O TEMPO DOS POVOS AFRICANOS
Elisa Larkin Nascimento IPEAFRO - SECAD/MEC - UNESCO
O TEMPO DOS POVOS AFRICANOS
O TEMPO DOS POVOS AFRICANOS
ipeafro - secad/mec - unesco
suplemento didático
da linha do tempo
dos povos africanos
Elisa Larkin Nascimento
concepção e textos
Presidência da república
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Ministério da Educação
Ministro Fernando Haddad
Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização e Diversidade – SECAD
concepção e elaboração
Elisa Larkin NascimentoPh.D., IPEAFRO –
Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros
design gráfico
Maria de Oliveira e Bernardo Lac
realização
Ministério da Educação – MEC / Secretaria de
Educação Continuada, Alfabetização e Diversida-
de – SECAD, 2007
Dedico este Suplemento à memória do sociólogo Guerreiro Ramos,
ao Teatro Experimental do Negro e ao professor Abdias Nascimento.
O pioneirismo deles ao valorizar a cultura negra e a história africa-
na constitui um legado a que o Ipeafro busca dar continuidade.
Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
O Tempo dos Povos Africanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
Nossa Suplemento Didático . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
Evolução e Primórdios. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
Desenvolvimento Inicial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
Temas Gerais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
Quem criou a Civilização? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
Primeiras Conquistas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
A África no Mundo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
Coerência e Continuidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
Soberania e Inovação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
Novos Contornos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
Rainhas Mães Guerreiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
A Revolução do Ferro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
A África e sua Diáspora. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
Os Sábios dos Estados Africanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
Construção da Liberdade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
Filosofia e História no Simbolismo do Sankofa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
Índice Remissivo de Imagens . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46
Fontes de Pesquisa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
Autor da clássica interpretação racional da História, o filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel excluiu a África negra
da totalidade histórica universal. Apenas duas partes da África, o Egito e a África Mediterrânea, entram na história da
humanidade na concepção de Hegel e de seus seguidores. Para eles, faltam à África negra a objetividade, o ideal de Estado,
o conceito de Deus, do Eterno, do Justo.
As teorias racialistas negaram a contribuição da África ao desenvolvimento humano. Qualquer vestígio de arte, de tec-
nologia ou de civilização encontrado no continente africano seria atribuído a uma intervenção externa européia ou asiática.
Até hoje se especula que a Esfinge do Egito seria uma pedra gigantesca modelada pela força dos ventos e não uma obra
humana com rosto negróide ou até que a construção da cidade murada de Monomotapa seria obra de extraterrestres!
Pesquisas científicas recentes identificam na África o berço da humanidade e demonstram que a África está no início e
no centro da história universal do mundo.
Ao recolocar o Ser negro no início e no centro da história da humanidade, essas pesquisas científicas fazem à África
uma grande justiça, devolvendo-lhe sua contribuição ao mundo que ajudou a povoar e a construir e da qual foi rechaçada
por razões ideológicas.
Assim passamos a constatar que os africanos negros iniciaram e desenvolveram as invenções científicas e tecnológicas
como agricultura, matemática, medicina, embarcações marítimas e tecnologia naval, metalurgia de bronze e de ferro, do-
mesticação das plantas e dos animais, e outras que explicam sua capacidade de migrar para povoar e levar cultura a outros
continentes (Ásia, Europa, América, Oceania).
Nos relatos dos viajantes árabes e europeus estão presentes testemunhos oculares dos impérios, reinos e estados cen-
tralizados, das artes e tecnologias em todas as regiões africanas. No entanto, depois da Conferência de Berlim (1884-1985)
quando as potências coloniais européias dividiram o continente entre si para subjugá-lo e explorá-lo, todas essas realidades
desvaneceram como fumaça. As belezas naturais deixaram o lugar para as selvas perigosas e ameaçadoras; os impérios e
reinos foram substituídos pelas tribos e hordas primitivas em guerras permanentes umas contra outras; as religiões foram
substituídas pela feitiçaria, idolatria e superstições ridículas com o objetivo de justificar e legitimar a Missão Civilizadora
do Ocidente civilizado e do Homem branco.
A historiografia colonial ensinada aos africanos é uma história falsificada, mutilada e reduzida a um espaço-tempo insig-
nificante em relação à verdadeira dimensão espacial e temporal da história da África, dos africanos e de seus descendentes
da diáspora. Esse espaço-tempo de uma história mutilada se inicia apenas a partir dos mais recentes contatos da África e
dos africanos com o mundo externo: o tráfico árabe, os chamados descobrimentos e o tráfico transatlântico seguidos pelos
sistemas escravistas e colonialistas.
Apresentação
Também os países da diáspora negaram, mutilaram e falsificaram a história dos africanos e de seus descendentes, fazen-
do-os aparecer geralmente como objetos e raramente como sujeitos da ação humana no tempo. Omitiram a participação
dos negros na construção das economias, culturas, identidades e transformações políticas desses países. Atribuíram a luta
pela abolição da escravatura aos humanistas brancos e não aos protagonistas negros.
Toda essa história de construção de vida e de resistência à dominação, que resultou nas duradouras religiões, filosofias
de vida e visões do mundo africanas, apenas agora começa a ser reconhecida oficialmente no Brasil pela promulgação da
lei 10.639/03.
A linha do tempo que ora introduzimos, nesta apresentação, é o resultado de um longo, intenso e complexo trabalho
de pesquisa multidisciplinar realizada nos últimos anos pela talentosa pesquisadora e professora Elisa Larkin Nascimento,
com o nobre objetivo de reconstruir o espaço-tempo, a dimensão espacial e temporal, da história da África negra e de sua
diáspora no mundo todo. A finalidade é devolver aos nossos filhos e netos e a todas as pessoas que buscam eqüidade e
justiça social, a autenticidade de “nossa” história, a história da humanidade. E precisamos muito dela para reabilitar nossa
personalidade individual e coletiva como brasileiros e como descendentes de africanos, levantando nossa auto-estima es-
magada pelas mentiras acumuladas na noite do tempo.
A professora Elisa Larkin Nascimento realizou o que eu chamaria um trabalho de formiga e reconstruiu as peças do
quebra cabeça da história autêntica da África, dos africanos e seus descendentes em todos os continentes, numa linha do
tempo que começa no próprio berço e vai até o século XXI, com ramificações em todas as direções onde emigraram os
primeiros africanos.
Trata-se de uma notável contribuição, pois o texto do suplemento didático construído em torno da linha do tempo
é escrito numa linguagem acessível a todos, educadores e alunos. Creio que nós todos, envolvidos no processo de fazer
funcionar a Lei 10.639/03, estamos ganhando um instrumento precioso e de alta qualidade para cumprir os objetivos da
Lei e as reivindicações históricas do Movimento Negro. Vamos viajar nessa linha de tempo para descobrir e preencher as
lacunas, desfazer uma visão histórica herdada da ótica colonial e reconstruir a imagem da qual precisamos para fazer a
justiça histórica da qual nossa dignidade muito precisa.
Kabengele Munanga
Diretor do Centro de Estudos Africanos e professor titular
do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia
Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de
São Paulo (USP).
10 O tempo dos povos africanos
O
Tempo
dos
Povos
Africanos
Como funciona a Linha do Tempo
No ano 2000, o Brasil celebrou os 500 anos de sua “descoberta”, idéia que ín-
dios e negros organizados contestaram. Os índios habitavam a terra há milênios,
e os africanos traziam uma história própria que muito contribuiu para construir o
país. A Linha do Tempo dos Povos Africanos vem mostrar um pouco sobre essa
história.
A Linha do Tempo está dividida em períodos de quinhentos anos. Assim, vem
ilustrar quanto tempo os negros africanos viveram e se desenvolveram em sobera-
nia e liberdade antes de serem trazidos escravizados às Américas para construir as
nossas nações modernas, inclusive o Brasil, no último período de 500 anos.
Veja como esse último período, de cativeiro e resistência, é pequeno comparado
ao tempo da liberdade e da soberania africanas!
As linhas amarelas abaixo das imagens marcam os períodos de alguns dos
mais importantes fenômenos da história africana. As datas são referências aproxi-
madas. E.C. significa Era Cristã, a.C. significa Antes da Era Cristã.
Civilizaç
Primeiros avanços rumo à civilização
[antes de 4500 a.C.]
Na Linha do Tempo dos Povos Africanos você vai
ver e aprender algumas coisas que o conhecimento
científico indica sobre a história da África e dos
povos africanos.
Formação da cultura sudanesa e pré-dinástica egípcia
[4500 a.C. – 3200]
O tempo dos povos africanos 11
ção clássica africana [3200 a.C. – 64 a.C.]
Civilização pós-clássica africana [100 a.C. – 1500 E.C]
Presença e influência na Ásia, Europa e Américas antigas a partir da civilização clássica africana [2500 a.C. – 1500 E.C.]
Domínio mouro na Europa
[710 E.C. – 1400 E.C.]
Cativeiro e construção da
liberdade nas Américas
[1500 E.C. – 2000 E.C.]
12 O tempo dos povos africanos
Nosso
Suplemento
Didático
Aqui você vai encontrar fatos comprovados por
pesquisas científicas que explicam com mais
detalhes as coisas que você viu e aprendeu na Linha
do Tempo.
• Os próprios africanos de pele negra
são os responsáveis pelas culturas,
civilizações, estados políticos orga-
nizados, e tecnologias desenvolvidas
ao longo dos milênios em todo o Con-
tinente africano.
• Durante a Antigüidade, povos de
pele negra marcaram sua presença
em todo o mundo e levaram sua
influência cultural à Ásia, à Europa,
e às Américas.
• Durante os últimos 500 anos, os
negros africanos resistiram à coloni-
zação e à escravização ao passo que
continuaram construindo cultura e
conhecimento.
Vamos começar com uma observa-
ção importante:
Não temos espaço para tratar de to-
dos os acontecimentos de cada perío-
do de 500 anos. Vamos dar ênfase, em
cada período, a algumas dimensões
básicas e grupos de fatos históricos
que marcam de forma geral a trajetória
dos povos africanos. Isso significa que
nem sempre as informações no texto
correspondem exatamente ao período.
Vamos falar de fatos e fenômenos que
ocorrem em diversas épocas, além dos
eventos daquele período específico.
As dimensões básicas incluem
• O saber e o conhecimento construí-
dos pelos africanos de pele negra.
• O desenvolvimento e a tecnologia
Como vamos trabalhar
Dividimos a cartilha nos mesmos pe-
ríodos de 500 anos, mostrando as ima-
gens que você viu na Linha do Tempo
para cada período e oferecendo outras
informações a seu respeito. Buscamos
dar um contexto geral às imagens e
informações da Linha do Tempo, para
ajudar o professor e o aluno a compre-
ender melhor o sentido do conjunto.
Você vai ver e estudar imagens e tex-
tos que demonstram o seguinte:
• A África foi o berço da humanidade.
• A maior parte da história humana se
desenvolveu nesse Continente.
• Os primeiros seres humanos foram
africanos de pele negra que se espa-
lharam por outras partes do mundo,
em várias ondas migratórias.
• Os seres humanos de hoje perten-
cem a uma só espécie cuja ancestrali-
dade comum é negra e africana.
• As “raças” humanas de hoje são
todas descendentes de africanos de
pele negra e entre elas não há gran-
des diferenças genéticas.
• Durante a maior parte da história
humana a África foi o berço dos mais
importantes avanços tecnológicos e
científicos.
• Povos africanos de pele negra fo-
ram os autores desses avanços.
• Durante a maior parte da história hu-
mana a África foi berço da civilização.
entre os povos africanos de pele
negra.
• O caráter matrilinear da maioria das
culturas negro-africanas.
Os grupos de fatos históricos in-
cluem
• O povoamento do mundo por povos
de pele negra oriundos da África.
• A civilização clássica africana.
• A civilização pós-clássica e estados
políticos africanos.
• A presença e influência dos povos
de pele negra e sua cultura na Euro-
pa, na Ásia e nas Américas antigas.
• Cativeiro e construção da liberdade.
Para Começar
De início, vamos considerar algo
importante que acontece antes do
primeiro período da nossa Linha do
Tempo: a evolução da Humanidade.
Quando você pensa nos primeiros
seres humanos, é bem provável que
você os visualize como brancos. A
imagem do homem das cavernas, ves-
tido de pele e armado de um osso de
animal, é uma referência para nossa
idéia do primeiro ser humano.
Mas será que essa imagem corres-
ponde à realidade?
Para responder e refletir sobre isso,
é preciso falar do que significa a idéia
das “raças”. Dividir a humanidade
O tempo dos povos africanos 13
em grupos distintos, chamados de ra-
ças, foi uma forma de justificar dife-
renças sociais, especialmente a escra-
vização e a colonização de povos não
europeus.
Você vai ver que as “raças” não
existem do ponto de vista biológico
ou genético.
Mesmo assim, as raças existem
como um fato real no sentido político
e social, com conseqüências profun-
das na vida das pessoas. Se alguém é
discriminado porque faz parte de uma
“raça”, então o conceito de raça existe
de fato, social e politicamente, como
motivo dessa discriminação.
Por isso, não podemos ignorar, su-
bestimar ou negar a existência con-
creta das raças dizendo que a sua
existência biológica não tem funda-
mento científico. As raças existem
como uma dura realidade social, com
efeitos políticos, econômicos, psicoló-
gicos e culturais na vida das pessoas.
Chamamos essa realidade de raça so-
cialmente construída.
Nosso Objetivo
Na hierarquia das raças socialmen-
te construídas os africanos, os afrodes-
cendentes e as pessoas de pele negra
em geral são considerados inferiores.
Durante séculos, a ciência ocidental
construiu essa inferioridade, alegan-
do não apenas a condição biológica,
mas sobretudo a suposta incapacida-
de cultural dos africanos e de todos
os negros. Esse é o conceito racial do
termo “negro”. Dizia-se que o negro
era selvagem e que nada contribuiu à
construção da civilização, muito me-
nos à ciência ou à tecnologia.
A construção da imagem do negro
africano como primitivo e atrasado, e
a negação de sua história e cultura,
são tão fundamentais para justificar o
Os povos de pele negra oriundos da África têm sido agentes ativos do
desenvolvimento humano em todo o mundo. Durante a Alta Antigüi-
dade eles povoaram o mundo e alcançaram os primeiros avanços tec-
nológicos. Mais tarde, durante a Antigüidade, continuavam presentes
em todo o mundo e também viajaram novamente, levando sua influ-
ência da África para a Ásia, a Europa e as Américas. Viveram apenas
uma ínfima parte de seu tempo histórico amarrados aos grilhões da
escravidão no sistema mercantil europeu e, nas épocas de cativeiro e
colonização, sempre criaram cultura e conhecimento.
O que significa povos de pele negra?
Quando falamos “povos negros” ou “povos africanos”, essa frase tem hoje
significado racial e político construído recentemente, sobretudo no tempo de
cativeiro, colonialismo e resistência dos últimos 500 anos. Nas épocas remotas
em que os povos africanos povoavam o mundo, esse significado não existia;
apenas eles tinham a pele negra. Por isso dizemos “povos de pele negra” e
para variar dizemos “africanos” e “negro-africanos” com o mesmo sentido.
O que é Alta Antigüidade?
O período de mais ou menos 3 milhões até aproximadamente 30 mil anos
atrás, quando a dispersão dos seres humanos levava, muito lentamente, a
mudanças genéticas que transformavam a sua aparência, criando os três ti-
pos físicos que hoje conhecemos – povos parecidos com os africanos e aus-
tralianos negros, povos parecidos com os asiáticos, e aqueles parecidos com
os caucásios brancos.
O que é Antigüidade?
O período de mais ou menos 10 mil anos atrás até a Era Cristã, quando culturas
e civilizações se formavam e se consolidavam, passando a interagir entre si
em todo o mundo. Mais especificamente, até o início do iluminismo europeu a
partir de aproximadamente 1500 E.C., que marca simbolicamente o advento do
mundo moderno.
racismo quanto a idéia de sua inferio-
ridade genética e biológica.
O objetivo da Linha do Tempo dos
Povos Africanos, além de conhecer
uma parte importante da história hu-
mana, é ajudar a desfazer o conjunto
de idéias sobre a suposta inferioridade
do negro africano.
Esses grupos de fatos e eventos cor-
respondem às linhas amarelas abaixo
das imagens na Linha do Tempo.
14 O tempo dos povos africanos
A seguir você vai conhecer um pequeno resu-
mo da evolução do ser humano e das primeiras
dimensões de conhecimento e tecnologia que con-
quistou em tempos muito antigos.
DNA Mitocondrial
O DNA retirado da mitocôndria é di-
ferente do DNA do núcleo da célula e
é transmitido apenas pela linhagem
feminina. Baseando-se na análise
desse DNA, pesquisadores da Univer-
sidade de Califórnia construíram uma
árvore genealógica para o gênero hu-
mano. Identificaram a chamada Eva
Mitocondrial, avó de todos nós: uma
mulher que viveu na África há uns 200
mil anos. Não que ela fosse a única
mulher então existente, mas sua li-
nhagem sobreviveu e se multiplicou
até os últimos tempos.
África, berço da humanidade
O estudo da evolução humana come-
ça com uma espécie particular de gran-
des macacos, os hominídeos. Durante
seis milhões de anos, esses hominídeos
evoluíram interagindo com o meio am-
biente e formando diferentes espécies.
Uma destas espécies deu origem na Áfri-
ca central, há uns três milhões de anos
atrás, ao primeiro ser humano – homo
sapiens – chamado homo habilis. Um mi-
lhão de anos depois, surgiu o homo erec-
tus, descendente do homo habilis, que já
manufaturava implementos como o ma-
chado. Ele saiu do continente africano
rumo à Ásia e à Europa, assim iniciando
o primeiro fluxo migratório de seres hu-
manos arcaicos para fora da África.
O gênero Homo sapiens, o ser humano
arcaico, inclui várias espécies e não há
descendentes entre nós. Com os últimos
deles, o Neanderthal e o Homo florensen-
ses, eles desaparecem há mais ou menos
30 mil anos atrás.
O homo sapiens sapiens, ou homem
anatomicamente moderno, é a espécie
a que nós pertencemos. Também se ori-
ginou e evoluiu na África, há uns 200
mil anos atrás, e de lá saiu, por volta
de 100 mil anos atrás, numa segunda
fase de ondas migratóiras, atravessan-
do a Eurásia e atingindo as Américas.
Além das evidências paleontológicas e
arqueológicas, as pesquisas na área da
biologia genética, e particularmente a
análise do DNA mitocondrial, confir-
mam a origem comum de todos os seres
humanos na África.
Ao espalharem-se pela Eurásia, os se-
res humanos que saíram do continente
africano iniciaram um processo de in-
tercâmbios genéticos que não parou até
hoje. No decorrer de milhões de anos,
o fluxo dessas migrações, atravessando
grandes áreas geográficas, trazia consigo
as mudanças genéticas e características
físicas próprias às diferentes populações
locais. Desde o início, houve mistura e
miscigenação entre povos diferenciados.
Há aproximadamente trinta mil anos,
aparecem os primeiros vestígios de cria-
ção artística, assinalando uma nova fase
no desenvolvimento da vida humana.
Por volta de 18 mil anos atrás, encon-
tram-se, também na África, os primeiros
indícios da prática agrícola.
Um povo de pele negra, chamado Gri-
Evolução
e
Primórdios
maldi, é o primeiro Homo sapiens sapiens
encontrado na Europa. Tudo indica que
essa população adentrou esse continen-
te há uns 40 mil anos atrás. O homem
Grimaldi é o autor da primeira indústria
artística importante, a aurignácia.
Verificamos a presença no Brasil de
uma antiga população humana muito
semelhante ao Homem Grimaldi. Ain-
da no século XIX, Lund descobriu deze-
nas de crânios pré-colombianos que não
eram de índios. Esses crânios ficaram
nos museus até a década de 1970, quan-
do paleontólogos brasileiros novamen-
te os examinaram. Somente em 1999,
com novas tecnologias da informática,
os cientistas puderam reconstituir um
compósito digital do conjunto de traços
físicos das faces desses crânios, criando
imagens, uma feminina e outra mascu-
lina, que apelidaram de Luzia e Luizão.
As feições são nitidamente parecidas às
das populações de pele negra da África,
da Austrália, do Pacífico, da Melanésia
e do sudeste da Ásia.
O tempo dos povos africanos 15
teoria até então vigente de uma ori-
gem única dos povos das Américas em
migrações posteriores de gente com
aparência asiática que teria chegado
pelo Estreito de Bering entre 10 mil e
12 mil anos atrás.
Mas no contexto da longa história
das migrações humanas a partir do
continente africano, não causa nenhum
espanto a presença nas Américas de po-
pulações de pele negra como a repre-
sentada por Luzia e Luizão.
Primeiras tecnologias
Além de dar à luz a humanidade, a
África foi também palco da primeira
Essas pessoas faziam parte de uma
população de pela negra que teria che-
gado do norte da Ásia ao continente
sul-americano entre 18 mil e 12 mil
anos atrás, atravessando o Estreito de
Bering. Encontram-se espécimes seme-
lhantes, datadas de mais ou menos a
mesma época, na América do Norte, na
Colômbia, no Chile e na Argentina.
Todavia, a data para a primeira pre-
sença de humanos nas Américas não
cessa de recuar. Segundo a paleontólo-
ga Niède Guidon, ela seria entre 50 a 60
mil anos atrás.
Os achados surpreenderam a co-
munidade científica por contrariar a
grande revolução tecnológica da histó-
ria humana: a passagem da existência
como caçador e apanhador de frutos
silvestres para a prática da agricultura.
A prática da agricultura no vale do rio
Nilo existia há 18 mil anos atrás e na
região do Saara, antes de virar deser-
to, desde há sete mil anos. Cultivava-se
mais de vinte e cinco espécies no vale
do Rio Niger àquela época.
A criação de gado é outro elemento
que caracteriza o desenvolvimento da
civilização, e também aparece na Áfri-
ca, na Quênia, desde há 15 mil anos
atrás. A sociedade responsável por essa
domesticação de animais tinha elevado
grau de sofisticação. Da África, a técnica
pode ter se espalhado até o vale dos rios
Tigre e Eufrates no Oriente Médio.
Desde uns 13 mil anos atrás, os
Ichongui, da região que compõe o atual
país de Zaire, utilizavam uma espécie
de ábaco, um instrumento de cálculo.
Povos de pele negra da África central
construíram algumas das primeiras
obras monumentais da humanidade.
Mais de cinco mil anos antes de Cris-
to, já existiam populações mais concen-
tradas de prática agrícola ao lado dos
rios Nilo, Niger e Congo. Eles aprimo-
ravam o conhecimento tecnológico e
desenvolviam comunidades cada vez
mais sofisticadas, formando povoados
com estrutura social fortemente hierar-
quizada e, em longo prazo, reinos e en-
tidades politicamente organizados.
Raça, verdade científica ou invenção ideológica?
A idéia das chamadas raças humanas surgiu quando cientistas europeus quiseram
categorizar diferenças entre seres humanos vindos de regiões afastadas da Euro-
pa. Aparências distintas foram associadas a supostas diferenças biológicas, for-
mando um conceito geográfico de “raça”. Imaginou-se uma hierarquia de capaci-
dade intelectual e civilizatória em que as raças não européias seriam classificadas
como inferiores. A idéia da superioridade da raça branca, supostamente compro-
vada pela ciência, passou a justificar procedimentos de dominação de outros po-
vos, como a conquista, a escravidão, o colonialismo e o imperialismo. Hoje, o peso
esmagador dos dados científicos fundamenta os seguintes pontos de consenso:
• A idéia do suposto isolamento das populações em regiões específicas de certas
“raças” é um equívoco. Houve sempre interação e miscigenação entre os grupos
humanos, desde os tempos remotos, e esse fato esvazia a noção das raças geo-
gráficas.
• Os seres humanos pertencem todos à mesma espécie. Os seres humanos evolu-
íram de uma ancestralidade comum iniciada na África.
• A gama de variações genéticas ligadas às habilidades humanas é maior dentro
de qualquer uma das “raças” geográficas do que entre elas.
• Há apenas diferenças genéticas minúsculas entre as “raças” geográficas, e es-
sas diferenças não estão ligadas à capacidade intelectual ou à personalidade e
constituição psicológica das pessoas.
16 O tempo dos povos africanos
Uma visão geral
A África é um continente enorme
com muitos povos, nações e culturas
diferentes, mas essa diversidade guarda
aspectos compartilhados. Esses aspec-
tos têm raízes nos tempos remotos das
suas origens.
Existe uma unidade subjacente em to-
das as regiões africanas, que reflete um
processo iniciado nos tempos em que
surgiram a agricultura e a criação de
gado. O povoamento do continente en-
volvia deslocamentos de populações com
origens comuns que se estabeleciam em
terras novas como grupos distintos, con-
solidando novas identidades ao mesmo
tempo em que conservavam semelhan-
ças derivadas das tradições originais.
As fases férteis do Saara e sua lenta
transformação em deserto provocaram
migrações e intercâmbios entre seus
habitantes e vizinhos. Seguiam popu-
lações em direção ao leste, nordeste,
norte e sul, onde se misturavam aos
povos locais. Assim, do Saara e do Su-
dão difundiam-se elementos culturais e
simbólicos, bem como instituições e ati-
tudes sociais, comuns a povos africanos
geograficamente muito distantes entre
si. O domínio da tecnologia do ferro
se integra a esses fluxos, formando um
fator de desenvolvimento comum entre
os povos do continente.
A civilização clássica do Egito é ou-
tra fonte comum, refletida em vários
aspectos de fluxo cultural. Mais de mil
línguas distintas derivam de alguns
poucos grupos lingüísticos, e há indí-
cios crescentes de que a antiga língua
egípcia tenha sido uma espécie de lín-
gua-mãe do continente. É importante
frisar que se trata não de dialetos – um
equívoco comum no Brasil – mas de
línguas africanas.
A escrita
Segundo as teses racistas, os negros
africanos seriam inferiores porque não
foram capazes de desenvolverem sis-
temas de escri¬ta. Na realidade, eles
estão entre os primeiros a desenvolver
a escrita. Os africanos que constituí-
ram o Egito desenvolviam sua grafia
desde antes de 4000 a.C., e a escrita
meroítica, que ainda está sendo deci-
frada, é uma das mais antigas do mun-
do. Além desses hieróglifos egípcios e
meroíticos, existem vários outros siste-
mas de escrita desen¬volvidos por po-
vos negro-africanos antes, e depois da
invasão muçulmana que introduziu a
escrita árabe.
Um preconceito ajudou a reforçar
essa tese equivocada: a própria defini-
ção de escrita. Os europeus usam o sis-
tema fonológico alfabético, onde cada
letra representa um som. O alfabeto
árabe, que prevaleceu durante séculos
na Europa, é fonológico silábico, cada
letra representando uma sílaba. Mas há
outros tipos de escrita, como o picto-
gráfico e o ideográfico, além da escri-
Desenvolvimento
Inicial
Aqui você vai conhecer um esboço geral de como
os povos da África povoaram o continente e de-
senvolveram suas comunidades ao longo do processo
histórico.
ta por meio de objetos. Na África, os
pictogramas constituem uma rica e va-
riada forma de expressão, registrando
saudações, histórias, e advertências. O
simbolismo religioso bwiti do Gabão, as
paredes de casas pintadas na região oci-
dental dos Camarões, ou as seqüências
de desenhos utilizados pelos sin’anga
(médicos) de Malawi são alguns exem-
plos dessa forma de escrita que se en-
contra em toda a África.
O ideograma, já uma representa-
ção simbólica, é utilizado na escrita
chine¬sa e em várias regiões da África.
O nsibidi, por exemplo, é um sistema
gráfico muito antigo, usado por diversos
povos das regiões oriental e central da
Nigéria para transmitir os ensinamen-
tos da filosofia. Além dos adinkra, os
povos acã têm a tradição dos djayobwe,
figuras esculpidas em ferro ou bronze
utilizadas na pesa¬gem do ouro e que
transmitem mensagens esculpidas em
forma de pictogramas ou ideogramas.
Existe também o sistema de escrita ide-
ográfica sona ou tusona entre os povos
cokwe, lucazi, mbwela e mbanda de An-
gola e Zâmbia.
A escrita fonológica representa os
sons da linguagem (fonemas ou sílabas)
e não depende da memorização para
ser compreendida, como é o caso do
ideograma. Entre os sistemas antigos
de escrita fonológica na África estão o
vai (Libéria), toma (Guiné), mende (Serra
Leoa) e bamun (Camarões).
O tempo dos povos africanos 17
A escrita por meio de objetos encon-
tra expressões bastante sofisticadas,
como é o caso dos djayobwe acima men-
cionados. Outro exemplo está no aroko
dos ioruba, um sistema complexo utili-
zado por líderes militares, reis e prínci-
pes, consistindo de arranjos de búzios
e penas que constroem, às vezes, uma
representação silábica e, portanto, foné-
tica das palavras. O mekutu aieie dos Ca-
marões e o ngombo de Angola são outros
exemplos de escrita por objetos.
Os hieróglifos egípcios, a mais anti-
ga forma de grafia africana, combinam
a pictografia com mais uma técnica, a
homofonia. Assim resolveram o proble-
A escrita dos Mende, de Serra Leão (acima à direi-
ta), é silábica como a Vai, mas ao contrário desta,
sua leitura é da direita para a esquerda devido à
influência de antigos sistemas pictográficos e da
transcrição secreta de textos em árabe.
A escrita meroítica (acima à esquerda) se desen-
volveu nos reinados de Méroe, que atingiram seu
auge no Sudão Ocidental a partir do terceiro sé-
culo antes da Era Cristã. Diferente dos hierógli-
fos egípcios, a meroítica é uma escrita essencial-
mente alfabética.
ma básico da escrita pictórica: a impos-
sibilidade de escrever conceitos abstra-
tos como amar, lembrar ou tornar-se.
O princípio da homofonia é simples: o
símbolo pictórico de um objeto serve
também para escrever foneticamente
todas as outras palavras pronunciadas
da mesma forma. Assim, por exemplo,
a imagem da enxada – cujo nome em
egípcio é pronunciado mer – representa-
va também o verbo mer – amar. O ta-
buleiro de xadrez – men – representava
o verbo men, que significa permanecer
estável. Os escribas egípcios estendiam
esse princípio de diversas formas e assim
trabalhavam com conceitos abstratos.
18 O tempo dos povos africanos
O Saber e o Progresso
Tecnológico
A principal característica que di-
ferencia o ser humano é a capacidade
de refletir sobre sua própria existência
e modificar o ambiente em que vive,
construindo conhecimento e civiliza-
ção. Alegar que os negros africanos
eram intelectualmente inferiores e cul-
tural e socialmente incapazes de criar
conhecimento e tecnologia equivale
a negar-lhes sua própria condição hu-
mana. A verdade é que a reflexão e a
construção do conhecimento marcam a
experiência dos povos africanos desde
muito cedo.
Em todo o continente e em diversas
épocas, os povos africanos desenvolve-
ram sistemas de escrita e altos conhe-
cimentos na astronomia, matemática,
agricultura, navegação, metalurgia, ar-
quitetura e engenharia. Na medicina,
praticavam cirurgias desde a cesariana
até a à autópsia, passando pela remo-
ção de cataratas oculares e tumores
cerebrais. Conheciam e aplicavam va-
cinas contra a varíola e outras doenças.
Construíram cidades belíssimas e cen-
tros urbanos de conhecimento interna-
cional que abrigavam bibliotecas enor-
mes – em Timbuktu, os maiores lucros
eram obtidos com o comércio de livros.
Criaram filosofias religiosas, sistemas
políticos complexos e duráveis, obras de
arte de alta sensibilidade e sofisticação.
A riqueza do ouro e do marfim africa-
Temas
Gerais
Aqui você vai estudar alguns temas que perpassam a
experiência africana, formando o contexto em que os
estados e impérios africanos se desenvolviam.
como indicador do progresso político.
Esse critério é um tanto arbitrário, pois
muitas vezes as sociedades pequenas se
demonstram capazes de criar formas
democráticas, igualitárias e duradouras
de governo. Por exemplo, o modelo do
consenso político tem origem nos pe-
quenos povoados africanos, asiáticos e
dos indígenas das Américas. Hoje, esse
modelo serve como referência no exer-
cício da democracia entre nações em or-
ganismos internacionais como a ONU
e a OEA.
Contudo, existiam grandes estados
e impérios no contexto africano. O Im-
pério de Mali abrangia um território
maior que o Império Romano. Aqui va-
mos observar algumas características
do estado político na África.
Na maioria dos casos, prevalecia a
monarquia espiritualmente fundada.
Isso significa que os poderes políticos se
baseavam na sanção espiritual reconhe-
cida por todos. A pessoa do monarca
não era considerada divina mas incor-
porava o consentimento de Deus ao
bem-estar de seu povo.
Um fato básico das sociedades tra-
dicionais africanas é a propriedade co-
letiva da terra. A terra, como o ar, era
considerada um bem comunitário indi-
visível e inalienável, pois pertencia na
verdade à natureza. Esse princípio da
terra como bem coletivo fazia com que
os reinados africanos fossem mais am-
plamente democráticos do que seus con-
nos não apenas compunha as moedas
como decorava os lares e as beldades da
Índia, da China e da Europa. O melhor
ferro no mercado internacional do sé-
culo doze, de acordo com o historiador
muçulmano al-Idrisi, era o da África
central e meridional.
