JESUS: SERVO SOFREDOR E TESTEMUNHA FIEL
Pe. José Bortolini – Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades – Paulus, 2007
* LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL *
ANO: C – TEMPO LITÚRGICO: DOMINGO DE RAMOS OU DA PAIXÃO – COR: VERMELHO
I. INTRODUÇÃO GERAL
1. Sentimo-nos desconcertados numa sociedade competi-
tiva, que privilegia a posse, prazer e poder, gerando violên-
cia e alienando as pessoas. O que é capaz de satisfazer os
anseios mais profundos de libertação e vida plena? Como
realizar o projeto de Deus? O que significa ser cristão hoje?
2. A 1ª leitura (Is 50,4-7) nos apresenta a missão do Ser-
vo Sofredor plenamente moldável nas mãos de Javé e sufi-
cientemente coerente na execução de sua missão, passando
por cima do que é capaz de mexer com os brios de qualquer
pessoa: ofensas, violência, perda da honradez.
3. Lendo a Paixão de Jesus segundo Lucas (Lc 22,14-
23,56), percebe-se que a fidelidade e a determinação do
Servo Sofredor encontraram plena realização em Jesus, a
testemunha fiel. Sua humilhação até a morte na cruz foi
motivo de escândalo para as pessoas do seu tempo.
4. Celebrando o dia de Ramos, Paulo pede que examine-
mos se o nosso projeto de vida coincide com o de Jesus,
servo obediente até o fim, ou se pautamos nossa vida se-
gundo as leis da sociedade em que vivemos (cf. 2ª leitura
Fl 2,6-11).
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1ª leitura (Is 50,4-7): A missão do Servo Sofredor
5. Estamos diante de um texto do Segundo Isaías. O tre-
cho é chamado de “terceiro canto do Servo de Javé” (1º
42,1-4; 2º 49,1-6; 3º 50,4-9a; 4º 52,13–53,12). Ao lermos
qualquer um desses cantos, surge logo a mesma pergunta
feita pelo eunuco a Filipe: “De quem o profeta está falando:
de si mesmo ou de outro?” (At 8,34). A resposta não é
fácil. Até o momento, as opiniões dos estudiosos podem ser
sintetizadas em quatro tipos de interpretação de quem seja
o Servo Sofredor: a. Interpretação coletiva: tratar-se-ia do
povo de Israel; b. Interpretação individual: o Servo Sofre-
dor seria uma pessoa anônima; c. Interpretação mista: ele
seria ora Israel como um todo, ora um grupo de pessoas,
ora uma pessoa só, como, por exemplo, o próprio profeta;
d. Interpretação messiânica: os cantos falariam de um mes-
sias do futuro ideal. Segundo os autores do Novo Testa-
mento, esse ideal encontrou perfeita realização em Jesus.
Qualquer que seja a interpretação que adotarmos, sempre
aparece o ideal da autoridade, que faz da sua função um
serviço para a vida do povo.
6. O nosso texto — parte do terceiro canto — pertence a
uma seção maior, que abrange os capítulos 49-55, e cujo
tema central é a restauração e glorificação de Jerusalém, a
cidade-esposa de Javé. Os exilados — usando linguagem
da esfera matrimonial — se queixam de que Deus tenha
repudiado Jerusalém, sua esposa, e vendido seus filhos
como escravos. A resposta de Javé precede imediatamente
o terceiro canto do Servo Sofredor (50,1-3). Embora não se
saiba quem seja esse servo, podemos, pelo contexto que
antecede, perceber claramente qual seja sua missão: mos-
trar, à custa das ofensas recebidas, que o amor de Javé é
perene.
7. Os vv. 4-7 mostram o que Javé faz para o Servo em
vista do bem do povo, e a responsabilidade do Servo, ple-
namente obediente e fiel: o Senhor Javé (a expressão é
repetida três vezes, vv. 4.5.7) dá ao Servo a capacidade de
falar como alguém que aprende dele, para que possa levar
conforto ao povo; abre-lhe os ouvidos para que aprenda,
como discípulo, a transmitir o que ouviu, e lhe dá proteção.
