LIVRO: O TEMPO EM UBERABA, de Guido Bilharinho
DRAENERT
3
Copyright ©
Draenert, Frederico Maurício
D793t O Tempo em Uberaba / Frederico Maurício Draenert. --
Uberaba, Brasil: Revista Dimensão Edições, 2018.
54 p.
1. Cientistas - Biografia. 2. Draenert, Frederico Maurício,
1838-1903 - Biografia. 3. Uberaba (MG) - Clima. I. Título.
CDD 925
Ficha catalográfica elaborada por
Sônia Maria Resende Paolineli - Bibliotecária CRB-6/1191
Organização e
Planejamento Gráfico
Guido Bilharinho
(guidobilharinho@yahoo.com.br)
Capa
Guido Bilharinho
Edição
Revista Dimensão Edições
Caixa Postal 140
38001-970 − Uberaba/Brasil
Editoração Gráfica
Gabriela Resende Freire
4
SUMÁRIO
NOTA EDITORIAL
Nota Editorial............................................................................ 5
NOTA PRELIMINAR
Draenert - 1º Climatologista do Brasil..................................... 6
BIOGRAFIA
Frederico Maurício Draenert – Um Gênio Alemão em Uberaba
Descobridor da Bactéria no Reino Vegetal...................... 9
Precursor do Ensino Agrícola Superior no Brasil............10
Pioneiro da Climatologia no Brasil.................................. 11
Draenert em Uberaba.......................................................12
A Resistência Heróica.......................................................13
Meteorologista e Climatologista.......................................13
Ensaios Biográficos..........................................................14
Os Mil Artigos...................................................................15
O TEMPO EM UBERABA
O Tempo em Uberaba.................................................................19
5
NOTA EDITORIAL
O ensaio científico O Tempo em Uberaba, do sábio alemão
Frederico Maurício Draenert, é considerado o melhor estudo
sobre o clima subtropical. Nesta edição, o texto é antecedido
pelos registros efetuados por dois dos maiores especialistas em
Meteorologia e Geografia no Brasil, respectivamente J. de
Sampaio Ferraz e José Veríssimo da Costa Pereira, extraídos
de suas monografias publicadas na monumental As Ciências
no Brasil, obra organizada por um dos luminares da cultura
brasileira, Fernando Azevedo.
Precede ainda o texto do ensaio de Draenert sintética
biografia, informando alguns fatos significativos de sua vida e
ressaltando suas obras científicas e os mais de mil artigos que
publicou.
O Editor
6
NOTA PRELIMINAR
Draenert - 1º Climatologista do Brasil
“Como vimos pela súmula das séries climatográficas
brasileiras do século XIX (representativas do impulso inicial,
mais esparso, da atividade meteorológica no país), vários
climas regionais mereceram estudos particularizados, aqui e
no estrangeiro. A ciência da atmosfera [no Brasi] deve muito a
esses pioneiros e desbravadores – os autores destas primeiras
análises. Dois deles se destacaram sobremaneira por
remarcável pluralismo, explanando e discutindo com
proficiência o clima de várias zonas, províncias, se não de
maiores extensões do território nacional. Queremos referir-nos
a Draenert, alemão, porém, com longa residência no país [....]
Draenert foi o nosso primeiro climatologista, no sentido de
lher haver cabido a primazia de descrever e discutir o clima
brasileiro em conjunto. Seus esboços iniciais foram divulgados
na Revista de Engenharia (1885 – 1888), e, mais tarde, revistos
e reunidos na brochura preciosa de 1896, sob o título O Clima
no Brasil.”
*
“Com a multiplicação de postos meteorológicos no
território nacional, sobretudo nos últimos dois decênios do
século XIX, surgiram as referências à necessidade da previsão
do tempo. Draenert e Loefgren, por exemplo, chegaram a
deduzir regras simples para o prognóstico do tempo local, e já
7
encaravam a possibilidade de basear a previsão nas
observações de pequenos conjuntos de postos.”
*
“O problema [dos agentes atmosféricos responsáveis pelas
estiagens aperiódicas], que desafiara outrora Pompeu de
Sousa, Grisebach, Draenert, Voss, Osvaldo Weber e outros, se
apresentava mais acessível em 1924, em virtude do maior
conhecimento, então, da circulação atmosférica.”
*
“Neste modesto esboço histórico da Meteorologia no
Brasil, destacam-se os marcos seguintes: [....]
5) Draenert, valendo-se da crescente acumulação de
dados meteorológicos, consegue traçar os primeiros esboços
do clima brasileiro, abrindo senda logo trilhada por outros
eminentes climatologistas (1885-1888).”
(J. DE SAMPAIO FERRAZ, “A Meteorologia no Brasil”, in As Ciências no
Brasil, organização de Fernando Azevedo. São Paulo, edições
Melhoramentos, s/d., vol. I, p. 220, 223, 227 e 237).
“...Sobre clima, destacaram-se, em fins do século passado
[XIX], os primeiros estudos de climatologia do Brasil, devidos
a M. F. Draenert, e o trabalho de Luís Cruls acerca do clima do
Rio de Janeiro (1892), além do esboço de uma climatologia do
país, do qual foi autor Henrique Morize (1891).”
(JOSÉ VESÍSSIMO DA COSTA PEREIRA, “A Geografia no Brasil”, in op.
cit., vol. I, p. 378).
8
BIOGRAFIA
9
FREDERICO MAURÍCIO DRAENERT
Um Gênio Alemão em Uberaba
Guido Bilharinho
Frederico Maurício Draenert inclui-se entre os quatro
europeus que mais fizeram ou contribuíram para o progresso de
Uberaba no século XIX, sendo os demais, pela ordem de
chegada à cidade, Antônio Borges Sampaio (português),
Henrique Raimundo des Genettes (francês) e frei Eugênio
Maria de Gênova (italiano).
Draenert, segundo seu biógrafo, Militino Pinto de
Carvalho, nasceu em Weimar, Alemanha, em 1838, formando-
se em ciências físicas e naturais. Iniciou-se no magistério,
lecionando em Macklenburg e Hamburgo. A convite do barão de
Paraguaçu, então cônsul do Brasil nesta última cidade, veio para
o Brasil em 1865 a fim de educar os filhos de rico agricultor
baiano.
Descobridor da Bactéria no Reino Vegetal
Por essa ocasião grassou na Bahia uma moléstia na cana
de açúcar, ensejando a Draenert estudos atinentes ao fato,
descobrindo, em 1868, a existência da bactéria no reino vegetal
10
e publicando suas conclusões no Jornal da Bahia e em outros
periódicos nacionais e estrangeiros.
Precursor do Ensino Agrícola Superior no Brasil
Em 1869, junto com os cientistas Louis Moreau e Louis
Jacques Brunet, e sob chefia deste, foi encarregado de montar a
Escola Agrícola da Bahia, a primeira do gênero no país,
inaugurada em 1877. Nessa época, foi à Europa, onde se casou,
voltando para assumir na referida escola as cadeiras de física,
química, mineralogia e tecnologia agrícola e para organizar e
dirigir seus laboratórios, museu e campo de experimentação.
Além dessas atividades, escreveu diversas monografias, entre as
quais O Fabrico do Açúcar Pela Difusão e Meteorologia.
Em 1887, convidado pelo então ministro da Agricultura,
integrou a equipe de cientistas encarregada de organizar
instruções para aplicação à cana de açúcar do processo de
difusão, redigindo, segundo outro de seus biógrafos, Jesuíno
Felicíssimo Júnior, sete dos onze capítulos do relatório final.
Após a conclusão do trabalho, Draenert foi designado
adido do Ministério e posteriormente consultor técnico,
publicando nesse período os ensaios Relatório Sobre a
Viticultura no Brasil e Os Vinhos Nacionais na Primeira
Exposição de Açúcar e Vinhos.
Em 1891, o governo federal contratou o naturalista alemão
Franz W. Dafer, que já havia organizado e dirigido
anteriormente a Estação Agronômica de Campinas, para
11
elaborar o estatuto da escola científica de vinicultura do Estado
de São Paulo, encargo que desempenhou juntamente com
Draenert.
A par disso, Draenert dedicou-se a traduzir, sob contrato
do governo, a obra Die Tropische Agrikultur, somente
terminada em 1901, em Uberaba.
Pioneiro da Climatologia no Brasil
Os estudos climatológicos do Brasil efetuados por
Draenert, além de pioneiros – seu livro O Clima no Brasil foi
citado por Euclides da Cunha em Os Sertões (2ª parte, “O
Homem”, cap. I) – constituíram a base sobre a qual toda a
ciência climatológica brasileira se desenvolveu, conforme
depuseram eminentes estudiosos da matéria:
“Draenert foi o nosso primeiro climatologista, no sentido
de lhe haver cabido a primazia de descrever e discutir o clima
brasileiro em conjunto [....] Neste modesto esboço histórico da
meteorologia no Brasil, destacam-se os marcos seguintes [....]
Draenert, valendo-se da crescente acumulação de dados
meteorológicos, consegue traçar os primeiros esboços do clima
brasileiro, abrindo senda logo trilhada por outros eminentes
climatologistas” (J. de Sampaio Ferraz, “A Meteorologia no
Brasil”, in As Ciências no Brasil, vol. I, p. 220 e 237).
“Nos fins do século XIX e no século atual [XX], pelo
menos até meados deste, tais investigações [sobre meteorologia
e clima] ainda se encontravam em fase de bastante atraso, não
12
obstante a existência de contribuições isoladas. Dentre elas,
sobre clima, destacaram-se, em fins do século passado [XIX],
os primeiros estudos de climatologia do Brasil, devidos a M.F.
Draenert” (José Veríssimo da Costa Pereira, “A Geografia no
Brasil”, in As Ciências no Brasil, vol. I, p. 378).
Draenert em Uberaba
Em 1896, preparou para o governo de Minas Gerais os
textos legais e o estatuto destinados à implantação do ensino
agrícola no Estado nas áreas agronômicas e zootécnicas. Nesse
mesmo ano, foi convidado pelo referido governo, chefiado por
Crispim Bias Fortes, para dirigir o Instituto Zootécnico de
Uberaba e lecionar botânica e agronomia, cargos assumidos em
dezembro do referido ano, do primeiro dos quais foi
posteriormente exonerado, permanecendo, porém, como
professor até agosto de 1898, quando a instituição, por ato
mesquinho do então governador Silviano Brandão e de seu
secretário de agricultura Américo Werneck, foi fechada por
meio de simples telegrama, não obstante ter sido criada pela lei
estadual nº 41, de 03 de agosto de 1892, de autoria do então
deputado Alexandre de Sousa Barbosa. Essa medida, de acordo
com José Mendonça (História de Uberaba, p. 109), constituiu
represália à campanha iniciada em Uberaba contra a criação do
imposto territorial de três por cento sobre o valor das terras,
campanha que resultou na formação do clube da Lavoura e
Comércio, de onde originou o jornal Lavoura e Comércio,
13
fundado em 6 de julho de 1899, sob a direção de Antônio Garcia
Adjuto.
A Resistência Heróica
Draenert, asseverou Jesuíno Felicíssimo Júnior, que “era
homem de alta corpulência, de gênio violento, costumes
austeros, honestidade ilibada, excessivamente organizado”,
opôs-se tenazmente à extinção do estabelecimento, deflagrando
no Diário de Minas campanha contra o governo estadual.
Recusando-se a desocupar a residência oficial não só por falta
de ato legal da extinção do estabelecimento como para não
interromper as observações meteorológicas que fazia
gratuitamente para a nação com utilização do posto e
instrumentos do governo mineiro, sem o que seria impossível
prossegui-los, foi despejado, em setembro de 1899, mediante
medida judicial e força policial. Não satisfeito em destruir o
instituto, o governo mineiro ainda prejudicou uma das maiores
atividades científicas do país e humilhou um dos mais notáveis
cientistas do mundo.
Meteorologista e Climatologista
Nas observações e análises meteorológicas de Uberaba que
promoveu no período de 1897 a 1900, Draenert continuou a
tradição iniciada por des Genettes (desde provavelmente 1853)
e frei Eugênio Maria de Gênova (1856-1871), prosseguida por
14
frei Germano d’Annecy (1879-1885) e Borges Sampaio (1881-
1896, cujos resultados, de 1892 a 1896, constam de seu livro
Uberaba: História, Fatos e Homens, p. 206 e 207), e mantida
por diversos outros meteorologistas, entre os quais, Luís Marcos
Duarte Nunes Filho (1903-1906), irmão marista Vilberto (1914-
1915) e José Alves Pinto (1931-1933).
Nesse mister, como era de seu feitio, Draenert escreveu
três ensaios, O Clima do Planalto Central do Brasil, O Tempo
em Uberaba (este publicado no Almanaque Uberabense para o
ano de 1903 e considerado o mais profundo estudo sobre o
clima subtropical) e O Tempo Provável em Uberaba (1904) e
ainda, revelou Jesuíno Felicíssimo Júnior, nada menos de cento
e setenta artigos referentes à climatologia e aproximadamente
outros oitocentos sobre mais de noventa temas de sua
especialidade e interesse, estes, desde alemães no Brasil,
política trabalhista, terrorismo, espiritualismo, religião,
alcoolismo, memórias e germanismo no Brasil, desenvolvidos
no período de 1868 a setembro de 1903, quando faleceu.
Ensaios Biográficos
Em seus últimos anos de vida, transcorridos em grandes
dificuldades financeiras, Draenert residiu na rua Olhos d’Água,
posteriormente rua Draenert e depois, como é vezo das
administrações municipais, submetida a outra denominação.
A seu respeito, além das citações e referências encontradas
na obra de Hildebrando Pontes (História de Uberaba, p. 278,
15
304, 351 a 356, pelo menos), existem dois ensaios biográficos,
“Traços Biográficos do Dr. Frederico Maurício Draenert”, de
Militino Pinto de Carvalho, publicado no Almanaque
Uberabense para o ano de 1905, longamente citado por José
Mendonça em sua História de Uberaba (p. 217 a 220) e
republicado no número 03, do segundo semestre de 1972, da
revista Convergência, órgão da Academia de Letras do
Triângulo (ALT), e “Draenert, Precursor do Ensino Agrícola
Superior no Brasil”, de Jesuíno Felicíssimo Júnior, escrito
especialmente para o citado número de Convergência.
Os Mil Artigos
Nesse último e notável ensaio constou relação de todos os
assuntos abordados por Draenert em seus aproximadamente
mil artigos, com os respectivos números de trabalhos e, ainda, o
levantamento quantitativo anual de sua copiosa produção de
1868 a 1903, que revelou a diversidade de seu interesse e a
abrangência de seus conhecimentos, além de que os anos
passados em Uberaba foram os mais produtivos:
“Essa notável contribuição, mal aproveitada pelos
agricultores da época, por motivos vários, pode ser assim
distribuída: climatologia, 170; indústrias agrícolas, 130;
assuntos diversos 60; tecnologia de alimentos, 60; culturas
específicas, 60; alemães no Brasil, 50; moléstias vegetais, 30;
núcleos coloniais, 30; química agrícola, 30; zootecnia, 30;
fermentos e fermentações, 25; estatística e economia rural, 20;
16
política agrícola, 20; engenharia agrícola, 20; fertilizantes,
20; forragens, 20; viticultura, 15; espiritualismo, 15;
polêmicas científicas, 15; drenagem e irrigação, 15; fruti-
horticultura, 15; solos e avaliação de solos, 15; economia
política, 15; ensino agrícola, 15; custeio agrícola, 10;
sociedades e congressos, 10; colheitas, 10; higiene, 10;
ensilagem, 8; notícias agrícolas, 8; moléstias animais, 8;
religião, 8; medicina agrícola, 8; bibliografia, 8; crítica, 8;
mercado exterior, 6; insetos nocivos, 6; evolução agrícola, 6;
demissão do Instituto Zootécnico de Uberaba, 6; centros
culturais, 6; práticas agrícolas, 6; pequena propriedade, 5;
inseticidas, 5; física, 5; energia, 5; indústria pastoril, 5;
homenagens, 5; turfa, 4; sabões, 4; metabolismo vegetal, 4;
mercado interno, 4; títulos honoríficos, 4; forrageiras novas,
3; culturas de fibras, 3; rações balanceadas, 3; enxertias, 3;
cruzamento de cereais, 3; análises, 3; abastecimento de águas
e esgotos, 3; aves e animais domésticos, 3; bacteriologia, 3;
alcoolismo, 3; política trabalhista, 2; cientistas, 2; florestas, 2;
fisiologia, 2; vinhos, 2; anil, 2; superstição médica, 2;
memórias, 2; botânica, 2; falsificação de produtos, 2;
geologia, 2; teoria da nutrição, 2; crise agrícola, 2;
nitrificação, 2; origem das coisas, 1; expedições científicas, 1;
puericultura, 1; minhocas, 1; prognóstico de safra, 1;
agricultura tropical, 1 agricultura intertropical, 1; discurso, 1;
madeiras, 1; beligerância, 1; culinária, 1; imposto agrícola, 1;
terrorismo, 1; exaltação agrícola, 1, e, finalmente, germanismo
no Brasil, 1.
