PEQUENOS
DESCUIDOS
GRANDESPROBLEMAS
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Pequenos Descuidos, Grandes Problemas
Copyright by © Petit Editora e Distribuidora Ltda., 2008
1-3-08-5.000
Direção editorial: Flávio Machado
Assistente editorial: Dirce Yukie Yamamoto
Colaboração: Afonso Moreira Jr.
Chefe de arte: Mareio da Silva Barreto
Capa: Júlia Machado
Foto da capa: Marcelo Kura
Diagramação: Ricardo Brito
Revisão: Mareia Nunes
Auxiliar de revisão: Adriana Maria Cláudio
Fotolito da capa e impressão: S E R M O G R A F - Artes Gráficas
e Editora Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Canhoto, Américo.
Pequenos descuidos, grandes problemas / Américo Canhoto. -
São Paulo : Petit, 2008.
ISBN 978-85-7253-162-7
1. Crianças - Criação 2. Cuidados 3. Educação de crianças
4. Espiritismo - Filosofia 5. Pais e filhos I. Título.
08-00462 CDD: 133.901
índices para catálogo sistemático:
1. Educação de filhos : Doutrina Espírita 133.901
Direitos autorais reservados.
E proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma
ou por qualquer meio, salvo com autorização da Editora.
(Lei na
9.610, de 19 de fevereiro de 1998.)
Traduções somente com autorização por escrito da Editora.
Impresso no Brasil, no verão de 2008.
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PEQUENOS
DESCUIDOS
GRANDES
PROBLEMAS
Américo Canhoto
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— Saúde ou doença: a escolha é sua
— Chegando à casa espírita
— Quem ama cuida
O tempo todo e em
qualquer lugar onde nos
encontrarmos, somos
educadores.
Para que os resultados
dos nossos esforços
em prol de uma vida
familiar melhor sejam mais
produtivos, é preciso
nos capacitarmos
para as tarefas que
nos aguardam.
Sumário
Apresentação 11
Um espectador privilegiado 11
Considerações iniciais 21
As crianças da nova geração 27
Nosso ponto de vista 28
Abordagem de questões 31
Parte 1: A educação deve visar desenvolver
a capacidade de discernir 36
Questionamentos 37
Quem somos nós? 37
Quem sou eu? 50
Quem é a criança? 53
Quem é o educador? 57
Quem é o educando? 59
A responsabilidade da mídia 60
Qual é o método pedagógico mais adequado? 61
A quem se destina a educação? 63
7
AMÉRICO CANHOTO
Parte 2: Relação familiar envolve compromisso... 66
O papel da família 67
Mudança de DNA 70
O que é a família? 70
A forma como a família é constituída 74
Parte 3: Planejar e gerenciar a vida em família
é uma conquista espiritual 76
Qualidade das relações na vida em família 77
Separação e abandono 80
Parte 4: Os pais não são responsáveis pelos
filhos, estão responsáveis 82
Causas da falência da família 83
Maneira de gerenciar 86
Ausência da mãe 87
Herança educacional 88
Educação íntima precária 90
Maturidade dos familiares 91
Senso de responsabilidade dos pais 93
Falta de diálogo 95
Conflitos 100
Parte 5: Não há pessoa mais desconhecida
para nós do que nós mesmos 104
Descuidos comuns na educação 105
Educar para a vida 108
8
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Falta de limite 110
Tentativa de domínio pelo medo 116
Senso de honestidade dos pais 117
Controle 119
Manipulação 120
Chantagem 122
Cultura das pequenas mentiras 123
Perda de autoridade 125
Pensamento mágico 127
Criação de paradoxos 129
Vícios 132
Inversão de metas e suas conseqüências 134
Projeção de frustrações 136
Padronização 140
Em busca de privilégios 141
Cultivo do meio-termo 143
Aceitação das injustiças 146
Demasiada exposição à ação da mídia 148
Entretenimentos perigosos 150
Parte 6: Família: oficina onde aprendemos
a arte de amar 154
Reestruturação da família 155
Modernização da forma de gerenciar a vida familiar .159
Reciclagem do educador 164
Escola de pais 165
Educação compartilhada 167
9
AMÉRICO CANHOTO
A arte de educar 168
Leis básicas da vida: ensino obrigatório 180
Parte 7: Alguns distúrbios do comportamento
poderiam ser evitados se nós, adultos,
prestássemos mais atenção às crianças,
analisando suas atitudes, impulsos e
tendências naturais 190
Parte 8: A mudança de pequenas coisas
na vida da criança é muito importante para
seu bem-estar 198
Recursos de grande utilidade 199
Considerações finais 204
Bibliografia 210
10
Apresentação
vivendo uma fase de transição acelerada. A
Terra encaminha-se a passos largos para ser um mundo de re-
generação, no qual haverá a predominância do bem. Por assim
dizer, trata-se de delicada cirurgia cósmica que desperta a aten-
ção e o interesse de todos aqueles que trabalham em prol da
paz e da harmonia do universo.
Espíritos de outros lugares e dimensões estão vindo até
nós e reencarnando por toda parte do orbe terrestre, entre os
quais estão as chamadas crianças da nova geração.
UM ESPECTADOR PRIVILEGIADO
Desde 1977, na condição de médico de família, acom-
panhei o nascimento e o desenvolvimento de muitas crianças.
Hoje tenho a alegria de atender os filhos daqueles a quem con-
sidero "minhas crianças".
Ao longo desses anos, sou testemunha do quanto o de-
senvolvimento dessas crianças tem sido acelerado. Costumo co-
mentar com seus pais que, mal saem do útero, já estão querendo
II
AMÉRICO CANHOTO
saber onde estão e quem se encontra a seu redor. Brincando,
digo que em breve vão nascer falando.
Até recentemente, atribuía esse desenvolvimento acele-
rado ao nosso estilo de vida, aos estímulos de todo o tipo que
nos alcançam. Pouco a pouco, mudei de idéia, porque essa
explicação me pareceu insuficiente. Considerei também que
não estamos preparados para mudanças tão rápidas, mas sim
confusos diante de tanta precocidade.
Observei que, a princípio, os pais geralmente ficam des-
lumbrados com o filho, pequeno gênio que fazem questão de
exibir, e destacam suas habilidades. Esse deslumbramento,
no entanto, dura pouco: descobrem que essa criaturinha tem
idéias próprias, não aceita ordens, enfrenta os adultos de igual
para igual e, às vezes, até parece que lê pensamentos, além de
manipular as pessoas com extrema facilidade, lembrando-nos
de Gremlins, de Steven Spielberg. Assistam ao filme e percebam
a analogia. Nele fica patente o que ocorre quando uma regra
muito simples não é respeitada.
Ao longo dos anos, tenho observado a angústia de pais
que se sentem perdidos na educação dos filhos, até mesmo de
crianças que se enquadram nos padrões normais de compor-
tamento. Essa angústia é ainda maior quando recebem uma da
nova geração para encaminhar na vida. Nesse caso, as dificul-
dades dos pais são ainda maiores. O que fazer? Onde buscar
soluções?
Muito tenho lido e ouvido falar sobre a necessidade ur-
gente de desenvolver-se uma nova pedagogia, adequada às
12
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
novas crianças. Concordo, mas não acredito na eficácia de ne-
nhuma solução enquanto nós, adultos, não nos reeducarmos.
É hora de reavaliar nossos paradigmas.
Para a maioria dos pais, educadores e profissionais da área
da saúde, a criança da nova geração é um problema, quando,
na verdade, ela é parte da solução da maioria de nossos proble-
mas. Por intermédio delas, que não aceitam as imposições da
atualidade, somos forçados a mudar para melhor, o que acelera
nossa evolução...
Geralmente sou questionado por causa desse posiciona-
mento - querem saber de onde tirei estas idéias. Elas estão fun-
damentadas na experiência de uma vida dedicada à saúde do
próximo. Essa experiência, que é bem modesta, inclui o atendi-
mento clínico a famílias, participação em projetos relacionados
à área de educação e ainda 14 anos de vivência cotidiana em
berçário e escola de educação infantil. Além do conhecimento
científico que busco atualizar, tenho aproveitado inúmeras ex-
periências profissionais que a vida me proporcionou e que me
ajudaram a crescer.
Na medida do possível, desejo compartilhar meu aprendi-
zado com todos aqueles que, de boa vontade, tenham interesse
em aprimorar-se para ajudar a melhorar o mundo em que vive-
mos. Nesse sentido, ministro palestras e seminários, promovo
oficinas culturais, escrevo artigos e livros. Denominei esse meu
esforço de projeto "Educar para um Mundo Novo". Seu objetivo
básico é repensar a educação e integrar os adultos para que,
com as crianças, possam reciclar seus conhecimentos.
13
AMÉRICO CANHOTO
É minha intenção promover um debate em torno da
natureza das crianças de hoje, cuja educação é considerada
um problema de difícil solução. Essas crianças se apresentam
muito diferenciadas daquelas que as antecederam. Não nos
preparamos para recebê-las, embora essa nova geração tenha
sido anunciada há muito tempo... Esse despreparo é ainda mais
agravado pela nossa dificuldade em aceitar o que é novo, o
que é diferente do que já conhecemos. Inseguros, rejeitamos
quaisquer inovações e estagnamos. Por comodismo, adotamos
a opinião da maioria, fazendo o mesmo que os outros, des-
preocupados se isto é o certo ou o errado. Seguir a maioria
é o nosso álibi.
Este livro é uma tentativa de fazer uma reflexão sobre a
necessidade de mudar essa postura. É o resultado do trabalho
de muitos anos, no qual inserimos a questão das crianças da
nova geração, com o objetivo de esclarecer a que vieram, ana-
lisando-as livres de preconceitos e misticismo.
As crianças de hoje não são gênios
nem seres iluminados, apenas trazem consigo
certas habilidades e um grande potencial
a ser desenvolvido. A questão é:
o que vamos ensinar a elas?
Neste livro, não vou me deter na análise das crianças
da nova geração; meu objetivo é abranger todas as crianças.
Para tanto, acredito que devemos nos preparar para educá-las,
14
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
reformulando nosso modo de ser e de entender a vida. Estou
certo de que educamos a partir do nosso exemplo, já que sim-
plesmente compartilhamos aquilo que somos e o que sabemos.
Pretendo estabelecer um diálogo com aqueles que admi-
tem que a educação de hoje é falha e precisa mudar. Desejamos
o melhor para nossos filhos: saúde, alegria, paz, prosperidade...
Procuramos educá-los para que sejam os melhores, os mais sau-
dáveis, os mais felizes entre outras crianças. Mas estamos fa-
dados a não atingir nosso objetivo porque ainda não sabemos o
que é a felicidade, a saúde, a paz, a prosperidade e a harmonia.
Precisamos rever os conceitos, buscar a verdade, e a verdade
nos libertará das dores, da aflição e da ignorância.
Todo cuidado é pouco:
não podemos projetar nos filhos a
realização de nossos desejos e expectativas.
Não será por intermédio deles que vamos
nos livrar de nossas frustrações.
E um devaneio pretender que nossas fantasias que não
conseguimos vivenciar realizem-se por intermédio de nossos
filhos. Eles têm seu próprio caminho: o que devemos fazer é
prepará-los e incentivá-los para conquistar seus ideais.
Fomos, porém, educados para viver num mundo de ilu-
sões e aparências, povoado de valores que flutuam ao sabor dos
desejos e interesses do momento. Ou seja, estamos perdidos.
Em relação aos nossos filhos, caso não mudemos nosso modo
15
AMÉRICO CANHOTO
de viver e entender as coisas como elas são, seremos cegos a
guiar cegos*, como nos alertou Jesus.
Toda criança necessita de cuidados,
atenção, respeito e amor.
Estamos cercados de objetos e utensílios descartáveis, o
que gera hábitos consumistas, bem como uma cultura da su-
perficialidade do "usar e jogar fora". Quando alguma coisa ou
alguém não nos interessa mais ou não nos satisfaz na medida
de nossos interesses, nós o descartamos. Esse modo de agir
contaminou nossas relações: quando alguém não corresponde
às nossas expectativas, é refratário à nossa autoridade, não
buscamos entender suas razões. Acusamos os jovens de rebeldes
e problemáticos, quando, na verdade, a rebeldia está em nós
mesmos por não aceitá-los como nossos iguais e entender que
apenas reencarnamos antes deles...
Desde Sócrates e Platão, os filósofos da Antiguidade se
detiveram diante das dificuldades de relacionamento entre
as gerações. Se amamos nossos filhos, devemos demonstrar
esse amor, cercando-os não apenas com cuidados, mas tam-
bém dando ouvido a eles, além de respeitar seu modo de ver
as coisas.
Poucos estão preparados para as grandes mudanças que
a Terra já está vivendo nos dias de hoje e que, com o passar
* Mateus, 15: 14. (Nota do Editor)
16
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
dos dias, serão ainda maiores e mais drásticas. A maioria dos
pais, acomodados ou sentindo-se incapazes de educar os filhos,
repassa essa responsabilidade para a escola. Esse é um grande
erro, sobre o qual vamos nos deter, em busca da renovação
de atitudes.
Educar exige preparo,
reciclagem rápida e contínua.
E necessário que os pais se preparem para receber os
filhos com consciência para obter sucesso em sua educação.
Não se trata da educação ideal, pois não há filhos ou pais ideais.
Existe apenas a realidade de cada um. O método informal de "ir
levando a vida para ver no que dá" já provou sua ineficácia.
Hoje, para atingir um padrão de qualidade melhor, é pre-
ciso que tenhamos metas a serem alcançadas e que busquemos
os recursos necessários para atingi-las. Essa providência é in-
teressante em especial na formação da nova geração, pois ela
não aceita imposições nem regras que não sejam obedecidas
por todos.
É importante aprender a arte de compartilhar,
e não apenas ditar regras.
Quando percebermos que educamos mais por meio de
nossas atitudes, ficará mais fácil entender que não se pode con-
trolar o aprendizado de outra pessoa, não é esse nosso papel.
17
AMÉRICO CANHOTO
Desse momento em diante, nós nos sentiremos aliviados, pois
tiraremos dos ombros um pesado e indevido encargo: o controle
do destino do próximo.
A educação compartilhada ajuda a definir o papel de
todos. Nela, destaca-se a função de cada um, seu papel espe-
cífico. Os pais, a família, a escola, a sociedade, todos têm fun-
ções interdependentes. Inclusive, a própria criança. Se as
expectativas de uma educação de boa qualidade serão ou não
atendidas, dependerá de uma série de fatores que, embora se
complementem, são independentes. Definir direitos, tarefas e
funções é um passo inicial importante.
A análise do papel que cada um cumpriu bem ou mal
interessa apenas a quem o revisa. E a inteligência determina
que essa reavaliação deve constituir apenas uma revisão de metas,
sem o cultivo de sofrimentos. Também não adianta "jogar a
toalha" e gritar: "Não sei mais o que fazer!". Não há como de-
sistir: os filhos são para toda a existência...
Vamos apenas relembrar alguns erros que, de tão comuns
nem mais os percebemos nas lides do dia-a-dia, mas que po-
derão, no futuro, pela sua repetição, causar muita dor e sofri-
mento tanto para os adultos quanto para as crianças.
Aproveitamos para reforçar um alerta a respeito da tran-
sição que estamos vivendo: de alguns anos para cá, tudo anda
cada vez mais célere, inclusive a Lei de Ação e Reação. Em
outros tempos era possível reparar ou consertar os estragos que
cometíamos com relativa tranqüilidade. Mas, atualmente, o
espaço entre a causa e o efeito está diminuindo cada vez mais.
18
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Caso continuemos a teimar em continuar presos aos
mesmos padrões, o risco de não haver tempo hábil para as
correções é grande. Para mim, o mais interessante, depois de
estudar detidamente as características da nova geração, foi
descobrir que preencho muitas delas. Se eu tivesse essas infor-
mações antes, será que minha vida teria sido diferente?
Que o azul, que é a cor do nosso planeta visto do alto,
nos envolva a todos na oportunidade deste diálogo aberto.
Sejam bem-vindos!
Américo Canhoto
19
Considerações iniciais
termos e às concepções empregados no decorrer do livro, acha-
mos por bem apresentar alguns que já conhecem e que ouvirão
muito daqui em diante. Deixo claro que não concordo nem
discordo inteiramente de nenhum deles, mas, a partir deles,
tentaremos formatar nossa própria forma de ver, sentir e agir.
0 objetivo deste livro é provocar no leitor a atitude de
duvidar, criticar, vivenciar e utilizar o que for possível e perti-
nente, com um único intuito: proporcionar a saúde e a felici-
dade de seus filhos.
