhos, quando era criança. Foi assim. No início, o céu ainda era novo e frágil. A floresta era recém-chegada à existência e tudo nela retornava facilmente ao caos. Moravam nela outras gentes, criadas antes de nós, que desapareceram. Era o primeiro tempo, no qual os ancestrais foram pouco a pouco virando animais de caça. E quando o centro do céu finalmente despencou, vários deles foram arremessados para o mundo subterrâneo. Lá se tornaram os aõpatari, ancestrais vorazes de dentes afiados que devoram todos os restos de doença que os xamãs jogam para eles, embaixo da terra. Continuam morando lá, junto do ser do vendaval, Yariporari, e do ser do caos, Xiwãripo. Vivem ali também na companhia de seres queixadas, vespas e vermes tornados outros. As costas desse céu que caiu no primeiro tempo tornaram-se a floresta em que vivemos, o chão no qual pisamos. Por esse motivo chamamos a floresta wãro patarima mosi, o velho céu, e os xamãs também a chamam hutukara, que é mais um nome desse antigo nível celeste. Depois, um outro céu desceu e se fixou acima da terra, substituindo o que tinha desabado. Foi Omama que fez o projeto, como dizem os brancos. Pensou no melhor modo de torná-lo sólido e introduziu em todo o céu varas de seu metal, que enfiou também na terra, como se fossem raízes.4 Por isso, este novo céu é mais sólido do que o anterior, e não vai desmanchar com tanta facilidade. Nossos xamãs mais antigos sabem tudo isso. Sempre que o céu começa a tremer e ameaça arrebentar, enviam sem demora seus xapiri para reforçá-lo. Sem isso, o céu já teria desabado de novo há muito tempo! A gente do primeiro tempo não era tão sabida. Mas se esforçaram muito tentando impedir a queda do primeiro céu. Transtornados de medo, cortaram estacas frágeis demais, na madeira mole e nos troncos esburacados das árvores tokori e kahu usihi. A maior parte desses ancestrais foi esmagada ou lançada para debaixo da terra, a não ser num lugar, onde o céu se apoiou num cacauei- ro, que vergou sob o peso mas não quebrou. Isso foi no centro de nossa flores- ta, onde estão as colinas que chamamos horepë a.5 Um papagaio werehe foi mordiscando o retalho de céu preso no cacaueiro e aos poucos abriu nele um buraco, por onde essas gentes do primeiro tempo conseguiram escapar. No final, saíram na floresta das costas do céu, onde continuaram vivendo. Os xa- 12959 - A queda do céu.indd 195 8/10/15 12:30 PM
  • 198. 196 mãs chamam-nos hutu mosi horiepë th eri pë, a gente que saiu do céu. Mas esses ancestrais acabaram desaparecendo. Viraram outros e foram levados pelas águas, ou foram queimados quando a floresta toda se incendiou, há muito tempo.6 Isso é o que sei. Viemos à existência depois deles, e foi nossa vez de existir e aumentar. De modo que somos os fantasmas da gente que saiu do céu. Quando um xamã muito velho fica doente por um longo período e acaba se extinguindo por si só, seus xapiri, em silêncio, vão aos poucos deixando sua casa de espíritos. Abandonada, ela começa a desabar. Não acontece nada além disso. Por outro lado, se um xamã ainda jovem tiver uma morte violenta, fle- chado por guerreiros ou comido por feiticeiros inimigos, seus espíritos ficam enfurecidos. O céu escurece e chove sem parar. A ventania bate com força nas árvores da floresta, os seres trovão berram com violência, enquanto os seres raio explodem com estrondo. A chuva não para e os espíritos do céu despejam in- contáveis cobras sobre a terra. Os espelhos dos espíritos onça se despregam e essas feras começam a rondar por toda a floresta. Tudo isso acontece quando morre um xamã que tinha uma casa de espíritos muito alta.7 Então seus xapiri ficam furiosos por terem ficado órfãos, e querem quebrar o céu por vingança. Os espíritos dos pica-paus ëxama e xoth eth ma, e depois os dos pássaros yõkihima usi, golpeiam o peito dele com toda a força de seus machados e facões afiados. Pedaços inteiros da abóbada celeste começam a quebrar, com estrondos tão fortes que até os xamãs sobreviventes ficam apavorados!8 Então eles devem despachar depressa seus próprios espíritos, para consertá-la e conter a fúria dos xapiri órfãos. O céu se move, é sempre instável. O centro ainda está firme, mas as bei- radas já estão bastante gastas, ficaram frágeis. Ele se torce e balança, com esta- los aterrorizantes. Os pés que o sustentam nos confins da terra tremem tanto que até os xapiri ficam apreensivos! Um deles, porém, o espírito macaco-ara- nha, mostra ser de todos o mais corajoso. Vindo de muito longe, ele é sempre o primeiro a segurar os pedaços de céu que se desgarram e a tentar reforçá-lo. Não é um macaco da floresta, é um ser celeste, um espírito antigo e poderoso de mãos muito habilidosas. Ele no entanto não conseguiria fazer esses conser- tos sozinho. Muitos outros espíritos o auxiliam, como os do macaco-da-noite, do jupará, da irara hoari e do esquilo wayapaxi. Mas ele também chama como 12959 - A queda do céu.indd 196 8/10/15 12:30 PM
  • 199. 197 reforço os espíritos celestes hutukari, os espíritos raio yãpirari e os espíritos trovão yãrimari. Todos esses xapiri chegam em grande número. Arrancam os machados e facões das mãos dos espíritos órfãos enfurecidos. Abraçam-nos, fazem com que se agachem e procuram acalmá-los. Depois, juntando forças, procuram impe- dir que o céu danificado desabe. Os espíritos preguiça atiram varetas de metal com suas espingardas, para preencher as brechas. Os espíritos formiga ahõrõ- ma asi despejam visgo nas rachaduras para vedá-las. Então, os estalos vão pa- rando aos poucos. No fim, quando o silêncio retorna à floresta, a gente de nossas casas — e até quem costuma duvidar dos xamãs — diz a si mesma: “Não é mentira! Eles viram espíritos mesmo e sabem conter a queda do céu!”. Nossos ancestrais sabem fazer esse trabalho desde o primeiro tempo. Se não o tivessem feito, a abóbada celeste já teria despencado sobre nós há muito tempo. Mas apesar de todos esses esforços o céu continua instável e frágil, à mercê dos es- píritos dos xamãs mortos que sempre querem recortá-lo. Os xapiri também trabalham sem descanso para impedir a floresta de retornar ao caos. Quando a chuva cai sem parar e o céu fica coberto de nuvens baixas e escuras durante dias, a um dado momento, não aguentamos mais. Fi- camos sem poder caçar nem abrir roças novas para plantar bananeiras. Temos pena de nossas mulheres e crianças, que ficam com fome de carne de caça. Fi- camos cansados da umidade e também temos vontade de comer peixe.9 Então, acabamos pedindo ajuda aos xamãs mais antigos, conhecedores do ser da chu- va Maari, para que o convençam a parar. Então, logo bebem yãkoana e come- çam a trabalhar. Seus espíritos limpam o peito do céu, e depois vão chamar o ser sol Moth okari e Omoari, o do tempo seco. Depois, viram a chave das águas de chuva e trazem de volta a claridade do céu. Quando eu era criança, muitas vezes vi meu sogro trabalhar assim para fazer a chuva recuar e alegrar a flores- ta. Chamamos isso de fazer payëmuu. Durante o tempo da cheia, as filhas e filhos do ser da chuva, Maari, e do tempo encoberto, Ruëri, dançam alegremente acima da floresta, agitando folhas novas de palmeira hoko si, como os convidados durante a dança de apresenta- ção. Se as palmas estiverem muito úmidas, a chuva não acaba mais! Então, os espíritos das cigarras rõrõkona, kutemo, kreemo e tãitãima, bem como os dos 12959 - A queda do céu.indd 197 8/10/15 12:30 PM
  • 200. 198 japins kori, ixaro e napore, têm de pegá-las e levantá-las para perto do calor do sol. Enquanto as sacodem para secá-las, começa a soprar uma brisa. É o vento de verão, que chamamos iproko. Todos esses xapiri são as filhas e genros do ser do tempo seco, Omoari. Por isso sabem fazer esse trabalho tão bem. Mas, para que o aguaceiro termine mesmo, ainda é preciso que os espíritos do pica-pau ëxama e do lagarto roha levantem o pênis do ser da chuva e o amarrem em torno de sua cintura.10 A outros xapiri caberá, em seguida, deitá-lo na rede e lhe oferecer tabaco para aplacar sua ira. Depois, com muito cuidado, devem tirar de sua cabeça o grande cocar de plumas úmidas, para pô-lo a secar tam- bém. É assim que a luz do sol e o calor podem enfim voltar à floresta. A estação seca se instala e as águas começam a baixar. Os brancos não conhecem as imagens do ser da chuva e de seus filhos. Com certeza acham que a chuva cai do céu à toa! Eu, ao contrário, as contemplei muitas vezes em meu sonho, do mesmo modo que meus maiores as viram antes de mim. Assim é. As palavras da gente da floresta são outras. A estiagem tampouco pode voltar enquanto as filhas de Motu uri, o ser das águas subterrâneas, continuarem brincando eufóricas nos rios. Os xamãs então 12959 - A queda do céu.indd 198 8/10/15 12:30 PM
  • 201. 199 devem enviar seus espíritos para acabar com suas brincadeiras e levá-las de volta para o seco. São os espíritos das cigarras e borboletas que se encarregam disso, em companhia da mulher, das filhas e das noras do ser sol Moth okari. Depois, o espírito do fogo celeste Th orumari ainda tem de flechar o próprio Motu uri, puxá-lo pelos braços e queimá-lo.11 Por último, o espírito do pássaro kõromari perfura o solo com sua barra de ferro, para que as águas escorram para debaixo da terra; só então o nível dos rios começa a baixar. Mas, para fazer cessar a chuva e a cheia, os xapiri também podem lidar com a árvore da chuva, Maa hi. É gigantesca, e de suas folhas escorre água o tempo todo. Os xamãs antigos a conhecem bem; meu sogro me contou que cresce nos confins da terra e do céu. É a morada dos seres da noite titiri e dos seres minhoca horemari. Quando a árvore Maa hi floresce, começa a chover na floresta e as águas dos rios sobem. Para fazê-la parar de escorrer, os espíritos dos japins napore e dos macacos guariba devem sacudir sua ramagem com força para fazer cair as flores. Depois, os espíritos arara devem cortar os seus galhos, auxiliados pelo espírito anta, que os acompanha com sua grande canoa. Quando isso ocorre, a árvore da chuva é rodeada de calor e ouvem-se as cigarras. Os espíritos gen- ro do ser do tempo seco vão buscar o sogro e, para chamá-lo de volta à flores- ta, entoam com ele um diálogo de convite hiimuu. Recolhem para ele os peixes mortos dos igarapés, que vão secando. Ao final, ele concorda em começar a voltar do lugar distante em que tinha se refugiado. Assim é. Omoari, o ser da seca, não responde nem aos espíritos das folhas e das árvores nem aos ances- trais animais. Se os xapiri que conhece não fossem buscá-lo, ele não viria por conta própria. Então, a umidade e a escuridão tomariam toda a floresta para sempre e, com o tempo, ela acabaria retornando ao caos. Quando querem acabar com a gritaria dos seres trovão, os xapiri vão à casa deles, nas costas do céu. Agacham-se perto deles e os repreendem: “Sua voz nos incomoda! O que vocês estão fazendo? Por que não ficam calados?”. Os trovões, furiosos, logo ameaçam golpeá-los. Porém, para aquietá-los e demons- trar amizade, os espíritos se deitam em suas redes, como se faz com um cunha- do.12 Oferecem-lhes alimento e tabaco. Às vezes, também sopram um pouco de pó de yãkoana em suas narinas, para acalmá-los. Assim, aos poucos, os trovões 12959 - A queda do céu.indd 199 8/10/15 12:30 PM
  • 202. 200 acabam se calando. Se não fosse isso, o estrondo da tempestade não cessaria nunca, como acontecia no primeiro tempo. Trovão era então um animal;13 parecia uma grande anta que vivia num rio, perto de uma cachoeira. No começo, nossos ancestrais não o conheciam. Mas ficavam exasperados de tanto ouvir sua voz potente ressoando na floresta. Cansados, resolveram fazê-lo ficar quieto e o flecharam. Depois cortaram seus despojos, tomando muito cuidado para não espalhar seu sangue pelo chão. Cozinharam suas carnes com cuidado e as comeram com gosto. No final dessa refeição, um dos caçadores, satisfeito e brincalhão, propôs insistentemente um pedaço de fígado cru que havia sobrado ao genro de Trovão, o ancestral do pássaro hw ãihw ãiyama. Ele, furioso, deu um golpe repentino na mão do incon- veniente e o pedaço de carne foi projetado para as costas do céu, onde reviveu e se multiplicou por toda parte, como milhares de trovões de voz retumbante. São eles que ouvimos hoje em dia, acima da floresta, e que os xamãs têm de convencer a ficar em silêncio. Os seres raio, por sua vez, parecem araras cobertas de faíscas de luz que, quando batem estrondosamente as asas, projetam reflexos deslumbrantes. São muito poderosos, e quando sentem fome, logo demonstram toda a sua raiva. Seus pés de fogo caem do peito do céu na floresta, com um barulho horrível. Por isso os xamãs também tratam de conter sua fúria. Para amansá-los, fazem dançar suas próprias imagens e as enviam de volta a eles na forma de xapiri. Esses espíritos então agarram os seres raio, para tentar chamá-los à razão: “Ma! Não sejam tão raivosos! Não destruam a floresta dessa maneira! Outras gentes moram nela! Os humanos têm filhos lá!”. Depois, brincam com eles, fazem-lhes cócegas; ou, se não ficarem quietos, acabam batendo neles, e os repreendem com severidade. Então eles se acalmam e voltam a ficar em silêncio; e a tem- pestade se cala na floresta. O ser do vendaval, Yariporari, também é muito perigoso.14 Cultiva em sua imensa roça muitas canas-de-flecha. Quando parte em guerra, vai atirando fle- chas por toda a floresta com muita raiva. Sua força é tão aterradora que até os xapiri têm medo a cada vez que ele passa, revirando tudo. Sacode nossas casas e derruba as grandes árvores sobre nossos acampamentos. Destroça as ramadas, emaranha o mato rasteiro e bate violentamente contra os troncos. O ser tatu- -canastra Wakari sempre o acompanha, cortando as raízes com seu enorme facão. Yariporari é um vendaval terrível, que caiu debaixo da terra no primeiro 12959 - A queda do céu.indd 200 8/10/15 12:30 PM
  • 203. 201 tempo. Fica escondido num buraco fundo, coberto por uma tampa pesada, que às vezes é levantada pelos xapiri por vingança quando estão em luto pelo pai, ou por xamãs enfurecidos contra seus inimigos. Então ele surge com toda a sua força, devastando com violência a floresta e aterrorizando seus habitantes. Quando isso acontece, os espíritos dos pássaros witiwitima namo, xiroxiro e teateama, acompanhados dos espíritos gavião koimari, tentam agarrá-lo e amar- rá-lo. Em seguida, tratam de destruir suas plantações de canas-de-flecha antes de prendê-lo de novo no mundo subterrâneo. De outro modo, sua fúria acaba- ria aniquilando tudo na floresta e nos varrendo para longe. Antes de meus iniciadores me fazerem conhecer o espírito do vendaval Yariporari, eu não pen- sava que pudesse existir um ser maléfico tão poderoso debaixo da terra! Apesar de ele ser tão perigoso, os xamãs experientes são capazes de fazer dançar tam- bém a imagem dele como xapiri. Mas então é seu espírito antigo, seu espírito pai, que fazemos descer para espantar as fumaças de epidemia com que os bran- cos enchem a floresta. Assim é. Sem o trabalho dos xamãs, voltaria ao caos depressa. A chuva e a escuridão, a raiva dos trovões, dos raios e do vendaval não cessariam nunca. Só os xapiri podem protegê-la e fortalecê-la. Por isso seguimos as pegadas de nossos ancestrais, virando espíritos com a yãkoana. Isso deixa os xapiri felizes e, assim, eles continuam cuidando de nós. Os brancos não sabem nada dessas coisas. Se contentam em pensar que somos mais ignorantes do que eles, apenas porque sabem fabricar máquinas, papel e gravadores! As pessoas também se queixam junto aos xamãs quando o tempo seco dura demais, quando as bananeiras e a cana-de-açúcar definham nas roças e os cursos d’água na floresta se esgotam. Então, para pôr fim à seca, eles tratam de trazer de volta para a floresta o ser maléfico do tempo úmido,15 Toorori, que é também o dono da chuva. Para convidá-lo a retornar, enviam até ele os xapiri das cheias, das chuvas e do caos, que são as imagens dos seres maléficos Riori, Maari e Xiwãripo. Depois juntam a eles, como reforço, as imagens dos seres do tempo encoberto e da noite, Ruëri e Titiri. Então, Toorori, calcinado e encarqui- lhado, consegue arrancar-se da barriga do ser sol, Moth okari, que o tinha engo- lido. Joga água sobre a própria cabeça e, aos poucos, vai voltando à vida. Aí começa a se vingar, passando ele a ocupar toda a floresta. Quando isso ocorre, a chuva finalmente volta a cair. 12959 - A queda do céu.indd 201 8/10/15 12:30 PM
  • 204. 202 Sem conhecer o trabalho dos antigos xamãs, assim mesmo tentei, certa vez, fazer voltar o tempo das chuvas. Foi aqui, em Watoriki, já faz algum tem- po.16 A seca não terminava. O calor ia aumentando. O ser sol Moth okari tinha descido do peito do céu e tinha realmente baixado os pés na floresta. Omoari, o ser do tempo seco, parecia querer se instalar nela para sempre. Tinha secado todos os cursos d’água e se fartado de peixes e jacarés. Tinha torrado as árvores e assado a terra. As pedras ficaram em brasa. Os animais e os humanos passa- vam sede. Era o tempo de queimar as roças, como de costume. Mas o vento carregou fagulhas para o mato, que estava muito seco, com o chão coberto de folhas mortas. Então, a floresta à nossa volta começou a queimar. Depois, o incêndio foi aos poucos se propagando para todos os lados. Quando o fogo é assim tão poderoso, vira um outro ser, muito perigoso, que se apropria de todas as árvores à sua volta para construir sua casa. Chegou até mesmo a subir as encostas da Montanha do Vento, perto da nossa casa, onde os seres maléficos da floresta cultivam suas plantas de feitiçaria. Ficamos muito preocupados, temendo que as chamas as queimassem, espalhando sobre nós uma epidemia xawara. A fumaça só aumentava, sem parar. Primeiro, elevou-se bem alto, no peito do céu. Depois recaiu sobre nós, cada vez mais baixa e densa, e cobriu toda a floresta. Nossos olhos estavam irritados e o peito muito seco. Não en- xergávamos mais nada à nossa volta e tossíamos sem parar. Era muito difícil respirar. Tínhamos medo de tudo pegar fogo e acabarmos morrendo sufocados. Temíamos por nossos filhos, nossa casa e nossas roças. Então, com meu sogro e todos os xamãs de Watoriki, e alguns outros que avisamos por rádio,17 bebemos pó de yãkoana e começamos a trabalhar para atrair a chuva. Primeiro fizemos dançar a imagem de Omama, para bater no fogo e esmagá-lo. Depois, chamamos os espíritos dos trovões e os de seus gen- ros, para despejarem as águas do céu sobre o braseiro. Fizemos também dançar a imagem do ser do vendaval, para que ela empurrasse a fumaça no céu e a expulsasse para longe de nós. Assim, pouco a pouco, o fogo começou a dimi- nuir. Nossos espíritos então afugentaram o ser do tempo seco, Omoari, com palavras hostis: “Volte para a sua casa! Não vá querer se instalar aqui, senão toda a floresta vai queimar, e seus habitantes junto!”. Em seguida, começaram a chamar de volta o ser do tempo das chuvas, Toorori, para limpar a floresta. Trabalhamos assim durante dias, até que, finalmente, a chuva começou a cair. Se não tivéssemos feito isso, todas as árvores teriam sido incendiadas, até 12959 - A queda do céu.indd 202 8/10/15 12:30 PM
  • 205. 203 na terra dos brancos, porque aquele não era um fogo qualquer. Era um ser maléfico muito perigoso, um espírito fogo comedor de gente que chamamos naikiari wakë. Era o espírito do fogaréu mõruxi wakë, que saiu da terra, o mes- mo que consumiu toda a floresta no primeiro tempo. Esse fogo vem de onde mora o sol e, no lugar em que vive, as águas estão sempre fervendo. Seu repre- sentante é o que os brancos chamam de vulcão. É tão poderoso que queima até a areia e as pedras. Em seus discursos, à noite, nossos mais velhos xamãs nos falaram várias vezes do incêndio que, no tempo de Omama, devastou as terras altas da floresta. Contaram-nos que, em certos lugares, as árvores jamais vol- taram a crescer. As terras sem árvores nas nascentes dos rios, que chamamos purusi, são as marcas do caminho desse antigo incêndio. Não apareceram ali sozinhas, à toa!18 Noutros lugares, ao contrário, a floresta cresceu de novo, porque o ser da riqueza da terra, que chamamos Huture ou Në roperi, trabalhou sem parar para replantá-la. É um trabalhador incansável. Repovoou o solo calcinado com todas as suas árvores e plantas da roça — mandioca, bananeiras e pupunheiras rasa si — para nossos ancestrais, seus filhos e netos poderem comer. Se ele não tivesse existido, teríamos ficado famintos para sempre e da- ríamos muita pena! Antigamente, nossos maiores, quando se tornavam xamãs sob efeito das folhas de feitiçaria hayakoari hana,19 eram capazes de chamar as imagens dos queixadas e, assim, de atrair essa caça para perto de suas casas. Um dos antigos xamãs de nossa casa, que eu chamava de cunhado, sabia fazer dançar esses es- píritos queixada, mas já não vive. Quando morreu, vi sua casa de espíritos de- sabar e, na queda, rasgar os frágeis caminhos desses xapiri. Ele nos havia pre- venido: “Assim que meu fantasma tiver partido para as costas do céu, vocês não verão mais queixadas na floresta. Ficarão se lamentando de fome de carne!”. Mas ninguém pensou em dizer a ele, enquanto estava vivo: “Awei! Quero eu também saber como cuidar dos caminhos dos espíritos queixada para impedir que fujam!”. Eu mesmo não disse nada. Na época, ainda era ignorante. Se eu tivesse feito isso, quem sabe essa caça não teria desaparecido de nossa floresta durante tanto tempo?20 Mas na época ninguém teve a sabedoria de segurar os caminhos desses espíritos! Só os antigos xamãs sabiam fazer os queixadas saírem da terra, chamando 12959 - A queda do céu.indd 203 8/10/15 12:30 PM
  • 206. 204 sua imagem. Antigamente, essas folhas hayakoari hana eram muito usadas como planta de feitiçaria. Mas são folhas que pertencem aos espíritos do céu. Por isso quem era atingido por elas virava outro e logo via dançar a imagem do ser Hayakoari, que parece uma anta. Os doentes então começavam a gesti- cular e a gritar, e então disparavam para fora de suas casas. Mas não era na floresta que corriam tão exaltados. Sem que seus próximos pudessem vê-la, era sua imagem que fugia, montada no ser anta Hayakoari, que a levava para casa. Ficavam assim perdidos na floresta por muito tempo e lá viravam outros. Era então que começavam a realmente ver dançar as imagens dos ancestrais quei- xada. No final, acabavam deixando o caminho de Hayakoari e iam se acalman- do aos poucos. Retornavam a suas casas, guiados pelos xapiri dos xamãs que tinham vindo socorrê-los. Sem isso, teriam morrido de fome e de cansaço, esquecidos sobre o espelho de Hayakoari. Mais tarde, quando eles mesmos se tornaram xamãs experientes, eram capazes de abrir os caminhos dos ancestrais queixada worëri e fazer suas ima- gens descerem novamente até eles. Para chamá-las, mandavam primeiro os espíritos do pássaro xotokoma,21 que são seus genros. Esses emissários corta- vam as árvores para abrir uma entrada na floresta para seus sogros. Nela pen- duravam magníficos adornos de miçanga para atraí-los. Depois faziam ressoar o chamado de suas flautas de bambu th ora, para que os espíritos queixada vies- sem dançar junto do xamã que os enviara. Então, os queixadas também se aproximavam de nossas casas para serem caçados. Era assim que nossos maio- res trabalhavam para saciar a fome de carne dos seus. Os caminhos dos espíri- tos queixada são, no entanto, muito frágeis. Assim que morre o pai deles, os caminhos arrebentam e voltam para debaixo da terra. Então, por mais esforço que os outros xamãs façam para trazê-los de volta, não conseguem. Os ances- trais queixada ficam no mundo subterrâneo, até que outro rapaz se torne xamã sob efeito das folhas hayakoari hana e reaprenda a chamá-los. As antas, por sua vez, só aparecem na floresta ao alcance dos caçadores quando os xamãs fazem vir a imagem do seu ancestral, que chamamos de Xa- mari. Para isso, devem enviar primeiro seus espíritos jaguatirica e cão de caça para rastreá-lo e, em seguida, os espíritos dos pássaros xoapema, dos gaviões herama e dos pica-paus ëxëma, para chamá-lo. Sem isso, Xamari continuaria 12959 - A queda do céu.indd 204 8/10/15 12:30 PM
  • 207. 205 navegando em sua canoa por rios distantes e as antas não apareceriam na flo- resta. As antas gostam de passar muito tempo folgando na água, não é? Os es- píritos de todos os pássaros de que falei são seus genros.22 Por isso ele atende ao chamado de suas flautas e aceita seu convite: “Sogro! Venha a nós! Temos fome de carne! Temos desejo de você!”. Assim, logo depois de terem feito ami- zade com seu sogro Xamari, eles amarram uma corda em sua canoa e o rebocam até a margem, com a ajuda do espírito da ariranha kana. O ancestral anta então desce de sua embarcação, e volta a entrar na floresta. Seus genros, solícitos, in- dicam a ele onde encontrar seu alimento preferido, as frutas das palmeiras rio kosi e ëri si, e também as das árvores apia ki, oruxi hi, makina hi, hapakara hi e pirima ahith oth o. É desse modo que os xamãs atraem as antas para a terra firme, para podermos caçá-las na floresta. Mesmo assim, elas só podem ser achadas por caçadores muito especiais; os que em nossa língua chamamos xama xio.23 São caçadores que têm neles as imagens do espírito anta e de seus genros, mesmo sem serem xamãs. Elas des- cem a eles e amarram suas redes em seus peitos, porque os pais deles já eram grandes rastreadores de antas. Não fosse a grande habilidade desses caçadores xama xio, nós jamais comeríamos carne dessa caça. É verdade. Quem vai caçar preocupado com outras coisas, sem muito empenho, nunca avista uma anta. Encontra apenas jabutis no chão da floresta! Ao contrário, um caçador apai- xonado pela imagem do ancestral Anta, que realmente sente saudade dela,24 logo depara com um desses animais, longe na floresta ou perto de casa. Era assim que nossos xamãs antigos traziam para nossa floresta os quei- xadas e as antas, e também os macacos-aranha, os papagaios, os mutuns e os veados. Bebiam yãkoana e faziam dançar as imagens dos ancestrais animais yarori. E quando faziam descer a si os espíritos arara, logo víamos esses pássa- ros surgindo perto de nossa casa. Era assim mesmo. Os animais só ficam felizes quando ouvem os cantos dos xapiri, e estes não gostam que seus pais fiquem preguiçando na rede, sem beber yãkoana. Assim é. A caça só fica fácil de matar se os xamãs fizerem descer as imagens de seus ancestrais. Nossos maiores ti- nham muito conhecimento e sabiam fazer bem esse trabalho. Não ficavam cantando à toa, como costumam pensar os brancos, pois se os xamãs não tra- balharem sem descanso, os animais de caça ficam irritados e muito ariscos. Se é assim, as presas não param de se queixar dos caçadores: “Ma! São outras gentes. Tratam-nos sem nenhum respeito. Despejam de uma maneira suja o 12959 - A queda do céu.indd 205 8/10/15 12:30 PM
  • 208. 206 caldo de nosso cozimento para fora de suas casas! Atiram sem consideração nossas ossadas e peles na floresta! É de dar dó! Vamos ficar longe deles!”. Os animais também são humanos. Por isso se afastam de nós quando são maltra- tados. No tempo do sonho, às vezes ouço suas palavras de desgosto quando querem se negar aos caçadores. Quando se tem mesmo fome de carne, é pre- ciso flechar a presa com cuidado, para que morra na hora. Assim, ela ficará satisfeita por ter sido morta com retidão. Caso contrário, fugirá para bem lon- ge, ferida e furiosa com os humanos. Quando as árvores da floresta não carregam frutos, os japins kori e napore e as gralhas piomari namo não se reúnem nelas. Nenhuma outra ave tampouco se aproxima. Assim é. Os papagaios, tucanos, araras, mutuns, jacamins, cujubins e perdizes pokara costumam vir comer nas árvores logo depois dos japins e das gralhas. Alimentam-se dos restos destes, das frutas que seus bandos barulhen- tos bicam no topo das árvores ou fazem cair no chão. Por isso os xamãs fazem dançar os espíritos japim e gralha, para que as outras caças aladas voltem a ficar abundantes na floresta. As imagens dessas aves fazem amadurecer os frutos das árvores para alimentar todos os outros espíritos pássaros que as seguem de perto. Quem nunca bebeu yãkoana não se dá conta disso. Apenas ouve o canto dos xamãs durante a noite, sem entender o que estão fazendo. Porém, se não há comida nas árvores e a floresta tem valor de fome, eles enviam seus xapiri japim e gralha para bem longe, em direção ao poente, para de lá trazerem a imagem de seus frutos. Quando retornam, os demais espíritos pássaros exclamam, ale- gres e ansiosos: “Awei! Finalmente vamos comer! Vamos pedir a eles nossa par- te da comida que trazem! Parece gostosa! Estamos famintos e sofridos!”. Depois, todos se precipitam sobre a tão desejada comida, num enorme bando, eufórico e voraz. Só assim a caça alada começa a reaparecer na floresta! Volta para bem longe de nós, no começo, e depois vai pouco a pouco se aproximando de nossas casas. Então, os caçadores, animados, espalham a notícia: “A caça está comendo perto de tal rio, e lá perto daquele grupo de árvores, e também naquele outro lugar!”. Era esse, antigamente, o trabalho de nossos grandes xamãs para atrair a caça para a nossa floresta. Hoje, perdemos esse conhecimento e muitos de nossos pais já o tinham esquecido antes de nós. Só os nossos verdadeiros maio- 12959 - A queda do céu.indd 206 8/10/15 12:30 PM
  • 209. 207 res tinham capacidade para isso. Conseguiam juntar uma multidão de papa- gaios e araras nas palmeiras hoko si e õkarasi si, onde brincavam, pouco des- confiados; e ficavam ali parados, ao alcance dos caçadores, mordiscando as folhas novas. É verdade! Meus avós, quando viviam, há muito tempo, na nas- cente do rio Toototobi, tinham mesmo esse poder. Às vezes faziam uso dele, para as pessoas de sua casa poderem se fartar da carne dessas aves e se enfeitar com suas penas. Sua preocupação era manter sua gente feliz. E quando os seus ficavam com muita fome de carne, chegavam até a trazer caça da floresta dos fantasmas, que fica nas costas do céu! Mandavam então seus xapiri espantarem as presas lá em cima, para fazê-las cair na terra. Os xamãs sabem: a floresta dos fantasmas é coberta de árvores sempre carregadas de frutos e os queixadas, os macacos-aranha, os mutuns e os cujubins são nela muito mais numerosos do que aqui embaixo! As árvores da floresta e as plantas de nossas roças também não crescem sozinhas, como pensam os brancos. Nossa floresta é vasta e bela. Mas não o é à toa. É seu valor de fertilidade que a faz assim. É o que chamamos në rope.25 Nada cresceria sem isso. O në rope vai e vem, como um visitante, fazendo cres- cer a vegetação por onde passa. Quando bebemos yãkoana, vemos sua imagem que impregna a floresta e a faz úmida e fresca. As folhas de suas árvores apa- recem verdes e brilhantes e seus galhos ficam carregados de frutos. Vê-se tam- bém grande quantidade de pupunheiras rasa si, cobertas de pesados cachos de frutos, pendurados na parte de baixo de seus troncos espinhosos, e imensas plantações de bananeiras e pés de cana-de-açúcar. Esse valor de fertilidade da terra está ativo por toda parte. É ele que faz acontecer a riqueza da floresta e que, desse modo, alimenta os humanos e a caça. É ele que faz sair da terra todas as plantas e frutos que comemos.26 Seu nome é o de tudo o que prospera, tanto nas roças como na floresta.27 No primeiro tempo, Omama colocou esse valor de fertilidade dentro de nossa terra e sua imagem foi se espalhando por toda a sua extensão, antes de 12959 - A queda do céu.indd 207 8/10/15 12:30 PM
  • 210. 208 chegar à terra dos brancos. Seu verdadeiro centro se encontra onde moramos, onde Omama veio a ser. É verdade. Na floresta, habitamos no lugar onde vive o pai da fertilidade në rope, o lugar de sua origem. É por isso que a imagem dele, que chamamos Në roperi, dança com os espíritos dos ancestrais animais que os xamãs fazem descer. Assim, quando a floresta tem valor de fome, eles podem beber yãkoana para trazer de volta a imagem de seu valor de fertilidade. Em nossa casa de Watoriki, porém, não precisamos fazer esse trabalho. Nossa terra é bela e impregnada de riqueza.28 O ser maléfico da fome, que chamamos de Ohinari, permanece longe dela e a imagem da fertilidade dança junto a nós desde que viemos morar aqui. Faz crescer as frutas das árvores e as plantas das roças com muita generosidade, após cada período de chuva. Tudo cresce com fartura, e a caça se alimenta de abundância, nas árvores, no chão e na água. Në roperi, a imagem da riqueza da floresta, se parece com um ser humano, mas é invisível à gente comum. Só deixa aparecer para seus olhos de fantasma o alimento que faz crescer, e apenas os xamãs podem realmente contemplar sua dança de apresentação. Na frente dela vem um bando barulhento de espíritos japim e gralha, acompanhado por uma multidão de espíritos arara, papagaio, tucano e mutum. Esses xapiri que carregam consigo os demais pássaros são os companheiros da imagem da fertilidade, são seus ajudantes. Ela nunca dança sem eles. Os xamãs os fazem descer quando as pessoas de sua casa têm fome, pois onde seus chamados não são ouvidos não cresce alimento algum. Foram esses ancestrais animais que, no primeiro tempo, descobriram e espalharam por toda parte a fertilidade da terra. É por isso que os pássaros de hoje, que são seus fantasmas, continuam comendo os frutos da floresta. São representantes deles. É o que dizem os nossos mais velhos xamãs. Porém, são também rique- za da floresta as imagens das abelhas yamanama, que fazem desabrochar as flores das árvores e espalham o açúcar por seus frutos, assim como pelos do mamoeiro e da cana-de-açúcar. São ainda as imagens das mulheres bananeiras e das árvores aro kohi e wari mahi, de folhagem tão densa.29 Nas terras altas, são as imagens dos gaviões witiwitima namo que tornam abundantes as lagar- tas kaxa, as frutas das árvores momo hi e das palmeiras xoo mosi, bem como as flores comestíveis das árvores nãi hi. Assim que o chamado estridente dos espíritos japim e gralha ecoa de todos os lados, começa também a se fazer ouvir o canto grave de Në roperi, o espírito da fertilidade. Ele chega dançando alegremente, trazendo nas costas todos os 12959 - A queda do céu.indd 208 8/10/15 12:30 PM
  • 211. 209 alimentos da floresta. Parece um ser humano, mas é outro. É muito mais lindo. Seus olhos são bonitos e seus cabelos são como uma cascata de flores amarelas e brancas. Seu corpo é recoberto de penugem luminosa e ele tem em torno da testa uma faixa de rabo de macaco cuxiú de um preto intenso. Evolui devagar, seguido por um cortejo de imagens de árvores, cipós e folhas. Vem envolto numa nuvem ruidosa de espíritos de pássaros multicoloridos: sei si, hutureama nakasi, japins ayokora e araçaris. Acompanha-o uma multidão de ancestrais animais yarori e de espíritos da floresta urihinari, agitando palmas novas des- fiadas, num inebriante perfume de flores. Dança no meio deles agitando os frutos da floresta que traz consigo, eles também cobertos de penugem de um branco resplandecente. Eu já vi dançar essa imagem da riqueza da floresta no tempo do sonho, depois de ter bebido o pó de yãkoana durante o dia todo. É mesmo esplêndida! Cheguei até a sentir na minha boca o sabor macio e doce de suas frutas maduras! Assim é. Uma vez terminada sua dança de apresentação, o espírito Në roperi alimenta o xamã que o chamou e vem instalar seu espelho na casa de espíritos dele, numa habitação à parte, como os demais xapiri. A partir desse momento, o xamã saberá trazer de volta a fertilidade da floresta para junto dos seus. Sem ninguém saber, ele fará crescer todas as plantas e curará sua esteri- lidade. Assim que faz dançar Në roperi, as flores começam a desabrochar nas árvores. Em seguida, os galhos ficam férteis e carregados de frutas. Se o espíri- to da fertilidade não descesse com seus espíritos japim e gralha, nossa floresta permaneceria com valor de fome e a caça não andaria nela. São as imagens desses pássaros que fazem crescer os alimentos, os dos animais e os nossos. Depois, é Omoari, o ser do tempo seco, com o calor que deposita no solo, que ajuda a amadurecer as frutas da floresta, pois ele também as come. 12959 - A queda do céu.indd 209 8/10/15 12:30 PM
  • 212. 210 Nossos maiores bebiam o pó de yãkoana e exortavam seus espíritos di- zendo: “Nossas mulheres e crianças estão esfomeadas! Façam crescer novamen- te os alimentos da floresta!”. Então os enviavam em busca da imagem da ferti- lidade në rope, muito longe, onde vive o dono dela, o ser Huture, e eles a traziam de volta. Aí, nas pegadas de retorno dos xapiri, as plantas cresciam nas roças e as árvores floresciam. A imagem da fertilidade chegava à nossa floresta e depois prosseguia para além dela. Hoje, não temos tanto conhecimento quanto nossos antigos xamãs, mas apesar disso tentamos seguir o caminho deles. Antes de morrerem, não nos ensinaram a trazer de volta a fertilidade da floresta. Mesmo assim aprendemos a virar espíritos por nossa vez, e também chegamos a co- nhecer sua imagem, fazendo-a dançar no tempo do sonho. Assim é. Quando a riqueza da floresta se afasta de nossas casas, não retorna por conta própria. Os xamãs têm de se esforçar muito para trazer de volta sua imagem, pois sem ela os frutos das árvores e as plantas das roças param de crescer. Depois disso, precisam continuar trabalhando muito para retê-la, pois ela pode fugir a qual- quer momento e nunca mais voltar. Quando isso acontece, é porque Ohinari, o ser da fome, instalou-se na floresta no lugar dela. Vindo de muito longe, de onde os brancos não têm nada mais o que comer, ele fica de tocaia para nos maltratar. Por mais que plantemos e trabalhemos duro, nada cresce em nossas roças, nem bananeira, nem man- dioca, nem cana-de-açúcar! Todas as plantas cultivadas definham e, na flores- ta, os galhos das árvores continuam vazios. A caça vai rareando. Então, dize- mos: “Urihi a në ohi! A floresta tem valor de fome!”. Ohinari é o que os brancos chamam de pobreza. É um ser maléfico que mata aos poucos. Quando decide se instalar na floresta, pode permanecer muito tempo no mesmo lugar. Aí as pessoas logo ficam sem nada para comer. Dia após dia, ele sopra seu pó de yãkoana nas narinas delas, fazendo-as virar outras. Então, elas ficam cada vez mais fracas. Seus membros não têm mais energia e elas sentem fortes tonturas. Seus ouvidos entopem, sua voz seca e seus olhos vazios causam dó. Definham aos poucos, e acabam desmaiando. Depois morrem, só pele e osso. Para evitarem que isso aconteça, os xamãs devem beber mais e mais yãko- ana, para enviar seus xapiri em busca da imagem da fertilidade em florestas distantes, ou até mesmo nas costas do céu. É verdade. Como eu disse, existe um valor de fertilidade në rope acima de nós. É o dos fantasmas e dos seres trovão, que também se alimentam de plantas de suas roças e de frutas de sua 12959 - A queda do céu.indd 210 8/10/15 12:30 PM
  • 213. 211 floresta, cheia de árvores oruxi hi, mõra mahi, yawara hi e muitas outras. Sua fertilidade é muito grande mesmo, e os espíritos japim e gralha são capazes de trazê-la para nós. Mas os fantasmas podem, também, por conta própria, resol- ver fazer cair um pouco dessa riqueza entre os humanos. Isso às vezes aconte- ce, durante suas festas, quando, depois de saciados, entoam seus cantos heri e ouvem as mulheres dos vivos se queixar de fome, pedindo a eles um pouco de seus restos. Nos lugares em que eles se mostram generosos, os frutos das árvo- res da floresta e das pupunheiras rasa si ficam muito abundantes mesmo, e os humanos, felizes, podem fartar-se deles à vontade. No primeiro tempo, foi Koyori, o ancestral Saúva, que, quando a floresta ainda estava se transformando, descobriu nela o valor de fertilidade das roças e o transmitiu a nós.30 Mas não é ele quem faz crescer as árvores. É Omama. Koyori trabalhava sozinho na floresta durante o dia todo, tanto que suas longas ausências intrigavam seus próximos. Ele os despistava, afirmando que andava derrubando árvores à cata de mel selvagem. Mas estava mentindo! Na verdade, sem que ninguém soubesse, ele passava o tempo todo abrindo uma roça, cada vez mais imensa. Naquele tempo ainda não existia, porém, nenhuma planta cultivada. Para fazer com que surgissem da terra, Saúva apenas batia com o pé no chão repetindo: “Que se espalhem as raízes destas plantas! O milho vai sair aqui! As bananeiras aqui!”. Então, os pés de milho e as bananeiras logo come- çavam a crescer diante dos olhos. A sogra de Saúva se chamava Poomari. Tinha um gênio difícil e reclamava do genro sem parar. Ficava enfurecida com o fato de ele passar tanto tempo na floresta em vez de lhe trazer comida. Certo dia, exasperada, insultou-o, fazendo piadas a respeito de seu traseiro arqueado. Ele então resolveu se vingar. Mandou-a ir buscar milho cada vez mais longe em sua roça, para que acabasse se perdendo em suas vastas plantações. Foi o que acon- teceu. Desamparada, transformou-se em pássaro poopoma. Até hoje seu canto pode ser ouvido nas roças: “Pooo! Pooo! Pooo!   ”. Quanto ao genro, metamorfo- seou-se em saúva koyo. Desde então, os xamãs sabem fazer descer as imagens de Koyori e de sua sogra Poomari. Ouvi seus cantos quando o pai de minha esposa as fazia dançar e as vi muitas vezes quando sonhava, depois de ter bebido yãkoana. Essas ima- gens também possuem o valor de fertilidade da terra. Foi desse modo que ela 12959 - A queda do céu.indd 211 8/10/15 12:30 PM
  • 214. 212 apareceu. No tempo em que Koyori veio a ser, ainda não existiam roças. As pessoas só comiam frutos da floresta. Foi ele que pediu as plantas cultivadas ao ser da fertilidade Në roperi. Foi ele o primeiro a fazer crescer milho, bananeiras, mandioca, taioba e cará. Ele nos ensinou esse trabalho. De modo que se um homem tem em si a imagem de Koyori, mesmo não sendo xamã, ela vai ajudá- -lo a trabalhar em sua roça sem descanso, com saúde ou doente. Jamais será visto cochilando na rede. Ela lhe dará vontade de abrir cada vez mais parcelas, para plantar todos os tipos de alimento. Assim é. Para o trabalho de roça, imi- tamos também a imagem do lagarto gigante wãsikara, que nos torna capazes de trabalhar debaixo de sol, sem esmorecer. Essas imagens passam de pai para filho, pelo esperma, pelo sangue que vem do esperma.31 Elas não podem ser vistas. Ficam fundo dentro da gente, no nosso pensamento, dentro de nosso fantasma, no interior de nossa própria imagem.32 Nas roças, são os espíritos da juriti horeto que cuidam das bananeiras. Plantam-nas com os humanos, e acompanham seu crescimento, pois também são mulheres espíritos de fertilidade në ropeyoma. Entretanto, são os espíritos morcego e macaco-aranha que brincam e copulam com os brotos de bana- neira quando ainda são moças.33 Fecundam-nas com seu valor de fertilidade e elas então começam a ficar carregadas de cachos volumosos.34 É verdade. As bananas não nascem sozinhas à toa! As bananeiras são mulheres-plantas. Seus frutos nascem porque elas ficam grávidas e parem. É assim com tudo o que cresce nas roças e na floresta. As mulheres-plantas primeiro ficam grá- vidas. A gravidez dura algum tempo, e depois elas dão à luz. É então que seus frutos aparecem. Eles nascem como os humanos e os animais. É por isso que os moradores de uma casa costumam recorrer aos xamãs quando suas bana- neiras custam a crescer ou quando precisam dispor logo de uma grande quantidade de bananas para dar uma festa reahu e suas roças ainda são no- vas. Pedem a eles que façam dançar seus espíritos morcego e macaco-aranha, para que engravidem as mulheres-bananeiras e seus frutos se desenvolvam depressa. Então, esses xapiri colocam seus filhos e o sabor do açúcar nos brotos novos das bananeiras,35 como os humanos com seu esperma nas suas mulheres. É desse modo que procedem; muitas vezes os vi copular no tempo do meu sonho. 12959 - A queda do céu.indd 212 8/10/15 12:30 PM
  • 215. 213 Por sua vez, os espíritos do tatu-canastra waka são os donos dos tubércu- los de mandioca e de sua fertilidade.36 Plantam-nos junto com os humanos e são eles que os fazem crescer. Assim, o homem que possui dentro dele a ima- gem desse animal com certeza terá uma bela plantação de mandioca. Essa ima- gem irá ajudá-lo quando trabalhar na roça e seus braços estarão impregnados de valor de fertilidade. Os tubérculos de seus pés de mandioca ficarão longos e firmes. Assim é. Se pedirmos a eles, os xamãs podem também chamar e fazer dançar o espírito tatu-canastra e seu valor de fertilidade, para engrossar os tubérculos de uma plantação de mandioca que não está produzindo bem. No caso das pupunheiras rasa si, os xamãs também podem fazer descer o espírito do pássaro marokoaxirioma,37 que fecunda a imagem das mulheres-palmeiras raxayoma passando em volta de seus pescoços o ovo de seus frutos. Estes então se põem a crescer em profusão e, para que seus cachos pesados não caiam antes da hora, o espírito japim napore deve dar tipoias às mães, que os levam nelas como recém-nascidos.38 Finalmente, são os espíritos arara que se encar- regam de fazer com que amadureçam. É o espírito do turiri yõriama, por sua vez, que faz crescer as taiobas aria si. Os xamãs também podem chamar sua imagem e fazer dançar seu valor de fertilidade para aumentar seus tubérculos. Por outro lado, é simplesmente a terra da floresta que faz crescer os carás; a terra à qual o ancestral saúva Koyo- ri deu fertilidade no primeiro tempo.39 É também a imagem dele que faz crescer os pés de milho, como ele fez outrora, batendo o pé no chão. Nossos maiores, há muito tempo, costumavam dar suas festas reahu oferecendo milho a seus convidados.40 Hoje, porém, já não o cultivamos muito. O ancestral saúva Koyo- ri é o verdadeiro dono da fertilidade do solo da floresta. A cana e a batata-doce também crescem graças a ele. Não precisamos ficar regando a terra, como os brancos, para que haja muito alimento em nossas roças! O valor de fertilidade da floresta basta. Sem ele, as plantas ficariam feias e mirradas. 12959 - A queda do céu.indd 213 8/10/15 12:30 PM
  • 216. 214 * * * Quando o que plantamos em nossas roças não cresce mesmo, chegamos a pensar, às vezes, que xamãs inimigos podem ter desviado o valor de fertilida- de da floresta para longe de nós. Mas também pode acontecer de algum xamã de uma casa amiga levá-lo embora sem querer. Assim, numa festa reahu, algum convidado empanturrado pode roubar em sonho a imagem da fertilidade da floresta de seus anfitriões. Tornado fantasma sob o efeito da enormidade de mingau de banana que estes o fizeram beber,41 pode levar para sua própria casa os espíritos morcego que fizeram crescer aquelas frutas, para que passem a dançar na sua roça. Assim é. Quem bebe muito mingau de banana ou de pupunha numa festa vira outro e, à noite, as imagens da fertilidade dessas frutas vêm visitá-lo. Ocorreu comigo, certa vez, numa festa reahu na casa dos Xamath ari do rio Kapirota u. Tinha tomado tanto mingau de pupunha que trouxe de lá a imagem do pássaro marokoaxirioma que as tinha feito crescer! Apareceu de repente enquanto eu dormia, e me seguiu no caminho de volta, para fazer crescer minhas próprias plantações, em Watoriki. Meus anfitriões perceberam, mas não guardaram rancor. Disseram-me apenas: “Pode ficar com a fertilidade dessas frutas! Faremos vir outra às nossas roças!”. Porém, mesmo quando a riqueza de nossas plantações é assim levada por um xamã visitante, isso não dura muito. Continua havendo muita fertilidade në rope na floresta, e se nossas roças ficam com valor de fome, basta bebermos yãkoana para trazê- -la de volta para junto de nossa casa. Por fim, se for preciso, é também possível emprestar a fertilidade da floresta de uma casa amiga. Nesse caso, dizemos aos seus moradores: “Os meus estão passando fome, porque minhas plantações não estão crescendo bem. Gostaria de conseguir o valor de fertilidade que vo- cês têm! Mas não sei como fazer!”. Então, os xamãs daquela casa, para mostrar sua generosidade, farão dançar sua imagem para dá-la a nós. Os animais são como os humanos. Nós ficamos satisfeitos quando nossas roças se enchem de cachos de bananas e de pupunhas; eles ficam felizes quando há muitos frutos nas árvores da floresta.42 Estes são o alimento deles assim como aqueles são os nossos, pois os animais que caçamos são os fantasmas de nossos ancestrais transformados em caça no primeiro tempo. Uma parte desses ante- 12959 - A queda do céu.indd 214 8/10/15 12:30 PM
  • 217. 215 passados foi arremessada no mundo subterrâneo quando o céu desabou. Outra ficou na floresta, na qual nós também viemos a ser criados, e virou caça. Damos a eles o nome de caça, mas o fato é que somos todos humanos. Assim é. Quando a riqueza da floresta vai embora, os animais ficam esqueléticos e vão rareando, pois é ela que costuma fazer a caça prosperar. Com ela, os animais encorpam e fazem filhotes, que por sua vez crescem e se multiplicam porque comem seus frutos maduros e doces.43 Para viver, suas imagens devem se alimentar da imagem do valor de fertilidade da floresta. Por isso os xamãs também fazem descer a imagem da gordura da caça, junto com a da fertilidade da terra. Essa gordura das antas, dos queixadas e dos macacos-aranha vem de para além da terra dos an- cestrais dos brancos. É ela que engorda também o gado deles e faz alguns ficarem tão enormes! Nós a chamamos yarori pë wite, a gordura dos espíritos animais. Para trazê-la até sua floresta, os xamãs têm de despachar para longe os xapiri dos pássaros napore e hutuma.44 Ela vem de um ser muito antigo que, aos olhos dos xamãs, parece um macaco-aranha gigante. Este ser fica escondi- do a montante do céu, onde nasce o sol. É muito barrigudo, porque guarda em si toda a gordura da caça, que só cede aos poucos, com avareza.45 De modo que, quando ele demora a distribuí-la, os animais podem continuar magros e fracos demais para serem caçados. Porém, quando sua imagem resolve dançar na floresta, todos eles começam a engordar novamente: macacos, veados, antas, queixadas, mutuns, cujubins, araras e papagaios, e também jabutis e peixes. Assim, quando dormimos em estado de fantasma, saciados de caça gorda, so- mos nós que encorpamos por efeito da imagem dessa gordura! Bebendo yãkoa­ na, só uma vez vi esse ser macaco-aranha gigante. Quando ele quer fazer en- gordar a caça que lhe pertence, apenas sua imagem anda pela floresta. Pelo caminho, ele vai repartindo a gordura por todos os animais, por conta própria. Somente os mais antigos xamãs são capazes de chamá-lo para engordar a caça. Eu ainda não sei fazer isso, e não quero fingir. Tentarei quando tiver certeza de conhecê-lo de verdade. Não quero ser como esses xamãs que querem enga- nar quem os ouve, e ficam se gabando de fazer descer xapiri que mal viram e de quem não sabem quase nada! Os xapiri se movimentam e trabalham na floresta, nas costas do céu e na terra, em todas as direções, inumeráveis e potentes, para nos proteger. Atacam 12959 - A queda do céu.indd 215 8/10/15 12:30 PM
  • 218. 216 sem trégua os seres maléficos e as epidemias que querem nos devorar. Limpam o útero das mulheres esterilizadas por substâncias de feitiçaria xapo kiki, e co- pulam com elas para que voltem a ter filhos de seus maridos.46 Eles reforçam a floresta quando ela vira outra e quer se transformar de novo. Sem eles, as plan- tas das roças não cresceriam, as árvores não dariam frutos e a caça ficaria magra. A floresta só teria valor de fome. Eles seguram o céu quando ameaça desabar, contêm a ira dos trovões, afastam as filhas do ser da chuva e prendem os ventos de tempestade; advertem o ser do tempo encoberto e atrasam o do anoitecer. Afastam o espírito da noite e chamam o orvalho, para que a aurora desponte mais depressa. Eles contêm o ser do caos Xiwãripo, que quer emaranhar a flo- resta quando cheira o sangue menstrual das moças que saíram cedo demais da reclusão. Mandam de volta para as costas do céu as cobras e os escorpiões que de lá caíram. Mantêm fechado o espelho dos espíritos onça, para impedi-los de sair da terra, do lugar em que nossos ancestrais encontraram o ovo que lhes deu origem. É verdade, as onças nasceram de um ovo! No primeiro tempo, foi en- contrado boiando na água, por velhas que tinham ido coletar caranguejos e camarões num igarapé. Curiosas, aproximaram-se dele e ouviram que emitia um rugido surdo. Carregaram-no num cesto até sua casa, onde nossos ances- trais, perplexos, por fim o cozinharam e comeram. Porém, sem pensar, jogaram os pedaços da sua casca na floresta, que se transformaram e se espalharam por toda a floresta como onças! Assim é. Os xapiri nos protegem contra todas as coisas ruins: a escuridão, a fome e a doença. Afastam-nas e combatem-nas sem descanso. Se não fizessem esse trabalho, nós daríamos dó! O vendaval, os raios e a chuva não nos deixa- riam um momento de trégua; a cheia dos rios inundaria a floresta continua- mente. Ela ficaria infestada de cobras, escorpiões e onças, invadida pelos seres maléficos das epidemias. A noite envolveria tudo. Teríamos de ficar escondidos em nossas casas, esfomeados e apavorados. Começaríamos, então, a virar ou- tros, e o céu acabaria caindo novamente. Por isso nossos ancestrais começaram a fazer dançar os xapiri no primeiro tempo. Sua preocupação, desde sempre, foi proteger os seus, como Omama havia ensinado ao seu filho. Nós apenas seguimos suas pegadas. Os xamãs yanomami não trabalham por dinheiro, co- mo os médicos dos brancos. Trabalham unicamente para o céu ficar no lugar, para podermos caçar, plantar nossas roças e viver com saúde. Nossos maiores não conheciam o dinheiro. Omama não lhes deu nenhuma palavra desse tipo. 12959 - A queda do céu.indd 216 8/10/15 12:30 PM
  • 219. 217 O dinheiro não nos protege, não enche o estômago, não faz nossa alegria. Para os brancos, é diferente. Eles não sabem sonhar com os espíritos como nós. Preferem não saber que o trabalho dos xamãs é proteger a terra, tanto para nós e nossos filhos como para eles e os seus. 12959 - A queda do céu.indd 217 8/10/15 12:30 PM
  • 220. 12959 - A queda do céu.indd 218 8/10/15 12:30 PM
  • 221. a fumaça do metal 12959 - A queda do céu.indd 219 8/10/15 12:30 PM
  • 222. 12959 - A queda do céu.indd 220 8/10/15 12:30 PM
  • 223. 9. Imagens de forasteiros Enganador e demiurgo. 12959 - A queda do céu.indd 221 8/10/15 12:30 PM
  • 224. 222 Eu acredito, junto daqueles que conhecem essas regiões distantes, misteriosas e desertas, que, contanto que elas permaneçam no esta- do atual, ou seja, desprovidas de recursos e dominadas pelas ferozes hordas de Marakanãs, de Kirishanas [Yanomami] e de tantos ou- tros que as infestam, as solidões da Parima permanecerão inacessí- veis aos homens civilizados e envoltas nos mistérios que a cercam até os dias de hoje. F. X. Lopes de Araujo, 1884 Comissão Brasileira Demarcadora de Limites Antigamente, os brancos não existiam. Foi o que me ensinaram os nossos antigos, quando eu era criança. Omama vivia então na floresta, com seu irmão Yoasi e sua esposa, Th uëyoma, que os xamãs também chamam de Paonakare. Seu sogro, Tëpërësiki, morava numa casa no fundo das águas. Não havia mais ninguém. Assim era. Omama deu-nos a vida muito antes de criar os brancos, e era também ele que, antes deles, possuía o metal. As primeiras peças de ferro utilizadas por nossos ancestrais foram as que Omama deixou para trás na flo- resta, quando fugiu para longe, a jusante de todos os rios. Eles não tinham machados e facões de verdade, como hoje.1 Amarravam pedaços de ferro usa- dos num cabo para fazer machadinhas.2 Essas ferramentas eram muito poucas nas casas dos antigos. Só alguns homens mais velhos as possuíam e as deixavam bem guardadas. Trabalhavam com esses pedaços de ferro que chamavam de ferramentas de Omama, porque eram muito resistentes.3 Os outros homens as tomavam emprestadas, um depois do outro, para abrir suas roças. Os visitantes de casas amigas também vinham pedir permissão para utilizá-las. Naquele tem- po era assim. Os objetos dos brancos ainda não estavam por toda parte como agora! Por isso penso hoje na dificuldade do trabalho de nossos maiores e isso me leva a não querer ter muitas mercadorias. Só Omama possuía o metal, e trabalhava com ele em sua roça desde sem- pre. No primeiro tempo, chegou até a se transformar numa barra de ferro, de medo do sogro! Ele tinha acabado de pescar a filha de Tëpërësiki no rio, quan- do este resolveu lhe fazer uma visita. No caminho levava um enorme e pesado saco de folhas de palmeira trançadas, cheio de brotos de bananeira, manivas de mandioca, cará, taioba e batata-doce, cana-de-açúcar, sementes de tabaco, mamão e milho. Vinha ensinar Omama a cultivar plantas de roça. Porém, de 12959 - A queda do céu.indd 222 8/10/15 12:31 PM
  • 225. 223 longe, ele fazia um barulho amedrontador, como de furacão ou de trator. Com pavor de encontrar o sogro, Omama se transformou num instante em peça de metal e se fincou no chão de sua casa.4 Seu irmão Yoasi logo quis imitá-lo, mas transformou-se numa simples cavadeira de madeira de palmeira.5 Por fim, o sogro Tëpërësiki entrou na casa e, ao ver apenas a filha, perguntou: “Onde está seu marido?”. Ela indicou com os lábios a barra de ferro. “Onde está seu cunha- do?” Ela apontou o pedaço de madeira. Tëpërësiki então declarou: “Vocês vão plantar as coisas que eu trouxe e multiplicá-las. Quando tiverem filhos, e os humanos forem muitos, eles poderão se alimentar delas!”. Depois dessas pala- vras, retornou à sua casa debaixo d’água. Assim foi. São esses os alimentos que comemos até hoje. Mas não foi o sogro que deu o metal a Omama, ele já o possuía. Bebendo yãkoana, eu já o vi se transformar em ferramenta de aço. Sua imagem continua fincada lá onde isso ocorreu, nas terras altas, nas nascentes de todos os rios. Depois disso, voltou à forma humana e ensinou nossos ances- trais a trabalhar com esse metal em suas roças. Os nossos maiores não usavam facas. Destrinchavam a caça com lâminas de bambu. Esmagavam os ossos das presas com pedaços de madeira dura. Tam- bém pescavam com anzóis feitos de osso de tatu ou com os espinhos encurva- dos de cipó ërama th oth o amarrados com a fibra das folhas da planta yãma asi. As mulheres ralavam mandioca em pedras ou na casca rugosa da árvore operema axihi.6 Os homens faziam fogo esfregando brocas de cacaueiro entre as mãos. As pessoas cortavam o cabelo com lascas de taboca afiadas ou com dentes de piranha. Não havia pente. Ajeitavam os cabelos com o caroço espinhoso das frutas da árvore ruapa hi. Tampouco havia espelhos. Quando alguém queria depilar as sobrancelhas ou se pintar, tinha de pedir a outra pessoa para fazê-lo. No final das festas reahu, trocavam arcos, flechas, estojos de bambu, pontas de flecha, adornos de plumas, tabaco, tinta de urucum, cabaças, cães, redes de al- godão e potes de cerâmica. Nossos maiores, no rio Toototobi, tinham um ban- co de argila. Eram as mulheres que faziam a cerâmica que os homens trocavam com gente de outras casas. Assim era a vida naquele tempo. Ouvi meu padras- to falar de tudo isso muitas vezes, quando era criança. Naquela época, não havia quase nenhuma coisa dos brancos. Não havia ainda nenhuma de suas redes, nem panelas de alumínio, nem chapas de beiju feitas de tampas de barril de 12959 - A queda do céu.indd 223 8/10/15 12:31 PM
  • 226. 224 metal. Os homens dormiam em redes de entrecasca7 ou de algodão. As mulhe- res cozinhavam em panelas de barro e assavam os beijus em placas de argila. No primeiro tempo, os brancos estavam muito longe de nós. Ainda não tinham trazido o sarampo, a tosse e a malária para nossa floresta.8 Nossos an- cestrais não adoeciam tanto quanto nós, hoje. Gozavam de boa saúde a maior parte do tempo e, quando morriam, as fumaças de epidemia não sujavam seus fantasmas. Agora, quando alguém morre de doença de branco, até seu espectro é infestado, e volta para as costas do céu com febre. Seu sopro de vida e sua carne ficam contaminados até lá! Antes, tampouco ficávamos doentes todos ao mesmo tempo. As pessoas não morriam tanto! Os espíritos maléficos në wãri comiam a imagem de um homem aqui, ou de uma mulher ali. Uma moça fa- lecia quando um caçador distante flechava seu duplo animal rixi. Uma criança era devorada pelos espíritos de xamãs inimigos. Por vezes, um ancião morria de repente, antes da hora. Então a gente das outras casas próximas era convi- dada e todos choravam juntos. Quando achavam que feiticeiros inimigos oka tinham soprado no falecido um pó de feitiçaria e tinham quebrado seus ossos, um grupo de guerreiros logo partia para vingá-lo. Chorava-se um ancião que morrera desse modo; depois, mais tarde, podia ser uma mulher. Também acon- tecia de alguém ser flechado por inimigos. De tempos em tempos alguém mor- ria de picada de cobra, ou um velho começava a tossir sem parar e acabava falecendo. Assim era. As pessoas só morriam de vez em quando. Naquele tempo, os Yanomami amavam de verdade a beleza e o frescor da floresta. Os mais idosos se extinguiam como brasas de fogueira, quando tinham a cabeça branca e os olhos cegos. Ficavam então secos como árvores mortas e se quebravam. Havia muitos xamãs naquela época. Costumavam fazer dançar seus espíritos, para curar os doentes. Depois as mulheres mais velhas esfrega- vam remédios da floresta em seus corpos. Quando as pessoas se sentiam mal, também bebiam mel selvagem, e isso as curava. Nossos maiores conheciam bem todas essas coisas. Hoje já não é mais assim. Os garimpeiros sujaram a 12959 - A queda do céu.indd 224 8/10/15 12:31 PM
  • 227. 225 floresta para valer. Ela ficou impregnada de fumaça de epidemia e fomos pegos num frenesi de morte. No rio Toototobi, onde vivi na infância, éramos muito numerosos. Havia três grandes casas perto umas das outras. Eram muitos an- ciãos. Depois os brancos chegaram, com suas febres e seu sarampo, e muitos dos nossos morreram. Hoje quase não há mais grandes xamãs, nossas casas ficaram muito menores e morremos jovens. Quando Omama criou nossos ancestrais e ensinou a eles as coisas deste mundo, eles tinham o pensamento tranquilo. Abriam novas roças na floresta e trabalhavam nelas com dedicação. Plantavam bananeiras, mandioca, cana, cará, taioba, batata-doce, milho e tabaco. Tinham também muitas pupunheiras. Sua preocupação era ter grandes roças, para que os convidados de suas festas reahu fossem muitos e, satisfeitos, lembrassem sua generosidade com belas palavras. E quando as roças começavam a produzir, partiam todos juntos para caçar longe na floresta. Então flechavam grandes quantidades de macacos, an- tas e queixadas, e os moqueavam antes de trazê-los de volta para casa. Depois se convidavam entre as casas, durante toda a estação seca. Os convidados enfeitavam o cabelo com penugem de urubu branco e co- locavam em volta da testa faixas de rabo de macaco cuxiú-negro. Cobriam o rosto e o corpo com tinta fresca de urucum e sobre ela traçavam ondas, círcu- los ou pontilhados em preto. Usavam brincos de penas de papagaio e peitos turquesa de pássaro hëima si nas orelhas. Punham em suas braçadeiras de al- godão longas caudais de arara-vermelha e tufos de penas brancas e pretas de cujubim. Prendiam nelas rabos de tucano e despojos alaranjados de galo-da- -serra. Ficavam muito bonitos, e dançavam com muita animação, para fazer boa figura na casa de seus anfitriões. Depois, uns e outros se ofereciam comida: enormes quantidades de mingau de banana, de pupunha ou de macaxeira. À noite, homens e mulheres entoavam cantos heri em sequência e faziam brin- cadeiras, enquanto dançavam com alegria. Às vezes, formavam-se casais. Os convidados homens pegavam pelo pulso parceiras escolhidas entre as filhas e esposas de seus anfitriões. É o que os antigos chamavam de hakimuu.9 Mas não era raro os pais ou maridos se irritarem! Então, começavam brigas e os adver- sários se alternavam dando socos no peito um do outro com o punho fechado, para acabar com a raiva. Se estivessem muito furiosos mesmo, e não conseguis- sem se acalmar, então davam bordunadas na cabeça um do outro. Era o único jeito de pôr fim à sua raiva! 12959 - A queda do céu.indd 225 8/10/15 12:31 PM
  • 228. 226 O pensamento dos maiores só ficava realmente sofrido quando morria um dos seus familiares. E, se tivesse sido comido por inimigos, a raiva de seu luto só podia ser aplacada quando o tivessem vingado. Então bebiam as cinzas de seus ossos com mingau de banana numa festa reahu e partiam para a guer- ra. O pensamento dos xamãs estava sempre fixado em seus xapiri. Quando ficavam velhos, transmitiam-nos aos mais jovens, fazendo-os beber o pó de yãkoana por seu turno. Assim davam a eles seu sopro de vida e palavras de verdade. Diziam: “Estes são os espíritos que Omama criou para ficarem ao nosso lado. São seres poderosos e imortais!”. Eram essas coisas que ocupavam a mente dos antigos. Seu pensamento ainda não estava obscurecido pelas mer- cadorias dos brancos e por suas epidemias. Nossos maiores amavam suas próprias palavras. Eram muito felizes assim. Suas mentes não estavam fixadas noutro lugar. Os dizeres dos brancos não ti- nham se intrometido entre eles. Trabalhavam com retidão e falavam do que faziam. Possuíam seus próprios pensamentos, voltados para os seus. Não fica- vam o tempo todo repetindo: “Um avião vai pousar amanhã! Visitantes brancos vão chegar! Vou pedir facões e roupas!” ou então “Garimpeiros estão se aproxi- mando! A malária deles é perigosa, vai nos matar!”. Hoje, todas essas falas a respeito dos brancos atrapalham nossos pensamentos. A floresta perdeu seu silêncio. Palavras demais nos vêm das cidades. Vários de nós foram até elas, para tratar de doenças ou defender nossa floresta.10 Brancos visitam sempre nossas casas. Suas palavras entram em nossa mente e a tornam sombria. Esses forasteiros não param de nos preocupar, mesmo quando estão longe de nós. Nosso pensamento fica emaranhado com palavras sobre os garimpeiros que comem a terra da floresta e sujam nossos rios, com palavras sobre colonos e fazendeiros que queimam todas as árvores para dar de comer a seu gado, com palavras sobre o governo que quer abrir nela novas estradas e arrancar minério da terra.11 Tememos a malária, a gripe e a tuberculose. Nossa mente fica o tem- po todo centrada nas mercadorias. Os nossos passam muito tempo ansiosos em obter mercadorias: facões, machados, anzóis, panelas, redes, roupas, espingardas e munição. Os jovens passam o tempo todo jogando futebol na praça central da casa, enquanto os xamãs estão trabalhando ali ao lado. Eles não prendem mais o pênis com um barbante de algodão amarrado em torno da cintura, como os 12959 - A queda do céu.indd 226 8/10/15 12:31 PM
  • 229. 227 nossos maiores faziam. Usam bermudas, querem escutar rádio e acham que podem virar brancos. Esforçam-se muito para balbuciar a língua de fantasma deles e às vezes até pensam em deixar a floresta. Mas não sabem nada a respei- to do que os brancos realmente são. O pensamento desses jovens ainda está obstruído. Por mais que tentem imitar os forasteiros que encontram, isso nun- ca vai dar nada de bom. Se continuarem nesse caminho escuro, vão acabar só bebendo cachaça e se tornando tão ignorantes quanto eles. Os maiores não pensavam nem um pouco nessas coisas de branco. Hoje, nossos olhos e ouvidos passam muito tempo dirigidos para longe da floresta, alheios a nossos próximos. As palavras sobre os brancos emaranham as nossas e as deixam esfumaçadas, confusas. Isso nos deixa aflitos. Tentamos então afrouxar nosso pensamento e tranquilizá-lo. Dizemos a nós mesmos que os xamãs irão nos vingar contra as doenças dos brancos e que não morreremos todos. Pensamos que nossas festas reahu vão continuar, apesar de tudo. Mas sabemos também que as palavras dos brancos só iriam sumir mesmo de nossa mente se eles parassem de se aproximar de nós e de destruir a floresta. Tudo então voltaria a ser silencioso como antigamente e ficaríamos de novo sozinhos na floresta. Nosso espírito se aquietaria e voltaria a ser tão tranquilo quanto o de nossos ancestrais no primeiro tempo. Mas é claro que isso não vai mais acontecer. Bem antes de encontrarem brancos na floresta, nossos maiores já sabiam fazer dançar a imagem de seus ancestrais. Vinham de uma terra muito distante, a jusante dos rios, onde Omama fez os brancos virem à existência. Desde tem- pos muito antigos os xamãs chamam tais imagens de napënapëri.12 Eles já as conheciam quando os avós dos atuais brancos ainda nem tinham nascido e a terra deles ainda era só uma floresta sem caminhos. Esses espíritos dos antigos brancos até hoje descem a nós das alturas do céu do levante. Vêm de lá onde os pés do céu se apoiam na terra; vêm da floresta longínqua para a qual a imagem de Omama fugiu após sua morte. Mas essa distância não é nada para esses xapiri forasteiros, que voam muito ligeiro. Seus caminhos são fios de luz bri- lhante, como o risco dos fogos th oru wakë que atravessam o peito do céu duran- te a noite. Quando outros espíritos chamam por eles, escutam seus cantos com 12959 - A queda do céu.indd 227 8/10/15 12:31 PM
  • 230. 228 prazer e ficam ansiosos para segui-los. É assim que chegam até nós. No come- ço são poucos, mas devagar vão formando uma tropa cada vez maior. Os primeiros forasteiros cujas imagens os antigos xamãs faziam descer chamavam-se Watata si. Não eram brancos, de que ainda mal tinham ouvido falar e que chamavam então de napë kraiwa pë.13 Os Watata si moravam num braço do curso médio do rio Parima.14 Os homens desse povo tinham o cabelo cortado como o nosso. Usavam tangas de tecido vermelho e, nos pulsos, mui- tos fios apertados de miçangas. Também usavam brincos feitos de estilhaços de espelho e rabos de tucano. As mulheres escondiam o púbis com longos aventais de contas coloridas. Bebiam caxiri. Era deles que, havia já muito tem- po, vinham os pedaços de metal usado, retalhos de tecido, miçangas e raladores de mandioca que nossos maiores usavam. Eles iam também buscar esses bens de troca nos Maith a, outra gente, que estavam mais perto deles.15 Em compen- sação, levavam para eles grandes novelos de algodão. Era uma viagem muito longa, e muitos deles voltavam com a doença da tosse. Hoje, esses povos não existem mais e já faz muito tempo que os nossos xamãs não fazem mais descer os espíritos dos seus antigos. Em lugar deles, chamam os xapiri dos ancestrais dos forasteiros da cidade. Nós os conhecemos bem, e sabemos também fazer dançar suas imagens. Possuem aviões, e são guerreiros muito valentes. São parecidos com os brancos mas, comparados a eles, são muito bonitos. Não são humanos. Esses espíritos napënapëri são mui- to altos. São também muito diferentes dos espíritos da floresta e dos ancestrais animais. Vêm vestidos com uniformes brancos, como camisas bem compridas. Seus olhos são cobertos por peles de metal brilhante. São óculos, semelhantes a espelhos, que lhes permitem enxergar de muito longe os seres maléficos. Trazem na cabeça chapéus de ferro em brasa, que assustam as fumaças de epidemia. Têm a barba cerrada como rabos de macaco cuxiú-negro, e cabelos negros como os de Omama, que os envia a nós. Carregam pesadas lâminas de metal, para ferir seus inimigos. São espadas de ferro muito compridas e resis- tentes. Ficam amarradas em torno de seus braços e cinturas. Quando uma delas quebra, trocam-na logo por uma nova e, quando são atacados, essas pe- sadas peças de aço cintilante rebatem os golpes de seus inimigos.16 Esses espíritos dos brancos são as imagens dos Hayowari th ëri, um grupo de ancestrais yanomami levados pelas águas e transformados por Omama em forasteiros.17 Vieram a existir no primeiro tempo, na terra em que seus pais 12959 - A queda do céu.indd 228 8/10/15 12:31 PM
  • 231. 229 haviam sido criados antes deles. São os fantasmas dos primeiros brancos; são ancestrais brancos tornados outros que agora dançam para nós como espíritos xapiri. São eles os verdadeiros donos do metal de Omama. Foram eles que ensinaram os brancos de hoje a fabricar aviões, objetos para captar os cantos e as peles de imagens. São capazes de limpar a floresta inteira, espantando as fumaças de epidemia xawara. Só eles a conhecem realmente, porque ela tam- bém vem dos brancos. Por isso sabem tão bem fazê-la largar a imagem dos que ela quer devorar e arrancá-la dela. Os outros xapiri são fracos e despreparados diante dela. Ficam sem saber como curar. Assim é. Nossos antigos xamãs pos- suíam palavras sobre os brancos desde sempre. Já tinham contemplado sua terra longínqua e ouvido sua língua emaranhada muito antes de encontrá-los. Conheciam bem as imagens de seus ancestrais que ferviam o metal e costuma- vam fazê-las descer quando estudavam, bebendo yãkoana. Depois, seus filhos e netos continuaram fazendo o mesmo. E nós também as chamamos, até hoje. 12959 - A queda do céu.indd 229 8/10/15 12:31 PM
  • 232. 230 Mas não pensem que fazemos dançar as imagens dos brancos que estão perto de nós. Estes só querem nossa morte. Querem tomar nosso lugar na floresta e são nossos inimigos. Não queremos ver suas imagens! Os espíritos napënapëri são incontáveis na terra dos brancos. Protegem- -nos com empenho das epidemias que lá se propagam. Por isso seus familiares não morrem vítimas delas tanto quanto os nossos! São esses espíritos que dão conhecimento aos médicos deles. Nós, xamãs, apreciamos bastante a valentia desses espíritos e muitos gostariam de saber fazê-los descer. Mas não é fácil. Como eu disse, nem sempre Omama se mostra generoso com seus xapiri. Cos- tuma guardar a seu lado os mais poderosos, e só nos cede os mais fracos! Os brancos curandeiros das cidades, chamados de rezadores,18 sabem fazer descer a imagem dos napënapëri do mesmo jeito. Mas também são avarentos em re- lação a eles. Não basta beber yãkoana para que esses espíritos dos ancestrais brancos venham a nós por vontade própria. Tanto que meu sogro, que é um grande xamã, nunca os viu quando era jovem e ainda vivia nas terras altas. Só desceram a ele bem mais tarde, quando a malária quase o matou. Foram eles que o curaram e, desde então, ele pode chamá-los quando quiser. Aconteceu o mesmo comigo quando eu era mais novo. Os seres da epide- mia, que chamamos xawarari, tinham me atacado e eu estava muito ferido. Fiquei péssimo e achava mesmo que ia morrer. Dormia em estado de fantasma. Tinha muita dificuldade para respirar e de meu peito só saía um sopro fraco e ruidoso. Foi então que eu vi os espíritos dos ancestrais dos brancos descerem a mim pela primeira vez. Chegaram de repente, para combater os seres xawa- rari prestes a me devorar. Traspassaram-nos com suas lâminas de ferro, depois cortaram seus braços e furaram seus olhos! Foi assim que eu pude, finalmente, escapar da morte. Desde então, continuo fazendo descer a imagem desses es- píritos napënapëri que me vingaram da doença com tanta valentia. O espelho de dança deles está instalado na minha casa de espíritos e sempre respondo a seus cantos enquanto bebo o pó de yãkoana. Às vezes, são eles que vêm me visitar por conta própria, no tempo do sonho. Então, faço-os dançar em silên- cio. Não canto em voz alta durante a noite porque tenho receio de as pessoas reclamarem: “Fique quieto! Está perturbando o nosso sono! Queremos dormir! Você está nos incomodando com sua cantoria!”. Esses espíritos dos antigos brancos se dirigem a mim na fala de fantasma deles. Apesar disso, posso com- preendê-los, porque com o tempo, a partir da adolescência, acabei aprendendo 12959 - A queda do céu.indd 230 8/10/15 12:31 PM
  • 233. 231 um pouco dessa linguagem de branco. Posso então transmitir suas falas aos que me ouvem quando viro espírito. Nossos avós nada sabiam dos brancos. Quando os antigos xamãs faziam dançar esses espíritos estrangeiros, apenas imitavam sua fala emaranhada, sem entender nada. Foi Omama que nos criou, mas foi também ele que fez os brancos virem à existência. Há apenas um único e mesmo céu acima de nós. Só há um sol, uma lua apenas. Moramos em cima da mesma terra. Os brancos não foram criados por seus governos. Eles vêm da fábrica de Omama! São seus filhos e genros, tanto quanto nós. Ele os criou há muito tempo, da espuma do sangue de nossos ancestrais, os habitantes de Hayowari. Hayowari é o nome de uma colina, si- tuada entre as nascentes do rio Parima e as do alto Orinoco, que chamamos Hw ara u. É lá que fica a origem dos rios, onde Omama furou o solo de sua roça para aplacar a sede do filho.19 Quando eu era criança, meu padrasto me falou bastante dessa gente de outrora e hoje, tendo eu mesmo me tornado xamã, me acontece muitas vezes de ver suas imagens e ouvir suas palavras. Por isso posso falar dessas coisas. Omama criou os Yanomami depois de ter pescado a filha de Tëpërësiki, o ser do fundo das águas. Ele copulou com ela e foi a partir do ven- tre dela que nos tornamos muitos. As pessoas de Hayowari faziam parte dos habitantes da floresta do primeiro tempo. Eram os filhos de Omama e de sua mulher, Th uëyoma. Tornaram-se forasteiros bem mais tarde, depois de Omama ter feito a água jorrar do chão e ter fugido para bem longe, a jusante de todos os rios, em direção à terra dos brancos.20 Esses ancestrais de Hayowari viraram outros durante uma festa reahu à qual tinham convidado seus aliados, para enterrar as cinzas dos ossos de um dos seus. Aconteceu assim: era o último dia, logo antes de os convidados, que eram muitos, irem embora para suas casas. O homem encarregado de distribuir entre eles a caça moqueada das cinzas do morto21 colocou no centro da casa um montículo de pó de yãkoana sobre uma placa de cerâmica. Um grupo de convidados e anfitriões foi se formando em torno dele, conversando, e come- çou a inalar grandes quantidades desse pó. Era forte, e todos fungavam com sonoras exclamações de aprovação. Passou-se algum tempo, e os homens foram formando pares, agachados cara a cara, para iniciar um diálogo yãimuu. Sub- metidos ao poder da yãkoana, todos logo ficaram muito exaltados.22 Batiam-se 12959 - A queda do céu.indd 231 8/10/15 12:31 PM