17
No tempo, esses trabalhos foram realizados entre 1868 e
1903, perfazendo um período de 38 anos, assim ordenados: 1–
1868; 1–69; 1–75; 5–79; 8–80; 16–81; 25–82; 48–83; 45–84;
46–85; 43–86; 28–87; 52–88; 50–89; 10–90; 12–91; 1–92;
11–93; 6–94; 20–95; 1–96; 70–97; 102–98; 46–99; 77–1900;
136–01; 186–02 e 53–03.
É óbvio que tanto a classificação dos assuntos tratados
quanto sua distribuição anual estão sujeitos à correção,
porque o autor desta bio-bibliografia não pôde compulsar
mais de 20% dos artigos que compõem a imensa e preciosa
produção editada de Draenert.”
Editar esses artigos em livro de papel e/ou eletrônico,
quem há de?
(de Personalidades Uberabenses.
Uberaba, Revista Dimensão Edições, 2014 )
18
Edição Inaugural do Almanaque Uberabense
19
O TEMPO EM UBERABA
Quase todo o mundo se ocupa do tempo. E principalmente
os agricultores, cuja profissão depende dele, que esperam chuva
ou dias de sol conforme o estado de suas culturas.
Pelo mais que se saiba do tempo e para completar e
utilizar as regras que vamos expor, necessário o conhecimento
das regras do tempo locais1.
Em toda a parte se as encontra na população, e
nomeadamente as profissões que se exercem ao ar livre e que
dependem do tempo, são ricas de ditos empíricos desta espécie.
Qualificar soberanamente de superstição semelhantes
regras, seria tão errôneo como aplicá-las sem critério algum.
Muitas vezes se manifesta nestas opiniões baseadas na
coloração do céu, na forma das nuvens, no procedimento dos
animais, etc., a experiência de muitas gerações, porém também
não é raro, que nelas se revele uma experiência mal
compreendida, e quem quiser utilizar semelhante tradição deve
antes examinar pela própria experiência. Neste caso será
necessário, para evitar de enganar-se, a tomar nota por escrito
de cada realização ou falha de uma correlação suposta e de
examinar estas notas depois de um tempo decorrido,
suficientemente longo. Desta maneira se pode reconhecer o
resultado livre de qualquer opinião preconcebida.
E ainda mais importante do que as regras empíricas é para
aquele, que quiser prever o tempo, a própria observação local e
1
Os termos em itálico constam do original.
20
o conhecimento do clima da respectiva região. Disto vamos
tratar nas seguintes linhas.
Ainda abrimos um parênteses neste prefácio para ilustrar
o que acabamos de dizer.
Já há muitos anos tivemos ocasião a refutar na Bahia a
crença geral da influência da lua sobre o tempo. Disse-nos
abastado senhor de engenho: o tempo muda com a lua. Cada
vez, que esta regra não se verificava, chamávamos a sua atenção
para este fato. Afinal nos disse, não querendo dar-se por
convencido: sim, tem razão, mas o tempo muda com a lua ou
um a três dias antes ou depois. Agora dá certo, exclamamos,
porque 3 dias antes e mais 3 dias depois com o dia da fase da
lua da sete dias e de sete em sete dias temos nova fase da lua.
Ainda duvidou o nosso oponente. Mais tarde tivemos ocasião de
apostar com um amigo a respeito e ganhamos a aposta.
O povo espera chuva, quando entram na sala muitos
insetos, besouros, bruxas e mariposas, que esvoaçam em redor
da luz do candeeiro. Isto é indicio certo da chuva nos dias
seguintes. Os insetos têm instinto fino para vencer na luta pela
existência. Muitos deles passam o estado de larva ou crisálida
no solo e morreriam afogados pela chuva, estando próximos a
metamorfosear-se. Outrossim as formigas antes de chover,
particularmente as de “correição”, começam a andar em fileiras,
procurando lugares mais elevados, às vezes árvores, embora
temporiamente, para escapar a morte de asfixia na água.
21
I
Conforme o uso aceito admitimos duas estações no ano, a
seca e a chuvosa, segundo as quais o lavrador regula as suas
culturas, ainda que não coincidam bem com a subdivisão em
quatro estações geralmente aceita pelos metereologistas, a
saber: a primavera que compreende em nosso hemisfério
meridional os meses de setembro, outubro e novembro, o verão
ou estio nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, o outono,
que inclui o março, abril e maio e afinal o inverno nos meses de
junho, julho e agosto.
Segundo as nossas observações a estação seca vai de abril
até setembro, inclusive, se bem que às vezes, mas não sempre,
ainda caem quantidades de chuva notáveis nos meses de abril e
setembro. Pelas mesmas observações nossas durante quatro
anos calculamos, na média, em setenta milímetros no abril e em
quarenta milímetros no setembro a quantidade de chuva nestes
meses, a qual é pequena. Resulta, pois, destas e de outras
observações, que o setembro é um mês seco, com raras exceções
– um aviso para os uberabenses, que quase sem exceção alguma
começam a plantar milho e feijão neste mês, perdendo quase
sempre o seu trabalho e tendo de refazer as suas lavouras com
as primeiras águas da estação chuvosa, que dura de outubro
até o fim de março.
Os meses de maio a agosto, inclusive, sempre são secos e
muito perniciosos para a renda da indústria pastoril neste tão
abençoado clima do planalto central do Brasil, em virtude da
falta absoluta de prevenção da população rural, porque as
22
necessárias medidas preventivas facilmente e com poucas
despesas se executam; trate-se só da irrigação artificial, visto
que abundantes fontes, cursos de ribeiros e rios em parte
alguma faltam neste planalto de ricas aguadas.
Agosto, o ultimo mês do inverno é o mais seco com a
medida de 55 por cento de umidade relativa. Nesta estação,
porem, e principalmente no mesmo mês, se observa seca muito
maior, em geral do meio-dia até 2 e 3 horas da tarde, v. g. 22
por cento de umidade relativa no agosto de 1898, a mínima
observada durante quatro anos. Porém em todos os meses do
inverno (junho, julho e agosto) e nos dois primeiros meses da
primavera (setembro e outubro) se observam nas mesmas horas
do dia umidade relativas de 22 a 43 por cento.
Não obstante toda esta secura do ar o cultivo das
hortaliças, da batata, batatinha, da cana de açúcar, até dos
cereais e do feijão prospera por excelência nesta estação seca
com a irrigação artificial, como já foi provado exuberantemente.
Uma ou outra destas culturas, principalmente a da cana de
açúcar, ás vezes são prejudicadas pelas geadas.
Maio e julho são os meses em que a geada aparece mais
frequentemente; cinco a seis vezes foi observada nestes meses
durante os quatro anos. As três geadas em agosto tiveram lugar
aos 18 deste mês de 1898 e em 11 e 12 do mesmo no ano de
1900, isto é, pelo menos, as duas últimas na primeira metade
deste mês e aquela ao começo da segunda metade, em uma
época em que o nevoeiro seco ainda não cobria tão densa e
geralmente quase durante todo o dia esta região, ou quando,
23
como aos 15 e 16 de agosto de 1898, tiver sido espalhado e
rechaçado por um forte vento de norte e mais tarde de sudoeste.
É muito difícil e às vezes completamente impossível
distinguir neste planalto a neblina do nevoeiro seco (fumaça),
principalmente no tempo, em que o último aparece, a saber, do
meado de agosto até o começo ou meado de outubro. A causa do
nevoeiro seco é, como é sabido, a queima dos campos, pastos e
roçados pelo fim da estação seca e o seu efeito é, o que é pouco
sabido, de impedir a formação das geadas, que além disto
seriam muito mais frequentes nesta estação.
O mesmo efeito produzem as neblinas. Elas são mais
frequentes na estação seca, isto é, nos dois últimos meses do
outono (abril e maio) e no inverno, de 4 a 10 vezes por mês e,
então, principalmente nos vales, mui mais raramente nos
lugares mais elevados, sendo então neblinas gerais. Estas se
apresentam só uma a 2 vezes por mês. Nos vales podem,
portanto, contribuir um tanto para refrescar as plantas, e os
pastos à margem dos riachos e rios estão quase sempre verdes
durante todo o ano, oferecendo rara e insuficiente nutrição às
numerosas manadas alimentadas exclusivamente no pasto...
As saraivadas (granizadas, chuvas de pedra) são raras
felizmente. Durante os quatro anos somente foram observadas
11 saraivadas. As pedras de gelo em geral são pequenas e caem
em pequena quantidade ao começo de uma chuva de trovoada.
Sendo, pois, os granizos miúdos, nenhum dano causam nas
culturas dos arredores de Uberaba. Todavia, aos 26 de abril de
1902 às 6 e meia da noite desabou sobre Uberaba e arredores
24
uma granizada grossa, que durou quase um quarto de hora. Foi
o princípio de uma trovoada com vento forte do sul e a chuva de
granizos, foi seguida por um forte aguaceiro e chuva posterior.
Os granizos tinham o tamanho de grandes grãos de milho.
Durante cinco anos não tem havido saraiva tão grossa e tão
prolongada, que causasse tantos danos como esta. Tristíssimo
foi o aspecto e o prejuízo das culturas. As mandiocas perderam
a maior parte das folhas cortadas pelos granizos grossos, os pés
de milho e as canas tiveram as folhas rasgadas e não houve
fruteira que escapasse; todas elas perderam muitas folhas.
Contudo as mesmas culturas se refizeram posteriormente.
A estação seca, particularmente o inverno, é o temo da
safra da cana de açúcar. Difícil é marcar o mês mais próprio
para a colheita da cana, à vista das geadas que já ocorrem às
vezes em maio, mas certo é, sendo as canas seriamente
prejudicadas pela geada, que é, então, tempo para cortá-las sem
demora, antes que se dê a inversão da sacarose cristalizável em
glucos e levulose incristalizáveis, que fermentam e só servem
para o fabrico de aguardente e do álcool.
A estação seca nos traz os dias mais belos e mais
agradáveis, os verdadeiros dias do sol e noites de luar, embora
seja a estação mais fria.
De especial importância para a vegetação como fator
climatológico é a probabilidade de chuva, que é muito pequena
na estação seca; ela varia de 0,03 em agosto até 0,23 no abril,
isto é, de, quando muito, um dia com 11 milímetros de chuva, no
máximo, até sobre 5 dias – quatro dias de bom tempo – um dia
25
com 10 milímetros de chuva. A probabilidade da chuva desta
estação de seis meses é de 0.12, na média, a saber, em dez dias
se pode contar 9 dias de tempo de sol e com 1 dia de quase 9
milímetros de chuva.
O conhecimento do número dos dias de chuva com 0.5
milímetros de chuva e mais, assim como a probabilidade de
chuva calculada destes dados, é particularmente importante
para o agricultor, porque daí resulta o ensinamento que a
lavoura do campo, arar, adubar e semear, pode começar em
outubro com 0,35 probabilidade de chuva, isto é, com um dia
de chuva e dois dias de sol durante o pequeno período de três
dias, um tempo que habilita o lavrador a arar o solo com
charrua, grade e rolo, depois de ter sido suficientemente
molhado e afrouxado pela chuva.
A nebulosidade ou anuviamento nesta estação seca,
também é pequena, ela varia na média mensal de 0.28, o
mínimo, no mês de julho a 0.48, o máximo - quase a metade do
céu nublado – em abril.
Estes belos dias com a sua irradiação direta do sol têm
influência notável sobre a nossa saúde: quanto maior o número
de horas, durante as quais perdura a influição da luz direta do
sol, tanto mais prosperam os organismos animais, estando
favoráveis às mais (sic) condições da vida. Avaliamos segundo
as observações de Campinas em 2.300 por ano o número das
horas da luz direta em Uberaba. Para realçar mais o contraste
com o mui saudável clima do planalto central brasileiro, onde
vivemos, citamos a duração da insolação direta por ano em
26
algumas cidades europeias. Hamburgo tem por ano 1.305 horas
de luz direta do sol, Berlim tem 1.727, porém Londres com o seu
clima nebuloso somente 1.026 horas, enquanto Kew, e pequena
cidade vizinha de Londres, já tem maior número de horas de luz
direta do sol, a saber, 1.394 e Greenwich 1.227.
No planalto de Uberaba de 92 dias do inverno somente 26
são mais ou menos nublados, isto 2, com anuviamento maior a
0.40, portanto, a quarta parte de todos os dias no inverno,
enquanto três quartas partes desta estação se distinguem pelos
brilhantes dias de sol. Neste planalto central até se sente os
raios diretos do sol, quando céu está coberto de cirros; pouco
enfraquecidos penetram através destas nuvens delicadas,
formadas de pequenos cristais aciculares de gelo.
Em toda a estação seca contamos na média de 4 anos 116
dias claros dos 183 dias, soma de todos os dias desta estação,
isto é, dois terços de todos os dias são belos dias de sol,
enquanto na estação chuvosa só 32 dias são de bom tempo.
Quanto ao período diário do anuviamento em Uberaba,
verificamos que a nebulosidade em geral cresce de manhã das 7
horas até às 2 horas da tarde e diminui durante a tarde ate às 9
horas da noite e neste tempo é em geral menor do que na
madrugada. Esta regularidade se nota principalmente no
outono, inverno e nos dois primeiros meses da primavera.
A maior intensidade da luz direta do sol, particularmente
a dos raios ultra-violetas, tem grande influência sobre a
vegetação dos planaltos. A mesma influência exerce sobre a pele
da raça branca.
27
Assim se explica o excelente efeito da irrigação artificial
sobre as culturas durante a estação seca, que sempre
observamos, e particularmente na quantidade e qualidade
superiores das hortaliças.
Outrossim, o solo no planalto, particularmente na estação
seca, se aquece mais rapidamente, em menor tempo atinge uma
temperatura mais elevada do que na zona litoral, mais baixa –
uma causa importante do crescimento mais rápido das plantas e
da maturação prematura dos frutos; e a irradiação reflexa do
calor obscuro do solo, o mormaço, também tem a sua parte no
efeito deste clima sobre a pele humana.
Poucas gotas de chuva durante a estação seca tem
influência quase incrível sobre o reino vegetal, nomeadamente
as gramíneas; os pastos inteiramente secos reverdecem em
poucos dias. Quando, porém, como no ano de 1897, durante
alguns meses não cai gota alguma de chuva, então o gado morre
nos pastos e grandes prejuízos nas manadas das grandes
fazendas de indústria pastoril no Brasil Central, são a
consequência. E por que? Porque o criador de gado, brasileiro,
não conhece a irrigação artificial, não conhece prados artificiais,
nem o cultivo de plantas forrageiras e das plantas-raízes para
poder guardar forragem, seca ou em silos, para a estação seca.
Ele só possui pastos.
E, todavia, o agricultor brasileiro, principalmente o criador
do gado, ocupa-se inconscientemente uma vez por ano do
trabalho de produzir nuvens e às vezes até chuva, queimando
28
os seus extensos pastos secos e também partes da floresta ou
dos cerrados para cultivar no solo dos últimos milho e feijão.
Então não são somente nuvens de fumaça, que se elevam,
mas também o vapor d’água nelas, o resultado da combustão
das plantas secas, o qual se condensa a nuvens das camadas
aéreas, mais altas e mais frias em redor das partículas de
carvão, arrastadas dos lugares quentes das queimadas pelo
turbilhão do ar que aí se produz. O observador atento tem no
Brasil muitas vezes ocasião de acompanhar este interessante
fenômeno da formação das nuvens.
Tratamos, primeiro, nas linhas que precedem, dos
meteoros úmidos e outros correlatos, porque são os que mais
interessam o lavrador, assim como em geral os habitantes desta
zona.
A estação seca é a mais fria do ano. A sua temperatura
média, todavia, se eleva a 21º C., sendo a do mês mais frio, do
junho, de 19º, de que pouco difere a do julho, cuja média é de
19.º2. O agosto já é mais quente com 21.º5, média excedida
pelas mesmas do setembro (22.º9) e do abril (23.º1). O maio
possui a temperatura média de 20.º3.
Porém não é pelas temperaturas médias, que se pode bem
apreciar a temperatura de uma região em sua influcção sobre o
clima e com isto sobre os organismos; preciso é estudar as
mínimas e máximas temperaturas e a diferença de ambas, a
sua amplitude.
A mínima extrema ou absoluta temos observado nos
quatro anos com 1.º0 acima de zero no mês de julho.
29
Porém, o tenente-coronel A. B. Sampaio já observou no
mesmo mês uma mínima absoluta de 0.º0. Outras mínimas
extremas, mensais de 2º a 5º têm sido observadas nos meses de
maio (2º), junho (5º), agosto (4.º3) e setembro (5º), enquanto a
mínima extrema do abril foi de 10º.
A maior amplitude de 20º a 29º possuem os meses de
abril até setembro, os da estação seca; os dos últimos meses
outonais, os três meses hibernais e o primeiro mês vernal. A
máxima amplitude de 29º pertence ao mês mais frio, o de julho.
A amplitude diária é muito menor do que a mensal, já
mencionada acima. Entretanto, aquela na estação é menor do
que na úmida; ela na seca varia de 0.º6 a 11.º2, enquanto na
umidade esta variação importa em 0.º2 a 9.º8. A mínima e
menor amplitude diária sempre tem lugar em dias de chuva. Ela
é de 1.º6 a 8.º6 no mês de abril, de 2º a 9.º4 em maio, de 0.º6 a
9.º6 em junho, de 0.º7 a 9.º9 em julho, de 2.º5 a 11.º2 em
agosto, o mês mais seco, e de 2.º2 a 8.º7 em setembro.