Nossas crenças não mudam as leis que regem a vida cós-
mica. Tanto faz crer ou deixar de crer nelas, tudo continua
sendo como deve ser: simples, igualitário ou divinamente per-
feito. Um dia iremos amadurecer e deixar de bancar deuses em
defesa de interesses próprios.
Apenas para servir de parâmetro aos leitores: nas minhas
convicções religiosas, já fui católico de berço e de "vestir a camisa";
depois, apenas por não aceitar nenhum tipo de dogma, conheci e
vivenciei a prática de muitas outras; o que gostaria de dividir com
o leitor fique posicionado em relação aos
21
AMÉRICO CANHOTO
os leitores: nenhuma consegue ofender minha convicção de que
devemos ser atuantes e amorosos. O conceito de nova geração
está acima de dogmas e de qualquer sistema de crenças, é uma
realidade com a qual devemos aprender a conviver.
Devo admitir, por exercício de humildade, que o con-
tato com o conceito de nova geração preencheu várias lacunas
nas minhas dúvidas e questionamentos sobre tão interessante
assunto e forneceu-me para compartilhar com os pais dessas
crianças uma nova abordagem, muito diferente dos antigos
paradigmas educacionais.
A pedagogia de valores, anunciada por Jesus e outros e
formulada em parâmetros educacionais por Egidio Vecchio, re-
vela inúmeros pontos em comum com nossa visão sobre como
participar da educação das crianças de hoje e de amanhã - pois
a base é a mesma - e reforça a idéia de estarmos a caminho de
uma educação mais adequada aos novos tempos.
Vivemos numa época cada vez mais acelerada e com fortes
marcas de ação inteligente nas transformações que se operam;
o que, por si só, já explica uma parte das saudáveis mudanças.
Nos livros da Codificação Espírita, há muitos convites à refle-
xão a esse respeito: algumas dessas mudanças já são bem claras
e inquestionáveis; já outras necessitam de mais tempo para que
cada um de nós possa tirar suas próprias conclusões.
Lê-se em A Gênese, no capítulo 11:
"Logo que um mundo tem chegado a um de seus pe-
ríodos de transformação, a fim de ascender na hierarquia dos
22
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
mundos, operam-se mutações na sua população encarnada e
desencarnada. É quando se dão as grandes emigrações e imigra-
ções. Mas, ao mesmo tempo que os maus se afastam do mundo
em que habitavam, Espíritos melhores aí os substituem, vindos
quer da erraticidade, concernente a esse mundo, quer de um
mundo menos adiantado, que mereceram abandonar (...)."
"São às vezes parciais essas mutações, isto é, circunscritas
a um povo, a uma raça; doutras vezes, são gerais, quando chega
para o globo o período de renovação."
Comentário: embora as crianças de hoje sejam dife-
rentes das antecessoras, vale a pena aguardar mais fatos e o
decorrer do tempo.
Em A Gênese, capítulo 18, lê-se:
Perturbação
"Onde nos parece haver perturbações, o que há são mo-
vimentos parciais e isolados, que se nos afiguram irregulares
apenas porque circunscrita é a nossa visão. Se lhes pudéssemos
abarcar o conjunto, veríamos que tais irregularidades são apenas
aparentes e que se harmonizam com o todo."
Mundo de regeneração
"Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso é que
somente a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados.
23
AMÉRICO CANHOTO
Havendo chegado o tempo, grande emigração se verifica
dos que a habitam: a dos que praticam o mal pelo mal, ainda
não tocados pelo sentimento do bem, os quais, já não sendo
dignos do planeta transformado, serão excluídos, porque, senão,
lhe ocasionariam de novo perturbação e confusão e constitui-
riam obstáculo ao progresso (...)
Substituí-los-ão Espíritos melhores, que farão reinarem em
seu seio a justiça, a paz e a fraternidade. A Terra, no dizer dos
Espíritos, não terá de transformar-se por meio de um cataclismo
que aniquile de súbito uma geração. A atual geração desapare-
cerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem
que haja mudança alguma na ordem natural das coisas."
Comentário: provavelmente, a geração atual desapa-
recerá por meio de doenças, pois as crianças estão pulando as
doenças dos adultos e indo diretamente para as de idosos.
Lê-se ainda em A Gênese, capítulo 18:
"(...) uma parte dos Espíritos que encarnavam na Terra aí
não mais tornarão a encarnar.
Em cada criança que nascer, em vez de um espírito atra-
sado e inclinado ao mal, que antes nela encarnaria, virá um
Espírito mais adiantado e propenso ao bem.
Assim, decepcionados ficarão os que contem ver a trans-
formação operar-se por efeitos sobrenaturais e maravilhosos.
(...) a nova geração se distingue por inteligência e razão
geralmente precoces, juntas ao sentimento inato do bem e a
24
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
crenças espiritualistas, o que constitui sinal indubitável de certo
grau de adiantamento anterior.
Não se comporá exclusivamente de Espíritos eminente-
mente superiores, mas dos que, já tendo progredido, se acham
predispostos a assimilar todas as idéias progressistas e aptos a
secundar o movimento de regeneração.
E muito simples o modo por que se opera a transformação,
sendo, como se vê, todo ele de ordem moral, sem se afastar em
nada das leis da natureza.
Assim, segundo suas disposições naturais, os Espíritos
encarnados formarão duas categorias: de um lado os retardatá-
rios, que partem; de outro, os progressistas, que chegam."
Comentário: os retardatários refletem a grande maioria
chamada normal; já os progressistas podem ser as crianças hoje
rotuladas de problemáticas - apenas por perturbarem a velha
ordem dos interesses em vigor.
Continuando o estudo do livro A Gênese, de Allan Kardec,
ainda no capítulo 18:
Desencarnações coletivas:
progresso
"As grandes partidas coletivas, entretanto, não têm por
único fim ativar as saídas; têm igualmente o de transformar mais
rapidamente o espírito da massa, livrando-a das más influências,
e o de dar maior ascendente às idéias novas.
25
AMÉRICO CANHOTO
Os flagelos destruidores apenas destroem corpos, não atin-
gem o Espírito; ativam o movimento de vaivém entre o mundo
corporal e o mundo espiritual e, por conseguinte, o movimento
progressivo dos Espíritos encarnados e desencarnados.
Os incrédulos rirão destas coisas e as qualificarão de quimé-
ricas; mas, digam o que disserem, não fugirão à lei comum (...)•"
Comentário: de acordo com o resultado de nossas
observações diárias ao longo do tempo, estamos convencidos
de que, graças ao sistema de educação vigente, grande número
de espíritos - hoje na condição de crianças - terá existência
muito curta por causa dos efeitos do estresse crônico, o qual é
a marca registrada da antiga geração.
Allan Kardec, em A Gênese, capítulo 18, continua com o
estudo dessa questão:
Regeneração da humanidade
"A época atual é de transição; já se misturam os elementos
das duas gerações. Quem estiver de fora assistirá à partida de
uma e à chegada de outra (...).
Tudo se concluirá com a geração que se vai, e a que lhe
suceder elevará novo edifício, que as subseqüentes consolidarão
e completarão."
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec,
encontra-se o seguinte comentário:
26
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
"Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos
em que todas as coisas devem ser restabelecidas em seu verda-
deiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e
glorificar os justos."
AS CRIANÇAS DA NOVA GERAÇÃO
Considero nesta abordagem o entrelaçamento das duas
gerações citadas: de retardatários e progressistas. Para fins con-
ceituais, distingo a geração progressista entre "reformadores" e
"sábios", mas não as tendências de cada um deles:
• A precocidade é sua marca registrada;
• Necessitam de disciplina coerente;
• Viciam-se com facilidade;
• No geral, são mais bonitas que as gerações anteriores;
• Seu potencial dos vários tipos de inteligência supera o
das antigas crianças;
• Necessitam de adultos emocionalmente estáveis e se-
guros ao seu redor;
• Não aceitam autoridade por imposição;
• Dizem o que pensam e só fazem o que desejam;
• São mais práticos;
• São manipuladores ao lado de adultos inseguros;
• São vulneráveis à aceleração: instáveis, apresentam
déficit de atenção seletiva e, por isso, se lembram
apenas do que lhes interessa.
27
AMÉRICO CANHOTO
NOSSO PONTO DE VISTA
Convidado a participar de seminários sobre educação,
tenho deixado claro o meu ponto de vista, baseado em estudos
e observações de pacientes que atendi ao longo do exercício
clínico como médico-orientador de famílias. Nesse trabalho,
tenho a certeza absoluta de que tenho o amparo de mentores
amigos e espíritos benfeitores, que me intuem sugestões a serem
transmitidas aos que me procuram todos os dias em busca de
alívio para dores e sofrimentos.
Ao longo deste livro, apresentarei minha forma parti-
cular de ver e de perceber as reações e posturas da criança
da nova geração e das demais, embasado na experiência de
um trabalho profissional de muitos anos. Por vezes, poderá
parecer que contradigo a opinião de outros estudiosos, mas,
ao final, veremos que apenas as repito ou mesmo as com-
plemento.
Minha visão de mundo sofre a cada dia novas inter-
venções. Já a espinha dorsal, base das minhas convicções,
encontra fundamento no livro A Gênese, de Allan Kardec,
especialmente nos capítulos 11, 17 e 18.
Resguardo a intenção deste escrito: pequenos descuidos
tornam-se no futuro grandes problemas quando a educação
é conduzida sem planejamento. Vamos nos ater ao tema, na
tentativa de adquirir disciplina, que é virtude fundamental do
espírito que busca alçar vôo da terceira dimensão, mundo este
onde nos encontramos, para as outras.
28
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Apenas para compor o quadro dos diferentes tipos de
crianças da atualidade, com a intenção de facilitar seu en-
tendimento, identificaremos as crianças em grupos distintos,
embora separar gerações seja tão complicado quanto distinguir
distúrbios psicológicos (neurose, psicose, personalidade psico-
pática, transtorno bipolar etc.).
As gerações têm idéias e pontos de vistas diferentes,
às vezes opostos. Como o momento é de transição, confun-
dem-se e misturam-se os elementos de duas gerações milenares.
A mudança, que se dava de forma gradativa, atualmente está em
sua fase final, na qual atingirá o clímax determinado pelo nosso
comportamento: o estresse crônico, que levará ao desencarne
milhões de pessoas cada vez mais rapidamente, sem necessidade
de que ocorram desastres físicos, climáticos e geográficos. Apenas
para exemplificar: cada vez mais, as crianças vão sofrer doenças
próprias dos idosos como diabete, enfarte, acidente vascular ce-
rebral, câncer de todos os tipos, depressão, angústia, pânico...
Geração antiga
Podemos enquadrar na geração antiga a quase totalidade
daqueles que hoje rotulamos de pessoas "normais", adaptadas
aos padrões contemporâneos. Os "normais" não são espíritos
propensos ao mal, mas sim tendenciosos à ausência do bem e
aos vícios cada vez mais degradantes. Além disso, estão cen-
trados em si mesmos, nos seus interesses pessoais e familiares
ou grupais. Não são, portanto, nem bons nem maus.
29
AMÉRICO CANHOTO
Predominam neles orgulho, inveja, egoísmo, narcisismo,
intolerância e impaciência. Deles é que a Terra precisa ser ex-
purgada, pois se obstinam em não se emendar. São pessoas que
fazem questão de acreditar em sorte, azar, destino, sobrena-
tural, alimentos diet e light* e crêem que "um pouquinho só não
faz mal", no "beba com moderação", "fume com moderação",
"use camisinha em relações suspeitas" e por aí afora...
Geração transitória
Por estarem mais amadurecidos, apesar de suas imper-
feições, muitos partem cada vez mais rapidamente.
Os "normais" acelerados, ou melhor, os que estão subme-
tidos ao processo de aceleração da última fase da atual transição
planetária, são basicamente as crianças que sofrem fortemente
a pressão da angústia, do pânico, da depressão e doenças como
o câncer.
Por meio de nossos livros e palestras, estimulamos as pes-
soas a pensar e desenvolver o raciocínio crítico revelado por Jesus
quando nos afirmou que somente a verdade nos libertará**.
Pais, mestres e cidadãos adeptos dos vários sistemas de
crenças e de todas as origens sociais devem com urgência re-
ciclar sua visão de mundo para entender, dentre outras coisas,
* Inúmeros produtos rotulados de diet e light contêm mais calorias que os normais e
não apresentam informações sobre os efeitos colaterais dos produtos químicos nos
rótulos. Acho importante lembrar disso porque sei que, quando confiamos que um
produto não é prejudicial, costumamos usá-lo sem critério. (Nota do Autor)
**]oão, 8:31,32. (RE.)
30
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
que de fato existe uma Lei de Ação e Reação e que o que gera
nossa realidade são nossos atos.
Nova geração
Caracteriza-se por pessoas dotadas, desde o nascimento,
de potencialidades acima da média, muito mais propensas ao
bem, porém ainda suscetíveis de buscá-lo por meio da visão de
mundo dos "normais".
Cabendo-lhe fundar a era do progresso moral, a nova
geração se distingue por sua inteligência e razão geralmente
precoce, bem como por sentimento inato de religiosidade des-
provido de dogmatismo.
ABORDAGEM DE QUESTÕES
A educação ainda sofre
de um mal crônico: a falfa
de planejamento.
Falta-nos compreensão do que seja educar. Para a maior
parte das pessoas, educar um filho é ditar-lhe regras ou propor-
cionar-lhe um banco escolar sobre o qual atravessará boa parte
de sua vida para receber a instrução formal.
As informações adquiridas nas salas de aula nem sem-
pre serão verdadeiras ou úteis e, o que é pior, pouco serão
utilizadas...
31
AMÉRICO CANHOTO
Na vivência descuidada,
pequenos deslizes tornam-se graves
e dolorosos problemas.
O estilo "levar a vida e sobreviver do jeito que dá", sem
parar para pensar e planejar, é absorvido pela criança e enten-
dido como se fosse um comportamento "normal". Esse modo
de agir, que é repassado de geração a geração, nos mantém pri-
sioneiros, dependentes de favores.
Conceitos e valores errôneos, reforçados e repassados
de uma geração a outra, hoje transmitidos com mais inten-
sidade pela mídia, acabam por gerar mentira, oportunismo,
agressividade, calúnia, maledicência, orgulho, inveja, traição,
intolerância.
A educação deveria nos estimular a desenvolver pa-
ciência, tolerância, respeito, simplicidade, senso de ética e de
justiça, qualidades muito valorizadas na teoria, mas pouco cul-
tivadas na prática. Exemplo: quando pedimos a uma criança
que vá ao mercado comprar alguma coisa, não devemos pro-
por-lhe que compre uma guloseima com o troco para executar
essa tarefa. Um dia, condicionada por esse comportamento
- toma lá, dá cá - poderá freqüentar os noticiários como de-
putado, presidente, senador ou policial, por exemplo, adepto
do suborno.
Quem não conhece o popular refrão dos pais que come-
tem erros: "Não foi isso o que eu ensinei!"? Um dia, em algum
lugar, teremos de prestar contas à própria consciência do que
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
oferecemos aos que a divina providência nos confiou como
filhos, ou mesmo àqueles que estão sob nossa responsabilidade.
Até há alguns anos, o sistema educacional, com todas as
dificuldades, dava a impressão de funcionar a contento. No
entanto, nesta fase de transição planetária, ficam evidentes
suas deficiências.
Geração após geração,
nós nos apegamos obsessivamente
às sensações.
Os hábitos alimentares podem servir de exemplo tanto
à obsessão quanto à lentidão em nos reciclarmos. Mudam
muito pouco de uma geração a outra sob circunstâncias bem
diferenciadas.
A avó que parou no tempo premia todos os dias os netos
com guloseimas, esquecida de que na sua infância eram ofe-
recidas apenas em ocasiões especiais. Dessa forma, isso não
causava danos à saúde daqueles que as recebiam.
Analisemos nossa tendência para consumir carboidratos
(contidos no arroz e no feijão, por exemplo). Antigamente,
predominava o trabalho braçal. Na atualidade, mesmo os que
levam uma vida de pouco ou nenhum uso do corpo conservam
os hábitos herdados dos antepassados: alimentam-se além de
suas necessidades.
0 resultado é o aumento da incidência de diabete em
todas as idades e da obesidade infantil, presente em crianças de
33
AMÉRICO CANHOTO
todas as classes sociais, a ponto de tornar-se um sério problema
de saúde pública.
As crianças consomem de tudo, sem nenhum controle.
Os pais se omitem por ignorância ou comodismo. Os poucos
que se preocupam em mudar a sistemática da alimentação
discursam para uma platéia surda.
Nenhum recurso vai eliminar miraculosamente as con-
seqüências de anos de má alimentação. Minha intenção não é
simplesmente criticar, muito menos apontar erros para despertar
culpas e remorsos, mas de alertar o leitor para que faça as ne-
cessárias mudanças nos seus hábitos, as quais vão beneficiá-lo
e servir de exemplo não apenas para seus filhos, mas para todas
as pessoas que o rodeiam.