  • 234. 232 nos flancos com a palma da mão para pontuar as palavras. Ao cabo de algum tempo, sua raiva aumentou tanto que começaram a se alternar dando socos no peito uns dos outros. Um grupo de convidados formou-se para atacar um dos anfitriões, que tinha ficado isolado. Do outro lado da casa, a mãe dele, mulher idosa, começou a insultá-los furiosamente, para vingá-lo. Depois, chamou aos berros o marido da filha, para vir acudir o cunhado. O rapaz ainda estava re- cluso num recinto de folhas yipi hi com a esposa, que acabara de ter a primei- ra menstruação.23 Ao ouvir o chamado da sogra, saiu correndo para vingar o cunhado, sem pensar no perigo. A floresta ainda era jovem naquele tempo. Por isso, assim que o rapaz pôs o pé para fora da reclusão, o ser do caos Xiwãripo começou a amolecer e a desfazer a terra ao redor dele. Então, de repente, Motu uri u, o rio do mundo subterrâneo, irrompeu com toda a força, abrindo um enorme rasgo no chão. Num instante, a violenta torrente cobriu toda a floresta ao redor e despedaçou a casa da gente de Hayowari. Foi mesmo aterrador! Todos foram levados pela força das águas, ainda agachados, cantando ou se batendo no peito. Era possí- vel ouvir seus gritos se perdendo ao longe, conforme eram carregados rio abai- xo. Alguns tentaram fugir na floresta: viraram veados. Outros tentaram subir nas árvores: se metamorfosearam em cupinzeiros. A maior parte se afogou, ou foi comida por ariranhas kana e enormes jacarés pretos poapoa. É por isso que, ainda hoje, os xamãs têm de trabalhar para impedir a água de Motu uri u de jorrar de debaixo da terra. O enorme buraco de onde ela emergiu em Hayowa- ri no tempo antigo ainda é visível nas terras altas, apesar de ter sido coberto pela floresta. É possível vê-lo de avião, nas nascentes do Orinoco e dos rios Catrimani e Parima. Também chamamos esse lugar de Xiwãripo. Essas águas que surgiram com tanta violência do chão em seguida fizeram uma longa curva, descendo as colinas para se espalhar longe pela floresta, em direção ao nascer do sol.24 Quando atingiram o lugar onde as terras ficam pla- nas e ventosas, começaram a girar com rapidez num enorme redemoinho. Depois foram pouco a pouco perdendo velocidade e o movimento delas foi se acalmando. Ficaram assim desde então, imóveis, formando um lago vasto co- mo o céu. É o que os brancos chamam de mar. Um vendaval Yariporari vive no centro dessa imensa extensão de água, em cujas profundezas vivem pora- quês gigantes e seres redemoinho tëpërësiri,25 que engolem os humanos. Escon- dem-se lá também enormes peixes-epidemia, de dentes afiados e cuja cauda 12959 - A queda do céu.indd 232 8/10/15 12:31 PM
  • 235. 233 lança raios, e seres girinos gigantes enfurecidos, que destroem as embarcações dos brancos.26 Dos Yanomami que se afogaram nas águas surgidas do rio Motu uri u não restou nada senão vastas manchas de espuma de sangue, levadas pelas corren- tes para jusante, até onde os rios se tornam muito largos. Foram descendo devagar até o lugar onde Omama se instalou depois de ter fugido das terras altas. Assim que ele as viu, aproximou-se para recolher pouco a pouco, num cesto pequeno, a espuma vermelha que flutuava em sua direção. Em seguida, depositou-a com cuidado na margem, e começou a dar-lhe forma com as mãos. Ela se aqueceu, e novos humanos acabaram surgindo dela. Primeiro foi uma espuma quase sem cor que passou boiando. Omama juntou-a em montículos, que trouxe à vida colocando-os numa terra distante, do outro lado das águas paradas. É a terra dos ancestrais dos brancos que vocês chamam de Europa. De modo que ele criou primeiro aqueles que nossos maiores nomeavam napë kraiwa pë; essa gente de pele tão branca quanto seu papel. Com a espuma aver- melhada cada vez mais escura que a corrente carregava, criou depois outros forasteiros. Dessa vez, era gente que se parece conosco. Instalou-os perto de nós, na mesma floresta. Foi assim que ele trouxe a espuma de nossos ancestrais mortos de volta para de onde viera e guardou sua imagem na terra do Brasil, que é para nós a terra de Omama. São eles que nossos maiores chamavam napë pë yai, os “verdadeiros forasteiros”, os outros índios: os Pauxiana, os Wa- tata si e as gentes do baixo rio Demini, que foram antigamente nossos vizi- nhos,27 e também os Ye’kuana, os Makuxi, os Tukano, os Wajãpi, os Kayapó e muitos outros.28 Foi Remori, o espírito do zangão alaranjado remoremo moxi, que deu aos brancos sua língua emaranhada. A fala deles parece mesmo o zumbido dos zangões, não é? Colocou neles uma garganta diferente da nossa. Remori vivia ao lado de Omama, nos vastos bancos de areia29 da jusante dos grandes rios. Foi Omama que, querendo dar nova vida à espuma da gente de Hayowari, pediu a ele para insuflar uma outra língua nos forasteiros que tinha acabado de criar. Por isso nossos maiores não entendiam nada do que lhes diziam os primeiros brancos que encontraram. Sua fala confusa era para eles realmente horrível de ouvir! Quando lhes dirigiam a palavra, tentavam prestar atenção, mas não con- 12959 - A queda do céu.indd 233 8/10/15 12:31 PM
  • 236. 234 seguiam entender nada. Então pensavam, perplexos: “O que será que eles que- rem dizer? É só esta a fala que conseguem proferir? Que modo medonho de se expressar! Será essa a língua dos fantasmas? Não; deve ser outro linguajar, a fala de zumbido que Remori deu aos forasteiros!”. Por mais que tentassem imitar os brancos, nunca chegavam a nada que fosse compreensível. Só conseguiam pronunciar palavras feias e tortas. As nos- sas são bem diferentes. São palavras de habitantes da floresta que nos ensinou Omama, e os brancos não as podem entender. Assim é. Omama e Remori re- solveram que as gentes diferentes que tinham criado não deviam ter a mesma língua. Acharam que o uso de uma só língua provocaria conflitos constantes entre eles, pois as más palavras de uns poderiam ser ouvidas sem dificuldade por todos os demais. Por isso deram outros modos de falar aos forasteiros, e depois os separaram em terras diferentes. Então, ao fazerem surgir neles todas essas línguas, disseram-lhes: “Vocês não entenderão as palavras dos outros e, assim, só irão brigar entre si. O mesmo acontecerá com eles”. Omama, Remori e os habitantes de Hayowari desapareceram de nossa floresta há muito tempo. Mas isso só aos olhos da gente comum. Pois os xamãs sabem que seus fantasmas continuam lá. Fazem dançar suas imagens e sempre dão a ouvir seus cantos. Quando eu era mais jovem e escutava os adultos vi- rando espíritos, eu perguntava a mim mesmo: “Como eles fazem? De onde vêm realmente essas palavras do começo do tempo?”. Mais tarde, quando foi minha vez de beber yãkoana, os xamãs mais velhos fizeram essas imagens descerem para mim. Foi então que eu também pude ver a gente de Hayowari carregada pelas águas de Motu uri u e os imensos bancos de areia onde vive Remori. Desde então, continuo sempre a admirar as imagens do primeiro tempo nos sonhos de meu sono de fantasma.30 12959 - A queda do céu.indd 234 8/10/15 12:31 PM
  • 237. 10. Primeiros contatos Os brancos. 12959 - A queda do céu.indd 235 8/10/15 12:31 PM
  • 238. 236 Nas nascentes do rio Toototobi se encontram casas dos Uaicás [Ya- nomami], interligadas por numerosos caminhos que se dirigem a leste […] e a oeste […]. Seria difícil calcular o número de Índios que habitam esse rio. Parece, no entanto, que são numerosos. M. de L. Jovita, 1948 Comissão Brasileira Demarcadora de Limites Meu pai morreu quando eu ainda era bem pequeno. Contaram-me os an- ciãos do rio Toototobi que foram feiticeiros inimigos oka que o mataram. Esta- va trabalhando em sua roça havia algum tempo, quando começou a sentir fome. Entrou na floresta para coletar frutos de palmeira yoi si. Os oka aproveitaram para soprar nele um pó de feitiçaria hw ëri com suas zarabatanas. Ele começou a se sentir mal e desmaiou. Então eles o pegaram, e em seguida quebraram-lhe os ossos dos membros, do pescoço e dos rins. Disseram-me também que o grupo de feiticeiros era conduzido pelo grande homem da gente do rio Hero u, com seus aliados do alto rio Mucajaí, a gente de Amikoapë. Na época, todos eles ainda eram muitos e eram nossos inimigos. Não faz muito tempo que eu soube disso, pelo pai de minha esposa. Ninguém me havia dito nada até então. Se eu tivesse sabido disso quando era mais jovem, talvez tivesse matado esse inimigo do Hero u em estado de homicida õnokae, para vingar meu pai.1 Mas hoje, já se passou muito tempo, e não sinto mais raiva. Além do que o homem já morreu de malária, quando os garimpeiros invadiram toda a floresta dele. Quando meu pai faleceu, minha mãe ainda me carregava no colo; não tenho nenhuma lembrança dele. Não sei seu nome. Ninguém me revelou, nem mesmo minha mãe. Minha irmã mais velha, do mesmo modo, jamais falou comigo de nosso pai. Sua boca, com certeza, tinha medo. Só os anciãos, que o conheceram na juventude, sabem seu nome. Talvez às vezes falem dele entre si. Não sei. Mas acho que o pai de minha esposa sabe. Porém, todos devem temer minha reação, pensando: “Se pronunciamos o nome do pai dele, Davi vai ficar furioso!”. Assim, meu pensamento permaneceu fechado. Entre nós, quando morre alguém, seu nome é silenciado para sempre. Se uma pessoa descuidada por acaso o pronunciar diante de seus parentes, eles serão tomados pela dor e pela saudade, a ponto de ficar enfurecidos. Então vão tratar de se vingar, pela feitiçaria ou com suas flechas. Somente pessoas distantes podem evocar o nome de um morto, mas só na ausência de gente da casa dele. Caso 12959 - A queda do céu.indd 236 8/10/15 12:31 PM
  • 239. 237 contrário, não se diz nada. É por isso que, quando morre o pai de uma criança pequena, nenhum dos adultos que o conheceu jamais lhe revelará seu nome. Ela jamais saberá. Às vezes falo dessa época de minha infância quando respondo às pergun- tas dos brancos. Faço-o sem raiva, pois seu pensamento ignora todas essas coisas sobre nossos nomes. Eles não temem proferir os próprios nomes nem os de seus mortos, sem moderação! Não é assim entre nós. Um homem fica logo com raiva se seu nome for pronunciado diante dele e, após sua morte, será proibido por seus familiares com muita cautela.2 Assim nós somos. Recu- samo-nos a revelar os nomes dos nossos mortos porque damos a eles muito valor. Temos muito respeito por eles. De modo que achamos que os brancos gostam de maltratar seus próprios falecidos. Prendem-nos debaixo da terra e insultam-nos, evocando seus nomes o tempo todo! Pergunto-me como podem chorá-los depois de se comportarem assim! Nós pranteamos todos juntos os nossos mortos, durante muito tempo, mas sem jamais nomeá-los. Após o falecimento de meu pai, outro homem tomou minha mãe como esposa. Eu ainda era bebê, e ele me levou junto com ela. Esse homem me pro- tegeu e me criou. Ele me alimentou e me fez crescer com a carne de sua caça e o mel selvagem que coletava, com as bananas e a mandioca que cultivava. Hoje ele está muito velho e vive longe, numa outra casa. Não o vejo muito, mas o tenho com afeto em meu pensamento. Às vezes vou visitá-lo, levando mer- cadorias. Também envio enfermeiros brancos, para que cuidem dele, de modo que o protejo como ele fez por mim há muito tempo.3 É um grande xamã, e gostava muito de nos fazer ouvir suas palavras dos tempos antigos. Quando eu era pequeno, costumava me falar dos ancestrais que viraram caça no primeiro tempo. Contava-me também como Omama veio à existência e fez de seu filho o primeiro xamã, e como mais tarde criou os forasteiros. Contava-me tudo isso com zelo, durante a noite, enquanto eu, deitado na minha rede, olhava o fogo em que minha mãe soprava de tempos em tempos. Ele não queria que eu crescesse na ignorância. Ainda hoje, quando vejo os espíritos dançarem em meu sonho, lembro-me de suas palavras, que continuam sempre vivas na mi- nha mente. Ele estava sempre brincando e sorrindo, mas era também um guer- reiro muito temido. Tinha em si as imagens de Aiamori, o ser da guerra, e de Õeõeri, o ancestral que nos ensinou a flechar nossos inimigos. Foi ele que vin- gou a morte de meu pai, pois eram amigos. Meu pai era mais jovem do que ele, 12959 - A queda do céu.indd 237 8/10/15 12:31 PM
  • 240. 238 que o chamava de cunhado. Costumavam caçar juntos. Naquele tempo, nossos antigos não hesitavam em comer os inimigos que tivessem matado um dos seus. Eram muito valentes. Não o vingavam às escondidas, soprando de longe pós de feitiçaria sobre quem o tinha matado. Preferiam juntar um grupo de guerreiros e usar suas flechas. Quando criança, vivi num lugar que era chamado de Marakana, na beira do rio Toototobi. Foi lá que meu pai morreu. Na época do meu nascimento, a clareira aberta no local ainda era bem recente. Os nossos parentes tinham aber- to novas roças, mas ainda viviam na floresta, num grande acampamento de tapiris.4 Meu padrasto me contou isso. Eu mesmo não me lembro. Criança assim pequena ainda não tem realmente consciência das coisas. Os adultos falam com os pequenos, mas a mente deles ainda está fechada. As palavras ainda não che- gam a se fixar nela de fato. Só mais tarde, conforme crescem, seus pensamentos começam a se juntar uns aos outros e sua consciência se põe a florescer. Ainda guardo algumas lembranças do tempo da casa de Marakana. Não me lembro, porém, de ter visto os meus pais e avós plantarem seus esteios nem cobri-la com folhas de palmeira paa hana. Só me lembro da casa já construída. Era muito ampla, e morava nela muita gente mesmo. No começo, eram ali dois grupos reunidos, pois estávamos em guerra com a gente do rio Mapulaú e do alto Ca- trimani, que moravam a uns dias de caminhada.5 Voltaram a se separar mais tarde, porque brigavam muito entre si. Depois de Marakana, foram construídas três casas, bastante próximas umas das ou- tras.6 A nossa ficava rio acima, num lugar chamado Wari mahi, o lugar da sumaúma. Os outros tinham se instalado um pouco a jusante, também perto da margem do rio Toototobi. Mas logo meu padrasto começou a se distanciar da gente de Wari mahi. Passou a viver com eles só de vez em quando. Tinha construído sozinho uma casa menor e aberto uma roça a meio dia de caminha- da rio abaixo. Morávamos lá, com minha mãe, minha irmã mais velha e uma outra família. O lugar se chamava Th ooth oth opi, o lugar dos cipós.7 Passávamos lá a maior parte do tempo, e pouco visitávamos Wari mahi. Meu padrasto não gostava de morar lá, porque achava que havia gente demais. Creio que julgava 12959 - A queda do céu.indd 238 8/10/15 12:31 PM
  • 241. 239 a casa muito barulhenta. Por isso, depois de Marakana, cresci sobretudo em Th ooth oth opi.8 Lembro-me bem desse período de minha infância. Foi aquele em que minha mente se abriu, graças à carne de caça e aos alimentos da roça que me dava meu padrasto. Levava-me com ele em todas as suas viagens. Íamos sempre a festas reahu nas casas de nossos aliados. Partíamos também em expedições de muitos dias na mata, durante as quais morávamos em acampamentos de tapiris. Os nossos antigos acampavam desse modo por longos períodos, para caçar e coletar frutos.9 Naquele tempo da minha infância, passávamos real- mente muito tempo na floresta. Hoje em dia, menos. Os rapazes gastam o seu tempo rondando os postos dos brancos. Eu, ao contrário, cresci na floresta, bebendo mel selvagem o tempo todo. Foi isso que tornou meu pensamento reto e permitiu que ele se ampliasse. Desde muito pequeno, comecei a observar os mais velhos, quando saíam para caçar ou iam trabalhar nas roças. Foi tam- bém nessa época que os vi, pela primeira vez, dançando para se apresentar nas festas reahu em casas amigas e imitando os espíritos urubu para partir em guerra contra seus inimigos.10 Minha mãe costumava também me levar com ela à floresta, para pegar caranguejos-de-água-doce, pescar com timbó ou coletar todos os tipos de fru- tos. Eu ainda a acompanhava à nossa roça quando ela ia colher mandioca ou banana, ou rachar lenha com o machado. Depois, assim que fiquei um pouco mais crescido, os adultos começaram a me chamar para acompanhá-los nas caçadas. Eu os seguia pela mata, ainda coberta de orvalho, e, quando eles fle- chavam animais pequenos, os davam a mim dizendo: “Leve esta caça, na volta você vai comê-la!”. Éramos, na época, um pequeno grupo de meninos da mes- ma idade. Os outros eram um pouco mais velhos do que nós. Crescemos indo sempre caçar e pescar juntos. Também ocupávamos nosso tempo imitando tudo o que faziam os adultos. Foi assim que, pouco a pouco, começamos a pensar direito. Flechávamos todos os tipos de passarinhos e lagartos, na flores- ta ou nas roças vizinhas. E os trazíamos de volta, entrando orgulhosos, como caçadores, em nossa grande casa. Moqueávamos as presas e organizávamos pequenas festas reahu com essa “caça”, como víamos fazer os mais velhos.11 Estes nos encorajavam, brincando. Acrescentavam a nossas presas pedaços de caça de verdade. Então entoávamos alegremente cantos heri, como se costuma 12959 - A queda do céu.indd 239 8/10/15 12:31 PM
  • 242. 240 fazer quando a comida de um reahu é farta. Também imitávamos a dança de apresentação de nossos convidados. Dançávamos inclusive em pequenos casais, segurando as meninas pelo pulso, como os adultos, em certas noites de festa. Divertíamo-nos muito mesmo! Tudo isso ocorria na praça central da casa. Os adultos olhavam para nós e riam muito. Divertiam-se em nos ver parodiá-los com tanta ousadia. Não tínhamos medo nenhum! Fingíamos beber o pó de yãkoana, como fazem todos os homens no último dia do reahu. Imitávamos também sua raiva no decorrer dos diálogos yãimuu. Agachados aos pares, maltratávamo-nos segurando uns aos outros pelo pescoço. Como eles, cantávamos gritando nos ouvidos dos nossos parceiros e batendo com a palma da mão em seus flancos. Os únicos adultos que não ousávamos imitar eram os xamãs. Os adultos nos tinham aler- tado. É perigoso demais, pois seus xapiri poderiam se irritar com isso e se vingar. Era assim que vivíamos. Só tomávamos como exemplo as maneiras de nossos maiores. Não queríamos imitar os brancos, como costumam fazer as crianças de hoje, quando fabricam aviõezinhos de madeira e jogam bola. Não escutávamos o barulho dos rádios, nem o dos gravadores. Nossos ouvidos só davam atenção às palavras dos nossos e às vozes da floresta. Nossos maiores convidavam gente de outras casas a suas festas reahu para beber mingau de banana-da-terra e oferecer porções de carne moqueada. Muitas vezes brigavam uns com os outros. Então, desafiavam-se aos gritos, exaltados, e insultavam seus adversários pronunciando seus nomes raivosa- mente. Depois batiam na cabeça uns dos outros, em alternância, com longas bordunas. Enfrentavam-se assim para vingar roubos de alimento em suas ro- ças, porque tinham ciúmes de mulheres ou apenas porque tinham xingado um ao outro de covarde. Eu os observava de longe, um pouco assustado, e dizia a mim mesmo: “Haixopë! É assim que se deve lutar para aplacar a própria ira!”. Além disso, às vezes se lançavam em incursões de guerra contra seus inimigos. Na época, guerreavam em direção ao levante, contra os antigos da gente do rio Catrimani — que então viviam no rio Mapulaú —, e, por vezes, em direção ao poente, contra os Xamath ari do alto rio Demini.12 Como eu disse, meu padrasto era muito valente, sempre pronto para vingar nossos mortos. Naque- le tempo, ele flechou um bom número de nossos inimigos do Catrimani, e tirou dos Xamath ari as duas irmãs que são até hoje suas esposas.13 Eu vivia com 12959 - A queda do céu.indd 240 8/10/15 12:31 PM
  • 243. 241 ele quando lançou todos esses ataques, junto com outros guerreiros do rio Toototobi. Vi-os muitas vezes se alinharem com seus arcos e flechas na praça central de nossa casa e imitarem os espíritos urubu antes de se pôr a cami- nho.14 Meu pensamento se fixava neles e eu pensava: “É assim que devemos nos vingar! Quando for mais velho, vou me juntar a eles!”. Eu era jovem de- mais para isso, e lamentava muito não poder acompanhar os adultos! Mas foi assim, observando-os constantemente, que meu pensamento se tornou mais sabido e que eu cresci. Antes de chegar a Marakana, nossos antigos ocuparam muitas outras ro- ças nas terras altas. Moraram muito tempo, por exemplo, no lugar do sapo yoyo — que chamanos de Yoyo roopë, nas nascentes do rio Toototobi.15 Meu padrasto costumava falar muito dessa floresta, pois viveu lá muito tempo quan- do era jovem. De lá, os antigos iam até os Xamath ari que moravam no rio Kapirota u, em busca de ferramentas de metal, já que os antigos Watata si do rio Parima tinham ficado distantes demais.16 Os Xamath ari as obtinham des- cendo o curso do Demini até os barracos dos brancos que viviam às margens do rio Aracá. Estes pescavam tartarugas e coletavam castanha-do-pará, balata e fibras de piaçava.17 A gente do Kapirota u, embora vivesse longe rio acima, conhecia bem esses brancos do rio. Costumava ir visitá-los e, na estação seca, trabalhava para eles durante várias luas. Conseguia assim objetos manufatura- dos de todos os tipos.18 Foi por intermédio deles que nossos maiores encontra- ram esses ribeirinhos, muito distantes de suas casas, pela primeira vez. Não foi, porém, pelo mero prazer de admirá-los que se aproximaram dos forasteiros. 12959 - A queda do céu.indd 241 8/10/15 12:31 PM
  • 244. 242 Na verdade, o que sentiam era mais temor do que outra coisa, e não sem razão. Tanto que um dia essa gente ofereceu a eles comida com veneno, e vários an- ciãos acabaram morrendo. Isso aconteceu perto das corredeiras do rio Aracá, que os brancos chamam de Cachoeira dos Índios. Escutei essa história da boca do meu padrasto, quando eu era criança. Ele a contava de vez em quando, quando exortava a gente de nossa casa, durante a noite, com seus discursos hereamuu sobre os tempos antigos. Não apenas para obter fósforos, panelas de alumínio ou sal. Sabiam fazer fogo com brocas de cacaueiro, suas esposas cozinhavam em potes de cerâmica e salgavam suas bananas cozidas com cinzas de cipó yopo una. O que eles que- riam dos brancos do rio eram suas ferramentas de metal novinhas, algo que realmente não tinham. Naquela época era muito difícil consegui-las. Com mui- to esforço, conseguiam trazer dessas longas viagens apenas alguns facões, às vezes um machado. Isso lhes permitia abrir novas roças, maiores do que antes, e cultivar as plantas com que poderiam alimentar suas famílias. Mas ainda ti- nham de emprestar uns aos outros as raras ferramentas, como haviam feito no passado com os pedaços de ferro conseguidos com os Watata si do rio Parima. Assim, quando um homem tinha terminado de abrir sua roça, outro podia abrir a sua, e depois outro, e outro, se revezando. No final, as ferramentas eram emprestadas para gente de casas vizinhas, como outrora. Os antigos me con- taram isso muitas vezes quando eu era criança. Quanto a mim, encontrei pela primeira vez brancos quando ainda era muito pequeno. Não sabia ainda nada a respeito deles. Na verdade, nem mesmo pensava que tais seres pudessem existir! Era gente da Inspetoria e soldados da Comissão de Limites.19 Chegaram, certo dia, até nossa casa de Marakana. Ti- nham subido o rio em nossa direção durante dias e dias, amontoados em gran- des canoas a motor carregadas de alimento e caixas de mercadorias. Eram mui- tos. Um grupo deles entrou de repente na nossa casa para pedir ajuda aos nossos parentes. Estavam recrutando homens para acompanhá-los e transpor- tar seus pesados carregamentos pela floresta. Pretendiam chegar até as nascen- tes dos rios, para lá cavar buracos e plantar grandes pedras retas. Nossos antigos nada compreendiam de sua língua de fantasma. Por fim, um Xamath ari que tinha conseguido uma esposa entre nós falou com eles. Ele já conhecia bem os 12959 - A queda do céu.indd 242 8/10/15 12:31 PM
  • 245. 243 brancos por ter trabalhado a jusante, no rio Aracá, perto da Cachoeira dos Ín- dios, e tinha aprendido um pouco a língua deles. Esses brancos da Comissão de Limites trabalharam na região das terras altas de nossa floresta durante várias luas, e um dia foram embora, tão de repente quanto tinham chegado.20 Não me lembro de tudo o que aconteceu nessa época, porque é muito antigo. Mas não esqueci a chegada desses forasteiros, porque me deixaram apavorado! Aliás, assim que a vinda deles foi anunciada, todas as mães de Ma- rakana preveniram seus filhos pequenos: “Os napë estão chegando! Escondam- -se! Senão, eles podem levá-los embora!”. E em seguida os fizeram ficar atrás das redes, encobertos pela lenha encostada na parede da casa.21 As crianças maiores, como minha irmã mais velha, fugiram por conta própria, para se refugiar na floresta. Minha mãe me fez agachar ao seu lado e depois me cobriu com o grande cesto de cipó que usava para carregar lenha. Eu estava apavora- do, mas ela conseguiu me acalmar, me dizendo baixinho: “Não tenha medo, os brancos não vão vê-lo! Só fique quieto!”. Uma vez protegido dos olhares, me senti um pouco mais seguro. Então fiquei encolhido, em silêncio, observando o grupo de visitantes brancos que entrava em nossa casa através da malha da cesta. Achava-os de uma feiura terrível e meu coração batia forte no peito. Tinha muita vontade de fugir, como os grandes, mas não queria chamar a atenção. E assim tive de esperar por muito tempo, imóvel, segurando a respi- ração, até os forasteiros irem embora e minha mãe me libertar! As mães de nossa casa temiam que os brancos levassem seus filhos peque- nos. Tinham muito medo mesmo de que os roubassem! Os antigos se lembra- vam de que os soldados da Comissão de Limites já tinham levado com eles crianças yanomami, quando, antigamente, subiram o rio Mapulaú pela primei- ra vez.22 Naquela época, nossos maiores viviam nas terras altas, em Yoyo roopë. Mas gente do Mapulaú tinha contado a eles que os brancos tinham pedido vários de seus filhos. Ninguém queria dar os filhos, é claro! Mas todos receavam o furor das epidemias dos brancos, caso recusassem. Então, o grande homem da gente do Mapulaú acabou dando a eles um menininho e uma menininha, que não eram filhos da gente de sua casa. Eram cativos, trazidos de uma incur- são guerreira aos Yawari, que então viviam no alto rio Catrimani.23 Ouvi meus pais e meus avós contarem essa história muitas vezes. Por isso eu tinha tanto medo dos brancos! Temia muito que quisessem levar a mim também! Até agora me pergunto o que aqueles forasteiros queriam fazer com as crianças 12959 - A queda do céu.indd 243 8/10/15 12:31 PM
  • 246. 244 yanomami. Talvez quisessem criá-las, para mais tarde enviá-las de volta, para pedir aos nossos grandes homens permissão para trabalhar na nossa floresta? Não sei. Hoje, nossas crianças não têm mais medo dos brancos. Mas eu, antes, ti- nha pavor deles! Eram mesmo outros. Eu os observava de longe e pensava que pareciam seres maléficos da floresta! Ficava apavorado só de vê-los! Tinham uma aparência horrível. Eram feios e peludos. Alguns eram de uma brancura assustadora. Perguntava a mim mesmo o que podiam ser seus sapatos, relógios e óculos. Esforçava-me para prestar atenção, tentando compreender suas pa- lavras, mas não adiantava nada. Pareciam barulhos soltos! Além do mais, eles manipulavam sem parar vários tipos de coisas que me pareciam tão estranhas e assustadoras quanto eles próprios. Aliás, mesmo muito tempo depois dessa primeira visita, bastava um desses brancos querer se aproximar de mim para eu sair correndo, aos prantos. Eles realmente me apavoravam! Eu tinha medo até da luz que saía de suas lanternas. Mas temia ainda mais o ronco de seus motores, as vozes de seus rádios e os estampidos de suas espingardas. O cheiro de sua gasolina me deixava enjoado. A fumaça de seus cigarros me dava medo de adoecer. Em suma, eu pensava que deviam mesmo ser seres maléficos në wãri, famintos de carne humana! Em Marakana, os adultos não tiveram tanto medo dos brancos quanto nós, as crianças. Eles os conheciam um pouco. Muitos já tinham se encontra- do com eles durante viagens de troca rio abaixo. O que deixou a todos apavo- rados, no entanto, foram os aviões que sobrevoaram nossas casas várias vezes. Ninguém jamais tinha visto um avião.24 Assim que se ouvia o seu zumbido, homens, mulheres e crianças saíam correndo o mais rápido possível para se espalhar e se esconder pela floresta. Os anciãos achavam que aqueles seres voadores desconhecidos podiam cair e incendiar tudo na floresta. Pensavam que iríamos todos morrer, e às vezes tinham tanto medo que choravam quan- do falavam disso! Foi assim que aconteceu. Nossos pais e avós desconfiavam dos brancos, e sempre temeram suas fumaças de epidemia. No entanto, jamais se preocuparam em saber o que os trouxera à nossa floresta. Não sabiam que tinham vindo para demarcar a fronteira do Brasil no meio de nossa terra. Mostraram-se hospitaleiros e amigáveis. Juntaram-se de bom grado para acompanhá-los, transportando sua comida e suas ferramentas de metal em grandes cestos cargueiros. Apenas observaram os forasteiros com curiosidade, 12959 - A queda do céu.indd 244 8/10/15 12:31 PM
  • 247. 245 enquanto abriam largas trilhas na mata e plantavam grandes pedras nas nas- centes dos rios. Jamais teriam imaginado que, mais tarde, os filhos e netos daquela gente voltariam, tão numerosos, para tirar ouro dos rios e alimentar seu gado na floresta derrubada. Nunca pensaram que esses brancos um dia poderiam querer expulsá-los de sua própria terra. Ao contrário, uma vez pas- sado o receio inicial, nossos antigos ficaram felizes com a visita daquela gente outra. Ao longo dos dias, examinavam atentamente as caixas cheias de facões e machados que tinham subido com eles o rio Demini.25 Um único pensamen- to ocupava então suas mentes: “A partir de agora, nunca mais vão nos faltar ferramentas de metal!”. Muito mais tarde, já adulto, comecei a me perguntar o que os brancos tinham vindo fazer em nossa floresta naquele tempo. Acabei entendendo que queriam conhecê-la para desenhar seus limites e, assim, poder se apoderar dela. Nossos antigos não sabiam imitar a língua daqueles forasteiros. Por isso os deixaram chegar perto de suas casas sem hostilidade. Se tivessem entendido as palavras deles tão bem quanto as nossas, com certeza os teriam impedido de entrar em sua floresta com tanta facilidade! Acho, no final, que foram en- ganados por aqueles napë que exibiam seus objetos manufaturados com boas palavras: “Vamos ficar amigos! Vejam, estamos dando uma grande quantida- de de nossos bens de presente a vocês! Não estamos mentindo!”. Aliás, é sem- pre assim que os brancos começam a falar conosco! Depois, logo atrás deles, chegam os seres de epidemia xawarari e então começamos a morrer um atrás do outro! Nossos antigos ainda não sabiam nada desse perigo. Queriam apenas trocar facões, machados, roupas, arroz, sal e açúcar. Dirigiam-se aos brancos repetindo alegremente algumas palavras deles, como papagaios. Pensavam: “Esses forasteiros são amistosos! Eles são muito generosos!”. Mas estavam equivocados! Assim que conseguiram os preciosos objetos e alimentos que tanto desejavam, ficaram doentes e depois começaram a morrer em série, um por um. Dói-me pensar nisso. Foram enganados por essas mercadorias e mor- reram todos só por isso. Foi assim que desapareceram quase todos os meus maiores, só por querer fazer amizade com os brancos. Depois da morte deles, fiquei só, com minha raiva. Ela nunca mais me deixou desde então. É ela que hoje me dá a força de lutar contra os forasteiros que só pensam em queimar as árvores da floresta e sujar os rios como bandos de queixadas. Sempre fico consternado quando olho para o vazio na floresta em que meus parentes eram 12959 - A queda do céu.indd 245 8/10/15 12:31 PM
  • 248. 246 tão numerosos. A epidemia xawara nunca foi embora de nossa terra e, desde então, os nossos continuam morrendo do mesmo modo. No começo, os nossos antigos limpavam bem os facões que recebiam dos brancos, antes de levá-los para casa. Mergulhavam na água dos igarapés e es- fregavam bastante com areia. De fato, as lâminas dessas ferramentas eram pe- gajosas e exalavam um inquietante odor adocicado. Vinham besuntadas de gordura e embaladas em peles de papel.26 Assim que os brancos abriam seus enormes caixotes de madeira para distribuir esses facões, saíam deles volutas de uma fina poeira perfumada. O odor era muito forte e se espalhava por toda parte. Todas as mercadorias deles eram impregnadas desse cheiro: facões, ma- chados e tesouras; e também os tecidos de algodão, as redes. Nossos pais e avós não tinham nariz de branco. Reconheciam de longe o cheiro nauseante das ferramentas de metal. Consideravam-no perigoso e o temiam, porque os fazia tossir e adoecer logo depois que as pegavam.27 Os velhos, as mulheres e as crianças morriam desse sopro cheiroso muito depressa. Por isso o chamaram poo pë wakixi, a fumaça do metal. Pensaram que era essa a origem das epide- mias xawara que os devoravam.28 Naquele tempo, nossos antigos sabiam pou- co dos brancos. Não conheciam o cheiro deles, nem o de seus objetos. Por isso aqueles odores lhes pareceram tão intensos e assustadores. Era para eles como quando um jovem caçador é surpreendido pela primeira vez pelo cheiro de um bando de queixadas na mata! Eles nunca tinham cheirado nada parecido com aquilo, e isso os deixava muito preocupados. Naquela época, os brancos também distribuíam grandes quantidades de 12959 - A queda do céu.indd 246 8/10/15 12:31 PM
  • 249. 247 cortes de tecido vermelho. Os homens faziam tangas com ele. Mas esse tecido de algodão também era muito perigoso. Pouco depois de receber um corte dele, as pessoas começavam a tossir e seus olhos infeccionavam.29 Por isso os tecidos foram chamados de th oko kiki, coisas da tosse. São bens de troca ma- léficos, produzidos pelos antigos brancos em terras afastadas, com o algodão de árvores de epidemia xawara hi.30 A imagem deles aparecia aos olhos dos antigos xamãs que combatiam sua doença na forma de farrapos de tecido de um vermelho intenso. Hoje, usamos bermudas e outras roupas.31 Mas ainda desconfiamos das peças de algodão vermelho.32 O mal delas castigou muito nossos antepassados. Quando os brancos as rasgavam, saía uma fumaça en- joativa que deixava todos doentes. O peito de nossos pais e de nossos avós era fraco demais para resistir a ela, e a tosse os matava depressa. Essa poeira malcheirosa vinha dos armazéns onde os brancos empilhavam as peças de pano para guardá-las; era o cheiro da fumaça do motor das máquinas que o haviam tecido. O mesmo medo tinham nossos antigos da fumaça dos pedaços de objetos que os brancos jogavam no fogo. Quando os viam queimando revistas, por exem- plo, pensavam: “A fumaça dessas peles de imagens, com seus desenhos vermelhos e pretos, é perigosa! Vai nos cortar a garganta e machucar o peito. Sua tosse vai acabar nos matando!”. Temiam também a fumaça de tabaco queimado que os forasteiros engoliam sem parar.33 Na verdade, todos os objetos dos brancos afe- tavam nossos maiores com seu poder de doença: os facões, os tecidos, os papéis, os cigarros, os sabões e as coisas de plástico. Sua fumaça estranha se espalhava entre eles, e todos os que viessem a respirá-la muito de perto se punham logo a tossir e a vomitar.34 Sem remédios, os matava muito depressa. Até as coisas de árvores de canto que os forasteiros chamavam de gaita faziam as pessoas adoe- cerem! Quando as distribuíam, todos os rapazes tentavam soprar nelas por di- versão, como se fossem flautas purunama usi. Logo em seguida começavam a sentir dor de garganta e os espíritos da tosse passavam a dilacerar-lhes o peito.35 Assim foi. Os objetos dos brancos eram muito perigosos para os nossos antigos. Eles não os conheciam e jamais tinham visto nada assim. Tinham nascido muito longe das cidades e das fábricas, no meio da floresta. Por dentro, seu corpo era muito vulnerável às fumaças de todas essas mercadorias. 12959 - A queda do céu.indd 247 8/10/15 12:31 PM
  • 250. 248 Mais tarde, recebemos em Marakana a visita de outros brancos da Inspe- toria. Trouxeram várias espingardas para nos dar de presente. Deram uma, no- vinha, a meu padrasto, que era o grande homem de nossa casa. Foram tratados por nossos maiores como amigos, e ficaram conosco algum tempo, como con- vidados. Então, seu chefe, que se chamava Oswaldo, começou a querer uma de nossas mulheres. Desejava uma das moças da gente de Sina th a, cuja casa era um pouco a jusante da nossa.36 Eu a chamava de irmã. Ela acabara de ter a pri- meira menstruação. Oswaldo morava numa pequena cabana que a gente de Sina th a tinha construído para ele nas imediações. Ele começou a oferecer car- ne de caça e farinha de mandioca aos pais da moça, como nós fazemos para obter uma esposa. A mente dele estava fixada na beleza da menina. Ele queria mesmo copular com ela. Insistia cada vez mais para tê-la. Meu padrasto teria concordado em cedê-la, temendo a ira dele se recusasse, mas as pessoas mais velhas de Sina th a eram contra. Os pais e avós da jovem não queriam aquilo de jeito nenhum. Sabiam que o branco jamais ficaria com ela na floresta. Tinham receio de que ele a levasse rio abaixo, e que acabasse por abandoná-la na cidade depois de algum tempo.37 Sabiam que nunca mais iriam revê-la. Além disso, um rapaz de sua casa já a tinha pedido em casamento. No começo, Oswaldo esforçou-se por demonstrar amizade por todos. Seus lábios sorriam por qualquer razão. Acabou se irritando, porém, com a persis- tente recusa à sua vontade. Começou a fazer reclamações o tempo todo. Depois, certa vez, surpreendeu a moça deitada na rede do seu jovem prometido. O desejo dele se transformou imediatamente em fúria. Juntou suas coisas e foi embora sem dizer uma palavra. Desceu o rio com a raiva plantada no peito. Ninguém ouviu mais falar dele por um tempo. Certo dia, porém, ele voltou à casa dos Sina th a. Pediu de novo a moça aos pais. Dessa vez, já não sorria. Tinha o rosto crispado e hostil. Diante de mais uma recusa, pôs-se a ameaçar o pessoal da casa com fúria: “Quero essa mulher já! Se não a derem para mim, faço todos morrerem!”. Nossos antigos eram valorosos e não se deixaram impressionar nem um pouco por aquela raiva vinda de seu desejo de copular!38 Não tinham a menor intenção de deixá-lo levar a moça e não cederam. Ninguém descon- fiava de que Oswaldo dizia a verdade e tinha mesmo decidido se vingar. Assim foi. A gente de Sina th a não deu a devida importância às ameaças dele. Alguns deles me contaram que, cada vez mais enfurecido, ele enterrou perto da casa, durante a noite, uma caixa de metal contendo uma poderosa 12959 - A queda do céu.indd 248 8/10/15 12:31 PM
  • 251. 249 fumaça de epidemia. No dia seguinte, o calor do sol foi intenso e a caixa es- quentou debaixo da terra. Após algum tempo, o veneno fez explodir a tampa e deixou escapar uma fumaça espessa que invadiu tudo. Mas meu padrasto me disse que não tinha acontecido assim. Contou-me que Oswaldo, para se vingar, chamou o namorado da moça a um lugar onde tinha escondido um embrulho no chão. Saía dele uma corda reta comprida, à qual ateou fogo, com folhas secas amarradas numa pequena vara. Assim que o fogo começou a se propagar, Oswaldo correu para um lugar seguro. Pouco depois, o pacote explodiu debai- xo da terra, como um enorme tiro de espingarda. Torrões de terra foram lan- çados em todas as direções e uma densa nuvem de fumaça envolveu de repen- te a casa de Sina th a.39 Apavorados com a explosão, seus moradores, inquietos, se perguntavam o que aconteceria com eles. Certo tempo depois, Oswaldo fugiu, vociferando em sua língua de fantas- ma. Ninguém entendeu o que dizia. Porém, pouco tempo após sua partida, todos começaram a morrer em Sina th a, um atrás do outro. Isso aconteceu durante uma festa reahu. As mulheres ainda estavam ralando a mandioca dos beijus que seriam distribuídos aos convidados com carne moqueada. De repente, vários anciãos adoeceram e um deles acabou morrendo. O cadáver foi embrulhado pelos seus num saco de folhas de palmeira e amarrado no tronco de uma peque- na árvore na floresta.40 Choraram o morto e acabaram de preparar as provisões do reahu, que distribuíram às pressas entre seus convidados, para sua viagem de retorno. Entretanto, as crianças começaram a arder em febre. Em seguida, foram todos os moradores da casa atingidos pelo mal. Então, tomados de pânico, os que ainda podiam fazê-lo fugiram correndo pela floresta, para todos os lados. A fumaça de Oswaldo não era uma mera doença da tosse. As vítimas, queimando de febre, tinham coceiras insuportáveis e sua pele se desfazia em pedaços. Elas não ficavam doentes por muito tempo, morriam logo, uma de- pois da outra.41 Não demorou para haver cadáveres por todos os lados na casa de Sina th a, tombados no chão ou encolhidos em suas redes. Muitos também morreram subitamente nas roças, na floresta ou na beira do rio. Os espíritos xawarari da epidemia devoraram com voracidade um grande número de mu- lheres, velhos e crianças, bem como vários xamãs. A moça que Oswaldo tanto desejava tampouco escapou. Foi o que me relataram mais tarde os poucos adultos que tinham conseguido fugir e sobreviver a essa epidemia. Passado algum tempo, voltaram para casa e encontraram os cadáveres em putrefação 12959 - A queda do céu.indd 249 8/10/15 12:31 PM
  • 252. 250 por toda parte. Então recolheram e incineraram os ossos de seus parentes de- funtos e não pararam de chorar durante todo o tempo que passaram enchendo um grande número de cabaças com as cinzas. Mas a fumaça das piras desses mortos de epidemia também era perigosa e vários deles vieram por sua vez a falecer. Era apavorante! Os raros sobreviventes, em prantos, foram tomados por uma profunda raiva de luto. Resolveram se vingar de Oswaldo, que tinha fugido em estado de homicida õnokae logo depois de fazer estourar sua fuma- ça de epidemia.42 Buscaram-no, para flechá-lo, até no posto dos brancos da Inspetoria, em Ajuricaba, a jusante.43 Em vão. Ele deve ter se escondido em Manaus e nunca mais retornou à nossa floresta. Assim nossos maiores foram dizimados pela primeira vez. Antes dessa epidemia, ainda eram muito numerosos. Hoje, restam poucos.44 Somente a gente de Yoyo roopë conseguiu escapar dessa epidemia, liderada por meu pa- drasto. Oswaldo tinha amizade por ele. Sempre lhe trazia presentes. Contou-me que, quando o pessoal de Sina th a começou a adoecer e Oswaldo estava a pon- to de embarcar em sua canoa a motor para escapar, ele o alertou dizendo: “Vá embora deste lugar! Não chegue perto dessas pessoas, ou ficará contaminado também! Vão todos morrer! Estou muito furioso com eles! Deixe que morram, não volte à casa deles! Alerte os seus e se refugiem na floresta, bem longe, senão vocês também vão desaparecer!”. Tendo ouvido essas palavras, meu padrasto logo começou a incentivar as pessoas de nossa casa a fugir: “A epidemia xawa- ra está perto! Precisamos abandonar tudo e partir ao alvorecer! Não devemos ir chorar os mortos de Sina th a, ou morreremos também!”. Contudo, no dia seguinte, alguns hesitaram em partir. Para acabar com a indecisão deles, meu padrasto ateou fogo à nossa casa. Era um grande homem, muito valoroso mes- mo! Foi assim que deixamos a região de Marakana, às pressas. Então ficamos viajando, de acampamento em acampamento, descendo o rio Demini até bem longe. Ficamos escondidos na floresta durante várias luas e, por fim, voltamos a nos instalar em nosso local de Th ooth oth opi, a alguma distância de Marakana. Se não tivéssemos fugido, a maioria de nós também teria morrido por causa dessa epidemia. Apenas alguns dos nossos morreram, afinal, porque durante a viagem, e contrariando a opinião de meu padrasto, tinham voltado para bus- car mandioca em nossas roças velhas, passando por Sina th a. Com que Oswaldo fez explodir essa epidemia? Eu não sei, mas os brancos devem saber! Nossos ancestrais desconheciam a febre ardente dessas fumaças de epidemia. Seus corpos eram frescos como a floresta em que sempre viveram, 12959 - A queda do céu.indd 250 8/10/15 12:31 PM
  • 253. 251 sem remédio nem vacina. Talvez Oswaldo tenha posto fogo no pó que usam para explodir grandes rochas?45 Seja como for, bastou que nossos antigos ina- lassem essa fumaça desconhecida para morrerem todos, como peixes que ain- da não conhecem o poder letal das folhas do veneno de pesca koa axihana. Foi assim, perto de Marakana, que tomamos conhecimento da potência da epide- mia xawara dos brancos. Entendemos então o quanto eram perigosos para nós! Agora, já faz muito tempo. Apesar disso, os sobreviventes ainda se lembram da fumaça que Oswaldo espalhou por vingança. Falam disso até hoje com seus netos. Não queremos mais passar por tamanho sofrimento. Já foram demais os nossos que morreram das epidemias xawara espalhadas pelos brancos. Nós, que somos o que resta de nossos maiores, queremos voltar a ser tão numerosos quanto eles foram antigamente. Não queremos mais ficar morrendo antes da idade. Queremos nos extinguir só quando tivermos nos tornado velhos de cabeça branca, já encolhidos, descarnados e cegos. Queremos que o ser da morte, que chamamos Nomasiri, e o da noite, Titiri, só nos façam desaparecer quando tiver realmente chegado a hora. Então, ficaremos felizes de morrer, pois teremos vivido bastante tempo, como acontecia com nossos antepassados, antes de encontrarem os brancos. Em Marakana, os nossos parentes eram muito numerosos e gozavam todos de plena saúde quando foram dizimados de repente — mulheres, crianças e velhos. Por isso suas mortes me enfurecem até hoje. Essas palavras de luto existem em mim desde a minha infância, e é delas também que me vem a força para falar duro com os brancos. Quando viram aqueles forasteiros pela primeira vez, nossos maiores acha- ram que fossem fantasmas. Ficaram com muito medo, e disseram a si mesmos: “Devem ser os fantasmas dos mortos que voltam entre nós!”.46 Mais tarde, en- tenderam que podia tratar-se dos ancestrais de Hayowari que Omama havia transformado em estrangeiros napë. Pensaram então que aqueles habitantes de terras longínquas deviam ter retornado à floresta por generosidade, para trazer suas mercadorias para os Yanomami, que não possuíam nenhuma.47 Hoje, nin- guém mais pensa nada disso! Vimos os brancos espalharem suas epidemias e nos matarem com suas espingardas. Vimo-los destruírem a floresta e os rios. Sabemos que podem ser avarentos e maus e que seu pensamento costuma ser cheio de escuridão. Esqueceram que Omama os criou. Perderam as palavras de 12959 - A queda do céu.indd 251 8/10/15 12:31 PM
  • 254. 252 seus maiores. Esqueceram o que eram no primeiro tempo, quando eles também tinham cultura.48 Omama depositou a espuma com a qual criou os antigos brancos muito longe de nossa floresta. Deu-lhes uma outra terra, distante, para nos proteger de sua falta de sabedoria. Mas eles copularam sem parar e tiveram mais e mais filhos. Então, foram tomados de euforia, fabricando um sem-número de mer- cadorias e máquinas. E acabaram achando sua própria terra apertada. Ainda guardavam de seus avós antigas palavras acerca dos habitantes de Hayowari e sua floresta. Então declararam a seus filhos: “Existe, bem longe, uma outra terra, muito bonita, onde há muito tempo Omama criou os nossos antepassa- dos. Os habitantes da floresta dos quais se originaram ainda vivem lá. Não são outra gente diferente de nós!”. Tais palavras devem ter se espalhado entre os brancos de antigamente, já que acabaram atravessando o grande lago que os separava de nós. Navegaram nele durante várias luas, em grandes canoas. Es- caparam do vendaval e dos seres maléficos que povoam o centro dessas águas. E, por fim, conseguiram retornar a esta terra do Brasil. Contudo, as verdadeiras palavras de Omama já não existiam neles havia muito tempo. Foi seu irmão mau, Yoasi, criador da morte, que os conduziu até nós, como um pai guia seus filhos. Os ancestrais que os brancos chamam de portugueses eram mesmo filhos de Yoasi. Mal haviam chegado, já começaram a mentir aos habitantes da floresta: “Somos generosos, e somos seus amigos! Vamos lhes dar mercadorias e compartilhar nossa comida! Viveremos com vocês e ocuparemos esta terra juntos!”. Depois, conversaram entre eles e co- meçaram a vir, cada vez mais numerosos, para a terra do Brasil. No começo, seduzidos pela beleza da floresta, mostraram-se amigos de seus habitantes. Em seguida, começaram a construir casas. Foram abrindo roças cada vez maiores, para cultivar seu alimento, e plantaram capim por toda parte, para o seu gado. Suas palavras começaram a mudar. Puseram-se a amarrar e a açoitar as gentes da floresta que não seguiam suas palavras. Fizeram-nas morrer de fome e can- saço, forçando-as a trabalhar para eles. Expulsaram-nas de suas casas para se apoderar de suas terras. Envenenaram sua comida, contaminaram-nas com suas epidemias. Mataram-nas com suas espingardas e esfolaram seus cadáveres com facões, como caça, para levar as peles para seus grandes homens. Os xamãs conheciam todas essas antigas palavras. Tinham-nas ouvido ao fazerem dançar a imagem desses primeiros habitantes da floresta.49 Contam os brancos que um português disse ter descoberto o Brasil há 12959 - A queda do céu.indd 252 8/10/15 12:31 PM
  • 255. 253 muito tempo.50 Pensam mesmo, até hoje, que foi ele o primeiro a ver nossa terra. Mas esse é um pensamento cheio de esquecimento! Omama nos criou, com o céu e a floresta, lá onde nossos ancestrais têm vivido desde sempre. Nossas palavras estão presentes nesta terra desde o primeiro tempo, do mesmo modo que as montanhas onde moram os xapiri. Nasci na floresta e sempre vivi nela. No entanto, não digo que a descobri e que, por isso, quero possuí-la. Assim como não digo que descobri o céu, ou os animais de caça! Sempre esti- veram aí, desde antes de eu nascer. Contento-me em olhar para o céu e caçar os animais da floresta. É só. E é esse o único pensamento direito. Antigamente, nossos maiores não ficavam se perguntando “será que os brancos existem?”. Como eu disse, seus xamãs já faziam descer a imagem dos ancestrais desses forasteiros muito antes de seus filhos chegarem até nós. As imagens dos antigos brancos dançavam para eles, que cantavam e dançavam imitando suas palavras enroladas. As pessoas comuns escutavam essa língua de fantasma com curio- sidade, e pensavam: “Gostaria muito de conhecer essa gente outra! Como se- rão? Será que vou poder vê-los um dia?”. Nossos espíritos xapiri viajam para muito longe, até os confins da terra e do céu. Por isso nossos maiores também conheciam desde sempre o grande lago que os brancos atravessaram. Costumavam fazer dançar sua imagem com as dos seres da tempestade e dos redemoinhos que o povoam. Suas águas provêm do grande rio que irrompeu do mundo subterrâneo em Hayowari, que eles chama- vam Hw ara u.51 Foi com sua espuma que Omama criou os forasteiros. De modo que nossos antigos xamãs já falavam dos brancos muito antes de eles nos encon- trarem na floresta. Seus antepassados não descobriram esta terra, não! Chegaram como visitantes! Porém, logo depois de terem chegado, não pararam mais de devastá-la e de retalhar sua imagem em pedaços, que começaram a repartir entre si. Alegaram que estava vazia para se apoderar dela, e a mesma mentira persiste até hoje. Esta terra nunca foi vazia no passado e não está vazia agora! Muito antes de os brancos chegarem, nossos ancestrais e os de todos os habitantes da floresta já viviam aqui. Esta é, desde o primeiro tempo, a terra de Omama. Antes de serem dizimados pelas fumaças de epidemia, os nossos eram aqui muito nu- merosos. Naqueles tempos antigos, não havia motores, nem aviões, nem carros. Não havia óleo nem gasolina. Os homens, a floresta e o céu ainda não estavam doentes de todas essas coisas. 12959 - A queda do céu.indd 253 8/10/15 12:31 PM
  • 256. 11. A missão Xawara: a epidemia canibal. 12959 - A queda do céu.indd 254 8/10/15 12:31 PM
  • 257. 255 Eles são completamente selvagens, não usam nenhuma roupa e estão muito enraizados na bruxaria e na adoração ao demônio […]. V. Bartlett, 1961 New Tribes Mission Meus maiores encontraram pela primeira vez a gente de Teosi numa visi- ta aos Xamath ari instalados perto do posto Ajuricaba, a jusante, no rio Demini.1 Esses brancos, que eles nunca tinham visto, disseram que queriam conhecer sua casa de Marakana. Começava a estação chuvosa e os rios estavam enchen- do. Os forasteiros os convidaram então a entrar num pesado barco a motor e a subir o Demini com eles. Passados alguns dias, chegaram à foz do rio Tooto- tobi. Todos os nossos estavam reunidos num grande acampamento na floresta. Éramos muito numerosos naquela época. Havia tapiris de folhas ruru asi es- palhados por toda parte. Foi meu padrasto que me contou isso. Os nossos antigos tinham acabado de lançar uma incursão guerreira contra a gente do alto rio Catrimani.2 Temendo represálias, tinham deixado Marakana e se re- fugiado na floresta por algum tempo.3 Apesar disso, os brancos insistiram em ir à nossa casa. Alguns homens acabaram concordando em acompanhá-los, para pegar cachos de banana em suas roças. Os brancos foram, assim, visitar Marakana e, vários dias depois, retornaram a nosso acampamento.4 Depois, sem explicação alguma, desceram o rio em direção ao posto Ajuricaba. Várias luas passaram. Foram então os soldados da Comissão de Limites que, por sua vez, vimos aparecer no rio Toototobi. Trabalharam nas terras altas por bastan- te tempo, para plantar grandes pedras nas nascentes dos rios, e então foram embora eles também, sem uma palavra, rio abaixo.5 Foi-se uma estação seca, chegou depois outra. Então, a gente de Teosi acabou voltando.6 No começo, eram somente visitantes. Ainda não tinham aberto o caminho de avião nem construído suas casas em nossa floresta. Os homens mais velhos apenas os convidaram a amarrar suas redes nos esteios de nossa casa. Então, pela primeira vez, deram-nos a ouvir os cantos de Teosi numa máquina, e em seguida recitaram por um longo tempo as palavras dele.7 Assim foi. Naquela época, os missionários ainda moravam longe de nós. Esta- vam instalados no posto Ajuricaba, junto com o pessoal da Inspetoria e os Xamath ari.8 Mas o chefe de posto não gostava deles.9 Por isso resolveram aban- donar os Xamath ari e fazer amizade com nossos antigos, dizendo que queriam 12959 - A queda do céu.indd 255 8/10/15 12:31 PM
  • 258. 256 morar em nossa terra. Porém, desde a primeira visita daquela gente de Teosi a Marakana, muitos dos nossos tinham sido devorados pela fumaça de epidemia do branco do spi de que falei, Oswaldo.10 Nossos maiores tinham quase todos falecido. Tínhamos virado outra gente. Na volta de uma festa reahu em Warë- pi u,11 em um grupo das terras altas que também tinha sido dizimado pela epidemia, meu padrasto tinha decidido ficar morando em nossa casa de Th oo- th oth opi. Todos os sobreviventes de Wari mahi o seguiram. Os de Sina th a, por sua vez, permaneceram um pouco a montante, próximo de um antigo acam- pamento da Comissão de Limites. Então, após essa nova estadia entre nós, a gente de Teosi voltou para Ajuricaba. Dessa vez, no entanto, não demoraram a subir novamente o rio. Escolheram se instalar perto da roça de Th ooth oth opi, aberta por meu padrasto. Deram ao lugar, em sua língua de branco, o nome de “Toototobi”. Acharam a floresta bela ali. Começaram a construir suas casas e a plantar para o próprio sustento.12 Foi assim que a gente de Teosi começou a viver junto de nós. No começo, só sabiam sua língua de fantasma. Às vezes, bem que tentavam cantar ou falar como nós, mas não compreendíamos grande coisa do que que- riam dizer e isso nos fazia rir!13 Contudo, aos poucos, começaram a desenhar nossas palavras em peles de papel para poderem imitá-las. E assim, passado algum tempo, conseguiram falar com a língua mais direita. Foi então que co- meçaram a nos amedrontar com as palavras de Teosi, e a nos ameaçar constan- temente: “Não masquem folhas de tabaco! É pecado, sua boca vai ficar queima- da! Não bebam o pó de yãkoana, seu peito ficará enegrecido de pecado! Não riam e não copulem com as mulheres dos outros, é sujo! Não roubem o que lhes é recusado, é errado! Teosi só ficará satisfeito com vocês se responderem a ele!”.14 Era assim mesmo. Repetiam sem parar o nome de Teosi, em todas as suas falas: “Aceitem as palavras de Teosi! Retornemos juntos para Teosi! Foi Teosi quem nos enviou! Teosi nos mandou para proteger vocês! Não recusem, ou queimarão após a morte no grande fogo de Xupari!15 Se seguirem Satanasi16 e suas palavras, vão queimar lá com ele e vai ser de dar dó! Se, ao contrário, vocês todos imita- rem Teosi como nós, um dia, quando ele decidir, Sesusi17 descerá até nós e po- deremos vê-lo aparecer nas nuvens!”. Eram palavras muito diferentes das de nossos antigos. Nunca tínhamos 12959 - A queda do céu.indd 256 8/10/15 12:31 PM
  • 259. 257 escutado tais coisas! Nada sabíamos de Teosi nem de Satanasi. Nem sequer havíamos jamais ouvido seus nomes ser pronunciados, tampouco o de Sesusi. Só conhecíamos as palavras de Omama e de Yoasi. Contudo, naquele tempo, nossos antigos tinham muito receio dos brancos. Muitos deles tinham acabado de ser devorados pela fumaça de epidemia de Oswaldo. Acharam que a gente de Teo­si podia estar dizendo a verdade. Ficaram inquietos ao ouvir aquelas palavras desconhecidas. Por isso começaram todos a imitá-los, inclusive os grandes homens e os xamãs. Dava dó de ver! Ainda penso nisso muitas vezes, até hoje. A gente de Teosi demonstrava abertamente sua raiva contra os ho- mens que, apesar de tudo, tinham coragem de continuar fazendo dançar os espíritos. Diziam-lhes sem parar que eram maus e que seu peito era sujo. Cha- mavam-nos de ignorantes. E ameaçavam sempre: “Parem de fazer dançar seus espíritos da floresta, isso é mau! São demônios que Teosi rejeitou! Não os cha- mem, eles são de Satanasi! Se continuarem assim ruins e persistirem em não amar Sesusi, quando vocês morrerem serão jogados no grande fogo de Xupari! Vão dar dó de ver! Sua língua vai ressecar e sua pele vai estourar nas chamas! Parem de beber o pó de yãkoana! Teosi vai fazê-los morrer! Vai quebrá-los com suas próprias mãos, porque é muito poderoso!”. Essas más palavras, repetidas sem descanso, acabaram assustando os xa- mãs, que não mais ousaram beber yãkoana, nem cantar durante a noite. Ape- nas se perguntavam quem poderia ser Teosi para querer maltratá-los daquele modo. Omama nunca tinha dito coisas assim. Nossos maiores só conheciam a beleza e a força dos xapiri e preferiam seus cantos a qualquer outra coisa. Não entendiam por que os brancos tinham começado a falar tão mal com eles. As novas palavras que diziam os deixavam confusos e ansiosos. Então, um a um, começaram a rejeitar seus próprios espíritos, que foram embora. Os últimos grandes xamãs não tinham coragem de chamá-los nem mesmo para curar os doentes. Emudeceram eles também. Diante disso, todos os outros moradores de nossas casas, pouco a pouco, acabaram aceitando as palavras de Teosi. Assim que os missionários terminaram de construir suas casas em Tooto- tobi, foram morar lá com suas mulheres e filhos. A partir de então, começamos todos a imitar as palavras de Teosi exatamente como eles faziam. Todos os dias, a gente de nossa casa se reunia ao chamado deles, mesmo as crianças e os velhos. 12959 - A queda do céu.indd 257 8/10/15 12:31 PM
  • 260. 258 Era de manhã muito cedo. Fazia frio e sentíamos sono, mas tínhamos de ir as- sim mesmo!18 Cada qual pensava consigo mesmo: “Se eu não imitar Teosi com os outros, vou arder sozinho no fogo de Xupari!”. Assim, apesar do sono, aca- bávamos descendo de nossas redes. Éramos muito dóceis naquele tempo! Se- guíamos tudo o que nos dizia o pessoal de Teosi. Quando estávamos todos reunidos, os brancos se punham a cantar: “Quem criou o sol? Não fui eu que o criei! Foi Teosi quem o criou! Quem criou a lua? Não fui eu que a criei! Foi Teosi quem a criou! Quem criou a floresta? Não fui eu que a criei! Foi Teosi quem a criou! Quem criou a caça e os peixes? Não fui eu que os criei! Foi Teo- si quem os criou!”. Cantavam também que Teosi havia feito existir a terra e o céu, a luz e a noite, o vento e a chuva. Contavam como havia também dado vida a Adão e Eva: “Foi Teosi que nos pôs no mundo. Pegou barro, amassou com as mãos e transmitiu-lhe seu sopro de vida para criar um homem. Seu nome era Adão. Mais tarde, fez com que dormisse e arrancou-lhe uma costela para criar uma mulher. Foi também ele que deu filhos às mulheres. Teosi é muito poderoso! Nós o chamamos de Pai! Ele nos faz felizes. Aceitem as palavras dele. Mais tarde, ele virá buscar vocês e os levará consigo”.19 Perguntávamos a eles: “Mas onde afinal vive esse que vocês chamam de Teosi?”. Respondiam: “Mora para além do céu. Está construindo lá nossas ca- sas. É por isso que ainda não veio nos buscar em pessoa. Mas já nos enviou seu filho, Sesusi, para lavar a sujeira de nosso peito com seu sangue. É com Teosi que iremos viver para sempre após a morte. Não morremos de verdade!”. ­ Ouvindo isso, dizíamos a nós mesmos: “Está bem! Vamos imitar Teosi, como fazem os brancos. Assim nosso peito permanecerá limpo. E, quando desapa- recermos, iremos morar com ele!”. Os missionários nos falavam de Teosi, mostrando-nos imagens, dizendo: “Estas são as palavras da Bíblia!”.20 Então, pensávamos: “Talvez as coisas tenham acontecido como alegam. Estariam di- zendo a verdade aqueles forasteiros? Talvez as palavras de Teosi sejam mesmo verdadeiras!”. Era assim que conseguiam nos enganar. Suas palavras desenca- minhavam nosso pensamento e nos deixavam preocupados. Uma vez reunidos, depois de termos cantado e escutado os brancos, tentávamos falar com Teosi um de cada vez, como eles. Todo mundo tinha de fazer isso! Os homens e as mulheres, tanto os jovens quanto os mais velhos. Primeiro fechávamos os olhos, com a cabeça entre as mãos.21 Então, falávamos em voz alta, sem medo. Quando queríamos sucesso na caça, dizíamos: “Pai Teosi, você é bom. Só você 12959 - A queda do céu.indd 258 8/10/15 12:31 PM
  • 261. 259 é generoso. Quero ir caçar hoje. Proteja-me das cobras. Torne suas presas ino- fensivas. Faça com que fujam quando eu me aproximar. Proteja-me das formi- gas xiho. Tire a dor da picada delas. Foi você que criou os animais de caça. Ponha-os no meu caminho na floresta. Todos temos fome de carne. Faça com que eu encontre uma anta. Vou flechá-la e lhe direi obrigado. Iremos comê-la todos juntos. Ficaremos de barriga cheia e felizes. E se eu comer anta demais, proteja-me da diarreia. Se não, envie-me macacos guaribas e mutuns. Irei fle- chá-los também. Mostre-me um jacaré, para que eu o golpeie. Torne-o covar- de, para que não me morda caso eu pise nele por descuido. Ou então faça com que eu descubra pelo menos um jabuti no chão da floresta. Eu falarei ‘obriga- do’! Faça isso e poderemos achar que você é realmente bom!”.22 Os adultos também falavam com Teosi a respeito das mulheres. Diziam: “Pai Teosi, você é bom. Sou feliz graças a você. Nenhum outro é tão grande. Expulse Satanasi para longe de mim quando ele me faz olhar para a mulher de outro. Impeça-me de escutá-lo quando me diz: ‘Olhe aquela mocinha, é tão bonita, coma a vulva dela!’. Faça-me copular apenas com minha esposa. Basta querermos fazer amizade com uma mulher, Satanasi nos torna lúbricos. É mau! Só você pode fazê-lo recuar. Você tem de me fazer forte!”. Os xamãs também pediam a Teosi para lavar-lhes o peito: “Pai Teosi, meu peito está sujo. Lave-o com o sangue de Sesusi. Quando os espíritos xapiri se aproximarem de mim, expulse-os, mande-os de volta para de onde vieram. É Satanasi que os conduz e me manda fazê-los dançar. Teosi, quero fazer descer os seus espíritos em lugar deles. Você, que criou os anjos, envie-os para mim! Só eles são realmente belos e poderosos”. Também costumávamos cantar: “Pai Teosi! Amamos seu filho Sesusi. Quando ele descer do céu, seguiremos seu caminho. Iremos viver com ele na sua floresta, onde não há feiticeiros inimigos, nem cobras, nem espinhos, nem formigas kaxi. Cá embaixo, a floresta é hostil. Por isso queremos nos juntar a você. Assim, não passaremos mais fome, pois na sua casa há pão e café em abundância. Seremos felizes, comeremos à vontade. Nosso pai Teosi é genero- so. Sua floresta é magnífica. Vou para junto de Teosi! Na casa dele, não mais farei o mal. Não comerei a vulva de nenhuma mulher que não seja minha es- posa. Junto dele, não ficarei mais doente e não morrerei nunca! Tenho medo de queimar no fogo de Xupari com Satanasi. Apenas os que ignoram a palavra de Teosi nele perecerão. Eu chegarei à floresta de Teosi! Teosi é muito podero- 12959 - A queda do céu.indd 259 8/10/15 12:31 PM
  • 262. 260 so. Não temo mais os feiticeiros inimigos. Teosi sabe tornar seus malefícios inofensivos. Por mais que tentem soprar em mim com suas zarabatanas, não conseguirão mais me matar. Joguei meus temores para longe de mim. Viverei com meu pai Teosi. Seguirei Sesusi!”. Essas palavras de Teosi são palavras de outra gente. Não são as de nossos antepassados. Apesar disso, naquele tempo, nos esforçávamos por repeti-las sem parar na companhia dos brancos. Às vezes, alguns de nós começavam a rir às escondidas quando alguém enrolava a língua e os imitava desajeitada- mente. Eu mesmo zombei assim dos outros muitas vezes! Mas dentro de mim, pensava: “Devemos dar dó de ver! Fechamos os olhos para falar com Teosi e não vemos nada. Dirigimo-nos a ele sem nem ao menos saber quem ele é!”. É verdade, cada um de nós tentava, no fundo do peito, se dirigir a Teosi. Mas por mais que nossos ouvidos estivessem atentos, não ouvíamos nunca suas pala- vras. Por isso, naquela época, eu costumava me perguntar: “Com que se pare- ce a voz de Teosi? Será que um dia vai finalmente responder?”. Algum tempo depois de ter se instalado em Toototobi, a gente de Teosi pediu a todos os homens adultos para se reunirem. Então declarou, sem muita explicação: “É preciso que vocês abram uma longa clareira, que será um cami- nho de avião. Outros brancos que, como nós, possuem as palavras de Teosi logo descerão nele!”. Nossos antigos então obedeceram, e começaram a trabalhar sob a direção de um novo missionário que acabara de chegar, um brasileiro que se chamava Chico. Os demais eram gente merikano.23 Nossos pais trabalharam duro mesmo para abrir a pista!24 Por mais que fossem resistentes no trabalho, dava dó de vê-los derrubando grandes árvores a machadadas, sob o sol escal- dante, dias a fio. Chico era muito agressivo. Repisava as palavras de Teosi e só interrompia para dar ordens. Assim que um homem parava para descansar um pouco, ele gritava, com raiva: “Volte ao trabalho! Não fique sem fazer nada! Se você não trabalhar, não vai receber nada!”. Era muito penoso. Havia muitas grandes árvores komatima hi no lugar que os brancos tinham escolhido para fazer descer seu avião, e o caminho que haviam traçado na floresta era deveras longo. Muitos de nossos antigos chegaram até a se perguntar se não era um lugar para acolher a descida de Teosi! Queriam tanto vê-lo com os próprios olhos! Então, trabalharam sem descanso e sem reclamar. Mas os missionários 12959 - A queda do céu.indd 260 8/10/15 12:31 PM
  • 263. 261 não tinham dito isso, embora não parassem de repetir que um dia Teosi baixa- ria das alturas do céu. Diziam: “Teosi logo virá nos buscar. Quando ele chegar, vocês ouvirão o som de uma flauta vindo das nuvens. Por enquanto, ele ainda está preparando nossas casas e mantimentos para nos receber no céu. É preciso aguardar! Ele tem muito trabalho, pois nós, gente de Teosi, somos muito nume- rosos!”. Então, nossos antigos pensavam que talvez aquelas palavras fossem verdadeiras. Ficavam pensativos, indagando-se: “Teosi vai mesmo descer até nós? Será logo ou daqui a muito tempo?”. Assim, no dia em que o primeiro avião da gente de Teosi se aproximou no céu, todos se reuniram, temerosos, atrás dos missionários, para vê-lo descer na nova pista de pouso. Eles tinham muito me- do, como no tempo dos aviões da Comissão de Limites, bem antes disso. É verdade. Nossos maiores ainda não conheciam muito bem os brancos. Tinham se deixado enganar pelas repetidas palavras dos missionários sobre a vinda de Teosi. Que nunca tinham explicado para que servia aquele caminho de avião. Jamais perguntaram a opinião dos nossos. Tinham apenas prometido presentes, para que parassem de ter medo e trabalhassem.25 Foi Chico, o brasileiro, que começou a nos fazer duvidar das palavras daqueles brancos. Tínhamos curiosidade, e fazíamos a ele muitas perguntas a respeito de Teosi: “Que aparência tem ele? Como é o som de sua voz? Como ele fala?”. A todas as perguntas Chico se limitava a responder sempre a mesma coisa: “Teosi é Tupã, o Trovão!”.26 Isso nos irritava, pois era uma mentira des- carada. Sabíamos muito bem que no primeiro tempo a voz sonora de Trovão tinha exasperado nossos ancestrais, que por fim o flecharam e devoraram!27 Chico se enfurecia com facilidade e falava muito mal conosco. Às vezes, tam- bém tentava nos assustar. Como na vez em que ficou furioso porque crianças tinham surrupiado melancias que ele tinha plantado ao longo da pista do avião. Para desencorajar os pequenos, plantou uma estaca na frente de sua plantação e amarrou nela uma espingarda, com o gatilho amarrado a um cipó. E declarou a todos que a arma abriria fogo sobre qualquer um que se aproximasse de suas melancias. Noutra ocasião, mandou-nos segui-lo até sua roça de milho. Então, começou a despejar nervosamente um pó branco sobre as espigas das plantas. Devia ser pó para matar mosquitos e baratas. Depois, ameaçou-nos de novo: “Agora, se vocês continuarem a roubar meu milho, vão morrer!”. Na mesma 12959 - A queda do céu.indd 261 8/10/15 12:31 PM
  • 264. 262 época ele também gritou, cheio de raiva, com um xamã que recusava as pala- vras de Teosi: “Vou matá-lo e beber seu sangue! Gosto de beber sangue de Ya- nomami!”. Mas a bravata, longe de assustar o rapaz, apenas enfureceu a ele e aos seus.28 Os irmãos dele logo vieram acudi-lo e enfrentaram Chico, gritando tanto quanto ele. E depois o advertiram: “Se você diz possuir as palavras de Teosi, não se dirija a nós com palavras tão más. É pecado! E da próxima vez que você ameaçar matar um dos nossos, não hesitaremos em flechá-lo como a um inimigo!”. Certo dia, um grupo de caçadores foi pedir cartuchos a Chico. De má vontade, ele concordou em lhes dar alguns, antes de esconder o restante. Tamanha sovinice irritou os homens, pois os missionários, no tempo de suas primeiras visitas, sempre tinham se mostrado generosos para conquistar sua amizade. Então resolveram esperar que Chico estivesse de costas para surru- piar o resto da munição. Quando ele se deu conta, ficou furioso de novo e começou a berrar: “Vocês todos são maus! Quero que morram!”. Diante de tanta raiva, meu padrasto decidiu recuperar o que restava dos cartuchos jun- to aos caçadores. Devolveu-os ao Chico, que acabou se acalmando. Em segui- da, passaram-se várias luas, e a história já tinha quase sido esquecida. Porém, de súbito, ficamos todos doentes, abalados por uma violenta epidemia de sarampo.29 Sem demora vários dos nossos morreram, mais uma vez. Então, Chico foi embora depressa, para trabalhar em Surucucus, uma outra missão do pessoal de Teosi, nas terras altas.30 Desesperados e furiosos devido a todas aquelas mortes, tão pouco tempo depois das de Marakana, os poucos adultos mais velhos sobreviventes quiseram se vingar. Tinham certeza de que Chico tinha feito queimar uma fumaça de epidemia para puni-los pelo roubo dos cartuchos. Achavam que tinha fugido de repente por estar em estado de ho- micida õnokae e ter medo de os sobreviventes quererem flechá-lo. E era mes- mo o caso! Mas nenhum daqueles guerreiros jamais tinha matado um bran- co. Só sabiam flechar seus inimigos na floresta. Hesitaram, e o tempo foi passando. Acabaram desistindo da vingança. Chico deve a isso o fato de estar ainda vivo. Conhecíamos pouco os brancos naquele tempo, como eu disse. Ainda os temíamos muito. Eles, em compensação, não tinham medo de nós. Com cer- teza nos achavam bastante dóceis. Deviam mesmo pensar que éramos covardes! Por isso nos tratavam sem cuidado. Naquela época, antes da epidemia, havia 12959 - A queda do céu.indd 262 8/10/15 12:31 PM
  • 265. 263 dois americanos na missão. O que chamávamos de Kixi se enfurecia muito rápido, como Chico.31 Ralhava conosco o tempo todo, repetindo: “Vocês estão sendo enganados por Satanasi! É por causa dele que vocês são ladrões! Vocês pertencem a ele e vão todos arder no fogo de Xupari!”. Toda essa raiva cessou, porém, de repente, num dia em que meu padrasto quase o matou. Exasperado por tantas más palavras de raiva, acabou por golpeá-lo. O missionário ficou com muito medo e, depois disso, parou de falar conosco daquele jeito ruim. Isso aconteceu no começo, quando ainda aceitávamos as palavras de Teosi. O filho mais velho de meu padrasto era ainda criancinha.32 Divertia-se flechando lagartos e passarinhos nas imediações da missão. De repente, uma de suas flechinhas ruhu masi   33 foi se fincar no telhado de palha da habitação de um dos brancos. Para recuperá-la, ele foi buscar uma estaca e encostou-a na parede da casa. Subiu por ela com cuidado. Quando chegou em cima do telhado, tentou diversas vezes alcançar a flechinha com a ponta de seu arco, para trazê-la para junto de si. O missionário, que estava chegando, o viu. Achou que tentava entrar em sua casa afastando as palmas do telhado. Correu na direção dele aos berros, e o mandou descer. O menino, assustado, obedeceu, mas nem bem tocou no solo o homem começou a surrá-lo com um pedaço de pau chato que tinha pegado no chão. Não longe dali, perto do rio, meu padrasto e outros homens preparavam a argila para as paredes de uma nova casa da gente de Teosi. Uma de suas filhas apareceu de repente, correu até ele e lhe contou, exaltada, o ocorrido: “O bran- co acabou de bater no meu irmãozinho! A boca dele está sangrando!”. Ao ouvir essas palavras, meu padrasto saiu correndo em direção à missão. Assim que viu o sangue de seu filho pequeno, foi tomado de raiva. Lançou-se imedia- tamente sobre o missionário, brandindo sua enxada. Ele era muito valente, e 12959 - A queda do céu.indd 263 8/10/15 12:31 PM
  • 266. 264 as palavras de Teosi não lhe tinham tirado a coragem! O branco, apavorado, tentou acalmá-lo: “Espere! Não fique bravo! Devemos conversar juntos com Teosi!”. Meu padrasto não respondeu. Só tentou bater com a enxada na cabeça dele! Mas ainda estava longe demais, e não acertou. Tentou então atingi-lo de novo, mas o missionário, muito apavorado, conseguiu se esquivar do golpe, repetindo sem parar: “Não bata em mim! Devemos conversar juntos com ­ Teosi! Vamos conversar com Teosi! Vamos conversar com Teosi!”. Meu padrasto, ainda enfurecido, acabou jogando a enxada no chão e começou a socar o rosto do missionário com o punho direito. Este tentou se defender. Mas depois de receber um soco muito forte no nariz, não foi mais capaz de resistir ao ímpeto do adversário. A mulher e a filha dele tentaram segurar meu padrasto. Seu filho pequeno tentava bater-lhe nas costas. Em vão. Ele os empurrou para longe, um após o outro. No final, estavam todos aos prantos, amedrontados e sem poder fazer nada. O missionário continuava de pé, em estado de fantasma, e ia desa- bando aos poucos, gemendo a cada golpe, sem reagir. Por fim, meu padrasto apanhou um pau para acabar com ele, mas a esposa do branco se agarrou à arma desesperadamente, para impedi-lo. Foi nesse momento que Chico che- gou. Voltava de uma visita rio acima, à gente de Sina th a. Quando viu Kixi prestes a desabar e meu padrasto brandindo sua borduna, jogou a mochila e disparou em direção a eles. Segurou meu padrasto pela cintura e gritou: “Não faça isso! Pare! Pare de bater nele! É seu amigo!”. Foi assim que finalmente conseguiu conter a raiva dele. Kixi estava em péssimo estado, coberto de sangue e atordoado pelos socos. Tinha escapado da morte por pouco! Sua mulher o arrastou em seguida para dentro de casa, para tratar dele. Lá permaneceram trancados o restante do dia. No dia seguinte, o branco reapareceu, com o rosto inchado e vários dentes quebrados. Logo depois foi a Manaus para colocar outros novinhos. A epidemia de sarampo nos atingiu na missão algum tempo depois do roubo dos cartuchos de Chico e de meu padrasto ter surrado o missionário. Um avião chegou. Kixi estava voltando de Manaus com a família. Sua filha pequena tinha pegado a doença lá sem ele saber. Só percebeu após chegarem à nossa floresta.34 Foi o que ele nos disse depois. Mas quem sabe ele também desejou nossa morte, como o Chico? Ele devia estar mesmo furioso depois do que o 12959 - A queda do céu.indd 264 8/10/15 12:31 PM
