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Fé e Saber
Habermas
Retirado de: HABERMAS, Jürgen; Fé e saber. Tradução: Fernando Costa Mattos. São Paulo: Ed. Unesp, 2013. pp. 1-
26.
[1] Se a preocupante situação atual nos tira a
possibilidade de escolher o tema, é grande a tentação de,
como verdadeiros intelectuais John Waynes, competir para
ver quem saca e atira mais rápido. Ainda há pouco os
espíritos se dividiam a respeito de outro tema: se e em que
medida deveríamos submeter-nos a uma
autoinstrumentalização ou mesmo perseguir a meta de uma
auto-otimização por meio da engenharia genética. Durante os
primeiros passos nesse caminho, deflagrou-se uma luta de
valores últimos entre os defensores da ciência organizada e
as Igrejas. Um dos lados temia o obscurantismo e uma
exaltação de sentimentos arcaicos que alimentassem o
ceticismo em relação à [2] ciência, ao passo que o outro lado
se voltava contra a crença no progresso científico, própria de
um naturalismo cru que pretenderia enterrar a moral. Mas em
11 de setembro a tensão entre a sociedade secular e a religião
explodiu de uni modo inteiramente diverso.
Decididos ao suicídio, os assassinos que transformaram
máquinas de aviação civil em mísseis vivos, dirigindo-os
contra as cidadelas capitalistas da civilização ocidental,
foram motivados por convicções religiosas — conforme
ficamos sabendo, nesse meio tempo, pelo testamento de Atta
e pelas palavras de Osama Bin Laden. Para eles, os marcos
da modernidade globalizada incorporavam o Grande Satã.
Mas, também entre nós, testemunhas oculares universais
desse acontecimento "apocalíptico" transmitido pela
televisão, o instante da queda das torres gêmeas de
Manhattan, repetido à exaustão de maneira masoquista,
acabou por inspirar imagens bíblicas. E a linguagem da
vingança, com a qual o presidente americano não foi o único
a reagir ao incompreensível, adquiriu um tom de Velho
Testamento. Como se o estonteante atentado fizesse vibrar
uma corda religiosa no mais íntimo da sociedade secular, as
sinagogas, as igrejas e as mesquitas se viram subitamente
lotadas em toda parte. Por outro lado, essa conexão invisível
não levou a [3] comunidade enlutada de civis e religiosos
que se reuniu há três semanas, em um estádio de Nova
York, a uma expressão simétrica de ódio: mesmo com todo
o patriotismo, não ressoou nenhuma conclamação por um
deslimite bélico do direito penal nacional.
Apesar de sua linguagem religiosa, o fundamentalismo
é um fenômeno exclusivamente moderno. O que chama
particularmente a atenção nos terroristas islâmicos é a
assincronia entre os motivos e os meios. Reflete-se nisso a
assincronia entre cultura e sociedade nos países natais
desses terroristas, algo que só se constituiu em decorrência
de uma modernização acelerada e fortemente
desenraizadora. Aquilo que em condições mais favoráveis
poderia ser vivido, entre nós, como um processo de
destruição criadora, não oferece por lá qualquer
compensação perceptível para a dor que acompanha o
declínio das formas de vida tradicionais. Nesses países, a
perspectiva de uma melhoria das condições materiais de
vida é apenas uma perspectiva. O mais decisivo é que se
bloqueia, por meio dos sentimentos de degradação, a
transformação espiritual que se expressaria politicamente
na separação entre religião e Estado. Também na Europa,
que a história levou séculos para tornar sensível à cabeça
de Jano da modernidade, a "secularização" continua a ser
dominada por sentimentos [4] ambivalentes — como se
percebe na disputa em torno da engenharia genética.
Há ortodoxias endurecidas tanto no Ocidente como no
Oriente Médio e no Extremo Oriente; entre cristãos e
judeus, como entre muçulmanos. Quem quer evitar uma
guerra de culturas precisa ter em mente a dialética
inconclusa do nosso próprio processo ocidental de
secularização. A "guerra contra o terror" não é uma guerra,
e no terrorismo também se expressa um choque
desastrosamente silencioso de dois mundos que
precisariam desenvolver uma linguagem comum, para
2
além da violência muda dos terroristas e dos mísseis. Em
vista de uma globalização imposta por meio de mercados
sem limites, muitos de nós têm a esperança de um retorno do
político sob outra forma — não a forma hobbesiana original
de um Estado de segurança globalizado, ou seja, com
dimensões de polícia, serviço secreto e forças militares, mas
a de um poder mundial de configuração civilizadora. No
momento não nos resta muito mais do que a pálida esperança
em alguma astúcia da razão — e um pouco de autorreflexão.
Pois aquela ruptura muda cinde também a nossa própria casa.
Nós só conseguiremos aferir adequadamente os riscos de
uma secularização que saiu dos trilhos em outros lugares, se
tivermos claro o que significa a secularização em nossas
sociedades [5] pós-seculares. Com este intuito eu retomo
aqui o velho tema "fé e saber". Vocês não devem, portanto,
esperar por um "discurso eloquente", polarizador, que faça
alguns pularem de entusiasmo, enquanto outros
permanecerão sentados.
Secularização na sociedade pós-secular
A palavra "secularização" teve, a princípio, o significado
jurídico de uma transferência compulsória dos bens da Igreja
para o poder público secular. Esse significado foi
transmutado para o surgimento da modernidade cultural e
social como um todo. Desde então, apreciações opostas têm
sido associadas à "secularização", conforme se coloque em
primeiro plano ora a bem sucedida domesticação da
autoridade eclesiástica pelo poder mundano, ora o ato de
apropriação ilícita. De acordo com primeira leitura, modos
de pensar e formas de vida religiosas são substituídos por
equivalentes racionais, em todo caso superiores; de acordo
com a outra leitura, as formas modernas de vida e
pensamento são desacreditadas como bens furtados
ilegitimamente. O modelo da substituição sugere uma
interpretação otimista e progressista para uma modernidade
desencantada; o modelo da apropriação forçada, uma
interpretação teórica para o que seria a ruína de uma
modernidade [6] desamparada. As duas explicações
cometem o mesmo erro. Elas consideram a secularização um
jogo de soma zero entre, de um lado, as forças produtivas da
ciência e da técnica, liberadas pelo capitalismo e, de outro,
os poderes conservadores da religião e da Igreja. Um só pode
ganhar à custa do outro, e isto segundo as regras liberais de
um jogo que favorece as forças motrizes da modernidade.
Essa imagem não é adequada a uma sociedade pós-
secular que se ajusta à sobrevivência de comunidades
religiosas em um ambiente cada vez mais secularizante.
Não é levado em conta o papel civilizador de um senso
comum [Commonsense] democraticamente esclarecido que,
em meio aos ânimos exacerbados da luta cultural, funciona
como um terceiro partido, pavimentando seu próprio
caminho entre a ciência e a religião. Ê certo que, do ponto
de vista do Estado liberal, só merecem o predicado
"razoáveis" as comunidades religiosas que, segundo seu
próprio discernimento, renunciam à imposição violenta de
suas verdades de fé, à pressão militante sobre as
consciências de seus próprios membros, e tanto mais à
manipulação para atentados suicidas.1
Esse discernimento
se deve [7] a uma tríplice reflexão dos fiéis sobre a sua
posição em uma sociedade pluralista. Primeiramente, a
consciência religiosa tem de assimilar o encontro
cognitivamente dissonante com outras confissões e
religiões. Em segundo lugar, ela tem de adaptar-se à
autoridade das ciências, que detêm o monopólio social do
saber mundano. Por fim, ela tem de adequar-se às
premissas do Estado constitucional, que se fundam em
uma moral profana. Sem esse impulso reflexivo, os
monoteísmos acabam por desenvolver um potencial
destrutivo em sociedades impiedosamente modernizadas.