No campo da reflexão filosófica, os
egípcios deixaram um legado rico com-
pilado na Husia, prosa e poesia da ética,
e no Ma’at, que permaneciam estreita-
mente ligados à esfera da espiritualida-
de. A tendência era de essa produção in-
telectual permanecer anônimo, diferente
da prática ocidental a partir dos filósofos
gregos, em que a autoria individual pas-
sa prevalecer sobre a autoridade da tra-
dição. Cheikh Anta Diop observa que
a matemática pitagórica, a teoria dos
quatro elementos de Tales de Mileto,
o materialismo epicureano, o idealismo
platônico, o judaísmo, o Islã e a ciência
moderna têm suas raízes na cosmogonia
e na ciência africanas do Egito.
Assim, a experiência africana trazia
não apenas o acúmulo de riqueza e a
centralização do poder, como também o
desenvolvimento tecnológico, cultural e
intelectual. Essa experiência africana se
integrava ao mundo antigo num inter-
câmbio dinâmico.
Natureza do estado político
e da propriedade
Nós costumamos identificar a exis-
tência de grandes estados e impérios
O tempo dos povos africanos 19
temporâneos na Europa ou no Oriente
Médio.
A descentralização do poder tam-
bém apontava uma prática democrática
mais ampla. Além disso, o rei desempe-
nhava um papel especial como regula-
dor da distribuição de riqueza. Há uma
cena famosa, de aparente ostentação do
Imperador Mansa Musa de Mali, quan-
do viajou para Meca distribuindo ouro
aos povos locais. Na verdade, este é um
exemplo simbólico dessa função do rei.
Em Gana, o ouro em pedra pertencia
ao rei, mas o ouro em pó ele deixava
ao povo. Assim, além de acumular ri-
queza, o soberano a distribuía, e sem
cumprir essa dupla função não lhe seria
possível exercer a autoridade investida
com o poder real.
A sociedade matrilinear
Nas sociedades agrícolas, destaca-se o
papel da mulher na produção e na or-
ganização econômicas. Por isso, muitas
sociedades tradicionais africanas são
matrilineares desde tempos imemoriais:
a linhagem familiar é traçada com refe-
rência à mãe. Nessas sociedades, há uma
partilha de direitos e responsabilidades
entre homens e mulheres. A mulher goza
de direitos sociais, econômicos, políticos
e espirituais. Seu papel é marcante na
sucessão real, na herança de bens mate-
riais, e no exercício do poder político.
No Egito antigo, o mito que funda-
mentava o sentido de nacionalidade é o
de Osíris, visto como deus e como pri-
meiro soberano simbólico. De acordo
com esse mito, Osíris exerce o poder po-
lítico e o espi¬ritual em conjunto com
Ísis, sua irmã e esposa. Ísis ensina a prá-
tica da agricultura, que Osíris transmite
aos outros povos. Osíris também estabe-
lece e ensina os princípios de Ma’at, a fi-
losofia da justiça, da verdade e do direito
que fundamentava a matriz ética da na-
ção egípcia. O deus Set, divindade dos
desertos, das doenças e das tempestades,
assassina Osíris e corta seu corpo em
uma infinidade de pedaços, que espalha
pelos quatro cantos do mundo. Isis sai à
procura dos pedaços, os recolhe, recons-
titui o corpo de Osíris e o ressuscita. Ela
ensina ao filho, Hórus, os segredos de
Ma’at, assim assegurando a continuida-
de dessa ética.
As normas e práticas político-sociais
do Egito faraônico se fundam nessa his-
tória, que estabelece uma base forte para
o exercício do poder. O próprio título
conferido ao faraó, soberano do Egito,
ilustra esse fato: era Hórus.
Outras deusas do panteão egípcio,
como Hathor e Neith, representam o pa-
pel forte da figura feminina na partilha
do poder político, intimamente ligado ao
domínio espiritual. A estudiosa e escrito-
ra Sônia Sanchez observa
... as mulheres, assim como os homens, eram
consideradas divinas. Nessas condições favorá-
veis, as deusas retinham o seu prestígio ao tor-
narem-se esposas; o casal constituía a unidade
religiosa e social: a mulher atuava como aliada
e complemento do homem; possuía os mesmos
direitos que o homem, os mesmos poderes na jus-
tiça: ela herdava, era proprietária. Acima de
tudo, as mulheres ostentavam nomes que desig-
navam os atributos divinos de Deus.
São vários os exemplos de mulheres
soberanas no Egito. A mais famosa, a fa-
raó Hatshepsut, foi excepcional porque
assumia todas as funções de chefia do
estado. Outras, como Tiye e Nefertiti,
reinavam junto com os parceiros.
Nos reinos meroíticos de Núbia, no
atual Sudão, a linhagem das rainhas
Kentakes ou Candaces reinou durante
600 anos, liderando por direito próprio
e não na qualidade de esposas, a admi-
nistração civil e militar da sua nação.
Mais tarde, na época do colonialis-
mo, destaca-se a resistência de mulheres
soberanas contra o domínio estrangeiro,
nessa mesma linha de ação das Canda-
ces. Angola nos dá o exemplo da Rainha
N’Zinga, Gana o de Asantewaa, e assim
por diante: a história da África é repleta
de rainhas estadistas e guerreiras.
O impacto dos sistemas patriarcais
do islamismo e do colonialismo europeu
não conseguiu eliminar o legado da tra-
dição matrilinear africana.
20 O tempo dos povos africanos
Máscara branca
na África culta
Nesse esquema que o Ocidente criou
para justificar as teses racistas, a civili-
zação e a cultura erudita pertenceriam
a essa “África branca” ao norte do con-
tinente, distinta de uma outra África,
negra e selvagem, ao sul do Saara. Essa
imagem popular prevalece até hoje, re-
forçada por representações no cinema e
na televisão.
Formulou-se ainda a teoria de uma
raça “hamítica” ou “vermelho-escura”
O mito do Egito Branco
A grande riqueza do Egito serviu como ímã para atrair os povos brancos vi-
zinhos, os semitas do Oriente Médio. Com o passar do tempo, a região do
extremo norte do Egito, o Delta, se transformou num espaço geográfico de
mistura dessas populações imigrantes com os egípcios autóctones de pele
negra. Esse processo de miscigenação é um fenômeno encontrado em todo o
Mediterrâneo e Oriente Médio, e praticamente em todos os cantos do planeta.
Mas a partir dele surgiria o mito de um “Egito Branco”, supostamente o autor
do conhecimento e das conquistas tecnológicas, numa tentativa de desapro-
priar os africanos do prestígio de sua própria cultura e civilização.
Os mouros que dominaram a Europa durante séculos, os Tuaregs do Saara, e
os Berberes do Magreb, também são povos miscigenados, produtos de velhas
misturas entre as populações negras autóctones do norte da África e outras
que vieram em migrações posteriores. Antropólogos se dedicaram a pintá-los
de brancos, classificando-os como mediterrâneos ou brancos. A mulher retra-
tada na fotografia, por exemplo, é da etnia tebo do oásis Bordai em Tebesti,
Chade. Os velhos manuais da antropologia diziam que os tebo não eram ne-
gros, embora tivessem a aparência negra.
A imagem do africano do norte branco, com traços físicos do tipo semítico, es-
tabeleceu-se séculos após o domínio mouro da península ibérica, quando os
europeus viveram em contato íntimo com africanos do norte. Naquela época,
documentaram nas artes plásticas e na literatura a fisionomia do mouro de
pele negra. O inesquecível Otelo, de Shakespeare, é o mais ilustre exemplo.
Ícones, estátuas e desenhos confirmam graficamente essa identidade negra
dos mouros, portadores da civilização avançada e do conhecimento técnico-
científico, responsáveis por uma grande renascença intelectual na Europa e
também por nossos números!
Quem
criou
a
civilização?
O mito do negro selvagem
Várias noções falsas foram criadas
para justificar a idéia da inferiorida-
de do negro africano. Dizia-se que os
negros não construíram civilização.
Mas algumas das primei¬ras civiliza-
ções do mundo, como a egípcia e a
núbia, estão na África. Como justifi-
car, então, a idéia da falta de capaci-
dade dos negros africanos para criar
ou mesmo contribuir para a civiliza-
ção humana?
A egiptologia, disciplina surgida
na Europa no século XIX, dedicou-
se durante muito tempo a esse dile-
ma, produzindo as teses que formam
a base principal das teorias pseudo-
científicas do racismo.
Uma das mais importantes solu-
ções encontradas foi a de extirpar as
civilizações clássicas africanas do con-
tinente, situando-as como civilizações
orientais. Assim, o Egito pertenceria
não à África, mas ao Oriente Médio.
Apesar de geograficamente impossí-
vel, essa operação foi um sucesso ide-
ológico: ainda hoje existe o hábito de
identificar o Egito como país do Orien-
te Médio e não do continente africano,
como era ensinado nas escolas do Oci-
dente até muito recentemente.
Outra idéia igualmente importante
é que, desde a Antigüidade, o norte da
África tenha sido racialmente distinto
do restante do continente, formando
uma suposta “África branca”.
Aqui você vai estudar sobre a identidade racial
e étnica dos povos que criaram as primeiras
civilizações africanas, inclusive a egípcia.
que seria distinta da raça negra africana.
Os criadores das civilizações clássicas
de Núbia e Egito seriam dessa chamada
“raça páleo-mediterrânea branca”.
Mas as imagens originais dos faraós
e dos antigos egípcios mostram pesso-
as negras, como exemplifica o retrato
do fundador do Egito unido, o primei-
ro faraó Hórus Narmer, também cha-
mado Menes. A fisionomia de todas as
representações dos grandes faraões di-
násticos e também a da própria Esfinge
exibem feições negras.
O tempo dos povos africanos 21
Durante milênios, o Saara era verde.
Os povos de pele negra que habitavam
o Saara migraram em diversas épocas
rumo ao vale do rio Nilo. Lá se encon-
traram com populações originárias da
África central. Juntos, esses povos de
pele negra iriam formar a base demo-
gráfica da civilização clássica núbia
e egípcia. Mesmo depois do período
verde, o Saara sempre foi habitado por
gente “subsaarana”, ou seja, pessoas de
pele negra.
A idéia da África dividida pelo Saara
presume que o deserto seja uma barrei-
ra quase intransponível. Mas o fluxo
de viajantes, migrantes e comerciantes
atravessando o Saara criou um inter-
câmbio ativo e constante entre os povos
ao norte e ao sul do deserto.
Além disso, as populações negras da
África subsaarana criaram civilizações
e avanços científico-tecnológicos; gran-
des centros urbanos caracterizados pela
erudição; e Estados e Impérios com
sofisticada organização política como
Mali, Songai, Gana, Quíloa, Zimbábue
e tantos outros.
Origens do Egito dinástico
O antigo Egito se originou com a
unificação de vários reinos africanos
que compuseram dois grupos de influ-
ência básica: os do Sul e os do Norte. A
própria natureza forma essas duas regi-
ões. As estreitas lascas de terra ao lado
do rio Nilo, de Aswan até Cairo consti-
tuem a região Sul. O Delta, ou a região
superior (ao norte), forma um triângulo
das terras deixadas pelo rio ao longo de
milênios. Os deuses Hórus e Osíris pre-
sidiam as culturas desses reinos. Sob a
liderança de Hórus Narmer, ou Menes,
esses reinos se unificaram e passaram a
conviver como um só Estado durante
as trinta dinastias da história egípcia.
A grande façanha da época pré-fara-
ônica foi controlar a terra e dominar a
natureza para estruturar a prática orga-
nizada da agricultura. Os ciclos das chu-
vas e das águas do Nilo demandavam a
mobilização de muita gente para atingir
esse domínio. Era preciso limpar a terra,
drenar os pântanos, construir diques,
represas e canais de irrigação. A mobili-
zação dessa força de trabalho em grande
escala contribuiu para a estruturação po-
lítica e a evolução do Estado.
A natureza como fonte da vida ocu-
pava o centro das concepções filosófi-
cas dos egípcios antigos, e a unidade
essencial de todas as manifestações da
vida se destacava como fundamento
de sua religiosidade. Nessa filosofia re-
ligiosa o universo compõe um sistema
em que tudo se liga e se interliga. Essa
unicidade implica numa multiplicidade
de aspectos do mesmo todo, pois os di-
ferentes componentes do todo têm sua
existência própria ao mesmo tempo em
que constituem uma unidade só, um
todo. Para muitos estudiosos, essa é
uma característica da maneira africana
de compreender a realidade que irra-
diou do Egito antigo a toda o restante
da África, compondo um elo de unida-
de cultural.
Essa concepção africana do univer-
so difere daquela do Ocidente por não
separar o corpo da mente e do espírito,
e difere do oriental porque concebe o
espiritual em termos concretos, perso-
nalizados.
Nessa concepção do cosmos, a vida
e a morte são muito próximas, duas
partes do mesmo universo. A viagem
do faraó para o mundo do além após
a morte simbolizava a passagem de to-
dos os seres humanos, tanto ao nascer
como também ao morrer, de um lado do
cosmos para o outro. E nos dois lados
o Ma’at, filosofia da ética e da justiça,
demandava dos homens, das mulheres
e sobretudo dos soberanos as mesmas
atitudes e o mesmo comportamento
pautados no cumprimento dos precei-
tos da boa convivência. Dessa forma, a
fascinação dos egípcios com a vida após
a morte não tem igual no mundo.
22 O tempo dos povos africanos
Conhecimento e cultura
no antigo Egito
Quando falamos de povos africanos,
subentendemos que são de pele negra,
porque na África antiga havia peque-
nas populações brancas, e ainda assim
fortemente miscigenados, apenas na re-
gião do Delta, no extremo norte do Egi-
to, e em bolsões específicos do território
da Líbia e da Abissínia habitados pelos
lebus. Esse fato contraria a hipótese de
uma suposta “África branca” no Norte
do Continente.
Segundo uma das teses da egiptolo-
gia, povos brancos imigrantes vindos
do Norte teriam construído o Estado
egípcio, sua cultura e suas conquistas
de conhecimento e tecnologia. Essa ver-
são está longe da verdade histórica.
A civilização egípcia nasceu dos rei-
nos africanos mais antigos da Núbia, ao
Sul do Egito, que também deram ori-
gem aos reinos de Querma e de Cush,
no atual Sudão. Tanto os reinos do Egi-
to pré-dinástico como os da Núbia sur-
giram da migração de povos africanos
vindos do Sul, do Oeste e do Sudoeste
do Continente. A seca do Saara provo-
cou, em parte, esse fluxo migratório.
Em 1977, no sítio arqueológico de
Qustul, na antiga Núbia, surgiu a evi-
dência material da origem africana da
civilização egípcia. Os artefatos colhi-
dos em Qustul mostraram a existência
de um reino chamado Ta-Seti. Antece-
dendo por treze gerações a unificação
Primeiras
Conquistas
Aqui você vai ler algumas informações sobre
as raízes africanas egípcias de nossa civilização
ocidental moderna.
do Egito, Ta-Seti já trazia na sua cerâ-
mica as imagens de Osíris, Ísis e Hórus,
marcas simbólicas da filosofia religiosa
e da estrutura de estado do Egito.
O povo desse reino chamava-se Anu-
Seti. A palavra Anu recorre com freqüên-
cia na mitologia africana antiga e alguns
pesquisadores o associam à cor negra
com base em evidências lingüísticas.
A existência e as características do
reino de Ta-Seti e sua cultura compro-
vam que a organização do estado políti-
co, bem como a escrita, surgem na Áfri-
ca muito antes do que anteriormente se
supunha.
A civilização egípcia protagonizou
avanços tecnológicos revolucionários,
inclusive a invenção da escrita. Conhe-
çamos alguns desses avanços:
• Desde mais de quatro mil anos
antes da Era Cristã desenvolvia sua
escrita; de seu conhecimento astro-
nômico evoluía um calendário mais
exato que o ocidental moderno.
• As pirâmides demonstram a teoria e
a prática de uma engenharia extrema-
mente precisa desde há quatro milê-
nios e meio.
• Os papiros de Ahmes e de Moscou
mostram uma matemática avançada
e abstrata desenvolvida desde treze
séculos antes de Euclides.
• Atótis, um sábio egípcio, pesqui-
sava e praticava a medicina desde
aproximadamente 3200 anos antes
da Era Cristã. A partir do ano 2980, o
mestre Imhotep protagonizou avanços
consideráveis no conhecimento que
lhe valeram a deificação. Os papiros
descobertos por Smith (1650 a.C.) e
Ebers (2600 a.C.) revelam conheci-
mentos médicos avançados, inclusive
as primeiras suturas e fitas; o início
da antissepsia com sais de cobre; e
“a existência de uma medicina ob-
jetiva e científica..., fundamentada
na atenta e repetida observação do
doente, na experiência clínica e num
conhecimento da anatomia que até
o momento ninguém suspeitava”, de
acordo com o tradutor dos textos des-
ses papiros.
Os primeiros cientistas-filósofos gre-
gos, como Sócrates, Platão, Tales, Ana-
xágoras e Aristóteles, estudaram no
Egito e de lá absorveram conhecimento
e assimilaram técnicas para a prática
da investigação empírica e da reflexão
conceitual.
Os próprios gregos antigos reco-
nheciam a grande influência do co-
nhecimento egípcio sobre sua herança
intelectual e cultural. E conheciam os
egípcios como africanos negros. O es-
critor grego Heródoto, conhecido como
o “Pai da História”, observou de pri-
meira mão, na época, a filiação africana
O tempo dos povos africanos 23
do Egito quando afirmou que “entre os
egípcios e os etíopes, não gostaria de
dizer quem aprendeu com quem.” Na
época, a expressão “etíope” referia-se
aos africanos de forma genérica.
A partir da década de 1950, o cien-
tista senegalês Cheikh Anta Diop reali-
zou extensas pesquisas que derrubaram
a tese da origem externa da civilização
egípcia. Ele realizava trabalhos nas áre-
as da química, lingüística, arqueologia
e análise de isótopos de rádio carbono;
fundou o Laboratório do Instituto Fun-
damental da África Negra em Dacar.
Os resultados de suas investigações
têm sido repetidamente confirmados
por dados levantados em várias disci-
plinas científicas. Constituem uma sóli-
da referência de base para o estudo das
civilizações clássicas africanas e sua in-
fluência no mundo antigo.
Cheikh Anta Diop constatou e seus
seguidores vêm mostrando que a influ-
ência clássica egípcia está para a África
como a greco-romana está para a Eu-
ropa e que o Egito sempre manteve in-
tercâmbio com o restante da África. Já
na quarta dinastia (ca. 2620-2480 a.C.),
grandes expedições marítimas e comer-
ciais seguiam ao sul e ao ocidente do
Continente, chegando até à beira das
florestas do Congo.
O Egito nesse período
O grande evento de importância
histórica nesse período foi a consolida-
ção do Estado unificado dos reinos do
Norte e do Sul, sob a liderança dos Es-
tados do Sul. Inicialmente, esse poder
de Estado consolidou-se com a ajuda
da noção da divindade do faraó. Essa
idéia permitia que nem um dos grupos
se sentisse dominado por um estranho
ou estrangeiro. O título do faraó passou
a ser Hórus, nome do deus filho de Isis
e Osíris.
A imagem de Hórus Narmer em
duas poses, usando a coroa branca do
sul e também a coroa vermelha do del-
ta, simboliza a unificação dos reinos. O
sucessor de Narmer, Hórus Aha, tam-
bém aparece dessa forma. A lenda diz
que Hórus Narmer, ou Menes, fundou
a cidade de Mênfis quando represou o
Nilo e construiu a fortaleza real no ater-
ro. Mênfis permaneceria como a capi-
tal administrativa durante quase toda
a história do Egito. Há indícios de que
Meryetneith, antes de 2875 a.C., tenha
sido a primeira rainha do Egito.
Nesse período inicia-se a construção
das pirâmides, uma façanha de conhe-
cimento e de organização humana. O
faraó Djoser construiu a pirâmide de
Saqqara por volta de 2650 a.C., e cem
anos depois disso estava erguida a
Grande Pirâmide de Giza, túmulo do
faraó Quéops. Essas pirâmides tinham
laterais na forma de enormes degraus,
no que mais tarde seria conhecido
como o estilo nubiano, pois segue o es-
tilo que evoluiu nos reinos de Núbia ao
sul do Egito. O rei Seneferu (2597-2547
a.C.) construiu as primeiras pirâmides
de laterais lisos. De acordo com alguns
estudiosos, a pirâmide com degraus se-
ria uma metáfora da escada que sobe ao
céu, que com laterais lisos passaria a re-
presentar os raios do sol. As pirâmides
testemunham, também, a noção da uni-
dade das formas de vida no universo.
A construção das pirâmides reflete o
desenvolvimento de altos conhecimen-
tos da matemática e da engenharia. Os
antigos egípcios dominavam milênios
antes o conteúdo de teoremas como o
de Pitágoras. Entretanto é a este que o
Ocidente se refere, até hoje, como pai
da geometria.
O sábio egípcio Imhotep (ca. 2700
a.C.) desenvolvia questões que estão à
base da reflexão filosófica: as indagações
sobre o espaço, o tempo, a imortalidade,
a natureza da vida física e mental e os
dilemas da convivência entre os seres
humanos. Ele construía conhecimento
em outros campos também. Com toda
a justiça, podemos considerar Imhotep,
anterior aos pré-socráticos em matéria
de milênios, como o verdadeiro pai da
medicina, da arquitetura, da política e
da filosofia.
24 O tempo dos povos africanos
A África viaja
Desde seus primórdios, a África tem
sido o palco de intensas movimenta-
ções, migrações, e trocas comerciais e
culturais dentro e fora do continente.
Além disso, os povos de pele negra con-
tribuíram à construção da civilização
em todo o mundo antigo – Ásia, Euro-
pa e América. O historiador inglês John
Baldwin afirmou no século XIX:
Hoje se aceita que povos da raça cushita
ou etíope foram os primeiros civilizadores e
cons¬trutores em toda a Ásia Ocidental, e está
comprovada a influência de sua civiliza¬ção
na presença de suas línguas e arquitetura aos
dois lados do Mediterrâneo, na África orien-
tal e no vale do rio Nilo, como também no
Hindustão e nas ilhas do mar Índico.
Nesses tempos muito antigos, a mi-
tologia e a tradição religiosa se confun-
dem com o registro histórico. O mito e
a narrativa oral das tradições religiosas
refletem a memória dos povos. O regis-
tro grafado é perecível e o pouco de ma-
terial que resta nos oferece uma visão
muito parcial e fragmentada. Por isso,
os historiadores revisaram o critério
de considerar apenas as fontes escritas
como fidedignas, e o depoimento oral
preservado ao longo do tempo passou
a ter valor como fonte de informações
sobre o passado.
Assim, as viagens de Osíris pelo
mundo e sua missão de levar a civili-
A
África
no
Mundo
Nos próximos blocos, você vai ler informações
sobre as conquistas de conhecimento da África
e conhecer teses e evidências de seu intercâmbio
com o mundo antigo. A ênfase aqui é sobre a
civilização clássica africana e seu intercâmbio
com a Ásia.
região. Erigiram e fizeram florescer a
famosa cidade-estado de Ur, cujo gover-
nante Gudea (2142-2122 a.C.) subjugou
grande parte de Elam, inclusive sua ca-
pital Susa. Gudea construía templos ao
deus Anu e grandes complexos urbanas
com pirâmides cujas laterais subiam na
forma de escadas, no estilo nubiano.
Primeira cultura avançada da re-
gião que hoje compreende o Irã, Elam
apresentava semelhanças significativas
com as tradições culturais e estruturas
políticas e sócio-econômicas do vale do
rio Nilo. O caráter matrilinear dessa so-
ciedade está consignado na ascendência
da divindade feminina Kirisha ou Pi-
nikir, na for¬ma da sucessão real e na
posição de relativa igualdade da mulher
(ela assinava documen¬tos, conduzia
negócios, representava em juízo, herda-
va e deixava patrimônios).
Os descendentes de Elam se manti-
veram presentes durante a história da
região. O Baluquistão, uma área que
compreende parte do Irã e parte de
Paquis¬tão, ficou conhecido como Ge-
drosia, o país dos escuros, e em tempos
moder¬nos sua população ainda se des-
taca em relação aos vizinhos. Até hoje
essa região se chama Khuzistan, terra
de Khuz ou Cush.
Índia
O escritor grego Heródoto, conheci-
do como Pai da História, nos conta que
“Existem duas grandes nações etíopes,
zação a outras terras fazem parte da
mais antiga tradição histórico-mitológi-
ca considerada como uma das formas
de registrar tendências e movimentos
históricos. Mítico rei primordial e deus
do Egito, Osíris era o mestre da filoso-
fia do Ma’at, teoria da verdade, da jus-
tiça e do direito. Além de ensinar aos
outros povos do mundo as ciências da
agricultura e metalurgia, bem como a
arte da civilização, Osíris ensinava a
mensa¬gem religiosa e os princípios
éticos do Ma’at. Quando Osíris deixou
o Egito para cumprir essa missão, Ísis,
sua irmã e esposa, reinou soberana com
sabedoria, dignidade e verdade. Esse
conjunto de referências reflete a expan-
são da civilização egípcia evidenciada
na arqueologia, na lingüística e em ou-
tros campos científicos.
Sumer e Elam
As primeiras civilizações significati-
vas na Ásia Oci¬dental são as de Su-
mer e Elam, nações que floresceram no
vale dos rios Tigre e Eufrates durante o
terceiro milênio antes de Cristo. Essas
nações eram formadas, assim como na
Índia, por povos de pele negra. Histo-
riadores gregos afirmavam que Sumer
surgiu como uma entre várias colônias
de Cush, com população e cultura vin-
das do vale do rio Nilo. Os próprios
sumerianos se chamavam de “cabeças
pretas”, distinguindo-se dos povos se-
mitas que começavam a adentrar essa
O tempo dos povos africanos 25
uma em Sind e outra no Egito”. (Lem-
bre-se, naquela época “etíope” significa-
va africano negro.)
Sind compreende a Índia e o Paquis-
tão de hoje. O historiador e antropólogo
indiano Bharatiya Vidya Bhavan afirma
que “os povos negros da Índia pré-his-
tórica foram seus primeiros habitantes.
Originalmente, parecem ter vindo da
África atravessando a Arábia e as costas
do Irã e Baluquistão.”
A primeira grande civilização india-
na é aquela do vale do rio Indo, com
sua capital Harappa. A civilização ori-
ginal de Harappa era agrícola e sua
população era negra. Ela floresceu de
2200 a 1700 antes da Era Cristã, e foi
conquis¬tada pelos arianos por volta de
1400 a.C., quando tomaram as terras de
Paquis¬tão e de toda a Índia do norte.
Depois da conquista, os arianos impu-
seram um sistema de castas. A palavra
varna, que em sânscrito significa casta,
também quer dizer “cor”. A casta mais
baixa se chamava sudra. A degradação
do povo conquistado com base na sua
identidade sudra foi uma das técnicas de
subjugação. O sistema indiano de castas
é complexo, mas até hoje os dalits, os
chamados intocáveis, sofrem as conse-
qüências da exclusão social nesse siste-
ma com conotação nitidamente racial.
O Egito nesse período
Heródoto descreveu o rei Mique-
rinos (2493-2475 a.C.) como dono da
melhor reputação de justiça de todos os
reis egípcios. Na época do rei Sahure,
entre 2464 e 2452 a.C., e de seus suces-
sores, o Egito continuou mantendo o
comércio estrangeiro e protagonizando
expedições expansionistas. Os navios
egípcios navegavam o Mar Vermelho
até Punt, mais de mil quilômetros ao
sul. Também nessa época inicia-se a
construção de templos do sol.
Pepy I e Pepy II (2343-2196 a.C.)
ampliaram o alcance das expedições
ao leste até as minas do Sinai e ao inte-
rior da África.
Nitokris, a segunda mulher sobera-
na do Egito, reinou por volta de 2160
a.C., no final da 6a dinastia, um perí-
odo de instabilidade e conflito interno
que introduziu o domínio dos reis de
Abordagens convergentes
Com a comprovação paleontológica da migração de populações de pele negra
em períodos muito remotos, é possível interpretar as características comuns
entre línguas, culturas e civilizações antigas como tendo evoluído de forma
isolada em cada local e não como resultado de contatos e intercâmbios.
Entretanto, pesquisadores sérios afirmam que o volume de semelhanças entre
essas línguas, culturas e civilizações antigas indica uma origem comum na
África. Para esses estudiosos, a quantidade de características específicas em
comum é muito maior do que seria possível como mero resultado do acaso.
Em qualquer uma das hipóteses, a conclusão é a mesma: os autores dessas
línguas, culturas e civilizações antigas são povos de pele negra originários
da África. Na tese da evolução local, essa origem africana seria mais remota.
Para nós, a credibilidade da hipótese do intercâmbio se sustenta, pois as evi-
dências são extensas e o maior obstáculo é o preconceito eurocentrista que
julgava os africanos incapazes de viajar o mundo antigo.
Tebas. O primeiro deles, Montjuhotpe
II (2066-2014 a.C.) reunificou o Egito
enfrentando as facções rivais, reinsti-
tuiu a estabilidade e retomou as expe-
dições ao exterior.
Os filósofos desse período incluem
Ptah-hotep, que escreveu tratados éti-
cos sobre o envelhecimento e outros
temas, ensinando que a vida consiste
de construir a harmonia e a paz em
relação à natureza.
O Sábio de Kagemni (2300 a.C.)
está entre os primeiros mestres da éti-
ca. Seu objetivo era que o ser humano
atuasse pelo bem em função do bem e
não em busca de vantagem pessoal ou
favores de Deus. Ele ensinava a com-
paixão e o respeito por todas as cria-
turas vivas.
26 O tempo dos povos africanos
Coerência
e
Continuidade
O Egito continua construindo
A reunificação do Egito sob Mon-
tjuhotpe II coincide com o início da as-
censão de Amon, divindade cuja con-
solidação como deus principal levaria
mais alguns séculos. Amenemhat, cujo
nome significa “Amon é o principal”,
subiu ao trono em 1994 a.C., sob o
nome de Amenemes I, iniciando o pe-
ríodo chamado Reinado do Meio.
Um desafio principal e constante à
unidade do Egito seria a região do Del-
ta, onde se estabeleciam os imigrantes
asiáticos. Essas populações semitas
viriam a formar focos de disputa do
poder em várias ocasiões da história
egípcia.
Um período de estabilidade e de-
senvolvimento se instala durante a 12a
dinastia, sobretudo no reino de Sesos-
tris III (1881-1840 a.C.), que construiu
o templo de Karnak e várias obras na
cidade de Heliópolis. Também consoli-
dou o domínio do Egito sobre a Núbia
ao sul e liderou a expansão territorial
e as conquistas militares em direção ao
Oriente Médio e ao Ocidente.
Disputas políticas surgiram no Del-
ta e também ao sul, criando uma ins-
tabilidade que culminou na invasão e
conquista do Norte pelos hyksos, povo
semita originário do norte de Síria e
do Líbano e de parte do Iraq atuais.
Os hyksos dominaram o país duran-
te o período de 1700 a 1550 a.C., no
primeiro momento de sua história em
Aqui você vai conhecer algumas informações
sobre como o mundo antigo evoluía nesse
período.
que os egípcios sucumbiram ao domí-
nio estrangeiro. Finalmente, o rei Ah-
mose I (1549-1524 a.C.) os expulsou e
iniciou o chamado Reino Novo.
Filosofia e religiosidade
Entre os pensadores egípcios dessa
época estava Merikare, filósofo da co-
municação, que escrevia sobre o valor
de falar bem e de conduzir com bom
senso as relações humanas. Sehotepibre,
conhecido como “O Lealista”, discorria
sobre os valores de uma orientação na-
cionalista. Amenemhat, filósofo caute-
loso, duvidava da lealdade de amigos
íntimos e advertia que o líder deve ter
cuidado com aqueles que lhe circun-
dam.
Também datam dessa época as lições
de Khunanup, oriundas da história de
um homem comum que se confronta
com o dilema de o quê fazer quando
um rico rouba os seus bens. Khunanup
desafia o homem rico diante dos ma-
gistrados, e eventualmente ele ganha
a causa. As lições morais desse conto,
sobre a conquista do bem e da justiça
sobre o mal e a exploração, continuam
muito atuais.
Peça da literatura clássica que ins-
taura essa época, a Profecia de Nefer-
rohu expressa a unidade entre a esfera
política e o domínio espiritual. O poeta
canta os anseios e as expectativas em
relação ao soberano, que deveria su-
perar o caos e cimentar a unidade da
nação. Ao mesmo tempo, ele expõe a
concepção africana do universo: a vida
é um todo integrado que abrange o na-
tural e o sobrenatural. Os ancestrais e
os não nascidos compartilham o espaço
humano e estão presentes no tempo dos
vivos. Esse conjunto humano interage
diariamente com o divino e com as for-
ças da natureza. A vida em sociedade
significa a interconexão entre essas es-
feras. Assim, o caos na sociedade sig-
nifica a desordem do mundo natural
e espiritual. Por isso, o princípio da fé
contido na profecia emerge quando o
líder restabelece a ordem e a unidade
após um período de quebra das normas
de convivência e paz:
Eu lhe mostro a terra confusa. Ocor-
re aquilo que nunca aconteceu. Os homens
brandem armas de guerra, e a terra vive a
desordem. Os homens fazem flechas de metal,
mendigam o pão do sangue, riem um riso do-
entio. Alguém sentado no canto vira as costas
enquanto um homem mata o outro.
Ra [o Deus Sol] se separa da humani-
dade. Se ele brilha, é durante apenas uma
hora. Ninguém sabe quando cai o meio dia,
pois a sombra não se distingue.
Eu lhe mostro a terra de pernas para o
ar. A província de Heliópolis, nascedouro
de cada deus, não está mais na terra.
Então virá um rei, pertencente ao Sul
– Ameny, o Triunfante, o seu nome.
É filho de uma mulher da terra de Nú-
bia, nascido no Egito meridional.