Nossa contribuição é ofertar material para reflexão, tes-
tado entre as quatro paredes de um consultório e fora dele,
para que a sucessão de pequenos descuidos, ao longo de uma
vida, não se transforme num problema grave, de lenta e dolo-
rida resolução.
34
A reestruturação
da família começa com
o aprendizado do diálogo.
É fundamental cultivar o
hábito de conversar sobre
temas importantes e
inteligentes, mas com bom
humor. A alegria cativa
as pessoas, torna o
diálogo mais agradável
e atraente.
A EDUCAÇÃO DEVE
VISAR DESENVOLVER
A CAPACIDADE DE
DISCERNIR
QUESTIONAMENTOS
Esclarecendo dúvidas
0métodoque indicamos é o mais simples e na-
tural possível: duvidar e, em seguida, refletir (experimentação
e reavaliação periódica). O material pedagógico são as coisas e
os fatos mais simples do dia-a-dia. O roteiro mais fácil a ser se-
guido é o sistema de reestruturação usado em muitas empresas:
metas, projetos, reposicionamento constante, reavaliação dos
recursos e objetivos.
0 primeiro passo da reestruturação íntima e familiar é
abordar algumas questões: "Quem somos nós?; O que fazemos
aqui?; Quem é minha família?; Quem são meus filhos?; O que
é educar?; Qual o melhor método de educação?; Quem é o
educador?; Quem é o educando?; Quando termina o processo
educativo?; De quem é a responsabilidade da educação?".
QUEM SOMOS NÓS?
Viver nos dias de hoje parece algo complicado, difícil e
caro. Gastamos grande parte do nosso tempo e conhecimento
para ganhar dinheiro e por vezes custear a educação dos filhos.
Vez ou outra somos obrigados a nos deparar com jornais e re-
vistas que apresentam gráficos e pesquisas de quanto custa
um filho e sua educação (leia-se instrução). Essas reportagens
servem de estímulo para que muitas pessoas evitem ter filhos.
37
AMÉRICO CANHOTO
Confundimos educação com simples treinamento e instru-
ção. Desembolsamos uma fortuna para que nossos filhos perma-
neçam na escola boa parte de suas vidas para aprender coisas sem
muita utilidade prática. Claro que num mundo onde a tecnologia
se torna cada vez mais importante, alguns conhecimentos são
necessários, mas não podemos nos esquecer de outros aspectos
que nos caracterizam como pessoas sadias e felizes. Muitas vezes,
nessas instituições de ensino, eles são cobrados em demasia por
resultados que não conseguem alcançar, para depois, fracas-
sados, caírem em depressão, angústia existencial ou pânico.
Onde falhamos?
Desperdiçamos ensinamentos que a vida nos apresenta
no cotidiano de nossa existência, talvez por serem ofertados
de graça pela divina providência - não os valorizamos. Qual
a razão dessa atitude? A crise na educação, em grande parte,
tem sua origem no desconhecimento de quem somos e qual a
nossa função.
Entre nós e os animais irracionais,
há muitas semelhanças e algumas diferenças...
Os animais, guiados pelos instintos, não têm problemas
para comer, saciar a sede, respirar, urinar, evacuar. Qual é a
razão da inapetência, da constipação intestinal, da asma, da
insónia de nossas crianças? Estou certo de que a origem de todos
38
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
esses males encontra-se no tipo de educação que recebemos e
que transmitimos aos nossos filhos. Mesmo que estes já tenham
desaprendido de dormir, respirar, comer e até evacuar - o que
não ocone com os animais, caso contrário não sobreviveriam -,
mesmo assim, se os educarmos corretamente, fazendo-os en-
tender o que é o corpo humano, como funciona, quais são suas
necessidades, os problemas que poderão advir dos nossos maus
hábitos alimentares e comportamentais poderão ser sanados.
Os instintos guiam o animal, que pode ser domado ou trei-
nado, e suas emoções parecem ser primárias. A mais evidente di-
ferença entre racionais e irracionais é a capacidade de pensar de
forma contínua. Nós, os racionais, pensamos, sentimos e somos
capazes de agir; portanto, em teoria, podemos nos educar.
A educação deve visar desenvolver
a capacidade de discernir.
Pensar/sentir/agir é um processo que deve estar sempre
integrado, embora às vezes pensemos uma coisa, digamos outra
e ajamos de forma discordante, pois quer queiramos quer não,
nossas ações provocam reações e, ao recebê-las, devemos dis-
cernir se continuamos agindo da mesma forma ou mudamos
nosso modo de nos comportarmos.
Se pretendemos educar nossos filhos, em vez de apenas
treiná-los, é preciso, em primeiro lugar, que fique bem claro para
eles que suas ações vão gerar efeitos muito além da imaginação,
pois não há apelação no caso da propagação dos seus efeitos.
39
AMÉRICO CANHOTO
Desculpas ou pedidos de perdão sem que, ao mesmo tempo, bus-
quemos reparar os erros cometidos não resolvem. É certo, porém,
que podemos consertar o mal que causarmos a nós mesmos e aos
outros. Enquanto não o fizermos, aliás, essa dívida permanecerá
gravada em nossa consciência.
Algumas escolhas trazem prazer,
outras carregam dor: o tempo encarrega-se
de revelar o que semeamos...
A dor e o sofrimento são causados por escolhas erradas.
A repetição crônica desses erros revela que estamos nos ne-
gando a evoluir. A educação, nesse sentido, pode ser o fator
determinante de nossa mudança.
A criança da nova geração, por exemplo, é mais receptiva
a entender a necessidade de mudanças. Se lhe explicarmos o
que precisa fazer para ser feliz e se dar bem na vida, embasados
em argumentos bem fundamentados, ela vai, em primeira ins-
tância, refletir sobre nossas afirmações. Por exemplo: "Estou
com vontade de comer bombom, por que não posso comer todos
os que estão na caixa?" Se disser a ela que ficará com dor de
barriga ou algo parecido, ela pode dizer que não se importa.
Cabe a nós, adultos, provar-lhe o contrário não a medicando
quando resolver fazer esse experimento...
O modo de pensar cria nossa realidade:
é necessário idealizar o que desejamos para nós.
40
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
O pensamento contínuo é uma forma de energia que tem
o poder de deslocar elétrons de suas órbitas. O ato de pensar
cria e movimenta correntes eletromagnéticas e faz fluir a vida.
Vivemos na atmosfera fluídica gerada por nossos pensamentos.
Desde que nosso pensamento seja voltado para o bem, emitido
com intensidade - com fervor, com fé -, e seguido de ação,
poderá realizar-se, pois na terceira dimensão a força do pensa-
mento necessita de atitudes concretas de trabalho.
Quando pensamos, criamos a nossa realidade.
E interagimos com a realidade dos outros,
criando vínculos.
Como a intenção deste livro é oferecer um novo olhar
sobre a educação de nossas crianças, vale lembrar que elas po-
dem ser afetadas pelo pensamento dos adultos. Exemplo: se os
pais pensam continuamente que seu filho é incapaz, incompe-
tente para aprender, dependendo da intensidade do seu modo
de pensar, ele poderá vir a sê-lo, especialmente se vier acom-
panhado de palavras e atitudes. Se tal assertiva vale para o
pensamento negativo, ao qual nos referimos, vale também para
o positivo. Se afirmarmos que existem virtudes em nossos filhos
e os imaginarmos manifestando esses sentimentos, estaremos
contribuindo para semear o bem e a felicidade em suas vidas.
No consultório, atendo algumas crianças que adoecem
com mais freqüência do que outras e demoram mais para
atingir a cura. Na condição de médico de família, descubro
41
AMÉRICO CANHOTO
que em casos como esse geralmente algum familiar está en-
frentando um conflito que envolve doença, perda ou medo
da morte.
Noutras vezes, há uma guerra não declarada entre pais e
filhos, uma disputa para ver quem manda mais. Colocar uma
criança da nova geração sob tal pressão é desastroso para a
família, pois ela tira proveito da situação, manipula os pais e
pode até provocar a falência da família, sem que o deseje, pois
necessita mais do que as outras de segurança afetiva.
Algumas crianças, além disso, têm medo ou pavor de ir ao
médico. Na maioria das vezes, esse pânico é resultado do pensa-
mento de pais ou familiares, contaminado com o "vírus" do medo,
do apego, da insegurança, da falta de soberania emocional.
A criança não tem capacidade para se proteger dessa
projeção mental de seus familiares, que por sua vez imaginam
que ela esteja doente ou tenha algum problema. Esse pensa-
mento negativo a envolve e contribui para que desenvolva o
temor pelo médico, que vai acompanhá-la por toda vida se não
for capaz de enfrentá-lo.
Com a finalidade de manipular os filhos, muitos pais
usam da visita ao médico como punição: "Se continuar assim,
vou levá-lo ao médico. Você vai ver o que é bom!". Se a crian-
ça muda seu comportamento, influenciada pela ameaça, pre-
miam-na com o adiamento indefinido da ida ao consultório:
"Como você está bonzinho, não vamos ao médico neste mês".
Esse tipo de atitude, contudo, é altamente prejudicial.
Pode agravar problemas que, em tempo hábil, seriam facilmente
42
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
extirpados. Os pais e familiares devem mudar seu pensamento: o
médico é um facilitador da saúde. Atende a criança com carinho
e a ajuda, segundo suas possibilidades, a viver melhor.
A criança da nova geração
não abre mão da liberdade.
Pensar permite escolhas: é a liberdade que nos permite o
livre-arbítrio. Quando desejar impor limites ou regras para uma
criança da nova geração, deixe em aberto uma ou várias alter-
nativas para que ela possa exercitar sua capacidade de escolha
entre aquilo que lhe é permitido.
Elas têm uma consciência inata de que pensar e escolher
é exercitar a liberdade que tanto ansiamos. Quando presenciam
a atitude passiva de seus pais, que aceitam os males que os ator-
mentam sem esboçar reações, impacientam-se. Perguntam a si
mesmas: "Porque meus pais abrem mão da liberdade de escolher
a felicidade? Por que se recusam a perceber que não escolher, se
acomodar, também é uma forma de fazer uma escolha?".
Nos dias de hoje, a grande maioria das pessoas não pensa
para não ter de escolher, como se isso fosse possível. Delegam
as escolhas corriqueiras a outros e imaginam, assim, esquivar-se de
arcar com as conseqüências, porém pequenos descuidos levam
a grandes problemas (aos quais, pela Lei de Ação e Reação, res-
ponderão no futuro...). Um exemplo disso, bem característico,
é a postura descuidada dos adultos diante da bula dos remédios.
"Para que lê-las? Por que perder tempo com aquele papelzinho
4 3
AMÉRICO CANHOTO
impresso com letras tão pequenas? Se o médico receitou, é ele
quem deve lê-la, não eu".
Essas pessoas recusam-se a encarar os dados que constam
da bula. Ler esse impresso significa inteirar-se dos males que
nos afligem e entender a ação medicamentosa, além de conhecer
os efeitos colaterais da medicação e sua composição.
O mesmo ocorre na educação de nossos filhos. Assim
como transferimos para o médico a responsabilidade total de
nos devolver a saúde, agimos da mesma forma em relação à
educação de nossos filhos. Jogamos a responsabilidade para a
escola. Não nos dispomos a ler o programa do curso e muito
menos a tomar conhecimento da bibliografia que será utili-
zada. Matriculamos a criança, compramos o material escolar
e o uniforme, enchemos sua mochila com alimentos indus-
trializados e, se estiver ao nosso alcance, contratamos o trans-
porte que vai levá-la à escola e trazê-la de volta ao lar. Essa
é a nossa parte! Os alunos parecem batatas quentes atiradas
aos professores.
A criança progressista - carente de afetividade e apoio
familiar e consciente das obrigações de seus pais para com elas
- pode perceber o que está por trás da atitude dos adultos: o
desejo de livrar-se do encargo de educá-la e até de conviver
com ela, pois sua forma questionadora de ser lhes tira o sossego.
Tem dificuldade em aceitar a educação que lhe é imposta e
causa algumas dificuldades aos pais e educadores. Como po-
demos observar, a Lei de Ação e Reação funciona de forma
acelerada: pais que se recusam a dar aos filhos a maior riqueza a
44
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
seu alcance - a educação - são vítimas do sistema, repassando
o que receberam; porém a atitude de alguns beira à omissão.
Criada num ambiente onde não
é permitido experimentar para aprender,
a criança recusa-se a crescer.
Muitas crianças recusam-se a alcançar a maturidade
psicológica (mental, emocional e afetiva) e mantêm de forma
acintosa posturas que não correspondem a sua idade. Essa ati-
tude não é simplesmente birra, é o reflexo do comportamento
de seus pais. E fruto da educação que apenas despeja informa-
ções em sua cabeça.
Geração após geração, não se permite à criança a li-
berdade de escolha. Quando, eventualmente, os adultos lhe
permitem isso, quase sempre ela é impedida de arcar com as
conseqüências, o que retarda significativamente alcançar a
maturidade psicológica.
Quais seriam os motivos principais que levam os pais a
impedir que a criança exercite a capacidade de pensar antes de
escolher, tornando-as incapazes de suportar os efeitos de suas
escolhas? Onde e com quem as crianças aprendem a desenvolver
esse padrão de atitudes pouco responsável? Meditem. No de-
correr deste livro, descobriremos respostas para essa questão.
A educação também deve desenvolver
a capacidade de sentir.
45
AMÉRICO CAN»
Perante as situações que vivenciamos, experimentamos
emoções e sentimentos que retomam ao corpo como sensações,
que devemos tentar interpretar. Quando nos recusamos a fazê-lo,
nós as materializamos como doenças. Se porventura nos causam
prazer, dizemos que são emoções boas. Se nos provocam dor ou
sofrimento, nós as classificamos como emoções ruins. Chamam
a isso de inteligência emocional. Como é fácil perceber, nossa in-
teligência emocional deixa muito a desejar, isso é cada vez mais
visível no dia-a-dia, em que, por exemplo, algumas pessoas não
conseguem parar de chorar sem motivo aparentemente lógico
para quem está de fora, para o observador.
Somos seres interdependentes, então permutamos emoções
e sentimentos. Em teoria, somos capazes de controlar a forma
como as emoções e os sentimentos dos outros podem nos afetar
mas não é o que se observa na prática: por exemplo, se num grupo
de pessoas há uma muito irritada, logo todos estarão discutindo
sem saber a razão. Poucas pessoas usam a razão para filtrar e
também para permitir quais energias podem ou não afetá-las.
Essa capacidade é entendida como a soberania da razão
sobre a emoção, uma conquista espiritual ainda ao alcance
de poucas pessoas. A dificuldade que temos para lidar com as
emoções na maioria das vezes nos causa problemas. Essa con-
fusão emocional é mais uma conseqüência da educação que
recebemos.
Não permitimos que a criança enfrente
emoções que rotulamos de inadequadas.
46
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
A criança está com raiva do irmão que lhe quebrou o
brinquedo e sua reação é dar-lhe uns tapas. Presenciando a
cena, dizemos à criança que o "Papai do Céu" está zangado,
muito zangado com ela, porque cometeu um "pecado". Não
lhe explicamos com lógica e clareza que a sua atitude foi
egoísta, que ela precisa aprender a partilhar seus pertences
eque agredir o irmão pode lhe causar, mais tarde, o retorno
da mesma dor para que aprenda a só fazer aos outros o que
deseja para si.
Na condição de pais, de acordo com as possibilidades
de entendimento de nossos filhos, devemos ensinar-lhes as
conseqüências de suas reações. É importante ajudá-los a
controlar as emoções e a discernir suas atitudes. Observar
seu comportamento durante as brincadeiras e jogos infantis
e corrigir seu comportamento intempestivo é nosso dever.
Devemos contribuir para que superem sentimentos inatos
que desde cedo se manifestam em suas atitudes: ciúme, in-
veja, egoísmo... Ensinemos a eles que Deus não castiga nin-
guém, nem sai por aí distribuindo prêmios. Temos aquilo que
merecemos.
Quando não se explica com honestidade, simplicidade
e clareza, a criança não é capaz de elaborar suas emoções, até
porque tem dificuldade em distinguir se está triste, magoada,
decepcionada, com raiva ou ódio. Ela depende do adulto para
desenvolver essa habilidade, mas com ele apenas aprende a
fingir, camuflar suas emoções. Mais tarde, na idade adulta, ela
poderá colher as conseqüências dessa indiscriminação: doenças
47
AMÉRICO CANHOTO
as mais diversas, alimentadas por mágoas acumuladas, ressen-
timento, impaciência, ansiedade desvairada...
