JOÃO CALVINO
AS INSTITUTAS
Volume 1
Edição especial para estudo e pesquisa
Institution de la Religion Chrestienne – As Institutas ou Instituição da Religião Cristã
Da edição original francesa de 1541 – Conforme publicação feita pela Société les Belles Letres,
Paris, 1936, com a colaboração da Société du Musée historique de la Réformation.
1ª edição em português 2002 – 3.000 exemplares
TRADUÇÃO e LEITURA DE PROVAS
Odayr Olivetti
REVISÃO e NOTAS DE ESTUDO E PESQUISA
Hermisten Maia Pereira da Costa
FORMATAÇÃO
Rissato
CAPA
Publicação autorizada pelo Conselho Editorial:
Cláudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vieira, Aproniano Wilson de Macedo, Fernando
Hamilton Costa, Mauro Meister, Ricardo Agreste e Sebastião Bueno Olinto
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio A. Batista Marra
A
presente edição1
é uma reimpressão da Instituição da Religião Cristã
[doravante em geral chamada Institutas2
] (Genebra, 1541), tradução fran-
cesa de um livro cuja primeira redação, em latim, tinha aparecido em
Basiléia em 1535.
Os editores da obra utilizada para esta tradução acrescentaram (dentro do
texto) referências às edições de 1536 e de 1539, e (fora do texto) observações
relacionadas em listas de notas respectivas a cada capítulo. O texto de Calvino
não traz títulos de subdivisões dos assuntos. Os que aparecem nesta tradução
foram feitos pelo tradutor.
A obra Institutas compõe-se de 4 livros e 17 capítulos, distribuídos nesta
ordem: Livro I, capítulos I a III; L. II, IV a VI; L. III, VII a XI; L. IV, XII a XVII.
Como se dá com a redação latina de 1535, esta tradução compreende essen-
cialmente uma epístola dedicada ao rei Francisco I, defesa dos reformados fran-
ceses perseguidos, e uma “suma” – uma apresentação resumida – da doutrina
religiosa deles. Por que essa defesa? E por que essa profissão de fé?
CIRCUNSTÂNCIAS DA
PUBLICAÇÃO DAS
INSTITUTAS
O propósito de redigir uma profissão de fé para
os reformados franceses, ou, como se dizia então, para
os evangélicos, parece presente no Espírito de Calvino
já nos primeiros meses do ano de 1534.
1
A referida edição é a francesa, a partir da qual a Editora Cultura Cristã produziu esta. Trata-se da Instituition
de la Religion Chrestienne, Paris, FR, SociétéLes Belles Letres, 1936. NE.
2
Embora “Instituição” traduza melhor o título, a obra tornou-se conhecida como Institutas, como a chama-
mos aqui. NT.
3
Era secretário apostólico de Charles de Hangest – bispo de Noyon (1501-1525) – e procurador fiscal do
município. NE
João Calvino tinha então vinte e cinco anos. Sua infância tinha se passado à
sombra da catedral de Noyon, sua cidade natal. Seu pai era escrivão do capítulo,3
isto é, da assembléia do cantão. Ele tinha sabido aproveitar-se da proteção dos
grandes prelados de Noyon para enviar seu filho a Paris, para os seus estudos. No
4 As Institutas – Edição Especial
colégio chamado da Marche, Calvino tinha tido, embora por pouco tempo, o
mais famoso mestre e pedagogo da época, Mathurin Cordier,4
que lhe ensinou
latim (agosto de 1523). Pouco mais tarde, em Bourges, onde fez o curso de direi-
to, o professor Melchior Wolmar,5
luterano declarado, lhe tinha ensinado grego.
Concluídos os seus estudos jurídicos, Calvino dedicou-se à literatura.6
Talvez
pensasse numa carreira de humanista, como a de Erasmo, por quem ele tinha
grande admiração.7
Mantinha-se ligado aos humanistas e a alguns homens que se
preocupavam com a vida religiosa, como seu primo Robert Olivetan. Subitamen-
te, sua vida laboriosa foi perturbada por um escândalo em que estavam envolvi-
dos os teólogos da Sorbonne. Aconteceu que no dia primeiro de novembro de
1533, por ocasião da reabertura da Universidade de Paris, o reitor, conforme o
costume, leu um discurso. Este continha algumas declarações inesperadas em tal
circunstância. Mostrando grande desprezo pelos sofistas, que reduziam a teolo-
gia aos exercícios da escolástica, opôs a eles a “filosofia de Cristo”, expressão do
gosto de Erasmo, suspeito para os teólogos. Ele proclamava Cristo como o único
mediador, o que a Sorbonne considerava ofensivo à “Virgem” e aos santos. Ele
elogiava o retorno ao Evangelho: era o rompimento com a Igreja e suas tradições.
O discurso lido pelo reitor era de Calvino. Tal foi o escândalo que a Sorbonne8
denunciou o autor ao Parlamento de Paris com o fim de processá-lo por heresia.
4
Maturinus Corderius (1479-1564) foi fundamental na formação do estilo de Calvino. Mais tarde Calvino
dedicaria o seu comentário de Primeira aos Tessalonicenses a Corderius (17/02/1550), a quem chama de
“homem de eminente piedade e erudição” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan,
Baker Book House Company, 1981, Vol. XXI, p. 234), reconhecendo a sua dívida para com ele: “Eu me
reconheço endividado a você pelo progresso que foi feito desde aquele tempo. E isto eu estava desejoso de
testemunhar à posteridade que, se qualquer vantagem proviesse a eles de meus escritos, eles saberiam que
em algum grau eles têm sua origem em você.” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Vol. XXI, p. 234).
Posteriormente, convertido ao protestantismo, Calvino o convidou a lecionar na Academia de Genebra, o
que Corderius aceitou, sendo inclusive durante algum tempo diretor daquela instituição, permanecendo ali
até a sua morte em 1564, quatro meses depois de Calvino. Corderius morreu em Genebra, em 8 de setembro
de 1564. Corderius, além de brilhante e laborioso professor, era conhecido por sua erudição, piedade e
integridade. NE.
5
Melchior Wolmar († 1561), professor também de Théodore de Beza (1519-1605) foi de fundamental impor-
tância no ensino de grego a Calvino. Mais tarde, Calvino lhe dedicaria o seu comentário de Segunda aos
Coríntios (01/08/1546), onde diz que Wolmar, era “o mais distinguido dos mestres [de grego]”. (J. Calvino,
Exposição de 2 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1995, Dedicatória, p. 8). NE.
6
Ele mesmo resumiria a sua infância: “Quando era ainda bem pequeno, meu pai me destinou aos estudos de
teologia. Mais tarde, porém, ao ponderar que a profissão jurídica comumente promovia aqueles que saíam
em busca de riquezas, tal prospecto o induziu a subitamente mudar seu propósito. E assim aconteceu que fui
afastado do estudo de filosofia e encaminhado aos estudos da jurisprudência. A essa atividade me diligenciei
a aplicar-me com toda a fidelidade, em obediência a meu pai; mas Deus, pela secreta providência, finalmen-
te deu uma direção diferente ao meu curso.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos,
1999, Vol. 1, pp. 37-38). NE.
7
A primeira obra escrita por Calvino foi publicada com seus próprios recursos: a edição comentada do livro
de Sêneca, De Clementia (4 de abril de 1532). Um exemplar da obra foi enviada a Erasmo de Roterdã
(c.1469-1536). NE.
8
Universidade de Paris (tendo os seus Estatutos, elaborados por Roberto Courson, aprovados em 1215),
constava de quatro Faculdades: Teologia, Filosofia (“Artes”) (a mais concorrida), Direito e Medicina. Toda-
via, ela especializou-se no ensino de Teologia, tornando-se para a “santa igreja”, como “a árvore da vida”.
Em 1255, escreve o papa Alexandre IV (1254-1261): “A ciência das escolas de Paris está na Santa Igreja
5
Cop, o reitor, fugiu para Basiléia; Calvino se escondeu num subúrbio parisiense
(em Chaillot, ao que parece), e depois se refugiou na casa de um amigo, em
Claix, perto de Angoulême. Foi lá, em sua solidão, tendo à mão uma rica bibli-
oteca, que ele formou o propósito de redigir sua profissão de fé. Ele tinha renunci-
ado ao estudo de literatura; passou a dedicar-se unicamente à vida espiritual. Foi lá
que se deu a sua conversão que, segundo suas confidências, tinha sido repentina.9
De Angoulême ele tinha ido para Nérac, capital dos Estados da rainha de
Navarra, sendo ela um tanto indulgente para com os evangélicos molestados e
perseguidos. Calvino tinha voltado a Noyon para ali renunciar a seus benefícios
Introdução
como a árvore da vida no paraíso terrestre e como a lâmpada refulgente na casa do Senhor. Como uma mãe
fecunda de erudição, ela faz jorrar em abundância das fontes da doutrina da salvação os rios que vão banhar
a face estéril da terra, ela alegra por toda parte a Cidade de Deus e subdivide as águas da ciência que faz
correr nas praças públicas para o refrigério das almas sedentas de justiça.... É em Paris que o gênero huma-
no, deformado pela cegueira de sua ignorância original, recupera sua visão e sua beleza pelo conhecimento
da luz verdadeira que irradia da ciência divina.” (In: Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, São
Paulo, Martins Fontes, 1995, p. 490). Este elogio de Alexandre IV envolvia obviamente a sua vitória sobre
a autonomia da Universidade, na qual ele demitiu e contratou quem desejou, concedendo amplos poderes
aos religiosos mendicantes... fiéis ao papa. A Universidade de Paris – apesar do antagonismo interno –,
tornou-se a definidora, defensora e divulgadora da ortodoxia católica, tendo os papas ao longo dos anos,
contribuído decisoriamente para a sua projeção internacional. “Ora, na medida em que ensinava teologia, a
Universidade de Paris cessava de pertencer a si mesma e dependia de uma jurisdição mais alta do que a da
razão individual ou da tradição escolar. Sua própria importância, o número sem cessar crescente dos mestres
e alunos que vinham de todas as partes do mundo cristão para aí se instruir faziam dela a fonte do erro ou da
verdade teológicos para toda a cristandade.” (Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, p. 487). Aliás, os
papas procuravam sempre tornar as Universidades em instrumento conservador e defensor da “ortodoxia”
católica... Por outro lado, os reis também viam nas Universidades um meio de projeção pessoal e propaga-
ção do seu reino.
Em meados do século XIII, a Universidade de Paris passou a chamar-se Universidade de Sorbonne, em
homenagem a Robert de Sorbon. NE.
9
Não nos é possível precisar as circunstâncias e data da “súbita conversão” de Calvino, contudo as evidências
apontam para um período entre c. 1532-1534. Devemos estar atentos também, para o fato de que a vida de
Calvino, mesmo antes da sua conversão, não fora marcada por um comportamento dissoluto e imoral – já
tão comum nos jovens de seu tempo –, antes, a sua conversão, como observa Schaff, “foi uma transformação
do romanismo para o protestantismo, da superstição papal para a fé evangélica, do tradicionalismo escolástico
para a simplicidade bíblica.” (Philip Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts,
Hendrickson Publishers, 1996, Vol. VIII, p. 310).
Crê-se que o seu primo Olivétan – ainda que não isoladamente –, teve uma participação importante na
sua conversão ao protestantismo. Lembremo-nos de que Calvino não é muito pródigo ao falar da sua vida.
No que se refere à sua conversão, em 1539 diz: “Contrariado com a novidade, eu ouvia com muita má
vontade e, no início, confesso, resisti com energia e irritação; porque (tal é a firmeza ou descaramento
com os quais é natural aos homens resistir no caminho que outrora tomaram) foi com a maior dificuldade
que fui induzido a confessar que, por toda minha vida, eu estivera na ignorância e no erro.” (Juan Calvino,
Respuesta al Cardeal Sadoleto, 4ª ed. Barcelona, Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1990,
p. 63). Na introdução do seu comentário de Salmos (1557), diz que: “Inicialmente, visto eu me achar tão
obstinadamente devotado às superstições do papado, para que pudesse desvencilhar-me com facilidade
de tão profundo abismo de lama, Deus, por um ato súbito de conversão, subjugou e trouxe minha mente
a uma disposição suscetível, a qual era mais empedernida em tais matérias do que se poderia esperar de
mim naquele primeiro período de minha vida.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos,
1999, Vol. 1, p. 38.) Também na já citada carta ao Cardeal Sadoleto (01/09/1539), Calvino descreve as
suas angústias espirituais no romanismo, resultantes do que a igreja pregava (Vd. Juan Calvino, Respuesta
al Cardeal Sadoleto, pp. 61-64). No entanto, em nenhum momento, Calvino menciona o instrumento
humano usado por Deus. NE.
6 As Institutas – Edição Especial
eclesiásticos,10
e a Paris, quando um novo escândalo desencadeou a perseguição
contra os luteranos.
Na noite de 17 de outubro de 1534, em Paris foram fixados cartazes contra
a missa, e isso foi feito até na porta do quarto do rei, no castelo situado às mar-
gens do Rio Loire. Soube-se mais tarde que tinha sido obra de um lionês chama-
do Marcourt, primeiro pastor em Neuchâtel, a partir de 1531.
O Parlamento logo submeteu os suspeitos a tortura, condenou-os a suplíci-
os de extrema crueldade: que lhes arrancassem a língua e lhes amputassem as
mãos, antes de queimá-los vivos. O rei assinou uma ordem surpreendente da
parte de um amigo das letras, proibindo, sob pena de morte, a impressão de todo
e qualquer livro (em 13 de janeiro de 1535).
Passou-se um ano até que, como privilégio excepcional, fosse feita uma
concessão a doze impressoras. As pilhas de volumes queimados com os hereges
que os escreveram ou os imprimiram ou os divulgaram explicam por que durante
meio século não foi editada nenhuma Bíblia francesa na França, e por que, até
1562, não foi possível imprimir as Institutas.
No meio da tempestade, o autor continua sua obra. Ele sabe – talvez por
meio dos confidentes de Marguerite d’Angoulême – como o rei é inconstante.
Enquanto na França se aplica tanto rigor, na Alemanha Francisco I procura fazer
aliança com os príncipes luteranos contra o imperador. Um edito de 29 de janeiro
de 1535 prescreve o extermínio dos hereges, mas, muitos dias depois, a mesma
mão real assina um documento memorial redigido pelo embaixador Du Bellay
em homenagem aos eleitores e aos magistrados aliados do cristianíssimo rei.
Francisco I explica que está sendo acusado injustamente de perseguir pessoas por
motivo de religião: são revolucionários em fúria, alega ele, são sediciosos, que
ele tem o direito e o dever de reprimir.
Entretanto, uma reviravolta em favor dos evangélicos sempre parecia possí-
vel; ao rei poderia aplicar-se o epíteto dado por Farel a Erasmo: camaleão! No dia
10 de março de 1534, um professor estabelecido em Paris já por cinco anos, Jean
Sturm, tinha escrito ao reformador Bucer, natural de Estrasburgo: “Jamais se
cumpriu melhor o versículo: ‘O coração do rei está nas mãos de Deus’, porque no
meio das fogueiras ele sonha com uma reforma religiosa... Insisto na necessidade
de sua viagem e da de Melanchton” (o melhor colaborador de Lutero)... “A situ-
ação tão perigosa dos fiéis deve-se menos ao juízo pessoal do rei que das infor-
mações caluniosas dadas por conselheiros parciais. Nenhuma distinção se faz
entre anabatistas, seguidores de Erasmo e luteranos: todos são feitos prisionei-
ros. Creio que a idéia do rei seria a de agir diferentemente contra os sediciosos e
contra os que não professam a doutrina da igreja sobre a eucaristia”.
Essa opinião é a de um observador bem informado, envolvido nas negocia-
ções que visavam a restabelecer a paz entre os cristãos, e que em breve, em
10
Calvino ainda criança (maio de 1521) recebeu um beneficio eclesiástico na catedral de Noyon, que ajudaria
a custear as despesas de sua educação, então um privilégio raro. NE.
7
Estrasburgo, teria seguidos contatos com Calvino. A esperança de Sturm parecia
que ia realizar-se na primavera de 1534, pois no dia 23 de junho Francisco I,
oficialmente, e Du Bellay, em seu próprio nome, convidam Melanchton para vir
à França. Mas o eleitor da Saxônia não lhe dá permissão e, além disso, a Sorbonne
recusa a discussão pública sugerida pelos diplomatas.
Um ano depois, o espírito e a pena de Calvino ficam livres para consagrar-se
inteiramente à sua grande empresa. Na primavera de 1535 é publicado em Neuchâtel
o Novo Testamento de Robert Olivetan, para o qual seu primo escreveu um prefá-
cio: “A todos os que amam Jesus Cristo e Seu Evangelho, saudações”.11
Calvino
diz expressamente: “Nós o traduzimos o mais fielmente que nos foi possível, em
conformidade com a verdade e com a propriedade da língua grega”, assinalando
assim sua participação nessa obra de grande fôlego; e especifica a intenção: “para
que os cristãos e cristãs que entendem a língua francesa possam entender e reco-
nhecer a lei que devem ter e a fé que devem seguir”, propósito patriótico semelhan-
te ao de Lefèvre, doze anos mais tarde; no começo do seu próprio Novo Testamen-
to, disse que tinha trabalhado visando à consolação dos súditos do reino, para que
este não fosse mais simplesmente chamado Reino Cristianíssimo, mas que se tor-
nasse tal de fato.12
Introdução
Mais tarde, recebeu outro encargo; o curato de Saint-Martin de Martheville (Setembro de 1527). Em 30
de abril de 1529 Calvino resignou a capelania de La Gesine em favor do irmão mais jovem, Antoine e, em 5
de julho de 1529, trocou o cargo de Saint-Martin para o da aldeia Pont-l’Evèque (local de nascimento de seu
pai). Com a morte de seu pai (25 ou 26 de maio, 1531) tornou a Paris para continuar seus estudos literários
e durante certo período voltou a Orléans para concluir seu curso de Direito.
Em 1534, Calvino completaria 25 anos, idade legal para ser ordenado; agora é o momento de assumir de fato
a sua fé e ofício.Assim, em 4 de maio de 1534, voltou a Noyon e renunciou aos seus benefícios eclesiásticos. NE.
11
Antes da tradução de Olivétan, o francês já dispunha de outras traduções completas das Escrituras, como a
de 1226-1250, feita por um grupo de tradutores da Universidade de Paris e a de Guiars de Moulins, feita
entre 1291-1295. Esta tradução, depois de ser revisada, foi, por ordem de Carlos VIII, publicada, sendo a
primeira Bíblia francesa a ser impressa (1487). Ela foi chamada de “A Grande Bíblia”, sendo editada 12
vezes no período de 1487-1545.
ABíblia Francesa (1535), traduzida por Pierre Robert – apelidado de “Olivetanus”, daí, Olivétan (c.1506-
1540) –, foi a primeira tradução Protestante francesa das Escrituras, feita a pedido e a expensas dos Valdenses,
que gastaram na impressão 1.500 escudos. A tradução, feita diretamente dos originais hebraicos e gregos,
foi utilizada pela primeira geração de calvinistas franceses na proclamação do Evangelho. O Novo Testa-
mento foi editado em 1534, saindo a segunda edição em 1535, acompanhado do Antigo Testamento. Esta
edição (segunda do Novo Testamento e primeira da Bíblia completa), foi revisada e prefaciada por Calvino.
Lembremo-nos de que Calvino dominava, além do francês, o latim, o hebraico e o grego.
Nesse prefácio, temos o primeiro testemunho público de Calvino que indica a sua conversão. Posterior-
mente, Beza (1519-1605) fez nova revisão da Bíblia Francesa, que continuou sendo revista de quando em
quando nos séculos seguintes. NE.
12
Anos antes da versão de Olivétan, foi publicada outra tradução, a do católico Jacques Lefèvre D’Étaples
(1455-1536) – possivelmente em parte simpatizante do luteranismo (“Lutero antes de Lutero”), desejando
orar “em língua que se entenda” –, que, partindo da Vulgata, publicou a tradução do Novo Testamento em
1523, e a do Antigo Testamento em 1530. No prefácio da tradução do Novo Testamento, Lefèvre escreveu:
“Chegou o tempo em que o nosso Senhor Jesus Cristo, único, sol, verdade e vida, quer que o seu Evangelho
seja puramente anunciado em todo o mundo, para que ninguém se deixe extraviar por loucas promessas ou
criaturas, nem por quaisquer tradições humanas, que não podem salvar”.
No entanto, em 1546 a tradução de Lefèvre foi incluída no “Index”, porém, em 1550, após alguns
expurgos das passagens consideradas heréticas, foi reimpressa. A tradução de Lefèvre D’Étaples foi de
grande importância para a implantação e disseminação da Reforma na França. NE.
8 As Institutas – Edição Especial
Em toda a Europa ocidental, a época que vai de 1534 a 1536 é, como a então
recente, de 1521-22, uma época crítica. Os reformadores trabalham, cada um em
seu país, para propagar a Palavra de Deus na língua nacional, esperando a conver-
são de soberanos e de povos: em outubro de 1534, Lutero termina a tradução
alemã da Bíblia;13
em outubro de 1536 o tradutor da Bíblia em inglês, Tyndale,
morre na fogueira orando a Deus que abra os olhos do rei da Inglaterra. Neste
mesmo ano, em que é publicada a carta de Calvino ao rei da França, ao mesmo
Francisco I é dedicada a Christianae fidei brevis et clara expositio (Breve e clara
exposição da fé cristã) de Zwínglio, publicada após a morte do seu autor por seu
sucessor em Zurique.
A Bíblia francesa de 1535 sai do prelo em 4 de junho. No fim do mês chega
uma notícia horrível: Em Munster foram exterminados em massa os anabatistas
alemães, que buscavam nas Escrituras, não somente princípios religiosos, mas
também pretextos para uma revolução social. Os adversários da Reforma a decla-
ram responsável pelos excessos dos anabatistas, ou ao menos solidária a eles.
13
O Novo Testamento foi traduzido primeiro, depois de um trabalho de cerca de nove meses, período durante
o qual escreveu mais de dez obras O Novo Testamento de Lutero foi publicado em 21/09/1522 Esta tradução
foi baseada na 2ª edição do texto grego de Erasmo (1469-1536), publicado em 1519, que já havia corrigido
muitíssimos erros da primeira edição. Os três mil exemplares da primeira edição logo se esgotaram e, em
poucos anos, diversas edições já tinham sido publicadas em várias cidades da Europa. Entre 1522 e 1524
foram feitas 14 reimpressões do NT. em Wittenberg e 66 outras em Augsburgo, Basiléia, Estrasburgo e
Leipzig; em Basiléia, Adam Petri publica 7 reimpressões. Calcula-se que durante a vida de Lutero, foram
feitas 11 edições, 84 impressões originais e 253 baseadas nelas. Como é sabido, havia outras traduções do
Novo Testamento na língua alemã anteriores à de Lutero, mas acontece que a sua linguagem era muito
imperfeita, sendo inadequada para a leitura do povo; por outro lado, as Bíblias utilizadas nas igrejas eram
latinas e custavam 360 florins; as mais elaboradas, chegavam a custar 500 tálares. O Novo Testamento
traduzido por Lutero foi vendido por apenas 1 ½ florins [= c. 3 francos]. Fazendo uma comparação, obser-
vamos que Calvino, que passou inúmeros apuros financeiros em Estrasburgo (1538-1541), recebia, não sem
atraso, 1 florim por semana, conforme verba votada pelo Conselho de Representantes da cidade. Obviamen-
te ele não conseguiria viver com tão pouco; por isso se desdobrava em outras várias atividades; contudo,
mesmo assim nada sobrava: o custo de vida em Estrasburgo ao que parece era muito elevado.
Lutero, auxiliado por Melanchton (1497-1560) e outros eruditos, revisou continuamente a sua tradução,
permanecendo neste labor até o dia da sua morte. Johann Cocleau (Cochlaeus) (1479-1552), Doutor em Teo-
logia (1517), violento adversário de Lutero e da Reforma, admitiu: “O Novo Testamento de Lutero foi divul-
gado de tal forma, que também alfaiates e sapateiros, sim, até mulheres e crianças que mal haviam aprendido
a ler algumas poucas palavras nas embalagens de um bolo de mel, o liam com grande avidez dentro de suas
naturais limitações. Alguns o carregavam consigo por onde andavam e, na medida do possível, o aprendiam de
cor. Destarte, eles conseguiam em poucos meses, capacitar-se a discutir, sem constrangimento, com padres e
monges aspectos da fé e do Evangelho. Sim, houve também o caso de mulheres humildes que tiveram a
ousadia de discutir temas religiosos com doutores e homens letrados. Acontecia mesmo, nessas discussões,
que leigos luteranos mostravam mais facilidade para citar passagens bíblicas de improviso que muitos monges
e sacerdotes”. Hans Lufft durante quarenta anos (1534-1574) chegou a imprimir 100.000 exemplares da Bíblia
traduzida por Lutero e, entre (1546-1580) publicou 37 edições do Antigo Testamento.
A sua tradução é uma obra primorosa, sendo considerada o marco inicial da literatura alemã. Febvre
diz, de forma poética, que o trabalho de Lutero consistiu “numa assombrosa ressurreição da Palavra, estan-
do o mais distante possível de uma fria exposição, de um labor didático de um filólogo. Também, é mais do
que um ‘trabalho de artista’ em busca de um estilo pessoal. É o esforço, sem dúvida dramático, feliz, de um
pregador que quer convencer; ou melhor, de um médico que quer curar, trazer aos seus irmãos, os homens,
todos os homens, o remédio milagroso que acaba de curá-lo....” (Lucien Febvre, Martín Lutero: un destino,
7ª reimpresión, México, Fondo de Cultura Económica, 1992, p. 187). NE.
9
Na França (Michelet viu bem isso) a origem da Reforma “é espontâ-
nea, primeiramente francesa”. Seus primeiros adeptos levavam uma vida pací-
fica. Eram operários em Meaux, agricultores em Thiérache, humanistas na corte.
Isso não impede os seus inimigos de compararem os inofensivos “biblistas” da
França com os desenfreados anabatistas da Alemanha. Uma testemunha,
H. Estienne, conservou sobre isso lembranças interessantes: “Evitava-se dar a
entender que eles eram gente boa como os demais e que não eram zombadores
nem falsos; que tinham recebido o sacramento do batismo, etc., mas, antes, dizi-
am que eram pessoas completamente diferentes, que zombavam de Deus, que
tinham suas mulheres em comum, que eram piores que os judeus, os turcos e os
sarracenos”. O manifesto dirigido aos príncipes da Alemanha era a expressão
oficial dos erros, preconceitos e calúnias que tinham livre curso em Paris. Contra
eles eleva-se o protesto indignado da consciência de Calvino.
A princípio, sua exposição da fé cristã destinava-se a fortalecer os fiéis e a
esclarecer os que não tinham bom conhecimento da causa; agora servirá de apo-
logia contra os caluniadores. O doutor em direito de Orleães transforma em dis-
curso de defesa as páginas concebidas pelo teólogo. E esse discurso ele enviará
ao supremo juiz da França; essa é a origem da carta ao rei, conforme narrativa do
próprio autor que consta no prefácio do seu Comentário do Livro de Salmos, por
ele publicado em 1557.
“Foram queimados na França muitas pessoas santas e fiéis; chegando isso
ao conhecimento das outras nações, os autores das queimas foram considera-
dos cruéis...; eles (os príncipes luteranos) elaboraram um protesto contra os au-
tores daquela tirania (o rei e o parlamento); para apaziguar isso, deu-se divulga-
ção a opúsculos infelizes (como o manifesto de primeiro de fevereiro, também
afixado em quadros murais), cheios de mentiras: que só eram tratados cruelmente
os anabatistas e os sediciosos (citação de uma expressão do manifesto), os quais,
com seus extravios e com suas opiniões falsas, subvertem, não somente a religião,
mas também toda a ordem política. Quanto a mim, vendo que esses falsos religi-
osos, com seus fingimentos, faziam tudo para que a indignidade desse derrama-
mento de sangue inocente não somente fosse mantida oculta pelas blasfêmias e
calúnias das quais eles acusavam falsamente os santos mártires depois da morte
deles (no dia 15 de fevereiro De la Forge, um amigo de Calvino, tinha sido quei-
mado), mas também, em acréscimo, faziam tudo para pisar os pobres fiéis, sendo
que a ninguém era permitido mostrar compaixão por eles, pareceu-me que, se
eu não me opusesse vigorosamente, quanto me fosse possível, eu não poderia
desculpar-me, se fosse julgado frouxo e desleal.”14
Aí está, pois, um advogado que se sente constrangido por sua consciência a
assumir a defesa de um inocente acusado de crimes que poderiam levar à conde-
nação e à morte. Se com justiça M. Lefranc dá a Calvino o título de “criador da
eloqüência francesa”, é graças ao tom da carta ao rei, mais do que ao plano tão
Introdução
14
Vd. João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, p. 39. NE.
10 As Institutas – Edição Especial
claro e às deduções tão lógicas das Institutas propriamente ditas. “Calvino espera-
va reconduzir Francisco I a disposições mais benevolentes, revelando ao grande
público o verdadeiro caráter dos reformados franceses, odiosamente transforma-
dos em malfeitores pelos adversários. Uma vez isolados e abandonados pela opi-
nião européia, não haveria nada que pudesse impedir a sua eliminação. Com essa
clarividência superior que faria dele, aos trinta anos, um líder e um condutor de
almas, o jovem reformador denunciou o perigo iminente; ele se fez o porta-voz dos
seus correligionários caluniados” (Introdução de uma edição das Institutas, 1911).
Tendo saído da França no início de 1535, Calvino, após uma breve estada
em Estrasburgo, fixa-se em Basiléia, onde vive “disfarçado”, como simples mem-
bro da “pobre igreja por banimento expulsa”. Toma pensão no subúrbio de Saint-
Albain, na casa de uma viúva, a senhora Petit, que mais tarde dará alojamento a
Ramus. “Aqui”, escreverá este, “em vigílias memoráveis, celestiais, foram ela-
boradas as Institutas”. O autor ainda não tinha vinte e seis anos de idade.
Calvino entra em contato com dois tipógrafos associados, Platter e Lasius.
No mês de agosto a expressiva carta, que serviria de preâmbulo, tinha sido
concluída “por Jean Calvin, de Noyon”. Uma das principais feiras de livros no-
vos começava em setembro. É provável que o editor (Oporin) tenha pressionado
Calvino a terminar a carta de modo que pudesse ser composta a tempo e ser
anexada à parte inicial do livro; mas não conseguiram. Sete meses se escoaram
antes de o volume sair do prelo, para a feira realizada antes da Páscoa, “mense
Martio, anno 1536”.
OBJETIVO DAS
INSTITUTAS
O título é: Instituição da Religião Cristã, resu-
mo quase completo da piedade, abrangendo tudo o
que, quanto à doutrina da salvação, é necessário co-
nhecer; obra seleta e à altura de todos os estudiosos da vida piedosa, recente-
mente publicada. Prefácio dedicado ao cristianíssimo rei da França, a quem
este livro é oferecido no interesse de uma confissão fé.15
— 520 páginas, formado pequeno, em 8º de 10 cm por 15 cm. 5.16
O título do livro diz bem qual o seu objetivo. A palavra instituição pertence,
no latim, ao vocabulário pedagógico. Para a formação do orador, Quintiliano tinha
escrito uma Institutio oratoria (Instituição para a Oratória). Erasmo tinha dado o
programa da educação de um príncipe em sua Institutio principis christiani (Insti-
tuição para o príncipe cristão). A Institutio christianae religionis (Instituição da
Religião Cristã) é um manual de instrução cristã, ou, como dirá Calvino, um resu-
mo, uma “suma”, do ensino doutrinário próprio para a formação de um cristão.
A obra Institutas foi escrita em latim. Mas, e a carta ao rei? Foi impressa
tanto com a data de primeiro de agosto como com a de 23 desse mês. Pensada em
francês, terá sido escrita primeiro em francês, e dirigida ao rei nessa língua? O
modo como o tuteio é empregado parece indicar que a carta foi escrita primeiro
15
Em latim no original. NT.
16
Era um livro de bolso que facilitava o seu transporte discreto. NE.
11Introdução
No dia 13 de outubro de 1536 ele escreve: “De-
diquei à edição francesa todos os meus momentos
de lazer”. Terá sido publicada a partir de 1537?
Convida-nos a esta conclusão o fato de que na edição de 1541 os capítulos de
1536 parecem traduzidos do primeiro texto latino, e não do texto revisto e corri-
gido de 1539. Ainda não se encontrou nenhuma edição de 1537; todavia, sua
existência estaria em harmonia com os costumes bastante metódicos de Calvino:
a tradução francesa aparecendo logo após o original latino, ou inversamente. A
primeira página da edição de 1541 tem as características de uma reimpressão: o
autor desse “argumento” declara que ainda não publicou nenhuma obra deste
gênero e prevê que no futuro fará alguns comentários; ou se trata de algo feito
completo antes de 1541 – entre 1537 e 1539 foram publicados um catecismo,18
em latim. Tudo faz pensar que ela foi escrita antes das Institutas. Mas a primeira
tiragem, ao que se saiba, é de 1541. A todo momento estaremos falando de uma
primeira tradução do livro, possivelmente desde 1537. Pois bem, situa-se em
1537 uma carta da rainha de Navarra destinada ao rei: “...Desejas o bem geral de
todo o mundo e a promoção da honra de Deus, em cuja honra te suplico que não
tenhas temor de usar o que te enviei, porque incessantemente o tenho provado,
de modo que me atrevo a elogiá-lo arriscando a minha honra”. Seriam as Institutas
o elogiável objeto cujos benefícios a rainha prova sem cessar, objeto que seu
irmão poderia ter medo de ler, mas cujo valor para todo o mundo é certo?...
Notemos, por outro lado, que, de fevereiro a abril de 1536, Francisco I encontra-
se freqüentemente em Lião. Teria ele recebido um exemplar ricamente encader-
nado, que seria bem interessante reencontrar? Lião está na rota da Itália; e, du-
rante a primavera de 1536, Calvino ficou em Ferrara, perto de Renée de France.17
17
A duquesa de Ferrara, favorável aos protestantes. NT.
18
Calvino elaborou em francês, durante o inverno de 1536-1537, um catecismo, não sendo constituído em
forma de perguntas e respostas, escrito de modo que julgou acessível a toda a igreja. O seu objetivo era
puramente didático. Esta obra foi intitulada: Instrução e Confissão de Fé, Segundo o Uso da Igreja de
Genebra, sendo traduzida para o latim em 1538. Posteriormente, Calvino a reviu – tornando a sua teologia
mais acessível aos seus destinatários: as crianças –, e a ampliou consideravelmente, mudando inclusive a
sua forma, passando então, a ser constituída de perguntas e respostas, contendo 373 questões. Esta nova
edição foi publicada entre o fim de 1541 e o início de 1542, tornando-se juntamente com a Instituição um
sucesso editorial. Em 1545, Calvino traduziu o latim visando dar um alcance maior aos seus ensinamentos,
contribuindo deste modo para a maior unidade entre as igrejas reformadas. A partir de 1561, este catecismo
ganhou maior importância, visto que daí em diante todo ministro da igreja deveria jurar fidelidade aos
ensinamentos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los.
Este Catecismo consistiu num resumo da primeira edição da Instituição (1536). Foi a primeira exposição
sistemática do pensamento teológico de Calvino em língua francesa. O Catecismo pode ser assim esboçado:
I - Fé (1-130)
Introdução (1-18)
Segue-se a exposição do Credo Apostólico, da seguinte forma:
a) Deus Pai (19-29)
b) Deus Filho (30-87)
c) Deus Espírito Santo (88-91)
d) A Igreja (92-130)
PRIMEIRA TRADUÇÃO
FRANCESA
12 As Institutas – Edição Especial
um tratado sobre a Santa Ceia19
e um comentário da Epístola aos Romanos.20
Esta questão não é pura curiosidade: Como as Institutas marcam, com
Pantagruel,21
a época em que nasceu o francês moderno, é interessante buscar a
data precisa – 1537 ou 1541.
A VIDA DE CALVINO
DE 1536 A 1541
Tenha ou não existido uma edição francesa desde
1537, convém narrar brevemente a vida de Calvino entre
a edição princeps (a primeira edição) de 1536 e a edi-
ção francesa de 1541, que a presente publicação reproduz. Vai-se de um ao outro
texto mediante três degraus já assegurados: um catecismo francês (1537), sua
tradução latina (1538) e a segunda edição latina das Institutas (1539).
Em maio de 1536, os Conselhos de Genebra tinham proclamado a resolu-
ção de “viver conforme o Evangelho”, pela insistência de Farel.22
Isso retém
Calvino em julho.23
Diga-se de passagem: insistência devida à profunda impres-
II - Os Dez Mandamentos (131-232)
III - A Oração (233-295)
IV - A Palavra e os Sacramentos (296-373)
a) A Palavra e o Ministro (296-308)
b) Os Sacramentos (309-373)
- Definição e Significado (309-323)
- Batismo (324-339)
- Ceia do Senhor (340-373). NE.
19
J. Calvino, Breve Tratado Sobre La Santa Cena: In: Tratados Breves, Buenos Aires/México, La Aurora/
Casa Unida de Publicaciones, 1959. NE.
20
Escrito em 1539 e publicado em março de 1540. Outras edições revisadas foram publicadas em 1551 e
1556. É provável que esse trabalho seja o resumo de suas aulas ministradas em Genebra no período de 1536-
1538. Edição brasileira: João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997. NE.
21
Obra escrita em 1533 pelo humanista francês François Rabelais (c. 1495-1553). Ela seria condenada pela
Sorbonne em janeiro de 1534. A literatura de Rabelais e de Calvino, são, de fato, responsáveis pelo francês
moderno. No entanto, a semelhança entre estes dois personagens contemporâneos, termina aí. (Vd. Philip
Schaff, History of the Christian Church, Vol. VIII, p. 266). NE.
22
No domingo de 21 de maio de 1536, “democrática e unanimemente pelo Conselho Geral”, depois de ouvir
os representantes da causa protestante (Farel, Viret e Froment) e os da causa romana, os Conselhos de
Genebra, em edital (27/08/1535) decidiram que o catolicismo não seria mais a religião de Genebra. NE.
23
Calvino deveria ter chegado a Estrasburgo em 1536, contudo, por encontrar-se impedida a estrada que daria
acesso direto àquela cidade, teve que pernoitar em Genebra, “não mais que uma noite”. No entanto, o tímido
e discreto Calvino que desejava passar anônimo, foi descoberto... O seu amigo Louis du Tillet falou a Farel
de sua estada em Genebra. Então teve o seu encontro dramático com o ousado e “destemido” (Conforme
expressão de Erasmo) pastor Guilherme Farel (1489-1565) que o persuadiu a permanecer em Genebra e,
juntos, levarem adiante a Reforma que oficialmente fora adotada. Calvino, mais tarde, em 1557, relembrando
o fato, diria que Farel o convenceu, “não propriamente movido por conselho e exortação, e, sim, movido por
uma fulminante imprecação, a qual me fez sentir como se Deus pessoalmente, lá do céu, houvera estendido
sua poderosa mão sobre mim e me aprisionado.” Continua: “E, ao descobrir [Farel] que meu coração estava
completamente devotado aos meus próprios estudos pessoais, para os quais desejava conservar-me livre de
qualquer outras ocupações, e percebendo ele que não lucraria nada com seus rogos, então lançou sobre mim
uma imprecação, dizendo que Deus haveria de amaldiçoar meu isolamento e a tranqüilidade dos estudos
que eu tanto buscava, caso me esquivasse e recusasse dar minha assistência, quando a necessidade era em
extremo premente.” Farel conseguiu: “Sob o impacto de tal imprecação, eu me senti tão abalado de terror,
que desisti da viagem que havia começado.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 40-41). Halsema
coloca em tom poético: “O viajor chegou para uma noite de sono. Pretendia continuar a viagem, desaperce-
bido. Mas Deus tinha outros planos.” (Thea B. Van Halsema, João Calvino era Assim, São Paulo, Editora
Vida Evangélica, 1968, p. 71). NE.
13
são produzida pelas Institutas, que apareceram três meses antes. (O sucesso foi
tão grande que, um ano depois de haverem sido postas à venda, não se encontrava
sequer um exemplar em Basiléia, e mal e mal cinqüenta em Frankfurt).24
Em
1533 Farel tinha redigido uma primeira liturgia, na qual se inspirou Calvino:
Modos e moldes que se vêm nos lugares que, por Sua graça, Deus tem visitado;
em 1534 ele tinha reeditado a Declaração Sumária, na qual expunha os princípios
do Evangelho que ele pregava com vigor, mas a sua pena era menos forte que a
sua voz. Quando a obra Institutas apareceu, Farel reconheceu a sua própria infe-
rioridade em termos de uma rara humildade: “João Calvino, meu bom e íntegro
irmão, em suas Institutas trata com tanta amplitude todos os pontos abordados
em meu livreto... que deu a mim e aos outros ocasião para escrevermos mais
claramente. Que todos os que lerem o meu pequeno livro considerem , pois, estas
belas Institutas e, examinando-as, não terão mais necessidade da minha peque-
nez, nem de se darem ao trabalho de ler o meu pequeno livro”.
Calvino é chamado a Genebra, não primeiramente como pastor, mas como
mestre, como doutor. Conforme Calvino, em novembro de 1536 Farel propôs
os Artigos sobre o governo da igreja, dos quais se encontrará eco em certas
páginas novas das Institutas em 1539. No fim do ano, Calvino redige um proje-
to de catecismo apresentado (sem o nome do autor) ao Conselho (janeiro de
1537) da seguinte maneira: “Existia anteriormente um catecismo destinado a
instruir cada fiel nos fundamentos da religião cristã, e que era como um livro
de fórmulas e uma declaração e que se usava para atestar a fé”. Agora reinam
na igreja “uma rudeza e uma ignorância intoleráveis”. O que se propõe é “um
breve e fácil sumário da fé”. Já era esse o propósito das Institutas (1536), das
quais se tem um resumo na Instrução em Uso na Igreja de Genebra (1537);
alguns acréscimos se verão na edição latina das Institutas de 1539, conforme o
Catechismus de 1538 (tradução da Instrução de 1537, impressa em Basiléia, no
mesmo prelo das Institutas de 1536).
O primeiro período passado em Genebra teve fim em março de 1538,25
logo
depois de um conflito de Calvino com o Conselho sobre uma questão de discipli-
Introdução
24
A Instituição – contrariamente à De Clementia – tornara-se um sucesso editorial desde o seu lançamento em
1536. A primeira edição da Instituição esgotou-se em menos de um ano (janeiro de 1537). Ladurie diz que
o ponto mais alto da tipografia de Platter-Lasius, foi atingido com a obra de Calvino a qual, “projetara
Thomas”. (Vd. Emmanuel Le Roy Ladurie, O Mendigo e o Professor: a saga da família Platter no século
XVI, Rio de Janeiro, Rocco, 1999, Vol. 1, p. 152, 153, 166).
Febvre, diz que, “de 1550-1564 [ano da morte de Calvino], serão publicadas 256 edições, das quais 160
em Genebra. A Institution chrétienne é, então, sozinha, objeto de 25 reedições, nove latinas e dezesseis
francesas das quais a maioria provém dos prelos genebrinos....”. (Lucien Febvre & Henry Jean-Martin, O
Aparecimento do Livro, São Paulo, Hucitec., 1992, p. 442-443.) A Instituição, concluída em agosto de
1535, teve a sua primeira edição em março de 1536 (Basiléia), na tipografia dos “amigos-inimigos” Thomas
Platter e Balthasar Lasius, vulgo “Ruch”. O trabalho tipográfico foi primoroso: “As páginas de sua Institui-
ção Cristã e calvinista, de 1536, não amarelaram passadas quinze gerações”, admira-se Ladurie. (Emmanuel
Le Roy Ladurie, O Mendigo e Professor: a saga da família Platter no século XVI, o Vol. 1, p. 156.) NE.
25
O exílio de Calvino, Farel e De Corault foi votado pelo Conselho de Genebra em 23 de abril de 1538; eles
partiram no dia 25. Farel e Viret tornar-se-iam os maiores amigos de Calvino por toda sua vida. Quando sua
14 As Institutas – Edição Especial
na. Traços do catecismo e das experiências feitas encontraram-se no ano seguinte
nas novas páginas das Institutas.
Estas são escritas em Estrasburgo, para onde Calvino se retira para estar
junto a Bucer,26
vigoroso organizador, ao qual emprestará não poucas idéias.27
Para se chegar plenamente ao nível das Institutas, ao aluvião genebrino se sobre-
põe a contribuição estrasburguesa.
CALVINO EM
ESTRASBURGO
Calvino passa três anos em Estrasburgo (1538-
41) época de capital importância na história de sua obra;
lá ele prepara uma edição latina ampliada, e lá ele pre-
para a tradução que nós reimprimimos. Seu pensamento enriqueceu-se notavel-
mente durante essa colaboração com o reformador alsaciano Bucer, dezoito anos
mais velho, anteriormente discípulo de Erasmo como ele; Calvino aprecia a sua
teologia moderada e firme, nem luterana, nem zwingliana; vive sob o regime de
uma confissão de fé (a Tetrapolitana)28
que data de 1530, como a deAugsburgo;29
esposa, Idelette, morreu (29/3/1549), Calvino, mesmo continuando o seu extenuante trabalho, evidente-
mente sentiu-se só. Oito meses depois, ele dedicou o seu comentário da Epístola de Tito a seus amigos que
estavam distantes, cuidando das igrejas de Deus: Farel em Neuchâtel e Viret em Lausanne. A certa altura,
escreve (29/11/1549): “Creio que jamais houve na vida rotineira um círculo de amigos tão sinceramente
devotados uns aos outros quanto temos sido nós em nosso ministério. Com ambos vós desempenhei aqui o
ofício de pastor. E longe de existir qualquer aparência de rivalidade, sempre senti haver entre nós uma só
mente.” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, p. 292.) NE.
26
Não sabia Calvino que em Estrasburgo, encontraria um outro “Farel”, chamado Martin Bucer (1491-1551)
que, conforme lembra, “empregando um gênero similar de censura e protesto ao que Farel recorrera antes,
arrastou-me de volta a uma nova situação. Alarmado com o exemplo de Jonas, o qual ele pusera diante de
mim, ainda prossegui na obra do ensino. E embora continuasse como sempre fui, evitando por todos os
meios a celebridade, todavia fui levado, sem o saber, como pela força, a comparecer às assembléias imperiais,
onde, voluntária ou involuntariamente, fui forçado a aparecer ante os olhos de muitos.” (João Calvino, O
Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 41-42.) NE.
27
Martin Bucer (1491-1551), amigo de Lutero, Melanchton e Calvino, foi um dos líderes da Reforma em
Estrasburgo (1523-1549) e, posteriormente, trabalhou ativamente como professor de teologia da Universi-
dade de Cambridge (1549), desempenhando importante papel na reformulação do Livro de Oração Comum
(1552). Ele passou seus últimos dias colaborando ativamente como professor de teologia na Universidade
de Cambridge.
Calvino o chama de “o mais fiel doutor da igreja de Deus.” e “mui excelente servo de Cristo”. (João
Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 31 e 41.) NE.
28
Confissão Tetrapolitana (1530), foi elaborada durante as sessões da Dieta de Augsburgo por Martin Bucer
e Wolfgang F. Capito (1478-1541), representando o pensamento de quatro cidades alemãs: Estrasburgo,
Memmingen, Lindau e Constança. O objetivo era evitar o esfacelamento do protestantismo alemão, especi-
almente no que concerne à Ceia do Senhor, visto haver divergências entre a concepção luterana e a zwingliana.
Essa confissão ainda que não tenha obtido todo o êxito desejado, permanece como símbolo da primeira
tentativa de união entre os protestantes. Ela foi adotada em Estrasburgo em 1534. [Vd. maiores detalhas
In: Philip Schaff, The Creeds of Christendom, Grand Rapids, Michigan, Baker Books, 1998 (Reprinted),
Vol. I, p. 526-529.] NE.
29
Em 1530, Carlos V, Imperador da Alemanha, convoca a Dieta de Augsburgo. Objetivo: unificação político-
religiosa dos seus domínios. Daqui saiu a Confissão de Augsburgo, redigida por Ph. Melanchton (1479-
1560), o “preceptor da Germânia”, com a aquiescência de Lutero (1483-1546), que fez um comentário
ambíguo a respeito da sua leveza.... Esta Confissão foi lida, em latim e alemão, pelo Chanceler Christian
Beyer, da Saxônia Eleitoral, perante toda a Dieta, no dia 25 de junho de 1530, às 15 horas. Mesmo o
Imperador não a aceitando, e proibindo a sua divulgação, ela em pouco tempo foi propagada em toda a
Alemanha. NE.
15
o testemunho do Espírito Santo desempenha nela um grande papel.A igreja local
é constituída solidamente, com um conselho de presbíteros. O poder civil e o
poder eclesiástico cooperam. O sentimento de comunhão com a igreja universal
é muito forte. Calvino continua a estudar, a explicar a Palavra de Deus. Vai co-
nhecendo cada vez mais os chamados “pais” antigos. Ele define com precisão as
sua idéias sobre a Santa Ceia, sobre a predestinação, quase ausente da primeira
edição. Em Estrasburgo, logo exercendo as funções de pastor, ele funda a primei-
ra de todas as igrejas reformadas francesas e a dota de uma liturgia e de uma
coleção de salmos: nas Institutas ele insistirá na utilidade do canto.30
De 1535 a
1539, Calvino sofreu muito e viu muito sofrimento. O admirável capítulo – total-
mente novo e totalmente prático – que põe término às Institutas em 1539 e em
1541, Acerca da Vida do Cristão (“De la vie de l’homme chrestien”) insiste no
dever que o cristão tem de levar a sua cruz.
Uma carta de Marguerite d’Angoulème faz pensar que em 1540 Calvino
cumpre uma missão diplomática junto aos “colóquios” entre teólogos, aos quais
ele presta assistência. A Carta ao Rei teria então feito sentir a Francisco I o valor
do signatário. Enfim, em Estrasburgo, Calvino se casa.31
Introdução
30
Vd. As Institutas, III.20.31-32. Calvino entendia que “os salmos constituem uma expressão muito apropri-
ada da fé reformada”, e que “Tudo quanto nos serve de encorajamento, ao nos pormos a buscar a Deus em
oração, nos é ensinado neste livro [Salmos].” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 34.) Portanto,
no Livro de Salmos temos um guia seguro para a edificação da Igreja que pode cantá-lo sem correr o risco
de proferir heresias melodiosas. “Não existe outro livro onde mais se expressem e magnifiquem as celebra-
ções divinas, seja da liberalidade de Deus sem paralelo em favor de sua Igreja, seja de todas as suas obras.
(...) Não há outro livro em que somos mais perfeitamente instruídos na correta maneira de louvar a Deus, ou
em que somos mais poderosamente estimulados à realização desse sacro exercício.” (João Calvino, O Livro
dos Salmos, Vol. 1, p. 35-36.) Calvino considerava os Salmos como “Uma Anatomia de Todas as Partes da
Alma”. (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 33.)
Calvino, na elaboração do que seria conhecido como Saltério Genebrino, traduziu alguns salmos [Sl
25,36,46,91 e 138], valendo-se efetivamente do talento do poeta francês Clément Marot (c. 1496-1544) –
que conhecera em Ferrara em 1536 –, e Théodore de Bèze (1519-1605) e, posteriormente recorreu ao preci-
oso trabalho do compositor francês Loys Bourgeois (c.1510-c. 1560) – que adaptou as canções populares e
antigos hinos latinos e, também, compôs outras músicas para a métrica dos salmos de Marot – e Claude
Goudimel (1510-1572), que morreu no massacre da noite de São Bartolomeu. O saltério iniciado por Calvino
em 1539, dispunha de 19 salmos; sendo concluído por Bèze (c. 1562). Ele tornou-se “um dos livros mais
importantes da reforma”, e um protótipo dos hinários procedentes da Reforma, tendo um verdadeiro “dom
de línguas”, sendo traduzido para o alemão, holandês, italiano, espanhol, boêmio, polonês, latim, hebraico,
malaio, tamis, inglês, etc., sendo usado por católicos, luteranos e outras denominações.
No Prefácio da edição de 1542 do Saltério Genebrino, Calvino escreveu: “.... Nós sabemos por experi-
ência que o canto tem grande força e vigor para mover e inflamar o coração dos homens, a fim de invocar e
louvar a Deus com um mais veemente e ardente zelo.”
Um refugiado que visitou a igreja de Calvino em Estrasburgo descreveu emocionado o que viu:
“Todos cantam, homens e mulheres, e é um belo espetáculo. Cada um tem um livro de cânticos nas
mãos. (...) Olhando para esse pequeno grupo de exilados, chorei, não de tristeza, mas de alegria, por ouvi-
los todos cantando tão sinceramente, enquanto cantavam agradecendo a Deus por tê-los levado a um lugar
onde seu nome é glorificado.” NE.
31
Casou-se em agosto de 1540 com Idelette de Bure, uma linda senhora, viúva de um anabatista convertido ao
protestantismo. Tinha ela dois filhos. NE.
16 As Institutas – Edição Especial
edições latinas subseqüentes. O florão, isto é, a vinheta floriforme, é uma
Minerva em marcha. O livro sai do prelo em agosto de 1539: Institutio christianæ
religionis nunc vere demum suo titulo respondens, autore Calvino (Instituição
da Religião Cristã, agora, por fim, verdadeiramente fiel ao seu título; autor:
Calvino); alguns exemplares trazem Alcuino, um anagrama que imita o nome
verdadeiro.33
O aspecto do livro por si só mostra quanta matéria foi acrescenta-
da ao texto de 1536: o volume, grande, in-8º, mede 320mm por 205, e tem 436
páginas. É impresso em caracteres grandes, com margens largas, próprias para
anotações manuscritas. Em muitos a encadernação é em madeira, com fechos
metálicos. É um instrumento de trabalho para uso dos professores e dos estu-
dantes em seus gabinetes de estudo.
Diferente em todos os pontos é a edição francesa de 1541, mais comparável
ao pequeno livro de 1536. Em Genebra, Calvino encontra o impressor Jean Girard
OS DOIS VOLUMES
DE 1539 A 1541
Durante o primeiro ano de sua permanência em
em Estrasburgo, Calvino modifica as Institutas e con-
fia sua impressão a W. Rihel, que imprimirá as duas
Quando, na primavera de 1541, ele cede à insistente solicitação de Farel e
retorna a Genebra,32
está enriquecido de muitos conhecimentos, do que testemu-
nham seus livros de 1539 e 1541.
32
Em 22 de outubro de 1540 – entre outras cartas enviadas –, o Conselho dos Duzentos resolve convidar
Calvino a voltar a Genebra. Calvino hesita. Em 1º de maio de 1541, o Conselho Geral, por considerar
Calvino e Farel “pessoas de bem e de Deus”, revoga o edito de banimento de 1538. Farel, que convencera
Calvino em 1536 a permanecer em Genebra, agora, a pedido do Conselho daquela cidade – visto que
Calvino não atendera ao seu convite –, persuade Calvino a retornar a Genebra em 1541. Em agosto de 1541,
Calvino já se decidira; mesmo desejando permanecer em Estrasburgo, voltaria a Genebra: “Mas quando eu
me lembro que não pertenço a mim próprio, eu ofereço meu coração, apresentado como um sacrifício ao
Senhor.” (John Calvin, “Letter to Farel,” John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software,
1998), nº 73.) Na manhã de terça-feira de 13/9/1541 os magistrados de Genebra, precedidos por um arauto,
foram receber Calvino, percorrendo o mesmo caminho que ele e Farel fizeram três anos antes, passando pela
porta Cornavin em direção a Versoix. Neste mesmo dia, Calvino entra em Genebra; no dia 16, escreve a
Farel dando-lhe notícia da sua entrevista com os magistrados e dos passos para a elaboração da forma para
disciplina eclesiástica. (John Calvin, “Letter to Farel,” John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR:
Ages Software, 1998), nº 76, p. 276-277.) A partir de então, Calvino dá prosseguimento à implantação de
uma intensa reforma naquela cidade. Mais tarde (1557), ele contaria que regressou a Genebra com lágrimas,
tristeza, ansiedade e abatimento, contrariando a sua “aspiração e inclinação”; contudo, ele tinha dentro de si
um sentimento maior do que simplesmente fazer o que desejava; confessa: “o bem-estar desta igreja, é
verdade, era algo tão íntimo de meu coração, que por sua causa não hesitaria a oferecer minha própria vida;
minha timidez, não obstante, sugeriu-me muitas razões para escusar-me uma vez mais de, voluntariamente,
tomar sobre meus ombros um fardo tão pesado. Entretanto, finalmente, uma solene e conscienciosa conside-
ração para com meu dever prevaleceu e me fez consentir em voltar ao rebanho do qual fora separado.” (João
Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 42.) Mas, como ele mesmo diria, comentando o Salmo 13, “é pela
fé que tomamos posse de Sua providência invisível.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 13.1),
p. 262.] Comentando o Salmo 18, diz: “Não há nada mais miserável do que uma pessoa, em adversidade,
que entra em desespero por agir segundo o mero impulso de sua própria mente e não em obediência à
vocação divina.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 354.)
Calvino permaneceria em Genebra até o fim de sua vida (17/5/1564). De fato este fora o desejo dos 25
conselheiros que, quando o convidaram a voltar, registraram: “Resolve-se conservar Calvino aqui para
sempre.” NE.
33
Possivelmente visava despistar seus inquisidores. NE.
17
ou Gérard, enviado em 1536 pelos valdenses à cidade e ali retido por Farel. Seu
nome não figura nas Institutas de 1541, mas nas edições de 1545 e de 1553,
saídas do mesmo prelo. Em 1540 ele inaugurou, na Bíblia revista por Calvino,
um símbolo tipográfico: uma espada fincada verticalmente e rodeada de chamas.
De pequeno formato, in-8º (185mm por 115; espessura de 40mm, incluída a en-
cadernação), em texto compacto e em caracteres pequenos, com margens estrei-
tas, o volume tem 822 páginas. Pode caber no bolso; evidentemente se destina a
outras categorias de leitores, mais numerosos, que não sabem latim.
O título não traduz o de 1539; as diferenças são significativas: Instituição
da Religião Cristã: que contém um sumário sobre a piedade, e quase tudo o que
é necessário conhecer da doutrina da salvação. Composta em latim por João
Calvino e por ele traduzida para o francês (indicação que não será mais repetida
nas edições ulteriores e que dá a esta um valor incomparável), com o prefácio
dirigido ao cristianíssimo rei da França, Francisco, o primeiro desse nome, pelo
qual o presente livro lhe é oferecido para confissão de fé.– Habacuque 1 – “Até
quando, Senhor?”
As letras ornadas, que se vêem em muitas páginas, pertencem ao excelente
material proveniente de uma tipografia parisiense.
Por que as Institutas não foram impressas na França, mesmo depois da ab-
rogação da interdição absoluta de 1535? Os livros impressos em 1536 são raros;
um deles, obra de Baïf, precisa ser reeditado em 1537, e o será em Basiléia, pela
firma de Platter, o impressor das Institutas. Por outro lado, em Paris, entre 1539
e 1541, e em Lião, ocorrem duas greves de impressores: seu trabalho era duro; às
vezes trabalhavam das duas da manhã às oito da noite! Com esse ritmo, concebe-
se que certos livros saiam rapidamente do prelo. Três meses, em 1552, foram
suficientes para que fossem publicadas as 734 páginas da obra Christianismi
restitutio (Restabelecimento do Cristianismo), de Serveto, com uma tiragem de
mil exemplares, em Viena, não longe de Lião. De 1500 exemplares foi a tiragem
de uma Epístola Utilíssima, produzida por Girard, a cuja empresa Calvino confi-
ará a obra Institutas. Não sabemos qual foi a tiragem desta.
As publicações deste gênero eram bem recebidas na França pelos partidári-
os e pelos adversários, uns e outros igualmente ardorosos. R. Estienne teve essa
experiência na mesma época: “Lá pelo ano de 1541, mandei imprimir o Novo
Testamento com breves anotações... O livro foi recebido com alegria, e depois...
fui obrigado a me esconder” (Censuras dos Teólogos).
Corajosos colportores, pela Suíça, pela Holanda, pelos vales valdenses, fi-
zeram penetrar na França bom número de exemplares das Institutas. A repressão
não tarda. Em Paris o preboste34
mandou prender o porteiro e guarda Antoine Le
Noir, “livreiro que se dizia de Anvers” [Bélgica]; no dia primeiro de julho de
1542, o Parlamento o condena a confessar sua culpa no adro de Notre Dame. As
Introdução
34
Antigo magistrado da justiça militar. Em francês: prévôt. NT.
18 As Institutas – Edição Especial
Institutas de 1539 e de 1541 serão queimadas; Antoine Le Noir será banido.
Nessa ocasião o Parlamento, à solicitação do procurador geral, sob a presidência
de P. Lizet, dá ordem de embargo das Institutas: todos os exemplares deveriam
ser apreendidos. Proibidas a reimpressão e a venda. Ao som de trombetas nas
encruzilhadas, os arautos levam essas medidas ao conhecimento do público.
A profunda impressão produzida pelas Institutas leva a Faculdade de Teo-
logia a publicar, em 10 de março de 1543, artigos de fé sobre os assuntos contro-
vertidos. No dia 14 de fevereiro de 1544 o Parlamento ordena que a obra Institutas
seja queimada no adro de Notre Dame, ao som do grande sino. No dia 23 de
junho de 1545 ele proíbe a impressão e a venda dos livros mencionados no catá-
logo (o Index) dos livros censurados pela Faculdade de Teologia. Uma reedição
das Institutas de 1541 acabava de aparecer em Genebra. Não nos alongaremos
com informações sobre as medidas de repressão.
PORQUE CALVINO
PUBLICA UMA TRADU-
ÇÃO FRANCESA
Qualquer que fosse a língua em que Calvino es-
crevesse, o objetivo era sempre o mesmo: servir. O
“Argumento” de 1541 o diz expressamente: o livro foi
redigido “primeiramente” em latim, para servir os lei-
tores de todas as nações. Mas agora – a carta escrita ao rei o indica – ele quer
especialmente “servir a nós, franceses”. Nem todos sabem latim. A obra é então
traduzida para servir “nossa nação francesa”, inteiramente. Desde 1535, queren-
do tornar conhecido o Novo Testamento em sua língua, Calvino dedicou a tradu-
ção de Olivetan “a todos quantos amam Jesus Cristo”.
Na opinião do chanceler Pasquier, Calvino “escrevia bem, tanto em latim
como em francês, e a ele nossa língua deve muito, porque ele a enriqueceu com
uma infinidade de passagens típicas”.35
Era belo o latim de Calvino. Ainda estu-
dante, ele tinha lido a obra Ciceronianus, de Erasmo (1528), complementando a
De elegantia latinæ linguæ (Acerca da Elegâncioa da Língua Latina), de Valla. É
belo o francês de Calvino; eleva de Cordier, que ele conhecia desde antes da sua
publicação, em 1530, das lições De corrupti sermonis apud Gallos emendation
(Acerca das Palavras Errôneas, Conforme as Correções de Gallos) – obra
reimpressa nove vezes, até 1536; Calvino tinha lido também a Breve Doutri-
na para a Boa e Devida Redação da Língua Francesa, de Augereau, queimado
como herege em Paris na véspera do Natal de 1534. Em 1536, R. Estienne trata
Da maneira de verter à língua francesa os verbos ativos, etc. Mais tarde, Calvino
ditará o que escreve a secretários; como principiante, escrevia de próprio punho;
mas sempre corrige as provas cuidadosamente. Pouco antes de 1535, Geoffroy
Tory tinha feito publicar sua obra Campo Florido (“Champ Fleury”), que contém
a arte e a ciência da devida e verdadeira proporção das letras áticas (1529).
35
Viajei certa vez (1987) com um padre francês (Pe. Henrique). No fim da viagem ele confessou que no seminá-
rio em que tinha estudado, em Paris, Calvino era lido como modelo da língua francesa. Acrescento que recen-
temente (dia 11.11.01) conversei em Campinas com um bispo católico romano (Bispo Bruno, de Bragança
Paulista) e lhe contei a experiência acima referida. Ele confirmou o que o padre Henrique dissera. NT.
19
Segundo essa obra, à letra gótica, ainda empregada por P. de Wingle para a Bíblia
de 1535, Calvino e Platter preferem em 1536 a romana e a itálica. Em 1541
apareceram algumas vezes o acento agudo, o apóstrofo, a cedilha: Em 1540,
Dolet acabava de imprimir suas reflexões sobre A maneira de bem traduzir de
uma língua para outra, com a vantagem da pontuação da língua francesa, mais
os seus acentos.
Introdução
O ESTILO DE
CALVINO
Sobre a forma literária das Institutas, como falar
sem repetir o que excelentemente disseram mestres
como Brunetière, Lanson, Lefranc, Brunot, Plattard,
Huguet? Aos vinte e três anos de idade, Calvino já tinha indicado, a propósito de
Sêneca, que havia procurado escrever numa linguagem pura, elegante, breve,
clara, variada. Ora são os períodos oratórios, ora os termos incisivos, irônicos. A
sintaxe é mais demorada que a nossa, observa Petit de Julleville; por isso, as
construções são sempre limpas. Os períodos amplos lembram a frase latina, com
poucos incidentes longos. As palavras importantes são bem valorizadas; a frase,
em termos matizados, equilibrados, é harmoniosa na leitura e sonora ao ouvido,
com cadência musical. O ritmo é ora mais lento, ora mais rápido: é obra de um
grande apreciador do canto, estilo de um homem instruído e igualmente elevado,
de conversa agradável e também orador eloqüente. As imagens são vivas, man-
tendo a atenção desperta; são mais numerosas em 1541 que em 1536. Os provér-
bios são freqüentes, como igualmente as comparações, aqueles e estas mais fre-
qüentes também em 1541, porque o autor deseja ser compreendido por maior
número de leitores. Já não se dirige somente aos letrados; quer esclarecer os que
pouco sabem. É, pois, necessário que uma expressão familiar venha alegrar um
desenvolvimento que se arriscava a parecer muito abstrato.Algumas palavras são
curiosas e merecem realce. Umas mantêm o sabor da Picardia, terra natal do
autor (no tratado contra os libertinos, Calvino reproduzirá a forma de expressar
de um interlocutor em sua fala própria da Picardia); as outras provêm dos seus
estudos jurídicos.
Os termos jurídicos são mais freqüentemente empregados no latim de 1536
e de 1539, cujos leitores conheciam a linguagem técnica, do que no francês de
1541. Nesta, quando essa linguagem ainda ocorre, a terminologia é a dos proce-
dimentos da época, e mesmo, familiarmente, a do clero.
Calvino considera a parte contrária como um querelante que ataca os inte-
resses dos quais ele é o defensor: os interesses da verdade, do Evangelho. Diante
de um tribunal onde há um trono real, Calvino pleiteia uma causa que é a de um
soberano maior, o Rei dos reis.
Trata-se de “argüir” bem, de “redargüir”, de “prescrever”, de “requerer”.
Juiz, julgamento, testemunho, são expressões correntes. Em 1541, é questão de
uma “pobre defesa, indigna de admitir-se” (a tipografia de 1539 tinha tolamen-
te impresso digna). Não se pode “alegar ignorância”, é-lhe negada “toda escu-
sa”, redige-se um instrumento. Termos bastante específicos: manumissio,
20 As Institutas – Edição Especial
restitutio in integrum, são substituídos por equivalentes mais fáceis de entender:
libertação, reparação.
De maneira constante, o escritor se esforça para dar ao livro de 1541 um
caráter mais popular; as palavras impressas em caracteres gregos são suprimidas;
outras, transliteradas em francês: thesis, hypothesis, etc., desaparecem em 1541.
Em 1541 a tradução francesa, grave e simples, segue literalmente o texto de
1539. Vinte anos depois, na última edição francesa, revista e bastante aumentada,
a língua ficará mais livre do latim; mas, se Calvino fez revisão do texto, parece
que a de 1541 foi inteiramente redigida por ele, o que dá a essa edição um valor
documental sem par. Em 1560 serão eliminados os substantivos abstratos termi-
nados em tion e os advérbios em ment, demasiado freqüentes em 1541; se certos
termos novos adotados pelo revisor de 1560 estão mais próximos da nossa língua
moderna, as formas empregadas pelo jovem escritor de 1541 são mais concisas e
a redação é mais analítica. A seqüência dos pensamentos é bem encadeada, as
idéias secundárias são agrupadas em torno do pensamento principal, os compo-
nentes de frase são coordenados segundo suas respectivas proporções. Do ponto
de vista da forma, o conjunto produz no leitor uma impressão artística, como tam-
bém, do ponto de vista do conteúdo, uma impressão de pensamento profundo.
AS FONTES
Passemos às observações mais importantes: so-
bre o conteúdo do livro e suas fontes, sobre o plano,
sobre os diversos capítulos.
O livro Institutas, em princípio, não pretende ser outra coisa que um co-
mentário da Escritura Sagrada. Quanto a esta, já há uma dezena de anos, Olivetan
levou Calvino a reconhecer a autoridade soberana em matéria de fé; Calvino
estudou hebraico e grego a fundo para poder ler melhor que na Vulgata os textos
do Antigo e do Novo Testamento. As edições de Erasmo, os comentários de
Lefèvre, são seus livros de cabeceira.
Ele lê também os chamados pais da igreja, e, depois de 1541, os lerá mais
do que antes de 1539. Entre os “pais” gregos ele só fica conhecendo bem João
Crisóstomo; ele lê maior número de “pais” latinos, sobretudo Agostinho.
Com respeito a autores profanos, Aristóteles e Platão, Cícero e Sêneca,
freqüentemente editados e comentados pelos humanistas, fornecem muitas refe-
rências. Muitas vezes os estóicos são criticados, o mesmo acontecendo com os
escolásticos, entre os quais Calvino inclui os sorbonistas do seu tempo. De bom
grado cita histórias da igreja antiga, e também a história profana.
Quanto aos reformadores, Calvino não cita Œcolampádio em 1536 (e, toda-
via, a lembrança do teólogo de Basiléia era ainda muito recente naquela cidade
quando Calvino fez chegar lá o livro Institutas), como também não cita Bucer em
1539 e em 1541 (e, todavia, a influência do pastor alsaciano se faz sentir nas
páginas acrescentadas à redação primitiva: sobre a doutrina da igreja, etc.).
De Lutero, Calvino fala com respeito; ele não tinha lido as suas obras em
alemão, língua que ele ignorava, mas em latim.
21
Por fim, suas leituras estendem-se aos escritos dos adversários. Um deles é
Béda (ex-diretor do colégio Montaigu, onde Calvino estudou alguns meses),
inspirador das declarações da Sorbonne contra Erasmo, Lefèvre, Berquin e Lutero
(Béda não pôde ler e condenar as Institutas, pois morreu em 1536).
Introdução
TOM
Contra os adversários Calvino batalhará
vigorosamente, empregando termos enérgicos, sobre-
tudo após 1541. Como os primeiros escritos dos evangélicos franceses e como os
primeiros extratos das obras de Lutero, selecionados pelos tradutores franceses,
as primeiras edições latina e francesa das Institutas pretendem ser obras de
edificação, antes que tratados de controvérsia. Não quer dizer que nos textos de
1539 e de 1541 não se encontrem expressões cáusticas, mordazes e até violentas;
mas Calvino, aos vinte e nove anos de idade, ainda não é o homem que se tornará
à medida que envelhecer, mostrando-se na juventude muito irritado pelas oposi-
ções, pelas dificuldades, pelas inquietações e pelas doenças36
que o mantiveram
preso ao leito durante boa parte do seu tempo de trabalho.
Mais ainda que os adversários declarados, ele vê com maus olhos, desde
1539, aqueles que, como Rabelais e Des Périers, tendo-se inclinado para o Evan-
gelho, depois o abandonaram; assim, dois ex-discípulos de Lefèvre, o cônego
flamengo Clichtow (cujos sermões foram publicados em 1535) e o capelão de
Marguerite d’ Angoulème, que se tornou bispo de Oloron, Gérard Roussel: as
cartas contra os “Nicodémites” (hipócritas) foram compostas em Ferrara em 1536,
o Tratato sobre os Escândalos em Estrasburgo, em 1540, portanto entre a segun-
da edição latina das Institutas e sua versão francesa.
OS TESTEMUNHOS
INVOCADOS
Calvino recorre também, quando se lhe apresenta
a ocasião, às descobertas – ainda bastante rudimenta-
res – dos sábios, às obras dos artistas, aos espetáculos
da natureza, em favor da causa que lhe é cara; mais ainda: em favor da Causa que,
de toda a sua alma, ele crê que é santa. Como bom advogado, ele invoca todas as
autoridades das quais pode reclamar testemunho: a autoridade de autores profa-
nos, de “pais” da igreja e, sobretudo, de escritores sacros; mas, para tocar o cora-
ção de todos, dos reis e dos sábios, como também dos “simples e rudes” que têm
sede da verdade, Calvino conta, antes de tudo e quase unicamente, com uma ação
superior aos poderes humanos, com a intervenção pessoal e direta do Pai celeste
na consciência dos Seus filhos, com o testemunho interno do Espírito Santo. Esta
doutrina especificamente calvinista, baseada na Escritura Sagrada, é o fio condu-
tor que permite seguir de um extremo ao outro o plano geral e os diversos capítu-
36
Calvino reflete sobre a fragilidade humana: João Calvino, As Institutas, I.17.10. Calvino que sempre teve
saúde débil, acompanhada de uma capacidade hérculea de trabalho, em 08/02/1564, escreve a médicos de
Montpellier agradecendo os remédios e a gentil atenção. Nesta carta ele descreve suas enfermidades: artrite,
pedras nos rins, hemorróides (enfermidade que o impedia de cavalgar), febre, nefrite, indigestão, cólicas,
úlceras, emissão de sangue por via urinária... (Vd. John Calvin, “To the Physicians of Montpellier”, “Letters,”
John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 665.) NE.
22 As Institutas – Edição Especial
seguido da explicação do Decálogo, do Credo e do Pater [a oração do Senhor],
que já formavam a trama dos antigos catecismos católicos romanos e do de Lutero.
O capítulo primeiro trata da idéia de Deus, inata; juiz e pai. O ateísmo e as
religiões falsas são desmascarados. Como conhecer Deus? O espetáculo do mun-
do mostra a existência da Providência, mas uma revelação interior, mais precisa,
é indispensável. O testemunho do Espírito Santo estabelece a autoridade da Es-
critura; provas secundárias são admissíveis.
O conhecimento de si mesmo é útil ao homem, se nele produz humildade. A
liberdade existe; não há necessidade de exaltá-la, nem de suprimi-la. Tudo deve
ser feito para a glória de Deus. As faculdades da alma foram classificadas por
Platão de maneira muito complicada. Calvino distingue simplesmente a inteli-
gência e a vontade. A inteligência aplica-se proveitosamente à ordem política e
social, às artes, à filosofia; para as coisas celestiais ela é insuficiente.
Vem então a questão do livre arbítrio.Avontade foi corrompida pelo pecado,
do qual o homem é escravo. A graça é o único remédio. O mal é obra do Diabo.
O capítulo Acerca da Lei dá explicação de cada mandamento do Decálogo
do ponto de vista prático, e depois o Sumário da Lei, dado por Jesus Cristo.
A fé é primeiro definida: Um conhecimento seguro da vontade de Deus. Seu
objetoéavidaeterna,seufundamento éapromessadeJesus Cristo. O Credo éexplica-
do em quatro partes: Pai, Filho, Espírito Santo, Igreja (sua organização, o ministério
sagrado, os sacramentos: pontos mais desenvolvidos que na edição de 1536).
A propósito da Penitência (IV), Calvino fala contra o mérito das obras e
contra o purgatório. A Justificação pela Fé (V) é a reconciliação com Deus. So-
mente ela dá paz às consciências.
Vem depois um paralelo do Antigo e do Novo Testamento (VII), seguindo-
se a questão da Predestinação e da Providência de Deus (VIII). Somente a Pala-
vra de Deus é capaz de esclarecer este assunto, que é preciso não abordar com
curiosidade. Se há predestinação dos eleitos, há também dos reprovados. Deus
intervém, direta ou indiretamente, em toda a vida humana.
RESUMO DO
LIVRO
A edição de 1536 não tinha mais que seis capítu-
los; em 1539 e em 1541, dezessete. Aqui se vê a intro-
dução: Acerca do conhecimento de Deus e do homem,
los do livro. Outra doutrina, destinada a receber mais tarde grande desenvolvi-
mento, a da predestinação, é rapidamente formulada nos textos de 1539 e de
1541. Se Calvino comenta a Palavra de Deus, se escreve as Institutas, é porque
está persuadido de que esta Palavra pode e deve exercer uma ação irresistível
sobre as almas a quem Deus concede esse privilégio.
Post tenebras lux (luz após trevas) é o versículo de Jó que Calvino viu tor-
nar-se a divisa de Genebra quando esta adotou a Reforma, em 1536. Quando essa
luz de Deus brilha, quando a voz de Deus se faz ouvir, só nos resta obedecer.
“Promptè et sincerè” (Pronta e sinceramente) é uma palavra de ordem que Calvino
toma para si e dá aos outros.
23
O capítulo Acerca da Oração (IX) é simplesmente uma explicação da Oração
do Senhor; começa com uma introdução sobre a utilidade e a legitimidade da oração.
Depois de falar dos sacramentos em geral (X), sinais visíveis da graça invi-
sível, segundo a doutrina agostiniana, Calvino trata do Batismo, preconizando
(contra os anabatistas) o batismo das crianças; e ensina que, na Santa Ceia, Jesus
Cristo está presente real, mas espiritualmente. Essa doutrina, definida com preci-
são sob a influência de Bucer, exclui a transubstanciação católica romana, a
consubstanciação luterana e, sobretudo, a simples comemoração zwingliana.
Em seguida são eliminadas “outras cinco cerimônias falsamente chamadas
sacramentos” (XIII). Um belo capítulo (XIV) é dedicado à Liberdade Cristã,
bem diferente da licença [isto é, do abuso da liberdade].
O Poder Eclesiástico (XV) deve ser regulado de tal maneira que não atente
contra essa liberdade, como é o caso da igreja romana. Os diversos regulamentos
e as cerimônias diversas são admissíveis, desde que ajudem a edificação.
Que pensar do Governo Civil (XVI)? Os magistrados (o termo era emprega-
do em Estrasburgo para designar os detentores do poder legislativo e do poder
executivo, e não somente os juízes) têm uma missão divina, seja qual for a forma
do Estado: monarquia, democracia ou outra. (No fundo, o regime preferido por
Calvino é a teocracia.) A autoridade real é por direito divino; além disso, os gene-
rais de Estado e outros representantes dos direitos do povo estão no plano divino.
O último capítulo foi redigido durante a permanência em Estrasburgo.
Calvino reflete nas diversas provas pelas quais passou desde 1535; aprendeu a
sofrer. A Vida Cristã (XVII) consiste em cada um levar a sua cruz meditando na
vida futura.
A conclusão do capítulo – e do livro inteiro – é todo de moralidade prática:
pode-se fazer uso dos bens deste mundo, mas é necessário que o cristão não se
afeiçoe muito por eles; convém que se considere simples depositário. Cada cris-
tão, seja qual for o seu estado, será feliz se se conduzir em conformidade com a
vocação que recebeu de Deus.
Tal é a obra realizada em 1539 por um homem de trinta anos e que, dois
anos depois, ele quer fazer chegar à porta de todos os seus compatriotas.
O EFEITO
PRODUZIDO
Uma dezena de edições latinas, uma quinzena de
edições francesas, numerosas traduções em línguas es-
trangeiras foram dadas a público durante a vida do au-
tor. Ele pode dizer, não por orgulho mas com reconhecimento, que, graças às
Institutas, ele tem filhos espirituais no mundo inteiro. Um dístico que se deve a
um húngaro declara que, desde os escritos apostólicos, nada se iguala às Institutas.
Durante o século XVI, do ponto de vista religioso, nenhum livro, depois da
Bíblia, tem semelhante autoridade; do ponto de vista literário, nenhuma obra
contribuiu com igual clareza e igual força para a expansão do pensamento fran-
cês. Aos olhos de um holandês do século XVII, é “um tesouro caído do céu:
desde o conselheiro do tribunal supremo até os cocheiros e barqueiros, todos são
Introdução
24 As Institutas – Edição Especial
versados na teologia calvinista, todos relêem dia e noite estas Institutas de ouro”.
Ainda noséculoXVIII,Bayle escreve:“Jamaishouvelivrotãocomumcomoesse”.37
Alguns exemplares são encadernados suntuosamente, com fechos de ouro.
Outros trazem os sinais dos tempos de perseguição: foram escondidos debaixo
do soalho, nos celeiros; a primeira página foi arrancada, o nome do autor foi
raspado ou cortado, para escaparem da destruição.As edições mais antigas foram
em grande parte consumidas pelas chamas. Com efeito, os adversários não so-
mente contestavam vivamente, mas condenavam e queriam suprimir o que um
deles (Florimont de Raemond) denominava “o Talmude da heresia, um amonto-
ado de quase todos os erros do passado e... e do futuro”.
NOSSA EDIÇÃO
Se a Associação Guillaume Budé faz reimprimir
este texto de 1541, não é em consideração ao papel que
ele tem desempenhado na história do pensamento reli-
gioso, mas em razão do lugar que ele ocupa na história da língua e da literatura
francesas. Bossuet não se constrange ao “dar” ou ao atribuir a Calvino “esta gló-
ria, de, em suma, escrever como homem do seu século”, e de ter-se “excedido em
excelência ao falar a língua do seu país”. Esse elogio, sob uma pena não suspeita
de benevolência, é ratificado pelos eruditos mais modernos.
Até a sua morte, Calvino revisou e aumentou sua obra, sem acrescentar
nada de essencial.38
Mas, se as edições posteriores, e em especial o grande volu-
me de 1560,39
são relativamente fáceis de encontrar, já não é assim com o texto de
37
Alguns dos inúmeros testemunhos a respeito das Institutas:
O historiador Félice, a denomina “primeiro monumento teológico e literário da Reforma francesa.” (G.
de Félice, História dos Protestantes da França, São Paulo, Typographia International, 1888, p. 53.)
“Após três séculos e meio, ela conserva sua inquestionável preeminência como o maior e mais influente
de todos os tratados dogmáticos.” [B.B. Warfield, Calvin and Calvinism, Grand Rapids, Michigan, (“The
Work’s of Benjamin B. Warfield”), 1981, Vol. V, p. 8.]
Albrecht Ritschl (1822-1889) a chama de “obra-prima da teologia protestante” [Apud B.B. Warfield,
Calvin and Calvinism, Vol. V, p. 9.]
“A Institutio não é somente uma obra-prima de teologia Cristã; ela é um clássico devocional.” [John
Murray, Calvin as Theologian and Expositor, Carlisle, Pennsylvania, The Banner of Truth Trust, (Collected
Writings of John Murray, Vol. I], 1976, p. 311.]
“AInstitutio de Calvino é a mais importante obra da história da ciência teológica.” (William Cunningham,
The Reformers and the Theology of the Reformation, Carlisle, Pennsylvania, The Banner of Truth Trust,
1989 (Reprinted), p. 295.) NE.
38
William Cunningham (1805-1861), escreveu: “A primeira edição da sua grande obra, ‘A Instituição da
Religião Cristã’, foi publicada quando ele tinha 27 anos de idade; e ela é a mais extraordinária prova da
maturidade e vigor de sua mente, do cuidado com que ele estudou a Palavra de Deus, e da profundidade e
vastidão de suas meditações sobre as coisas divinas, e não obstante a obra ter sido posteriormente grandemente
ampliada, e ainda que algumas alterações tenham sido feitas em sua disposição dos tópicos discutidos,
contudo nenhuma alteração de qualquer importância foi feita nas doutrinas que ali estabeleceu.” (William
Cunningham, The Reformers and the Theology of the Reformation, p. 294.) NE.
39
Recordemos um pouco: A edição original escrita em latim – dispunha de 6 capítulos em apenas 520 pági-
nas, com formato aproximado de 15x10 – um livro de bolso que facilitava o seu transporte discreto; a última
– passando por algumas ampliações, revisões e reorganizações [1536, 1539, 1543 (sem alteração, 1545),
1550 (sem alterações: 1553 e 1554)], até atingir a forma definitiva – publicada em Genebra (1559) na
tipografia de Robert Estienne. Esta foi reimpressa duas vezes em 1561.
Conforme o próprio Calvino nos diz; ele só se satisfez com o arranjo e ordem desta última (Prefácio à
Edição de 1559). A tradução francesa foi impressa na tipografia de Jean Girard, em Genebra (1541), seguin-
25Introdução
1541. Da edição original não existem mais que seis exemplares: dois em Paris
(na Biblioteca Nacional e na Biblioteca do Protestantismo Francês), um em Ge-
nebra, um em Estrasburgo, um em Montpellier, e um derradeiro numa coleção
particular existente em Neuchâtel.
Em 1865, os professores estrasburgueses Baum, Cunitz e Reuss, reimprimin-
do nas Opera Calvini (Obras de Calvino), t. III, o texto de 1560, introduziram aqui
e ali, ao pé das páginas, algumas frases do texto de 1541. Este foi reproduzido
integralmente em 1911 na Biblioteca da Escola de Altos Estudos, sob a direção do
professorAbel Lefranc, mas essa edição em dois volumes esgotou-se rapidamente.
A edição atual, preparada pela Sociedade Calvinista da França, vem a pú-
blico sob os auspícios da Associação Guillaume Budé, com uma generosa sub-
venção da Sociedade do Museu Histórico da Reforma em Genebra. Budé e Gene-
bra, o Colégio da França onde Calvino se formou em Paris, por volta do ano de
1530, e Genebra, onde ele publicou o seu livro em 1541, encontram-se desse
modo evocados juntos, graças a uma feliz coincidência!
A melhor maneira de celebrar o quarto centenário das Institutas seria fazer
chegar de novo este livro à porta dos leitores do século XX. Oxalá tenham eles o
mesmo interesse dos leitores do século XVI!
JACQUES PANNIER
Pastor, Doutor em Letras Bibliotecário da
Sociedade de História do Protestantismo Francês.
do-se outras: 1545, 1551, (sem alterações: 1553 e 1554), 1557 e a definitiva: 1560. Ela exerceria poderosa
influência sobre as igrejas da França, tendo o Parlamento francês inclusive interditado a obra e destruído
alguns volumes (1542) e a Faculdade de Teologia a incluiu entre os livros censurados (23/06/1545). Apesar
das sucessivas edições ampliadas da Instituição, a realidade é que a sua teologia não mudou. As modifica-
ções refletem, na realidade, mais uma preocupação pedagógica do que metodológica, e menos ainda teoló-
gica. (Vd. Alister E. McGrath, A Life of John Calvin: A Study in the Shaping of Western Culture, Oxford,
UK & Cambridge, USA., Blackwell Publishers, 1991, p. 148.) É bom lembrar, que toda a sua obra foi
produzida não num clima de sossego e paz, numa “torre de marfim”, mas em meio a inúmeros problemas:
administrativos, domésticos, financeiros e, principalmente, de saúde. (Vd. “John Calvin, To Farel”, “Letters,”
John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 34; Vd. “John Calvin, To the
Physicians of Montpellier”, “Letters,” John Calvin Collection, [CD-ROM], nº 665; John Calvin, To Monsieur
de Falais, “Letters,” John Calvin Collection, [CD-ROM], 161.)
A edição definitiva da Instituição (latim: 1559; francês: 1560), seguindo a ordem do Credo Apostólico,
pode ser, grosso modo, assim esboçada:
III – Do Conhecimento de Deus, o Criador (Teologia)
III – Do Conhecimento de Deus, o Redentor (Cristologia)
III – O Espírito Santo e a Aplicação da Obra salvadora de Cristo (Pneumatologia/Soteriologia)
IV – Os Meios Externos de Salvação: a Igreja e os Sacramentos (Eclesiologia). NE.
O TEXTO E AS NOTAS DA
PRESENTE EDIÇÃO
O TEXTO
A data de 1536 e a de 1539, entre colchetes, indica a data da edição latina da qual
Calvino traduziu o texto no parágrafo que se segue à menção dessa data.
Os títulos dos capítulos são os da edição de 1541.
AS NOTAS
1. As chamadas com algarismos remetem à margem inferior das páginas; ali são
reproduzidas em itálico as referências impressas nas margens da edição de 1541,
e em caracteres romanos as referências e as indicações complementares fornecidas,
quer por outras edições publicadas durante a vida de Calvino, quer pelas Obras
Seletas de Calvino (Opera Calvini selecta), edição de P. Barth e Niesel, 1928,
quer ainda pelos editores da presente edição.
2. As chamadas com pequenas letras [chumbo miúdo] remetem igualmente
ao rodapé (comentário histórico, teológico e literário). Vão ali inseridos extratos
de edições latinas (1536, 1539) cujo paralelo com a tradução francesa oferece
alguma utilidade ou algum interesse lingüístico.
As notas teológicas foram redigidas pelo pastor Lecerf, presidente da Socie-
dade Calvinista da França; todas as outras devemos ao pastor J. Pannier, vice-
presidente da referida sociedade. Nesta edição da Editora Cultura Cristã, além
das notas do tradutor (NT), Odayr Olivetti, o leitor encontrará ainda as notas
editoriais (NE), elaboradas por Hermisten Maia Pereira da Costa. O objetivo des-
ta editora é que esta publicação enriqueça a pesquisa dos estudiosos interessados
na doutrina bíblica conforme resgatada pelo mestre da Reforma.
Índice Remissivo — Ainda para facilitar o trabalho dos pesquisadores, no
fim do último volume incluiremos índices de assuntos, de nomes e de passagens
bíblicas, bem como uma grade comparativa da localização de assuntos nesta edi-
ção de pesquisa e na edição clássica da Editora Cultura Cristã.
CLÁUDIO A. B. MARRA
Editor
P
ara que os leitores façam melhor proveito deste livro, quero mostrar-lhes
resumidamente a utilidade que eles terão em aplicar-se à sua leitura. Por
que, ao fazê-lo, eu lhes mostrarei a que objetivo deverão ater-sea
e ao qual
deverão dirigir sua atenção durante a leitura. Embora seja fato que a Escritura
Sagrada contém uma doutrina perfeita, à qual nada se pode acrescentarb
, visto
que nela o nosso Senhor Jesus Cristo quis expor os tesouros40
infinitos da Sua
sabedoria, contudo, uma pessoa que não esteja bem exercitada necessita de algu-
ma orientação e direção para saber o que deverá buscar, para que não fique va-
gando aqui e ali, mas tenha uma certa visão para pôr sempre a atenção nos pontos
para os quais o Espírito Santo a chame. Portanto, o ofício dos que receberam
mais ampla iluminação de Deus que os outros consiste em dar aos simples o que
lhes é necessárioc
neste assunto e em saber estender-lhes a mão para os conduzir
a
No início da edição latina de 1539 a Carta ao Leitor (Epistola ad lectorem) não contém nada equivalente a
estas primeiras linhas.
b
No Sumário e Breve Declaração (Summaire et briefve declaration) publicado por Farel por volta de 1524 e
que tinha acabado de ser reeditado em 1534, quando Calvino estava escrevendo este argumento, lê-se: “Na
obra de salvação não é necessário apresentar senão as coisas das quais haja muita certeza, e as quais se pode
tomar tão-somente da Escritura Sagrada”.
40
Provérbios de Salomão 2.2-4
c
Em 1539 a Epistola ad lectorem começava assim (em latim no original francês): “Na primeira edição desta
obra de nossa autoria, à qual eu não esperava que a bondade do Senhor concedesse tanto êxito, era minha
intenção, como acontece em geral com obras de pequeno vulto, fazer uma exposição sucinta. Quando vi,
porém, que ela foi tão favorecida por quase todos os piedosos, coisa que não ousei desejar, nem tampouco
esperar, senti-me apoiado além de meus merecimentos. Eu julguei que seria ingrato se não procurasse
corresponder com empenho, diligentemente e com os recursos ao meu alcance ao desejo demonstrado”, etc.
“Este foi, pois, o meu propósito neste trabalho: Preparar e instruir os candidatos à Teologia Sacra para o estudo
da Palavra de Deus, facilitando-lhes o acesso de modo que possam progredir neste aprendizado sem tropeços.”
28 As Institutas – Edição Especial
e os ajudara
a encontrar a essência do que Deus nos quer ensinar em Sua Palavra.
Ora, a melhor maneira de fazer isso é com as passagens que tratam dos assuntos
principais e, por conseguinte, as que estão contidas na filosofia cristã.b
Pois quem
tiver entendimento estará capacitado a crescer na escola de Deus, um dia mais,
outro menos, num período de três meses; isso porque sabe mais ou menos quan-
do deve introduzir esta ou aquela sentença, e tem sua regra para dispor com equi-
líbrio tudo o que lhe é apresentado.c
Vendo então que é uma coisa tão necessária
auxiliar dessa maneira os que desejam ser instruídos na doutrina da salvação,
esforcei-me, conforme a capacidade que Deus me deu, para dedicar-me a esse
trabalho; e com esse fim compus o presente livro. Primeiramente escrevi em
latim – para servir a todos os estudiosos de qualquer nação; logo depois, desejan-
do comunicar o que pode vir a ser benéfico à nossa nação francesa, eu o traduzi
para a nossa língua. Não me atrevo a dar um testemunho muito forte e declarar
quão proveitosa poderá ser a sua leitura, temendo parecer que eu dou demasiado
valor à minha obra; todavia, posso muito bem prometer uma chave e uma abertu-
ra para dar acesso a todos os filhos de Deus para entenderem bem, e diretamente,
a Escritura Sagrada.
[1539] Por isso, se daqui em diante o nosso Senhor me der os meios e a
oportunidade de fazer alguns comentários,d
serei o mais breve possível, porque
não será necessário fazer longas digressões, visto que aqui já dei extensamente
pormenores de quase todos os artigos pertencentes à cristandade.
Já que é necessário que reconheçamos que toda a verdade e toda sã doutrina
procedem de Deus,41
ousarei declarar audaciosamente, mas com simplicidade, o
a
“Com efeito, meu interesse foi apresentar um sumário de todas as partes interligadas num todo que permita
fácil exame (ibid.).
b
No discurso proferido em Paris no dia 1º. de novembro de 1533 pelo reitor Cop, mas composto por Calvino
(Opera Calvini, IX, 873), trata-se da questão da filosofia de Cristo (philosophia Christi), expressão com a
qual Erasmo já designava a substância da doutrina cristã.
c
Cf. Rm 2.20: “Tendo [tu] na lei a forma da sabedoria e da verdade”. Ou, na tradução dada no original
francês: “Tu tens na lei a regra da ciência e da verdade”. Fazia pouco tempo que Calvino tinha comentado
esta epístola de Paulo em Estrasburgo, em 1538-39. Numerosas passagens das Institutas, particularmente no
último capítulo, têm nesse comentário a sua inspiração.
d
Calvino dedicou a Grineu [Simon Grynaeus (1493-1540)]1 seu Comentário da Epístola aos Romanos já em
18 de outubro de 1539, dois meses depois de anunciar isso na epístola de 1539.
41
Esta compreensão esteve sempre presente no pensamento teológico da igreja; cito alguns exemplos: Justino
Mártir (c. 100-165): “... Tudo o que de bom foi dito por eles (filósofos), pertence a nós, cristãos, porque nós
adoramos e amamos, depois de Deus, o Verbo, que procede do mesmo Deus ingênito e inefável.” (Justino,
Segunda Apologia, São Paulo, Paulus, 1995, XIII.4. p. 104); Agostinho (354-430): “Todo bom e verdadeiro
cristão há de saber que a Verdade, em qualquer parte onde se encontre, é propriedade do Senhor. Essa
verdade, uma vez reconhecida e professada, o fará rejeitar as ficções supersticiosas que se encontram até nos
livros sagrados.” (Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo, Paulinas, 1991, II.19. p. 122.) Em lugares
diferentes, Calvino escreveu: “... visto que toda verdade procede de Deus, se algum ímpio disser algo verda-
deiro, não devemos rejeitá-lo, porquanto o mesmo procede de Deus. Além disso, visto que todas as coisas
procedem de Deus, que mal haveria em empregar, para sua glória, tudo quanto pode ser corretamente usado
dessa forma?” (João Calvino, As Pastorais, (Tt 1.12), p. 318.) Em outro lugar: “Se reputamos ser o Espírito
de Deus a fonte única da verdade mesma, onde quer que ela haja de aparecer, nem a rejeitaremos, nem a
desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus.” (João Calvino, As
29
que eu penso desta obra, reconhecendo que ela é mais de Deus que minha; pelo
que, na realidade, a Ele se deve render louvor. Exorto a todos os que têm reverên-
cia para com a Palavra do Senhor, que leiam este livro e que o gravem
diligentementea
na memória, se quiserem ter, primeiro, um resumo da doutrina
cristã, e, depois, uma proveitosa iniciação na leitura, tanto do Antigo como do
Novo Testamento. Quando tiverem feito isso, eles saberão por experiência que de
modo nenhum eu quis abusar das palavras.42
Se alguém não puder compreender
todo o conteúdo, não precisa ficar desanimado por isso; continue indo sempre
adiante, na esperança de que uma passagem lhe dará uma exposição mais fácil de
outra.b
Acima de tudo mais, é recomendável que se recorra à Escritura para con-
siderar os testemunhos por mim citados.c
a
Calvino traduziu assim o versículo de João 5.39: “Pesquisai diligentemente as Escrituras”.
Argumento do presente livro
Institutas, II.2.15.) Ele acrescenta: “.... Se o Senhor nos quis deste modo ajudados pela obra e ministério dos
ímpios na física, na dialética, na matemática e nas demais áreas do saber, façamos uso destas, para que não
soframos o justo castigo de nossa displicência, se negligenciarmos as dádivas de Deus nelas graciosamente
oferecidas.” (J. Calvino, As Institutas, II.2.16.) (Vd. J. Calvino, As Institutas, I.5.2; II.2.12-17.) Fiel a esse
princípio, na Academia de Genebra estudavam-se autores gregos e latinos, tais como: Heródoto, Xenofonte,
Homero, Demóstenes, Plutarco, Platão, Cícero, Virgílio, Ovídio, entre outros. (Ver: Philip Schaff, History
of the Christian Church, Vol. VIII, p. 805.) NE.
42
Na sua carta dedicatória do Comentário de Romanos – dirigida a seu amigo de Basiléia, Simon Grynaeus
(1493-1540) –, com quem discutira alguns anos antes sobre a melhor maneira de interpretar as Escrituras,
concluía, conforme também pensava Grynaeus, que “a lúcida brevidade [“perspicua brevitas”] constituía a
peculiar virtude de um bom intérprete. Visto que quase a única tarefa do intérprete é penetrar fundo na
mente do escritor a quem deseja interpretar, o mesmo erra seu alvo, ou, no mínimo, ultrapassa seus limites,
se leva seus leitores para além do significado original do autor.” (João Calvino, Exposição de Romanos,
Dedicatória, p. 19.) NE.
b
A epístola de 1539 concluía: “Passe bem, amigo leitor, e se tiveres algum fruto do meu trabalho, ajuda-me
com tuas orações ao Senhor. Genebra, agosto de 1539”.
c
Assim o Livro de Atos (17.11) mostra os ouvintes do apóstolo Paulo “examinando as Escrituras todos os dias
para ver se as cousas eram, de fato, assim”.
AS INSTITUTAS - VOLUME I - ESTUDO - JOÃO CALVINO
AO NOBILÍSSIMO, PODEROSO E ILUSTRE PRÍNCIPE
FRANCISCO, CRISTIANÍSSIMO REI DA FRANÇA,
SEU PRÍNCIPE E SENHOR,
João Calvino deseja paz e salvação em Deus.
[1536] A princípio, quando me pus a escrever este livro, só pensei em escrever
algo dedicado à tua majestade, ó nobilíssimo rei. A minha intenção era somente
ensinar alguns princípios elementares com os quais as pessoas que têm algum
amor a Deus recebessem instrução para a verdadeira vida piedosa. Principalmen-
te, o meu desejo era servir aos nossos compatriotas franceses, muitos dos quais
eu via que têm fome e sede de Jesus Cristoa
e dos quais muito poucos receberam
bom conhecimento. O próprio livro mostra que aquele era o meu propósito, visto
que o adaptei à maneira mais simples de ensinar que me foi possível. Vendo,
porém, que o furor de alguns homens perversosb
cresceu tanto em teu reino que já
não há lugar nenhum para a verdadeira doutrina, pareceu-me que seria útil usar
este livro, tanto para dar instrução àqueles a quem primeiramente resolvi ensinar,
a
Já em 1525, Lambert d’ Avignon escrevia: “Quase toda a França está profundamente abalada; sem mestre e
sem quem busque diligentemente a verdade” (Carta de 20 de janeiro ao Eleitor da Saxônia. Cf. Herminjard,
Correspondência dos Reformadores (Correspondence des Reformateurs) nos países de língua francesa, t. I,
p. 113). Em 1534 se acabava de reeditar o Sumário e Breve Declaração (Summaire et briefve declaration)
publicado por Farel uma dezena de anos antes, dedicado “a todos os que amam o nosso Senhor e desejam
conhecer a verdade”.
b
Os doutores da Sorbonne e os conselheiros do Parlamento de Paris.
32 As Institutas – Edição Especial
como para confissão de fé diante de ti – para que conheças a doutrina contra a
qual com tanta raiva e tão furiosamente se inflamam aqueles que com fogo e
espada perturbam o teu reino. Pois não tenho medo de confessar que já reuni aqui
um sumário quase completo da mesma doutrina que eles acham que devem punir
com prisão, exílio, confisco de bens e fogueira, e que deve ser expulsa do mundo
– da terra e dos mares. Bem sei com que horríveis boatosa
eles encheram os teus
ouvidosb
e o teu coração, querendo tornar a nossa causa por demais odiosa a ti.
Mas, segundo a tua clemência e mansidão, podes considerar que, se fosse sufici-
ente fazer acusação, não restaria nenhum inocente, nem no falar, nem no fazer;
bastaria acusar.
Certo é que se alguém, querendo despertar ódio contra esta doutrina, a
qual pretendo esforçar-me para explicar – se alguém, digo, argumentar dizendo
que ela já foi condenada por consentimento comum de todos os estadosc
, que
ela já foi julgada e recebeu muitas sentenças condenatórias, essa pessoa não
estará dizendo outra coisa senão esta: que em parte esta doutrina foi abatida
pela força e pela conspiração dos adversários, e em parte foi oprimida de ma-
neira astuta e maldosa por suas mentiras, calúnias e traições. É usar a força e a
violência pronunciar sentenças contra esta causa, sem antes lhe dar oportunida-
de para defender-se. É usar fraude e traição acusá-la de promover revolta e de
causar danos e males.
Para que ninguém pense que nos queixamos sem motivo, tu mesmo,
excelentíssimo rei, podes dar testemunho de quantas calúnias contra ela apresen-
tam todos os dias. As calúnias dizem que a única finalidade desta doutrina é que
todos os reinos e todas as instituições políticas e sociais sejam arruinados, a paz
seja perturbada, as leis sejam abolidas, os direitos de posse e de propriedade
sejam anulados – em resumo, que todas as coisas sejam transtornadas e postas
em confusão. E, contudo, o que ficas sabendo é uma pequenina parte. Porque os
adversários semeiam entre o povo boatos horríveis contra esta doutrina, boatos
que, se fossem relatos verdadeiros, todo o mundo poderia julgá-la, e também os
seus autores, merecedores de mil fogueiras e forcas.
Agora, quem vai se admirar de que o mundo inteiro a fique odiando dessa
maneira, visto que se acredita nessas acusações falsas e perversas? Aí está a ra-
zão pela qual todos os estados conspiraram e se puseram de comum acordo para
condenar tanto a nós como a nossa doutrina. Os que são colocados como juízes
deixam-se levar pela paixão e pronunciam como sentenças as idéias que trouxe-
ram de casa; e pensam que cumpriram bem o seu dever, se não condenaram
ninguém à morte, a não ser quem tenha sido convencido de culpa, ou por sua
própria confissão ou por testemunhos indubitáveis.
a
Delatores. O edito de Coucy prometia recompensas aos delatores. (Cf. Lambert, Coleção Geral de Leis
Antigas [Recueil Général des Anciennes lois, t. XII, p. 409]).
b
Orelhas (dialeto picardo – da Picardia).
c
“Omnium ordinum calculis”, isto é, todas as classes e condições da sociedade.
33
Mas, culpados de que crime? Desta doutrina condenada, dizem eles. Mas,
condenada por qual lei? Ora, esta seria a defesa: não negar a doutrina, mas defendê-
la por ser verdadeira. Mas aqui não se pode abrir a boca.
Portanto, ó poderosíssimo rei, não é sem razão que te solicito que tu mesmo
procures conhecer bem esta causa – causa que até agora tem sido tratada sem
nenhum respeito à ordem e ao direito, e com furor impetuoso, sem a moderação
e a seriedade que devem caracterizar o poder judiciário.
Não quero que o rei pense que com isso estou pretendendo fazer minha defe-
sa pessoal, com o fim de obter liberdade para voltar à minha pátria,a
à qual dedico
o amor humano que ela merece; todavia, como as coisas andam agora, não me
causa muita tristeza ficar longe dela. Mas eu tomo a causa de todos os fiéis, e do
próprio Cristo, a qual hoje em dia é tão desprezada e pisoteada em teu reino que
parece já estar em condições para as quais não há mais esperança. Certo é que isso
acontece mais pela tirania de alguns fariseus do que por teu desejo.
Entretanto, é inútil comentar aqui como isso é feito. Seja como for, a verda-
de é que esta causa está sendo submetida a grande aflição. Porque, embora a
verdade de Cristo não seja arruinada e desfeita, o poder dos ímpios conseguiu
que ela seja enterrada e coberta como algo vergonhoso; e a pobre igreja, ou se vê
consumida por mortes cruéis, ou despojada por banimentos, ou de tal maneira
atormentada por ameaças e terrores que ela nem se atreve a dizer uma palavra. E
ainda insistem, com o furor de costume, em derrubar a parede já meio destruída,
e em transformá-la em ruína completa.
Enquanto isso, ninguém se apresentab
para colocar-se em defesa contra es-
sas violências. E se alguns querem dar a aparência de que favorecem com todo o
empenho a verdade, esses elementos dizem que em todo caso se deve perdoar a
imprudência e a ignorância das pessoas simples. Porque eles falam dessa manei-
ra, chamando de imprudência e de ignorância aquilo que eles sabem que é a
certíssima verdade de Deus, e chamam de simples aqueles a quem o nosso Se-
nhor tanto estima que lhes comunicou os segredos da Sua sabedoria celestial. A
esse ponto eles têm vergonha do Evangelho!
Ora, de ti se espera, ó generosíssimo rei, que não desvies nem os ouvidos
nem o vigor do teu coração de uma defesa assim tão justa, principalmente quan-
do se trata de uma questão da maior importância, qual seja – como se há de
manter a glória de Deus na terra, como a verdade de Deus poderá reter a dignida-
de e como o reino de Cristo irá manter a sua integridade. Que assunto! É digno
dos teus ouvidos, do teu julgamento e do teu trono real! Porquanto, este pensa-
mento faz o verdadeiro rei: se ele reconhece que é um ministro de Deus exercen-
do o governo do seu reino.43
Ao contrário, aquele que não governa com a finalida-
a
Calvino partiu de Noyon no princípio de 1536.
b
O edito de janeiro de 1535 prescrevia o extermínio dos hereges.
Carta ao Rei da França
43
“A razão porque devemos estar sujeitos aos magistrados é que eles foram designados pela ordenação divina.
Se a vontade de Deus é que o mundo seja governado desta maneira, então aqueles que desprezam a sua
34 As Institutas – Edição Especial
de de servir à glória de Deus não é rei, é um salteador.44
E comete grande engano
quem espera duradoura prosperidade num reino que não é governado com o cetro
de Deus, isto é, com a Sua Santa Palavra. Pois o oráculo celestial45
não pode
mentir, e este anunciou que quando falta a profecia, o povo se desvia. E que a
nossa pequenez humilde não te impeça de fazer isso. Sabemos muito bem que
somos uma pobre gente, e desprezada; quer dizer, diante de Deus somos
pecadores,a
e pelos homens somos vistos como seres desprezíveis e, se preferes,
até como lixo e escória do mundo, e coisa ainda mais vil, se é que se pode nomear
coisa mais vil. A tal ponto que não nos resta nada do que possamos gloriar-nos
diante de Deus, a não ser em Sua misericórdia única,46
pela qual somos salvos
sem nenhum merecimento da nossa parte; nem diante dos homens podemos glo-
riar-nos, senão em nossa fraqueza, o que todos consideram uma vergonha.47
Contudo, é preciso que a nossa doutrina se mantenha elevada, em posição
superior a toda a glória e poder do mundo. Porque ela não é nossa, mas do Deus
vivo e do Seu Cristo, o qual pelo Pai foi constituído Rei para exercer domínio de
mar a mar e desde os rios até os confins da terra.48
E que domine de tal maneira
que, golpeando a terra apenas com a vara de Sua boca,49
Ele faça em pedaços a
terra toda – a terra com o seu poder e a sua glória. Assim os profetas predisseram
sobre a magnificência do Seu reino – que Ele destruiria os reinos rijos como ferro
e bronze, e reluzentes como ouro e prata.50
É bem verdade que os nossos adversários nos contradizem e nos acusam,
dizendo que temos a mentirosa pretensão de seguir a Palavra de Deus, da qual,
dizem eles, somos perversos falsificadores. Mas tu mesmo, segundo a tua sabe-
doria, lendo a nossa confissão poderás julgar e ver que essa acusação não somen-
te é uma calúnia marota, mas também uma tremenda sem-vergonhice. Todavia,
será bom dizer aqui algo que te desperte o interesse por aquela leitura. Quando o
a
“Pécheurs” (dialeto picardo).
autoridade estão se esforçando por subverter a ordem divina, estão, portanto, resistindo a Deus mesmo, já
que desprezar a providência daquele que é o Autor do governo civil é declarar guerra contra ele mesmo.”
[João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 13.1), p. 450.] NE.
44
Deus “designou os magistrados para que governem o mundo de forma justa e legítima. Ainda que as auto-
ridades ditatoriais e injustas não devem ser classificados como governos ordeiros, todavia o direito de
governar é ordenado por Deus visando o bem-estar da humanidade.” [João Calvino, Exposição de Roma-
nos, (Rm 13.1), p. 451.] “A sua administração não deve ser feita em função de si próprios, mas visando o
bem público. Nem têm eles poderes ilimitados, senão que sua autoridade se restringe ao bem-estar de seus
súditos. Em resumo, são responsáveis diante de Deus e dos homens pelo exercício de sua magistratura. Uma
vez que foram escolhidos e delegados por Deus mesmo, é diante deste que são responsáveis.” [João Calvino,
Exposição de Romanos, (Rm 13.4), p. 453.] Ver também, As Institutas, III.19.15; IV.20.1ss. NE.
45
Provérbios 29.18 [Em citações como esta, a indicação de versículo(s) é acrescentada por mim ao original,
que só traz a indicação de capítulo(s). NT].
46
2 Coríntios 10.17,18.
47
Tito 3.1-5; 2 Coríntios 11.30 e 12.5,9.
48
Salmo 72.8.
49
Isaías 11.4.
50
Salmo 2.9; Daniel 2.34,35.
35
apóstolo Paulo51
quis que toda profecia estivesse em harmonia com a analogia ou
similaridade da fé, ele estabeleceu uma excelente regra para testar toda interpre-
tação da Escritura. Pois bem, se a nossa doutrina for examinada com base nesta
regra de fé, a vitória estará em nossas mãos. Sim, pois, o que é mais conveniente
à fé senão que nos reconheçamos desnudos de toda virtude, para sermos vestidos
por Deus; vazios de todo bem, para que Ele nos encha de todo bem; escravos do
pecado, para sermos libertos por Ele; cegos, para que Ele nos ilumine; coxos,
para sermos por Ele curados; fracos, para sermos sustentados por Ele; e que nos
desfaçamos de todo pretexto de glória própria, para que somente Ele seja glorifi-
cado, e nós nele?
Quando nós dizemos estas coisas e outras semelhantes, os nossos adversá-
rios gritam que, se fosse assim, seriam destruídos sei lá que cega luz da natureza,
certas preparações inventadas, o livre arbítrio, as obras meritórias com direito à
salvação eterna, com as sua superrogações; isso porque eles não podem suportar
a idéia de que em Deus residem plenamente o louvor e a glória de todo bem, de
toda virtude, justiça e sabedoria. Mas nós não lemos que tenham sido repreendi-
dos os que tiraram muita água da fonte de água viva. Ao contrário, são severa-
mente repreendidos os que cavaram poços secos e que não podem reter a água.52
Além disso, o que estará em maior conformidade com a fé que ter Deus como um
Pai amável e bondoso, sempre que se reconheça Cristo como irmão e propiciador;
que esperar confiantemente todo bem e toda prosperidade de Deus, cujo amor
por nós chegou ao ponto de não poupar Ele o Seu próprio Filho, não O livrando,
mas O entregando por nós;53
que descansar, firmados na segura esperança da
salvação e da vida eterna, quando lembramos que Cristo nos foi dado pelo Pai e
que em Cristo aqueles tesouros estão ocultos?Aessas afirmações eles contestam,
dizendo que essa certeza confiante não está isenta de arrogância e presunção.
Mas, como não devemos presumir coisa alguma de nós mesmos, tudo devemos
presumir de Deus, e não é por outro motivo que nos despojamos de toda vanglória,
senão para aprendermos a gloriar-nos em Deus.54
E que mais direi? Considera, ó valoroso e virtuoso Rei, todas as partes da
nossa causa, e poderás julgar-nos os mais perversos de todos os perversos, se não
vires claramente que nós trabalhamos e sofremos injúrias e humilhações55
por-
que pomos a nossa confiança no Deus vivo, pois cremos que esta é a vida eterna:
conhecer o único Deus verdadeiro e Aquele que Ele enviou, Jesus Cristo.56
Por
causa desta esperança, alguns de nós são mantidos em prisões, outros são chico-
teados, outros são ridicularizados de muitas maneiras, outros são desterrados,
Carta ao Rei da França
51
Romanos 12.6.
52
Jeremias 9. [Ver também Jr 2.13.]
53
Romanos 8.32.
54
2 Coríntios 10.17; Jeremias 9.23,24.
55
1 Timóteo 4.10.
56
João 17.3.
36 As Institutas – Edição Especial
outros são atormentados com torturas cruéis, outros se vêem forçados a fugir.
Todos nós somos atribulados, somos amaldiçoados, repudiados, injuriados e tra-
tados de forma desumana.
Por outro lado, peço que observes os nossos adversários (refiro-me aos sa-
cerdotes), pela aprovação e pelo apetite dos quais os outros se fazem nossos ini-
migos; e peço que tomes um pouco de tempo para verificar comigo a paixão que
os move. Eles facilmente permitem a si mesmos e aos outros ignorar, negligenci-
ar e menosprezar a religião verdadeira, que nos é ensinada pela Escritura e que
deveria continuar vigente e válida entre todos. E eles acham que tanto faz a pes-
soa crer ou não crer nisto ou naquilo acerca de Deus e de Cristo, contanto que,
com a fé implícita, como eles dizem, ela submeta o seu entendimento às decisões
da igreja.57
Tampouco lhes causa preocupação se a glória de Deus é maculada
com declaradas blasfêmias, desde que ninguém diga nada contra a autoridade da
“santa madre igreja”.
Por que eles lutam com tanto furor e violência pela missa, pelo purgatório,
pelas peregrinações e por outras tolices? Por que chegam ao ponto de negar que
possa existir verdadeira religiosidade, se não se crer nessas coisas e se elas não
forem aceitas como fé explícita, como eles dizem, quando nenhuma delas pode
ser comprovada pela Palavra de Deus? Por quê? Só pode ser porque o ventre
deles é o seu deus,58
a cozinha a sua religião, e, se essas coisas são extraídas, eles
dizem que os que fazem isso não são nem cristãos nem seres humanos. Porque,
ainda que alguns deles vivam do bom e do melhor e com fartura, e outros passem
a vida roendo pão seco, na verdade todos eles vivem da mesma panela, a qual,
sem essa ajuda, não somente se esfriaria, mas ficaria totalmente congelada. Daí,
o melhor e mais zeloso defensor da fé é aquele que sacia mais fartamente o seu
ventre. Em resumo, todos eles têm o mesmo propósito: ou manter seu poder, ou
manter seu ventre cheio. Mas nenhum deles mostra sinal algum de zelo verdadei-
ro. Contudo, não param de caluniar a nossa doutrina, desacreditando-a e difa-
57
Calvino combate a “fé implícita”, patente na teologia católica, que chama de “espectro papista”, que “sepa-
ra a fé da Palavra de Deus”. [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 10.17), p. 375.] A sua insistência é no
fato de que a nossa fé deve ser “explícita”. No entanto, Calvino ressalta que devido ao fato de que nem tudo
foi revelado por Deus, bem como à nossa ignorância e pequenez espiritual, muito do que cremos permane-
cerá nesta vida de forma implícita.
Depois de um extenso comentário, nos diz:
“Certamente que não nego (de que ignorância somos cercados!) que muitas cousas nos sejam agora
implícitas, e ainda o hajam de ser, até que, deposta a massa da carne, nos hajamos achegado mais perto à
presença de Deus, cousas essas em que nada parece mais conveniente que suspender julgamento, mas firmar
o ânimo a manter a unidade com a igreja. Com este pretexto, porém, adornar com o nome de fé a ignorância
temperada com humildade, é o cúmulo do absurdo. Ora, a fé jaz no conhecimento de Deus e de Cristo (Jo
17.3), não na reverência à igreja.” (João Calvino, As Institutas, III.I.3. (Vd. também III.2.5ss.)
Pelas palavras de Calvino, podemos observar a necessidade latente do ensino e estudo constante da
Palavra de Deus, a fim de que cada homem, sendo, como é, responsável diante de Deus, tenha condições de
se posicionar diante de Deus de forma consciente; a fé explícita é patenteada pela igreja através do ensino da
Palavra. NE.
58
Filipenses 3.19.
37
mando-a por todos os meios possíveis, para torná-la odiosa ou suspeita. Elesa
a
chamam “nova” doutrina, e dizem que foi forjada há pouco tempo. Acusam-na
dizendo que ela é duvidosa e incerta. Que milagres exigem eles para que ela seja
confirmada? Eles perguntam se é aceitável que ela se sobreponha ao consenso de
tantos “pais” antigos e a tão prolongados usos e costumes. Insistem em que con-
fessemos que a nossa doutrina é causadora de cisma, pois guerreia contra a igre-
ja, ou que afirmemos que a igreja esteve morta durante muitos anos, sendo que
nesse período nada se ouviu semelhante à nossa doutrina.
Finalmente, dizem eles que não há necessidade de muitos argumentos, já
que ela pode ser julgada pelos frutos que dá. Vê-se, por exemplo, dizem eles, que
ela tem produzido uma multidão de seitas, de dificuldades e revoltas sediciosas,
e de abusado mau comportamento. O certo é que lhes é fácil levar vantagem
contra uma causa que se vê isolada e que não pode contar com ajuda alheia;
principalmente quando o que lhes cabe fazer é persuadir uma multidão de gente
ignorante e crédula. Se, porém, nós tivéssemos igual oportunidade de falar, en-
tendo que, na minha opinião, o ardor com que eles espumam acidamente contra
nós se esfriaria um pouco.
Carta ao Rei da França
DOUTRINA
NOVA?
Primeiramente, dizendo que é nova fazem grande
ofensa a Deus, pois a Sua Palavra não merece a acusa-
ção de que não passa de uma novidade. Claro, não te-
nho dúvida de que é nova para aqueles para quem o próprio Cristo e o Seu Evan-
gelho são novos.
Mas aqueles que sabem que a pregação feita pelo apóstolo Paulo – que
Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justifica-
ção59
– é antiga, não encontrarão nada de novo entre nós.
DESCONHECIDA?
O fato de que esta doutrina permaneceu oculta e
desconhecida por muito tempo é crime cometido pela
impiedade humana. Agora, quando pela bondade de
Deus ela nos é restaurada, ao menos devia ser recebida com reconhecimento da
sua autoridade antiga.
INCERTA?
Da mesma fonte de ignorância vem a acusação de
que a nossa doutrina é duvidosa e incerta. É deveras disso
queoSenhorsequeixa,porintermédiodoSeuprofeta,quan-
do afirma que o boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura,
mas o Seu povo não O conhece.60
Mas, como eles zombam da incerteza da nossa dou-
trina,setivessemdeselaradelescomoseuprópriosangue61
eàcustadasuavida,então
se poderia ver bem quanto a prezam. Muito diferente é a nossa confiança, pois esta não
tem medo, nem dos horrores da morte, nem do julgamento feito por Deus.
59
Romanos 4.25.
60
Isaías 1.3.
61
Romanos 8.36.
a
O cônego Clichtow e outros doutores da Sorbonne.
38 As Institutas – Edição Especial
MILAGRES?
Na exigência que nos fazem de milagres eles são
insensatos. Porquanto não estamos forjando um evan-
gelho novo, mas nós mantemos aquele Evangelho já confirmado por todos os
milagres que Jesus Cristo e os Seus apóstolos realizaram. Os nossos adversários
poderiam dizer que levam vantagem sobre nós, porque, dizem eles, podem con-
firmar a sua doutrina com a constante realização de milagres, até o dia de hoje.
Mas, quanto a isso, eles alegam milagres que podem perturbar o espírito de uma
pessoa e enchê-la de dúvida, quando sem esses milagres a pessoa estaria bem e
tranqüila, tão frívolos e falsos eles são! Contudo, mesmo que esses milagres fos-
sem prodigiosos e admiráveis, não se deveria dar a eles nenhum valor contra a
verdade de Deus. Pois o importante é que o nome de Deus seja santificado sempre
e em toda parte, quer havendo milagres, quer seguindo a ordem natural das coisas.
Poderia acontecer que eles nos impressionassem mais, se a Escritura não
nos avisasse sobre o uso legítimo dos milagres. Pois, como diz Marcos,62
os mi-
lagres operados pelos apóstolos foram realizados para confirmar a sua pregação.
Paralelamente, Lucas afirma que o nosso Senhor, por meio deles, deu testemu-
nho confirmando a palavra da Sua graça.63
A isso corresponde o que diz o apósto-
lo Paulo: que a salvação anunciada pelo Evangelho foi confirmada por Deus por
meio de sinais, manifestações de poder e prodígios.64
Quando ouvimos que os
milagres são selos que credenciam o Evangelho, iremos fazer deles armas para
destruir a autoridade do Evangelho? Quando ouvimos que eles foram destinados
a estabelecer a verdade, iremos aplicá-los de modo que fortaleçam a mentira?
Portanto, primeiro é preciso mencionar a doutrina, que precede aos milagres,
como diz o evangelista. Se for aprovada, então poderá ser confirmada pelos mila-
gres. Ora, um bom sinal da verdadeira doutrina, como diz Jesus Cristo, é se ela
não tende a buscar a glória dos homens, mas, sim, a de Deus.65
Visto que Cristo
afirma que essa deve ser a prova, será errado tomar os milagres para outra finali-
dade que não seja a de engrandecer o nome de Deus. Também devemos lembrar-
nos de que Satanás tem os seus milagres,66
os quais, embora sendo meras ilusões
e não prodígios reais, podem enganar os simples e incultos.67
Os magos e os
encantadores sempre alcançam fama por seus milagres. A idolatria dos não cris-
tãos sempre é alimentada por milagres maravilhosos, mas estes não são capazes
de levar-nos a aprovar, nem a superstição dos magos, nem a dos idólatras.68
62
Marcos 16.20.
63
Atos 14.3.
64
Romanos 15.18,19.
65
João 5.44.
66
Deuteronômio 13.2; 2 Tessalonicenses 2.9,10.
67
“Não me passa despercebido que Satanás é em muitos aspectos um imitador de Deus, a fim de, mediante
enganosa similaridade, melhor insinuar-se à mente dos símplices.” (J. Calvino, As Institutas, I.8.2.) NE.
68
“A importância dos milagres é que eles nos despertam para alguma verdade particular sobre Deus.” [João
Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 15.18), p. 500]. “Sejam quais forem os milagres que busquem glori-
ficar a criatura em lugar do Criador, e que fomentem a mentira em lugar da Palavra de Deus, são manifesta-
mente do Diabo.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 15.18), p. 501.] NE.
39
Antigamente os donatistas usavam o mesmo artifício para explorar a sim-
plicidade do povo comum, dizendo que faziam milagres. Damos, pois, aos nos-
sos adversários a mesma resposta que naquela época Agostinho deu aos
donatistas,69
dizendo que contra esses milagreiros o Senhor nos advertiu, pois
predisse que viriam falsos profetas que com grandes maravilhas e prodígios fari-
am errar até os eleitos, se fosse possível.70
E o apóstolo Paulo nos preveniu de que
o reino do Anticristo será com todo poder, sinais e falsos prodígios.71
Dizem os
nossos adversários, porém, que os seus milagres não são feitos por ídolos, nem
por encantadores, nem por falsos profetas, mas pelos santos. Como se nós não
percebêssemos aí a astúcia de Satanás, de transformar-se em anjo de luz!72
Hou-
ve tempo em que os egípcios fizeram de Jeremias, sepultado entre eles, um deus,
e lhe ofereciam sacrifícios e lhe prestavam todas as honras que costumavam pres-
tar aos seus deuses.73
Não abusavam do santo profeta de Deus com essa idolatria?
E, contudo, com sua veneração do sepulcro do profeta, levavam as pessoas a
acreditarem que sua recompensa seria a cura das picadas de serpentes. O que
poderemos dizer? Tão-somente isto: Esta será sempre uma vingança do santo e
justo Deus: tornar eficaz a ilusão do erro para acreditarem na mentira aqueles que
não gostaram da verdade.74
A verdade é que milagres temos muitos, e milagres
autênticos e não merecedores de zombaria. Por outro lado, os pretensos mila-
gres75
dos nossos adversários não passam de enganos de Satanás que afastam o
povo do culto devido a Deus e o arrastam para a ilusão vã e vazia.
Carta ao Rei da França
AAUTORIDADE DOS
PAIS DA IGREJA
Além disso tudo, colocam injustamente contra nós
os antigos “pais” (em meu entendimento, os escritores
cristãos dos primeiros tempos da igrejaª) como se eles
fossem favoráveis à impiedade dos nossos atuais adversários. Tenho a certeza de
que, se a nossa contenda fosse resolvida pela autoridade dos referidos “pais”, a
melhor parte da vitória caberia a nós. Mas, se é verdade que muitas coisas exce-
lentes e sábias foram escritas por esses “pais”, por outro lado, como acontece
com todos os homens, eles também falharam e erraram; e estes bons e obedientes
filhos, segundo a sua habilidade de entendimento, de julgamento e de decisão, só
veneram os erros e os enganos dos “pais”. Entretanto, o que eles escreveram com
acerto, estes não entendem ou disfarçam ou pervertem. De tal maneira fazem isso
que parecem não ter outro desejo que não o de recolher esterco deixando o ouro
que o cerca. E então nos perseguem clamando contra nós como se fôssemos
desprezadores e inimigos dos “pais”! Mas tão longe de sermos seus desprezadores
a
Antiquos et melioris adhuc sæculi.
69
Sobre o evangelista João (In Johan, tratactus XIII), 17 (Migne, 35, 15).
70
Mateus 24.24.
71
2 Tessalonicenses 2.9,10.
72
2 Coríntios 11.14.
73
Jerônimo, no prefácio.
74
2 Tessalonicenses 2.11,12.
75
Deuteronômio 13.1-18.
40 As Institutas – Edição Especial
estamos que, se fosse este o nosso propósito aqui, com facilidade eu provaria
com os escritos deles a maior parte daquilo que nós dizemos hoje. Quando os
lemos, porém, nós o fazemos com tão cuidadoso critério que sempre temos dian-
te dos nossos olhos o que Paulo disse: que tudo é nosso para nos servir, não para
nos dominar,76
e que todos nós pertencemos a Cristo, a quem se deve obediência
em todas as coisas, sem exceção. Os que não seguem esta ordem não terão segu-
rança em nenhum ponto da fé, visto que aqueles santos personagens em questão
ignoraram muitas coisas, têm divergências entre si e às vezes até se contradizem.
Dizem os nossos adversários que não é sem motivo que não devemos ultra-
passar os marcos antigos que foram fixados por nossos pais.77
Mas aqui não se
trata de observar uma mesma regra para determinar os limites das propriedades e
para determinar a área da obediência da fé; essa regra deve ser tal que ninguém
esqueça o seu povo e a casa de seu pai. Contudo, se mostram tanto entusiasmo
pelas alegorias, por que não tomam os apóstolos como seus pais, e não os outros?
Pois não é lícito remover os marcos dos limites dos apóstolos. Assim o interpre-
tou Jerônimo, cujas palavras eles citam em seus cânones. E ainda, se eles querem
que os limites dos “pais”, segundo eles, sejam respeitados, por que eles mesmos
os ultrapassam audaciosamente a seu bel-prazer?
Da lista de “pais” houve um que disse78
que Deus não come nem bebe, e,
portanto, não precisa de pratos e de cálices. Outro79
disse que os sacramentos dos
cristãos não requerem ouro nem prata, e que não é com ouro que eles agradam a
Deus. Assim os nossos adversários ultrapassam os limites dos “pais” quando em
suas cerimônias tanto se deleitam com o ouro, a prata, o mármore, o marfim, as
pedras preciosas e as sedas, e acham que Deus não pode ser adorado como se
deve se não houver grande número destas coisas supérfluas.80
76
1 Coríntios 3.21-23.
77
Provérbios 22.28.
78
Acácio, em Hist. Tripar. (Cassiodoro, 1.XI,16; Migne, 69, 1198).
79
Ambrósio, liv. I, sobre os ofícios, II, cap. XXVIII, 158 (Migne, 16, 140).
80
“Os homens se dispõem naturalmente a exibição exterior da religião, e, medindo Deus segundo a própria
medida deles, imaginam que alguma atenção para as cerimônias constitui a suma de seu dever.” [João
Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 50.1-2), p. 398.] “Há inerentemente
em todos os homens uma forte e indelével convicção de que devem cultuar a Deus. Indispondo-se em adorá-
lo de maneira pura e espiritual, torna-se compulsório que inventem como substitutivo alguma aparência
quimérica; e por mais claramente sejam persuadidos da vaidade de tal conduta, persistem até ao fim, por-
quanto se esquivam da peremptória renúncia do serviço divino. Consequentemente, os homens se encontra-
rão sempre devotados a cerimônias até que sejam trazidos ao conhecimento daquilo que constitui a religião
verdadeira e aceitável.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 50.14), p. 407-408.] “Devemos ter
sempre em mente que, tudo quanto não agrada a Deus, que vise a seu próprio bem, e somente até onde ele
leva a algum outro fim, se porventura é posto no lugar de seu culto e serviço verdadeiros, é por ele rejeitado
e desvanece.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.6), p. 226-227.] “É evidente, à luz desse
fato, que os homens cultuarão a Deus inutilmente, se porventura não observarem o modo correto; e que
todas as religiões que não contêm o genuíno conhecimento de Deus são não só fúteis, mas também pernici-
osas, visto que todas aquelas que não sabem distinguir Deus dos ídolos estão sendo impedidas de se aproxi-
marem dele. Não pode haver religião alguma onde não reine a verdade. Se um genuíno conhecimento de
Deus habita os nossos corações, seguir-se-á inevitavelmente que seremos conduzidos a reverenciá-lo e a
41
Um dos “pais”81
dizia que, visto que ele era cristão, ousava comer livremen-
te carne na quaresma, quando os outros dela se abstinham. Portanto, os seus
pretensos filhos rompem os limites quando excomungam quem na quaresma te-
nha comido carne.
Um desses chamados “pais”82
disse que o monge que não trabalha com suas
próprias mãos deve ser tratado como assaltante. Outro deles83
disse que aos monges
não é lícito viverem de bens alheios, mesmo quando assíduos nas contemplações,
nas orações e no estudo. Também ultrapassaram este limite os nossos adversários,
quando puseram os monges, com seus avultados ventres, nos bordéis (isto é, em
seus claustros) para ali engordarem à custa do suor alheio. Também foi um dos
“pais” que disse que é uma horrível abominação ver-se uma imagem de Cristo ou
de algum santo nos templos dos cristãos.84
Muito longe estão de respeitar estes
limites, pois não deixam nenhum canto sem imagens em todos os seus templos.
Outro “pai”85
aconselhou que, após haver se exercido o ofício humanitário de
conceder sepultura aos mortos, que estes fossem deixados em paz. Estes limites
são desrespeitados quando exigem que se tenha perpétua solicitude pelos mortos.
Foi um daqueles “pais” que negou que, no sacramento da Ceia, sob o pão,
está o verdadeiro corpo de Cristo, e afirmou que é apenas um mistério do Seu
corpo; e ele fala assim de cada uma das palavras.86
Portanto, vão além das medi-
das quando dizem que o corpo de Cristo está incluído ali, localmente.
Dentre alguns “pais” houve um que ordenou que fossem excluídos da Ceia
aqueles que participavam de uma espécie e se abstinham da outra.87
Outro afir-
mava que não se deve negar ao povo cristão o sangue do seu Senhor, na confissão
do qual lhe é ordenado que derrame seu próprio sangue.88
Também removeram
estes limites quando, com todo o rigor, ordenaram a prática da mesma coisa que
um dos dois punia com a excomunhão e o outro com muita razão reprovava.
Houve um “pai”89
que afirmava que é uma temeridade decidir sobre uma
questão obscura a favor desta ou daquela parte, sem base em claros e concluden-
Carta ao Rei da França
temê-lo. Não é possível ter genuíno conhecimento de Deus exceto pelo prisma de sua majestade. É desse
fator que nasce o desejo de servi-lo, e daqui sucede que toda a vida é direcionada para ele como seu supremo
alvo.” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos, 1997, (Hb 11.6), p. 305-306.) “Pelo
que, nada de surpreendente, se o Espírito Santo repudie como degenerescências a todos os cultos inventados
pelo arbítrio dos homens, pois que em se tratando dos mistérios celestes, a opinião humanamente concebi-
da, ainda que nem sempre engendre farto amontoado de erros, é, não obstante, a mãe do erro.” (J. Calvino,
As Institutas, I.5.13.) NE.
81
Espiridião, no livro Hist. Tripar., c. 10 (Cassiodoro, I, 10; Migne, 69, 894).
82
Ver o cap. I do livro V da Hist. Tripar.— Cassiodoro, VIII, I (Migne, 69, 1103).
83
Agostinho, sobre o trabalho dos monges (Cap. XVII e XXIII, Migne, 40, 564).
84
Epifânio, cuja epístola foi traduzida por Jerônimo (Ad Iohann, Ierosolym., ep. 51, 9; Migne, 22, 526).
85
Ambrósio, no livro de Abraão (I, c. 9, 80; Migne, 14, 450).
86
O autor da obra imp. sobre Mateus; Hom. II; consta entre as obras de Crisóstomo (ed. de Paris, 1835, VI, 796).
87
Gelásio, no c. Comperimus de consecratione, distin. 2 (can. 12; decretum Gratiani III; Migne, 187, 1736).
88
Cipriano, na epíst. 2, no livro I, pecador (De lapsis, cap. 22 et 25; Migne, 4, 483; cf. ep. 63 ad Caecilium;
Migne, 4, 372).
89
Agostinho, l. I, sobre a graça do Novo Testamento, último cap. (Ep. 140 das edições modernas).
42 As Institutas – Edição Especial
tes testemunhos da Escritura. Os tais se esqueceram deste limite quando, sem
nenhum respaldo da Palavra de Deus, estabeleceram conclusivamente tão grande
número de constituições, cânones e determinações magistrais.
Um dos “pais”90
reprovou Montano91
que, entre outras heresias suas, foi o
primeiro a impor leis sobre jejuns. Também ultrapassaram estes limites quando
ordenaram com leis rigorosíssimas a prática de jejuns. Também era um dos “pais”92
aquele que afirmou que não se deve proibir o casamento aos ministros da igreja e
que declarou que ter a companhia da legítima esposa é castidade. Sua opinião
teve apoio doutros “pais”, que reconheceram a sua autoridade. Ora, os nossos
adversários fugiram para longe deste limite quando ordenaram aos seus sacerdo-
tes que se abstivessem do casamento.
Um dos “pais”93
escreveu que só se deve ouvir a Cristo, do qual foi dito da
parte do Pai: “a ele ouvi”, e que não se deve dar atenção àquilo que outros fize-
ram ou disseram antes de nós, mas unicamente àquilo que foi ordenado por Cris-
to, que é o mais antigo de todos. Nem dentro dos limites desta prescrição se
mantiveram os tais, nem permitem que outros se mantenham, pois constituíram,
para si e para os demais, outros mestres que não Cristo.
Todos os “pais”, unânimes, consideram abominação e com uma só voz
repudiam a contaminação da santa Palavra de Deus pelas sutilezas sofísticas, e
o seu envolvimento nos conflitos e debates filosóficos. Acaso respeitam eles
estes limites, quando a vida toda outra coisa não fazem senão amortalhar e
obscurecer a simplicidade da Escritura com infindáveis disputas e contendas
mais sofísticas que as dos sofistas?94
A tal ponto chegam que, se os “pais”
ressuscitassem agora e ouvissem essa engenhosa arte de combate, à qual dão o
90
Apolônio, em História Eclesiástica, li. 5; Eusébio, V, 18.
91
Montano, natural da Frigia (atual Turquia), foi um cristão que por volta do ano 170 começou a ensinar o fim
iminente do mundo. Pregava também um rigoroso ascetismo: Não casamento, jejuns intensos. O montanismo,
como movimento extático e apocalíptico, supostamente amparado no Livro de Apocalipse, ensinava o retor-
no iminente de Cristo, o Seu governo terreno de mil anos e que a nova Jerusalém desceria sobre a Frigia.
Dentro da ênfase à proeminência feminina, duas profetisas se destacam: Priscila e Maximila, que alegavam
possuir, juntamente com Montano, o Paracleto. [Ver: Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica, Madrid, La
Editorial Catolica, S.A. (Biblioteca de Autores Cristianos, Vols. 349 e 350), IV.27; V. 14-19.] NE.
92
Pafnúcio (Paphnutius), em Histo. Tripar., l.2, c. 14, Cassiodoro; Migne, 69, 933.
93
Cipriano, na epístl. 2 do 2º. Livro, das Epíst. (ad Caecilium; Migne, 4, 383).
94
“Aqueles que inquirem curiosamente acerca de tudo, e que jamais ficam satisfeitos, podem com justiça ser
chamados ‘questionadores’. Em suma, as coisas mantidas em elevada estima pelos eruditos da Sorbonne são
aqui condenadas pelo apóstolo. Porquanto toda a teologia dos papistas nada é senão um labirinto de ques-
tões.” [João Calvino, As Pastorais, (Tt 3.9), p. 355.] “Esta é a principal diferença entre o evangelho e a
filosofia. Ainda que os filósofos abordem esplendidamente temas de cunho moral, com inusitada habilida-
de, no entanto todo o ornamento que sobressai de seus preceitos nada é senão uma bela superestrutura sem
um sólido fundamento; porque, ao omitir princípios, eles não fazem outra coisa senão propor uma doutrina
mutilada, como um corpo sem cabeça. Este é exatamente o mesmo método de doutrinamento entre os
católicos romanos. Embora falem incidentalmente da fé em Cristo e da graça do Espírito Santo, é plenamen-
te evidente que se avizinham mais dos filósofos pagãos do que de Cristo e seus discípulos.” [João Calvino,
Exposição de Romanos, (Rm 12.1), p. 420-421.] “Os filósofos (...) vagueando por entre especulações ilusó-
rias são na maioria das vezes mais tolos do que vivazes!.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São
Paulo, Paracletos, 1996, (1Co 1.21), p. 64.] NE.
43
nome de Teologia Especulativa, apenas julgariam essas práticas como sendo
meras disputas acerca de Deus.
Mas, até onde eu iria nesta oração, se quisesse narrar tudo o que os nossos
adversários fazem para livrar-se do jugo dos “pais”, dos quais se dizem filhos
obedientes? Gastaria meses e anos no cumprimento desse propósito! E, no entan-
to, é tão absurda a sem-vergonhice deles que se atrevem a acusar-nos de desres-
peitar os limites antigos!
Agora, quanto a nos remeterem à questão do costume, de nada lhes adianta.
Porque nos fariam grande injustiça se fôssemos constrangidos a ceder ao costu-
me. Certo é que, se os juízos dos homens fossem retos, o costume deveria seguir
os bons. Mas muitas vezes o que acontece é diferente. Porque aquilo que se vê
que muitas vezes fazem é o que logo se torna costume. E a verdade é que nunca
o modo de viver dos homens foi tão bem regrado que as coisas melhores agradas-
sem à maioria. Assim é que dos vícios particulares de muitos resulta o erro públi-
co, ou, melhor dizendo, resulta o consentimento geral dos vícios, que agora estes
nobres homens querem que seja lei. Os que não são de todo cegos percebem que
verdadeiros oceanos de males têm inundado a terra, e que todo o mundo foi cor-
rompido por muitas pestes mortais, ameaçando levar tudo de roldão, de tal ma-
neira que, ou perdemos toda a esperança quanto às condições da humanidade, ou
enfrentamos a situação para corrigir tão grandes males, empregando até remédi-
os violentos.95
E, contudo, o remédio é rejeitado não por outra razão que a se-
guinte: há muito tempo estamos acostumados com essas práticas calamitosas.
Todavia, ainda que na vida social dos homens o erro público tenha lugar, no
reino de Deus a Sua verdade singular e eterna deve ser ouvida e cumprida; contra
a verdade divina não tem valor nenhuma prescrição, nem a ditada por seus longos
anos de existência, nem por costume antigo, nem por conjuração, qualquer que
seja. Foi assim que no passado Isaías instruiu os eleitos de Deus, no sentido de
que não dissessem “Conspiração!” a tudo o que o povo dissesse “Conspiração!”
(Is 8.12), isto é, que não se juntassem à conspiração do povo; e que não tivessem
o temor que o povo tinha, nem se espantassem. Antes, que santificassem o Se-
nhor dos Exércitos e que só Ele fosse o seu temor. Portanto, que agora os nossos
adversários lancem contra nós quantos exemplos queiram, do passado e do pre-
sente! Se santificarmos o Senhor dos Exércitos, não nos espantaremos muito.
Pois bem, ainda que muitos séculos tenham dado assentimento à mesma impie-
dade, o Senhor é poderoso para exercer vingança até à terceira e quarta geração.
Embora o mundo inteiro conspire para praticar a mesma ação maldosa, a experi-
ência já nos ensinou qual é o fim daqueles que pecam com a multidão, quando
Deus eliminou toda a humanidade por meio do Dilúvio, tendo preservado Noé,
com sua pequena família, e ele, por sua fé, unicamente dele, condenou o mundo
Carta ao Rei da França
95
Ver em Dec., dist., 8, c. fiu., extra de consuetudi. (Decretum Gratiani, can. 3: radicitus est evelleris perniciosa
consuetudo; can. 9: Dei veritatem, non hominum consuetudinem, sequi oportet; Migne, 187, 46 e 48).
44 As Institutas – Edição Especial
inteiro.96
Em resumo, o mau costume não é outra coisa senão uma praga pública
na qual os que morrem no meio de uma multidão perecem do mesmo modo como
se estivessem sós.
Eles não têm muita força no argumento com o qual nos pressionam queren-
do constranger-nos a confessar que a igreja esteve morta por alguns anos, ou que
agora estamos em conflito com ela. Certamente a igreja de Cristo tem vivido e
viverá enquanto Cristo reinar à destra de Seu Pai – pois pelas mãos de Cristo ela
é sustentada, por Sua proteção ela é armada e pelo Seu poder é fortalecida. Por-
que, sem dúvida, Ele cumprirá a Sua promessa de que dará assistência aos Seus
até à consumação do século.97
Contra esta Igreja não fazemos nenhuma guerra.
Porquanto, graças ao consenso que nós temos com todo o povo fiel, adoramos e
damos honra a um só Deus e a um só Cristo, o Senhor, como sempre Ele foi
adorado pelos Seus servos.98
Mas os nossos adversários estão bem longe da ver-
dade quando não reconhecem a Igreja, se ela não se vê presentemente com os
olhos da carne, e a querem manter encerrada dentro de certos limites, aos quais
ela de modo nenhum está restrita.
Em torno destes pontos gira a nossa controvérsia: Primeiro, eles exigem
que a igreja tenha sempre uma forma visível e aparente. Segundo, eles dão essa
forma à sé da Igreja Romana e ao estado da prelazia. Nós, ao contrário, afirma-
mos que a igreja pode existir sem aparência visível; igualmente, que não se deve
querer que a sua aparência tenha esta magnificência exterior que os nossos adver-
sários loucamente admiram;99
mas é bem outra a marca da igreja, a saber, a pura
pregação da Palavra de Deus, incluída a legítima administração dos sacramen-
tos.100
Já eles não ficam contentes se nem sempre se pode mostrar a igreja com o
dedo. Quantas vezes, porém, sucedeu que ela foi tão deformada entre os judeus
que não lhe restou nenhuma aparência! Que forma julgamos que a igreja tinha
quando Elias se queixou de que havia ficado só?101
Quantas vezes, depois da
96
Gênesis 7.1; Hebreus 11.7.
97
Mateus 28.20.
98
1 Coríntios 8.6.
99
Igualmente Lutero (1483-1546) enfatizou que, “nem trabalho em pedra, nem boa construção, nem ouro, nem
prata tornam uma igreja formosa e santa, mas a Palavra de Deus e a sã pregação. Pois onde é recomendada a
bondade de Deus e revelada aos homens, e almas são encorajadas para que possam depender de Deus e chamar
pelo Senhor em tempos de perigo, aí está verdadeiramente uma santa igreja.” [Jaroslav Pelikan, ed. Luther’s
Works, Saint Louis, Concordia Publishing House, 1960, Vol. II, (Gn 13.4), p. 332.] O eminente teólogo puri-
tano John Owen (1616-1683), escreveu: “Quão pouco pensam os homens sobre Deus e seus caminhos, se
imaginarem que um pouco de tinta e de verniz fazem uma beleza aceitável!” [Wiiliam H. Goold, ed. The
Works of John Owen, 4ª ed. London, The Banner of Truth Trust, 1987, Vol. IX, p. 77,78.) NE.
100
Ver também: João Calvino, As Institutas, IV.1.9-12; IV.2.1.
Na Resposta ao Cardeal Sadoleto (01/09/1539), Calvino declara que a igreja é:
“... A assembléia de todos os santos, a qual, espalhada por todo o mundo, está dispersa em todo tempo,
unida sem dúvida por uma só doutrina de Cristo, e que por um só Espírito guarda e observa a união da fé,
junto com a concórdia e caridade fraterna”. (Juan Calvino, Respuesta al Cardeal Sadoleto, p. 30-31.) Ele
diz que os membros da Igreja são reconhecidos “por sua confissão de fé, pelo exemplo de vida e pela
participação nos sacramentos”, sendo estes sinais indicativos de que tais pessoas “reconhecem ao mesmo
Deus e ao mesmo Cristo que nós” (As Institutas, IV.1.8.) NE.
101
3 Reis 19.10 (1 Reis nas edições protestantes modernas).
45
vinda de Cristo, ela ficou oculta, sem forma visível! Com que freqüência dessa
época em diante ela foi tão oprimida por guerras, sedições e heresias que não se
mostrava em parte alguma! E então? Se essa gente que aí está vivesse naquele
tempo, teria acreditado na existência de alguma igreja? Entretanto, a Elias foi
dito que ainda havia sete mil que não tinham dobrado os joelhos a Baal. E não se
deve duvidar, de maneira nenhuma, que Jesus Cristo sempre reinou na terra, des-
de que ascendeu ao céu. Mas se, entre tais desolações, os fiéis quisessem ter
alguma aparência definida da igreja, não perderiam o ânimo?
[1539] E, de fato, Hilário julgava que esse era um grande mal da sua época
– que, estando cegos em sua louca reverência pela dignidade de seus bispos, não
se apercebiam de que , às vezes, aquelas pragas estavam ocultas debaixo dessas
máscaras. Por isso ele fala da seguinte maneira102
ª: Eu vos admoesto: Cuidado
com oAnticristo! Vocês se apegam demais às paredes, buscando a Igreja de Deus
na beleza dos edifícios, pensando que nessas coisas está a união dos fiéis. Acaso
se pode duvidar de que o Anticristo tem lá o seu lugar de assento? Para mim, as
montanhas, os bosques, os lagos, as prisões e os desertos são mais seguros e mais
confiáveis. Porque, ocultos nesses lugares, os profetas profetizaram”. Ora, que é
que o mundo exalta hoje nesses bispos infiéis? Justamente venera os que ele
julga serem os mais excelentes, isto é, os que presidem às maiores cidades. Eli-
minemos, pois, tão grande loucura!
[1536] Ao contrário, deixemos com o Senhor que, como só Ele conhece os
Seus, também alguma vez oculte da vista dos homens o conhecimento externo da
Sua Igreja. Confesso que essa é uma terrível vingança de Deus sobre a terra. Mas,
se a impiedade dos homens merece isso, por que havemos de esforçar-nos para
contradizer a justiça divina? Dessa maneira o Senhor, no passado, puniu a ingra-
tidão dos homens. Porque, por isso mesmo, aos que não quiseram obedecer à Sua
verdade e extinguiram a sua luz, Ele permitiu que, em sua cegueira, sofressem
abusos de grosseiras mentiras e fossem envoltos por trevas profundas, de tal ma-
neira que não se tornou visível nenhuma forma da verdadeira Igreja. Todavia,
nessas mesmas ocasiões, Ele preservou os Seus no meio destes erros e destas
trevasb
, embora dispersos e ocultos. E não é de admirar, porque Ele sabe guardá-
los, como fez na confusão da Babilônia e nas chamas da fornalha ardente. Nisso
que eles querem que a forma da igreja seja valorizada por não sei que tipo de vã
pompa, para não avançar além do meu propósito, tocarei só de passagem, para
mostrar quanto é perigoso. Dizem os nossos adversários que o papa de Roma,
que tem a cátedra apostólica, e os outros bispos, representam a igreja e como tais
devem ser respeitados pela igreja, visto que não podem errar. Por quê? Porque
são pastores da igreja, é a resposta que dão, e foram consagrados a Deus. Arão e
os outros líderes do povo de Israel também eram pastores.
Carta ao Rei da França
a
Esse parágrafo sendo inserido somente em 1539, parece que Calvino leu esse tratado depois de 1536.
b
Por volta de 1524, Farel começou assim o seu Sumário e Breve Declaração, reeditado em 1534: “Nesse tempo,
quando aprouve ao nosso Senhor manifestar a santa claridade e luz sobre os que estavam em trevas profundas”.
102
Contra Auxêncio.
46 As Institutas – Edição Especial
Arão e seus filhos foram eleitos sacerdotes de Deus; todavia pecaram quan-
do fabricaram o bezerro de ouro.103
E, segundo a razão dada, vai se dizer que os
quatrocentos profetas que serviam aAcabe representavam a Igreja?104
Mas a Igreja
estava do lado de Micaías, o único fiel, e desprezado; entretanto, foi de sua boca
que saiu a verdade. Os profetas que se levantaram contra Jeremias105
gabando-se
de que não haveriam de faltar a lei ao sacerdote, o conselho ao sábio e a palavra
aos profetas, não traziam sobre si o nome da igreja? Não foi semelhante aparên-
cia que reluziu sobre o concílio que reuniu os sacerdotes, os doutores e os religi-
osos para se aconselharem sobre a morte de Jesus Cristo?106
E ainda agora os
nossos adversários se apegam a essas marcas externas, e com isso transformam
Cristo e todos os profetas de Deus em causadores de cisma; por outro lado, fazem
dos ministros de Satanás instrumentos do Espírito Santo. Se a seu favor falam
com bom motivo, que me respondam com boa fé: em qual região ou em que povo
eles acham que a Igreja reside, depois que, por sentença definitiva dada pelo
Concílio de Basiléia, Eugênio, papa de Roma, foi depostoª e Amadeu foi posto
em seu lugarb
? Nem morrendo poderiam negar que, quanto às solenidades exter-
nas, o concílio foi legítimo e válido, tendo sido convocado por dois papas, não
somente por um. Eugênio foi condenado ali como cismático, rebelde e contu-
maz, ele e toda a companhia dos cardeais e bispos que com ele tinham maquina-
do a dissolução do concílio. No entanto, sendo depois apoiado pelo favorecimento
dos príncipes, manteve a posse do seu papado; e a eleição de Amadeu, solene-
mente confirmada pela autoridade do sacro concílio geral, esvaiu-se como fuma-
ça, acontecendo, porém, que o dito Amadeu foi apaziguado por um chapéu
cardinalício, como se aquieta um cachorro com um pedaço de pão.
Desses rebeldes e contumazes procedem todos os papas, cardeais, bispos,
abades e sacerdotes que existiram daí em diante. Agora é necessário que não os
deixemos escapar. Pois, a que lado darão eles o nome da igreja? Negarão o cará-
ter geral desse concílio, o qual em nada falhou quanto à majestade externa, visto
que solenemente foi feita a sua convocação por dupla bula e consagrado pelo
Legado da Santa Sé Apostólica, que o presidiuc
? Bem ordenado foi o concílio em
todas as cerimônias, mantendo até o fim a sua dignidade. Confessarão eles que
Eugênio e todo o seu bando foram cismáticos, contra aqueles pelos quais eles
tinham sido consagrados?
É, pois, necessário que eles definam diferentemente a forma da igreja; ou,
sejam eles quantos forem, segundo a sua própria doutrina serão por nós conside-
rados cismáticos, tendo sido eles, conscientemente e por sua própria vontade,
103
Êxodo 32.1-10.
104
3 [1] Reis 22.5-9, 13-37.
105
Jeremias 18.18.
106
João 11.47.
a
Em 25 de junho. O décimo concílio geral tinha sido convocado por Eugênio IV.
b
Em 5 de novembro de 1439. Amadeu foi papa com o nome de Félix V.
c
O cardeal Juliano Cesarini.
47
ordenados por hereges. E daí em diante, se jamais se viu que a igreja deixou de
ligar-se a pompas externas, nós temos neles mesmos segura e suficiente experi-
ência comprobatória de que quando, sob o título e as cores da igreja, orgulhosa-
mente eles têm levado o mundo a respeitá-los, não passam de pragas mortais da
igreja. Não me refiro aos seus costumes, nem aos seus atos execráveis, dos quais
sua vida está repleta; refiro-me ao que eles dizem, o que lembra os fariseus, que
se deve ouvir mas não seguir. Se, porém, quiseres dedicar um pouco do teu tempo
de lazer à leitura dos ensinamentos que nós ministramos, verás claramente que a
própria doutrina deles, pela qual desejam ser reconhecidos como igreja, é uma
cruel geena, um matadouro de almas, um fogo, uma dissipação da igreja.
Carta ao Rei da França
SEITAS E
AGITAÇÃO
Finalmente, eles agem com maldade quando nos
lançam em rosto as grandes revoltas, perturbações e
contendas resultantes da pregação da nossa doutrina e
os frutos que agora ela produz em muita gente. Pois impiedosamente a culpam
disso tudo, quando esses males todos deveriam ser atribuídos à maligna astúcia
de Satanás. Pode-se dizer que o seguinte traço caracteriza a Palavra de Deus:
Cada vez que é posta em evidência, Satanás acorda e apronta as suas artima-
nhas.107
Esta é uma segura marca para se discernirem as doutrinas falsas – que
estas são recebidas de boa vontade por todos e agradam a todo o mundo. Desta
maneira, durante alguns anos passados, quando tudo estava envolto em trevas, o
senhor do mundo brincava com os homens a seu bel-prazer; e, como um
Sardanápalo,108
vivia em paz, gozando seus entretenimentos. Porquanto, o que
lhe restava fazer, senão divertir-se e deleitar-se na posse amena e tranqüila do seu
reino? Porém, depois que dos céus resplandeceu a luz e desfez um pouco as suas
trevas, depois que o valente invadiu e transtornou o seu reino, de imediato ele
começou a despertar do sono e a tomar as armas.
Primeiro ele instigou o poder dos homens para, por meio dele, oprimir com
violência a verdade nascente. Quando viu que por esse meio nada conseguia,
recorreu a armadilhas. Usou, então, os seus catabatistasa 109
e outros grupos seme-
lhantes, e fez um verdadeiro reboliço com muitas seitas e opiniões divergentes, a
fim de obscurecer a verdade e, por fim, apagá-la. E ainda hoje ele persiste em
persegui-la com essas duas máquinas de guerra. Sim, pois, pela violência e pela
mão dos homens, ele se empenha em arrancar aquela semente verdadeira e, quanto
está em seu poder, empenha-se por todos os meios para suplantá-la, impedindo-
a de florescer e frutificar.110
Mas todos os seus esforços serão inúteis, se dermos
107
“Satanás jamais descansa enquanto não envida esforço para obscurecer, com suas mentiras, a santa doutri-
na de Cristo, e a vontade de Deus é que nossa fé seja provada com tais conflitos”. [J. Calvino, Efésios, São
Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 4.14), p. 129.] NE.
108
Possível corruptela do nome Assurbanípal, rei da Assíria de 668 a 626 a. C. Frutos de sua arrogância
blasfema foram a sua decadência e a sua trágica morte. Ver Everyman’s Encyclopædia, e 2 Reis 18 e 19. NT.
a
Essa palavra, mais precisa que anabatistas, não prevaleceu. Ver a Introdução, pp. 8,9.
109
Termo empregado para designar os anabatistas indicando, em vez de repetição do batismo, sua destruição. NT.
110
Mateus 13.25.
48 As Institutas – Edição Especial
ouvidos às advertências do Senhor, que há muito tempo pôs a descoberto as suas
artimanhas para não sermos apanhados de surpresa, e nos supriu de boas armas
de defesa contra as suas máquinas de guerra.111
De resto, que tremenda perversidade é esta, de acusar a Palavra de Deus da
sanha das revoltas contra ela movidas pelos estultos e desmiolados, ou das seitas
que semeiam enganadores? Todavia, não há nada de novo nisso. Perguntaram a
Elias se não era ele o perturbador de Israel.112
Os judeus consideravam Cristo um
revoltoso.113
Os apóstolos eram acusados de causar agitação popular.114
E não é
isso que estão fazendo conosco hoje os que nos atribuem a agitação, os tumultos
e as contendas que se levantam contra nós? Pois bem, Elias nos ensina que res-
posta lhes devemos dar. É que não somos nós que semeamos erros ou provoca-
mos a agitação; na verdade são eles mesmos, os quais fazem resistência ao poder
de Deus. Mas, se esta razão basta para neutralizar a sua temeridade, também, por
outro lado, é preciso fazer frente à fraqueza de alguns que muitas vezes se assus-
tam com os escândalos e, em seu espanto, vacilam. Portanto, para que estes não
se desanimem e não percam a coragem, devem lembrar-se de que as mesmas
coisas que agora vemos sobrevieram aos apóstolos no tempo deles. Naquela épo-
ca havia pessoas incultas e inconstantes que, como diz o apóstolo Pedro, torciam,
para a sua própria perdição, o que Paulo tinha escrito sob inspiração divina.115
Havia desprezadores de Deus que, quando ouviam que havendo muito pecado
aumentaria a graça, logo concluíam: “Permaneceremos no pecado, para que seja
mais abundante a graça”.116
Quando ouviam que os fiéis não estão sob a Lei,
replicavam: “Vamos pecar, porque não estamos debaixo da Lei e sim da graça”.
Havia gente que dizia que Paulo instigava o mal.117
Falsos profetas se insinuavam
para destruir as igrejas que Paulo tinha edificado.118
[1539] Alguns pregavam o Evangelho por discórdia e insinceramente,119
e
até com sutileza maldosa, pensando fazê-lo sofrer mais em sua prisão.
[1536] Nalguns lugares o Evangelho não dava muito fruto. Cada qual bus-
cava o seu proveito pessoal, e não o de Jesus Cristo.120
[1539] Outros retrocediam, como cães voltando ao seu vômito,121
e como
porcos ao seu lamaçal.
111
“Satanás, também, vive sempre pronto a engendrar todo gênero de calúnia com o fim de lançar ao descré-
dito a doutrina da graça.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 6.1), p. 201.] NE.
112
3 [1] Reis 18.18.
113
Lucas 23.5; João 19.7.
114
Atos 24.5-9.
115
2 Pedro 3.16.
116
Romanos 6.1.
117
Romanos 3.8.
118
1 Coríntios 1.10-13; 2 Coríntios 11.3,4; Gálatas 1.6,7.
119
Filipenses 1.17 e nas epístolas aos coríntios e 2 Timóteo.
120
Filipenses 2.21.
121
2 Pedro 2.22.
49Carta ao Rei da França
[1536] Muitos transformavam a liberdade do Espírito em licença carnal.122
Não poucos falsos irmãos se infiltravam, deles provindo então grandes perigos
para os cristãos fiéis. Mesmo entre os irmãos surgiam diversos desentendimen-
tos.123
Nessas condições, que poderiam fazer os apóstolos? Deveriam usar o re-
curso da dissimulação por algum tempo, ou deveriam pôr de lado e abandonar
totalmente este Evangelho, que viam estar sendo semeadura de tantos conflitos,
causa de tantos perigos, ocasião para tantos escândalos? Acontece que no meio
dessas aflições eles se lembravam de que Jesus Cristo é pedra de tropeço e de
ofensa para ruína e ressurreição de muitos,124
e um sinal que seria objeto de
contradição.125
Armados desta confiança, prosseguiam corajosamente, em meio a
todos os perigos de tumultos e de escândalos.126
Fortalecemo-nos com um só pensamento, pois o apóstolo Paulo atesta que
esta é a característica perpétua do Evangelho – que seja cheiro de morte para morte,
para os que perecem, e cheiro de vida para vida, para os que são salvos127
.128
Mas volto a falar-te, ó magnânimo rei. Não te impressiones com esses boatos
com os quais os nossos adversários se esforçam para te infundir temor e terror; isto
é, que este novo evangelho, assim chamado por eles, não busca nada mais que
oportunidades para revoltas e total impunidade para todo e qualquer mal que se
faça. Pois o nosso Deus não é Deus de divisão, mas de paz,129
e o Filho de Deus não
é ministro do pecado, mas veio para romper e destruir as obras do Diabo.130
Quanto a nós, somos injustamente acusados dessa cobiça, da qual não te-
mos dado o menor motivo para suspeita. Bem provável seria que estivéssemos
mancomunados para derrubar os reinos – nós, de quem jamais se ouviu uma
palavra sediciosa, e cuja vida sempre foi reconhecidamente simples e pacífica
quando éramos teus súditos! E agora, expulsos de nossos lares, não deixamos de
orar a Deus por tua prosperidade e pela prosperidade do teu reino. Como podem
acreditar que pretendemos ter licença para praticar o mal sem receber castigo?
Ainda que tenhamos praticado alguma coisa que merece repreensão, nada temos
que mereça repreensão tão severa. E, graças a Deus, não temos aproveitado tão
mal o Evangelho que a nossa vida não seja para os que nos difamam exemplos de
122
2 Coríntios 11.3,4.
123
Atos 6.1; 11.1-3; 15.1,2.
124
“Toda verdade proclamada referente a Cristo é completamente paradoxal pelo prisma do juízo humano.
Entretanto, o nosso dever é prosseguir em nossa rota. Cristo não deve ser suprimido só porque para muitos
ele não passa de pedra de ofensa e rocha de escândalo. Ao mesmo tempo que ele prova ser destruição para
os ímpios, em contrapartida ele será sempre ressurreição para os fiéis.” [João Calvino, Exposição de Roma-
nos, (Rm 6.1), pp. 201-202.] NE.
125
Isaías 8.14; Romanos 9.33; Lucas 2.34.
126
1 Pedro 2.1-10.
127
1 Coríntios 2.16.
128
“O fato de que o Evangelho é aroma de morte para os ímpios não vem tanto de sua própria natureza, mas da
própria perversidade humana. Ao determinar um caminho de salvação, ele elimina a confiança em quais-
quer outros caminhos.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 1.16), p. 58.] NE.
129
1 Coríntios 14.33.
130
Gálatas 2.17; 1 João 3.8.
50 As Institutas – Edição Especial
castidade, generosidade, misericórdia, temperança, paciência, modéstia, e de to-
das as demais virtudes.131
Certo é que a própria verdade dá testemunho em nosso favor, sendo evidente
que nós com sinceridade tememos e honramos a Deus, desejando que, com a nossa
vida e com a nossa morte, o Seu nome seja santificado. E até a boca dos invejosos
é constrangida a dar testemunho da inocência e da retidão civil de alguns de nós, os
quais foram por eles punidos com a morte por aquilo que merecia singular louvor.
Ora, se há alguns que, usando o Evangelho como pretexto, promovem tu-
multos – tumultos que até agora não foram vistos em teu reino; se há quem queira
encobrir a sua licença carnal com o nome da liberdade que nos é dada pela graça
de Deus (dos quais conheço muitos), existem leis e penas determinadas pelas leis
para os corrigir severamente, conforme os seus delitos. Mas que nesse meio tem-
po o Evangelho de Deus não seja blasfemado pelos malefícios dos maus! Tu, ó
rei, em tua realeza magnífica, ouviste a descrição da venenosa iniqüidade dos
nossos caluniadores, exposta com muitas palavras, para que não dês muita aten-
ção nem muito crédito às suas acusações.
Chego a temer que eu tenha me alongado demais, pois este prefácio tem
quase a extensão de uma defesa completa. No entanto, com esta exposição não
pretendi compor uma defesa, mas tão-somente abrandar o teu coração para ouvi-
res a nossa causa. Apesar de no presente o teu coração estar desviado e afastado
de nós, digo mais, até mesmo inflamado contra nós, é, não obstante, minha espe-
rança que poderemos recuperar a tua graça, se te aprouver ler uma vez, com
ânimo sereno e sem ira, esta nossa confissão, que desejamos seja recebida como
nossa defesa por tua majestade.
Mas se, ao contrário, as murmurações dos nossos adversários mal-intencio-
nados ocuparem tão completamente os teus ouvidos que os acusados não tenham
a oportunidade de defender-se; se, por outro lado, essas impetuosas fúrias conti-
nuarem a agir sempre com crueldade, prisão, açoites, geenasª, faca, fogo, certa-
mente, como ovelhas destinadas ao matadouro, ao sacrifício extremo seremos
lançados. Todavia, será de tal maneira que em nossa paciência possuiremos as
nossas almas132
e esperaremos pela poderosa mão do Senhor, que, sem dúvida,
agirá no tempo próprio e virá armada, tanto para livrar os pobres da sua aflição
como para punir esses desprezadores.
Queira o Senhor, Rei dos reis, estabelecer o teu trono na justiça e o teu juízo
na eqüidade, ó poderoso e ilustre rei.
De Basiléia, vinte e três de agosto de 1536b
.
a
1536. equuleis.
131
“O Evangelho não é uma doutrina de língua, senão de vida. Não pode assimilar-se somente por meio da
razão e da memória, senão que chega a compreender-se de forma total quando ele possui toda a alma, e
penetra no mais íntimo recesso do coração. (...) Os cristãos deveriam detestar aqueles que têm o Evangelho
em seus lábios porém não em seus corações.” (John Calvin, Golden Booklet of the True Christian Life, 6ª
ed. Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 1977, p. 17.) NE.
132
Lucas 21.19.
b
1539. Basileæ. Augusti 1536 (sic).
51
O Conhecimento de Deus ......................................................................... Cap. I
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio ....................................... II
A Lei ......................................................................................................... III
A Fé, ou Explicação do Símbolo dos Apóstolos ...................................... IV
A Penitência.............................................................................................. V
A Justificação pela Fé e os Méritos das Obras (Obras Meritórias) .......... VI
Semelhança e Diferença do Antigo e do Novo Testamento ..................... VII
A Predestinação e a Providência de Deus ................................................ VIII
A Oração, ou Explicação da Oração do Senhor ....................................... IX
Os Sacramentos ........................................................................................ X
O Batismo ................................................................................................. XI
A Ceia do Senhor...................................................................................... XII
As Cinco Cerimônias Falsamente Chamadas Sacramentos ..................... XIII
A Liberdade Cristã ................................................................................... XIV
O Poder da Igreja ...................................................................................... XV
O Governo Civil ....................................................................................... XVI
A Vida Cristã ............................................................................................ XVII
AS INSTITUTAS - VOLUME I - ESTUDO - JOÃO CALVINO
CAPÍTULO I
1. A sabedoria integral está no conhecimento
de Deus e do homem.
[1536] A soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria ver-
dadeira e certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de
Deus, e o de nós mesmosª.
[1539] Quanto ao primeiro, deve-se mostrar, não somente que há um só
Deus, a quem é necessário que todos prestem honra e adorem, mas também que
Ele é a fonte de toda verdade, sabedoria, bondade, justiça, juízo, misericórdia,
poder e santidade, para que dele aprendamos a ouvir e a esperar todas as coisas.
Deve-se, pois, reconhecer, com louvor e ação de graças, que tudo dele procede.
Quanto ao segundo, revela a nossa ignorância, miséria e maldadeb
, induz-
nos à humildadec
, à não confiança própria e ao desprezo de nós mesmos; inflama
em nós o desejo de buscar a Deus, certos de que nele repousa todo o nosso bem,
do qual nos vemos vazios e desnudos.
Ora, não é fácil discernir qual dos dois precede o outro e o produz. Porque,
visto que o homem está repleto de qualidades indignas, mal nos contemplamos e
tomamos conhecimento das nossas péssimas condições, e de imediato elevamos
os olhos a Deus para que dele venha um pouco de conhecimento a Seu respeito.
Assim, graças ao sentimento que temos da nossa pequenez, da nossa insensatezd
e vaidade, e mesmo da nossa perversidade e corrupção, reconhecemos que a ver-
dadeira grandeza, sabedoria, verdade, justiça e pureza estão em Deus.
a
Os primeiros capítulos do Sumário de Farel (1534) tratavam: I. de Deus, II. do homem. Nesse capítulo, onde
apenas algumas frases são traduzidas do texto de 1536, Calvino desenvolveu as idéias formuladas – mui-
tas vezes com expressões idênticas – em sua Instrução e Confissão de Fé (Instruction et confession de foi)
– Catecismo de Genebra, 1537.2
b,c
Fœditatem, seriam humilitatem (1539).
d
hebetudinis.
54 As Institutas – Edição Especial
Finalmente, somos impedidos por nossas maldades e fraquezas de conside-
rar os bens do Senhor, e não podemos sequer aspirar com amoroso empenhoa
aos
bens divinos, enquanto não começarmos a ficar aborrecidos com nós mesmos.
Pois, qual dos homens não descansa em si mesmo e em si mesmo não tem pra-
zer? Quem não descansa desse modo e durante todo o tempo em que, não se
conhecendo bem, mostra-se satisfeito com as suas capacidades e ignora as suas
miseráveis condições? Porquanto, cada um de nós não somente é instigado pelo
conhecimento de si próprio a buscar a Deus, mas é como que levado pela mão ao
Seu encontro.
2. Conhecer o homem depende de conhecer a Deus.
Por outro lado, é notório que o homem jamais pode ter claro conhecimento de si
mesmo, se primeiramente não contemplar a face do Senhor, e então descer para
examinar a si mesmo. Porque esta arrogância está arraigada em todos nós – sem-
pre nos julgamos justos, verdadeiros, sábios e santos, a não ser que, havendo
sinais evidentes, sejamos convencidos de que somos injustos, falsos, insensatos e
impuros. Mas não seremos convencidos se só dermos atenção a nós mesmos, e
não também ao Senhor, pois esta é a regra única à qual é necessário que se ajuste
o julgamento que se queira fazer. Isso porque, uma vez que nós somos natural-
mente inclinados à hipocrisia, em vez de contentar-nos com a verdade, ficamos
muito satisfeitos com uma vã aparência de justiça. E, tendo em vista que não há
nada em nós que não esteja gravemente contaminado por grosseira impurezab
, o
que nos parece um pouco menos vil aceitamos como elevada pureza, enquanto
mantemos o nosso espírito dentro dos limites da nossa condição humana, que é
totalmente corrupta. É o que acontece com olhos só acostumados a verem a cor
negra; uma brancura um tanto obscura ou mesmo acinzentada é, para esses olhos,
a mais alva brancura. Todavia, menos se pode compreender as qualidades da
alma e mais enganados seremos nessa compreensão, comparando-a com a nossa
visão física. No entanto, quando em pleno dia olhamos para o solo ou para as
coisas que estão ao nosso redor, achamos que a nossa visão é clara e firme. Mas
quando elevamos o nosso olhar diretamente para o sol, somos constrangidos a
confessar que a excelente visão que tínhamos quando olhávamos a terra fica con-
fusa, ofuscada pelo fulgor do sol.
É o que acontece quando avaliamos os nossos poderes espirituais. Porque,
enquanto a nossa contemplação não vai além da terra, ficamos satisfeitos com a
nossa justiça própria, com a nossa sabedoria e com a nossa capacidade ou poder,
e nos gratificamos e nos elogiamos a nós mesmos, pouco faltando para que nos
consideremos semideuses. Mas se, uma vez que seja, pensarmos no Senhor e
a
serio.
b
obscænitate inquinatum.
55
virmos a perfeição da Sua justiça, da Sua sabedoria e do Seu poder, a cujo mode-
lo devemos ajustar-nos, o que antes nos agradava parecendo justiça, logo vere-
mos que não passa de uma grande iniqüidade, o que nos impressionava maravi-
lhosamente sob o título de sabedoria se revelará como loucura extrema, e o que
tinha a aparência de capacidade ou poder se mostrará miserável fraqueza. Assim,
o que em nós tem a aparência de absoluta perfeição, nem de longe se assemelha
à pureza de Deus.
3. Espantoso contraste: o homem face à majestade
e à perfeição de Deus!
Essa realidade explica a reação de espanto e de horror dos santos toda vez que se
viam na presença de Deus. Porque vemos que, quando se sentiam firmes e segu-
ros na ausência de Deus, ficavam cheios de temor e tremor quando Deus lhes
manifestava a Sua glória. Sentiam-se quase que tragados por um pavor mortal, e
quase reduzidos a nada. Daí se conclui que o homem não reconhece quão grande
é a sua imperfeição enquanto não se compara com a majestade de Deus.
Dessa atitude de aterrorizado espanto há numerosos exemplos, tanto em
Juízes como nos Profetas, de tal maneira que a seguinte sentença veio a ser um
dito comum do povo de Deus: “Certamente morreremos, porque vimos a Deus”.133
Assim também a história de Jó, com a finalidade de humilhar os homens e levá-
los ao reconhecimento da sua loucura, da sua fraqueza e da sua corrupção, sem-
pre apresenta como principal argumento a descrição da sabedoria, do poder e da
pureza de Deus; e não sem motivo. Sim, pois vemos que Abraão reconheceu
melhor que não passava de terra e pó depois que contemplou de perto a glória do
Senhor,134
e que Elias não pôde comparecer com o rosto descoberto à Sua presen-
ça, tal o temor que tinha de contemplá-lo!135
E o que poderia fazer o homem, que nada mais é que podridão e verme,
quando até os querubins cobrem o rosto por temor e reverência?136
É isso que o
profeta diz, quando declara: “Aluz se envergonhará, e o sol se confundirá quando
o Senhor dos Exércitos reinar;137
isto é, quando Ele mostrar mis de perto o Seu
esplendor, a maior luminosidade do mundo diante dele será escuridão. Contudo,
seja como for a relação existente entre o conhecimento de Deus e o de nós mes-
mos, a boa norma requer que primeiro estudemos o conhecimento de Deus e
depois desçamos ao estudo do conhecimento de nós mesmos.
133
Juízes 13.22; Isaías 6.5; Ezequiel 1.28; 3.14 e outras passagens.
134
Gênesis 18.27.
135
1 Reis 19.13.
136
Isaías 6.2.
137
Isaías 24.23.
O Conhecimento de Deus
56 As Institutas – Edição Especial
4. Universalidade da idéia da existência de Deus
e do sentimento religioso.
Sabemos sem nenhuma dúvida que no espírito humano há, por inclinação natu-
ral, certo senso da Divindade. Para que não nos refugiemos na alegação de igno-
rância, o Senhor nos dotou de certa percepção da Sua majestade. Assim, tendo
todos entendido que há um Deus, que é o seu Criador, serão condenados por seu
próprio testemunho aqueles que não O glorificarem e não dedicarem sua vida a
fazer a Sua vontade. Certo é que, se se buscar entre os homens ignorância tal que
Deus seja absolutamente desconhecido, com toda a probabilidade exemplos dis-
so serão encontrados somente entre os povos mais rudes e mais distanciados das
boas condições de civilidade e de humanidade.
Ora, como os próprios pagãosª confessam, não existe nação tão bárbara,
nenhum povo tão selvagem que não tenha impressa no coração a existência de
algum Deusb
. E, por outro lado, aqueles que parecem não diferir quase nada dos
animais irracionais, não obstante sempre conservam uma semente da religião, de
tal modo esta concepção universal arraigou-se em todos os espíritos e se fixou
em todos os corações.
Portanto, visto que desde o princípio do mundo não há região nem cidade
nem mesmo casa alguma que não tenha nada de religião, nesse fato nós temos
uma confissão tácita de que há um senso da Divindade gravado no coração de
todos os seres humanos.
Até a idolatria nos serve de grande argumento em favor desta idéia. Porque
sabemos quanto o homem se tem humilhado, contra si mesmo, e em seu detri-
mento tem prestado honra a outras criaturas. Pois lhe parece melhor cultuar a
madeira e a pedra do que ter fama de que não tem nenhum deus, o que mostra
quão forte é este sentimento nele impresso da Majestade divina, impressão de tal
modo difícil de apagar do espírito humano que seria mais fácil eliminar os seus
afetos naturais. Como certamente estes são eliminados quando, da sua elevação e
da sua presunção, o homem se rebaixa voluntariamente e se coloca abaixo das
criaturas menos nobres da terra a fim de prestar honra a Deus. Porque é emitir
falsa opinião dizer, com alguns, que antigamente a religião foi inventada por uns
poucos com o fim de manter modesto e dócil o povo simples, quando os que
incitavam os outros a servir a Deus nem pensavam na existência de algum deus.
Bem sei que entre os pagãos houve homens astutos e engenhosos que forjaram
muitas coisas de caráter religioso para impor medo aos simples e gerar escrúpu-
los. Sua finalidade era tê-los mais obedientes e mais dóceis ao comando. Mas
essa idéia jamais lhes teria ocorrido se anteriormente já o espírito dos homens
não estivesse firmemente resolvido a crer em Deus. Daí procede toda a inclina-
a
(1539) ethnicus ille (e na margem: Cícero, De natura deorum (Da Natureza dos Deuses).
b
Catecismo de 1537, Art. I: Que todos os homens nasceram para conhecer a Deus (Opera selecta, I, 378).
57
ção dos homens para a fé religiosa. E não é preciso pensar que aqueles que, em
nome da religião, enganavam as pessoas mais simples, estivessem inteiramente
vazios e despidos da idéia de que Deus existe. Porque, apesar de que na antigüidade
houve alguns, e hoje em dia há muitos, que negam totalmente a existência de Deus,
todavia, querendo-o ou não, por vezes sentem aquilo que gostariam de ignorar.
5. Desprezadores de Deus:
Consciência em conflito.
Não se lê de nenhuma outra pessoa que tenha desprezado e ultrajado a Deus com
maior arrogância e atrevimento do que o imperador romano Caio Calígulaª. Mas
ninguém tremeu mais miseravelmente que ele, quando surgia algum sinal de mani-
festação da ira de Deus. Assim, para seu próprio pesar, ele tinha verdadeiro pavor
de Deus, a quem ele queria de fato desprezar e para isso se esforçava. Experiência
como essa vemos com freqüência suceder com todos os que tomam atitude seme-
lhante à de Calígula. A realidade é que quanto mais atrevido for o desprezador de
Deus, mais tremerá de medo ao ruído de uma simples folha que cai.138
De onde
provém esse temor? Certamente de Deus que, em Sua majestade, vinga-se, ator-
mentando tanto mais a consciência deles quanto mais procuram dela fugir.
Todos eles procuram esconderijos para ocultar-se da presença de Deus e
tentam apagá-la da memória, mas, quer queiram quer não, não escapam. E ainda
que esse pavor pareça desvanecer-se por breve tempo, sempre volta, e com maior
força, a tal ponto que a momentânea tranqüilidade de consciência acaso desfruta-
da por eles não difere muito do sono dos bêbados e dos loucos, os quais, mesmo
enquanto dormem, não descansam em paz. Sim, porque são constantemente per-
turbados por alucinações e sonhos assustadores.
Logo, os próprios ímpios nos servem de exemplo de que algum conheci-
mento sobre Deus existe universalmente no coração dos homensb
.
6. O conhecimento de Deus nos ensina a viver.
Já demonstramos que o conhecimento de Deus tem o poder de plantar em nosso
coração alguma semente de religiãoc
. Primeiro nos leva à reverência e ao temor
de Deusd
; depois, ensina-nos a buscar o bem e a reconhecer que este procede de
Deus. Pois, como pode algum pensamento sobre Deus penetrar a nossa mente
sem que de imediato julguemos (visto que somos Suas criaturase
) que, por direito
de criação, devemos estar sujeitos e ser submissosf
ao Seu domínio, a nossa vida
138
Levítico 26.36.