A expressão "impulso reflexivo" [Reflexionsschub] dá a
falsa impressão de um processo concluído e realizado
unilateralmente. Na verdade, porém, esse trabalho
reflexivo dá um novo passo a cada conflito que irrompe
nos campos de batalha da esfera pública democrática.
Tão logo uma questão existencialmente relevante vá
para a agenda política, os cidadãos — tanto crentes como
não crentes — entram em colisão com suas convicções
impregnadas de visões de mundo e, à medida que
trabalham as agudas dissonâncias desse conflito público de
opiniões, têm a experiência do fato chocante do pluralismo
das visões de mundo. Quando aprendem a lidar
pacificamente com esse fato na consciência de sua própria
1
Rawls, Politischer Liberalismus, p.132-141; Forst, Toleranz,
Gerechtigkek, Vernunft, p.144-l6l.
3
[8] falibilidade — sem rasgar, portanto, o laço de uma
comunidade política —, eles reconhecem o que significam,
em uma sociedade pós-secular, as condições seculares da
tomada de decisões, estabelecidas pela Constituição. No
conflito entre as pretensões do saber e as pretensões da fé, o
Estado, sendo neutro no que diz respeito às visões de mundo,
não tem qualquer predisposição a tomar decisões políticas
em favor desta ou daquela parte. A razão pluralizada do
público constituído pelos cidadãos do Estado só segue uma
dinâmica de secularização na medida em que força, no
resultado, a um distanciamento igual em relação às tradições
fortes e aos conteúdos impregnados de visões de mundo.
Sem renunciar à sua autonomia, ela permanece contudo
aberta, como que osmoticamente, para a possibilidade de
aprender com ambas as partes do conflito.
O esclarecimento científico do senso comum
E claro que o senso comum, que produz tantas ilusões
sobre o mundo, tem de ser esclarecido sem reservas pelas
ciências. Mas as teorias científicas que penetram o mundo da
vida deixam intacto, em seu cerne, o quadro do nosso saber
cotidiano, no qual se constitui a autocompreensão de pessoas
[9] capazes de falar e agir. Quando aprendemos algo novo
sobre o mundo, e sobre nós como seres no mundo, modifica-
se o conteúdo de nossa autocompreensão. Copérnico e
Darwin revolucionaram a imagem geocêntrica e
antropocêntrica do mundo. Mas a destruição da ilusão
astronômica sobre a órbita das estrelas deixou menos sinais
no mundo da vida que o fim da ilusão biológica sobre o
lugar do homem na história natural. Os conhecimentos
científicos parecem inquietar tanto mais nossa
autocompreensão, quanto mais próximos eles nos deixam
diante do nosso próprio corpo. As pesquisas sobre o cérebro
nos fornecem ensinamentos sobre a fisiologia de nossa
consciência. Mas isso ocasiona alguma mudança na
consciência intuitiva de autoria e responsabilidade que
acompanha todas as nossas ações?
Se nós olhamos com Max Weber para o começo do
"desencantamento do mundo", vemos o que está em jogo. Na
medida em que a natureza se torna acessível à observação
objetivante e à explicação causal, ela é despersonalizada. A
natureza pesquisada pela ciência escapa ao sistema social de
relações entre pessoas vivas que agem e falam umas com
as outras, atribuindo-se reciprocamente motivos e
intenções. O que ocorre com essas pessoas, porém, se elas
passam, cada vez mais, a subsumir [10] a si próprias sob
as descrições dadas pelas ciências naturais? O senso
comum acabará se deixando não apenas doutrinar, mas
também se consumir dos pés à cabeça pelo saber
contraintuitivo das ciências? O filósofo Winfrid Sellars
levantou essa questão em 1960 (em uma famosa
conferência sobre "Philosophy and the Scientific Image of
Man"2
), e respondeu com o cenário de uma sociedade em
que os jogos de linguagem ultrapassados do nosso
cotidiano seriam substituídos pela descrição objetivante
dos processos conscientes.
O ponto de fuga dessa naturalização do espírito é uma
imagem científica do ser humano realizada segundo os
conceitos extensionais da física, da neurofisiologia ou da
teoria da evolução, que também dessocializa
completamente a nossa autocompreensão. Isto só pode
acontecer, evidentemente, quando a intencionalidade da
consciência humana e a normatividade de nosso agir se
reduzem a esse tipo de autodescrição sem deixar resto. As
teorias teriam de explicar, por exemplo, como as pessoas
seguem ou quebram regras — regras gramaticais,
conceituais ou morais. 3
Os discípulos de Sellars
compreenderam o seu experimento aporético de
pensamento, [11] equivocadamente, como um programa de
pesquisa 4
. O projeto de uma modernização de nossa
psicologia cotidiana,5
realizada nos moldes das ciências
naturais, já levou a tentativas de elaborar uma semântica
que fosse capaz de explicar biologicamente os conteúdos
do pensamento. 6
Mas também essas propostas mais
2
"A filosofia e a imagem científica do homem." (N. T.)
3
Sellars, Science, Perception and Reality, p 38.
4
Churchland, Scientific Realism and the Plasticity of Mind.
5
Greenwood, The Future of Folk Psycbology, p. 1 -21.
6
Detel, Teleosemantik. Ein neuer Blick auf den Geist?,
p.465-49I. A teleossemântica gostaria de mostrar, com base em
premissas neodarwimstas e em análises conceituais, como a
consciência normativa de seres vivos que empregam símbolos e
representam estados de coisas poderia ter se desenvolvido. De
acordo com ela, a constituição intencional do espírito humano
surge da vantagem seletiva de determinados modos de
comportamento (como da dança das abelhas), que são
interpretados pelos congêneres como representações. Sobre o
pano de fundo de cópias desse gênero, que se tornaram hábitos,
os modos de comportamento desviante devem poder ser
4
extremadas parecem fracassar por conta do fato de que o
conceito de conformidade a fins, que introduzimos no jogo
de linguagem darwinista de mutação e adaptação, seleção e
sobrevivência, é pobre demais para abarcar a diferença entre
ser e dever ser [Sein und Sollen] que está em [12] jogo
quando nós burlamos regras — quando empregamos um
predicado equivocadamente ou agimos contrariamente a um
mandamento moral.7
Quando se descreve como uma pessoa fez algo que não
queria, e que não deveria ter feito, simplesmente ela é
descrita — mas não do mesmo modo como se descreve um
objeto da ciência natural. Pois na descrição de pessoas
aparecem, tacitamente, momentos da autocompreensão pré-
científica de sujeitos capazes de falar e agir. Quando
descrevemos um acontecimento como a ação de uma pessoa,
nós sabemos, por exemplo, que aquilo que descrevemos
pode não apenas ser explicado como um acontecimento
natural, mas, se necessário, ser também justificado. O pano
de fundo para isso é a imagem de pessoas que podem exigir
satisfação umas das outras, que estão envolvidas desde o
começo em interações normativamente regradas, e que se
encontram umas com as outras em um universo de
argumentos públicos.
Como elemento do dia a dia, essa perspectiva esclarece a
diferença entre o jogo de linguagem da justificação e aquele
da mera descrição. Esse dualismo estabelece um limite
também para estratégias [13] não reducionistas 8
de
explicação. Também elas adotam descrições a partir da
perspectiva de um observador, à qual a perspectiva do
participante de nossa consciência cotidiana (de que se
alimenta também a práxis de justificação da pesquisa) não
pode ser ajustada ou subordinada sem violência. Na vida
cotidiana, nós dirigimos o olhar a pessoas a que chamamos
de "tu". Somente nesta posição em face da segunda pessoa
podemos compreender o "sim" e o "não" dos outros, as
interpretados como representações falhas — com isso a origem da
normatividade teria encontrado uma explicação natural.
7
Detel, Haben Froschen und Sumpfmenschen Gedanken? Einige
Probleme der Teleosemantik, p.601-626.