  • 267. 265 meu padrasto havia feito com ele! Vários de nós pensamos, então, que ele po- deria ter trazido uma fumaça de epidemia dentro de uma caixa de ferro e po- deria tê-la aberto entre nós para se vingar. Mas ninguém viu nada explodir como no tempo de Oswaldo, em Marakana.35 Não sei! É também verdade que Kixi nos alertou a respeito da doença da filha. Assim que percebeu que ela es- tava com febre, começou a nos dizer: “Não se aproximem mais de minha filha! Fiquem longe dela! Ela está doente, tem sarampo! Vai contaminar todos vocês! Vocês vão morrer!”. Mas já era tarde demais. Alguns de nós a tinham carregado no colo, outros tinham brincado com ela. Chico, em compensação, nunca disse uma palavra sequer. Jamais tentou nos avisar. É também por esse motivo que, mais tarde, os sobreviventes da epidemia quiseram flechá-lo. Essa epidemia começou a nos devorar durante uma festa reahu. Nossos antigos tinham chamado à nossa casa de Toototobi gente de Warëpi u, que vivia rio acima, nas terras altas. Eles não tinham mandioca suficiente em suas roças para a festa que pretendiam dar. Meu padrasto os tinha convidado para se servirem das roças dele. Tinha também proposto que viessem caçar conosco, para juntar a carne necessária.36 De modo que, assim que os visitantes chega- ram, todos os homens da casa partiram para uma caçada de vários dias. Mas os caçadores acabaram voltando muito mais cedo do que o previsto. Só tinham flechado duas antas. Na mata, vários deles tinham começado a arder em febre. O mesmo acontecia em nossa casa. Foi assim que a doença começou a escure- cer nossos pensamentos. Apesar disso, os preparativos para a festa prosseguiram durante alguns dias. Um grupo de mulheres foi para as roças colher mandioca. Descascaram- -nas e as empilharam num lado da praça central e depois cobriram com folhas de bananeira. No dia seguinte, começaram a ralar a mandioca para preparar a farinha dos beijus a serem servidos como acompanhamento da carne moquea­ da. A essa altura, a febre já tinha atingido a maior parte das pessoas da casa. No dia seguinte, só havia um punhado de mulheres que ainda tinham forças para assar os beijus. Muitos pensaram que podia ser uma simples doença da tosse e não se preocuparam muito. Mas estavam enganados. Era sarampo mesmo, que é muito mais perigoso para nós. Nós o chamamos sarapo a wai.37 Quase todos foram contaminados em pouco tempo, tanto os nossos quanto os convidados de Warëpi u. Logo depois a doença se espalhou para Sina th a. Então, mais uma vez, como tinha acontecido em Marakana, as pessoas começaram a morrer 12959 - A queda do céu.indd 265 8/10/15 12:31 PM
  • 268. 266 uma atrás da outra, dentro de casa e na floresta; tanto crianças quanto adultos, homens e mulheres. A pele deles ficava coberta de placas avermelhadas, e eles ficavam se arranhando, tentando acalmar a coceira, já em carne viva. Perdiam todo o cabelo e o rosto ficava inchado. Eram tomados por uma tosse forte e constante; ardiam em febre. No começo da epidemia, o missionário mandou os que ainda não tinham sido atingidos cortar lenha em grande quantidade, para aquecer os doentes. Assim, com os demais adolescentes ainda saudáveis, passei meu tempo rachan- do a machadadas troncos de árvores mortas nas roças. Porém, logo fui eu mes- mo pego pela doença. Aquela epidemia xawara era muito voraz mesmo! Tinha muita fome de carne humana e quase me matou também. Fiquei tão mal que acabei perdendo a consciência. Virei fantasma e a febre me queimava por toda parte. Comecei a ver em sonho o peito do céu desabando sobre a terra.38 Os xamãs de nossa casa trabalhavam freneticamente para segurá-lo. Mas nada adiantava. O céu balançava com estrondo e continuava rachando e se desman- chando de ponta a ponta. Pedaços enormes se soltavam com estalos ensurde- cedores. Depois caíam devagar sobre mim, brilhando num clarão ofuscante. Todos os moradores de nossa casa choravam e até os xamãs gritavam de medo. Eu tinha certeza de que o céu estava desabando sobre a floresta e iria esmagar todos os humanos. Comecei também eu a berrar de pavor. Mas, de repente, voltei a mim. Então, mais calmo, exclamei em voz alta: “Que pavor! Acabo de ver o céu quebrando e caindo sobre nós!”. Fiquei de fato muito doente naquela epidemia! Apesar disso, no final consegui escapar da morte. O pessoal de Teosi chamou seu avião com um médico e remédios para cuidar de nós.39 Foi desse modo que minha irmã mais velha e eu conseguimos sarar. Meu padrasto tam- bém sobreviveu, embora tenha realmente chegado a agonizar. Todos os nossos parentes já estavam aos prantos em torno dele e tinham preparado um saco de folhas e estacas, para colocar seu cadáver na floresta.40 Foi o que aconteceu. Eu ainda não conhecia bem os xapiri naquela época, mas penso que devem ter me protegido mesmo assim.41 É certamente graças a eles que ainda estou aqui para contar esta história e é também por isso que, mais tarde, me tornei xamã. Meu tio,42 de quem eu gostava muito, foi o primeiro a adoecer em Tooto- tobi, antes de a epidemia se espalhar por toda a nossa casa. O missionário o 12959 - A queda do céu.indd 266 8/10/15 12:31 PM
  • 269. 267 tinha advertido de que a filha estava doente. Mas ele não lhe deu ouvidos e se aproximou dela para lhe falar com carinho. Assim, foi ele o primeiro contami- nado. Depois morreu muito depressa, antes de todos os outros. Ficou tão doente que já tinha virado fantasma. Os xamãs fizeram de tudo para tentar curá-lo. Mas suas mãos tiveram de desistir, e não conseguiram proteger a imagem dele. En- quanto trabalhavam, tentei me aproximar dele várias vezes, porque estava mui- to aflito com sua doença. Mas os outros adultos me impediram. De modo que eu nunca mais o vi. Só escutei, de longe, a notícia de sua morte. A partir de então, me senti realmente só. Esse tio era muito afetuoso comigo e me protegia. Carregava-me no colo e costumava me dar comida. A morte dele me deixou muito triste mesmo. Eu não parava mais de chorar. Os homens mais velhos da nossa casa acharam, no começo, que feiticeiros inimigos do alto rio Mucajaí, descendentes da gente de Amikoapë, tinham soprado nele pós maléficos, antes de lhe quebrarem os ossos.43 Mas não era isso. Logo depois de seu fantasma ter ido para as costas do céu, outras pessoas da aldeia foram ficando doentes e morreram do mesmo modo que ele. Foi mesmo a epidemia xawara que o ma- tou. É por isso que, se eu fosse adulto, acho que teria flechado o missionário para vingar a morte dele. Mas eu não passava de um menino e tinha muito medo dos brancos. Mais tarde, enquanto crescia, nunca deixei de pensar nesse tio. Ele tinha me feito refletir, dizendo: “Quando eu morrer, você deve ir embo- ra para junto dos brancos. Não fique nesta casa, ninguém mais aqui será seu amigo de verdade. São gente outra!”. Sempre guardei essas palavras comigo. Foi lembrando delas que, mais tarde, já adolescente, deixei minha aldeia de Tooto- tobi e desci o rio, para trabalhar no posto de Ajuricaba. Depois de meu tio, foi minha mãe que a epidemia devorou. Começou a arder em febre. Ainda era jovem e muito forte. No entanto, morreu em alguns dias. Aconteceu tão de repente que nem pude cuidar dela. Eu mesmo estava em estado de fantasma, e não a vi morrer. Ainda hoje me recordo disso com uma grande dor. Os missionários, poupados por sua própria epidemia, puse- ram minha mãe na terra à minha revelia, em algum lugar perto da missão Toototobi. Minha irmã mais velha e nossos demais parentes também estavam muito doentes. Meu padrasto agonizava. Nenhum de nós pôde impedi-los. Enterraram do mesmo modo muitos dos nossos. Eu soube disso bem mais tarde, depois de ficar curado. Mas nunca consegui saber onde minha mãe tinha sido sepultada. O pessoal de Teosi nunca disse, para nos impedir de recuperar 12959 - A queda do céu.indd 267 8/10/15 12:31 PM
  • 270. 268 as ossadas. Por causa deles, nunca pude chorar minha mãe como faziam nossos antigos. Isso é uma coisa muito ruim.44 Causou-me um sofrimento muito pro- fundo, e a raiva dessa morte fica em mim desde então. Foi endurecendo com o tempo, e só terá fim quando eu mesmo acabar. Após a morte, nosso fantasma não vai viver junto de Teosi, como dizem os missionários. Ele se separa de nossa pele e vai morar noutro lugar, longe dos brancos. Nossos defuntos moram nas costas do céu, onde a floresta é bela e rica em caça. Suas casas lá são muitas e suas festas reahu nunca param. Vivem felizes, sem dores nem doenças. Vistos de lá de cima, somos nós que causamos dó! Os mortos ficam tristes por nos terem abandonado na terra, sozinhos, com fome e ameaçados pelos seres maléficos. Por isso minha mágoa é um pouco aplacada quando penso que minha mãe vive feliz na floresta dos fantasmas, na companhia de todos os nossos parentes falecidos. É verdade. Somos nós, os poucos humanos que sobraram, que ficamos sofrendo na floresta, longe de nossos mortos. Durante essa nova epidemia, os missionários nunca desistiram de nos fa- lar de Teosi. Ao contrário, impediram os xamãs ainda saudáveis de nos tratar! Ficavam repetindo: “Não façam descer seus espíritos; eles pertencem a Satana- si! É Teosi que, ao contrário, vai curar os doentes. E os que morrerem voltarão a viver junto dele. Serão felizes lá! Não se preocupem!”. Receosos, os xamãs obedeceram e não fizeram nada. Não combateram os espíritos da epidemia. Não tentaram vingar seus próximos que estavam agonizando. Muitos dos doentes ficaram apavorados diante desse abandono e, com certeza, morreram por esse motivo. Assim penso eu. Dessa vez, a maioria dos poucos adultos que tinham escapado da epidemia de Marakana morreu. Esses antigos tinham sabedoria e cuidavam de nós. De repente, já não estavam mais entre nós. Quando volto a pensar naquele tempo, fico mudo e recolhido na minha rede. Tudo isso me atormenta e eu jamais pude esquecer. Meus pensamentos vão seguindo um ao outro melancolicamente, sem parar. Então, para tentar acalmá-los, digo a mim mesmo que aqueles que fizeram desaparecer nossos maiores um dia perecerão por sua vez, causando a mesma tristeza entre seus próximos. Todas essas mortes, juntando-se às de Marakana, encheram de angústia e raiva o peito dos sobreviventes.45 Começaram a falar duro com os missioná- 12959 - A queda do céu.indd 268 8/10/15 12:31 PM
  • 271. 269 rios: “Vocês pretendem que Teosi cuida de nós. Vocês nos deram o nome dele e, no final, são vocês que nos fazem morrer! Não queremos mais escutar suas palavras! Teosi não afastou o mal para longe de nós! Ao contrário, deixou-nos ser devorados pela epidemia de vocês!”. Estávamos todos desamparados e fu- riosos. Foi preciso muito tempo antes de nossos pensamentos conseguirem se acalmar. Os brancos da missão não reagiram à nossa raiva. Apenas repetiam: “Foi Teosi que os protegeu! Foi ele que os curou! Falamos com ele o tempo todo! Ele estava do seu lado e é todo-poderoso! Foi ele que fez fugir a epidemia xawara. Levou os mortos de vocês para a casa dele. Não fiquem tristes, estão vivendo felizes com ele!”.46 Lembro-me muito bem de tudo isso. Naquela épo- ca, eu era rapaz e os missionários queriam muito me convencer. Não paravam de me dizer a mesma coisa: “Escute! Você tem de aceitar Teosi e as palavras dele, pois se morrer irá para o céu, e ele cuidará de você!”. Então, depois de todo aquele sofrimento, e diante da insistência dos bran- cos, voltamos a pensar que talvez o que diziam de Teosi fosse verdade. Volta- mos, afinal, a ter medo deles como antes, deles e daquele cujo nome invocavam a torto e a direito. Dizíamos a nós mesmos: “Talvez Teosi quisesse mesmo que os nossos se juntassem aos fantasmas dos antepassados nas costas do céu? Talvez ele logo desça na floresta para que morramos todos também e nos leve consigo? Será que não deveríamos aceitar suas palavras, para evitar sua raiva e nunca queimar na fogueira de Xupari?”. Nosso pensamento estava na dúvida e, assim, passamos a escutar com temor e docilidade os discursos dos missio- nários outra vez.47 Pouco depois, meu padrasto aceitou até ser mergulhado por eles no rio Toototobi, para ser batizado.48 Depois todos seguiram seu exemplo e quiseram voltar a ser crentes.49 Chico, que tinha deixado Toototobi logo depois da epidemia, voltou então para a missão.50 Dizia-se homem de Teosi, mas era muito diferente dos demais missionários. Não tinha esposa nem filhos. Vivia só e, com o passar do tempo, deve ter pensado: “Por que não arranjo uma mulher yanomami?”. Ele emprega- va uma mocinha para cuidar de sua casa, lavar sua roupa e sua louça. Era uma moko, uma menina nova com os seios ainda duros e pontudos. Era muito bo- nita e ele se pôs a desejá-la. Sempre dava a ela alimentos e roupas.51 Estava gostando dela e começou a comer sua vulva. Passado algum tempo, quis tomá- 12959 - A queda do céu.indd 269 8/10/15 12:31 PM
  • 272. 270 -la por esposa de verdade. Resolveu pedi-la ao meu padrasto sem contar aos outros missionários. Disse a ele: “Vivo sozinho há muito tempo e quero que essa moça seja minha! Eu também preciso de uma esposa!”. Pergunto-me por quê, mas meu padrasto acabou se deixando convencer. Por fim, concordou em dá-la a ele. Acho que deve ter pensado que, se recusasse, Chico poderia ficar furioso e querer se vingar com uma nova fumaça de epidemia, como Oswaldo tinha feito em Marakana! Eu fiquei muito desgostoso com tudo aquilo. A moça era parente minha e todos sabiam que Chico já tinha engravidado uma jovem mulher casada na aldeia. Enfurecia-me o fato de ele, mesmo assim, continuar pretendendo fazer parte da gente de Teosi! Tudo isso era muito ruim. Desde que chegara à missão, Chico não parava de nos dizer: “Não cobicem a mulher dos outros, não as chamem para copular na floresta! É pecado!”. Ele nos tinha en- ganado bem com todas as suas mentiras! Por causa disso, o pessoal de Toototobi ficou novamente com raiva. Co- meçaram a enfrentá-lo sem medo: “Como é que você pode imitar as palavras de Teosi e cometer você mesmo os pecados de que fala? Então você mentiu para nós!”. Chico respondia, irritado: “Não estou cometendo pecado, quero me casar com ela. Não desejo a mulher de outro. Sempre obedeço Teosi!”. Mas nossos antigos retorquiam: “Mentira! Vá pedir uma esposa à sua gente, em Manaus. As mulheres dos brancos são muitas! Se você se casar com uma mu- lher da sua terra e imitar Teosi com retidão, nós o seguiremos! Mas se continuar assim querendo copular com nossas meninas, uma depois da outra, é porque está nos enganando! Você é mau! Se fosse mesmo filho de Teosi, ficaria sem mulher em vez de comer a vulva de nossas filhas e esposas! Você costuma dizer que somos falsos e você nos imita! É porque suas palavras de Teosi são menti- ras e seu pensamento está cheio de esquecimento!”. Nossos antigos achavam que, se os brancos eram portadores das palavras de Teosi como afirmavam, não podiam tocar em nossas mulheres. Caso o fi- zessem, significaria que eram mentirosos e que Teosi não existia. Depois da epidemia, estavam todos abalados pela lembrança de seus mortos e atormen- tados pelas palavras dos missionários. O comportamento de Chico deixou-os mais confusos e furiosos. Perderam então toda a vontade de imitar aqueles brancos que, afinal, não lhes pareciam ser mais do que impostores. Voltaram a se mostrar negligentes em relação às palavras de Teosi. Alguns de nós ainda as escutavam de tempos em tempos, é verdade. Porém, aos poucos, todos foram 12959 - A queda do céu.indd 270 8/10/15 12:31 PM
  • 273. 271 perdendo o interesse por elas. Os missionários ainda tentavam nos falar o quanto podiam de Sesusi e do pecado. Mas nossos ouvidos tinham ficado sur- dos. Chico continuava repetindo suas ameaças: “Se Teosi não estiver no pen- samento de vocês e se vocês não o amarem, ele os fará morrer!”. Mas ele tinha feito coisas ruins demais em Toototobi. Até os outros brancos acabaram per- cebendo! O chefe do pessoal de Teosi mandou-o de volta para Manaus, onde ele, por fim, deixou de ser missionário.52 Nós também terminamos com as palavras de Teosi.53 As enganações de Chico nos tinham feito refletir e jogamos fora todas aquelas palavras de mentira e medo. Naquela época, meu padrasto chegou até a ameaçar o pessoal de Teosi com sua espingarda! Isso aconteceu porque um xamã reputado, que ele chamava de cunhado, morreu de repente durante uma visita à nossa aldeia. Era um grande homem, vindo de uma casa das nascentes do Orinoco chamada Maamapi. Era um grande amigo dele. Certo dia, ele estava limpando o caminho do avião da missão, a pedido dos brancos. Começou a sentir uma dor aguda no ventre. Teria sido flechado pelos xapiri de um xamã inimigo? Caçadores distantes teriam ferido seu duplo animal? Não sei. A doença não durou muito. Seu esta- do logo piorou e ele começou a sentir dores atrozes. No entanto, nenhum de nossos xamãs tentou arrancar de sua imagem as pontas de flecha que tanto o atormentavam. Nem meu padrasto nem nenhum dos outros. Eles já não ousa- vam chamar seus xapiri para curar. Tinham-nos rejeitado e não bebiam mais yãkoana para alimentá-los e fazê-los dançar. Temiam as reprimendas dos bran- cos e só se dirigiam a Teosi. Meu padrasto, que então ainda era crente, tentou curar o visitante com as 12959 - A queda do céu.indd 271 8/10/15 12:31 PM
  • 274. 272 palavras que tinha recebido dos missionários. Pediu a Teosi que deixasse viver seu amigo: “Teosi, eu o chamo de Pai. Trago-o em meu pensamento. Você é bom. Só você pode nos curar. Foi você que criou a floresta e o céu. Só você é tão poderoso. Os xapiri são fracos. Meu cunhado está agonizando. Tire a dor de seu ventre. Se ele ficar curado, lhe agradecerei. Se voltar à vida como Sesusi, ficarei satisfeito com você. Se morrer, ficarei muito triste. E então pensarei, enfurecido, que suas palavras são apenas mentiras!”. Passou uma noite inteira ajoelhado junto ao doente, que se contorcia de dor. Manteve a cabeça baixa, o rosto entre as mãos. Imitava com obstinação as palavras de Teosi. Dava mesmo dó de ver! O amigo não parava de gemer e repetia: “Dói muito! Eu vou mor- rer!”. De repente, não se ouviu mais sua voz. Parou de respirar. Então, todas as pessoas da casa se aproximaram de sua rede para dar início às lamentações de luto. Meu padrasto permaneceu agachado com a mãe do morto, uma mulher muito velha. Chorou com ela durante muito tempo antes de a dor de seu so- frimento se transformar em raiva. Então, declarou diante de todos os que cho- ravam com ele: “A partir de hoje, não imitarei mais à toa as palavras de Teosi, que deixou morrer meu cunhado sem fazer nada!”. Era de manhã cedo. O defunto ainda estava na rede. Meu padrasto foi à floresta, nas proximidades, para preparar a armação de estacas sobre a qual o cadáver seria colocado. De- pois voltou para casa atravessando a missão, que era perto. Viu de longe o pessoal de Teosi concentrado em suas orações. Um deles o chamou: “Venha conosco! Vamos juntos conversar com Teosi! Não fique triste. Ele o protege!”. Meu padrasto seguiu adiante sem responder, com o ódio de seu luto cravado no peito. Foi buscar a espingarda. Depois voltou, com a arma na mão, até a casa onde os brancos estavam reunidos. Estavam cantando as palavras de Teosi e insistiram mais uma vez para que viesse se juntar a eles. Ainda mudo, ele se ajoelhou entre eles, com a espingarda. Os cantos deles atiçaram sua fúria. Quando pararam de cantar, disseram que era a vez de ele imitar as palavras de Teosi. Meu padrasto permaneceu em silêncio. Escutava, ao longe, os choros de luto que continuavam saindo de nossa casa. De repente, ele se pôs a gritar: “Ma! Não vou mais cantar para Teosi! Não quero mais mentir! Ele não faz nada para nos curar! Só os nossos xapiri trabalham realmente para nos defender! O Teosi de vocês não passa de um preguiçoso. Dei ouvidos a vocês e me dirigi a ele, pois vocês tinham dito para mim que ele sabia curar. Ele não fez nada por 12959 - A queda do céu.indd 272 8/10/15 12:31 PM
  • 275. 273 meu cunhado. Agora, acabou! Perdi toda a alegria. Só me resta minha raiva!”. Surpresos com o tom exaltado de suas palavras, os missionários o fitaram com olhos amedrontados. Meu padrasto continuou gritando, de pé diante deles, agitando a arma: “Joguei fora as palavras de Teosi! Nunca mais vou falar nisso! Não quero mais fazer sofrer os meus com essas mentiras! Teosi deixou morrer aquele que estamos chorando. Estou furioso! Agora só tenho uma vontade: matá-los!”. Então ele enfiou um cartucho na espingarda e a apontou na direção dos brancos, que fugiram imediatamente. Mas um deles, que chamávamos de Purusi, ficou plantado na entrada da casa, diante de meu padrasto, que conti- nuava gritando: “Vocês fogem como covardes, mas vão morrer assim mesmo! Você, que ficou aí, vou matá-lo primeiro! Estou furioso! Asi!  ”. O americano, apesar de ser adulto, de repente começou a chorar de medo. Achava mesmo que meu padrasto ia atirar nele. Suplicou-lhe, soluçando: “Não me mate! Não quero morrer de uma de suas balas!”.54 Tinha desabado no chão. Meu padrasto o agarrou com uma mão pela camisa para levantá-lo, sem parar de gritar: “Pare de chorar como uma criança! Ponha-se ereto! Quero matá-lo de pé!”. Naquele tempo, ele era um bravo e temido guerreiro. Porém, ele não matou o missionário. Deve ter ficado com pena de vê-lo naquele estado. No passado, aquele homem o havia tratado com amizade e lhe dera mercadorias.55 Por fim, baixou o cano da espingarda e o deixou fugir para junto dos outros brancos, que estavam trancados em outra construção. Então meu padrasto voltou à nossa casa, onde reencontrou o círculo de pessoas que ainda choravam em volta da rede do defunto. Fez um breve discurso hereamuu para que o ca- dáver fosse embrulhado num saco de folhas de palmeira e levado para a flores- ta ali perto, para ficar exposto. Alguns homens se encarregaram do fardo fu- nerário, seguidos por um grupo de mulheres em prantos. Uma vez cumprida essa tarefa, os lamentos de luto recomeçaram com mais vigor. Todos estavam tomados de tristeza e raiva. Meu padrasto continuou carregando a dor pela morte do amigo por muito tempo depois desse dia. Nunca mais se juntou aos missionários para cantar e parou de dar ouvidos aos discursos e reprimendas deles. Começou a denunciar as palavras de Teosi como mentira dos brancos.56 Mais tarde, ele inclusive se afastou da missão Toototobi e foi viver bem longe, no alto rio Wanapi u. 12959 - A queda do céu.indd 273 8/10/15 12:31 PM
  • 276. 12. Virar branco? 12959 - A queda do céu.indd 274 8/10/15 12:31 PM
  • 277. 275 Davi ainda enfrenta alguns problemas mas continua a mostrar pro- gresso espiritual e suas leituras caminham bem. The Toototobi gang, 1970b New Tribes Mission Quando eu era criança, os missionários quiseram a todo custo me fazer conhecer Teosi. Não esqueço essa época da missão Toototobi. Às vezes me lembro de tudo. Então digo a mim mesmo que Teosi talvez exista, como aque- les brancos tanto insistiam. Não sei. Mas, em todo caso, tenho certeza há muito tempo de não querer mais ouvir suas palavras. Os missionários já nos enganaram o suficiente naquele tempo! Cansei de ouvi-los dizer: “Sesusi vai chegar! Vai descer até vocês! Chegará em breve!”. Mas o tempo passou e eu ainda não vi nada! Então fiquei farto de escutar essas mentiras. Os xamãs por acaso ficam repetindo essas coisas à toa, sem parar? Não: bebem o pó de yãkoa­ na e logo fazem descer a imagem de seus espíritos. E só. Por isso, quando me tornei adulto, decidi fazer dançar os xapiri como os antigos faziam no tempo da minha infância. Desde então, só escuto a voz deles. Talvez Teosi se vingue de mim e me faça morrer por isso. Pouco importa, não sou branco. Não que- ro mais saber dele. Ele não é nem um pouco amigo dos habitantes da floresta. Ele não cura nossas crianças. Tampouco defende nossa terra contra os garim- peiros e fazendeiros. Não é ele que nos faz felizes. Suas palavras só conhecem ameaça e medo. É verdade. Até hoje, a gente de Teosi não desistiu de me assustar! Quando os encontro por acaso, continuam me dizendo: “Davi, seu pensamento está escurecido! Satanasi se apoderou de você! Se continuar dando ouvido às pala- vras dele, vai arder no grande fogo de Xupari! Pare de responder aos xapiri, para que seu pensamento possa se abrir novamente com as palavras de Teosi! É ele que vai realmente protegê-lo!”. Mas já não sou mais criança, não tenho mais medo de responder a eles: “Já escutei demais suas tapeações, naquele tempo. Basta! Como podem vocês pretender que seu Teosi quer nos proteger quando ele fica ameaçando nos jogar numa fogueira? Se pudéssemos vê-lo, talvez temêssemos sua ira a ponto de nos submetermos. Mas só sabemos dele o que vocês dizem e nunca pudemos vê-lo! Então, se vocês querem imitar as palavras dele, façam isso sozinhos, fechados em suas casas. Eu nunca mais quero ouvi-las!”. Hoje, essas falas torcidas dos missionários não me inquietam 12959 - A queda do céu.indd 275 8/10/15 12:31 PM
  • 278. 276 mais. Após minha morte, os dizeres e cantos da gente de Teosi não serão mais nada. Meu fantasma estará feliz nas costas do céu, com os de todos os nossos antigos xamãs mortos. Assim é. Os Yanomami são mais numerosos nas costas do céu do que aqui embaixo, na terra! As palavras de Teosi pertencem aos brancos. Antigamente, eram desco- nhecidas na floresta. Surgiram entre nós há pouco tempo. Nenhum de nós jamais as havia dito antes de os missionários chegarem com elas. Por isso não as compreendemos realmente. Só conhecemos um pequeno trecho delas, a montante.1 Porém, nosso pensamento é incapaz de desdobrá-las em todas as direções, como fazemos com as dos xapiri. Se continuarmos a ouvi-las e segui- -las sem razão, acabaremos esquecendo os dizeres de nossos maiores. Aí, os brancos dirão que somos crentes, mas nosso pensamento terá só ficado tão esquecido quanto o da gente da cidade, que não sabe nada da floresta. Hoje, porém, é o contrário que ocorre. Muito poucos de nós ainda imitam Teosi, e os xamãs não temem os missionários como antigamente. Os xapiri continuam a nos fazer escutar seus cantos, que são nossa verdadeira língua. Até hoje, mesmo com a yãkoana, nunca conseguimos ver dançar a ima- gem de Teosi! Por mais que fechemos os olhos e nos esforcemos muito, como eu cheguei a fazer, é sempre em vão. Teosi morreu e seu fantasma desapareceu além do céu. Não é possível vê-lo nem ouvi-lo. No entanto, outrora, quando eu mesmo virei fantasma sob efeito da epidemia xawara, vislumbrei um gran- de pedaço de tecido branco que flutuava no ar, sem pés. Era difícil enxergá-lo com clareza, mas havia em torno dele padres e freiras sentados em volta de uma grande mesa.2 Então acordei e depois, quando adormeci de novo, nunca mais voltei a vê-lo. Mas talvez a imagem de Teosi seja também aquilo que os espíri- tos chamam de Wãiwãiri? É um ser de pele flácida e luminosa que, quando aparece, só fica dançando no mesmo lugar, em tremedeiras moles e assustado- ras.3 Eu nunca o vi, mas o meu sogro me falou dele algumas vezes, quando bebíamos a yãkoana juntos. Disse-me que essa imagem, que fazia descer de vez em quando, trazia em torno do pescoço um longo tecido coberto de desenhos de escrita pretos e que talvez fosse essa a imagem de Teosi. Meu sogro, como eu disse, é um grande xamã. Nossos antigos abriram eles mesmos os caminhos de seus xapiri para ele. Ele morreu várias vezes e seus espíritos sempre o trouxeram de volta à vida. Foi morrendo desse modo que ele também viu Omama e Teosi se enfrentarem. Contou-me como ambos sur- 12959 - A queda do céu.indd 276 8/10/15 12:31 PM
  • 279. 277 giram, juntos, quando a floresta começou a existir. Mas Teosi logo ficou furio- so contra Omama, por achá-lo habilidoso demais. Sua capacidade de criar as coisas da floresta o deixava enciumado. De raiva, acabou matando-o. Então Omama, tornado fantasma, vingou-se de Teosi e, por sua vez, destruiu-o. De- pois disso, o fantasma de Teosi foi morar além do céu, acima da terra dos brancos. O de Omama permaneceu acima de nossa floresta, próximo dos xa- piri. Desde então, as imagens dos dois ficaram afastadas uma da outra. Tudo isso aconteceu depois que Omama fugiu de nossa floresta em direção a jusan- te dos rios, onde criou os brancos.4 Hoje Teosi está morto, tanto quanto Omama. Deles só restam os nomes, seus valores de fantasma. A imagem de Teosi talvez cuide dos brancos. Eles devem saber. Nós, em todo caso, sabemos muito bem que ela não protege na- da os habitantes da floresta! Os missionários costumavam repetir que Teosi criou a terra e o céu, as árvores e as montanhas. Mas, para nós, suas palavras só trouxeram para a floresta os espíritos de epidemia que mataram nossos maiores, e todos os seres maléficos que, desde então, nos queimam com suas febres e nos devoram o peito, os olhos e o ventre. É por isso que, para nós, Teosi é antes o nome de Yoasi, o irmão mau de Omama, o que nos ensinou a morrer.5 Omama, por outro lado, criou os xapiri para nos vingar das doenças, e a yãkoana para podermos fazer dançar suas imagens. Quis, com sabedoria, defender os habitantes da floresta de Nomasiri, o ser da morte. No começo, Omama não era o único a ter xapiri. Teosi os criou no mesmo tempo. São eles que os missionários chamam de anjos. No entanto, Teosi aca- bou sendo agressivo com eles, porque não lhe obedeciam. Então, expulsou-os para longe, acusando-os de serem sujos e preguiçosos. Ao ver isso, Omama os chamou para perto de si e os transformou em xapiri. Deu a eles seus ornamen- tos resplandecentes e seus cantos magníficos. De modo que eles são muito mais belos do que os humanos; são mesmo como os espíritos deles que os brancos nos disseram ser anjos.6 A beleza e o poder dos xapiri não tardaram a causar inveja em Teosi. Por isso, como eu disse, ele acabou matando Omama, que era o pai deles. Ele não morreu sem motivo! É também por isso que, até hoje, a gente de Teosi guarda tanto rancor contra os xamãs que fazem dançar esses espíritos. É o que eu penso. 12959 - A queda do céu.indd 277 8/10/15 12:31 PM
  • 280. 278 Os missionários têm um livro a partir do qual espalham as palavras de Teosi. Costumavam dizer, olhando para ele, que Sesusi iria clarear nosso peito e lavar nosso pensamento. Não paravam de declarar que Teosi não gosta de quem faz descer os espíritos, de quem usa folhas de tabaco, de quem rouba das roças dos outros ou de quem copula com mulheres casadas. Também repetiam sem- pre que Teosi tem aversão pelos que se enfrentam com bordunas, conduzem expedições de feitiçaria ou mostram bravura na guerra. Porém, para nós, tudo isso não passa de um monte de palavras tortas. Omama sempre demonstrou amizade por nós, não importa o que façamos. Ele nunca pretendeu lavar o peito de ninguém! Sua imagem não fica nos dizendo sem parar: “Vocês são maus! Se recusarem minhas palavras, farei com que sejam queimados vivos ou carregados pelas águas! Farei tremer a terra da floresta sob seus pés!”. Ela apenas nos diz: “Vocês são como eram seus antigos! Continuem seguindo os rastros deles! Um dia, vocês morrerão; por isso, enquanto estão vivos, não devem temer nada!”. Assim é. Ignoramos aquilo que a gente de Teosi, para nos assustar, cha- ma a todo instante de pecado. Não somos ruins; só não somos brancos! Somos como nossos antepassados sempre foram antes de nós. Para nós, todas essas palavras de branco a respeito de Teosi são sem valor. Se a imagem de um de meus filhos for capturada por um ser maléfico gavião koimari, de nada vai adiantar eu esconder o rosto com as mãos para falar com Teosi tentando curá-lo, em vez de chamar meus xapiri. Se eu apenas fechar as pálpebras como se estivesse dormindo, para dizer “Pai Teosi, proteja esta crian- ça!”, ninguém vai responder: “Awei!   Vou cuidar dele!”. Meu filho morrerá e só me restará minha dor. É só. Quando se imitam as palavras de Teosi não se vê nada: nem os seres maléficos, nem o mal das plantas de feitiçaria, nem os espí- ritos da epidemia. Teosi deve ser preguiçoso, já que não faz esforço algum para nos curar, nem quando estamos agonizando. Morremos à toa, sem ele nem se preocupar. Ao contrário, os xapiri demonstram muito empenho em nos vingar. Por isso censuram Teosi como faríamos com um xamã indolente: “Os brancos dizem que você é poderoso. Você alega saber curar, mas nunca o vemos traba- lhar! Você nunca sai da rede! Você foge da luta contra os seres maléficos! Você só sabe ficar repetindo palavras de medo e de morte!”. No começo, nossos antigos se aproximaram da gente de Teosi para con- seguir deles algumas mercadorias e medicamentos. Ainda que fosse pouco, naquela época não havia outras coisas dos brancos em nossa floresta. Depois, 12959 - A queda do céu.indd 278 8/10/15 12:31 PM
  • 281. 279 os missionários não pararam de amedrontá-los com Satanasi e o grande fogo de Xupari. Então, por medo, muitos de nós acabaram por imitá-los. Contudo, aquelas palavras nunca conseguiram lavar nosso peito como diziam aqueles brancos. Nenhum de nós parou de ficar com raiva nem de querer se vingar. Ninguém parou de mentir ou de desejar as mulheres. Aí, o tempo passou e, pouco a pouco, todos foram voltando às nossas verdadeiras palavras. Foi o que aconteceu com o meu padrasto em Toototobi. No início, ele se esforçou muito para falar com Teosi como os americanos faziam. Ficava repetindo, depois deles: “Sesusi, limpe meu peito! Afugente os espíritos para longe de mim!”. Apesar disso, os xapiri não pararam de querer descer para ele e Teosi nunca conseguiu mandá-los embora. Então ele perdeu o medo de voltar a beber yãkoa­ na. Assim é. Continuaremos fazendo dançar as imagens dos ancestrais animais para curar os nossos enquanto estivermos vivos, pois somos habitantes da flo- resta. Não ficamos, como os missionários, fechados o tempo todo em nossas casinhas, fingindo falar com Teosi e comendo sozinhos!7 Contudo, quando eu era pequeno, em Toototobi, gostava de escutar a gen- te de Teosi.8 Se eles tivessem se comportado melhor conosco, será que eu teria continuado a imitá-los? Não sei. Eles me ensinaram, como às demais crianças, a desenhar as palavras de nossa língua, e depois a reconhecer os números que os brancos usam para fazer contas.9 Depois, presentearam-me com várias peles de imagens sobre a gente de Israel e sobre Sesusi.10 Deram-me também um livro grande em que estavam desenhadas as palavras de Teosi. Eu gostava de ouvi-los falar daquelas coisas antigas. Teria gostado de falar com Teosi e, sobretudo, de poder vê-lo. Pretendia mesmo tornar-me um dos seus, embora de tanto ouvir proferir seu nome eu temesse sua ira. Para dizer a verdade, eu tinha mais curio- sidade pelas novas palavras dos brancos do que pelas de nossos antigos! Além disso, naquela época, meu padrasto e meu cunhado tinham rejeitado seus xa- piri e tinham virado crentes.11 Nosso pensamento estava fixado em Teosi e no fogo de Xupari. É claro que quando imitávamos as palavras dos brancos acabá- vamos por confundi-las um pouco. Mas, de tanto repeti-las, ficavam cada vez mais firmes em nós. Íamos visitar as casas de nossos aliados e falávamos para eles ao modo dos missionários:12 “Aceitem Teosi e recebam suas palavras! Foi ele que criou os homens e as mulheres. Foi ele que criou os alimentos da flores- 12959 - A queda do céu.indd 279 8/10/15 12:31 PM
  • 282. 280 ta e das roças. Foi ele que criou os peixes e a caça, os macacos e as antas!”. Os americanos estavam satisfeitos conosco. Diziam que éramos realmente gente de Teosi, tanto quanto eles. Contudo, não compreendía­ mos bem aquelas pala- vras de branco. Não eram as de nossos antepassados, que nunca nos haviam dito: “Pai Teosi existe, ele nos protege!”. Nem conhecíamos esse nome antes da chegada daqueles forasteiros. Só queríamos palavras diferentes das nossas! Di- zíamos a nós mesmos: “Esses brancos são outra gente, têm outros espíritos. Talvez Teosi exista mesmo! Será tão poderoso quanto dizem?”. De modo que, no começo, escutei bastante os missionários. Desejava se- guir suas palavras e me esforçava para imitá-las. Ficava feliz de ser considerado como um deles. Eles já tinham mergulhado minha cabeça na água do rio Too- totobi tapando o meu nariz, como um pastor. Eu tinha mesmo feito amizade com Teosi! E no entanto, quando eu ficava só e queria falar com ele, não con- seguia; nem mesmo podia vê-lo em meus sonhos. Além disso, os brancos, ape- sar dos meus esforços, continuavam falando duro comigo: “Davi, você está em pecado, é ruim! Não use brejeira de tabaco! Não deseje mulheres casadas! Não beba o pó de yãkoana! Satanasi está enganando você! Temos pena de você, vai queimar na fogueira de Xupari!”. Com o passar do tempo, escutar essas censu- ras constantes acabou enfraquecendo as palavras de Teosi em mim. Elas só pareciam saber falar de pecado e recriminações. Eu estava começando a ficar cansado delas. E, por fim, tudo aquilo me deixou furioso. Dizia a mim mesmo: “Entendi bem as palavras de Teosi. Agora sou um dos filhos dele. Meu peito ficou limpo. Apesar disso, esses brancos não param de me acusar de ser mau. Por quê?”. Então, comecei a rebater: “Não falem comigo assim! Não quero mais ouvir tantas palavras ruins! Agora chega de me dizer isso tudo! Se tentarem me assustar repetindo essas coisas o tempo todo, vou acabar achando que só que- rem mentir para mim!”. Eu não tinha meu pai desde a minha primeira infância. Meu padrasto já tinha outras mulheres e filhos pequenos.13 Os que tinham cuidado mais de mim, minha mãe e meu tio, tinham partido havia pouco. Desesperava-me a ideia de ter de crescer sem nunca mais revê-los. Atormentava-me a dor de seu luto. Agora eu me sentia só em nossa casa de Toototobi. É claro que não estava realmente sozinho, mas já não tinha ali familiares para cuidar de mim e me alimentar. Passava a maior parte do tempo triste ou com raiva. Não pensava em nada a não ser em fugir.14 Não parava de pensar: “Aqui não tenho mais 12959 - A queda do céu.indd 280 8/10/15 12:31 PM
  • 283. 281 ninguém. Quero desaparecer, bem longe daqui, na terra dos brancos. Quero viver com eles e virar um deles!”. Eu estava mesmo tomado por essa ideia. Não queria mais viver em nossa casa, nem ver nossa floresta. Tinha decidido aban- doná-las para sempre. Virar branco — eu não pensava noutra coisa. Não tinha mais vontade nenhuma, entretanto, de imitar Teosi como antes. Os missioná- rios tinham me enganado cobrindo-me de recriminações. Eu queria esquecer todas as palavras que haviam me dado. Quando refletia sobre isso, a única coisa que me vinha à mente era que Teosi tinha deixado morrer meus parentes. Isso me revoltava. Dizia a mim mesmo: “Pouco importa! Agora não me inco- moda morrer. Não sou filho de branco. Que a epidemia devore também a mim e que eu queime com Satanasi!”. Foi com esses pensamentos que, no final, resolvi deixar nossa casa de Toototobi. Assim que tive a oportunidade, fui trabalhar no posto Ajuricaba da Funai, rio abaixo, na beira do Demini. Lá co- mecei a viver junto com outros brancos, que não falavam de Teosi. Os discur- sos dos missionários foram se apagando aos poucos de minha memória e aca- bei por esquecê-los. Naquela época, o pessoal da Funai, que tinha substituído os antigos da Inspetoria, vinha muitas vezes nos visitar em Toototobi para fazer trocas.15 Trocávamos com eles castanhas-do-pará e também peles de jaguatirica, de ari- ranhas kana, de veados e queixadas.16 Eles nos traziam facões, facas e macha- dos, anzóis e linha, redes e algumas roupas, e ainda espingardas e cartuchos. Às vezes nos ajudavam com remédios. E também impediam os brancos que moravam a jusante do rio de entrar em nossa floresta. Por tudo isso, eu achava bom que viessem nos visitar. Eu já tinha crescido, mas ainda frequentava a escola da missão. Achava que seria bom para mim aprender outro costume.17 Eu já tinha me tornado adolescente e agora podia deixar os meus e viajar lon- ge, para outras terras. Eu queria conhecer outras gentes.18 Naquele tempo, era nisso que eu ficava pensando sem parar! Os funcionários da Funai que vinham a Toototobi para comerciar com meus parentes não se interessavam nem um pouco por mim. Para eles, eu ainda era uma criança. Porém, um dia perguntaram a meu padrasto se eu podia ir trabalhar com eles no posto Ajuricaba. Ele recusou logo, pois me considera- va jovem demais para partir sozinho com os brancos. Então eles levaram outros rapazes, mais velhos do que eu. Mas parece que não ficaram nada satisfeitos com o trabalho deles, pois logo os mandaram de volta. Mais tarde, durante 12959 - A queda do céu.indd 281 8/10/15 12:31 PM
  • 284. 282 outras visitas, um homem da Funai insistiu novamente junto a meu padrasto para que eu fosse trabalhar com ele. Prometeu que me traria de volta a Tooto- tobi algum tempo depois. Dessa vez, eu tinha crescido e estava mais sabido. Tinha começado a me acostumar com aqueles novos brancos. Meu padrasto me perguntou se eu queria mesmo ir com eles. Respondi que era isso mesmo que eu queria. Então, dessa vez, ele acabou concordando: “Está bem! Vá traba- lhar com esses forasteiros! Mas fique atento! Preste muita atenção nas doenças deles e nas onças na floresta! Não faça besteiras e não se meta em enrascadas!”. Ditas essas palavras, acabei partindo com o pessoal da Funai.19 O homem que tinha insistido para que eu o acompanhasse pretendia me instalar na casa dele, a jusante do posto Ajuricaba, para que eu trabalhasse para ele. O chefe do posto da Funai, Esmeraldino, percebeu e isso o desagradou. Chamou-me de lado e me disse: “Não vá com esse sujeito. Ele vai fazer você trabalhar para ele sem descanso. Você vai passar fome, vai dar dó de ver! Venha se instalar conosco, no posto. Você pode nos ajudar na cozinha, cuidar da comida e da louça!”. Então eu segui o conselho e fiquei com ele em Ajuricaba. Foi assim que eu comecei a trabalhar com a gente da Funai pela primeira vez.20 Eu era ajudante do cozinheiro do posto. Rachava lenha, acendia o fogo e ia buscar água no rio. Punha a carne de caça para assar. Lavava os pratos, os ta- lheres e as panelas. E ainda pescava e caçava. Eu tinha muito trabalho mesmo e não tinha tempo para a preguiça! Apesar disso, eu gostava de viver junto com os brancos e de realizar as tarefas de que me incumbiam. Eu tinha acabado de ficar adolescente e, com eles, eu aprendia muitas coisas. Tinha muita vontade de conhecê-los melhor e de imitá-los. No entanto, naquela época, eu ainda não sabia grande coisa a respeito deles. Conhecia um pouco os missionários, mas não os brancos de Ajuricaba, que estavam perto, mas eram muito diferentes. Na verdade, eu até receava ter de falar com eles. Eles não conheciam a minha língua e eu não entendia quase nada do que diziam. Então, no posto da Funai, eu só trabalhava, sem dizer uma palavra, esforçando-me para seguir as ordens que me davam: “Venha cá! Vá para lá! Vá rachar lenha! Vá pescar!”. Eu conseguia não me equivocar demais porque os Xamath ari do lugar, que falavam um pouco de português, me ajuda- vam a entender o que o pessoal do posto me dizia. Eu queria mesmo conhecer 12959 - A queda do céu.indd 282 8/10/15 12:31 PM
  • 285. 283 os brancos. Por isso eu os escutava com muita atenção. No entanto, minha boca tinha medo de falar com eles. Eu não dizia a mim mesmo: “Vou aprender a língua deles!”. Antes me esforçava para capturar suas palavras uma por uma, para fixá-las em mim. Mas não era nada fácil. Custou-me muito reunir algumas delas em minha mente. Mas, pouco a pouco, as que eu conseguia reconhecer aumentaram. Eu continuava mudo, mas estava começando a compreender o que o pessoal do posto me dizia. Aí, minha boca acabou perdendo o medo. Então, me arrisquei a proferir algumas daquelas palavras estranhas com uma língua torcida. Mas o que eu dizia soava muito feio. Era só fala de fantasma mesmo! O pessoal da Funai tinha me dado uma rede de algodão bem grande e vários tipos de roupa.21 Tudo aquilo me deixava feliz. Dizia a mim mesmo: “Por que não imitar os brancos e virar um deles?”. Eu só queria uma coisa: parecer com eles. Por isso, observava-os o tempo todo em silêncio, com muita atenção. Queria assimilar tudo o que diziam e faziam. Eu já estava acostumado a usar bermudas. A gente de Teosi já tinha distribuído várias desde que começaram a morar conosco, para escondermos o pênis. Eu também conhecia chinelos. Contudo, nunca tinha usado calça comprida, nem sapatos fechados, nem ca- misas, menos ainda óculos! Quando eu via os brancos vestindo suas calças, pensava: “Vou esconder minhas pernas como eles!”. Quando calçavam seus sapatos, dizia a mim mesmo: “Vou fechar meus pés do mesmo jeito para an- dar!”. Quando trajavam suas camisas, imaginava: “Eu também vou me embru- lhar num belo tecido desses!”. Os óculos eram o que mais me impressionava, e eu ficava esperançoso: “Um dia vou poder esconder meus olhos como eles!”. Reparava em seus relógios de pulso, que me causavam também muita inveja: “Seria tão bom enrolar essa coisa em torno do pulso para poder seguir o sol, mesmo à noite!”. Eram só esses os meus pensamentos naquela época. 12959 - A queda do céu.indd 283 8/10/15 12:31 PM
  • 286. 284 Eu não parava de pensar em quando fosse adulto e dizia a mim mesmo: “Um dia, vou ter um motor de popa para correr pelos rios para todos os lados com uma canoa grande, como os brancos!”. Meu pensamento estava mesmo fixo em suas mercadorias. Naquela época, eu acreditava que eram capazes de fabricá-las eles mesmos, quando quisessem! Aqueles objetos novos obscure- ciam meu espírito e me faziam esquecer todo o resto. Eu já não trazia em meu pensamento nem meus parentes nem minha antiga casa de Toototobi. Se os brancos que me levaram com eles tivessem sido moradores do rio, daquela gente que vive rio abaixo, ao longo do rio Demini, acho que nunca teria volta- do para a nossa floresta. Teria me tornado homem entre os pescadores de tartarugas ou os coletores de fibra de piaçava. E se tivessem concordado em me dar uma de suas filhas, eu teria tomado esposa entre eles e teria ficado de fato! Se tivesse mesmo desejado virar branco, eu teria me perdido entre os habitan- tes do rio e com certeza estaria vivendo lá até hoje. Não digo mentiras. Aconteceu com um dos rapazes de nossa antiga casa de Marakana. Para mim, era um cunhado. Era mais velho do que eu. Ele já era adulto quando eu ainda não passava de um menino. Isso foi há muito tempo. Depois da epidemia de Oswaldo, ele tinha ido embora para o posto Ajuricaba, como eu faria mais tarde. Trabalhou lá por algum tempo, e depois seguiu rio abaixo com um branco que já tinha trabalhado para a Inspetoria. Este tinha se instalado no baixo Demini, longe do posto Ajuricaba, perto de um lago. Tinha aberto lá uma roça e vivia da captura de tartarugas para vender.22 Ele caçava e também vendia peles de animais. Trabalhava só, e por isso chamou o jovem yanomami para vir ajudá-lo. Que acabou ficando por lá. Não queria mais vol- tar a viver conosco, pois não encontrava esposa entre nós.23 Quando partiu de Marakana rio abaixo, parou em nossa pequena casa de Th ooth oth opi e anunciou a meu padrasto: “Xoape!24 Vou descer de canoa até os brancos!”. Este lhe res- pondeu: “Está bem. Vá, e não se esqueça de nos trazer espingardas!”. Então o rapaz respondeu: “Xoape! Só vou voltar quando você estiver cego, quando sua cabeça tiver ficado branca e seus lábios tiverem ficado bem fini- nhos. Só voltarei para chorar a sua morte!”. Aí seguiu viagem. Nunca mais voltou a morar entre nós. No entanto, muito tempo depois, cheguei a revê-lo. De vez em quando ele subia o rio até o posto Ajuricaba, onde eu trabalhava, e também o encontrei mais tarde em Manaus. Sempre que me via, ele me acon- selhava a me mostrar dócil com os brancos. Às vezes, me dizia também: “Por 12959 - A queda do céu.indd 284 8/10/15 12:31 PM
  • 287. 285 que você não vem morar comigo rio abaixo, com os habitantes do rio? Eles vão lhe dar de comer. É verdade!”. Ouvindo-o, pensava que um dia, talvez, eu se- guisse o seu exemplo. Porém, como eu trabalhava para a gente da Funai, eles não deixaram eu me perder, como ele, entre os ribeirinhos do rio Demini. Foi assim mesmo. Ele começou a beber cachaça sem parar e acho que o peito dele acabou sendo pego pela doença. Nunca mais o vi desde aquela época. Ele mor- reu entre os brancos, sem jamais ter voltado à nossa floresta. No começo, eu pensava do mesmo modo que ele. Foi só bem mais tarde, quando entendi que os brancos podiam ser maus, que minha mente se afastou de tais pensamentos. Quando eu trabalhava em Ajuricaba, certo dia o chefe do posto, Esmeral- dino, me levou com ele para Manaus. Descemos o rio Demini, depois o rio Negro, de canoa a motor, durante dias e dias.25 Quanto mais nos aproximáva- mos, mais eu ficava ansioso para ver pela primeira vez a cidade da qual tanto tinha ouvido falar! Porém, no final, quando chegamos, fiquei um pouco decep- cionado. Acostamos num lugar afastado de todas as casas e lá permanecemos durante toda a nossa estadia. Dormíamos no barco, no porto. À noite, eu via vários tipos de luzes passando em todas as direções ao nosso redor: os barcos que se cruzavam no rio, os grandes aviões que nos sobrevoavam26 e os carros enfileirados ao longe na beira. Eu não me sentia nada tranquilo. Perguntava-me, inquieto, o que haveriam de ser todos aqueles fogos na escuridão. E de dia, ha- via tanta gente e barulho ao longo do rio! Uma multidão de brancos se agitava de um lado para o outro, gritando nomes de peixes — “Jaraqui! Curimatã! Tam- baqui! Surubim! Tucunaré!” — e de frutas de palmeira — “Açaí! Bacaba! Buriti!”. Tudo isso para trocá-los por pedaços de papel velho. Naquele tempo, eu não sabia o que era dinheiro e ainda ignorava que sem isso não se podia comer nem beber na cidade. Observava todos aqueles brancos com um certo receio. Eram tantos, e se atropelavam em todos os sentidos, como formigas xirina! Dizia a mim mesmo: “Nossos antigos não imaginavam que os brancos fossem tão nu- merosos e que tivessem tanta fartura de comida! E todas essas máquinas para correr por toda parte, na água, na terra e no ar! É de fato muito assustador!”. Eu não parava de olhar apreensivo para o céu a cada jato que passava sobre nós. É claro que eu conhecia desde criança os aviões pequenos dos mis- sionários, que de tempos em tempos aterrissavam em Toototobi. Mas não ima- 12959 - A queda do céu.indd 285 8/10/15 12:31 PM
  • 288. 286 ginava que existissem aviões tão enormes nem que fossem tantos!27 Sobretudo, eu nunca tinha visto um carro. Por isso, sempre ficava muito aflito quando tinha de andar a pé na cidade, para ir até a casa da Funai. Permanecia em aler- ta constante, vigiando sempre o movimento dos carros, de um lado e do outro. Tinha medo de me atropelarem e me esmagarem em seu caminho. Pareciam tão pesados! Observava-os de longe, e tentava fixar meu olhar nas rodas, que me intrigavam. Ficava me perguntando: “O que será isso? Serão como jabutis de ferro?28 Será que têm espécies de mãos e de pés? Como podem se movimen- tar tão depressa?”. No começo, eu não me dava conta de que as rodas dos carros giravam. Achava que corriam! Ainda não sabia nada das coisas da cida- de! Principalmente, eu nunca tinha visto tantos brancos. Estavam por toda parte! Imaginava que eles não deviam parar de copular, para terem se tornado tão numerosos, e que era por isso que alguns deles queriam vir morar na nos- sa floresta. Entretanto, nada disso me preocupava muito. Eu apenas pensava: “Os brancos são outra gente, por isso são tão estranhos. Mais tarde, quando os conhecer melhor, vou me sentir mais calmo na presença deles”. Na verdade, eu só queria uma coisa: virar um deles. Eu ainda era muito jovem, e bem igno- rante! Naquele tempo, ainda estava longe de me perguntar: “Se todos esses brancos continuarem aumentando ao nosso redor, o que vai acontecer conos- co mais tarde?”. Por fim, algo ruim aconteceu comigo no posto Ajuricaba. Meu peito foi pego pela tuberculose. A doença me foi transmitida por um jovem xamath ari, que por sua vez tinha sido contaminado em Manaus. Era sua primeira vez lá, como havia sido para mim. Mas ele já trabalhava para os brancos do rio havia um bom tempo. Tinham até lhe dado uma esposa. Então ele acabou ficando na cidade por muito tempo, porque gostava muito de viver na companhia dos brancos. Além disso, tinha se acostumado a beber cachaça, como eles. Passado algum tempo, começou a tossir cada vez mais. Já estava muito doente quando foi ver um médico, que lhe recomendou parar de beber e tomar remédios. Tentou até mandá-lo para o hospital logo. Mas o rapaz se recusava a ser tratado pelos brancos. Foi ficando tão doente que só pensava em morrer. Então resolveu fugir de volta para a sua aldeia. Tinha ficado muito magro e não parava de tossir cuspindo sangue. Apesar disso, quando chegou ao posto Ajuricaba, o pes- 12959 - A queda do céu.indd 286 8/10/15 12:31 PM
  • 289. 287 soal da Funai deixou que ele se instalasse no mesmo quarto que eu. Comíamos na mesma panela. Compartilhávamos os mesmos pratos e canecas. Às vezes, ele me dava seu resto de café. Naquela altura, eu achava que a tosse dele não pas- sava de um tipo de gripe. Ainda não sabia que a tuberculose é uma doença tão perigosa e letal. Tampouco ele sabia. Os brancos não nos disseram nada. Então, eu vivi assim ao lado dele por um bom tempo, e aí, de repente, ele morreu. A doença dele já tinha entrado no meu peito havia muito tempo. De modo que, certo dia, voltando de uma visita a Toototobi, Esmeraldino, o chefe do posto, me encontrou em Ajuricaba ardendo em febre, prostrado na rede. Eu estava me sentindo péssimo e não parava de tossir. Ele tinha afeto por mim e ficou preocupado ao me ver tão mal. Primeiro tentou me tratar lá mes- mo. Mas não deu em nada. Meu estado se agravou e, de qualquer modo, já não havia mais remédio no posto. Acabou achando que seria mais prudente me levar para a cidade. Ele estava realmente decidido a me ajudar. Então, descemos o rio Demini numa canoa com motor de popa, até a foz, para chegar à cidade de Barcelos. Ele me levou logo para o hospital. Mas eu não pude ficar lá, porque o médico nos disse que não tinha nenhum medicamento contra a tuberculose. Aconselhou-nos a ir para Manaus, onde seria mais fácil me tratar. Seguimos viagem, portanto, dessa vez descendo o rio Negro. Outros homens da Funai nos acompanhavam. Havia também Yo, um jovem japonês que viera de muito longe para nos visitar na floresta.29 Assim que chegamos a Manaus, Esmeraldino me levou para um hospital30 e me deixou lá com outro médico. Então, eu me vi sozinho naquela cidade, a me perguntar, apreensivo, o que seria de mim. Naquele tempo, eu nem sempre compreendia muito bem o que os brancos me diziam. Felizmente, logo encon- trei no hospital alguém que eu conhecia. Era Chico, o antigo missionário bra- sileiro que os americanos tinham expulsado de Toototobi! Ele agora trabalha- va para a Funai, e também tinha ficado doente. Apesar de tudo o que tinha acontecido, para mim era bom que ele estivesse lá, porque falava a minha lín- gua. Então, o médico disse a ele para me perguntar se havia sangue na minha saliva. Respondi que sim, e que sentia uma dor aguda ao respirar. Além disso, ele estava vendo que eu não parava de tossir. Compreendeu que a tuberculose me comia o peito. Mas não me explicou nada. Só avisou o pessoal da Funai. Foram eles que, mais tarde, me relataram o que o médico havia dito. Ele reco- mendou também que eu ficasse no hospital por um bom tempo. Ao receber a 12959 - A queda do céu.indd 287 8/10/15 12:31 PM
  • 290. 288 notícia, eu não me queixei nem tive medo. Aceitei tudo sem discutir, porque realmente queria ficar curado. Não queria por nada levar aquela doença para a floresta, para contaminar os meus. Acho que fiquei naquele hospital por um ano. Foi demorado, muito de- morado mesmo! Se eu quisesse, teria podido fugir, como muitos fazem.31 Mas nunca tive essa intenção, porque não queria morrer como o rapaz xamath ari de Ajuricaba que tinha passado sua doença para mim. Além disso, as pessoas do hospital me tratavam bem, e eu me acostumei com elas. Então, passei meu tempo deitado num quarto, sem fazer besteiras, tomando remédios todos os dias. Não fiquei irrequieto. Tinha resolvido esperar calmamente até que me dissessem que eu estava curado e que podia deixar o hospital. No começo, como em Ajuricaba, continuei observando os brancos à distância, sem dizer uma pa- lavra, só para conhecê-los. Só que dessa vez tive de ficar confinado com eles por um período muito longo, sozinho e sem nada mais para fazer! Os outros doen- tes, as enfermeiras e os médicos sempre faziam esforços para falar comigo. En- tão, caprichei para imitar suas palavras, uma por uma, devagar, como um pa- pagaio werehe. Havia também uma escola no hospital. Eu compareci algumas vezes, mas não aprendi grande coisa. O importante é que eu tinha feito um amigo entre os doentes. Foi ele que me ensinou muitas palavras e um pouco de escrita. Era muito melhor para mim ficar livre e aprender com ele. Foi assim que eu perdi o medo de falar com os brancos. Eu lhes pedia água, comida, coi- sas assim. Seu modo de falar foi ficando cada vez mais claro para mim. Aos poucos, também fui conseguindo me fazer entender melhor. No entanto, eu passava a maior parte do tempo sozinho e sempre pensava na floresta com saudade. Assim o tempo foi passando, devagar, muito devagar mesmo! Certo dia, porém, o médico deve ter dito ao pessoal da Funai: “Davi não está mais doente. Matamos a tuberculose dele!”. Pois de repente vieram anun- ciar que eu estava curado. Eu não esperava por isso! Fiquei tão feliz de estar de novo em boa saúde e de poder afinal sair do hospital! Então, Esmeraldino, o chefe do posto de Ajuricaba, veio me buscar e me levou para a casa dele. Cui- dou de mim, mais uma vez, com amizade. Sem a ajuda dele, com certeza eu teria morrido daquela doença. Porém, quando fiquei curado, não queria mais voltar a trabalhar no posto Ajuricaba. O pessoal da Funai de Manaus também achava que eu devia voltar para casa, em Toototobi. Disseram-me: “Davi, ago- ra você conhece as palavras dos brancos. Você deve voltar para junto dos seus. 12959 - A queda do céu.indd 288 8/10/15 12:31 PM
  • 291. 289 Seu lugar é lá. Você vai ajudá-los. E mais tarde, quando você for mesmo adul- to, se quiser, poderá vir trabalhar conosco”. Essas palavras me pareceram boas. Então, a Funai me levou de volta para Toototobi. Não foram os meus que me chamaram de volta, não. Eu resolvi por conta própria voltar a viver na minha floresta e, assim, a vontade de virar branco foi aos poucos desaparecendo de minha mente. Hoje, às vezes eu fico acordado no meio da noite e me sinto só no meio das pessoas adormecidas na nossa grande casa de Watoriki. Então, meus pensamen- tos vão escapando para longe, um seguindo o outro, sem que eu consiga detê- -los. Fico me agitando na rede, sem conseguir dormir. Penso em nossos ances- trais que, no primeiro tempo, se transformaram em caça. Não paro de me perguntar: “Onde os seres da noite vieram realmente à existência? Como era o céu no primeiro tempo? Quem o criou? Para onde foram os fantasmas de todos os que morreram antes de nós?”. Então, por fim, meu espírito se acalma e eu consigo descansar. Muitas vezes, também, pensamentos acerca dos brancos vêm me atormentar. Aí penso: “Quando minha mãe me levava no colo, esses foras- teiros ainda estavam muito longe de nós. Não sabíamos nada deles. Nossos maiores não desconfiavam que um dia eles matariam quase todos nós! Hoje compreendo que eles destroem nossa floresta e nos maltratam somente porque somos gente diferente deles. Por isso, se tentarmos imitá-los, as coisas vão ficar mesmo muito ruins para nós!”. Quando penso em tudo isso, o sono foge para longe de mim. O tempo de minha adolescência está muito distante agora. Contudo, ainda me lembro de que outrora me esforcei para parecer com os brancos, em vão. Escondi meus olhos atrás de óculos escuros e meus pés dentro de sapatos. Penteei o cabelo de lado e coloquei um relógio no braço. Aprendi a imitar o modo de falar deles. Mas isso não deu em nada de bom. Mesmo embrulhado dentro de uma bela camisa, dentro de mim eu continuava sendo um habitante da floresta! Por isso costumo repetir aos rapazes de nossa casa: “Talvez vocês estejam pensando em virar brancos um dia? Mas isso é pura mentira! Não fiquem achando que bas- ta se esconder nas roupas deles e exibir algumas de suas mercadorias para se tornar um deles! Acreditar nisso só vai confundir seus pensamentos. Vocês vão acabar preferindo a cachaça às palavras da floresta. Suas mentes vão se obscu- 12959 - A queda do céu.indd 289 8/10/15 12:31 PM
  • 292. 290 recer e, no final, vocês vão morrer por isso!”. É verdade. As palavras de Omama e as dos xapiri são muito antigas. Só elas podem nos fazer felizes. Imitar as de Teosi e dos brancos não nos vale de nada. Elas só podem nos atormentar. É por isso que penso que devemos seguir os rastros de nossos antepassados, assim como os brancos seguem os dos deles. Hoje, é verdade, eu continuo escondendo meu pênis numa bermuda. É um hábito que adquiri com a gente de Teosi, quando era pequeno. Também é verdade que conheço um pouco a língua dos brancos. Porém, imito-a de ma- neira desajeitada, apenas quando vou à cidade ou para conversar com eles na floresta. Então, como antigamente, me esforço para fazer como papagaio, na tentativa de me fazer compreender. Mas assim que fico só entre os meus, minha boca se fecha para essas palavras estranhas. Elas fogem para longe de meu pensamento, minha língua endurece e não pode mais pronunciá-las. A mente dos rapazes que querem virar brancos está cheia de fumaça! É por isso que, quando me tornei adulto, decidi guardar em mim os dizeres de nossos avós, mesmo se eles morreram há muito tempo. É com os cantos dos xapiri que meu pensamento pode se estender até as nascentes dos rios ou para florestas distan- tes e, mais além, até os pés do céu. É com elas que eu posso ver o que os nossos antigos conheceram antes de mim, que posso contemplar as imagens do pri- meiro tempo, tais como eles as fizeram descer, muito antes de eu nascer. Assim é. Nunca vou querer deixar de imitar nossos antepassados, pois esse é nosso verdadeiro modo de ficar sábio. 12959 - A queda do céu.indd 290 8/10/15 12:31 PM
  • 293. 13. O tempo da estrada 12959 - A queda do céu.indd 291 8/10/15 12:31 PM
  • 294. 292 Um grupo de aproximadamente cinquenta índios, nus, gesticulando e falando muito, mas com demonstrações de amizade, foi encontra- do pelos operários que constroem a rodovia Perimetral Norte, perto de Caracaraí. Os índios lhes ofereceram flechas e colares, e recebe- ram redes. O grupo de trabalhadores foi levado ao chefe da comu- nidade — instalada exatamente no traçado da estrada —, mas não conseguiu compreender coisa alguma do que ele lhes disse. Enten- deram, contudo, que os índios não querem violência, embora sejam grandes e fortes. O Estado de S. Paulo, 29 nov. 1973. Uma terra tão rica quanto esta não pode se dar ao luxo de deixar meia dúzia de tribos de índios entravar seu desenvolvimento. Coronel R. Pereira, governador do Território de Roraima Jornal de Brasília, 1 mar. 1975. Depois de curado da tuberculose, voltei para junto dos meus e retomei minha vida na floresta. Então o tempo foi passando até que um dia Chico, o antigo missionário que eu tinha encontrado no hospital de Manaus, apareceu de novo em Toototobi para um trabalho da Funai. Tinha subido o rio até nossa casa para recrutar gente para ajudá-lo. Queria fazer contato1 com Yanomami que nunca tinham visto brancos, no alto rio Catrimani, numa floresta distante e sem caminhos. Era um trabalho para a Funai, pois, naquela época, os brancos tinham decidido abrir uma estrada na nossa terra.2 Contudo, essas gentes que Chico buscava eram para nós inimigos e mal os conhecíamos. Antigamente, o pessoal do pai de minha esposa costumava guerrear contra eles. Mas só era para vingar a morte de pessoas mais velhas, que os feiticeiros oka deles tinham matado. Sempre os chamaram de Moxi hatëtëma.3 Esse grupo nunca os tinha atacado abertamente, com flechas; só às escondidas, com suas zarabatanas de feitiçaria. Nunca tinham feito amizade com os brancos e não possuíam nenhu- ma de suas mercadorias. Abriam suas roças com machadinhas de pedra.4 Vários de nós aceitaram acompanhar Chico nessa viagem:5 meu padrasto e eu, três outros homens de nossa casa e um Xamath ari que morava a jusante, na beira do rio Toototobi.6 Havia também um outro branco cujo nome esque- ci. Da missão, descemos de canoa com motor de popa até a foz do rio Mapulaú. 12959 - A queda do céu.indd 292 8/10/15 12:31 PM
  • 295. 293 Depois, subimos esse rio durante algum tempo e chegamos a uma casa habita- da pelos antigos de Watoriki, o pessoal daquele que, mais tarde, viria a ser meu sogro. Viviam naquele tempo à beira do Werihi sihipi u, um pequeno braço do Mapulaú. Paramos lá para pernoitar. Mas logo entendemos que eles acabavam de ser vítimas de uma epidemia. Mal tinham terminado a festa de cremação de seus mortos. Seus convidados eram os moradores de Sina th a e de Hero u, que tinham parentes casados entre eles.7 Os ossos dos falecidos já tinham sido quei- mados e pilados. Suas cinzas tinham sido guardadas em cabaças seladas com cera de abelha.8 Porém, como a fumaça dos mortos de epidemia é perigosa, várias outras pessoas tinham morrido pouco após a cremação, logo antes de nossa chegada. De modo que, quando entramos na casa, todos estavam ator- mentados pelo luto e ainda em prantos. Por isso só dormimos lá uma noite. Partimos no dia seguinte, de madru- gada. Chico antes nos deu ordem para esconder na floresta parte de nossas provisões e dos objetos de troca destinados aos Moxi hatëtëma.9 Levávamos carga demais. Em seguida, descemos novamente o rio Mapulaú, até dar com o curso principal do rio Demini e, por fim, a jusante, entramos num outro afluente dele, que chamamos Haranari u. Mas nossa canoa ainda estava pesa- da demais para aquele igarapé. De modo que subi-lo foi muito custoso. O leito ia ficando cada vez mais entulhado de troncos de árvore e cipós. Exaustos, acabamos desistindo da navegação. Montamos um acampamento na margem e descarregamos a canoa. De lá, prosseguimos a pé, para montante, atravessan- do uma floresta desconhecida. Era muito difícil avançar no mato fechado. Ape- sar de tudo, não desanimamos e continuamos alegres, porque meu padrasto, que abria caminho com seu facão, não parava de nos divertir com suas piadas. Era um homem valente e que gostava de fazer rir. Ao cabo de três dias de ca- minhada, chegamos enfim ao sopé de um grande pico rochoso que chamamos Weerei kiki. Pernoitamos lá e, nos dias que seguiram, procuramos rastros dos Moxi hatëtëma na floresta, durante muito tempo. Mas não encontramos nada. A região estava mesmo vazia de qualquer humano. No final, Chico desistiu e voltamos para a missão Toototobi. Tudo aquilo para nada. Eu soube mais tar- de que os Moxi hatëtëma moravam muito longe dali, no alto rio Apiaú! Foi nessa viagem que comecei a conhecer melhor o pessoal do pai de minha futura esposa, que eram os moradores da casa de Werihi sihipi u, onde tínhamos parado na ida. Quando criança, tinha ouvido falar deles, porque fi- 12959 - A queda do céu.indd 293 8/10/15 12:31 PM
  • 296. 294 zeram guerra por muito tempo contra nossos antigos, que os chamavam Mai koxi. No entanto, eu só os havia encontrado uma vez, pouco antes de ir traba- lhar no posto Ajuricaba. A gente de Teosi queria que eles viessem morar mais perto da missão. Para convencê-los a se aproximar, primeiro tinham sobrevoa­ do a casa deles e jogado flechas e objetos de troca na mata. Em seguida, nos mandaram de Toototobi numa expedição para entrar em contato com eles. Mas tínhamos pegado gripe sem saber e, após alguns dias de caminhada, está- vamos todos doentes! Então, ardendo em febre, resolvemos voltar. Afinal fo- ram os de Werihi sihipi u que, algum tempo depois, vieram nos visitar em Toototobi por iniciativa própria. Chegaram um dia, de repente, sem que os esperássemos. Escutamos suas palavras de amizade e depois abrimos um ca- minho entre nossa casa e a deles. Foi assim que começamos a nos visitar.10 Na volta dessa viagem em busca dos Moxi hatëtëma, eu não fiquei em Toototobi. Chico propôs que eu continuasse trabalhando para ele e eu resolvi segui-lo.11 Depois da minha tuberculose, meu padrasto não queria que eu vol- tasse para junto dos brancos. Mas eu não lhe dei ouvidos. Eu já tinha esquecido a cidade e meu desejo de virar branco. Porém, nesse meio-tempo, um outro tio meu tinha morrido também. Feiticeiros inimigos das terras altas tinham sopra- do nele plantas maléficas e quebrado seus ossos. Então, eu voltei a conhecer a ira do luto e da solidão. Por isso fui embora com o Chico. É verdade que ele tinha agido mal em relação a nós no passado, e nossos antigos continuavam ressentidos com ele. Mas eu ainda era uma criança quando ele trabalhou na missão em Toototobi. Fazia muito tempo que ele tinha ido embora. Meu pen- samento tinha se aquietado e eu tinha esquecido tudo aquilo. Eu sou assim. Minha raiva não dura muito quando não vejo mais as pessoas que a provoca- ram. Além disso, Chico tinha me ajudado quando eu estava no hospital. E tam- bém tinha prometido que eu iria morar com ele e que me daria comida. Parecia querer cuidar de mim. Então, comecei a ficar amigo dele e fui morar com ele em Manaus. Ele residia na casa do pai, um pouco afastada da cidade, na mata. Ficamos por lá algum tempo. Porém, para viver entre os brancos, eu precisava daquelas peles de papel velho que chamam de dinheiro. Então, Chico arrumou um tra- balho para mim. Pela manhã, eu tinha de encher baldes de água numa fonte e 12959 - A queda do céu.indd 294 8/10/15 12:31 PM
  • 297. 295 depois ir vendê-los nas vizinhanças. Era assim que eu conseguia ganhar dinhei- ro para pagar minha comida. À tarde, eu também lavava piscinas em casas grandes. Nesse caso, era para pagar ao Chico por algumas mercadorias que ele comprava para mim, como bermudas, camisas, cuecas, uma rede e sabão. De modo que foi ele quem realmente me ensinou a trabalhar para os brancos. Costumava repetir: “Na cidade, se você for preguiçoso, ninguém terá amizade por você! Os brancos só gostam de gente trabalhadora. Não fique achando que eles dão dinheiro aos folgados!”. Algum tempo depois, ele encontrou outra casa e fomos morar nela. Então, graças a ele, o pessoal da Funai resolveu me chamar de volta. Sabiam que eu era trabalhador; e agora que eu conhecia me- lhor a língua dos brancos, me pediram para servir de intérprete. Foi assim que eu voltei a trabalhar na floresta com o Chico.12 Dessa vez, saímos de Manaus num barco grande, de dois andares, em direção ao rio Branco. Era a plena estação seca. As águas estavam muito baixas. Subimos o rio devagar, e depois entramos num de seus afluentes, o rio Catri- mani, até a foz de um riozinho chamado Igarapé Castanho. Lá havia uma casa yanomami cujos habitantes trabalhavam para os brancos ribeirinhos.13 Fizemos ali uma parada. O barco grande nos deixou na beira e depois voltou a descer o rio. Nós então continuamos subindo o Catrimani numa pequena canoa com motor de popa. Foi longo e penoso, porque aquele rio é cortado por muitas cachoeiras. Durante toda a viagem, só cruzamos com um caçador branco que descia para jusante. Paramos, e Chico o chamou para conversar. Ao ver que sua canoa estava carregada de peles de ariranha e de jaguatirica, começou a falar com ele num tom furioso. Aí confiscou sua carga e mandou-o de volta para casa, avisando que era proibido aos brancos caçar na nossa floresta. De- pois disso, continuamos subindo o rio, até a residência dos padres da missão Catrimani. Acampamos lá e largamos a canoa, porque é impossível passar pe- las cachoeiras rio acima. Prosseguimos nossa viagem a pé pela floresta. Eu es- tava com Chico e com mais dois homens da Funai, um índio sateré-mawé e um tikuna. Um yanomami da aldeia da missão viera conosco. Caminhamos durante dias a fio em direção ao alto Catrimani. Passamos primeiro pelos mo- radores de Makuta asihipi, depois pelos de Mani hipi, de Hw aya u e de Uxi u. A partir de lá, prosseguimos nossa marcha ao longo da margem do rio Lobo d’Almada, até seu curso superior. Chegamos a uma última casa, habitada pela gente do pai de minha futura esposa, que tínhamos visitado com Chico em 12959 - A queda do céu.indd 295 8/10/15 12:31 PM
  • 298. 296 nossa viagem pelo Mapulaú. Depois de nossa passagem anterior, eles tinham abandonado Werihi sihipi u e se refugiado nesse antigo local, que chamavam Hapakara hi. Já tinham vivido lá antigamente, antes de tentarem se aproximar da missão Toototobi, respondendo ao chamado da gente de Teosi. Quase todos eles tinham sido devorados pela recente epidemia xawara, e os sobreviventes tinham ficado amedrontados. Por isso resolveram voltar e ir morar novamen- te nas terras altas do rio Catrimani, longe dos brancos. A fumaça de epidemia os atingiu quando estavam terminando a constru- ção de uma grande habitação a jusante do igarapé Werihi sihipi u. Foi o que me contaram. O pai de minha futura esposa morava lá com o irmão mais velho, que era o grande homem da casa. Era um ancião, grande xamã. Certa tarde, escutaram o zumbido de um helicóptero dando voltas acima da floresta. Era tempo da seca. As águas estavam baixas. O rio estava cheio de bancos de areia e de praias. Depois de algum tempo, o helicóptero acabou pousando numa dessas praias, longe da casa. Então o silêncio voltou momentaneamente. Aí saiu de novo e desapareceu no céu. Preocupados, os de Werihi sihipi u se pergun- tavam o que aqueles forasteiros tinham vindo fazer na terra deles. Mais tarde, já de noite, ouviram uma forte explosão. Pensaram que os brancos deviam ter deixado na areia uma coisa de fogo desconhecida e perigosa, que tinha provo- cado a detonação; algo como as bombas que tinham começado a usar para abrir a estrada deles na floresta.14 No dia seguinte, o grande homem de Werihi sihipi u decidiu ir até lá para verificar de que se tratava. Um grupo de rapazes, interessados sobretudo em trazer dessa visita mercadorias abandonadas, jun- tou-se a ele. Não demoraram a chegar à margem do rio, mas só encontraram, numa praia, papéis sujos, latas, botas de borracha e um chapéu de palha. Viram as pegadas dos pés do helicóptero e dos passos de seus ocupantes. Mas desco- briram também vários buracos cavados um ao lado do outro na areia. Pergun- tavam-se o que os brancos queriam fazer com aquilo. Não havia mais nada. No final, cansados de ficar procurando à toa, os de Werihi sihipi u retornaram à sua casa. Algum tempo depois, seu grande homem adoeceu e morreu de repente. Em seguida, todos os moradores da casa começaram a arder em febre. Tremiam sem parar e sentiam uma sede insaciável. Não entendiam o que estava aconte- 12959 - A queda do céu.indd 296 8/10/15 12:31 PM
  • 299. 297 cendo com eles. Não era uma doença da tosse qualquer.15 Logo várias outras pessoas também morreram. As vítimas tombavam uma depois da outra, cada vez em maior número, sobretudo as mulheres e as crianças. Alguns doentes tentaram fugir para a floresta, mas lá morreram do mesmo modo. Ao final, pouca gente sobreviveu a essa voraz fumaça de epidemia. A casa de Werihi sihipi u era grande, mas, em muito pouco tempo, a doença a deixou quase es- vaziada de todos os seus moradores.16 O que tinham vindo fazer os brancos que desceram daquele helicóptero? Será que o que eles queimaram tinha mesmo contaminado a gente de Werihi sihipi u? Não sei. Gostaria de ter examinado eu mesmo aqueles buracos na areia. Chico me disse que também tinha procu- rado na beira do rio, mas não tinha achado mais nada. Será que aqueles bran- cos tinham feito explodir uma fumaça de epidemia como a de Oswaldo em Marakana, quando eu era criança? No entanto, eles não estavam bravos com os habitantes daquela casa.17 Nem mesmo os tinham encontrado! Talvez qui- sessem matá-los para esvaziar a floresta e poder vir extrair minérios mais tarde? Nunca pude compreender o que realmente tinha acontecido. Depois de nossa parada na casa de Hapakara hi, no alto rio Lobo d’Almada, continuamos, com Chico e os outros, em direção à foz do rio Mapulaú. Quando chegamos, a floresta estava silenciosa. Só tinha restado, na região, a antiga casa abandonada da gente de Werihi sihipi u. Mesmo assim, Chico resolveu construir ali um novo posto da Funai. Queria atrair para lá a gente de todas as casas do rio Lobo d’Almada que acabávamos de visitar.18 Assim começamos a limpar e queimar um pedaço de floresta a montante, perto da foz de um igarapé chama- do Maima siki u. Chico queria plantar lá uma roça quando voltássemos para a região, no começo da época das chuvas. Porém, naquele momento, ele tinha muita pressa de ir embora. Por isso tivemos de realizar todo esse trabalho em alguns dias, antes de regressar para Manaus. 12959 - A queda do céu.indd 297 8/10/15 12:31 PM