O Conhecimento de Deus
a
Os dois vocábulos estão sem equivalentes latinos.
b
Catecismo de 1537, Art. I.
c
Frase sem equivalente em 1539.
d
Catecismo de 1537, Art. I.
e
figmentum.
f
addictum et mancipiatum (termos do direito romano).
58 As Institutas – Edição Especial
deve ser dedicada ao Seu serviço e todos os nossos propósitos e tudo o que dize-
mos e fazemos devem ser atribuídos a Ele? Se é assim, segue-se que a vida de um
homem está perversamente corrompida, a não ser que esteja sendo dirigida pela
obediência à Sua santa vontade.
Por outro lado, ninguém pode entendê-lo bem, a menos que reconheça que
Ele é a fonte e a origem de todo o bem. Dessa consideração se produz um desejo
de estar em comunhão com Ele, e uma confiança em Sua bondade, a não ser que,
por sua perversidade, a mente humana seja retirada da investigaçãoa
correta.
Mas, de um lado e do outro, o que e se vê é uma estupenda vaidade e insipidez de
todos nós. Pois, em vez de em toda a nossa vida nos mantermos em perseverante
obediência a Ele, em todas a nossas obras insistimos em querer agradá-lo somen-
te com pequenas satisfações. Em lugar de procurarmos levar Deus a comprazer-
se com a santidade e a pureza de coração, inventamos sabe-se lá quantas pilhas de
coisas inúteis e de cerimônias que de nada valem, esperando distraí-lo. O resulta-
do é que, em vez de pormos a nossa confiança totalmente em Deus, ela é posta
em nós ou em outras criaturas.
Finalmente,b
estamos envolvidos em tantos erros e opiniões perigosas que a
centelha de verdade, que poderia iluminar-nos e guiar-nos à contemplação da
majestade de Deus, fica encoberta e estanque de tal maneira que já não nos pro-
picia um reto conhecimento de Deus, só restando a primeira semente, que jamais
pode ser arrancada – isto é, a que leva o homem a saber que Deus existe.
7. Maus frutos da semente de religião.
Todavia, essa mesma semente tanto se corrompeu que só produz frutos ruins.
Sendo este o caso, comete-se pecado principalmente de duas maneiras. A primei-
ra é que os pobres homens, na busca da verdade de Deus, não vão além da linha
da sua natureza, como seria de toda a conveniência, mas avaliam a Sua grandeza
conforme a rudeza dos seus sentidos. Com isso, não percebem, que quanto mais
se empenham em conhecer a Deus desse modo, maisc
O fazem fruto da sua ima-
ginação, criando-o de acordo com a presunção que os domina. Fazendo isso, eles
abrem um abismo do qual não escapam; movam-se para este ou aquele lado,
estão condenados. Assim é porque tudo quanto se esforçam por fazer para servi-
lo lhes é inútil; nada disso é levado em conta, pois não é a Deus que honram, mas
sim às imaginações do seu coração.139
Pois a inútil coberta que muitos costumam
querer usar para desculpar a sua superstição foi destruída.
139
Gênesis 8.21.
a
investigatio.
b
Catecismo de 1537, Art. II (Opera Selecta, I, 379).
c
“Eles não avaliam Deus por Sua infinita majestade, mas sim pela estulta e confusa vaidade da sua mente”
(Catecismo de 1537, II).
59
Acham eles que toda aparência de religião, seja esta qual for, mesmo quan-
do desenfreada, é suficiente, mas não consideram que a verdadeira religião deve
ter como sua regra universal a conciliação com a vontade de Deus. Saiba-se que
Deus não muda; não é um ser fantasioso que se transforma ao gosto de cada um.
Verdadeiramente, pode-se ver com quantas vãs ilusões a superstição imita a Deus,
quando o dever de todos é agradá-lo. Porque a superstição – a falsa religião –
quase unicamente se apega a coisas que Deus declara sem valor, e negligencia ou
rejeita as que Ele ordenou e declarou aceitáveis. Assim, todos os que se dispõem
a adorar a Deus com religiões inventadas pela imaginação humana não adoram a
Deus. Adoram, sim, as suas fantasias, pois não se atreveriam a zombar de Deus
dessa maneira, a não ser que O tivessem criado à semelhança das suas fantasias.
Por isso o apóstolo Paulo ensina que esse conceito vago e errôneo que se tem de
Deus é ignorância de Deus – é ignorar a Deus.140
“Outrora, porém”, diz o após-
tolo, “não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são.”
Noutra passagem ele declara que os efésios tinham estado sem Deus durante todo
o tempo em que não tinham o verdadeiro conhecimento de Deus;141
e não faz
muita diferença se imaginam um deus ou muitos, porque sempre se afastam do
verdadeiro Deus e O abandonam, só restando uma execrável idolatria. Temos que
concluir, pois, com Lactâncio, que não existe religião legítima, se não estiver
unida à verdade.
O segundo erro cometido pelos homens é que se deixam levar à força e
contra a sua vontade a terem consideração por Deus, e não movidos por um te-
mor decorrente da reverência à majestade divina. O que os move é somente o
pavor causado pelo juízo de Deus, do qual têm grande horror, sabendo que dele
não podem escaparª. Contudo, de tal forma O temem que O detestam.
Por isso, o que a respeito disse o poeta pagão Estáciob
aplica-se bem à impi-
edade, e unicamente a esta. Disse ele: “O medo foi o primeiro produtor de deuses
no mundo”.142
Certo é que todos os que têm seu coração afastado da justiça de
Deus gostariam imensamente que fosse destruído o Seu tribunal, porque sabem
que as transgressões que eles cometem são por ele punidas. Movidos por esse
desejo, eles guerreiam contra Deus, que não pode deixar de lado a aplicação da
justiça. Reconhecendo, porém, que pende sobre eles o inevitável poder de Deus,
do qual não podem esconder-se nem fugir, temem. E assim, para não parecer que
eles desprezam totalmente a majestade divina, procuram cumprir esta ou aquela
forma aparente de religião. Todavia, enquanto isso, não param de contaminar-se
com toda espécie de vícios e de empilhar pecado e mais pecado, até violarem
inteiramente a santa Lei do Senhor e dissiparem toda a Sua justiça. Nem ao me-
O Conhecimento de Deus
140
Gálatas 4.8.
141
Efésios 2.12.
a
Catecismo, Art. II.
b
Statii: Timorem primum fecisse in orbe deos.
142
Literalmente do francês: “Primeiramente o medo introduziu a reverência a Deus no mundo”. NT.
60 As Institutas – Edição Especial
nos se deixam conter por esse falso temor, permanecendo em seus pecados e em
sua vanglória; e dão rédeas soltas à sua intemperança carnal, em vez de se restrin-
girem sob o governo do Espírito Santo. Mas, como tudo isso não passa de uma
sombra vã de religião (que mal merece o nome de sombra), precisamos esclare-
cer, ainda que resumidamente, qual é o verdadeiro conhecimento de Deus, que
somente ao coração dos fiéis Ele instila, como também o amor pela piedade que
acompanha esse conhecimento.
8. Bênçãos da Fidelidade
Primeiramente,a
o coração fiel não inventa um deus a seu gosto, mas põe a sua
atenção no único Deus verdadeiro, e não Lhe atribui o que lhe parece bom, mas
se alegra com o que de Deus lhe é revelado. Além disso, sempre se vigia diligen-
temente para não sair da Sua vontade por atrevida presunção. Tendo esse conhe-
cimento, pelo qual entende que por Sua providência Deus modera todas as coi-
sas, o fiel se confia a Ele, tendo-o como seu tutor e protetor, e, portanto, coloca-
se sob a Sua guarda, sabendo que Ele é o autor de todo bem. Se o aflige alguma
necessidade, corre logo em busca do Seu socorro e, tendo invocado o Seu nome,
espera a ajuda que dele vem. Visto que está persuadido da bondade e da benigni-
dade de Deus, ele se sente seguro e descansa em Sua clemência. Não tem a menor
dúvida de que terá sempre remédio pronto para todas as suas misérias, graças à
Sua misericórdia. Reconhecendo-o como Senhor e Pai, o fiel considera digno
Aquele a cujos mandamentos se entrega, cuja majestade reverencia, cuja glória
ele se empenha em buscar e cuja vontade procura seguir.
CompreendendoqueDeuséjustoJuiz,quesevingarádetodosostransgressores,
o fiel sempre tem os seus olhos postos no tribunalb
divino, para manter-se longe de
tudo quanto provoque a Sua ira. Todavia, não fica demasiadamente assustado ao
pensar no juízo, ao ponto de querer subtrair-se a ele, mesmo quando tivesse meios de
evadir-se. Mas, ao contrário, sabe que Ele não se mostra menos desejoso de corrigir
os maus do que de recompensar os bons, visto que não pertence menos à Sua glória
punir os malvados e iníquos que recompensar os fiéis com a preciosidade da vida
eterna. Não há vantagem em reprimir-se o pecador por puro medo de vingança. Mas,
visto que o fiel ama a Deus como seu Pai e o teme como seu Senhor, mesmo que não
existisse inferno, ofender a Deus lhe causaria horror.
9. A Religião Pura e Verdadeira
Eis aqui a religião pura e verdadeira – a fé unida ao temor de Deus, desde que sob
o nome de temor estejam compreendidas tanto a estima por Sua justiça, que Ele
ordenou mediante Sua Lei, como a reverência, voluntária e de todo o coração,
votada à Sua divina majestade.
a
Catecismo, Art. II.
b
tribunal (No original: Throsne.)
61
Ora, se todos nós nascemos com este propósito de conhecer a Deus (e o
conhecimento de Deus será vão e infrutífero se não chegar a esse ponto), ficará
manifesto que os que não dirigem a essa meta todas as cogitações e ações de sua
vida, declinarão e serão abatidos da ordem da sua criação.
Isso não foi ignorado nem pelos filósofos, pois outra coisa não entendeu
Platão,143
tendo ele ensinado muitas vezes que o supremo bem da alma é a seme-
lhança com Deus, quando, estando em feliz e verdadeira contemplação do Ser
divino, transforma-se nele.
Igualmente Grilo argumenta com grande sabedoria em Plutarco, afirmando
que se a religião fosse eliminada da vida dos homens, eles não somente deixari-
am de ter qualquer excelência acima dos animais irracionais, mas também de
muitas maneiras viriam a ser muito mais miseráveis.Assim seria, visto que estamos
sujeitos a tantas espécies de males, levando uma vida laboriosaa
e sem repouso.
Porquanto, não há negar que tão-somente o conhecimento de Deus os torna supe-
riores, conhecimento pelo qual eles podem aspirar à imortalidade.
10. A Finalidade da Vida Feliz
Visto que Deus quis que o fim principal da vida realmente feliz estivesse situado
no conhecimento do Seu nomeb
, para que não pareça que é seu desejo vedar a
alguns o ingresso na felicidade, Ele se manifesta claramente a todos.
11. Revelação de Deus no Universo
Como a Sua natureza essencial é incompreensível e está oculta à inteligência
humana, Ele gravou em cada uma de Suas obras certos sinais da Sua gloriosa
majestade, pelos quais Ele se dá a conhecer segundo a nossa diminuta capacida-
de. Digo que são sinais tão notórios e evidentes que nem mesmo os mais cegos e
os mais rudesc
do mundo podem alegar ignorância. Porque, embora a Sua essên-
cia nos esteja oculta, não é assim com as Suas virtudes, as quais se mostram
constantemente aos nossos olhos e de tal modo O revelam que nos servem de
meios para conhecê-lo para a nossa salvação.
Em primeiro lugar, para onde quer que voltemos os olhos, não há o mais
diminuto rincão do mundo em que não refulja ao menos alguma centelha da
glória de Deus. Realmente, ninguém pode de um relance contemplar a belíssima
obra de arte universal em sua vasta amplitude e extensão, sem ficar, por assim
dizer, estupefato ante a incomensurável riqueza do seu esplendor. Por isso o apósto-
O Conhecimento de Deus
143
Em Phædone et Theæteto.
a
tumultuariam.
b
Catecismo, Art. III: “O que nos falta conhecer de Deus”.
c
rudissime.
62 As Institutas – Edição Especial
lo que escreveu Hebreus144
com muita propriedade chamou aos séculos espelhos
das realidades invisíveis, pois o mundo foi composto para servir-nos de espelho
para podermos contemplar a deus, que, de outro modo, nos seria invisível.
Pela mesma razão o profeta atribui às criaturas chamadas corpos celestes
uma linguagem que se faz conhecida a todas as nações,145
porquanto há nelas um
testemunho tão evidente da divindade que não pode ser ignorado, nem mesmo
pelos mais rudes e mais atrasados. Sobre isso Paulo, expondo o assunto com maior
franqueza, diza
: “... o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque
Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno
poder, como também a sua própria divindade claramente se reconhecem, desde o
princípio do mundo, sendo percebidos por meio das cousas que foram criadas”.146
No céu e na terra há incontáveis demonstrações da maravilhosa sabedoriab
de Deus. Não me refiro apenas às que são difíceis de compreender, cujo entendi-
mento só se pode obter por meio do conhecimento de astronomia, medicina e
física, mas principalmente as que são fáceis de ver até para os mais simples e
ignorantesc
, a tal ponto que basta que abram os olhos para se verem forçados a
dar testemunho delas. É bem verdade que os que receberam instrução sobre as
artes liberais, ou que provaram algo delas, têm nesse conhecimento uma ajuda
especial para aprofundar-se nos segredos da sabedoria divina. Contudo, mesmo
aquele que desconhece essas artes não é impedido de ver grande parte das obras
de Deus, sendo levado a admirar o Artífice que as criou.
A modo de exemplo, é necessário ter arte e habilidade especiais para estudar
os movimentos dos astros, para distribuí-los em suas respectivas posiçõesd
, para
calcular as distâncias e observar as propriedades de cada um deles. (Por essa consi-
deração, tendo-se em conta que por essas coisas a providência de Deus se mostra
com mais clareza, ainda mais alto deve elevar-se a nossa alma na contemplação da
glória divina.) Entretanto, como nem as pessoas que só têm como recurso os seus
olhos podem ignorar a excelência da sabedoria divina, que se revela na variedade
de corpos celestese
, incontáveis e harmoniosamente ordenados, certo é que não
existe ninguém a quem Deus não manifeste suficientemente a Sua sabedoria.
Paralelamente, estudar, com a aplicação que nesse empenho Galeno147
de-
monstra, a constituição do corpo humano, em que se notam inter-relação, propor-
ção, beleza e funções, leva à conclusão de que essa obra só pode ter sido realizada
144
Hebreus 8.5 e 11.3.
145
Salmo 19.1-4.
a
O Catecismo cita essa passagem.
146
Romanos 1.19,20.
b
Poder, sabedoria, bondade, justiça e misericórdia são enumerados nessa ordem no Catecismo, como atribu-
tos de Deus.
c
stupidis.
d
distribuendas sedes.
e
cœlestis militiæ.
147
Libris de usu partium.
63
com grande habilidade e sabedoria. E, como todos em geral reconhecem, o corpo
humano tem uma constituição tão engenhosa que dá ao seu Artífice o mereci-
mento da nossa maior admiração.
Quantos exemplos mais serão necessários para levar os homens à conside-
ração do poder de Deus? Pois de outro modo não se pode agir, se não é que
ignoramos o grande poder de Deus, que sustenta a imensa grandeza do céu e da
terra unicamente por Sua palavra, capaz de, a Seu comando, fazer tremer o céu
com os Seus trovões, acender a seu bel-prazer os raios, inflamar os ares com os
Seus relâmpagos, inundar o mundo com diferentes tipos de tempestades; e, subi-
tamente, quando Lhe parece bem, restabelecer a bonança e a tranqüilidade; igual-
mente pode manter o mar de tal modo suspenso que não possa causar dano à
terra, como também, pela altura de suas ondas, ameaça destruí-la, mantendo-se
numa terrível agitação pela grande impetuosidade dos ventos; e, de repente, pode
apaziguar as suas vagas e serená-lo. Este Seu poder deve levar-nos a considerá-lo
necessariamente eterno, tendo Seu princípio em Si mesmo, e de Quem todas as
coisas têm a sua origem.
Além disso, se for procurada a causa que O induziu a criar no princípio
todas as coisas e agora O movem a conservá-las, não a encontrará senão em Sua
bondade, a qual, mesmo não havendo outro motivo, deverá ser mais que suficien-
te para atrair o nosso amor. Sim, pois, como nos ensina o profeta, não há nenhu-
ma criatura sobre a qual Deus não tenha derramado a Sua misedricórdia.148
12. O Poder de Deus Manifesto em Sua Justiça
Semelhantemente, na segunda classe das obras de Deus, a saber, as que são rea-
lizadas fora do curso comum da natureza, elas mostram sinais manifestos do Seu
poder. Quanto ao governo exercido sobre o gênero humano, Ele administra de tal
maneira a Sua providência que, embora para com todos se mostre geralmente
benigno e generoso de mil maneiras, todavia, em Seu governo demonstra diaria-
mente a Sua justiça para com os bons, e para com os maus o Seu severo juízo. Os
castigos por Ele impostos aos maus, na vindicação da Sua justiça, não ficam
escondidos nem são desconhecidos. Mas também, sem nenhuma dúvida, Ele age
como protetor e defensor da inocência, dando prosperidade à vida dos bons por
Sua bênção, socorrendo-os em sua necessidades, suavizando as suas dores e em
tudo e por tudo cuidando do seu bem-estar.
O fato de permitir Deus que os ímpios e os malfeitores vivam por algum
tempo na impunidade, e que os bons e os inocentes sofram muita adversidade e
até sejam oprimidos pela iniqüidade dos maus, não deve obscurecer o caráter
perpétuo das normas da Sua justiça. Ao contrário, outra deve ser a nossa maneira
de pensar. É que quando Ele manifesta claramente a Sua ira contra algum peca-
O Conhecimento de Deus
148
Salmo 19.1,7 e 145.9.
64 As Institutas – Edição Especial
do, é necessário reconhecer que todos os pecados Lhe são detestáveis. E quando
Ele deixa sem castigo muitos pecados, é preciso entender que outro juízo haverá,
para cuja sentença eles estão reservados. Igualmente, quantos motivos Ele nos dá
para considerarmos a Sua misericórdia quando não deixa de tratar miseráveis
pecadores com clemência? E por quê? Para vencer a obstinação deles com Sua
clemência mais que paternal e com Suas bênçãos!
13. Manifestações do Poder e da Sabedoria de Deus
O poder e a sabedoria de Deus também não estão ocultos.
O poder se revela claramente quando, tantas vezes, a crueldade dos ímpios,
considerada fortaleza inexpugnável pelo critério humano, num momento é arra-
sada e reduzida a pó, sua arrogância é subjugada, todas as suas munições são
destruídas, suas armas feitas em pedaços, suas forças dissipadas e seus empreen-
dimentos postos abaixo. Caindo em confusão por sua própria impetuosidade
maligna, sua audácia, que os elevava até os céus, é abatida até às profundezas da
terra. Já, por outro lado, os desprezados são elevados do pó, os pobres são retira-
dos do lixo,149
os oprimidos e os aflitos sofredores são libertados da sua extrema
angústia, aos desesperados é devolvida a esperança, os que são poucos e não
dispõem de armas enfrentam vitoriosos os inimigos numerosos e bem armados,
os fracos vencem os fortesª.
A sabedoria de Deus se manifesta na administração oportuna e adequada de
cada coisa, na confusão em que põe toda a sabedoria terrena, surpreendendo os
astutos em suas artimanhas, e no governo do mundo, dispondo na melhor ordem
todas as coisas. Vemos, pois, que não há necessidade de recorrer a longas e curi-
osas demonstrações, nem de juntar testemunhos numerosos para mostrar e com-
provar a majestade de Deus. Porque, embora sejam poucas as provas que menci-
onamos, são tão notórias as evidências que, para onde quer que nos voltemos,
elas podem ser observadas com os olhos e indicadas com os dedos.
14. O Coração Acima da Razão
É preciso observar, nesta altura, que somos convidados a buscar um conheci-
mento de Deus que não se confunde com o conhecimento que gira em torno de
vãs especulações, mas sim o conhecimento que é proveitoso e frutífero, desde
que bem apreendido. Porque Deus se manifesta por Suas obras poderosas. Quan-
do sentimos a sua força em nós e recebemos os seus benefícios, devemos im-
pressionar-nos mais com esse conhecimento do que com o que resulta de caste-
los no ar, de um deus imaginário, sem nada de Deus em nosso coração e em
nossa experiência.
149
Salmo 113.7.
a
1539 acrescenta: victoriam referunt.
65
Daí deduzimos que não há melhor meio de buscar a Deus, que não há pro-
cesso mais eficaz para isso do que contemplá-lo em Sua obras. Por Suas obras
Ele se aproxima de nós, torna-se mais familiar a nós e até se comunica conosco.
Não que devamos ser movidos por audaciosa curiosidade e queiramos especular
sobre a grandiosidade da essência do Seu Ser. O Ser essencial de Deus devemos
adorar, não pesquisar com curiosidadea
. A esse ponto refere-se o apóstolo Pau-
lo,150
dizendo que não precisamos buscar a Deus longe de nós, visto que Ele
habita em cada um de nós por Seu poder. Por essa razão Davi, tendo confessado
que a grandeza de Deus é indescritível, declara que não deixará de proclamá-
la.151
Portanto, não nos cansemos de buscar conhecer a Deus, pois esta investiga-
ção de tal modo mantém a admiração do nosso espírito que o comove e lhe inspi-
ra genuíno sentimento.
15. A Glória de Deus e a Esperança da Glória
Ora, este conhecimento não somente deve levar-nos a glorificar a Deus e a servi-
lo,b
mas também deve despertar e fomentar em nós a esperança da vida futura.
Quando nos apercebemos de que os ensinamentos do nosso Senhor, tanto sobre a
Sua clemência como sobre a Sua verdade, não são exaustivos, devemos reconhe-
cer que são apenas figuras ou amostras da realidade que ainda será plenamente
revelada, no dia estabelecido por Deus para esse glorioso fato.
Por outro lado, quando vemos os bons e os inocentes carregados de afli-
ções, atormentados por injúrias, oprimidos por calúnias, maltratados por ultrajes
e humilhações, e, ao contrário, vemos os maus florescerem e prosperarem, go-
zando tranqüilidade e honras humanas, sem nenhum pesar, só podemos pensar na
existência de uma outra vida, na qual a iniqüidade tenha seu justo castigo e o
explorador seja entregue à justiça. Além disso, quando vemos como tantas vezes
os fiéis são castigados pela vara do Senhor, devemos ter toda a certeza de que
muito menos os ímpios escaparão do castigo divino.
Cabe-nos confessar, pois, que em cada obra de Deus em particular, e princi-
palmente no conjunto de todas elas, as operações do Seu poder estão representa-
dos como que em telas de pintor, pelas quais toda a humanidade é convidada a
tomar posse deste conhecimento e, por ele, para o gozo da suprema felicidade. E
por mais claramente se manifestem as operações do poder de Deus, muitas vezes
só chegamos a entender para onde elas tendem, qual a sua importância e a que
fim se destinam; até que, descendo para dentro de nós mesmos, consideramos as
maneiras pelas quais Deus manifesta em nós a Sua vida, a Sua sabedoria e o Seu
poder, e exerce em nosso favor a Sua justiça, a Sua bondade e a Sua clemência.
O Conhecimento de Deus
a
Catecismo, Art. III.
150
Atos 17.27,28.
151
Salmo 145.1-3.
b
cultum.
66 As Institutas – Edição Especial
16. A Luz de Deus e a Cegueira dos Homens
Todavia, apesar da claríssima luz sob a qual as obras de Deus são expostas à
contemplação, representando o Seu Ser e a Sua realeza imperecível, tão preso à
carne está o nosso espírito que não conseguimos ver esses testemunhos tão
nitidamente manifestosª. Sim, pois, quanto à composição do universo, quantos
elevam os olhos aos céus? E dos que percorrem muitas regiões da terra, quantos
se lembram do Criador? Não se põem, antes, a contemplar as criaturas, es-
quecidos do Criador?
Quanto às coisas que sucedem no curso comum da vida diária, não são
muitos os que imaginam que são guiados pela roda do destino cego, que os faz
girar e agitar-se para cá e para lá, em vez de atribuírem à providência de Deus o
bom governo do mundo? E se alguma vez somos constrangidos por estas coisas a
pensar em Deus (o que acontece necessariamente com todos os seres humanos),
logo depois de conceber uma débil noção de uma divindade duvidosa, recaímos
na loucura da nossa carne e, com nossa vaidade, corrompemos a pura verdade de
Deus. É bem verdade que nisso nós somos diferentes uns dos outros. Cada um
inventa seus erros particulares. Nisto, porém, somos parecidos: Todos nós nos
desviamos do único Deus verdadeiro e nos deixamos dominar por nossas enga-
nosas imaginações. Este mal não afeta somente os elementos do povo simples e
inculto, mas atinge também os que noutras áreas se mostram excelentes e instru-
ídos. Quanta insensatez, quanta tolice, tem mostrado a imensa linhagem dos filó-
sofos! Porquanto, ainda que poupemos os outros filósofos que abusivamente er-
raram, que dizer de Platão,152
que, sendo o mais sóbrio e o mais razoávelb
deles
todos, e não estando distante da religião, perdeu-se em sua busca de um deus
corpóreo – o que é impróprio e totalmente indigno da majestade divina. E que
dizer dos outros, se os principais, que deveriam esclarecer o restante do povo,
erram tão grosseiramente?
De igual modo, quanto ao governo das coisas humanas, é tão patente a ação
da providência divina que é impossível negá-la. Mas isso não dá proveito maior
do que acreditar que todas as coisas são deixadas em desordemc
e temerariamen-
te dirigidas pelo destino cego.Atal ponto chega a nossa propensão para a vaidade
e para o erro! Como sempre, estou falando dos que atingiram alto grau de exce-
lência, não dos tipos vulgares, cuja loucura em contaminar e corromper a verda-
de ultrapassa todas as medidas.
a
Catecismo, Art. III (Opera selecta, I, 380).
152
Em Timœo (nota de rodapé da edição de 1539).
b
Estas palavras (três no original francês) estão sem as suas equivalentes latinas em 1539.
c
Sursum deorsum versari.
67
17. Revelação que nos Deixa sem Defesa
Eis porque em vão resplendem tantas luzes no edifício do universo para manifes-
tação da gloria do Criador. Tal é o brilho que sobre nós seus raios lançam! E,
apesar disso, essas luzes não nos podem conduzir pelo reto caminho. É bem ver-
dade que nos enviam certas centelhas, mas estas se apagam antes de tornar-se
plena luz. Por isso o apóstolo, na mesma passagem na qual afirma que os mundos
são figuras das coisas invisíveis,153
logo a seguir declara que é pela fé que o
mundo foi construído pela Palavra de Deus. Com isso ele quer dizer que a Divin-
dade invisível é representada pela figura do mundo, mas que os nossos olhos são
incapazes de observá-la, a não ser que sejam iluminados interiormente pela reve-
lação de Deus.
Mesmo onde o apóstolo Paulo ensina que o que se deve conhecer de Deus é
revelado na criação do mundo, ele não se refere a uma revelação que o entendimen-
to humano possa compreender; antes, ele dá a entender que essa revelação não faz
mais que nos tornar inescusáveis.154
Embora em certa passagem o mesmo apóstolo
ensine que não é preciso distanciar-nos para buscar a Deus, porque Ele “não está
longe de cada um de nós,155
noutra passagem nos ensina a importância desta proxi-
midade, dizendo que Deus, “nas gerações passadas, permitiu que todos os povos
andassem nos seus próprios caminhos; contudo, não se deixou ficar sem testemu-
nho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas,
enchendo o vosso coração de fartura e de alegria”
.156
Vê-se, pois, que, embora não
sendo desprovido de testemunhos pelos quais generosa e brandamente Deus convi-
da os homens a que O conheçam, eles, entretanto, não deixam de seguir os seus
próprios caminhos – isto é, seus erros, que só merecem condenação.
Sendo, porém, que nos falta a capacidade natural para obtermos o puro e
claro conhecimento de Deus, todavia, visto que a causa dessa ignorância está em
nós, não temos desculpa. A verdade é que não nos adianta alegar ignorância,
porque nós mesmos sempre nos persuadimos da nossa negligência e da nossa
ingratidão. E certamente será uma pobre e indignaª defesa o homem dizer que
não tem ouvidos para ouvir a verdade, quando as próprias criaturas destituídas de
voz a proclamam alto e bom som! Também não pode alegar que não tem olhos
para ver o que muitas criaturas sem olhos mostram! Inútil será ainda defender-se
dizendo que a sua mente é incapaz de entender a verdade, quando todas as criatu-
ras irracionais a ensinam!
Portanto, não temos desculpab
por andarmos extraviados e perdidos, pois
todas as coisas nos mostram o caminho certo. Contudo, ainda que essa ignorân-
O Conhecimento de Deus
153
Hebreus 9.23; 11.3.
154
Romanos 1.18-20.
155
Atos 17.27 (nota da ed. de 1539).
156
Atos 14.16,17.
a
Feliz correção de digna, impressa em 1539.
b
Expressão jurídica.
68 As Institutas – Edição Especial
cia deva ser atribuída aos homens que, em sua maldade, corrompem logo a
semente do conhecimento de Deus semeada em seu entendimento pelas admi-
ráveis obras de Deus na natureza, impedindo-a de dar bom fruto, a verdade é
que não somos suficientemente habilitados pelo simples e nu testemunho que
as criaturas dão da grandeza de Deus. Sim, porque, tão logo experimentamos
um pouco da Divindade pela contemplação do universo, em seguida abandona-
mos o Deus verdadeiro e em Seu lugar erigimos os sonhos e as imaginações do
nosso cérebro, como também usurpamos o louvor da justiça, da sabedoria e do
poder de Deus. Acresce que, de tal maneira obscurecemos as Suas realizações
diárias e as invertemos com o nosso mau julgamento, que até tomamos para
nós o louvor devido ao seu Autor.
18. Dádiva de um Recurso Melhor
Portanto, como o Senhor expõe a todos, sem exceção, a clara percepção da Sua
majestade, figurada em Suas criaturas, para despojar a impiedade dos homens de
toda defesaa
, assim também, por outro lado, ele socorre com um remédio mais
eficaz a ignorância daqueles aos quais Ele tem prazer em dar-se a conhecer para
salvação. Porque, para instruí-los, Ele não se restringe ao uso de criaturas mudas,
mas abre os Seus lábios sagrados e, não somente lhes declara que é necessário
adorar algum deus, mas também mostra que Ele é o Deus que é necessário ado-
rar; e não se limita a lhes ensinar que é preciso reconhecer um só Deus, mas, além
disso, apresenta-se como Aquele a quem unicamente devem apegar-se. E de fato
o Senhor, desde o princípio, tem observado esta ordem na vocação dos Seus
servos: Além dos ensinamentos dados pelos meios já mencionados, Ele faz uso
da Sua Palavra,b
que é um meio de indicação mais seguro e mais acessível para
conhecê-lo. Desta maneira, Adão, Noé, Abraão e os outros patriarcas puderam
conhecê-lo, iluminados que foram por Sua Palavra. Seja que esta lhes tenha sido
comunicada por comunicações diretas e visões, seja que tenha sido revelada pri-
meiramente a seus antecessores e deles recebida, a Palavra lhes foi dada pela sua
pregação, como que passando de mão em mão. E foi assim que eles foram parti-
cipantes da Palavra divina e tiveram o firme entendimento de que ela procedia de
Deus. Disso o Senhor deu certeza quando Lhe aprouve revelar-se por meio dela.
Ele se manifestou, então, a poucos, dando-lhes sinal manifesto da Sua presença,
e lhes confiou o tesouro da Sua sã doutrina, para que fossem os Seus despenseiros
e ministradores com vistas à posteridade.
Vemos assim que Abraão comunicou à sua família a aliança da vida eterna
que lhe fora dadac
, e com sofrimento e dor ela foi conservada até às gerações
futuras. Por isso, desde aquele tempo, a linhagem de Abraão se mantém separada
a
Expressão jurídica.
b
“É necessário vir à Palavra de Deus onde Deus é muito bem descrito”(Catecismo, Art. III).
c
1539 acrescenta: cœlesti oraculo.
69
das outras nações por esta diferença: Por uma singular graça de Deus, foi-lhe
dada esta comunhão na Palavra.
Pois bem, quando pareceu bem ao Senhor edificar uma igreja mais segregada
ainda, Ele publicou mais solenemente aquela mesma Palavra, e foi da Sua vonta-
de que ela fosse redigida como documentoa
escrito. Por isso, desde quando os
oráculos ou as revelações da Palavra de Deus começaram a ser reduzidas à escri-
ta, ela tem sido mantida entre os fiéis e tem sido transmitida entre eles, uns aos
outros. E, com vistas aos seus sucessores, Deus supriu Seu povo de uma provi-
dência muito especial. Porque, se considerarmos como o entendimento humano
tende a esquecer-se de Deus, com que facilidade se deixa arrastar pelo erro, como
se dispõe com leviandade a sonhar o tempo todo com novas religiões e imitações,
poderemos reconhecer facilmente quão necessário foi que a doutrina celestial
fosse fixada por escrito. Sim, porque, com esse recurso, não há perigo de esque-
cimento ou de desaparecimento, destruída pelo erro, ou de ser corrompida pela
audácia dos homens. Fica, pois, manifesto que Deus se serve da Sua Palavra em
benefício daqueles que Ele deseja instruir para frutificação, estando claro que a
Sua imagem e semelhança impressa no edifício do universo não é suficiente.
Portanto, é necessário que sigamos este caminho, se de coração aspiramos à ge-
nuína contemplação da Sua verdade.
É necessário, repito, retornar sempre à Palavra, na qual Deus nos é revelado
e retratado ao vivo por Sua obras, sendo elas, porém, avaliadas, não segundo a
perversidade do nosso julgamento, mas segundo a regra da verdade eterna. Se
nos desviarmos dessa Palavra, seja qual for o rumo que tomemos, jamais chega-
remos ao nosso alvo, pois estaremos correndo fora do caminho. Devemos consi-
derar a luz de Deus, à qual o apóstolo Paulo se refere como “inacessível”,157
como um labirinto onde nos perderemos, a não ser que sejamos conduzidos pelo
fiob
da Palavra.158
Tal é a situação, que é muito melhor ir mancando por este
caminho do que correr bem por fora dele.
19. O Ensino da Palavra
Por algo é que Davi , depois de declamar descrevendo como a glória de Deus é
proclamada pelos céus, como as obras de Suas mãos são anunciadas pelo
firmamento, e como pela sucessão bem ordenada do dia e da noite a Sua majesta-
de é manifestada, passa ele à celebração da Palavra de Deus. “A lei do Senhor é
perfeita”, diz ele, “e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria
aos símplices. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o manda-
O Conhecimento de Deus
a
Expressão jurídica.
157
1 Timóteo 6.16.
b
linea.
158
Certamente uma referência ao labirinto do minotauro da mitologia, onde a segurança do herói Teseu foi
dada pelo fio que Ariadne providenciou. NT.
70 As Institutas – Edição Especial
mento do Senhor é puro e ilumina os olhos”.159
O que significa o seguinte:Adoutrinaa
ministrada pelas obras criadas por Deus é universal, dirige-se a todos, ao passo que
a instrução dada pela Palavra é a escola particular dos filhos de Deus.
Ora, quando está claro que a palavra que se propõe é de Deus, ninguém será
tão atrevido (a não ser que seja totalmente desprovido de bom senso e de senti-
mento de humanidade) que ouse descrer dela e rejeitá-la. Mas, como não é todo
dia que vêm novas comunicações do céu, e só temos a Escritura, na qual Deus
quis gravar a Sua verdade para ser perpetuamente lembrada, é preciso verificar,
ainda que resumidamente, a razão pela qual ela tem autoridade para os fiéis, que
a recebem como se estivessem ouvindo a voz do próprio Deus. Este assunto deve
ser tratado mais amplamente e estudado com esmerado empenho. Contudo, os
leitores me perdoarão se, para não prejudicar o objetivob
deste livro, eu lhe dedi-
car menor extensão do que a requerida pela grandeza deste tema.
20. AAutoridade da Escritura não se Subordina
ao Interesse da Igreja
Muitos são os que se deixaram levar pelo erro por demais pernicioso de afirmar
que a importância da Escritura só é real na medida e na proporção a ela atribuídas
pela igreja, como se a verdade eterna e inviolável de Deus estivesse estribada no
bel-prazer dos homens! Pois, numa afronta vergonhosa ao Espírito Santo, eles
levantam esta questão: “Quem poderá dar-nos a certeza de que a Escritura proce-
de de Deus? Quem nos poderá garantir que ela foi preservada em sua inteireza até
o nosso tempo? Quem nos vai persuadir de que um livro deve ser aceito e obede-
cido, enquanto outro deve ser rejeitado? Não é à igreja que cabe impor regras a
todas estas coisas?” Daí concluem eles que é a igreja que determina o grau de
reverência que se deve ter pela Escritura e quais são os livros que devem ser
considerados canônicos.
Desta maneira, estes homens blasfemos, pretendendo estabelecer uma tira-
nia sem freios e sem limites com aparência de igreja, não se importam com os
absurdos em que eles e os outros se envolvem, desde que consigam que as pesso-
as simples reconheçam que a igreja pode fazer tudo o que quiser.
Mas, nesse caso, que seria das pobres consciências que procuram ter firmec
segurança da vida eterna, se todas as promessas acerca da vida eterna estivessem
apoiadas somente no julgamento dos homens? Recebendo essa informação, como
poderiam tranqüilizar-se? Por outro lado, como isso provocaria a zombaria dos
ímpios e o descrédito geral da fé cristã – a opinião de que a sua autoridade tem
por fundamento a bondade e a boa vontade dos homens!
159
Salmo 19.1,2,7,8.
a
institutio.
b
ratio.
c
solidam.
71
21. A Escritura Constitui o Fundamento da Igreja
Basta, porém, uma só palavra do apóstolo Paulo para fazer calar esses falsos
mestres. Sim, porquanto ele declara que a igreja está baseada no “fundamento
dos apóstolos e profetas”.160
Se a doutrina dos profetas e dos apóstolos é o funda-
mento da igreja, primeiro importa que haja firme certeza dessa doutrina para que,
somente então, a igreja comece a existir. Tampouco é válido que se ponham a
ironizar alegando que, ainda que a igreja tenha a sua origem nos escritos proféti-
cos e apostólicos, não se sabe que livros podem ser atribuídos aos profetas e aos
apóstolos, a não ser que a igreja intervenha e determine quais são.
Pois bem, se a igreja cristã, desde o princípio, esteve fundada nos escritos dos
profetas e na pregação dos apóstolos, a aceitação dessa doutrina, onde quer que se
encontre, é anterior à igreja, mesmo porque, sem ela, a igreja nunca existiria. Por-
tanto, é pura fantasia e mentira dizer que a igreja tem autoridade para julgar a
Escritura e que é ela que, a seu bel-prazer, determina a certeza que se pode ter ou
não ter quanto à Palavra de Deus!Averdade é que, quando a igreja recebe e aprova
a Escritura, não é a igreja que a torna autêntica, como se antes disso ela fosse
duvidosa e incerta. Muito ao contrário, porque é a igreja que reconhece que a Escri-
tura é a verdade de Deus, e, conforme o seu dever, a respeita sem restrições.
22. AAutoridade da Escritura Atestada pelo
Testemunho Interno do Espírito
Com relação ao que eles nos perguntam: Como nos convenceremos de que a
Escritura provém de Deus, se não recorrermos ao decreto da igreja? Fazer essa
pergunta é como se alguém nos perguntasse como aprendemos a distinguir entre
a luz e as trevas, entre o preto e o branco, entre o amargo e o doce. Porque a
Escritura não nos mostra menos evidência da sua verdade do que os objetos pre-
tos ou brancos nos mostram de suas cores, e as coisas doces ou amargas nos
mostram do seu sabor.ª
Se, pois, quisermos firmar a nossa consciência de modo que não permaneça
agitada e em perpétua dúvida, é preciso que coloquemos a autoridade da Escritu-
ra muito acima das razões ou das circunstâncias ou das conjeturas humanas; quer
dizer, é preciso que a estabeleçamos com base no testemunho do Espírito Santo.
Porque, ainda que, por sua própria majestade, a Escritura nos leve a respeitá-la,
não obstante, verdadeiramente só começa a tocar-nos quando é selada em nosso
coração pelo Espírito Santo. Iluminados, pois, pelo poder do Espírito Santo, não
é mais baseados em nossa avaliação e na de outros que nós cremos que a Escritu-
ra é a Palavra de Deus. É graças à certeza dada por uma autoridade superior que
concluímos que, sem dúvida nenhuma, a Escritura nos foi outorgada diretamente
O Conhecimento de Deus
160
Efésios 2.20.
a
Doutrina do testemunho interno do Espírito Santo.
72 As Institutas – Edição Especial
por Deus – a tal ponto, que é como se nela contemplássemos a sublimidade de
Deus em Seu Ser essencial.a
Não andamos em busca de argumentos ou de elementos que apontem para
probabilidades, para nessas coisas basearmos a nossa decisão, mas, sim, submete-
mos o nosso juízo e o nosso entendimento a Ele, e o fazemos com a convicção de
quem não precisa sujeitar-se a nenhum outro julgamento. E chegamos a esta certe-
za, não como alguns que costumam acatar precipitadamente uma coisa desconhe-
cida para sua posterior decepção, mas porque estamos muitíssimo seguros de que
na Escritura temos a verdade imbatível. Tampouco o fazemos como fazem alguns
ignorantes, habituados a sujeitar sua mente à escravidão das superstições. Agimos
como agimos porque sentimos que na Escritura reside e se manifesta o poder de
Deus, que nos atrai e nos impulsiona à obediência ardorosa, consciente e voluntá-
ria, e, ainda mais, com eficácia maior que a acaso produzida pela humana vontade
ou pelo saber humano. Vê-se, pois, que a nossa convicção não requer razões, uma
vez que se apóia numa excelente razão. Isto é, a nossa mente está mais firme e mais
segura do que se estivesse baseadab
em razões, fossem quais fossem.
Finalmente, o que sentimos é de tal natureza que só pode ter sido gerado
por revelação celestial. O que estou dizendo não é outra coisa senão o que cada
cristão fiel experimenta pessoalmente (reconhecendo, porém, que as palavras
são muito inferiores à dignidade do argumento e não são suficientes para expli-
car bem o tema).
23. A Primazia da Fé
Se não tivermos esta certeza mais alta e mais firme que todo e qualquer juízo
humano, inútil será tentar provar a autoridade da Escritura com argumentos da
razão, inútil será tentar estabelecê-la por decisão da igreja ou confirmá-la por
outros meios. A razão disto e que, se primeiro não for posto este fundamento,
permanecerá a dúvida. Como, ao contrário, depois de recebida com disposição
para obedecê-la, tendo sido eliminada toda dúvida, os argumentos da razão, que
antes não tinham grande força para plantar e fixar a certeza em nosso coração,
agora poderão prestar boa ajuda. Nem se pode descrever a grandeza da confirma-
ção dada por esta consideração, quando avaliamos diligentemente como Deus
dispôs e ordenou tão bem a dispensação da Sua sabedoria; quando reconhecemos
quanto a doutrina se nos revela celestial, nada tendo de terreno; e quando vemos
a extraordinária harmonia existente entre todas as suas partes; e ainda, quando se
vêem nela outras coisas reconhecidas como capazes de dar autoridade a qualquer
escrito. Sentimos ainda mais fortalecido o nosso coração quando consideramos
que, mais que a elegância das palavras, é a sublimidade do conteúdoc
que arreba-
a
numen.
b
mens quiescit. (Cf. Agostinho: “Mens humana natura inquieta quiescit in Deo”.)
c
rerum.
73
ta a nossa extasiada admiração pela Escritura. E a verdade é que isso não aconte-
ceria, se não houvesse a intervenção da providência divina, agindo no sentido de
nos transmitir os altos mistérios do reino dos céus por meio de palavras em geral
simples e pouco eloqüentes. É muito bom que seja assim, para evitar que, se
fossem empregadas palavras grandiloqüentes, os ímpios a caluniassem, dizendo
que todo o seu poder está na sua forma de expressão.
24. A Força da Simplicidade da Escritura
Pois bem, visto que a sua simplicidade rústica, pouco menos que agresteª, nos
inspira muito maior reverência que toda a eloqüência retórica dos oradores do
mundo, qual deve ser o nosso pensamento, senão que o poder da verdade caracte-
riza de tal modo o conteúdo da Escritura que ela não precisa de nenhum artifício
de palavras?
Logo, não é sem motivo que o apóstolo declara que a fé cristã dos coríntios
não se apoiava “em sabedoria humana e sim no poder de Deus”. Por isso a sua
pregação entre eles não consistia “em linguagem persuasiva de sabedoria, mas
em demonstração do Espírito e de poder.161
Porque a verdade está livre de toda
dúvida, visto que, sem nenhuma ajuda, ela é suficiente para manter-se.
Pois bem, quanto essa virtude é própria da Escritura transparece do fato
de que, de todos os escritos humanos, não há nenhum que, por mais que esteja
ornado de requintes de engenho e arte, tenha o poder que a Escritura tem de
comover-nos. Admito que a leitura de Demóstenes ou Cícero, de Platão ou
Aristóteles, ou de qualquer outro da classe deles, nos atrai maravilhosamente,
nos deleita e nos comove ao ponto de nos arrebatar. Mas, quando deles nos
transferimos para a leitura das Escrituras Sagradas, queiramos ou não, elas nos
despertam tão vivamente, penetram de tal modo o nosso coração e de tal ma-
neira se fixam em nossa medula, que toda a força dos retóricos e dos filósofos
se evaporab
, em comparação com a eficácia das Escrituras no sentimento que
nos infundem. Daí se infere que é fácil perceber que as Escrituras Sagradas têm
certa propriedade divina pela qual nos inspira. De longe essa qualidade supera
todas as virtudes da criatividade humana.
25. A Importância Relativa da Autoridade da Igreja
Por outro lado, o comum acordo da igreja não é destituído de importância. Não é
preciso considerar como nulo de qualquer valor o fato de que, depois de tantos
séculos desde que foram publicadas as Escrituras, tem havido permanente acor-
O Conhecimento de Deus
a
inculta et tamen non rudis.
161
1 Coríntios 2.4,5.
b
No prefácio do Psalterium quintuplex (1509) Lefèvre descreve a mesma experiência: “Uma luz tão brilhante
atingiu o meu olhar que as doutrinas humanas me parecem trevas, em comparação com os estudos divinos”.
74 As Institutas – Edição Especial
do no sentido de obedecê-las. E por mais que o Diabo tenha se esforçado, de
muitas maneiras, para oprimi-las ou derrubá-las ou até mesmo para apagá-las
totalmente da memória dos homens, elas sempre se mantêm inexpugnáveis e
vitoriosasª, como a palmeira da ilustração.162
Porque não há quase nenhum retórico
ou filósofo, dos melhores e mais inteligentes, que não tenha aplicado a sua sabe-
doria contra elas. Todavia, todos eles nada conseguiram. Todos os poderes da
terra armaram-se para destruir a verdade das Escrituras, e todos os seus esforços
se evaporaram.
Tendo elas sofrido agressões de toda parte, como teriam resistido, se só
contassem com suporte humano? Pelo que, logo se deve concluir que a Escritura
Sagrada que temos é de Deus; sim, pois, apesar de toda a astúcia e de todo o
poder dos homens, ela segue adiante em seu caminho, e por seu próprio poder.
Além disso, não foi só uma cidade ou nação que concordou em lhe dar boa
acolhida, mas, em toda a extensão da terra, no comprimento e na largura, ela
obteve autoridade credenciada pelo consenso de todos os povos, os quais, em
nenhuma outra coisa tinham algo em comum. Ora, deveríamos ficar emociona-
dos diante desse consenso de nações tão diferentes e que nas outras coisas discor-
dam entre si – nos seus costumes e no seu modo de viver. É evidente que o poder
de Deus foi necessário para que houvesse esse acordo. Contudo, estas considera-
ções terão maior peso ainda, quando levarmos em conta a piedadeb
e o santo viver
dos que concordaram em acatar as Escrituras. Não digo isso de todos, mas da-
queles que o nosso Senhor constituiu luzeiros em Sua igreja, para esparzirem a
luz do seu santo viver.
26. O Testemunho dos Mártires
Ademais, com que segurança devemos receber esta doutrina, selada e testificada
que foi pelo sangue de tantos fiéis! Depois de a terem recebido, não tiveram
dificuldade em morrer por ela corajosamente, e até com alegria. E nós, a quem a
Escritura foi dada com tal garantia e confirmação, como não a acolheremos com
a mais firme e inabalável convicção? Não é fraca aprovação da Escritura a que foi
assinada com o sangue de tantas testemunhas. Principalmente se considerarmos
que eles não sofreram a morte por terem dado testemunho de sua fé de maneira
furiosa e frenéticac
, como às vezes acontece com fanáticos que se sobrecarregam
de erros transformados em argumentos. Os mártires aos quais me refiro morre-
ram por terem zelo de Deus – zelo ao mesmo tempo equilibrado, firme e constante.
a
Um florão de J. Girard (impressor das Institutas em 1541 e em 1545), também representava uma palmeira
ereta com a divisa: “pressa valentior”.
162
Ilustração feita pelo editor J. Gérard, simbolizando o espírito de vitória. Ver nota ª, indicada no texto. NT.
b
Acréscimo em 1539.
c
phanatica intemperie.
75
Existem muitos outros motivos, e não fracos, pelos quais a majestade e a
dignidade da Escritura não somente podem ser comprovadas no coração dos cris-
tãos fiéis, mas também podem defendê-la vigorosamente contra a astúcia malig-
na dos caluniadores. Entretanto, esses motivos não são suficientes para funda-
mentar bem a sua certeza, enquanto não acontecer que o Pai celestial, fazendo
resplender a Sua divindade, os livre de toda dúvida e contestação; então eles lhe
prestarão firme reverência.
Assim é que, finalmente, a Escritura nos dará um satisfatório conhecimento
de Deus, para a nossa salvação, quando esta certeza tiver o suporte dado pela
persuasão interna operada pelo Espírito Santo. Os testemunhos humanos que ser-
vem para confirmá-la não serão, portanto, inúteis, quando seguem o testemunho
principal e soberano. Subservientes a esse testemunho superior, eles serão meios
auxiliares e secundários para suprir as nossas deficiências pessoais.
27. Indevida Exaltação do Espírito
em Detrimento da Palavra.
Tenha-se em conta, porém, que aqueles que, menosprezando a Escritura, imagi-
nam sabemos lá que caminho para chegar a Deus, não devem ser considerados
apenas como pessoas equivocadas, mas, sim, como pessoas enlouquecidas.a
Desse
tipo de gente surgiram alguns que têm a pretensão de que seguem a doutrina do
Espírito Santo,b
desprezam toda leitura e zombam da simplicidade daqueles que
ainda seguem a letra que, além de morta, mata – como eles dizem.
Mas eu gostaria que eles dissessem que espírito é esse, cuja inspiração os
eleva a tais alturas que os leva a uma atitude de atrevimento, chegando eles a
menosprezar todo o ensino da Escritura, criticando-a como pueril e pior que vul-
gar. Se responderem que é o Espírito de Cristo, direi que a segurança deles é por
demais ridícula. Digo isso porque suponho que eles concederão que os apóstolos
e os demais cristãos da Igreja Primitiva foram inspirados ou iluminados justa-
mente pelo Espírito de Cristo. Pois bem, nenhum deles aprendeu do Espírito de
Cristo a menosprezar a Palavra de Deus, mas, ao contrário, foram por Ele indu-
zidos à atitude de grande reverência por ela, como disto dão claro testemunho os
seus escritos.
Gostaria que aqueles fanáticos respondessem também esta pergunta: Rece-
beram eles outro Espírito, diferente do que o Senhor prometeu aos Seus discípu-
los? Mesmo que tenham chegado a um alto grau de insanidade, não acredito que
a sua loucura seja tão frenética que os leve à ousadia de gabar-se de algo desse
tipo. Pois bem, quando o Senhor prometeu o Espírito, como Este seria? O Senhor
O Conhecimento de Deus
a
Acréscimo em 1539.
b
Calvino escreveu Contra a Seita Fantástica e Furiosa dos Libertinos que se Dizem Espirituais (Contre la
secte phantastique et furieuse des Libertins qui se nomment Spirituelz), tratado publicado em 1545.
76 As Institutas – Edição Especial
mesmo explica que o Espírito não falaria diretamente, mas sugeriria à mente dos
apóstolos o que por Sua Palavra Ele, Jesus Cristo, lhes tinha ensinado.163
Vê-se, pois, que não é função do Espírito Santo, prometido por Jesus Cris-
to, imaginar novas revelações, até então desconhecidas, nem forjar nova classe
de doutrina, levando-nos a afastar-nos da doutrina do Evangelho que já tínhamos
recebido. O que, sim, cabe ao Espírito Santo fazer é selar e confirmar em nosso
coração a doutrina que o Evangelho nos ensina.
28. A Escritura Constitui o Critério para
Habilitar-nos a Discernir o Espírito
Se quisermos obter algum fruto ou algum proveito do Espírito de Deus, deve-
mos dedicar-nos diligentemente a ouvir e a ler a Escritura. Se, porém, alguém
que despreza a sabedoria da Palavra de Deus ensinar-nos outra doutrina, temos
todo o direito de suspeitar que essa outra doutrina não passa de vaidade e men-
tira. E não será de estranhar, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de
luz.164
E então, que autoridade terá o Espírito entre nós, se não O pudermos
discernir por meio de um sinal inconfundível? E, verdadeiramente, o sinal nos
é demonstrado com muita clareza pela voz do Senhor, mas esses infelizes, em
sua confusão, buscam voluntariamente o erro quando buscam o Espírito por
eles mesmos e não por Ele.
Mas eles alegam que seria um grande absurdo o Espírito de Deus, a quem
todas as coisas devem estar sujeitas, ficar subordinado à Escritura. Como se tam-
bém fosse uma vergonha para o Espírito Santo ser Ele sempre e em toda parte
igual a Si mesmo, perpetuamente constante, sem variar em nenhum aspecto. Cer-
tamente, se O reduzíssemos ao ponto de enquadrá-lo em regras humanas ou
angélicas ou outras, então se poderia dizer que Ele teria sido rebaixado e reduzi-
do à servidão. Comparado, porém, Consigo mesmo, e considerado em Si mesmo,
quem poderá dizer que com isso O estamos ofendendo? Mas eles dizem que o
Espírito é examinado dessa maneira. Confesso que sim. Trata-se, porém, de um
exame por meio do qual Ele quer que a Sua majestade seja estabelecida entre nós.
Revelando-se Ele a nós, isto deveríamos considerar suficiente. Entretanto, para
que em Seu nome o espírito de Satanás não tenha acesso, Ele quer que O reco-
nheçamos em Sua imagem, que Ele imprimiu nas Escrituras. Ele é o seu Autor; e
não pode variar nem ser diferente de Si mesmo. Portanto, deve permanecer sem-
pre como por elas se deu a conhecer. Isso não O desonra, a não ser que pensemos
que Lhe seria honroso desfazer-se de Sua dignidade pessoal.
163
João 16.13.
164
2 Coríntios 11.14.
77
29. Na Letra, o Espírito
Quanto ao fato de nos criticarem por apegar-nos demais à letra que mata, nisto
mostram que não poderão escapar do castigo de Deus por desprezarem a Escritu-
ra. Porquanto claro está que nesta passagem165
Paulo combate os falsos mestres
que, exaltando exageradamenteª a Lei desvinculada de Cristo, faziam o povo
afastar-se da graça do Novo Testamento, ao qual o Senhor tinha feito esta pro-
messa: “Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas ins-
creverei”.166
Vê-se, pois, que a Lei de Deus é letra morta e mata os que a seguem,
quando está desvinculada da graça de Cristo e somente soa nos ouvidos, mas não
toca o coração. Mas se o Espírito a imprime de fato na sede da vontade, e se Ele
nos comunica Jesus Cristo, a Escritura é de fato a Palavra da vida,167
converte as
almas e “dá sabedoria aos símplices”168
O certo é que, na mesma passagem, o apóstolo denomina a sua pregação
“ministério do Espírito”.169
O que ele quer dizer é que o Espírito de Deus está de
tal maneira unido e ligado à Sua verdade, por Ele expressa nas Escrituras, que,
quando estas são tratadas com a reverência que merecem, Ele por elas manifesta
o Seu poder. Isso não contradiz o que acima foi dito – que a Palavra só é certa e
segura quando comprovada pelo testemunho do Espírito. Isso porque o Senhor
juntou, como por um elo mútuo, a certeza do Espírito e a de Sua Palavra, para que
a recebamos com espírito de obediência, ao vermos reluzir nela o Espírito, que se
mostra com tal claridade que até nos leva a contemplar a face de Deus! E, por
outro lado, para que também, sem medo de engano ou erro, recebamos o Espírito
de Deus, reconhecendo-o em Sua imagem, isto é, em Sua Palavra.
E certamente assim é!
Claro, porque Deus não comunicou uma palavra aos homens para tirá-la de
circulação imediatamente após a vinda do Seu Espírito. Ao contrário, Ele enviou
o Seu Espírito por cujo poder já nos tinha concedido a Sua Palavra para realizar a
Sua obra, confirmando assim a eficácia da Palavra.
30. A Luz do Espírito na Palavra
Dessa maneira Cristo abriu o entendimento de dois discípulos, não para que eles
pusessem de lado a Escritura e assim se tornassem sábios, mas, sim, para que a
compreendessem.170
De igual modo, Paulo, exortando os tessalonicenses, rogan-
do-lhes que não extinguissem o Espírito,171
não os leva a passear pelos ares em
O Conhecimento de Deus
a
Palavra acrescentada em 1539.
165
2 Coríntios 3.6.
166
Jeremias 31.33 e Hebreus 8.8-12.
167
Filipenses 2.16.
168
Salmo 19.7.
169
2 Coríntios 3.8.
170
Lucas 24.27,45.
171
1 Tessalonicenses 5.19,20.
78 As Institutas – Edição Especial
vãs especulações alheias à Palavra, mas logo acrescenta que não devem menos-
prezar as profecias. Sem dúvida, com esta advertência o apóstolo quer dizer que
a luz do Espírito se apaga quando as profecias são menosprezadas.
Diante disso, que dirão aqueles fanáticosª orgulhosos, que só dão valor a
esta iluminação e repudiam a Palavra de Deus, colocando atrevidamente no lugar
dela os produtos dos seus sonhos e fantasias? Certamente bem outra deve ser a
sobriedade dos filhos de Deus, os quais se sentem privados de toda luz da verda-
de quando não contam com o Espírito de Deus; não ignoram, porém, que a Pala-
vra é o instrumento pelo qual o Senhor concede aos fiéis a iluminação do Seu
Espírito. Porque eles não conhecem outro Espírito que nãoAquele que habitou os
apóstolos e que falou por meio deles. E para ouvir as suas palavras os fiéis são
sempre chamados.
31. A Escritura Fala do Único Deus Vivo e Verdadeiro
Temos ensinado que o conhecimento de Deus é amplamente demonstrado na obra
de criação e composição do universo, em todas as Suas criaturas, e que, todavia,
será exposto com maior clareza por Sua Palavra. Devemos considerar agora se
Deus se apresenta na Escritura tal qual O vimos figurado em Suas obras. Este
assunto será longo, se for tratado diligentemente. Mas eu me contento em oferecer
um resumo pelo qual a consciência dos fiéis seja admoestada de molde a percebe-
rem eles quão essencial é que sejam levados a conhecer a Deus na Escritura e sejam
dirigidos a um objetivo certo e definido de maneira que o alcancem.
Primeiro, consideremos que o Senhor se revela como o Deus que, após
haver criado os céus e a terra, espalhou Sua graça e Sua benevolência sobre todo
o gênero humano. Todavia, sempre e perpetuamente nutriu, sustentou e manteve
a Sua graça especial para com os crentes, e, em reciprocidade, eles O conhecem
e Lhe prestam honra. Igualmente, Ele põe diante dos olhos deles (como, diga-
mos, numa pintura), qual é a constância da Sua bondade entre os fiéis, com que
cuidado providencial Ele vela por eles, quão inclinado se mostra a lhes fazer o
bem, qual o poder do Seu socorro, quão ardentemente os ama, como é grande a
Sua paciência, pela qual suporta as faltas deles, que paternal clemência demons-
tra quando os castiga, e que perene segurança lhes dá de Suas promessas.
Por outro lado, Ele manifesta o Seu rigor na penalidade imposta aos peca-
dores, mostra como se inflama a sua terrível ira, depois de haver suportado afron-
ta durante muito tempo, e os faz sentir quanto poder tem a Sua mão para os
confundir e os dissipar.
Essa descrição ajusta-se bem ao que dissemos que se mostra na figura uni-
versal do mundo. Contudo, em certo lugar a propriedade dessa descrição é ex-
pressa de modo que Sua face nos é apresentada vividamente, expondo-se patente
a
e)nqousiastai.
79
à nossa contemplação. Sim, pois, na descrição feita por Moisés, parece que ele
quis abranger num resumo tudo quanto se permite que os homens conheçam de
Deus. Diz ele:172
“Senhor,ª173
Senhor, Deus compassivo, clemente e longânimo, e
grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações,
que perdoa a iniqüidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o
culpado, e visita a iniqüidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à
terceira e quarta geração”. Pelo que devemos considerar que a Sua eternidade e a
Sua essênciab
, residente nele próprio, são anunciadas por esse nome, que aparece
duas vezes no texto hebraico da passagem acima transcrita (nome que equivale a
dizer: “aquele que é únicoc
”); Sendo que as Suas virtudes nos são trazidas à lem-
brança, virtudes que demonstram, não que Ele se fecha em Si mesmo, mas que
Ele está entre nós. E isso de tal maneira que este conhecimento se apóia mais em
viva experiência que em vã especulação.
Além disso, vemos que aqui são enumeradas para nós as virtudes que temos
visto resplender no céu e na terra, a saber: a clemência, a bondade, a misericór-
dia, a justiça, o juízo e a verdade. Porque o Seu poder está incluído na palavra
hebraicad
empregada como Seu terceiro nome ou título, que equivale a dizer como
as virtudes nele se contêm. Os profetas também nos oferecem os mesmos títulos
quando querem exaltar e esclarecer o Seu Santo Nome. Para não nos constran-
germos por acumular muitas passagens, no momento será suficiente citar um
Salmo no qual a soma total das Suas propriedades é recitada com tal diligência
que se pode dizer que nada é omitido.174
E, todavia, nada ali é mencionado que
não se possa contemplar nas criaturas, de tal maneira Deus tanto se nos dá a
sentir por experiência quanto se nos revela por Sua Palavra. Em Jeremias, onde
Deus declara que deseja ser conhecido por nós, a descrição não é tão clara e
completa.175
Mas praticamente vem a dar na mesma. “O que se gloriar, glorie-se
nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e
justiça na terra”. Estas três coisas são as que principalmente precisamos conhe-
cer. Sua misericórdia, na qual se firma a salvação de todos nós; o juízo de Deus,
que diariamente Ele exerce sobre os maus e que, ainda mais rigorosamente, lhes
está reservado como castigo eterno; e Sua justiça, pela qual os Seus fiéis são por
Ele preservados e tratados com benignidade. Compreendidas estas três coisas, o
profeta dá testemunho de que temos abundantes motivos para gloriar-nos em
Deus. Contudo, assim procedendo, não são omitidos o Seu poder, a Sua verdade,
a Sua santidade e a Sua bondade. Sim, porque, como se poderia ter real entendi-
O Conhecimento de Deus
b
au)tou/sian.
c
Explicação acrescentada em 1539.
d
O termo Elohim (1539) é aqui substituído pela frase que vem logo a seguir.
172
Êxodo 34.6,7.
a
Jeová [Iavé].
173
[SENHOR, Jeová, Iavé.]
174
Salmo 145.
175
Jeremias 9.24.
80 As Institutas – Edição Especial
mento da Sua justiça, da Sua misericórdia e do juízo por Ele exercido, requisito
indispensável, se esse conhecimento não estivesse fundamentado em Sua verda-
de imutável? E como se poderia crer que Ele governa a terra com justiça e juízo,
sem o reconhecimento do Seu poder? De onde procede a Sua misericórdia, senão
da Sua bondade? Finalmente, se todos os seus caminhos são misericórdia, juízo e
justiça, igualmente neles rebrilha a santidade do Seu Ser. Pois bem, o conheci-
mento de Deus, que nos é apresentado na Escritura, não tem outra finalidade que
não a que se manifesta em Suas criaturas, qual seja: Primeiramente, induzir-nos
ao temor de Deus; em seguida, a que ponhamos nele a nossa confiança, para que
aprendamos a servi-lo e honrá-loª com uma vida inculpável e com uma obediên-
cia não fingida; e assim descansemos em Sua bondade.
Todavia, porque Deus não se deixa ver diretamente e de perto, a não ser na
face de Cristo, a qual só se pode contemplar com os olhos da fé, o que resta dizer
sobre o conhecimento de Deus melhor será protelar até o lugar em que estaremos
falando sobre o entendimento dessa fé.
a
Uma só palavra em 1539: cólera.
81
CAPÍTULO II
1. Conhece-te a ti mesmo
[1539] Não é sem motivoª que o provérbio antigo recomenda tanto ao homem o
conhecimento de si mesmo.b
Porque, se achamos que é uma vergonha ignorar as
coisas pertencentes à vida humana, o desconhecimento de nós mesmos é muito
mais prejudicial, pois, dependendo do conselho alheio sobre todas as coisas,
deixamo-nos enganar lamentavelmente, e acabamos até ficando totalmente ce-
gos. Mas, assim como o preceito é muitíssimo útil, com muito maior razão é
necessário cuidar diligentemente para não entendê-lo mal. Isso temos visto acon-
tecer com alguns filósofos. Porque, quando eles admoestam o homem no sentido
de conhecer a si próprio, reduzem o seu objetivo a considerar sua dignidade e suas
qualidades excelentes. Com isso, levam-no a nada mais contemplar, senão aquilo
no que ele possa exaltar-se em vã confiança própria e inchar-se de orgulho.
2. Sem presunção
Ora, a verdade de Deus nos manda procurar outra coisa, quanto à nossa estima
própria. Manda-nos buscar um conhecimento que nos afaste para longe de toda
presunção quanto à nossa virtude pessoal e nos despojec
de todo tipo de glória,
a
No início acham-se alguns elementos traduzidos do texto de 1536, e dos desenvolvimentos dos artigos
4, 5 e 6 do catecismo de 1537 (sobre o homem, sobre o livre arbítrio, sobre o pecado e sobre a morte);
no restante – mais de três quartos – corresponde aos textos de 1539, aqui desenvolvidos.
b
“Conhece-te a ti mesmo”, inscrição do templo de Delfos que veio a ser o ponto de partida da filosofia
socrática. [Cf. Platão, Defesa de Sócrates, São Paulo, Abril Cultural (Os Pensadores, Vol. II), 1972, passim].
c
Despoulle (despoje) talvez seja um picardismo (regionalismo: dialeto da Picardia). Cf. Catecismo de 1537.
82 As Institutas – Edição Especial
para nos levar à humildade. Essa é a regra que devemos seguir, se desejamos
conseguir o objetivo do bem sentir e do bem fazer. Sei quanto é agradável ao
homem que o levem a reconhecer seus talentos e as suas qualidades elogiáveis,a
em vez de ser levado a entender e a enxergar a sua pobreza, a sua infâmia, a sua
torpeza e a sua loucura. Porque não há no espírito humano maior apetite que o de
que lhe passem mel na boca dizendo-lhe doces palavras e lisonjas.
3. Fome de lisonjas, e seus estragos
Todavia, quando o ser humano vê que mostram apreço por suas qualidades, incli-
na-se a acreditar em tudo o que lhe dizem a seu favor. Portanto, não é de admirar
que a maior parte do mundo erre desse modo nesse aspecto. Uma vez que os seres
humanos têm um amor desordenado e cego por si mesmos, mostram-se dispostos
a acreditar que não existe neles nada que mereça desprezo. Assim, sem necessi-
dade de outro advogado, todos acolhem a vã opinião de que o ser humano é auto-
suficiente para ter uma vida digna e feliz. Se existem alguns que se dispõem a um
sentimento mais modesto, concedendo alguma coisa a Deus para que não pareça
que atribuem tudo a si mesmos, não obstante repartem tudo entre Deus e eles.
Mas fazem isso de tal maneira que a maior parte da virtude, da sabedoria e da
justiça fica com eles. Sendo, pois, assim, que o ser humano é tão inclinado a
gabar-se, não há nada que o possa agradar mais do que quando o afagam com vãs
lisonjas. É por isso que aquele que mais exalta a excelência da natureza humana
é sempre o mais bem recebido. Todavia, essa doutrina – a que ensina o ser huma-
no a aprovar a si mesmo – não faz mais que enganá-lo. E isso, seja quem for
aquele em quem se ponha fé, só causará ruína. Pois, que proveito poderemos ter
em conceber uma vã aliança para deliberar, ordenar, tentar e empreender o que
nos parece bom, e, entretanto, fraquejar, tanto por falta de uma inteligência sau-
dável quanto por falta de capacidade para a pretendida realização? Fraquejar, ou
mostrar fraqueza, digo eu, desde o começo, e, contudo, insistir nesse intento com
coração obstinado até sermos totalmente postos em confusão. Ora, não pode vir
outro fruto aos que se acham capazes de fazer qualquer coisa por sua própria
virtude e poder. Se alguém der ouvidos aos mestres que falam dessa maneira, os
quais nos distraem querendo que tenhamos consideração por nossa justiça e vir-
tude, esse, que lhes dá ouvidos, não terá proveito nenhum no conhecimento de si
próprio, mas estará cego, vítima de perniciosa ignorância.
4. Conhecer-nos e conhecer-nos
Portanto, sendo que a verdade de Deus concorda nisso com o juízo comum de toda
a humanidade, que a segunda parte da nossa sabedoria consiste no conhecimento
de nós mesmos, todavia, em nossa maneira de conhecer-nos há grande diferença.
a
Nostra bona.
83
Digo isso porque, segundo a opinião da natureza humana, parece aceitável
que, neste caso, o homem se conhece muito bem quando, confiante em seu enten-
dimento e em sua virtude e poder, anima-se a dedicar-se ao cumprimento do seu
dever, e, renunciando a todos os seus vícios e más disposições, esforça-se para
fazer o que é bom e honesto. Mas quem se examina bem, segundo a regra do
juízo de Deus, não encontra nada que possa elevar o seu coração, em termos de
um bom compromisso de fé. E quanto mais profundamente se examina, mais
abatido fica, ao ponto de se sentir completamente esvaziado de toda esperança,
não lhe restando nada com que possa estabelecer retamente a sua vida.
Não negamos, porém, que haja alguma semente de nobreza em nossa natu-
reza, a qual nos deve incitar a seguir a justiça e a honestidade. Porquanto não
podemos pensar, nem quanto à nossa primeira origem, nem quanto ao fim para o
qual fomos criados, que esta cogitação não seja senão como um aguilhão, para
nos estimular e fazer-nos meditar na imortalidadea
do Reino de Deus. Mas, tanto
é preciso que este reconhecimento eleve o nosso coração, como, ainda mais, que
nos leve à humildade e à modéstia. Pois, qual é esta origem (a saber, da qual
caímos), e qual a finalidade da nossa criação? Desta nos desviamos totalmente, a
tal ponto que nada nos resta, senão que, depois de avaliarmos a nossa condição
miserável, gemamos, e, gemendo, suspiremos por nossa dignidade perdida.b
5. Do que se orgulha o homem?
Ora, quando dizemos que não há nada no ser humano que exalte o seu coração,
entendemos que não há nele nada do que se orgulhar. Portanto, se parece bem a
todos, dividamos assim o conhecimento que o homem deve ter de si mesmo. Em
primeiro lugar, deve considerar para que fim ele foi criado e foi dotado de dons
singulares da parte de Deus.176
Essa meditação o incita a meditar na vida futura e
a querer servir a Deus. Em seguida, que avalie as suas riquezas, ou melhor, a sua
indigência. Conhecida esta, seja ele abatido, caindo em extrema confusão,
como que reduzido a nada. A primeira consideração tende a isto – que ele
saiba qual é o seu dever e o seu ofício.177
A segunda, que ele saiba quanto é
a
1539 acrescenta: expetendum que.
b
Calvino nos entrega aqui o segredo do dinamismo da doutrina do servo-arbítrio: Não se pode pensar nem
crer seriamente no fim em vista do qual o homem foi criado e o qual deve ter de um lado, e, de outro, na
incapacidade moral para concretizá-lo sem buscar em Deus a força e a libertação. E então se encontra.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
176
“À luz desse fato aprendemos, também, que os que são responsáveis pelo presunçoso uso da bondade divina, se
aproveitam dela para orgulhar-se da excelência que possuem, como se a possuíssem por sua própria habilidade,
ou como se a possuíssem por seu próprio mérito; enquanto que sua origem deveria, antes, lembrá-los de que ela
tem sido gratuitamente conferida aos que são, ao contrário, criaturas vis e desprezíveis e totalmente indignas de
receber algum bem da parte de Deus. Qualquer qualidade estimável, pois, que porventura virmos em nós
mesmos, que ela nos estimule a celebrarmos a soberana e imerecida bondade que a Deus aprouve conceder-
nos.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.4), pp. 165-166.] NE.
177
“.... sejam quais forem os dons que possuamos, não devemos ensoberbecer-nos por causa deles, visto que
eles nos põem sob as mais profundas obrigações para com Deus.” [João Calvino, Efésios, São Paulo,
Paracletos, 1998, (Ef 4.7), p. 113.] NE.
84 As Institutas – Edição Especial
capaz de fazer o que deve.a
Comentaremos uma e outra, na medida da ordem
que se seguirá na discussão.
6. A primeira condição do ser humano: É criatura
Pois bem, antes de passar a descrever esta condição miserável do homem, é con-
veniente saber que, primeiramente, ele foi criado.178
Porque é de temer-se que,
quando mostramos ao ser humano os seus vícios e maus pendores naturais, não
lhe pareça mal que queiramos imputá-los ao autor da natureza, que é Deus, visto
que a impiedade julga ter suficiente defesa sob esta capa – e ela pode alegar que
tudo o que tem de ruim procede de Deus. E se a contestamos, ela não vacila em
pleitear contra Deus e em transferir para Ele toda a culpa da qual é acusada. E
mesmo os que parecem falar com maior sobriedade sobre Deusb
aproveitam de
bom grado a ocasião de desculpar os seus vícios e erros acusando a natureza. E
não consideram que, fazendo isso, estão difamando Deus (ainda que veladamente,
ou, havendo algum vício ou mal em nossa natureza, entendem que Ele o formou
e deve receber parte da censura). Visto que, pois, vemos o desejo que a carne tem
de buscar todas as escapatórias pelas quais ache que a culpa dos seus vícios pode
ser transferida para outros, é necessário evitar essa astúcia maldosa. Portanto, é
preciso tratar devidamente essa desgraça do gênero humano, de modo que elimi-
nemos de vez todas as evasivas da nossa carne, e que a justiça do Senhor fique
livre, não somente de acusação, mas também de toda censura e de toda murmura-
ção. Todavia, que se faça isso de tal maneira que não nos afastemos nem um
pouco da pura verdade. Esta se acha tão longe de favorecer aqueles absurdos, que
basta ser entendida para que eles sejam suficientemente refutados.
7. A imagem de Deus no homem
[1536]c
Isso posto, é certo queAdão, pai de todos nós, foi criado à imagem e seme-
lhança de Deus179
Pelo que se vê que ele foi feito participante da sabedoria, da
justiça, da virtude, da santidade e da verdade de Deus. Note-se que não se pode
178
Na sua carta ao Rei Francisco I de França, diz: “Sim, pois, o que é mais conveniente à fé senão que nos
reconheçamos desnudos de toda virtude, para sermos vestidos por Deus; vazios de todo bem, para que Ele
nos encha de todo bem; escravos do pecado, para sermos libertos por Ele; cegos, para que Ele nos ilumine;
coxos, para sermos por Ele curados; fracos, para sermos sustentados por Ele; e que nos desfaçamos de todo
pretexto de glória própria, para que somente Ele seja glorificado, e nós nele?” NE.
a
Deus criou “o homem” num estado em que ele era capaz de fazer o que devia e que sempre deve fazer,
apesar da sua incapacidade espiritual presente, porque essa incapacidade é um fato. “O homem” é Adão e
seus descendentes, considerados em sua unidade moral de raça provinda de um mesmo tronco, que cada
indivíduo continua e representa solidariamente com todos os demais. Tal é o pensamento do reformador
nesse parágrafo. Veremos mais adiante que, ao lado dessa obrigação genérica, o reformador estabelece
uma obrigação pessoal.
179
Gn 1.26,27.
b
de numine.
c
Catecismo de 1537, art. IV.
85
sustentar o erro dos que colocam esta imagem de Deus no senhorio e na preemi-
nência de que o ser humano foi dotado sobre os animais inferiores, como se unica-
mente nisso ele tenha sido feito semelhante a Deus – tendo sido constituído senhor.
[1539] Esta sentença, em que se afirma que o ser humano foi criado à ima-
gem de Deus, não seria repetida muitas vezes por Moisés, se não houvesse nisso
um propósito maior. E o próprio apóstolo Paulo elimina toda a dificuldade desta
questão quando fala nestes termos: “...e vos renoveis no espírito do vosso enten-
dimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e reti-
dão procedentes da verdade”.180
E também: “Não mintais uns aos outros, uma
vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do
novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daque-
le que o criou.181
Vê-se, pois, como ele explica a imagem de Deus, a conformida-
de do nosso espírito com o Senhor; enquanto se mostra desembaraçado de toda
imundícia terrena, somente aspira à pureza espiritual.
8. A Queda
[1536] Então, havendo o ser humano sido criado à imagem de Deus, foram-lhe
concedidos bens espirituais e preeminência em vários aspectos, que podem atestar
uma singular generosidade do seu Criador para com ele.182
Porque se ligou forte-
mente a ele pela participação de todos os bens, para viver eternamente, desde que
perseverasse na integridade que tinha recebido. Mas isso não durou muito. Por-
quanto, por sua ingratidão, logo se tornou indigno de todos os benefícios que Deus
lhe tinha feito. Dessa maneira foi apagada a imagem celeste que ele trazia; assim
como ele foi alienado de Deus pelo pecado, igualmente foi posto fora da comunhão
de todos os bens, os quais só poderá ter quem estiver naquela comunhão.183
[1539] Portanto, em lugar da sabedoria, da virtude, da santidade e da justiça,
ornamentos de que estava revestido quando tinha em si a semelhança com Deus,
vieram sobre ele males horríveis, a saber, a ignorância, a fraqueza, a torpeza, a
vaidade e a injustiça, as quais não somente envolveram a sua pessoa, mas também
se levantaram contra toda a sua posteridade. Porque todos os seus sucessores são
semelhantes a ele, no qual eles têm a sua origem e de cuja corrupção nasce a deles.
180
Ef 4.23,24.
181
Cl 3.9,10.
182
Vd. João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 8.5), p. 167.
183
“Quando de seu estado original decaiu Adão, não há a mínima dúvida de que por esta defecção se haja alienado
de Deus. Pelo que, embora concedamos não haja sido nele aniquilada e apagada de todo a imagem de Deus, foi
ela, todavia, corrompida a tal ponto que, o que quer que resta, é horrenda deformidade.” (As Institutas, I.15.4.)
“Pelo pecado estamos alienados de Deus.” [João Calvino, Efésios, (Ef 1.9), p. 32]; “Como a morte espiritual
não é outra coisa senão o estado de alienação em que a alma subsiste em relação a Deus, já nascemos todos
mortos, bem como vivemos mortos até que nos tornamos participantes da vida de Cristo.” [João Calvino,
Efésios, (Ef 2.1), p. 51.] “Tão logo Adão alienou-se de Deus em conseqüência de seu pecado, foi ele imediata-
mente despojado de todas as coisas boas que recebera.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 2.5),
p. 57.] Todos os homens estão “totalmente alienados de Deus”. [John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand
Rapids, Michigan, Baker Book House Company, 1981, Vol. XVIII, (Jo 14.22), p. 97.] NE.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
86 As Institutas – Edição Especial
9. O pecado original
Esta é a corrupção hereditáriaa
, que os antigos chamavam pecado original, indi-
cando com a palavra pecado a depravação da nossa natureza, que, até então, tinha
sido boa e pura. Sobre isso eles tiveram grande contenda com os pelagianos;
porque aqueles heregesb
, sendo convencidos pelos testemunhos da Escritura de
que o pecado passou do primeiro homem para toda a sua posteridade, argumenta-
vam com manhosas sutilezas que o pecado passou para os descendentes por imi-
tação, e não por geração. Por isso aqueles santos personagensc
se esforçaram para
demonstrar que não nos corrompemos com a maldade que nos atraiu pelo exem-
plo de outros, mas, sim, que trazemos a nossa perversidade desde o ventre da
mãe; coisa que não podemos negar sem grande cinismo. Todavia, ninguém se
espantará com a temeridade dos pelagianosd
no que disseram, se tiver visto pelos
escritos de Agostinho que animais foram eles e quão pouca vergonha tinham.
Certamente é indubitável o que Davi confessa184
quando declara que “ele nasceu
na iniqüidade, e em pecado foi concebido por sua mãe”. Ele não está acusando
seus pais; mas, para glorificar melhor a bondade de Deus a favor dele, Davi colo-
ca em sua memória a sua perversidade em termos do seu primeiro nascimento.185
Ora, isso não é algo peculiar a Davi. Segue-se, pois, que a condição universal de
todos os homens é demonstrada pelo exemplo dele. Portanto, todos nós, que so-
mos produtos de semente imunda, nascemos maculados pela infecção do pecado,
e, mesmo antes de virmos à luz, estamos contaminados perante a face de Deus.
Pois, “Quem da imundícia poderá tirar cousa pura?”, como se diz no Livro de
Jó.186
Certamente precisamos tirar esta conclusão – que Adão não somente é o
pai da natureza humana, mas, como o tronco está na raiz, pela mesma razão o
gênero humano se corrompeu na corrupção dele.187
O que o apóstolo demonstra
184
Sl 51.5.
185
“Davi não culpa a seus pais, nem traça seu crime até chegar a eles, mas senta-se diante do tribunal divino,
confessa que fora formado em pecado, e que era um transgressor nato, assim que viu a luz deste mundo.”
[João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431.]
186
Jó 14.4.
187
“.... Adão, em sua queda, foi despojado de sua justiça original, sua razão foi obscurecida, sua vontade, perver-
tida, e que, sendo reduzido, a este estado de corrupção, trouxe filhos ao mundo semelhantes a ele em caráter.
Se porventura alguém objetar, dizendo que essa geração se confina aos corpos, e que as almas jamais poderão
derivar uns dos outros algo em comum, eu responderia que Adão, quando em sua criação foi dotado com os
dons do Espírito, não mantinha um caráter privativo ou isolado, mas que era o representante de toda a
humanidade, que pode ser considerada como tendo sido dotada com esses dons em sua pessoa; e deste
conceito necessariamente se segue que, quando ele caiu, todos nós, juntamente com ele, perdemos nossa
integridade original.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), pp. 431-432.] Adão, antes de
pecar, tinha uma compreensão genuína a respeito de Deus. No entanto, “após a sua rebelião, ficou privado da
verdadeira luz divina, na ausência da qual nada há senão tremenda escuridão.” [João Calvino, Efésios, (Ef
4.18), p. 137.] “Agora não nascemos tais como Adão fora inicialmente criado, senão que somos a semente
adulterada do homem degenerado e pecaminoso.” [João Calvino, Efésios, (Ef 2.3), p. 56.] NE.
a
Catecismo de 1537, art. VI.
b
Palavra acrescentada em 1539.
c
1539 acrescenta: ac præ aliis Augustinus.
d
1539 acrescenta: et Cœlestianorum.
87
com a maior clareza, comparando-o com Cristo:188
“Portanto”, diz ele, “assim
como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim
também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram, a fim de que,
como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para
a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor”. E como foi que os pelagianos
tagarelaram tanto, propalando que o pecado foi espalhado pelo mundo pela imita-
ção deAdão? Não temos então outro proveito da graça de Cristo, senão que ela nos
propõe um exemplo para seguirmos? E quem pode agüentar tal blasfêmia?
10. Recuperação em Cristo
Ora, se não há dúvida nenhuma de que a graça de Cristo é nossa por comunicação,
e que por ela temos vida, segue-se paralelamente que, tendo uma e outra sido per-
didas em Adão, em Cristo as recuperamos, e como o pecado e a morte foram gera-
dos em nós por Adão, por Cristo foram abolidos. E, para entender isso, não há
necessidade de envolver-nos nessa deplorável disputa, que tanto atormentou os
antigos mestres, a saber, se a alma do filho procede da substância da alma paterna,
visto que é na alma que reside o pecado original. Contentemo-nos em saber que o
Senhor colocou em Adão os bens espirituais e os dons que Ele quis dar à natureza
humana. Portanto, quando Adão os perdeu, não os perdeu ele somente, mas por
causa dele todos nós também os perdemos. Quem vai se preocupar com a origem
da alma após haver entendido queAdão tinha recebido os ornamentos que perdeu?
11. Herança da corrupção dos primeiros pais
Considere-se que foi menos ruim para ele do que para nós, visto que Deus não os
havia dado a um só homem em particular, masa
os tinha dado a fim de que toda a
sua linhagem os desfrutasse em comum. Não é nenhum absurdo, pois, que, tendo
sido assim despojada, a natureza humana esteja desnuda, e que, tendo sido
maculada pelo pecado, essa infecção tenha se propagado sobre todos nós. Por-
que, como de uma raiz praguejada só procedem ramos praguejados, os quais
passam a praga a todos os ramos e à folhagemb
por eles produzidos, assim os
filhos de Adão foram contaminados em seu pai e são a causa da corrupção de
todos os seus sucessores. Quer dizer, o princípio da corrupção esteve de tal modo
em Adão que ela se expandiu como que por uma torrente perpétua dos pais aos
filhos. Por aí se vê que é fácil refutar as cavilações dos pelagianos.
12. Os pelagianos
Dizem elesc
que não é provável que as crianças que nascem de pais fiéis atraiam
corrupção, visto que, antes, devem ser purificadas pela pureza deles. A isso res-
188
Rm 5.12,21.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
Em seguida 1539 diz: universæ hominis naturæ attributa.
b c
Palavras acrescentadas em 1539.
88 As Institutas – Edição Especial
pondemos que as crianças não descendem da geração espiritual que os servos de
Deus recebem do Espírito Santo, mas da geração carnal, que elas recebem de
Adão. É bem verdade que Deus santifica os filhos dos fiéis por causa dos seus
pais, porém isto se dá, não em virtude da sua natureza, mas da graça de Deus. É,
pois, uma bênção espiritual, que não impede que aquela primeira maldição esteja
universalmente na natureza humana.
Pois bem, para que não se diga isso ligeiramente, é necessário definir o
pecado original. Contudo, não é minha intenção examinar todas as definições já
escritas. Darei apenas uma, que me parece estar em harmonia com a verdade.
13. Definição de pecado original
[1536] Diremos, então, que o pecado original é uma corrupção e perversidade na
nossa natureza, que nos faz culpados, primeiramente, da ira de Deus, tendo a seguir
produzido em nós as obras que a Escritura chama “obras da carne”.189
É o que
apropriadamente Paulo muitas vezes chama pecado, sema
acrescentar “original”.
Tais obras são os adultérios, a luxúria, em seus diversos aspectos, furtos, ódios,
homicídios e glutonaria. Ele os denomina, por essa razão, frutos do pecado, ao
passo que a Escritura em geral chama “pecado” a cada uma de todas essas obras.
14. Culpa herdada e culpa atual
[1539] Devemos examinar duas coisas, distinguindo-as bem: É preciso reconhe-
cer que somos tão corrompidos em todas as partes da nossa natureza, que esta
corrupção nos faz, com razão, condenáveis diante de Deus – a Quem nada
agrada, senão a justiça, a inocência e a pureza. E não se diga que essa situação
inevitável é causada somente por culpa de outra pessoa, comob
se respondêsse-
mos pelo pecado de nosso primeiro pai, sem termos nada que nos faça seus me-
recedores. Dizer que por Adão somos feitos devedores ao juízo de Deus não é
dizer que somos inocentes e que, sem nada merecer, levamos a culpac
do seu
pecado. Mas, visto que pela transgressão dele todos fomos envolvidos em confu-
são, todos nós somos declarados igualmente culpáveis. Todavia, não devemos
entender que só nos fizemos merecedores da pena sem termos tido nenhuma
participação em seu pecado. Pois a verdade é que o pecado que dele provém
reside em nós, e a este a pena é devida com justiça.
Por isso Agostinho,190
embora algumas vezes fale em pecado alheio, para
mostrar mais claramente que temos o pecado da raça, todavia ele afirma que cada
um de nós o tem. E o próprio apóstolo testifica191
que “a morte passou a todos os
189
Rm 5, 6, 7.
a
Frases acrescentadas em 1539.
b
Frases acrescentadas em 1539.
c
culpam sustineremus.
190
(1539): Alibi sæpe, tum vero lib. III de peccatorum merit. et remiss., capit. VIII.
191
Rm 5.12.
89
homens, porque todos pecaram”, quer dizer, todos estão envolvidos no pecado
original e manchados por suas máculas.
15. Sobre a situação das crianças
[1536] Por essa razão, até as crianças estão incluídas nesta condenação. Não
simplesmente por pecado alheio, mas pelo delas mesmas, porquanto, apesar de
ainda não terem produzido frutos da sua iniqüidade, não obstante, a semente do
mal está oculta nelas. E, ademais, a sua natureza é uma semente de pecado, e,
portanto, só pode ser desagradável e abominável a Deus. O outro ponto que deve-
mos examinar é que esta perversidade jamais fica ociosa em nós, mas está sem-
pre produzindo novos frutos, continuadamente. São eles as obras da carne que há
pouco descrevemos, e brotam tão naturalmente como uma fornalha acesa lança
chamas e faíscas, e uma fonte jorra água. Porque os que definem o pecado como
sendo a faltaa
da justiça original, entendendo que nessas palavras está contida
toda a substância, todavia não exprimem suficientemente a força do mesmo. Isso
porque a nossa natureza não é somente vazia e destituída de todo bem, mas á
também tão fértil em toda espécie de mal que não se pode dizer que é ociosa. Os
que a chamam concupiscência, de modo algum empregaram uma palavra impró-
pria, tendo-se em conta que ela se ajusta a coisas que não se aceitam a respeito de
muitos. É que todas as partes constitutivas do homem, do entendimento à vonta-
de, da alma à carne, estão contaminadas e repletas dessa concupiscência, ou, para
resumir o ponto, o homem, em si mesmo, não é outra coisa, senão corrupção.
16. Pondo a culpa em Deus!
[1539] Vejamos agora os que ousam atribuir a Deus o pecado deles, quando se
diz que os homens são naturalmente maus. Perversamente vêem a obra de Deus
na corrupção deles, quando melhor fariam em buscá-la e vê-la na natureza que
Adão recebeu antes de se corromper. A nossa perdição procede da disposição da
nossa carne, e não de Deus. Visto está que não perecemos por outra causa que não
esta: decaímos da nossa criaçãob
original. E que não se conteste dizendo que
Deus teria provido coisa melhor para a nossa salvação se a tivesse executado
antes da queda de Adão. Essa objeção é tão audaciosa e temerária que nem deve
entrar no pensamento do ser humano fiel. Em grau muito mais elevado, ela per-
tence à predestinaçãoc
divina, que será tratada mais adiante, no lugar próprio.
Portanto, que não nos ocorra imputar sempre a nossa desgraça à corrupção da
nossa natureza, e muito menos àquela natureza que tinha sido dada originaria-
mente ao homem, o que seria acusar a Deus, como se o nosso mal viesse dele. É
a
carentia.
b
conditione.
c
Primeira ocorrência da palavra em Calvino. Ver adiante, cap. VIII.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
90 As Institutas – Edição Especial
bem verdade que esta praga mortal do pecado se fixou em nossa natureza, mas
estas são coisas bem diferentes – que ela tenha sido prejudicada desde a sua
origem, ou depois, e de outra parte. Ora, o certo é que ela foi prejudicada pelo
pecado que sobreveio inesperadamente. Portanto, não temos por que nos queixar,
senão de nós mesmos. O que a Escritura nos mostra diligentemente. Pois
Eclesiastes diz: “Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas
ele se meteu em muitas astúcias.”192
Por aí se vê que nos cabe imputar unicamen-
te ao ser humano a sua desgraça, visto que da graça de Deus ele tinha recebido
uma retidão natural, e que por sua loucura ele tropeçou na vaidade e caiu.193
17. Os maniqueus refutados
Dizemos que o homem é naturalmente corrompido em perversidade, mas que
essa perversidade não está em sua natureza.194
Que seja da natureza negamos
com o propósito de mostrar que é mais uma qualidade vinda sobre ele do que
uma propriedade da sua substância, estando esta desde o começo arraigada nele.
Todavia, nós a chamamos natural, para que ninguém pense que é adquirida uns
dos outros pelos maus costumes e pelo mau exemplo, sendo que ela nos envolve
a todos desde o nosso primeiro nascimento. E não digamos que ocorreu assim
sem nenhum autor, pois, pela mesma razão, o apóstolo a todos nos chama “her-
deiros da ira de Deus”195
[ARA: “filhos da ira”]. Como, porém, Deus se enfurece-
ria com a mais nobre das Suas criaturas? Visto que as Suas mais singelas obras
Lhe agradam. Mas o fato é que a Sua ira é mais contra a corrupção da Sua obra do
que contra a Sua obra. Logo, se se pode dizer, não sem razão, que o homem é
naturalmente abominável a Deus, com todo o direito podemos dizer que ele é
naturalmente vicioso e mau. Como também Agostinho não teve dificuldade, em
vista da nossa natureza corrompida, em chamar de pecados naturais aqueles que
inevitavelmente imperam em nossa carne, quando nos falta a graça de Deus. Pela
presente distinção é refutada a loucura dos maniqueus, que, imaginando uma
perversidade essencial no ser humano, dizem que ele foi criado por outro ser, não
por Deus, a fim de não atribuírem a Deus alguma origema
do mal.
a
causam et principium.
192
Ec 7.29.
193
“O primeiro homem foi criado por Deus em retidão; em sua queda, porém, arrastou-nos a uma corrupção
tão profunda, que toda e qualquer luz que lhe foi originalmente concedida ficou totalmente obscurecida. (...)
Só quando aliados ao conhecimento de Deus é que alguns dos dotes a nós conferidos do alto se pode dizer
que possuem alguma excelência real. À parte disso, eles se acham viciados por aquele contágio do pecado
que não deixou sequer um vestígio no homem de sua integridade original.” [João Calvino, O Livro dos
Salmos, Vol. II, (Sl 62.9), p. 579.]
194
“Lembremo-nos de que nossa ruína se deve imputar à depravação de nossa natureza, não à natureza em si,
em sua condição original, para que não lhe lancemos a acusação contra o próprio Deus, autor dessa natu-
reza.” (As Institutas, II.1.10.)
195
Ef 2.3.
91
18. Universalidade do pecado
Vimos que o domínio do pecado, após este haver subjugado o primeiro homem,
reduziu à servidão todo o gênero humano. Resta-nos saber se, desde que fomos
submetidos a esse cativeiro, estamos destituídos de toda liberdade ea
isenção, ou
então, se nos sobra alguma coisa, até onde se estende isso. Mas, para que a verda-
de acerca desta questão nos seja mais facilmente esclarecida, é preciso primeiro
estabelecer um alvo, para o qual dirijamos toda a nossa discussão. Ora, sabemos
qual é o alvo para o qual devemos voltar-nos, e levamos em consideração os
perigos que estão de um e de outro lado. Porque, quando o homem é desnudado
de todo bem,b
logo toma ocasião para a preguiça, para a negligência. Visto dizer-
se que, em si mesmo, não há virtude alguma em praticar o bem, ele não se preo-
cupa em empenhar-se, como se não tivesse nada com isso. De outro lado, não se
pode dar a ele os recursos do mundo, para que não se exalte em vã autoconfiança
e temeridade, e também para que não se esquive da honra devida a Deus. Para
não cairmos nesses inconvenientes, precisamos apegar-nos a esta moderação:
Ensinando-se ao homem que não há nele nenhum bem e que está rodeado de
miséria e de necessidade, que, todavia, ele entenda que deve aspirar ao bem, do
qual está vazio, e à liberdade, da qual está privado; e seja mais espicaçado e
incitado a fazer isso do que a acreditar que nele está a maior virtude do mundo.196
19. Um alerta contra a negligência
Não há quem não veja quão necessário é o segundo ponto, ac
saber, o que nos leva
a despertar o homem da sua negligência e preguiça. Quanto ao primeiro (que
devemos mostrar ao homem sua pobreza), muitos duvidam de que se deve fazer
isso. Não há nenhuma dúvida de que não é preciso despojar o homem dos seus
bens, isto é, não é preciso negar-lhe o que ele tem. Mas também é uma coisa
evidente quão conveniente é despojá-lo da glória vã e falsa. Pois não é lícito que
ele se glorifique a si mesmo, quando pela benignidade de Deus ele é vestido e
ornado de bênçãos da soberana graça divina. Quanto convém agora que se humi-
lhe, uma vez que, por sua ingratidão, foi rebaixado à vergonha extrema, tendo
perdido a excelência que tinha tido até então! Para que se entenda isso com maior
facilidade, digo que a Escritura, desde o tempo em que o homem esteve exaltado
ao mais alto grau de honra a que ele poderia chegar, não lhe atribui outra vanta-
gem senão esta: que ele foi criado “à imagem de Deus”.197
Com isso ela quer
a
Acréscimo feito em 1539.
b
omni rectitudine.
196
“Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios
méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericór-
dia gratuita de Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 6.4), pp. 128-129.] NE.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
c
Frase acrescentada em 1539.
197
Gn 1.27; 1 Co 2.7; Tg 3.9.
92 As Institutas – Edição Especial
dizer que o ser humano não é rico por seus próprios bens, mas a sua bem-
aventurança está em sua participação de Deus.
20. Caniço e fumaça
Que lhe resta, então, despido e desprovido de toda glória, senão reconhecer o seu
Deus, de cuja benignidade e generosidade ele quase nada reconhece, apesar da
abundância das riquezas da Sua graça? E, não tendo glorificado a Deus pelas
bênçãos dele recebidas, agora ao menos o glorifica na confissão da sua pobreza.a
Com muito maior razão, não é menos útil para nós que nos desfaçamos de toda
apreciação elogiosa de sabedoria e virtude, o que se requer para a manutenção da
glória de Deus. Tão importante é isso que, aqueles que nos atribuem algo exage-
rado, blasfemam de Deus e também nos causam desgraça. Pois, que outra coisa
haverá, quando nos ensinam a caminhar por nossa força e virtude, senão que nos
fazem subir num caniço oscilante ao vento, o qual, incapaz de nos agüentar, logo
se rompe, e nós caímos? Pois ainda é honra para nós, que sejamos comparados
com um caniço.b
Pois tudo o que os homens imaginam não passa de fumaça.
Portanto, não é sem motivo que se encontra freqüentemente repetida nos escri-
tos de Agostinho esta bela sentença: que os que defendem o livre arbítrio o
lançam à ruína antes de o comprovarem. Por isso achei bom fazer este preâm-
bulo, por causa de alguns que, não podendo suportar que a virtude do homem
seja destruída e aniquilada para que em seu lugar seja edificada a de Deus, com
maior força julgam esta discussão, não somente inútil, mas também muito pe-
rigosa. Contudo, nós achamos que é muito útil e (qui plus est),198
que é um dos
fundamentos da religião.
21. Faculdades do ser humano
Para estudar bemc
as faculdades do homem, comecemos fazendo uma divisão
delas, o que faremos da maneira mais simples possível. Não há necessidade de
seguir a sutileza dos filósofos. Confesso que Platão199
parece ter razão quando diz
que há no homem cinco sentidos. A estes ele chama instrumentos, pelos quais o
senso comum, que é como um universal respeitável, concebe todas as coisa ex-
ternas, qued
se apresentam à visão, à audição, ao paladar, ao olfato e ao tato.
Depois, a imaginação discerne o que o senso comum concebeu e apreendeu; a
seguir, a razão faz o seu trabalho julgando o todo. Finalmente, acima da razão
198
(o que é mais) – Em latim no original. NT.
a
Catecismo de 1537, art. VI, fim: “Pelo entendimento da nossa pobreza, aprendamos a prosternar-nos diante
do Senhor”.
b
Pascal teria lido essa frase?
c
As 60 páginas que se seguem em 1541 são traduzidas de 1539, sem nenhuma equivalente em 1536 e 1537.
199
In Theæteto. [Platão, Teeteto e Crátilo, 2ª ed. Belém, Universidade Federal do Pará, 1988.] NE.
d
Frase acrescentada em 1539.
93
está a inteligência, que contempla com atenção séria e demorada todas as coisas
sobre as quais a razão discorre e discute. Assim é que existem três virtudes na
alma relacionadas com o conhecimento e o entendimento e que, por isso, são
chamadas faculdades cognitivas, quais sejam: a razão, a inteligência e a imagina-
ção. A essas correspondem outras três, que dizem respeito ao apetite, ao desejo.
São elas a vontade, cuja função é desejar o que a inteligência e a razão lhe pro-
põem; a cólera ou ira, que segue o que lhe apresentam a razão e a imaginação; e
a concupiscência, que toma o que lhe é oposto pela imaginação.
Embora todas estas coisas sejam verdadeiras, ou ao menos pareçam tais,
ainda assim é preciso cuidado – que não nos distraiamos, porque há o perigo de
que elas pouco nos ajudem e de que nos atormentem muito por sua obscuridade.
Poderíamos apresentar outras distinções, como a que foi feitaa
por
Aristóteles (384-322 a.C.),200
de que há uma parte da alma a qual não contém
razão em si mesma, mas pode ser conduzida pela razão à outra, que é realmente
participante da razão. Igualmente, há três coisas das quais procedem todas as
ações humanas. São elas o sentido, o entendimentob
e o apetite ou desejo. Mas
é bom falar de maneira que seja entendida por todos. O que não se pode obter
dos filósofos. Porque eles, quando querem falar com simplicidade, dividem a
alma em duas partes, a saber, a inteligência e o desejo. Mas as duplicam, por-
que dizem que há uma inteligência contemplativa, que não chega à ação mas se
limita unicamente a contemplar o que é representado pela palavra engenho,c
como disse Cícero.201
A outra consiste na prática, a qual, após haver apreendido o
bem ou o mal, põe a vontade a segui-lo ou a retirar-se. Nessa espécie é que está
contida a ciência do bem viver.
Paralelamente, eles dividem o apetite ou desejo em concupiscência e vonta-
de, chamando-lhe vontaded
quando o desejo do homem se sujeita à razão, e
concupiscência,e
quando se extravasa em intemperança, rejeitando o jugo da
modéstia. Ao fazerem isso, sempre imaginam que há no homem uma razão pela
qual ele pode governar bem a si próprio. Logo, nós, que dizemos que a razão
humana é depravada, não podemos concordar plenamente com eles.
22. Calvino propõe a sua classificação das
faculdades do ser humano
Portanto, devemos fazer uma divisão diferente. Ei-la: Existem duas partes em
nossa alma: a inteligência e a vontade. A inteligência é para discernir entre todas
b
intellectiva.
c
ingenii nomine.
200
Lib. I Ehtic, cap. ulti.; idem, l. I. VI, cap. II.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
201
De duplici intellectu Themist. in lib. III de ata, cap. XLIX, Cicero, de finibus, lib. IX.
d
boqlhsin.
e
pa/qoj.
a
ut altera vocent appetitiva.
94 As Institutas – Edição Especial
as coisas que nos são propostas, e julgar o que devemos aprovar ou condenar. A
função da vontade é escolher e seguir o que o entendimento tiver julgado bom, e,
ao contrário, rejeitar e evitar o que tiver reprovado.
Não precisamos deter-nos no que Aristóteles202
propugna com muita sutile-
za, que o único movimento que ocorre propriamente na inteligência é o da esco-
lha adotada pelo homem. Para nós deve ser suficiente (sem nos enredarmos em
questões supérfluasa
) afirmar que o entendimento é como que o governador e
capitão que comanda a alma – que a vontade depende do seu agrado e não deseja
nada enquanto não tenha o seu julgamento. Assim é que Aristóteles diz uma
verdade noutra passagem – que recusar ou querer é, no apetite, semelhante a
contestar ou aprovar, no entendimento.
Pois bem, veremos logo a seguir até que ponto é certa a orientação do en-
tendimento para dirigir a vontade. Aqui só pretendemos mostrar que todas as
virtudes da alma humana se reduzem a um destes membros. Desta maneira, in-
cluímos o sentimento (os sentidos, o senso) no entendimento, diferentemente
dos filósofos, que dizem que o sentimento inclina-se para a volúpia,203
e o enten-
dimento para a honestidade e a virtude.b
Quanto ao termo apetite, preferimos
empregar a palavra vontade, que é mais utilizada.
23. Observações críticas sobre os filósofos
Consideremos agora que faculdade existe numa ou noutra parte. Os filósofos, em
consenso comum, entendem que a alma humana reside na razão, a qual é como
uma lâmpada para conduzir a inteligência, e como uma rainha para governar a
vontade. Pois a imaginam tão cheia de luz divina que ela pode muito bem discernir
entre o bem e o mal, e que tem tanta virtude que pode muito bem dominar; ao
contrário, o sentimento é muito ignorante e rude, incapaz de se elevar para consi-
derar as coisas sublimes e excelentes, sempre a arrastar-se na terra; e o apetite,
estando disposto a subordinar-se à razão e não se deixando subjugar pelo senti-
mento, tende naturalmente a buscar o que é bom e honesto e, assim, pode conse-
guir o bom caminho.c
Ao contrário, se se rende em servidão ao sentimento, por
este é corrompido e depravado, excedendo-se na prática de coisas desonestas.d
Por isso eles dizem que o entendimento tem consigo a razão, e assim conduz o
homem ao viver feliz e virtuoso, desde que se mantenha em sua nobreza e dê
lugar à virtude, que nele está naturalmente radicada.
a
Acréscimo a 1539.
202
Ita Plato in Phædro.
b
Aqui 1539 tem esta frase não traduzida: Inde fieri ut appetitio sensus, concupiscentia fiat, et libido, affectio
intellectus, voluntas.
c
1539 acrescenta: et in voluntate formari.
d
Frase de 1539 não traduzida: Atqui omnino cum ex eorum opinione duæ animæ facultates concedantur,
intellectus et appetitus, seu voluntas, quæ appellatio jam vulgariore usu recepta est.
203
Ou para o prazer dos sentidos. NT.
95
Isso porém eles dizem bem: que há um movimento interior, chamado senti-
mento (ou sentidos, ou senso) que distrai e desvia o homem para o erro e a igno-
rância, o qual, não obstante, pode ser domado pela razão e por esta pode ser
pouco a pouco aniquilado. Eles estabelecem a vontade como um elemento inter-
mediário entre a razão e o sentimento, isto é, com a liberdade de submeter-se à
razão, se lhe parece bem, ou de se entregar ao sentimento. É bem verdade que a
experiência os constrange a confessarem algumas vezes quão difícil é para o
homem o estabelecer em si mesmo o império da razão – ora, acicatado pela volúpia,
ora iludido por falsos valores, ora agitado por afetos intemperantes, que são como
cordas (como diz Platão)204
que o esticam e o sacodem para cá e para lá. Por essa
razão Cícero205
diz que nós temos somente duas diminutas centelhas do bem, por
natureza iluminando o nosso espírito, centelhas que facilmente corrompemos
com nossas falsas opiniões e com nossos maus costumes. Ainda bem que eles
confessam que, quando tais males tomam posse do nosso espírito, dominam tan-
to que não é fácil contê-los, e não hesitam em compará-los com cavalos rebeldes.
Porque, como o cavalo rebelde, depois de derrubar o cavaleiro, fica escoiceando
sem parar, assimc
a alma, tendo rejeitado a razão e estando entregue às suas con-
cupiscências, se extravasa em excessos. Além disso, eles dão por resolvido que
tanto as virtudes como os vícios estão em nosso poder. Pois, se não pudéssemos
escolher fazer o bem ou o mal, dizem eles, tampouco poderíamos abster-nos.
Mas, ao contrário, se somos livres para abster-nos, também o somos para fazer.
Pois bem, assim é que fazemos por livre escolha tudo o que fazemos, e nos abs-
temos livremente do que nos abstemos. Por conseguinte, está em nosso poder
fazer o bem que fazemos, e também o mal, e, paralelamente, está em nosso poder
fazer o que deixamos de fazer.206
E, de fato, alguns deles207
chegam à loucura de
gabar-se de que, pelo benefício de Deus eles têm o bom caminho, e por eles
próprios têm o bom viver.
Eis, pois, em suma, a sentença dos filósofos: A razão, que está no entendi-
mento humano, é suficiente para nos conduzir e para nos mostrar o que é bom
fazer; e a vontade, estando subordinada à razão, é tentada e solicitada pelos sen-
tidos para a prática do mal, mas, todavia, no que diz respeito à liberdade de esco-
lha, ela não está impedida de seguir inteiramente a razão.
24. Observações sobre os doutores da igreja
Quanto aos mestres da igreja cristã, se bem que não havia entre eles quem não
reconhecesse que a razão é muito fraca no homem, por causa do pecado, e que a
vontade está sujeita a muitas concupiscências, todavia, a maior parte deles seguiu
c
Frase acrescentada a 1539.
204
Libr. pri. de legi.
205
Lib. III Tuscul.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
206
(1539) Vide apud Aristot. lib. III Ethic, cap. V.
207
Sêneca.
96 As Institutas – Edição Especial
de preferência os filósofos, sem necessidade. Parece-me que há dois motivos
pelos quais os antigos pais procederam desse modo. Primeiro, temiam que, se
despojassem o homem de toda a liberdade para a prática do bem, os filósofos
zombariam da doutrina deles. Segundo, a carne, que está sempre pronta a ceder à
preguiça, não escolhe ocasião para reprimir as boas obras. Digo isso porque, a
fim de não ensinarem nada que contrariasse a opinião comum dos homens, qui-
seram harmonizar, meio a meio, a doutrina da Escritura com a dos filósofos.a
A
julgar, porém, por suas palavras, eles seguiram principalmente o segundo moti-
vo. Em certa passagem208
Crisóstomo diz: “Deus colocou o bem e o mal em
nossa faculdade, dando-nos o livre arbítrio para escolhermos um ou outro; e não
nos força pelo constrangimento, mas nos recebe se O buscamos voluntariamen-
te”. Idem:209
“Quem é mau pode tornar-se bom, se quiser; e quem é bom pode
tornar-se mau. Porque Deus deu à nossa natureza o livre arbítrio e não nos impõe
nenhuma necessidade. Mas Ele estabeleceu os remédios, que usamos se nos pa-
rece bem”. E mais:210
“Como não podemos fazer nada sem sermos ajudados pela
graça de Deus, assim também, se não apresentarmos o que a nós pertence, Sua
graça não nos proverá”. Ele tinha dito que não devemos descansar no auxílio
dado por Deus, mas que devemos fazer a nossa parte. E, de fato, esta sentença lhe
é familiar: “Façamos o que nos cabe, e Deus suprirá o resto”. O que combina com
o que disse Jerônimo: “A nós cabe começar, a Deus completar; é nosso dever
oferecer o que pudermos, e o dele o de realizar o que não pudermos”.211
Vemos
claramente que nessas sentenças é atribuída ao homem mais virtude do que deve-
riam atribuir-lhe. Aqueles mestres não queriam falar contrariamente a isso para
não revelar a nossa preguiça, querendo eles demonstrar que, para eles, só conta-
mos com o homem para vivermos bem. Logo veremos se eles têm boas razões
para agir assim. As palavras acima citadas parecem falsas, para não dizer franca-
mente que são. Embora os mestres gregos estejam nisso mais que os outros, e
entre eles, singularmente, Crisóstomo foi além dos limites em seu engrandeci-
mento dos poderes humanos, todavia, quase todos os pais antigos, à exceção de
Agostinho, variam tanto neste assunto, ou falam com tanta dúvida ou tão obscu-
ramente, que dos seus escritos não se pode chegar a nenhuma definição clara. Por
isso não nos deteremos para referências específicas à opinião de cada um. Só
vamos tocar de passagem no que uns e outros disseram, na ordem própria. Os
outros escritores que surgiram depois, mostraram cada qual alguma sutileza, ao
defenderem as virtudes humanas. Todos eles, uns após outros, foram de mal a
pior, ao ponto de arrastarem o mundo para a opinião segundo a qual o homem
208
Homélie de la prodition des Juifz.
209
Homélie 18 en Genèse.
210
Homél. 52.
211
Dialog. contra Pelagianos.
a
Ataque direto contra Erasmo e outros contemporâneos; a oposição é feita de agora em diante simplesmente
contra o humanismo, ao qual Calvino tinha sido favorável no período anterior de sua vida.
97
não foi corrompido, a não ser na parte sensual, conservando integralmente a ra-
zão e, na maior parte, a liberdade em seu querer. A expressão “livre arbítrio”
sempre esteve entre os latinos. Os gregos empregam uma expressão mais arrogantea
ainda, com a qual querem dizer que o homem tem poder sobre si mesmo.
Portanto, sendo que, até entre os mais simples e populares, todos estão im-
pregnados da opinião de que temos livre arbítrio, e que a maioria dos que querem
ser vistos como sábios não entende nem até onde se estende essa liberdade, con-
sideremos em primeiro lugar o significado dessa expressão, e depois vejamos,
pela pura doutrina da Escritura, que faculdade ou poder o homem tem para a
prática do bem ou do mal.
25. Definição de livre arbítrio
Embora a expressãob
“livre arbítrio” seja utilizada por todo o mundo, poucos são
os que a definem. Todavia, ao que parece, Orígenes fez uma definição que na
época foi bem recebida por todos em geral. Disse ele que o livre arbítrio “é uma
faculdade da razão pela qual se pode discernir o bem e o mal, e da vontade, pela
qual se pode escolher um ou outro”. Disso não discordac
Agostinho,212
quando
afirma que “é uma faculdade da razão e da vontade pela qual se escolhe o bem,
quando se tem a assistência da graça de Deus, e o mal, quando não se tem essa
assistência”. Bernardod
[de Claraval], querendo falar sutilmente, foi mais obs-
curo. Disse ele que o livre arbítrio “é uma concessão feita à liberdade do que-
rer, que não se pode perder, e um julgamento indeclinável da razão”. Não é
mais clara a definição dada por Anselmo, segundo a qual essa faculdade “é um
poder de manter a justiça por amor dela mesma”. Entretanto, o Mestre das
Sentençase 213
e os doutores escolásticos deram preferência à definição de Agos-
tinho, porque é mais fácil e não exclui a graça de Deus, sem a qual eles reco-
nheciam que a vontade humana não tem nenhum poder. Contudo, eles apresen-
tavam alguma coisa de sua iniciativa, pretendendo expressar melhor ou ao me-
nos explicar melhor o que outros diziam.
Primeiro, eles estavam de acordo em que a palavra arbítrio deve referir-se à
razão, cuja função é discernir entre o bem e o mal, e que o adjetivo livre ou
franco, que se lhe junta, pertence propriamente à vontade, a qual pode ser incli-
nada para uma parte ou para a outra. Entendendo-se, pois, que a liberdade ajusta-
se propriamente à vontade, Tomás de Aquinof
acha que seria boa esta definição:
a
au/tecou/sion.
b
liberum arbitrio.
c
1539 tem somente: Augustinus, Bernardus.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
212
Lib. III peri )arxw=n.
d
1539 tem somente: Augustinus, Bernardus.
e
Petrus Lombardus.
213
Lib. II sententiarum, distinctio 24.
f
Palavra acrescentada a 1539.
98 As Institutas – Edição Especial
“O livre arbítrio é uma virtude eletiva que, intermediária entre a inteligência e a
vontade, todavia inclina-se mais para a vontade”.214
Vimos em que consiste a força do livre arbítrio, a saber, na razão e na von-
tade. Agora resta saber qual a sua extensão. Geralmente lhe são atribuídas coisas
externasa
, não referentes ao Reino de Deus, mas sim ao conselho e à escolha dos
homens; a verdadeira justiça é atribuída à graça de Deus, e a regeneração, ao Seu
Espírito.215
É o que o autor do livro da vocação dos gentios quer dizer quando diz
que há três tipos de querer.216
O primeiro se chama sensitivo; o segundo, animal;
o terceiro, espiritual. Quanto aos dois primeiros, o homem é declarado livre. Do
terceiro se diz que é operação do Espírito Santo.
26. Discussão da proposição supra
Discutiremos logo a seguir a veracidade da proposição acima exarada. O que
precisamos fazer agora é anotar brevemente as sentenças de outros. Delas se
observa que os escritores, ao tratarem do livre arbítrio, não dão muita atenção às
obras externas, pertencentes à vida corporalb
, mas consideram principalmente a
obediência à vontade de Deus. Pois bem, eu confesso que esta segunda questão é
a principal, mas, ao mesmo tempo, digo que a outra não deve ser negligenciada,
e espero comprovar bem a minha opinião quando chegarmos lá.
Existe ademais uma distinção que nos vem das escolas de teologia, na qual
são mencionadas três espécies de liberdade. A primeira é a liberdade decorrente
da libertação da necessidade; a outra, do pecado; a terceira, da miséria.217
Da
primeira os seus propugnadores dizem que ela está de tal modo arraigada por
natureza no homem, que não pode ser extirpada. Eles confessam que as outras
duas foram perdidas pelo pecado.
Acolho de boa vontade essa distinção, com esta reserva: Nela a necessidade
é impropriamente confundida com o constrangimento [ou seja, com a obrigação
forçada]. Logo se verá, na ocasião e no lugar próprios, que as duas coisas são
muito diferentes. Uma coisa fica resolvida – que o homem não tem livre arbítrio
para praticar o bem, a não ser que seja ajudado pela graça de Deus, e pela graça
espiritualc
ou especial, dada tão-somente aos eleitos, mediante a regeneração.
214
Parte I, quæst. 83, art. III.
a
medias.
215
Comentando Gálatas 4.26, diz: “.... A Igreja enche o mundo todo e é peregrina sobre a terra. (...) Ela tem
sua origem na graça celestial. Pois os filhos de Deus nascem, não da carne e do sangue, mas pelo poder do
Espírito.” Continua: “Eis a razão por que a Igreja é chamada a mãe dos crentes. E, indubitavelmente, aquele
que se recusa a ser filho da Igreja debalde deseja ter a Deus como seu Pai. Pois é somente através do
ministério da Igreja que Deus gera filhos para si e os educa até que atravessem a adolescência e alcancem a
maturidade.” [João Calvino, Gálatas, São Paulo, Paracletos, 1998, (Gl 4.26), p. 144.] Em outro lugar: “A
Igreja é a mãe comum de todos os piedosos....” . [João Calvino, Efésios, (Ef 4.12), p. 125.] NE.
216
Lib. I, cap. II.
b
civiles seu externas actiones.
217
Lib. II sentent., distinct. 25.
c
speciali.
99
Contudo, ainda não fica evidente se resta ao homem alguma porção dessa facul-
dade, pequena e fraca porém, a qual nada pode fazer sem a graça de Deus; mas,
sendo ajudada por esta, age da parte dele. Querendo decidir esta questão, o Mes-
tre das Sentenças afirma que “há uma graça dupla, necessária ao homem, para o
tornar idôneo para a prática do bem”.218
Uma ele chama atuante, a qual faz com
que nós queiramos o bem com eficácia; a outra ele denomina cooperante, a qual
segue a boa vontade para ajudá-la. Nessa divisão me desagrada que, quando atri-
bui à graça de Deus o ato de fazer-nos desejar o bem com eficácia, significa que,
da nossa natureza, de alguma forma desejamos o bem, apesar de nosso desejo
não produzir nenhum efeito. Porque Bernardo fala pouco menos que isso, quan-
do diz que toda boa vontade é obra de Deus, mas, não obstante, o homem pode,
por sua própria iniciativa, desejar boa vontade. Mas o Mestre das Sentenças en-
tendeu mal a Agostinho, que ele pensava estar seguindo quando introduziu essa
distinção. Pior ainda, há no segundo componente uma dúvida que me incomoda,
visto que gerou uma opinião perversa. Sim, pois, os escolásticosa
acharam que,
por esse motivo, ele diz que não cooperamos com a graça de Deus, isto é, que está
em nosso poder anular a primeira graça que nos é oferecida, rejeitando-a, ou
confirmá-la, obedecendo-lhe. O que também diz o escritor do livro da vocação dos
gentios.219
Porquanto ele afirma que os que têm o juízo da razão são livres para
afastar-se da graça, de modo que lhes seja imputado o poder de não compartilhar
dela, para que tenham algum mérito por fazerem o que puderem, se assim o
desejarem; se bem que não podem fazê-lo sem a graça cooperante de Deus.
Eu quis anotar de passo estes pontos, a fim de que o leitor entenda em que
eu discordo dos doutores escolásticos, cuja doutrina é mais completa e mais
pura, o que não se dá com os sofistas, de que trataremos pouco mais adianteb
e
com os quais temos mais divergências, pois eles se afastaram muito da pureza
dos seus predecessores. Seja como for, com esta divisão poderemos entender
como podem conceder ao homem o livre arbítrio. Porque, finalmente, o Mestre
das Sentenças declara220
que não se afirma que o homem tem o livre arbítrio no
sentido de que ele é auto-suficiente para pensar ou praticar tanto o bem como o
mal, mas unicamente no sentido de que ele não está sujeito à obrigação força-
da, ao constrangimento. Essa liberdade não sofre impedimento, por mais ma-
lignos e servos do pecado que sejamos, e ainda que não consigamos fazer outra
coisa que não seja o mal.
218
Lib. II, distinct. 26.
a
falta à edição de 1539.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
219
Lib. II, cap. IV.
b
Calvino dá testemunho aqui de uma certa simpatia pelos escolásticos da boa época. Por “sofistas” ele enten-
de os nominalistas do seu tempo.
220
Lib. II sentent., distinct. 25.
100 As Institutas – Edição Especial
27. Enfeite soberbo para algo insignificante
Vemos, pois, que eles confessam que não se afirma que o homem tem o livre
arbítrio porque tem liberdade de escolher tanto o bem como o mal, mas porque
ele faz o que faz por que quer, e não por constrangimento. Sentença que é bem
verdadeira. Mas, que brincadeira é essa – enfeitar uma coisa tão pequena com um
título tão soberbo? Aí está, que bela liberdade é essa, que o homem não é cons-
trangido a servir ao pecado, mas que o faz numa servidão voluntáriab
, que a sua
vontade é mantida prisioneira pelos laços do pecado! Certo é que tenho verdadeiro
horror pelas contendas de palavrasc
, que inutilmente perturbam a igreja. Bom seria
que fossem evitados todos os vocábulos em que haja algum absurdo, principalmen-
te onde houver perigo de erro. Ora, quando se atribui ao homem o livre arbítrio,
quantos não haverá que incontinenti se julgarão mestres e senhores do seu juízo e
da sua vontade, e capazes de fazer girar a virtude de um e de outro lado?
Mas alguém poderá dizer que o perigo será extirpado, desde que as pessoas
sejam advertidas quanto ao sentido da expressão “livre arbítrio”. Ao contrário,
digo que, em vista da inclinação natural existente em nós que nos leva a seguir a
falsidade e a mentira, mais facilmente tropeçamos numa só palavra do que sería-
mos instruídos na verdade por uma longa oração. Disso temos experiência mais
que certa de que seria melhor dispensar tal vocábulo. Porque, uma vez inventado,
é logo bem recebido por quem não leva em conta a exposição feita pelos antigos;
e o toma como motivo para orgulhar-se de si mesmo.
28. Livre arbítrio: livre ou escravo?
E isso com maior razão, se nos defrontarmos com a autoridade dos pais que, con-
quanto estejam sempre com essa expressão na boca, entretanto mostram qual é o
valor que lhe dão no uso que dela fazem. PrincipalmenteAgostinho, que não hesita
em chamá-lo servo221
[arbitrio]. É bem verdade que em certo lugar ele se opõe aos
que negam a existência do livre arbítrio,222
mas, ao mesmo tempo, ele demonstra o
que pretende, quando diz: “Somente que ninguém se disponha a negar o livre arbí-
trio para, com isso, escusar o pecado”. Por outro lado, porém, ele confessa que “a
vontade do homem não é livre sem o Espírito de Deus, visto que é dominada por
suas concupiscências”.223
Igualmente diz ele que “depois que a vontade é domina-
da pelo mal em que caiu, a nossa natureza perdeu a liberdade”.224
E ainda: “O
homem, fazendo mau uso do livre arbítrio, perdeu-o, e perdeu-se”.225
E declara
mais, “que o livre arbítrio está em cativeiro e não pode fazer bem algum”.226
b
e)qelodou=loj . Em 1548 La Boétie havia composto um discurso sob esse título.
c
logomaxi/aj.
221
Lib. II cont. Iullia.
222
Ad Anasta.
223
Homil. 53, in Ioan, de perfe. justi.
224
Lib. III ad Bonifa.
225
Ench. ad Laurent., cap. XXX.
226
De correp. et gratia, cap. XIII.
101
Que diremos nós, ainda mais que noutro lugar parece que ele se põe a zom-
bar dessa expressão, dizendo que há um livre arbítrio bem livre no homem, mas
de modo nenhum está livre de preocupações, e está livre da justiça e é servo do
pecado? O que testifica que ele não tem outra opinião sobre a liberdade do ho-
mem, senão que se desviou da justiça, rejeitando o seu jugo para servir ao peca-
do. Não é assim, que ele zomba apenas do título que lhe dão, chamando-o livre
arbítrio? Portanto, se alguém se permite usar essa expressão, não farei com ele
grande controvérsia. mas, uma vez que vejo que não se pode fazer uso dela sem
grande risco, e, ao contrário, que seria de grande proveito para a igreja se fosse
abolida, eu não gostaria de empregá-la; e se alguém me pedisse conselho, eu lhe
diria que se abstivesse do seu uso.
29. Esclarecimento, não preconceito
Parecerá a alguns que estou agindo com grande preconceito quando declaro que
todos os doutores eclesiásticos, exceto Agostinho, falaram tão dúbia ou voluvel-
mente sobre este assunto que nada se pode colher com certeza da sua doutrina.
Entendem isso como se eu os rejeitassea
tão-somente porque me são contrários.
Mas, na verdade, meu único objetivo é simplesmente advertir os leitores, para o
bem destes, do que acontece neste contexto, para que não esperem demais daqui-
lo que ali encontrarem. É que estão sempre na incerteza, visto que, num dado
momento, despojado o homem de toda virtude ou poder, ensinam que ele deve
buscar refúgio unicamente na graça de Deus. E noutra ocasião lhe atribuem algu-
ma faculdade ou poder, ou ao menos parecem atribuir-lhe. Todavia, não me é
difícil fazer parecer, por algumas das suas sentenças, que, qualquer ambigüidade
que acaso haja em suas palavras, não obstante, eles consideravam sem nenhum
valor as obras humanas, ou ao menos pouco valor lhes davam, canalizando todo
o louvor para as boas obras do Espírito Santo. Pois, que outra coisa quer dizer
esta sentença de Ciprianob
, tantas vezes citada de Agostinho:c227
“Não temos por
que nos glorificar, porque não existe nenhum bem que seja nosso”? Sem dúvida,
ele anula tudo do homem, a fim de que este aprenda a buscar tudo em Deus. Algo
semelhante se vê no que disse Euchère,228
antigo bispo de Liãod
: “Cristo é a Ár-
vore da vida; quem estender a mão para ela viverá; e a árvore do conhecimento
do bem e do mal é o livre arbítrio; quem dela provar morrerá”. Também o que diz
Crisóstomo:229
O homem não somente é pecador por natureza, mas não é senão
inteiramente pecado”. Se não existe bem algum em nós, se, da cabeça aos pés, o
homem nada mais é que pecado, se nem sequer é lícito que ele queira o livre arbí-
trio, como lhe será lícito repartir entre Deus e o homem o louvor das boas obras?
227
Lib. de prædestin. sanct.
228
Lib. I in Genes.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
a suffragii jure depellere.
b c
Falta em 1539.
d
Explicação acrescentada em 1539.
229
Homil. I in Advent.
102 As Institutas – Edição Especial
Eu poderia apresentar aqui, de outros pais, muitos outros testemunhos se-
melhantes, mas, para que ninguém possa ironizar dizendo que só escolhi o que
atende ao meu propósito, deixando de lado o que poderia prejudicar-me, abste-
nho-me de alongar as minhas citações. Não obstante, ouso afirmar o seguinte:
Embora por vezes eles exaltem um tanto o livre arbítrio, sempre tendem a buscar
como objetivo afastar o homem da confiança em sua própria virtude, ensinando-
lhe que todo o seu poder está unicamente em Deus.
30. A natureza do homem
Consideremos agora, com simplicidade, e seguindo a verdade, qual é a natureza
do homem. Sinto-me constrangido a repetir aqui o que já abordei no começo
deste tratado, a saber, que tira bom proveito do conhecimento de si mesmo aque-
le que, entendendo inteligentemente a sua calamidade, a sua pobreza, a sua nu-
dez e a sua ignomínia, fica abatido e arrasado. Porque não há perigo de o homem
humilhar-se exageradamente, desde que entenda que poderá recuperar em Deus
o que lhe falta. Por outro lado, o homem não pode atribuir a si mesmo nem um
grãoa
de bem, além da medida, que não se estrague pela confiança vã, e que não
se faça culpado de sacrilégio por usurpar a glóriab
de Deus. E, na verdade, sempre
que nos entra na mente essa cupidez, essa cobiça, de querermos ter alguma coisa
como sendo propriamente nossa, ou seja, pretender que isso está mais em nós do
que em Deus, precisamos entender que essa idéia não nos é apresentada por outro
conselheiro senão aquele mesmo que induziu os nossos primeiros pais a quere-
rem ser “como Deus, ...conhecedores do bem e do mal”.230
Se é palavra diabólica
a que exalta o homem em si mesmo, não devemos dar lugar a ela, a não ser que
estejamos querendo receber conselho do nosso inimigo. É agradável pensar em
termos em nós tanta virtude ou poder que fiquemos satisfeitos com nós mesmos.
Mas há muitas sentenças na Escritura que nos desviam dessa vã confiança, como,
por exemplo, as seguintes: “Maldito o homem que confia no homem, faz da car-
ne mortal o seu braço...”.231
Também: Deus “não faz caso da força do cavalo, nem
se compraz nos músculos do guerreiro. Agrada-se o Senhor dos que o temem e
dos que esperam na sua misericórdia”.232
E mais: “Faz forte ao cansado e multi-
plica as forças ao que não tem nenhum vigor”.233
E ainda; Ele “prostra de fadiga
os que estão na flor da idade, põe em decadência os fortes e fortalece aqueles que
nele esperam” (tradução direta do original francês). Dos que buscam este objeti-
vo, que ninguém se apóie na minúscula opinião do mundo e em sua própria virtu-
a
tantillum.
b
honorem.
230
Gn 3.5.
231
Jr 17.5.
232
Sl 147.10,11.
233
Is 40.29.
103
de ou poder, se é que deseja contar com a ajuda de Deus, que “resiste aos sober-
bos, mas dá graça aos humildes”.234
Depois, convém fixar na memória todas estas promessas: “Derramarei água
sobre o sedento e torrentes sobre a terra seca”.235
E também: “Ah! Todos vós, os
que tendes sede, vinde às águas”,236
e outras promessas semelhantes, as quais
atestam que ninguém tem permissão para receber as bênçãos de Deus, exceto
aquele que, reconhecendo a sua pobreza, humilha-se em sua necessidade.
Não nos esqueçamos das outras promessas, como a que também nos vem
de Isaías: “Nunca mais te servirá o sol para luz do dia, nem com o seu resplendor
a lua te alumiará; mas o Senhor será a tua luz perpétua”.237
Certamente o Senhor
não extinguirá a luz do sol ou da lua para os Seus servos; contudo, mais do que
manifestar por eles a Sua glória, Ele destrói a nossa confiança nas coisas que, em
nosso humano conceito, são as mais excelentes.
31. Fundamento da filosofia cristã
Por isso esta sentença de Crisóstomo sempre me agradou muito: “O fundamento
da nossa filosofia é a humildade”,238
diz ele. E mais ainda a de Agostinho,239
quando ele diz: “Como Demóstenesa
, o orador grego, sendo interrogado sobre
qual seria o primeiro preceito da eloqüência [ou seja, da boa oratória], respondeu
que é a pronúncia [a articulação das palavras], e, sendo interrogado sobre a se-
gunda, respondeu a mesma coisa, como também sobre a terceira, assim também,
se me perguntares quais os preceitos da religião cristã, eu te responderei: O pri-
meiro, o segundo e o terceiro, é a humildade”.240
32. A verdadeira humildade
Ora, ele não entende a humildade apenas no sentido de que, quando um homem
acha que tem alguma virtude ou poder, não se orgulha disso, mas, sim, no sentido
de que esse homem conhece de tal maneira a verdade que só encontra refúgio em
humilhar-se diante de Deus. Como Agostinho declara noutro lugar:241
“Que nin-
234
Tg 4.6.
235
Is 44.3.
236
Is 55.1.
237
Is 60.19.
238
Homil. de perfect. evang.
239
Epist. 56, ad Diosco.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
rhetor ille.
240
“Ninguém possui coisa alguma, em seus próprios recursos, que o faça superior; portanto, quem quer que se
ponha num nível mais elevado não passa de imbecil e impertinente. A genuína base da humildade cristã
consiste, de um lado, em não ser presumido, porque sabemos que nada possuímos de bom em nós mesmos;
e, de outro, se Deus implantou algum bem em nós, que o mesmo seja, por esta razão, totalmente debitado à
conta da divina graça.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1996, (1Co 4.7),
pp. 134-135.] NE.
241
Homil. in Ioan, 49.
104 As Institutas – Edição Especial
guém, diz ele, se gabe de si mesmo, pois cada um é diabo; todo o bem que existe
é de Deus. Porque, que tens tu de ti mesmo, senão pecado? Se queres ficar com
algo que seja teu, fica com o pecado, porque a justiça é de Deus”. E mais:242
“Por
que temos tanta presunção do poder da nossa natureza? Ela está ferida, foi abatida,
dissipada, destruída; ela é causa de confissão verdadeira, e não de falsa defesa”.
Não contendamos, pois, contra Deus, por nossos direitos, como se estivés-
semos enfraquecidos.a
Porquanto, como a nossa humildade é a Sua exaltação,
assim a confissão da nossa humildade sempre traz consigo a Sua misericórdia
como remédio. Não é bem que eu pretenda que o homem renuncie a seus direitos
diante de Deus, nem que mude o seu pensamento e não reconheça a sua virtude,
se é que ele tem alguma, para reduzir-se à humildade e nada mais. A única coisa
que peço é que, desfazendo-se de todo o estulto amor a si próprio, e da auto-
exaltação e da ambição,b 243
cegado que fora pelo apego a essas coisas, contem-
ple-se no espelho da Escritura.c
33. O poder da inteligência, do entendimento
Para que a ordem da nossa discussão proceda conforme a distinção que apresen-
tamos, na qual dividimos a alma humana em inteligência ou entendimento e von-
tade, devemos verificar primeiro que poder há na inteligência. Dizer que ela é tão
cega que não lhe resta nenhum conhecimento quanto às coisas do mundo seria
contrário, não somente à Palavra de Deus, mas também à experiência comum.
Porque vemos que no espírito humano há certo desejo de pesquisar a verdade,
não tanto por propensão, mas principalmente por uma questão de gostod
. Vê-se,
pois, que, por uma centelha de conhecimento do espírito humano, o homem tem
um amor natural pela verdade, cuja oposição revela mentes animalescas, cheias
de insensatez e sem nenhuma disposição racional. Tanto que esse desejo, já antes
de entrar em ação, mostra o seu defeito e cai na vaidade. Isso porque o entendi-
mento humano, em sua rudeza, não pode ter o correto desejo de buscar a verdade,
mas se perde em diversos erros. É como um cego que, caminhando na escuridão,
tropeça aqui e ali até se perder totalmente; assim, na busca da verdade, o homem
mostra quão inadequado e inidôneo é para procurá-la e encontrá-la, a tal ponto
que muitas vezes nem percebe que coisas deve esforçar-se para conhecer. E as-
sim se atormenta, com uma tola curiosidade, em busca de coisas supérfluas e de
nenhum valor. Quanto às coisas necessárias, ou as despreza totalmente, ou, em
242
Lib. de nat. et gratia, cap. LII.
a
ac si saluti nostri decederet quod illi tribuitur.
b
filauti/aj kai filonikei/aj.
243
“É da inveja que nascem as disputas, as quais, uma vez inflamadas, se prorrompem em seitas perigosas.
Além do mais, a ambição é a mãe de todos estes males.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co
3.3), p.100.] NE.
c
Cf. Epístola de Tiago, I, 24. O espelho da alma pecadora, de autoria de Marguerite d’Angoulême, tinha
surgido em 1531.
d
odore percepto.
105
vez de as observar bem, olha-as de soslaio ao passar, o que não se repete. E o
certo é que quase nunca se aplica conscientemente a seu estudo. Dessa perversi-
dade muitos escritores pagãos se queixam; contudo, vê-se que todos eles estão
envolvidos no mesmo mal. Por isso Salomão, em seu Eclesiastes, depois de nar-
rar todas as coisas das quais os homens gostam e nas quais se julgam muito
sábios, por fim as declara vãs e frívolas.244
Todavia, quando o entendimento hu-
mano se esforça nalgum estudo, não trabalha tão inutilmente que não tenha al-
gum proveito, principalmente quando se volta para as coisas inferiores. E nem é
tão tolo que não tenha gosto, ainda que pequeno, pelas coisas superiores, se bem
que se aplica negligentemente a buscá-las. Mas não possui faculdades paralelas
para aquelas e para estas. Porque, quando quer se elevar acima da vida presente,
logo fica principalmente convencido da sua imbecilidade. Portanto, para que o
homem possa compreender melhor até que nível pode elevar-se nalgum tipo de
conhecimento, devemos fazer uma distinção.
34. Coisas terrenas e coisas celestes
E a distinção é que o entendimento das coisas terrenas é um, e o das coisas celes-
tes é outro. Chamo terrenas as coisas que não chegam a tocar em Deus e em Seu
Reino, nem na verdadeira justiça e na imortalidade da vida futura, mas estão
ligadas à vida presente e quase encerradas sob os limites desta. Chamo celestes
as coisas que constituem a norma e a razão da verdadeira justiça e os mistérios do
Reino celestial. Sob a primeira espécie contam-se: a doutrina política, a maneira
de governar bem a casa, as artes mecânicas, a filosofiaa
e todas as disciplinas
chamadasb
liberais. À segunda pertencem o conhecimento de Deus e da Sua von-
tade, e as normas pelas quais o homem pode conformar a sua vida à vontade de
Deus. Quanto ao primeiro gênero, é preciso confessar que, sendo o homem por
natureza amigo de companhia,c245
ele é também inclinado, por um afeto natural,
a ter e manter sociedade. Por isso vemos que há algumas noções gerais de hones-
tidade e de ordem civil impressas no entendimento de todos os homens.
a b
Acréscimos feitos em 1539.
c
sociale. Cf. Aristóteles: zw=on politiko/n.
244
Ec 3.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
245
Aristóteles, A Ética, I.7.6. e A Política, I.1.9. Do mesmo modo, G.W. Leibniz, Novos Ensaios, São Paulo,
Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. XIX), III.1.1. p. 167. Em outro lugar, Calvino escreve: “O homem foi
formado para ser um animal social.” [John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called
Genesis, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 1981 (Reprinted), Vol. I, (Gn 2.18), p. 128.] Ainda:
“O homem é um animal social de natureza, consequentemente, propende por instinto natural a promover e
conservar esta sociedade e, por isso, observamos que existem na mente de todos os homens impressões
universais não só de uma certa probidade, como também de uma ordem civil.” (João Calvino, As Institutas,
II.2.13.) NE.
106 As Institutas – Edição Especial
35. Ah! os que ao mal chamam bem
e ao bem chamam mal!
Disso decorre que não se encontra ninguém que não reconheça que todas as as-
sembléias devem ser regidas por leis, e que exista algum princípio dessas leis no
entendimento humano. Disso decorre o consentimento que sempre foi dado, tan-
to pelos povos como pelas pessoas individuais no sentido de aceitarem leis, por-
que existe em todos alguma semente que procede da natureza, sem mestre e sem
legislador. Isso não negam as lutas e dissensões que de repente surgem, quando
uns gostariam que todas as leisa
fossem anuladas, toda honestidade fosse destruída
e toda justiça fosse abolida, para governarem segundo a sua cupidez, segundo a
sua cobiça, como ladrões e bandidos. Outros (o que é comum acontecer) acham
que é iníquo o que um legislador ordena como justo e bom, e julgam bom o que
para o legislador é mau.
Os primeiros odeiam as leis, não porque ignoram que elas são boas e santas,
mas porque, tomados e arrebatados por sua cobiça, como por enlouquecida pai-
xão, combatem a razão, e aquilo que aprovam no entendimento detestam no co-
ração, no qual impera a maldade. Os segundos, diversamente, não negam que
todos os homens tenham essa primeira percepção. Sua oposição consiste em que-
rer que as leis sejam melhores, o que é sinal de que eles concedem que existe
alguma eqüidade. No que também se evidencia a debilidade do entendimento do
homem, o qual, pensando estar seguindo o caminho reto, coxeia e vacila. Mas
isto permanece firme sempre – que há em todos os homens uma semente da
ordem política, o que é um grande argumento em prol desta verdade: Ninguém
está destituído da luz da razão quanto ao governo da presente vida.
No que se refere às artes mecânicas, como também às liberais, parece haver
algum poder, quanto a esse aspecto, no entendimento humano.b
Porque o fato de
que nem todos somos aptos e idôneos para aprendê-las todas é uma indicação
suficiente de que o entendimento humano não é destituído de poder nesse terre-
no, visto que não se encontra ninguém que não tenha facilidade para aprender
alguma delas. Melhor ainda, não se trata apenas da capacidade potencial e da
facilidade para aprender, mas também vemos que cada um em sua arte muitas
vezes inventa algo novo ou amplia e aperfeiçoa o que aprendeu de outros.
36. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra
Se bem que, com respeito a isso, Platão tinha errado, entendendo que tal apercepção
não passa de uma recordação do que a alma sabia antes de adentrar o corpo,
a
jus et faz omne inversum, soluta legum refragula.
b
Essa graça relativa à atividade terrena e social, comum aos fiéis e aos infiéis, recebeu o nome de “graça
comum” na teologia calvinista posterior ao reformador. O objetivo da graça comum não é dirigir o homem
rumo ao céu – papel que cabe a “graça particular” –, mas sim o de impedir a corrupção total, extensiva às
faculdades do ser humano, impedir que essa corrupção se torne intensiva e as destrua completamente.
107
todavia, a razão nos constrange a confessar que há um princípio dessas coisas
gravado naturalmente em todos os homens.
Os exemplos acima dados nos mostram, pois, que há uma apercepção uni-
versal da razão impressa naturalmente em todos os homens; e, não obstante, isso
é tão universal que cada pessoa, por si mesma, por sua inteligência, deve reco-
nhecer uma graça especial de Deus. A esse reconhecimento Deus nos exorta o
bastante produzindo loucos e insensatos, pelos quais Ele mostra, como num es-
pelho, qual seria a qualidade da alma humana, se não fosse esclarecida por Sua
luz – luz que por Ele é dada naturalmente a todos como um benefício gratuito da
Sua generosidade para com cada um dos seres humanos. A invenção das artes, a
maneira de ensiná-las, a ordem doutrinária, o conhecimento singular e a excelên-
cia deste, sendo coisas que vêm a pouca gente, não servem de argumento para
provar que a engenhosidade não vem da natureza aos homens. Como, porém, são
coisas comuns a bons e maus, podemos reputá-las como graças naturais. Portan-
to, quando vemos em escritores pagãos essa admirável luz da verdade que
transparece em suas obras, devemos estar advertidos de que a natureza do ho-
mem, conquanto havendo perdido a sua integridade e se tornado grandemente
corrupta, não deixa entretanto de ser ornada por muitos dons de Deus.
37. A única Fonte da verdade
Se reconhecermos o Espírito de Deus como a única Fonte da verdade, não lutare-
mos contra a verdade onde quer que ela apareça; caso contrário, estaremos ofen-
dendo o Espírito de Deus. Porque não se pode falar mal dos dons do Espírito sem
lançar desprezo e opróbrio sobre Ele.246
Pois bem, poderemos negar agora que os antigos jurisconsultos tiveram
grande clareza de sabedoria e prudência quando estabeleceram uma ordem tão
boa e uma políticaa
tão eqüitativa? Diremos que os filósofos eram cegos, quan-
do vemos que eles estudavam tão diligentemente os segredos da natureza e os
descreveram com tanto engenho e arte em seus escritos? Diremos que os que
nos ensinaram a arte de discutir, que é como se fala com a razão, não tinham
nenhuma inteligência, nenhum entendimento? Diremos que os que inventaram
a medicina eram insensatos? Quanto às demais disciplinasb
, vamos considerá-
las como loucuras?
Muito ao contrário, não poderemos ler os livros escritos sobre todos esses
assuntos sem nos maravilharmos. Pois nos maravilharemos, visto que seremos
a
disciplinam.
b
mathemata omnia.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
246
“Se reputamos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade mesma, onde quer que ela haja de aparecer,
nem a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de
Deus.” (J. Calvino, As Institutas, II.2.15); “Visto que toda verdade procede de Deus, se algum ímpio disser
algo verdadeiro, não devemos rejeitá-lo, porquanto o mesmo procede de Deus.” [J. Calvino, As Pastorais,
(Tt 1.12), p. 318.] NE.
108 As Institutas – Edição Especial
constrangidos a reconhecer a sabedoria e a prudência neles presentes. Pois bem,
assim é que não devemos considerar coisa alguma como excelente e louvável
sem reconhecer que procede de Deus. De outro modo, seria uma grande ingrati-
dão nossa – ingratidão que não se vê nos poetas pagãos, que confessaram que a
Filosofia, as Leis (o Direito), a Medicinaa
e outras doutrinas são dons de Deus.
Sendo, pois, assim, que as pessoas que não têm outro auxílio além da
naturezab
, e têm sido tão engenhosas no entendimento das coisas terrenas e infe-
riores, tais exemplos devem instruir-nos sobre quanta graça o Senhor legou à
natureza humana, tendo esta sido despojada do soberano bem.c
Não nos devemos
esquecer, porém, de que todas essas graças são dons do Espírito de Deus, os quais
Ele distribui segundo Lhe parece bem, para benefício comum do gênero humano.
Porque, se mal se pode avaliar quanta ciência e quanta arte foram dadas de ma-
neira especial por Deus aos247
que construíram o Tabernáculo no deserto, não é de
admirar que digamos que o conhecimento das principais coisas da vida humana
nos é comunicado pelo Espírito de Deus. Se alguém levantar a objeção: Como
pode o Espírito de Deus fazer algo de bom com os iníquos, tão distanciados de
Deus? Respondo que esse argumento não é suficiente. Porque quando dizemos
que o Espírito só habita nos fiéis, entenda-se o Espírito de santificação, pelo qual
somos consagrados a Deus para sermos Seus templos. Entretanto, Deus não dei-
xa de suprir, mover e vivificar, pelo poder do mesmo Espírito, todas as criaturas,
e isso Ele faz de acordo com as qualidades próprias de cada uma, tais como por
Ele lhes foram dadas na criação. Ora, se o Senhor quer que os iníquos nos pres-
tem serviço para deles aprendermos a Física, a Dialéticad
e outras disciplinas,
devemos fazer uso deles, para que não suceda que a nossa negligência seja puni-
247
Bezalel e Aoliabe, Êx 31.1-11 e 35.30-35. Herman Bavinck (1854-1921) escreve de modo magistral,
mostrando que a arte provém de Deus: “A arte também é um dom de Deus. Como o Senhor não é apenas
verdade e santidade, mas também glória, e expande a beleza de Seu nome sobre todas as Suas obras, então
é Ele, também, que, pelo Seu Espírito, equipa os artistas com sabedoria e entendimento e conhecimento em
todo tipo de trabalhos manuais (Ex 31.3; 35.31). A arte é, portanto, em primeiro lugar, uma evidência da
habilidade humana para criar. Essa habilidade é de caráter espiritual, e dá expressão aos seus profundos
anseios, aos seus altos ideais, ao seu insaciável anseio pela harmonia. Além disso, a arte em todas as suas
obras e formas projeta um mundo ideal diante de nós, no qual as discórdias de nossa existência na terra são
substituídas por uma gratificante harmonia. Desta forma a beleza revela o que neste mundo caído tem sido
obscurecido à sabedoria mas está descoberto aos olhos do artista. E por pintar diante de nós um quadro de
uma outra e mais elevada realidade, a arte é um conforto para nossa vida, e levanta nossa alma da consterna-
ção, e enche nosso coração de esperança e alegria.” (Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4ª ed. Grand
Rapids, Michigan, Baker Book House, 1984, p. 21.) NE.
a
Falta em 1539.
b
quos scriptura yuxiko/ij vocat.
De nature: quer dizer que não tinham sido regenerados. Como a graça comum, da qual eles se beneficiam, não faz
outra coisa que conservar ou restabelecer as qualidades da natureza tais como eram antes da Queda, hoje se pode
falar de uma ordem da natureza, de um direito natural, etc., após a Queda, apesar da origem sobrenatural da
conservação ou da restauração das qualidades sobrenaturais.
c
Vê-se que a doutrina calvinista da “graça comum” fez da cultura intelectual e estética um dever religioso. É,
pois, um erro falar, como se tem falado, da “barbárie primitiva” que o calvinismo teria repudiado, renunci-
ando a seu princípio inicial e à sua força original.
d
1539 acrescenta: mathematicis.
109
da, se desprezarmos os dons de Deus onde quer que os benefícios destes nos
sejam oferecidos.248
Todavia, para que ninguém pense que o homem é muito feliz por conceder-
mos que ele tem o grande poder de entender as coisas inferiores e existentes neste
mundo corruptível, devemos igualmente notar que a faculdade de entendimento,
e a de inteligência que se lhe segue, é coisa frívola e sem nenhuma importância
perante Deus, quando lhe falta o firme fundamento da verdade. Porquanto, é bem
verdadeira a sentença de Agostinho, que o Mestre das Sentenças sentiu-se cons-
trangido a aprovar:249
que as graças ultranaturais dadas ao homem desde o princí-
pio lhe são dadas após a sua queda em pecado, e assim também as graças naturais
que nele subsistem foram corrompidas; não que tenham sido ou possam ter sido
contaminadas quando e como procederam de Deus, pois foram entregues puras
ao homem, sendo que depois ele se corrompeu. Por isso não se atribui ao homem
nenhum louvor.
38. Tripé da sabedoria espiritual
Resta-nos agora expor o que a razão humana pode ver em sua busca do Reino de
Deus, e qual a sua capacidade de compreender a sabedoria espiritual, que consis-
te em três coisas, a saber: conhecer a Deus; conhecer a Sua vontade; e saber como
nos cabe regrar a nossa vida segundo a vontade de Deus.
Quanto às duas primeiras, principalmente a segunda, os mais astutos de en-
tendimento são mais cegos que os próprios cegosa
. Não nego que se possa encon-
trar nos livros de filosofia sentenças sobre Deus bem escritasb
; mas sempre se vê
nelas tal inconstânciac
que fica patente que não passam de imaginações confusas. É
bem verdade que Deus lhes concedeu um pequeno sabor da Sua divindade, para
que não pretendesssem que a sua ignorância desculpasse a sua impiedade, e os
impulsiona um pouco a dizerem sentenças pelas quais poderiam ser persuadidos.
Mas eles de tal modo só vêem o que querem ver, que isso não consegue levá-los à
verdade. Tal é a situação que é necessário que eles sejam conduzidos ao verdadeiro
conhecimento. Poderemos explicar isso por meio de analogiasd
. Se um homem
estiver no meioe
de um campo numa noite completamente escura, um relâmpago o
fará capaz de enxergar um grande espaço ao seu redor, mas essa claridade durará
uma fração de tempo; assim, de nada lhe servirá para conduzi-lo pelo caminho
a
talpis.
b
scite et apposite dicta.
c
vertiginosam quandam imaginationem.
d
Frase acrescentada em 1541.
e
Picardismo (milieu).
248
“.... Se o Senhor nos quis deste modo ajudados pela obra e ministério dos ímpios na física, na dialética, na
matemática e nas demais áreas do saber, façamos uso destas, para que não soframos o justo castigo de nossa
displicência, se negligenciarmos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas.” (J. Calvino, As
Institutas, II.2.16.) NE.
249
Lib. II, distinct. 25.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
110 As Institutas – Edição Especial
certo. Tão depressa se desvanece a claridade que, antes de ele poder pôr os olhos no
caminho, é outra vez dominado pelas trevas; não há como chegar à casa. Mais que
isso acontece com as pequenas gotas da verdade que vemos esparsas nos livros dos
filósofos; por quantas horríveis mentiras são obscurecidas?
Mas, como eu disse no segundo artigoa
, a ignorância deles é que jamais tive-
ram um mínimo que fosse de certeza da vontade de Deus, sem o que o entendimen-
to fica tomado por espantosa confusão. Porque a razão humana nunca pode aproxi-
mar, nem estender, nem acertar o seu objetivo – que é conhecer bem o Deus verda-
deiro e que Ele quer estar entre nós. Mas, como uma falsa presunção nos deixa
embriagados, e só com grande dificuldade podemos acreditar que a nossa razão é
cega e insensível para entender as coisas de Deus, será melhor, ao que me parece,
provar isso pelo testemunho da Escritura do que por argumentos da razão.250
O que
nos é bem demonstrado pelo apóstolo João, quando afirma que desde o princípio a
vida estava em Deus e que “a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas
trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”.251
Porque com estas palavras ele
ensina que a alma do homem recebe um pouco da luz de Deus, de sorte que ela
jamais fica destituída de alguma chama, ou ao menos de alguma centelha. Igual-
mente, porém, ele observa que, mesmo com essa iluminação, ela não pode compre-
ender Deus. Por quê? A razão disso é que todo o seu engenhob
quanto ao conheci-
mento de Deus é pura escuridão, porque, quando o Espírito Santo chama aos ho-
mens trevas, Ele os despoja de toda a faculdade de inteligência espiritual.252
Por isso o apóstolo afirma que os crentes que recebem a Cristo não nascem
nem do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas uni-
camente de Deus; como se dissesse que a carne não é capaz de tão alta sabedoria
como a de compreender Deus e o que a Deus pertence, a não ser que seja ilumi-
nada pelo Espírito Santo.253
Como Jesus Cristo testifica ao apóstolo Pedro que
a
Frase acrescentada em 1541.
250
“Quanto tem avançado aquele homem que há aprendido a não pertencer-se a si mesmo, nem a ser governa-
do por sua própria razão, senão que submete a sua mente a Deus!” [John Calvin, Golden Booklet of the
True Christian Life, 6ª ed. Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 1977, p. 21.] “O Evangelho não é
uma doutrina de língua, senão de vida. Não pode assimilar-se somente por meio da razão e da memória,
senão que chega a compreender-se de forma total quando ele possui toda a alma, e penetra no mais íntimo
recesso do coração. (...) Os cristãos deveriam detestar aqueles que têm o Evangelho em seus lábios porém
não em seus corações.” [John Calvin, Golden Booklet of the True Christian Life, p. 17.] NE.
251
Jo 1.4,5.
252
“O gênero humano, depois que foi arruinado pela queda de Adão, ficou não só privado de um estado tão
distinto e honrado, e despojado de seu primevo domínio, mas está também mantido cativo sob uma degra-
dante e ignominiosa escravidão.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1,
(Sl 8.6), p. 171.] NE.
253
“Só quando Deus irradia em nós a luz de seu Espírito é que a Palavra logra produzir algum efeito. Daí a vocação
interna, que só é eficaz no eleito e apropriada para ele, distingue-se da voz externa dos homens.” [J. Calvino,
Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997, (Rm 10.16), p, 374.] A vocação eficaz do eleito, “não
consiste somente na pregação da Palavra, senão também na iluminação do Espírito Santo.” (J. Calvino, As
Institutas, III.24.2.) “O ensino interno e eficaz do Espírito é um tesouro que lhes pertence de forma peculiar. (...)
Avoz de Deus, aliás, ressoa através do mundo inteiro; mas ela só penetra o coração dos santos, em favor de quem
a salvação está ordenada.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.8), p. 229.] NE.
b
acumen.
111
foi por uma revelação espiritual de Deus que ele O pôde conhecer.254
Se tivésse-
mos como coisa resolvida aquilo sobre o que não se deve ter dúvida, sendo certo
que tudo quanto o nosso Senhor confere aos Seus eleitos pelo Espírito de regene-
ração falta à nossa natureza, não teríamos nenhum motivo para vacilar nesta ques-
tão. Porque o povo fiel fala desta maneira, pela boca do profeta:255
“Pois em ti
está o manancial da vida; na tua luz, vemos a luz”. O apóstolo Paulo256
testifica
que ninguém pode falar verdadeiramente de Cristo, senão pelo Espírito Santo.
Igualmente João Batista, vendo a rudeza dos seus discípulos, exclama que nin-
guém pode compreender ou receber coisa alguma se do céu não lhe for dada.257
Pois bem, por essa palavra referente a “dom”, que ele entende que se trata de uma
revelação espiritual, e não de uma inteligência comum pertencente à natureza,
fica evidente no que ele se queixa – de que os seus discípulos nada aproveitaram
das muitas pregações que ele lhes havia feito acerca de Cristo. Vejo bem, diz ele,
que as minhas palavras não terão nenhum poder de instruir os homens sobre as
coisas divinas, se Deus não os instruir por Seu Espírito.258
Paralelamente, Moisés,
censurando o esquecimento do povo, ao mesmo tempo observa que ele não pode
entender os mistérios de Deus, a não ser que lhe seja dada a graça de Deus. “As
grandes provas que os vossos olhos viram, os sinais e grandes maravilhas; porém
o Senhor não vos deu coração (ou entendimento) para entender, nem olhos para
ver, nem ouvidos para ouvir.”259
39. A grande limitação da luz da natureza
Será que ele se expressaria melhor se os chamasse de broncos e incapazes de
considerar as obras de Deus? Por essa razão o Senhor, mediante Seu profeta,
prometeu aos israelitas que, por uma graça singular, lhes daria entendimento
pelo qual O conheceriam, significando que o entendimento do homem não pode-
rá ter melhor sabedoria ou prudência espiritual, a menos que seja iluminado por
Ele.260
Mas o apóstolo Paulo fala mais claramente que todos os outros quando,
tirando uma dedução deste assunto, conclui que “o homem natural não aceita as
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
254
Mt 16.17.
255
Sl 36.9.
256
1 Co 12.3.
257
Jo 3.27.
258
“A função peculiar do Espírito Santo consiste em gravar a Lei de Deus em nossos corações” [João Calvino, O
Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.8), p. 228.] É o Espírito Quem nos ensina através das Escrituras (Vd.
As Institutas, I.9.3); esta é “a escola do Espírito Santo”. (J. Calvino, As Institutas, III.21.3. Vd. também,
As Institutas, IV.17.36), que é a “escola de Cristo” [João Calvino, Efésios, (Ef 4.17), p. 133]; e, o Espírito
é o “Mestre” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 1.16), p. 58]; “o melhor mestre” [João Calvino,
As Institutas, IV.17.36. Calvino diz que quem rejeita o “magistério do Espírito”, é desvairado. (João Calvino,
As Institutas, I.9.1]; é o “Mestre interior” [João Calvino, As Institutas, III.1.4; III.2.34; IV.14.9.] Portanto,
“Se porventura desejamos lograr algum progresso na escola do Senhor, devemos antes renunciar nosso próprio
entendimento e nossa própria vontade” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.3), p. 100.] NE.
259
Dt 29.3,4.
260
Hiér. 24. [Jerônimo.]
112 As Institutas – Edição Especial
cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura” (ou, na versão utilizada no
original: “o homem sensual não pode compreender as coisas que são do Espírito,
que lhe são loucura”),261
e não as pode entender.a
Que homem é esse que ele
chama sensualb
? É o que se baseia na luz da natureza.262
Eis, pois, como se demonstra que o homem não pode conhecer naturalmen-
te as coisas espirituais. Se lhe é pedida a razão delas, não consegue dá-la, não
somente porque as negligencia, mas falha mesmo quando se esforça ao máximo,
porque lhe falta discerni-las espiritualmente (diz o apóstolo Paulo).c
Com isso ele
quer dizer que, estando ocultas à inteligência humana, são postas às claras pela
revelação do Espírito, a tal ponto que toda a sabedoria de Deus é loucura para o
homem, enquanto ele não for iluminado pela graça.263
Ora, o apóstolo Paulod
antes havia elevado, acima da vista, do ouvido e da capacidade do nosso entendi-
mento, o conhecimento das coisas que Deus preparou para os Seus servos, e até
havia testificado que a sapiência humana é como um véu que nos impede de
contemplar a Deus. Que mais desejamos? O apóstolo sentencia que a sapiência
do mundo seja considerada loucura, como na verdade o quis Deus. E nóse
lhe
vamos atribuir uma astúcia, uma sutileza capaz de chegar a Deus e de penetrar
todos os segredos do Seu Reino? Que essa alucinação esteja longe de nós!
40. Como regrar a nossa vida
Resta-nos falar do terceiro membro do tripé, qual seja, o de conhecer a regra pela
qual devemos ordenar bem a nossa vida, isto é, pela qual se conhece a verdadeira
justiça das obras, em que parece evidente que o entendimento tem alguma sutile-
za superior à que se relaciona com as coisas acima citadas. Porque o apóstolo264
dá testemunho no sentido de que, quando “os gentios, que não têm lei, proce-
dem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei
para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coraçãof
, testemu-
nhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusan-
do-se ou defendendo-se” diante do juízo de Deus, naquilo que eles fazem. Ora, se
261
1Co 2.14.
a
Acréscimo feito em 1529.
b
animal.
262
“Uma vez que o espiritual se refere à pessoa cuja mente é orientada pela iluminação do Espírito, não há
dúvida de que o natural signifique a pessoa entregue simplesmente aos dons naturais, como são chamados.
Pois a alma se acha estreitamente ligada à natureza, mas o Espírito flui de um dom sobrenatural.” [João
Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.14), p. 92.] NE.
c
Acréscimo feitos em 1539.
263
Vd. João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.14), pp. 93-94. NE.
d
Acréscimo feitos em 1539.
e
A margem de 1539 diz: Pri. tract. de fide. (Ignoramos se Pri. significa primo, priore, ou se é a primeira sílaba
do nome de um autor.)
264
Rm 2.14-16.
f
Cf. 1536, p. 46: Ne ignorantes homines essent, legem in omnium cordibus Dominus inscripsit et quasi
impressit. Hæc vero non aliud est quam conscientia, quæ nobis intus testis sit eorum quæ Deo debemus,
nobisque quid bonum sit, quid malum, proponat.
113
os gentios têm a justiça de Deus naturalmente impressa em seu espíritoa
, não
diremos que eles são totalmente cegos, quanto a saberem como se deve viver.
De fato é coisa vulgarmente sabida que o homem tem suficiente instrução
sobre a justa regra do bem viver por essa lei natural de que o apóstolo fala. Toda-
via, precisamos considerar a finalidade para a qual esse conhecimento da Lei foi
dado aos homens, e então se verá até que ponto ele nos pode dirigir à meta da
razão e da verdade. Isso nos poderá tornar-se notório pelas palavras do apóstolo
Paulo, se considerarmos o processo seguido na formulação da passagem. Ele
tinha dito pouco antes que “todos os que pecaram sem lei também sem lei perece-
rão; e todos os que com lei pecaram mediante lei serão julgados”.265
41. A lei natural ajuda e condena
Visto que o último ponto não parece nem um pouco razoável, qual seja, que as
pobres pessoas ignorantes, sem terem nenhuma luz da verdade, pereçam sem
apelação, ele acrescenta que a sua consciência lhes pode servir de lei e, por sua
vez, é suficiente para condená-las com justiça. Portanto, o fim da lei natural é
deixar o homem sem desculpa. E assim a podemos definir apropriadamente: A
lei natural é um sentido da consciência pelo qual ela discerne suficientemente o
bem e o mal, para despir o homem de sua protetora capa de ignorância, ao mes-
mo tempo em que ela é censurada por seu próprio testemunho. Há no homem
uma tal inclinação para iludir-se e gabar-se que sempre se mostra com forte dis-
posição para desviar a sua mente do reconhecimento do seu pecado. O que, pare-
ce-me, levou Platão (427-347 a.C.) a dizer266
“que só pecamos por ignorância”.
Até que isso passaria, se a hipocrisia do homem, ao esconder os seus vícios e
erros, pudesse fazer com que a consciência não fosse por isso mesmo perseguida
pelo juízo de Deus. Sendo, porém, assim, que o pecador, recusando o discernimento
do bem e do mal que há em seu coração, isso lhe é arrancado à força, mais cedo
ou mais tarde, de tal maneira que mal fecha os olhos, logo é constrangido, que-
rendo ou não, a abri-los – fica evidente que é uma falsidade dizer que só se peca
por ignorância. Temístio (outro filósofob
[e retórico, c. 320-390 A.D.]) falou a
pura verdade267
quando ensinou que o entendimento do homem pouco erra quan-
do faz considerações geraisc
, mas se engana quando considera particularmente o
que concerne à sua pessoad
.
a
Cf. 1536, p. 46 (nota anterior).
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
265
Rm 2.12.
266
In Protagora.
b
Themistius, comentador de Aristóteles, é citado acima. Suas paráfrases foram impressas pela primeira vez
em 1480.
267
Paraph. in 3 de aia., cap. XLVI.
c
in definitione universali, seu rei essentia.
d
A primeira edição, toda em grego, dos Discursos de Themistius, acabava de ser publicada em Veneza, em 1534,
com os Comentários sobre Aristóteles, quando Calvino redigia a Instituição (as Institutas).
114 As Institutas – Edição Especial
Exemplos: Se for feita uma pesquisa geral para ver se o homicídio é mau,
não haverá quem não responda que é. Todavia, quem maquina a morte do seu
inimigo julga que isso é bom. Paralelamente, um adúltero condenará a corrupção
moral em termos gerais, mas se gabará das suas pecaminosas práticas sexuais.
Aqui está, pois, em que consiste a ignorância – quando, após haver estabelecido
um bom juízo universala
, o homem se vê envolvido pessoalmente, esquece a re-
gra que seguia anteriormenteb
, e não se leva em conta a si próprio para julgamen-
to. Desse assuntoAgostinho trata muito bem, na exposição do Salmo 57.268
O que
disse Temístio não é universal. Porque algumas vezes a torpeza da maldade força
tanto a consciência do pecador que ele não cai por deixar-se levar pela falsa
imaginação de que o que pretende fazer é moralmente bom, mas porque se entre-
ga ao mal consciente e voluntariamente. Dessa inclinação falam as sentenças que
vemos nos livros dos pagãos:c
“Vejo o melhor e o aprovo, mas não deixo de seguir o pior,269
e outras
semelhantesd
. Para eliminar toda e qualquer dúvida sobre essa questão, há uma
boa distinção em Aristóteles (384-322 a.C.) entre a incontinência e a
intemperança.270
“Onde impera a incontinência”, diz ele, “o entendimento do
bem e do mal é extirpado do homem por sua concupiscência desordenadae
, en-
quanto que ele não reconhece em seu pecado o mal que geralmente condena em
todos os outros; mas quando a cupidez não o cega mais, o arrependimento lhe
toma o lugar e o leva a reconhecer o seu pecado. A intemperança é uma doença
mais perigosa: é quando o homem, vendo que está praticando o mal, não desistef
,
mas continua obstinadamente em seu mau desejo”.
42. Um padrão da justiça perfeita
Pois bem, sabedores de que existe um juízo universal no homem que o habilita a
discernir o bem e o mal, não é necessário verificar se ele é totalmente são e
completo. Porque, se o seu entendimento tem o discernimento do bem e do mal
somente quanto às coisas das quais ele não pode alegar ignorância, não há neces-
sidade de que a verdade lhe seja notória em cada ponto, mas é suficiente que a
conheça ao ponto de não poder ficar com evasivas sem estar convencido pelo
testemunho da consciência. E, de fato, se quisermos examinar que entendimento
da justiça temos segundo a Lei de Deus, a qual é um padrãog
da justiça perfeita,
a
ubi ad hypothesim ventum est.
b
in thesi.
268
Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo, Paulus, (Patrística, 9/2), 1997, pp. 136-169. NE.
c
Proposição que faltam em 1539.
269
Medæa apud Ovid.
d
Proposição que faltam em 1539.
270
Lib. Ethic. 7, cap. III. [Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo, Abril Cultura, (Os Pensadores, Vol. IV),
1973, III.7. p. 359-361.]
e
Seu pa/qoj.
f
non extingui aut frangi.
g
exemplar.
115
veremos de quantas maneiras esse entendimento é cego. Certamente ele nada
sabe dos princípios mais importantes da Primeira Tábuaa
, como os de pôr em
Deus a nossa confiança, dar-lhe o louvor por Seu poder e Sua justiça, invocar o
Seu Nome e observar o Seu descanso.271
Qual entendimento humano será que,
por seu sentido natural, não digo apenas que alguma vez tenha conhecido, mas
que alguma vez tenha sequer imaginado, que a verdadeira honra e o real serviçob
a Deus consistem nessas coisas? Pois, quando os ímpios querem honrar a Deus,
ainda que os afastemos mil vezes das suas loucas fantasias, sempre recaem, e não
há como persuadi-los de que não há outro serviço agradável a Deus, senão o
espiritual. Poderemos louvar um entendimento que por si mesmo não pode ouvir
e compreender boas advertências? Ora, o entendimento está nessas condições;
vemos, pois, que ele é totalmente insensato e insensível.c
Quanto aos preceitos da Segunda Tábua,272
há um pouco mais de compreen-
são, visto que os mandamentos nela contidos abordam mais de perto a vida hu-
mana e civil; mas, também nessa parte por vezes o entendimento humano falha
muito. Aos mais excelentes espíritos parece absurdo tolerar uma superioridade
muito insensata e insensível, sendo possível repudiá-la de algum modo. E nisso
não pode haver outro julgamento ocorrido na razão humana, senão o de levar o
coração decaído e fraco a mostrar persistentemente essa superioridade, ao invés
de repudiá-la e sujeitá-la convenientemente e com virilidade. Ao contrário, o
Senhor, condenando essa altivez exagerada do coração, ordena aos Seus que te-
nham a paciência humilde que os homens condenam e reprovam com veemência.
Mais fortemente ainda, o nosso entendimento é tão cego nesses pontos da
Lei de Deus que nem sequer reconhece o mal da sua concupiscência. Pois o
homem sensuald
não pode ser induzido a reconhecer a sua enfermidade interior;
e, antes de chegar à entrada do seu abismo, a luz da sua natureza é sufocada.273
Note-se que quando os filósofos falam dos movimentos ou motivos imoderados
do nosso coração, referem-se aos que aparecem mediante sinais visíveis. Quanto
aos desejos malignos que incitam mais secretamente o coração, para eles nada
significam. Por isso, como já acima Platão foi condenado por imputar todos os
a
Isto é, a primeira parte do Decálogo (explicada pouco depois, no cap. III).
271
Êx 20.8-11.
273
A razão estigmatizada pelo pecado, que se mostra tão eficaz nas coisas naturais, perde-se diante do mistério
de Deus revelado em Cristo e, também diante da Revelação geral na Natureza: “As mentes humanas são
cegas a essa luz, a qual resplandece em todas as coisas criadas, até que sejam iluminadas pelo Espírito de
Deus e comecem a compreender, pela fé, que jamais poderão entendê-lo de outra forma.” [João Calvino,
Exposição de Hebreus, Sâo Paulo, Paracletos, 1997, (Hb 11.3), p. 299.] NE.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
272
Êx 20.12-17.
b
cultum.
c
Conclusão acrescentada em 1539. 2. Pouco adiante, cap. III (5º. mandamento).
d
O “homem sensual” não considera pecados os maus desejos que se insinuam secretamente. Completamente
diferente é o pensamento de Calvino. Para ele, o domínio do pecado se estende para além da zona de direção
central pela vontade deliberada. A concupiscência já é pecado. O pecado é um gênero do qual a falta moral de
que falam os filósofos é apenas uma espécie. Esse é o ponto de vista do 10º. mandamento: “Não cobiçarás”.
116 As Institutas – Edição Especial
pecados à ignorância, assim também precisamos rejeitar a opinião daqueles que
pensam que em todos os pecados há uma deliberada malícia. Porque já experi-
mentamos muito mais do que o necessário quantas vezes falhamos apesar da
nossa boa intenção. Pois a nossa razão e o nosso entendimento estão envolvidos
em tantos aspectos da ignorância, estão sujeitos a tantos erros, tropeçam em tan-
tos obstáculos e tantas vezes são abatidos pela perplexidade, que muito longe
estão de poder dirigir-nos bem. Certamente o apóstolo Paulo274
mostra quanto o
nosso entendimento é inseguro e incapaz de nos conduzir em nosso caminho,
quando declara que “por nós mesmos” não somos “capazes de pensar alguma
cousa, como se partisse de nós”. Ele não está falando da vontade ou dos afetos,
mas nos despoja do que de bom nos possa vir do entendimento. Como é isso
então, dirá alguém, que toda a nossa indústria e a nossa sabedoria, o nosso conhe-
cimento e a nossa solicitude são tão depravados que nada de bom podemos fazer
nem pensar diante de Deus? Confesso que nos parece muito duro e que muito nos
entristece sermos despojados da prudência e da sabedoria, que julgamos consti-
tuírem as nossas qualidades mais excelentes. Mas isso parece justo ao Espírito
Santo, que sabe que todas as cogitações do mundo são vãs e que sentencia clara-
mente que tudo o que o coração produz é mau.275
Se tudo o que o nosso entendi-
mento concebe, agita, delibera e maquina é sempre maua
, como poderia o pensa-
mento ocupar-se de coisas que agradam a Deus, a Quem não há nada que agrade,
senão a justiça e a santidade? Pode-se ver, pois, que a razão, pertencente ao nosso
entendimento, de qualquer lado para o qual se volte está pura e simplesmente
sujeita à vaidade. Isso Davi reconhecia pessoalmente, declarando que o entendi-
mento lhe foi dado por Deus para ele poder aprender os Seus preceitos.276
Porque,
aquele que deseja um novo entendimento [ou um novo espírito] dá a entender que
o seu não é suficiente. Pois bem, Agostinho conhecia de tal modo a incapacidade
da nossa razão de entender as coisas de Deus que ele confessa que a graça e a
iluminação do Espírito Santo são tão necessários ao nosso entendimento como a
claridade do sol aos nossos olhos.277
Ainda não contente com o que disse,
acrescentab
que “nós abrimos bem os nossos olhos corporais para recebermos
luz, mas os olhos do nosso entendimento permanecem fechados, a não ser que o
Senhor os abra”.278
274
2 Co 3.5.
275
Gn 6 e seguintes.
a
A confissão de pecados, que remonta à liturgia calvinista de Estrasburgo (1538), diz: “Sendo nós incapazes
por nós mesmos de fazer o bem”, etc.
276
Sl 129 [Sl 51.10-13].
277
Lib. II de peccato. mor. remiss., cap. II.
b
correctionem.
278
“O ensino interno e eficaz do Espírito é um tesouro que lhes pertence de forma peculiar. (...) A voz de Deus,
aliás, ressoa através do mundo inteiro; mas ela só penetra o coração dos santos, em favor de quem a salvação
está ordenada.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.8), p. 229.] NE.
117
43. A vontade e a liberdade
Devemos examinar agora a vontade, que inclui a liberdade, se é que existe algu-
ma liberdade no homema
.279
Vimos que a ação de escolher ou decidir pertence
mais à vontade que ao entendimentob
. Quanto a este, para que não pareça que o
que os filósofos disseram e que é aceito geralmente serve para aprovar qualquer
coisa boa e reta que haja na vontade humana, sempre desejando naturalmente o
bem, precisamos notar que o poder do livre arbítrio não deve ser considerado
como um apetite ou desejo, o qual procede mais da inclinação da naturezac
que
de alguma deliberação da mente. Os próprios teólogos escolásticos confessam
que não há nenhuma ação do livre arbítrio senão somente quando a razão consi-
dera um ou outro lado. Por essa sentença ou pronunciamento eles entendem que
o objetivo do apetite ou desejo deve ser tal que esteja subordinado à escolha. E a
deliberação deve preceder a isso, para dar lugar à escolha.
Se de fato avaliarmos que desejo do bem existe no homem, descobrire-
mos que esse desejo é comum a ele e aos animais irracionais. Porque estes
desejam tudo o que lhes dê algum proveito, e, quando há alguma aparência de
coisa boa, eles vão em sua busca. Ora, o homem, em seu apetite natural, não
discerne pela razão, conforme a excelência da sua natureza imortal, o que deve
buscar, e não o considera mediante o exercício da verdadeira prudência. Mas,
sem a razão e sem o seu conselho, ele segue o movimento ou os motivos da sua
natureza como os animais.d
Portanto, esse processo não está ligado ao livre
arbítrio, isto é, que o homem seja incitado por um sentido natural a desejar o
bem. Mas é preciso que ele o distinga pela reta razão, sabendo o que escolher,
e, tendo-o escolhido, que o busque.280
a
Em 1524 tinha saído à luz a obra De libero arbitrio, de Erasmo, e em 1525, De servo arbitrio, de Lutero.
b
intellectum.
c
essentiæ.
d
instar pecudis.
279
“A pena me acompanha, porque me deste livre-arbítrio. Se, pois, não me tivésseis dado o livre-arbítrio, e
desta forma não me tivesses feito melhor do que os animais, não sofreria justa condenação ao pecar. Então,
pelo livre-arbítrio me elevaste, e por justo juízo me derrubaste.” [Agostinho, Comentário aos Salmos, São
Paulo, Paulus, (Patrística, 9/3), 1998, (Sl (102)101.11), Vol. III, p. 22.] NE.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
280
“Os filósofos pagãos põem a razão como o único guia da vida, da sabedoria e da conduta, porém a filosofia
cristã nos requer que rendamos nossa razão ao Espírito Santo, o que significa que já não vivemos para nós
mesmos, mas que Cristo vive e reina em nosso ser. (Rm 4.23; Gl 2.20.)” (João Calvino, A Verdadeira Vida
Cristã, São Paulo, Novo Século, 2000, p. 30.) Calvino orienta e adverte àqueles que querem discutir com
Deus, limitando-O ao seu raciocínio: “Ponderem, por uns instantes, aqueles a quem isto se afigura áspero,
quão tolerável lhes seja a impertinência, quando, porque lhes excede a compreensão, rejeitam matéria
atestada de claros testemunhos da Escritura e inquinam de vício o serem a público trazidas cousas que, a
não ser que houvesse reconhecido serem proveitosas de conhecer-se, Deus jamais haveria ordenado fossem
ensinadas através de Seus Profetas e Apóstolos. Ora, nosso saber não deve ser outra cousa senão abraçar
com branda docilidade e, certamente, sem restrição, tudo quanto foi ensinado nas Sagradas Escrituras.”
(João Calvino, As Institutas, I.18.4.) NE.
118 As Institutas – Edição Especial
44. Dois erros
E, com o fim de eliminar toda dificuldade, devemos notar que nessa questão há
dois pontos em que se comete engano. Porque, como se diz comumente, o apetite
ou desejo não está ligado propriamente ao movimento ou à motivação da vonta-
de, mas a uma inclinação natural. Segundo, o que se tem por bem não está ligado
à justiça e à virtude, mas ao fato de que todas as criaturas desejam comodidade,
conforme o que a sua natureza traz.a
Sendo, pois, assim, que o desejo natural não tem nenhuma importância,
para provarmos que não há liberdade no homem, e, sim, nada mais que a inclina-
ção que têm todas as criaturas insensatas e insensíveisb
de buscar a perfeição da
sua natureza, o que não serve de nada para mostrar a existência de alguma liber-
dade, consideremos agora outras coisas – se a liberdade do homem é tão comple-
tamente corrompida e viciada que só pode gerar o mal, ou se há nela alguma
parte íntegra, da qual procedem bons desejos. Os que atribuem à primeira a graça
de Deus para podermos exercer eficazmente a vontade, parecem querer dizer
com suas palavras que existe na alma uma faculdade que a habilita a aspirar
voluntariamente ao bem, mas que ela é tão imbecil que não pode chegar a uma
firme disposição para incentivar o homem a esforçar-se.
Não há dúvida de que os escolásticos concordavam com a opinião de
Orígenes e de alguns outros antigos, visto que, quando consideravam o homem
em sua natureza e nada mais, descreviam-no conforme as palavras do apóstolo
Paulo, no capítulo sete de Romanos:281
“Não faço o bem que prefiro, mas o mal
que não quero, esse faço; pois o querer está em mim; não, porém, o efetuá-loc
”.