Soberania emocional
As crianças da nova geração são portadoras de soberania
emocional mais desenvolvida que a nossa e capazes de elaborar
as emoções com objetividade, além de serem muito amorosas.
No entanto, não sofrem por causa das pessoas: auxiliam espon-
taneamente, sem se deter na contemplação de suas dores.
Por assim dizer, são verdadeiras ONGs ambulantes... Re-
gistre bem isso, se for o caso, para entender as atitudes humani-
tárias de seu filho progressista, as quais certamente despertarão
a incompreensão das pessoas "comuns", incapazes ainda de
praticar a caridade que Jesus nos ensinou, ou seja, tratar o pró-
ximo como gostaríamos de ser tratados.
Pensar, sentir, analisar, decidir e agir. Essa é a seqüência
do pensamento contínuo. Discernir se o resultado das escolhas
foi correto é o passo seguinte. Reformular ou não a escolha
inicial é direito e dever de cada um.
Normalmente, o adulto projeta-se na criança e acaba
impedindo que pense e sinta por si mesma. Determina o que
ela deve fazer e como reagir. Quando ela se rebela contra essa
atitude, quase sempre a reação dos adultos não é das mais agra-
dáveis.
A seqüência à qual me referi é tão clara, lógica e natural
que a criança da nova geração revolta-se quando é impedida
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PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
de executá-la. Quando proibida de agir segundo seus impulsos
mais progressistas, sua reação natural é não aceitar o que vigo-
ra no sistema.
As crianças da nova geração têm um faro
aguçado para descobrir quem somos nós.
Nosso sistema de crenças é que vai nos conduzir na dire-
ção do progresso. Para acelerar essa caminhada, é fundamental
ouvir a todos e analisar as opiniões alheias, sejam elas de origem
religiosa, filosófica ou científica. De posse das informações co-
lhidas, devemos analisá-las e tomar nossas próprias decisões.
Nisso se resume a fé raciocinada. Caso não paremos para
refletir com isenção sobre aquilo que nos alcança, estaremos
presos a dogmas, convenções e preconceitos, e nossas escolhas
poderão ser desastrosas. É importante estarmos sempre dispos-
tos a ouvir, refletir, meditar e, se necessário, debater com as
pessoas nossas dúvidas, até nos sentirmos bem.
Os adultos "normais" evitam discutir alguns temas e,
quando o fazem, querem impor seus pontos de vista. As crian-
ças da nova geração adoram aprender e, boa parte delas, diz
com naturalidade que somos espíritos eternos em aprendizado
contínuo e que esta existência é apenas uma aula breve, duran-
te a qual teremos tempo para refazer algumas lições malfeitas
no passado.
Sem que ninguém lhes diga, lá no fundo de sua alma, elas
têm a intuição de que parar para refletir a respeito de quem so-
49
AMÉRICO CANHOTO
mos e o que fazemos aqui é o passo inicial para conquistarmos
calma, paz e alegria de viver.
QUEM SOU EU?
Não estou me referindo à data e ao local de nascimento
e a outras informações óbvias a nosso respeito, tais como nú-
meros de documentos etc. Responder a essa pergunta implica
olhar para dentro de nós e, então, observar nosso comporta-
mento e atitudes e "mapear" nosso íntimo. Esse reconheci-
mento da alma exige boa vontade e um esforço perseverante.
Poucos de nós nos dispomos a despender nosso tempo
nessa aventura. A maioria das pessoas desconhece sua na-
tureza. Vivem apenas para comer, beber, consumir... Fogem
do desconhecido porque ignoram sua natureza e temem que
lhes cause sofrimento. Andam sem rumo pela vida, ao sa-
bor das oportunidades, e padecem de angústia e inquietação
crônicas.
Podemos iniciar desde já o processo de autoconhe-
cimento com base na análise de nossos pensamentos. Des-
tacamos alguns deles, muito comuns a todos nós, os quais
transcrevo a seguir.
"Não quero nem pensar..."
"Não aprendi a escolher por mim mesmo..."
"Se todos fazem assim, por que preciso ser diferente?
"Quem sou eu para mudar?"
"Nem imagino o que vim fazer nesta existência..."
50
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
"Ignoro quem sou..."
"Nem imagino como explicar as ocorrências do meu
dia-a-dia..."
"Não consigo parar para pensar nisso tudo..."
"Nem imagino o que fazer para educar melhor meus
filhos..."
Pensamentos tão desencontrados como esses revelam
que é tempo de reformular o modo de ser. Se esse é o seu caso,
as crianças pertencentes à nova geração que eventualmente
forem seus filhos lhes serão de grande ajuda. Diferentes de nós,
elas nascem com a intuição do papel que vão desempenhar
nesta existência; possuem uma visão mais clara do próprio po-
tencial; detêm relativa consciência daquilo que querem e não
abrem mão de seus valores.
Conheço crianças progressistas que, com menos de dez
anos, dizem aos pais que parem de trabalhar tanto, pois não
querem herdar seu dinheiro nem suas propriedades. "Não
quero ser como vocês", dizem aos pais, abrindo-lhes os olhos
para o péssimo exemplo que estão dando: concentração de seus
esforços apenas na conquista de bens materiais.
Será possível recuperar o tempo perdido
e as oportunidades de autoconhecimento?
Sim, sempre é possível, e quem manifesta essa intenção já
atingiu uma condição mínima de maturidade e discernimento
que vai ajudá-lo a conhecer melhor a si mesmo, descobrir a
51
AMÉRICO CANHOTO
natureza do seu eu. Será admitido no "clube" das pessoas que
buscam progredir sem a ajuda do sofrimento.
"A quem muito foi dado,
muito será pedido"*, disse Jesus.
Descobrir quem sou e qual minha missão no mundo pa-
rece uma tarefa difícil, quase impossível, mas não é. Quando
sei com clareza quem sou e o que faço aqui, adquiro equilíbrio
para conquistar minhas metas e meus sonhos. Esse passo inicial
deverá ser dado ainda na infância, pois é possível auxiliar a
criança a descobrir seu potencial, suas predisposições, tendên-
cias e impulsos inatos sem ferir os direitos do próximo.
Quando os adultos que nos cercam na infância colaboram
para o nosso processo de autodescoberta, torna-se mais fácil
identificar o que viemos fazer nesta existência. Se não receber-
mos esse auxílio, ainda não é o fim do mundo, pois sempre será
possível analisar nossa condição: fatos ocorridos conosco, de
que forma interagimos com as pessoas que nos cercam... Cada
situação ou acontecimento que já vivemos ou estamos vivendo
pode tornar-se uma oportunidade de aprendizado e um sinal de
mudanças de rumo na vida afetiva ou profissional.
Ajudar a criança na descoberta do projeto de sua exis-
tência é uma das razões de vivermos em família. É a essência
da arte de educar. Mas como educar? Como veremos a seguir,
* Lucas, 12:8. (N.E.)
52
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
educar é compartilhar com a criança o aprendizado que já
adquirimos. De preferência discursando menos e exemplifi-
cando mais.
Caso tenhamos uma criança progressista na família,
podemos solicitar-lhe que nos ajude a educá-la. Para tanto,
basta analisar com carinho e humildade suas opiniões sobre
quem somos e como nos comportamos. Procuremos refletir
sobre suas considerações e, a partir delas, reformular nosso
modo de ser.
QUEM É A CRIANÇA?
A criança é um ser eterno
em evolução.
Ela não é um boneco ou um bichinho de estimação. Pa-
rece incrível ter de dizer isso, mas algumas pessoas estão tão
entretidas com seus filhos, a ponto de esquecer que eles não
foram criados para o seu deleite, mas para viverem sua própria
existência, de forma independente mesmo que sob tutela.
E preciso recordar quem somos e o que fazemos aqui e
refletir sobre isso. Nossos pais nos deram a oportunidade bioló-
gica de reencarnar para aprender e progredir. Fazemos o nosso
papel dando essa mesma possibilidade aos nossos filhos.
Os pais não são meros reprodutores, seu dever vai além:
é fundamental que participem ativamente da construção do ser
que receberam em seus braços. Não devem criá-los com mimos
5 3
AMÉRICO CANHOTO
ou destacar suas habilidades para exibi-los aos amigos e conhe-
cidos ou, ao contrário, escondê-los se não nasceram de acordo
com suas expectativas...
Faz-se necessário estudar nosso filho para compreendê-lo.
É importante analisar suas tendências, impulsos e comporta-
mento desde a vida uterina até onde for possível, sem intenção
de julgar, criticar ou controlar; além de colaborar para o de-
senvolvimento de suas potencialidades, ajudar a mudar carac-
terísticas inatas conforme colocamos em nosso livro A reforma
íntima começa no berço, "com paciência e muito amor".
Mesmo seres diferenciados como as crianças da nova ge-
ração sofrem a influência do meio em que são criadas. Tanto
podem ser bem-sucedidas quanto experimentar quedas fantás-
ticas. Quanto maior o potencial, claro que maior é o risco a que
nos expomos.
Ao nascer,
não somos páginas em branco.
Para os "normais", é difícil perceber que, ao nascer, tra-
zemos impulsos, tendências e predisposições inatas, algumas
muito marcantes, denominadas por alguns de índole e classifi-
cadas de boa ou ruim. Uma das funções da educação é ajudar a
criança a discernir sobre a própria índole e corrigir as tendên-
cias inadequadas.
Anote a espécie de comportamento de seus filhos. Faça
um esforço para registrar esse comportamento e analisar seu
54
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
desenvolvimento. Observe também o modo de agir de outras
crianças, evitando julgá-las ou dar palpites a seus pais, mesmo
quando solicitado. Como não estamos inseridos no seu con-
texto familiar, torna-se difícil e arriscado opinar sobre a vida
alheia: cuidemos de nossos próprios filhos.
A criança deve ser estudada o tempo todo.
Viver é educar-se, dia e noite. Cabe ao adulto estudar a
criança para ajudá-la a esboçar seu projeto de vida, ajustado às
suas necessidades evolutivas. A execução desse projeto e o seu
sucesso também dependem da ação dos pais. Quer queiramos,
quer não, somos seus mentores encarnados; em nenhuma
hipótese, podemos abandoná-los à própria sorte.
A maior parte das dificuldades existenciais
encontra sua origem nos problemas mal
resolvidos na época da infância.
Somos criaturas vivendo em permanente evolução. Ao
nascer, trazemos um conjunto de tendências e predisposições,
que vão nos proporcionar paz e felicidade, e outras, por sua vez,
nos causarão infelicidade e dor.
Desde a infância, precisamos nos educar para enfrentar o
prazer e a dor, que serão uma constante em nossas existências,
pois se trata de uma necessidade evolutiva, já que reencarnamos
num mundo de expiação e provas.
55
AMÉRICO CANHOTO
Por incrível que possa parecer, a educação formal não
contribui para vencermos as más tendências. Além dos im-
pulsos, tendências e predisposições que trazemos ao nascer, ou-
tros são incorporados, decorrentes do contato com a família e
a sociedade. Quantos casos de depressão, pânico, roubos, trai-
ções e mortes serão evitados quando a educação compreender
o estudo e a superação das tendências inatas? Os benefícios
serão incalculáveis para toda a humanidade...
A reforma íntima começa no berço.
Mudar algumas tendências inatas de uma criança bem
pequena é muito mais fácil e simples do que as de uma criança
maior ou de um adulto. Isso é mais do que lógico. Por exemplo,
como ajudar um bebê impaciente e mandão? Isso é possível re-
tardando seus desejos. Demore o máximo para satisfazer suas
vontades (não suas necessidades básicas) para que entenda
que não é "dono do mundo" e que nesta vida nada vai ser
conseguido no berro. Se os pais se dispuserem a tanto, devem
entender que a criança maior tem o direito de participar ati-
vamente dessa transformação; só discursar não adianta. Além
disso, os adultos devem compartilhar com ela sua própria ree-
ducação ou reforma íntima.
Pais e educadores ficam em polvorosa quando a criança
exige que essa transformação seja feita de acordo com seu modo
de entender as coisas, do seu jeito. As crianças da nova geração
não abrem mão de suas prerrogativas.
56
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
QUEM É O EDUCADOR?
Na escola da vida,
cada qual oferece o que possui.
Os pais são os educadores e os filhos os educandos. O
entendimento dessa questão, porém, amplia-se quando nos
conscientizamos de que somos todos espíritos em evolução:
aprendemos uns com os outros. No convívio com os filhos,
ensinamos e aprendemos de acordo com as circunstâncias e
necessidades.
Muitos pais, contudo, assumem a condição de "doutores
da lei", certos de que são verdadeiros mestres, cabendo aos filhos
seguir-lhes os passos. Outros cometem o desatino dos desatinos:
terceirizam a educação dos filhos, transferindo-a para insti-
tuições e pessoas ainda menos credenciadas que eles mesmos.
Por incrível que possa parecer, pais com pouca instrução mas
dotados de amor e boa vontade tornam-se educadores de qua-
lidade e outros, muito instruídos - em grande parte por como-
dismo ou omissão -, deixam a desejar no papel de educadores.
Os acontecimentos do dia-a-dia
são lições de vida. Nessa escola, o tempo todo,
somos educadores e educandos.
Pais de boa vontade são aqueles que ensinam a partir do
próprio exemplo. Dia desses, atendi em meu consultório um
57
AMÉRICO CANHOTO
adolescente, ali conduzido pelo pai. Uma raridade, pois quase
sempre é a mãe a levar os filhos ao médico.
Num determinado momento, o garoto foi questionado
pelo pai quanto a seu gosto musical: "Doutor, ele fica horas e
horas ouvindo música sem pé nem cabeça em alto volume e in-
comoda até os vizinhos". A resposta do jovem foi interessante.
Dirigiu seu olhar em minha direção e comentou: "Nunca meus
pais me ensinaram a ter bom gosto musical. Nem sei do que
eles gostam. Foi com meus amigos que aprendi a gostar dessas
músicas. Coloco o som no último volume para abafar a gritaria
deles com meus irmãos".
Acredito que, depois dessa consulta, alguma coisa mudou
no lar desse jovem. No mínimo, seus pais entenderam a neces-
sidade de partilhar com os filhos suas preferências musicais.
A criança também
é um educador.
O adulto deve aprender a interagir com a criança,
permutando ensinamentos; mas, para que isso se realize, é
preciso iniciar um diálogo construtivo. Diálogo construtivo?
Do que se trata? A criança deve ser ensinada a assumir seu
papel de educador perante as outras crianças, os adultos e os
próprios pais.
Como começar? Pelo básico, permita que a criança fale,
não a interrompa nem tente convencê-la com meros discursos.
Antes de tudo, não a interrompa, ouça o que tem a dizer.
58
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Trate-a de igual para igual. Use de argumentos e não tente
persuadi-la, pressionando-a para que faça o que você acha
correto. Explique o que considera bom e útil para ela. Faça-se
entender com brandura, não eleve seu tom de voz e, acima de
tudo, seja paciente.
As crianças da nova geração
são educadores natos.
Muitas são donas de uma capacidade de discernir e
de um bom senso que supera o de muitos adultos. Seus pais
devem acatar suas ponderações, elogiá-las e verbalizar sua
gratidão - seja na vida em família, seja na escola, seja na
relação social.
Essa atitude pode aguçar ainda mais sua intuição e fazer
aflorar uma sabedoria milenar. As que nos incomodam com
perguntas, exigindo explicações lógicas, e por vezes detalhadas,
e não se convencem quando damos respostas superficiais são
pedras preciosas que recebemos da divina providência, a qual
nos incumbiu de lapidá-las com amor.
QUEM É O EDUCANDO?
Todos nós somos educandos...
O período da infância do ser humano é o maior dentre
todos os mamíferos do planeta. A criança é uma verdadeira
59
AMÉRICO CANHOTO
"esponja", capaz de absorver as influências do meio em que
se desenvolve. Dessa forma, a maior parte do padrão atual de
atitudes dos adultos é um aprendizado recebido no período
da infância.
Os pais que desejem assumir a condição de verdadeiros
educadores devem posicionar-se junto de seus filhos não como
sábios e donos da verdade, mas como modestos aprendizes.
A RESPONSABILIDADE DA MÍDIA
Educar é interagir.
O comportamento dos nossos filhos pode influenciar
outras crianças. Devemos conscientizá-los disso, destacando a
importância de agirem corretamente, sempre com a intenção
voltada para o bem comum.
Cumpre-nos alertá-los de que somos observados por
olhos invisíveis, atentos aos nossos atos. É incontável o núme-
ro de mentes que captam nossos pensamentos, uma vez que
estamos conectados espiritualmente uns aos outros em rede,
on-line... Influenciamos e somos influenciados o tempo todo,
um processo que vai muito além da nossa imaginação.