  • 300. 298 Acabamos ficando na cidade apenas o tempo de uma lua nova, antes de voltarmos para o Mapulaú. Dessa vez, não fomos a pé. Para chegarmos até lá, subimos o rio Demini de canoa com motor de popa, desde o posto Ajuricaba.19 Foi muito mais fácil! Mas tivemos de parar a jusante da roça que tínhamos começado a abrir na vez anterior, por causa das cachoeiras. Então, Chico en- controu um outro lugar para instalar seu posto do Mapulaú. Escolheu um antigo local onde o pessoal da Inspetoria tinha se instalado muito tempo antes, quando a Comissão de Limites subiu o rio Demini pela primeira vez.20 Limpa- mos o mato e construímos sem demora duas casinhas de tábuas de madeira manaka si cobertas de folhas paa hana. Tínhamos pressa, porque a época das chuvas estava chegando.21 Em seguida voltamos às antigas roças abandonadas pelos de Werihi sihipi u. Ficamos tirando a vegetação emaranhada durante vários dias. Queríamos pegar brotos de bananeira para nossa nova roça. Nem bem tínhamos terminado esse serviço, o pai de minha futura esposa e seus dois cunhados, acompanhados pelas esposas e filhos, chegaram de repen- te a Werihi sihipi u. Vinham do alto rio Lobo d’Almada para colher taioba e bananas em suas antigas roças.22 Ficaram se perguntando quem teria limpado suas plantações abandonadas! Era o fim da tarde. Dormiram em sua antiga casa e só vieram ao nosso encontro no dia seguinte. Chico perguntou a eles se podíamos arrancar os brotos de bananeira de que precisávamos, e depois os convidou a virem se instalar perto do novo posto. Eles aceitaram. Naquele tem- po, com Chico, era preciso trabalhar sem descanso! Então, plantamos às pressas uma boa parcela de bananeiras e cana-de-açúcar. Depois preparamos tudo o que era necessário para nos instalarmos de fato naquele novo lugar. Informados de nossa presença, os de Werihi sihipi u que tinham permanecido na casa de Hapakara hi abriram um caminho do rio Lobo d’Almada até o Mapulaú. Aí começaram a vir nos visitar com regularidade. Depois, os do rio Toototobi fi- zeram o mesmo e, por sua vez, começaram a vir buscar mercadorias conosco. Passei bastante tempo com Chico naquele posto do Mapulaú, mas acabei me cansando. Não sou preguiçoso, não, mas ele me fez trabalhar demais. Não parava de me dar ordens! Mandava-me desmatar, cortar os esteios e rachar as ripas de madeira de palmeira para a construção das casas. Era eu também que tinha de coletar todas as folhas para cobri-las e penar sem trégua para plantar a roça nova. Apesar disso, Chico nunca parecia satisfeito. Ficava irritado co- migo por qualquer coisa. Tinha chamado uma jovem de Werihi sihipi u para 12959 - A queda do céu.indd 298 8/10/15 12:31 PM
  • 301. 299 ajudá-lo no posto, e como no tempo da missão, tinha feito dela sua mulher. Essa moça tinha sido casada com meu padrasto de Toototobi, que a tinha re- jeitado havia pouco. Então ela tinha voltado a Werihi sihipi u, para junto dos seus, solteira. Por isso Chico a chamou para perto dele. Ele tinha muito ciúme. Nenhum homem podia chegar perto dela. Mas a moça às vezes passava diante do lugar em que eu estava trabalhando e conversava comigo. Assim, um dia, Chico nos viu compartilhando comida, junto com outros Yanomami. Estáva- mos fazendo brincadeiras e rindo. Ele logo me puxou de lado e, muito irritado, me perguntou se eu copulava com ela. Eu neguei. Disse a ele que a tratava apenas com amizade, nada mais. Ele não acreditou em mim e começou a me detestar. Ficou realmente enraivecido de ciúme! Chegou a me ameaçar, aos berros: “Não chegue perto dela! Quero-a só para mim! Tome cuidado!”. Essas ameaças me enfureceram. Retruquei, no mesmo tom: “Você é mau e seu pen- samento é vazio! Você é branco. Vá buscar uma mulher em Manaus, em vez de pegar as nossas e ainda ficar com ciúme!”. Ele acabou me enxotando do posto: “Não quero mais você aqui! Vá, vá embora para a sua casa!”. Tudo isso me deixou furioso com ele. Entendi melhor por que os meus não queriam mais saber dele em Toototobi! Então resolvi voltar para a cidade, para contar tudo aquilo ao pessoal da Funai. Assim, fui embora para Manaus com um índio xikrin que trabalhava conosco. O delegado da Funai de lá,23 Porfírio, que achava que eu ainda estava no Mapulaú com Chico, ficou muito surpreso de me ver chegar de repente, sozi- nho, à sua sala. Perguntou-me: “O que você está fazendo aqui? O que aconte- ceu? Por que o Chico o deixou sair do posto?”. Contei tudo a ele: “Foi o Chico que me mandou embora, por ciúme. Tomou por mulher uma moça yanomami e não me deixa nem falar com ela. Mas ela é uma das nossas mulheres, e aque- la floresta não é dele!”. Porfírio escutou minhas palavras com atenção. Parecia contrariado. Então, respondeu: “Você tem razão, Chico agiu mal! Vocé é um Yanomami, ele não deve maltratá-lo assim!”. Era um homem sábio. Mais tarde, chamou Chico de volta e o mandou trabalhar num outro lugar, na região de Surucucus, onde a floresta tinha acabado de ser invadida por garimpeiros em busca de cassiterita.24 Depois de o Chico ter deixado o Mapulaú, foi um outro homem do posto, um índio tukano, que ficou durante um tempo com a mulher yanomami dele. Depois foi a vez de ele ir embora, deixando-a sozinha no meio do caminho, grávida, longe dos seus. No final, foi um Xamath ari que se casou 12959 - A queda do céu.indd 299 8/10/15 12:31 PM
  • 302. 300 com ela em Ajuricaba. Ela ainda mora lá. O novo posto que tínhamos aberto no Mapulaú ficou desativado. Nenhum branco jamais voltou lá. Mais tarde, os de Werihi sihipi u acabaram pondo fogo nele, com tudo o que tinha ficado dentro, inclusive o rádio. Estavam furiosos por terem sido abandonados, ape- sar das promessas de Chico. Além disso, uma nova fumaça de epidemia aca- bava de atingir seus parentes que tinham ficado no alto rio Lobo d’Almada.25 Assim terminou meu primeiro trabalho para a Funai. Em seguida, Porfírio, o delegado de Manaus, mandou-me para um outro posto, Iauaretê, que acabara de ser aberto no alto rio Negro, a montante de São Gabriel da Cachoeira, onde vivem os Tukano.26 Devia ser para me afastar da nossa floresta, já que eu não queria mais trabalhar lá com Chico. Quando chegamos a Iauaretê, o chefe do posto, que tinha vindo comigo de Manaus, resolveu que eu devia ir trabalhar com os Maku. São habitantes da floresta, que viviam muito longe dos brancos, perto de uma montanha chamada de Serra dos Porcos. Ele me acompanhou até lá e depois foi embora depressa, deixando-me sozinho. Fiquei naquele lugar por bastante tempo. Estava um tanto inquieto, porque os Maku são gente outra, que eu não conhecia.27 Eu não entendia nada da língua deles e eles nada sabiam da língua dos brancos. Ficava preocupado, e dizia a mim mesmo: “Como é que eu vou viver com eles? Eles não entendem uma palavra do que eu digo e falam uma língua como a dos fantasmas!”. Mas fiquei contente, porque eles se torna- ram meus amigos e, sem me entender, alimentaram-me com generosidade du- rante todo o tempo que passei com eles. Nessa época, eu também trabalhei a montante, no rio Negro, com outros habitantes da floresta, perto da fronteira da Venezuela. Acho que se chamavam Warekena. Não sei ao certo. Lembro-me apenas de que falavam mais uma língua outra. Era muito difícil para mim trabalhar no alto rio Negro. Aquela floresta pertence a outras gentes, diferentes da minha. Eles são muito numero- sos e cada um tem uma língua diferente.28 Eu nunca sabia como falar com eles. Por causa disso, sempre me sentia mal fazendo aquele trabalho. Então, decidi não permanecer naquela região. Pedi para ir embora e o pessoal da Funai me chamou de volta a Manaus. Dessa vez, resolveram fazer com que eu estudasse para me tornar agente de saúde.29 Comecei a aprender como fazer engolir re- médios, atar curativos e até dar injeções. Eu era muito aplicado. Queria mesmo 12959 - A queda do céu.indd 300 8/10/15 12:31 PM
  • 303. 301 saber como curar ao modo dos brancos. Porém, eu tinha dificuldade em en- tender o que eles me explicavam. Eu era muito jovem e ainda imitava muito mal a fala deles. Além disso, da escrita eu só sabia o pouco que tinha aprendido, ainda criança, na escola da missão Toototobi, em minha própria língua. Eu não conseguia ler as peles de papel dos remédios. A Funai tinha me mandado ir estudar com outros índios, que já viviam com os brancos havia muito tempo. Pensavam que eu fosse como eles. Mas aquelas palavras de forasteiros não eram tão claras para mim quanto para eles. Eu era recém-saído da floresta.30 De modo que, assim que terminei o curso, o novo delegado da Funai, que tinha substituído Porfírio, me mandou de volta para casa, em Toototobi, sem explicações. Tudo aconteceu muito depressa. Ele me disse apenas uma coisa: “Volte para trabalhar na sua aldeia, com os seus. Você vai lhes dar remédios para curá-los!”. Ele me colocou num avião e, de repente, eu estava de volta em Toototobi. Foi só. Pouco tempo depois, um dos missionários veio até mim e anunciou: “Você não trabalha mais para a Funai, eles o despediram!”. Aquele novo delegado da Funai não gostava mesmo de mim. Era ruim e não tinha nenhuma amizade pelos habitantes da floresta. Deve ter pensado: “Não sei o que fazer com esse Davi. Não quero mais vê-lo, que volte para a casa dele, na floresta!”. E no entanto eu tinha me esforçado muito em Manaus, para apren- der as palavras dos brancos, e poder tratar como eles. Eu tinha me comportado bem e nunca bebi cachaça. Não imagino o que possa ter feito para o delegado me enxotar daquele jeito, sem me dizer nem uma só palavra! Decerto era co- varde e não ousou falar comigo olhos nos olhos. Assim é. Quase me tornei agente de saúde! Eu tinha começado a estudar, gostava daquilo. Mas como a Funai tinha me rejeitado daquele modo, fiquei furioso e desisti da ideia. Pensei: “Tanto faz! Esse delegado da Funai não passa de um ignorante!”. E decidi vol- tar a viver em paz entre os meus, em Toototobi, como antes. 12959 - A queda do céu.indd 301 8/10/15 12:31 PM
  • 304. 302 Porém, mais uma vez, não durou muito. Algum tempo depois, outros brancos chegaram a Toototobi. Era o pessoal do serviço de combate à malária. Já os conhecíamos, porque às vezes vinham borrifar em nossas casas um re- médio para matar os mosquitos. Dessa vez, tinham vindo capturar piuns que chamamos ukuxi para pesquisar uma doença que causa cegueira.31 Tinham ouvido dizer que eu falava a língua dos brancos. Então, pouco depois de che- garem, mandaram me chamar. Pediram-me para ajudá-los: “Não sabemos como nos fazer compreender e não conseguimos trabalhar! Você, que conhe- ce nossas palavras, fique do nosso lado!”. Foi o que eu fiz e, pouco a pouco, eles viram que eu me virava bem como intérprete. De modo que, quando terminaram seu trabalho em Toototobi, pediram-me para acompanhá-los: “Venha conosco! Temos amizade por você. Você vai continuar trabalhando para nós e nós lhe pagaremos por isso!”. Eles ainda tinham de ir a vários lu- gares de nossa floresta, aos rios Mucajaí e Catrimani, e depois às altas terras, em Surucucus. Como a febre da malária ardia em mim, resolvi ir com eles, pelo menos para que me tratassem. Mas eu não estava só nessa viagem. Vinham também conosco alguns parentes idosos de Toototobi vitimados pela doença dos piuns que os brancos estavam procurando. Devíamos todos ser mandados para o hospital. Um aviãozinho veio nos buscar para nos levar até a cidade. Foi assim que conheci Boa Vista pela primeira vez!32 Fazia tempo que eu ouvia falar de lá, mas nunca tinha ido. Quando cheguei, achei que era um lugar bonito. Na- quela época, era uma cidade pequena. Não havia ladrões e os brancos ainda não se matavam entre si. Era possível manter o espírito tranquilo. Ninguém lá conhecia os Yanomami ainda. Era bom. Podíamos ir aonde quiséssemos sem medo. Os brancos eram amigáveis. Mas mudou muito desde então. Chegaram muitos garimpeiros e as ruas se encheram de palavras hostis contra nós. Hoje em dia, tenho até medo de andar por lá sozinho. No tempo do pessoal da ma- lária, passei a maior parte do meu tempo em Boa Vista no hospital, como em Manaus! Eu me tratava e cuidava dos mais velhos, que não falavam a língua dos brancos. Depois, quando passamos a nos sentir melhor, começamos a fazer visitas aos missionários de Toototobi, que também têm casas em Boa Vista. Mas não era para imitar Teosi junto com eles que íamos até lá, não! O que que- ríamos mesmo, trabalhando para eles, era ganhar alguns papéis de dinheiro. Gostávamos muito das grandes redes de algodão e das outras mercadorias que 12959 - A queda do céu.indd 302 8/10/15 12:31 PM
  • 305. 303 tínhamos visto nas lojas da cidade! Para consegui-las, precisávamos capinar os quintais das casas dos brancos, como na missão. Todo o tempo que passamos com eles era dedicado a isso! Um pouco mais tarde, depois de eu ficar curado, o pessoal da malária voltou a pedir que eu os acompanhasse. Eu tinha gostado de ajudá-los. Tinham me tratado bem, e o serviço que me davam não era difícil. Eu tinha vontade de seguir com eles em outras viagens. Porém, um dia, deixando o hospital para ir trabalhar para os missionários, encontrei na rua um Yanomami que saía da casa da Funai ali perto. Era um Xamath ari do rio Cauaboris, do grupo dos Wa- wanawë th ëri. Tinha deixado seus parentes ainda muito jovem. O pessoal da Funai o tinha trazido junto com eles. Chamava-se Ivanildo. Eu já o tinha en- contrado em Manaus, no tempo em que trabalhava com Chico. Agora, ele era intérprete na estrada que os brancos tinham começado a abrir em nossa flores- ta e que chamavam de Perimetral Norte.33 Depois de ter cruzado comigo, Iva- nildo tinha falado de mim a um chefe de posto que eu também conhecera em Manaus, Amâncio. Amâncio estava trabalhando em Boa Vista na época. Ele pediu a Ivanildo para me levar ao escritório da Funai da cidade para encontrá- -lo. Eu fiquei curioso, então fui lhe fazer uma visita para conversar um pouco. Assim que cheguei, Amâncio anunciou que iríamos juntos encontrar o delegado. Então, ambos começaram a me dizer: “Você não deve mais acompa- nhar o pessoal da malária! Somos nós, a Funai, que cuidamos realmente dos índios, você tem de trabalhar conosco!”. Insistiram muito para que eu voltasse a trabalhar na Funai. Isso me surpreendeu e, no começo, eu não queria nem escutar! Não fazia muito tempo que o delegado de Manaus tinha me mandado embora sem explicações. Agora, de repente, o de Boa Vista resolvia me afastar do pessoal da malária, que me tratava tão bem! Dentro de mim, isso me deixou irado. Disse a mim mesmo: “O pensamento desses brancos é mesmo enfuma- çado!”. Respondi logo, um tanto irritado: “Não! Não quero mais trabalhar pa- ra a Funai. Já fiz isso, no posto Ajuricaba e no rio Mapulaú, depois estudei em Manaus para ser agente de saúde. No fim, me jogaram de volta na floresta sem me dizer nem uma palavra! Seus grandes homens não têm nenhuma sabedoria e não gostam de mim. Não me incomodo de trabalhar com os brancos, mas não quero me deixar destratar desse jeito! Prefiro ajudar o pessoal da malária!”. Apesar dessas palavras de recusa, o delegado de Boa Vista continuou in- sistindo, falando duro comigo. Advertiu-me de que o pessoal da malária só 12959 - A queda do céu.indd 303 8/10/15 12:31 PM
  • 306. 304 podia me dar trabalho se a Funai permitisse, porque eu era índio.34 Amâncio acrescentou: “O delegado que o mandou embora de Manaus era ruim. Aqui, é uma outra Funai, é um outro delegado que manda.35 Ele é um homem de bem e quer mesmo que você trabalhe para nós. Você não pode recusar assim!”. Então repetiram tudo isso várias vezes e Amâncio parecia estar mesmo deter- minado a me ter trabalhando com ele.36 De modo que acabei falando de tudo isso com o pessoal da malária, e eles me responderam: “A Funai não quer que você trabalhe conosco porque você é um deles. Muito bem. Já que eles o que- rem tanto, volte para eles!”. Foi assim que acabei voltando mais uma vez para a Funai. Foi afinal Amâncio que me convenceu, prometendo que eu iria traba- lhar junto aos meus. Disse-me: “Vamos morar no posto Ajarani,37 é na sua floresta. Vamos ajudar os Yanomami que vivem naquela região. Vamos defen- dê-los juntos, eles precisam, porque a estrada acaba de chegar até eles!”. Sem essas palavras, eu jamais teria aceitado. Naquele tempo, eu não sabia quase nada. Captava um pouco as palavras dos brancos, mas não compreendia seu pensamento. Meu espírito ainda estava hesitante. Eu tinha escutado Amâncio, e pensei que ali talvez estivesse um branco que pensa com retidão. Quando dava ordens, na Funai de Boa Vista, declarava a todo mundo que defendia os Yanomami. Eu acreditei. Nada sabia dele, exceto o que fazia diante de meus olhos ou o que me declarava quanto ao que pretendia fazer. Assim, ele repetia que não deixaria nossa floresta ser invadida pelos bran- cos. E, de fato, muitas vezes ele realmente agia em nossa defesa. Naquela época, ele tinha muito dinheiro da Funai. Quando os garimpeiros invadiram a região de Surucucus pela primeira vez, foi ele que os expulsou.38 Ele também manda- va aviões para trazer médicos. Ajudava-nos desse modo. E além disso viajava muito comigo, para conhecer nossa floresta. Assim, subimos juntos o alto rio Demini, bem a montante, perto da fronteira da Venezuela, no rio Taraú. Che- gamos juntos até as casas de Xamath ari que nunca tinham visto brancos.39 Ele apreciava meu trabalho e tinha verdadeira amizade por mim. Estou certo disso. Ele me ajudou, e muitas vezes me apoiou dentro da Funai. Sem isso, eu já não estaria trabalhando lá há muito tempo. Porém, quando eu soube mais tarde que ele tinha ajudado os militares de Brasília a dividir nossa floresta em peque- nos pedaços, como cercados para o gado,40 não gostei. Apesar da amizade, acho que ele me enganou, escondendo de mim essas palavras. Isso me contrariou muito mesmo. 12959 - A queda do céu.indd 304 8/10/15 12:31 PM
  • 307. 305 * * * Assim que concordei em ir com ele, Amâncio me mandou buscar minha carteira de identidade esquecida em Toototobi.41 Quando retornei, ele logo fez novos papéis da Funai para mim. Depois fomos trabalhar no posto de que ele havia me falado, à beira da Perimetral Norte.42 Na época, não passava de um casebre perto do rio Ajarani, onde vivem os Yanomami que chamamos Yawari.43 Foram eles os primeiros a ver os brancos arrancarem o chão da floresta com suas máquinas gigantes, para abrir a estrada.44 Quando elas entraram na nossa terra, eu ainda estava longe. Acompanhava Chico em sua busca sem rumo pelos Moxi hatëtëma, e depois estive na região de Iauaretê, perdido entre os Maku! Só vi o traçado da estrada quando ele já tinha entrado floresta adentro, quase até o rio Demini. Mas Chico já havia me falado um pouco a respeito dela, quando estávamos no Mapulaú. Explicou-me: “Os brancos estão abrindo um grande caminho na floresta. Estão vindo em nossa direção, a partir de sua aldeia de Caracaraí. Depois vão atravessar o Demini e seguir para bem longe, até os Tuka- no!”. Ele também conversava sobre isso às vezes por rádio, com outros homens da Funai. Eu não compreendia tudo o que diziam, mas o que entendia bastava para me deixar preocupado. Quando eu era criança, os brancos subiram os rios e começaram a fazer morrer nossos antigos em grande número. Depois voltaram, de avião e de he- licóptero. Então suas fumaças de epidemia, mais uma vez, fizeram morrer mui- tos de nós. Agora, eles tinham resolvido abrir uma de suas estradas até o meio de nossa floresta, e suas doenças iriam com certeza devorar os que tinham so- brevivido. Eu ficava pensando em tudo isso, quando estava sozinho no posto da Funai. Isso me atormentava e me entristecia. Dizia a mim mesmo: “Os brancos rasgam a terra da floresta. Derrubam as árvores e explodem as colinas. Afugen- tam a caça. Será que agora vamos todos morrer das fumaças de epidemia de suas máquinas e bombas?”. Eu já sabia que essa estrada só iria nos trazer coisas ruins. Ninguém nos tinha avisado antes de as obras começarem. Chico só tinha dito umas poucas palavras a respeito para a gente de Werihi sihipi u, quando abrimos o posto de Mapulaú. Eu tinha tentado alertá-los contra as doenças que iriam, mais uma vez, se espalhar pela nossa floresta. Porém, pouco depois eu iria em- bora para Manaus, devido à minha briga com Chico. No caminho, vi apenas o desmatamento do traçado da estrada, que tinha começado. Havia por toda par- 12959 - A queda do céu.indd 305 8/10/15 12:31 PM
  • 308. 306 te pequenos grupos de brancos com roupas rasgadas trabalhando com macha- dos.45 As máquinas grandes ainda não tinham chegado. As palavras a respeito da estrada que eu conseguia compreender naquele tempo me assustavam também por uma outra razão além das doenças. Eu tinha ouvido gente da Funai contar que, para abrir o trecho que liga Manaus a Boa Vista, os soldados tinham atirado nos Waimiri-Atroari e jogado bombas em sua floresta.46 Eles eram guerreiros valorosos. Não queriam que a estrada atravessas- se suas terras. Atacaram os postos da Funai para que os brancos não entrassem onde eles viviam. Foi isso que deixou os militares enfurecidos. Ouvindo essa história, comecei a temer que os soldados resolvessem nos tratar do mesmo jeito! Porém, por sorte, isso nunca aconteceu.47 Muitos foram, porém, as mulhe- res, crianças e velhos que morreram entre nós por causa da estrada.48 Não foram mortos pelos soldados, é verdade. Mas foram as fumaças de epidemia trazidas pelos operários que os devoraram. E, mais uma vez, ver morrer os meus daque- le modo me revoltou. As coisas só faziam se repetir, desde a minha infância. Então, a dor da morte dos meus, outrora, em Toototobi, voltou. A raiva do luto invadiu novamente o meu pensamento: “Esse caminho dos brancos é muito ruim! Os seres da epidemia xawarari vêm seguindo por ele, atrás das máquinas e dos caminhões. Será que sua fome de carne humana vai nos matar a todos, um depois do outro? Terão aberto a estrada para silenciar a floresta de nossa pre- sença? Para aqui construir suas casas, sobre os rastros das nossas? Serão eles realmente seres maléficos, já que continuam nos maltratando assim?”. Nossos antigos não tinham essas preocupações, porque não sabiam de nada quanto à estrada. Os homens do governo não os reuniram para ouvir a voz deles. Não perguntaram a eles: “Podemos abrir esse caminho nas suas terras? O que acham? Vocês não vão ficar com medo?”. Os poucos brancos que tinham falado do seu traçado não explicaram quase nada. Nem o pessoal da Funai nem o de Teosi os tinham preparado para o que estava por vir. A mim, que falo a língua dos brancos, tinham mandado trabalhar bem longe, em Iaua- retê. De modo que, certo dia, as máquinas chegaram à floresta sem que nenhu- ma palavra as tivesse precedido. Então, nossos grandes homens, mantidos na ignorância, não se mostraram hostis com os brancos da estrada. Nem os do rio Ajarani, nem os do Catrimani, do Mapulaú ou do Aracá disseram nada.49 Pen- 12959 - A queda do céu.indd 306 8/10/15 12:31 PM
  • 309. 307 saram que, acontecesse o que acontecesse, a floresta nunca iria desaparecer e continuariam vivendo nela como sempre tinham feito. Pensaram também que poderiam conseguir muito alimento e mercadorias dos brancos. Sabiam que o pessoal da estrada jogava essas coisas de seus aviões e distribuía tudo genero- samente.50 Ignoravam completamente as verdadeiras intenções dos brancos. E eu, no Mapulaú, era jovem demais para convencê-los da ameaça que pairava sobre eles. Então, desci o rio para Manaus sozinho, guardando no peito minha preocupação e minha tristeza. Mais tarde, os primeiros operários que eu tinha visto derrubando as árvo- res no traçado da estrada a machadadas foram embora. Outros, muito mais numerosos, chegaram em seguida. Começaram a rasgar a terra da floresta com enormes tratores amarelos. Dessa vez, a gente de Werihi sihipi u entendeu que a estrada ameaçava chegar muito perto deles. Eles tinham sido convidados a uma festa reahu na casa dos habitantes de Hewë nahipi, no rio Jundiá. Os brancos estavam trabalhando a menos de um dia de caminhada a jusante, às margens do rio Catrimani.51 Foi quando meu futuro sogro e os seus ouviram pela primeira vez o zumbido contínuo de suas máquinas. Se espantaram, mas seus anfitriões explicaram: “São os brancos, rio abaixo, que estão abrindo um caminho e arran- cando o chão da floresta!”. Ficaram perplexos, mas pouco falaram do assunto. Voltaram para casa com aquelas palavras guardadas no pensamento. Pouco tempo depois, eles próprios também começaram a ouvir de sua casa a voz dos grandes tratores que remexiam a terra. Jamais tinham escutado um ruído assim na floresta. No começo, parecia estar longe. Mas foi se aproxi- mando e tornou-se mais distinto dia após dia. Sua inquietação aumentou e eles se perguntaram o que poderia estar vindo assim em sua direção. Nunca tinham visto as enormes máquinas dos brancos que abrem estradas. Seu zumbido sur- do, que não parava, soava para eles como o de seres maléficos devastando tudo em sua passagem. Agora podiam ouvi-lo noite e dia, sem descanso, e se per- guntavam, aflitos:52 “Será que os brancos vão destruir a nossa casa também, rasgando a terra até nós? Ou vão explodi-la e queimar nela todos nós?”. Seus temores não davam trégua e as explosões das bombas quebrando a rocha dos morros apavorava-os mais do que tudo. No verão anterior, a fumaça de epide- mia do helicóptero tinha devorado a maioria deles. Vários temiam que isso 12959 - A queda do céu.indd 307 8/10/15 12:31 PM
  • 310. 308 voltasse a ocorrer: “Será que os brancos da estrada vão nos fazer adoecer e morrer de novo? Se isso acontecer, desta vez não vai sobrar ninguém para juntar nossas ossadas e chorar por nós!”. Tinham restado tão poucos sobrevi- ventes da gente de Werihi sihipi u que se perguntavam se agora a fumaça das máquinas acabaria com eles de vez. Todos tinham muito medo, tanto os mais velhos quanto os mais jovens. Mesmo assim, alguns adolescentes estavam curiosos para ver mais de perto o que acontecia. Às vezes exclamavam: “Vamos até o caminho dos brancos! Pediremos espingardas e cartuchos a eles!”. Apesar de seus receios, estavam tomados pelo desejo de mercadorias. Então, um gru- po pequeno se reunia e se punha a caminho, guiado pelo rugido longínquo dos tratores. Mas sempre davam meia-volta antes de chegar à estrada. O medo era mais forte e os fazia mudar de opinião. No último momento, sempre diziam a si mesmos: “Se formos até lá, vamos morrer!”, e nunca ousaram se arriscar até o lugar onde as máquinas dos brancos rasgavam a terra da floresta. Então, a época das chuvas chegou e as obras da estrada pararam de repen- te. Todos os brancos e seus tratores e caminhões foram embora. Mais tranqui- los, o pai de minha futura esposa e os seus ficaram perto do posto Mapulaú. O resto do grupo voltou para sua antiga casa de Hapakara hi, no alto rio Lobo d’Almada. A floresta tinha voltado a ficar silenciosa. Mas foi então que a epi- demia xawara retornou, de repente. Todos os habitantes das casas do Lobo d’Almada estavam reunidos para uma festa reahu numa delas, chamada Hw aya u. Havia lá também gente de Hero u, vinda do alto rio Mucajaí, onde, na época, ainda não havia nenhum branco. Quase não possuíam objetos manufaturados naquela época. Assim, durante a festa, dedidiram descer o rio, até os padres da missão Catrimani, para obter terçados, miçangas e panelas. Ao cabo de alguns dias de trabalho, voltaram para Hw aya u com as coisas que desejavam. Contu- do, sem que soubessem, como tinha ocorrido antes em Toototobi, os missio- nários do Catrimani tinham trazido da cidade uma criança doente de saram- po.53 De modo que os homens de Hero u carregaram essa epidemia xawara com suas mercadorias até a casa onde acontecia a festa reahu. Dessa vez, ninguém viu explodir fumaça. No entanto, os mais velhos que sobreviveram se lembra- ram de que um padre da missão os tinha visitado no Lobo d’Almada pouco antes, e que alguns deles tinham roubado mercadorias suas. Pensaram que ele podia ter feito queimar aquela epidemia por vingança. Por isso, chamaram essa doença de “fumaça de epidemia do padre”, patere xawara a wakixi. 12959 - A queda do céu.indd 308 8/10/15 12:31 PM
  • 311. 309 Eu mesmo não sei o que realmente aconteceu. Foi o que ouvi dizer. Seja como for, perto do final da festa, todos os que estavam reunidos em Hw aya u começaram a arder em febre. Então, tomados de pânico, os convidados fugi- ram, tentando escapar da voracidade dos seres da epidemia, que chamamos xawarari. Não adiantou! Foram atrás deles, até a sua casa, e os devoraram a todos. E assim, em pouco tempo, todas as aldeias do rio Lobo d’Almada ficaram esvaziadas da maioria de seus habitantes.54 Os convidados de Hero u moravam a vários dias de caminhada. Por isso, só eles não levaram a doença até os seus. Muitos morreram no caminho, na floresta. Outros mal conseguiram sobrevi- ver. Um deles ficou estendido no chão, inconsciente, durante vários dias. As formigas comeram-lhe os olhos e ele ficou cego, mas não morreu. O sarampo era muito perigoso para os mais velhos, cuja carne jamais havia conhecido tal doença. Era o mesmo mal que tinha devorado todos os meus parentes em Toototobi quando eu era criança. Hoje, os poucos idosos das casas do rio Lobo d’Almada e da do pai de minha esposa, Watoriki, onde vivo agora, são sobre- viventes dessas epidemias do tempo da estrada. Desde então, os brancos aban- donaram seu caminho de cascalho ao silêncio. Está quase todo coberto de ma- to denso. Mas a floresta já foi suja por doenças que não vão mais sair dela. Os brancos da estrada não queimaram fumaça de epidemia como a de Oswaldo em Marakana e a do helicóptero em Werihi sihipi u. Dessa vez, os seres da epidemia xawarari só escoltaram suas máquinas e caminhões até nós. Costumam acompanhar os brancos por onde forem, porque estes são seus so- gros.55 Mantêm os olhos fixos neles e se deslocam seguindo seus rastros. É assim que conseguem nos encontrar na floresta. São seres maléficos ávidos de gordu- ra humana. Apenas os xamãs podem vê-los. Os xapiri tentam expulsá-los assim que se aproximam de nós. Porém, quando não conseguem afugentá-los, os xa- warari instalam suas redes nas nossas casas e vão nos devorando à vontade, sem pressa. Não matam todo mundo de uma só vez, não. Comem primeiro um grupo de gente, e voltam em seguida para devorar uma parte dos sobreviventes. Caso alguns homens e mulheres consigam escapar deles, mais tarde irão atacar seus filhos. É assim que esses seres maléficos vão aos poucos esvaziando a flo- resta de seus habitantes. As fumaças das máquinas e dos motores são perigosas para os habitantes 12959 - A queda do céu.indd 309 8/10/15 12:31 PM
  • 312. 310 da floresta. Trata-se também de fumaça de metal, fumaça de epidemia. Jamais tínhamos cheirado tal coisa antes da chegada dos brancos. Nós somos outros. Nossa carne não tem marcas de vacina e não temos remédio contra as epide- mias xawara. Nossos antigos sempre foram protegidos das doenças pelo frescor da floresta. Somos de outro sangue. Nunca vivemos, como os brancos, em terras ardentes e sem árvores, percorridas por máquinas em todo lugar. No primeiro tempo, nossos maiores viviam sozinhos na floresta, longe das merca- dorias e dos motores. Essas fumaças de epidemia têm um cheiro ruim que cortou o sopro de vida deles. Desde que as respiraram, morreram todos, uns após os outros. E, ainda hoje, as gentes das terras altas continuam morrendo disso.56 Eu gostaria de ter dito aos brancos, já na época da estrada: “Não voltem à nossa floresta! Suas epidemias xawara já devoraram aqui o suficiente de nos- sos pais e avós! Não queremos sentir tamanha tristeza de novo! Abram os ca- minhos para seus caminhões longe da nossa terra!”. Mas não ousei me dirigir a eles. Eu ainda era jovem demais e tinha pouco conhecimento. Não sabia o que é defender a floresta. Não sabia como fazer ouvir minha voz nas cidades. Foi apenas mais tarde, depois de a estrada ter rasgado a floresta, que comecei a pensar com mais firmeza. Comecei a sonhar cada vez mais com a floresta que Omama criou para nós e, pouco a pouco, suas palavras aumentaram e se for- taleceram dentro de mim. 12959 - A queda do céu.indd 310 8/10/15 12:31 PM
  • 313. 14. Sonhar a floresta A floresta retalhada. 12959 - A queda do céu.indd 311 8/10/15 12:31 PM
  • 314. 312 O índio Davi Xiriana Yanomami, que fala e compreende o portu- guês, chamou nossa atenção […]. Nós conversamos com ele por um bom tempo e ele demonstrou plena consciência do mundo para além da região à sua volta, assim como da necessidade de estudar. A. M. da Paixão, 1977 Antropóloga da Funai Um dia fui de caminhonete com Amâncio do posto Ajarani, onde traba- lhávamos, até o fim da nova estrada. Chegamos assim, pela primeira vez, ao sopé dos grandes morros de pedra que chamamos de Watoriki, a Montanha do Vento, e os brancos chamam de serra do Demini. Lá encontramos os aloja- mentos de um antigo canteiro de obras. Tudo estava abandonado desde o úl- timo tempo das chuvas. Amâncio gostou muito do lugar, porque a floresta lá é muito bonita, e logo declarou, animado: “Vamos abrir um novo posto aqui e sair do Ajarani!”. Contudo, não havia naquela época nenhuma casa yanomami na região. A floresta ao redor era silenciosa. Só havia sinais de uma antiga roça abandonada, destruída pelo avanço das obras da estrada. Apesar do vazio da- quela floresta, Amâncio resolveu instalar lá um novo posto da Funai. Deu-lhe o nome de posto Demini1 e prometeu atrair para perto dele Yanomami de outras florestas. Então limpamos tudo, para ocupar as casas abandonadas. De- pois, como era época de seca, começamos a abrir uma roça grande, para ali- mentar nossos futuros convidados. Um pouco mais tarde, plantamos nela bro- tos de bananeira e cana-de-açúcar, que trouxemos do posto Ajarani. Muitos outros agentes da Funai vieram nos ajudar e todos trabalharam sem descanso sob as ordens de Amâncio.2 Passado um certo tempo, gentes dos rios Catrimani, Ajarani e Toototobi começaram a fazer visitas regulares ao novo posto. Mas essas visitas não bas- tavam para Amâncio. Ele queria mesmo é que um desses grupos mudasse para a região do Demini. Assim, acabou me pedindo para chamar primeiro o pessoal de uma aldeia muito longe dali, perto da missão dos Padres, no rio Catrimani, os Opiki th ëri.3 Apesar da distância, aceitaram o convite e vieram construir uma nova casa perto do posto. Prometeram se instalar lá definitivamente, apesar de, no final, não terem feito nada disso! Na verdade, eles nunca pararam de ir e vir entre o Demini e sua antiga casa do Catrimani. A nova floresta na qual tinham vindo se instalar os deixava inquietos, pois era de fato muito distante da sua. 12959 - A queda do céu.indd 312 8/10/15 12:31 PM
  • 315. 313 Temiam as gentes dos rios Toototobi e Mapulaú, que lhes eram hostis e mora- vam a poucos dias de caminhada. A desconfiança não era infundada: algum tempo depois de terem se estabelecido no Demini, guerreiros de Toototobi conduziram uma incursão até o posto, para vingar a morte de um dos seus. O homem tinha adoecido na volta de uma festa reahu na casa de Hewë nahipi, no rio Jundiá, para a qual os Opiki th ëri também tinham sido convidados. Os do Toototobi logo os acusaram de tê-lo matado com uma substância de feitiçaria paxo uku espalhada numa das cabaças de mingau de banana que ele bebeu.4 Por pouco esses guerreiros de tocaia na floresta não flecharam os Opiki th ëri bem no meio do posto Demini! Só desistiram por causa da presença dos bran- cos ao lado dos Yanomami que pretendiam atingir. Mas além disso outra coisa não ia bem com eles. O grande homem dos Opiki th ëri era muito velho e tinha várias mulheres.5 Era muito ciumento e costumava ficar bravo por causa da mais nova. Quando isso acontecia, ele às vezes saía do posto com os seus por algum tempo. Assim, certo dia, ao ama- nhecer, vários de seus filhos vieram a mim com palavras feias. Estavam todos exaltados, me acusando de namorar com a jovem esposa do pai deles, que tinha se mudado, na véspera, para um dos alojamentos da Funai: “Você trabalha com os brancos, mas seu pensamento está cheio de esquecimento! Você está comen- do a vulva dessa mulher, por isso a está escondendo! Você é ruim!”. Foi o que me disseram. Mas era tudo mentira. A verdade é que ela queria largar do ma- rido velho e só tinha se refugiado no quarto dos seus dois irmãos que trabalha- vam no posto Demini. Os filhos de seu esposo, no entanto, pensavam que eu a tinha atraído lá para mim! Depois disso, eu também fiquei irritado e respon- di: “Tudo isso não passa de mentira! Os irmãos dessa mulher estão cuidando dela. Não pensem que ela veio para o posto por minha causa!”. Mas eles esta- vam tão tomados pela raiva que foram embora pouco tempo depois, com o pai e toda a sua gente, de volta para sua antiga floresta do rio Catrimani. Nunca mais voltaram. Após a partida dos Opiki th ëri, foi a vez de o grupo dos sobreviventes de Werihi sihipi u se aproximar do posto Demini. Era o pessoal de meu futuro sogro. Eles me conheciam bem, do tempo em que eu estava com Chico no posto do rio Mapulaú. Os outros, aqueles que tinham queimado o posto da 12959 - A queda do céu.indd 313 8/10/15 12:31 PM
  • 316. 314 Funai, ficaram na sua antiga casa de Hapakara hi, lá onde a epidemia xawara os tinha atingido um pouco antes, na região do alto Lobo d’Almada. Havíamos visto passar duas estações de chuvas desde que os brancos tinham parado de traballhar na estrada. Homens de Toototobi voltando do posto Demini tinham informado os de Werihi sihipi u de que eu tinha começado a trabalhar com a gente da Funai. Eles nunca tinham chegado perto do antigo canteiro de obras da estrada quando os brancos estavam trabalhando. Mas, como a floresta tinha recuperado seu silêncio, decidiram vir me visitar. O irmão mais novo de minha futura esposa foi seu primeiro emissário. Viu que os Opiki th ëri tinham deixado o lugar e que só moravam no posto o pessoal da Funai e alguns Yanomami que trabalhavam lá como eu. Eu disse a ele que o chefe do posto, Amâncio, gostaria que seu pessoal viesse se instalar na região. Então, ele retornou com essas pala- vras para casa. Pouco tempo depois, foi seu pai que veio até o Demini. Estava acompa- nhado por dois rapazes. Foi sua primeira visita.6 Naquele tempo, ele era robus- to e ainda viajava muito. Tinha aberto um caminho novo na floresta, desde sua casa de Werihi sihipi u até a estrada. Em seguida, viera por ela até a serra Wa- toriki. Desde que Chico tinha abandonado o posto Mapulaú, não havia mais brancos naquela floresta, e os de Werihi sihipi u não tinham mais mercadorias e se sentiam desprovidos. Por isso, meu futuro sogro tinha vindo buscar sal, anzóis e ferramentas no novo posto da Funai. Ele também estava muito preo- cupado, porque os visitantes de outras casas andavam levando para a casa de- le muitas doenças de branco.7 Declarou para mim: “Não queremos mais viver sozinhos na floresta, precisados de tudo. Também não paramos de ser atacados pela epidemia xawara. Agora queremos mudar para perto dos medicamentos dos brancos”. Respondi a ele: “Essas são palavras sábias! Venham se instalar perto daqui, poderemos tratar e ajudar a sua gente!”. Foi assim que aconteceu. É verdade que Amâncio tinha pedido que eu o convidasse para se aproximar do posto Demini. Mas ele só concordou porque já tinha decidido vir para mais perto! Agora era o grande homem de sua casa. Seu irmão mais velho e quase todos os seus tinham sido devorados pela epide- mia do helicóptero e depois pela do padre da missão Catrimani. Achava que toda aquela mortandade tinha de parar. Não queria que sua floresta envelhe- cesse só, vazia e silenciosa, coberta de ossadas perdidas de seus parentes. Por isso tinha decidido abandonar sua roça do rio Mapulaú e se acercar da Funai, 12959 - A queda do céu.indd 314 8/10/15 12:31 PM
  • 317. 315 perto da serra Watoriki. Mas não se estabeleceu logo perto do posto. Primeiro se instalou com os seus a um dia de caminhada, na margem do rio Haranari u, onde o traçado da estrada termina. Abriram lá uma nova roça e começaram a construir uma casa pequena. Contudo, antes mesmo de comerem as bananas que tinham plantado,8 abandonaram essa casa e construíram uma nova, um pouco mais perto de Watoriki. Depois de algum tempo, avançaram mais em direção ao posto e, dessa vez, construíram uma casa muito maior, e depois outra e outra ainda, cada vez mais perto. Por fim, tornaram-se, desde então, os Watoriki th ëri, a gente da Montanha do Vento.9 Mas, antes de deixar o rio Mapulaú, o grande homem da gente de Werihi sihipi u já tinha me prometido uma de suas filhas em casamento. Quando fazia algum tempo que eu estava trabalhando no posto Demini, decidi tirar uma folga para ir visitar meus parentes em Toototobi. Sentia saudade de minha irmã, que ainda morava lá, e, apesar de estar órfão, ainda tinha lá umas tias maternas que eu chamava de mãe e de quem também tinha saudades.10 E assim me pus a caminho para essa longa viagem. Andei vários dias e dormi várias noites na floresta. Então fiz uma parada na casa do rio Mapulaú, onde ainda vivia meu futuro sogro. Mas ele não estava. Tinha viajado fazia algum tempo para as terras altas, convidado para uma festa reahu oferecida pelos seus que ainda moravam na antiga casa de Hapakara hi, no alto rio Lobo d’Almada. Apenas sua mulher e seus cunhados tinham ficado em Werihi sihipi u. Dormi lá e segui viagem no dia seguinte. No final, depois de mais uma noite na floresta, cheguei a Toototobi. Lá também estavam acontecendo preparativos para uma festa ­reahu, dessa vez nu- ma das casas do pessoal de Sina th a. Emissários acabavam de ser despachados para convidar os habitantes de Hewë nahipi, no rio Jundiá, e os de Hapakara hi, que tinham acabado de terminar seu próprio reahu, entre os quais se encontra- va meu futuro sogro. Foi assim que, finalmente, eu o vi chegar a Toototobi, de- pois de ter me desencontrado dele por pouco em Werihi sihipi u! Ele fez sua dança de apresentação com os demais convidados e se instalou na casa de seus anfitriões, na qual eu mesmo estava morando havia pouco. Agora éramos muitos ali, e todos estavam eufóricos. Bananas-da-terra e pupunhas tinham sido reunidas em abundância. Os caçadores da casa tinham posto para moquear grandes quantidades de macacos-aranha e queixadas. Na 12959 - A queda do céu.indd 315 8/10/15 12:31 PM
  • 318. 316 noite seguinte, as mulheres começaram a entoar seus cantos heri com muita alegria. Então, um dos grandes homens da casa começou a incentivar os rapa- zes: “Não sejam covardes! Imitem os modos de nossos antigos! Peguem as moças pelo punho e cantem com elas! Façam hakimuu”.11 Desafiados por essas palavras, vários convidados aceitaram. Eu era um deles. Peguei a filha adoles- cente do grande homem de Werihi sihipi u pelo braço e dançamos assim du- rante toda aquela primeira noite. Depois recomeçamos nas duas noites seguin- tes! Era uma moça bonita, que ainda tinha os seios pontudos.12 Enquanto se faz hakimuu, quando as fogueiras da casa se apagam no meio da noite, muitas vezes os rapazes aproveitam a escuridão para se esgueirar para fora da casa e copular com a parceira. Mas não foi o meu caso, pois a ideia de me tornar pai cedo demais me assustava. Só fiz essas coisas com minha futura esposa bem mais tarde, depois de o pai dela tê-la mandado amarrar sua rede ao lado da minha, quando nos aproximamos de verdade. Ao cabo de alguns dias, os alimentos do reahu de Toototobi acabaram. A festa estava por terminar e se aproximava a hora de partir. Os de Sina th a então entabularam um diálogo yãimuu com seus convidados, antes de trocarem com eles flechas, algodão, miçangas, panelas e facões. Depois entregaram a cada um deles uma provisão de beiju e carne moqueada, para a volta. Os de Hewë nahi- pi e de Hapakara hi se prepararam para retornar ao rio Catrimani. Minha folga também tinha terminado e eu decidi ir junto com eles até o posto Demi- ni, onde fariam uma parada antes de voltarem para suas casas. Todos os con- vidados já tinham desamarrado suas redes e empacotado os objetos de troca que tinham acabado de conseguir. Começamos a sair da casa de nossos anfi- triões, um após o outro. Porém, no instante em que a contornávamos para pegar um caminho em direção à floresta, meu futuro sogro me chamou: “Davi, você está indo embora?”. Respondi: “Awei! Estou voltando para Demini, tra- balhar para a Funai!”. Ele prosseguiu: “Estou pensando em lhe dar minha filha em casamento. Por que você não a quereria como esposa?”. Surpreso, não consegui pronunciar uma só palavra. Os meus, em Toototobi, jamais haviam me dado uma esposa. Ele foi o primeiro a me fazer essa proposta. E insistiu: “Pegue-a! Leve-a consigo. Irei ter com vocês mais tarde!”. Então fiquei parado, muito envergonhado, sem saber o que dizer. No fim, consegui responder ape- nas: “Não sei bem. Aceito ser marido dela, mas só se eu lhe agradar e ela me quiser. Mas talvez já haja um outro homem no pensamento dela? Com certeza 12959 - A queda do céu.indd 316 8/10/15 12:31 PM
  • 319. 317 há rapazes de sua casa que a desejam como esposa, não é? Se eu a pegar como esposa no lugar deles, não vão gostar. Recolherão a terra da minha pegada com raiva e a darão a inimigos distantes, para que estes a esfreguem com plantas de feitiçaria!”.13 Ele me tranquilizou sorrindo: “Ma! Ninguém vai fazer isso! Ela não tem nenhum marido em vista. Está realmente solteira!”. Eu não sabia mais o que dizer. Sem responder, segui em frente, me juntando aos outros convida- dos. Fizemos uma última parada na floresta, não longe da casa que tínhamos acabado de deixar, antes de começarmos nossa longa viagem pela mata. Eu nunca tinha pensado em declarar a meu futuro sogro: “Eu desejo sua filha!14 Quero-a como esposa!”. Eu não a conhecia nem um pouco. Nunca tinha sequer chegado perto dela antes dessas noites de festa. No entanto, já sentia sua falta. Eu tinha me apegado a ela quando dançamos juntos. E também tinha amizade pelo pai dela. Além disso, ele tinha acabado de ser muito generoso comigo. Tinha me dado a filha por iniciativa própria, sem que eu pedisse nada. Então, eu disse a mim mesmo: “Hou! Se eu não responder à oferta dele agora, ele vai ficar bravo comigo e não vou poder revê-lo tão cedo. E se, mais tarde, eu resolver ir até ele pedir a filha, é ele que não vai responder!”. Eu também temia que, diante de minha recusa, começassem a falar mal de mim: “Demos uma esposa ao Davi, mas ele ficou com medo de aceitar! É covarde mesmo! Dá dó de ver!”. Por outro lado, também me preocupava a ideia de que Amâncio, quando eu voltasse ao posto Demini, pudesse me mandar trabalhar longe, nas terras altas ou alhures. Eu não queria tomar esposa e abandoná-la em seguida, como costumam fazer os jovens que pedem uma mulher cedo demais. Não queria tratá-la mal, deixando-a só o tempo todo. Meu pensamento estava mes- mo confuso! Porém, de repente, resolvi dar meia-volta. Voltei então sozinho à casa dos Sina th a e declarei a meu futuro sogro: “Se você quer mesmo me dar sua filha, eu a aceito!”. Não me respondeu nada, mas assim que a noite começou a cair, mandou-a amarrar sua rede junto da minha. Então, um dos homens mais velhos da casa dos de Sina th a me encorajou: “Não tenha medo de tomar essa moça por esposa!”. Respondi-lhe: “Awei! Não sei o que é estar casado, mas vou tentar!”. Ele retorquiu: “Ma! O pai dela a deu mesmo a você, não tema! Você não é um fraco, não deve agir como um medroso! Precisa desposá-la de ver- dade, não apenas tentar!”. Repliquei: “Não tenho medo! Mas estou preocu- pado, pois se ficar aqui tempo demais, a Funai vai me despedir! Os brancos 12959 - A queda do céu.indd 317 8/10/15 12:31 PM
  • 320. 318 me deram um tempo de folga, como fazem para eles mesmos. Esse tempo acabou, é isso que me deixa ansioso!”. Ele continuou me tranquilizando: “Não fique impaciente! Não tenha medo dos brancos! Você voltará para eles depois! Eles esperarão por você, azar deles!”. Ao escutar tais palavras, refleti com cal- ma e meu pensamento ficou sereno. É verdade. Eu era jovem e nunca tinha pensado em me casar. Isso me deixava um pouco apreensivo. De fato, desde que eu me tornara adolescente, tinha um pouco de medo das mulheres. Minha mãe e meu padrasto costumavam me prevenir contra elas: “Ma! Não fique olhando para as moças, é sujo! Se você copular cedo demais, será um mau caçador e jamais poderá se tornar xamã! Espere até ser adulto, e então poderá se casar de verdade!”. Por causa disso, eu ainda não tinha me aproximado das moças. Até tentava fugir delas, aliás! Mas então tinha realmente chegado a hora de eu ter uma esposa!15 Enquanto ainda estávamos na casa do pessoal de Sina th a, emissários dos Xamath ari do rio Jutaí vieram convidá-los, por sua vez, para uma festa reahu. Meu recém-sogro e os seus então desistiram de voltar para casa e resolveram acompanhar seus anfitriões até essa nova festa. Recém-casado, eu não podia não me juntar a eles, e assim, pusemo-nos a caminho, todos juntos. Os homens mais velhos de Sina th a pretendiam enfrentar os Xamath ari numa luta de socos no peito, para aplacar sua raiva contra eles. Mas não me lembro quais eram as queixas nessa querela. Palavras más a seu respeito lhes tinham sido relatadas? Ou talvez alguém tivesse tentado raptar uma de suas filhas? Já não sei. Porém, no decorrer de nossa viagem, os de Sina th a desistiram de lutar. Talvez tenham mudado de ideia devido à minha presença? Seja como for, uma vez instalados nos abrigos na mata, nas proximidades da casa de seus anfitriões, só trocaram palavras de amizade com os emissários que vieram lhes trazer cestos de carne moqueada e beiju. No decorrer do diálogo de convite hiimuu que travaram com eles, no entanto, mostraram-se irritados e ansiosos por enfrentá-los. Os homens de Sina th a não reagiram, e inclusive declararam no final, para apaziguá-los: “Ma! Não queremos brigar! Viemos para comer suas comidas! Queremos fazer nossa dança de apresentação e demonstrar a vocês nossa amizade! Não viemos para socar seu peito!”. Assim, no final, a festa reahu transcorreu sem nenhum enfrentamento! 12959 - A queda do céu.indd 318 8/10/15 12:31 PM
  • 321. 319 Terminada essa festa entre os Xamath ari, retornamos a Toototobi. Preo- cupado com minha longa ausência, agora eu queria realmente voltar para o posto Demini. Então, meu sogro declarou: “Leve minha filha com você. Irei me juntar a vocês mais tarde!”. Assim, tomei o caminho de volta com minha mu- lher, acompanhado por um dos irmãos dela e alguns moradores de Toototobi curiosos para conhecer o lugar onde eu trabalhava. Naquela época, o pessoal da Funai me mandava de um lado para o outro de nossa floresta, eu não para- va de viajar! Meu sogro tinha me oferecido a filha para eu parar de me deslocar tanto. Tinha me dito: “Agora que eu lhe dei uma esposa, você tem de morar conosco!”. Sua intenção era mesmo me manter perto dele. Pouco depois, ele deixou sua casa do rio Mapulaú e começou a se aproximar do posto Demini, no rio Haranari u. O fato de ter ganhado uma esposa, porém, não fez minhas idas e vindas acabarem. Quando cheguei a Demini, Amâncio não ficou bravo comigo pelo atraso, pois sabia que eu estava com os meus, na floresta. Mas precisava que eu fosse outra vez trabalhar algum tempo no posto Ajarani, no começo da estrada. Então fui e, dessa vez, minha jovem esposa me acompa- nhou. Naquela época, ela não conhecia nada dos costumes dos brancos. Era como antigamente as filhas de nossos maiores eram. Muito jovenzinha, uma moko, e muito acanhada. Sempre fugia assim que um forasteiro tentava falar com ela! Para que ela pudesse ficar no posto da Funai, ensinei-a a se cobrir com um vestido e a comer com garfo. Assim, ficamos juntos no Ajarani por algum tempo. Depois, acabei tendo de levá-la de volta para junto dos seus, pois o pes- soal da Funai me mandou de novo para outra região, mais longe. Naquele tempo, eu ainda atuava como intérprete. Era empregado do pos- to Demini e sempre voltava para lá. Mas a Funai de Boa Vista sempre me chamava e pedia que eu fosse ajudar brancos que queriam trabalhar na nossa floresta e tinham medo de ficar lá sozinhos. Eram pessoas que nada sabiam dos Yanomami, tinham até medo de ser flechados!16 Assim, eu me deslocava mui- tas vezes para acompanhá-los. Trabalhava duro, mas não me queixava. Como intérprete, eu pensava em ajudar mais aos meus do que aos brancos. Dizia para mim mesmo: “Os habitantes da floresta que eu visito em minhas viagens são Yanomami como eu. Devo ficar ao lado deles, ajudando, porque não falam nenhuma outra língua a não ser a nossa. Eles não sabem o que fazer quando brancos chegam às suas casas. Além disso, os médicos não podem tratá-los sem entender o que dizem. De modo que devo continuar esse trabalho!”. Todas 12959 - A queda do céu.indd 319 8/10/15 12:31 PM
  • 322. 320 essas viagens por nossa floresta e pelas cidades acabaram fazendo com que eu entendesse melhor o que estava ocorrendo com a nossa terra. Graças a essa experiência, pouco a pouco, fui me tornando adulto e ganhando sabedoria. Foi por causa dessas viagens que comecei a pensar: “Você deve proteger sua gente! Precisa defender a floresta!”. Antes disso, eu não passava de uma criança e estava muito longe de pensar direito! Enquanto eu ia e vinha, minha esposa ficava sozinha com o pai. Ele a tinha dado para mim pensando em me fixar, mas eu ainda me ausentava com bas- tante frequência. Apesar disso, ele não me fazia nenhuma crítica. Pelo contrá- rio, pensava: “Os brancos o escolheram para trabalhar com eles. É por isso que ele viaja muito. Assim seja!”. Eu lhe havia explicado meu trabalho: “Eu fiz papéis com o pessoal da Funai. E agora, se não me apresentar quando me cha- marem, não me darão mais dinheiro. Aí, quando vocês me pedirem mercado- rias, nem eu nem vocês teremos nada!”. Em vez de abrir roças e caçar para ele em compensação por meu casamento, eu lhe dava objetos de troca que com- prava na cidade.17 Naquela época, comprei muitas redes, panelas e ferramentas para ele e para meus cunhados! Também o presenteei com uma espingarda novinha. Mas nem ele nem os filhos eram exigentes. Contentavam-se com pouco. Trazia presentes para eles de cada viagem e eles nunca reclamavam de mim. Se eu tivesse voltado de mãos vazias, porém, suas palavras poderiam ter mudado! Meu sogro teria ficado irritado e com certeza teria dito: “Pare de viajar se não é capaz de voltar com mercadorias! Onde estão as lâminas de machado, os facões, facas, anzóis e linha de pesca dos brancos? Você acha mesmo que é bom ficar perambulando pelas cidades deles para nada? Dá dó você deixar seu sogro em estado de fantasma, sem tabaco!”. Contudo, passado algum tempo, minhas viagens começaram a rarear. Os brancos estavam começando a nos conhecer melhor. Tinham menos medo de nós. Tinham se dado conta de que na verdade eram os Yanomami que os te- miam! Devem ter começado a pensar: “Achávamos que esses índios eram fe- rozes, mas são eles que têm medo de nós! Não precisamos mais do Davi, po- demos viajar sozinhos!”. E foi isso mesmo que começaram a fazer. Então pude viver mais tranquilo com a gente do pai de minha esposa, os habitantes da Montanha do Vento, em Watoriki. Meu sogro tinha deixado o rio Haranari u havia já algum tempo, e queria se aproximar um pouco mais do posto, para eu 12959 - A queda do céu.indd 320 8/10/15 12:31 PM
  • 323. 321 poder ir morar com ele de fato. Como os brancos me deixavam um pouco mais folgado, dessa vez trabalhei bastante na construção de sua nova casa.18 Passaram-se várias secas e várias chuvas sem que eu tivesse de viajar muito pela Funai. Amâncio tinha deixado Demini havia tempos e outros brancos de Boa Vista tinham vindo, um atrás do outro, para substituí-lo como chefe do posto.19 Eram todos gente de pensamento curto, que detestavam os habitantes da floresta. Passavam seu tempo com raiva e só faziam repetir que éramos ruins e preguiçosos. Na verdade, só pensavam em fugir para a cidade com qualquer desculpa. O primeiro deles era um garimpeiro que tinha sido expulso das terras altas no tempo da estrada.20 Era trabalhador, mas não gostava de viver na flores- ta. Só estava interessado no dinheiro da Funai.21 E sentia falta da mulher. Pensa- va muito nela, ficava triste e sempre estava ansioso para ir ao encontro dela. Não permaneceu muito tempo no posto Demini. Depois dele, veio um outro homem que tinha dirigido a caminhonete de Amâncio anteriormente. Esse motorista também não queria morar na floresta. Ficava voltando para Boa Vista logo que 12959 - A queda do céu.indd 321 8/10/15 12:31 PM
  • 324. 322 podia, e lá passava a maior parte do tempo. Durante os raros períodos que pas- sava conosco, trabalhava muito pouco e não parava de me dar ordens. Além disso, se mostrava avarento para com a gente de Watoriki. Não lhes dava sequer a mandioca das roças do posto, que eles mesmos tinham plantado! Isso os dei- xava com muita raiva! De modo que ele também não durou muito no Demini! O seguinte era um outro motorista de Amâncio. Esse nos detestava mes- mo! Era também o mais preguiçoso de todos. Quase nunca saía da rede. Não fazia nada por si mesmo. Ocupava o tempo lançando gritos e injúrias contra nós. Ainda por cima, outros brancos me contaram mais tarde que ele tinha tuberculose! A gente de Watoriki logo se enojou dele. A mim, ele fazia trabalhar sem descanso e nunca estava satisfeito com nada que eu tivesse feito. Por mais que eu lhe obedecesse, ralhava comigo o tempo todo. Não gostava de mim e não parava de me maltratar sempre que podia. Queria que eu fosse seu cozi- nheiro, por exemplo, mas se recusava muitas vezes a comer o que eu prepara- va. Certa vez, fiz um caldo de jabuti e ofereci a ele. Ele ficou furioso, dizendo que era sujo e que um branco como ele jamais engoliria aquilo. Essas palavras me revoltaram, e gritei para ele: “A caça da floresta não é suja! Cozinhe você mesmo, ou encontre uma mulher que aceite preparar comida para você! Você só sabe ficar sentado ou dormindo! Não consegue nem se alimentar por conta própria! Se você trabalhasse, eu continuaria cozinhando. Mas você não passa de um preguiçoso. Nunca mais farei nada para você! Pare de enganar o pessoal da Funai fingindo que você trabalha aqui! Você mente só para ficar com o dinheiro deles! Acha que pode dar uma de chefe, mas você não é um grande homem. Não passa de um ignorante!”. Tais palavras o encheram de raiva. Co- meçou a me insultar e a me ameaçar: “Se você continuar, vou matá-lo!”. Furio- so eu também, retruquei: “Não tenho medo de você! Sou um Yanomami! Se você ficar alardeando que quer me matar, vou flechá-lo!”. Daquela vez, chega- mos bem perto de nos matar! Mas ele, surpreso diante da minha reação, acal- mou-se, e eu acabei não precisando flechá-lo. Mais tarde, queixei-me dele ao delegado da Funai em Boa Vista. Era um homem que tinha amizade por nós.22 Escutou-me e convocou aquele chefe de posto ruim para falar com ele, também com severidade: “Você não faz nada! Só fica dormindo de barriga cheia e ber- rando o tempo todo contra os Yanomami! Não quero mais você no posto Demini!”. Ele nunca mais voltou. Veio outro homem em seu lugar, um gordo, que também era mau e mui- 12959 - A queda do céu.indd 322 8/10/15 12:31 PM
  • 325. 323 to violento. Esse também não gostava de nós, e até parecia ter medo de nós! Desde que chegou, andava sempre com um revólver na cintura. Devia pensar que o pessoal de Watoriki iria atacá-lo e que poderia se defender com ele! E além disso gostava de mostrar para nossas filhas e mulheres aquelas imagens em que os brancos copulam mostrando seus pênis e vulvas. Isso me deixou com muita raiva. Disse a ele: “Pare de mostrar essas porcarias!”. Então, ele também começou a me detestar. Proibiu-me inclusive de tocar nas provisões do posto. Isso me irritava porque não era certo, e protestei: “Não esconda sua comida assim! Devemos comer juntos. Faço parte do pessoal da Funai tanto quanto você!”. Ele nem quis saber. Isso me chateou de novo, e além disso eu não gostava que ele carregasse uma arma entre nós. Então, eu disse a ele: “Se quiser viver conosco, esconda esse revólver! Aqui não é casa de soldados, você não precisa dele! Os Yanomami não gostam disso. Você não vai atrás de feiticeiros inimigos na floresta com essa arma, então guarde-a! Além disso, você não passa de um sovina! Se continuar assim, não vamos mais querer você aqui!”. Ele então retrucou, rindo de mim: “Entendi! É você, Davi, o che- fe de posto! Está me mandando embora da Funai, é isso?”. Respondi: “Não, não sou nem chefe nem um homem mais velho. Mas apesar de ainda ser jo- vem, não vou aceitar o que você está fazendo aqui! Ninguém é agressivo com você. Ninguém o ameaçou! Você fica mostrando esse revólver a todos porque é contra nós! Seu medo é que é mentira! Você é que é violento e quer nos matar, não o contrário!”.23 Algum tempo depois dessa briga, o tal chefe de posto voltou de repente para Boa Vista. O delegado da Funai tinha se mudado e Amâncio tinha toma- do o lugar dele.24 Ordenou ao homem gordo que parasse de se comportar mal conosco. Ele tentou se defender, alegando que era falta de comida o que tinha provocado nossa briga. Acrescentou que só voltaria para a floresta com novas provisões. Amâncio as prometeu e mandou-o voltar sem demora para Demini. Apesar disso, o homem recusou. Aí Amâncio ficou contrariado mesmo, e o ameaçou: “Se você recusar, não vai mais ser chefe de posto!”. E como ele con- tinuava tendo amizade por mim, acrescentou: “Está certo: a partir de agora é o Davi quem vai substituí-lo!”. Então aquele branco me detestou ainda mais. Como o que tinha sido mandado embora antes dele, ficou furioso com o fato de o delegado ter me dado razão! Ambos acabaram ficando na cidade, com a raiva deles guardada no peito. Nunca mais retornaram a Watoriki e eu conti- 12959 - A queda do céu.indd 323 8/10/15 12:31 PM
  • 326. 324 nuo trabalhando lá até hoje! Certa vez, um presidente da Funai até tentou me mandar embora, mas mudou de ideia em seguida.25 Fiquei firme no meu lugar e nunca mais houve chefes de posto brancos maus em Demini. Quando comecei a trabalhar na estrada, ouvi pela primeira vez o pessoal da Funai falar em fechar nossa floresta. Chamavam isso de demarcação. Di- ziam-me às vezes: “Vamos cercar a terra dos Yanomami e defendê-la. Se garim- peiros, colonos ou fazendeiros invadirem a floresta, vamos mandá-los de volta para o lugar de onde vieram!26 Se caçadores vierem roubar peles de ariranha, jaguatirica ou onça, ou flechar tartarugas, vamos expulsá-los! Aqui é uma terra indígena. Depois da demarcação, eles nunca mais vão poder entrar!”. Gostei muito dessas palavras. Disse a mim mesmo: “Isso é bom! Também eu quero que nossa floresta seja fechada, como dizem eles. Haverá uma barreira onde come- ça a terra dos brancos.27 Vai impedir a entrada de quem não queremos e deixa- rá passar quem nós convidarmos. O caminho da floresta vai ser nosso!”. Mais tarde entendi, porém, que aquelas palavras eram tortas e que o pessoal da Funai não dizia tudo o que pensava. Diziam que iam fechar nossa floresta, é verdade. Mas o que queriam mesmo, e isso nos esconderam, era dividi-la em pedacinhos para nos prender neles.28 Apesar dessas mentiras, guardei em mim os dizeres da Funai sobre a de- marcação de nossa terra e, pouco a pouco, eles foram fazendo seu caminho em meu pensamento. Viajando pela estrada, pude observar o rastro de destruição que os brancos deixavam atrás de si. Observava a floresta ferida e, no fundo de mim, pensava: “Por que as máquinas deles arrancaram todas essas árvores e essa terra, com tanto esforço? Para nos deixar esse caminho de cascalho aban- donado debaixo do sol? Para que gastar seu dinheiro desse jeito, quando em suas cidades há tantas crianças dormindo no chão, como cachorros?”. Ao lon- go de toda a estrada espalhavam-se enormes manchas de floresta incendiada pelos colonos e fazendeiros. O sol queimava e a terra tinha sido desnudada. Eu me dizia também: “Esses brancos são realmente inimigos da floresta! Não sa- bem comer o que vem dela. Só conseguem arrasá-la, como as saúvas koyo. E tudo isso para não cultivar nada! Só para semear capim, que abandonam assim que mirra e o gado começa a emagrecer!”. Tempos depois, viajei de ônibus de Boa Vista até Manaus, por outra estrada, a que atravessa a terra dos Waimiri- 12959 - A queda do céu.indd 324 8/10/15 12:31 PM
  • 327. 325 -Atroari. Pensei mais uma vez naqueles habitantes da floresta, que foram mui- to corajosos, negando-se a ceder o território de seus antepassados. Mesmo assim, no final a estrada acabou atravessando a terra deles e os brancos, de raiva, fizeram-nos morrer quase todos.29 A floresta deles foi picotada por todos os lados. Esses pensamentos me deixavam triste. Dizia a mim mesmo: “Os brancos não possuem sabedoria nenhuma. Dizem que o Brasil é muito grande. Então, por que ficam vindo de todas as partes para ocupar nossa floresta e devastá-la? Cada um deles não tem sua própria terra, onde sua mãe o fez nas- cer?”. Pensava também, com tristeza, em nossos antigos, que desde a infância eu tinha visto serem devorados um a um pelas epidemias, e em todos os nossos que não tinham parado de morrer desde a abertura da estrada. Naquela época, outros brancos também tinham começado a falar em de- fender nossa floresta. Não eram gente do governo. Chamavam-se ccpy.30 Vin- dos de longe, eles trabalhavam sozinhos, no canto deles. No começo, ainda não tínhamos amizade e não falavam comigo. Só nos olhávamos de longe, descon- fiados. Eu trabalhava em Demini com a Funai e eles deviam pensar que eu me opunha a eles. Eu não tinha nada contra eles, mas o chefe de posto do Demini, Amâncio, não gostava deles e vivia dizendo coisas ruins a seu respeito. Não queria que eu fosse visitá-los. Repetia muitas vezes: “Não vá escutar essa gente! Eles são estrangeiros. Desconfie deles! Querem roubar sua floresta. É por isso que fingem defendê-la!”.31 No começo, o pessoal da ccpy só tinha falado de seus projetos aos habitantes do rio Catrimani, onde tinham começado seu tra- balho. Mostraram a eles mapas em que tinham desenhado a imagem de nossa terra. Mas os Yanomami daquela região ainda não entendiam bem as coisas de branco. Devem ter se perguntado o que eram aquelas grandes peles de papel que aquela gente agitava diante deles falando em fechar a floresta! Só fui conversar com o pessoal da ccpy muito tempo mais tarde, depois de Amâncio ter deixado o posto Demini. Às vezes eu cruzava com um deles, Carlo, que morava em Boa Vista, porque a casa deles não era muito longe da Funai. Ele sempre se mostrava amigável. Então, por fim, resolvi lhes fazer uma visita, para escutar suas verdadeiras palavras.32 Primeiro, eu disse a eles: “Vocês querem proteger nossa floresta sem falar comigo? O que têm a me dizer a res- peito disso? Não quero que meu pensamento fique no esquecimento!”. Eles me responderam: “Davi, você tem de defender a sua floresta, porque se não o fizer você mesmo, cada vez mais brancos virão trabalhar aqui e muitos dos seus 12959 - A queda do céu.indd 325 8/10/15 12:31 PM
  • 328. 326 ainda vão morrer!”. Isso me espantou. O pessoal da Funai de fato já tinha fa- lado comigo em fechar nossa floresta. Mas nunca me disseram que eu mesmo deveria lutar por isso! Então, compreendi que essas novas palavras eram direi- tas. Expliquei a eles meu próprio pensamento: “Seus dizeres são sensatos. É verdade. Mas se vocês sozinhos falarem em proteger nossa floresta, os outros brancos não vão lhes dar ouvidos. Vão chamá-los de mentirosos. E se os Ya- nomami não puderem escutá-los na língua deles, permanecerão surdos tam- bém!”. Foi depois dessa conversa que o pessoal da ccpy começou a me ajudar a viajar até as cidades para defender nossa terra.33 Naquela época, bandos de garimpeiros estavam começando a invadir os rios Uraricaá e Apiaú.34 Então, tive de deixar novamente minha casa em Wato- riki. Agora, porém, não se tratava mais de ir ajudar o pessoal da Funai. Comecei a viajar para contar a todos os brancos de longe como os garimpeiros transfor- mavam nossos rios em lodaçais e sujavam a floresta com fumaças de epidemia. Nessas viagens, ouvi pela primeira vez outros índios defendendo suas terras com palavras firmes. Ao escutá-los, compreendi que não podia ficar mudo esperan- do que outros lutassem em meu lugar para proteger os meus. Meu pensamento ganhou firmeza e minhas palavras aumentaram. Resolvi falar como eles. De modo que foi ao ouvi-los que realmente aprendi a defender minha floresta. Os brancos que tinham se tornado meus amigos me incentivaram a falar, é verda- de. Mas nunca me ensinaram como fazê-lo! Entre nós, são os grandes homens que, com seus discursos hereamuu, nos inculcam desde a infância o modo de proferir palavras direitas e sábias. Porém, não foram nem meus parentes nem os brancos que me ensinaram a falar para proteger a floresta. Eu me virei sozi- nho, apesar de no começo não ter a menor ideia de como fazer isso. 12959 - A queda do céu.indd 326 8/10/15 12:31 PM
  • 329. 327 Mas antes de os garimpeiros chegarem em grande número à nossa flores- ta e antes de eu começar a falar para os brancos, eu tinha me tornado xamã. Minhas viagens pela Funai tinham diminuído. Meu pensamento tinha recupe- rado a calma. Eu tinha pedido a meu sogro que me fizesse beber o pó de yãkoa­ na. Ele tinha aberto os caminhos dos xapiri para mim e tinha dito a eles para construírem para mim uma casa de espíritos no peito do céu. Eles então tinham começado a vir se instalar nela, em número cada vez maior, e assim eu tinha me tornado um xamã mais experiente. Isso foi depois do nascimento de meu primeiro filho. Eu tinha ficado mais firme e mais esperto.35 Eu já tinha dado atenção às palavras sobre nossa terra que ouvira da boca do pessoal da Funai e depois da ccpy. Elas tinham começado a fazer seu caminho em mim. Para dizer a verdade, não deixavam mais o meu pensamento. Tornado fantasma, no tempo do sonho ou sob efeito da yãkoana, eu costumava ver os brancos reta- lhando nossa terra, como fazem com a deles. Isso me deixava muito aflito e logo a imagem de Omama chegava a mim. Eu me dizia então: “Mas o que os brancos querem? Por que maltratam tanto a floresta? Não era essa a vontade de Omama, que a criou! Se, depois de tê-los criado, eles os mandou viver tão longe, era mesmo para que não devastassem nossa floresta! Não podemos acei- tar que voltem para desenhá-la e recortá-la desse modo! Talvez seja essa a vontade dos grandes homens deles. Mas, se cedermos, morreremos todos!”. Com nossas palavras, dizemos que os antigos brancos desenharam sua terra para retalhá-la. Primeiro cobriram-na de traços entrecruzados, formando re- cortes, e, no meio deles, pintaram manchas redondas.36 É assim que os xamãs podem vê-la. Esse traçado de linhas e pontos, como manchas de onça, parece deixá-la muito mais bonita. Porém, esses desenhos são em seguida colados num livro e aqueles que querem plantar sua comida nesses pedaços têm de devolver seu valor. Assim, os brancos alegam que esses desenhos de terra têm um preço, e é por isso que os trocam por dinheiro. Omama não quis, no entanto, que o mesmo ocorresse com nossa floresta. Disse aos ancestrais dos brancos, quando os criou: “A terra das gentes da flo- resta não será desenhada. Permanecerá inteira. De outro modo, eles não pode- rão mais abrir nela suas roças ou caçar como quiserem e acabarão todos mor- rendo. Vocês podem dividir a terra que dei a vocês, mas fiquem longe da deles!”. Apesar dessas antigas palavras, o pensamento dos brancos permanece cheio de esquecimento. Eles não sabem sonhar e não sabem como fazer dançar as ima- 12959 - A queda do céu.indd 327 8/10/15 12:31 PM
  • 330. 328 gens de seus antepassados. Se as escutassem, elas os impediriam de invadir nossa terra. Seus chefes, ao contrário, não param de dizer: “Somos poderosos! Somos donos de toda a floresta. Que morram seus habitantes! Estão morando nela à toa, num solo que nos pertence!”. Esses brancos só pensam em cobrir a terra com seus desenhos, para fatiá-la e acabar nos dando apenas uns poucos pedaços, cercados por seus garimpos e plantações. Depois disso, satisfeitos, vão declarar: “Eis a sua terra. Fiquem satisfeitos, nós a estamos dando a vocês!”. Nossa floresta está sempre bela e fresca, mesmo quando a chuva rareia. O poder de sua fertilidade në rope mantém suas árvores vivas. Ela está situada no centro do antigo céu Hutukara, onde está enterrado o metal de Omama, nas nascentes dos rios. Para além de seus limites, no território dos brancos à nossa volta, há somente terras feridas, de onde vêm todas as fumaças de epidemia.37 Viajei bastante de avião por cima da floresta e em suas beiras só vi árvores mor- tas, de que o fogo matou até as sementes, escondidas no chão. Vi a terra dos brancos se estendendo ao longe, retalhada por todos os lados e coberta de capim ralo. Não há mais nenhuma folhagem e o solo desses lugares logo vai ser só areia. Mas os brancos não querem ouvir nossas palavras. Só pensam em tornar nossa terra tão nua e ardente quanto o descampado em volta de sua cidade de Boa Vista. Esse é o único pensamento deles quando olham para a floresta. Devem achar que nada pode acabar com ela. Estão enganados. Ela não é tão grande quanto lhes parece. Aos olhos dos xapiri, que voam além das costas do céu, ela parece estreita e coberta de cicatrizes. Traz nas bordas as marcas de queimadas dos colonos e dos fazendeiros e, no centro, as manchas da lama dos garimpeiros. Todos a devastam com avidez, como se quisessem devorá-la. Os xamãs estão vendo que ela sofre e que está doente. Tanta destruição nos deixa muito preocupados. Tememos que a floresta acabe revertendo ao caos e ani- quilando os humanos, como ocorreu no primeiro tempo.38 Nossos espíritos xapiri ficam muito apreensivos ao observar a terra machucada e tornada fan- tasma. Retornam de seus voos ao longe chorando suas feridas em seus cantos. Ouvi muitas vezes suas vozes lamentarem, enquanto eles levavam minha ima- gem às lonjuras para me mostrar a devastação. Meu sogro não viajou tão longe quanto eu na terra dos brancos. No entan- to, é um xamã antigo e seus espíritos já conhecem todas essas coisas. Quando 12959 - A queda do céu.indd 328 8/10/15 12:31 PM
  • 331. 329 conto a ele minhas viagens, declara apenas: “Você diz palavras verdadeiras! O pensamento dos brancos é cheio de ignorância. Eles não param de devastar a terra em que vivem e de transformar as águas que bebem em lodaçal!”. Foi ele quem me deu sabedoria, me propiciando contemplar o que os xapiri veem. Costumava me chamar e dizer: “Venha cá! Vou alargar seu pensamento. Você não deve envelhecer sem se tornar um verdadeiro homem espírito. Senão, ja- mais poderá ver a imagem da floresta com os olhos dos xapiri!”.39 Então, eu me agachava e bebia yãkoana com ele durante um longo tempo. Aos poucos, meus olhos morriam sob a potência de seu pó. Era assim que, depois de eu ter virado fantasma, os espíritos de meu sogro me carregavam até o peito do céu. Voavam em alta velocidade com minha imagem e meu sopro vital. Minha pele perma- necia no chão da casa, enquanto meu interior atravessava as alturas. Então, de repente, eu era capaz de ver do mesmo modo que os xapiri e, assim, tudo se esclarecia. Eu via, de um lado, a beleza de nossa floresta e, do outro, a terra dos brancos, devastada e coberta de desenhos e recortes, como uma velha pele de papel rasgada. Na escuridão, Titiri, o espírito da noite, fazia cintilar as cicatrizes como fachos de luz dispersos. Conseguia ver até as montanhas, bem longe, re- cortadas no primeiro tempo pelos ancestrais dos brancos, para edificar suas casas de pedra.40 Os espíritos de Omama  41 e os espíritos do céu contemplavam a terra como uma vastidão de imagem e me diziam: “A floresta só não parece ter fim aos olhos de fantasma dos humanos. De onde a vemos, porém, não passa de uma manchinha na terra. Fiquem atentos, os brancos ameaçam acabar com ela depressa! Vão derrubar todas as suas árvores e, uma vez desnudada, será deles!”. Com meu sogro, eu fazia também dançar os espíritos dos antigos brancos, os napënapëri, que nos mostravam a imagem das peles de papel com as quais os de hoje pretendem dividir nossa terra.42 As imagens dos napënapëri e as de Omama caminham juntas. São do mesmo tipo, pois foi Omama que criou esses ancestrais dos brancos. Na língua de fantasma deles, os espíritos nos diziam: “Retornamos de terras longínquas que os brancos desenharam e desmataram. Fiquem atentos! Sua floresta já está coberta por esses mesmos desenhos. Eles querem se apoderar dela. Já estão bem perto e vão comendo suas beiradas sem trégua. Se continuarem avançando, ela vai acabar retornando ao caos e vocês vão morrer com ela. Defendam sua terra, cercando-a com nossas estacas de metal. Assim, os que querem destruí-la não poderão entrar!”. Os napënapëri 12959 - A queda do céu.indd 329 8/10/15 12:31 PM