Ora, dessa maneira eles perverteram toda a discussão empreendida pelo apóstolo
Paulo nessa passagem. Porque ali Paulo trata da luta cristãd
,282
da qual ele fala
mais resumidamente quando se dirige aos gálatas: que os fiéis sentem perpetua-
mente em si um conflito entre o Espírito e a carne.283
O Espírito não recebido da
natureza, mas pela regeneração. Que ele fala dos regenerados se vê do fato de
que, tendo dito que nele não habita bem algum, acrescenta na exposição que isto
se refere à sua carne e, portanto, nega que seja ele que pratica o mal, afirmando
que é o pecado que nele habita que o pratica.
Que significa, “em mim, isto é, na minha carne”? Certamente é o mesmo
que dissesse: Não habita nenhum bem em mim que venha de mim mesmo, visto
que eu não saberia encontrar coisa alguma em minha carne. Daí decorre esta
a
sed conditionis, ut scilicet homo bene habeat.
b
metallis et lapidibus.
281
Rm 7.18-25.
c
A tradução não é nem de Lefèvre nem de Olivetan (1535).
d
A interpretação dada aqui por Calvino da célebre passagem da Epístola aos Romanos veio a ser clássica na
teologia calvinista.
282
“Paulo nos ensina que os crentes jamais alcançam a meta da justiça enquanto habitam a carne, senão que prossegui-
rão em seu curso até despirem-se do corpo.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 5.25), p. 255.] NE.
283
Gl 5.17. (João Calvino, Gálatas, São Paulo, Paracletos, 1998.)
119
espécie de escusa: “Não sou eu quem o faz [quem faz o mal], e sim o pecado que
habita em mim”. De falar assim só têm direito os fiéis, os crentes, que se esfor-
çam do fundo da alma para praticar o bem. Com maior força e razão, a conclusão
que se segue demonstra isso claramente: “No tocante ao homem interior, tenho
prazer na lei de Deus”, diz ele; “mas vejo, nos meus membros, outra lei que,
guerreando contra a lei da minha mente (ou do meu entendimento), me faz prisi-
oneiro da lei do pecado que está nos meus membros”.
Quem teria um tal conflito interior, senão aquele que, tendo sido regenera-
do pelo Espírito de Deus, sempre traz consigo restos da sua carne? Por issoAgos-
tinho, tendo tomado erroneamente essa passagem sobre a natureza do homem,
retratou-se depois, repudiando a sua exposição como falsa e imprópria. E de fato,
se concedermos que, sem a graça de Deus, o homem tem a menor motivação do
mundo para a busca e a prática do bem, que responderemos ao apóstolo, o qual
nega que sequer somos capazes de pensar em qualquer forma do bem? Que res-
ponderemos ao Senhor, que, por meio de Moisés,284
denuncia que tudo o que o
coração humano produz é inteiramente perverso? Pois, uma vez que os tais mes-
tres são enganados pelo entendimento errado de uma passagem, não temos ne-
cessidade de sentir-nos detidos pela fantasia deles. Antes, devemos acolher o que
disse Cristo, que “todo o que comete pecado é escravo do pecado.285
Ora, como
todos nós somos pecadores por natureza, segue-se que estamos sob o jugo do
pecado. E mais, se todos os homens estão presos à servidão do pecado, é necessá-
rio que a vontade, que é a principal parte da constituição do seu ser, seja apertada
e amarrada com laços firmes.
Todavia, o homem só poderá ser bem conhecido em suas diversas partes
constitutivas quando lhe tivermos dado os títulos com os quais a Escritura o adorna.
Se todo homem nos é descrito por estas palavras do Senhor,286
“o que é nascido da
carne é carne”, como é fácil comprovar, fica patente que ele é uma criatura miserá-
vel. Porque o pendor da carne dá para a morte (ou, literalmente, toda a inclinação
da carne é morte), testemunha o apóstolo,287
visto que é inimizade contra Deus,
porquanto ela não se sujeita nem pode sujeitar-se à Lei de Deus. Se a carne é tão
perversa que toda a sua inclinação a leva a exercer “inimizade contra Deus”;288
se
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
284
Gn 8.21.
285
Jo 8.34.
286
Jo 3.6.
287
[Rm 8.6.] Paulo “prova por meio do contraste que aqueles que permanecem na carne não podem ser participantes
da graça de Cristo, pois ao longo de todo o curso de sua vida não fazem outra coisa senão precipitar-se para a
morte” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.6), p. 266.]
288
Rm 8.7. “Ele adiciona uma prova da proposição que oferecera, ou seja: nada, senão a morte, procede dos
labores de nossa carne, visto que os mesmos são hostis à vontade de Deus. Ora, a vontade de Deus é a
norma da justiça. Segue-se que tudo quanto seja contrário a ela é injusto; e se é injusto, também traz, ao
mesmo tempo, a morte. Contemplamos a vida em vão, caso Deus nos seja contrário e hostil, pois a morte,
que é a vingança da ira divina, deve necessariamente seguir de imediato a ira divina.
“Observemos aqui que a vontade humana é em todos os aspectos oposta à vontade divina, pois assim como
há uma grande diferença entre nós e Deus, também deve haver entre a depravação e a retidão.” [João
Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.7), pp. 266-267.]
120 As Institutas – Edição Especial
ela não pode consentir com a justiça divina; em suma, se ela não pode produzir coisa
alguma senão morte, agora, sendo pressuposto que na natureza humana não há outra
coisa que não seja carne, como poderemos tirar dela sequer uma gota de bem?289
Mas (dirá alguém), esse vocábulo só se refere ao homem sensual ou carnal,
e não se relaciona com a parte superior da alma. Respondo que se pode refutar
facilmente isso citando palavras de Cristo e do apóstolo. O argumento do Senhor
é que “importa-vos nascer de novo”,290
ou, é necessário que o homem nasça de
novo, porque é carne. Não se trata de novo nascimento segundo o corpo. Ora, não
se vai dizer que a alma renasce quando alguma parte dela é corrigida, mas, sim,
quando é totalmente renovada. O que é confirmado pela comparaçãoa
feita tanto
por Cristo como pelo apóstolo Paulo, porque na comparação do Espírito com a
carne, esta fica sem nada. Assim, por essa mesma razão, o que não é espiritual no
homem é carnal. Ora, desse espírito, dessa qualidade espiritual, não temos uma só
gotab
, a não ser pela regeneração. Portanto, tudo o que temos por natureza é carne.
45. Que existe no homem, senão vaidade?
Não vou citar particularmente tudo o que foi dito sobre a vaidade do homem,
tanto por Davic
como por todos os profetas. Mas é importante o que lemos
num Salmo, que “pesados em balança, eles (os homens) juntos são mais leves
que a vaidade”.291
É uma grande condenação do seu entendimento, signifi-
cando que todas as cogitações que dele procedem são ridicularizadas como
tolas, frívolas, violentas e perversas. Não menor condenação é feita ao cora-
ção, quando é dito que ele está “cheio de fraudes e de perversidade, mais que
todas as coisas.292
Mas, como o meu estudo deve ser breve, ficarei satisfeito
em mostrar uma passagem que será como um espelho bastante nítido para
nos fazer contemplar a imagem completa da nossa natureza. Pois, quando o
apóstolo quer abater a arrogância do gênero humano, ele faz uso destes teste-
munhos:293
“Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem
busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem
faça o bem, não há nem um sequer;294
a garganta deles é sepulcro aberto; com
a língua urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios,295
a boca, eles
289
“Os desejos que agitam o homem carnal são como ondas impetuosas que se chocam umas contra as outras,
arremessando o homem de um lado para outro, de modo tal que ele muda e vacila a todo instante. Todos
quantos se entregam aos desejos carnais experimentam tal desassossego, porque não existe estabilidade
senão no temor de Deus.” [J. Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 3.3), p. 344.] NE.
290
Jo 3.7.
a
antithesis.
b
Falta em 1539.
c
in psalmis.
291
Sl 62.9.
292
Hier. 17 [Jerônimo].
293
Rm 3.10-18.
294
Sl 14.1-3.
295
Sl 5.9 e 140.3.
121
a têm cheia de maldiçãoa
e de amargura;296
são os seus pés velozes para derra-
mar sangue, nos seus caminhos há destruição e miséria, desconheceram o cami-
nho da paz.297
Não há temor de Deus diante de seus olhos”.298
Com essas palavras
rigorosas ele não fulmina apenas alguns homens, mas toda a linhagem de Adão,
e não censura os costumes corrompidos de alguma época, mas acusa a corrupção
perpétua da nossa natureza. Porque, na passagem acima citada, a sua intenção
não é tão-somente repreender os homens a fim de que se corrijam, mas, antes,
ensinar que todos os homens, do primeiro ao último, estão envolvidos em tão
grave calamidade que dela não podem sair, a menos que a misericórdia de Deus
os livre.299
Uma vez que isso não se pode provar pelo que se vê, pois não parece
que a nossa natureza tenha caído em tão ruinosa desgraça, Paulo cita aqueles
testemunhos, pelos quais mostra que a nossa natureza está mais que perdida.
Vamos dar por resolvido, pois, que os homens não são como Paulo os descreve
apenas pela perversão dos costumes, mas também por uma perversidade naturalb
,
porque, de outro modo, o argumento dele não teria consistência.300
Assim é, para
mostrar que não temos salvação, a não ser pela misericórdia de Deus, visto que,
deixado a si mesmo, todo homem está perdido e arruinado.301
Não me causa pre-
ocupação aplicar os testemunhos citados como próprios do apóstolo Paulo, por-
que tomo aquelas sentenças como tendo sido primeiramente ditas por ele, e não
como citadas dos profetas. Primeiro, ele despoja o homem da justiça, isto é, da
integridade e da pureza, depois, da inteligência, à qual segue-se a indicação do
sentido: que todos os homens se desviaram de Deus, sendo que buscá-lo é o
primeiro nível da sabedoria. Seguem-se então os frutos da infidelidade: que to-
dos decaíram e se tornaram dissolutos a tal ponto que “não há quem faça o bem”.302
296
Sl 10.7.
297
Is 59.7,8.
298
Sl 36.1.
299
No Salmo 51, Davi reconhece que o pecado não era algo acidental; não era algo periférico antes, ele, como todos
nós, nascemos em pecado; o pecado jaz dentro de nós. “Davi não culpa a seus pais, nem traça seu crime até chegar
a eles, mas senta-se diante do tribunal divino, confessa que fora formado em pecado, e que era um transgressor
nato, assim que viu a luz deste mundo.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431.] NE.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
maledictione.
300
“O gênero humano, depois que foi arruinado pela queda de Adão, ficou não só privado de um estado tão
distinto e honrado, e despojado de seu primevo domínio, mas está também mantido cativo sob uma degra-
dante e ignominiosa escravidão.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1,
(Sl 8.6), p. 171.] NE.
301
“Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios
méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericór-
dia gratuita de Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 6.4), pp. 128-129.] NE.
302
“.... a causa do pecado, as raízes do qual sempre residem no próprio pecador; não têm sua origem em Deus, pois
resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim o teu socorro” [Os 13.9].” [João
Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997, (Rm 1.24), p. 71.] “Lembremo-nos de que nossa
ruína se deve imputar à depravação de nossa natureza, não à natureza em si, em sua condição original, para que
não lhe lancemos a acusação contra o próprio Deus, autor dessa natureza.” (As Institutas, II.1.10.) NE.
b
Natural, aqui hereditário, inato. É preciso notar que, segundo Calvino, essas disposições não eram resultado
de algum constrangimento, e, sendo espontâneas, o homem, tendo perdido o seu livre arbítrio, mantém,
contudo, o que hoje chamaríamos sua liberdade formal. E, portanto, continua responsável.
122 As Institutas – Edição Especial
E, ainda mais, há no homem maldades de todo tipo, maldades que contaminam
todas as partes do corpo, o qual transborda injustiça. Finalmente, ele testifica que
os homens não têm “temor de Deus”, sendo que o temor de Deus deveria servir
de regra para nos conduzir em todos os nossos caminhos. Se são essas as riquezas
hereditárias do gênero humano, em vão se buscará algum bem em nossa nature-
za. Reconheço que nem todas essas maldades aparecem em cada ser humano,
mas ninguém pode negar que cada ser humano encerra em si a semente do mal.a
Ora, como um corpo já marcado pela presença da causa e das características de
uma enfermidade nele oculta não será considerado são, embora a doença ainda
não se mostre e o enfermo ainda não sinta nenhuma dor, assim a alma não será
reputada sã, tendo em si tais manchas.303
Certo é que a figura não é de todo própria, porque qualquer mal que haja
no corpo não o impede de reter o vigor da vida; mas a alma, submersa como
está no abismo da iniqüidade, não somente é defeituosa e má, mas também é
vazia de todo bem.
46. Explicando a presença da bondade humana
Levanta-se uma questão um tanto parecida com a que foi resolvida acima. É que,
em todos os séculos tem havido alguns que, em sua conduta e por sua índole,
durante toda a sua vida têm aspirado à virtude, e mesmo quando se encontre
muita coisa que merece reparo em seus costumes, o seu apego à honestidade
mostra alguma pureza da sua natureza. Explicaremos mais amplamente que va-
lor têm tais virtudes para Deus, quando tratarmos do mérito das obras.b
Todavia,
é bom dizer no presente o que será necessário para a matéria que temos em mãos.
Os exemplos nos advertem de que não devemos considerar a natureza humana
como totalmente viciosa e má, visto que, por sua inclinação, alguns não somente
têm praticado muitas ações excelentes, mas também se têm portado com hones-
tidade durante todo o curso da sua vida. Cabe-nos, porém, considerar que, na
corrupção universal de que falamos, a graça de Deus tem seu lugar, não para
corrigir a perversidade da natureza, mas para reprimi-la e restringi-la no íntimo.
Porque, se Deus permitisse que todos os homens seguissem a sua concupiscência
a rédeas soltas, não haveria ninguém que não demonstrasse experimentalmente
que todos os males (pelos quais o apóstolo condena a natureza humana) estão em
todos eles. Porque, quem será que se poderia separar do comum dos homens? O
que seria necessário fazer, caso alguém quisesse eximir-se daquilo que o apósto-
lo Paulo disse de todos, a saber,304
que “os seus pés são velozes para derramar
303
“Quanto trazemos ainda conosco de nossa carne é algo que não podemos ignorar, pois ainda que a nossa
habitação está no céu, todavia somos ainda peregrinos na terra.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, São
Paulo, Paracletos, 1997, (13.14), p. 462.] NE.
a
hydra ista in singulorum pectoribus lateat.
b
Mais adiante, cap. VI.
304
Rm 3.12-18; cf. 1.29.
123
sangue, as suas mãos estão sujas de assaltos, roubos e homicídios, suas gargantas
parecem sepulcros abertos, suas línguas são astutas, seus lábios são venenosos,
suas obras são inúteis, iníquas, podres, mortais; que Deus não está no coração
deles, que estão cheios de malícia, os seus olhos só inventam armadilhas e não há
misericórdia em seu coração” [tradução direta]. Em suma, todas as partes com-
ponentes do seu ser estão dispostas e preparadas para fazer o mal.
47. Restrição, ou eliminação do mal que há
na natureza humana?
Sendo que cada alma está assim sujeita a todos esses monstruosos males, como o
apóstolo denuncia tão duramente, podemos ver o que aconteceria se o Senhor
deixasse vagar a cupidez humana conforme a sua inclinação natural. Não há ani-
mal feroz que se exceda tão desordenadamente, não há rio cujos caudais sejam
tão violentos e indomáveis, cuja inundação seja tão impetuosa.
Esses males e vícios o Senhor expurga dos Seus escolhidos da maneira como
explicaremos oportunamente. Nos réprobos, nos reprovados por Deus, eles são ape-
nas reprimidos, como que por rédeas, para que não ultrapassem os limites que, por
Sua sabedoria, Deus estabelece para a conservação do universo. Disso decorre que
alguns por vergonha, outros por medo da lei, contêm-se e não se entregam à prática
de muita maldade, e, ao menos em parte, não fingem, querendo ocultar as suas
malignas concupiscências. Outros, porque julgam que é proveitoso o modo honesto
de viver, aspiram, por isso mesmo, ao viver honesto. Outros ainda ultrapassam essas
linhas e mostram uma qualidade excelente, especial, mantendo o vulgar sob sua obe-
diência graças a uma espécie de majestade pessoal. Assim é que o Senhor restringe,
por Sua providência, a perversidade da nossa natureza, mas não a expurga.305
Alguém poderá dizer que isso não é suficiente para resolver a questão. Por-
que, ou assemelhamos Catilina a Camilo,306
ou teremos em Camiloa
um exemplo
que mostra que, quando a natureza é bem conduzida, não é totalmente desprovi-
da de bondade. Confesso que as virtudes encontradas em Camilo, ele as recebeu
como dons de Deus, e que elas poderiam ser consideradas louváveis mesmo que
avaliadas pelo que eram em si mesmas. Como, porém, serão sinais de que em sua
natureza Deus prevalece? Para mostrar isso não seria necessário mudar o cora-
305
“Deus, em sua inescrutável sabedoria, governa as atividades humanas de tal forma que suas obras, que ocupam
muito pouco o pensamento humano em virtude de sua constante familiaridade com elas, excedem muitíssimo a
compreensão da mente humana.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 220.] “.... A Igreja
será sempre libertada das calamidades que lhe sobrevêm, porque Deus, que é poderoso para salvá-la, jamais
suprime dela sua graça e sua bênção.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, (Sl 3.8), Vol. 1, p. 88.]. NE.
306
Catilina, Lucius Sergius (c. 109-62 a. C.). Da classe nobre, mas de caráter ignóbil. Cícero atacou publicamen-
te o caráter e os procedimentos de Catilina (“Até quando abusarás da nossa paciência, Catilina?”). Camilo
(Camillus), Marcus Furius (c. 445-365 a. C.). Arrogante general romano. Personalidade controvertida, mas de
grande valor. Mescla de boas e más qualidades. Apesar de condenado e exilado, recuperou-se. Durante a sua
vida foi eleito 6 vezes tribuno militar com poderes consulares, e cinco vezes ditador. A peste o matou. NT.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
Alusão aos argumentos feitos mediante silogismos.
124 As Institutas – Edição Especial
ção?307
Tendo-se em conta o argumento de que, se o homem natural foi dotado de
tal integridade de coração que à natureza humana não falta a faculdade de aspirar
ao bem, e que, por outro lado, se o coração é perverso e tendencioso como é,
como mostrar que ele busca a justiça e a eqüidade? Pois bem, se concedermos
que há homem natural com essa qualidade, não haverá dúvida de que o seu cora-
ção será como acima foi descrito. Que poder demonstraremos, então, que a natu-
reza humana tem para aplicar-se ao bem, se na maior aparência de integridade
que se encontre vê-se que ela sempre se inclina para a corrupção? Portanto, como
não se tomará por virtuoso um homem cuja virtude só serve de sombra para
cobrir seus vícios e defeitos, assim não atribuiremos à vontade humana a faculda-
de de querer o bem, dado o tempo em que se fixa na perversidade.308
Com maior
força e mais razão, a solução mais certa e mais fácil consiste em dizer que as
referidas virtudes não são comuns à natureza humana, mas, antes, são graças ou
bênçãos especiais do Senhor, que Ele distribui até mesmo aos maus, como e
quantas Lhe apraz. Por esse motivo, em nosso linguajar vulgar não devemos di-
zer que este é bem nascido, aquele é mal nascido, que um tem boa natureza, o
outro tem natureza má. Ao contrário, não deixamos de incluir uns e outros na
condição universal da corrupção humana, mas o que, sim, queremos dizer é que
Deus dá de Sua graça particularmente a um e a nega a outro.309
Ora, a vontade
humana, amarrada e presa como está à servidão do pecado, não pode trabalhar
nem um pouco pelo bem, por mais que se esforçe.a
Pois tal ação é o começo da
nossa conversão a Deus, a qual é totalmente atribuída à graça do Espírito Santo
pela Escritura,310
como, por exemplo, Jeremias rogou ao Senhor que o convertes-
se, se o quisesse ver convertido.311
Por essa mesma razão o profeta, no mesmo
capítulo, descrevendo a redenção espiritual dos fiéis, declara que Deus os “livrou
307
Hæc disputat Augustin. lib. IV contra Iullia.
308
“....a vontade humana é em todos os aspectos oposta à vontade divina, pois assim como há uma grande
diferença entre nós e Deus, também deve haver entre a depravação e a retidão.” [João Calvino, Exposição
de Romanos, (Rm 8.7), p. 267.] NE.
309
“Deus, ao criar o homem, deu uma demonstração de sua graça infinita e mais que amor paternal para com
ele, o que deve oportunamente extasiar-nos com real espanto; e embora, mediante a queda do homem, essa
feliz condição tenha ficado quase que totalmente em ruína, não obstante ainda há nele alguns vestígios da
liberalidade divina então demonstrada para com ele, o que é suficiente para encher-nos de pasmo.” [João
Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 8.7-9), pp. 173-174.] “Visto que ele ignorou todo o restante do
mundo e adotou para si um povo que era pequeno em número e desprezível, assim era oportuno que tal
penhor de seu amor paternal se distinguisse de sua beneficência comum, a qual se estende a toda a humani-
dade sem distinção.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 47.4), p. 344.] NE.
a
Quer dizer que ele está objetivamente certo de que ela não o fará por si mesma, se bem que, segundo Calvino,
ela não está sujeita a nenhuma necessidade física, nem a nenhum constrangimento, como veremos um
pouco mais adiante.
310
“Em resposta ao Cardeal Sadoleto, Calvino diz: “... Hás sido castigado pela injúria que fizeste ao Espírito
Santo, separando-O e dividindo-o da Palavra. (...) Aprende, pois, por tua própria falta, que é tão insuportável
vangloriar-se do Espírito sem a Palavra, como desagradável o preferir a Palavra sem o Espírito.” (Juan
Calvino, Respuesta al Cardeal Sadoleto, 4ª ed. Países Bajos, Felire, 1990, p. 30. (Vd. também, a p. 29).
“O Espírito de Deus, de quem emana o ensino do evangelho, é o único genuíno intérprete para no-lo tornar
acessível.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.14), p. 93.] NE.
311
Jr 31.18.
125
da mão do que era mais forte” do que eles [versículo 11], indicando com isso
quão fortemente amarrado o pecador está enquanto se mantém distante de Deus,
permanecendo debaixo do jugo do Diabo. Entretanto, a vontade permanece sem-
pre no homem, a qual, por pura propensão, inclina-se ao pecado. Pois quando o
homem sucumbe a esta necessidade, ele não está despojado da sua vontade, mas
da vontade sadia. E, portanto, não fala erroneamente Bernardoa
quando afirma
que o querer está em todos os homens, mas o querer o bem é matéria de acrésci-
mo, e o querer o mal é da nossa deficiência; assim, “simplesmente querer é do
homem, querer o mal é da natureza corrupta, querer o bem é da graça”.
Ora, como eu já disse, sendo que a vontade é destituída de liberdadeb
, e é
necessariamente tomada pelo mal, é espantoso que alguém ache estranha esta
maneira de falar, a qual não é absurda e foi utilizada pelos antigos mestresc
.
48. Distinção entre necessidade e constrangimento
Alguns se aborrecem pelo fato de não poderem distinguir entre necessidade e
constrangimento. Mas, se alguém lhes perguntar se Deus não é necessariamente
bom e se o Diabo não é necessariamente mau, que responderão eles? O certo é
que a bondade de Deus é tão ligada à Sua divindade que Ele não é menos neces-
sariamente bom do que é necessariamente Deus.312
E o Diabo, por sua queda, não
pode fazer outra coisa senão o mal. Pois bem, se algum blasfemo murmurar que
Deus não merece grande louvor por Sua bondade, visto que Ele é constrangido a
tê-la, a resposta não será fácil? Porquanto, da Sua bondade infinita é que resulta
que Ele não pode agir mal, e não de um constrangimento violento.
Isso não impede, pois, que a vontade de Deus seja livre para fazer o bem, e
que faça necessariamente o bem. Se o Diabo não deixa de pecar voluntariamente,
visto que nada pode fazer senão o mal, quem contestará dizendo que o pecado do
homem não é voluntário, alegando que ele está necessariamente sujeito ao peca-
do? ComoAgostinho, que ensina sempre essa necessidade, não deixou de declará-
la com precisão, assim que Celestius fez calúnia contra esta doutrina, tornando-a
odiosa. Ele emprega estas palavras:313
“Da liberdade do homem resultou que ele
312
O conceito da bondade de Deus fazia parte até mesmo da compreensão pagã. Platão (427-347 a.C.), com
acuidade acentua que o Criador que formou o universo é um ser pessoal e bom: “Ele era bom, e naquele que
é bom nunca se lhe nasce a inveja. Isento de inveja, desejou que tudo nascesse o mais possível semelhante a
ele. (...) Deus quis que tudo fosse bom: excluiu, pelo seu poder, toda imperfeição, e assim, tomou toda essa
massa visível, desprovida de todo repouso, mudando sem medida e sem ordem, e levou-a da desordem à
ordem, pois estimou que a ordem vale infinitamente mais que a desordem.” (Platão, Timeu, 29-30). Agosti-
nho aventa a possibilidade de Platão ter tido contato com as Escrituras [Vd. Agostinho, A Cidade de Deus,
2ª ed. Petrópolis, Vozes, 1990, (Vol. 1), VIII.11.] NE.
313
Lib. de perfect. iustitiæ.
a
Falta em 1539.
b
Discute-se aqui o que hoje se chama liberdade material. A liberdade material é a ausência das más inclina-
ções que nos sujeitariam à necessidade de certeza objetiva, em virtude da qual se pode predizer que pecare-
mos, embora tenhamos conservado a liberdade formal. Esta é espontaneidade inteligente e voluntária.
c
nec a sanctorum usu aliena.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
126 As Institutas – Edição Especial
caísse em pecado; agora, a corrupção que se seguiu fez da liberdade necessida-
de”. Devemos então observar esta distinção: O homem, após corromper-se por
sua queda, peca voluntariamente, e não contra o desejo do seu coração, nem por
constrangimento. Ele peca, insisto eu, por uma fortíssima inclinação, e não por
constrangimento forçado. Ele peca movido por sua própria cupidez, e não cons-
trangido por outros. E, todavia, a sua natureza é tão perversa que ele não é esti-
mulado, impelido ou induzido a outra coisa que não seja o mal. Se isso é verdade,
é notório que ele está necessariamente sujeito a pecar.314
49. O remédio da graça de Deus
Já é hora de falar do remédio da graça de Deus, pela qual a nossa natureza viciosa
é corrigida.315
Porque, como o Senhor, ajudando-nos, supre-nos do que nos falta,
quando a Sua obra se manifesta em nós, assim também fica fácil entender a nossa
pobreza. Quando o apóstolo diz aos filipenses316
que está “plenamente certo de
que aquele que começou boa obra neles há de completá-la até ao Dia de Cristo
Jesus”, não há dúvida nenhuma de que, ao falar do começo dessa boa obra, ele se
refere à origem da conversão deles, quando a vontade deles foi voltada para Deus.
Porque o Senhor começa em nós Sua obra infundindo em nosso coração o amor,
o desejo e o estudo do bema
e da justiça (ou, para falar com mais propriedade),
inclinando, formando e dirigindo o nosso coração para a justiça, Ele aperfeiçoa e
completa a Sua obra, fortalecendo-nos na perseverança.317
E a fim de que nin-
guém fique inquieto pelo fato de que o bem é iniciado em nós por Deus, tanto
mais que a nossa vontade, em si mesma muito fraca, é ajudada por Ele, o Espírito
Santo declara e determina noutra passagem que a vontade se abandone a Seu
cuidado:318
“Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei
da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne; para que andem
nos meus estatutos”.
314
“O primeiro homem foi criado por Deus em retidão; em sua queda, porém, arrastou-nos a uma corrupção
tão profunda, que toda e qualquer luz que lhe foi originalmente concedida ficou totalmente obscurecida.
(...) Só quando aliado ao conhecimento de Deus é que alguns dos dotes a nós conferido do alto se pode dizer
que possui alguma excelência real. À parte disso, eles se acham viciados por aquele contágio do pecado que
não deixou sequer um vestígio no homem de sua integridade original.” [João Calvino, O Livro dos Salmos,
Vol. II, (Sl 62.9), p. 579.] NE.
315
Segundo Calvino, “a doçura da graça” de Deus [João Calvino, O Livro dos Salmos, (Sl 6.1), Vol 1, p. 125]
é a tônica da Sua relação com o Seu povo. NE.
316
Fp 1.6.
a
Acréscimo feito em 1539.
317
A graça é que começa, aperfeiçoa e conclui a obra da salvação em nós (Fp 1.6). Como bem disse Spurgeon
(1834-1892): “A graça começa, continua e termina a obra da salvação no coração de uma pessoa.” [C.H.
Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo, PES., 1992, p. 45.] Aquele que nos regenerou e justifi-
cou, também nos santifica, modelando-nos conforme a imagem de Cristo que se completará na glorificação
(Rm 8.29). [Vd. Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo, Os Puritanos, 2000, p. 156.] NE.
318
Ez 11.19,20.
127
Quem dirá agora que basta que a vontade, em sua fraqueza, seja fortalecida,
quando ouvimos que é necessário que ela seja totalmente reformadaa
e renovada?
Se a pedra fosse tão mole que, manipulando-a, pudéssemos vergá-la e dar-lhe a
forma que quiséssemos, eu não negaria que o coração do homem tem alguma
facilidade e inclinação para obedecer a Deus, bastando que fosse fortalecido em
sua fraqueza. Mas, se o nosso Senhor quis, com essa figura, mostrar que é impos-
sível tirar algum bem do nosso coração se este não for transformado noutro cora-
ção inteiramente novo, não repartamos entre nós e Ele o louvor que Ele só atribui
a Si mesmo. Se, pois, quando o Senhor nos converte ao bem, é como se transfor-
masse uma pedra em carne, com certeza o que pertence à nossa própria vontade
é anulado, e tudo quanto sucede pertence a Deus.
Mas, poderá ser que concedam facilmente que a vontade do homem é
convertida à justiça e à retidão unicamente pelo poder de Deus, e que, deixada
a si mesma, ela se extravia, e, não obstante, sendo ou estando preparada, faz a
sua parte; como escreveu Agostinho,319
que “a graça precede toda boa obra, e
que, no bem fazer, a vontade é conduzida pela graça, e não a conduz; segue-a,
não a precedeb
.
50. A graça e a vontade
Mas eu considero que as palavras do profeta comportam duas coisas: que o Se-
nhor corrige, ou melhor, anula a nossa vontade perversa, e, depois, de Si mesmo
nos dá uma boa. Sendo, pois, que a nossa vontade é antecipada pela graça, admito
que ela seja chamada “camareira”,c
mas, tendo sido reformada ou renovada, essa
é uma obra de Deus, e não deve ser atribuída ao homem: que por sua vontade ele
aquiesce à graça preveniente. Porquanto Crisóstomo320
não falou bem quando
disse que a graça nada pode sem a vontade, como também a vontade nada pode
sem a graça; como se a própria vontade não fosse gerada e formada pela graça.
51. Camareira da graça?
No tocante a Agostinho, não foi sua intenção dar à vontade do homem uma
parte do louvor às boas obras quando a denominou camareira da graça, mas ele
pensava apenas em refutar a perigosa doutrina de Pelágio, que colocava como
primeira causa da salvação os méritos do homem. Portanto, o que se harmoniza
com este propósito é que ele demonstra que a graça precede todos os méritos,
deixando por último a outra questão – o seu efeito perpétuo em nós; assunto do
qual ele trata muito bem noutro lugar. Porque, quando ele diz, repetidas vezes,
que o Senhor previne quem não quer para que venha a querer, e que assiste ao
319
Ad. Bonifa. epist. 106.
a
transformari.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
320
Sermone quodam de inventione sanctæ crucis.
b
pedissequa, non prævia.
c
pedissequa.
128 As Institutas – Edição Especial
que quer, a fim de que não queira em vão, ele declara que Deus é o Autor de
todo bem.321
E como agora vamos passar ao ponto principal da matéria em foco, iremos
redigir tudo sumariamente, e comprovar a nossa sentença, a nossa tese, com os
testemunhos da Escritura. Depois, para que ninguém nos calunie dizendo que
nós pervertemos a Escritura,322
mostraremos que a verdade que sustentamos foi
também ensinada por aquele santo personagem. Mas eu não creio que seja efici-
ente e prático apresentar todos os testemunhos da Escritura, um após outro, para
confirmar a nossa doutrina, a não ser que selecionemos os que poderão abrir o
caminho para entendermos os demais. Por outro lado, penso que não fará mala
mostrar de maneira patente aquilo em que estou de acordo com aquele santo
homem, por quem, com toda razão, a igrejab
mostra tanta consideração.
52. Testemunhos da Escritura
Como vimos, quando o Senhor coloca estas duas coisas na conversão do Seu
povo, declarando que “tirará da sua carne o coração de pedra”,323
Ele dá franco
testemunho de que é necessário que tudo o que a nós pertence seja anulado, para
sermos induzidos ao bem, e de que tudo o que toma o seu lugar procede da graça.
E não o diz só numa passagem, pois eis o que temos em Jeremias:324
“Dar-lhes-ei
um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias, para seu bem
e bem dos seus filhos. ... e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se
apartem de mim”. Igualmente em Ezequiel: “Dar-lhes-ei um só coração, espírito
novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei cora-
ção de carne”. Ele não poderia tirar-nos mais completamente o louvor a tudo o
que de bom e de justo porventura exista em nossa vontade, para o atribuir a Si, do
a
intempestive.
b
piorum consensu.
321
“A graça não teria razão de ser se os méritos a precedessem. Mas a graça é graça. Não encontrou méritos, foi
a causa dos méritos. Vede, caríssimos, como o Senhor não escolhe os bons mas escolhe para fazer bons”,
orienta pastoralmente Agostinho (354-430). [Augustin, On The Gospel of St. John. Tractate 86.2-3
In: Philip Schaff & Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, (First Series),
2ª ed. Peabody, Massachusettes, Hednrickson Publishers, 1995, (Jo 15.16), p. 353-354.] NE.
322
Em 28 de abril de 1564, um mês antes de morrer, Calvino convoca os ministros de Genebra à sua casa; tendo-
os à sua volta, despede-se [Vd. Theodore Beza, Life of John Calvin: In: Tracts and Treatises on the
Reformation of the Church, Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1958, Vol. I, p. cxxxi; J.T. McNeill, The
History and Character of Calvinism, New York, Oxford University Press, 1954, p. 227]; a certa altura diz:
“A respeito de minha doutrina, ensinei fielmente e Deus me deu a graça de escrever. Fiz isso do modo mais
fiel possível e nunca corrompi uma só passagem das Escrituras, nem conscientemente as distorci. Quando fui
tentado a requintes, resisti à tentação e sempre estudei a simplicidade.
“Nunca escrevi nada com ódio de alguém, mas sempre coloquei fielmente diante de mim o que julguei ser a
glória de Deus.” [Calvin, Textes Choisis par Charles Gagnebin, Egloff, Paris, © 1948, pp. 42-43. (Há tradução
em inglês, Letters of John Calvin, Selected from the Bonnet Edition, Edinburgh, The Banner of Truth Trust,
1980,p.259-260;Vd.também:P.Schaff,HistoryoftheChristianChurch,Peabody,Massachusetts,Hendrickson
Publishers, 1996, Vol. VIII, pp. 833-834.] NE.
323
Ez 11.19.
324
Jr 32.39,40.
129
que quando descreve a nossa conversão como a criação de um novo espírito e de
um novo coração. Porque disso decorre que da nossa vontade não pode proceder
nada de bom, enquanto ela não for reformada e renovada, e, após a reforma, o que
nele é bom é de Deus, e não de nós.
53. Como oravam os antigos
Vemos que assim oravam os santos, como Salomão, quando disse: “O Senhor a si
incline o nosso coração, para andarmos em todos os seus caminhos e guardarmos
os seus mandamentos”.325
Ele mostra a contumácia do nosso coração, confessan-
do que este é rebelde contra Deus e Sua Lei, a não ser que seja dobrado e subju-
gado para fazer o contrário. Paralelamente, quando Davi roga ao Senhor que crie
nele “um coração puro e que renove dentro dele um espírito inabalável” (ou, “um
espírito reto”)”,326
não está reconhecendo que todas as partes do seu coração es-
tão cheias de manchas e de impurezas, e que o seu espírito está envolto na per-
versidade?327
Note-se, sobretudo, que, quanto à pureza que ele deseja, uma vez que
a descreve como criação de Deus, a Este ele atribui toda a virtude e todo o poder.328
É verdadeira maravilha que do nosso orgulho Deus não exija estritamente
nada mais do que a observação obediente do Seu Sábado (“Sabbath”). Isto é,
descansarmos de todas as nossas obras; e não há nada que se tire de nós com
maior dificuldade do que isto: que, abandonando todas as nossas obras, demos
lugar às de Deus.329
Se não formos impedidos por nossa rancorosa rebeldia, o
Senhor Jesus deu bastante amplo testemunho das Suas graças, das Suas bênçãos,
para que não sejam obscurecidas: “Eu sou a Videira (diz Ele), vós sois os ramos,
e meu Pai é o Viticultor. Como o ramo não pode dar fruto de si, se não permane-
cer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim; porque sem
mim nada podeis fazer”330
(tradução direta).
Se nós, que somos como um ramo desligado do solo e privado do húmus,
não produzimos fruto de nós mesmos, não temos necessidade de continuar discu-
tindo se a nossa natureza pode fazer algum bem; como também não há dúvida de
que é certa a conclusão de que sem Ele nada podemos fazer. Cristo não diz que
somos tão fracos que não podemos fazer o suficiente, mas, reduzindo-nos total-
325
1Rs 8.58.
326
Sl 51.10.
327
“Não teremos uma idéia adequada do domínio do pecado, a menos que nos convençamos dele como algo
que se estende a cada parte da alma, e reconheçamos que tanto a mente quanto o coração humanos se têm
tornado completamente corrompidos.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431.] NE.
328
Davi reconhece que “somos totalmente devedores à graça de Deus, tanto por nossa primeira regeneração
quanto, no ato de nossa queda, pela subseqüente restauração.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2,
(Sl 51.10), pp. 439-440.] NE.
329
“A observância de um dia dentre cada sete (...) o Senhor a recomendou com Seu próprio exemplo. Pois é de
não apoucada valia acendrar o zelo do homem que saiba que está a trilhar à imitação do Criador.” (João
Calvino, As Institutas, II.8.30.) “Deus só é corretamente servido quando Sua Lei for obedecida.” [João
Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 1.2), p. 53.] NE.
330
Jo 15.1-5.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
130 As Institutas – Edição Especial
mente a nada, Ele exclui toda fantasia sobre o menor poder do mundo. Se, estan-
do ligados a Cristo, frutificamos como um ramo ligado à videira, que recebe seu
vigor da terra, bem como do orvalho do céu e do calor do Sol, parece-me que não
nos sobra nenhuma parcela de todas as boas obras, se é que desejamos que a Deus
seja sempre dada todaa
a honra.331
Por isso o apóstolo dá a Deus todo o louvor,
quando diz: “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar”.332
54. Duas partes das boas obras
A primeira parte das boas obras é a vontade; a outra é o esforço para realizá-las e
o poder fazê-lo. Segue-se, pois, que se o homem atribuir a si próprio alguma
coisa, quer na vontade quer na realização, a estará usurpando de Deus. Se Paulo
tivesse dito que Deus socorre a nossa débil vontade, ele nos teria deixado alguma
coisa. Mas, como afirma que Deus efetua o querer, nisso fica demonstrado que
tudo o que é bom é de outrem, não nosso. E uma vez que a boa vontade, já pelo
peso da nossa carne mesma, é tarda e sofre opressão, diz ele, por conseguinte,
que, para sobrepujarmos toda dificuldade, o Senhor nos dá a constância e o poder
para a realização. E, de fato, o que Paulo ensina noutra passagem não pode ser
outra coisa, pois afirma que só há um Deus, que opera tudo em todos [1Co 12.6].
Portanto, dessa maneira Deus começa e completa a boa obra em nós; é que por
Sua graça a vontade é incitada a amar o bem, é inclinada a desejá-lo e é estimula-
da a buscá-lo e a doar-se com esse propósito. Acresce que o amor, o desejo e o
esforço não falham, mas duram até conseguirem o seu efeito. E finalmente, o
homem assim tomado pela graça de Deus, prossegue na busca do bem e perseve-
ra até o fim.
Ora, Ele não estimula a nossa vontade, como há muito tempob
se tem ima-
ginado e ensinado, como se dependesse da nossa escolha seguir ou resistir ao Seu
estímulo, mas o move com tal eficácia que ela se sente na necessidade de segui-
lo. Daí, o que se lê muitas vezes em Crisóstomo não deve ser aceito – que “Deus
só atrai quem quer ser atraído”. O que significa que, quando Deus nos estende a
mão, espera para ver se achamos bom que Ele nos ajude.
331
“Diz ele [Paulo] que, antes que nascêssemos, as boas obras haviam sido preparadas por Deus; significando
que por nossas próprias forças não somos capazes de viver uma vida santa, mas só até ao ponto em que
somos adaptados e moldados pelas mãos divinas. Ora, se a graça de Deus nos antecipou, então toda e
qualquer base para vanglória ficou eliminada.” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef
2.10), p. 64.] “É preciso lembrar que sempre que atribuímos nossa salvação à graça divina, estamos confes-
sando que não há mérito algum nas obras; ou, antes, devemos lembrar que sempre que fazemos menção da
graça, estamos destruindo a justiça [procedente] das obras.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm
11.6), p. 389.] NE.
332
Fp 2.13.
a
Vê-se que aos olhos de Calvino toda [pretensa] colaboração meritória da vontade humana é um insulto à
glória de Deus.
b
multis sæculis.
131
55. Antes e depois de Adão
Concedemos que, na época em que o homem estava em sua inteireza, podia pen-
der para um lado ou para outro. Mas, depois que Adão mostrou por seu exemplo
quão pobre e miserável é o livre arbítrio, se Deus não nos vigiasse e não nos
tirasse tudo, que proveito teríamos em distribuir Ele a Sua graça dessa maneira?a
Mas, como acontece que Ele derrama sobre nós a plenitude da Sua graça, nós
Lhe roubamos o louvor por nossa ingratidão.333
Porque o apóstolo não ensina
apenas que a graça do bom querer nos é oferecida, desde que a aceitemos, mas
que Deus produz e forma em nós o querer. Essa é simplesmente outra maneira de
dizer que Deus, por Seu Espírito, endireita, modela e modera o nosso coração, e
que nele reina como em Sua possessão. O apóstolo não pode entender de outro
modo esta sentença de Cristo: “Todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e
aprendido, esse vem a mim”,334
senão que por ela se entende que a graça de Deus
é por si mesma poderosa para realizar e efetivar a Sua obra, como afirma Agosti-
nho.335
Deus não dá a Sua graça a todos, como pretende o ditado comumb
, mas ela
é negada à pessoa que faz aquilo que está em si. Bom seria ensinar que a bondade
de Deus é posta à disposição de todos quantos a buscam, sem nenhuma exceção.
Mas, como sucede que ninguém se põe a buscá-la sem que antes receba do céu
inspiração para isso, nessa mesma passagem Paulo não cede e não diminui nem
um pouco a graça de Deus. Certo é que esse privilégio pertence unicamente aos
eleitos, os quais, tendo sido regenerados pelo Espírito de Deus, são conduzidos e
governados por Ele.336
56. O dom da perseverança
Tampouco ele duvida de que a perseverança deva ser considerada como um dom
gratuito de Deus. Há, porém, arraigada no coração dos homens, uma falsa opiniãoc
contrária, segundo a qual a graça é dispensada a cada um conforme o seu mérito,
a
Calvino aplica aqui o preceito ab uno disce omnes. Seu pessimismo quanto à criatura livre, ainda não
enfraquecido, repousa, não sobre premissas filosóficas do gênero das de Leibniz, mas sim sobre um postula-
do religioso: sem Deus, não há nada que se possa esperar quanto à perseverança no bem.
333
“.... Nosso próprio mau humor e impaciência ante a aflição transforma um minuto em um século; enquanto que,
em contrapartida, nosso desconhecimento e ingratidão nos levam a imaginar que o favor divino, por mais que Ele
o exerça para conosco, não passa de um momento. É nossa própria perversidade, pois, que na realidade nos
impede de perceber que a ira divina é de mui curta duração, enquanto que seu favor para conosco prossegue
durante todo o curso de nossa vida.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 30.5), p. 629.]. NE.
334
Jo 6.45.
335
Libr. de prædesti. sancto.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
b
1539: illud, nisi fallor, Okanicum (em Compendium theologicum, de Occam, impresso em 1494).
336
“Deus nos elegeu para sermos seu povo peculiar, a fim de fazer notório seu poder nos preservando e nos
defendendo” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2 (Sl 46.7), p. 335]. “Quando Deus seleciona dentre
toda a raça humana um pequeno número ao qual abraça com Seu paternal amor, esta é uma inestimável
bênção que Ele derrama sobre eles.” [João Calvino, O Livro de Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, (Sl
48.1), Vol. 2, p. 352]. NE.
c
pessimus error.
132 As Institutas – Edição Especial
querendo dizer que não há nisso ingratidão quanto à primeira graça. Mas visto
que isso provém de que se imagina que está em nosso poder recusar ou aceitar a
graça de Deus quando esta nos é apresentada, é fácil refutar essa idéia, porquanto
já se demonstrou que é falsa. Além disso, nota-se aí um duplo erro, porquanto,
além de dizerem que, fazendo bom uso da primeira graça de Deus, merecemos
que com outras graças subseqüentes Ele nos remunere pelo bom uso feito, acres-
centam também que não é só a graça de Deus que opera em nós, mas que ela
apenas coopera.337
Quanto ao primeiro erro, esta é a conclusão necessária: Que o Senhor Deus,
multiplicando as Suas bênçãos a Seus servos e lhes dando diariamente outras
novas, tão agradável Lhe é a obra que neles começou que nestas bênçãos encon-
tra razão e ocasião para desse modo enriquecê-los e dar-lhes crescimento. E a
isso devem ser aplicadas as seguintes sentenças: “Atodo o que tem se lhe dará”.338
Igualmente: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te
colocarei”.339
Mas aqui Ele nos põe em guarda contra dois males: Primeiro, o de
atribuir o bom uso da graça de Deus ao homem, como se por sua habilidade ele a
tornasse proveitosa.340
Depois, o de julgar que as graças ou bênçãos que Deus
concede ao homem fiel lhe são dadas para remunerar o bom uso da primeira
graça, como se tudo não procedesse da bondade gratuita de Deus.341
É minha
convicção, pois, que os crentes devem estar atentos a esta bênção – que quanto
melhor uso fizerem das graças de Deus, outras novas e mais grandiosas lhes
serão acrescentadas diariamente. Mas, por outro lado, digo que esse bom uso é de
Deus, e que essa remuneração provém de Sua benevolência gratuita. Foi isso que
o apóstolo Pauloa
declarou especificamente. Porque, após haver dito que “Deus é
quem efetua em nós tanto o querer como o realizar”,342
imediatamente acrescenta
que Ele faz tanto uma coisa como a outra “segundo a sua boa vontade”, referin-
do-se com essa expressão à benignidade gratuita de Deus.
Quanto ao que dizem que, depois de termos dado lugar à primeira graça,
nós cooperamos com Deus, respondo: Se com isso fica entendido que, depois de
ser ela reduzidab
, pelo poder de Deus, à obediência à justiça, seguimos voluntari-
amente o procedimento de Sua graça, concordo; porque é bem certo que, onde
impera a graça de Deus há essa prontidão para a submissão obediente. Mas isso
não decorre da ação do Espírito Santo que, coerente Consigo mesmo, nutre e
fortalece em nós o amor pela obediência, o mesmo amor que no começo Ele
337
Ver: João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.10), pp. 439-440. NE.
338
Mt 25.29.
339
Mt 25.21.
340
Ver: João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1996, (1Co 15.10), pp. 453-
455. NE.
341
Fp 2.13 [fim do versículo].
a
Acréscimo feito em 1539.
342
Fp 2.13 [Almeida: “...quem efetua em vós...”].
b
edomiti.
133
gerou? Se, por outro lado, os tais querem dizer que o homem faz isso por seu
próprio poder e que ele cooperaa
com a graça de Deus, digo que cometem um erro
danoso e contagioso. Mas eles alegam: Então, que é que o apóstolo quer dizer
quando declara: “Trabalhei muito mais que todos eles [mais que todos os outros
apóstolos]; todavia não eu, mas a graça de Deus comigo”.343
Porque, dizem eles,
como parecia ter falado com arrogância, quando se colocou acima de todos os
outros, ele modera essa declaração, rendendo o louvor à graça de Deus, e, contu-
do, coloca isso em tais termos que se diz companheiro de Deus no trabalho.344
É espantoso que tantas pessoas que noutras coisas não são más, tropecem
neste fiapo de palha, pois o apóstolo Paulo não disse que a graça de Deus tinha
trabalhado com Ele para dizer-se companheiro de Sua graça, mas, antes, atribui a
Deus todo o louvor pelo referido trabalho. “Não fui eu que trabalhei, mas foi a
graça de Deus, a qual me ajudou.” Toda essa fábula resulta do fato de que eles se
prendem à tradução comum,345
que é duvidosa, mas o texto grego do apóstolo
Paulo é tão claro que não deixa dúvida.
a
gratiæ cooperarium.
343
1Co 15.10.
344
“Porque, como se tivesse cometido um equívoco em fazer dele mesmo a fonte de algo bom, Paulo corrige
o que havia dito, e declara que a graça de Deus é a causa eficiente de tudo.” [João Calvino, Exposição de
1 Coríntios, (1Co 15.10), p. 454.] NE.
345
Refere-se à tradução latina: Vulgata. Ver: João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 15.10), p. 454.
No segundo século da Era Cristã, foi feita (possivelmente em Cartago na África do Norte ou na Itália)
uma tradução latina da Bíblia [Versão do Latim Antigo (“Vetus Latina”), ou “Ítala”, preferida por Agostinho
(354-430), (Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo, Paulinas, 1991, II.15, p. 114), tomando como Texto
base para o Antigo Testamento, a Septuaginta. No final do IV século, como esta tradução latina já precisa-
va de uma ampla revisão, o papa Damasius I (c. 304-384) papa desde 366, incumbiu a Sophronius Eusebius
Hieronymus, conhecido como Jerônimo (c. 347-419) – admirador profundo de Cícero – de fazê-la (383).
Jerônimo, era um homem de profunda piedade (ainda que tenha sustentado diversas polêmicas durante a
sua vida) e erudição, conhecendo bem o latim, o grego e o hebraico. O seu trabalho excedeu as expectativas
de Damasius; já que ele fez mais do que uma simples revisão. Partindo dos originais Hebraicos e Gregos –
ainda que dando atenção à Vetus Latina –, Jerônimo traduziu o Antigo e o Novo Testamento, concluindo a
sua obra em 405, depois de 23 anos de trabalho. Na sua tradução, Jerônimo incluiu os “livros apócrifos”,
conforme constava na LXX; todavia, questionou a sua canonicidade, fazendo uma distinção entre os “libri
ecclesiastici” (“apócrifos”) e os “libri canonici” (canônicos, conforme os judeus aceitavam no Cânon
Hebraico). Desta forma, na edição de Jerônimo, os “apócrifos” receberam um “status” secundário. “Sendo
uma inovação, a sua tradução teve de sustentar grande batalha para poder firmar-se na Igreja. Nem mesmo
seu amigo Agostinho queria saber da Hebraica veritas. Depois da morte do papa Damasius (384), protetor
de Jerônimo, a tradução não gozou mais do favor e do apoio das autoridades eclesiásticas. Mas pouco a
pouco venceu os seus antagonistas e a partir do século VII encontrou favor na Igreja. (...) Durante a Idade
Média a tradução de Jerônimo se tornou a ‘Vulgata’, isto é ‘a comum’.” (A. Bentzen, Introdução ao Antigo
Testamento, São Paulo, ASTE, 1968, Vol. I, pp. 106-107).Contudo a Vetus Latina continuou tendo a prefe-
rência na tradução dos “Apócrifos”. O nome “Vulgata” foi, ao que parece, aplicado primariamente na Igreja,
para referir-se à LXX, bem como à “Vetus Latina”. (Cf. O.F. Fritzsche, Bible Versions: In: Philip Schaff, ed.
Religious Encyclopaedia: Or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, 3ª
ed. rev. amp. New York, Funk & Wagnalls Company, 1891, Vol. I, p. 283). O título honorífico “Vulgata”, foi
concedido à tradução de Jerônimo somente no final da Idade Média. (Cf. W.G. Kümmel, Introdução ao
Novo Testamento, São Paulo, Paulinas, 1982, p. 706); ou mais especificamente no século XVI, quando ela
se tornou oficialmente – no Concílio de Trento (1546) – a Bíblia da Igreja Católica. (Vd. Alister E. McGrath,
Reformation Thought: An Introduction, 2ª ed. Oxford, Blackwell Publishers, 1993. p. 136). NE.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
134 As Institutas – Edição Especial
57. Agostinho citado contra os sofistas da Sorbonne
Ouçamos agora o que diz Agostinho, a fim de que os pelagianos do nosso tempo,
quer dizer, os sofistas da Sorbonne,346
não nos censurem, como é seu costume,
dizendo que todos os mestres do passado estão contra nós.a
Nisso eles seguem
seu pai Pelágio, que importunou Agostinho com igual calúnia. Pois bem, ele
tratou extensamente deste assunto no livro que intitulou Da Correção e da Gra-
ça,347
do qual vou citar alguns breves trechos empregando as suas próprias pala-
vras. Diz ele que a graça de persistir no bem foi dada a Adão, bastando que ele a
quisesse usar, que ela nos é dada a fim de que nós queiramos usá-la, e de que,
usando-a, sobrepujemos as concupiscências. Assim é que Adão tinha o poder, se
o quisesse, mas não tinha o querer, para que pudesse; que a nós é dado tanto o
346
As universidades são produto da Idade Média (séc. XII), resultante dos contatos entre o mundo Ocidental
com o muçulmano e bizantino. (Vd. Universidade: In: Pierre Bonassie, Dicionário de História Medieval,
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1985, p. 195). A Universidade foi uma das mais importantes criações
culturais da Idade Média. No entanto, devemos ter em mente que a idéia de Universidade não deve ser
associada, como hoje fazemos, a um conjunto de prédios, de faculdades dedicadas ao ensino e pesquisa,
antes ao grêmio de professores e alunos que se dedicam ao estudo e, que “formavam uma corporação jurídi-
ca de direito próprio.” (Philotheus Boehner & Etienne Gilson, História da Filosofia Cristã: Desde as
Origens até Nicolau de Cusa, 3ª ed. Petrópolis, RJ., Vozes, 1985, p. 355). A Universidade de Paris
(Sorbonne), que teve os seus Estatutos aprovados em 1215), constava de quatro Faculdades: Teologia,
Filosofia (“Artes”) (a mais concorrida), Direito e Medicina. Todavia, ela especializou-se no ensino de
Teologia, tornando-se para a “santa igreja”, como “a árvore da vida”. Em 1255, escreve o papa Alexandre
IV (1254-1261): “A ciência das escolas de Paris está na Santa Igreja como a árvore da vida no paraíso
terrestre e como a lâmpada refulgente na casa do Senhor. Como uma mãe fecunda de erudição, ela faz jorrar
em abundância das fontes da doutrina da salvação os rios que vão banhar a face estéril da terra, ela alegra por
toda parte a Cidade de Deus e subdivide as águas da ciência que faz correr nas praças públicas para o
refrigério das almas sedentas de justiça.... É em Paris que o gênero humano, deformado pela cegueira de sua
ignorância original, recupera sua visão e sua beleza pelo conhecimento da luz verdadeira que irradia da
ciência divina.” (In: Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, São Paulo, Martins Fontes, 1995, p. 490.
Vejam-se também: António J. Saraiva, O Crepúsculo da Idade Média em Portugal, Lisboa, Gradiva,
1988, p. 112; Idem., História da Cultura, Lisboa, Jornal do Fôro, 1950, Vol. 1, p. 30, 96,98). Este elogio
de Alexandre IV, envolvia obviamente a sua vitória sobre a autonomia da Universidade, na qual ele demitiu
e contratou quem desejou, concedendo amplos poderes aos religiosos mendicantes... fiéis ao papa. (Vd.
Jacques Verger, As Universidades na Idade Média, São Paulo, Editora Unesp., 1990, p. 77-79; Etienne
Gilson, A Filosofia na Idade Média, p. 488ss.). A Universidade de Paris – apesar do antagonismo interno
–, tornou-se a definidora, defensora e divulgadora da ortodoxia católica, tendo os papas ao longo dos anos,
contribuído decisoriamente para a sua projeção internacional. “Ora, na medida em que ensinava teologia, a
Universidade de Paris cessava de pertencer a si mesma e dependia de uma jurisdição mais alta do que a da
razão individual ou da tradição escolar. Sua própria importância, o número sem cessar crescente dos mestres
e alunos que vinham de todas as partes do mundo cristão para aí se instruir faziam dela a fonte do erro ou da
verdade teológicos para toda a cristandade.” (Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, p. 487). Aliás,
os papas procuravam sempre tornar as Universidades em instrumento conservador e defensor da “ortodoxia”
católica... Por outro lado, os reis também viam nas Universidades um meio de projeção pessoal e propaga-
ção do seu reino. (Vd. A.J. Saraiva, História da Cultura em Portugal, Vol. 1, pp. 30, 100; Philotheus
Boehner & Etienne Gilson, História da Filosofia Cristã: Desde as Origens até Nicolau de Cusa, p. 357-
358; Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, p. 484, 487ss; Jacques Verger, As Universidades na
Idade Média, pp. 72, 79).
Em meados do século XIII, a Universidade de Paris passou a chamar-se Universidade de Sorbonne, em
homenagem a Robert de Sorbon. NE.
a
Cf. Epistola ao Rei: “Eles colocam contra nós os antigos ‘pais’”, etc.
347
De correptione, cap. II. Ad Valentinum.
135
querer como o poder; que a primeira liberdade foi a de poder não pecar, e que o
que temos agora é muito maior, é a liberdade de não poder pecar. Os sorbonistas
expunham isso quanto à perfeição que haverá na vida futura, mas isso é tolice,
visto que Agostinhoa
se manifesta mais adiante dizendo que a vontade dos cren-
tes é conduzida de tal maneira pelo Espírito Santo que eles podem fazer o bem
porque o querem, e que o querem porque Deus criou neles o querer. “Porque, diz
ele, se em sua grande fraqueza a carne fosse deixada a cargo deles de modo que
pudessem fazer o bem com a ajuda de Deus quando bem lhes parecesse, e que
Deus não lhes desse a vontade tão cercada de tentações, a vontade deles, fraca e
frágil como é, sucumbiria, e assim eles não poderiam perseverar”.
Por isso Deus veio em socorro da vontade humana em sua fraqueza, dirigin-
do-a sem que ela possa virar-se para lá e para cá, e governando-a sem que ela
possa desviar-se. Porque, dessa maneira, por mais fraca que seja, não pode cair.
Pouco depois348
ele mostra como é necessário que o nosso coração siga o movi-
mento de Deus, quando os atrai, dizendo que Deus atrai bem os homens segundo
a vontade deles, e não por constrangimento ou pela força, mas que a vontade é
aquilo que Ele formou neles.
58. Confirmação da tese de Calvino
Temos agora, aprovado porAgostinho, o ponto sobre o qual mantemos principal-
mente a nossa discussão. É que a graça não é somente oferecida por Deus para
ser rejeitada ou aceita conforme pareça bem a cada qual. A verdade é que é a
graça de Deus que nos induz a seguir o Seu movimento e, como se dá com a
vontade, ela é causa da escolha ou decisão. Acontece isso de tal modo que todas
as boas obras que se seguem são frutos dela, e ela não é recebida pelo homem
natural e simplesmente em sua vida, mas na medida em que se transforma em
obediência em seu coração. Neste sentido, o mesmo doutor diz noutro lugar349
que somente a graça, e nada mais, realiza em nós toda boa obra.350
No tocante a
isso, ele diz noutra passagem dos seus escritos que a vontade não é destruída pela
graça, mas que de má ela é transformada em boa e que, depois de tornada boa,
somente nisso é ajudada. Com isso quer ele dizer que o homem não é lançado
por Deus como uma pedra, sem nenhuma participação ativa do seu coração, por
uma força externa, mas que é impulsionado de tal maneira que ele obedece de
boa vontade. E, ademais, sendo que a graça de Deus é dada de maneira especial
aos eleitos, escrevendo a Bonifácio ele fala da seguinte maneira:351
“Sabemos
que a graça de Deus não é dada a todos os homens e que, quando é dada a alguém,
348
Cap. XIV.
349
Epist. 105.
350
“A graça divina e o mérito das obras humanas são tão opostos entre si que, se estabelecermos um, destrui-
remos o outro”. [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 388.] NE.
351
Epist. 106.
a
ne de futura post immortalitatem perfectione loqui putetur, scrupulum hunc paulo post eximit.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
136 As Institutas – Edição Especial
não o é segundo os méritos da sua vontade, mas segundo a bondade gratuita de
Deus; quando é negada, isso é feito pelo justo juízo de Deus”.
Nessa mesma epístola ele condena com vigor e firmeza a opinião daqueles
que consideram a segundaa
graça como uma retribuição feita aos méritos dos
homens, entendido que, não tendo rejeitado a primeira, mostram-se dignos da
segunda. O que ele deseja é que Pelágio reconheça que temos necessidade da
graça para cada uma de nossas obras, e que ela não é uma restituição feita aos
nossos méritos, devendo ser reconhecida como pura graça.352
59. Sumário deste ponto
Não se pode, porém, dar por resolvida essa questão sumariamente, senão pelo
que ele diz em seu livro Da Correção e da Graça, no capítulo oito, onde primei-
ramente ele ensina que a vontade humana não obtém graça por sua liberdade,
mas que obtém liberdade pela graça de Deus.353
Em segundo lugar, ensina que
pela graça ela é confirmada quanto ao bem, para amá-lo e perseverar nele. Em
terceiro lugar, que ela é fortalecida com um poder invencível, para resistir ao
mal. Em quarto lugar, que, governada pela graça, nunca falha; e, se a graça for
deixada de lado, imediatamente tropeça e cai. Também diz ele que, pela miseri-
córdia gratuita de Deus, a vontade é convertida ao bem e, tendo sido convertida,
persevera nele. E mais: quando a vontade do homem é conduzida para o bem, e,
depois de haver sido assim dirigida, é confirmada no bem, isso vem unicamente
da vontade de Deus, e não de algum mérito humano. Dessa maneira, só resta ao
homem o livre arbítrio descrito noutro lugar.354
É que ele não pode se converter a
Deus, nem persistir em Deus, a não ser por Sua graça, e que tudo o que ele pode
fazer é também pela graça de Deus.
60. A graça de Deus como libertação
A graça [especial] de Deus algumas vezes é chamada libertaçãob
ou livramento,
sendo que por ela somos libertados da escravidão do pecado; mas também é
chamada, ora reparaçãoc
do nosso ser, pela qual, sendo posto de lado o velho
homem, somos restaurados à imagem de Deus; ora regeneração, pela qual somos
feitos novas criaturas; ora ressurreição, pela qual Deus, fazendo com que morra-
a
subsequentem.
352
Comentando o Salmo 30.6 – quando Davi reflete a sua momentânea confiança no sucesso adquirido –, diz: “....
Davi reconhece que havia sido justa e merecidamente punido por sua estulta e precipitada confiança, ao esquecer-
se de sua mortal e mutável condição de ser humano, e ao pôr demasiadamente seu coração na prosperidade.”
[João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 30.6), p. 631.] Em outro lugar, fazendo menção da mesma
passagem, escreve: “Davi afirma que a prosperidade havia obnubilado de tal forma seus sentidos, que deixou de
pôr seus olhos na graça de Deus, da qual deveria depender continuamente. Em vez disso, creu que poderia andar
por suas próprias forças e imaginou que não cairia jamais.” [João Calvino, AVerdadeira Vida Cristã, p. 47.] NE.
353
Ad Valentinum. De correptione.
354
Epist. 46.
b c
manumissio, restitutio in integrum (termos do direito romano).
137
mos, ressuscita-nos por Seu poder. Todavia, aqui é preciso observar que o livra-
mento nunca é completo, visto que uma parte de nós permanece sob o jugo do
pecado; que a restauração jamais se realiza completamente, porquanto muita coi-
sa dos vestígios do homem terreno permanece; e que a ressurreição nunca é com-
pleta, pois alguma coisa retemos do velho homem. Isso porque, enquanto estamos
encerrados nesta prisão que o nosso corpo é, trazemos sempre conosco as relíqui-
as, ou seja, os restos da nossa carne, os quais na mesma proporção diminuem a
nossa liberdade.
Porque a alma fiel, depois da sua regeneração, divide-se em duas partes,
entre as quais há uma diferença perpétua. Pois, quando é regida e governada
pelo Espírito de Deus, ela deseja e ama a imortalidade, o que a incita e a induz
à justiça, à pureza e à santidade, e assim não medita noutra coisa senão na bem-
aventurança do reino celestial, e aspira inteiramente à companhia de Deus; e no
que permanece ainda em seu natural, estando impedida pela lama terrena e
envoltaa
em más ambições, não enxerga o que de fato é desejável e onde está
a verdadeira felicidade. Detida pelo pecado, mantém-se longe de Deus e da
Sua justiça.
61. O combate cristão
Daí surge um combateb
que põe em ação o homem fiel durante sua vida toda,
sendo que pelo Espírito é elevado às alturas, e pela carne é levado a desviar-se e
é derribado. Segundo o Espírito, ele se dirige cheio de ardente desejo para a
imortalidade; segundo a carne, desvia-se por um caminho que leva à morte. Se-
gundo o Espírito, ele pensa em viver retamente; segundo a carne, é atraído pela
iniqüidade. Segundo o Espírito, ele é conduzido para Deus; segundo a carne, é
levado a recuar. Segundo o Espírito, ele condena o mundo; segundo a carne,
cobiça os prazeres mundanos.
Não se trata aqui de uma especulação frívola, da qual não teríamos nenhu-
ma experiência na vida, mas é uma doutrina caracterizada pela prática,c
que ver-
dadeiramente experimentamos em nós, se somos filhos de Deus.
62. Conflito entre a carne e o Espírito355
Vemos, pois, que a carne e o Espírito são como dois combatentes, os quais sepa-
ram em diferentes partes a alma fiel, travando nela uma verdadeira batalha; toda-
355
Deus libertou-nos definitivamente do poder de satanás, o deus do secularismo. Cristo o derrotou, e agora,
ele não mais tem domínio sobre nós; “por isso afirmamos que os fiéis nunca, jamais poderão ser vencidos
por ele [satanás].” (J. Calvino, As Institutas, I.14.18). “Satanás com toda sua fúria e com suas forças se vê
reprimido por seu mandato [mandato de Deus], como o cavalo pelo freio, e tudo quanto poderia impedir
nosso bem e salvação depende de seu arbítrio e vontade [de Deus].” (J. Calvino, As Institutas, I.16.3). NE.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
immersa.
b
Ver no capítulo XVII: Sobre a vida cristã, acréscimo feito em 1539.
c
empyrica.
138 As Institutas – Edição Especial
via, nesta batalha vê-se que o Espírito é superior.a
Porque, quando se diz que a
carne faz desviar-se de Deus a alma, afasta-a da imortalidade, impede-a de seguir
a santidade e a justiça, e a distancia do Reino de Deus, não é preciso entender que
ela tem tanto vigor em suas tentações que derruba e destrói a obra do Espírito e
que faz estagnar-se o Seu poder. Nada disso! Quando a carne se esforça para
abater o homem, a ação do Espírito a entorpece; quando quer desviá-lo do seu
caminho, o poder do Espírito a retarda e a impede; quando quer fazer com que
todo o seu amor pela justiça fique amortecido, o Espírito a refreia; quando a
carne se empenha em suprimir totalmente o seu amor, a obra do Espírito Santo a
dobra e a restringe.
Em tais dificuldades, é necessário que o servo de Deus seja plenamente
animado, e que, pelo maior desejo do seu coração e pelo seu maior afeto, aspire
a Deus, prepare-se e esforce-se para buscá-lo, e constantemente gema e suspire,
contrariado por ser impedido por sua carne de seguir sua carreira como deve. É
isso que entende o apóstolo Paulo, quando diz:356
“Se somos filhos de Deus, não
andemos segundo a carne, mas segundo o Espírito”. Tendo descrito o combate,
ele quer dizer que no Espírito se pode encontrar o que há de melhor para a con-
quista da vitória. Ora, é fácil ver a diferença que existe entre o homem natural e o
regenerado: O homem natural é muito espicaçado e aguilhoado em sua consciên-
cia para não iludir-se com seus vícios; contudo, nisso ele tem prazer de todo o
coração, a isso prende a sua vontade, de bom grado solta as rédeas, e a única
coisa que ele teme é a pena, que ele vê que está preparada para todos os pecadores.b
Já o homem regenerado, graças à melhor parte do seu coração, apega-se à justiça
da lei, e detesta e abomina o pecado que ele comete por pura idiotice; o pecado o
desgosta e por ele é reprovado; mas ele tem o seu prazer e o seu deleite na lei de
Deus e nela acha mais ameno dulçor do que em todos os prazeres do mundo.357
Além disso, ele nunca peca por consciente decisão própria, mas ao pecar contra-
ria o seu coração, porque não é somente a sua consciência que repudia o mal; os
seus afetos também o repudiam.358
a
dispari conditione inter se congrediuntur.
356
Rm 8 [tradução direta].
b
Três palavras acrescentadas em 1539.
357
A Confissão de Westminster (1647) conclui o capítulo XIII dizendo:
“Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que restam (Rm 7.23), contudo, pelo
contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada vence (Rm 6.14; Ef
4.15,16; 1 Jo 5.4), e assim os santos crescem em graça (2 Pe 3.18), aperfeiçoando a sua santidade no temor
de Deus (2 Co 7.1)” (XIII.3). NE.
358
“Os desejos que agitam o homem carnal são como ondas impetuosas que se chocam umas contra as outras,
arremessando o homem de um lado para outro, de modo tal que ele muda e vacila a todo instante. Todos
quantos se entregam aos desejos carnais experimentam tal desassossego, porque não existe estabilidade
senão no temor de Deus.” [J. Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 3.3), p. 344.] NE.
139
63. Grave erro anabatista
Alguns anabatistasa
imaginam não sei que tipo de intemperança frenética, em
lugar da regeneração espiritual dos crentes. É que (como lhes parece) os filhos de
Deus, restaurados ao estado de inocência, não devem preocupar-se em refrear as
concupiscências da sua carne, mas devem seguir o Espírito como seu guia, sob
cuja direção não podem errar. Se não publicassem arrogantemente essa doutrina,
não se poderia acreditar que a mente humana pudesse cair em tal excesso. É de
fato uma coisa horrivelmente monstruosa. Mas é boa reparação, pois, que a audá-
cia dos que se dedicam a transformar a verdade de Deus em mentira seja punida.
Eu lhes pergunto, então, se deve ser eliminada toda a diferença entre a impudicícia
e o pudor, entre a justiça e a injustiça, entre o bem e o mal, entre a virtude e o vício.
Essa diferença, dizem eles, provém da maldição do velho Adão, da qual
fomos libertados por Cristo. Por isso não há mais o que distinguir entre a luxúria
e a castidade, a simplicidade e a astúcia, a verdade e a mentira, a eqüidade e a
rapina. Que tratemos de cortar todo temor frívolo, dizem eles, e que tratemos de
seguir firmemente o espírito. Este não pedirá nenhum mal que não se submeta ao
seu domínio.
Quem não se espantaria com essas propostas tão insensatas? No entanto, é
uma filosofia popular e bem aceita entre os que, tendo ficado cegos por causa da
loucura das suas concupiscências, perderam o bom senso. Mas, clamo eu, que
Cristo terão forjado? E que espírito?b
Porque reconhecemos um Cristo, e Seu
Espírito, que os profetas prometeram e que o Evangelho assinala como revela-
ção, e do qual não ouvimos nada que seja semelhante a esses maus ensinamentos.
64. O espírito da Escritura
Sim, pois, o espírito que a Escritura nos mostra não favorece as diferentes formas
de homicídio e de luxúria, a bebedice, o orgulho, a contenção [imposta], a avare-
za e a fraude; mas é inspiradora do vero amor, da castidade, da sobriedade, da
modéstia, da paz, da temperança e da verdade. O que se nota na Escritura não é
um espírito de ilusões fantasiosas nem de torvelinho a girar para lá e para cá
irrefletidamente, movendo-se tanto para o mal como para o bem, mas, sim, um
espírito cheio de sabedoria e de inteligência para discernir entre o bem e o mal.
Esse espírito não impele o homem a uma licenciosidade dissoluta e desenfreada,
mas, como distingue o bem do mal, ensina o homem a seguir aquele e a fugir deste.
Mas, por que me afano tanto em refutar essa praga brutal? Para os cristãos,
o Espírito de Deus não é uma tola imaginação que em seus sonhos teriam forma-
do ou tomado de outras pessoas. Eles O conhecem como a Escritura O mostra, na
a
A tendência que Calvino tem em vista é o antinomismo. Os anabatistas em questão não têm nada em comum
com os anabatistas atuais, também conhecidos pelo nome de menonitas. De qualquer forma, é preciso não
confundir os anabatistas com os batistas. [Alguns d]Estes são calvinistas que rejeitam o batismo de crianças.
b
1539 acrescenta: eructant.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
140 As Institutas – Edição Especial
qual se afirma que Ele nos é dado em santificação,359
para conduzir-nos na obedi-
ência à justiça de Deus, havendo-nos purificado da impureza e da imundície.360
Obediência que não é outra coisa senão que as concupiscências (cujas rédeas aque-
les tais querem deixar soltas) sejam domadas e subjugadas. A seguir ele diz tam-
bém que o Espírito nos purifica para a santificação, visto que sempre nos restará
muita fraqueza, enquanto estivermos enclausurados neste corpo mortal. Disso de-
corre que, estando nós longe da perfeição, devemos procurar crescer diariamente; e
que, estando nós envolvidos em muitos hábitos pecaminosos, devemos combatê-
los. Segue-se daí que nos é necessário vigiar diligentemente para evitar que seja-
mos traídos pela nossa carne. É preciso, pois, que não repousemos, como se não
corrêssemos perigo, e que não nos julguemos mais adiantados que o apóstolo na
santidade no viver, sendo que ele era molestado pelos aguilhões de Satanás, para
que em sua fraqueza fosse aperfeiçoado o poder.361
E de fato vemos que ele confes-
sa que o combate de que falei, entre o Espírito e a carne, estava em sua pessoa362
.363
65. Sumário
Penso que ficou suficientemente provado que, como o homem é mantido cativo
sob o jugo do pecado, ele não pode, por sua própria natureza, nem desejar o bem
em sua vontade, nem se dedicar a ele. Fizemos também uma distinção entre cons-
trangimento e necessidade, da qual se vê que, quando o homem peca necessaria-
mente, não deixa de pecar por sua vontade.
Visto, porém que, quando o homem se põe a serviço do Diabo parece
estar sendo levado pelo que agrada ao Diabo, e não pelo que lhe agrada, resta-
nos dar a solução sobre como isso é feito. Depois será necessário resolver a
questão a respeito da qual é comum duvidar-se. Isto é, se devemos atribuir algo
a Deus quanto às más obras, nas quais a Escritura revela que o seu poder agea
de algum modo.
66. Quem é diretamente responsável pelas más obras?
Quanto ao primeiro ponto, Agostinho, em certo lugar, compara a vontade do
homem com um cavalo, que é governado pelo desejo daquele que o monta. Por
359
“Ora, visto que a fé abraça a Cristo como Ele nos é oferecido pelo Pai, e Aquele, de fato, seja oferecido não
apenas como justiça, remissão dos pecados e paz, mas também como santificação, e fonte de água viva, sem
dúvida, jamais o poderá alguém conhecer devidamente que não apreenda ao mesmo tempo a santificação
do Espírito (...). A fé consiste no conhecimento de Cristo. E Cristo não pode ser conhecido senão em
conjunção com a santificação do Seu Espírito. Segue-se, consequentemente, que de modo nenhum a fé se
deve separar do afeto piedoso”. (J. Calvino, As Institutas, III.2.8). NE.
360
2 Co 7.1, etc.
361
2 Co 12.9.
362
Rm 7.7-25.
363
“Como na presente vida não atingiremos pleno e completo vigor, é mister que façamos progresso até à
morte.” [João Calvino, Efésios, (Ef 4.15), p. 130.] NE.
a
intercedere.
141
outro lado, ele compara Deus e o Diabo com dois cavaleiros, dizendo que, se é
Deus que ocupa a vontade do homem, como bom e capaz cavaleiro Ele a conduz
com bom controle. Incita-a quando está muito vagarosa, contém-na, se fica fogo-
sa, reprime-a se fica rebelde, disciplina a sua rebelião e a leva pelo caminho
certo. Ao contrário, se o lugar é conquistado pelo Diabo, como um mau e estou-
vado cavaleiro ele a faz extraviar-se pelos campos, leva-a a cair em fossos, a ir
aos tropeções e sem rumo pelos vales, e a habitua à rebelião e à desobediência.
Quanto aos dois termos da comparação, contentemo-nos por ora, pois não
temos nada melhor. O que se diz, então, é que a vontade do homem natural está
sujeita ao senhorio do Diabo, sendo por ele conduzida, o que não significa que
seja constrangida pela força e sem a sua aprovação, como se força um servo ou
um escravo a fazer o seu trabalhoa
, por mais que este o deteste. Nós entendemos,
porém, que, sofrendo os abusos e as mentiras do Diabo, é por necessidade, e não
por constrangimento, que a vontade se sujeita a obedecer ao que o Diabo quer.
Sim, porquanto aqueles que não recebem de Deus a graça de serem governados
por Seu Espírito, são abandonados e deixados com Satanás, para serem conduzi-
dos por ele. Por essa causa diz o apóstolo Paulo que o Deus deste mundo (o
Diabo) cegou o entendimento dos incrédulos para que não vejam a luz do Evan-
gelho. E noutro lugar diz ele que o Diabo reina em todos os ímpios e desobedien-
tes.364
A cegueira de todos os praticantes do mal e todos os malefícios resultantes
são declaradamente obras do Diabob
; e, todavia, não é preciso procurar a causa
fora da vontade humana, da qual procede a raiz do mal e na qual está a base do
reino do Diabo, quer dizer, o pecado.365
Quando a ação é de Deus, ótimo! É muito diferente! Mas, para entender bem
a questão, tomemos os danos que os caldeus fizeram a Jó366
:367
é que, matando os
seus pastores, roubaram todos os seus camelos. Já vimos com os nossos próprios
364
2 Co 4.4; Ef 2.2. Calvino observa que os “incrédulos se encontram tão intoxicados por Satanás, que, em
seu estupor, não têm consciência de sua miséria.” (J. Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998,
(2Tm 2.26), p. 247). “Todos os que vivem segundo o curso do mundo, ou seja, segundo as inclinações da
carne, batalham sob o comando de Satanás.” [João Calvino, Efésios, (Ef 2.2), p. 52.]
a
invita mancipia domini jure obire jussa (termos do direito romano).
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
b
O pecado. O Diabo não é interposto aqui pela lógica do pensamento, mas a sua intervenção é afirmada em
virtude da autoridade da Escritura.
365
“Aqueles que a tal combate se preparam na confiança de si próprios não compreendem suficientemente com
quão aguerrido e bem equipado adversário se tenham de haver” (Calvino, As Institutas, III.20.46). Calvino,
observa que os “incrédulos se encontram tão intoxicados por Satanás, que, em seu estupor, não têm consciên-
cia de sua miséria.” [J. Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (2Tm 2.26), p. 247]. NE.
366
Jó 1.
367
“Os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o
próprio Senhor Se utiliza para executar os juízos que em Si determinou.” (João Calvino, As Institutas,
I.17.5). Comentando a investida de Satanás contra Jó, arremata: “Concluímos que desta provação de que
Satanás e os perversos salteadores foram os ministros, Deus foi o autor.” (João Calvino, As Institutas,
I.18.1). Em outro lugar: “Paulo não lhe [a Satanás] concede o supremo governo, o qual pertence exclusiva-
mente à vontade de Deus, a não ser que lhe atribui aquela tirania cujo exercício procede da permissão
divina. O que é Satanás senão o verdugo de Deus para punir a ingratidão humana?” [João Calvino, Efésios,
(Ef 2.2), p. 53.] NE.
142 As Institutas – Edição Especial
olhos os autores dessa maldade. Sim, quando vemos ladrões cometendo roubos e
mortes, não temos dúvida de lhes imputar culpa e de os condenar. Ora, assim é, e
a história atesta que isso provém do Diabo. Vemos, pois, que ele faz a sua parte.a
Por outro lado, Jó reconheceu que era obra de Deus, dizendo que Deus o
tinha despojado dos bens que lhe tinham sido arrebatados pelos caldeus.
67. Autor do mal?368
Como poderemos dizer que uma mesma obra foi realizada por Deus, pelos ho-
mens e pelo Diabo, e não desculparmos o Diabo, sendo que parece agir em con-
junto com Deus, ou, por que não dizer que Deus é o Autor do mal? Facilmente
poderemos responder, se considerarmos primeiro o fim, e depois a maneira de
agir. O propósito de Deus era exercitar o Seu servo na paciência por meio da
adversidade. Satanás esforçou-se para levar Jó ao desespero. Os caldeus se em-
penharam na empreitadab
de enriquecer-se roubando bens alheios. Tal diferença
de propósitos distingue claramente entre a obra de uns e de outros.
Na maneira de proceder não é menor a dissemelhança. O Senhor deixou o
Seu servo Jó com Satanás para que este o afligisse e, por outro lado, entregou-o
aos caldeus, ordenando-lhes que agissem como Seus ministros, e encarregou o
Diabo de os impulsionar e guiar.369
Satanás estimulou com os seus aguilhões
venenosos o coração dos caldeus para cometerem aquela iniqüidade. E, por sua
vez, os caldeus eram maus e, dando-se à prática daquela maldade, contaminaram
o seu corpo e a sua alma.
Portanto, é próprio falar que a atividadec
de Satanás é reprovada, exercendo
ele o seu reinado, isto é, o reinado da perversidade. Pode-se muito bem dizer
também que de algum modo Deus aged
quando Satanás, como instrumento de
Sua ira, segundo a Sua vontade e as Suas ordens, impele os homens para lá e para
cá para executarem os Seus juízos.370
Não falo aqui da ação universal de Deus,
por quem são sustentadas todas as criaturas e também de quem recebem poder
para realizar o que realizam. Falo da Sua ação particular, que se mostra em cada
a
Parágrafo acrescentado em 1539.
368
Calvino tinha uma compreensão clara a respeito da relevância bíblica da doutrina da Providência. Falando
das diversas calúnias que levantavam contra ele, partindo, inclusive de falsos irmãos, diz: “Só porque afirmo
e mantenho que o mundo é dirigido e governado pela secreta providência de Deus, [Esta expressão é comum
a Calvino. Ver: O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 47.3), p. 343] uma multidão de homens presunçosos se
ergue contra mim alegando que apresento Deus como sendo o autor do pecado [O Livro dos Salmos,
Vol. 2, (Sl 51.4), p. 429].... Outros tudo fazem para destruir o eterno propósito divino da predestinação, pelo
qual Deus distingue entre os réprobos e os eleitos....”. [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 44,45.]
Vd. também: John Calvin, “To the Seigneurs of Berne,” John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany,
OR: Ages Software, 1998), nº 398. NE.
b
1539 acrescenta: præter jus et fas.
369
“É evidente que Satanás está sujeito ao poder de Deus, e é de tal maneira governado por sua vontade, que
se vê obrigado a obedecer-lhe e a cumprir o que lhe manda.” (J. Calvino, As Institutas, I.14.17). NE.
c d
agere.
370
“Satanás mesmo, que opera interiormente com seu poder compelidor, é ministro de Deus, de tal maneira
que ele só age em obediência à ordem divina.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.18), p. 337.] NE.
143
obra. Por tudo isso vemos que não há incoerência em atribuir uma mesma obra a
Deus e ao Diabo, como também ao homem. Mas a diversidade, que está na inten-
ção e no meio empregado, faz com que a justiça de Deus em tudo e por tudo se
veja irrepreeensível.a
Amalícia do Diabo e a do homem são reveladas pela confu-
são feita com ambas.
68. Temor das conseqüências de dizer a verdade
Os antigos mestres às vezes tinham receio de confessar a verdade nesta questão,
achando que poderiam dar ocasião aos maus para falseá-la ou para falar
irreverentemente das obras de Deus. Essa sobriedade tem a minha aprovação;
todavia, não penso que haja algum perigo em termos simplesmente o que a Escri-
tura nos mostra. Mas até Agostinho algumas vezes teve esse escrúpulo, como
quando disse que não se deve atribuir a cegueira e o endurecimento dos maus à
operação de Deus, mas sim à Sua presciência.371
Ora, essa sutileza não pode
harmonizar-se com tantas expressões da Escritura que mostram claramente que o
que existe é a providênciab
de Deus, e não outra coisa. Semelhantemente, o que
alguns apresentam no sentido de que Deus permite o mal, mas não o envia, não
pode subsistir. Freqüentemente a Escritura afirma que Deus cega e endurece os
maus, e que muda, dobra e move o coração deles. Não está certo empregar essas
formas de falar recorrendo à presciência ou à permissão de Deus.
Por isso respondemos dizendo que isto se faz duplamente. Porque, como
acontece que, se a luz de Deus for retirada, nada restará em nós, senão a escuri-
dão e a cegueira; se for retirado o Seu Espírito, o nosso coração se endurecerá
como pedra; cessando a Sua direção, nos desgarraremos pelos campos, assim,
por boa razão se afirma que Deus cega, endurece e impulsiona os maus, dos quais
Ele tira a capacidade de ver, de obedecer e de fazer o bem.
A segunda maneira, mais próxima da propriedade dos termos, é que Deus,
para executar os Seus juízos por meio do Diabo, ministro da Sua ira, dirige para
onde bem lhe parece o conselho dos maus, dá seguimento à vontade deles e con-
firma o seu esforço. Conforme a primeira razão, deve-se entender o que se diz no
Livro de Jó:372
“Aos eloqüentes ele (Deus) tira a palavra e atira o entendimento
aos anciãos. Tira o entendimento aos príncipes do povo da terra e os faz vaguear
pelos desertos sem caminho”. Igualmente o que diz o apóstolo Paulo:373
“Deus
lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira”. Também em
Isaías:374
“Ó Senhor, por que nos fazes desviar dos teus caminhos? Por que endu-
reces o nosso coração, para que te não temamos?” Vê-se que todas essas senten-
371
Libro de prædestin. et gratia.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
inculpata.
b
præscientia.
372
Jó 12.20,24.
373
2Ts 2.11.
374
Is 63.17.
144 As Institutas – Edição Especial
ças visam mais indicar o que Deus faz com os homens, abandonando-os e dei-
xando-os, que mostrar como Ele agea
neles.375
Mas há outros testemunhos que vão além desse ponto. Como quando se fala
do endurecimento do faraó:376
“Eu lhe endurecerei o coração (diz o Senhor), para
que não deixe ir o povo”. Pouco depois diz Ele que “confirmou e corroborou o
seu coração” [tradução direta]. Deve-se entender que Deus lhe endureceu o cora-
ção, e não o amoleceu? É a pura verdade. Ma há mais uma coisa: é que Ele
entregou o coração do faraó a Satanás, para o confirmar na obstinação. Por isso
Ele tinha dito um pouco antes:377
“Eu darei mercê a este povo (Israel) aos olhos
dos egípcios”. [Ou, em tradução direta: “Enternecerei o seu coração”.] Paralela-
mente, quando o povo de Israel saiu do Egito, os habitantes do país pelo qual
passaram [território de Seom] foram duros de coração para com eles;378
de onde
teria vindo essa incitação? O certo é que Moisés disse que foi o Senhor que
fortaleceu o coração deles para isso. O profeta,379
citando a mesma narrativa,
afirma que o Senhor “mudou-lhes o coração para que odiassem o seu povo”.
Agora não se poderá dizer que eles caíram no erro só porque foram privados do
conselho de Deus, porquanto se vê que, se foram confirmados e conduzidos àquilo,
de algum modo o Senhor os terá inclinado e os terá levado a agir assim.
Ademais, todas as vezes que Lhe aprouve castigar as transgressões de Seu
povo, não o fez por meio dos maus?380
Certo, nesses casos veja-se bem que o poder
e a eficácia da ação procediam dele, e que aqueles maus eram apenas Seus minis-
tros. Por vezes Ele ameaçou que com assobio chamaria nações para virem destruir
Israel,381
por vezes os comparou com uma rede, e também com um martelo.382
Mas principalmente ele demonstrou que não havia ociosidade neles, com-
parando Senaqueribe, homem mau e perverso, com uma cunha383
ou com um
machado, dizendo que Ele o conduzia e o impelia com Sua mão para que ele
cortasse como lhe agradasse.
69. Agostinho sobre a divisão das trevas
Em certo lugar Agostinho fez uma distinção nada má: é que, no que os iníquos
pecam, isso vem deles mesmos; e que, se ao pecarem fazem algo [de bom], isso
a
peragere.
375
“Enquanto por instrumentalidade dos ímpios Deus leva a cabo o que decretou em Seu juízo absconso, não
são eles excusáveis, como se Lhe estejam a obedecer ao preceito, que, deliberadamente, violam em sua
desregrada cupidez”. (João Calvino, As Institutas, I.18.4). NE.
376
Êx 4.21; 7.3; 10.20, etc.
377
Êx 3.21.
378
Dt 2.30.
379
Sl 105.25.
380
“Deus faz uso dos homens perversos e perniciosos como azorragues para castigar-nos e fazer-nos diligen-
temente ponderar sobre a causa, ou seja: que nada sofremos que não seja o que merecemos, a fim de que essa
reflexão nos conduza ao arrependimento” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 3), p. 81.] NE.
381
Is 5 e 7. [Ver 5.26.]
382
Ez 12.13 e 17.20 [Jr 51.20]; Hier. 50.
383
Is 10.15.
145
vem do poder de Deus, que divide as trevas como bem Lhe parece. Pois bem, que
o ministério de Satanás se propõe a incitar os maus, quando Deus, por Sua pro-
vidência os quer dobrar ora para cá, ora para lá, seria suficiente ver por uma
passagem. Porque é dito muitas vezes que o mau espírito de Deus invadiu ou
deixou Saul.384
Não é lícito atribuir isso ao Espírito Santo. Portanto, vemos que o
espírito imundo é chamado espírito de Deus, sendo que ele responde ao beneplá-
cito e ao poder de Deus; é instrumento de Sua vontade, e não autor propriamente
dito. Não obstante, há, como se diz, sempre uma grande distância entre o que
Deus faz, o que o Diabo faz e o que os malfeitores fazem numa mesma obra.
Deus faz servir à Sua justiça os instrumentos maus que Ele tem em Sua mão, e
que Ele pode manobrar em prol de tudo quanto Lhe pareça bom. O Diabo e os
ímpios, maus como são, produzem e criam, mediante suas obras, a maldade con-
cebida em seu espírito perverso. O restante do tema, que consiste em defender a
majestade de Deus contra todas as calúnias e em refutar os subterfúgios utiliza-
dos pelos que neste assunto são blasfemos, será exposto no tratado sobre a provi-
dência de Deus,a
porque aqui eu só quis mostrar, em resumo, como o Diabo reina
num homem mau, e como Deus age tanto num como no outro.
70. Atos e feitos moralmente neutros
Quanto às ações que não são nem boas nem más, e que pertencem mais à vida
terrena que à espiritual, ainda não foi declarada qual é a liberdade do homem em
relação a elas. Alguns dizem que nessas coisas temos direito de livre escolha.
Isso dizem, penso eu. porque não querem discutir uma coisa que não consideram
muito importante, preferindo não dá-la como certa. Quanto a mim, como confes-
so que eles reconhecem que as suas forças são nulas para se justificarem no que
se refere à salvação, sendo entendido o que é necessário para a salvação, penso,
todavia, que não se deve negligenciar esse ponto, deixando de ver que é uma
graça especial de Deus que atua quando nos ocorre escolher o que nos é proveito-
so e desejá-lo; e também, em contrapartida, quando o nosso espírito e o nosso
coração fogem daquilo que nos é prejudicial.
E, de fato, a providência de Deus estende-se, não somente até onde faça
surgir o que Ele sabe que é útil e prático, mas também até onde incline a vontade
dos homens canalizando-a para um mesmo objetivo. É bem verdade que, se ava-
liarmos a direção das coisas externas segundo os nossos sentimentos, julgaremos
que elas estão sob o arbítrio e o poder do homem. Mas, se dermos atenção aos
testemunhos [da Escritura], que revelam que é o nosso Senhor mesmo que nesta
questão governa o coração dos homens, sujeitaremos o poder humano à ação
especial de Deus. Que foi que tocou o coração dos egípcios movendo-os a cede-
384
1Sm 16, 18 e 19.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
Capítulo VIII, logo adiante.
146 As Institutas – Edição Especial
rem ao povo de Israel os vasos mais preciosos que eles tinham?385
Jamais seriam
induzidos a isso por iniciativa própria! Segue-se, pois, que o seu coração foi
induzido mais por Deus que pelo motivo ou pela inclinação deles próprios. Que
foi que levou o coração de Absalão a desviar-se386
para que não recebesse o con-
selho de Aitofel que ele costumava receber como um evangelho?a
Que foi que
induziu Roboão a seguir o conselho dos jovens?387
71. Possível objeção, e resposta
Alguém poderá replicar dizendo que esses exemplos são particulares, dos quais
não se deve formular uma regra geral. Mas eu digo que são suficientes para pro-
var o que pretendo, que é o seguinte: Todas e quantas vezes Deus quiser dar curso
à Sua providência, mesmo com relação às coisas externas, Ele dobrará e girará a
vontade dos homens a Seu bel prazer, e a escolha feita por eles não é tão livre que
Deus não os esteja dominando, queiramos ou não. A experiência diária nos cons-
trange a considerar que o nosso coração está mais sujeito a ser conduzido pela
ação de Deus que por sua escolha e liberdade, visto que com freqüência a razão e
o entendimento nos falham em coisas não tão difíceis de saber, e perdemos a
coragem em coisas fáceis de fazer. Ao contrário, em coisas obscuras e duvidosas
deliberamos sem dificuldade e sabemos como sair-nos; emb
coisas de grandes
conseqüências e que envolvem grande perigo, nossa coragem permanece firme, e
não vacila. De onde vem isso? Não é do fato de que Deus age tanto por um lado
como por outro?
72. A soberania do Criador
E, de fato, entendo nesta matéria o que disse Salomão:388
“O ouvido que ouve e o
olho que vê, o Senhor os fez”. Porque não me parece aceitável que nessa passa-
gem ele esteja falando da criação, mas da graça especial, pela qual Deus opera
nos homens dia a dia. Mais ainda quando ele diz:389
“Como ribeiros de águas
assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina”.
Não há dúvida de que ele está colocando todos os homens sob uma só espécie.
Porque, se existe algum homem isento de toda sujeição, o privilégio pertence ao
385
Êx 11.2; [12.36].
386
2Sm 16 e 17.
a
vice oraculi.
387
1Rs 12.
b
Parágrafo acrescentado em 1539.
388
Pv 20.12.
389
Pv 21.1. As Escrituras declaram que todos estão sob o Seu poder: Os reis (Pv 21.1), as nações
(Sl 66.7), os inimigos do povo de Deus (Sl 68.1-2) e as coisas aparentemente “insignificantes” (Mt 10.29,30).
Tudo que existe tem a sua sustentação e preservação no Deus Todo-Poderoso. Portanto, não há o que
temer; as próprias montanhas “se desmoronam na presença do Senhor”. [João Calvino, O Livro dos
Salmos, Vol. 2, (Sl 68.2), p. 642.] (Sl 68.7-8/Ex 19.18).
147
rei, que está sobre todos e cuja vontade governa os outros. E então, se a vontade
do rei é conduzida pela mão de Deus, a nossa não estará isenta dessa condição; e
a respeito há esta bela sentença de Agostinho:390
“A Escritura, diz ele, desde que
examinada diligentemente, mostra que não são somente as boas vontades dos
homens, as quais Deus criou em seu coração e, tendo-as criado, as conduz às
boas obras e à vida eterna, são o que são pelo poder de Deus; mas também assim
acontece com todas as que pertencem à vida presente; e de tal maneira que Ele as
inclina segundo o Seu querer para um lado ou para outro, seja para proveito dos
seus semelhantes, seja para causar-lhes dano quando Ele quer aplicar-lhes algum
castigo. E tudo é feito por Seu julgamento oculto e, todavia, justo”. Aqui é preci-
so que os leitores se lembrem de que não há motivo para medir a faculdade do
livre arbítrio do homem pelas coisas conforme surjam, como fazem alguns igno-
rantes. Porque lhes parece claramente que podem provar que a vontade dos ho-
mens está sob escravidão, mormente quanto às coisas que não são do gosto dos
príncipes mais importantes do mundo e que com muita freqüência não conse-
guem dar cumprimento aos propósitos dos seus empreendimentos.
Ora, o poder e a liberdade agora em discussão devem ser considerados no
homem, e não devem ser avaliados em função das coisas externas. Isso porque,
quando se discute o livre arbítrio, não se debate se é lícito ao homem cumprir e
realizar o que deliberou, sem que nada possa impedi-lo. O que está em questão é
se em todas as coisas ele tem livre escolha em seu juízo para discernir o bem e o
mal, e para aprovar aquele e rejeitar este. Ou, paralelamente, se ele tem livre
disposição ou afeto em sua vontade para querer, buscar e seguir o bem, e para
odiar e evitar o mal. Porquanto, se pudesse haver isso no homem, elea
não seria
menos livre encerrado numa prisão do que exercendo domínio sobre toda a terra.
73. Falsos mestres da liberdade alongam
a discussão deste assunto
Já seria suficiente o que falamos sobre a servidão da alma humana, não fosse que
os que se empenham em seduzi-la com um falso conceito sobre a liberdade têm
suas razões contrárias para impugnar a nossa proposição. Primeiro, eles apresen-
tam algumas objeções absurdas para torná-la odiosa, como se ela causasse repul-
sa ao senso comum dos homens; em seguida usam testemunhos da Escritura para
dar-lhes força persuasiva. Nessa ordem vamos dar-lhes resposta.
Assim, eles argumentam que, se o pecado é questão de necessidade, não é
mais pecado; se é voluntário, pode ser evitado. Essa era a vara com a qual Pelágio
pelejava contra Agostinho. Todavia, não queremos que por isso seu argumento
não seja ouvido, até o refutarmos. E eu nego que o pecado não é imputado como
a
Em lugar do que aqui se segue, 1539 diz: non minus liberi arbitrii. Attilius Regulus erit, angustiis dolii
aculeati inclusus, quam Augustus Cæsar magnam orbis partem nutu suo gubernans.
390
De gratia et libero arbitr. ad Valent., cap. XX.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
148 As Institutas – Edição Especial
pecado, tendo em vista que é necessário. Como também nego, por outro lado,
que, como resultado, seja possível evitar o pecado, se este é voluntário. Porque,
se alguém quiser usar como proteção esta cobertura, em demanda contra Deus,
como se fosse um bom subterfúgio dizer que Ele não poderia agir doutro modo,
terá incontinenti a devida e ágil resposta. “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de
mim, o teu socorrro”.391
Porque, de onde vem aquela impossibilidade que ele
pretende, senão da perversidade da sua natureza? E de onde procede essa perver-
sidade, senão do fato de que o homem se afastou do seu Criador? Ora, se todos os
homens são culpados dessa queda, eles não têm por que pensar em escusar-se
alegando que praticam o mal necessariamente, visto que nisso está a justa causa
da sua condenação.
A outra parte do argumento dos citados opositores não é válida, uma vez
que a sua pretensão é que tudo o que se faz voluntariamente é feito com plena
liberdade. Pois logo acima nós provamos que muitas coisas que são feitas volun-
tariamente não são feitas por livre escolha. Dizem eles depois que, se os vícios e
as virtudes não procedem de livre escolha, não é lógico que o homem seja recom-
pensado ou punido. Embora esse argumento tenha sido tomado de Aristóteles,
sei bem que Crisóstomoa
e Jerônimob
fizeram algum uso dele. Jerônimo392
não
esconde que o referido argumento era conhecido pelos pelagianos, dos quais ele
cita as seguintes palavras: “Se a graça de Deus atuar em nós, ela será recompen-
sada, e não fomos nós que trabalhamos”. Quanto às punições que Deus aplica
pelos malefícios, respondo que nos são devidas com justiça, porque a culpa do
pecado reside em nós. Não importa, pois, se pecamos sentindo-nos livres ou ser-
vis, a menos que seja por cupidez voluntária, principalmente em vista de estar o
homem convencido de que é pecador, estando sob a servidão do pecado. Quanto
ao proveito que se obtém da prática do bem, que absurda é essa questão, se con-
fessamos que muito mais nos é dado pela benignidade de Deus do que nos é
restituído pelos nossos méritos!
74. Méritos ou dons?
Quantas vezes se vê repetida esta sentença nos escritos de Agostinho: que Deus
não nos premia pelos nossos méritos, mas por Seus dons, e que o proveito que
nos vem assim se chama, não porque nos seja devido por nossos méritos, mas
porque nos é dado como retribuição pelas graças que nos foram conferidas ante-
riormente! Isso se aplica aos que entendem que os méritos não têm lugar, a não
ser que as boas obras procedam da virtude e do poder do próprio homem. Mas
pensarem eles uma coisa tão estranha é uma verdadeira zombaria. Porém o após-
tolo os livrará dessa tola fantasia, se quiserem saber de qual princípio se deduz a
a b
Acréscimos feitos em 1539.
391
Os 13.9.
392
In epistola ad Ctesiphontem, et. dialog.
149
nossa beatitude, e a glória eterna que esperamos. “Aos que (Deus) predestinou, a
esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que
justificou, a esses também glorificou”.393
Então, por que os crentes são premiados? Certamente, segundo o apóstolo,
vê-se que pela misericórdia do Senhor, e não pela habilidade deles, eles foram
eleitos, chamados e justificados. Portanto, que seja eliminado esse tolo temor de
que não haverá mais mérito se o livre arbítrio não for mantido. Porque é uma
zombaria fugir daquilo para o que a Escritura nos leva. “Se o recebestes (diz o
apóstolo Paulo),394
por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” Ve-
mos que ele tira todo o poder do livre arbítrio, a fim de destruir todos os méritos.
Não obstante, considerando que Deus é rico e liberal em Suas dádivas e bênçãos,
Ele remunera as graças que Ele nos confere como se fossem virtudes vindas de
nós, porque, dando-as a nós, torna-as nossas.395
75. A mesma natureza determina as mesmas
qualidades na prática?
Conseqüentemente, os opositores alegam a seguinte objeção que, ao que parece,
foi tomada de Crisóstomo:396
Se estivesse em nosso poder escolher o bem e o
mal, isso faria com que todos os homens fossem bons ou maus, visto que todos
eles têm a mesma natureza. Com isso concorda o dito daquele que escreveu o
livro intitulado A Vocação dos Gentios, que se atribui a Ambrósio.397
O referido
dito é que ninguém jamais se afastaria da fé, se a graça de Deus deixasse a vonta-
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
393
Rm 8.30.
394
1Co 4.7.
395
“Os crentes devem ter sempre em mente o fato de que tudo que compreende e rodeia nossa vida, depende
única e exclusivamente da bênção de Deus.” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo, Novo
Século, 2000, p. 40). “Ninguém possui coisa alguma, em seus próprios recursos, que o faça superior; portan-
to, quem quer que se ponha num nível mais elevado não passa de imbecil e impertinente. A genuína base da
humildade cristã consiste, de um lado, em não ser presumido, porque sabemos que nada possuímos de bom
em nós mesmos; e, de outro, se Deus implantou algum bem em nós, que o mesmo seja, por esta razão,
totalmente debitado à conta da divina graça.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 4.7), p. 134-
135.] “Os bens terrenos à luz de nossa natural perversidade, tendem a ofuscar nossos olhos e a levar-nos ao
esquecimento de Deus, e portanto devemos ponderar, atentando-nos especialmente para esta doutrina: tudo
quanto possuímos, por mais que pareça digno da maior estima, não devemos permitir que obscureça o
conhecimento do poder e da graça de Deus.” [J. Calvino, O Livro de Salmos, Vol. 2, (Sl 48.3), p. 355-356.]
“À luz desse fato aprendemos, também, que os que são responsáveis pelo presunçoso uso da bondade
divina, se aproveitam dela para orgulhar-se da excelência que possuem, como se a possuíssem por sua
própria habilidade, ou como se a possuíssem por seu próprio mérito; enquanto que sua origem deveria,
antes, lembrá-los de que ela tem sido gratuitamente conferida aos que são, ao contrário, criaturas vis e
desprezíveis e totalmente indignas de receber algum bem da parte de Deus. Qualquer qualidade estimável,
pois, que porventura virmos em nós mesmos, que ela nos estimule a celebramos a soberana e imerecida
bondade que a Deus aprouve conceder-nos.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos,
1999, Vol. 1, (Sl 8.4), p. 165-166.] “.... sejam quais forem os dons que possuamos, não devemos ensoberbecer-
nos por causa deles, visto que eles nos põem sob as mais profundas obrigações para com Deus.” [João
Calvino, Efésios, (Ef 4.7), p. 113.] NE.
396
Homil. 22 in Genesim.
397
Lib. II, cap. IV.
150 As Institutas – Edição Especial
de humana [livremente] movível. É espantoso, como tão grandes personagens
ficam tão iludidos! Pois, como foi que Crisóstomo não considerou que é a eleição
de Deus que faz essa distinção entre os homens? Certamente não devemos ter
vergonha de confessar o que o apóstolo Paulo afirma com tanta firmeza: que
todos são perversos e dados à malícia; mas igualmente acrescentamos com ele
que a misericórdia de Deus vem em socorro de alguns, a fim de que não perma-
neçam todos na perversidade. E assim, sendo naturalmente vítimas todos da mes-
ma moléstia, nenhuma garantia de solução haverá, a não ser para aqueles que a
Deus aprouve curar. Os demais, abandonados por Seu justo juízo, ficam em sua
corrupção, até serem consumidos. E, aliás, não é por causa deste ou daquele que
uns prosseguem até o fim e outros fracassam no meio do caminho. Porque, de
fato, a perseverança é dom de Deus, dom que Ele não estende a todos, indiferen-
temente, mas a quem Lhe apraz.398
Se for pedida a razão desta diferença, por que
uns perseveram constantemente e outros mudam, não se achará outra resposta
que não esta: Os primeiros são mantidos pelo poder de Deus, pelo que não pere-
cem; os do segundo grupo não recebem a mesma força, sendo que Deus quer
mostrar pelo exemplo deles a inconstância humana.399
76. Exortações para quê?
Os oponentes argumentam também que, se o pecador não fosse capaz de obede-
cer, todas as exortações seriam frustrantes, não haveria utilidade nas admoesta-
ções, e as repreensões seriam ridículas. Visto que já no passado essa objeção
tinha sido feita aAgostinho, ele se sentiu constrangido a publicar o livro intitulado
Correção e Graça, no qual, embora tivesse respondido ampla e completamente,
não obstante, reduz a questão a este resumo: “Ó homem, nisto que te é ordenado,
reconhece que é isso que deves fazer; no que tu és condenado por não tê-lo feito,
sabe que tua virtude falhaa
por causa do teu vício; e ao orares a Deus, sabe que só
dele podes receber o que necessitas”. [Consideremos:] Em primeiro lugar, não
somos só nós que defendemos esta causa, mas também Cristo e todos os Seus
apóstolos. Portanto, que os nossos adversários considerem como será que pode-
rão combater com êxito tais contendores! Tanto mais que Cristo declarou que
sem Ele nada podemos fazer; contudo, Ele não deixa, por isso, de repreender os
que, agindo sem Ele, praticam o mal, como também não deixa de exortar todos a
398
“O Senhor Jesus tem poder para nos levar lá! Ele lutará contra nossos inimigos para nós. Jesus nos guardará
de cair no pecado, e levará todos aqueles pelos quais Ele morreu para a terra celestial. Ninguém será deixado
para trás. Estaremos seguros e felizes com Ele para sempre. O Senhor Jesus nos apresentará a Deus e estare-
mos com aqueles que alcançaram o céu antes de nós.” (C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, Säo
Paulo, PES., 1992, p. 12.) NE.
399
A promessa de Deus sempre se cumpre; nós é que precisamos perseverar nela. Esta é a vontade de Deus, que
permaneçamos firmes na Sua Palavra. “A herança da vida eterna já nos está garantida; visto, porém, que esta
vida se assemelha a uma pista de corrida, temos que nos esforçar por alcançar a meta final.” [J. Calvino,
Exposição de Hebreus, (Hb 10.36), p. 290.] NE.
a
Essa frase traduzida: in correptione.
151
que pratiquem boas obras. E com que severidade o apóstolo Paulo repreende os
coríntios por não viverem o amor cristão!400
Mas depois ele roga a Deus que os
capacite para o amor. Aos romanos ele testifica que a justiça não está nem no
querer nem na ação do homem, mas na misericórdia de Deus.401
Mas ele não
deixa de admoestá-los, exortá-los e corrigi-los. Por que aqueles tais não aconse-
lham o Senhor a não se esforçar inutilmente, exigindo à toa dos homens o que só
Ele lhes pode fazer, e em repreendê-los pelo mal que fazem, sendo que o fazem
porque lhes falta a Sua graça? Por que não se queixam a Paulo de que ele deveria
perdoar aqueles que não têm em suas mãos o quererem eles o bem, ou o realiza-
rem, senão pela misericórdia de Deus, a qual lhes falta quando eles falham? Mas
todas estas loucuras não têm lugara
, visto que a doutrina de Deus está baseada em
excelente razão, desde que bem analisada.
É bem verdade que o apóstolo Paulo mostra que a doutrina, a exortação e as
palavras persuasivas, em si mesmas, não têm grande proveito, quanto à mudança
do coração. Vê-se isso quando ele diz402
que “nem o que planta é alguma coisa,
nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento”. De que servem, então, as
exortações?, alguém perguntará. Respondob
que, se elas forem menosprezadas
por um coração obstinado, as exortações servirão de testemunho para convencê-
lo quando se der o juízo de Deus. E mesmo a consciência má é tocada e pressio-
nada na vida presente, pois, por mais que escarneça, não as pode reprovar.403
77. Desculpas vãs
Se for levantada esta objeção: Que fará o pobre pecador, visto que a prontidão do
coração lhe é negada? Respondo: Como poderá ficar com rodeios, se ele só pode
imputar a si mesmo a dureza do seu coração? Porque os maus, por mais que
desejem considerar os preceitos e as advertências de Deus como ilusões ou utopi-
as, quanto lhes é possível, são confundidos, queiram ou não, pela virtude daque-
les mesmos preceitos e advertências. Mas a principal utilidade deve ser conside-
rada quanto aos fiéis, sabendo-se que o Senhor opera em seu favor mediante o
Seu Espírito, empregando contudo a Sua Palavra como instrumento para realizar
a Sua obra neles, e fazendo isso com eficácia.404
a b
Acréscimos feitos em 1539.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
400
1Co 3.
401
Rm 9.14-18.
402
1Co 3.7.
403
“Quando Deus resolve, por si mesmo, levar avante as coisas, ele nos toma, seres insignificantes que somos,
como seus auxiliares e nos usa como seus instrumentos.” [J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co
3.9), p. 107.] “Não lograremos progresso a menos que o Senhor faça próspera a nossa obra, os nossos
empenhos e a nossa perseverança, de modo a confiarmos à sua graça a nós mesmos e tudo o que fazemos.”
[J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.7), p. 106.] NE.
404
“Portanto, mesmo que o cuidado do agricultor não seja ineficiente, e a semente que ele semeia não seja
improdutiva, contudo é tão-somente pela bênção de Deus que se torna produtiva.” [J. Calvino, Exposição
de 1 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1996, (1Co 3.6), p. 103.] NE.
152 As Institutas – Edição Especial
Quando se conclui, como se deve, que toda a virtude dos justos situa-se na
graça de Deus,405
se alguém questionar: Por que os homens são admoestados a
cumprirem o seu dever, e por que não deixá-los aos cuidados do Espírito Santo?
Por que instigá-los mediante exortação, se não podem melhorar se não forem
impulsionados pelo Espírito? Por que corrigi-los quando falham, visto que ne-
cessariamente tropeçam e caem pela fraqueza da sua carne?, podemos responder:
Homem, quem és tu, que queres impor leis a Deus? Se Ele quer preparar-nos
mediante exortação para recebermos a graça de obedecer à Sua exortação, que é
que tu tens para censurar e remoer essa ordem e essa maneira de agir?a
Se as
exortações não dessem aos crentes outro proveito além de redargüi-los de peca-
do, ainda assim não deveriam ser consideradas inúteis. Mas agora, depois que
elas apresentam grande proveito inflamando o coração de grande amor pela
justiçab
, e, contrariamente, de ódio e desprazer pelo pecado, realizando esse be-
nefício pela ação interior do Espírito Santo, quando faz uso desse instrumento
externo, para a salvação do homem, quem ousará rejeitá-las como supérfluas?
78. Sumário: dupla ação divina
Se alguém desejar uma resposta mais clara, eu lhe darei a solução em poucas
palavras. É que Deus agec
duplamente em nós:d
por dentro, por Seu Espírito; por
fora, por Sua Palavra. Por Seu Espírito, iluminando o entendimento e formando o
coração com amor pela justiça e pela inocência, Ele regenera o homem, fazendo
dele uma nova criatura;406
por Sua Palavra, Ele estimula e incita o homem a dese-
jar e a buscar essa renovação. Por Aquele e por Esta, Ele demonstra o poder da
Sua mão, conforme a ordem da Sua dispensação. Quando Ele dirige essa mesma
Palavra aos ímpios e réprobos, apesar de não fazê-los corrigir-se, não obstante,
Ele a faz valer para este outro uso: que no presente sofram pressão em sua cons-
ciência, e no dia do juízo sejam ainda mais inescusáveis.407
405
“Nenhum outro jamais se apropriará corretamente da justiça divina senão aquele que a abraça como ela lhe
é oferecida e apresentada na Palavra.” [João Calvino, O Livos dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.10), p. 233.] NE.
a
œconomia.
b
operatur.
c
1539 acrescenta: ad discutiendum torporem, ad eximendam voluptatem iniquitatis, et venenatam dulcedinem.
d
in electis suis.
406
“É o Espírito de Deus quem nos regenera e nos transforma em novas criaturas; visto, porém, que sua graça
é invisível e oculta, no batismo nos é dado um símbolo visível dela.” [João Calvino, As Pastorais, São
Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 3.5), p. 350-351.] “Elimine-se o evangelho, e todos permaneceremos malditos
e mortos à vista de Deus. Esta mesma Palavra, por meio da qual somos gerados, passa a ser leite para nos
criar, bem como alimento sólido para a nossa nutrição contínua.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios,
(1Co 4.15), p. 143.] NE.
407
Comentado o Salmo 62, escreve: “O Deus que governa o mundo por sua providência o julgará com justiça.
A expectativa disto, devidamente apreciada, terá um feliz efeito na disposição de nossa mente, acalmando a
impaciência e restringindo qualquer disposição ao ressentimento e retaliação em face de nossas injúrias.”
[João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 62.12), p. 584.] Interpretando o salmo de Davi, diz que
inutilmente “....Os maus pensam em escapar em sua iniqüidade, mas que Deus os lançará abaixo. (...) Em
nossa própria época, vemos tantos caracteres profanos que exibem uma desmedida audácia escudados na
153
79. Vão esforço de usar a Bíblia em prol do erro!
Nossos adversários se afanam com grande empenho em colher força dos teste-
munhos da Escritura a fim de que, se não puderem vencer-nos por citarem teste-
munhos melhores e mais próprios que os que nós citamos, que ao menos possam
humilhar-nos perante o povo. Mas isso é como se um comandante reunisse um
exército com homens completamente ineptos para a guerraa
para com eles assus-
tar seu inimigo, fazendo com eles, antes de pô-los em ação, uma grandiosa revis-
ta das tropas. Mas, se de fato se aprestassem para a batalha e se juntassem contra
o inimigo, no primeiro assalto seriam postos em fuga. Por isso nos será fácil pôr
abaixo todas aquelas objeções, que só têm aparência e vã ostentação.b
E como
todas as passagens citadas por eles podem ser reduzidas a certas classes, quando
as distribuirmos sob uma resposta, muitas estarão respondidas satisfatoriamente.
Assim, não será necessário relacioná-las uma após outra. Esses oponentes for-
mam um grande escudo com os preceitos de Deus, que julgam ter força proporci-
onal à nossa, de modo que, segundo eles, podemos lutar de igual para igual. Eles
juntam um grande numero, e com isso medem as forças humanas. Eis como eles
argumentam: “Ou Deus zomba de nós quando de nós exige santidade, piedade,
obediência, castidade, amor fraternal, e quando nos proíbe a impureza, a idola-
tria, a impudicícia, a ira, a rapina, o orgulho, e coisas semelhantes; ou exige de
nós apenas o que está em nosso poder realizar”.
80. Classificação dos preceitos alegados
Ora, todos os preceitos que eles juntam num só bloco podemos distinguir e sepa-
rar em três espécies: Uns ordenam aos homens que se convertam; outros simples-
mente recomendam a observância da Lei; os demais mandam perseverar na gra-
ça de Deus já recebida.
Tratemos primeiro de todos eles em geral; depois desceremos a cada espé-
cie em particular. Reconheço que há muito tempo é comum avaliar as faculdades
do ser humano pelo que Deus ordena, e que há nisso algum vestígio de razão.
Todavia, digo que isso procede de uma grande ignorância; pois os que querem
mostrar que seria um grande absurdo se a observância da Lei fosse impossível ao
homem, usam um argumento muito fraco, dizendo que, se fosse assim, a Lei
seria dada em vão. Realmente soa como se o apóstolo Paulo nunca tivesse falado
disso! Porque, vejam vocês, que é que ele nos oferece? Que a Lei foi dada para
agravar as transgressões: “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”; que a
certeza de que a mão de Deus jamais os alcançará. Não só buscam a impunidade, mas fundamentam suas
esperanças de êxito em seus malfeitos e se animam em intensificar a perversidade nutrindo a opinião de que
excogitarão uma via de escape da própria adversidade.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl
56.7), p. 499.] NE.
a
O termo imbellis (1539) é traduzido por essa frase.
b
Frase acrescentada em 1539.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
154 As Institutas – Edição Especial
Lei gera o pecado, veio para multiplicar o pecado.408
Estará ele dizendo que seria
preciso haver correspondência com as nossas forças para que a Lei não fosse
dada em vão? Não; antes, o apóstolo mostra em todas essas passagens que Deus
nos ordenaa
o que está acima da nossa capacidade para nos convencer da nossa
incapacidade. Certamente, se a Escritura não ensinasse outra coisa senão que a
Lei é regra de vida, à qual as nossas obras devem estar ajustadas, eu concordaria
de imediato e sem dificuldade com a opinião deles. Mas, depois que ela nos
explica muitas e diversas utilidades da Lei, devemos ficar com essa interpreta-
ção, e não com as nossas fantasias.
No que diz respeito a esta questão, tão logo a Lei nos ordena o que temos o
dever de fazer, ela nos ensina com a mesma intensidade que a faculdade de obe-
decer procede da graça de Deus.b
Por isso a Escritura nos ensina a buscá-la pela
oração.409
Se não vemos senão simples mandamentos e nenhuma promessa, Ele
nos faz provar as nossas forças para vermos se elas seriam suficientes para fazer
aquilo; mas depois nos ensina que os mandamentos e as promessas estão juntos e
que estas últimas declaram não somente que precisamos ter como suporte a ajuda
de Deus, mas também que em Sua graça está todo o nosso poder. E com isso
demonstram satisfatoriamente que, não somente não somos suficientes, mas tam-
bém que somos totalmente ineptos para a observância da Lei.410
Portanto, que
não nos embaracemos mais com a propostac
de que meçamos as nossas forças
com os mandamentos de Deus, como se Deus ajustasse à nossa imbecilidade e
pequenez a regra de justiça que Ele queria dar. Já pelas promessas, porém, vemos
como estamos mal preparados, visto que, em tudo e por tudo, temos tão grande
necessidade de Sua graça.411
Mas, dizem eles, a quem se persuadirá de que Deus lhes endereçou a Sua
Lei? Aos troncos ou às pedras? Digo que Ele não quer persuadir nada dessas
coisas! Porque os pecadores não são nem troncos nem pedras quando, sendo
ensinados pela Lei que as suas concupiscências contrariam a Deus, eles se tor-
408
Rm 3, 5, 7.
a
O que se segue foi acrescentado em 1539.
b
Noutras palavras, ensinando-nos nossa incapacidade ética de obedecer à lei e o remédio para essa incapaci-
dade, Deus nos dá o poder físico e formal de fugir-lhe. Portanto, não é de admirar que mais adiante Calvino
diga que os rebeldes, aprendendo que as suas concupiscências contrariam a lei de Deus, “tornam-se culpa-
dos em sua própria consciência”.
409
In enchirid. ad Laurent. de gratia et liber. arbitr., cap. XVI.
410
Calvino resumindo o Salmo 1, diz: “A suma e substância de todo o Salmo consistem em que são bem-
aventurados os que aplicam seus corações a buscar a sabedoria celestial; ao passo que, os profanos
desprezadores de Deus, ainda que por algum tempo se julguem felizes, por fim terão o mais miserável fim.
(...) Tudo estará bem com os devotos servos de Deus, cuja incansável diligência é fazer progresso no estudo
da lei divina.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 1), pp. 49,50.] NE.
c
1539: proportio.
411
“É preciso lembrar que sempre que atribuímos nossa salvação à graça divina, estamos confessando que não
há mérito algum nas obras; ou, antes, devemos lembrar que sempre que fazemos menção da graça, estamos
destruindo a justiça [procedente] das obras.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 389.] “É
pela fé que nos apropriamos da graça de Deus, a qual está oculta e é desconhecida do entendimento carnal.”
[J. Calvino, O Livro de Salmos, Vol 1, (Sl 13.5), p. 267.] NE
155
nam culpados em sua própria consciência; em paralelo contrastante, não são as-
sim os crentes, que, quando advertidos da sua fraqueza, têm recurso na graça de
Deus. A isso dizem respeito as seguintes sentenças de Agostinho:412
“Deus nos
ordena o que não somos capazes de fazer a fim de que saibamos o que não deve-
mos exigir dele”. Igualmente: “A utilidade dos preceitos é grande, se o livre arbí-
trio for de tal modo considerado que a graça de Deus receba maior honra”. E
mais: “Afé obtém o que a Lei impõe [ou: “Afé alcança o que a Lei comanda”]. O
próprio Deus exige que tenhamos fé; e não encontra o que exige, a não ser que
Ele a coloque onde queira para ali a encontrar”. E ainda: “Deus dá o que ordena,
e ordena o que irá querer”.413
81. Explicação das três espécies de
mandamentos, em particular
Poderemos entender melhor isto se considerarmos as três espécies de manda-
mentos de que falamos. Muitas vezes, tanto na Lei como nos Profetas, o Senhor
nos conclama a converter-nos a Ele. Mas o profeta [Jeremias] responde de um
outro ângulo: “Converte-me, e serei convertido, porque tu és o Senhor, meu Deus.
Na verdade, depois que me converti (ou: que me converteste), arrependi-me”414
etc. Também nos manda “circuncidar o nosso coração”, mas, por meio de Moisés,
Ele declara que essa circuncisão é feita por Sua mão.415
Numerosas vezes Ele
exige dos homens” um “novo coração”;416
mas testifica que é somente Ele que o
renova.417
Que dirão aqueles que recorrem aos preceitos de Deus para exaltar o
poder do homem e extinguir a graça de Deus, sendo que vemos que unicamente
pela graça de Deus os preceitos são cumpridos?
O segundo modo de ação dos preceitos, que mencionamos, é simples: le-
var-nos a honrar a Deus, a servir e apegar-nos à Sua vontade, a observar os Seus
mandamentos e a seguir a Sua doutrina. Mas há um sem número de testemunhos
segundo os quais tudo o que podemos ter da justiça, da santidade, da piedade e da
pureza é dom gratuito e vem do Senhor.
Quanto ao terceiro gênero, temos exemplo na exortação de Paulo e Barnabé,
que eles fizeram aos crentes, a que perseverassem na graça de Deus.418
Mas nou-
tro lugar o apóstolo Paulo mostra de onde procede esse poder: “Sede fortalecidos
no Senhor e na força do seu poder”. Por outro lado, ele nos proíbe entristecer o
Espírito de Deus, no qual somos “selados para o dia da redenção”.419
Mas o que
nessas passagens ele ordena, noutra ele pede em oração ao Senhor, sabendo que
412
In enchirid. ad Laurent. de gratia et liber. arbitr., cap. XVI.
413
Homil. 29, In Ioan., epist., 24.
414
Jr 31.18,19.
415
Dt 30.6; [10.16].
416
Ez 11,19; 36.26; [18.31].
417
Jr 31.
418
At 13.43.
419
Ef 4.30; [6.10].
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
156 As Institutas – Edição Especial
isso está fora do poder dos homens; ele suplica ao Senhor que torne os
tessalonicenses “dignos da sua vocação”420
e cumpra neles o que Ele tinha deter-
minado por Sua bondade, e que complete a obra da fé.
Os mais astutos e mal intencionados usam capciosamente os testemunhos
da Palavra, alegando que nada disso impede que, como eles dizem, conjuguemos
as nossas forças com a graça de Deus, e que, assim, Ele nos ajuda em nossa
fraqueza. Eles citam algumas passagens dos Profetas onde parece que Deus re-
partiu o poder da nossa conversão entre Ele e nós, como por exemplo esta: “Con-
verte-me, e eu me converterei a ti” [Jr 31.18 – tradução direta]. Já demonstramos
acima qual é o auxílio que temos de Deus, e não é necessário repeti-lo neste
ponto, visto que a questão aqui não é mostrar que é em vão que os homens tentam
pôr no homem a capacidade para cumprir a Lei porque Deus nos manda obedecê-
la. Sim, pois nos é revelado que a graça de Deus é necessária para cumprirmos o
que Ele ordena, e que para esse fim Sua graça nos é prometida.421
Quanto à declaração recém-citada: “Converte-me, e eu me converterei a ti”,
de nada serve para confirmar o erro dos nossos opositores. Porque [nessa passa-
gem] não se deve entender pela conversão a graça com a qual Ele renova o nosso
coração para a vida santa, mas por ela Deus testifica a Sua boa vontade e o Seu
amor por nós fazendo-nos prosperar, como se diz que Ele se afasta de nós quando
Ele nos aflige. Por isso, quando o povo de Israel sofria miséria e calamidade por
muito tempo e se queixava de que Deus tinha se afastado, Ele respondia que não
lhes faltaria a benignidade, se eles retornassem ao reto caminho, e a Ele mesmo,
que é a norma [viva] de toda a justiça. Será, pois, corromper essa passagem con-
cluir dela que a eficácia da nossa conversão divide-se entre Deus e nós. Tratamos
ligeiramente desta questão, porque a seu respeito ainda faremos algumas dedu-
ções do tratado sobre a Lei.a
82. Segunda parte dos argumentos dos oponentes
A segunda ordem dos seus argumentos não difere muito da primeira. Eles citam
as promessas nas quais parece que Deus faz aliança com a nossa vontade, como
nos seguintes exemplos: “Buscai o bem e não o mal, para que vivais”. Também:
“Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra. Mas, se recusardes e
fordes rebeldes, sereis devorados à espada”. E ainda: “Se eliminares as abomina-
ções de diante da minha face, não serás rechaçado. Se ouvires a voz do teu Se-
nhor e cumprires e guardares todos os seus preceitos, ele fará de ti o povo mais
420
2 Ts 1.11.
421
“Pela lei Deus exige o que lhe é devido, todavia não concede nenhum poder para cumpri-la. Entretanto, por
meio do Evangelho os homens são regenerados e reconciliados com Deus através da graciosa remissão de
seus pecados, de modo que ele é o ministério da justiça e da vida.” [João Calvino, Exposição de Segundo
Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1995, (2 Co 3.7), p. 70.] NE.
a
Capítulo III, logo adiante.
157
excelente da terra”.422
E outras declarações semelhantes. Eles acham, então, que
Deus estaria zombando de nós atribuindo à nossa vontade essas coisas, como se
estivessem plenamente em nosso poder. E de fato, em termos humanos,a
esse
argumento tem aparência grandiosa. Porque se pode concluir que seria uma cru-
eldade Deus fazer parecer que caberia unicamente a nós, independentemente da
Sua graça, recebermos dele todo bem, quando não temos nenhum poder para
isso; que seria ridículo oferecer-nos Deus benefícios, não tendo nós nenhuma
possibilidade de desfrutá-los. Em resumo, pode-se alegar que não podemos ter
nenhuma certeza quanto às promessas, se elas dependem de uma impossibilidade
para serem cumpridas.
Quanto a essas promessas, as quais trazem consigo uma condição impossí-
vel, falaremos oportunamente. E se verá que, por mais impossível que seja o seu
cumprimento, todavia não há nisso nenhum absurdo. Quanto à presente questão,
nego que o Senhor esteja sendo cruel ou desumano para conosco quando nos
exorta a merecermos Suas graças e Seus benefícios, embora saiba que somos
incapazes de fazê-lo. Pois, como as promessas são feitas aos crentes e aos ímpios,
elas têm sua utilidade tanto para uns como para os outros. Porquanto, como o
Senhor, mediante os Seus preceitos, acicata e desperta a consciência dos ímpios,
a fim de que eles não se gabem dos seus pecados por não ligarem para o Seu
juízo, assim Ele faz das Suas promessas testemunhos de quão indignos são os
ímpios da Sua benignidade. Quem negará que é próprio que Deus faça o bem aos
que O honram e se vingue com rigor dos que desprezam a Sua majestade? Por-
tanto, o Senhor age retamente,b
quando expõe esta condição dos ímpios, que são
mantidos cativos sob o jugo do pecado: Quando se retirarem do seu mau caminho,
Ele lhes enviará todos os benefícios; e o propósito divino é que eles entendam que
é com justiça que são excluídos dos benefícios devidos aos servos de Deus.423
E, por outro lado, Ele quer por todos os meios estimular os Seus fiéis a
implorarem Sua graça, e não se deve estranhar muito que Ele faça com as Suas
promessas o mesmo que fez com Seus mandamentos. Quando por Seus preceitos
Deus nos ensina sobre a Sua vontade, Ele nos adverte da nossa miséria, dando-
nos a conhecer como somos contrários à Sua santidade, e, ao mesmo tempo nos
impulsiona a invocar o Seu Espírito, para por Ele sermos dirigidos no caminho
reto. Mas, para que a nossa preguiça não seja fomentada demasiadamente pelos
Seus preceitos, Ele acrescenta as Suas promessas, por cuja amenidade Ele nos
induz a amar o que nos ordena. Ora, quanto mais amarmos a justiça, mais fervo-
rosos seremos na busca da graça de Deus.
422
Am 1.14; Is 1.19,20; Jr 4; Dt 28; Lv 26.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
facundis quærimoniis amplificare promptum est.
b
rite et ordine.
423
“Devemos buscar refúgio na graciosa promessa da misericórdia que nos é oferecida em Cristo, para que
saibamos com certeza que somos considerados justos aos olhos de Deus.” [J. Calvino, Exposição de 1
Coríntios, (1Co 4.4), p. 131.] NE.
158 As Institutas – Edição Especial
83. Sumário
Note o leitor, pelos protestos que aqui fizemos, que Deus não nos atribui a capa-
cidade de fazer o que Ele diz, e, todavia, não zomba da nossa fraqueza, visto que
esta Ele torna proveitosa aos Seus servos, e os ímpiosa
Ele torna inescusáveis.
84. Terceira parte dos argumentos dos oponentes
A segunda ordem dos argumentos aqui em discussão tem alguma afinidade com
as precedentes. Isso porque eles apresentam as passagens nas quais Deus censura
o povo de Israel que não queria tê-lo como Aquele que poderia mantê-los em paz
e prosperidade. Exemplos: Como quando Ele diz: “Os amalequitas e os cananeus
ali estão diante de vós, e caireis à espada, pois, uma vez que vos desviastes do
Senhor, o Senhor não será convosco”.424
Igualmente: “Porque eu vos chamei e
não me respondestes, eu vos destruirei como fiz a Silo” (tradução direta; [cf. Jr
7.13-15]). E mais: “Este povo não ouviu a voz do seu Deus, e não quis receber a
sua doutrina, e por isso ele o rejeitou”.425
E ainda: “Porque endurecestes o vosso
coração e não quisestes obedecer ao Senhor, todos estes males vieram sobre vós”
(tradução direta).
“Como”, alegam os nossos opositores, “todas essas censuras poderiam apli-
car-se àqueles que poderiam responder imediatamente: ‘Só pedimos prosperida-
de; tememos a calamidade. Quanto ao fato de que não temos obedecido ao Se-
nhor e não temos dado atenção à Sua voz para que assim evitássemos o mal e
tivéssemos melhor sorte, o que importa é que Ele nos faça livres, a nós que estamos
presos ao cativeiro do pecado. É, pois, injusto que Deus nos condene pelo mal
que padecemos, mal que não temos poder para evitar!’”
Para responder a isso, deixando de lado o pretexto de necessidade, que não
passa de uma cobertura frívola e sem nenhuma importância, pergunto se eles
podem escusar-se, se não cometeram nenhuma falta. Porque, se eles se conven-
cerem de que erraram, não é sem motivo que Deus declara que foi por essa causa
que Ele não os manteve prósperos. Que eles me respondam, então, se podem
negar que a causa da sua obstinaçãob
foi a sua vontade perversa. Se eles encon-
tram a origem do mal neles mesmos, por que se esforçamc
para procurar as cau-
sas fora deles, querendo fazer crer que não são eles os autores da sua própria
ruína? Portanto, se é verdade que os pecadores, por seu próprio errod
, são priva-
dos dos benefícios de Deus e recebem punição da Sua mão, é mais que justo que
essas palavras de repreensão lhes sejam dirigidas, a fim de que, se persistirem em
424
Nm 14.43.
425
Is 42 [tradução direta].
a
1539 diz, em lugar dessa frase: si volueritis, si audieritis, neque volendi audiendive liberam facultatem nobis
Dominus tribuat.
b
contumaciæ.
c
inhiant.
d
1529 acrescenta: non alieno vitio.
159
seu erro, concordem em acusar a sua própria iniqüidade como causa da sua misé-
ria, em vez de insultarem a Deus dizendo que é rigoroso demais. Se eles não
estiverem totalmente empedernidos e tiverem condições de tornar-se dóceis, que
tratem de conceber desprazer e ódio por seus pecados, por cuja causa eles se
acham em tão miserável situação. E, assim, retornem ao bom caminho e confes-
sem que é verdade o que Deus demonstra ao repreendê-los.
Pela oração de Daniel426
se vê que tais advertências têm tido bom proveito
para os crentes fiéis, com relação a essa finalidade. Quanto à primeira utilidade,
vemo-la no caso dos juízes que, por mandado de Deus, Jeremias admoestou por
causa das suas condições deploráveis;427
o que foi predito por Deus, isto é, que
Ele lhes dirigiria a Sua Palavra, e não Lhe dariam ouvidos; que os chamaria, e
eles não Lhe responderiam.
85. Por que falar aos surdos?
Mas, com que propósito deverá Deus falar aos surdos?, alguém dirá. O propósito
é que, apesar disso, eles entendam que é verdade o que lhes foi dito, a saber, que
é um sacrilégio abominável imputar a Deus a causa da calamidade sofrida por
eles, sendo que a referida causa reside neles mesmos.428
Com essas três soluções, qualquer pessoa poderá facilmente despachar como
resolvidos os inumeráveis testemunhos reunidos pelos inimigos da graça de Deus,
tanto dos preceitos e das promessas de Deus, como também das censuras que
Deus faz aos pecadores. Isso fazem os nossos oponentes porque desejam colocar
no homem um livre arbítrioa
, que não se pode encontrar.429
86. Citação aparentemente forte feita pelos oponentes
Contudo, eles citam um testemunho da Lei de Moisés que fortemente parece
contrariar a solução que oferecemos. É que, logo depois de ter tornada pública a
Lei, Moisés faz esta declaração perante o povo: “Este mandamento que, hoje, te
ordeno, não é demasiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para
dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para
que o cumpramos?... Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu
coração, para a cumprires”.430
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
426
Dn 9.
427
Jr 7.27.
428
“Só uma exceção se deve fazer, a saber: que a causa do pecado, as raízes do qual sempre residem no próprio
pecador; não têm sua origem em Deus, pois resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti,
e só de mim o teu socorro” [Os 13.9].” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 1.24), p. 71.] NE.
a
liberi arbitrii simulachrum.
429
“No tocante ao reino de Deus e a tudo quanto se acha relacionado à vida espiritual, a luz da razão humana
difere pouquíssimo das trevas; pois, antes de ser-lhe mostrado o caminho, ela é extinta; e sua perspicácia
não é mais digna que a cegueira, pois quando vai em busca do resultado, ele não existe. Pois os princípios
verdadeiros são como as centelhas; essas, porém, são apagadas pela depravação da natureza antes que sejam
postas em seu verdadeiro uso.” [João Calvino, Efésios, (Ef 4.17), p. 134-135.] NE.
430
Dt 30.11-14.
160 As Institutas – Edição Especial
Se isso fosse dito a respeito dos puros mandamentos, confesso que teríamos
grande dificuldade para dar resposta ao argumento. Sim, pois, embora se possa
alegar que a citada passagem fala da facilidade de entender os mandamentos e
não de os praticar, ainda assim eu teria algum escrúpulo. Mas nós temos um bom
expositor que nos tira toda a dúvida. É o apóstolo Paulo.431
Este afirma que ali
Moisés fala da doutrina do Evangelho. Se algum teimoso quiser replicar dizendo
que o apóstolo afastou essa passagem do seu sentido natural para dela extrair o
dea
Evangelho, se bem que não se deveria tolerar uma palavra tão maldosa como
essa, todavia temos com que defender a exposição feita pelo apóstolo. Porque, se
Moisés estivesse falando tão-somente dos preceitos, estaria enganando o povo
com uma vã confiança, pois este pouco poderia fazer, a não ser arruinar-se, caso
quisesse observar a Lei por seu próprio poder, julgando fácil fazer isso. Onde está
essa nossa facilidade, visto que a nossa natureza sucumbe nesse ponto, e não há
quem não caia quando tenta andar?
É, pois, coisa mais que certa que, com suas palavras, Moisés incluiu a aliança
de misericórdia que ele tinha dado a público junto com a Lei. O apóstolo Paulo,
considerando isso, a saber, que a salvação nos é apresentada no Evangelho (não sob
a condição tão dura e difícil, e mesmo totalmente impossível, pelo uso da Lei, mas
sob uma condição fácil e amenizada), aplica o presente testemunho para confirmar
como nos é manifestada a misericórdia de Deus. Portanto, o citado testemunho de
nada serve para estabelecer uma liberdade na vontade do ser humano.
87. Mais algumas objeções
Os nossos oponentes costumam fazer objeção a algumas outras passagens, nas
quais é demonstrado que às vezes Deus retira a Sua graça dos homens para ver
para que lado se voltarão eles. Como quando Ele diz em Oséias: “Eu me retirarei,
até que eles deliberem em seu coração e resolvam seguir-me”.432
Seria uma coisa
ridícula, dizem eles, querer verificar se os homensb
seguirão o Seu caminho, a
não ser que o coração deles fosse capaz de inclinar-se para um lado ou para o
outro por seu próprio poder. Como se não fosse comum Deus dizer, por meio dos
Seus profetas, que rejeitaria o Seu povo e o abandonaria até que ele se corrigisse.
E consideremos o que de fato eles querem inferir disso. Porque, se eles dizem
que, sendo abandonado por Deus, o povo pode converter-se por si mesmo, toda a
Escritura os contradiz. Se confessam que a graça de Deus é necessária para a con-
versão do homem, essas passagens de nada lhes servem para a sua luta contra nós.
Mas eles dirão que a confessam necessária e que, entretanto, o homem pode
realizar algo. Onde encontram eles provas do que afirmam? Certo é que não é na
passagem aqui em foco, nem noutras semelhantes!
431
Rm 10.6-8.
432
Os 5.15 (tradução direta).
a
Provavelmente: devers [diverso]; 1539 diz: ad evangelium.
b
Israel.
161
88. Dois atos de Deus
Porque se trata de duas coisas bem diversas: afastar o homem da graça, para ver
o que ele fará tendo sido abandonado; e vir em socorro da sua debilidade, para
fortalecer suas fracas forças. Mas eles reclamam: “Que significam, então, tais
maneiras de falar?” Eu respondo: Valem como se Deus dissesse: “Visto que nada
dá resultado com esse povo rebeldea
, nem por admoestações, nem por exorta-
ções, nem por repreensões, vou retirar-me por um pouco, e, em minha avaliação,
suportarei que ele seja afligido. Assim verei se, após uma longa calamidade, ele
se lembrará de mim para buscar-me”.
Pois bem, quando se diz que Deus se recolherá, o sentido é que Ele retirará
a Sua Palavra. Quando se declara que Ele considerará o que os homens farão em
Sua ausência, quer dizer que quando Ele não se manifestarb
, Ele os afligirá por
algum tempo. Isto e aquilo Deus faz para nos humilhar mais. Pois, ainda que nos
aniquilasse mil vezes mediante castigos e punições, não nos corrigiria, se não nos
tornasse dóceis por Seu Espírito.433
Sendo essa a verdade, como é de fato, é
inferência errônea dizer que o homem tem algum poderc
de se converter a Deus,
sendo que a Escritura afirma que Deus, ofendido por nossa dureza e obstinação,
retira de nós a Sua Palavra, na qual nos comunica a Sua presença e avalia o que
poderíamos fazer por nós mesmos. Porquanto, Ele faz tudo isso tão-somente para
nos dar a conhecer que não somos nada e nada podemos por nós mesmos.d
89. Argumento das “nossas” boas obras
Os nossos opositores argumentam igualmente com base na seguinte maneira co-
mum de falar, tanto dos homens como também da Escritura: que as boas obras
são chamadas nossas, e que nós fazemos tanto o bem como o mal. Ora, se os
pecados nos são imputados com justiça como procedentes de nós, pela mesma
razão as boas obras devem ser atribuídas a nós. Não seria razoável dizer que as
coisas que Deus nos impõe nós fazemos como pedras, sendo que não as podemos
fazer por ação própria nossa. Daí concluem eles que, dando como certo que a
graça de Deus tem o poder principal, não obstante, as referidas expressões signi-
ficam que nós possuímos algum poder natural para fazer o bem.
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
433
“E como sabemos que o propósito de Deus, ao infligir-nos algum castigo, consiste em humilhar-nos, então,
quando somos reprimidos sob sua vara, a porta se abre para que sua misericórdia nos alcance. Além disso,
visto que sua peculiar função é curar os enfermos, erguer os caídos, amparar os fracos e, finalmente, comu-
nicar vida aos mortos, esta, por si só mesma, é uma razão suficiente para buscarmos seu favor quando nos
acharmos mergulhados em nossas aflições.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos,
1999, Vol. 1, (Sl 6.2), p. 126.) NE.
a
contumacem.
b
tacitum et quasi se dissimulantem.
c
aliquas liberi arbitrii vires.
d
nostram ouzevían.
162 As Institutas – Edição Especial
90. Resposta
Se só houvesse a primeira objeção, a saber, que as boas obras são chamadas
nossas, eu responderia que, por outro lado, nós chamamos nosso o pão cotidiano,
o qual pedimos que nos seja dado por Deus. Então, o que se poderá pretender
com essa palavraa
, senão o seguinte: que aquilo que não se deve a nós é feito
nosso pela infinita benignidade de Deus? Portanto, espanta-nos que os nossos
adversários censurem o nosso Senhor por essa forma de falar, ou que considerem
coisa muito estranha que as boas obras sejam chamadas nossas, nas quais não
teríamos participação alguma, se não fosse a generosidade de Deus.
Mas a segunda objeção é um pouco mais forte, a saber, que com freqüência
a Escritura afirma que os fiéis servem a Deus, cumprem Sua justiça, obedecem à
Sua Lei e aplicam o seu estudo à prática do bem. Pois bem, sendo essa função
própria do entendimento e da vontade do ser humano, como se poderia concordar
que isso fosse atribuído igualmente ao Espírito de Deus e a nós, se não houvesse
nenhuma conjunção da nossa capacidadeb
com a graça de Deus? Fácil nos será
desvencilhar-nos de todos esses argumentos, se considerarmos corretamente de
que maneira Deus age em Seus servos.
Primeiramente, a figura que eles nos querem inculcar é importuna. Por-
quanto, quem se irrita tanto, julgando que o homem é impelido por Deus como
uma pedra lançada por nós? Certamente essa idéia não decorre da nossa doutri-
na! O que dizemos é que se trata de uma faculdade natural do homem pela qual
ele pode aprovar, rejeitar; querer, não querer; esforçar-se, resistir, a saber: apro-
var a vaidade, rejeitar o verdadeiro bem; querer o mal, não querer o bem; esfor-
çar-se no pecado, resistir à retidão. Que é que o Senhor faz nisso? Se a Sua von-
tade é fazer uso da perversidade do homem como instrumento da Sua ira, Ele
muda o seu rumo e a conduz como bem Lhe parece, a fim de realizar Suas obras
justas e boas por meio de perversas mãos. Quando vemos, pois, um malfeitor
servir a Deus quando o que quer é agradar a sua maldade, vamos assemelhar esse
homem a uma pedra atirada pelo ímpeto de uma força externa, sem nenhum
movimento, nenhum sentimento, nenhuma vontade dele próprio? Vemos quanta
distância há entre uma coisa e outra!
Que diremos dos bons, dos quais trata a questão principal aqui? Quando o
Senhor quer edificar neles o Seu Reino, Ele refreia e modera a vontadec
, para que
esta não seja arrebatada pela concupiscência desordenada, sendo que, de outro
modo, a isso levaria a sua inclinação natural.
Por outro lado, Ele flexiona a vontade do homem, forma-a, dirige-a e a
conduz à regra da justiça, a fim de fazê-la desejar a santidade e a inocência.
Finalmente, Ele a confirma e a fortalece pelo poder do Seu Espírito, para que não
a
ex possessionis titulo (expressão jurídica).
b
Deus não coloca o mal no homem; Ele o encontra. Mas, encontrando-o, dirige-o – quando não o reforma –,
para fazer resultar dele certos aspectos do bem que, sem isso, não poderiam existir.
c
1539 acrescenta: per spiritum,
163
vacile nem se torne insensível. Isso mostra que a graça de Deus é como um canal
e como rédeasa
do Seu Espírito para dirigir e moderar a vontade do homem. Ora,
Ele não poderá moderá-la sem corrigi-la, reformá-la e renová-la.434
91. O início da regeneração
Por essa causa dizemos que o começo da nossa regeneração está naquilo que de
nós é anulado. Paralelamente, Ele não poderá corrigi-la sem movê-la, impulsioná-
la, conduzi-la e mantê-la em forma. Por isso dizemos que todas as ações que
assim procedem são de Deus. Entretanto, não negamos que haja muita verdade
no que diz Agostinho: que a nossa vontade não é destruída pela graça de Deus,
mas, antes, é reparada. Porque ambas estas verdades se combinam: que a vontade
do homem é reparada quando, após ter sido corrigida a sua perversidade, ela é
conduzida à regra da justiça; e que, nesse processo, há uma nova vontade criada
no homem. Assim é porque a vontade natural é tão corrupta e pervertida que é
necessário que seja totalmente renovada.435
92. Sumário
Agora nada nos impede de dizer que as obras que praticamos Deus produz em
nós, e que não cooperamos, por nosso poder, com a Sua graça. A razão disso é,
primeiramente, que, na mesma medida em que Ele as produz em nós, Ele quer
que sejam nossas, desde que entendamos que não são nossas; e, em segundo
lugar, que igualmente temos por nossa natureza o entendimentob
, a vontade e a
busca de conhecimentoc
, forças que Ele dirige para o bem com o fim de fazê-las
produzir algo de bom.
93. Outros argumentos dos oponentes
Os outros argumentos que eles reproduzem aqui e ali não poderão perturbar mui-
to as pessoas de entendimento médio, desde que recordem bem as soluções aci-
ma apresentadas. Eles alegam que em Gênesis está escrito o seguinte: “O teu
desejo estará sob ti, e tu dominarás sobre ele”.436
O que eles interpretam como se
referindo ao pecado. Como se Deus tivesse prometido a Caim que o pecado não
poderia dominar seu coração, se ele se dispusesse a trabalhar para vencê-lo. Ao
contrário, dizemos que o texto antes se refere a Abel. Porque, nessa passagem, a
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
Acréscimo feito em 1539.
434
“... sejam quais forem nossas aflições, é a mão de Deus que nos alenta, e que os ímpios não passam de
azorragues que Ele emprega com esse propósito; e mais ainda, que tal consideração é muitíssimo oportuna
para guiar-nos ao exercício da piedade.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 17.13), p. 343.] NE.
435
Ver: João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.7), pp. 266-267. NE.
b
mens.
c
studium.
436
Gn 4.7 (tradução direta).
164 As Institutas – Edição Especial
intenção de Deus é reprovar a inveja que Caim tinha concebido contra o seu
irmão, e isso por duas razões. A primeira é que Caim estava enganado, pensando
adquirir excelência acima do seu irmão, diante de Deus, sendo que para Deus só
há honra na justiça e na integridade. E a segunda é que ele foi muito ingrato, face
à bênção que tinha recebido de Deus, pois declarou que não podia ser responsá-
vel por seu irmão, que era seu inferior e sobre o qual ele tinha o governo.
Contudo, para que não fique a impressão de que escolhemos esta interpreta-
ção porque a outra nos é contrária, concedamos que Deus está falando do pecado.
Se assim é, ou Deus promete que Caim lhe será superior, ou lhe ordena que sejaa
Se lhe ordena, jáb
vimos que os nossos oponentes não podem provar coisa algu-
ma com a qual possam estabelecer o livre arbítrio. Se é promessa, onde está o seu
cumprimento? Porquanto se vê que Caim foi vencido pelo pecado, o qual ele
deveria dominar. Possivelmente dirão que há uma condição tácita inclusa sob a
promessa, como se Deus tivesse dito: “Se lutares, conseguirás a vitória”.
94. Dá para agüentar?
Mas, quem poderá tolerar tais rodeios e oscilações? Porque, se é do pecado que
se trata, não há dúvida nenhuma de que é uma exortação feita por Deus a Caim, a
qual mostra claramente que ele não tem capacidade para vencer o pecado, mas
que tem o dever de vencê-lo, apesar de não poder. Os nossos opositores se ser-
vem também do testemunho do apóstolo, quando ele declara que a salvação “não
depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericór-
dia”.437
Dessa declaração eles inferem que a vontade e o curso de ação do homem
têm alguma participação, e que a misericórdia de Deus supre o que falta. Mas, se
eles aplicassem a razão ao assunto de que fala o apóstolo na referida passagem,
não dariam tratamento tão abusivo e inconsiderado à sua proposição.438
a
Vê-se que, para Calvino, dever não significa poder, no sentido de aptidão ou capacidade ética, mas somente
no sentido de aptidão formal e física. Deus não rebaixa as exigências racionais e absolutas da lei moral ao
nível das variações acidentais das aptidões éticas do homem.
b
Subentendido: demonstrado; (1539: demonstravimus).
437
Rm 9.16. Ver: João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.16), pp. 333-335.
438
Calvino (1509-1564) dá um golpe definitivo em todo e qualquer conceito de merecimento: “É preciso lem-
brar que sempre que atribuímos nossa salvação à graça divina, estamos confessando que não há mérito algum
nas obras; ou, antes, devemos lembrar que sempre que fazemos menção da graça, estamos destruindo a justiça
[procedente] das obras.” [ João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 389.] Em outro lugar: “as
pessoas são muitíssimo insensatas ao suporem que existe algum mérito ou dignidade nos homens que preceda
a eleição divina.” [João Calvino, Exposição de 1Coríntios, (1Co 1.28), p. 70.] Ainda: “Que ninguém conclua
que os eleitos o são em virtude de serem eles merecedores, ou porque de alguma forma conquistaram para si o
favor divino, ou ainda porque possuíam alguma semente de dignidade pela qual Deus pôde ser movido a agir.
A idéia simples, que devemos levar em conta, é esta: o fato de sermos contados entre os eleitos independe tanto
de nossa vontade quanto de nossos esforços – pois o apóstolo substituiu correr por esforço ou diligência. Ao
contrário, deve ser atribuído totalmente à benevolência divina, a qual, por si mesma, recebe graciosamente
aqueles que nada empreendem, nem se esforçam, nem mesmo tentam.” [João Calvino, Exposição de Roma-
nos, (Rm 9.16), p. 333.] NE.
165
Bem sei que eles podem citar Orígenes439
e Jerônimo440
como defensores
da sua explicação. Mas não é preciso que nos preocupemos com o que eles pen-
sam a respeito, desde que entendamos o que o apóstolo quis dizer, a saber, que só
obterá a salvação aquele a quem Deus tenha ministrado a Sua misericórdia; e que
a ruína e a confusão estão preparadas para todos aqueles que Ele não tenha esco-
lhido.441
O apóstolo demonstrou a condição dos reprovados citando o exemplo do
faraó, e provou a eleição gratuita dos fiéis citando o testemunho de Moisés, na
passagem em que Deus diz: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”.442
E então conclui que “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar
Deus a sua misericórdia”.
Se se argumentar, com base nessas palavras, que há alguma vontade e al-
gum poder no homem, como se o apóstolo Paulo dissesse que a vontade e a
habilidade humanas, sozinhas e por sua própria capacidade, não seriam suficien-
tes, será um argumento mal posto e sem critério. É necessário, pois, rejeitar essa
sutileza totalmente destituída de razão. Porquanto, que propósito há em dizer: a
salvação não depende de quem quer nem de quem corre? Há, pois, alguma vonta-
de e algum curso de ação. Mas a sentença do apóstolo Paulo é mais simples: é
que não há nem vontade nem curso de ação que nos leve à salvação, mas unica-
mente a misericórdia reina nessa questão. Paulo não comenta aqui outra coisa
senão a mesma de que fala noutra passagem,443
na qual ele declara: “Quando,
porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, não por obras de
justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia...”.
Se, com base nessas palavras, eu quisesse afirmar que temos praticado al-
gumas boas obras, sendo que Paulo nega que tenhamos obtido a graça de Deus
pelas obras de justiça que tenhamos praticado, até os nossos adversários zomba-
riam de mim. No entanto, o argumento deles é parecido. Por isso, que eles pen-
sem bem no que dizem, e, assim, não irão basear-se em razão tão frívola.
95. Um apócrifo em cena!
Depois os nossos opositores apresentam o testemunho do Livro de Eclesiástico,
cujo autor se sabe que não tem autoridade segura e certaa
Mas, ainda que não o
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
a
Com efeito, Eclesiástico não faz parte do cânon hebraico, o único que Jesus conheceu. O Concílio de Trento
fez dele um livro canônico, é verdade. Os defensores da tese do concílio se baseiam na presença desse livro
no “cânon alexandrino”. Mas a existência de tal cânon não foi comprovada. Filo [nome também grafado
“Filão”] nunca cita Eclesiástico, e os manuscritos dos Setenta [Setuaginta] que contêm esse livro são todos
de origem cristã [ou seja, da era cristã]. É, sem dúvida, por ignorância do hebraico que a igreja oriental achou
que devia manter o Livro de Eclesiástico como canônico.
439
Lib. VII in epist. ad Rom.
440
Dialog. 2 in Pela.
441
“Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios
méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericór-
dia gratuita de Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 6.4), pp. 128-129.] NE.
442
Êx 33.19.
443
Ad Tit. 3.
166 As Institutas – Edição Especial
recusemos (coisa que poderíamos fazer com justiça), como pode esse testemu-
nho ajudar a causa deles? Diz ele444
[isto é, o autor que se intitula “Eclesiásti-
co”]445
que “Deus criou o homem desde o princípio, e deixou-o na mão do seu
conselho. Deu-lhe mais os seus mandamentos e os seus preceitos. Se quiseres
observar os mandamentos, eles te guardarão, e tu conservarás sempre a fidelida-
de que agrada a Deus. ... Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal;
o que lhe agradar, isso lhe será dado”. É fato que, em sua criação, o homem
recebeu o poder de escolher entre a vida e a morte; mas, que acontecerá se res-
pondermos que ele o perdeu? Por certo não vou querer contradizer Salomão, que
afirma446
que no princípio o homem foi criado bom, mas ele forjou perversas
invenções por sua conta.
Ora, depois que o homem, degenerando-se e afastando-se de Deus, arrui-
nou-se com todos os seus, o que se diz a respeito da sua primeira criação não se
deve estender à sua natureza viciosa e corrupta. Por isso respondo, não somente
aos nossos opositores, mas também ao Eclesiástico (seja ele quem for), da se-
guinte maneira: Se queres ensinar o homem a buscar em si a capacidade de ad-
quirir a salvação, tua autoridade não merece uma estima tal que possa prejudicar
a Palavra de Deus, a qual evidentemente é contrária. Se queres somente reprimir
as blasfêmias da carne, a qual, transferindo seus erros e vícios para Deus, procura
escusar-se, e, com relação à presente causa, na qual tu pretendes mostrar que o
homem recebeu de Deus uma boa natureza e que ele foi a causa da sua ruína,
nisso concordo de bom grado, desde que concordemos também neste ponto: que
agora o homem está despojado dos ornamentos e graças recebidos originaria-
mente de Deus.
96. Recorrendo a Jesus Cristo – e a uma alegoria
Mas o que os nossos adversários têm mais freqüentemente nos lábios é a parábo-
la de Cristo, na qual Ele fala do homem que salteadores deixaram semimorto à
beira do caminho.447
Bem sei que é doutrina comum dizer que sob a pessoa desse
homem está representada a calamidade do gênero humano. Daí tomam o seguin-
te argumento: O homem não foi de tal maneira morto pelo pecado e pelo Diabo
que não lhe reste alguma porção de vida; tanto é que o homem da parábola é
descrito como estando semimorto. E, onde estaria essa meia vida, dizem eles,
senão que lhe restava alguma porção de reta inteligência e reta vontade? Veja-
mos: Se eu não quiser aceitar a sua alegoria, que farão eles? Porque não há dúvi-
da nenhuma de que foi cogitada pelos antigos pais, ultrapassando o sentido literal
e natural da passagem. Não devemos aceitar as alegorias, a não ser que tenham
444
Eclesiástico 15.14-18 (Matos Soares).
445
Vd. a opinião de Calvino a respeito dos Livros de Macabeus e Eclesiástico, nas Institutas, II.5.18 e III.15.4.
NE.
446
Ec 7.29.
447
Lc 10.
167
suas bases na Escritura. Muito longe estão de poderem provar alguma doutrina.
Acresce que não nos faltam razões para refutar tudo o que os nossos adversários
dizem. Pois a Palavra de Deus não deixa meia vida no homem, mas declara que
ele está totalmente morto quanto à vida plenamente feliz. Quando o apóstolo
Paulo fala da nossa redenção, ele não diz que nós estamos protegidos de uma
meia morte, mas que fomos ressuscitados da morte.448
Ele não chama para recebe-
rem a graça de Cristo os que estão meio vivos, mas os que estão mortos e sepulta-
dos. Com o que se harmoniza com o que diz o Senhor, que “vem a hora e já chegou,
em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão”.449
Não terão eles vergonha de apresentar sei lá que leviana alegoria contra
tantos e tão claros testemunhos? Mas, ainda que a alegoria utilizada por eles
tenha algum valor, que poderão concluir contra nós? O homem, dirão eles, está
semimorto; segue-se então que lhe resta alguma porção de vida. Reconheço, cla-
ro, que o homem tem alma capaz de inteligência, mas incapaz de se aprofundar
ao ponto de chegar à sabedoria celestial de Deus.450
Ele tem algum discernimento
do bem e do mal, tem algum sentimento, alguma percepção, que lhe permite
saber que existe um Deus, mas não possui conhecimento verdadeiro.451
Em que redundam, porém, todas essas coisas? Certamente elas não podem
agir de tal maneira que desmintam o que diz Agostinho: que os dons gratuitos,
O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
448
Ef 5.2 etc. “Como a morte espiritual não é outra coisa senão o estado de alienação em que a alma subsiste
em relação a Deus, já nascemos todos mortos, bem como vivemos mortos até que nos tornamos participan-
tes da vida de Cristo.” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 2.1), p. 51.]
449
Jo 5.25.
450
“O homem, com toda a sua astúcia, é tão estúpido para entender por si mesmo os mistérios de Deus, como
um asno é incapaz de entender a harmonia musical.” [João Calvino, Exposição de
1 Coríntios, (1Co 1.20), p. 60.] NE.
451
Calvino, discorrendo sobre a revelação de Deus na Natureza, diz: “Em toda a arquitetura de seu universo,
Deus nos imprimiu uma clara evidência de sua eterna sabedoria, munificência e poder; e embora em sua
própria natureza nos seja ele invisível, em certa medida se nos faz visível em suas obras. O mundo, portan-
to, é com razão chamado o espelho da divindade, não porque haja nele suficiente clareza para que os
homens alcancem perfeito conhecimento de Deus, só pela contemplação do mundo, mas porque ele se faz
conhecer aos incrédulos de tal maneira que tira deles qualquer chance de justificarem sua ignorância. (...) O
mundo foi fundado com esse propósito, a saber: para que servisse de palco à glória divina.” [João Calvino,
Exposição de Hebreus, (Hb 11.3), pp. 300-301.] “Nas coisas que Ele criou, Deus, portanto, mantém diante
de nós nítido espelho de sua esplendorosa sabedoria. Em resultado, qualquer indivíduo que desfrute de
pelo menos uma minúscula fagulha de bom senso, e atenta para a terra e outras obras divinas, se vê aturdido
por candente admiração por Deus. Se os homens chegassem a um genuíno conhecimento de Deus, pela
observação de suas obras, certamente que viriam a conhecer a Deus de uma forma sábia, ou daquela forma
de adquirir sabedoria que lhes é natural e apropriada.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co
1.21), p. 62.] “.... este mundo é semelhante a um teatro no qual o Senhor exibe diante de nós um surpreen-
dente espetáculo de sua glória.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 1.21), p. 63.] Ele entende
que “o princípio da religião” que é implantado nos homens é uma das evidências da sua “preeminente e
celestial sabedoria”. [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 8.5), p. 167.] Em outros lugares,
observa que “no coração de todos jaz gravado o senso da divindade” [João Calvino, As Institutas, I.3.1.];
“Sabemos, aliás, que todos os homens possuem algum senso de religião impresso em seus corações, de
modo que ninguém ousa desvencilhar-se pública ou totalmente de seu culto.” [João Calvino, O Livro
dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.6), p. 224.] Então, argumenta que a tentativa humana de negar a Deus nada
mais é do que uma revelação do “senso de divindade que, tão ardentemente, desejariam extinto”. [João
Calvino, As Institutas, I.3.3.] Conclui que é impossível haver verdadeiro ateísmo. NE.
168 As Institutas – Edição Especial
pertencentes à salvação, foram extirpados do homem após a sua queda; e que os
dons naturais, que não podem levar à salvação, foram corrompidos e estão
maculados, estão poluídos.
97. Conclusão
Por tudo isso, formulamos uma sentença que de modo algum pode ser
enfraquecida. É a seguinte: O entendimento do homem está de tal maneira e tão
completamente alienado da justiça de Deus que ele não pode imaginar, conceber
e compreender outra coisa que não a maldade, a iniqüidade e a corrupção; e,
semelhantemente, que o seu coração acha-se tão envenenado pelo pecado que só
pode produzir perversidade de toda sorte. E se suceder que, de algum modo, o
homem faça algo que tenha a aparência de bem, não obstante o seu entendimento
permanece sempre envolto na hipocrisia e na vaidade, e o seu coração está sem-
pre entregue à malícia.
169
CAPÍTULO III
1. Introdução
[1539]Ao explicarmos as coisas que se requerem para o verdadeiro conhecimen-
to de Deus, não é possível concebê-lo segundo a Sua grandeza, sem que imedia-
tamente nos venha à mente este pensamento: Somente Ele tem a majestade mere-
cedora de soberana honra.a
Quanto ao conhecimento de nós mesmos, dissemos
que o ponto principal é que, estando vazios de toda fantasia ou ilusão sobre o
nosso próprio poder, despojados de toda confiança em nossa justiça, e, ao contrá-
rio, abatidos pela consideração da nossa pobreza, aprendemos a perfeita humil-
dade, rebaixando-nos e destituindo-nos de toda glória. Ambos esses aspectos nos
são mostrados pela Lei de Deus, na qual o Senhor, reivindicando primeiramente
o poder de comandar, ensina-nos a ter reverência por Sua divindade, demonstran-
do em que consiste e em que se situa essa reverência; e a seguir, tendo ordenado
a
Os mandamentos figuravam no frontispício de muitos opúsculos de edificação, como, por exemplo, em
1496, sob o título de La Fleur des Commandemens de Dieu (A Flor dos Mandamentos de Deus). Reimpresso
em Paris em 1516.
A tradução dos mandamentos difere aqui [nesta edição francesa] da da Bíblia de 1535 e da da Instruction
(Instrução) de 1537. Em Estrasburgo Calvino pôde ler o Pequeno Catecismo de Lutero, traduzido para o
latim (D. Martini Lutheri theologi catechismus lectu dignissimus, latinus factus per Vincentium Obsopœum
[o tradutor], impresso em 1529 em Haguenau com o de Bretz (I. Brentii ecclesiastæ hallensis pro pueris
catechismus minor, etc.).
Seguindo os procedimentos catequéticos anteriormente em uso, Lutero primeiro explica o Decálogo,
depois o Credo, a oração dominical e, por fim, os sacramentos.
Antoine Saunier tinha posto em verso La chanson des dix commandemens (A Canção dos Dez Manda-
mentos), 1532.
O primeiro catecismo de Calvino (Instruction et confession de foy dont on use em l’Eglise de Genève –
Instrução e Confissão de Fé em Uso na Igreja de Genebra, 1537), depois de alguns artigos preliminares,
explica, conforme o hábito, primeiro “a Lei do Senhor”, depois “o símbolo da fé”, e, por fim, “a oração
dominical” e os sacramentos.
170 As Institutas – Edição Especial
a regra de justiça, Ele nos recrimina, tanto por nossas tendências como por nossa
injustiça. Igualmente mostra que a justiça da nossa natureza, sendo, como é, cor-
rupta e perversa, é inteiramente contrária e repulsiva à justiça de Deus. E mais:
que à perfeição dessa justiça as nossas faculdades pessoais não podem
corresponder, débeis e inúteis que são para a prática do bem. Portanto, a ordem
que registramos no começo desta obra nos leva a tratar agora da Lei de Deus.
2. A lei interior
Ora, tudo o que nos é necessário saber dela, de algum modo nos é ensinado pela
lei interior, da qual dissemos acima que está escrita e praticamente impressa no
coração de cada ser humano. Porque a nossa consciência não nos deixa dormir
um sono perpétuo sem nenhum sentimento. Antes, em nosso íntimo ela nos dá
testemunho e nos admoesta a respeito do que devemos a Deus, mostra-nos a
diferença entre o bem e o mal, e assim nos acusa quando deixamos de cumprir o
nosso dever. Todavia, o homem está de tal maneira envolvido nas trevas da igno-
rância que a duras penas consegue, por essa lei natural, ter uma bem fraca per-
cepção de qual serviço agrada a Deus. Ao menos, longe está de conhecê-lo
retamente.a
Além disso, tão inchado de orgulho e de ambição é ele, tão cego de
amor-próprio, que nem mesmo pode observar a si mesmo e descer ao seu nível
para aprender a humilhar-se e confessar a sua miséria. Por isso, conforme neces-
sário à altivez do nosso espírito e à nossa arrogância, o Senhor nos outorgou Sua
Lei, escrita, para nos dar mais certo e claro testemunho dos pontos muito obscu-
ros da lei natural e, pondo fora a nossa negligência ociosa, tocar mais vivamente
o nosso espírito e a nossa memória.
3. O que se deve aprender da Lei
Agora fica fácil entender o que se deve aprender da Lei. São as seguintes verda-
des: Como Deus é o nosso Criador, tem todo o direito de ocupar sobre nós a
posição de Senhor e Pai; por essa razão, devemos render-lhe glória, reverência,
amor e temor; e ainda, não somos livresb
para seguir a cupidez do nosso espírito,
para onde quer que nos incite. Mas aprendemos também que em tudo depende-
mos do nosso Deus e devemos restringir-nos unicamente àquilo que Lhe dá pra-
zer; e mais, que a justiça e a retidão Lhe são agradáveis, ao passo que, ao contrá-
rio, a iniqüidade Lhe é abominável. Por isso, se não quisermos por perversa in-
gratidão abandonar o nosso Criador, devemos amar a justiça e aplicar-nos a estudá-
la a vida toda. Porque, se somente Lhe prestamos a devida reverência quando
preferimos a vontade de Deus à nossa, segue-se que não se pode dar-lhe outra
a
Eorum summam quæ in vera Dei notitia requiruntur. Antes de traduzir a parte inicial do livro de 1536,
Calvino, em 1539, ainda resume, encabeçando o cap. III, os capítulos I e II; a seguir trata da lei interior
(consciência), antes de passar aos valores da Lei expressa no Decálogo.
b
esse nostri júris (fórmula empregada pelo direito romano).
171
honra legítima que não seja a observância da justiça, da santidade e da pureza. E
não é lícito ao homem desculpar-se por não ter capacidadea
e, como um devedor
pobre, por não ter com que pagar. E não é conveniente nem sensato medir a glória
de Deus pelos nossos poderes, visto que, o que quer que sejamos, Ele é sempre
comparável a Si mesmo – e Ele é amigo da justiça e inimigo da iniqüidade. E
qualquer coisa que exija de nós, visto que só pode fazê-lo com justiça, só temos
que obedecer, por obrigação natural.
O que não conseguimos fazer é por nosso defeito, porque, se somos detidos,
como que amarrados, por nossa cupidez, na qual impera o pecado, não estando
livres para obedecer ao nosso Pai, não devemos, para defender-nos, alegar que se
trata de um mal necessário, sendo que o mal está em nós e a nós deve ser imputado.
4. Dupla conclusão inicial
Quando tiramos bom proveito da doutrina da Lei até aqui, ela mesma nos leva a
concluir que precisamos humilhar-nos. Daí podemos deduzir duas coisasb
: A pri-
meira é que, comparando a justiça de Deus com a nossa imperfeição, muito se
pode dizer sobre o fato de que não satisfazemos à vontade de Deus, e, portanto,
que somos indignos de manter o nosso lugar e a nossa categoria entre as Suas
criaturas, e isso a tal ponto que merecemos ser considerados como crianças. Em
segundo lugar, avaliando as nossas forças, que não somente não as consideremos
suficientes para o cumprimento da Lei, mas totalmente nulas. Segue-se necessa-
riamente daí um desafio à nossa virtude, ao nosso poder, e depois uma angústia e
tremor de espírito. Sim, porque a consciência não pode agüentar o fardo do peca-
do sem que logo lhe venha o juízo de Deus; e a percepção do juízo de Deus
sempre traz consigo um terror mortal. Semelhantemente, uma vez que a consci-
ência esteja convencida, por experiência, da sua fraqueza, só pode desesperar de
suas forças. Ambos estes sentimentos geram derrocada e humildade. Decorre,
por fim, que, aturdido por sentir a morte eterna, que ele já vê próxima de si pelos
méritos da sua injustiça, converte-se à misericórdia singular de Deus como a um
único porto de salvação. E, sentindo que não está em seu poder pagar o que deve
à Lei, desesperando de si, aspira a receber e a buscar ajuda alheia.
a
Para Calvino o adágio: “à límpossible nul n’est tenu” (ninguém se importa com o impossível), não tem valor,
exceto no caso de inaptidão física, devida a uma limitação originária de nossas faculdades psicológicas.
Mas, se a impossibilidade ou incapacidade de querer cumprir a lei divina é causada pela capacidade do
mau querer e da preferência espontânea da pessoa [como ser] moral pela injustiça com relação ao direito de
Deus, trata-se então de um fato de ordem moral, que determina um juízo moral de condenação.
b
O desenvolvimento que se segue é de importância capital porque dá a chave do segredo que chamaremos a
dinâmica da doutrina reformada sobre a incapacidade do querer humano.
Talvez pareça paradoxal que tal doutrina possa ser um estimulante para o ato decisivo que regenera a
vontade. Calvino faz-nos compreender as condições nas quais nasce um estado psicológico tal que levará
“necessariamente” o pecador a buscar o ponto de apoio da alavanca “em outro”, não nele mesmo.
Sobre a Lei
172 As Institutas – Edição Especial
5. Promessas e ameaças
Mas o Senhor, não Lhe bastando mostrar a reverência que devemos ter por Sua
justiça, e com a finalidade adicional de levar o nosso coração a dedicar amor à
Sua justiça e a votar ódio à iniqüidade, acrescenta promessas e ameaças. Visto
que os olhos do nosso entendimento vêem tanta dificuldade que não somos capa-
zes de comover-nos só com a beleza e a honestidade da virtude, o Senhor, segun-
do a Sua benignidade, quis incentivar-nos a amá-la e a desejá-la mediante a agra-
dável recompensa que nos propõe. Por isso nos revela que deseja remunerar a
virtude, e que aquele que obedecer aos Seus mandamentos não se esforçará em
vão. Diversamente, Deus nos dá a saber não somente que a injustiça Lhe é
execrável, mas também que não poderá escapar sem punição, porquanto Ele está
determinado a vingar todo desprezo por Sua majestade. E para nos estimular por
todos os meios, Ele promete tanto as bênçãos da vida presente como a bem-
venturança eterna aos que guardarem os Seus mandamentos. E, por outro lado,
não com menos vigor ameaça os transgressores com calamidades corporais e
com os tormentos da morte eterna. Porque esta promessa: “Os meus estatutos e
os meus juízos guardareis; cumprindo-os, o homem viverá por eles”,452
e também
a ameaça correspondente: “A alma que pecar, essa morrerá”,453
sem dúvida ne-
nhuma se referem à morte ou à imortalidade futura, que jamais terá fim. Acresce
que, sempre que o Senhor faz menção da Sua benevolência ou da Sua ira, a pri-
meira contém a eternidade da vida, e a segunda, a perdição eterna. Pois bem, na
Lei é proclamada uma longa lista de bênçãos e de maldições para a presente
existência.454
Nos castigos que Ele declara transparece Sua grande pureza, visto
que Ele não pode suportar a iniqüidade. Por outro lado, as promessas mostram
quanto Ele ama a justiça, uma vez que Ele não quer deixá-la sem remuneração.
Paralelamente, nisso Ele demonstra maravilhosa benignidade.
Pois bem, visto que em tudo o que somos e em tudo o que há em nós, somos
devedores à Sua majestade, que se nos impõe com todo o direito, tudo o que Ele
exige de nós o exige como algo que Lhe é devido. Ora, o pagamento de tal débito
não merece nenhuma remuneração.a
Porque Ele renuncia a Seu direito quando
nos oferece alguma recompensa por nossa obediência – sendo que esta não Lhe
prestamos de bom grado, mas como se fosse algo que não Lhe é devido. Bem,
daqui a pouco se verá que proveito podemos tirar das promessas propriamente
ditas. No momento, basta que entendamos e avaliemos o fato de que nas promes-
sas da Lei há uma singular recomendação da justiça, a fim de que se veja mais
certamente quanto a sua observância agrada a Deus. Por outro lado, as penas são
ministradas com a maior execração da injustiça, a fim de que o pecador não se
452
Lv 18.5.
453
Ez 18.4.
454
Lv 26; Dt 28.
a
Calvino tende a repetir que a recompensa ao fiel não é conseqüência do mérito de suas obras.
173
embriague com o falso dulçor do seu pecado, chegando a esquecer que o juízo de
Deus está preparado para ele.a
6. Tendência humana de mudar a Lei de Deus
com fantasiosas invenções
Ora, querendo o Senhor dar-nos a regra da justiça perfeita, reduziu todas as suas
partes conforme a Sua vontade, e nisso fica demonstrado que nada Lhe agrada
mais que a obediência. O que, portanto, é necessário observar diligentemente,
uma vez que a dureza e a intemperança da mente humana inclinam-na fortemente
a imaginar novas honras e novos serviços para render-lhe, com o fim de adquirir
a Sua graça. Porque em todos os tempos essa irreligiosa imitação da religião,
naturalmente arraigada em nosso espírito, sempre se manifestou, e ainda se ma-
nifesta no presente, em todo o gênero humano. É que aos homens sempre apetece
forjar alguma maneira de obter justiça sem a Palavra de Deus. Disso resulta que,
entre as boas obras que comumente são bem apreciadas, os mandamentos de
Deus têm bem estreito espaço. Enquanto isso, uma infinita multidão de preceitos
humanos ocupa o primeiro lugar e o mais amplo espaço. Mas, foi essa cupidez
que Moisés quis refrear quando, após a publicação da Lei, assim falou ao povo:
“Guarda e cumpre todas estas palavras que te ordeno, para que bem te suceda a ti
e a teus filhos, depois de ti, para sempre, quando fizeres o que é bom e reto aos
olhos do Senhor, teu Deus”.455
Faze somente o que te ordeno; e mais: “nada
acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela”.456
E antes, após
haver declarado que esta era a sabedoria e o entendimento do povo de Israel
perante todas as nações, o fato de haver recebido do Senhor os juízos, as normas
de justiça e o cerimonial, disse-lhe ao mesmo tempo: “Tão-somente guarda-te a
ti mesmo e guarda bem a tua alma, que te não esqueças daquelas cousas que os
teus olhos têm visto, e se não apartem do teu coração todos os dias da tua vida”.457
Certamente porque o Senhor tinha previsto que os israelitas não iriam per-
severar depois de receberem a Lei, que desejariam inventar novas maneiras de
servi-lo, a não ser que Ele segurasse firme as suas rédeas, Ele declara que a Sua
Palavra contém toda a perfeição da justiça – o que deveriam tratar de reter muito
bem. E, todavia, não desistiram dessa audácia que lhes tinha sido fortemente
proibida. E quanto a nós? Certamente essa mesma Palavra nos constrange.b
Por-
que não há dúvida de que sempre o Senhor quis e quer atribuir à Sua Lei uma
perfeita doutrina sobre a justiça. E, contudo, não contente com ela, fazemos ma-
ravilhas para inventar e forjar boas obras e mais boas obras.
455
Dt 12.28.
456
Dt 4.2.
457
Dt 4.9.
a
paratum.
Sobre a Lei
b
constringimur.
174 As Institutas – Edição Especial
7. O melhor remédio
O melhor remédio que existe para corrigir esse mal é ter esta reflexão bem plan-
tada em nosso coração: Que a Lei nos foi dada pelo Senhor para nos ensinar a
justiça perfeita, e que nela nenhuma outra justiça nos é ensinada, senão a que nos
manda regrar-nos pela vontade de Deus e conformar-nos a ela. Assim, inutilmen-
te imaginamos novas formas de obras para obter a graça de Deus, sendo que o
único serviço legítimo que se Lhe pode prestar é a obediência. A verdade é que,
ao contrário, o estudo e a prática das boas obras que estejam fora da Lei de Deus
constituem uma intolerável profanação da justiça divina e verdadeira.a
Mas, quando a Lei do Senhor nos for explicada mais propriamente e com
maior proveito, discutiremos seu ofício e seu uso. Antes, porém, de tratarmos
particularmente de cada divisão, é bom primeiro saber o que se refere ao conhe-
cimento universal da Lei. Primeiramente, é preciso fixar que a vida do homem
deve ser regrada pela Lei, não somente para uma honestidade externa, mas tam-
bém para a justiça interna e espiritual. Essa verdade, por mais inegável que seja,
não obstante recebe bem pouca consideração. Isso acontece porque não se leva
em conta o legislador, cuja natureza deve determinar a apreciação da respectiva
lei. Se algum rei proibisse mediante um edito a licenciosidade, o homicídio e o
roubo, entendo que aquele que concebesse em seu coração algum desejo de pra-
ticar libertinagem, ou de roubar ou de matar, sem chegar efetivamente ao ato, e
sem se esforçar par pô-lo em prática, não seria atingido pela pena que seria
estabelecida. Isso porque a providência do legislador mortal não se estende além
da honestidade externa, e suas leis só serão violadas se o mal for de fato concre-
tizado. Mas Deus, a cujos olhos nada está oculto, não observa tanto a aparência
exterior do bem, como a pureza interior. E Ele, condenando as práticas libertinas,
o homicídio e todas as formas de roubo, condena toda concupiscência carnal, o
ódio, a cobiça de bens alheios, a mentira e todas as coisas semelhantes a essas. A
razão disso é que, como Ele é um legislador espiritual, não fala menos à alma que
ao corpo. Ora, a ira e o ódio são morte quanto à alma; a cobiça é roubo; o amor
desordenado é libertinagem.