8
Essas estratégias dão conta da complexidade de propriedades que
vão surgindo em níveis mais elevados de desenvolvimento (da vida
orgânica ou mental), na medida em que evitam descrever processos
desses níveis mais elevados com conceitos que servem para níveis
menos elevados de desenvolvimento.
posições passíveis de crítica que devemos e exigimos uns
para com os outros. Essa consciência de uma autoria
obrigada a se justificar é o núcleo de uma
autocompreensão que se abre apenas na perspectiva de um
participante, mas escapa a uma observação científica
corretiva. A crença cientificista em uma ciência que possa
um dia não apenas complementar, mas substituir a
autocompreensão pessoal por uma autodescrição
objetivante, não é ciência, é má filosofia. Mesmo o senso
comum esclarecido cientificamente não será privado por
nenhuma ciência [14] de, por exemplo, julgar como
devemos lidar com a vida humana pré-pessoal sob
descrições da biologia molecular que tornam possíveis as
intervenções da engenharia genética.
Tradução cooperativa de conteúdos religiosos
O senso comum está entrelaçado, portanto, com a
consciência de pessoas que podem tomar iniciativas,
cometer erros e corrigi-los. Em oposição às ciências, ele
afirma a sua estrutura perspectivística de maneira muito
própria. Por outro lado, essa mesma consciência de
autonomia, que não é compreensível de forma naturalista,
funda a distância em relação a uma tradição religiosa de
cujos conteúdos normativos, contudo, também nos
nutrimos. Com a exigência de justificativas racionais, o
esclarecimento científico parece, por seu turno, trazer para
o seu lado um senso comum que firmou seu lugar no
edifício — construído segundo o direito racional — do
Estado constitucional democrático. Evidentemente,
também o direito racional igualitário tem raízes religiosas
— raízes naquela revolução do modo de pensar que
coincide com a ascensão das grandes religiões mundiais.
Mas essa legitimação do direito e da política nos termos do
direito racional se alimenta de fontes da tradição religiosa
há [15] muito tempo profanadas. Ao contrário da religião,
o senso comum democraticamente esclarecido mantém-se
sobre bases que são aceitáveis não somente para os
membros de uma comunidade religiosa. E por isso que o
Estado liberal continua a despertar a suspeita, entre os fiéis,
de que a secularização ocidental possa ser uma via de mão
única em que a religião será marginalizada.
A liberdade religiosa tem como contrapartida, de fato,
5
uma pacificação do pluralismo das visões de mundo cujos
custos se mostraram desiguais. Até aqui, o Estado liberal só
exige dos que são crentes entre seus cidadãos que dividam a
sua identidade, por assim dizer, em seus aspectos públicos e
privados. São eles que têm de traduzir as suas convicções
religiosas para uma linguagem secular antes de tentar, com
seus argumentos, obter o consentimento das maiorias. E
assim que, quando querem reclamar o estatuto de portador
de direitos fundamentais para os óvulos fecundados fora do
corpo materno, os católicos e protestantes procuram hoje
(talvez prematuramente) traduzir a imagem e semelhança a
Deus da criatura humana para a linguagem secular do direito
constitucional. Mas a procura por argumentos voltados à
aceitabilidade universal só não levará a religião a ser
injustamente excluída da esfera pública, e a sociedade
secular só não [16] será privada de importantes recursos para
a criação de sentido, caso o lado secular se mantenha
sensível para a força de articulação das linguagens religiosas.
Os limites entre os argumentos seculares e religiosos são
inevitavelmente fluidos. Logo, o estabelecimento da
fronteira controversa deve ser compreendido como uma
tarefa cooperativa em que se exija dos dois lados aceitar
também a perspectiva do outro.
A política liberal não deve externalizar o persistente
conflito sobre a autocompreensão secular da sociedade, ou
seja, deslocando-o para a cabeça dos religiosos. O senso
comum democraticamente esclarecido não é algo singular,
mas algo que descreve a constituição mental de uma esfera
pública com muitas vozes. As maiorias seculares não devem
chegar a conclusões, em questões desse tipo, antes de dar
ouvidos à objeção dos oponentes que se sentem lesados em
suas convicções religiosas; elas devem considerar essa
objeção como uma espécie de veto suspensivo e verificar o
que podem aprender com isso. No que diz respeito à origem
religiosa de seus fundamentos morais, o Estado liberal
deveria contar com a possibilidade de que, diante de desafios
inteiramente novos, a "cultura do comum entendimento
humano" (Hegel) possa não alcançar o nível de articulação
da história de seu próprio surgimento. A linguagem do
mercado [17] penetra hoje todos os poros, forçando todas as
relações entre seres humanos a encaixar-se no esquema de
uma orientação autorreferente de acordo com as próprias
preferências. No entanto, o vínculo social que se prende ao
reconhecimento recíproco não se ajusta aos conceitos do
contrato, da escolha racional e da maximização da
utilidade.9
Por isso Kant não queria deixar o dever categórico
desaparecer sob a onda do interesse autoesclarecido. Ele
ampliou a liberdade de arbítrio de modo a abarcar a
autonomia e, com isso, forneceu o primeiro grande
exemplo — após a metafísica — de uma desconstrução ao
mesmo tempo secularizante e salvadora das verdades de fé.
A autoridade dos mandamentos divinos tem um eco na
validade incondicional dos deveres morais que não pode-
mos deixar de escutar. Com o seu conceito de autonomia,
Kant certamente destrói a representação tradicional da
nossa filiação divina. 10
Mas ele só percebeu as
conseqüências mais banais dessa deflação esvaziante
através de uma apropriação do conteúdo religioso. Sua
tentativa de traduzir o [18] mal radical da linguagem
bíblica para a linguagem da religião racional pode parecer-
nos pouco convincente. Tal como mostra hoje, uma vez
mais, o uso desenfreado dessa herança bíblica, nós ainda
não dispomos de um conceito apropriado para a diferença
semântica entre o moralmente incorreto e o profundamente
mal. Não existe o demônio, mas o anjo caído segue seu
curso calamitoso — seja nos bens invertidos da ação
monstruosa, seja também no incontornável ímpeto de
vingança que o segue de perto.
Linguagens seculares que apenas eliminam aquilo em
que se acreditava causam perturbação. Quando o pecado se
transformou em culpa, e o comportamento contrário aos
mandamentos divinos em violação às leis humanas, algo se
perdeu. Pois ao desejo de perdão está sempre ligado o
desejo não sentimental de desfazer o sofrimento infligido
ao outro. O que mais nos perturba a princípio é a
irreversibilidade de um sofrimento já ocorrido — aquela
injustiça com os inocentes prejudicados, desonrados e
9
Honneth, Kampf um anerkennung.
10
O prefácio à primeira edição de A religião nos limites da
simples razão começa com a frase: "Na medida em que está
fundada no conceito do ser humano como um ser livre que,
justamente por isso, prende-se a si mesmo, através de sua
razão, em limites incondicionados, a moral não precisa nem da
idéia de um outro ser sobre ele, para reconhecer seus deveres,
nem de um outro motivo que não a própria lei". (Kant, Die
Religion..., p.649.)
6
assassinados que ultrapassa qualquer [19] possibilidade
humana de reparação. A esperança perdida na ressurreição
deixa atrás de si um perceptível vazio. O justificável
ceticismo de Horkheimer quanto à efusiva esperança de
Benjamm na força reparadora da rememoração humana —
"os derrotados são realmente derrotados" — não desmente o
impulso, ainda que impotente, de ainda mudar algo do que já
não pode ser mudado. A troca de correspondência entre
Benjamin e Horkheimer data do começo de 1937. Ambos —
o verdadeiro impulso e sua impotência — continuaram, após
o holocausto, na práxis tão necessária quanto terrível de uma
"reelaboração do passado" (Adorno). E é o mesmo impulso
que se manifesta, por sinal, na crescente queixa contra a
inadequação dessa prática. Os filhos e filhas não religiosos
da modernidade parecem acreditar, nesses momentos, que
são mais culpados uns em relação aos outros, e mesmo que
necessitam de mais do que lhes seria disponível na tradução
da tradição religiosa — como se o potencial semântico desta
não estivesse esgotado.