Em outras palavras, prepara-o para a missão. O Servo, por
sua vez, para não trair o conteúdo da mensagem, dá as
costas aos que o torturam (= não oferece resistência); toma
a iniciativa de oferecer a face aos que lhe arrancam os fios
da barba (ter a barba arrancada é sinal de grande humilha-
ção; o Servo não liga para a perda da honradez); não es-
conde o rosto à ofensa maior: injúrias e escarros. O rosto
manifesta os sentimentos e desejos de uma pessoa. Torná-
lo duro como pedra (v. 7) é não levar em conta toda e qual-
quer espécie de ofensa, em vista da opção assumida.
Paixão de Jesus Cristo segundo Lucas (22,14 – 23,56):
Jesus, o Servo plenamente fiel
8. O ponto alto da viagem de Jesus é Jerusalém. O pro-
cesso contra Jesus, levando-o à morte, desmascara a estru-
tura iníqua instalada em Jerusalém e mostra que Jesus é a
testemunha qualificada do Pai para salvar a humanidade.
Ele é o verdadeiro Servo Sofredor (1ª leitura), capaz de
cumprir fielmente o projeto divino.
9. 22,14-23: A Ceia do Senhor é o grande gesto de Jesus,
testemunha fiel. Ele não somente tem palavras de conforto
(1ª leitura), mas entrega sua vida para selar a união indis-
solúvel entre Deus e as pessoas.
10. Vv. 24-30: Jesus revoluciona o conceito de importân-
cia. Ele salva através do serviço: “Eu estou no meio de
vocês como quem está servindo” (v. 27b; cf. a segunda
tentação de Jesus em Lc 4,5-8; cf. também Fl 2,7: “Ele
assumiu a condição de servo”).
11. Vv. 31-34: Se o cristão não assumir o projeto de Deus
manifestado em Jesus, sucumbirá, ainda que cheio de boas
intenções (cf. Fl 2,5: “Tenham o mesmo projeto de vida [=
sentimentos] que havia em Cristo Jesus”).
12. Vv. 35-38: A linguagem é metafórica. Jesus afirma que
assumir seu projeto é uma verdadeira luta, e o cristão pre-
cisa estar suficientemente armado.
13. Vv. 39-46: A oração (estar em sintonia com o projeto
de Deus) é fundamental ao se tomar a decisão de como
orientar a própria vida.
14. Vv. 47-53: Jesus se revela o Servo Sofredor ao não
responder com violência à violência (cf. 1ª leitura).
Vv. 54-62: Cf. vv. 31-34.
15. Vv. 63-65: Cf. 1ª leitura: “Apresentei minhas costas
aos que me batiam, e meu rosto aos que me arrancavam a
barba. Não escondi o meu rosto diante das injúrias e cuspi-
das” (Is 50,6).
16. Vv. 66-71: Confronto entre o sistema opressor e a ofer-
ta da vida. O testemunho de Jesus é claro. Claras são tam-
bém as intenções dos que sustentam estruturas iníquas:
levam o inocente à morte (cf. Fl 2,6).
17. 23,1-12: Sem querer, o poder político reconhece que
Jesus é Senhor (a roupa brilhante; cf. Fl 2,10-11).
Vv. 13-25: Cf. Is 50,6 (1ª leitura).
Vv. 26-32: Cf. Is 50,4 (1ª leitura).
18. Vv. 33-38: Na ironia dos zombadores: “A outros ele
salvou… Que salve a si mesmo, se é de fato o Messias…
Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!”, revela-se a
verdadeira missão de Jesus enquanto testemunha fiel: ele
veio para salvar! E sua missão redentora o leva a pedir
perdão para os que o crucificaram.
19. Vv. 39-43: Realiza-se o primeiro sinal de salvação.
Basta que as pessoas se entreguem confiantes a Jesus.
20. Vv. 44-46: A fidelidade de Jesus obediente até à morte
de cruz (Fl 2,8) permite o pleno acesso da humanidade a
Deus (véu do santuário que se rasga ao meio).
21. Vv. 47-49: A fidelidade de Jesus suscita o reconheci-
mento de que ele é verdadeiramente a testemunha fiel (cf.
Fl 2,10-11: “Todos os joelhos se dobrem… e toda língua
proclame… Jesus é o Senhor!”).
22. Vv. 50-56: Morto Jesus, a testemunha fiel, inicia a
ação dos cristãos, representados por José de Arimatéia.