  • 332. 330 também nos falavam dos lugares onde os brancos fabricam suas máquinas e motores, em terras de águas sujas, cheias de barulho e enevoadas de fumaças de epidemia. O espírito zangão Remori, que, no primeiro tempo, deu a esses forasteiros sua língua emaranhada, também dançava para nós. Quando voltava de outras áreas devastadas, avisava: “A jusante, a floresta está muito doente, os brancos não param de maltratá-la! Virou outra e muitos deles lá morrem de fome ou são devorados pelos incontáveis seres maléficos que ali moram!”. Outras vezes, eram as imagens dos animais dos antigos brancos, bois e cavalos, que desciam a nós e nos davam a ouvir suas palavras aflitas sobre as terras áridas e as quei- madas das grandes fazendas na beira das estradas. É desse modo que os xapiri contam a seus pais tudo o que viram, venham eles de terras ressecadas e sem árvores, de imensos lagos agitados por constantes tempestades ou do grande vazio para além do céu. Os habitantes de nossas casas, que nada sabem desses lugares, podem então escutar suas palavras através do canto dos xamãs e, assim, conhecê-los por sua vez. O mesmo acontece quando os xamãs fazem ouvir a voz dos ancestrais animais do primeiro tempo. Seus fantasmas estão hoje mui- to longe de nossa floresta. Mas os xapiri são capazes de descer até eles. É por isso que também nos trazem as palavras de suas imagens.43 Foi assim que, com os espíritos, compreendi que a floresta não é infinita como eu pensava antes. Vi as marcas calcinadas e os recortes que a cercam de todos os lados. Agora sei que se os brancos continuarem avançando, vão fazê- -la desaparecer bem depressa. Já estão dizendo que ela é grande demais para nós. É mentira, claro. Ela não é tão vasta como se pensa e logo será a única floresta ainda viva. Se nada soubéssemos dos xapiri, do mesmo modo nada conheceríamos da floresta, e seríamos tão desmemoriados quanto os brancos. Não pensaríamos em defendê-la. Os espíritos receiam que os brancos devastem todas as suas árvores e seus rios. São eles que dão suas palavras aos xamãs. Permanecem sempre ao nosso lado, e são os primeiros a combater para salva- guardar nossa terra. Os espíritos napënapëri fixaram lâminas de ferro em todo o seu contorno, para que os garimpeiros, colonos e fazendeiros não se aproxi- mem de nossas casas. Os espíritos de Omama plantaram em seu centro a ima- gem de uma barra de metal cercada de vendavais que derrubam os aviões e helicópteros dos garimpeiros na floresta. É graças a esses xapiri que ela ainda não está toda invadida. Mas meu sogro e eu não fazíamos dançar apenas a 12959 - A queda do céu.indd 330 8/10/15 12:31 PM
  • 333. 331 imagem dos ancestrais napënapëri e a de Omama para manter os brancos à distância. Quando me via voltar da cidade muito preocupado, também me chamava para beber yãkoana para obscurecer o espírito dos políticos que que- rem retalhar nossa terra. Então fazíamos descer juntos os espíritos da vertigem mõeri, para confundir seus olhos e emaranhar os desenhos de suas peles de papel. Assim era. Meu sogro é um grande xamã dono de incontáveis xapiri e foi ele quem me ensinou a fazê-los dançar para defender a floresta. Eu não detenho toda a sabedoria dos nossos antigos. No entanto, desde criança, sempre quis entender as coisas. Depois, uma vez adulto, foram as pala- vras dos espíritos que me fizeram mais inteligente e sustentaram meu pensa- mento. Agora sei que nossos ancestrais moraram nesta floresta desde o primei- ro tempo e que a deixaram para nós para vivermos nela também. Eles nunca a maltrataram. Suas árvores são belas e sua terra é fértil. O vento e a chuva con- servam seu frescor. Nós comemos seus animais, seus peixes, os frutos de suas árvores e seu mel. Bebemos a água de seus rios. Sua umidade faz crescer as bananeiras, a mandioca, a cana-de-açúcar e tudo o que plantamos em nossas roças. Viajamos por ela para comparecer às festas reahu a que somos convida- dos. Nela fazemos nossas expedições de caça e coleta.44 Os espíritos nela vivem e circulam por toda parte à nossa volta. Omama criou esta terra e aqui nos deu a existência. Pôs no seu chão as montanhas, para mantê-la no lugar, e fez delas as casas dos xapiri, que deixou para que cuidassem de nós. É nossa terra e essas são palavras verdadeiras. Ver os brancos rasgarem a floresta com suas máquinas e a sujarem com suas fumaças de epidemia me deixou furioso. Antigamente, eles moravam mui- to longe de nós, pensando que para além deles só havia um grande vazio. Não é verdade. No primeiro tempo, Omama só os manteve afastados de nossa flo- resta para que não pudessem se aproximar dela. Avisou os ancestrais deles: “Esta é a minha terra. Vocês, gente de Teosi, que não têm nenhuma sabedoria, irão viver noutro lugar, bem longe dela, para não devastá-la. Só meus filhos permanecerão aqui, pois têm amizade por ela!”. É por isso que os brancos ti- veram tanta dificuldade para chegar até nós, mesmo com seus barcos a motor e depois seus aviões. Nossos rios são cortados por inúmeras cachoeiras e nossa floresta é coberta de morros e serras que se interpõem no caminho deles. Que- 12959 - A queda do céu.indd 331 8/10/15 12:31 PM
  • 334. 332 remos continuar vivendo nela sozinhos, com a mente calma, como nossos antepassados antigamente. Não queremos mais morrer antes de envelhecer. Não queremos mais que nossos filhos e nossas mulheres chorem de fome. Quando nos misturamos com os brancos, tudo começa a dar errado. Eles nos prometem mercadorias, quando só pensam em roubar nossa terra. Disparam suas espingardas contra nós quando ficam bravos. Começam a pegar nossas mulheres. Ficamos doentes o tempo todo e não podemos mais caçar nem cul- tivar nossas roças. No final, morremos quase todos de suas epidemias xawara. Os espíritos de nossos xamãs antigos, que têm amizade pela floresta, não nos permitem deixar seus inimigos se instalarem nela — garimpeiros, fazen- deiros e madeireiros. Essa gente só sabe desmatá-la e sujá-la. Querem nos eli- minar, para construir cidades no lugar de nossas casas abandonadas. Isso, po- rém, não nos entristece, pois os xapiri estão sempre ao nosso lado para nos dar coragem: “Muitos de vocês morreram, mas se defendem sua floresta, voltarão a ser muitos! Suas mulheres ainda vão lhes dar muitos filhos! Seus maiores se foram, mas as palavras de Omama ainda estão em vocês, sempre igualmente novas. Vocês têm sabedoria e, enquanto estiverem vivos, jamais cederão sua terra!”. Desde o tempo da estrada, penso muitas vezes em todas essas coisas a respeito de nossa floresta. Tudo isso faz crescer cada vez mais em mim palavras para recusar a abertura de nossa terra para os brancos. Quero que meus filhos, seus filhos e os filhos de seus filhos possam nela viver em paz, como nossos antigos antes de nós. Esse é todo o meu pensamento e meu trabalho. Sou xamã e vejo todas essas coisas bebendo yãkoana e no meu sonho. Meus espíritos xapiri nunca ficam quietos. Viajam sem descanso para terras distantes, para além do céu e do mundo debaixo da terra. Voltam de lá para me dar suas pa- lavras e me avisar sobre o que viram. É através de suas palavras que sou capaz de compreender todas as coisas da floresta. Os xamãs, como eu disse, não dormem como os demais homens. De dia, bebem o pó de yãkoana e fazem dançar seus espíritos diante de todos. À noite, porém, os xapiri continuam dando-lhes a ouvir seus cantos no tempo do so- nho. Saciados de yãkoana, não param nunca de se deslocar e seus pais, em estado de fantasma, viajam por intermédio deles. É desse modo que os xamãs conseguem sonhar com as terras devastadas que cercam a nossa floresta e com a ebulição das fumaças de epidemia que surgem delas. Só os xapiri nos tornam realmente sabidos, porque quando dançam para nós suas imagens ampliam 12959 - A queda do céu.indd 332 8/10/15 12:31 PM
  • 335. 333 nosso pensamento. De modo que se eu não tivesse me tornado xamã, jamais saberia como fazer para defender a floresta. Gente comum não pensa nessas coisas. Quando vê chegar garimpeiros ou outros brancos, seu espírito perma- nece vazio. Contenta-se então em sorrir, pedindo comida ou mercadorias. Não se pergunta: “O que devo pensar desses brancos? O que eles vêm fazer na flo- resta? Serão perigosos? Devo defender minha terra e expulsá-los?”. Não, seu pensamento fica plantado em seus pés, sem poder avançar. Só consegue dizer a si mesma: “Para que se preocupar? A floresta é muito grande e não pode ser destruída. Vou é tentar conseguir roupas e cartuchos!”. Quando o pensamen- to dos nossos fica assim confuso, é como uma trilha ruim na floresta. A gente segue por ela com dificuldade no meio da vegetação emaranhada e sombria, tropeçando, e acaba por cair num buraco ou num igarapé, tem os olhos furados por espinhos ou é mordido por uma cobra. Eu, ao contrário, quis tomar um caminho livre, cuja claridade se abre ao longe diante de mim. Esse caminho é o de nossas palavras para defender a floresta. 12959 - A queda do céu.indd 333 8/10/15 12:31 PM
  • 336. 15. Comedores de terra Os garimpeiros e o pai do ouro. 12959 - A queda do céu.indd 334 8/10/15 12:31 PM
  • 337. 335 A pista do posto de Paapiú parece um cenário da Guerra do Vietnã. Um avião pousa ou decola a cada cinco minutos. Uma ronda inces- sante de helicópteros sobrevoa a floresta. […] O posto da Funai está abandonado. Seringas e medicamentos estão amontoados em desor- dem, misturados a latas de cerveja vazias. O registro dos tratamen- tos é folheado pelo vento. O rádio desapareceu […]. Os Yanomami estão abandonados aos garimpeiros. O ronco dos motores só para após o anoitecer. Então — me diz um idoso —, nós escutamos um ruído muito pior: o de nossas crianças chorando de fome Senador Severo Gomes Folha de S.Paulo, 18 jun. 1989 Depois de ter voltado a trabalhar para a Funai, tinha visto os brancos rasgarem o chão da floresta para construir uma estrada. Eu os tinha visto der- rubar suas árvores e queimá-las para plantar capim. Eu conhecia o rastro de terras vazias e de doenças que deixam atrás de si. Apesar disso, sabia ainda pouca coisa a respeito deles. Foi quando os garimpeiros chegaram até nós que realmente entendi de que eram capazes os napë! Multidões desses forasteiros bravos surgiram de repente, de todos os lados, e cercaram em pouco tempo todas as nossas casas. Buscavam com frenesi uma coisa maléfica da qual jamais tínhamos ouvido falar e cujo nome repetiam sem parar: oru — ouro. Começa- ram a revirar a terra como bandos de queixadas. Sujaram os rios com lamas amareladas e os enfumaçaram com a epidemia xawara de seus maquinários.1 Então, meu peito voltou a se encher de raiva e de angústia, ao vê-los devastar as nascentes dos rios com voracidade de cães famintos. Tudo isso para encon- trar ouro, para os outros brancos poderem com ele fazer dentes e enfeites, ou só para esconder em suas casas! Naquela época, eu tinha acabado de aprender a defender os limites de nossa floresta. Ainda não estava acostumado à ideia de que precisava também defender suas árvores, seus animais, seus cursos d’água e seus peixes. Mas entendi logo que os garimpeiros eram verdadeiros comedo- res de terra e que iam devastar tudo na floresta. Essas novas palavras me vieram aos poucos, durante minhas viagens por nossa terra e entre os brancos. Fixa- ram-se em mim e aumentaram aos poucos, ligando-se umas às outras, até fazer um longo caminho em minha mente. Foi com elas que comecei a falar nas ci- dades, embora minha língua parecesse, em português, ainda tão torta como a de um fantasma! 12959 - A queda do céu.indd 335 8/10/15 12:31 PM
  • 338. 336 Se deixarmos os garimpeiros cavarem por toda parte, como porcos-do- -mato, os rios da floresta logo vão se transformar em poças lamacentas, cheias de óleo de motor e lixo. Eles também lavam o pó de ouro misturando-o com o que chamam de azougue. Os outros brancos chamam isso de mercúrio.2 Todas essas coisas sujas e perigosas fazem as águas ficarem doentes e tornam a carne dos peixes mole e podre. Quem os come corre o risco de morrer de disenteria, descarnado, com violentas dores de barriga e tonturas. Os donos das águas são os espíritos das arraias, dos poraquês, das sucuris, dos jacarés e dos botos. Eles vivem na casa de Tëpërësiki, seu sogro, com o ser do arco-íris, Hokotori. Se os garimpeiros sujarem as nascentes dos rios, todos eles morrerão e as águas de- saparecerão com eles. Fugirão de volta para dentro da terra. Aí, como podere- mos matar nossa sede? Morreremos todos com os lábios ressecados. Os motores e as espingardas dos garimpeiros espantarão toda a caça e acabarão também por nos deixar esfomeados. Antigamente, eram muitos os queixadas na floresta. Depois da chegada dos garimpeiros, seus bandos desa- pareceram.3 Logo os caçadores passaram a não encontrar nenhum em parte alguma, mesmo indo muito longe de suas casas. A floresta tinha ficado ruim e se enchera de fumaças de epidemia xawara. Os antigos xamãs que sabiam fazer dançar a imagem dos espíritos queixada foram mortos pelas doenças. Então, os espelhos desses xapiri foram quebrados e seus caminhos foram cortados. Os queixadas são ancestrais humanos. Viraram caça ao cair no mundo subterrâ- neo, quando o céu desabou, no primeiro tempo. Por isso eles têm muita sabe- doria. Serem obrigados a viver emagrecidos e doentes, numa floresta devasta- da, deixou-os enfurecidos. Voltaram para dentro da terra, por onde passa o caminho do sol, e os xapiri fecharam de novo o buraco no qual sumiram.4 Antigamente, nossos maiores não ficavam morrendo à toa. Desde a che- gada dos garimpeiros é diferente. A maior parte de nossos pais e avós foi de- vorada por suas doenças. Nas terras altas, muitos dos nossos estão agora mo- rando em casas desabadas, cobertas de lonas de plástico velho. Os jovens, órfãos, não abrem mais roças e não vão mais caçar. Ficam na rede o dia todo, ardendo em febre. É por tudo isso que não queremos garimpeiros na floresta em que Omama criou nossos ancestrais. O pensamento desses brancos está obscurecido por seu desejo de ouro. São seres maléficos. Em nossa língua, os chamamos de napë worëri pë, os “espíritos queixada forasteiros”, porque não 12959 - A queda do céu.indd 336 8/10/15 12:31 PM
  • 339. 337 param de remexer os lamaçais, como porcos-do-mato em busca de minhocas. Por isso também os chamamos de urihi wapo pë, os “comedores de terra”.5 Os garimpeiros primeiro apareceram em nossa floresta no alto rio Apiaú, perto de uma antiga roça dos Moxi hatëtëma, a gente que procuramos em vão junto com Chico no tempo da estrada.6 Foram os habitantes do rio Lobo d’Almada que nos avisaram de sua presença. Um dos homens mais velhos de sua casa tinha acabado de morrer. Eles atribuíram sua morte à mão de feiticei- ros dos Moxi hatëtëma. Tomados pela raiva do luto, resolveram lançar um reide para vingá-lo. Uma tropa de guerreiros se pôs a caminho, em direção ao alto rio Apiaú. Mas não encontraram nenhuma casa inimiga. Por outro lado, acaba- ram topando com um grande acampamento de brancos! Um dos nossos, que tinha se casado com uma mulher do rio Lobo d’Almada, veio nos visitar pouco depois e nos deu a notícia: “Encontramos brancos no rio Apiaú, estão escavan- do a terra e sujando o rio! Já são muitos!”. Os grandes homens de nossa casa então fizeram discursos hereamuu e resolveram expulsar aqueles comedores de terra da floresta. Eu, de minha parte, chamei em seguida a Funai pelo rádio, para pedir ajuda a Amâncio, o antigo chefe do posto Demini, que agora era delegado em Boa Vista. Achei que podia contar com ele. Mas ele me respondeu que eu era funcionário da Funai e que devia ir eu mesmo expulsar os garimpeiros do Apiaú!7 Fiquei decepcionado, mas não preocupado demais, porque sabia que não estava sozinho e que meus parentes estariam comigo na expedição. No dia seguinte, todos os homens de Watoriki se reuniram, liderados pelos mais ve- lhos. Formamos um grupo, armados de arcos e flechas, e então partimos para o rio Catrimani. Chegamos após dois dias de caminhada pelo antigo traçado da estrada. Na região desse rio, em torno da missão dos Padres, há várias casas amigas. Elas nos hospedaram à noite. Pedimos nelas tropas de guerreiros como reforço. Depois, enquanto subíamos o Catrimani, os homens do Lobo d’Almada que tinham achado o acampamento dos brancos se juntaram a nós. No final, éramos realmente muitos! Mas o alto rio Apiaú ainda estava longe, e tivemos de dormir três noites e andar dias a fio na floresta, até chegarmos lá. Então, fizemos uma parada numa clareira, perto do acampamento dos garimpeiros. 12959 - A queda do céu.indd 337 8/10/15 12:31 PM
  • 340. 338 Já descansados, nos pintamos com tinta preta, como fazem os guerreiros antes de atacar. Depois começamos a cercar o acampamento dos brancos, com os arcos retesados, prontos para disparar nossas flechas.8 Tudo estava silencioso, a maio- ria dos garimpeiros estava trabalhando longe dali, chafurdando em seus buracos de ouro.9 Por debaixo das lonas de plástico azul dos barracos, só ouvimos as vozes de dois deles. Deviam ter começado a beber cachaça havia algum tempo, pois já estavam bêbados e falavam como fantasmas. Avançamos na direção deles, devagar, sem nenhum ruído. Quando finalmente perceberam nossa pre- sença, pareciam aterrorizados. Ficaram imóveis e mudos. Aí, de repente, um deles tentou desajeitadamente pegar sua espingarda. Mirou e chegou perto de atirar, mas seu companheiro, que parecia ser o chefe daquela gente, o impediu: “Não atire! Não atire!”. Ele tinha se dado conta de que éramos muitos e de que se um de nós fosse ferido, os dois seriam crivados de flechas em seguida. Então me aproximei, para falar com eles. Como os demais guerreiros, eu estava pintado de preto dos pés à cabeça. Disse a eles, em português: “Boa tarde!”. Surpresos por eu conhecer sua língua e amedrontados, perguntaram- -me: “Quem são vocês? O que querem conosco?”. Respondi apenas: “Somos habitantes da floresta, Yanomami!”. Ainda muito apreensivos, tentaram me amansar: “Estão com fome? Querem algo para comer? Peguem nossa comida!”. Recusei logo: “Não, não queremos comer, queremos falar!”. Começaram a se acalmar um pouco. Depois, aos poucos, outros garimpeiros foram chegando e eu me dirigi também a eles: “Não viemos para fazer guerra, mas para pedir a vocês que saiam deste lugar. Queremos convencê-los com nossas palavras, não com nossas flechas. Vocês destroem a floresta, pensando que está vazia, mas não está. Há nela muitas de nossas casas e nós bebemos a água desses rios que vocês sujam!”. Um pouco mais sóbrio, o chefe dos garimpeiros começou a mentir para mim: “Não sabíamos que os Yanomami viviam nesta floresta, senão nem te- ríamos começado a trabalhar aqui!”. Retruquei: “É nossa terra. Vocês com certeza viram as roças antigas perto do seu acampamento. Foram plantadas por nossa gente. A floresta que Omama nos deu vem até aqui. Foi ela que viu nas- cer nossos antepassados e é sob o seu abrigo que nascem nossos filhos. Vocês não podem vir devastá-la como bem quiserem. Convoque seus homens e vol- tem todos para suas casas! Omama nunca enviou seus ancestrais para fuçar o 12959 - A queda do céu.indd 338 8/10/15 12:31 PM
  • 341. 339 solo de nossa floresta como queixadas, para matar os habitantes dela com suas epidemias e suas espingardas! E depois, para que vir trabalhar aqui? Na flores- ta, vocês passam os dias chafurdando na lama e ficam doentes o tempo todo. Para que sofrer desse jeito? O Brasil é muito grande. Não faltam outras terras para vocês. Parem de cobiçar a da gente da floresta. Vão trabalhar nas suas terras, longe daqui!”. Falei firme com eles, durante um bom tempo. Porém, no final, responderam apenas: “Está bem, vamos embora, mas daqui a algum tem- po, primeiro precisamos terminar nosso trabalho aqui”. Depois disso, fomos até os buracos de ouro em que estavam trabalhando outros garimpeiros. Então foi a nossa vez de ficarmos surpresos, porque eram de fato muito numerosos, muito mais do que nós! Para acharem a poeira bri- lhante que ficavam procurando sem parar nos igarapés, tinham cavado por toda parte grandes fossas ladeadas de montes de cascalho. Todos os igarapés estavam cheios de lama amarelada, sujos de óleo de motor e cobertos de peixes mortos. Nas margens, desmatadas, havia máquinas rugindo com um barulho ensurdecedor e sua fumaça empesteava a floresta nos arredores. Era a primei- ra vez que eu via garimpeiros trabalhando. Pensei: “Hou! Isso é péssimo. Esses brancos parecem querer devorar a terra, como tatus-canastra e queixadas! Se deixarmos seu número aumentar, vão devastar a floresta toda, do mesmo jeito que estão fazendo aqui. Precisamos mesmo expulsá-los!”. Então, me dirigi aos garimpeiros num tom mais duro: “Parem as máquinas e juntem suas coisas! Vocês têm de ir embora já! Vocês reviram o solo dos rios e sujam as águas, os rastros que vocês deixam na floresta são perigosos para nós!”. Porém, mais uma vez, responderam apenas: “Sim, depois, quando tivermos acabado nosso ser- viço!”. E acrescentaram: “Saiba que assim que as notícias deste ouro forem ouvidas na cidade, outros garimpeiros vão vir para cá, e depois outros e mais outros! Pode nos expulsar agora, mas não vai adiantar nada!”. Essa resposta me deixou exasperado. Mas eles já eram numerosos demais, e bem armados, para se assustarem com nossas flechas. Então, guardando minha raiva em mim, pude apenas retrucar que volta- ríamos, em maior número, e acompanhados por funcionários da Funai e agen- tes da Polícia Federal. Finalmente, resolvemos partir, sem termos podido fazer nada. Era final de tarde. Os garimpeiros nos convidaram a passar a noite em seu acampamento. Recusamos, porque temíamos que tentassem nos atacar durante o sono. Resolvemos então nos instalar na floresta, longe deles. Ansio- 12959 - A queda do céu.indd 339 8/10/15 12:31 PM
  • 342. 340 sos, ficamos em alerta até amanhecer, sem conseguir dormir direito. No dia seguinte, tomamos o caminho de volta. Foi assim que, pela primeira vez, tentei, junto com os meus, defender a floresta contra os garimpeiros. Assim que retornamos a Watoriki, chamei pelo rádio o delegado da Funai em Boa Vista, para contar a ele nossa viagem. Expliquei que já havia garimpei- ros demais na floresta para podermos expulsá-los sozinhos. Voltei a lhe pedir ajuda, e com urgência, antes que fossem tantos no rio Apiaú que seria impossí- vel expulsá-los de lá. Depois, as luas foram passando, sem eu receber nenhuma palavra da cidade. Eu estava aflito e decepcionado, achava que o delegado não se preocupava conosco. Porém, certo dia fui avisado de surpresa da aterrissa- gem de um grupo de policiais federais na pista da missão do rio Catrimani. Policiais militares e um funcionário da Funai tinham vindo com eles. A men- sagem me alegrou muito. Então eu, de minha parte, juntei os homens de Wa- toriki e nos pusemos em marcha para ir ao encontro daqueles brancos que ti- nham resolvido nos ajudar. Chegando a Catrimani, voltamos a pedir o reforço dos guerreiros das casas vizinhas da missão e, juntos, começamos a subir no- vamente o rio em direção ao acampamento dos garimpeiros do Apiaú. Dessa vez, porém, a viagem durou muito mais tempo, porque os brancos não sabem andar na floresta. São muito lentos e se queixam constantemente de cansaço ou de sede! Não param de perguntar se vamos chegar logo ou de se largar pelas beiras do caminho! O chefe dos federais reclamava de dor no joelho e tínhamos de ficar à sua espera muitas vezes. E ainda por cima tínhamos de transportar uma grande quantidade de alimento para eles: carne-seca, feijão, arroz e farinha de mandioca. Disseram-me que pesava quatrocentos quilos. Nós carregávamos tudo, mas eram eles que não avançavam! Já os garimpeiros não são tão fracos! São seres maléficos, espíritos queixada, é por isso que sabem andar tão bem na floresta com cargas enormes, sem sentir dor nem cansaço. Por fim, uma semana depois, chegamos ao acampamento dos garimpeiros. Estavam instalados no mesmo lugar e eram ainda mais numerosos. Mas, dessa vez, vínhamos na companhia dos federais! Dirigi-me logo aos barracos cober- tos de lona de plástico com um jovem policial do sul que, este sim, tinha se mostrado resistente na floresta. Quando me viram, os garimpeiros pensaram que era apenas mais um grupo de Yanomami. Aproximaram-se sem descon- 12959 - A queda do céu.indd 340 8/10/15 12:31 PM
  • 343. 341 fiança. Mas, de repente, distinguiram o uniforme de meu companheiro e as letras amarelas em seu colete: “Polícia Federal”. Aí sentiram medo e ficaram paralisados de um momento para o outro. O policial declarou, com firmeza: “Não resistam! Viemos para expulsá-los da terra dos Yanomami!”. Os olhos dos garimpeiros se cravaram nele, cheios de surpresa e raiva, mas não ousaram protestar. Então, antes da chegada da noite, os federais instalaram conosco seu acampamento, próximo ao dos garimpeiros. Depois, no dia seguinte, começa- ram a reuni-los e a mandá-los embora, um por um, a pé pela floresta, de volta para a cidade. Mas esvaziar aquele acampamento de garimpeiros levou muito tempo! Tinham se tornado muitos mesmo! De modo que dormimos noites e noites no rio Apiaú, antes de cessarem os ruídos das máquinas e o rumor dos homens. Mas um dia, finalmente, a floresta voltou a ficar silenciosa e quase já não restava comida. Era hora de partir. Os federais, assustados com o caminho que tínhamos percorrido na vinda, não queriam mais andar na floresta. Fica- ram lá mesmo e nós voltamos sozinhos até a missão Catrimani, com uma mensagem pedindo para chamar um helicóptero para transportá-los. Dessa vez, ficamos satisfeitos. Tínhamos conseguido, pela primeira vez, expulsar ga- rimpeiros de nossa terra! Contudo, o chefe do acampamento do rio Apiaú tinha dito a verdade. Ape- sar de todos os nossos esforços, os garimpeiros logo voltaram para a floresta e seu número não parou de crescer.10 Isso foi me deixando cada vez mais preo- cupado. Perguntava a mim mesmo: “Se aumentarem a ponto de ninguém mais ser capaz de expulsá-los, os habitantes da floresta vão todos desaparecer?”. En- tão tentei, repetidas vezes, pedir à Funai para montar novas expedições para tirar os garimpeiros de nossa terra. Cheguei até a ir a Brasília, para falar com o presidente da Funai.11 Em vão. Respondeu-me apenas: “Não tenho dinheiro para mandar todos esses garimpeiros de volta para casa, o número deles au- mentou demais! Os lugares onde trabalham são como ninhos de vespas. Se tentarmos expulsá-los, vão se jogar para cima dos policiais para se vingar! Estão armados e são muito briguentos!”. Então voltei para casa, triste e com o peito cheio de raiva. Dois dias depois, outras palavras ruins chegaram até mim. Os garimpeiros tinham acabado de assassinar vários parentes da região do rio Hero u, perto do 12959 - A queda do céu.indd 341 8/10/15 12:31 PM
  • 344. 342 posto da Funai de Paapiú.12 Eles tinham começado por devastar os afluentes do alto rio Apiaú. Depois, começaram a se espalhar a partir de lá, rio acima, para o lado das terras altas. E tinham por fim desembocado no rio Hero u, onde subitamente acharam muito ouro. A partir desse momento, foram toma- dos por um frenesi de urubus esfomeados.13 Apesar de ser impossível comer ouro, parecia que eles queriam devorar todo o chão da floresta! Foi assim que acabaram matando os habitantes do Hero u que atravancavam seu avanço. Estes tinham acabado de aprender a procurar ouro, com os Yanomami do rio Uraricaá, que chamamos Xiriana.14 Os garimpeiros vindos do rio Apiaú even- tualmente encontraram o lugar em que eles estavam trabalhando. Ficaram surpresos com a quantidade de ouro que encontraram lá. Então, vieram de todos os lados, em grande número, para cavar o leito dos igarapés vizinhos. A gente do Hero u ficou apreensiva e com raiva de ver todos aqueles brancos entrando na sua floresta. Então, certo dia, resolveram expulsá-los. Instalaram um acampamento de tapiris longe deles, e lá deixaram mulhe- res e crianças. No dia seguinte, um grupo de guerreiros saiu em direção aos buracos onde os garimpeiros trabalhavam. Um grande homem, que eu chama- va de sogro, estava à frente deles. Decerto pensava: “Eu sou valente! Vai ser fácil afugentar esses forasteiros!”. Todos sabiam que os napë não costumavam se mostrar corajosos e que seria fácil intimidá-los e depois roubar suas armas. Uma vanguarda de quatro guerreiros experientes entrou de repente no acam- pamento dos garimpeiros, onde havia apenas um pequeno grupo de homens desocupados. Alguns jovens yanomami permaneceram emboscados, no limiar da floresta. Já no local, um dos quatro guerreiros exigiu que um dos garimpei- ros lhe desse sua espingarda. Este não se deixou impressionar, e recusou. O guerreiro insistiu e deu-lhe um soco no rosto. O garimpeiro, furioso, não cedeu e empurrou o adversário com força, até fazê-lo cair. Depois, sem soltar a es- pingarda, pegou com a outra mão um revólver 38 que levava na cintura e atirou nele, à queima-roupa, quando ele estava tentando se levantar. Então, os outros garimpeiros se aproximaram do corpo que jazia na lama, para terem certeza de que estava mesmo morto. Ao ver isso, o genro do guerreiro assassinado, que estava de tocaia na floresta, apoiou a espingarda no ombro e atirou num dos brancos, para vingar o sogro, e o matou. Os garimpeiros, surpresos, revidaram logo, matando dois outros guerrei- ros que ainda estavam perto. O último deles, evitando os tiros, jogou-se no chão 12959 - A queda do céu.indd 342 8/10/15 12:31 PM
  • 345. 343 e rolou para baixo de um talude de cascalho. Mas assim que se levantou, para fugir para dentro da floresta, acabou sendo atingido nas costas por uma bala e caiu, sem movimento. Um grupo de garimpeiros conseguiu chegar até ele e o liquidou a facadas. Em seguida, o rapaz que tinha vingado o sogro deu de cara na floresta com o chefe dos garimpeiros, um grandão barbudo, e também o matou. Por fim, outro guerreiro conseguiu dar um tiro de espingarda num outro garimpeiro que fugia pelo matagal. A essas alturas, assustados com os tiros, a maior parte dos que estavam trabalhando nos buracos de ouro vizinhos abandonou suas máquinas e saiu correndo em todas as direções pela floresta ao redor. Foi o que me contaram os do Hero u. Assim que o delegado da Funai de Boa Vista recebeu a notícia do ocorri- do, me mandou para o posto Paapiú. Cheguei lá sozinho. As mulheres ainda tinham as maçãs do rosto negras de lágrimas e pó. Os do Hero u, carregando a tristeza do luto, vieram ao meu encontro. Mostraram-me nos dedos, várias vezes, com muita raiva, o número dos que tinham caído: “Um homem, um outro, um outro e mais um outro! Seus cadáveres ainda estão lá na floresta, onde foram mortos! Temos de ir buscá-los!”. Eles só tinham achado o cadáver do grande homem que eu chamava de sogro, que fora ferido e liquidado a fa- cadas pelos garimpeiros. Tinham conseguido suspendê-lo numa armação de paus na floresta e começado a chorá-lo, como costumamos fazer. No dia se- guinte, um funcionário da Funai e seis federais chegaram a Paapiú para me ajudar. O local onde tinha ocorrido o conflito ficava a várias horas de cami- nhada do posto. Pusemo-nos a caminho sem tardar. Quando chegamos ao acampamento dos garimpeiros, estava vazio. Os policiais quiseram começar pela busca dos cadáveres dos brancos. O primeiro deles, morto no garimpo, tinha sido enterrado. Só encontramos um outro corpo nas redondezas. Era o do chefe barbudo dos garimpeiros. Não conseguimos recuperar o último ca- dáver perdido na mata. Em seguida, encontramos o lugar onde os garimpeiros tinham enterrado os três Yanomami que tinham matado. Achamos depressa, porque era uma cova rasa. Não tinham tido tempo de disfarçá-la com cuidado. Então começamos a tirar os corpos da terra. Os de Hero u que tinham vindo conosco nos ajudaram. Pedi também aos federais para montarem guarda, para que os nossos pudessem cuidar de seus mortos sem medo. Havia muitas mulheres. Todos estavam em prantos. Desen- terrados os cadáveres, seus próximos os puseram em grandes sacos de folha de 12959 - A queda do céu.indd 343 8/10/15 12:31 PM
  • 346. 344 palmeira e os amarraram com ripas de madeira. Ergueram-nos na floresta, sobre armações de estacas arrancadas do acampamento dos garimpeiros, e depois todos voltaram para suas casas, rio abaixo. Ao ver os cadáveres sendo arrancados da terra, também eu chorei. Pensei, com tristeza e raiva: “O ouro não passa de poeira brilhante na lama. No entanto, os brancos são capazes de matar por ele! Quantos mais dos nossos vão assassinar assim? E depois, suas fumaças de epidemia vão comer os que restarem, até o último? Querem que desapareçamos todos da floresta?”. A partir daquele momento, meu pensamen- to ficou realmente firme. Entendi a que ponto os brancos que querem nossa terra são seres maléficos. Sem isso, talvez tivesse continuado como muitos dos nossos que, na ignorância, fazem amizade com eles apenas para pedir arroz, biscoitos e cartuchos! Pouco depois, os garimpeiros começaram a retornar ao acampamento abandonado. Traziam muita carga de equipamento e provisões que tinham escondido na mata. Então, os federais se aproximaram deles. Eu estava com eles, ao passo que os demais Yanomami, desconfiados, ficaram escondidos na floresta ao redor. Os policiais mandaram os garimpeiros se reunirem, deposi- tarem suas cargas e suas armas. Todos eles costumavam trabalhar com suas espingardas de caça ou rifles a tiracolo e um revólver na cintura. Mal disfar- çando sua raiva, começaram a obedecer. Não diziam uma palavra, mas seus olhos eram muito hostis. Perguntaram-me, em tom ameaçador: “É você o che- fe dos Yanomami? Foi você que chamou os federais?”. Eu não me sentia tran- quilo no meio de todos aqueles brancos armados, que tinham acabado de ma- tar vários dos nossos. Contudo, minha revolta era maior do que o meu medo. Retruquei logo que os Yanomami não têm chefe e que eles tinham de ir embo- ra de nossa floresta. E acrescentei em seguida, dirigindo-me aos policiais: “Vo- cês têm de expulsar todos esses comedores de terra, porque se continuarem vindo tantos, morreremos todos, do mesmo modo que os homens que acaba- mos de tirar do chão da floresta!”. Foi assim que aconteceu. Depois de termi- narem de juntar as armas dos garimpeiros, os federais montaram um acampa- mento e ficaram à espera do helicóptero e dos reforços que tinham pedido. Eu não quis ficar naquele lugar. Sabia que, assim que pudessem, os garimpeiros tentariam me matar para se vingar. Então parti com os outros Yanomami e o homem da Funai de volta para o posto Paapiú. Não tínhamos comido nada e 12959 - A queda do céu.indd 344 8/10/15 12:31 PM
  • 347. 345 estávamos exaustos. No dia seguinte, um avião pequeno me levou de volta para casa, em Watoriki, com toda a tristeza e o tormento do que acabara de ver. Algum tempo depois, os garimpeiros voltaram para Paapiú e penetraram em massa nas terras altas de nossa floresta. Desmataram por toda parte para abrir pistas para seus aviões e helicópteros, que cruzavam o céu constantemen- te. Numerosos como saúvas koyo, passavam em colunas cerradas ao redor das casas yanomami. As mulheres tinham medo de sair até para pegar água! A floresta ficou vazia de caça e os maridos pararam de caçar. Todos permaneciam prostrados em suas redes, derrubados por febres incessantes. Sem poderem cultivar suas roças, pensaram que fossem morrer de fome. Os grandes homens, que antes falavam com sabedoria, tinham sido assassinados por ter enfrentado com bravura os garimpeiros ou então tinham morrido de malária e pneumonia. Apenas alguns órfãos com o pensamento perdido tinham sobrevivido, e men- digavam comida e roupas junto aos garimpeiros. Todos os caminhos tinham virado lodaçais de queixadas e os rios tinham sido reduzidos a poças de água barrenta. Um sem-número de brancos escavava freneticamente a terra da flo- resta empesteada pela fumaça de epidemia xawara de seus motores. Até o che- fe do posto da Funai de Paapiú acabou fugindo, assustado tanto com as amea- ças dos garimpeiros quanto com suas doenças.15 Na estação seca seguinte, garimpeiros chegaram também à nossa casa de Watoriki.16 Quando surgiram, eu estava no posto de Demini, com minha mu- lher e meus filhos. Só havia um outro Yanomami trabalhando lá. O pequeno grupo de garimpeiros saiu da floresta, carregando pesados fardos de alimentos e mercadorias. Vieram em nossa direção. Todos vestiam shorts e camisetas rasgadas. Seus pés estavam escondidos em chuteiras. Estavam armados com espingardas de caça e revólveres calibre 38. Quando os vi, logo pensei que 12959 - A queda do céu.indd 345 8/10/15 12:31 PM
  • 348. 346 talvez nossos cadáveres logo fossem encontrados na terra rasa, como os da gente de Hero u. Contudo, apesar de meus temores, não me movi e esperei que falassem comigo. Então eles fingiram amizade por nós: “Estamos aqui para ajudá-los! Vamos ensiná-los a procurar ouro. Assim vocês conseguirão muitas mercadorias. Seremos generosos com vocês!”. Interrompi-os para responder que não queria escutar aquelas mentiras. “Acabo de ver o modo como vocês mataram nossos parentes em Paapiú! Vi como vocês comem a terra da flores- ta e sujam os rios como porcos-do-mato! A verdade é que vocês vão nos fazer passar fome e morrer com suas fumaças de epidemia! Voltem para suas casas!”. Contrariados por essas palavras, continuaram mentindo mesmo assim: “Sere- mos poucos trabalhando aqui! Mandaremos vir alimentos e remédios para vocês!”. Retorqui: “Mais mentiras! Vocês vão aumentar sem parar e logo terão esquecido essas palavras de amizade! Vão começar a beber cachaça sem parar. Aí vão começar a pegar nossas mulheres e a nos matar! Depois, nossos jovens vão ficar preguiçosos e ignorantes por causa de sua comida! Vão embora! Não queremos vocês aqui!”. Ao ouvirem isso, ficaram ainda mais descontentes, mas, como eram poucos e estavam inquietos diante de minha hostilidade, acabaram indo embora, seguindo caminho em direção ao final da estrada, para o lado do rio Haranari u. Porém, algum tempo depois, outro grupo deles chegou a Watoriki. Dessa vez eram mais numerosos, mas as mentiras eram as mesmas: “Queremos pro- curar ouro aqui com vocês! Somos amigos! Davi, vamos fazer de você um grande chefe!”. Ouvir essas palavras tortas repetidas mais uma vez me deixou furioso. Respondi: “Não sei me fazer de chefe e não como ouro! Não me im- porto com essa poeira brilhante na areia. Não sou jacaré para querer engoli-la! Não quero nada de vocês e não vamos deixá-los trabalhar aqui!”. Dessa vez, não tínhamos sido pegos de surpresa por sua chegada. Todos os homens de Watoriki tinham se reunido em volta deles, empunhando arcos e flechas, com o corpo pintado de preto, como guerreiros. As mulheres, enquanto isso, grita- vam e jogavam nos intrusos suas plantas de feitiçaria hore kiki, a fim de torná- -los medrosos.17 Estávamos prontos para nos defender sozinhos, sem a polícia federal. Falei duro de novo com os garimpeiros, para avisá-los de que os fle- charíamos se tentassem ficar na nossa floresta. Eles estavam nervosos e hostis, mas não ousaram insistir e acabaram indo embora no rastro dos que os haviam precedido. 12959 - A queda do céu.indd 346 8/10/15 12:31 PM
  • 349. 347 Passou-se mais algum tempo. Aí, caçadores de nossa casa encontraram um novo grupo de garimpeiros que acabara de se instalar nas proximidades. Pus-me a caminho logo, com um grupo de guerreiros. Dormimos uma noite na floresta, para pegar os intrusos de surpresa na manhã seguinte. Eles já ti- nham instalado um acampamento e começado a cavar a terra. Também tinham desmatado uma clareira, para um avião poder jogar provisões para eles. Mais uma vez, comecei a falar com firmeza, para mandá-los embora: “Não queremos que procurem ouro aqui! É nossa terra e vamos defendê-la! Saiam antes de ficarmos bravos e antes de suas mães terem de chorar suas mortes!”. Escuta- ram-me, sem saber o que responder. O avião que esperavam não tinha vindo. Famintos e maltrapilhos, estavam de dar dó. Então, por fim, não disseram nada e foram embora, como os outros, mas, dessa vez, na direção contrária, a da missão do rio Catrimani. Alguns dias depois, o avião deles aterrissou no posto Demini. Era o chefe de todos aqueles garimpeiros que tentavam trabalhar na nossa floresta. Tinha vindo trazer arroz, farinha de mandioca, feijão, leite em pó, biscoitos, café e açúcar. Os outros garimpeiros nos tinham falado dele. Tinham-nos contado que era um homem bravo e destemido. Chamavam-no de Zeca Diabo.18 Porém, para nós, não passava de mais um garimpeiro como os outros. Então, assim que saiu de seu avião, declarei a ele: “Nem vale a pena descarregar suas provisões! Já expulsamos todo o seu pessoal da nossa flores- ta!”. Contrariado, replicou: “Não é verdade! Quero ouvir isso deles próprios!”. Então ele depositou todos os seus sacos de comida no final da pista do posto Demini e em seguida saiu a pé em busca de seus peões. Viera acompanhado por um Yanomami do rio Ajarani que tinha trazido de Boa Vista e com quem eu também falei duro antes de saírem. Dava-me muita raiva um dos nossos ajudar um garimpeiro! Enquanto isso, foi a vez de um avião da Funai aterrissar no posto Demini. O médico que desceu dele me perguntou o que eram aqueles sacos no final da pista. Contei a ele da chegada de Zeca Diabo. Ele me escutou e disse que eu podia confiscar os víveres e distribuí-los às pessoas de Watoriki. Respondi: “Está bem, vamos escondê-los na floresta e os comeremos mais tarde! Assim os garimpeiros não poderão ficar aqui!”. No dia seguinte, Zeca Diabo e seu guia yanomami voltaram ao posto Demini. Tinham andado bastante na floresta. O branco dava dó de ver. Ele estava de havaianas e seus pés estavam inchados e cheios de bolhas. O short tinha se esfregado contra a parte interna das coxas e 12959 - A queda do céu.indd 347 8/10/15 12:31 PM
  • 350. 348 a pele estava em carne viva. Seu guia estava apreensivo por nos ver tão furiosos contra ele. Nem bem chegaram, declarei: “Agora só lhes resta voltar a pé para o lugar de onde vieram! Nenhum avião virá mais buscá-los!”. Os jovens de nossa casa estavam muito exaltados e ameaçadores. Queriam matar o chefe dos garimpeiros. Mas os mais velhos não pretendiam deixar que fizessem isso. Queriam apenas assustar Zeca Diabo. De repente, este se deu conta de que seu carregamento todo tinha desaparecido e seus olhos davam pena de ver. Tínhamos deixado só a rede dele. Todo o restante havia sido es- condido, até suas roupas e documentos! Começou a gritar: “Onde estão minhas provisões? Onde vocês esconderam minhas coisas?”. Então eu menti a ele, di- zendo que a Funai tinha levado tudo e que ele recuperaria suas coisas em Boa Vista. Ele não se deixou enganar, mas foi ficando cada vez mais nervoso, pois começava a ter medo do que poderíamos fazer com ele. Ele estava sozinho entre nós. Não havia mais avião para levá-lo nem rádio para chamar Boa Vista. Anoiteceu, e ele dormiu no posto Demini. No dia seguinte pela manhã, um avião de garimpeiros sobrevoou a pista várias vezes, cada vez mais baixo. Postamo-nos no meio da pista, com nossos arcos e flechas. O piloto ficou com medo e logo foi embora para Boa Vista. Zeca Diabo ainda dormiu três noites sob nossa guarda. Queríamos pô-lo realmente à prova! Ele ainda tentava men- tir para nós, mas estava cada vez mais fraco e amedrontado. Afinal, um outro avião veio sobrevoar o posto Demini. Dessa vez já estávamos cansados do Ze- ca Diabo, então deixamos o avião aterrissar. Para terminar, o pintamos dos pés à cabeça com pasta de urucum misturada com fuligem.19 Só deixamos nele o short e foi assim que o despachamos para a cidade, todinho pintado de preto! Nem bem viu o avião na pista, ele que se achava tão terrível, começou a correr afobado em sua direção. O homem que acompanhava o piloto abriu a porta do aparelho sem nem parar o motor. Mal Zeca Diabo teve tempo de subir e o pi- loto, tão apavorado quanto ele, manobrou na pista para decolar de novo às pressas. Zeca Diabo nunca mais tentou voltar à nossa casa, nem aliás nenhum outro garimpeiro depois dele! Durante toda essa época da invasão dos garimpeiros, eu não conseguia mais dormir direito. Sozinho no posto Demini, não parava de pensar nos nos- sos que eles tinham assassinado ou que estavam morrendo de malária.20 Não 12959 - A queda do céu.indd 348 8/10/15 12:31 PM
  • 351. 349 parava de pensar na floresta, que tinha ficado tão doente quanto os humanos. Meus pensamentos se seguiam um ao outro, a noite toda, sem trégua, até o amanhecer. Minha esposa e filhos dormiam ainda ao meu lado, tranquilos, quando eu via, afinal, despontar o dia, sem ter fechado os olhos. Eu me sentia muito agitado e o sono sempre fugia para longe de mim. E mesmo quando, às vezes, eu conseguia tirar uma soneca, nunca dormia em paz. Jovem xamã, fazia pouco tempo que eu tinha me tornado outro. Assim, quando sonhava, não parava de ver garimpeiros me atacando. Estavam furiosos porque eu queria tirá-los de nossa terra. Via-os indicando meu nome aos feiticeiros das cidades, os rezadores que, como os nossos xamãs, possuem espíritos perigosos.21 Para se vingarem, pediam a eles para me enfraquecer e me calar. Diziam: “Precisa- mos nos livrar desse Davi, que quer nos impedir de trabalhar na floresta! Ele sabe nossa língua e é nosso inimigo. Estamos cheios dele, está nos atrapalhan- do! Esses Yanomami são sujos e preguiçosos. Têm de desaparecer para poder- mos procurar ouro em paz! É preciso enfumaçá-los de epidemias!”. Então eu via os espíritos maléficos daqueles rezadores vindo de helicóptero em minha direção. Eles me ameaçavam e tentavam me matar. O Exército também estava contra nós naquela época. Queria retalhar nossa terra em pedaços para deixar entrar os garimpeiros.22 Então via as imagens de espíritos soldados, com seus chapéus de ferro e seus aviões de guerra, tentando me pegar para me trancafiar e me maltratar. Meus espíritos purusianari, porém, rechaçavam os agressores com valentia. Esses xapiri são as imagens de guerreiros muito valentes, que também possuem armas de brancos.23 Eles desciam em meu sonho para com- bater os espíritos soldados. Arrancavam seus caminhos para carregá-los para o peito do céu. Depois os cortavam de repente e todos despencavam no vazio. Os espíritos que os rezadores possuem se parecem com nossos xapiri, mas são outros. Não são, como os nossos, imagens de verdadeiros seres maléficos da floresta ávidos de carne humana, como as do gavião Koimari, da onça Ira- mari e do sol Moth okari. Tampouco são imagens de ancestrais animais. São mais fracos e se parecem com brancos, com roupas e óculos. Estão armados de facas, espingardas e revólveres. É com essas armas que nos combatem. Eles também são capazes de fazer suas vítimas perderem o juízo ou adoecerem. No entanto, os rezadores só fazem suas rezas para enviar esses espíritos em troca de dinheiro. Nós não fazemos dançar nossos xapiri por dinheiro! Nós os cha- mamos, sem contrapartida, para proteger nossas crianças e nossa floresta. Os 12959 - A queda do céu.indd 349 8/10/15 12:31 PM
  • 352. 350 rezadores dizem, na sua língua, que podem “estragar outra pessoa”. Foi o que tentaram fazer comigo. Enviaram seus espíritos para me machucar e me fazer cair na vertigem. Se tivessem conseguido, minha imagem, enfraquecida e de- sorientada, teria despencado das alturas do céu para se espatifar no chão. Mas não deu certo, meus xapiri estavam atentos e guerrearam com bravura contra seus seres maléficos. Por mais que tentassem me atingir e me fazer perder a coragem, os rezadores nunca conseguiram. Eram fracos demais para resistir à potência de meus espíritos, que, sempre alertas, os repeliam rapidamente. En- quanto meu corpo estava cá embaixo no sono, meus xapiri armavam tocaia em inumeráveis caminhos e cuidavam de minha imagem nas alturas do céu. Assim que os espíritos dos rezadores tentavam se aproximar, atacavam-nos de sur- presa e os derrotavam num instante. Os espíritos da vertigem mõeri os desen- caminhavam, depois os espíritos lua os queimavam com seus fogos, enquanto os espíritos do dono do algodão finalmente os esfolavam vivos. Bem no começo, quando eu ainda não conhecia os malfeitos dos rezadores, seus espíritos maus até conseguiram me confinar numa espécie de prisão, como se fossem policiais. Foram os xapiri dos xamãs mais antigos de nossa casa que conseguiram me libertar e depois me vingar. Seus espíritos gavião koimari es- trangularam os dos rezadores com ataduras de algodão em brasa, enquanto seus espíritos sucuri os sodomizavam para explodir suas entranhas. E por fim os prenderam num tecido de metal que a imagem de Omama lhes tinha dado para me proteger.24 Era uma espécie de roupa muito pesada que os xapiri vestem em suas vítimas pela cabeça. Nenhuma chave pode abri-la e ela não tem nenhu- ma abertura. Cola na pele, e nunca mais é possível se livrar dela. Assim, os es- píritos dos rezadores, aterrorizados, acabaram fugindo para longe de mim. Po- rém voltaram, muitas vezes, para me atacar durante o sono. Não me davam trégua naquela época! Por causa deles, eu me sentia mal com frequência. Faziam tudo o que podiam para me assustar e me acovardar. Queriam mesmo desen- caminhar meu pensamento e me tornar medroso, para me calar. Os brancos dizem que em suas cidades há muitos desses rezadores, e que são potentes. O primeiro que vi foi em Boa Vista. Alguém o apontou, de longe, me dizendo que ele, como eu, era xamã. E acabei encontrando um outro ho- mem que, esse, se gabava de sê-lo. Era um antigo garimpeiro que tinha sido contratado pela Funai para fazer consertos no posto Demini. Certo dia, duran- te a sua folga, veio visitar nossa casa de Watoriki. De repente, enquanto olhava 12959 - A queda do céu.indd 350 8/10/15 12:31 PM
  • 353. 351 meu sogro fazendo dançar seus xapiri, declarou-me: “Eu também sei curar, como ele. Sou um rezador!”. Depois disso, voltou a se gabar do mesmo modo diversas vezes. Então, um dia acabei respondendo: “Eu gostaria de ver como você chama os seus espíritos para curar os brancos! Pois nós não fazemos rezas com os olhos fitando peles de papel. Tornamo-nos nós mesmos xapiri, beben- do o pó de yãkoana. Experimente!”. Desconfiado, ele hesitou, mas apesar dis- so aproximou o nariz para receber o pó. Soprei um pouco em suas narinas. Aí ele ficou com medo logo, pois o poder da yãkoana é de fato muito forte. Co- meçou a tremer e cambalear em nossa casa. Por pouco não despencou no chão. De repente, saiu correndo para o posto, gemendo. Com tão pouco pó ele já estava em estado de fantasma! O tal rezador não era xamã, não passava de um branco mentiroso qualquer. Nós xamãs não vemos os xapiri com o nariz sem gosto25 e sem que nossos olhos morram com a yãkoana! Cantarolando de olhos fechados, como esses brancos, não se vê nada! Naquela época, os brancos tinham acabado de matar Chico Mendes, que também defendia a floresta contra os fazendeiros.26 Então, fiquei precavido. Eu sabia que os garimpeiros, os que eu tinha expulsado da nossa floresta e todos os outros a quem tivessem falado de mim, me detestavam. Tinham dito meu nome em todos os cantos de Boa Vista. Eu costumava cruzar seus olhares hos- tis na rua. Via que eram olhos de inimigos mesmo e entendia o quanto teriam gostado de me fazer sumir. Eu evitava ir à cidade, porque achava que acabariam me matando. Quando tinha de ir, nunca andava sozinho e não me demorava. Só dormia na casa de meus amigos da ccpy. Zeca Diabo, aquele que eu tinha mandado embora de Demini pintado de preto, esse passou muito tempo me procurando para se vingar! Mas nunca conseguiu me pegar de surpresa e, ape- sar de sua raiva, deve ter acabado por se cansar. Se eu não fosse tão atento, já não estaria mais vivo há tempos! Outros garimpeiros até me ameaçaram em plena rua: “Não adianta se esconder, vamos encontrá-lo quando estiver sozinho e vamos matá-lo! Estamos cheios de você não nos deixar trabalhar no mato!”. Então, respondi com raiva: “Vocês pensam mesmo que os Yanomami são co- vardes? Para nós, vocês não passam de ladrões de terra. Se vocês são mesmo valentes, não fiquem apenas me ameaçando quando estou sozinho na cidade. Venham então me matar bem no meio da minha casa. Que todos os meus pa- 12959 - A queda do céu.indd 351 8/10/15 12:31 PM
  • 354. 352 rentes e os xapiri possam vê-los e ouvi-los! Não fiquem se achando corajosos só porque exibem espingardas e revólveres para nada! Se nos odeiam tanto e querem mesmo nos eliminar, não fiquem apenas bravateando comigo! Venham matar todos os Yanomami, até o último, com suas mulheres e filhos! Queimem todas as nossas casas com suas bombas! Caso contrário, parem de falar à toa como covardes e vão embora!”. De modo que eu presumia que um dia os garimpeiros viriam me matar na minha casa, na floresta. Naquele tempo, eu vivia no posto da Funai de De- mini, com minha mulher e meus filhos. Os nossos moravam perto dali, na grande casa de Watoriki. À noite, eu costumava me perguntar se os brancos não estariam chegando para arrombar a porta do posto e acabar comigo. Nun- ca dormia em paz, permanecia sempre alerta. Estava apreensivo pelos meus, mas não tinha realmente medo. Senão, teria me escondido bem longe na flo- resta, para que ninguém pudesse me encontrar! Apenas pensava que, se viesse a morrer, viveria de novo como um fantasma nas costas do céu, sem mais tormento. Além disso, eu sabia que meus xapiri não parariam de dançar em volta de meus ossos, que, mesmo queimados e socados, continuariam valendo para eles mais do que ouro. Sabia, também, que me vingariam dos brancos que tivessem me assassinado. Porém, ao final, os garimpeiros nunca ousaram vir me matar durante o meu sono. O espírito do antigo ser fantasma Porepatari deve tê-los feito desistir de se aventurar na floresta à noite!27 É perigoso se opor aos garimpeiros. Eles são muitos e todos carregam facas, espingardas e revólveres. Também têm dinamite, aviões, helicópteros e rádios. Nós só temos nossos arcos e flechas. Porém, apesar disso, eu nunca vou mudar de opinião, continuarei sempre lutando contra eles! E continuarei a fazê-lo mesmo morto, por intermédio de meus xapiri órfãos! Por isso eu repli- cava aos garimpeiros que me ameaçavam com palavras duras: “Quando vocês tiverem me matado e estiverem em estado de homicida õnokae, o espírito Ka- makari vai devorar seus olhos e deixá-los cegos.28 Seus intestinos vão se decom- por e eu não morrerei sozinho! Não pensem que o seu sopro de vida é mais longo do que o dos habitantes da floresta! Só o das pedras não tem fim. Eu não tenho medo de morrer. Só me atormenta a morte de nossas crianças, que suas epidemias devoram. Mas vocês também deveriam ficar preocupados! Se ma- tarem todos os xamãs, seus espíritos maléficos atacarão seus parentes também e vocês nada poderão fazer. Seus médicos desconhecem o poder da yãkoana e 12959 - A queda do céu.indd 352 8/10/15 12:31 PM
  • 355. 353 a ira dos xapiri. Trabalharão à toa e vocês vão chorar tanto quanto nós estamos chorando agora!”. Quando os primeiros garimpeiros chegaram para procurar ouro nos iga- rapés da floresta, eram poucos e as gentes das terras altas nada sabiam sobre eles. Viviam muito longe dos brancos e possuíam apenas algumas lâminas de faca e de machado quebradas. Sentiam falta dessas coisas dos brancos. Foi isso que as levou a receber os garimpeiros sem desconfiança. O desejo pelas merca- dorias e alimentos dos forasteiros encolheu seus espíritos. Não pensaram em nada mais. Foi assim que os garimpeiros conseguiram enganá-las e matá-las quase todas antes mesmo de poderem reagir. Se tivessem sabido o que aqueles brancos iam fazer, nunca teriam deixado que se aproximassem daquele jeito! É o que penso. Aconteceu como há muito tempo, em Toototobi, na minha infân- cia. Os homens das casas das terras altas ficaram contentes com a vinda dos recém-chegados. Por falta de conhecimento, pensaram: “Talvez esses estrangei- ros não sejam maus! Sabem ser generosos!”. Então começaram a trocar com eles cachos de bananas por arroz e farinha de mandioca. Depois tomaram gosto pelos alimentos dos brancos e ficaram cada vez mais preguiçosos. Os rapazes pararam de carregar flechas e depois até de fabricá-las. Então os garimpeiros começaram a alimentá-los com seus restos. Os jovens não se deram conta de que os napë zombavam deles e os chamavam de urubus e de cães. Todos para- ram de caçar e, pouco a pouco, foram parando também de cuidar das roças. Ficaram animados com a ideia de que a comida dos brancos nunca lhes faltaria: “Esses forasteiros não são sovinas! Seu arroz e sua carne em estojo de metal são deliciosos. Vejam todos os alimentos que descem sem parar de seus aviões! Não seria bom se eles se instalassem perto de nós e continuassem a nos alimentar assim?”. Seu pensamento se tornou obscuro diante da beleza das grandes redes de algodão, das panelas de metal e das espingardas novas dos brancos. Nem prestavam mais atenção nos próprios filhos e deixaram os garimpeiros pegarem suas mulheres. Seu pensamento passava o dia todo tomado só pela palavra das mercadorias. Não paravam de pedir, em língua de fantasma: “Quero uma faca, um facão, uma bermuda, sandálias, cartuchos, biscoitos, sardinhas!”. Suas an- tigas palavras sobre a floresta e as roças encolheram em suas mentes até silen- ciarem. Nunca mais se ouviu eles dizerem: “Amanhã, ao nascer do sol, vamos 12959 - A queda do céu.indd 353 8/10/15 12:31 PM
  • 356. 354 flechar guaribas! Vamos às roças, plantar brotos de bananeira!”. Pouco a pouco, viravam outros e dava dó ouvi-los. Vê-los secava o pensamento.29 Depois, de repente, todos foram pegos pela doença da fumaça do ouro. Esfomeados e ar- dendo em febre, começaram a morrer um depois do outro. As mulheres novas foram ficando cada vez menos numerosas. Logo não havia mais crianças nem velhos nas casas vazias e frias. Os poucos sobreviventes estavam descarnados e cobertos de impetigo. Só então começaram a se preocupar com a chegada dos garimpeiros! Foi nesse estado que encontrei as gentes do Hero u quando fui buscar os cadáveres de seus grandes homens enterrados pelos garimpeiros. Sou filho dos antigos que Omama criou na floresta no primeiro tempo. Ver tudo o que vi nas terras altas me deixou com muita raiva mesmo. Fiquei arrasado ao ver os meus morrendo assim por causa do seu desconhecimento dos brancos, sem saber se defender. Por isso comecei a viajar para terras distantes para falar contra os garimpeiros e suas fumaças de epidemia. Se a floresta e os Yanomami não estivessem morrendo desse jeito, eu jamais teria feito todas essas viagens! Teria ficado sossegado em minha casa de Watoriki, junto aos meus familiares. Os brancos talvez pensem que pararíamos de defender nossa floresta caso nos dessem montanhas de suas mercadorias. Estão enganados. Desejar suas coisas tanto quanto eles só serviria para emaranhar nosso pensamento. Perde- ríamos nossas próprias palavras e isso nos levaria à morte. Foi o que sempre ocorreu, desde que nossos antigos cobiçaram as suas ferramentas pela primei- ra vez, há muito tempo. Essa é a verdade. Recusamo-nos a deixar que destruam nossa floresta porque foi Omama que nos fez vir à existência. Queremos apenas continuar vivendo nela do nosso jeito, como fizeram nossos ancestrais antes de nós. Não queremos que ela morra, coberta de feridas e dejetos dos brancos. Ficamos com raiva quando eles queimam árvores, rasgam a terra e sujam os rios. Ficamos com raiva quando nossas mulheres, filhos e idosos morrem sem parar de fumaça de epidemia. Não somos inimigos dos brancos. Mas não que- remos que venham trabalhar em nossa floresta porque não têm como nos com- pensar o valor do que aqui destroem. É o que penso. Eu não sei fazer contas como eles. Sei apenas que a terra é mais sólida do que nossa vida e que não morre. Sei também que ela nos faz comer e viver. Não é o ouro, nem as mercadorias, que faz crescer as plantas que nos alimentam e 12959 - A queda do céu.indd 354 8/10/15 12:31 PM
  • 357. 355 que engordam as presas que caçamos! Por isso digo que o valor de nossa flo- resta é muito alto e muito pesado.30 Todas as mercadorias dos brancos jamais serão suficientes em troca de todas as suas árvores, frutos, animais e peixes. As peles de papel de seu dinheiro nunca bastarão para compensar o valor de suas árvores queimadas, de seu solo ressequido e de suas águas emporcalhadas. Nada disso jamais poderá ressarcir o valor dos jacarés mortos e dos queixadas desaparecidos. Os rios são caros demais e nada pode pagar o valor dos animais de caça. Tudo o que cresce e se desloca na floresta ou sob as águas e também todos os xapiri e os humanos têm um valor importante demais para todas as mercadorias e o dinheiro dos brancos. Nada é forte o bastante para poder res- tituir o valor da floresta doente. Nenhuma mercadoria poderá comprar todos os Yanomami devorados pelas fumaças de epidemia. Nenhum dinheiro pode- rá devolver aos espíritos o valor de seus pais mortos! É por isso que devemos nos recusar a entregar nossa floresta. Não quere- mos que se torne uma terra nua e árida cortada por córregos lamacentos. Seu valor é alto demais para ser comprada por quem quer que seja. Omama disse a nossos ancestrais para viverem nela, comendo seus frutos e seus animais, bebendo a água de seus rios. Nunca disse a eles para trocarem a floresta e os rios por mercadoria ou dinheiro! Nunca os ensinou a mendigar arroz, peixe em lata de ferro ou cartuchos! O sopro de nossa vida vale muito mais! Para saber disso, não preciso ficar com os olhos cravados em peles de imagens, como fazem os brancos. Basta-me beber yãkoana e sonhar escutando a voz da flores- ta e os cantos dos xapiri. 12959 - A queda do céu.indd 355 8/10/15 12:31 PM
  • 358. 16. O ouro canibal Xawara: a fumaça do metal. 12959 - A queda do céu.indd 356 8/10/15 12:31 PM
  • 359. 357 Os brancos não entendem que, ao arrancar minérios da terra, eles espalham um veneno que invade o mundo e que, desse modo, ele acabará morrendo. Davi Kopenawa BBC Wildlife, 5 maio 1990 As coisas que os brancos extraem das profundezas da terra com tanta avidez, os minérios e o petróleo,1 não são alimentos. São coisas maléficas e perigosas, impregnadas de tosses e febres,2 que só Omama conhecia. Ele porém decidiu, no começo, escondê-las sob o chão da floresta para que não nos dei- xassem doentes. Quis que ninguém pudesse tirá-las da terra, para nos proteger. Por isso devem ser mantidas onde ele as deixou enterradas desde sempre. A floresta é a carne e a pele de nossa terra, que é o dorso do antigo céu Hutukara caído no primeiro tempo.3 O metal que Omama ocultou nela é seu esqueleto, que ela envolve de frescor úmido. São essas as palavras dos nossos espíritos, que os brancos desconhecem. Eles já possuem mercadorias mais do que sufi- cientes. Apesar disso, continuam cavando o solo sem trégua, como tatus-ca- nastra. Não acham que, fazendo isso, serão tão contaminados quanto nós so- mos. Estão enganados. Muitas vezes pensei, durante a noite, nessas coisas debaixo da terra que os brancos cobiçam tanto. Perguntava a mim mesmo: “Como teriam vindo a existir? De que são feitas?”. Por fim, os xapiri me permitiram ver sua origem no tempo do sonho. O que os brancos chamam de “minério” são as lascas do céu, da lua, do sol e das estrelas que caíram no primeiro tempo.4 Por isso nossos antigos sempre nomearam o metal brilhante mareaxi ou xitikarixi, que é também o nome das estrelas.5 Esse metal debaixo da terra vem do an- tigo céu Hutukara que desabou antigamente sobre os nossos ancestrais.6 Tor- nado fantasma durante o sono, eu também vi os brancos trabalhando com esses minérios. Arrancavam e raspavam grandes blocos deles, com suas má- quinas, para fazer panelas e utensílios de metal. Porém, não pareciam se dar conta de que esses fragmentos de céu antigo são perigosos. Ignoravam que sai deles uma fumaça de metal densa e amarelada, uma fumaça de epidemia tão poderosa que se lança como uma arma para matar os que dela se aproxi- mam e a respiram. 12959 - A queda do céu.indd 357 8/10/15 12:31 PM
  • 360. 358 Penso que na verdade não foi Omama que criou esse metal.7 Encontrou-o no solo e com ele escorou a nova terra que acabara de criar, antes de cobri-la com árvores e espalhar os animais de caça pela floresta. Ao descobri-lo, pensou que os humanos poderiam utilizá-lo para abrir suas roças com menos trabalho. Contudo, por precaução, só deixou a nossos ancestrais alguns fragmentos de- le depois de torná-los inofensivos. Com eles puderam fabricar machadinhas. Omama ocultou sua parte mais dura e maléfica no frescor da terra, debaixo dos rios. Temia que seu irmão Yoasi fizesse mau uso dele. De modo que deu a nossos ancestrais o metal menos nocivo, mas também o menos resistente. Dis- se a eles: “Tomem esses poucos pedaços para trabalhar em suas roças e não desejem mais! Guardarei o restante, que é perigoso! Ele agora pertencerá aos espíritos!”. Esse outro metal, o de Omama, muito pesado e ardente, é o verda- deiro metal. É o mais sólido, mas também o mais temível. Se ele não o tivesse ocultado desse modo, Yoasi, sempre desastrado, logo teria revelado sua exis- tência a todos e desse modo a floresta já teria sido destruída por completo há muito tempo! Porém, apesar da prudência de Omama, Yoasi conseguiu assim mesmo fazer chegar a notícia da existência desse metal aos ancestrais dos brancos. Por isso eles acabaram por atravessar as águas para vir à sua procura na terra do Brasil. Não é à toa que os brancos querem hoje escavar o chão de nossa flores- ta. Eles não sabem, mas as palavras de Yoasi, o criador da morte, estão neles. Assim é. Os garimpeiros são filhos e genros de Yoasi. Tornados seres maléficos, esses brancos só fazem seguir seus passos. São comedores de terra cheios de fumaças de epidemia. Acham-se todo-poderosos mas seu pensamento é cheio de escuridão. Eles não sabem que Yoasi colocou também a morte nesses miné- rios que tanto buscam. Omama os escondeu para que o choro do luto não nos atormentasse sem trégua. Ao contrário, deu-nos os xapiri, para podermos nos 12959 - A queda do céu.indd 358 8/10/15 12:31 PM
  • 361. 359 curar. Nós somos seus genros e filhos. É por isso que tememos arrancar essas coisas ruins da terra. Preferimos caçar e abrir roças na floresta, como ele nos ensinou, em vez de cavar seu solo como tatus e queixadas! Com suas máquinas, os garimpeiros só conseguiram até agora sugar pó de ouro do fundo dos rios. Mas esses são apenas os filhos do metal. Os brancos ainda não conhecem o pai do ouro,8 que está escondido bem mais fundo, no centro das terras altas, onde Omama veio à existência. Sem que o saibam, é esse verdadeiro metal de Omama que os garimpeiros querem atingir. Vi-os muitas vezes em sonho destruir a floresta toda à sua procura. Ficam seguindo a pista de seus destroços em todas as direções. Mas é sempre em vão, porque Omama o soterrou no mais fundo da terra e os xapiri ficam desviando a atenção deles. As- sim que se aproximam, os espíritos da vertigem mõeri os desorientam e os espí- ritos tatu-canastra os envolvem numa fumaça impenetrável. Omama enterrou esse metal junto ao ser do caos Xiwãripo. Cercado por espíritos do vendaval Yariporari, está também sob a guarda dos espíritos guerreiros napënapëri dos ancestrais brancos. Se os brancos de hoje conseguirem arrancá-lo com suas bom- bas e grandes máquinas, do mesmo modo que abriram a estrada em nossa flo- resta, a terra se rasgará e todos os seus habitantes cairão no mundo de baixo. Esse metal das profundezas é tão duro que pode cortar pedras sem se estragar. Os outros minérios, como o ouro, a cassiterita ou até o ferro, estão mais próximos da superfície do solo, por isso são mais frágeis. As lâminas de faca perdem o corte e as de machado se quebram. As panelas furam e ficam amassadas. É por isso que os brancos ficam procurando sem trégua esse metal verdadeiro, que não se deteriora. Eles ainda não estão satisfeitos com as mer- cadorias e máquinas fabricadas até o momento com os minérios que conse- guiram arrancar do solo. Agora querem possuir objetos que não envelhecem e jamais se degradam. Porém, tudo isso vai acabar mal, pois, como eu disse, essas coisas do fundo da terra são muito perigosas. Se os brancos um dia che- gassem até o metal de Omama, a poderosa fumaça amarelada de seu sopro se espalharia por toda parte, como um veneno tão mortal quanto o que eles chamam de bomba atômica. Os minérios ficam guardados no frescor do solo, debaixo da terra, da flo- resta e de suas águas. Estão cobertos por grandes rochas duras, pedregulhos 12959 - A queda do céu.indd 359 8/10/15 12:31 PM
  • 362. 360 ocos, pedras brilhantes, cascalho e areia. Tudo isso contém seu calor, como uma geladeira de vacinas. Já disse: essas coisas caídas do primeiro céu são muito quentes. Se forem todas postas a descoberto, incendiarão a terra. Esfriando no solo elas só exalam um sopro invisível, que se propaga por suas profundezas como uma brisa úmida. Mas quando a floresta se aquece sob o sol, esse sopro pode se tornar perigoso. É por isso que deve permanecer preso no frio do solo, onde as pedras e a areia, como uma tampa de panela, retêm seu vapor maléfico e o impedem de se espalhar. Não foi portanto à toa que Omama soterrou o ferro, o ouro, a cassiterita e o urânio,9 deixando acima do solo só nossos alimentos. Assim guardados pelo frio dos seres da terra que chamamos maxitari e do ser maléfico do tempo chuvoso, Ruëri, os minérios não representam perigo. Mas se os brancos os arrancarem todos do solo, afugentarão o vento fresco da floresta e queimarão seus habitantes com sua fumaça de epidemia. Nem as árvores, nem os rios, nem mesmo os xapiri poderão conter seu calor. Então, ao ficar sem peixes para comer e sem néctar de flores para beber, o ser sol Moth okari, que é também um ser onça, descerá à terra, enfurecido, para devorar os humanos como se fossem macacos moqueados. Depois, mais tarde, quando os brancos tiverem acabado de extrair todos os minérios, seu calor irá se dissipar e a terra se resfriará pou- co a pouco, pois são eles que aquecem suas profundezas. A lâmina dos macha- dos não fica mesmo ardente sob o sol? Assim é. De dia, o sol é muito forte e não deixa o frio do ceú descer à terra. De noite, é o calor que ficou no metal da terra que o empurra para as alturas. Onde o solo é muito quente, é porque no mais fundo dele há pedras e metais. Onde o solo é vazio, faz muito frio, as nuvens são baixas e quase não se vê o sol. Deve ser o caso das terras distantes de onde os ancestrais dos brancos já extraíram todo o minério. Omama escondeu seu metal lá no meio dos morros das terras altas, onde também fez jorrar os rios. É de lá que surgem os ventos e o frescor da floresta. É de lá que vem sua fertilidade. Quando fazemos dançar a imagem desse pai dos minérios, ela se apresenta a nós como uma montanha de ferro subterrânea, cheia de imensas hastes fincadas em todos os lados. Omama a colocou nas profundezas do solo para manter a terra no lugar e impedir que a ira dos trovões e dos raios a faça tremer e a desloque. Cravou-a lá como nós fazemos com os 12959 - A queda do céu.indd 360 8/10/15 12:31 PM
  • 363. 361 postes de nossas casas, para que elas não balancem durante as tempestades. Assim, esse ferro está enfiado na terra como as raízes das árvores. Ele a mantém firme como espinhas fazem com a carne dos peixes e esqueletos com a de nos- so corpo. Torna-a estável e sólida, como nosso pescoço faz nossa cabeça ficar reta. Sem essas raízes de metal, ela começaria a balançar e acabaria desabando sob nossos pés. Isso não acontece em nossa floresta, pois ela está no centro da terra, onde esse metal de Omama está soterrado. No entanto, entre os brancos, em seus confins, onde o solo é mais friável, acontece às vezes de ela tremer e se romper, destruindo cidades. Se os brancos começarem a arrancar o pai do metal das profundezas do chão com seus grandes tratores, como espíritos de tatu-canastra,10 logo só res- tarão pedras, cascalho e areia. Ele ficará cada vez mais frágil e acabaremos todos caindo para debaixo da terra. É o que vai ocorrer se atingirem o lugar em que mora Xiwãripo, o ser do caos, que, no primeiro tempo, transformou nossos ancestrais em forasteiros.11 O solo, que não é nada grosso, vai começar a rachar. A chuva não vai mais parar de cair e as águas vão começar a transbordar de suas rachaduras. Então, muitos de nós serão lançados à escuridão do mundo subter- râneo e se afogarão nas águas de seu grande rio, Moto uri u. Escavando tanto, os brancos vão acabar até arrancando as raízes do céu, que também são susten- tadas pelo metal de Omama. Então ele vai se romper novamente e seremos aniquilados, até o último. Esses pensamentos me atormentam muito. Por isso levo em mim as palavras de Omama para defender nossa floresta. Os brancos não pensam nessas coisas. Se o fizessem, não arrancariam da terra tudo o que podem, sem se preocupar. É para acabar com isso que quero fazer com que eles ouçam as palavras que os xapiri me deram no tempo do sonho. Meu sogro é um grande xamã, como eu disse. É muito sábio. Ninguém tem mais conhecimento do que ele em Watoriki. Foi ele o primeiro a ver a imagem do metal de Omama e a fazê-la descer. Desde então, os demais xamãs de nossa casa também a fazem dançar. No meu caso, foi primeiro no sonho que vi o pai do ouro e dos outros minérios. Aconteceu quando, doente de malária, ardendo em febre e tornado fantasma, minha imagem foi levada pelo espírito da terra, Maxitari, até o mais profundo do mundo subterrâneo. É por essa razão que posso falar disso! A imagem do pai do ouro é gigantesca e impregnada de fu- 12959 - A queda do céu.indd 361 8/10/15 12:31 PM
  • 364. 362 maça de epidemia. Trata-se de um ser maléfico assustador e feroz, capaz de nos cortar a garganta, de dilacerar nossos pulmões e de secar nosso sangue. Os brancos têm de saber disso e desistir de se apoderar do metal de Omama. Talvez seja o mais belo e o mais sólido que eles possam encontrar para fabricar suas máquinas e mercadorias, mas é perigoso demais para os humanos. Para nossos maiores, o ouro não passava de pontinhos brilhantes na areia dos rios, como o que chamamos mõhere.12 Coletavam-no para fabricar uma substância de feitiçaria com a qual cegavam as pessoas com quem estavam bravos. Antigamente, esse pó de metal13 era muito temido. Hoje, os rapazes não sabem mais para que serve. Há muito dele no igarapé perto de nossa casa, mas ninguém ousa tocá-lo, com medo de perder a visão. Meu sogro, que é um homem dos tempos antigos, chama-o hipërea,14 o pó que cega. Ele também faz descer a imagem do pai de seu metal, Hipëreri, que vem de debaixo da terra. É por isso que chamamos os fragmentos de metal brilhante que os garimpeiros tiram do leito dos rios oru hipëre a, o pó de cegueira do ouro. Quando os bran- cos arrancam os minérios da terra, trituram-nos com suas máquinas e depois os aquecem em suas fábricas. Ele então exala uma poeira fina, que se propaga como uma brisa invisível em suas cidades. É uma coisa de feitiçaria perigosa, que entra nos olhos e vai estragando a vista. Por isso tantas crianças dos bran- cos são obrigadas a prender os olhos atrás de cacos de vidro para ler seus de- senhos de escrita! As palavras da imagem de Omama nos ensinam a recear o ouro e os de- mais minérios. Trata-se de coisas maléficas desconhecidas e temíveis, que só provocam doença e morte. O ouro, quando ainda é como uma pedra, é um ser vivo. Só morre quando é derretido no fogo, quando seu sangue evapora nas grandes panelas das fábricas dos brancos. Aí, ao morrer, deixa escapar o peri- goso calor de seu sopro,15 que chamamos de oru a wakixi, a fumaça do ouro. Ocorre o mesmo com todos os minérios, quando são queimados. É por isso que a fumaça dos metais, do óleo dos motores, das ferramentas, das panelas e de todos os objetos que os brancos fabricam se misturam e se espalham por suas cidades. Esses vapores, quentes, densos e amarelados como gasolina, co- lam no cabelo e nas roupas. Entram nos olhos e invadem o peito. É um veneno que suja o corpo dos brancos das cidades, sem que o saibam. Depois, toda essa 12959 - A queda do céu.indd 362 8/10/15 12:31 PM