Nesta estação mais seca e simultaneamente mais fria não
são raras as temperaturas de 1º a 10º, principalmente de noite e
de madrugada, temperaturas tão extraordinariamente
favoráveis para a saúde do assíduo habitante que lavra o solo. O
inteligente agricultor europeu nesta região pode semear e colher
durante todo o ano, isto é, na estação seca, no outono, inverno e
no começo da primavera somente utilizando os numerosos
olhos d’água, fontes, ribeiros e rios, que em toda a parte
existem, para a irrigação artificial. Então prosperam o melhor
30
possível, como já dissemos, todas as hortaliças e mais plantas
cultas, europeias, como sabemos de própria experiência.
Batatas inglesas e cereais, principalmente o trigo, porém
este, só em pequena escala, já se cultivam. Os ensaios da cultura
da cevada, da aveia e de algumas espécies de sorgo nos deram
os resultados mais favoráveis.
Algum dano às culturas nesta estação seca podem causar
as lufadas de vento mais frequentes de maio a outubro, na
média 4 a 7 vezes por mês. E este dano só poderá se fazer sentir
nos cereais cultivados com irrigação artificial; as hortaliças nada
sofrerão destas lufadas.
Nesta estação seca os ventos mais frequentes são os de
nordeste, leste e noroeste; o primeiro sopra na média 18 vezes, o
segundo 10 vezes e o último 23 vezes por cem de todos os ventos
durante o ano. Na dita estação se observa nos respectivos
meses, na média, de 13 a 30 vezes o nordeste, de 8 a 14 vezes o
leste, de 15 a 27 vezes o noroeste, sempre calculado na
porcentagem de cada mês. É nesta estação que os ditos ventos
sopram mais frequentemente, com a única exceção do noroeste,
que é o principal vento das trovoadas e, portanto, é mais
frequente na estação chuvosa.
Se em nossas zonas já tivessem sido inauguradas as
observações – tão extraordinariamente importantes para a
meteorologia moderna em geral e muito especialmente para o
prognóstico do tempo – das camadas superiores da atmosfera
mediante os aeróstatos, balões e papagaios de papel, seda e
borracha, providos de instrumentos meteorológicos,
31
registradores, como foram realizados primeiro na Alemanha
(em Berlim) e atualmente continuam a ser feitas na primeira
quinta-feira de cada mês em toda a parte do hemisfério
setentrional e bem particularmente na zona temperada da
Europa e da America do Norte: se havia de demonstrar, que no
tempo da seca hibernal das latitudes subtropicais, a que
pertence a nossa região de Uberaba, reina nas camadas
superiores da atmosfera um anti-ciclone extenso, isto é, uma
pressão máxima ou alta pressão do ar, que nestas alturas o ar é
relativamente mais quente (inversão da temperatura), a saber,
apresenta grandes afastamentos positivos das médias normais
da temperatura na camada inferior e desce lentamente, pelo que
as camadas superiores do ar se tornam quentes e secas. Até uma
distribuição favorável às precipitações aquosas das pressões
atmosféricas nas camadas inferiores não deixa vingar por esta
causa uma chuva mais forte e duradoura: as nuvens formadas
sempre se tornam a dissolver de uma maneira surpreendente, e
não obstante de ameaçar a chover, não cai chuva alguma.
As observações meteorológicas realizadas nas ascenções
aeronáuticas do porvir em nossas zonas tropical e subtropical,
onde ainda nunca foram feitas em parte alguma do globo
terráqueo, nos reservam resultados surpreendentes e
importantíssimos para a previsão do tempo, semelhantes aos
que nos desvendaram, maravilhados, a leitura dos três volumes
das “ascensões científicas” de R. Assmann e A. Berson (Berlim
1900).
32
Certo estamos, que em breve algum governo preclaro dos
nossos Estados, para favorecer e fomentar o progresso agrícola,
fornecerá os meios para a execução desse desiderato,
merecendo o aplauso e os agradecimentos de todo o mundo
civilizado, particularmente do mundo científico.
*
Sobre a temperatura se exercem as mínimas e as
máximas barométricas de duas maneiras: pelo estado calórico
das massas aéreas, trazidas pelo vento e pela influição sobre a
irradiação. A primeira circunstância nomeadamente se faz
sentir nas depressões ou baixas pressões em consequência do
movimento aéreo mais forte, podendo-se talvez estabelecer,
segundo o nosso estudo da “Tempestade do Rio Apá”, para a
nossa região, que do lado oriental (que em geral precede) das
mínimas os ventos sopram de regiões setentrionais e produzem
aumento da temperatura, enquanto na parte ocidental os ventos
provenientes de regiões meridionais causam diminuição da
temperatura.
Os fenômenos correspondentes na vizinhança da máxima
ou alta pressão facilmente se deduzem, mas menos se levam em
consideração, porque neste caso sempre sopram ventos fracos.
Do outro lado uma influência muito essencial da
distribuição da pressão sobre a temperatura do solo e a do ar
dependente dela é o resultado da dupla irradiação, a qual do sol
traz calor para o solo e deste espalha calor para o espaço celeste.
Quando a insolação pela primeira irradiação predomina,
como de dia e no verão, então a temperatura aumenta; sendo,
33
ao contrário, a irradiação do solo maior, como de noite e no
inverno, então a temperatura abaixa.
Estes fenômenos tanto mais se acentuam, quanto mais
desembaraçadamente toda a irradiação pode ter lugar, e de
outro lado tanto menos serão perceptíveis, quanto mais a
irradiação for impedida pelas nuvens.
O céu límpido do máximo barométrico (anti-ciclone) traz,
portanto, calor no verão ou na estação chuvosa e frio no inverno
ou estação seca e aumenta além disto em cada estação as
variações ou amplitudes diárias da temperatura.
A coberta de nuvens (anuviamento), própria ao mínimo
barométrico (ciclone), pelo contrário, diminui a irradiação,
outrossim diminui a grandeza das variações ou amplitudes
diárias da temperatura e traz no verão tempo fresco e no
inverno tempo mais quente.
Durante as estações intermediárias, a primavera e o
outono, não predomina, termo médio, irradiação alguma de
ambos, em caso singular; porém se considera então, se a
temperatura que reina estiver acima ou abaixo da média da
estação, calculada de observações de longos anos. Visto que
quanto maior for a quantidade de calor, que o solo possui, tanto
maior quantidade poderá ceder e tanto mais forte será a sua
irradiação. Por isto com uma temperatura abaixo da média as
condições da irradiação serão iguais as do inverno, com
temperatura acima da média aquelas do verão. Daí resulta a
regra: que na primavera e no outono, quando a temperatura
estiver acima do calor médio da estação, a mínima barométrica
34
trará aquecimento e a máxima esfriamento do ar; ao contrário,
estando a temperatura abaixo da média, a mínima barométrica
trará esfriamento e a máxima aquecimento do ar.
Assim v.g. pelo fim de maio e nos primeiros dias de junho
de 1902 o ante-ciclone, que já se manifestara, foi substituído
por um ciclone que nos trouxe temperatura maior e algumas
trovoadas com chuva. Era uma depressão ou mínima
secundária em consequência dos ciclones havidos pouco antes
no La Plata e sul do Brasil.
II
A estão chuvosa ou úmida compreende os meses de
outubro a março, inclusive, isto é, os dois últimos meses
vernais, os três meses estivais e o primeiro mês outonal. Nesta
estação cai chuva em abundância, a saber, na média de 4 anos,
1445.4 milímetros ou sete oitavas partes da chuva ânua, que é
na média de 1636.2 milímetros, ficando para a estação seca
somente quase uma oitava parte da soma total ou exatamente a
média de 190.8 milímetros de chuva.
Segundo as observações do T.te C.1 A. B. Sampaio, que
abrangem oito anos, caem, na média, na estação úmida as
mesmas quantidades de chuva, a saber, 1438 milímetros, porém
a estação seca, segundo as suas observações, é mais chuvosa,
particularmente em abril (99 mm.) e em setembro (129 mm.),
de sorte que nesta estação caem 329 milímetros de chuva e em
soma no ano inteiro 1767 mm. (média de 8 anos).
35
O janeiro, o segundo mês estival, é o mais chuvoso do ano
com 326 milímetros de chuva (307 mm. segundo Sampaio).
Esta estação úmida os lavradores do país exclusivamente
utilizam para cultivar cereais, principalmente o milho, arroz,
feijão e outras plantas úteis, como a mandioca doce, a batata
doce e modernamente também a batatinha (batata inglesa ou
americana), se bem que outrossim na estação seca com
irrigação artificial prospere por excelência a cultura das plantas
úteis.
Já mencionamos, que as culturas desta estação de chuvas
só podem ser começadas em outubro, salvo raras exceções
talvez já em setembro, porque as sementeiras deste mês quase
sempre se perdem.
Às vezes as chuvas durante 24 oras são bem consideráveis.
Semelhantes chuvas torrenciais caíram em 28 de outubro de
1897, a saber, 120 milímetros e aos 9 de janeiro de 1900, 110
milímetros.
Nestes meses da estação chuvosa a umidade relativa do
ar, isto é, a porcentagem da quantidade do vapor aquoso,
dissolvido nele é grande. O máximo da umidade relativa temos
observado em fevereiro de 1897, às 9 horas da noite; era de 95%
neste ultimo mês estival. A maior umidade relativa enche o ar
de noite e de madrugada. Notamos de madrugada de 83 até
95% e de tarde e de noite de 85 até 95% desta umidade relativa.
Em fevereiro de 1897 a umidade relativa sempre variava às 7
horas da madrugada e às 9 horas da noite entre 80% e 95%. E
mesmo às 2 horas da tarde, em geral o tempo do dia mais seco,
36
reinava neste mês durante 14 dias a mesma umidade relativa.
Outrossim no fevereiro de 1898 foram observados em 22 dias de
madrugada os mesmo altos valores de umidade relativa no ar;
mas às 9 horas da noite só em 18 dias.
Em fevereiro de 1899 notou-se o mesmo fenômeno às 7
horas da manhã em 25 dias e às 9 horas da noite em 19 dias e no
mesmo mês do ano de 1900 às 7 horas da manhã em 21 dias e às
9 horas da noite em 19 dias.
No ano de 1898 observou-se esta alta umidade relativa no
mesmo mês às 2 horas da tarde somente em 11 dias e nos anos
de 1899 e 1900 só em poucos dias nestas horas.
Também em novembro de 1898 e de 1899 observou-se o
máximo absoluto de 95% de umidade relativa.
O outubro ainda não sobressai com alta umidade relativa
como os meses de novembro, dezembro, janeiro e fevereiro. E o
março, o último mês da estação chuvosa, é um tanto mais
úmido do que o outubro.
No período diário da umidade relativa tem lugar um
máximo dela de madrugada – às 7 horas -; ela pouco a pouco
diminui durante a manhã até cerca das 2 horas da tarde. A estas
horas do dia observamos o mínimo dela. Mais tarde durante a
tarde torna a aumentar a umidade relativa, mas às 9 horas da
noite ainda não alcança o máximo da madrugada. Este aumento
continua de noite até à madrugada.
Dias de geada não temos durante a estação chuvosa, nem
tão pouco nevoeiros secos, produzidos pelos agricultores, exceto
em outubro, em 6 dias na média de quatro anos, e mesmo as
37
neblinas são raras nesta estação, tendo sido observadas apenas
uma a duas neblinas no vale nos meses de janeiro, fevereiro e
março, os últimos meses da mesma estação, enquanto as mais
raras neblinas gerais nunca foram observadas. Estes meteoros
úmidos pertencem propriamente à estação seca, como já foi
dito.
Granizadas, porém, de granizos pequenos, caíram nestes
quatro anos: um em novembro, um em dezembro (1896), 3 em
fevereiro, 2 em março, 2 em abril, 2 em maio, e um em julho,
isto é, 7 saraivadas na estação chuvosa e 5 na seca (incluindo a
granizada de 26 de abril de 1902).
O mês mais chuvoso do ano, o janeiro, possui também a
máxima probabilidade de chuva em Uberaba (0.71); em dez
dias pode-se contar com sete dias de chuva, dos quais cada um
traz na média 15 milímetros de chuva fértil. Segue-lhe o
fevereiro com menor probabilidade de chuva (0.64), de 10 dias
somente 6 dias trazem chuva, na média, 25 milímetros em cada
dia. Este mês e o novembro tem quase igual probabilidade de
chuva (0.63); no último caem somente 13 milímetros de chuva,
na média, em cada dia. Outrossim em março caem, na média, 13
milímetros de chuva por dia, porém somente em cada segundo
dia (probabilidade de chuva = 0.45). No mês de outubro se
precipitam, na média, 14 milímetros de chuva em cada um dos
11 dias de chuva; portanto este mês possui menor probabilidade
de chuva (0.35), isto é, quase cada terceiro dia, na média, é um
dia chuvoso, e isto é também quase o limite extremo da
38
probabilidade de chuva, com que as plantas úteis de raízes
superficiais, como os cereais, ainda podem prosperar.
Uberaba tem somente 125 dias de chuva por ano como
Campinas (com 120 dias chuvosos, média de 4 anos), porém 144
dias de trovoada, soma em que estão incluídos aqueles dias, em
que só se observou relâmpagos no horizonte, porque em geral
ouviam-se trovões simultaneamente nestes dias, se bem que
não chovesse sempre nesta cidade.
Em cerca de 20 dias, na média, observou-se por ano
somente relampear ao horizonte, sem ter sido ouvido o trovão,
nem tão pouco caído chuva alguma. Restam, pois, 124 dias de
trovoada propriamente ditos ou quase todos os dias de chuva
são dias de trovoada em Uberaba. As trovoadas, que não
trazem chuva e que são raras, deixam em geral cair chuva ao
leste ou ao sul no respectivo dia, mas se apresentam, então, um
ou alguns dias mais tarde, vindos de noroeste ou de oeste.
Destes pontos do horizonte vem a maior parte das trovoadas. Às
vezes com trovoadas ao leste ou ao sul caem relâmpagos, brama
o trovão, porém quando muito caem algumas gotas (chuviscos)
ou chuva nenhuma.
O maior número de trovoadas se devem, pois, manifestar
na estação chuvosa, em 13 (outubro) até 22 dias (janeiro e
março) por mês. Em abril, o primeiro mês da estação seca,
ainda houve, na média, 12 dias de trovoadas, mas nos outros
meses desta estação apenas se deram uma a seis trovoadas por
mês.
39
Pelo que precede se pode inferir, que a nebulosidade
(anuviamento) nesta estação deve ser a máxima nos respectivos
meses; ela varia de 0.57 (mais que a metade do céu coberto de
nuvens) em março até 0.75 (três quartas partes do céu coberto
de nuvens) em janeiro, sendo 0.51 a nebulosidade média do ano
inteiro. A média mensal do anuviamento fica, pois, abaixo da
média ânua da estação seca e acima dela na estação úmida.
Nesta estação se contam, na média por mês, 22 a 28 dias
nublados e somente 2 a 9 dias claros. A soma de todos os dias
nublados nela é de 150 e a dos dias claros de 32.
Não obstante as muitas chuvas, que sempre esfriam um
tanto o ar atmosférico, a estação úmida é mais quente do que a
seca; a média destes seis meses é de 23º.2. A média dos três
meses de outubro a dezembro fica abaixo desta média, de 22º.8
em dezembro a 23º.2 em outubro, e a dos outros três, de janeiro
a março, é mais alta do que a média da estação, a saber, de 23º.3
em fevereiro e de 23º.5 em janeiro e de 23º.6 em março.
As temperaturas máximas absolutas dos seis meses desta
estação se elevam a 29º e mesmo a 33º em outubro (segundo
Sampaio a 38º em janeiro) e as mínimas deles chegam a 15º em
dezembro e a 10º.8 em outubro. Portanto, estas são superiores à
temperatura atmosférica de 4º acima de zero, temperatura
máxima com que pode gear, como geia natural e mais
facilmente com temperaturas inferiores a de 4º.
A temperatura média do ano é de 22º.1 em Uberaba, isto é,
nos arredores dela.
40
Mais altas temperaturas se observam naturalmente nas
ruas da cidade em nível inferior na vizinhança do talweg do
córrego.
As amplitudes mensais das temperaturas na estação
úmida são pequenas, elas variam de 14º.5 no janeiro a 21º.2 em
outubro.
E ainda menores são as amplitudes diárias nesta estação;
elas são também menores do que na seca, isto é, devido às
copiosas chuvas, embora seja maior a temperatura desta estação
do que a da seca. A amplitude diária varia de 0º.2 a 9º.8. No
mês de outubro ela varia de 0º.6 a 9º.8, em novembro de 0º.4 a
6º.6, em dezembro de 0º.2 a 5º.2, em janeiro de 1º.0 a 5º.6, em
fevereiro de 1º.2 a 8º.6 e em março de 0º.6 a 6º.6.