Paulo de Tarso nos alertou nesse sentido: "Portanto,
estamos rodeados dessa grande nuvem de testemunhas. Dei-
xemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se
agarra em nós. Corramos com perseverança na corrida, man-
tendo os olhos fixos em Jesus, que tanto incentivou a fé. Em
60
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
troca da alegria que lhe era proposta, ele se submeteu à cruz,
e se assentou à direita do trono de Deus"*.Vale dizer, é preciso
vigiar nossas atitudes, pois somos responsáveis pela influência
que viermos a causar aos outros.
QUAL É O MÉTODO PEDAGÓGICO
MAIS ADEQUADO?
A criança necessita fazer as coisas
do seu jeito para aprender.
Na relação entre pais e filhos, um método pedagógico
essencial é o exemplo. Mil palavras não valem uma atitude.
Mas milhares de palavras e exemplos não rendem os frutos da
própria experiência. Especialmente para as crianças com as
particularidades da nova geração, isso é vital. Elas têm de fazer
as coisas do jeito delas para aprender.
O papel do adulto inteligente é criar-lhes limites e per-
mitir que o aprendizado prossiga sem interferências autoritárias.
Porque vivemos de forma descuidada, o "método pedagógico"
mais usado é o da contradição: faça o que eu digo, mas não faça
o que eu faço... Se o que observamos no dia-a-dia é um grande
número de mal-educados em todos os sentidos, é cada vez
mais evidente que os recursos pedagógicos da atualidade não
são eficientes.
* Carta aos hebreus, 12: 1, 2. (N.E.)
61
AMÉRICO CANHOTO
É urgente que se permita
à criança experimentar os frutos
das próprias escolhas.
Na dúvida sobre o que fazer, deixe o acontecimento fluir.
Quando não temos domínio sobre algo é melhor não interferir.
Apenas é preciso observar, analisar, para agir quando estivermos
seguros de nossas ações. Ofereçamos à criança o que temos de
melhor: compreensão, carinho, autoridade moral, honestidade
de propósitos, humildade, cuidados e respeito. Com certeza
a criança aprenderá que deve agir assim em reciprocidade e
quando agimos com tolerância e amor, o retorno é maravilhoso,
especialmente entre as crianças da nova geração, que passam a
desenvolver seu potencial com maior desenvoltura.
Somos o modelo.
Como pais, devemos nos matricular na "Universidade
da Reestruturação da Personalidade". Para que nos tornemos
bons exemplos ou modelos, é preciso colocar sempre o foco
de nossa consciência no bem. Nossos filhos aprenderão a fazer
o mesmo.
Ao enaltecermos e valorizarmos suas qualidades, eles vão
copiar nossa forma de agir. Se analisarmos com honestidade de
propósito as qualidades que lhes faltam, é possível ajudá-los a
conquistá-las. Evitando destacar seus defeitos - atitude que só
vai contribuir para reforçá-los ainda mais -, seremos capazes
62
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
de colaborar para que suas qualidades se evidenciem, incenti-
vando-os a prosseguir no seu aprendizado.
A QUEM SE DESTINA A EDUCAÇÃO?
Somente o humano terráqueo
pode ser educado?
A educação cósmica destina-se a todos os habitantes do
universo, sem distinção, conforme fica bem claro na Codifi-
cação por meio do livro A Gênese. Quem dentre nós é um ET?
Tanto quem não deseja aprender quanto aquele que ainda não
despertou para a necessidade de educar-se serão igualmente
beneficiados.
Algumas pessoas se educam segundo a própria vontade
e da forma que escolheram, outras são educadas compulsoria-
mente segundo a Lei de Ação e Reação. Como diz o ditado,
"se não for pelo amor, será pela dor". A opção da nova ge-
ração, quando lhe permitem, é aprender usando a lógica e a
experimentação: não gostam de modelos teóricos, regimentos
e enquadramentos.
A educação pode ser tanto passiva quanto ativa.
A educação pode ser aplicada de forma ativa ou passiva.
De forma passiva, nós nos educamos desenvolvendo a inteli-
gência e a maturidade psicológica para evitar o sofrimento e a
63
AMÉRICO CANHOTO
dor. Na forma ativa de educar-se, aprendemos por opção pró-
pria, pelo desejo espontâneo de evoluir.
Cabe ao candidato a mestre - pais, educadores, adultos
de maneira geral - provar a seus alunos que é mais fácil, prático
e inteligente mudar por opção própria do que sob a pressão da
Lei de Causa e Efeito. Aprimorar esse padrão de atitude vai nos
qualificar para o papel de educadores.
6 4
Educar também é permitir
à criança descobrir seus
próprios limites.
PARTE 2
RELAÇÃO
FAMILIAR ENVOLVE
COMPROMISSO
O PAPEL DA FAMÍLIA
A base d a civilização está fixada num dos microcosmos
mais importantes da evolução: a família. Sua eficácia ou não
como agente educador depende da forma como foi constituída.
Quando estudamos a educação, não podemos deixar de
dar um destaque especial à família. É entre nossos familiares,
no período da infância, que formamos nossa personalidade e
fixamos padrões de comportamento que vão nos acompanhar
por toda a existência.
De muitas maneiras, espelhamos a qualidade
das pessoas que nos são mais próximas.
Para compreender melhor a importância da vida familiar
na construção da personalidade da criança, imaginemos, por
exemplo, que ela seja um computador. Seu inconsciente, que
seria o disco rígido, é o arquivo de registro de antigas expe-
riências. O subconsciente é a memória periférica, o que está
sendo executado no momento, que tanto pode ser salvo no
arquivo principal ou ir para a lixeira. O foco da consciência
ou do consciente é a tela. Imaginemos que todos os periféricos
estão ligados.
Na criança, comparada grosso modo a um computador,
um equipamento que funciona tal e qual um scanner ligado 24
horas por dia é o subconsciente, o que faz com que ela capte
tudo o que se passa a seu redor. Esse mecanismo de captação,
6 7
AMÉRICO CANHOTO
tão operante na criança, interfere e molda até o padrão dos
seus caracteres físicos. Basta observar como as crianças ado-
tadas, desde muito pequenas assemelham-se a seus pais adotivos,
mesmo quando são de outra etnia.
Claro que a estrutura familiar ainda deixa muito a de-
sejar no cumprimento de tão importante papel - a formação
da criança -, especialmente no que se refere aos aspectos que
envolvem a ética e a moral segundo as leis da evolução. Obser-
vamos vários fatores limitadores dessa função: nossas relações
ainda são percebidas e sentidas segundo uma relação limitada
à materialidade. O conhecimento das leis de evolução, além
de precário, é pouco praticado na vida em família, restringindo
sua influência na formação do caráter da criança.
"Já cumpri meu papel de pai, meus filhos já estão criados
e formados."
"Desisto, meu filho não tem jeito..."
Ouvimos afirmações como essas todos os dias ou somos
nós mesmos que as pronunciamos. Precisamos entender que,
nesta existência, um filho será sempre nosso filho e que não
podemos renegar as responsabilidades que temos para com ele,
nunca, daí não importar a idade cronológica dele.
Nas bandas deste universo, a família é a oficina que a
divina providência constituiu para nos conduzir, passo a passo,
existência após outra, rumo à felicidade e à perfeição.
A relação entre pais e filhos é um compromisso
que se estende além do tempo e do espaço.
68
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Não importa a idade de nossos filhos, muito menos onde
se encontrem. Nesta existência, na condição de pais, estamos
incumbidos de auxiliar seu desenvolvimento. Somos, por assim
dizer, seus mentores encarnados, anjos guardiões, guias, como
queiram. Não podemos nos isentar dessa responsabilidade.
Essa relação é um poderoso instrumento, capaz de nos
ajudar, pais e filhos, a desenvolver a capacidade de amar. Se
nos cabe educar um filho problemático, não vamos desanimar
diante das dificuldades e muito menos renegar nosso compro-
misso. Se o que buscamos são informações, métodos e roteiros
que nos auxiliem nessa tarefa, as informações expostas neste
livro serão de grande utilidade.
Fique bem claro que não disponho de fórmulas mágicas
ou panaceias capazes de resolver quaisquer problemas. Desejo
partilhar a experiência de uma vida dedicada à família e o farei
com isenção e transparência, usando de todos os recursos ao
meu alcance, sem falsear com a verdade.
A maioria das pessoas
está colecionando pequenos descuidos
e ainda não sentiu as conseqüências
de suas atitudes.
Habituados a não parar para pensar e questionar, come-
temos todos os dias pequenos descuidos que vão se avolu-
mando... Atualmente, nós nos descuidamos da educação de
nossos filhos para mais tarde enfrentar problemas angustiantes.
69
AMÉRICO CANHOTO
O descaso de hoje pode causar sérios e dolorosos pesadelos que
nem médicos ou terapeutas renomados poderão resolver de
pronto. Vale, portanto, empenhar o melhor de nós em prol de
nossos filhos: esta é nossa missão!
MUDANÇA DE DNA
Modernas teorias provam que o meio ambiente afeta
profundamente a membrana das células, alterando a estrutura
do nosso DNA. No entanto, antes mesmo de receber essa in-
formação, já cansamos de comprová-la no dia-a-dia.
No consultório, atendo várias famílias que têm filhos
adotados, os quais absorvem, por assim dizer, ao longo dos
anos, o fenótipo dos pais, ou seja, tornam-se muito parecidos
com eles em todos os sentidos.
Depois da adoção, conhecidos nossos tiveram filhos con-
sanguíneos e percebe-se, embora isso pareça incrível, que os
adotados são até mais parecidos com os pais... Casais, que estão
juntos há muitos anos, por vezes aparentam tantas semelhanças
que até parecem irmãos consanguíneos; se observamos fotogra-
fias antigas dessas pessoas, veremos que, no passado, as seme-
lhanças não existiam.
O QUE É A FAMÍLIA?
Quando influenciamos alguém a tomar
uma atitude, criamos compromissos para o futuro.
70
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Do conjunto de atitudes do passado,
originaram-se as famílias do presente.
Não fazemos parte de nossa família por acaso. Essa filia-
ção não é um mero acidente de percurso: faz parte da lei da
interatividade.
Estamos juntos daqueles com quem nos compete, nesta
existência, conviver para nos reeducar, aprender ou até mesmo
realizar alguma tarefa em conjunto. "O que fiz para nascer nesta
família?" é uma pergunta pertinente: estamos com aqueles que
serão nossos professores nesta existência, para os quais exerce-
remos o mesmo papel, ou estaremos ombreando com amigos
para executar projetos construtivos que foram combinados no
plano espiritual.
Relação familiar envolve compromisso.
Os integrantes de uma família sentem-se, intuitivamente,
mais ou menos compromissados uns com os outros. Tanto mais
forte será o vínculo familiar quanto maior a capacidade dos
seus integrantes de responsabilizar-se uns pelos outros. A união
familiar depende da condição evolutiva dos envolvidos. Pode
ser correta, saudável, alegre e feliz ou inadequada, doentia
e sofredora.
As crianças progressistas são mais resolvidas e indepen-
dentes na relação familiar. Sentem a importância de fazer parte
desse grupo, daí precisam sentir apoio na companhia de seus
AMÉRICO CANHOTO
familiares; pois elas fazem tudo o que está a seu alcance para
que a tarefa combinada seja realizada. Não perdem tempo,
auxiliam e socorrem aqueles que estão do seu lado, amparam
de coração, sem, no entanto, envolver-se emocionalmente no
problema ou na dor do próximo. Sabem que fazem parte do
grupamento familiar no qual se encontram por razões trans-
cendentais. Aceitam essa realidade - embora nem sempre sejam
tão bem-aceitos por seus familiares.
A formação da família pode ser planejada?
Sem dúvida, pois para isso estamos neste mundo. Estamos
aptos para tal empreitada. Um dia, em algum lugar do passado,
nós nos tornamos capazes de planejar, até certo ponto, a cons-
tituição familiar.
Claro que a execução dessa tarefa depende da qualidade
dos relacionamentos que construímos no passado, do grau de
maturidade daqueles que estão envolvidos conosco e da ca-
pacitação que desenvolvemos. Ainda não temos consciência
plena dessa responsabilidade nem do que advém de nossa inse-
gurança em relação à formação da família.
Escolhidos aqueles que vão participar do nosso
grupo, não é possível romper o vínculo.
Como diz a música: "Não adianta querer me abandonar,
pois vou te encontrar por aí". Não adianta fugir, abandonar, se
72
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
separar. Um dia, retomaremos ao convívio daqueles que hou-
vemos por bem nos separar.
Boa parte dos grupos familiares de hoje - envolvidos em
dores, dificuldades e sofrimentos - são os retardatários de on-
tem, aqueles que fugiram dos compromissos assumidos, ima-
ginando-se liberados de um período de convivência que não
satisfazia suas expectativas.
Para a maioria das pessoas, consideradas "normais", não
cumprir com a palavra é comum. O mesmo não ocorre com a
nova geração, que não entende nem aceita a negação de res-
ponsabilidades, o uso de subterfúgios para escapar de compro-
missos assumidos. Ao contrário, cobra fidelidade daqueles que
a cercam e, por sua vez, não quebra comprometimentos.
Quando enfrentam embargos na caminhada, são bem
francos: revelam suas dificuldades, prontos a negociar. Costumam
ser fiéis a sentimentos, interessados no bem-estar das pessoas
que fazem parte de seu universo afetivo. São livros abertos, não
conseguem camuflar seu estado de alma positivo ou negativo.
A criança da nova geração apresenta a marcante carac-
terística de fazer, sem esforço, espontaneamente, uma leitura
exata dos sentimentos e desejos das pessoas. Se é criada num
ambiente de hipocrisia, logo passará a manipular as pessoas
sem manifestar sentimento de culpa: simplesmente entra no
jogo para ganhar.
Com facilidade, a criança da nova geração
aprende a "dançar conforme a música".
73
AMÉRICO CANHOTO
Na dança da vida, ela é uma excelente dançarina, seja
qual for o ritmo imposto a ela. Trocando em miúdos: se perceber
que é impossível usar seu senso ético-moral e sua aprimorada
visão de justiça, ela vai atuar segundo as regras e valores do
grupo em que está inserida.
Por uma questão de sobrevivência, vai se adequar ao
meio, o que não significa a perda de suas conquistas espirituais.
Ao enfrentar esse tipo de situação, ela sente um forte impulso
de deixar a vida física, um risco de desastre iminente. Se uma
criança da nova geração disser que está cansada da vida, fique
de olho "para mantê-la na aula até soar o sinal"...
A FORMA COMO A FAMÍLIA
É CONSTITUÍDA
Podemos dizer que uma parte das famílias da atualidade for-
mou-se segundo a lei de atração e sintonia sob a batuta da Lei de
Ação e Reação. Pois ela é a força motriz que ainda nos aglutina.
Nós nos aproximamos de nossos familiares graças aos compro-
metimentos do passado, originados geralmente por nossos atos
impensados e transgressões cometidas contra as leis divinas.
Algumas, por merecimento espiritual de seus integrantes
e amparadas por benfeitores do mundo maior, demonstram co-
locar em prática um planejamento que se esboçou do outro lado
da vida. São auxiliadas por aqueles que já fizeram parte delas e
que, agora em melhor condição evolutiva, estão em condição de
ampará-las espiritualmente.
74
Para educar uma criança,
é fundamental não só
termos consciência de
quem somos, mas também
capacidade de nos
responsabilizar por nós
mesmos, pelo nosso corpo,
pelas nossas escolhas.
PLANEJAR E
GERENCIAR A
VIDA EM FAMÍLIA É
UMA CONQUISTA
ESPIRITUAL
QUALIDADE DAS RELAÇÕES
NA VIDA EM FAMÍLIA
E inegável que até certo ponto somos fruto do meio
ambiente em que nascemos e fomos criados, o que é compro-
vado por recentes descobertas da ciência; o cientista Bruce H.
Lipton deixa isso bem claro no seu livro A biologia da crença.
Os nascidos em famílias mais bem planejadas e administradas
têm mais chances e oportunidades de receber uma educação
de melhor qualidade, mas esse não é o caso da maioria que
habita o nosso planeta.
Em que ponto estamos na escala evolutiva?
Entre os animais, a relação entre pais e suas crias sempre
obedece ao padrão que predomina na espécie. Além do ins-
tinto, o mecanismo do relacionamento familiar entre os homens
compreende a ação das emoções, a manifestação do amor ou
do egoísmo.
Existe amor entre pais e filhos quando há responsabili-
dade e respeito. O egoísmo prevalece quando buscamos satis-
fazer interesses ou desejamos controlar o próximo. A criança
da nova geração, por exemplo, adora ser cuidada e necessita,
como todos, de amor, mas não suporta os excessos da afetividade
em que a soberania emocional não exista.