Mas alguém dirá que as leis humanas igualmente consideram o conselho e
a vontade, e não apenas os acontecimentos fortuitos. Reconheço isso; mas são
entendidos como expressões da vontade as que são levadas adiante, e só se leva
em consideração a intenção referente às obras efetivamente praticadas. As cogi-
tações secretas não são inquiridas. Portanto, quem se abstém de cometer trans-
gressões exteriormente satisfaz às leis políticas.b
Ao contrário, visto que a Lei de
a
Calvino condena aqui as “obras pias” recomendadas pela igreja de Roma como conselhos de perfeição. Para
Calvino, a perfeição consistiria em observar [cumprir] perfeitamente a Lei de Deus.
Longe de podermos fazer mais do que aquilo que a Lei ordena, ficamos sempre abaixo do ideal que ela
nos prescreve.
b
illis satisfactum fuerit, ubi quis manum duntaxat continuerit.
175
Deus é dada à nossa alma, se a quisermos cumprir bem, é preciso que principal-
mente a nossa alma seja reprimida. Ora, na maior parte os homens, mesmo quan-
do querem dissimular fingindo-se desprezadores da Lei, levam os seus olhos, os
seus pés, as suas mãos e as outras partes do seu corpo a fazerem o que eles lhe
ordenam; entretanto, o seu coração permanece alienado da obediência a ela. Com
isso eles se julgam quites com a Lei, se escondem dos homens o que aparece
diante de Deus. Eles ouvem: “Não matarás”; “Não cobiçarás”; “Não furtarás”.
Por isso não desembainham a espada para matar, não se portam como cobiçosos
dissolutos, e não estendem as mãos para apossar-se de bens alheios. Tudo isso é
bom; mas o coração deles está cheio de mortes e arde de concupiscência carnal;
eles não podem ver os bens do próximo, senão com maus olhos, devorando-os
por sua ambição. Nisso lhes falta o principal da Lei. Eu lhes clamo: De onde vem
tal estupidez? Não é que, deixando de lado o legislador, eles acomodam a justiça
ao seu [pobre] entendimento? De encontro a essa opinião o apóstolo Paulo brada
alto e firme, dizendo que a Lei é espiritual.458
Com essas palavras ele quer dizer
que a Lei não somente exige obediência da alma, da mente e da vontade, mas
também uma pureza angélica, a qual, purificada de toda mácula carnal, só sente o
espírito e nada mais.
8. O ensino de Cristo
Dizendo que esse é o sentido da Lei, não fazemos uma nova exposição de nós
mesmos, mas seguimos a Cristo, excelente expositor. Porque, visto que os fariseus
tinham semeado entre o povo uma opinião perversa, a saber, que aquele que não
comete mal nenhum por obra externa contra a Lei é bom cumpridor da Lei, Ele
redargüi a esse erro, dizendo: Olhar para uma mulher com intenção impura é
cometer adultério;459
e: Todos os que odeiam seu irmão são homicidas.460
Pois
Ele declara réus de juízo todos os que concebem alguma ira, ainda que somente
em seu coração; culpáveis perante o conselhoa
todos os que, murmurando, mos-
tram alguma ofensa por dureza de coração; e condenáveis à geena de fogo todos
aqueles que, de maneira injuriosa, declaram abertamente o seu mau propósito.
Os que não entendem isso imaginam que Cristo foi um segundo Moisés, dando-
nos a lei evangélica para suprir o que falta à lei mosaica. Disso procede o concei-
to vulgar de que a Lei Evangélica é muito maior do que a antiga Lei. Isso é um
erro por demais perverso. Porque, quando mais adiante reduzirmos a um sumário
os preceitos de Moisés, suas próprias palavras mostrarão quão grande ultraje é
feito à Lei de Deus ao se dizer aquilo. Ademais, dessa opinião se seguiria que a
santidade dos antigos “pais” em nada diferia da hipocrisia. Finalmente, seria desvi-
a
consilio.
Sobre a Lei
458
Rm 7.14.
459
Mt 5.27,28.
460
Mt 5.21,22.
176 As Institutas – Edição Especial
ar-nos da regra única e perpétua da justiça que Deus nos deu então. Ora, esse
erro é fácil de refutar. Sim, porque esse tipo de gente pensa que Cristo fez
acréscimos à Lei, quando Ele tão-somente a restabeleceu em sua inteireza,
isto é, limpou-a das mentiras dos fariseus, com as quais eles a tinham obscu-
recido e conspurcado.
9. Aspectos implícitos nas entrelinhas da Lei
Em segundo lugar, é necessário observar que os preceitos de Deus contêm mais
alguma coisa que não vemos expressa em palavras. O que, todavia, requer
moderaçãoa
, para que não lhes demos o sentido que nos pareça certo, manipulan-
do-os daqui e dali a nosso bel-prazer. Há alguns que, com essa liberdade, fazem
com que a autoridade da Lei seja vilipendiada, como se ela fosse incerta, ou
então que não se espere poder entendê-la. É preciso, pois, quanto possível, en-
contrar um caminho que nos leve com segurança, e sem vacilação, à vontade de
Deus. Quer dizer, é necessário considerar até que ponto a exposição deve ultra-
passar a palavra, de tal maneira que se veja que não é um acréscimo feito à Lei de
Deus com glosas ou tentativas humanasb
de explicação, mas que é o puro sentido
natural do legislador. É certo que em todos os preceitos é notório que uma parte é
colocada pelo todo, e quem quisesse restringir o entendimento à medida das pa-
lavras, seria digno objeto de zombaria. É, pois, notório que a mais ampla exposi-
ção que se pode fazer da Lei ultrapassa as palavras; mas será obscura, se não se
estabelecer algum limite.
Pois bem, eu penso que no presente caso será muito bom dirigir o pensa-
mento ao motivo ou à razão pela qual o preceito foi dado. Isto é, que em cada
preceito se considere com que finalidade nos foi dado por Deus. Exemplo: Todo
preceito é para ordenar ou para proibir. Teremos o verdadeiro entendimento de
um e de outro, se considerarmos a razão ou a finalidade pretendida. Como o
objetivo do quinto mandamento é mostrar que é preciso prestar honra a quem
Deus a quis atribuir, este será pois o resumo da matéria em questão: A verdadeira
piedade é agradável a Deus, ou seja, essa é a verdadeira honra que rendemos à
Sua majestade; e, ao contrário, a impiedade Lhe é abominável. Assim, em todos
os preceitos é necessário ver do que cada um deles trata; depois, é preciso buscar
a sua finalidade, até encontrarmos o que é que Deus quer testificar sobre se Lhe é
agradável ou desagradável. Depois, sobre o que o preceito diz, precisamos for-
mular um argumento baseado na inversão, desta maneira: Se tal coisa agrada a
Deus, o contrário Lhe desagrada; se Lhe desagrada, o contrário Lhe agrada; se
Ele ordena isto, proíbe o contrário; se proíbe aquilo, ordena o contrário.
a
temperandum, ne sit nobis instar Lesbiæ regulæ, qua freti, scripturam licentiose contorquentes, quodlibet e
quolibet faciamus.
b
attextam ex glosis. Calvino indica neste ponto os seus princípios de exegese, para ser, como diz noutro lugar,
um “fiel expositor”.
177
10. Esclarecendo o argumento baseado na
inversão dos termos
O que ainda está obscuro, por ter sido tratado brevemente, será mais facilmente
esclarecido pela experiência, quando explicarmos os preceitos. Portanto, é sufi-
ciente haver tocado no assunto, lembrando, porém, que precisamos confirmar e
fortalecer o último ponto acima referido, que, de outro modo, não seria entendido
ou pareceria nada razoável. O que dissemos, a saber, que onde o bem é ordenado,
o mal, que lhe é contrário, é proibido, não requer comprovação, porque não há
quem não o conceda como fato.
Paralelamente, o juízo comum concordará de boa vontade que, quando se
proíbe o mal, ordena-se o bem, que lhe é contrário. Pois é algo vulgar que, quan-
do se condenam os vícios, recomendam-se as virtudes. Mas exigimos algo mais,
que em geral os homens não entendem, o que mostram quando confessam que
pela virtude contrária ao vício eles só entendem a virtude como a abstenção do
vício. Mas nós vamos além, a saber, explicando que praticar a virtude é fazer o
contrário do mal. Citar exemplos ajuda a entender melhor o ponto, como no caso
do mandamento: “Não matarás”. O senso comum dos homens só o entende no
sentido de que é necessário que o homem se abstenha de todo ultraje e de todo
desejo de matar ou de causar dano ao seu semelhante. Mas eu digo que é preciso
entender mais que isso, a saber, que devemos ajudar a manter a vida do nosso
próximo por todos os meios que nos forem possíveis. E para que não pareça que
falo sem razão, quero provar o que digo. O Senhor nos proíbe ferir ou ofender o
nosso próximo porque deseja que a vida dele nos seja querida e preciosa. Por isso
Ele exige semelhantemente de nós que pratiquemos a caridade de muitas manei-
ras, pelas quais se possa manter a sua vida.
Assim, podemos perceber como a finalidade de um preceito nos ensina o
que nos é ordenado ou proibido fazer. Se alguém pedir a razão que explique por
que o Senhor só em parte explicitou o Seu querer, não o expressando claramente,
em resposta pode-se alegar muitas razões, mas há uma que, acima de todas as
outras, é satisfatória para mim. É a seguinte: Visto que a carne sempre se esforça
para colorir ou disfarçar com inúteis coberturas a torpeza do seu pecado, para dar
provas incontestáveis, Deus quis apresentar como exemplo o aspecto mais vil e
mais desordenado de cada gênero de pecado, para que dele se ouça até com hor-
ror, para nos fazer detestar o pecado com mais ardor. Muitas vezes isso nos leva
a errar na avaliação dos males morais, entendendo o errado pelo certo, se eles
estão um pouco encobertos. Por isso o Senhor nos livra desse engano, acostu-
mando-nos a reduzir cada falta a um gênero, para podermos saber melhor em que
classe de abominação deve estar. Por exemplo: Não nos parece um mal tão
execrável quando se lhe dá os nomes de ódio ou de ira. Mas quando o Senhor os
condena sob o título de homicídio, vemos melhor a abominação que neles há,
visto que Deus lhes dá o nome de um crime verdadeiramente pavoroso. Dessa
Sobre a Lei
178 As Institutas – Edição Especial
forma, sendo advertidos pelo juízo de Deus, aprendemos a avaliar melhor a gra-
vidade das faltas, as quais antes nos pareciam leves.
11. Por que as duas tábuas da Lei?
Em terceiro lugar, devemos considerar o porquê da divisão da Lei em duas tábu-
as, o que não é mencionado com freqüência na Escritura sem algum propósito,
como todo homem de bom espírito pode concluir. Ora, a razão disso é tão fácil de
entender que não é preciso levantar nenhuma dúvida. Porque o Senhor, querendo
ensinar toda a justiça em Sua Lei, dividiu-a atribuindo à primeira tábua os ofícios
ou deveres pelos quais nós somos responsabilizados a honrar a Sua majestade; a
segunda trata dos nossos deveres para com o nosso próximo, segundo a caridade.a
Certamente o primeiro fundamento da justiça é a honra de Deus.b
Quando
esta é destruída, todas as outras partes se dissipam, como as partes componentes
de um edifício arruinado. Porquanto, que justiça haverá se não prejudicarmos o
nosso próximo com roubos e com exploração predadora, se, entretanto, mediante
sacrilégio, arrebatamos da majestade de Deus a Sua glória? Igualmente, que
virtude haverá em não macularmos o nosso corpo com práticas dissolutas, se
macularmos o nome de Deus com blasfêmias. E de que nos valerá deixar de
matar homens, se nos esforçamos para apagar a lembrança de Deus? Seria tão
inútil pretendermos justiça sem religião, como alguém que quisesse fazer uma
bela demonstração de um corpo sem cabeça. Vale acrescentar que, verdadeira-
mente, a religião não somente é a cabeça da justiça e da virtude, mas também é
pouco menos que a alma, que lhe dá vigor. Porque, sem o temor de Deus, jamais
os homens manterão eqüidade e afeto fraternal entre si.
12. Religião e ética; culto e justiça
Dizemos, pois, que o cultoc
a Deus é o princípio e o fundamento da justiça, visto
que, se for eliminado, tudo o que os homens possam pensar e planejar para vive-
rem com retidão, continência e moderação será vão e frívolo perante Deus.
Paralelamente, dizemos que nele está a fonte e o espírito da justiça. Sim,
porque, os homens, temendo o juízo de Deus sobre o bem e o mal, com isso
aprendem a viver com pureza e retidão. Por isso, na primeira tábua o Senhor nos
instrui sobre a piedade e a religião, para que honremos a Sua majestade. Na se-
gunda, tendo em vista o temor que Lhe devemos, Ele nos mostra como é necessá-
rio que exerçamos governo em comum acordo.d
a
A Instrução de 1537 tem este preâmbulo: “Na primeira tábua, o serviço de Sua majestade [divina], que Lhe
é agradável; na outra, quais os ofícios ou funções da caridade, devidos ao próximo”.
b
cultus.
c
cultus.
d
in hominum societate.
179
[1536] Por essa razão, o nosso Senhor Jesus, como dizem os evangelistas,
reduz sumariamente a Lei a dois artigos, a saber: “que nos amemos a Deus de
todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças e de todo o
nosso entendimento; e que amemos o nosso próximo como a nós mesmos”.461
[1539] Vemos como, nessas duas partes, que abrangem toda a Lei, uma é dirigida
a Deus, e a outra aos homens.
[1536] Todavia, apesar de a Lei estar inteiramente contida em dois pontos,
certo é que o nosso Senhor, para eliminar toda questão de escusa, quis declará-la
de maneira mais ampla e mais fácil em dez preceitos ou mandamentos, tanto no
que diz respeito ao temor, ao amor e à honra de Sua divindade, como no que se
refere à caridadea
, que Ele nos manda ter pelo nosso próximob
por amor a Ele.
[1539]c
Portanto, não é um estudo inútil pesquisar e ver qual é essa divisão
dos mandamentos, com a condição de que nos lembremos de que não é uma coisa
sobre a qual cada um pode ter seu livre julgamento. Pelo que, é preciso que não
nos levantemos contra aqueles que não concordarem com a nossa conclusão.
Digo isso para que ninguém se espante com a distinção que vou seguir, como se
fosse uma novidade forjada.
13. A divisão do Decálogo e a supressão
do segundo mandamento
Quanto ao número dos mandamentosd
, não há dúvida, visto que o Senhor elimi-
nou toda controvérsia mediante a Sua Palavra; a discussão é somente sobre a
maneira de dividi-los. Os que os dividem deixando três mandamentos na pri-
meira tábua e sete na segunda, cortam o que proíbe imagens ou o incluem no
primeiro, sendo que o Senhor o colocou como um mandamento especial. Além
disso, eles dividem inconsideradamente entre as duas tábuas o décimo manda-
mento, que nos proíbe cobiçar os bens do nosso próximo. Há outra razão para
refutá-los: A divisão feita por eles era desconhecida da Igreja Primitiva, como
veremos pouco adiante.
Outros colocam, como nós, quatro artigos na primeira tábua, mas pensam
que o primeiro é uma simples promessa, sem mandamento. Ora, de minha parte,
visto que tomo as dez palavras das quais Moisés faz menção como dez manda-
mentos (a menos que seja convencido do contrário por razão evidente), porque
me parece que podemos classificá-los bem, deixando que os outros pensem como
quiserem, seguirei a divisão que me parece a mais provável. É que a sentença da
Sobre a Lei
461
Mt 22.37; Lc 10.27.
a
1536: amorem; 1539: charitatem.
b
1536: homines; 1539: proximos.
c
O desenvolvimento substitui aquelas linhas de 1536, onde, sem discussão, Calvino anunciava a divisão de
quatro e seis mandamentos entre as duas tábuas.Após certas críticas, provavelmente decididas em Estrasburgo,
ele justifica essa divisão, mas como coisa sem importância.
d
O parágrafo que começa aqui traduz algumas frases que, em 1536, concluíam a explicação do quarto mandamento.
180 As Institutas – Edição Especial
qual eles fazem o primeiro mandamento vem como um prefácio de toda a Lei;
seguem-se logo após os dez mandamentos: [1536] quatro na primeira tábua e seis
na segunda, conforme a ordem que registraremos.a
Essa divisão facilmente se
encontra em Orígenes, como sendo geralmente aceita em seu tempo;462
Agosti-
nho também a aprova, em seu terceiro livro ad Bonifacium.463
É bem verdade que
noutro lugar a primeira divisão lhe parece melhor.464
Mas por um motivo leviano,
a saber, que, colocando somente três mandamentos na primeira tábua, isso repre-
sentaria a Trindade; acresce que nessa mesma passagem ele não esconde que a
nossa divisão lhe agrada mais quanto ao restante. Temos também outro antigo
“pai” que concorda com a nossa opinião; refiro-me àquele que escreveu comen-
tários incompletos sobre Mateus.465
[1539] Josefo atribui cinco mandamentos a
cada tábua; essa divisão era comum em seu tempo, como se pode conjecturar.466
Mas, além da razão que a contradiz, tendo em vista que deixa confusa a diferença
que existe entre a honra devida a Deus e a caridade para com o próximo, a autorida-
de de Jesus Cristo milita na posição contrária, pois coloca o preceito que manda
honrar pai e mãe no catálogo da segunda tábua. Ouçamos agora o Senhor falar.
14. O PRIMEIRO MANDAMENTO
[1536] EU SOU O SENHOR, TEU DEUS, QUE TE TIREI
DA TERRA DO EGITO, DA CASA DA SERVIDÃO.
NÃO TERÁS OUTROS DEUSES DIANTE DE MIM.b
[1539] Pouco importac
se tomamos a primeira sentença como parte do primeiro
preceito ou se o colocamos separadamente,467
desde que o entendamos como um
prefácio de toda a Lei.d
Primeiramente, quando se fazem leis, é preciso que elas não sejam anuladas
por menosprezo ou por difamação. Por essa causa o Senhor logo no começo põe
remédio a esse perigo, predispondo para que a Sua majestade não seja despreza-
da. E isso Ele faz com fundamento em três razões. A primeira é que Ele se arroga
o direito e o poder de impor ordense
, e com isso Ele nos força à necessidade de
a
Essa divisão tornou-se tradicional nas igrejas reformadas. É a que parece conformar-se melhor ao texto do
Decálogo.
462
In Exod. homiliæ VIII, 3.
463
Lib. 3 ad Bonif.
464
L. 2. quæstio. Vet. Test. (Ambrosiaster), VII. (Migne XXXV, 2221) .
465
Cf. Agostinho, Epistl. LV, c. II. (Migne XXXIII, 213).
466
Opera Chrysostomi, Mat. 19. (Edition de Paris, t. VI).
b
1536 citava Êxodo 20 e Deuteronômio 5; 1539 não contém nenhuma citação; 1541 cita Mateus 15, onde só
se encontra o quinto mandamento.
c
in medio est.
467
Mt 15.
d
É esse pensamento que é expresso no início das poucas linhas dedicadas em 1536 à primeira frase do
Decálogo.
e
Instrução de 1537: Deus se declara Aquele que tem direito de ordenar.
181
obedecer. Depois Ele nos promete Sua graça, para suavemente nos levar a se-
guir a Sua vontade. Finalmente, Ele fez registrar o bem que nos fez, para repre-
ender a nossa ingratidão, se desprezarmos as Suas ordens. Sob o nome de Eternoa
[o SENHOR], entende-se o Seu império e o senhorio legítimo que ele exerce
sobre nós. Porque, se “todas as coisas provêm dele e nele consistem”, é lógico,
é razoávelb
que elas sejam atribuídas a Ele, como diz o apóstolo Paulo.468
Com
essas palavras nos é demonstrado que precisamos submeter-nos ao jugo do
Senhor, visto que seria verdadeira loucura retirar-nos de sob o Seu governo,
fora do qual não podemos subsistir.
15. Império ameno: o Soberano Deus
se declara nosso Deus!
Depois de nos haver ensinado o direito que Ele tem de nos dar ordens, e que toda
obediência Lhe é devida, para não parecer que só nos quer constranger pela ne-
cessidade, ou seja, por Sua imposição inevitável, Ele nos abranda também com
recurso ameno, declarando-se nosso Deus. Porque nessa locução há uma recipro-
cidade, expressa nesta promessa, na qual Ele diz: “Serei o vosso Deus, e vós
sereis o meu povo” [Lv 26.12]. Essa a razão pela qual Jesus admite que Abraão,
Isaque e Jacó obtiveram a salvação e a vida eterna, visto que Deus lhes havia
prometido que seria o Deus deles. Portanto, essa palavra é como se Ele dissesse:
“Eu vos escolhi para serdes o meu povo, não somente para fazer-lhes bem na vida
presente, mas também para vos conduzir à eterna beatitude do meu reino”.
Ora, a esse fim tende esta graça, o que é dito em muitas passagens. Porque,
quando o nosso Senhor nos chama e nos inclui na companhia de Seu povo, Ele
nos escolhe, como diz Moisés, “para nos santificar” [para sermos “povo santo ao
Senhor”] para a Sua glória, e para que “guardemos os seus mandamentos”.469
De
onde provém esta exortação que o Senhor faz a Seu povo: “Santos sereis, porque
eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo”.470
Pois bem, dessas duas referências se
deduz esta observação que Deus faz por meio do seu profeta: “O filho honra ao
pai, e o servo, ao seu senhor”.471
Se sou vosso Senhor, onde esta o temor? Se sou
vosso Pai, onde está o amor?
Por conseguinte, Ele relaciona o bem que tem feito a Seus servos, o que
deveria convencê-los de que a ingratidão é um crime mais detestável que os ou-
a
Jehovah (Jeová).
b
Há um elemento racional em nossa aceitação da lei moral. Mas a razão que nos leva a reconhecê-la como
legítima baseia-se numa intuição da fé: Deus é o nosso Criador; tudo o que somos Lhe pertence; então, nós
nos devemos inteiramente a Ele.
Calvino não reconhece moral independente, e a idéia de Kant, de basear a fé em Deus na lei moral, é
historicamente antiprotestante.
468
Rm 11.36, tradução direta. Texto simplificado pelo Autor.
469
Dt 7.6; 14.2 e 26.17.
470
Lv 19.2.
471
Ml 1.6.
Sobre a Lei
182 As Institutas – Edição Especial
tros. Pois Deus lança em rosto ao povo de Israel os benefícios que lhe tem feito,
benefícios tão grandes e admiráveis que com toda a razão deveriam ser lembra-
dos eternamente. Quanto mais quando vemos que a menção se refere ao tempo
em que a Lei foi publicada. Porque o Senhor quer dizer que por esta causa os
tinha libertado – para que O reconhecessem como o Autor da sua liberdade e Lhe
rendessem honra e obediência.
Mas, para que não nos pareça que isso nada tem que ver conosco, Ele nos
leva a considerar a escravidão do Egito, onde esteve o povo de Israel, como uma
figura do cativeiro espiritual no qual todos nós estamos detidos até que o Senhor,
libertando-nos com Sua mão forte, nos transfira para o reino da liberdade. Foi,
pois, assim que, antigamente, querendo formar a Sua igreja com base em Israel,
Deus libertou esse povo do cruel domínio do faraó, pelo qual era oprimido, e de
igual maneira hoje Ele tira todos os Seus da infeliz servidão do Diabo, a qual é
representada figuradamente pelo cativeiro corporal de Israel.a
Portanto, não há
criatura cujo coração não deva estar ansioso por ouvir esta Lei, sendo que ela
procede do soberano Senhor, no qual todas as coisas têm sua origem, razão pela
qual o fim delas a Ele é dirigido. Acresce que não há ninguém que não deva
sentir-se singularmente incitado a receberb
o Legislador, pela obediência a cujos
mandamentos se conhece o eleito, e por cuja graça Ele concede não somente todas
as bênçãos temporais, mas também a glória da vida imortal. Finalmente, devemos
comover-nos, deixando-nos levar a obedecer ao nosso Deus quando vemos que por
Sua misericórdia e por Seu poder fomos libertados do abismo do inferno.
Firmada e estabelecida a autoridade da Lei, Deus nos dá o primeiro manda-
mento, no sentido de que
16. NÃO TENHAMOS OUTROS472 c
DEUSES DIANTE DELE
Finalidade do primeiro mandamento: Mostrar que é vontade de Deus que somen-
te Ele tenha preeminência, e que Ele seja exaltado entre o Seu povo. Para que isso
aconteça, Ele quer que sejam afastadas de nós toda impiedade e toda superstição,
pelas quais a glória da Sua divindade é diminuída ou obscurecida. E, pela mesma
razão, Ele quer ser honrado por nós por uma verdadeira e santa amizade, o que
amizade, o que está mais ou menos implícito na simplicidade das palavras. Pois
não podemos ter essa pia e verdadeira amizade com Deus sem Lhe atribuirmos as
coisas que Lhe são próprias. Portanto, ao proibir que tenhamos outros deuses,
Ele quer nos dizer que não transfiramos para outros o que Lhe pertence.
a
Cf. 1536: electi sui veri sunt Israelitæ...; diabolus spiritualis est Pharao.
b
amplexandum.
472
Assim ARA, e a tradução francesa de Louis Segond (1954). No texto de Calvino consta “estranhos”. Vide
nota c do original francês. NT.
c
Instrução de 1537: estrangiers.
183
17. Sumário dos nossos numerosos
deveres para com Deus
Ora, por mais numerosas que sejam as coisas que devemos a Deus, podem ser
reduzidas satisfatoriamente a quatro pontos, a saber: Adoração, confiança, invo-
cação e ação de graças. Chamo de adoração a reverênciaa
que Lhe presta a criatu-
ra, submetendo-se à Sua grandeza. Confiança, a segurança que de coração temos
nele, pelo bom conhecimento que temos sobre Ele, quando, atribuindo a Ele toda
a sabedoria, justiça, bondade, poder e verdade, consideramos que a nossa felici-
dade está em nos comunicarmos com Ele. Invocação é o recurso com que a nossa
alma conta, como sua esperança única, quando está sob a pressão de alguma
necessidade. A ação de graças é o reconhecimento por meio do qual Lhe é pres-
tado louvor por todas as bênçãos dele recebidas.
Assim como Deus não pode tolerar que se transfira dele nada dessas coisas,
assim também Ele quer que tudo Lhe seja entregue inteiramente. Porque não
basta que nos abstenhamos de todo e qualquer outro deus; é preciso que descan-
semos confiantemente nele. Não fazendo como alguns maus elementos que pen-
sam que a maneira de lhe prestar a maior honra consiste em zombar de todas as
religiões. Ao contrário, se quisermos observar bem este mandamento, é necessá-
rio que preceda em nós a religião verdadeira, pela qual a nossa alma seja dirigida
a Deus, e, tendo-o conhecido, seja induzida a honrar a Sua majestade, a pôr nele
a sua confiança, a buscar o Seu auxílio, a reconhecer todas as Suas bênçãos e a
engrandecer todas as Suas obras, como também, finalmente, a entender que Ele é
a sua meta única. Depois, que nos acautelemos contra toda superstição,b
para que
a nossa alma não seja levada para lá e para cá, a diversos deuses.
18. A impiedade oculta, disfarçada
Pois bem, devemos notar diligentemente a natureza da impiedade disfarçada e
ver como somos enganados por suas coberturas. Porque a falsa piedade não nos
leva a descartar-nos dos outros deuses, com tal que não pareça que abandonamos
totalmente ao Deus vivo. Mas, recusando-lhe a honra soberana, por essa nossa
impiedade acrescentamos a Ele uma multidão de pequenos deuses, entre os quais
Ele estaria repartindo o Seu poder. Dessa forma, a glória da Sua divindade espa-
lha-se por todos os lados, e acaba totalmente dissipada.
19. Idólatras antigos – e atuais
Foi dessa maneira que os antigos idólatras, tanto judeus como gentios, imagina-
ram um Deus soberano, Senhor e Pai de todos, ao qual subordinaram numerosos
outros deuses, aos quais atribuíam o governo do mundo compartilhado com Ele.
a
cultum et venerationem.
b
O texto traz, por erro, suspition.
Sobre a Lei
184 As Institutas – Edição Especial
É o que se faz hoje com os “santos” finados, porque os exaltam ao ponto de fazê-
los companheiros de Deus, honrando-os como a Ele, invocando-os e dando graça
a eles por todas as bênçãos.
Não nos parece justo que a glória de Deus seja obscurecida em coisa algu-
ma por essa abominação, e, muito menos, que seja na maior parte suprimida e
apagada, o que aconteceria se simplesmente imaginássemos que Deus tem poder
soberano acima dos outros. Portanto, se quisermos ter somente um Deus,
lembremo-nos de que a Sua glória em nada deve ser diminuída, mas, sim, que
todas as coisas que Lhe são próprias sejam mantidas como Suas.
Segue-se, pois, do texto, que não devemos ter outros deuses diante de Deus.
Com isso Ele nos admoesta no sentido de que não retrocedamos à impiedade,
para que Ele próprio não seja testemunha e espectador do nosso sacrilégio. Por-
que a impiedade é por demais audaciosa, pensando que pode enganar a Deus com
os seus símbolos secretos. Mas, ao contrário, o Senhor declara que tudo o que
maquinamos e imaginamos Lhe é notório. Portanto, se queremos que a nossa
religião seja aprovada por Deus, que a nossa consciência seja pura, esteja livre de
más cogitações, e que não dê acolhida a nenhum pensamento que nos leve a cair
na superstição e na idolatria. Porque o Senhor não exige apenas que a Sua glória
seja mantida por confissão externa, mas diante dos Seus olhos, para os quais não
há nada que não seja visível e manifesto.a
20. O SEGUNDO MANDAMENTO
[1536] NÃO FARÁS PARA TI IMAGEM DE ESCULTURA, NEM SEMELHANÇA
ALGUMA DO QUE HÁ EM CIMAb
NOS CÉUS, NEM EMBAIXO NA TERRA,
NEM NAS ÁGUAS DEBAIXO DA TERRA.
NÃO AS ADORARÁS,c
NEM LHES DARÁS CULTO.
[1539] Assim como Deus declarou no mandamento anterior que Ele é o único
Deus e que não se deve imaginar nenhum outro, assim agora demonstra mais
claramente como se deve prestar honra a Ele, para não inventarmos nenhuma
noção carnal a Seu respeito. A finalidade do preceito é: Deus não quer que a justa
honra que Lhe devemos seja profanada por crenças e práticas supersticiosas.d
Portanto, em suma, Ele quer que repudiemos e abandonemos todos os procedi-
mentos carnais que a nossa mente invente e pela qual, em sua rudeza, tenha sido
formulada uma concepção de Deus. E, conseqüentemente, Ele nos limita ao justo
serviço que Lhe é devido, a saber, o serviço espiritual, e tal como Ele o instituiu.
Pois bem, Deus assinala o mal mais notável neste contexto: a idolatria externa.
a
Conclusão de 1536: Non enim verba modo nostra externaque opera coram ipso sunt, verum penitissimi
cordis recessus melius atque certius ipsi patent, quam nobis ipsis.
b
Instrução de i537: là sus [com o mesmo sentido: em cima].
c
Ib.: tu ne leur feras inclination.
d
ritibus.
185
21. Duas partes do segundo mandamento
Todavia, o mandamento divide-se em duas partes. A primeira reprime a nossa
temeridade, para que [1536] não tenhamos a presunção de sujeitar Deus, que é
incompreensível,a
aos nossos sentidos, ou de representá-lo por meio de alguma
imagem. [1539] A segunda parte proíbe adorar imagens, imitando religião. A
razão da primeira parte nota-se em Moisés, quando ele diz: “Não te esqueças do
dia em que estiveste perante o Senhor, teu Deus, em Horebe... A voz das palavras
ouvistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma... Guardai, pois,
cuidadosamente a vossa alma... para que não vos corrompais e vos façais alguma
imagem...”,473
etc. Isaías também usa muitas vezes este argumento: É desonrar a
majestade de Deus querer representá-lo por meio de matéria corporal, ou ima-
gem visível, ou insensível, sendo que Ele é espiritual, invisível, e dá movimento
a todas as criaturas. Paralelamente, é também desonrá-lo equiparar a Sua essên-
cia infinita a um pedaço de madeira, de pedra ou de prata.474
O apóstolo Paulo
alega essa mesma razão em sua prédica aos atenienses:475
“Sendo, pois, geração
de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à
pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem”.b
Daí se vê que todas as
estátuas feitas para representar Deus O desagradam totalmente, como formas de
causar opróbrio à Sua majestade – verdadeira afronta infamante!
É bem verdade que algumas vezes Deus manifestou a Sua presença medi-
ante certos sinais, e até, evidentemente, se diz que Ele foi visto face a face. Mas,
paralelamente, todos esses tipos de sinais demonstram que a Sua essência é in-
compreensível, porque quase sempre as Suas aparições ocorreram com nuvens,
chamas e fumaça. O que significa que o olhar humano é incapaz de contemplá-lo
claramente. E por isso Moisés, com quem Deus se comunicou mais familiarmen-
te do que com todos os demais, nunca pôde obter a bênção de ver Seu rosto. Ao
contrário, foi-lhe respondido que o homem não pode suportar tão grande clarida-
de.476
Mesmo o propiciatório (de onde o Senhor manifestava o poder de Sua pre-
sença) era composto de tal maneira que indicava que a melhor visão que poderí-
amos ter de Sua divindade seria de causar-nos maravilhado espanto, como algo
que transcende os nossos sentidos. Porque os querubins lá estavam para cobri-lo
com suas asas,477
e havia um véu para ocultá-lo, e o lugar era de tal modo afastado
e obscuro que só por isso já era muito secreto.
a
1536 acrescenta: incorporeus, invisibilis.
Sobre a Lei
473
Dt 4.10,12,15,16.
474
Is 40.18; 41.29; 45.6 e 46.7.
475
At 17.29.
b
Essa tradução difere da do Novo Testamento de 1535.
476
Êx 33.20.
477
Êx 25.20.
186 As Institutas – Edição Especial
22. Frouxa defesa da idolatria
Portanto, vê-se que aqueles que, para defender as imagens de Deus e dos santos,
citam os querubins que Deus mandou fazer, não estão demonstrando bom siso.
Sim, pois, que outra coisa significavam aquelas imagens, senão que não existe
imagem própria para representar figuradamente os mistérios de Deus? Ademais,
é necessário notar que toda e qualquer semelhança é tão proibida como as ima-
gens de escultura, com o que se refuta a tolaa
distinção feita pelos gregos.b
Porque
estes acham que estarão absolvidos se não esculpirem ou talharem estátuas a
martelo; entretanto, eles têm mais superstição que nenhum outro povo, com as
suas imagens pintadas. Contrariamente a essa tola defesa, o Senhor não somente
proíbe toda figura esculpida, mas também não permite que se faça qualquer ima-
gem dele, porque, ao fazê-la, é feito um arremedo dele, o que é uma infamante
afronta à Sua majestade.
Além disso, as formas expressas nesta passagem são as que os pagãos cos-
tumavam usar para representar Deus. Pelas coisas que são do céu, entendo o Sol,
a Lua e as estrelas, e, possivelmente, as aves, como em Deuteronômio quatro,
expondo a intenção divina, são mencionados tanto os pássaros como os astros.478
O que eu não teria anotado, se não houvesse alguns que aplicam isso aos anjos,c
e então deixo de mencionar as outras partes por serem bastante conhecidas.
Passamos à segunda parte do preceito, que consta da adoração. Esta é mal
feita com todas as imagens de Deus. Com outras imagens, como dos santos e
santas, é duplamente execrável. Pois, vejamos aqui os graus de idolatria: Primei-
ro, a mente do homem, visto que se infla de orgulho e de temeridade, atreve-se a
imaginar Deus conforme a sua apreensão; e como, em vez de estar dominada por
Deus está cheia de rudeza e de ignorância, só consegue conceber vaidade e fanta-
sia. Segue-se logo uma outra audácia: O homem tenta representar Deus externa-
mente como o concebe em seu íntimo; portanto, a mente imagina o ídolo, e a mão
o produz. Pois aí está a origem da idolatria. Que os homens não podem acreditar
que Deus está perto, a não ser por uma presença carnal, vê-se pelo exemplo do
povo de Israel, o qual disse a Arão: “Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante
de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos
o que lhe terá acontecido”.479
Certamente eles tinham conhecimento de quem era
Deus, cujo poder tinham provado em muitos milagres. Mas não O julgavam próxi-
mo, a não ser que vissem com os seus próprios olhos alguma aparência corporal,
que lhes servisse de testemunho de que Deus ia adiante deles. Por isso, por meio de
alguma imagem eles queriam saber que Deus os conduzia em seu caminho.
a
inepta cautio.
b
Alusão aos ícones das igrejas ortodoxas.
478
Dt 4.17,19.
c
A objetividade científica de Calvino merece destaque. Sua consciência exegética o obriga a excluir os anjos
da enumeração dos seres, a reprodução de cujas figuras é expressamente proibida para representarem Deus.
Ele faz isso sem se preocupar com a vantagem que os seus adversários poderiam tirar.
479
Êx 32.1.
187
23. A experiência diária nos ensina sobre a tendência
geral para a idolatria
Também vemos isso todos os dias, por experiência. Sim, pois a carne não descansa
enquanto não encontra alguma obra de ficçãoa
semelhante à sua natureza na qual se
regozija como se fosse a imagem de Deus. Porque em quase todos os tempos,
desde que o mundo existe, os homens, seguindo essa cupidez, fabricam imagens
para terem certeza de que Deus está perto deles quando têm diante dos seus olhos
algum sinal da Sua presença. Pois bem, julgando ver Deus em tais imagens, eles as
adoram.b
Finalmente, com o olhar e com o pensamento totalmente fixos, eles se
brutalizam mais ainda, pois, como se houvesse alguma divindade dentro do pau ou
da pedra, são levados a prestar-lhe reverência e admiração. O que agora fica evi-
dente é que, toda vez que o homem se põe a adorar imagens, essa adoração está
sempre ligada à concepção de alguma fantasia carnalc
e perversa; não que as con-
sidere superiores a Deus, mas porque imagina que elas contêm algum poder ou
virtude de divindade. Portanto, querendo alguém representar Deus figuradamente
mediante algum simulacro ou alguma criatura, assim que se inclinad
diante dessa
figura para honrá-la, já está embebidoe
de alguma superstição. Por essa causa o
Senhor não somente proibiu fabricar estátuas para O representarem, mas também
proibiu consagrar títulos ou pedras para receberem reverência.
[1536] Portanto, aqueles que buscam vãos disfarces para escusar a idolatria
execrável, pelos quais a religião foi perdida e deveras destruída desde longos anos,
abrem as orelhas e a mente e alegam: “Não tomamos as imagens por Deus”; e também
os judeus não estavam tão fora de si ao ponto de não se lembrarem de que havia um
Deus que os tinha libertado da servidão do Egito,480
antes de fabricarem os bezerros.
[1539] E de fato, quando Arão os concitou, depois de haver fabricado os
bezerros, a que viessem adorar os deuses que os tinham libertado da terra do
Egito, eles concordaram de boa vontade com o que ele disse. Com isso quiseram
dizer que desejavam estar ligados ao Deus vivo, que os havia libertado, mas com
a condição de poderem ter uma recordação disso no bezerro.
[1536] Paralelamente, não é preciso pensar que os pagãos eram tão rudes
que não entendiam que havia um outro Deus, não de pau ou de pedra. Por isso
mudavam os seus simulacros, os seus ídolos, quando bem lhes parecia, mantendo
sempre os mesmos deuses em seu coração. E mais: faziam muitos simulacros
para um mesmo deus; e com isso não achavam que esses simulacros fossem
diversos deuses. Finalmente, todos os dias eles consagravam novas estátuas, e
não as consideravam novos deuses.
a
figmentum.
b
coluerunt.
c
crassiore.
d
prosterneris.
e
fascinatus.
Sobre a Lei
480
Lv 26.45.
188 As Institutas – Edição Especial
24. São idólatras, ou não?
Que dizer então? Certamente todos os idólatras, tanto judeus como pagãos, [1539]
tinham a fantasia de que falamos, pois, não satisfeitos com um conhecimento
espiritual de Deus, achavam que teriam melhor conhecimento fazendo os simu-
lacros, os ídolos. Ora, depois que essa falsa e perversa lembrança de Deus é
introduzida, não tem fim. O mal continua, até que, concebendo erro e mais erro,
acabam pensando que Deus manifesta o Seu poder nessas imagens e por elas.
Não obstante, os judeus pensavam estar honrando o Deus eterno, o Criador do
céu e da terra, quando adoravam imagens; e os pagãos julgavam estar adorando
os seus deuses, que, em sua imaginação, habitavam no céu.
[1536] Os que negarem que coisas semelhantes a essas, que eram fatos no
passado, continuam sendo fatos na religião dos seguidores do papa, mentirão
com grande falsidade. Sim, pois, porque se ajoelham eles diante das imagens?
Por que se põem diante delas para orar – como se, fazendo isso, se aproximassem
dos ouvidos de Deus?
[1539] Por que há tão grande diferença entre as imagens do mesmo Deus, que
uma é totalmente desprezada ou recebe honra superficial, ao passo que outra é consi-
derada principal em estima e honra? Por que se dão a tanto trabalho para as peregri-
nações para visitar ídolos dos quais têm exemplares semelhantes em suas casas?
[1536] Por que hoje brigama
tanto [por objetos de idolatria], como se esti-
vessem lutando em prol de mulheresb
e filhos, e por sua própria vida? Tanto que
mais facilmente tolerariam que eliminassem Deus, do que suas imagens!
25. Se Calvino fosse citar tudo...!
E, todavia, não cito as grosseiras superstições populares, as quais são quase infi-
nitas e estão arraigadas no coração da maior parte do mundo. Mostro apenas, de
passagem, o que eles dizem quando querem defender-se e declarar-se inocentes
da idolatria. “Mas nós não chamamos às nossas imagens nosso Deus”, dizem
eles. Como também não o faziam antigamente, nem os judeus, nem os pagãos.c
Entretanto, os profetas os reprovam sem cessar, o mesmo fazendo a Escritura
toda, afirmando que eles se prostituíam com madeira e pedra. Não sendo diferentes
os que hoje fazem isso e se gabam de serem cristãos, sendo que eles adoram carnal-
mente a Deus, fazendo uso de uma representação de pedra e de madeira.481
Seu último refúgio consiste em dizerem que esses costumes são de ignoran-
tes. Ainda que lhes concedêssemos isso (se bem que é pura mentira, visto que é
a
Calvino, ainda adolescente, tinha ouvido falar das lutas do capítulo [assembléia de cônegos] de Noyon e do
abade de Saint-Eloi pela posse das relíquias de Saint-Eloi; mais tarde escreverá o Tratado sobre as Relíquias
(Traité des reliques).
b
tanquam pro aris et focis ad Cædes usque et strages digladiantur.
c
1536 acrescenta: sed signa duntaxat, et deorum simulcra.
481
1541. Que se lê principalmente em Hier. 2 e Ezeck. 6 d. [Jr e Ez]. (1536 acrescenta: Deutér. 32. Es 80. Hab. 2).
189
entre os súditos do papa que há aqueles que as adoram), não vejo, porém, que
fruto os ignorantes podem receber das imagens que não representam Deus, senão
que isso os torna antropomorfistas, isto é, que eles imaginam um deus corporal.a
[1539] O que se lê no que escreveram Lactâncio e Eusébio; disso não se deve
conclui, porém, que todos os que podem ser representados por simulacros ou ído-
los eram homens mortais. Disso não está longe Agostinho, que declara que é coisa
perversa não só honrar as imagens, mas também erigir seja o que for como Deus.
[1536] Quanto aos que fazem representações figuradas dos santos, de que
lhes podem servir, senão de exemplos de pompa e de ignomínia?b
E quem deseja
seguir esses exemplos merece chicote. Dá vergonha dizer, mas a verdadec
é que
as prostitutas se enfeitam mais casta e modestamente que as imagens das virgens
nos templos. O ornamento dos mártires não revela mais sensatez.d
Bom seria que
houvesse um pouco de honrosa probidade em suas imagens, para que as suas
mentiras não fossem tão impudentes, sendo que eles têm a pretensão de serem
padrões de santidade!
Mas nós ainda respondemos que não é essa a maneira de ensinar o povo
cristão no templo, povo que Deus quis que fosse instruído numa doutrina bem
diferente dessa miscelânia. Porque Ele queria que a pregação da Sua Palavra e a
comunicação dos Seus sacramentos,e
fossem propostas a todos, como uma dou-
trina comumf
[1539], não bem apreciada por aqueles que gostam de passear os
olhos na contemplação das imagens.
26. Muito melhor a Palavra da Cruz
do que as cruzes ornamentais!
[1536] Portanto, de que serviria elevar tanto a cruz de madeira, de pedra, de prata
e de ouro, se fosse bem inculcado ao povo que Cristo foi crucificado por nossos
pecados para levar sobre Si a maldição na cruz482
e apagar as nossas transgres-
sões? Pois essa palavra seria mais proveitosa para os simples do que mil cruzes
de madeira ou de pedra. Quanto às de prata e de ouro, reconheço que aos avaren-
tos dão mais gosto que qualquer palavra de Deus. Finalmente lhes pergunto: Quem
são esses que os tais chamam de ignorantes, cuja rudeza só pode receber instru-
ção por meio de imagens? O certo é que o nosso Senhor disse que todos os mem-
bros de Sua igreja seriam ensinados por Seu Espírito483
e por Sua Palavrag
para
a
Frase explicativa acrescentada em 1536.
b
perditissimi luxus et obscœnitatis exemplaria.
c d
Frases acrescentadas em 1536. O adolescente Calvino era levado por sua mãe à abadia de Ourscamp, onde
as estátuas eram revestidas de ouropéis em certos dias de festa.
e
A Instrução de 1537 traz: “Quis o Senhor que, tanto a Sua Palavra como os Seus sacramentos, fossem
distribuídos pelo ministério dos homens.”
f
Frase acrescentada em 1536.
482
Gl 3.13.
483
Jo 6.45.
Sobre a Lei
g
theodidactos.
190 As Institutas – Edição Especial
serem reconhecidos como discípulos de Deus. Eis aí o singular benefício proce-
dente das imagens!a
Nem saberíamos como recompensá-lo!
Ora, para mostrar mais expressamente quanto é execrável para o Senhor
toda idolatria, foi, conseqüentemente, acrescentado ao preceito o seguinte: “por-
que eu sou o Senhor, teu Deus, Deus zeloso”,b
etc. O que é como se dissesse que
Ele é o único [Deus] ao qual devemos apegar-nos.
[1539] E, para nos induzir a isso, Ele nos mostra o Seu poder, que não pode
tolerar menosprezo.
[1536] E Ele se chama Zeloso, dizendo com isso que não pode tolerar nin-
guém que pretenda compartilhar com Ele [o Seu Ser, o Seu poder, a Sua glória].
Em terceiro lugar, Ele declara que vingará a Sua majestade e a Sua glória,
se alguém as transferir para as criaturas ou para os ídolos,c
e que não será uma
vingança simples, mas se estenderá aos filhos, aos descendentes próximos e dis-
tantes, os quais sofrerão as conseqüências da impiedade dos seus predecessores,d
como, por outro lado, promete Sua misericórdia e Sua benignidade a mil gera-
ções daqueles que O amam e guardam a Sua Lei.
[1539] Não é novidade que o Senhor assuma a pessoa de um marido, com
relação a nós. Porque a união pela qual Ele nos une a Si, recebendo-nos no seio
da igreja, é como um casamento espiritual, o qual exige lealdade mútua. Portan-
to, assim como o Senhor, em tudo e por tudo, desempenha a função de um marido
fiel, assim também, de nossa parte, Ele exige que Lhe mantenhamos o nosso
amor e a castidade do casamento. Quer dizer, que a nossa alma não seja abando-
nada e entregue ao Diabo e às concupiscências da carne, o que é uma espécie de
prostituição. Por essa causa, quando Ele repreende os judeus por sua infidelida-
de, queixa-se de que eles cometeram adultério, rompendo a lei do casamento.
Porque como um bom marido, fiel e leal, fica enfurecido quando vê sua mulher
deixar-se corromper, assim o Senhor, que verdadeiramente nos desposou, decla-
ra que tem extraordinário ciúme de nós toda vez que, menosprezando a castidade
do Seu casamento, nos contaminamos com perversas concupiscências, e, prin-
cipalmente, quando transferimos para outros a Sua glória ou a contaminamos
com alguma superstição. Glória que, sobre todas as coisas, deve ser mantida
em sua inteireza. Porque, procedendo daquela maneira, não somente rompe-
mos as promessas feitas no casamento, mas também corrompemos a nossa alma
pela prostituição.
a
No comentário do segundo mandamento, Calvino vê a proibição absoluta de toda tentativa de represen-
tar Deus, mesmo quando sem finalidade religiosa, e a proibição das criaturas com essa finalidade. Ele
não diz uma palavra contra a pintura e a escultura. Mas, como ele tinha conhecimento de manifestações
de excessivo rigorismo contra essas duas formas de arte, reservou os direitos sobre o segundo catecismo
e sobre as edições ulteriores das Institutas.
b
1536 citava todo o texto da Vulgata [ali aludido].
c
sculptilia aut res alias.
d
Em lugar dessa frase, 1536 tem: hoc est quocumque tempore.
191
27. O sentido da visitação de Deus
É necessário verificar o sentido da ameaça de Deus, quando afirma que visitará a
iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração. Porque se sabe que
à eqüidade da justiça divina não convém punir inocentes por falta alheia. O pró-
prio Senhor declara que não tolerará que o filho sofra pela iniqüidade do pai. E,
todavia, com freqüência se repete a afirmação de que os pecados [dos pais] serão
punidos em seus filhos. Pois Moisés fala muitas vezes nestes termos: “Senhor,
Senhor que visita a iniqüidade dos pais nos filhos”.484
Paralelamente, Jeremias
declara: “Senhor Deus, retribuis a iniqüidade dos pais nos filhos”.485
Alguns, não
podendo desfazer-se dessa dificuldade, entendem que a referência é às penas
temporais, as quais não é inconveniente que os filhos sofram por seus pais, visto
que muitas vezes elas são salutares. O que é verdade. Isaías, por exemplo, decla-
rou ao rei Ezequias que, por causa do pecado por ele cometido, o reino seria
tirado dos seus filhos e estes seriam levados a um país estrangeiro.486
Paralela-
mente, as famílias do faraó e de Abimeleque foram afligidas por causa do ultraje
feito por seus chefes a Abraão. E há muitos exemplos semelhantes.
Mas isso é um subterfúgio, e não uma explicação verdadeira. Porque o Se-
nhor proclama aqui uma vingança tão grave que não se pode limitar à vida presen-
te.Assim, pois, é necessário entender a sentença que estamos estudando neste sen-
tido:Amaldição de Deus não cai somente sobre a cabeça do ímpio, mas se expande
sobre toda a sua família. Quando acontece isso, que se pode esperar? Somente que,
tendo sido abandonado pelo Espírito de Deus, o pai vive na prática do mal; o filho,
também abandonado por Deus por causa do pecado do pai, segue o mesmo curso
de perdição; e a posteridade próxima, como também os demais sucessores, conti-
nuando a execrável linhagem de maus, caem presas da mesma desgraça.
28. Argumentos finais sobre a justiça de Deus
quando visita os pais nos filhos
Primeiramente vejamos se tais vinganças repugnam à justiça de Deus. Ora, uma
vez que toda a natureza dos homens é condenável, sem dúvida a ruína está prepa-
rada para todos aqueles aos quais o Senhor não comunica a Sua graça; e, todavia,
eles perecem por sua própria iniqüidade, e não por ódio iníquo de Deus. E não
podem queixar-se de que Deus não os socorra com Sua graça para salvá-los,
como faz com outros. Pois, quando essa punição sobrevém aos maus por seus
pecados, e suas famílias são privadas da graça de Deus por longos anos, quem
poderá vituperar a Deus por isso?
Sobre a Lei
484
Êx 34.6,7; Nm 14.18.
485
Jr 32.18.
486
Is 39.7.
192 As Institutas – Edição Especial
Mas, dirá alguém, o Senhor declara o contrário, pois afirma que o filho não
sofrerá pena pelo pecado de seu pai.487
É preciso observar bem do que se trata
nesse caso. Como os israelitas vinham sendo afligidos por muito tempo com
diversas calamidades, tinham um provérbio comum, que dizia: “Os pais come-
ram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram”.488
Com isso queri-
am dizer que seus pais tinham cometido as faltas pelas quais eles estavam pade-
cendo tantos males, sem os merecer; e isso por uma ira de Deus muito rigorosa, e
não por uma severidade moderada. O profeta os denuncia, mostrando que não era
assim, mas que eles estavam sofrendo por suas próprias faltas, e que não combina
com a justiça de Deus que o filho justo e inocente seja punido pelas faltas de seu
pai. O que é coerente com o que se diz na passagem em foco; porque, se a visitação
da qual aqui se fala se cumpre quando o Senhor retira da casa dos ímpios a Sua
graça, a luz da Sua verdade e todos os outros benefícios da salvação (sendo que
os filhos, abandonados por Deus em sua estulta cegueira, seguem o caminho dos
seus antepassados), com isso preservam a maldição de Deus. Essa é a razão pela
qual Deus depois os pune, tanto com calamidades temporais como com a morte
eterna, o que é feito não por pecados de outros, mas pelos deles mesmos.
29. Contraste entre a ameaça e a promessa
Por outro lado, é feita uma promessa, na qual Deus declara: “Faço misericórdia
até mil gerações daqueles que me amam”,489
promessa que muitas vezes consta
na Escritura e é inserida na solene aliança que Deus fez com a Sua igreja. “Serei
o teu Deus, e da tua posteridade depois de ti”. O que Salomão considerou, dizen-
do que, após a morte dos justos, seus filhos serão felizes,490
não somente por
causa da nutriçãoa
e da instrução (que de sua parte muito ajudam a felicidade do
homem), mas também por esta bênção que Deus prometeu a Seus servos: que a
Sua graça residirá eternamente em suas famílias. Verdade que dá singular conso-
lo aos fiéis, e que deve causar assombro aos ímpios. Porque, se a memória, quer
da justiça quer da iniqüidade, tem tanto vigor com relação a Deus, após a morte
do homem, que a bênção da primeira estende-se até à posteridade, como igual-
mente a maldição da segunda, com mais forte razão, quem for bem sucedido
[como fiel] será para sempre bendito de Deus, e quem for mal sucedido [nesse
sentido] será maldito para sempre.
Ora, a isso não se contrapõe o fato de que, por vezes, da raça dos maus se
tirem bons, nem que, ao contrário, da raça dos bons se tirem maus, porquanto o
Senhor não quis estabelecer aqui um reino perpétuo capaz de anular a eleição.
Visto está que, para consolar o justo e assustar o ímpio, basta essa declaração, a
487
Ez 18.17.
488
Ez 18.2.
489
Êx 20.6.
490
Pv 10.6 [e contexto].
a
educationis.
193
qual não é nem vã nem frívola, embora nem sempre se realize. Porque as penas
temporais que Deus envia a alguns são testemunhos da Sua ira contra os pecados
e sinais do seu juízo futuro, que virá sobre todos os pecadores, sendo que muitos
permanecem impunes na presente vida. Da mesma forma, dando um exemplo
dessa bênção (de manter Sua graça e Sua bondade sobre os filhos dos fiéis por
causa dos seus pais), o Senhor dá testemunho de como a Sua misericórdia perma-
nece eternamente firme sobre os Seus servos. Ao contrário, quando Ele persegue
uma vez a iniqüidade do pai no filho, mostra quão grande rigor de julgamento
está preparado para os ímpios por seus próprios pecados, o que é principalmente
considerado na sentença que estamos estudando. Acresce que Ele nos quis mostrar
(como de passagem) a grandeza da Sua misericórdia, estendendo-se a mil gera-
ções,491
ao passo que para a Sua vingança determinou apenas quatro gerações.492
30. O TERCEIRO MANDAMENTO
[1536] NÃO TOMARÁS O NOME DO SENHOR,a
TEU DEUS, EM VÃO.b
[1539] A finalidade do preceito é que o Senhor quer que a majestade do Seu
Nome seja santa e sagrada para nós. Em resumo, que o Seu Nome não seja
profanado por desprezo ou irreverência.Aessa proibição o preceito corresponde,
por outro lado, a exortação a que o tenhamos em recomendação e honra singu-
lar. E, portanto, é necessário que, tanto de lábios como de coração, aprendamos
a só pensar e falar em Deus ou em Seus mistérios com reverência e com grande
sobriedade; e que, na avaliação das Suas obras, nada concebamos que não seja
para a Sua honra.
31. Três pontos que devem ser levados em conta
É necessário observar diligentemente estes três pontos: Primeiro, que tudo quan-
to concebermos sobre Deus, ou que a nossa língua falar, esteja em harmonia com
a Sua excelência e com a santidade do Seu Nome, e se preste para exaltar a Sua
grandeza. Segundo, que não abusemos temerariamente da Sua santa Palavra, e
que não alteremos os seus mistérios para servir à nossa avareza, ou à nossa ambi-
ção, ou às nossas loucuras. Mas, como a dignidade do Seu Nome está impressa
em Sua Palavra e em seus mistérios, que os tenhamos sempre em honra e em alta
estima. Finalmente, não falemos mal de Suas obras nem as depreciemos, como
fazem alguns ímpios que delas costumam falar de forma ultrajante, mas, tudo o
491
Êx 20.6.
492
Êx 20.5.
Sobre a Lei
a
Instrução de 1537: o Senhor.
b
A partir daqui, cada explicação de um mandamento começava, em 1536, com a fórmula: Deum timeri a
nobis atque amari oportet.
194 As Institutas – Edição Especial
que reconhecermos que provém do Senhor, louvemos pela sabedoria, justiça e
poder que manifesta. É assim que se santifica o Nome de Deus.
32. Usurpação sacrílega do Nome de Deus
Diversamente, tomar o Seu Nome do seu uso legítimo, para o qual foi consagrado,
é corrompê-lo impiamente. Quando não causa outro mal, rebaixa a sua dignidade e
o torna desprezível. Ora, se já é um mal usurpar levianamente o Nome de Deus por
presunção imprudente, muito maior pecado será tomá-lo para uso totalmente mau,
como para fazê-lo servir à feitiçaria, à necromancia, a conjurações mágicas ilícitas,
e outras práticas semelhantes. Todavia, o preceito em foco tem em vista especial-
mente o juramento – abuso do Nome de Deus detestável acima de tudo mais. E isso
gera em nós maior horror por todas as outras formas de abuso.
33. Que é juramento?
Primeiro é preciso entender o que é juramento. O juramento é um atestado dado
por Deus para confirmar a veracidade da nossa palavra. Ora, os blasfemos decla-
rados, que julgam que podem despistar Deus, não merecem que o que fazem seja
considerado juramento.
Pois bem, muitas passagens da Escritura mostram que esse atestado, quan-
do devidamente feito, é um modo de glorificar a Deus. Como quando Isaías de-
clara que os assírios e os egípcios seriam recebidos na igreja de Deus. Os egípci-
os, diz o profeta, “falarão a língua de Canaã e farão juramento ao Senhor” (ou,
nos termos do original francês: “... e jurarão ao Nome do Senhor”)493
; quer dizer,
ao jurarem pelo Nome do Senhor, estarão declarando que O têm como o seu
Deus. A mesma coisa se vê quando ele fala sobre como o Reino de Deus seria
multiplicado: “Aquele que se abençoar na terra, pelo Deus da verdade é que se
abençoará; e aquele que jurar na terra, pelo Deus da verdade é que jurará”.494
Igualmente Jeremias: “Se diligentemente aprenderem os caminhos do meu povo,
jurando pelo meu nome: Tão certo como vive o Senhor, como ensinaram o meu
povo a jurar por Baal, então, serão edificados no meio do meu povo”.495
E é certo
que, ao invocarmos o Nome de Deus para testemunho, é dito que estamos
testificando a nossa religião em Seu favor. Porque de tal maneira confessamos
que Ele é a verdade eterna e imutável, visto que apelamos para Ele, não somente
como idôneo testemunho da verdade, mas também como algo a que cabe exclu-
sivamente o papel de manter e fazer vir à luz as coisas ocultas, com maior razão
proclamamos que somente Ele conhece os corações. Sim, pois, quando os teste-
munhos humanos nos falham, tomamos Deus por testemunha, e isso, mesmo
quando se trata de manifestar o que está oculto na consciência.
493
Is 19.18.
494
Is 65.16.
495
Jr 12.16.
195
Por isso o Senhor ira-se amargamente contra os que juram por outros deuses,
e toma esse juramento como rejeição do Seu Nome. Como quando Ele diz: “Teus
filhos me deixam a mim e juram pelos que não são deuses”.496
Além disso, Ele
indica, pela grandeza do castigo, quão execrável é esse pecado, tendo declarado
que destruirá todos os que juram pelo Nome de Deus e pelo nome do seu ídolo.497
Ora, uma vez que entendemos que o Senhor quer que o Seu Nome seja
exaltado em nossos compromissos solenes ou juramentos, devemos acautelar-
nos para que, ao invés de receber honra, esteja sendo desprezado e rebaixado. É
um tremendo ultraje perjurar por Seu Nome. Por essa razão a Lei dá a isso o
nome de profanação.498
Porquanto, que restaria a Deus, se Ele fosse despojado da
Sua verdade? Deixaria de ser Deus. Pois Ele é despojado da Sua verdade quando
O apresentam como se Ele desse testemunho em favor da falsidade e a aprovasse.
Por isso Josué,a
querendo constranger Acã a confessar a verdade, disse-lhe: “Fi-
lho meu, dá glória ao Senhor”.499
Com o que ele mostra que Deus sofre grave
desonra, se se perjurar em Seu Nome. O que não é de admirar, porque, se fizer-
mos isso, nós O estaremos difamando, fazendo-o mentiroso. E de fato, conside-
rando uma conjuraçãob
parecida, feita pelos fariseus, como se vê no Evangelho
Segundo João,500
parece que era comum entre os judeus usar essa forma de falar,
quando se queria ouvir algum depoimento ou juramento. Assim também as fór-
mulas da Escritura nos ensinam o temor que devemos ter de jurar falsamente,
como quando ela diz: “O Senhor é o Deus vivo; o Senhor me envia este ou aquele
mal”. Igualmente: “Que Deus seja testemunha sobre a minha alma”. Tais pronun-
ciamentos indicam que não podemos chamar Deus como testemunha de nossas
palavras sem que Ele vingue o perjúrio, se jurarmos falsamente.
34. Cuidado com juramentos verdadeiros
mas supérfluos!
Quando envolvemos o Nome de Deus num juramento verdadeiro mas supérfluo,
conquanto Seu Nome não seja totalmente profanado, contudo é rebaixado de sua
honra e é tornado desprezível. Essa é, pois, a segunda espécie de juramento pela qual
o Nome de Deus é tomado em vão. Portanto, não é suficiente que nos abstenhamos de
fazer juramento falso, ou perjúrio.Também é necessário que nos lembremos de que o
juramento não foi instituído para o prazer desordenado dos homens, mas para o que
realmente for necessário. Fora disso, não é permitido. Do que se segue que os que o
fazem por coisas de nenhum valor ultrapassam o uso bom e lícito.
Sobre a Lei
a
Mais comumente se diz agora: Josué, Acan [em vez de: Iehosua, Acham].
496
Jr 5.7. Cf.
497
Sf 1.4,5.
498
Lv 19.12.
499
Js 7.19.
b
1541 tem, por erro: admiration.
500
Jo 9.24.
196 As Institutas – Edição Especial
Ora, não se pode pretender outra necessidade que não a de servir à religião
ou à caridade. Nisso se peca desenfreadamente hoje em dia. Ainda mais quando
se considera que, por ser um costume amplamente generalizado, não se lhe dá a
mínima importância, apesar de não ser de pequeno peso, segundo o juízo de
Deus. Porquanto se abusa indiferentemente do Nome de Deus, por pura loucura e
vaidade, e se pensa que não há mal nisso, porque os homens, por sua pecaminosa
licença, se sentem pouco menos que senhores nessa prática. Não obstante, o man-
damento dura para sempre; a ameaça que lhe foi acrescentada permanece
inviolável, e chegará o dia em que terá o seu efeito. Por isso, é declarada uma
vingança espiritual sobre todos os que tomarem o Nome de Deus em vão.
35. Juramentos feitos por outros nomes
Há, por outro lado, uma grave falta que se comete, quando os homens, em seus
juramentos, tomam nomes de santos, jurando por “São” Tiago ou por “Santo”
Antônio. O que e uma impiedade evidente, visto que a glória de Deus é transferida
dessa forma para outrem. Porque não é sem causa que Deus ordenou especifica-
mente que se jurasse por Seu Nome,501
e por mandamento especial nos proibiu
jurar por outros deuses.502
É o que o apóstolo diz, quando escreve: “Os homens
juram pelo que lhes é superior”, mas Deus, “visto que não tinha ninguém superi-
or por quem jurar, jurou por si mesmo”.503
36. Anabatistas: contra todo juramento
Os anabatistas, não satisfeitos com essa moderação, condenam todos os jura-
mentos, sem exceção, sendo que [1536] a proibição feita por Cristo é geral, como
se vê pelo que Ele diz: “Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis... Seja, po-
rém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno”.504
Mas com isso eles fazem injúria a Cristo, declarando-o adversário de Seu Pai,
como se tivesse vindo a este mundo para anular os Seus mandamentos. Pois o
Senhor, em Sua Lei, não somente permite o juramento como coisa lícita, o que
deveria ser suficiente, mas ordena que seja utilizado em caso de necessidade.505
Ora, Cristo testifica que Ele é um com o Pai; que não faz coisa alguma que não
tenha sido ordenada por Seu Pai; que a Sua doutrina não é propriamente dele, etc.
Portanto, que dirão eles? Tornarão Deus contrário a Si, proibindo e condenando o
que uma vez tinha sido aprovado por Ele no mandamento? Logo, a proposição
501
Dt 6.13; 10.20.
502
Êx 23.13.
503
Hb 6.13 e 16. [Versículo 16, no original francês: “Deus jura por si mesmo, porque não há ninguém superior
a ele”.]
504
Mt 5.34,37.
505
Êx 22.11.
197
dos anabatistas não deve ser acolhida. Reconhecendo, porém, que há alguma
dificuldade para entender as citadas palavras de Cristo, é necessário que as exa-
minemos com maior atenção. Não as entenderemos bem, a menos que considere-
mos o seu objetivo e dirijamos o nosso pensamento ao que Cristo pretende com
aquela passagem.
Pois bem, assim é: Cristo não quis nem acrescentar nem diminuir a Lei,
mas unicamente reduzi-la ao seu sentido natural, pois a Lei tinha sido grandemente
corrompida pelas falsas explicações dos escribas e fariseus. Se nos ativermos a
isso, não pensaremos que Cristo quis condenar todos os juramentos, universal-
mente, mas apenas os que transgridem a norma da Lei. Suas palavras deixam
entrever que a determinação é para as pessoas cuidarem, não somente de perjurar
ou jurar falsamente, como igualmente a Lei não proíbe somente os perjúrios, mas
também os juramentos supérfluos. Porque o Senhor Jesus, verdadeiro expositor
da Lei, adverte que não somente perjurar é praticar o mal, mas também jurar.
Jurar como? Quer dizer, jurar em vão. Mas os juramentos que a Lei aprova Ele os
deixa inteiramente livres.
Eles porém se fixam na citação, a qual, todavia, não se reporta ao verbo [ou
à ação verbal], mas às formas de juramentos que vêm a seguir. Porque vemos ali
uma parte do erro, pois, quando juravam pelo céu e pela terra, não imaginavam
estar tocando no Nome de Deus.506
Tendo o Senhor, portanto, corrigido a trans-
gressão principal, tolhe em seguida todos os seus subterfúgios, para que não pen-
sem que podem escapar quando, suprimindo o Nome de Deus, juram pelo céu e
pela terra. Portanto, para quem possui mente saudável, não há dúvida de que o
Senhor, na citada passagem, só reprova os juramentos proibidos pela Lei. Porque
Ele mesmo, que toda a Sua vida representou a perfeição ordenada por Ele, não
teve medo de jurar quando a situação o exigiu; e os Seus discípulos, que, não
duvidamos, cumpriam Suas normas, seguiram o mesmo exemplo.
Quem se atreve a dizer que o apóstolo Paulo se disporia a jurar, se o jura-
mento fosse totalmente proibido? Pois bem, quando a causa em questão o requeria,a
ele jurava sem nenhum escrúpulo, às vezes até juntando alguma imprecação.507
37. Juramentos públicos
Todavia, a questão ainda não está resolvida, porque alguns entendem [1536] que
as únicas exceções são os juramentos públicos, como os que o magistrado requer
de nós, [1539], ou os que o povo faz a seus líderes, ou os que os líderes fazem ao
povo, os militares a seus capitães, e os príncipes entre si, quando fazem aliança.
Eles incluem nesse número (com razão) todos os juramentos que se vêem nos
506
Mt 5.34.
a
1536: ad dignitatem Evangelii asserendam.
Sobre a Lei
507
Rm 1.9; 9.3.
198 As Institutas – Edição Especial
escritos do apóstolo Paulo, [1536] visto que os apóstolos, no desempenho do seu
ofício, não eram homens de vida privada,a
mas oficiaisb
públicos de Deus. [1539]
E, de fato, não nego que os juramentos públicos sejam os mais indubitáveis,
contanto que comprovados por sólidos testemunhos da Escritura. Ao magistrado
é ordenado que exija da testemunha um juramento em questões duvidosas, e que
a testemunha seja responsabilizada por seu depoimento. Paralelamente, diz o
apóstolo que as controvérsias humanas são decididas com o emprego desse re-
curso.508
Portanto, ambos têm a boa aprovação necessária.
38. Os juramentos entre os antigos pagãos
De fato, pode-se observar que antigamente os pagãos consideravam importante
prática religiosa o uso de juramentos públicos e solenes; ao contrário, não da-
vam muito valor aos que eram feitos privadamente, como se Deus não os tives-
se em conta.
39. Invocação de Deus como Juiz e como Testemunha
Todavia, condenar os juramentos privados feitos sobriamente sobre coisas neces-
sárias e com reverência é muito perigoso, visto que se baseiam em bom motivo e
em exemplos da Escritura. Porque, se é lícito às pessoas, em sua vida particular e
privada, invocar a Deus como Juiz sobre os seus propósitos, com mais forte razão
lhe será permitido invocá-lo como Testemunha. Exemplo: O seu próximo acusa
você de alguma deslealdade. Você, em nome do amor, empenha-se em dar-lhe
plena satisfação. Ele não aceita nenhuma razão, nada que lhe pague o mal de que
o acusa. Se a sua reputação corre perigo por causa da caluniosa fantasia do seu
próximo, sem ofensa você poderá apelar para o juízo de Deus, a fim de que Ele
declare a sua inocência. Se prestarmos atenção nas palavras, veremos que não há
tanta diferença assim entre invocar Deus para testemunho e para julgamento.
Logo, não vejo por que deveríamos reprovar um tipo de juramento no qual
Deus é chamado para testemunhar algo. E disso temos numerosos exemplos, como o
de Abraão e de Isaque, nos juramentos que fizeram a Abimeleque. Se se alegar que
esses juramentos eram públicos, ao menos Jacó e Labão eram pessoas particulares, e,
não obstante, confirmaram a sua aliança com juramento.509
Boaz era homem particu-
lar, e ratificou com juramento [invocando o Deus vivo] o casamento prometido a
Rute.510
Paralelamente, Obadias, homem justo e temente a Deus (como diz a Escritu-
ra), testificou com juramento o fato sobre o qual ele quis persuadir Elias.511
508
Hb 6.16.
509
Gn 31.53.
510
Rt 3.13.
511
1Rs 18.10.
a
privati.
b
ministri.
199
40. Sumário sobre os juramentos
Não vejo, pois, melhor regra senão [1536] que moderemos os nossos juramentos
de tal maneira que não sejam temerários, feitos levianamente, sobre questões
frívolas, ou por interesses desordenados, mas, antes, que atendam a uma necessi-
dade real, [1539] a saber, quando for questão de manter a glória de Deus, ou a
caridade entre os homens, sendo que a isso tende o mandamento.
41. O QUARTO MANDAMENTO
[1536] LEMBRA-TE DO DIA DE SÁBADO, PARA O SANTIFICAR. SEIS DIAS
TRABALHARÁSa
E FARÁS TODA A TUA OBRA.
MAS O SÉTIMO DIA É O SÁBADO DO SENHOR, TEU DEUS;
NÃO FARÁS NENHUM TRABALHO, NEM TU,
NEM O TEU FILHO, NEM A TUA FILHA, NEM O TEU SERVO,
NEM A TUA SERVA, NEM O TEU ANIMAL,
NEM O FORASTEIRO DAS TUAS PORTAS PARA DENTRO;
PORQUE, EM SEIS DIAS, ETC.
[1539] A finalidade desse preceito é que, estando mortos para as nossas pai-
xões e para as nossas obras, meditemos no Reino de Deus e, nessa meditação,
exerçamos as nossas atividades pelos meios ordenados por Ele. Contudo, visto
que há aqui uma consideração particular e distinta dos outros, este caso requer
uma exposição um tanto diversa. Os antigos doutores512
costumavam chamar
isso [1536] de sombra, porque continha a observação externa do dia, o que foi
abolido com o advento de Cristo,513
como também as demais figuras.b
[1539] O
que é verdade, mas isso só toca na questão parcialmente. Por isso, é preciso
fazer a exposição numa perspectiva mais ampla, e considerar três causas, con-
tidas nesse mandamento.c
Porque, sob o repouso do sétimo dia, o Senhor quis figurar para o povo de
Israel o repouso espiritual. É que os fiéis deviam descansar de suas obras, a fim
de deixar que Deus trabalhasse neles. Em segundo lugar, Ele quis estabelecer
esse dia como um dia fixo no qual deveriam reunir-se para ouvir a Lei e realizar
as suas cerimônias. Em terceiro lugar, Deus quis dar um dia de descanso aos
servos e aos trabalhadores subordinados à autoridade de outros, para poderem ter
algum alívio do seu labor.
512
Cf. Agostinho, Ep. LV, c. 12 (ad inquisitiones Januarii lib. II). – Migne XXXIII, 214.
513
Gl 4.4; Cl 3; Hb 8.5.
Sobre a Lei
a
1537: tu travailleras et feras toute ton œvre. [No original francês em uso nesta tradução: Tu besongneras, etc.]
b
1536: cæteræ mosaicæ legis umbræ.
c
Estas últimas palavras e o parágrafo subseqüente reproduzem quase textualmente a Instrução de 1537.
200 As Institutas – Edição Especial
42. Primazia do sentido espiritual
do quarto mandamento
Em muitas passagens nos é revelado, porém, que a figura do repouso espiritual
ocupa o lugar principal no preceito. Porque Deus jamais exigiu mais rigorosa
obediência a algum preceito que a que exige a este.514
Quando Ele quer mostrar,
por Seus profetas, que toda a religião foi destruída, Ele se queixa de que o Seu
sábado foi profanado e violado,515
ou que não foi bem observado e não foi santi-
ficado. Como se, ao negligenciarem esse ponto, nada mais restasse em que Ele
poderia receber honra. Por outro lado, Ele engrandece extraordinariamente a ob-
servância do quarto mandamento, razão pela qual apreciavam acima de tudo o
bem que Deus lhes tinha feito, um benefício deveras singular, revelando-lhes o
sábado. Pois assim falam os levitas em Neemias: “O teu santo sábado lhes fizeste
conhecer; preceitos, estatutos e lei, por intermédio de Moisés, teu servo, lhes
mandaste”. Vemos como eles o tinham em singular estima, acima de todos os
demais preceitos. O que tem a virtude de nos mostrar a dignidade e a excelência
do sábado, o que também é claramente exposto por Moisés e por Ezequiel. Pois
assim lemos em Êxodo:516
“Certamente guardareis os meus sábados; pois é sinal
entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que
vos santifica. Portanto, guardareis o sábado porque é santo para vós outros; aque-
le que o profanar morrerá; pois qualquer que nele fizer alguma obra será elimina-
do do meio do seu povo. Seis dias se trabalhará, porém o sétimo dia é o sábado do
repouso solene, santo ao Senhor; qualquer que no dia do sábado fizer alguma
obra morrerá. Pelo que os filhos de Israel guardarão o sábado, celebrando-o por
aliança perpétua nas suas gerações”. Disso Ezequiel fala ainda mais amplamen-
te, mas, em resumo, as suas palavras redundam no seguinte: “Também lhes dei os
meus sábados, para servirem de sinal entre mim e eles, para que soubessem que
eu sou o Senhor que os santifica”.517
Ora, se a nossa santificação consiste na renúncia à nossa vontade própria,
nisso já transparece a semelhança entre o sinal externo e a realidade interior.
Precisamos repousar totalmente para que Deus trabalhe em nós,a
precisamos de-
sistir da nossa vontade, resignar o nosso coração, renunciar e eliminar toda a
cupidez da nossa carne. Enfim, precisamos parar com tudo o que procede do
nosso entendimento, a fim de que, tendo Deus trabalhado em nós, estejamos em
harmonia com Ele. Como igualmente nos ensina o apóstolo. Aí está o que é re-
presentado em Israel pelo repouso do sétimo dia.518
a
1536: sancti sui spiritus ductu nos regat.
514
Nm 15.32; Êx 31.13 e 35.2; Jr 17.21; Ez 20.12 e 19; Is 56.2.
515
Ne 9.14.
516
Êx 31.13-16.
517
Êx 20.12.
518
Hb 3.11 e 4.9.
201
43. O exemplo do Criador
E para que fosse dada maior importância religiosa a essa prática, o Senhor confir-
mou essa ordem com o Seu exemplo. Pois não é coisa que deve causar pequena
emoção ao homem, ser ele ensinado a seguir o seu Criador. [1536] Se alguém
quiser ver uma significação secreta no número sete, bem nos parece, porque na
Escritura esse número significa perfeição, sentido bem escolhido por Deus para
denotar perpetuidade. A isto se reporta o que vimos em Moisés. Porquanto, de-
pois de nos haver dito que o Senhor descansou no sétimo dia, não acrescentou
nenhum outro, para assim determinar o seu fim.
[1539] A esse respeito pode-se também fazer outra conjectura provável, a
saber, que o Senhor, com esse número, quis dizer que [1536] o sábado dos fiéis
não será realizado perfeitamente até o último dia. Pois aqui lhe damos início, e
prosseguimos diariamente; mas, visto que ainda temos que lutar constantemente
contra a carne, não se realizará, enquanto não se concretizar a palavra de Isaías,
quando afirma que no Reino de Deus haverá um sábado que durará eternamen-
te,519
a saber, quando Deus for “tudo em todos”.520
[1539] Poderia, pois, parecer que pelo sétimo dia o Senhor quis representar
para o Seu povo a perfeição do sábado que haverá no último dia, para levá-lo a
aspirar a essa perfeição, mediante dedicada aplicação do seu espírito durante a
presente vida. Se essa explicação parece muito sutil e alguém não a quiser acei-
tar, não me oponho a que se contente com outra mais simples. Segundo esta, o
Senhor ordenou um dia pelo qual o povo fosse exercitado sob a pedagogia da Lei
a meditar no repouso espiritual, que é sem fim. Neste sentido se pode dizer que o
Senhor determinou, ou melhor, propiciou o sétimo dia, ou para incitar melhor o
povo a observar esta cerimônia, oferecendo-lhe o Seu exemplo, ou, antes, para
lhe mostrar que o sábado não tinha outro fim que não este: conformar o Seu povo
ao seu Criador.a
Porque isso não tem importância, contanto que permaneça a
significação do mistério, qual seja, que o povo fosse instruído no sentido de re-
nunciar às suas obras [observando o repouso sabático]. A essa consideração os
profetas constrangiam constantemente os judeus, a fim de que eles não pensas-
sem que estariam cumprindo satisfatoriamente o mandamento abstendo-se de
trabalhos braçais ou físicos. Além das passagens já citadas, lê-se em Isaías: “Se
desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no
meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor, digno de
honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua
própria vontade, nem falando palavras vãs, então te deleitarás no Senhor” (ou
“prosperarás em Deus”).
519
Is 66.23.
520
1Co 15.28.
Sobre a Lei
a
ab queribus nostris cessantes, requiem in ipso nostram quæramus.
202 As Institutas – Edição Especial
44. Cristo é o verdadeiro cumprimento do sábado
Ora,a
não há dúvida de que o elemento cerimonial do mandamento foi abolido pelo
advento de Cristo. Razões disso: Ele é a verdade, que, por Sua presença, faz com
que se desvaneçam todas as figuras; Ele é o corpo, à vista do qual as sombras se
dissipam; Ele é, repito, o verdadeiro cumprimento do sábado. “Fomos, pois, sepul-
tados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre
os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida”.521
Por isso diz o apóstolo que o sábado “é sombra das coisas que haviam de vir” e que
“o corpo é de Cristo”,522
quer dizer, a verdadeira e sólida substância da verdade, o
que ele explica bem na citada passagem. Pois bem, essa realidade não se satisfaz
com apenas um dia, mas exige toda a duração da nossa vida, até que, estando nós
totalmente mortos para o pecado, haja em nós a plenitude da verdade de Deus.
Disso decorre que toda observância supersticiosa de dias esteja longe dos cristãos.
Todavia, na medida em que as duas últimas causas citadas não devem ser
colocadas entre as sombras antigas, pois convêm igualmente a todos os séculos,
e embora o sábado seja ab-rogado, não deixa de ter lugar entre nós [1536], para
que tenhamos alguns dias para reunir-nos para ouvir as pregações, para as ora-
ções públicas523
e para celebrar os sacramentos. Em segundo lugar, para dar al-
gum alívio aos artesõesb
[ou aos servidores e aos trabalhadores em geral].
Não há dúvida nenhuma de que o Senhor levou em conta essas duas causas
quando ordenou o sábado. Quanto à primeira, tem suficiente aprovação pelo uso
dos próprios judeus.c
A segunda é registrada por Moisés em Deuteronômio,524
com estas palavras: “Para que o teu servo e a tua serva descansem como tu;
porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito”; como também em Êxodo:525
“Para que descansem o teu boi, o teu jumento e a tua família”. Quem poderá
afirmar que essas duas coisas só são apropriadas para os judeus? As assembléias
eclesiásticas são-nos ordenadas pela Palavra de Deus, e a própria experiência nos
mostra a necessidade que delas temos. [1536] Ora, se não fosse ordenado um dia,
quando poderiam reunir-se? O apóstolo ensina que entre nós todas as coisas de-
vem ser feitas com ordem e decência.526
Pois bem, é tão difícil que essa pureza e
ordem seja mantida sem essa disciplina dos dias que sem isso logo nos veríamos
mergulhados em extraordinárias dificuldades e confusões na igreja. Ora, se entre
nós há a mesma necessidade que o Senhor quis sanar ordenando o sábado aos
521
Rm 6.4.
522
Cl 2.17.
523
Cl 3.16.
a
A partir daqui, e até a expressão “gens mécaniques” [no fim dessa mesma página], o texto reproduz quase
literalmente o da Instrução (1537).
524
Dt 5.14,15.
525
Êx 23.12 [tradução direta].
526
1Co 14.40.
b
Instrução de 1537: ouvriers.
c
1536: ad conservandam inter homines æquitatem, etc.
203
judeus, que ninguém alegue que essa lei não nos diz respeito. Porque é certo que
Deus não quis suprir menos a nossa necessidade que a dos judeus.
Mas, dirá alguém, e se nos reuníssemos todos os dias, para eliminar a dife-
rença [entre nós e os judeus]? Bem que eu gostaria disso, e, de fato, a sabedoria
espiritual merece que lhe seja destinada alguma hora de cada dia. Mas, se, por
causa da fraqueza de muitos, não se pode conseguir que se reúnam diariamente,a
e a caridade não permite que os forcemos pelo constrangimento, por que não
seguimos a razão que, como demonstramos, provém de Deus?
45. Observar o domingo é judaísmo?
Precisamos alongar-nos um pouco nesta questão, porque algumas mentes levia-
nas se agitam demais hoje em dia por causa do domingo.b
Queixam-se de que o
povo cristão continua preso a um tipo de judaísmo, visto que ainda retém alguma
observância de dias.
A isso respondo que sem judaísmo observamos o domingo, uma vez que há
uma grande diferença entre nós e os judeus [1536]. Porque não o guardamos
como imposição de uma religião estreita, como uma cerimônia com a qual julga-
mos estar cumprindo um mistério espiritual, mas o usamos como um remédio
necessário, a fim de manter a boa ordem na igreja [1539]. Mas, dizem eles, o
apóstolo Paulo nega que os cristãos devam ser julgados pela guarda de dias, visto
ser isso uma “sombra das cousas que haviam de vir”,527
e por essa causa teme
haver trabalhado em vão entre os gálatas,528
visto que ainda guardavam dias. E,
escrevendo aos romanos, ele afirma que fazer distinção entre dia e dia é supersti-
ção.529
Mas, qual é o homem que, tendo mente equilibrada, não vê de que tipo de
guarda o apóstolo está falando? Porque não se tratava de observância com a fina-
lidade que dissemos, de manter a disciplina e a ordem da igreja,c
mas, continuan-
do a celebrar festas como sombras de realidades espirituais, obscureciam tanto a
glória de Cristo como a clareza do Evangelho. Eles não deixavam de fazer os
trabalhos braçais porque estes os impediam de parar para meditar na Palavra de
Deus, mas, sim, para uma devoção insensata, uma vez que imaginavam que des-
cansar era prestar culto a Deus, era servi-lo. É, pois, contra essa doutrina perversa
que o apóstolo Paulo clama, e não contra a ordenança legítima, dada para manter
a paz na comunidade dos cristãos. Porque as igrejas que ele fundou guardavam o
sábado com esse uso. Paulo mostrou isso quando marcou para os coríntios o dia
em que deveriam trazer as ofertas à igreja.530
Se tememos a superstição, muito
mais devemos temer as festas judaicas que a celebração cristã do domingo. Por-
a
É quase textualmente a Instrução de 1537.
b
1536: diem dominicum.
527
Cl 2.16,17.
528
Gl 4.9,10.
529
Rm 14.5.
Sobre a Lei
c
communis politiæ causa.
530
1Co 16.1,2.
204 As Institutas – Edição Especial
que, como foi bom deixar de lado o dia guardado pelos judeus para eliminar a
superstição, foi necessário estabelecer em seu lugar outro dia, para manter a ordem,
a disciplina e a paza
na igreja. Não me prendo ao número sete para sujeitar a igreja
a alguma servidão, pois não condeno as igrejas que adotam outros dias para as suas
reuniões solenes, contanto que não tenha parte nisso nenhuma superstição; como
não a tem quando se tem em vista unicamente a manutenção da disciplina.
46. Sumário
Em resumo, eis o que diz o preceito:b
A verdade foi demonstrada para os judeus
por meio de figuras; a nós é exposta claramente, sem figuras, de modo que, pri-
meiro, devemos meditar durante toda a nossa vida num descanso sabático perpétuoc
das nossas obras, para que Deus trabalhe em nós por Seu Espírito.d
Em segundo
lugar, [1536] devemos seguir a ordem legítima da igreja, estabelecida para ouvir-
mos a Palavra, para a celebração dos sacramentos,e
e para a oração como parte do
culto [1539]. Em terceiro lugar, que não exerçamos nenhuma opressão sobre
aqueles que estão sob a nossa autoridade.
[1536] Dessa forma serão destruídas as mentiras dos falsos doutores,f
que no
passado impregnaram o povo com o conceito judaico, só fazendo esta diferença
entre o sábado e o domingo: que o sétimo dia, que naquele tempo se guardava,
fosse anulado, mas que não se deixasse de guardar um dia da semana. Ora, isso não
seria nada mais que mudar o dia por despeitog
aos judeus, mantendo, todavia, a
superstição que o apóstolo Paulo condena – que na observância dos dias há algum
significado secreto, como acontecia no tempo do Antigo Testamento. E de fato
vemos que efeito teve essa doutrina! Pois os que a seguem superam os judeus em
seu conceito carnal sobre o sábado;h
tanto assim que as repreensões que lemos em
Isaías cabem melhor a estes que àqueles que o profeta repreendeu no tempo dele.531
47. O QUINTO MANDAMENTOi
[1536] HONRA TEU PAI E TUA MÃE, PARA QUE SE PROLONGUEM OS
TEUS DIAS NA TERRA QUE O SENHOR, TEU DEUS, TE DÁ.
a
“ordre et paix” somente, na Instrução de 1537.
b
Frase quase textual da Instrução de 1537.
c
sabbath (Instrução, 1537).
d
1536: mortificamus hominis veteris opera, non diebus duntaxat festis, sed omni die continenter sabbatum
sanctificamus et celebrare incipimus sabbatum ex sabbato.
e
Quanto à fração do pão da Ceia, ver um parágrafo anterior da Instrução de 1537.
f
sophistarum.
g
in contumeliam.
h
Vê-se que Calvino se opõe fortemente a um certo puritanismo legalista e judaizante, que em certos lugares
chegou a renunciar ao domingo para restabelecer a observância do sétimo dia.
531
Is 1.13 e 58.3,13.
i
Aqui começava a segunda tábua da Lei, conforme a divisão adotada em 1536.
Em 1536 apenas uma dúzia de linhas explicavam o mandamento, limitando-se à autoridade dos pais,
aqui mencionada em segundo lugar.
205
Finalidade do quinto mandamento: Visto que Deus quer que seja mantida a
ordem instituída por Ele, é nosso dever respeitar os graus de preeminência ou
de autoridade que Ele estabeleceu. Eis, portanto, o resumo disso tudo: Que
àqueles que Deus colocou como nossos superiores, tratemos respeitosamente,
prestemos honra e obediência e reconheçamos os benefícios que deles recebe-
mos. Decorre daí a proibição: Que não rebaixemos a dignidade deles, nem por
menosprezo, nem por contumácia, nem por ingratidão, pois o sentido de “hon-
rar” é amplo e abrange tudo isso na Escritura. Quando, por exemplo, o apóstolo
declara que os presbíteros que presidem bem são dignos de dupla honra, não
fala somente do respeito que lhes é devido, mas também da remuneração que o
seu labor merece [1Tm 5.17].
Pois bem, este mandamento, que nos manda sujeitar-nos aos nossos superi-
ores, é fortemente contrário à perversidade da nossa natureza, a qual, como só
falta explodir de ambição e de orgulho, não se submete a ninguém de boa vonta-
de. Por essa causa nos é proposta como exemplo a superioridade menos odiosa e
mais amistosa de todas, para poder melhor sensibilizar e amolecer o nosso cora-
ção para que aprendamos a sujeitar-nos obedientemente a quem de direito. Dessa
maneira, pela sujeição mais suave e mais fácil de suportar, o Senhor nos vai
acostumando pouco a pouco a toda sujeição [legítima], uma vez que a razão
disso é a mesma em todos os casos. Porque, quando Ele dá preeminência ou uma
posição de autoridade a alguém, comunica-lhe Seu nome, na proporção em que
for necessário mantê-la. Os títulos de Pai, Deus e Senhor Lhe pertencem tão
exclusivamente que, quando se faz menção de um deles, o nosso coração deve
comover-se ao reconhecer a Sua majestade. Por isso, quando Deus faz os homens
participantes dos Seus títulos, dá-lhes como que uma centelha da Sua luz, a fim
de enobrecê-los e torná-los honoráveis conforme o grau pertencente a cada um.
Esse é o motivo pelo qual devemos pensar que há alguma honra divina naquele
que é chamado pai, visto que não é sem razão que ele leva um título que pertence
a Deus. Paralelamente, o príncipe ou senhor participa um pouco da honra que a
Deus pertence.
Portanto,a
não se deve duvidar de que o Senhor estabelece aqui uma regra
universal. Esta manda que, ao reconhecermos que alguém foi ordenado por Deus
para ser nosso superior, devemos prestar-lhe honra, reverência e amor cristão, e
devemos prestar-lhe quanto serviço pudermos. E não nos compete julgar se os
nossos superiores são dignos da honra que lhes prestamos, ou não. Porquanto,
sejam eles como forem, só chegaram a esse nível de autoridade porque foi essa a
vontade de Deus, razão pela qual Ele nos ordena que os honremos.b
a
Este parágrafo já se encontra quase textualmente na Instrução de 1537.
b
1536: eos revereamur et colamus, iis obediamus.
Sobre a Lei
206 As Institutas – Edição Especial
48. A honra que devemos aos nossos pais
Todavia, Ele expressamente nos manda reverenciar nossos pais, que nos geraram
para esta existência. Essa lição a própria natureza nos ensina. Por isso, todos os que
violam a autoridade paterna, quer por desprezo, quer por rebelião, são monstros, e
não homens. Por isso o Senhor ordena que seja dada morte aos que são desobedien-
tes a seu pai ou à sua mãe, e por boa razão. Porque, uma vez que não reconhecem
aqueles por meio dos quais vieram a viver neste mundo, não merecem viver.
Em muitas passagens da Lei vemos que é verdade o que acima dissemos, a
saber, que a honra da qual aqui se fala compõe-se de três partes: reverência, obedi-
ência e grato amor, procedente do reconhecimento dos benefícios recebidos.
A primeira é determinada por Deus quando Ele ordena que seja levado à
morte aquele que falar mal do seu pai ou da sua mãe.532
Porque dessa forma Ele
castiga toda difamação e todo menosprezo [dos filhos para com seus pais].
A segunda, quando ordena que os filhos rebeldes e desobedientes sejam
punidos com a morte.533
A terceira e comprovada pelo que diz Jesus Cristo em Mateus 15, confir-
mando que é mandamento de Deus que sirvamos aos nossos pais e lhes façamos
o bem.534
Note-se que toda vez que o apóstolo Paulo faz menção deste preceito,535
ele nos exorta à obediência, que pertence à segunda parte das três referidas.
49. A promessa do quinto mandamento
[1536] A promessa é logo acrescentada como uma recomendação mais forte, a
fim de advertir-nos e mostrar-nos quão agradável a Deus é a submissão de que
trata este mandamento. [1539] Porque Paulo nos incita com esta espécie de agui-
lhão quando declara que este é o primeiro mandamento com promessa [Ef 6.2].
Porque a promessa que temos na primeira tábua não é especial e não se limita a
um mandamento só, mas se estende a toda a Lei. Ao passo que a promessa da
qual aqui tratamos [do quinto mandamento] deve ser entendida no sentido de que
o Senhor falava especificamente aos israelitas sobre a terra que Ele lhes havia
prometido como herança. Se, pois, a posse dessa terra era um penhor ou um sinal
da bondade de Deus, não temos necessidade de espantar-nos se Deus quis testificar
a Sua graça prometendo-lhes vida longa, para que assim pudessem gozar por
mais tempo o bem que lhes estava fazendo. É, pois, como se Ele dissesse: “Honra
teu pai e tua mãe para que, tendo vida longa, possas desfrutar por muito tempo da
terra, e isso te servirá como testemunho da minha graça”.
Além disso, como toda a terra é abençoada para os fiéis, por justa razão
incluímos a vida presente entre as bênçãos de Deus. Por isso, esta promessa tam-
532
Êx 21.15,17.
533
Lv 20.9; Pv 20.20; [Dt 21.18-21].
534
Mt 15.4-6.
535
Ef 6.1; Cl 3.20.
207
bém se refere a nós, sendo a vida longa concedida como uma prova da benignida-
de de Deus para conosco. Porquanto, a vida longa não é prometida, nem a nós
nem aos judeus, como se contivesse em si mesma a bem-aventurança, mas por-
que, para os crentes fiéis, é um sinal da bondade de Deus.
50. Vida breve de justos
Se suceder que um filho obediente a seus pais morrer em sua juventude (como
acontece não poucas vezes), não significa que Deus deixa de manter com firmeza
a Sua promessa; esta se cumpre da mesma maneira, como quando Deus promete
dez hectares de terra a um homem e lhe dá cem. Tudo consiste nisto:Avida longa
nos é prometida contanto que seja uma bênção. E, mais que isso, a vida longa é
bênção na medida em que dá testemunho de Sua graça – que Ele manifesta aos
Seus servos mil vezes mais quando os leva desta vida.
51. A promessa e o seu reverso
Por outro lado, quando o Senhor promete Sua bênção para a presente vida aos
que forem obedientes a seus pais e a suas mães [honrando-os como ordena o
mandamento], igualmente indica que a Sua maldição cairá sobre todos os que
lhes forem desobedientes. E para que o Seu julgamento seja executado, decreta
em Sua Lei que a justiça lhes seja aplicada. E, se de algum modo escaparem da
mão dos homens, Ele mesmo os punirá, vindicando assim a Sua justiça. Por isso
vemos que muita gente desse tipo morre em guerras, em brigas ou de outra ma-
neira. Sucedem essas coisas de tal modo que se percebe que é Deus quem realiza
essa obra, fazendo-os morrer de forma humilhante. E se alguns conseguem so-
breviver até à velhice, como estão privados da bênção de Deus para esta existên-
cia, outra coisa não fazem senão se consumirem; passam a existência tremenda-
mente abatidos, e são preservados para maiores sofrimentos no futuro. Estão
muito longe de participar das bênçãos da promessa feita aos filhos obedientes.
52. Limitação imposta à nossa obediência aos pais
Para concluir, é necessário anotar resumidamente que só nos é ordenado que
obedeçamos aos nossos pais “no Senhor”, o que ficou claro graças ao fundamen-
to que já estabelecemos.536
Porque eles nos dirigem com a autoridade dada a eles
por Deus, comunicando-lhes uma parte da honra que Lhe é devida. Logo, a sub-
missão que lhes rendemos deve ser como um degrau para nos conduzir à reverên-
cia que se deve a Deus, o soberano Pai. Por essa razão, se os nossos pais quise-
rem levar-nos a transgredir a Lei de Deus, com justiça deixaremos de considera-
los como pais, passando a vê-los como estranhos, pois tentam afastar-nos da
obediência ao nosso verdadeiro Pai.
Sobre a Lei
536
Ef 6.1-3.
208 As Institutas – Edição Especial
O mesmo critério deve ser aplicado com relação aos nossos príncipes, se-
nhores e demais superiores. Sim, porque seria uma coisa muito contrária à razão
que exercessem a sua autoridade para de algum modo rebaixar a sublime alteza
de Deus. Uma vez que dependem da autoridade divina, esta eles devem aumen-
tar, e não diminuir, confirmar e fortalecer, e não violar.
53. O SEXTO MANDAMENTO
NÃO MATARÁS.a
Finalidade do sexto mandamento: Como Deus fez de todo o gênero humano uma
unidade, cada ser humano deve preocupar-se com o bem-estar e com a preserva-
ção de todos os demais. O que significa que o mandamento nos proíbe toda vio-
lência, toda injúria e todo dano com que se possa ferir o corpo do nosso próximo.
Decorre disso que o mandamento determina que façamos o possível para conser-
var a vida do nosso próximo, empregando fielmente os recursos necessários. Para
isso devemos providenciar para o próximo o que lhe for conveniente, e evitar ou
impedir o que lhe for prejudicial. Além disso, devemos ajudá-lo e socorrê-lo
quando estiver em perigo ou em dificuldade.
54. Dimensão espiritual do sexto mandamento
Ora, se temos consciência de que Deus é o Legislador que fala nessa passagem,
devemos entender que ele estende essa regra à nossa alma. Seria ridículo que
Aquele que observa os pensamentos do coração e se fixa principalmente neles, só
instruísse na verdadeira justiça o nosso corpo. Por isso o homicídio que ocorre só
no coração é proibido por este mandamento, como também aqui nos é ordenado
que tenhamos um interesse afetuoso pela conservação da vida do nosso próximo.
Porquanto, se de fato é a mão que executa o homicídio, o coração o concebe
quando contaminado pela ira e pelo ódio.
Pense bem, e veja se você pode ter raiva do seu irmão sem que sinta desejo
de lhe causar dano. Ora, se você não pode enraivecer-se sem sentir esse desejo,
também não pode odiar sem sentir o mesmo desejo, já que o ódio nada mais é que
a raiva que criou raízes e se fixou. Por mais que você procure dissimular e descul-
par-se com rodeios e disfarces, é certo que, havendo ódio e ira, haverá sem dúvi-
da o desejo de causar dano. Se você ainda hesita sobre isso, a Palavra do Senhor
há muito tempo declarou: “Todo aquele que odeia a seu irmão em seu coração é
assassino”.537
E o próprio Senhor Jesus Cristo disse: “Quem odeia a seu irmão
fica sujeito a julgamento”.538
Quem dá sinal de ira contra o seu irmão fica sujeito
a ser condenado pelo tribunal. Quem lhe disser uma palavra ofensiva estará sujei-
to ao inferno de fogo.
537
1Jo 3.15 [tradução direta].
538
Mt 5.22 [tradução direta; ver o contexto imediato].
a
Instrução de 1537: Tu ne tueras point. [No texto: Tu n’occiras point.]
209
55. Dupla base bíblica do sexto mandamento
Há na Escritura duas razões sobre as quais se assenta este mandamento: umaa
é
que o homem é imagem de Deus; a outra é que ele é nossa carne. Portanto, se não
queremos profanar a imagem de Deus, não devemos fazer nenhuma ofensa ao
nosso próximo. E se não queremos desfazer-nos totalmente da nossa humanida-
de, devemos tratar o nosso próximo como a nossa própria carne.
A exortação que se pode obter a respeito do benefício da obra redentora
realizada por Cristo será tratada noutra parte deste livro. Mas o Senhor quis que
considerássemos naturalmente as duas coisas que mencionamos sobre o ho-
mem, as quais nos induzem a fazer o bem a ele: que tratemos com reverência a
imagem de Deus nele impressa, e que com amor cuidemos da nossa própria
carne. Por isso, quem simplesmente se absteve de derramar sangue não é ino-
cente do crime de homicídio. Porque todo aquele que cometer de fato, ou tiver
essa intenção, ou conceber em seu coração algo que vá contra o bem do seu
próximo, Deus o considera homicida. Por outro lado, se não usarmos a possibi-
lidade e a ocasião que se oferece a nós para fazermos o bem ao nosso próximo,
com essa maldade de omissão estaremos transgredindo este mandamento. Ora,
se o Senhor se preocupa tanto com a saúde física de cada um, podemos enten-
der quanto nos obriga a procurar a saúde da alma, nossa e do próximo, incom-
paravelmente mais preciosa para Ele.
56. O SÉTIMO MANDAMENTO
NÃO ADULTERARÁS
A finalidade do sétimo mandamento é a seguinte: Visto que Deus ama a pureza e
a castidade, Ele exige que toda impurezab
esteja longe de nós. Em resumo: que
não nos manchemos com nenhuma imundície ou intemperança ou excessos da
carne. A isso corresponde o mandamento afirmativo, determinando que, em to-
das as nossas ações, a nossa vida seja regrada pela castidade e pela continência.
Mais específica e expressamente, o preceito proíbe todas as formas de pros-
tituição e de dissolução, a que a incontinência leva. Isso porque, pela impureza e
desonestidade, mais visível e mais manifesta na prostituição, o corpo sofre de-
sonra, e somos impelidos pelo mandamento a considerar abominável toda forma
de incontinência ou desregramento.
57. A bênção do casamento
Como o homem foi criado em tal condição que não deve viver solitário, mas
deve ter uma auxiliadora semelhante a ele, quanto mais lembrando que pela maldi-
a
Vê-se a mesma consideração no breve parágrafo da Instrução de 1537.
b
Instrução, 1537: luxure et impudicité.
Sobre a Lei
210 As Institutas – Edição Especial
ção do pecado ele ficou mais sujeito a essa necessidade, o Senhor nos deu um
remédio próprio instituindo o casamento. Depois de estabelecê-lo com a Sua
autoridade, santificou-o com a Sua bênção.a
Isso mostra claramente que toda companhia fora do casamento é maldita di-
ante de dele, e que mesmo a companhia de marido e mulher foi ordenada por Deus
para atender a nossa necessidade, a fim de que não demos rédeas soltas aos nossos
desejos carnais. Não nos gabemos, pois, quando ouvimos dizer que o homem pode
juntar-se a uma mulher fora do casamento sem sofrer a maldição de Deus.
58. O dom da continência
Sendo, pois, que temos dupla necessidade desse remédio, tanto para atender à con-
dição da nossa natureza como para a condição pecaminosa posterior à Queda, ne-
cessidade que todos temos, à exceção daqueles que de Deus receberam graça espe-
cial [1536], cada um considere bem o que lhe é dado. Porque os que não receberam
o dom especial da continência, se não fizerem uso do remédio que lhes é concedido
e oferecido, estarão lutando contra Deus e resistindo ao que Ele ordena.
E que ninguém conteste aqui (o que muitos costumam fazer) alegando que
com a ajuda de Deus pode-se fazer tudo. Porque essa ajuda não é dada senão aos
que caminham em suas veredas, quer dizer, segundo a sua vocação.539
[1539]
Desta se afastam todos aqueles que, recusando os meios que Deus lhes oferece,
com louca temeridade pretendem superar a sua necessidade.
O Senhor declara que a continência é um dom singular e especial,540
dom
que não é dado indistintamente a toda a Sua igreja, mas a um reduzido número
dos seus membros. Porque Ele nos fala de um certo gênero de homem que se
castra pelo reino dos céus; isto é, para dedicar-se mais livremente ao serviço da
glória de Deus. E para que ninguém pense que está em seu poder humano agir
dessa maneira, Ele disse pouco antes que “nem todos são aptos para receber este
conceito, mas apenas aqueles a quem é dado” pelo céu. De onde Ele conclui que
“quem é apto para o admitir admita”. O apóstolo ensina a mesma verdade com
muita clareza quando diz:541
“Cada um tem de Deus o seu próprio dom; um, na
verdade, de um modo; outro, de outro”.
59. O celibato clerical
Pois bem, os nossos sacerdotes, monges e monjas, deixando de lado essa consi-
deração, confiam que são capazes de conter-se. E quem lhes terá revelado que
poderão manter a castidade a vida toda, à qual se obrigam para sempre? Eles
sabem da sentença de Deus no tocante à condição universal dos homens – que
a
Calvino casou-se em Estrasburgo em 1539. Essa frase já se encontra na Instrução de 1537.
539
Sl 91.1,14.
540
Mt 19.11,12.
541
1Co 7.7.
211
“não é bom que o homem esteja só”.542
Eles sabem (e quisera Deus que não o
sentissem) como são ásperos em sua carne os aguilhões da incontinência. Com
que audácia ousam eles rejeitar a vocação geral? Pois o dom da continência é
dado mais vezes em certos períodos, conforme o exija a ocasião. Aqueles que,
com obstinação, não reconhecem que é preciso que Deus os ajude, melhor fariam
se se lembrassem do que está escrito:543
“Não tentarás o Senhor teu Deus”. [1536]
Ora, é tentar a Deus forçar a natureza que Deus nos deu e desprezar os meios que
Ele nos oferece, como se não tivessem nada que ver conosco.
Esses tais, além de agirem dessa forma, não se acanham de dizer que o
nome do casamento é corrupção. Entretanto, o nosso Senhor não considerou o
casamento como uma instituição indigna da Sua divina majestade; declarou-o
“digno de honra entre todos”;544
e Jesus Cristo o santificou com a Sua presença e
o honrou com a realização do Seu primeiro milagre.545
Eles fazem isso unicamente para valorizar o seu estado, na manutenção do
qual se abstêm do casamento; como se a própria vida que eles levam não se
mostrasse coisa muito diferente da abstenção do casamento e da virgindade! E,
todavia, eles têm o descaramento de dizer que a sua vida é angélica. O que certa-
mente fazem com isso é grande ofensa aos anjos de Deus, com os quais esses tais
comparam seres humanos dissolutos, adúlteros e até piores! E de fato não há
necessidade de grandes argumentos, porque a verdade os acusa e os convence.
Porque não podemos ver com os nossos olhos por quantos e quão horríveis casti-
gos o nosso Senhor pune esse arrogante desprezo dos Seus dons; [1539] e vergo-
nhoso será descobrir o que deles está oculto, sendo que a metade já é muito, e o
próprio ar o denuncia.
60. Falso suporte bíblico para o celibato clerical
Eles têm um recurso para mostrar que os sacerdotes não devem casar-se. É que se
proibia aos sacerdotes levíticos que coabitassem com as suas respectivas mulhe-
res antes de eles se aproximarem do altar. Exigência feita para que oferecessem
com maior pureza os seus sacrifícios. Alegam que com maior razão os sacramen-
tos do cristianismo não devem ser administrados por pessoas casadas. Como se o
ofício ou a função do ministério evangélico fosse a mesma do sacerdócio levítico!
Contrariamente, os sacerdotes levíticos representavam a Pessoa de Jesus Cristo,
que, sendo o Mediador de Deus e dos homens, iria reconciliar-nos com o Pai por
Sua pureza perfeita em todos os seus aspectos.
Ora, como é fato que eles, sendo pecadores como são, não podem
corresponder em tudo e perfeitamente à santidade, para de algum modo representá-
la figuradamente, era-lhes ordenado que se purificassem de forma superior à do
542
Gn 2.18.
543
Mt 4.7.
544
Hb 13.4.
545
Jo 2.2.
Sobre a Lei
212 As Institutas – Edição Especial
costume humano, quando lhes cabia aproximar-se do santuário, de modo que
pudessem então levar em si, de maneira apropriada, a figura de Cristo. Pois era o
que faziam quando, na qualidade de mediadores, compareciam diante de Deus,
em nome do povo, no tabernáculo, que era como uma imagem do trono celestial.
Pois bem, como os pastores, os ministros da igreja, não têm mais aquele ofício
e aquela representação pessoal, a comparação acima feita não é nem oportuna nem
própria.Por isso o apóstolo, sem abrir nenhuma exceção, afirma que o casamento é
“digno de honra entre todos”546
e que Deus punirá todos os dissolutos e adúlteros.
61. A insolência da obrigatoriedade do celibato clerical
É preciso acrescentar que é uma afronta insolente exigirem eles a castidade como
coisa necessária e indispensável. Com essa atitude eles causaram grande opró-
brio à igreja antiga, a qual, tendo sido excelente na pureza da sua doutrina, via-se
ainda mais excelente pelo ornamento da santidade. Que dirão os nossos oponen-
tes, clamo a vocês, leitores, que me respondam – sim, que dirão eles de todos os
antigos pais, que não somente toleraram o casamento dos bispos, mas também o
aprovaram? Teriam eles profanado os mistérios de Deus? Pois, segundo a opi-
nião desses clérigos atuais, aqueles pais não trataram com a devida pureza os
mistérios de Deus.
É verdade que esta matéria foi discutida no Concílio de Nicéia,a
e (como
sempre se encontram alguns supersticiosos que em seus devaneios sonham com
alguma nova fantasia para virem a ser admirados por isso), houve quem quisesse
proibir o casamento aos ministros. Mas, qual foi a decisão que ali se tomou? Foi
aprovada a proposta de Paphnutius. Este declarou que a castidade é a coabita-
ção do homem com a sua mulher. [Grifo do tradutor.]
Assim, o casamento permaneceu integralmente, e não foi considerado como
algo desonroso para os bispos já casados. Tampouco se considerou o casamento
como uma mancha para o ministério. Igualmente, os pais que viveram em perío-
dos posteriores, à exceção de Jerônimo, não foram muito contrários ao reconhe-
cimento da santidade do casamento. Contentamo-nos em citar o testemunho de
Crisóstomo, visto que não é suspeito de ter favorecido demais o casamento. Ao
contrário, ele estava muito inclinado a prezar e a engrandecer a virgindade.
Pois bem, eis como fala Crisóstomo: “O primeiro degrau da castidade é a
virgindade imaculada. O segundo é o casamento mantido com fidelidade”. Essa
declaração afirma, pois, que o amor do marido e da sua mulher, quando ambos
vivem bem no casamento, é uma segunda espécie de virgindade.
Agora, se os casados reconhecem que a sua vida conjugal é abençoada por
Deus, devem sentir-se admoestados a não contaminá-la pela intemperança dissoluta.
546
Hb 13.4.
a
Reunido em 325.
213
62. Casamento não é licença ilimitada
Consideremos, pois, que, se a honestidade do casamento nos protege da vergo-
nhosa incontinência, não significa que deva dar lugar à incitação. [1536] Portan-
to, os casados não devem pensar que todas as coisas lhes são lícitas, mas cada
homem deve conduzir-se sobriamente para com a sua mulher, e, reciprocamente,
a mulher para com o seu marido, governando-se ambos de tal maneira que não
façam nada que seja contrário à santidade do casamento. [1539] Porque é assim
que o casamento deve ser regrado, e essa modéstia e essa moderação devem ser o
fruto natural da ordenança de Deus, jamais passando dos limites e se transfor-
mando em dissolução.
63. Quem é o legislador?
Finalmente, devemos considerar quem é o legislador que condena pensamentos e
atos dissolutos. É Deus, o Senhor absoluto sobre nós. Portanto, Ele tem todo o
direito de exigir de nós integridade do corpo, da alma e do espírito. Quando, pois,
Ele proíbe o adultério, proíbe também qualquer atitude nossa que tenda a induzir
os outros ao mal, seja por roupas que incitem a lascívia, seja por gestos e modos
obscenos, seja por palavras pecaminosas e mal intencionadas. Com relação a este
ponto, um filósofo chamado Arquelau disse a um jovem elegantemente vestido,
envergando traje fino, que ele era uma coisa só e que, por isso, não importava que
parte do seu corpo mostrava a sua indignidade insolente. Essa advertência, digo
eu, tem a aprovação de Deus, para quem é abominação toda impureza, em qual-
quer parte, quer da alma quer do corpo. E para que ninguém duvide dessa verda-
de, consideremos que, neste mandamento, Deus nos recomenda categoricamente
a castidade. Como Ele a ordena, condena tudo o que a contrarie.
Por tudo isso, se desejarmos obedecer ao sétimo mandamento, será neces-
sário que o coração não se abrase interiormente de cobiça libidinosa, que o olhar
não seja impudico, que o rosto e o corpo não sejam enfeitados com maquiagem e
outros atrativos provocantes, que a língua não diga palavras que induzam maus
pensamentos, e que a boca não se deixe mover pela intemperança para sugerir a
luxúria. Porque todos esses atos e gestos viciosos são verdadeiras manchas que
maculam e enlameiam a continência, a castidade e a pureza.
64. O OITAVO MANDAMENTO
NÃO FURTARÁS
A finalidade do oitavo mandamento é que se dê a cada um o que lhe pertence,
visto que Deus repudia toda injustiça. O resumo é, pois, que este preceito nos
proíbe querer e buscar para nós os bens alheios e, por conseguinte, ordena que
nos empenhemos em fielmente conservar com cada um os seus respectivos bens.
Sobre a Lei
214 As Institutas – Edição Especial
Porque temos o dever de considerar que o que cada um possui não lhe veio por
acaso, mas, sim, pela distribuição feita por Deus. Por essa razão, não se pode
tomar fraudulentamente as riquezas ou as posses de ninguém, sem violar a distri-
buição divina.
65. Diferentes categorias de furtos e roubos
Agora, há muitas espécies de ladrões.a
Um age com violência quando, pela força
e com uma quadrilha ou algo parecido, ataca e pilha o bem alheio. Outro age com
fraude e malícia, enganando e furtando o próximo com muita cautela. Outro,
com astúcia ainda mais encoberta por disfarces, fingindo direito e justiça, priva o
seu semelhante dos bens que a este pertencem. Outro, com lisonjas e belas pala-
vras, e a título de doação, consegue para si o que deveria pertencer a outro.
Mas não tomemos muito tempo fazendo listas das diferentes classes de
furtos e roubos. Notemos, em resumo, que todos os meios utilizados pelos ho-
mens para enriquecimento com prejuízo de outros, afastando-se da sinceridade
cristã, que deve ser mantida com carinho, e agindo com fingimento e astúcia,
enganando e prejudicando o próximo – os que assim procedem devem ser consi-
derados ladrões. Embora os que agem desse modo muitas vezes ganhem na
defesa da sua causa diante do juiz, Deus não os considerará como outra coisa
senão ladrões. Porque ele vê as armadilhas que pessoas da alta sociedade de
longe armam para pegar gente simples em suas redes; Ele vê os pesados impos-
tos e taxas que os grandes da terra impõem aos pequenos, para oprimi-los; Ele vê
como são venenosas as lisonjas utilizadas por aqueles que querem destruir o
próximo por meio de mentiras e outras formas de falsidade. Essas coisas geral-
mente não chegam ao conhecimento dos homens.
66. Transgressões sutis do oitavo mandamento
Além disso, transgressão deste mandamento não é só prejudicar alguém quanto a
dinheiro, comércio ou direito de propriedade, mas também quanto ao não atendi-
mento a qualquer dever nosso e a qualquer direito do próximo. Porque tanto
defraudamos o nosso próximo usurpando os seus bens como lhe negando os ser-
viços que lhe devemos prestar. Assim, se um procurador ou mordomo ou admi-
nistrador, em vez de zelar dos bens entregues aos seus cuidados, viver na ociosi-
dade, sem se preocupar com o seu dever de procurar o bem daquele que lhe dá o
sustento; se desperdiçar ou empregar mal o que lhe foi confiado, ou o gastar em
coisas supérfluas; se o empregado zombar do seu chefe ou patrão, se divulgar os
seus segredos, ou se planejar algo contra os bens dele ou contra a sua reputação
ou contra a sua vida;547
se, por outro lado, o chefe ou patrão ou pai tratar desuma-
a
Distinções resumidas em 1536, inexistentes na Instrução de 1537.
547
Rm 13;1Pe 2; Tt 3.
215
namente os seus subordinados ou a sua família, para Deus é um ladrão. Porque,
aquele que não pratica o que a sua vocação o manda fazer pelos outros, com isso
retém o que pertence a outros.
67. Como obedecer deveras ao oitavo mandamento
Portanto, eis como obedeceremos a este mandamento: Se, estando satisfeitos
com a nossa situação, só nos dedicarmos à obtenção de algum ganho mediante
atividade legítima e honesta; se não desejarmos enriquecer-nos à custa de pre-
juízo alheio; se não planejarmos destruir o nosso próximo tomando os seus
bens; se não usarmos as nossas habilidades para juntar riquezas com o suor e o
sangue alheios; se não aplicarmos os nossos esforços por toda parte e por todos
os meios, fazendo o máximo possível para satisfazer à nossa avareza ou para
gastar os nossos ganhos em coisas supérfluas.
Mas, ao contrário, positivamente, se tivermos como objetivo ajudar quanto
pudermos o nosso próximo a conservar os seus bens, já dando a ele conselhos, já
lhe dando auxílio substancial e prático; e se, ao termos que tratar com gente ruim,
falsa, mentirosa, estivermos mais dispostos a ceder-lhes os nossos direitos do que
a combatê-los com as mesmas armas da astúcia perversa. E não somente isso,
mas também, se virmos alguém sofrendo a opressão da pobreza, entrarmos em
contato com ele em sua indigência, e da nossa abundância lhe dermos socorro
para suprir a sua necessidade.
Finalmente, que cada um veja bem quais são os seus deveres de ofício para
com os outros, e procure cumpri-los lealmente. [1536] Sendo assim,a
o povo
honrará os seus superiores, terá boa vontade em submeter-se a eles de coração,
obedecerá a suas leis e a suas normas, e não se negará a nada que possa fazer sem
ofender a Deus.
Por outro lado, os superiores estarão cumprindo este mandamento se exer-
cerem a sua autoridade cuidando do povo com bondosa solicitude, mantendo a
paz em toda parte, defendendo os bons, castigando os maus – enfim, adminis-
trando todas as coisas com a vívida consciência de que terão que prestar contas a
Deus, o Juiz soberano.548
68. Aplicações finais do oitavo mandamento
Que os ministros da igrejab
ensinem fielmente a Palavra de Deus, não pervertendo
a doutrina da salvação, mas mantendo a sua pureza. E que não somente instruam o
povo com boa doutrina, mas também a exemplifiquem com a sua vida. Em resumo,
548
Dt 17.14-20; 2Cr 19.
Sobre a Lei
a
Esse parágrafo vinha colocado em 1536 junto com todas as citações bíblicas, no fim da explicação do 10º.
mandamento, com este preâmbulo: “Quod vero aliena concupiscere prohibemur, huc etiam referri debet, ut
pro sua quisque vocatione partibus suis fungatur, et alteri quod officii sui est, præstet (Ephes. 4)”.
b
1536: episcopi et ecclesiarum ministri.
216 As Institutas – Edição Especial
que eles presidam como bons pastores sobre as suas ovelhas.549
Por sua vez, que o
povo os receba como mensageiros e apóstolos de Deus, e lhes prestem a honra que
o nosso Senhor lhes atribui; e supram-nos do necessário para o seu sustento.550
Que os pais se dediquem a alimentar, instruir e dirigir os seus filhos, pois
Deus os encarregou desses deveres. Que não os tratem com demasiado rigor, para
que eles não se desanimem. Tratem-nos com a brandura e a bondade adequadas à
personalidade de cada um deles. E que, por sua vez, os filhos, como já dissemos,a
tratem seus pais com a reverência e a submisso que lhes devem.551
Que de igual modo os jovens tratem honrosamente os idosos, pois esta é a
vontade do Senhor. E que os idosos se esforcem para dirigir os jovens com a sua
prudência, que lhes vem da sua experiência. Não sejam excessivamente rigoro-
sos, mas usem a severidade temperada com a suavidade e a tolerância.
Que os servos sejam diligentes e prestativos para com os seus senhores, pro-
curando agradá-los com o seu serviço – não somente quando vistos por eles, mas
também de coração, como estando servindo a Deus. Que os senhores não sejam
muito duros e intratáveis com os seus servos, oprimindo-os com excessivo rigor ou
tratando-os de maneira insultuosa. Ao invés disso, que os reconheçam como ir-
mãos e companheiros no serviço de Deus,b
a fim de lhes dar tratamento humano.552
Em suma, cada um, conforme a sua vocação e a sua posição, verifique o que
deve a seu próximo, e cumpra o seu dever.
Acrescente-se que devemos sempre dirigir o nosso pensamento ao Legisla-
dor para lembrar-nos de que esta regra foi ordenada tanto para o corpo como para
a alma. Nesse sentido, cada um aplique a sua vontade a conservar e promover o
bem e a utilidade de todos os homens.
69. [1539] O NONO MANDAMENTO
NÃO DIRÁS FALSO TESTEMUNHO CONTRA O TEU PRÓXIMO.c
Por este mandamento Deus, que é a verdade, e que detesta a mentira, obriga-nos
a dizer e manter a verdade sem fingimento. O sumário disso é que não prejudi-
quemos a reputação de ninguém com calúnias ou boatos, nem lhe causemos dano
com relação a seus bens com falsas acusações. Enfim, que não prejudiquemos
ninguém com calúnias ou com zombaria. A essa proibição corresponde este pre-
ceito afirmativo: Que nos ajudemos uns aos outros com fiel constância a manter
a verdade, para a preservação quer dos bens, quer da reputação uns dos outros.
549
1Tm 3; 2 Tm 2 e 4; Tt 1; 1Pe 5.
550
Mt 10; Rm 10 e 15; 1Co 9; Gl 6; 1Ts 5; 1Tm 5.
a
Pouco acima, a explicação do 5º. mandamento.
551
Ef 6.1,2; Cl 3.20.
b
1536: ejusdem Domini, qui in cœlis est, conservos.
552
Ef 6; 2Co 8; Cl 3; Tt 2; 1Pe 2; Fm.
c
Instrução de 1537: Tu ne dirás point faulx tesmoignage.
217
70. Deus detesta e proíbe a mentira,
a falsidade e a maledicência
Vê-se que o nosso Senhor quis expor o sentido deste mandamento no capítulo 23
de Êxodo, dizendo: “Não espalharás notícias falsas, nem darás mão ao ímpio,
para seres testemunha maldosa”. E mais: “Da falsa acusação te afastarás”.553
E
noutra passagem Ele não somente proíbe que sejamos mexeriqueiros, caluniadores
e maledicentes, mas também que não iludamos o nosso irmão, porque Deus pro-
íbe expressamente essas coisas.554
Sem dúvida nenhuma, como nos mandamentos que acima estudamos Ele
quer suprimir a crueldade, o despudor e a avareza, aqui, no nono mandamento,
Ele quer reprimir a falsidade, que, como dissemos, tem duas partes. Porque, fa-
lando mal do nosso próximo, prejudicamos a sua reputação, e com mentiras e
palavras mal intencionadas impedimos a sua prosperidade.
Ora, pouco importará se aqui se entender que o mandamento se refere ao
juramento público e solene que se faz no tribunal, ou do que se faz vulgar e
privadamente entre as pessoas. Pois é preciso recordar sempre o que já dissemos
– que de cada gênero de práticas maldosas ou viciosas o nosso Senhor apresenta
uma como exemplo, com a qual devemos relacionar todas as demais.Além disso,
Ele escolhe a que se mostra mais vil e vergonhosa. Embora eu prefira tomar este
mandamento de modo geral, não deixa ele de incluir o fato de que o falso teste-
munho dado na justiça nunca está isento de perjúrio – do qual já falamos quando
tratamos do terceiro mandamento, na primeira tábua do Decálogo.
71. Deus ama e exige a verdade, a eqüidade, a justiça
Vemos agora que, para a correta observância deste preceito, é preciso que a nossa
língua fale a verdade sobre o nosso próximo, de modo que colaboremos para que
ele mantenha o seu bom nome e os produtos do seu trabalho. Que são aspectos
eqüitativos é evidente,a
porque, se a boa reputação é mais preciosa que qualquer
tesouro, como é,b
não causamos menos prejuízo a um homem quando o privamos
do seu bom nome do que quando o despojamos dos seus recursos materiais. Como
também às vezes se faz mais dano ao próximo pela mentira do que pelo roubo.
Todavia, é de espantar como os homens agem contra este mandamento sem
nenhuma preocupação! Bem poucos são os que não estão gravemente envolvidos
nesse vício. Pois todo o mundo gosta de investigar e descobrir os vícios dos
outros. E ninguém pense que é escusa suficiente não mentir; porque Aquele que
nos proíbe infamar o próximo com mentiras também quer que a sua reputação
553
Êx 23.1,7.
554
Lv 19.16,17.
Sobre a Lei
a
ut æqui interpretes, diz 1536, que cita Mt 7; Rm 13 e 14.
b
O provérbio mais habitual diz: que ceinture dorée (que cinto de ouro).
218 As Institutas – Edição Especial
seja mantida, desde que se possa fazer isso com pleno uso da verdade. Porquanto,
embora não proíba senão causar prejuízo pela mentira, contudo está implícita a
referida recomendação em favor da reputação do nosso próximo. Ora, deveria sr
mais que suficiente para nós o fato de vermos que o nosso Senhor tem esse zeloso
interesse em que o nosso próximo não seja difamado.
72. Condenada a detração, a maledicência
Pelo que acima foi dito, vê-se que neste mandamento todas as formas de detração
ou maledicência são indubitavelmente condenadas.
Por detração entendemos, não a repreensão que se faz para corrigir o faltoso;
nem a denúncia ou acusação judicial, que é feita com o objetivo de remediar
males; nem a ação disciplinar pública, que se aplica a quem a mereça para inspi-
rar temor aos demais; nem tampouco a advertência feita por causa da maldade de
alguém, advertência que visa a preparar os que dela precisam saber para que não
sejam enganados. Mas por detração nos referimos à injúria odiosa, isto é, à falsa
e revoltante denúncia que é feita por maldade ou por maledicência.
73. Elogios falsos, lisonjas e outras hipocrisias sociais...
Ademais, este mandamento abrange também esta proibição: Que não façamos
brincadeiras com o nosso próximo, aparentando amabilidade, e gracejando en-
quanto zombamos dele e o mordemos,a
rindo uns para os outros, como fazem
alguns que se enchem de prazer quando conseguem deixar alguém envergonhado
em público; porque muitas vezes esse abuso deixa a sua marca nos que assim
foram ridicularizados.
Agora, se pensamos no Legislador, cujo senhorio se impõe tanto sobre a lín-
gua como sobre o ouvido e o coração, entenderemos que este mandamento proíbe,
não somente o uso da língua para a maledicência, mas também, e com igual peso,
o desejo e a prontidão para ouvir e crer os boatos e os comentários maldosos sobre
o próximo. Porque seria ridicularizar a Deus dizer que Ele detesta o vício da male-
dicência e que não condena a maldade que no coração lhe dá origem.
Portanto, se temos verdadeiro temor de Deus e se Lhe votamos vero amor,
façamos todo o possível, empregando todos os meios que estiverem ao nosso
alcance, quanto estiver dentro dos limites da caridade cristã, para não ouvir nem
falar nada que contenha ou incentive blasfêmia, e nenhuma difamação ou palavra
insultuosa; como também façamos todo o possível para não dar facilmente ao
nosso coração azo e lugar para suspeitas maldosas. Em vez dessa atitude perver-
sa, procuremos dar bom sentido ao que os outros dizem e fazem, e empenhemo-
nos em manter integralmente a honra e a boa reputação do nosso próximo.
a
scurrilem urbanitatem, diz 1536, que cita Sl 5; Mt 12; Ef 4 e 5.
219
74. [1539] O DÉCIMO MANDAMENTO
NÃO COBIÇARÁS A CASA DO TEU PRÓXIMO. NÃO COBIÇARÁS A MULHER DO
TEU PRÓXIMO, NEM O SEU SERVO, NEM A SUA SERVA, NEM O SEU BOI, NEM O
SEU JUMENTO, NEM COUSA ALGUMA QUE PERTENÇA AO TEU PRÓXIMO.a
Eis a finalidade do décimo mandamento: Visto que Deus quer que a nossa alma
esteja dominada pelo amor e pela caridade, e que de amor transborde, devemos
afastar do nosso coração todo desejo que seja contrário ao amor e à caridade. Em
resumo, o que o mandamento preceitua é o seguinte: Que não acolhamos nenhum
pensamento que possa induzir o nosso coração a alguma concupiscência ou cobi-
ça que leve o nosso próximo a sofrer algum dano ou prejuízo. Por outro lado, a
isso corresponde o preceito afirmativo. Este determina que tudo o que imaginar-
mos, deliberarmos, desejarmos ou buscarmos esteja em harmonia com o bem do
nosso próximo e com o que lhe é útil e proveitoso.
75. Diferença entre intenção e cobiça
Há, porém, aqui uma grande dificuldade. Porque, se é verdade o que dissemos
acima, que o nosso Senhor, proibindo o adultério e o furto, com isso proibiu o
despudor e todo desejo de causar dano, enganar e roubar, parece supérfluo proi-
bir agora, separadamente, o cobiçoso desejo dos bens alheios.
Todavia, podemos resolver facilmente essa questão considerando a diferença
que existe entre propósito e concupiscência. Chamamos propósito a intenção deli-
berada da vontade,b
quando o coração do homem é vencido e subjugado pela tenta-
ção. A concupiscência ou cobiça pode ocorrer sem essa deliberação ou consenti-
mento, quando o coração é apenas afagado e incitado a praticar alguma maldade.
Lembremo-nos de que, assim como acima se viu que o Senhor quer que os
desejos, projetos e atos dos homens sejam moderados pela regra da caridade,
assim, no presente contexto, Ele quer que os nossos pensamentos sejam também
submetidos à mesma regra, de modo que nada incite o nosso coração a agir con-
tra a caridade. Antes o Senhor proibiu que o coração se deixasse levar por estes
males – a ira, o ódio, o adultério, o furto e a mentira; agora proíbe que seja a isso
provocado ou incitado.
Não é sem motivo que Deus exige tão grande retidão interior. Porque, have-
rá quem negue que todos os poderesc
da alma devem ser vinculados à caridade e
estar a seu serviço? E se algum desses poderes não for exercido dessa forma,
quem negará que assumiu caráter mau e vicioso?d
Ora, o que explica que entre
Sobre a Lei
a
É exatamente o texto da Instrução de 1537.
b
deliberata voluntatis consensio.
c
potentias.
d
De fato, o pelagianismo o nega, mas não quer reconhecer como pecado senão o ato voluntário, deliberadamente
formado. A teologia católica romana reconhece que as disposições contrárias à lei de Deus têm caráter de
220 As Institutas – Edição Especial
em seu entendimento algum desejo prejudicial a seu próximo, senão que você
negligencia os seus semelhantes e só se preocupa consigo mesmo e com o pro-
veito que possa colher para si próprio? Porque, se todo o teu coração fosse toma-
do pelo amor cristão, nenhuma dessas imaginações nocivas entraria nele. Logo, é
preciso dizer que, estando o coração vazio de amor cristão, de caridade, acolhe
tais concupiscências.
76. Réplica suspeita
Alguém contestará que, todavia, não é razoável que as fantasias que rodopiam no
cérebro e logo se desvanecem sejam condenadas como concupiscências, as quais
têm a sua sede no coração. Respondo que aqui se trata das fantasias que, [apesar de
fantasias ou imaginações], não somente passam pelo cérebro, mas também pene-
tram no coração com a sua concupiscência. Porque jamais podemos ter no pensa-
mento algum desejo sem que o coração seja tocado e inflamado por esse desejo.
O nosso Senhor exige, pois, um extraordinário ardor de caridade que não
seja dificultado ou impedido nem pelo menor resquício de concupiscência. Ele
exige um coração maravilhosamente equilibrado e que não seja incitado contra a
lei da caridade ou do amor cristão por nenhum aguilhão, por nenhum tipo de
estímulo pecaminoso.
Para que ninguém pense que só eu tenho essa opinião, confesso que Agos-
tinho me abriu o caminho para que eu chegasse a entender o preceito que estamos
analisando. Se bem que a intenção de Deus seja proibir toda cobiça pecaminosa,
contudo colocou como exemplo os objetos que mais nos atraem e seduzem.Agindo
assim, Ele não faz nenhuma concessão à cobiça do homem, quando o afasta das
coisas às quais ele se sente mais inclinado.
77. Conclusão da segunda tábua e do Decálogo
Aí temos, pois, a segunda tábua da Lei, que nos ensina e nos admoesta ampla-
mente quanto ao que devemos aos homens por amor a Deus, no qual se baseia a
caridade cristã. Por esse motivo, seria pura e vã exibição querer inculcar as ver-
dades ensinadas nesta segunda tábua sem que, primeiro, essa doutrina fosse ou
estivesse firmada no temor de Deus e na reverência a Ele, como seu fundamento.
78. Definidas a intenção e a finalidade da Lei
Nesta altura não é difícil saber qual é o objetivo da Lei, a saber, uma justiça
perfeita,a
de modo que a vida do homem se conforme à pureza de Deus como a
pecado. Mas, no sentido próprio do termo, o pecado sempre consiste em um ato voluntário. Mais adiante se
verá que Calvino faz consistir o pecado em toda falta de conformidade com a lei de Deus, quer essa falta se
exprima num ato, numa disposição, ou num estado de alma.
a
1536: ad docendam caritatem. O que se segue pode-se comparar com a obra Betbüchlein de Lutero, edição
de Weimar, 1011, p. 387 (25) a 388 (18).
221
um modelo. Porque o nosso Senhor retratou a Sua natureza de tal maneira na Lei
que, se alguém cumprisse o que nela é ordenado, representaria em sua vida a
imagem de Deus. Por isso Moisés, querendo manter resumidamente na memória
do povo de Israel os mandamentos da Lei de Deus, disse e escreveu:555
“Agora,
pois, ó Israel, que é que o Senhor requer de ti? Não é que temas o Senhor, teu
Deus, e andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor, teu Deus,
de todo o teu coração e de toda a tua alma, para guardares os mandamentos do
Senhor...?”. E não cessava de repetir aos israelitas isso, toda vez que desejava
fazê-los rever a finalidade da Lei. Eis aqui o que a doutrina da Lei tem em vista:
Unir o homem pela santidade de sua vida a Deus; e, como diz Moisés noutra
passagem,556
levá-lo apegar-sea
a Deus.
79. O amor é o resumo por excelência da Lei
O cumprimento da santidade visada pela Lei de Deus consiste nestes dois arti-
gos: (1) Que amemos o Senhor, o nosso Deus, de todo o nosso coração, de toda a
nossa alma e de todo o nosso entendimento; (2) Que amemos o nosso próximo
como a nós mesmos.557
Portanto, o primeiro determina que a nossa alma esteja
repleta do amor de Deus, e daí decorre o nosso amor fraterno ao nosso próximo.
É como entende o apóstolo Paulo, como se vê por suas palavras, quando ele
declara que a finalidade da admoestação da Lei é “o amor que procede de coração
puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia558
”; temos aí como a boa cons-
ciência e a fé, ou seja, a piedade e o temor de Deus, são colocados logo acima
como constituindo a cabeça, e a seguir se deduz a caridade cristã.
80. A Lei não é simplesmente elementar
Seria, pois, uma insensatez pensar que a Lei só ensina certos rudimentos da jus-
tiça, apenas para introduzir os homens num começo, e não para os conduzir em
todo o reto caminho. Isto se evidencia pelo fato de que nem sequer saberíamos
desejar maior perfeição que a que se contém na sentença de Moisés e na de Pau-
lo, acima citadas. Porque, aonde irá aquele que não se contentar com esta doutri-
na? Pois por ela o homem é ensinado e formado no temor de Deus, no culto
espiritual – pelo qual adora a Sua divina majestade –, na obediência aos manda-
mentos, na retidão de Deus e do Seu caminho, e, finalmente, na pureza de cons-
ciência, na sinceridade da fé, e no amor fraterno. Razão pela qual é confirmada a
exposição que fizemos, quando reduzimos aos mandamentos da Lei tudo o que
se requer da piedade e da caridade.
Sobre a Lei
a
cohærere.
555
Dt 10.12,13.
556
Dt 11.22. [Ver também 30.20.]
557
[Dt 6.5; 11.13; Lv 19.18]; Mt 22.37-39].
558
1Tm 1.5,7.
222 As Institutas – Edição Especial
Porquanto, os que se apegam a sabe-se lá quais elementos,a
como se a Lei
ensinasse a metade da vontade de Deus, não entendem bem a finalidade da mes-
ma, como diz o apóstolo Paulo. Entretanto, como Cristo e os Seus apóstolos às
vezes, ao citarem resumos da Lei, não fazem menção da primeira tábua, é preciso
dizer algo a respeito, porque muitos se perdem nisso, ligando ditas palavras a
toda a Lei, quando na verdade elas dizem respeito à metade. Cristo, no Evange-
lho Segundo Mateus,559
declara que a Lei consiste principalmente na “justiça, a
misericórdia e a fé”. Não há dúvida nenhuma de que com a palavra fé Ele se
refere à verdade. No entanto, para estenderem a sentença citada à Lei toda, alguns
tomam a palavra fé no sentido de religião. Argumento frívolo, porque nessa passa-
gem Cristo fala das obras pelas quais o homem deve demonstrar a sua justiça.
Se dermos a devida atenção a esse ponto, não ficaremos maravilhados, por-
que noutra passagem, interrogado sobre quais são os mandamentos que o homem
deve guardar para poder entrar na vida eterna, Ele respondeu que são os seguintes:
“Não matarás, não adulterarás, não furtarás,não dirás falso testemunho; honra a teu
pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo”.560
Porque a observância
da primeira tábua está situada, ou no afeto interior do coração, ou nas cerimônias.
O afeto do coração não aparece, não se vê; as cerimônias eram observadas mais
diligentemente pelos hipócritas do que por todos os outros; são, pois, as obras
realizadas por verdadeira caridade que dão um indiscutível testemunho da justiça.
81. A alta valorização da segunda tábua não a
coloca como superior à primeira?
Mas alguém perguntará: Se, para a obtenção da justiça, viver retamente e com
lealdade entre os homens é mais importante que o temor de Deus e a honra que se
Lhe presta pela piedade? A isso respondo que não. Mas, como ninguém pode
exercer completamente a caridade sem que antes tenha ou passe a ter temor de
Deus, a própria piedade do homem é comprovada por suas obras de caridade.
Ademais, como não é possível que Deus receba de nós algum benefício, como
diz o profeta,561
Ele não exige que façamos boas obras em Seu benefício, mas nos
concita à prática das boas obras em favor do nosso próximo. Pelo que não é sem
motivo que o apóstolo Paulo concentra toda a perfeição dos crentes na carida-
de.562
E noutra passagem ele nos chama para o cumprimento da Lei dizendo que
“quem ama o próximo tem cumprido a lei”.563
E logo a seguir ele declara que
“tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.564
Ora,
a
arida jejunaque elementa.
559
Mt 23.23.
560
Mt 19.18.
561
Sl 16.1-3.
562
Ef 1.15; [3.19; Cl 3.14].
563
Rm 13.8.
564
[Rm 13.9]; Gl 5.14.
223
o apóstolo não ensina mais que o que o Senhor o faz quando diz: “Tudo quanto,
pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque
esta é a lei e os profetas”.565
Certamente tanto a Lei como os Profetas dão o primeiro lugar à fé e à reve-
rência ao nome de Deus; e colocam logo o amor ao próximo em segundo lugar.
Mas o Senhor entende que a Lei nos manda guardar o direito e a eqüidade para
com os homens a fim de testificarmos o temor de Deus, se de fato o temos.
82. O amor ao próximo
Firmemo-nos, então, neste fato: A nossa vida estará em conformidade com a
vontade de Deus e com o que a Lei ordena se, em todos os aspectos, for proveito-
sa para os nossos irmãos. [1536] Ao contrário, em toda a Lei não se lê nem
sequer uma sílaba que ofereça ao homem uma regra sobre o que ele deve fazer ou
deixar de fazer em seu próprio proveito. E como é certo que os homens são, por
natureza, muito mais propensos a amar a si mesmos do que seria justo, não foi
necessário dar-lhes mandamento para inflamá-los mais nesse amor, que já por si
vai além da medida. Disso fica evidente que, não o amor a nós mesmos, mas o
amor a Deus e ao próximo é que constitui o cumprimento dos mandamentos da
Lei; e que, portanto, cumpre a Lei aquele que vive retamente e o menos possível
para si mesmo; por outro lado, conclui-se também que ninguém tem pior vida e
mais desordenada que aquele que vive só para si mesmo e que só pensa no seu
proveito pessoal.
Mesmo o Senhor, para mostrar melhor a virtude do amor que devemos ter
pelo nosso próximo, remete-nos ao amor de cada um por si mesmo, e o apresenta
como regra e modelo. Expressão que devemos considerar cautelosa e diligente-
mente, porque não devemos entender essa analogia como os sofistas, que acha-
vam que Deus manda cada um amar a si mesmo em primeiro lugar, e depois, o
seu próximo. O que na verdade Deus manda é transferir para os outros o amor
que temos por nós mesmos. Por isso diz o apóstolo que o amor não procura o seu
interesse particular.566
E não tem valor nenhuma
a razão que alegam, a saber, que
a regra precede e é superior àquilo que por ela é regrado. Ora, dizem eles, o nosso
Senhor subordina ao amor a nós mesmos o amor ao nosso próximo. Minha res-
posta é que o nosso Senhor não faz do nosso amor a nós mesmos uma regra à qual
se deve reduzir o amor ao nosso próximo como inferior. Antes, em vez de, por
nossa perversidade natural, fixarmos o nosso amor em nós mesmos, Ele mostra
que é necessário que se expanda e abranja as outras pessoas, a fim de que esteja-
mos dispostos a fazer o bem aos outros como a nós mesmos.
565
Mt 7.12.
566
1Co 13.5.
Sobre a Lei
a
nec pili æstimanda.
224 As Institutas – Edição Especial
83. Quem é o meu próximo?
Acrescente-se que, na parábola do “bom samaritano”,567
Jesus Cristo demonstrou
que mesmo a pessoa mais estranha é nosso próximo. Assim, não há razão para
restringirmos o mandamento do amor aos que têm algum tipo de afinidade ou
aliança conosco. Não nego que quanto mais unidos estivermos a alguma pessoa,
com maior cuidado familiar devemos ajudá-la. Porque a própria norma da natu-
reza determina que, quanto mais estreitamente ligados estivermos por laços de
parentesco, ou de amizade, ou de vizinhança, tanto mais devemos fazer uns pelos
outros; e isso não ofende a Deus, cuja providência nos leva a proceder dessa
forma. Entretanto, o que afirmo é que devemos incluir em nosso amor caridoso
todos os seres humanos em geral,a
sem nenhuma exceção, sem fazer diferença
entre gregos e bárbaros, sem considerar se são dignos ou indignos, sejam amigos
ou inimigos; porque todos devem ser considerados em Deus, e não neles mes-
mos. Quando ignoramos ou negligenciamos essa consideração, não fiquemos
surpresos se cairmos em muitos erros.
Portanto, se quisermos andar pelo reto caminho do amor fraterno, não de-
vemos ter os olhos postos nos homens, pois, na maioria das vezes, observá-los
nos levaria a odiá-los, e não a amá-los. A Deus é que precisamos observar; e Ele
nos manda estender o amor que Lhe votamos a todos os homens, de tal maneira
que sempre tenhamos este fundamento: Seja quem for e como for o ser humano,
temos que amá-lo, se é verdade que amamos a Deus.
84. Refutação aos doutores da Escolástica
Tendo em vista o que acima foi dito, foi por ignorância, ou por malícia pernicio-
sa, que os doutores escolásticos,b
dos mandamentos pelos quaisc
o Senhor nos
proíbe desejar vingança, e nos manda amar os nossos inimigos [1536], fizeram
simples conselhos, que eles declaram que o homem é livre para seguir ou não.
Eles diziam que somente os monges e os frades estão obrigados a tê-los como
obrigatórios, porque a eles se atribui uma justiça mais perfeita que a que se exige
dos demais cristãos. Eles mesmos se obrigam a guardar os conselhos evangéli-
cos, como eles os denominam. Arazão alegada por eles para não receberem esses
conselhos como mandamentos é que são muito difíceis e pesados, mesmo para os
cristãos, que estão sob a lei da graça. Mas, como é possível que eles se atrevam a
abolir a Lei de Deus, eterna, concernente ao amor ao próximo?!d
Haverá,
porventura, tal diferença na Escritura? Não é o contrário? Pois numerosos são os
mandamentos que categoricamente determinam que amemos os inimigos. Por-
a
universum hominum genus.
b
Acréscimo a 1536.
c
olim Judæis tradita.
d
1536 acrescenta: an non proposita parabola (Luc 10).
567
Lc 10.25-37.
225
quanto, que significa a exortação que nos é feita para que alimentemos o nosso
inimigo quando ele tiver fome;568
que reconduzamos a ele o seu boi ou o seu
jumento que encontrarmos extraviado; e que ajudemos a reerguer o seu jumento
caído debaixo da carga posta sobre ele?569
Faremos o bem aos animais pertencen-
tes aos nossos inimigos não votando a estes nenhum amor? E então?
[1536] Não é esta uma palavra eterna de Deus: “A mim me pertence a vin-
gança, a retribuição”?570
[1539] O que é dito mais explicitamente noutra passa-
gem, onde lemos: “Não buscarás vingança e não te lembrarás das injúrias que o
teu próximo tenha feito a ti”.571
Ora, ou eles apagam esses artigos da Lei,a
ou
confessem que Deus quis ser Legislador ao ordenar isso, e não mero conselheiro,
como imaginam aqueles mestres.
85. O que as Escrituras e os antigos pais ensinam
[1536] E que querem dizer estas palavras, que eles perverteram transformando-
as numa ridícula glosa, [numa expressão obscura e confusa]: “Amai a vossos
inimigos”, diz o Senhor, “bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos
odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos
do vosso Pai que está nos céus”.572
[1539] Quem haverá que não possa concluir com Crisóstomo,573
com base
sólida e inegável, que não se trata de exortações, mas de mandamentos? Que
sobrará para nós, se o Senhor nos eliminar da lista dos Seus filhos? Segundo a
opinião daqueles mestres [1536], unicamente os monges e os frades serão filhos
de Deus e ousarão invocar a Deus como seu Pai.
[1539] E, que será então da igreja? Seguindo aquele argumento, ela será
devolvida aos gentios e aos publicanos. Porque, coerentemente, o Senhor decla-
rou: “Se amardes os que vos amam,b
que recompensa tendes? Os gentios e os
publicanos fazem o mesmo”.574
Estaremos bem arranjados, tendo o nome de cris-
tãos e sendo despojados da herança celestial!
[1536] Portanto, tais mestres agem como filhos de Satanás, quando rejei-
tam assimc
a todos os filhos de Deus.
[1539] E de fato não sei com que mais me espanto, se com a sua tolice ou
com a sua falta de vergonha, por publicarem essa sua doutrina. Porque entre os
a
1539: ex lege; 1541 (por erro): de la Foy (da fé).
568
Pv 25.21.
569
Êx 23.4,5.
570
Dt 32.35; Hb 10.30.
571
Lv 19.18 [tradução direta].
Sobre a Lei
b
O texto traz, por erro, ennemys.
572
Mt 5.44,45 [Almeida, Revista e Corririgida, que corresponde à versão utilizada por Calvino, e também à
versão francesa de Louis Segond].
573
Lib. De compunctione cordis (Livro da Compunção do Coração, Livro I, Cap. IV).
574
Mt 5.46,47 [tradução direta].
c
1536: licenter; 1539: licentiose.
226 As Institutas – Edição Especial
antigos não há nenhum que declare como coisa incontestável que todos estes
preceitos são verdadeiros mandamentos. Mesmo os do tempo de Gregório [o
Grande]575
não tinham dificuldade em considerá-los mandamentos, sem levantar
nenhuma dúvida.
[1536] Mas vejamos como é toloa
o argumento dos mestres que estamos
refutando. Seria, dizem eles, um fardo muito pesado para os cristãos. Como se
fosse possível imaginar um fardo mais pesado que amar a Deus de todo o nosso
coração, de toda a nossa alma e de todas as nossas forças! Em comparação com
esse mandamento, não há nenhum que não seja fácil, mesmo o que nos manda
amar os nossos inimigos, como também o que determina que eliminemos do
nosso coração todo desejo de vingança. Certo é que tudo quanto há na Lei, até
mesmo a sua mínima exigência,b
é por demais elevadoc
e difícil demais para a
nossa incapacidade mental. O que fazemos de bom o fazemos unicamente pela
graça e pelo poder de Deus. “Que Deus nos faça fazer o que Ele manda; e então,
que mande o que quiser.”576
Sobre a alegação que aqueles mestres fazem de que os cristãos estão sob a lei
da graça, não quer dizer que eles devem viver desordenadamente, a rédeas soltas.d
O que, sim, quer dizer é que eles estão inseridos em Cristo, por cuja graça estão
livres da maldição da Lei, e por cujo Espírito eles têm “a norma da lei gravada no
seu coração”.577
O apóstolo Paulo chama impropriamente de lei essa graça, queren-
do manter a analogia do contexto, comparando ambas. Mas aqueles mestres tolos
ligam, sem base nem razão, um grande mistério à palavra leie
nessa passagem.
86. A falsa distinção entre pecados mortais e veniais
[1539] Vê-se o mesmo propósito no que eles dizem do pecado venial,f
pois cha-
mam de pecado venialg
tanto a impiedade oculta contra Deus, que é uma violação
da primeira tábua da Lei,h
como a transgressão patente do último mandamento.
Pois eles definem pecado venial como cobiça maligna, sem consentimento deli-
berado, que não permanece muito tempo no coração.578
Mas, ao contrário, eu
digo que nenhuma cobiça maligna, nenhum mau desejo, pode penetrar o coração,
a não ser por falta de alguma coisa exigida pela Lei.
a
1536: Insulse; 1539: stolide.
b
apicem.
c
ardua.
575
Gregório, Homilias sobre os Evangelhos, lib. II, hom. 27. NT.
576
Agostinho, De dono perseverantia, c. XX. (Migne, XLV, 102, 6, e muitas vezes nas confissões.)
d
Essas cinco palavras traduzem effrenate.
577
Rm 2.15.
e
Isti de nihilo philosophantur.
f, g
O texto de 1541 traz equivocadamente: original, enquanto que o de 1539 tinha acertadamente: veniale. As
edições latina (1559) e francesa (1560) corrigem: veniel (venial).
h
O primeiro mandamento, explicado um pouco atrás.
578
Cf. Tomás de Aquino, Suma Teológica, II, 1, art. 3. NT.
227
Consideremos: Quando a alma, tentada à desconfiança, procura ali e acolá
outros objetos para a sua atenção, e quando se sente movida a buscar a sua bem-
aventurança em algum outro, não em Deus, que é que dá origem a esses movi-
mentos, breves que sejam? Outra coisa não é, senão o vazio da alma, que se abre
para receber as tentações.
E para não alongar muito esta argumentação, a Lei nos manda amar a Deus
de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento.
Portanto, se não forem aplicadas ao amor de Deus todas as nossas forças e todas
as faculdades da nossa alma, não estaremos obedecendo à Lei. Porque, quando as
tentações, inimigas que são do Reino de Deus e a este contrárias – quando as
tentações se levantam e agem em nós com vigor fazendo-nos tremer, ou colocam
algum impedimento em nosso pensamento para que Deus não seja plenamente
obedecido e a Sua vontade não seja observada sem nenhuma contradição ou res-
trição, é sinal de que o Seu Reino não está bem firmado em nossa consciência.
Acresce que já demonstramos que o último mandamentoa
se refere precisa-
mente a isso. Terá algum mau desejo espicaçado o nosso coração? Já somos con-
siderados culpados de concupiscência e, por conseguinte, transgressores da Lei.
Porque o Senhor não somente proíbe deliberar e planejar às ocultas o que possa
prejudicar o próximo, mas também proíbe que nos deixemos estimular e incitar
por alguma concupiscência ou cobiça. Ora, onde quer que ocorra uma transgres-
são da Lei, pronta está a maldição de Deus.
87. Uma pena de morte absolutamente necessária!
É, pois, necessário que não deixemos de condenar à morte toda forma de concu-
piscência, por menor que seja. Eu gostaria que os tais avaliassem bem o que quer
dizer este pronunciamento de Cristo: “Aquele, pois, que violar um destes manda-
mentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado
mínimo no reino dos céus” [Mt 5.19]. Aqueles mestres não pertencem a esse
grupo? Pois se atrevem a enfraquecer tanto a transgressão da Lei que decerto
julgam que ela não merece a morte!
88. Não só a Lei, mas o seu Autor
Mas eles não deveriam considerar somente o que nos é ordenado, mas também
Aquele que no-lo ordena. Porque não há transgressão, por diminuta que seja, que
não O prive da Sua autoridade. Será que, na opinião deles, é pouca coisa violar a
majestade divina neste ou naquele ponto? E mais, se o Senhor declarou na Lei a
Sua vontade, tudo o que é contrário à Lei O desagrada. Será que eles pensam que
a ira de Deus se acha tão fraca e desarmada que a Sua vingança não ocorrerá
imediatamente a seguir? E, de fato, Deus mesmo declarou suficientemente (oxa-
a
O décimo, explicado um pouco atrás.
Sobre a Lei
228 As Institutas – Edição Especial
lá eles se dispusessem a escutar Sua voz, em vez de obscurecerem a verdade com
as suas frívolas sutilezas!): “A alma que pecar, essa morrerá”,579
diz o Senhor. E
mais: “O salário do pecado é a morte”.580
Eles confessam que a concupiscência é
pecado, porque não o podem negar, mas afirmam que não é pecado mortal. De-
pois de terem permanecido por muito tempo em sua insensatez, que ao menos se
corrijam agora. Se, porém, os que assim pensam quiserem perseverar em sua
obstinação, que os filhos de Deus não se incomodem com eles, e reconheçam que
todo pecado é mortal. Sim, porque todo pecado é rebelião contra a vontade de
Deus e, necessariamente, provoca a Sua ira, pois é transgressão da Lei, e contra
toda transgressão da Lei, sem nenhuma exceção, foi proclamada a morte eterna.
No tocante aos pecados que os crentes, os santos e fiéis, cometem, são veniais,
não por sua natureza, mas graças à misericórdia de Deus.
89. A plena observância da Lei seria vida e salvação
Da conclusão a que chegamos acima, a saber, que a Lei nos instrui sobre a justiça
perfeita, segue-se, paralelamente, que a plena observância da Lei é plena justiça
diante de Deus, cumprida a qual, o homem seria considerado justo diante do Seu
trono celestial. Por isso Moisés, depois de publicar a Lei, não teve dúvida em
invocar o testemunho do céu e da terra quando propôs ao povo de Israel “a vida e
o bem, a morte e o mal”!581
E não podemos opor-nos ao fato de que a plena
obediência da Lei seja recompensada com a vida eterna, como o Senhor prome-
teu. Todavia, devemos verificar, por outro lado, se nós cumprimos tal obediência,
pela qual poderíamos conceber alguma segurança de salvação. Por que, de que nos
serviria entender que obedecendo à Lei poderíamos assegurar a recompensa da
vida eterna se, ao mesmo tempo, ficássemos sem saber se por esse meio nós pode-
remos chegar à salvação? Pois bem, é nesse ponto que se demonstra a fraqueza da
Lei.a
Porque, uma vez que essa obediência não se encontra em nenhum de nós,
estando por isso excluídos das promessas da vida, caímos sob a maldição eterna.
Não me refiro somente ao que já foi feito, mas também ao que é necessário
e inevitável que advenha. Porque, sendo fato que a doutrina da Lei sobrepuja em
muito a faculdade, a capacidade dos homens, podemos contemplar de longe as
promessas a respeito disso feitas, mas não podemos colher nenhum fruto delas.
Portanto, nada temos a ganhar, senão que, graças a essa verdade, enxerguemos
melhor a nossa miséria, tão grande que toda a nossa esperança nos é tirada, e a
morte nos é revelada.
a
Os parágrafos precedentes estavam sem nenhum texto equivalente em 1536; os subseqüentes tratam, de
outra maneira, dos mesmos pontos tratados em 1536.
579
Ez 18.4.
580
Rm 6.23.
581
Dt 30.15.
229
90. A perfeição da Lei choca-se terrivelmente com a incapacidade
do homem para cumpri-la perfeitamente!
Por outro lado, apresentam-se as horríveis ameaças feitas, as quais não pressio-
nam apenas alguns de nós, mas a todos em geral. Então, elas nos pressionam e
nos perseguem com severidade inexorável e de tal maneira que somos levados a
ver maldição certa na Lei. [1536] Portanto, se não temos para considerar outra
coisa senão a Lei, só temos que perder toda a coragem, ficar confusos e desespe-
rar-nos, visto que somos todos malditos e condenados.582
[1539] E não há ne-
nhum de nós que não esteja sem direito algum à bem-aventurança prometida aos
que cumprem a Lei.
Terá Deus prazer em nos enganar? – talvez alguém pergunte. Porque mais
parece uma brincadeira, mostrar ao homem alguma esperança de felicidade,
convidá-lo e exortá-lo a que tenha essa esperança, prometê-la como algo já pre-
parado para ele – e depois ter o acesso fechado! Respondo que, quanto às pro-
messas da Lei, visto que são condicionais, só deverão cumprir-se àqueles que
tenham cumprido toda a justiça (o que não se encontra entre os homens); todavia,
não são feitas em vão. Porque, tendo nós entendido que elas não têm nem lugar
nem eficácia com relação a nós, exceto no sentido de que Deus, por Sua bondade
gratuita nos recebe sem levar em conta as nossas obras, significando também que
recebemos pela fé a Sua bondade, a qual Ele nos oferecea
por Seu Evangelho,
concluímos que essas promessas, com a sua condição, não são vãs.
Dá-nos, então, o Senhor, gratuitamente, todas as coisas, e de tal maneira
que a Sua benignidade se estende ao ponto de não rejeitar a nossa obediência
imperfeita, mas, remitindo e perdoando o que lhe falta, aceita-a como obediência
plena e integral. Por conseguinte, por Sua benignidade gratuita, Deus nos habilita
a recebermos o fruto das promessas da Lei, como tendo sido cumprida a sua
condição. Mas, visto que essa questão será tratada mais plenamente quando fa-
larmos da justificação pela fé,b
deixo por ora este assunto.
91. Sobre a impossibilidade de cumprirmos a Lei de Deus
Quanto ao que dissemos, que a observância [plena] da Lei é impossível, devemos
explicar e confirmar resumidamente esse ponto. Isso porque a afirmação supra
parece absurda. Tanto que Jerônimo não teve dúvida em condená-la como mal-
dosa. No que se refere à razão que me levou a acatar e fazer essa afirmação, isso
não me preocupa; para nós deve ser suficiente entender a verdade. Não farei aqui
grandes distinções dos diferentes modosc
de possibilidade. Digo que é impossí-
a
1539: exhibitam.
b
No Capítulo VI.
c
generibus.
Sobre a Lei
582
Gl 3.10.
230 As Institutas – Edição Especial
vel, pois nunca se viu, e foi ordenado pela sentença de Deus que jamais se veja a
plena e perfeita observância da Lei.
Considerando a situação como é desde o princípio do mundo, afirmo que
entre todos os santos não houve nenhum que, estando nesta prisão do corpo mor-
tal, tenha tido um afeto espiritual tão perfeito que o tenha habilitado a amar a
Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu poder. Digo mais,
que jamais houve alguém que não tenha sido maculado por alguma concupiscên-
cia. Quem poderá contradizer isso? Bem sei que, por superstição, há os que jul-
gam que os santos têm tanta pureza que só a duras penas os anjos lhes são seme-
lhantes. Mas isso repugna tanto à Escritura como à experiência. Vou além e digo
ainda que jamais haverá alguém que chegue a essa meta de perfeição, enquanto
não for libertado de seu corpo.
92. Testemunhos da Escritura
Comprovam esse ponto muitos testemunhos evidentes da Escritura. Salomão,
quando dedicava o templo, disse: “Não há homem que não peque”.583
Davi, em
sua oração a Deus, disse: “À tua vista não há justo nenhum vivente”.584
Essa
sentença é repetida muitas vezes no Livro de Jó. O apóstolo afirma essa verdade
mais claramente que todos os demais. “A carne milita contra o Espírito, e o Espí-
rito, contra a carne”, diz ele.585
E não faz uso de outra razão para provar que todos
quantos estão sob a Lei são malditos, senão que, como escreveu, todos os que não
perseverarem na obediência aos mandamentos serão malditos.586
Com isso ele
quer dizer, ou antes, tem como coisa resolvida que ninguém pode perseverar
nessa obediência. Ora, tudo o que foi predito na Escritura deve-se ter como eter-
no, e mesmo como necessário, como essencial.
Os pelagianos molestaram Agostinho com a sutileza de que estamos tratan-
do. Este, para evitar a calúnia, declarou que o Senhor poderia muito bem, se
quisesse, exaltar um homem mortal à perfeição angélica, mas que jamais o fez
nem o fará, pois o Seu ensino é contrário a isso. Não contesto essa sentença, mas
acrescento que não há nenhum propósito em pôr em rivalidade o poder de Deus
contra a Sua vontade [revelada]. Por isso digo que não se pode manipular com
sutileza este assunto, dizendo que é impossível que não ocorram as coisas que o
nosso Senhor revelou que não ocorreriam. Se, porém, ainda se discute a palavra
[impossível], note-se que Jesus Cristo, sendo interrogado por Seus discípulos,
“Quem pode ser salvo?”, respondeu: “Isto é impossível aos homens, mas para
Deus tudo é possível”.587
Agostinho, bem fundamentado, demonstra que, na pre-
583
1Rs 8.46.
584
Sl 143.2.
585
Gl 5.17.
586
Gl 4.
587
Mt 19.25,26.
231
sente vida, nunca dedicamos a Deus o amor que Lhe devemos. “De tal forma o
amor procede do conhecimento”, diz ele, “que ninguém que não tenha conhecido
antes a bondade de Deus pode amá-lo perfeitamente”
.a
Ora, enquanto estamos
nesta peregrinação terrena, não vemos claramente a bondade de Deus, “vemos
como em espelho, obscuramente”.588
Segue-se, então, que o amor que Lhe vota-
mos é imperfeito. Portanto, devemos ter como certo que o cumprimento da Lei
nos é impossível, enquanto estivermos convivendo neste mundo, como é demons-
trado pelo apóstolo Paulo noutra passagem.589
93. Sumário
Mas, a fim de que se possa entender tudo muito bem, juntemos num sumário o
ofício ou função da Lei e seu uso. Segundo o meu juízo, essa matéria se divide
em três partes.
[1536] A primeira é que, ao demonstrar a justiça de Deus, isto é, a que Lhe
é agradável, a Lei admoesta e repreende o homem por sua injustiça, e o faz sem
lhe deixar dúvida, até convencê-lo e condená-lo.b
[1539] Porque é necessário que o homem que de outro modo permaneceria
cego e embriagado pelo amor próprio – é necessário que ele seja constrangido a
conhecer e a reconhecer tanto a sua fraqueza de entendimento como a sua
impureza.c
Se a vaidade não for redargüida de frente, não for lançada em rosto,
ela se inchará, enchendo-se de uma louca presunção, valorizando exageradamente
as suas forças, e não poderá ser induzida a reconhecer a debilidade e a pequenez
delas, porque, nesse caso, o homem as mede pelo seu critério fantasioso.d
Mas
quando é posto à prova para saber se pode executar a Lei de Deus, pela dificulda-
de que encontra tem ocasião de ver abatido o seu orgulho. Porque, por mais gran-
diosa opinião que anteriormente ele tenha formado sobre si mesmo, sente-se agora
debaixo de um fardo tão pesado que essa presunção acaba por vacilar, cambalear,
decair e, finalmente, desfalecer de todo. Assim é que o homem, sendo instruído
pela doutrina da Lei, é afastado da sua presunção, a qual é própria da sua natureza.
Também é necessário que ele seja expurgado do outro vício da arrogância,
de que já falamos. Porque, enquanto preso ao seu próprio critério, imagina, em
vez de verdadeira justiça, uma hipocrisia, na qual tem prazer e da qual se orgulha.
Essa hipocrisia é contra a graça de Deus, instalando-se à sombra sabe-se lá de
quais observações inventadas por sua cabeça.
a
O texto de 1536 diz: “Ut ait Augustinus, ‘nostra merita obliti Christi dona amplectimur’”; faz alusão ao
tratado De verbis apostol., Rom. VIII, 30 ou 1 Cor. 1.31 (Migne XXXVIII, 862 e 872).
588
1Co 13.12.
589
Rm 8.3.
Sobre a Lei
b
1536: admoneat ac peccati convincat.
c
1539: admoneat, certiorem faciat, convincat denique, ac condemnet. – As últimas cinco páginas do capítulo
em 1536 são substituídas em 1539 por um texto totalmente novo.
d
arbitrii.
232 As Institutas – Edição Especial
Quando, porém, se vê constrangido a examinar sua vida sopesando-a na
balança da Lei de Deus e deixando de lado a sua fantasia, que ele tinha concebido
de sua falsa justiça, vê que está tremendamente longe da verdadeira santidade.
Ao contrário, vê que está cheio de vícios e males, dos quais antes se julgava puro.
94. A concupiscência cega o homem; a Lei o desmascara
Porque as concupiscências são tão ocultas, disfarçadas e enganosamente envol-
tas, que facilmente enganam a visão do homem. E não é sem motivo que o após-
tolo Paulo declara: “Eu não teria conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não
cobiçarás”.590
Porquanto, se a concupiscência não for revelada pela Lei e tirada
do seu esconderijo, ferirá o infeliz homem sem que ele sinta coisa alguma. Por-
tanto, a Lei é como um espelho no qual contemplamos primeiro a nossa fraqueza,
depois a iniqüidade, que dela procede, e, finalmente, a maldição lançada sobre
ambas – como num espelho nos apercebemos das manchas do nosso rosto. Por-
que o pecador, a quem falta toda a capacidade de viver vida justa, outra coisa não
pode fazer senão permanecer na lama do pecado. E, após o pecado, segue-se a
maldição. Por isso, assim como a Lei nos convence de grande transgressão, as-
sim também nos mostra mais condenáveis e dignos de maior castigo.
É o que entende o apóstolo, como vemos no que ele declara quando diz:
“Pela lei vem o conhecimento do pecado”.591
Com essas palavras ele registra a
primeira função da Lei, que se aplica aos pecadores não regenerados. A um mes-
mo sentido se reduzem também estas sentenças: Sobreveio a Lei a fim de aumen-
tar o pecado; e, portanto, à Lei pertence a administração da morte,592
sendo que
produz a ira de Deus e nos oprime e fere. Porque não há dúvida de que, quanto
mais de perto a consciência é tocada pela percepção do seu pecado, na mesma
proporção a iniqüidade cresce, visto que a transgressão se junta à rebelião contra
o Legislador.
De resto, a Lei arma a vingança de Deus para a desgraça do pecador, visto
que ela não pode fazer outra coisa senão acusar, condenar e fazer perecer. E,
como diz Agostinho,593
se o Espírito de graça for retirado, a Lei só servirá para
acusar e matar.
Pois bem, dizer isso não faz nenhuma ofensa à Lei e não derroga, não anula,
a sua excelência, como também em nada fere a sua dignidade. Certo é que se a
nossa vontade estivesse totalmente fundamentada na obediência à Lei e fosse
pautada por ela, seria suficiente conhecermos a sua doutrina para termos a salva-
ção. Como, porém, a nossa natureza é corrupta, carnal e, por isso, repulsivamente
contrária à Lei espiritual de Deus e incapaz de corrigir-se pela disciplina da mes-
590
Rm 7.7.
591
Rm 3.20 e 4.15.
592
2Co 3.7 etc.
593
De Correptione et gratia. Cf. Amb. De Iac., cap. I, e De vita beata, cap. b.
233
ma, segue-se que a Lei, dada para salvação, caso fosse bem recebida e bem trata-
da, torna-se para nós ocasião para o pecado e a morte.594
95. Por que não escolher logo a bênção da obediência?
Então, por que não nos convencemos todos de que somos transgressores da Lei,
uma vez que, assim como, por um lado, ela nos revela a justiça de Deus e, por
outro, revela a nossa iniqüidade, assim também nos certifica da recompensa pre-
parada para a justiça; e, paralelamente, assegura-nos da tremenda humilhação
preparada para os iníquos. Por essa razão, longe de nos propormos a fazer qual-
quer injúria à Lei, melhor será entregar-nos à bondade de Deus.
O que se vê é que a nossa perversidade nos impede de obter a bem-aventurança
eterna, que nos é oferecida na Lei. Por isso, o que temos que fazer é apegar-nos
mais à proteção da graça de Deus, que nos supre do que falta à Lei, e, além disso,
amar a Sua misericórdia, pela qual esta Sua graça nos é dada, sabendo que jamais
deixa de nos fazer bem, e que sempre nos acrescenta benefício e mais benefício.
Pois bem, o fato de que da nossa iniqüidade e da nossa condenação somos
convencidos pelo testemunho da Lei, e por esta são assinaladas, não é para que
caiamos no desespero e percamos toda a coragem, abandonando-nos à ruína. Isso
não nos acontecerá, se soubermos tirar bom proveito da ação da Lei. É verdade
que os maus perdem a serenidade dessa forma; mas isso é fruto da obstinação do
seu coração. Entretanto, é preciso que os filhos de Deus cheguem a outro fim,
entendendo o que diz o apóstolo Paulo quando confessa claramente que somos
condenados pela Lei “para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável
perante Deus”.595
Ainda noutro lugar ele ensina que “Deus a todos encerrou na
desobediência”, não para perdê-los ou para fazê-los perecer, mas “a fim de usar
de misericórdia para com todos”;596
a saber, que, desfazendo-se de toda estima
por sua própria virtude e por seu humano poder, reconheçam que o único poder
que os sustenta é a mão de Deus. Ademais, vendo-se vazios e desnudos, que
recorram à misericórdia divina, descansando nela inteiramente, protegendo-se à
sua sombra, tomando-a como única e exclusiva justiça e mérito para todos os que
a buscam, desejam e esperam por intermédio da fé verdadeira. Porquanto, na Lei
o Senhor nos é revelado como remunerador da justiça perfeita, da qual todos nós
estamos desprovidos.
96. Agostinho sobre os usos da Lei
Por outro lado, Ele se mostra severo executor dos castigos que merecemos por
nossas faltas. Mas em Cristo Seu rosto resplandece de plena graça e suavizadora
594
Tema de um meu sermão pregado em Porto Alegre em 1956: Morte no Remédio. NT.
595
Rm 3.19.
596
Rm 11.32.
Sobre a Lei
234 As Institutas – Edição Especial
bondade, por mais pobres e indignos pecadores que nós sejamos. Quantas lições
devemos procurar aprender da Lei! Agostinho fala disso freqüentemente, como
quando diz:597
“A Lei nos ordena o que fazer a fim de que, esforçando-nos para
cumprir os Seus mandamentos e sucumbindo por nossa fraqueza, aprendamos a
implorar o auxílio de Deus”. E mais:598
“A utilidade da Lei está em convencer o
homem de sua fraqueza e constrangê-lo a solicitar o remédio da graça em Jesus
Cristo”. Também:599
“ALei manda; a graça dá forças para cumpri-la”. E ainda:600
“Deus nos ordena o que não podemos fazer, a fim de que saibamos o que Lhe
devemos pedir”.
Quanto ao segundo proveito, ele não o declara explicitamente, talvez por-
que achasse que se poderia entender deduzindo-o do outro. Ou pode ser que para
ele ainda não estivesse bem definido.
Já com relação a quanta utilidade se pode auferir da Lei, da qual falamos
anteriormente, essa utilidade convém mais propriamente aos filhos de Deus; não
obstante, é comum aos réprobos, aos não salvos. Sim, pois, eles não chegam ao
ponto a que chegam os crentes fiéis, de se humilharem segundo a carne para
receberem vigor espiritual do Espírito. Os réprobos caem no mais completo as-
sombro e desespero. Mas é bom que a consciência deles seja sacudida por tal
tormento, porque assim se manifesta a eqüidade do juízo de Deus. Agora, ainda
que não se manifeste o juízo de Deus pelo testemunho da Lei e da consciência
dos réprobos, eles são derrubados e ficam abatidos de tal maneira que eles pró-
prios demonstram o que merecem.
97. O segundo uso da Lei
O segundo ofício ou função ou uso da Lei é para que aqueles que não cuidam de
fazer o bem a não ser por constrangimento, ao ouvirem as terríveis ameaças nela
contidas, ao menos por medo do castigo sejam retirados da maldade em que
vivem. Não significa que, interiormente, o seu coração foi sensibilizado ou toca-
do. Eles tão-somente foram constrangidos, como à força de rédeas, a deixar de
executar os seus maus desejos, que antes punham em prática sem freios nem
limites. Por isso não se tornam mais justos nem melhores diante de Deus. Por-
quanto, embora contidos por temor ou por vergonha, de modo que não se atrevem
a executar o mal concebido em seu coração e não exteriorizam o furor da sua
intemperança, todavia o coração deles não se rende de fato ao temor e à obediên-
cia a Deus. Antes, por mais que se contenham, mais se inflamam e se agitam em
sua concupiscência, quase a cometer toda sorte de vilania e de torpeza, só não o
fazendo porque o pavor da Lei os detém.
597
Epist. ad Hylarium (89).
598
Ad Asellium (100).
599
Ad Innocentium Romanum (95).
600
Ad Valentinum Lib. De correp. et gratia.a
a
As quatro citações são feitas expressamente em 1539, no texto e na margem.
235
98. Ódio à Lei e a seu Autor
Não somente o coração deles permanece mau, mas também eles odeiam mortal-
mente a Lei de Deus. E, como Deus é o seu Autor, eles O detestam. Isso acontece
de tal maneira que, se lhes fosse possível, de bom grado aboliriam a Lei de Deus,
visto que não podem suportá-lo exigir o que é bom, santo e justo, e desejar a
punição dos desprezadores da Sua majestade. Esse sentimento mostra-se mais
abertamente em alguns, e noutros é mais oculto; todavia, está presente em todos
os não regenerados. É que eles são induzidos a submeter-se de qualquer forma à
Lei, não movidos por um desejo livre e espontâneo, mas por constrangimento e
com grande resistência; e não há nesse fato outra coisa que os constranja a isso,
senão o medo que sentem do rigor de Deus.
Todavia, essa justiça ou retidão constrangida e forçada é necessária à comu-
nidade dos homens, cuja tranqüilidade o Senhor supre quando impede que todas
as coisas se transtornem na maior confusão. É o que aconteceria, se tudo fosse
permitido a cada um.a
Além disso, não é de todo inútil para os filhos de Deus
serem eles regidos por essa forma pueril de doutrina, na época em que ainda não
têm o Espírito de Deus, quando então vivem segundo a loucura da sua carne; é
por isso que às vezes sucede que o Senhor não se revela de pronto a Seus fiéis,
mas os deixa caminhar por algum tempo na ignorância, antes de chamá-los [das
trevas para a luz]. Porquanto, sendo então restritos e preservados de toda dissolu-
ção por esse terror servil, embora tenham pouco proveito presentemente, visto
que o seu coração ainda não foi domesticado nem subjugado, eles vão se acostu-
mando pouco a pouco ao jugo do Senhor. Ele age dessa maneira para que, quando
os venha a chamar, eles não estejam tão crus que se sujeitem aos Seus manda-
mentos como coisa nova e desconhecida. É bem provável que o apóstolo tenha
desejado referir-se a este uso da Lei quando disse601
que esta não é dada aos
justos, mas aos injustos e rebeldes, aos infiéis e pecadores, aos maus e corruptos,
aos que fazem violência a seus pais, aos homicidas, adúlteros, ladrões, mentiro-
sos e perjuros, e aos que estão manchados por vícios que constituem transgressão
da sã doutrina. Com isso ele mostra que a Lei é como rédeas, refreando as concu-
piscências da carne, as quais de outro modo transbordariam, excedendo os limites.
99. O terceiro uso da Lei
O terceiro uso da Lei, que é o principal, e que se relaciona com a finalidade para
a qual foi dada, tem lugar entre os crentes, em cujo coração o Espírito de Deus já
tem o Seu Reino, o Seu domínio e o Seu poder. Porque, embora eles tenham em
seu coração a Lei escrita pelo dedo de Deus (quer dizer, embora eles tenham, pela
direção do Espírito Santo, este sentimento que os leva a desejarem obedecer a
Sobre a Lei
601
Gl 3.19 etc.
a
Alusão aos recentes excessos dos anabatistas em Munster.
236 As Institutas – Edição Especial
Deus), ainda assim eles têm duplo proveito da Lei. Porque esta é para eles um
bom instrumento para melhor e mais acertadamente entenderem, dia a dia, qual é
a vontade de Deus, à qual aspiram, e para que sejam confirmados em seu conhe-
cimento. É como um servo que, embora tenha deliberado em seu coração que há
de bem servir a seu senhor e de agradá-lo em tudo e por tudo, todavia tem neces-
sidade de conhecê-lo familiarmente e de conhecer os seus hábitos e as suas con-
dições, a fim de poder adaptar-se. E não há quem possa isentar-se dessa necessi-
dade. Porque ninguém ainda chegou a ter tal sabedoria que não tenha como, pela
doutrina cotidiana da Lei, progredir dia após dia e desfrutar mais clara compre-
ensão da vontade de Deus. É bom acrescentar que, não tendo nós somente ne-
cessidade de doutrina, mas também de exortação, o servo de Deus tem na Lei esta
utilidade: Pela freqüente meditação na Lei, o servo de Deus será impulsionado à
obediência a Ele, será confirmado nela, e será induzido a abandonar os seus er-
ros, faltasa
e omissões. É, pois, necessário que desse modo os santos se incitemb
uns aos outros, porque, qualquer prontidão que acaso tenham para aplicar-se à
prática do bem, não obstante são sempre dificultados pela preguiça e indisposi-
ção da sua carne.602
Sucede isso de tal maneira que eles jamais cumprem plena-
mente o seu dever. A essa carne a Lei vem como um chicote para a impelir ao
trabalho, como o burro que não segue adiante se não for chicoteado incessante-
mente. Ou, para falar mais claramente, enquanto o homem espiritual não for
libertado do fardo da sua carne, a Lei será para ele um aguilhão perpétuo, para
não deixá-lo adormecer e entorpecer-se na ociosidade. Nesse uso pensava Davi
quando celebrava a Lei de Deus com grandiosos louvores; como quando disse:603
“Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor
é puro e ilumina os olhos”, etc. E tabém:604
Lâmpada para os meus pés é a tua
palavra e luz, para os meus caminhos”, e tudo o que vem a seguir no mesmo
Salmo. E isso em nada vai contra as sentenças de Paulo acima citadas, onde se
demonstra, não a utilidade que a Lei pode ter para o homem fiel, já regenerado,
mas a que ela pode ter para o homem [em geral]. Ao contrário, o profeta mostra
com que proveito o Senhor instrui os Seus servos na doutrina da Sua Lei, quando
lhe inspira interiormente a coragem para segui-la.
100. A Lei mosaica deve ser ab-rogada?
Alguns ignorantes,c
incapazes de discernir essa diferença, rejeitam temeraria-
mente a Moisés e querem que a Lei seja afrouxada, porque não acham conveni-
ente para os cristãos seguir uma doutrina que contém a administração da morte.
602
Cf. Gl 5.17.
603
Sl 19.8.
604
Sl 119.105.
a
delinquendi lubrico retrahatur.
b
sibi instare.
c
imperiti: os antinomianos, os libertinos espirituais, etc.