O tempo dos povos africanos 27
Ele tomará a Coroa Branca; ele usará a
Coroa Vermelha.
Ele unirá os Dois Poderosos, dará aos
Dois Senhores o que desejam.
Regozijem ó povos desse tempo!
O filho de um homem fará o seu nome
para sempre:
Aqueles que cultivam a maldade e a traição
Irão silenciar a sua fala por temor a ele.
Os asiáticos cairão debaixo de sua espa-
da, e os líbios cairão no seu fogaréu.
Os rebeldes pertencem à sua ira e os trai-
çoeiros de coração o respeitam. A serpente-
uraea que está na sua testa aquieta-lhe os
traiçoeiros de coração.
Será erguida a Parede do Soberano –
vida, prosperidade, saúde! – e não se per-
mitirá aos asiáticos entrar no Egito a implo-
rar que lhes dêem água para as suas bestas.
E a justiça tomará o seu lugar, enquanto
o mal será expulso. Regozijem aqueles que
puderem ver isso e estar a serviço do rei!
O sábio verterá água para mim, quando
testemunha acontecer o que eu falei.
Até hoje, os vivos vertem água para
os ancestrais, porque essa concepção
do universo – em que a sociedade faz
parte integral de um todo que inclui a
humanidade viva, os mortos e os não
nascidos, em constante interação com
o Criador, os deuses e as forças da na-
tureza – continuou prevalecendo na
África e na sua diáspora durante toda
a história do desenvolvimento de seus
povos. A multiplicidade de expressões
dessa visão cósmica engloba as religi-
ões da África Ocidental e as de origem
banta que formam o Candomblé e a
Umbanda no Brasil, o Voudou do Hai-
ti e a Santería cubana.
Populações e culturas
negras na Ásia
Na história remota da China, a pre-
sença de povos autóctones de pele ne-
gra está registrada desde entre 50 mil
e 10 mil anos atrás. Nas províncias de
Szechuã e Kiangs, paleontólogos en-
contraram restos de um Homo sapiens
sapiens antigo, que passou a ser deno-
minado Liu Chiang.
Entre os primeiros grandes monar-
cas da China, como no Egito, haviam
as chamadas “dinastias divinas”. Um
dos primeiros reis principais era Fu-
Hsi (2953-2838 a.C.), descrito como
um homem de pele negra e cabelo cres-
po, que presidiu a fundação das insti-
tuições políticas, sociais, religiosas e
da escrita que iriam perdurar na Chi-
na. Shen-Nung (2838-2806 a.C), outro
monarca conhecido como homem ne-
gro, reinou durante e introdução da
agricultura no país. Alguns estudiosos
observam o caráter matrilinear nas
culturas dessas dinastias, bem como
outras semelhanças à antiga civiliza-
ção egípcia. Segundo esses estudiosos,
a mitologia chinesa identifica um povo
original da China chamada Ainu, de
nariz chato e cabelo crespo.
Os Ainu também aparecem na his-
tória japonesa, com destaque para o
comandante Sakanouye Tamuramaro,
cuja valentia lendária é homenageada
com o provérbio: “Para um samurai
ter coragem é preciso que tenha san-
gue negro”.
28 O tempo dos povos africanos
Paz, prosperidade e expansão
do Egito
Hatshepsut, primeira e única faraó
mulher, sucedeu Amenhotep I, Tutmo-
se I e Tutmose II, todos eles monarcas
que haviam se dedicado a expandir as
fronteiras do Egito. Hatshepsut se des-
tacou porque se vestia como homem e
assumia as funções masculinas do po-
der e protocolo. Presidiu uma época de
paz e prosperidade, também marcada
por grandes empreendimentos e por
expedições ao exterior. Seu sucessor
Tutmose III continuou essa expansão,
e o Egito se estabeleceu como a maior
potência mundial. Assim permaneceu
sob Amenhotep III, que se casou com
a rainha Tiye da Núbia. Juntos presi-
diram uma época de florescimento da
cultura no Egito. Construíram o belís-
simo templo de Luxor. Seu filho Akhe-
naten (1360-1343 a.C.) casou-se com
Nefertiti, e os dois viveram, com suas
filhas, no complexo palaciano e cida-
de de Amarna. Presidiram um tempo
de renascença e inovação nas artes, na
arquitetura e na religião. Akhenaten
instituiu uma nova religião, o culto a
Aten, uma religião mais simples que
a tradicional e com ênfase na verdade
e na liberdade individual. Mas quan-
do transferiu a capital para Amarna,
detonou uma crise política de longa
duração.
Tutankhamem (1343-1333 a.C.),
provavelmente o filho mais novo de
Soberania
e
Inovação
tância de aprender. Promovia a leitura
como a melhor maneira de treinar a
mente e revelar os segredos das coisas
ocultas.
Amenemope (1290 a.C.) promovia a
filosofia das boas maneiras, da etique-
ta e do sucesso na condução da vida
por meio dos provérbios. Venerava os
ancestrais que deixaram o legado de
provérbios, transmitindo sua experi-
ência e a sabedoria, e sem os quais a
aprendizagem das novas gerações fica-
ria prejudicada.
Makeda e as rainhas mães
A Bíblia se refere a Makeda (1005-
950 a.C.), Rainha de Sabá, soberana
de um reino cuja influência estendia-se
do leste da África até à Etiópia, o Su-
dão, Arábia e regiões da Índia. Além
de controlar o comércio riquíssimo da
região, de ouro, marfim, ébano, pedras
preciosas, óleos e especiarias, Makeda
e outras rainhas africanas construíam
complexos urbanos e sistemas hidráu-
licos bem sofisticados.
Elam
Filho de Titono, governador da
Pérsia, Memnon se aliou à Tróia, lide-
rando uma força de dez mil susianos e
dez mil etíopes. Escritores romanos o
descreveram como sendo preto como
o ébano e o homem mais bonito que
vivia. Como Aquiles, ele usava armas
forjadas por Hefestus.
Aqui continuamos estudando o mundo antigo com
ênfase no Egito, mas sem esquecer que no restante da
África há migrações e intercâmbio que marcam o seu
desenvolvimento.
Akhenaton, ou Amenhotep IV, faraó
do Egito ca. 1350 a.C., que presidiu
a instalação do monoteísmo e uma
Akhenaton, ascendeu ao trono ainda
garoto, reinando com a irmã Ankhe-
senpaaten como rainha e com os ge-
nerais Ay e Horemheb como tutores.
O reino dele é marcado por um estilo
artístico delicado que combina o me-
lhor do estilo de Amarna com a arte
tradicional. Tutankhamen restaurou a
religião de Amon, transferiu a residên-
cia real de volta a Mênfis e reinstituiu
Tebas como centro de poder político.
Ramses II e III (1279-1153) expandi-
ram ainda mais o domínio externo do
Egito. Prevaleceram sobre os hititas,
um povo semita, e sobre os chamados
“povos do mar”, uma coalizão de po-
vos semitas e de pele branca oriundos
do Oriente médio e da Europa medi-
terrânea, que saqueavam todas as civi-
lizações litorâneas da época.
A Filosofia no Egito
Amenhotep, filho de Hapu, viveu
por volta de 1400 a.C. e era o mais res-
peitado dos antigos filósofos egípcios.
Considerado o maior mestre do Ma’at
– a ética da justiça, da verdade e do
direito que formava a base da filoso-
fia egípcia – ele foi o segundo mestre,
após Imhotep, a ser deificado.
Duauf, que escrevia por volta de
1340 a.C., era o mestre do protocolo.
Ensinava como se deve viver coletiva-
mente numa comunidade de pessoas.
Professor de vocação, ele encorajava
os jovens a ler e enfatizava a impor-
O tempo dos povos africanos 29
Elos entre a África Ocidental
e do Norte
Na época da seca, muitos africanos
migraram entre o Saara e o Sudão. En-
tre eles estavam os ancestrais dos bér-
beres, povos miscigenados que manti-
veram sua própria língua e escrita. Os
bérberes faziam intenso comércio com
os povos africanos ao sul, trocando
o sal e o cobre pelo ouro e o marfim.
Nesse comércio se fundaria, em parte,
a base econômica de grandes estados
africanos ao sul do Saara, entre eles o
império de Gana.
Os bérberes atuavam também no Me-
diterrâneo, onde vendiam e compravam
com os fenícios, e esse comércio integra-
va o interior da África aos circuitos do
mundo antigo.
Nok
Quase um milênio antes da era cris-
tã, no lugar onde se encontram os rios
Niger e Benue, surgiu a civilização nok,
conhecida pelas suas sofisticadas obras
de arte. Com o domínio do ferro, sua
rica cultura duraria até o início do ter-
ceiro século daEra Cristã.
África central e meridional
Um grande fenômeno da história afri-
cana são as migrações épicas dos povos
do grupo lingüístico banto. Esse termo
designa uma multiplicidade de grupos
humanos que povoaram extensos terri-
tórios geográficos durante um longo pe-
ríodo de tempo. O processo teve origem
na atual Nigéria e Camarões, onde teria
surgido, há milênios, o “banto original”
– mãe de centenas de línguas africanas
modernas (importante: não se trata de
dialetos, e sim de línguas africanas). Os
povos que falavam essa língua se espa-
lharam em grupos pequenos rumo ao
centro da África, em direção à atual Re-
pública Democrática do Congo, e tam-
bém em direção ao leste e depois ao sul.
O domínio da tecnologia do ferro teria
auxiliado as migrações dando impulso
ao desenvolvimento das culturas desses
povos. O fenômeno da diáspora banta se
prolongaria da bacia do Congo ao sul,
sudoeste e sudeste, lentamente deslocan-
do ou absorvendo populações locais.
Esse processo constitui uma das ba-
ses das características em comum en-
tre diversas culturas africanas. Mesmo
na sua multiplicidade, essas culturas
mantém pontos de coerência e de con-
vergência cuja origem está nas origens
compartilhadas. Quando um grupo sai
de seu território, ele guarda lembranças
e referências, além de tradições mani-
festas de forma material, que se trans-
formam no processo de deslocamento
mas ao mesmo tempo guardam elemen-
tos e tendências da matriz original.
Entre os povos originais que resisti-
ram a essa “invasão” banta e continua-
ram vivendo da caça e coleta estão os
san e os khoi-khoi. São as “tribos” cuja
aparência ficou estereotipada como a
imagem do africano “selvagem” do ci-
nema norte-americano. Cabe lembrar o
alerta do historiador Basil Davidson: de
forma nenhuma o suposto primitivismo
desses povos implicaria em inferior ta-
lento ou inteligência. “O modo de vida
social deles, individual e coletivo, com
sua força e sua flexibilidade, suas mi-
núcias de limites e equilíbrio, sua nua
simplicidade de forma combinada com
tolerância para tensões e erros, não dá
lugar para tal idéia.”
30 O tempo dos povos africanos
Novos
Contornos
Instabilidade no Egito
Num período de assédio dos assí-
rios e poder dos faraós líbios (948-752
a.C.) as forças de liderança da Núbia,
ao sul, se concentraram e se ampliaram
até conseguir se estabelecer novamente
no Egito. O domínio núbio da 25a di-
nastia (762-664), iniciado por Piankhy,
chegou a seu auge no reino de Taharqa.
Nas artes e na arquitetura, a referência
aos estilos sudaneses prevaleceu duran-
te a 26ª dinastia. Depois disso o Egito
passou a sucumbir gradativamente às
investidas dos assírios e dos persas.
A perda do poder político e militar
não implicava no fim da influência do
Egito, cuja cultura sustentava as bases
da evolução da filosofia no mundo gre-
co-romano da Antigüidade.
Núbia
Ao sul do Egito, Núbia – rica em
ouro, ébano e cultura humana – abri-
gava as mais longínquas origens da cul-
tura egípcia. Lá floresceu o império de
Cush, com capital em Napata, cujos di-
rigentes lideraram o Egito na 25ª dinas-
tia. Depois transferiu o centro para Mé-
roe, de onde historiadores afirmam que
a tecnologia do ferro se espalhou ao sul
e oeste. Entre 300 a.C. e 300 E.C. – um
período em que o Egito já se encontra-
va sob o domínio macedônio e romano
– o império meroítico de Cush, onde as
mulheres exerciam liderança política e
militar, tinha sua própria escrita, cons-
truía grandes centros urbanos, manufa-
turava metais e se engajava num ativo
comércio com países remotos como a
Índia e a China.
Axum
No norte da Etiópia, tem início no
quinto século a.C. o Estado de Axum,
fruto de intensa interação africana com o
sul da Arábia. A rainha de Sabá se aliou
ao rei Salomão, sendo seu filho Menelik
o mítico fundador da Etiópia. A partir
de aproximadamente 50 E.C. o porto de
Adulis se tornava um centro mundial de
comércio com a Ásia via Oceano Índico.
Adulis fazia parte de uma cadeia de por-
tos que subiam o litoral desde a região
centro-africana. O rei Ezana de Axum,
primeiro monarca convertido ao cristia-
nismo, derrotou Méroe no quarto sécu-
lo E.C. e inaugurou a era cristã etíope.
A cultura urbana de Axum deu origem
a um dos mais duradouros impérios da
história: a Etiópia sucumbiu apenas à
invasão da Itália fascista em 1935 e logo
em 1941 reinstalou o imperador Haile
Selassie no trono.
Índia
No sexto século a.C. surge uma for-
te contestação ao sistema de castas. O
culto fundado por Sidhartha Gautama,
o Buda, nasce e floresce entre as popu-
lações de pele negra das regiões central,
oriental e sul da Índia. O próprio Buda
é negro, como mostram as suas estátu-
Aqui você vai conhecer novas dimensões do
mundo africano e dos povos de pele negra, com
ênfase na sua presença mais que antiga nas
Américas.
as e os seus retratos. Além disso, existe
uma série de paralelos entre sua mitolo-
gia e a de Osíris e de Hórus no Egito,
criando profunda afinidade entre essas
figuras.
Populações e culturas negras
nas Américas
Apenas recentemente, ficou com-
provado que os primeiros americanos
foram populações de pele negra, pa-
recidas fisicamente com os autóctones
da África, da Austrália e da Melanésia.
Eles chegaram antes que os povos de
aparência asiática que a antropologia
costuma identificar como os únicos
indígenas das Américas. A partir de
aproximadamente doze mil anos atrás,
essas populações passam a conviver e a
se mesclar no continente.
Supunha-se antes que os povos de
aparência asiática teriam habitado so-
zinhos o Continente americano até a
chegada das caravelas européias, sem
nenhum contato com o restante do
mundo.
Entretanto, vários pesquisadores
constataram fortes evidências da pre-
sença e da influência cultural de povos
negros nas Américas e insistiram na
tese de contatos entre africanos e indí-
genas americanos na Antigüidade.
Além de uma riqueza enorme de
testemunhos visíveis na cerâmica e
escultura pré-colombiana, as evidên-
cias surgiam em campos científicos tão
O tempo dos povos africanos 31
variados como a etnologia, botânica,
arqueo¬logia, oceanografia, filologia,
história cultural e lingüística. A pes-
quisa de esqueletos e crânios encon-
trados em diversos sítios convenceu a
Associação Internacional de America-
nistas a reconhecer, em 1974, que exis-
tiam fatos suficientes para comprovar a
presença africana nas Américas antes
de Colombo.
As provas incluíam não apenas os
restos de pessoas negras, como também
um conjunto de semelhanças entre as
culturas indígenas e africanas que era
complexo e extenso demais para ser
atribuído à mera coincidência.
Por exemplo, as técni¬cas de en-
genharia e arquitetura das pirâmides
egípcias e mexicanas, bem como as re-
lações espaciais e astronômicas nelas re-
presentadas, são idênticas em um grau
além do que se pode atribuir à sorte.
As técnicas de mumificação utilizadas
no México, na América do Norte, na
Colômbia, e principalmente no Peru
são quase idênticas àquelas desenvolvi-
das no Egito. Essas técnicas envolvem
substâncias químicas de fórmulas com-
plexas, difi¬cilmente reproduzidas por
acaso de um continente ao outro.
Talvez o testemunho mais eloqüen-
te da presença africana nas Américas
em tempos longínquos se encontre nas
gigantescas cabeças esculpidas em pe-
dra pelos olmecas, primeiro povo pré-
colombiano do México e da América
Central. Localizadas no centro do ter-
ritório sagrado desse povo, as escul-
turas pesam quarenta toneladas cada
uma, feita de um só pedaço de basalto.
Elas reproduzem com exatidão o fenó-
tipo dos nuba da África Oriental ao sul
do Egito.
As cabeças gigantes aparecem lade-
adas por pirâmides em praças cerimo-
niais. As pirâmi¬des em estilo nubia-
no, com as laterais em forma de escada,
surgem no México sem vestígios de
precedentes, enquan¬to na África le-
varam séculos para evoluir. Uma série
de marcas rituais, simbó¬licas, artísti-
cas, mitológicas, tecnológicas e arqui-
tetônicas dessas praças cerimoniais se
assemelha entre a África e as Améri-
cas em detalhes tão específicos que sua
identidade ultrapassa as possibilidades
da mera coincidência.
O período de elaboração das escultu-
ras olmecas coincide com a 25a dinastia
do Egito, quando reinava soberana no
mundo a poderosa marinha mercante e
bélica núbia. As cabeças negras do Mé-
xico portam o mesmo elmo usado por
marinheiros núbios.
Os egípcios desenvolviam o comér-
cio marítimo há milênios e desde 2600
a.C. eles construíam naves de grande
porte. Os navios africanos antigos eram
tecnicamente superiores às caravelas
européias. Feitos de papiro ou de ma-
deira costurada, eles eram flexíveis, ca-
pazes de agüentar melhor o impacto das
águas em tempesta¬des. Além disso,
movidos a remo e a vela, eles contavam
com propulsão nas calmarias. Os afri-
canos desenvolveram técnicas de nave-
gação mais sofisticadas e eficazes para
atravessar o Saara, pois os navegadores
das caravelas não conheciam a longitu-
de, referência utilizada na Antigüidade
por africanos, chineses e árabes.
Estudiosos observam uma identida-
de de palavras e expressões entre as
línguas maia, inca e egípcia que ultra-
passa os limites do acaso. Além disso, a
tradição oral maia, registrada no livro
Popul Vuh, se refere ao “povo negro
que veio da nascente do sol”.
As esculturas dos olmecas podem
ser vistas como representando eles pró-
prios, já que eles pertencem à matriz
das populações de pela negra que pri-
meiro povoaram as Américas. Entre-
tanto, as semelhanças culturais e ou-
tras evidências dão suporte à hipótese
do intercâmbio. O maior obstáculo à
sua credibilidade está na crença ideoló-
gica na suposta incapacidade dos afri-
canos antigos de atravessar o mar na
qualidade de portadores de valores de
civilização.
32 O tempo dos povos africanos
Continua a expansão da África
A última pirâmide importante se eri-
giu em Méroe, no Sudão, por volta de
350 a.C., dois mil anos depois que Djo-
ser levantou a primeira em Saqqara.
As evidências lingüísticas e históricas
indicam que as culturas africanas em ge-
ral se baseiam na herança da civilização
clássica egípcia. Um dos mais impor-
tantes fenômenos no desenvolvimento
africano é a revolução da tecnologia do
ferro. No Egito, há evidências do uso de
ferro desde milênios, mas a massifica-
ção de sua tecnologia e a sua difusão no
restante do continente é o fator que dá
ímpeto à concentração de populações e
ao desenvolvimento político, econômico,
cultural e científico.
Uma das primeiras expressões impor-
tantes das artes e da tecnologia na África
Ocidental é a civilização nok. Na África
central e do sul, surgem outras culturas
baseadas na tecnologia do ferro, que se
consolidam em Katanga, Zâmbia, Zim-
bábue e Quênia.
As Rainhas Mães Guerreiras
O caráter matrilinear da civilização
africana se evidencia na liderança de mu-
lheres soberanas e guerreiras. Um exem-
plo é Cleópatra. Muito mais que amante
de um imperador romano, ela agiu como
uma estadista defensora da soberania de
seu país contra o maior poder imperialis-
ta que o mundo conhecera. Conseguiu
manter a indepen¬dência do Egito du-
rainhas
Mães
Guerreiras
Até agora, focalizamos as civilizações clássi-
cas africanas. Aqui você vai conhecer algumas
informações sobre como o restante da África se
desenvolve. Lembre-se sempre que as evidências
lingüísticas e históricas indicam que as culturas
africanas em geral são herdeiras da civiliza-
ção clássica egípcia. E, claro, vamos continuar
vendo a presença africana no mundo. A saga
de Cartago pertence ao período anterior, mas
merece ser contada.
A arte dos povos bantos é rica e fascinante. Esta
máscara representando uma figura humana com
gorro, oriunda da província de Ufge, Angola. Uma
das características da escultura Bakongo é sua
representação policromática e expressão profun-
damente realista. Utilizada em cerimônias rituais
da circuncisão, esta máscara tem como função
testemunhar a transição dos circuncidados de um
estado infantil para o de indivíduos com estatuto
socialmente reconhecido.
rante muito tempo devido à sua compe-
tência política e seu poder de barganha e
negociação enquanto chefe de Estado.
Outras guerreiras africanas enfren-
taram as legiões romanas. Amanirenas,
uma das Kentakes ou Candaces de Nú-
bia, atacou os invasores impe¬rialistas
em 29 a.C., liderando durante cinco
anos uma guerra de defesa nacional.
Com um aparato bélico bem superior,
os romanos conseguiram destruir várias
cidades e chegar até a capital Napata. A
rainha não capitulou: atacou as legiões
já cansadas de Roma e obteve uma ne-
gociação direta com César Augusto. Os
romanos acabaram desistindo do tributo
que queriam cobrar a Cush.
Os pré-socráticos e o desenvol-
vimento da filosofia
A história da ciência e da filosofia
costuma marcar o seu início a partir
do “milagre grego” dos pré-socráticos,
como se a reflexão, o pensamento e o
conhecimento humanos tivessem início
apenas na Grécia. Um relato largamen-
te citado é a visita de Thales de Mileto
ao Egito, onde teria calculado a altura
de uma pirâmide medindo a sua própria
altura em relação ao comprimento de
sua sombra e aplicando, em seguida, a
mesma proporção ao comprimento da
sombra da pirâmide. Esse relato retrata
bem a costumeira omissão de milênios
de construção do conhecimento no Egi-
to ao tratar a pirâmide como se fosse um
fato da natureza e não uma construção
humana resultado do desenvolvimento
de matemática e engenharia aplicadas.
No terceiro século a.C., durante o reino
de Ptolomeu II, erigiu-se a Biblioteca de
Alexandria, depósito de uma coleção de
papiros e registros históricos egípcios
mais tarde perdidos em incêndios e pi-
lhagens de invasores. A construção do
conhecimento no Egito se interligava
intimamente à religião e ao sacerdócio,
fator que pode ter constrangido a sua di-
O tempo dos povos africanos 33
namicidade. Mas a atribuição exclusiva
da autoria da ciência e do pensamento
filosófico aos gregos antigos, excluindo
o Egito da história do conhecimento hu-
mano, constitui uma das maiores falsifi-
cações da história.
Cartago
Em meados do século III a.C., locali-
zada na costa do norte da África (hoje re-
gião da Tunísia), Cartago disputava com
Roma o controle do mar Mediterrâneo.
Uma das cidades mais poderosas daquele
período, Cartago dispunha de uma exten-
sa e poderosa frota de guerra para prote-
ção das rotas marítimas do comércio que
transportava o ouro vindo do Golfo da
Guiné e o estanho procedente das costas
britânicas. A disputa com Roma levou
Cartago a sucessivos conflitos, as chama-
das Guerras Púnicas (264-146 a.C.).
Sob o comando de Amílcar e seu gen-
ro Asdrúbal, os cartaginenses ocuparam
boa parte da Peninsula Ibérica com cerca
de 50 mil homens. Em 221 a.C., Aníbal,
filho de Amílcar, assumiu o comando
das forcas militares na Espanha. Ele ba-
seava sua estratégia na invasão e derrota
dos romanos em seu próprio território,
evitando assim levar a guerra para a
África. Aníbal recrutou vários aliados
e organizou um exército composto por
espanhóis, gauleses e africanos. Sua for-
ça militar contava com 40 mil homens
na infantaria, 10 mil cavalaria e 50 ele-
fantes. Cruzou o Ebro, dirigiu-se para
os Alpes e chegou à Itália. A passagem
pelos Alpes é uma das grandes façanhas
da história militar. Agredidos por tribos
celtas que jogavam pedras enormes de
cima, com a neve e o gelo criando con-
dições perigosas, as tropas e os elefantes
escorregavam, caíam e morriam. Mes-
mo perdendo 20 mil homens e a maioria
dos elefantes, Aníbal prosseguiu. O con-
flito provocou algumas das maiores der-
rotas que Roma havia sofrido até então.
Após uma vitória espetacular em Cana,
Aníbal foi perdendo território, pouco a
pouco, até que os romanos, anos depois,
conseguiram atacar Cartago; mas não
a destruíram. Assinaram um tratado de
paz. Somente mais tarde, em 146 a.C., os
romanos conseguiram arrasar a cidade
num ataque punitivo.
A saga de Cartago constitui um
episódio comovente da história, mas a
imagem que prevalece no imaginário
popular não retrata seus heróis como
africanos. Há uma tendência, na tradi-
ção da idéia da África branca ao norte,
de identificá-los com o tipo físico dos fe-
nícios. Nas moedas da época, entretanto,
a fisionomia e o cabelo de Aníbal trazem
o testemunho de sua identidade e apa-
rência negra.
Jesus Cristo
A figura de Jesus Cristo inspira e mo-
biliza ao longo de milênios, refletindo as
dinâmicas das sociedades. Abdias Nas-
cimento já observou que o semblante
de Cristo “é diferente entre os romanos,
os hebreus, os indús, os etíopes, porque
cada um desses povos afirma que o Se-
nhor lhe apareceu sob o aspecto que lhe
é próprio”. Mas o historiador Josephus,
contemporâneo de Cristo, o descreveu
de “tez escura”; moedas da época o mos-
tram como mestiço de traços africanos.
Pertencia ele a uma população de fala
aramaica, mestiça africano-árabe. Em
fim, a idéia de um Cristo louro e de olhos
azuis, imagem que prevalece no imagi-
nário ocidental, parece ser um equívoco
do ponto de vista histórico.
Índia
A dinastia Nanda do quarto século
a.C., de origem sudra, foi a responsável
por uma renascença cultural com centro
na cidade de Magadha. Seu líder Maha-
padma derrotou as forças de Alexan-
dre, o Grande. Outra dinastia negra, a
Mauryana, a sucedeu marcada pelo rei-
no do singular monarca budista Ashoka,
responsável pela instauração de uma era
de paz e obras sociais. Assim, o poder
sudra se estendeu durante 150 anos.
Hoje, a população indiana de pele
negra continua enorme, contando apro-
ximadamente 600 milhões de dravidia-
nos, descendentes dos “etíopes orientais”
da literatura grega. A maioria das divin-
dades cultuadas pelos dravidianos do
sul da Índia são deusas-mulheres, fato
consistente com a herança civilizatória
de origem africana.
34 O tempo dos povos africanos
O desenvolvimento
da tecnologia do ferro
Conforme observamos antes, tudo
indica que os antigos egípcios conhe-
ciam o ferro milênios antes que seu uso
se proliferou pelo continente. Outro
exemplo do domínio dos africanos no
campo da metalurgia antes dessa revo-
lução do ferro é o dos haya, um povo
de fala banta que habi¬ta a região de
Tanzânia perto do lago Vitória. Há
2000 anos atrás, eles produziam aço em
fornos que atingiam temperaturas mais
elevadas, em 250 graus centígrados, do
que eram capazes os fornos euro¬peus
do século XIX.
Mas é a massificação da tecnologia do
ferro e a sua difusão no restante do con-
tinente que dão ímpeto à concentração
de populações e o desenvolvimento polí-
tico, econômico, cultural, e científico.
Uma das primeiras expressões im-
portantes das artes e tecnologia na Áfri-
ca ocidental é a civilização nok. No cen-
tro e no sul da África surgem culturas
baseadas na tecnologia do ferro que se
consolidam em Katanga, Zâmbia, Zim-
bábue e Quênia.
A
Revolução
do
Ferro
Aqui vamos considerar o desenvolvimento da África
no contexto do uso cada vez mais intenso da tecno-
logia do ferro. Continua a expansão da presença
africana na Ásia, na Europa e nas Américas,
com contornos diferenciados de outras épocas.
Retrato de um jovem da Malásia,
na Ásia contemporânea, mostra a
presença até hoje de populações de
pele negra na Ásia oriental.
a Índia sofreu um colapso; seguiu-se um
período de instabilidade até que o mais
significativo e duradouro desses Esta-
dos, um verdadeiro império, se consoli-
dou em Angkor, hoje Camboja.
O Islão
Embora de origem externa ao con-
tinente africano, o islão constitui uma
matriz de civilização porque sua ex-
pansão teve impacto importante sobre
a formação e a sustentação de vários
estados políticos.
De forma geral, de acordo com mui-
tos historiadores não se trata de uma su-
perposição de elites ou classes dirigentes
“árabes” sobre sociedades e populações
originais, muito embora a expansão
islâmica tenha implicado em violentos
conflitos, obrigando à supressão de in-
tensa resistência. As estruturas dos es-
tados islamizados costumavam manter
a forma descentralizada característica
dos africanos. A expressão “sociedades
africanas islamizadas” reflete o fato de
que esses povos, suas sociedades e seus
estados preservavam a essência de sua
identidade africana.
Na maioria dos casos, de acordo
com essa interpretação dos fatos histó-
ricos, a imposição da religião islâmica
era relativa, sobretudo fora dos grandes
centros urbanos. As religiões e os cos-
tumes nativos continuavam vigentes no
meio da população, mesmo quando as
lideranças locais ou as elites assumiam,
Índia
Três reinos dravidianos importantes
existiram no sul da Índia durante essa
época. Pandya tinha sede em Madu-
ra, onde se localiza a capela do Tamil
Sangam, um conselho de estudiosos
que estabelecia os padrões da produção
intelectual. Além de Pandya, havia os
reinos de Chola e de Chera, sucedido
por Pallava. Esses reinos negros do sul
da Índia se engajavam em comércio
com o Ocidente, enviando embaixadas
e Roma e cobrando-lhe grandes somas
em tributos alfandegários.
Ásia
No sudeste da Ásia, os primeiros
reinados emergiram no terceiro sécu-
lo, acumulando riquezas no comércio
de coral, minérios e produtos florestais.
Numerosa parte da população era da
etnia negra austric, também conhecida
como mon.
O primeiro desses reinos do sudeste
da Ásia se chamava Fou Nan e se loca-
lizava na região hoje compreendida por
Vietnam e o sul da Camboja. Os via-
jantes e historiadores chineses descre-
viam os seus súditos como pequenos e
negros. Além das atividades comerciais,
Fou Nan se destacava por sistemas so-
fisticados de canais e obras fluviais para
controlar as cheias anuais; isto séculos
antes da construção de Veneza na Eu-
ropa. Chen-La, reinado sucessor de Fou
Nan, prosperou até que o comércio com
O tempo dos povos africanos 35
por vezes de forma bastante simbólica,
a religião do prestígio e do poder.
A extensão e a intensidade da influ-
ência cultural do islão na África variam.
De grosso modo, na África Oriental dos
grandes centros urbanos medievais as
populações absorveram de forma mais
atenuada a prática e os preceitos islâ-
micos, enquanto em algumas áreas da
África Ocidental o Islão implantou-se
de uma forma ortodoxa “mais realista
que o rei”.
Europa
Um fenômeno que merece destaque
é a proliferação de Nossas Senhoras ne-
gras em toda a extensão da Europa, sen-
do as mais famosas as de Loretta na Itá-
lia; Nuria, na Espanha; e Czestochawa,
na Polônia. As imagens dessas madonas
negras correspondem a uma prática re-
ligiosa que tem sua origem no culto a
Ísis, deusa núbia e egípcia da fertilidade,
irmã e esposa de Osíris e mãe de Hórus.
Existem vestígios desse culto e provas
de sua existência na Europa desde muito
cedo. O historiador romano Plínio, es-
crevendo no segundo século depois de
Cristo, observa a prática desse culto na
Inglaterra e na Alemanha.
Pouco se conhece a existência de
três papas africanos, durante os pri-
meiros séculos de existência da igreja
católi¬ca. O primeiro é Vítor I, déci-
mo quarto papa depois de São Pedro.
Assumiu a cadeira papal no ano 189 e
foi o responsável pela fixação da festa
da Páscoa no domingo. Miltíades, que
assumiu em 311, testemunhou a suspen-
são da perseguição aos cristãos e a vitó-
ria de Constantino. Gelásio I (492-496),
autor de vários hinos e ensaios teológi-
cos, ficou conhecido pela sua preocupa-
ção com a pobreza. Tanto ele como os
outros foram canonizados.
Esses papas são descritos pelos seus
contemporâneos como descendentes de
africanos. Mas as representações poste-
riores em livros didáticos e histórias da
Igreja os pintam como brancos de clás-
sico perfil romano.
Quando consideramos a relação da
África com a Europa do Norte, lembra-
mos que o Estado egípcio constituía o po-
der marítimo bélico e comercial vigente
da Antigüidade. Sua indústria de armas
e utensílios feitos de bronze requisitava
a utilização do estanho. Desde a XIIIa
dinas¬tia, quase dois milênios antes de
Cristo, faraós como Senusert I e Tutmo-
se III mandavam expedições navais até
à Europa do norte em busca desse metal.
Além disso, africanos de pele negra po-
voaram inicialmente a Europa em tem-
pos ainda mais longínquos.