As violentas lufadas de vento, que precedem as trovoadas,
danificam às vezes as culturas do milho. Entretanto essas
lufadas na estação chuvosa não são tão violentas e frequentes,
quanto as plantas úteis, como o milho e o arroz, ainda estão no
campo e crescem, exceto talvez em fevereiro, com três lufadas, a
média do quatriênio, quando os colmos destes cereais ainda
estão verdes e as espigas pouco desenvolvidas. Nos meses de
março e abril, quando as espigas amadurecem ou já estão
maduras, uma ou duas lufadas já muito menos prejudicam e em
novembro e dezembro os pés de milho ainda são tão pequenos,
na média, que três lufadas em novembro e uma em dezembro
possam causar dano. Em outubro ou às vezes já em setembro os
lavradores costumam fazer a sementeira do milho, arroz e feijão
41
e então as seis lufadas, na média, nenhum prejuízo podem
causar.
As calmarias nesta estação úmida são menos frequentes,
variando de seis por cento de todos os ventos em outubro a 26%
em março, enquanto a sua maior frequência se observa na
estação seca, de 9% em setembro até 31% em abril.
Os ventos mais frequentes na estação chuvosa são os de
noroeste, de 17% em outubro a 30% em dezembro. Seguem-lhe
na frequência media os de nordeste com 12% em novembro a
24% em outubro. Porém na estação seca a frequência destes
ventos é quase a mesma com a diferença, que nesta estação o
nordeste é um tanto mais frequente e na úmida o noroeste
sobressai na frequência. O norte aparece em novembro com 11%
de frequência, em dezembro com 10% e em fevereiro com 16%.
O leste é menos frequente na estação úmida do que na seca, com
exceção de outubro, quando a sua frequência ainda chega a 16%
e em novembro e fevereiro a 9%. Na estação úmida o sueste
outrossim é mais frequente do que na seca; em outubro sopra
ate, na média, 10 vezes por cem vezes de todos os ventos neste
mês e em novembro 9 vezes. Menor, de 4 a 8 vezes, é a sua
frequência porcentual nos outros meses desta estação, mas
sempre maior do que na seca, exceto em janeiro. O sudoeste é
menos frequente na estação úmida – de 3% a 9% – do que na
seca – de 5% a 9% -, se bem que a diferença não é grande. O
oeste sobressai só com 19% e frequência em janeiro. Nos outros
meses do ano ela varia de 4% a 9%.
42
Também o sul somente sobressai com 10% de frequencia
porcentual em setembro; nos outros meses do ano ela pouco
varia, a saber, de 5% a 8%.
As lufadas de vento, cujo efeito sobre as plantas já
mencionamos, são raras vezes tão violentas, que arrancam
telhas de barro ou de zinco dos telhados, galhos das árvores ou
que desenraizam estas. Mas todavia são ciclones (mínimas), que
mui provavelmente têm sua origem nos Andes. Às vezes
também serão pequenos ciclones parciais ou secundários em
correlação com aqueles, os quais acompanhados com saraiva e
trovoada são causadas por pressões mínimas, parciais do ar.
Aos 8 de fevereiro de 1899, às duas horas da tarde tivemos
durante meia hora a tempestade mais violenta, que nos foi dado
presenciar neste planalto; desenraizara pequenas árvores,
arrancara ramos grossos das árvores e telhas dos telhados; as
lufadas de vento vieram do sul.
Estas lufadas aparecem aqui no planalto muitas vezes 2 a 4
dias depois dos pampeiros ou tempestades que, dos Andes se
precipitam sobre os pampas de La Plata, como verificamos por
nossas observações comparadas com os telegramas de La Plata.
Um interessante fenômeno são as trombas de terra no
planalto de Uberaba; são pequenos ciclones ou turbilhões locais,
que levam para cima em movimento especial o pó vermelho,
folhas, galhos pequenos, a roupa pendurada na corda e às vezes
arrancam telhas dos telhados; elas percorrem somente poucos
quilômetros. Pelo pó vermelho se tornam visíveis e se as
observa distintamente, pouco a pouco, alargando-se em
43
rodopio, desaparecerem para a vista nas alturas atmosféricas.
Do Instituto Zootécnico vimos formarem-se algumas à leste, no
alto do Fabrício, e passarem por cima da cidade para oeste ou
sudoeste. Elas só aparecem na estação seca, de maio a
setembro.
Em junho e julho observamos durante 4 anos duas,
relativamente três destas trombas. Nos primeiros três anos o
lugar de nossas observações no Instituto Zootécnico foi mais
favorável. Tivemos ocasião de observar neste período sete
trombas, nos dois primeiros anos até cinco. No alto do Fabrício,
onde o horizonte está limitado por casas, observamos no ano de
1900 somente uma tromba, que passou por cima da nossa casa.
*
Um grupo muito importante de fenômenos,
particularmente da estação chuvosa, se relaciona com a
corrente ascendente do ar. Esta se origina das diferenças da
pressão atmosférica, proveniente da distribuição da
temperatura. Por cima da região, em que a pressão atmosférica
é menor do que na vizinhança, forma-se uma corrente
ascendente, alimentada pelas correntes do ar, que na camada
aérea, próxima ao solo afluem de todos os lados, enquanto da
sua parte superior o ar decorre para todos os lados. A corrente
ascendente pode determinar a formação de nuvens e a
precipitação aquosa, e nesta ocasião é possível que haja uma
sobre-saturação com vapor aquoso no ar e sobre-esfriamento
44
das gotas d’água formadas, e cerrando esse estado instável, se
podem produzir chuvas torrenciais e saraivadas, como de fato
tem sido observadas neste planalto, segundo o que já temos
exposto nas linhas precedentes. Tornando-se com isto livre uma
quantidade notável de calor, que até agora estava latente em
virtude da repentina condensação em massa, e aquecendo-se o
ar, resulta um aumento local da pressão que pode importar em
alguns milímetros da coluna mercurial do barômetro.
As correntes ascendentes em geral se produzem por cima
de listas estreitas, mas compridas ou de áreas de forma
arredondada do terreno. No primeiro caso qualificamos este
fenômeno de rajada de vento ou de cilindro (rolo) de ar em
rotação, no último de turbilhão vertical.
A rajada de vento geralmente com o seu comprimento
tem posição vertical ao vento que predomina, e visto que este a
leva consigo, a rajada progride verticalmente a seu
comprimento. Por isto também se pode dizer, que se move com
frente larga e pouca profundidade. Assim a temos
frequentemente observado no planalto de Uberaba, na estação
chuvosa, vindo sobre nós de sueste ou passando ao pé do
sudoeste. Outrossim estas rajadas de trovoada se movem
também e mais frequentemente de noroeste para sueste.
Por cima da lista do terreno que forma a sua base, o ar
sobe em frente, e atrás desta lista ele desce e corre na camada
aérea, inferior de ambos os lados contra a rajada. Neste caso os
caminhos dos ventos são bastante curtos, de sorte que se pode
abstrair da influência desviatória da rotação da terra. Na
45
camada inferior do ar, próximo ao solo, ainda se exerce, além
das correntes da frente e atrás contra a rajada, o vento
predominante da região, com que a rajada progride. Do lado da
frente, como diferença de ambos os movimentos, o vento a
observar é fraco, do lado trazeiro, porém, onde se manifesta a
soma dos dois movimentos, é um tanto mais forte. Este vento
do lado trazeiro, que sopra contra a rajada, traz massas de ar,
que acabavam de descer das camadas mais altas e mais frias
estavam mistas com chuva ou saraiva. Por semelhante mistura
de água ou gelo é impedida pela maior parte a elevação da
temperatura esperada em virtude do aquecimento dinâmico, e
assim se explica porque as massas do ar, que correm atrás da
rajada, são notavelmente mais frias do que as da
circunvizinhança. O aquecimento dinâmico desta corrente
descendente do ar, entretanto, se manifesta pelo que o ar, não
obstante da água com ele misto, está muito longe de estar
saturado do vapor. Toda esta formação produzida no lado
trazeiro da corrente ascendente é, portanto, um turbilhão com
eixo horizontal. É “um rolo de ar de grande extensão, que,
girando em redor do seu eixo horizontal, progride com o ar em
movimento” (Vettin).
Este turbilhão traz na frente ar mais quente e atrás de si ar
mais frio; em seu progresso as partículas singulares descrevem
ciclóides, na parte inferior reina movimento muito rápido, na
superior quase calmaria, talvez mesmo movimento retrógrado.
Um observador, por cima de quem tudo isso passa, faz então as
seguintes observações: do ponto do horizonte, de onde sopra o
46
vento, se levantam nuvens, que na beira anterior às vezes se
parecem com roletes ou asas de avestruz, ou deixam pender
para baixo pontes em forma de odres. Pouco antes de chegarem
esta nuvens ao zenith, o vento diminui de velocidade ou salta
mesmo passageiramente para a direção oposta, cessa de todo
quando as massas de nuvens estão por cima do lugar de
observação e começa, depois, repentinamente a soprar da
primitiva direção com grande velocidade.
Simultaneamente ou pouco antes a pressão do ar subiu
rapidamente de algum ou alguns milímetros da coluna
mercurial no barômetro, porém torna a começar quase
imediatamente a descer lentamente, e sua marcha, então, pouco
a pouco se liga à parte da curva antes da subida rápida. Com o
aparecimento do vento forte apresentou-se um esfriamento
sensível e simultaneamente ou pouco depois (retardado pelo
tempo da queda) cai uma chuva torrencial ou saraivada. Sendo
a força da corrente ascendente insuficiente para elevar o ar até o
limite de condensação, deixa de haver nuvens e precipitação
aquosa e, portanto, também o resfriamento, e se observa
somente uma rajada de poeira, como frequentemente em
Uberaba.
Sendo de outro lado o processo atmosférico fortemente
desenvolvido, associa-se às particularidades, já mencionadas,
ainda o relâmpago e o trovão. Fala-se nestes casos de rajadas de
chuva, rajadas de saraiva, rajadas de trovoada, etc. as últimas
são muito frequentes na região de Uberaba, menos frequentes
na de Campinas e outras partes da zona subtropical. Muitas
47
vezes uma série de semelhantes rajadas, uma depois da outra,
com direção quase idêntica passa por cima de uma região e
oferece ocasião propícia para observações repetidas das
particularidades deste fenômeno que acabamos de descrever.
A mudança da pressão atmosférica, que tem lugar durante
uma rajada, já foi mencionada e forma um sinal certo e muito
característico, de que se pode inferir a passagem completada de
uma rajada. Os barógrafos já empregados em muitos lugares
inscrevem continuamente a pressão atmosférica com todas as
suas variações como uma linha contínua (curva) e fornecem na
ocasião de rajadas que passam, uma forma de curva de pressão,
a qual se qualifica de nariz de trovoada.
Não é sempre uma trovoada, porque cada rajada simples
de chuva ou granizo produz no barógrafo um nariz de trovoada.
Nas isóbaras este fenômeno se reconhece por uma saliência
irregular, semelhante ao desenho de uma enseada num mapa
geográfico, saliência que se chama saco de trovoada. Outrossim
se chama esta distribuição da pressão do ar: “isóbaras com
forma de V”. Talvez a maior atenção para as linhas das rajadas,
considerando-se as isóbaras com saliências em forma de
enseada, e pelos narizes de trovoada fornecidos pelo barógrafo
pode conduzir-nos, a que a previsão das rajadas e trovoadas seja
mais certa e mais cedo do que até agora.
Formando-se a corrente ascendente por cima de um
terreno de forma arredondada, e não, como na rajada, por cima
de uma lista de terreno, então aflui o ar de todos os lados na
camada inferior, próxima ao solo e se produz um turbilhão
48
ascendente. As diferentes conformações do solo, assim como a
distribuição da temperatura fazem com que as massas do ar,
que afluem, tenham diversas velocidades. Aquela direção, na
qual a afluência do ar da camada inferior tem lugar mais
rapidamente, predomina então, em comparação com a dos
outros lados, e a corrente ascendente progride lateralmente no
sentido da afluência mais forte do que ar, isto é, na direção do
vento eventualmente predominante. Em ponto pequeno se
formam semelhantes fenômenos muitas vezes no ar quieto e
fortemente aquecido e exclusivamente na estação seca, isto é, a
menos quente em Uberaba, e progridem como trombas (de
água ou de areia) com o vento, que predomina, elevando água,
areia e outros objetos leves. Em outros lugares da terra estas
trombas aparecem na estação mais quente do ano. Recordamo-
nos de uma tromba d’água na Bahia de Todos os Santos. Em
parte elas tem o movimento de redemoinho, o que por causa de
sua trajetória curta tanto menos pode ser explicado pela força
desviadora da rotação da terra, quanto semelhantes turbilhões
não apresentam movimento rotatório em sentido algum
determinado. Provavelmente a direção deste movimento
somente provem casualmente da direção possuída pela primeira
massa aérea que afluiu.
Às vezes aparecem também trombas de maior força e
deixam atrás de si uma “lista de destruição”, pelo que se pode
reconhecer a pequena largura e a grande força do vento da
tromba; ela em Uberaba às vezes tira telhas dos telhados e leva
pelos ares a roupa pendurada na corda para enxugar.
49
As lufadas de vento, porém, observadas por nós em todos
os meses do ano, entretanto com maior frequência nos de
fevereiro e de maio até outubro, que quebram os colmos de
milho, raras vezes são tão violentas, que arrancam telhas de
argila ou zinco dos telhados, quebram os galhos das árvores ou
mesmo derrubam estas. Todavia, são manifestações de ciclones
(tornados), que provavelmente tem sua origem na cordilheira
dos Andes. Outras vezes são pequenos ciclones locais ou
secundários, acompanhados de saraiva e trovoada e causadas
por pressões mínimas, parciais do ar; são turbilhões
ascendentes, extensos.
As rajadas de vento com trovoada qualificam também de
trovoadas calóricas, distinguindo-as das trovoadas de
turbilhão. As primeiras são as mesmas turbilhões com eixo
horizontal, as outras são turbilhões com eixo vertical. As
primeiras se formam nas regiões, por cima das quais não existe
nem uma corrente ascendente, nem descendente pronunciadas,
de sorte que na camada inferior, próxima ao solo, há ocasião
para um forte aquecimento (que às vezes produz a miragem),
que, então, nesta parte da atmosfera tem por consequência um
equilíbrio instável. Estas condições existem precipuamente no
continente. Acima por nós já foi realçada a máxima frequência
no planalto brasileiro das trovoadas calóricas ou turbilhões de
eixo horizontal.
Se às 9 horas da noite a temperatura aumenta
extraordinariamente com grande secura do ar no mesmo dia –
50
às 2 horas da tarde e às 9 da noite – da primavera e do verão,
em geral na estação úmida, podemos esperar trovoada calórica.
As trovoadas de turbilhões de eixo vertical, ao contrario,
acompanham as partes centrais de depressões ou baixas
pressões maiores, bem desenvolvidas; elas aparecem com
tempo nublado, tempestuoso e principalmente nos lugares,
onde as depressões são particularmente maiores ou máximas,
isto é, sobre o mar até a costa. O eixo do turbilhão delas tem
posição vertical ou inclinada e corta em todo o caso a superfície
da terra.
As trovoadas calóricas são, pois, idênticas com as
trovoadas do verão, como neste planalto, e são fenômenos que
acompanham as rajadas, enquanto algumas trovoadas nos
tempos dos equinócios (março e abril, setembro e outubro) e no
inverno, quando são raríssimas, têm no planalto o caráter de
trovoadas de turbilhões e pertencem aos fenômenos do
turbilhão ascendente; elas contudo, são raríssimas na zona
intertropical.
A velocidade com que as trovoadas marcham é muito
diferente; as trovoadas fortes se movem em geral por cima da
terra mais rapidamente do que as fracas. Por falta de estações
meteorológicas, mais aproximadas, por enquanto não se pode
fazer cálculos respectivos nesta zona subtropical. Na Europa
setentrional e central a velocidade, com que progridem as
trovoadas, é, na média, de cerca de 40 quilômetros por hora ou
cerca de 11 metros por segundo, pouco mais ou menos a
51
velocidade do vento qualificado de fresco. A velocidade das
trovoadas da nossa zona litoral parece ser mais rápida.
Das 507 trovoadas observadas de outubro de 1898 até
outubro de 1900 verificamos a marcha diária da frequência
das trovoadas em Uberaba, como segue; 469 tiveram lugar de
tarde, de meio-dia à meia-noite, e somente 38 de noite. O
máximo de frequência se observa nas horas mais quentes do
dia. De meio-dia às 4 horas da tarde se deram 207 trovoadas
(soma dos dois anos) enquanto as outras 267 trovoadas de tarde
se distribuíram pelas restante oito horas, das 4 horas até a
meia-noite.
As trovoadas da estação seca, além de serem raras, não
ocorrem principalmente de noite, como no inverno na Europa.
Nos meses de julho, agosto e setembro nenhuma trovoada se
deu de noite e raríssimas são elas de meia-noite até meio-dia
nesta estação.
Quanto à marcha anual da frequência das trovoadas em
Uberaba, ainda acrescentamos, que se nota um máximo na
estação chuvosa, de outubro ate abril, a saber, mensalmente, na
média de 4 anos, de 13 a 22 dias de trovoada, na totalidade: 117
dias de trovoada nesta estação e só 27 dias de trovoada na
estação seca, isto é, mensalmente de 1 a 6 dias com trovoada e
estes somente em maio e setembro, podendo o abril com 12 dias
de trovoada ser considerado uma exceção.