2ª leitura (Fl 2,6-11): O Evangelho de Jesus Cristo
23. Ao escrever aos filipenses, Paulo está preso em Éfeso,
mas tem em mãos um trunfo que lhe garantirá a liberdade:
basta que prove ser cidadão romano. A decisão de fazer
valer seus direitos de cidadão romano provocou grande
mal-estar em Éfeso e também em Filipos. De fato, para os
primeiros cristãos, o martírio era o momento mais nobre e
mais propício para a propaganda do Evangelho. Declarar-se
cristão e morrer violentamente por causa disso, provocava
adesões à fé. Por que, então, Paulo foge desse momento?
Estaria anunciando uma coisa e vivendo outra?
24. Eis, então, que ele escreve aos filipenses. Para ele é
vantagem morrer, mas opta pela libertação em vista da
possibilidade de ainda continuar evangelizando (1,23-24).
A seguir, passa a mostrar os conflitos que ameaçam a co-
munidade: conflitos de fora (os falsos missionários, cf.
1,27-30) e conflitos internos (divisões da comunidade, cf.
2,1-4). Por fim, convida para que todos tenham as mesmas
disposições pessoais (sentimentos) que havia em Jesus
Cristo.
25. O hino de Filipenses 2,6-11 tem dois movimentos. O
primeiro é de cima para baixo, e fala do esvaziamento de
Jesus. É como uma escada com vários degraus: Jesus não
se apegou à sua igualdade com Deus, esvaziou-se, tornou-
se servo, semelhante aos homens, humilhou-se, fez-se obe-
diente até a morte de cruz. O sujeito dessas ações é o pró-
prio Jesus que, consciente e livremente, despoja-se de tudo.
Seu lugar social é junto aos escravos, sem privilégios, mar-
ginalizados e condenados. Para ele não há outra forma de
revelar o projeto de Deus a não ser esvaziando-se daquelas
realidades humanas das quais com dificuldade abrimos
mão: prerrogativas, posição social, honra, dignidade, fama
e, o que é mais precioso, a própria vida. Jesus perdeu todas
essas coisas. Desceu no poço mais profundo da miséria e
solidão humanas. De fato, o primeiro movimento desse
hino não fala de Deus. Tem-se a impressão de que Jesus,
despojado de tudo, tenha sido inclusive abandonado por
Deus.
26. O preço da encarnação foi a cruz. E o Evangelho de
Paulo é exatamente o Evangelho de um crucificado. Nós
estamos muito habituados a pensar na divindade de Jesus.
Por isso nos perguntamos: onde foi parar sua divindade?
Ficou escondida por um momento? Ou era justamente no
fato de ser plenamente humano que ele revelava o ser de
Deus? Imaginar que Deus seja um ser desencarnado e abs-
trato é a desculpa que algumas pessoas encontram para
fugir à difícil tarefa de nos encarnarmos nas realidades
humanas mais sofridas, pois, ao fazermos isso, teremos de
nos despojar de uma série de coisas, exatamente aquelas
coisas das quais Jesus se despojou: prerrogativas, status,
fama, promoção pessoal etc.
27. A primeira parte do hino tem seu ponto alto na maior
baixeza: Jesus se fez servo e foi morto como um bandido,
na cruz. Essa foi sua opção de vida consciente. Esse hino
retoma um texto muito antigo de Isaías, aplicando-o a Je-
sus. Trata-se do quarto canto do Servo de Javé (Is 52,13-
53,8).
28. O segundo movimento do hino de Filipenses é de baixo
para cima. Aqui o sujeito é Deus. É ele quem exalta Jesus,
ressuscitando-o e colocando-o no posto mais elevado que
possa existir. O Nome que ele recebeu do Pai é o título de
Senhor, termo muito importante para os primeiros cristãos.
Jesus é o Senhor do universo e da história. Diante dele toda
a criação se prostra em adoração (2,10). Também esta se-
gunda parte se inspira no quarto canto do Servo de Javé (cf.
Is 52,13-15; 53,10-12).
29. Deus Pai é glorificado quando as pessoas reconhecem
em Jesus o humano que passou pela encarnação das reali-
dades mais sofridas e humilhantes, culminando com a mor-
te na cruz, condenação imposta a criminosos. Evangelho é,
portanto, o anúncio daquele que se fez servo, obediente até
a morte, e morte de cruz. Esse anúncio não acontece sem
que as pessoas também se encarnem, apostando a vida,
como fez Paulo.