237
Que essa opinião fique longe de nós, visto que Moisés declarou muito bem que a
Lei, embora só possa gerar a morte do pecador, tem, contudo, outra utilidade e
outro proveito para os crentes fiéis. Porque, estando próximo da morte, fez diante
do povo esta declaração:605
“Aplicai o coração a todas as palavras que, hoje, testifico
entre vós, para que ordeneis a vossos filhos que cuidem de cumprir todas as
palavras desta lei.a
Porque esta palavra não é para vós outros cousa vã; antes, é a
vossa vida”. E de fato ninguém poderá negar que há na Lei como que uma ima-
gem completa da justiça perfeita, ou, do contrário, será necessário dizer que não
devemos ter nenhuma regra do bem viver, ou que precisamos apegar-nos a essa.
Porque não existem muitas regras do bem viver, mas uma só, que é perpétua e
imutável. Portanto, o que disse Davi, que o justo medita na Lei de Deus de dia e
de noite,606
não deve ser considerado válido a um dado século ou período, mas
vale para todas as épocas, até ao fim do mundo.
101. Ideal impossível?
E não há motivo para nos espantarmos com o fato de a Lei exigir uma santidade
verdadeiramente perfeita que não poderemos ter enquanto estivermos na prisão
do nosso corpo, ao ponto de abandonarmos a sua doutrina. Sim, pois, quando
estamos debaixo da graça de Deus, a Lei não exerce todo o seu rigor pressionan-
do-nos até o fim, de molde a só ficar satisfeita se cumprirmos tudo o que ela
manda. Em vez disso, exortando-nos à perfeição para a qual nos chama, ela nos
mostra a meta que devemos buscar durante toda a nossa vida. Basta que não
deixemos de dirigir-nos para esse alvo. Porque toda a presente vida é como um
curso. Quando chegarmos ao fim, o Senhor nos fará o benefício de levar-nos a
alcançar a meta, a qual ainda estaremos buscando, embora distantes dela.
Agora, então, vemos que a Lei serve de exortação aos fiéis, não para pren-
der a consciência deles à maldição, mas para despertá-los da indolência, estimu-
lando-os,b
e para os polir, corrigindo a sua imperfeição. Em vista disso, alguns,
querendo assinalar essa libertação da maldição da Lei, dizem que esta foi ab-
rogada e anulada para os crentes (não no sentido de que ela não deve ordenar
sempre o que é bom e santo, mas no sentido de que ela já não é para eles o que era
antes; quer dizer, que ela não mais deixa perplexa a consciência deles pelo terror
da morte). E, de fato, o apóstolo Paulo demonstra com muita clareza tal ab-rogação
da Lei. Acresce que parece que essa idéia foi pregada por Jesus Cristo, visto que
Ele se defendeu afirmando que não quis destruir nem eliminar a Lei;607
o que Ele
não fez; tão somente foi acusado disso.
Sobre a Lei
a
in volumine legis.
605
Dt 32.46,47.
b
instando.
606
Sl 1.2.
607
Mt 5.17.
238 As Institutas – Edição Especial
Pois bem, essa opinião não foi levada adiante sem nenhum matiz especial
[ou seja, com um sentido adicional]. É bem provável que provenha de uma falsa
exposição da doutrina referente à Lei, como acontece com todos os erros que, em
geral, aproveitam-se [mal] da verdade. Ora, para que não tropecemos neste in-
conveniente, precisamos distinguir diligentemente o que foi ab-rogado na Lei e o
que ainda permanece firme.
Quando Jesus disse608
que não veio para abolir a Lei, mas para cumpri-la, e
que não passará nem uma letra, até que o céu e a terra passem, sem que seja feito
tudo o que nela está escrito, mostrou com isso que por Sua vinda a reverência e a
obediência à Lei em nada foram diminuídas. E isso por uma boa causa, visto
que Ele veio para dar o remédio para as transgressões da Lei. Portanto, a dou-
trina da Lei em nada foi violada por Jesus Cristo, sendo que ela nos educa,
preparando-nos para toda boa obra, ensinando-nos, admoestando-nos, repreen-
dendo-nos, castigando-nos.
No tocante ao que Paulo diz da maldição, isso não pertence à função de
instruir,a
mas à de apertar e capturar a consciência. Porque a Lei, quanto à sua
natureza, não somente ensina, mas também exige estritamente o cumprimento
daquilo que ordena. Se não for rigorosamente cumprido, se de fato o seu cumpri-
mento não for levado até o fim, até o derradeiro ponto, a Lei lançará incontinenti
a sua pavorosa maldição. Por essa razão diz o apóstolo:609
“Todos quantos, pois,
são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo
aquele que não permanece em todas as cousas escritas no livro da lei, para praticá-
las”. Conseqüentemente, ele declara que estão sob a Lei todos quantos não fun-
damentam a sua justiça na remissão dos pecados, que nos livra do rigor da Lei. É-
nos necessário sair dos laços que nos prendem, se não quisermos perecer misera-
velmente no cativeiro.
102. Liberte-se o pecador dos laços que o prendem!
Mas, de que laços? Dessa exação severa, dessa cobrança rigorosa que nos oprime
sem nos dar nenhum retorno e sem deixar impune nem uma só falha! Para nos
resgatar e nos livrar dessa deplorável maldição, Cristo se fez maldito por nós;
como está escrito:610
“Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro”. No
capítulo seguinte611
o apóstolo Paulo declara que “Cristo se sujeitou à lei para
resgatar os que estavam na servidão da lei”. Mas ali mesmo ele acrescenta: “a fim
de que gozássemos o privilégio da adoção, para sermos filhos de Deus”. Que
quer dizer? Que isso foi feito para que não ficássemos encerrados para sempre
608
Ibidem.
a
ad institutionem.
609
Gl 3.10. [Na versão utilizada por Calvino consta: “Todos os que estão sob a lei são malditos, uma vez que está
escrito: Malditos serão todos os que não cumprirem tudo o que [nela] é ordenado”.]
610
Gl 3.13.
611
Gl 4.4,5 [tradução direta].
239
em cativeiro, com a nossa consciência presa de angústia mortal. Todavia, isto
permanecerá para sempre: Que a autoridade da Lei não seja desrespeitada em
coisa alguma, devendo nós recebê-la com a mesma honra e reverência.
Há mais uma dificuldade noutra passagem, que se encontra na Epístola aos
Colossenses,612
onde lemos: “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas
transgressões e pela incircuncisão da vossa carne,a
vos deu vida juntamente com
ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito da dívida, que
era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-
o inteiramente, encravando-o na cruz”, etc. A dificuldade está em que parece que
o apóstolo quer ampliar demais a abrangência da ab-rogação da Lei, ao ponto de
os seus decretos não terem mais nada que ver conosco. Alguns o entendem só
com relação à lei moral. Mas desta eles explicam que a severidade exagerada foi
abolida, não porém a doutrina. Outros, considerando mais de perto as palavras do
apóstolo Paulo, vêem que a sua referência é propriamente à lei cerimonial e mos-
tram que o apóstolo costumava usar a palavra decretos quando tratava deste as-
sunto. Em Efésios,613
por exemplo, diz: “Jesus Cristo é a nossa paz, o qual nos
juntou e nos fez um, abolindo a lei das ordenanças, que consiste de decretos”, etc.
Não há nenhuma dúvida de que o devemos entender em relação às cerimônias,
porque o apóstolo afirma que essa lei era como uma muralha, separando os ju-
deus dos gentios. Confesso, pois, que a primeira explicação é com acerto repara-
da e complementada pela segunda. Contudo, não me parece que elas explicam
bem a sentença do apóstolo. Porque não aprovo que se confundam essas duas
passagens [de Efésios e de Colossenses] como se uma fosse semelhante à outra.
103. Importante distinção interpretativa
Quanto à que se encontra na Epístola aos Efésios, o sentido é este: Querendo o
apóstolo Paulo informar com segurança os efésios sobre como eles eram recebi-
dos à comunhão do povo de Israel, disse-lhes que o obstáculo que antes existia e
que os impedia e os separava tinha sido retirado. Eram as cerimônias. Porque as
abluções e os sacrifícios, por meio dos quais os judeus se santificavam para Deus,
separavam-nos dos gentios. Mas na Epístola aos Colossenses não há quem não
enxergue que o texto toca o mais alto mistério. Trata-se ali da questão das obser-
vâncias mosaicas a cuja prática os sedutoresb
queriam constranger o povo cristão.
Como, pois, na Epístola aos Gálatas, havendo essa mesma discussão da qual
Paulo deveria tirar uma dedução, e a tira mais extensamente e a remete à sua
fonte, assim faz ele neste contexto. Porque, se não se considerar nas cerimônias
outra coisa senão a necessidade de desempenho de um dever, por que falar delas
Sobre a Lei
612
Cl 2.13,14. [Na versão utilizada pelo Autor temos “decretos” em vez de “escrito da dívida”.]
a
Os cristãos de Colossos, de origem pagã, não tinham sido circuncidados como os israelitas.
613
Ef 2.14 [tradução direta].
b
pseudo apostoli.
240 As Institutas – Edição Especial
como uma coisa obrigatória?a
E uma coisa obrigatória que é contra nós? E com
que propósito teria sido constituída como pouco menos que a soma total da nossa
salvação, para que fosse anulada e reduzida a nada? Vê-se, pois, claramente que
neste ponto precisamos observar outra coisa além da exterioridade das cerimônias.
104. No cerimonial, algo que vai além e
acima da exterioridade
Pois bem, estou bastante seguro de que já encontrei o real entendimento desta
questão, confessando que é verdade o que Agostinho escreveu de fato algures:
que nas cerimônias judaicas predomina a confissão de pecados sobre a purifica-
ção deles. Pode-se ver isso considerando o que os judeus faziam quando sacrifi-
cavam. O que faziam? Confessavam-se culpados de morte, visto que colocavam
em seu lugar o animal a ser imolado. E quando se lavavam cerimonialmente, o
que faziam? Confessavam-se imundos e contaminados. Porque confessavam o
débito da sua impureza e dos seus delitos. Mas nessa declaração o pagamento
não era feito de fato.
Por essa razão o apóstolo afirma que a redenção dos delitos e ofensas foi
feita pela morte de Cristo – delitos e ofensas que permaneciam no Antigo Testa-
mento, não tendo sido anuladas. É, pois, com boa razão que o apóstolo Paulo
chama de cédulasb
[cf. Cl 2.14, Almeida, Rev. e Corr., e Figueiredo] as cerimôni-
as, que eram contra aqueles que faziam uso delas, visto que por elas os seus
usuários testificavam e assinalavam a condenação deles próprios.614
Isso não é em nada contrariado pelo fato de que os antigos pais tenham sido
participantes conosco de uma mesma graça. Certamente que não, porquanto eles
obtiveram essa bênção por intermédio de Cristo, não das cerimônias, as quais
nessas passagens são separadas de Cristo, visto que obscureciam então a Sua
glória, depois que o Evangelho foi revelado. Nós entendemos que as cerimônias,
consideradas em si mesmas, são por bom motivo chamadas cédulas contrárias à
salvação dos homens. Isso porque são como instrumentos autênticos cuja finali-
dade era obrigar as consciências a confessarem os seus débitos.c
Por isso, tendo
em vista que os sedutores queriam obrigar os cristãos a realizá-las, o apóstolo,
com toda a razão, e considerando a sua primeira origem, admoesta os colossenses,
advertindo-os do perigo que corriam, se se deixassem subjugar daquela maneira.
Porque por um mesmo meio a graça de Cristo lhes seria arrebatada. Sendo que,
por Sua graça, Ele fez a purificação dos pecados em Sua morte, uma vez por
todas, e aboliu todas aquelas observâncias externas, pelas quais os homens se
confessavam devedores a Deus, e os seus débitos não eram cancelados.
a
chirographum (termo de processo).
b
chirographa.
614
Hb 7; 9.10; 10.
c
quæ ipsorum obligationem testarentur.

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AS INSTITUTAS - VOLUME I - ESTUDO - JOÃO CALVINO

  • 1. JOÃO CALVINO AS INSTITUTAS Volume 1 Edição especial para estudo e pesquisa
  • 2. Institution de la Religion Chrestienne – As Institutas ou Instituição da Religião Cristã Da edição original francesa de 1541 – Conforme publicação feita pela Société les Belles Letres, Paris, 1936, com a colaboração da Société du Musée historique de la Réformation. 1ª edição em português 2002 – 3.000 exemplares TRADUÇÃO e LEITURA DE PROVAS Odayr Olivetti REVISÃO e NOTAS DE ESTUDO E PESQUISA Hermisten Maia Pereira da Costa FORMATAÇÃO Rissato CAPA Publicação autorizada pelo Conselho Editorial: Cláudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vieira, Aproniano Wilson de Macedo, Fernando Hamilton Costa, Mauro Meister, Ricardo Agreste e Sebastião Bueno Olinto Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Cláudio A. Batista Marra
  • 3. A presente edição1 é uma reimpressão da Instituição da Religião Cristã [doravante em geral chamada Institutas2 ] (Genebra, 1541), tradução fran- cesa de um livro cuja primeira redação, em latim, tinha aparecido em Basiléia em 1535. Os editores da obra utilizada para esta tradução acrescentaram (dentro do texto) referências às edições de 1536 e de 1539, e (fora do texto) observações relacionadas em listas de notas respectivas a cada capítulo. O texto de Calvino não traz títulos de subdivisões dos assuntos. Os que aparecem nesta tradução foram feitos pelo tradutor. A obra Institutas compõe-se de 4 livros e 17 capítulos, distribuídos nesta ordem: Livro I, capítulos I a III; L. II, IV a VI; L. III, VII a XI; L. IV, XII a XVII. Como se dá com a redação latina de 1535, esta tradução compreende essen- cialmente uma epístola dedicada ao rei Francisco I, defesa dos reformados fran- ceses perseguidos, e uma “suma” – uma apresentação resumida – da doutrina religiosa deles. Por que essa defesa? E por que essa profissão de fé? CIRCUNSTÂNCIAS DA PUBLICAÇÃO DAS INSTITUTAS O propósito de redigir uma profissão de fé para os reformados franceses, ou, como se dizia então, para os evangélicos, parece presente no Espírito de Calvino já nos primeiros meses do ano de 1534. 1 A referida edição é a francesa, a partir da qual a Editora Cultura Cristã produziu esta. Trata-se da Instituition de la Religion Chrestienne, Paris, FR, SociétéLes Belles Letres, 1936. NE. 2 Embora “Instituição” traduza melhor o título, a obra tornou-se conhecida como Institutas, como a chama- mos aqui. NT. 3 Era secretário apostólico de Charles de Hangest – bispo de Noyon (1501-1525) – e procurador fiscal do município. NE João Calvino tinha então vinte e cinco anos. Sua infância tinha se passado à sombra da catedral de Noyon, sua cidade natal. Seu pai era escrivão do capítulo,3 isto é, da assembléia do cantão. Ele tinha sabido aproveitar-se da proteção dos grandes prelados de Noyon para enviar seu filho a Paris, para os seus estudos. No
  • 4. 4 As Institutas – Edição Especial colégio chamado da Marche, Calvino tinha tido, embora por pouco tempo, o mais famoso mestre e pedagogo da época, Mathurin Cordier,4 que lhe ensinou latim (agosto de 1523). Pouco mais tarde, em Bourges, onde fez o curso de direi- to, o professor Melchior Wolmar,5 luterano declarado, lhe tinha ensinado grego. Concluídos os seus estudos jurídicos, Calvino dedicou-se à literatura.6 Talvez pensasse numa carreira de humanista, como a de Erasmo, por quem ele tinha grande admiração.7 Mantinha-se ligado aos humanistas e a alguns homens que se preocupavam com a vida religiosa, como seu primo Robert Olivetan. Subitamen- te, sua vida laboriosa foi perturbada por um escândalo em que estavam envolvi- dos os teólogos da Sorbonne. Aconteceu que no dia primeiro de novembro de 1533, por ocasião da reabertura da Universidade de Paris, o reitor, conforme o costume, leu um discurso. Este continha algumas declarações inesperadas em tal circunstância. Mostrando grande desprezo pelos sofistas, que reduziam a teolo- gia aos exercícios da escolástica, opôs a eles a “filosofia de Cristo”, expressão do gosto de Erasmo, suspeito para os teólogos. Ele proclamava Cristo como o único mediador, o que a Sorbonne considerava ofensivo à “Virgem” e aos santos. Ele elogiava o retorno ao Evangelho: era o rompimento com a Igreja e suas tradições. O discurso lido pelo reitor era de Calvino. Tal foi o escândalo que a Sorbonne8 denunciou o autor ao Parlamento de Paris com o fim de processá-lo por heresia. 4 Maturinus Corderius (1479-1564) foi fundamental na formação do estilo de Calvino. Mais tarde Calvino dedicaria o seu comentário de Primeira aos Tessalonicenses a Corderius (17/02/1550), a quem chama de “homem de eminente piedade e erudição” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House Company, 1981, Vol. XXI, p. 234), reconhecendo a sua dívida para com ele: “Eu me reconheço endividado a você pelo progresso que foi feito desde aquele tempo. E isto eu estava desejoso de testemunhar à posteridade que, se qualquer vantagem proviesse a eles de meus escritos, eles saberiam que em algum grau eles têm sua origem em você.” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Vol. XXI, p. 234). Posteriormente, convertido ao protestantismo, Calvino o convidou a lecionar na Academia de Genebra, o que Corderius aceitou, sendo inclusive durante algum tempo diretor daquela instituição, permanecendo ali até a sua morte em 1564, quatro meses depois de Calvino. Corderius morreu em Genebra, em 8 de setembro de 1564. Corderius, além de brilhante e laborioso professor, era conhecido por sua erudição, piedade e integridade. NE. 5 Melchior Wolmar († 1561), professor também de Théodore de Beza (1519-1605) foi de fundamental impor- tância no ensino de grego a Calvino. Mais tarde, Calvino lhe dedicaria o seu comentário de Segunda aos Coríntios (01/08/1546), onde diz que Wolmar, era “o mais distinguido dos mestres [de grego]”. (J. Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1995, Dedicatória, p. 8). NE. 6 Ele mesmo resumiria a sua infância: “Quando era ainda bem pequeno, meu pai me destinou aos estudos de teologia. Mais tarde, porém, ao ponderar que a profissão jurídica comumente promovia aqueles que saíam em busca de riquezas, tal prospecto o induziu a subitamente mudar seu propósito. E assim aconteceu que fui afastado do estudo de filosofia e encaminhado aos estudos da jurisprudência. A essa atividade me diligenciei a aplicar-me com toda a fidelidade, em obediência a meu pai; mas Deus, pela secreta providência, finalmen- te deu uma direção diferente ao meu curso.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, pp. 37-38). NE. 7 A primeira obra escrita por Calvino foi publicada com seus próprios recursos: a edição comentada do livro de Sêneca, De Clementia (4 de abril de 1532). Um exemplar da obra foi enviada a Erasmo de Roterdã (c.1469-1536). NE. 8 Universidade de Paris (tendo os seus Estatutos, elaborados por Roberto Courson, aprovados em 1215), constava de quatro Faculdades: Teologia, Filosofia (“Artes”) (a mais concorrida), Direito e Medicina. Toda- via, ela especializou-se no ensino de Teologia, tornando-se para a “santa igreja”, como “a árvore da vida”. Em 1255, escreve o papa Alexandre IV (1254-1261): “A ciência das escolas de Paris está na Santa Igreja
  • 5. 5 Cop, o reitor, fugiu para Basiléia; Calvino se escondeu num subúrbio parisiense (em Chaillot, ao que parece), e depois se refugiou na casa de um amigo, em Claix, perto de Angoulême. Foi lá, em sua solidão, tendo à mão uma rica bibli- oteca, que ele formou o propósito de redigir sua profissão de fé. Ele tinha renunci- ado ao estudo de literatura; passou a dedicar-se unicamente à vida espiritual. Foi lá que se deu a sua conversão que, segundo suas confidências, tinha sido repentina.9 De Angoulême ele tinha ido para Nérac, capital dos Estados da rainha de Navarra, sendo ela um tanto indulgente para com os evangélicos molestados e perseguidos. Calvino tinha voltado a Noyon para ali renunciar a seus benefícios Introdução como a árvore da vida no paraíso terrestre e como a lâmpada refulgente na casa do Senhor. Como uma mãe fecunda de erudição, ela faz jorrar em abundância das fontes da doutrina da salvação os rios que vão banhar a face estéril da terra, ela alegra por toda parte a Cidade de Deus e subdivide as águas da ciência que faz correr nas praças públicas para o refrigério das almas sedentas de justiça.... É em Paris que o gênero huma- no, deformado pela cegueira de sua ignorância original, recupera sua visão e sua beleza pelo conhecimento da luz verdadeira que irradia da ciência divina.” (In: Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, São Paulo, Martins Fontes, 1995, p. 490). Este elogio de Alexandre IV envolvia obviamente a sua vitória sobre a autonomia da Universidade, na qual ele demitiu e contratou quem desejou, concedendo amplos poderes aos religiosos mendicantes... fiéis ao papa. A Universidade de Paris – apesar do antagonismo interno –, tornou-se a definidora, defensora e divulgadora da ortodoxia católica, tendo os papas ao longo dos anos, contribuído decisoriamente para a sua projeção internacional. “Ora, na medida em que ensinava teologia, a Universidade de Paris cessava de pertencer a si mesma e dependia de uma jurisdição mais alta do que a da razão individual ou da tradição escolar. Sua própria importância, o número sem cessar crescente dos mestres e alunos que vinham de todas as partes do mundo cristão para aí se instruir faziam dela a fonte do erro ou da verdade teológicos para toda a cristandade.” (Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, p. 487). Aliás, os papas procuravam sempre tornar as Universidades em instrumento conservador e defensor da “ortodoxia” católica... Por outro lado, os reis também viam nas Universidades um meio de projeção pessoal e propaga- ção do seu reino. Em meados do século XIII, a Universidade de Paris passou a chamar-se Universidade de Sorbonne, em homenagem a Robert de Sorbon. NE. 9 Não nos é possível precisar as circunstâncias e data da “súbita conversão” de Calvino, contudo as evidências apontam para um período entre c. 1532-1534. Devemos estar atentos também, para o fato de que a vida de Calvino, mesmo antes da sua conversão, não fora marcada por um comportamento dissoluto e imoral – já tão comum nos jovens de seu tempo –, antes, a sua conversão, como observa Schaff, “foi uma transformação do romanismo para o protestantismo, da superstição papal para a fé evangélica, do tradicionalismo escolástico para a simplicidade bíblica.” (Philip Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts, Hendrickson Publishers, 1996, Vol. VIII, p. 310). Crê-se que o seu primo Olivétan – ainda que não isoladamente –, teve uma participação importante na sua conversão ao protestantismo. Lembremo-nos de que Calvino não é muito pródigo ao falar da sua vida. No que se refere à sua conversão, em 1539 diz: “Contrariado com a novidade, eu ouvia com muita má vontade e, no início, confesso, resisti com energia e irritação; porque (tal é a firmeza ou descaramento com os quais é natural aos homens resistir no caminho que outrora tomaram) foi com a maior dificuldade que fui induzido a confessar que, por toda minha vida, eu estivera na ignorância e no erro.” (Juan Calvino, Respuesta al Cardeal Sadoleto, 4ª ed. Barcelona, Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1990, p. 63). Na introdução do seu comentário de Salmos (1557), diz que: “Inicialmente, visto eu me achar tão obstinadamente devotado às superstições do papado, para que pudesse desvencilhar-me com facilidade de tão profundo abismo de lama, Deus, por um ato súbito de conversão, subjugou e trouxe minha mente a uma disposição suscetível, a qual era mais empedernida em tais matérias do que se poderia esperar de mim naquele primeiro período de minha vida.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, p. 38.) Também na já citada carta ao Cardeal Sadoleto (01/09/1539), Calvino descreve as suas angústias espirituais no romanismo, resultantes do que a igreja pregava (Vd. Juan Calvino, Respuesta al Cardeal Sadoleto, pp. 61-64). No entanto, em nenhum momento, Calvino menciona o instrumento humano usado por Deus. NE.
  • 6. 6 As Institutas – Edição Especial eclesiásticos,10 e a Paris, quando um novo escândalo desencadeou a perseguição contra os luteranos. Na noite de 17 de outubro de 1534, em Paris foram fixados cartazes contra a missa, e isso foi feito até na porta do quarto do rei, no castelo situado às mar- gens do Rio Loire. Soube-se mais tarde que tinha sido obra de um lionês chama- do Marcourt, primeiro pastor em Neuchâtel, a partir de 1531. O Parlamento logo submeteu os suspeitos a tortura, condenou-os a suplíci- os de extrema crueldade: que lhes arrancassem a língua e lhes amputassem as mãos, antes de queimá-los vivos. O rei assinou uma ordem surpreendente da parte de um amigo das letras, proibindo, sob pena de morte, a impressão de todo e qualquer livro (em 13 de janeiro de 1535). Passou-se um ano até que, como privilégio excepcional, fosse feita uma concessão a doze impressoras. As pilhas de volumes queimados com os hereges que os escreveram ou os imprimiram ou os divulgaram explicam por que durante meio século não foi editada nenhuma Bíblia francesa na França, e por que, até 1562, não foi possível imprimir as Institutas. No meio da tempestade, o autor continua sua obra. Ele sabe – talvez por meio dos confidentes de Marguerite d’Angoulême – como o rei é inconstante. Enquanto na França se aplica tanto rigor, na Alemanha Francisco I procura fazer aliança com os príncipes luteranos contra o imperador. Um edito de 29 de janeiro de 1535 prescreve o extermínio dos hereges, mas, muitos dias depois, a mesma mão real assina um documento memorial redigido pelo embaixador Du Bellay em homenagem aos eleitores e aos magistrados aliados do cristianíssimo rei. Francisco I explica que está sendo acusado injustamente de perseguir pessoas por motivo de religião: são revolucionários em fúria, alega ele, são sediciosos, que ele tem o direito e o dever de reprimir. Entretanto, uma reviravolta em favor dos evangélicos sempre parecia possí- vel; ao rei poderia aplicar-se o epíteto dado por Farel a Erasmo: camaleão! No dia 10 de março de 1534, um professor estabelecido em Paris já por cinco anos, Jean Sturm, tinha escrito ao reformador Bucer, natural de Estrasburgo: “Jamais se cumpriu melhor o versículo: ‘O coração do rei está nas mãos de Deus’, porque no meio das fogueiras ele sonha com uma reforma religiosa... Insisto na necessidade de sua viagem e da de Melanchton” (o melhor colaborador de Lutero)... “A situ- ação tão perigosa dos fiéis deve-se menos ao juízo pessoal do rei que das infor- mações caluniosas dadas por conselheiros parciais. Nenhuma distinção se faz entre anabatistas, seguidores de Erasmo e luteranos: todos são feitos prisionei- ros. Creio que a idéia do rei seria a de agir diferentemente contra os sediciosos e contra os que não professam a doutrina da igreja sobre a eucaristia”. Essa opinião é a de um observador bem informado, envolvido nas negocia- ções que visavam a restabelecer a paz entre os cristãos, e que em breve, em 10 Calvino ainda criança (maio de 1521) recebeu um beneficio eclesiástico na catedral de Noyon, que ajudaria a custear as despesas de sua educação, então um privilégio raro. NE.
  • 7. 7 Estrasburgo, teria seguidos contatos com Calvino. A esperança de Sturm parecia que ia realizar-se na primavera de 1534, pois no dia 23 de junho Francisco I, oficialmente, e Du Bellay, em seu próprio nome, convidam Melanchton para vir à França. Mas o eleitor da Saxônia não lhe dá permissão e, além disso, a Sorbonne recusa a discussão pública sugerida pelos diplomatas. Um ano depois, o espírito e a pena de Calvino ficam livres para consagrar-se inteiramente à sua grande empresa. Na primavera de 1535 é publicado em Neuchâtel o Novo Testamento de Robert Olivetan, para o qual seu primo escreveu um prefá- cio: “A todos os que amam Jesus Cristo e Seu Evangelho, saudações”.11 Calvino diz expressamente: “Nós o traduzimos o mais fielmente que nos foi possível, em conformidade com a verdade e com a propriedade da língua grega”, assinalando assim sua participação nessa obra de grande fôlego; e especifica a intenção: “para que os cristãos e cristãs que entendem a língua francesa possam entender e reco- nhecer a lei que devem ter e a fé que devem seguir”, propósito patriótico semelhan- te ao de Lefèvre, doze anos mais tarde; no começo do seu próprio Novo Testamen- to, disse que tinha trabalhado visando à consolação dos súditos do reino, para que este não fosse mais simplesmente chamado Reino Cristianíssimo, mas que se tor- nasse tal de fato.12 Introdução Mais tarde, recebeu outro encargo; o curato de Saint-Martin de Martheville (Setembro de 1527). Em 30 de abril de 1529 Calvino resignou a capelania de La Gesine em favor do irmão mais jovem, Antoine e, em 5 de julho de 1529, trocou o cargo de Saint-Martin para o da aldeia Pont-l’Evèque (local de nascimento de seu pai). Com a morte de seu pai (25 ou 26 de maio, 1531) tornou a Paris para continuar seus estudos literários e durante certo período voltou a Orléans para concluir seu curso de Direito. Em 1534, Calvino completaria 25 anos, idade legal para ser ordenado; agora é o momento de assumir de fato a sua fé e ofício.Assim, em 4 de maio de 1534, voltou a Noyon e renunciou aos seus benefícios eclesiásticos. NE. 11 Antes da tradução de Olivétan, o francês já dispunha de outras traduções completas das Escrituras, como a de 1226-1250, feita por um grupo de tradutores da Universidade de Paris e a de Guiars de Moulins, feita entre 1291-1295. Esta tradução, depois de ser revisada, foi, por ordem de Carlos VIII, publicada, sendo a primeira Bíblia francesa a ser impressa (1487). Ela foi chamada de “A Grande Bíblia”, sendo editada 12 vezes no período de 1487-1545. ABíblia Francesa (1535), traduzida por Pierre Robert – apelidado de “Olivetanus”, daí, Olivétan (c.1506- 1540) –, foi a primeira tradução Protestante francesa das Escrituras, feita a pedido e a expensas dos Valdenses, que gastaram na impressão 1.500 escudos. A tradução, feita diretamente dos originais hebraicos e gregos, foi utilizada pela primeira geração de calvinistas franceses na proclamação do Evangelho. O Novo Testa- mento foi editado em 1534, saindo a segunda edição em 1535, acompanhado do Antigo Testamento. Esta edição (segunda do Novo Testamento e primeira da Bíblia completa), foi revisada e prefaciada por Calvino. Lembremo-nos de que Calvino dominava, além do francês, o latim, o hebraico e o grego. Nesse prefácio, temos o primeiro testemunho público de Calvino que indica a sua conversão. Posterior- mente, Beza (1519-1605) fez nova revisão da Bíblia Francesa, que continuou sendo revista de quando em quando nos séculos seguintes. NE. 12 Anos antes da versão de Olivétan, foi publicada outra tradução, a do católico Jacques Lefèvre D’Étaples (1455-1536) – possivelmente em parte simpatizante do luteranismo (“Lutero antes de Lutero”), desejando orar “em língua que se entenda” –, que, partindo da Vulgata, publicou a tradução do Novo Testamento em 1523, e a do Antigo Testamento em 1530. No prefácio da tradução do Novo Testamento, Lefèvre escreveu: “Chegou o tempo em que o nosso Senhor Jesus Cristo, único, sol, verdade e vida, quer que o seu Evangelho seja puramente anunciado em todo o mundo, para que ninguém se deixe extraviar por loucas promessas ou criaturas, nem por quaisquer tradições humanas, que não podem salvar”. No entanto, em 1546 a tradução de Lefèvre foi incluída no “Index”, porém, em 1550, após alguns expurgos das passagens consideradas heréticas, foi reimpressa. A tradução de Lefèvre D’Étaples foi de grande importância para a implantação e disseminação da Reforma na França. NE.
  • 8. 8 As Institutas – Edição Especial Em toda a Europa ocidental, a época que vai de 1534 a 1536 é, como a então recente, de 1521-22, uma época crítica. Os reformadores trabalham, cada um em seu país, para propagar a Palavra de Deus na língua nacional, esperando a conver- são de soberanos e de povos: em outubro de 1534, Lutero termina a tradução alemã da Bíblia;13 em outubro de 1536 o tradutor da Bíblia em inglês, Tyndale, morre na fogueira orando a Deus que abra os olhos do rei da Inglaterra. Neste mesmo ano, em que é publicada a carta de Calvino ao rei da França, ao mesmo Francisco I é dedicada a Christianae fidei brevis et clara expositio (Breve e clara exposição da fé cristã) de Zwínglio, publicada após a morte do seu autor por seu sucessor em Zurique. A Bíblia francesa de 1535 sai do prelo em 4 de junho. No fim do mês chega uma notícia horrível: Em Munster foram exterminados em massa os anabatistas alemães, que buscavam nas Escrituras, não somente princípios religiosos, mas também pretextos para uma revolução social. Os adversários da Reforma a decla- ram responsável pelos excessos dos anabatistas, ou ao menos solidária a eles. 13 O Novo Testamento foi traduzido primeiro, depois de um trabalho de cerca de nove meses, período durante o qual escreveu mais de dez obras O Novo Testamento de Lutero foi publicado em 21/09/1522 Esta tradução foi baseada na 2ª edição do texto grego de Erasmo (1469-1536), publicado em 1519, que já havia corrigido muitíssimos erros da primeira edição. Os três mil exemplares da primeira edição logo se esgotaram e, em poucos anos, diversas edições já tinham sido publicadas em várias cidades da Europa. Entre 1522 e 1524 foram feitas 14 reimpressões do NT. em Wittenberg e 66 outras em Augsburgo, Basiléia, Estrasburgo e Leipzig; em Basiléia, Adam Petri publica 7 reimpressões. Calcula-se que durante a vida de Lutero, foram feitas 11 edições, 84 impressões originais e 253 baseadas nelas. Como é sabido, havia outras traduções do Novo Testamento na língua alemã anteriores à de Lutero, mas acontece que a sua linguagem era muito imperfeita, sendo inadequada para a leitura do povo; por outro lado, as Bíblias utilizadas nas igrejas eram latinas e custavam 360 florins; as mais elaboradas, chegavam a custar 500 tálares. O Novo Testamento traduzido por Lutero foi vendido por apenas 1 ½ florins [= c. 3 francos]. Fazendo uma comparação, obser- vamos que Calvino, que passou inúmeros apuros financeiros em Estrasburgo (1538-1541), recebia, não sem atraso, 1 florim por semana, conforme verba votada pelo Conselho de Representantes da cidade. Obviamen- te ele não conseguiria viver com tão pouco; por isso se desdobrava em outras várias atividades; contudo, mesmo assim nada sobrava: o custo de vida em Estrasburgo ao que parece era muito elevado. Lutero, auxiliado por Melanchton (1497-1560) e outros eruditos, revisou continuamente a sua tradução, permanecendo neste labor até o dia da sua morte. Johann Cocleau (Cochlaeus) (1479-1552), Doutor em Teo- logia (1517), violento adversário de Lutero e da Reforma, admitiu: “O Novo Testamento de Lutero foi divul- gado de tal forma, que também alfaiates e sapateiros, sim, até mulheres e crianças que mal haviam aprendido a ler algumas poucas palavras nas embalagens de um bolo de mel, o liam com grande avidez dentro de suas naturais limitações. Alguns o carregavam consigo por onde andavam e, na medida do possível, o aprendiam de cor. Destarte, eles conseguiam em poucos meses, capacitar-se a discutir, sem constrangimento, com padres e monges aspectos da fé e do Evangelho. Sim, houve também o caso de mulheres humildes que tiveram a ousadia de discutir temas religiosos com doutores e homens letrados. Acontecia mesmo, nessas discussões, que leigos luteranos mostravam mais facilidade para citar passagens bíblicas de improviso que muitos monges e sacerdotes”. Hans Lufft durante quarenta anos (1534-1574) chegou a imprimir 100.000 exemplares da Bíblia traduzida por Lutero e, entre (1546-1580) publicou 37 edições do Antigo Testamento. A sua tradução é uma obra primorosa, sendo considerada o marco inicial da literatura alemã. Febvre diz, de forma poética, que o trabalho de Lutero consistiu “numa assombrosa ressurreição da Palavra, estan- do o mais distante possível de uma fria exposição, de um labor didático de um filólogo. Também, é mais do que um ‘trabalho de artista’ em busca de um estilo pessoal. É o esforço, sem dúvida dramático, feliz, de um pregador que quer convencer; ou melhor, de um médico que quer curar, trazer aos seus irmãos, os homens, todos os homens, o remédio milagroso que acaba de curá-lo....” (Lucien Febvre, Martín Lutero: un destino, 7ª reimpresión, México, Fondo de Cultura Económica, 1992, p. 187). NE.
  • 9. 9 Na França (Michelet viu bem isso) a origem da Reforma “é espontâ- nea, primeiramente francesa”. Seus primeiros adeptos levavam uma vida pací- fica. Eram operários em Meaux, agricultores em Thiérache, humanistas na corte. Isso não impede os seus inimigos de compararem os inofensivos “biblistas” da França com os desenfreados anabatistas da Alemanha. Uma testemunha, H. Estienne, conservou sobre isso lembranças interessantes: “Evitava-se dar a entender que eles eram gente boa como os demais e que não eram zombadores nem falsos; que tinham recebido o sacramento do batismo, etc., mas, antes, dizi- am que eram pessoas completamente diferentes, que zombavam de Deus, que tinham suas mulheres em comum, que eram piores que os judeus, os turcos e os sarracenos”. O manifesto dirigido aos príncipes da Alemanha era a expressão oficial dos erros, preconceitos e calúnias que tinham livre curso em Paris. Contra eles eleva-se o protesto indignado da consciência de Calvino. A princípio, sua exposição da fé cristã destinava-se a fortalecer os fiéis e a esclarecer os que não tinham bom conhecimento da causa; agora servirá de apo- logia contra os caluniadores. O doutor em direito de Orleães transforma em dis- curso de defesa as páginas concebidas pelo teólogo. E esse discurso ele enviará ao supremo juiz da França; essa é a origem da carta ao rei, conforme narrativa do próprio autor que consta no prefácio do seu Comentário do Livro de Salmos, por ele publicado em 1557. “Foram queimados na França muitas pessoas santas e fiéis; chegando isso ao conhecimento das outras nações, os autores das queimas foram considera- dos cruéis...; eles (os príncipes luteranos) elaboraram um protesto contra os au- tores daquela tirania (o rei e o parlamento); para apaziguar isso, deu-se divulga- ção a opúsculos infelizes (como o manifesto de primeiro de fevereiro, também afixado em quadros murais), cheios de mentiras: que só eram tratados cruelmente os anabatistas e os sediciosos (citação de uma expressão do manifesto), os quais, com seus extravios e com suas opiniões falsas, subvertem, não somente a religião, mas também toda a ordem política. Quanto a mim, vendo que esses falsos religi- osos, com seus fingimentos, faziam tudo para que a indignidade desse derrama- mento de sangue inocente não somente fosse mantida oculta pelas blasfêmias e calúnias das quais eles acusavam falsamente os santos mártires depois da morte deles (no dia 15 de fevereiro De la Forge, um amigo de Calvino, tinha sido quei- mado), mas também, em acréscimo, faziam tudo para pisar os pobres fiéis, sendo que a ninguém era permitido mostrar compaixão por eles, pareceu-me que, se eu não me opusesse vigorosamente, quanto me fosse possível, eu não poderia desculpar-me, se fosse julgado frouxo e desleal.”14 Aí está, pois, um advogado que se sente constrangido por sua consciência a assumir a defesa de um inocente acusado de crimes que poderiam levar à conde- nação e à morte. Se com justiça M. Lefranc dá a Calvino o título de “criador da eloqüência francesa”, é graças ao tom da carta ao rei, mais do que ao plano tão Introdução 14 Vd. João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, p. 39. NE.
  • 10. 10 As Institutas – Edição Especial claro e às deduções tão lógicas das Institutas propriamente ditas. “Calvino espera- va reconduzir Francisco I a disposições mais benevolentes, revelando ao grande público o verdadeiro caráter dos reformados franceses, odiosamente transforma- dos em malfeitores pelos adversários. Uma vez isolados e abandonados pela opi- nião européia, não haveria nada que pudesse impedir a sua eliminação. Com essa clarividência superior que faria dele, aos trinta anos, um líder e um condutor de almas, o jovem reformador denunciou o perigo iminente; ele se fez o porta-voz dos seus correligionários caluniados” (Introdução de uma edição das Institutas, 1911). Tendo saído da França no início de 1535, Calvino, após uma breve estada em Estrasburgo, fixa-se em Basiléia, onde vive “disfarçado”, como simples mem- bro da “pobre igreja por banimento expulsa”. Toma pensão no subúrbio de Saint- Albain, na casa de uma viúva, a senhora Petit, que mais tarde dará alojamento a Ramus. “Aqui”, escreverá este, “em vigílias memoráveis, celestiais, foram ela- boradas as Institutas”. O autor ainda não tinha vinte e seis anos de idade. Calvino entra em contato com dois tipógrafos associados, Platter e Lasius. No mês de agosto a expressiva carta, que serviria de preâmbulo, tinha sido concluída “por Jean Calvin, de Noyon”. Uma das principais feiras de livros no- vos começava em setembro. É provável que o editor (Oporin) tenha pressionado Calvino a terminar a carta de modo que pudesse ser composta a tempo e ser anexada à parte inicial do livro; mas não conseguiram. Sete meses se escoaram antes de o volume sair do prelo, para a feira realizada antes da Páscoa, “mense Martio, anno 1536”. OBJETIVO DAS INSTITUTAS O título é: Instituição da Religião Cristã, resu- mo quase completo da piedade, abrangendo tudo o que, quanto à doutrina da salvação, é necessário co- nhecer; obra seleta e à altura de todos os estudiosos da vida piedosa, recente- mente publicada. Prefácio dedicado ao cristianíssimo rei da França, a quem este livro é oferecido no interesse de uma confissão fé.15 — 520 páginas, formado pequeno, em 8º de 10 cm por 15 cm. 5.16 O título do livro diz bem qual o seu objetivo. A palavra instituição pertence, no latim, ao vocabulário pedagógico. Para a formação do orador, Quintiliano tinha escrito uma Institutio oratoria (Instituição para a Oratória). Erasmo tinha dado o programa da educação de um príncipe em sua Institutio principis christiani (Insti- tuição para o príncipe cristão). A Institutio christianae religionis (Instituição da Religião Cristã) é um manual de instrução cristã, ou, como dirá Calvino, um resu- mo, uma “suma”, do ensino doutrinário próprio para a formação de um cristão. A obra Institutas foi escrita em latim. Mas, e a carta ao rei? Foi impressa tanto com a data de primeiro de agosto como com a de 23 desse mês. Pensada em francês, terá sido escrita primeiro em francês, e dirigida ao rei nessa língua? O modo como o tuteio é empregado parece indicar que a carta foi escrita primeiro 15 Em latim no original. NT. 16 Era um livro de bolso que facilitava o seu transporte discreto. NE.
  • 11. 11Introdução No dia 13 de outubro de 1536 ele escreve: “De- diquei à edição francesa todos os meus momentos de lazer”. Terá sido publicada a partir de 1537? Convida-nos a esta conclusão o fato de que na edição de 1541 os capítulos de 1536 parecem traduzidos do primeiro texto latino, e não do texto revisto e corri- gido de 1539. Ainda não se encontrou nenhuma edição de 1537; todavia, sua existência estaria em harmonia com os costumes bastante metódicos de Calvino: a tradução francesa aparecendo logo após o original latino, ou inversamente. A primeira página da edição de 1541 tem as características de uma reimpressão: o autor desse “argumento” declara que ainda não publicou nenhuma obra deste gênero e prevê que no futuro fará alguns comentários; ou se trata de algo feito completo antes de 1541 – entre 1537 e 1539 foram publicados um catecismo,18 em latim. Tudo faz pensar que ela foi escrita antes das Institutas. Mas a primeira tiragem, ao que se saiba, é de 1541. A todo momento estaremos falando de uma primeira tradução do livro, possivelmente desde 1537. Pois bem, situa-se em 1537 uma carta da rainha de Navarra destinada ao rei: “...Desejas o bem geral de todo o mundo e a promoção da honra de Deus, em cuja honra te suplico que não tenhas temor de usar o que te enviei, porque incessantemente o tenho provado, de modo que me atrevo a elogiá-lo arriscando a minha honra”. Seriam as Institutas o elogiável objeto cujos benefícios a rainha prova sem cessar, objeto que seu irmão poderia ter medo de ler, mas cujo valor para todo o mundo é certo?... Notemos, por outro lado, que, de fevereiro a abril de 1536, Francisco I encontra- se freqüentemente em Lião. Teria ele recebido um exemplar ricamente encader- nado, que seria bem interessante reencontrar? Lião está na rota da Itália; e, du- rante a primavera de 1536, Calvino ficou em Ferrara, perto de Renée de France.17 17 A duquesa de Ferrara, favorável aos protestantes. NT. 18 Calvino elaborou em francês, durante o inverno de 1536-1537, um catecismo, não sendo constituído em forma de perguntas e respostas, escrito de modo que julgou acessível a toda a igreja. O seu objetivo era puramente didático. Esta obra foi intitulada: Instrução e Confissão de Fé, Segundo o Uso da Igreja de Genebra, sendo traduzida para o latim em 1538. Posteriormente, Calvino a reviu – tornando a sua teologia mais acessível aos seus destinatários: as crianças –, e a ampliou consideravelmente, mudando inclusive a sua forma, passando então, a ser constituída de perguntas e respostas, contendo 373 questões. Esta nova edição foi publicada entre o fim de 1541 e o início de 1542, tornando-se juntamente com a Instituição um sucesso editorial. Em 1545, Calvino traduziu o latim visando dar um alcance maior aos seus ensinamentos, contribuindo deste modo para a maior unidade entre as igrejas reformadas. A partir de 1561, este catecismo ganhou maior importância, visto que daí em diante todo ministro da igreja deveria jurar fidelidade aos ensinamentos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los. Este Catecismo consistiu num resumo da primeira edição da Instituição (1536). Foi a primeira exposição sistemática do pensamento teológico de Calvino em língua francesa. O Catecismo pode ser assim esboçado: I - Fé (1-130) Introdução (1-18) Segue-se a exposição do Credo Apostólico, da seguinte forma: a) Deus Pai (19-29) b) Deus Filho (30-87) c) Deus Espírito Santo (88-91) d) A Igreja (92-130) PRIMEIRA TRADUÇÃO FRANCESA
  • 12. 12 As Institutas – Edição Especial um tratado sobre a Santa Ceia19 e um comentário da Epístola aos Romanos.20 Esta questão não é pura curiosidade: Como as Institutas marcam, com Pantagruel,21 a época em que nasceu o francês moderno, é interessante buscar a data precisa – 1537 ou 1541. A VIDA DE CALVINO DE 1536 A 1541 Tenha ou não existido uma edição francesa desde 1537, convém narrar brevemente a vida de Calvino entre a edição princeps (a primeira edição) de 1536 e a edi- ção francesa de 1541, que a presente publicação reproduz. Vai-se de um ao outro texto mediante três degraus já assegurados: um catecismo francês (1537), sua tradução latina (1538) e a segunda edição latina das Institutas (1539). Em maio de 1536, os Conselhos de Genebra tinham proclamado a resolu- ção de “viver conforme o Evangelho”, pela insistência de Farel.22 Isso retém Calvino em julho.23 Diga-se de passagem: insistência devida à profunda impres- II - Os Dez Mandamentos (131-232) III - A Oração (233-295) IV - A Palavra e os Sacramentos (296-373) a) A Palavra e o Ministro (296-308) b) Os Sacramentos (309-373) - Definição e Significado (309-323) - Batismo (324-339) - Ceia do Senhor (340-373). NE. 19 J. Calvino, Breve Tratado Sobre La Santa Cena: In: Tratados Breves, Buenos Aires/México, La Aurora/ Casa Unida de Publicaciones, 1959. NE. 20 Escrito em 1539 e publicado em março de 1540. Outras edições revisadas foram publicadas em 1551 e 1556. É provável que esse trabalho seja o resumo de suas aulas ministradas em Genebra no período de 1536- 1538. Edição brasileira: João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997. NE. 21 Obra escrita em 1533 pelo humanista francês François Rabelais (c. 1495-1553). Ela seria condenada pela Sorbonne em janeiro de 1534. A literatura de Rabelais e de Calvino, são, de fato, responsáveis pelo francês moderno. No entanto, a semelhança entre estes dois personagens contemporâneos, termina aí. (Vd. Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. VIII, p. 266). NE. 22 No domingo de 21 de maio de 1536, “democrática e unanimemente pelo Conselho Geral”, depois de ouvir os representantes da causa protestante (Farel, Viret e Froment) e os da causa romana, os Conselhos de Genebra, em edital (27/08/1535) decidiram que o catolicismo não seria mais a religião de Genebra. NE. 23 Calvino deveria ter chegado a Estrasburgo em 1536, contudo, por encontrar-se impedida a estrada que daria acesso direto àquela cidade, teve que pernoitar em Genebra, “não mais que uma noite”. No entanto, o tímido e discreto Calvino que desejava passar anônimo, foi descoberto... O seu amigo Louis du Tillet falou a Farel de sua estada em Genebra. Então teve o seu encontro dramático com o ousado e “destemido” (Conforme expressão de Erasmo) pastor Guilherme Farel (1489-1565) que o persuadiu a permanecer em Genebra e, juntos, levarem adiante a Reforma que oficialmente fora adotada. Calvino, mais tarde, em 1557, relembrando o fato, diria que Farel o convenceu, “não propriamente movido por conselho e exortação, e, sim, movido por uma fulminante imprecação, a qual me fez sentir como se Deus pessoalmente, lá do céu, houvera estendido sua poderosa mão sobre mim e me aprisionado.” Continua: “E, ao descobrir [Farel] que meu coração estava completamente devotado aos meus próprios estudos pessoais, para os quais desejava conservar-me livre de qualquer outras ocupações, e percebendo ele que não lucraria nada com seus rogos, então lançou sobre mim uma imprecação, dizendo que Deus haveria de amaldiçoar meu isolamento e a tranqüilidade dos estudos que eu tanto buscava, caso me esquivasse e recusasse dar minha assistência, quando a necessidade era em extremo premente.” Farel conseguiu: “Sob o impacto de tal imprecação, eu me senti tão abalado de terror, que desisti da viagem que havia começado.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 40-41). Halsema coloca em tom poético: “O viajor chegou para uma noite de sono. Pretendia continuar a viagem, desaperce- bido. Mas Deus tinha outros planos.” (Thea B. Van Halsema, João Calvino era Assim, São Paulo, Editora Vida Evangélica, 1968, p. 71). NE.
  • 13. 13 são produzida pelas Institutas, que apareceram três meses antes. (O sucesso foi tão grande que, um ano depois de haverem sido postas à venda, não se encontrava sequer um exemplar em Basiléia, e mal e mal cinqüenta em Frankfurt).24 Em 1533 Farel tinha redigido uma primeira liturgia, na qual se inspirou Calvino: Modos e moldes que se vêm nos lugares que, por Sua graça, Deus tem visitado; em 1534 ele tinha reeditado a Declaração Sumária, na qual expunha os princípios do Evangelho que ele pregava com vigor, mas a sua pena era menos forte que a sua voz. Quando a obra Institutas apareceu, Farel reconheceu a sua própria infe- rioridade em termos de uma rara humildade: “João Calvino, meu bom e íntegro irmão, em suas Institutas trata com tanta amplitude todos os pontos abordados em meu livreto... que deu a mim e aos outros ocasião para escrevermos mais claramente. Que todos os que lerem o meu pequeno livro considerem , pois, estas belas Institutas e, examinando-as, não terão mais necessidade da minha peque- nez, nem de se darem ao trabalho de ler o meu pequeno livro”. Calvino é chamado a Genebra, não primeiramente como pastor, mas como mestre, como doutor. Conforme Calvino, em novembro de 1536 Farel propôs os Artigos sobre o governo da igreja, dos quais se encontrará eco em certas páginas novas das Institutas em 1539. No fim do ano, Calvino redige um proje- to de catecismo apresentado (sem o nome do autor) ao Conselho (janeiro de 1537) da seguinte maneira: “Existia anteriormente um catecismo destinado a instruir cada fiel nos fundamentos da religião cristã, e que era como um livro de fórmulas e uma declaração e que se usava para atestar a fé”. Agora reinam na igreja “uma rudeza e uma ignorância intoleráveis”. O que se propõe é “um breve e fácil sumário da fé”. Já era esse o propósito das Institutas (1536), das quais se tem um resumo na Instrução em Uso na Igreja de Genebra (1537); alguns acréscimos se verão na edição latina das Institutas de 1539, conforme o Catechismus de 1538 (tradução da Instrução de 1537, impressa em Basiléia, no mesmo prelo das Institutas de 1536). O primeiro período passado em Genebra teve fim em março de 1538,25 logo depois de um conflito de Calvino com o Conselho sobre uma questão de discipli- Introdução 24 A Instituição – contrariamente à De Clementia – tornara-se um sucesso editorial desde o seu lançamento em 1536. A primeira edição da Instituição esgotou-se em menos de um ano (janeiro de 1537). Ladurie diz que o ponto mais alto da tipografia de Platter-Lasius, foi atingido com a obra de Calvino a qual, “projetara Thomas”. (Vd. Emmanuel Le Roy Ladurie, O Mendigo e o Professor: a saga da família Platter no século XVI, Rio de Janeiro, Rocco, 1999, Vol. 1, p. 152, 153, 166). Febvre, diz que, “de 1550-1564 [ano da morte de Calvino], serão publicadas 256 edições, das quais 160 em Genebra. A Institution chrétienne é, então, sozinha, objeto de 25 reedições, nove latinas e dezesseis francesas das quais a maioria provém dos prelos genebrinos....”. (Lucien Febvre & Henry Jean-Martin, O Aparecimento do Livro, São Paulo, Hucitec., 1992, p. 442-443.) A Instituição, concluída em agosto de 1535, teve a sua primeira edição em março de 1536 (Basiléia), na tipografia dos “amigos-inimigos” Thomas Platter e Balthasar Lasius, vulgo “Ruch”. O trabalho tipográfico foi primoroso: “As páginas de sua Institui- ção Cristã e calvinista, de 1536, não amarelaram passadas quinze gerações”, admira-se Ladurie. (Emmanuel Le Roy Ladurie, O Mendigo e Professor: a saga da família Platter no século XVI, o Vol. 1, p. 156.) NE. 25 O exílio de Calvino, Farel e De Corault foi votado pelo Conselho de Genebra em 23 de abril de 1538; eles partiram no dia 25. Farel e Viret tornar-se-iam os maiores amigos de Calvino por toda sua vida. Quando sua
  • 14. 14 As Institutas – Edição Especial na. Traços do catecismo e das experiências feitas encontraram-se no ano seguinte nas novas páginas das Institutas. Estas são escritas em Estrasburgo, para onde Calvino se retira para estar junto a Bucer,26 vigoroso organizador, ao qual emprestará não poucas idéias.27 Para se chegar plenamente ao nível das Institutas, ao aluvião genebrino se sobre- põe a contribuição estrasburguesa. CALVINO EM ESTRASBURGO Calvino passa três anos em Estrasburgo (1538- 41) época de capital importância na história de sua obra; lá ele prepara uma edição latina ampliada, e lá ele pre- para a tradução que nós reimprimimos. Seu pensamento enriqueceu-se notavel- mente durante essa colaboração com o reformador alsaciano Bucer, dezoito anos mais velho, anteriormente discípulo de Erasmo como ele; Calvino aprecia a sua teologia moderada e firme, nem luterana, nem zwingliana; vive sob o regime de uma confissão de fé (a Tetrapolitana)28 que data de 1530, como a deAugsburgo;29 esposa, Idelette, morreu (29/3/1549), Calvino, mesmo continuando o seu extenuante trabalho, evidente- mente sentiu-se só. Oito meses depois, ele dedicou o seu comentário da Epístola de Tito a seus amigos que estavam distantes, cuidando das igrejas de Deus: Farel em Neuchâtel e Viret em Lausanne. A certa altura, escreve (29/11/1549): “Creio que jamais houve na vida rotineira um círculo de amigos tão sinceramente devotados uns aos outros quanto temos sido nós em nosso ministério. Com ambos vós desempenhei aqui o ofício de pastor. E longe de existir qualquer aparência de rivalidade, sempre senti haver entre nós uma só mente.” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, p. 292.) NE. 26 Não sabia Calvino que em Estrasburgo, encontraria um outro “Farel”, chamado Martin Bucer (1491-1551) que, conforme lembra, “empregando um gênero similar de censura e protesto ao que Farel recorrera antes, arrastou-me de volta a uma nova situação. Alarmado com o exemplo de Jonas, o qual ele pusera diante de mim, ainda prossegui na obra do ensino. E embora continuasse como sempre fui, evitando por todos os meios a celebridade, todavia fui levado, sem o saber, como pela força, a comparecer às assembléias imperiais, onde, voluntária ou involuntariamente, fui forçado a aparecer ante os olhos de muitos.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 41-42.) NE. 27 Martin Bucer (1491-1551), amigo de Lutero, Melanchton e Calvino, foi um dos líderes da Reforma em Estrasburgo (1523-1549) e, posteriormente, trabalhou ativamente como professor de teologia da Universi- dade de Cambridge (1549), desempenhando importante papel na reformulação do Livro de Oração Comum (1552). Ele passou seus últimos dias colaborando ativamente como professor de teologia na Universidade de Cambridge. Calvino o chama de “o mais fiel doutor da igreja de Deus.” e “mui excelente servo de Cristo”. (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 31 e 41.) NE. 28 Confissão Tetrapolitana (1530), foi elaborada durante as sessões da Dieta de Augsburgo por Martin Bucer e Wolfgang F. Capito (1478-1541), representando o pensamento de quatro cidades alemãs: Estrasburgo, Memmingen, Lindau e Constança. O objetivo era evitar o esfacelamento do protestantismo alemão, especi- almente no que concerne à Ceia do Senhor, visto haver divergências entre a concepção luterana e a zwingliana. Essa confissão ainda que não tenha obtido todo o êxito desejado, permanece como símbolo da primeira tentativa de união entre os protestantes. Ela foi adotada em Estrasburgo em 1534. [Vd. maiores detalhas In: Philip Schaff, The Creeds of Christendom, Grand Rapids, Michigan, Baker Books, 1998 (Reprinted), Vol. I, p. 526-529.] NE. 29 Em 1530, Carlos V, Imperador da Alemanha, convoca a Dieta de Augsburgo. Objetivo: unificação político- religiosa dos seus domínios. Daqui saiu a Confissão de Augsburgo, redigida por Ph. Melanchton (1479- 1560), o “preceptor da Germânia”, com a aquiescência de Lutero (1483-1546), que fez um comentário ambíguo a respeito da sua leveza.... Esta Confissão foi lida, em latim e alemão, pelo Chanceler Christian Beyer, da Saxônia Eleitoral, perante toda a Dieta, no dia 25 de junho de 1530, às 15 horas. Mesmo o Imperador não a aceitando, e proibindo a sua divulgação, ela em pouco tempo foi propagada em toda a Alemanha. NE.
  • 15. 15 o testemunho do Espírito Santo desempenha nela um grande papel.A igreja local é constituída solidamente, com um conselho de presbíteros. O poder civil e o poder eclesiástico cooperam. O sentimento de comunhão com a igreja universal é muito forte. Calvino continua a estudar, a explicar a Palavra de Deus. Vai co- nhecendo cada vez mais os chamados “pais” antigos. Ele define com precisão as sua idéias sobre a Santa Ceia, sobre a predestinação, quase ausente da primeira edição. Em Estrasburgo, logo exercendo as funções de pastor, ele funda a primei- ra de todas as igrejas reformadas francesas e a dota de uma liturgia e de uma coleção de salmos: nas Institutas ele insistirá na utilidade do canto.30 De 1535 a 1539, Calvino sofreu muito e viu muito sofrimento. O admirável capítulo – total- mente novo e totalmente prático – que põe término às Institutas em 1539 e em 1541, Acerca da Vida do Cristão (“De la vie de l’homme chrestien”) insiste no dever que o cristão tem de levar a sua cruz. Uma carta de Marguerite d’Angoulème faz pensar que em 1540 Calvino cumpre uma missão diplomática junto aos “colóquios” entre teólogos, aos quais ele presta assistência. A Carta ao Rei teria então feito sentir a Francisco I o valor do signatário. Enfim, em Estrasburgo, Calvino se casa.31 Introdução 30 Vd. As Institutas, III.20.31-32. Calvino entendia que “os salmos constituem uma expressão muito apropri- ada da fé reformada”, e que “Tudo quanto nos serve de encorajamento, ao nos pormos a buscar a Deus em oração, nos é ensinado neste livro [Salmos].” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 34.) Portanto, no Livro de Salmos temos um guia seguro para a edificação da Igreja que pode cantá-lo sem correr o risco de proferir heresias melodiosas. “Não existe outro livro onde mais se expressem e magnifiquem as celebra- ções divinas, seja da liberalidade de Deus sem paralelo em favor de sua Igreja, seja de todas as suas obras. (...) Não há outro livro em que somos mais perfeitamente instruídos na correta maneira de louvar a Deus, ou em que somos mais poderosamente estimulados à realização desse sacro exercício.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 35-36.) Calvino considerava os Salmos como “Uma Anatomia de Todas as Partes da Alma”. (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 33.) Calvino, na elaboração do que seria conhecido como Saltério Genebrino, traduziu alguns salmos [Sl 25,36,46,91 e 138], valendo-se efetivamente do talento do poeta francês Clément Marot (c. 1496-1544) – que conhecera em Ferrara em 1536 –, e Théodore de Bèze (1519-1605) e, posteriormente recorreu ao preci- oso trabalho do compositor francês Loys Bourgeois (c.1510-c. 1560) – que adaptou as canções populares e antigos hinos latinos e, também, compôs outras músicas para a métrica dos salmos de Marot – e Claude Goudimel (1510-1572), que morreu no massacre da noite de São Bartolomeu. O saltério iniciado por Calvino em 1539, dispunha de 19 salmos; sendo concluído por Bèze (c. 1562). Ele tornou-se “um dos livros mais importantes da reforma”, e um protótipo dos hinários procedentes da Reforma, tendo um verdadeiro “dom de línguas”, sendo traduzido para o alemão, holandês, italiano, espanhol, boêmio, polonês, latim, hebraico, malaio, tamis, inglês, etc., sendo usado por católicos, luteranos e outras denominações. No Prefácio da edição de 1542 do Saltério Genebrino, Calvino escreveu: “.... Nós sabemos por experi- ência que o canto tem grande força e vigor para mover e inflamar o coração dos homens, a fim de invocar e louvar a Deus com um mais veemente e ardente zelo.” Um refugiado que visitou a igreja de Calvino em Estrasburgo descreveu emocionado o que viu: “Todos cantam, homens e mulheres, e é um belo espetáculo. Cada um tem um livro de cânticos nas mãos. (...) Olhando para esse pequeno grupo de exilados, chorei, não de tristeza, mas de alegria, por ouvi- los todos cantando tão sinceramente, enquanto cantavam agradecendo a Deus por tê-los levado a um lugar onde seu nome é glorificado.” NE. 31 Casou-se em agosto de 1540 com Idelette de Bure, uma linda senhora, viúva de um anabatista convertido ao protestantismo. Tinha ela dois filhos. NE.
  • 16. 16 As Institutas – Edição Especial edições latinas subseqüentes. O florão, isto é, a vinheta floriforme, é uma Minerva em marcha. O livro sai do prelo em agosto de 1539: Institutio christianæ religionis nunc vere demum suo titulo respondens, autore Calvino (Instituição da Religião Cristã, agora, por fim, verdadeiramente fiel ao seu título; autor: Calvino); alguns exemplares trazem Alcuino, um anagrama que imita o nome verdadeiro.33 O aspecto do livro por si só mostra quanta matéria foi acrescenta- da ao texto de 1536: o volume, grande, in-8º, mede 320mm por 205, e tem 436 páginas. É impresso em caracteres grandes, com margens largas, próprias para anotações manuscritas. Em muitos a encadernação é em madeira, com fechos metálicos. É um instrumento de trabalho para uso dos professores e dos estu- dantes em seus gabinetes de estudo. Diferente em todos os pontos é a edição francesa de 1541, mais comparável ao pequeno livro de 1536. Em Genebra, Calvino encontra o impressor Jean Girard OS DOIS VOLUMES DE 1539 A 1541 Durante o primeiro ano de sua permanência em em Estrasburgo, Calvino modifica as Institutas e con- fia sua impressão a W. Rihel, que imprimirá as duas Quando, na primavera de 1541, ele cede à insistente solicitação de Farel e retorna a Genebra,32 está enriquecido de muitos conhecimentos, do que testemu- nham seus livros de 1539 e 1541. 32 Em 22 de outubro de 1540 – entre outras cartas enviadas –, o Conselho dos Duzentos resolve convidar Calvino a voltar a Genebra. Calvino hesita. Em 1º de maio de 1541, o Conselho Geral, por considerar Calvino e Farel “pessoas de bem e de Deus”, revoga o edito de banimento de 1538. Farel, que convencera Calvino em 1536 a permanecer em Genebra, agora, a pedido do Conselho daquela cidade – visto que Calvino não atendera ao seu convite –, persuade Calvino a retornar a Genebra em 1541. Em agosto de 1541, Calvino já se decidira; mesmo desejando permanecer em Estrasburgo, voltaria a Genebra: “Mas quando eu me lembro que não pertenço a mim próprio, eu ofereço meu coração, apresentado como um sacrifício ao Senhor.” (John Calvin, “Letter to Farel,” John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 73.) Na manhã de terça-feira de 13/9/1541 os magistrados de Genebra, precedidos por um arauto, foram receber Calvino, percorrendo o mesmo caminho que ele e Farel fizeram três anos antes, passando pela porta Cornavin em direção a Versoix. Neste mesmo dia, Calvino entra em Genebra; no dia 16, escreve a Farel dando-lhe notícia da sua entrevista com os magistrados e dos passos para a elaboração da forma para disciplina eclesiástica. (John Calvin, “Letter to Farel,” John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 76, p. 276-277.) A partir de então, Calvino dá prosseguimento à implantação de uma intensa reforma naquela cidade. Mais tarde (1557), ele contaria que regressou a Genebra com lágrimas, tristeza, ansiedade e abatimento, contrariando a sua “aspiração e inclinação”; contudo, ele tinha dentro de si um sentimento maior do que simplesmente fazer o que desejava; confessa: “o bem-estar desta igreja, é verdade, era algo tão íntimo de meu coração, que por sua causa não hesitaria a oferecer minha própria vida; minha timidez, não obstante, sugeriu-me muitas razões para escusar-me uma vez mais de, voluntariamente, tomar sobre meus ombros um fardo tão pesado. Entretanto, finalmente, uma solene e conscienciosa conside- ração para com meu dever prevaleceu e me fez consentir em voltar ao rebanho do qual fora separado.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 42.) Mas, como ele mesmo diria, comentando o Salmo 13, “é pela fé que tomamos posse de Sua providência invisível.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 13.1), p. 262.] Comentando o Salmo 18, diz: “Não há nada mais miserável do que uma pessoa, em adversidade, que entra em desespero por agir segundo o mero impulso de sua própria mente e não em obediência à vocação divina.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 354.) Calvino permaneceria em Genebra até o fim de sua vida (17/5/1564). De fato este fora o desejo dos 25 conselheiros que, quando o convidaram a voltar, registraram: “Resolve-se conservar Calvino aqui para sempre.” NE. 33 Possivelmente visava despistar seus inquisidores. NE.
  • 17. 17 ou Gérard, enviado em 1536 pelos valdenses à cidade e ali retido por Farel. Seu nome não figura nas Institutas de 1541, mas nas edições de 1545 e de 1553, saídas do mesmo prelo. Em 1540 ele inaugurou, na Bíblia revista por Calvino, um símbolo tipográfico: uma espada fincada verticalmente e rodeada de chamas. De pequeno formato, in-8º (185mm por 115; espessura de 40mm, incluída a en- cadernação), em texto compacto e em caracteres pequenos, com margens estrei- tas, o volume tem 822 páginas. Pode caber no bolso; evidentemente se destina a outras categorias de leitores, mais numerosos, que não sabem latim. O título não traduz o de 1539; as diferenças são significativas: Instituição da Religião Cristã: que contém um sumário sobre a piedade, e quase tudo o que é necessário conhecer da doutrina da salvação. Composta em latim por João Calvino e por ele traduzida para o francês (indicação que não será mais repetida nas edições ulteriores e que dá a esta um valor incomparável), com o prefácio dirigido ao cristianíssimo rei da França, Francisco, o primeiro desse nome, pelo qual o presente livro lhe é oferecido para confissão de fé.– Habacuque 1 – “Até quando, Senhor?” As letras ornadas, que se vêem em muitas páginas, pertencem ao excelente material proveniente de uma tipografia parisiense. Por que as Institutas não foram impressas na França, mesmo depois da ab- rogação da interdição absoluta de 1535? Os livros impressos em 1536 são raros; um deles, obra de Baïf, precisa ser reeditado em 1537, e o será em Basiléia, pela firma de Platter, o impressor das Institutas. Por outro lado, em Paris, entre 1539 e 1541, e em Lião, ocorrem duas greves de impressores: seu trabalho era duro; às vezes trabalhavam das duas da manhã às oito da noite! Com esse ritmo, concebe- se que certos livros saiam rapidamente do prelo. Três meses, em 1552, foram suficientes para que fossem publicadas as 734 páginas da obra Christianismi restitutio (Restabelecimento do Cristianismo), de Serveto, com uma tiragem de mil exemplares, em Viena, não longe de Lião. De 1500 exemplares foi a tiragem de uma Epístola Utilíssima, produzida por Girard, a cuja empresa Calvino confi- ará a obra Institutas. Não sabemos qual foi a tiragem desta. As publicações deste gênero eram bem recebidas na França pelos partidári- os e pelos adversários, uns e outros igualmente ardorosos. R. Estienne teve essa experiência na mesma época: “Lá pelo ano de 1541, mandei imprimir o Novo Testamento com breves anotações... O livro foi recebido com alegria, e depois... fui obrigado a me esconder” (Censuras dos Teólogos). Corajosos colportores, pela Suíça, pela Holanda, pelos vales valdenses, fi- zeram penetrar na França bom número de exemplares das Institutas. A repressão não tarda. Em Paris o preboste34 mandou prender o porteiro e guarda Antoine Le Noir, “livreiro que se dizia de Anvers” [Bélgica]; no dia primeiro de julho de 1542, o Parlamento o condena a confessar sua culpa no adro de Notre Dame. As Introdução 34 Antigo magistrado da justiça militar. Em francês: prévôt. NT.
  • 18. 18 As Institutas – Edição Especial Institutas de 1539 e de 1541 serão queimadas; Antoine Le Noir será banido. Nessa ocasião o Parlamento, à solicitação do procurador geral, sob a presidência de P. Lizet, dá ordem de embargo das Institutas: todos os exemplares deveriam ser apreendidos. Proibidas a reimpressão e a venda. Ao som de trombetas nas encruzilhadas, os arautos levam essas medidas ao conhecimento do público. A profunda impressão produzida pelas Institutas leva a Faculdade de Teo- logia a publicar, em 10 de março de 1543, artigos de fé sobre os assuntos contro- vertidos. No dia 14 de fevereiro de 1544 o Parlamento ordena que a obra Institutas seja queimada no adro de Notre Dame, ao som do grande sino. No dia 23 de junho de 1545 ele proíbe a impressão e a venda dos livros mencionados no catá- logo (o Index) dos livros censurados pela Faculdade de Teologia. Uma reedição das Institutas de 1541 acabava de aparecer em Genebra. Não nos alongaremos com informações sobre as medidas de repressão. PORQUE CALVINO PUBLICA UMA TRADU- ÇÃO FRANCESA Qualquer que fosse a língua em que Calvino es- crevesse, o objetivo era sempre o mesmo: servir. O “Argumento” de 1541 o diz expressamente: o livro foi redigido “primeiramente” em latim, para servir os lei- tores de todas as nações. Mas agora – a carta escrita ao rei o indica – ele quer especialmente “servir a nós, franceses”. Nem todos sabem latim. A obra é então traduzida para servir “nossa nação francesa”, inteiramente. Desde 1535, queren- do tornar conhecido o Novo Testamento em sua língua, Calvino dedicou a tradu- ção de Olivetan “a todos quantos amam Jesus Cristo”. Na opinião do chanceler Pasquier, Calvino “escrevia bem, tanto em latim como em francês, e a ele nossa língua deve muito, porque ele a enriqueceu com uma infinidade de passagens típicas”.35 Era belo o latim de Calvino. Ainda estu- dante, ele tinha lido a obra Ciceronianus, de Erasmo (1528), complementando a De elegantia latinæ linguæ (Acerca da Elegâncioa da Língua Latina), de Valla. É belo o francês de Calvino; eleva de Cordier, que ele conhecia desde antes da sua publicação, em 1530, das lições De corrupti sermonis apud Gallos emendation (Acerca das Palavras Errôneas, Conforme as Correções de Gallos) – obra reimpressa nove vezes, até 1536; Calvino tinha lido também a Breve Doutri- na para a Boa e Devida Redação da Língua Francesa, de Augereau, queimado como herege em Paris na véspera do Natal de 1534. Em 1536, R. Estienne trata Da maneira de verter à língua francesa os verbos ativos, etc. Mais tarde, Calvino ditará o que escreve a secretários; como principiante, escrevia de próprio punho; mas sempre corrige as provas cuidadosamente. Pouco antes de 1535, Geoffroy Tory tinha feito publicar sua obra Campo Florido (“Champ Fleury”), que contém a arte e a ciência da devida e verdadeira proporção das letras áticas (1529). 35 Viajei certa vez (1987) com um padre francês (Pe. Henrique). No fim da viagem ele confessou que no seminá- rio em que tinha estudado, em Paris, Calvino era lido como modelo da língua francesa. Acrescento que recen- temente (dia 11.11.01) conversei em Campinas com um bispo católico romano (Bispo Bruno, de Bragança Paulista) e lhe contei a experiência acima referida. Ele confirmou o que o padre Henrique dissera. NT.
  • 19. 19 Segundo essa obra, à letra gótica, ainda empregada por P. de Wingle para a Bíblia de 1535, Calvino e Platter preferem em 1536 a romana e a itálica. Em 1541 apareceram algumas vezes o acento agudo, o apóstrofo, a cedilha: Em 1540, Dolet acabava de imprimir suas reflexões sobre A maneira de bem traduzir de uma língua para outra, com a vantagem da pontuação da língua francesa, mais os seus acentos. Introdução O ESTILO DE CALVINO Sobre a forma literária das Institutas, como falar sem repetir o que excelentemente disseram mestres como Brunetière, Lanson, Lefranc, Brunot, Plattard, Huguet? Aos vinte e três anos de idade, Calvino já tinha indicado, a propósito de Sêneca, que havia procurado escrever numa linguagem pura, elegante, breve, clara, variada. Ora são os períodos oratórios, ora os termos incisivos, irônicos. A sintaxe é mais demorada que a nossa, observa Petit de Julleville; por isso, as construções são sempre limpas. Os períodos amplos lembram a frase latina, com poucos incidentes longos. As palavras importantes são bem valorizadas; a frase, em termos matizados, equilibrados, é harmoniosa na leitura e sonora ao ouvido, com cadência musical. O ritmo é ora mais lento, ora mais rápido: é obra de um grande apreciador do canto, estilo de um homem instruído e igualmente elevado, de conversa agradável e também orador eloqüente. As imagens são vivas, man- tendo a atenção desperta; são mais numerosas em 1541 que em 1536. Os provér- bios são freqüentes, como igualmente as comparações, aqueles e estas mais fre- qüentes também em 1541, porque o autor deseja ser compreendido por maior número de leitores. Já não se dirige somente aos letrados; quer esclarecer os que pouco sabem. É, pois, necessário que uma expressão familiar venha alegrar um desenvolvimento que se arriscava a parecer muito abstrato.Algumas palavras são curiosas e merecem realce. Umas mantêm o sabor da Picardia, terra natal do autor (no tratado contra os libertinos, Calvino reproduzirá a forma de expressar de um interlocutor em sua fala própria da Picardia); as outras provêm dos seus estudos jurídicos. Os termos jurídicos são mais freqüentemente empregados no latim de 1536 e de 1539, cujos leitores conheciam a linguagem técnica, do que no francês de 1541. Nesta, quando essa linguagem ainda ocorre, a terminologia é a dos proce- dimentos da época, e mesmo, familiarmente, a do clero. Calvino considera a parte contrária como um querelante que ataca os inte- resses dos quais ele é o defensor: os interesses da verdade, do Evangelho. Diante de um tribunal onde há um trono real, Calvino pleiteia uma causa que é a de um soberano maior, o Rei dos reis. Trata-se de “argüir” bem, de “redargüir”, de “prescrever”, de “requerer”. Juiz, julgamento, testemunho, são expressões correntes. Em 1541, é questão de uma “pobre defesa, indigna de admitir-se” (a tipografia de 1539 tinha tolamen- te impresso digna). Não se pode “alegar ignorância”, é-lhe negada “toda escu- sa”, redige-se um instrumento. Termos bastante específicos: manumissio,
  • 20. 20 As Institutas – Edição Especial restitutio in integrum, são substituídos por equivalentes mais fáceis de entender: libertação, reparação. De maneira constante, o escritor se esforça para dar ao livro de 1541 um caráter mais popular; as palavras impressas em caracteres gregos são suprimidas; outras, transliteradas em francês: thesis, hypothesis, etc., desaparecem em 1541. Em 1541 a tradução francesa, grave e simples, segue literalmente o texto de 1539. Vinte anos depois, na última edição francesa, revista e bastante aumentada, a língua ficará mais livre do latim; mas, se Calvino fez revisão do texto, parece que a de 1541 foi inteiramente redigida por ele, o que dá a essa edição um valor documental sem par. Em 1560 serão eliminados os substantivos abstratos termi- nados em tion e os advérbios em ment, demasiado freqüentes em 1541; se certos termos novos adotados pelo revisor de 1560 estão mais próximos da nossa língua moderna, as formas empregadas pelo jovem escritor de 1541 são mais concisas e a redação é mais analítica. A seqüência dos pensamentos é bem encadeada, as idéias secundárias são agrupadas em torno do pensamento principal, os compo- nentes de frase são coordenados segundo suas respectivas proporções. Do ponto de vista da forma, o conjunto produz no leitor uma impressão artística, como tam- bém, do ponto de vista do conteúdo, uma impressão de pensamento profundo. AS FONTES Passemos às observações mais importantes: so- bre o conteúdo do livro e suas fontes, sobre o plano, sobre os diversos capítulos. O livro Institutas, em princípio, não pretende ser outra coisa que um co- mentário da Escritura Sagrada. Quanto a esta, já há uma dezena de anos, Olivetan levou Calvino a reconhecer a autoridade soberana em matéria de fé; Calvino estudou hebraico e grego a fundo para poder ler melhor que na Vulgata os textos do Antigo e do Novo Testamento. As edições de Erasmo, os comentários de Lefèvre, são seus livros de cabeceira. Ele lê também os chamados pais da igreja, e, depois de 1541, os lerá mais do que antes de 1539. Entre os “pais” gregos ele só fica conhecendo bem João Crisóstomo; ele lê maior número de “pais” latinos, sobretudo Agostinho. Com respeito a autores profanos, Aristóteles e Platão, Cícero e Sêneca, freqüentemente editados e comentados pelos humanistas, fornecem muitas refe- rências. Muitas vezes os estóicos são criticados, o mesmo acontecendo com os escolásticos, entre os quais Calvino inclui os sorbonistas do seu tempo. De bom grado cita histórias da igreja antiga, e também a história profana. Quanto aos reformadores, Calvino não cita Œcolampádio em 1536 (e, toda- via, a lembrança do teólogo de Basiléia era ainda muito recente naquela cidade quando Calvino fez chegar lá o livro Institutas), como também não cita Bucer em 1539 e em 1541 (e, todavia, a influência do pastor alsaciano se faz sentir nas páginas acrescentadas à redação primitiva: sobre a doutrina da igreja, etc.). De Lutero, Calvino fala com respeito; ele não tinha lido as suas obras em alemão, língua que ele ignorava, mas em latim.
  • 21. 21 Por fim, suas leituras estendem-se aos escritos dos adversários. Um deles é Béda (ex-diretor do colégio Montaigu, onde Calvino estudou alguns meses), inspirador das declarações da Sorbonne contra Erasmo, Lefèvre, Berquin e Lutero (Béda não pôde ler e condenar as Institutas, pois morreu em 1536). Introdução TOM Contra os adversários Calvino batalhará vigorosamente, empregando termos enérgicos, sobre- tudo após 1541. Como os primeiros escritos dos evangélicos franceses e como os primeiros extratos das obras de Lutero, selecionados pelos tradutores franceses, as primeiras edições latina e francesa das Institutas pretendem ser obras de edificação, antes que tratados de controvérsia. Não quer dizer que nos textos de 1539 e de 1541 não se encontrem expressões cáusticas, mordazes e até violentas; mas Calvino, aos vinte e nove anos de idade, ainda não é o homem que se tornará à medida que envelhecer, mostrando-se na juventude muito irritado pelas oposi- ções, pelas dificuldades, pelas inquietações e pelas doenças36 que o mantiveram preso ao leito durante boa parte do seu tempo de trabalho. Mais ainda que os adversários declarados, ele vê com maus olhos, desde 1539, aqueles que, como Rabelais e Des Périers, tendo-se inclinado para o Evan- gelho, depois o abandonaram; assim, dois ex-discípulos de Lefèvre, o cônego flamengo Clichtow (cujos sermões foram publicados em 1535) e o capelão de Marguerite d’ Angoulème, que se tornou bispo de Oloron, Gérard Roussel: as cartas contra os “Nicodémites” (hipócritas) foram compostas em Ferrara em 1536, o Tratato sobre os Escândalos em Estrasburgo, em 1540, portanto entre a segun- da edição latina das Institutas e sua versão francesa. OS TESTEMUNHOS INVOCADOS Calvino recorre também, quando se lhe apresenta a ocasião, às descobertas – ainda bastante rudimenta- res – dos sábios, às obras dos artistas, aos espetáculos da natureza, em favor da causa que lhe é cara; mais ainda: em favor da Causa que, de toda a sua alma, ele crê que é santa. Como bom advogado, ele invoca todas as autoridades das quais pode reclamar testemunho: a autoridade de autores profa- nos, de “pais” da igreja e, sobretudo, de escritores sacros; mas, para tocar o cora- ção de todos, dos reis e dos sábios, como também dos “simples e rudes” que têm sede da verdade, Calvino conta, antes de tudo e quase unicamente, com uma ação superior aos poderes humanos, com a intervenção pessoal e direta do Pai celeste na consciência dos Seus filhos, com o testemunho interno do Espírito Santo. Esta doutrina especificamente calvinista, baseada na Escritura Sagrada, é o fio condu- tor que permite seguir de um extremo ao outro o plano geral e os diversos capítu- 36 Calvino reflete sobre a fragilidade humana: João Calvino, As Institutas, I.17.10. Calvino que sempre teve saúde débil, acompanhada de uma capacidade hérculea de trabalho, em 08/02/1564, escreve a médicos de Montpellier agradecendo os remédios e a gentil atenção. Nesta carta ele descreve suas enfermidades: artrite, pedras nos rins, hemorróides (enfermidade que o impedia de cavalgar), febre, nefrite, indigestão, cólicas, úlceras, emissão de sangue por via urinária... (Vd. John Calvin, “To the Physicians of Montpellier”, “Letters,” John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 665.) NE.
  • 22. 22 As Institutas – Edição Especial seguido da explicação do Decálogo, do Credo e do Pater [a oração do Senhor], que já formavam a trama dos antigos catecismos católicos romanos e do de Lutero. O capítulo primeiro trata da idéia de Deus, inata; juiz e pai. O ateísmo e as religiões falsas são desmascarados. Como conhecer Deus? O espetáculo do mun- do mostra a existência da Providência, mas uma revelação interior, mais precisa, é indispensável. O testemunho do Espírito Santo estabelece a autoridade da Es- critura; provas secundárias são admissíveis. O conhecimento de si mesmo é útil ao homem, se nele produz humildade. A liberdade existe; não há necessidade de exaltá-la, nem de suprimi-la. Tudo deve ser feito para a glória de Deus. As faculdades da alma foram classificadas por Platão de maneira muito complicada. Calvino distingue simplesmente a inteli- gência e a vontade. A inteligência aplica-se proveitosamente à ordem política e social, às artes, à filosofia; para as coisas celestiais ela é insuficiente. Vem então a questão do livre arbítrio.Avontade foi corrompida pelo pecado, do qual o homem é escravo. A graça é o único remédio. O mal é obra do Diabo. O capítulo Acerca da Lei dá explicação de cada mandamento do Decálogo do ponto de vista prático, e depois o Sumário da Lei, dado por Jesus Cristo. A fé é primeiro definida: Um conhecimento seguro da vontade de Deus. Seu objetoéavidaeterna,seufundamento éapromessadeJesus Cristo. O Credo éexplica- do em quatro partes: Pai, Filho, Espírito Santo, Igreja (sua organização, o ministério sagrado, os sacramentos: pontos mais desenvolvidos que na edição de 1536). A propósito da Penitência (IV), Calvino fala contra o mérito das obras e contra o purgatório. A Justificação pela Fé (V) é a reconciliação com Deus. So- mente ela dá paz às consciências. Vem depois um paralelo do Antigo e do Novo Testamento (VII), seguindo- se a questão da Predestinação e da Providência de Deus (VIII). Somente a Pala- vra de Deus é capaz de esclarecer este assunto, que é preciso não abordar com curiosidade. Se há predestinação dos eleitos, há também dos reprovados. Deus intervém, direta ou indiretamente, em toda a vida humana. RESUMO DO LIVRO A edição de 1536 não tinha mais que seis capítu- los; em 1539 e em 1541, dezessete. Aqui se vê a intro- dução: Acerca do conhecimento de Deus e do homem, los do livro. Outra doutrina, destinada a receber mais tarde grande desenvolvi- mento, a da predestinação, é rapidamente formulada nos textos de 1539 e de 1541. Se Calvino comenta a Palavra de Deus, se escreve as Institutas, é porque está persuadido de que esta Palavra pode e deve exercer uma ação irresistível sobre as almas a quem Deus concede esse privilégio. Post tenebras lux (luz após trevas) é o versículo de Jó que Calvino viu tor- nar-se a divisa de Genebra quando esta adotou a Reforma, em 1536. Quando essa luz de Deus brilha, quando a voz de Deus se faz ouvir, só nos resta obedecer. “Promptè et sincerè” (Pronta e sinceramente) é uma palavra de ordem que Calvino toma para si e dá aos outros.
  • 23. 23 O capítulo Acerca da Oração (IX) é simplesmente uma explicação da Oração do Senhor; começa com uma introdução sobre a utilidade e a legitimidade da oração. Depois de falar dos sacramentos em geral (X), sinais visíveis da graça invi- sível, segundo a doutrina agostiniana, Calvino trata do Batismo, preconizando (contra os anabatistas) o batismo das crianças; e ensina que, na Santa Ceia, Jesus Cristo está presente real, mas espiritualmente. Essa doutrina, definida com preci- são sob a influência de Bucer, exclui a transubstanciação católica romana, a consubstanciação luterana e, sobretudo, a simples comemoração zwingliana. Em seguida são eliminadas “outras cinco cerimônias falsamente chamadas sacramentos” (XIII). Um belo capítulo (XIV) é dedicado à Liberdade Cristã, bem diferente da licença [isto é, do abuso da liberdade]. O Poder Eclesiástico (XV) deve ser regulado de tal maneira que não atente contra essa liberdade, como é o caso da igreja romana. Os diversos regulamentos e as cerimônias diversas são admissíveis, desde que ajudem a edificação. Que pensar do Governo Civil (XVI)? Os magistrados (o termo era emprega- do em Estrasburgo para designar os detentores do poder legislativo e do poder executivo, e não somente os juízes) têm uma missão divina, seja qual for a forma do Estado: monarquia, democracia ou outra. (No fundo, o regime preferido por Calvino é a teocracia.) A autoridade real é por direito divino; além disso, os gene- rais de Estado e outros representantes dos direitos do povo estão no plano divino. O último capítulo foi redigido durante a permanência em Estrasburgo. Calvino reflete nas diversas provas pelas quais passou desde 1535; aprendeu a sofrer. A Vida Cristã (XVII) consiste em cada um levar a sua cruz meditando na vida futura. A conclusão do capítulo – e do livro inteiro – é todo de moralidade prática: pode-se fazer uso dos bens deste mundo, mas é necessário que o cristão não se afeiçoe muito por eles; convém que se considere simples depositário. Cada cris- tão, seja qual for o seu estado, será feliz se se conduzir em conformidade com a vocação que recebeu de Deus. Tal é a obra realizada em 1539 por um homem de trinta anos e que, dois anos depois, ele quer fazer chegar à porta de todos os seus compatriotas. O EFEITO PRODUZIDO Uma dezena de edições latinas, uma quinzena de edições francesas, numerosas traduções em línguas es- trangeiras foram dadas a público durante a vida do au- tor. Ele pode dizer, não por orgulho mas com reconhecimento, que, graças às Institutas, ele tem filhos espirituais no mundo inteiro. Um dístico que se deve a um húngaro declara que, desde os escritos apostólicos, nada se iguala às Institutas. Durante o século XVI, do ponto de vista religioso, nenhum livro, depois da Bíblia, tem semelhante autoridade; do ponto de vista literário, nenhuma obra contribuiu com igual clareza e igual força para a expansão do pensamento fran- cês. Aos olhos de um holandês do século XVII, é “um tesouro caído do céu: desde o conselheiro do tribunal supremo até os cocheiros e barqueiros, todos são Introdução
  • 24. 24 As Institutas – Edição Especial versados na teologia calvinista, todos relêem dia e noite estas Institutas de ouro”. Ainda noséculoXVIII,Bayle escreve:“Jamaishouvelivrotãocomumcomoesse”.37 Alguns exemplares são encadernados suntuosamente, com fechos de ouro. Outros trazem os sinais dos tempos de perseguição: foram escondidos debaixo do soalho, nos celeiros; a primeira página foi arrancada, o nome do autor foi raspado ou cortado, para escaparem da destruição.As edições mais antigas foram em grande parte consumidas pelas chamas. Com efeito, os adversários não so- mente contestavam vivamente, mas condenavam e queriam suprimir o que um deles (Florimont de Raemond) denominava “o Talmude da heresia, um amonto- ado de quase todos os erros do passado e... e do futuro”. NOSSA EDIÇÃO Se a Associação Guillaume Budé faz reimprimir este texto de 1541, não é em consideração ao papel que ele tem desempenhado na história do pensamento reli- gioso, mas em razão do lugar que ele ocupa na história da língua e da literatura francesas. Bossuet não se constrange ao “dar” ou ao atribuir a Calvino “esta gló- ria, de, em suma, escrever como homem do seu século”, e de ter-se “excedido em excelência ao falar a língua do seu país”. Esse elogio, sob uma pena não suspeita de benevolência, é ratificado pelos eruditos mais modernos. Até a sua morte, Calvino revisou e aumentou sua obra, sem acrescentar nada de essencial.38 Mas, se as edições posteriores, e em especial o grande volu- me de 1560,39 são relativamente fáceis de encontrar, já não é assim com o texto de 37 Alguns dos inúmeros testemunhos a respeito das Institutas: O historiador Félice, a denomina “primeiro monumento teológico e literário da Reforma francesa.” (G. de Félice, História dos Protestantes da França, São Paulo, Typographia International, 1888, p. 53.) “Após três séculos e meio, ela conserva sua inquestionável preeminência como o maior e mais influente de todos os tratados dogmáticos.” [B.B. Warfield, Calvin and Calvinism, Grand Rapids, Michigan, (“The Work’s of Benjamin B. Warfield”), 1981, Vol. V, p. 8.] Albrecht Ritschl (1822-1889) a chama de “obra-prima da teologia protestante” [Apud B.B. Warfield, Calvin and Calvinism, Vol. V, p. 9.] “A Institutio não é somente uma obra-prima de teologia Cristã; ela é um clássico devocional.” [John Murray, Calvin as Theologian and Expositor, Carlisle, Pennsylvania, The Banner of Truth Trust, (Collected Writings of John Murray, Vol. I], 1976, p. 311.] “AInstitutio de Calvino é a mais importante obra da história da ciência teológica.” (William Cunningham, The Reformers and the Theology of the Reformation, Carlisle, Pennsylvania, The Banner of Truth Trust, 1989 (Reprinted), p. 295.) NE. 38 William Cunningham (1805-1861), escreveu: “A primeira edição da sua grande obra, ‘A Instituição da Religião Cristã’, foi publicada quando ele tinha 27 anos de idade; e ela é a mais extraordinária prova da maturidade e vigor de sua mente, do cuidado com que ele estudou a Palavra de Deus, e da profundidade e vastidão de suas meditações sobre as coisas divinas, e não obstante a obra ter sido posteriormente grandemente ampliada, e ainda que algumas alterações tenham sido feitas em sua disposição dos tópicos discutidos, contudo nenhuma alteração de qualquer importância foi feita nas doutrinas que ali estabeleceu.” (William Cunningham, The Reformers and the Theology of the Reformation, p. 294.) NE. 39 Recordemos um pouco: A edição original escrita em latim – dispunha de 6 capítulos em apenas 520 pági- nas, com formato aproximado de 15x10 – um livro de bolso que facilitava o seu transporte discreto; a última – passando por algumas ampliações, revisões e reorganizações [1536, 1539, 1543 (sem alteração, 1545), 1550 (sem alterações: 1553 e 1554)], até atingir a forma definitiva – publicada em Genebra (1559) na tipografia de Robert Estienne. Esta foi reimpressa duas vezes em 1561. Conforme o próprio Calvino nos diz; ele só se satisfez com o arranjo e ordem desta última (Prefácio à Edição de 1559). A tradução francesa foi impressa na tipografia de Jean Girard, em Genebra (1541), seguin-
  • 25. 25Introdução 1541. Da edição original não existem mais que seis exemplares: dois em Paris (na Biblioteca Nacional e na Biblioteca do Protestantismo Francês), um em Ge- nebra, um em Estrasburgo, um em Montpellier, e um derradeiro numa coleção particular existente em Neuchâtel. Em 1865, os professores estrasburgueses Baum, Cunitz e Reuss, reimprimin- do nas Opera Calvini (Obras de Calvino), t. III, o texto de 1560, introduziram aqui e ali, ao pé das páginas, algumas frases do texto de 1541. Este foi reproduzido integralmente em 1911 na Biblioteca da Escola de Altos Estudos, sob a direção do professorAbel Lefranc, mas essa edição em dois volumes esgotou-se rapidamente. A edição atual, preparada pela Sociedade Calvinista da França, vem a pú- blico sob os auspícios da Associação Guillaume Budé, com uma generosa sub- venção da Sociedade do Museu Histórico da Reforma em Genebra. Budé e Gene- bra, o Colégio da França onde Calvino se formou em Paris, por volta do ano de 1530, e Genebra, onde ele publicou o seu livro em 1541, encontram-se desse modo evocados juntos, graças a uma feliz coincidência! A melhor maneira de celebrar o quarto centenário das Institutas seria fazer chegar de novo este livro à porta dos leitores do século XX. Oxalá tenham eles o mesmo interesse dos leitores do século XVI! JACQUES PANNIER Pastor, Doutor em Letras Bibliotecário da Sociedade de História do Protestantismo Francês. do-se outras: 1545, 1551, (sem alterações: 1553 e 1554), 1557 e a definitiva: 1560. Ela exerceria poderosa influência sobre as igrejas da França, tendo o Parlamento francês inclusive interditado a obra e destruído alguns volumes (1542) e a Faculdade de Teologia a incluiu entre os livros censurados (23/06/1545). Apesar das sucessivas edições ampliadas da Instituição, a realidade é que a sua teologia não mudou. As modifica- ções refletem, na realidade, mais uma preocupação pedagógica do que metodológica, e menos ainda teoló- gica. (Vd. Alister E. McGrath, A Life of John Calvin: A Study in the Shaping of Western Culture, Oxford, UK & Cambridge, USA., Blackwell Publishers, 1991, p. 148.) É bom lembrar, que toda a sua obra foi produzida não num clima de sossego e paz, numa “torre de marfim”, mas em meio a inúmeros problemas: administrativos, domésticos, financeiros e, principalmente, de saúde. (Vd. “John Calvin, To Farel”, “Letters,” John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 34; Vd. “John Calvin, To the Physicians of Montpellier”, “Letters,” John Calvin Collection, [CD-ROM], nº 665; John Calvin, To Monsieur de Falais, “Letters,” John Calvin Collection, [CD-ROM], 161.) A edição definitiva da Instituição (latim: 1559; francês: 1560), seguindo a ordem do Credo Apostólico, pode ser, grosso modo, assim esboçada: III – Do Conhecimento de Deus, o Criador (Teologia) III – Do Conhecimento de Deus, o Redentor (Cristologia) III – O Espírito Santo e a Aplicação da Obra salvadora de Cristo (Pneumatologia/Soteriologia) IV – Os Meios Externos de Salvação: a Igreja e os Sacramentos (Eclesiologia). NE.
  • 26. O TEXTO E AS NOTAS DA PRESENTE EDIÇÃO O TEXTO A data de 1536 e a de 1539, entre colchetes, indica a data da edição latina da qual Calvino traduziu o texto no parágrafo que se segue à menção dessa data. Os títulos dos capítulos são os da edição de 1541. AS NOTAS 1. As chamadas com algarismos remetem à margem inferior das páginas; ali são reproduzidas em itálico as referências impressas nas margens da edição de 1541, e em caracteres romanos as referências e as indicações complementares fornecidas, quer por outras edições publicadas durante a vida de Calvino, quer pelas Obras Seletas de Calvino (Opera Calvini selecta), edição de P. Barth e Niesel, 1928, quer ainda pelos editores da presente edição. 2. As chamadas com pequenas letras [chumbo miúdo] remetem igualmente ao rodapé (comentário histórico, teológico e literário). Vão ali inseridos extratos de edições latinas (1536, 1539) cujo paralelo com a tradução francesa oferece alguma utilidade ou algum interesse lingüístico. As notas teológicas foram redigidas pelo pastor Lecerf, presidente da Socie- dade Calvinista da França; todas as outras devemos ao pastor J. Pannier, vice- presidente da referida sociedade. Nesta edição da Editora Cultura Cristã, além das notas do tradutor (NT), Odayr Olivetti, o leitor encontrará ainda as notas editoriais (NE), elaboradas por Hermisten Maia Pereira da Costa. O objetivo des- ta editora é que esta publicação enriqueça a pesquisa dos estudiosos interessados na doutrina bíblica conforme resgatada pelo mestre da Reforma. Índice Remissivo — Ainda para facilitar o trabalho dos pesquisadores, no fim do último volume incluiremos índices de assuntos, de nomes e de passagens bíblicas, bem como uma grade comparativa da localização de assuntos nesta edi- ção de pesquisa e na edição clássica da Editora Cultura Cristã. CLÁUDIO A. B. MARRA Editor
  • 27. P ara que os leitores façam melhor proveito deste livro, quero mostrar-lhes resumidamente a utilidade que eles terão em aplicar-se à sua leitura. Por que, ao fazê-lo, eu lhes mostrarei a que objetivo deverão ater-sea e ao qual deverão dirigir sua atenção durante a leitura. Embora seja fato que a Escritura Sagrada contém uma doutrina perfeita, à qual nada se pode acrescentarb , visto que nela o nosso Senhor Jesus Cristo quis expor os tesouros40 infinitos da Sua sabedoria, contudo, uma pessoa que não esteja bem exercitada necessita de algu- ma orientação e direção para saber o que deverá buscar, para que não fique va- gando aqui e ali, mas tenha uma certa visão para pôr sempre a atenção nos pontos para os quais o Espírito Santo a chame. Portanto, o ofício dos que receberam mais ampla iluminação de Deus que os outros consiste em dar aos simples o que lhes é necessárioc neste assunto e em saber estender-lhes a mão para os conduzir a No início da edição latina de 1539 a Carta ao Leitor (Epistola ad lectorem) não contém nada equivalente a estas primeiras linhas. b No Sumário e Breve Declaração (Summaire et briefve declaration) publicado por Farel por volta de 1524 e que tinha acabado de ser reeditado em 1534, quando Calvino estava escrevendo este argumento, lê-se: “Na obra de salvação não é necessário apresentar senão as coisas das quais haja muita certeza, e as quais se pode tomar tão-somente da Escritura Sagrada”. 40 Provérbios de Salomão 2.2-4 c Em 1539 a Epistola ad lectorem começava assim (em latim no original francês): “Na primeira edição desta obra de nossa autoria, à qual eu não esperava que a bondade do Senhor concedesse tanto êxito, era minha intenção, como acontece em geral com obras de pequeno vulto, fazer uma exposição sucinta. Quando vi, porém, que ela foi tão favorecida por quase todos os piedosos, coisa que não ousei desejar, nem tampouco esperar, senti-me apoiado além de meus merecimentos. Eu julguei que seria ingrato se não procurasse corresponder com empenho, diligentemente e com os recursos ao meu alcance ao desejo demonstrado”, etc. “Este foi, pois, o meu propósito neste trabalho: Preparar e instruir os candidatos à Teologia Sacra para o estudo da Palavra de Deus, facilitando-lhes o acesso de modo que possam progredir neste aprendizado sem tropeços.”
  • 28. 28 As Institutas – Edição Especial e os ajudara a encontrar a essência do que Deus nos quer ensinar em Sua Palavra. Ora, a melhor maneira de fazer isso é com as passagens que tratam dos assuntos principais e, por conseguinte, as que estão contidas na filosofia cristã.b Pois quem tiver entendimento estará capacitado a crescer na escola de Deus, um dia mais, outro menos, num período de três meses; isso porque sabe mais ou menos quan- do deve introduzir esta ou aquela sentença, e tem sua regra para dispor com equi- líbrio tudo o que lhe é apresentado.c Vendo então que é uma coisa tão necessária auxiliar dessa maneira os que desejam ser instruídos na doutrina da salvação, esforcei-me, conforme a capacidade que Deus me deu, para dedicar-me a esse trabalho; e com esse fim compus o presente livro. Primeiramente escrevi em latim – para servir a todos os estudiosos de qualquer nação; logo depois, desejan- do comunicar o que pode vir a ser benéfico à nossa nação francesa, eu o traduzi para a nossa língua. Não me atrevo a dar um testemunho muito forte e declarar quão proveitosa poderá ser a sua leitura, temendo parecer que eu dou demasiado valor à minha obra; todavia, posso muito bem prometer uma chave e uma abertu- ra para dar acesso a todos os filhos de Deus para entenderem bem, e diretamente, a Escritura Sagrada. [1539] Por isso, se daqui em diante o nosso Senhor me der os meios e a oportunidade de fazer alguns comentários,d serei o mais breve possível, porque não será necessário fazer longas digressões, visto que aqui já dei extensamente pormenores de quase todos os artigos pertencentes à cristandade. Já que é necessário que reconheçamos que toda a verdade e toda sã doutrina procedem de Deus,41 ousarei declarar audaciosamente, mas com simplicidade, o a “Com efeito, meu interesse foi apresentar um sumário de todas as partes interligadas num todo que permita fácil exame (ibid.). b No discurso proferido em Paris no dia 1º. de novembro de 1533 pelo reitor Cop, mas composto por Calvino (Opera Calvini, IX, 873), trata-se da questão da filosofia de Cristo (philosophia Christi), expressão com a qual Erasmo já designava a substância da doutrina cristã. c Cf. Rm 2.20: “Tendo [tu] na lei a forma da sabedoria e da verdade”. Ou, na tradução dada no original francês: “Tu tens na lei a regra da ciência e da verdade”. Fazia pouco tempo que Calvino tinha comentado esta epístola de Paulo em Estrasburgo, em 1538-39. Numerosas passagens das Institutas, particularmente no último capítulo, têm nesse comentário a sua inspiração. d Calvino dedicou a Grineu [Simon Grynaeus (1493-1540)]1 seu Comentário da Epístola aos Romanos já em 18 de outubro de 1539, dois meses depois de anunciar isso na epístola de 1539. 41 Esta compreensão esteve sempre presente no pensamento teológico da igreja; cito alguns exemplos: Justino Mártir (c. 100-165): “... Tudo o que de bom foi dito por eles (filósofos), pertence a nós, cristãos, porque nós adoramos e amamos, depois de Deus, o Verbo, que procede do mesmo Deus ingênito e inefável.” (Justino, Segunda Apologia, São Paulo, Paulus, 1995, XIII.4. p. 104); Agostinho (354-430): “Todo bom e verdadeiro cristão há de saber que a Verdade, em qualquer parte onde se encontre, é propriedade do Senhor. Essa verdade, uma vez reconhecida e professada, o fará rejeitar as ficções supersticiosas que se encontram até nos livros sagrados.” (Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo, Paulinas, 1991, II.19. p. 122.) Em lugares diferentes, Calvino escreveu: “... visto que toda verdade procede de Deus, se algum ímpio disser algo verda- deiro, não devemos rejeitá-lo, porquanto o mesmo procede de Deus. Além disso, visto que todas as coisas procedem de Deus, que mal haveria em empregar, para sua glória, tudo quanto pode ser corretamente usado dessa forma?” (João Calvino, As Pastorais, (Tt 1.12), p. 318.) Em outro lugar: “Se reputamos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade mesma, onde quer que ela haja de aparecer, nem a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus.” (João Calvino, As
  • 29. 29 que eu penso desta obra, reconhecendo que ela é mais de Deus que minha; pelo que, na realidade, a Ele se deve render louvor. Exorto a todos os que têm reverên- cia para com a Palavra do Senhor, que leiam este livro e que o gravem diligentementea na memória, se quiserem ter, primeiro, um resumo da doutrina cristã, e, depois, uma proveitosa iniciação na leitura, tanto do Antigo como do Novo Testamento. Quando tiverem feito isso, eles saberão por experiência que de modo nenhum eu quis abusar das palavras.42 Se alguém não puder compreender todo o conteúdo, não precisa ficar desanimado por isso; continue indo sempre adiante, na esperança de que uma passagem lhe dará uma exposição mais fácil de outra.b Acima de tudo mais, é recomendável que se recorra à Escritura para con- siderar os testemunhos por mim citados.c a Calvino traduziu assim o versículo de João 5.39: “Pesquisai diligentemente as Escrituras”. Argumento do presente livro Institutas, II.2.15.) Ele acrescenta: “.... Se o Senhor nos quis deste modo ajudados pela obra e ministério dos ímpios na física, na dialética, na matemática e nas demais áreas do saber, façamos uso destas, para que não soframos o justo castigo de nossa displicência, se negligenciarmos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas.” (J. Calvino, As Institutas, II.2.16.) (Vd. J. Calvino, As Institutas, I.5.2; II.2.12-17.) Fiel a esse princípio, na Academia de Genebra estudavam-se autores gregos e latinos, tais como: Heródoto, Xenofonte, Homero, Demóstenes, Plutarco, Platão, Cícero, Virgílio, Ovídio, entre outros. (Ver: Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. VIII, p. 805.) NE. 42 Na sua carta dedicatória do Comentário de Romanos – dirigida a seu amigo de Basiléia, Simon Grynaeus (1493-1540) –, com quem discutira alguns anos antes sobre a melhor maneira de interpretar as Escrituras, concluía, conforme também pensava Grynaeus, que “a lúcida brevidade [“perspicua brevitas”] constituía a peculiar virtude de um bom intérprete. Visto que quase a única tarefa do intérprete é penetrar fundo na mente do escritor a quem deseja interpretar, o mesmo erra seu alvo, ou, no mínimo, ultrapassa seus limites, se leva seus leitores para além do significado original do autor.” (João Calvino, Exposição de Romanos, Dedicatória, p. 19.) NE. b A epístola de 1539 concluía: “Passe bem, amigo leitor, e se tiveres algum fruto do meu trabalho, ajuda-me com tuas orações ao Senhor. Genebra, agosto de 1539”. c Assim o Livro de Atos (17.11) mostra os ouvintes do apóstolo Paulo “examinando as Escrituras todos os dias para ver se as cousas eram, de fato, assim”.
  • 31. AO NOBILÍSSIMO, PODEROSO E ILUSTRE PRÍNCIPE FRANCISCO, CRISTIANÍSSIMO REI DA FRANÇA, SEU PRÍNCIPE E SENHOR, João Calvino deseja paz e salvação em Deus. [1536] A princípio, quando me pus a escrever este livro, só pensei em escrever algo dedicado à tua majestade, ó nobilíssimo rei. A minha intenção era somente ensinar alguns princípios elementares com os quais as pessoas que têm algum amor a Deus recebessem instrução para a verdadeira vida piedosa. Principalmen- te, o meu desejo era servir aos nossos compatriotas franceses, muitos dos quais eu via que têm fome e sede de Jesus Cristoa e dos quais muito poucos receberam bom conhecimento. O próprio livro mostra que aquele era o meu propósito, visto que o adaptei à maneira mais simples de ensinar que me foi possível. Vendo, porém, que o furor de alguns homens perversosb cresceu tanto em teu reino que já não há lugar nenhum para a verdadeira doutrina, pareceu-me que seria útil usar este livro, tanto para dar instrução àqueles a quem primeiramente resolvi ensinar, a Já em 1525, Lambert d’ Avignon escrevia: “Quase toda a França está profundamente abalada; sem mestre e sem quem busque diligentemente a verdade” (Carta de 20 de janeiro ao Eleitor da Saxônia. Cf. Herminjard, Correspondência dos Reformadores (Correspondence des Reformateurs) nos países de língua francesa, t. I, p. 113). Em 1534 se acabava de reeditar o Sumário e Breve Declaração (Summaire et briefve declaration) publicado por Farel uma dezena de anos antes, dedicado “a todos os que amam o nosso Senhor e desejam conhecer a verdade”. b Os doutores da Sorbonne e os conselheiros do Parlamento de Paris.
  • 32. 32 As Institutas – Edição Especial como para confissão de fé diante de ti – para que conheças a doutrina contra a qual com tanta raiva e tão furiosamente se inflamam aqueles que com fogo e espada perturbam o teu reino. Pois não tenho medo de confessar que já reuni aqui um sumário quase completo da mesma doutrina que eles acham que devem punir com prisão, exílio, confisco de bens e fogueira, e que deve ser expulsa do mundo – da terra e dos mares. Bem sei com que horríveis boatosa eles encheram os teus ouvidosb e o teu coração, querendo tornar a nossa causa por demais odiosa a ti. Mas, segundo a tua clemência e mansidão, podes considerar que, se fosse sufici- ente fazer acusação, não restaria nenhum inocente, nem no falar, nem no fazer; bastaria acusar. Certo é que se alguém, querendo despertar ódio contra esta doutrina, a qual pretendo esforçar-me para explicar – se alguém, digo, argumentar dizendo que ela já foi condenada por consentimento comum de todos os estadosc , que ela já foi julgada e recebeu muitas sentenças condenatórias, essa pessoa não estará dizendo outra coisa senão esta: que em parte esta doutrina foi abatida pela força e pela conspiração dos adversários, e em parte foi oprimida de ma- neira astuta e maldosa por suas mentiras, calúnias e traições. É usar a força e a violência pronunciar sentenças contra esta causa, sem antes lhe dar oportunida- de para defender-se. É usar fraude e traição acusá-la de promover revolta e de causar danos e males. Para que ninguém pense que nos queixamos sem motivo, tu mesmo, excelentíssimo rei, podes dar testemunho de quantas calúnias contra ela apresen- tam todos os dias. As calúnias dizem que a única finalidade desta doutrina é que todos os reinos e todas as instituições políticas e sociais sejam arruinados, a paz seja perturbada, as leis sejam abolidas, os direitos de posse e de propriedade sejam anulados – em resumo, que todas as coisas sejam transtornadas e postas em confusão. E, contudo, o que ficas sabendo é uma pequenina parte. Porque os adversários semeiam entre o povo boatos horríveis contra esta doutrina, boatos que, se fossem relatos verdadeiros, todo o mundo poderia julgá-la, e também os seus autores, merecedores de mil fogueiras e forcas. Agora, quem vai se admirar de que o mundo inteiro a fique odiando dessa maneira, visto que se acredita nessas acusações falsas e perversas? Aí está a ra- zão pela qual todos os estados conspiraram e se puseram de comum acordo para condenar tanto a nós como a nossa doutrina. Os que são colocados como juízes deixam-se levar pela paixão e pronunciam como sentenças as idéias que trouxe- ram de casa; e pensam que cumpriram bem o seu dever, se não condenaram ninguém à morte, a não ser quem tenha sido convencido de culpa, ou por sua própria confissão ou por testemunhos indubitáveis. a Delatores. O edito de Coucy prometia recompensas aos delatores. (Cf. Lambert, Coleção Geral de Leis Antigas [Recueil Général des Anciennes lois, t. XII, p. 409]). b Orelhas (dialeto picardo – da Picardia). c “Omnium ordinum calculis”, isto é, todas as classes e condições da sociedade.
  • 33. 33 Mas, culpados de que crime? Desta doutrina condenada, dizem eles. Mas, condenada por qual lei? Ora, esta seria a defesa: não negar a doutrina, mas defendê- la por ser verdadeira. Mas aqui não se pode abrir a boca. Portanto, ó poderosíssimo rei, não é sem razão que te solicito que tu mesmo procures conhecer bem esta causa – causa que até agora tem sido tratada sem nenhum respeito à ordem e ao direito, e com furor impetuoso, sem a moderação e a seriedade que devem caracterizar o poder judiciário. Não quero que o rei pense que com isso estou pretendendo fazer minha defe- sa pessoal, com o fim de obter liberdade para voltar à minha pátria,a à qual dedico o amor humano que ela merece; todavia, como as coisas andam agora, não me causa muita tristeza ficar longe dela. Mas eu tomo a causa de todos os fiéis, e do próprio Cristo, a qual hoje em dia é tão desprezada e pisoteada em teu reino que parece já estar em condições para as quais não há mais esperança. Certo é que isso acontece mais pela tirania de alguns fariseus do que por teu desejo. Entretanto, é inútil comentar aqui como isso é feito. Seja como for, a verda- de é que esta causa está sendo submetida a grande aflição. Porque, embora a verdade de Cristo não seja arruinada e desfeita, o poder dos ímpios conseguiu que ela seja enterrada e coberta como algo vergonhoso; e a pobre igreja, ou se vê consumida por mortes cruéis, ou despojada por banimentos, ou de tal maneira atormentada por ameaças e terrores que ela nem se atreve a dizer uma palavra. E ainda insistem, com o furor de costume, em derrubar a parede já meio destruída, e em transformá-la em ruína completa. Enquanto isso, ninguém se apresentab para colocar-se em defesa contra es- sas violências. E se alguns querem dar a aparência de que favorecem com todo o empenho a verdade, esses elementos dizem que em todo caso se deve perdoar a imprudência e a ignorância das pessoas simples. Porque eles falam dessa manei- ra, chamando de imprudência e de ignorância aquilo que eles sabem que é a certíssima verdade de Deus, e chamam de simples aqueles a quem o nosso Se- nhor tanto estima que lhes comunicou os segredos da Sua sabedoria celestial. A esse ponto eles têm vergonha do Evangelho! Ora, de ti se espera, ó generosíssimo rei, que não desvies nem os ouvidos nem o vigor do teu coração de uma defesa assim tão justa, principalmente quan- do se trata de uma questão da maior importância, qual seja – como se há de manter a glória de Deus na terra, como a verdade de Deus poderá reter a dignida- de e como o reino de Cristo irá manter a sua integridade. Que assunto! É digno dos teus ouvidos, do teu julgamento e do teu trono real! Porquanto, este pensa- mento faz o verdadeiro rei: se ele reconhece que é um ministro de Deus exercen- do o governo do seu reino.43 Ao contrário, aquele que não governa com a finalida- a Calvino partiu de Noyon no princípio de 1536. b O edito de janeiro de 1535 prescrevia o extermínio dos hereges. Carta ao Rei da França 43 “A razão porque devemos estar sujeitos aos magistrados é que eles foram designados pela ordenação divina. Se a vontade de Deus é que o mundo seja governado desta maneira, então aqueles que desprezam a sua
  • 34. 34 As Institutas – Edição Especial de de servir à glória de Deus não é rei, é um salteador.44 E comete grande engano quem espera duradoura prosperidade num reino que não é governado com o cetro de Deus, isto é, com a Sua Santa Palavra. Pois o oráculo celestial45 não pode mentir, e este anunciou que quando falta a profecia, o povo se desvia. E que a nossa pequenez humilde não te impeça de fazer isso. Sabemos muito bem que somos uma pobre gente, e desprezada; quer dizer, diante de Deus somos pecadores,a e pelos homens somos vistos como seres desprezíveis e, se preferes, até como lixo e escória do mundo, e coisa ainda mais vil, se é que se pode nomear coisa mais vil. A tal ponto que não nos resta nada do que possamos gloriar-nos diante de Deus, a não ser em Sua misericórdia única,46 pela qual somos salvos sem nenhum merecimento da nossa parte; nem diante dos homens podemos glo- riar-nos, senão em nossa fraqueza, o que todos consideram uma vergonha.47 Contudo, é preciso que a nossa doutrina se mantenha elevada, em posição superior a toda a glória e poder do mundo. Porque ela não é nossa, mas do Deus vivo e do Seu Cristo, o qual pelo Pai foi constituído Rei para exercer domínio de mar a mar e desde os rios até os confins da terra.48 E que domine de tal maneira que, golpeando a terra apenas com a vara de Sua boca,49 Ele faça em pedaços a terra toda – a terra com o seu poder e a sua glória. Assim os profetas predisseram sobre a magnificência do Seu reino – que Ele destruiria os reinos rijos como ferro e bronze, e reluzentes como ouro e prata.50 É bem verdade que os nossos adversários nos contradizem e nos acusam, dizendo que temos a mentirosa pretensão de seguir a Palavra de Deus, da qual, dizem eles, somos perversos falsificadores. Mas tu mesmo, segundo a tua sabe- doria, lendo a nossa confissão poderás julgar e ver que essa acusação não somen- te é uma calúnia marota, mas também uma tremenda sem-vergonhice. Todavia, será bom dizer aqui algo que te desperte o interesse por aquela leitura. Quando o a “Pécheurs” (dialeto picardo). autoridade estão se esforçando por subverter a ordem divina, estão, portanto, resistindo a Deus mesmo, já que desprezar a providência daquele que é o Autor do governo civil é declarar guerra contra ele mesmo.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 13.1), p. 450.] NE. 44 Deus “designou os magistrados para que governem o mundo de forma justa e legítima. Ainda que as auto- ridades ditatoriais e injustas não devem ser classificados como governos ordeiros, todavia o direito de governar é ordenado por Deus visando o bem-estar da humanidade.” [João Calvino, Exposição de Roma- nos, (Rm 13.1), p. 451.] “A sua administração não deve ser feita em função de si próprios, mas visando o bem público. Nem têm eles poderes ilimitados, senão que sua autoridade se restringe ao bem-estar de seus súditos. Em resumo, são responsáveis diante de Deus e dos homens pelo exercício de sua magistratura. Uma vez que foram escolhidos e delegados por Deus mesmo, é diante deste que são responsáveis.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 13.4), p. 453.] Ver também, As Institutas, III.19.15; IV.20.1ss. NE. 45 Provérbios 29.18 [Em citações como esta, a indicação de versículo(s) é acrescentada por mim ao original, que só traz a indicação de capítulo(s). NT]. 46 2 Coríntios 10.17,18. 47 Tito 3.1-5; 2 Coríntios 11.30 e 12.5,9. 48 Salmo 72.8. 49 Isaías 11.4. 50 Salmo 2.9; Daniel 2.34,35.
  • 35. 35 apóstolo Paulo51 quis que toda profecia estivesse em harmonia com a analogia ou similaridade da fé, ele estabeleceu uma excelente regra para testar toda interpre- tação da Escritura. Pois bem, se a nossa doutrina for examinada com base nesta regra de fé, a vitória estará em nossas mãos. Sim, pois, o que é mais conveniente à fé senão que nos reconheçamos desnudos de toda virtude, para sermos vestidos por Deus; vazios de todo bem, para que Ele nos encha de todo bem; escravos do pecado, para sermos libertos por Ele; cegos, para que Ele nos ilumine; coxos, para sermos por Ele curados; fracos, para sermos sustentados por Ele; e que nos desfaçamos de todo pretexto de glória própria, para que somente Ele seja glorifi- cado, e nós nele? Quando nós dizemos estas coisas e outras semelhantes, os nossos adversá- rios gritam que, se fosse assim, seriam destruídos sei lá que cega luz da natureza, certas preparações inventadas, o livre arbítrio, as obras meritórias com direito à salvação eterna, com as sua superrogações; isso porque eles não podem suportar a idéia de que em Deus residem plenamente o louvor e a glória de todo bem, de toda virtude, justiça e sabedoria. Mas nós não lemos que tenham sido repreendi- dos os que tiraram muita água da fonte de água viva. Ao contrário, são severa- mente repreendidos os que cavaram poços secos e que não podem reter a água.52 Além disso, o que estará em maior conformidade com a fé que ter Deus como um Pai amável e bondoso, sempre que se reconheça Cristo como irmão e propiciador; que esperar confiantemente todo bem e toda prosperidade de Deus, cujo amor por nós chegou ao ponto de não poupar Ele o Seu próprio Filho, não O livrando, mas O entregando por nós;53 que descansar, firmados na segura esperança da salvação e da vida eterna, quando lembramos que Cristo nos foi dado pelo Pai e que em Cristo aqueles tesouros estão ocultos?Aessas afirmações eles contestam, dizendo que essa certeza confiante não está isenta de arrogância e presunção. Mas, como não devemos presumir coisa alguma de nós mesmos, tudo devemos presumir de Deus, e não é por outro motivo que nos despojamos de toda vanglória, senão para aprendermos a gloriar-nos em Deus.54 E que mais direi? Considera, ó valoroso e virtuoso Rei, todas as partes da nossa causa, e poderás julgar-nos os mais perversos de todos os perversos, se não vires claramente que nós trabalhamos e sofremos injúrias e humilhações55 por- que pomos a nossa confiança no Deus vivo, pois cremos que esta é a vida eterna: conhecer o único Deus verdadeiro e Aquele que Ele enviou, Jesus Cristo.56 Por causa desta esperança, alguns de nós são mantidos em prisões, outros são chico- teados, outros são ridicularizados de muitas maneiras, outros são desterrados, Carta ao Rei da França 51 Romanos 12.6. 52 Jeremias 9. [Ver também Jr 2.13.] 53 Romanos 8.32. 54 2 Coríntios 10.17; Jeremias 9.23,24. 55 1 Timóteo 4.10. 56 João 17.3.
  • 36. 36 As Institutas – Edição Especial outros são atormentados com torturas cruéis, outros se vêem forçados a fugir. Todos nós somos atribulados, somos amaldiçoados, repudiados, injuriados e tra- tados de forma desumana. Por outro lado, peço que observes os nossos adversários (refiro-me aos sa- cerdotes), pela aprovação e pelo apetite dos quais os outros se fazem nossos ini- migos; e peço que tomes um pouco de tempo para verificar comigo a paixão que os move. Eles facilmente permitem a si mesmos e aos outros ignorar, negligenci- ar e menosprezar a religião verdadeira, que nos é ensinada pela Escritura e que deveria continuar vigente e válida entre todos. E eles acham que tanto faz a pes- soa crer ou não crer nisto ou naquilo acerca de Deus e de Cristo, contanto que, com a fé implícita, como eles dizem, ela submeta o seu entendimento às decisões da igreja.57 Tampouco lhes causa preocupação se a glória de Deus é maculada com declaradas blasfêmias, desde que ninguém diga nada contra a autoridade da “santa madre igreja”. Por que eles lutam com tanto furor e violência pela missa, pelo purgatório, pelas peregrinações e por outras tolices? Por que chegam ao ponto de negar que possa existir verdadeira religiosidade, se não se crer nessas coisas e se elas não forem aceitas como fé explícita, como eles dizem, quando nenhuma delas pode ser comprovada pela Palavra de Deus? Por quê? Só pode ser porque o ventre deles é o seu deus,58 a cozinha a sua religião, e, se essas coisas são extraídas, eles dizem que os que fazem isso não são nem cristãos nem seres humanos. Porque, ainda que alguns deles vivam do bom e do melhor e com fartura, e outros passem a vida roendo pão seco, na verdade todos eles vivem da mesma panela, a qual, sem essa ajuda, não somente se esfriaria, mas ficaria totalmente congelada. Daí, o melhor e mais zeloso defensor da fé é aquele que sacia mais fartamente o seu ventre. Em resumo, todos eles têm o mesmo propósito: ou manter seu poder, ou manter seu ventre cheio. Mas nenhum deles mostra sinal algum de zelo verdadei- ro. Contudo, não param de caluniar a nossa doutrina, desacreditando-a e difa- 57 Calvino combate a “fé implícita”, patente na teologia católica, que chama de “espectro papista”, que “sepa- ra a fé da Palavra de Deus”. [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 10.17), p. 375.] A sua insistência é no fato de que a nossa fé deve ser “explícita”. No entanto, Calvino ressalta que devido ao fato de que nem tudo foi revelado por Deus, bem como à nossa ignorância e pequenez espiritual, muito do que cremos permane- cerá nesta vida de forma implícita. Depois de um extenso comentário, nos diz: “Certamente que não nego (de que ignorância somos cercados!) que muitas cousas nos sejam agora implícitas, e ainda o hajam de ser, até que, deposta a massa da carne, nos hajamos achegado mais perto à presença de Deus, cousas essas em que nada parece mais conveniente que suspender julgamento, mas firmar o ânimo a manter a unidade com a igreja. Com este pretexto, porém, adornar com o nome de fé a ignorância temperada com humildade, é o cúmulo do absurdo. Ora, a fé jaz no conhecimento de Deus e de Cristo (Jo 17.3), não na reverência à igreja.” (João Calvino, As Institutas, III.I.3. (Vd. também III.2.5ss.) Pelas palavras de Calvino, podemos observar a necessidade latente do ensino e estudo constante da Palavra de Deus, a fim de que cada homem, sendo, como é, responsável diante de Deus, tenha condições de se posicionar diante de Deus de forma consciente; a fé explícita é patenteada pela igreja através do ensino da Palavra. NE. 58 Filipenses 3.19.
  • 37. 37 mando-a por todos os meios possíveis, para torná-la odiosa ou suspeita. Elesa a chamam “nova” doutrina, e dizem que foi forjada há pouco tempo. Acusam-na dizendo que ela é duvidosa e incerta. Que milagres exigem eles para que ela seja confirmada? Eles perguntam se é aceitável que ela se sobreponha ao consenso de tantos “pais” antigos e a tão prolongados usos e costumes. Insistem em que con- fessemos que a nossa doutrina é causadora de cisma, pois guerreia contra a igre- ja, ou que afirmemos que a igreja esteve morta durante muitos anos, sendo que nesse período nada se ouviu semelhante à nossa doutrina. Finalmente, dizem eles que não há necessidade de muitos argumentos, já que ela pode ser julgada pelos frutos que dá. Vê-se, por exemplo, dizem eles, que ela tem produzido uma multidão de seitas, de dificuldades e revoltas sediciosas, e de abusado mau comportamento. O certo é que lhes é fácil levar vantagem contra uma causa que se vê isolada e que não pode contar com ajuda alheia; principalmente quando o que lhes cabe fazer é persuadir uma multidão de gente ignorante e crédula. Se, porém, nós tivéssemos igual oportunidade de falar, en- tendo que, na minha opinião, o ardor com que eles espumam acidamente contra nós se esfriaria um pouco. Carta ao Rei da França DOUTRINA NOVA? Primeiramente, dizendo que é nova fazem grande ofensa a Deus, pois a Sua Palavra não merece a acusa- ção de que não passa de uma novidade. Claro, não te- nho dúvida de que é nova para aqueles para quem o próprio Cristo e o Seu Evan- gelho são novos. Mas aqueles que sabem que a pregação feita pelo apóstolo Paulo – que Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justifica- ção59 – é antiga, não encontrarão nada de novo entre nós. DESCONHECIDA? O fato de que esta doutrina permaneceu oculta e desconhecida por muito tempo é crime cometido pela impiedade humana. Agora, quando pela bondade de Deus ela nos é restaurada, ao menos devia ser recebida com reconhecimento da sua autoridade antiga. INCERTA? Da mesma fonte de ignorância vem a acusação de que a nossa doutrina é duvidosa e incerta. É deveras disso queoSenhorsequeixa,porintermédiodoSeuprofeta,quan- do afirma que o boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura, mas o Seu povo não O conhece.60 Mas, como eles zombam da incerteza da nossa dou- trina,setivessemdeselaradelescomoseuprópriosangue61 eàcustadasuavida,então se poderia ver bem quanto a prezam. Muito diferente é a nossa confiança, pois esta não tem medo, nem dos horrores da morte, nem do julgamento feito por Deus. 59 Romanos 4.25. 60 Isaías 1.3. 61 Romanos 8.36. a O cônego Clichtow e outros doutores da Sorbonne.
  • 38. 38 As Institutas – Edição Especial MILAGRES? Na exigência que nos fazem de milagres eles são insensatos. Porquanto não estamos forjando um evan- gelho novo, mas nós mantemos aquele Evangelho já confirmado por todos os milagres que Jesus Cristo e os Seus apóstolos realizaram. Os nossos adversários poderiam dizer que levam vantagem sobre nós, porque, dizem eles, podem con- firmar a sua doutrina com a constante realização de milagres, até o dia de hoje. Mas, quanto a isso, eles alegam milagres que podem perturbar o espírito de uma pessoa e enchê-la de dúvida, quando sem esses milagres a pessoa estaria bem e tranqüila, tão frívolos e falsos eles são! Contudo, mesmo que esses milagres fos- sem prodigiosos e admiráveis, não se deveria dar a eles nenhum valor contra a verdade de Deus. Pois o importante é que o nome de Deus seja santificado sempre e em toda parte, quer havendo milagres, quer seguindo a ordem natural das coisas. Poderia acontecer que eles nos impressionassem mais, se a Escritura não nos avisasse sobre o uso legítimo dos milagres. Pois, como diz Marcos,62 os mi- lagres operados pelos apóstolos foram realizados para confirmar a sua pregação. Paralelamente, Lucas afirma que o nosso Senhor, por meio deles, deu testemu- nho confirmando a palavra da Sua graça.63 A isso corresponde o que diz o apósto- lo Paulo: que a salvação anunciada pelo Evangelho foi confirmada por Deus por meio de sinais, manifestações de poder e prodígios.64 Quando ouvimos que os milagres são selos que credenciam o Evangelho, iremos fazer deles armas para destruir a autoridade do Evangelho? Quando ouvimos que eles foram destinados a estabelecer a verdade, iremos aplicá-los de modo que fortaleçam a mentira? Portanto, primeiro é preciso mencionar a doutrina, que precede aos milagres, como diz o evangelista. Se for aprovada, então poderá ser confirmada pelos mila- gres. Ora, um bom sinal da verdadeira doutrina, como diz Jesus Cristo, é se ela não tende a buscar a glória dos homens, mas, sim, a de Deus.65 Visto que Cristo afirma que essa deve ser a prova, será errado tomar os milagres para outra finali- dade que não seja a de engrandecer o nome de Deus. Também devemos lembrar- nos de que Satanás tem os seus milagres,66 os quais, embora sendo meras ilusões e não prodígios reais, podem enganar os simples e incultos.67 Os magos e os encantadores sempre alcançam fama por seus milagres. A idolatria dos não cris- tãos sempre é alimentada por milagres maravilhosos, mas estes não são capazes de levar-nos a aprovar, nem a superstição dos magos, nem a dos idólatras.68 62 Marcos 16.20. 63 Atos 14.3. 64 Romanos 15.18,19. 65 João 5.44. 66 Deuteronômio 13.2; 2 Tessalonicenses 2.9,10. 67 “Não me passa despercebido que Satanás é em muitos aspectos um imitador de Deus, a fim de, mediante enganosa similaridade, melhor insinuar-se à mente dos símplices.” (J. Calvino, As Institutas, I.8.2.) NE. 68 “A importância dos milagres é que eles nos despertam para alguma verdade particular sobre Deus.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 15.18), p. 500]. “Sejam quais forem os milagres que busquem glori- ficar a criatura em lugar do Criador, e que fomentem a mentira em lugar da Palavra de Deus, são manifesta- mente do Diabo.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 15.18), p. 501.] NE.
  • 39. 39 Antigamente os donatistas usavam o mesmo artifício para explorar a sim- plicidade do povo comum, dizendo que faziam milagres. Damos, pois, aos nos- sos adversários a mesma resposta que naquela época Agostinho deu aos donatistas,69 dizendo que contra esses milagreiros o Senhor nos advertiu, pois predisse que viriam falsos profetas que com grandes maravilhas e prodígios fari- am errar até os eleitos, se fosse possível.70 E o apóstolo Paulo nos preveniu de que o reino do Anticristo será com todo poder, sinais e falsos prodígios.71 Dizem os nossos adversários, porém, que os seus milagres não são feitos por ídolos, nem por encantadores, nem por falsos profetas, mas pelos santos. Como se nós não percebêssemos aí a astúcia de Satanás, de transformar-se em anjo de luz!72 Hou- ve tempo em que os egípcios fizeram de Jeremias, sepultado entre eles, um deus, e lhe ofereciam sacrifícios e lhe prestavam todas as honras que costumavam pres- tar aos seus deuses.73 Não abusavam do santo profeta de Deus com essa idolatria? E, contudo, com sua veneração do sepulcro do profeta, levavam as pessoas a acreditarem que sua recompensa seria a cura das picadas de serpentes. O que poderemos dizer? Tão-somente isto: Esta será sempre uma vingança do santo e justo Deus: tornar eficaz a ilusão do erro para acreditarem na mentira aqueles que não gostaram da verdade.74 A verdade é que milagres temos muitos, e milagres autênticos e não merecedores de zombaria. Por outro lado, os pretensos mila- gres75 dos nossos adversários não passam de enganos de Satanás que afastam o povo do culto devido a Deus e o arrastam para a ilusão vã e vazia. Carta ao Rei da França AAUTORIDADE DOS PAIS DA IGREJA Além disso tudo, colocam injustamente contra nós os antigos “pais” (em meu entendimento, os escritores cristãos dos primeiros tempos da igrejaª) como se eles fossem favoráveis à impiedade dos nossos atuais adversários. Tenho a certeza de que, se a nossa contenda fosse resolvida pela autoridade dos referidos “pais”, a melhor parte da vitória caberia a nós. Mas, se é verdade que muitas coisas exce- lentes e sábias foram escritas por esses “pais”, por outro lado, como acontece com todos os homens, eles também falharam e erraram; e estes bons e obedientes filhos, segundo a sua habilidade de entendimento, de julgamento e de decisão, só veneram os erros e os enganos dos “pais”. Entretanto, o que eles escreveram com acerto, estes não entendem ou disfarçam ou pervertem. De tal maneira fazem isso que parecem não ter outro desejo que não o de recolher esterco deixando o ouro que o cerca. E então nos perseguem clamando contra nós como se fôssemos desprezadores e inimigos dos “pais”! Mas tão longe de sermos seus desprezadores a Antiquos et melioris adhuc sæculi. 69 Sobre o evangelista João (In Johan, tratactus XIII), 17 (Migne, 35, 15). 70 Mateus 24.24. 71 2 Tessalonicenses 2.9,10. 72 2 Coríntios 11.14. 73 Jerônimo, no prefácio. 74 2 Tessalonicenses 2.11,12. 75 Deuteronômio 13.1-18.
  • 40. 40 As Institutas – Edição Especial estamos que, se fosse este o nosso propósito aqui, com facilidade eu provaria com os escritos deles a maior parte daquilo que nós dizemos hoje. Quando os lemos, porém, nós o fazemos com tão cuidadoso critério que sempre temos dian- te dos nossos olhos o que Paulo disse: que tudo é nosso para nos servir, não para nos dominar,76 e que todos nós pertencemos a Cristo, a quem se deve obediência em todas as coisas, sem exceção. Os que não seguem esta ordem não terão segu- rança em nenhum ponto da fé, visto que aqueles santos personagens em questão ignoraram muitas coisas, têm divergências entre si e às vezes até se contradizem. Dizem os nossos adversários que não é sem motivo que não devemos ultra- passar os marcos antigos que foram fixados por nossos pais.77 Mas aqui não se trata de observar uma mesma regra para determinar os limites das propriedades e para determinar a área da obediência da fé; essa regra deve ser tal que ninguém esqueça o seu povo e a casa de seu pai. Contudo, se mostram tanto entusiasmo pelas alegorias, por que não tomam os apóstolos como seus pais, e não os outros? Pois não é lícito remover os marcos dos limites dos apóstolos. Assim o interpre- tou Jerônimo, cujas palavras eles citam em seus cânones. E ainda, se eles querem que os limites dos “pais”, segundo eles, sejam respeitados, por que eles mesmos os ultrapassam audaciosamente a seu bel-prazer? Da lista de “pais” houve um que disse78 que Deus não come nem bebe, e, portanto, não precisa de pratos e de cálices. Outro79 disse que os sacramentos dos cristãos não requerem ouro nem prata, e que não é com ouro que eles agradam a Deus. Assim os nossos adversários ultrapassam os limites dos “pais” quando em suas cerimônias tanto se deleitam com o ouro, a prata, o mármore, o marfim, as pedras preciosas e as sedas, e acham que Deus não pode ser adorado como se deve se não houver grande número destas coisas supérfluas.80 76 1 Coríntios 3.21-23. 77 Provérbios 22.28. 78 Acácio, em Hist. Tripar. (Cassiodoro, 1.XI,16; Migne, 69, 1198). 79 Ambrósio, liv. I, sobre os ofícios, II, cap. XXVIII, 158 (Migne, 16, 140). 80 “Os homens se dispõem naturalmente a exibição exterior da religião, e, medindo Deus segundo a própria medida deles, imaginam que alguma atenção para as cerimônias constitui a suma de seu dever.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 50.1-2), p. 398.] “Há inerentemente em todos os homens uma forte e indelével convicção de que devem cultuar a Deus. Indispondo-se em adorá- lo de maneira pura e espiritual, torna-se compulsório que inventem como substitutivo alguma aparência quimérica; e por mais claramente sejam persuadidos da vaidade de tal conduta, persistem até ao fim, por- quanto se esquivam da peremptória renúncia do serviço divino. Consequentemente, os homens se encontra- rão sempre devotados a cerimônias até que sejam trazidos ao conhecimento daquilo que constitui a religião verdadeira e aceitável.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 50.14), p. 407-408.] “Devemos ter sempre em mente que, tudo quanto não agrada a Deus, que vise a seu próprio bem, e somente até onde ele leva a algum outro fim, se porventura é posto no lugar de seu culto e serviço verdadeiros, é por ele rejeitado e desvanece.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.6), p. 226-227.] “É evidente, à luz desse fato, que os homens cultuarão a Deus inutilmente, se porventura não observarem o modo correto; e que todas as religiões que não contêm o genuíno conhecimento de Deus são não só fúteis, mas também pernici- osas, visto que todas aquelas que não sabem distinguir Deus dos ídolos estão sendo impedidas de se aproxi- marem dele. Não pode haver religião alguma onde não reine a verdade. Se um genuíno conhecimento de Deus habita os nossos corações, seguir-se-á inevitavelmente que seremos conduzidos a reverenciá-lo e a
  • 41. 41 Um dos “pais”81 dizia que, visto que ele era cristão, ousava comer livremen- te carne na quaresma, quando os outros dela se abstinham. Portanto, os seus pretensos filhos rompem os limites quando excomungam quem na quaresma te- nha comido carne. Um desses chamados “pais”82 disse que o monge que não trabalha com suas próprias mãos deve ser tratado como assaltante. Outro deles83 disse que aos monges não é lícito viverem de bens alheios, mesmo quando assíduos nas contemplações, nas orações e no estudo. Também ultrapassaram este limite os nossos adversários, quando puseram os monges, com seus avultados ventres, nos bordéis (isto é, em seus claustros) para ali engordarem à custa do suor alheio. Também foi um dos “pais” que disse que é uma horrível abominação ver-se uma imagem de Cristo ou de algum santo nos templos dos cristãos.84 Muito longe estão de respeitar estes limites, pois não deixam nenhum canto sem imagens em todos os seus templos. Outro “pai”85 aconselhou que, após haver se exercido o ofício humanitário de conceder sepultura aos mortos, que estes fossem deixados em paz. Estes limites são desrespeitados quando exigem que se tenha perpétua solicitude pelos mortos. Foi um daqueles “pais” que negou que, no sacramento da Ceia, sob o pão, está o verdadeiro corpo de Cristo, e afirmou que é apenas um mistério do Seu corpo; e ele fala assim de cada uma das palavras.86 Portanto, vão além das medi- das quando dizem que o corpo de Cristo está incluído ali, localmente. Dentre alguns “pais” houve um que ordenou que fossem excluídos da Ceia aqueles que participavam de uma espécie e se abstinham da outra.87 Outro afir- mava que não se deve negar ao povo cristão o sangue do seu Senhor, na confissão do qual lhe é ordenado que derrame seu próprio sangue.88 Também removeram estes limites quando, com todo o rigor, ordenaram a prática da mesma coisa que um dos dois punia com a excomunhão e o outro com muita razão reprovava. Houve um “pai”89 que afirmava que é uma temeridade decidir sobre uma questão obscura a favor desta ou daquela parte, sem base em claros e concluden- Carta ao Rei da França temê-lo. Não é possível ter genuíno conhecimento de Deus exceto pelo prisma de sua majestade. É desse fator que nasce o desejo de servi-lo, e daqui sucede que toda a vida é direcionada para ele como seu supremo alvo.” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo, Paracletos, 1997, (Hb 11.6), p. 305-306.) “Pelo que, nada de surpreendente, se o Espírito Santo repudie como degenerescências a todos os cultos inventados pelo arbítrio dos homens, pois que em se tratando dos mistérios celestes, a opinião humanamente concebi- da, ainda que nem sempre engendre farto amontoado de erros, é, não obstante, a mãe do erro.” (J. Calvino, As Institutas, I.5.13.) NE. 81 Espiridião, no livro Hist. Tripar., c. 10 (Cassiodoro, I, 10; Migne, 69, 894). 82 Ver o cap. I do livro V da Hist. Tripar.— Cassiodoro, VIII, I (Migne, 69, 1103). 83 Agostinho, sobre o trabalho dos monges (Cap. XVII e XXIII, Migne, 40, 564). 84 Epifânio, cuja epístola foi traduzida por Jerônimo (Ad Iohann, Ierosolym., ep. 51, 9; Migne, 22, 526). 85 Ambrósio, no livro de Abraão (I, c. 9, 80; Migne, 14, 450). 86 O autor da obra imp. sobre Mateus; Hom. II; consta entre as obras de Crisóstomo (ed. de Paris, 1835, VI, 796). 87 Gelásio, no c. Comperimus de consecratione, distin. 2 (can. 12; decretum Gratiani III; Migne, 187, 1736). 88 Cipriano, na epíst. 2, no livro I, pecador (De lapsis, cap. 22 et 25; Migne, 4, 483; cf. ep. 63 ad Caecilium; Migne, 4, 372). 89 Agostinho, l. I, sobre a graça do Novo Testamento, último cap. (Ep. 140 das edições modernas).
  • 42. 42 As Institutas – Edição Especial tes testemunhos da Escritura. Os tais se esqueceram deste limite quando, sem nenhum respaldo da Palavra de Deus, estabeleceram conclusivamente tão grande número de constituições, cânones e determinações magistrais. Um dos “pais”90 reprovou Montano91 que, entre outras heresias suas, foi o primeiro a impor leis sobre jejuns. Também ultrapassaram estes limites quando ordenaram com leis rigorosíssimas a prática de jejuns. Também era um dos “pais”92 aquele que afirmou que não se deve proibir o casamento aos ministros da igreja e que declarou que ter a companhia da legítima esposa é castidade. Sua opinião teve apoio doutros “pais”, que reconheceram a sua autoridade. Ora, os nossos adversários fugiram para longe deste limite quando ordenaram aos seus sacerdo- tes que se abstivessem do casamento. Um dos “pais”93 escreveu que só se deve ouvir a Cristo, do qual foi dito da parte do Pai: “a ele ouvi”, e que não se deve dar atenção àquilo que outros fize- ram ou disseram antes de nós, mas unicamente àquilo que foi ordenado por Cris- to, que é o mais antigo de todos. Nem dentro dos limites desta prescrição se mantiveram os tais, nem permitem que outros se mantenham, pois constituíram, para si e para os demais, outros mestres que não Cristo. Todos os “pais”, unânimes, consideram abominação e com uma só voz repudiam a contaminação da santa Palavra de Deus pelas sutilezas sofísticas, e o seu envolvimento nos conflitos e debates filosóficos. Acaso respeitam eles estes limites, quando a vida toda outra coisa não fazem senão amortalhar e obscurecer a simplicidade da Escritura com infindáveis disputas e contendas mais sofísticas que as dos sofistas?94 A tal ponto chegam que, se os “pais” ressuscitassem agora e ouvissem essa engenhosa arte de combate, à qual dão o 90 Apolônio, em História Eclesiástica, li. 5; Eusébio, V, 18. 91 Montano, natural da Frigia (atual Turquia), foi um cristão que por volta do ano 170 começou a ensinar o fim iminente do mundo. Pregava também um rigoroso ascetismo: Não casamento, jejuns intensos. O montanismo, como movimento extático e apocalíptico, supostamente amparado no Livro de Apocalipse, ensinava o retor- no iminente de Cristo, o Seu governo terreno de mil anos e que a nova Jerusalém desceria sobre a Frigia. Dentro da ênfase à proeminência feminina, duas profetisas se destacam: Priscila e Maximila, que alegavam possuir, juntamente com Montano, o Paracleto. [Ver: Eusebio de Cesarea, Historia Eclesiástica, Madrid, La Editorial Catolica, S.A. (Biblioteca de Autores Cristianos, Vols. 349 e 350), IV.27; V. 14-19.] NE. 92 Pafnúcio (Paphnutius), em Histo. Tripar., l.2, c. 14, Cassiodoro; Migne, 69, 933. 93 Cipriano, na epístl. 2 do 2º. Livro, das Epíst. (ad Caecilium; Migne, 4, 383). 94 “Aqueles que inquirem curiosamente acerca de tudo, e que jamais ficam satisfeitos, podem com justiça ser chamados ‘questionadores’. Em suma, as coisas mantidas em elevada estima pelos eruditos da Sorbonne são aqui condenadas pelo apóstolo. Porquanto toda a teologia dos papistas nada é senão um labirinto de ques- tões.” [João Calvino, As Pastorais, (Tt 3.9), p. 355.] “Esta é a principal diferença entre o evangelho e a filosofia. Ainda que os filósofos abordem esplendidamente temas de cunho moral, com inusitada habilida- de, no entanto todo o ornamento que sobressai de seus preceitos nada é senão uma bela superestrutura sem um sólido fundamento; porque, ao omitir princípios, eles não fazem outra coisa senão propor uma doutrina mutilada, como um corpo sem cabeça. Este é exatamente o mesmo método de doutrinamento entre os católicos romanos. Embora falem incidentalmente da fé em Cristo e da graça do Espírito Santo, é plenamen- te evidente que se avizinham mais dos filósofos pagãos do que de Cristo e seus discípulos.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 12.1), p. 420-421.] “Os filósofos (...) vagueando por entre especulações ilusó- rias são na maioria das vezes mais tolos do que vivazes!.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1996, (1Co 1.21), p. 64.] NE.
  • 43. 43 nome de Teologia Especulativa, apenas julgariam essas práticas como sendo meras disputas acerca de Deus. Mas, até onde eu iria nesta oração, se quisesse narrar tudo o que os nossos adversários fazem para livrar-se do jugo dos “pais”, dos quais se dizem filhos obedientes? Gastaria meses e anos no cumprimento desse propósito! E, no entan- to, é tão absurda a sem-vergonhice deles que se atrevem a acusar-nos de desres- peitar os limites antigos! Agora, quanto a nos remeterem à questão do costume, de nada lhes adianta. Porque nos fariam grande injustiça se fôssemos constrangidos a ceder ao costu- me. Certo é que, se os juízos dos homens fossem retos, o costume deveria seguir os bons. Mas muitas vezes o que acontece é diferente. Porque aquilo que se vê que muitas vezes fazem é o que logo se torna costume. E a verdade é que nunca o modo de viver dos homens foi tão bem regrado que as coisas melhores agradas- sem à maioria. Assim é que dos vícios particulares de muitos resulta o erro públi- co, ou, melhor dizendo, resulta o consentimento geral dos vícios, que agora estes nobres homens querem que seja lei. Os que não são de todo cegos percebem que verdadeiros oceanos de males têm inundado a terra, e que todo o mundo foi cor- rompido por muitas pestes mortais, ameaçando levar tudo de roldão, de tal ma- neira que, ou perdemos toda a esperança quanto às condições da humanidade, ou enfrentamos a situação para corrigir tão grandes males, empregando até remédi- os violentos.95 E, contudo, o remédio é rejeitado não por outra razão que a se- guinte: há muito tempo estamos acostumados com essas práticas calamitosas. Todavia, ainda que na vida social dos homens o erro público tenha lugar, no reino de Deus a Sua verdade singular e eterna deve ser ouvida e cumprida; contra a verdade divina não tem valor nenhuma prescrição, nem a ditada por seus longos anos de existência, nem por costume antigo, nem por conjuração, qualquer que seja. Foi assim que no passado Isaías instruiu os eleitos de Deus, no sentido de que não dissessem “Conspiração!” a tudo o que o povo dissesse “Conspiração!” (Is 8.12), isto é, que não se juntassem à conspiração do povo; e que não tivessem o temor que o povo tinha, nem se espantassem. Antes, que santificassem o Se- nhor dos Exércitos e que só Ele fosse o seu temor. Portanto, que agora os nossos adversários lancem contra nós quantos exemplos queiram, do passado e do pre- sente! Se santificarmos o Senhor dos Exércitos, não nos espantaremos muito. Pois bem, ainda que muitos séculos tenham dado assentimento à mesma impie- dade, o Senhor é poderoso para exercer vingança até à terceira e quarta geração. Embora o mundo inteiro conspire para praticar a mesma ação maldosa, a experi- ência já nos ensinou qual é o fim daqueles que pecam com a multidão, quando Deus eliminou toda a humanidade por meio do Dilúvio, tendo preservado Noé, com sua pequena família, e ele, por sua fé, unicamente dele, condenou o mundo Carta ao Rei da França 95 Ver em Dec., dist., 8, c. fiu., extra de consuetudi. (Decretum Gratiani, can. 3: radicitus est evelleris perniciosa consuetudo; can. 9: Dei veritatem, non hominum consuetudinem, sequi oportet; Migne, 187, 46 e 48).
  • 44. 44 As Institutas – Edição Especial inteiro.96 Em resumo, o mau costume não é outra coisa senão uma praga pública na qual os que morrem no meio de uma multidão perecem do mesmo modo como se estivessem sós. Eles não têm muita força no argumento com o qual nos pressionam queren- do constranger-nos a confessar que a igreja esteve morta por alguns anos, ou que agora estamos em conflito com ela. Certamente a igreja de Cristo tem vivido e viverá enquanto Cristo reinar à destra de Seu Pai – pois pelas mãos de Cristo ela é sustentada, por Sua proteção ela é armada e pelo Seu poder é fortalecida. Por- que, sem dúvida, Ele cumprirá a Sua promessa de que dará assistência aos Seus até à consumação do século.97 Contra esta Igreja não fazemos nenhuma guerra. Porquanto, graças ao consenso que nós temos com todo o povo fiel, adoramos e damos honra a um só Deus e a um só Cristo, o Senhor, como sempre Ele foi adorado pelos Seus servos.98 Mas os nossos adversários estão bem longe da ver- dade quando não reconhecem a Igreja, se ela não se vê presentemente com os olhos da carne, e a querem manter encerrada dentro de certos limites, aos quais ela de modo nenhum está restrita. Em torno destes pontos gira a nossa controvérsia: Primeiro, eles exigem que a igreja tenha sempre uma forma visível e aparente. Segundo, eles dão essa forma à sé da Igreja Romana e ao estado da prelazia. Nós, ao contrário, afirma- mos que a igreja pode existir sem aparência visível; igualmente, que não se deve querer que a sua aparência tenha esta magnificência exterior que os nossos adver- sários loucamente admiram;99 mas é bem outra a marca da igreja, a saber, a pura pregação da Palavra de Deus, incluída a legítima administração dos sacramen- tos.100 Já eles não ficam contentes se nem sempre se pode mostrar a igreja com o dedo. Quantas vezes, porém, sucedeu que ela foi tão deformada entre os judeus que não lhe restou nenhuma aparência! Que forma julgamos que a igreja tinha quando Elias se queixou de que havia ficado só?101 Quantas vezes, depois da 96 Gênesis 7.1; Hebreus 11.7. 97 Mateus 28.20. 98 1 Coríntios 8.6. 99 Igualmente Lutero (1483-1546) enfatizou que, “nem trabalho em pedra, nem boa construção, nem ouro, nem prata tornam uma igreja formosa e santa, mas a Palavra de Deus e a sã pregação. Pois onde é recomendada a bondade de Deus e revelada aos homens, e almas são encorajadas para que possam depender de Deus e chamar pelo Senhor em tempos de perigo, aí está verdadeiramente uma santa igreja.” [Jaroslav Pelikan, ed. Luther’s Works, Saint Louis, Concordia Publishing House, 1960, Vol. II, (Gn 13.4), p. 332.] O eminente teólogo puri- tano John Owen (1616-1683), escreveu: “Quão pouco pensam os homens sobre Deus e seus caminhos, se imaginarem que um pouco de tinta e de verniz fazem uma beleza aceitável!” [Wiiliam H. Goold, ed. The Works of John Owen, 4ª ed. London, The Banner of Truth Trust, 1987, Vol. IX, p. 77,78.) NE. 100 Ver também: João Calvino, As Institutas, IV.1.9-12; IV.2.1. Na Resposta ao Cardeal Sadoleto (01/09/1539), Calvino declara que a igreja é: “... A assembléia de todos os santos, a qual, espalhada por todo o mundo, está dispersa em todo tempo, unida sem dúvida por uma só doutrina de Cristo, e que por um só Espírito guarda e observa a união da fé, junto com a concórdia e caridade fraterna”. (Juan Calvino, Respuesta al Cardeal Sadoleto, p. 30-31.) Ele diz que os membros da Igreja são reconhecidos “por sua confissão de fé, pelo exemplo de vida e pela participação nos sacramentos”, sendo estes sinais indicativos de que tais pessoas “reconhecem ao mesmo Deus e ao mesmo Cristo que nós” (As Institutas, IV.1.8.) NE. 101 3 Reis 19.10 (1 Reis nas edições protestantes modernas).
  • 45. 45 vinda de Cristo, ela ficou oculta, sem forma visível! Com que freqüência dessa época em diante ela foi tão oprimida por guerras, sedições e heresias que não se mostrava em parte alguma! E então? Se essa gente que aí está vivesse naquele tempo, teria acreditado na existência de alguma igreja? Entretanto, a Elias foi dito que ainda havia sete mil que não tinham dobrado os joelhos a Baal. E não se deve duvidar, de maneira nenhuma, que Jesus Cristo sempre reinou na terra, des- de que ascendeu ao céu. Mas se, entre tais desolações, os fiéis quisessem ter alguma aparência definida da igreja, não perderiam o ânimo? [1539] E, de fato, Hilário julgava que esse era um grande mal da sua época – que, estando cegos em sua louca reverência pela dignidade de seus bispos, não se apercebiam de que , às vezes, aquelas pragas estavam ocultas debaixo dessas máscaras. Por isso ele fala da seguinte maneira102 ª: Eu vos admoesto: Cuidado com oAnticristo! Vocês se apegam demais às paredes, buscando a Igreja de Deus na beleza dos edifícios, pensando que nessas coisas está a união dos fiéis. Acaso se pode duvidar de que o Anticristo tem lá o seu lugar de assento? Para mim, as montanhas, os bosques, os lagos, as prisões e os desertos são mais seguros e mais confiáveis. Porque, ocultos nesses lugares, os profetas profetizaram”. Ora, que é que o mundo exalta hoje nesses bispos infiéis? Justamente venera os que ele julga serem os mais excelentes, isto é, os que presidem às maiores cidades. Eli- minemos, pois, tão grande loucura! [1536] Ao contrário, deixemos com o Senhor que, como só Ele conhece os Seus, também alguma vez oculte da vista dos homens o conhecimento externo da Sua Igreja. Confesso que essa é uma terrível vingança de Deus sobre a terra. Mas, se a impiedade dos homens merece isso, por que havemos de esforçar-nos para contradizer a justiça divina? Dessa maneira o Senhor, no passado, puniu a ingra- tidão dos homens. Porque, por isso mesmo, aos que não quiseram obedecer à Sua verdade e extinguiram a sua luz, Ele permitiu que, em sua cegueira, sofressem abusos de grosseiras mentiras e fossem envoltos por trevas profundas, de tal ma- neira que não se tornou visível nenhuma forma da verdadeira Igreja. Todavia, nessas mesmas ocasiões, Ele preservou os Seus no meio destes erros e destas trevasb , embora dispersos e ocultos. E não é de admirar, porque Ele sabe guardá- los, como fez na confusão da Babilônia e nas chamas da fornalha ardente. Nisso que eles querem que a forma da igreja seja valorizada por não sei que tipo de vã pompa, para não avançar além do meu propósito, tocarei só de passagem, para mostrar quanto é perigoso. Dizem os nossos adversários que o papa de Roma, que tem a cátedra apostólica, e os outros bispos, representam a igreja e como tais devem ser respeitados pela igreja, visto que não podem errar. Por quê? Porque são pastores da igreja, é a resposta que dão, e foram consagrados a Deus. Arão e os outros líderes do povo de Israel também eram pastores. Carta ao Rei da França a Esse parágrafo sendo inserido somente em 1539, parece que Calvino leu esse tratado depois de 1536. b Por volta de 1524, Farel começou assim o seu Sumário e Breve Declaração, reeditado em 1534: “Nesse tempo, quando aprouve ao nosso Senhor manifestar a santa claridade e luz sobre os que estavam em trevas profundas”. 102 Contra Auxêncio.
  • 46. 46 As Institutas – Edição Especial Arão e seus filhos foram eleitos sacerdotes de Deus; todavia pecaram quan- do fabricaram o bezerro de ouro.103 E, segundo a razão dada, vai se dizer que os quatrocentos profetas que serviam aAcabe representavam a Igreja?104 Mas a Igreja estava do lado de Micaías, o único fiel, e desprezado; entretanto, foi de sua boca que saiu a verdade. Os profetas que se levantaram contra Jeremias105 gabando-se de que não haveriam de faltar a lei ao sacerdote, o conselho ao sábio e a palavra aos profetas, não traziam sobre si o nome da igreja? Não foi semelhante aparên- cia que reluziu sobre o concílio que reuniu os sacerdotes, os doutores e os religi- osos para se aconselharem sobre a morte de Jesus Cristo?106 E ainda agora os nossos adversários se apegam a essas marcas externas, e com isso transformam Cristo e todos os profetas de Deus em causadores de cisma; por outro lado, fazem dos ministros de Satanás instrumentos do Espírito Santo. Se a seu favor falam com bom motivo, que me respondam com boa fé: em qual região ou em que povo eles acham que a Igreja reside, depois que, por sentença definitiva dada pelo Concílio de Basiléia, Eugênio, papa de Roma, foi depostoª e Amadeu foi posto em seu lugarb ? Nem morrendo poderiam negar que, quanto às solenidades exter- nas, o concílio foi legítimo e válido, tendo sido convocado por dois papas, não somente por um. Eugênio foi condenado ali como cismático, rebelde e contu- maz, ele e toda a companhia dos cardeais e bispos que com ele tinham maquina- do a dissolução do concílio. No entanto, sendo depois apoiado pelo favorecimento dos príncipes, manteve a posse do seu papado; e a eleição de Amadeu, solene- mente confirmada pela autoridade do sacro concílio geral, esvaiu-se como fuma- ça, acontecendo, porém, que o dito Amadeu foi apaziguado por um chapéu cardinalício, como se aquieta um cachorro com um pedaço de pão. Desses rebeldes e contumazes procedem todos os papas, cardeais, bispos, abades e sacerdotes que existiram daí em diante. Agora é necessário que não os deixemos escapar. Pois, a que lado darão eles o nome da igreja? Negarão o cará- ter geral desse concílio, o qual em nada falhou quanto à majestade externa, visto que solenemente foi feita a sua convocação por dupla bula e consagrado pelo Legado da Santa Sé Apostólica, que o presidiuc ? Bem ordenado foi o concílio em todas as cerimônias, mantendo até o fim a sua dignidade. Confessarão eles que Eugênio e todo o seu bando foram cismáticos, contra aqueles pelos quais eles tinham sido consagrados? É, pois, necessário que eles definam diferentemente a forma da igreja; ou, sejam eles quantos forem, segundo a sua própria doutrina serão por nós conside- rados cismáticos, tendo sido eles, conscientemente e por sua própria vontade, 103 Êxodo 32.1-10. 104 3 [1] Reis 22.5-9, 13-37. 105 Jeremias 18.18. 106 João 11.47. a Em 25 de junho. O décimo concílio geral tinha sido convocado por Eugênio IV. b Em 5 de novembro de 1439. Amadeu foi papa com o nome de Félix V. c O cardeal Juliano Cesarini.
  • 47. 47 ordenados por hereges. E daí em diante, se jamais se viu que a igreja deixou de ligar-se a pompas externas, nós temos neles mesmos segura e suficiente experi- ência comprobatória de que quando, sob o título e as cores da igreja, orgulhosa- mente eles têm levado o mundo a respeitá-los, não passam de pragas mortais da igreja. Não me refiro aos seus costumes, nem aos seus atos execráveis, dos quais sua vida está repleta; refiro-me ao que eles dizem, o que lembra os fariseus, que se deve ouvir mas não seguir. Se, porém, quiseres dedicar um pouco do teu tempo de lazer à leitura dos ensinamentos que nós ministramos, verás claramente que a própria doutrina deles, pela qual desejam ser reconhecidos como igreja, é uma cruel geena, um matadouro de almas, um fogo, uma dissipação da igreja. Carta ao Rei da França SEITAS E AGITAÇÃO Finalmente, eles agem com maldade quando nos lançam em rosto as grandes revoltas, perturbações e contendas resultantes da pregação da nossa doutrina e os frutos que agora ela produz em muita gente. Pois impiedosamente a culpam disso tudo, quando esses males todos deveriam ser atribuídos à maligna astúcia de Satanás. Pode-se dizer que o seguinte traço caracteriza a Palavra de Deus: Cada vez que é posta em evidência, Satanás acorda e apronta as suas artima- nhas.107 Esta é uma segura marca para se discernirem as doutrinas falsas – que estas são recebidas de boa vontade por todos e agradam a todo o mundo. Desta maneira, durante alguns anos passados, quando tudo estava envolto em trevas, o senhor do mundo brincava com os homens a seu bel-prazer; e, como um Sardanápalo,108 vivia em paz, gozando seus entretenimentos. Porquanto, o que lhe restava fazer, senão divertir-se e deleitar-se na posse amena e tranqüila do seu reino? Porém, depois que dos céus resplandeceu a luz e desfez um pouco as suas trevas, depois que o valente invadiu e transtornou o seu reino, de imediato ele começou a despertar do sono e a tomar as armas. Primeiro ele instigou o poder dos homens para, por meio dele, oprimir com violência a verdade nascente. Quando viu que por esse meio nada conseguia, recorreu a armadilhas. Usou, então, os seus catabatistasa 109 e outros grupos seme- lhantes, e fez um verdadeiro reboliço com muitas seitas e opiniões divergentes, a fim de obscurecer a verdade e, por fim, apagá-la. E ainda hoje ele persiste em persegui-la com essas duas máquinas de guerra. Sim, pois, pela violência e pela mão dos homens, ele se empenha em arrancar aquela semente verdadeira e, quanto está em seu poder, empenha-se por todos os meios para suplantá-la, impedindo- a de florescer e frutificar.110 Mas todos os seus esforços serão inúteis, se dermos 107 “Satanás jamais descansa enquanto não envida esforço para obscurecer, com suas mentiras, a santa doutri- na de Cristo, e a vontade de Deus é que nossa fé seja provada com tais conflitos”. [J. Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 4.14), p. 129.] NE. 108 Possível corruptela do nome Assurbanípal, rei da Assíria de 668 a 626 a. C. Frutos de sua arrogância blasfema foram a sua decadência e a sua trágica morte. Ver Everyman’s Encyclopædia, e 2 Reis 18 e 19. NT. a Essa palavra, mais precisa que anabatistas, não prevaleceu. Ver a Introdução, pp. 8,9. 109 Termo empregado para designar os anabatistas indicando, em vez de repetição do batismo, sua destruição. NT. 110 Mateus 13.25.
  • 48. 48 As Institutas – Edição Especial ouvidos às advertências do Senhor, que há muito tempo pôs a descoberto as suas artimanhas para não sermos apanhados de surpresa, e nos supriu de boas armas de defesa contra as suas máquinas de guerra.111 De resto, que tremenda perversidade é esta, de acusar a Palavra de Deus da sanha das revoltas contra ela movidas pelos estultos e desmiolados, ou das seitas que semeiam enganadores? Todavia, não há nada de novo nisso. Perguntaram a Elias se não era ele o perturbador de Israel.112 Os judeus consideravam Cristo um revoltoso.113 Os apóstolos eram acusados de causar agitação popular.114 E não é isso que estão fazendo conosco hoje os que nos atribuem a agitação, os tumultos e as contendas que se levantam contra nós? Pois bem, Elias nos ensina que res- posta lhes devemos dar. É que não somos nós que semeamos erros ou provoca- mos a agitação; na verdade são eles mesmos, os quais fazem resistência ao poder de Deus. Mas, se esta razão basta para neutralizar a sua temeridade, também, por outro lado, é preciso fazer frente à fraqueza de alguns que muitas vezes se assus- tam com os escândalos e, em seu espanto, vacilam. Portanto, para que estes não se desanimem e não percam a coragem, devem lembrar-se de que as mesmas coisas que agora vemos sobrevieram aos apóstolos no tempo deles. Naquela épo- ca havia pessoas incultas e inconstantes que, como diz o apóstolo Pedro, torciam, para a sua própria perdição, o que Paulo tinha escrito sob inspiração divina.115 Havia desprezadores de Deus que, quando ouviam que havendo muito pecado aumentaria a graça, logo concluíam: “Permaneceremos no pecado, para que seja mais abundante a graça”.116 Quando ouviam que os fiéis não estão sob a Lei, replicavam: “Vamos pecar, porque não estamos debaixo da Lei e sim da graça”. Havia gente que dizia que Paulo instigava o mal.117 Falsos profetas se insinuavam para destruir as igrejas que Paulo tinha edificado.118 [1539] Alguns pregavam o Evangelho por discórdia e insinceramente,119 e até com sutileza maldosa, pensando fazê-lo sofrer mais em sua prisão. [1536] Nalguns lugares o Evangelho não dava muito fruto. Cada qual bus- cava o seu proveito pessoal, e não o de Jesus Cristo.120 [1539] Outros retrocediam, como cães voltando ao seu vômito,121 e como porcos ao seu lamaçal. 111 “Satanás, também, vive sempre pronto a engendrar todo gênero de calúnia com o fim de lançar ao descré- dito a doutrina da graça.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 6.1), p. 201.] NE. 112 3 [1] Reis 18.18. 113 Lucas 23.5; João 19.7. 114 Atos 24.5-9. 115 2 Pedro 3.16. 116 Romanos 6.1. 117 Romanos 3.8. 118 1 Coríntios 1.10-13; 2 Coríntios 11.3,4; Gálatas 1.6,7. 119 Filipenses 1.17 e nas epístolas aos coríntios e 2 Timóteo. 120 Filipenses 2.21. 121 2 Pedro 2.22.
  • 49. 49Carta ao Rei da França [1536] Muitos transformavam a liberdade do Espírito em licença carnal.122 Não poucos falsos irmãos se infiltravam, deles provindo então grandes perigos para os cristãos fiéis. Mesmo entre os irmãos surgiam diversos desentendimen- tos.123 Nessas condições, que poderiam fazer os apóstolos? Deveriam usar o re- curso da dissimulação por algum tempo, ou deveriam pôr de lado e abandonar totalmente este Evangelho, que viam estar sendo semeadura de tantos conflitos, causa de tantos perigos, ocasião para tantos escândalos? Acontece que no meio dessas aflições eles se lembravam de que Jesus Cristo é pedra de tropeço e de ofensa para ruína e ressurreição de muitos,124 e um sinal que seria objeto de contradição.125 Armados desta confiança, prosseguiam corajosamente, em meio a todos os perigos de tumultos e de escândalos.126 Fortalecemo-nos com um só pensamento, pois o apóstolo Paulo atesta que esta é a característica perpétua do Evangelho – que seja cheiro de morte para morte, para os que perecem, e cheiro de vida para vida, para os que são salvos127 .128 Mas volto a falar-te, ó magnânimo rei. Não te impressiones com esses boatos com os quais os nossos adversários se esforçam para te infundir temor e terror; isto é, que este novo evangelho, assim chamado por eles, não busca nada mais que oportunidades para revoltas e total impunidade para todo e qualquer mal que se faça. Pois o nosso Deus não é Deus de divisão, mas de paz,129 e o Filho de Deus não é ministro do pecado, mas veio para romper e destruir as obras do Diabo.130 Quanto a nós, somos injustamente acusados dessa cobiça, da qual não te- mos dado o menor motivo para suspeita. Bem provável seria que estivéssemos mancomunados para derrubar os reinos – nós, de quem jamais se ouviu uma palavra sediciosa, e cuja vida sempre foi reconhecidamente simples e pacífica quando éramos teus súditos! E agora, expulsos de nossos lares, não deixamos de orar a Deus por tua prosperidade e pela prosperidade do teu reino. Como podem acreditar que pretendemos ter licença para praticar o mal sem receber castigo? Ainda que tenhamos praticado alguma coisa que merece repreensão, nada temos que mereça repreensão tão severa. E, graças a Deus, não temos aproveitado tão mal o Evangelho que a nossa vida não seja para os que nos difamam exemplos de 122 2 Coríntios 11.3,4. 123 Atos 6.1; 11.1-3; 15.1,2. 124 “Toda verdade proclamada referente a Cristo é completamente paradoxal pelo prisma do juízo humano. Entretanto, o nosso dever é prosseguir em nossa rota. Cristo não deve ser suprimido só porque para muitos ele não passa de pedra de ofensa e rocha de escândalo. Ao mesmo tempo que ele prova ser destruição para os ímpios, em contrapartida ele será sempre ressurreição para os fiéis.” [João Calvino, Exposição de Roma- nos, (Rm 6.1), pp. 201-202.] NE. 125 Isaías 8.14; Romanos 9.33; Lucas 2.34. 126 1 Pedro 2.1-10. 127 1 Coríntios 2.16. 128 “O fato de que o Evangelho é aroma de morte para os ímpios não vem tanto de sua própria natureza, mas da própria perversidade humana. Ao determinar um caminho de salvação, ele elimina a confiança em quais- quer outros caminhos.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 1.16), p. 58.] NE. 129 1 Coríntios 14.33. 130 Gálatas 2.17; 1 João 3.8.
  • 50. 50 As Institutas – Edição Especial castidade, generosidade, misericórdia, temperança, paciência, modéstia, e de to- das as demais virtudes.131 Certo é que a própria verdade dá testemunho em nosso favor, sendo evidente que nós com sinceridade tememos e honramos a Deus, desejando que, com a nossa vida e com a nossa morte, o Seu nome seja santificado. E até a boca dos invejosos é constrangida a dar testemunho da inocência e da retidão civil de alguns de nós, os quais foram por eles punidos com a morte por aquilo que merecia singular louvor. Ora, se há alguns que, usando o Evangelho como pretexto, promovem tu- multos – tumultos que até agora não foram vistos em teu reino; se há quem queira encobrir a sua licença carnal com o nome da liberdade que nos é dada pela graça de Deus (dos quais conheço muitos), existem leis e penas determinadas pelas leis para os corrigir severamente, conforme os seus delitos. Mas que nesse meio tem- po o Evangelho de Deus não seja blasfemado pelos malefícios dos maus! Tu, ó rei, em tua realeza magnífica, ouviste a descrição da venenosa iniqüidade dos nossos caluniadores, exposta com muitas palavras, para que não dês muita aten- ção nem muito crédito às suas acusações. Chego a temer que eu tenha me alongado demais, pois este prefácio tem quase a extensão de uma defesa completa. No entanto, com esta exposição não pretendi compor uma defesa, mas tão-somente abrandar o teu coração para ouvi- res a nossa causa. Apesar de no presente o teu coração estar desviado e afastado de nós, digo mais, até mesmo inflamado contra nós, é, não obstante, minha espe- rança que poderemos recuperar a tua graça, se te aprouver ler uma vez, com ânimo sereno e sem ira, esta nossa confissão, que desejamos seja recebida como nossa defesa por tua majestade. Mas se, ao contrário, as murmurações dos nossos adversários mal-intencio- nados ocuparem tão completamente os teus ouvidos que os acusados não tenham a oportunidade de defender-se; se, por outro lado, essas impetuosas fúrias conti- nuarem a agir sempre com crueldade, prisão, açoites, geenasª, faca, fogo, certa- mente, como ovelhas destinadas ao matadouro, ao sacrifício extremo seremos lançados. Todavia, será de tal maneira que em nossa paciência possuiremos as nossas almas132 e esperaremos pela poderosa mão do Senhor, que, sem dúvida, agirá no tempo próprio e virá armada, tanto para livrar os pobres da sua aflição como para punir esses desprezadores. Queira o Senhor, Rei dos reis, estabelecer o teu trono na justiça e o teu juízo na eqüidade, ó poderoso e ilustre rei. De Basiléia, vinte e três de agosto de 1536b . a 1536. equuleis. 131 “O Evangelho não é uma doutrina de língua, senão de vida. Não pode assimilar-se somente por meio da razão e da memória, senão que chega a compreender-se de forma total quando ele possui toda a alma, e penetra no mais íntimo recesso do coração. (...) Os cristãos deveriam detestar aqueles que têm o Evangelho em seus lábios porém não em seus corações.” (John Calvin, Golden Booklet of the True Christian Life, 6ª ed. Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 1977, p. 17.) NE. 132 Lucas 21.19. b 1539. Basileæ. Augusti 1536 (sic).
  • 51. 51 O Conhecimento de Deus ......................................................................... Cap. I O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio ....................................... II A Lei ......................................................................................................... III A Fé, ou Explicação do Símbolo dos Apóstolos ...................................... IV A Penitência.............................................................................................. V A Justificação pela Fé e os Méritos das Obras (Obras Meritórias) .......... VI Semelhança e Diferença do Antigo e do Novo Testamento ..................... VII A Predestinação e a Providência de Deus ................................................ VIII A Oração, ou Explicação da Oração do Senhor ....................................... IX Os Sacramentos ........................................................................................ X O Batismo ................................................................................................. XI A Ceia do Senhor...................................................................................... XII As Cinco Cerimônias Falsamente Chamadas Sacramentos ..................... XIII A Liberdade Cristã ................................................................................... XIV O Poder da Igreja ...................................................................................... XV O Governo Civil ....................................................................................... XVI A Vida Cristã ............................................................................................ XVII
  • 53. CAPÍTULO I 1. A sabedoria integral está no conhecimento de Deus e do homem. [1536] A soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria ver- dadeira e certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmosª. [1539] Quanto ao primeiro, deve-se mostrar, não somente que há um só Deus, a quem é necessário que todos prestem honra e adorem, mas também que Ele é a fonte de toda verdade, sabedoria, bondade, justiça, juízo, misericórdia, poder e santidade, para que dele aprendamos a ouvir e a esperar todas as coisas. Deve-se, pois, reconhecer, com louvor e ação de graças, que tudo dele procede. Quanto ao segundo, revela a nossa ignorância, miséria e maldadeb , induz- nos à humildadec , à não confiança própria e ao desprezo de nós mesmos; inflama em nós o desejo de buscar a Deus, certos de que nele repousa todo o nosso bem, do qual nos vemos vazios e desnudos. Ora, não é fácil discernir qual dos dois precede o outro e o produz. Porque, visto que o homem está repleto de qualidades indignas, mal nos contemplamos e tomamos conhecimento das nossas péssimas condições, e de imediato elevamos os olhos a Deus para que dele venha um pouco de conhecimento a Seu respeito. Assim, graças ao sentimento que temos da nossa pequenez, da nossa insensatezd e vaidade, e mesmo da nossa perversidade e corrupção, reconhecemos que a ver- dadeira grandeza, sabedoria, verdade, justiça e pureza estão em Deus. a Os primeiros capítulos do Sumário de Farel (1534) tratavam: I. de Deus, II. do homem. Nesse capítulo, onde apenas algumas frases são traduzidas do texto de 1536, Calvino desenvolveu as idéias formuladas – mui- tas vezes com expressões idênticas – em sua Instrução e Confissão de Fé (Instruction et confession de foi) – Catecismo de Genebra, 1537.2 b,c Fœditatem, seriam humilitatem (1539). d hebetudinis.
  • 54. 54 As Institutas – Edição Especial Finalmente, somos impedidos por nossas maldades e fraquezas de conside- rar os bens do Senhor, e não podemos sequer aspirar com amoroso empenhoa aos bens divinos, enquanto não começarmos a ficar aborrecidos com nós mesmos. Pois, qual dos homens não descansa em si mesmo e em si mesmo não tem pra- zer? Quem não descansa desse modo e durante todo o tempo em que, não se conhecendo bem, mostra-se satisfeito com as suas capacidades e ignora as suas miseráveis condições? Porquanto, cada um de nós não somente é instigado pelo conhecimento de si próprio a buscar a Deus, mas é como que levado pela mão ao Seu encontro. 2. Conhecer o homem depende de conhecer a Deus. Por outro lado, é notório que o homem jamais pode ter claro conhecimento de si mesmo, se primeiramente não contemplar a face do Senhor, e então descer para examinar a si mesmo. Porque esta arrogância está arraigada em todos nós – sem- pre nos julgamos justos, verdadeiros, sábios e santos, a não ser que, havendo sinais evidentes, sejamos convencidos de que somos injustos, falsos, insensatos e impuros. Mas não seremos convencidos se só dermos atenção a nós mesmos, e não também ao Senhor, pois esta é a regra única à qual é necessário que se ajuste o julgamento que se queira fazer. Isso porque, uma vez que nós somos natural- mente inclinados à hipocrisia, em vez de contentar-nos com a verdade, ficamos muito satisfeitos com uma vã aparência de justiça. E, tendo em vista que não há nada em nós que não esteja gravemente contaminado por grosseira impurezab , o que nos parece um pouco menos vil aceitamos como elevada pureza, enquanto mantemos o nosso espírito dentro dos limites da nossa condição humana, que é totalmente corrupta. É o que acontece com olhos só acostumados a verem a cor negra; uma brancura um tanto obscura ou mesmo acinzentada é, para esses olhos, a mais alva brancura. Todavia, menos se pode compreender as qualidades da alma e mais enganados seremos nessa compreensão, comparando-a com a nossa visão física. No entanto, quando em pleno dia olhamos para o solo ou para as coisas que estão ao nosso redor, achamos que a nossa visão é clara e firme. Mas quando elevamos o nosso olhar diretamente para o sol, somos constrangidos a confessar que a excelente visão que tínhamos quando olhávamos a terra fica con- fusa, ofuscada pelo fulgor do sol. É o que acontece quando avaliamos os nossos poderes espirituais. Porque, enquanto a nossa contemplação não vai além da terra, ficamos satisfeitos com a nossa justiça própria, com a nossa sabedoria e com a nossa capacidade ou poder, e nos gratificamos e nos elogiamos a nós mesmos, pouco faltando para que nos consideremos semideuses. Mas se, uma vez que seja, pensarmos no Senhor e a serio. b obscænitate inquinatum.
