CURSO CIENTÍFICO-HUMANÍSTICO DE CI NCIAS SOCIAIS E HUMANAS
                              GUIA DE ESTUDO
MÓDULO 3 – A ABERTURA EUROPEIA AO MUNDO – MUTAÇÕES NOS CONHECIMENTOS,
              SENSIBILIDADES E VALORES NOS SÉCULOS XV E XVI

O alargamento do conhecimento sobre o mundo e as inovações científico-técnicas
possibilitaram grandes progressos materiais e uma evolução na vida sociocultural.
A fuga de sábios bizantinos para Itália, a imprensa de caracteres móveis e as viagens
dos humanistas, a divulgar as novas ideias por toda a Europa, constituíram um marco
decisivo para a modernidade. Da mesma forma, a empresa dos Descobrimentos
portugueses, tal como a descoberta da América, ajuda a libertar o Homem do
desconhecido e da autoridade dos antigos demonstrando a ideais erróneas destes.
No campo social, destaca-se a ascensão da burguesia, que desorganizou o sistema das
ordens medievais e implantou um novo tipo de Homem.
No campo cultural, evidenciou-se o Humanismo, corrente que conciliou a inspiração
clássica com a consciência e aceitação da modernidade.
O Renascimento é um movimento cultural e artístico que se desenvolve ao longo dos
séculos XV e XVI, apoiado numa casta de nobres ou burgueses de algumas cidades
italianas e da Flandres, filhos do capitalismo comercial da época, que partilhavam o
seu amor pelas belas artes e rivalizavam uns com os outros no apoio aos seus artistas
preferidos. Os Medici e os próprios Papas tornaram os maiores mecenas.
Assiste-se a um intenso período de produção cultural em que se escreve, constrói,
pinta e se esculpe tendo por base a inspiração greco-romana.
Nesta sociedade, o homem tem de estar requintadamente. Eles devem ser pessoas de
bem, cultas e dedicadas. O individualismo explica a ascensão de homens providos de
camadas sociais baixas, mas que devido às suas capacidades se impõem na sociedade
moderna. Estes homens são o exemplo da dissolução da condição social imposta pelo
nascimento. O nobre já não é aquele que tem linhagem e domina exclusivamente o
exercício das armas, o nobre é aquele que cultiva o espírito, que empreende acções
esplendorosas para sobressair face à multidão. Assim se compreende porque é o
Renascimento um movimento elitista.
Os homens do Renascimento desprezam a Idade Média, e valorizam a Antiguidade
Clássica mas, na verdade, e apesar do que os homens deste período pensam sobre si
próprios e sobre os que os precederam, não se verificaram rupturas, vêem-se antes
continuidades. Não prenuncia o estilo gótico final, de que o manuelino constitui o
exemplo português, o Renascimento nas artes? Não prenunciam os movimentos
heréticos medievais, como o dos hussitas, a Reforma Protestante?
Os humanistas, letrados (escritores, filósofos e professores), laicos e religiosos,
desenvolveram para com o saber uma atitude nova de interpretação crítica,
procurando conciliar o pensamento racional e pragmático com a filosofia cristã.
O pensador dos séculos XV e XVI, o humanista, interpreta e comenta os textos
clássicos à luz da razão e do espírito crítico do seu tempo, consciente da modernidade.
O homem e a sua realização plena são o centro das suas preocupações. Ao
teocentrismo medieval, com a sua mórbida preocupação com Deus, com a morte, com
a salvação ou perdição das almas, contrapõem os humanistas a felicidade individual, a
realização total do homem na terra e não num hipotético além-túmulo apesar deste
antropocentrismo colocar o homem no centro do mundo, e de lhe reconhecer
capacidades quase ilimitadas de evolução individual e social, a maioria dos
humanistas não são ateus nem agnósticos. Criam uma nova consciência de Deus,
recusando o Deus castigador medieval.
Os humanistas procuravam a Antiguidade autêntica nos textos originais. A busca de
manuscritos de autores antigos pelas bibliotecas e mosteiros da Cristandade daria
conhecer as obras de muitos clássicos, então redescobertos, como Platão, Aristóteles,
Cícero, Tácito, Virgílio, etc. Os humanistas procuravam ler, traduzir, comentar os
textos clássicos, mas também imitá-los, recriá-los e divulgá-los. De Itália, o
Humanismo difundiu-se por toda a Europa. A produção literária fez-se quer em latim
quer nas línguas nacionais, contribuindo para o seu aperfeiçoamento. As obras de
Rabelais, Camões, Cervantes e Shakespeare contribuem para o desenvolvimento das
respectivas línguas e revelam as paixões e angústias da alma humana e fazendo ecoar
a modernidade.
O Humanista caracteriza-se pelo seu individualismo, espírito crítico e uso sistemático
da razão. Surgem homens que criticam a sociedade vigente e propõem modelos
sociais centrados no homem e na sua felicidade.
O Renascimento é, pois, uma época optimista, onde impera a alegria de viver, pelo
menos entre as elites. Há, pela primeira vez na era cristã, uma confiança nas
capacidades do homem, que se crêem ilimitadas. Liberto de omnipresença divina, o
homem é aquilo que quiser ser, aquilo que construir.