Filosofia e religião em luta pela herança
A história da filosofia alemã desde Kant pode ser
compreendida como um processo judicial [20] em que são
tratadas essas questões de partilha da herança. A helenização
do cristianismo havia conduzido a uma simbiose entre a
religião e a metafísica, Kant volta a separá-las. Ele traça um
limite preciso entre a fé moral da religião raciona e a fé
revelada positiva, que teria conduzido a um melhoramento
da alma, mas, "com seus amuletos, estatutos e prescrições",
teria acabado por tornar-se "uma amarra".11
Para Hegel, isso
é puro "dogmatismo do Esclarecimento". Ele zomba da
vitória de Pirro de uma razão que, como os bárbaros
vencedores que se subordinam ao espírito da nação vencida,
só mantém "a supremacia no que diz respeito à dominação
exterior".12
No lugar de uma razão que traça limites, aparece
uma razão que toma para si. Hegel faz da morte do filho de
Deus na cruz o centro de um pensamento que quer
incorporar o conteúdo positivo do cristianismo. O tornar-se
homem de Deus simboliza a vida do espírito filosófico.
Também o Absoluto tem de externalizar-se no outro de si
11
Kant, Die Religion..., p.785.
12
Hegel, Glauben und Wissen, p.287.
mesmo, pois ele só tem a experiência de si como poder
absoluto quando se reelabora a partir da dolorosa
negatividade da autolimitação. Assim, com efeito, os
conteúdos religiosos são [21] superados na forma do
conceito filosófico. Mas Hegel sacrifica a dimensão
histórica de salvação do futuro em nome de um processo
do mundo que gira em torno de si mesmo.
Os discípulos de Hegel rompem com o fatalismo dessa
desesperadora antevisão de um eterno retorno do mesmo.
Eles não querem mais superar a religião no pensamento,
mas sim realizar os seus conteúdos profanados através do
esforço solidário. Esse pathos de uma efetivação
dessublimadora do reino de Deus na Terra move a crítica à
religião desde Feuerbach e Marx até Bloch, Benjamin e
Adorno: "Nenhum conteúdo teológico permanecerá sem
modificação; todos terão de passar pela prova e
transformar-se em conteúdos seculares, profanos".13
Nesse
meio tempo, o curso da história havia tratado de mostrar
que a razão se vê sobrecarregada com esse projeto. Na
medida em que, com isso, a razão acaba por desesperar-se
consigo mesma, Adorno se socorreu, mesmo que para fins
estritamente metodológicos, do ponto de vista messiânico:
"a única luz que o conhecimento possui é aquela que a
redenção faz brilhar sobre o mundo".14
A esse Adorno se
aplica a frase que [22] Horkheimer cunhou para a teoria
crítica como um todo: "Ela sabe que Deus não existe, mas
ainda assim acredita nele".15
Sob outras premissas, Jacques
Derrida (também deste ponto de vista um merecido
ganhador do Prêmio Adorno) adota hoje uma posição
semelhante. Ele só quer conservar do messianismo "o mais
mínimo elemento messiânico, que tem de estar despido de
tudo".16
Evidentemente, a região limítrofe entre a filosofia e a
religião é um terreno minado. Uma razão que desmente a
si mesma cai facilmente na tentação de simplesmente
tomar para si a autoridade e o gesto de um sagrado
desessencializado, tornado anônimo. Em Heidegger, a
devoção (Andacht) se transforma em rememoração
13
Adorno, Vernunft und Offenbarung, p.20.
14
Adorno, Minima Moralia, p.480.
15
Horkheimer, Gesammelte Schriften, v.14, p.508.
16
Derrida, Glauben und Wissen, p.33; cf. também Derrida, Den
Tod Geben.
7
(Andenken). Nós não temos qualquer ganho compreensivo,
contudo, com a dissolução do Dia do Juízo Final da história
bíblica em um acontecimento indeterminado da história do
Ser. Quando o pós-humanismo procura realizar-se no retorno
aos primórdios arcaicos antes de Cristo e antes de Sócrates,
soa a hora do kitsch religioso. As lojas de arte abrem então
as suas portas para os altares de todo o mundo, para os [23]
padres e xamãs que chegam de todos os lados para a
vernissage. Diante disso, a razão profana, mas não
derrotista, tem tanto respeito pelo núcleo incandescente que
continua a acender-se na questão da teodiceia que prefere
não se aproximar demais da religião. Ela sabe que a
profanação do sagrado começa com aquelas religiões
mundanas que desencantaram o mágico, superaram o mito,
sublimaram o sacrifício e desvendaram o mistério. Ela pode
guardar distância da religião, portanto, sem fechar-se para as
suas perspectivas.
O exemplo da engenharia genética
Essa atitude ambivalente também pode colocar na direção
correta o autoesclarecimento de uma sociedade civil cindida
pela luta cultural. A sociedade pós-secular continua na
própria religião o trabalho que esta realizou sobre o mito.
Não mais, contudo, com o propósito híbrido de uma
apropriação hostil, e sim no interesse de, na própria casa,
opor algum sentido à entropia sorrateira dos recursos
escassos. O senso comum democraticamente esclarecido tem
de temer também a indiferenciação mídiática e a
trivialização tagarela de todas as diferenças de importância.
As emoções morais que até aqui só encontravam [24] uma
expressão suficientemente diferenciada na linguagem
religiosa podem, agora, adquirir uma ampla repercussão tão
logo se estabeleça uma formulação de resgate para algo que
quase se perdeu, mas do qual se sente falta implicitamente.
Uma secularização não aniquiladora se realiza no modo da
tradução.
Na controvérsia sobre como lidar com os embriões
humanos, por exemplo, muitas vozes se remetem a Moisés I,
27: "Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus
ele o criou". Não é preciso acreditar que Deus, que é amor,
atribui a Adão e Eva um ser livre semelhante ao seu, para
compreender o que significa algo ser criado à imagem de
algo. O amor não pode existir sem o reconhecer-se em um
outro, a liberdade não pode existir sem o reconhecimento
recíproco. Essa reciprocidade na figura humana, por seu
turno, tem de ser livre para poder retribuir a doação de
Deus. Apesar de ter sido criado à imagem do primeiro,
também o outro, evidentemente, é representado como
criatura de Deus. No que diz respeito à sua origem, ele não
pode ter nascido juntamente com Deus. Essa criabilidade à
imagem de algo expressa uma intuição que, em nosso
contexto, também pode dizer algo aos que não se
sintonizam com a religião. Hegel tinha uma sensibilidade
especial para a diferença entre a "criação" [25] divina e o
mero "provir" de Deus.17
Deus só permanece um "Deus de
homens livres" na medida em que não desfaçamos a
diferença absoluta entre criador e criatura. Até esse ponto,
a doação de uma forma por Deus não significa uma
determinação que impeça a autodeterminação humana.
Esse criador, sendo Deus criador e Deus redentor em
um só, não precisa operar segundo leis da natureza, como
um técnico, nem segundo regras de um código, como um
programador de informática. Desde o princípio, a voz de
Deus que conclama à vida se comunica no interior de um
universo moralmente sensível. É por isso que Deus pode
"determinar" os homens no sentido de que ao mesmo
tempo os capacita e os obriga à liberdade. Ora, não é
preciso acreditar nas premissas teológicas para entender
que, se desaparecesse a diferença assumida no conceito de
criação, e no lugar de Deus entrasse um sujeito qualquer,
entraria em cena uma dependência de tipo inteiramente
não causai. Seria esse o caso, por exemplo, se um homem
quisesse interferir na combinação casual [26] dos
cromossomos paterno-maternos segundo suas próprias
preferências, sem ao menos supor contra-faticamente um
consenso com o outro concernido. Esse modo de ver as
coisas levanta uma questão de que já tratei em outra parte.