  • 55. 55 virmos a perfeição da Sua justiça, da Sua sabedoria e do Seu poder, a cujo mode- lo devemos ajustar-nos, o que antes nos agradava parecendo justiça, logo vere- mos que não passa de uma grande iniqüidade, o que nos impressionava maravi- lhosamente sob o título de sabedoria se revelará como loucura extrema, e o que tinha a aparência de capacidade ou poder se mostrará miserável fraqueza. Assim, o que em nós tem a aparência de absoluta perfeição, nem de longe se assemelha à pureza de Deus. 3. Espantoso contraste: o homem face à majestade e à perfeição de Deus! Essa realidade explica a reação de espanto e de horror dos santos toda vez que se viam na presença de Deus. Porque vemos que, quando se sentiam firmes e segu- ros na ausência de Deus, ficavam cheios de temor e tremor quando Deus lhes manifestava a Sua glória. Sentiam-se quase que tragados por um pavor mortal, e quase reduzidos a nada. Daí se conclui que o homem não reconhece quão grande é a sua imperfeição enquanto não se compara com a majestade de Deus. Dessa atitude de aterrorizado espanto há numerosos exemplos, tanto em Juízes como nos Profetas, de tal maneira que a seguinte sentença veio a ser um dito comum do povo de Deus: “Certamente morreremos, porque vimos a Deus”.133 Assim também a história de Jó, com a finalidade de humilhar os homens e levá- los ao reconhecimento da sua loucura, da sua fraqueza e da sua corrupção, sem- pre apresenta como principal argumento a descrição da sabedoria, do poder e da pureza de Deus; e não sem motivo. Sim, pois vemos que Abraão reconheceu melhor que não passava de terra e pó depois que contemplou de perto a glória do Senhor,134 e que Elias não pôde comparecer com o rosto descoberto à Sua presen- ça, tal o temor que tinha de contemplá-lo!135 E o que poderia fazer o homem, que nada mais é que podridão e verme, quando até os querubins cobrem o rosto por temor e reverência?136 É isso que o profeta diz, quando declara: “Aluz se envergonhará, e o sol se confundirá quando o Senhor dos Exércitos reinar;137 isto é, quando Ele mostrar mis de perto o Seu esplendor, a maior luminosidade do mundo diante dele será escuridão. Contudo, seja como for a relação existente entre o conhecimento de Deus e o de nós mes- mos, a boa norma requer que primeiro estudemos o conhecimento de Deus e depois desçamos ao estudo do conhecimento de nós mesmos. 133 Juízes 13.22; Isaías 6.5; Ezequiel 1.28; 3.14 e outras passagens. 134 Gênesis 18.27. 135 1 Reis 19.13. 136 Isaías 6.2. 137 Isaías 24.23. O Conhecimento de Deus
  • 56. 56 As Institutas – Edição Especial 4. Universalidade da idéia da existência de Deus e do sentimento religioso. Sabemos sem nenhuma dúvida que no espírito humano há, por inclinação natu- ral, certo senso da Divindade. Para que não nos refugiemos na alegação de igno- rância, o Senhor nos dotou de certa percepção da Sua majestade. Assim, tendo todos entendido que há um Deus, que é o seu Criador, serão condenados por seu próprio testemunho aqueles que não O glorificarem e não dedicarem sua vida a fazer a Sua vontade. Certo é que, se se buscar entre os homens ignorância tal que Deus seja absolutamente desconhecido, com toda a probabilidade exemplos dis- so serão encontrados somente entre os povos mais rudes e mais distanciados das boas condições de civilidade e de humanidade. Ora, como os próprios pagãosª confessam, não existe nação tão bárbara, nenhum povo tão selvagem que não tenha impressa no coração a existência de algum Deusb . E, por outro lado, aqueles que parecem não diferir quase nada dos animais irracionais, não obstante sempre conservam uma semente da religião, de tal modo esta concepção universal arraigou-se em todos os espíritos e se fixou em todos os corações. Portanto, visto que desde o princípio do mundo não há região nem cidade nem mesmo casa alguma que não tenha nada de religião, nesse fato nós temos uma confissão tácita de que há um senso da Divindade gravado no coração de todos os seres humanos. Até a idolatria nos serve de grande argumento em favor desta idéia. Porque sabemos quanto o homem se tem humilhado, contra si mesmo, e em seu detri- mento tem prestado honra a outras criaturas. Pois lhe parece melhor cultuar a madeira e a pedra do que ter fama de que não tem nenhum deus, o que mostra quão forte é este sentimento nele impresso da Majestade divina, impressão de tal modo difícil de apagar do espírito humano que seria mais fácil eliminar os seus afetos naturais. Como certamente estes são eliminados quando, da sua elevação e da sua presunção, o homem se rebaixa voluntariamente e se coloca abaixo das criaturas menos nobres da terra a fim de prestar honra a Deus. Porque é emitir falsa opinião dizer, com alguns, que antigamente a religião foi inventada por uns poucos com o fim de manter modesto e dócil o povo simples, quando os que incitavam os outros a servir a Deus nem pensavam na existência de algum deus. Bem sei que entre os pagãos houve homens astutos e engenhosos que forjaram muitas coisas de caráter religioso para impor medo aos simples e gerar escrúpu- los. Sua finalidade era tê-los mais obedientes e mais dóceis ao comando. Mas essa idéia jamais lhes teria ocorrido se anteriormente já o espírito dos homens não estivesse firmemente resolvido a crer em Deus. Daí procede toda a inclina- a (1539) ethnicus ille (e na margem: Cícero, De natura deorum (Da Natureza dos Deuses). b Catecismo de 1537, Art. I: Que todos os homens nasceram para conhecer a Deus (Opera selecta, I, 378).
  • 57. 57 ção dos homens para a fé religiosa. E não é preciso pensar que aqueles que, em nome da religião, enganavam as pessoas mais simples, estivessem inteiramente vazios e despidos da idéia de que Deus existe. Porque, apesar de que na antigüidade houve alguns, e hoje em dia há muitos, que negam totalmente a existência de Deus, todavia, querendo-o ou não, por vezes sentem aquilo que gostariam de ignorar. 5. Desprezadores de Deus: Consciência em conflito. Não se lê de nenhuma outra pessoa que tenha desprezado e ultrajado a Deus com maior arrogância e atrevimento do que o imperador romano Caio Calígulaª. Mas ninguém tremeu mais miseravelmente que ele, quando surgia algum sinal de mani- festação da ira de Deus. Assim, para seu próprio pesar, ele tinha verdadeiro pavor de Deus, a quem ele queria de fato desprezar e para isso se esforçava. Experiência como essa vemos com freqüência suceder com todos os que tomam atitude seme- lhante à de Calígula. A realidade é que quanto mais atrevido for o desprezador de Deus, mais tremerá de medo ao ruído de uma simples folha que cai.138 De onde provém esse temor? Certamente de Deus que, em Sua majestade, vinga-se, ator- mentando tanto mais a consciência deles quanto mais procuram dela fugir. Todos eles procuram esconderijos para ocultar-se da presença de Deus e tentam apagá-la da memória, mas, quer queiram quer não, não escapam. E ainda que esse pavor pareça desvanecer-se por breve tempo, sempre volta, e com maior força, a tal ponto que a momentânea tranqüilidade de consciência acaso desfruta- da por eles não difere muito do sono dos bêbados e dos loucos, os quais, mesmo enquanto dormem, não descansam em paz. Sim, porque são constantemente per- turbados por alucinações e sonhos assustadores. Logo, os próprios ímpios nos servem de exemplo de que algum conheci- mento sobre Deus existe universalmente no coração dos homensb . 6. O conhecimento de Deus nos ensina a viver. Já demonstramos que o conhecimento de Deus tem o poder de plantar em nosso coração alguma semente de religiãoc . Primeiro nos leva à reverência e ao temor de Deusd ; depois, ensina-nos a buscar o bem e a reconhecer que este procede de Deus. Pois, como pode algum pensamento sobre Deus penetrar a nossa mente sem que de imediato julguemos (visto que somos Suas criaturase ) que, por direito de criação, devemos estar sujeitos e ser submissosf ao Seu domínio, a nossa vida 138 Levítico 26.36. O Conhecimento de Deus a Os dois vocábulos estão sem equivalentes latinos. b Catecismo de 1537, Art. I. c Frase sem equivalente em 1539. d Catecismo de 1537, Art. I. e figmentum. f addictum et mancipiatum (termos do direito romano).
  • 58. 58 As Institutas – Edição Especial deve ser dedicada ao Seu serviço e todos os nossos propósitos e tudo o que dize- mos e fazemos devem ser atribuídos a Ele? Se é assim, segue-se que a vida de um homem está perversamente corrompida, a não ser que esteja sendo dirigida pela obediência à Sua santa vontade. Por outro lado, ninguém pode entendê-lo bem, a menos que reconheça que Ele é a fonte e a origem de todo o bem. Dessa consideração se produz um desejo de estar em comunhão com Ele, e uma confiança em Sua bondade, a não ser que, por sua perversidade, a mente humana seja retirada da investigaçãoa correta. Mas, de um lado e do outro, o que e se vê é uma estupenda vaidade e insipidez de todos nós. Pois, em vez de em toda a nossa vida nos mantermos em perseverante obediência a Ele, em todas a nossas obras insistimos em querer agradá-lo somen- te com pequenas satisfações. Em lugar de procurarmos levar Deus a comprazer- se com a santidade e a pureza de coração, inventamos sabe-se lá quantas pilhas de coisas inúteis e de cerimônias que de nada valem, esperando distraí-lo. O resulta- do é que, em vez de pormos a nossa confiança totalmente em Deus, ela é posta em nós ou em outras criaturas. Finalmente,b estamos envolvidos em tantos erros e opiniões perigosas que a centelha de verdade, que poderia iluminar-nos e guiar-nos à contemplação da majestade de Deus, fica encoberta e estanque de tal maneira que já não nos pro- picia um reto conhecimento de Deus, só restando a primeira semente, que jamais pode ser arrancada – isto é, a que leva o homem a saber que Deus existe. 7. Maus frutos da semente de religião. Todavia, essa mesma semente tanto se corrompeu que só produz frutos ruins. Sendo este o caso, comete-se pecado principalmente de duas maneiras. A primei- ra é que os pobres homens, na busca da verdade de Deus, não vão além da linha da sua natureza, como seria de toda a conveniência, mas avaliam a Sua grandeza conforme a rudeza dos seus sentidos. Com isso, não percebem, que quanto mais se empenham em conhecer a Deus desse modo, maisc O fazem fruto da sua ima- ginação, criando-o de acordo com a presunção que os domina. Fazendo isso, eles abrem um abismo do qual não escapam; movam-se para este ou aquele lado, estão condenados. Assim é porque tudo quanto se esforçam por fazer para servi- lo lhes é inútil; nada disso é levado em conta, pois não é a Deus que honram, mas sim às imaginações do seu coração.139 Pois a inútil coberta que muitos costumam querer usar para desculpar a sua superstição foi destruída. 139 Gênesis 8.21. a investigatio. b Catecismo de 1537, Art. II (Opera Selecta, I, 379). c “Eles não avaliam Deus por Sua infinita majestade, mas sim pela estulta e confusa vaidade da sua mente” (Catecismo de 1537, II).
  • 59. 59 Acham eles que toda aparência de religião, seja esta qual for, mesmo quan- do desenfreada, é suficiente, mas não consideram que a verdadeira religião deve ter como sua regra universal a conciliação com a vontade de Deus. Saiba-se que Deus não muda; não é um ser fantasioso que se transforma ao gosto de cada um. Verdadeiramente, pode-se ver com quantas vãs ilusões a superstição imita a Deus, quando o dever de todos é agradá-lo. Porque a superstição – a falsa religião – quase unicamente se apega a coisas que Deus declara sem valor, e negligencia ou rejeita as que Ele ordenou e declarou aceitáveis. Assim, todos os que se dispõem a adorar a Deus com religiões inventadas pela imaginação humana não adoram a Deus. Adoram, sim, as suas fantasias, pois não se atreveriam a zombar de Deus dessa maneira, a não ser que O tivessem criado à semelhança das suas fantasias. Por isso o apóstolo Paulo ensina que esse conceito vago e errôneo que se tem de Deus é ignorância de Deus – é ignorar a Deus.140 “Outrora, porém”, diz o após- tolo, “não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são.” Noutra passagem ele declara que os efésios tinham estado sem Deus durante todo o tempo em que não tinham o verdadeiro conhecimento de Deus;141 e não faz muita diferença se imaginam um deus ou muitos, porque sempre se afastam do verdadeiro Deus e O abandonam, só restando uma execrável idolatria. Temos que concluir, pois, com Lactâncio, que não existe religião legítima, se não estiver unida à verdade. O segundo erro cometido pelos homens é que se deixam levar à força e contra a sua vontade a terem consideração por Deus, e não movidos por um te- mor decorrente da reverência à majestade divina. O que os move é somente o pavor causado pelo juízo de Deus, do qual têm grande horror, sabendo que dele não podem escaparª. Contudo, de tal forma O temem que O detestam. Por isso, o que a respeito disse o poeta pagão Estáciob aplica-se bem à impi- edade, e unicamente a esta. Disse ele: “O medo foi o primeiro produtor de deuses no mundo”.142 Certo é que todos os que têm seu coração afastado da justiça de Deus gostariam imensamente que fosse destruído o Seu tribunal, porque sabem que as transgressões que eles cometem são por ele punidas. Movidos por esse desejo, eles guerreiam contra Deus, que não pode deixar de lado a aplicação da justiça. Reconhecendo, porém, que pende sobre eles o inevitável poder de Deus, do qual não podem esconder-se nem fugir, temem. E assim, para não parecer que eles desprezam totalmente a majestade divina, procuram cumprir esta ou aquela forma aparente de religião. Todavia, enquanto isso, não param de contaminar-se com toda espécie de vícios e de empilhar pecado e mais pecado, até violarem inteiramente a santa Lei do Senhor e dissiparem toda a Sua justiça. Nem ao me- O Conhecimento de Deus 140 Gálatas 4.8. 141 Efésios 2.12. a Catecismo, Art. II. b Statii: Timorem primum fecisse in orbe deos. 142 Literalmente do francês: “Primeiramente o medo introduziu a reverência a Deus no mundo”. NT.
  • 60. 60 As Institutas – Edição Especial nos se deixam conter por esse falso temor, permanecendo em seus pecados e em sua vanglória; e dão rédeas soltas à sua intemperança carnal, em vez de se restrin- girem sob o governo do Espírito Santo. Mas, como tudo isso não passa de uma sombra vã de religião (que mal merece o nome de sombra), precisamos esclare- cer, ainda que resumidamente, qual é o verdadeiro conhecimento de Deus, que somente ao coração dos fiéis Ele instila, como também o amor pela piedade que acompanha esse conhecimento. 8. Bênçãos da Fidelidade Primeiramente,a o coração fiel não inventa um deus a seu gosto, mas põe a sua atenção no único Deus verdadeiro, e não Lhe atribui o que lhe parece bom, mas se alegra com o que de Deus lhe é revelado. Além disso, sempre se vigia diligen- temente para não sair da Sua vontade por atrevida presunção. Tendo esse conhe- cimento, pelo qual entende que por Sua providência Deus modera todas as coi- sas, o fiel se confia a Ele, tendo-o como seu tutor e protetor, e, portanto, coloca- se sob a Sua guarda, sabendo que Ele é o autor de todo bem. Se o aflige alguma necessidade, corre logo em busca do Seu socorro e, tendo invocado o Seu nome, espera a ajuda que dele vem. Visto que está persuadido da bondade e da benigni- dade de Deus, ele se sente seguro e descansa em Sua clemência. Não tem a menor dúvida de que terá sempre remédio pronto para todas as suas misérias, graças à Sua misericórdia. Reconhecendo-o como Senhor e Pai, o fiel considera digno Aquele a cujos mandamentos se entrega, cuja majestade reverencia, cuja glória ele se empenha em buscar e cuja vontade procura seguir. CompreendendoqueDeuséjustoJuiz,quesevingarádetodosostransgressores, o fiel sempre tem os seus olhos postos no tribunalb divino, para manter-se longe de tudo quanto provoque a Sua ira. Todavia, não fica demasiadamente assustado ao pensar no juízo, ao ponto de querer subtrair-se a ele, mesmo quando tivesse meios de evadir-se. Mas, ao contrário, sabe que Ele não se mostra menos desejoso de corrigir os maus do que de recompensar os bons, visto que não pertence menos à Sua glória punir os malvados e iníquos que recompensar os fiéis com a preciosidade da vida eterna. Não há vantagem em reprimir-se o pecador por puro medo de vingança. Mas, visto que o fiel ama a Deus como seu Pai e o teme como seu Senhor, mesmo que não existisse inferno, ofender a Deus lhe causaria horror. 9. A Religião Pura e Verdadeira Eis aqui a religião pura e verdadeira – a fé unida ao temor de Deus, desde que sob o nome de temor estejam compreendidas tanto a estima por Sua justiça, que Ele ordenou mediante Sua Lei, como a reverência, voluntária e de todo o coração, votada à Sua divina majestade. a Catecismo, Art. II. b tribunal (No original: Throsne.)
  • 61. 61 Ora, se todos nós nascemos com este propósito de conhecer a Deus (e o conhecimento de Deus será vão e infrutífero se não chegar a esse ponto), ficará manifesto que os que não dirigem a essa meta todas as cogitações e ações de sua vida, declinarão e serão abatidos da ordem da sua criação. Isso não foi ignorado nem pelos filósofos, pois outra coisa não entendeu Platão,143 tendo ele ensinado muitas vezes que o supremo bem da alma é a seme- lhança com Deus, quando, estando em feliz e verdadeira contemplação do Ser divino, transforma-se nele. Igualmente Grilo argumenta com grande sabedoria em Plutarco, afirmando que se a religião fosse eliminada da vida dos homens, eles não somente deixari- am de ter qualquer excelência acima dos animais irracionais, mas também de muitas maneiras viriam a ser muito mais miseráveis.Assim seria, visto que estamos sujeitos a tantas espécies de males, levando uma vida laboriosaa e sem repouso. Porquanto, não há negar que tão-somente o conhecimento de Deus os torna supe- riores, conhecimento pelo qual eles podem aspirar à imortalidade. 10. A Finalidade da Vida Feliz Visto que Deus quis que o fim principal da vida realmente feliz estivesse situado no conhecimento do Seu nomeb , para que não pareça que é seu desejo vedar a alguns o ingresso na felicidade, Ele se manifesta claramente a todos. 11. Revelação de Deus no Universo Como a Sua natureza essencial é incompreensível e está oculta à inteligência humana, Ele gravou em cada uma de Suas obras certos sinais da Sua gloriosa majestade, pelos quais Ele se dá a conhecer segundo a nossa diminuta capacida- de. Digo que são sinais tão notórios e evidentes que nem mesmo os mais cegos e os mais rudesc do mundo podem alegar ignorância. Porque, embora a Sua essên- cia nos esteja oculta, não é assim com as Suas virtudes, as quais se mostram constantemente aos nossos olhos e de tal modo O revelam que nos servem de meios para conhecê-lo para a nossa salvação. Em primeiro lugar, para onde quer que voltemos os olhos, não há o mais diminuto rincão do mundo em que não refulja ao menos alguma centelha da glória de Deus. Realmente, ninguém pode de um relance contemplar a belíssima obra de arte universal em sua vasta amplitude e extensão, sem ficar, por assim dizer, estupefato ante a incomensurável riqueza do seu esplendor. Por isso o apósto- O Conhecimento de Deus 143 Em Phædone et Theæteto. a tumultuariam. b Catecismo, Art. III: “O que nos falta conhecer de Deus”. c rudissime.
  • 62. 62 As Institutas – Edição Especial lo que escreveu Hebreus144 com muita propriedade chamou aos séculos espelhos das realidades invisíveis, pois o mundo foi composto para servir-nos de espelho para podermos contemplar a deus, que, de outro modo, nos seria invisível. Pela mesma razão o profeta atribui às criaturas chamadas corpos celestes uma linguagem que se faz conhecida a todas as nações,145 porquanto há nelas um testemunho tão evidente da divindade que não pode ser ignorado, nem mesmo pelos mais rudes e mais atrasados. Sobre isso Paulo, expondo o assunto com maior franqueza, diza : “... o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das cousas que foram criadas”.146 No céu e na terra há incontáveis demonstrações da maravilhosa sabedoriab de Deus. Não me refiro apenas às que são difíceis de compreender, cujo entendi- mento só se pode obter por meio do conhecimento de astronomia, medicina e física, mas principalmente as que são fáceis de ver até para os mais simples e ignorantesc , a tal ponto que basta que abram os olhos para se verem forçados a dar testemunho delas. É bem verdade que os que receberam instrução sobre as artes liberais, ou que provaram algo delas, têm nesse conhecimento uma ajuda especial para aprofundar-se nos segredos da sabedoria divina. Contudo, mesmo aquele que desconhece essas artes não é impedido de ver grande parte das obras de Deus, sendo levado a admirar o Artífice que as criou. A modo de exemplo, é necessário ter arte e habilidade especiais para estudar os movimentos dos astros, para distribuí-los em suas respectivas posiçõesd , para calcular as distâncias e observar as propriedades de cada um deles. (Por essa consi- deração, tendo-se em conta que por essas coisas a providência de Deus se mostra com mais clareza, ainda mais alto deve elevar-se a nossa alma na contemplação da glória divina.) Entretanto, como nem as pessoas que só têm como recurso os seus olhos podem ignorar a excelência da sabedoria divina, que se revela na variedade de corpos celestese , incontáveis e harmoniosamente ordenados, certo é que não existe ninguém a quem Deus não manifeste suficientemente a Sua sabedoria. Paralelamente, estudar, com a aplicação que nesse empenho Galeno147 de- monstra, a constituição do corpo humano, em que se notam inter-relação, propor- ção, beleza e funções, leva à conclusão de que essa obra só pode ter sido realizada 144 Hebreus 8.5 e 11.3. 145 Salmo 19.1-4. a O Catecismo cita essa passagem. 146 Romanos 1.19,20. b Poder, sabedoria, bondade, justiça e misericórdia são enumerados nessa ordem no Catecismo, como atribu- tos de Deus. c stupidis. d distribuendas sedes. e cœlestis militiæ. 147 Libris de usu partium.
  • 63. 63 com grande habilidade e sabedoria. E, como todos em geral reconhecem, o corpo humano tem uma constituição tão engenhosa que dá ao seu Artífice o mereci- mento da nossa maior admiração. Quantos exemplos mais serão necessários para levar os homens à conside- ração do poder de Deus? Pois de outro modo não se pode agir, se não é que ignoramos o grande poder de Deus, que sustenta a imensa grandeza do céu e da terra unicamente por Sua palavra, capaz de, a Seu comando, fazer tremer o céu com os Seus trovões, acender a seu bel-prazer os raios, inflamar os ares com os Seus relâmpagos, inundar o mundo com diferentes tipos de tempestades; e, subi- tamente, quando Lhe parece bem, restabelecer a bonança e a tranqüilidade; igual- mente pode manter o mar de tal modo suspenso que não possa causar dano à terra, como também, pela altura de suas ondas, ameaça destruí-la, mantendo-se numa terrível agitação pela grande impetuosidade dos ventos; e, de repente, pode apaziguar as suas vagas e serená-lo. Este Seu poder deve levar-nos a considerá-lo necessariamente eterno, tendo Seu princípio em Si mesmo, e de Quem todas as coisas têm a sua origem. Além disso, se for procurada a causa que O induziu a criar no princípio todas as coisas e agora O movem a conservá-las, não a encontrará senão em Sua bondade, a qual, mesmo não havendo outro motivo, deverá ser mais que suficien- te para atrair o nosso amor. Sim, pois, como nos ensina o profeta, não há nenhu- ma criatura sobre a qual Deus não tenha derramado a Sua misedricórdia.148 12. O Poder de Deus Manifesto em Sua Justiça Semelhantemente, na segunda classe das obras de Deus, a saber, as que são rea- lizadas fora do curso comum da natureza, elas mostram sinais manifestos do Seu poder. Quanto ao governo exercido sobre o gênero humano, Ele administra de tal maneira a Sua providência que, embora para com todos se mostre geralmente benigno e generoso de mil maneiras, todavia, em Seu governo demonstra diaria- mente a Sua justiça para com os bons, e para com os maus o Seu severo juízo. Os castigos por Ele impostos aos maus, na vindicação da Sua justiça, não ficam escondidos nem são desconhecidos. Mas também, sem nenhuma dúvida, Ele age como protetor e defensor da inocência, dando prosperidade à vida dos bons por Sua bênção, socorrendo-os em sua necessidades, suavizando as suas dores e em tudo e por tudo cuidando do seu bem-estar. O fato de permitir Deus que os ímpios e os malfeitores vivam por algum tempo na impunidade, e que os bons e os inocentes sofram muita adversidade e até sejam oprimidos pela iniqüidade dos maus, não deve obscurecer o caráter perpétuo das normas da Sua justiça. Ao contrário, outra deve ser a nossa maneira de pensar. É que quando Ele manifesta claramente a Sua ira contra algum peca- O Conhecimento de Deus 148 Salmo 19.1,7 e 145.9.
  • 64. 64 As Institutas – Edição Especial do, é necessário reconhecer que todos os pecados Lhe são detestáveis. E quando Ele deixa sem castigo muitos pecados, é preciso entender que outro juízo haverá, para cuja sentença eles estão reservados. Igualmente, quantos motivos Ele nos dá para considerarmos a Sua misericórdia quando não deixa de tratar miseráveis pecadores com clemência? E por quê? Para vencer a obstinação deles com Sua clemência mais que paternal e com Suas bênçãos! 13. Manifestações do Poder e da Sabedoria de Deus O poder e a sabedoria de Deus também não estão ocultos. O poder se revela claramente quando, tantas vezes, a crueldade dos ímpios, considerada fortaleza inexpugnável pelo critério humano, num momento é arra- sada e reduzida a pó, sua arrogância é subjugada, todas as suas munições são destruídas, suas armas feitas em pedaços, suas forças dissipadas e seus empreen- dimentos postos abaixo. Caindo em confusão por sua própria impetuosidade maligna, sua audácia, que os elevava até os céus, é abatida até às profundezas da terra. Já, por outro lado, os desprezados são elevados do pó, os pobres são retira- dos do lixo,149 os oprimidos e os aflitos sofredores são libertados da sua extrema angústia, aos desesperados é devolvida a esperança, os que são poucos e não dispõem de armas enfrentam vitoriosos os inimigos numerosos e bem armados, os fracos vencem os fortesª. A sabedoria de Deus se manifesta na administração oportuna e adequada de cada coisa, na confusão em que põe toda a sabedoria terrena, surpreendendo os astutos em suas artimanhas, e no governo do mundo, dispondo na melhor ordem todas as coisas. Vemos, pois, que não há necessidade de recorrer a longas e curi- osas demonstrações, nem de juntar testemunhos numerosos para mostrar e com- provar a majestade de Deus. Porque, embora sejam poucas as provas que menci- onamos, são tão notórias as evidências que, para onde quer que nos voltemos, elas podem ser observadas com os olhos e indicadas com os dedos. 14. O Coração Acima da Razão É preciso observar, nesta altura, que somos convidados a buscar um conheci- mento de Deus que não se confunde com o conhecimento que gira em torno de vãs especulações, mas sim o conhecimento que é proveitoso e frutífero, desde que bem apreendido. Porque Deus se manifesta por Suas obras poderosas. Quan- do sentimos a sua força em nós e recebemos os seus benefícios, devemos im- pressionar-nos mais com esse conhecimento do que com o que resulta de caste- los no ar, de um deus imaginário, sem nada de Deus em nosso coração e em nossa experiência. 149 Salmo 113.7. a 1539 acrescenta: victoriam referunt.
  • 65. 65 Daí deduzimos que não há melhor meio de buscar a Deus, que não há pro- cesso mais eficaz para isso do que contemplá-lo em Sua obras. Por Suas obras Ele se aproxima de nós, torna-se mais familiar a nós e até se comunica conosco. Não que devamos ser movidos por audaciosa curiosidade e queiramos especular sobre a grandiosidade da essência do Seu Ser. O Ser essencial de Deus devemos adorar, não pesquisar com curiosidadea . A esse ponto refere-se o apóstolo Pau- lo,150 dizendo que não precisamos buscar a Deus longe de nós, visto que Ele habita em cada um de nós por Seu poder. Por essa razão Davi, tendo confessado que a grandeza de Deus é indescritível, declara que não deixará de proclamá- la.151 Portanto, não nos cansemos de buscar conhecer a Deus, pois esta investiga- ção de tal modo mantém a admiração do nosso espírito que o comove e lhe inspi- ra genuíno sentimento. 15. A Glória de Deus e a Esperança da Glória Ora, este conhecimento não somente deve levar-nos a glorificar a Deus e a servi- lo,b mas também deve despertar e fomentar em nós a esperança da vida futura. Quando nos apercebemos de que os ensinamentos do nosso Senhor, tanto sobre a Sua clemência como sobre a Sua verdade, não são exaustivos, devemos reconhe- cer que são apenas figuras ou amostras da realidade que ainda será plenamente revelada, no dia estabelecido por Deus para esse glorioso fato. Por outro lado, quando vemos os bons e os inocentes carregados de afli- ções, atormentados por injúrias, oprimidos por calúnias, maltratados por ultrajes e humilhações, e, ao contrário, vemos os maus florescerem e prosperarem, go- zando tranqüilidade e honras humanas, sem nenhum pesar, só podemos pensar na existência de uma outra vida, na qual a iniqüidade tenha seu justo castigo e o explorador seja entregue à justiça. Além disso, quando vemos como tantas vezes os fiéis são castigados pela vara do Senhor, devemos ter toda a certeza de que muito menos os ímpios escaparão do castigo divino. Cabe-nos confessar, pois, que em cada obra de Deus em particular, e princi- palmente no conjunto de todas elas, as operações do Seu poder estão representa- dos como que em telas de pintor, pelas quais toda a humanidade é convidada a tomar posse deste conhecimento e, por ele, para o gozo da suprema felicidade. E por mais claramente se manifestem as operações do poder de Deus, muitas vezes só chegamos a entender para onde elas tendem, qual a sua importância e a que fim se destinam; até que, descendo para dentro de nós mesmos, consideramos as maneiras pelas quais Deus manifesta em nós a Sua vida, a Sua sabedoria e o Seu poder, e exerce em nosso favor a Sua justiça, a Sua bondade e a Sua clemência. O Conhecimento de Deus a Catecismo, Art. III. 150 Atos 17.27,28. 151 Salmo 145.1-3. b cultum.
  • 66. 66 As Institutas – Edição Especial 16. A Luz de Deus e a Cegueira dos Homens Todavia, apesar da claríssima luz sob a qual as obras de Deus são expostas à contemplação, representando o Seu Ser e a Sua realeza imperecível, tão preso à carne está o nosso espírito que não conseguimos ver esses testemunhos tão nitidamente manifestosª. Sim, pois, quanto à composição do universo, quantos elevam os olhos aos céus? E dos que percorrem muitas regiões da terra, quantos se lembram do Criador? Não se põem, antes, a contemplar as criaturas, es- quecidos do Criador? Quanto às coisas que sucedem no curso comum da vida diária, não são muitos os que imaginam que são guiados pela roda do destino cego, que os faz girar e agitar-se para cá e para lá, em vez de atribuírem à providência de Deus o bom governo do mundo? E se alguma vez somos constrangidos por estas coisas a pensar em Deus (o que acontece necessariamente com todos os seres humanos), logo depois de conceber uma débil noção de uma divindade duvidosa, recaímos na loucura da nossa carne e, com nossa vaidade, corrompemos a pura verdade de Deus. É bem verdade que nisso nós somos diferentes uns dos outros. Cada um inventa seus erros particulares. Nisto, porém, somos parecidos: Todos nós nos desviamos do único Deus verdadeiro e nos deixamos dominar por nossas enga- nosas imaginações. Este mal não afeta somente os elementos do povo simples e inculto, mas atinge também os que noutras áreas se mostram excelentes e instru- ídos. Quanta insensatez, quanta tolice, tem mostrado a imensa linhagem dos filó- sofos! Porquanto, ainda que poupemos os outros filósofos que abusivamente er- raram, que dizer de Platão,152 que, sendo o mais sóbrio e o mais razoávelb deles todos, e não estando distante da religião, perdeu-se em sua busca de um deus corpóreo – o que é impróprio e totalmente indigno da majestade divina. E que dizer dos outros, se os principais, que deveriam esclarecer o restante do povo, erram tão grosseiramente? De igual modo, quanto ao governo das coisas humanas, é tão patente a ação da providência divina que é impossível negá-la. Mas isso não dá proveito maior do que acreditar que todas as coisas são deixadas em desordemc e temerariamen- te dirigidas pelo destino cego.Atal ponto chega a nossa propensão para a vaidade e para o erro! Como sempre, estou falando dos que atingiram alto grau de exce- lência, não dos tipos vulgares, cuja loucura em contaminar e corromper a verda- de ultrapassa todas as medidas. a Catecismo, Art. III (Opera selecta, I, 380). 152 Em Timœo (nota de rodapé da edição de 1539). b Estas palavras (três no original francês) estão sem as suas equivalentes latinas em 1539. c Sursum deorsum versari.
  • 67. 67 17. Revelação que nos Deixa sem Defesa Eis porque em vão resplendem tantas luzes no edifício do universo para manifes- tação da gloria do Criador. Tal é o brilho que sobre nós seus raios lançam! E, apesar disso, essas luzes não nos podem conduzir pelo reto caminho. É bem ver- dade que nos enviam certas centelhas, mas estas se apagam antes de tornar-se plena luz. Por isso o apóstolo, na mesma passagem na qual afirma que os mundos são figuras das coisas invisíveis,153 logo a seguir declara que é pela fé que o mundo foi construído pela Palavra de Deus. Com isso ele quer dizer que a Divin- dade invisível é representada pela figura do mundo, mas que os nossos olhos são incapazes de observá-la, a não ser que sejam iluminados interiormente pela reve- lação de Deus. Mesmo onde o apóstolo Paulo ensina que o que se deve conhecer de Deus é revelado na criação do mundo, ele não se refere a uma revelação que o entendimen- to humano possa compreender; antes, ele dá a entender que essa revelação não faz mais que nos tornar inescusáveis.154 Embora em certa passagem o mesmo apóstolo ensine que não é preciso distanciar-nos para buscar a Deus, porque Ele “não está longe de cada um de nós,155 noutra passagem nos ensina a importância desta proxi- midade, dizendo que Deus, “nas gerações passadas, permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos; contudo, não se deixou ficar sem testemu- nho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria” .156 Vê-se, pois, que, embora não sendo desprovido de testemunhos pelos quais generosa e brandamente Deus convi- da os homens a que O conheçam, eles, entretanto, não deixam de seguir os seus próprios caminhos – isto é, seus erros, que só merecem condenação. Sendo, porém, que nos falta a capacidade natural para obtermos o puro e claro conhecimento de Deus, todavia, visto que a causa dessa ignorância está em nós, não temos desculpa. A verdade é que não nos adianta alegar ignorância, porque nós mesmos sempre nos persuadimos da nossa negligência e da nossa ingratidão. E certamente será uma pobre e indignaª defesa o homem dizer que não tem ouvidos para ouvir a verdade, quando as próprias criaturas destituídas de voz a proclamam alto e bom som! Também não pode alegar que não tem olhos para ver o que muitas criaturas sem olhos mostram! Inútil será ainda defender-se dizendo que a sua mente é incapaz de entender a verdade, quando todas as criatu- ras irracionais a ensinam! Portanto, não temos desculpab por andarmos extraviados e perdidos, pois todas as coisas nos mostram o caminho certo. Contudo, ainda que essa ignorân- O Conhecimento de Deus 153 Hebreus 9.23; 11.3. 154 Romanos 1.18-20. 155 Atos 17.27 (nota da ed. de 1539). 156 Atos 14.16,17. a Feliz correção de digna, impressa em 1539. b Expressão jurídica.
  • 68. 68 As Institutas – Edição Especial cia deva ser atribuída aos homens que, em sua maldade, corrompem logo a semente do conhecimento de Deus semeada em seu entendimento pelas admi- ráveis obras de Deus na natureza, impedindo-a de dar bom fruto, a verdade é que não somos suficientemente habilitados pelo simples e nu testemunho que as criaturas dão da grandeza de Deus. Sim, porque, tão logo experimentamos um pouco da Divindade pela contemplação do universo, em seguida abandona- mos o Deus verdadeiro e em Seu lugar erigimos os sonhos e as imaginações do nosso cérebro, como também usurpamos o louvor da justiça, da sabedoria e do poder de Deus. Acresce que, de tal maneira obscurecemos as Suas realizações diárias e as invertemos com o nosso mau julgamento, que até tomamos para nós o louvor devido ao seu Autor. 18. Dádiva de um Recurso Melhor Portanto, como o Senhor expõe a todos, sem exceção, a clara percepção da Sua majestade, figurada em Suas criaturas, para despojar a impiedade dos homens de toda defesaa , assim também, por outro lado, ele socorre com um remédio mais eficaz a ignorância daqueles aos quais Ele tem prazer em dar-se a conhecer para salvação. Porque, para instruí-los, Ele não se restringe ao uso de criaturas mudas, mas abre os Seus lábios sagrados e, não somente lhes declara que é necessário adorar algum deus, mas também mostra que Ele é o Deus que é necessário ado- rar; e não se limita a lhes ensinar que é preciso reconhecer um só Deus, mas, além disso, apresenta-se como Aquele a quem unicamente devem apegar-se. E de fato o Senhor, desde o princípio, tem observado esta ordem na vocação dos Seus servos: Além dos ensinamentos dados pelos meios já mencionados, Ele faz uso da Sua Palavra,b que é um meio de indicação mais seguro e mais acessível para conhecê-lo. Desta maneira, Adão, Noé, Abraão e os outros patriarcas puderam conhecê-lo, iluminados que foram por Sua Palavra. Seja que esta lhes tenha sido comunicada por comunicações diretas e visões, seja que tenha sido revelada pri- meiramente a seus antecessores e deles recebida, a Palavra lhes foi dada pela sua pregação, como que passando de mão em mão. E foi assim que eles foram parti- cipantes da Palavra divina e tiveram o firme entendimento de que ela procedia de Deus. Disso o Senhor deu certeza quando Lhe aprouve revelar-se por meio dela. Ele se manifestou, então, a poucos, dando-lhes sinal manifesto da Sua presença, e lhes confiou o tesouro da Sua sã doutrina, para que fossem os Seus despenseiros e ministradores com vistas à posteridade. Vemos assim que Abraão comunicou à sua família a aliança da vida eterna que lhe fora dadac , e com sofrimento e dor ela foi conservada até às gerações futuras. Por isso, desde aquele tempo, a linhagem de Abraão se mantém separada a Expressão jurídica. b “É necessário vir à Palavra de Deus onde Deus é muito bem descrito”(Catecismo, Art. III). c 1539 acrescenta: cœlesti oraculo.
  • 69. 69 das outras nações por esta diferença: Por uma singular graça de Deus, foi-lhe dada esta comunhão na Palavra. Pois bem, quando pareceu bem ao Senhor edificar uma igreja mais segregada ainda, Ele publicou mais solenemente aquela mesma Palavra, e foi da Sua vonta- de que ela fosse redigida como documentoa escrito. Por isso, desde quando os oráculos ou as revelações da Palavra de Deus começaram a ser reduzidas à escri- ta, ela tem sido mantida entre os fiéis e tem sido transmitida entre eles, uns aos outros. E, com vistas aos seus sucessores, Deus supriu Seu povo de uma provi- dência muito especial. Porque, se considerarmos como o entendimento humano tende a esquecer-se de Deus, com que facilidade se deixa arrastar pelo erro, como se dispõe com leviandade a sonhar o tempo todo com novas religiões e imitações, poderemos reconhecer facilmente quão necessário foi que a doutrina celestial fosse fixada por escrito. Sim, porque, com esse recurso, não há perigo de esque- cimento ou de desaparecimento, destruída pelo erro, ou de ser corrompida pela audácia dos homens. Fica, pois, manifesto que Deus se serve da Sua Palavra em benefício daqueles que Ele deseja instruir para frutificação, estando claro que a Sua imagem e semelhança impressa no edifício do universo não é suficiente. Portanto, é necessário que sigamos este caminho, se de coração aspiramos à ge- nuína contemplação da Sua verdade. É necessário, repito, retornar sempre à Palavra, na qual Deus nos é revelado e retratado ao vivo por Sua obras, sendo elas, porém, avaliadas, não segundo a perversidade do nosso julgamento, mas segundo a regra da verdade eterna. Se nos desviarmos dessa Palavra, seja qual for o rumo que tomemos, jamais chega- remos ao nosso alvo, pois estaremos correndo fora do caminho. Devemos consi- derar a luz de Deus, à qual o apóstolo Paulo se refere como “inacessível”,157 como um labirinto onde nos perderemos, a não ser que sejamos conduzidos pelo fiob da Palavra.158 Tal é a situação, que é muito melhor ir mancando por este caminho do que correr bem por fora dele. 19. O Ensino da Palavra Por algo é que Davi , depois de declamar descrevendo como a glória de Deus é proclamada pelos céus, como as obras de Suas mãos são anunciadas pelo firmamento, e como pela sucessão bem ordenada do dia e da noite a Sua majesta- de é manifestada, passa ele à celebração da Palavra de Deus. “A lei do Senhor é perfeita”, diz ele, “e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o manda- O Conhecimento de Deus a Expressão jurídica. 157 1 Timóteo 6.16. b linea. 158 Certamente uma referência ao labirinto do minotauro da mitologia, onde a segurança do herói Teseu foi dada pelo fio que Ariadne providenciou. NT.
  • 70. 70 As Institutas – Edição Especial mento do Senhor é puro e ilumina os olhos”.159 O que significa o seguinte:Adoutrinaa ministrada pelas obras criadas por Deus é universal, dirige-se a todos, ao passo que a instrução dada pela Palavra é a escola particular dos filhos de Deus. Ora, quando está claro que a palavra que se propõe é de Deus, ninguém será tão atrevido (a não ser que seja totalmente desprovido de bom senso e de senti- mento de humanidade) que ouse descrer dela e rejeitá-la. Mas, como não é todo dia que vêm novas comunicações do céu, e só temos a Escritura, na qual Deus quis gravar a Sua verdade para ser perpetuamente lembrada, é preciso verificar, ainda que resumidamente, a razão pela qual ela tem autoridade para os fiéis, que a recebem como se estivessem ouvindo a voz do próprio Deus. Este assunto deve ser tratado mais amplamente e estudado com esmerado empenho. Contudo, os leitores me perdoarão se, para não prejudicar o objetivob deste livro, eu lhe dedi- car menor extensão do que a requerida pela grandeza deste tema. 20. AAutoridade da Escritura não se Subordina ao Interesse da Igreja Muitos são os que se deixaram levar pelo erro por demais pernicioso de afirmar que a importância da Escritura só é real na medida e na proporção a ela atribuídas pela igreja, como se a verdade eterna e inviolável de Deus estivesse estribada no bel-prazer dos homens! Pois, numa afronta vergonhosa ao Espírito Santo, eles levantam esta questão: “Quem poderá dar-nos a certeza de que a Escritura proce- de de Deus? Quem nos poderá garantir que ela foi preservada em sua inteireza até o nosso tempo? Quem nos vai persuadir de que um livro deve ser aceito e obede- cido, enquanto outro deve ser rejeitado? Não é à igreja que cabe impor regras a todas estas coisas?” Daí concluem eles que é a igreja que determina o grau de reverência que se deve ter pela Escritura e quais são os livros que devem ser considerados canônicos. Desta maneira, estes homens blasfemos, pretendendo estabelecer uma tira- nia sem freios e sem limites com aparência de igreja, não se importam com os absurdos em que eles e os outros se envolvem, desde que consigam que as pesso- as simples reconheçam que a igreja pode fazer tudo o que quiser. Mas, nesse caso, que seria das pobres consciências que procuram ter firmec segurança da vida eterna, se todas as promessas acerca da vida eterna estivessem apoiadas somente no julgamento dos homens? Recebendo essa informação, como poderiam tranqüilizar-se? Por outro lado, como isso provocaria a zombaria dos ímpios e o descrédito geral da fé cristã – a opinião de que a sua autoridade tem por fundamento a bondade e a boa vontade dos homens! 159 Salmo 19.1,2,7,8. a institutio. b ratio. c solidam.
  • 71. 71 21. A Escritura Constitui o Fundamento da Igreja Basta, porém, uma só palavra do apóstolo Paulo para fazer calar esses falsos mestres. Sim, porquanto ele declara que a igreja está baseada no “fundamento dos apóstolos e profetas”.160 Se a doutrina dos profetas e dos apóstolos é o funda- mento da igreja, primeiro importa que haja firme certeza dessa doutrina para que, somente então, a igreja comece a existir. Tampouco é válido que se ponham a ironizar alegando que, ainda que a igreja tenha a sua origem nos escritos proféti- cos e apostólicos, não se sabe que livros podem ser atribuídos aos profetas e aos apóstolos, a não ser que a igreja intervenha e determine quais são. Pois bem, se a igreja cristã, desde o princípio, esteve fundada nos escritos dos profetas e na pregação dos apóstolos, a aceitação dessa doutrina, onde quer que se encontre, é anterior à igreja, mesmo porque, sem ela, a igreja nunca existiria. Por- tanto, é pura fantasia e mentira dizer que a igreja tem autoridade para julgar a Escritura e que é ela que, a seu bel-prazer, determina a certeza que se pode ter ou não ter quanto à Palavra de Deus!Averdade é que, quando a igreja recebe e aprova a Escritura, não é a igreja que a torna autêntica, como se antes disso ela fosse duvidosa e incerta. Muito ao contrário, porque é a igreja que reconhece que a Escri- tura é a verdade de Deus, e, conforme o seu dever, a respeita sem restrições. 22. AAutoridade da Escritura Atestada pelo Testemunho Interno do Espírito Com relação ao que eles nos perguntam: Como nos convenceremos de que a Escritura provém de Deus, se não recorrermos ao decreto da igreja? Fazer essa pergunta é como se alguém nos perguntasse como aprendemos a distinguir entre a luz e as trevas, entre o preto e o branco, entre o amargo e o doce. Porque a Escritura não nos mostra menos evidência da sua verdade do que os objetos pre- tos ou brancos nos mostram de suas cores, e as coisas doces ou amargas nos mostram do seu sabor.ª Se, pois, quisermos firmar a nossa consciência de modo que não permaneça agitada e em perpétua dúvida, é preciso que coloquemos a autoridade da Escritu- ra muito acima das razões ou das circunstâncias ou das conjeturas humanas; quer dizer, é preciso que a estabeleçamos com base no testemunho do Espírito Santo. Porque, ainda que, por sua própria majestade, a Escritura nos leve a respeitá-la, não obstante, verdadeiramente só começa a tocar-nos quando é selada em nosso coração pelo Espírito Santo. Iluminados, pois, pelo poder do Espírito Santo, não é mais baseados em nossa avaliação e na de outros que nós cremos que a Escritu- ra é a Palavra de Deus. É graças à certeza dada por uma autoridade superior que concluímos que, sem dúvida nenhuma, a Escritura nos foi outorgada diretamente O Conhecimento de Deus 160 Efésios 2.20. a Doutrina do testemunho interno do Espírito Santo.
  • 72. 72 As Institutas – Edição Especial por Deus – a tal ponto, que é como se nela contemplássemos a sublimidade de Deus em Seu Ser essencial.a Não andamos em busca de argumentos ou de elementos que apontem para probabilidades, para nessas coisas basearmos a nossa decisão, mas, sim, submete- mos o nosso juízo e o nosso entendimento a Ele, e o fazemos com a convicção de quem não precisa sujeitar-se a nenhum outro julgamento. E chegamos a esta certe- za, não como alguns que costumam acatar precipitadamente uma coisa desconhe- cida para sua posterior decepção, mas porque estamos muitíssimo seguros de que na Escritura temos a verdade imbatível. Tampouco o fazemos como fazem alguns ignorantes, habituados a sujeitar sua mente à escravidão das superstições. Agimos como agimos porque sentimos que na Escritura reside e se manifesta o poder de Deus, que nos atrai e nos impulsiona à obediência ardorosa, consciente e voluntá- ria, e, ainda mais, com eficácia maior que a acaso produzida pela humana vontade ou pelo saber humano. Vê-se, pois, que a nossa convicção não requer razões, uma vez que se apóia numa excelente razão. Isto é, a nossa mente está mais firme e mais segura do que se estivesse baseadab em razões, fossem quais fossem. Finalmente, o que sentimos é de tal natureza que só pode ter sido gerado por revelação celestial. O que estou dizendo não é outra coisa senão o que cada cristão fiel experimenta pessoalmente (reconhecendo, porém, que as palavras são muito inferiores à dignidade do argumento e não são suficientes para expli- car bem o tema). 23. A Primazia da Fé Se não tivermos esta certeza mais alta e mais firme que todo e qualquer juízo humano, inútil será tentar provar a autoridade da Escritura com argumentos da razão, inútil será tentar estabelecê-la por decisão da igreja ou confirmá-la por outros meios. A razão disto e que, se primeiro não for posto este fundamento, permanecerá a dúvida. Como, ao contrário, depois de recebida com disposição para obedecê-la, tendo sido eliminada toda dúvida, os argumentos da razão, que antes não tinham grande força para plantar e fixar a certeza em nosso coração, agora poderão prestar boa ajuda. Nem se pode descrever a grandeza da confirma- ção dada por esta consideração, quando avaliamos diligentemente como Deus dispôs e ordenou tão bem a dispensação da Sua sabedoria; quando reconhecemos quanto a doutrina se nos revela celestial, nada tendo de terreno; e quando vemos a extraordinária harmonia existente entre todas as suas partes; e ainda, quando se vêem nela outras coisas reconhecidas como capazes de dar autoridade a qualquer escrito. Sentimos ainda mais fortalecido o nosso coração quando consideramos que, mais que a elegância das palavras, é a sublimidade do conteúdoc que arreba- a numen. b mens quiescit. (Cf. Agostinho: “Mens humana natura inquieta quiescit in Deo”.) c rerum.
  • 73. 73 ta a nossa extasiada admiração pela Escritura. E a verdade é que isso não aconte- ceria, se não houvesse a intervenção da providência divina, agindo no sentido de nos transmitir os altos mistérios do reino dos céus por meio de palavras em geral simples e pouco eloqüentes. É muito bom que seja assim, para evitar que, se fossem empregadas palavras grandiloqüentes, os ímpios a caluniassem, dizendo que todo o seu poder está na sua forma de expressão. 24. A Força da Simplicidade da Escritura Pois bem, visto que a sua simplicidade rústica, pouco menos que agresteª, nos inspira muito maior reverência que toda a eloqüência retórica dos oradores do mundo, qual deve ser o nosso pensamento, senão que o poder da verdade caracte- riza de tal modo o conteúdo da Escritura que ela não precisa de nenhum artifício de palavras? Logo, não é sem motivo que o apóstolo declara que a fé cristã dos coríntios não se apoiava “em sabedoria humana e sim no poder de Deus”. Por isso a sua pregação entre eles não consistia “em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder.161 Porque a verdade está livre de toda dúvida, visto que, sem nenhuma ajuda, ela é suficiente para manter-se. Pois bem, quanto essa virtude é própria da Escritura transparece do fato de que, de todos os escritos humanos, não há nenhum que, por mais que esteja ornado de requintes de engenho e arte, tenha o poder que a Escritura tem de comover-nos. Admito que a leitura de Demóstenes ou Cícero, de Platão ou Aristóteles, ou de qualquer outro da classe deles, nos atrai maravilhosamente, nos deleita e nos comove ao ponto de nos arrebatar. Mas, quando deles nos transferimos para a leitura das Escrituras Sagradas, queiramos ou não, elas nos despertam tão vivamente, penetram de tal modo o nosso coração e de tal ma- neira se fixam em nossa medula, que toda a força dos retóricos e dos filósofos se evaporab , em comparação com a eficácia das Escrituras no sentimento que nos infundem. Daí se infere que é fácil perceber que as Escrituras Sagradas têm certa propriedade divina pela qual nos inspira. De longe essa qualidade supera todas as virtudes da criatividade humana. 25. A Importância Relativa da Autoridade da Igreja Por outro lado, o comum acordo da igreja não é destituído de importância. Não é preciso considerar como nulo de qualquer valor o fato de que, depois de tantos séculos desde que foram publicadas as Escrituras, tem havido permanente acor- O Conhecimento de Deus a inculta et tamen non rudis. 161 1 Coríntios 2.4,5. b No prefácio do Psalterium quintuplex (1509) Lefèvre descreve a mesma experiência: “Uma luz tão brilhante atingiu o meu olhar que as doutrinas humanas me parecem trevas, em comparação com os estudos divinos”.
  • 74. 74 As Institutas – Edição Especial do no sentido de obedecê-las. E por mais que o Diabo tenha se esforçado, de muitas maneiras, para oprimi-las ou derrubá-las ou até mesmo para apagá-las totalmente da memória dos homens, elas sempre se mantêm inexpugnáveis e vitoriosasª, como a palmeira da ilustração.162 Porque não há quase nenhum retórico ou filósofo, dos melhores e mais inteligentes, que não tenha aplicado a sua sabe- doria contra elas. Todavia, todos eles nada conseguiram. Todos os poderes da terra armaram-se para destruir a verdade das Escrituras, e todos os seus esforços se evaporaram. Tendo elas sofrido agressões de toda parte, como teriam resistido, se só contassem com suporte humano? Pelo que, logo se deve concluir que a Escritura Sagrada que temos é de Deus; sim, pois, apesar de toda a astúcia e de todo o poder dos homens, ela segue adiante em seu caminho, e por seu próprio poder. Além disso, não foi só uma cidade ou nação que concordou em lhe dar boa acolhida, mas, em toda a extensão da terra, no comprimento e na largura, ela obteve autoridade credenciada pelo consenso de todos os povos, os quais, em nenhuma outra coisa tinham algo em comum. Ora, deveríamos ficar emociona- dos diante desse consenso de nações tão diferentes e que nas outras coisas discor- dam entre si – nos seus costumes e no seu modo de viver. É evidente que o poder de Deus foi necessário para que houvesse esse acordo. Contudo, estas considera- ções terão maior peso ainda, quando levarmos em conta a piedadeb e o santo viver dos que concordaram em acatar as Escrituras. Não digo isso de todos, mas da- queles que o nosso Senhor constituiu luzeiros em Sua igreja, para esparzirem a luz do seu santo viver. 26. O Testemunho dos Mártires Ademais, com que segurança devemos receber esta doutrina, selada e testificada que foi pelo sangue de tantos fiéis! Depois de a terem recebido, não tiveram dificuldade em morrer por ela corajosamente, e até com alegria. E nós, a quem a Escritura foi dada com tal garantia e confirmação, como não a acolheremos com a mais firme e inabalável convicção? Não é fraca aprovação da Escritura a que foi assinada com o sangue de tantas testemunhas. Principalmente se considerarmos que eles não sofreram a morte por terem dado testemunho de sua fé de maneira furiosa e frenéticac , como às vezes acontece com fanáticos que se sobrecarregam de erros transformados em argumentos. Os mártires aos quais me refiro morre- ram por terem zelo de Deus – zelo ao mesmo tempo equilibrado, firme e constante. a Um florão de J. Girard (impressor das Institutas em 1541 e em 1545), também representava uma palmeira ereta com a divisa: “pressa valentior”. 162 Ilustração feita pelo editor J. Gérard, simbolizando o espírito de vitória. Ver nota ª, indicada no texto. NT. b Acréscimo em 1539. c phanatica intemperie.
  • 75. 75 Existem muitos outros motivos, e não fracos, pelos quais a majestade e a dignidade da Escritura não somente podem ser comprovadas no coração dos cris- tãos fiéis, mas também podem defendê-la vigorosamente contra a astúcia malig- na dos caluniadores. Entretanto, esses motivos não são suficientes para funda- mentar bem a sua certeza, enquanto não acontecer que o Pai celestial, fazendo resplender a Sua divindade, os livre de toda dúvida e contestação; então eles lhe prestarão firme reverência. Assim é que, finalmente, a Escritura nos dará um satisfatório conhecimento de Deus, para a nossa salvação, quando esta certeza tiver o suporte dado pela persuasão interna operada pelo Espírito Santo. Os testemunhos humanos que ser- vem para confirmá-la não serão, portanto, inúteis, quando seguem o testemunho principal e soberano. Subservientes a esse testemunho superior, eles serão meios auxiliares e secundários para suprir as nossas deficiências pessoais. 27. Indevida Exaltação do Espírito em Detrimento da Palavra. Tenha-se em conta, porém, que aqueles que, menosprezando a Escritura, imagi- nam sabemos lá que caminho para chegar a Deus, não devem ser considerados apenas como pessoas equivocadas, mas, sim, como pessoas enlouquecidas.a Desse tipo de gente surgiram alguns que têm a pretensão de que seguem a doutrina do Espírito Santo,b desprezam toda leitura e zombam da simplicidade daqueles que ainda seguem a letra que, além de morta, mata – como eles dizem. Mas eu gostaria que eles dissessem que espírito é esse, cuja inspiração os eleva a tais alturas que os leva a uma atitude de atrevimento, chegando eles a menosprezar todo o ensino da Escritura, criticando-a como pueril e pior que vul- gar. Se responderem que é o Espírito de Cristo, direi que a segurança deles é por demais ridícula. Digo isso porque suponho que eles concederão que os apóstolos e os demais cristãos da Igreja Primitiva foram inspirados ou iluminados justa- mente pelo Espírito de Cristo. Pois bem, nenhum deles aprendeu do Espírito de Cristo a menosprezar a Palavra de Deus, mas, ao contrário, foram por Ele indu- zidos à atitude de grande reverência por ela, como disto dão claro testemunho os seus escritos. Gostaria que aqueles fanáticos respondessem também esta pergunta: Rece- beram eles outro Espírito, diferente do que o Senhor prometeu aos Seus discípu- los? Mesmo que tenham chegado a um alto grau de insanidade, não acredito que a sua loucura seja tão frenética que os leve à ousadia de gabar-se de algo desse tipo. Pois bem, quando o Senhor prometeu o Espírito, como Este seria? O Senhor O Conhecimento de Deus a Acréscimo em 1539. b Calvino escreveu Contra a Seita Fantástica e Furiosa dos Libertinos que se Dizem Espirituais (Contre la secte phantastique et furieuse des Libertins qui se nomment Spirituelz), tratado publicado em 1545.
  • 76. 76 As Institutas – Edição Especial mesmo explica que o Espírito não falaria diretamente, mas sugeriria à mente dos apóstolos o que por Sua Palavra Ele, Jesus Cristo, lhes tinha ensinado.163 Vê-se, pois, que não é função do Espírito Santo, prometido por Jesus Cris- to, imaginar novas revelações, até então desconhecidas, nem forjar nova classe de doutrina, levando-nos a afastar-nos da doutrina do Evangelho que já tínhamos recebido. O que, sim, cabe ao Espírito Santo fazer é selar e confirmar em nosso coração a doutrina que o Evangelho nos ensina. 28. A Escritura Constitui o Critério para Habilitar-nos a Discernir o Espírito Se quisermos obter algum fruto ou algum proveito do Espírito de Deus, deve- mos dedicar-nos diligentemente a ouvir e a ler a Escritura. Se, porém, alguém que despreza a sabedoria da Palavra de Deus ensinar-nos outra doutrina, temos todo o direito de suspeitar que essa outra doutrina não passa de vaidade e men- tira. E não será de estranhar, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz.164 E então, que autoridade terá o Espírito entre nós, se não O pudermos discernir por meio de um sinal inconfundível? E, verdadeiramente, o sinal nos é demonstrado com muita clareza pela voz do Senhor, mas esses infelizes, em sua confusão, buscam voluntariamente o erro quando buscam o Espírito por eles mesmos e não por Ele. Mas eles alegam que seria um grande absurdo o Espírito de Deus, a quem todas as coisas devem estar sujeitas, ficar subordinado à Escritura. Como se tam- bém fosse uma vergonha para o Espírito Santo ser Ele sempre e em toda parte igual a Si mesmo, perpetuamente constante, sem variar em nenhum aspecto. Cer- tamente, se O reduzíssemos ao ponto de enquadrá-lo em regras humanas ou angélicas ou outras, então se poderia dizer que Ele teria sido rebaixado e reduzi- do à servidão. Comparado, porém, Consigo mesmo, e considerado em Si mesmo, quem poderá dizer que com isso O estamos ofendendo? Mas eles dizem que o Espírito é examinado dessa maneira. Confesso que sim. Trata-se, porém, de um exame por meio do qual Ele quer que a Sua majestade seja estabelecida entre nós. Revelando-se Ele a nós, isto deveríamos considerar suficiente. Entretanto, para que em Seu nome o espírito de Satanás não tenha acesso, Ele quer que O reco- nheçamos em Sua imagem, que Ele imprimiu nas Escrituras. Ele é o seu Autor; e não pode variar nem ser diferente de Si mesmo. Portanto, deve permanecer sem- pre como por elas se deu a conhecer. Isso não O desonra, a não ser que pensemos que Lhe seria honroso desfazer-se de Sua dignidade pessoal. 163 João 16.13. 164 2 Coríntios 11.14.
  • 77. 77 29. Na Letra, o Espírito Quanto ao fato de nos criticarem por apegar-nos demais à letra que mata, nisto mostram que não poderão escapar do castigo de Deus por desprezarem a Escritu- ra. Porquanto claro está que nesta passagem165 Paulo combate os falsos mestres que, exaltando exageradamenteª a Lei desvinculada de Cristo, faziam o povo afastar-se da graça do Novo Testamento, ao qual o Senhor tinha feito esta pro- messa: “Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas ins- creverei”.166 Vê-se, pois, que a Lei de Deus é letra morta e mata os que a seguem, quando está desvinculada da graça de Cristo e somente soa nos ouvidos, mas não toca o coração. Mas se o Espírito a imprime de fato na sede da vontade, e se Ele nos comunica Jesus Cristo, a Escritura é de fato a Palavra da vida,167 converte as almas e “dá sabedoria aos símplices”168 O certo é que, na mesma passagem, o apóstolo denomina a sua pregação “ministério do Espírito”.169 O que ele quer dizer é que o Espírito de Deus está de tal maneira unido e ligado à Sua verdade, por Ele expressa nas Escrituras, que, quando estas são tratadas com a reverência que merecem, Ele por elas manifesta o Seu poder. Isso não contradiz o que acima foi dito – que a Palavra só é certa e segura quando comprovada pelo testemunho do Espírito. Isso porque o Senhor juntou, como por um elo mútuo, a certeza do Espírito e a de Sua Palavra, para que a recebamos com espírito de obediência, ao vermos reluzir nela o Espírito, que se mostra com tal claridade que até nos leva a contemplar a face de Deus! E, por outro lado, para que também, sem medo de engano ou erro, recebamos o Espírito de Deus, reconhecendo-o em Sua imagem, isto é, em Sua Palavra. E certamente assim é! Claro, porque Deus não comunicou uma palavra aos homens para tirá-la de circulação imediatamente após a vinda do Seu Espírito. Ao contrário, Ele enviou o Seu Espírito por cujo poder já nos tinha concedido a Sua Palavra para realizar a Sua obra, confirmando assim a eficácia da Palavra. 30. A Luz do Espírito na Palavra Dessa maneira Cristo abriu o entendimento de dois discípulos, não para que eles pusessem de lado a Escritura e assim se tornassem sábios, mas, sim, para que a compreendessem.170 De igual modo, Paulo, exortando os tessalonicenses, rogan- do-lhes que não extinguissem o Espírito,171 não os leva a passear pelos ares em O Conhecimento de Deus a Palavra acrescentada em 1539. 165 2 Coríntios 3.6. 166 Jeremias 31.33 e Hebreus 8.8-12. 167 Filipenses 2.16. 168 Salmo 19.7. 169 2 Coríntios 3.8. 170 Lucas 24.27,45. 171 1 Tessalonicenses 5.19,20.
  • 78. 78 As Institutas – Edição Especial vãs especulações alheias à Palavra, mas logo acrescenta que não devem menos- prezar as profecias. Sem dúvida, com esta advertência o apóstolo quer dizer que a luz do Espírito se apaga quando as profecias são menosprezadas. Diante disso, que dirão aqueles fanáticosª orgulhosos, que só dão valor a esta iluminação e repudiam a Palavra de Deus, colocando atrevidamente no lugar dela os produtos dos seus sonhos e fantasias? Certamente bem outra deve ser a sobriedade dos filhos de Deus, os quais se sentem privados de toda luz da verda- de quando não contam com o Espírito de Deus; não ignoram, porém, que a Pala- vra é o instrumento pelo qual o Senhor concede aos fiéis a iluminação do Seu Espírito. Porque eles não conhecem outro Espírito que nãoAquele que habitou os apóstolos e que falou por meio deles. E para ouvir as suas palavras os fiéis são sempre chamados. 31. A Escritura Fala do Único Deus Vivo e Verdadeiro Temos ensinado que o conhecimento de Deus é amplamente demonstrado na obra de criação e composição do universo, em todas as Suas criaturas, e que, todavia, será exposto com maior clareza por Sua Palavra. Devemos considerar agora se Deus se apresenta na Escritura tal qual O vimos figurado em Suas obras. Este assunto será longo, se for tratado diligentemente. Mas eu me contento em oferecer um resumo pelo qual a consciência dos fiéis seja admoestada de molde a percebe- rem eles quão essencial é que sejam levados a conhecer a Deus na Escritura e sejam dirigidos a um objetivo certo e definido de maneira que o alcancem. Primeiro, consideremos que o Senhor se revela como o Deus que, após haver criado os céus e a terra, espalhou Sua graça e Sua benevolência sobre todo o gênero humano. Todavia, sempre e perpetuamente nutriu, sustentou e manteve a Sua graça especial para com os crentes, e, em reciprocidade, eles O conhecem e Lhe prestam honra. Igualmente, Ele põe diante dos olhos deles (como, diga- mos, numa pintura), qual é a constância da Sua bondade entre os fiéis, com que cuidado providencial Ele vela por eles, quão inclinado se mostra a lhes fazer o bem, qual o poder do Seu socorro, quão ardentemente os ama, como é grande a Sua paciência, pela qual suporta as faltas deles, que paternal clemência demons- tra quando os castiga, e que perene segurança lhes dá de Suas promessas. Por outro lado, Ele manifesta o Seu rigor na penalidade imposta aos peca- dores, mostra como se inflama a sua terrível ira, depois de haver suportado afron- ta durante muito tempo, e os faz sentir quanto poder tem a Sua mão para os confundir e os dissipar. Essa descrição ajusta-se bem ao que dissemos que se mostra na figura uni- versal do mundo. Contudo, em certo lugar a propriedade dessa descrição é ex- pressa de modo que Sua face nos é apresentada vividamente, expondo-se patente a e)nqousiastai.
  • 79. 79 à nossa contemplação. Sim, pois, na descrição feita por Moisés, parece que ele quis abranger num resumo tudo quanto se permite que os homens conheçam de Deus. Diz ele:172 “Senhor,ª173 Senhor, Deus compassivo, clemente e longânimo, e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniqüidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniqüidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração”. Pelo que devemos considerar que a Sua eternidade e a Sua essênciab , residente nele próprio, são anunciadas por esse nome, que aparece duas vezes no texto hebraico da passagem acima transcrita (nome que equivale a dizer: “aquele que é únicoc ”); Sendo que as Suas virtudes nos são trazidas à lem- brança, virtudes que demonstram, não que Ele se fecha em Si mesmo, mas que Ele está entre nós. E isso de tal maneira que este conhecimento se apóia mais em viva experiência que em vã especulação. Além disso, vemos que aqui são enumeradas para nós as virtudes que temos visto resplender no céu e na terra, a saber: a clemência, a bondade, a misericór- dia, a justiça, o juízo e a verdade. Porque o Seu poder está incluído na palavra hebraicad empregada como Seu terceiro nome ou título, que equivale a dizer como as virtudes nele se contêm. Os profetas também nos oferecem os mesmos títulos quando querem exaltar e esclarecer o Seu Santo Nome. Para não nos constran- germos por acumular muitas passagens, no momento será suficiente citar um Salmo no qual a soma total das Suas propriedades é recitada com tal diligência que se pode dizer que nada é omitido.174 E, todavia, nada ali é mencionado que não se possa contemplar nas criaturas, de tal maneira Deus tanto se nos dá a sentir por experiência quanto se nos revela por Sua Palavra. Em Jeremias, onde Deus declara que deseja ser conhecido por nós, a descrição não é tão clara e completa.175 Mas praticamente vem a dar na mesma. “O que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra”. Estas três coisas são as que principalmente precisamos conhe- cer. Sua misericórdia, na qual se firma a salvação de todos nós; o juízo de Deus, que diariamente Ele exerce sobre os maus e que, ainda mais rigorosamente, lhes está reservado como castigo eterno; e Sua justiça, pela qual os Seus fiéis são por Ele preservados e tratados com benignidade. Compreendidas estas três coisas, o profeta dá testemunho de que temos abundantes motivos para gloriar-nos em Deus. Contudo, assim procedendo, não são omitidos o Seu poder, a Sua verdade, a Sua santidade e a Sua bondade. Sim, porque, como se poderia ter real entendi- O Conhecimento de Deus b au)tou/sian. c Explicação acrescentada em 1539. d O termo Elohim (1539) é aqui substituído pela frase que vem logo a seguir. 172 Êxodo 34.6,7. a Jeová [Iavé]. 173 [SENHOR, Jeová, Iavé.] 174 Salmo 145. 175 Jeremias 9.24.
  • 80. 80 As Institutas – Edição Especial mento da Sua justiça, da Sua misericórdia e do juízo por Ele exercido, requisito indispensável, se esse conhecimento não estivesse fundamentado em Sua verda- de imutável? E como se poderia crer que Ele governa a terra com justiça e juízo, sem o reconhecimento do Seu poder? De onde procede a Sua misericórdia, senão da Sua bondade? Finalmente, se todos os seus caminhos são misericórdia, juízo e justiça, igualmente neles rebrilha a santidade do Seu Ser. Pois bem, o conheci- mento de Deus, que nos é apresentado na Escritura, não tem outra finalidade que não a que se manifesta em Suas criaturas, qual seja: Primeiramente, induzir-nos ao temor de Deus; em seguida, a que ponhamos nele a nossa confiança, para que aprendamos a servi-lo e honrá-loª com uma vida inculpável e com uma obediên- cia não fingida; e assim descansemos em Sua bondade. Todavia, porque Deus não se deixa ver diretamente e de perto, a não ser na face de Cristo, a qual só se pode contemplar com os olhos da fé, o que resta dizer sobre o conhecimento de Deus melhor será protelar até o lugar em que estaremos falando sobre o entendimento dessa fé. a Uma só palavra em 1539: cólera.
  • 81. 81 CAPÍTULO II 1. Conhece-te a ti mesmo [1539] Não é sem motivoª que o provérbio antigo recomenda tanto ao homem o conhecimento de si mesmo.b Porque, se achamos que é uma vergonha ignorar as coisas pertencentes à vida humana, o desconhecimento de nós mesmos é muito mais prejudicial, pois, dependendo do conselho alheio sobre todas as coisas, deixamo-nos enganar lamentavelmente, e acabamos até ficando totalmente ce- gos. Mas, assim como o preceito é muitíssimo útil, com muito maior razão é necessário cuidar diligentemente para não entendê-lo mal. Isso temos visto acon- tecer com alguns filósofos. Porque, quando eles admoestam o homem no sentido de conhecer a si próprio, reduzem o seu objetivo a considerar sua dignidade e suas qualidades excelentes. Com isso, levam-no a nada mais contemplar, senão aquilo no que ele possa exaltar-se em vã confiança própria e inchar-se de orgulho. 2. Sem presunção Ora, a verdade de Deus nos manda procurar outra coisa, quanto à nossa estima própria. Manda-nos buscar um conhecimento que nos afaste para longe de toda presunção quanto à nossa virtude pessoal e nos despojec de todo tipo de glória, a No início acham-se alguns elementos traduzidos do texto de 1536, e dos desenvolvimentos dos artigos 4, 5 e 6 do catecismo de 1537 (sobre o homem, sobre o livre arbítrio, sobre o pecado e sobre a morte); no restante – mais de três quartos – corresponde aos textos de 1539, aqui desenvolvidos. b “Conhece-te a ti mesmo”, inscrição do templo de Delfos que veio a ser o ponto de partida da filosofia socrática. [Cf. Platão, Defesa de Sócrates, São Paulo, Abril Cultural (Os Pensadores, Vol. II), 1972, passim]. c Despoulle (despoje) talvez seja um picardismo (regionalismo: dialeto da Picardia). Cf. Catecismo de 1537.
  • 82. 82 As Institutas – Edição Especial para nos levar à humildade. Essa é a regra que devemos seguir, se desejamos conseguir o objetivo do bem sentir e do bem fazer. Sei quanto é agradável ao homem que o levem a reconhecer seus talentos e as suas qualidades elogiáveis,a em vez de ser levado a entender e a enxergar a sua pobreza, a sua infâmia, a sua torpeza e a sua loucura. Porque não há no espírito humano maior apetite que o de que lhe passem mel na boca dizendo-lhe doces palavras e lisonjas. 3. Fome de lisonjas, e seus estragos Todavia, quando o ser humano vê que mostram apreço por suas qualidades, incli- na-se a acreditar em tudo o que lhe dizem a seu favor. Portanto, não é de admirar que a maior parte do mundo erre desse modo nesse aspecto. Uma vez que os seres humanos têm um amor desordenado e cego por si mesmos, mostram-se dispostos a acreditar que não existe neles nada que mereça desprezo. Assim, sem necessi- dade de outro advogado, todos acolhem a vã opinião de que o ser humano é auto- suficiente para ter uma vida digna e feliz. Se existem alguns que se dispõem a um sentimento mais modesto, concedendo alguma coisa a Deus para que não pareça que atribuem tudo a si mesmos, não obstante repartem tudo entre Deus e eles. Mas fazem isso de tal maneira que a maior parte da virtude, da sabedoria e da justiça fica com eles. Sendo, pois, assim, que o ser humano é tão inclinado a gabar-se, não há nada que o possa agradar mais do que quando o afagam com vãs lisonjas. É por isso que aquele que mais exalta a excelência da natureza humana é sempre o mais bem recebido. Todavia, essa doutrina – a que ensina o ser huma- no a aprovar a si mesmo – não faz mais que enganá-lo. E isso, seja quem for aquele em quem se ponha fé, só causará ruína. Pois, que proveito poderemos ter em conceber uma vã aliança para deliberar, ordenar, tentar e empreender o que nos parece bom, e, entretanto, fraquejar, tanto por falta de uma inteligência sau- dável quanto por falta de capacidade para a pretendida realização? Fraquejar, ou mostrar fraqueza, digo eu, desde o começo, e, contudo, insistir nesse intento com coração obstinado até sermos totalmente postos em confusão. Ora, não pode vir outro fruto aos que se acham capazes de fazer qualquer coisa por sua própria virtude e poder. Se alguém der ouvidos aos mestres que falam dessa maneira, os quais nos distraem querendo que tenhamos consideração por nossa justiça e vir- tude, esse, que lhes dá ouvidos, não terá proveito nenhum no conhecimento de si próprio, mas estará cego, vítima de perniciosa ignorância. 4. Conhecer-nos e conhecer-nos Portanto, sendo que a verdade de Deus concorda nisso com o juízo comum de toda a humanidade, que a segunda parte da nossa sabedoria consiste no conhecimento de nós mesmos, todavia, em nossa maneira de conhecer-nos há grande diferença. a Nostra bona.
  • 83. 83 Digo isso porque, segundo a opinião da natureza humana, parece aceitável que, neste caso, o homem se conhece muito bem quando, confiante em seu enten- dimento e em sua virtude e poder, anima-se a dedicar-se ao cumprimento do seu dever, e, renunciando a todos os seus vícios e más disposições, esforça-se para fazer o que é bom e honesto. Mas quem se examina bem, segundo a regra do juízo de Deus, não encontra nada que possa elevar o seu coração, em termos de um bom compromisso de fé. E quanto mais profundamente se examina, mais abatido fica, ao ponto de se sentir completamente esvaziado de toda esperança, não lhe restando nada com que possa estabelecer retamente a sua vida. Não negamos, porém, que haja alguma semente de nobreza em nossa natu- reza, a qual nos deve incitar a seguir a justiça e a honestidade. Porquanto não podemos pensar, nem quanto à nossa primeira origem, nem quanto ao fim para o qual fomos criados, que esta cogitação não seja senão como um aguilhão, para nos estimular e fazer-nos meditar na imortalidadea do Reino de Deus. Mas, tanto é preciso que este reconhecimento eleve o nosso coração, como, ainda mais, que nos leve à humildade e à modéstia. Pois, qual é esta origem (a saber, da qual caímos), e qual a finalidade da nossa criação? Desta nos desviamos totalmente, a tal ponto que nada nos resta, senão que, depois de avaliarmos a nossa condição miserável, gemamos, e, gemendo, suspiremos por nossa dignidade perdida.b 5. Do que se orgulha o homem? Ora, quando dizemos que não há nada no ser humano que exalte o seu coração, entendemos que não há nele nada do que se orgulhar. Portanto, se parece bem a todos, dividamos assim o conhecimento que o homem deve ter de si mesmo. Em primeiro lugar, deve considerar para que fim ele foi criado e foi dotado de dons singulares da parte de Deus.176 Essa meditação o incita a meditar na vida futura e a querer servir a Deus. Em seguida, que avalie as suas riquezas, ou melhor, a sua indigência. Conhecida esta, seja ele abatido, caindo em extrema confusão, como que reduzido a nada. A primeira consideração tende a isto – que ele saiba qual é o seu dever e o seu ofício.177 A segunda, que ele saiba quanto é a 1539 acrescenta: expetendum que. b Calvino nos entrega aqui o segredo do dinamismo da doutrina do servo-arbítrio: Não se pode pensar nem crer seriamente no fim em vista do qual o homem foi criado e o qual deve ter de um lado, e, de outro, na incapacidade moral para concretizá-lo sem buscar em Deus a força e a libertação. E então se encontra. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 176 “À luz desse fato aprendemos, também, que os que são responsáveis pelo presunçoso uso da bondade divina, se aproveitam dela para orgulhar-se da excelência que possuem, como se a possuíssem por sua própria habilidade, ou como se a possuíssem por seu próprio mérito; enquanto que sua origem deveria, antes, lembrá-los de que ela tem sido gratuitamente conferida aos que são, ao contrário, criaturas vis e desprezíveis e totalmente indignas de receber algum bem da parte de Deus. Qualquer qualidade estimável, pois, que porventura virmos em nós mesmos, que ela nos estimule a celebrarmos a soberana e imerecida bondade que a Deus aprouve conceder- nos.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.4), pp. 165-166.] NE. 177 “.... sejam quais forem os dons que possuamos, não devemos ensoberbecer-nos por causa deles, visto que eles nos põem sob as mais profundas obrigações para com Deus.” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 4.7), p. 113.] NE.
  • 84. 84 As Institutas – Edição Especial capaz de fazer o que deve.a Comentaremos uma e outra, na medida da ordem que se seguirá na discussão. 6. A primeira condição do ser humano: É criatura Pois bem, antes de passar a descrever esta condição miserável do homem, é con- veniente saber que, primeiramente, ele foi criado.178 Porque é de temer-se que, quando mostramos ao ser humano os seus vícios e maus pendores naturais, não lhe pareça mal que queiramos imputá-los ao autor da natureza, que é Deus, visto que a impiedade julga ter suficiente defesa sob esta capa – e ela pode alegar que tudo o que tem de ruim procede de Deus. E se a contestamos, ela não vacila em pleitear contra Deus e em transferir para Ele toda a culpa da qual é acusada. E mesmo os que parecem falar com maior sobriedade sobre Deusb aproveitam de bom grado a ocasião de desculpar os seus vícios e erros acusando a natureza. E não consideram que, fazendo isso, estão difamando Deus (ainda que veladamente, ou, havendo algum vício ou mal em nossa natureza, entendem que Ele o formou e deve receber parte da censura). Visto que, pois, vemos o desejo que a carne tem de buscar todas as escapatórias pelas quais ache que a culpa dos seus vícios pode ser transferida para outros, é necessário evitar essa astúcia maldosa. Portanto, é preciso tratar devidamente essa desgraça do gênero humano, de modo que elimi- nemos de vez todas as evasivas da nossa carne, e que a justiça do Senhor fique livre, não somente de acusação, mas também de toda censura e de toda murmura- ção. Todavia, que se faça isso de tal maneira que não nos afastemos nem um pouco da pura verdade. Esta se acha tão longe de favorecer aqueles absurdos, que basta ser entendida para que eles sejam suficientemente refutados. 7. A imagem de Deus no homem [1536]c Isso posto, é certo queAdão, pai de todos nós, foi criado à imagem e seme- lhança de Deus179 Pelo que se vê que ele foi feito participante da sabedoria, da justiça, da virtude, da santidade e da verdade de Deus. Note-se que não se pode 178 Na sua carta ao Rei Francisco I de França, diz: “Sim, pois, o que é mais conveniente à fé senão que nos reconheçamos desnudos de toda virtude, para sermos vestidos por Deus; vazios de todo bem, para que Ele nos encha de todo bem; escravos do pecado, para sermos libertos por Ele; cegos, para que Ele nos ilumine; coxos, para sermos por Ele curados; fracos, para sermos sustentados por Ele; e que nos desfaçamos de todo pretexto de glória própria, para que somente Ele seja glorificado, e nós nele?” NE. a Deus criou “o homem” num estado em que ele era capaz de fazer o que devia e que sempre deve fazer, apesar da sua incapacidade espiritual presente, porque essa incapacidade é um fato. “O homem” é Adão e seus descendentes, considerados em sua unidade moral de raça provinda de um mesmo tronco, que cada indivíduo continua e representa solidariamente com todos os demais. Tal é o pensamento do reformador nesse parágrafo. Veremos mais adiante que, ao lado dessa obrigação genérica, o reformador estabelece uma obrigação pessoal. 179 Gn 1.26,27. b de numine. c Catecismo de 1537, art. IV.
  • 85. 85 sustentar o erro dos que colocam esta imagem de Deus no senhorio e na preemi- nência de que o ser humano foi dotado sobre os animais inferiores, como se unica- mente nisso ele tenha sido feito semelhante a Deus – tendo sido constituído senhor. [1539] Esta sentença, em que se afirma que o ser humano foi criado à ima- gem de Deus, não seria repetida muitas vezes por Moisés, se não houvesse nisso um propósito maior. E o próprio apóstolo Paulo elimina toda a dificuldade desta questão quando fala nestes termos: “...e vos renoveis no espírito do vosso enten- dimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e reti- dão procedentes da verdade”.180 E também: “Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daque- le que o criou.181 Vê-se, pois, como ele explica a imagem de Deus, a conformida- de do nosso espírito com o Senhor; enquanto se mostra desembaraçado de toda imundícia terrena, somente aspira à pureza espiritual. 8. A Queda [1536] Então, havendo o ser humano sido criado à imagem de Deus, foram-lhe concedidos bens espirituais e preeminência em vários aspectos, que podem atestar uma singular generosidade do seu Criador para com ele.182 Porque se ligou forte- mente a ele pela participação de todos os bens, para viver eternamente, desde que perseverasse na integridade que tinha recebido. Mas isso não durou muito. Por- quanto, por sua ingratidão, logo se tornou indigno de todos os benefícios que Deus lhe tinha feito. Dessa maneira foi apagada a imagem celeste que ele trazia; assim como ele foi alienado de Deus pelo pecado, igualmente foi posto fora da comunhão de todos os bens, os quais só poderá ter quem estiver naquela comunhão.183 [1539] Portanto, em lugar da sabedoria, da virtude, da santidade e da justiça, ornamentos de que estava revestido quando tinha em si a semelhança com Deus, vieram sobre ele males horríveis, a saber, a ignorância, a fraqueza, a torpeza, a vaidade e a injustiça, as quais não somente envolveram a sua pessoa, mas também se levantaram contra toda a sua posteridade. Porque todos os seus sucessores são semelhantes a ele, no qual eles têm a sua origem e de cuja corrupção nasce a deles. 180 Ef 4.23,24. 181 Cl 3.9,10. 182 Vd. João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 8.5), p. 167. 183 “Quando de seu estado original decaiu Adão, não há a mínima dúvida de que por esta defecção se haja alienado de Deus. Pelo que, embora concedamos não haja sido nele aniquilada e apagada de todo a imagem de Deus, foi ela, todavia, corrompida a tal ponto que, o que quer que resta, é horrenda deformidade.” (As Institutas, I.15.4.) “Pelo pecado estamos alienados de Deus.” [João Calvino, Efésios, (Ef 1.9), p. 32]; “Como a morte espiritual não é outra coisa senão o estado de alienação em que a alma subsiste em relação a Deus, já nascemos todos mortos, bem como vivemos mortos até que nos tornamos participantes da vida de Cristo.” [João Calvino, Efésios, (Ef 2.1), p. 51.] “Tão logo Adão alienou-se de Deus em conseqüência de seu pecado, foi ele imediata- mente despojado de todas as coisas boas que recebera.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 2.5), p. 57.] Todos os homens estão “totalmente alienados de Deus”. [John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House Company, 1981, Vol. XVIII, (Jo 14.22), p. 97.] NE. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 86. 86 As Institutas – Edição Especial 9. O pecado original Esta é a corrupção hereditáriaa , que os antigos chamavam pecado original, indi- cando com a palavra pecado a depravação da nossa natureza, que, até então, tinha sido boa e pura. Sobre isso eles tiveram grande contenda com os pelagianos; porque aqueles heregesb , sendo convencidos pelos testemunhos da Escritura de que o pecado passou do primeiro homem para toda a sua posteridade, argumenta- vam com manhosas sutilezas que o pecado passou para os descendentes por imi- tação, e não por geração. Por isso aqueles santos personagensc se esforçaram para demonstrar que não nos corrompemos com a maldade que nos atraiu pelo exem- plo de outros, mas, sim, que trazemos a nossa perversidade desde o ventre da mãe; coisa que não podemos negar sem grande cinismo. Todavia, ninguém se espantará com a temeridade dos pelagianosd no que disseram, se tiver visto pelos escritos de Agostinho que animais foram eles e quão pouca vergonha tinham. Certamente é indubitável o que Davi confessa184 quando declara que “ele nasceu na iniqüidade, e em pecado foi concebido por sua mãe”. Ele não está acusando seus pais; mas, para glorificar melhor a bondade de Deus a favor dele, Davi colo- ca em sua memória a sua perversidade em termos do seu primeiro nascimento.185 Ora, isso não é algo peculiar a Davi. Segue-se, pois, que a condição universal de todos os homens é demonstrada pelo exemplo dele. Portanto, todos nós, que so- mos produtos de semente imunda, nascemos maculados pela infecção do pecado, e, mesmo antes de virmos à luz, estamos contaminados perante a face de Deus. Pois, “Quem da imundícia poderá tirar cousa pura?”, como se diz no Livro de Jó.186 Certamente precisamos tirar esta conclusão – que Adão não somente é o pai da natureza humana, mas, como o tronco está na raiz, pela mesma razão o gênero humano se corrompeu na corrupção dele.187 O que o apóstolo demonstra 184 Sl 51.5. 185 “Davi não culpa a seus pais, nem traça seu crime até chegar a eles, mas senta-se diante do tribunal divino, confessa que fora formado em pecado, e que era um transgressor nato, assim que viu a luz deste mundo.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431.] 186 Jó 14.4. 187 “.... Adão, em sua queda, foi despojado de sua justiça original, sua razão foi obscurecida, sua vontade, perver- tida, e que, sendo reduzido, a este estado de corrupção, trouxe filhos ao mundo semelhantes a ele em caráter. Se porventura alguém objetar, dizendo que essa geração se confina aos corpos, e que as almas jamais poderão derivar uns dos outros algo em comum, eu responderia que Adão, quando em sua criação foi dotado com os dons do Espírito, não mantinha um caráter privativo ou isolado, mas que era o representante de toda a humanidade, que pode ser considerada como tendo sido dotada com esses dons em sua pessoa; e deste conceito necessariamente se segue que, quando ele caiu, todos nós, juntamente com ele, perdemos nossa integridade original.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), pp. 431-432.] Adão, antes de pecar, tinha uma compreensão genuína a respeito de Deus. No entanto, “após a sua rebelião, ficou privado da verdadeira luz divina, na ausência da qual nada há senão tremenda escuridão.” [João Calvino, Efésios, (Ef 4.18), p. 137.] “Agora não nascemos tais como Adão fora inicialmente criado, senão que somos a semente adulterada do homem degenerado e pecaminoso.” [João Calvino, Efésios, (Ef 2.3), p. 56.] NE. a Catecismo de 1537, art. VI. b Palavra acrescentada em 1539. c 1539 acrescenta: ac præ aliis Augustinus. d 1539 acrescenta: et Cœlestianorum.
  • 87. 87 com a maior clareza, comparando-o com Cristo:188 “Portanto”, diz ele, “assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor”. E como foi que os pelagianos tagarelaram tanto, propalando que o pecado foi espalhado pelo mundo pela imita- ção deAdão? Não temos então outro proveito da graça de Cristo, senão que ela nos propõe um exemplo para seguirmos? E quem pode agüentar tal blasfêmia? 10. Recuperação em Cristo Ora, se não há dúvida nenhuma de que a graça de Cristo é nossa por comunicação, e que por ela temos vida, segue-se paralelamente que, tendo uma e outra sido per- didas em Adão, em Cristo as recuperamos, e como o pecado e a morte foram gera- dos em nós por Adão, por Cristo foram abolidos. E, para entender isso, não há necessidade de envolver-nos nessa deplorável disputa, que tanto atormentou os antigos mestres, a saber, se a alma do filho procede da substância da alma paterna, visto que é na alma que reside o pecado original. Contentemo-nos em saber que o Senhor colocou em Adão os bens espirituais e os dons que Ele quis dar à natureza humana. Portanto, quando Adão os perdeu, não os perdeu ele somente, mas por causa dele todos nós também os perdemos. Quem vai se preocupar com a origem da alma após haver entendido queAdão tinha recebido os ornamentos que perdeu? 11. Herança da corrupção dos primeiros pais Considere-se que foi menos ruim para ele do que para nós, visto que Deus não os havia dado a um só homem em particular, masa os tinha dado a fim de que toda a sua linhagem os desfrutasse em comum. Não é nenhum absurdo, pois, que, tendo sido assim despojada, a natureza humana esteja desnuda, e que, tendo sido maculada pelo pecado, essa infecção tenha se propagado sobre todos nós. Por- que, como de uma raiz praguejada só procedem ramos praguejados, os quais passam a praga a todos os ramos e à folhagemb por eles produzidos, assim os filhos de Adão foram contaminados em seu pai e são a causa da corrupção de todos os seus sucessores. Quer dizer, o princípio da corrupção esteve de tal modo em Adão que ela se expandiu como que por uma torrente perpétua dos pais aos filhos. Por aí se vê que é fácil refutar as cavilações dos pelagianos. 12. Os pelagianos Dizem elesc que não é provável que as crianças que nascem de pais fiéis atraiam corrupção, visto que, antes, devem ser purificadas pela pureza deles. A isso res- 188 Rm 5.12,21. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a Em seguida 1539 diz: universæ hominis naturæ attributa. b c Palavras acrescentadas em 1539.
  • 88. 88 As Institutas – Edição Especial pondemos que as crianças não descendem da geração espiritual que os servos de Deus recebem do Espírito Santo, mas da geração carnal, que elas recebem de Adão. É bem verdade que Deus santifica os filhos dos fiéis por causa dos seus pais, porém isto se dá, não em virtude da sua natureza, mas da graça de Deus. É, pois, uma bênção espiritual, que não impede que aquela primeira maldição esteja universalmente na natureza humana. Pois bem, para que não se diga isso ligeiramente, é necessário definir o pecado original. Contudo, não é minha intenção examinar todas as definições já escritas. Darei apenas uma, que me parece estar em harmonia com a verdade. 13. Definição de pecado original [1536] Diremos, então, que o pecado original é uma corrupção e perversidade na nossa natureza, que nos faz culpados, primeiramente, da ira de Deus, tendo a seguir produzido em nós as obras que a Escritura chama “obras da carne”.189 É o que apropriadamente Paulo muitas vezes chama pecado, sema acrescentar “original”. Tais obras são os adultérios, a luxúria, em seus diversos aspectos, furtos, ódios, homicídios e glutonaria. Ele os denomina, por essa razão, frutos do pecado, ao passo que a Escritura em geral chama “pecado” a cada uma de todas essas obras. 14. Culpa herdada e culpa atual [1539] Devemos examinar duas coisas, distinguindo-as bem: É preciso reconhe- cer que somos tão corrompidos em todas as partes da nossa natureza, que esta corrupção nos faz, com razão, condenáveis diante de Deus – a Quem nada agrada, senão a justiça, a inocência e a pureza. E não se diga que essa situação inevitável é causada somente por culpa de outra pessoa, comob se respondêsse- mos pelo pecado de nosso primeiro pai, sem termos nada que nos faça seus me- recedores. Dizer que por Adão somos feitos devedores ao juízo de Deus não é dizer que somos inocentes e que, sem nada merecer, levamos a culpac do seu pecado. Mas, visto que pela transgressão dele todos fomos envolvidos em confu- são, todos nós somos declarados igualmente culpáveis. Todavia, não devemos entender que só nos fizemos merecedores da pena sem termos tido nenhuma participação em seu pecado. Pois a verdade é que o pecado que dele provém reside em nós, e a este a pena é devida com justiça. Por isso Agostinho,190 embora algumas vezes fale em pecado alheio, para mostrar mais claramente que temos o pecado da raça, todavia ele afirma que cada um de nós o tem. E o próprio apóstolo testifica191 que “a morte passou a todos os 189 Rm 5, 6, 7. a Frases acrescentadas em 1539. b Frases acrescentadas em 1539. c culpam sustineremus. 190 (1539): Alibi sæpe, tum vero lib. III de peccatorum merit. et remiss., capit. VIII. 191 Rm 5.12.
  • 89. 89 homens, porque todos pecaram”, quer dizer, todos estão envolvidos no pecado original e manchados por suas máculas. 15. Sobre a situação das crianças [1536] Por essa razão, até as crianças estão incluídas nesta condenação. Não simplesmente por pecado alheio, mas pelo delas mesmas, porquanto, apesar de ainda não terem produzido frutos da sua iniqüidade, não obstante, a semente do mal está oculta nelas. E, ademais, a sua natureza é uma semente de pecado, e, portanto, só pode ser desagradável e abominável a Deus. O outro ponto que deve- mos examinar é que esta perversidade jamais fica ociosa em nós, mas está sem- pre produzindo novos frutos, continuadamente. São eles as obras da carne que há pouco descrevemos, e brotam tão naturalmente como uma fornalha acesa lança chamas e faíscas, e uma fonte jorra água. Porque os que definem o pecado como sendo a faltaa da justiça original, entendendo que nessas palavras está contida toda a substância, todavia não exprimem suficientemente a força do mesmo. Isso porque a nossa natureza não é somente vazia e destituída de todo bem, mas á também tão fértil em toda espécie de mal que não se pode dizer que é ociosa. Os que a chamam concupiscência, de modo algum empregaram uma palavra impró- pria, tendo-se em conta que ela se ajusta a coisas que não se aceitam a respeito de muitos. É que todas as partes constitutivas do homem, do entendimento à vonta- de, da alma à carne, estão contaminadas e repletas dessa concupiscência, ou, para resumir o ponto, o homem, em si mesmo, não é outra coisa, senão corrupção. 16. Pondo a culpa em Deus! [1539] Vejamos agora os que ousam atribuir a Deus o pecado deles, quando se diz que os homens são naturalmente maus. Perversamente vêem a obra de Deus na corrupção deles, quando melhor fariam em buscá-la e vê-la na natureza que Adão recebeu antes de se corromper. A nossa perdição procede da disposição da nossa carne, e não de Deus. Visto está que não perecemos por outra causa que não esta: decaímos da nossa criaçãob original. E que não se conteste dizendo que Deus teria provido coisa melhor para a nossa salvação se a tivesse executado antes da queda de Adão. Essa objeção é tão audaciosa e temerária que nem deve entrar no pensamento do ser humano fiel. Em grau muito mais elevado, ela per- tence à predestinaçãoc divina, que será tratada mais adiante, no lugar próprio. Portanto, que não nos ocorra imputar sempre a nossa desgraça à corrupção da nossa natureza, e muito menos àquela natureza que tinha sido dada originaria- mente ao homem, o que seria acusar a Deus, como se o nosso mal viesse dele. É a carentia. b conditione. c Primeira ocorrência da palavra em Calvino. Ver adiante, cap. VIII. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 90. 90 As Institutas – Edição Especial bem verdade que esta praga mortal do pecado se fixou em nossa natureza, mas estas são coisas bem diferentes – que ela tenha sido prejudicada desde a sua origem, ou depois, e de outra parte. Ora, o certo é que ela foi prejudicada pelo pecado que sobreveio inesperadamente. Portanto, não temos por que nos queixar, senão de nós mesmos. O que a Escritura nos mostra diligentemente. Pois Eclesiastes diz: “Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias.”192 Por aí se vê que nos cabe imputar unicamen- te ao ser humano a sua desgraça, visto que da graça de Deus ele tinha recebido uma retidão natural, e que por sua loucura ele tropeçou na vaidade e caiu.193 17. Os maniqueus refutados Dizemos que o homem é naturalmente corrompido em perversidade, mas que essa perversidade não está em sua natureza.194 Que seja da natureza negamos com o propósito de mostrar que é mais uma qualidade vinda sobre ele do que uma propriedade da sua substância, estando esta desde o começo arraigada nele. Todavia, nós a chamamos natural, para que ninguém pense que é adquirida uns dos outros pelos maus costumes e pelo mau exemplo, sendo que ela nos envolve a todos desde o nosso primeiro nascimento. E não digamos que ocorreu assim sem nenhum autor, pois, pela mesma razão, o apóstolo a todos nos chama “her- deiros da ira de Deus”195 [ARA: “filhos da ira”]. Como, porém, Deus se enfurece- ria com a mais nobre das Suas criaturas? Visto que as Suas mais singelas obras Lhe agradam. Mas o fato é que a Sua ira é mais contra a corrupção da Sua obra do que contra a Sua obra. Logo, se se pode dizer, não sem razão, que o homem é naturalmente abominável a Deus, com todo o direito podemos dizer que ele é naturalmente vicioso e mau. Como também Agostinho não teve dificuldade, em vista da nossa natureza corrompida, em chamar de pecados naturais aqueles que inevitavelmente imperam em nossa carne, quando nos falta a graça de Deus. Pela presente distinção é refutada a loucura dos maniqueus, que, imaginando uma perversidade essencial no ser humano, dizem que ele foi criado por outro ser, não por Deus, a fim de não atribuírem a Deus alguma origema do mal. a causam et principium. 192 Ec 7.29. 193 “O primeiro homem foi criado por Deus em retidão; em sua queda, porém, arrastou-nos a uma corrupção tão profunda, que toda e qualquer luz que lhe foi originalmente concedida ficou totalmente obscurecida. (...) Só quando aliados ao conhecimento de Deus é que alguns dos dotes a nós conferidos do alto se pode dizer que possuem alguma excelência real. À parte disso, eles se acham viciados por aquele contágio do pecado que não deixou sequer um vestígio no homem de sua integridade original.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. II, (Sl 62.9), p. 579.] 194 “Lembremo-nos de que nossa ruína se deve imputar à depravação de nossa natureza, não à natureza em si, em sua condição original, para que não lhe lancemos a acusação contra o próprio Deus, autor dessa natu- reza.” (As Institutas, II.1.10.) 195 Ef 2.3.
  • 91. 91 18. Universalidade do pecado Vimos que o domínio do pecado, após este haver subjugado o primeiro homem, reduziu à servidão todo o gênero humano. Resta-nos saber se, desde que fomos submetidos a esse cativeiro, estamos destituídos de toda liberdade ea isenção, ou então, se nos sobra alguma coisa, até onde se estende isso. Mas, para que a verda- de acerca desta questão nos seja mais facilmente esclarecida, é preciso primeiro estabelecer um alvo, para o qual dirijamos toda a nossa discussão. Ora, sabemos qual é o alvo para o qual devemos voltar-nos, e levamos em consideração os perigos que estão de um e de outro lado. Porque, quando o homem é desnudado de todo bem,b logo toma ocasião para a preguiça, para a negligência. Visto dizer- se que, em si mesmo, não há virtude alguma em praticar o bem, ele não se preo- cupa em empenhar-se, como se não tivesse nada com isso. De outro lado, não se pode dar a ele os recursos do mundo, para que não se exalte em vã autoconfiança e temeridade, e também para que não se esquive da honra devida a Deus. Para não cairmos nesses inconvenientes, precisamos apegar-nos a esta moderação: Ensinando-se ao homem que não há nele nenhum bem e que está rodeado de miséria e de necessidade, que, todavia, ele entenda que deve aspirar ao bem, do qual está vazio, e à liberdade, da qual está privado; e seja mais espicaçado e incitado a fazer isso do que a acreditar que nele está a maior virtude do mundo.196 19. Um alerta contra a negligência Não há quem não veja quão necessário é o segundo ponto, ac saber, o que nos leva a despertar o homem da sua negligência e preguiça. Quanto ao primeiro (que devemos mostrar ao homem sua pobreza), muitos duvidam de que se deve fazer isso. Não há nenhuma dúvida de que não é preciso despojar o homem dos seus bens, isto é, não é preciso negar-lhe o que ele tem. Mas também é uma coisa evidente quão conveniente é despojá-lo da glória vã e falsa. Pois não é lícito que ele se glorifique a si mesmo, quando pela benignidade de Deus ele é vestido e ornado de bênçãos da soberana graça divina. Quanto convém agora que se humi- lhe, uma vez que, por sua ingratidão, foi rebaixado à vergonha extrema, tendo perdido a excelência que tinha tido até então! Para que se entenda isso com maior facilidade, digo que a Escritura, desde o tempo em que o homem esteve exaltado ao mais alto grau de honra a que ele poderia chegar, não lhe atribui outra vanta- gem senão esta: que ele foi criado “à imagem de Deus”.197 Com isso ela quer a Acréscimo feito em 1539. b omni rectitudine. 196 “Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericór- dia gratuita de Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 6.4), pp. 128-129.] NE. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio c Frase acrescentada em 1539. 197 Gn 1.27; 1 Co 2.7; Tg 3.9.
  • 92. 92 As Institutas – Edição Especial dizer que o ser humano não é rico por seus próprios bens, mas a sua bem- aventurança está em sua participação de Deus. 20. Caniço e fumaça Que lhe resta, então, despido e desprovido de toda glória, senão reconhecer o seu Deus, de cuja benignidade e generosidade ele quase nada reconhece, apesar da abundância das riquezas da Sua graça? E, não tendo glorificado a Deus pelas bênçãos dele recebidas, agora ao menos o glorifica na confissão da sua pobreza.a Com muito maior razão, não é menos útil para nós que nos desfaçamos de toda apreciação elogiosa de sabedoria e virtude, o que se requer para a manutenção da glória de Deus. Tão importante é isso que, aqueles que nos atribuem algo exage- rado, blasfemam de Deus e também nos causam desgraça. Pois, que outra coisa haverá, quando nos ensinam a caminhar por nossa força e virtude, senão que nos fazem subir num caniço oscilante ao vento, o qual, incapaz de nos agüentar, logo se rompe, e nós caímos? Pois ainda é honra para nós, que sejamos comparados com um caniço.b Pois tudo o que os homens imaginam não passa de fumaça. Portanto, não é sem motivo que se encontra freqüentemente repetida nos escri- tos de Agostinho esta bela sentença: que os que defendem o livre arbítrio o lançam à ruína antes de o comprovarem. Por isso achei bom fazer este preâm- bulo, por causa de alguns que, não podendo suportar que a virtude do homem seja destruída e aniquilada para que em seu lugar seja edificada a de Deus, com maior força julgam esta discussão, não somente inútil, mas também muito pe- rigosa. Contudo, nós achamos que é muito útil e (qui plus est),198 que é um dos fundamentos da religião. 21. Faculdades do ser humano Para estudar bemc as faculdades do homem, comecemos fazendo uma divisão delas, o que faremos da maneira mais simples possível. Não há necessidade de seguir a sutileza dos filósofos. Confesso que Platão199 parece ter razão quando diz que há no homem cinco sentidos. A estes ele chama instrumentos, pelos quais o senso comum, que é como um universal respeitável, concebe todas as coisa ex- ternas, qued se apresentam à visão, à audição, ao paladar, ao olfato e ao tato. Depois, a imaginação discerne o que o senso comum concebeu e apreendeu; a seguir, a razão faz o seu trabalho julgando o todo. Finalmente, acima da razão 198 (o que é mais) – Em latim no original. NT. a Catecismo de 1537, art. VI, fim: “Pelo entendimento da nossa pobreza, aprendamos a prosternar-nos diante do Senhor”. b Pascal teria lido essa frase? c As 60 páginas que se seguem em 1541 são traduzidas de 1539, sem nenhuma equivalente em 1536 e 1537. 199 In Theæteto. [Platão, Teeteto e Crátilo, 2ª ed. Belém, Universidade Federal do Pará, 1988.] NE. d Frase acrescentada em 1539.
  • 93. 93 está a inteligência, que contempla com atenção séria e demorada todas as coisas sobre as quais a razão discorre e discute. Assim é que existem três virtudes na alma relacionadas com o conhecimento e o entendimento e que, por isso, são chamadas faculdades cognitivas, quais sejam: a razão, a inteligência e a imagina- ção. A essas correspondem outras três, que dizem respeito ao apetite, ao desejo. São elas a vontade, cuja função é desejar o que a inteligência e a razão lhe pro- põem; a cólera ou ira, que segue o que lhe apresentam a razão e a imaginação; e a concupiscência, que toma o que lhe é oposto pela imaginação. Embora todas estas coisas sejam verdadeiras, ou ao menos pareçam tais, ainda assim é preciso cuidado – que não nos distraiamos, porque há o perigo de que elas pouco nos ajudem e de que nos atormentem muito por sua obscuridade. Poderíamos apresentar outras distinções, como a que foi feitaa por Aristóteles (384-322 a.C.),200 de que há uma parte da alma a qual não contém razão em si mesma, mas pode ser conduzida pela razão à outra, que é realmente participante da razão. Igualmente, há três coisas das quais procedem todas as ações humanas. São elas o sentido, o entendimentob e o apetite ou desejo. Mas é bom falar de maneira que seja entendida por todos. O que não se pode obter dos filósofos. Porque eles, quando querem falar com simplicidade, dividem a alma em duas partes, a saber, a inteligência e o desejo. Mas as duplicam, por- que dizem que há uma inteligência contemplativa, que não chega à ação mas se limita unicamente a contemplar o que é representado pela palavra engenho,c como disse Cícero.201 A outra consiste na prática, a qual, após haver apreendido o bem ou o mal, põe a vontade a segui-lo ou a retirar-se. Nessa espécie é que está contida a ciência do bem viver. Paralelamente, eles dividem o apetite ou desejo em concupiscência e vonta- de, chamando-lhe vontaded quando o desejo do homem se sujeita à razão, e concupiscência,e quando se extravasa em intemperança, rejeitando o jugo da modéstia. Ao fazerem isso, sempre imaginam que há no homem uma razão pela qual ele pode governar bem a si próprio. Logo, nós, que dizemos que a razão humana é depravada, não podemos concordar plenamente com eles. 22. Calvino propõe a sua classificação das faculdades do ser humano Portanto, devemos fazer uma divisão diferente. Ei-la: Existem duas partes em nossa alma: a inteligência e a vontade. A inteligência é para discernir entre todas b intellectiva. c ingenii nomine. 200 Lib. I Ehtic, cap. ulti.; idem, l. I. VI, cap. II. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 201 De duplici intellectu Themist. in lib. III de ata, cap. XLIX, Cicero, de finibus, lib. IX. d boqlhsin. e pa/qoj. a ut altera vocent appetitiva.
  • 94. 94 As Institutas – Edição Especial as coisas que nos são propostas, e julgar o que devemos aprovar ou condenar. A função da vontade é escolher e seguir o que o entendimento tiver julgado bom, e, ao contrário, rejeitar e evitar o que tiver reprovado. Não precisamos deter-nos no que Aristóteles202 propugna com muita sutile- za, que o único movimento que ocorre propriamente na inteligência é o da esco- lha adotada pelo homem. Para nós deve ser suficiente (sem nos enredarmos em questões supérfluasa ) afirmar que o entendimento é como que o governador e capitão que comanda a alma – que a vontade depende do seu agrado e não deseja nada enquanto não tenha o seu julgamento. Assim é que Aristóteles diz uma verdade noutra passagem – que recusar ou querer é, no apetite, semelhante a contestar ou aprovar, no entendimento. Pois bem, veremos logo a seguir até que ponto é certa a orientação do en- tendimento para dirigir a vontade. Aqui só pretendemos mostrar que todas as virtudes da alma humana se reduzem a um destes membros. Desta maneira, in- cluímos o sentimento (os sentidos, o senso) no entendimento, diferentemente dos filósofos, que dizem que o sentimento inclina-se para a volúpia,203 e o enten- dimento para a honestidade e a virtude.b Quanto ao termo apetite, preferimos empregar a palavra vontade, que é mais utilizada. 23. Observações críticas sobre os filósofos Consideremos agora que faculdade existe numa ou noutra parte. Os filósofos, em consenso comum, entendem que a alma humana reside na razão, a qual é como uma lâmpada para conduzir a inteligência, e como uma rainha para governar a vontade. Pois a imaginam tão cheia de luz divina que ela pode muito bem discernir entre o bem e o mal, e que tem tanta virtude que pode muito bem dominar; ao contrário, o sentimento é muito ignorante e rude, incapaz de se elevar para consi- derar as coisas sublimes e excelentes, sempre a arrastar-se na terra; e o apetite, estando disposto a subordinar-se à razão e não se deixando subjugar pelo senti- mento, tende naturalmente a buscar o que é bom e honesto e, assim, pode conse- guir o bom caminho.c Ao contrário, se se rende em servidão ao sentimento, por este é corrompido e depravado, excedendo-se na prática de coisas desonestas.d Por isso eles dizem que o entendimento tem consigo a razão, e assim conduz o homem ao viver feliz e virtuoso, desde que se mantenha em sua nobreza e dê lugar à virtude, que nele está naturalmente radicada. a Acréscimo a 1539. 202 Ita Plato in Phædro. b Aqui 1539 tem esta frase não traduzida: Inde fieri ut appetitio sensus, concupiscentia fiat, et libido, affectio intellectus, voluntas. c 1539 acrescenta: et in voluntate formari. d Frase de 1539 não traduzida: Atqui omnino cum ex eorum opinione duæ animæ facultates concedantur, intellectus et appetitus, seu voluntas, quæ appellatio jam vulgariore usu recepta est. 203 Ou para o prazer dos sentidos. NT.
  • 95. 95 Isso porém eles dizem bem: que há um movimento interior, chamado senti- mento (ou sentidos, ou senso) que distrai e desvia o homem para o erro e a igno- rância, o qual, não obstante, pode ser domado pela razão e por esta pode ser pouco a pouco aniquilado. Eles estabelecem a vontade como um elemento inter- mediário entre a razão e o sentimento, isto é, com a liberdade de submeter-se à razão, se lhe parece bem, ou de se entregar ao sentimento. É bem verdade que a experiência os constrange a confessarem algumas vezes quão difícil é para o homem o estabelecer em si mesmo o império da razão – ora, acicatado pela volúpia, ora iludido por falsos valores, ora agitado por afetos intemperantes, que são como cordas (como diz Platão)204 que o esticam e o sacodem para cá e para lá. Por essa razão Cícero205 diz que nós temos somente duas diminutas centelhas do bem, por natureza iluminando o nosso espírito, centelhas que facilmente corrompemos com nossas falsas opiniões e com nossos maus costumes. Ainda bem que eles confessam que, quando tais males tomam posse do nosso espírito, dominam tan- to que não é fácil contê-los, e não hesitam em compará-los com cavalos rebeldes. Porque, como o cavalo rebelde, depois de derrubar o cavaleiro, fica escoiceando sem parar, assimc a alma, tendo rejeitado a razão e estando entregue às suas con- cupiscências, se extravasa em excessos. Além disso, eles dão por resolvido que tanto as virtudes como os vícios estão em nosso poder. Pois, se não pudéssemos escolher fazer o bem ou o mal, dizem eles, tampouco poderíamos abster-nos. Mas, ao contrário, se somos livres para abster-nos, também o somos para fazer. Pois bem, assim é que fazemos por livre escolha tudo o que fazemos, e nos abs- temos livremente do que nos abstemos. Por conseguinte, está em nosso poder fazer o bem que fazemos, e também o mal, e, paralelamente, está em nosso poder fazer o que deixamos de fazer.206 E, de fato, alguns deles207 chegam à loucura de gabar-se de que, pelo benefício de Deus eles têm o bom caminho, e por eles próprios têm o bom viver. Eis, pois, em suma, a sentença dos filósofos: A razão, que está no entendi- mento humano, é suficiente para nos conduzir e para nos mostrar o que é bom fazer; e a vontade, estando subordinada à razão, é tentada e solicitada pelos sen- tidos para a prática do mal, mas, todavia, no que diz respeito à liberdade de esco- lha, ela não está impedida de seguir inteiramente a razão. 24. Observações sobre os doutores da igreja Quanto aos mestres da igreja cristã, se bem que não havia entre eles quem não reconhecesse que a razão é muito fraca no homem, por causa do pecado, e que a vontade está sujeita a muitas concupiscências, todavia, a maior parte deles seguiu c Frase acrescentada a 1539. 204 Libr. pri. de legi. 205 Lib. III Tuscul. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 206 (1539) Vide apud Aristot. lib. III Ethic, cap. V. 207 Sêneca.
  • 96. 96 As Institutas – Edição Especial de preferência os filósofos, sem necessidade. Parece-me que há dois motivos pelos quais os antigos pais procederam desse modo. Primeiro, temiam que, se despojassem o homem de toda a liberdade para a prática do bem, os filósofos zombariam da doutrina deles. Segundo, a carne, que está sempre pronta a ceder à preguiça, não escolhe ocasião para reprimir as boas obras. Digo isso porque, a fim de não ensinarem nada que contrariasse a opinião comum dos homens, qui- seram harmonizar, meio a meio, a doutrina da Escritura com a dos filósofos.a A julgar, porém, por suas palavras, eles seguiram principalmente o segundo moti- vo. Em certa passagem208 Crisóstomo diz: “Deus colocou o bem e o mal em nossa faculdade, dando-nos o livre arbítrio para escolhermos um ou outro; e não nos força pelo constrangimento, mas nos recebe se O buscamos voluntariamen- te”. Idem:209 “Quem é mau pode tornar-se bom, se quiser; e quem é bom pode tornar-se mau. Porque Deus deu à nossa natureza o livre arbítrio e não nos impõe nenhuma necessidade. Mas Ele estabeleceu os remédios, que usamos se nos pa- rece bem”. E mais:210 “Como não podemos fazer nada sem sermos ajudados pela graça de Deus, assim também, se não apresentarmos o que a nós pertence, Sua graça não nos proverá”. Ele tinha dito que não devemos descansar no auxílio dado por Deus, mas que devemos fazer a nossa parte. E, de fato, esta sentença lhe é familiar: “Façamos o que nos cabe, e Deus suprirá o resto”. O que combina com o que disse Jerônimo: “A nós cabe começar, a Deus completar; é nosso dever oferecer o que pudermos, e o dele o de realizar o que não pudermos”.211 Vemos claramente que nessas sentenças é atribuída ao homem mais virtude do que deve- riam atribuir-lhe. Aqueles mestres não queriam falar contrariamente a isso para não revelar a nossa preguiça, querendo eles demonstrar que, para eles, só conta- mos com o homem para vivermos bem. Logo veremos se eles têm boas razões para agir assim. As palavras acima citadas parecem falsas, para não dizer franca- mente que são. Embora os mestres gregos estejam nisso mais que os outros, e entre eles, singularmente, Crisóstomo foi além dos limites em seu engrandeci- mento dos poderes humanos, todavia, quase todos os pais antigos, à exceção de Agostinho, variam tanto neste assunto, ou falam com tanta dúvida ou tão obscu- ramente, que dos seus escritos não se pode chegar a nenhuma definição clara. Por isso não nos deteremos para referências específicas à opinião de cada um. Só vamos tocar de passagem no que uns e outros disseram, na ordem própria. Os outros escritores que surgiram depois, mostraram cada qual alguma sutileza, ao defenderem as virtudes humanas. Todos eles, uns após outros, foram de mal a pior, ao ponto de arrastarem o mundo para a opinião segundo a qual o homem 208 Homélie de la prodition des Juifz. 209 Homélie 18 en Genèse. 210 Homél. 52. 211 Dialog. contra Pelagianos. a Ataque direto contra Erasmo e outros contemporâneos; a oposição é feita de agora em diante simplesmente contra o humanismo, ao qual Calvino tinha sido favorável no período anterior de sua vida.
  • 97. 97 não foi corrompido, a não ser na parte sensual, conservando integralmente a ra- zão e, na maior parte, a liberdade em seu querer. A expressão “livre arbítrio” sempre esteve entre os latinos. Os gregos empregam uma expressão mais arrogantea ainda, com a qual querem dizer que o homem tem poder sobre si mesmo. Portanto, sendo que, até entre os mais simples e populares, todos estão im- pregnados da opinião de que temos livre arbítrio, e que a maioria dos que querem ser vistos como sábios não entende nem até onde se estende essa liberdade, con- sideremos em primeiro lugar o significado dessa expressão, e depois vejamos, pela pura doutrina da Escritura, que faculdade ou poder o homem tem para a prática do bem ou do mal. 25. Definição de livre arbítrio Embora a expressãob “livre arbítrio” seja utilizada por todo o mundo, poucos são os que a definem. Todavia, ao que parece, Orígenes fez uma definição que na época foi bem recebida por todos em geral. Disse ele que o livre arbítrio “é uma faculdade da razão pela qual se pode discernir o bem e o mal, e da vontade, pela qual se pode escolher um ou outro”. Disso não discordac Agostinho,212 quando afirma que “é uma faculdade da razão e da vontade pela qual se escolhe o bem, quando se tem a assistência da graça de Deus, e o mal, quando não se tem essa assistência”. Bernardod [de Claraval], querendo falar sutilmente, foi mais obs- curo. Disse ele que o livre arbítrio “é uma concessão feita à liberdade do que- rer, que não se pode perder, e um julgamento indeclinável da razão”. Não é mais clara a definição dada por Anselmo, segundo a qual essa faculdade “é um poder de manter a justiça por amor dela mesma”. Entretanto, o Mestre das Sentençase 213 e os doutores escolásticos deram preferência à definição de Agos- tinho, porque é mais fácil e não exclui a graça de Deus, sem a qual eles reco- nheciam que a vontade humana não tem nenhum poder. Contudo, eles apresen- tavam alguma coisa de sua iniciativa, pretendendo expressar melhor ou ao me- nos explicar melhor o que outros diziam. Primeiro, eles estavam de acordo em que a palavra arbítrio deve referir-se à razão, cuja função é discernir entre o bem e o mal, e que o adjetivo livre ou franco, que se lhe junta, pertence propriamente à vontade, a qual pode ser incli- nada para uma parte ou para a outra. Entendendo-se, pois, que a liberdade ajusta- se propriamente à vontade, Tomás de Aquinof acha que seria boa esta definição: a au/tecou/sion. b liberum arbitrio. c 1539 tem somente: Augustinus, Bernardus. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 212 Lib. III peri )arxw=n. d 1539 tem somente: Augustinus, Bernardus. e Petrus Lombardus. 213 Lib. II sententiarum, distinctio 24. f Palavra acrescentada a 1539.
  • 98. 98 As Institutas – Edição Especial “O livre arbítrio é uma virtude eletiva que, intermediária entre a inteligência e a vontade, todavia inclina-se mais para a vontade”.214 Vimos em que consiste a força do livre arbítrio, a saber, na razão e na von- tade. Agora resta saber qual a sua extensão. Geralmente lhe são atribuídas coisas externasa , não referentes ao Reino de Deus, mas sim ao conselho e à escolha dos homens; a verdadeira justiça é atribuída à graça de Deus, e a regeneração, ao Seu Espírito.215 É o que o autor do livro da vocação dos gentios quer dizer quando diz que há três tipos de querer.216 O primeiro se chama sensitivo; o segundo, animal; o terceiro, espiritual. Quanto aos dois primeiros, o homem é declarado livre. Do terceiro se diz que é operação do Espírito Santo. 26. Discussão da proposição supra Discutiremos logo a seguir a veracidade da proposição acima exarada. O que precisamos fazer agora é anotar brevemente as sentenças de outros. Delas se observa que os escritores, ao tratarem do livre arbítrio, não dão muita atenção às obras externas, pertencentes à vida corporalb , mas consideram principalmente a obediência à vontade de Deus. Pois bem, eu confesso que esta segunda questão é a principal, mas, ao mesmo tempo, digo que a outra não deve ser negligenciada, e espero comprovar bem a minha opinião quando chegarmos lá. Existe ademais uma distinção que nos vem das escolas de teologia, na qual são mencionadas três espécies de liberdade. A primeira é a liberdade decorrente da libertação da necessidade; a outra, do pecado; a terceira, da miséria.217 Da primeira os seus propugnadores dizem que ela está de tal modo arraigada por natureza no homem, que não pode ser extirpada. Eles confessam que as outras duas foram perdidas pelo pecado. Acolho de boa vontade essa distinção, com esta reserva: Nela a necessidade é impropriamente confundida com o constrangimento [ou seja, com a obrigação forçada]. Logo se verá, na ocasião e no lugar próprios, que as duas coisas são muito diferentes. Uma coisa fica resolvida – que o homem não tem livre arbítrio para praticar o bem, a não ser que seja ajudado pela graça de Deus, e pela graça espiritualc ou especial, dada tão-somente aos eleitos, mediante a regeneração. 214 Parte I, quæst. 83, art. III. a medias. 215 Comentando Gálatas 4.26, diz: “.... A Igreja enche o mundo todo e é peregrina sobre a terra. (...) Ela tem sua origem na graça celestial. Pois os filhos de Deus nascem, não da carne e do sangue, mas pelo poder do Espírito.” Continua: “Eis a razão por que a Igreja é chamada a mãe dos crentes. E, indubitavelmente, aquele que se recusa a ser filho da Igreja debalde deseja ter a Deus como seu Pai. Pois é somente através do ministério da Igreja que Deus gera filhos para si e os educa até que atravessem a adolescência e alcancem a maturidade.” [João Calvino, Gálatas, São Paulo, Paracletos, 1998, (Gl 4.26), p. 144.] Em outro lugar: “A Igreja é a mãe comum de todos os piedosos....” . [João Calvino, Efésios, (Ef 4.12), p. 125.] NE. 216 Lib. I, cap. II. b civiles seu externas actiones. 217 Lib. II sentent., distinct. 25. c speciali.
  • 99. 99 Contudo, ainda não fica evidente se resta ao homem alguma porção dessa facul- dade, pequena e fraca porém, a qual nada pode fazer sem a graça de Deus; mas, sendo ajudada por esta, age da parte dele. Querendo decidir esta questão, o Mes- tre das Sentenças afirma que “há uma graça dupla, necessária ao homem, para o tornar idôneo para a prática do bem”.218 Uma ele chama atuante, a qual faz com que nós queiramos o bem com eficácia; a outra ele denomina cooperante, a qual segue a boa vontade para ajudá-la. Nessa divisão me desagrada que, quando atri- bui à graça de Deus o ato de fazer-nos desejar o bem com eficácia, significa que, da nossa natureza, de alguma forma desejamos o bem, apesar de nosso desejo não produzir nenhum efeito. Porque Bernardo fala pouco menos que isso, quan- do diz que toda boa vontade é obra de Deus, mas, não obstante, o homem pode, por sua própria iniciativa, desejar boa vontade. Mas o Mestre das Sentenças en- tendeu mal a Agostinho, que ele pensava estar seguindo quando introduziu essa distinção. Pior ainda, há no segundo componente uma dúvida que me incomoda, visto que gerou uma opinião perversa. Sim, pois, os escolásticosa acharam que, por esse motivo, ele diz que não cooperamos com a graça de Deus, isto é, que está em nosso poder anular a primeira graça que nos é oferecida, rejeitando-a, ou confirmá-la, obedecendo-lhe. O que também diz o escritor do livro da vocação dos gentios.219 Porquanto ele afirma que os que têm o juízo da razão são livres para afastar-se da graça, de modo que lhes seja imputado o poder de não compartilhar dela, para que tenham algum mérito por fazerem o que puderem, se assim o desejarem; se bem que não podem fazê-lo sem a graça cooperante de Deus. Eu quis anotar de passo estes pontos, a fim de que o leitor entenda em que eu discordo dos doutores escolásticos, cuja doutrina é mais completa e mais pura, o que não se dá com os sofistas, de que trataremos pouco mais adianteb e com os quais temos mais divergências, pois eles se afastaram muito da pureza dos seus predecessores. Seja como for, com esta divisão poderemos entender como podem conceder ao homem o livre arbítrio. Porque, finalmente, o Mestre das Sentenças declara220 que não se afirma que o homem tem o livre arbítrio no sentido de que ele é auto-suficiente para pensar ou praticar tanto o bem como o mal, mas unicamente no sentido de que ele não está sujeito à obrigação força- da, ao constrangimento. Essa liberdade não sofre impedimento, por mais ma- lignos e servos do pecado que sejamos, e ainda que não consigamos fazer outra coisa que não seja o mal. 218 Lib. II, distinct. 26. a falta à edição de 1539. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 219 Lib. II, cap. IV. b Calvino dá testemunho aqui de uma certa simpatia pelos escolásticos da boa época. Por “sofistas” ele enten- de os nominalistas do seu tempo. 220 Lib. II sentent., distinct. 25.
  • 100. 100 As Institutas – Edição Especial 27. Enfeite soberbo para algo insignificante Vemos, pois, que eles confessam que não se afirma que o homem tem o livre arbítrio porque tem liberdade de escolher tanto o bem como o mal, mas porque ele faz o que faz por que quer, e não por constrangimento. Sentença que é bem verdadeira. Mas, que brincadeira é essa – enfeitar uma coisa tão pequena com um título tão soberbo? Aí está, que bela liberdade é essa, que o homem não é cons- trangido a servir ao pecado, mas que o faz numa servidão voluntáriab , que a sua vontade é mantida prisioneira pelos laços do pecado! Certo é que tenho verdadeiro horror pelas contendas de palavrasc , que inutilmente perturbam a igreja. Bom seria que fossem evitados todos os vocábulos em que haja algum absurdo, principalmen- te onde houver perigo de erro. Ora, quando se atribui ao homem o livre arbítrio, quantos não haverá que incontinenti se julgarão mestres e senhores do seu juízo e da sua vontade, e capazes de fazer girar a virtude de um e de outro lado? Mas alguém poderá dizer que o perigo será extirpado, desde que as pessoas sejam advertidas quanto ao sentido da expressão “livre arbítrio”. Ao contrário, digo que, em vista da inclinação natural existente em nós que nos leva a seguir a falsidade e a mentira, mais facilmente tropeçamos numa só palavra do que sería- mos instruídos na verdade por uma longa oração. Disso temos experiência mais que certa de que seria melhor dispensar tal vocábulo. Porque, uma vez inventado, é logo bem recebido por quem não leva em conta a exposição feita pelos antigos; e o toma como motivo para orgulhar-se de si mesmo. 28. Livre arbítrio: livre ou escravo? E isso com maior razão, se nos defrontarmos com a autoridade dos pais que, con- quanto estejam sempre com essa expressão na boca, entretanto mostram qual é o valor que lhe dão no uso que dela fazem. PrincipalmenteAgostinho, que não hesita em chamá-lo servo221 [arbitrio]. É bem verdade que em certo lugar ele se opõe aos que negam a existência do livre arbítrio,222 mas, ao mesmo tempo, ele demonstra o que pretende, quando diz: “Somente que ninguém se disponha a negar o livre arbí- trio para, com isso, escusar o pecado”. Por outro lado, porém, ele confessa que “a vontade do homem não é livre sem o Espírito de Deus, visto que é dominada por suas concupiscências”.223 Igualmente diz ele que “depois que a vontade é domina- da pelo mal em que caiu, a nossa natureza perdeu a liberdade”.224 E ainda: “O homem, fazendo mau uso do livre arbítrio, perdeu-o, e perdeu-se”.225 E declara mais, “que o livre arbítrio está em cativeiro e não pode fazer bem algum”.226 b e)qelodou=loj . Em 1548 La Boétie havia composto um discurso sob esse título. c logomaxi/aj. 221 Lib. II cont. Iullia. 222 Ad Anasta. 223 Homil. 53, in Ioan, de perfe. justi. 224 Lib. III ad Bonifa. 225 Ench. ad Laurent., cap. XXX. 226 De correp. et gratia, cap. XIII.
  • 101. 101 Que diremos nós, ainda mais que noutro lugar parece que ele se põe a zom- bar dessa expressão, dizendo que há um livre arbítrio bem livre no homem, mas de modo nenhum está livre de preocupações, e está livre da justiça e é servo do pecado? O que testifica que ele não tem outra opinião sobre a liberdade do ho- mem, senão que se desviou da justiça, rejeitando o seu jugo para servir ao peca- do. Não é assim, que ele zomba apenas do título que lhe dão, chamando-o livre arbítrio? Portanto, se alguém se permite usar essa expressão, não farei com ele grande controvérsia. mas, uma vez que vejo que não se pode fazer uso dela sem grande risco, e, ao contrário, que seria de grande proveito para a igreja se fosse abolida, eu não gostaria de empregá-la; e se alguém me pedisse conselho, eu lhe diria que se abstivesse do seu uso. 29. Esclarecimento, não preconceito Parecerá a alguns que estou agindo com grande preconceito quando declaro que todos os doutores eclesiásticos, exceto Agostinho, falaram tão dúbia ou voluvel- mente sobre este assunto que nada se pode colher com certeza da sua doutrina. Entendem isso como se eu os rejeitassea tão-somente porque me são contrários. Mas, na verdade, meu único objetivo é simplesmente advertir os leitores, para o bem destes, do que acontece neste contexto, para que não esperem demais daqui- lo que ali encontrarem. É que estão sempre na incerteza, visto que, num dado momento, despojado o homem de toda virtude ou poder, ensinam que ele deve buscar refúgio unicamente na graça de Deus. E noutra ocasião lhe atribuem algu- ma faculdade ou poder, ou ao menos parecem atribuir-lhe. Todavia, não me é difícil fazer parecer, por algumas das suas sentenças, que, qualquer ambigüidade que acaso haja em suas palavras, não obstante, eles consideravam sem nenhum valor as obras humanas, ou ao menos pouco valor lhes davam, canalizando todo o louvor para as boas obras do Espírito Santo. Pois, que outra coisa quer dizer esta sentença de Ciprianob , tantas vezes citada de Agostinho:c227 “Não temos por que nos glorificar, porque não existe nenhum bem que seja nosso”? Sem dúvida, ele anula tudo do homem, a fim de que este aprenda a buscar tudo em Deus. Algo semelhante se vê no que disse Euchère,228 antigo bispo de Liãod : “Cristo é a Ár- vore da vida; quem estender a mão para ela viverá; e a árvore do conhecimento do bem e do mal é o livre arbítrio; quem dela provar morrerá”. Também o que diz Crisóstomo:229 O homem não somente é pecador por natureza, mas não é senão inteiramente pecado”. Se não existe bem algum em nós, se, da cabeça aos pés, o homem nada mais é que pecado, se nem sequer é lícito que ele queira o livre arbí- trio, como lhe será lícito repartir entre Deus e o homem o louvor das boas obras? 227 Lib. de prædestin. sanct. 228 Lib. I in Genes. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a a suffragii jure depellere. b c Falta em 1539. d Explicação acrescentada em 1539. 229 Homil. I in Advent.
  • 102. 102 As Institutas – Edição Especial Eu poderia apresentar aqui, de outros pais, muitos outros testemunhos se- melhantes, mas, para que ninguém possa ironizar dizendo que só escolhi o que atende ao meu propósito, deixando de lado o que poderia prejudicar-me, abste- nho-me de alongar as minhas citações. Não obstante, ouso afirmar o seguinte: Embora por vezes eles exaltem um tanto o livre arbítrio, sempre tendem a buscar como objetivo afastar o homem da confiança em sua própria virtude, ensinando- lhe que todo o seu poder está unicamente em Deus. 30. A natureza do homem Consideremos agora, com simplicidade, e seguindo a verdade, qual é a natureza do homem. Sinto-me constrangido a repetir aqui o que já abordei no começo deste tratado, a saber, que tira bom proveito do conhecimento de si mesmo aque- le que, entendendo inteligentemente a sua calamidade, a sua pobreza, a sua nu- dez e a sua ignomínia, fica abatido e arrasado. Porque não há perigo de o homem humilhar-se exageradamente, desde que entenda que poderá recuperar em Deus o que lhe falta. Por outro lado, o homem não pode atribuir a si mesmo nem um grãoa de bem, além da medida, que não se estrague pela confiança vã, e que não se faça culpado de sacrilégio por usurpar a glóriab de Deus. E, na verdade, sempre que nos entra na mente essa cupidez, essa cobiça, de querermos ter alguma coisa como sendo propriamente nossa, ou seja, pretender que isso está mais em nós do que em Deus, precisamos entender que essa idéia não nos é apresentada por outro conselheiro senão aquele mesmo que induziu os nossos primeiros pais a quere- rem ser “como Deus, ...conhecedores do bem e do mal”.230 Se é palavra diabólica a que exalta o homem em si mesmo, não devemos dar lugar a ela, a não ser que estejamos querendo receber conselho do nosso inimigo. É agradável pensar em termos em nós tanta virtude ou poder que fiquemos satisfeitos com nós mesmos. Mas há muitas sentenças na Escritura que nos desviam dessa vã confiança, como, por exemplo, as seguintes: “Maldito o homem que confia no homem, faz da car- ne mortal o seu braço...”.231 Também: Deus “não faz caso da força do cavalo, nem se compraz nos músculos do guerreiro. Agrada-se o Senhor dos que o temem e dos que esperam na sua misericórdia”.232 E mais: “Faz forte ao cansado e multi- plica as forças ao que não tem nenhum vigor”.233 E ainda; Ele “prostra de fadiga os que estão na flor da idade, põe em decadência os fortes e fortalece aqueles que nele esperam” (tradução direta do original francês). Dos que buscam este objeti- vo, que ninguém se apóie na minúscula opinião do mundo e em sua própria virtu- a tantillum. b honorem. 230 Gn 3.5. 231 Jr 17.5. 232 Sl 147.10,11. 233 Is 40.29.
  • 103. 103 de ou poder, se é que deseja contar com a ajuda de Deus, que “resiste aos sober- bos, mas dá graça aos humildes”.234 Depois, convém fixar na memória todas estas promessas: “Derramarei água sobre o sedento e torrentes sobre a terra seca”.235 E também: “Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas”,236 e outras promessas semelhantes, as quais atestam que ninguém tem permissão para receber as bênçãos de Deus, exceto aquele que, reconhecendo a sua pobreza, humilha-se em sua necessidade. Não nos esqueçamos das outras promessas, como a que também nos vem de Isaías: “Nunca mais te servirá o sol para luz do dia, nem com o seu resplendor a lua te alumiará; mas o Senhor será a tua luz perpétua”.237 Certamente o Senhor não extinguirá a luz do sol ou da lua para os Seus servos; contudo, mais do que manifestar por eles a Sua glória, Ele destrói a nossa confiança nas coisas que, em nosso humano conceito, são as mais excelentes. 31. Fundamento da filosofia cristã Por isso esta sentença de Crisóstomo sempre me agradou muito: “O fundamento da nossa filosofia é a humildade”,238 diz ele. E mais ainda a de Agostinho,239 quando ele diz: “Como Demóstenesa , o orador grego, sendo interrogado sobre qual seria o primeiro preceito da eloqüência [ou seja, da boa oratória], respondeu que é a pronúncia [a articulação das palavras], e, sendo interrogado sobre a se- gunda, respondeu a mesma coisa, como também sobre a terceira, assim também, se me perguntares quais os preceitos da religião cristã, eu te responderei: O pri- meiro, o segundo e o terceiro, é a humildade”.240 32. A verdadeira humildade Ora, ele não entende a humildade apenas no sentido de que, quando um homem acha que tem alguma virtude ou poder, não se orgulha disso, mas, sim, no sentido de que esse homem conhece de tal maneira a verdade que só encontra refúgio em humilhar-se diante de Deus. Como Agostinho declara noutro lugar:241 “Que nin- 234 Tg 4.6. 235 Is 44.3. 236 Is 55.1. 237 Is 60.19. 238 Homil. de perfect. evang. 239 Epist. 56, ad Diosco. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a rhetor ille. 240 “Ninguém possui coisa alguma, em seus próprios recursos, que o faça superior; portanto, quem quer que se ponha num nível mais elevado não passa de imbecil e impertinente. A genuína base da humildade cristã consiste, de um lado, em não ser presumido, porque sabemos que nada possuímos de bom em nós mesmos; e, de outro, se Deus implantou algum bem em nós, que o mesmo seja, por esta razão, totalmente debitado à conta da divina graça.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1996, (1Co 4.7), pp. 134-135.] NE. 241 Homil. in Ioan, 49.
  • 104. 104 As Institutas – Edição Especial guém, diz ele, se gabe de si mesmo, pois cada um é diabo; todo o bem que existe é de Deus. Porque, que tens tu de ti mesmo, senão pecado? Se queres ficar com algo que seja teu, fica com o pecado, porque a justiça é de Deus”. E mais:242 “Por que temos tanta presunção do poder da nossa natureza? Ela está ferida, foi abatida, dissipada, destruída; ela é causa de confissão verdadeira, e não de falsa defesa”. Não contendamos, pois, contra Deus, por nossos direitos, como se estivés- semos enfraquecidos.a Porquanto, como a nossa humildade é a Sua exaltação, assim a confissão da nossa humildade sempre traz consigo a Sua misericórdia como remédio. Não é bem que eu pretenda que o homem renuncie a seus direitos diante de Deus, nem que mude o seu pensamento e não reconheça a sua virtude, se é que ele tem alguma, para reduzir-se à humildade e nada mais. A única coisa que peço é que, desfazendo-se de todo o estulto amor a si próprio, e da auto- exaltação e da ambição,b 243 cegado que fora pelo apego a essas coisas, contem- ple-se no espelho da Escritura.c 33. O poder da inteligência, do entendimento Para que a ordem da nossa discussão proceda conforme a distinção que apresen- tamos, na qual dividimos a alma humana em inteligência ou entendimento e von- tade, devemos verificar primeiro que poder há na inteligência. Dizer que ela é tão cega que não lhe resta nenhum conhecimento quanto às coisas do mundo seria contrário, não somente à Palavra de Deus, mas também à experiência comum. Porque vemos que no espírito humano há certo desejo de pesquisar a verdade, não tanto por propensão, mas principalmente por uma questão de gostod . Vê-se, pois, que, por uma centelha de conhecimento do espírito humano, o homem tem um amor natural pela verdade, cuja oposição revela mentes animalescas, cheias de insensatez e sem nenhuma disposição racional. Tanto que esse desejo, já antes de entrar em ação, mostra o seu defeito e cai na vaidade. Isso porque o entendi- mento humano, em sua rudeza, não pode ter o correto desejo de buscar a verdade, mas se perde em diversos erros. É como um cego que, caminhando na escuridão, tropeça aqui e ali até se perder totalmente; assim, na busca da verdade, o homem mostra quão inadequado e inidôneo é para procurá-la e encontrá-la, a tal ponto que muitas vezes nem percebe que coisas deve esforçar-se para conhecer. E as- sim se atormenta, com uma tola curiosidade, em busca de coisas supérfluas e de nenhum valor. Quanto às coisas necessárias, ou as despreza totalmente, ou, em 242 Lib. de nat. et gratia, cap. LII. a ac si saluti nostri decederet quod illi tribuitur. b filauti/aj kai filonikei/aj. 243 “É da inveja que nascem as disputas, as quais, uma vez inflamadas, se prorrompem em seitas perigosas. Além do mais, a ambição é a mãe de todos estes males.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.3), p.100.] NE. c Cf. Epístola de Tiago, I, 24. O espelho da alma pecadora, de autoria de Marguerite d’Angoulême, tinha surgido em 1531. d odore percepto.
  • 105. 105 vez de as observar bem, olha-as de soslaio ao passar, o que não se repete. E o certo é que quase nunca se aplica conscientemente a seu estudo. Dessa perversi- dade muitos escritores pagãos se queixam; contudo, vê-se que todos eles estão envolvidos no mesmo mal. Por isso Salomão, em seu Eclesiastes, depois de nar- rar todas as coisas das quais os homens gostam e nas quais se julgam muito sábios, por fim as declara vãs e frívolas.244 Todavia, quando o entendimento hu- mano se esforça nalgum estudo, não trabalha tão inutilmente que não tenha al- gum proveito, principalmente quando se volta para as coisas inferiores. E nem é tão tolo que não tenha gosto, ainda que pequeno, pelas coisas superiores, se bem que se aplica negligentemente a buscá-las. Mas não possui faculdades paralelas para aquelas e para estas. Porque, quando quer se elevar acima da vida presente, logo fica principalmente convencido da sua imbecilidade. Portanto, para que o homem possa compreender melhor até que nível pode elevar-se nalgum tipo de conhecimento, devemos fazer uma distinção. 34. Coisas terrenas e coisas celestes E a distinção é que o entendimento das coisas terrenas é um, e o das coisas celes- tes é outro. Chamo terrenas as coisas que não chegam a tocar em Deus e em Seu Reino, nem na verdadeira justiça e na imortalidade da vida futura, mas estão ligadas à vida presente e quase encerradas sob os limites desta. Chamo celestes as coisas que constituem a norma e a razão da verdadeira justiça e os mistérios do Reino celestial. Sob a primeira espécie contam-se: a doutrina política, a maneira de governar bem a casa, as artes mecânicas, a filosofiaa e todas as disciplinas chamadasb liberais. À segunda pertencem o conhecimento de Deus e da Sua von- tade, e as normas pelas quais o homem pode conformar a sua vida à vontade de Deus. Quanto ao primeiro gênero, é preciso confessar que, sendo o homem por natureza amigo de companhia,c245 ele é também inclinado, por um afeto natural, a ter e manter sociedade. Por isso vemos que há algumas noções gerais de hones- tidade e de ordem civil impressas no entendimento de todos os homens. a b Acréscimos feitos em 1539. c sociale. Cf. Aristóteles: zw=on politiko/n. 244 Ec 3. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 245 Aristóteles, A Ética, I.7.6. e A Política, I.1.9. Do mesmo modo, G.W. Leibniz, Novos Ensaios, São Paulo, Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. XIX), III.1.1. p. 167. Em outro lugar, Calvino escreve: “O homem foi formado para ser um animal social.” [John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 1981 (Reprinted), Vol. I, (Gn 2.18), p. 128.] Ainda: “O homem é um animal social de natureza, consequentemente, propende por instinto natural a promover e conservar esta sociedade e, por isso, observamos que existem na mente de todos os homens impressões universais não só de uma certa probidade, como também de uma ordem civil.” (João Calvino, As Institutas, II.2.13.) NE.
  • 106. 106 As Institutas – Edição Especial 35. Ah! os que ao mal chamam bem e ao bem chamam mal! Disso decorre que não se encontra ninguém que não reconheça que todas as as- sembléias devem ser regidas por leis, e que exista algum princípio dessas leis no entendimento humano. Disso decorre o consentimento que sempre foi dado, tan- to pelos povos como pelas pessoas individuais no sentido de aceitarem leis, por- que existe em todos alguma semente que procede da natureza, sem mestre e sem legislador. Isso não negam as lutas e dissensões que de repente surgem, quando uns gostariam que todas as leisa fossem anuladas, toda honestidade fosse destruída e toda justiça fosse abolida, para governarem segundo a sua cupidez, segundo a sua cobiça, como ladrões e bandidos. Outros (o que é comum acontecer) acham que é iníquo o que um legislador ordena como justo e bom, e julgam bom o que para o legislador é mau. Os primeiros odeiam as leis, não porque ignoram que elas são boas e santas, mas porque, tomados e arrebatados por sua cobiça, como por enlouquecida pai- xão, combatem a razão, e aquilo que aprovam no entendimento detestam no co- ração, no qual impera a maldade. Os segundos, diversamente, não negam que todos os homens tenham essa primeira percepção. Sua oposição consiste em que- rer que as leis sejam melhores, o que é sinal de que eles concedem que existe alguma eqüidade. No que também se evidencia a debilidade do entendimento do homem, o qual, pensando estar seguindo o caminho reto, coxeia e vacila. Mas isto permanece firme sempre – que há em todos os homens uma semente da ordem política, o que é um grande argumento em prol desta verdade: Ninguém está destituído da luz da razão quanto ao governo da presente vida. No que se refere às artes mecânicas, como também às liberais, parece haver algum poder, quanto a esse aspecto, no entendimento humano.b Porque o fato de que nem todos somos aptos e idôneos para aprendê-las todas é uma indicação suficiente de que o entendimento humano não é destituído de poder nesse terre- no, visto que não se encontra ninguém que não tenha facilidade para aprender alguma delas. Melhor ainda, não se trata apenas da capacidade potencial e da facilidade para aprender, mas também vemos que cada um em sua arte muitas vezes inventa algo novo ou amplia e aperfeiçoa o que aprendeu de outros. 36. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra Se bem que, com respeito a isso, Platão tinha errado, entendendo que tal apercepção não passa de uma recordação do que a alma sabia antes de adentrar o corpo, a jus et faz omne inversum, soluta legum refragula. b Essa graça relativa à atividade terrena e social, comum aos fiéis e aos infiéis, recebeu o nome de “graça comum” na teologia calvinista posterior ao reformador. O objetivo da graça comum não é dirigir o homem rumo ao céu – papel que cabe a “graça particular” –, mas sim o de impedir a corrupção total, extensiva às faculdades do ser humano, impedir que essa corrupção se torne intensiva e as destrua completamente.
  • 107. 107 todavia, a razão nos constrange a confessar que há um princípio dessas coisas gravado naturalmente em todos os homens. Os exemplos acima dados nos mostram, pois, que há uma apercepção uni- versal da razão impressa naturalmente em todos os homens; e, não obstante, isso é tão universal que cada pessoa, por si mesma, por sua inteligência, deve reco- nhecer uma graça especial de Deus. A esse reconhecimento Deus nos exorta o bastante produzindo loucos e insensatos, pelos quais Ele mostra, como num es- pelho, qual seria a qualidade da alma humana, se não fosse esclarecida por Sua luz – luz que por Ele é dada naturalmente a todos como um benefício gratuito da Sua generosidade para com cada um dos seres humanos. A invenção das artes, a maneira de ensiná-las, a ordem doutrinária, o conhecimento singular e a excelên- cia deste, sendo coisas que vêm a pouca gente, não servem de argumento para provar que a engenhosidade não vem da natureza aos homens. Como, porém, são coisas comuns a bons e maus, podemos reputá-las como graças naturais. Portan- to, quando vemos em escritores pagãos essa admirável luz da verdade que transparece em suas obras, devemos estar advertidos de que a natureza do ho- mem, conquanto havendo perdido a sua integridade e se tornado grandemente corrupta, não deixa entretanto de ser ornada por muitos dons de Deus. 37. A única Fonte da verdade Se reconhecermos o Espírito de Deus como a única Fonte da verdade, não lutare- mos contra a verdade onde quer que ela apareça; caso contrário, estaremos ofen- dendo o Espírito de Deus. Porque não se pode falar mal dos dons do Espírito sem lançar desprezo e opróbrio sobre Ele.246 Pois bem, poderemos negar agora que os antigos jurisconsultos tiveram grande clareza de sabedoria e prudência quando estabeleceram uma ordem tão boa e uma políticaa tão eqüitativa? Diremos que os filósofos eram cegos, quan- do vemos que eles estudavam tão diligentemente os segredos da natureza e os descreveram com tanto engenho e arte em seus escritos? Diremos que os que nos ensinaram a arte de discutir, que é como se fala com a razão, não tinham nenhuma inteligência, nenhum entendimento? Diremos que os que inventaram a medicina eram insensatos? Quanto às demais disciplinasb , vamos considerá- las como loucuras? Muito ao contrário, não poderemos ler os livros escritos sobre todos esses assuntos sem nos maravilharmos. Pois nos maravilharemos, visto que seremos a disciplinam. b mathemata omnia. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 246 “Se reputamos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade mesma, onde quer que ela haja de aparecer, nem a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus.” (J. Calvino, As Institutas, II.2.15); “Visto que toda verdade procede de Deus, se algum ímpio disser algo verdadeiro, não devemos rejeitá-lo, porquanto o mesmo procede de Deus.” [J. Calvino, As Pastorais, (Tt 1.12), p. 318.] NE.
  • 108. 108 As Institutas – Edição Especial constrangidos a reconhecer a sabedoria e a prudência neles presentes. Pois bem, assim é que não devemos considerar coisa alguma como excelente e louvável sem reconhecer que procede de Deus. De outro modo, seria uma grande ingrati- dão nossa – ingratidão que não se vê nos poetas pagãos, que confessaram que a Filosofia, as Leis (o Direito), a Medicinaa e outras doutrinas são dons de Deus. Sendo, pois, assim, que as pessoas que não têm outro auxílio além da naturezab , e têm sido tão engenhosas no entendimento das coisas terrenas e infe- riores, tais exemplos devem instruir-nos sobre quanta graça o Senhor legou à natureza humana, tendo esta sido despojada do soberano bem.c Não nos devemos esquecer, porém, de que todas essas graças são dons do Espírito de Deus, os quais Ele distribui segundo Lhe parece bem, para benefício comum do gênero humano. Porque, se mal se pode avaliar quanta ciência e quanta arte foram dadas de ma- neira especial por Deus aos247 que construíram o Tabernáculo no deserto, não é de admirar que digamos que o conhecimento das principais coisas da vida humana nos é comunicado pelo Espírito de Deus. Se alguém levantar a objeção: Como pode o Espírito de Deus fazer algo de bom com os iníquos, tão distanciados de Deus? Respondo que esse argumento não é suficiente. Porque quando dizemos que o Espírito só habita nos fiéis, entenda-se o Espírito de santificação, pelo qual somos consagrados a Deus para sermos Seus templos. Entretanto, Deus não dei- xa de suprir, mover e vivificar, pelo poder do mesmo Espírito, todas as criaturas, e isso Ele faz de acordo com as qualidades próprias de cada uma, tais como por Ele lhes foram dadas na criação. Ora, se o Senhor quer que os iníquos nos pres- tem serviço para deles aprendermos a Física, a Dialéticad e outras disciplinas, devemos fazer uso deles, para que não suceda que a nossa negligência seja puni- 247 Bezalel e Aoliabe, Êx 31.1-11 e 35.30-35. Herman Bavinck (1854-1921) escreve de modo magistral, mostrando que a arte provém de Deus: “A arte também é um dom de Deus. Como o Senhor não é apenas verdade e santidade, mas também glória, e expande a beleza de Seu nome sobre todas as Suas obras, então é Ele, também, que, pelo Seu Espírito, equipa os artistas com sabedoria e entendimento e conhecimento em todo tipo de trabalhos manuais (Ex 31.3; 35.31). A arte é, portanto, em primeiro lugar, uma evidência da habilidade humana para criar. Essa habilidade é de caráter espiritual, e dá expressão aos seus profundos anseios, aos seus altos ideais, ao seu insaciável anseio pela harmonia. Além disso, a arte em todas as suas obras e formas projeta um mundo ideal diante de nós, no qual as discórdias de nossa existência na terra são substituídas por uma gratificante harmonia. Desta forma a beleza revela o que neste mundo caído tem sido obscurecido à sabedoria mas está descoberto aos olhos do artista. E por pintar diante de nós um quadro de uma outra e mais elevada realidade, a arte é um conforto para nossa vida, e levanta nossa alma da consterna- ção, e enche nosso coração de esperança e alegria.” (Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4ª ed. Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 1984, p. 21.) NE. a Falta em 1539. b quos scriptura yuxiko/ij vocat. De nature: quer dizer que não tinham sido regenerados. Como a graça comum, da qual eles se beneficiam, não faz outra coisa que conservar ou restabelecer as qualidades da natureza tais como eram antes da Queda, hoje se pode falar de uma ordem da natureza, de um direito natural, etc., após a Queda, apesar da origem sobrenatural da conservação ou da restauração das qualidades sobrenaturais. c Vê-se que a doutrina calvinista da “graça comum” fez da cultura intelectual e estética um dever religioso. É, pois, um erro falar, como se tem falado, da “barbárie primitiva” que o calvinismo teria repudiado, renunci- ando a seu princípio inicial e à sua força original. d 1539 acrescenta: mathematicis.
  • 109. 109 da, se desprezarmos os dons de Deus onde quer que os benefícios destes nos sejam oferecidos.248 Todavia, para que ninguém pense que o homem é muito feliz por conceder- mos que ele tem o grande poder de entender as coisas inferiores e existentes neste mundo corruptível, devemos igualmente notar que a faculdade de entendimento, e a de inteligência que se lhe segue, é coisa frívola e sem nenhuma importância perante Deus, quando lhe falta o firme fundamento da verdade. Porquanto, é bem verdadeira a sentença de Agostinho, que o Mestre das Sentenças sentiu-se cons- trangido a aprovar:249 que as graças ultranaturais dadas ao homem desde o princí- pio lhe são dadas após a sua queda em pecado, e assim também as graças naturais que nele subsistem foram corrompidas; não que tenham sido ou possam ter sido contaminadas quando e como procederam de Deus, pois foram entregues puras ao homem, sendo que depois ele se corrompeu. Por isso não se atribui ao homem nenhum louvor. 38. Tripé da sabedoria espiritual Resta-nos agora expor o que a razão humana pode ver em sua busca do Reino de Deus, e qual a sua capacidade de compreender a sabedoria espiritual, que consis- te em três coisas, a saber: conhecer a Deus; conhecer a Sua vontade; e saber como nos cabe regrar a nossa vida segundo a vontade de Deus. Quanto às duas primeiras, principalmente a segunda, os mais astutos de en- tendimento são mais cegos que os próprios cegosa . Não nego que se possa encon- trar nos livros de filosofia sentenças sobre Deus bem escritasb ; mas sempre se vê nelas tal inconstânciac que fica patente que não passam de imaginações confusas. É bem verdade que Deus lhes concedeu um pequeno sabor da Sua divindade, para que não pretendesssem que a sua ignorância desculpasse a sua impiedade, e os impulsiona um pouco a dizerem sentenças pelas quais poderiam ser persuadidos. Mas eles de tal modo só vêem o que querem ver, que isso não consegue levá-los à verdade. Tal é a situação que é necessário que eles sejam conduzidos ao verdadeiro conhecimento. Poderemos explicar isso por meio de analogiasd . Se um homem estiver no meioe de um campo numa noite completamente escura, um relâmpago o fará capaz de enxergar um grande espaço ao seu redor, mas essa claridade durará uma fração de tempo; assim, de nada lhe servirá para conduzi-lo pelo caminho a talpis. b scite et apposite dicta. c vertiginosam quandam imaginationem. d Frase acrescentada em 1541. e Picardismo (milieu). 248 “.... Se o Senhor nos quis deste modo ajudados pela obra e ministério dos ímpios na física, na dialética, na matemática e nas demais áreas do saber, façamos uso destas, para que não soframos o justo castigo de nossa displicência, se negligenciarmos as dádivas de Deus nelas graciosamente oferecidas.” (J. Calvino, As Institutas, II.2.16.) NE. 249 Lib. II, distinct. 25. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 110. 110 As Institutas – Edição Especial certo. Tão depressa se desvanece a claridade que, antes de ele poder pôr os olhos no caminho, é outra vez dominado pelas trevas; não há como chegar à casa. Mais que isso acontece com as pequenas gotas da verdade que vemos esparsas nos livros dos filósofos; por quantas horríveis mentiras são obscurecidas? Mas, como eu disse no segundo artigoa , a ignorância deles é que jamais tive- ram um mínimo que fosse de certeza da vontade de Deus, sem o que o entendimen- to fica tomado por espantosa confusão. Porque a razão humana nunca pode aproxi- mar, nem estender, nem acertar o seu objetivo – que é conhecer bem o Deus verda- deiro e que Ele quer estar entre nós. Mas, como uma falsa presunção nos deixa embriagados, e só com grande dificuldade podemos acreditar que a nossa razão é cega e insensível para entender as coisas de Deus, será melhor, ao que me parece, provar isso pelo testemunho da Escritura do que por argumentos da razão.250 O que nos é bem demonstrado pelo apóstolo João, quando afirma que desde o princípio a vida estava em Deus e que “a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”.251 Porque com estas palavras ele ensina que a alma do homem recebe um pouco da luz de Deus, de sorte que ela jamais fica destituída de alguma chama, ou ao menos de alguma centelha. Igual- mente, porém, ele observa que, mesmo com essa iluminação, ela não pode compre- ender Deus. Por quê? A razão disso é que todo o seu engenhob quanto ao conheci- mento de Deus é pura escuridão, porque, quando o Espírito Santo chama aos ho- mens trevas, Ele os despoja de toda a faculdade de inteligência espiritual.252 Por isso o apóstolo afirma que os crentes que recebem a Cristo não nascem nem do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas uni- camente de Deus; como se dissesse que a carne não é capaz de tão alta sabedoria como a de compreender Deus e o que a Deus pertence, a não ser que seja ilumi- nada pelo Espírito Santo.253 Como Jesus Cristo testifica ao apóstolo Pedro que a Frase acrescentada em 1541. 250 “Quanto tem avançado aquele homem que há aprendido a não pertencer-se a si mesmo, nem a ser governa- do por sua própria razão, senão que submete a sua mente a Deus!” [John Calvin, Golden Booklet of the True Christian Life, 6ª ed. Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, 1977, p. 21.] “O Evangelho não é uma doutrina de língua, senão de vida. Não pode assimilar-se somente por meio da razão e da memória, senão que chega a compreender-se de forma total quando ele possui toda a alma, e penetra no mais íntimo recesso do coração. (...) Os cristãos deveriam detestar aqueles que têm o Evangelho em seus lábios porém não em seus corações.” [John Calvin, Golden Booklet of the True Christian Life, p. 17.] NE. 251 Jo 1.4,5. 252 “O gênero humano, depois que foi arruinado pela queda de Adão, ficou não só privado de um estado tão distinto e honrado, e despojado de seu primevo domínio, mas está também mantido cativo sob uma degra- dante e ignominiosa escravidão.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.6), p. 171.] NE. 253 “Só quando Deus irradia em nós a luz de seu Espírito é que a Palavra logra produzir algum efeito. Daí a vocação interna, que só é eficaz no eleito e apropriada para ele, distingue-se da voz externa dos homens.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997, (Rm 10.16), p, 374.] A vocação eficaz do eleito, “não consiste somente na pregação da Palavra, senão também na iluminação do Espírito Santo.” (J. Calvino, As Institutas, III.24.2.) “O ensino interno e eficaz do Espírito é um tesouro que lhes pertence de forma peculiar. (...) Avoz de Deus, aliás, ressoa através do mundo inteiro; mas ela só penetra o coração dos santos, em favor de quem a salvação está ordenada.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.8), p. 229.] NE. b acumen.
  • 111. 111 foi por uma revelação espiritual de Deus que ele O pôde conhecer.254 Se tivésse- mos como coisa resolvida aquilo sobre o que não se deve ter dúvida, sendo certo que tudo quanto o nosso Senhor confere aos Seus eleitos pelo Espírito de regene- ração falta à nossa natureza, não teríamos nenhum motivo para vacilar nesta ques- tão. Porque o povo fiel fala desta maneira, pela boca do profeta:255 “Pois em ti está o manancial da vida; na tua luz, vemos a luz”. O apóstolo Paulo256 testifica que ninguém pode falar verdadeiramente de Cristo, senão pelo Espírito Santo. Igualmente João Batista, vendo a rudeza dos seus discípulos, exclama que nin- guém pode compreender ou receber coisa alguma se do céu não lhe for dada.257 Pois bem, por essa palavra referente a “dom”, que ele entende que se trata de uma revelação espiritual, e não de uma inteligência comum pertencente à natureza, fica evidente no que ele se queixa – de que os seus discípulos nada aproveitaram das muitas pregações que ele lhes havia feito acerca de Cristo. Vejo bem, diz ele, que as minhas palavras não terão nenhum poder de instruir os homens sobre as coisas divinas, se Deus não os instruir por Seu Espírito.258 Paralelamente, Moisés, censurando o esquecimento do povo, ao mesmo tempo observa que ele não pode entender os mistérios de Deus, a não ser que lhe seja dada a graça de Deus. “As grandes provas que os vossos olhos viram, os sinais e grandes maravilhas; porém o Senhor não vos deu coração (ou entendimento) para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir.”259 39. A grande limitação da luz da natureza Será que ele se expressaria melhor se os chamasse de broncos e incapazes de considerar as obras de Deus? Por essa razão o Senhor, mediante Seu profeta, prometeu aos israelitas que, por uma graça singular, lhes daria entendimento pelo qual O conheceriam, significando que o entendimento do homem não pode- rá ter melhor sabedoria ou prudência espiritual, a menos que seja iluminado por Ele.260 Mas o apóstolo Paulo fala mais claramente que todos os outros quando, tirando uma dedução deste assunto, conclui que “o homem natural não aceita as O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 254 Mt 16.17. 255 Sl 36.9. 256 1 Co 12.3. 257 Jo 3.27. 258 “A função peculiar do Espírito Santo consiste em gravar a Lei de Deus em nossos corações” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.8), p. 228.] É o Espírito Quem nos ensina através das Escrituras (Vd. As Institutas, I.9.3); esta é “a escola do Espírito Santo”. (J. Calvino, As Institutas, III.21.3. Vd. também, As Institutas, IV.17.36), que é a “escola de Cristo” [João Calvino, Efésios, (Ef 4.17), p. 133]; e, o Espírito é o “Mestre” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 1.16), p. 58]; “o melhor mestre” [João Calvino, As Institutas, IV.17.36. Calvino diz que quem rejeita o “magistério do Espírito”, é desvairado. (João Calvino, As Institutas, I.9.1]; é o “Mestre interior” [João Calvino, As Institutas, III.1.4; III.2.34; IV.14.9.] Portanto, “Se porventura desejamos lograr algum progresso na escola do Senhor, devemos antes renunciar nosso próprio entendimento e nossa própria vontade” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.3), p. 100.] NE. 259 Dt 29.3,4. 260 Hiér. 24. [Jerônimo.]
  • 112. 112 As Institutas – Edição Especial cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura” (ou, na versão utilizada no original: “o homem sensual não pode compreender as coisas que são do Espírito, que lhe são loucura”),261 e não as pode entender.a Que homem é esse que ele chama sensualb ? É o que se baseia na luz da natureza.262 Eis, pois, como se demonstra que o homem não pode conhecer naturalmen- te as coisas espirituais. Se lhe é pedida a razão delas, não consegue dá-la, não somente porque as negligencia, mas falha mesmo quando se esforça ao máximo, porque lhe falta discerni-las espiritualmente (diz o apóstolo Paulo).c Com isso ele quer dizer que, estando ocultas à inteligência humana, são postas às claras pela revelação do Espírito, a tal ponto que toda a sabedoria de Deus é loucura para o homem, enquanto ele não for iluminado pela graça.263 Ora, o apóstolo Paulod antes havia elevado, acima da vista, do ouvido e da capacidade do nosso entendi- mento, o conhecimento das coisas que Deus preparou para os Seus servos, e até havia testificado que a sapiência humana é como um véu que nos impede de contemplar a Deus. Que mais desejamos? O apóstolo sentencia que a sapiência do mundo seja considerada loucura, como na verdade o quis Deus. E nóse lhe vamos atribuir uma astúcia, uma sutileza capaz de chegar a Deus e de penetrar todos os segredos do Seu Reino? Que essa alucinação esteja longe de nós! 40. Como regrar a nossa vida Resta-nos falar do terceiro membro do tripé, qual seja, o de conhecer a regra pela qual devemos ordenar bem a nossa vida, isto é, pela qual se conhece a verdadeira justiça das obras, em que parece evidente que o entendimento tem alguma sutile- za superior à que se relaciona com as coisas acima citadas. Porque o apóstolo264 dá testemunho no sentido de que, quando “os gentios, que não têm lei, proce- dem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coraçãof , testemu- nhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusan- do-se ou defendendo-se” diante do juízo de Deus, naquilo que eles fazem. Ora, se 261 1Co 2.14. a Acréscimo feito em 1529. b animal. 262 “Uma vez que o espiritual se refere à pessoa cuja mente é orientada pela iluminação do Espírito, não há dúvida de que o natural signifique a pessoa entregue simplesmente aos dons naturais, como são chamados. Pois a alma se acha estreitamente ligada à natureza, mas o Espírito flui de um dom sobrenatural.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.14), p. 92.] NE. c Acréscimo feitos em 1539. 263 Vd. João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.14), pp. 93-94. NE. d Acréscimo feitos em 1539. e A margem de 1539 diz: Pri. tract. de fide. (Ignoramos se Pri. significa primo, priore, ou se é a primeira sílaba do nome de um autor.) 264 Rm 2.14-16. f Cf. 1536, p. 46: Ne ignorantes homines essent, legem in omnium cordibus Dominus inscripsit et quasi impressit. Hæc vero non aliud est quam conscientia, quæ nobis intus testis sit eorum quæ Deo debemus, nobisque quid bonum sit, quid malum, proponat.
  • 113. 113 os gentios têm a justiça de Deus naturalmente impressa em seu espíritoa , não diremos que eles são totalmente cegos, quanto a saberem como se deve viver. De fato é coisa vulgarmente sabida que o homem tem suficiente instrução sobre a justa regra do bem viver por essa lei natural de que o apóstolo fala. Toda- via, precisamos considerar a finalidade para a qual esse conhecimento da Lei foi dado aos homens, e então se verá até que ponto ele nos pode dirigir à meta da razão e da verdade. Isso nos poderá tornar-se notório pelas palavras do apóstolo Paulo, se considerarmos o processo seguido na formulação da passagem. Ele tinha dito pouco antes que “todos os que pecaram sem lei também sem lei perece- rão; e todos os que com lei pecaram mediante lei serão julgados”.265 41. A lei natural ajuda e condena Visto que o último ponto não parece nem um pouco razoável, qual seja, que as pobres pessoas ignorantes, sem terem nenhuma luz da verdade, pereçam sem apelação, ele acrescenta que a sua consciência lhes pode servir de lei e, por sua vez, é suficiente para condená-las com justiça. Portanto, o fim da lei natural é deixar o homem sem desculpa. E assim a podemos definir apropriadamente: A lei natural é um sentido da consciência pelo qual ela discerne suficientemente o bem e o mal, para despir o homem de sua protetora capa de ignorância, ao mes- mo tempo em que ela é censurada por seu próprio testemunho. Há no homem uma tal inclinação para iludir-se e gabar-se que sempre se mostra com forte dis- posição para desviar a sua mente do reconhecimento do seu pecado. O que, pare- ce-me, levou Platão (427-347 a.C.) a dizer266 “que só pecamos por ignorância”. Até que isso passaria, se a hipocrisia do homem, ao esconder os seus vícios e erros, pudesse fazer com que a consciência não fosse por isso mesmo perseguida pelo juízo de Deus. Sendo, porém, assim, que o pecador, recusando o discernimento do bem e do mal que há em seu coração, isso lhe é arrancado à força, mais cedo ou mais tarde, de tal maneira que mal fecha os olhos, logo é constrangido, que- rendo ou não, a abri-los – fica evidente que é uma falsidade dizer que só se peca por ignorância. Temístio (outro filósofob [e retórico, c. 320-390 A.D.]) falou a pura verdade267 quando ensinou que o entendimento do homem pouco erra quan- do faz considerações geraisc , mas se engana quando considera particularmente o que concerne à sua pessoad . a Cf. 1536, p. 46 (nota anterior). O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 265 Rm 2.12. 266 In Protagora. b Themistius, comentador de Aristóteles, é citado acima. Suas paráfrases foram impressas pela primeira vez em 1480. 267 Paraph. in 3 de aia., cap. XLVI. c in definitione universali, seu rei essentia. d A primeira edição, toda em grego, dos Discursos de Themistius, acabava de ser publicada em Veneza, em 1534, com os Comentários sobre Aristóteles, quando Calvino redigia a Instituição (as Institutas).
  • 114. 114 As Institutas – Edição Especial Exemplos: Se for feita uma pesquisa geral para ver se o homicídio é mau, não haverá quem não responda que é. Todavia, quem maquina a morte do seu inimigo julga que isso é bom. Paralelamente, um adúltero condenará a corrupção moral em termos gerais, mas se gabará das suas pecaminosas práticas sexuais. Aqui está, pois, em que consiste a ignorância – quando, após haver estabelecido um bom juízo universala , o homem se vê envolvido pessoalmente, esquece a re- gra que seguia anteriormenteb , e não se leva em conta a si próprio para julgamen- to. Desse assuntoAgostinho trata muito bem, na exposição do Salmo 57.268 O que disse Temístio não é universal. Porque algumas vezes a torpeza da maldade força tanto a consciência do pecador que ele não cai por deixar-se levar pela falsa imaginação de que o que pretende fazer é moralmente bom, mas porque se entre- ga ao mal consciente e voluntariamente. Dessa inclinação falam as sentenças que vemos nos livros dos pagãos:c “Vejo o melhor e o aprovo, mas não deixo de seguir o pior,269 e outras semelhantesd . Para eliminar toda e qualquer dúvida sobre essa questão, há uma boa distinção em Aristóteles (384-322 a.C.) entre a incontinência e a intemperança.270 “Onde impera a incontinência”, diz ele, “o entendimento do bem e do mal é extirpado do homem por sua concupiscência desordenadae , en- quanto que ele não reconhece em seu pecado o mal que geralmente condena em todos os outros; mas quando a cupidez não o cega mais, o arrependimento lhe toma o lugar e o leva a reconhecer o seu pecado. A intemperança é uma doença mais perigosa: é quando o homem, vendo que está praticando o mal, não desistef , mas continua obstinadamente em seu mau desejo”. 42. Um padrão da justiça perfeita Pois bem, sabedores de que existe um juízo universal no homem que o habilita a discernir o bem e o mal, não é necessário verificar se ele é totalmente são e completo. Porque, se o seu entendimento tem o discernimento do bem e do mal somente quanto às coisas das quais ele não pode alegar ignorância, não há neces- sidade de que a verdade lhe seja notória em cada ponto, mas é suficiente que a conheça ao ponto de não poder ficar com evasivas sem estar convencido pelo testemunho da consciência. E, de fato, se quisermos examinar que entendimento da justiça temos segundo a Lei de Deus, a qual é um padrãog da justiça perfeita, a ubi ad hypothesim ventum est. b in thesi. 268 Santo Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo, Paulus, (Patrística, 9/2), 1997, pp. 136-169. NE. c Proposição que faltam em 1539. 269 Medæa apud Ovid. d Proposição que faltam em 1539. 270 Lib. Ethic. 7, cap. III. [Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo, Abril Cultura, (Os Pensadores, Vol. IV), 1973, III.7. p. 359-361.] e Seu pa/qoj. f non extingui aut frangi. g exemplar.
  • 115. 115 veremos de quantas maneiras esse entendimento é cego. Certamente ele nada sabe dos princípios mais importantes da Primeira Tábuaa , como os de pôr em Deus a nossa confiança, dar-lhe o louvor por Seu poder e Sua justiça, invocar o Seu Nome e observar o Seu descanso.271 Qual entendimento humano será que, por seu sentido natural, não digo apenas que alguma vez tenha conhecido, mas que alguma vez tenha sequer imaginado, que a verdadeira honra e o real serviçob a Deus consistem nessas coisas? Pois, quando os ímpios querem honrar a Deus, ainda que os afastemos mil vezes das suas loucas fantasias, sempre recaem, e não há como persuadi-los de que não há outro serviço agradável a Deus, senão o espiritual. Poderemos louvar um entendimento que por si mesmo não pode ouvir e compreender boas advertências? Ora, o entendimento está nessas condições; vemos, pois, que ele é totalmente insensato e insensível.c Quanto aos preceitos da Segunda Tábua,272 há um pouco mais de compreen- são, visto que os mandamentos nela contidos abordam mais de perto a vida hu- mana e civil; mas, também nessa parte por vezes o entendimento humano falha muito. Aos mais excelentes espíritos parece absurdo tolerar uma superioridade muito insensata e insensível, sendo possível repudiá-la de algum modo. E nisso não pode haver outro julgamento ocorrido na razão humana, senão o de levar o coração decaído e fraco a mostrar persistentemente essa superioridade, ao invés de repudiá-la e sujeitá-la convenientemente e com virilidade. Ao contrário, o Senhor, condenando essa altivez exagerada do coração, ordena aos Seus que te- nham a paciência humilde que os homens condenam e reprovam com veemência. Mais fortemente ainda, o nosso entendimento é tão cego nesses pontos da Lei de Deus que nem sequer reconhece o mal da sua concupiscência. Pois o homem sensuald não pode ser induzido a reconhecer a sua enfermidade interior; e, antes de chegar à entrada do seu abismo, a luz da sua natureza é sufocada.273 Note-se que quando os filósofos falam dos movimentos ou motivos imoderados do nosso coração, referem-se aos que aparecem mediante sinais visíveis. Quanto aos desejos malignos que incitam mais secretamente o coração, para eles nada significam. Por isso, como já acima Platão foi condenado por imputar todos os a Isto é, a primeira parte do Decálogo (explicada pouco depois, no cap. III). 271 Êx 20.8-11. 273 A razão estigmatizada pelo pecado, que se mostra tão eficaz nas coisas naturais, perde-se diante do mistério de Deus revelado em Cristo e, também diante da Revelação geral na Natureza: “As mentes humanas são cegas a essa luz, a qual resplandece em todas as coisas criadas, até que sejam iluminadas pelo Espírito de Deus e comecem a compreender, pela fé, que jamais poderão entendê-lo de outra forma.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, Sâo Paulo, Paracletos, 1997, (Hb 11.3), p. 299.] NE. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 272 Êx 20.12-17. b cultum. c Conclusão acrescentada em 1539. 2. Pouco adiante, cap. III (5º. mandamento). d O “homem sensual” não considera pecados os maus desejos que se insinuam secretamente. Completamente diferente é o pensamento de Calvino. Para ele, o domínio do pecado se estende para além da zona de direção central pela vontade deliberada. A concupiscência já é pecado. O pecado é um gênero do qual a falta moral de que falam os filósofos é apenas uma espécie. Esse é o ponto de vista do 10º. mandamento: “Não cobiçarás”.
  • 116. 116 As Institutas – Edição Especial pecados à ignorância, assim também precisamos rejeitar a opinião daqueles que pensam que em todos os pecados há uma deliberada malícia. Porque já experi- mentamos muito mais do que o necessário quantas vezes falhamos apesar da nossa boa intenção. Pois a nossa razão e o nosso entendimento estão envolvidos em tantos aspectos da ignorância, estão sujeitos a tantos erros, tropeçam em tan- tos obstáculos e tantas vezes são abatidos pela perplexidade, que muito longe estão de poder dirigir-nos bem. Certamente o apóstolo Paulo274 mostra quanto o nosso entendimento é inseguro e incapaz de nos conduzir em nosso caminho, quando declara que “por nós mesmos” não somos “capazes de pensar alguma cousa, como se partisse de nós”. Ele não está falando da vontade ou dos afetos, mas nos despoja do que de bom nos possa vir do entendimento. Como é isso então, dirá alguém, que toda a nossa indústria e a nossa sabedoria, o nosso conhe- cimento e a nossa solicitude são tão depravados que nada de bom podemos fazer nem pensar diante de Deus? Confesso que nos parece muito duro e que muito nos entristece sermos despojados da prudência e da sabedoria, que julgamos consti- tuírem as nossas qualidades mais excelentes. Mas isso parece justo ao Espírito Santo, que sabe que todas as cogitações do mundo são vãs e que sentencia clara- mente que tudo o que o coração produz é mau.275 Se tudo o que o nosso entendi- mento concebe, agita, delibera e maquina é sempre maua , como poderia o pensa- mento ocupar-se de coisas que agradam a Deus, a Quem não há nada que agrade, senão a justiça e a santidade? Pode-se ver, pois, que a razão, pertencente ao nosso entendimento, de qualquer lado para o qual se volte está pura e simplesmente sujeita à vaidade. Isso Davi reconhecia pessoalmente, declarando que o entendi- mento lhe foi dado por Deus para ele poder aprender os Seus preceitos.276 Porque, aquele que deseja um novo entendimento [ou um novo espírito] dá a entender que o seu não é suficiente. Pois bem, Agostinho conhecia de tal modo a incapacidade da nossa razão de entender as coisas de Deus que ele confessa que a graça e a iluminação do Espírito Santo são tão necessários ao nosso entendimento como a claridade do sol aos nossos olhos.277 Ainda não contente com o que disse, acrescentab que “nós abrimos bem os nossos olhos corporais para recebermos luz, mas os olhos do nosso entendimento permanecem fechados, a não ser que o Senhor os abra”.278 274 2 Co 3.5. 275 Gn 6 e seguintes. a A confissão de pecados, que remonta à liturgia calvinista de Estrasburgo (1538), diz: “Sendo nós incapazes por nós mesmos de fazer o bem”, etc. 276 Sl 129 [Sl 51.10-13]. 277 Lib. II de peccato. mor. remiss., cap. II. b correctionem. 278 “O ensino interno e eficaz do Espírito é um tesouro que lhes pertence de forma peculiar. (...) A voz de Deus, aliás, ressoa através do mundo inteiro; mas ela só penetra o coração dos santos, em favor de quem a salvação está ordenada.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.8), p. 229.] NE.
  • 117. 117 43. A vontade e a liberdade Devemos examinar agora a vontade, que inclui a liberdade, se é que existe algu- ma liberdade no homema .279 Vimos que a ação de escolher ou decidir pertence mais à vontade que ao entendimentob . Quanto a este, para que não pareça que o que os filósofos disseram e que é aceito geralmente serve para aprovar qualquer coisa boa e reta que haja na vontade humana, sempre desejando naturalmente o bem, precisamos notar que o poder do livre arbítrio não deve ser considerado como um apetite ou desejo, o qual procede mais da inclinação da naturezac que de alguma deliberação da mente. Os próprios teólogos escolásticos confessam que não há nenhuma ação do livre arbítrio senão somente quando a razão consi- dera um ou outro lado. Por essa sentença ou pronunciamento eles entendem que o objetivo do apetite ou desejo deve ser tal que esteja subordinado à escolha. E a deliberação deve preceder a isso, para dar lugar à escolha. Se de fato avaliarmos que desejo do bem existe no homem, descobrire- mos que esse desejo é comum a ele e aos animais irracionais. Porque estes desejam tudo o que lhes dê algum proveito, e, quando há alguma aparência de coisa boa, eles vão em sua busca. Ora, o homem, em seu apetite natural, não discerne pela razão, conforme a excelência da sua natureza imortal, o que deve buscar, e não o considera mediante o exercício da verdadeira prudência. Mas, sem a razão e sem o seu conselho, ele segue o movimento ou os motivos da sua natureza como os animais.d Portanto, esse processo não está ligado ao livre arbítrio, isto é, que o homem seja incitado por um sentido natural a desejar o bem. Mas é preciso que ele o distinga pela reta razão, sabendo o que escolher, e, tendo-o escolhido, que o busque.280 a Em 1524 tinha saído à luz a obra De libero arbitrio, de Erasmo, e em 1525, De servo arbitrio, de Lutero. b intellectum. c essentiæ. d instar pecudis. 279 “A pena me acompanha, porque me deste livre-arbítrio. Se, pois, não me tivésseis dado o livre-arbítrio, e desta forma não me tivesses feito melhor do que os animais, não sofreria justa condenação ao pecar. Então, pelo livre-arbítrio me elevaste, e por justo juízo me derrubaste.” [Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo, Paulus, (Patrística, 9/3), 1998, (Sl (102)101.11), Vol. III, p. 22.] NE. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 280 “Os filósofos pagãos põem a razão como o único guia da vida, da sabedoria e da conduta, porém a filosofia cristã nos requer que rendamos nossa razão ao Espírito Santo, o que significa que já não vivemos para nós mesmos, mas que Cristo vive e reina em nosso ser. (Rm 4.23; Gl 2.20.)” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo, Novo Século, 2000, p. 30.) Calvino orienta e adverte àqueles que querem discutir com Deus, limitando-O ao seu raciocínio: “Ponderem, por uns instantes, aqueles a quem isto se afigura áspero, quão tolerável lhes seja a impertinência, quando, porque lhes excede a compreensão, rejeitam matéria atestada de claros testemunhos da Escritura e inquinam de vício o serem a público trazidas cousas que, a não ser que houvesse reconhecido serem proveitosas de conhecer-se, Deus jamais haveria ordenado fossem ensinadas através de Seus Profetas e Apóstolos. Ora, nosso saber não deve ser outra cousa senão abraçar com branda docilidade e, certamente, sem restrição, tudo quanto foi ensinado nas Sagradas Escrituras.” (João Calvino, As Institutas, I.18.4.) NE.