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
30. A Paixão de Jesus, Servo Sofredor (1ª leitura Is 50,4-7), se prolonga em todos os excluídos de
nossa sociedade. Quais os sinais que apontam para a presença de Deus ao lado dos que sofrem e são
excluídos?
31. Questionar os projetos humanos construídos sem levar em conta o projeto de Deus revelado em
Jesus, plenamente humano, servo, obediente até o fim (2ª leitura Fl 2,6-11).
32. A Paixão de Jesus força as pessoas à opção a favor ou contra o projeto de Deus. A prática cristã
é o termômetro que mostra se somos ou não a favor da vida e da liberdade (relato da Paixão
Lc 22,14 – 23,56).

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Lendo a Paixão de Jesus segundo Lucas (Lc 22,14- 23,56), percebe-se que a fidelidade e a determinação do Servo Sofredor encontraram plena realização em Jesus, a testemunha fiel. Sua humilhação até a morte na cruz foi motivo de escândalo para as pessoas do seu tempo. 4. Celebrando o dia de Ramos, Paulo pede que examine- mos se o nosso projeto de vida coincide com o de Jesus, servo obediente até o fim, ou se pautamos nossa vida se- gundo as leis da sociedade em que vivemos (cf. 2ª leitura Fl 2,6-11). II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 1ª leitura (Is 50,4-7): A missão do Servo Sofredor 5. Estamos diante de um texto do Segundo Isaías. O tre- cho é chamado de “terceiro canto do Servo de Javé” (1º 42,1-4; 2º 49,1-6; 3º 50,4-9a; 4º 52,13–53,12). Ao lermos qualquer um desses cantos, surge logo a mesma pergunta feita pelo eunuco a Filipe: “De quem o profeta está falando: de si mesmo ou de outro?” (At 8,34). A resposta não é fácil. Até o momento, as opiniões dos estudiosos podem ser sintetizadas em quatro tipos de interpretação de quem seja o Servo Sofredor: a. Interpretação coletiva: tratar-se-ia do povo de Israel; b. Interpretação individual: o Servo Sofre- dor seria uma pessoa anônima; c. Interpretação mista: ele seria ora Israel como um todo, ora um grupo de pessoas, ora uma pessoa só, como, por exemplo, o próprio profeta; d. Interpretação messiânica: os cantos falariam de um mes- sias do futuro ideal. Segundo os autores do Novo Testa- mento, esse ideal encontrou perfeita realização em Jesus. Qualquer que seja a interpretação que adotarmos, sempre aparece o ideal da autoridade, que faz da sua função um serviço para a vida do povo. 6. O nosso texto — parte do terceiro canto — pertence a uma seção maior, que abrange os capítulos 49-55, e cujo tema central é a restauração e glorificação de Jerusalém, a cidade-esposa de Javé. Os exilados — usando linguagem da esfera matrimonial — se queixam de que Deus tenha repudiado Jerusalém, sua esposa, e vendido seus filhos como escravos. A resposta de Javé precede imediatamente o terceiro canto do Servo Sofredor (50,1-3). Embora não se saiba quem seja esse servo, podemos, pelo contexto que antecede, perceber claramente qual seja sua missão: mos- trar, à custa das ofensas recebidas, que o amor de Javé é perene. 7. Os vv. 4-7 mostram o que Javé faz para o Servo em vista do bem do povo, e a responsabilidade do Servo, ple- namente obediente e fiel: o Senhor Javé (a expressão é repetida três vezes, vv. 4.5.7) dá ao Servo a capacidade de falar como alguém que aprende dele, para que possa levar conforto ao povo; abre-lhe os ouvidos para que aprenda, como discípulo, a transmitir o que ouviu, e lhe dá proteção. Em outras palavras, prepara-o para a missão. O Servo, por sua vez, para não trair o conteúdo da mensagem, dá as costas aos que o torturam (= não oferece resistência); toma a iniciativa de oferecer a face aos que lhe arrancam os fios da barba (ter a barba arrancada é sinal de grande humilha- ção; o Servo não liga para a perda da honradez); não es- conde o rosto à ofensa maior: injúrias e escarros. O rosto manifesta os sentimentos e desejos de uma pessoa. Torná- lo duro como pedra (v. 7) é não levar em conta toda e qual- quer espécie de ofensa, em vista da opção assumida. Paixão de Jesus Cristo segundo Lucas (22,14 – 23,56): Jesus, o Servo plenamente fiel 8. O ponto alto da viagem de Jesus é Jerusalém. O pro- cesso contra Jesus, levando-o à morte, desmascara a estru- tura iníqua instalada em Jerusalém e mostra que Jesus é a testemunha qualificada do Pai para salvar a humanidade. Ele é o verdadeiro Servo Sofredor (1ª leitura), capaz de cumprir fielmente o projeto divino. 