  • 365. 363 fumaça maléfica flui para longe e, quando chega até a floresta, rasga nossas gargantas e devora nossos pulmões. Queima-nos com sua febre e nos faz tossir sem trégua, e vai nos enfraquecendo, até nos matar. Antigamente, pensávamos que chegava até nós sem motivo, ao acaso. Mais tarde, porém, nossos espíritos xapiri viajaram até as remotas terras dos brancos. Lá viram todas as suas fábri- cas e nos trouxeram palavras delas. Agora sabemos de onde provém essa fumaça maléfica. É a fumaça do metal, que também chamamos de fumaça dos minérios. São todas a mesma fumaça de epidemia xawara,16 que é nossa verdadeira inimiga. Omama enter- rou os minérios para que ficassem debaixo da terra e não pudessem nunca nos contaminar. Foi uma decisão sábia e nenhum de nós jamais teve a ideia de cavar o solo para tirá-los da escuridão! Essas coisas maléficas permaneciam bem enterradas, e nossos maiores não ficavam doentes o tempo todo, como ficamos hoje. Todavia, os brancos, tomados por seu desconhecimento, puse- ram-se a arrancar os minérios do solo com avidez, para cozê-los em suas fá- bricas. Não sabem que, fazendo isso, liberam o vapor maléfico de seu sopro. Este sobe então para todas as direções do céu, até chocar-se com seu peito. Depois volta a cair sobre os humanos, e é assim que acaba nos deixando doen- tes. Seu veneno é terrível. Não sabemos o que fazer para resistir a ele. É por isso que ficamos tão aflitos. Apesar de toda essa fumaça de epidemia não estar ainda tão alta acima de nossa terra, espalha-se e acumula-se sem parar. Já se alastra por toda parte nas cidades em que se encontram as fábricas dos bran- cos.17 Agora, os garimpeiros estão empesteando a floresta com os gases de seus motores e os vapores do ouro e do mercúrio que eles queimam juntos.18 De- pois, antes de venderem seu ouro na cidade, guardam-no em caixas de ferro que, aquecidas pelo sol, também exalam eflúvios ruins. Depositam no solo sacos cheios de cassiterita, que também disseminam fumo de doença. Então, todas essas fumaças, levadas pelo vento, caem sobre a floresta e sobre nós. Tudo isso se mistura, para se tornar uma única epidemia xawara, que disse- mina por toda parte febre, tosse e outras doenças desconhecidas e ferozes que devoram nossas carnes. Essa xawara que invade a floresta inteira vai fazer de nós tatus esfumaçados para saírem da toca! Se o pensamento dos brancos não mudar de rumo, tememos morrer todos antes de eles mesmos acabarem se envenenando com ela! 12959 - A queda do céu.indd 363 8/10/15 12:31 PM
  • 366. 364 Quando essa fumaça densa e pegajosa nos atinge pela primeira vez, é muito perigosa para nossas crianças, nossas mulheres e nossos idosos. Eles têm uma carne que ainda desconhece sua força maléfica e, assim, ela consegue matá-los quase todos de uma vez. Foi o que aconteceu com meus parentes, no passado, com a epidemia de sarampo de Toototobi, aquela que por pouco não matou a mim também!19 Agora, é a malária dos garimpos, também muito agressiva, que tememos. Assim é. O sopro vital dos habitantes da floresta é frágil diante dessas fumaças de xawara. Leva muito tempo até que nossa car- ne aprenda a endurecer e a resistir a elas. Mas não é à toa. Nossos antigos ja- mais tinham respirado esses eflúvios de morte. Seu corpo tinha permanecido frio na floresta das terras altas. Quando essas fumaças surgiram, não tiveram forças para se defender. Todos arderam em febre e logo ficaram como fantas- mas. Faleceram rapidamente, em grande número, como peixes na pesca com timbó. Foi assim que os primeiros brancos fizeram desaparecer quase todos os nossos antigos. Antigamente, nossos avós também detinham coisas de feitiçaria, como folhas oko xi, hayakoari e parapara hi, que usavam para enviar fumaças de epidemia famintas de carne humana sobre seus inimigos.20 Essas plantas eram temidas e poderiam ter dizimado também os brancos se tivessem queimado no meio de suas cidades! Nossos maiores partiam com essas plantas em expedições secretas de feiticeiros oka e as jogavam no fogo perto das casas que queriam contaminar. Assim que a fumaça caía sobre seus habitantes, eles não demora- vam a morrer, um atrás do outro. Essas fumaças de xawara eram mesmo mui- to temíveis! A da planta oko xi, que pertencia às mulheres velhas, por exemplo, atingia primeiro os homens mais vigorosos, antes de liquidar em seguida as moças mais belas. Só escapavam dela alguns velhos e adultos descarnados. Foi 12959 - A queda do céu.indd 364 8/10/15 12:31 PM
  • 367. 365 o que ouvi contar quando era criança. Os maiores não nos deixaram essas plantas de feitiçaria. Elas se perderam. Não sabemos mais usá-las. Se assim não fosse, eu diria: “É verdade, possuímos plantas ruins que um dia servirão para nos vingar daqueles que nos mataram!”. Mas não temos mais nada disso. Ape- nas ouvimos falar quando éramos novos. Em compensação, o que conhecemos bem, desde a infância, são as fumaças de epidemia dos brancos que devoraram todos os nossos parentes! Outrora, antes da chegada da estrada e dos garimpeiros, foram os brancos dos rios21 que primeiro fizeram queimar epidemias xawara contra nossos an- tigos. Por raiva, faziam explodir nos ares ou esquentavam em caixas de metal coisas desconhecidas que logo propagavam uma fumaça de morte. Agora, porém, não é mais assim. Os brancos espalham suas fumaças de epidemia por toda a floresta à toa, sem se dar conta de nada, só arrancando o ouro e os ou- tros minérios da terra. Os vapores que saem desses metais são tão fortes e perigosos que até a fumaça da cremação dos ossos de suas vítimas é envene- nada. Assim, as poucas pessoas que sobrevivem a uma epidemia também mor- rem logo depois de respirar essa fumaça. Mas não somos só nós que sofremos dessa doença do minério. Os brancos também são contaminados e no fim ela os come tanto quanto a nós, pois a epidemia xawara, em sua hostilidade, não tem nenhuma preferência! Embora pensem morrer de uma doença comum, não é o caso. São atingidos, como nós, pela fumaça dos minérios e do petróleo escondidos por Omama debaixo da terra e das águas. Fazem-na jorrar por toda parte, ao extrair e manipular essas coisas ruins. Chamam isso de poluição. Mas para nós é sempre fumaça de epidemia xawara.22 Apesar de sofrerem também, eles não querem desistir. Seu pensamento está todo fechado. Só se importam em cozinhar o metal e o petróleo para fabricar suas mercadorias. Por isso a xawara consegue guerrear sem trégua contra humanos. São esses os dizeres de nossos antigos que, como meu sogro, são grandes xamãs. São as palavras dos xapiri que eles nos transmitem. São elas que eu gostaria que os brancos ouvissem. Hoje, esse mal cresce e se alastra por toda parte, e não paramos de morrer por sua causa. Em todos os lugares onde vivem brancos, a fumaça dos minérios aumenta. Antigamente, eles ficavam bem longe de nós, em suas cidades. Mas hoje se aproximaram e vamos ficando cada vez menos numerosos, pois suas fumaças de epidemia estão sempre nos rodeando. Nossos xapiri tentam incan- 12959 - A queda do céu.indd 365 8/10/15 12:31 PM
  • 368. 366 savelmente atacá-las e empurrá-las para longe da floresta, mas elas não param de voltar. Para nós, xamãs, é um grande tormento não conseguir repeli-las. Se elas nos matarem todos, ninguém poderá compensar o valor de tantas mortes. Nossos mortos são já muito mais numerosos no dorso do céu do que nós, vivos, na floresta. Nem o dinheiro nem as mercadorias dos brancos os farão descer de novo entre nós! E a floresta devastada tampouco poderá jamais ser curada, ficará ferida e doente para sempre. O que chamamos de xawara são o sarampo, a gripe, a malária, a tubercu- lose e todas as doenças de brancos que nos matam para devorar nossa carne. Gente comum só conhece delas os eflúvios que as propagam. Porém nós, xamãs, vemos também nelas a imagem dos espíritos da epidemia, que chamamos de xawarari. Esses seres maléficos se parecem com os brancos, com roupas, óculos e chapéus, mas estão envoltos numa fumaça densa e têm presas afiadas. Entre eles estão os seres da tosse, th okori, que rasgam as gargantas e os peitos,23 ou os seres da disenteria, xuukari, que devoram as entranhas,24 e também os seres do enjoo, tuhrenari, os da magreza, waitarori, e os da fraqueza, hayakorari. Eles não comem caça nem peixe. Só têm fome de gordura humana e sede de nosso san- gue, que bebem até secar. Para conseguirem chegar até nós, sabem escutar de longe a algazarra que sobe de nossas aldeias. Então se acercam de nossas casas durante a noite e penduram suas redes ao nosso lado sem que possamos vê-los. Aí, antes de começar a nos matar, fazem-nos beber um líquido gordurento que nos deixa fracos e doentes. Em seguida, buscam entre os nossos filhos os mais bonitos e mais gordi- nhos. Capturam-nos e os prendem em grandes sacos, para levá-los para casa. Às vezes cortam logo a garganta de alguns, enfiam-nos em espetos de ferro e os assam para comer ali mesmo. Então, se nossos xapiri não reagirem imedia- tamente para livrá-los, morrem. Depois disso, os xawarari atacam os idosos e as mulheres cujo sopro de vida é mais fraco. Começam por degolar um grupo inteiro com seus facões, depois descansam um pouco antes de voltar em bus- ca de novas presas. Vão assim juntando aos poucos grandes quantidades de cadáveres, para moqueá-los como se fossem caça. Só param a matança quan- do consideram que juntaram carne humana suficiente para satisfazer sua vo- racidade. 12959 - A queda do céu.indd 366 8/10/15 12:31 PM
  • 369. 367 Esses seres maléficos da epidemia são mesmo ferozes e gulosos! Assim que se apoderam das imagens de suas vítimas, decapitam-nas e despedaçam- -nas. Devoram em seguida seus corações e engolem seu sopro de vida. Dei- xam suas vísceras para os cães de caça que trazem consigo.25 Chupam a me- dula de seus ossos e os jogam para esses animais esfomeados, que os roem com estalos ruidosos. É por isso que a epidemia xawara nos faz sentir tanta dor na barriga, nos braços e nas pernas! Depois, os xawarari cozinham os corpos destrinchados de suas presas como um amontoado de macacos-aranha em grandes bacias de metal,26 borrifando-os com óleo escaldante. É isso que nos faz arder de febre! Uma vez cozidas, guardam essas carnes em grandes caixas de ferro para comer mais tarde. Preparam assim latas de carne huma- na em grandes quantidades, como os brancos fazem com seus peixes e seus bois. Mais tarde, quando seus víveres começam a acabar, mandam de novo seus empregados27 caçar as imagens de mais vítimas entre nós. Gritam: “Vão buscar crianças humanas bem gordas para mim! Estou faminto! Comeria uma perna com prazer!”. Então, uma vez saciados, nos deixam em paz por algum tempo. Eles não têm pressa. Quando voltam a sentir fome, retornam, mais e mais, para devorar nossos filhos, nossas mulheres e nossos idosos, pois nos consideram sua caça. É desse modo que a epidemia xawara vai nos diziman- do aos poucos. Esses seres xawarari moram em casas repletas de mercadorias e comida, como os acampamentos de garimpeiros. É lá que cozinham as carnes dos habi- tantes da floresta. Restos de seus banquetes canibais ficam pendurados por todos os cantos da casa, pois eles guardam os crânios e parte dos ossos dos humanos que devoram, como nós fazemos com a caça que comemos.28 Suas redes, aliás, são feitas de pele humana. Para fabricá-las, esfolam o corpo inteiro de suas vítimas antes de pô-las para assar. As cordas dessas redes são confec- cionadas com a pele dos dedos das mãos e dos pés dos cadáveres, costurada com máquinas. São mesmo seres maléficos! Na juventude, eu ficava apavorado quando minha imagem acompanhava os xamãs mais velhos até as casas desses comedores de homens. Até hoje me lembro do medo que sentia! A epidemia xawara prospera onde os brancos fabricam seus objetos e onde os armazenam. Sua fumaça surge deles e das fábricas em que cozem os 12959 - A queda do céu.indd 367 8/10/15 12:31 PM
  • 370. 368 minérios de que são feitos. É por isso que a doença e a morte golpeiam os habitantes da floresta assim que estes começam a desejar as mercadorias. O fato de acumular com sofreguidão roupas, panelas, facões, espelhos e redes atrai o olhar dos seres da epidemia, que então pensam: “Essa gente gosta de nossas mercadorias? Ficaram nossos amigos? Vamos lhes fazer uma visita!”. Chegam logo seguindo os brancos em suas canoas, aviões e carros, sem que se possa vê-los. Os grandes rios, as estradas e as pistas de pouso são seus cami- nhos e portas de entrada na floresta.29 É acompanhando os objetos dos brancos que acabam vindo se instalar em nossas casas, como convidados invisíveis. De modo que, para nós, as mercadorias têm valor de epidemia xawara.30 É por isso que as doenças sempre as seguem. É com peças de metal31 que esses males nos dilaceram a garganta ou nos furam os olhos e o crânio. Acontece sempre do mesmo modo. Os seres maléficos xawarari não tiram os olhos das merca- dorias, para onde quer que elas vão, mesmo muito longe das cidades. Quando um avião carregado voa para nossa floresta, eles seguem atentamente o seu trajeto. Depois, nem bem ele aterrissa, começam a buscar humanos para de- vorar nos arredores. Contudo, suas vítimas não podem vê-los chegar. Só os xapiri conseguem. Quando morremos sob efeito da yãkoana, nossos xapiri se deslocam para as alturas, no peito do céu. Seu olhar então contempla a floresta como de um avião. Assim, localizam a fumaça de epidemia logo que ela aumenta e vem em nossa direção. Então os espíritos napënapëri, imagens dos ancestrais dos bran- cos, nos alertam: “A epidemia xawara está vindo e sua fumaça se avermelha! Está pondo o céu em estado de fantasma e devora todos os humanos ao longo de seu caminho! Devemos rechaçá-la para longe!”. Esses xapiri são também os primeiros a atacá-la, golpeando-a com suas imensas barras de ferro. Só eles conhecem bem a fumaça do metal e são capazes de lhe arrancar as vítimas. Os napënapëri se parecem com os brancos que nos ajudam na defesa da floresta contra os garimpeiros. Levam com eles muitos outros xapiri no combate contra os seres xawarari da epidemia. Os espíritos os espicaçam com suas flechas ve- nenosas, enquanto os espíritos jacaré os golpeiam com seus pesados facões. Os espíritos das abelhas bravas xaki e pari os retalham e os das cobras waroma os perfuram. Os espíritos guerreiros Õeõeri e Aiamori acorrem em grande núme- 12959 - A queda do céu.indd 368 8/10/15 12:31 PM
  • 371. 369 ro para crivá-los de flechas. Os espíritos tamanduá e tatu-canastra os estraça- lham com suas facas afiadas.32 Os espíritos urubu os despedaçam. As imagens dos seres maléficos da sucuri e do dono do algodão Xinarumari os agarram, para sufocá-los e esfolá-los. Os espíritos das grandes árvores aro kohi e masiha- nari kohi os esmagam com a ajuda do espírito pedra Maamari. Depois, os espí- ritos do zangão remoremo moxi,33 do besouro hõra e do vendaval Yariporari também prendem as cabeleiras de suas fumaças no avião de Omama, para ar- rastá-las para as lonjuras de onde vieram. Todos os xapiri mais valentes descem para lutar contra a epidemia xawa- ra e se juntam numa tropa incontável para enfrentá-la. Encaram-na com mui- ta coragem e contra-atacam sem descanso, como verdadeiros soldados, sem nunca recuar. Se tivessem medo, ela não pararia mais de nos devorar, até o último! Porém, ao final, quando ela se torna por demais perigosa, para livrar os seus da morte, os xamãs chegam a fazer dançar a própria imagem dela, que chamam de Xawarari. Essa imagem é mesmo a da epidemia xawara, mas, tornada espírito xapiri, luta valentemente contra ela, juntando-se, assim, aos espíritos napënapëri dos antigos brancos em seu combate contra a fumaça do metal.34 Era desse modo que os grandes xamãs de nossos antigos às vezes con- seguiam fazer recuar esse mal perigoso e curar suas vítimas. Então, seus espí- ritos abelha repoma podiam abrir a terra e jogar os cadáveres dos seres da epidemia no mundo subterrâneo, onde se espatifavam e alimentavam os vora- zes ancestrais aõpatari. Contudo, o mais frequente é a epidemia xawara mostrar-se mais resis- tente à investida dos xamãs do que os espíritos maléficos da floresta. Quando isso acontece, os esforços dos xapiri para destruí-la são inúteis. Por mais que a enfrentem com todas as suas forças, ela não parece ser afetada por seus gol- pes. Bem no alto do céu, torna-se por demais agressiva e poderosa. Não tem mais medo de nada. As mãos dos espíritos não conseguem agarrá-la e suas armas não são capazes de atingi-la. Por mais que a façam recuar com suas investidas, ela sempre volta ao ataque, cada vez mais forte e resistente. Nem mesmo os seres da chuva maari conseguem expulsá-la do céu. A xawara é muito difícil de combater, porque é rastro de outras gentes. Ela não vem da nossa floresta. Seus seres maléficos xawarari são mais numerosos do que os garimpeiros, até mais do que todos os brancos! É difícil juntar tantos xapiri para combatê-los! É por isso que os xamãs os temem e, muitas vezes, não têm 12959 - A queda do céu.indd 369 8/10/15 12:31 PM
  • 372. 370 coragem de enfrentá-los. Já a epidemia xawara não hesita em se voltar contra os espíritos dos xamãs e capturá-los. Destrói suas casas e os prende em caixas de metal ardente. Aí, se outros xapiri intrépidos não vierem libertá-los, seu sopro de vida seca e eles falecem. Então, os seres da epidemia moqueiam seus cadáveres antes de devorá-los, como fazem com os humanos. Se isso acontece, seus pais, os xamãs, morrem muito depressa. Os xapiri, em compensação, sempre acabam voltando à vida. Eles são imortais.35 Onde os seres da epidemia vomitam seus ossos, eles eclodem de novo com seus espelhos e voltam a ga- nhar corpo em seguida. Hoje, os seres maléficos xawarari não param de aumentar. Por isso, a fu- maça de epidemia está tão alto no peito do céu. Mas as orelhas dos brancos não escutam as palavras dos espíritos! Eles só prestam atenção no seu próprio dis- curso e nunca se dão conta de que é a mesma fumaça de epidemia que envene- na e devora suas próprias crianças. Seus grandes homens continuam mandan- do os genros e os filhos arrancarem da escuridão da terra as coisas maléficas que alastram as doenças de que sofremos todos. Assim, o sopro da fumaça dos minérios queimados se espalha por toda parte. O que os brancos chamam de o mundo inteiro36 fica corrompido pelas fábricas que produzem todas as suas mercadorias, suas máquinas e seus motores. Por mais vastos que sejam a terra e o céu, suas fumaças acabam por se dispersar em todas as direções e todos são atingidos por elas: os humanos, os animais, a floresta. É verdade. Até as árvores ficam doentes. Tornadas fantasmas, perdem as folhas, ficam ressecadas e se quebram sozinhas. Os peixes também morrem pela mesma causa, na água suja dos rios. Com a fumaça dos minérios, do petróleo, das bombas e das coisas atômicas, os brancos vão fazer adoecer a terra e o céu. Então, os ventos e tem- pestades acabarão entrando também em estado de fantasma. No final, inclusive os xapiri e a imagem de Omama serão atingidos! É por isso que nós, xamãs, estamos tão atormentados. Quando a epidemia xawara nos ataca ela cozinha nossa imagem em gasolina e petróleo, dentro de suas panelas de ferro. Isso nos faz virar outros e sonhar o tempo todo. Então vemos as imagens de todos os brancos que estão em busca do metal que tanto cobiçam. Vemos as fumaças das inúmeras tropas de seres maléficos xawarari que os acompanham por toda parte, e os enfrentamos com firmeza com nossos 12959 - A queda do céu.indd 370 8/10/15 12:31 PM
  • 373. 371 xapiri. Somos habitantes da floresta e não queremos que os nossos morram. Os brancos por acaso pensam que Teosi conseguirá fazer a fumaça de suas fá- bricas desaparecer do céu? Estão equivocados. Levada pelo vento bem alto, até o seu peito, já está começando a sujá-lo e queimá-lo. É verdade, o céu não é tão baixo quanto parece a nossos olhos de fantasma e fica tão doente quanto nós! Se tudo isso continuar, sua imagem vai ser esburacada pelo calor das fumaças de minério. Então derreterá aos poucos, como um saco de plástico jogado na fogueira, e os trovões enfurecidos não pararão mais de vociferar. Isso ainda não está acontecendo porque seus espíritos hutukarari não param de jogar água nele para resfriá-lo. Mas essa doença do céu é o que nós, xamãs, mais tememos. Os xapiri e todos os outros habitantes da floresta também estão muito aflitos, pois, se o céu acabar pegando fogo, desabará mais uma vez. Então, seremos todos queimados e, como nossos ancestrais do primeiro tempo, arremessados no mundo debaixo da terra. São essas as palavras de nossos grandes homens, que se tornaram xamãs muito antes de nós. Foi o que eles viram em sonho e é o que relatam os cantos de seus xapiri. Nós, xamãs, como eu disse, sonhamos com tudo aquilo que queremos conhecer. Quando bebemos o pó de yãkoana, primeiro vemos o pai do ouro e dos minérios no fundo da terra, envolto pelas volutas pegajosas de suas fumaças de epidemia. À noite, tornados fantasma durante o sono, ainda sonhamos muito tempo com isso, através de nossos xapiri. Foi assim que, tornando-me espírito com meu sogro e os outros velhos xamãs de nossa casa, aprendi a conhecer a epidemia do ouro, que nomeamos oru xawara. Esses grandes homens me ensinaram a pensar longe e foi com eles que a imagem de Omama me permitiu ver todas essas coisas. Se eu tivesse ficado só trabalhan- do para os brancos, se meu sogro não tivesse me chamado para perto dele, meu pensamento teria ficado curto demais. É por isso que agora quero que os brancos, por sua vez, ouçam estas palavras. Trata-se de coisas das quais nós, xamãs, falamos entre nós muitas vezes. Não queremos que extraiam os miné- rios que Omama escondeu debaixo da terra porque não queremos que as fu- maças de epidemia xawara se alastrem em nossa floresta. Assim, meu sogro costuma me dizer: “Você deve contar isso aos brancos! Eles têm de saber que por causa da fumaça maléfica dessas coisas que eles tiram da terra estamos morrendo todos, um atrás do outro!”. É o que agora estou tentando explicar aos brancos que se dispuserem a me escutar. Com isso, talvez fiquem mais 12959 - A queda do céu.indd 371 8/10/15 12:31 PM
  • 374. 372 sensatos? Porém, se continuarem seguindo esse mesmo caminho, é verdade, acabaremos todos morrendo. Isso já aconteceu com muitos outros habitantes da floresta nesta terra do Brasil, mas desta vez creio que nem mesmo os bran- cos vão sobreviver. 12959 - A queda do céu.indd 372 8/10/15 12:31 PM
  • 375. a queda do céu 12959 - A queda do céu.indd 373 8/10/15 12:31 PM
  • 376. 12959 - A queda do céu.indd 374 8/10/15 12:31 PM
  • 377. 17. Falar aos brancos 12959 - A queda do céu.indd 375 8/10/15 12:31 PM
  • 378. 376 “O povo de vocês gostaria de receber informações sobre como culti- var a terra?” “Não. O que eu desejo obter é a demarcação de nosso território.” Diálogo entre o general R. Bayma Denys e Davi Kopenawa, durante audiência com o presidente José Sarney, 19 abr. 1989 Pouco antes da alvorada ou no início da noite, nossos grandes homens, que chamamos pata th ë pë,1 costumam dirigir-se à gente de suas casas em lon- gos discursos. Incentivam-nos a caçar e a trabalhar em suas roças. Evocam o primeiro tempo dos ancestrais tornados animais e se expressam com sabedoria. Damos a esse modo de falar o nome de hereamuu.2 Só os homens de mais idade falam assim. Eu, ao contrário, tive de aprender a discursar diante dos brancos quando era muito jovem. É verdade! Eu já me dirigia com firmeza a eles, enquanto ainda nem ousava falar ao modo dos pata th ë pë em minha pró- pria casa! Minha boca tinha vergonha, pois se eu tivesse me arriscado a exortar os meus, eles teriam zombado de mim com dureza. Teriam declarado, irritados, que um homem jovem não pode mandar3 nos mais velhos e ninguém teria levado adiante minhas palavras. Teria mesmo dado pena de ver! Por isso, eu não dizia nada, com medo de caçoarem de mim. Apenas me esforçava para me tornar tão sabido quanto meus pais e sogros, e achava que ainda estava longe disso. Dizia a mim mesmo, em silêncio, que, se eu quisesse chegar lá, meu pensamento tinha de permanecer concentrado nos xapiri que os nossos gran- des xamãs tinham me dado. Quando se é jovem, ainda não se sabe nada. O pensamento é cheio de olvido. É só muito mais tarde, uma vez adulto, que se pode tomar dentro de si as palavras dos antigos. Isso vai sendo feito aos poucos. As crianças dos brancos têm de aprender a desenhar suas palavras torcendo os dedos desajeitados por muito tempo e com os olhos sempre cravados em peles de imagens. Entre nós, os rapazes que querem conhecer os xapiri têm de vencer o medo e deixar que os mais velhos soprem o pó de yãkoana em suas narinas. É doloroso, e também demora muito. Depois, eles têm de continuar trabalhando por conta própria, esforçando-se para ligar seus pensamentos um ao outro, o mais longe que pu- derem. É por isso que, na época em que eu era um jovem xamã, eu estudava com aplicação as coisas que o poder da yãkoana me permitia ver. Porém, quan- 12959 - A queda do céu.indd 376 8/10/15 12:31 PM
  • 379. 377 do eu queria dar minhas palavras à gente de minha casa, eu não me arriscava a entoar discursos hereamuu! Eu me contentava em transmiti-las nos diálogos cantados wayamuu da primeira noite de nossas festas reahu. É o que deve fazer quem não é ainda um homem mais velho. Acontece assim. Os jovens — moradores e convidados — começam a can- tar respondendo uns aos outros, aos pares, de pé um diante do outro, na praça central da casa. Quando terminam, vão sendo substituídos aos poucos pelos homens mais experientes, que vão se sucedendo sem descanso até o meio da noite. É isso que chamamos de wayamuu. As palavras desses diálogos se alon- gam muito. São como as notícias de rádio dos brancos. Nelas relatamos o que ouvimos em visita a outras casas. É assim que, às vezes, alertamos nossos con- vidados de que pessoas de longe têm raiva deles e querem desafiá-los com a borduna ou até flechá-los. Nesses diálogos falamos também dos males que afligem os nossos. Evocamos os que foram mordidos por cobra, os que tiveram seu duplo animal rixi ferido por caçadores inimigos, aqueles cujos ossos foram quebrados por feiticeiros oka e os que foram devorados pela epidemia xawara. Depois, no meio da noite, quando findam as palavras do wayamuu, os homens mais velhos, anfitriões e visitantes, se agacham cara a cara, muito perto um do outro. Dão então início a um outro diálogo cantado — dizemos fazer yãimuu.4 As palavras de yãimuu são próximas e mais inteligentes. Penetram mais fundo dentro de nós. Enquanto faz wayamuu, a pessoa ainda não dá a conhecer o que realmente quer dizer. Ainda fala com uma língua de fantasma. Quando os grandes homens querem mesmo conversar e pôr fim às brigas que os opõem, usam o yãimuu. Se um visitante contar, irritado, as palavras ruins sobre os seus que boatos atribuem a seus anfitriões, será alertado: “Esqueça essas palavras tortas! Continuemos amigos! Minhas reais palavras são belas! Não dê ouvidos àquelas que essa gente de longe tornou outras! São mentirosos!”. Então o visi- tante se acalma e responde: “Haixopë! Bem! Eis aí uma fala direita mesmo! Não quero mais escutar essas palavras feias, que nos fariam dar bordunadas na cabeça ou flechadas uns nos outros! Sejamos amigos!”. Quando fazem yãimuu, os grandes homens da casa também avisam seus convidados de que irão cha- má-los para enterrar as cinzas dos ossos de seus mortos. Quando é assim, di- zem: “Queremos terminar esta cuia pora axi diante de seus olhos! Vamos pô-la em esquecimento juntos! É isso que queremos!”. Se não falarmos às claras fa- zendo yãimuu, as pessoas podem ficar com raiva, alegando que foram mantidas 12959 - A queda do céu.indd 377 8/10/15 12:31 PM
  • 380. 378 na ignorância. É também durante o yãimuu que se pedem mercadorias numa festa — panelas ou redes, machados, facões e facas, anzóis ou fósforos. É por intermédio do yãimuu, ainda, que um rapaz faz o seu pedido por uma esposa e propõe trabalhar para o futuro sogro. Este então responderá: “Venha se ins- talar ao meu lado e fique com minha filha! Mas não a deseje sem devolver o que vale! Quando você vier morar junto comigo, terá de saciar minha fome de caça e trabalhar na minha roça! Aí sim eu vou lhe dar uma mulher!”. Foi Titiri, o espírito da noite, que no primeiro tempo ensinou o uso do wayamuu e do yãimuu.5 Fez isso para que pudéssemos fazer entender uns aos outros nossos pensamentos, evitando assim que brigássemos sem medida. Po- rém, antes disso, Titiri, furioso, devorou Xõemari, o ser da alvorada, para que ele parasse de voltar sem parar desde a jusante do céu, caminhando à frente de sua trilha de luz.6 Desde então, o fantasma de Xõemari só pode interromper a escuridão uma única vez, no raiar do dia. Então, Titiri disse a nossos ancestrais: “Que essa fala da noite fique no fundo de seu pensamento! Graças a ela, vocês serão realmente ouvidos por aqueles que vierem visitá-los”. É por isso que continuamos a discursar desse modo em nossas festas reahu, do anoitecer até o amanhecer, primeiro fazendo o wayamuu e depois o yãimuu. Assim, as pa- lavras desses diálogos não pararam de crescer em nós até hoje. Titiri as fez se multiplicarem, para que pudéssemos conversar entre as casas e pensar direito. São o âmago de nossa fala. Quando dizemos as coisas só com a boca, durante o dia, não nos entendemos de fato.7 Escutamos o som das palavras que nos são dirigidas, mas as esquecemos com facilidade. Durante a noite, ao contrário, as palavras ditas em wayamuu ou em yãimuu vão se acumulando e penetram no fundo de nosso pensamento. Revelam-se com toda a clareza e podem ser efe- tivamente ouvidas. É por essa razão que, no começo, eu preferia dialogar assim na escuridão, para falar aos nossos grandes homens de coisas de muito longe que eles ainda não conheciam. Desse modo, minha iniciativa não os deixava contrariados. Mesmo quando eu lhes dizia: “Não desejem os alimentos dos brancos! Não são bons para nós! É comida velha, que eles deixam mofando, escondida em suas casas! A riqueza da floresta está aí para nos alimentar! Bas- ta-nos caçar e abrir grandes roças! É daí que vem a comida de verdade!”, eles respondiam, sem animosidade: “Awei! Você, que defende nossa floresta, quan- do nos dá assim suas palavras, nos alerta contra as coisas ruins dos brancos. Faz bem de nos manter atentos!”. 12959 - A queda do céu.indd 378 8/10/15 12:31 PM
  • 381. 379 * * * Era assim, naquela época. Os meus já sabiam que eu fazia ouvir minhas palavras sobre nossa terra entre os brancos, muito longe de nossa floresta. No entanto, em nossa casa, em Watoriki, me diziam: “Mais tarde, quando tiver fica- do mais velho, você poderá, se quiser, aconselhar-nos com suas palavras de hereamuu. Por enquanto, contente-se em nos fazer ouvi-las durante os diálogos wayamuu e yãimuu. É bom assim!”. Entre nós, acontece desse modo. É depois de ganhar idade e adquirir sabedoria que um homem pode começar a arengar os habitantes de sua casa. No começo, tenta lançar de vez em quando conselhos a respeito da caça ou do trabalho das roças. Se ligar bem suas palavras e os jo- vens seguirem suas falas, continua tentando. Porém, se ninguém reagir ou al- guém o recriminar, para imediatamente e sente vergonha. Diz a si mesmo: “As pessoas recebem minhas palavras com hostilidade. Preferem escutar os discur- sos dos mais velhos! Devo ter paciência e imitar seus modos!”. Depois, com o passar do tempo, se os seus acabarem por levar em consideração suas exorta- ções, sua boca vai aos poucos perdendo o medo. Então ele poderá falar com sabedoria, nas pegadas daqueles que o precederam nessas falas de grande ho- mem. Terá começado a fazer discursos de hereamuu ainda jovem adulto e irá continuar até a velhice. Foi esse o caminho que procurei seguir. Hoje, às vezes tento falar em he- reamuu.8 Se as pessoas de minha casa começam a prestar atenção no que digo, continuo. Senão, volto a emudecer e fico quieto na minha rede. Até agora, não falei desse modo muitas vezes. Sempre receio que os homens mais velhos, exas- perados, me façam calar: “Você faz esses discursos achando que virou um gran- de homem, ao que parece! Não é o caso mesmo! Suas palavras nos irritam. Você é jovem demais, trate portanto de trabalhar em silêncio para alimentar sua família em lugar de exortar os outros!”. Todavia, meu sogro nunca se mos- trou hostil às minhas falas, muito pelo contrário. Isso me dá força. Ele me diz, às vezes: “É bom que você fale assim, porque estou ficando velho. Quando eu não estiver mais aqui, você irá continuar em meu lugar!”. Aí, eu respondo: “Sogro, se um dia o senhor se for e a epidemia xawara me deixar vivo, então sim, ficarei para falar seguindo seus passos! Faça descer em mim seu espírito gavião Kãomari   9 para minha fala ficar tão ágil e firme quanto a sua! Depois, 12959 - A queda do céu.indd 379 8/10/15 12:31 PM
  • 382. 380 será a minha vez de morrer, pois hoje os brancos não nos deixam mais viver muito tempo!”. Mais tarde, eu com certeza terei vários genros. Quando for a hora, vou mandá-los trabalhar na minha roça e caçar para mim. Então poderei falar em hereamuu de verdade, como os homens mais velhos que me precederam. Direi aos maridos de minhas filhas: “Eu vou ficar em casa. Vocês vão derrubar as árvores grandes de minha roça! Vão flechar caça e coletar frutos de palmeira hoko si para mim!”. Mas não quero ter de lhes dar ordens o tempo todo. Quan- do são espertos, os genros trabalham por conta própria, sem o sogro precisar falar demais. Eu só lhes darei instruções se não souberem o que fazer. Direi: “Abram uma nova roça e plantem banana, mandioca e cana-de-açúcar, para não passarmos fome. Não quero passar a vergonha de ter de pedir minha co- mida aos outros!”. E quando eu tiver ficado mais velho ainda, será a minha vez de contar aos mais jovens o que conheci desde a infância. Falarei de todos os brancos que encontrei e de tudo o que vi em minhas viagens a lugares distantes. Desse modo, terão mais conhecimento das coisas. Se eu me contentar em lhes falar com a boca, sem fazer discursos como os dos grandes homens, não vai dar certo. Eles vão ouvir o som de minha voz, mas continuarão procurando seus pensamentos, a se perguntar: “O que vai acon- tecer conosco? Será que outros brancos mais vão entrar na floresta para tomar nossa terra?”. Se eu não os fizer ouvir minha voz em hereamuu, minhas pala- vras não vão entrar em seu pensamento. Eles não vão compreender mesmo as coisas. De modo que, se eu quiser que se ponham a pensar direito, preciso falar com eles desse modo muitas vezes. É por isso que estou começando a fazê-lo agora, dizendo-lhes: “As terras desmatadas que se estendem ao redor de nossa floresta são as de outra gente! Não tentem ir viver lá! Vocês serão maltratados e só conseguirão trazer de volta doenças que devorarão todos os seus familiares! Também não fiquem vagando o tempo todo pelas casas de nossos aliados. Suas visitas vão acabar cansando. Os parentes que os receberem vão ficar com ciú- mes de suas esposas e com suspeitas em relação às filhas. Ficarão furiosos com vocês. Vocês vão brigar e eles vão querer bater em vocês! Melhor ficarem tran- quilos, trabalhando junto aos seus!”.10 Explico-lhes também que é preciso ago- ra pôr um fim à hostilidade entre nossas casas, e que devemos parar de nos maltratar uns aos outros, com bordunadas na cabeça ou nos flechando por vingança. Bem sei que alguns deles devem pensar que meus dizeres se devem 12959 - A queda do céu.indd 380 8/10/15 12:31 PM
  • 383. 381 à covardia, mas não é verdade. O que eu quero é que mostremos nossa valentia sobretudo nos defendendo contra os que querem devastar nossa terra. São eles nossos verdadeiros inimigos! Nós, habitantes da floresta, somos a mesma gen- te, devemos ser amigos! Esse é o começo de minhas falas aos rapazes. Mais tarde, quando for minha vez de me tornar um grande homem, serão mais ex- tensas e mais sábias. Para ser capaz de proferir discursos em hereamuu com firmeza, é preciso conseguir a imagem do gavião kãokãoma, que tem uma voz potente. Chama- mo-la Kãomari. É ela que dá vigor às palavras de nossas exortações. Desce em nós por conta própria, não é preciso ser xamã. Então deixamos que se instale em nosso peito, onde permanece invisível.11 Ela indica à nossa garganta como falar bem. Faz surgir nela as palavras, umas depois das outras, sem que se misturem ou percam sua força. Permite-nos estender em todas as direções as palavras de um pensamento ágil. Com ela, nossa língua fica firme, não falha e não fica ressecada. Os que não acolhem essa imagem no peito, ao contrário, fazem discursos desajeitados, com falas encolhidas. Seus dizeres são hesitantes e sua voz treme. Exprimem-se como fantasmas e dão pena de ouvir! Os gran- des homens, que têm no peito a imagem do gavião kãokãoma, ao contrário, sabem proferir exortações longas e potentes. Eles são hábeis em convencer os rapazes a seguir suas palavras. Nunca os chamam de preguiçosos, para não os deixar irados e reticentes. Dizem-lhes, ao contrário: “Estamos todos com fome de carne. Vão flechar caça! Sigam as pegadas de uma anta e todos ficaremos de barriga cheia!”, ou então: “Abram grandes roças, vai haver fartura de comida! Seus filhos não vão ficar gemendo, pedindo de comer! Vocês não terão de passar a vergonha de mandar suas mulheres à roça dos outros!12 Poderemos chamar muitos convidados para nossas festas!”. Com a mesma habilidade en- caminham as mulheres à pesca com timbó, quando os rios estão baixos, e re- comendam aos homens que armazenem cachos de bananas verdes, para que amadureçam em suas casas, e os encarregam de preparar as carnes moqueadas e os beijus para as festas reahu. Assim é. Os grandes homens arengam as pes- soas de suas casas durante a noite e elas, mesmo que permaneçam em silêncio e pareçam estar dormindo, escutam com atenção. Ao nascer do dia, seu espí- 12959 - A queda do céu.indd 381 8/10/15 12:31 PM
  • 384. 382 rito desperta e dizem a si mesmas: “Haixopë! Aquelas eram boas palavras! Vamos responder seguindo os seus conselhos!”. No entanto, é muito comum os homens mais velhos apenas discorrerem com sabedoria, sem dar nenhuma instrução. Nesse caso falam somente para que seus ouvintes possam ganhar conhecimento. Assim, quando um grande homem acorda, antes do amanhecer, na hora do orvalho, pode enumerar em hereamuu as antigas florestas onde seus pais e avós viveram, descendo aos poucos das terras altas.13 Evoca o lugar onde nasceu e aqueles onde cresceu. Relembra a casa onde começou a caçar lagartos e passarinhos com flechinhas, aquela em que chegou à puberdade e sua garganta imitou o mutum14 e aquela em que tomou esposa. Relata o que observou da vida dos antigos em sua ju- ventude: suas viagens de uma casa à outra, as festas reahu às quais se convida- vam, as incursões guerreiras que faziam para se vingar. Explica como eram aqueles tempos distantes, quando as mercadorias dos brancos ainda eram uma raridade. E se estiver um pouco insatisfeito com a preguiça de seus genros, aproveita para acrescentar: “Quando eu era jovem, as coisas não eram como hoje. Eu caçava sem descanso para fartar meus sogros de carne de caça! Fle- chava muitas antas, queixadas e macacos-aranha! Todos tinham o prazer de esfregar seus dentes com a carne de minhas presas!15 E isso apesar de a floresta das terras altas onde vivíamos ser escarpada e sua vegetação muito emaranha- da! Naquele tempo, eu era muito bom caçador! Hoje, os rapazes voltam muitas vezes de mãos vazias. Com certeza comem eles mesmos as poucas presas que conseguem flechar!”. Já os xamãs, em seus discursos de hereamuu, falam sobretudo do tempo dos antepassados animais yarori. Costumam iniciar assim: “No primeiro tem- po, nossos ancestrais viraram outros, transformaram-se em veados, antas, ma- cacos e papagaios”. Prosseguem então com o relato das desventuras de alguns deles e narram como se metamorfosearam. Contam também como uma mulher menstruada sentada no chão da floresta virou um rochedo e de que modo os macacos-aranha lhe arrancaram o braço tentando colocá-la de pé.16 Evocam os choros agudos de Õeõeri, o recém-nascido que feiticeiros inimigos abandona- ram num ninho de formigas kaxi depois de matarem sua mãe.17 Relatam como o ancestral irara Hoari afugentou as abelhas, cujos méis até então era fácil pegar no pé das árvores.18 Descrevem o modo como o ancestral saúva koyo foi abrin- do em segredo uma imensa roça de milho na floresta, para fazer a sogra se 12959 - A queda do céu.indd 382 8/10/15 12:31 PM
  • 385. 383 perder nela.19 Dão a ouvir ainda palavras sobre os lugares onde seus espíritos desceram, para além do céu, no mundo subterrâneo ou na terra dos brancos. É assim que ensinam as coisas para as pessoas comuns; para as pessoas que não conhecem os ancestrais animais, nem todos os mundos distantes, cujas imagens não são capazes de fazer descer. De modo que, sem saberem o que pensar, só prestam atenção nos cantos dos xamãs, para conhecer o que estes puderam ver depois de beber yãkoana. Meus pais e avós cresceram nas terras altas, muito longe dos brancos, de suas estradas e cidades. Quando estes começaram a subir os rios, bem antes de eu nascer, nossos maiores já eram adultos havia um bom tempo. Suas línguas tinham se endurecido em seu falar próprio e eles tiveram grande dificuldade para imitar o idioma dos forasteiros. Quando os encontravam, pediam merca- dorias apenas com gestos e umas poucas palavras enroladas. Nem de longe pensavam em defender sua terra! Nem desconfiavam que um dia os brancos poderiam invadir a floresta para cortar-lhe as árvores, abrir estrada e escavar o leito dos rios em busca de ouro! Perguntavam-se apenas por que aquela gente estranha tinha subido os rios até eles. Conversavam bastante a respeito disso, mas suas palavras nunca saíram da floresta para serem ouvidas. Muito tempo depois, eu cresci e veio a minha vez de ficar adulto. Vivi e trabalhei bastante com os brancos e, aos poucos, suas palavras foram entrando em mim. Então, quando voltei para a floresta e percebi que os meus ainda não conseguiam entendê-los, pensei: “Eu ainda sou jovem, mas já sei um pouco de português. No primeiro tempo, Omama nos deu essa terra. Vivo aqui agora com minha esposa e meus filhos e levo esta floresta em meu pensamento. Ca- be a mim defendê-la, não?”. Depois, meu espírito prosseguiu nesse caminho: “Somos os filhos e netos de guerreiros que não tinham medo de flechar seus inimigos. As imagens de Õeõeri e Aiamori ensinaram a valentia a nossos ante- passados e continuam presentes entre nós! Não quero me comportar como um covarde diante dos forasteiros que nos maltratam!”. Foi assim que, pouco a pouco, resolvi fazer chegar aos brancos os pensamentos dos habitantes da flo- resta e lhes falar com firmeza, inclusive em suas cidades. Eu estava com muita raiva. Não queria que os meus continuassem morrendo devorados por suas epidemias xawara. Minha intenção era dizer a eles o quanto, apesar de seu 12959 - A queda do céu.indd 383 8/10/15 12:31 PM
  • 386. 384 engenho para fabricar mercadorias, o pensamento de seus grandes homens está cheio de esquecimento. Se assim não fosse, por que iriam eles querer des- truir a floresta e nos maltratar desse jeito? Então, os grandes homens de nossa casa me incentivaram: “Awei! Você irá falar em hereamuu aos brancos. Nós não podemos ir tão longe, até as casas deles e, além disso, eles não nos entenderiam. Você sabe imitar a língua deles. Irá dar a eles nossas palavras. Não tenha medo deles! Responda-lhes no mesmo tom! Enquanto isso, de longe, estaremos com você defendendo a floresta e seus habitantes, fazendo dançar nossos xapiri!”. Ouvir essas boas palavras me dei- xou feliz. De sua parte, meu sogro acrescentou: “Apesar da distância, meus espíritos não vão perdê-lo de vista! Se os brancos se mostrarem hostis, eles o protegerão com bravura!”. Ele é mesmo um homem sábio e bom. Sempre cui- dou de mim durante as minhas viagens. Por isso, ao partir, eu tranquilizava minha mulher e meus filhos: “Não se preocupem! Os brancos não vão me matar! Se tentarem me atacar, nosso grande homem vai me vingar!”. Assim, meu pensamento ficava mais tranquilo. Dizia a mim mesmo: “Está bem! Vou defender a nossa floresta! Falarei aos brancos com força, sem ter medo de fazê- -los escutar minhas verdadeiras palavras!”. Naquela época, os espíritos napënapëri dos ancestrais brancos me visita- vam com frequência. Os grandes xamãs de nossa casa os chamavam a mim me fazendo beber o pó de yãkoana. Então eles desciam dançando com a imagem de Omama, que é seu criador. Vinham com eles as imagens de Remori, o espí- rito zangão que deu aos forasteiros sua língua de fantasma, e de Porepatari, o antigo espectro que, há muito tempo, aprendeu a imitá-los. Porepatari costuma trocar com os napënapëri peles de felinos por espingardas e cartuchos. É um grande caçador. Desloca-se o tempo todo pela floresta à noite, invisível como um sopro de vento. Dele só se ouve o chamado: “yãri! yãri! yãri!”.20 Caça onças que, como ele, são muito agressivas. Às vezes lhe acontece de flechar árvores, ou até humanos, que fere com pontas de curare das quais nunca vão ficar cura- dos. É um grande ancestral, de fato um habitante da floresta. Cuida dela e dos xapiri que nela brincam. Alegra-se diante da beleza deles. Se não ouvir seus cantos, fica enfurecido conosco: “Não há mais xamãs entre vocês? Vocês estão dormindo? Seus peitos ficaram sujos demais?”. Foram as imagens de Remori e Porepatari que colocaram em mim suas gargantas de espírito, para eu poder imitar a fala dos brancos. Ensinaram-me a pronunciar suas palavras uma após 12959 - A queda do céu.indd 384 8/10/15 12:31 PM
  • 387. 385 a outra com mais destreza e firmeza. Introduziram em mim a língua dos ante- passados napënapëri. Sozinho eu não teria conseguido e jamais teria sido capaz de fazer discursos nessa linguagem outra! A primeira vez que falei da floresta longe de minha casa foi durante uma assembleia na cidade de Manaus. Mas não foi diante de brancos, e sim de outros índios! Era a época em que os garimpeiros estavam começando a invadir nossas terras, nos rios Apiaú e Uraricaá. Então, Ailton Krenak e Álvaro Tukano, lide- ranças da União das Nações Indígenas, me convidaram a falar.21 Disseram-me: “Você deve defender a floresta de seu povo conosco! Precisamos falar juntos contra os que querem se apossar de nossas terras! Senão, vamos acabar todos desaparecendo, como nossos antigos antes de nós!”. Mas eu não sabia falar daquele jeito e o sopro de minha palavra ainda era curto demais! Apesar disso, não recuei. Cheio de apreensão, me esforcei por dizer, pela primeira vez, pala- vras firmes sobre os garimpeiros que sujavam nossos rios e nos matavam com suas fumaças de epidemia. Algum tempo depois, foram os Makuxi que me con- vidaram a uma de suas grandes assembleias. Foi em Surumu, nas terras deles, nos campos de nosso estado de Roraima.22 Encorajaram-me de novo a falar: “Venha defender sua floresta entre nós, do mesmo jeito que o fazemos para nossa terra!”. Dessa vez era uma reunião bem maior. Havia gente de muitos outros povos e os brancos também eram numerosos. Eu não tinha ideia de como iria conseguir discursar diante de toda aquela gente sentada com os olhos pregados em mim! No começo, apenas prestei atenção no modo como os outros falavam antes de mim. Escutei primeiro os Makuxi e os Wapixana, que falaram um depois do outro contra os fazendeiros, dizendo: “Esses brancos querem nos 12959 - A queda do céu.indd 385 8/10/15 12:31 PM
  • 388. 386 mandar embora das terras onde os nossos antepassados viviam, dizendo que pertencem a eles! Estamos cercados pelo arame farpado e pelo gado deles. Quei- mam nossas casas, xingam-nos e batem em nós! Mais tarde vão querer fazer o mesmo com os Yanomami. Mas se juntarmos todas as nossas palavras contra eles, vão recuar, porque não passam de mentirosos!”. Naquela época, eu temia ter de falar diante de um grupo de desconhecidos, longe da minha floresta e, ainda por cima, na linguagem dos brancos! Minhas palavras ainda eram poucas e torcidas. Eu ainda nem tinha ousado discursar em hereamuu em minha própria casa! Estava aflito e meu coração batia forte no peito. Ainda não sabia fazer sair as palavras de minha garganta, uma atrás da outra! Dizia a mim mesmo: “Mas como é que eu vou fazer isso? Como é que os brancos falam nessas ocasiões? Por onde começar?”. Eu procurava com an- siedade o começo das palavras que podia dar a ouvir. Minha boca estava seca de medo. E, por fim, chegou a minha vez de falar! Fiquei muito envergonhado e devia dar mesmo dó de ver! Então, falei de repente o que tinha em mente naquele instante: “Eu não sei falar como os brancos! Quando tento imitá-los, minhas palavras fogem ou se emaranham na minha boca, mesmo que meu pensamento permaneça reto! Minha língua não seria tão enrolada se eu esti- vesse falando aos meus, na minha língua! Mas pouco importa: já que vocês me dão ouvidos, vou tentar! Desse modo minhas palavras se fortalecerão e talvez um dia sejam capazes de deixar preocupados os grandes homens dos brancos!”. Então prossegui, me esforçando para seguir o modo dos que tinham falado antes de mim. Mas eu disse sobretudo o que realmente achava dos garimpeiros: “São outra gente, comedores de terra, seres maléficos! Seu pensamento é vazio e estão impregnados de epidemia! Precisamos impedi-los de sujar nossos rios e expulsá-los da floresta. Por que eles não trabalham em sua própria terra? Quando eu era criança, quase todos os meus parentes faleceram devido às doenças dos brancos. Não quero que isso continue!”. Acho que foram essas as primeiras palavras que eu disse. Depois, fui aos poucos tentanto estendê-las e torná-las mais claras. Com certeza só consegui fazer isso porque a raiva estava em mim! Na verdade, ela me tomava havia muito tempo, desde que os meus tinham morrido em Toototobi e eu mesmo tinha escapado por pouco da epi- demia de sarampo dos missionários.23 Algum tempo depois, meu sogro e eu convidamos à nossa casa, em Wa- toriki, os moradores de várias outras aldeias yanomami. Queríamos reunir uma 12959 - A queda do céu.indd 386 8/10/15 12:31 PM
  • 389. 387 primeira assembleia yanomami para falar de nossa terra. Outros índios também vieram de muito longe para se juntar a nós, como Ailton Krenak e Anine Suruí, da União das Nações Indígenas. Havia também lideranças makuxi e alguns brancos nossos amigos.24 Cada um teve sua vez de falar para defender a nossa floresta. No final, fizemos uma dança de apresentação de festa reahu e ofere- cemos uma grande quantidade de carne de queixada moqueada a nossos con- vidados.25 Depois dessa reunião, também fui candidato a deputado no que os brancos chamavam de Constituinte, em Brasília.26 Naquela época, me dirigi repetidas vezes aos outros índios de Roraima em assembleias e também pelo rádio. Fiz isso para experimentar a política dos brancos, para aprender alguma coisa. Mas isso não durou muito e eu não ganhei!27 Pouco depois, os garimpei- ros se tornaram cada vez mais numerosos nas terras altas de nossa floresta, saqueando as nascentes dos rios e destruindo seus habitantes com suas epide- mias.28 Então comecei a viajar muitas vezes para as grandes cidades dos bran- cos, muito longe de minha casa. Lá eu me juntava com outros habitantes da floresta, vindos de todos os lados, para falar contra os garimpeiros, os fazen- deiros e os madeireiros que invadem nossas terras. A partir desse momento, não tive mais de procurar as palavras. Minha raiva aumentava cada vez mais e eu queria que todos os brancos soubessem o que estava acontecendo na flores- ta. Foi assim que aprendi a fazer longos discursos diante deles e que aumenta- ram em mim as palavras para lhes falar com firmeza. Depois de Manaus e Brasília, conheci São Paulo. Foi a primeira vez que viajei tão longe por cima da grande terra do Brasil. Compreendi então o quan- to é imenso o território dos brancos para além de nossa floresta e pensei: “Eles ficam agrupados numas poucas cidades espalhadas aqui e ali! Entre elas, no meio, é tudo vazio! Então por que querem tanto tomar nossa floresta?”. Esse pensamento não parou mais de voltar em minha mente. Acabou por fazer sumir o que restava de meu medo de falar! Tornou minhas palavras mais sólidas e lhes permitiu crescer cada vez mais. De modo que eu costumava declarar aos bran- cos que me escutavam: “Suas terras não são realmente habitadas! Seus grandes homens resguardam-nas com avareza, para mantê-las vazias. Não querem ceder nem um pedaço delas a ninguém. Preferem mandar sua gente esfomeada comer nossa floresta!”. E acrescentava: “No passado, muitos dos nossos morreram por causa das doenças de vocês. Hoje, não quero que nossos filhos e netos morram da fumaça do ouro! Mandem os garimpeiros embora de nossas terras! São seres 12959 - A queda do céu.indd 387 8/10/15 12:31 PM
  • 390. 388 maléficos, de pensamento obscuro. Não passam de comedores de metal cober- tos de epidemia xawara. Vamos acabar por flechá-los e, se for assim, muitos ainda vão morrer na floresta!”. Era difícil. Eu tinha de dizer tudo isso numa fala que não é a minha! Contudo, movida pela revolta, minha língua ia ficando mais ágil e minhas palavras menos enroladas. Muitos brancos começaram a conhecer meu nome e quiseram me escutar. Incentivaram-me, dizendo que achavam bom que eu defendesse a floresta. Isso me deixou mais confiante. Alegrava-me que eles me entendessem e se tornassem meus amigos. Naquela época, falei muito nas cidades. Achava que se os brancos pudessem me ouvir, acabariam convencendo o governo a não deixar saquear a floresta. Foi com esse único pensamento que comecei a viajar para tão longe de casa. Desde então, não parei mais de falar aos brancos. Meu coração parou de bater tão rápido quando me olham e minha boca perdeu a vergonha. Meu peito tornou-se mais forte e minha língua perdeu a rigidez. Se as palavras se atrapa- lhassem em minha garganta, saindo apenas numa voz fina e vacilante, os que tivessem vindo me ouvir diriam a si mesmos: “Por que afinal esse índio quer nos falar? Esperávamos dele palavras de sabedoria, mas ele não diz nada! Tem medo demais!”. Por isso eu sempre trato de falar com coragem! Não quero que pensem: “Os Yanomami são tolos e não têm nada a dizer. Nem conseguem falar direito conosco! Só sabem ficar parados, com o olhar perdido, mudos e amedrontados!”. Essa ideia bastou para me irritar e me fazer falar com energia! Os brancos bem podem manter os olhos cravados em mim para tentar me intimidar. Não dá em nada! Eu continuo fazendo ressoar minhas palavras assim mesmo! Começo dizendo a eles: “Vocês que me escutam, vocês são para nós estrangeiros que chamamos de napë. Eu sou filho da gente que Omama criou na floresta no pri- meiro tempo. Eu nasci de seu esperma e de seu sangue!29 Como meus antepas- sados, tenho em mim o valor de sua imagem! É por isso que defendo a terra que ele lhes deixou!”. Então, prossigo: “Vocês são outra gente. Vocês não dão festas reahu. Vocês não sabem fazer dançar os xapiri. Nós somos o pouco de habitan- tes da floresta sobreviventes das fumaças de epidemia de seus pais e avós. É por isso que quero lhes falar. Hoje, não permaneçam surdos a minhas palavras e proíbam os seus de destruir nossa terra e acabar conosco também!”. Falar da morte de meus maiores me entristece, e a ira de seu luto imedia- 12959 - A queda do céu.indd 388 8/10/15 12:31 PM
  • 391. 389 tamente volta ao meu peito. Minhas palavras endurecem e os que me escutam são tomados de aflição. Permanecem em silêncio, seus olhos dão dó. Então, insisto com força: “Vocês não entendem por que queremos proteger nossa floresta? Perguntem-me, eu responderei! Nossos antepassados foram criados com ela no primeiro tempo. Desde então, os nossos se alimentam de sua caça e de seus frutos. Queremos que nossos filhos lá cresçam rindo. Queremos vol- tar a ser muitos e continuar a viver como nossos antigos. Não queremos virar brancos! Olhem para mim! Imito a sua fala como um fantasma e me embrulho em roupas para vir lhes falar. Porém, em minha casa, falo em minha língua, caço na floresta e trabalho em minha roça. Bebo yãkoana e faço dançar meus espíritos. Falo a nossos convidados em diálogos wayamuu e yãimuu! Sou ha- bitante da floresta e não deixarei de sê-lo! Assim é!”. Antigamente, os brancos falavam de nós à nossa revelia e nossas verda- deiras palavras permaneciam escondidas na floresta. Ninguém além de nós podia escutá-las. Então, comecei a viajar para que as pessoas das cidades por sua vez as ouvissem. Onde podia, espalhei-as por suas orelhas, em suas peles de papel e nas imagens de sua televisão. Elas se propagaram para muito longe de nós e, ainda que acabemos desaparecendo mesmo, continuarão existindo longe da floresta. Ninguém poderá apagá-las. Muitos brancos agora as conhe- cem. Ao ouvi-las, começaram a pensar: “Foi um filho dos antigos habitantes da floresta que nos falou. Ele viu com seus próprios olhos os seus parentes arderem em febre e seus rios se transformarem em lamaçais! É verdade!”. Nossas palavras para defender a floresta nos foram dadas por Omama. Sua força provém da imagem dos ancestrais do primeiro tempo, de quem somos os fantasmas.30 Foram eles que nos ensinaram a valentia que me per- mite falar com firmeza aos grandes homens dos brancos. Por isso, ficam preo- cupados quando minhas palavras invadem seu pensamento: “Hou! Essa gente da floresta não tem medo! Suas palavras são duras e eles não recuam!”. Na primeira vez em que me dirigi ao presidente do Brasil, pedi a ele que expul- sasse os garimpeiros de nossa floresta.31 Ele me respondeu, com hesitação: “São numerosos demais! Não tenho nem aviões nem helicópteros suficientes para tanto! Não tenho dinheiro!”. Repetiu-me essas mentiras como se eu fosse des- provido de pensamento! Eu trazia em mim a revolta de minha floresta des- truída e de meus parentes mortos. Retruquei que com aquelas palavras tortas ele só queria nos enganar e deixar que nossa terra fosse invadida. Depois acres- 12959 - A queda do céu.indd 389 8/10/15 12:31 PM
  • 392. 390 centei que para falar assim ele devia ser um homem fraco com o espírito cheio de esquecimento, de modo que não podia pretender ser um grande homem de verdade. Quando eu era mais jovem, costumava me perguntar: “Será que os brancos possuem palavras de verdade? Será que podem se tornar nossos amigos?”. Des- de então, viajei muito entre eles para defender a floresta e aprendi a conhecer um pouco o que eles chamam de política. Isso me fez ficar mais desconfiado! Essa política não passa de falas emaranhadas. São só as palavras retorcidas daqueles que querem nossa morte para se apossar de nossas terras.32 Em muitas ocasiões, as pessoas que as proferem tentaram me enganar dizendo: “Sejamos amigos! Siga o nosso caminho e nós lhe daremos dinheiro! Você terá uma casa, e poderá viver na cidade, como nós!”. Eu nunca lhes dei ouvidos. Não quero me perder entre os brancos. Meu espírito só fica mesmo tranquilo quando estou rodeado pela beleza da floresta, junto dos meus. Na cidade, fico sempre ansioso e impaciente. Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente deles. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não consegue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. Ficam tomados de vertigem, pois não param de devorar a carne de seus animais domésticos, que são os genros de Hayakoari, o ser anta que faz a gente virar outro.33 Ficam sempre bebendo cachaça e cerveja, que lhes esquentam e esfumaçam o peito. É por isso que suas palavras ficam tão ruins e emaranhadas. Não queremos mais ouvi-las. Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham com eles mes- mos. Seu pensamento permanece obstruído e eles dormem como antas ou ja- butis. Por isso não conseguem entender nossas palavras. Não temos leis desenhadas em peles de papel e desconhecemos as pala- vras de Teosi. Em compensação, possuímos a imagem de Omama e a de seu filho, o primeiro xamã. Elas são nossa lei e governo. Nossos antigos não ti- nham livros. As palavras de Omama e as dos espíritos penetram em nosso pensamento com a yãkoana e o sonho. E assim guardamos nossa lei dentro de nós, desde o primeiro tempo, continuando a seguir o que Omama ensinou a 12959 - A queda do céu.indd 390 8/10/15 12:31 PM
  • 393. 391 nossos antepassados. Somos bons caçadores porque ele fez entrar em nosso sangue as imagens dos gaviões wakoa e kãokãoma. Não precisamos ensinar nossos filhos a caçar. Bem jovens, começam por flechar lagartos e passarinhos e depois, quando crescem, vão caçar animais maiores. Omama nos deu tam- bém as plantas de nossas roças, que lhe foram dadas pelo sogro, vindo das profundezas das águas. Ensinou-nos o modo de construir nossas casas e de cortar nossos cabelos. Ensinou-nos a dar nossas festas reahu e a pôr em esque- cimento as cinzas de nossos mortos. Transmitiu-nos todas as palavras de nos- so saber. Já os brancos têm escolas para isso. O que eles chamam de educação, para nós são as palavras de Omama e dos xapiri, os discursos hereamuu de nossos grandes homens, os diálogos wayamuu e yãimuu de nossas festas. Por isso, enquanto vivermos, a lei de Omama permanecerá sempre no fundo de nosso pensamento. É em virtude dela que não maltratamos a floresta, como fazem os bran- cos. Sabemos bem que, sem árvores, nada mais crescerá em sua terra endu- recida e ardente. Comeremos o quê, então? Quem irá nos alimentar se não tivermos mais roças nem caça? Certamente não os brancos, tão avarentos que vão nos deixar morrer de fome. Devemos defender nossa floresta para poder- mos comer mandioca e bananas quando temos a barriga vazia, para poder- mos moquear macacos e antas quando temos fome de carne. Devemos tam- bém proteger seus rios, para podermos beber e pescar. Caso contrário, vão nos restar apenas córregos de água lamacenta cobertos de peixes mortos. Antigamente, não éramos obrigados a falar da floresta com raiva, pois não conhecíamos todos esses brancos comedores de terra e de árvores. Nossos pensamentos eram calmos. Escutávamos apenas nossas próprias palavras e os cantos dos xapiri. É o que queremos poder voltar a fazer. Não falo da flo- resta sem saber. Contemplei a imagem da fertilidade de suas árvores e a da gordura de seus animais de caça. Escuto a voz dos espíritos abelha que vivem em suas flores e a dos seres do vento que mandam para longe as fumaças de epidemia. Faço dançar os espíritos dos animais e dos peixes. Faço descer a imagem dos rios e da terra. Defendo a floresta porque a conheço, graças ao poder da yãkoana. Seu espírito, Urihinari, e o de Omama só são visíveis aos olhos dos xamãs. São suas palavras que dou a ouvir agora. Não são coisas que vêm só do meu pensamento. 12959 - A queda do céu.indd 391 8/10/15 12:31 PM
  • 394. 392 Quando vou às cidades em visita, não paro de pensar em tudo isso. Eu vi coisas perigosas com meus xapiri. Quero alertar os brancos antes que acabem arrancando do solo até as raízes do céu. Se os seus grandes homens conheces- sem a fala de nossos diálogos yãimuu, eu poderia realmente lhes dizer meu pensamento. Agachados um diante do outro, discutiríamos por muito tempo, nos batendo nos flancos. Minha língua seria mais hábil do que a deles e eu lhes falaria com tanto vigor que eles ficariam esgotados. Acabaria desse modo por atrapalhar suas palavras de inimizade! Porém, os brancos ignoram completa- mente nossos modos de dialogar. Quando acontece de nos escutarem durante as festas reahu, perguntam-se, confusos: “Mas o que são esses cantos? O que eles estão dizendo?”. Como se se tratasse de meros cantos heri!34 No entanto, se pudessem me compreender, eu lhes diria em yãimuu: “Parem de fingir que são grandes homens, vocês dão dó de ver! Farei calar suas más palavras! Se o seu pensamento não estivesse tão fechado, vocês expulsariam os comedores de terra de nossa floresta! Vocês alardeiam que queremos recortar uma parte do Brasil só para nós.35 São mentiras para roubar nossa terra e nos prender em cercados, como galinhas! Vocês nada sabem da floresta. Só sabem derrubar e queimar suas árvores, cavar buracos e sujar seus rios. Porém, ela não lhes per- tence e nenhum de vocês a criou!”. Todas essas palavras se acumularam em mim desde que conheci os bran- cos. Hoje, contudo, não me contento mais em guardá-las no fundo de meu peito, como fazia quando era mais jovem. Quero que sejam ouvidas em suas 12959 - A queda do céu.indd 392 8/10/15 12:31 PM
  • 395. 393 cidades, onde quer que isso seja possível. Então, talvez acabem dizendo a si mesmos: “É verdade! Nossos grandes homens não possuem sabedoria alguma! Não os deixemos devastar a floresta!”. Sei que seus chefes não aceitarão com facilidade o que digo, pois seu pensamento ficou cravado nos minérios e nas mercadorias por tempo demais. No entanto, os que nasceram depois deles e irão substituí-los talvez me compreendam um dia. Ouvirão minhas palavras ou ve- rão o desenho delas enquanto ainda forem jovens. Elas vão penetrar em suas mentes e eles assim terão muito mais amizade pela floresta. Eis por que eu quero falar aos brancos. Quando eu era criança, não pensava que aprenderia sua língua e menos ainda que poderia discursar entre eles! Não me perguntava como eram suas cidades. Tampouco me questionava quanto a seus pensamen- tos ou ao que poderiam dizer entre eles. Eu simplesmente os temia e, assim que se aproximavam de mim, fugia gritando! Gostava de estar na floresta, gostava de escutar as palavras dos meus e de conversar com meu padrasto. Ouvi-lo falar de caçadas e de festas reahu me alegrava. Eu era feliz assim e se os brancos e suas epidemias não tivessem começado a devorar os meus parentes, talvez ainda o fosse. Uma vez adulto, a chegada repentina dos garimpeiros me fez refletir mui- to. Disse a mim mesmo: “Hou! Eu não sabia, mas os brancos sempre foram os mesmos, bem antes de eu nascer! Eles já queriam arrancar da floresta balata, castanhas-do-pará, cipós masi e peles de onça, do mesmo jeito que hoje querem lá achar ouro. É por causa dessa ganância que quase todos os nossos antigos morreram!”. Hoje, não falo de tudo isso à toa. Jamais esqueci a tristeza e a raiva que senti diante da morte dos meus parentes quando era criança. 12959 - A queda do céu.indd 393 8/10/15 12:31 PM
  • 396. 18. Casas de pedra 12959 - A queda do céu.indd 394 8/10/15 12:31 PM
  • 397. 395 Sou um índio do Brasil. É a primeira vez que viajo longe do meu país. Meu nome é Davi Kopenawa. Eu vivo numa casa na floresta com os meus parentes. Vim aqui pela primeira vez para falar do meu povo. Os meus estão morrendo de epidemias ou assassinados. São os garimpeiros que causam suas mortes. Eles querem nos des- truir. Mas eu não quero que meu povo desapareça. Davi Kopenawa Câmara dos Comuns, Londres, 4 dez. 1989 (arquivos Survival International) As viagens que fiz para defender nossa floresta contra os garimpeiros aca- baram me levando para muito além do Brasil. Assim, certo dia, brancos que tinham escutado meu nome me chamaram de uma terra longínqua, da qual eu não sabia nada, a Inglaterra. Eu aceitei o convite, porque tinha curiosidade de conhecer aquela gente distante que parecia ter amizade por nós.1 Era a primei- ra vez que eu deixava nossa casa de Watoriki para voar num avião por tanto tempo. Era tão longe que eu acabei chegando até a terra dos antigos brancos, que eles chamam de Europa. Então, pude ver com meus próprios olhos os ves- tígios das casas dos primeiros forasteiros de pele clara, os napë kraiwa pë, que Omama criou há muito tempo com o sangue da antiga gente de Hayowari.2 Durante essa viagem, os amigos ingleses que cuidaram de mim me leva- ram para conhecer um lugar onde os antepassados dos brancos viveram e tra- balharam há muito tempo. Vi um círculo de grandes blocos de pedra erguidos no chão.3 Pensei logo que tinham sido plantados ali por Omama em sua fuga em direção ao sol nascente e que o círculo que formavam era o que restava de sua antiga casa.4 São rochas altas e muito pesadas, como as grandes estacas de uma moradia. Parecem postes de pedra. Omama decidiu construir sua morada desse modo porque a pedra não apodrece e, portanto, nunca morre. Mas não fez esse trabalho sozinho. Todos os antigos brancos se juntaram a ele, tanto velhos como jovens. Devem ter sofrido muito para levantar e içar aqueles blo- cos enormes! Como eram muito numerosos, Omama com certeza os ensinou a construir casas de pedra, para não destruir todas as árvores de sua floresta. Foi o que pensei. Aí, depois de ter visto tudo isso, à noite, durante o meu sono, os espíritos levaram minha imagem e me falaram a respeito dessas linhas de rochas. Apresentaram-me a passagem do ser sol Moth okari a jusante do céu e 12959 - A queda do céu.indd 395 8/10/15 12:31 PM
  • 398. 396 o caminho pelo qual os xapiri dessas terras longínquas vêm dançar até nós. Mostraram-me também o lugar do qual o ser vendaval Yariporari empurrava as fumaças de epidemia para longe dos antigos brancos e aquele onde apren- deram a morrer e enterrar os ossos dos seus mortos numa fossa tampada por uma imensa rocha. Ter visto os rastros desses ancestrais, mortos há tanto tempo, me deu dó. Entristeceu-me tanto quanto ver os das antigas roças de nossos avós na flores- ta. Os que ergueram aquelas grandes pedras foram os primeiros forasteiros criados por Omama com a espuma do sangue de nossos antepassados carrega- dos pelas águas do mundo subterrâneo. A terra dos primeiros brancos pode parecer muito distante da nossa, mas não devemos ter dúvida: trata-se da mes- ma e única terra. Só que se separou no tempo em que os nossos ancestrais de Hayowari se tornaram outros. Foi arrancada pela força das águas que jorraram do chão, e depois foi carregada para longe, até se fixar onde está hoje. Então, foi bem longe de nós que nossos antepassados, depois de virarem brancos, fi- xaram essas grandes pedras no chão. Elas marcam os limites onde sua floresta à deriva parou, nos confins da terra, sustada pelos pés do céu. De modo que essas pedras alinhadas marcam os contornos da antiga terra dos primeiros brancos. Quis Omama que fossem assim dispostas para que nem eles nem seus filhos as esquecessem. Essa terra, que chamei eropa urihi a, é deles desde que ali foram criados. Ninguém além deles jamais viveu lá. Agora faz muito tempo que Omama se foi. No entanto, essas rochas fica- ram de pé até hoje. Foi mesmo por isso que ele, no passado, decidiu utilizar blocos tão imponentes. Quis que permanecessem no lugar após sua morte pa- ra os brancos poderem continuar a olhá-los e dizer a si mesmos: “Esses são os rastros de Omama, que criou nossos antepassados!”. Ele pensou que, sem isso, eles ficariam confusos, perguntando-se em vão como vieram à existência. To- davia, todos os jovens que, hoje, vão ver essas pedras sem temer a ventania que as cerca parecem perdidos. Seus pais perderam as palavras sobre elas e não podem transmiti-las a eles. Então, ficam olhando para elas longamente, sem reconhecê-las. Perguntam-se apenas como os antigos conseguiram levantar tanto peso! Essas rochas erguidas por Omama e pelos antigos brancos não devem ser destruídas. Os fantasmas desses antepassados continuam ali presentes, bem co- mo junto das ossadas enterradas aos pés dessas pedras. Se fossem derrubadas, 12959 - A queda do céu.indd 396 8/10/15 12:31 PM
  • 399. 397 sua lei seria abolida e esquecida. Essa lei é o saber de seus antepassados. É a memória e o âmago do pensamento dos que nasceram depois deles. É para os brancos o que as palavras de Omama são para nós. Se essa lei, essa marca do primeiro tempo deixar de ficar levantada entre eles, perderão para sempre as medidas. Não pararão mais de maltratar a terra e de matar uns aos outros. Os antigos brancos que tanto se esforçaram para erguer essas pedras o fizeram para que pudessem ser contempladas depois de sua morte e sua memória não se per- desse. Trouxeram-nas de muito longe, sem máquinas. Foi assim que inventaram a pena do trabalho. Quanto a nós, habitantes da floresta, foi Koyori, o ancestral Saúva, que nos ensinou a dura labuta das roças sob o sol ardente.5 Se as máquinas dos brancos derrubarem essas grandes pedras de Omama, os fantasmas de seus ancestrais ficarão furiosos. Pensarão que aqueles que hoje em dia pretendem ser grandes homens em sua terra já não possuem nenhuma sabedoria. Depois de ter aceitado partir para a Inglaterra, fiquei preocupado com a ideia de ir para tão longe dos meus e do apoio dos outros xamãs de minha casa. Para dizer a verdade, ter de voar até a terra onde Omama criou os antepassados dos brancos me inquietava bastante. Por isso, antes de minha partida, pedi a meu sogro para se manter atento e me ajudar durante a viagem. Ele então começou a me proteger, me dando seus conselhos de xamã antigo. Recomendou-me que só levasse comigo alguns de meus xapiri e guardasse todos os outros em sua casa de espíritos, acima de nossa floresta. Em seguida ergueu seus caminhos bem alto no peito do céu, para que não fossem arrancados pelo avião que iria me levar. É verdade. Os espíritos, apesar de sua potência, são tão leves quanto penu- gem. Sem essa precaução, eles poderiam ter morrido sufocados ou ter sido leva- dos pelos ventos para os confins da terra. E se lá se perdessem ou fossem captu- rados por seres maléficos, eu poderia ter morrido. Assim, para me protegerem, os grandes xamãs de Watoriki trataram de fechar todos os seus espelhos, para que não se afastassem até meu retorno. Depois teceram sobre sua morada um reves- timento sólido e cercaram-na com um sopro poderoso, para torná-la inacessível. Apenas meus espíritos mais sabidos e mais resistentes puderam seguir comigo nessa viagem até a terra dos primeiros brancos. Eram eles a imagem de Omama, que sustenta o voo dos aviões com um caminho de metal no céu, e a do antigo espectro caçador, Porepatari, que foi o primeiro a trocar com os 12959 - A queda do céu.indd 397 8/10/15 12:31 PM
  • 400. 398 brancos. Mas outros xapiri também me acompanharam para me defender, como o espírito jacaré, com seu grande facão, e o de Xinarumari, o do dono do algodão, com sua cauda venenosa. Sem a proteção desses xapiri, os espíritos maléficos de longínquos xamãs estrangeiros poderiam ter me enfraquecido e me atordoado de vertigem ou até mesmo provocado a queda do avião em que eu me encontrava. Ao contrário, sabendo que estavam comigo, eu não tinha medo de nada e pude guardar minhas forças para fazer com que minhas pala- vras fossem ouvidas pelos brancos. No entanto, os meus xapiri que tiveram de permanecer na floresta ficaram apreensivos quando me viram desaparecer nas lonjuras e se preocuparam du- rante toda a minha viagem! Por isso, o espírito lua, Poriporiri, esforçou-se para manter a claridade de seus olhos fixada sobre mim, para que eu não perdesse o caminho de volta. Já os espíritos macaco-aranha emitiram chamados o tempo todo, para terem notícias de meu paradeiro. Durante a noite, tornado fantasma sob o efeito de alimentos desconhecidos, eu costumava ouvir em sonho seus clamores aflitos: “Onde é que foi parar nosso pai? Vai acabar se perdendo! Que volte para nós bem depressa! Esses forasteiros de longe vão maltratá-lo! Ele vai ficar doente!”. Então, os xapiri que me acompanhavam os tranquilizavam: “Ma! Ele está aqui conosco! Passa bem! Não sejam impacientes! Não é tão longe, ele vai voltar logo! Se ouvirem gritar a voz dos trovões, não fiquem assustados! É só porque estão com raiva da morte de outros xamãs!”.6 Foi assim que eu me preparei, da primeira vez, para ir à terra dos antigos brancos. Antes disso, eu não era tão prudente! Viajava por toda parte, sem me preocupar com o que podia acontecer com meus xapiri. Certa vez, quase mor- ri por isso, e não foi durante uma viagem para muito longe de casa, não! Na verdade, ocorreu nas terras altas de nossa floresta, quando de uma visita à gen- te de Tëpë xina, perto do posto da Funai de Surucucus. Eu estava acompanhado por brancos que tinham vindo pegar imagens de nós.7 Mas me afastei deles, porque meus parentes de lá tinham me convidado a beber o pó de yãkoana com eles. Assim, comecei a fazer descer meus espíritos e parei de prestar atenção nos forasteiros que tinham vindo comigo. Então, de repente, eles apontaram para nós uma luz tão intensa que nos cegou a todos. Eu conhecia os brancos, mas ainda não sabia nada de seus modos de capturar imagens para a sua televisão, que também chamamos de amoa hi, árvore de cantos.8 Foi apavorante! Meus espíritos, que ainda dançavam perto do chão, foram imediatamente atraídos na 12959 - A queda do céu.indd 398 8/10/15 12:31 PM
  • 401. 399 direção da máquina apontada para nós. Foram enganados pela luz ofuscante que a envolvia. Lembrou-lhes a de seus caminhos e de sua casa. Perderam-se seguindo-a e foram logo aspirados para dentro da máquina, onde ficaram pre- sos. Alguns dias depois, retornei a Watoriki e, sem meus xapiri, adoeci. Fui tomado de vertigens e fiquei muito fraco. Balbuciava como um fantasma. Meu sogro, inquieto, me perguntou: “O que você fez com os seus espíritos? Deu-os para alguém? Fugiram?”. Eu estava muito ansioso e achei que não sobreviveria. Sabia que assim que os xapiri deixam seu pai, ele fica vazio e corre o risco de morrer em seguida. No entanto, um de meus cunhados — um grande xamã que não vive mais — entendeu que a máquina de televisão os tinha tragado como penugens brilhantes e que eles tinham ficado colados dentro dela. Com muito trabalho, ele conseguiu arrancá-los de lá e levá-los de volta à sua casa de espíri- tos no peito do céu. Foi muito competente e, assim, eu pude me recuperar sem demora. Depois ele me advertiu contra minha imprudência e, desde então, sem- pre segui seu conselho: “Nunca mais viaje com seus espíritos junto dos brancos! Eles vão capturá-los de novo e, da próxima vez, você vai morrer!”. É por causa de tudo isso que, hoje em dia, somente alguns xapiri mais poderosos podem me acompanhar em minhas viagens, para me proteger. 12959 - A queda do céu.indd 399 8/10/15 12:31 PM