Um dos mais destacados historiado-
res da Escócia, MacRitchie afirma que
até o século X três províncias escocesas
eram negras. No século XVIII, as ilhas
ocidentais de Skye, Jura e Arran ainda
abrigavam populações negras. Na Ir-
landa, o folclore registra os lendários
fomorianos, andarilhos marítimos ne-
gros que invadiram a ilha em tem¬pos
remotos e tentaram conquistá-la.
Duas deusas cultuadas na religião
tradicional irlandesa, Nath e Anu, in-
dicam a prática dos cultos egípcios a
Neith e Hathor. Dois morros irlande-
ses que, pela sua forma física, lembram
seios, são conhecidos como os peitos
de Anu. Assim, mais uma vez encon-
tramos espalhada no mundo antigo a
reminiscência lingüística do Anu-Seti
nubiano.
Nas mitologias inglesa, francesa,
alemã e escandinava, há referên¬cias
a homens pretos de pequena estatura
e de cabelos crespos. Essas referências
são ainda mais explícitas nos escritos
dos romanos, que relatam encontros
freqüentes com negros africanos. A lite-
ratura e a tradição oral dos vikings, dos
anglo¬-saxões, e mesmo dos habitantes
da Groenlândia registram contatos com
africanos em épocas remotas.
36 O tempo dos povos africanos
A Europa dos Mouros
Entre as mais fortes influências afri-
canas na Europa está a dos mouros, afri-
canos islamizados cujas origens mais
remotas estão nos povos Garamante,
que habitavam o Saara desde cinco mil
anos antes da era cristã e resistiram o
domínio dos romanos.
O desenvolvimento da cultura isla-
mizada na África do Norte resultou no
florescimento da pesquisa, da ciência,
da literatura e do conhecimento ao pas-
so que realizou a expansão do domínio
político por meio de jihads conduzidos
ao sul na África Ocidental e ao norte na
Europa. Após invadir o Egito em 640,
os mouros atravessaram até a Espanha
A
África
e
a
sua
Diáspora
O que significa diáspora?
O conceito básico de diáspora é o de espalhar um povo e sua cultura para out-
ros cantos do mundo. Como temos testemunhado, os africanos se espalharam
pelo mundo e deixaram as marcas de sua cultura e civilização desde os tempos
primordiais.
Como o conceito foi aplicado largamente à experiência judaica, a idéia de diás-
pora parece se referir às migrações forçadas. Mas no caso africano podemos
considerar que a sua diáspora acontece também em condições de soberania e
liberdade.
Quetzalcoatl - Deus da Serpente Plumada
Praça cerimonial em Uxmal, na península Yucatán,
México, com colunas esculpidas representando
Quetzalcoatl, a serpente plumada, e Chac, o deus
da chuva dos maias. A mesma serpente plumada é
símbolo principal das culturas da África ocidental
na região do antigo império de Mali, cujo Impera-
dor Abubakari II embarcou rumo ao Ocidente em
1311. Nesse mesmo ano, de acordo com o calen-
dário maia que registra uma concepção cíclica do
tempo em que a serpente plumada retorna em de-
terminados intervalos, Quetzalcoatl aparece como
um rei vestido de branco, vindo de onde nasce o
sol - uma descrição perfeita de como Abubakari
II teria aparecido ao chegar às Américas. O deus
Chac é a figura cerimonial que recebe as oferendas
a Quetzalcoatl.
sob a liderança do general Gabel Tariq,
cujo nome deu origem à palavra Gibral-
tar. O domínio africano na Europa per-
maneceu de 711 até 1260, e gerou uma
renascença nas artes, ciências e litera-
turas. A matemática, a arquite¬tura, a
religião, enfim, quase todas as manifes-
tações culturais européias sofre¬ram a
influência africana através dos mouros.
O centro dessa atividade intelectual era
Cairo, no Egito.
O busto do Santo Johannes Morus,
esculpido no séc. XIX e hoje exibido
num museu alemão, mostra a fisiono-
mia negra do mouro e expressa o res-
peito e a exaltação à sua figura, frutos
de seu desempenho na civilização do
continente europeu.
Presença africana
nas Américas
A cerâmica pré-colombiana está re-
pleA cerâmica pré-colombiana está re-
pleta de rostos de africanos. Aparecem
na arte dos períodos pré-clássico e clás-
sico de vários povos indígenas da Amé-
rica Central e do Sul homens negros e
mulheres e negras portando adereços,
penteados, estilos de barbas e outros de-
talhes nitidamente parecidos aos estilos
africanos. São retratos altamente sofis-
ticados e minuciosos, imortalizados na
finíssima escultura indígena da época.
As civilizações dos maias, dos tol-
tecas e dos astecas erigiam templos e
complexos cerimoniais dominados por
pirâmides como a de Chitzén Itzá, sím-
bolo da conquista dos maias pelos tol-
tecas. As pirâmides apresentam o estilo
nubiano, com os laterais na forma de
escadarias.
O culto ao deus Quetzalcoatl, a ser-
pente plumada, coincide com o do pás-
saro-serpente da África Ocidental de
uma forma tão abrangente e detalhada
que dificilmente seria fruto de mero
acaso. Esse complexo de identidade cul-
tural indica a presença de africanos nas
Daqui em diante, vamos assistir uma proli-
feração e enriquecimento de cultura cada vez
mais acelerados na trajetória dos africanos no
continente e na sua diáspora.
O tempo dos povos africanos 37
Américas e o intercâmbio de influências
em tempos pré-colombianos.
Presença Africana na Ásia
Continua a influência do budismo
no sudeste da Ásia, onde o fenótipo da
população se identifica com a imagem
do Buda retratada nas esculturas.
Chega ao auge uma série de reina-
dos em Angkor, onde sistemas sofisti-
cados de irrigação envolvendo canais e
represas sustentam complexos urbanos
e religiosos como Angkor Wat, Angkor
Thom e Banyon. Durante mais de 640
anos, sucessivos governantes deixaram
suas marcas erigindo gigantescos tem-
plos sobre ilhas e lagos artificiais.
Um exemplo do conhecimento negro africano
Um exemplo impressionante do conhecimento que marca a experiência af-
ricana é o saber astronômico dos africa­nos da nação dogon, de Mali, perto
da antiga capital universitária de Timbuktu. Com uma concepção moderna e
um saber extremamente complexo do uni­verso, os dogon conheciam, cinco
a sete séculos atrás, o sistema solar, a sua estrutura espiral da Via Láctea,
as luas de Júpiter, e os anéis de Saturno. Diziam que um bilhão de mundos
espiralava no espaço como a circulação do sangue no corpo de Deus. Sabiam
eles da natureza deserta e infecunda da lua, que diziam ser seca e morta,
como sangue seco.
Muito antes que o ocidente conseguisse observá-lo com a ajuda de sofistica-
dos aparelhos, os dogon conheciam detalhadamente o pequenino satélite B
da estrela Sírio invisível a olho nu. Chamavam-no de Po Tolo, e desenhavam,
com exata precisão, a sua órbita em tomo de Sírio. Projetaram corretamente
a sua trajetória até o ano de 1990, em desenhos que conferem com o curso
projetado pela astronomia moderna. Conhecedores de oitenta e seis elemen-
tos fundamentais, os dogon sabiam identificar as propriedades do metal que
compõe o satélite B da estrela Sírio, que chamavam de sagala – um metal tão
denso que sua massa é muitas vezes maior que seu tamanho indica. Para os
dogon, este satélite é o ovo do universo e a mais importante estrela do céu.
Além de todo esse conhecimento, os dogon sabiam que Sírio B gira uma vez
em tomo de seu próprio eixo no período de um ano, evento celebrado por
eles com o festival chamado bado. Até a década de 70, esta rotação ainda
não havia sido ob­servada pelos astrônomos ocidentais. A ciência ocidental
confirmou, no entanto, o ciclo de 50 anos que os dogon constataram para sua
órbita em volta de Sírio. En­fim, nas palavras de um cientista ocidental, os
dogon conheciam fatos supostamente impossíveis de constatar sem o apoio
de qualquer instrumento da ciência moderna.
Buda da Tailândia, século 7, es-
culpido em pedra, com traços e
cabelo africanos.
Buda da Tailândia esculpido em
pedra, com traços e cabelo afri-
canos.
38 O tempo dos povos africanos
Os
Sábios
dos
Estados
Africanos
Aqui você vai assistir o crescimento do poder político
na África, com estados e impérios que criaram
grandes centros de conhecimento e estudo.
Os Estados e Impérios
Africanos
Outro exemplo de tecnologia apli-
cada na África antiga encontra-se nas
ruínas da cidade-estado e fortaleza loca-
lizada no antigo reino, hoje país, Zim-
bábue. Essa cidade era capital de um
império cujo domínio durou trezentos
anos. Sua economia se baseava na pro-
dução de ouro e no comércio. Na língua
Xona Zimbábue significa “edifício em
pedra”. A cidade de dez mil habitantes.
Seu muro mede 250 metros de extensão
e contém 15 mil toneladas de granito,
com dois metros de espessura. Cada
metro de sua extensão contém 4.500
blocos de granito. Uma característica
inusitada da engenharia desse com-
plexo monumental se assemelha àque-
la dos sítios históricos do Peru como
Macchu Picchu e Cuzco: as pedras são
colocadas uma em cima da outra, sem
cimento e sem frestas.
No esforço de negar que o Grande
Zimbábue fosse construído por negros,
historiadores e estudiosos atribuíram
sua construção à intervenção de euro-
peus ou de outros exógenos à África,
até mesmo à ação de extraterrestres.
Ao norte do Grande Zimbábue fica-
va Monomotapa, um dos Estados que
surgiram a partir de 1000 E.C. entre os
povos de fala Xona descendentes dos
agricultores e criadores de gado bantos
que migraram para a área a partir de
200 a.C. com seus utensílios de ferro,
A peça esculpida em madeira é de origem Cokwe.
Denominado “O Pensador”, ela tornou-se o símbo-
lo da cultura angolana. Representa a figura de um
ancião, que pode ser uma mulher ou um homem.
Na tradição africana, os idosos ocupam um estatu-
to privilegiado como portadores da sabedoria e da
experiência de longos anos e como conhecedores
dos segredos da vida. Ana Maria de Oliveira, então
Ministra de Cultura da República Popular de Ango-
la, comentou em 1991: “A dinâmica emprestada a
esta peça reflete o alto conhecimento e intenção
estética do seu autor (anônimo). Ele foi capaz de
lhe conferir o equilíbrio do gesto calmo, tranqüilo,
sereno e a harmonia da mensagem mais ou menos
enfatizada na utilização dos espaços abertos e fe-
chados, de tal maneira humanizada, que acredita-
mos por isso estar em presença de uma das mais
belas obras de arte jamais concebidas”.
deslocando os khoi khoi. Os estados
Xona surgiam a partir da monopoliza-
ção do comércio com os árabes do lito-
ral oriental (Quíloa, Sofola, Mombaça
e Penha). No século XIV a disputa do
comércio de ouro e de marfim resultou
na criação de diversos impérios, o pri-
meiro deles o Grande Zimbábue. O con-
junto compunha uma confederação sus-
tentada por tributos cobrados dos seus
membros. Os Xona tinham na terra um
bem sagrado, propriedade de todos sob
a administração temporária dos chefes
e dos conselhos dos mais velhos, carac-
terística comum a Estados africanos em
diversas regiões do Continente.
Mali
O império de Mali surgiu na mesma
região onde o antigo império de Gana
floresceu entre 400 e 1076. O líder Sun-
diata Keita conquistou o controle das
minas de ouro e do comércio trans-sa-
arano a partir de 1230, assim consoli-
dando a base de seu poder político. O
imperador Mansa Musa I expandiu o
território e a riqueza do império e in-
centivou sua islamização. Como outros
Estados políticos na África, Mali tinha
na descentralização uma característica
e prática política que contrastava niti-
damente com o centralismo do Império
Romano. Os sistemas políticos desses
Estados têm sido categorizados como
“feudais”, um equívoco derivado da
aplicação de critérios próprios à Euro-
O tempo dos povos africanos 39
pa como se fossem universais. Como
falar de um sistema feudal sem feudo?
O princípio da propriedade individual
da terra não existia na África, sendo a
terra um bem coletivo.
Songai
Já no século VII existia uma entidade
política conhecida como Songai à beira
do rio Niger. No século XIII ela fazia
parte do império de Mali, mas em 1335 o
povo Songai rompeu com Mali e iniciou
a conquista da região com um exército e
uma cavalaria bem preparados. A rique-
za de Songai, a exemplo dos reinos e im-
périos anteriores, provinha do comércio
trans-saarana de sal e de ouro, cujo fluxo
passava em grande parte pelas metrópo-
les de Gao, Jenné e Timbuktu.
O rei e comandante militar Suni Ali
(1462-1492) derrotou os exércitos dos
mossi ao sul e dos tuareg ao norte. Seu
sucessor Muhammad I Askia expandiu
o império até as fronteiras de Kanem-
Bornu e dos estados Haussa ao leste e o
rio Senegal ao oeste, incluindo a região
de Tegaza no deserto ao norte. A capital
do último Estado mercantil-tributário do
Sudão Ocidental se localizava em Gao.
Os Africanos na América
Pré-Colombiana
Os estudiosos da possibilidade de con-
tatos entre a África e as Américas pré-co-
lombianas identificam dois períodos prin-
cipais desse contato. O primeiro, como já
observamos, seria o da 25a dinastia, por
volta de 760 a.C., quando surgem as ca-
beças esculpidas pelos olmecas.
O segundo contato seria na época do
príncipe Abu Bakari, imperador de Mali
cuja história é contada por historiadores
muçulmanos que eram seus contem-
porâneos. Imperador de um reino que
não tinha saído para o mar, Abu Bakari
cultivava um intenso fascínio pelo mar.
Mandou construir frotas e lançou expe-
dições ao Atlântico. Em 1311, o próprio
Abu Bakari embarcou pelos “rios dentro
do mar”, como os africanos se referiam
às correntezas que levam diretamente ao
continente americano, e nunca mais foi
visto. De acordo com o Popul Vuh, livro
que registra a tradição oral do povo in-
dígena maia, no México, foi exatamente
nesse tempo que lhes apareceu um “prín-
cipe trajando branco vindo de onde nas-
ce o sol”. O mito maia de Quetzalcoatl,
a serpente emplumada, e os costumes,
ritos, símbolos, e vocábulos a ele asso-
ciados, formam um conjunto cultural de
coincidência com a africana demasiada-
mente ampla e perfeita, nos mínimos de-
talhes, para se atribuí-la à sorte.
Os primeiros espanhóis que visitaram
o istmo de Panamá e o México no início
do século XVI, entre eles o historiador
Pedro, o Mártir, registraram a existência
de povos negros que viviam nas florestas
e se engajavam num comércio e numa
relação às vezes conturbada com os ín-
dios ao redor. O fato não lhes causava a
estranheza que hoje produz em função
da construção da imagem da caravela
como a primeira embarcação oceânica e
do africano atrasado incapaz de navegar
os mares. Os europeus quinhentistas co-
nheciam bem o africano navegador. O
próprio Colombo havia viajado na Áfri-
ca, e seu irmão, um comerciante de jóias,
lhe trazia notícias de clientes africanos
acostumados a viajar o mar. Tudo indica
que fontes africanas tenham fornecido
as informações em que Colombo e o rei
de Portugal se basearam para propor à
Espanha a Linha de Tordesilhas como
divisória de um continente de cuja exis-
tência ninguém tinha certeza ao assinar
aquele tratado.
Colombo foi detido por uma tempes-
tade no porto de Lisboa após sua segun-
da viagem às Américas e quando ainda
estava a serviço da Espanha. O rei de
Portugal o convocou à corte, e Colombo
apresentou-lhe índios que viajaram com
ele, bem como várias peças de gua-nin,
nome das pontas de lança que os nativos
diziam ter comprado de “homens altos
e escuros que chegam de onde nasce o
sol”. Essas pontas de lança eram feitas
de uma liga metálica muito específica,
fundida e utilizada na África ocidental.
O nome dessa liga, em mandinga, era
gua-nin.
Estes são apenas alguns dos fatos que
indicam, numa riqueza enorme de deta-
lhes, a possibilidade de contatos entre a
África e a América antigas.
40 O tempo dos povos africanos
Construção
da
Liberdade
Aqui você vai ver que os africanos construíram
sua liberdade no período da escravidão e colo-
nização, que é muito curto. Você já havia pen-
sado nisso? Esse período corresponde a menos de
8% dos seis mil anos da história africana! Ou
seja, os africanos viveram 92% de sua história
exercendo sua soberania e contribuindo para a
construção da civilização e do desenvolvimento em
todo o mundo!
O desenvolvimento africano: um
processo interrompido
O processo de desenvolvimento do
conhecimento e da tecnologia, embora
interrompido pela força da intervenção
escravista e colonialista, continuou se
manifestando. No final do século XIX
um cirurgião inglês chamado Felkin
visitava em a região africana que hoje
compreende Uganda. O médico teste-
munhou e registrou uma cesariana fei-
ta por médicos do povo banyoro. Num
artigo publicado em revista científica,
Felkin relatou como os cirurgiões su-
postamente “selvagens” demonstravam
profundo conhecimento dos concei¬tos
e das técnicas de assepsia, anestesia, he-
mostasia e cauterização, entre outros.
Aspectos do conhecimento tecnológi-
co africano fizeram-se sentir nas novas
terras onde os africanos foram levados
escravizados. No Brasil, por exemplo,
muitas técnicas de agricultura, minera-
ção e metalurgia utilizadas para cons-
truir o país foram introduzidas pelos
africanos.
As religiões de origem africana pre-
servam uma matriz da visão cósmica,
do pensamento e da prática religiosa
dos africanos em todas as Américas.
Resistência africana:
um panorama mundial
Os quilombos existiam em todas as
Américas. Em espanhol se chamavam
cimarrones, palenques e cumbes. Esse
fenômeno era contrapartida diaspórica
de uma luta sem tréguas que atravessou
a África durante todo o período escra-
vista e colonial. Um dos seus símbolos
é a rainha N’Zinga, soberana do reino
Ndongo e Matamba, que enfrentou o
poderio militar dos portugueses e dos
holandeses. Ao mesmo tempo em que a
rainha N’Zinga empreendia sua guerra
libertadora em Angola, a República de
Palmares resistia aos portugueses e ho-
landeses no Brasil.
Palmares, uma comunidade de vá-
rios quilombos unidos, fincou pé contra
a agressão co¬lonial durante um século
(de 1565 até 1695). Sua estratégia mili-
tar era tão eficaz que os europeus foram
obrigados a firmar um acordo de paz.
Sua organização social, agrária, política
e econômica representava um exemplo
da continuidade cultural africana no
Novo Mundo.
Homens e mulheres lideravam ofen-
sivas militares empreendidas na África,
em todo o continente. Entre as mulhe-
res estão: Madame Tinubu da Nigé-
ria; Nandi, mãe de Chaka, o grande
guerrei¬ro zulu; Kaiphire, do povo He-
rero da Namíbia; e o exército feminino
que seguiu o rei do Daomé, Behanzin
Bowelle. A luta quilombista nas Améri-
cas contou com mulheres como Danda-
ra, em Palmares, e Nanny, a guerreira
lendária da Jamaica.
No Caribe houve uma série intermi-
nável de revoltas e rebeliões. Entre as
mais famosas são a revolução Berbice
de 1763, no Surinam holandês, liderada
por Kofi. Na Jamaica, em 1655, o Capi-
tão Kojo deflagrou uma guerra aberta,
a Guerra dos Maroons (palavra inglesa
derivada de cimarrón), que durou mais
de dez anos. Os ingleses foram obriga-
dos a assinar um tratado de paz.
Um século de combate
No século XIX, os quilombos e as re-
voltas nas Américas traçam um paralelo
perfeito com as lutas dos africanos no
continente.
Os asante resistiram à incursão ingle-
sa no interior da Costa do Ouro (hoje
Gana) em onze guerras que duraram
cem anos. Os asante ganharam todas
elas, menos a última. Os Fanti, por outro
lado, redigiam petições e documentos.
Os fanti, por outro lado, redigiam peti-
ções e documentos. A constituição Fanti,
redigida em conferências realizadas en-
tre 1865 e 1871, era uma petição para a
futura indepen¬dência de Gana.
Os ingleses exilaram o rei Prempeh
dos asante em 1896, e assim provocaram
duas campanhas de resistência: uma
política, levada à Europa por Casely
Hayford, e outra simultânea em que a
rainha Yaa Asantewaa conduzia a guer-
ra de resistência na terra natal. Os dois
esforços combatiam a tentativa de con-
fiscar o sagrado banco de ouro, símbolo
da soberania dos asante.
Durante o mesmo período, desta-
O tempo dos povos africanos 41
cam-se as Guerras dos Zulus, na Áfri-
ca do Sul, e as Guerras Islâmicas, ou
mahdi, no Sudão. Behanzin Hossu Bo-
welle, do Daomé, e Samory Touré, da
Guiné, foram dois gênios militares da
África Ocidental francesa. O rei guer-
reiro zulu, Chaka, liderou uma guerra
em que toda a África aus¬tral combatia
a pilhagem européia. Quando morreu
em 1828, ele estava vencendo essa guer-
ra, que prosseguiu sob o comando dos
reis dos Basutos, dos Bamangwato e de
outros povos.
No Brasil, o século XIX testemunhou
uma série de revoltas como as que os Ma-
lês protagonizaram na Bahia entre 1807
e 1844. Em 1839, Manuel Balaio dirigiu
a famosa revolução no Maranhão, junto
com o Preto Cosme, que desencadeou
uma campanha guerrilheira envolven-
do 3.000 quilombistas e a colaboração
de outras forças políticas. No Recife, em
1824, Emiliano Mandacaru e sua unida-
de militar demonstraram sua solidarie-
dade para com a vitoriosa revolução do
Haiti: “Qual eu imito Cristóvão/ Esse
imortal haitiano/ Eia! Imitar seu povo/
Ó meu povo soberano!”.
Em Alagoas, os quilombos lançaram
um movimento chama¬do Cabano, re-
sistindo desde 1833 até 1841. Isidoro o
Mártir, de Minas Gerais, morreu na luta
em 1809, como também Constantino do
Ceará em 1839.
Faustino do Nascimento, “O Dragão
do Mar”, encabeçou uma greve dos esti-
vadores de Fortaleza. Eles se recu¬saram
a trabalhar nos navios que carregavam
escravos. Essa greve foi um fator decisivo
para a primeira abolição da escravatura
ocorrida no país, a do Estado do Ceará,
e assim contribuiu para a intensificação
da luta pela abolição em todo o país.
Nos Estados Unidos, a Estrada de
Fer¬ro Clandestina conduziu milhares
de escravos à li¬berdade. Nat Turner,
Denmark Vesey, Gabriel Prosser e John
Brown lideraram rebeliões armadas. So-
journer Truth e Harriet Tubman, ambas
ex-escravas, dedicaram suas vidas à luta
pela libertação do seu povo.
A esses combates se junta¬ram os pan-
africanistas lutando na arena polí¬tica,
a exemplo de Frederick Douglass, Mar-
tin R. Delany, Edward Wilmot Blyden e
Henry McNeil Turner, entre outros.
O conjunto dessas lutas contra a es-
cravatura impôs um enorme desafio ao
siste¬ma colonial, abalando seriamente
as estruturas econômicas de sua susten-
tação. Mas teóricos da revolução con-
temporâneos desses movimentos, como
Friedrich Engels e Karl Marx, não os
levaram em consideração ao pensar seus
modelos de luta de classe. Até muito
re¬centemente, historiadores de tendên-
cia esquerdista deram pouca atenção a
esse fenômeno, e ainda relutam em reco-
nhecer sua dimen¬são revolucionária.
O século da linha de cor
O sociólogo e ativista pan-africano
William Edward Burghardt (W. E. B.)
Du Bois anunciou no início do século
XX que a grande questão dos próxi-
mos cem anos seria a linha de cor. Efe-
tivamente as lutas pela descolonização
da África, da Ásia e do Caribe, bem
como os movimentos da Négritude e
do pan-africanismo, caracterizaram o
século XX ao lado das lutas dos povos
indígenas em todos os continentes. A
conquista da independência dos países
africanos e a derrota do sistema segre-
gacionista Apartheid na África meridio-
nal só se completaram em 1990 com a
independência da Namíbia e em 1994
com as eleições na África do Sul que
conduziram Nelson Mandela ao poder.
No limiar do novo milênio, os afro-
descendentes em todas as Américas
protagonizaram um fenômeno histórico
quando se organizaram para combater
o racismo em um movimento que acom-
panhava e se solidarizava com os povos
indígenas. A 3ª Conferência Mundial
contra o Racismo, a Xenofobia e todas
as Formas de Intolerância, evento pro-
movido pela Organização das Nações
Unidas, ensejou essa mobilização dos
movimentos sociais das Américas, reu-
nidos em Santiago no ano 2000 e que se
manifestaram em conjunto no processo
organizativo da Conferência de Dur-
ban em 2001. O novo milênio se iniciou
com a reafirmação da identidade e do
empenho desses povos na luta contra a
discriminação racial.
42 O tempo dos povos africanos
ADINKRA, SABEDORIA EM SÍMBOLOS
AFRICANOS
A Linha do Tempo dos Povos Africanos e este Suple-
mento Didático fazem parte de um conjunto de realiza-
ções do Ipeafro sob a chancela geral Sankofa: palavra
em tuí, língua que pertence ao grupo lingüístico dos
povos acã da África Ocidental, significa a sabedoria de
conhecer o passado para melhor construir o presente e o
futuro. Símbolo ideográfico, o conceito Sankofa passou a
representar a busca dos africanos por suas próprias refe-
rências históricas e epistemológicas e pela valorização de
sua cultura que o processo colonialista tentou desprezar
e destruir.
O ideograma Sankofa pertence a um conjunto de
símbolos gráficos de origem acã, chamado Adinkra.
Cada ideograma é um adinkra e tem um significado
com¬plexo, representado por meio de ditames ou fábu-
las que expressam reflexões filosóficas. Segundo texto
publicado pelo Centro Nacional de Cultura locali¬zado
em Kumasi, capital do povo asante, o ideograma Sanko-
fa significa “voltar e apanhar de novo”, aprender do pas-
sado, construir sobre as fundações do passado: “Em ou-
tras palavras, volte às suas raízes e construa sobre elas
para o desenvolvimento, o progresso e a prosperidade
de sua comunidade em todos os aspectos da realização
humana”.
Tradicionalmente, os adinkra são estampados com tin-
ta vegetal em tecido de algodão. Adinkra significa adeus,
e este tecido é usado em ocasiões fúnebres ou festivais de
homenagem para despedir-se do falecido. O adinkra já
se tornou uma arte nacional em Gana, somando mais de
noventa símbolos destacados pelo conteúdo que trazem
seus ideogramas. Conforme o mesmo texto do Centro
Nacional de Cultura de Kumasi: “Não só os desenhos
dos adinkra são esteticamente e idiomaticamente tradi-
cionais, como, mais importante, incorporam, preservam
e transmitem aspectos da história, filosofia, valores e
normas socioculturais do povo de Gana”.
O Simbolismo do Adinkra
O sistema de símbolos e os conceitos transmitidos na tra-
dição acã se expressam nos ideogramas adinkra grafados e
também em objetos como o gwa (banco real); o bastão do
lingüista do rei, uma espécie de porta-voz ou embaixador de
Estado; e os djayobwe, “pesos de ouro” dos acã.
Filosofia
e
história
no
simbolismo
do
Sankofa
Gye Nyame
Talvez o mais conhecido entre os ideo-
gramas do adinkra, este significa “aceite
Deus” ou “Deus é onipotente e imortal”.
Obi nka obí (não mordam um ao outro).
Evite os conflitos. Sím­bolo de unidade.
Owuo atwedie baako nfo (obiara bewu).
Todos nós subi­remos a escada da morte.
Ver o respectivo gwa no quadro a seguir.
Sankofa
“Nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo
que fi­cou atrás: Sempre podemos retificar
os nossos erros. O ideograma parece origi-
nar-se de uma estilização do pássaro, que
vira a cabeça para trás, re­presentação do
mesmo concei­to no banco do rei e no bas-
tão do lingüista.
(Os desenhos dos adinkra, gwa e bastões apresentados a seguir, e a ex-
plicação de seus significados, são reproduzidos dos quadros organizados
pelo Dr. E. Ablade G/over da Universidade Ganense de Ciência e Tecno-
logia, Kumasi, publicados pela G/o Art Gallery e distribuídos pelo Centro
Nacional de Cultura em Kumasi, Gana).
O tempo dos povos africanos 43
Dja Yobwe e Adinkra
Os djayobwe, ou “pesos de ouro” dos acã são peças es-
culpidas em ferro ou em bronze utilizadas como contrape-
so na balança para pesar sal, ouro e outras mercadorias.
Assim como no caso do gwa e do bastão do lingüista do
rei, esses objetos esculpidos trazem as formas e as mensa-
gens dos adinkra. Muitas vezes, a simbologia é relacionada
a provérbios representados por animais. No exemplo abai-
xo, dois crocodilos dividem um estômago e logo aprendem
que ao brigar entre si, ficam ambos com fome. É o símbolo
da necessidade de unidade, sobretudo quando os destinos
se confundem. (Foto do djayobwe reproduzido do catálogo Co-
leção Arte Africana do Museu Nacional de Belas Artes
(1983: 28).
De acordo com a história oral, o conjunto dos adinkra
tem origem numa guerra que o rei dos asante, Asantehene
Osei Bonsu moveu contra o rei Kofi Adinkra de Gyaa-
man, hoje uma região da Costa do Marfim. Adinkra teve
a audácia de copiar o banco real do Asantehene. Assim
provocou a ira do poderoso soberano, que foi à luta para
estabelecer sua supremacia. Vencida a guerra, os asante
dominaram a arte dos adinkra, passando a ampliar o es-
paço geográfico onde impunha a sua presença. Antes dis-
so, o conjunto adinkra era patrimônio dos mallam e dos
denkyira, povos da África ocidental que desenvolveram a
técnica no passado remoto.
O banco real e o bastão do lingüista representam a com-
plexidade e sofisticação dos Estados políticos africanos, em
pleno desenvolvimento durante séculos antes da invasão
européia. Esses Estados chegaram a constituir impérios
com extensão territorial maior que o romano, caso do Im-
pério de Mali nos séculos XIII e XIV.
Owo foro adoQe
A cobra sobe a palmeira.’ Tentando fa­zer
algo inusitado ou o impos­sível. Ver respec-
tivo gwa no quadro a seguir.
Nsoroma (filha do Céu, Es­trela)
“Obu Nyankon soroma te Nyame na onte
neho so.” Fi­lha do Ser Supremo, não de­
pendo de mim. Minha ilumina­ção é apenas
um reflexo da d’Ele.
Nkonsonkonso
Símbolo das relações humanas em socie-
dade. “Somos ligados na vida e na morte”,
ou “aqueles que têm laços de sangue nun-
ca se apartam”.
Akoko nan tiaba na enkim ba
A galinha que pisa no seu pinto não o mata.
Ver o emblema no bastão do lingüista no
respectivo quadro.
Kontire ne Akwam (anciãos do Estado).
“Tikoro nnko agyina.” Uma cabeça só não
constitui um con­selho. Duas cabeças pen-
sam me­lhor que uma sozinha. Ver o em­
blema no bastão do lingüista, no respecti-
vo quadro.
O duplo crocodilo em djayobwe.
O duplo crocodilo em adinkra.
44 O tempo dos povos africanos
GWA (o banco do rei)
Além de investir-se simbolicamente do poder político e
representar a soberania do Estado, o gwa comunica conte-
údos epistemológicos, apresentando o ideograma em três
dimensões. Cada chefe tradicional tem o seu gwa, portanto
existem tantos símbolos em ban¬cos reais quanto existem
reis. O mais famoso dos bancos reais é o Sika Gwa Kofi,
o banco fundido em ouro do Asantehene (rei dos asan-
te). Segundo a tradição oral o sacerdote principal do então
Asantehene Osei Tutu se chamava Okomfo Anokye. Ele
invocou o poder do gwa e o banco de ouro materializou e
desceu do céu. Os ingleses furtaram esse gwa no início do
século XIX, incidente que motivou as Guerras de Asante
contra os ingleses. Os conflitos perduraram por um sécu-
lo; os asante ganharam todas as guerras, menos a última.
Adinkra Gwa
Banco do rei Adinkra, soberano de Gyaa-
man, de quem os asante conquistaram o
conjunto de ideogramas.
Ede Nka Anum Gwa
A doçura não fica permanentemente na
boca. Há tempos bons e tempos ruins.
O antílope montado no elefante, símbolo
do Estado Ga, significa que se chega ao
topo por meio da sabedoria e do bom senso
e não pelo peso, pela força ou pela vanta-
gem do tamanho grande. O emblema repre-
senta a sabedoria da nação. Ver o bastão
do lingüista no quadro a seguir.
Ahema Gwa.
Banco da Rainha Mãe dos Asante. A seme-
lhança de seu desenho com o banco do Es-
tado ao lado simboliza o alto posto da Rai-
nha Mãe na hierarquia do poder político.
Filosofia
e
história
no
simbolismo
do
Sankofa Sankofa Gwa
Tem o mesmo significado que o respecti-
vo ideogra¬ma: nunca é tarde para voltar
e apanhar aquilo que ficou para trás. O
pássaro com a cabeça voltada para trás é
o símbolo desse provérbio. O desenho do
ideograma seria uma estilização desse
pássaro. O pássaro se apresenta também
no bastão do lingüista.