O primeiro homem a, determinar um outro em seu ser-
assim natural, a seu bel-prazer, não destruiria aquelas
mesmas liberdades que existem entre iguais para, assim,
assegurar a sua diferença?
17
Muito embora a noção de "emergência" (Emergenz)
contraponha ao seu próprio conceito da ideia absoluta, que gera
a natureza "a partir de si". Cf. Hegel, Vorlesungen über die
Philosophie der Religion, p.55 et seq. e p.92 et seq.

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Fé e Saber - Habermas (excerto)

  • 1. 1 Fé e Saber Habermas Retirado de: HABERMAS, Jürgen; Fé e saber. Tradução: Fernando Costa Mattos. São Paulo: Ed. Unesp, 2013. pp. 1- 26. [1] Se a preocupante situação atual nos tira a possibilidade de escolher o tema, é grande a tentação de, como verdadeiros intelectuais John Waynes, competir para ver quem saca e atira mais rápido. Ainda há pouco os espíritos se dividiam a respeito de outro tema: se e em que medida deveríamos submeter-nos a uma autoinstrumentalização ou mesmo perseguir a meta de uma auto-otimização por meio da engenharia genética. Durante os primeiros passos nesse caminho, deflagrou-se uma luta de valores últimos entre os defensores da ciência organizada e as Igrejas. Um dos lados temia o obscurantismo e uma exaltação de sentimentos arcaicos que alimentassem o ceticismo em relação à [2] ciência, ao passo que o outro lado se voltava contra a crença no progresso científico, própria de um naturalismo cru que pretenderia enterrar a moral. Mas em 11 de setembro a tensão entre a sociedade secular e a religião explodiu de uni modo inteiramente diverso. Decididos ao suicídio, os assassinos que transformaram máquinas de aviação civil em mísseis vivos, dirigindo-os contra as cidadelas capitalistas da civilização ocidental, foram motivados por convicções religiosas — conforme ficamos sabendo, nesse meio tempo, pelo testamento de Atta e pelas palavras de Osama Bin Laden. Para eles, os marcos da modernidade globalizada incorporavam o Grande Satã. Mas, também entre nós, testemunhas oculares universais desse acontecimento "apocalíptico" transmitido pela televisão, o instante da queda das torres gêmeas de Manhattan, repetido à exaustão de maneira masoquista, acabou por inspirar imagens bíblicas. E a linguagem da vingança, com a qual o presidente americano não foi o único a reagir ao incompreensível, adquiriu um tom de Velho Testamento. Como se o estonteante atentado fizesse vibrar uma corda religiosa no mais íntimo da sociedade secular, as sinagogas, as igrejas e as mesquitas se viram subitamente lotadas em toda parte. Por outro lado, essa conexão invisível não levou a [3] comunidade enlutada de civis e religiosos que se reuniu há três semanas, em um estádio de Nova York, a uma expressão simétrica de ódio: mesmo com todo o patriotismo, não ressoou nenhuma conclamação por um deslimite bélico do direito penal nacional. Apesar de sua linguagem religiosa, o fundamentalismo é um fenômeno exclusivamente moderno. O que chama particularmente a atenção nos terroristas islâmicos é a assincronia entre os motivos e os meios. Reflete-se nisso a assincronia entre cultura e sociedade nos países natais desses terroristas, algo que só se constituiu em decorrência de uma modernização acelerada e fortemente desenraizadora. Aquilo que em condições mais favoráveis poderia ser vivido, entre nós, como um processo de destruição criadora, não oferece por lá qualquer compensação perceptível para a dor que acompanha o declínio das formas de vida tradicionais. Nesses países, a perspectiva de uma melhoria das condições materiais de vida é apenas uma perspectiva. O mais decisivo é que se bloqueia, por meio dos sentimentos de degradação, a transformação espiritual que se expressaria politicamente na separação entre religião e Estado. Também na Europa, que a história levou séculos para tornar sensível à cabeça de Jano da modernidade, a "secularização" continua a ser dominada por sentimentos [4] ambivalentes — como se percebe na disputa em torno da engenharia genética. Há ortodoxias endurecidas tanto no Ocidente como no Oriente Médio e no Extremo Oriente; entre cristãos e judeus, como entre muçulmanos. Quem quer evitar uma guerra de culturas precisa ter em mente a dialética inconclusa do nosso próprio processo ocidental de secularização. A "guerra contra o terror" não é uma guerra, e no terrorismo também se expressa um choque desastrosamente silencioso de dois mundos que precisariam desenvolver uma linguagem comum, para
  • 2. 2 além da violência muda dos terroristas e dos mísseis. Em vista de uma globalização imposta por meio de mercados sem limites, muitos de nós têm a esperança de um retorno do político sob outra forma — não a forma hobbesiana original de um Estado de segurança globalizado, ou seja, com dimensões de polícia, serviço secreto e forças militares, mas a de um poder mundial de configuração civilizadora. No momento não nos resta muito mais do que a pálida esperança em alguma astúcia da razão — e um pouco de autorreflexão. Pois aquela ruptura muda cinde também a nossa própria casa. Nós só conseguiremos aferir adequadamente os riscos de uma secularização que saiu dos trilhos em outros lugares, se tivermos claro o que significa a secularização em nossas sociedades [5] pós-seculares. Com este intuito eu retomo aqui o velho tema "fé e saber". Vocês não devem, portanto, esperar por um "discurso eloquente", polarizador, que faça alguns pularem de entusiasmo, enquanto outros permanecerão sentados. Secularização na sociedade pós-secular A palavra "secularização" teve, a princípio, o significado jurídico de uma transferência compulsória dos bens da Igreja para o poder público secular. Esse significado foi transmutado para o surgimento da modernidade cultural e social como um todo. Desde então, apreciações opostas têm sido associadas à "secularização", conforme se coloque em primeiro plano ora a bem sucedida domesticação da autoridade eclesiástica pelo poder mundano, ora o ato de apropriação ilícita. De acordo com primeira leitura, modos de pensar e formas de vida religiosas são substituídos por equivalentes racionais, em todo caso superiores; de acordo com a outra leitura, as formas modernas de vida e pensamento são desacreditadas como bens furtados ilegitimamente. O modelo da substituição sugere uma interpretação otimista e progressista para uma modernidade desencantada; o modelo da apropriação forçada, uma interpretação teórica para o que seria a ruína de uma modernidade [6] desamparada. As duas explicações cometem o mesmo erro. Elas consideram a secularização um jogo de soma zero entre, de um lado, as forças produtivas da ciência e da técnica, liberadas pelo capitalismo e, de outro, os poderes conservadores da religião e da Igreja. Um só pode ganhar à custa do outro, e isto segundo as regras liberais de um jogo que favorece as forças motrizes da modernidade. Essa imagem não é adequada a uma sociedade pós- secular que se ajusta à sobrevivência de comunidades religiosas em um ambiente cada vez mais secularizante. Não é levado em conta o papel civilizador de um senso comum [Commonsense] democraticamente esclarecido que, em meio aos ânimos exacerbados da luta cultural, funciona como um terceiro partido, pavimentando seu próprio caminho entre a ciência e a religião. Ê certo que, do ponto de vista do Estado liberal, só merecem o predicado "razoáveis" as comunidades religiosas que, segundo seu próprio discernimento, renunciam à imposição violenta de suas verdades de fé, à pressão militante sobre as consciências de seus próprios membros, e tanto mais à manipulação para atentados suicidas.1 Esse discernimento se deve [7] a uma tríplice reflexão dos fiéis sobre a sua posição em uma sociedade pluralista. Primeiramente, a consciência religiosa tem de assimilar o encontro cognitivamente dissonante com outras confissões e religiões. Em segundo lugar, ela tem de adaptar-se à autoridade das ciências, que detêm o monopólio social do saber mundano. Por fim, ela tem de adequar-se às premissas do Estado constitucional, que se fundam em uma moral profana. Sem esse impulso reflexivo, os monoteísmos acabam por desenvolver um potencial destrutivo em sociedades impiedosamente modernizadas. A expressão "impulso reflexivo" [Reflexionsschub] dá a falsa impressão de um processo concluído e realizado unilateralmente. Na verdade, porém, esse trabalho reflexivo dá um novo passo a cada conflito que irrompe nos campos de batalha da esfera pública democrática. Tão logo uma questão existencialmente relevante vá para a agenda política, os cidadãos — tanto crentes como não crentes — entram em colisão com suas convicções impregnadas de visões de mundo e, à medida que trabalham as agudas dissonâncias desse conflito público de opiniões, têm a experiência do fato chocante do pluralismo das visões de mundo. Quando aprendem a lidar pacificamente com esse fato na consciência de sua própria 1 Rawls, Politischer Liberalismus, p.132-141; Forst, Toleranz, Gerechtigkek, Vernunft, p.144-l6l.