*
52
Se na estação seca o pó vermelho do fértil solo argiloso,
rouxo, um produto de desagregação do augito porfirítico, no
qual o cafeeiro tão bem prospera, não penetrasse por toda a
parte, o clima de Uberaba seria excelente para os doentes de
tuberculose; porém este pó finíssimo penetra por toda a parte,
nas casas e nos pulmões. Há, porém, lugares na vizinhança com
solo silicioso ou calcáreo. Estes se recomendam para a
construção de sanatórios neste mui saudável clima de Uberaba.
8-6-02
(in Almanaque Uberabense para o
ano de 1903. Uberaba, p. 190 a 215).
53
Almanaque Uberabense para o ano de 1903
54
O presente livro teve sua composição,
em computador PC–Intel Core Duo
3.00 GHz, e sua organização
procedidas em anos anteriores, sendo
publicado neste blog no primeiro
trimestre de 2018, em Uberaba/Brasil.

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LIVRO: O TEMPO EM UBERABA, de Guido Bilharinho

  • 3. 3 Copyright © Draenert, Frederico Maurício D793t O Tempo em Uberaba / Frederico Maurício Draenert. -- Uberaba, Brasil: Revista Dimensão Edições, 2018. 54 p. 1. Cientistas - Biografia. 2. Draenert, Frederico Maurício, 1838-1903 - Biografia. 3. Uberaba (MG) - Clima. I. Título. CDD 925 Ficha catalográfica elaborada por Sônia Maria Resende Paolineli - Bibliotecária CRB-6/1191 Organização e Planejamento Gráfico Guido Bilharinho ([email protected]) Capa Guido Bilharinho Edição Revista Dimensão Edições Caixa Postal 140 38001-970 − Uberaba/Brasil Editoração Gráfica Gabriela Resende Freire
  • 4. 4 SUMÁRIO NOTA EDITORIAL Nota Editorial............................................................................ 5 NOTA PRELIMINAR Draenert - 1º Climatologista do Brasil..................................... 6 BIOGRAFIA Frederico Maurício Draenert – Um Gênio Alemão em Uberaba Descobridor da Bactéria no Reino Vegetal...................... 9 Precursor do Ensino Agrícola Superior no Brasil............10 Pioneiro da Climatologia no Brasil.................................. 11 Draenert em Uberaba.......................................................12 A Resistência Heróica.......................................................13 Meteorologista e Climatologista.......................................13 Ensaios Biográficos..........................................................14 Os Mil Artigos...................................................................15 O TEMPO EM UBERABA O Tempo em Uberaba.................................................................19
  • 5. 5 NOTA EDITORIAL O ensaio científico O Tempo em Uberaba, do sábio alemão Frederico Maurício Draenert, é considerado o melhor estudo sobre o clima subtropical. Nesta edição, o texto é antecedido pelos registros efetuados por dois dos maiores especialistas em Meteorologia e Geografia no Brasil, respectivamente J. de Sampaio Ferraz e José Veríssimo da Costa Pereira, extraídos de suas monografias publicadas na monumental As Ciências no Brasil, obra organizada por um dos luminares da cultura brasileira, Fernando Azevedo. Precede ainda o texto do ensaio de Draenert sintética biografia, informando alguns fatos significativos de sua vida e ressaltando suas obras científicas e os mais de mil artigos que publicou. O Editor
  • 6. 6 NOTA PRELIMINAR Draenert - 1º Climatologista do Brasil “Como vimos pela súmula das séries climatográficas brasileiras do século XIX (representativas do impulso inicial, mais esparso, da atividade meteorológica no país), vários climas regionais mereceram estudos particularizados, aqui e no estrangeiro. A ciência da atmosfera [no Brasi] deve muito a esses pioneiros e desbravadores – os autores destas primeiras análises. Dois deles se destacaram sobremaneira por remarcável pluralismo, explanando e discutindo com proficiência o clima de várias zonas, províncias, se não de maiores extensões do território nacional. Queremos referir-nos a Draenert, alemão, porém, com longa residência no país [....] Draenert foi o nosso primeiro climatologista, no sentido de lher haver cabido a primazia de descrever e discutir o clima brasileiro em conjunto. Seus esboços iniciais foram divulgados na Revista de Engenharia (1885 – 1888), e, mais tarde, revistos e reunidos na brochura preciosa de 1896, sob o título O Clima no Brasil.” * “Com a multiplicação de postos meteorológicos no território nacional, sobretudo nos últimos dois decênios do século XIX, surgiram as referências à necessidade da previsão do tempo. Draenert e Loefgren, por exemplo, chegaram a deduzir regras simples para o prognóstico do tempo local, e já
  • 7. 7 encaravam a possibilidade de basear a previsão nas observações de pequenos conjuntos de postos.” * “O problema [dos agentes atmosféricos responsáveis pelas estiagens aperiódicas], que desafiara outrora Pompeu de Sousa, Grisebach, Draenert, Voss, Osvaldo Weber e outros, se apresentava mais acessível em 1924, em virtude do maior conhecimento, então, da circulação atmosférica.” * “Neste modesto esboço histórico da Meteorologia no Brasil, destacam-se os marcos seguintes: [....] 5) Draenert, valendo-se da crescente acumulação de dados meteorológicos, consegue traçar os primeiros esboços do clima brasileiro, abrindo senda logo trilhada por outros eminentes climatologistas (1885-1888).” (J. DE SAMPAIO FERRAZ, “A Meteorologia no Brasil”, in As Ciências no Brasil, organização de Fernando Azevedo. São Paulo, edições Melhoramentos, s/d., vol. I, p. 220, 223, 227 e 237). “...Sobre clima, destacaram-se, em fins do século passado [XIX], os primeiros estudos de climatologia do Brasil, devidos a M. F. Draenert, e o trabalho de Luís Cruls acerca do clima do Rio de Janeiro (1892), além do esboço de uma climatologia do país, do qual foi autor Henrique Morize (1891).” (JOSÉ VESÍSSIMO DA COSTA PEREIRA, “A Geografia no Brasil”, in op. cit., vol. I, p. 378).
  • 9. 9 FREDERICO MAURÍCIO DRAENERT Um Gênio Alemão em Uberaba Guido Bilharinho Frederico Maurício Draenert inclui-se entre os quatro europeus que mais fizeram ou contribuíram para o progresso de Uberaba no século XIX, sendo os demais, pela ordem de chegada à cidade, Antônio Borges Sampaio (português), Henrique Raimundo des Genettes (francês) e frei Eugênio Maria de Gênova (italiano). Draenert, segundo seu biógrafo, Militino Pinto de Carvalho, nasceu em Weimar, Alemanha, em 1838, formando- se em ciências físicas e naturais. Iniciou-se no magistério, lecionando em Macklenburg e Hamburgo. A convite do barão de Paraguaçu, então cônsul do Brasil nesta última cidade, veio para o Brasil em 1865 a fim de educar os filhos de rico agricultor baiano. Descobridor da Bactéria no Reino Vegetal Por essa ocasião grassou na Bahia uma moléstia na cana de açúcar, ensejando a Draenert estudos atinentes ao fato, descobrindo, em 1868, a existência da bactéria no reino vegetal
  • 10. 10 e publicando suas conclusões no Jornal da Bahia e em outros periódicos nacionais e estrangeiros. Precursor do Ensino Agrícola Superior no Brasil Em 1869, junto com os cientistas Louis Moreau e Louis Jacques Brunet, e sob chefia deste, foi encarregado de montar a Escola Agrícola da Bahia, a primeira do gênero no país, inaugurada em 1877. Nessa época, foi à Europa, onde se casou, voltando para assumir na referida escola as cadeiras de física, química, mineralogia e tecnologia agrícola e para organizar e dirigir seus laboratórios, museu e campo de experimentação. Além dessas atividades, escreveu diversas monografias, entre as quais O Fabrico do Açúcar Pela Difusão e Meteorologia. Em 1887, convidado pelo então ministro da Agricultura, integrou a equipe de cientistas encarregada de organizar instruções para aplicação à cana de açúcar do processo de difusão, redigindo, segundo outro de seus biógrafos, Jesuíno Felicíssimo Júnior, sete dos onze capítulos do relatório final. Após a conclusão do trabalho, Draenert foi designado adido do Ministério e posteriormente consultor técnico, publicando nesse período os ensaios Relatório Sobre a Viticultura no Brasil e Os Vinhos Nacionais na Primeira Exposição de Açúcar e Vinhos. Em 1891, o governo federal contratou o naturalista alemão Franz W. Dafer, que já havia organizado e dirigido anteriormente a Estação Agronômica de Campinas, para
  • 11. 11 elaborar o estatuto da escola científica de vinicultura do Estado de São Paulo, encargo que desempenhou juntamente com Draenert. A par disso, Draenert dedicou-se a traduzir, sob contrato do governo, a obra Die Tropische Agrikultur, somente terminada em 1901, em Uberaba. Pioneiro da Climatologia no Brasil Os estudos climatológicos do Brasil efetuados por Draenert, além de pioneiros – seu livro O Clima no Brasil foi citado por Euclides da Cunha em Os Sertões (2ª parte, “O Homem”, cap. I) – constituíram a base sobre a qual toda a ciência climatológica brasileira se desenvolveu, conforme depuseram eminentes estudiosos da matéria: “Draenert foi o nosso primeiro climatologista, no sentido de lhe haver cabido a primazia de descrever e discutir o clima brasileiro em conjunto [....] Neste modesto esboço histórico da meteorologia no Brasil, destacam-se os marcos seguintes [....] Draenert, valendo-se da crescente acumulação de dados meteorológicos, consegue traçar os primeiros esboços do clima brasileiro, abrindo senda logo trilhada por outros eminentes climatologistas” (J. de Sampaio Ferraz, “A Meteorologia no Brasil”, in As Ciências no Brasil, vol. I, p. 220 e 237). “Nos fins do século XIX e no século atual [XX], pelo menos até meados deste, tais investigações [sobre meteorologia e clima] ainda se encontravam em fase de bastante atraso, não
  • 12. 12 obstante a existência de contribuições isoladas. Dentre elas, sobre clima, destacaram-se, em fins do século passado [XIX], os primeiros estudos de climatologia do Brasil, devidos a M.F. Draenert” (José Veríssimo da Costa Pereira, “A Geografia no Brasil”, in As Ciências no Brasil, vol. I, p. 378). Draenert em Uberaba Em 1896, preparou para o governo de Minas Gerais os textos legais e o estatuto destinados à implantação do ensino agrícola no Estado nas áreas agronômicas e zootécnicas. Nesse mesmo ano, foi convidado pelo referido governo, chefiado por Crispim Bias Fortes, para dirigir o Instituto Zootécnico de Uberaba e lecionar botânica e agronomia, cargos assumidos em dezembro do referido ano, do primeiro dos quais foi posteriormente exonerado, permanecendo, porém, como professor até agosto de 1898, quando a instituição, por ato mesquinho do então governador Silviano Brandão e de seu secretário de agricultura Américo Werneck, foi fechada por meio de simples telegrama, não obstante ter sido criada pela lei estadual nº 41, de 03 de agosto de 1892, de autoria do então deputado Alexandre de Sousa Barbosa. Essa medida, de acordo com José Mendonça (História de Uberaba, p. 109), constituiu represália à campanha iniciada em Uberaba contra a criação do imposto territorial de três por cento sobre o valor das terras, campanha que resultou na formação do clube da Lavoura e Comércio, de onde originou o jornal Lavoura e Comércio,
  • 13. 13 fundado em 6 de julho de 1899, sob a direção de Antônio Garcia Adjuto. A Resistência Heróica Draenert, asseverou Jesuíno Felicíssimo Júnior, que “era homem de alta corpulência, de gênio violento, costumes austeros, honestidade ilibada, excessivamente organizado”, opôs-se tenazmente à extinção do estabelecimento, deflagrando no Diário de Minas campanha contra o governo estadual. Recusando-se a desocupar a residência oficial não só por falta de ato legal da extinção do estabelecimento como para não interromper as observações meteorológicas que fazia gratuitamente para a nação com utilização do posto e instrumentos do governo mineiro, sem o que seria impossível prossegui-los, foi despejado, em setembro de 1899, mediante medida judicial e força policial. Não satisfeito em destruir o instituto, o governo mineiro ainda prejudicou uma das maiores atividades científicas do país e humilhou um dos mais notáveis cientistas do mundo. Meteorologista e Climatologista Nas observações e análises meteorológicas de Uberaba que promoveu no período de 1897 a 1900, Draenert continuou a tradição iniciada por des Genettes (desde provavelmente 1853) e frei Eugênio Maria de Gênova (1856-1871), prosseguida por
  • 14. 14 frei Germano d’Annecy (1879-1885) e Borges Sampaio (1881- 1896, cujos resultados, de 1892 a 1896, constam de seu livro Uberaba: História, Fatos e Homens, p. 206 e 207), e mantida por diversos outros meteorologistas, entre os quais, Luís Marcos Duarte Nunes Filho (1903-1906), irmão marista Vilberto (1914- 1915) e José Alves Pinto (1931-1933). Nesse mister, como era de seu feitio, Draenert escreveu três ensaios, O Clima do Planalto Central do Brasil, O Tempo em Uberaba (este publicado no Almanaque Uberabense para o ano de 1903 e considerado o mais profundo estudo sobre o clima subtropical) e O Tempo Provável em Uberaba (1904) e ainda, revelou Jesuíno Felicíssimo Júnior, nada menos de cento e setenta artigos referentes à climatologia e aproximadamente outros oitocentos sobre mais de noventa temas de sua especialidade e interesse, estes, desde alemães no Brasil, política trabalhista, terrorismo, espiritualismo, religião, alcoolismo, memórias e germanismo no Brasil, desenvolvidos no período de 1868 a setembro de 1903, quando faleceu. Ensaios Biográficos Em seus últimos anos de vida, transcorridos em grandes dificuldades financeiras, Draenert residiu na rua Olhos d’Água, posteriormente rua Draenert e depois, como é vezo das administrações municipais, submetida a outra denominação. A seu respeito, além das citações e referências encontradas na obra de Hildebrando Pontes (História de Uberaba, p. 278,
  • 15. 15 304, 351 a 356, pelo menos), existem dois ensaios biográficos, “Traços Biográficos do Dr. Frederico Maurício Draenert”, de Militino Pinto de Carvalho, publicado no Almanaque Uberabense para o ano de 1905, longamente citado por José Mendonça em sua História de Uberaba (p. 217 a 220) e republicado no número 03, do segundo semestre de 1972, da revista Convergência, órgão da Academia de Letras do Triângulo (ALT), e “Draenert, Precursor do Ensino Agrícola Superior no Brasil”, de Jesuíno Felicíssimo Júnior, escrito especialmente para o citado número de Convergência. Os Mil Artigos Nesse último e notável ensaio constou relação de todos os assuntos abordados por Draenert em seus aproximadamente mil artigos, com os respectivos números de trabalhos e, ainda, o levantamento quantitativo anual de sua copiosa produção de 1868 a 1903, que revelou a diversidade de seu interesse e a abrangência de seus conhecimentos, além de que os anos passados em Uberaba foram os mais produtivos: “Essa notável contribuição, mal aproveitada pelos agricultores da época, por motivos vários, pode ser assim distribuída: climatologia, 170; indústrias agrícolas, 130; assuntos diversos 60; tecnologia de alimentos, 60; culturas específicas, 60; alemães no Brasil, 50; moléstias vegetais, 30; núcleos coloniais, 30; química agrícola, 30; zootecnia, 30; fermentos e fermentações, 25; estatística e economia rural, 20;
  • 16. 16 política agrícola, 20; engenharia agrícola, 20; fertilizantes, 20; forragens, 20; viticultura, 15; espiritualismo, 15; polêmicas científicas, 15; drenagem e irrigação, 15; fruti- horticultura, 15; solos e avaliação de solos, 15; economia política, 15; ensino agrícola, 15; custeio agrícola, 10; sociedades e congressos, 10; colheitas, 10; higiene, 10; ensilagem, 8; notícias agrícolas, 8; moléstias animais, 8; religião, 8; medicina agrícola, 8; bibliografia, 8; crítica, 8; mercado exterior, 6; insetos nocivos, 6; evolução agrícola, 6; demissão do Instituto Zootécnico de Uberaba, 6; centros culturais, 6; práticas agrícolas, 6; pequena propriedade, 5; inseticidas, 5; física, 5; energia, 5; indústria pastoril, 5; homenagens, 5; turfa, 4; sabões, 4; metabolismo vegetal, 4; mercado interno, 4; títulos honoríficos, 4; forrageiras novas, 3; culturas de fibras, 3; rações balanceadas, 3; enxertias, 3; cruzamento de cereais, 3; análises, 3; abastecimento de águas e esgotos, 3; aves e animais domésticos, 3; bacteriologia, 3; alcoolismo, 3; política trabalhista, 2; cientistas, 2; florestas, 2; fisiologia, 2; vinhos, 2; anil, 2; superstição médica, 2; memórias, 2; botânica, 2; falsificação de produtos, 2; geologia, 2; teoria da nutrição, 2; crise agrícola, 2; nitrificação, 2; origem das coisas, 1; expedições científicas, 1; puericultura, 1; minhocas, 1; prognóstico de safra, 1; agricultura tropical, 1 agricultura intertropical, 1; discurso, 1; madeiras, 1; beligerância, 1; culinária, 1; imposto agrícola, 1; terrorismo, 1; exaltação agrícola, 1, e, finalmente, germanismo no Brasil, 1.