9. 22,14-23: A Ceia do Senhor é o grande gesto de Jesus, testemunha fiel. Ele não somente tem palavras de conforto (1ª leitura), mas entrega sua vida para selar a união indis- solúvel entre Deus e as pessoas. 10. Vv. 24-30: Jesus revoluciona o conceito de importân- cia. Ele salva através do serviço: “Eu estou no meio de vocês como quem está servindo” (v. 27b; cf. a segunda tentação de Jesus em Lc 4,5-8; cf. também Fl 2,7: “Ele assumiu a condição de servo”). 11. Vv. 31-34: Se o cristão não assumir o projeto de Deus manifestado em Jesus, sucumbirá, ainda que cheio de boas intenções (cf. Fl 2,5: “Tenham o mesmo projeto de vida [= sentimentos] que havia em Cristo Jesus”). 12. Vv. 35-38: A linguagem é metafórica. Jesus afirma que assumir seu projeto é uma verdadeira luta, e o cristão pre- cisa estar suficientemente armado. 13. Vv. 39-46: A oração (estar em sintonia com o projeto de Deus) é fundamental ao se tomar a decisão de como orientar a própria vida. 14. Vv. 47-53: Jesus se revela o Servo Sofredor ao não responder com violência à violência (cf. 1ª leitura). Vv. 54-62: Cf. vv. 31-34. 15. Vv. 63-65: Cf. 1ª leitura: “Apresentei minhas costas aos que me batiam, e meu rosto aos que me arrancavam a barba. Não escondi o meu rosto diante das injúrias e cuspi- das” (Is 50,6). 16. Vv. 66-71: Confronto entre o sistema opressor e a ofer- ta da vida. O testemunho de Jesus é claro. Claras são tam-
  • 2. bém as intenções dos que sustentam estruturas iníquas: levam o inocente à morte (cf. Fl 2,6). 17. 23,1-12: Sem querer, o poder político reconhece que Jesus é Senhor (a roupa brilhante; cf. Fl 2,10-11). Vv. 13-25: Cf. Is 50,6 (1ª leitura). Vv. 26-32: Cf. Is 50,4 (1ª leitura). 18. Vv. 33-38: Na ironia dos zombadores: “A outros ele salvou… Que salve a si mesmo, se é de fato o Messias… Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!”, revela-se a verdadeira missão de Jesus enquanto testemunha fiel: ele veio para salvar! E sua missão redentora o leva a pedir perdão para os que o crucificaram. 19. Vv. 39-43: Realiza-se o primeiro sinal de salvação. Basta que as pessoas se entreguem confiantes a Jesus. 20. Vv. 44-46: A fidelidade de Jesus obediente até à morte de cruz (Fl 2,8) permite o pleno acesso da humanidade a Deus (véu do santuário que se rasga ao meio). 21. Vv. 47-49: A fidelidade de Jesus suscita o reconheci- mento de que ele é verdadeiramente a testemunha fiel (cf. Fl 2,10-11: “Todos os joelhos se dobrem… e toda língua proclame… Jesus é o Senhor!”). 22. Vv. 50-56: Morto Jesus, a testemunha fiel, inicia a ação dos cristãos, representados por José de Arimatéia. 2ª leitura (Fl 2,6-11): O Evangelho de Jesus Cristo 23. Ao escrever aos filipenses, Paulo está preso em Éfeso, mas tem em mãos um trunfo que lhe garantirá a liberdade: basta que prove ser cidadão romano. A decisão de fazer valer seus direitos de cidadão romano provocou grande mal-estar em Éfeso e também em Filipos. De fato, para os primeiros cristãos, o martírio era o momento mais nobre e mais propício para a propaganda do Evangelho. Declarar-se cristão e morrer violentamente por causa disso, provocava adesões à fé. Por que, então, Paulo foge desse momento? Estaria anunciando uma coisa e vivendo outra? 