  • 3. 3 [8] falibilidade — sem rasgar, portanto, o laço de uma comunidade política —, eles reconhecem o que significam, em uma sociedade pós-secular, as condições seculares da tomada de decisões, estabelecidas pela Constituição. No conflito entre as pretensões do saber e as pretensões da fé, o Estado, sendo neutro no que diz respeito às visões de mundo, não tem qualquer predisposição a tomar decisões políticas em favor desta ou daquela parte. A razão pluralizada do público constituído pelos cidadãos do Estado só segue uma dinâmica de secularização na medida em que força, no resultado, a um distanciamento igual em relação às tradições fortes e aos conteúdos impregnados de visões de mundo. Sem renunciar à sua autonomia, ela permanece contudo aberta, como que osmoticamente, para a possibilidade de aprender com ambas as partes do conflito. O esclarecimento científico do senso comum E claro que o senso comum, que produz tantas ilusões sobre o mundo, tem de ser esclarecido sem reservas pelas ciências. Mas as teorias científicas que penetram o mundo da vida deixam intacto, em seu cerne, o quadro do nosso saber cotidiano, no qual se constitui a autocompreensão de pessoas [9] capazes de falar e agir. Quando aprendemos algo novo sobre o mundo, e sobre nós como seres no mundo, modifica- se o conteúdo de nossa autocompreensão. Copérnico e Darwin revolucionaram a imagem geocêntrica e antropocêntrica do mundo. Mas a destruição da ilusão astronômica sobre a órbita das estrelas deixou menos sinais no mundo da vida que o fim da ilusão biológica sobre o lugar do homem na história natural. Os conhecimentos científicos parecem inquietar tanto mais nossa autocompreensão, quanto mais próximos eles nos deixam diante do nosso próprio corpo. As pesquisas sobre o cérebro nos fornecem ensinamentos sobre a fisiologia de nossa consciência. Mas isso ocasiona alguma mudança na consciência intuitiva de autoria e responsabilidade que acompanha todas as nossas ações? Se nós olhamos com Max Weber para o começo do "desencantamento do mundo", vemos o que está em jogo. Na medida em que a natureza se torna acessível à observação objetivante e à explicação causal, ela é despersonalizada. A natureza pesquisada pela ciência escapa ao sistema social de relações entre pessoas vivas que agem e falam umas com as outras, atribuindo-se reciprocamente motivos e intenções. O que ocorre com essas pessoas, porém, se elas passam, cada vez mais, a subsumir [10] a si próprias sob as descrições dadas pelas ciências naturais? O senso comum acabará se deixando não apenas doutrinar, mas também se consumir dos pés à cabeça pelo saber contraintuitivo das ciências? O filósofo Winfrid Sellars levantou essa questão em 1960 (em uma famosa conferência sobre "Philosophy and the Scientific Image of Man"2 ), e respondeu com o cenário de uma sociedade em que os jogos de linguagem ultrapassados do nosso cotidiano seriam substituídos pela descrição objetivante dos processos conscientes. O ponto de fuga dessa naturalização do espírito é uma imagem científica do ser humano realizada segundo os conceitos extensionais da física, da neurofisiologia ou da teoria da evolução, que também dessocializa completamente a nossa autocompreensão. Isto só pode acontecer, evidentemente, quando a intencionalidade da consciência humana e a normatividade de nosso agir se reduzem a esse tipo de autodescrição sem deixar resto. As teorias teriam de explicar, por exemplo, como as pessoas seguem ou quebram regras — regras gramaticais, conceituais ou morais. 3 Os discípulos de Sellars compreenderam o seu experimento aporético de pensamento, [11] equivocadamente, como um programa de pesquisa 4 . O projeto de uma modernização de nossa psicologia cotidiana,5 realizada nos moldes das ciências naturais, já levou a tentativas de elaborar uma semântica que fosse capaz de explicar biologicamente os conteúdos do pensamento. 6 Mas também essas propostas mais 2 "A filosofia e a imagem científica do homem." (N. T.) 3 Sellars, Science, Perception and Reality, p 38. 4 Churchland, Scientific Realism and the Plasticity of Mind. 5 Greenwood, The Future of Folk Psycbology, p. 1 -21. 6 Detel, Teleosemantik. Ein neuer Blick auf den Geist?, p.465-49I. A teleossemântica gostaria de mostrar, com base em premissas neodarwimstas e em análises conceituais, como a consciência normativa de seres vivos que empregam símbolos e representam estados de coisas poderia ter se desenvolvido. De acordo com ela, a constituição intencional do espírito humano surge da vantagem seletiva de determinados modos de comportamento (como da dança das abelhas), que são interpretados pelos congêneres como representações. Sobre o pano de fundo de cópias desse gênero, que se tornaram hábitos, os modos de comportamento desviante devem poder ser
  • 4. 4 extremadas parecem fracassar por conta do fato de que o conceito de conformidade a fins, que introduzimos no jogo de linguagem darwinista de mutação e adaptação, seleção e sobrevivência, é pobre demais para abarcar a diferença entre ser e dever ser [Sein und Sollen] que está em [12] jogo quando nós burlamos regras — quando empregamos um predicado equivocadamente ou agimos contrariamente a um mandamento moral.7 Quando se descreve como uma pessoa fez algo que não queria, e que não deveria ter feito, simplesmente ela é descrita — mas não do mesmo modo como se descreve um objeto da ciência natural. Pois na descrição de pessoas aparecem, tacitamente, momentos da autocompreensão pré- científica de sujeitos capazes de falar e agir. Quando descrevemos um acontecimento como a ação de uma pessoa, nós sabemos, por exemplo, que aquilo que descrevemos pode não apenas ser explicado como um acontecimento natural, mas, se necessário, ser também justificado. O pano de fundo para isso é a imagem de pessoas que podem exigir satisfação umas das outras, que estão envolvidas desde o começo em interações normativamente regradas, e que se encontram umas com as outras em um universo de argumentos públicos. Como elemento do dia a dia, essa perspectiva esclarece a diferença entre o jogo de linguagem da justificação e aquele da mera descrição. Esse dualismo estabelece um limite também para estratégias [13] não reducionistas 8 de explicação. Também elas adotam descrições a partir da perspectiva de um observador, à qual a perspectiva do participante de nossa consciência cotidiana (de que se alimenta também a práxis de justificação da pesquisa) não pode ser ajustada ou subordinada sem violência. Na vida cotidiana, nós dirigimos o olhar a pessoas a que chamamos de "tu". Somente nesta posição em face da segunda pessoa podemos compreender o "sim" e o "não" dos outros, as interpretados como representações falhas — com isso a origem da normatividade teria encontrado uma explicação natural. 7 Detel, Haben Froschen und Sumpfmenschen Gedanken? Einige Probleme der Teleosemantik, p.601-626. 