  • 17. 17 No tempo, esses trabalhos foram realizados entre 1868 e 1903, perfazendo um período de 38 anos, assim ordenados: 1– 1868; 1–69; 1–75; 5–79; 8–80; 16–81; 25–82; 48–83; 45–84; 46–85; 43–86; 28–87; 52–88; 50–89; 10–90; 12–91; 1–92; 11–93; 6–94; 20–95; 1–96; 70–97; 102–98; 46–99; 77–1900; 136–01; 186–02 e 53–03. É óbvio que tanto a classificação dos assuntos tratados quanto sua distribuição anual estão sujeitos à correção, porque o autor desta bio-bibliografia não pôde compulsar mais de 20% dos artigos que compõem a imensa e preciosa produção editada de Draenert.” Editar esses artigos em livro de papel e/ou eletrônico, quem há de? (de Personalidades Uberabenses. Uberaba, Revista Dimensão Edições, 2014 )
  • 18. 18 Edição Inaugural do Almanaque Uberabense
  • 19. 19 O TEMPO EM UBERABA Quase todo o mundo se ocupa do tempo. E principalmente os agricultores, cuja profissão depende dele, que esperam chuva ou dias de sol conforme o estado de suas culturas. Pelo mais que se saiba do tempo e para completar e utilizar as regras que vamos expor, necessário o conhecimento das regras do tempo locais1. Em toda a parte se as encontra na população, e nomeadamente as profissões que se exercem ao ar livre e que dependem do tempo, são ricas de ditos empíricos desta espécie. Qualificar soberanamente de superstição semelhantes regras, seria tão errôneo como aplicá-las sem critério algum. Muitas vezes se manifesta nestas opiniões baseadas na coloração do céu, na forma das nuvens, no procedimento dos animais, etc., a experiência de muitas gerações, porém também não é raro, que nelas se revele uma experiência mal compreendida, e quem quiser utilizar semelhante tradição deve antes examinar pela própria experiência. Neste caso será necessário, para evitar de enganar-se, a tomar nota por escrito de cada realização ou falha de uma correlação suposta e de examinar estas notas depois de um tempo decorrido, suficientemente longo. Desta maneira se pode reconhecer o resultado livre de qualquer opinião preconcebida. E ainda mais importante do que as regras empíricas é para aquele, que quiser prever o tempo, a própria observação local e 1 Os termos em itálico constam do original.
  • 20. 20 o conhecimento do clima da respectiva região. Disto vamos tratar nas seguintes linhas. Ainda abrimos um parênteses neste prefácio para ilustrar o que acabamos de dizer. Já há muitos anos tivemos ocasião a refutar na Bahia a crença geral da influência da lua sobre o tempo. Disse-nos abastado senhor de engenho: o tempo muda com a lua. Cada vez, que esta regra não se verificava, chamávamos a sua atenção para este fato. Afinal nos disse, não querendo dar-se por convencido: sim, tem razão, mas o tempo muda com a lua ou um a três dias antes ou depois. Agora dá certo, exclamamos, porque 3 dias antes e mais 3 dias depois com o dia da fase da lua da sete dias e de sete em sete dias temos nova fase da lua. Ainda duvidou o nosso oponente. Mais tarde tivemos ocasião de apostar com um amigo a respeito e ganhamos a aposta. O povo espera chuva, quando entram na sala muitos insetos, besouros, bruxas e mariposas, que esvoaçam em redor da luz do candeeiro. Isto é indicio certo da chuva nos dias seguintes. Os insetos têm instinto fino para vencer na luta pela existência. Muitos deles passam o estado de larva ou crisálida no solo e morreriam afogados pela chuva, estando próximos a metamorfosear-se. Outrossim as formigas antes de chover, particularmente as de “correição”, começam a andar em fileiras, procurando lugares mais elevados, às vezes árvores, embora temporiamente, para escapar a morte de asfixia na água.
  • 21. 21 I Conforme o uso aceito admitimos duas estações no ano, a seca e a chuvosa, segundo as quais o lavrador regula as suas culturas, ainda que não coincidam bem com a subdivisão em quatro estações geralmente aceita pelos metereologistas, a saber: a primavera que compreende em nosso hemisfério meridional os meses de setembro, outubro e novembro, o verão ou estio nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, o outono, que inclui o março, abril e maio e afinal o inverno nos meses de junho, julho e agosto. Segundo as nossas observações a estação seca vai de abril até setembro, inclusive, se bem que às vezes, mas não sempre, ainda caem quantidades de chuva notáveis nos meses de abril e setembro. Pelas mesmas observações nossas durante quatro anos calculamos, na média, em setenta milímetros no abril e em quarenta milímetros no setembro a quantidade de chuva nestes meses, a qual é pequena. Resulta, pois, destas e de outras observações, que o setembro é um mês seco, com raras exceções – um aviso para os uberabenses, que quase sem exceção alguma começam a plantar milho e feijão neste mês, perdendo quase sempre o seu trabalho e tendo de refazer as suas lavouras com as primeiras águas da estação chuvosa, que dura de outubro até o fim de março. Os meses de maio a agosto, inclusive, sempre são secos e muito perniciosos para a renda da indústria pastoril neste tão abençoado clima do planalto central do Brasil, em virtude da falta absoluta de prevenção da população rural, porque as
  • 22. 22 necessárias medidas preventivas facilmente e com poucas despesas se executam; trate-se só da irrigação artificial, visto que abundantes fontes, cursos de ribeiros e rios em parte alguma faltam neste planalto de ricas aguadas. Agosto, o ultimo mês do inverno é o mais seco com a medida de 55 por cento de umidade relativa. Nesta estação, porem, e principalmente no mesmo mês, se observa seca muito maior, em geral do meio-dia até 2 e 3 horas da tarde, v. g. 22 por cento de umidade relativa no agosto de 1898, a mínima observada durante quatro anos. Porém em todos os meses do inverno (junho, julho e agosto) e nos dois primeiros meses da primavera (setembro e outubro) se observam nas mesmas horas do dia umidade relativas de 22 a 43 por cento. Não obstante toda esta secura do ar o cultivo das hortaliças, da batata, batatinha, da cana de açúcar, até dos cereais e do feijão prospera por excelência nesta estação seca com a irrigação artificial, como já foi provado exuberantemente. Uma ou outra destas culturas, principalmente a da cana de açúcar, ás vezes são prejudicadas pelas geadas. Maio e julho são os meses em que a geada aparece mais frequentemente; cinco a seis vezes foi observada nestes meses durante os quatro anos. As três geadas em agosto tiveram lugar aos 18 deste mês de 1898 e em 11 e 12 do mesmo no ano de 1900, isto é, pelo menos, as duas últimas na primeira metade deste mês e aquela ao começo da segunda metade, em uma época em que o nevoeiro seco ainda não cobria tão densa e geralmente quase durante todo o dia esta região, ou quando,
  • 23. 23 como aos 15 e 16 de agosto de 1898, tiver sido espalhado e rechaçado por um forte vento de norte e mais tarde de sudoeste. É muito difícil e às vezes completamente impossível distinguir neste planalto a neblina do nevoeiro seco (fumaça), principalmente no tempo, em que o último aparece, a saber, do meado de agosto até o começo ou meado de outubro. A causa do nevoeiro seco é, como é sabido, a queima dos campos, pastos e roçados pelo fim da estação seca e o seu efeito é, o que é pouco sabido, de impedir a formação das geadas, que além disto seriam muito mais frequentes nesta estação. O mesmo efeito produzem as neblinas. Elas são mais frequentes na estação seca, isto é, nos dois últimos meses do outono (abril e maio) e no inverno, de 4 a 10 vezes por mês e, então, principalmente nos vales, mui mais raramente nos lugares mais elevados, sendo então neblinas gerais. Estas se apresentam só uma a 2 vezes por mês. Nos vales podem, portanto, contribuir um tanto para refrescar as plantas, e os pastos à margem dos riachos e rios estão quase sempre verdes durante todo o ano, oferecendo rara e insuficiente nutrição às numerosas manadas alimentadas exclusivamente no pasto... As saraivadas (granizadas, chuvas de pedra) são raras felizmente. Durante os quatro anos somente foram observadas 11 saraivadas. As pedras de gelo em geral são pequenas e caem em pequena quantidade ao começo de uma chuva de trovoada. Sendo, pois, os granizos miúdos, nenhum dano causam nas culturas dos arredores de Uberaba. Todavia, aos 26 de abril de 1902 às 6 e meia da noite desabou sobre Uberaba e arredores
  • 24. 24 uma granizada grossa, que durou quase um quarto de hora. Foi o princípio de uma trovoada com vento forte do sul e a chuva de granizos, foi seguida por um forte aguaceiro e chuva posterior. Os granizos tinham o tamanho de grandes grãos de milho. Durante cinco anos não tem havido saraiva tão grossa e tão prolongada, que causasse tantos danos como esta. Tristíssimo foi o aspecto e o prejuízo das culturas. As mandiocas perderam a maior parte das folhas cortadas pelos granizos grossos, os pés de milho e as canas tiveram as folhas rasgadas e não houve fruteira que escapasse; todas elas perderam muitas folhas. Contudo as mesmas culturas se refizeram posteriormente. A estação seca, particularmente o inverno, é o temo da safra da cana de açúcar. Difícil é marcar o mês mais próprio para a colheita da cana, à vista das geadas que já ocorrem às vezes em maio, mas certo é, sendo as canas seriamente prejudicadas pela geada, que é, então, tempo para cortá-las sem demora, antes que se dê a inversão da sacarose cristalizável em glucos e levulose incristalizáveis, que fermentam e só servem para o fabrico de aguardente e do álcool. A estação seca nos traz os dias mais belos e mais agradáveis, os verdadeiros dias do sol e noites de luar, embora seja a estação mais fria. De especial importância para a vegetação como fator climatológico é a probabilidade de chuva, que é muito pequena na estação seca; ela varia de 0,03 em agosto até 0,23 no abril, isto é, de, quando muito, um dia com 11 milímetros de chuva, no máximo, até sobre 5 dias – quatro dias de bom tempo – um dia
  • 25. 25 com 10 milímetros de chuva. A probabilidade da chuva desta estação de seis meses é de 0.12, na média, a saber, em dez dias se pode contar 9 dias de tempo de sol e com 1 dia de quase 9 milímetros de chuva. O conhecimento do número dos dias de chuva com 0.5 milímetros de chuva e mais, assim como a probabilidade de chuva calculada destes dados, é particularmente importante para o agricultor, porque daí resulta o ensinamento que a lavoura do campo, arar, adubar e semear, pode começar em outubro com 0,35 probabilidade de chuva, isto é, com um dia de chuva e dois dias de sol durante o pequeno período de três dias, um tempo que habilita o lavrador a arar o solo com charrua, grade e rolo, depois de ter sido suficientemente molhado e afrouxado pela chuva. A nebulosidade ou anuviamento nesta estação seca, também é pequena, ela varia na média mensal de 0.28, o mínimo, no mês de julho a 0.48, o máximo - quase a metade do céu nublado – em abril. Estes belos dias com a sua irradiação direta do sol têm influência notável sobre a nossa saúde: quanto maior o número de horas, durante as quais perdura a influição da luz direta do sol, tanto mais prosperam os organismos animais, estando favoráveis às mais (sic) condições da vida. Avaliamos segundo as observações de Campinas em 2.300 por ano o número das horas da luz direta em Uberaba. Para realçar mais o contraste com o mui saudável clima do planalto central brasileiro, onde vivemos, citamos a duração da insolação direta por ano em
  • 26. 26 algumas cidades europeias. Hamburgo tem por ano 1.305 horas de luz direta do sol, Berlim tem 1.727, porém Londres com o seu clima nebuloso somente 1.026 horas, enquanto Kew, e pequena cidade vizinha de Londres, já tem maior número de horas de luz direta do sol, a saber, 1.394 e Greenwich 1.227. No planalto de Uberaba de 92 dias do inverno somente 26 são mais ou menos nublados, isto 2, com anuviamento maior a 0.40, portanto, a quarta parte de todos os dias no inverno, enquanto três quartas partes desta estação se distinguem pelos brilhantes dias de sol. Neste planalto central até se sente os raios diretos do sol, quando céu está coberto de cirros; pouco enfraquecidos penetram através destas nuvens delicadas, formadas de pequenos cristais aciculares de gelo. Em toda a estação seca contamos na média de 4 anos 116 dias claros dos 183 dias, soma de todos os dias desta estação, isto é, dois terços de todos os dias são belos dias de sol, enquanto na estação chuvosa só 32 dias são de bom tempo. Quanto ao período diário do anuviamento em Uberaba, verificamos que a nebulosidade em geral cresce de manhã das 7 horas até às 2 horas da tarde e diminui durante a tarde ate às 9 horas da noite e neste tempo é em geral menor do que na madrugada. Esta regularidade se nota principalmente no outono, inverno e nos dois primeiros meses da primavera. A maior intensidade da luz direta do sol, particularmente a dos raios ultra-violetas, tem grande influência sobre a vegetação dos planaltos. A mesma influência exerce sobre a pele da raça branca.
  • 27. 27 Assim se explica o excelente efeito da irrigação artificial sobre as culturas durante a estação seca, que sempre observamos, e particularmente na quantidade e qualidade superiores das hortaliças. Outrossim, o solo no planalto, particularmente na estação seca, se aquece mais rapidamente, em menor tempo atinge uma temperatura mais elevada do que na zona litoral, mais baixa – uma causa importante do crescimento mais rápido das plantas e da maturação prematura dos frutos; e a irradiação reflexa do calor obscuro do solo, o mormaço, também tem a sua parte no efeito deste clima sobre a pele humana. Poucas gotas de chuva durante a estação seca tem influência quase incrível sobre o reino vegetal, nomeadamente as gramíneas; os pastos inteiramente secos reverdecem em poucos dias. Quando, porém, como no ano de 1897, durante alguns meses não cai gota alguma de chuva, então o gado morre nos pastos e grandes prejuízos nas manadas das grandes fazendas de indústria pastoril no Brasil Central, são a consequência. E por que? Porque o criador de gado, brasileiro, não conhece a irrigação artificial, não conhece prados artificiais, nem o cultivo de plantas forrageiras e das plantas-raízes para poder guardar forragem, seca ou em silos, para a estação seca. Ele só possui pastos. E, todavia, o agricultor brasileiro, principalmente o criador do gado, ocupa-se inconscientemente uma vez por ano do trabalho de produzir nuvens e às vezes até chuva, queimando
  • 28. 28 os seus extensos pastos secos e também partes da floresta ou dos cerrados para cultivar no solo dos últimos milho e feijão. Então não são somente nuvens de fumaça, que se elevam, mas também o vapor d’água nelas, o resultado da combustão das plantas secas, o qual se condensa a nuvens das camadas aéreas, mais altas e mais frias em redor das partículas de carvão, arrastadas dos lugares quentes das queimadas pelo turbilhão do ar que aí se produz. O observador atento tem no Brasil muitas vezes ocasião de acompanhar este interessante fenômeno da formação das nuvens. Tratamos, primeiro, nas linhas que precedem, dos meteoros úmidos e outros correlatos, porque são os que mais interessam o lavrador, assim como em geral os habitantes desta zona. A estação seca é a mais fria do ano. A sua temperatura média, todavia, se eleva a 21º C., sendo a do mês mais frio, do junho, de 19º, de que pouco difere a do julho, cuja média é de 19.º2. O agosto já é mais quente com 21.º5, média excedida pelas mesmas do setembro (22.º9) e do abril (23.º1). O maio possui a temperatura média de 20.º3. Porém não é pelas temperaturas médias, que se pode bem apreciar a temperatura de uma região em sua influcção sobre o clima e com isto sobre os organismos; preciso é estudar as mínimas e máximas temperaturas e a diferença de ambas, a sua amplitude. A mínima extrema ou absoluta temos observado nos quatro anos com 1.º0 acima de zero no mês de julho.