Na escala evolutiva, estamos no estágio da experimen-
tação da razão e do sentimento. Ainda incapazes de controlar
77
AMÉRICO CANHOTO
nossos sentimentos, confundimos amor com a posse do ser
amado e desperdiçamos, muitas vezes, uma convivência que,
de outra forma, seria muito produtiva e gratificante.
Em nossas relações familiares,
ainda predomina a desigualdade
no trato afetivo.
Entre nós, existem aqueles que nos causam sensações
desconfortáveis. Essa sensação explica-se pelo entendimento
da sintonia e afinidades genéticas e energéticas.
A qualidade da relação familiar pode ser de simpatia ou
de antipatia, geradas no passado e no presente. A vida familiar,
quando sadia e harmoniosa, transforma a antipatia em sim-
patia e amplia o amor e o entendimento que já existem entre
aqueles que são afins.
A criança da nova geração, sem que ninguém peça, é
capaz de cuidar de seus irmãos, de pessoas idosas e de todas
aquelas que necessitem de cuidados especiais. Presta essa ajuda
com absoluta naturalidade e não gosta de ser elogiada por isso.
Manifesta estranheza quando percebe que as pessoas não agem
assim, espontaneamente.
Na condição de facilitadoras de nossa passagem para o
mundo de regeneração, as crianças da nova geração não têm
dívidas espirituais para com seus familiares, nem vieram a
este mundo para expiar culpas do passado. Estão, na verdade,
provando sua capacidade de servir ao próximo. Servem de
78
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
mediadoras entre seus familiares e contribuem para salvar uniões
conjugais e aproximar a parentela.
Reconheço que tenho problemas familiares.
O que devo fazer?
Quando as relações familiares não andam bem, é ne-
cessário humildade para reconhecer isso e buscar ajuda. As
crianças progressistas são excelentes conselheiras e ajudam
a restabelecer a harmonia conjugal e familiar. Precocemente,
manifestam com naturalidade sugestões de grande valor. Obser-
vadoras e intuitivas, identificam com clareza os problemas que
estão minando a união familiar e sugerem medidas práticas
que podem evitar o pior.
Em sintonia com seus pais e irmãos, elas auxiliam pra-
zerosamente, sem cobrar gratidão ou gratificações por sua
intervenção. Com a ajuda deles e daqueles que se dispuserem
a nos auxiliar, devemos planejar o gerenciamento da vida
em comum.
Se não for possível eliminar todos os pontos de atrito,
certamente ficará ao nosso alcance minorar essas ocorrências.
Uma família que faliu em existência anterior e que se reúne em
nova encarnação tem grandes probabilidades de ser feliz, não
obstante as dificuldades acumuladas a enfrentar.
Planejar e gerenciar a vida em família
é uma conquista do homem. 79
AMÉRICO CANHOTO
O animal irracional manifesta o impulso instintivo da ma-
ternidade e da paternidade, inerentes à perpetuação da espécie.
O ser humano acrescenta ao instinto, presente em sua constitui-
ção, a emoção, a inteligência e a conseqüência de suas escolhas.
Quem deseja de fato "humanizar-se" e libertar-se dos
instintos primários deve conscientizar-se das responsabilidades
que nos cabem quando geramos um filho. O papel de pais bio-
lógicos ou adotivos é valiosa oportunidade de crescimento es-
piritual, desde que o exerçamos de acordo com as prerrogativas
que nos foram delegadas na espiritualidade ou que decidimos
no momento presente - oportunidades de adoção surgem e
quem quer as aproveita.
SEPARAÇÃO E ABANDONO
Muitas pessoas se acham merecedoras de toda a felici-
dade do mundo e, para alcançá-la, fazem o próximo sofrer sob
o jugo dos seus desejos. Um dia, podem sofrer a conseqüência
do seu egoísmo, pois reencarnarão para vivenciar experiências
junto daqueles que manipularam no passado. O resultado dessas
uniões dependerá do livre-arbítrio na ocasião.
A cada dia, aumenta o número de separações: famílias
problemáticas se desfazem por toda parte. São uniões estabe-
lecidas ao sabor das paixões, cujos integrantes se frustram
diante das dificuldades que são incapazes de enfrentar porque
não amadureceram seu entendimento do que seja, realmente,
um grupamento familiar. Esperam daqueles que os cercam a
80
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
satisfação de seus desejos egoístas e quando suas expectativas
são frustradas rompem os compromissos.
A nova geração jamais abandona seus filhos,
mesmo que tenha sido desamparada
no período da infância.
Ela manifesta um senso de responsabilidade muito desen-
volvido. Valoriza a união familiar e faz o que está a seu alcance
para sustentá-la. Mesmo quando separada do cônjuge, não se
omite diante dos deveres assumidos. Se porventura foi abando-
nada no período da infância ou sofreu o descaso dos pais, não
guarda mágoas ou rancores daqueles que a privaram de uma vida
melhor. Supera o sofrimento relegando-o ao esquecimento.
São pais devotados, generosos, conscientes de seus deveres
e obrigações, exercidas com prazer. Vibram com a felicidade dos
filhos, mas não se prendem a eles nem se permitem aprisionar-se
nos excessos da afetividade.
81
PARTE 4 OS PAIS NÃO
SÃO RESPONSÁVEIS
PELOS FILHOS, ESTÃO
RESPONSÁVEIS
CAUSAS DA FALÊNCIA DA FAMÍLIA
Formar uma família é um empreendimento
como outro qualquer.
Seadotarmosuma visão empresarial da família,
conscientes do nosso compromisso com a Lei de Ação e Reação,
a possibilidade de sucesso do nosso empreendimento familiar
será ainda maior. O lar assemelha-se a uma companhia que
exige administração, planejamento e gerenciamento. Tal qual
uma empresa, não pode ser entregue ao acaso ou a mãos iná-
beis, caso em que estará condenada à falência.
Quando uma empresa "quebra", todos aqueles que fazem
parte dela sofrem as conseqüências. Quando uma família nau-
fraga no mar da vida, contribui para aumentar o número de de-
pressivos e dos que se drogam para dormir ou para acordar, além
do vício do tabagismo, do alcoolismo e do sexo sem amor.
As maiores vítimas desse desastre são os órfãos de pais vivos,
mas separados, que muitas vezes sofrem o fogo cruzado disparado
por seus familiares... Esse tipo de ambiente, deprimente e opres-
sivo, é muito prejudicial ao desenvolvimento da nova geração.
As empresas que planejam o empreendimento antes de
iniciar suas atividades e que, diante das dificuldades, buscam se
ajustar aos desafios quase sempre alcançam um relativo sucesso.
E comum, muitas vezes, saltarem do prejuízo para a lucrati-
vidade. Fazem por merecer o lucro que obtêm, fruto de um
trabalho de equipe.
83
AMÉRICO CANHOTO
Por outro lado, as famílias estruturadas que se adaptam
diante das dificuldades e as enfrentam com disposição ganham
a paz, a harmonia, a relativa felicidade, a saúde, o crescimento
espiritual dos seus integrantes e a melhoria do padrão de matu-
ridade psicológica de todos bem como a continuidade da vida
em comum.
Como se inicia a maioria
dos empreendimentos familiares?
A força de atração básica é o magnetismo da energia
sexual ou o instinto de perpetuação da espécie. A pressão social
também exerce uma ação considerável na opção de formação
de uma família, além do medo de ficar só, ser conhecido como
uma pessoa problemática, solitária e frustrada. Tudo indica
que a maioria das famílias inicia-se por essas razões.
A fase de incubação da família é o namoro e o noivado. Na
atualidade, os problemas costumam aparecer já nessa etapa,
quando fazemos nossas escolhas ao acaso, ao sabor de paixões
passageiras. Até poucos anos atrás, as crises mais fortes e ca-
pazes de acabar com a relação surgiam por volta dos cinco anos
de relacionamento.
Não estou sugerindo que sejamos frios e calculistas na
escolha do parceiro com o qual iremos dividir nossas res-
ponsabilidades familiares, mas que busquemos analisar quais
serão nossas possibilidades de sucesso ao lado desta ou da-
quela pessoa.
84
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Raramente, porém, nessa época da vida, nos aproximamos
para elaborar planos ou desenvolver metas de vida conjugal e
de como criar os filhos, se a opção for tê-los. Nossos encontros
visam apenas usufruir de momentos prazerosos, quando o mais
adequado seria planejar o empreendimento familiar nessa fase.
Quantas dores e desilusões serão poupadas se discutirmos o
dia de amanhã embasados na realidade, sem perder de vista as
necessidades práticas de uma vida em comum.
É necessário o estudo lógico e racional das possíveis difi-
culdades que iremos enfrentar e instituir um programa de metas
comuns para sanar contratempos e evitar problemas antes que
surjam no horizonte de nossas vidas.
Vários fatores contribuem para que
a família não se consolide ou não progrida
segundo nossas expectativas.
Alguns fatores, isolados ou conjugados a outros, podem
frustrar o desejo de encontrar a felicidade familiar. Vejamos
alguns deles:
• Falta de clareza nos objetivos do casal, que não tem
certeza dos motivos pelos quais se atraíram, da ex-
pectativa desse casamento e muito menos do desejo
de trabalhar em equipe para esse empreendimento.
• Ausência de maturidade psicológica (mental, afetiva,
emocional) do casal.
85
AMÉRICO CANHOTO
• Visão romanceada do que seja a vida familiar: depositar
no cônjuge expectativas de satisfação de necessidades
pessoais.
• Falta de transparência e dissimulação da personalidade.
• Pouca honestidade de propósitos e falta de diálogo.
• Camuflagem de interesses pessoais.
• Interferências externas: rota de colisão entre familiares.
• Excessiva dependência emocional e financeira da
família.
MANEIRA DE GERENCIAR j
A cada dia que passa, a aceleração dos acontecimentos
expõe de maneira nua e crua nossas dificuldades íntimas e
desgasta relacionamentos pouco sólidos.
Quando estudamos as relações familiares, esse fato
evidencia-se. No passado não muito distante, as atribuições
de cada um eram mais ou menos definidas. Direitos e obri-
gações eram mais delineados, mas nem sempre justos, porém
bem mais definidos. O papel que cada um desempenhava
em família era bem mais claro, o que facilitava a cobrança
de responsabilidades e a suposta eficiência da organização
familiar.
Nos dias de hoje, a família sofre uma crise global. Na
maior parte dos países onde a cultura do consumo prevalece,
o papel do homem é de mero provedor de recursos para a
manutenção do lar. A mulher, em relação ao homem, é mais
86
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
sobrecarregada por tarefas e comprometimentos que, muitas
vezes, a impedem de exercer plenamente o papel de mãe.
Momento de transição
Muitas foram as aquisições feitas no campo dos direitos
pessoais e da relação familiar com ênfase nos direitos da mulher
e da criança. Vivemos numa época de rápidas transformações,
mas nossa capacidade de mudar com rapidez tem limites es-
treitos; isso nos deixa um pouco perdidos.
Se os papéis familiares estão embaralhados, basta rede-
fini-los para que cada qual cumpra com seus deveres e exerça
seus direitos. Acrescente-se que os valores sociais hoje mudam
muito depressa. Muitas pessoas estão desorientadas e não sabem
como se comportar diante das mudanças. Resultado desse caó-
tico estado de coisas: as crianças apresentam sérios problemas
psicológicos e de comportamento.
Para mudar esse panorama, peça ajuda às crianças da
nova geração de sua família. Felizes daqueles que têm uma
criança progressista reconhecida como tal, com permissão dos
pais para opinar e agir para melhorar a vida familiar.
AUSÊNCIA DA MÃE
As mães estão cada vez mais afastadas dos filhos. Essa
convivência, tão necessária para a harmonia da família, está
cada vez mais escassa. Está provado que a ausência da mãe
87
AMÉRICO CANHOTO
é um mal ainda maior do que a do pai no dia-a-dia da família.
Muitas mulheres murmuram: "Filhos? Seria melhor não tê-los".
Cabe perguntar: e os compromissos assumidos na espirituali-
dade? Adiar o pagamento de dívidas implica acumular novos
débitos...
HERANÇA EDUCACIONAL
Tal pai, tal filho...
Além da instrução básica, faz parte da educação - para
aqueles que têm acesso a ela - a cultura geral, as noções de
etiqueta e de elegância. Predomina, porém, o conceito de boa
educação baseado no "verniz social": pessoas são elogiadas
como bem-educadas se usam o tom de voz correto, dizem
bom-dia, boa-tarde, sorriem, escutam os outros com atenção
etc. Pouca atenção prestamos na postura ético-moral das pes-
soas nas atividades do dia-a-dia; como disse o Mestre, a árvore
se conhece pelos frutos*.
Mesmo assim, a todo instante, nós nos deparamos com
adultos bem-nutridos e instruídos cujo comportamento deixa
muito a desejar: desacatam as pessoas, empurram-nas em filas,
metem-se na conversa dos outros, não respeitam as leis de
trânsito e muito menos as normas e os regulamentos em geral.
Com quem aprenderam a se comportar assim?
* Mateus, 12: 33. (N.E.)
88
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
A nova geração não aceita esse tipo de comportamento e
como sempre diz o que pensa e sente é malvista e tratada como
criança mal-educada e problemática. Esse é um dos motivos
que a leva a isolar-se com certa freqüência ou manifestar com-
portamento extravagante se comparada com as normais.
Boa educação ou falta dela
é fruto de aprendizado.
A criança incorpora o que aprendeu na convivência com
os adultos de sua família mais facilmente do que o que leu em
livros ou em sala de aula. Ela assimila, deste modo, a falta de
educação de pais que falam palavrões, agridem e menosprezam
os outros e tentam sempre impor, não importa de que forma,
sua vontade. Mentem, subornam, maldizem. É claro que a edu-
cação da rua ou do meio social (relações sociais, TV e mídia)
influencia e muito, principalmente aqueles cujos pais ou mães
são ausentes.
No ambiente daqueles que trabalham na área da saúde, a
falta de educação das pessoas é mais do que evidente. O con-
vênio médico - uma espécie de "revendedor" da saúde - al-
terou de vez a relação entre médico e paciente, mas teve seu lado
educativo: nivelou as classes sociais, já que todos dão ao médico
o mesmo ganho. O descontentamento com essa instituição - o
plano de saúde - é generalizado, e muitas vezes dirigido, injusta-
mente, àqueles que se encarregam de recepcionar os pacientes,
sobre os quais se descarregam as insatisfações acumuladas.
89
AMÉRICO CANHOTO
EDUCAÇÃO ÍNTIMA PRECÁRIA
Nós nos comprazemos em imaginar que nossa personali-
dade é herdada dos pais e que nosso caráter é imutável. Com
freqüência, ouvimos ou comentamos: "Eu sou assim mesmo, o
que fazer?"; "Nasci assim"; "Sou, mas quem não é?"; "Ser bom
e honesto para quê?".
Num mundo onde os espertos estão cada vez mais ricos e
poderosos, a salvo da justiça dos homens, esse questionamento
é compreensível, mas não nossa adesão à maioria, que se deixa
corromper com certa facilidade, pois está comprometida com
suas necessidades mais imediatas. Na busca desenfreada pelo
poder, pela riqueza e pelo prestígio, se esse for nosso caso,
estamos influenciando aqueles que são nossos filhos, que vão
repetir os mesmos padrões de comportamento assim que atin-
girem a fase adulta. Estamos criando hoje os egoístas e até cor-
ruptos e corruptores de amanhã...
A criança que se desenvolve numa família onde as pessoas
apenas se educam sob a ação do sofrimento também será uma
forte candidata a fazer o mesmo. Sem parâmetros, poderá mani-
festar desde jovem a falta de responsabilidade e não amadurecer
emocionalmente, pois irá culpar os outros pelas conseqüências e
dissabores que se originarem de sua própria conduta. E, o que é
ainda pior, tenderá a repassar esse padrão de comportamento
aos filhos, desencadeando um processo que não tem fim...
"É isto que você aprende na escola: palavrão", dizem
alguns pais, quando escutam deles palavras inconvenientes.
90
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
É mais provável que tenha aprendido o palavrão com o pai ou
a mãe, nos engarrafamentos de trânsito, em seus comentários
sobre parentes ou governantes. Se essa criança for progressista,
talvez responda: "Não foi com o professor que aprendi esse pa-
lavrão. Foi com você!".
MATURIDADE DOS FAMILIARES
Quer queiramos, quer não, interferimos na vida do pró-
ximo para beneficiá-lo ou prejudicá-lo. Na vida em família, in-
fluenciamos muito mais do que imaginamos.
A pouca maturidade que se revela em nossas atitudes
irradia-se por meio de pensamentos desorientados, afeta a atmos-
fera fluídica do nosso lar e contribui, decisivamente, para pre-
judicar a todos, indistintamente.