  • 118. 118 As Institutas – Edição Especial 44. Dois erros E, com o fim de eliminar toda dificuldade, devemos notar que nessa questão há dois pontos em que se comete engano. Porque, como se diz comumente, o apetite ou desejo não está ligado propriamente ao movimento ou à motivação da vonta- de, mas a uma inclinação natural. Segundo, o que se tem por bem não está ligado à justiça e à virtude, mas ao fato de que todas as criaturas desejam comodidade, conforme o que a sua natureza traz.a Sendo, pois, assim, que o desejo natural não tem nenhuma importância, para provarmos que não há liberdade no homem, e, sim, nada mais que a inclina- ção que têm todas as criaturas insensatas e insensíveisb de buscar a perfeição da sua natureza, o que não serve de nada para mostrar a existência de alguma liber- dade, consideremos agora outras coisas – se a liberdade do homem é tão comple- tamente corrompida e viciada que só pode gerar o mal, ou se há nela alguma parte íntegra, da qual procedem bons desejos. Os que atribuem à primeira a graça de Deus para podermos exercer eficazmente a vontade, parecem querer dizer com suas palavras que existe na alma uma faculdade que a habilita a aspirar voluntariamente ao bem, mas que ela é tão imbecil que não pode chegar a uma firme disposição para incentivar o homem a esforçar-se. Não há dúvida de que os escolásticos concordavam com a opinião de Orígenes e de alguns outros antigos, visto que, quando consideravam o homem em sua natureza e nada mais, descreviam-no conforme as palavras do apóstolo Paulo, no capítulo sete de Romanos:281 “Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço; pois o querer está em mim; não, porém, o efetuá-loc ”. Ora, dessa maneira eles perverteram toda a discussão empreendida pelo apóstolo Paulo nessa passagem. Porque ali Paulo trata da luta cristãd ,282 da qual ele fala mais resumidamente quando se dirige aos gálatas: que os fiéis sentem perpetua- mente em si um conflito entre o Espírito e a carne.283 O Espírito não recebido da natureza, mas pela regeneração. Que ele fala dos regenerados se vê do fato de que, tendo dito que nele não habita bem algum, acrescenta na exposição que isto se refere à sua carne e, portanto, nega que seja ele que pratica o mal, afirmando que é o pecado que nele habita que o pratica. Que significa, “em mim, isto é, na minha carne”? Certamente é o mesmo que dissesse: Não habita nenhum bem em mim que venha de mim mesmo, visto que eu não saberia encontrar coisa alguma em minha carne. Daí decorre esta a sed conditionis, ut scilicet homo bene habeat. b metallis et lapidibus. 281 Rm 7.18-25. c A tradução não é nem de Lefèvre nem de Olivetan (1535). d A interpretação dada aqui por Calvino da célebre passagem da Epístola aos Romanos veio a ser clássica na teologia calvinista. 282 “Paulo nos ensina que os crentes jamais alcançam a meta da justiça enquanto habitam a carne, senão que prossegui- rão em seu curso até despirem-se do corpo.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 5.25), p. 255.] NE. 283 Gl 5.17. (João Calvino, Gálatas, São Paulo, Paracletos, 1998.)
  • 119. 119 espécie de escusa: “Não sou eu quem o faz [quem faz o mal], e sim o pecado que habita em mim”. De falar assim só têm direito os fiéis, os crentes, que se esfor- çam do fundo da alma para praticar o bem. Com maior força e razão, a conclusão que se segue demonstra isso claramente: “No tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus”, diz ele; “mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente (ou do meu entendimento), me faz prisi- oneiro da lei do pecado que está nos meus membros”. Quem teria um tal conflito interior, senão aquele que, tendo sido regenera- do pelo Espírito de Deus, sempre traz consigo restos da sua carne? Por issoAgos- tinho, tendo tomado erroneamente essa passagem sobre a natureza do homem, retratou-se depois, repudiando a sua exposição como falsa e imprópria. E de fato, se concedermos que, sem a graça de Deus, o homem tem a menor motivação do mundo para a busca e a prática do bem, que responderemos ao apóstolo, o qual nega que sequer somos capazes de pensar em qualquer forma do bem? Que res- ponderemos ao Senhor, que, por meio de Moisés,284 denuncia que tudo o que o coração humano produz é inteiramente perverso? Pois, uma vez que os tais mes- tres são enganados pelo entendimento errado de uma passagem, não temos ne- cessidade de sentir-nos detidos pela fantasia deles. Antes, devemos acolher o que disse Cristo, que “todo o que comete pecado é escravo do pecado.285 Ora, como todos nós somos pecadores por natureza, segue-se que estamos sob o jugo do pecado. E mais, se todos os homens estão presos à servidão do pecado, é necessá- rio que a vontade, que é a principal parte da constituição do seu ser, seja apertada e amarrada com laços firmes. Todavia, o homem só poderá ser bem conhecido em suas diversas partes constitutivas quando lhe tivermos dado os títulos com os quais a Escritura o adorna. Se todo homem nos é descrito por estas palavras do Senhor,286 “o que é nascido da carne é carne”, como é fácil comprovar, fica patente que ele é uma criatura miserá- vel. Porque o pendor da carne dá para a morte (ou, literalmente, toda a inclinação da carne é morte), testemunha o apóstolo,287 visto que é inimizade contra Deus, porquanto ela não se sujeita nem pode sujeitar-se à Lei de Deus. Se a carne é tão perversa que toda a sua inclinação a leva a exercer “inimizade contra Deus”;288 se O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 284 Gn 8.21. 285 Jo 8.34. 286 Jo 3.6. 287 [Rm 8.6.] Paulo “prova por meio do contraste que aqueles que permanecem na carne não podem ser participantes da graça de Cristo, pois ao longo de todo o curso de sua vida não fazem outra coisa senão precipitar-se para a morte” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.6), p. 266.] 288 Rm 8.7. “Ele adiciona uma prova da proposição que oferecera, ou seja: nada, senão a morte, procede dos labores de nossa carne, visto que os mesmos são hostis à vontade de Deus. Ora, a vontade de Deus é a norma da justiça. Segue-se que tudo quanto seja contrário a ela é injusto; e se é injusto, também traz, ao mesmo tempo, a morte. Contemplamos a vida em vão, caso Deus nos seja contrário e hostil, pois a morte, que é a vingança da ira divina, deve necessariamente seguir de imediato a ira divina. “Observemos aqui que a vontade humana é em todos os aspectos oposta à vontade divina, pois assim como há uma grande diferença entre nós e Deus, também deve haver entre a depravação e a retidão.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.7), pp. 266-267.]
  • 120. 120 As Institutas – Edição Especial ela não pode consentir com a justiça divina; em suma, se ela não pode produzir coisa alguma senão morte, agora, sendo pressuposto que na natureza humana não há outra coisa que não seja carne, como poderemos tirar dela sequer uma gota de bem?289 Mas (dirá alguém), esse vocábulo só se refere ao homem sensual ou carnal, e não se relaciona com a parte superior da alma. Respondo que se pode refutar facilmente isso citando palavras de Cristo e do apóstolo. O argumento do Senhor é que “importa-vos nascer de novo”,290 ou, é necessário que o homem nasça de novo, porque é carne. Não se trata de novo nascimento segundo o corpo. Ora, não se vai dizer que a alma renasce quando alguma parte dela é corrigida, mas, sim, quando é totalmente renovada. O que é confirmado pela comparaçãoa feita tanto por Cristo como pelo apóstolo Paulo, porque na comparação do Espírito com a carne, esta fica sem nada. Assim, por essa mesma razão, o que não é espiritual no homem é carnal. Ora, desse espírito, dessa qualidade espiritual, não temos uma só gotab , a não ser pela regeneração. Portanto, tudo o que temos por natureza é carne. 45. Que existe no homem, senão vaidade? Não vou citar particularmente tudo o que foi dito sobre a vaidade do homem, tanto por Davic como por todos os profetas. Mas é importante o que lemos num Salmo, que “pesados em balança, eles (os homens) juntos são mais leves que a vaidade”.291 É uma grande condenação do seu entendimento, signifi- cando que todas as cogitações que dele procedem são ridicularizadas como tolas, frívolas, violentas e perversas. Não menor condenação é feita ao cora- ção, quando é dito que ele está “cheio de fraudes e de perversidade, mais que todas as coisas.292 Mas, como o meu estudo deve ser breve, ficarei satisfeito em mostrar uma passagem que será como um espelho bastante nítido para nos fazer contemplar a imagem completa da nossa natureza. Pois, quando o apóstolo quer abater a arrogância do gênero humano, ele faz uso destes teste- munhos:293 “Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer;294 a garganta deles é sepulcro aberto; com a língua urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios,295 a boca, eles 289 “Os desejos que agitam o homem carnal são como ondas impetuosas que se chocam umas contra as outras, arremessando o homem de um lado para outro, de modo tal que ele muda e vacila a todo instante. Todos quantos se entregam aos desejos carnais experimentam tal desassossego, porque não existe estabilidade senão no temor de Deus.” [J. Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 3.3), p. 344.] NE. 290 Jo 3.7. a antithesis. b Falta em 1539. c in psalmis. 291 Sl 62.9. 292 Hier. 17 [Jerônimo]. 293 Rm 3.10-18. 294 Sl 14.1-3. 295 Sl 5.9 e 140.3.
  • 121. 121 a têm cheia de maldiçãoa e de amargura;296 são os seus pés velozes para derra- mar sangue, nos seus caminhos há destruição e miséria, desconheceram o cami- nho da paz.297 Não há temor de Deus diante de seus olhos”.298 Com essas palavras rigorosas ele não fulmina apenas alguns homens, mas toda a linhagem de Adão, e não censura os costumes corrompidos de alguma época, mas acusa a corrupção perpétua da nossa natureza. Porque, na passagem acima citada, a sua intenção não é tão-somente repreender os homens a fim de que se corrijam, mas, antes, ensinar que todos os homens, do primeiro ao último, estão envolvidos em tão grave calamidade que dela não podem sair, a menos que a misericórdia de Deus os livre.299 Uma vez que isso não se pode provar pelo que se vê, pois não parece que a nossa natureza tenha caído em tão ruinosa desgraça, Paulo cita aqueles testemunhos, pelos quais mostra que a nossa natureza está mais que perdida. Vamos dar por resolvido, pois, que os homens não são como Paulo os descreve apenas pela perversão dos costumes, mas também por uma perversidade naturalb , porque, de outro modo, o argumento dele não teria consistência.300 Assim é, para mostrar que não temos salvação, a não ser pela misericórdia de Deus, visto que, deixado a si mesmo, todo homem está perdido e arruinado.301 Não me causa pre- ocupação aplicar os testemunhos citados como próprios do apóstolo Paulo, por- que tomo aquelas sentenças como tendo sido primeiramente ditas por ele, e não como citadas dos profetas. Primeiro, ele despoja o homem da justiça, isto é, da integridade e da pureza, depois, da inteligência, à qual segue-se a indicação do sentido: que todos os homens se desviaram de Deus, sendo que buscá-lo é o primeiro nível da sabedoria. Seguem-se então os frutos da infidelidade: que to- dos decaíram e se tornaram dissolutos a tal ponto que “não há quem faça o bem”.302 296 Sl 10.7. 297 Is 59.7,8. 298 Sl 36.1. 299 No Salmo 51, Davi reconhece que o pecado não era algo acidental; não era algo periférico antes, ele, como todos nós, nascemos em pecado; o pecado jaz dentro de nós. “Davi não culpa a seus pais, nem traça seu crime até chegar a eles, mas senta-se diante do tribunal divino, confessa que fora formado em pecado, e que era um transgressor nato, assim que viu a luz deste mundo.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431.] NE. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a maledictione. 300 “O gênero humano, depois que foi arruinado pela queda de Adão, ficou não só privado de um estado tão distinto e honrado, e despojado de seu primevo domínio, mas está também mantido cativo sob uma degra- dante e ignominiosa escravidão.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.6), p. 171.] NE. 301 “Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericór- dia gratuita de Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 6.4), pp. 128-129.] NE. 302 “.... a causa do pecado, as raízes do qual sempre residem no próprio pecador; não têm sua origem em Deus, pois resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim o teu socorro” [Os 13.9].” [João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997, (Rm 1.24), p. 71.] “Lembremo-nos de que nossa ruína se deve imputar à depravação de nossa natureza, não à natureza em si, em sua condição original, para que não lhe lancemos a acusação contra o próprio Deus, autor dessa natureza.” (As Institutas, II.1.10.) NE. b Natural, aqui hereditário, inato. É preciso notar que, segundo Calvino, essas disposições não eram resultado de algum constrangimento, e, sendo espontâneas, o homem, tendo perdido o seu livre arbítrio, mantém, contudo, o que hoje chamaríamos sua liberdade formal. E, portanto, continua responsável.
  • 122. 122 As Institutas – Edição Especial E, ainda mais, há no homem maldades de todo tipo, maldades que contaminam todas as partes do corpo, o qual transborda injustiça. Finalmente, ele testifica que os homens não têm “temor de Deus”, sendo que o temor de Deus deveria servir de regra para nos conduzir em todos os nossos caminhos. Se são essas as riquezas hereditárias do gênero humano, em vão se buscará algum bem em nossa nature- za. Reconheço que nem todas essas maldades aparecem em cada ser humano, mas ninguém pode negar que cada ser humano encerra em si a semente do mal.a Ora, como um corpo já marcado pela presença da causa e das características de uma enfermidade nele oculta não será considerado são, embora a doença ainda não se mostre e o enfermo ainda não sinta nenhuma dor, assim a alma não será reputada sã, tendo em si tais manchas.303 Certo é que a figura não é de todo própria, porque qualquer mal que haja no corpo não o impede de reter o vigor da vida; mas a alma, submersa como está no abismo da iniqüidade, não somente é defeituosa e má, mas também é vazia de todo bem. 46. Explicando a presença da bondade humana Levanta-se uma questão um tanto parecida com a que foi resolvida acima. É que, em todos os séculos tem havido alguns que, em sua conduta e por sua índole, durante toda a sua vida têm aspirado à virtude, e mesmo quando se encontre muita coisa que merece reparo em seus costumes, o seu apego à honestidade mostra alguma pureza da sua natureza. Explicaremos mais amplamente que va- lor têm tais virtudes para Deus, quando tratarmos do mérito das obras.b Todavia, é bom dizer no presente o que será necessário para a matéria que temos em mãos. Os exemplos nos advertem de que não devemos considerar a natureza humana como totalmente viciosa e má, visto que, por sua inclinação, alguns não somente têm praticado muitas ações excelentes, mas também se têm portado com hones- tidade durante todo o curso da sua vida. Cabe-nos, porém, considerar que, na corrupção universal de que falamos, a graça de Deus tem seu lugar, não para corrigir a perversidade da natureza, mas para reprimi-la e restringi-la no íntimo. Porque, se Deus permitisse que todos os homens seguissem a sua concupiscência a rédeas soltas, não haveria ninguém que não demonstrasse experimentalmente que todos os males (pelos quais o apóstolo condena a natureza humana) estão em todos eles. Porque, quem será que se poderia separar do comum dos homens? O que seria necessário fazer, caso alguém quisesse eximir-se daquilo que o apósto- lo Paulo disse de todos, a saber,304 que “os seus pés são velozes para derramar 303 “Quanto trazemos ainda conosco de nossa carne é algo que não podemos ignorar, pois ainda que a nossa habitação está no céu, todavia somos ainda peregrinos na terra.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo, Paracletos, 1997, (13.14), p. 462.] NE. a hydra ista in singulorum pectoribus lateat. b Mais adiante, cap. VI. 304 Rm 3.12-18; cf. 1.29.
  • 123. 123 sangue, as suas mãos estão sujas de assaltos, roubos e homicídios, suas gargantas parecem sepulcros abertos, suas línguas são astutas, seus lábios são venenosos, suas obras são inúteis, iníquas, podres, mortais; que Deus não está no coração deles, que estão cheios de malícia, os seus olhos só inventam armadilhas e não há misericórdia em seu coração” [tradução direta]. Em suma, todas as partes com- ponentes do seu ser estão dispostas e preparadas para fazer o mal. 47. Restrição, ou eliminação do mal que há na natureza humana? Sendo que cada alma está assim sujeita a todos esses monstruosos males, como o apóstolo denuncia tão duramente, podemos ver o que aconteceria se o Senhor deixasse vagar a cupidez humana conforme a sua inclinação natural. Não há ani- mal feroz que se exceda tão desordenadamente, não há rio cujos caudais sejam tão violentos e indomáveis, cuja inundação seja tão impetuosa. Esses males e vícios o Senhor expurga dos Seus escolhidos da maneira como explicaremos oportunamente. Nos réprobos, nos reprovados por Deus, eles são ape- nas reprimidos, como que por rédeas, para que não ultrapassem os limites que, por Sua sabedoria, Deus estabelece para a conservação do universo. Disso decorre que alguns por vergonha, outros por medo da lei, contêm-se e não se entregam à prática de muita maldade, e, ao menos em parte, não fingem, querendo ocultar as suas malignas concupiscências. Outros, porque julgam que é proveitoso o modo honesto de viver, aspiram, por isso mesmo, ao viver honesto. Outros ainda ultrapassam essas linhas e mostram uma qualidade excelente, especial, mantendo o vulgar sob sua obe- diência graças a uma espécie de majestade pessoal. Assim é que o Senhor restringe, por Sua providência, a perversidade da nossa natureza, mas não a expurga.305 Alguém poderá dizer que isso não é suficiente para resolver a questão. Por- que, ou assemelhamos Catilina a Camilo,306 ou teremos em Camiloa um exemplo que mostra que, quando a natureza é bem conduzida, não é totalmente desprovi- da de bondade. Confesso que as virtudes encontradas em Camilo, ele as recebeu como dons de Deus, e que elas poderiam ser consideradas louváveis mesmo que avaliadas pelo que eram em si mesmas. Como, porém, serão sinais de que em sua natureza Deus prevalece? Para mostrar isso não seria necessário mudar o cora- 305 “Deus, em sua inescrutável sabedoria, governa as atividades humanas de tal forma que suas obras, que ocupam muito pouco o pensamento humano em virtude de sua constante familiaridade com elas, excedem muitíssimo a compreensão da mente humana.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.5), p. 220.] “.... A Igreja será sempre libertada das calamidades que lhe sobrevêm, porque Deus, que é poderoso para salvá-la, jamais suprime dela sua graça e sua bênção.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, (Sl 3.8), Vol. 1, p. 88.]. NE. 306 Catilina, Lucius Sergius (c. 109-62 a. C.). Da classe nobre, mas de caráter ignóbil. Cícero atacou publicamen- te o caráter e os procedimentos de Catilina (“Até quando abusarás da nossa paciência, Catilina?”). Camilo (Camillus), Marcus Furius (c. 445-365 a. C.). Arrogante general romano. Personalidade controvertida, mas de grande valor. Mescla de boas e más qualidades. Apesar de condenado e exilado, recuperou-se. Durante a sua vida foi eleito 6 vezes tribuno militar com poderes consulares, e cinco vezes ditador. A peste o matou. NT. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a Alusão aos argumentos feitos mediante silogismos.
  • 124. 124 As Institutas – Edição Especial ção?307 Tendo-se em conta o argumento de que, se o homem natural foi dotado de tal integridade de coração que à natureza humana não falta a faculdade de aspirar ao bem, e que, por outro lado, se o coração é perverso e tendencioso como é, como mostrar que ele busca a justiça e a eqüidade? Pois bem, se concedermos que há homem natural com essa qualidade, não haverá dúvida de que o seu cora- ção será como acima foi descrito. Que poder demonstraremos, então, que a natu- reza humana tem para aplicar-se ao bem, se na maior aparência de integridade que se encontre vê-se que ela sempre se inclina para a corrupção? Portanto, como não se tomará por virtuoso um homem cuja virtude só serve de sombra para cobrir seus vícios e defeitos, assim não atribuiremos à vontade humana a faculda- de de querer o bem, dado o tempo em que se fixa na perversidade.308 Com maior força e mais razão, a solução mais certa e mais fácil consiste em dizer que as referidas virtudes não são comuns à natureza humana, mas, antes, são graças ou bênçãos especiais do Senhor, que Ele distribui até mesmo aos maus, como e quantas Lhe apraz. Por esse motivo, em nosso linguajar vulgar não devemos di- zer que este é bem nascido, aquele é mal nascido, que um tem boa natureza, o outro tem natureza má. Ao contrário, não deixamos de incluir uns e outros na condição universal da corrupção humana, mas o que, sim, queremos dizer é que Deus dá de Sua graça particularmente a um e a nega a outro.309 Ora, a vontade humana, amarrada e presa como está à servidão do pecado, não pode trabalhar nem um pouco pelo bem, por mais que se esforçe.a Pois tal ação é o começo da nossa conversão a Deus, a qual é totalmente atribuída à graça do Espírito Santo pela Escritura,310 como, por exemplo, Jeremias rogou ao Senhor que o convertes- se, se o quisesse ver convertido.311 Por essa mesma razão o profeta, no mesmo capítulo, descrevendo a redenção espiritual dos fiéis, declara que Deus os “livrou 307 Hæc disputat Augustin. lib. IV contra Iullia. 308 “....a vontade humana é em todos os aspectos oposta à vontade divina, pois assim como há uma grande diferença entre nós e Deus, também deve haver entre a depravação e a retidão.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.7), p. 267.] NE. 309 “Deus, ao criar o homem, deu uma demonstração de sua graça infinita e mais que amor paternal para com ele, o que deve oportunamente extasiar-nos com real espanto; e embora, mediante a queda do homem, essa feliz condição tenha ficado quase que totalmente em ruína, não obstante ainda há nele alguns vestígios da liberalidade divina então demonstrada para com ele, o que é suficiente para encher-nos de pasmo.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 8.7-9), pp. 173-174.] “Visto que ele ignorou todo o restante do mundo e adotou para si um povo que era pequeno em número e desprezível, assim era oportuno que tal penhor de seu amor paternal se distinguisse de sua beneficência comum, a qual se estende a toda a humani- dade sem distinção.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 47.4), p. 344.] NE. a Quer dizer que ele está objetivamente certo de que ela não o fará por si mesma, se bem que, segundo Calvino, ela não está sujeita a nenhuma necessidade física, nem a nenhum constrangimento, como veremos um pouco mais adiante. 310 “Em resposta ao Cardeal Sadoleto, Calvino diz: “... Hás sido castigado pela injúria que fizeste ao Espírito Santo, separando-O e dividindo-o da Palavra. (...) Aprende, pois, por tua própria falta, que é tão insuportável vangloriar-se do Espírito sem a Palavra, como desagradável o preferir a Palavra sem o Espírito.” (Juan Calvino, Respuesta al Cardeal Sadoleto, 4ª ed. Países Bajos, Felire, 1990, p. 30. (Vd. também, a p. 29). “O Espírito de Deus, de quem emana o ensino do evangelho, é o único genuíno intérprete para no-lo tornar acessível.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 2.14), p. 93.] NE. 311 Jr 31.18.
  • 125. 125 da mão do que era mais forte” do que eles [versículo 11], indicando com isso quão fortemente amarrado o pecador está enquanto se mantém distante de Deus, permanecendo debaixo do jugo do Diabo. Entretanto, a vontade permanece sem- pre no homem, a qual, por pura propensão, inclina-se ao pecado. Pois quando o homem sucumbe a esta necessidade, ele não está despojado da sua vontade, mas da vontade sadia. E, portanto, não fala erroneamente Bernardoa quando afirma que o querer está em todos os homens, mas o querer o bem é matéria de acrésci- mo, e o querer o mal é da nossa deficiência; assim, “simplesmente querer é do homem, querer o mal é da natureza corrupta, querer o bem é da graça”. Ora, como eu já disse, sendo que a vontade é destituída de liberdadeb , e é necessariamente tomada pelo mal, é espantoso que alguém ache estranha esta maneira de falar, a qual não é absurda e foi utilizada pelos antigos mestresc . 48. Distinção entre necessidade e constrangimento Alguns se aborrecem pelo fato de não poderem distinguir entre necessidade e constrangimento. Mas, se alguém lhes perguntar se Deus não é necessariamente bom e se o Diabo não é necessariamente mau, que responderão eles? O certo é que a bondade de Deus é tão ligada à Sua divindade que Ele não é menos neces- sariamente bom do que é necessariamente Deus.312 E o Diabo, por sua queda, não pode fazer outra coisa senão o mal. Pois bem, se algum blasfemo murmurar que Deus não merece grande louvor por Sua bondade, visto que Ele é constrangido a tê-la, a resposta não será fácil? Porquanto, da Sua bondade infinita é que resulta que Ele não pode agir mal, e não de um constrangimento violento. Isso não impede, pois, que a vontade de Deus seja livre para fazer o bem, e que faça necessariamente o bem. Se o Diabo não deixa de pecar voluntariamente, visto que nada pode fazer senão o mal, quem contestará dizendo que o pecado do homem não é voluntário, alegando que ele está necessariamente sujeito ao peca- do? ComoAgostinho, que ensina sempre essa necessidade, não deixou de declará- la com precisão, assim que Celestius fez calúnia contra esta doutrina, tornando-a odiosa. Ele emprega estas palavras:313 “Da liberdade do homem resultou que ele 312 O conceito da bondade de Deus fazia parte até mesmo da compreensão pagã. Platão (427-347 a.C.), com acuidade acentua que o Criador que formou o universo é um ser pessoal e bom: “Ele era bom, e naquele que é bom nunca se lhe nasce a inveja. Isento de inveja, desejou que tudo nascesse o mais possível semelhante a ele. (...) Deus quis que tudo fosse bom: excluiu, pelo seu poder, toda imperfeição, e assim, tomou toda essa massa visível, desprovida de todo repouso, mudando sem medida e sem ordem, e levou-a da desordem à ordem, pois estimou que a ordem vale infinitamente mais que a desordem.” (Platão, Timeu, 29-30). Agosti- nho aventa a possibilidade de Platão ter tido contato com as Escrituras [Vd. Agostinho, A Cidade de Deus, 2ª ed. Petrópolis, Vozes, 1990, (Vol. 1), VIII.11.] NE. 313 Lib. de perfect. iustitiæ. a Falta em 1539. b Discute-se aqui o que hoje se chama liberdade material. A liberdade material é a ausência das más inclina- ções que nos sujeitariam à necessidade de certeza objetiva, em virtude da qual se pode predizer que pecare- mos, embora tenhamos conservado a liberdade formal. Esta é espontaneidade inteligente e voluntária. c nec a sanctorum usu aliena. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 126. 126 As Institutas – Edição Especial caísse em pecado; agora, a corrupção que se seguiu fez da liberdade necessida- de”. Devemos então observar esta distinção: O homem, após corromper-se por sua queda, peca voluntariamente, e não contra o desejo do seu coração, nem por constrangimento. Ele peca, insisto eu, por uma fortíssima inclinação, e não por constrangimento forçado. Ele peca movido por sua própria cupidez, e não cons- trangido por outros. E, todavia, a sua natureza é tão perversa que ele não é esti- mulado, impelido ou induzido a outra coisa que não seja o mal. Se isso é verdade, é notório que ele está necessariamente sujeito a pecar.314 49. O remédio da graça de Deus Já é hora de falar do remédio da graça de Deus, pela qual a nossa natureza viciosa é corrigida.315 Porque, como o Senhor, ajudando-nos, supre-nos do que nos falta, quando a Sua obra se manifesta em nós, assim também fica fácil entender a nossa pobreza. Quando o apóstolo diz aos filipenses316 que está “plenamente certo de que aquele que começou boa obra neles há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus”, não há dúvida nenhuma de que, ao falar do começo dessa boa obra, ele se refere à origem da conversão deles, quando a vontade deles foi voltada para Deus. Porque o Senhor começa em nós Sua obra infundindo em nosso coração o amor, o desejo e o estudo do bema e da justiça (ou, para falar com mais propriedade), inclinando, formando e dirigindo o nosso coração para a justiça, Ele aperfeiçoa e completa a Sua obra, fortalecendo-nos na perseverança.317 E a fim de que nin- guém fique inquieto pelo fato de que o bem é iniciado em nós por Deus, tanto mais que a nossa vontade, em si mesma muito fraca, é ajudada por Ele, o Espírito Santo declara e determina noutra passagem que a vontade se abandone a Seu cuidado:318 “Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne; para que andem nos meus estatutos”. 314 “O primeiro homem foi criado por Deus em retidão; em sua queda, porém, arrastou-nos a uma corrupção tão profunda, que toda e qualquer luz que lhe foi originalmente concedida ficou totalmente obscurecida. (...) Só quando aliado ao conhecimento de Deus é que alguns dos dotes a nós conferido do alto se pode dizer que possui alguma excelência real. À parte disso, eles se acham viciados por aquele contágio do pecado que não deixou sequer um vestígio no homem de sua integridade original.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. II, (Sl 62.9), p. 579.] NE. 315 Segundo Calvino, “a doçura da graça” de Deus [João Calvino, O Livro dos Salmos, (Sl 6.1), Vol 1, p. 125] é a tônica da Sua relação com o Seu povo. NE. 316 Fp 1.6. a Acréscimo feito em 1539. 317 A graça é que começa, aperfeiçoa e conclui a obra da salvação em nós (Fp 1.6). Como bem disse Spurgeon (1834-1892): “A graça começa, continua e termina a obra da salvação no coração de uma pessoa.” [C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo, PES., 1992, p. 45.] Aquele que nos regenerou e justifi- cou, também nos santifica, modelando-nos conforme a imagem de Cristo que se completará na glorificação (Rm 8.29). [Vd. Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo, Os Puritanos, 2000, p. 156.] NE. 318 Ez 11.19,20.
  • 127. 127 Quem dirá agora que basta que a vontade, em sua fraqueza, seja fortalecida, quando ouvimos que é necessário que ela seja totalmente reformadaa e renovada? Se a pedra fosse tão mole que, manipulando-a, pudéssemos vergá-la e dar-lhe a forma que quiséssemos, eu não negaria que o coração do homem tem alguma facilidade e inclinação para obedecer a Deus, bastando que fosse fortalecido em sua fraqueza. Mas, se o nosso Senhor quis, com essa figura, mostrar que é impos- sível tirar algum bem do nosso coração se este não for transformado noutro cora- ção inteiramente novo, não repartamos entre nós e Ele o louvor que Ele só atribui a Si mesmo. Se, pois, quando o Senhor nos converte ao bem, é como se transfor- masse uma pedra em carne, com certeza o que pertence à nossa própria vontade é anulado, e tudo quanto sucede pertence a Deus. Mas, poderá ser que concedam facilmente que a vontade do homem é convertida à justiça e à retidão unicamente pelo poder de Deus, e que, deixada a si mesma, ela se extravia, e, não obstante, sendo ou estando preparada, faz a sua parte; como escreveu Agostinho,319 que “a graça precede toda boa obra, e que, no bem fazer, a vontade é conduzida pela graça, e não a conduz; segue-a, não a precedeb . 50. A graça e a vontade Mas eu considero que as palavras do profeta comportam duas coisas: que o Se- nhor corrige, ou melhor, anula a nossa vontade perversa, e, depois, de Si mesmo nos dá uma boa. Sendo, pois, que a nossa vontade é antecipada pela graça, admito que ela seja chamada “camareira”,c mas, tendo sido reformada ou renovada, essa é uma obra de Deus, e não deve ser atribuída ao homem: que por sua vontade ele aquiesce à graça preveniente. Porquanto Crisóstomo320 não falou bem quando disse que a graça nada pode sem a vontade, como também a vontade nada pode sem a graça; como se a própria vontade não fosse gerada e formada pela graça. 51. Camareira da graça? No tocante a Agostinho, não foi sua intenção dar à vontade do homem uma parte do louvor às boas obras quando a denominou camareira da graça, mas ele pensava apenas em refutar a perigosa doutrina de Pelágio, que colocava como primeira causa da salvação os méritos do homem. Portanto, o que se harmoniza com este propósito é que ele demonstra que a graça precede todos os méritos, deixando por último a outra questão – o seu efeito perpétuo em nós; assunto do qual ele trata muito bem noutro lugar. Porque, quando ele diz, repetidas vezes, que o Senhor previne quem não quer para que venha a querer, e que assiste ao 319 Ad. Bonifa. epist. 106. a transformari. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 320 Sermone quodam de inventione sanctæ crucis. b pedissequa, non prævia. c pedissequa.
  • 128. 128 As Institutas – Edição Especial que quer, a fim de que não queira em vão, ele declara que Deus é o Autor de todo bem.321 E como agora vamos passar ao ponto principal da matéria em foco, iremos redigir tudo sumariamente, e comprovar a nossa sentença, a nossa tese, com os testemunhos da Escritura. Depois, para que ninguém nos calunie dizendo que nós pervertemos a Escritura,322 mostraremos que a verdade que sustentamos foi também ensinada por aquele santo personagem. Mas eu não creio que seja efici- ente e prático apresentar todos os testemunhos da Escritura, um após outro, para confirmar a nossa doutrina, a não ser que selecionemos os que poderão abrir o caminho para entendermos os demais. Por outro lado, penso que não fará mala mostrar de maneira patente aquilo em que estou de acordo com aquele santo homem, por quem, com toda razão, a igrejab mostra tanta consideração. 52. Testemunhos da Escritura Como vimos, quando o Senhor coloca estas duas coisas na conversão do Seu povo, declarando que “tirará da sua carne o coração de pedra”,323 Ele dá franco testemunho de que é necessário que tudo o que a nós pertence seja anulado, para sermos induzidos ao bem, e de que tudo o que toma o seu lugar procede da graça. E não o diz só numa passagem, pois eis o que temos em Jeremias:324 “Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que me temam todos os dias, para seu bem e bem dos seus filhos. ... e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim”. Igualmente em Ezequiel: “Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei cora- ção de carne”. Ele não poderia tirar-nos mais completamente o louvor a tudo o que de bom e de justo porventura exista em nossa vontade, para o atribuir a Si, do a intempestive. b piorum consensu. 321 “A graça não teria razão de ser se os méritos a precedessem. Mas a graça é graça. Não encontrou méritos, foi a causa dos méritos. Vede, caríssimos, como o Senhor não escolhe os bons mas escolhe para fazer bons”, orienta pastoralmente Agostinho (354-430). [Augustin, On The Gospel of St. John. Tractate 86.2-3 In: Philip Schaff & Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, (First Series), 2ª ed. Peabody, Massachusettes, Hednrickson Publishers, 1995, (Jo 15.16), p. 353-354.] NE. 322 Em 28 de abril de 1564, um mês antes de morrer, Calvino convoca os ministros de Genebra à sua casa; tendo- os à sua volta, despede-se [Vd. Theodore Beza, Life of John Calvin: In: Tracts and Treatises on the Reformation of the Church, Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1958, Vol. I, p. cxxxi; J.T. McNeill, The History and Character of Calvinism, New York, Oxford University Press, 1954, p. 227]; a certa altura diz: “A respeito de minha doutrina, ensinei fielmente e Deus me deu a graça de escrever. Fiz isso do modo mais fiel possível e nunca corrompi uma só passagem das Escrituras, nem conscientemente as distorci. Quando fui tentado a requintes, resisti à tentação e sempre estudei a simplicidade. “Nunca escrevi nada com ódio de alguém, mas sempre coloquei fielmente diante de mim o que julguei ser a glória de Deus.” [Calvin, Textes Choisis par Charles Gagnebin, Egloff, Paris, © 1948, pp. 42-43. (Há tradução em inglês, Letters of John Calvin, Selected from the Bonnet Edition, Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1980,p.259-260;Vd.também:P.Schaff,HistoryoftheChristianChurch,Peabody,Massachusetts,Hendrickson Publishers, 1996, Vol. VIII, pp. 833-834.] NE. 323 Ez 11.19. 324 Jr 32.39,40.
  • 129. 129 que quando descreve a nossa conversão como a criação de um novo espírito e de um novo coração. Porque disso decorre que da nossa vontade não pode proceder nada de bom, enquanto ela não for reformada e renovada, e, após a reforma, o que nele é bom é de Deus, e não de nós. 53. Como oravam os antigos Vemos que assim oravam os santos, como Salomão, quando disse: “O Senhor a si incline o nosso coração, para andarmos em todos os seus caminhos e guardarmos os seus mandamentos”.325 Ele mostra a contumácia do nosso coração, confessan- do que este é rebelde contra Deus e Sua Lei, a não ser que seja dobrado e subju- gado para fazer o contrário. Paralelamente, quando Davi roga ao Senhor que crie nele “um coração puro e que renove dentro dele um espírito inabalável” (ou, “um espírito reto”)”,326 não está reconhecendo que todas as partes do seu coração es- tão cheias de manchas e de impurezas, e que o seu espírito está envolto na per- versidade?327 Note-se, sobretudo, que, quanto à pureza que ele deseja, uma vez que a descreve como criação de Deus, a Este ele atribui toda a virtude e todo o poder.328 É verdadeira maravilha que do nosso orgulho Deus não exija estritamente nada mais do que a observação obediente do Seu Sábado (“Sabbath”). Isto é, descansarmos de todas as nossas obras; e não há nada que se tire de nós com maior dificuldade do que isto: que, abandonando todas as nossas obras, demos lugar às de Deus.329 Se não formos impedidos por nossa rancorosa rebeldia, o Senhor Jesus deu bastante amplo testemunho das Suas graças, das Suas bênçãos, para que não sejam obscurecidas: “Eu sou a Videira (diz Ele), vós sois os ramos, e meu Pai é o Viticultor. Como o ramo não pode dar fruto de si, se não permane- cer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim; porque sem mim nada podeis fazer”330 (tradução direta). Se nós, que somos como um ramo desligado do solo e privado do húmus, não produzimos fruto de nós mesmos, não temos necessidade de continuar discu- tindo se a nossa natureza pode fazer algum bem; como também não há dúvida de que é certa a conclusão de que sem Ele nada podemos fazer. Cristo não diz que somos tão fracos que não podemos fazer o suficiente, mas, reduzindo-nos total- 325 1Rs 8.58. 326 Sl 51.10. 327 “Não teremos uma idéia adequada do domínio do pecado, a menos que nos convençamos dele como algo que se estende a cada parte da alma, e reconheçamos que tanto a mente quanto o coração humanos se têm tornado completamente corrompidos.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.5), p. 431.] NE. 328 Davi reconhece que “somos totalmente devedores à graça de Deus, tanto por nossa primeira regeneração quanto, no ato de nossa queda, pela subseqüente restauração.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.10), pp. 439-440.] NE. 329 “A observância de um dia dentre cada sete (...) o Senhor a recomendou com Seu próprio exemplo. Pois é de não apoucada valia acendrar o zelo do homem que saiba que está a trilhar à imitação do Criador.” (João Calvino, As Institutas, II.8.30.) “Deus só é corretamente servido quando Sua Lei for obedecida.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 1.2), p. 53.] NE. 330 Jo 15.1-5. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 130. 130 As Institutas – Edição Especial mente a nada, Ele exclui toda fantasia sobre o menor poder do mundo. Se, estan- do ligados a Cristo, frutificamos como um ramo ligado à videira, que recebe seu vigor da terra, bem como do orvalho do céu e do calor do Sol, parece-me que não nos sobra nenhuma parcela de todas as boas obras, se é que desejamos que a Deus seja sempre dada todaa a honra.331 Por isso o apóstolo dá a Deus todo o louvor, quando diz: “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar”.332 54. Duas partes das boas obras A primeira parte das boas obras é a vontade; a outra é o esforço para realizá-las e o poder fazê-lo. Segue-se, pois, que se o homem atribuir a si próprio alguma coisa, quer na vontade quer na realização, a estará usurpando de Deus. Se Paulo tivesse dito que Deus socorre a nossa débil vontade, ele nos teria deixado alguma coisa. Mas, como afirma que Deus efetua o querer, nisso fica demonstrado que tudo o que é bom é de outrem, não nosso. E uma vez que a boa vontade, já pelo peso da nossa carne mesma, é tarda e sofre opressão, diz ele, por conseguinte, que, para sobrepujarmos toda dificuldade, o Senhor nos dá a constância e o poder para a realização. E, de fato, o que Paulo ensina noutra passagem não pode ser outra coisa, pois afirma que só há um Deus, que opera tudo em todos [1Co 12.6]. Portanto, dessa maneira Deus começa e completa a boa obra em nós; é que por Sua graça a vontade é incitada a amar o bem, é inclinada a desejá-lo e é estimula- da a buscá-lo e a doar-se com esse propósito. Acresce que o amor, o desejo e o esforço não falham, mas duram até conseguirem o seu efeito. E finalmente, o homem assim tomado pela graça de Deus, prossegue na busca do bem e perseve- ra até o fim. Ora, Ele não estimula a nossa vontade, como há muito tempob se tem ima- ginado e ensinado, como se dependesse da nossa escolha seguir ou resistir ao Seu estímulo, mas o move com tal eficácia que ela se sente na necessidade de segui- lo. Daí, o que se lê muitas vezes em Crisóstomo não deve ser aceito – que “Deus só atrai quem quer ser atraído”. O que significa que, quando Deus nos estende a mão, espera para ver se achamos bom que Ele nos ajude. 331 “Diz ele [Paulo] que, antes que nascêssemos, as boas obras haviam sido preparadas por Deus; significando que por nossas próprias forças não somos capazes de viver uma vida santa, mas só até ao ponto em que somos adaptados e moldados pelas mãos divinas. Ora, se a graça de Deus nos antecipou, então toda e qualquer base para vanglória ficou eliminada.” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 2.10), p. 64.] “É preciso lembrar que sempre que atribuímos nossa salvação à graça divina, estamos confes- sando que não há mérito algum nas obras; ou, antes, devemos lembrar que sempre que fazemos menção da graça, estamos destruindo a justiça [procedente] das obras.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 389.] NE. 332 Fp 2.13. a Vê-se que aos olhos de Calvino toda [pretensa] colaboração meritória da vontade humana é um insulto à glória de Deus. b multis sæculis.
  • 131. 131 55. Antes e depois de Adão Concedemos que, na época em que o homem estava em sua inteireza, podia pen- der para um lado ou para outro. Mas, depois que Adão mostrou por seu exemplo quão pobre e miserável é o livre arbítrio, se Deus não nos vigiasse e não nos tirasse tudo, que proveito teríamos em distribuir Ele a Sua graça dessa maneira?a Mas, como acontece que Ele derrama sobre nós a plenitude da Sua graça, nós Lhe roubamos o louvor por nossa ingratidão.333 Porque o apóstolo não ensina apenas que a graça do bom querer nos é oferecida, desde que a aceitemos, mas que Deus produz e forma em nós o querer. Essa é simplesmente outra maneira de dizer que Deus, por Seu Espírito, endireita, modela e modera o nosso coração, e que nele reina como em Sua possessão. O apóstolo não pode entender de outro modo esta sentença de Cristo: “Todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim”,334 senão que por ela se entende que a graça de Deus é por si mesma poderosa para realizar e efetivar a Sua obra, como afirma Agosti- nho.335 Deus não dá a Sua graça a todos, como pretende o ditado comumb , mas ela é negada à pessoa que faz aquilo que está em si. Bom seria ensinar que a bondade de Deus é posta à disposição de todos quantos a buscam, sem nenhuma exceção. Mas, como sucede que ninguém se põe a buscá-la sem que antes receba do céu inspiração para isso, nessa mesma passagem Paulo não cede e não diminui nem um pouco a graça de Deus. Certo é que esse privilégio pertence unicamente aos eleitos, os quais, tendo sido regenerados pelo Espírito de Deus, são conduzidos e governados por Ele.336 56. O dom da perseverança Tampouco ele duvida de que a perseverança deva ser considerada como um dom gratuito de Deus. Há, porém, arraigada no coração dos homens, uma falsa opiniãoc contrária, segundo a qual a graça é dispensada a cada um conforme o seu mérito, a Calvino aplica aqui o preceito ab uno disce omnes. Seu pessimismo quanto à criatura livre, ainda não enfraquecido, repousa, não sobre premissas filosóficas do gênero das de Leibniz, mas sim sobre um postula- do religioso: sem Deus, não há nada que se possa esperar quanto à perseverança no bem. 333 “.... Nosso próprio mau humor e impaciência ante a aflição transforma um minuto em um século; enquanto que, em contrapartida, nosso desconhecimento e ingratidão nos levam a imaginar que o favor divino, por mais que Ele o exerça para conosco, não passa de um momento. É nossa própria perversidade, pois, que na realidade nos impede de perceber que a ira divina é de mui curta duração, enquanto que seu favor para conosco prossegue durante todo o curso de nossa vida.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 30.5), p. 629.]. NE. 334 Jo 6.45. 335 Libr. de prædesti. sancto. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio b 1539: illud, nisi fallor, Okanicum (em Compendium theologicum, de Occam, impresso em 1494). 336 “Deus nos elegeu para sermos seu povo peculiar, a fim de fazer notório seu poder nos preservando e nos defendendo” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2 (Sl 46.7), p. 335]. “Quando Deus seleciona dentre toda a raça humana um pequeno número ao qual abraça com Seu paternal amor, esta é uma inestimável bênção que Ele derrama sobre eles.” [João Calvino, O Livro de Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, (Sl 48.1), Vol. 2, p. 352]. NE. c pessimus error.
  • 132. 132 As Institutas – Edição Especial querendo dizer que não há nisso ingratidão quanto à primeira graça. Mas visto que isso provém de que se imagina que está em nosso poder recusar ou aceitar a graça de Deus quando esta nos é apresentada, é fácil refutar essa idéia, porquanto já se demonstrou que é falsa. Além disso, nota-se aí um duplo erro, porquanto, além de dizerem que, fazendo bom uso da primeira graça de Deus, merecemos que com outras graças subseqüentes Ele nos remunere pelo bom uso feito, acres- centam também que não é só a graça de Deus que opera em nós, mas que ela apenas coopera.337 Quanto ao primeiro erro, esta é a conclusão necessária: Que o Senhor Deus, multiplicando as Suas bênçãos a Seus servos e lhes dando diariamente outras novas, tão agradável Lhe é a obra que neles começou que nestas bênçãos encon- tra razão e ocasião para desse modo enriquecê-los e dar-lhes crescimento. E a isso devem ser aplicadas as seguintes sentenças: “Atodo o que tem se lhe dará”.338 Igualmente: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei”.339 Mas aqui Ele nos põe em guarda contra dois males: Primeiro, o de atribuir o bom uso da graça de Deus ao homem, como se por sua habilidade ele a tornasse proveitosa.340 Depois, o de julgar que as graças ou bênçãos que Deus concede ao homem fiel lhe são dadas para remunerar o bom uso da primeira graça, como se tudo não procedesse da bondade gratuita de Deus.341 É minha convicção, pois, que os crentes devem estar atentos a esta bênção – que quanto melhor uso fizerem das graças de Deus, outras novas e mais grandiosas lhes serão acrescentadas diariamente. Mas, por outro lado, digo que esse bom uso é de Deus, e que essa remuneração provém de Sua benevolência gratuita. Foi isso que o apóstolo Pauloa declarou especificamente. Porque, após haver dito que “Deus é quem efetua em nós tanto o querer como o realizar”,342 imediatamente acrescenta que Ele faz tanto uma coisa como a outra “segundo a sua boa vontade”, referin- do-se com essa expressão à benignidade gratuita de Deus. Quanto ao que dizem que, depois de termos dado lugar à primeira graça, nós cooperamos com Deus, respondo: Se com isso fica entendido que, depois de ser ela reduzidab , pelo poder de Deus, à obediência à justiça, seguimos voluntari- amente o procedimento de Sua graça, concordo; porque é bem certo que, onde impera a graça de Deus há essa prontidão para a submissão obediente. Mas isso não decorre da ação do Espírito Santo que, coerente Consigo mesmo, nutre e fortalece em nós o amor pela obediência, o mesmo amor que no começo Ele 337 Ver: João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.10), pp. 439-440. NE. 338 Mt 25.29. 339 Mt 25.21. 340 Ver: João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1996, (1Co 15.10), pp. 453- 455. NE. 341 Fp 2.13 [fim do versículo]. a Acréscimo feito em 1539. 342 Fp 2.13 [Almeida: “...quem efetua em vós...”]. b edomiti.
  • 133. 133 gerou? Se, por outro lado, os tais querem dizer que o homem faz isso por seu próprio poder e que ele cooperaa com a graça de Deus, digo que cometem um erro danoso e contagioso. Mas eles alegam: Então, que é que o apóstolo quer dizer quando declara: “Trabalhei muito mais que todos eles [mais que todos os outros apóstolos]; todavia não eu, mas a graça de Deus comigo”.343 Porque, dizem eles, como parecia ter falado com arrogância, quando se colocou acima de todos os outros, ele modera essa declaração, rendendo o louvor à graça de Deus, e, contu- do, coloca isso em tais termos que se diz companheiro de Deus no trabalho.344 É espantoso que tantas pessoas que noutras coisas não são más, tropecem neste fiapo de palha, pois o apóstolo Paulo não disse que a graça de Deus tinha trabalhado com Ele para dizer-se companheiro de Sua graça, mas, antes, atribui a Deus todo o louvor pelo referido trabalho. “Não fui eu que trabalhei, mas foi a graça de Deus, a qual me ajudou.” Toda essa fábula resulta do fato de que eles se prendem à tradução comum,345 que é duvidosa, mas o texto grego do apóstolo Paulo é tão claro que não deixa dúvida. a gratiæ cooperarium. 343 1Co 15.10. 344 “Porque, como se tivesse cometido um equívoco em fazer dele mesmo a fonte de algo bom, Paulo corrige o que havia dito, e declara que a graça de Deus é a causa eficiente de tudo.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 15.10), p. 454.] NE. 345 Refere-se à tradução latina: Vulgata. Ver: João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 15.10), p. 454. No segundo século da Era Cristã, foi feita (possivelmente em Cartago na África do Norte ou na Itália) uma tradução latina da Bíblia [Versão do Latim Antigo (“Vetus Latina”), ou “Ítala”, preferida por Agostinho (354-430), (Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo, Paulinas, 1991, II.15, p. 114), tomando como Texto base para o Antigo Testamento, a Septuaginta. No final do IV século, como esta tradução latina já precisa- va de uma ampla revisão, o papa Damasius I (c. 304-384) papa desde 366, incumbiu a Sophronius Eusebius Hieronymus, conhecido como Jerônimo (c. 347-419) – admirador profundo de Cícero – de fazê-la (383). Jerônimo, era um homem de profunda piedade (ainda que tenha sustentado diversas polêmicas durante a sua vida) e erudição, conhecendo bem o latim, o grego e o hebraico. O seu trabalho excedeu as expectativas de Damasius; já que ele fez mais do que uma simples revisão. Partindo dos originais Hebraicos e Gregos – ainda que dando atenção à Vetus Latina –, Jerônimo traduziu o Antigo e o Novo Testamento, concluindo a sua obra em 405, depois de 23 anos de trabalho. Na sua tradução, Jerônimo incluiu os “livros apócrifos”, conforme constava na LXX; todavia, questionou a sua canonicidade, fazendo uma distinção entre os “libri ecclesiastici” (“apócrifos”) e os “libri canonici” (canônicos, conforme os judeus aceitavam no Cânon Hebraico). Desta forma, na edição de Jerônimo, os “apócrifos” receberam um “status” secundário. “Sendo uma inovação, a sua tradução teve de sustentar grande batalha para poder firmar-se na Igreja. Nem mesmo seu amigo Agostinho queria saber da Hebraica veritas. Depois da morte do papa Damasius (384), protetor de Jerônimo, a tradução não gozou mais do favor e do apoio das autoridades eclesiásticas. Mas pouco a pouco venceu os seus antagonistas e a partir do século VII encontrou favor na Igreja. (...) Durante a Idade Média a tradução de Jerônimo se tornou a ‘Vulgata’, isto é ‘a comum’.” (A. Bentzen, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, ASTE, 1968, Vol. I, pp. 106-107).Contudo a Vetus Latina continuou tendo a prefe- rência na tradução dos “Apócrifos”. O nome “Vulgata” foi, ao que parece, aplicado primariamente na Igreja, para referir-se à LXX, bem como à “Vetus Latina”. (Cf. O.F. Fritzsche, Bible Versions: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: Or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, 3ª ed. rev. amp. New York, Funk & Wagnalls Company, 1891, Vol. I, p. 283). O título honorífico “Vulgata”, foi concedido à tradução de Jerônimo somente no final da Idade Média. (Cf. W.G. Kümmel, Introdução ao Novo Testamento, São Paulo, Paulinas, 1982, p. 706); ou mais especificamente no século XVI, quando ela se tornou oficialmente – no Concílio de Trento (1546) – a Bíblia da Igreja Católica. (Vd. Alister E. McGrath, Reformation Thought: An Introduction, 2ª ed. Oxford, Blackwell Publishers, 1993. p. 136). NE. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 134. 134 As Institutas – Edição Especial 57. Agostinho citado contra os sofistas da Sorbonne Ouçamos agora o que diz Agostinho, a fim de que os pelagianos do nosso tempo, quer dizer, os sofistas da Sorbonne,346 não nos censurem, como é seu costume, dizendo que todos os mestres do passado estão contra nós.a Nisso eles seguem seu pai Pelágio, que importunou Agostinho com igual calúnia. Pois bem, ele tratou extensamente deste assunto no livro que intitulou Da Correção e da Gra- ça,347 do qual vou citar alguns breves trechos empregando as suas próprias pala- vras. Diz ele que a graça de persistir no bem foi dada a Adão, bastando que ele a quisesse usar, que ela nos é dada a fim de que nós queiramos usá-la, e de que, usando-a, sobrepujemos as concupiscências. Assim é que Adão tinha o poder, se o quisesse, mas não tinha o querer, para que pudesse; que a nós é dado tanto o 346 As universidades são produto da Idade Média (séc. XII), resultante dos contatos entre o mundo Ocidental com o muçulmano e bizantino. (Vd. Universidade: In: Pierre Bonassie, Dicionário de História Medieval, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1985, p. 195). A Universidade foi uma das mais importantes criações culturais da Idade Média. No entanto, devemos ter em mente que a idéia de Universidade não deve ser associada, como hoje fazemos, a um conjunto de prédios, de faculdades dedicadas ao ensino e pesquisa, antes ao grêmio de professores e alunos que se dedicam ao estudo e, que “formavam uma corporação jurídi- ca de direito próprio.” (Philotheus Boehner & Etienne Gilson, História da Filosofia Cristã: Desde as Origens até Nicolau de Cusa, 3ª ed. Petrópolis, RJ., Vozes, 1985, p. 355). A Universidade de Paris (Sorbonne), que teve os seus Estatutos aprovados em 1215), constava de quatro Faculdades: Teologia, Filosofia (“Artes”) (a mais concorrida), Direito e Medicina. Todavia, ela especializou-se no ensino de Teologia, tornando-se para a “santa igreja”, como “a árvore da vida”. Em 1255, escreve o papa Alexandre IV (1254-1261): “A ciência das escolas de Paris está na Santa Igreja como a árvore da vida no paraíso terrestre e como a lâmpada refulgente na casa do Senhor. Como uma mãe fecunda de erudição, ela faz jorrar em abundância das fontes da doutrina da salvação os rios que vão banhar a face estéril da terra, ela alegra por toda parte a Cidade de Deus e subdivide as águas da ciência que faz correr nas praças públicas para o refrigério das almas sedentas de justiça.... É em Paris que o gênero humano, deformado pela cegueira de sua ignorância original, recupera sua visão e sua beleza pelo conhecimento da luz verdadeira que irradia da ciência divina.” (In: Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, São Paulo, Martins Fontes, 1995, p. 490. Vejam-se também: António J. Saraiva, O Crepúsculo da Idade Média em Portugal, Lisboa, Gradiva, 1988, p. 112; Idem., História da Cultura, Lisboa, Jornal do Fôro, 1950, Vol. 1, p. 30, 96,98). Este elogio de Alexandre IV, envolvia obviamente a sua vitória sobre a autonomia da Universidade, na qual ele demitiu e contratou quem desejou, concedendo amplos poderes aos religiosos mendicantes... fiéis ao papa. (Vd. Jacques Verger, As Universidades na Idade Média, São Paulo, Editora Unesp., 1990, p. 77-79; Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, p. 488ss.). A Universidade de Paris – apesar do antagonismo interno –, tornou-se a definidora, defensora e divulgadora da ortodoxia católica, tendo os papas ao longo dos anos, contribuído decisoriamente para a sua projeção internacional. “Ora, na medida em que ensinava teologia, a Universidade de Paris cessava de pertencer a si mesma e dependia de uma jurisdição mais alta do que a da razão individual ou da tradição escolar. Sua própria importância, o número sem cessar crescente dos mestres e alunos que vinham de todas as partes do mundo cristão para aí se instruir faziam dela a fonte do erro ou da verdade teológicos para toda a cristandade.” (Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, p. 487). Aliás, os papas procuravam sempre tornar as Universidades em instrumento conservador e defensor da “ortodoxia” católica... Por outro lado, os reis também viam nas Universidades um meio de projeção pessoal e propaga- ção do seu reino. (Vd. A.J. Saraiva, História da Cultura em Portugal, Vol. 1, pp. 30, 100; Philotheus Boehner & Etienne Gilson, História da Filosofia Cristã: Desde as Origens até Nicolau de Cusa, p. 357- 358; Etienne Gilson, A Filosofia na Idade Média, p. 484, 487ss; Jacques Verger, As Universidades na Idade Média, pp. 72, 79). Em meados do século XIII, a Universidade de Paris passou a chamar-se Universidade de Sorbonne, em homenagem a Robert de Sorbon. NE. a Cf. Epistola ao Rei: “Eles colocam contra nós os antigos ‘pais’”, etc. 347 De correptione, cap. II. Ad Valentinum.
  • 135. 135 querer como o poder; que a primeira liberdade foi a de poder não pecar, e que o que temos agora é muito maior, é a liberdade de não poder pecar. Os sorbonistas expunham isso quanto à perfeição que haverá na vida futura, mas isso é tolice, visto que Agostinhoa se manifesta mais adiante dizendo que a vontade dos cren- tes é conduzida de tal maneira pelo Espírito Santo que eles podem fazer o bem porque o querem, e que o querem porque Deus criou neles o querer. “Porque, diz ele, se em sua grande fraqueza a carne fosse deixada a cargo deles de modo que pudessem fazer o bem com a ajuda de Deus quando bem lhes parecesse, e que Deus não lhes desse a vontade tão cercada de tentações, a vontade deles, fraca e frágil como é, sucumbiria, e assim eles não poderiam perseverar”. Por isso Deus veio em socorro da vontade humana em sua fraqueza, dirigin- do-a sem que ela possa virar-se para lá e para cá, e governando-a sem que ela possa desviar-se. Porque, dessa maneira, por mais fraca que seja, não pode cair. Pouco depois348 ele mostra como é necessário que o nosso coração siga o movi- mento de Deus, quando os atrai, dizendo que Deus atrai bem os homens segundo a vontade deles, e não por constrangimento ou pela força, mas que a vontade é aquilo que Ele formou neles. 58. Confirmação da tese de Calvino Temos agora, aprovado porAgostinho, o ponto sobre o qual mantemos principal- mente a nossa discussão. É que a graça não é somente oferecida por Deus para ser rejeitada ou aceita conforme pareça bem a cada qual. A verdade é que é a graça de Deus que nos induz a seguir o Seu movimento e, como se dá com a vontade, ela é causa da escolha ou decisão. Acontece isso de tal modo que todas as boas obras que se seguem são frutos dela, e ela não é recebida pelo homem natural e simplesmente em sua vida, mas na medida em que se transforma em obediência em seu coração. Neste sentido, o mesmo doutor diz noutro lugar349 que somente a graça, e nada mais, realiza em nós toda boa obra.350 No tocante a isso, ele diz noutra passagem dos seus escritos que a vontade não é destruída pela graça, mas que de má ela é transformada em boa e que, depois de tornada boa, somente nisso é ajudada. Com isso quer ele dizer que o homem não é lançado por Deus como uma pedra, sem nenhuma participação ativa do seu coração, por uma força externa, mas que é impulsionado de tal maneira que ele obedece de boa vontade. E, ademais, sendo que a graça de Deus é dada de maneira especial aos eleitos, escrevendo a Bonifácio ele fala da seguinte maneira:351 “Sabemos que a graça de Deus não é dada a todos os homens e que, quando é dada a alguém, 348 Cap. XIV. 349 Epist. 105. 350 “A graça divina e o mérito das obras humanas são tão opostos entre si que, se estabelecermos um, destrui- remos o outro”. [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 388.] NE. 351 Epist. 106. a ne de futura post immortalitatem perfectione loqui putetur, scrupulum hunc paulo post eximit. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 136. 136 As Institutas – Edição Especial não o é segundo os méritos da sua vontade, mas segundo a bondade gratuita de Deus; quando é negada, isso é feito pelo justo juízo de Deus”. Nessa mesma epístola ele condena com vigor e firmeza a opinião daqueles que consideram a segundaa graça como uma retribuição feita aos méritos dos homens, entendido que, não tendo rejeitado a primeira, mostram-se dignos da segunda. O que ele deseja é que Pelágio reconheça que temos necessidade da graça para cada uma de nossas obras, e que ela não é uma restituição feita aos nossos méritos, devendo ser reconhecida como pura graça.352 59. Sumário deste ponto Não se pode, porém, dar por resolvida essa questão sumariamente, senão pelo que ele diz em seu livro Da Correção e da Graça, no capítulo oito, onde primei- ramente ele ensina que a vontade humana não obtém graça por sua liberdade, mas que obtém liberdade pela graça de Deus.353 Em segundo lugar, ensina que pela graça ela é confirmada quanto ao bem, para amá-lo e perseverar nele. Em terceiro lugar, que ela é fortalecida com um poder invencível, para resistir ao mal. Em quarto lugar, que, governada pela graça, nunca falha; e, se a graça for deixada de lado, imediatamente tropeça e cai. Também diz ele que, pela miseri- córdia gratuita de Deus, a vontade é convertida ao bem e, tendo sido convertida, persevera nele. E mais: quando a vontade do homem é conduzida para o bem, e, depois de haver sido assim dirigida, é confirmada no bem, isso vem unicamente da vontade de Deus, e não de algum mérito humano. Dessa maneira, só resta ao homem o livre arbítrio descrito noutro lugar.354 É que ele não pode se converter a Deus, nem persistir em Deus, a não ser por Sua graça, e que tudo o que ele pode fazer é também pela graça de Deus. 60. A graça de Deus como libertação A graça [especial] de Deus algumas vezes é chamada libertaçãob ou livramento, sendo que por ela somos libertados da escravidão do pecado; mas também é chamada, ora reparaçãoc do nosso ser, pela qual, sendo posto de lado o velho homem, somos restaurados à imagem de Deus; ora regeneração, pela qual somos feitos novas criaturas; ora ressurreição, pela qual Deus, fazendo com que morra- a subsequentem. 352 Comentando o Salmo 30.6 – quando Davi reflete a sua momentânea confiança no sucesso adquirido –, diz: “.... Davi reconhece que havia sido justa e merecidamente punido por sua estulta e precipitada confiança, ao esquecer- se de sua mortal e mutável condição de ser humano, e ao pôr demasiadamente seu coração na prosperidade.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 30.6), p. 631.] Em outro lugar, fazendo menção da mesma passagem, escreve: “Davi afirma que a prosperidade havia obnubilado de tal forma seus sentidos, que deixou de pôr seus olhos na graça de Deus, da qual deveria depender continuamente. Em vez disso, creu que poderia andar por suas próprias forças e imaginou que não cairia jamais.” [João Calvino, AVerdadeira Vida Cristã, p. 47.] NE. 353 Ad Valentinum. De correptione. 354 Epist. 46. b c manumissio, restitutio in integrum (termos do direito romano).
  • 137. 137 mos, ressuscita-nos por Seu poder. Todavia, aqui é preciso observar que o livra- mento nunca é completo, visto que uma parte de nós permanece sob o jugo do pecado; que a restauração jamais se realiza completamente, porquanto muita coi- sa dos vestígios do homem terreno permanece; e que a ressurreição nunca é com- pleta, pois alguma coisa retemos do velho homem. Isso porque, enquanto estamos encerrados nesta prisão que o nosso corpo é, trazemos sempre conosco as relíqui- as, ou seja, os restos da nossa carne, os quais na mesma proporção diminuem a nossa liberdade. Porque a alma fiel, depois da sua regeneração, divide-se em duas partes, entre as quais há uma diferença perpétua. Pois, quando é regida e governada pelo Espírito de Deus, ela deseja e ama a imortalidade, o que a incita e a induz à justiça, à pureza e à santidade, e assim não medita noutra coisa senão na bem- aventurança do reino celestial, e aspira inteiramente à companhia de Deus; e no que permanece ainda em seu natural, estando impedida pela lama terrena e envoltaa em más ambições, não enxerga o que de fato é desejável e onde está a verdadeira felicidade. Detida pelo pecado, mantém-se longe de Deus e da Sua justiça. 61. O combate cristão Daí surge um combateb que põe em ação o homem fiel durante sua vida toda, sendo que pelo Espírito é elevado às alturas, e pela carne é levado a desviar-se e é derribado. Segundo o Espírito, ele se dirige cheio de ardente desejo para a imortalidade; segundo a carne, desvia-se por um caminho que leva à morte. Se- gundo o Espírito, ele pensa em viver retamente; segundo a carne, é atraído pela iniqüidade. Segundo o Espírito, ele é conduzido para Deus; segundo a carne, é levado a recuar. Segundo o Espírito, ele condena o mundo; segundo a carne, cobiça os prazeres mundanos. Não se trata aqui de uma especulação frívola, da qual não teríamos nenhu- ma experiência na vida, mas é uma doutrina caracterizada pela prática,c que ver- dadeiramente experimentamos em nós, se somos filhos de Deus. 62. Conflito entre a carne e o Espírito355 Vemos, pois, que a carne e o Espírito são como dois combatentes, os quais sepa- ram em diferentes partes a alma fiel, travando nela uma verdadeira batalha; toda- 355 Deus libertou-nos definitivamente do poder de satanás, o deus do secularismo. Cristo o derrotou, e agora, ele não mais tem domínio sobre nós; “por isso afirmamos que os fiéis nunca, jamais poderão ser vencidos por ele [satanás].” (J. Calvino, As Institutas, I.14.18). “Satanás com toda sua fúria e com suas forças se vê reprimido por seu mandato [mandato de Deus], como o cavalo pelo freio, e tudo quanto poderia impedir nosso bem e salvação depende de seu arbítrio e vontade [de Deus].” (J. Calvino, As Institutas, I.16.3). NE. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a immersa. b Ver no capítulo XVII: Sobre a vida cristã, acréscimo feito em 1539. c empyrica.
  • 138. 138 As Institutas – Edição Especial via, nesta batalha vê-se que o Espírito é superior.a Porque, quando se diz que a carne faz desviar-se de Deus a alma, afasta-a da imortalidade, impede-a de seguir a santidade e a justiça, e a distancia do Reino de Deus, não é preciso entender que ela tem tanto vigor em suas tentações que derruba e destrói a obra do Espírito e que faz estagnar-se o Seu poder. Nada disso! Quando a carne se esforça para abater o homem, a ação do Espírito a entorpece; quando quer desviá-lo do seu caminho, o poder do Espírito a retarda e a impede; quando quer fazer com que todo o seu amor pela justiça fique amortecido, o Espírito a refreia; quando a carne se empenha em suprimir totalmente o seu amor, a obra do Espírito Santo a dobra e a restringe. Em tais dificuldades, é necessário que o servo de Deus seja plenamente animado, e que, pelo maior desejo do seu coração e pelo seu maior afeto, aspire a Deus, prepare-se e esforce-se para buscá-lo, e constantemente gema e suspire, contrariado por ser impedido por sua carne de seguir sua carreira como deve. É isso que entende o apóstolo Paulo, quando diz:356 “Se somos filhos de Deus, não andemos segundo a carne, mas segundo o Espírito”. Tendo descrito o combate, ele quer dizer que no Espírito se pode encontrar o que há de melhor para a con- quista da vitória. Ora, é fácil ver a diferença que existe entre o homem natural e o regenerado: O homem natural é muito espicaçado e aguilhoado em sua consciên- cia para não iludir-se com seus vícios; contudo, nisso ele tem prazer de todo o coração, a isso prende a sua vontade, de bom grado solta as rédeas, e a única coisa que ele teme é a pena, que ele vê que está preparada para todos os pecadores.b Já o homem regenerado, graças à melhor parte do seu coração, apega-se à justiça da lei, e detesta e abomina o pecado que ele comete por pura idiotice; o pecado o desgosta e por ele é reprovado; mas ele tem o seu prazer e o seu deleite na lei de Deus e nela acha mais ameno dulçor do que em todos os prazeres do mundo.357 Além disso, ele nunca peca por consciente decisão própria, mas ao pecar contra- ria o seu coração, porque não é somente a sua consciência que repudia o mal; os seus afetos também o repudiam.358 a dispari conditione inter se congrediuntur. 356 Rm 8 [tradução direta]. b Três palavras acrescentadas em 1539. 357 A Confissão de Westminster (1647) conclui o capítulo XIII dizendo: “Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que restam (Rm 7.23), contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada vence (Rm 6.14; Ef 4.15,16; 1 Jo 5.4), e assim os santos crescem em graça (2 Pe 3.18), aperfeiçoando a sua santidade no temor de Deus (2 Co 7.1)” (XIII.3). NE. 358 “Os desejos que agitam o homem carnal são como ondas impetuosas que se chocam umas contra as outras, arremessando o homem de um lado para outro, de modo tal que ele muda e vacila a todo instante. Todos quantos se entregam aos desejos carnais experimentam tal desassossego, porque não existe estabilidade senão no temor de Deus.” [J. Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 3.3), p. 344.] NE.
  • 139. 139 63. Grave erro anabatista Alguns anabatistasa imaginam não sei que tipo de intemperança frenética, em lugar da regeneração espiritual dos crentes. É que (como lhes parece) os filhos de Deus, restaurados ao estado de inocência, não devem preocupar-se em refrear as concupiscências da sua carne, mas devem seguir o Espírito como seu guia, sob cuja direção não podem errar. Se não publicassem arrogantemente essa doutrina, não se poderia acreditar que a mente humana pudesse cair em tal excesso. É de fato uma coisa horrivelmente monstruosa. Mas é boa reparação, pois, que a audá- cia dos que se dedicam a transformar a verdade de Deus em mentira seja punida. Eu lhes pergunto, então, se deve ser eliminada toda a diferença entre a impudicícia e o pudor, entre a justiça e a injustiça, entre o bem e o mal, entre a virtude e o vício. Essa diferença, dizem eles, provém da maldição do velho Adão, da qual fomos libertados por Cristo. Por isso não há mais o que distinguir entre a luxúria e a castidade, a simplicidade e a astúcia, a verdade e a mentira, a eqüidade e a rapina. Que tratemos de cortar todo temor frívolo, dizem eles, e que tratemos de seguir firmemente o espírito. Este não pedirá nenhum mal que não se submeta ao seu domínio. Quem não se espantaria com essas propostas tão insensatas? No entanto, é uma filosofia popular e bem aceita entre os que, tendo ficado cegos por causa da loucura das suas concupiscências, perderam o bom senso. Mas, clamo eu, que Cristo terão forjado? E que espírito?b Porque reconhecemos um Cristo, e Seu Espírito, que os profetas prometeram e que o Evangelho assinala como revela- ção, e do qual não ouvimos nada que seja semelhante a esses maus ensinamentos. 64. O espírito da Escritura Sim, pois, o espírito que a Escritura nos mostra não favorece as diferentes formas de homicídio e de luxúria, a bebedice, o orgulho, a contenção [imposta], a avare- za e a fraude; mas é inspiradora do vero amor, da castidade, da sobriedade, da modéstia, da paz, da temperança e da verdade. O que se nota na Escritura não é um espírito de ilusões fantasiosas nem de torvelinho a girar para lá e para cá irrefletidamente, movendo-se tanto para o mal como para o bem, mas, sim, um espírito cheio de sabedoria e de inteligência para discernir entre o bem e o mal. Esse espírito não impele o homem a uma licenciosidade dissoluta e desenfreada, mas, como distingue o bem do mal, ensina o homem a seguir aquele e a fugir deste. Mas, por que me afano tanto em refutar essa praga brutal? Para os cristãos, o Espírito de Deus não é uma tola imaginação que em seus sonhos teriam forma- do ou tomado de outras pessoas. Eles O conhecem como a Escritura O mostra, na a A tendência que Calvino tem em vista é o antinomismo. Os anabatistas em questão não têm nada em comum com os anabatistas atuais, também conhecidos pelo nome de menonitas. De qualquer forma, é preciso não confundir os anabatistas com os batistas. [Alguns d]Estes são calvinistas que rejeitam o batismo de crianças. b 1539 acrescenta: eructant. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 140. 140 As Institutas – Edição Especial qual se afirma que Ele nos é dado em santificação,359 para conduzir-nos na obedi- ência à justiça de Deus, havendo-nos purificado da impureza e da imundície.360 Obediência que não é outra coisa senão que as concupiscências (cujas rédeas aque- les tais querem deixar soltas) sejam domadas e subjugadas. A seguir ele diz tam- bém que o Espírito nos purifica para a santificação, visto que sempre nos restará muita fraqueza, enquanto estivermos enclausurados neste corpo mortal. Disso de- corre que, estando nós longe da perfeição, devemos procurar crescer diariamente; e que, estando nós envolvidos em muitos hábitos pecaminosos, devemos combatê- los. Segue-se daí que nos é necessário vigiar diligentemente para evitar que seja- mos traídos pela nossa carne. É preciso, pois, que não repousemos, como se não corrêssemos perigo, e que não nos julguemos mais adiantados que o apóstolo na santidade no viver, sendo que ele era molestado pelos aguilhões de Satanás, para que em sua fraqueza fosse aperfeiçoado o poder.361 E de fato vemos que ele confes- sa que o combate de que falei, entre o Espírito e a carne, estava em sua pessoa362 .363 65. Sumário Penso que ficou suficientemente provado que, como o homem é mantido cativo sob o jugo do pecado, ele não pode, por sua própria natureza, nem desejar o bem em sua vontade, nem se dedicar a ele. Fizemos também uma distinção entre cons- trangimento e necessidade, da qual se vê que, quando o homem peca necessaria- mente, não deixa de pecar por sua vontade. Visto, porém que, quando o homem se põe a serviço do Diabo parece estar sendo levado pelo que agrada ao Diabo, e não pelo que lhe agrada, resta- nos dar a solução sobre como isso é feito. Depois será necessário resolver a questão a respeito da qual é comum duvidar-se. Isto é, se devemos atribuir algo a Deus quanto às más obras, nas quais a Escritura revela que o seu poder agea de algum modo. 66. Quem é diretamente responsável pelas más obras? Quanto ao primeiro ponto, Agostinho, em certo lugar, compara a vontade do homem com um cavalo, que é governado pelo desejo daquele que o monta. Por 359 “Ora, visto que a fé abraça a Cristo como Ele nos é oferecido pelo Pai, e Aquele, de fato, seja oferecido não apenas como justiça, remissão dos pecados e paz, mas também como santificação, e fonte de água viva, sem dúvida, jamais o poderá alguém conhecer devidamente que não apreenda ao mesmo tempo a santificação do Espírito (...). A fé consiste no conhecimento de Cristo. E Cristo não pode ser conhecido senão em conjunção com a santificação do Seu Espírito. Segue-se, consequentemente, que de modo nenhum a fé se deve separar do afeto piedoso”. (J. Calvino, As Institutas, III.2.8). NE. 360 2 Co 7.1, etc. 361 2 Co 12.9. 362 Rm 7.7-25. 363 “Como na presente vida não atingiremos pleno e completo vigor, é mister que façamos progresso até à morte.” [João Calvino, Efésios, (Ef 4.15), p. 130.] NE. a intercedere.
  • 141. 141 outro lado, ele compara Deus e o Diabo com dois cavaleiros, dizendo que, se é Deus que ocupa a vontade do homem, como bom e capaz cavaleiro Ele a conduz com bom controle. Incita-a quando está muito vagarosa, contém-na, se fica fogo- sa, reprime-a se fica rebelde, disciplina a sua rebelião e a leva pelo caminho certo. Ao contrário, se o lugar é conquistado pelo Diabo, como um mau e estou- vado cavaleiro ele a faz extraviar-se pelos campos, leva-a a cair em fossos, a ir aos tropeções e sem rumo pelos vales, e a habitua à rebelião e à desobediência. Quanto aos dois termos da comparação, contentemo-nos por ora, pois não temos nada melhor. O que se diz, então, é que a vontade do homem natural está sujeita ao senhorio do Diabo, sendo por ele conduzida, o que não significa que seja constrangida pela força e sem a sua aprovação, como se força um servo ou um escravo a fazer o seu trabalhoa , por mais que este o deteste. Nós entendemos, porém, que, sofrendo os abusos e as mentiras do Diabo, é por necessidade, e não por constrangimento, que a vontade se sujeita a obedecer ao que o Diabo quer. Sim, porquanto aqueles que não recebem de Deus a graça de serem governados por Seu Espírito, são abandonados e deixados com Satanás, para serem conduzi- dos por ele. Por essa causa diz o apóstolo Paulo que o Deus deste mundo (o Diabo) cegou o entendimento dos incrédulos para que não vejam a luz do Evan- gelho. E noutro lugar diz ele que o Diabo reina em todos os ímpios e desobedien- tes.364 A cegueira de todos os praticantes do mal e todos os malefícios resultantes são declaradamente obras do Diabob ; e, todavia, não é preciso procurar a causa fora da vontade humana, da qual procede a raiz do mal e na qual está a base do reino do Diabo, quer dizer, o pecado.365 Quando a ação é de Deus, ótimo! É muito diferente! Mas, para entender bem a questão, tomemos os danos que os caldeus fizeram a Jó366 :367 é que, matando os seus pastores, roubaram todos os seus camelos. Já vimos com os nossos próprios 364 2 Co 4.4; Ef 2.2. Calvino observa que os “incrédulos se encontram tão intoxicados por Satanás, que, em seu estupor, não têm consciência de sua miséria.” (J. Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (2Tm 2.26), p. 247). “Todos os que vivem segundo o curso do mundo, ou seja, segundo as inclinações da carne, batalham sob o comando de Satanás.” [João Calvino, Efésios, (Ef 2.2), p. 52.] a invita mancipia domini jure obire jussa (termos do direito romano). O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio b O pecado. O Diabo não é interposto aqui pela lógica do pensamento, mas a sua intervenção é afirmada em virtude da autoridade da Escritura. 365 “Aqueles que a tal combate se preparam na confiança de si próprios não compreendem suficientemente com quão aguerrido e bem equipado adversário se tenham de haver” (Calvino, As Institutas, III.20.46). Calvino, observa que os “incrédulos se encontram tão intoxicados por Satanás, que, em seu estupor, não têm consciên- cia de sua miséria.” [J. Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (2Tm 2.26), p. 247]. NE. 366 Jó 1. 367 “Os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor Se utiliza para executar os juízos que em Si determinou.” (João Calvino, As Institutas, I.17.5). Comentando a investida de Satanás contra Jó, arremata: “Concluímos que desta provação de que Satanás e os perversos salteadores foram os ministros, Deus foi o autor.” (João Calvino, As Institutas, I.18.1). Em outro lugar: “Paulo não lhe [a Satanás] concede o supremo governo, o qual pertence exclusiva- mente à vontade de Deus, a não ser que lhe atribui aquela tirania cujo exercício procede da permissão divina. O que é Satanás senão o verdugo de Deus para punir a ingratidão humana?” [João Calvino, Efésios, (Ef 2.2), p. 53.] NE.
  • 142. 142 As Institutas – Edição Especial olhos os autores dessa maldade. Sim, quando vemos ladrões cometendo roubos e mortes, não temos dúvida de lhes imputar culpa e de os condenar. Ora, assim é, e a história atesta que isso provém do Diabo. Vemos, pois, que ele faz a sua parte.a Por outro lado, Jó reconheceu que era obra de Deus, dizendo que Deus o tinha despojado dos bens que lhe tinham sido arrebatados pelos caldeus. 67. Autor do mal?368 Como poderemos dizer que uma mesma obra foi realizada por Deus, pelos ho- mens e pelo Diabo, e não desculparmos o Diabo, sendo que parece agir em con- junto com Deus, ou, por que não dizer que Deus é o Autor do mal? Facilmente poderemos responder, se considerarmos primeiro o fim, e depois a maneira de agir. O propósito de Deus era exercitar o Seu servo na paciência por meio da adversidade. Satanás esforçou-se para levar Jó ao desespero. Os caldeus se em- penharam na empreitadab de enriquecer-se roubando bens alheios. Tal diferença de propósitos distingue claramente entre a obra de uns e de outros. Na maneira de proceder não é menor a dissemelhança. O Senhor deixou o Seu servo Jó com Satanás para que este o afligisse e, por outro lado, entregou-o aos caldeus, ordenando-lhes que agissem como Seus ministros, e encarregou o Diabo de os impulsionar e guiar.369 Satanás estimulou com os seus aguilhões venenosos o coração dos caldeus para cometerem aquela iniqüidade. E, por sua vez, os caldeus eram maus e, dando-se à prática daquela maldade, contaminaram o seu corpo e a sua alma. Portanto, é próprio falar que a atividadec de Satanás é reprovada, exercendo ele o seu reinado, isto é, o reinado da perversidade. Pode-se muito bem dizer também que de algum modo Deus aged quando Satanás, como instrumento de Sua ira, segundo a Sua vontade e as Suas ordens, impele os homens para lá e para cá para executarem os Seus juízos.370 Não falo aqui da ação universal de Deus, por quem são sustentadas todas as criaturas e também de quem recebem poder para realizar o que realizam. Falo da Sua ação particular, que se mostra em cada a Parágrafo acrescentado em 1539. 368 Calvino tinha uma compreensão clara a respeito da relevância bíblica da doutrina da Providência. Falando das diversas calúnias que levantavam contra ele, partindo, inclusive de falsos irmãos, diz: “Só porque afirmo e mantenho que o mundo é dirigido e governado pela secreta providência de Deus, [Esta expressão é comum a Calvino. Ver: O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 47.3), p. 343] uma multidão de homens presunçosos se ergue contra mim alegando que apresento Deus como sendo o autor do pecado [O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 51.4), p. 429].... Outros tudo fazem para destruir o eterno propósito divino da predestinação, pelo qual Deus distingue entre os réprobos e os eleitos....”. [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, p. 44,45.] Vd. também: John Calvin, “To the Seigneurs of Berne,” John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 398. NE. b 1539 acrescenta: præter jus et fas. 369 “É evidente que Satanás está sujeito ao poder de Deus, e é de tal maneira governado por sua vontade, que se vê obrigado a obedecer-lhe e a cumprir o que lhe manda.” (J. Calvino, As Institutas, I.14.17). NE. c d agere. 370 “Satanás mesmo, que opera interiormente com seu poder compelidor, é ministro de Deus, de tal maneira que ele só age em obediência à ordem divina.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.18), p. 337.] NE.
  • 143. 143 obra. Por tudo isso vemos que não há incoerência em atribuir uma mesma obra a Deus e ao Diabo, como também ao homem. Mas a diversidade, que está na inten- ção e no meio empregado, faz com que a justiça de Deus em tudo e por tudo se veja irrepreeensível.a Amalícia do Diabo e a do homem são reveladas pela confu- são feita com ambas. 68. Temor das conseqüências de dizer a verdade Os antigos mestres às vezes tinham receio de confessar a verdade nesta questão, achando que poderiam dar ocasião aos maus para falseá-la ou para falar irreverentemente das obras de Deus. Essa sobriedade tem a minha aprovação; todavia, não penso que haja algum perigo em termos simplesmente o que a Escri- tura nos mostra. Mas até Agostinho algumas vezes teve esse escrúpulo, como quando disse que não se deve atribuir a cegueira e o endurecimento dos maus à operação de Deus, mas sim à Sua presciência.371 Ora, essa sutileza não pode harmonizar-se com tantas expressões da Escritura que mostram claramente que o que existe é a providênciab de Deus, e não outra coisa. Semelhantemente, o que alguns apresentam no sentido de que Deus permite o mal, mas não o envia, não pode subsistir. Freqüentemente a Escritura afirma que Deus cega e endurece os maus, e que muda, dobra e move o coração deles. Não está certo empregar essas formas de falar recorrendo à presciência ou à permissão de Deus. Por isso respondemos dizendo que isto se faz duplamente. Porque, como acontece que, se a luz de Deus for retirada, nada restará em nós, senão a escuri- dão e a cegueira; se for retirado o Seu Espírito, o nosso coração se endurecerá como pedra; cessando a Sua direção, nos desgarraremos pelos campos, assim, por boa razão se afirma que Deus cega, endurece e impulsiona os maus, dos quais Ele tira a capacidade de ver, de obedecer e de fazer o bem. A segunda maneira, mais próxima da propriedade dos termos, é que Deus, para executar os Seus juízos por meio do Diabo, ministro da Sua ira, dirige para onde bem lhe parece o conselho dos maus, dá seguimento à vontade deles e con- firma o seu esforço. Conforme a primeira razão, deve-se entender o que se diz no Livro de Jó:372 “Aos eloqüentes ele (Deus) tira a palavra e atira o entendimento aos anciãos. Tira o entendimento aos príncipes do povo da terra e os faz vaguear pelos desertos sem caminho”. Igualmente o que diz o apóstolo Paulo:373 “Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira”. Também em Isaías:374 “Ó Senhor, por que nos fazes desviar dos teus caminhos? Por que endu- reces o nosso coração, para que te não temamos?” Vê-se que todas essas senten- 371 Libro de prædestin. et gratia. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a inculpata. b præscientia. 372 Jó 12.20,24. 373 2Ts 2.11. 374 Is 63.17.
  • 144. 144 As Institutas – Edição Especial ças visam mais indicar o que Deus faz com os homens, abandonando-os e dei- xando-os, que mostrar como Ele agea neles.375 Mas há outros testemunhos que vão além desse ponto. Como quando se fala do endurecimento do faraó:376 “Eu lhe endurecerei o coração (diz o Senhor), para que não deixe ir o povo”. Pouco depois diz Ele que “confirmou e corroborou o seu coração” [tradução direta]. Deve-se entender que Deus lhe endureceu o cora- ção, e não o amoleceu? É a pura verdade. Ma há mais uma coisa: é que Ele entregou o coração do faraó a Satanás, para o confirmar na obstinação. Por isso Ele tinha dito um pouco antes:377 “Eu darei mercê a este povo (Israel) aos olhos dos egípcios”. [Ou, em tradução direta: “Enternecerei o seu coração”.] Paralela- mente, quando o povo de Israel saiu do Egito, os habitantes do país pelo qual passaram [território de Seom] foram duros de coração para com eles;378 de onde teria vindo essa incitação? O certo é que Moisés disse que foi o Senhor que fortaleceu o coração deles para isso. O profeta,379 citando a mesma narrativa, afirma que o Senhor “mudou-lhes o coração para que odiassem o seu povo”. Agora não se poderá dizer que eles caíram no erro só porque foram privados do conselho de Deus, porquanto se vê que, se foram confirmados e conduzidos àquilo, de algum modo o Senhor os terá inclinado e os terá levado a agir assim. Ademais, todas as vezes que Lhe aprouve castigar as transgressões de Seu povo, não o fez por meio dos maus?380 Certo, nesses casos veja-se bem que o poder e a eficácia da ação procediam dele, e que aqueles maus eram apenas Seus minis- tros. Por vezes Ele ameaçou que com assobio chamaria nações para virem destruir Israel,381 por vezes os comparou com uma rede, e também com um martelo.382 Mas principalmente ele demonstrou que não havia ociosidade neles, com- parando Senaqueribe, homem mau e perverso, com uma cunha383 ou com um machado, dizendo que Ele o conduzia e o impelia com Sua mão para que ele cortasse como lhe agradasse. 69. Agostinho sobre a divisão das trevas Em certo lugar Agostinho fez uma distinção nada má: é que, no que os iníquos pecam, isso vem deles mesmos; e que, se ao pecarem fazem algo [de bom], isso a peragere. 375 “Enquanto por instrumentalidade dos ímpios Deus leva a cabo o que decretou em Seu juízo absconso, não são eles excusáveis, como se Lhe estejam a obedecer ao preceito, que, deliberadamente, violam em sua desregrada cupidez”. (João Calvino, As Institutas, I.18.4). NE. 376 Êx 4.21; 7.3; 10.20, etc. 377 Êx 3.21. 378 Dt 2.30. 379 Sl 105.25. 380 “Deus faz uso dos homens perversos e perniciosos como azorragues para castigar-nos e fazer-nos diligen- temente ponderar sobre a causa, ou seja: que nada sofremos que não seja o que merecemos, a fim de que essa reflexão nos conduza ao arrependimento” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 3), p. 81.] NE. 381 Is 5 e 7. [Ver 5.26.] 382 Ez 12.13 e 17.20 [Jr 51.20]; Hier. 50. 383 Is 10.15.
  • 145. 145 vem do poder de Deus, que divide as trevas como bem Lhe parece. Pois bem, que o ministério de Satanás se propõe a incitar os maus, quando Deus, por Sua pro- vidência os quer dobrar ora para cá, ora para lá, seria suficiente ver por uma passagem. Porque é dito muitas vezes que o mau espírito de Deus invadiu ou deixou Saul.384 Não é lícito atribuir isso ao Espírito Santo. Portanto, vemos que o espírito imundo é chamado espírito de Deus, sendo que ele responde ao beneplá- cito e ao poder de Deus; é instrumento de Sua vontade, e não autor propriamente dito. Não obstante, há, como se diz, sempre uma grande distância entre o que Deus faz, o que o Diabo faz e o que os malfeitores fazem numa mesma obra. Deus faz servir à Sua justiça os instrumentos maus que Ele tem em Sua mão, e que Ele pode manobrar em prol de tudo quanto Lhe pareça bom. O Diabo e os ímpios, maus como são, produzem e criam, mediante suas obras, a maldade con- cebida em seu espírito perverso. O restante do tema, que consiste em defender a majestade de Deus contra todas as calúnias e em refutar os subterfúgios utiliza- dos pelos que neste assunto são blasfemos, será exposto no tratado sobre a provi- dência de Deus,a porque aqui eu só quis mostrar, em resumo, como o Diabo reina num homem mau, e como Deus age tanto num como no outro. 70. Atos e feitos moralmente neutros Quanto às ações que não são nem boas nem más, e que pertencem mais à vida terrena que à espiritual, ainda não foi declarada qual é a liberdade do homem em relação a elas. Alguns dizem que nessas coisas temos direito de livre escolha. Isso dizem, penso eu. porque não querem discutir uma coisa que não consideram muito importante, preferindo não dá-la como certa. Quanto a mim, como confes- so que eles reconhecem que as suas forças são nulas para se justificarem no que se refere à salvação, sendo entendido o que é necessário para a salvação, penso, todavia, que não se deve negligenciar esse ponto, deixando de ver que é uma graça especial de Deus que atua quando nos ocorre escolher o que nos é proveito- so e desejá-lo; e também, em contrapartida, quando o nosso espírito e o nosso coração fogem daquilo que nos é prejudicial. E, de fato, a providência de Deus estende-se, não somente até onde faça surgir o que Ele sabe que é útil e prático, mas também até onde incline a vontade dos homens canalizando-a para um mesmo objetivo. É bem verdade que, se ava- liarmos a direção das coisas externas segundo os nossos sentimentos, julgaremos que elas estão sob o arbítrio e o poder do homem. Mas, se dermos atenção aos testemunhos [da Escritura], que revelam que é o nosso Senhor mesmo que nesta questão governa o coração dos homens, sujeitaremos o poder humano à ação especial de Deus. Que foi que tocou o coração dos egípcios movendo-os a cede- 384 1Sm 16, 18 e 19. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a Capítulo VIII, logo adiante.
  • 146. 146 As Institutas – Edição Especial rem ao povo de Israel os vasos mais preciosos que eles tinham?385 Jamais seriam induzidos a isso por iniciativa própria! Segue-se, pois, que o seu coração foi induzido mais por Deus que pelo motivo ou pela inclinação deles próprios. Que foi que levou o coração de Absalão a desviar-se386 para que não recebesse o con- selho de Aitofel que ele costumava receber como um evangelho?a Que foi que induziu Roboão a seguir o conselho dos jovens?387 71. Possível objeção, e resposta Alguém poderá replicar dizendo que esses exemplos são particulares, dos quais não se deve formular uma regra geral. Mas eu digo que são suficientes para pro- var o que pretendo, que é o seguinte: Todas e quantas vezes Deus quiser dar curso à Sua providência, mesmo com relação às coisas externas, Ele dobrará e girará a vontade dos homens a Seu bel prazer, e a escolha feita por eles não é tão livre que Deus não os esteja dominando, queiramos ou não. A experiência diária nos cons- trange a considerar que o nosso coração está mais sujeito a ser conduzido pela ação de Deus que por sua escolha e liberdade, visto que com freqüência a razão e o entendimento nos falham em coisas não tão difíceis de saber, e perdemos a coragem em coisas fáceis de fazer. Ao contrário, em coisas obscuras e duvidosas deliberamos sem dificuldade e sabemos como sair-nos; emb coisas de grandes conseqüências e que envolvem grande perigo, nossa coragem permanece firme, e não vacila. De onde vem isso? Não é do fato de que Deus age tanto por um lado como por outro? 72. A soberania do Criador E, de fato, entendo nesta matéria o que disse Salomão:388 “O ouvido que ouve e o olho que vê, o Senhor os fez”. Porque não me parece aceitável que nessa passa- gem ele esteja falando da criação, mas da graça especial, pela qual Deus opera nos homens dia a dia. Mais ainda quando ele diz:389 “Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina”. Não há dúvida de que ele está colocando todos os homens sob uma só espécie. Porque, se existe algum homem isento de toda sujeição, o privilégio pertence ao 385 Êx 11.2; [12.36]. 386 2Sm 16 e 17. a vice oraculi. 387 1Rs 12. b Parágrafo acrescentado em 1539. 388 Pv 20.12. 389 Pv 21.1. As Escrituras declaram que todos estão sob o Seu poder: Os reis (Pv 21.1), as nações (Sl 66.7), os inimigos do povo de Deus (Sl 68.1-2) e as coisas aparentemente “insignificantes” (Mt 10.29,30). Tudo que existe tem a sua sustentação e preservação no Deus Todo-Poderoso. Portanto, não há o que temer; as próprias montanhas “se desmoronam na presença do Senhor”. [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 68.2), p. 642.] (Sl 68.7-8/Ex 19.18).
  • 147. 147 rei, que está sobre todos e cuja vontade governa os outros. E então, se a vontade do rei é conduzida pela mão de Deus, a nossa não estará isenta dessa condição; e a respeito há esta bela sentença de Agostinho:390 “A Escritura, diz ele, desde que examinada diligentemente, mostra que não são somente as boas vontades dos homens, as quais Deus criou em seu coração e, tendo-as criado, as conduz às boas obras e à vida eterna, são o que são pelo poder de Deus; mas também assim acontece com todas as que pertencem à vida presente; e de tal maneira que Ele as inclina segundo o Seu querer para um lado ou para outro, seja para proveito dos seus semelhantes, seja para causar-lhes dano quando Ele quer aplicar-lhes algum castigo. E tudo é feito por Seu julgamento oculto e, todavia, justo”. Aqui é preci- so que os leitores se lembrem de que não há motivo para medir a faculdade do livre arbítrio do homem pelas coisas conforme surjam, como fazem alguns igno- rantes. Porque lhes parece claramente que podem provar que a vontade dos ho- mens está sob escravidão, mormente quanto às coisas que não são do gosto dos príncipes mais importantes do mundo e que com muita freqüência não conse- guem dar cumprimento aos propósitos dos seus empreendimentos. Ora, o poder e a liberdade agora em discussão devem ser considerados no homem, e não devem ser avaliados em função das coisas externas. Isso porque, quando se discute o livre arbítrio, não se debate se é lícito ao homem cumprir e realizar o que deliberou, sem que nada possa impedi-lo. O que está em questão é se em todas as coisas ele tem livre escolha em seu juízo para discernir o bem e o mal, e para aprovar aquele e rejeitar este. Ou, paralelamente, se ele tem livre disposição ou afeto em sua vontade para querer, buscar e seguir o bem, e para odiar e evitar o mal. Porquanto, se pudesse haver isso no homem, elea não seria menos livre encerrado numa prisão do que exercendo domínio sobre toda a terra. 73. Falsos mestres da liberdade alongam a discussão deste assunto Já seria suficiente o que falamos sobre a servidão da alma humana, não fosse que os que se empenham em seduzi-la com um falso conceito sobre a liberdade têm suas razões contrárias para impugnar a nossa proposição. Primeiro, eles apresen- tam algumas objeções absurdas para torná-la odiosa, como se ela causasse repul- sa ao senso comum dos homens; em seguida usam testemunhos da Escritura para dar-lhes força persuasiva. Nessa ordem vamos dar-lhes resposta. Assim, eles argumentam que, se o pecado é questão de necessidade, não é mais pecado; se é voluntário, pode ser evitado. Essa era a vara com a qual Pelágio pelejava contra Agostinho. Todavia, não queremos que por isso seu argumento não seja ouvido, até o refutarmos. E eu nego que o pecado não é imputado como a Em lugar do que aqui se segue, 1539 diz: non minus liberi arbitrii. Attilius Regulus erit, angustiis dolii aculeati inclusus, quam Augustus Cæsar magnam orbis partem nutu suo gubernans. 390 De gratia et libero arbitr. ad Valent., cap. XX. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 148. 148 As Institutas – Edição Especial pecado, tendo em vista que é necessário. Como também nego, por outro lado, que, como resultado, seja possível evitar o pecado, se este é voluntário. Porque, se alguém quiser usar como proteção esta cobertura, em demanda contra Deus, como se fosse um bom subterfúgio dizer que Ele não poderia agir doutro modo, terá incontinenti a devida e ágil resposta. “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim, o teu socorrro”.391 Porque, de onde vem aquela impossibilidade que ele pretende, senão da perversidade da sua natureza? E de onde procede essa perver- sidade, senão do fato de que o homem se afastou do seu Criador? Ora, se todos os homens são culpados dessa queda, eles não têm por que pensar em escusar-se alegando que praticam o mal necessariamente, visto que nisso está a justa causa da sua condenação. A outra parte do argumento dos citados opositores não é válida, uma vez que a sua pretensão é que tudo o que se faz voluntariamente é feito com plena liberdade. Pois logo acima nós provamos que muitas coisas que são feitas volun- tariamente não são feitas por livre escolha. Dizem eles depois que, se os vícios e as virtudes não procedem de livre escolha, não é lógico que o homem seja recom- pensado ou punido. Embora esse argumento tenha sido tomado de Aristóteles, sei bem que Crisóstomoa e Jerônimob fizeram algum uso dele. Jerônimo392 não esconde que o referido argumento era conhecido pelos pelagianos, dos quais ele cita as seguintes palavras: “Se a graça de Deus atuar em nós, ela será recompen- sada, e não fomos nós que trabalhamos”. Quanto às punições que Deus aplica pelos malefícios, respondo que nos são devidas com justiça, porque a culpa do pecado reside em nós. Não importa, pois, se pecamos sentindo-nos livres ou ser- vis, a menos que seja por cupidez voluntária, principalmente em vista de estar o homem convencido de que é pecador, estando sob a servidão do pecado. Quanto ao proveito que se obtém da prática do bem, que absurda é essa questão, se con- fessamos que muito mais nos é dado pela benignidade de Deus do que nos é restituído pelos nossos méritos! 74. Méritos ou dons? Quantas vezes se vê repetida esta sentença nos escritos de Agostinho: que Deus não nos premia pelos nossos méritos, mas por Seus dons, e que o proveito que nos vem assim se chama, não porque nos seja devido por nossos méritos, mas porque nos é dado como retribuição pelas graças que nos foram conferidas ante- riormente! Isso se aplica aos que entendem que os méritos não têm lugar, a não ser que as boas obras procedam da virtude e do poder do próprio homem. Mas pensarem eles uma coisa tão estranha é uma verdadeira zombaria. Porém o após- tolo os livrará dessa tola fantasia, se quiserem saber de qual princípio se deduz a a b Acréscimos feitos em 1539. 391 Os 13.9. 392 In epistola ad Ctesiphontem, et. dialog.
  • 149. 149 nossa beatitude, e a glória eterna que esperamos. “Aos que (Deus) predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”.393 Então, por que os crentes são premiados? Certamente, segundo o apóstolo, vê-se que pela misericórdia do Senhor, e não pela habilidade deles, eles foram eleitos, chamados e justificados. Portanto, que seja eliminado esse tolo temor de que não haverá mais mérito se o livre arbítrio não for mantido. Porque é uma zombaria fugir daquilo para o que a Escritura nos leva. “Se o recebestes (diz o apóstolo Paulo),394 por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” Ve- mos que ele tira todo o poder do livre arbítrio, a fim de destruir todos os méritos. Não obstante, considerando que Deus é rico e liberal em Suas dádivas e bênçãos, Ele remunera as graças que Ele nos confere como se fossem virtudes vindas de nós, porque, dando-as a nós, torna-as nossas.395 75. A mesma natureza determina as mesmas qualidades na prática? Conseqüentemente, os opositores alegam a seguinte objeção que, ao que parece, foi tomada de Crisóstomo:396 Se estivesse em nosso poder escolher o bem e o mal, isso faria com que todos os homens fossem bons ou maus, visto que todos eles têm a mesma natureza. Com isso concorda o dito daquele que escreveu o livro intitulado A Vocação dos Gentios, que se atribui a Ambrósio.397 O referido dito é que ninguém jamais se afastaria da fé, se a graça de Deus deixasse a vonta- O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 393 Rm 8.30. 394 1Co 4.7. 395 “Os crentes devem ter sempre em mente o fato de que tudo que compreende e rodeia nossa vida, depende única e exclusivamente da bênção de Deus.” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo, Novo Século, 2000, p. 40). “Ninguém possui coisa alguma, em seus próprios recursos, que o faça superior; portan- to, quem quer que se ponha num nível mais elevado não passa de imbecil e impertinente. A genuína base da humildade cristã consiste, de um lado, em não ser presumido, porque sabemos que nada possuímos de bom em nós mesmos; e, de outro, se Deus implantou algum bem em nós, que o mesmo seja, por esta razão, totalmente debitado à conta da divina graça.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 4.7), p. 134- 135.] “Os bens terrenos à luz de nossa natural perversidade, tendem a ofuscar nossos olhos e a levar-nos ao esquecimento de Deus, e portanto devemos ponderar, atentando-nos especialmente para esta doutrina: tudo quanto possuímos, por mais que pareça digno da maior estima, não devemos permitir que obscureça o conhecimento do poder e da graça de Deus.” [J. Calvino, O Livro de Salmos, Vol. 2, (Sl 48.3), p. 355-356.] “À luz desse fato aprendemos, também, que os que são responsáveis pelo presunçoso uso da bondade divina, se aproveitam dela para orgulhar-se da excelência que possuem, como se a possuíssem por sua própria habilidade, ou como se a possuíssem por seu próprio mérito; enquanto que sua origem deveria, antes, lembrá-los de que ela tem sido gratuitamente conferida aos que são, ao contrário, criaturas vis e desprezíveis e totalmente indignas de receber algum bem da parte de Deus. Qualquer qualidade estimável, pois, que porventura virmos em nós mesmos, que ela nos estimule a celebramos a soberana e imerecida bondade que a Deus aprouve conceder-nos.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 8.4), p. 165-166.] “.... sejam quais forem os dons que possuamos, não devemos ensoberbecer- nos por causa deles, visto que eles nos põem sob as mais profundas obrigações para com Deus.” [João Calvino, Efésios, (Ef 4.7), p. 113.] NE. 396 Homil. 22 in Genesim. 397 Lib. II, cap. IV.
  • 150. 150 As Institutas – Edição Especial de humana [livremente] movível. É espantoso, como tão grandes personagens ficam tão iludidos! Pois, como foi que Crisóstomo não considerou que é a eleição de Deus que faz essa distinção entre os homens? Certamente não devemos ter vergonha de confessar o que o apóstolo Paulo afirma com tanta firmeza: que todos são perversos e dados à malícia; mas igualmente acrescentamos com ele que a misericórdia de Deus vem em socorro de alguns, a fim de que não perma- neçam todos na perversidade. E assim, sendo naturalmente vítimas todos da mes- ma moléstia, nenhuma garantia de solução haverá, a não ser para aqueles que a Deus aprouve curar. Os demais, abandonados por Seu justo juízo, ficam em sua corrupção, até serem consumidos. E, aliás, não é por causa deste ou daquele que uns prosseguem até o fim e outros fracassam no meio do caminho. Porque, de fato, a perseverança é dom de Deus, dom que Ele não estende a todos, indiferen- temente, mas a quem Lhe apraz.398 Se for pedida a razão desta diferença, por que uns perseveram constantemente e outros mudam, não se achará outra resposta que não esta: Os primeiros são mantidos pelo poder de Deus, pelo que não pere- cem; os do segundo grupo não recebem a mesma força, sendo que Deus quer mostrar pelo exemplo deles a inconstância humana.399 76. Exortações para quê? Os oponentes argumentam também que, se o pecador não fosse capaz de obede- cer, todas as exortações seriam frustrantes, não haveria utilidade nas admoesta- ções, e as repreensões seriam ridículas. Visto que já no passado essa objeção tinha sido feita aAgostinho, ele se sentiu constrangido a publicar o livro intitulado Correção e Graça, no qual, embora tivesse respondido ampla e completamente, não obstante, reduz a questão a este resumo: “Ó homem, nisto que te é ordenado, reconhece que é isso que deves fazer; no que tu és condenado por não tê-lo feito, sabe que tua virtude falhaa por causa do teu vício; e ao orares a Deus, sabe que só dele podes receber o que necessitas”. [Consideremos:] Em primeiro lugar, não somos só nós que defendemos esta causa, mas também Cristo e todos os Seus apóstolos. Portanto, que os nossos adversários considerem como será que pode- rão combater com êxito tais contendores! Tanto mais que Cristo declarou que sem Ele nada podemos fazer; contudo, Ele não deixa, por isso, de repreender os que, agindo sem Ele, praticam o mal, como também não deixa de exortar todos a 398 “O Senhor Jesus tem poder para nos levar lá! Ele lutará contra nossos inimigos para nós. Jesus nos guardará de cair no pecado, e levará todos aqueles pelos quais Ele morreu para a terra celestial. Ninguém será deixado para trás. Estaremos seguros e felizes com Ele para sempre. O Senhor Jesus nos apresentará a Deus e estare- mos com aqueles que alcançaram o céu antes de nós.” (C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, Säo Paulo, PES., 1992, p. 12.) NE. 399 A promessa de Deus sempre se cumpre; nós é que precisamos perseverar nela. Esta é a vontade de Deus, que permaneçamos firmes na Sua Palavra. “A herança da vida eterna já nos está garantida; visto, porém, que esta vida se assemelha a uma pista de corrida, temos que nos esforçar por alcançar a meta final.” [J. Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 10.36), p. 290.] NE. a Essa frase traduzida: in correptione.
  • 151. 151 que pratiquem boas obras. E com que severidade o apóstolo Paulo repreende os coríntios por não viverem o amor cristão!400 Mas depois ele roga a Deus que os capacite para o amor. Aos romanos ele testifica que a justiça não está nem no querer nem na ação do homem, mas na misericórdia de Deus.401 Mas ele não deixa de admoestá-los, exortá-los e corrigi-los. Por que aqueles tais não aconse- lham o Senhor a não se esforçar inutilmente, exigindo à toa dos homens o que só Ele lhes pode fazer, e em repreendê-los pelo mal que fazem, sendo que o fazem porque lhes falta a Sua graça? Por que não se queixam a Paulo de que ele deveria perdoar aqueles que não têm em suas mãos o quererem eles o bem, ou o realiza- rem, senão pela misericórdia de Deus, a qual lhes falta quando eles falham? Mas todas estas loucuras não têm lugara , visto que a doutrina de Deus está baseada em excelente razão, desde que bem analisada. É bem verdade que o apóstolo Paulo mostra que a doutrina, a exortação e as palavras persuasivas, em si mesmas, não têm grande proveito, quanto à mudança do coração. Vê-se isso quando ele diz402 que “nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento”. De que servem, então, as exortações?, alguém perguntará. Respondob que, se elas forem menosprezadas por um coração obstinado, as exortações servirão de testemunho para convencê- lo quando se der o juízo de Deus. E mesmo a consciência má é tocada e pressio- nada na vida presente, pois, por mais que escarneça, não as pode reprovar.403 77. Desculpas vãs Se for levantada esta objeção: Que fará o pobre pecador, visto que a prontidão do coração lhe é negada? Respondo: Como poderá ficar com rodeios, se ele só pode imputar a si mesmo a dureza do seu coração? Porque os maus, por mais que desejem considerar os preceitos e as advertências de Deus como ilusões ou utopi- as, quanto lhes é possível, são confundidos, queiram ou não, pela virtude daque- les mesmos preceitos e advertências. Mas a principal utilidade deve ser conside- rada quanto aos fiéis, sabendo-se que o Senhor opera em seu favor mediante o Seu Espírito, empregando contudo a Sua Palavra como instrumento para realizar a Sua obra neles, e fazendo isso com eficácia.404 a b Acréscimos feitos em 1539. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 400 1Co 3. 401 Rm 9.14-18. 402 1Co 3.7. 403 “Quando Deus resolve, por si mesmo, levar avante as coisas, ele nos toma, seres insignificantes que somos, como seus auxiliares e nos usa como seus instrumentos.” [J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.9), p. 107.] “Não lograremos progresso a menos que o Senhor faça próspera a nossa obra, os nossos empenhos e a nossa perseverança, de modo a confiarmos à sua graça a nós mesmos e tudo o que fazemos.” [J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.7), p. 106.] NE. 404 “Portanto, mesmo que o cuidado do agricultor não seja ineficiente, e a semente que ele semeia não seja improdutiva, contudo é tão-somente pela bênção de Deus que se torna produtiva.” [J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1996, (1Co 3.6), p. 103.] NE.
  • 152. 152 As Institutas – Edição Especial Quando se conclui, como se deve, que toda a virtude dos justos situa-se na graça de Deus,405 se alguém questionar: Por que os homens são admoestados a cumprirem o seu dever, e por que não deixá-los aos cuidados do Espírito Santo? Por que instigá-los mediante exortação, se não podem melhorar se não forem impulsionados pelo Espírito? Por que corrigi-los quando falham, visto que ne- cessariamente tropeçam e caem pela fraqueza da sua carne?, podemos responder: Homem, quem és tu, que queres impor leis a Deus? Se Ele quer preparar-nos mediante exortação para recebermos a graça de obedecer à Sua exortação, que é que tu tens para censurar e remoer essa ordem e essa maneira de agir?a Se as exortações não dessem aos crentes outro proveito além de redargüi-los de peca- do, ainda assim não deveriam ser consideradas inúteis. Mas agora, depois que elas apresentam grande proveito inflamando o coração de grande amor pela justiçab , e, contrariamente, de ódio e desprazer pelo pecado, realizando esse be- nefício pela ação interior do Espírito Santo, quando faz uso desse instrumento externo, para a salvação do homem, quem ousará rejeitá-las como supérfluas? 78. Sumário: dupla ação divina Se alguém desejar uma resposta mais clara, eu lhe darei a solução em poucas palavras. É que Deus agec duplamente em nós:d por dentro, por Seu Espírito; por fora, por Sua Palavra. Por Seu Espírito, iluminando o entendimento e formando o coração com amor pela justiça e pela inocência, Ele regenera o homem, fazendo dele uma nova criatura;406 por Sua Palavra, Ele estimula e incita o homem a dese- jar e a buscar essa renovação. Por Aquele e por Esta, Ele demonstra o poder da Sua mão, conforme a ordem da Sua dispensação. Quando Ele dirige essa mesma Palavra aos ímpios e réprobos, apesar de não fazê-los corrigir-se, não obstante, Ele a faz valer para este outro uso: que no presente sofram pressão em sua cons- ciência, e no dia do juízo sejam ainda mais inescusáveis.407 405 “Nenhum outro jamais se apropriará corretamente da justiça divina senão aquele que a abraça como ela lhe é oferecida e apresentada na Palavra.” [João Calvino, O Livos dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.10), p. 233.] NE. a œconomia. b operatur. c 1539 acrescenta: ad discutiendum torporem, ad eximendam voluptatem iniquitatis, et venenatam dulcedinem. d in electis suis. 406 “É o Espírito de Deus quem nos regenera e nos transforma em novas criaturas; visto, porém, que sua graça é invisível e oculta, no batismo nos é dado um símbolo visível dela.” [João Calvino, As Pastorais, São Paulo, Paracletos, 1998, (Tt 3.5), p. 350-351.] “Elimine-se o evangelho, e todos permaneceremos malditos e mortos à vista de Deus. Esta mesma Palavra, por meio da qual somos gerados, passa a ser leite para nos criar, bem como alimento sólido para a nossa nutrição contínua.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 4.15), p. 143.] NE. 407 Comentado o Salmo 62, escreve: “O Deus que governa o mundo por sua providência o julgará com justiça. A expectativa disto, devidamente apreciada, terá um feliz efeito na disposição de nossa mente, acalmando a impaciência e restringindo qualquer disposição ao ressentimento e retaliação em face de nossas injúrias.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 62.12), p. 584.] Interpretando o salmo de Davi, diz que inutilmente “....Os maus pensam em escapar em sua iniqüidade, mas que Deus os lançará abaixo. (...) Em nossa própria época, vemos tantos caracteres profanos que exibem uma desmedida audácia escudados na
  • 153. 153 79. Vão esforço de usar a Bíblia em prol do erro! Nossos adversários se afanam com grande empenho em colher força dos teste- munhos da Escritura a fim de que, se não puderem vencer-nos por citarem teste- munhos melhores e mais próprios que os que nós citamos, que ao menos possam humilhar-nos perante o povo. Mas isso é como se um comandante reunisse um exército com homens completamente ineptos para a guerraa para com eles assus- tar seu inimigo, fazendo com eles, antes de pô-los em ação, uma grandiosa revis- ta das tropas. Mas, se de fato se aprestassem para a batalha e se juntassem contra o inimigo, no primeiro assalto seriam postos em fuga. Por isso nos será fácil pôr abaixo todas aquelas objeções, que só têm aparência e vã ostentação.b E como todas as passagens citadas por eles podem ser reduzidas a certas classes, quando as distribuirmos sob uma resposta, muitas estarão respondidas satisfatoriamente. Assim, não será necessário relacioná-las uma após outra. Esses oponentes for- mam um grande escudo com os preceitos de Deus, que julgam ter força proporci- onal à nossa, de modo que, segundo eles, podemos lutar de igual para igual. Eles juntam um grande numero, e com isso medem as forças humanas. Eis como eles argumentam: “Ou Deus zomba de nós quando de nós exige santidade, piedade, obediência, castidade, amor fraternal, e quando nos proíbe a impureza, a idola- tria, a impudicícia, a ira, a rapina, o orgulho, e coisas semelhantes; ou exige de nós apenas o que está em nosso poder realizar”. 80. Classificação dos preceitos alegados Ora, todos os preceitos que eles juntam num só bloco podemos distinguir e sepa- rar em três espécies: Uns ordenam aos homens que se convertam; outros simples- mente recomendam a observância da Lei; os demais mandam perseverar na gra- ça de Deus já recebida. Tratemos primeiro de todos eles em geral; depois desceremos a cada espé- cie em particular. Reconheço que há muito tempo é comum avaliar as faculdades do ser humano pelo que Deus ordena, e que há nisso algum vestígio de razão. Todavia, digo que isso procede de uma grande ignorância; pois os que querem mostrar que seria um grande absurdo se a observância da Lei fosse impossível ao homem, usam um argumento muito fraco, dizendo que, se fosse assim, a Lei seria dada em vão. Realmente soa como se o apóstolo Paulo nunca tivesse falado disso! Porque, vejam vocês, que é que ele nos oferece? Que a Lei foi dada para agravar as transgressões: “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”; que a certeza de que a mão de Deus jamais os alcançará. Não só buscam a impunidade, mas fundamentam suas esperanças de êxito em seus malfeitos e se animam em intensificar a perversidade nutrindo a opinião de que excogitarão uma via de escape da própria adversidade.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 56.7), p. 499.] NE. a O termo imbellis (1539) é traduzido por essa frase. b Frase acrescentada em 1539. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 154. 154 As Institutas – Edição Especial Lei gera o pecado, veio para multiplicar o pecado.408 Estará ele dizendo que seria preciso haver correspondência com as nossas forças para que a Lei não fosse dada em vão? Não; antes, o apóstolo mostra em todas essas passagens que Deus nos ordenaa o que está acima da nossa capacidade para nos convencer da nossa incapacidade. Certamente, se a Escritura não ensinasse outra coisa senão que a Lei é regra de vida, à qual as nossas obras devem estar ajustadas, eu concordaria de imediato e sem dificuldade com a opinião deles. Mas, depois que ela nos explica muitas e diversas utilidades da Lei, devemos ficar com essa interpreta- ção, e não com as nossas fantasias. No que diz respeito a esta questão, tão logo a Lei nos ordena o que temos o dever de fazer, ela nos ensina com a mesma intensidade que a faculdade de obe- decer procede da graça de Deus.b Por isso a Escritura nos ensina a buscá-la pela oração.409 Se não vemos senão simples mandamentos e nenhuma promessa, Ele nos faz provar as nossas forças para vermos se elas seriam suficientes para fazer aquilo; mas depois nos ensina que os mandamentos e as promessas estão juntos e que estas últimas declaram não somente que precisamos ter como suporte a ajuda de Deus, mas também que em Sua graça está todo o nosso poder. E com isso demonstram satisfatoriamente que, não somente não somos suficientes, mas tam- bém que somos totalmente ineptos para a observância da Lei.410 Portanto, que não nos embaracemos mais com a propostac de que meçamos as nossas forças com os mandamentos de Deus, como se Deus ajustasse à nossa imbecilidade e pequenez a regra de justiça que Ele queria dar. Já pelas promessas, porém, vemos como estamos mal preparados, visto que, em tudo e por tudo, temos tão grande necessidade de Sua graça.411 Mas, dizem eles, a quem se persuadirá de que Deus lhes endereçou a Sua Lei? Aos troncos ou às pedras? Digo que Ele não quer persuadir nada dessas coisas! Porque os pecadores não são nem troncos nem pedras quando, sendo ensinados pela Lei que as suas concupiscências contrariam a Deus, eles se tor- 408 Rm 3, 5, 7. a O que se segue foi acrescentado em 1539. b Noutras palavras, ensinando-nos nossa incapacidade ética de obedecer à lei e o remédio para essa incapaci- dade, Deus nos dá o poder físico e formal de fugir-lhe. Portanto, não é de admirar que mais adiante Calvino diga que os rebeldes, aprendendo que as suas concupiscências contrariam a lei de Deus, “tornam-se culpa- dos em sua própria consciência”. 409 In enchirid. ad Laurent. de gratia et liber. arbitr., cap. XVI. 410 Calvino resumindo o Salmo 1, diz: “A suma e substância de todo o Salmo consistem em que são bem- aventurados os que aplicam seus corações a buscar a sabedoria celestial; ao passo que, os profanos desprezadores de Deus, ainda que por algum tempo se julguem felizes, por fim terão o mais miserável fim. (...) Tudo estará bem com os devotos servos de Deus, cuja incansável diligência é fazer progresso no estudo da lei divina.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 1), pp. 49,50.] NE. c 1539: proportio. 411 “É preciso lembrar que sempre que atribuímos nossa salvação à graça divina, estamos confessando que não há mérito algum nas obras; ou, antes, devemos lembrar que sempre que fazemos menção da graça, estamos destruindo a justiça [procedente] das obras.” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 389.] “É pela fé que nos apropriamos da graça de Deus, a qual está oculta e é desconhecida do entendimento carnal.” [J. Calvino, O Livro de Salmos, Vol 1, (Sl 13.5), p. 267.] NE
  • 155. 155 nam culpados em sua própria consciência; em paralelo contrastante, não são as- sim os crentes, que, quando advertidos da sua fraqueza, têm recurso na graça de Deus. A isso dizem respeito as seguintes sentenças de Agostinho:412 “Deus nos ordena o que não somos capazes de fazer a fim de que saibamos o que não deve- mos exigir dele”. Igualmente: “A utilidade dos preceitos é grande, se o livre arbí- trio for de tal modo considerado que a graça de Deus receba maior honra”. E mais: “Afé obtém o que a Lei impõe [ou: “Afé alcança o que a Lei comanda”]. O próprio Deus exige que tenhamos fé; e não encontra o que exige, a não ser que Ele a coloque onde queira para ali a encontrar”. E ainda: “Deus dá o que ordena, e ordena o que irá querer”.413 81. Explicação das três espécies de mandamentos, em particular Poderemos entender melhor isto se considerarmos as três espécies de manda- mentos de que falamos. Muitas vezes, tanto na Lei como nos Profetas, o Senhor nos conclama a converter-nos a Ele. Mas o profeta [Jeremias] responde de um outro ângulo: “Converte-me, e serei convertido, porque tu és o Senhor, meu Deus. Na verdade, depois que me converti (ou: que me converteste), arrependi-me”414 etc. Também nos manda “circuncidar o nosso coração”, mas, por meio de Moisés, Ele declara que essa circuncisão é feita por Sua mão.415 Numerosas vezes Ele exige dos homens” um “novo coração”;416 mas testifica que é somente Ele que o renova.417 Que dirão aqueles que recorrem aos preceitos de Deus para exaltar o poder do homem e extinguir a graça de Deus, sendo que vemos que unicamente pela graça de Deus os preceitos são cumpridos? O segundo modo de ação dos preceitos, que mencionamos, é simples: le- var-nos a honrar a Deus, a servir e apegar-nos à Sua vontade, a observar os Seus mandamentos e a seguir a Sua doutrina. Mas há um sem número de testemunhos segundo os quais tudo o que podemos ter da justiça, da santidade, da piedade e da pureza é dom gratuito e vem do Senhor. Quanto ao terceiro gênero, temos exemplo na exortação de Paulo e Barnabé, que eles fizeram aos crentes, a que perseverassem na graça de Deus.418 Mas nou- tro lugar o apóstolo Paulo mostra de onde procede esse poder: “Sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder”. Por outro lado, ele nos proíbe entristecer o Espírito de Deus, no qual somos “selados para o dia da redenção”.419 Mas o que nessas passagens ele ordena, noutra ele pede em oração ao Senhor, sabendo que 412 In enchirid. ad Laurent. de gratia et liber. arbitr., cap. XVI. 413 Homil. 29, In Ioan., epist., 24. 414 Jr 31.18,19. 415 Dt 30.6; [10.16]. 416 Ez 11,19; 36.26; [18.31]. 417 Jr 31. 418 At 13.43. 419 Ef 4.30; [6.10]. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio
  • 156. 156 As Institutas – Edição Especial isso está fora do poder dos homens; ele suplica ao Senhor que torne os tessalonicenses “dignos da sua vocação”420 e cumpra neles o que Ele tinha deter- minado por Sua bondade, e que complete a obra da fé. Os mais astutos e mal intencionados usam capciosamente os testemunhos da Palavra, alegando que nada disso impede que, como eles dizem, conjuguemos as nossas forças com a graça de Deus, e que, assim, Ele nos ajuda em nossa fraqueza. Eles citam algumas passagens dos Profetas onde parece que Deus re- partiu o poder da nossa conversão entre Ele e nós, como por exemplo esta: “Con- verte-me, e eu me converterei a ti” [Jr 31.18 – tradução direta]. Já demonstramos acima qual é o auxílio que temos de Deus, e não é necessário repeti-lo neste ponto, visto que a questão aqui não é mostrar que é em vão que os homens tentam pôr no homem a capacidade para cumprir a Lei porque Deus nos manda obedecê- la. Sim, pois nos é revelado que a graça de Deus é necessária para cumprirmos o que Ele ordena, e que para esse fim Sua graça nos é prometida.421 Quanto à declaração recém-citada: “Converte-me, e eu me converterei a ti”, de nada serve para confirmar o erro dos nossos opositores. Porque [nessa passa- gem] não se deve entender pela conversão a graça com a qual Ele renova o nosso coração para a vida santa, mas por ela Deus testifica a Sua boa vontade e o Seu amor por nós fazendo-nos prosperar, como se diz que Ele se afasta de nós quando Ele nos aflige. Por isso, quando o povo de Israel sofria miséria e calamidade por muito tempo e se queixava de que Deus tinha se afastado, Ele respondia que não lhes faltaria a benignidade, se eles retornassem ao reto caminho, e a Ele mesmo, que é a norma [viva] de toda a justiça. Será, pois, corromper essa passagem con- cluir dela que a eficácia da nossa conversão divide-se entre Deus e nós. Tratamos ligeiramente desta questão, porque a seu respeito ainda faremos algumas dedu- ções do tratado sobre a Lei.a 82. Segunda parte dos argumentos dos oponentes A segunda ordem dos seus argumentos não difere muito da primeira. Eles citam as promessas nas quais parece que Deus faz aliança com a nossa vontade, como nos seguintes exemplos: “Buscai o bem e não o mal, para que vivais”. Também: “Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra. Mas, se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados à espada”. E ainda: “Se eliminares as abomina- ções de diante da minha face, não serás rechaçado. Se ouvires a voz do teu Se- nhor e cumprires e guardares todos os seus preceitos, ele fará de ti o povo mais 420 2 Ts 1.11. 421 “Pela lei Deus exige o que lhe é devido, todavia não concede nenhum poder para cumpri-la. Entretanto, por meio do Evangelho os homens são regenerados e reconciliados com Deus através da graciosa remissão de seus pecados, de modo que ele é o ministério da justiça e da vida.” [João Calvino, Exposição de Segundo Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1995, (2 Co 3.7), p. 70.] NE. a Capítulo III, logo adiante.
  • 157. 157 excelente da terra”.422 E outras declarações semelhantes. Eles acham, então, que Deus estaria zombando de nós atribuindo à nossa vontade essas coisas, como se estivessem plenamente em nosso poder. E de fato, em termos humanos,a esse argumento tem aparência grandiosa. Porque se pode concluir que seria uma cru- eldade Deus fazer parecer que caberia unicamente a nós, independentemente da Sua graça, recebermos dele todo bem, quando não temos nenhum poder para isso; que seria ridículo oferecer-nos Deus benefícios, não tendo nós nenhuma possibilidade de desfrutá-los. Em resumo, pode-se alegar que não podemos ter nenhuma certeza quanto às promessas, se elas dependem de uma impossibilidade para serem cumpridas. Quanto a essas promessas, as quais trazem consigo uma condição impossí- vel, falaremos oportunamente. E se verá que, por mais impossível que seja o seu cumprimento, todavia não há nisso nenhum absurdo. Quanto à presente questão, nego que o Senhor esteja sendo cruel ou desumano para conosco quando nos exorta a merecermos Suas graças e Seus benefícios, embora saiba que somos incapazes de fazê-lo. Pois, como as promessas são feitas aos crentes e aos ímpios, elas têm sua utilidade tanto para uns como para os outros. Porquanto, como o Senhor, mediante os Seus preceitos, acicata e desperta a consciência dos ímpios, a fim de que eles não se gabem dos seus pecados por não ligarem para o Seu juízo, assim Ele faz das Suas promessas testemunhos de quão indignos são os ímpios da Sua benignidade. Quem negará que é próprio que Deus faça o bem aos que O honram e se vingue com rigor dos que desprezam a Sua majestade? Por- tanto, o Senhor age retamente,b quando expõe esta condição dos ímpios, que são mantidos cativos sob o jugo do pecado: Quando se retirarem do seu mau caminho, Ele lhes enviará todos os benefícios; e o propósito divino é que eles entendam que é com justiça que são excluídos dos benefícios devidos aos servos de Deus.423 E, por outro lado, Ele quer por todos os meios estimular os Seus fiéis a implorarem Sua graça, e não se deve estranhar muito que Ele faça com as Suas promessas o mesmo que fez com Seus mandamentos. Quando por Seus preceitos Deus nos ensina sobre a Sua vontade, Ele nos adverte da nossa miséria, dando- nos a conhecer como somos contrários à Sua santidade, e, ao mesmo tempo nos impulsiona a invocar o Seu Espírito, para por Ele sermos dirigidos no caminho reto. Mas, para que a nossa preguiça não seja fomentada demasiadamente pelos Seus preceitos, Ele acrescenta as Suas promessas, por cuja amenidade Ele nos induz a amar o que nos ordena. Ora, quanto mais amarmos a justiça, mais fervo- rosos seremos na busca da graça de Deus. 422 Am 1.14; Is 1.19,20; Jr 4; Dt 28; Lv 26. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a facundis quærimoniis amplificare promptum est. b rite et ordine. 423 “Devemos buscar refúgio na graciosa promessa da misericórdia que nos é oferecida em Cristo, para que saibamos com certeza que somos considerados justos aos olhos de Deus.” [J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 4.4), p. 131.] NE.
  • 158. 158 As Institutas – Edição Especial 83. Sumário Note o leitor, pelos protestos que aqui fizemos, que Deus não nos atribui a capa- cidade de fazer o que Ele diz, e, todavia, não zomba da nossa fraqueza, visto que esta Ele torna proveitosa aos Seus servos, e os ímpiosa Ele torna inescusáveis. 84. Terceira parte dos argumentos dos oponentes A segunda ordem dos argumentos aqui em discussão tem alguma afinidade com as precedentes. Isso porque eles apresentam as passagens nas quais Deus censura o povo de Israel que não queria tê-lo como Aquele que poderia mantê-los em paz e prosperidade. Exemplos: Como quando Ele diz: “Os amalequitas e os cananeus ali estão diante de vós, e caireis à espada, pois, uma vez que vos desviastes do Senhor, o Senhor não será convosco”.424 Igualmente: “Porque eu vos chamei e não me respondestes, eu vos destruirei como fiz a Silo” (tradução direta; [cf. Jr 7.13-15]). E mais: “Este povo não ouviu a voz do seu Deus, e não quis receber a sua doutrina, e por isso ele o rejeitou”.425 E ainda: “Porque endurecestes o vosso coração e não quisestes obedecer ao Senhor, todos estes males vieram sobre vós” (tradução direta). “Como”, alegam os nossos opositores, “todas essas censuras poderiam apli- car-se àqueles que poderiam responder imediatamente: ‘Só pedimos prosperida- de; tememos a calamidade. Quanto ao fato de que não temos obedecido ao Se- nhor e não temos dado atenção à Sua voz para que assim evitássemos o mal e tivéssemos melhor sorte, o que importa é que Ele nos faça livres, a nós que estamos presos ao cativeiro do pecado. É, pois, injusto que Deus nos condene pelo mal que padecemos, mal que não temos poder para evitar!’” Para responder a isso, deixando de lado o pretexto de necessidade, que não passa de uma cobertura frívola e sem nenhuma importância, pergunto se eles podem escusar-se, se não cometeram nenhuma falta. Porque, se eles se conven- cerem de que erraram, não é sem motivo que Deus declara que foi por essa causa que Ele não os manteve prósperos. Que eles me respondam, então, se podem negar que a causa da sua obstinaçãob foi a sua vontade perversa. Se eles encon- tram a origem do mal neles mesmos, por que se esforçamc para procurar as cau- sas fora deles, querendo fazer crer que não são eles os autores da sua própria ruína? Portanto, se é verdade que os pecadores, por seu próprio errod , são priva- dos dos benefícios de Deus e recebem punição da Sua mão, é mais que justo que essas palavras de repreensão lhes sejam dirigidas, a fim de que, se persistirem em 424 Nm 14.43. 425 Is 42 [tradução direta]. a 1539 diz, em lugar dessa frase: si volueritis, si audieritis, neque volendi audiendive liberam facultatem nobis Dominus tribuat. b contumaciæ. c inhiant. d 1529 acrescenta: non alieno vitio.
  • 159. 159 seu erro, concordem em acusar a sua própria iniqüidade como causa da sua misé- ria, em vez de insultarem a Deus dizendo que é rigoroso demais. Se eles não estiverem totalmente empedernidos e tiverem condições de tornar-se dóceis, que tratem de conceber desprazer e ódio por seus pecados, por cuja causa eles se acham em tão miserável situação. E, assim, retornem ao bom caminho e confes- sem que é verdade o que Deus demonstra ao repreendê-los. Pela oração de Daniel426 se vê que tais advertências têm tido bom proveito para os crentes fiéis, com relação a essa finalidade. Quanto à primeira utilidade, vemo-la no caso dos juízes que, por mandado de Deus, Jeremias admoestou por causa das suas condições deploráveis;427 o que foi predito por Deus, isto é, que Ele lhes dirigiria a Sua Palavra, e não Lhe dariam ouvidos; que os chamaria, e eles não Lhe responderiam. 85. Por que falar aos surdos? Mas, com que propósito deverá Deus falar aos surdos?, alguém dirá. O propósito é que, apesar disso, eles entendam que é verdade o que lhes foi dito, a saber, que é um sacrilégio abominável imputar a Deus a causa da calamidade sofrida por eles, sendo que a referida causa reside neles mesmos.428 Com essas três soluções, qualquer pessoa poderá facilmente despachar como resolvidos os inumeráveis testemunhos reunidos pelos inimigos da graça de Deus, tanto dos preceitos e das promessas de Deus, como também das censuras que Deus faz aos pecadores. Isso fazem os nossos oponentes porque desejam colocar no homem um livre arbítrioa , que não se pode encontrar.429 86. Citação aparentemente forte feita pelos oponentes Contudo, eles citam um testemunho da Lei de Moisés que fortemente parece contrariar a solução que oferecemos. É que, logo depois de ter tornada pública a Lei, Moisés faz esta declaração perante o povo: “Este mandamento que, hoje, te ordeno, não é demasiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos?... Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires”.430 O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 426 Dn 9. 427 Jr 7.27. 428 “Só uma exceção se deve fazer, a saber: que a causa do pecado, as raízes do qual sempre residem no próprio pecador; não têm sua origem em Deus, pois resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim o teu socorro” [Os 13.9].” [João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 1.24), p. 71.] NE. a liberi arbitrii simulachrum. 429 “No tocante ao reino de Deus e a tudo quanto se acha relacionado à vida espiritual, a luz da razão humana difere pouquíssimo das trevas; pois, antes de ser-lhe mostrado o caminho, ela é extinta; e sua perspicácia não é mais digna que a cegueira, pois quando vai em busca do resultado, ele não existe. Pois os princípios verdadeiros são como as centelhas; essas, porém, são apagadas pela depravação da natureza antes que sejam postas em seu verdadeiro uso.” [João Calvino, Efésios, (Ef 4.17), p. 134-135.] NE. 430 Dt 30.11-14.
  • 160. 160 As Institutas – Edição Especial Se isso fosse dito a respeito dos puros mandamentos, confesso que teríamos grande dificuldade para dar resposta ao argumento. Sim, pois, embora se possa alegar que a citada passagem fala da facilidade de entender os mandamentos e não de os praticar, ainda assim eu teria algum escrúpulo. Mas nós temos um bom expositor que nos tira toda a dúvida. É o apóstolo Paulo.431 Este afirma que ali Moisés fala da doutrina do Evangelho. Se algum teimoso quiser replicar dizendo que o apóstolo afastou essa passagem do seu sentido natural para dela extrair o dea Evangelho, se bem que não se deveria tolerar uma palavra tão maldosa como essa, todavia temos com que defender a exposição feita pelo apóstolo. Porque, se Moisés estivesse falando tão-somente dos preceitos, estaria enganando o povo com uma vã confiança, pois este pouco poderia fazer, a não ser arruinar-se, caso quisesse observar a Lei por seu próprio poder, julgando fácil fazer isso. Onde está essa nossa facilidade, visto que a nossa natureza sucumbe nesse ponto, e não há quem não caia quando tenta andar? É, pois, coisa mais que certa que, com suas palavras, Moisés incluiu a aliança de misericórdia que ele tinha dado a público junto com a Lei. O apóstolo Paulo, considerando isso, a saber, que a salvação nos é apresentada no Evangelho (não sob a condição tão dura e difícil, e mesmo totalmente impossível, pelo uso da Lei, mas sob uma condição fácil e amenizada), aplica o presente testemunho para confirmar como nos é manifestada a misericórdia de Deus. Portanto, o citado testemunho de nada serve para estabelecer uma liberdade na vontade do ser humano. 87. Mais algumas objeções Os nossos oponentes costumam fazer objeção a algumas outras passagens, nas quais é demonstrado que às vezes Deus retira a Sua graça dos homens para ver para que lado se voltarão eles. Como quando Ele diz em Oséias: “Eu me retirarei, até que eles deliberem em seu coração e resolvam seguir-me”.432 Seria uma coisa ridícula, dizem eles, querer verificar se os homensb seguirão o Seu caminho, a não ser que o coração deles fosse capaz de inclinar-se para um lado ou para o outro por seu próprio poder. Como se não fosse comum Deus dizer, por meio dos Seus profetas, que rejeitaria o Seu povo e o abandonaria até que ele se corrigisse. E consideremos o que de fato eles querem inferir disso. Porque, se eles dizem que, sendo abandonado por Deus, o povo pode converter-se por si mesmo, toda a Escritura os contradiz. Se confessam que a graça de Deus é necessária para a con- versão do homem, essas passagens de nada lhes servem para a sua luta contra nós. Mas eles dirão que a confessam necessária e que, entretanto, o homem pode realizar algo. Onde encontram eles provas do que afirmam? Certo é que não é na passagem aqui em foco, nem noutras semelhantes! 431 Rm 10.6-8. 432 Os 5.15 (tradução direta). a Provavelmente: devers [diverso]; 1539 diz: ad evangelium. b Israel.
  • 161. 161 88. Dois atos de Deus Porque se trata de duas coisas bem diversas: afastar o homem da graça, para ver o que ele fará tendo sido abandonado; e vir em socorro da sua debilidade, para fortalecer suas fracas forças. Mas eles reclamam: “Que significam, então, tais maneiras de falar?” Eu respondo: Valem como se Deus dissesse: “Visto que nada dá resultado com esse povo rebeldea , nem por admoestações, nem por exorta- ções, nem por repreensões, vou retirar-me por um pouco, e, em minha avaliação, suportarei que ele seja afligido. Assim verei se, após uma longa calamidade, ele se lembrará de mim para buscar-me”. Pois bem, quando se diz que Deus se recolherá, o sentido é que Ele retirará a Sua Palavra. Quando se declara que Ele considerará o que os homens farão em Sua ausência, quer dizer que quando Ele não se manifestarb , Ele os afligirá por algum tempo. Isto e aquilo Deus faz para nos humilhar mais. Pois, ainda que nos aniquilasse mil vezes mediante castigos e punições, não nos corrigiria, se não nos tornasse dóceis por Seu Espírito.433 Sendo essa a verdade, como é de fato, é inferência errônea dizer que o homem tem algum poderc de se converter a Deus, sendo que a Escritura afirma que Deus, ofendido por nossa dureza e obstinação, retira de nós a Sua Palavra, na qual nos comunica a Sua presença e avalia o que poderíamos fazer por nós mesmos. Porquanto, Ele faz tudo isso tão-somente para nos dar a conhecer que não somos nada e nada podemos por nós mesmos.d 89. Argumento das “nossas” boas obras Os nossos opositores argumentam igualmente com base na seguinte maneira co- mum de falar, tanto dos homens como também da Escritura: que as boas obras são chamadas nossas, e que nós fazemos tanto o bem como o mal. Ora, se os pecados nos são imputados com justiça como procedentes de nós, pela mesma razão as boas obras devem ser atribuídas a nós. Não seria razoável dizer que as coisas que Deus nos impõe nós fazemos como pedras, sendo que não as podemos fazer por ação própria nossa. Daí concluem eles que, dando como certo que a graça de Deus tem o poder principal, não obstante, as referidas expressões signi- ficam que nós possuímos algum poder natural para fazer o bem. O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 433 “E como sabemos que o propósito de Deus, ao infligir-nos algum castigo, consiste em humilhar-nos, então, quando somos reprimidos sob sua vara, a porta se abre para que sua misericórdia nos alcance. Além disso, visto que sua peculiar função é curar os enfermos, erguer os caídos, amparar os fracos e, finalmente, comu- nicar vida aos mortos, esta, por si só mesma, é uma razão suficiente para buscarmos seu favor quando nos acharmos mergulhados em nossas aflições.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 6.2), p. 126.) NE. a contumacem. b tacitum et quasi se dissimulantem. c aliquas liberi arbitrii vires. d nostram ouzevían.
  • 162. 162 As Institutas – Edição Especial 90. Resposta Se só houvesse a primeira objeção, a saber, que as boas obras são chamadas nossas, eu responderia que, por outro lado, nós chamamos nosso o pão cotidiano, o qual pedimos que nos seja dado por Deus. Então, o que se poderá pretender com essa palavraa , senão o seguinte: que aquilo que não se deve a nós é feito nosso pela infinita benignidade de Deus? Portanto, espanta-nos que os nossos adversários censurem o nosso Senhor por essa forma de falar, ou que considerem coisa muito estranha que as boas obras sejam chamadas nossas, nas quais não teríamos participação alguma, se não fosse a generosidade de Deus. Mas a segunda objeção é um pouco mais forte, a saber, que com freqüência a Escritura afirma que os fiéis servem a Deus, cumprem Sua justiça, obedecem à Sua Lei e aplicam o seu estudo à prática do bem. Pois bem, sendo essa função própria do entendimento e da vontade do ser humano, como se poderia concordar que isso fosse atribuído igualmente ao Espírito de Deus e a nós, se não houvesse nenhuma conjunção da nossa capacidadeb com a graça de Deus? Fácil nos será desvencilhar-nos de todos esses argumentos, se considerarmos corretamente de que maneira Deus age em Seus servos. Primeiramente, a figura que eles nos querem inculcar é importuna. Por- quanto, quem se irrita tanto, julgando que o homem é impelido por Deus como uma pedra lançada por nós? Certamente essa idéia não decorre da nossa doutri- na! O que dizemos é que se trata de uma faculdade natural do homem pela qual ele pode aprovar, rejeitar; querer, não querer; esforçar-se, resistir, a saber: apro- var a vaidade, rejeitar o verdadeiro bem; querer o mal, não querer o bem; esfor- çar-se no pecado, resistir à retidão. Que é que o Senhor faz nisso? Se a Sua von- tade é fazer uso da perversidade do homem como instrumento da Sua ira, Ele muda o seu rumo e a conduz como bem Lhe parece, a fim de realizar Suas obras justas e boas por meio de perversas mãos. Quando vemos, pois, um malfeitor servir a Deus quando o que quer é agradar a sua maldade, vamos assemelhar esse homem a uma pedra atirada pelo ímpeto de uma força externa, sem nenhum movimento, nenhum sentimento, nenhuma vontade dele próprio? Vemos quanta distância há entre uma coisa e outra! Que diremos dos bons, dos quais trata a questão principal aqui? Quando o Senhor quer edificar neles o Seu Reino, Ele refreia e modera a vontadec , para que esta não seja arrebatada pela concupiscência desordenada, sendo que, de outro modo, a isso levaria a sua inclinação natural. Por outro lado, Ele flexiona a vontade do homem, forma-a, dirige-a e a conduz à regra da justiça, a fim de fazê-la desejar a santidade e a inocência. Finalmente, Ele a confirma e a fortalece pelo poder do Seu Espírito, para que não a ex possessionis titulo (expressão jurídica). b Deus não coloca o mal no homem; Ele o encontra. Mas, encontrando-o, dirige-o – quando não o reforma –, para fazer resultar dele certos aspectos do bem que, sem isso, não poderiam existir. c 1539 acrescenta: per spiritum,
  • 163. 163 vacile nem se torne insensível. Isso mostra que a graça de Deus é como um canal e como rédeasa do Seu Espírito para dirigir e moderar a vontade do homem. Ora, Ele não poderá moderá-la sem corrigi-la, reformá-la e renová-la.434 91. O início da regeneração Por essa causa dizemos que o começo da nossa regeneração está naquilo que de nós é anulado. Paralelamente, Ele não poderá corrigi-la sem movê-la, impulsioná- la, conduzi-la e mantê-la em forma. Por isso dizemos que todas as ações que assim procedem são de Deus. Entretanto, não negamos que haja muita verdade no que diz Agostinho: que a nossa vontade não é destruída pela graça de Deus, mas, antes, é reparada. Porque ambas estas verdades se combinam: que a vontade do homem é reparada quando, após ter sido corrigida a sua perversidade, ela é conduzida à regra da justiça; e que, nesse processo, há uma nova vontade criada no homem. Assim é porque a vontade natural é tão corrupta e pervertida que é necessário que seja totalmente renovada.435 92. Sumário Agora nada nos impede de dizer que as obras que praticamos Deus produz em nós, e que não cooperamos, por nosso poder, com a Sua graça. A razão disso é, primeiramente, que, na mesma medida em que Ele as produz em nós, Ele quer que sejam nossas, desde que entendamos que não são nossas; e, em segundo lugar, que igualmente temos por nossa natureza o entendimentob , a vontade e a busca de conhecimentoc , forças que Ele dirige para o bem com o fim de fazê-las produzir algo de bom. 93. Outros argumentos dos oponentes Os outros argumentos que eles reproduzem aqui e ali não poderão perturbar mui- to as pessoas de entendimento médio, desde que recordem bem as soluções aci- ma apresentadas. Eles alegam que em Gênesis está escrito o seguinte: “O teu desejo estará sob ti, e tu dominarás sobre ele”.436 O que eles interpretam como se referindo ao pecado. Como se Deus tivesse prometido a Caim que o pecado não poderia dominar seu coração, se ele se dispusesse a trabalhar para vencê-lo. Ao contrário, dizemos que o texto antes se refere a Abel. Porque, nessa passagem, a O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a Acréscimo feito em 1539. 434 “... sejam quais forem nossas aflições, é a mão de Deus que nos alenta, e que os ímpios não passam de azorragues que Ele emprega com esse propósito; e mais ainda, que tal consideração é muitíssimo oportuna para guiar-nos ao exercício da piedade.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 17.13), p. 343.] NE. 435 Ver: João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.7), pp. 266-267. NE. b mens. c studium. 436 Gn 4.7 (tradução direta).
  • 164. 164 As Institutas – Edição Especial intenção de Deus é reprovar a inveja que Caim tinha concebido contra o seu irmão, e isso por duas razões. A primeira é que Caim estava enganado, pensando adquirir excelência acima do seu irmão, diante de Deus, sendo que para Deus só há honra na justiça e na integridade. E a segunda é que ele foi muito ingrato, face à bênção que tinha recebido de Deus, pois declarou que não podia ser responsá- vel por seu irmão, que era seu inferior e sobre o qual ele tinha o governo. Contudo, para que não fique a impressão de que escolhemos esta interpreta- ção porque a outra nos é contrária, concedamos que Deus está falando do pecado. Se assim é, ou Deus promete que Caim lhe será superior, ou lhe ordena que sejaa Se lhe ordena, jáb vimos que os nossos oponentes não podem provar coisa algu- ma com a qual possam estabelecer o livre arbítrio. Se é promessa, onde está o seu cumprimento? Porquanto se vê que Caim foi vencido pelo pecado, o qual ele deveria dominar. Possivelmente dirão que há uma condição tácita inclusa sob a promessa, como se Deus tivesse dito: “Se lutares, conseguirás a vitória”. 94. Dá para agüentar? Mas, quem poderá tolerar tais rodeios e oscilações? Porque, se é do pecado que se trata, não há dúvida nenhuma de que é uma exortação feita por Deus a Caim, a qual mostra claramente que ele não tem capacidade para vencer o pecado, mas que tem o dever de vencê-lo, apesar de não poder. Os nossos opositores se ser- vem também do testemunho do apóstolo, quando ele declara que a salvação “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericór- dia”.437 Dessa declaração eles inferem que a vontade e o curso de ação do homem têm alguma participação, e que a misericórdia de Deus supre o que falta. Mas, se eles aplicassem a razão ao assunto de que fala o apóstolo na referida passagem, não dariam tratamento tão abusivo e inconsiderado à sua proposição.438 a Vê-se que, para Calvino, dever não significa poder, no sentido de aptidão ou capacidade ética, mas somente no sentido de aptidão formal e física. Deus não rebaixa as exigências racionais e absolutas da lei moral ao nível das variações acidentais das aptidões éticas do homem. b Subentendido: demonstrado; (1539: demonstravimus). 437 Rm 9.16. Ver: João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 9.16), pp. 333-335. 438 Calvino (1509-1564) dá um golpe definitivo em todo e qualquer conceito de merecimento: “É preciso lem- brar que sempre que atribuímos nossa salvação à graça divina, estamos confessando que não há mérito algum nas obras; ou, antes, devemos lembrar que sempre que fazemos menção da graça, estamos destruindo a justiça [procedente] das obras.” [ João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 11.6), p. 389.] Em outro lugar: “as pessoas são muitíssimo insensatas ao suporem que existe algum mérito ou dignidade nos homens que preceda a eleição divina.” [João Calvino, Exposição de 1Coríntios, (1Co 1.28), p. 70.] Ainda: “Que ninguém conclua que os eleitos o são em virtude de serem eles merecedores, ou porque de alguma forma conquistaram para si o favor divino, ou ainda porque possuíam alguma semente de dignidade pela qual Deus pôde ser movido a agir. A idéia simples, que devemos levar em conta, é esta: o fato de sermos contados entre os eleitos independe tanto de nossa vontade quanto de nossos esforços – pois o apóstolo substituiu correr por esforço ou diligência. Ao contrário, deve ser atribuído totalmente à benevolência divina, a qual, por si mesma, recebe graciosamente aqueles que nada empreendem, nem se esforçam, nem mesmo tentam.” [João Calvino, Exposição de Roma- nos, (Rm 9.16), p. 333.] NE.
  • 165. 165 Bem sei que eles podem citar Orígenes439 e Jerônimo440 como defensores da sua explicação. Mas não é preciso que nos preocupemos com o que eles pen- sam a respeito, desde que entendamos o que o apóstolo quis dizer, a saber, que só obterá a salvação aquele a quem Deus tenha ministrado a Sua misericórdia; e que a ruína e a confusão estão preparadas para todos aqueles que Ele não tenha esco- lhido.441 O apóstolo demonstrou a condição dos reprovados citando o exemplo do faraó, e provou a eleição gratuita dos fiéis citando o testemunho de Moisés, na passagem em que Deus diz: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia”.442 E então conclui que “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia”. Se se argumentar, com base nessas palavras, que há alguma vontade e al- gum poder no homem, como se o apóstolo Paulo dissesse que a vontade e a habilidade humanas, sozinhas e por sua própria capacidade, não seriam suficien- tes, será um argumento mal posto e sem critério. É necessário, pois, rejeitar essa sutileza totalmente destituída de razão. Porquanto, que propósito há em dizer: a salvação não depende de quem quer nem de quem corre? Há, pois, alguma vonta- de e algum curso de ação. Mas a sentença do apóstolo Paulo é mais simples: é que não há nem vontade nem curso de ação que nos leve à salvação, mas unica- mente a misericórdia reina nessa questão. Paulo não comenta aqui outra coisa senão a mesma de que fala noutra passagem,443 na qual ele declara: “Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia...”. Se, com base nessas palavras, eu quisesse afirmar que temos praticado al- gumas boas obras, sendo que Paulo nega que tenhamos obtido a graça de Deus pelas obras de justiça que tenhamos praticado, até os nossos adversários zomba- riam de mim. No entanto, o argumento deles é parecido. Por isso, que eles pen- sem bem no que dizem, e, assim, não irão basear-se em razão tão frívola. 95. Um apócrifo em cena! Depois os nossos opositores apresentam o testemunho do Livro de Eclesiástico, cujo autor se sabe que não tem autoridade segura e certaa Mas, ainda que não o O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio a Com efeito, Eclesiástico não faz parte do cânon hebraico, o único que Jesus conheceu. O Concílio de Trento fez dele um livro canônico, é verdade. Os defensores da tese do concílio se baseiam na presença desse livro no “cânon alexandrino”. Mas a existência de tal cânon não foi comprovada. Filo [nome também grafado “Filão”] nunca cita Eclesiástico, e os manuscritos dos Setenta [Setuaginta] que contêm esse livro são todos de origem cristã [ou seja, da era cristã]. É, sem dúvida, por ignorância do hebraico que a igreja oriental achou que devia manter o Livro de Eclesiástico como canônico. 439 Lib. VII in epist. ad Rom. 440 Dialog. 2 in Pela. 441 “Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericór- dia gratuita de Deus.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 6.4), pp. 128-129.] NE. 442 Êx 33.19. 443 Ad Tit. 3.
  • 166. 166 As Institutas – Edição Especial recusemos (coisa que poderíamos fazer com justiça), como pode esse testemu- nho ajudar a causa deles? Diz ele444 [isto é, o autor que se intitula “Eclesiásti- co”]445 que “Deus criou o homem desde o princípio, e deixou-o na mão do seu conselho. Deu-lhe mais os seus mandamentos e os seus preceitos. Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão, e tu conservarás sempre a fidelida- de que agrada a Deus. ... Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; o que lhe agradar, isso lhe será dado”. É fato que, em sua criação, o homem recebeu o poder de escolher entre a vida e a morte; mas, que acontecerá se res- pondermos que ele o perdeu? Por certo não vou querer contradizer Salomão, que afirma446 que no princípio o homem foi criado bom, mas ele forjou perversas invenções por sua conta. Ora, depois que o homem, degenerando-se e afastando-se de Deus, arrui- nou-se com todos os seus, o que se diz a respeito da sua primeira criação não se deve estender à sua natureza viciosa e corrupta. Por isso respondo, não somente aos nossos opositores, mas também ao Eclesiástico (seja ele quem for), da se- guinte maneira: Se queres ensinar o homem a buscar em si a capacidade de ad- quirir a salvação, tua autoridade não merece uma estima tal que possa prejudicar a Palavra de Deus, a qual evidentemente é contrária. Se queres somente reprimir as blasfêmias da carne, a qual, transferindo seus erros e vícios para Deus, procura escusar-se, e, com relação à presente causa, na qual tu pretendes mostrar que o homem recebeu de Deus uma boa natureza e que ele foi a causa da sua ruína, nisso concordo de bom grado, desde que concordemos também neste ponto: que agora o homem está despojado dos ornamentos e graças recebidos originaria- mente de Deus. 96. Recorrendo a Jesus Cristo – e a uma alegoria Mas o que os nossos adversários têm mais freqüentemente nos lábios é a parábo- la de Cristo, na qual Ele fala do homem que salteadores deixaram semimorto à beira do caminho.447 Bem sei que é doutrina comum dizer que sob a pessoa desse homem está representada a calamidade do gênero humano. Daí tomam o seguin- te argumento: O homem não foi de tal maneira morto pelo pecado e pelo Diabo que não lhe reste alguma porção de vida; tanto é que o homem da parábola é descrito como estando semimorto. E, onde estaria essa meia vida, dizem eles, senão que lhe restava alguma porção de reta inteligência e reta vontade? Veja- mos: Se eu não quiser aceitar a sua alegoria, que farão eles? Porque não há dúvi- da nenhuma de que foi cogitada pelos antigos pais, ultrapassando o sentido literal e natural da passagem. Não devemos aceitar as alegorias, a não ser que tenham 444 Eclesiástico 15.14-18 (Matos Soares). 445 Vd. a opinião de Calvino a respeito dos Livros de Macabeus e Eclesiástico, nas Institutas, II.5.18 e III.15.4. NE. 446 Ec 7.29. 447 Lc 10.
  • 167. 167 suas bases na Escritura. Muito longe estão de poderem provar alguma doutrina. Acresce que não nos faltam razões para refutar tudo o que os nossos adversários dizem. Pois a Palavra de Deus não deixa meia vida no homem, mas declara que ele está totalmente morto quanto à vida plenamente feliz. Quando o apóstolo Paulo fala da nossa redenção, ele não diz que nós estamos protegidos de uma meia morte, mas que fomos ressuscitados da morte.448 Ele não chama para recebe- rem a graça de Cristo os que estão meio vivos, mas os que estão mortos e sepulta- dos. Com o que se harmoniza com o que diz o Senhor, que “vem a hora e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão”.449 Não terão eles vergonha de apresentar sei lá que leviana alegoria contra tantos e tão claros testemunhos? Mas, ainda que a alegoria utilizada por eles tenha algum valor, que poderão concluir contra nós? O homem, dirão eles, está semimorto; segue-se então que lhe resta alguma porção de vida. Reconheço, cla- ro, que o homem tem alma capaz de inteligência, mas incapaz de se aprofundar ao ponto de chegar à sabedoria celestial de Deus.450 Ele tem algum discernimento do bem e do mal, tem algum sentimento, alguma percepção, que lhe permite saber que existe um Deus, mas não possui conhecimento verdadeiro.451 Em que redundam, porém, todas essas coisas? Certamente elas não podem agir de tal maneira que desmintam o que diz Agostinho: que os dons gratuitos, O Conhecimento do Homem e o Livre Arbítrio 448 Ef 5.2 etc. “Como a morte espiritual não é outra coisa senão o estado de alienação em que a alma subsiste em relação a Deus, já nascemos todos mortos, bem como vivemos mortos até que nos tornamos participan- tes da vida de Cristo.” [João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 2.1), p. 51.] 449 Jo 5.25. 450 “O homem, com toda a sua astúcia, é tão estúpido para entender por si mesmo os mistérios de Deus, como um asno é incapaz de entender a harmonia musical.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 1.20), p. 60.] NE. 451 Calvino, discorrendo sobre a revelação de Deus na Natureza, diz: “Em toda a arquitetura de seu universo, Deus nos imprimiu uma clara evidência de sua eterna sabedoria, munificência e poder; e embora em sua própria natureza nos seja ele invisível, em certa medida se nos faz visível em suas obras. O mundo, portan- to, é com razão chamado o espelho da divindade, não porque haja nele suficiente clareza para que os homens alcancem perfeito conhecimento de Deus, só pela contemplação do mundo, mas porque ele se faz conhecer aos incrédulos de tal maneira que tira deles qualquer chance de justificarem sua ignorância. (...) O mundo foi fundado com esse propósito, a saber: para que servisse de palco à glória divina.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 11.3), pp. 300-301.] “Nas coisas que Ele criou, Deus, portanto, mantém diante de nós nítido espelho de sua esplendorosa sabedoria. Em resultado, qualquer indivíduo que desfrute de pelo menos uma minúscula fagulha de bom senso, e atenta para a terra e outras obras divinas, se vê aturdido por candente admiração por Deus. Se os homens chegassem a um genuíno conhecimento de Deus, pela observação de suas obras, certamente que viriam a conhecer a Deus de uma forma sábia, ou daquela forma de adquirir sabedoria que lhes é natural e apropriada.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 1.21), p. 62.] “.... este mundo é semelhante a um teatro no qual o Senhor exibe diante de nós um surpreen- dente espetáculo de sua glória.” [João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 1.21), p. 63.] Ele entende que “o princípio da religião” que é implantado nos homens é uma das evidências da sua “preeminente e celestial sabedoria”. [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 8.5), p. 167.] Em outros lugares, observa que “no coração de todos jaz gravado o senso da divindade” [João Calvino, As Institutas, I.3.1.]; “Sabemos, aliás, que todos os homens possuem algum senso de religião impresso em seus corações, de modo que ninguém ousa desvencilhar-se pública ou totalmente de seu culto.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.6), p. 224.] Então, argumenta que a tentativa humana de negar a Deus nada mais é do que uma revelação do “senso de divindade que, tão ardentemente, desejariam extinto”. [João Calvino, As Institutas, I.3.3.] Conclui que é impossível haver verdadeiro ateísmo. NE.
  • 168. 168 As Institutas – Edição Especial pertencentes à salvação, foram extirpados do homem após a sua queda; e que os dons naturais, que não podem levar à salvação, foram corrompidos e estão maculados, estão poluídos. 97. Conclusão Por tudo isso, formulamos uma sentença que de modo algum pode ser enfraquecida. É a seguinte: O entendimento do homem está de tal maneira e tão completamente alienado da justiça de Deus que ele não pode imaginar, conceber e compreender outra coisa que não a maldade, a iniqüidade e a corrupção; e, semelhantemente, que o seu coração acha-se tão envenenado pelo pecado que só pode produzir perversidade de toda sorte. E se suceder que, de algum modo, o homem faça algo que tenha a aparência de bem, não obstante o seu entendimento permanece sempre envolto na hipocrisia e na vaidade, e o seu coração está sem- pre entregue à malícia.
  • 169. 169 CAPÍTULO III 1. Introdução [1539]Ao explicarmos as coisas que se requerem para o verdadeiro conhecimen- to de Deus, não é possível concebê-lo segundo a Sua grandeza, sem que imedia- tamente nos venha à mente este pensamento: Somente Ele tem a majestade mere- cedora de soberana honra.a Quanto ao conhecimento de nós mesmos, dissemos que o ponto principal é que, estando vazios de toda fantasia ou ilusão sobre o nosso próprio poder, despojados de toda confiança em nossa justiça, e, ao contrá- rio, abatidos pela consideração da nossa pobreza, aprendemos a perfeita humil- dade, rebaixando-nos e destituindo-nos de toda glória. Ambos esses aspectos nos são mostrados pela Lei de Deus, na qual o Senhor, reivindicando primeiramente o poder de comandar, ensina-nos a ter reverência por Sua divindade, demonstran- do em que consiste e em que se situa essa reverência; e a seguir, tendo ordenado a Os mandamentos figuravam no frontispício de muitos opúsculos de edificação, como, por exemplo, em 1496, sob o título de La Fleur des Commandemens de Dieu (A Flor dos Mandamentos de Deus). Reimpresso em Paris em 1516. A tradução dos mandamentos difere aqui [nesta edição francesa] da da Bíblia de 1535 e da da Instruction (Instrução) de 1537. Em Estrasburgo Calvino pôde ler o Pequeno Catecismo de Lutero, traduzido para o latim (D. Martini Lutheri theologi catechismus lectu dignissimus, latinus factus per Vincentium Obsopœum [o tradutor], impresso em 1529 em Haguenau com o de Bretz (I. Brentii ecclesiastæ hallensis pro pueris catechismus minor, etc.). Seguindo os procedimentos catequéticos anteriormente em uso, Lutero primeiro explica o Decálogo, depois o Credo, a oração dominical e, por fim, os sacramentos. Antoine Saunier tinha posto em verso La chanson des dix commandemens (A Canção dos Dez Manda- mentos), 1532. O primeiro catecismo de Calvino (Instruction et confession de foy dont on use em l’Eglise de Genève – Instrução e Confissão de Fé em Uso na Igreja de Genebra, 1537), depois de alguns artigos preliminares, explica, conforme o hábito, primeiro “a Lei do Senhor”, depois “o símbolo da fé”, e, por fim, “a oração dominical” e os sacramentos.
  • 170. 170 As Institutas – Edição Especial a regra de justiça, Ele nos recrimina, tanto por nossas tendências como por nossa injustiça. Igualmente mostra que a justiça da nossa natureza, sendo, como é, cor- rupta e perversa, é inteiramente contrária e repulsiva à justiça de Deus. E mais: que à perfeição dessa justiça as nossas faculdades pessoais não podem corresponder, débeis e inúteis que são para a prática do bem. Portanto, a ordem que registramos no começo desta obra nos leva a tratar agora da Lei de Deus. 2. A lei interior Ora, tudo o que nos é necessário saber dela, de algum modo nos é ensinado pela lei interior, da qual dissemos acima que está escrita e praticamente impressa no coração de cada ser humano. Porque a nossa consciência não nos deixa dormir um sono perpétuo sem nenhum sentimento. Antes, em nosso íntimo ela nos dá testemunho e nos admoesta a respeito do que devemos a Deus, mostra-nos a diferença entre o bem e o mal, e assim nos acusa quando deixamos de cumprir o nosso dever. Todavia, o homem está de tal maneira envolvido nas trevas da igno- rância que a duras penas consegue, por essa lei natural, ter uma bem fraca per- cepção de qual serviço agrada a Deus. Ao menos, longe está de conhecê-lo retamente.a Além disso, tão inchado de orgulho e de ambição é ele, tão cego de amor-próprio, que nem mesmo pode observar a si mesmo e descer ao seu nível para aprender a humilhar-se e confessar a sua miséria. Por isso, conforme neces- sário à altivez do nosso espírito e à nossa arrogância, o Senhor nos outorgou Sua Lei, escrita, para nos dar mais certo e claro testemunho dos pontos muito obscu- ros da lei natural e, pondo fora a nossa negligência ociosa, tocar mais vivamente o nosso espírito e a nossa memória. 3. O que se deve aprender da Lei Agora fica fácil entender o que se deve aprender da Lei. São as seguintes verda- des: Como Deus é o nosso Criador, tem todo o direito de ocupar sobre nós a posição de Senhor e Pai; por essa razão, devemos render-lhe glória, reverência, amor e temor; e ainda, não somos livresb para seguir a cupidez do nosso espírito, para onde quer que nos incite. Mas aprendemos também que em tudo depende- mos do nosso Deus e devemos restringir-nos unicamente àquilo que Lhe dá pra- zer; e mais, que a justiça e a retidão Lhe são agradáveis, ao passo que, ao contrá- rio, a iniqüidade Lhe é abominável. Por isso, se não quisermos por perversa in- gratidão abandonar o nosso Criador, devemos amar a justiça e aplicar-nos a estudá- la a vida toda. Porque, se somente Lhe prestamos a devida reverência quando preferimos a vontade de Deus à nossa, segue-se que não se pode dar-lhe outra a Eorum summam quæ in vera Dei notitia requiruntur. Antes de traduzir a parte inicial do livro de 1536, Calvino, em 1539, ainda resume, encabeçando o cap. III, os capítulos I e II; a seguir trata da lei interior (consciência), antes de passar aos valores da Lei expressa no Decálogo. b esse nostri júris (fórmula empregada pelo direito romano).
  • 171. 171 honra legítima que não seja a observância da justiça, da santidade e da pureza. E não é lícito ao homem desculpar-se por não ter capacidadea e, como um devedor pobre, por não ter com que pagar. E não é conveniente nem sensato medir a glória de Deus pelos nossos poderes, visto que, o que quer que sejamos, Ele é sempre comparável a Si mesmo – e Ele é amigo da justiça e inimigo da iniqüidade. E qualquer coisa que exija de nós, visto que só pode fazê-lo com justiça, só temos que obedecer, por obrigação natural. O que não conseguimos fazer é por nosso defeito, porque, se somos detidos, como que amarrados, por nossa cupidez, na qual impera o pecado, não estando livres para obedecer ao nosso Pai, não devemos, para defender-nos, alegar que se trata de um mal necessário, sendo que o mal está em nós e a nós deve ser imputado. 4. Dupla conclusão inicial Quando tiramos bom proveito da doutrina da Lei até aqui, ela mesma nos leva a concluir que precisamos humilhar-nos. Daí podemos deduzir duas coisasb : A pri- meira é que, comparando a justiça de Deus com a nossa imperfeição, muito se pode dizer sobre o fato de que não satisfazemos à vontade de Deus, e, portanto, que somos indignos de manter o nosso lugar e a nossa categoria entre as Suas criaturas, e isso a tal ponto que merecemos ser considerados como crianças. Em segundo lugar, avaliando as nossas forças, que não somente não as consideremos suficientes para o cumprimento da Lei, mas totalmente nulas. Segue-se necessa- riamente daí um desafio à nossa virtude, ao nosso poder, e depois uma angústia e tremor de espírito. Sim, porque a consciência não pode agüentar o fardo do peca- do sem que logo lhe venha o juízo de Deus; e a percepção do juízo de Deus sempre traz consigo um terror mortal. Semelhantemente, uma vez que a consci- ência esteja convencida, por experiência, da sua fraqueza, só pode desesperar de suas forças. Ambos estes sentimentos geram derrocada e humildade. Decorre, por fim, que, aturdido por sentir a morte eterna, que ele já vê próxima de si pelos méritos da sua injustiça, converte-se à misericórdia singular de Deus como a um único porto de salvação. E, sentindo que não está em seu poder pagar o que deve à Lei, desesperando de si, aspira a receber e a buscar ajuda alheia. a Para Calvino o adágio: “à límpossible nul n’est tenu” (ninguém se importa com o impossível), não tem valor, exceto no caso de inaptidão física, devida a uma limitação originária de nossas faculdades psicológicas. Mas, se a impossibilidade ou incapacidade de querer cumprir a lei divina é causada pela capacidade do mau querer e da preferência espontânea da pessoa [como ser] moral pela injustiça com relação ao direito de Deus, trata-se então de um fato de ordem moral, que determina um juízo moral de condenação. b O desenvolvimento que se segue é de importância capital porque dá a chave do segredo que chamaremos a dinâmica da doutrina reformada sobre a incapacidade do querer humano. Talvez pareça paradoxal que tal doutrina possa ser um estimulante para o ato decisivo que regenera a vontade. Calvino faz-nos compreender as condições nas quais nasce um estado psicológico tal que levará “necessariamente” o pecador a buscar o ponto de apoio da alavanca “em outro”, não nele mesmo. Sobre a Lei
  • 172. 172 As Institutas – Edição Especial 5. Promessas e ameaças Mas o Senhor, não Lhe bastando mostrar a reverência que devemos ter por Sua justiça, e com a finalidade adicional de levar o nosso coração a dedicar amor à Sua justiça e a votar ódio à iniqüidade, acrescenta promessas e ameaças. Visto que os olhos do nosso entendimento vêem tanta dificuldade que não somos capa- zes de comover-nos só com a beleza e a honestidade da virtude, o Senhor, segun- do a Sua benignidade, quis incentivar-nos a amá-la e a desejá-la mediante a agra- dável recompensa que nos propõe. Por isso nos revela que deseja remunerar a virtude, e que aquele que obedecer aos Seus mandamentos não se esforçará em vão. Diversamente, Deus nos dá a saber não somente que a injustiça Lhe é execrável, mas também que não poderá escapar sem punição, porquanto Ele está determinado a vingar todo desprezo por Sua majestade. E para nos estimular por todos os meios, Ele promete tanto as bênçãos da vida presente como a bem- venturança eterna aos que guardarem os Seus mandamentos. E, por outro lado, não com menos vigor ameaça os transgressores com calamidades corporais e com os tormentos da morte eterna. Porque esta promessa: “Os meus estatutos e os meus juízos guardareis; cumprindo-os, o homem viverá por eles”,452 e também a ameaça correspondente: “A alma que pecar, essa morrerá”,453 sem dúvida ne- nhuma se referem à morte ou à imortalidade futura, que jamais terá fim. Acresce que, sempre que o Senhor faz menção da Sua benevolência ou da Sua ira, a pri- meira contém a eternidade da vida, e a segunda, a perdição eterna. Pois bem, na Lei é proclamada uma longa lista de bênçãos e de maldições para a presente existência.454 Nos castigos que Ele declara transparece Sua grande pureza, visto que Ele não pode suportar a iniqüidade. Por outro lado, as promessas mostram quanto Ele ama a justiça, uma vez que Ele não quer deixá-la sem remuneração. Paralelamente, nisso Ele demonstra maravilhosa benignidade. Pois bem, visto que em tudo o que somos e em tudo o que há em nós, somos devedores à Sua majestade, que se nos impõe com todo o direito, tudo o que Ele exige de nós o exige como algo que Lhe é devido. Ora, o pagamento de tal débito não merece nenhuma remuneração.a Porque Ele renuncia a Seu direito quando nos oferece alguma recompensa por nossa obediência – sendo que esta não Lhe prestamos de bom grado, mas como se fosse algo que não Lhe é devido. Bem, daqui a pouco se verá que proveito podemos tirar das promessas propriamente ditas. No momento, basta que entendamos e avaliemos o fato de que nas promes- sas da Lei há uma singular recomendação da justiça, a fim de que se veja mais certamente quanto a sua observância agrada a Deus. Por outro lado, as penas são ministradas com a maior execração da injustiça, a fim de que o pecador não se 452 Lv 18.5. 453 Ez 18.4. 454 Lv 26; Dt 28. a Calvino tende a repetir que a recompensa ao fiel não é conseqüência do mérito de suas obras.
  • 173. 173 embriague com o falso dulçor do seu pecado, chegando a esquecer que o juízo de Deus está preparado para ele.a 6. Tendência humana de mudar a Lei de Deus com fantasiosas invenções Ora, querendo o Senhor dar-nos a regra da justiça perfeita, reduziu todas as suas partes conforme a Sua vontade, e nisso fica demonstrado que nada Lhe agrada mais que a obediência. O que, portanto, é necessário observar diligentemente, uma vez que a dureza e a intemperança da mente humana inclinam-na fortemente a imaginar novas honras e novos serviços para render-lhe, com o fim de adquirir a Sua graça. Porque em todos os tempos essa irreligiosa imitação da religião, naturalmente arraigada em nosso espírito, sempre se manifestou, e ainda se ma- nifesta no presente, em todo o gênero humano. É que aos homens sempre apetece forjar alguma maneira de obter justiça sem a Palavra de Deus. Disso resulta que, entre as boas obras que comumente são bem apreciadas, os mandamentos de Deus têm bem estreito espaço. Enquanto isso, uma infinita multidão de preceitos humanos ocupa o primeiro lugar e o mais amplo espaço. Mas, foi essa cupidez que Moisés quis refrear quando, após a publicação da Lei, assim falou ao povo: “Guarda e cumpre todas estas palavras que te ordeno, para que bem te suceda a ti e a teus filhos, depois de ti, para sempre, quando fizeres o que é bom e reto aos olhos do Senhor, teu Deus”.455 Faze somente o que te ordeno; e mais: “nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela”.456 E antes, após haver declarado que esta era a sabedoria e o entendimento do povo de Israel perante todas as nações, o fato de haver recebido do Senhor os juízos, as normas de justiça e o cerimonial, disse-lhe ao mesmo tempo: “Tão-somente guarda-te a ti mesmo e guarda bem a tua alma, que te não esqueças daquelas cousas que os teus olhos têm visto, e se não apartem do teu coração todos os dias da tua vida”.457 Certamente porque o Senhor tinha previsto que os israelitas não iriam per- severar depois de receberem a Lei, que desejariam inventar novas maneiras de servi-lo, a não ser que Ele segurasse firme as suas rédeas, Ele declara que a Sua Palavra contém toda a perfeição da justiça – o que deveriam tratar de reter muito bem. E, todavia, não desistiram dessa audácia que lhes tinha sido fortemente proibida. E quanto a nós? Certamente essa mesma Palavra nos constrange.b Por- que não há dúvida de que sempre o Senhor quis e quer atribuir à Sua Lei uma perfeita doutrina sobre a justiça. E, contudo, não contente com ela, fazemos ma- ravilhas para inventar e forjar boas obras e mais boas obras. 455 Dt 12.28. 456 Dt 4.2. 457 Dt 4.9. a paratum. Sobre a Lei b constringimur.
  • 174. 174 As Institutas – Edição Especial 7. O melhor remédio O melhor remédio que existe para corrigir esse mal é ter esta reflexão bem plan- tada em nosso coração: Que a Lei nos foi dada pelo Senhor para nos ensinar a justiça perfeita, e que nela nenhuma outra justiça nos é ensinada, senão a que nos manda regrar-nos pela vontade de Deus e conformar-nos a ela. Assim, inutilmen- te imaginamos novas formas de obras para obter a graça de Deus, sendo que o único serviço legítimo que se Lhe pode prestar é a obediência. A verdade é que, ao contrário, o estudo e a prática das boas obras que estejam fora da Lei de Deus constituem uma intolerável profanação da justiça divina e verdadeira.a Mas, quando a Lei do Senhor nos for explicada mais propriamente e com maior proveito, discutiremos seu ofício e seu uso. Antes, porém, de tratarmos particularmente de cada divisão, é bom primeiro saber o que se refere ao conhe- cimento universal da Lei. Primeiramente, é preciso fixar que a vida do homem deve ser regrada pela Lei, não somente para uma honestidade externa, mas tam- bém para a justiça interna e espiritual. Essa verdade, por mais inegável que seja, não obstante recebe bem pouca consideração. Isso acontece porque não se leva em conta o legislador, cuja natureza deve determinar a apreciação da respectiva lei. Se algum rei proibisse mediante um edito a licenciosidade, o homicídio e o roubo, entendo que aquele que concebesse em seu coração algum desejo de pra- ticar libertinagem, ou de roubar ou de matar, sem chegar efetivamente ao ato, e sem se esforçar par pô-lo em prática, não seria atingido pela pena que seria estabelecida. Isso porque a providência do legislador mortal não se estende além da honestidade externa, e suas leis só serão violadas se o mal for de fato concre- tizado. Mas Deus, a cujos olhos nada está oculto, não observa tanto a aparência exterior do bem, como a pureza interior. E Ele, condenando as práticas libertinas, o homicídio e todas as formas de roubo, condena toda concupiscência carnal, o ódio, a cobiça de bens alheios, a mentira e todas as coisas semelhantes a essas. A razão disso é que, como Ele é um legislador espiritual, não fala menos à alma que ao corpo. Ora, a ira e o ódio são morte quanto à alma; a cobiça é roubo; o amor desordenado é libertinagem. Mas alguém dirá que as leis humanas igualmente consideram o conselho e a vontade, e não apenas os acontecimentos fortuitos. Reconheço isso; mas são entendidos como expressões da vontade as que são levadas adiante, e só se leva em consideração a intenção referente às obras efetivamente praticadas. As cogi- tações secretas não são inquiridas. Portanto, quem se abstém de cometer trans- gressões exteriormente satisfaz às leis políticas.b Ao contrário, visto que a Lei de a Calvino condena aqui as “obras pias” recomendadas pela igreja de Roma como conselhos de perfeição. Para Calvino, a perfeição consistiria em observar [cumprir] perfeitamente a Lei de Deus. Longe de podermos fazer mais do que aquilo que a Lei ordena, ficamos sempre abaixo do ideal que ela nos prescreve. b illis satisfactum fuerit, ubi quis manum duntaxat continuerit.
  • 175. 175 Deus é dada à nossa alma, se a quisermos cumprir bem, é preciso que principal- mente a nossa alma seja reprimida. Ora, na maior parte os homens, mesmo quan- do querem dissimular fingindo-se desprezadores da Lei, levam os seus olhos, os seus pés, as suas mãos e as outras partes do seu corpo a fazerem o que eles lhe ordenam; entretanto, o seu coração permanece alienado da obediência a ela. Com isso eles se julgam quites com a Lei, se escondem dos homens o que aparece diante de Deus. Eles ouvem: “Não matarás”; “Não cobiçarás”; “Não furtarás”. Por isso não desembainham a espada para matar, não se portam como cobiçosos dissolutos, e não estendem as mãos para apossar-se de bens alheios. Tudo isso é bom; mas o coração deles está cheio de mortes e arde de concupiscência carnal; eles não podem ver os bens do próximo, senão com maus olhos, devorando-os por sua ambição. Nisso lhes falta o principal da Lei. Eu lhes clamo: De onde vem tal estupidez? Não é que, deixando de lado o legislador, eles acomodam a justiça ao seu [pobre] entendimento? De encontro a essa opinião o apóstolo Paulo brada alto e firme, dizendo que a Lei é espiritual.458 Com essas palavras ele quer dizer que a Lei não somente exige obediência da alma, da mente e da vontade, mas também uma pureza angélica, a qual, purificada de toda mácula carnal, só sente o espírito e nada mais. 8. O ensino de Cristo Dizendo que esse é o sentido da Lei, não fazemos uma nova exposição de nós mesmos, mas seguimos a Cristo, excelente expositor. Porque, visto que os fariseus tinham semeado entre o povo uma opinião perversa, a saber, que aquele que não comete mal nenhum por obra externa contra a Lei é bom cumpridor da Lei, Ele redargüi a esse erro, dizendo: Olhar para uma mulher com intenção impura é cometer adultério;459 e: Todos os que odeiam seu irmão são homicidas.460 Pois Ele declara réus de juízo todos os que concebem alguma ira, ainda que somente em seu coração; culpáveis perante o conselhoa todos os que, murmurando, mos- tram alguma ofensa por dureza de coração; e condenáveis à geena de fogo todos aqueles que, de maneira injuriosa, declaram abertamente o seu mau propósito. Os que não entendem isso imaginam que Cristo foi um segundo Moisés, dando- nos a lei evangélica para suprir o que falta à lei mosaica. Disso procede o concei- to vulgar de que a Lei Evangélica é muito maior do que a antiga Lei. Isso é um erro por demais perverso. Porque, quando mais adiante reduzirmos a um sumário os preceitos de Moisés, suas próprias palavras mostrarão quão grande ultraje é feito à Lei de Deus ao se dizer aquilo. Ademais, dessa opinião se seguiria que a santidade dos antigos “pais” em nada diferia da hipocrisia. Finalmente, seria desvi- a consilio. Sobre a Lei 458 Rm 7.14. 459 Mt 5.27,28. 460 Mt 5.21,22.
  • 176. 176 As Institutas – Edição Especial ar-nos da regra única e perpétua da justiça que Deus nos deu então. Ora, esse erro é fácil de refutar. Sim, porque esse tipo de gente pensa que Cristo fez acréscimos à Lei, quando Ele tão-somente a restabeleceu em sua inteireza, isto é, limpou-a das mentiras dos fariseus, com as quais eles a tinham obscu- recido e conspurcado. 9. Aspectos implícitos nas entrelinhas da Lei Em segundo lugar, é necessário observar que os preceitos de Deus contêm mais alguma coisa que não vemos expressa em palavras. O que, todavia, requer moderaçãoa , para que não lhes demos o sentido que nos pareça certo, manipulan- do-os daqui e dali a nosso bel-prazer. Há alguns que, com essa liberdade, fazem com que a autoridade da Lei seja vilipendiada, como se ela fosse incerta, ou então que não se espere poder entendê-la. É preciso, pois, quanto possível, en- contrar um caminho que nos leve com segurança, e sem vacilação, à vontade de Deus. Quer dizer, é necessário considerar até que ponto a exposição deve ultra- passar a palavra, de tal maneira que se veja que não é um acréscimo feito à Lei de Deus com glosas ou tentativas humanasb de explicação, mas que é o puro sentido natural do legislador. É certo que em todos os preceitos é notório que uma parte é colocada pelo todo, e quem quisesse restringir o entendimento à medida das pa- lavras, seria digno objeto de zombaria. É, pois, notório que a mais ampla exposi- ção que se pode fazer da Lei ultrapassa as palavras; mas será obscura, se não se estabelecer algum limite. Pois bem, eu penso que no presente caso será muito bom dirigir o pensa- mento ao motivo ou à razão pela qual o preceito foi dado. Isto é, que em cada preceito se considere com que finalidade nos foi dado por Deus. Exemplo: Todo preceito é para ordenar ou para proibir. Teremos o verdadeiro entendimento de um e de outro, se considerarmos a razão ou a finalidade pretendida. Como o objetivo do quinto mandamento é mostrar que é preciso prestar honra a quem Deus a quis atribuir, este será pois o resumo da matéria em questão: A verdadeira piedade é agradável a Deus, ou seja, essa é a verdadeira honra que rendemos à Sua majestade; e, ao contrário, a impiedade Lhe é abominável. Assim, em todos os preceitos é necessário ver do que cada um deles trata; depois, é preciso buscar a sua finalidade, até encontrarmos o que é que Deus quer testificar sobre se Lhe é agradável ou desagradável. Depois, sobre o que o preceito diz, precisamos for- mular um argumento baseado na inversão, desta maneira: Se tal coisa agrada a Deus, o contrário Lhe desagrada; se Lhe desagrada, o contrário Lhe agrada; se Ele ordena isto, proíbe o contrário; se proíbe aquilo, ordena o contrário. a temperandum, ne sit nobis instar Lesbiæ regulæ, qua freti, scripturam licentiose contorquentes, quodlibet e quolibet faciamus. b attextam ex glosis. Calvino indica neste ponto os seus princípios de exegese, para ser, como diz noutro lugar, um “fiel expositor”.