  • 29. 29 Porém, o tenente-coronel A. B. Sampaio já observou no mesmo mês uma mínima absoluta de 0.º0. Outras mínimas extremas, mensais de 2º a 5º têm sido observadas nos meses de maio (2º), junho (5º), agosto (4.º3) e setembro (5º), enquanto a mínima extrema do abril foi de 10º. A maior amplitude de 20º a 29º possuem os meses de abril até setembro, os da estação seca; os dos últimos meses outonais, os três meses hibernais e o primeiro mês vernal. A máxima amplitude de 29º pertence ao mês mais frio, o de julho. A amplitude diária é muito menor do que a mensal, já mencionada acima. Entretanto, aquela na estação é menor do que na úmida; ela na seca varia de 0.º6 a 11.º2, enquanto na umidade esta variação importa em 0.º2 a 9.º8. A mínima e menor amplitude diária sempre tem lugar em dias de chuva. Ela é de 1.º6 a 8.º6 no mês de abril, de 2º a 9.º4 em maio, de 0.º6 a 9.º6 em junho, de 0.º7 a 9.º9 em julho, de 2.º5 a 11.º2 em agosto, o mês mais seco, e de 2.º2 a 8.º7 em setembro. Nesta estação mais seca e simultaneamente mais fria não são raras as temperaturas de 1º a 10º, principalmente de noite e de madrugada, temperaturas tão extraordinariamente favoráveis para a saúde do assíduo habitante que lavra o solo. O inteligente agricultor europeu nesta região pode semear e colher durante todo o ano, isto é, na estação seca, no outono, inverno e no começo da primavera somente utilizando os numerosos olhos d’água, fontes, ribeiros e rios, que em toda a parte existem, para a irrigação artificial. Então prosperam o melhor
  • 30. 30 possível, como já dissemos, todas as hortaliças e mais plantas cultas, europeias, como sabemos de própria experiência. Batatas inglesas e cereais, principalmente o trigo, porém este, só em pequena escala, já se cultivam. Os ensaios da cultura da cevada, da aveia e de algumas espécies de sorgo nos deram os resultados mais favoráveis. Algum dano às culturas nesta estação seca podem causar as lufadas de vento mais frequentes de maio a outubro, na média 4 a 7 vezes por mês. E este dano só poderá se fazer sentir nos cereais cultivados com irrigação artificial; as hortaliças nada sofrerão destas lufadas. Nesta estação seca os ventos mais frequentes são os de nordeste, leste e noroeste; o primeiro sopra na média 18 vezes, o segundo 10 vezes e o último 23 vezes por cem de todos os ventos durante o ano. Na dita estação se observa nos respectivos meses, na média, de 13 a 30 vezes o nordeste, de 8 a 14 vezes o leste, de 15 a 27 vezes o noroeste, sempre calculado na porcentagem de cada mês. É nesta estação que os ditos ventos sopram mais frequentemente, com a única exceção do noroeste, que é o principal vento das trovoadas e, portanto, é mais frequente na estação chuvosa. Se em nossas zonas já tivessem sido inauguradas as observações – tão extraordinariamente importantes para a meteorologia moderna em geral e muito especialmente para o prognóstico do tempo – das camadas superiores da atmosfera mediante os aeróstatos, balões e papagaios de papel, seda e borracha, providos de instrumentos meteorológicos,
  • 31. 31 registradores, como foram realizados primeiro na Alemanha (em Berlim) e atualmente continuam a ser feitas na primeira quinta-feira de cada mês em toda a parte do hemisfério setentrional e bem particularmente na zona temperada da Europa e da America do Norte: se havia de demonstrar, que no tempo da seca hibernal das latitudes subtropicais, a que pertence a nossa região de Uberaba, reina nas camadas superiores da atmosfera um anti-ciclone extenso, isto é, uma pressão máxima ou alta pressão do ar, que nestas alturas o ar é relativamente mais quente (inversão da temperatura), a saber, apresenta grandes afastamentos positivos das médias normais da temperatura na camada inferior e desce lentamente, pelo que as camadas superiores do ar se tornam quentes e secas. Até uma distribuição favorável às precipitações aquosas das pressões atmosféricas nas camadas inferiores não deixa vingar por esta causa uma chuva mais forte e duradoura: as nuvens formadas sempre se tornam a dissolver de uma maneira surpreendente, e não obstante de ameaçar a chover, não cai chuva alguma. As observações meteorológicas realizadas nas ascenções aeronáuticas do porvir em nossas zonas tropical e subtropical, onde ainda nunca foram feitas em parte alguma do globo terráqueo, nos reservam resultados surpreendentes e importantíssimos para a previsão do tempo, semelhantes aos que nos desvendaram, maravilhados, a leitura dos três volumes das “ascensões científicas” de R. Assmann e A. Berson (Berlim 1900).
  • 32. 32 Certo estamos, que em breve algum governo preclaro dos nossos Estados, para favorecer e fomentar o progresso agrícola, fornecerá os meios para a execução desse desiderato, merecendo o aplauso e os agradecimentos de todo o mundo civilizado, particularmente do mundo científico. * Sobre a temperatura se exercem as mínimas e as máximas barométricas de duas maneiras: pelo estado calórico das massas aéreas, trazidas pelo vento e pela influição sobre a irradiação. A primeira circunstância nomeadamente se faz sentir nas depressões ou baixas pressões em consequência do movimento aéreo mais forte, podendo-se talvez estabelecer, segundo o nosso estudo da “Tempestade do Rio Apá”, para a nossa região, que do lado oriental (que em geral precede) das mínimas os ventos sopram de regiões setentrionais e produzem aumento da temperatura, enquanto na parte ocidental os ventos provenientes de regiões meridionais causam diminuição da temperatura. Os fenômenos correspondentes na vizinhança da máxima ou alta pressão facilmente se deduzem, mas menos se levam em consideração, porque neste caso sempre sopram ventos fracos. Do outro lado uma influência muito essencial da distribuição da pressão sobre a temperatura do solo e a do ar dependente dela é o resultado da dupla irradiação, a qual do sol traz calor para o solo e deste espalha calor para o espaço celeste. Quando a insolação pela primeira irradiação predomina, como de dia e no verão, então a temperatura aumenta; sendo,
  • 33. 33 ao contrário, a irradiação do solo maior, como de noite e no inverno, então a temperatura abaixa. Estes fenômenos tanto mais se acentuam, quanto mais desembaraçadamente toda a irradiação pode ter lugar, e de outro lado tanto menos serão perceptíveis, quanto mais a irradiação for impedida pelas nuvens. O céu límpido do máximo barométrico (anti-ciclone) traz, portanto, calor no verão ou na estação chuvosa e frio no inverno ou estação seca e aumenta além disto em cada estação as variações ou amplitudes diárias da temperatura. A coberta de nuvens (anuviamento), própria ao mínimo barométrico (ciclone), pelo contrário, diminui a irradiação, outrossim diminui a grandeza das variações ou amplitudes diárias da temperatura e traz no verão tempo fresco e no inverno tempo mais quente. Durante as estações intermediárias, a primavera e o outono, não predomina, termo médio, irradiação alguma de ambos, em caso singular; porém se considera então, se a temperatura que reina estiver acima ou abaixo da média da estação, calculada de observações de longos anos. Visto que quanto maior for a quantidade de calor, que o solo possui, tanto maior quantidade poderá ceder e tanto mais forte será a sua irradiação. Por isto com uma temperatura abaixo da média as condições da irradiação serão iguais as do inverno, com temperatura acima da média aquelas do verão. Daí resulta a regra: que na primavera e no outono, quando a temperatura estiver acima do calor médio da estação, a mínima barométrica
  • 34. 34 trará aquecimento e a máxima esfriamento do ar; ao contrário, estando a temperatura abaixo da média, a mínima barométrica trará esfriamento e a máxima aquecimento do ar. Assim v.g. pelo fim de maio e nos primeiros dias de junho de 1902 o ante-ciclone, que já se manifestara, foi substituído por um ciclone que nos trouxe temperatura maior e algumas trovoadas com chuva. Era uma depressão ou mínima secundária em consequência dos ciclones havidos pouco antes no La Plata e sul do Brasil. II A estão chuvosa ou úmida compreende os meses de outubro a março, inclusive, isto é, os dois últimos meses vernais, os três meses estivais e o primeiro mês outonal. Nesta estação cai chuva em abundância, a saber, na média de 4 anos, 1445.4 milímetros ou sete oitavas partes da chuva ânua, que é na média de 1636.2 milímetros, ficando para a estação seca somente quase uma oitava parte da soma total ou exatamente a média de 190.8 milímetros de chuva. Segundo as observações do T.te C.1 A. B. Sampaio, que abrangem oito anos, caem, na média, na estação úmida as mesmas quantidades de chuva, a saber, 1438 milímetros, porém a estação seca, segundo as suas observações, é mais chuvosa, particularmente em abril (99 mm.) e em setembro (129 mm.), de sorte que nesta estação caem 329 milímetros de chuva e em soma no ano inteiro 1767 mm. (média de 8 anos).
  • 35. 35 O janeiro, o segundo mês estival, é o mais chuvoso do ano com 326 milímetros de chuva (307 mm. segundo Sampaio). Esta estação úmida os lavradores do país exclusivamente utilizam para cultivar cereais, principalmente o milho, arroz, feijão e outras plantas úteis, como a mandioca doce, a batata doce e modernamente também a batatinha (batata inglesa ou americana), se bem que outrossim na estação seca com irrigação artificial prospere por excelência a cultura das plantas úteis. Já mencionamos, que as culturas desta estação de chuvas só podem ser começadas em outubro, salvo raras exceções talvez já em setembro, porque as sementeiras deste mês quase sempre se perdem. Às vezes as chuvas durante 24 oras são bem consideráveis. Semelhantes chuvas torrenciais caíram em 28 de outubro de 1897, a saber, 120 milímetros e aos 9 de janeiro de 1900, 110 milímetros. Nestes meses da estação chuvosa a umidade relativa do ar, isto é, a porcentagem da quantidade do vapor aquoso, dissolvido nele é grande. O máximo da umidade relativa temos observado em fevereiro de 1897, às 9 horas da noite; era de 95% neste ultimo mês estival. A maior umidade relativa enche o ar de noite e de madrugada. Notamos de madrugada de 83 até 95% e de tarde e de noite de 85 até 95% desta umidade relativa. Em fevereiro de 1897 a umidade relativa sempre variava às 7 horas da madrugada e às 9 horas da noite entre 80% e 95%. E mesmo às 2 horas da tarde, em geral o tempo do dia mais seco,
  • 36. 36 reinava neste mês durante 14 dias a mesma umidade relativa. Outrossim no fevereiro de 1898 foram observados em 22 dias de madrugada os mesmo altos valores de umidade relativa no ar; mas às 9 horas da noite só em 18 dias. Em fevereiro de 1899 notou-se o mesmo fenômeno às 7 horas da manhã em 25 dias e às 9 horas da noite em 19 dias e no mesmo mês do ano de 1900 às 7 horas da manhã em 21 dias e às 9 horas da noite em 19 dias. No ano de 1898 observou-se esta alta umidade relativa no mesmo mês às 2 horas da tarde somente em 11 dias e nos anos de 1899 e 1900 só em poucos dias nestas horas. Também em novembro de 1898 e de 1899 observou-se o máximo absoluto de 95% de umidade relativa. O outubro ainda não sobressai com alta umidade relativa como os meses de novembro, dezembro, janeiro e fevereiro. E o março, o último mês da estação chuvosa, é um tanto mais úmido do que o outubro. No período diário da umidade relativa tem lugar um máximo dela de madrugada – às 7 horas -; ela pouco a pouco diminui durante a manhã até cerca das 2 horas da tarde. A estas horas do dia observamos o mínimo dela. Mais tarde durante a tarde torna a aumentar a umidade relativa, mas às 9 horas da noite ainda não alcança o máximo da madrugada. Este aumento continua de noite até à madrugada. Dias de geada não temos durante a estação chuvosa, nem tão pouco nevoeiros secos, produzidos pelos agricultores, exceto em outubro, em 6 dias na média de quatro anos, e mesmo as
  • 37. 37 neblinas são raras nesta estação, tendo sido observadas apenas uma a duas neblinas no vale nos meses de janeiro, fevereiro e março, os últimos meses da mesma estação, enquanto as mais raras neblinas gerais nunca foram observadas. Estes meteoros úmidos pertencem propriamente à estação seca, como já foi dito. Granizadas, porém, de granizos pequenos, caíram nestes quatro anos: um em novembro, um em dezembro (1896), 3 em fevereiro, 2 em março, 2 em abril, 2 em maio, e um em julho, isto é, 7 saraivadas na estação chuvosa e 5 na seca (incluindo a granizada de 26 de abril de 1902). O mês mais chuvoso do ano, o janeiro, possui também a máxima probabilidade de chuva em Uberaba (0.71); em dez dias pode-se contar com sete dias de chuva, dos quais cada um traz na média 15 milímetros de chuva fértil. Segue-lhe o fevereiro com menor probabilidade de chuva (0.64), de 10 dias somente 6 dias trazem chuva, na média, 25 milímetros em cada dia. Este mês e o novembro tem quase igual probabilidade de chuva (0.63); no último caem somente 13 milímetros de chuva, na média, em cada dia. Outrossim em março caem, na média, 13 milímetros de chuva por dia, porém somente em cada segundo dia (probabilidade de chuva = 0.45). No mês de outubro se precipitam, na média, 14 milímetros de chuva em cada um dos 11 dias de chuva; portanto este mês possui menor probabilidade de chuva (0.35), isto é, quase cada terceiro dia, na média, é um dia chuvoso, e isto é também quase o limite extremo da
  • 38. 38 probabilidade de chuva, com que as plantas úteis de raízes superficiais, como os cereais, ainda podem prosperar. Uberaba tem somente 125 dias de chuva por ano como Campinas (com 120 dias chuvosos, média de 4 anos), porém 144 dias de trovoada, soma em que estão incluídos aqueles dias, em que só se observou relâmpagos no horizonte, porque em geral ouviam-se trovões simultaneamente nestes dias, se bem que não chovesse sempre nesta cidade. Em cerca de 20 dias, na média, observou-se por ano somente relampear ao horizonte, sem ter sido ouvido o trovão, nem tão pouco caído chuva alguma. Restam, pois, 124 dias de trovoada propriamente ditos ou quase todos os dias de chuva são dias de trovoada em Uberaba. As trovoadas, que não trazem chuva e que são raras, deixam em geral cair chuva ao leste ou ao sul no respectivo dia, mas se apresentam, então, um ou alguns dias mais tarde, vindos de noroeste ou de oeste. Destes pontos do horizonte vem a maior parte das trovoadas. Às vezes com trovoadas ao leste ou ao sul caem relâmpagos, brama o trovão, porém quando muito caem algumas gotas (chuviscos) ou chuva nenhuma. O maior número de trovoadas se devem, pois, manifestar na estação chuvosa, em 13 (outubro) até 22 dias (janeiro e março) por mês. Em abril, o primeiro mês da estação seca, ainda houve, na média, 12 dias de trovoadas, mas nos outros meses desta estação apenas se deram uma a seis trovoadas por mês.
  • 39. 39 Pelo que precede se pode inferir, que a nebulosidade (anuviamento) nesta estação deve ser a máxima nos respectivos meses; ela varia de 0.57 (mais que a metade do céu coberto de nuvens) em março até 0.75 (três quartas partes do céu coberto de nuvens) em janeiro, sendo 0.51 a nebulosidade média do ano inteiro. A média mensal do anuviamento fica, pois, abaixo da média ânua da estação seca e acima dela na estação úmida. Nesta estação se contam, na média por mês, 22 a 28 dias nublados e somente 2 a 9 dias claros. A soma de todos os dias nublados nela é de 150 e a dos dias claros de 32. Não obstante as muitas chuvas, que sempre esfriam um tanto o ar atmosférico, a estação úmida é mais quente do que a seca; a média destes seis meses é de 23º.2. A média dos três meses de outubro a dezembro fica abaixo desta média, de 22º.8 em dezembro a 23º.2 em outubro, e a dos outros três, de janeiro a março, é mais alta do que a média da estação, a saber, de 23º.3 em fevereiro e de 23º.5 em janeiro e de 23º.6 em março. As temperaturas máximas absolutas dos seis meses desta estação se elevam a 29º e mesmo a 33º em outubro (segundo Sampaio a 38º em janeiro) e as mínimas deles chegam a 15º em dezembro e a 10º.8 em outubro. Portanto, estas são superiores à temperatura atmosférica de 4º acima de zero, temperatura máxima com que pode gear, como geia natural e mais facilmente com temperaturas inferiores a de 4º. A temperatura média do ano é de 22º.1 em Uberaba, isto é, nos arredores dela.