8 Essas estratégias dão conta da complexidade de propriedades que vão surgindo em níveis mais elevados de desenvolvimento (da vida orgânica ou mental), na medida em que evitam descrever processos desses níveis mais elevados com conceitos que servem para níveis menos elevados de desenvolvimento. posições passíveis de crítica que devemos e exigimos uns para com os outros. Essa consciência de uma autoria obrigada a se justificar é o núcleo de uma autocompreensão que se abre apenas na perspectiva de um participante, mas escapa a uma observação científica corretiva. A crença cientificista em uma ciência que possa um dia não apenas complementar, mas substituir a autocompreensão pessoal por uma autodescrição objetivante, não é ciência, é má filosofia. Mesmo o senso comum esclarecido cientificamente não será privado por nenhuma ciência [14] de, por exemplo, julgar como devemos lidar com a vida humana pré-pessoal sob descrições da biologia molecular que tornam possíveis as intervenções da engenharia genética. Tradução cooperativa de conteúdos religiosos O senso comum está entrelaçado, portanto, com a consciência de pessoas que podem tomar iniciativas, cometer erros e corrigi-los. Em oposição às ciências, ele afirma a sua estrutura perspectivística de maneira muito própria. Por outro lado, essa mesma consciência de autonomia, que não é compreensível de forma naturalista, funda a distância em relação a uma tradição religiosa de cujos conteúdos normativos, contudo, também nos nutrimos. Com a exigência de justificativas racionais, o esclarecimento científico parece, por seu turno, trazer para o seu lado um senso comum que firmou seu lugar no edifício — construído segundo o direito racional — do Estado constitucional democrático. Evidentemente, também o direito racional igualitário tem raízes religiosas — raízes naquela revolução do modo de pensar que coincide com a ascensão das grandes religiões mundiais. Mas essa legitimação do direito e da política nos termos do direito racional se alimenta de fontes da tradição religiosa há [15] muito tempo profanadas. Ao contrário da religião, o senso comum democraticamente esclarecido mantém-se sobre bases que são aceitáveis não somente para os membros de uma comunidade religiosa. E por isso que o Estado liberal continua a despertar a suspeita, entre os fiéis, de que a secularização ocidental possa ser uma via de mão única em que a religião será marginalizada. A liberdade religiosa tem como contrapartida, de fato,
  • 5. 5 uma pacificação do pluralismo das visões de mundo cujos custos se mostraram desiguais. Até aqui, o Estado liberal só exige dos que são crentes entre seus cidadãos que dividam a sua identidade, por assim dizer, em seus aspectos públicos e privados. São eles que têm de traduzir as suas convicções religiosas para uma linguagem secular antes de tentar, com seus argumentos, obter o consentimento das maiorias. E assim que, quando querem reclamar o estatuto de portador de direitos fundamentais para os óvulos fecundados fora do corpo materno, os católicos e protestantes procuram hoje (talvez prematuramente) traduzir a imagem e semelhança a Deus da criatura humana para a linguagem secular do direito constitucional. Mas a procura por argumentos voltados à aceitabilidade universal só não levará a religião a ser injustamente excluída da esfera pública, e a sociedade secular só não [16] será privada de importantes recursos para a criação de sentido, caso o lado secular se mantenha sensível para a força de articulação das linguagens religiosas. Os limites entre os argumentos seculares e religiosos são inevitavelmente fluidos. Logo, o estabelecimento da fronteira controversa deve ser compreendido como uma tarefa cooperativa em que se exija dos dois lados aceitar também a perspectiva do outro. A política liberal não deve externalizar o persistente conflito sobre a autocompreensão secular da sociedade, ou seja, deslocando-o para a cabeça dos religiosos. O senso comum democraticamente esclarecido não é algo singular, mas algo que descreve a constituição mental de uma esfera pública com muitas vozes. As maiorias seculares não devem chegar a conclusões, em questões desse tipo, antes de dar ouvidos à objeção dos oponentes que se sentem lesados em suas convicções religiosas; elas devem considerar essa objeção como uma espécie de veto suspensivo e verificar o que podem aprender com isso. No que diz respeito à origem religiosa de seus fundamentos morais, o Estado liberal deveria contar com a possibilidade de que, diante de desafios inteiramente novos, a "cultura do comum entendimento humano" (Hegel) possa não alcançar o nível de articulação da história de seu próprio surgimento. A linguagem do mercado [17] penetra hoje todos os poros, forçando todas as relações entre seres humanos a encaixar-se no esquema de uma orientação autorreferente de acordo com as próprias preferências. No entanto, o vínculo social que se prende ao reconhecimento recíproco não se ajusta aos conceitos do contrato, da escolha racional e da maximização da utilidade.9 Por isso Kant não queria deixar o dever categórico desaparecer sob a onda do interesse autoesclarecido. Ele ampliou a liberdade de arbítrio de modo a abarcar a autonomia e, com isso, forneceu o primeiro grande exemplo — após a metafísica — de uma desconstrução ao mesmo tempo secularizante e salvadora das verdades de fé. A autoridade dos mandamentos divinos tem um eco na validade incondicional dos deveres morais que não pode- mos deixar de escutar. Com o seu conceito de autonomia, Kant certamente destrói a representação tradicional da nossa filiação divina. 10 Mas ele só percebeu as conseqüências mais banais dessa deflação esvaziante através de uma apropriação do conteúdo religioso. Sua tentativa de traduzir o [18] mal radical da linguagem bíblica para a linguagem da religião racional pode parecer- nos pouco convincente. Tal como mostra hoje, uma vez mais, o uso desenfreado dessa herança bíblica, nós ainda não dispomos de um conceito apropriado para a diferença semântica entre o moralmente incorreto e o profundamente mal. Não existe o demônio, mas o anjo caído segue seu curso calamitoso — seja nos bens invertidos da ação monstruosa, seja também no incontornável ímpeto de vingança que o segue de perto. Linguagens seculares que apenas eliminam aquilo em que se acreditava causam perturbação. Quando o pecado se transformou em culpa, e o comportamento contrário aos mandamentos divinos em violação às leis humanas, algo se perdeu. Pois ao desejo de perdão está sempre ligado o desejo não sentimental de desfazer o sofrimento infligido ao outro. O que mais nos perturba a princípio é a irreversibilidade de um sofrimento já ocorrido — aquela injustiça com os inocentes prejudicados, desonrados e 9 Honneth, Kampf um anerkennung. 10 O prefácio à primeira edição de A religião nos limites da simples razão começa com a frase: "Na medida em que está fundada no conceito do ser humano como um ser livre que, justamente por isso, prende-se a si mesmo, através de sua razão, em limites incondicionados, a moral não precisa nem da idéia de um outro ser sobre ele, para reconhecer seus deveres, nem de um outro motivo que não a própria lei". (Kant, Die Religion..., p.649.)