O optimismo ilimitado nas capacidades humanas e na boa natureza dos homens está
assim na raiz de muitos dos mitos modernos, como o de que todos os homens são
naturalmente bons, e de que é a sociedade que se encarrega de os transformar. Estes
ideais humanistas e utópicos fazem sentir a sua influência nas sociedades ocidentais
desde então – o mito do bom selvagem, adoptado por alguns iluministas no século
XVIII, continua a perpetuar-se na actualidade quando nos referimos à inocência de
alguns povos do mundo subdesenvolvido, por oposição a uma sociedade predadora e
corrupta. Esta maneira algo simplista de analisar a sociedade é, de certa forma, uma
permanência da utopia renascentista.
A valorização da experiência, da Razão, do progresso de descoberta do Homem e do
Mundo encontra-se patente nas obras dos humanistas europeus da época. As utopias e
a crítica social constituíram importantes temáticas dessas obras.
Thomas More (1478-1535), humanista inglês, influenciado pela República, de Platão,
escreveu a Utopia. Nesta obra concebeu um mundo ideal, onde havia paz, igualdade e
tolerância entre homens; onde o Homem conseguia vencer os vícios e as paixões e
alcançar a prosperidade.
Na crítica social distinguiu-se Erasmo de Roterdão (1466-1536). A sua obra
caracteriza-se pelo ideal universalista, pelo racionalismo crítico e pela tolerância
religiosa. Na sua obra O Elogio da Loucura alia a ironia à crítica social.
Nicolau Maquiavel (1469-1527) na sua obra O Príncipe, defendia que os homens são
impulsionados pela ambição pessoal e desejo de propriedade material e que era dever
dos governantes manter a segurança dos Estados, não importando os meios
empregues para esse fim.
Da conjugação da Utopia de Thomas More e de Erasmo e da astúcia e pérfida de
Maquiavel nasceram as bases ideológicas dos Estados modernos.
O humanista Rabelais (1494-1553), na sua obra Carta de Gargântua a seu filho
Pantagruel, reflecte os novos ideais pedagógicos do Renascimento. Gargântua
apresenta um plano de educação para o seu filho, baseado num conhecimento
enciclopédico que incluía o estudo dos clássicos e o contacto com a Natureza que lhe
possibilitaria o conhecimento do Homem.
Também o humanista francês Montaigne (1533-1592) considerava que, na educação,
mais importante do que adquirir conhecimentos era saber discernir, julgar, duvidar e
criticar até mesmo a autoridade dos clássicos, em suma, exercer livremente o
pensamento e a Razão.

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  • 1. CURSO CIENTÍFICO-HUMANÍSTICO DE CI NCIAS SOCIAIS E HUMANAS GUIA DE ESTUDO MÓDULO 3 – A ABERTURA EUROPEIA AO MUNDO – MUTAÇÕES NOS CONHECIMENTOS, SENSIBILIDADES E VALORES NOS SÉCULOS XV E XVI O alargamento do conhecimento sobre o mundo e as inovações científico-técnicas possibilitaram grandes progressos materiais e uma evolução na vida sociocultural. A fuga de sábios bizantinos para Itália, a imprensa de caracteres móveis e as viagens dos humanistas, a divulgar as novas ideias por toda a Europa, constituíram um marco decisivo para a modernidade. Da mesma forma, a empresa dos Descobrimentos portugueses, tal como a descoberta da América, ajuda a libertar o Homem do desconhecido e da autoridade dos antigos demonstrando a ideais erróneas destes. No campo social, destaca-se a ascensão da burguesia, que desorganizou o sistema das ordens medievais e implantou um novo tipo de Homem. No campo cultural, evidenciou-se o Humanismo, corrente que conciliou a inspiração clássica com a consciência e aceitação da modernidade. O Renascimento é um movimento cultural e artístico que se desenvolve ao longo dos séculos XV e XVI, apoiado numa casta de nobres ou burgueses de algumas cidades italianas e da Flandres, filhos do capitalismo comercial da época, que partilhavam o seu amor pelas belas artes e rivalizavam uns com os outros no apoio aos seus artistas preferidos. Os Medici e os próprios Papas tornaram os maiores mecenas. Assiste-se a um intenso período de produção cultural em que se escreve, constrói, pinta e se esculpe tendo por base a inspiração greco-romana. Nesta sociedade, o homem tem de estar requintadamente. Eles devem ser pessoas de bem, cultas e dedicadas. O individualismo explica a ascensão de homens providos de camadas sociais baixas, mas que devido às suas capacidades se impõem na sociedade moderna. Estes homens são o exemplo da dissolução da condição social imposta pelo nascimento. O nobre já não é aquele que tem linhagem e domina exclusivamente o exercício das armas, o nobre é aquele que cultiva o espírito, que empreende acções esplendorosas para sobressair face à multidão. Assim se compreende porque é o Renascimento um movimento elitista. Os homens do Renascimento desprezam a Idade Média, e valorizam a Antiguidade Clássica mas, na verdade, e apesar do que os homens deste período pensam sobre si próprios e sobre os que os precederam, não se verificaram rupturas, vêem-se antes