  • 177. 177 10. Esclarecendo o argumento baseado na inversão dos termos O que ainda está obscuro, por ter sido tratado brevemente, será mais facilmente esclarecido pela experiência, quando explicarmos os preceitos. Portanto, é sufi- ciente haver tocado no assunto, lembrando, porém, que precisamos confirmar e fortalecer o último ponto acima referido, que, de outro modo, não seria entendido ou pareceria nada razoável. O que dissemos, a saber, que onde o bem é ordenado, o mal, que lhe é contrário, é proibido, não requer comprovação, porque não há quem não o conceda como fato. Paralelamente, o juízo comum concordará de boa vontade que, quando se proíbe o mal, ordena-se o bem, que lhe é contrário. Pois é algo vulgar que, quan- do se condenam os vícios, recomendam-se as virtudes. Mas exigimos algo mais, que em geral os homens não entendem, o que mostram quando confessam que pela virtude contrária ao vício eles só entendem a virtude como a abstenção do vício. Mas nós vamos além, a saber, explicando que praticar a virtude é fazer o contrário do mal. Citar exemplos ajuda a entender melhor o ponto, como no caso do mandamento: “Não matarás”. O senso comum dos homens só o entende no sentido de que é necessário que o homem se abstenha de todo ultraje e de todo desejo de matar ou de causar dano ao seu semelhante. Mas eu digo que é preciso entender mais que isso, a saber, que devemos ajudar a manter a vida do nosso próximo por todos os meios que nos forem possíveis. E para que não pareça que falo sem razão, quero provar o que digo. O Senhor nos proíbe ferir ou ofender o nosso próximo porque deseja que a vida dele nos seja querida e preciosa. Por isso Ele exige semelhantemente de nós que pratiquemos a caridade de muitas manei- ras, pelas quais se possa manter a sua vida. Assim, podemos perceber como a finalidade de um preceito nos ensina o que nos é ordenado ou proibido fazer. Se alguém pedir a razão que explique por que o Senhor só em parte explicitou o Seu querer, não o expressando claramente, em resposta pode-se alegar muitas razões, mas há uma que, acima de todas as outras, é satisfatória para mim. É a seguinte: Visto que a carne sempre se esforça para colorir ou disfarçar com inúteis coberturas a torpeza do seu pecado, para dar provas incontestáveis, Deus quis apresentar como exemplo o aspecto mais vil e mais desordenado de cada gênero de pecado, para que dele se ouça até com hor- ror, para nos fazer detestar o pecado com mais ardor. Muitas vezes isso nos leva a errar na avaliação dos males morais, entendendo o errado pelo certo, se eles estão um pouco encobertos. Por isso o Senhor nos livra desse engano, acostu- mando-nos a reduzir cada falta a um gênero, para podermos saber melhor em que classe de abominação deve estar. Por exemplo: Não nos parece um mal tão execrável quando se lhe dá os nomes de ódio ou de ira. Mas quando o Senhor os condena sob o título de homicídio, vemos melhor a abominação que neles há, visto que Deus lhes dá o nome de um crime verdadeiramente pavoroso. Dessa Sobre a Lei
  • 178. 178 As Institutas – Edição Especial forma, sendo advertidos pelo juízo de Deus, aprendemos a avaliar melhor a gra- vidade das faltas, as quais antes nos pareciam leves. 11. Por que as duas tábuas da Lei? Em terceiro lugar, devemos considerar o porquê da divisão da Lei em duas tábu- as, o que não é mencionado com freqüência na Escritura sem algum propósito, como todo homem de bom espírito pode concluir. Ora, a razão disso é tão fácil de entender que não é preciso levantar nenhuma dúvida. Porque o Senhor, querendo ensinar toda a justiça em Sua Lei, dividiu-a atribuindo à primeira tábua os ofícios ou deveres pelos quais nós somos responsabilizados a honrar a Sua majestade; a segunda trata dos nossos deveres para com o nosso próximo, segundo a caridade.a Certamente o primeiro fundamento da justiça é a honra de Deus.b Quando esta é destruída, todas as outras partes se dissipam, como as partes componentes de um edifício arruinado. Porquanto, que justiça haverá se não prejudicarmos o nosso próximo com roubos e com exploração predadora, se, entretanto, mediante sacrilégio, arrebatamos da majestade de Deus a Sua glória? Igualmente, que virtude haverá em não macularmos o nosso corpo com práticas dissolutas, se macularmos o nome de Deus com blasfêmias. E de que nos valerá deixar de matar homens, se nos esforçamos para apagar a lembrança de Deus? Seria tão inútil pretendermos justiça sem religião, como alguém que quisesse fazer uma bela demonstração de um corpo sem cabeça. Vale acrescentar que, verdadeira- mente, a religião não somente é a cabeça da justiça e da virtude, mas também é pouco menos que a alma, que lhe dá vigor. Porque, sem o temor de Deus, jamais os homens manterão eqüidade e afeto fraternal entre si. 12. Religião e ética; culto e justiça Dizemos, pois, que o cultoc a Deus é o princípio e o fundamento da justiça, visto que, se for eliminado, tudo o que os homens possam pensar e planejar para vive- rem com retidão, continência e moderação será vão e frívolo perante Deus. Paralelamente, dizemos que nele está a fonte e o espírito da justiça. Sim, porque, os homens, temendo o juízo de Deus sobre o bem e o mal, com isso aprendem a viver com pureza e retidão. Por isso, na primeira tábua o Senhor nos instrui sobre a piedade e a religião, para que honremos a Sua majestade. Na se- gunda, tendo em vista o temor que Lhe devemos, Ele nos mostra como é necessá- rio que exerçamos governo em comum acordo.d a A Instrução de 1537 tem este preâmbulo: “Na primeira tábua, o serviço de Sua majestade [divina], que Lhe é agradável; na outra, quais os ofícios ou funções da caridade, devidos ao próximo”. b cultus. c cultus. d in hominum societate.
  • 179. 179 [1536] Por essa razão, o nosso Senhor Jesus, como dizem os evangelistas, reduz sumariamente a Lei a dois artigos, a saber: “que nos amemos a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças e de todo o nosso entendimento; e que amemos o nosso próximo como a nós mesmos”.461 [1539] Vemos como, nessas duas partes, que abrangem toda a Lei, uma é dirigida a Deus, e a outra aos homens. [1536] Todavia, apesar de a Lei estar inteiramente contida em dois pontos, certo é que o nosso Senhor, para eliminar toda questão de escusa, quis declará-la de maneira mais ampla e mais fácil em dez preceitos ou mandamentos, tanto no que diz respeito ao temor, ao amor e à honra de Sua divindade, como no que se refere à caridadea , que Ele nos manda ter pelo nosso próximob por amor a Ele. [1539]c Portanto, não é um estudo inútil pesquisar e ver qual é essa divisão dos mandamentos, com a condição de que nos lembremos de que não é uma coisa sobre a qual cada um pode ter seu livre julgamento. Pelo que, é preciso que não nos levantemos contra aqueles que não concordarem com a nossa conclusão. Digo isso para que ninguém se espante com a distinção que vou seguir, como se fosse uma novidade forjada. 13. A divisão do Decálogo e a supressão do segundo mandamento Quanto ao número dos mandamentosd , não há dúvida, visto que o Senhor elimi- nou toda controvérsia mediante a Sua Palavra; a discussão é somente sobre a maneira de dividi-los. Os que os dividem deixando três mandamentos na pri- meira tábua e sete na segunda, cortam o que proíbe imagens ou o incluem no primeiro, sendo que o Senhor o colocou como um mandamento especial. Além disso, eles dividem inconsideradamente entre as duas tábuas o décimo manda- mento, que nos proíbe cobiçar os bens do nosso próximo. Há outra razão para refutá-los: A divisão feita por eles era desconhecida da Igreja Primitiva, como veremos pouco adiante. Outros colocam, como nós, quatro artigos na primeira tábua, mas pensam que o primeiro é uma simples promessa, sem mandamento. Ora, de minha parte, visto que tomo as dez palavras das quais Moisés faz menção como dez manda- mentos (a menos que seja convencido do contrário por razão evidente), porque me parece que podemos classificá-los bem, deixando que os outros pensem como quiserem, seguirei a divisão que me parece a mais provável. É que a sentença da Sobre a Lei 461 Mt 22.37; Lc 10.27. a 1536: amorem; 1539: charitatem. b 1536: homines; 1539: proximos. c O desenvolvimento substitui aquelas linhas de 1536, onde, sem discussão, Calvino anunciava a divisão de quatro e seis mandamentos entre as duas tábuas.Após certas críticas, provavelmente decididas em Estrasburgo, ele justifica essa divisão, mas como coisa sem importância. d O parágrafo que começa aqui traduz algumas frases que, em 1536, concluíam a explicação do quarto mandamento.
  • 180. 180 As Institutas – Edição Especial qual eles fazem o primeiro mandamento vem como um prefácio de toda a Lei; seguem-se logo após os dez mandamentos: [1536] quatro na primeira tábua e seis na segunda, conforme a ordem que registraremos.a Essa divisão facilmente se encontra em Orígenes, como sendo geralmente aceita em seu tempo;462 Agosti- nho também a aprova, em seu terceiro livro ad Bonifacium.463 É bem verdade que noutro lugar a primeira divisão lhe parece melhor.464 Mas por um motivo leviano, a saber, que, colocando somente três mandamentos na primeira tábua, isso repre- sentaria a Trindade; acresce que nessa mesma passagem ele não esconde que a nossa divisão lhe agrada mais quanto ao restante. Temos também outro antigo “pai” que concorda com a nossa opinião; refiro-me àquele que escreveu comen- tários incompletos sobre Mateus.465 [1539] Josefo atribui cinco mandamentos a cada tábua; essa divisão era comum em seu tempo, como se pode conjecturar.466 Mas, além da razão que a contradiz, tendo em vista que deixa confusa a diferença que existe entre a honra devida a Deus e a caridade para com o próximo, a autorida- de de Jesus Cristo milita na posição contrária, pois coloca o preceito que manda honrar pai e mãe no catálogo da segunda tábua. Ouçamos agora o Senhor falar. 14. O PRIMEIRO MANDAMENTO [1536] EU SOU O SENHOR, TEU DEUS, QUE TE TIREI DA TERRA DO EGITO, DA CASA DA SERVIDÃO. NÃO TERÁS OUTROS DEUSES DIANTE DE MIM.b [1539] Pouco importac se tomamos a primeira sentença como parte do primeiro preceito ou se o colocamos separadamente,467 desde que o entendamos como um prefácio de toda a Lei.d Primeiramente, quando se fazem leis, é preciso que elas não sejam anuladas por menosprezo ou por difamação. Por essa causa o Senhor logo no começo põe remédio a esse perigo, predispondo para que a Sua majestade não seja despreza- da. E isso Ele faz com fundamento em três razões. A primeira é que Ele se arroga o direito e o poder de impor ordense , e com isso Ele nos força à necessidade de a Essa divisão tornou-se tradicional nas igrejas reformadas. É a que parece conformar-se melhor ao texto do Decálogo. 462 In Exod. homiliæ VIII, 3. 463 Lib. 3 ad Bonif. 464 L. 2. quæstio. Vet. Test. (Ambrosiaster), VII. (Migne XXXV, 2221) . 465 Cf. Agostinho, Epistl. LV, c. II. (Migne XXXIII, 213). 466 Opera Chrysostomi, Mat. 19. (Edition de Paris, t. VI). b 1536 citava Êxodo 20 e Deuteronômio 5; 1539 não contém nenhuma citação; 1541 cita Mateus 15, onde só se encontra o quinto mandamento. c in medio est. 467 Mt 15. d É esse pensamento que é expresso no início das poucas linhas dedicadas em 1536 à primeira frase do Decálogo. e Instrução de 1537: Deus se declara Aquele que tem direito de ordenar.
  • 181. 181 obedecer. Depois Ele nos promete Sua graça, para suavemente nos levar a se- guir a Sua vontade. Finalmente, Ele fez registrar o bem que nos fez, para repre- ender a nossa ingratidão, se desprezarmos as Suas ordens. Sob o nome de Eternoa [o SENHOR], entende-se o Seu império e o senhorio legítimo que ele exerce sobre nós. Porque, se “todas as coisas provêm dele e nele consistem”, é lógico, é razoávelb que elas sejam atribuídas a Ele, como diz o apóstolo Paulo.468 Com essas palavras nos é demonstrado que precisamos submeter-nos ao jugo do Senhor, visto que seria verdadeira loucura retirar-nos de sob o Seu governo, fora do qual não podemos subsistir. 15. Império ameno: o Soberano Deus se declara nosso Deus! Depois de nos haver ensinado o direito que Ele tem de nos dar ordens, e que toda obediência Lhe é devida, para não parecer que só nos quer constranger pela ne- cessidade, ou seja, por Sua imposição inevitável, Ele nos abranda também com recurso ameno, declarando-se nosso Deus. Porque nessa locução há uma recipro- cidade, expressa nesta promessa, na qual Ele diz: “Serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo” [Lv 26.12]. Essa a razão pela qual Jesus admite que Abraão, Isaque e Jacó obtiveram a salvação e a vida eterna, visto que Deus lhes havia prometido que seria o Deus deles. Portanto, essa palavra é como se Ele dissesse: “Eu vos escolhi para serdes o meu povo, não somente para fazer-lhes bem na vida presente, mas também para vos conduzir à eterna beatitude do meu reino”. Ora, a esse fim tende esta graça, o que é dito em muitas passagens. Porque, quando o nosso Senhor nos chama e nos inclui na companhia de Seu povo, Ele nos escolhe, como diz Moisés, “para nos santificar” [para sermos “povo santo ao Senhor”] para a Sua glória, e para que “guardemos os seus mandamentos”.469 De onde provém esta exortação que o Senhor faz a Seu povo: “Santos sereis, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo”.470 Pois bem, dessas duas referências se deduz esta observação que Deus faz por meio do seu profeta: “O filho honra ao pai, e o servo, ao seu senhor”.471 Se sou vosso Senhor, onde esta o temor? Se sou vosso Pai, onde está o amor? Por conseguinte, Ele relaciona o bem que tem feito a Seus servos, o que deveria convencê-los de que a ingratidão é um crime mais detestável que os ou- a Jehovah (Jeová). b Há um elemento racional em nossa aceitação da lei moral. Mas a razão que nos leva a reconhecê-la como legítima baseia-se numa intuição da fé: Deus é o nosso Criador; tudo o que somos Lhe pertence; então, nós nos devemos inteiramente a Ele. Calvino não reconhece moral independente, e a idéia de Kant, de basear a fé em Deus na lei moral, é historicamente antiprotestante. 468 Rm 11.36, tradução direta. Texto simplificado pelo Autor. 469 Dt 7.6; 14.2 e 26.17. 470 Lv 19.2. 471 Ml 1.6. Sobre a Lei
  • 182. 182 As Institutas – Edição Especial tros. Pois Deus lança em rosto ao povo de Israel os benefícios que lhe tem feito, benefícios tão grandes e admiráveis que com toda a razão deveriam ser lembra- dos eternamente. Quanto mais quando vemos que a menção se refere ao tempo em que a Lei foi publicada. Porque o Senhor quer dizer que por esta causa os tinha libertado – para que O reconhecessem como o Autor da sua liberdade e Lhe rendessem honra e obediência. Mas, para que não nos pareça que isso nada tem que ver conosco, Ele nos leva a considerar a escravidão do Egito, onde esteve o povo de Israel, como uma figura do cativeiro espiritual no qual todos nós estamos detidos até que o Senhor, libertando-nos com Sua mão forte, nos transfira para o reino da liberdade. Foi, pois, assim que, antigamente, querendo formar a Sua igreja com base em Israel, Deus libertou esse povo do cruel domínio do faraó, pelo qual era oprimido, e de igual maneira hoje Ele tira todos os Seus da infeliz servidão do Diabo, a qual é representada figuradamente pelo cativeiro corporal de Israel.a Portanto, não há criatura cujo coração não deva estar ansioso por ouvir esta Lei, sendo que ela procede do soberano Senhor, no qual todas as coisas têm sua origem, razão pela qual o fim delas a Ele é dirigido. Acresce que não há ninguém que não deva sentir-se singularmente incitado a receberb o Legislador, pela obediência a cujos mandamentos se conhece o eleito, e por cuja graça Ele concede não somente todas as bênçãos temporais, mas também a glória da vida imortal. Finalmente, devemos comover-nos, deixando-nos levar a obedecer ao nosso Deus quando vemos que por Sua misericórdia e por Seu poder fomos libertados do abismo do inferno. Firmada e estabelecida a autoridade da Lei, Deus nos dá o primeiro manda- mento, no sentido de que 16. NÃO TENHAMOS OUTROS472 c DEUSES DIANTE DELE Finalidade do primeiro mandamento: Mostrar que é vontade de Deus que somen- te Ele tenha preeminência, e que Ele seja exaltado entre o Seu povo. Para que isso aconteça, Ele quer que sejam afastadas de nós toda impiedade e toda superstição, pelas quais a glória da Sua divindade é diminuída ou obscurecida. E, pela mesma razão, Ele quer ser honrado por nós por uma verdadeira e santa amizade, o que amizade, o que está mais ou menos implícito na simplicidade das palavras. Pois não podemos ter essa pia e verdadeira amizade com Deus sem Lhe atribuirmos as coisas que Lhe são próprias. Portanto, ao proibir que tenhamos outros deuses, Ele quer nos dizer que não transfiramos para outros o que Lhe pertence. a Cf. 1536: electi sui veri sunt Israelitæ...; diabolus spiritualis est Pharao. b amplexandum. 472 Assim ARA, e a tradução francesa de Louis Segond (1954). No texto de Calvino consta “estranhos”. Vide nota c do original francês. NT. c Instrução de 1537: estrangiers.
  • 183. 183 17. Sumário dos nossos numerosos deveres para com Deus Ora, por mais numerosas que sejam as coisas que devemos a Deus, podem ser reduzidas satisfatoriamente a quatro pontos, a saber: Adoração, confiança, invo- cação e ação de graças. Chamo de adoração a reverênciaa que Lhe presta a criatu- ra, submetendo-se à Sua grandeza. Confiança, a segurança que de coração temos nele, pelo bom conhecimento que temos sobre Ele, quando, atribuindo a Ele toda a sabedoria, justiça, bondade, poder e verdade, consideramos que a nossa felici- dade está em nos comunicarmos com Ele. Invocação é o recurso com que a nossa alma conta, como sua esperança única, quando está sob a pressão de alguma necessidade. A ação de graças é o reconhecimento por meio do qual Lhe é pres- tado louvor por todas as bênçãos dele recebidas. Assim como Deus não pode tolerar que se transfira dele nada dessas coisas, assim também Ele quer que tudo Lhe seja entregue inteiramente. Porque não basta que nos abstenhamos de todo e qualquer outro deus; é preciso que descan- semos confiantemente nele. Não fazendo como alguns maus elementos que pen- sam que a maneira de lhe prestar a maior honra consiste em zombar de todas as religiões. Ao contrário, se quisermos observar bem este mandamento, é necessá- rio que preceda em nós a religião verdadeira, pela qual a nossa alma seja dirigida a Deus, e, tendo-o conhecido, seja induzida a honrar a Sua majestade, a pôr nele a sua confiança, a buscar o Seu auxílio, a reconhecer todas as Suas bênçãos e a engrandecer todas as Suas obras, como também, finalmente, a entender que Ele é a sua meta única. Depois, que nos acautelemos contra toda superstição,b para que a nossa alma não seja levada para lá e para cá, a diversos deuses. 18. A impiedade oculta, disfarçada Pois bem, devemos notar diligentemente a natureza da impiedade disfarçada e ver como somos enganados por suas coberturas. Porque a falsa piedade não nos leva a descartar-nos dos outros deuses, com tal que não pareça que abandonamos totalmente ao Deus vivo. Mas, recusando-lhe a honra soberana, por essa nossa impiedade acrescentamos a Ele uma multidão de pequenos deuses, entre os quais Ele estaria repartindo o Seu poder. Dessa forma, a glória da Sua divindade espa- lha-se por todos os lados, e acaba totalmente dissipada. 19. Idólatras antigos – e atuais Foi dessa maneira que os antigos idólatras, tanto judeus como gentios, imagina- ram um Deus soberano, Senhor e Pai de todos, ao qual subordinaram numerosos outros deuses, aos quais atribuíam o governo do mundo compartilhado com Ele. a cultum et venerationem. b O texto traz, por erro, suspition. Sobre a Lei
  • 184. 184 As Institutas – Edição Especial É o que se faz hoje com os “santos” finados, porque os exaltam ao ponto de fazê- los companheiros de Deus, honrando-os como a Ele, invocando-os e dando graça a eles por todas as bênçãos. Não nos parece justo que a glória de Deus seja obscurecida em coisa algu- ma por essa abominação, e, muito menos, que seja na maior parte suprimida e apagada, o que aconteceria se simplesmente imaginássemos que Deus tem poder soberano acima dos outros. Portanto, se quisermos ter somente um Deus, lembremo-nos de que a Sua glória em nada deve ser diminuída, mas, sim, que todas as coisas que Lhe são próprias sejam mantidas como Suas. Segue-se, pois, do texto, que não devemos ter outros deuses diante de Deus. Com isso Ele nos admoesta no sentido de que não retrocedamos à impiedade, para que Ele próprio não seja testemunha e espectador do nosso sacrilégio. Por- que a impiedade é por demais audaciosa, pensando que pode enganar a Deus com os seus símbolos secretos. Mas, ao contrário, o Senhor declara que tudo o que maquinamos e imaginamos Lhe é notório. Portanto, se queremos que a nossa religião seja aprovada por Deus, que a nossa consciência seja pura, esteja livre de más cogitações, e que não dê acolhida a nenhum pensamento que nos leve a cair na superstição e na idolatria. Porque o Senhor não exige apenas que a Sua glória seja mantida por confissão externa, mas diante dos Seus olhos, para os quais não há nada que não seja visível e manifesto.a 20. O SEGUNDO MANDAMENTO [1536] NÃO FARÁS PARA TI IMAGEM DE ESCULTURA, NEM SEMELHANÇA ALGUMA DO QUE HÁ EM CIMAb NOS CÉUS, NEM EMBAIXO NA TERRA, NEM NAS ÁGUAS DEBAIXO DA TERRA. NÃO AS ADORARÁS,c NEM LHES DARÁS CULTO. [1539] Assim como Deus declarou no mandamento anterior que Ele é o único Deus e que não se deve imaginar nenhum outro, assim agora demonstra mais claramente como se deve prestar honra a Ele, para não inventarmos nenhuma noção carnal a Seu respeito. A finalidade do preceito é: Deus não quer que a justa honra que Lhe devemos seja profanada por crenças e práticas supersticiosas.d Portanto, em suma, Ele quer que repudiemos e abandonemos todos os procedi- mentos carnais que a nossa mente invente e pela qual, em sua rudeza, tenha sido formulada uma concepção de Deus. E, conseqüentemente, Ele nos limita ao justo serviço que Lhe é devido, a saber, o serviço espiritual, e tal como Ele o instituiu. Pois bem, Deus assinala o mal mais notável neste contexto: a idolatria externa. a Conclusão de 1536: Non enim verba modo nostra externaque opera coram ipso sunt, verum penitissimi cordis recessus melius atque certius ipsi patent, quam nobis ipsis. b Instrução de i537: là sus [com o mesmo sentido: em cima]. c Ib.: tu ne leur feras inclination. d ritibus.
  • 185. 185 21. Duas partes do segundo mandamento Todavia, o mandamento divide-se em duas partes. A primeira reprime a nossa temeridade, para que [1536] não tenhamos a presunção de sujeitar Deus, que é incompreensível,a aos nossos sentidos, ou de representá-lo por meio de alguma imagem. [1539] A segunda parte proíbe adorar imagens, imitando religião. A razão da primeira parte nota-se em Moisés, quando ele diz: “Não te esqueças do dia em que estiveste perante o Senhor, teu Deus, em Horebe... A voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes aparência nenhuma... Guardai, pois, cuidadosamente a vossa alma... para que não vos corrompais e vos façais alguma imagem...”,473 etc. Isaías também usa muitas vezes este argumento: É desonrar a majestade de Deus querer representá-lo por meio de matéria corporal, ou ima- gem visível, ou insensível, sendo que Ele é espiritual, invisível, e dá movimento a todas as criaturas. Paralelamente, é também desonrá-lo equiparar a Sua essên- cia infinita a um pedaço de madeira, de pedra ou de prata.474 O apóstolo Paulo alega essa mesma razão em sua prédica aos atenienses:475 “Sendo, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem”.b Daí se vê que todas as estátuas feitas para representar Deus O desagradam totalmente, como formas de causar opróbrio à Sua majestade – verdadeira afronta infamante! É bem verdade que algumas vezes Deus manifestou a Sua presença medi- ante certos sinais, e até, evidentemente, se diz que Ele foi visto face a face. Mas, paralelamente, todos esses tipos de sinais demonstram que a Sua essência é in- compreensível, porque quase sempre as Suas aparições ocorreram com nuvens, chamas e fumaça. O que significa que o olhar humano é incapaz de contemplá-lo claramente. E por isso Moisés, com quem Deus se comunicou mais familiarmen- te do que com todos os demais, nunca pôde obter a bênção de ver Seu rosto. Ao contrário, foi-lhe respondido que o homem não pode suportar tão grande clarida- de.476 Mesmo o propiciatório (de onde o Senhor manifestava o poder de Sua pre- sença) era composto de tal maneira que indicava que a melhor visão que poderí- amos ter de Sua divindade seria de causar-nos maravilhado espanto, como algo que transcende os nossos sentidos. Porque os querubins lá estavam para cobri-lo com suas asas,477 e havia um véu para ocultá-lo, e o lugar era de tal modo afastado e obscuro que só por isso já era muito secreto. a 1536 acrescenta: incorporeus, invisibilis. Sobre a Lei 473 Dt 4.10,12,15,16. 474 Is 40.18; 41.29; 45.6 e 46.7. 475 At 17.29. b Essa tradução difere da do Novo Testamento de 1535. 476 Êx 33.20. 477 Êx 25.20.
  • 186. 186 As Institutas – Edição Especial 22. Frouxa defesa da idolatria Portanto, vê-se que aqueles que, para defender as imagens de Deus e dos santos, citam os querubins que Deus mandou fazer, não estão demonstrando bom siso. Sim, pois, que outra coisa significavam aquelas imagens, senão que não existe imagem própria para representar figuradamente os mistérios de Deus? Ademais, é necessário notar que toda e qualquer semelhança é tão proibida como as ima- gens de escultura, com o que se refuta a tolaa distinção feita pelos gregos.b Porque estes acham que estarão absolvidos se não esculpirem ou talharem estátuas a martelo; entretanto, eles têm mais superstição que nenhum outro povo, com as suas imagens pintadas. Contrariamente a essa tola defesa, o Senhor não somente proíbe toda figura esculpida, mas também não permite que se faça qualquer ima- gem dele, porque, ao fazê-la, é feito um arremedo dele, o que é uma infamante afronta à Sua majestade. Além disso, as formas expressas nesta passagem são as que os pagãos cos- tumavam usar para representar Deus. Pelas coisas que são do céu, entendo o Sol, a Lua e as estrelas, e, possivelmente, as aves, como em Deuteronômio quatro, expondo a intenção divina, são mencionados tanto os pássaros como os astros.478 O que eu não teria anotado, se não houvesse alguns que aplicam isso aos anjos,c e então deixo de mencionar as outras partes por serem bastante conhecidas. Passamos à segunda parte do preceito, que consta da adoração. Esta é mal feita com todas as imagens de Deus. Com outras imagens, como dos santos e santas, é duplamente execrável. Pois, vejamos aqui os graus de idolatria: Primei- ro, a mente do homem, visto que se infla de orgulho e de temeridade, atreve-se a imaginar Deus conforme a sua apreensão; e como, em vez de estar dominada por Deus está cheia de rudeza e de ignorância, só consegue conceber vaidade e fanta- sia. Segue-se logo uma outra audácia: O homem tenta representar Deus externa- mente como o concebe em seu íntimo; portanto, a mente imagina o ídolo, e a mão o produz. Pois aí está a origem da idolatria. Que os homens não podem acreditar que Deus está perto, a não ser por uma presença carnal, vê-se pelo exemplo do povo de Israel, o qual disse a Arão: “Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe terá acontecido”.479 Certamente eles tinham conhecimento de quem era Deus, cujo poder tinham provado em muitos milagres. Mas não O julgavam próxi- mo, a não ser que vissem com os seus próprios olhos alguma aparência corporal, que lhes servisse de testemunho de que Deus ia adiante deles. Por isso, por meio de alguma imagem eles queriam saber que Deus os conduzia em seu caminho. a inepta cautio. b Alusão aos ícones das igrejas ortodoxas. 478 Dt 4.17,19. c A objetividade científica de Calvino merece destaque. Sua consciência exegética o obriga a excluir os anjos da enumeração dos seres, a reprodução de cujas figuras é expressamente proibida para representarem Deus. Ele faz isso sem se preocupar com a vantagem que os seus adversários poderiam tirar. 479 Êx 32.1.
  • 187. 187 23. A experiência diária nos ensina sobre a tendência geral para a idolatria Também vemos isso todos os dias, por experiência. Sim, pois a carne não descansa enquanto não encontra alguma obra de ficçãoa semelhante à sua natureza na qual se regozija como se fosse a imagem de Deus. Porque em quase todos os tempos, desde que o mundo existe, os homens, seguindo essa cupidez, fabricam imagens para terem certeza de que Deus está perto deles quando têm diante dos seus olhos algum sinal da Sua presença. Pois bem, julgando ver Deus em tais imagens, eles as adoram.b Finalmente, com o olhar e com o pensamento totalmente fixos, eles se brutalizam mais ainda, pois, como se houvesse alguma divindade dentro do pau ou da pedra, são levados a prestar-lhe reverência e admiração. O que agora fica evi- dente é que, toda vez que o homem se põe a adorar imagens, essa adoração está sempre ligada à concepção de alguma fantasia carnalc e perversa; não que as con- sidere superiores a Deus, mas porque imagina que elas contêm algum poder ou virtude de divindade. Portanto, querendo alguém representar Deus figuradamente mediante algum simulacro ou alguma criatura, assim que se inclinad diante dessa figura para honrá-la, já está embebidoe de alguma superstição. Por essa causa o Senhor não somente proibiu fabricar estátuas para O representarem, mas também proibiu consagrar títulos ou pedras para receberem reverência. [1536] Portanto, aqueles que buscam vãos disfarces para escusar a idolatria execrável, pelos quais a religião foi perdida e deveras destruída desde longos anos, abrem as orelhas e a mente e alegam: “Não tomamos as imagens por Deus”; e também os judeus não estavam tão fora de si ao ponto de não se lembrarem de que havia um Deus que os tinha libertado da servidão do Egito,480 antes de fabricarem os bezerros. [1539] E de fato, quando Arão os concitou, depois de haver fabricado os bezerros, a que viessem adorar os deuses que os tinham libertado da terra do Egito, eles concordaram de boa vontade com o que ele disse. Com isso quiseram dizer que desejavam estar ligados ao Deus vivo, que os havia libertado, mas com a condição de poderem ter uma recordação disso no bezerro. [1536] Paralelamente, não é preciso pensar que os pagãos eram tão rudes que não entendiam que havia um outro Deus, não de pau ou de pedra. Por isso mudavam os seus simulacros, os seus ídolos, quando bem lhes parecia, mantendo sempre os mesmos deuses em seu coração. E mais: faziam muitos simulacros para um mesmo deus; e com isso não achavam que esses simulacros fossem diversos deuses. Finalmente, todos os dias eles consagravam novas estátuas, e não as consideravam novos deuses. a figmentum. b coluerunt. c crassiore. d prosterneris. e fascinatus. Sobre a Lei 480 Lv 26.45.
  • 188. 188 As Institutas – Edição Especial 24. São idólatras, ou não? Que dizer então? Certamente todos os idólatras, tanto judeus como pagãos, [1539] tinham a fantasia de que falamos, pois, não satisfeitos com um conhecimento espiritual de Deus, achavam que teriam melhor conhecimento fazendo os simu- lacros, os ídolos. Ora, depois que essa falsa e perversa lembrança de Deus é introduzida, não tem fim. O mal continua, até que, concebendo erro e mais erro, acabam pensando que Deus manifesta o Seu poder nessas imagens e por elas. Não obstante, os judeus pensavam estar honrando o Deus eterno, o Criador do céu e da terra, quando adoravam imagens; e os pagãos julgavam estar adorando os seus deuses, que, em sua imaginação, habitavam no céu. [1536] Os que negarem que coisas semelhantes a essas, que eram fatos no passado, continuam sendo fatos na religião dos seguidores do papa, mentirão com grande falsidade. Sim, pois, porque se ajoelham eles diante das imagens? Por que se põem diante delas para orar – como se, fazendo isso, se aproximassem dos ouvidos de Deus? [1539] Por que há tão grande diferença entre as imagens do mesmo Deus, que uma é totalmente desprezada ou recebe honra superficial, ao passo que outra é consi- derada principal em estima e honra? Por que se dão a tanto trabalho para as peregri- nações para visitar ídolos dos quais têm exemplares semelhantes em suas casas? [1536] Por que hoje brigama tanto [por objetos de idolatria], como se esti- vessem lutando em prol de mulheresb e filhos, e por sua própria vida? Tanto que mais facilmente tolerariam que eliminassem Deus, do que suas imagens! 25. Se Calvino fosse citar tudo...! E, todavia, não cito as grosseiras superstições populares, as quais são quase infi- nitas e estão arraigadas no coração da maior parte do mundo. Mostro apenas, de passagem, o que eles dizem quando querem defender-se e declarar-se inocentes da idolatria. “Mas nós não chamamos às nossas imagens nosso Deus”, dizem eles. Como também não o faziam antigamente, nem os judeus, nem os pagãos.c Entretanto, os profetas os reprovam sem cessar, o mesmo fazendo a Escritura toda, afirmando que eles se prostituíam com madeira e pedra. Não sendo diferentes os que hoje fazem isso e se gabam de serem cristãos, sendo que eles adoram carnal- mente a Deus, fazendo uso de uma representação de pedra e de madeira.481 Seu último refúgio consiste em dizerem que esses costumes são de ignoran- tes. Ainda que lhes concedêssemos isso (se bem que é pura mentira, visto que é a Calvino, ainda adolescente, tinha ouvido falar das lutas do capítulo [assembléia de cônegos] de Noyon e do abade de Saint-Eloi pela posse das relíquias de Saint-Eloi; mais tarde escreverá o Tratado sobre as Relíquias (Traité des reliques). b tanquam pro aris et focis ad Cædes usque et strages digladiantur. c 1536 acrescenta: sed signa duntaxat, et deorum simulcra. 481 1541. Que se lê principalmente em Hier. 2 e Ezeck. 6 d. [Jr e Ez]. (1536 acrescenta: Deutér. 32. Es 80. Hab. 2).
  • 189. 189 entre os súditos do papa que há aqueles que as adoram), não vejo, porém, que fruto os ignorantes podem receber das imagens que não representam Deus, senão que isso os torna antropomorfistas, isto é, que eles imaginam um deus corporal.a [1539] O que se lê no que escreveram Lactâncio e Eusébio; disso não se deve conclui, porém, que todos os que podem ser representados por simulacros ou ído- los eram homens mortais. Disso não está longe Agostinho, que declara que é coisa perversa não só honrar as imagens, mas também erigir seja o que for como Deus. [1536] Quanto aos que fazem representações figuradas dos santos, de que lhes podem servir, senão de exemplos de pompa e de ignomínia?b E quem deseja seguir esses exemplos merece chicote. Dá vergonha dizer, mas a verdadec é que as prostitutas se enfeitam mais casta e modestamente que as imagens das virgens nos templos. O ornamento dos mártires não revela mais sensatez.d Bom seria que houvesse um pouco de honrosa probidade em suas imagens, para que as suas mentiras não fossem tão impudentes, sendo que eles têm a pretensão de serem padrões de santidade! Mas nós ainda respondemos que não é essa a maneira de ensinar o povo cristão no templo, povo que Deus quis que fosse instruído numa doutrina bem diferente dessa miscelânia. Porque Ele queria que a pregação da Sua Palavra e a comunicação dos Seus sacramentos,e fossem propostas a todos, como uma dou- trina comumf [1539], não bem apreciada por aqueles que gostam de passear os olhos na contemplação das imagens. 26. Muito melhor a Palavra da Cruz do que as cruzes ornamentais! [1536] Portanto, de que serviria elevar tanto a cruz de madeira, de pedra, de prata e de ouro, se fosse bem inculcado ao povo que Cristo foi crucificado por nossos pecados para levar sobre Si a maldição na cruz482 e apagar as nossas transgres- sões? Pois essa palavra seria mais proveitosa para os simples do que mil cruzes de madeira ou de pedra. Quanto às de prata e de ouro, reconheço que aos avaren- tos dão mais gosto que qualquer palavra de Deus. Finalmente lhes pergunto: Quem são esses que os tais chamam de ignorantes, cuja rudeza só pode receber instru- ção por meio de imagens? O certo é que o nosso Senhor disse que todos os mem- bros de Sua igreja seriam ensinados por Seu Espírito483 e por Sua Palavrag para a Frase explicativa acrescentada em 1536. b perditissimi luxus et obscœnitatis exemplaria. c d Frases acrescentadas em 1536. O adolescente Calvino era levado por sua mãe à abadia de Ourscamp, onde as estátuas eram revestidas de ouropéis em certos dias de festa. e A Instrução de 1537 traz: “Quis o Senhor que, tanto a Sua Palavra como os Seus sacramentos, fossem distribuídos pelo ministério dos homens.” f Frase acrescentada em 1536. 482 Gl 3.13. 483 Jo 6.45. Sobre a Lei g theodidactos.
  • 190. 190 As Institutas – Edição Especial serem reconhecidos como discípulos de Deus. Eis aí o singular benefício proce- dente das imagens!a Nem saberíamos como recompensá-lo! Ora, para mostrar mais expressamente quanto é execrável para o Senhor toda idolatria, foi, conseqüentemente, acrescentado ao preceito o seguinte: “por- que eu sou o Senhor, teu Deus, Deus zeloso”,b etc. O que é como se dissesse que Ele é o único [Deus] ao qual devemos apegar-nos. [1539] E, para nos induzir a isso, Ele nos mostra o Seu poder, que não pode tolerar menosprezo. [1536] E Ele se chama Zeloso, dizendo com isso que não pode tolerar nin- guém que pretenda compartilhar com Ele [o Seu Ser, o Seu poder, a Sua glória]. Em terceiro lugar, Ele declara que vingará a Sua majestade e a Sua glória, se alguém as transferir para as criaturas ou para os ídolos,c e que não será uma vingança simples, mas se estenderá aos filhos, aos descendentes próximos e dis- tantes, os quais sofrerão as conseqüências da impiedade dos seus predecessores,d como, por outro lado, promete Sua misericórdia e Sua benignidade a mil gera- ções daqueles que O amam e guardam a Sua Lei. [1539] Não é novidade que o Senhor assuma a pessoa de um marido, com relação a nós. Porque a união pela qual Ele nos une a Si, recebendo-nos no seio da igreja, é como um casamento espiritual, o qual exige lealdade mútua. Portan- to, assim como o Senhor, em tudo e por tudo, desempenha a função de um marido fiel, assim também, de nossa parte, Ele exige que Lhe mantenhamos o nosso amor e a castidade do casamento. Quer dizer, que a nossa alma não seja abando- nada e entregue ao Diabo e às concupiscências da carne, o que é uma espécie de prostituição. Por essa causa, quando Ele repreende os judeus por sua infidelida- de, queixa-se de que eles cometeram adultério, rompendo a lei do casamento. Porque como um bom marido, fiel e leal, fica enfurecido quando vê sua mulher deixar-se corromper, assim o Senhor, que verdadeiramente nos desposou, decla- ra que tem extraordinário ciúme de nós toda vez que, menosprezando a castidade do Seu casamento, nos contaminamos com perversas concupiscências, e, prin- cipalmente, quando transferimos para outros a Sua glória ou a contaminamos com alguma superstição. Glória que, sobre todas as coisas, deve ser mantida em sua inteireza. Porque, procedendo daquela maneira, não somente rompe- mos as promessas feitas no casamento, mas também corrompemos a nossa alma pela prostituição. a No comentário do segundo mandamento, Calvino vê a proibição absoluta de toda tentativa de represen- tar Deus, mesmo quando sem finalidade religiosa, e a proibição das criaturas com essa finalidade. Ele não diz uma palavra contra a pintura e a escultura. Mas, como ele tinha conhecimento de manifestações de excessivo rigorismo contra essas duas formas de arte, reservou os direitos sobre o segundo catecismo e sobre as edições ulteriores das Institutas. b 1536 citava todo o texto da Vulgata [ali aludido]. c sculptilia aut res alias. d Em lugar dessa frase, 1536 tem: hoc est quocumque tempore.
  • 191. 191 27. O sentido da visitação de Deus É necessário verificar o sentido da ameaça de Deus, quando afirma que visitará a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração. Porque se sabe que à eqüidade da justiça divina não convém punir inocentes por falta alheia. O pró- prio Senhor declara que não tolerará que o filho sofra pela iniqüidade do pai. E, todavia, com freqüência se repete a afirmação de que os pecados [dos pais] serão punidos em seus filhos. Pois Moisés fala muitas vezes nestes termos: “Senhor, Senhor que visita a iniqüidade dos pais nos filhos”.484 Paralelamente, Jeremias declara: “Senhor Deus, retribuis a iniqüidade dos pais nos filhos”.485 Alguns, não podendo desfazer-se dessa dificuldade, entendem que a referência é às penas temporais, as quais não é inconveniente que os filhos sofram por seus pais, visto que muitas vezes elas são salutares. O que é verdade. Isaías, por exemplo, decla- rou ao rei Ezequias que, por causa do pecado por ele cometido, o reino seria tirado dos seus filhos e estes seriam levados a um país estrangeiro.486 Paralela- mente, as famílias do faraó e de Abimeleque foram afligidas por causa do ultraje feito por seus chefes a Abraão. E há muitos exemplos semelhantes. Mas isso é um subterfúgio, e não uma explicação verdadeira. Porque o Se- nhor proclama aqui uma vingança tão grave que não se pode limitar à vida presen- te.Assim, pois, é necessário entender a sentença que estamos estudando neste sen- tido:Amaldição de Deus não cai somente sobre a cabeça do ímpio, mas se expande sobre toda a sua família. Quando acontece isso, que se pode esperar? Somente que, tendo sido abandonado pelo Espírito de Deus, o pai vive na prática do mal; o filho, também abandonado por Deus por causa do pecado do pai, segue o mesmo curso de perdição; e a posteridade próxima, como também os demais sucessores, conti- nuando a execrável linhagem de maus, caem presas da mesma desgraça. 28. Argumentos finais sobre a justiça de Deus quando visita os pais nos filhos Primeiramente vejamos se tais vinganças repugnam à justiça de Deus. Ora, uma vez que toda a natureza dos homens é condenável, sem dúvida a ruína está prepa- rada para todos aqueles aos quais o Senhor não comunica a Sua graça; e, todavia, eles perecem por sua própria iniqüidade, e não por ódio iníquo de Deus. E não podem queixar-se de que Deus não os socorra com Sua graça para salvá-los, como faz com outros. Pois, quando essa punição sobrevém aos maus por seus pecados, e suas famílias são privadas da graça de Deus por longos anos, quem poderá vituperar a Deus por isso? Sobre a Lei 484 Êx 34.6,7; Nm 14.18. 485 Jr 32.18. 486 Is 39.7.
  • 192. 192 As Institutas – Edição Especial Mas, dirá alguém, o Senhor declara o contrário, pois afirma que o filho não sofrerá pena pelo pecado de seu pai.487 É preciso observar bem do que se trata nesse caso. Como os israelitas vinham sendo afligidos por muito tempo com diversas calamidades, tinham um provérbio comum, que dizia: “Os pais come- ram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram”.488 Com isso queri- am dizer que seus pais tinham cometido as faltas pelas quais eles estavam pade- cendo tantos males, sem os merecer; e isso por uma ira de Deus muito rigorosa, e não por uma severidade moderada. O profeta os denuncia, mostrando que não era assim, mas que eles estavam sofrendo por suas próprias faltas, e que não combina com a justiça de Deus que o filho justo e inocente seja punido pelas faltas de seu pai. O que é coerente com o que se diz na passagem em foco; porque, se a visitação da qual aqui se fala se cumpre quando o Senhor retira da casa dos ímpios a Sua graça, a luz da Sua verdade e todos os outros benefícios da salvação (sendo que os filhos, abandonados por Deus em sua estulta cegueira, seguem o caminho dos seus antepassados), com isso preservam a maldição de Deus. Essa é a razão pela qual Deus depois os pune, tanto com calamidades temporais como com a morte eterna, o que é feito não por pecados de outros, mas pelos deles mesmos. 29. Contraste entre a ameaça e a promessa Por outro lado, é feita uma promessa, na qual Deus declara: “Faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam”,489 promessa que muitas vezes consta na Escritura e é inserida na solene aliança que Deus fez com a Sua igreja. “Serei o teu Deus, e da tua posteridade depois de ti”. O que Salomão considerou, dizen- do que, após a morte dos justos, seus filhos serão felizes,490 não somente por causa da nutriçãoa e da instrução (que de sua parte muito ajudam a felicidade do homem), mas também por esta bênção que Deus prometeu a Seus servos: que a Sua graça residirá eternamente em suas famílias. Verdade que dá singular conso- lo aos fiéis, e que deve causar assombro aos ímpios. Porque, se a memória, quer da justiça quer da iniqüidade, tem tanto vigor com relação a Deus, após a morte do homem, que a bênção da primeira estende-se até à posteridade, como igual- mente a maldição da segunda, com mais forte razão, quem for bem sucedido [como fiel] será para sempre bendito de Deus, e quem for mal sucedido [nesse sentido] será maldito para sempre. Ora, a isso não se contrapõe o fato de que, por vezes, da raça dos maus se tirem bons, nem que, ao contrário, da raça dos bons se tirem maus, porquanto o Senhor não quis estabelecer aqui um reino perpétuo capaz de anular a eleição. Visto está que, para consolar o justo e assustar o ímpio, basta essa declaração, a 487 Ez 18.17. 488 Ez 18.2. 489 Êx 20.6. 490 Pv 10.6 [e contexto]. a educationis.
  • 193. 193 qual não é nem vã nem frívola, embora nem sempre se realize. Porque as penas temporais que Deus envia a alguns são testemunhos da Sua ira contra os pecados e sinais do seu juízo futuro, que virá sobre todos os pecadores, sendo que muitos permanecem impunes na presente vida. Da mesma forma, dando um exemplo dessa bênção (de manter Sua graça e Sua bondade sobre os filhos dos fiéis por causa dos seus pais), o Senhor dá testemunho de como a Sua misericórdia perma- nece eternamente firme sobre os Seus servos. Ao contrário, quando Ele persegue uma vez a iniqüidade do pai no filho, mostra quão grande rigor de julgamento está preparado para os ímpios por seus próprios pecados, o que é principalmente considerado na sentença que estamos estudando. Acresce que Ele nos quis mostrar (como de passagem) a grandeza da Sua misericórdia, estendendo-se a mil gera- ções,491 ao passo que para a Sua vingança determinou apenas quatro gerações.492 30. O TERCEIRO MANDAMENTO [1536] NÃO TOMARÁS O NOME DO SENHOR,a TEU DEUS, EM VÃO.b [1539] A finalidade do preceito é que o Senhor quer que a majestade do Seu Nome seja santa e sagrada para nós. Em resumo, que o Seu Nome não seja profanado por desprezo ou irreverência.Aessa proibição o preceito corresponde, por outro lado, a exortação a que o tenhamos em recomendação e honra singu- lar. E, portanto, é necessário que, tanto de lábios como de coração, aprendamos a só pensar e falar em Deus ou em Seus mistérios com reverência e com grande sobriedade; e que, na avaliação das Suas obras, nada concebamos que não seja para a Sua honra. 31. Três pontos que devem ser levados em conta É necessário observar diligentemente estes três pontos: Primeiro, que tudo quan- to concebermos sobre Deus, ou que a nossa língua falar, esteja em harmonia com a Sua excelência e com a santidade do Seu Nome, e se preste para exaltar a Sua grandeza. Segundo, que não abusemos temerariamente da Sua santa Palavra, e que não alteremos os seus mistérios para servir à nossa avareza, ou à nossa ambi- ção, ou às nossas loucuras. Mas, como a dignidade do Seu Nome está impressa em Sua Palavra e em seus mistérios, que os tenhamos sempre em honra e em alta estima. Finalmente, não falemos mal de Suas obras nem as depreciemos, como fazem alguns ímpios que delas costumam falar de forma ultrajante, mas, tudo o 491 Êx 20.6. 492 Êx 20.5. Sobre a Lei a Instrução de 1537: o Senhor. b A partir daqui, cada explicação de um mandamento começava, em 1536, com a fórmula: Deum timeri a nobis atque amari oportet.
  • 194. 194 As Institutas – Edição Especial que reconhecermos que provém do Senhor, louvemos pela sabedoria, justiça e poder que manifesta. É assim que se santifica o Nome de Deus. 32. Usurpação sacrílega do Nome de Deus Diversamente, tomar o Seu Nome do seu uso legítimo, para o qual foi consagrado, é corrompê-lo impiamente. Quando não causa outro mal, rebaixa a sua dignidade e o torna desprezível. Ora, se já é um mal usurpar levianamente o Nome de Deus por presunção imprudente, muito maior pecado será tomá-lo para uso totalmente mau, como para fazê-lo servir à feitiçaria, à necromancia, a conjurações mágicas ilícitas, e outras práticas semelhantes. Todavia, o preceito em foco tem em vista especial- mente o juramento – abuso do Nome de Deus detestável acima de tudo mais. E isso gera em nós maior horror por todas as outras formas de abuso. 33. Que é juramento? Primeiro é preciso entender o que é juramento. O juramento é um atestado dado por Deus para confirmar a veracidade da nossa palavra. Ora, os blasfemos decla- rados, que julgam que podem despistar Deus, não merecem que o que fazem seja considerado juramento. Pois bem, muitas passagens da Escritura mostram que esse atestado, quan- do devidamente feito, é um modo de glorificar a Deus. Como quando Isaías de- clara que os assírios e os egípcios seriam recebidos na igreja de Deus. Os egípci- os, diz o profeta, “falarão a língua de Canaã e farão juramento ao Senhor” (ou, nos termos do original francês: “... e jurarão ao Nome do Senhor”)493 ; quer dizer, ao jurarem pelo Nome do Senhor, estarão declarando que O têm como o seu Deus. A mesma coisa se vê quando ele fala sobre como o Reino de Deus seria multiplicado: “Aquele que se abençoar na terra, pelo Deus da verdade é que se abençoará; e aquele que jurar na terra, pelo Deus da verdade é que jurará”.494 Igualmente Jeremias: “Se diligentemente aprenderem os caminhos do meu povo, jurando pelo meu nome: Tão certo como vive o Senhor, como ensinaram o meu povo a jurar por Baal, então, serão edificados no meio do meu povo”.495 E é certo que, ao invocarmos o Nome de Deus para testemunho, é dito que estamos testificando a nossa religião em Seu favor. Porque de tal maneira confessamos que Ele é a verdade eterna e imutável, visto que apelamos para Ele, não somente como idôneo testemunho da verdade, mas também como algo a que cabe exclu- sivamente o papel de manter e fazer vir à luz as coisas ocultas, com maior razão proclamamos que somente Ele conhece os corações. Sim, pois, quando os teste- munhos humanos nos falham, tomamos Deus por testemunha, e isso, mesmo quando se trata de manifestar o que está oculto na consciência. 493 Is 19.18. 494 Is 65.16. 495 Jr 12.16.
  • 195. 195 Por isso o Senhor ira-se amargamente contra os que juram por outros deuses, e toma esse juramento como rejeição do Seu Nome. Como quando Ele diz: “Teus filhos me deixam a mim e juram pelos que não são deuses”.496 Além disso, Ele indica, pela grandeza do castigo, quão execrável é esse pecado, tendo declarado que destruirá todos os que juram pelo Nome de Deus e pelo nome do seu ídolo.497 Ora, uma vez que entendemos que o Senhor quer que o Seu Nome seja exaltado em nossos compromissos solenes ou juramentos, devemos acautelar- nos para que, ao invés de receber honra, esteja sendo desprezado e rebaixado. É um tremendo ultraje perjurar por Seu Nome. Por essa razão a Lei dá a isso o nome de profanação.498 Porquanto, que restaria a Deus, se Ele fosse despojado da Sua verdade? Deixaria de ser Deus. Pois Ele é despojado da Sua verdade quando O apresentam como se Ele desse testemunho em favor da falsidade e a aprovasse. Por isso Josué,a querendo constranger Acã a confessar a verdade, disse-lhe: “Fi- lho meu, dá glória ao Senhor”.499 Com o que ele mostra que Deus sofre grave desonra, se se perjurar em Seu Nome. O que não é de admirar, porque, se fizer- mos isso, nós O estaremos difamando, fazendo-o mentiroso. E de fato, conside- rando uma conjuraçãob parecida, feita pelos fariseus, como se vê no Evangelho Segundo João,500 parece que era comum entre os judeus usar essa forma de falar, quando se queria ouvir algum depoimento ou juramento. Assim também as fór- mulas da Escritura nos ensinam o temor que devemos ter de jurar falsamente, como quando ela diz: “O Senhor é o Deus vivo; o Senhor me envia este ou aquele mal”. Igualmente: “Que Deus seja testemunha sobre a minha alma”. Tais pronun- ciamentos indicam que não podemos chamar Deus como testemunha de nossas palavras sem que Ele vingue o perjúrio, se jurarmos falsamente. 34. Cuidado com juramentos verdadeiros mas supérfluos! Quando envolvemos o Nome de Deus num juramento verdadeiro mas supérfluo, conquanto Seu Nome não seja totalmente profanado, contudo é rebaixado de sua honra e é tornado desprezível. Essa é, pois, a segunda espécie de juramento pela qual o Nome de Deus é tomado em vão. Portanto, não é suficiente que nos abstenhamos de fazer juramento falso, ou perjúrio.Também é necessário que nos lembremos de que o juramento não foi instituído para o prazer desordenado dos homens, mas para o que realmente for necessário. Fora disso, não é permitido. Do que se segue que os que o fazem por coisas de nenhum valor ultrapassam o uso bom e lícito. Sobre a Lei a Mais comumente se diz agora: Josué, Acan [em vez de: Iehosua, Acham]. 496 Jr 5.7. Cf. 497 Sf 1.4,5. 498 Lv 19.12. 499 Js 7.19. b 1541 tem, por erro: admiration. 500 Jo 9.24.
  • 196. 196 As Institutas – Edição Especial Ora, não se pode pretender outra necessidade que não a de servir à religião ou à caridade. Nisso se peca desenfreadamente hoje em dia. Ainda mais quando se considera que, por ser um costume amplamente generalizado, não se lhe dá a mínima importância, apesar de não ser de pequeno peso, segundo o juízo de Deus. Porquanto se abusa indiferentemente do Nome de Deus, por pura loucura e vaidade, e se pensa que não há mal nisso, porque os homens, por sua pecaminosa licença, se sentem pouco menos que senhores nessa prática. Não obstante, o man- damento dura para sempre; a ameaça que lhe foi acrescentada permanece inviolável, e chegará o dia em que terá o seu efeito. Por isso, é declarada uma vingança espiritual sobre todos os que tomarem o Nome de Deus em vão. 35. Juramentos feitos por outros nomes Há, por outro lado, uma grave falta que se comete, quando os homens, em seus juramentos, tomam nomes de santos, jurando por “São” Tiago ou por “Santo” Antônio. O que e uma impiedade evidente, visto que a glória de Deus é transferida dessa forma para outrem. Porque não é sem causa que Deus ordenou especifica- mente que se jurasse por Seu Nome,501 e por mandamento especial nos proibiu jurar por outros deuses.502 É o que o apóstolo diz, quando escreve: “Os homens juram pelo que lhes é superior”, mas Deus, “visto que não tinha ninguém superi- or por quem jurar, jurou por si mesmo”.503 36. Anabatistas: contra todo juramento Os anabatistas, não satisfeitos com essa moderação, condenam todos os jura- mentos, sem exceção, sendo que [1536] a proibição feita por Cristo é geral, como se vê pelo que Ele diz: “Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis... Seja, po- rém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno”.504 Mas com isso eles fazem injúria a Cristo, declarando-o adversário de Seu Pai, como se tivesse vindo a este mundo para anular os Seus mandamentos. Pois o Senhor, em Sua Lei, não somente permite o juramento como coisa lícita, o que deveria ser suficiente, mas ordena que seja utilizado em caso de necessidade.505 Ora, Cristo testifica que Ele é um com o Pai; que não faz coisa alguma que não tenha sido ordenada por Seu Pai; que a Sua doutrina não é propriamente dele, etc. Portanto, que dirão eles? Tornarão Deus contrário a Si, proibindo e condenando o que uma vez tinha sido aprovado por Ele no mandamento? Logo, a proposição 501 Dt 6.13; 10.20. 502 Êx 23.13. 503 Hb 6.13 e 16. [Versículo 16, no original francês: “Deus jura por si mesmo, porque não há ninguém superior a ele”.] 504 Mt 5.34,37. 505 Êx 22.11.
  • 197. 197 dos anabatistas não deve ser acolhida. Reconhecendo, porém, que há alguma dificuldade para entender as citadas palavras de Cristo, é necessário que as exa- minemos com maior atenção. Não as entenderemos bem, a menos que considere- mos o seu objetivo e dirijamos o nosso pensamento ao que Cristo pretende com aquela passagem. Pois bem, assim é: Cristo não quis nem acrescentar nem diminuir a Lei, mas unicamente reduzi-la ao seu sentido natural, pois a Lei tinha sido grandemente corrompida pelas falsas explicações dos escribas e fariseus. Se nos ativermos a isso, não pensaremos que Cristo quis condenar todos os juramentos, universal- mente, mas apenas os que transgridem a norma da Lei. Suas palavras deixam entrever que a determinação é para as pessoas cuidarem, não somente de perjurar ou jurar falsamente, como igualmente a Lei não proíbe somente os perjúrios, mas também os juramentos supérfluos. Porque o Senhor Jesus, verdadeiro expositor da Lei, adverte que não somente perjurar é praticar o mal, mas também jurar. Jurar como? Quer dizer, jurar em vão. Mas os juramentos que a Lei aprova Ele os deixa inteiramente livres. Eles porém se fixam na citação, a qual, todavia, não se reporta ao verbo [ou à ação verbal], mas às formas de juramentos que vêm a seguir. Porque vemos ali uma parte do erro, pois, quando juravam pelo céu e pela terra, não imaginavam estar tocando no Nome de Deus.506 Tendo o Senhor, portanto, corrigido a trans- gressão principal, tolhe em seguida todos os seus subterfúgios, para que não pen- sem que podem escapar quando, suprimindo o Nome de Deus, juram pelo céu e pela terra. Portanto, para quem possui mente saudável, não há dúvida de que o Senhor, na citada passagem, só reprova os juramentos proibidos pela Lei. Porque Ele mesmo, que toda a Sua vida representou a perfeição ordenada por Ele, não teve medo de jurar quando a situação o exigiu; e os Seus discípulos, que, não duvidamos, cumpriam Suas normas, seguiram o mesmo exemplo. Quem se atreve a dizer que o apóstolo Paulo se disporia a jurar, se o jura- mento fosse totalmente proibido? Pois bem, quando a causa em questão o requeria,a ele jurava sem nenhum escrúpulo, às vezes até juntando alguma imprecação.507 37. Juramentos públicos Todavia, a questão ainda não está resolvida, porque alguns entendem [1536] que as únicas exceções são os juramentos públicos, como os que o magistrado requer de nós, [1539], ou os que o povo faz a seus líderes, ou os que os líderes fazem ao povo, os militares a seus capitães, e os príncipes entre si, quando fazem aliança. Eles incluem nesse número (com razão) todos os juramentos que se vêem nos 506 Mt 5.34. a 1536: ad dignitatem Evangelii asserendam. Sobre a Lei 507 Rm 1.9; 9.3.
  • 198. 198 As Institutas – Edição Especial escritos do apóstolo Paulo, [1536] visto que os apóstolos, no desempenho do seu ofício, não eram homens de vida privada,a mas oficiaisb públicos de Deus. [1539] E, de fato, não nego que os juramentos públicos sejam os mais indubitáveis, contanto que comprovados por sólidos testemunhos da Escritura. Ao magistrado é ordenado que exija da testemunha um juramento em questões duvidosas, e que a testemunha seja responsabilizada por seu depoimento. Paralelamente, diz o apóstolo que as controvérsias humanas são decididas com o emprego desse re- curso.508 Portanto, ambos têm a boa aprovação necessária. 38. Os juramentos entre os antigos pagãos De fato, pode-se observar que antigamente os pagãos consideravam importante prática religiosa o uso de juramentos públicos e solenes; ao contrário, não da- vam muito valor aos que eram feitos privadamente, como se Deus não os tives- se em conta. 39. Invocação de Deus como Juiz e como Testemunha Todavia, condenar os juramentos privados feitos sobriamente sobre coisas neces- sárias e com reverência é muito perigoso, visto que se baseiam em bom motivo e em exemplos da Escritura. Porque, se é lícito às pessoas, em sua vida particular e privada, invocar a Deus como Juiz sobre os seus propósitos, com mais forte razão lhe será permitido invocá-lo como Testemunha. Exemplo: O seu próximo acusa você de alguma deslealdade. Você, em nome do amor, empenha-se em dar-lhe plena satisfação. Ele não aceita nenhuma razão, nada que lhe pague o mal de que o acusa. Se a sua reputação corre perigo por causa da caluniosa fantasia do seu próximo, sem ofensa você poderá apelar para o juízo de Deus, a fim de que Ele declare a sua inocência. Se prestarmos atenção nas palavras, veremos que não há tanta diferença assim entre invocar Deus para testemunho e para julgamento. Logo, não vejo por que deveríamos reprovar um tipo de juramento no qual Deus é chamado para testemunhar algo. E disso temos numerosos exemplos, como o de Abraão e de Isaque, nos juramentos que fizeram a Abimeleque. Se se alegar que esses juramentos eram públicos, ao menos Jacó e Labão eram pessoas particulares, e, não obstante, confirmaram a sua aliança com juramento.509 Boaz era homem particu- lar, e ratificou com juramento [invocando o Deus vivo] o casamento prometido a Rute.510 Paralelamente, Obadias, homem justo e temente a Deus (como diz a Escritu- ra), testificou com juramento o fato sobre o qual ele quis persuadir Elias.511 508 Hb 6.16. 509 Gn 31.53. 510 Rt 3.13. 511 1Rs 18.10. a privati. b ministri.
  • 199. 199 40. Sumário sobre os juramentos Não vejo, pois, melhor regra senão [1536] que moderemos os nossos juramentos de tal maneira que não sejam temerários, feitos levianamente, sobre questões frívolas, ou por interesses desordenados, mas, antes, que atendam a uma necessi- dade real, [1539] a saber, quando for questão de manter a glória de Deus, ou a caridade entre os homens, sendo que a isso tende o mandamento. 41. O QUARTO MANDAMENTO [1536] LEMBRA-TE DO DIA DE SÁBADO, PARA O SANTIFICAR. SEIS DIAS TRABALHARÁSa E FARÁS TODA A TUA OBRA. MAS O SÉTIMO DIA É O SÁBADO DO SENHOR, TEU DEUS; NÃO FARÁS NENHUM TRABALHO, NEM TU, NEM O TEU FILHO, NEM A TUA FILHA, NEM O TEU SERVO, NEM A TUA SERVA, NEM O TEU ANIMAL, NEM O FORASTEIRO DAS TUAS PORTAS PARA DENTRO; PORQUE, EM SEIS DIAS, ETC. [1539] A finalidade desse preceito é que, estando mortos para as nossas pai- xões e para as nossas obras, meditemos no Reino de Deus e, nessa meditação, exerçamos as nossas atividades pelos meios ordenados por Ele. Contudo, visto que há aqui uma consideração particular e distinta dos outros, este caso requer uma exposição um tanto diversa. Os antigos doutores512 costumavam chamar isso [1536] de sombra, porque continha a observação externa do dia, o que foi abolido com o advento de Cristo,513 como também as demais figuras.b [1539] O que é verdade, mas isso só toca na questão parcialmente. Por isso, é preciso fazer a exposição numa perspectiva mais ampla, e considerar três causas, con- tidas nesse mandamento.c Porque, sob o repouso do sétimo dia, o Senhor quis figurar para o povo de Israel o repouso espiritual. É que os fiéis deviam descansar de suas obras, a fim de deixar que Deus trabalhasse neles. Em segundo lugar, Ele quis estabelecer esse dia como um dia fixo no qual deveriam reunir-se para ouvir a Lei e realizar as suas cerimônias. Em terceiro lugar, Deus quis dar um dia de descanso aos servos e aos trabalhadores subordinados à autoridade de outros, para poderem ter algum alívio do seu labor. 512 Cf. Agostinho, Ep. LV, c. 12 (ad inquisitiones Januarii lib. II). – Migne XXXIII, 214. 513 Gl 4.4; Cl 3; Hb 8.5. Sobre a Lei a 1537: tu travailleras et feras toute ton œvre. [No original francês em uso nesta tradução: Tu besongneras, etc.] b 1536: cæteræ mosaicæ legis umbræ. c Estas últimas palavras e o parágrafo subseqüente reproduzem quase textualmente a Instrução de 1537.
  • 200. 200 As Institutas – Edição Especial 42. Primazia do sentido espiritual do quarto mandamento Em muitas passagens nos é revelado, porém, que a figura do repouso espiritual ocupa o lugar principal no preceito. Porque Deus jamais exigiu mais rigorosa obediência a algum preceito que a que exige a este.514 Quando Ele quer mostrar, por Seus profetas, que toda a religião foi destruída, Ele se queixa de que o Seu sábado foi profanado e violado,515 ou que não foi bem observado e não foi santi- ficado. Como se, ao negligenciarem esse ponto, nada mais restasse em que Ele poderia receber honra. Por outro lado, Ele engrandece extraordinariamente a ob- servância do quarto mandamento, razão pela qual apreciavam acima de tudo o bem que Deus lhes tinha feito, um benefício deveras singular, revelando-lhes o sábado. Pois assim falam os levitas em Neemias: “O teu santo sábado lhes fizeste conhecer; preceitos, estatutos e lei, por intermédio de Moisés, teu servo, lhes mandaste”. Vemos como eles o tinham em singular estima, acima de todos os demais preceitos. O que tem a virtude de nos mostrar a dignidade e a excelência do sábado, o que também é claramente exposto por Moisés e por Ezequiel. Pois assim lemos em Êxodo:516 “Certamente guardareis os meus sábados; pois é sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica. Portanto, guardareis o sábado porque é santo para vós outros; aque- le que o profanar morrerá; pois qualquer que nele fizer alguma obra será elimina- do do meio do seu povo. Seis dias se trabalhará, porém o sétimo dia é o sábado do repouso solene, santo ao Senhor; qualquer que no dia do sábado fizer alguma obra morrerá. Pelo que os filhos de Israel guardarão o sábado, celebrando-o por aliança perpétua nas suas gerações”. Disso Ezequiel fala ainda mais amplamen- te, mas, em resumo, as suas palavras redundam no seguinte: “Também lhes dei os meus sábados, para servirem de sinal entre mim e eles, para que soubessem que eu sou o Senhor que os santifica”.517 Ora, se a nossa santificação consiste na renúncia à nossa vontade própria, nisso já transparece a semelhança entre o sinal externo e a realidade interior. Precisamos repousar totalmente para que Deus trabalhe em nós,a precisamos de- sistir da nossa vontade, resignar o nosso coração, renunciar e eliminar toda a cupidez da nossa carne. Enfim, precisamos parar com tudo o que procede do nosso entendimento, a fim de que, tendo Deus trabalhado em nós, estejamos em harmonia com Ele. Como igualmente nos ensina o apóstolo. Aí está o que é re- presentado em Israel pelo repouso do sétimo dia.518 a 1536: sancti sui spiritus ductu nos regat. 514 Nm 15.32; Êx 31.13 e 35.2; Jr 17.21; Ez 20.12 e 19; Is 56.2. 515 Ne 9.14. 516 Êx 31.13-16. 517 Êx 20.12. 518 Hb 3.11 e 4.9.
  • 201. 201 43. O exemplo do Criador E para que fosse dada maior importância religiosa a essa prática, o Senhor confir- mou essa ordem com o Seu exemplo. Pois não é coisa que deve causar pequena emoção ao homem, ser ele ensinado a seguir o seu Criador. [1536] Se alguém quiser ver uma significação secreta no número sete, bem nos parece, porque na Escritura esse número significa perfeição, sentido bem escolhido por Deus para denotar perpetuidade. A isto se reporta o que vimos em Moisés. Porquanto, de- pois de nos haver dito que o Senhor descansou no sétimo dia, não acrescentou nenhum outro, para assim determinar o seu fim. [1539] A esse respeito pode-se também fazer outra conjectura provável, a saber, que o Senhor, com esse número, quis dizer que [1536] o sábado dos fiéis não será realizado perfeitamente até o último dia. Pois aqui lhe damos início, e prosseguimos diariamente; mas, visto que ainda temos que lutar constantemente contra a carne, não se realizará, enquanto não se concretizar a palavra de Isaías, quando afirma que no Reino de Deus haverá um sábado que durará eternamen- te,519 a saber, quando Deus for “tudo em todos”.520 [1539] Poderia, pois, parecer que pelo sétimo dia o Senhor quis representar para o Seu povo a perfeição do sábado que haverá no último dia, para levá-lo a aspirar a essa perfeição, mediante dedicada aplicação do seu espírito durante a presente vida. Se essa explicação parece muito sutil e alguém não a quiser acei- tar, não me oponho a que se contente com outra mais simples. Segundo esta, o Senhor ordenou um dia pelo qual o povo fosse exercitado sob a pedagogia da Lei a meditar no repouso espiritual, que é sem fim. Neste sentido se pode dizer que o Senhor determinou, ou melhor, propiciou o sétimo dia, ou para incitar melhor o povo a observar esta cerimônia, oferecendo-lhe o Seu exemplo, ou, antes, para lhe mostrar que o sábado não tinha outro fim que não este: conformar o Seu povo ao seu Criador.a Porque isso não tem importância, contanto que permaneça a significação do mistério, qual seja, que o povo fosse instruído no sentido de re- nunciar às suas obras [observando o repouso sabático]. A essa consideração os profetas constrangiam constantemente os judeus, a fim de que eles não pensas- sem que estariam cumprindo satisfatoriamente o mandamento abstendo-se de trabalhos braçais ou físicos. Além das passagens já citadas, lê-se em Isaías: “Se desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então te deleitarás no Senhor” (ou “prosperarás em Deus”). 519 Is 66.23. 520 1Co 15.28. Sobre a Lei a ab queribus nostris cessantes, requiem in ipso nostram quæramus.
  • 202. 202 As Institutas – Edição Especial 44. Cristo é o verdadeiro cumprimento do sábado Ora,a não há dúvida de que o elemento cerimonial do mandamento foi abolido pelo advento de Cristo. Razões disso: Ele é a verdade, que, por Sua presença, faz com que se desvaneçam todas as figuras; Ele é o corpo, à vista do qual as sombras se dissipam; Ele é, repito, o verdadeiro cumprimento do sábado. “Fomos, pois, sepul- tados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida”.521 Por isso diz o apóstolo que o sábado “é sombra das coisas que haviam de vir” e que “o corpo é de Cristo”,522 quer dizer, a verdadeira e sólida substância da verdade, o que ele explica bem na citada passagem. Pois bem, essa realidade não se satisfaz com apenas um dia, mas exige toda a duração da nossa vida, até que, estando nós totalmente mortos para o pecado, haja em nós a plenitude da verdade de Deus. Disso decorre que toda observância supersticiosa de dias esteja longe dos cristãos. Todavia, na medida em que as duas últimas causas citadas não devem ser colocadas entre as sombras antigas, pois convêm igualmente a todos os séculos, e embora o sábado seja ab-rogado, não deixa de ter lugar entre nós [1536], para que tenhamos alguns dias para reunir-nos para ouvir as pregações, para as ora- ções públicas523 e para celebrar os sacramentos. Em segundo lugar, para dar al- gum alívio aos artesõesb [ou aos servidores e aos trabalhadores em geral]. Não há dúvida nenhuma de que o Senhor levou em conta essas duas causas quando ordenou o sábado. Quanto à primeira, tem suficiente aprovação pelo uso dos próprios judeus.c A segunda é registrada por Moisés em Deuteronômio,524 com estas palavras: “Para que o teu servo e a tua serva descansem como tu; porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito”; como também em Êxodo:525 “Para que descansem o teu boi, o teu jumento e a tua família”. Quem poderá afirmar que essas duas coisas só são apropriadas para os judeus? As assembléias eclesiásticas são-nos ordenadas pela Palavra de Deus, e a própria experiência nos mostra a necessidade que delas temos. [1536] Ora, se não fosse ordenado um dia, quando poderiam reunir-se? O apóstolo ensina que entre nós todas as coisas de- vem ser feitas com ordem e decência.526 Pois bem, é tão difícil que essa pureza e ordem seja mantida sem essa disciplina dos dias que sem isso logo nos veríamos mergulhados em extraordinárias dificuldades e confusões na igreja. Ora, se entre nós há a mesma necessidade que o Senhor quis sanar ordenando o sábado aos 521 Rm 6.4. 522 Cl 2.17. 523 Cl 3.16. a A partir daqui, e até a expressão “gens mécaniques” [no fim dessa mesma página], o texto reproduz quase literalmente o da Instrução (1537). 524 Dt 5.14,15. 525 Êx 23.12 [tradução direta]. 526 1Co 14.40. b Instrução de 1537: ouvriers. c 1536: ad conservandam inter homines æquitatem, etc.
  • 203. 203 judeus, que ninguém alegue que essa lei não nos diz respeito. Porque é certo que Deus não quis suprir menos a nossa necessidade que a dos judeus. Mas, dirá alguém, e se nos reuníssemos todos os dias, para eliminar a dife- rença [entre nós e os judeus]? Bem que eu gostaria disso, e, de fato, a sabedoria espiritual merece que lhe seja destinada alguma hora de cada dia. Mas, se, por causa da fraqueza de muitos, não se pode conseguir que se reúnam diariamente,a e a caridade não permite que os forcemos pelo constrangimento, por que não seguimos a razão que, como demonstramos, provém de Deus? 45. Observar o domingo é judaísmo? Precisamos alongar-nos um pouco nesta questão, porque algumas mentes levia- nas se agitam demais hoje em dia por causa do domingo.b Queixam-se de que o povo cristão continua preso a um tipo de judaísmo, visto que ainda retém alguma observância de dias. A isso respondo que sem judaísmo observamos o domingo, uma vez que há uma grande diferença entre nós e os judeus [1536]. Porque não o guardamos como imposição de uma religião estreita, como uma cerimônia com a qual julga- mos estar cumprindo um mistério espiritual, mas o usamos como um remédio necessário, a fim de manter a boa ordem na igreja [1539]. Mas, dizem eles, o apóstolo Paulo nega que os cristãos devam ser julgados pela guarda de dias, visto ser isso uma “sombra das cousas que haviam de vir”,527 e por essa causa teme haver trabalhado em vão entre os gálatas,528 visto que ainda guardavam dias. E, escrevendo aos romanos, ele afirma que fazer distinção entre dia e dia é supersti- ção.529 Mas, qual é o homem que, tendo mente equilibrada, não vê de que tipo de guarda o apóstolo está falando? Porque não se tratava de observância com a fina- lidade que dissemos, de manter a disciplina e a ordem da igreja,c mas, continuan- do a celebrar festas como sombras de realidades espirituais, obscureciam tanto a glória de Cristo como a clareza do Evangelho. Eles não deixavam de fazer os trabalhos braçais porque estes os impediam de parar para meditar na Palavra de Deus, mas, sim, para uma devoção insensata, uma vez que imaginavam que des- cansar era prestar culto a Deus, era servi-lo. É, pois, contra essa doutrina perversa que o apóstolo Paulo clama, e não contra a ordenança legítima, dada para manter a paz na comunidade dos cristãos. Porque as igrejas que ele fundou guardavam o sábado com esse uso. Paulo mostrou isso quando marcou para os coríntios o dia em que deveriam trazer as ofertas à igreja.530 Se tememos a superstição, muito mais devemos temer as festas judaicas que a celebração cristã do domingo. Por- a É quase textualmente a Instrução de 1537. b 1536: diem dominicum. 527 Cl 2.16,17. 528 Gl 4.9,10. 529 Rm 14.5. Sobre a Lei c communis politiæ causa. 530 1Co 16.1,2.
  • 204. 204 As Institutas – Edição Especial que, como foi bom deixar de lado o dia guardado pelos judeus para eliminar a superstição, foi necessário estabelecer em seu lugar outro dia, para manter a ordem, a disciplina e a paza na igreja. Não me prendo ao número sete para sujeitar a igreja a alguma servidão, pois não condeno as igrejas que adotam outros dias para as suas reuniões solenes, contanto que não tenha parte nisso nenhuma superstição; como não a tem quando se tem em vista unicamente a manutenção da disciplina. 46. Sumário Em resumo, eis o que diz o preceito:b A verdade foi demonstrada para os judeus por meio de figuras; a nós é exposta claramente, sem figuras, de modo que, pri- meiro, devemos meditar durante toda a nossa vida num descanso sabático perpétuoc das nossas obras, para que Deus trabalhe em nós por Seu Espírito.d Em segundo lugar, [1536] devemos seguir a ordem legítima da igreja, estabelecida para ouvir- mos a Palavra, para a celebração dos sacramentos,e e para a oração como parte do culto [1539]. Em terceiro lugar, que não exerçamos nenhuma opressão sobre aqueles que estão sob a nossa autoridade. [1536] Dessa forma serão destruídas as mentiras dos falsos doutores,f que no passado impregnaram o povo com o conceito judaico, só fazendo esta diferença entre o sábado e o domingo: que o sétimo dia, que naquele tempo se guardava, fosse anulado, mas que não se deixasse de guardar um dia da semana. Ora, isso não seria nada mais que mudar o dia por despeitog aos judeus, mantendo, todavia, a superstição que o apóstolo Paulo condena – que na observância dos dias há algum significado secreto, como acontecia no tempo do Antigo Testamento. E de fato vemos que efeito teve essa doutrina! Pois os que a seguem superam os judeus em seu conceito carnal sobre o sábado;h tanto assim que as repreensões que lemos em Isaías cabem melhor a estes que àqueles que o profeta repreendeu no tempo dele.531 47. O QUINTO MANDAMENTOi [1536] HONRA TEU PAI E TUA MÃE, PARA QUE SE PROLONGUEM OS TEUS DIAS NA TERRA QUE O SENHOR, TEU DEUS, TE DÁ. a “ordre et paix” somente, na Instrução de 1537. b Frase quase textual da Instrução de 1537. c sabbath (Instrução, 1537). d 1536: mortificamus hominis veteris opera, non diebus duntaxat festis, sed omni die continenter sabbatum sanctificamus et celebrare incipimus sabbatum ex sabbato. e Quanto à fração do pão da Ceia, ver um parágrafo anterior da Instrução de 1537. f sophistarum. g in contumeliam. h Vê-se que Calvino se opõe fortemente a um certo puritanismo legalista e judaizante, que em certos lugares chegou a renunciar ao domingo para restabelecer a observância do sétimo dia. 531 Is 1.13 e 58.3,13. i Aqui começava a segunda tábua da Lei, conforme a divisão adotada em 1536. Em 1536 apenas uma dúzia de linhas explicavam o mandamento, limitando-se à autoridade dos pais, aqui mencionada em segundo lugar.
  • 205. 205 Finalidade do quinto mandamento: Visto que Deus quer que seja mantida a ordem instituída por Ele, é nosso dever respeitar os graus de preeminência ou de autoridade que Ele estabeleceu. Eis, portanto, o resumo disso tudo: Que àqueles que Deus colocou como nossos superiores, tratemos respeitosamente, prestemos honra e obediência e reconheçamos os benefícios que deles recebe- mos. Decorre daí a proibição: Que não rebaixemos a dignidade deles, nem por menosprezo, nem por contumácia, nem por ingratidão, pois o sentido de “hon- rar” é amplo e abrange tudo isso na Escritura. Quando, por exemplo, o apóstolo declara que os presbíteros que presidem bem são dignos de dupla honra, não fala somente do respeito que lhes é devido, mas também da remuneração que o seu labor merece [1Tm 5.17]. Pois bem, este mandamento, que nos manda sujeitar-nos aos nossos superi- ores, é fortemente contrário à perversidade da nossa natureza, a qual, como só falta explodir de ambição e de orgulho, não se submete a ninguém de boa vonta- de. Por essa causa nos é proposta como exemplo a superioridade menos odiosa e mais amistosa de todas, para poder melhor sensibilizar e amolecer o nosso cora- ção para que aprendamos a sujeitar-nos obedientemente a quem de direito. Dessa maneira, pela sujeição mais suave e mais fácil de suportar, o Senhor nos vai acostumando pouco a pouco a toda sujeição [legítima], uma vez que a razão disso é a mesma em todos os casos. Porque, quando Ele dá preeminência ou uma posição de autoridade a alguém, comunica-lhe Seu nome, na proporção em que for necessário mantê-la. Os títulos de Pai, Deus e Senhor Lhe pertencem tão exclusivamente que, quando se faz menção de um deles, o nosso coração deve comover-se ao reconhecer a Sua majestade. Por isso, quando Deus faz os homens participantes dos Seus títulos, dá-lhes como que uma centelha da Sua luz, a fim de enobrecê-los e torná-los honoráveis conforme o grau pertencente a cada um. Esse é o motivo pelo qual devemos pensar que há alguma honra divina naquele que é chamado pai, visto que não é sem razão que ele leva um título que pertence a Deus. Paralelamente, o príncipe ou senhor participa um pouco da honra que a Deus pertence. Portanto,a não se deve duvidar de que o Senhor estabelece aqui uma regra universal. Esta manda que, ao reconhecermos que alguém foi ordenado por Deus para ser nosso superior, devemos prestar-lhe honra, reverência e amor cristão, e devemos prestar-lhe quanto serviço pudermos. E não nos compete julgar se os nossos superiores são dignos da honra que lhes prestamos, ou não. Porquanto, sejam eles como forem, só chegaram a esse nível de autoridade porque foi essa a vontade de Deus, razão pela qual Ele nos ordena que os honremos.b a Este parágrafo já se encontra quase textualmente na Instrução de 1537. b 1536: eos revereamur et colamus, iis obediamus. Sobre a Lei
  • 206. 206 As Institutas – Edição Especial 48. A honra que devemos aos nossos pais Todavia, Ele expressamente nos manda reverenciar nossos pais, que nos geraram para esta existência. Essa lição a própria natureza nos ensina. Por isso, todos os que violam a autoridade paterna, quer por desprezo, quer por rebelião, são monstros, e não homens. Por isso o Senhor ordena que seja dada morte aos que são desobedien- tes a seu pai ou à sua mãe, e por boa razão. Porque, uma vez que não reconhecem aqueles por meio dos quais vieram a viver neste mundo, não merecem viver. Em muitas passagens da Lei vemos que é verdade o que acima dissemos, a saber, que a honra da qual aqui se fala compõe-se de três partes: reverência, obedi- ência e grato amor, procedente do reconhecimento dos benefícios recebidos. A primeira é determinada por Deus quando Ele ordena que seja levado à morte aquele que falar mal do seu pai ou da sua mãe.532 Porque dessa forma Ele castiga toda difamação e todo menosprezo [dos filhos para com seus pais]. A segunda, quando ordena que os filhos rebeldes e desobedientes sejam punidos com a morte.533 A terceira e comprovada pelo que diz Jesus Cristo em Mateus 15, confir- mando que é mandamento de Deus que sirvamos aos nossos pais e lhes façamos o bem.534 Note-se que toda vez que o apóstolo Paulo faz menção deste preceito,535 ele nos exorta à obediência, que pertence à segunda parte das três referidas. 49. A promessa do quinto mandamento [1536] A promessa é logo acrescentada como uma recomendação mais forte, a fim de advertir-nos e mostrar-nos quão agradável a Deus é a submissão de que trata este mandamento. [1539] Porque Paulo nos incita com esta espécie de agui- lhão quando declara que este é o primeiro mandamento com promessa [Ef 6.2]. Porque a promessa que temos na primeira tábua não é especial e não se limita a um mandamento só, mas se estende a toda a Lei. Ao passo que a promessa da qual aqui tratamos [do quinto mandamento] deve ser entendida no sentido de que o Senhor falava especificamente aos israelitas sobre a terra que Ele lhes havia prometido como herança. Se, pois, a posse dessa terra era um penhor ou um sinal da bondade de Deus, não temos necessidade de espantar-nos se Deus quis testificar a Sua graça prometendo-lhes vida longa, para que assim pudessem gozar por mais tempo o bem que lhes estava fazendo. É, pois, como se Ele dissesse: “Honra teu pai e tua mãe para que, tendo vida longa, possas desfrutar por muito tempo da terra, e isso te servirá como testemunho da minha graça”. Além disso, como toda a terra é abençoada para os fiéis, por justa razão incluímos a vida presente entre as bênçãos de Deus. Por isso, esta promessa tam- 532 Êx 21.15,17. 533 Lv 20.9; Pv 20.20; [Dt 21.18-21]. 534 Mt 15.4-6. 535 Ef 6.1; Cl 3.20.
  • 207. 207 bém se refere a nós, sendo a vida longa concedida como uma prova da benignida- de de Deus para conosco. Porquanto, a vida longa não é prometida, nem a nós nem aos judeus, como se contivesse em si mesma a bem-aventurança, mas por- que, para os crentes fiéis, é um sinal da bondade de Deus. 50. Vida breve de justos Se suceder que um filho obediente a seus pais morrer em sua juventude (como acontece não poucas vezes), não significa que Deus deixa de manter com firmeza a Sua promessa; esta se cumpre da mesma maneira, como quando Deus promete dez hectares de terra a um homem e lhe dá cem. Tudo consiste nisto:Avida longa nos é prometida contanto que seja uma bênção. E, mais que isso, a vida longa é bênção na medida em que dá testemunho de Sua graça – que Ele manifesta aos Seus servos mil vezes mais quando os leva desta vida. 51. A promessa e o seu reverso Por outro lado, quando o Senhor promete Sua bênção para a presente vida aos que forem obedientes a seus pais e a suas mães [honrando-os como ordena o mandamento], igualmente indica que a Sua maldição cairá sobre todos os que lhes forem desobedientes. E para que o Seu julgamento seja executado, decreta em Sua Lei que a justiça lhes seja aplicada. E, se de algum modo escaparem da mão dos homens, Ele mesmo os punirá, vindicando assim a Sua justiça. Por isso vemos que muita gente desse tipo morre em guerras, em brigas ou de outra ma- neira. Sucedem essas coisas de tal modo que se percebe que é Deus quem realiza essa obra, fazendo-os morrer de forma humilhante. E se alguns conseguem so- breviver até à velhice, como estão privados da bênção de Deus para esta existên- cia, outra coisa não fazem senão se consumirem; passam a existência tremenda- mente abatidos, e são preservados para maiores sofrimentos no futuro. Estão muito longe de participar das bênçãos da promessa feita aos filhos obedientes. 52. Limitação imposta à nossa obediência aos pais Para concluir, é necessário anotar resumidamente que só nos é ordenado que obedeçamos aos nossos pais “no Senhor”, o que ficou claro graças ao fundamen- to que já estabelecemos.536 Porque eles nos dirigem com a autoridade dada a eles por Deus, comunicando-lhes uma parte da honra que Lhe é devida. Logo, a sub- missão que lhes rendemos deve ser como um degrau para nos conduzir à reverên- cia que se deve a Deus, o soberano Pai. Por essa razão, se os nossos pais quise- rem levar-nos a transgredir a Lei de Deus, com justiça deixaremos de considera- los como pais, passando a vê-los como estranhos, pois tentam afastar-nos da obediência ao nosso verdadeiro Pai. Sobre a Lei 536 Ef 6.1-3.
  • 208. 208 As Institutas – Edição Especial O mesmo critério deve ser aplicado com relação aos nossos príncipes, se- nhores e demais superiores. Sim, porque seria uma coisa muito contrária à razão que exercessem a sua autoridade para de algum modo rebaixar a sublime alteza de Deus. Uma vez que dependem da autoridade divina, esta eles devem aumen- tar, e não diminuir, confirmar e fortalecer, e não violar. 53. O SEXTO MANDAMENTO NÃO MATARÁS.a Finalidade do sexto mandamento: Como Deus fez de todo o gênero humano uma unidade, cada ser humano deve preocupar-se com o bem-estar e com a preserva- ção de todos os demais. O que significa que o mandamento nos proíbe toda vio- lência, toda injúria e todo dano com que se possa ferir o corpo do nosso próximo. Decorre disso que o mandamento determina que façamos o possível para conser- var a vida do nosso próximo, empregando fielmente os recursos necessários. Para isso devemos providenciar para o próximo o que lhe for conveniente, e evitar ou impedir o que lhe for prejudicial. Além disso, devemos ajudá-lo e socorrê-lo quando estiver em perigo ou em dificuldade. 54. Dimensão espiritual do sexto mandamento Ora, se temos consciência de que Deus é o Legislador que fala nessa passagem, devemos entender que ele estende essa regra à nossa alma. Seria ridículo que Aquele que observa os pensamentos do coração e se fixa principalmente neles, só instruísse na verdadeira justiça o nosso corpo. Por isso o homicídio que ocorre só no coração é proibido por este mandamento, como também aqui nos é ordenado que tenhamos um interesse afetuoso pela conservação da vida do nosso próximo. Porquanto, se de fato é a mão que executa o homicídio, o coração o concebe quando contaminado pela ira e pelo ódio. Pense bem, e veja se você pode ter raiva do seu irmão sem que sinta desejo de lhe causar dano. Ora, se você não pode enraivecer-se sem sentir esse desejo, também não pode odiar sem sentir o mesmo desejo, já que o ódio nada mais é que a raiva que criou raízes e se fixou. Por mais que você procure dissimular e descul- par-se com rodeios e disfarces, é certo que, havendo ódio e ira, haverá sem dúvi- da o desejo de causar dano. Se você ainda hesita sobre isso, a Palavra do Senhor há muito tempo declarou: “Todo aquele que odeia a seu irmão em seu coração é assassino”.537 E o próprio Senhor Jesus Cristo disse: “Quem odeia a seu irmão fica sujeito a julgamento”.538 Quem dá sinal de ira contra o seu irmão fica sujeito a ser condenado pelo tribunal. Quem lhe disser uma palavra ofensiva estará sujei- to ao inferno de fogo. 537 1Jo 3.15 [tradução direta]. 538 Mt 5.22 [tradução direta; ver o contexto imediato]. a Instrução de 1537: Tu ne tueras point. [No texto: Tu n’occiras point.]
  • 209. 209 55. Dupla base bíblica do sexto mandamento Há na Escritura duas razões sobre as quais se assenta este mandamento: umaa é que o homem é imagem de Deus; a outra é que ele é nossa carne. Portanto, se não queremos profanar a imagem de Deus, não devemos fazer nenhuma ofensa ao nosso próximo. E se não queremos desfazer-nos totalmente da nossa humanida- de, devemos tratar o nosso próximo como a nossa própria carne. A exortação que se pode obter a respeito do benefício da obra redentora realizada por Cristo será tratada noutra parte deste livro. Mas o Senhor quis que considerássemos naturalmente as duas coisas que mencionamos sobre o ho- mem, as quais nos induzem a fazer o bem a ele: que tratemos com reverência a imagem de Deus nele impressa, e que com amor cuidemos da nossa própria carne. Por isso, quem simplesmente se absteve de derramar sangue não é ino- cente do crime de homicídio. Porque todo aquele que cometer de fato, ou tiver essa intenção, ou conceber em seu coração algo que vá contra o bem do seu próximo, Deus o considera homicida. Por outro lado, se não usarmos a possibi- lidade e a ocasião que se oferece a nós para fazermos o bem ao nosso próximo, com essa maldade de omissão estaremos transgredindo este mandamento. Ora, se o Senhor se preocupa tanto com a saúde física de cada um, podemos enten- der quanto nos obriga a procurar a saúde da alma, nossa e do próximo, incom- paravelmente mais preciosa para Ele. 56. O SÉTIMO MANDAMENTO NÃO ADULTERARÁS A finalidade do sétimo mandamento é a seguinte: Visto que Deus ama a pureza e a castidade, Ele exige que toda impurezab esteja longe de nós. Em resumo: que não nos manchemos com nenhuma imundície ou intemperança ou excessos da carne. A isso corresponde o mandamento afirmativo, determinando que, em to- das as nossas ações, a nossa vida seja regrada pela castidade e pela continência. Mais específica e expressamente, o preceito proíbe todas as formas de pros- tituição e de dissolução, a que a incontinência leva. Isso porque, pela impureza e desonestidade, mais visível e mais manifesta na prostituição, o corpo sofre de- sonra, e somos impelidos pelo mandamento a considerar abominável toda forma de incontinência ou desregramento. 57. A bênção do casamento Como o homem foi criado em tal condição que não deve viver solitário, mas deve ter uma auxiliadora semelhante a ele, quanto mais lembrando que pela maldi- a Vê-se a mesma consideração no breve parágrafo da Instrução de 1537. b Instrução, 1537: luxure et impudicité. Sobre a Lei
  • 210. 210 As Institutas – Edição Especial ção do pecado ele ficou mais sujeito a essa necessidade, o Senhor nos deu um remédio próprio instituindo o casamento. Depois de estabelecê-lo com a Sua autoridade, santificou-o com a Sua bênção.a Isso mostra claramente que toda companhia fora do casamento é maldita di- ante de dele, e que mesmo a companhia de marido e mulher foi ordenada por Deus para atender a nossa necessidade, a fim de que não demos rédeas soltas aos nossos desejos carnais. Não nos gabemos, pois, quando ouvimos dizer que o homem pode juntar-se a uma mulher fora do casamento sem sofrer a maldição de Deus. 58. O dom da continência Sendo, pois, que temos dupla necessidade desse remédio, tanto para atender à con- dição da nossa natureza como para a condição pecaminosa posterior à Queda, ne- cessidade que todos temos, à exceção daqueles que de Deus receberam graça espe- cial [1536], cada um considere bem o que lhe é dado. Porque os que não receberam o dom especial da continência, se não fizerem uso do remédio que lhes é concedido e oferecido, estarão lutando contra Deus e resistindo ao que Ele ordena. E que ninguém conteste aqui (o que muitos costumam fazer) alegando que com a ajuda de Deus pode-se fazer tudo. Porque essa ajuda não é dada senão aos que caminham em suas veredas, quer dizer, segundo a sua vocação.539 [1539] Desta se afastam todos aqueles que, recusando os meios que Deus lhes oferece, com louca temeridade pretendem superar a sua necessidade. O Senhor declara que a continência é um dom singular e especial,540 dom que não é dado indistintamente a toda a Sua igreja, mas a um reduzido número dos seus membros. Porque Ele nos fala de um certo gênero de homem que se castra pelo reino dos céus; isto é, para dedicar-se mais livremente ao serviço da glória de Deus. E para que ninguém pense que está em seu poder humano agir dessa maneira, Ele disse pouco antes que “nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado” pelo céu. De onde Ele conclui que “quem é apto para o admitir admita”. O apóstolo ensina a mesma verdade com muita clareza quando diz:541 “Cada um tem de Deus o seu próprio dom; um, na verdade, de um modo; outro, de outro”. 59. O celibato clerical Pois bem, os nossos sacerdotes, monges e monjas, deixando de lado essa consi- deração, confiam que são capazes de conter-se. E quem lhes terá revelado que poderão manter a castidade a vida toda, à qual se obrigam para sempre? Eles sabem da sentença de Deus no tocante à condição universal dos homens – que a Calvino casou-se em Estrasburgo em 1539. Essa frase já se encontra na Instrução de 1537. 539 Sl 91.1,14. 540 Mt 19.11,12. 541 1Co 7.7.
  • 211. 211 “não é bom que o homem esteja só”.542 Eles sabem (e quisera Deus que não o sentissem) como são ásperos em sua carne os aguilhões da incontinência. Com que audácia ousam eles rejeitar a vocação geral? Pois o dom da continência é dado mais vezes em certos períodos, conforme o exija a ocasião. Aqueles que, com obstinação, não reconhecem que é preciso que Deus os ajude, melhor fariam se se lembrassem do que está escrito:543 “Não tentarás o Senhor teu Deus”. [1536] Ora, é tentar a Deus forçar a natureza que Deus nos deu e desprezar os meios que Ele nos oferece, como se não tivessem nada que ver conosco. Esses tais, além de agirem dessa forma, não se acanham de dizer que o nome do casamento é corrupção. Entretanto, o nosso Senhor não considerou o casamento como uma instituição indigna da Sua divina majestade; declarou-o “digno de honra entre todos”;544 e Jesus Cristo o santificou com a Sua presença e o honrou com a realização do Seu primeiro milagre.545 Eles fazem isso unicamente para valorizar o seu estado, na manutenção do qual se abstêm do casamento; como se a própria vida que eles levam não se mostrasse coisa muito diferente da abstenção do casamento e da virgindade! E, todavia, eles têm o descaramento de dizer que a sua vida é angélica. O que certa- mente fazem com isso é grande ofensa aos anjos de Deus, com os quais esses tais comparam seres humanos dissolutos, adúlteros e até piores! E de fato não há necessidade de grandes argumentos, porque a verdade os acusa e os convence. Porque não podemos ver com os nossos olhos por quantos e quão horríveis casti- gos o nosso Senhor pune esse arrogante desprezo dos Seus dons; [1539] e vergo- nhoso será descobrir o que deles está oculto, sendo que a metade já é muito, e o próprio ar o denuncia. 60. Falso suporte bíblico para o celibato clerical Eles têm um recurso para mostrar que os sacerdotes não devem casar-se. É que se proibia aos sacerdotes levíticos que coabitassem com as suas respectivas mulhe- res antes de eles se aproximarem do altar. Exigência feita para que oferecessem com maior pureza os seus sacrifícios. Alegam que com maior razão os sacramen- tos do cristianismo não devem ser administrados por pessoas casadas. Como se o ofício ou a função do ministério evangélico fosse a mesma do sacerdócio levítico! Contrariamente, os sacerdotes levíticos representavam a Pessoa de Jesus Cristo, que, sendo o Mediador de Deus e dos homens, iria reconciliar-nos com o Pai por Sua pureza perfeita em todos os seus aspectos. Ora, como é fato que eles, sendo pecadores como são, não podem corresponder em tudo e perfeitamente à santidade, para de algum modo representá- la figuradamente, era-lhes ordenado que se purificassem de forma superior à do 542 Gn 2.18. 543 Mt 4.7. 544 Hb 13.4. 545 Jo 2.2. Sobre a Lei
  • 212. 212 As Institutas – Edição Especial costume humano, quando lhes cabia aproximar-se do santuário, de modo que pudessem então levar em si, de maneira apropriada, a figura de Cristo. Pois era o que faziam quando, na qualidade de mediadores, compareciam diante de Deus, em nome do povo, no tabernáculo, que era como uma imagem do trono celestial. Pois bem, como os pastores, os ministros da igreja, não têm mais aquele ofício e aquela representação pessoal, a comparação acima feita não é nem oportuna nem própria.Por isso o apóstolo, sem abrir nenhuma exceção, afirma que o casamento é “digno de honra entre todos”546 e que Deus punirá todos os dissolutos e adúlteros. 61. A insolência da obrigatoriedade do celibato clerical É preciso acrescentar que é uma afronta insolente exigirem eles a castidade como coisa necessária e indispensável. Com essa atitude eles causaram grande opró- brio à igreja antiga, a qual, tendo sido excelente na pureza da sua doutrina, via-se ainda mais excelente pelo ornamento da santidade. Que dirão os nossos oponen- tes, clamo a vocês, leitores, que me respondam – sim, que dirão eles de todos os antigos pais, que não somente toleraram o casamento dos bispos, mas também o aprovaram? Teriam eles profanado os mistérios de Deus? Pois, segundo a opi- nião desses clérigos atuais, aqueles pais não trataram com a devida pureza os mistérios de Deus. É verdade que esta matéria foi discutida no Concílio de Nicéia,a e (como sempre se encontram alguns supersticiosos que em seus devaneios sonham com alguma nova fantasia para virem a ser admirados por isso), houve quem quisesse proibir o casamento aos ministros. Mas, qual foi a decisão que ali se tomou? Foi aprovada a proposta de Paphnutius. Este declarou que a castidade é a coabita- ção do homem com a sua mulher. [Grifo do tradutor.] Assim, o casamento permaneceu integralmente, e não foi considerado como algo desonroso para os bispos já casados. Tampouco se considerou o casamento como uma mancha para o ministério. Igualmente, os pais que viveram em perío- dos posteriores, à exceção de Jerônimo, não foram muito contrários ao reconhe- cimento da santidade do casamento. Contentamo-nos em citar o testemunho de Crisóstomo, visto que não é suspeito de ter favorecido demais o casamento. Ao contrário, ele estava muito inclinado a prezar e a engrandecer a virgindade. Pois bem, eis como fala Crisóstomo: “O primeiro degrau da castidade é a virgindade imaculada. O segundo é o casamento mantido com fidelidade”. Essa declaração afirma, pois, que o amor do marido e da sua mulher, quando ambos vivem bem no casamento, é uma segunda espécie de virgindade. Agora, se os casados reconhecem que a sua vida conjugal é abençoada por Deus, devem sentir-se admoestados a não contaminá-la pela intemperança dissoluta. 546 Hb 13.4. a Reunido em 325.
  • 213. 213 62. Casamento não é licença ilimitada Consideremos, pois, que, se a honestidade do casamento nos protege da vergo- nhosa incontinência, não significa que deva dar lugar à incitação. [1536] Portan- to, os casados não devem pensar que todas as coisas lhes são lícitas, mas cada homem deve conduzir-se sobriamente para com a sua mulher, e, reciprocamente, a mulher para com o seu marido, governando-se ambos de tal maneira que não façam nada que seja contrário à santidade do casamento. [1539] Porque é assim que o casamento deve ser regrado, e essa modéstia e essa moderação devem ser o fruto natural da ordenança de Deus, jamais passando dos limites e se transfor- mando em dissolução. 63. Quem é o legislador? Finalmente, devemos considerar quem é o legislador que condena pensamentos e atos dissolutos. É Deus, o Senhor absoluto sobre nós. Portanto, Ele tem todo o direito de exigir de nós integridade do corpo, da alma e do espírito. Quando, pois, Ele proíbe o adultério, proíbe também qualquer atitude nossa que tenda a induzir os outros ao mal, seja por roupas que incitem a lascívia, seja por gestos e modos obscenos, seja por palavras pecaminosas e mal intencionadas. Com relação a este ponto, um filósofo chamado Arquelau disse a um jovem elegantemente vestido, envergando traje fino, que ele era uma coisa só e que, por isso, não importava que parte do seu corpo mostrava a sua indignidade insolente. Essa advertência, digo eu, tem a aprovação de Deus, para quem é abominação toda impureza, em qual- quer parte, quer da alma quer do corpo. E para que ninguém duvide dessa verda- de, consideremos que, neste mandamento, Deus nos recomenda categoricamente a castidade. Como Ele a ordena, condena tudo o que a contrarie. Por tudo isso, se desejarmos obedecer ao sétimo mandamento, será neces- sário que o coração não se abrase interiormente de cobiça libidinosa, que o olhar não seja impudico, que o rosto e o corpo não sejam enfeitados com maquiagem e outros atrativos provocantes, que a língua não diga palavras que induzam maus pensamentos, e que a boca não se deixe mover pela intemperança para sugerir a luxúria. Porque todos esses atos e gestos viciosos são verdadeiras manchas que maculam e enlameiam a continência, a castidade e a pureza. 64. O OITAVO MANDAMENTO NÃO FURTARÁS A finalidade do oitavo mandamento é que se dê a cada um o que lhe pertence, visto que Deus repudia toda injustiça. O resumo é, pois, que este preceito nos proíbe querer e buscar para nós os bens alheios e, por conseguinte, ordena que nos empenhemos em fielmente conservar com cada um os seus respectivos bens. Sobre a Lei
  • 214. 214 As Institutas – Edição Especial Porque temos o dever de considerar que o que cada um possui não lhe veio por acaso, mas, sim, pela distribuição feita por Deus. Por essa razão, não se pode tomar fraudulentamente as riquezas ou as posses de ninguém, sem violar a distri- buição divina. 65. Diferentes categorias de furtos e roubos Agora, há muitas espécies de ladrões.a Um age com violência quando, pela força e com uma quadrilha ou algo parecido, ataca e pilha o bem alheio. Outro age com fraude e malícia, enganando e furtando o próximo com muita cautela. Outro, com astúcia ainda mais encoberta por disfarces, fingindo direito e justiça, priva o seu semelhante dos bens que a este pertencem. Outro, com lisonjas e belas pala- vras, e a título de doação, consegue para si o que deveria pertencer a outro. Mas não tomemos muito tempo fazendo listas das diferentes classes de furtos e roubos. Notemos, em resumo, que todos os meios utilizados pelos ho- mens para enriquecimento com prejuízo de outros, afastando-se da sinceridade cristã, que deve ser mantida com carinho, e agindo com fingimento e astúcia, enganando e prejudicando o próximo – os que assim procedem devem ser consi- derados ladrões. Embora os que agem desse modo muitas vezes ganhem na defesa da sua causa diante do juiz, Deus não os considerará como outra coisa senão ladrões. Porque ele vê as armadilhas que pessoas da alta sociedade de longe armam para pegar gente simples em suas redes; Ele vê os pesados impos- tos e taxas que os grandes da terra impõem aos pequenos, para oprimi-los; Ele vê como são venenosas as lisonjas utilizadas por aqueles que querem destruir o próximo por meio de mentiras e outras formas de falsidade. Essas coisas geral- mente não chegam ao conhecimento dos homens. 66. Transgressões sutis do oitavo mandamento Além disso, transgressão deste mandamento não é só prejudicar alguém quanto a dinheiro, comércio ou direito de propriedade, mas também quanto ao não atendi- mento a qualquer dever nosso e a qualquer direito do próximo. Porque tanto defraudamos o nosso próximo usurpando os seus bens como lhe negando os ser- viços que lhe devemos prestar. Assim, se um procurador ou mordomo ou admi- nistrador, em vez de zelar dos bens entregues aos seus cuidados, viver na ociosi- dade, sem se preocupar com o seu dever de procurar o bem daquele que lhe dá o sustento; se desperdiçar ou empregar mal o que lhe foi confiado, ou o gastar em coisas supérfluas; se o empregado zombar do seu chefe ou patrão, se divulgar os seus segredos, ou se planejar algo contra os bens dele ou contra a sua reputação ou contra a sua vida;547 se, por outro lado, o chefe ou patrão ou pai tratar desuma- a Distinções resumidas em 1536, inexistentes na Instrução de 1537. 547 Rm 13;1Pe 2; Tt 3.
  • 215. 215 namente os seus subordinados ou a sua família, para Deus é um ladrão. Porque, aquele que não pratica o que a sua vocação o manda fazer pelos outros, com isso retém o que pertence a outros. 67. Como obedecer deveras ao oitavo mandamento Portanto, eis como obedeceremos a este mandamento: Se, estando satisfeitos com a nossa situação, só nos dedicarmos à obtenção de algum ganho mediante atividade legítima e honesta; se não desejarmos enriquecer-nos à custa de pre- juízo alheio; se não planejarmos destruir o nosso próximo tomando os seus bens; se não usarmos as nossas habilidades para juntar riquezas com o suor e o sangue alheios; se não aplicarmos os nossos esforços por toda parte e por todos os meios, fazendo o máximo possível para satisfazer à nossa avareza ou para gastar os nossos ganhos em coisas supérfluas. Mas, ao contrário, positivamente, se tivermos como objetivo ajudar quanto pudermos o nosso próximo a conservar os seus bens, já dando a ele conselhos, já lhe dando auxílio substancial e prático; e se, ao termos que tratar com gente ruim, falsa, mentirosa, estivermos mais dispostos a ceder-lhes os nossos direitos do que a combatê-los com as mesmas armas da astúcia perversa. E não somente isso, mas também, se virmos alguém sofrendo a opressão da pobreza, entrarmos em contato com ele em sua indigência, e da nossa abundância lhe dermos socorro para suprir a sua necessidade. Finalmente, que cada um veja bem quais são os seus deveres de ofício para com os outros, e procure cumpri-los lealmente. [1536] Sendo assim,a o povo honrará os seus superiores, terá boa vontade em submeter-se a eles de coração, obedecerá a suas leis e a suas normas, e não se negará a nada que possa fazer sem ofender a Deus. Por outro lado, os superiores estarão cumprindo este mandamento se exer- cerem a sua autoridade cuidando do povo com bondosa solicitude, mantendo a paz em toda parte, defendendo os bons, castigando os maus – enfim, adminis- trando todas as coisas com a vívida consciência de que terão que prestar contas a Deus, o Juiz soberano.548 68. Aplicações finais do oitavo mandamento Que os ministros da igrejab ensinem fielmente a Palavra de Deus, não pervertendo a doutrina da salvação, mas mantendo a sua pureza. E que não somente instruam o povo com boa doutrina, mas também a exemplifiquem com a sua vida. Em resumo, 548 Dt 17.14-20; 2Cr 19. Sobre a Lei a Esse parágrafo vinha colocado em 1536 junto com todas as citações bíblicas, no fim da explicação do 10º. mandamento, com este preâmbulo: “Quod vero aliena concupiscere prohibemur, huc etiam referri debet, ut pro sua quisque vocatione partibus suis fungatur, et alteri quod officii sui est, præstet (Ephes. 4)”. b 1536: episcopi et ecclesiarum ministri.
  • 216. 216 As Institutas – Edição Especial que eles presidam como bons pastores sobre as suas ovelhas.549 Por sua vez, que o povo os receba como mensageiros e apóstolos de Deus, e lhes prestem a honra que o nosso Senhor lhes atribui; e supram-nos do necessário para o seu sustento.550 Que os pais se dediquem a alimentar, instruir e dirigir os seus filhos, pois Deus os encarregou desses deveres. Que não os tratem com demasiado rigor, para que eles não se desanimem. Tratem-nos com a brandura e a bondade adequadas à personalidade de cada um deles. E que, por sua vez, os filhos, como já dissemos,a tratem seus pais com a reverência e a submisso que lhes devem.551 Que de igual modo os jovens tratem honrosamente os idosos, pois esta é a vontade do Senhor. E que os idosos se esforcem para dirigir os jovens com a sua prudência, que lhes vem da sua experiência. Não sejam excessivamente rigoro- sos, mas usem a severidade temperada com a suavidade e a tolerância. Que os servos sejam diligentes e prestativos para com os seus senhores, pro- curando agradá-los com o seu serviço – não somente quando vistos por eles, mas também de coração, como estando servindo a Deus. Que os senhores não sejam muito duros e intratáveis com os seus servos, oprimindo-os com excessivo rigor ou tratando-os de maneira insultuosa. Ao invés disso, que os reconheçam como ir- mãos e companheiros no serviço de Deus,b a fim de lhes dar tratamento humano.552 Em suma, cada um, conforme a sua vocação e a sua posição, verifique o que deve a seu próximo, e cumpra o seu dever. Acrescente-se que devemos sempre dirigir o nosso pensamento ao Legisla- dor para lembrar-nos de que esta regra foi ordenada tanto para o corpo como para a alma. Nesse sentido, cada um aplique a sua vontade a conservar e promover o bem e a utilidade de todos os homens. 69. [1539] O NONO MANDAMENTO NÃO DIRÁS FALSO TESTEMUNHO CONTRA O TEU PRÓXIMO.c Por este mandamento Deus, que é a verdade, e que detesta a mentira, obriga-nos a dizer e manter a verdade sem fingimento. O sumário disso é que não prejudi- quemos a reputação de ninguém com calúnias ou boatos, nem lhe causemos dano com relação a seus bens com falsas acusações. Enfim, que não prejudiquemos ninguém com calúnias ou com zombaria. A essa proibição corresponde este pre- ceito afirmativo: Que nos ajudemos uns aos outros com fiel constância a manter a verdade, para a preservação quer dos bens, quer da reputação uns dos outros. 549 1Tm 3; 2 Tm 2 e 4; Tt 1; 1Pe 5. 550 Mt 10; Rm 10 e 15; 1Co 9; Gl 6; 1Ts 5; 1Tm 5. a Pouco acima, a explicação do 5º. mandamento. 551 Ef 6.1,2; Cl 3.20. b 1536: ejusdem Domini, qui in cœlis est, conservos. 552 Ef 6; 2Co 8; Cl 3; Tt 2; 1Pe 2; Fm. c Instrução de 1537: Tu ne dirás point faulx tesmoignage.
  • 217. 217 70. Deus detesta e proíbe a mentira, a falsidade e a maledicência Vê-se que o nosso Senhor quis expor o sentido deste mandamento no capítulo 23 de Êxodo, dizendo: “Não espalharás notícias falsas, nem darás mão ao ímpio, para seres testemunha maldosa”. E mais: “Da falsa acusação te afastarás”.553 E noutra passagem Ele não somente proíbe que sejamos mexeriqueiros, caluniadores e maledicentes, mas também que não iludamos o nosso irmão, porque Deus pro- íbe expressamente essas coisas.554 Sem dúvida nenhuma, como nos mandamentos que acima estudamos Ele quer suprimir a crueldade, o despudor e a avareza, aqui, no nono mandamento, Ele quer reprimir a falsidade, que, como dissemos, tem duas partes. Porque, fa- lando mal do nosso próximo, prejudicamos a sua reputação, e com mentiras e palavras mal intencionadas impedimos a sua prosperidade. Ora, pouco importará se aqui se entender que o mandamento se refere ao juramento público e solene que se faz no tribunal, ou do que se faz vulgar e privadamente entre as pessoas. Pois é preciso recordar sempre o que já dissemos – que de cada gênero de práticas maldosas ou viciosas o nosso Senhor apresenta uma como exemplo, com a qual devemos relacionar todas as demais.Além disso, Ele escolhe a que se mostra mais vil e vergonhosa. Embora eu prefira tomar este mandamento de modo geral, não deixa ele de incluir o fato de que o falso teste- munho dado na justiça nunca está isento de perjúrio – do qual já falamos quando tratamos do terceiro mandamento, na primeira tábua do Decálogo. 71. Deus ama e exige a verdade, a eqüidade, a justiça Vemos agora que, para a correta observância deste preceito, é preciso que a nossa língua fale a verdade sobre o nosso próximo, de modo que colaboremos para que ele mantenha o seu bom nome e os produtos do seu trabalho. Que são aspectos eqüitativos é evidente,a porque, se a boa reputação é mais preciosa que qualquer tesouro, como é,b não causamos menos prejuízo a um homem quando o privamos do seu bom nome do que quando o despojamos dos seus recursos materiais. Como também às vezes se faz mais dano ao próximo pela mentira do que pelo roubo. Todavia, é de espantar como os homens agem contra este mandamento sem nenhuma preocupação! Bem poucos são os que não estão gravemente envolvidos nesse vício. Pois todo o mundo gosta de investigar e descobrir os vícios dos outros. E ninguém pense que é escusa suficiente não mentir; porque Aquele que nos proíbe infamar o próximo com mentiras também quer que a sua reputação 553 Êx 23.1,7. 554 Lv 19.16,17. Sobre a Lei a ut æqui interpretes, diz 1536, que cita Mt 7; Rm 13 e 14. b O provérbio mais habitual diz: que ceinture dorée (que cinto de ouro).
  • 218. 218 As Institutas – Edição Especial seja mantida, desde que se possa fazer isso com pleno uso da verdade. Porquanto, embora não proíba senão causar prejuízo pela mentira, contudo está implícita a referida recomendação em favor da reputação do nosso próximo. Ora, deveria sr mais que suficiente para nós o fato de vermos que o nosso Senhor tem esse zeloso interesse em que o nosso próximo não seja difamado. 72. Condenada a detração, a maledicência Pelo que acima foi dito, vê-se que neste mandamento todas as formas de detração ou maledicência são indubitavelmente condenadas. Por detração entendemos, não a repreensão que se faz para corrigir o faltoso; nem a denúncia ou acusação judicial, que é feita com o objetivo de remediar males; nem a ação disciplinar pública, que se aplica a quem a mereça para inspi- rar temor aos demais; nem tampouco a advertência feita por causa da maldade de alguém, advertência que visa a preparar os que dela precisam saber para que não sejam enganados. Mas por detração nos referimos à injúria odiosa, isto é, à falsa e revoltante denúncia que é feita por maldade ou por maledicência. 73. Elogios falsos, lisonjas e outras hipocrisias sociais... Ademais, este mandamento abrange também esta proibição: Que não façamos brincadeiras com o nosso próximo, aparentando amabilidade, e gracejando en- quanto zombamos dele e o mordemos,a rindo uns para os outros, como fazem alguns que se enchem de prazer quando conseguem deixar alguém envergonhado em público; porque muitas vezes esse abuso deixa a sua marca nos que assim foram ridicularizados. Agora, se pensamos no Legislador, cujo senhorio se impõe tanto sobre a lín- gua como sobre o ouvido e o coração, entenderemos que este mandamento proíbe, não somente o uso da língua para a maledicência, mas também, e com igual peso, o desejo e a prontidão para ouvir e crer os boatos e os comentários maldosos sobre o próximo. Porque seria ridicularizar a Deus dizer que Ele detesta o vício da male- dicência e que não condena a maldade que no coração lhe dá origem. Portanto, se temos verdadeiro temor de Deus e se Lhe votamos vero amor, façamos todo o possível, empregando todos os meios que estiverem ao nosso alcance, quanto estiver dentro dos limites da caridade cristã, para não ouvir nem falar nada que contenha ou incentive blasfêmia, e nenhuma difamação ou palavra insultuosa; como também façamos todo o possível para não dar facilmente ao nosso coração azo e lugar para suspeitas maldosas. Em vez dessa atitude perver- sa, procuremos dar bom sentido ao que os outros dizem e fazem, e empenhemo- nos em manter integralmente a honra e a boa reputação do nosso próximo. a scurrilem urbanitatem, diz 1536, que cita Sl 5; Mt 12; Ef 4 e 5.
  • 219. 219 74. [1539] O DÉCIMO MANDAMENTO NÃO COBIÇARÁS A CASA DO TEU PRÓXIMO. NÃO COBIÇARÁS A MULHER DO TEU PRÓXIMO, NEM O SEU SERVO, NEM A SUA SERVA, NEM O SEU BOI, NEM O SEU JUMENTO, NEM COUSA ALGUMA QUE PERTENÇA AO TEU PRÓXIMO.a Eis a finalidade do décimo mandamento: Visto que Deus quer que a nossa alma esteja dominada pelo amor e pela caridade, e que de amor transborde, devemos afastar do nosso coração todo desejo que seja contrário ao amor e à caridade. Em resumo, o que o mandamento preceitua é o seguinte: Que não acolhamos nenhum pensamento que possa induzir o nosso coração a alguma concupiscência ou cobi- ça que leve o nosso próximo a sofrer algum dano ou prejuízo. Por outro lado, a isso corresponde o preceito afirmativo. Este determina que tudo o que imaginar- mos, deliberarmos, desejarmos ou buscarmos esteja em harmonia com o bem do nosso próximo e com o que lhe é útil e proveitoso. 75. Diferença entre intenção e cobiça Há, porém, aqui uma grande dificuldade. Porque, se é verdade o que dissemos acima, que o nosso Senhor, proibindo o adultério e o furto, com isso proibiu o despudor e todo desejo de causar dano, enganar e roubar, parece supérfluo proi- bir agora, separadamente, o cobiçoso desejo dos bens alheios. Todavia, podemos resolver facilmente essa questão considerando a diferença que existe entre propósito e concupiscência. Chamamos propósito a intenção deli- berada da vontade,b quando o coração do homem é vencido e subjugado pela tenta- ção. A concupiscência ou cobiça pode ocorrer sem essa deliberação ou consenti- mento, quando o coração é apenas afagado e incitado a praticar alguma maldade. Lembremo-nos de que, assim como acima se viu que o Senhor quer que os desejos, projetos e atos dos homens sejam moderados pela regra da caridade, assim, no presente contexto, Ele quer que os nossos pensamentos sejam também submetidos à mesma regra, de modo que nada incite o nosso coração a agir con- tra a caridade. Antes o Senhor proibiu que o coração se deixasse levar por estes males – a ira, o ódio, o adultério, o furto e a mentira; agora proíbe que seja a isso provocado ou incitado. Não é sem motivo que Deus exige tão grande retidão interior. Porque, have- rá quem negue que todos os poderesc da alma devem ser vinculados à caridade e estar a seu serviço? E se algum desses poderes não for exercido dessa forma, quem negará que assumiu caráter mau e vicioso?d Ora, o que explica que entre Sobre a Lei a É exatamente o texto da Instrução de 1537. b deliberata voluntatis consensio. c potentias. d De fato, o pelagianismo o nega, mas não quer reconhecer como pecado senão o ato voluntário, deliberadamente formado. A teologia católica romana reconhece que as disposições contrárias à lei de Deus têm caráter de
  • 220. 220 As Institutas – Edição Especial em seu entendimento algum desejo prejudicial a seu próximo, senão que você negligencia os seus semelhantes e só se preocupa consigo mesmo e com o pro- veito que possa colher para si próprio? Porque, se todo o teu coração fosse toma- do pelo amor cristão, nenhuma dessas imaginações nocivas entraria nele. Logo, é preciso dizer que, estando o coração vazio de amor cristão, de caridade, acolhe tais concupiscências. 76. Réplica suspeita Alguém contestará que, todavia, não é razoável que as fantasias que rodopiam no cérebro e logo se desvanecem sejam condenadas como concupiscências, as quais têm a sua sede no coração. Respondo que aqui se trata das fantasias que, [apesar de fantasias ou imaginações], não somente passam pelo cérebro, mas também pene- tram no coração com a sua concupiscência. Porque jamais podemos ter no pensa- mento algum desejo sem que o coração seja tocado e inflamado por esse desejo. O nosso Senhor exige, pois, um extraordinário ardor de caridade que não seja dificultado ou impedido nem pelo menor resquício de concupiscência. Ele exige um coração maravilhosamente equilibrado e que não seja incitado contra a lei da caridade ou do amor cristão por nenhum aguilhão, por nenhum tipo de estímulo pecaminoso. Para que ninguém pense que só eu tenho essa opinião, confesso que Agos- tinho me abriu o caminho para que eu chegasse a entender o preceito que estamos analisando. Se bem que a intenção de Deus seja proibir toda cobiça pecaminosa, contudo colocou como exemplo os objetos que mais nos atraem e seduzem.Agindo assim, Ele não faz nenhuma concessão à cobiça do homem, quando o afasta das coisas às quais ele se sente mais inclinado. 77. Conclusão da segunda tábua e do Decálogo Aí temos, pois, a segunda tábua da Lei, que nos ensina e nos admoesta ampla- mente quanto ao que devemos aos homens por amor a Deus, no qual se baseia a caridade cristã. Por esse motivo, seria pura e vã exibição querer inculcar as ver- dades ensinadas nesta segunda tábua sem que, primeiro, essa doutrina fosse ou estivesse firmada no temor de Deus e na reverência a Ele, como seu fundamento. 78. Definidas a intenção e a finalidade da Lei Nesta altura não é difícil saber qual é o objetivo da Lei, a saber, uma justiça perfeita,a de modo que a vida do homem se conforme à pureza de Deus como a pecado. Mas, no sentido próprio do termo, o pecado sempre consiste em um ato voluntário. Mais adiante se verá que Calvino faz consistir o pecado em toda falta de conformidade com a lei de Deus, quer essa falta se exprima num ato, numa disposição, ou num estado de alma. a 1536: ad docendam caritatem. O que se segue pode-se comparar com a obra Betbüchlein de Lutero, edição de Weimar, 1011, p. 387 (25) a 388 (18).
  • 221. 221 um modelo. Porque o nosso Senhor retratou a Sua natureza de tal maneira na Lei que, se alguém cumprisse o que nela é ordenado, representaria em sua vida a imagem de Deus. Por isso Moisés, querendo manter resumidamente na memória do povo de Israel os mandamentos da Lei de Deus, disse e escreveu:555 “Agora, pois, ó Israel, que é que o Senhor requer de ti? Não é que temas o Senhor, teu Deus, e andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma, para guardares os mandamentos do Senhor...?”. E não cessava de repetir aos israelitas isso, toda vez que desejava fazê-los rever a finalidade da Lei. Eis aqui o que a doutrina da Lei tem em vista: Unir o homem pela santidade de sua vida a Deus; e, como diz Moisés noutra passagem,556 levá-lo apegar-sea a Deus. 79. O amor é o resumo por excelência da Lei O cumprimento da santidade visada pela Lei de Deus consiste nestes dois arti- gos: (1) Que amemos o Senhor, o nosso Deus, de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento; (2) Que amemos o nosso próximo como a nós mesmos.557 Portanto, o primeiro determina que a nossa alma esteja repleta do amor de Deus, e daí decorre o nosso amor fraterno ao nosso próximo. É como entende o apóstolo Paulo, como se vê por suas palavras, quando ele declara que a finalidade da admoestação da Lei é “o amor que procede de coração puro, e de consciência boa, e de fé sem hipocrisia558 ”; temos aí como a boa cons- ciência e a fé, ou seja, a piedade e o temor de Deus, são colocados logo acima como constituindo a cabeça, e a seguir se deduz a caridade cristã. 80. A Lei não é simplesmente elementar Seria, pois, uma insensatez pensar que a Lei só ensina certos rudimentos da jus- tiça, apenas para introduzir os homens num começo, e não para os conduzir em todo o reto caminho. Isto se evidencia pelo fato de que nem sequer saberíamos desejar maior perfeição que a que se contém na sentença de Moisés e na de Pau- lo, acima citadas. Porque, aonde irá aquele que não se contentar com esta doutri- na? Pois por ela o homem é ensinado e formado no temor de Deus, no culto espiritual – pelo qual adora a Sua divina majestade –, na obediência aos manda- mentos, na retidão de Deus e do Seu caminho, e, finalmente, na pureza de cons- ciência, na sinceridade da fé, e no amor fraterno. Razão pela qual é confirmada a exposição que fizemos, quando reduzimos aos mandamentos da Lei tudo o que se requer da piedade e da caridade. Sobre a Lei a cohærere. 555 Dt 10.12,13. 556 Dt 11.22. [Ver também 30.20.] 557 [Dt 6.5; 11.13; Lv 19.18]; Mt 22.37-39]. 558 1Tm 1.5,7.
  • 222. 222 As Institutas – Edição Especial Porquanto, os que se apegam a sabe-se lá quais elementos,a como se a Lei ensinasse a metade da vontade de Deus, não entendem bem a finalidade da mes- ma, como diz o apóstolo Paulo. Entretanto, como Cristo e os Seus apóstolos às vezes, ao citarem resumos da Lei, não fazem menção da primeira tábua, é preciso dizer algo a respeito, porque muitos se perdem nisso, ligando ditas palavras a toda a Lei, quando na verdade elas dizem respeito à metade. Cristo, no Evange- lho Segundo Mateus,559 declara que a Lei consiste principalmente na “justiça, a misericórdia e a fé”. Não há dúvida nenhuma de que com a palavra fé Ele se refere à verdade. No entanto, para estenderem a sentença citada à Lei toda, alguns tomam a palavra fé no sentido de religião. Argumento frívolo, porque nessa passa- gem Cristo fala das obras pelas quais o homem deve demonstrar a sua justiça. Se dermos a devida atenção a esse ponto, não ficaremos maravilhados, por- que noutra passagem, interrogado sobre quais são os mandamentos que o homem deve guardar para poder entrar na vida eterna, Ele respondeu que são os seguintes: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás,não dirás falso testemunho; honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo”.560 Porque a observância da primeira tábua está situada, ou no afeto interior do coração, ou nas cerimônias. O afeto do coração não aparece, não se vê; as cerimônias eram observadas mais diligentemente pelos hipócritas do que por todos os outros; são, pois, as obras realizadas por verdadeira caridade que dão um indiscutível testemunho da justiça. 81. A alta valorização da segunda tábua não a coloca como superior à primeira? Mas alguém perguntará: Se, para a obtenção da justiça, viver retamente e com lealdade entre os homens é mais importante que o temor de Deus e a honra que se Lhe presta pela piedade? A isso respondo que não. Mas, como ninguém pode exercer completamente a caridade sem que antes tenha ou passe a ter temor de Deus, a própria piedade do homem é comprovada por suas obras de caridade. Ademais, como não é possível que Deus receba de nós algum benefício, como diz o profeta,561 Ele não exige que façamos boas obras em Seu benefício, mas nos concita à prática das boas obras em favor do nosso próximo. Pelo que não é sem motivo que o apóstolo Paulo concentra toda a perfeição dos crentes na carida- de.562 E noutra passagem ele nos chama para o cumprimento da Lei dizendo que “quem ama o próximo tem cumprido a lei”.563 E logo a seguir ele declara que “tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.564 Ora, a arida jejunaque elementa. 559 Mt 23.23. 560 Mt 19.18. 561 Sl 16.1-3. 562 Ef 1.15; [3.19; Cl 3.14]. 563 Rm 13.8. 564 [Rm 13.9]; Gl 5.14.
  • 223. 223 o apóstolo não ensina mais que o que o Senhor o faz quando diz: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a lei e os profetas”.565 Certamente tanto a Lei como os Profetas dão o primeiro lugar à fé e à reve- rência ao nome de Deus; e colocam logo o amor ao próximo em segundo lugar. Mas o Senhor entende que a Lei nos manda guardar o direito e a eqüidade para com os homens a fim de testificarmos o temor de Deus, se de fato o temos. 82. O amor ao próximo Firmemo-nos, então, neste fato: A nossa vida estará em conformidade com a vontade de Deus e com o que a Lei ordena se, em todos os aspectos, for proveito- sa para os nossos irmãos. [1536] Ao contrário, em toda a Lei não se lê nem sequer uma sílaba que ofereça ao homem uma regra sobre o que ele deve fazer ou deixar de fazer em seu próprio proveito. E como é certo que os homens são, por natureza, muito mais propensos a amar a si mesmos do que seria justo, não foi necessário dar-lhes mandamento para inflamá-los mais nesse amor, que já por si vai além da medida. Disso fica evidente que, não o amor a nós mesmos, mas o amor a Deus e ao próximo é que constitui o cumprimento dos mandamentos da Lei; e que, portanto, cumpre a Lei aquele que vive retamente e o menos possível para si mesmo; por outro lado, conclui-se também que ninguém tem pior vida e mais desordenada que aquele que vive só para si mesmo e que só pensa no seu proveito pessoal. Mesmo o Senhor, para mostrar melhor a virtude do amor que devemos ter pelo nosso próximo, remete-nos ao amor de cada um por si mesmo, e o apresenta como regra e modelo. Expressão que devemos considerar cautelosa e diligente- mente, porque não devemos entender essa analogia como os sofistas, que acha- vam que Deus manda cada um amar a si mesmo em primeiro lugar, e depois, o seu próximo. O que na verdade Deus manda é transferir para os outros o amor que temos por nós mesmos. Por isso diz o apóstolo que o amor não procura o seu interesse particular.566 E não tem valor nenhuma a razão que alegam, a saber, que a regra precede e é superior àquilo que por ela é regrado. Ora, dizem eles, o nosso Senhor subordina ao amor a nós mesmos o amor ao nosso próximo. Minha res- posta é que o nosso Senhor não faz do nosso amor a nós mesmos uma regra à qual se deve reduzir o amor ao nosso próximo como inferior. Antes, em vez de, por nossa perversidade natural, fixarmos o nosso amor em nós mesmos, Ele mostra que é necessário que se expanda e abranja as outras pessoas, a fim de que esteja- mos dispostos a fazer o bem aos outros como a nós mesmos. 565 Mt 7.12. 566 1Co 13.5. Sobre a Lei a nec pili æstimanda.
  • 224. 224 As Institutas – Edição Especial 83. Quem é o meu próximo? Acrescente-se que, na parábola do “bom samaritano”,567 Jesus Cristo demonstrou que mesmo a pessoa mais estranha é nosso próximo. Assim, não há razão para restringirmos o mandamento do amor aos que têm algum tipo de afinidade ou aliança conosco. Não nego que quanto mais unidos estivermos a alguma pessoa, com maior cuidado familiar devemos ajudá-la. Porque a própria norma da natu- reza determina que, quanto mais estreitamente ligados estivermos por laços de parentesco, ou de amizade, ou de vizinhança, tanto mais devemos fazer uns pelos outros; e isso não ofende a Deus, cuja providência nos leva a proceder dessa forma. Entretanto, o que afirmo é que devemos incluir em nosso amor caridoso todos os seres humanos em geral,a sem nenhuma exceção, sem fazer diferença entre gregos e bárbaros, sem considerar se são dignos ou indignos, sejam amigos ou inimigos; porque todos devem ser considerados em Deus, e não neles mes- mos. Quando ignoramos ou negligenciamos essa consideração, não fiquemos surpresos se cairmos em muitos erros. Portanto, se quisermos andar pelo reto caminho do amor fraterno, não de- vemos ter os olhos postos nos homens, pois, na maioria das vezes, observá-los nos levaria a odiá-los, e não a amá-los. A Deus é que precisamos observar; e Ele nos manda estender o amor que Lhe votamos a todos os homens, de tal maneira que sempre tenhamos este fundamento: Seja quem for e como for o ser humano, temos que amá-lo, se é verdade que amamos a Deus. 84. Refutação aos doutores da Escolástica Tendo em vista o que acima foi dito, foi por ignorância, ou por malícia pernicio- sa, que os doutores escolásticos,b dos mandamentos pelos quaisc o Senhor nos proíbe desejar vingança, e nos manda amar os nossos inimigos [1536], fizeram simples conselhos, que eles declaram que o homem é livre para seguir ou não. Eles diziam que somente os monges e os frades estão obrigados a tê-los como obrigatórios, porque a eles se atribui uma justiça mais perfeita que a que se exige dos demais cristãos. Eles mesmos se obrigam a guardar os conselhos evangéli- cos, como eles os denominam. Arazão alegada por eles para não receberem esses conselhos como mandamentos é que são muito difíceis e pesados, mesmo para os cristãos, que estão sob a lei da graça. Mas, como é possível que eles se atrevam a abolir a Lei de Deus, eterna, concernente ao amor ao próximo?!d Haverá, porventura, tal diferença na Escritura? Não é o contrário? Pois numerosos são os mandamentos que categoricamente determinam que amemos os inimigos. Por- a universum hominum genus. b Acréscimo a 1536. c olim Judæis tradita. d 1536 acrescenta: an non proposita parabola (Luc 10). 567 Lc 10.25-37.
  • 225. 225 quanto, que significa a exortação que nos é feita para que alimentemos o nosso inimigo quando ele tiver fome;568 que reconduzamos a ele o seu boi ou o seu jumento que encontrarmos extraviado; e que ajudemos a reerguer o seu jumento caído debaixo da carga posta sobre ele?569 Faremos o bem aos animais pertencen- tes aos nossos inimigos não votando a estes nenhum amor? E então? [1536] Não é esta uma palavra eterna de Deus: “A mim me pertence a vin- gança, a retribuição”?570 [1539] O que é dito mais explicitamente noutra passa- gem, onde lemos: “Não buscarás vingança e não te lembrarás das injúrias que o teu próximo tenha feito a ti”.571 Ora, ou eles apagam esses artigos da Lei,a ou confessem que Deus quis ser Legislador ao ordenar isso, e não mero conselheiro, como imaginam aqueles mestres. 85. O que as Escrituras e os antigos pais ensinam [1536] E que querem dizer estas palavras, que eles perverteram transformando- as numa ridícula glosa, [numa expressão obscura e confusa]: “Amai a vossos inimigos”, diz o Senhor, “bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus”.572 [1539] Quem haverá que não possa concluir com Crisóstomo,573 com base sólida e inegável, que não se trata de exortações, mas de mandamentos? Que sobrará para nós, se o Senhor nos eliminar da lista dos Seus filhos? Segundo a opinião daqueles mestres [1536], unicamente os monges e os frades serão filhos de Deus e ousarão invocar a Deus como seu Pai. [1539] E, que será então da igreja? Seguindo aquele argumento, ela será devolvida aos gentios e aos publicanos. Porque, coerentemente, o Senhor decla- rou: “Se amardes os que vos amam,b que recompensa tendes? Os gentios e os publicanos fazem o mesmo”.574 Estaremos bem arranjados, tendo o nome de cris- tãos e sendo despojados da herança celestial! [1536] Portanto, tais mestres agem como filhos de Satanás, quando rejei- tam assimc a todos os filhos de Deus. [1539] E de fato não sei com que mais me espanto, se com a sua tolice ou com a sua falta de vergonha, por publicarem essa sua doutrina. Porque entre os a 1539: ex lege; 1541 (por erro): de la Foy (da fé). 568 Pv 25.21. 569 Êx 23.4,5. 570 Dt 32.35; Hb 10.30. 571 Lv 19.18 [tradução direta]. Sobre a Lei b O texto traz, por erro, ennemys. 572 Mt 5.44,45 [Almeida, Revista e Corririgida, que corresponde à versão utilizada por Calvino, e também à versão francesa de Louis Segond]. 573 Lib. De compunctione cordis (Livro da Compunção do Coração, Livro I, Cap. IV). 574 Mt 5.46,47 [tradução direta]. c 1536: licenter; 1539: licentiose.
  • 226. 226 As Institutas – Edição Especial antigos não há nenhum que declare como coisa incontestável que todos estes preceitos são verdadeiros mandamentos. Mesmo os do tempo de Gregório [o Grande]575 não tinham dificuldade em considerá-los mandamentos, sem levantar nenhuma dúvida. [1536] Mas vejamos como é toloa o argumento dos mestres que estamos refutando. Seria, dizem eles, um fardo muito pesado para os cristãos. Como se fosse possível imaginar um fardo mais pesado que amar a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e de todas as nossas forças! Em comparação com esse mandamento, não há nenhum que não seja fácil, mesmo o que nos manda amar os nossos inimigos, como também o que determina que eliminemos do nosso coração todo desejo de vingança. Certo é que tudo quanto há na Lei, até mesmo a sua mínima exigência,b é por demais elevadoc e difícil demais para a nossa incapacidade mental. O que fazemos de bom o fazemos unicamente pela graça e pelo poder de Deus. “Que Deus nos faça fazer o que Ele manda; e então, que mande o que quiser.”576 Sobre a alegação que aqueles mestres fazem de que os cristãos estão sob a lei da graça, não quer dizer que eles devem viver desordenadamente, a rédeas soltas.d O que, sim, quer dizer é que eles estão inseridos em Cristo, por cuja graça estão livres da maldição da Lei, e por cujo Espírito eles têm “a norma da lei gravada no seu coração”.577 O apóstolo Paulo chama impropriamente de lei essa graça, queren- do manter a analogia do contexto, comparando ambas. Mas aqueles mestres tolos ligam, sem base nem razão, um grande mistério à palavra leie nessa passagem. 86. A falsa distinção entre pecados mortais e veniais [1539] Vê-se o mesmo propósito no que eles dizem do pecado venial,f pois cha- mam de pecado venialg tanto a impiedade oculta contra Deus, que é uma violação da primeira tábua da Lei,h como a transgressão patente do último mandamento. Pois eles definem pecado venial como cobiça maligna, sem consentimento deli- berado, que não permanece muito tempo no coração.578 Mas, ao contrário, eu digo que nenhuma cobiça maligna, nenhum mau desejo, pode penetrar o coração, a não ser por falta de alguma coisa exigida pela Lei. a 1536: Insulse; 1539: stolide. b apicem. c ardua. 575 Gregório, Homilias sobre os Evangelhos, lib. II, hom. 27. NT. 576 Agostinho, De dono perseverantia, c. XX. (Migne, XLV, 102, 6, e muitas vezes nas confissões.) d Essas cinco palavras traduzem effrenate. 577 Rm 2.15. e Isti de nihilo philosophantur. f, g O texto de 1541 traz equivocadamente: original, enquanto que o de 1539 tinha acertadamente: veniale. As edições latina (1559) e francesa (1560) corrigem: veniel (venial). h O primeiro mandamento, explicado um pouco atrás. 578 Cf. Tomás de Aquino, Suma Teológica, II, 1, art. 3. NT.
  • 227. 227 Consideremos: Quando a alma, tentada à desconfiança, procura ali e acolá outros objetos para a sua atenção, e quando se sente movida a buscar a sua bem- aventurança em algum outro, não em Deus, que é que dá origem a esses movi- mentos, breves que sejam? Outra coisa não é, senão o vazio da alma, que se abre para receber as tentações. E para não alongar muito esta argumentação, a Lei nos manda amar a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento. Portanto, se não forem aplicadas ao amor de Deus todas as nossas forças e todas as faculdades da nossa alma, não estaremos obedecendo à Lei. Porque, quando as tentações, inimigas que são do Reino de Deus e a este contrárias – quando as tentações se levantam e agem em nós com vigor fazendo-nos tremer, ou colocam algum impedimento em nosso pensamento para que Deus não seja plenamente obedecido e a Sua vontade não seja observada sem nenhuma contradição ou res- trição, é sinal de que o Seu Reino não está bem firmado em nossa consciência. Acresce que já demonstramos que o último mandamentoa se refere precisa- mente a isso. Terá algum mau desejo espicaçado o nosso coração? Já somos con- siderados culpados de concupiscência e, por conseguinte, transgressores da Lei. Porque o Senhor não somente proíbe deliberar e planejar às ocultas o que possa prejudicar o próximo, mas também proíbe que nos deixemos estimular e incitar por alguma concupiscência ou cobiça. Ora, onde quer que ocorra uma transgres- são da Lei, pronta está a maldição de Deus. 87. Uma pena de morte absolutamente necessária! É, pois, necessário que não deixemos de condenar à morte toda forma de concu- piscência, por menor que seja. Eu gostaria que os tais avaliassem bem o que quer dizer este pronunciamento de Cristo: “Aquele, pois, que violar um destes manda- mentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus” [Mt 5.19]. Aqueles mestres não pertencem a esse grupo? Pois se atrevem a enfraquecer tanto a transgressão da Lei que decerto julgam que ela não merece a morte! 88. Não só a Lei, mas o seu Autor Mas eles não deveriam considerar somente o que nos é ordenado, mas também Aquele que no-lo ordena. Porque não há transgressão, por diminuta que seja, que não O prive da Sua autoridade. Será que, na opinião deles, é pouca coisa violar a majestade divina neste ou naquele ponto? E mais, se o Senhor declarou na Lei a Sua vontade, tudo o que é contrário à Lei O desagrada. Será que eles pensam que a ira de Deus se acha tão fraca e desarmada que a Sua vingança não ocorrerá imediatamente a seguir? E, de fato, Deus mesmo declarou suficientemente (oxa- a O décimo, explicado um pouco atrás. Sobre a Lei
  • 228. 228 As Institutas – Edição Especial lá eles se dispusessem a escutar Sua voz, em vez de obscurecerem a verdade com as suas frívolas sutilezas!): “A alma que pecar, essa morrerá”,579 diz o Senhor. E mais: “O salário do pecado é a morte”.580 Eles confessam que a concupiscência é pecado, porque não o podem negar, mas afirmam que não é pecado mortal. De- pois de terem permanecido por muito tempo em sua insensatez, que ao menos se corrijam agora. Se, porém, os que assim pensam quiserem perseverar em sua obstinação, que os filhos de Deus não se incomodem com eles, e reconheçam que todo pecado é mortal. Sim, porque todo pecado é rebelião contra a vontade de Deus e, necessariamente, provoca a Sua ira, pois é transgressão da Lei, e contra toda transgressão da Lei, sem nenhuma exceção, foi proclamada a morte eterna. No tocante aos pecados que os crentes, os santos e fiéis, cometem, são veniais, não por sua natureza, mas graças à misericórdia de Deus. 89. A plena observância da Lei seria vida e salvação Da conclusão a que chegamos acima, a saber, que a Lei nos instrui sobre a justiça perfeita, segue-se, paralelamente, que a plena observância da Lei é plena justiça diante de Deus, cumprida a qual, o homem seria considerado justo diante do Seu trono celestial. Por isso Moisés, depois de publicar a Lei, não teve dúvida em invocar o testemunho do céu e da terra quando propôs ao povo de Israel “a vida e o bem, a morte e o mal”!581 E não podemos opor-nos ao fato de que a plena obediência da Lei seja recompensada com a vida eterna, como o Senhor prome- teu. Todavia, devemos verificar, por outro lado, se nós cumprimos tal obediência, pela qual poderíamos conceber alguma segurança de salvação. Por que, de que nos serviria entender que obedecendo à Lei poderíamos assegurar a recompensa da vida eterna se, ao mesmo tempo, ficássemos sem saber se por esse meio nós pode- remos chegar à salvação? Pois bem, é nesse ponto que se demonstra a fraqueza da Lei.a Porque, uma vez que essa obediência não se encontra em nenhum de nós, estando por isso excluídos das promessas da vida, caímos sob a maldição eterna. Não me refiro somente ao que já foi feito, mas também ao que é necessário e inevitável que advenha. Porque, sendo fato que a doutrina da Lei sobrepuja em muito a faculdade, a capacidade dos homens, podemos contemplar de longe as promessas a respeito disso feitas, mas não podemos colher nenhum fruto delas. Portanto, nada temos a ganhar, senão que, graças a essa verdade, enxerguemos melhor a nossa miséria, tão grande que toda a nossa esperança nos é tirada, e a morte nos é revelada. a Os parágrafos precedentes estavam sem nenhum texto equivalente em 1536; os subseqüentes tratam, de outra maneira, dos mesmos pontos tratados em 1536. 579 Ez 18.4. 580 Rm 6.23. 581 Dt 30.15.
  • 229. 229 90. A perfeição da Lei choca-se terrivelmente com a incapacidade do homem para cumpri-la perfeitamente! Por outro lado, apresentam-se as horríveis ameaças feitas, as quais não pressio- nam apenas alguns de nós, mas a todos em geral. Então, elas nos pressionam e nos perseguem com severidade inexorável e de tal maneira que somos levados a ver maldição certa na Lei. [1536] Portanto, se não temos para considerar outra coisa senão a Lei, só temos que perder toda a coragem, ficar confusos e desespe- rar-nos, visto que somos todos malditos e condenados.582 [1539] E não há ne- nhum de nós que não esteja sem direito algum à bem-aventurança prometida aos que cumprem a Lei. Terá Deus prazer em nos enganar? – talvez alguém pergunte. Porque mais parece uma brincadeira, mostrar ao homem alguma esperança de felicidade, convidá-lo e exortá-lo a que tenha essa esperança, prometê-la como algo já pre- parado para ele – e depois ter o acesso fechado! Respondo que, quanto às pro- messas da Lei, visto que são condicionais, só deverão cumprir-se àqueles que tenham cumprido toda a justiça (o que não se encontra entre os homens); todavia, não são feitas em vão. Porque, tendo nós entendido que elas não têm nem lugar nem eficácia com relação a nós, exceto no sentido de que Deus, por Sua bondade gratuita nos recebe sem levar em conta as nossas obras, significando também que recebemos pela fé a Sua bondade, a qual Ele nos oferecea por Seu Evangelho, concluímos que essas promessas, com a sua condição, não são vãs. Dá-nos, então, o Senhor, gratuitamente, todas as coisas, e de tal maneira que a Sua benignidade se estende ao ponto de não rejeitar a nossa obediência imperfeita, mas, remitindo e perdoando o que lhe falta, aceita-a como obediência plena e integral. Por conseguinte, por Sua benignidade gratuita, Deus nos habilita a recebermos o fruto das promessas da Lei, como tendo sido cumprida a sua condição. Mas, visto que essa questão será tratada mais plenamente quando fa- larmos da justificação pela fé,b deixo por ora este assunto. 91. Sobre a impossibilidade de cumprirmos a Lei de Deus Quanto ao que dissemos, que a observância [plena] da Lei é impossível, devemos explicar e confirmar resumidamente esse ponto. Isso porque a afirmação supra parece absurda. Tanto que Jerônimo não teve dúvida em condená-la como mal- dosa. No que se refere à razão que me levou a acatar e fazer essa afirmação, isso não me preocupa; para nós deve ser suficiente entender a verdade. Não farei aqui grandes distinções dos diferentes modosc de possibilidade. Digo que é impossí- a 1539: exhibitam. b No Capítulo VI. c generibus. Sobre a Lei 582 Gl 3.10.
  • 230. 230 As Institutas – Edição Especial vel, pois nunca se viu, e foi ordenado pela sentença de Deus que jamais se veja a plena e perfeita observância da Lei. Considerando a situação como é desde o princípio do mundo, afirmo que entre todos os santos não houve nenhum que, estando nesta prisão do corpo mor- tal, tenha tido um afeto espiritual tão perfeito que o tenha habilitado a amar a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu poder. Digo mais, que jamais houve alguém que não tenha sido maculado por alguma concupiscên- cia. Quem poderá contradizer isso? Bem sei que, por superstição, há os que jul- gam que os santos têm tanta pureza que só a duras penas os anjos lhes são seme- lhantes. Mas isso repugna tanto à Escritura como à experiência. Vou além e digo ainda que jamais haverá alguém que chegue a essa meta de perfeição, enquanto não for libertado de seu corpo. 92. Testemunhos da Escritura Comprovam esse ponto muitos testemunhos evidentes da Escritura. Salomão, quando dedicava o templo, disse: “Não há homem que não peque”.583 Davi, em sua oração a Deus, disse: “À tua vista não há justo nenhum vivente”.584 Essa sentença é repetida muitas vezes no Livro de Jó. O apóstolo afirma essa verdade mais claramente que todos os demais. “A carne milita contra o Espírito, e o Espí- rito, contra a carne”, diz ele.585 E não faz uso de outra razão para provar que todos quantos estão sob a Lei são malditos, senão que, como escreveu, todos os que não perseverarem na obediência aos mandamentos serão malditos.586 Com isso ele quer dizer, ou antes, tem como coisa resolvida que ninguém pode perseverar nessa obediência. Ora, tudo o que foi predito na Escritura deve-se ter como eter- no, e mesmo como necessário, como essencial. Os pelagianos molestaram Agostinho com a sutileza de que estamos tratan- do. Este, para evitar a calúnia, declarou que o Senhor poderia muito bem, se quisesse, exaltar um homem mortal à perfeição angélica, mas que jamais o fez nem o fará, pois o Seu ensino é contrário a isso. Não contesto essa sentença, mas acrescento que não há nenhum propósito em pôr em rivalidade o poder de Deus contra a Sua vontade [revelada]. Por isso digo que não se pode manipular com sutileza este assunto, dizendo que é impossível que não ocorram as coisas que o nosso Senhor revelou que não ocorreriam. Se, porém, ainda se discute a palavra [impossível], note-se que Jesus Cristo, sendo interrogado por Seus discípulos, “Quem pode ser salvo?”, respondeu: “Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível”.587 Agostinho, bem fundamentado, demonstra que, na pre- 583 1Rs 8.46. 584 Sl 143.2. 585 Gl 5.17. 586 Gl 4. 587 Mt 19.25,26.
  • 231. 231 sente vida, nunca dedicamos a Deus o amor que Lhe devemos. “De tal forma o amor procede do conhecimento”, diz ele, “que ninguém que não tenha conhecido antes a bondade de Deus pode amá-lo perfeitamente” .a Ora, enquanto estamos nesta peregrinação terrena, não vemos claramente a bondade de Deus, “vemos como em espelho, obscuramente”.588 Segue-se, então, que o amor que Lhe vota- mos é imperfeito. Portanto, devemos ter como certo que o cumprimento da Lei nos é impossível, enquanto estivermos convivendo neste mundo, como é demons- trado pelo apóstolo Paulo noutra passagem.589 93. Sumário Mas, a fim de que se possa entender tudo muito bem, juntemos num sumário o ofício ou função da Lei e seu uso. Segundo o meu juízo, essa matéria se divide em três partes. [1536] A primeira é que, ao demonstrar a justiça de Deus, isto é, a que Lhe é agradável, a Lei admoesta e repreende o homem por sua injustiça, e o faz sem lhe deixar dúvida, até convencê-lo e condená-lo.b [1539] Porque é necessário que o homem que de outro modo permaneceria cego e embriagado pelo amor próprio – é necessário que ele seja constrangido a conhecer e a reconhecer tanto a sua fraqueza de entendimento como a sua impureza.c Se a vaidade não for redargüida de frente, não for lançada em rosto, ela se inchará, enchendo-se de uma louca presunção, valorizando exageradamente as suas forças, e não poderá ser induzida a reconhecer a debilidade e a pequenez delas, porque, nesse caso, o homem as mede pelo seu critério fantasioso.d Mas quando é posto à prova para saber se pode executar a Lei de Deus, pela dificulda- de que encontra tem ocasião de ver abatido o seu orgulho. Porque, por mais gran- diosa opinião que anteriormente ele tenha formado sobre si mesmo, sente-se agora debaixo de um fardo tão pesado que essa presunção acaba por vacilar, cambalear, decair e, finalmente, desfalecer de todo. Assim é que o homem, sendo instruído pela doutrina da Lei, é afastado da sua presunção, a qual é própria da sua natureza. Também é necessário que ele seja expurgado do outro vício da arrogância, de que já falamos. Porque, enquanto preso ao seu próprio critério, imagina, em vez de verdadeira justiça, uma hipocrisia, na qual tem prazer e da qual se orgulha. Essa hipocrisia é contra a graça de Deus, instalando-se à sombra sabe-se lá de quais observações inventadas por sua cabeça. a O texto de 1536 diz: “Ut ait Augustinus, ‘nostra merita obliti Christi dona amplectimur’”; faz alusão ao tratado De verbis apostol., Rom. VIII, 30 ou 1 Cor. 1.31 (Migne XXXVIII, 862 e 872). 588 1Co 13.12. 589 Rm 8.3. Sobre a Lei b 1536: admoneat ac peccati convincat. c 1539: admoneat, certiorem faciat, convincat denique, ac condemnet. – As últimas cinco páginas do capítulo em 1536 são substituídas em 1539 por um texto totalmente novo. d arbitrii.
  • 232. 232 As Institutas – Edição Especial Quando, porém, se vê constrangido a examinar sua vida sopesando-a na balança da Lei de Deus e deixando de lado a sua fantasia, que ele tinha concebido de sua falsa justiça, vê que está tremendamente longe da verdadeira santidade. Ao contrário, vê que está cheio de vícios e males, dos quais antes se julgava puro. 94. A concupiscência cega o homem; a Lei o desmascara Porque as concupiscências são tão ocultas, disfarçadas e enganosamente envol- tas, que facilmente enganam a visão do homem. E não é sem motivo que o após- tolo Paulo declara: “Eu não teria conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás”.590 Porquanto, se a concupiscência não for revelada pela Lei e tirada do seu esconderijo, ferirá o infeliz homem sem que ele sinta coisa alguma. Por- tanto, a Lei é como um espelho no qual contemplamos primeiro a nossa fraqueza, depois a iniqüidade, que dela procede, e, finalmente, a maldição lançada sobre ambas – como num espelho nos apercebemos das manchas do nosso rosto. Por- que o pecador, a quem falta toda a capacidade de viver vida justa, outra coisa não pode fazer senão permanecer na lama do pecado. E, após o pecado, segue-se a maldição. Por isso, assim como a Lei nos convence de grande transgressão, as- sim também nos mostra mais condenáveis e dignos de maior castigo. É o que entende o apóstolo, como vemos no que ele declara quando diz: “Pela lei vem o conhecimento do pecado”.591 Com essas palavras ele registra a primeira função da Lei, que se aplica aos pecadores não regenerados. A um mes- mo sentido se reduzem também estas sentenças: Sobreveio a Lei a fim de aumen- tar o pecado; e, portanto, à Lei pertence a administração da morte,592 sendo que produz a ira de Deus e nos oprime e fere. Porque não há dúvida de que, quanto mais de perto a consciência é tocada pela percepção do seu pecado, na mesma proporção a iniqüidade cresce, visto que a transgressão se junta à rebelião contra o Legislador. De resto, a Lei arma a vingança de Deus para a desgraça do pecador, visto que ela não pode fazer outra coisa senão acusar, condenar e fazer perecer. E, como diz Agostinho,593 se o Espírito de graça for retirado, a Lei só servirá para acusar e matar. Pois bem, dizer isso não faz nenhuma ofensa à Lei e não derroga, não anula, a sua excelência, como também em nada fere a sua dignidade. Certo é que se a nossa vontade estivesse totalmente fundamentada na obediência à Lei e fosse pautada por ela, seria suficiente conhecermos a sua doutrina para termos a salva- ção. Como, porém, a nossa natureza é corrupta, carnal e, por isso, repulsivamente contrária à Lei espiritual de Deus e incapaz de corrigir-se pela disciplina da mes- 590 Rm 7.7. 591 Rm 3.20 e 4.15. 592 2Co 3.7 etc. 593 De Correptione et gratia. Cf. Amb. De Iac., cap. I, e De vita beata, cap. b.
  • 233. 233 ma, segue-se que a Lei, dada para salvação, caso fosse bem recebida e bem trata- da, torna-se para nós ocasião para o pecado e a morte.594 95. Por que não escolher logo a bênção da obediência? Então, por que não nos convencemos todos de que somos transgressores da Lei, uma vez que, assim como, por um lado, ela nos revela a justiça de Deus e, por outro, revela a nossa iniqüidade, assim também nos certifica da recompensa pre- parada para a justiça; e, paralelamente, assegura-nos da tremenda humilhação preparada para os iníquos. Por essa razão, longe de nos propormos a fazer qual- quer injúria à Lei, melhor será entregar-nos à bondade de Deus. O que se vê é que a nossa perversidade nos impede de obter a bem-aventurança eterna, que nos é oferecida na Lei. Por isso, o que temos que fazer é apegar-nos mais à proteção da graça de Deus, que nos supre do que falta à Lei, e, além disso, amar a Sua misericórdia, pela qual esta Sua graça nos é dada, sabendo que jamais deixa de nos fazer bem, e que sempre nos acrescenta benefício e mais benefício. Pois bem, o fato de que da nossa iniqüidade e da nossa condenação somos convencidos pelo testemunho da Lei, e por esta são assinaladas, não é para que caiamos no desespero e percamos toda a coragem, abandonando-nos à ruína. Isso não nos acontecerá, se soubermos tirar bom proveito da ação da Lei. É verdade que os maus perdem a serenidade dessa forma; mas isso é fruto da obstinação do seu coração. Entretanto, é preciso que os filhos de Deus cheguem a outro fim, entendendo o que diz o apóstolo Paulo quando confessa claramente que somos condenados pela Lei “para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus”.595 Ainda noutro lugar ele ensina que “Deus a todos encerrou na desobediência”, não para perdê-los ou para fazê-los perecer, mas “a fim de usar de misericórdia para com todos”;596 a saber, que, desfazendo-se de toda estima por sua própria virtude e por seu humano poder, reconheçam que o único poder que os sustenta é a mão de Deus. Ademais, vendo-se vazios e desnudos, que recorram à misericórdia divina, descansando nela inteiramente, protegendo-se à sua sombra, tomando-a como única e exclusiva justiça e mérito para todos os que a buscam, desejam e esperam por intermédio da fé verdadeira. Porquanto, na Lei o Senhor nos é revelado como remunerador da justiça perfeita, da qual todos nós estamos desprovidos. 96. Agostinho sobre os usos da Lei Por outro lado, Ele se mostra severo executor dos castigos que merecemos por nossas faltas. Mas em Cristo Seu rosto resplandece de plena graça e suavizadora 594 Tema de um meu sermão pregado em Porto Alegre em 1956: Morte no Remédio. NT. 595 Rm 3.19. 596 Rm 11.32. Sobre a Lei
  • 234. 234 As Institutas – Edição Especial bondade, por mais pobres e indignos pecadores que nós sejamos. Quantas lições devemos procurar aprender da Lei! Agostinho fala disso freqüentemente, como quando diz:597 “A Lei nos ordena o que fazer a fim de que, esforçando-nos para cumprir os Seus mandamentos e sucumbindo por nossa fraqueza, aprendamos a implorar o auxílio de Deus”. E mais:598 “A utilidade da Lei está em convencer o homem de sua fraqueza e constrangê-lo a solicitar o remédio da graça em Jesus Cristo”. Também:599 “ALei manda; a graça dá forças para cumpri-la”. E ainda:600 “Deus nos ordena o que não podemos fazer, a fim de que saibamos o que Lhe devemos pedir”. Quanto ao segundo proveito, ele não o declara explicitamente, talvez por- que achasse que se poderia entender deduzindo-o do outro. Ou pode ser que para ele ainda não estivesse bem definido. Já com relação a quanta utilidade se pode auferir da Lei, da qual falamos anteriormente, essa utilidade convém mais propriamente aos filhos de Deus; não obstante, é comum aos réprobos, aos não salvos. Sim, pois, eles não chegam ao ponto a que chegam os crentes fiéis, de se humilharem segundo a carne para receberem vigor espiritual do Espírito. Os réprobos caem no mais completo as- sombro e desespero. Mas é bom que a consciência deles seja sacudida por tal tormento, porque assim se manifesta a eqüidade do juízo de Deus. Agora, ainda que não se manifeste o juízo de Deus pelo testemunho da Lei e da consciência dos réprobos, eles são derrubados e ficam abatidos de tal maneira que eles pró- prios demonstram o que merecem. 97. O segundo uso da Lei O segundo ofício ou função ou uso da Lei é para que aqueles que não cuidam de fazer o bem a não ser por constrangimento, ao ouvirem as terríveis ameaças nela contidas, ao menos por medo do castigo sejam retirados da maldade em que vivem. Não significa que, interiormente, o seu coração foi sensibilizado ou toca- do. Eles tão-somente foram constrangidos, como à força de rédeas, a deixar de executar os seus maus desejos, que antes punham em prática sem freios nem limites. Por isso não se tornam mais justos nem melhores diante de Deus. Por- quanto, embora contidos por temor ou por vergonha, de modo que não se atrevem a executar o mal concebido em seu coração e não exteriorizam o furor da sua intemperança, todavia o coração deles não se rende de fato ao temor e à obediên- cia a Deus. Antes, por mais que se contenham, mais se inflamam e se agitam em sua concupiscência, quase a cometer toda sorte de vilania e de torpeza, só não o fazendo porque o pavor da Lei os detém. 597 Epist. ad Hylarium (89). 598 Ad Asellium (100). 599 Ad Innocentium Romanum (95). 600 Ad Valentinum Lib. De correp. et gratia.a a As quatro citações são feitas expressamente em 1539, no texto e na margem.
  • 235. 235 98. Ódio à Lei e a seu Autor Não somente o coração deles permanece mau, mas também eles odeiam mortal- mente a Lei de Deus. E, como Deus é o seu Autor, eles O detestam. Isso acontece de tal maneira que, se lhes fosse possível, de bom grado aboliriam a Lei de Deus, visto que não podem suportá-lo exigir o que é bom, santo e justo, e desejar a punição dos desprezadores da Sua majestade. Esse sentimento mostra-se mais abertamente em alguns, e noutros é mais oculto; todavia, está presente em todos os não regenerados. É que eles são induzidos a submeter-se de qualquer forma à Lei, não movidos por um desejo livre e espontâneo, mas por constrangimento e com grande resistência; e não há nesse fato outra coisa que os constranja a isso, senão o medo que sentem do rigor de Deus. Todavia, essa justiça ou retidão constrangida e forçada é necessária à comu- nidade dos homens, cuja tranqüilidade o Senhor supre quando impede que todas as coisas se transtornem na maior confusão. É o que aconteceria, se tudo fosse permitido a cada um.a Além disso, não é de todo inútil para os filhos de Deus serem eles regidos por essa forma pueril de doutrina, na época em que ainda não têm o Espírito de Deus, quando então vivem segundo a loucura da sua carne; é por isso que às vezes sucede que o Senhor não se revela de pronto a Seus fiéis, mas os deixa caminhar por algum tempo na ignorância, antes de chamá-los [das trevas para a luz]. Porquanto, sendo então restritos e preservados de toda dissolu- ção por esse terror servil, embora tenham pouco proveito presentemente, visto que o seu coração ainda não foi domesticado nem subjugado, eles vão se acostu- mando pouco a pouco ao jugo do Senhor. Ele age dessa maneira para que, quando os venha a chamar, eles não estejam tão crus que se sujeitem aos Seus manda- mentos como coisa nova e desconhecida. É bem provável que o apóstolo tenha desejado referir-se a este uso da Lei quando disse601 que esta não é dada aos justos, mas aos injustos e rebeldes, aos infiéis e pecadores, aos maus e corruptos, aos que fazem violência a seus pais, aos homicidas, adúlteros, ladrões, mentiro- sos e perjuros, e aos que estão manchados por vícios que constituem transgressão da sã doutrina. Com isso ele mostra que a Lei é como rédeas, refreando as concu- piscências da carne, as quais de outro modo transbordariam, excedendo os limites. 99. O terceiro uso da Lei O terceiro uso da Lei, que é o principal, e que se relaciona com a finalidade para a qual foi dada, tem lugar entre os crentes, em cujo coração o Espírito de Deus já tem o Seu Reino, o Seu domínio e o Seu poder. Porque, embora eles tenham em seu coração a Lei escrita pelo dedo de Deus (quer dizer, embora eles tenham, pela direção do Espírito Santo, este sentimento que os leva a desejarem obedecer a Sobre a Lei 601 Gl 3.19 etc. a Alusão aos recentes excessos dos anabatistas em Munster.
  • 236. 236 As Institutas – Edição Especial Deus), ainda assim eles têm duplo proveito da Lei. Porque esta é para eles um bom instrumento para melhor e mais acertadamente entenderem, dia a dia, qual é a vontade de Deus, à qual aspiram, e para que sejam confirmados em seu conhe- cimento. É como um servo que, embora tenha deliberado em seu coração que há de bem servir a seu senhor e de agradá-lo em tudo e por tudo, todavia tem neces- sidade de conhecê-lo familiarmente e de conhecer os seus hábitos e as suas con- dições, a fim de poder adaptar-se. E não há quem possa isentar-se dessa necessi- dade. Porque ninguém ainda chegou a ter tal sabedoria que não tenha como, pela doutrina cotidiana da Lei, progredir dia após dia e desfrutar mais clara compre- ensão da vontade de Deus. É bom acrescentar que, não tendo nós somente ne- cessidade de doutrina, mas também de exortação, o servo de Deus tem na Lei esta utilidade: Pela freqüente meditação na Lei, o servo de Deus será impulsionado à obediência a Ele, será confirmado nela, e será induzido a abandonar os seus er- ros, faltasa e omissões. É, pois, necessário que desse modo os santos se incitemb uns aos outros, porque, qualquer prontidão que acaso tenham para aplicar-se à prática do bem, não obstante são sempre dificultados pela preguiça e indisposi- ção da sua carne.602 Sucede isso de tal maneira que eles jamais cumprem plena- mente o seu dever. A essa carne a Lei vem como um chicote para a impelir ao trabalho, como o burro que não segue adiante se não for chicoteado incessante- mente. Ou, para falar mais claramente, enquanto o homem espiritual não for libertado do fardo da sua carne, a Lei será para ele um aguilhão perpétuo, para não deixá-lo adormecer e entorpecer-se na ociosidade. Nesse uso pensava Davi quando celebrava a Lei de Deus com grandiosos louvores; como quando disse:603 “Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos”, etc. E tabém:604 Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz, para os meus caminhos”, e tudo o que vem a seguir no mesmo Salmo. E isso em nada vai contra as sentenças de Paulo acima citadas, onde se demonstra, não a utilidade que a Lei pode ter para o homem fiel, já regenerado, mas a que ela pode ter para o homem [em geral]. Ao contrário, o profeta mostra com que proveito o Senhor instrui os Seus servos na doutrina da Sua Lei, quando lhe inspira interiormente a coragem para segui-la. 100. A Lei mosaica deve ser ab-rogada? Alguns ignorantes,c incapazes de discernir essa diferença, rejeitam temeraria- mente a Moisés e querem que a Lei seja afrouxada, porque não acham conveni- ente para os cristãos seguir uma doutrina que contém a administração da morte. 602 Cf. Gl 5.17. 603 Sl 19.8. 604 Sl 119.105. a delinquendi lubrico retrahatur. b sibi instare. c imperiti: os antinomianos, os libertinos espirituais, etc.
  • 237. 237 Que essa opinião fique longe de nós, visto que Moisés declarou muito bem que a Lei, embora só possa gerar a morte do pecador, tem, contudo, outra utilidade e outro proveito para os crentes fiéis. Porque, estando próximo da morte, fez diante do povo esta declaração:605 “Aplicai o coração a todas as palavras que, hoje, testifico entre vós, para que ordeneis a vossos filhos que cuidem de cumprir todas as palavras desta lei.a Porque esta palavra não é para vós outros cousa vã; antes, é a vossa vida”. E de fato ninguém poderá negar que há na Lei como que uma ima- gem completa da justiça perfeita, ou, do contrário, será necessário dizer que não devemos ter nenhuma regra do bem viver, ou que precisamos apegar-nos a essa. Porque não existem muitas regras do bem viver, mas uma só, que é perpétua e imutável. Portanto, o que disse Davi, que o justo medita na Lei de Deus de dia e de noite,606 não deve ser considerado válido a um dado século ou período, mas vale para todas as épocas, até ao fim do mundo. 101. Ideal impossível? E não há motivo para nos espantarmos com o fato de a Lei exigir uma santidade verdadeiramente perfeita que não poderemos ter enquanto estivermos na prisão do nosso corpo, ao ponto de abandonarmos a sua doutrina. Sim, pois, quando estamos debaixo da graça de Deus, a Lei não exerce todo o seu rigor pressionan- do-nos até o fim, de molde a só ficar satisfeita se cumprirmos tudo o que ela manda. Em vez disso, exortando-nos à perfeição para a qual nos chama, ela nos mostra a meta que devemos buscar durante toda a nossa vida. Basta que não deixemos de dirigir-nos para esse alvo. Porque toda a presente vida é como um curso. Quando chegarmos ao fim, o Senhor nos fará o benefício de levar-nos a alcançar a meta, a qual ainda estaremos buscando, embora distantes dela. Agora, então, vemos que a Lei serve de exortação aos fiéis, não para pren- der a consciência deles à maldição, mas para despertá-los da indolência, estimu- lando-os,b e para os polir, corrigindo a sua imperfeição. Em vista disso, alguns, querendo assinalar essa libertação da maldição da Lei, dizem que esta foi ab- rogada e anulada para os crentes (não no sentido de que ela não deve ordenar sempre o que é bom e santo, mas no sentido de que ela já não é para eles o que era antes; quer dizer, que ela não mais deixa perplexa a consciência deles pelo terror da morte). E, de fato, o apóstolo Paulo demonstra com muita clareza tal ab-rogação da Lei. Acresce que parece que essa idéia foi pregada por Jesus Cristo, visto que Ele se defendeu afirmando que não quis destruir nem eliminar a Lei;607 o que Ele não fez; tão somente foi acusado disso. Sobre a Lei a in volumine legis. 605 Dt 32.46,47. b instando. 606 Sl 1.2. 607 Mt 5.17.
  • 238. 238 As Institutas – Edição Especial Pois bem, essa opinião não foi levada adiante sem nenhum matiz especial [ou seja, com um sentido adicional]. É bem provável que provenha de uma falsa exposição da doutrina referente à Lei, como acontece com todos os erros que, em geral, aproveitam-se [mal] da verdade. Ora, para que não tropecemos neste in- conveniente, precisamos distinguir diligentemente o que foi ab-rogado na Lei e o que ainda permanece firme. Quando Jesus disse608 que não veio para abolir a Lei, mas para cumpri-la, e que não passará nem uma letra, até que o céu e a terra passem, sem que seja feito tudo o que nela está escrito, mostrou com isso que por Sua vinda a reverência e a obediência à Lei em nada foram diminuídas. E isso por uma boa causa, visto que Ele veio para dar o remédio para as transgressões da Lei. Portanto, a dou- trina da Lei em nada foi violada por Jesus Cristo, sendo que ela nos educa, preparando-nos para toda boa obra, ensinando-nos, admoestando-nos, repreen- dendo-nos, castigando-nos. No tocante ao que Paulo diz da maldição, isso não pertence à função de instruir,a mas à de apertar e capturar a consciência. Porque a Lei, quanto à sua natureza, não somente ensina, mas também exige estritamente o cumprimento daquilo que ordena. Se não for rigorosamente cumprido, se de fato o seu cumpri- mento não for levado até o fim, até o derradeiro ponto, a Lei lançará incontinenti a sua pavorosa maldição. Por essa razão diz o apóstolo:609 “Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as cousas escritas no livro da lei, para praticá- las”. Conseqüentemente, ele declara que estão sob a Lei todos quantos não fun- damentam a sua justiça na remissão dos pecados, que nos livra do rigor da Lei. É- nos necessário sair dos laços que nos prendem, se não quisermos perecer misera- velmente no cativeiro. 102. Liberte-se o pecador dos laços que o prendem! Mas, de que laços? Dessa exação severa, dessa cobrança rigorosa que nos oprime sem nos dar nenhum retorno e sem deixar impune nem uma só falha! Para nos resgatar e nos livrar dessa deplorável maldição, Cristo se fez maldito por nós; como está escrito:610 “Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro”. No capítulo seguinte611 o apóstolo Paulo declara que “Cristo se sujeitou à lei para resgatar os que estavam na servidão da lei”. Mas ali mesmo ele acrescenta: “a fim de que gozássemos o privilégio da adoção, para sermos filhos de Deus”. Que quer dizer? Que isso foi feito para que não ficássemos encerrados para sempre 608 Ibidem. a ad institutionem. 609 Gl 3.10. [Na versão utilizada por Calvino consta: “Todos os que estão sob a lei são malditos, uma vez que está escrito: Malditos serão todos os que não cumprirem tudo o que [nela] é ordenado”.] 610 Gl 3.13. 611 Gl 4.4,5 [tradução direta].
  • 239. 239 em cativeiro, com a nossa consciência presa de angústia mortal. Todavia, isto permanecerá para sempre: Que a autoridade da Lei não seja desrespeitada em coisa alguma, devendo nós recebê-la com a mesma honra e reverência. Há mais uma dificuldade noutra passagem, que se encontra na Epístola aos Colossenses,612 onde lemos: “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne,a vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito da dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu- o inteiramente, encravando-o na cruz”, etc. A dificuldade está em que parece que o apóstolo quer ampliar demais a abrangência da ab-rogação da Lei, ao ponto de os seus decretos não terem mais nada que ver conosco. Alguns o entendem só com relação à lei moral. Mas desta eles explicam que a severidade exagerada foi abolida, não porém a doutrina. Outros, considerando mais de perto as palavras do apóstolo Paulo, vêem que a sua referência é propriamente à lei cerimonial e mos- tram que o apóstolo costumava usar a palavra decretos quando tratava deste as- sunto. Em Efésios,613 por exemplo, diz: “Jesus Cristo é a nossa paz, o qual nos juntou e nos fez um, abolindo a lei das ordenanças, que consiste de decretos”, etc. Não há nenhuma dúvida de que o devemos entender em relação às cerimônias, porque o apóstolo afirma que essa lei era como uma muralha, separando os ju- deus dos gentios. Confesso, pois, que a primeira explicação é com acerto repara- da e complementada pela segunda. Contudo, não me parece que elas explicam bem a sentença do apóstolo. Porque não aprovo que se confundam essas duas passagens [de Efésios e de Colossenses] como se uma fosse semelhante à outra. 103. Importante distinção interpretativa Quanto à que se encontra na Epístola aos Efésios, o sentido é este: Querendo o apóstolo Paulo informar com segurança os efésios sobre como eles eram recebi- dos à comunhão do povo de Israel, disse-lhes que o obstáculo que antes existia e que os impedia e os separava tinha sido retirado. Eram as cerimônias. Porque as abluções e os sacrifícios, por meio dos quais os judeus se santificavam para Deus, separavam-nos dos gentios. Mas na Epístola aos Colossenses não há quem não enxergue que o texto toca o mais alto mistério. Trata-se ali da questão das obser- vâncias mosaicas a cuja prática os sedutoresb queriam constranger o povo cristão. Como, pois, na Epístola aos Gálatas, havendo essa mesma discussão da qual Paulo deveria tirar uma dedução, e a tira mais extensamente e a remete à sua fonte, assim faz ele neste contexto. Porque, se não se considerar nas cerimônias outra coisa senão a necessidade de desempenho de um dever, por que falar delas Sobre a Lei 612 Cl 2.13,14. [Na versão utilizada pelo Autor temos “decretos” em vez de “escrito da dívida”.] a Os cristãos de Colossos, de origem pagã, não tinham sido circuncidados como os israelitas. 613 Ef 2.14 [tradução direta]. b pseudo apostoli.
  • 240. 240 As Institutas – Edição Especial como uma coisa obrigatória?a E uma coisa obrigatória que é contra nós? E com que propósito teria sido constituída como pouco menos que a soma total da nossa salvação, para que fosse anulada e reduzida a nada? Vê-se, pois, claramente que neste ponto precisamos observar outra coisa além da exterioridade das cerimônias. 104. No cerimonial, algo que vai além e acima da exterioridade Pois bem, estou bastante seguro de que já encontrei o real entendimento desta questão, confessando que é verdade o que Agostinho escreveu de fato algures: que nas cerimônias judaicas predomina a confissão de pecados sobre a purifica- ção deles. Pode-se ver isso considerando o que os judeus faziam quando sacrifi- cavam. O que faziam? Confessavam-se culpados de morte, visto que colocavam em seu lugar o animal a ser imolado. E quando se lavavam cerimonialmente, o que faziam? Confessavam-se imundos e contaminados. Porque confessavam o débito da sua impureza e dos seus delitos. Mas nessa declaração o pagamento não era feito de fato. Por essa razão o apóstolo afirma que a redenção dos delitos e ofensas foi feita pela morte de Cristo – delitos e ofensas que permaneciam no Antigo Testa- mento, não tendo sido anuladas. É, pois, com boa razão que o apóstolo Paulo chama de cédulasb [cf. Cl 2.14, Almeida, Rev. e Corr., e Figueiredo] as cerimôni- as, que eram contra aqueles que faziam uso delas, visto que por elas os seus usuários testificavam e assinalavam a condenação deles próprios.614 Isso não é em nada contrariado pelo fato de que os antigos pais tenham sido participantes conosco de uma mesma graça. Certamente que não, porquanto eles obtiveram essa bênção por intermédio de Cristo, não das cerimônias, as quais nessas passagens são separadas de Cristo, visto que obscureciam então a Sua glória, depois que o Evangelho foi revelado. Nós entendemos que as cerimônias, consideradas em si mesmas, são por bom motivo chamadas cédulas contrárias à salvação dos homens. Isso porque são como instrumentos autênticos cuja finali- dade era obrigar as consciências a confessarem os seus débitos.c Por isso, tendo em vista que os sedutores queriam obrigar os cristãos a realizá-las, o apóstolo, com toda a razão, e considerando a sua primeira origem, admoesta os colossenses, advertindo-os do perigo que corriam, se se deixassem subjugar daquela maneira. Porque por um mesmo meio a graça de Cristo lhes seria arrebatada. Sendo que, por Sua graça, Ele fez a purificação dos pecados em Sua morte, uma vez por todas, e aboliu todas aquelas observâncias externas, pelas quais os homens se confessavam devedores a Deus, e os seus débitos não eram cancelados. a chirographum (termo de processo). b chirographa. 614 Hb 7; 9.10; 10. c quæ ipsorum obligationem testarentur.