  • 402. 400 As terras distantes dos antepassados dos brancos são terras de espíritos.9 Grande parte dos xapiri que dançam para nós vem de lá. É o caso dos espíritos forasteiros napënapëri e do espírito zangão Remori, que lhes ensinou sua língua enrolada, e de vários outros. Por isso é tão perigoso ir de avião para essas re- giões, que são o lugar de origem de tantos xapiri. Para um xamã, voar em di- reção à terra-espelho10 dos espíritos que descem até ele e ver-se de repente cara a cara com eles significa correr o risco de morte imediata. Mas nossos xapiri são muito sábios e não permitem que isso aconteça! Ninguém pode ir para o lugar de onde eles vêm! Se um xamã se dirigisse para a terra-espelho deles à sua revelia, eles a esconderiam assim que ele se aproximasse. Então, em vez de atingi-la, ele continuaria avançando no vazio e acabaria passando por ela sem jamais tê-la visto! Foi o que me aconteceu durante essa primeira viagem à terra dos antigos brancos. No momento de aterrissar lá, vi da janela do avião um enorme espelho com reflexos ofuscantes vindo ao meu encontro em alta velocidade. Foi muito amedrontador, pois na época eu não sabia nada dessas coisas! Meus olhos fi- caram cativos daquela intensa luminosidade por muito tempo. Fui tomado de vertigem e um profundo torpor me invadiu. Compreendi então que estava me aproximando de uma terra de espíritos muito poderosos. Aí, senti que des- maiava. Mas, no exato momento em que eu achava que ia atingir o espelho e morrer, ele se virou, para tomar, em outra parte, o lugar da terra de onde eu vinha. É verdade! Os xapiri, ao me verem chegar, fizeram-no girar diante de mim, para eu poder passar adiante sem me chocar com ele. E quando o avião estava prestes a pousar, seu caminho já se assentava sobre uma nova terra, que eles tinham estendido à minha frente. O imenso espelho ofuscante sumiu de repente, foi se desvanecendo atrás de mim, enquanto um outro chão tomava seu lugar diante de meus olhos. De modo que, em vez de desmaiar e morrer em seguida, senti apenas uma profunda sonolência. Se os espíritos daquelas regiões distantes não tivessem girado seu espelho para tirá-lo do meu caminho desse modo, meu corpo teria sido levado de volta a Watoriki logo depois, para os meus, aos prantos, o amarrarem na floresta e depois queimarem meus ossos! É por isso que não é nada sensato pensar que não existem xapiri na terra dos brancos! Onde vivem? Como na nossa floresta, o vento lá não sopra sem razão e a chuva não cai sozinha! Mas os seres da escuridão e do caos ali estão mais perto. Faz muito frio. A noite cai depressa e dura muito. Os brancos de 12959 - A queda do céu.indd 400 8/10/15 12:31 PM
  • 403. 401 hoje em dia não sabem nada a respeito dos espíritos que habitam essas regiões e nunca pensam neles. E no entanto eles existem, desde sempre, desde muito antes de esses forasteiros terem sido criados. São muito numerosos. Foi por isso mesmo que fui tomado de vertigem ao me aproximar de sua moradia! Nós, xamãs, conhecemos esses xapiri porque os fazemos descer na floresta quando bebemos yãkoana. Eles vivem no frescor das terras altas, longe dos brancos e de suas cidades enfumaçadas. Vi com meus próprios olhos as montanhas onde ficam suas casas. Seus topos são cobertos de uma brancura tão brilhante quan- to um monte de penugem luminosa. Viajei até lá em sonho quando ardia de malária, e lá descobri a fonte de água pura cercada de vento glacial em que esses xapiri se banham e matam a sede. Brincam nela alegremente, apesar do frio, e suas mãos são tão geladas quanto ela. É por isso que sabem tão bem curar as febres! De lá também vêm os embrulhos de água vendidos pelos brancos para matar a sede.11 É a mesma água que a dos picos rochosos de nossa flores- ta. Nós a chamamos mãu krouma u, a água da rã krouma, ou mãu pora u, a água das cachoeiras. Ainda que os brancos atuais da Europa tenham se esquecido disso, os espíritos que vivem em sua terra são as imagens de seus ancestrais, mortos há muito tempo. São as imagens dos primeiros forasteiros de língua de fantasma que os xamãs chamam de napënapëri. Foram eles que lhes transmitiram suas palavras. Foram eles que fixaram as pedras altas da casa de Omama e que cria- ram as mercadorias, as peles de papel e os remédios. Quando de minha primei- ra viagem àquelas terras distantes, muitas vezes vi dançar suas imagens. Des- ciam em meu sonho na forma de fantasmas, como fazem os xapiri na floresta. Chegavam a mim com tanta facilidade porque eu dormia no lugar onde, no primeiro tempo, Omama criou os forasteiros com a espuma do sangue dos antigos habitantes de Hayowari. Os espíritos napënapëri querem também preservar a beleza de sua terra- -espelho e protegê-la das fumaças de epidemia. Contudo, os brancos de hoje não sabem mais cuidar dela e ignoram essas imagens, que são as de seus ante- passados. Isso também me preocupa. No tempo antigo, os brancos as conhe- ciam e as faziam dançar como nós. Eles sabiam imitar-lhes os cantos e cons- truir-lhes casas para os jovens poderem por sua vez se tornar xamãs. Mas os que nasceram depois deles acabaram criando as cidades. Aí, foram pouco a pouco deixando de ouvir as palavras desses espíritos antigos. Depois os livros 12959 - A queda do céu.indd 401 8/10/15 12:31 PM
  • 404. 402 fizeram com que fossem esquecidos e eles por fim as renegaram. Teosi, como eu disse, tinha ciúme da beleza das palavras dos xapiri. Não parou de falar mal deles: “Não escutem esses espíritos que sujam seu peito! São habitantes da floresta, são ruins! Não passam de bichos! Parem de chamar suas imagens, contentem-se em comê-los! Olhem, em vez delas, minhas palavras coladas em peles de papel!”.12 Assim, as palavras de raiva de Teosi se espalharam por toda parte e expulsaram os cantos dos xapiri dos pensamentos dos antigos brancos. Suas mentes ficaram confusas e obscurecidas, sempre em busca de novas pa- lavras. No entanto, os espíritos daquelas terras distantes não morreram. Con- tinuam morando nas montanhas que Omama lhes deu como moradia e descem de lá apenas para os xamãs capazes de vê-los. Durante essa viagem, eu muitas vezes dormi em estado de fantasma depois de ter comido alimentos dos brancos que eu não conhecia. Foi assim que so- nhando, certo dia, vi a imagem das mulheres abelha do primeiro tempo. Elas mesmas bradavam seus nomes para todos os lados, para chamar a atenção do ancestral irara Hoari, que coletava seu mel aqui e ali. Acabaram por deixá-lo atordoado com seus chamados incessantes e ele tropeçou numa raiz. Praguejou com furor contra elas e as pôs para correr para todos os lados da floresta. Suas imagens se refugiaram em todos os lugares onde até hoje os méis se escondem.13 Por isso agora é tão difícil achar ninhos de abelha no mato! Algumas inclusive fugiram até os brancos, que as guardam desde então em grandes caixas de ma- deira. Nossos maiores faziam dançar esses espíritos abelha desde sempre. Foram eles que vieram falar comigo no sonho, para me comunicar sua inquietação: “Você, que sabe virar espírito, fale duro com os forasteiros, eles vão escutá-lo! Os brancos não têm mesmo sabedoria nenhuma! Devem parar de maltratar as árvores da floresta! Logo já não haverá nenhuma flor perfumada para nos ali- mentar e fazer mel. Se continuar assim, será a nossa vez de morrermos todos!”. É verdade. As abelhas também são xapiri, por isso suas imagens falaram assim comigo durante o sono. No dia seguinte, revelei sua queixa aos que tinham vindo me escutar. Ouvir o sofrimento daqueles espíritos e pensar que os bran- cos os maltratam tanto me deu dó. Esses ancestrais abelhas se sentem ameaça- dos e, como nós, querem defender a floresta em que foram criados. As abelhas são muito inteligentes e trabalham sem descanso nas flores que vão procurar 12959 - A queda do céu.indd 402 8/10/15 12:31 PM
  • 405. 403 longe, de árvore em árvore, para fabricar seus méis. É por isso que eles são tão saborosos e que nós, tanto crianças quanto adultos, os apreciamos tanto. Cortar as árvores é destruir seus caminhos na floresta. Sem árvores em floração, elas não saberão mais onde trabalhar e fugirão para sempre de nossa terra. Por isso eu declarei aos brancos: “Vocês repetem muito que amam o que chamam de natureza. Se é mesmo o caso, parem de só discursar, defendam-na de verdade! Vocês precisam nos ajudar a proteger o que ainda resta da floresta. Todos os seus habitantes já nos falam com medo de desaparecer. Vocês não veem dançar suas imagens e não ouvem seus cantos em seus sonhos. Os xamãs, ao contrário, sabem escutar sua angústia e elas lhes pedem para falar com vocês, para que a sua gente pare de comer a floresta”. Quando retornei dessa longa estadia na terra dos antigos brancos, foi bom reencontrar minha rede em nossa casa de Watoriki. Mas assim que me instalei nela senti uma violenta tontura. Depois de ter voado tanto tempo de avião, o solo da floresta girava sem parar sob meus pés. Eu só conseguia ficar com o olhar fixo diante de mim, como um fantasma. Meu pensamento estava comple- tamente obstruído e eu caía no sono o tempo todo. Eu não queria parecer preguiçoso, então tentei ir caçar. Mas não havia o que fazer, eu já não via mais nada à minha volta na floresta e não conseguia distinguir caça alguma. Estava tão fraco que tropeçava a cada passo, e fui obrigado a deitar no chão várias vezes. Voar para aquela terra de espíritos tão distante tinha me feito virar outro e, se os xamãs que haviam me iniciado não tivessem me protegido, eu talvez tivesse falecido! Pouco antes de meu retorno, os xapiri que tinham me escoltado na viagem voltaram à floresta como batedores, para anunciar minha chegada. Depois dei- taram em suas redes, para recuperar as forças. Os que eu tinha deixado para trás ficaram felizes ao saber que eu estava perto: “Haixopë! Pai está a caminho! Finalmente está voltando para nós! Nada de ruim aconteceu com ele! Está salvo! Aë! Aë!   ”. Esperavam-me impacientes, porque estavam famintos. Então, os grandes xamãs de minha casa trabalharam junto comigo. Ajudaram-me a recolocar os caminhos dos meus espíritos no peito do céu, para expulsar o sono que tinha tomado conta de mim. Bebi o pó de yãkoana com eles dia após dia, para recomeçar a alimentar os xapiri que eu tinha deixado para trás havia tan- 12959 - A queda do céu.indd 403 8/10/15 12:31 PM
  • 406. 404 to tempo. Então, uma vez saciados, não pararam mais de cantar e dançar para mim alegremente. Foi assim que eu pude me restabelecer aos poucos, e é sem- pre isso que eu faço quando volto para casa após uma longa visita entre os brancos. Sem isso, a vertigem e a tontura não me largariam mais. Se um xamã não alimentar seus espíritos com yãkoana como deve, eles sofrem de fome, como os humanos. Como eu disse, esse pó é a sua comida. Não se pode de jeito nenhum deixá-los abandonados em suas redes, sobretudo os mais jovens! Se seu pai não os fizer dançar e cantar sempre que têm vontade, sentem-se abandonados. Isso os deixa irritados e começam a se queixar dele: “É um preguiçoso com fala de fantasma! Chamou-nos para nada! Na verdade, ele nos esquece e não quer saber de nós! Não vamos nos deixar maltratar assim, voltemos para onde viemos!”. Então, se o xamã insistir em não cuidar deles, acabam fugindo mesmo de sua casa de espíritos. Se, ao contrário, beber o pó de yãkoana com frequência, eles ficam muito felizes. Entoam seus cantos com tamanha animação que a alegria de suas vozes vai atraindo outros xapiri a vir se instalar junto dele. Os antepassados dos brancos não cuidaram da floresta em que vieram à existência como os nossos. Cortaram quase todas as suas árvores para abrir roças imensas. Vi com meus olhos o pouco que dela resta, como pequenas manchas, aqui e ali. No entanto, Omama lhes havia ensinado a construir casas de pedra, para evitar desmatar tudo. Havia dito a eles: “Os postes de madeira apodrecem e devem ser sempre trocados. Cortem grandes rochas e plantem-nas no chão para construir suas habitações. Assim, só trabalharão uma vez e pou- parão as árvores que lhes dão seus frutos e cujas flores alimentam as abelhas!”. Esses antigos forasteiros começaram a entalhar as rochas com seus machados. Depois de um tempo ficaram mais engenhosos. Fabricaram ferramentas para cortar pedras menores e misturaram um barro que, ao secar, endurece e as cola umas às outras. Conseguiram construir casas de pedra cada vez mais sóli- das. Ficaram satisfeitos com elas e então tiveram a ideia de desenhar a terra em torno de cada uma delas. Então descobriram a beleza das mercadorias e puse- ram-se a fabricá-las sem parar. Aí elas aumentaram tanto que tiveram de cons- truir novas habitações para guardá-las e distribuí-las.14 Edificaram-nas também para acumular e esconder o alimento de suas roças. Quando essas casas de 12959 - A queda do céu.indd 404 8/10/15 12:31 PM
  • 407. 405 pedra proliferaram, ligaram umas às outras com caminhos emaranhados e de- ram a tudo isso o nome de “cidade”. Foi assim que a floresta desapareceu aos poucos de sua terra, com os animais que nela moravam. Mantiveram apenas alguns animais vivos e os cercaram de estacas. Guardaram outros, mortos, em caixas de vidro, para que seus filhos pudessem contemplá-los como lembran- ças.15 Muito longe de minha casa, era nisso tudo que eu pensava ao andar nas cidades dos antigos brancos. Pela primeira vez, via sua terra com meus próprios olhos. Então, passeava por toda parte, sem dizer uma palavra, observando com atenção as casas e as pessoas. Meus pensamentos se estendiam sem parar em todas as direções. Eu queria muito compreender o que via! 12959 - A queda do céu.indd 405 8/10/15 12:31 PM
  • 408. 19. Paixão pela mercadoria 12959 - A queda do céu.indd 406 8/10/15 12:31 PM
  • 409. 407 O que fazem os brancos com todo esse ouro? Por acaso, eles o ­comem? Davi Kopenawa Tribunal permanente dos povos sobre a Amazônia brasileira, Paris, 13 out. 1990 No começo, a terra dos antigos brancos era parecida com a nossa. Lá eram tão poucos quanto nós agora na floresta. Mas seu pensamento foi se perdendo cada vez mais numa trilha escura e emaranhada. Seus antepassados mais sábios, os que Omama criou e a quem deu suas palavras, morreram. Depois deles, seus filhos e netos tiveram muitos filhos. Começaram a rejeitar os dizeres de seus antigos como se fossem mentiras e foram aos poucos se esquecendo deles. Derrubaram toda a floresta de sua terra para fazer roças cada vez maiores. Omama tinha ensinado a seus pais o uso de algumas ferramentas metálicas. Mas já não se satisfaziam mais com isso. Puseram-se a desejar o metal mais sólido e mais cortante, que ele tinha escondido debaixo da terra e das águas. Aí começaram a arrancar os minérios do solo com voracidade. Construíram fá- bricas para cozê-los e fabricar mercadorias em grande quantidade. Então, seu pensamento cravou-se nelas e eles se apaixonaram por esses objetos como se fossem belas mulheres. Isso os fez esquecer a beleza da floresta. Pensaram: “Haixopë! Nossas mãos são mesmo habilidosas para fazer coisas! Só nós somos tão engenhosos! Somos mesmo o povo da mercadoria!1 Podemos ficar cada vez mais numerosos sem nunca passar necessidade! Vamos criar também peles de papel para trocar!”. Então fizeram o papel de dinheiro proliferar por toda par- te, assim como as panelas e as caixas de metal, os facões e os machados, facas e tesouras, motores e rádios, espingardas, roupas e telhas de metal.2 Eles tam- bém capturaram a luz dos raios que caem na terra. Ficaram muito satisfeitos consigo mesmos. Visitando uns aos outros entre suas cidades, todos os brancos acabaram por imitar o mesmo jeito. E assim as palavras das mercadorias e do dinheiro se espalharam por toda a terra de seus ancestrais. É o meu pensamen- to. Por quererem possuir todas as mercadorias, foram tomados de um desejo desmedido.3 Seu pensamento se esfumaçou e foi invadido pela noite. Fechou- -se para todas as outras coisas. Foi com essas palavras da mercadoria que os brancos se puseram a cortar todas as árvores, a maltratar a terra e a sujar os rios. Começaram onde moravam seus antepassados. Hoje já não resta quase 12959 - A queda do céu.indd 407 8/10/15 12:31 PM
  • 410. 408 nada de floresta em sua terra doente e não podem mais beber a água de seus rios. Agora querem fazer a mesma coisa na nossa terra. Na nossa língua, demos aos objetos dos brancos o nome de matihi.4 Usa- mos essa palavra para falar das mercadorias, mas ela existia muito antes de esses forasteiros chegarem até nossa floresta. É uma palavra muito antiga, uma palavra do começo.5 Antigamente, eram outras coisas que nossos maiores no- meavam com ela. Chamavam de matihi todos os adornos com que se arruma- vam para as festas reahu:6 os tufos de caudais de arara, os rabos de tucano, as braçadeiras de cristas de mutum e jacamim que ornavam seus braços e as pe- quenas penas de papagaio e cujubim que enfiavam no lobo das orelhas. Também caçavam pássaros sei si, hëima si e wisawisama si, pela beleza de seus despojos, que também nomeavam matihi. Assim, antes de uma festa reahu, os grandes homens que convidavam seus aliados nunca deixavam de exortar os rapazes de sua casa, clamando: “Vão flechar matihi, para não parecerem feios e maus caça- dores em sua dança de apresentação!”. As moças, cheias de admiração, diziam dos rapazes que usavam muitos desses adornos de penas: “Como está lindo! Está coberto de matihi!”. E os outros habitantes da casa aprovavam: “Awei! Ele é um ótimo caçador de matihi!”.7 Assim era. Para nós, xamãs, essa palavra é também muito valiosa porque nomeia bens que pertencem a Omama e aos xapiri que ele criou. A visão desses enfeites torna nosso pensamento claro e forte. Por essa razão, a palavra que os designa também tem valor de espírito: ela evoca a beleza dos xapiri que são seus donos e nos faz pensar neles.8 Contudo, quando um de nós morre, também chamamos matihi os ossos que recolhemos de suas carnes putrefatas para queimar. Depois, suas cinzas são moídas num pilão e guardadas numa pequena cabaça pora axi. Também essa cabaça de cinzas tem o mesmo nome: matihi. Os ossos dos mortos e suas cinzas são coisas que não se pode destratar! Por isso a força dessa palavra, matihi, está associada desde sempre a eles. Se um convidado descartar as cinzas funerárias que lhe foram confiadas, enfrentará em seguida a vingança dos fa- miliares do morto.9 Se disser: “Joguei na floresta o resto das cinzas de sua ca- baça pora axi; não era muito seu amigo!” e alguém for contar isso aos parentes do falecido, eles vão ficar enfurecidos e logo vão querer brigar! Também vão ficar furiosos se a pessoa encarregada de enterrar as cinzas ao lado de sua fo- 12959 - A queda do céu.indd 408 8/10/15 12:31 PM
  • 411. 409 gueira durante uma festa reahu as despejar no fogo por descuido. Ninguém destrata as cinzas dos ossos de um morto sem consequência! E quando são as de um homem valente e trabalhador, ou de um antigo xamã que sabia mesmo mandar para longe os seres maléficos, tomamos mais cuidado ainda! Não é à toa que chamamos as cinzas e os ossos de nossos mortos de matihi! Nossos antepassados nos deram essa palavra poderosa, porque o valor que damos a essas coisas é maior até do que o que os brancos dão ao ouro que tanto cobiçam. Quando viram a profusão de objetos estranhos que eram guardados nos acampamentos dos brancos, nossos antigos, que nunca tinham visto nada pa- recido, ficaram muito excitados.10 Foi então que, pela primeira vez, puderam ver facões e machados novos, panelas de metal brilhante, grandes espelhos, peças de pano vermelho, redes enormes de algodão colorido e espingardas barulhentas como trovões. Então pensaram: “Todas essas coisas são realmente lindas! Esses forasteiros devem ser mesmo muito habilidosos, já que tudo o que tocam fica tão bonito! Devem ser mesmo engenhosos, para possuírem tantos objetos valiosos!”. Foi assim que começaram a desejar muito as mercadorias dos brancos e deram a elas também o nome de matihi, como se fossem adornos de plumas ou cinzas dos ossos dos mortos. Depois, conforme as foram conhe- cendo melhor, deram um nome a cada uma delas, para poderem pedi-las aos forasteiros.11 Estavam muito empolgados, e ainda nem imaginavam que esses objetos novos traziam em si as epidemias xawara e a morte. Os objetos que fabricamos, e mais ainda os dos brancos, podem durar muito além do tempo que vivemos. Eles não se decompõem como as carnes de nosso corpo. Os humanos adoecem, envelhecem e morrem com facilidade. Já o metal dos facões, dos machados e das facas fica coberto de ferrugem e sujeira de cupim, mas não desaparece tão depressa! Assim é. As mercadorias não mor- rem. É por isso que não as juntamos durante nossa vida e nunca deixamos de dá-las a quem as pede. Se não as déssemos, continuariam existindo após nossa morte, mofando sozinhas, largadas no chão de nossas casas. Só serviriam para causar tristeza nos que nos sobrevivem e choram nossa morte. Sabemos que vamos morrer, por isso cedemos nossos bens sem dificuldade. Já que somos mortais, achamos feio agarrar-se demais aos objetos que podemos vir a ter. Não queremos morrer grudados a eles por avareza. Por isso eles nunca ficam muito 12959 - A queda do céu.indd 409 8/10/15 12:31 PM
  • 412. 410 tempo em nossas mãos! Nem bem acabamos de consegui-los e logo os damos a outros que, por sua vez, os querem. E assim as mercadorias se afastam de nós depressa e vão se perder nas lonjuras da floresta, carregadas pelos convidados de nossas festas reahu ou por outros visitantes. Desse modo, tudo está bem. Seguimos as palavras de nossos ancestrais, que nunca possuíram todos esses bens trazidos pelos brancos. Quando um xamã morre, seu fantasma não leva nenhuma das suas coisas para as costas do céu, mesmo que seja muito avarento! Os objetos que tinha fabricado ou conseguido por troca são abandonados na terra e só fazem ator- mentar os vivos, atiçando a saudade. Então dizemos que esses objetos estão órfãos e que nos causam pesar, porque estão marcados pelo toque do faleci- do.12 Por isso, se um de meus filhos ou minha mulher morressem, as coisas em que costumavam mexer guardariam o rastro de seus dedos. Eu teria de queimá-las chorando, para acabarem para sempre. Como eu disse, as merca- dorias duram muito tempo, ao contrário dos humanos. Por isso devem ser destruídas quando morre o dono, mesmo que seus familiares precisem delas. Assim é. Nunca guardamos objetos que trazem a marca dos dedos de uma pessoa morta que os possuía! Somos diferentes dos brancos e temos outro pensamento. Entre eles, quando morre um pai, seus filhos pensam, satisfeitos: “Vamos dividir as mer- cadorias e o dinheiro dele e ficar com tudo para nós!”. Os brancos não des- troem os bens de seus defuntos, porque seu pensamento é cheio de esqueci- mento. Eu não diria a meu filho: “Quando eu morrer, fique com os machados, as panelas e os facões que eu juntei!”. Digo-lhe apenas: “Quando eu não estiver mais aqui, queime as minhas coisas e viva nesta floresta que deixo para você. Vá caçar e abrir roças nela, para alimentar seus filhos e netos. Só ela não vai morrer nunca!”. É verdade. Achamos ruim ficar com os pertences de um mor- to. Nos causa pesar. Nossos verdadeiros bens são as coisas da floresta: suas águas, seus peixes, sua caça, suas árvores e frutos. Não são as mercadorias! É por isso que quando alguém morre logo damos um fim em todos os seus ob- jetos. Trituramos seus colares de miçangas, queimamos sua rede, suas flechas, sua aljava, suas cabaças e adornos de plumas. Amassamos suas panelas e as jogamos no rio. Quebramos seu facão contra uma pedra e depois escondemos os estilhaços num cupinzeiro. Tratamos de não deixar sobrar nenhum rastro seu. Raspamos o chão onde ele se acocorava e o lugar onde amarrava as cordas 12959 - A queda do céu.indd 410 8/10/15 12:31 PM
  • 413. 411 de sua rede nos esteios da casa. Foi o que as palavras de Omama ensinaram a nossos antepassados e nós seguimos o caminho deles. Não é coisa recente, não! É desse modo que os vivos conseguem estancar a tristeza que sentem quando veem objetos e rastros deixados pelos que não estão mais na terra. Assim, sua dor vai passando e seu pensamento pode ir se acalmando aos poucos. Caso contrário, a saudade dos mortos e a raiva de seu luto nunca mais teriam fim. As pedras, as águas, a terra, as montanhas, o céu e o sol nunca morrem, como também os xapiri. São seres que não podem ser destruídos e que dizemos parimi, eternos.13 O sopro de vida dos humanos, ao contrário, é muito curto. Vivemos pouco tempo. Epidemias xawara, espíritos maléficos e feiticeiros ini- migos nos devoram facilmente. Por isso pensamos em nossos próximos e nas pessoas de quem somos amigos. Pensamos que se eles morressem, iríamos nos arrepender de não termos sido generosos o bastante com eles. Dizemos a nós mesmos: “Hou! Por falta de sabedoria fui tão sovina! Não satisfiz seus pedidos e agora essa lembrança me entristece!”. E depois, sabendo que nós mesmos não vamos demorar a morrer, não queremos também deixar para trás objetos cuja visão só vai deixar os nossos aflitos. É por isso que, quando um visitante de uma casa amiga nos pede merca- dorias, não recusamos. Ao contrário, dizemos a ele: “Awei! Pegue esse facão e fique com ele! Assim, se eu me for, você vai fazer luto por mim? Vai mesmo lamentar por mim?”. E ele então responde: “Ma! Você é generoso! Vou ser de todos aquele que vai chorá-lo com mais pesar!”. E, por fim, acrescentamos: “Se uma picada de cobra me matar, quebre a coisa que acabo de lhe dar e esconda os pedaços no lodo do fundo do rio!”. Não pedimos nada em troca. Deixamos isso para outra ocasião, depois.14 Só no caso de o convidado querer nosso arco é que podemos pedir o dele em troca na hora. Nessas conversas, os grandes homens também podem dizer: “Meus cabelos já estão brancos e os forasteiros 12959 - A queda do céu.indd 411 8/10/15 12:31 PM
  • 414. 412 estão perto de nós. Suas fumaças de epidemia não tardarão a me devorar e vou deixar os meus tristes. Estou velho e já causo dó de ver! A morte logo vai me fazer largar minhas posses, por isso lhe dou estas mercadorias!”. São palavras como essas que costumamos usar para falar de nossos bens. Os brancos são outra gente. Eles acumulam muitas mercadorias e sempre as guardam junto de si, enfileiradas em tábuas de madeira no fundo de suas casas. Deixam que en- velheçam por bastante tempo antes de minguar algumas a contragosto. Quan- do as pedimos, ficam desconversando e fazendo promessas para não ter de entregá-las. Ou então exigem que antes trabalhemos para eles por um bom tempo. De todo modo, no final, eles não nos dão nada ou então só coisas já gastas, exigindo ainda mais trabalho em retribuição! Comportam-se como um mau sogro que engana seu futuro genro fazendo-o trabalhar sem nunca lhe dar a filha. Promete-a quando ainda é criança, e depois, quando ela fica moça, começa a achar desculpas para adiar a hora de mandá-la ir amarrar sua rede perto do genro ou, pior, acaba por dá-la a outro homem! Como eu disse, nós, Yanomami, nunca guardamos os objetos que fabrica- mos ou que recebemos, mesmo que nos façam falta depois. Damos logo a quem os pede e, assim, eles se afastam depressa de nós e vão passando de mão em mão sem parar, até longe. Por isso não temos realmente bens próprios. Quando con- seguimos um facão novo dos brancos, logo depois o entregamos a algum con- vidado que o deseja numa festa reahu. Então dizemos a ele: “Sou um habitante da floresta, não quero ter muitas mercadorias como um branco! Tome esta velha peça de metal que nos vem de Omama. Já a usei o suficiente! Não vou negá-la a você! Leve-a consigo! Vai poder abrir uma roça nova com ela! E depois irá dá-la a outra pessoa! Então, fale de mim para quem ficar com ela e seus parentes. Quero que tenham amizade por mim longe de minha casa! Mais tar- de, será minha vez de lhe pedir algo!”. Depois, o convidado, uma vez de volta entre os seus, não vai demorar para dar o mesmo facão a outro visitante. E as- sim, de mão em mão, ele vai acabar chegando até desconhecidos numa floresta distante. É assim que nossos facões com cabos envoltos em fio de ferro enrola- do vão do Brasil até os Xamath ari do rio Siapa, na Venezuela, e que, por outro lado, muitos de seus facões de pontas largas e curvadas chegam até nós. Acontece o mesmo quando conseguimos miçangas com os brancos. Fica- 12959 - A queda do céu.indd 412 8/10/15 12:31 PM
  • 415. 413 mos com elas muito pouco tempo antes de escaparem para longe de nós! Pri- meiro as repartimos entre o pessoal de casa. Depois, basta sermos convidados a uma festa reahu por nossos aliados do rio Toototobi para as trocarmos com eles por outros objetos. Em seguida o pessoal do Toototobi vai visitar os Weyuku th ëri do alto Demini, com quem por sua vez fazem outras trocas. E depois são os Weyuku th ëri que vão levar nossas miçangas mais longe ainda, rio acima, para outros Xamath ari das terras altas que são seus aliados. Elas acabam che- gando assim até a gente do rio Siapa, como nossos facões! No final, elas terão viajado para bem longe de nós, acompanhadas de boas palavras a nosso respei- to: “Awei! São gente generosa mesmo, são amigos! Eles são muito valentes, é por isso que demonstram tanta largueza!”.15 Quando os moradores dessas casas distantes ouvem essas belas palavras, logo pensam que seria bom abrir uma senda nova na floresta para vir visitar nossa casa e obter os bens que desejam de nossas mãos. Dão-lhe então o nome de “caminho de pessoas generosas”.16 En- tão, satisfeitos, podem declarar, apontando para a entrada de sua casa: “Essa é uma porta de generosidade! Abre-se para uma trilha de mercadorias!”.17 Esse é o nosso costume, tanto com os objetos que fabricamos como com as mercadorias que nos vêm dos brancos. Eles, no entanto, costumam pensar que queremos muito os seus bens só porque os pedimos constantemente. Mas não é verdade! Nenhum de nós deseja suas mercadorias só para empilhá-las em casa e vê-las ficando velhas e empoeiradas! Ao contrário, não paramos de trocá- -las entre nós, para que nunca se detenham em suas jornadas. São os brancos que são sovinas e fazem as pessoas sofrerem no trabalho para estender suas cidades e juntar mercadorias, não nós! Para eles, essas coisas são mesmo como namoradas! Seu pensamento está tão preso a elas que se as estragam quando ainda são novas ficam com raiva a ponto de chorar! São de fato apaixonados por elas! Dormem pensando nelas, como quem dorme com a lembrança sau- dosa de uma bela mulher. Elas ocupam seu pensamento por muito tempo, até vir o sono. E depois ainda sonham com seu carro, sua casa, seu dinheiro e todos os seus outros bens — os que já possuem e os que desejam ainda possuir. Assim é. As mercadorias deixam os brancos eufóricos e esfumaçam todo o resto em suas mentes. Nós não somos como eles. Mais do que nos objetos que queremos possuir, é nos xapiri que nosso pensamento fica concentrado, pois só eles são capazes de proteger nossa terra e de afastar para longe de nós tudo o que é pe- rigoso.18 Se os brancos pudessem, como nós, escutar outras palavras que não as 12959 - A queda do céu.indd 413 8/10/15 12:31 PM
  • 416. 414 da mercadoria, saberiam ser generosos e seriam menos hostis conosco. Também não teriam tanta gana de comer nossa floresta. Trocamos bens entre nós generosamente para estender a nossa amizade. Se não fosse assim, seríamos como os brancos, que maltratam uns aos outros sem parar por causa de suas mercadorias. Quando visitantes querem os objetos que temos, dá dó vê-los se lamentando por não os terem e desejá-los tanto. Então, logo os damos a eles, para conquistar sua afeição. Dizemos: “Awei! Leve estas mercadorias e sejamos amigos! Consegui-as com outra gente. Não são restos da minha mão.19 Não importa, leve-as assim mesmo e, mais tarde, não deixe de dá-las por sua vez aos que vierem visitar sua casa!”. Nossa boca teme recusar os pedidos de nossos convidados. Não temos mãos estreitas como os brancos!20 Quando temos dois facões, damos um deles tão logo alguém pede. Se só temos um, lamentamos: “Ma! Estou tão necessitado quanto você! Não posso dá-lo ago- ra porque não teria com que trabalhar em minha roça e os meus acabariam passando fome!”. Mas prometemos conseguir outro logo para poder dá-lo numa próxima visita. Se respondemos aos pedidos de nossos convidados com falas sovinas, vão embora chateados e cheios de palavras ruins, e isso nos deixa tristes. Quando o caminho que leva a uma outra casa não é para nós uma trilha de mercadorias, dizemos que tem valor de inimizade.21 Nesse caso, podemos guerrear contra as gentes às quais ele leva, se acharmos que uma das nossas mulheres ou velhos pode ter sido morto por seus feiticeiros oka. Ao contrário, quando entramos pela primeira vez em contato com os habitantes de uma casa desconhecida para fazer amizade, trocamos com eles tudo o que temos. Chamamos isso de rimimuu.22 Se agirmos de outro modo, vão pensar que es- tamos escondendo nossa hostilidade. Se for o caso, eles logo fogem, com medo de que nossa única intenção seja pegar a terra de suas pegadas para esfregá-las com plantas de feitiçaria. Quando eu era criança, em Marakana, meus pais e avós fizeram contato com os Weyuku th ëri do alto Demini, que nunca tinham visto antes. Encontraram-se por acaso na floresta e fizeram amizade com eles dando-lhes a maior parte dos objetos que levavam consigo. É o nosso costume. Achamos que é assim, ganhando o rastro de outra pessoa, que ficamos amigos dela.23 Nossos maiores, antigamente, pensaram que os brancos agiriam desse modo com eles. Estavam muito enganados! Ao contrário, foi sem dizer uma 12959 - A queda do céu.indd 414 8/10/15 12:31 PM
  • 417. 415 palavra que os grandes homens desses forasteiros despacharam seus genros e filhos para a nossa floresta, para pegar balata, peles de onça e ouro. Nós somos diferentes. Nós nunca pensamos em mandar os nossos para a terra dos brancos sem dizer nada, só para tirar dela tudo o que tem! Quando somos generosos, visitantes e convidados voltam para suas casas satisfeitos e alegres. Se, ao contrário, ficamos avarentos, eles partem com o peito cheio de raiva, porque recusar-lhes bens equivale a uma declaração de inimizade. Então, tomados pelo rancor, vão querer se vingar, com substâncias de feitiçaria hw ërit. Pensarão, irritados: “Se esse homem é sovina, não vamos mais amarrar nossas redes em sua casa! Só queremos visitar homens generosos! O que é que ele está pensando? Sua avareza não vai poder evitar que ele morra! E quando seu fantasma o tiver deixado, não vamos chorá-lo! Não portaremos a ira e a tristeza de seu luto! Que morra sozinho com suas mercadorias!”. Ou então, se estiverem muito furiosos mesmo: “Que homem pão-duro e ruim! Não vai ficar muito tempo vivo junto aos seus! Vai morrer logo, porque algum guerreiro enfurecido vai acabar por flechá-lo!”. Então, com raiva, entregam o avarento aos seres ma- léficos, ao espírito da noite, Titiri, e ao da morte, Nomasiri: “Mais tarde, quando você morrer, vai se calar, não vai se mexer e não será mais nada!”. Ao contrário, se um grande homem da casa demonstra largueza em relação às mercadorias que conseguiu juntar, dizemos que ele sabe manter um verdadeiro caminho de ho- mem generoso. Assim, as pessoas que receberam seus bens o elogiam junto àque- les a quem por sua vez os dão. E estes de novo irão dá-los a outros visitantes, levando ainda mais longe a reputação de sua generosidade. Desse modo, palavras elogiosas a respeito desse grande homem vão se espalhando pela floresta. Acompanham os pensamentos de muitos homens e mulheres, mesmo muito distantes de sua casa. Ficam com ele em mente como se estivessem apaixonados por ele! E costumam dizer dele: “Awei! Ele é um homem generoso! Sabe distribuir os objetos logo que chegam até ele. Nunca dá apenas coisas estragadas! Ele sabe mesmo se desfazer daquilo que suas mãos tocam!”. Ou então: “É um grande homem! Sabe dar generosamente! Muitos pedem o que ele possui, mas ele nunca responde com palavras ruins de avare- za! Ele só para de dar quando não tem mais nada e fica realmente desprovido!”. Diz-se que a imagem de vida nõreme desses grandes homens que sabem tão bem agradar aos outros com sua generosidade é poderosa. Diz-se também que ela os torna inteligentes e valentes.24 Quando um deles se mostra desinteressa- 12959 - A queda do céu.indd 415 8/10/15 12:31 PM
  • 418. 416 do a ponto de abrir mão de todos os seus bens, até os mais belos e os mais novos, as pessoas quase ficam assustadas. Exclamam: “Esse homem não sabe mesmo o que é a avareza! É um verdadeiro filho de Omama! Deve haver um motivo para tanta generosidade! Deve ser sua bravura que o torna tão genero- so. Sua imagem de vida é muito forte! Deve ser um guerreiro muito corajo- so!”.25 E até se perguntam se toda aquela generosidade não esconderia intenções agressivas, fazendo brincadeiras: “Aquele homem mete medo! Será que não está tentando nos enganar? Essa generosidade toda não seria um engodo, para ganhar nossa confiança e depois nos flechar?”. Quando morre um sovina, nem uma pessoa sequer faz luto por ele. É ver- dade. Ninguém pode ter amizade ou saudade de alguém que sempre ignorou o sofrimento dos que passam necessidade. As pessoas só comentam sua morte, dizendo: “É bom assim! Ele não parava de nos encher de raiva com suas recusas. Não vamos ficar tristes! Ele não tinha nenhuma generosidade e não se preo- cupava conosco!”. E então os bens que deixou são destruídos e jogados fora, sem saudade da sua ausência. Ao contrário, se é um homem generoso que morre, todos ficam muito comovidos e muitos são os que choram com dor mesmo. Se tiver sido morto por flechas ou zarabatanas inimigas, muitos também estarão dispostos a vingá-lo! Quando se lembram de sua generosidade, seus parentes e seus amigos ficam atormentados de tristeza. Lamentam-se durante muito tem- po, exclamando toda a saudade que sentem. Quando o sofrimento é grande demais, aos prantos batem as palmas das mãos ou dão batidinhas na testa e nas mãos do defunto. Se for um xamã, seus espíritos choram do mesmo modo. Logo depois que uma pessoa morre, como eu disse, seus próximos come- çam a destruir tudo o que ela possuía ou tocava quando em vida. As plantas de sua roça são cortadas e arrancadas, as árvores em que subiu são derrubadas. A casca dos postes da casa onde pendurava a rede e a terra em que pisava na sua casa são raspadas. As folhas paa hana do telhado acima de sua fogueira são retiradas e queimadas. Os cabelos de sua esposa e filhos são cortados. Apenas algumas de suas coisas são guardadas: pontas de flecha, adornos de plumas, uma aljava de bambu. Todas serão destruídas mais tarde, durante as lamenta- ções das festas reahu em que suas cinzas serão postas em esquecimento. Assim, todos os rastros do que tocou devem ser apagados.26 Porém, aqueles que cos- 12959 - A queda do céu.indd 416 8/10/15 12:31 PM
  • 419. 417 tumam chorá-lo podem, se quiserem, guardar os bens que o defunto lhes deu antes de morrer. Diz-se então que são objetos orfãos, hamihi.27 Quem os detém deve cuidar bem deles e não dá-los a ninguém, sobretudo não a visitantes de longe. Deve conservá-los por muito tempo, até estragarem ou, às vezes, até ele mesmo morrer. Depois serão queimados por seus próximos. De modo que se um amigo me der uma espingarda numa festa reahu e morrer logo depois, fi- carei com ela porque ainda estou vivo. Mas, se eu morrer, minha mulher e meu cunhado a destruirão. E, do mesmo modo, se eu morrer antes de meu sogro ele poderá ficar com o que eu dei a ele para ter sua filha em casamento. Em compensação, minha esposa destruirá todas as coisas que toquei e que ficaram em nosso lar. É assim que deve ser. Quando queimamos os ossos de um homem pródigo, qualquer que tenha sido a causa de seu falecimento, somos especialmente cuidadosos com os ossos de suas mãos. São para nós objetos preciosos, pois era com elas que ele distri- buía com generosidade alimentos e bens. Olhar para os ossos de seus dedos após sua morte nos enche de tristeza e saudade. Por isso prestamos muita atenção para não perder nenhum pedacinho durante a cremação. Homens e mulheres reunidos lamentam em torno da pira falando deles, enquanto quei- mam os bens do defunto: “Osema,28 suas mãos nos causam muita dor! Sentimos tanta falta de sua generosidade!”. Chamamos esses lamentos de pokoomuu.29 Os familiares próximos do morto choram lembrando seus gestos passados e louvando sua generosidade, sua valentia e sua alegria. Então, às vezes, convi- dados de casas amigas comem um pouco das cinzas de seus ossos ainda quen- tes, tiradas do fundo do pilão em que acabaram de ser moídas.30 Misturam numa panela de mingau de banana e bebem tudo com muito cuidado, até a última gota.31 São sobretudo os Xamath ari que fazem isso. Nós achamos que é perigoso engolir cinzas frescas dos mortos. Eles fazem isso para trazer a si a imagem do sopro de vida do defunto e, assim, poder pegar a imitação de seu princípio de vida nõreme.32 Nossos antigos preferiam esfregar as cinzas dos ossos dos homens valentes com urucum na testa e no peito dos rapazes jovens. Chamavam a imagem da bravura guerreira do falecido para contagiar os jovens e torná-los corajosos. Fizeram isso em mim muitas vezes quando era novo, eu me lembro. Assim é. Em seguida, após a cremação, os amigos do morto que vieram de outras casas pedem a seus familiares cabaças de suas cinzas, para poder enterrá-las mais tarde em suas casas, durante suas próprias festas reahu. 12959 - A queda do céu.indd 417 8/10/15 12:31 PM
  • 420. 418 Levam também alguns de seus pertences, para queimá-los chorando, porque tinham afeto por ele. Esses são nossos costumes quando morre um homem muito amado, porque era valente, bom e generoso. Todos levam no pensamento os homens sempre dispostos a dar sem ava- reza o que possuem. Sejam brancos ou Yanomami, não gostamos de avarentos! Eu mesmo não sinto vontade de possuir mercadorias. Meu pensamento não consegue se fixar nelas. No começo, são atraentes, mas se estragam depressa e então começamos a sentir falta delas. Não quero pensar em coisas assim! Só a floresta é um bem de alto valor! As facas gastam, os facões ficam desbeiçados, as panelas ficam pretas, as redes furam e as peles de papel do dinheiro derretem na chuva. Já as folhas das árvores podem murchar e cair, porém sempre voltam a crescer, bonitas e brilhantes como eram antes! As poucas mercadorias que tenho me bastam e não desejo ter mais. Além disso, depois de consegui-las na cidade, no final sempre as distribuo às gentes das casas amigas que vêm dos rios Toototobi, Demini e Catrimani nos visitar. Tanto que, depois, minha mu- lher e meus filhos chegam a ficar sem nada! Os visitantes então me dizem: “Pedimos estes objetos a você porque sabemos que é generoso. Se fosse sovina, teríamos ficado em casa sem dizer uma palavra!”. E eu lhes respondo: “Awei! Dou-lhes facões e machados para abrirem roças, fósforos para enfumaçar tatus, anzóis para pescar e panelas para cozinhar a caça, porque nos falta argila desde que nossos antigos saíram das terras altas! Os brancos agora estão perto de nós, mas são avarentos. Por isso, não falem mal de mim — dou a vocês o pouco que consigo tirar deles, com muito esforço!”. Assim é. Só penso nas mercadorias para distribuí-las. Se tivesse um montão delas, como os brancos têm, iria dá-las a todos os que me pedissem, dizendo: “São suas! Peguem e alegrem-se! É para distribuí-las à larga que fabrico tantas!”. Mas os brancos são gente diferente de nós. Devem se achar muito espertos porque sabem fabricar multidões de coisas sem parar. Cansaram de andar e, para ir mais depressa, inventaram a bicicleta. Depois acharam que ainda era lento demais. Então inventaram as motos e depois os carros. Aí acharam que ainda não estava rápido o bastante e inventaram o avião. Agora eles têm muitas e muitas máquinas e fábricas. Mas nem isso é o bastante para eles. Seu pensa- mento está concentrado em seus objetos o tempo todo. Não param de fabricar 12959 - A queda do céu.indd 418 8/10/15 12:31 PM
  • 421. 419 e sempre querem coisas novas. E assim, não devem ser tão inteligentes quanto pensam que são. Temo que sua excitação pela mercadoria não tenha fim e eles acabem enredados nela até o caos. Já começaram há tempos a matar uns aos outros por dinheiro, em suas cidades, e a brigar por minérios ou petróleo que arrancam do chão. Também não parecem preocupados por nos matar a todos com as fumaças de epidemia que saem de tudo isso.33 Não pensam que assim estão estragando a terra e o céu e que nunca vão poder recriar outros. Suas cidades estão cheias de casas em que um sem-número de mercadorias fica amontoado, mas seus grandes homens nunca as dão a ninguém. Se fossem mesmo sábios, deveriam pensar que seria bom distribuir tudo aquilo antes de começar a fabricar um monte de outras coisas, não é? Mas nunca é assim! Quan- do os visitamos na cidade, quando é que os ouvimos dizer: “Levem todos os fa- cões e panelas que estão vendo! Não quero deixá-los aqui envelhecendo por mais tempo! Distribuam entre os seus de graça e falem a eles de mim!”? Ao contrário, os brancos costumam empilhar seus bens de modo mesquinho e guardá-los trancados. Por sinal, sempre levam com eles muitas chaves, que são as das casas em que escondem seus pertences. Vivem com medo de ser roubados. E, ao final, só os dão com muita má vontade, ou sobretudo os trocam por peles de papel que também acumulam, pensando em se tornar grandes homens. Devem pensar, com satisfação: “Faço parte do povo da mercadoria e das fábricas!34 Só eu possuo todas essas coisas! Sou inteligente! Sou um homem importante, sou rico!”. Quando eu era jovem e visitei pela primeira vez a cidade de Manaus e depois Boa Vista, aqueles amontoados de mercadorias empoeiradas me deixa- vam confuso. Perguntava a mim mesmo por que razão tamanha quantidade de ferros de machado e redes, fabricados havia tanto tempo, ficavam envelhecen- do assim, atulhados sobre tábuas até mofar, sem ser distribuídos para ninguém. Só bem mais tarde entendi que os brancos tratam suas mercadorias como se fossem mulheres por quem estão apaixonados. Só querem pegá-las para depois ficar de olho nelas com ciúme. Acontece a mesma coisa com seus alimentos, que sempre empilham em suas casas. Quando pedimos, nunca os dão sem antes nos fazer trabalhar para eles. Nós não somos gente que recusa comida a visitantes! Quando nossas roças estão cheias de mandioca e de bananas, mo- queamos bastante caça e convidamos os moradores das casas vizinhas para saciar sua fome numa festa reahu. Assim que se instalam em suas redes, depois de sua dança de apresentação, oferecemos a eles, sem sovinice, grandes quantias 12959 - A queda do céu.indd 419 8/10/15 12:31 PM
  • 422. 420 de mingau de banana-da-terra, num tronco de árvore escavado no centro da casa.35 Nós os fazemos beber até ficar com a barriga inchada e acabar vomitan- do!36 Decerto não dizemos a eles: “Ma! Não me peçam nada para comer! Pri- meiro trabalhem nas nossas roças! Tragam caça! Vão buscar água e lenha para nós! O valor de nossas bananas é muito alto! São caras!”.37 A comida dos brancos não tem um valor tão grande quanto eles preten- dem! Como a nossa, ela desaparece assim que é engolida e acaba virando fezes! Suas mercadorias também não são tão preciosas quanto eles dizem. É só o pavor que eles têm de sentir falta delas que os faz aumentar seu valor. Uma vez velhos e cegos, dará mesmo dó vê-los ainda agarrados a elas! Mas, quando morrerem, vão ter de largar todos esses objetos de qualquer jeito! Aí vão aban- doná-los quer queiram quer não e seus parentes não vão parar de se desenten- der para pegá-los. Isso tudo é ruim! Fabricando e manuseando tantas merca- dorias, os brancos devem pensar que ganham muito renome. Mas não é nada disso. Para que assim fosse, teriam de ser menos mesquinhos! Aí, quem sabe, gente distante, como nós, acabaria falando deles com contentamento e os guar- daria no pensamento. Nós, habitantes da floresta, só gostamos de lembrar dos homens generosos. Por isso temos poucos bens e estamos satisfeitos assim. Não queremos possuir grandes quantidades de mercadoria. Isso confundiria nossa mente. Ficaríamos como os brancos. Estaríamos sempre preocupados: “Awei! Quero ter aquele ob- jeto! E também quero aquele outro, e o outro, e mais aquele!”. Não acabaria nunca! Então, a nós basta o pouco que temos. Não queremos arrancar os miné- rios da terra, nem que suas fumaças de epidemia acabem caindo sobre nós! Que- remos que a floresta continue silenciosa e que o céu continue claro, para poder- mos avistar as estrelas quando a noite cai. Os brancos já têm metal suficiente para fabricar suas mercadorias e máquinas; terra para plantar sua comida; tecidos para se cobrir; carros e aviões para se deslocar. Apesar disso, agora cobiçam o metal de nossa floresta, para fabricar ainda mais coisas, e o sopro maléfico de suas fábricas está se espalhando por toda parte. Os espíritos do céu que chama- mos hutukarari ainda estão segurando seu peito longe de nós. Porém, mais adiante, depois que eu e os outros xamãs morrermos, talvez sua escuridão desça sobre nossas casas e, então, os filhos de nossos filhos não verão mais o sol. 12959 - A queda do céu.indd 420 8/10/15 12:31 PM
  • 423. 20. Na cidade 12959 - A queda do céu.indd 421 8/10/15 12:31 PM
  • 424. 422 São como formigas. Andam para um lado, viram de repente e con- tinuam para outro. Olham sempre para o chão e nunca veem o céu. Davi Kopenawa Newsweek, 29 abr. 1991, sobre os habitantes de Nova York Antes de conhecer a terra dos antigos brancos, viajei algumas vezes até ela em sonho, para muito longe da floresta, e pude assim contemplar durante o sono a imagem de suas cidades. Via na noite uma multidão de casas muito altas e cintilantes de luz que, por dentro, me pareciam ser todas revestidas de peles de animais de caça, lisas e macias como a dos veados. Ao acordar, confu- so, perguntava aos xamãs de nossa casa: “O que são essas coisas estranhas que me apareceram no sono? O que vai acontecer comigo?”. Eles me respondiam: “Ma! Não fique aflito! Em breve, brancos vindos de terras distantes irão chamá- -lo para perto deles. Devem estar falando de você, por isso você viu suas casas!”. Bem mais tarde, quando afinal visitei suas cidades grandes, me lembrei de meus antigos sonhos e disse a mim mesmo: “Haixopë! Era assim mesmo que me apareciam quando os espíritos levavam minha imagem até lá!”. Naquela época, eu ainda tinha receio de fazer viagens para tão longe, pois, como eu disse, é muito perigoso aproximar-se dos lugares de onde descem nossos xapiri. Con- tudo, meu sogro e os outros grandes xamãs de nossa casa me protegiam. Assim, apesar de minhas apreensões, continuei indo até esses lugares longínquos para melhor conhecer os brancos e defender nossa floresta. Na verdade, se eu não tivesse baixado da minha rede para fazer isso, nenhum de nós poderia tê-lo feito em meu lugar. Assim, parti para uma outra cidade da terra dos antigos brancos onde ti- nha sido convidado a falar. Chamam-na Paris.1 Eu só conheço o lugar pelo nome que deram a ele os meus xapiri: kawëhei urihi, a terra que treme. Deram- -lhe esse nome porque assim que pus os pés lá, ao descer do avião, me senti cambaleante. Apesar de o solo parecer firme, eu só conseguia andar de modo vacilante, como se avançasse num atoleiro que afundava sob cada um de meus passos. Parecia que eu estava de pé numa canoa no meio do rio! Assim, desde a minha chegada, me perguntei, ansioso, se aquela terra não ia mesmo me fazer virar outro! É verdade. Deve ser estável para os que lá cresceram desde a infân- cia, mas para a gente da floresta que faz descer espíritos xapiri de lá, parece 12959 - A queda do céu.indd 422 8/10/15 12:31 PM
  • 425. 423 balançar o tempo todo. Por sinal, foi certamente sua imagem trêmula que seus habitantes imitaram para fabricar os caminhos escorregadios em que se deslo- cam.2 Acima dela, o céu é baixo e sempre coberto de nuvens. A chuva e o frio parecem não terminar nunca. Fica perto das beiradas do nível terrestre, e os seres subterrâneos da noite e do caos, Titiri e Xiwãripo, não devem estar longe.3 Os brancos talvez não saibam disso, mas os xapiri sabem. Nessa cidade de Paris, multidões de carros e ônibus corriam o dia todo, fazendo um barulho ensurdecedor, apertados no meio das casas. A terra de lá é toda escavada de túneis sem fim, como se fossem de grandes minhocas. Longos trens de metal não paravam de andar por eles com grande estrondo, deslizando em barras de ferro há muito arrancadas das profundezas do chão. É também por isso que me parecia que o chão tremia o tempo todo, mesmo durante a noite. Para quem sempre dormiu no silêncio da floresta, essas vi- brações são muito inquietantes. Os brancos não parecem percebê-las, porque estão acostumados a nunca deixar sua terra em paz. Mas eu não parava de pensar que ela devia virar outra por causa do barulho e da agitação que a mal- tratavam sem trégua. Por isso virei fantasma tantas vezes durante aquela via- gem! À noite, quase não dormia e, durante o dia, tinha de me encontrar com um monte de desconhecidos e lhes falar durante muito tempo. Fazia um frio horrível e eu cochilava o tempo todo. Mas nunca me queixei. Durante essas longas viagens, quando fico ansioso, muito longe de casa, não falo com nin- guém a respeito de minhas aflições, pois meus xapiri me tornaram prudente. Apenas penso dentro de mim mesmo: “É uma terra distante e são gente dife- rente, não se deve reclamar!”. Porém, certa noite, me senti ainda mais estranho. Pouco antes de viajar, tinha pegado malária e a febre me queimava novamente. Fiquei encolhido na cama, num quarto de hotel, no alto de um prédio grande. Eu tinha conseguido adormecer havia pouco quando, de repente, tive a impressão de ser tragado por um imenso vazio. Em seguida, grandes pedaços de terra abaixo de mim desmoronaram e a casa onde eu estava se desmontou inteira com grande es- tardalhaço. Aí, começei a cair sem parar. Era apavorante! Mas, por fim, os xa- piri que me acompanhavam conseguiram segurar minha imagem. Fizeram explodir acima de mim um paraquedas de luz, que me desacelerou, e o fantas- 12959 - A queda do céu.indd 423 8/10/15 12:31 PM
  • 426. 424 ma de Omama me agarrou logo antes de eu desaparecer no mundo subterrâ- neo. Então, de súbito, despertei no meio da noite. Não sabia mais onde estava e quase gritei de pavor. Porém, consegui manter a calma. Levantei-me com dificuldade, sem dizer uma palavra, e depois, aos poucos, acordei de fato. Vol- tei a distinguir as coisas ao meu redor. Então, pensei: “Oae! Ainda estou vivo! Os espíritos napënapëri dos antigos brancos quiseram testar minha força e meu conhecimento! Foi a partir desta terra que nossos antigos abriram seus cami- nhos para poder vir dançar em nossa floresta!”. Esses espíritos forasteiros exa- minaram com curiosidade meu rosto, meus olhos e meus cabelos, que são diferentes daqueles dos brancos. Observaram também com atenção os adornos dos xapiri que me acompanhavam. Disseram a si mesmos: “Hou! Será que são habitantes da floresta, filhos de Omama?”. Por isso vieram me visitar e me puseram à prova. Durante as noites seguintes, pude percorrer em sonho o lugar onde vivem esses espíritos dos ancestrais brancos, escondidos no frescor das altas monta- nhas. Assim eu pude conhecer muitos desses xapiri estrangeiros de danças magníficas, que se refugiaram nas alturas depois de os brancos terem passado muito tempo sem chamá-los. Também pude ver as árvores amoa hi, imaculadas e brilhantes, onde colhem seus cantos. São xapiri poderosos, que Omama nos manda só de vez em quando. Eles sabem arrancar e regurgitar as doenças tão bem como nossos espíritos japim ayokorari. São melhores do que qualquer outro para derrotar os seres maléficos da epidemia. Suas imagens me encora- jaram muitas vezes, durante o sono, a falar com os brancos com energia e co- ragem. Diziam-me: “Fique atento! Dê a eles suas palavras numa voz firme, e não se deixe enganar por vagas mentiras! Eles têm de defender a floresta de fato! Se todas as suas árvores grandes forem derrubadas e queimadas, não vol- tarão a crescer. Por mais que os brancos tentem plantar outras, nunca terão a força das que o ser da fertilidade Në roperi fez crescer no primeiro tempo. Só elas sabem fazer o vento e a chuva circularem em suas copas, para que os espí- ritos das plantas e dos animais possam matar a sede e se banhar. Sem elas, a terra morrerá!”. À noite, naquela cidade, os brancos que me acompanhavam me mostra- ram uma espécie de casa muito alta e pontuda, feita de metal, como uma gran- de antena coberta de cipós de luz cintilante.4 Acho que foi construída para ser admirada pelas pessoas que vêm de outras terras, e é exatamente isso que fa- 12959 - A queda do céu.indd 424 8/10/15 12:31 PM
  • 427. 425 zem! Durante o dia, olham para ela durante muito tempo e a acham muito bonita. Pegam imagens dela uma atrás da outra. Enquanto isso, a gente do lugar deve pensar: “Ha! Como somos espertos e ricos, nós que construímos algo tão lindo!”. É só. Ninguém pensa além disso. No entanto, apesar de nin- guém saber, essa construção é em tudo semelhante à imagem das casas de nossos xapiri, cercada por todos os lados de inúmeros caminhos luminosos. É verdade! Aquela claridade cintilante é a do metal dos espíritos! Os brancos daquela terra devem ter capturado a luz dos seres raio yãpirari para prendê-la nessa antena! Ao observá-la, eu pensava: “Hou! Esses forasteiros ignoram a palavra dos espíritos, mas, apesar disso, sem querer, imitaram suas casas!”. Isso me deixou confuso. Porém, apesar da semelhança, a luz daquela casa de ferro parecia sem vida. Não saía dela nenhum som. Se fosse viva, como uma verdadeira casa de espíritos, ouviríamos brotar de sua luminosidade o sibilar incessante dos cantos de seus habitantes. Seu cintilar propagaria as vozes ao longe. Mas não era o caso. Ela ficava inerte e silenciosa. Foi apenas durante o tempo do sonho, fazendo dançar sua imagem, que pude ouvir a voz dos espí- ritos dos antigos brancos e das mulheres estrangeiras waikayoma, cobertas de miçangas, que moram em sua terra. Num outro dia, meus amigos brancos também me mostraram, passando 12959 - A queda do céu.indd 425 8/10/15 12:31 PM
  • 428. 426 de carro, uma grande pedra enfiada no chão, no meio da cidade. Disseram-me que os antigos daquela terra a tinham trazido de um outro país distante, onde foram guerrear antigamente.5 Então, sem responder, pensei apenas: “Hou! Os brancos de longe também não têm tanta sabedoria quanto pretendem! Não param de repetir que é ruim nos flecharmos uns aos outros por vingança. E no entanto, seus próprios antepassados eram belicosos a ponto de ir até lugares muito remotos só para saquear a terra de gente que não tinha feito nada a eles! Digam o que disserem, o sangue e o fantasma do ser da guerra Aiamori se di- vidiram e se espalharam pela terra deles tanto quanto pela nossa!”. Em outra ocasião, levaram-me para visitar uma grande casa que os brancos chamam de museu.6 É um lugar onde guardam trancados os rastros de ancestrais dos ha- bitantes da floresta que se foram há muito tempo. Vi lá uma grande quantida- de de cerâmicas, de cabaças e de cestos; muitos arcos, flechas, zarabatanas, bordunas e lanças; e também machados de pedra, agulhas de osso, colares de sementes, flautas de taquara e uma profusão de adornos de penas e de miçan- gas. Esses bens, que imitam os dos xapiri,7 são mesmo muito antigos e os fan- tasmas dos que os possuíram estão presos neles. Pertenceram um dia a grandes xamãs que morreram há muito tempo. As imagens desses antepassados foram capturadas ao mesmo tempo que esses objetos foram roubados pelos brancos, em suas guerras. Por isso digo que são posses dos espíritos. No entanto, as imagens desses ancestrais, retidas há tanto tempo nessas casas distantes, não podem mais vir até nós para dançar. Não somos mais capazes de fazer ouvir suas palavras na floresta, pois seus caminhos até nós foram cortados há tempo demais. Na barulheira de suas cidades, os brancos não sabem mais sonhar com os espíritos.8 Por isso ignoram todas essas coisas. Mas eu reconheci logo aque- les bens preciosos dos antigos e fiquei muito preocupado. Pensei: “Hou! Tran- cando-os para expô-los ao olhar de todos, os brancos demonstram falta de respeito para com esses objetos que pertenciam a ancestrais mortos. Não se pode destratar assim bens ligados aos xapiri e à imagem de Omama!”. Em caixas de vidro colocadas lado a lado, via-se uma profusão de adornos de rabo de tucano, junto com despojos sarapintados de pássaros hëima si e wisawisama si, que a gente das águas, grandes caçadores, flecha sem trégua com suas zarabatanas de taquara branca.9 Havia também muitos adornos de contas de vidro coloridas, pertencentes às imagens das mulheres estrangeiras waikayo- ma. Eram elas que teciam as braçadeiras, cintos e saias de miçanga vindos de 12959 - A queda do céu.indd 426 8/10/15 12:31 PM
  • 429. 427 longe, que nossos antigos também chamavam de objetos preciosos matihi.10 Para juntar essas contas de olhos vermelhos, brancos, azuis e amarelos, as mu- lheres espírito tinham de furar suas imagens com flechinhas ruhu masi.11 Já os brancos as fabricam hoje em dia com máquinas, em grandes quantidades. As que as waikayoma flechavam eram bem diferentes, pois se tratava de bens dos espíritos. Eram vivas e pareciam criancinhas. Logo que as flechinhas das mu- lheres espírito as atingiam, gemiam de dor e choravam como recém-nascidos: “Õe, õe, õe!   ”. Então, as waikayoma as enfiavam uma por uma num barbante que passavam por suas feridas. Formavam assim longos colares, que usavam no pescoço e cruzavam sobre o peito, para exibi-los em suas danças de apre- sentação. Possuíam grandes quantidades dessas crianças-miçanga, com as quais fabricavam vários tipos de enfeites magníficos, brilhantes e lisos. Foram essas mulheres espírito waikayoma que ensinaram o nome das contas de vidro para nossos ancestrais. Assim, quando nossos antigos xamãs lhes perguntavam de onde vinham, respondiam apenas: “Nós as chamamos de õha kiki, topë kiki!  12 São bens dos xapiri! Nós os flechamos numa terra distante de onde descemos para vir até vocês!”. Também pude ver, no museu daquela cidade, machados de pedra com os quais os antigos habitantes da floresta abriam suas roças, anzóis de ossos de animais que usavam para pescar, os arcos com os quais caçavam, as panelas de barro em que cozinhavam sua caça e braçadeiras de algodão que teciam. Deu- -me muita pena ver todos aqueles objetos abandonados por antigos que se foram há tanto tempo. Mas sobretudo vi lá, em outras caixas de vidro, cadáve- res de crianças com a pele enrugada. Tudo isso acabou me deixando furioso. Pensei: “De onde vêm esses mortos? Não seriam os antepassados do primeiro tempo? Sua pele e ossos ressecados dão dó de ver! Os brancos só tinham ini- mizade com eles. Mataram-nos com suas fumaças de epidemia e suas espin- gardas para tomar suas terras. Depois guardaram seus despojos e agora os expõem aos olhos de todos!13 Que pensamento de ignorância!”. Aí, de repente, comecei a falar de modo duro com os brancos que me acompanhavam: “É preciso queimar esses corpos! Seus rastros devem desaparecer! É mau pedir dinheiro para mostrar tais coisas! Se os brancos querem mostrar mortos, que moqueiem seus pais, mães, mulheres ou filhos, para expô-los aqui, em lugar de nossos ancestrais! O que eles pensariam se vissem seus defuntos exibidos assim diante de forasteiros?”. Surpresos com o tom de minha voz, meus guias me 12959 - A queda do céu.indd 427 8/10/15 12:31 PM
  • 430. 428 perguntaram se eu estava mesmo com muita raiva. Então expliquei meu pen- samento: “Awei! Ver tudo isso me deixa muito triste! Os brancos não deviam tratar tão mal esses antigos mortos, colocando-os assim à vista de todos, cer- cados dos objetos que deixaram ao morrer. O mesmo vale para todos esses despojos e ossadas de animais. São ancestrais animais cujas imagens os xamãs faziam dançar. Eles também não devem ser maltratados assim. Se os brancos quiserem, que ponham no lugar ossos de galinhas, cavalos, carneiros ou bois!”. No final, os que me escutavam, constrangidos, tentando me acalmar, respon- deram: “Não fique tão chateado! Tudo isso está exposto apenas para todos poderem conhecer!”. Mas eu não estava de acordo, e continuei: “É ruim guardar trancados nesta casa longínqua os bens dos habitantes da floresta que foram mortos no passado pelas doenças e armas dos brancos! Essas pessoas foram criadas no primeiro tempo. São, desde sempre, os verdadeiros donos da floresta. Seus objetos pertencem aos xapiri e a Omama. Fico muito aflito de vê-los expostos desse modo! Quero olhar só coisas bonitas, não coisas da morte. Prefiro ver imagens do céu, do sol, das montanhas, da chuva, do dia e da noite — tudo o que não morre nunca. Os humanos somem muito depressa e, assim que seu sopro de vida é cortado, só inspiram tristeza e saudade. Os brancos podem mostrar o que quiserem em seus museus, mas não coisas vindas de fantasmas. Enquanto estamos vivos, podem expor nossas imagens e objetos em suas cida- des à vontade, para explicar a seus filhos como vivemos e, assim, ajudar a proteger nossa floresta. Mas exibir dessa maneira cadáveres ressecados e obje- tos órfãos dos primeiros habitantes da floresta só pode me deixar infeliz e me atormentar. É algo muito ruim para mim!”. Antigamente, toda a terra do Brasil era ocupada por povos como o nosso. Hoje, está quase vazia de nossa gente e o mesmo acontece no mundo inteiro. Quase todos os povos da floresta desapareceram. Os que ainda existem, aqui e ali, são apenas o resto dos muitos que os brancos mataram antigamente para roubar suas terras. Depois, com a testa ainda cheia da gordura desses mortos,14 esses mesmos brancos se apaixonaram pelos objetos cujos donos tinham ma- tado como se fossem inimigos! E desde então, guardam-nos fechados no vidro de seus museus, para mostrar a seus filhos o que resta daqueles que seus antigos fizeram morrer! Mas essas crianças, quando crescerem, vão acabar perguntan- do para seus pais: “Hou! Esses objetos são muito bonitos, mas por que vocês 12959 - A queda do céu.indd 428 8/10/15 12:31 PM
  • 431. 429 destruíram seus donos?”. Então, eles só poderão responder: “Ma! Se essa gen- te ainda estivesse viva, estaríamos pobres! Estavam atrapalhando! Se não tivés- semos tomado sua floresta, não teríamos ouro!”. Porém, apesar de tudo isso, os brancos não se incomodam nem um pouco em exibir os despojos daqueles que mataram! Nós nunca faríamos uma coisa dessas! Afinal, depois de ver todas as coisas daquele museu, acabei me pergun- tando se os brancos já não teriam começado a adquirir também tantas de nos- sas coisas só porque nós, Yanomami, já estamos começando também a desa- parecer. Por que ficam nos pedindo nossos cestos, nossos arcos e nossos adornos de penas, enquanto os garimpeiros e fazendeiros invadem nossa terra? Será que querem conseguir essas coisas antecipando a nossa morte? Será que depois vão querer levar também nossas ossadas para suas cidades? Uma vez mortos, vamos nós ser expostos do mesmo modo, em caixas de vidro de algum museu? Foi o que tudo aquilo me fez pensar. Disse a mim mesmo que se damos aos brancos nossas braçadeiras de mutum e nossos adornos de rabos de tucano, nossa tinta de urucum, nossas aljavas e nossas flechas, para deixar que tudo isso seja trancado nas suas casas ou nos seus museus, aos poucos perderemos nossa beleza e nos tornaremos maus caçadores. Nossos ornamentos de penas de arara, de papagaio e de cujubim, nossos despojos de galo-da-serra e de pás- saros sei si são bens preciosos, que pertencem à gente das águas.15 Quando os levam embora consigo, os brancos capturam também as imagens desses ani- mais e as guardam presas bem longe da floresta. É isso que vai acabar nos fa- zendo ficar feios e panema. Mais tarde, quando retornei dessa viagem a Paris, assim que cheguei à minha casa de Watoriki, achei realmente que logo fosse morrer. Eu estava mui- to fraco e tinha tonturas e sono o tempo todo. Não conseguia mais acordar direito. Depois, comecei a sentir que minhas pernas ficavam pesadas e ador- 12959 - A queda do céu.indd 429 8/10/15 12:31 PM
  • 432. 430 mecidas também. Mesmo me beslicando, não sentia mais nada. Ficava deitado na rede e ia perdendo consciência aos poucos. Não enxergava mais minha mu- lher e meus filhos, que estavam bem perto, nem minha própria rede! Tinha entrado em estado de fantasma e, de repente, minhas pernas ficaram paralisa- das por completo. Eu estava de volta à floresta, mas minha imagem continuava dormindo no peito do céu. Tudo isso estava acontecendo, eu sabia, porque tinha pisado nas terras de onde vêm os xapiri dos antigos brancos. Eu os conhecia e já os tinha feito dançar com meu sogro. Contudo, aproximar-me tanto de seus locais de origem tinha me feito virar outro, como na primeira vez. A imagem de Omama tinha me protegido durante toda a viagem, mas foi na volta que fiquei todo entorpecido. Tive de passar vários dias em casa, prostrado perto do fogo, para secar minhas carnes encharcadas do frio úmido daquelas terras dis- tantes. Depois, fui aos poucos recomeçando a beber o pó de yãkoana. Então, os meus xapiri que tinham me acompanhado na viagem despertaram e se aque- ceram. Descansados, recuperaram a energia e comecei eu também a me resta- belecer. Agora eu realmente sabia o quanto tais viagens são perigosas para os xa- mãs! No entanto, passadas algumas luas, no final do tempo da seca, amigos brancos me chamaram novamente para longe da floresta. Todos os meus esta- vam morrendo de malária e, perto de onde moramos, a maioria dos brancos parecia não escutar minhas queixas. Por isso aceitei, mais uma vez, sair de casa para ir falar diante dos grandes homens de uma outra cidade, bem maior do que todas as que eu tinha conhecido até então. Seus habitantes a nomeiam Nova York. Eu queria obter o apoio deles, para que convencessem o governo de nossa terra do Brasil a impedir os garimpeiros de saquear nossa floresta e exterminar todos os seus habitantes.16 Quando cheguei a Nova York, fiquei surpreso, pois aquela cidade parece um amontoado de montanhas de pedra onde os brancos vivem empilhados uns sobre os outros! E a seus pés, multidões de pessoas andavam muito depressa, em todos os sentidos, tão numerosas co- mo formigas! Disse a mim mesmo que aqueles brancos deviam ter construído suas casas como penhascos depois de terem derrubado todas as suas florestas e começado a fabricar, pela primeira vez, mercadorias em enormes quantida- des. Com certeza pensaram: “Somos muitos, sabemos guerrear com valentia e temos muitas máquinas! Vamos construir casas gigantes para enchê-las de mercadorias que todos os outros povos vão cobiçar!”. 12959 - A queda do céu.indd 430 8/10/15 12:31 PM
  • 433. 431 No entanto, se no centro dessa cidade as casas são altas e belas, nas bordas, estão todas em ruínas. As pessoas que vivem nesses lugares afastados não têm comida e suas roupas são sujas e rasgadas. Quando andei entre eles, olharam para mim com olhos tristes.17 Isso me deu dó. Os brancos que criaram as mer- cadorias pensam que são espertos e valentes. Mas eles são avarentos e não cuidam dos que entre eles não têm nada. Como é que podem pensar que são grandes homens e se achar tão inteligentes? Não querem nem saber daquelas pessoas miseráveis, embora elas façam parte do seu povo. Rejeitam-nas e dei- xam que sofram sozinhas. Nem olham para elas e, de longe, apenas as chamam de pobres. Chegam até a tirar delas suas casas desmoronadas. Obrigam-nas a ficar fora, na chuva, com seus filhos. Devem pensar: “Moram em nossa terra, mas são outra gente. Que vivam longe de nós, catando sua comida no chão, como cães! Nós, enquanto isso, vamos aumentar nossos bens e nossas armas, sozinhos!”. Fiquei assustado de ver aquilo! Durante essa viagem, voltei a ter crises de malária.18 Além disso, perto do lugar onde me hospedaram, havia muito barulho. As pessoas do outro lado da rua costumavam cantar e gritar durante a noite. Isso me deixava apreensivo e agitado. Eu dormia em estado de fantasma e frequentemente tinha tonturas e a visão embaçada. Então, como nas outras cidades grandes que eu tinha visitado, vi descer no meu sono os espíritos dessas terras dos antigos brancos. Vinham um atrás do outro no meu sonho, cada vez mais numerosos. Primeiro eu via dançar as imagens dos seres trovão, depois a dos seres raio e dos ancestrais onça. Também costumava ver uma multidão barulhenta de espíritos japim ayokorari que vinha até mim de suas montanhas distantes. Esses xapiri sabem tirar as doenças e trabalham ao lado dos médicos. Por isso costumam aparecer durante os sonhos dos xamãs que ardem em febre. Certa noite, foi a imagem de uma moça das águas, uma irmã de Th uëyoma, a esposa que Omama pescou no primeiro tempo, que me apareceu. Seus olhos e cabelos negros eram muito bonitos. Eu via com clareza seus jovens seios des- pontando, mas a parte de baixo de seu corpo era como de peixe. Ela derramava água com delicadeza sobre minha testa febril e assim me fazia voltar à vida. Há muito tempo, essa moça dos rios deixou nossa floresta e se perdeu muito longe, nos confins das águas. É por isso que sua imagem vive hoje debaixo de uma 12959 - A queda do céu.indd 431 8/10/15 12:31 PM
  • 434. 432 grande ponte desta cidade de Nova York.19 Vi que os brancos sabem desenhá-la e me disseram que lhe dão o nome de sereia. Ela ficou lá onde a grande enchen- te que carregou nossos ancestrais de Hayowari parou para formar o oceano.20 É o lugar onde hoje se encontra o ponto de amarração de todos os rios, que chamamos u monapë. Se os cursos d’água não fossem presos desse modo, vol- tariam para as profundezas da terra, que secaria para sempre. Naquela cidade, na verdade não foi a altura dos prédios o que mais me assustou. Foram outras coisas, que se revelaram durante os meus sonhos. As- sim, certa noite, vi também o céu ser incendiado pelo calor da fumaça das fábricas. Os trovões, os seres raios e os fantasmas dos antigos mortos estavam cercados de chamas imensas. Depois, o céu começou a desmoronar sobre a terra com grande estrondo. Isso sim era mesmo assustador! Onde os brancos vivem, o céu é baixo e eles não param de cozer grandes quantidades de miné- rio e de petróleo. Por isso as fumaças de suas fábricas sobem sem trégua para o peito do céu. Isso o torna muito seco, quebradiço e inflamável como gasoli- na. Ressecado pelo calor, torna-se frágil e se desfaz em pedaços, como uma roupa velha. Tudo isso preocupa muito os xapiri. Em meu sonho, eles tenta- vam curar o céu doente, fazendo girar a chave da chuva, para afastar a raiva do braseiro que o devorava. Exaltados, despejando torrentes de água sobre as chamas, gritavam para os brancos: “Se vocês destruírem o céu, vão todos mor- rer com ele!”. Mas estes não davam nenhuma atenção a seus gritos de alerta. E eu não falei desse sonho a ninguém, porque estava longe de minha casa e dos meus. Assim é. Se os espíritos não continuarem inundando o céu daque- le jeito, ele vai acabar queimando por inteiro. Meu sogro me falou desse tra- balho deles assim que começou a me fazer beber yãkoana, antes mesmo de eu me tornar xamã de fato. Noutra ocasião, em Nova York, fui espantado durante o sono pelos estalos e estrondos surdos do céu, que parecia começar a se mover pesadamente sobre a cidade. Então, acordei sobressaltado e me levantei. Fiquei um tempo sem me mover, de pé, me segurando para não gritar de pavor. Mais uma vez, pensei: “Hou! Esta é uma outra terra, não posso me deixar levar pelo medo, ou os brancos vão achar que enlouqueci!”. Aos poucos, fui tentando me acalmar. Depois, o barulho do céu parou, mas eu comecei a ouvir a voz de sua imagem, que os xamãs nomeiam Hutukarari. Ela me dizia: “Ma! Não é nada! Fiz isso para testar sua vigilância! Às vezes faço o mesmo para que os brancos me ou- 12959 - A queda do céu.indd 432 8/10/15 12:31 PM