continuidades. Não prenuncia o estilo gótico final, de que o manuelino constitui o exemplo português, o Renascimento nas artes? Não prenunciam os movimentos heréticos medievais, como o dos hussitas, a Reforma Protestante? Os humanistas, letrados (escritores, filósofos e professores), laicos e religiosos, desenvolveram para com o saber uma atitude nova de interpretação crítica, procurando conciliar o pensamento racional e pragmático com a filosofia cristã. O pensador dos séculos XV e XVI, o humanista, interpreta e comenta os textos clássicos à luz da razão e do espírito crítico do seu tempo, consciente da modernidade. O homem e a sua realização plena são o centro das suas preocupações. Ao teocentrismo medieval, com a sua mórbida preocupação com Deus, com a morte, com a salvação ou perdição das almas, contrapõem os humanistas a felicidade individual, a realização total do homem na terra e não num hipotético além-túmulo apesar deste antropocentrismo colocar o homem no centro do mundo, e de lhe reconhecer capacidades quase ilimitadas de evolução individual e social, a maioria dos
  • 2. humanistas não são ateus nem agnósticos. Criam uma nova consciência de Deus, recusando o Deus castigador medieval. Os humanistas procuravam a Antiguidade autêntica nos textos originais. A busca de manuscritos de autores antigos pelas bibliotecas e mosteiros da Cristandade daria conhecer as obras de muitos clássicos, então redescobertos, como Platão, Aristóteles, Cícero, Tácito, Virgílio, etc. Os humanistas procuravam ler, traduzir, comentar os textos clássicos, mas também imitá-los, recriá-los e divulgá-los. De Itália, o Humanismo difundiu-se por toda a Europa. A produção literária fez-se quer em latim quer nas línguas nacionais, contribuindo para o seu aperfeiçoamento. As obras de Rabelais, Camões, Cervantes e Shakespeare contribuem para o desenvolvimento das respectivas línguas e revelam as paixões e angústias da alma humana e fazendo ecoar a modernidade. O Humanista caracteriza-se pelo seu individualismo, espírito crítico e uso sistemático da razão. Surgem homens que criticam a sociedade vigente e propõem modelos sociais centrados no homem e na sua felicidade. O Renascimento é, pois, uma época optimista, onde impera a alegria de viver, pelo menos entre as elites. Há, pela primeira vez na era cristã, uma confiança nas capacidades do homem, que se crêem ilimitadas. Liberto de omnipresença divina, o homem é aquilo que quiser ser, aquilo que construir. O optimismo ilimitado nas capacidades humanas e na boa natureza dos homens está assim na raiz de muitos dos mitos modernos, como o de que todos os homens são naturalmente bons, e de que é a sociedade que se encarrega de os transformar. Estes ideais humanistas e utópicos fazem sentir a sua influência nas sociedades ocidentais desde então – o mito do bom selvagem, adoptado por alguns iluministas no século XVIII, continua a perpetuar-se na actualidade quando nos referimos à inocência de alguns povos do mundo subdesenvolvido, por oposição a uma sociedade predadora e corrupta. Esta maneira algo simplista de analisar a sociedade é, de certa forma, uma permanência da utopia renascentista. A valorização da experiência, da Razão, do progresso de descoberta do Homem e do Mundo encontra-se patente nas obras dos humanistas europeus da época. As utopias e a crítica social constituíram importantes temáticas dessas obras. Thomas More (1478-1535), humanista inglês, influenciado pela República, de Platão, escreveu a Utopia. Nesta obra concebeu um mundo ideal, onde havia paz, igualdade e tolerância entre homens; onde o Homem conseguia vencer os vícios e as paixões e alcançar a prosperidade. Na crítica social distinguiu-se Erasmo de Roterdão (1466-1536). A sua obra caracteriza-se pelo ideal universalista, pelo racionalismo crítico e pela tolerância religiosa. Na sua obra O Elogio da Loucura alia a ironia à crítica social. Nicolau Maquiavel (1469-1527) na sua obra O Príncipe, defendia que os homens são impulsionados pela ambição pessoal e desejo de propriedade material e que era dever dos governantes manter a segurança dos Estados, não importando os meios empregues para esse fim. Da conjugação da Utopia de Thomas More e de Erasmo e da astúcia e pérfida de Maquiavel nasceram as bases ideológicas dos Estados modernos. O humanista Rabelais (1494-1553), na sua obra Carta de Gargântua a seu filho Pantagruel, reflecte os novos ideais pedagógicos do Renascimento. Gargântua apresenta um plano de educação para o seu filho, baseado num conhecimento enciclopédico que incluía o estudo dos clássicos e o contacto com a Natureza que lhe possibilitaria o conhecimento do Homem. Também o humanista francês Montaigne (1533-1592) considerava que, na educação, mais importante do que adquirir conhecimentos era saber discernir, julgar, duvidar e
  • 3. criticar até mesmo a autoridade dos clássicos, em suma, exercer livremente o pensamento e a Razão.