Poluímos o mundo em vez de contribuir para saneá-lo dos
males que estão causando tantos prejuízos. Está ao nosso alcance
reverter esse quadro, usar nosso potencial para o bem-estar da
nossa família, a partir da qual vamos melhorar o mundo.
A imaturidade também pode
ser aprendida?
As crianças da nova geração nascem vacinadas contra a
imaturidade cognitiva, afetiva, emocional e social. Se prestar-
mos mais atenção em seu comportamento, perceberemos que
é possível apressar nosso amadurecimento, imitando-as. Viver
91
AMÉRICO CANHOTO
novas experiências é o caminho que nos conduz a um estado
adequado de maturidade.
Essas crianças buscam experiência. Querem e necessitam
da prática, não se acomodam na contemplação da teoria. In-
teressam-se por saber como isso ou aquilo funciona e, se for
preciso, desmontam um equipamento para conhecer seu meca-
nismo. Logo em seguida, tentam fazê-lo funcionar...
Ao presenciar cenas como essa, muitos pais chamam os
filhos de destruidores e, por alguma morosidade em pensar, de-
sequilibram-se emocionalmente e agem em descontrole, reve-
lando sua falta de preparo para educar.
Pais imaturos ensinam os filhos a fugir de situações que
os ajudariam a obter melhor discernimento, a partir de uma
análise a respeito, tornando-se assim pessoas com mais matu-
ridade em todos os aspectos. Transmitem o medo e a preguiça
de pensar e de agir e assim atemorizam os filhos, que se retraem
diante da vida.
Se esse for nosso caso, é hora de despertar. Ao agir assim,
impedimos o progresso daqueles que recebemos como discípulos.
Que mestre seremos se impedirmos nossos filhos de fazerem
suas próprias descobertas? Devemos, ao contrário, incentivar
neles a busca pela perfeição e impulsioná-los na direção de seus
ideais. Se eles não os tiverem, sejamos nós seus auxiliares na
busca de metas e objetivos.
Superproteção também é uma forma
de impedir a maturidade.
92
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Um dos pequenos descuidos - mas também causadores
de sérias conseqüências -, na vida em família, é a superproteção.
0 excesso de cuidados impede que a criança experimente e
seja capaz de avaliar cada experiência de modo a selecionar o
que é e o que não é adequado.
Em especial, no caso das crianças da nova geração, a
superproteção é um sério prejuízo ao desenvolvimento de sua
personalidade. Poderá causar desvios de conduta que vão pre-
judicar a família e, conseqüentemente, a sociedade.
A família é uma escola de
desenvolvimento de maturidade.
A criança recebe forte impulso educacional de seus fa-
miliares, desde que seus pais já tenham aprendido a dominar e
combater o medo, a preguiça de pensar e de agir. Pais com esse
entendimento, cientes de que os filhos precisam viver suas pró-
prias experiências, são capazes de contribuir significativamente
para a educação dos filhos, evitando cercear suas iniciativas.
SENSO DE RESPONSABILIDADE DOS PAIS
Ter filhos e não cuidar deles nem respeitá-los é um grande
desastre perante o Criador e a lei de progresso. Esse tipo de
comportamento acarreta comprometimentos espirituais que
vamos carregar durante um bom tempo, até nos dispormos a
ressarcir aqueles que prejudicamos, reparando nossos erros;
93
AMÉRICO CANHOTO
claro que segundo o conhecimento já disponível para cada um
naquele momento.
Os pais não são responsáveis pelos filhos,
estão responsáveis.
Ser implica algo definitivo, estar é temporário. A respon-
sabilidade definitiva é sempre do próprio indivíduo e limitada a
ele no tempo e no espaço. As crianças da nova geração trazem
consigo a consciência dessa realidade e revelam, em seus atos,
a consciência disso.
Responsabiliáade espelha maturidade.
E comum confundirmos responsabilidade e controle.
Estar responsável por alguém não é controlar ou manipular-lhe
a vida. Antes de tudo, é cuidar para que possa viver as próprias
experiências e com elas aprenda a discernir.
Pessoas que têm sua vida controlada por outras não desen-
volvem a responsabilidade por si mesmas e pelo próximo. Podem
também copiar a tendência de controlar os outros, acreditan-
do-se responsáveis por eles, um verdadeiro círculo vicioso.
Convidamos o leitor a uma reflexão profunda sobre essa
questão. Controles exagerados impedem a criança de experi-
mentar vivências que podem contribuir para o seu desenvol-
vimento. Protegê-las sim, mas evitar fazê-las caminhar com
nossos pés...
94
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
FALTA DE DIÁLOGO
Ver, ouvir, sentir, raciocinar
para depois nos expressar.
Ainda não procedemos assim. Falamos sem pensar, não
conseguimos ouvir e muito menos nos comunicamos com aque-
les que estão ao nosso redor. Verbalizamos nossas insatisfações
sem medir conseqüências.
A providência divina dotou a criança, contudo, de uma
válvula de escape fantástica para evitar que a verborragia a
prejudique: quando criada em ambientes de pessoas que não
primam pelo uso da lógica e do bom senso, ela se defende fácil
- todos os discursos sem sentido, e por isso mesmo emitidos aos
gritos, entram por um ouvido e saem pelo outro.
Muitos pais que levam os filhos a especialistas achando
que eles estão ficando surdos devem, com urgência, reavaliar o
modo de se expressar e procurar ajuda psicológica para mudar
sua postura.
A comunicação deficiente
também é aprendida?
Num passado não muito distante, um dos inimigos do diá-
logo em família era a grosseria. Ouvíamos com freqüência: "Quem
manda aqui sou eu!"; "Calem a boca". Poucos ousavam retrucar
e, os que o faziam eram, muitas vezes, vítimas da violência.
9 5
AMÉRICO CANHOTO
Infelizmente ainda restam resquícios desse tipo de com-
portamento, embora as pessoas sejam mais comedidas ao mani-
festá-lo. Um novo adversário do diálogo em família instalou-se
em nossos lares: a televisão. Hipnotiza as pessoas durante horas
e horas, prendendo sua atenção. O monólogo televisivo é uma
verdadeira lavagem cerebral: empobrece a cultura das pessoas
e embota o raciocínio.
Nas famílias, há uma competição
evidente ou camuflada para ver quem
é capaz de controlar o próximo,
não importa de que forma.
Em geral, as pessoas procuram, a qualquer custo, impoi
seu ponto de vista a respeito de qualquer assunto. Quase sempre,
o conteúdo das conversas em família são cobranças, exigências,
reclamações... Quando um dos litigantes está "cheio de razão",
o diálogo torna-se um monólogo e a parte perdedora fica à es-
preita de uma oportunidade para dar o troco.
A criança progressista não perde tempo na tentativa de
convencer seus familiares, seja do que for. Quando percebe que
o interlocutor não tem condição de compreendê-la, cala-se.
Por instinto, sabe que não deve perder tempo nem energia para
impor suas idéias. -
Criada nesse clima, a criança leva para a escola a forma
de dialogar aprendida em casa e vai impor seus pontos de vista
aos amiguinhos. Quando não consegue incuti-los por meio i
96
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
argumentos, impõe-os no tapa. É claro que as outras crianças
vão revidar. Quando retornam ao lar apresentando os resultados
desse "diálogo" - arranhões, ferimentos, uniforme rasgado -, os
pais, não imaginando que são eles os culpados dessa ocor-
rência, dirigem-se ferozes aos responsáveis pela escola para
culpá-los pelo que aconteceu.
As crianças da nova geração são pacíficas, mas, depen-
dendo da situação que estão enfrentando, mudam de com-
portamento e tornam-se agressivas. É nessa condição que são
consideradas, por pais e professores, crianças mais problemá-
ticas que as outras.
Soluções ao alcance de todos
Algumas crianças resolvem as diferenças de opinião de
maneira inteligente: admitem quando estão erradas e aceitam
a opinião das pessoas sempre que percebem que estão com a
razão. Se essa capacidade nelas for inata, de qualquer forma
precisam dos pais para incentivar esse tipo de comportamento,
tão proveitoso para sua evolução.
Nunca é demais lembrar: ensinamos mais pelo nosso
comportamento. Sejamos receptivos ao diálogo. Aprendamos
a ouvir nossos familiares, mesmo que, por antecipação, saibamos
que discordamos de seu modo de pensar.
Nessas ocasiões, podemos procurar expor nossas idéias
sem desrespeitar aqueles que pensam de outra forma. Usemos
de lógica, argumentação clara, baseada em fatos. Se mesmo
9 7
AMÉRICO CANHOTO
assim não os convencermos, evitemos nos exaltar diante de
sua resistência. "O tempo é o senhor da razão", afirmou Mareei
Proust, escritor francês de grande notoriedade. Vamos deixar
que o tempo se incumba de revelar quem estava com a razão.
"Quem não se comunica se trumbica",
disse um progressista muito bem-humorado
que já se foi...
A reestruturação da família começa com o aprendizado
do diálogo. É fundamental cultivar o hábito de conversar
sobre temas importantes e inteligentes, mas com bom humor.
A alegria cativa as pessoas, torna o diálogo mais agradável e
atraente. Conversar é uma arte e, como tal, apura-se quando
nos dispomos a fazer o melhor que está ao nosso alcance.
Sem receios, a criança precisa aprender
a expor seus pontos de vista.
Por vivermos tão ocupados, nós nos negamos a ouvir as
crianças, até mesmo aquela que vive dentro de nós. Quantas
vezes desejamos rir e brincar com elas, o que faz bem para
nossa saúde física e espiritual, e não nos permitimos nem por
um instante parar para ganhar fôlego e continuar nossos afa-
zeres com nova disposição?
Por causa desse comportamento, as crianças passam a nos
contrariar em tudo o que lhes seja possível apenas para chamar
9 8
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
nossa atenção, porque não as ouvimos, nem lhes permitimos a
liberdade de expressão. Essa é a origem desse comportamento
inconveniente. É como se elas nos dissessem: "Olhe, eu existo,
quero conversar". Adultos costumam tomar decisões e fazer
escolhas pela criança sem sequer se darem ao trabalho de co-
nhecer sua opinião.
Em geral, o adulto acha que tem coisas mais importantes
a fazer do que responder às perguntas de seus filhos. Experi-
mente conversar com a criança como o faz com os adultos.
Com certeza vai se surpreender. As crianças não gostam de ser
rejeitadas - e quem gosta de ser tratado assim? Caso tenha a
oportunidade de dialogar com uma criança da nova geração,
ficará encantado.
Nosso sistema de crenças nos diz que
a criança só se preocupa com brincadeiras.
A criança educada num ambiente onde seus familiares
não a escutam e que sempre tomam decisões sem consultá-la
não aprenderá a escutar e respeitar escolhas e opiniões alheias.
Nas famílias em que o diálogo não existe e tudo é im-
posto sem explicação, reinam a desarmonia e a insatisfação.
Se essa é nossa atitude, está na hora de mudar. O diálogo não
diminui a autoridade dos pais, muito ao contrário: dá respaldo
a ela e fortalece a união familiar.
Na condição de pais, muitas vezes ouvimos reclama-
ções como esta dos filhos: "Você não me deixa fazer isso,
99
AMÉRICO CANHOTO
mas na casa de meu amigo os pais dele deixam ele fazer".
Preocupados com nossas ocupações rotineiras, geralmente
nem damos atenção às suas palavras. Nesse caso - como nos
demais -, devemos dar à criança uma resposta lógica e clara:
"Os pais do seu amiguinho pensam diferente de nós. As con-
dições deles são diferentes das nossas. Eles acham que isso é
certo, nós pensamos de outro jeito".
Se, por exemplo, em vez de oferecermos "salgadinhos"
e outros alimentos industrializados aos nossos filhos, dermos
frutas, estaremos certamente remando contra a maré. A mídia
prega exatamente o contrário... Mas quem está certo? Se a ali-
mentação natural faz bem para a saúde de nossos filhos, devemos
não só explicar-lhes sobre o funcionamento do corpo humano,
como também do malefício causado por produtos impregnados
de conservantes e outras substâncias químicas. No livro Quem
ama cuida, propomos considerar o ato de nos alimentarmos como
recurso pedagógico da mais alta importância.
Não percamos de vista o exemplo da água que corre no
leito de um rio, contornando as pedras que encontra pelo ca-
minho. Com o tempo, vai modificar sua forma: "Água mole em
pedra dura tanto bate até que fura".
CONFLITOS j
Complicamos demais nossa existência ao criar con-
flitos desnecessários. Uma criança educada num ambiente
em que existem conflitos, explícitos ou não, sempre tende a
100
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
copiar esse tipo de atitude. Um detalhe que não deve ser igno-
rado é que ela capta conflitos não verbalizados irradiados pelo
pensamento.
Essa capacidade inata da criança não tem nada de so-
brenatural. Nela o subconsciente é muito ativo. Esse é um
dos motivos que explicam a forte inteligência intuitiva da
criança. Crianças que têm medo da escuridão ou de dormir,
pois se queixam de pesadelos, podem estar sendo vítimas das
vibrações negativas irradiadas pelo pensamento de seus pais
e familiares, transmutando-os em sensações e sentimentos.
Insistem na presença dos pais junto do seu leito, os quais, na
maioria das vezes, se irritam com esse pedido e as prejudicam
ainda mais com seu comportamento não verbalizado mas di-
fundido no espaço.
Crianças da nova geração
não gostam de competições:
não se preocupam em provar nada
aos outros, apenas a si mesmas.
Nesta sociedade competitiva, as crianças são educadas
para ser as melhores, para superar seus colegas, o que, para
nós, buscadores da paz, não deixa de ser um paradoxo e os
paradoxos contribuem de forma decisiva para também ali-
mentar conflitos íntimos. Pregam-se a ética e a fraternidade
entre as pessoas, mas a sociedade incentiva a disputa e a
competição.
101
AMÉRICO CANHOTO
De acordo com nossas convicções, é importante demons-
trar aos nossos filhos que, se for necessário competir por algu-
ma coisa, isso deve ser feito com ética e respeito àqueles que,
ao nosso lado, buscam alcançar o mesmo objetivo. Se alcan-
çarmos vitória, não devemos menosprezar os perdedores, mas
dividir a alegria com eles.
102
Nas famílias em
que o diálogo não
existe e tudo é imposto
sem explicação, reinam a
desarmonia e a insatisfação.
Se essa é a nossa atitude,
está na hora de mudar.
NÃO HÁ PESSOA
MAIS DESCONHECIDA
PARA NÓS DO QUE
NÓS MESMOS
DESCUIDOS COMUNS NA EDUCAÇÃO
Desenvolvimento de muitas caras.
ça a ser autêntica. Ao contrário do que muitos afirmam, ela
não é um livro em branco; traz de outras existências tendên-
cia atualidade faz surgir também um problema: quanto mais
precoce, maior a capacidade de ocultar verdadeiros sentimen-
tos e camuflar convicções. Muitos pais acham isso lindo e se
vangloriam da esperteza de seus filhos por essa capacidade de
dissimulação. Foram educados dessa forma, instruídos a não
manifestar suas opiniões com clareza e honestidade, mas sim
de acordo com as conveniências.
A aceleração do ritmo de vida nos dias de hoje contribui
para as crianças perderem, cada vez mais cedo, sua candura e
transparência. Voltando à analogia com o computador, é como
se tivessem um scanner muito mais avançado do que o das ge-
rações anteriores: as crianças copiam, com incrível facilidade
e qualidade, o modo de conduta dos adultos, em especial, até
certa idade, a de seus pais.
Praticamente, quase todos nós fomos treinados a ter
"muitas caras" e desenvolver vários papéis de acordo com nos-
sas conveniências. Não nos consideramos hipócritas por essa
atitude, porque esse modo de nos conduzirmos faz parte de
nosso entendimento da vida social.
importantes tarefas dos pais é ajudar a crian
cias, impulsos e predisposições. A precocidade das crianças
105
AMÉRICO CANHOTO
A atitude de camuflar intenções é considerada normal.
Estamos certos de que se não agirmos assim, não conse-
guiremos o que desejamos nem seremos capazes de nos rela-
cionarmos com as pessoas. Esse padrão de atitudes nos leva a
uma visão deturpada de nós mesmos: não sabemos exatamente
quem somos.
Nós nos ajustamos conforme a situação para satisfa-
zermos nossos desejos e interesses. Quando percebemos que os
outros fazem o mesmo, reclamamos e os acusamos de falsos e
hipócritas. Sempre que ouvem nossas reclamações em relação
às atitudes das pessoas, as crianças da nova geração não he-
sitam em comentar: "Você faz muito pior".
Esse é um problema muito antigo. Na Grécia Antiga,
Sócrates (470 a.C.-399 d.C.) já nos alertava: "Conhece-te a
ti mesmo". Criamos muitas "personalidades-esconderijo" para
esconder partes de nós mesmos, tanto para levar vantagem
sobre os outros quanto pelo medo de sermos rejeitados.