  • 435. 433 çam, mas não adianta nada! Só os habitantes da floresta mantêm os ouvidos abertos, pois sabem virar espíritos com a yãkoana. Os dos brancos ficam sem- pre fechados. Por mais que eu tente assustá-los para alertá-los, eles permane- cem surdos como troncos de árvore! Mas você me ouviu, isso é bom!”. Naquele tempo, pensei que a cidade de Nova York devia ser o lugar onde os brancos começaram, antigamente, a arrancar o metal da terra, a encher suas casas de mercadorias e a inventar as peles de papel do dinheiro. Ouvi dizer que é lá que fabricam aquelas coisas de ferro brilhante que passam no céu como cometas e que chamam de satélites. Vi também que os olhos das pessoas da- quela terra estão mais estragados do que em outros lugares pela fumaça do metal e seu pó de cegueira.21 Na floresta, não temos nem fábricas nem carros e nossos olhos são límpidos. Em Nova York, tanta gente parecia ter a vista ruim! Até mesmo as crianças e os jovens tinham os olhos cobertos por vidros para ver melhor! Também pensei, naquela cidade, que os brancos que a construíram maltrataram os primeiros habitantes daquelas regiões do mesmo modo que os do Brasil nos maltratam hoje. Sua terra era bela, fértil e cheia de caça. Os bran- cos chegaram e logo quiseram tomar posse dela. Pensavam que aquelas pessoas estavam atrapalhando, então as consideraram seus inimigos e começaram a destruí-las. Os antigos brancos dos Estados Unidos eram de fato maus e muito belicosos, vi isso num livro!22 Foi para mim um tormento pensar em todos aqueles humanos parecidos conosco que morreram naquele país. Pensei que muitos deles deviam morar naquela terra de Nova York antes de sua floresta ser arrasada para dar lugar a todas essas casas de pedra. Os brancos de lá deviam detestá-los tanto quanto nos odeiam os garimpeiros e fazendeiros no Brasil. Devem ter pensado: “Vamos acabar com esses índios sujos e preguiçosos! Va- mos tomar o lugar deles nesta terra! Seremos os verdadeiros americanos, por- que somos brancos! Somos mesmo espertos, trabalhadores e poderosos!”. Seu fascínio pelas mercadorias, estradas, trens e depois aviões não parou de aumen- tar. Foi com esses pensamentos de mentira que começaram a fazer morrer as gentes da floresta, antes de roubarem sua terra e dar a ela um nome seu: Ame- rica. É com as mesmas palavras que os garimpeiros e fazendeiros querem se livrar de nós no Brasil: “Os Yanomami são apenas seres da floresta, não são 12959 - A queda do céu.indd 433 8/10/15 12:31 PM
  • 436. 434 humanos! Pouco importa que morram, eles são inúteis e nós vamos trabalhar de verdade no lugar deles!”. Fora da cidade de Nova York, levaram-me para visitar o que resta do povo que os antigos brancos mataram outrora naquela terra para tomar seu lugar. Seu nome é Onondaga.23 Chamo-os de Yanomae th ë pë, como nós, não só porque se parecem conosco, mas também porque são a gente que foi criada no primeiro tempo nessa terra dos Estados Unidos, como nós mesmos o fomos em nossa floresta. Em suas casas, vi muitos adornos de penas. São gente que ainda tem xapiri e sabe fazê-los dançar. Quando fui visitá-los, os homens me chamaram e eu me sentei com eles para ouvir suas palavras. Afastaram as mu- lheres e as crianças. Queimaram tabaco e fizeram descer seus espíritos. Seus antigos eram caçadores de grandes águias que voam alto no céu, como o temí- vel gavião-real mohuma em nossa terra. Fabricavam cocares magníficos com suas penas. Também caçavam outros animais, que eu nem sabia que existiam, como os ursos e os bisões. Seus xamãs até hoje fazem dançar a imagem desses ancestrais animais. Os Onondaga também bebem o suco doce das árvores de sua floresta,24 como nós bebemos o mel das abelhas. Antigamente, a terra em que viviam seus antepassados era muito vasta, mas a que os brancos deixaram para eles é estreita e fica bem ao lado de uma cidadezinha. Levaram-me com eles para andar por ela. Deu-me muita pena! Estão ilhados num pedacinho de terra de nada! Os colonos, os fazendeiros e os mineiros mataram seus ances- trais. Eles bem que tentaram mandá-los embora, mas só tinham flechas e não conseguiram se defender contra tantas espingardas dos brancos. Uma vez di- zimados e vencidos, receberam apenas aquele bocado de terra. Então, pensei: “Hou! É assim que os brancos querem tratar também todos os habitantes da floresta no Brasil! É só isso que eles fazem desde sempre! Vão matar toda a caça, os peixes e as árvores. Vão sujar todos os rios e os lagos, e no final toma- rão posse do que resta de nossas terras. Não vão deixar nada vivo! Pensam que não somos humanos e nos detestam igualmente a todos! No entanto, mesmo sendo gente diferente dos brancos, temos boca e olhos, sangue e ossos, como eles! Todos vemos a mesma luz. Todos temos fome e sede. Todos temos a mesma dobra atrás dos joelhos para poder andar! De onde vem essa brutal vontade deles de destruir a floresta e seus habitantes?”. Eram todas essas coisas que me acordavam durante a noite, em Nova York, e, assim, meus pensamentos ficavam passando de uma para outra sem 12959 - A queda do céu.indd 434 8/10/15 12:31 PM
  • 437. 435 trégua, até o amanhecer. Eu também dizia a mim mesmo: “Os antigos brancos desenharam o que chamam de suas leis em peles de papel, mas para eles pare- ce que não passam de mentiras! Na verdade, eles só escutam as palavras da mercadoria!”. Eu ficava atormentado e não conseguia voltar a dormir. A trilha de minhas ideias se afastava e se desdobrava sem parar, em todas as direções, em viagens cada vez mais distantes. É assim a cada vez que sou obrigado a dormir numa cidade grande para falar aos brancos. Estou sempre em busca de outras palavras; palavras que eles ainda não conhecem. Quero que se surpreen­ dam e que prestem atenção. Penso em nossos ancestrais e no modo como vi- viam, penso nas palavras de Omama e nas dos espíritos. Busco palavras muito antigas. Nem sempre são as que ouvi da boca de meus pais e avós. São palavras que vêm do primeiro tempo, mas que, apesar disso, vou buscar no fundo de mim. No começo, não conhecíamos os brancos e menos ainda suas cidades. Porém, desde que eu era criança, eles não param de aumentar e de se aproximar de nós para destruir nossa terra. Há tempos os garimpeiros reviram o leito de nossos rios e logo as mineradoras vão querer escavar as profundezas do chão da floresta. Os fazendeiros e colonos não param de incendiar suas bordas. Por isso hoje eu busco palavras poderosas, para dizer o quanto tudo isso me deixa com raiva. Não quero nada além da floresta e sua caça, os rios e seus peixes, as árvores, seus frutos e seus méis. Quero tudo isso para meus filhos e os filhos deles poderem continuar vivendo bem depois de minha morte. Só isso. Ter conhecido as terras dos antigos brancos durante minhas viagens me deixou pensativo. Com certeza, suas cidades são belas de ver, mas, por outro lado, a agitação de seus habitantes é assustadora. Trens correm o tempo todo debaixo da terra, carros no chão coberto de cimento e aviões atravessam sem trégua o céu encoberto. As pessoas vivem amontoadas umas em cima das ou- tras e apertadas, excitadas como vespas no ninho. Tudo isso causa tontura e obscurece o pensamento. O barulho contínuo e a fumaça que cobre tudo im- pedem de pensar direito. Deve ser mesmo por isso que os brancos não conse- guem nos ouvir! Assim que lhes dirigimos a palavra, a maioria deles responde: “Os habitantes da floresta não passam de mentirosos! Vamos continuar man- dando nossas máquinas para a frente! Arrancaremos minério da terra o quan- to quisermos!”. Contudo, nossos dizeres sobre a terra e o céu não são mentiras. São palavras verdadeiras que os xamãs receberam da imagem de Omama e dos xapiri. Os brancos, com suas mentes fincadas nas mercadorias, não querem 12959 - A queda do céu.indd 435 8/10/15 12:31 PM
  • 438. 436 saber de nada. Continuam a estragar a terra em todos os lugares onde vivem, mesmo debaixo das cidades onde moram! Nunca passa pela cabeça deles que se a maltratarem demais, ela vai acabar revertendo ao caos. Seu pensamento está cheio de esquecimento e vertigem. Por isso eles não têm medo de nada e acham que estão a salvo de tudo. Quando visitei a terra de seus ancestrais, entendi que era o lugar onde todas essas coisas começaram. Foi daquelas re- giões distantes que eles se aproximaram pouco a pouco da nossa floresta, para continuar destratando a terra e instalando nela suas fábricas. Para mim, não é nada agradável viver na cidade. Meu pensamento lá fica irrequieto e meu peito apertado. Não durmo bem, só como coisas estranhas e vivo com medo de ser atropelado por um carro! Nunca consigo pensar com calma. É um lugar que realmente provoca muita aflição. Os brancos pedem dinheiro para tudo o tempo todo, até para beber água e urinar! Aonde quer que se vá, há uma multidão de gente que se apressa para todos os lados sem que se saiba por quê. Anda-se depressa no meio de desconhecidos, sem parar e sem falar, de um lugar para outro. A vida dos brancos que se agitam assim o dia todo como formigas xiri na parece triste. Eles estão sempre impacientes e te- merosos de não chegar a tempo a seus empregos ou de serem despedidos. Quase não dormem e correm sonolentos durante o dia todo. Só falam de tra- balho e do dinheiro que lhes falta. Vivem sem alegria e envelhecem depressa, sempre atarefados, com o pensamento vazio e sempre desejando adquirir novas mercadorias. Então, quando seus cabelos ficam brancos, eles se vão e o traba- lho, que não morre nunca, sobrevive sempre a todos. Depois, seus filhos e netos continuam fazendo a mesma coisa. Omama com certeza não quis nos maltratar desse jeito! Para os habitantes da floresta, as cidades dos brancos são empesteadas por um cheiro ruim de queimado e de epidemia xawara.25 Lá as pessoas trabalham em estado de fan- tasma e não param de engolir o vento das fumaças das fábricas e das máquinas. Elas entram no nariz, na boca e nos olhos; colam nos cabelos de todos. Assim seu peito fica enegrecido. Por isso os brancos ficam doentes com tanta frequên- cia, apesar de todos os seus remédios. Mesmo que os médicos abram seu peito, barriga e olhos, nada resolve. O esperma dos pais cuja carne está impregnada dessa fumaça de epidemia adoece e, por isso, seus filhos nascem com defeitos. É a fumaça do metal que causa tudo isso. Na cidade, nunca é possível ouvir com clareza as palavras que nos são dirigidas. As pessoas precisam ficar coladas 12959 - A queda do céu.indd 436 8/10/15 12:31 PM
  • 439. 437 uma na outra para poderem se ouvir. O zumbido das máquinas e dos motores atrapalha todos os outros sons; a algazarra das rádios e televisões confunde todas as outras vozes. É por causa de toda essa barulheira na qual eles se apres- sam durante o dia que os brancos estão sempre preocupados. Seu coração ba- te depressa demais, seu pensamento fica emaranhado de tonturas e seus olhos estão sempre em alerta. Acho que esse ruído contínuo impede seus pensamen- tos de se juntarem um ao outro. Acabam lá parados, espalhados a seus pés, e é assim que se fica bobo. Mas talvez os brancos gostem desse barulho que os acompanha desde a infância? Para os que cresceram no silêncio da floresta, ao contrário, a barulheira das cidades é dolorosa. É por isso que, quando fico lá muito tempo, minha mente fica tampada e vai se enchendo de escuridão. Fico ansioso e não consigo mais sonhar, porque meu espírito não volta à calma. Eu nasci na floresta, e por isso prefiro viver nela. Só posso ouvir os cantos dos xapiri e sonhar com eles cercado de sua tranquilidade. Gosto do silêncio dela, apenas quebrado pelos chamados fortes dos pássaros hwãihwãiyama, os gritos roucos das araras, o choro dos tucanos, os berros dos bandos de macacos iro ou o trinado dos papagaios. Essas vozes agradam a meus ouvidos. Quando volto de minhas viagens entre os brancos, depois de algum tempo a tontura deixa meus olhos e meu pensamento volta à claridade. Não ouço mais os carros, nem as máquinas, nem os aviões. Só escuto os sapos tooro e as rãs krouma chamando a chuva na floresta. Só escuto o sussurro das folhas no vento e o estrondo dos trovões no céu. As palavras sem sabedoria dos políticos da cida- de vão aos poucos desaparecendo no sossego de meu sono. Fico calmo de novo, caçando e fazendo dançar meus espíritos. A floresta é muito bonita de ver. É fresca e cheirosa. Quando andamos por ela para caçar ou viajar, sentimo- -nos alegres, com o espírito calmo. Escutamos ao longe o chiado das cigarras, as lamúrias dos mutuns e jacamins e os gritos dos macacos-aranha nas árvores. Nossa preocupação é aquietada. Então nossos pensamentos podem seguir um ao outro sem se atrapalhar. É por tudo isso que quero viver na floresta, como fizeram meus antepas- sados antes de mim. Sou neto deles e quero seguir suas pegadas. Às vezes imi- to a língua dos brancos e até possuo algumas de suas mercadorias. Não tenho, porém, desejo algum de me tornar um deles. Em suas cidades não é possível conhecer as coisas do sonho. Nelas não conseguem ver as imagens dos espíritos da floresta e dos ancestrais animais. Seu olhar está preso no que os cerca: as 12959 - A queda do céu.indd 437 8/10/15 12:31 PM
  • 440. 438 mercadorias, a televisão e o dinheiro. Por isso eles nos ignoram e ficam tão pouco preocupados se morremos de suas fumaças de epidemia. Nós, contudo, temos pena dos brancos. Suas cidades são muito grandes e eles vivem desejan- do um monte de objetos bonitos, mas, quando ficam velhos ou enfraquecidos pela doença, de repente têm de abandonar todos eles, que logo se apagam de suas mentes. Só lhes resta então morrer sós e vazios. Mas eles nunca querem pensar nisso, como se não fossem deixar de existir eles também! Se pensassem, talvez não fossem tão ávidos das coisas de nossa terra e tão hostis para conosco. São esses os pensamentos que ocupam minhas noites nas cidades, onde nunca consigo dormir direito. 12959 - A queda do céu.indd 438 8/10/15 12:31 PM
  • 441. 21. De uma guerra a outra 12959 - A queda do céu.indd 439 8/10/15 12:31 PM
  • 442. 440 Descrevo os Yanomami como “o povo feroz” pois é a única expressão que pode representá-los com precisão. É a imagem que eles têm de si mesmos e é assim que gostariam de ser lembrados pelos outros povos. Napoleon A. Chagnon, 1968, p. 1. Durante minhas viagens às distantes terras dos brancos, ouvi alguns deles declararem que nós, Yanomami, gostamos de guerra e passamos nosso tempo flechando uns aos outros. Porém os que dizem essas coisas não conhecem nada de nós e suas palavras só podem ser equivocadas ou mentirosas. É verdade, sim, que nossos antigos guerreavam,1 como os antigos dos brancos faziam naqueles tempos. Mas os deles eram muito mais perigosos e ferozes do que os nossos. Nós nunca nos matamos sem medida, como eles fizeram. Não temos bombas que queimam todas as casas e seus moradores junto! Quando, às vezes, nossos antigos queriam flechar seus inimigos, as coisas eram muito diferentes. Procu- ravam atingir sobretudo os guerreiros que já tinham matado seus parentes e que por isso chamavam de õnokaerima th ë pë.2 Tomados pela raiva do luto de seus mortos, eles conduziam ataques até conseguir se vingar desse modo. Esse é o nosso costume. Só buscamos vingança quando um dos nossos morre por flecha ou zarabatana de feitiçaria.3 Se guerreiros de outra aldeia matam um dos nossos, os filhos, irmãos, cunhados e genros do defunto vão atrás de suas pegadas para flechá-los de volta. Se feiticeiros inimigos oka destroem um de nossos grandes homens, acontece o mesmo. Mas não ficamos nos flechando sem parar, por nada! Se fosse o caso, eu diria, pois gosto das palavras de verdade. Alguns bran- cos chegaram até a afirmar que somos tão hostis entre nós que não podem nos deixar viver juntos na mesma terra!4 Mais outra grande mentira! Nossos ances- trais viviam na mesma floresta havia muito tempo, muito antes de ouvirem falar dos brancos. Essa gente mentirosa acredita mesmo que somos tão perigo- sos quanto os soldados dos brancos em suas guerras? Não. Só quer espalhar más palavras sobre nós porque precisa da ajuda delas para conseguir se apoderar de nossa terra. Mas não é pela beleza de suas árvores, animais e peixes que os bran- cos a desejam. Não. Eles não têm mais amizade pela floresta do que pelos seres que a habitam. O que querem mesmo é derrubá-la, para engordar seu gado e arrancar tudo o que podem tirar do seu chão. 12959 - A queda do céu.indd 440 8/10/15 12:31 PM
  • 443. 441 A valentia guerreira, que chamamos waith iri, veio a existir há muito tem- po. Surgiu na floresta, bem antes de os brancos nos conhecerem, e não foi por acaso.5 Foram o menino guerreiro Õeõeri, Arowë, o valente, e o temível espíri- to Aiamori que a deram a conhecer no primeiro tempo.6 Desde então, as ima- gens desses ancestrais descem até nós desde onde um dia viveram, na terra dos Xamath ari.7 Õeõeri era um recém-nascido.8 Feiticeiros inimigos mataram sua mãe logo depois de ela ter dado à luz no chão da floresta. Abandonaram o bebê órfão sobre um ninho de formigas kaxi. Então, aos poucos, por causa da dor de suas queimaduras e no desespero de seu choro, o menino começou a virar outro. Cresceu muito depressa e logo se tornou um guerreiro valente. Atacou então a casa dos Xamath ari matadores de sua mãe tantas vezes seguidas que acabou com eles todos e, por isso, adoeceu depois de ter comido tantos inimigos. Por fim, os fantasmas dos xamãs da casa de suas vítimas, a pretexto de curá-lo, por sua vez o mataram. Desde então, os ataques continuaram entre as casas de nossos ancestrais, e os guerreiros mais agressivos foram tomados pela exaltação de flechar uns aos outros como caça. No tempo dos nossos an- tigos, é verdade que os Xamath ari guerreavam muito entre si. Matavam primei- ro um ou dois homens numa casa vizinha. Então, os habitantes daquela casa choravam seus mortos e depois atacavam seus agressores para se vingar, e as- sim os reides entre uns e outros não tinham fim. Depois, o esperma e o sangue dos guerreiros belicosos eram transmitidos para seus filhos. Assim, estes se- guiam os passos dos pais e cresciam com a mesma agressividade dentro deles. Por isso eram chamados Niyayopa th ëri, a Gente da Guerra. Esse era o nome que os antigos davam aos Xamath ari que habitavam os campos além das nas- centes do Hwara u,9 lá onde ficou o fantasma de Õeõeri. Não lhe deram esse nome à toa! Eram gente belicosa mesmo! Eram guerreiros que ficavam anima- dos para matar, pensando nos choros de luto de seus inimigos, como caçadores alegres por terem matado suas presas. Foram eles que ensinaram nossos an- cestrais a se flechar uns aos outros e, a partir de então, eles continuaram. A imagem dessa Gente da Guerra continua existindo nas terras altas de nossa floresta, onde seus filhos continuam brigando entre si, seguindo o rastro de seus antepassados. Foi a partir desses primeiros guerreiros que se espalhou entre nós o costume de se atacar entre uma casa e outra. A imagem dessa gen- te se dividiu e se espalhou por toda parte. Foi assim que o fantasma da agres- sividade e da valentia guerreira waith iri se alastrou por nossa floresta e mais 12959 - A queda do céu.indd 441 8/10/15 12:31 PM
  • 444. 442 além, entre os xapiri que chamamos purusianari,10 bem como entre os brancos. É por isso que, desde então, todos conhecem a raiva e a guerra. Porém, o que os brancos chamam de “guerra” em sua língua é algo de que não gostamos. Eles afirmam que os Yanomami não param de se flechar, mas são eles que realmente fazem guerra! Nós, com certeza, não combatemos uns aos outros com a mesma dureza que eles. Se um dos nossos é morto pelas flechas ou pela zarabatana de feitiçaria de um inimigo, apenas revidamos do mesmo jeito, procurando matar o culpado que se encontra em estado de homicida õnokae. É muito diferente das guerras nas quais os brancos não param de fazer sofrer uns aos outros! Eles combatem em grandes grupos, com balas e bombas que queimam todas as casas que encontram. Matam até mulheres e crianças!11 E não é para vingar seus mortos, pois eles não sabem chorá-los do nosso modo. Movem suas guerras só por terem ouvido palavras de afronta, por terras que cobiçam ou das quais querem arrancar minério e petróleo. Não é assim com os garimpeiros? Brigam o tempo todo por seu ouro, bebem muita cachaça e, vi- rando fantasmas, se enfrentam como galinhas ou cães famintos, até se matarem. Fazem tudo isso por cobiça do ouro e nunca choram seus mortos: abandonam- -nos embaixo do chão da floresta! Porém, no primeiro tempo, não foi por cau- sa de terra, de ouro ou de petróleo que Õeõeri fez surgir a valentia guerreira waith iri! Não foi por cobiça dessas coisas que os Niyayopa th ëri ensinaram nos- sos ancestrais a se flechar! Nós, habitantes da floresta, guerreamos apenas para nos vingar, por raiva do luto que sentimos quando alguém mata um dos nossos. Não ficamos nos flechando a torto e a direito, sem boas razões! Choramos nossos mortos por muito tempo, durante várias luas, pois carregamos sua dor no fundo de nós e não paramos de querer vingá-los. Por isso nossos ancestrais apreciavam a bravura guerreira tanto quanto os dos brancos amavam suas mer- cadorias! Embora os brancos se achem espertos, seu pensamento fica cravado nas coisas ruins que querem possuir,12 e é por causa delas que roubam, insultam, combatem e por fim matam uns aos outros. É também por causa delas que maltratam tanto todos os que atrapalham sua ganância. É por isso que, no final, o povo realmente feroz são eles! Quando fazem guerra uns contra os outros, jogam bombas por toda parte e não hesitam em incendiar a terra e o céu. Eu 12959 - A queda do céu.indd 442 8/10/15 12:31 PM
  • 445. 443 os vi, pela televisão, combatendo com seus aviões por petróleo.13 Diante daque- les fogaréus, de onde saíam imensas colunas de fumaça preta, pensei, apreen- sivo, que elas poderiam um dia chegar até nossa floresta e que os xapiri não conseguiriam dispersá-las. Mais tarde, revi muitas vezes essa mesma guerra no tempo do sonho. Isso me preocupou muito, porque pensava: “Hou! Esse povo é mesmo muito agressivo e perigoso! Se nos atacasse desse modo, iria nos re- duzir a nada, e a fumaça de epidemia de suas bombas14 logo acabaria com os poucos sobreviventes!”. Os brancos escondem o corpo de seus mortos debaixo da terra, em lugares que chamam de cemitério. Eu os vi com meus próprios olhos. Já nossos maio- res, desde o primeiro tempo, enterravam ou bebiam as cinzas dos ossos de nossos mortos. Os brancos não fazem guerra por seus cemitérios. Nós, ao con- trário, só guerreamos pelo valor das cabaças de cinza de nossos defuntos mor- tos por inimigos.15 Essas são as únicas palavras de guerra verdadeiras para nós. Somos outra gente. Só nos flechamos quando queremos resgatar o valor do sangue de um dos nossos; só quando queremos tornar recíproco o estado de homicida õnokae16 daqueles que o mataram. Isso não acontece o tempo todo e não atacamos gente de outras casas por nenhuma outra razão. Mas quando os parentes de um morto sabem onde moram os guerreiros que o flecharam, lan- çam em seguida um ataque para vingá-lo.17 E quando se trata de feiticeiros oka que quebraram os ossos de um grande homem, acontece o mesmo. Assim que visitantes trazem notícias sobre a casa de onde podem ter vindo, um grupo de guerreiros parte imediatamente em busca de vingança.18 Então choramos o falecido com muita raiva. Seus próximos queimam suas pontas de flecha enquanto se lamentam com muita dor. Seus ossos também são queimados e suas cinzas são guardadas, para encher várias cabaças pora axi. Mas parte dessas cinzas novas é esfregada no chão pelos guerreiros que querem vingá-lo, enquanto imitam a imagem da onça. Fazem isso para poder enganar os que o mataram, para poderem pegá-los de surpresa e revidar.19 Depois, co- bertos de tintura preta,20 eles se juntam no centro da casa com seus arcos e flechas. Então, agora imitando a imagem do urubu, começam a jogar no chão pacotes de ossos de caça que tinham presos na boca com um cipó.21 Para afas- tarem o medo que poderia enfraquecê-los, os xamãs em seguida fazem descer 12959 - A queda do céu.indd 443 8/10/15 12:31 PM
  • 446. 444 para junto deles a imagem dos ancestrais que, no primeiro tempo, fizeram chegar a bravura guerreira à floresta e, depois, as dos espíritos macaco-prego, para torná-los vigilantes em combate.22 Chamam também as imagens de guer- ra wainama e õkaranama, que irão na frente deles durante suas incursões.23 Depois fazem dançar as imagens de comedores de gente que chegarão a seu lado para devorar seus inimigos, como as do urubu, da onça e do gavião hera- ma,24 e também as das moscas e dos vermes, e ainda das abelhas xaki, õi e wakopo, que se alimentam de sangue e carne putrefata.25 Por fim, fazem tam- bém descer a eles as imagens de seres de morte que os precederão até seus inimigos, como as dos espíritos funerários yorohiyoma e hixãkari, espíritos de mau agouro õrihiari e espíritos da fome de carne humana naikiari.26 Depois de tudo isso, antes de se porem a caminho, os guerreiros treinam flechando cupin- zeiros ou pacotes de folhas de palmeira hoko si representando inimigos, para testar sua habilidade.27 É o que faziam nossos antigos antes de partir para um reide. Enviavam todas essas imagens funestas para a casa da gente que iriam atacar, para matá-la mais facilmente. Seus xapiri também destruíam as casas de espíritos dos xamãs inimigos que poderiam se opor a eles e depois, com a chegada de todas essas imagens de morte, os guerreiros mais valentes dentre seus adversários ficavam enfraquecidos e não podiam mais combater. Mais tarde, depois do primeiro ataque lançado na cremação dos ossos do falecido, seus filhos, sua mulher e seus cunhados choram-no de novo durante um reahu no qual as cinzas do alto de sua cabaça funerária são enterradas à beira do fogo de sua viúva.28 Então são convidados homens de outras aldeias, a quem se pede, num diálogo de convite hiimuu, que se juntem aos guerreiros da casa que sairão num novo ataque para vingar o defunto. Se não conseguirem flechar nenhum inimigo nessas primeiras tentativas, tudo recomeça do mesmo modo durante vários reahu, com as cinzas do meio e depois do fundo da caba- ça funerária.29 E por fim, quando ela fica vazia, quando a raiva do luto passa, as incursões guerreiras também cessam.30 É assim que acontece. Quando uma morte se deve a um rastro de flecha, as cinzas do defunto nunca são sepultadas enquanto ele não estiver realmente vingado. Mas isso pode demorar um certo tempo. Muitas vezes, os atacantes não encontram os inimigos que procuram, porque mudaram de casa ou se refugiaram em acampamentos na floresta. E mesmo quando conseguem localizá-los, nem sempre conseguem atingir os guerreiros reputados que querem flechar para aplacar sua vingança. Pode tam- 12959 - A queda do céu.indd 444 8/10/15 12:31 PM
  • 447. 445 bém acontecer de os habitantes da casa atacada estarem atentos e repelirem seus agressores com saraivadas de flechas assim que os avistam! Assim é. En- quanto suas mãos não atingem quem procuram, enquanto não tiverem flecha- do um homem em estado de homicida õnokae, os parentes do defunto partem em novos ataques depois de cada reahu.31 As pessoas guardam mesmo o rancor32 das cabaças cinerárias dos ossos de seus mortos. É por isso que querem tanto que seus inimigos sintam o mes- mo. Os guerreiros valentes são incitados à vingança pelas lágrimas dos órfãos, pelos lamentos das mulheres, pelo sofrimento de todos os parentes dos faleci- dos. A dor e o choro do luto duram várias luas, enquanto as cinzas funerárias não forem postas em esquecimento. Para nós, essas palavras sobre as cabaças de cinzas pora axi são de fato fortes e de muito valor. Nossos maiores as man- tinham desde o primeiro tempo. São ainda guardadas pela Gente da Guerra, que continua vivendo nas terras altas da nossa floresta. Assim, quando um homem de idade, um grande homem, é flechado por inimigos, ou quando seus ossos são quebrados por feiticeiros oka, seus parentes logo partem para a guer- ra movidos pelo rancor de suas cinzas. Seus filhos, irmãos, cunhados e sogros choram-no com grande tristeza e querem resgatar o valor de seu sangue. Nisso imitam o que nos ensinou Õeõeri, o menino guerreiro que, no primeiro tempo, vingou sua mãe, morta por feiticeiros xamath ari. Nossos ancestrais seguiram suas pegadas e nossos avós e pais depois deles. Nada disso é de hoje! No entanto, nossos antigos não lançavam ataques guerreiros todos os dias! Eu os vi partir em guerra apenas algumas vezes quando era criança. Só iam por raiva de luto e para vingar seus mortos. Tentavam flechar inimigos depois de sepultar as cinzas de seus parentes mortos, querendo tornar recíproco o estado de homicida õnokae. Procuravam flechar os guerreiros que tinham matado seus parentes e só. Não flechavam qualquer um! Os brancos não podem dizer que somos maus e ferozes apenas porque queremos vingar nossos mortos! Não matamos ninguém por mercadorias, por terra ou por petróleo, como eles fa- zem! Brigamos por seres humanos. Guerreamos pela dor que sentimos por nossos parentes recém-falecidos. Nossos antigos podiam se mostrar belicosos, é verdade, mas depois de algum tempo, quando os guerreiros mais agressivos tinham sido mortos de ambos os lados, faziam chegar a seus inimigos palavras de paz, por intermédio de outras casas. Avisavam que não iriam mais atacar e os incitavam a fazer 12959 - A queda do céu.indd 445 8/10/15 12:31 PM
  • 448. 446 amizade. Então estes, cansados dos contínuos ataques, ousavam fazer-lhes uma visita para tentar se reconciliar. Chamamos isso de fazer rimimuu.33 Apesar da desconfiança, os ânimos voltavam a se acalmar e as pessoas conseguiam se entender. Porém, acontecia às vezes, passadas várias luas, de palavras más se- rem novamente trocadas e de outra pessoa ser flechada.34 Então as incursões recomeçavam por algum tempo, antes de cessarem outra vez, do mesmo modo. Assim, uma vez mortos os poucos grandes guerreiros em estado de homicida õnokae,35 os outros homens, menos briguentos, sempre acabavam querendo fazer as pazes. Então, eram as mulheres mais velhas que tomavam a dianteira para proteger as pessoas de sua casa, pois as mulheres não levam flechas. Elas chegavam perto da casa dos inimigos e gritavam: “Não tenham medo, não fujam! Aë! Somos mulheres, não nos flechem! Aë! Viemos como amigas! Aë!”. Desse modo, elas restabeleciam o contato e os homens podiam vir algum tem- po depois para entabular um diálogo de convite hiimuu com seus antigos ad- versários.36 Então pronunciavam palavras de amizade e reafirmavam o fim das hostilidades: “Awei! Vamos parar de atacar! Vamos parar de nos maltratar! Sejamos amigos! Estamos cansados de chorar os nossos! Não queremos mais guerrear sem trégua! Chega! Dá dó não podermos nem abrir nossas roças, nem caçar, nem pegar água sem medo de sermos flechados! Queremos que nossos filhos parem de chorar de fome e de sede!”. Então o medo acabava de ambos os lados e as pessoas começavam a pen- sar: “Awei! É uma boa coisa! Vou poder conseguir bens deles e vamos ficar amigos!”. E se punham a trocar redes, panelas, facões e machados, facas, mi- çangas, algodão, tabaco e cães. Após esse primeiro contato, eles continuavam se visitando e dando objetos uns aos outros com generosidade. Isso durava algum tempo, e aí acabavam se casando entre eles e não deixavam mais de ser amigos. Era isso que faziam nossos maiores quando estavam fartos de se fle- char, porque se nunca tivessem posto um fim a suas vinganças, teriam conti- nuado a guerrear sem trégua e teriam todos morrido! Há muito tempo, a gen- te do pai de minha esposa fez amizade com meus avós desse modo. Naquela época, moravam no rio Catrimani e de lá costumavam lançar incursões guer- reiras contra nossas casas do alto rio Toototobi.37 Isso durou bastante tempo, mas, por fim, retomaram contatos pacíficos e nós, que crescemos depois deles, continuamos amigos até hoje. Foi por isso que eu pude vir a me casar com uma de suas filhas! 12959 - A queda do céu.indd 446 8/10/15 12:31 PM
  • 449. 447 Antigamente, nossos guerreiros se flechavam desse modo, é verdade. In- clusive lançaram muitos reides naqueles tempos em que eu não tinha nascido. Porém, era uma época em que os maiores dos brancos também faziam guerras, e muito grandes. Nossos antigos apenas se maltratavam com plantas de feiti- çaria hw ëri e só combatiam com flechas de suas roças e pontas de curare dos cipós da floresta. Não atacavam queimando multidões de pessoas com foguetes e bombas! Com certeza, não somos nós o povo feroz! Nossos antepassados e, ainda hoje, as gentes nossas das terras altas nunca fariam incursões guerreiras para matar muitas pessoas de uma vez.38 Quando nossos guerreiros lançam vários ataques seguidos para vingar um morto, é porque costuma demorar bastante tempo até que consigam flechar seus inimigos, que estão sempre aler- tas! No final, a duras penas, chegam a matar um ou dois guerreiros renomados de uma casa, e depois um de outro grupo, que veio em reforço. É só. Uma vez mortos esses homens que estavam em estado de homicida õnokae e sepultadas as cinzas de suas vítimas, acaba tudo. Isso basta. A raiva passa, os pensamentos se acalmam. Como eu disse, são de preferência os homens mais agressivos e valentes que são visados. Contudo, tomados pela raiva, os guerreiros que cer- cam uma casa podem às vezes flechar outros homens, inocentes da morte que querem vingar.39 Isso pode acontecer. Dito isso, ao contrário dos brancos, ja- mais irão matar mulheres e crianças, como fizeram os garimpeiros que massa- craram os habitantes de Hw axima u.40 12959 - A queda do céu.indd 447 8/10/15 12:31 PM
  • 450. 448 Antigamente, há muito tempo mesmo, meus avós viviam nas terras altas, perto das nascentes do Orinoco. Eles ainda não conheciam as epidemias xawa- ra; eram muito numerosos e suas casas eram próximas umas das outras. Na- quela época, guerreavam sobretudo contra os Hayowa th ëri, que eram Xama- th ari cujas casas se encontravam a jusante das suas, em direção ao poente.41 Porém, cansados de serem atacados sem trégua, meus antigos acabaram se afastando e se instalando no alto rio Toototobi, no limite da terra que ocupa- vam até então.42 Aí as incursões dos Xamath ari cessaram. Porém, mais tarde, pouco antes de eu nascer, os reides recomeçaram, agora em direção ao nascen- te, primeiro contra a gente de Amikoapë, que vivia nas nascentes do rio Muca- jaí, e, depois, contra a gente do alto rio Catrimani, que os nossos chamavam de Mai koxi.43 Foi isso que, criança, eu ouvia meu padrasto, o segundo marido de minha mãe, contar em seus discursos hereamuu. No entanto, se esses antigos se flecharam assim, não era de modo algum para tentar se apoderar de regiões da floresta que cobiçavam! Seus reides sempre se deviam, ao contrário, à raiva e à dor causadas pelas cinzas de seus mortos. Os brancos podem dizer que isso é “fazer guerra” como eles fazem, mas nós só chamamos essas incursões de niyayu, flechar-se uns aos outros. Por fim, meus antigos chegaram a Marakana, um lugar nas terras baixas do rio Toototobi, onde vivi quando era pequeno. Naquela época, ainda guer- reavam bastante, sobretudo contra os Mai koxi. Mas às vezes também lançavam ataques contra os habitantes de Hw axi, próximos das nascentes do rio Parima, ou contra a gente de Ariwaa, um grupo xamath ari que vivia no alto Demini,44 ou então eram atacados por eles. Assim era, naquele tempo! Os xamãs faziam descer e dançar as imagens da Gente da Guerra constantemente. Assim, os homens de nossa casa ficavam valentes e não tinham medo de ir flechar os guerreiros ou feiticeiros distantes que tinham matado seus próximos. No en- tanto, mais tarde, quando cresci, meus antigos pararam de guerrear.45 Encon- travam-se então muito longe das terras altas onde vive o fantasma de Õeõeri, que lhes tinha ensinado o desejo de vingança. Já os que ainda vivem perto das nascentes dos rios, nas colinas, continuam se flechando até hoje, pois foi lá que nasceu a valentia guerreira waith iri. Assim é. Meu padrasto me contou muitas vezes como, quando era novo, tinha ido à guerra para vingar o pai, morto por guerreiros xamath ari. Foi assim que ele se tornou um homem valente, passan- do pela reclusão dos guerreiros homicidas que chamamos de õnokaemuu. Mais 12959 - A queda do céu.indd 448 8/10/15 12:31 PM
  • 451. 449 tarde, ele também vingou meu pai, que era seu amigo, e a mãe de minha mãe, cujos ossos foram quebrados por feiticeiros oka vindos de Amikoapë, quando andava sozinha na floresta. Depois, vingou ainda vários de seus cunhados e sogros, mortos em ataques lançados pelos Mai koxi. Lembro-me bem de tê-lo visto, quando era criança, se pôr a caminho para flechar inimigos. Era muito valente mesmo! Mas tudo isso aconteceu há muito tempo. Agora, ele é um homem idoso, parou de guerrear há muito tempo. Vingou-nos suficientemen- te no passado. Ele me disse que já bastava; que tinha resgatado o valor de todas aquelas mortes e que estavam pagas. Está bem assim. Não era de modo algum por causa das mulheres que nossos antigos guer- reavam, como os brancos às vezes dizem!46 Eles só partiam para atacar, como contei, quando todos estavam tomados pela raiva do luto e queriam flechar os que tinham matado o parente que choravam. Às vezes chamavam guerreiros de casas vizinhas para acompanhá-los em suas incursões. Então matavam alguns inimigos, e seus parentes, enlutados por sua vez, também procuravam se vingar. De modo que esses ataques mútuos duravam um certo tempo, até que, de ambos os lados, as cinzas dos ossos dos defuntos tivessem todas sido postas em esque- cimento. Era o que acontecia. Tratava-se de vingar os mortos, não de brigar por mulheres. Vi isso muitas vezes durante a minha infância. Meu padrasto, que era, como disse, um guerreiro muito temido, nunca foi à guerra por causa de histó- rias de mulheres! Liderou muitos ataques contra inimigos distantes, mas foi sempre por causa da raiva do luto, para vingar os mortos de nossa casa. Ele jamais teria deixado vivos guerreiros em estado de homicida õnokae que tives- sem matado seus próximos! Não parava de resgatar o sangue de nossos mortos, devorando os inimigos do mesmo modo que eles tinham comido os de nossa casa. Esse era, desde o primeiro tempo, o modo de pensar que a Gente da Guer- ra tinha ensinado aos nossos maiores. Quanto às brigas por causa de mulheres, é diferente. Quando um homem tenta pegar a mulher de um de seus anfitriões durante uma visita ou uma festa reahu, os adversários — se o marido se dispuser a combater — se revezam para bater um no outro na cabeça, com bordunas compridas que chamamos anomai.47 Não se vai à guerra por causa disso! Causa muitos sangramentos, mas o crânio é duro e a pessoa continua viva.48 É assim que acabamos com a 12959 - A queda do céu.indd 449 8/10/15 12:31 PM
  • 452. 450 raiva provocada pelo ciúme, porque a dor é rápida para acalmar os ânimos! É isso que de fato acontece entre nós quando alguém deseja a mulher de outro! Os homens fingem desprezo, declarando que o sexo das mulheres cheira mal, mas isso não os impede de se enfrentarem furiosamente para conservar a es- posa! Seu pensamento fica cravado nela e não hesitam em brigar pela mulher com ardor. Os brancos também dizem que somos maus e agressivos porque brigamos para guardar nossas mulheres. No entanto, eles fazem o mesmo em suas cidades! Vi isso diversas vezes! Quando um marido percebe que a mulher faz amizade com outro homem, fica enraivecido. Furioso, xinga o rival e logo quer brigar. E também maltrata a mulher, chega às vezes a matá-la. Por que falam tão mal de nós, afinal? Quando eu era criança, nossos antigos não costumavam brigar por causa de mulheres. Isso ocorria, é claro, mas demorava muito antes de recomeçar. Lembro-me de que certa vez aconteceu isso por causa de uma de minhas irmãs adolescentes, em Marakana. Ela tinha sido dada pelo pai a um genro que tinha trabalhado muito para consegui-la, mas ela preferia um rapaz de uma casa vizinha, que achava bonito e por quem estava apaixonada. Ela o queria de verdade e acabou fugindo com ele. Isso enfureceu o homem a quem ela tinha sido prometida. Então, os próximos da moça seguiram a raiva de seu futuro marido e brigaram com os de seu amante. Bateram forte na cabeça uns dos outros, mas nem por isso se mataram! Bastou causarem essa dor uns aos outros para acalmar sua ira. Não queriam partir para as flechas, pois faziam parte da mesma gente e nossos antigos só lançavam ataques guerreiros contra casas distantes, habitadas por outras gentes.49 Era isso o que acontecia; mas as pessoas também brigavam com exaltação e se batiam na cabeça com borduna por ou- tros motivos: por bananas ou mercadorias roubadas, por palmeiras rasa si cor- tadas em suas roças, por acampamentos na floresta derrubados ou por provi- sões de beiju jogadas no mato pelos convidados na volta de uma festa reahu. Nesses casos, do mesmo modo, bastava que os adversários cobrissem de sangue o couro cabeludo um do outro e sentissem muita dor para a raiva passar. Então diziam, atordoados e exaustos: “Está bem, chega!”. É verdade que, quando as pessoas brigam por ciúme de uma mulher, po- de acontecer de o marido, se for muito agressivo, acabar atirando uma flecha no rival ou até na própria esposa. Nesse caso, seus próximos ficam enfurecidos e querem flechá-lo do mesmo modo. Então, se durante essa troca de flechas 12959 - A queda do céu.indd 450 8/10/15 12:31 PM
  • 453. 451 alguém vier a morrer, os adversários entram logo em guerra por causa do valor de raiva da flecha que matou.50 Furiosos contra aquele que se tornou um ho- micida õnokae, os parentes da vítima em seguida decidem matá-lo por vingan- ça. Mas esse tipo de coisa acontece poucas vezes. É preciso que o marido ciu- mento seja muito agressivo e fique mesmo enfurecido. Foi o que sempre me disseram. Em nossa casa, isso nunca aconteceu, ou pelo menos nunca ouvi os mais velhos contarem tais coisas. Para nós, se uma moça casada fugir com outro homem, as palavras verdadeiras são as do combate de borduna entre gente das casas do marido e do amante. Quando é assim, como ninguém mor- re, a raiva dos adversários passa. Eles param de se maltratar e os ânimos final- mente se acalmam. Ninguém pensa mesmo em guerrear só por isso! Às vezes brigamos de outro modo, só para pôr fim a nossa irritação contra gente de casas amigas. Isso acontece quando falam mal de nós e essas más palavras chegam até nossos ouvidos através de algum visitante de passagem, ou de algum dos nossos que se casou ou está trabalhando por lá para ter uma esposa. Então convidamos os maledicentes para uma festa reahu e, assim que entabulamos com eles um diálogo yãimuu, pedimos que confirmem o boato que ouvimos: “É verdade que vocês nos chamaram de medrosos?”. Se um deles tiver a coragem de responder “Awei! Foi isso mesmo que eu disse! São palavras de verdade! Vocês são covardes e têm medo de nos enfrentar!”, ficamos logo tomados de raiva. Aí começamos a maltratá-los, agarrando e torcendo seus pescoços enquanto prosseguimos nosso diálogo cantado.51 Depois, enfurecido pela troca de provocações, um dos nossos dirá a eles: “Asi! Quero pôr seu pei- to à prova!”. Então, aos pares, anfitriões e convidados vão se enfrentar, se re- vezando para dar socos no torso, ou tapas fortes no flanco um do outro.52 Além disso, se estiverem com muita raiva mesmo, os adversários podem colocar uma pedra dentro do punho cerrado ou então propõem bater no peito um do outro com a parte chata de seus facões, para causar bastante sofrimento. É assim que acontece, é verdade. Porém, nesse caso também, ninguém morre! Brigamos desse jeito só para que as pessoas de outras casas parem de espalhar mentiras a nosso respeito. É nosso costume, desde sempre. Quando a raiva se finca em nosso peito, as imagens da onça e dos quatis dançam em nós e nos tornam agressivos e destemidos.53 Exaltados, ficamos logo prontos para pegar nossas bordunas ou bater no peito de nossos adversários. Maltratamos assim uns aos outros porque só a dor pode aplacar nossa ira. Era esse o modo de nossos an- 12959 - A queda do céu.indd 451 8/10/15 12:31 PM
  • 454. 452 cestrais e continua sendo o nosso, porque, se ficarmos apenas repetindo pala- vras ruins com rancor, a raiva nunca desaparece de verdade de dentro de nós. Se nossos maiores tivessem mesmo matado uns aos outros como alegam alguns brancos, seus ataques guerreiros nunca teriam acabado desde o primei- ro tempo e todos teriam morrido! Não é o caso. Nossos pais e avós eram muito numerosos no passado. Não foram suas próprias flechas que os mataram quase todos, foram as fumaças de epidemia dos brancos! Desde que esses forasteiros chegaram à floresta, paramos de nos flechar em quase todos os lugares.54 Todos os grandes guerreiros de antigamente faleceram, devorados um atrás do outro pelas epidemias xawara. É claro que ainda existem homens valentes entre nós, mas eles perderam a vontade de guerrear. É o que acontece conosco, em nossa casa de Watoriki. As palavras da guerra não desapareceram de nossa mente, mas, hoje, não queremos mais nos maltratar uns aos outros desse modo.55 Preferimos conversar para tentar conter nossa raiva. Ninguém mais tenta nos flechar e nós fazemos o mesmo. Assim, quando, às vezes, suspeitamos que um de nós pode ter sido atacado por feiticeiros oka, ficamos apenas pensando: “Que inimigos distantes poderiam ter vindo até aqui para soprar suas feitiçarias sobre um de nós?”. Não passa disso, não atacamos ninguém. Aqueles que, como eu, cresceram após a morte de nossos antigos, não querem mais mortes por flecha entre nós. Os brancos nos cercaram e, desde então, não param de nos destruir com suas doenças e suas armas. Por isso penso que não devemos mais fazer sofrer a nós mesmos como faziam nossos maiores, quando estavam sozinhos na floresta. Eu nunca participei de um reide guerreiro. É verdade. Não sei o que é flechar um ser humano, nem como é ficar deitado na rede sem comer, como fazem os guerreiros õnokae depois de terem matado. Prefiro que não vivamos mais assim. Nossos maiores possuíam as palavras sobre a guerra e a reclusão dos matadores õnokaemuu desde sempre. Tinham o costume de se vingar de seus inimigos muito antes de os brancos se aproximarem de nós. Mas hoje nossos verdadeiros inimigos são os garimpeiros, os fazendeiros e todos os que querem se apoderar de nossa terra. É contra eles que devemos dirigir nossa raiva.56 É o que eu acho. No presente, é mais sensato pensar em nossos rios cheios de lama e em nossa floresta incendiada do que em nos flechar uns aos outros! Devemos pensar: “Awei! A fumaça de epidemia xawara é nosso verda- 12959 - A queda do céu.indd 452 8/10/15 12:31 PM
  • 455. 453 deiro inimigo! É ela que nos faz virar fantasmas e devora casas inteiras da nossa gente! Que nossos desejos de vingança se fixem nela! Vamos esquecer as coisas da guerra!”. Alguns de nós, nas terras altas, ainda gostam de se flechar, é verdade. Mas eu, que viajo para falar duro aos brancos para defender nossa terra e nossa vida, não quero mais isso. Digo às pessoas de todas as casas que visito em nossa floresta: “Se estiverem com raiva, briguem com palavras! Deem socos no peito uns dos outros! Façam sangrar o crânio de seus desafetos com bordunas! Mas não pensem mais em se flechar e se matar! Só a epidemia xa- wara dos brancos nos odeia a ponto de querer nos destruir. Vamos parar de guerrear entre nós e fixar nosso pensamento neles e na sua hostilidade contra nós!”. São estas as minhas palavras. 12959 - A queda do céu.indd 453 8/10/15 12:31 PM
  • 456. 22. As flores do sonho Espelhos e caminhos dos espíritos. 12959 - A queda do céu.indd 454 8/10/15 12:31 PM
  • 457. 455 Eu não vi as coisas de que eu falo no papel dos livros nem em peles de imagens. Meu papel está dentro de mim e me foi transmitido pelas palavras dos meus maiores. Davi Kopenawa Survival International Public Meeting, 5 dez. 1989, em Londres (arquivos Survival International) A força do pó de yãkoana vem das árvores da floresta. Quando os olhos dos xamãs morrem sob seu efeito, descem para eles os espíritos da mata, que chamamos urihinari,1 os das águas, que chamamos mãu unari, bem como os dos ancestrais animais yarori. Por isso, apenas quem toma yãkoana pode de fato conhecer a floresta. Nossos antigos faziam dançar todos esses espíritos desde o primeiro tempo. Eles nada sabiam do costume dos brancos de desenhar suas palavras.2 Estes, por sua vez, ignoram tudo das coisas da floresta, pois não são capazes de realmente vê-las.3 Só sabem dela as linhas de palavras que vêm de sua própria mente. Por isso só têm pensamentos errados a seu respeito. Já os xamãs não desenham nenhum dizer sobre ela, nem rabiscam traçados da terra.4 Com sabedoria, não as tratam tão mal quanto os brancos. Bebem yãkoa­ na para poder contemplar suas imagens, em vez de reduzi-las a alinhamentos de traços tortuosos. Seu pensamento guarda as palavras do que viram sem ter de escrevê-las. Os brancos, ao contrário, não param de fixar seu olhar sobre os desenhos de suas falas colados em peles de papel e de fazê-los circular entre eles. Desse modo, estudam apenas seu próprio pensamento e, assim, só conhe- cem o que já está dentro deles mesmos. Mas suas peles de papel não falam nem pensam. Só ficam ali, inertes, com seus desenhos negros e suas mentiras. Pre- firo de longe as nossas palavras! São elas que quero ouvir e continuar seguindo. Por manterem a mente cravada em seus próprios rastros, os brancos ignoram os dizeres distantes de outras gentes e lugares. Se tentassem escutar de vez em quando as palavras dos xapiri, seu pensamento talvez fosse menos tacanho e obscuro. Não se empenhariam tanto em destruir a floresta enquanto fingem querer defendê-la com leis que desenham sobre peles de árvores derrubadas! O que os brancos chamam de papel, para nós é papeo siki, pele de papel, ou utupa siki, pele de imagens, pois é tudo feito da pele das árvores.5 Ocorre o mesmo 12959 - A queda do céu.indd 455 8/10/15 12:31 PM
  • 458. 456 com o que chamam de dinheiro. Também não passa de peles de árvores que eles escondem sob uma palavra de mentira só para enganar uns aos outros! Disseram- -me que os brancos fabricam seu papel triturando madeira. Com certeza não foi Omama quem os ensinou a fazer isso! Seus ancestrais, cansados de desenhar em peles de animais, certo dia, devem ter decidido por conta própria matar as árvo- res para fazer papel. Desde então, têm de triturar grandes quantidades delas para fabricá-lo. Não se preocupam nem um pouco com o fato de as árvores proverem o alimento dos espíritos das abelhas e de todos os animais com asas! Por isso também chamo seu papel de “pele de floresta”, urihi siki. O líquido que os brancos chamam de tinta e que utilizam para traçar seus desenhos de palavras, acho que deve ser outra coisa que, há muito tempo, seus antigos começaram a tirar da floresta. Vermelho ou preto, vem das tinturas de urucum dos espíritos, parecidas com as que usamos em nossa pele, mas que são outras, e muito mais bonitas. Foi Omama que as introduziu dentro das árvores, no primeiro tempo.6 Primeiro ensinou seu uso aos xapiri que tinha acabado de criar, para poderem se pintar e se perfumar para suas danças de apresentação. Assim, fazem parte dos bens preciosos dos xapiri. Em seguida, ensinou nossos antepassados a enfeitar seus corpos nas festas reahu, para imitarem a beleza dos ancestrais animais e não mais exporem a feiura de uma pele cinzenta.7 Desde aquele tempo, esses desenhos de urucum são os que preferimos. Mais tarde, Omama também distribuiu a beleza dessas tinturas pelas ár- vores da terra dos antigos brancos. Eles, porém, não demoraram a estragá-las, desviando seu uso. Foi assim que começaram a cozinhá-las em fábricas, para pintar peles de imagens e desenhar suas palavras em peles de papel. Nós somos outra gente. Só desenhamos em nosso corpo, como nos ensinaram Omama e nossos antepassados.8 Foi Yoasi, por inveja do irmão, que desajeitou essas an- tigas palavras antes de colocá-las na mente dos brancos. Então eles pararam de pintar a própria pele e passaram a só usar as tinturas na pele de seu papel. Acho que Yoasi é quem os ancestrais dos brancos nomearam Teosi.9 Sim, é verdade. Os brancos são mesmo gente de Yoasi! Nós, ao contrário, somos os filhos de Omama e por isso seguimos a retidão de suas palavras. Assim, nas festas reahu e quando fazemos dançar nossos espíritos, enfeitamos nossos corpos com pin- turas de urucum vermelho e preto, cobrimos os cabelos com penugem branca, prendemos caudais de arara em nossas braçadeiras e penas de papagaio no lóbulo das orelhas. 12959 - A queda do céu.indd 456 8/10/15 12:31 PM
  • 459. 457 Os dizeres de nossos ancestrais nunca foram desenhados. São muito an- tigos, mas continuam sempre presentes em nosso pensamento, até hoje. Con- tinuamos a revelá-los a nossos filhos, que, depois da nossa morte, farão o mes- mo com os seus. As crianças não conhecem os xapiri. No entanto, prestam atenção nos cantos dos xamãs que os fazem dançar em nossas casas. É desse modo que, aos poucos, as palavras dos maiores vão fazendo seu caminho nos pequenos. Depois, quando ficam adultos, tornam-se por sua vez capazes de dá-las a ouvir. É assim que transmitimos nossa história,10 sem desenhar nossas palavras. Elas vivem no fundo de nós. Não deixamos que desapareçam. Desse modo, quando um rapaz quer por sua vez virar espírito, pede aos xamãs reno- mados de sua casa para lhe darem seus xapiri. Estes então lhe transmitem an- tigas palavras, que se instalam nele e vão se renovando e aumentando com o passar do tempo. Os brancos, por outro lado, não param de querer desenhar suas palavras. Essa também não é coisa que lhes foi ensinada por Omama! Deve ser porque suas mentes são mesmo muito esquecidas! Seus ancestrais devem ter criado esses desenhos para poder seguir seus pensamentos. Talvez tenham pensado, outrora: “Vamos desenhar o que dizemos, e assim talvez nossas palavras não fujam mais para longe de nós”. É verdade. Suas palavras não parecem se firmar por muito tempo em suas mentes. Se escutarem muitas delas sem marcar seu traçado, elas logo desaparecem de seu pensamento. Quando guardam uns desenhos delas, ao contrário, no dia seguinte, depois de as terem esquecido, podem lembrar de repente: “Oae! É isso! As coisas são mesmo como eu as pintei nessa pele de papel!”. É o costume deles. Fazem isso o tempo todo; se- 12959 - A queda do céu.indd 457 8/10/15 12:31 PM
  • 460. 458 não, esqueceriam em seguida tudo o que dizem! Eles gostam muito das peles de imagens, como seus antigos antes deles, porque são outra gente. Deve ser algo bom para o pensamento deles. Guardam suas velhas palavras desenhan- do-as e dão a elas o nome de história. Depois, ficam olhando por muito tem- po para elas e acabam conseguindo fixá-las no pensamento. Então dizem a si mesmos: “Haixopë! Esse é o desenho das palavras de nossos maiores e o que eles nos ensinaram! Devemos seguir suas pegadas e imitá-los!”. É assim que os jovens brancos aprendem a pensar com as palavras que lhes deram seus pais. Assim acham que, como eles, serão capazes de fabricar máquinas e mo- tores, ou que serão professores, enfermeiros ou pilotos de avião. É assim que eles começam a estudar. Nós somos habitantes da floresta. Nosso estudo é outro. Aprendemos as coisas bebendo o pó de yãkoana com nossos xamãs mais antigos. Nos fazem virar espírito e levam nossa imagem muito longe, para combater os espíritos maléficos ou para consertar o peito do céu. É assim que os antigos xamãs nos fazem conhecer os xapiri, abrem seus caminhos até nós e os mandam construir nossas casas de espíritos. Nos ensinam também a palavra de seus cantos e a fazem crescer em nosso pensamento.11 Sem o apoio desses grandes xamãs, nós nos perderíamos no vazio ou despencaríamos na fogueira de mõruxi wakë.12 É assim que aprendemos a pensar direito com os xapiri. É esse o nosso modo de estudar e, assim, não precisamos de peles de papel. O poder da yãkoana nos basta! É ela que faz morrer nossos olhos e abre nosso pensamento. É verdade. Com olhos de vivente, não é possível ver realmente as coisas. As palavras que contam como os humanos vieram a existir pertencem a Omama. São muito numerosas. Os gran- des homens as revelam a nós em seus discursos, falando dos lugares onde seus pais e avós viveram no passado. Quando se tornam espíritos, os xamãs também as dão para nós em seus cantos. Na verdade, nunca paramos de escutá-las! É desse modo que elas se fixam firmemente dentro de nós e nunca se perdem. Os jovens que as ouviram muitas vezes desde pequenos acabam por guardá-las. Quando se tornam adultos, fazem com que se multipliquem neles e as transmi- tem por sua vez aos mais novos; e isso se repete sempre, sem fim. Apesar disso, os brancos acham que não sabemos nada, apenas porque não temos traços para desenhar nossas palavras em linhas.13 Outra grande 12959 - A queda do céu.indd 458 8/10/15 12:31 PM
  • 461. 459 mentira! Nós só ficaríamos ignorantes mesmo se não tivéssemos mais xamãs. Não é porque nossos maiores não tinham escolas que eles não estudavam. Somos outra gente. É com a yãkoana e com os espíritos da floresta que apren- demos. Morremos bebendo o pó da árvore yãkoana hi, para que os xapiri levem nossa imagem para longe. Assim podemos ver terras muito distantes, subir para o peito do céu ou descer ao mundo subterrâneo. Trazemos palavras des- conhecidas desses lugares, para que os habitantes de nossa casa possam ouvi- -las. Esse é nosso modo de ficar sabedor, desde sempre. Não é possível desenhar as palavras dos espíritos para ensiná-las, pois são inumeráveis e não têm fim. Não daria em nada querer escrevê-las todas. Quando os brancos estudam, cravam seu olhar em velhos desenhos de palavras. Depois relatam seu con- teúdo uns aos outros. Não veem nem ouvem eles mesmos as imagens dos seres do primeiro tempo, por isso não podem conhecê-las de fato. Nós, ao contrário, sem caneta nem peles de papel, viramos fantasmas com a yãkoana para ir muito longe, contemplar a imagem dos seres no tempo do sonho. Então, os xapiri nos ensinam suas palavras e é desse modo que nosso pensamento pode se expandir em todas as direções. Sem nos juntarmos com nossos antigos pa- ra beber yãkoana e sem fazermos descer os espíritos da floresta, não podería- mos aprender nada. Com o pó que sopram em nossas narinas, nossos xamãs mais velhos nos dão o sopro de vida de seus espíritos e este se apodera de nós.14 É assim que podemos acompanhá-los quando eles mesmos se tornam xapiri e nos fazem conhecer muitos lugares desconhecidos. Aí, felizes por nos encontrarem, os outros espíritos se aproximam com alegria para construir suas casas junto de nós. Seus cantos penetram em nós e vão se tornando cada vez mais numero- sos. Mesmo que, às vezes, os espíritos sabiá yõrixiamari e japim ayokorari devam escondê-los nas alturas do céu para protegê-los da temível inveja dos xamãs inimigos. Sem a palavra dos xapiri, não teríamos nenhum conheci- mento e não poderíamos dizer coisa alguma. Poderíamos até fingir imitá-los, sem nunca os termos visto, mas isso não daria em nada. Um jovem xamã não pode evocar as terras distantes dos espíritos se sua imagem já não tiver sido levada até elas pelos xapiri de seus antigos. Quando isso ocorre de verdade, ao escutarem seus cantos, as pessoas comuns dirão: “Essas são palavras ver- dadeiras! Ele viu aquilo de que fala! As palavras de seus cantos vêm de muito longe! São mesmo dizeres outros! Como gostaríamos de conhecer esses luga- 12959 - A queda do céu.indd 459 8/10/15 12:31 PM
  • 462. 460 res de onde vêm os xapiri, como ele!”. Os mais velhos que o iniciaram tam- bém irão escutá-lo, deitados em suas redes, e dirão satisfeitos: “Awei! Essas são palavras claras e belas! Agora você conhece de fato as coisas!”. E quando o jovem xamã escutar essas palavras, ficará feliz também! Porém, se tiver bebido yãkoana à toa, só para mentir e enganar seus ouvintes, só conseguirá pronunciar palavras feias e confusas. Nesse caso, os mais velhos, muito des- gostosos, se queixarão dele com raiva: “Ma! Sua língua ainda é língua de fantasma e seu pensamento é só mentira! Ele não conhece nenhuma palavra verdadeira e não é capaz de falar das terras distantes de onde descem os espí- ritos. Ele não viu nada!”. Os xapiri vêm de muito longe e seu número não para de aumentar enquan- to vêm vindo em nossa direção. Seus cantos nos ensinam as palavras dos lugares desconhecidos de onde vêm. Se quisermos conseguir essas palavras de sabedo- ria, temos de responder aos espíritos assim que ouvimos seus cantos se aproxi- mando. É desse modo que eles nos tornam inteligentes. Estudando sob a orien- tação de nossos xamãs mais velhos, não temos a menor necessidade de olhar para peles de papel! É dentro de nossa cabeça, em nosso pensamento,15 que essas palavras de espírito se ligam uma à outra e se estendem sem parar, até muito longe. As pessoas comuns não são assim. Elas apenas vivem, dormem e comem; e só. Preparam as penas de suas flechas e vão caçar. Plantam brotos de bananeira em suas roças e nada mais. Nunca pensam nas palavras dos xapiri. Temem a yãkoana e acham que, se viessem a inalá-la, morreriam. Seu pensa- mento é fechado e curto. O mesmo acontece com os brancos que não estudam. Os brancos não se tornam xamãs. Sua imagem de vida nõreme é cheia de vertigem. Os perfumes que passam e o álcool que bebem tornam seu peito demasiado odorante e quente. É por isso que ele fica vazio.16 Eles não têm nem casa nem cantos de espíritos. Nenhum adorno de penas ou miçangas perten- cente aos xapiri foi colocado em suas imagens por seus antigos. Quando dor- mem, só veem no sonho o que os cerca durante o dia. Eles não sabem sonhar de verdade, pois os espíritos não levam sua imagem durante o sono. Nós, xamãs, ao contrário, somos capazes de sonhar muito longe. As cordas de nossas redes são como antenas por onde o sonho dos xapiri desce até nós diretamente. Sem elas, ele deslizaria para longe, e não poderia entrar em nós. Por isso nosso sonho 12959 - A queda do céu.indd 460 8/10/15 12:31 PM
  • 463. 461 é rápido, como imagens de televisão vindas de terras distantes. Nós sonhamos desse jeito desde sempre, porque somos caçadores que cresceram na floresta. Omama pôs o sonho dentro de nós quando nos criou. Somos seus filhos, e por isso nossos sonhos são tão distantes e inesgotáveis. Os brancos dormem deitados perto do chão, em camas, nas quais se agi- tam com desconforto. Seu sono é ruim e seu sonho tarda a vir. E quando afinal chega, nunca vai longe e acaba muito depressa. Não há dúvida de que eles têm muitas antenas e rádios em suas cidades, mas estes servem apenas para escutar a si mesmos. Seu saber não vai além das palavras que dirigem uns aos outros em todos os lugares onde vivem. As palavras dos xamãs são diferentes. Elas vêm de muito longe e falam de coisas desconhecidas pelas pessoas comuns. Os brancos, que não bebem yãkoana e não fazem dançar os espíritos, as ignoram. Não são capazes de ver Hutukarari, o espírito do céu, nem Xiwãripo, o do caos. Tampouco veem as imagens dos ancestrais animais yarori, nem as dos espíritos da floresta, urihinari. Omama não lhes ensinou nada disso. Seu pensamento fica esfumaçado porque eles dormem amontoados uns em cima dos outros em seus prédios, no meio dos motores e das máquinas. Nós somos outros. Quando nossos olhos, durante o dia, morrem com o pó de yãkoana, à noite dormimos em estado de fantasma. Assim que adorme- cemos, os xapiri começam a descer em nossa direção. Não é preciso beber yãkoana de novo. Seus cantos misturados ressoam de repente na noite, como os gritos estridentes dos bandos de papagaios nas árvores. E logo percebemos, na escuridão, seus inúmeros caminhos luminosos enredados se aproximando, cintilantes como o brilho da lua. Então começamos a responder a seus chama- dos e, assim, seu valor de sonho chega a nós.17 Nosso corpo permanece deitado na rede, mas nossa imagem e nosso sopro de vida voam com eles. A floresta se afasta rapidamente. Logo não vemos mais suas árvores e nos sentimos flu- 12959 - A queda do céu.indd 461 8/10/15 12:31 PM
  • 464. 462 tuando sobre um enorme vazio, como num avião. Voamos em sonho, para muito longe de nossa casa e de nossa terra, pelos caminhos de luz dos xapiri. De lá pode-se ver todas as coisas do céu, da floresta e das águas que os nossos antigos viram antes de nós. O dia dos espíritos é nossa noite, é por isso que eles se apossam de nós durante o sono, sem sabermos. É esse, como eu disse, nosso modo de estudar. Nós, xamãs, possuímos dentro de nós o valor de sonho dos espíritos. São eles que nos permitem sonhar tão longe.18 Por isso suas imagens não param de dançar perto de nós quando dormimos. Bebendo yãkoana, não cochilamos à toa. Sempre estamos prontos para sonhar. Tornados fantasmas, percorremos sem trégua terras distantes, fazendo amizade com os xapiri de seus habitantes. É assim que os xamãs sonham! Os homens comuns são diferentes. Seu pensamento costuma ficar crava- do nas mulheres, e de tanto inalar o perfume de seus adornos de penas puu hana o peito deles acaba cheirando a pênis! Então, os espíritos, com raiva, nunca olham para eles. Por isso sonham pouco, apenas com coisas muito pró- ximas e, mesmo assim, esquecem-nas assim que acordam. Veem apenas suas caçadas e pescarias na floresta e seu trabalho nas roças. Sonham com onças, cobras ou seres maléficos në wãri. Reveem suas danças de apresentação ou seus combates durante as festas reahu. Pensam nos reides guerreiros de que parti- ciparam ou em seus feitiços amorosos.19 Sonham com as mulheres que desejam, com pessoas de outras aldeias de quem são amigos ou então com os mortos de quem têm saudade. Dormem em estado de fantasma e sua imagem sai deles, como a dos xamãs. Mas nunca se afasta muito. Entre eles, apenas os bons ca- çadores podem sonhar um pouco mais longe. Os brancos, quando dormem, só devem ver suas esposas, seus filhos e suas mercadorias. Devem pensar com preocupação em seu trabalho e em suas viagens. Com certeza não podem ver a floresta como nós a vemos! Nós, xamãs, somos diferentes. Não nos contentamos em dormir. Durante o nosso sono, os xapiri estão sempre olhando para nós e querendo falar conosco. Por isso nós também os vemos e podemos sonhar com eles. Eles nos chamam: “Pai, está nos escutando? Seus ouvidos estão tampados? Responda!”. Aí começamos a sonhar e eles chegam até nós envoltos em sua luz intensa. Sem eles, jamais poderíamos sonhar desse modo! Muitas vezes nos acordam para nos alertar: “Pai! Um desconhecido se aproxima! Será que é um ser maléfico?”. Respon- demos: “O que está acontecendo? Haixopë! É verdade! O ser da seca Omoari 12959 - A queda do céu.indd 462 8/10/15 12:31 PM
  • 465. 463 está chegando perto de nossa casa!”. Em seguida partem ao seu encontro para combatê-lo. Muitas vezes também nos chamam apenas porque querem que escutemos seus cantos. O pai deles, o xamã, está dormindo, mas eles estão acordados e querem trabalhar. Pensam: “Hou! É ruim dormir assim! Não que- remos essa preguiça! Temos de fazer nossa dança de apresentação!”. É verda- de! Se os xapiri não tivessem o olhar fixado em nós, não poderíamos sonhar tão longe. Apenas dormiríamos como lâminas de machado no chão da casa. Nós, habitantes da floresta, viemos do esperma e do sangue de Omama, que era um verdadeiro sonhador.20 Foi ele que, no primeiro tempo, plantou na terra que acabara de criar a árvore dos sonhos, que chamamos Mari hi. Desde então, assim que as flores de seus galhos desabrocham, elas nos enviam o sonho.21 Foi assim que ele o pôs em nós, permitindo que nossa imagem se desloque enquanto dormimos. Nós o possuímos através do sangue de nossos maiores. Quando somos crianças, muitas vezes exageramos bebendo mel sel- vagem ou mingau quente de banana. Aí, empanturrados, adormecemos em estado de fantasma e começamos a sonhar, vendo coisas desconhecidas. Na adolescência, passamos nosso tempo andando na floresta, onde seguimos as pistas da caça sem descanso. É então que nosso pensamento pouco a pouco se concentra nos xapiri. Vamos nos apaixonando por eles, como se fossem moças! Começamos a ver em sonho as imagens dos ancestrais animais que acompanham nossas caminhadas pela floresta. Primeiro são as dos gaviões wakoa e kãokãoma,22 e também as da gente das águas que, como eles, são grandes caçadores. Depois vemos aparecer espíritos onça, queixada, macaco- -aranha e anta, bem como muitas outras imagens de animais de caça que ainda não conhecíamos. Quando os xapiri se interessam por nós desse modo, assim que adormecemos os vemos dançar e os ouvimos cantar. Eles se jun- tam, inúmeros, bem alto no peito do céu, à nossa volta. É assim que temos nossos primeiros sonhos na companhia deles. Mais tarde, adultos, bebemos yãkoana com os grandes xamãs que realmente os conhecem, para que abram os seus caminhos para nós. Essas trilhas são brilhantes, finas e transparentes como fios de aranha ou linha de pesca. Elas se prendem ao longo de nossos braços e pernas. Os xapiri descem por elas e então rasgam nosso peito, para abrir nele uma grande clareira onde farão sua dança de apresentação.23 É as- sim que nossa imagem pode segui-los no tempo do sonho, até para além da terra dos ancestrais dos brancos. 12959 - A queda do céu.indd 463 8/10/15 12:31 PM
  • 466. 464 Quando eu era criança, não parava de voar sonhando, bem alto no peito do céu ou no mais fundo das águas. Por isso, mais tarde, pedi a meu sogro que me fizesse beber yãkoana. Não me tornei xamã à toa. Meu pensamento nunca se fixou em mulheres ou mercadorias! Ao contrário, sempre tive curiosidade de conhecer melhor os espíritos, pois as imagens e cantos do sonho que eles nos enviam são de uma beleza muito grande. Esses foram meus estudos, desde sempre. Os xamãs que usam os adornos dos xapiri e possuem seus cantos so- nham com muita sabedoria. Tomados pelo poder das árvores da floresta, acom- panham-nos em seus voos mais distantes, até terras vazias e planas onde só moram espíritos magníficos. Podem ver as imagens de nossos ancestrais que se tornaram animais no primeiro tempo, bem como as de Omama e dos seus. Localizam ao longe as fumaças de epidemia e os seres maléficos que se aproxi- mam para nos devorar. Podem também ir até a terra dos antigos brancos e fazer dançar seus espíritos napënapëri. Enquanto os xapiri se apoderavam de minha imagem, eu também pude contemplar na noite tudo o que meus antepassados conheceram antes de mim. Vi Omama furar a terra com sua barra de ferro comprida para fazer surgir os rios e todos os seus peixes, jacarés e sucuris.24 Vi-o pescar sua mulher Th uëyoma e receber as plantas cultivadas de seu sogro, vindo do fundo das águas. Vi dan- çar a imagem de seu filho, quando se tornou o primeiro de nossos xamãs. Vi, quando a noite ainda não existia, nossos antepassados acenderem grandes fo- gueiras de folhas verdes, para poder copular ocultos pela fumaça. Vi os ances- trais animais fazendo Jacaré rir, para roubar o fogo que caiu de sua boca. Vi Formiga perder a sogra em sua imensa roça de milho. Vi a floresta queimar no primeiro tempo, até sobrarem apenas campos onde as árvores não nascem mais. Também entrei várias vezes, desconfiado, nas casas abarrotadas de seres maléficos da floresta. Voei, apavorado, no grande vazio wawëwawë a que fica 12959 - A queda do céu.indd 464 8/10/15 12:31 PM
  • 467. 465 além da terra e do céu. Pude ver o espírito macaco-aranha, que chamamos de genro do sol, comer seus frutos de calor sem queimar a boca. Vi-o conter a queda do céu e jogar picos rochosos uns contra os outros para testar sua soli- dez. Vislumbrei na escuridão os espíritos morcego tremendo de frio enquanto roíam as beiras do céu e soprando em suas zarabatanas de feitiçaria. Vi o espí- rito do grande escaravelho simotori recortar o topo das montanhas para abrir suas roças. Ouvi os espíritos abelha tagarelando sem parar nas árvores, para defender a floresta. E vi também, na terra dos brancos, muito antes de ir até lá, as máquinas que correm sem pés de que me falavam os meus pais e avós.25 Voando desse modo na companhia dos xapiri, meus sonhos nunca têm fim. Percorrem sem trégua a floresta, as montanhas, as águas e todas as direções do céu e da terra. O sopro de vida dos espíritos está em mim, é o que me per- mite ver todas essas coisas. Eles me chamam durante a noite, e então eu não paro de imitar seus cantos enquanto me desloco com eles. No entanto, quando estou longe de casa, me contento em contemplar a beleza deles em silêncio, pois minha voz poderia atrair a maldade de feiticeiros ou espíritos inimigos. É assim que eu costumo sonhar. Hoje, porém, muitas vezes são também os espí- ritos da epidemia xawarari que levam minha imagem no tempo do sonho. Então, ardendo em febre e tornado fantasma, combato durante o sono os bran- cos e seus soldados, que não param de atiçar minha raiva. Meus xapiri, muito valentes, atacam-nos sem trégua com seus facões e flechas, para vingar os maus-tratos a que sujeitam os habitantes da floresta. Nós, Yanomami, quando queremos conhecer as coisas, esforçamo-nos pa- ra vê-las no sonho. Esse é o modo nosso de ganhar conhecimento. Foi, portan- to, seguindo esse costume que também eu aprendi a ver. Meus antigos não me fizeram apenas repetir suas palavras. Fizeram-me beber yãkoana e permitiram que eu mesmo contemplasse a dança dos espíritos no tempo do sonho. Deram- -me seus próprios xapiri e me disseram: “Olhe! Admire a beleza dos espíritos! Quando estivermos mortos, você continuará a fazê-los descer, como nós faze- mos hoje. Sem eles, seu pensamento não poderá entender as coisas. Continuará na escuridão e no esquecimento!”. Foi assim que eles me abriram os caminhos dos xapiri e fizeram crescer meu pensamento. Agora, vou envelhecendo e, por minha vez, trato de transmitir essas palavras aos jovens, para que elas não se 12959 - A queda do céu.indd 465 8/10/15 12:31 PM
  • 468. 466 percam e jamais sejam esquecidas. Se eu não tivesse conhecido os espíritos, teria permanecido ignorante e falaria sem saber algum. Graças a eles, ao con- trário, minhas palavras podem seguir uma à outra e se estender por todas as partes onde se deslocam. Podem falar de todas as terras desconhecidas de onde descem. É esse nosso modo de ficar sabido. Nós, habitantes da floresta, nunca esquecemos os lugares distantes que visitamos em sonho. De manhã, quando acordamos, suas imagens permanecem vivas em nossa mente. Ao evocá-las, pensamos, satisfeitos: “Essa é a beleza dos xapiri que os antigos conheceram antes de nós! É assim que, desde o primeiro tempo, eles dão a ouvir seus cantos e dançam para se apresentar!”. Essas imagens permanecem nítidas e sempre voltam em nosso pensamento. As palavras dos espíritos que as acompanham também ficam dentro de nós. Não se perdem jamais. Esse é nosso histórico. É a partir delas que podemos pensar com retidão. É por isso que eu digo que nosso pensamento é parecido com as peles de imagens nas quais os brancos guardam os desenhos das falas de seus maiores. Depois, fazemos com que essas palavras vindas do valor de sonho dos es- píritos sejam ouvidas pelas pessoas de nossas casas. Nós não as enganamos, como fizeram no passado os de Teosi, que ficavam repetindo: “Sesusi vai descer na floresta! Se ele quiser, hoje ou amanhã, vai chegar entre nós!”. Mas o tempo passou e nada aconteceu. Nós, xamãs, nunca falamos desse modo. Jamais ilu- dimos os nossos só olhando desenhos de palavras para poder falar. Não preci- samos cravar o nosso olhar em peles de papel para nos lembrarmos das palavras dos xapiri! Elas estão coladas em nosso pensamento e surgem em nossos lábios, sem fim, assim que viramos espíritos. É por isso que somos capazes de revelá-las em seguida aos que nos escutam. São essas palavras sobre as coisas que vi em sonho que eu tento explicar aos brancos para defender a floresta. Se eu não ti- vesse nenhuma casa de espíritos e fosse incapaz de ver qualquer coisa, não teria nada a dizer. Meus olhos dariam dó de ver, minha voz seria hesitante e quem me escutasse logo perceberia a ignorância e o medo entorpecendo minha boca. 12959 - A queda do céu.indd 466 8/10/15 12:31 PM
  • 469. 23. O espírito da floresta Urihi a, a terra-floresta. 12959 - A queda do céu.indd 467 8/10/15 12:31 PM
  • 470. 468 Acho que vocês deveriam sonhar a terra, pois ela tem coração e respira. Davi Kopenawa Entrevista a F. Watson (Survival International), Boa Vista, jul. 1992 Como eu disse, o pensamento dos xamãs se estende por toda parte, debai- xo da terra e das águas, para além do céu e nas regiões mais distantes da flores- ta e além dela. Eles conhecem as inumeráveis palavras desses lugares e as de todos os seres do primeiro tempo. É por isso que amam a floresta e querem tanto defendê-la. A mente dos grandes homens dos brancos, ao contrário, con- tém apenas o traçado das palavras emaranhadas para as quais olham sem parar em suas peles de papel. Com isso, seus pensamentos não podem ir muito longe. Ficam pregados a seus pés e é impossível para eles conhecer a floresta como nós. Por isso não se incomodam nada em destruí-la! Dizem a si mesmos que ela cresceu sozinha e que cobre o