Owo Faforo Adobe Gwa
A cobra sobe a palmeira. Tentando o inusi-
tado ou o impossível. Ver o ideograma no
quadro dos adinkra.
Owuo atwedie baako ‘fo (obiara bewu)
Todos nós subiremos a escada da morte.
Ver o respectivo ideograma no quadro dos
adinkra.
Kotoko Gwa (Banco do Porco-espinho).
Emblema do Estado Asante, o porco-espi-
nho simboliza o poder da nação de atacar
de qualquer lado, a qualquer hora. O banco
é exclusivo do Asantehene.
O tempo dos povos africanos 45
Bastão do lingüista
O bastão do lingüista do rei transmite significado por
meio de imagens esculpidas em madeira no seu extremo
superior. Sendo o lingüista do rei o principal articulador e
intermediário entre o povo e o poder real, o significado do
elemento simbólico de seu bastão adquire uma importante
dimensão social e política.
Na tradição acã, cada soberano tem o seu lingüista:
uma espécie de porta-voz, embaixador, ouvidor geral e re-
lações públicas. A fama e o sucesso de um rei dependem,
em grande parte, da eloqüência e do bom desempenho do
seu lingüista. Este constitui o elo entre o rei e seu povo; o
bastão simboliza a sua autoridade e o poder político que
representa. A peça esculpida no topo do bastão, com con-
teúdo simbólico proverbial, simboliza o estado que o lin-
güista representa.
A mão segura o ovo
O poder é como um ovo: quando o segura-
mos com muita força ele pode quebrar, mas
quando não o seguramos bem ele pode cair
e quebrar. O soberano precisa ser firme,
porém ao mesmo tempo justo e compreen-
sivo.
Sankofa
Sempre podemos retomar e apanhar aquilo
que ficou para trás. Sempre podemos reti-
ficar nossos erros. O pássaro com a cabe-
ça voltada para trás lembra o gwa, sendo
a imagem grafada uma estilização dessa
imagem (ver o quadro dos adinkra).
Tikoro nnko agyina (duas folhas)
Uma cabeça só não constitui um conselho.
Duas ou três cabeças pensam melhor que
uma. Outra versão representa o mesmo
conceito no bastão com a escultura de três
cabeças. Ver o respectivo ideograma no
quadro dos adinkra.
Wuo nane egbee ebi (Ga)
A galinha não machuca o pinto ao pisá-lo,
mas ao contrário o protege do perigo. Ver o
quadro dos gwa e o respectivo ideograma
no quadro dos adinkra.
Gye Nyame
Aceite Deus. Deus é onipotente e imortal. O
ideograma adinkra correspondente a este
conceito pode ser uma estilização dessa
mão com o polegar na posição vertical (ver
no quadro dos adinkra).
Wuso owo ti mua a nea aka no ye ahoma
O homem segura a cobra pela cabeça.
Quando agarramos a cobra pela cabeça,
o restante dela não passa de uma corda
grossa. Melhor encarar os problemas de
frente.
Antílope sobre o elefante: “Man ko ta man
ko no” (em­blema do Estado Ga)
Para alcançarmos o sucesso não devemos
usar a força ou a vantagem do peso e do
tamanho maior, mas antes atuarmos com
sabedoria e bom senso. Ver o respectivo
gwa.
Índice Remissivo de Imagens
pág. 12
fotografias © Chester Higgins
www.chesterhiggins.com
pág. 18
pág. 22
pág. 14
pág. 19
pág. 23
pág. 15
pág. 20
pág. 24
pág. 16
pág. 21
pág. 25
fotografias © Elisa Larkin Nascimento
pág. 26
pág. 30
pág. 33
pág. 27
pág. 31
pág. 35
pág. 29
pág. 32
pág. 41
pág. 29
pág. 33
pág. 36
pág. 37
pág. 41
Fontes de Pesquisa
ARNOLD, Dorothea. The Royal Woman of Amarna. Nova
York: The Metropolitan Museum of Art/ Harry N.
Abrams, 1997.
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O tempo dos povos africanos - história 7 ano

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O tempo dos povos africanos - história 7 ano

  • 1. O TEMPO DOS POVOS AFRICANOS Elisa Larkin Nascimento IPEAFRO - SECAD/MEC - UNESCO
  • 2. O TEMPO DOS POVOS AFRICANOS
  • 3. O TEMPO DOS POVOS AFRICANOS ipeafro - secad/mec - unesco suplemento didático da linha do tempo dos povos africanos Elisa Larkin Nascimento concepção e textos
  • 4. Presidência da república Presidente Luiz Inácio Lula da Silva Ministério da Educação Ministro Fernando Haddad Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – SECAD concepção e elaboração Elisa Larkin NascimentoPh.D., IPEAFRO – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros design gráfico Maria de Oliveira e Bernardo Lac realização Ministério da Educação – MEC / Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversida- de – SECAD, 2007
  • 5. Dedico este Suplemento à memória do sociólogo Guerreiro Ramos, ao Teatro Experimental do Negro e ao professor Abdias Nascimento. O pioneirismo deles ao valorizar a cultura negra e a história africa- na constitui um legado a que o Ipeafro busca dar continuidade.
  • 6. Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 O Tempo dos Povos Africanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 Nossa Suplemento Didático . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 Evolução e Primórdios. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Desenvolvimento Inicial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 Temas Gerais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 Quem criou a Civilização? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 Primeiras Conquistas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 A África no Mundo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24 Coerência e Continuidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26 Soberania e Inovação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28 Novos Contornos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 Rainhas Mães Guerreiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 A Revolução do Ferro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 A África e sua Diáspora. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 Os Sábios dos Estados Africanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 Construção da Liberdade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40 Filosofia e História no Simbolismo do Sankofa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42 Índice Remissivo de Imagens . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 Fontes de Pesquisa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
  • 7. Autor da clássica interpretação racional da História, o filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel excluiu a África negra da totalidade histórica universal. Apenas duas partes da África, o Egito e a África Mediterrânea, entram na história da humanidade na concepção de Hegel e de seus seguidores. Para eles, faltam à África negra a objetividade, o ideal de Estado, o conceito de Deus, do Eterno, do Justo. As teorias racialistas negaram a contribuição da África ao desenvolvimento humano. Qualquer vestígio de arte, de tec- nologia ou de civilização encontrado no continente africano seria atribuído a uma intervenção externa européia ou asiática. Até hoje se especula que a Esfinge do Egito seria uma pedra gigantesca modelada pela força dos ventos e não uma obra humana com rosto negróide ou até que a construção da cidade murada de Monomotapa seria obra de extraterrestres! Pesquisas científicas recentes identificam na África o berço da humanidade e demonstram que a África está no início e no centro da história universal do mundo. Ao recolocar o Ser negro no início e no centro da história da humanidade, essas pesquisas científicas fazem à África uma grande justiça, devolvendo-lhe sua contribuição ao mundo que ajudou a povoar e a construir e da qual foi rechaçada por razões ideológicas. Assim passamos a constatar que os africanos negros iniciaram e desenvolveram as invenções científicas e tecnológicas como agricultura, matemática, medicina, embarcações marítimas e tecnologia naval, metalurgia de bronze e de ferro, do- mesticação das plantas e dos animais, e outras que explicam sua capacidade de migrar para povoar e levar cultura a outros continentes (Ásia, Europa, América, Oceania). Nos relatos dos viajantes árabes e europeus estão presentes testemunhos oculares dos impérios, reinos e estados cen- tralizados, das artes e tecnologias em todas as regiões africanas. No entanto, depois da Conferência de Berlim (1884-1985) quando as potências coloniais européias dividiram o continente entre si para subjugá-lo e explorá-lo, todas essas realidades desvaneceram como fumaça. As belezas naturais deixaram o lugar para as selvas perigosas e ameaçadoras; os impérios e reinos foram substituídos pelas tribos e hordas primitivas em guerras permanentes umas contra outras; as religiões foram substituídas pela feitiçaria, idolatria e superstições ridículas com o objetivo de justificar e legitimar a Missão Civilizadora do Ocidente civilizado e do Homem branco. A historiografia colonial ensinada aos africanos é uma história falsificada, mutilada e reduzida a um espaço-tempo insig- nificante em relação à verdadeira dimensão espacial e temporal da história da África, dos africanos e de seus descendentes da diáspora. Esse espaço-tempo de uma história mutilada se inicia apenas a partir dos mais recentes contatos da África e dos africanos com o mundo externo: o tráfico árabe, os chamados descobrimentos e o tráfico transatlântico seguidos pelos sistemas escravistas e colonialistas. Apresentação
  • 8. Também os países da diáspora negaram, mutilaram e falsificaram a história dos africanos e de seus descendentes, fazen- do-os aparecer geralmente como objetos e raramente como sujeitos da ação humana no tempo. Omitiram a participação dos negros na construção das economias, culturas, identidades e transformações políticas desses países. Atribuíram a luta pela abolição da escravatura aos humanistas brancos e não aos protagonistas negros. Toda essa história de construção de vida e de resistência à dominação, que resultou nas duradouras religiões, filosofias de vida e visões do mundo africanas, apenas agora começa a ser reconhecida oficialmente no Brasil pela promulgação da lei 10.639/03. A linha do tempo que ora introduzimos, nesta apresentação, é o resultado de um longo, intenso e complexo trabalho de pesquisa multidisciplinar realizada nos últimos anos pela talentosa pesquisadora e professora Elisa Larkin Nascimento, com o nobre objetivo de reconstruir o espaço-tempo, a dimensão espacial e temporal, da história da África negra e de sua diáspora no mundo todo. A finalidade é devolver aos nossos filhos e netos e a todas as pessoas que buscam eqüidade e justiça social, a autenticidade de “nossa” história, a história da humanidade. E precisamos muito dela para reabilitar nossa personalidade individual e coletiva como brasileiros e como descendentes de africanos, levantando nossa auto-estima es- magada pelas mentiras acumuladas na noite do tempo. A professora Elisa Larkin Nascimento realizou o que eu chamaria um trabalho de formiga e reconstruiu as peças do quebra cabeça da história autêntica da África, dos africanos e seus descendentes em todos os continentes, numa linha do tempo que começa no próprio berço e vai até o século XXI, com ramificações em todas as direções onde emigraram os primeiros africanos. Trata-se de uma notável contribuição, pois o texto do suplemento didático construído em torno da linha do tempo é escrito numa linguagem acessível a todos, educadores e alunos. Creio que nós todos, envolvidos no processo de fazer funcionar a Lei 10.639/03, estamos ganhando um instrumento precioso e de alta qualidade para cumprir os objetivos da Lei e as reivindicações históricas do Movimento Negro. Vamos viajar nessa linha de tempo para descobrir e preencher as lacunas, desfazer uma visão histórica herdada da ótica colonial e reconstruir a imagem da qual precisamos para fazer a justiça histórica da qual nossa dignidade muito precisa. Kabengele Munanga Diretor do Centro de Estudos Africanos e professor titular do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).
  • 9. 10 O tempo dos povos africanos O Tempo dos Povos Africanos Como funciona a Linha do Tempo No ano 2000, o Brasil celebrou os 500 anos de sua “descoberta”, idéia que ín- dios e negros organizados contestaram. Os índios habitavam a terra há milênios, e os africanos traziam uma história própria que muito contribuiu para construir o país. A Linha do Tempo dos Povos Africanos vem mostrar um pouco sobre essa história. A Linha do Tempo está dividida em períodos de quinhentos anos. Assim, vem ilustrar quanto tempo os negros africanos viveram e se desenvolveram em sobera- nia e liberdade antes de serem trazidos escravizados às Américas para construir as nossas nações modernas, inclusive o Brasil, no último período de 500 anos. Veja como esse último período, de cativeiro e resistência, é pequeno comparado ao tempo da liberdade e da soberania africanas! As linhas amarelas abaixo das imagens marcam os períodos de alguns dos mais importantes fenômenos da história africana. As datas são referências aproxi- madas. E.C. significa Era Cristã, a.C. significa Antes da Era Cristã. Civilizaç Primeiros avanços rumo à civilização [antes de 4500 a.C.] Na Linha do Tempo dos Povos Africanos você vai ver e aprender algumas coisas que o conhecimento científico indica sobre a história da África e dos povos africanos. Formação da cultura sudanesa e pré-dinástica egípcia [4500 a.C. – 3200]
  • 10. O tempo dos povos africanos 11 ção clássica africana [3200 a.C. – 64 a.C.] Civilização pós-clássica africana [100 a.C. – 1500 E.C] Presença e influência na Ásia, Europa e Américas antigas a partir da civilização clássica africana [2500 a.C. – 1500 E.C.] Domínio mouro na Europa [710 E.C. – 1400 E.C.] Cativeiro e construção da liberdade nas Américas [1500 E.C. – 2000 E.C.]
  • 11. 12 O tempo dos povos africanos Nosso Suplemento Didático Aqui você vai encontrar fatos comprovados por pesquisas científicas que explicam com mais detalhes as coisas que você viu e aprendeu na Linha do Tempo. • Os próprios africanos de pele negra são os responsáveis pelas culturas, civilizações, estados políticos orga- nizados, e tecnologias desenvolvidas ao longo dos milênios em todo o Con- tinente africano. • Durante a Antigüidade, povos de pele negra marcaram sua presença em todo o mundo e levaram sua influência cultural à Ásia, à Europa, e às Américas. • Durante os últimos 500 anos, os negros africanos resistiram à coloni- zação e à escravização ao passo que continuaram construindo cultura e conhecimento. Vamos começar com uma observa- ção importante: Não temos espaço para tratar de to- dos os acontecimentos de cada perío- do de 500 anos. Vamos dar ênfase, em cada período, a algumas dimensões básicas e grupos de fatos históricos que marcam de forma geral a trajetória dos povos africanos. Isso significa que nem sempre as informações no texto correspondem exatamente ao período. Vamos falar de fatos e fenômenos que ocorrem em diversas épocas, além dos eventos daquele período específico. As dimensões básicas incluem • O saber e o conhecimento construí- dos pelos africanos de pele negra. • O desenvolvimento e a tecnologia Como vamos trabalhar Dividimos a cartilha nos mesmos pe- ríodos de 500 anos, mostrando as ima- gens que você viu na Linha do Tempo para cada período e oferecendo outras informações a seu respeito. Buscamos dar um contexto geral às imagens e informações da Linha do Tempo, para ajudar o professor e o aluno a compre- ender melhor o sentido do conjunto. Você vai ver e estudar imagens e tex- tos que demonstram o seguinte: • A África foi o berço da humanidade. • A maior parte da história humana se desenvolveu nesse Continente. • Os primeiros seres humanos foram africanos de pele negra que se espa- lharam por outras partes do mundo, em várias ondas migratórias. • Os seres humanos de hoje perten- cem a uma só espécie cuja ancestrali- dade comum é negra e africana. • As “raças” humanas de hoje são todas descendentes de africanos de pele negra e entre elas não há gran- des diferenças genéticas. • Durante a maior parte da história humana a África foi o berço dos mais importantes avanços tecnológicos e científicos. • Povos africanos de pele negra fo- ram os autores desses avanços. • Durante a maior parte da história hu- mana a África foi berço da civilização. entre os povos africanos de pele negra. • O caráter matrilinear da maioria das culturas negro-africanas. Os grupos de fatos históricos in- cluem • O povoamento do mundo por povos de pele negra oriundos da África. • A civilização clássica africana. • A civilização pós-clássica e estados políticos africanos. • A presença e influência dos povos de pele negra e sua cultura na Euro- pa, na Ásia e nas Américas antigas. • Cativeiro e construção da liberdade. Para Começar De início, vamos considerar algo importante que acontece antes do primeiro período da nossa Linha do Tempo: a evolução da Humanidade. Quando você pensa nos primeiros seres humanos, é bem provável que você os visualize como brancos. A imagem do homem das cavernas, ves- tido de pele e armado de um osso de animal, é uma referência para nossa idéia do primeiro ser humano. Mas será que essa imagem corres- ponde à realidade? Para responder e refletir sobre isso, é preciso falar do que significa a idéia das “raças”. Dividir a humanidade
  • 12. O tempo dos povos africanos 13 em grupos distintos, chamados de ra- ças, foi uma forma de justificar dife- renças sociais, especialmente a escra- vização e a colonização de povos não europeus. Você vai ver que as “raças” não existem do ponto de vista biológico ou genético. Mesmo assim, as raças existem como um fato real no sentido político e social, com conseqüências profun- das na vida das pessoas. Se alguém é discriminado porque faz parte de uma “raça”, então o conceito de raça existe de fato, social e politicamente, como motivo dessa discriminação. Por isso, não podemos ignorar, su- bestimar ou negar a existência con- creta das raças dizendo que a sua existência biológica não tem funda- mento científico. As raças existem como uma dura realidade social, com efeitos políticos, econômicos, psicoló- gicos e culturais na vida das pessoas. Chamamos essa realidade de raça so- cialmente construída. Nosso Objetivo Na hierarquia das raças socialmen- te construídas os africanos, os afrodes- cendentes e as pessoas de pele negra em geral são considerados inferiores. Durante séculos, a ciência ocidental construiu essa inferioridade, alegan- do não apenas a condição biológica, mas sobretudo a suposta incapacida- de cultural dos africanos e de todos os negros. Esse é o conceito racial do termo “negro”. Dizia-se que o negro era selvagem e que nada contribuiu à construção da civilização, muito me- nos à ciência ou à tecnologia. A construção da imagem do negro africano como primitivo e atrasado, e a negação de sua história e cultura, são tão fundamentais para justificar o Os povos de pele negra oriundos da África têm sido agentes ativos do desenvolvimento humano em todo o mundo. Durante a Alta Antigüi- dade eles povoaram o mundo e alcançaram os primeiros avanços tec- nológicos. Mais tarde, durante a Antigüidade, continuavam presentes em todo o mundo e também viajaram novamente, levando sua influ- ência da África para a Ásia, a Europa e as Américas. Viveram apenas uma ínfima parte de seu tempo histórico amarrados aos grilhões da escravidão no sistema mercantil europeu e, nas épocas de cativeiro e colonização, sempre criaram cultura e conhecimento. O que significa povos de pele negra? Quando falamos “povos negros” ou “povos africanos”, essa frase tem hoje significado racial e político construído recentemente, sobretudo no tempo de cativeiro, colonialismo e resistência dos últimos 500 anos. Nas épocas remotas em que os povos africanos povoavam o mundo, esse significado não existia; apenas eles tinham a pele negra. Por isso dizemos “povos de pele negra” e para variar dizemos “africanos” e “negro-africanos” com o mesmo sentido. O que é Alta Antigüidade? O período de mais ou menos 3 milhões até aproximadamente 30 mil anos atrás, quando a dispersão dos seres humanos levava, muito lentamente, a mudanças genéticas que transformavam a sua aparência, criando os três ti- pos físicos que hoje conhecemos – povos parecidos com os africanos e aus- tralianos negros, povos parecidos com os asiáticos, e aqueles parecidos com os caucásios brancos. O que é Antigüidade? O período de mais ou menos 10 mil anos atrás até a Era Cristã, quando culturas e civilizações se formavam e se consolidavam, passando a interagir entre si em todo o mundo. Mais especificamente, até o início do iluminismo europeu a partir de aproximadamente 1500 E.C., que marca simbolicamente o advento do mundo moderno. racismo quanto a idéia de sua inferio- ridade genética e biológica. O objetivo da Linha do Tempo dos Povos Africanos, além de conhecer uma parte importante da história hu- mana, é ajudar a desfazer o conjunto de idéias sobre a suposta inferioridade do negro africano. Esses grupos de fatos e eventos cor- respondem às linhas amarelas abaixo das imagens na Linha do Tempo.
  • 13. 14 O tempo dos povos africanos A seguir você vai conhecer um pequeno resu- mo da evolução do ser humano e das primeiras dimensões de conhecimento e tecnologia que con- quistou em tempos muito antigos. DNA Mitocondrial O DNA retirado da mitocôndria é di- ferente do DNA do núcleo da célula e é transmitido apenas pela linhagem feminina. Baseando-se na análise desse DNA, pesquisadores da Univer- sidade de Califórnia construíram uma árvore genealógica para o gênero hu- mano. Identificaram a chamada Eva Mitocondrial, avó de todos nós: uma mulher que viveu na África há uns 200 mil anos. Não que ela fosse a única mulher então existente, mas sua li- nhagem sobreviveu e se multiplicou até os últimos tempos. África, berço da humanidade O estudo da evolução humana come- ça com uma espécie particular de gran- des macacos, os hominídeos. Durante seis milhões de anos, esses hominídeos evoluíram interagindo com o meio am- biente e formando diferentes espécies. Uma destas espécies deu origem na Áfri- ca central, há uns três milhões de anos atrás, ao primeiro ser humano – homo sapiens – chamado homo habilis. Um mi- lhão de anos depois, surgiu o homo erec- tus, descendente do homo habilis, que já manufaturava implementos como o ma- chado. Ele saiu do continente africano rumo à Ásia e à Europa, assim iniciando o primeiro fluxo migratório de seres hu- manos arcaicos para fora da África. O gênero Homo sapiens, o ser humano arcaico, inclui várias espécies e não há descendentes entre nós. Com os últimos deles, o Neanderthal e o Homo florensen- ses, eles desaparecem há mais ou menos 30 mil anos atrás. O homo sapiens sapiens, ou homem anatomicamente moderno, é a espécie a que nós pertencemos. Também se ori- ginou e evoluiu na África, há uns 200 mil anos atrás, e de lá saiu, por volta de 100 mil anos atrás, numa segunda fase de ondas migratóiras, atravessan- do a Eurásia e atingindo as Américas. Além das evidências paleontológicas e arqueológicas, as pesquisas na área da biologia genética, e particularmente a análise do DNA mitocondrial, confir- mam a origem comum de todos os seres humanos na África. Ao espalharem-se pela Eurásia, os se- res humanos que saíram do continente africano iniciaram um processo de in- tercâmbios genéticos que não parou até hoje. No decorrer de milhões de anos, o fluxo dessas migrações, atravessando grandes áreas geográficas, trazia consigo as mudanças genéticas e características físicas próprias às diferentes populações locais. Desde o início, houve mistura e miscigenação entre povos diferenciados. Há aproximadamente trinta mil anos, aparecem os primeiros vestígios de cria- ção artística, assinalando uma nova fase no desenvolvimento da vida humana. Por volta de 18 mil anos atrás, encon- tram-se, também na África, os primeiros indícios da prática agrícola. Um povo de pele negra, chamado Gri- Evolução e Primórdios maldi, é o primeiro Homo sapiens sapiens encontrado na Europa. Tudo indica que essa população adentrou esse continen- te há uns 40 mil anos atrás. O homem Grimaldi é o autor da primeira indústria artística importante, a aurignácia. Verificamos a presença no Brasil de uma antiga população humana muito semelhante ao Homem Grimaldi. Ain- da no século XIX, Lund descobriu deze- nas de crânios pré-colombianos que não eram de índios. Esses crânios ficaram nos museus até a década de 1970, quan- do paleontólogos brasileiros novamen- te os examinaram. Somente em 1999, com novas tecnologias da informática, os cientistas puderam reconstituir um compósito digital do conjunto de traços físicos das faces desses crânios, criando imagens, uma feminina e outra mascu- lina, que apelidaram de Luzia e Luizão. As feições são nitidamente parecidas às das populações de pele negra da África, da Austrália, do Pacífico, da Melanésia e do sudeste da Ásia.
  • 14. O tempo dos povos africanos 15 teoria até então vigente de uma ori- gem única dos povos das Américas em migrações posteriores de gente com aparência asiática que teria chegado pelo Estreito de Bering entre 10 mil e 12 mil anos atrás. Mas no contexto da longa história das migrações humanas a partir do continente africano, não causa nenhum espanto a presença nas Américas de po- pulações de pele negra como a repre- sentada por Luzia e Luizão. Primeiras tecnologias Além de dar à luz a humanidade, a África foi também palco da primeira Essas pessoas faziam parte de uma população de pela negra que teria che- gado do norte da Ásia ao continente sul-americano entre 18 mil e 12 mil anos atrás, atravessando o Estreito de Bering. Encontram-se espécimes seme- lhantes, datadas de mais ou menos a mesma época, na América do Norte, na Colômbia, no Chile e na Argentina. Todavia, a data para a primeira pre- sença de humanos nas Américas não cessa de recuar. Segundo a paleontólo- ga Niède Guidon, ela seria entre 50 a 60 mil anos atrás. Os achados surpreenderam a co- munidade científica por contrariar a grande revolução tecnológica da histó- ria humana: a passagem da existência como caçador e apanhador de frutos silvestres para a prática da agricultura. A prática da agricultura no vale do rio Nilo existia há 18 mil anos atrás e na região do Saara, antes de virar deser- to, desde há sete mil anos. Cultivava-se mais de vinte e cinco espécies no vale do Rio Niger àquela época. A criação de gado é outro elemento que caracteriza o desenvolvimento da civilização, e também aparece na Áfri- ca, na Quênia, desde há 15 mil anos atrás. A sociedade responsável por essa domesticação de animais tinha elevado grau de sofisticação. Da África, a técnica pode ter se espalhado até o vale dos rios Tigre e Eufrates no Oriente Médio. Desde uns 13 mil anos atrás, os Ichongui, da região que compõe o atual país de Zaire, utilizavam uma espécie de ábaco, um instrumento de cálculo. Povos de pele negra da África central construíram algumas das primeiras obras monumentais da humanidade. Mais de cinco mil anos antes de Cris- to, já existiam populações mais concen- tradas de prática agrícola ao lado dos rios Nilo, Niger e Congo. Eles aprimo- ravam o conhecimento tecnológico e desenvolviam comunidades cada vez mais sofisticadas, formando povoados com estrutura social fortemente hierar- quizada e, em longo prazo, reinos e en- tidades politicamente organizados. Raça, verdade científica ou invenção ideológica? A idéia das chamadas raças humanas surgiu quando cientistas europeus quiseram categorizar diferenças entre seres humanos vindos de regiões afastadas da Euro- pa. Aparências distintas foram associadas a supostas diferenças biológicas, for- mando um conceito geográfico de “raça”. Imaginou-se uma hierarquia de capaci- dade intelectual e civilizatória em que as raças não européias seriam classificadas como inferiores. A idéia da superioridade da raça branca, supostamente compro- vada pela ciência, passou a justificar procedimentos de dominação de outros po- vos, como a conquista, a escravidão, o colonialismo e o imperialismo. Hoje, o peso esmagador dos dados científicos fundamenta os seguintes pontos de consenso: • A idéia do suposto isolamento das populações em regiões específicas de certas “raças” é um equívoco. Houve sempre interação e miscigenação entre os grupos humanos, desde os tempos remotos, e esse fato esvazia a noção das raças geo- gráficas. • Os seres humanos pertencem todos à mesma espécie. Os seres humanos evolu- íram de uma ancestralidade comum iniciada na África. • A gama de variações genéticas ligadas às habilidades humanas é maior dentro de qualquer uma das “raças” geográficas do que entre elas. • Há apenas diferenças genéticas minúsculas entre as “raças” geográficas, e es- sas diferenças não estão ligadas à capacidade intelectual ou à personalidade e constituição psicológica das pessoas.
  • 15. 16 O tempo dos povos africanos Uma visão geral A África é um continente enorme com muitos povos, nações e culturas diferentes, mas essa diversidade guarda aspectos compartilhados. Esses aspec- tos têm raízes nos tempos remotos das suas origens. Existe uma unidade subjacente em to- das as regiões africanas, que reflete um processo iniciado nos tempos em que surgiram a agricultura e a criação de gado. O povoamento do continente en- volvia deslocamentos de populações com origens comuns que se estabeleciam em terras novas como grupos distintos, con- solidando novas identidades ao mesmo tempo em que conservavam semelhan- ças derivadas das tradições originais. As fases férteis do Saara e sua lenta transformação em deserto provocaram migrações e intercâmbios entre seus habitantes e vizinhos. Seguiam popu- lações em direção ao leste, nordeste, norte e sul, onde se misturavam aos povos locais. Assim, do Saara e do Su- dão difundiam-se elementos culturais e simbólicos, bem como instituições e ati- tudes sociais, comuns a povos africanos geograficamente muito distantes entre si. O domínio da tecnologia do ferro se integra a esses fluxos, formando um fator de desenvolvimento comum entre os povos do continente. A civilização clássica do Egito é ou- tra fonte comum, refletida em vários aspectos de fluxo cultural. Mais de mil línguas distintas derivam de alguns poucos grupos lingüísticos, e há indí- cios crescentes de que a antiga língua egípcia tenha sido uma espécie de lín- gua-mãe do continente. É importante frisar que se trata não de dialetos – um equívoco comum no Brasil – mas de línguas africanas. A escrita Segundo as teses racistas, os negros africanos seriam inferiores porque não foram capazes de desenvolverem sis- temas de escri¬ta. Na realidade, eles estão entre os primeiros a desenvolver a escrita. Os africanos que constituí- ram o Egito desenvolviam sua grafia desde antes de 4000 a.C., e a escrita meroítica, que ainda está sendo deci- frada, é uma das mais antigas do mun- do. Além desses hieróglifos egípcios e meroíticos, existem vários outros siste- mas de escrita desen¬volvidos por po- vos negro-africanos antes, e depois da invasão muçulmana que introduziu a escrita árabe. Um preconceito ajudou a reforçar essa tese equivocada: a própria defini- ção de escrita. Os europeus usam o sis- tema fonológico alfabético, onde cada letra representa um som. O alfabeto árabe, que prevaleceu durante séculos na Europa, é fonológico silábico, cada letra representando uma sílaba. Mas há outros tipos de escrita, como o picto- gráfico e o ideográfico, além da escri- Desenvolvimento Inicial Aqui você vai conhecer um esboço geral de como os povos da África povoaram o continente e de- senvolveram suas comunidades ao longo do processo histórico. ta por meio de objetos. Na África, os pictogramas constituem uma rica e va- riada forma de expressão, registrando saudações, histórias, e advertências. O simbolismo religioso bwiti do Gabão, as paredes de casas pintadas na região oci- dental dos Camarões, ou as seqüências de desenhos utilizados pelos sin’anga (médicos) de Malawi são alguns exem- plos dessa forma de escrita que se en- contra em toda a África. O ideograma, já uma representa- ção simbólica, é utilizado na escrita chine¬sa e em várias regiões da África. O nsibidi, por exemplo, é um sistema gráfico muito antigo, usado por diversos povos das regiões oriental e central da Nigéria para transmitir os ensinamen- tos da filosofia. Além dos adinkra, os povos acã têm a tradição dos djayobwe, figuras esculpidas em ferro ou bronze utilizadas na pesa¬gem do ouro e que transmitem mensagens esculpidas em forma de pictogramas ou ideogramas. Existe também o sistema de escrita ide- ográfica sona ou tusona entre os povos cokwe, lucazi, mbwela e mbanda de An- gola e Zâmbia. A escrita fonológica representa os sons da linguagem (fonemas ou sílabas) e não depende da memorização para ser compreendida, como é o caso do ideograma. Entre os sistemas antigos de escrita fonológica na África estão o vai (Libéria), toma (Guiné), mende (Serra Leoa) e bamun (Camarões).
  • 16. O tempo dos povos africanos 17 A escrita por meio de objetos encon- tra expressões bastante sofisticadas, como é o caso dos djayobwe acima men- cionados. Outro exemplo está no aroko dos ioruba, um sistema complexo utili- zado por líderes militares, reis e prínci- pes, consistindo de arranjos de búzios e penas que constroem, às vezes, uma representação silábica e, portanto, foné- tica das palavras. O mekutu aieie dos Ca- marões e o ngombo de Angola são outros exemplos de escrita por objetos. Os hieróglifos egípcios, a mais anti- ga forma de grafia africana, combinam a pictografia com mais uma técnica, a homofonia. Assim resolveram o proble- A escrita dos Mende, de Serra Leão (acima à direi- ta), é silábica como a Vai, mas ao contrário desta, sua leitura é da direita para a esquerda devido à influência de antigos sistemas pictográficos e da transcrição secreta de textos em árabe. A escrita meroítica (acima à esquerda) se desen- volveu nos reinados de Méroe, que atingiram seu auge no Sudão Ocidental a partir do terceiro sé- culo antes da Era Cristã. Diferente dos hierógli- fos egípcios, a meroítica é uma escrita essencial- mente alfabética. ma básico da escrita pictórica: a impos- sibilidade de escrever conceitos abstra- tos como amar, lembrar ou tornar-se. O princípio da homofonia é simples: o símbolo pictórico de um objeto serve também para escrever foneticamente todas as outras palavras pronunciadas da mesma forma. Assim, por exemplo, a imagem da enxada – cujo nome em egípcio é pronunciado mer – representa- va também o verbo mer – amar. O ta- buleiro de xadrez – men – representava o verbo men, que significa permanecer estável. Os escribas egípcios estendiam esse princípio de diversas formas e assim trabalhavam com conceitos abstratos.