24. Eis, então, que ele escreve aos filipenses. Para ele é vantagem morrer, mas opta pela libertação em vista da possibilidade de ainda continuar evangelizando (1,23-24). A seguir, passa a mostrar os conflitos que ameaçam a co- munidade: conflitos de fora (os falsos missionários, cf. 1,27-30) e conflitos internos (divisões da comunidade, cf. 2,1-4). Por fim, convida para que todos tenham as mesmas disposições pessoais (sentimentos) que havia em Jesus Cristo. 25. O hino de Filipenses 2,6-11 tem dois movimentos. O primeiro é de cima para baixo, e fala do esvaziamento de Jesus. É como uma escada com vários degraus: Jesus não se apegou à sua igualdade com Deus, esvaziou-se, tornou- se servo, semelhante aos homens, humilhou-se, fez-se obe- diente até a morte de cruz. O sujeito dessas ações é o pró- prio Jesus que, consciente e livremente, despoja-se de tudo. Seu lugar social é junto aos escravos, sem privilégios, mar- ginalizados e condenados. Para ele não há outra forma de revelar o projeto de Deus a não ser esvaziando-se daquelas realidades humanas das quais com dificuldade abrimos mão: prerrogativas, posição social, honra, dignidade, fama e, o que é mais precioso, a própria vida. Jesus perdeu todas essas coisas. Desceu no poço mais profundo da miséria e solidão humanas. De fato, o primeiro movimento desse hino não fala de Deus. Tem-se a impressão de que Jesus, despojado de tudo, tenha sido inclusive abandonado por Deus. 26. O preço da encarnação foi a cruz. E o Evangelho de Paulo é exatamente o Evangelho de um crucificado. Nós estamos muito habituados a pensar na divindade de Jesus. Por isso nos perguntamos: onde foi parar sua divindade? Ficou escondida por um momento? Ou era justamente no fato de ser plenamente humano que ele revelava o ser de Deus? Imaginar que Deus seja um ser desencarnado e abs- trato é a desculpa que algumas pessoas encontram para fugir à difícil tarefa de nos encarnarmos nas realidades humanas mais sofridas, pois, ao fazermos isso, teremos de nos despojar de uma série de coisas, exatamente aquelas coisas das quais Jesus se despojou: prerrogativas, status, fama, promoção pessoal etc. 27. A primeira parte do hino tem seu ponto alto na maior baixeza: Jesus se fez servo e foi morto como um bandido, na cruz. Essa foi sua opção de vida consciente. Esse hino retoma um texto muito antigo de Isaías, aplicando-o a Je- sus. Trata-se do quarto canto do Servo de Javé (Is 52,13- 53,8). 28. O segundo movimento do hino de Filipenses é de baixo para cima. Aqui o sujeito é Deus. É ele quem exalta Jesus, ressuscitando-o e colocando-o no posto mais elevado que possa existir. O Nome que ele recebeu do Pai é o título de Senhor, termo muito importante para os primeiros cristãos. Jesus é o Senhor do universo e da história. Diante dele toda a criação se prostra em adoração (2,10). Também esta se- gunda parte se inspira no quarto canto do Servo de Javé (cf. Is 52,13-15; 53,10-12). 29. Deus Pai é glorificado quando as pessoas reconhecem em Jesus o humano que passou pela encarnação das reali- dades mais sofridas e humilhantes, culminando com a mor- te na cruz, condenação imposta a criminosos. Evangelho é, portanto, o anúncio daquele que se fez servo, obediente até a morte, e morte de cruz. Esse anúncio não acontece sem que as pessoas também se encarnem, apostando a vida, como fez Paulo. III. PISTAS PARA REFLEXÃO 30. A Paixão de Jesus, Servo Sofredor (1ª leitura Is 50,4-7), se prolonga em todos os excluídos de nossa sociedade. Quais os sinais que apontam para a presença de Deus ao lado dos que sofrem e são excluídos? 31. Questionar os projetos humanos construídos sem levar em conta o projeto de Deus revelado em Jesus, plenamente humano, servo, obediente até o fim (2ª leitura Fl 2,6-11). 32. A Paixão de Jesus força as pessoas à opção a favor ou contra o projeto de Deus. A prática cristã é o termômetro que mostra se somos ou não a favor da vida e da liberdade (relato da Paixão Lc 22,14 – 23,56).