  • 6. 6 assassinados que ultrapassa qualquer [19] possibilidade humana de reparação. A esperança perdida na ressurreição deixa atrás de si um perceptível vazio. O justificável ceticismo de Horkheimer quanto à efusiva esperança de Benjamm na força reparadora da rememoração humana — "os derrotados são realmente derrotados" — não desmente o impulso, ainda que impotente, de ainda mudar algo do que já não pode ser mudado. A troca de correspondência entre Benjamin e Horkheimer data do começo de 1937. Ambos — o verdadeiro impulso e sua impotência — continuaram, após o holocausto, na práxis tão necessária quanto terrível de uma "reelaboração do passado" (Adorno). E é o mesmo impulso que se manifesta, por sinal, na crescente queixa contra a inadequação dessa prática. Os filhos e filhas não religiosos da modernidade parecem acreditar, nesses momentos, que são mais culpados uns em relação aos outros, e mesmo que necessitam de mais do que lhes seria disponível na tradução da tradição religiosa — como se o potencial semântico desta não estivesse esgotado. Filosofia e religião em luta pela herança A história da filosofia alemã desde Kant pode ser compreendida como um processo judicial [20] em que são tratadas essas questões de partilha da herança. A helenização do cristianismo havia conduzido a uma simbiose entre a religião e a metafísica, Kant volta a separá-las. Ele traça um limite preciso entre a fé moral da religião raciona e a fé revelada positiva, que teria conduzido a um melhoramento da alma, mas, "com seus amuletos, estatutos e prescrições", teria acabado por tornar-se "uma amarra".11 Para Hegel, isso é puro "dogmatismo do Esclarecimento". Ele zomba da vitória de Pirro de uma razão que, como os bárbaros vencedores que se subordinam ao espírito da nação vencida, só mantém "a supremacia no que diz respeito à dominação exterior".12 No lugar de uma razão que traça limites, aparece uma razão que toma para si. Hegel faz da morte do filho de Deus na cruz o centro de um pensamento que quer incorporar o conteúdo positivo do cristianismo. O tornar-se homem de Deus simboliza a vida do espírito filosófico. Também o Absoluto tem de externalizar-se no outro de si 11 Kant, Die Religion..., p.785. 12 Hegel, Glauben und Wissen, p.287. mesmo, pois ele só tem a experiência de si como poder absoluto quando se reelabora a partir da dolorosa negatividade da autolimitação. Assim, com efeito, os conteúdos religiosos são [21] superados na forma do conceito filosófico. Mas Hegel sacrifica a dimensão histórica de salvação do futuro em nome de um processo do mundo que gira em torno de si mesmo. Os discípulos de Hegel rompem com o fatalismo dessa desesperadora antevisão de um eterno retorno do mesmo. Eles não querem mais superar a religião no pensamento, mas sim realizar os seus conteúdos profanados através do esforço solidário. Esse pathos de uma efetivação dessublimadora do reino de Deus na Terra move a crítica à religião desde Feuerbach e Marx até Bloch, Benjamin e Adorno: "Nenhum conteúdo teológico permanecerá sem modificação; todos terão de passar pela prova e transformar-se em conteúdos seculares, profanos".13 Nesse meio tempo, o curso da história havia tratado de mostrar que a razão se vê sobrecarregada com esse projeto. Na medida em que, com isso, a razão acaba por desesperar-se consigo mesma, Adorno se socorreu, mesmo que para fins estritamente metodológicos, do ponto de vista messiânico: "a única luz que o conhecimento possui é aquela que a redenção faz brilhar sobre o mundo".14 A esse Adorno se aplica a frase que [22] Horkheimer cunhou para a teoria crítica como um todo: "Ela sabe que Deus não existe, mas ainda assim acredita nele".15 Sob outras premissas, Jacques Derrida (também deste ponto de vista um merecido ganhador do Prêmio Adorno) adota hoje uma posição semelhante. Ele só quer conservar do messianismo "o mais mínimo elemento messiânico, que tem de estar despido de tudo".16 Evidentemente, a região limítrofe entre a filosofia e a religião é um terreno minado. Uma razão que desmente a si mesma cai facilmente na tentação de simplesmente tomar para si a autoridade e o gesto de um sagrado desessencializado, tornado anônimo. Em Heidegger, a devoção (Andacht) se transforma em rememoração 13 Adorno, Vernunft und Offenbarung, p.20. 14 Adorno, Minima Moralia, p.480. 15 Horkheimer, Gesammelte Schriften, v.14, p.508. 16 Derrida, Glauben und Wissen, p.33; cf. também Derrida, Den Tod Geben.
  • 7. 7 (Andenken). Nós não temos qualquer ganho compreensivo, contudo, com a dissolução do Dia do Juízo Final da história bíblica em um acontecimento indeterminado da história do Ser. Quando o pós-humanismo procura realizar-se no retorno aos primórdios arcaicos antes de Cristo e antes de Sócrates, soa a hora do kitsch religioso. As lojas de arte abrem então as suas portas para os altares de todo o mundo, para os [23] padres e xamãs que chegam de todos os lados para a vernissage. Diante disso, a razão profana, mas não derrotista, tem tanto respeito pelo núcleo incandescente que continua a acender-se na questão da teodiceia que prefere não se aproximar demais da religião. Ela sabe que a profanação do sagrado começa com aquelas religiões mundanas que desencantaram o mágico, superaram o mito, sublimaram o sacrifício e desvendaram o mistério. Ela pode guardar distância da religião, portanto, sem fechar-se para as suas perspectivas. O exemplo da engenharia genética Essa atitude ambivalente também pode colocar na direção correta o autoesclarecimento de uma sociedade civil cindida pela luta cultural. A sociedade pós-secular continua na própria religião o trabalho que esta realizou sobre o mito. Não mais, contudo, com o propósito híbrido de uma apropriação hostil, e sim no interesse de, na própria casa, opor algum sentido à entropia sorrateira dos recursos escassos. O senso comum democraticamente esclarecido tem de temer também a indiferenciação mídiática e a trivialização tagarela de todas as diferenças de importância. As emoções morais que até aqui só encontravam [24] uma expressão suficientemente diferenciada na linguagem religiosa podem, agora, adquirir uma ampla repercussão tão logo se estabeleça uma formulação de resgate para algo que quase se perdeu, mas do qual se sente falta implicitamente. Uma secularização não aniquiladora se realiza no modo da tradução. Na controvérsia sobre como lidar com os embriões humanos, por exemplo, muitas vozes se remetem a Moisés I, 27: "Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou". Não é preciso acreditar que Deus, que é amor, atribui a Adão e Eva um ser livre semelhante ao seu, para compreender o que significa algo ser criado à imagem de algo. O amor não pode existir sem o reconhecer-se em um outro, a liberdade não pode existir sem o reconhecimento recíproco. Essa reciprocidade na figura humana, por seu turno, tem de ser livre para poder retribuir a doação de Deus. Apesar de ter sido criado à imagem do primeiro, também o outro, evidentemente, é representado como criatura de Deus. No que diz respeito à sua origem, ele não pode ter nascido juntamente com Deus. Essa criabilidade à imagem de algo expressa uma intuição que, em nosso contexto, também pode dizer algo aos que não se sintonizam com a religião. Hegel tinha uma sensibilidade especial para a diferença entre a "criação" [25] divina e o mero "provir" de Deus.17 Deus só permanece um "Deus de homens livres" na medida em que não desfaçamos a diferença absoluta entre criador e criatura. Até esse ponto, a doação de uma forma por Deus não significa uma determinação que impeça a autodeterminação humana. Esse criador, sendo Deus criador e Deus redentor em um só, não precisa operar segundo leis da natureza, como um técnico, nem segundo regras de um código, como um programador de informática. Desde o princípio, a voz de Deus que conclama à vida se comunica no interior de um universo moralmente sensível. É por isso que Deus pode "determinar" os homens no sentido de que ao mesmo tempo os capacita e os obriga à liberdade. Ora, não é preciso acreditar nas premissas teológicas para entender que, se desaparecesse a diferença assumida no conceito de criação, e no lugar de Deus entrasse um sujeito qualquer, entraria em cena uma dependência de tipo inteiramente não causai. Seria esse o caso, por exemplo, se um homem quisesse interferir na combinação casual [26] dos cromossomos paterno-maternos segundo suas próprias preferências, sem ao menos supor contra-faticamente um consenso com o outro concernido. Esse modo de ver as coisas levanta uma questão de que já tratei em outra parte. O primeiro homem a, determinar um outro em seu ser- assim natural, a seu bel-prazer, não destruiria aquelas mesmas liberdades que existem entre iguais para, assim, assegurar a sua diferença? 17 Muito embora a noção de "emergência" (Emergenz) contraponha ao seu próprio conceito da ideia absoluta, que gera a natureza "a partir de si". Cf. Hegel, Vorlesungen über die Philosophie der Religion, p.55 et seq. e p.92 et seq.