  • 17. 18 O tempo dos povos africanos O Saber e o Progresso Tecnológico A principal característica que di- ferencia o ser humano é a capacidade de refletir sobre sua própria existência e modificar o ambiente em que vive, construindo conhecimento e civiliza- ção. Alegar que os negros africanos eram intelectualmente inferiores e cul- tural e socialmente incapazes de criar conhecimento e tecnologia equivale a negar-lhes sua própria condição hu- mana. A verdade é que a reflexão e a construção do conhecimento marcam a experiência dos povos africanos desde muito cedo. Em todo o continente e em diversas épocas, os povos africanos desenvolve- ram sistemas de escrita e altos conhe- cimentos na astronomia, matemática, agricultura, navegação, metalurgia, ar- quitetura e engenharia. Na medicina, praticavam cirurgias desde a cesariana até a à autópsia, passando pela remo- ção de cataratas oculares e tumores cerebrais. Conheciam e aplicavam va- cinas contra a varíola e outras doenças. Construíram cidades belíssimas e cen- tros urbanos de conhecimento interna- cional que abrigavam bibliotecas enor- mes – em Timbuktu, os maiores lucros eram obtidos com o comércio de livros. Criaram filosofias religiosas, sistemas políticos complexos e duráveis, obras de arte de alta sensibilidade e sofisticação. A riqueza do ouro e do marfim africa- Temas Gerais Aqui você vai estudar alguns temas que perpassam a experiência africana, formando o contexto em que os estados e impérios africanos se desenvolviam. como indicador do progresso político. Esse critério é um tanto arbitrário, pois muitas vezes as sociedades pequenas se demonstram capazes de criar formas democráticas, igualitárias e duradouras de governo. Por exemplo, o modelo do consenso político tem origem nos pe- quenos povoados africanos, asiáticos e dos indígenas das Américas. Hoje, esse modelo serve como referência no exer- cício da democracia entre nações em or- ganismos internacionais como a ONU e a OEA. Contudo, existiam grandes estados e impérios no contexto africano. O Im- pério de Mali abrangia um território maior que o Império Romano. Aqui va- mos observar algumas características do estado político na África. Na maioria dos casos, prevalecia a monarquia espiritualmente fundada. Isso significa que os poderes políticos se baseavam na sanção espiritual reconhe- cida por todos. A pessoa do monarca não era considerada divina mas incor- porava o consentimento de Deus ao bem-estar de seu povo. Um fato básico das sociedades tra- dicionais africanas é a propriedade co- letiva da terra. A terra, como o ar, era considerada um bem comunitário indi- visível e inalienável, pois pertencia na verdade à natureza. Esse princípio da terra como bem coletivo fazia com que os reinados africanos fossem mais am- plamente democráticos do que seus con- nos não apenas compunha as moedas como decorava os lares e as beldades da Índia, da China e da Europa. O melhor ferro no mercado internacional do sé- culo doze, de acordo com o historiador muçulmano al-Idrisi, era o da África central e meridional. No campo da reflexão filosófica, os egípcios deixaram um legado rico com- pilado na Husia, prosa e poesia da ética, e no Ma’at, que permaneciam estreita- mente ligados à esfera da espiritualida- de. A tendência era de essa produção in- telectual permanecer anônimo, diferente da prática ocidental a partir dos filósofos gregos, em que a autoria individual pas- sa prevalecer sobre a autoridade da tra- dição. Cheikh Anta Diop observa que a matemática pitagórica, a teoria dos quatro elementos de Tales de Mileto, o materialismo epicureano, o idealismo platônico, o judaísmo, o Islã e a ciência moderna têm suas raízes na cosmogonia e na ciência africanas do Egito. Assim, a experiência africana trazia não apenas o acúmulo de riqueza e a centralização do poder, como também o desenvolvimento tecnológico, cultural e intelectual. Essa experiência africana se integrava ao mundo antigo num inter- câmbio dinâmico. Natureza do estado político e da propriedade Nós costumamos identificar a exis- tência de grandes estados e impérios
  • 18. O tempo dos povos africanos 19 temporâneos na Europa ou no Oriente Médio. A descentralização do poder tam- bém apontava uma prática democrática mais ampla. Além disso, o rei desempe- nhava um papel especial como regula- dor da distribuição de riqueza. Há uma cena famosa, de aparente ostentação do Imperador Mansa Musa de Mali, quan- do viajou para Meca distribuindo ouro aos povos locais. Na verdade, este é um exemplo simbólico dessa função do rei. Em Gana, o ouro em pedra pertencia ao rei, mas o ouro em pó ele deixava ao povo. Assim, além de acumular ri- queza, o soberano a distribuía, e sem cumprir essa dupla função não lhe seria possível exercer a autoridade investida com o poder real. A sociedade matrilinear Nas sociedades agrícolas, destaca-se o papel da mulher na produção e na or- ganização econômicas. Por isso, muitas sociedades tradicionais africanas são matrilineares desde tempos imemoriais: a linhagem familiar é traçada com refe- rência à mãe. Nessas sociedades, há uma partilha de direitos e responsabilidades entre homens e mulheres. A mulher goza de direitos sociais, econômicos, políticos e espirituais. Seu papel é marcante na sucessão real, na herança de bens mate- riais, e no exercício do poder político. No Egito antigo, o mito que funda- mentava o sentido de nacionalidade é o de Osíris, visto como deus e como pri- meiro soberano simbólico. De acordo com esse mito, Osíris exerce o poder po- lítico e o espi¬ritual em conjunto com Ísis, sua irmã e esposa. Ísis ensina a prá- tica da agricultura, que Osíris transmite aos outros povos. Osíris também estabe- lece e ensina os princípios de Ma’at, a fi- losofia da justiça, da verdade e do direito que fundamentava a matriz ética da na- ção egípcia. O deus Set, divindade dos desertos, das doenças e das tempestades, assassina Osíris e corta seu corpo em uma infinidade de pedaços, que espalha pelos quatro cantos do mundo. Isis sai à procura dos pedaços, os recolhe, recons- titui o corpo de Osíris e o ressuscita. Ela ensina ao filho, Hórus, os segredos de Ma’at, assim assegurando a continuida- de dessa ética. As normas e práticas político-sociais do Egito faraônico se fundam nessa his- tória, que estabelece uma base forte para o exercício do poder. O próprio título conferido ao faraó, soberano do Egito, ilustra esse fato: era Hórus. Outras deusas do panteão egípcio, como Hathor e Neith, representam o pa- pel forte da figura feminina na partilha do poder político, intimamente ligado ao domínio espiritual. A estudiosa e escrito- ra Sônia Sanchez observa ... as mulheres, assim como os homens, eram consideradas divinas. Nessas condições favorá- veis, as deusas retinham o seu prestígio ao tor- narem-se esposas; o casal constituía a unidade religiosa e social: a mulher atuava como aliada e complemento do homem; possuía os mesmos direitos que o homem, os mesmos poderes na jus- tiça: ela herdava, era proprietária. Acima de tudo, as mulheres ostentavam nomes que desig- navam os atributos divinos de Deus. São vários os exemplos de mulheres soberanas no Egito. A mais famosa, a fa- raó Hatshepsut, foi excepcional porque assumia todas as funções de chefia do estado. Outras, como Tiye e Nefertiti, reinavam junto com os parceiros. Nos reinos meroíticos de Núbia, no atual Sudão, a linhagem das rainhas Kentakes ou Candaces reinou durante 600 anos, liderando por direito próprio e não na qualidade de esposas, a admi- nistração civil e militar da sua nação. Mais tarde, na época do colonialis- mo, destaca-se a resistência de mulheres soberanas contra o domínio estrangeiro, nessa mesma linha de ação das Canda- ces. Angola nos dá o exemplo da Rainha N’Zinga, Gana o de Asantewaa, e assim por diante: a história da África é repleta de rainhas estadistas e guerreiras. O impacto dos sistemas patriarcais do islamismo e do colonialismo europeu não conseguiu eliminar o legado da tra- dição matrilinear africana.
  • 19. 20 O tempo dos povos africanos Máscara branca na África culta Nesse esquema que o Ocidente criou para justificar as teses racistas, a civili- zação e a cultura erudita pertenceriam a essa “África branca” ao norte do con- tinente, distinta de uma outra África, negra e selvagem, ao sul do Saara. Essa imagem popular prevalece até hoje, re- forçada por representações no cinema e na televisão. Formulou-se ainda a teoria de uma raça “hamítica” ou “vermelho-escura” O mito do Egito Branco A grande riqueza do Egito serviu como ímã para atrair os povos brancos vi- zinhos, os semitas do Oriente Médio. Com o passar do tempo, a região do extremo norte do Egito, o Delta, se transformou num espaço geográfico de mistura dessas populações imigrantes com os egípcios autóctones de pele negra. Esse processo de miscigenação é um fenômeno encontrado em todo o Mediterrâneo e Oriente Médio, e praticamente em todos os cantos do planeta. Mas a partir dele surgiria o mito de um “Egito Branco”, supostamente o autor do conhecimento e das conquistas tecnológicas, numa tentativa de desapro- priar os africanos do prestígio de sua própria cultura e civilização. Os mouros que dominaram a Europa durante séculos, os Tuaregs do Saara, e os Berberes do Magreb, também são povos miscigenados, produtos de velhas misturas entre as populações negras autóctones do norte da África e outras que vieram em migrações posteriores. Antropólogos se dedicaram a pintá-los de brancos, classificando-os como mediterrâneos ou brancos. A mulher retra- tada na fotografia, por exemplo, é da etnia tebo do oásis Bordai em Tebesti, Chade. Os velhos manuais da antropologia diziam que os tebo não eram ne- gros, embora tivessem a aparência negra. A imagem do africano do norte branco, com traços físicos do tipo semítico, es- tabeleceu-se séculos após o domínio mouro da península ibérica, quando os europeus viveram em contato íntimo com africanos do norte. Naquela época, documentaram nas artes plásticas e na literatura a fisionomia do mouro de pele negra. O inesquecível Otelo, de Shakespeare, é o mais ilustre exemplo. Ícones, estátuas e desenhos confirmam graficamente essa identidade negra dos mouros, portadores da civilização avançada e do conhecimento técnico- científico, responsáveis por uma grande renascença intelectual na Europa e também por nossos números! Quem criou a civilização? O mito do negro selvagem Várias noções falsas foram criadas para justificar a idéia da inferiorida- de do negro africano. Dizia-se que os negros não construíram civilização. Mas algumas das primei¬ras civiliza- ções do mundo, como a egípcia e a núbia, estão na África. Como justifi- car, então, a idéia da falta de capaci- dade dos negros africanos para criar ou mesmo contribuir para a civiliza- ção humana? A egiptologia, disciplina surgida na Europa no século XIX, dedicou- se durante muito tempo a esse dile- ma, produzindo as teses que formam a base principal das teorias pseudo- científicas do racismo. Uma das mais importantes solu- ções encontradas foi a de extirpar as civilizações clássicas africanas do con- tinente, situando-as como civilizações orientais. Assim, o Egito pertenceria não à África, mas ao Oriente Médio. Apesar de geograficamente impossí- vel, essa operação foi um sucesso ide- ológico: ainda hoje existe o hábito de identificar o Egito como país do Orien- te Médio e não do continente africano, como era ensinado nas escolas do Oci- dente até muito recentemente. Outra idéia igualmente importante é que, desde a Antigüidade, o norte da África tenha sido racialmente distinto do restante do continente, formando uma suposta “África branca”. Aqui você vai estudar sobre a identidade racial e étnica dos povos que criaram as primeiras civilizações africanas, inclusive a egípcia. que seria distinta da raça negra africana. Os criadores das civilizações clássicas de Núbia e Egito seriam dessa chamada “raça páleo-mediterrânea branca”. Mas as imagens originais dos faraós e dos antigos egípcios mostram pesso- as negras, como exemplifica o retrato do fundador do Egito unido, o primei- ro faraó Hórus Narmer, também cha- mado Menes. A fisionomia de todas as representações dos grandes faraões di- násticos e também a da própria Esfinge exibem feições negras.
  • 20. O tempo dos povos africanos 21 Durante milênios, o Saara era verde. Os povos de pele negra que habitavam o Saara migraram em diversas épocas rumo ao vale do rio Nilo. Lá se encon- traram com populações originárias da África central. Juntos, esses povos de pele negra iriam formar a base demo- gráfica da civilização clássica núbia e egípcia. Mesmo depois do período verde, o Saara sempre foi habitado por gente “subsaarana”, ou seja, pessoas de pele negra. A idéia da África dividida pelo Saara presume que o deserto seja uma barrei- ra quase intransponível. Mas o fluxo de viajantes, migrantes e comerciantes atravessando o Saara criou um inter- câmbio ativo e constante entre os povos ao norte e ao sul do deserto. Além disso, as populações negras da África subsaarana criaram civilizações e avanços científico-tecnológicos; gran- des centros urbanos caracterizados pela erudição; e Estados e Impérios com sofisticada organização política como Mali, Songai, Gana, Quíloa, Zimbábue e tantos outros. Origens do Egito dinástico O antigo Egito se originou com a unificação de vários reinos africanos que compuseram dois grupos de influ- ência básica: os do Sul e os do Norte. A própria natureza forma essas duas regi- ões. As estreitas lascas de terra ao lado do rio Nilo, de Aswan até Cairo consti- tuem a região Sul. O Delta, ou a região superior (ao norte), forma um triângulo das terras deixadas pelo rio ao longo de milênios. Os deuses Hórus e Osíris pre- sidiam as culturas desses reinos. Sob a liderança de Hórus Narmer, ou Menes, esses reinos se unificaram e passaram a conviver como um só Estado durante as trinta dinastias da história egípcia. A grande façanha da época pré-fara- ônica foi controlar a terra e dominar a natureza para estruturar a prática orga- nizada da agricultura. Os ciclos das chu- vas e das águas do Nilo demandavam a mobilização de muita gente para atingir esse domínio. Era preciso limpar a terra, drenar os pântanos, construir diques, represas e canais de irrigação. A mobili- zação dessa força de trabalho em grande escala contribuiu para a estruturação po- lítica e a evolução do Estado. A natureza como fonte da vida ocu- pava o centro das concepções filosófi- cas dos egípcios antigos, e a unidade essencial de todas as manifestações da vida se destacava como fundamento de sua religiosidade. Nessa filosofia re- ligiosa o universo compõe um sistema em que tudo se liga e se interliga. Essa unicidade implica numa multiplicidade de aspectos do mesmo todo, pois os di- ferentes componentes do todo têm sua existência própria ao mesmo tempo em que constituem uma unidade só, um todo. Para muitos estudiosos, essa é uma característica da maneira africana de compreender a realidade que irra- diou do Egito antigo a toda o restante da África, compondo um elo de unida- de cultural. Essa concepção africana do univer- so difere daquela do Ocidente por não separar o corpo da mente e do espírito, e difere do oriental porque concebe o espiritual em termos concretos, perso- nalizados. Nessa concepção do cosmos, a vida e a morte são muito próximas, duas partes do mesmo universo. A viagem do faraó para o mundo do além após a morte simbolizava a passagem de to- dos os seres humanos, tanto ao nascer como também ao morrer, de um lado do cosmos para o outro. E nos dois lados o Ma’at, filosofia da ética e da justiça, demandava dos homens, das mulheres e sobretudo dos soberanos as mesmas atitudes e o mesmo comportamento pautados no cumprimento dos precei- tos da boa convivência. Dessa forma, a fascinação dos egípcios com a vida após a morte não tem igual no mundo.
  • 21. 22 O tempo dos povos africanos Conhecimento e cultura no antigo Egito Quando falamos de povos africanos, subentendemos que são de pele negra, porque na África antiga havia peque- nas populações brancas, e ainda assim fortemente miscigenados, apenas na re- gião do Delta, no extremo norte do Egi- to, e em bolsões específicos do território da Líbia e da Abissínia habitados pelos lebus. Esse fato contraria a hipótese de uma suposta “África branca” no Norte do Continente. Segundo uma das teses da egiptolo- gia, povos brancos imigrantes vindos do Norte teriam construído o Estado egípcio, sua cultura e suas conquistas de conhecimento e tecnologia. Essa ver- são está longe da verdade histórica. A civilização egípcia nasceu dos rei- nos africanos mais antigos da Núbia, ao Sul do Egito, que também deram ori- gem aos reinos de Querma e de Cush, no atual Sudão. Tanto os reinos do Egi- to pré-dinástico como os da Núbia sur- giram da migração de povos africanos vindos do Sul, do Oeste e do Sudoeste do Continente. A seca do Saara provo- cou, em parte, esse fluxo migratório. Em 1977, no sítio arqueológico de Qustul, na antiga Núbia, surgiu a evi- dência material da origem africana da civilização egípcia. Os artefatos colhi- dos em Qustul mostraram a existência de um reino chamado Ta-Seti. Antece- dendo por treze gerações a unificação Primeiras Conquistas Aqui você vai ler algumas informações sobre as raízes africanas egípcias de nossa civilização ocidental moderna. do Egito, Ta-Seti já trazia na sua cerâ- mica as imagens de Osíris, Ísis e Hórus, marcas simbólicas da filosofia religiosa e da estrutura de estado do Egito. O povo desse reino chamava-se Anu- Seti. A palavra Anu recorre com freqüên- cia na mitologia africana antiga e alguns pesquisadores o associam à cor negra com base em evidências lingüísticas. A existência e as características do reino de Ta-Seti e sua cultura compro- vam que a organização do estado políti- co, bem como a escrita, surgem na Áfri- ca muito antes do que anteriormente se supunha. A civilização egípcia protagonizou avanços tecnológicos revolucionários, inclusive a invenção da escrita. Conhe- çamos alguns desses avanços: • Desde mais de quatro mil anos antes da Era Cristã desenvolvia sua escrita; de seu conhecimento astro- nômico evoluía um calendário mais exato que o ocidental moderno. • As pirâmides demonstram a teoria e a prática de uma engenharia extrema- mente precisa desde há quatro milê- nios e meio. • Os papiros de Ahmes e de Moscou mostram uma matemática avançada e abstrata desenvolvida desde treze séculos antes de Euclides. • Atótis, um sábio egípcio, pesqui- sava e praticava a medicina desde aproximadamente 3200 anos antes da Era Cristã. A partir do ano 2980, o mestre Imhotep protagonizou avanços consideráveis no conhecimento que lhe valeram a deificação. Os papiros descobertos por Smith (1650 a.C.) e Ebers (2600 a.C.) revelam conheci- mentos médicos avançados, inclusive as primeiras suturas e fitas; o início da antissepsia com sais de cobre; e “a existência de uma medicina ob- jetiva e científica..., fundamentada na atenta e repetida observação do doente, na experiência clínica e num conhecimento da anatomia que até o momento ninguém suspeitava”, de acordo com o tradutor dos textos des- ses papiros. Os primeiros cientistas-filósofos gre- gos, como Sócrates, Platão, Tales, Ana- xágoras e Aristóteles, estudaram no Egito e de lá absorveram conhecimento e assimilaram técnicas para a prática da investigação empírica e da reflexão conceitual. Os próprios gregos antigos reco- nheciam a grande influência do co- nhecimento egípcio sobre sua herança intelectual e cultural. E conheciam os egípcios como africanos negros. O es- critor grego Heródoto, conhecido como o “Pai da História”, observou de pri- meira mão, na época, a filiação africana
  • 22. O tempo dos povos africanos 23 do Egito quando afirmou que “entre os egípcios e os etíopes, não gostaria de dizer quem aprendeu com quem.” Na época, a expressão “etíope” referia-se aos africanos de forma genérica. A partir da década de 1950, o cien- tista senegalês Cheikh Anta Diop reali- zou extensas pesquisas que derrubaram a tese da origem externa da civilização egípcia. Ele realizava trabalhos nas áre- as da química, lingüística, arqueologia e análise de isótopos de rádio carbono; fundou o Laboratório do Instituto Fun- damental da África Negra em Dacar. Os resultados de suas investigações têm sido repetidamente confirmados por dados levantados em várias disci- plinas científicas. Constituem uma sóli- da referência de base para o estudo das civilizações clássicas africanas e sua in- fluência no mundo antigo. Cheikh Anta Diop constatou e seus seguidores vêm mostrando que a influ- ência clássica egípcia está para a África como a greco-romana está para a Eu- ropa e que o Egito sempre manteve in- tercâmbio com o restante da África. Já na quarta dinastia (ca. 2620-2480 a.C.), grandes expedições marítimas e comer- ciais seguiam ao sul e ao ocidente do Continente, chegando até à beira das florestas do Congo. O Egito nesse período O grande evento de importância histórica nesse período foi a consolida- ção do Estado unificado dos reinos do Norte e do Sul, sob a liderança dos Es- tados do Sul. Inicialmente, esse poder de Estado consolidou-se com a ajuda da noção da divindade do faraó. Essa idéia permitia que nem um dos grupos se sentisse dominado por um estranho ou estrangeiro. O título do faraó passou a ser Hórus, nome do deus filho de Isis e Osíris. A imagem de Hórus Narmer em duas poses, usando a coroa branca do sul e também a coroa vermelha do del- ta, simboliza a unificação dos reinos. O sucessor de Narmer, Hórus Aha, tam- bém aparece dessa forma. A lenda diz que Hórus Narmer, ou Menes, fundou a cidade de Mênfis quando represou o Nilo e construiu a fortaleza real no ater- ro. Mênfis permaneceria como a capi- tal administrativa durante quase toda a história do Egito. Há indícios de que Meryetneith, antes de 2875 a.C., tenha sido a primeira rainha do Egito. Nesse período inicia-se a construção das pirâmides, uma façanha de conhe- cimento e de organização humana. O faraó Djoser construiu a pirâmide de Saqqara por volta de 2650 a.C., e cem anos depois disso estava erguida a Grande Pirâmide de Giza, túmulo do faraó Quéops. Essas pirâmides tinham laterais na forma de enormes degraus, no que mais tarde seria conhecido como o estilo nubiano, pois segue o es- tilo que evoluiu nos reinos de Núbia ao sul do Egito. O rei Seneferu (2597-2547 a.C.) construiu as primeiras pirâmides de laterais lisos. De acordo com alguns estudiosos, a pirâmide com degraus se- ria uma metáfora da escada que sobe ao céu, que com laterais lisos passaria a re- presentar os raios do sol. As pirâmides testemunham, também, a noção da uni- dade das formas de vida no universo. A construção das pirâmides reflete o desenvolvimento de altos conhecimen- tos da matemática e da engenharia. Os antigos egípcios dominavam milênios antes o conteúdo de teoremas como o de Pitágoras. Entretanto é a este que o Ocidente se refere, até hoje, como pai da geometria. O sábio egípcio Imhotep (ca. 2700 a.C.) desenvolvia questões que estão à base da reflexão filosófica: as indagações sobre o espaço, o tempo, a imortalidade, a natureza da vida física e mental e os dilemas da convivência entre os seres humanos. Ele construía conhecimento em outros campos também. Com toda a justiça, podemos considerar Imhotep, anterior aos pré-socráticos em matéria de milênios, como o verdadeiro pai da medicina, da arquitetura, da política e da filosofia.
  • 23. 24 O tempo dos povos africanos A África viaja Desde seus primórdios, a África tem sido o palco de intensas movimenta- ções, migrações, e trocas comerciais e culturais dentro e fora do continente. Além disso, os povos de pele negra con- tribuíram à construção da civilização em todo o mundo antigo – Ásia, Euro- pa e América. O historiador inglês John Baldwin afirmou no século XIX: Hoje se aceita que povos da raça cushita ou etíope foram os primeiros civilizadores e cons¬trutores em toda a Ásia Ocidental, e está comprovada a influência de sua civiliza¬ção na presença de suas línguas e arquitetura aos dois lados do Mediterrâneo, na África orien- tal e no vale do rio Nilo, como também no Hindustão e nas ilhas do mar Índico. Nesses tempos muito antigos, a mi- tologia e a tradição religiosa se confun- dem com o registro histórico. O mito e a narrativa oral das tradições religiosas refletem a memória dos povos. O regis- tro grafado é perecível e o pouco de ma- terial que resta nos oferece uma visão muito parcial e fragmentada. Por isso, os historiadores revisaram o critério de considerar apenas as fontes escritas como fidedignas, e o depoimento oral preservado ao longo do tempo passou a ter valor como fonte de informações sobre o passado. Assim, as viagens de Osíris pelo mundo e sua missão de levar a civili- A África no Mundo Nos próximos blocos, você vai ler informações sobre as conquistas de conhecimento da África e conhecer teses e evidências de seu intercâmbio com o mundo antigo. A ênfase aqui é sobre a civilização clássica africana e seu intercâmbio com a Ásia. região. Erigiram e fizeram florescer a famosa cidade-estado de Ur, cujo gover- nante Gudea (2142-2122 a.C.) subjugou grande parte de Elam, inclusive sua ca- pital Susa. Gudea construía templos ao deus Anu e grandes complexos urbanas com pirâmides cujas laterais subiam na forma de escadas, no estilo nubiano. Primeira cultura avançada da re- gião que hoje compreende o Irã, Elam apresentava semelhanças significativas com as tradições culturais e estruturas políticas e sócio-econômicas do vale do rio Nilo. O caráter matrilinear dessa so- ciedade está consignado na ascendência da divindade feminina Kirisha ou Pi- nikir, na for¬ma da sucessão real e na posição de relativa igualdade da mulher (ela assinava documen¬tos, conduzia negócios, representava em juízo, herda- va e deixava patrimônios). Os descendentes de Elam se manti- veram presentes durante a história da região. O Baluquistão, uma área que compreende parte do Irã e parte de Paquis¬tão, ficou conhecido como Ge- drosia, o país dos escuros, e em tempos moder¬nos sua população ainda se des- taca em relação aos vizinhos. Até hoje essa região se chama Khuzistan, terra de Khuz ou Cush. Índia O escritor grego Heródoto, conheci- do como Pai da História, nos conta que “Existem duas grandes nações etíopes, zação a outras terras fazem parte da mais antiga tradição histórico-mitológi- ca considerada como uma das formas de registrar tendências e movimentos históricos. Mítico rei primordial e deus do Egito, Osíris era o mestre da filoso- fia do Ma’at, teoria da verdade, da jus- tiça e do direito. Além de ensinar aos outros povos do mundo as ciências da agricultura e metalurgia, bem como a arte da civilização, Osíris ensinava a mensa¬gem religiosa e os princípios éticos do Ma’at. Quando Osíris deixou o Egito para cumprir essa missão, Ísis, sua irmã e esposa, reinou soberana com sabedoria, dignidade e verdade. Esse conjunto de referências reflete a expan- são da civilização egípcia evidenciada na arqueologia, na lingüística e em ou- tros campos científicos. Sumer e Elam As primeiras civilizações significati- vas na Ásia Oci¬dental são as de Su- mer e Elam, nações que floresceram no vale dos rios Tigre e Eufrates durante o terceiro milênio antes de Cristo. Essas nações eram formadas, assim como na Índia, por povos de pele negra. Histo- riadores gregos afirmavam que Sumer surgiu como uma entre várias colônias de Cush, com população e cultura vin- das do vale do rio Nilo. Os próprios sumerianos se chamavam de “cabeças pretas”, distinguindo-se dos povos se- mitas que começavam a adentrar essa
  • 24. O tempo dos povos africanos 25 uma em Sind e outra no Egito”. (Lem- bre-se, naquela época “etíope” significa- va africano negro.) Sind compreende a Índia e o Paquis- tão de hoje. O historiador e antropólogo indiano Bharatiya Vidya Bhavan afirma que “os povos negros da Índia pré-his- tórica foram seus primeiros habitantes. Originalmente, parecem ter vindo da África atravessando a Arábia e as costas do Irã e Baluquistão.” A primeira grande civilização india- na é aquela do vale do rio Indo, com sua capital Harappa. A civilização ori- ginal de Harappa era agrícola e sua população era negra. Ela floresceu de 2200 a 1700 antes da Era Cristã, e foi conquis¬tada pelos arianos por volta de 1400 a.C., quando tomaram as terras de Paquis¬tão e de toda a Índia do norte. Depois da conquista, os arianos impu- seram um sistema de castas. A palavra varna, que em sânscrito significa casta, também quer dizer “cor”. A casta mais baixa se chamava sudra. A degradação do povo conquistado com base na sua identidade sudra foi uma das técnicas de subjugação. O sistema indiano de castas é complexo, mas até hoje os dalits, os chamados intocáveis, sofrem as conse- qüências da exclusão social nesse siste- ma com conotação nitidamente racial. O Egito nesse período Heródoto descreveu o rei Mique- rinos (2493-2475 a.C.) como dono da melhor reputação de justiça de todos os reis egípcios. Na época do rei Sahure, entre 2464 e 2452 a.C., e de seus suces- sores, o Egito continuou mantendo o comércio estrangeiro e protagonizando expedições expansionistas. Os navios egípcios navegavam o Mar Vermelho até Punt, mais de mil quilômetros ao sul. Também nessa época inicia-se a construção de templos do sol. Pepy I e Pepy II (2343-2196 a.C.) ampliaram o alcance das expedições ao leste até as minas do Sinai e ao inte- rior da África. Nitokris, a segunda mulher sobera- na do Egito, reinou por volta de 2160 a.C., no final da 6a dinastia, um perí- odo de instabilidade e conflito interno que introduziu o domínio dos reis de Abordagens convergentes Com a comprovação paleontológica da migração de populações de pele negra em períodos muito remotos, é possível interpretar as características comuns entre línguas, culturas e civilizações antigas como tendo evoluído de forma isolada em cada local e não como resultado de contatos e intercâmbios. Entretanto, pesquisadores sérios afirmam que o volume de semelhanças entre essas línguas, culturas e civilizações antigas indica uma origem comum na África. Para esses estudiosos, a quantidade de características específicas em comum é muito maior do que seria possível como mero resultado do acaso. Em qualquer uma das hipóteses, a conclusão é a mesma: os autores dessas línguas, culturas e civilizações antigas são povos de pele negra originários da África. Na tese da evolução local, essa origem africana seria mais remota. Para nós, a credibilidade da hipótese do intercâmbio se sustenta, pois as evi- dências são extensas e o maior obstáculo é o preconceito eurocentrista que julgava os africanos incapazes de viajar o mundo antigo. Tebas. O primeiro deles, Montjuhotpe II (2066-2014 a.C.) reunificou o Egito enfrentando as facções rivais, reinsti- tuiu a estabilidade e retomou as expe- dições ao exterior. Os filósofos desse período incluem Ptah-hotep, que escreveu tratados éti- cos sobre o envelhecimento e outros temas, ensinando que a vida consiste de construir a harmonia e a paz em relação à natureza. O Sábio de Kagemni (2300 a.C.) está entre os primeiros mestres da éti- ca. Seu objetivo era que o ser humano atuasse pelo bem em função do bem e não em busca de vantagem pessoal ou favores de Deus. Ele ensinava a com- paixão e o respeito por todas as cria- turas vivas.
  • 25. 26 O tempo dos povos africanos Coerência e Continuidade O Egito continua construindo A reunificação do Egito sob Mon- tjuhotpe II coincide com o início da as- censão de Amon, divindade cuja con- solidação como deus principal levaria mais alguns séculos. Amenemhat, cujo nome significa “Amon é o principal”, subiu ao trono em 1994 a.C., sob o nome de Amenemes I, iniciando o pe- ríodo chamado Reinado do Meio. Um desafio principal e constante à unidade do Egito seria a região do Del- ta, onde se estabeleciam os imigrantes asiáticos. Essas populações semitas viriam a formar focos de disputa do poder em várias ocasiões da história egípcia. Um período de estabilidade e de- senvolvimento se instala durante a 12a dinastia, sobretudo no reino de Sesos- tris III (1881-1840 a.C.), que construiu o templo de Karnak e várias obras na cidade de Heliópolis. Também consoli- dou o domínio do Egito sobre a Núbia ao sul e liderou a expansão territorial e as conquistas militares em direção ao Oriente Médio e ao Ocidente. Disputas políticas surgiram no Del- ta e também ao sul, criando uma ins- tabilidade que culminou na invasão e conquista do Norte pelos hyksos, povo semita originário do norte de Síria e do Líbano e de parte do Iraq atuais. Os hyksos dominaram o país duran- te o período de 1700 a 1550 a.C., no primeiro momento de sua história em Aqui você vai conhecer algumas informações sobre como o mundo antigo evoluía nesse período. que os egípcios sucumbiram ao domí- nio estrangeiro. Finalmente, o rei Ah- mose I (1549-1524 a.C.) os expulsou e iniciou o chamado Reino Novo. Filosofia e religiosidade Entre os pensadores egípcios dessa época estava Merikare, filósofo da co- municação, que escrevia sobre o valor de falar bem e de conduzir com bom senso as relações humanas. Sehotepibre, conhecido como “O Lealista”, discorria sobre os valores de uma orientação na- cionalista. Amenemhat, filósofo caute- loso, duvidava da lealdade de amigos íntimos e advertia que o líder deve ter cuidado com aqueles que lhe circun- dam. Também datam dessa época as lições de Khunanup, oriundas da história de um homem comum que se confronta com o dilema de o quê fazer quando um rico rouba os seus bens. Khunanup desafia o homem rico diante dos ma- gistrados, e eventualmente ele ganha a causa. As lições morais desse conto, sobre a conquista do bem e da justiça sobre o mal e a exploração, continuam muito atuais. Peça da literatura clássica que ins- taura essa época, a Profecia de Nefer- rohu expressa a unidade entre a esfera política e o domínio espiritual. O poeta canta os anseios e as expectativas em relação ao soberano, que deveria su- perar o caos e cimentar a unidade da nação. Ao mesmo tempo, ele expõe a concepção africana do universo: a vida é um todo integrado que abrange o na- tural e o sobrenatural. Os ancestrais e os não nascidos compartilham o espaço humano e estão presentes no tempo dos vivos. Esse conjunto humano interage diariamente com o divino e com as for- ças da natureza. A vida em sociedade significa a interconexão entre essas es- feras. Assim, o caos na sociedade sig- nifica a desordem do mundo natural e espiritual. Por isso, o princípio da fé contido na profecia emerge quando o líder restabelece a ordem e a unidade após um período de quebra das normas de convivência e paz: Eu lhe mostro a terra confusa. Ocor- re aquilo que nunca aconteceu. Os homens brandem armas de guerra, e a terra vive a desordem. Os homens fazem flechas de metal, mendigam o pão do sangue, riem um riso do- entio. Alguém sentado no canto vira as costas enquanto um homem mata o outro. Ra [o Deus Sol] se separa da humani- dade. Se ele brilha, é durante apenas uma hora. Ninguém sabe quando cai o meio dia, pois a sombra não se distingue. Eu lhe mostro a terra de pernas para o ar. A província de Heliópolis, nascedouro de cada deus, não está mais na terra. Então virá um rei, pertencente ao Sul – Ameny, o Triunfante, o seu nome. É filho de uma mulher da terra de Nú- bia, nascido no Egito meridional.