  • 40. 40 Mais altas temperaturas se observam naturalmente nas ruas da cidade em nível inferior na vizinhança do talweg do córrego. As amplitudes mensais das temperaturas na estação úmida são pequenas, elas variam de 14º.5 no janeiro a 21º.2 em outubro. E ainda menores são as amplitudes diárias nesta estação; elas são também menores do que na seca, isto é, devido às copiosas chuvas, embora seja maior a temperatura desta estação do que a da seca. A amplitude diária varia de 0º.2 a 9º.8. No mês de outubro ela varia de 0º.6 a 9º.8, em novembro de 0º.4 a 6º.6, em dezembro de 0º.2 a 5º.2, em janeiro de 1º.0 a 5º.6, em fevereiro de 1º.2 a 8º.6 e em março de 0º.6 a 6º.6. As violentas lufadas de vento, que precedem as trovoadas, danificam às vezes as culturas do milho. Entretanto essas lufadas na estação chuvosa não são tão violentas e frequentes, quanto as plantas úteis, como o milho e o arroz, ainda estão no campo e crescem, exceto talvez em fevereiro, com três lufadas, a média do quatriênio, quando os colmos destes cereais ainda estão verdes e as espigas pouco desenvolvidas. Nos meses de março e abril, quando as espigas amadurecem ou já estão maduras, uma ou duas lufadas já muito menos prejudicam e em novembro e dezembro os pés de milho ainda são tão pequenos, na média, que três lufadas em novembro e uma em dezembro possam causar dano. Em outubro ou às vezes já em setembro os lavradores costumam fazer a sementeira do milho, arroz e feijão
  • 41. 41 e então as seis lufadas, na média, nenhum prejuízo podem causar. As calmarias nesta estação úmida são menos frequentes, variando de seis por cento de todos os ventos em outubro a 26% em março, enquanto a sua maior frequência se observa na estação seca, de 9% em setembro até 31% em abril. Os ventos mais frequentes na estação chuvosa são os de noroeste, de 17% em outubro a 30% em dezembro. Seguem-lhe na frequência media os de nordeste com 12% em novembro a 24% em outubro. Porém na estação seca a frequência destes ventos é quase a mesma com a diferença, que nesta estação o nordeste é um tanto mais frequente e na úmida o noroeste sobressai na frequência. O norte aparece em novembro com 11% de frequência, em dezembro com 10% e em fevereiro com 16%. O leste é menos frequente na estação úmida do que na seca, com exceção de outubro, quando a sua frequência ainda chega a 16% e em novembro e fevereiro a 9%. Na estação úmida o sueste outrossim é mais frequente do que na seca; em outubro sopra ate, na média, 10 vezes por cem vezes de todos os ventos neste mês e em novembro 9 vezes. Menor, de 4 a 8 vezes, é a sua frequência porcentual nos outros meses desta estação, mas sempre maior do que na seca, exceto em janeiro. O sudoeste é menos frequente na estação úmida – de 3% a 9% – do que na seca – de 5% a 9% -, se bem que a diferença não é grande. O oeste sobressai só com 19% e frequência em janeiro. Nos outros meses do ano ela varia de 4% a 9%.
  • 42. 42 Também o sul somente sobressai com 10% de frequencia porcentual em setembro; nos outros meses do ano ela pouco varia, a saber, de 5% a 8%. As lufadas de vento, cujo efeito sobre as plantas já mencionamos, são raras vezes tão violentas, que arrancam telhas de barro ou de zinco dos telhados, galhos das árvores ou que desenraizam estas. Mas todavia são ciclones (mínimas), que mui provavelmente têm sua origem nos Andes. Às vezes também serão pequenos ciclones parciais ou secundários em correlação com aqueles, os quais acompanhados com saraiva e trovoada são causadas por pressões mínimas, parciais do ar. Aos 8 de fevereiro de 1899, às duas horas da tarde tivemos durante meia hora a tempestade mais violenta, que nos foi dado presenciar neste planalto; desenraizara pequenas árvores, arrancara ramos grossos das árvores e telhas dos telhados; as lufadas de vento vieram do sul. Estas lufadas aparecem aqui no planalto muitas vezes 2 a 4 dias depois dos pampeiros ou tempestades que, dos Andes se precipitam sobre os pampas de La Plata, como verificamos por nossas observações comparadas com os telegramas de La Plata. Um interessante fenômeno são as trombas de terra no planalto de Uberaba; são pequenos ciclones ou turbilhões locais, que levam para cima em movimento especial o pó vermelho, folhas, galhos pequenos, a roupa pendurada na corda e às vezes arrancam telhas dos telhados; elas percorrem somente poucos quilômetros. Pelo pó vermelho se tornam visíveis e se as observa distintamente, pouco a pouco, alargando-se em
  • 43. 43 rodopio, desaparecerem para a vista nas alturas atmosféricas. Do Instituto Zootécnico vimos formarem-se algumas à leste, no alto do Fabrício, e passarem por cima da cidade para oeste ou sudoeste. Elas só aparecem na estação seca, de maio a setembro. Em junho e julho observamos durante 4 anos duas, relativamente três destas trombas. Nos primeiros três anos o lugar de nossas observações no Instituto Zootécnico foi mais favorável. Tivemos ocasião de observar neste período sete trombas, nos dois primeiros anos até cinco. No alto do Fabrício, onde o horizonte está limitado por casas, observamos no ano de 1900 somente uma tromba, que passou por cima da nossa casa. * Um grupo muito importante de fenômenos, particularmente da estação chuvosa, se relaciona com a corrente ascendente do ar. Esta se origina das diferenças da pressão atmosférica, proveniente da distribuição da temperatura. Por cima da região, em que a pressão atmosférica é menor do que na vizinhança, forma-se uma corrente ascendente, alimentada pelas correntes do ar, que na camada aérea, próxima ao solo afluem de todos os lados, enquanto da sua parte superior o ar decorre para todos os lados. A corrente ascendente pode determinar a formação de nuvens e a precipitação aquosa, e nesta ocasião é possível que haja uma sobre-saturação com vapor aquoso no ar e sobre-esfriamento
  • 44. 44 das gotas d’água formadas, e cerrando esse estado instável, se podem produzir chuvas torrenciais e saraivadas, como de fato tem sido observadas neste planalto, segundo o que já temos exposto nas linhas precedentes. Tornando-se com isto livre uma quantidade notável de calor, que até agora estava latente em virtude da repentina condensação em massa, e aquecendo-se o ar, resulta um aumento local da pressão que pode importar em alguns milímetros da coluna mercurial do barômetro. As correntes ascendentes em geral se produzem por cima de listas estreitas, mas compridas ou de áreas de forma arredondada do terreno. No primeiro caso qualificamos este fenômeno de rajada de vento ou de cilindro (rolo) de ar em rotação, no último de turbilhão vertical. A rajada de vento geralmente com o seu comprimento tem posição vertical ao vento que predomina, e visto que este a leva consigo, a rajada progride verticalmente a seu comprimento. Por isto também se pode dizer, que se move com frente larga e pouca profundidade. Assim a temos frequentemente observado no planalto de Uberaba, na estação chuvosa, vindo sobre nós de sueste ou passando ao pé do sudoeste. Outrossim estas rajadas de trovoada se movem também e mais frequentemente de noroeste para sueste. Por cima da lista do terreno que forma a sua base, o ar sobe em frente, e atrás desta lista ele desce e corre na camada aérea, inferior de ambos os lados contra a rajada. Neste caso os caminhos dos ventos são bastante curtos, de sorte que se pode abstrair da influência desviatória da rotação da terra. Na
  • 45. 45 camada inferior do ar, próximo ao solo, ainda se exerce, além das correntes da frente e atrás contra a rajada, o vento predominante da região, com que a rajada progride. Do lado da frente, como diferença de ambos os movimentos, o vento a observar é fraco, do lado trazeiro, porém, onde se manifesta a soma dos dois movimentos, é um tanto mais forte. Este vento do lado trazeiro, que sopra contra a rajada, traz massas de ar, que acabavam de descer das camadas mais altas e mais frias estavam mistas com chuva ou saraiva. Por semelhante mistura de água ou gelo é impedida pela maior parte a elevação da temperatura esperada em virtude do aquecimento dinâmico, e assim se explica porque as massas do ar, que correm atrás da rajada, são notavelmente mais frias do que as da circunvizinhança. O aquecimento dinâmico desta corrente descendente do ar, entretanto, se manifesta pelo que o ar, não obstante da água com ele misto, está muito longe de estar saturado do vapor. Toda esta formação produzida no lado trazeiro da corrente ascendente é, portanto, um turbilhão com eixo horizontal. É “um rolo de ar de grande extensão, que, girando em redor do seu eixo horizontal, progride com o ar em movimento” (Vettin). Este turbilhão traz na frente ar mais quente e atrás de si ar mais frio; em seu progresso as partículas singulares descrevem ciclóides, na parte inferior reina movimento muito rápido, na superior quase calmaria, talvez mesmo movimento retrógrado. Um observador, por cima de quem tudo isso passa, faz então as seguintes observações: do ponto do horizonte, de onde sopra o
  • 46. 46 vento, se levantam nuvens, que na beira anterior às vezes se parecem com roletes ou asas de avestruz, ou deixam pender para baixo pontes em forma de odres. Pouco antes de chegarem esta nuvens ao zenith, o vento diminui de velocidade ou salta mesmo passageiramente para a direção oposta, cessa de todo quando as massas de nuvens estão por cima do lugar de observação e começa, depois, repentinamente a soprar da primitiva direção com grande velocidade. Simultaneamente ou pouco antes a pressão do ar subiu rapidamente de algum ou alguns milímetros da coluna mercurial no barômetro, porém torna a começar quase imediatamente a descer lentamente, e sua marcha, então, pouco a pouco se liga à parte da curva antes da subida rápida. Com o aparecimento do vento forte apresentou-se um esfriamento sensível e simultaneamente ou pouco depois (retardado pelo tempo da queda) cai uma chuva torrencial ou saraivada. Sendo a força da corrente ascendente insuficiente para elevar o ar até o limite de condensação, deixa de haver nuvens e precipitação aquosa e, portanto, também o resfriamento, e se observa somente uma rajada de poeira, como frequentemente em Uberaba. Sendo de outro lado o processo atmosférico fortemente desenvolvido, associa-se às particularidades, já mencionadas, ainda o relâmpago e o trovão. Fala-se nestes casos de rajadas de chuva, rajadas de saraiva, rajadas de trovoada, etc. as últimas são muito frequentes na região de Uberaba, menos frequentes na de Campinas e outras partes da zona subtropical. Muitas
  • 47. 47 vezes uma série de semelhantes rajadas, uma depois da outra, com direção quase idêntica passa por cima de uma região e oferece ocasião propícia para observações repetidas das particularidades deste fenômeno que acabamos de descrever. A mudança da pressão atmosférica, que tem lugar durante uma rajada, já foi mencionada e forma um sinal certo e muito característico, de que se pode inferir a passagem completada de uma rajada. Os barógrafos já empregados em muitos lugares inscrevem continuamente a pressão atmosférica com todas as suas variações como uma linha contínua (curva) e fornecem na ocasião de rajadas que passam, uma forma de curva de pressão, a qual se qualifica de nariz de trovoada. Não é sempre uma trovoada, porque cada rajada simples de chuva ou granizo produz no barógrafo um nariz de trovoada. Nas isóbaras este fenômeno se reconhece por uma saliência irregular, semelhante ao desenho de uma enseada num mapa geográfico, saliência que se chama saco de trovoada. Outrossim se chama esta distribuição da pressão do ar: “isóbaras com forma de V”. Talvez a maior atenção para as linhas das rajadas, considerando-se as isóbaras com saliências em forma de enseada, e pelos narizes de trovoada fornecidos pelo barógrafo pode conduzir-nos, a que a previsão das rajadas e trovoadas seja mais certa e mais cedo do que até agora. Formando-se a corrente ascendente por cima de um terreno de forma arredondada, e não, como na rajada, por cima de uma lista de terreno, então aflui o ar de todos os lados na camada inferior, próxima ao solo e se produz um turbilhão
  • 48. 48 ascendente. As diferentes conformações do solo, assim como a distribuição da temperatura fazem com que as massas do ar, que afluem, tenham diversas velocidades. Aquela direção, na qual a afluência do ar da camada inferior tem lugar mais rapidamente, predomina então, em comparação com a dos outros lados, e a corrente ascendente progride lateralmente no sentido da afluência mais forte do que ar, isto é, na direção do vento eventualmente predominante. Em ponto pequeno se formam semelhantes fenômenos muitas vezes no ar quieto e fortemente aquecido e exclusivamente na estação seca, isto é, a menos quente em Uberaba, e progridem como trombas (de água ou de areia) com o vento, que predomina, elevando água, areia e outros objetos leves. Em outros lugares da terra estas trombas aparecem na estação mais quente do ano. Recordamo- nos de uma tromba d’água na Bahia de Todos os Santos. Em parte elas tem o movimento de redemoinho, o que por causa de sua trajetória curta tanto menos pode ser explicado pela força desviadora da rotação da terra, quanto semelhantes turbilhões não apresentam movimento rotatório em sentido algum determinado. Provavelmente a direção deste movimento somente provem casualmente da direção possuída pela primeira massa aérea que afluiu. Às vezes aparecem também trombas de maior força e deixam atrás de si uma “lista de destruição”, pelo que se pode reconhecer a pequena largura e a grande força do vento da tromba; ela em Uberaba às vezes tira telhas dos telhados e leva pelos ares a roupa pendurada na corda para enxugar.
  • 49. 49 As lufadas de vento, porém, observadas por nós em todos os meses do ano, entretanto com maior frequência nos de fevereiro e de maio até outubro, que quebram os colmos de milho, raras vezes são tão violentas, que arrancam telhas de argila ou zinco dos telhados, quebram os galhos das árvores ou mesmo derrubam estas. Todavia, são manifestações de ciclones (tornados), que provavelmente tem sua origem na cordilheira dos Andes. Outras vezes são pequenos ciclones locais ou secundários, acompanhados de saraiva e trovoada e causadas por pressões mínimas, parciais do ar; são turbilhões ascendentes, extensos. As rajadas de vento com trovoada qualificam também de trovoadas calóricas, distinguindo-as das trovoadas de turbilhão. As primeiras são as mesmas turbilhões com eixo horizontal, as outras são turbilhões com eixo vertical. As primeiras se formam nas regiões, por cima das quais não existe nem uma corrente ascendente, nem descendente pronunciadas, de sorte que na camada inferior, próxima ao solo, há ocasião para um forte aquecimento (que às vezes produz a miragem), que, então, nesta parte da atmosfera tem por consequência um equilíbrio instável. Estas condições existem precipuamente no continente. Acima por nós já foi realçada a máxima frequência no planalto brasileiro das trovoadas calóricas ou turbilhões de eixo horizontal. Se às 9 horas da noite a temperatura aumenta extraordinariamente com grande secura do ar no mesmo dia –
  • 50. 50 às 2 horas da tarde e às 9 da noite – da primavera e do verão, em geral na estação úmida, podemos esperar trovoada calórica. As trovoadas de turbilhões de eixo vertical, ao contrario, acompanham as partes centrais de depressões ou baixas pressões maiores, bem desenvolvidas; elas aparecem com tempo nublado, tempestuoso e principalmente nos lugares, onde as depressões são particularmente maiores ou máximas, isto é, sobre o mar até a costa. O eixo do turbilhão delas tem posição vertical ou inclinada e corta em todo o caso a superfície da terra. As trovoadas calóricas são, pois, idênticas com as trovoadas do verão, como neste planalto, e são fenômenos que acompanham as rajadas, enquanto algumas trovoadas nos tempos dos equinócios (março e abril, setembro e outubro) e no inverno, quando são raríssimas, têm no planalto o caráter de trovoadas de turbilhões e pertencem aos fenômenos do turbilhão ascendente; elas contudo, são raríssimas na zona intertropical. A velocidade com que as trovoadas marcham é muito diferente; as trovoadas fortes se movem em geral por cima da terra mais rapidamente do que as fracas. Por falta de estações meteorológicas, mais aproximadas, por enquanto não se pode fazer cálculos respectivos nesta zona subtropical. Na Europa setentrional e central a velocidade, com que progridem as trovoadas, é, na média, de cerca de 40 quilômetros por hora ou cerca de 11 metros por segundo, pouco mais ou menos a
  • 51. 51 velocidade do vento qualificado de fresco. A velocidade das trovoadas da nossa zona litoral parece ser mais rápida. Das 507 trovoadas observadas de outubro de 1898 até outubro de 1900 verificamos a marcha diária da frequência das trovoadas em Uberaba, como segue; 469 tiveram lugar de tarde, de meio-dia à meia-noite, e somente 38 de noite. O máximo de frequência se observa nas horas mais quentes do dia. De meio-dia às 4 horas da tarde se deram 207 trovoadas (soma dos dois anos) enquanto as outras 267 trovoadas de tarde se distribuíram pelas restante oito horas, das 4 horas até a meia-noite. As trovoadas da estação seca, além de serem raras, não ocorrem principalmente de noite, como no inverno na Europa. Nos meses de julho, agosto e setembro nenhuma trovoada se deu de noite e raríssimas são elas de meia-noite até meio-dia nesta estação. Quanto à marcha anual da frequência das trovoadas em Uberaba, ainda acrescentamos, que se nota um máximo na estação chuvosa, de outubro ate abril, a saber, mensalmente, na média de 4 anos, de 13 a 22 dias de trovoada, na totalidade: 117 dias de trovoada nesta estação e só 27 dias de trovoada na estação seca, isto é, mensalmente de 1 a 6 dias com trovoada e estes somente em maio e setembro, podendo o abril com 12 dias de trovoada ser considerado uma exceção. *
  • 52. 52 Se na estação seca o pó vermelho do fértil solo argiloso, rouxo, um produto de desagregação do augito porfirítico, no qual o cafeeiro tão bem prospera, não penetrasse por toda a parte, o clima de Uberaba seria excelente para os doentes de tuberculose; porém este pó finíssimo penetra por toda a parte, nas casas e nos pulmões. Há, porém, lugares na vizinhança com solo silicioso ou calcáreo. Estes se recomendam para a construção de sanatórios neste mui saudável clima de Uberaba. 8-6-02 (in Almanaque Uberabense para o ano de 1903. Uberaba, p. 190 a 215).
  • 54. 54 O presente livro teve sua composição, em computador PC–Intel Core Duo 3.00 GHz, e sua organização procedidas em anos anteriores, sendo publicado neste blog no primeiro trimestre de 2018, em Uberaba/Brasil.