  • 26. O tempo dos povos africanos 27 Ele tomará a Coroa Branca; ele usará a Coroa Vermelha. Ele unirá os Dois Poderosos, dará aos Dois Senhores o que desejam. Regozijem ó povos desse tempo! O filho de um homem fará o seu nome para sempre: Aqueles que cultivam a maldade e a traição Irão silenciar a sua fala por temor a ele. Os asiáticos cairão debaixo de sua espa- da, e os líbios cairão no seu fogaréu. Os rebeldes pertencem à sua ira e os trai- çoeiros de coração o respeitam. A serpente- uraea que está na sua testa aquieta-lhe os traiçoeiros de coração. Será erguida a Parede do Soberano – vida, prosperidade, saúde! – e não se per- mitirá aos asiáticos entrar no Egito a implo- rar que lhes dêem água para as suas bestas. E a justiça tomará o seu lugar, enquanto o mal será expulso. Regozijem aqueles que puderem ver isso e estar a serviço do rei! O sábio verterá água para mim, quando testemunha acontecer o que eu falei. Até hoje, os vivos vertem água para os ancestrais, porque essa concepção do universo – em que a sociedade faz parte integral de um todo que inclui a humanidade viva, os mortos e os não nascidos, em constante interação com o Criador, os deuses e as forças da na- tureza – continuou prevalecendo na África e na sua diáspora durante toda a história do desenvolvimento de seus povos. A multiplicidade de expressões dessa visão cósmica engloba as religi- ões da África Ocidental e as de origem banta que formam o Candomblé e a Umbanda no Brasil, o Voudou do Hai- ti e a Santería cubana. Populações e culturas negras na Ásia Na história remota da China, a pre- sença de povos autóctones de pele ne- gra está registrada desde entre 50 mil e 10 mil anos atrás. Nas províncias de Szechuã e Kiangs, paleontólogos en- contraram restos de um Homo sapiens sapiens antigo, que passou a ser deno- minado Liu Chiang. Entre os primeiros grandes monar- cas da China, como no Egito, haviam as chamadas “dinastias divinas”. Um dos primeiros reis principais era Fu- Hsi (2953-2838 a.C.), descrito como um homem de pele negra e cabelo cres- po, que presidiu a fundação das insti- tuições políticas, sociais, religiosas e da escrita que iriam perdurar na Chi- na. Shen-Nung (2838-2806 a.C), outro monarca conhecido como homem ne- gro, reinou durante e introdução da agricultura no país. Alguns estudiosos observam o caráter matrilinear nas culturas dessas dinastias, bem como outras semelhanças à antiga civiliza- ção egípcia. Segundo esses estudiosos, a mitologia chinesa identifica um povo original da China chamada Ainu, de nariz chato e cabelo crespo. Os Ainu também aparecem na his- tória japonesa, com destaque para o comandante Sakanouye Tamuramaro, cuja valentia lendária é homenageada com o provérbio: “Para um samurai ter coragem é preciso que tenha san- gue negro”.
  • 27. 28 O tempo dos povos africanos Paz, prosperidade e expansão do Egito Hatshepsut, primeira e única faraó mulher, sucedeu Amenhotep I, Tutmo- se I e Tutmose II, todos eles monarcas que haviam se dedicado a expandir as fronteiras do Egito. Hatshepsut se des- tacou porque se vestia como homem e assumia as funções masculinas do po- der e protocolo. Presidiu uma época de paz e prosperidade, também marcada por grandes empreendimentos e por expedições ao exterior. Seu sucessor Tutmose III continuou essa expansão, e o Egito se estabeleceu como a maior potência mundial. Assim permaneceu sob Amenhotep III, que se casou com a rainha Tiye da Núbia. Juntos presi- diram uma época de florescimento da cultura no Egito. Construíram o belís- simo templo de Luxor. Seu filho Akhe- naten (1360-1343 a.C.) casou-se com Nefertiti, e os dois viveram, com suas filhas, no complexo palaciano e cida- de de Amarna. Presidiram um tempo de renascença e inovação nas artes, na arquitetura e na religião. Akhenaten instituiu uma nova religião, o culto a Aten, uma religião mais simples que a tradicional e com ênfase na verdade e na liberdade individual. Mas quan- do transferiu a capital para Amarna, detonou uma crise política de longa duração. Tutankhamem (1343-1333 a.C.), provavelmente o filho mais novo de Soberania e Inovação tância de aprender. Promovia a leitura como a melhor maneira de treinar a mente e revelar os segredos das coisas ocultas. Amenemope (1290 a.C.) promovia a filosofia das boas maneiras, da etique- ta e do sucesso na condução da vida por meio dos provérbios. Venerava os ancestrais que deixaram o legado de provérbios, transmitindo sua experi- ência e a sabedoria, e sem os quais a aprendizagem das novas gerações fica- ria prejudicada. Makeda e as rainhas mães A Bíblia se refere a Makeda (1005- 950 a.C.), Rainha de Sabá, soberana de um reino cuja influência estendia-se do leste da África até à Etiópia, o Su- dão, Arábia e regiões da Índia. Além de controlar o comércio riquíssimo da região, de ouro, marfim, ébano, pedras preciosas, óleos e especiarias, Makeda e outras rainhas africanas construíam complexos urbanos e sistemas hidráu- licos bem sofisticados. Elam Filho de Titono, governador da Pérsia, Memnon se aliou à Tróia, lide- rando uma força de dez mil susianos e dez mil etíopes. Escritores romanos o descreveram como sendo preto como o ébano e o homem mais bonito que vivia. Como Aquiles, ele usava armas forjadas por Hefestus. Aqui continuamos estudando o mundo antigo com ênfase no Egito, mas sem esquecer que no restante da África há migrações e intercâmbio que marcam o seu desenvolvimento. Akhenaton, ou Amenhotep IV, faraó do Egito ca. 1350 a.C., que presidiu a instalação do monoteísmo e uma Akhenaton, ascendeu ao trono ainda garoto, reinando com a irmã Ankhe- senpaaten como rainha e com os ge- nerais Ay e Horemheb como tutores. O reino dele é marcado por um estilo artístico delicado que combina o me- lhor do estilo de Amarna com a arte tradicional. Tutankhamen restaurou a religião de Amon, transferiu a residên- cia real de volta a Mênfis e reinstituiu Tebas como centro de poder político. Ramses II e III (1279-1153) expandi- ram ainda mais o domínio externo do Egito. Prevaleceram sobre os hititas, um povo semita, e sobre os chamados “povos do mar”, uma coalizão de po- vos semitas e de pele branca oriundos do Oriente médio e da Europa medi- terrânea, que saqueavam todas as civi- lizações litorâneas da época. A Filosofia no Egito Amenhotep, filho de Hapu, viveu por volta de 1400 a.C. e era o mais res- peitado dos antigos filósofos egípcios. Considerado o maior mestre do Ma’at – a ética da justiça, da verdade e do direito que formava a base da filoso- fia egípcia – ele foi o segundo mestre, após Imhotep, a ser deificado. Duauf, que escrevia por volta de 1340 a.C., era o mestre do protocolo. Ensinava como se deve viver coletiva- mente numa comunidade de pessoas. Professor de vocação, ele encorajava os jovens a ler e enfatizava a impor-
  • 28. O tempo dos povos africanos 29 Elos entre a África Ocidental e do Norte Na época da seca, muitos africanos migraram entre o Saara e o Sudão. En- tre eles estavam os ancestrais dos bér- beres, povos miscigenados que manti- veram sua própria língua e escrita. Os bérberes faziam intenso comércio com os povos africanos ao sul, trocando o sal e o cobre pelo ouro e o marfim. Nesse comércio se fundaria, em parte, a base econômica de grandes estados africanos ao sul do Saara, entre eles o império de Gana. Os bérberes atuavam também no Me- diterrâneo, onde vendiam e compravam com os fenícios, e esse comércio integra- va o interior da África aos circuitos do mundo antigo. Nok Quase um milênio antes da era cris- tã, no lugar onde se encontram os rios Niger e Benue, surgiu a civilização nok, conhecida pelas suas sofisticadas obras de arte. Com o domínio do ferro, sua rica cultura duraria até o início do ter- ceiro século daEra Cristã. África central e meridional Um grande fenômeno da história afri- cana são as migrações épicas dos povos do grupo lingüístico banto. Esse termo designa uma multiplicidade de grupos humanos que povoaram extensos terri- tórios geográficos durante um longo pe- ríodo de tempo. O processo teve origem na atual Nigéria e Camarões, onde teria surgido, há milênios, o “banto original” – mãe de centenas de línguas africanas modernas (importante: não se trata de dialetos, e sim de línguas africanas). Os povos que falavam essa língua se espa- lharam em grupos pequenos rumo ao centro da África, em direção à atual Re- pública Democrática do Congo, e tam- bém em direção ao leste e depois ao sul. O domínio da tecnologia do ferro teria auxiliado as migrações dando impulso ao desenvolvimento das culturas desses povos. O fenômeno da diáspora banta se prolongaria da bacia do Congo ao sul, sudoeste e sudeste, lentamente deslocan- do ou absorvendo populações locais. Esse processo constitui uma das ba- ses das características em comum en- tre diversas culturas africanas. Mesmo na sua multiplicidade, essas culturas mantém pontos de coerência e de con- vergência cuja origem está nas origens compartilhadas. Quando um grupo sai de seu território, ele guarda lembranças e referências, além de tradições mani- festas de forma material, que se trans- formam no processo de deslocamento mas ao mesmo tempo guardam elemen- tos e tendências da matriz original. Entre os povos originais que resisti- ram a essa “invasão” banta e continua- ram vivendo da caça e coleta estão os san e os khoi-khoi. São as “tribos” cuja aparência ficou estereotipada como a imagem do africano “selvagem” do ci- nema norte-americano. Cabe lembrar o alerta do historiador Basil Davidson: de forma nenhuma o suposto primitivismo desses povos implicaria em inferior ta- lento ou inteligência. “O modo de vida social deles, individual e coletivo, com sua força e sua flexibilidade, suas mi- núcias de limites e equilíbrio, sua nua simplicidade de forma combinada com tolerância para tensões e erros, não dá lugar para tal idéia.”
  • 29. 30 O tempo dos povos africanos Novos Contornos Instabilidade no Egito Num período de assédio dos assí- rios e poder dos faraós líbios (948-752 a.C.) as forças de liderança da Núbia, ao sul, se concentraram e se ampliaram até conseguir se estabelecer novamente no Egito. O domínio núbio da 25a di- nastia (762-664), iniciado por Piankhy, chegou a seu auge no reino de Taharqa. Nas artes e na arquitetura, a referência aos estilos sudaneses prevaleceu duran- te a 26ª dinastia. Depois disso o Egito passou a sucumbir gradativamente às investidas dos assírios e dos persas. A perda do poder político e militar não implicava no fim da influência do Egito, cuja cultura sustentava as bases da evolução da filosofia no mundo gre- co-romano da Antigüidade. Núbia Ao sul do Egito, Núbia – rica em ouro, ébano e cultura humana – abri- gava as mais longínquas origens da cul- tura egípcia. Lá floresceu o império de Cush, com capital em Napata, cujos di- rigentes lideraram o Egito na 25ª dinas- tia. Depois transferiu o centro para Mé- roe, de onde historiadores afirmam que a tecnologia do ferro se espalhou ao sul e oeste. Entre 300 a.C. e 300 E.C. – um período em que o Egito já se encontra- va sob o domínio macedônio e romano – o império meroítico de Cush, onde as mulheres exerciam liderança política e militar, tinha sua própria escrita, cons- truía grandes centros urbanos, manufa- turava metais e se engajava num ativo comércio com países remotos como a Índia e a China. Axum No norte da Etiópia, tem início no quinto século a.C. o Estado de Axum, fruto de intensa interação africana com o sul da Arábia. A rainha de Sabá se aliou ao rei Salomão, sendo seu filho Menelik o mítico fundador da Etiópia. A partir de aproximadamente 50 E.C. o porto de Adulis se tornava um centro mundial de comércio com a Ásia via Oceano Índico. Adulis fazia parte de uma cadeia de por- tos que subiam o litoral desde a região centro-africana. O rei Ezana de Axum, primeiro monarca convertido ao cristia- nismo, derrotou Méroe no quarto sécu- lo E.C. e inaugurou a era cristã etíope. A cultura urbana de Axum deu origem a um dos mais duradouros impérios da história: a Etiópia sucumbiu apenas à invasão da Itália fascista em 1935 e logo em 1941 reinstalou o imperador Haile Selassie no trono. Índia No sexto século a.C. surge uma for- te contestação ao sistema de castas. O culto fundado por Sidhartha Gautama, o Buda, nasce e floresce entre as popu- lações de pele negra das regiões central, oriental e sul da Índia. O próprio Buda é negro, como mostram as suas estátu- Aqui você vai conhecer novas dimensões do mundo africano e dos povos de pele negra, com ênfase na sua presença mais que antiga nas Américas. as e os seus retratos. Além disso, existe uma série de paralelos entre sua mitolo- gia e a de Osíris e de Hórus no Egito, criando profunda afinidade entre essas figuras. Populações e culturas negras nas Américas Apenas recentemente, ficou com- provado que os primeiros americanos foram populações de pele negra, pa- recidas fisicamente com os autóctones da África, da Austrália e da Melanésia. Eles chegaram antes que os povos de aparência asiática que a antropologia costuma identificar como os únicos indígenas das Américas. A partir de aproximadamente doze mil anos atrás, essas populações passam a conviver e a se mesclar no continente. Supunha-se antes que os povos de aparência asiática teriam habitado so- zinhos o Continente americano até a chegada das caravelas européias, sem nenhum contato com o restante do mundo. Entretanto, vários pesquisadores constataram fortes evidências da pre- sença e da influência cultural de povos negros nas Américas e insistiram na tese de contatos entre africanos e indí- genas americanos na Antigüidade. Além de uma riqueza enorme de testemunhos visíveis na cerâmica e escultura pré-colombiana, as evidên- cias surgiam em campos científicos tão
  • 30. O tempo dos povos africanos 31 variados como a etnologia, botânica, arqueo¬logia, oceanografia, filologia, história cultural e lingüística. A pes- quisa de esqueletos e crânios encon- trados em diversos sítios convenceu a Associação Internacional de America- nistas a reconhecer, em 1974, que exis- tiam fatos suficientes para comprovar a presença africana nas Américas antes de Colombo. As provas incluíam não apenas os restos de pessoas negras, como também um conjunto de semelhanças entre as culturas indígenas e africanas que era complexo e extenso demais para ser atribuído à mera coincidência. Por exemplo, as técni¬cas de en- genharia e arquitetura das pirâmides egípcias e mexicanas, bem como as re- lações espaciais e astronômicas nelas re- presentadas, são idênticas em um grau além do que se pode atribuir à sorte. As técnicas de mumificação utilizadas no México, na América do Norte, na Colômbia, e principalmente no Peru são quase idênticas àquelas desenvolvi- das no Egito. Essas técnicas envolvem substâncias químicas de fórmulas com- plexas, difi¬cilmente reproduzidas por acaso de um continente ao outro. Talvez o testemunho mais eloqüen- te da presença africana nas Américas em tempos longínquos se encontre nas gigantescas cabeças esculpidas em pe- dra pelos olmecas, primeiro povo pré- colombiano do México e da América Central. Localizadas no centro do ter- ritório sagrado desse povo, as escul- turas pesam quarenta toneladas cada uma, feita de um só pedaço de basalto. Elas reproduzem com exatidão o fenó- tipo dos nuba da África Oriental ao sul do Egito. As cabeças gigantes aparecem lade- adas por pirâmides em praças cerimo- niais. As pirâmi¬des em estilo nubia- no, com as laterais em forma de escada, surgem no México sem vestígios de precedentes, enquan¬to na África le- varam séculos para evoluir. Uma série de marcas rituais, simbó¬licas, artísti- cas, mitológicas, tecnológicas e arqui- tetônicas dessas praças cerimoniais se assemelha entre a África e as Améri- cas em detalhes tão específicos que sua identidade ultrapassa as possibilidades da mera coincidência. O período de elaboração das escultu- ras olmecas coincide com a 25a dinastia do Egito, quando reinava soberana no mundo a poderosa marinha mercante e bélica núbia. As cabeças negras do Mé- xico portam o mesmo elmo usado por marinheiros núbios. Os egípcios desenvolviam o comér- cio marítimo há milênios e desde 2600 a.C. eles construíam naves de grande porte. Os navios africanos antigos eram tecnicamente superiores às caravelas européias. Feitos de papiro ou de ma- deira costurada, eles eram flexíveis, ca- pazes de agüentar melhor o impacto das águas em tempesta¬des. Além disso, movidos a remo e a vela, eles contavam com propulsão nas calmarias. Os afri- canos desenvolveram técnicas de nave- gação mais sofisticadas e eficazes para atravessar o Saara, pois os navegadores das caravelas não conheciam a longitu- de, referência utilizada na Antigüidade por africanos, chineses e árabes. Estudiosos observam uma identida- de de palavras e expressões entre as línguas maia, inca e egípcia que ultra- passa os limites do acaso. Além disso, a tradição oral maia, registrada no livro Popul Vuh, se refere ao “povo negro que veio da nascente do sol”. As esculturas dos olmecas podem ser vistas como representando eles pró- prios, já que eles pertencem à matriz das populações de pela negra que pri- meiro povoaram as Américas. Entre- tanto, as semelhanças culturais e ou- tras evidências dão suporte à hipótese do intercâmbio. O maior obstáculo à sua credibilidade está na crença ideoló- gica na suposta incapacidade dos afri- canos antigos de atravessar o mar na qualidade de portadores de valores de civilização.
  • 31. 32 O tempo dos povos africanos Continua a expansão da África A última pirâmide importante se eri- giu em Méroe, no Sudão, por volta de 350 a.C., dois mil anos depois que Djo- ser levantou a primeira em Saqqara. As evidências lingüísticas e históricas indicam que as culturas africanas em ge- ral se baseiam na herança da civilização clássica egípcia. Um dos mais impor- tantes fenômenos no desenvolvimento africano é a revolução da tecnologia do ferro. No Egito, há evidências do uso de ferro desde milênios, mas a massifica- ção de sua tecnologia e a sua difusão no restante do continente é o fator que dá ímpeto à concentração de populações e ao desenvolvimento político, econômico, cultural e científico. Uma das primeiras expressões impor- tantes das artes e da tecnologia na África Ocidental é a civilização nok. Na África central e do sul, surgem outras culturas baseadas na tecnologia do ferro, que se consolidam em Katanga, Zâmbia, Zim- bábue e Quênia. As Rainhas Mães Guerreiras O caráter matrilinear da civilização africana se evidencia na liderança de mu- lheres soberanas e guerreiras. Um exem- plo é Cleópatra. Muito mais que amante de um imperador romano, ela agiu como uma estadista defensora da soberania de seu país contra o maior poder imperialis- ta que o mundo conhecera. Conseguiu manter a indepen¬dência do Egito du- rainhas Mães Guerreiras Até agora, focalizamos as civilizações clássi- cas africanas. Aqui você vai conhecer algumas informações sobre como o restante da África se desenvolve. Lembre-se sempre que as evidências lingüísticas e históricas indicam que as culturas africanas em geral são herdeiras da civiliza- ção clássica egípcia. E, claro, vamos continuar vendo a presença africana no mundo. A saga de Cartago pertence ao período anterior, mas merece ser contada. A arte dos povos bantos é rica e fascinante. Esta máscara representando uma figura humana com gorro, oriunda da província de Ufge, Angola. Uma das características da escultura Bakongo é sua representação policromática e expressão profun- damente realista. Utilizada em cerimônias rituais da circuncisão, esta máscara tem como função testemunhar a transição dos circuncidados de um estado infantil para o de indivíduos com estatuto socialmente reconhecido. rante muito tempo devido à sua compe- tência política e seu poder de barganha e negociação enquanto chefe de Estado. Outras guerreiras africanas enfren- taram as legiões romanas. Amanirenas, uma das Kentakes ou Candaces de Nú- bia, atacou os invasores impe¬rialistas em 29 a.C., liderando durante cinco anos uma guerra de defesa nacional. Com um aparato bélico bem superior, os romanos conseguiram destruir várias cidades e chegar até a capital Napata. A rainha não capitulou: atacou as legiões já cansadas de Roma e obteve uma ne- gociação direta com César Augusto. Os romanos acabaram desistindo do tributo que queriam cobrar a Cush. Os pré-socráticos e o desenvol- vimento da filosofia A história da ciência e da filosofia costuma marcar o seu início a partir do “milagre grego” dos pré-socráticos, como se a reflexão, o pensamento e o conhecimento humanos tivessem início apenas na Grécia. Um relato largamen- te citado é a visita de Thales de Mileto ao Egito, onde teria calculado a altura de uma pirâmide medindo a sua própria altura em relação ao comprimento de sua sombra e aplicando, em seguida, a mesma proporção ao comprimento da sombra da pirâmide. Esse relato retrata bem a costumeira omissão de milênios de construção do conhecimento no Egi- to ao tratar a pirâmide como se fosse um fato da natureza e não uma construção humana resultado do desenvolvimento de matemática e engenharia aplicadas. No terceiro século a.C., durante o reino de Ptolomeu II, erigiu-se a Biblioteca de Alexandria, depósito de uma coleção de papiros e registros históricos egípcios mais tarde perdidos em incêndios e pi- lhagens de invasores. A construção do conhecimento no Egito se interligava intimamente à religião e ao sacerdócio, fator que pode ter constrangido a sua di-
  • 32. O tempo dos povos africanos 33 namicidade. Mas a atribuição exclusiva da autoria da ciência e do pensamento filosófico aos gregos antigos, excluindo o Egito da história do conhecimento hu- mano, constitui uma das maiores falsifi- cações da história. Cartago Em meados do século III a.C., locali- zada na costa do norte da África (hoje re- gião da Tunísia), Cartago disputava com Roma o controle do mar Mediterrâneo. Uma das cidades mais poderosas daquele período, Cartago dispunha de uma exten- sa e poderosa frota de guerra para prote- ção das rotas marítimas do comércio que transportava o ouro vindo do Golfo da Guiné e o estanho procedente das costas britânicas. A disputa com Roma levou Cartago a sucessivos conflitos, as chama- das Guerras Púnicas (264-146 a.C.). Sob o comando de Amílcar e seu gen- ro Asdrúbal, os cartaginenses ocuparam boa parte da Peninsula Ibérica com cerca de 50 mil homens. Em 221 a.C., Aníbal, filho de Amílcar, assumiu o comando das forcas militares na Espanha. Ele ba- seava sua estratégia na invasão e derrota dos romanos em seu próprio território, evitando assim levar a guerra para a África. Aníbal recrutou vários aliados e organizou um exército composto por espanhóis, gauleses e africanos. Sua for- ça militar contava com 40 mil homens na infantaria, 10 mil cavalaria e 50 ele- fantes. Cruzou o Ebro, dirigiu-se para os Alpes e chegou à Itália. A passagem pelos Alpes é uma das grandes façanhas da história militar. Agredidos por tribos celtas que jogavam pedras enormes de cima, com a neve e o gelo criando con- dições perigosas, as tropas e os elefantes escorregavam, caíam e morriam. Mes- mo perdendo 20 mil homens e a maioria dos elefantes, Aníbal prosseguiu. O con- flito provocou algumas das maiores der- rotas que Roma havia sofrido até então. Após uma vitória espetacular em Cana, Aníbal foi perdendo território, pouco a pouco, até que os romanos, anos depois, conseguiram atacar Cartago; mas não a destruíram. Assinaram um tratado de paz. Somente mais tarde, em 146 a.C., os romanos conseguiram arrasar a cidade num ataque punitivo. A saga de Cartago constitui um episódio comovente da história, mas a imagem que prevalece no imaginário popular não retrata seus heróis como africanos. Há uma tendência, na tradi- ção da idéia da África branca ao norte, de identificá-los com o tipo físico dos fe- nícios. Nas moedas da época, entretanto, a fisionomia e o cabelo de Aníbal trazem o testemunho de sua identidade e apa- rência negra. Jesus Cristo A figura de Jesus Cristo inspira e mo- biliza ao longo de milênios, refletindo as dinâmicas das sociedades. Abdias Nas- cimento já observou que o semblante de Cristo “é diferente entre os romanos, os hebreus, os indús, os etíopes, porque cada um desses povos afirma que o Se- nhor lhe apareceu sob o aspecto que lhe é próprio”. Mas o historiador Josephus, contemporâneo de Cristo, o descreveu de “tez escura”; moedas da época o mos- tram como mestiço de traços africanos. Pertencia ele a uma população de fala aramaica, mestiça africano-árabe. Em fim, a idéia de um Cristo louro e de olhos azuis, imagem que prevalece no imagi- nário ocidental, parece ser um equívoco do ponto de vista histórico. Índia A dinastia Nanda do quarto século a.C., de origem sudra, foi a responsável por uma renascença cultural com centro na cidade de Magadha. Seu líder Maha- padma derrotou as forças de Alexan- dre, o Grande. Outra dinastia negra, a Mauryana, a sucedeu marcada pelo rei- no do singular monarca budista Ashoka, responsável pela instauração de uma era de paz e obras sociais. Assim, o poder sudra se estendeu durante 150 anos. Hoje, a população indiana de pele negra continua enorme, contando apro- ximadamente 600 milhões de dravidia- nos, descendentes dos “etíopes orientais” da literatura grega. A maioria das divin- dades cultuadas pelos dravidianos do sul da Índia são deusas-mulheres, fato consistente com a herança civilizatória de origem africana.
  • 33. 34 O tempo dos povos africanos O desenvolvimento da tecnologia do ferro Conforme observamos antes, tudo indica que os antigos egípcios conhe- ciam o ferro milênios antes que seu uso se proliferou pelo continente. Outro exemplo do domínio dos africanos no campo da metalurgia antes dessa revo- lução do ferro é o dos haya, um povo de fala banta que habi¬ta a região de Tanzânia perto do lago Vitória. Há 2000 anos atrás, eles produziam aço em fornos que atingiam temperaturas mais elevadas, em 250 graus centígrados, do que eram capazes os fornos euro¬peus do século XIX. Mas é a massificação da tecnologia do ferro e a sua difusão no restante do con- tinente que dão ímpeto à concentração de populações e o desenvolvimento polí- tico, econômico, cultural, e científico. Uma das primeiras expressões im- portantes das artes e tecnologia na Áfri- ca ocidental é a civilização nok. No cen- tro e no sul da África surgem culturas baseadas na tecnologia do ferro que se consolidam em Katanga, Zâmbia, Zim- bábue e Quênia. A Revolução do Ferro Aqui vamos considerar o desenvolvimento da África no contexto do uso cada vez mais intenso da tecno- logia do ferro. Continua a expansão da presença africana na Ásia, na Europa e nas Américas, com contornos diferenciados de outras épocas. Retrato de um jovem da Malásia, na Ásia contemporânea, mostra a presença até hoje de populações de pele negra na Ásia oriental. a Índia sofreu um colapso; seguiu-se um período de instabilidade até que o mais significativo e duradouro desses Esta- dos, um verdadeiro império, se consoli- dou em Angkor, hoje Camboja. O Islão Embora de origem externa ao con- tinente africano, o islão constitui uma matriz de civilização porque sua ex- pansão teve impacto importante sobre a formação e a sustentação de vários estados políticos. De forma geral, de acordo com mui- tos historiadores não se trata de uma su- perposição de elites ou classes dirigentes “árabes” sobre sociedades e populações originais, muito embora a expansão islâmica tenha implicado em violentos conflitos, obrigando à supressão de in- tensa resistência. As estruturas dos es- tados islamizados costumavam manter a forma descentralizada característica dos africanos. A expressão “sociedades africanas islamizadas” reflete o fato de que esses povos, suas sociedades e seus estados preservavam a essência de sua identidade africana. Na maioria dos casos, de acordo com essa interpretação dos fatos histó- ricos, a imposição da religião islâmica era relativa, sobretudo fora dos grandes centros urbanos. As religiões e os cos- tumes nativos continuavam vigentes no meio da população, mesmo quando as lideranças locais ou as elites assumiam, Índia Três reinos dravidianos importantes existiram no sul da Índia durante essa época. Pandya tinha sede em Madu- ra, onde se localiza a capela do Tamil Sangam, um conselho de estudiosos que estabelecia os padrões da produção intelectual. Além de Pandya, havia os reinos de Chola e de Chera, sucedido por Pallava. Esses reinos negros do sul da Índia se engajavam em comércio com o Ocidente, enviando embaixadas e Roma e cobrando-lhe grandes somas em tributos alfandegários. Ásia No sudeste da Ásia, os primeiros reinados emergiram no terceiro sécu- lo, acumulando riquezas no comércio de coral, minérios e produtos florestais. Numerosa parte da população era da etnia negra austric, também conhecida como mon. O primeiro desses reinos do sudeste da Ásia se chamava Fou Nan e se loca- lizava na região hoje compreendida por Vietnam e o sul da Camboja. Os via- jantes e historiadores chineses descre- viam os seus súditos como pequenos e negros. Além das atividades comerciais, Fou Nan se destacava por sistemas so- fisticados de canais e obras fluviais para controlar as cheias anuais; isto séculos antes da construção de Veneza na Eu- ropa. Chen-La, reinado sucessor de Fou Nan, prosperou até que o comércio com
  • 34. O tempo dos povos africanos 35 por vezes de forma bastante simbólica, a religião do prestígio e do poder. A extensão e a intensidade da influ- ência cultural do islão na África variam. De grosso modo, na África Oriental dos grandes centros urbanos medievais as populações absorveram de forma mais atenuada a prática e os preceitos islâ- micos, enquanto em algumas áreas da África Ocidental o Islão implantou-se de uma forma ortodoxa “mais realista que o rei”. Europa Um fenômeno que merece destaque é a proliferação de Nossas Senhoras ne- gras em toda a extensão da Europa, sen- do as mais famosas as de Loretta na Itá- lia; Nuria, na Espanha; e Czestochawa, na Polônia. As imagens dessas madonas negras correspondem a uma prática re- ligiosa que tem sua origem no culto a Ísis, deusa núbia e egípcia da fertilidade, irmã e esposa de Osíris e mãe de Hórus. Existem vestígios desse culto e provas de sua existência na Europa desde muito cedo. O historiador romano Plínio, es- crevendo no segundo século depois de Cristo, observa a prática desse culto na Inglaterra e na Alemanha. Pouco se conhece a existência de três papas africanos, durante os pri- meiros séculos de existência da igreja católi¬ca. O primeiro é Vítor I, déci- mo quarto papa depois de São Pedro. Assumiu a cadeira papal no ano 189 e foi o responsável pela fixação da festa da Páscoa no domingo. Miltíades, que assumiu em 311, testemunhou a suspen- são da perseguição aos cristãos e a vitó- ria de Constantino. Gelásio I (492-496), autor de vários hinos e ensaios teológi- cos, ficou conhecido pela sua preocupa- ção com a pobreza. Tanto ele como os outros foram canonizados. Esses papas são descritos pelos seus contemporâneos como descendentes de africanos. Mas as representações poste- riores em livros didáticos e histórias da Igreja os pintam como brancos de clás- sico perfil romano. Quando consideramos a relação da África com a Europa do Norte, lembra- mos que o Estado egípcio constituía o po- der marítimo bélico e comercial vigente da Antigüidade. Sua indústria de armas e utensílios feitos de bronze requisitava a utilização do estanho. Desde a XIIIa dinas¬tia, quase dois milênios antes de Cristo, faraós como Senusert I e Tutmo- se III mandavam expedições navais até à Europa do norte em busca desse metal. Além disso, africanos de pele negra po- voaram inicialmente a Europa em tem- pos ainda mais longínquos. Um dos mais destacados historiado- res da Escócia, MacRitchie afirma que até o século X três províncias escocesas eram negras. No século XVIII, as ilhas ocidentais de Skye, Jura e Arran ainda abrigavam populações negras. Na Ir- landa, o folclore registra os lendários fomorianos, andarilhos marítimos ne- gros que invadiram a ilha em tem¬pos remotos e tentaram conquistá-la. Duas deusas cultuadas na religião tradicional irlandesa, Nath e Anu, in- dicam a prática dos cultos egípcios a Neith e Hathor. Dois morros irlande- ses que, pela sua forma física, lembram seios, são conhecidos como os peitos de Anu. Assim, mais uma vez encon- tramos espalhada no mundo antigo a reminiscência lingüística do Anu-Seti nubiano. Nas mitologias inglesa, francesa, alemã e escandinava, há referên¬cias a homens pretos de pequena estatura e de cabelos crespos. Essas referências são ainda mais explícitas nos escritos dos romanos, que relatam encontros freqüentes com negros africanos. A lite- ratura e a tradição oral dos vikings, dos anglo¬-saxões, e mesmo dos habitantes da Groenlândia registram contatos com africanos em épocas remotas.
  • 35. 36 O tempo dos povos africanos A Europa dos Mouros Entre as mais fortes influências afri- canas na Europa está a dos mouros, afri- canos islamizados cujas origens mais remotas estão nos povos Garamante, que habitavam o Saara desde cinco mil anos antes da era cristã e resistiram o domínio dos romanos. O desenvolvimento da cultura isla- mizada na África do Norte resultou no florescimento da pesquisa, da ciência, da literatura e do conhecimento ao pas- so que realizou a expansão do domínio político por meio de jihads conduzidos ao sul na África Ocidental e ao norte na Europa. Após invadir o Egito em 640, os mouros atravessaram até a Espanha A África e a sua Diáspora O que significa diáspora? O conceito básico de diáspora é o de espalhar um povo e sua cultura para out- ros cantos do mundo. Como temos testemunhado, os africanos se espalharam pelo mundo e deixaram as marcas de sua cultura e civilização desde os tempos primordiais. Como o conceito foi aplicado largamente à experiência judaica, a idéia de diás- pora parece se referir às migrações forçadas. Mas no caso africano podemos considerar que a sua diáspora acontece também em condições de soberania e liberdade. Quetzalcoatl - Deus da Serpente Plumada Praça cerimonial em Uxmal, na península Yucatán, México, com colunas esculpidas representando Quetzalcoatl, a serpente plumada, e Chac, o deus da chuva dos maias. A mesma serpente plumada é símbolo principal das culturas da África ocidental na região do antigo império de Mali, cujo Impera- dor Abubakari II embarcou rumo ao Ocidente em 1311. Nesse mesmo ano, de acordo com o calen- dário maia que registra uma concepção cíclica do tempo em que a serpente plumada retorna em de- terminados intervalos, Quetzalcoatl aparece como um rei vestido de branco, vindo de onde nasce o sol - uma descrição perfeita de como Abubakari II teria aparecido ao chegar às Américas. O deus Chac é a figura cerimonial que recebe as oferendas a Quetzalcoatl. sob a liderança do general Gabel Tariq, cujo nome deu origem à palavra Gibral- tar. O domínio africano na Europa per- maneceu de 711 até 1260, e gerou uma renascença nas artes, ciências e litera- turas. A matemática, a arquite¬tura, a religião, enfim, quase todas as manifes- tações culturais européias sofre¬ram a influência africana através dos mouros. O centro dessa atividade intelectual era Cairo, no Egito. O busto do Santo Johannes Morus, esculpido no séc. XIX e hoje exibido num museu alemão, mostra a fisiono- mia negra do mouro e expressa o res- peito e a exaltação à sua figura, frutos de seu desempenho na civilização do continente europeu. Presença africana nas Américas A cerâmica pré-colombiana está re- pleA cerâmica pré-colombiana está re- pleta de rostos de africanos. Aparecem na arte dos períodos pré-clássico e clás- sico de vários povos indígenas da Amé- rica Central e do Sul homens negros e mulheres e negras portando adereços, penteados, estilos de barbas e outros de- talhes nitidamente parecidos aos estilos africanos. São retratos altamente sofis- ticados e minuciosos, imortalizados na finíssima escultura indígena da época. As civilizações dos maias, dos tol- tecas e dos astecas erigiam templos e complexos cerimoniais dominados por pirâmides como a de Chitzén Itzá, sím- bolo da conquista dos maias pelos tol- tecas. As pirâmides apresentam o estilo nubiano, com os laterais na forma de escadarias. O culto ao deus Quetzalcoatl, a ser- pente plumada, coincide com o do pás- saro-serpente da África Ocidental de uma forma tão abrangente e detalhada que dificilmente seria fruto de mero acaso. Esse complexo de identidade cul- tural indica a presença de africanos nas Daqui em diante, vamos assistir uma proli- feração e enriquecimento de cultura cada vez mais acelerados na trajetória dos africanos no continente e na sua diáspora.
  • 36. O tempo dos povos africanos 37 Américas e o intercâmbio de influências em tempos pré-colombianos. Presença Africana na Ásia Continua a influência do budismo no sudeste da Ásia, onde o fenótipo da população se identifica com a imagem do Buda retratada nas esculturas. Chega ao auge uma série de reina- dos em Angkor, onde sistemas sofisti- cados de irrigação envolvendo canais e represas sustentam complexos urbanos e religiosos como Angkor Wat, Angkor Thom e Banyon. Durante mais de 640 anos, sucessivos governantes deixaram suas marcas erigindo gigantescos tem- plos sobre ilhas e lagos artificiais. Um exemplo do conhecimento negro africano Um exemplo impressionante do conhecimento que marca a experiência af- ricana é o saber astronômico dos africa­nos da nação dogon, de Mali, perto da antiga capital universitária de Timbuktu. Com uma concepção moderna e um saber extremamente complexo do uni­verso, os dogon conheciam, cinco a sete séculos atrás, o sistema solar, a sua estrutura espiral da Via Láctea, as luas de Júpiter, e os anéis de Saturno. Diziam que um bilhão de mundos espiralava no espaço como a circulação do sangue no corpo de Deus. Sabiam eles da natureza deserta e infecunda da lua, que diziam ser seca e morta, como sangue seco. Muito antes que o ocidente conseguisse observá-lo com a ajuda de sofistica- dos aparelhos, os dogon conheciam detalhadamente o pequenino satélite B da estrela Sírio invisível a olho nu. Chamavam-no de Po Tolo, e desenhavam, com exata precisão, a sua órbita em tomo de Sírio. Projetaram corretamente a sua trajetória até o ano de 1990, em desenhos que conferem com o curso projetado pela astronomia moderna. Conhecedores de oitenta e seis elemen- tos fundamentais, os dogon sabiam identificar as propriedades do metal que compõe o satélite B da estrela Sírio, que chamavam de sagala – um metal tão denso que sua massa é muitas vezes maior que seu tamanho indica. Para os dogon, este satélite é o ovo do universo e a mais importante estrela do céu. Além de todo esse conhecimento, os dogon sabiam que Sírio B gira uma vez em tomo de seu próprio eixo no período de um ano, evento celebrado por eles com o festival chamado bado. Até a década de 70, esta rotação ainda não havia sido ob­servada pelos astrônomos ocidentais. A ciência ocidental confirmou, no entanto, o ciclo de 50 anos que os dogon constataram para sua órbita em volta de Sírio. En­fim, nas palavras de um cientista ocidental, os dogon conheciam fatos supostamente impossíveis de constatar sem o apoio de qualquer instrumento da ciência moderna. Buda da Tailândia, século 7, es- culpido em pedra, com traços e cabelo africanos. Buda da Tailândia esculpido em pedra, com traços e cabelo afri- canos.
  • 37. 38 O tempo dos povos africanos Os Sábios dos Estados Africanos Aqui você vai assistir o crescimento do poder político na África, com estados e impérios que criaram grandes centros de conhecimento e estudo. Os Estados e Impérios Africanos Outro exemplo de tecnologia apli- cada na África antiga encontra-se nas ruínas da cidade-estado e fortaleza loca- lizada no antigo reino, hoje país, Zim- bábue. Essa cidade era capital de um império cujo domínio durou trezentos anos. Sua economia se baseava na pro- dução de ouro e no comércio. Na língua Xona Zimbábue significa “edifício em pedra”. A cidade de dez mil habitantes. Seu muro mede 250 metros de extensão e contém 15 mil toneladas de granito, com dois metros de espessura. Cada metro de sua extensão contém 4.500 blocos de granito. Uma característica inusitada da engenharia desse com- plexo monumental se assemelha àque- la dos sítios históricos do Peru como Macchu Picchu e Cuzco: as pedras são colocadas uma em cima da outra, sem cimento e sem frestas. No esforço de negar que o Grande Zimbábue fosse construído por negros, historiadores e estudiosos atribuíram sua construção à intervenção de euro- peus ou de outros exógenos à África, até mesmo à ação de extraterrestres. Ao norte do Grande Zimbábue fica- va Monomotapa, um dos Estados que surgiram a partir de 1000 E.C. entre os povos de fala Xona descendentes dos agricultores e criadores de gado bantos que migraram para a área a partir de 200 a.C. com seus utensílios de ferro, A peça esculpida em madeira é de origem Cokwe. Denominado “O Pensador”, ela tornou-se o símbo- lo da cultura angolana. Representa a figura de um ancião, que pode ser uma mulher ou um homem. Na tradição africana, os idosos ocupam um estatu- to privilegiado como portadores da sabedoria e da experiência de longos anos e como conhecedores dos segredos da vida. Ana Maria de Oliveira, então Ministra de Cultura da República Popular de Ango- la, comentou em 1991: “A dinâmica emprestada a esta peça reflete o alto conhecimento e intenção estética do seu autor (anônimo). Ele foi capaz de lhe conferir o equilíbrio do gesto calmo, tranqüilo, sereno e a harmonia da mensagem mais ou menos enfatizada na utilização dos espaços abertos e fe- chados, de tal maneira humanizada, que acredita- mos por isso estar em presença de uma das mais belas obras de arte jamais concebidas”. deslocando os khoi khoi. Os estados Xona surgiam a partir da monopoliza- ção do comércio com os árabes do lito- ral oriental (Quíloa, Sofola, Mombaça e Penha). No século XIV a disputa do comércio de ouro e de marfim resultou na criação de diversos impérios, o pri- meiro deles o Grande Zimbábue. O con- junto compunha uma confederação sus- tentada por tributos cobrados dos seus membros. Os Xona tinham na terra um bem sagrado, propriedade de todos sob a administração temporária dos chefes e dos conselhos dos mais velhos, carac- terística comum a Estados africanos em diversas regiões do Continente. Mali O império de Mali surgiu na mesma região onde o antigo império de Gana floresceu entre 400 e 1076. O líder Sun- diata Keita conquistou o controle das minas de ouro e do comércio trans-sa- arano a partir de 1230, assim consoli- dando a base de seu poder político. O imperador Mansa Musa I expandiu o território e a riqueza do império e in- centivou sua islamização. Como outros Estados políticos na África, Mali tinha na descentralização uma característica e prática política que contrastava niti- damente com o centralismo do Império Romano. Os sistemas políticos desses Estados têm sido categorizados como “feudais”, um equívoco derivado da aplicação de critérios próprios à Euro-
  • 38. O tempo dos povos africanos 39 pa como se fossem universais. Como falar de um sistema feudal sem feudo? O princípio da propriedade individual da terra não existia na África, sendo a terra um bem coletivo. Songai Já no século VII existia uma entidade política conhecida como Songai à beira do rio Niger. No século XIII ela fazia parte do império de Mali, mas em 1335 o povo Songai rompeu com Mali e iniciou a conquista da região com um exército e uma cavalaria bem preparados. A rique- za de Songai, a exemplo dos reinos e im- périos anteriores, provinha do comércio trans-saarana de sal e de ouro, cujo fluxo passava em grande parte pelas metrópo- les de Gao, Jenné e Timbuktu. O rei e comandante militar Suni Ali (1462-1492) derrotou os exércitos dos mossi ao sul e dos tuareg ao norte. Seu sucessor Muhammad I Askia expandiu o império até as fronteiras de Kanem- Bornu e dos estados Haussa ao leste e o rio Senegal ao oeste, incluindo a região de Tegaza no deserto ao norte. A capital do último Estado mercantil-tributário do Sudão Ocidental se localizava em Gao. Os Africanos na América Pré-Colombiana Os estudiosos da possibilidade de con- tatos entre a África e as Américas pré-co- lombianas identificam dois períodos prin- cipais desse contato. O primeiro, como já observamos, seria o da 25a dinastia, por volta de 760 a.C., quando surgem as ca- beças esculpidas pelos olmecas. O segundo contato seria na época do príncipe Abu Bakari, imperador de Mali cuja história é contada por historiadores muçulmanos que eram seus contem- porâneos. Imperador de um reino que não tinha saído para o mar, Abu Bakari cultivava um intenso fascínio pelo mar. Mandou construir frotas e lançou expe- dições ao Atlântico. Em 1311, o próprio Abu Bakari embarcou pelos “rios dentro do mar”, como os africanos se referiam às correntezas que levam diretamente ao continente americano, e nunca mais foi visto. De acordo com o Popul Vuh, livro que registra a tradição oral do povo in- dígena maia, no México, foi exatamente nesse tempo que lhes apareceu um “prín- cipe trajando branco vindo de onde nas- ce o sol”. O mito maia de Quetzalcoatl, a serpente emplumada, e os costumes, ritos, símbolos, e vocábulos a ele asso- ciados, formam um conjunto cultural de coincidência com a africana demasiada- mente ampla e perfeita, nos mínimos de- talhes, para se atribuí-la à sorte. Os primeiros espanhóis que visitaram o istmo de Panamá e o México no início do século XVI, entre eles o historiador Pedro, o Mártir, registraram a existência de povos negros que viviam nas florestas e se engajavam num comércio e numa relação às vezes conturbada com os ín- dios ao redor. O fato não lhes causava a estranheza que hoje produz em função da construção da imagem da caravela como a primeira embarcação oceânica e do africano atrasado incapaz de navegar os mares. Os europeus quinhentistas co- nheciam bem o africano navegador. O próprio Colombo havia viajado na Áfri- ca, e seu irmão, um comerciante de jóias, lhe trazia notícias de clientes africanos acostumados a viajar o mar. Tudo indica que fontes africanas tenham fornecido as informações em que Colombo e o rei de Portugal se basearam para propor à Espanha a Linha de Tordesilhas como divisória de um continente de cuja exis- tência ninguém tinha certeza ao assinar aquele tratado. Colombo foi detido por uma tempes- tade no porto de Lisboa após sua segun- da viagem às Américas e quando ainda estava a serviço da Espanha. O rei de Portugal o convocou à corte, e Colombo apresentou-lhe índios que viajaram com ele, bem como várias peças de gua-nin, nome das pontas de lança que os nativos diziam ter comprado de “homens altos e escuros que chegam de onde nasce o sol”. Essas pontas de lança eram feitas de uma liga metálica muito específica, fundida e utilizada na África ocidental. O nome dessa liga, em mandinga, era gua-nin. Estes são apenas alguns dos fatos que indicam, numa riqueza enorme de deta- lhes, a possibilidade de contatos entre a África e a América antigas.
  • 39. 40 O tempo dos povos africanos Construção da Liberdade Aqui você vai ver que os africanos construíram sua liberdade no período da escravidão e colo- nização, que é muito curto. Você já havia pen- sado nisso? Esse período corresponde a menos de 8% dos seis mil anos da história africana! Ou seja, os africanos viveram 92% de sua história exercendo sua soberania e contribuindo para a construção da civilização e do desenvolvimento em todo o mundo! O desenvolvimento africano: um processo interrompido O processo de desenvolvimento do conhecimento e da tecnologia, embora interrompido pela força da intervenção escravista e colonialista, continuou se manifestando. No final do século XIX um cirurgião inglês chamado Felkin visitava em a região africana que hoje compreende Uganda. O médico teste- munhou e registrou uma cesariana fei- ta por médicos do povo banyoro. Num artigo publicado em revista científica, Felkin relatou como os cirurgiões su- postamente “selvagens” demonstravam profundo conhecimento dos concei¬tos e das técnicas de assepsia, anestesia, he- mostasia e cauterização, entre outros. Aspectos do conhecimento tecnológi- co africano fizeram-se sentir nas novas terras onde os africanos foram levados escravizados. No Brasil, por exemplo, muitas técnicas de agricultura, minera- ção e metalurgia utilizadas para cons- truir o país foram introduzidas pelos africanos. As religiões de origem africana pre- servam uma matriz da visão cósmica, do pensamento e da prática religiosa dos africanos em todas as Américas. Resistência africana: um panorama mundial Os quilombos existiam em todas as Américas. Em espanhol se chamavam cimarrones, palenques e cumbes. Esse fenômeno era contrapartida diaspórica de uma luta sem tréguas que atravessou a África durante todo o período escra- vista e colonial. Um dos seus símbolos é a rainha N’Zinga, soberana do reino Ndongo e Matamba, que enfrentou o poderio militar dos portugueses e dos holandeses. Ao mesmo tempo em que a rainha N’Zinga empreendia sua guerra libertadora em Angola, a República de Palmares resistia aos portugueses e ho- landeses no Brasil. Palmares, uma comunidade de vá- rios quilombos unidos, fincou pé contra a agressão co¬lonial durante um século (de 1565 até 1695). Sua estratégia mili- tar era tão eficaz que os europeus foram obrigados a firmar um acordo de paz. Sua organização social, agrária, política e econômica representava um exemplo da continuidade cultural africana no Novo Mundo. Homens e mulheres lideravam ofen- sivas militares empreendidas na África, em todo o continente. Entre as mulhe- res estão: Madame Tinubu da Nigé- ria; Nandi, mãe de Chaka, o grande guerrei¬ro zulu; Kaiphire, do povo He- rero da Namíbia; e o exército feminino que seguiu o rei do Daomé, Behanzin Bowelle. A luta quilombista nas Améri- cas contou com mulheres como Danda- ra, em Palmares, e Nanny, a guerreira lendária da Jamaica. No Caribe houve uma série intermi- nável de revoltas e rebeliões. Entre as mais famosas são a revolução Berbice de 1763, no Surinam holandês, liderada por Kofi. Na Jamaica, em 1655, o Capi- tão Kojo deflagrou uma guerra aberta, a Guerra dos Maroons (palavra inglesa derivada de cimarrón), que durou mais de dez anos. Os ingleses foram obriga- dos a assinar um tratado de paz. Um século de combate No século XIX, os quilombos e as re- voltas nas Américas traçam um paralelo perfeito com as lutas dos africanos no continente. Os asante resistiram à incursão ingle- sa no interior da Costa do Ouro (hoje Gana) em onze guerras que duraram cem anos. Os asante ganharam todas elas, menos a última. Os Fanti, por outro lado, redigiam petições e documentos. Os fanti, por outro lado, redigiam peti- ções e documentos. A constituição Fanti, redigida em conferências realizadas en- tre 1865 e 1871, era uma petição para a futura indepen¬dência de Gana. Os ingleses exilaram o rei Prempeh dos asante em 1896, e assim provocaram duas campanhas de resistência: uma política, levada à Europa por Casely Hayford, e outra simultânea em que a rainha Yaa Asantewaa conduzia a guer- ra de resistência na terra natal. Os dois esforços combatiam a tentativa de con- fiscar o sagrado banco de ouro, símbolo da soberania dos asante. Durante o mesmo período, desta-
  • 40. O tempo dos povos africanos 41 cam-se as Guerras dos Zulus, na Áfri- ca do Sul, e as Guerras Islâmicas, ou mahdi, no Sudão. Behanzin Hossu Bo- welle, do Daomé, e Samory Touré, da Guiné, foram dois gênios militares da África Ocidental francesa. O rei guer- reiro zulu, Chaka, liderou uma guerra em que toda a África aus¬tral combatia a pilhagem européia. Quando morreu em 1828, ele estava vencendo essa guer- ra, que prosseguiu sob o comando dos reis dos Basutos, dos Bamangwato e de outros povos. No Brasil, o século XIX testemunhou uma série de revoltas como as que os Ma- lês protagonizaram na Bahia entre 1807 e 1844. Em 1839, Manuel Balaio dirigiu a famosa revolução no Maranhão, junto com o Preto Cosme, que desencadeou uma campanha guerrilheira envolven- do 3.000 quilombistas e a colaboração de outras forças políticas. No Recife, em 1824, Emiliano Mandacaru e sua unida- de militar demonstraram sua solidarie- dade para com a vitoriosa revolução do Haiti: “Qual eu imito Cristóvão/ Esse imortal haitiano/ Eia! Imitar seu povo/ Ó meu povo soberano!”. Em Alagoas, os quilombos lançaram um movimento chama¬do Cabano, re- sistindo desde 1833 até 1841. Isidoro o Mártir, de Minas Gerais, morreu na luta em 1809, como também Constantino do Ceará em 1839. Faustino do Nascimento, “O Dragão do Mar”, encabeçou uma greve dos esti- vadores de Fortaleza. Eles se recu¬saram a trabalhar nos navios que carregavam escravos. Essa greve foi um fator decisivo para a primeira abolição da escravatura ocorrida no país, a do Estado do Ceará, e assim contribuiu para a intensificação da luta pela abolição em todo o país. Nos Estados Unidos, a Estrada de Fer¬ro Clandestina conduziu milhares de escravos à li¬berdade. Nat Turner, Denmark Vesey, Gabriel Prosser e John Brown lideraram rebeliões armadas. So- journer Truth e Harriet Tubman, ambas ex-escravas, dedicaram suas vidas à luta pela libertação do seu povo. A esses combates se junta¬ram os pan- africanistas lutando na arena polí¬tica, a exemplo de Frederick Douglass, Mar- tin R. Delany, Edward Wilmot Blyden e Henry McNeil Turner, entre outros. O conjunto dessas lutas contra a es- cravatura impôs um enorme desafio ao siste¬ma colonial, abalando seriamente as estruturas econômicas de sua susten- tação. Mas teóricos da revolução con- temporâneos desses movimentos, como Friedrich Engels e Karl Marx, não os levaram em consideração ao pensar seus modelos de luta de classe. Até muito re¬centemente, historiadores de tendên- cia esquerdista deram pouca atenção a esse fenômeno, e ainda relutam em reco- nhecer sua dimen¬são revolucionária. O século da linha de cor O sociólogo e ativista pan-africano William Edward Burghardt (W. E. B.) Du Bois anunciou no início do século XX que a grande questão dos próxi- mos cem anos seria a linha de cor. Efe- tivamente as lutas pela descolonização da África, da Ásia e do Caribe, bem como os movimentos da Négritude e do pan-africanismo, caracterizaram o século XX ao lado das lutas dos povos indígenas em todos os continentes. A conquista da independência dos países africanos e a derrota do sistema segre- gacionista Apartheid na África meridio- nal só se completaram em 1990 com a independência da Namíbia e em 1994 com as eleições na África do Sul que conduziram Nelson Mandela ao poder. No limiar do novo milênio, os afro- descendentes em todas as Américas protagonizaram um fenômeno histórico quando se organizaram para combater o racismo em um movimento que acom- panhava e se solidarizava com os povos indígenas. A 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, a Xenofobia e todas as Formas de Intolerância, evento pro- movido pela Organização das Nações Unidas, ensejou essa mobilização dos movimentos sociais das Américas, reu- nidos em Santiago no ano 2000 e que se manifestaram em conjunto no processo organizativo da Conferência de Dur- ban em 2001. O novo milênio se iniciou com a reafirmação da identidade e do empenho desses povos na luta contra a discriminação racial.
  • 41. 42 O tempo dos povos africanos ADINKRA, SABEDORIA EM SÍMBOLOS AFRICANOS A Linha do Tempo dos Povos Africanos e este Suple- mento Didático fazem parte de um conjunto de realiza- ções do Ipeafro sob a chancela geral Sankofa: palavra em tuí, língua que pertence ao grupo lingüístico dos povos acã da África Ocidental, significa a sabedoria de conhecer o passado para melhor construir o presente e o futuro. Símbolo ideográfico, o conceito Sankofa passou a representar a busca dos africanos por suas próprias refe- rências históricas e epistemológicas e pela valorização de sua cultura que o processo colonialista tentou desprezar e destruir. O ideograma Sankofa pertence a um conjunto de símbolos gráficos de origem acã, chamado Adinkra. Cada ideograma é um adinkra e tem um significado com¬plexo, representado por meio de ditames ou fábu- las que expressam reflexões filosóficas. Segundo texto publicado pelo Centro Nacional de Cultura locali¬zado em Kumasi, capital do povo asante, o ideograma Sanko- fa significa “voltar e apanhar de novo”, aprender do pas- sado, construir sobre as fundações do passado: “Em ou- tras palavras, volte às suas raízes e construa sobre elas para o desenvolvimento, o progresso e a prosperidade de sua comunidade em todos os aspectos da realização humana”. Tradicionalmente, os adinkra são estampados com tin- ta vegetal em tecido de algodão. Adinkra significa adeus, e este tecido é usado em ocasiões fúnebres ou festivais de homenagem para despedir-se do falecido. O adinkra já se tornou uma arte nacional em Gana, somando mais de noventa símbolos destacados pelo conteúdo que trazem seus ideogramas. Conforme o mesmo texto do Centro Nacional de Cultura de Kumasi: “Não só os desenhos dos adinkra são esteticamente e idiomaticamente tradi- cionais, como, mais importante, incorporam, preservam e transmitem aspectos da história, filosofia, valores e normas socioculturais do povo de Gana”. O Simbolismo do Adinkra O sistema de símbolos e os conceitos transmitidos na tra- dição acã se expressam nos ideogramas adinkra grafados e também em objetos como o gwa (banco real); o bastão do lingüista do rei, uma espécie de porta-voz ou embaixador de Estado; e os djayobwe, “pesos de ouro” dos acã. Filosofia e história no simbolismo do Sankofa Gye Nyame Talvez o mais conhecido entre os ideo- gramas do adinkra, este significa “aceite Deus” ou “Deus é onipotente e imortal”. Obi nka obí (não mordam um ao outro). Evite os conflitos. Sím­bolo de unidade. Owuo atwedie baako nfo (obiara bewu). Todos nós subi­remos a escada da morte. Ver o respectivo gwa no quadro a seguir. Sankofa “Nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que fi­cou atrás: Sempre podemos retificar os nossos erros. O ideograma parece origi- nar-se de uma estilização do pássaro, que vira a cabeça para trás, re­presentação do mesmo concei­to no banco do rei e no bas- tão do lingüista. (Os desenhos dos adinkra, gwa e bastões apresentados a seguir, e a ex- plicação de seus significados, são reproduzidos dos quadros organizados pelo Dr. E. Ablade G/over da Universidade Ganense de Ciência e Tecno- logia, Kumasi, publicados pela G/o Art Gallery e distribuídos pelo Centro Nacional de Cultura em Kumasi, Gana).
  • 42. O tempo dos povos africanos 43 Dja Yobwe e Adinkra Os djayobwe, ou “pesos de ouro” dos acã são peças es- culpidas em ferro ou em bronze utilizadas como contrape- so na balança para pesar sal, ouro e outras mercadorias. Assim como no caso do gwa e do bastão do lingüista do rei, esses objetos esculpidos trazem as formas e as mensa- gens dos adinkra. Muitas vezes, a simbologia é relacionada a provérbios representados por animais. No exemplo abai- xo, dois crocodilos dividem um estômago e logo aprendem que ao brigar entre si, ficam ambos com fome. É o símbolo da necessidade de unidade, sobretudo quando os destinos se confundem. (Foto do djayobwe reproduzido do catálogo Co- leção Arte Africana do Museu Nacional de Belas Artes (1983: 28). De acordo com a história oral, o conjunto dos adinkra tem origem numa guerra que o rei dos asante, Asantehene Osei Bonsu moveu contra o rei Kofi Adinkra de Gyaa- man, hoje uma região da Costa do Marfim. Adinkra teve a audácia de copiar o banco real do Asantehene. Assim provocou a ira do poderoso soberano, que foi à luta para estabelecer sua supremacia. Vencida a guerra, os asante dominaram a arte dos adinkra, passando a ampliar o es- paço geográfico onde impunha a sua presença. Antes dis- so, o conjunto adinkra era patrimônio dos mallam e dos denkyira, povos da África ocidental que desenvolveram a técnica no passado remoto. O banco real e o bastão do lingüista representam a com- plexidade e sofisticação dos Estados políticos africanos, em pleno desenvolvimento durante séculos antes da invasão européia. Esses Estados chegaram a constituir impérios com extensão territorial maior que o romano, caso do Im- pério de Mali nos séculos XIII e XIV. Owo foro adoQe A cobra sobe a palmeira.’ Tentando fa­zer algo inusitado ou o impos­sível. Ver respec- tivo gwa no quadro a seguir. Nsoroma (filha do Céu, Es­trela) “Obu Nyankon soroma te Nyame na onte neho so.” Fi­lha do Ser Supremo, não de­ pendo de mim. Minha ilumina­ção é apenas um reflexo da d’Ele. Nkonsonkonso Símbolo das relações humanas em socie- dade. “Somos ligados na vida e na morte”, ou “aqueles que têm laços de sangue nun- ca se apartam”. Akoko nan tiaba na enkim ba A galinha que pisa no seu pinto não o mata. Ver o emblema no bastão do lingüista no respectivo quadro. Kontire ne Akwam (anciãos do Estado). “Tikoro nnko agyina.” Uma cabeça só não constitui um con­selho. Duas cabeças pen- sam me­lhor que uma sozinha. Ver o em­ blema no bastão do lingüista, no respecti- vo quadro. O duplo crocodilo em djayobwe. O duplo crocodilo em adinkra.
  • 43. 44 O tempo dos povos africanos GWA (o banco do rei) Além de investir-se simbolicamente do poder político e representar a soberania do Estado, o gwa comunica conte- údos epistemológicos, apresentando o ideograma em três dimensões. Cada chefe tradicional tem o seu gwa, portanto existem tantos símbolos em ban¬cos reais quanto existem reis. O mais famoso dos bancos reais é o Sika Gwa Kofi, o banco fundido em ouro do Asantehene (rei dos asan- te). Segundo a tradição oral o sacerdote principal do então Asantehene Osei Tutu se chamava Okomfo Anokye. Ele invocou o poder do gwa e o banco de ouro materializou e desceu do céu. Os ingleses furtaram esse gwa no início do século XIX, incidente que motivou as Guerras de Asante contra os ingleses. Os conflitos perduraram por um sécu- lo; os asante ganharam todas as guerras, menos a última. Adinkra Gwa Banco do rei Adinkra, soberano de Gyaa- man, de quem os asante conquistaram o conjunto de ideogramas. Ede Nka Anum Gwa A doçura não fica permanentemente na boca. Há tempos bons e tempos ruins. O antílope montado no elefante, símbolo do Estado Ga, significa que se chega ao topo por meio da sabedoria e do bom senso e não pelo peso, pela força ou pela vanta- gem do tamanho grande. O emblema repre- senta a sabedoria da nação. Ver o bastão do lingüista no quadro a seguir. Ahema Gwa. Banco da Rainha Mãe dos Asante. A seme- lhança de seu desenho com o banco do Es- tado ao lado simboliza o alto posto da Rai- nha Mãe na hierarquia do poder político. Filosofia e história no simbolismo do Sankofa Sankofa Gwa Tem o mesmo significado que o respecti- vo ideogra¬ma: nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou para trás. O pássaro com a cabeça voltada para trás é o símbolo desse provérbio. O desenho do ideograma seria uma estilização desse pássaro. O pássaro se apresenta também no bastão do lingüista. Owo Faforo Adobe Gwa A cobra sobe a palmeira. Tentando o inusi- tado ou o impossível. Ver o ideograma no quadro dos adinkra. Owuo atwedie baako ‘fo (obiara bewu) Todos nós subiremos a escada da morte. Ver o respectivo ideograma no quadro dos adinkra. Kotoko Gwa (Banco do Porco-espinho). Emblema do Estado Asante, o porco-espi- nho simboliza o poder da nação de atacar de qualquer lado, a qualquer hora. O banco é exclusivo do Asantehene.
  • 44. O tempo dos povos africanos 45 Bastão do lingüista O bastão do lingüista do rei transmite significado por meio de imagens esculpidas em madeira no seu extremo superior. Sendo o lingüista do rei o principal articulador e intermediário entre o povo e o poder real, o significado do elemento simbólico de seu bastão adquire uma importante dimensão social e política. Na tradição acã, cada soberano tem o seu lingüista: uma espécie de porta-voz, embaixador, ouvidor geral e re- lações públicas. A fama e o sucesso de um rei dependem, em grande parte, da eloqüência e do bom desempenho do seu lingüista. Este constitui o elo entre o rei e seu povo; o bastão simboliza a sua autoridade e o poder político que representa. A peça esculpida no topo do bastão, com con- teúdo simbólico proverbial, simboliza o estado que o lin- güista representa. A mão segura o ovo O poder é como um ovo: quando o segura- mos com muita força ele pode quebrar, mas quando não o seguramos bem ele pode cair e quebrar. O soberano precisa ser firme, porém ao mesmo tempo justo e compreen- sivo. Sankofa Sempre podemos retomar e apanhar aquilo que ficou para trás. Sempre podemos reti- ficar nossos erros. O pássaro com a cabe- ça voltada para trás lembra o gwa, sendo a imagem grafada uma estilização dessa imagem (ver o quadro dos adinkra). Tikoro nnko agyina (duas folhas) Uma cabeça só não constitui um conselho. Duas ou três cabeças pensam melhor que uma. Outra versão representa o mesmo conceito no bastão com a escultura de três cabeças. Ver o respectivo ideograma no quadro dos adinkra. Wuo nane egbee ebi (Ga) A galinha não machuca o pinto ao pisá-lo, mas ao contrário o protege do perigo. Ver o quadro dos gwa e o respectivo ideograma no quadro dos adinkra. Gye Nyame Aceite Deus. Deus é onipotente e imortal. O ideograma adinkra correspondente a este conceito pode ser uma estilização dessa mão com o polegar na posição vertical (ver no quadro dos adinkra). Wuso owo ti mua a nea aka no ye ahoma O homem segura a cobra pela cabeça. Quando agarramos a cobra pela cabeça, o restante dela não passa de uma corda grossa. Melhor encarar os problemas de frente. Antílope sobre o elefante: “Man ko ta man ko no” (em­blema do Estado Ga) Para alcançarmos o sucesso não devemos usar a força ou a vantagem do peso e do tamanho maior, mas antes atuarmos com sabedoria e bom senso. Ver o respectivo gwa.
  • 45. Índice Remissivo de Imagens pág. 12 fotografias © Chester Higgins www.chesterhiggins.com pág. 18 pág. 22 pág. 14 pág. 19 pág. 23 pág. 15 pág. 20 pág. 24 pág. 16 pág. 21 pág. 25
  • 46. fotografias © Elisa Larkin Nascimento pág. 26 pág. 30 pág. 33 pág. 27 pág. 31 pág. 35 pág. 29 pág. 32 pág. 41 pág. 29 pág. 33 pág. 36 pág. 37 pág. 41
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