Na convivência familiar é que iremos revelar quem real-
mente somos, aquilo que pensamos e o que desejamos para nós
mesmos. Geralmente somos bem objetivos e até contundentes:
"Eu sou assim mesmo. Quem manda aqui sou eu. Os incomo-
dados que se mudem".
Não há pessoa mais
desconhecida para nós
do que nós mesmos.
106
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Como ajudar a criança
a ser ela mesma
Antes que nossos filhos aprendam conosco e com as
pessoas a moldar seu comportamento de acordo com as con-
veniências do momento, devemos observá-los para ver o
que estão ocultando. Com a utilização de certos estímulos, a
criança manifesta seu verdadeiro "eu" e responde de acordo
com suas verdadeiras intenções. Conhecendo-a melhor, va-
mos ajudá-la a superar suas imperfeições, e compartilhando
com ela nossa reforma íntima, para que faça o mesmo dentro
das suas possibilidades e desejos, vamos facilitar-lhe o auto-
conhecimento.
Por conveniência, muitas vezes as crianças comportam-se
de acordo com as expectativas de seus pais, não porque acei-
taram de bom grado suas orientações, mas porque percebe-
ram que lhes obedecer é uma forma de viver bem com eles,
receber afetividade, aceitação e até prêmios pelo seu bom
comportamento. Agem assim na infância e atravessam a vida
adotando o mesmo padrão de comportamento.
Na idade adulta, agem de acordo com as expectativas
das pessoas às quais lhes é conveniente corresponder. Trans-
formam-se em criaturas angustiadas porque estão o tempo
todo a imaginar o que devem falar e como devem se com-
portar. Agem assim inconscientemente, porque - voltando à
comparação com o funcionamento do computador - é o pro-
grama que estão executando.
107
AMÉRICO CANHOTO
Certos comportamentos
colocados em evidência
Cometemos o erro de tapar o sol com a peneira em
determinadas situações e assim desperdiçamos muitas opor-
tunidades de ajudar a criança a refletir. Por exemplo: diante
de uma que está contrariada, buscamos quase sempre acal-
má-la desviando seu interesse do que provocou a revolta.
A experiência indica que essa não é a forma mais correta
de educá-la: quando possível, devemos deixá-la entregue a
si mesma, observando até onde vai sua birra. Ao sentir que
não é capaz de mudar a situação agindo assim, terá apren-
dido uma lição.
Caso sua manifestação de raiva cause dano a algum brin-
quedo ou a si mesma, perceberá que o prejuízo de tal compor-
tamento aumentou ainda mais sua insatisfação e sofrimento.
A importância da lição será ainda maior. Crianças que vivem
tal experiência percebem quanto essa atitude lhes é inconve-
niente e mudam, por si mesmas, seu modo de proceder.
EDUCAR PARA A VIDA
Talvez para fugirmos de nós mesmos e da resolução das
dificuldades íntimas, sejamos levados a cuidar da vida dos
outros, tentando controlá-los. Nós nos iludimos, porém, ao
tentar colocar a culpa no meio externo, quando as coisas não
correm segundo nossos desejos e expectativas.
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Ao focalizar a atenção
nos outros, perdemos contato
com nosso mundo interior.
Esse padrão de atitude cria uma situação cada vez mais
insustentável: não temos consciência nem de cinco ou dez por
cento do que pensamos, sentimos e fazemos. Somos seres que
mais reagimos aos estímulos externos do que agimos por nossa
própria iniciativa.
Para educar uma criança, é fundamental não só termos
consciência de quem somos, mas também capacidade de nos
responsabilizar por nós mesmos, pelo nosso corpo, pelas nossas
escolhas. Caso contrário, nossa contribuição será muito pe-
quena para sua educação; ou até a prejudicaremos por transmi-
tir-lhe conceitos errôneos e danosos a seu desenvolvimento.
Não importa se a educação que recebemos de nossos pais
seja, em grande parte, a responsável pelo nosso modo de agir.
Não devemos acusá-los: eles nos deram aquilo que acreditavam
que fosse o melhor para nós.
É nosso dever, sim, reciclar hábitos, libertar-nos de con-
ceitos ultrapassados e ampliar nossa visão do mundo. A urgência
dessa providência deve ser ainda maior se tivermos filhos.
Quando desejar mostrar ou ensinar algo a uma criança
da nova geração, nunca a compare com outras crianças. Não
peça a ela que proceda de uma forma que você mesmo não
adota para si. Pais que procuram libertar-se de seus vícios,
adequar seu comportamento e superar suas imperfeições são
109
AMÉRICO CANHOTO
observados pelos filhos, embora não o percebam. Em especial,
a criança progressista repara nesse esforço, que a motiva a
fazer o mesmo. Não há como ser pais perfeitos; precisamos,
sim, demonstrar, pelo nosso esforço, que estamos buscando
nossa melhora interior.
FALTA DE LIMITE
Quais são os limites de uma criança?
Até onde ela pode ir?
Quando se fala que alguém desconhece seus limites, poderá
vir à nossa mente a imagem da criança que mexe em tudo, que
está sempre em busca de alguma coisa que não sabe bem o que é
nem onde se encontra. Essa criança é conhecida por hiperativa.
A primeira vista, temos até a impressão de que se trata
de uma criança que ignora por completo até onde pode ir e que
tenha sido mal-educada por seus pais. Na verdade, ela sabe seus
limites, mas tem dificuldade em adaptá-los aos dos outros.
Quando invadem nossos domínios, geralmente culpamos
seus pais, acusando-os de omissão ou irresponsabilidade diante
de seu comportamento, que imaginamos poder corrigir a partir
de medidas severas.
É fundamental impor-lhes limites e fazê-las entender até
onde podem ir sem prejudicar o próximo. Não obteremos resul-
tados práticos se impusermos limitações sem ao menos justificar,
com clareza, a razão de nossa medida disciplinar.
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Quando invadimos o espaço das crianças da nova geração,
elas se sentem à vontade para agir da mesma forma conosco. Essa
atitude, vista por alguns como uma retaliação por parte delas, não
tem, conforme é possível observar, essa conotação. Para elas, é
como se estivéssemos permitindo que façam o mesmo conosco.
Muitas crianças nascem com um impulso muito forte para
o egocentrismo. Sentem-se o centro do universo. Chegam ao
mundo sentindo-se donas dele. O que mais importa para elas é a
satisfação de seus desejos e necessidades. Uma vez identificados,
necessitam de uma atenção redobrada para entenderem quais
são seus limites. E importante aproveitar todas as oportunidades
para conscientizá-las disso.
A maior parte das crianças incorpora com naturalidade
seus limites, o que não acontece com as egocêntricas. Faz-se
necessário nosso empenho em demonstrar-lhes que seus direitos
terminam onde começam os das pessoas.
De forma intuitiva, as progressistas não se sentem as donas
do mundo. Quando criadas sem que lhes sejam impostos limites e
disciplina, porém, usam indiscriminadamente seu potencial. Daí
em diante, salve-se quem puder... Vão causar danos e transtornos
como todo aquele que não foi educado para viver em sociedade.
Até onde vai a responsabilidade
dos pais?
Pode parecer um paradoxo, mas algumas crianças apren-
dem rapidamente com seus pais a não ter limites, mesmo que
111
AMÉRICO CANHOTO
essa tendência não seja nelas uma predisposição - esse é o caso
de algumas crianças progressistas.
Algumas crianças que não reconhecem nenhum limite
podem ter sido criadas e, portanto, influenciadas, por pais ego-
cêntricos. Outras são filhas de pais acomodados que não apren-
deram a dizer "não" com medo de perder o afeto delas. Agir
sem limites, por parte da criança, pode ser ainda uma reação
dela ao excesso de controle dos pais. Nesse caso, a atitude dos
pais - preocupados em demasia em controlar os filhos - poderá
ter sua origem em resguardar a família de comentários negativos
sobre o modo de proceder de seus rebentos.
Como determinar limites?
Basta querer, pois querer é poder. Os pais devem impor
limites aos filhos. Delegar essa tarefa a terceiros é comprometer
sua educação. Mas não basta querer; é preciso saber querer. É
necessário dispor de elementos que nos auxiliem nessa decisão.
Um deles é estudar as necessidades da criança.
Necessidade de respeitar
limites
Educar também é permitir à criança descobrir seus pró-
prios limites. Por exemplo: uma criança prepara-se para escalar
o sofá. Nós a prevenimos de que poderá se machucar. Ela não
nos dá ouvidos, sobe até onde lhe permitem suas forças e desaba.
112
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Mais do que depressa, a amparamos e evitamos que sofra as
conseqüências de sua desobediência.
Nesse caso, entramos em contradição com nossa afirmação
("Cuidado, você pode cair e se machucar"). Por conseguinte, a
criança não levará a sério nossas próximas advertências. Se, ao
contrário, considerarmos que o risco da queda é insignificante
e permitirmos que ela desabe, a confirmação da nossa "pro-
fecia" vai ensiná-la que existem limites a respeitar e que nós,
seus pais, podemos auxiliá-la a reconhecê-los.
Experiências como essas devem ser aproveitadas, desde,
é claro, que não ofereçam risco para a integridade física da
criança. Conhecedora da Lei de Ação e Reação - "Faço isso e
acontece aquilo do qual meus pais me preveniram" - a criança
amadurece, aprende a confiar em seus pais, confiança essa que
vai perdurar no decurso de sua existência.
Crianças sem noção de limites,
adultos prepotentes e displicentes.
Se pretendermos impor limites, deveremos, por nossa
vez, aprender a respeitá-los. Quase todos os pais de uma forma
ou de outra ensinam que existem limites aos filhos. A falha
deles está em exemplificar aquilo que ensinam a eles: "Faça o
que eu digo, mas não faça o que eu faço".
Crianças criadas por adultos que se comportam de forma
a desrespeitar os limites alheios são fortes candidatos a se trans-
formarem em adultos prepotentes e indisciplinados. Quando
113
AMÉRICO CANHOTO
se fala em estabelecer limites para uma criança, muitos ima-
ginam tratar-se apenas da imposição de regras de convivência,
da etiqueta social. Esse é, na verdade, o primeiro passo desse
aprendizado. Embora seja importante, a ele se sobrepõe o en-
sinamento moral de que devemos respeitar o próximo como
gostaríamos que nos respeitassem.
Descobrir até onde
é possível ir é um
aprendizado de amor.
Quem conhece seus limites aprende a respeitar. Quem
ama cuida e quem ama respeita. Amar não é satisfazer os de-
sejos daqueles que nos são caros. Se de fato amamos alguém,
desejamos o melhor para essa pessoa. Se necessário for, para o
bem de quem amamos, nós nos prontificamos a negar aquilo
que nos pedem ou esperam de nós.
Atender aos desejos dos filhos, com a intenção de ca-
tivá-los, é prestar-lhes uma péssima lição de vida. Por várias
razões, muitos pais agem dessa forma. Alguns, ausentes do lar,
tentam suprir o vazio de sua presença com presentes e mimos
de toda a espécie. Outros, embora sua presença ao lado dos
filhos seja constante, pretendem, ao agir assim, firmar seu do-
mínio sobre eles. Os motivos são diversos, mas nenhum deles
é desculpa para esse procedimento. Negar aos filhos aquilo
que for inconveniente à sua saúde física ou espiritual é dever
de pais educadores.
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Escolhas do passado,
limitações de hoje
Somos criaturas em processo de aperfeiçoamento, a ca-
minho da perfeição. A educação é um processo contínuo de
aprendizado. Parte das nossas limitações de hoje representa o
resultado das nossas escolhas do passado.
Quando me refiro ao passado, nele incluo experiências
de outras existências, inseparáveis de nossa condição espiritual.
Precisamos conhecer nossos limites. Pouca atenção se dá ao
aprendizado dos limites de cada um. Esse é um problema da
atualidade: a falta de bom senso generalizada leva a um es-
tresse crônico. Em todos os sentidos, o nível de tolerância da
maioria é zero.
Estresse crônico,
a criança em perigo
Gostaria de estar errado, mas a leitura que é possível
fazer dos efeitos do estresse crônico sobre nossas crianças é
assustadora. Pequenos descuidos que estejamos cometendo
devem levar boa parte delas a uma existência muito breve.
Não me preocupo tanto com as crianças da nova geração,
pois seu senso de limites as faz mais protegidas do que as de-
mais. Elas observam que os pais estão sempre correndo atrás
de recursos para pagar a melhor escola, que as sobrecarrega
de lições inúteis; que os pais não medem esforços para custear
115
AMÉRICO CANHOTO
terapeutas que elas não necessitam, pois não estão doentes;
que se esforçam para adquirir o melhor plano de saúde para os
filhos, quando, na realidade, quem precisa cuidar melhor da
saúde são eles mesmos. Sentem o desagrado da mãe diante do
pai, que vive gritando para impor sua autoridade junto da es-
posa e dos filhos. Pragmática, a criança progressista racionaliza:
"Por que fazer o que estão mandando? Para ficar igual a eles?
De jeito nenhum, estou fora...". Nesse caso, ela não sofre as
conseqüências do estresse familiar. Torna-se alheia à autoridade
paterna e isola-se de seus familiares criando um sistema de pro-
teção emocional particular.
Limites de convivência
A criança precisa de nossa ajuda para perceber que somos
interdependentes e que o espaço de uma pessoa e o conjunto
de seus direitos terminam no momento em que começam os do
próximo. Da mesma forma que não toleramos que nosso espaço
seja invadido e nossos direitos desrespeitados, e, se tal oconer,
lutaremos para evitá-lo, essa será a mesma reação das pessoas.
TENTATIVA DE DOMÍNIO PELO MEDO
Não cometa o erro de tentar
dominar uma criança progressista
atemorizando-a ou despertando
sentimentos de culpa nela.
116
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Certas condutas são tão repetitivas que assumem ares
de normalidade. Desde os primórdios da civilização, tentamos
dominar os outros infundindo o medo, inimigo do progresso
humano.
De forma descuidada, causamos medo nas crianças para
que nos obedeçam. Medo de escuro, de médico, de injeção, do
bicho-papão... As letras das músicas infantis são tenebrosas.
Mesmo que algumas crianças consigam superar o medo, mesmo
assim, essa impressão marcada em sua infância poderá tornar-se
um entrave em sua vida e limitar-lhes o futuro, impedindo que
vivam experiências e realizações.
Crianças corajosas como as progressistas incomodam as
pessoas. O medo, embora sirva como uma trava de proteção
a determinadas situações, não deve ser usado para barganhar,
nem reforçado, sob pena de graves dificuldades futuras.
SENSO DE HONESTIDADE DOS PAIS
Quando protegemos as crianças em excesso, impedimos
que vivenciem suas próprias experiências. Com a desculpa de
protegê-las para que não se frustrem nem sofram, camuflamos
a verdadeira razão de nossa atitude, que é o medo de sofrermos
ou nos frustrarmos diante de seus fracassos.
Precisamos ser honestos conosco mesmos, permitindo
que usufruam os benefícios de suas vitórias e as lições de
suas derrotas, partilhando dos sentimentos advindos dessas
situações.
AMÉRICO CANHOTO
Além do amor incondicional, outra necessidade vital na
educação das crianças da nova geração é a honestidade de pro-
pósitos dos pais. Não minta. Para a maioria das pessoas, camu-
flar desejos ou intenções é um fato corriqueiro. Estas crianças,
porém, captam nossas verdadeiras intenções e reagem a elas.
Para educá-las, é fundamental agir com transparência.
Parte do comportamento incoerente
é aprendida.
Os vícios ou excessos que cometemos representam uma
falta de honestidade íntima. Por exemplo: quando nos ali-
mentamos com algo que sabemos de antemão que nos causa
mal-estar, estamos sendo desonestos conosco mesmos, pois em
seguida recorreremos a um medicamento que nos auxilie a
reparar os efeitos causados pelo alimento.
Grande parte dos acontecimentos presentes da nossa vida
é conseqüência da Lei de Ação e Reação. Depois de aprender
essa lição e agir honestamente conosco mesmos, vamos poder
ensinar nossos filhos a agir corretamente. Pais que se enfastiam
durante as refeições e que depois buscam alívio nos medica-
mentos disponíveis para essa necessidade ensinam os filhos a
agir desonestamente para consigo mesmos.
No consultório, observo que as crianças da nova geração
entendem melhor que as outras o mal que eventualmente causa-
ram a si mesmas, seja pela ingestão de um determinado alimento
prejudicial à sua constituição, seja por excessos alimentares.
118
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Entendem o que aconteceu como o resultado de uma escolha
errada e evitam reincidir nisso.
Para elas, o desconforto que lhes causou a experiência é
proveitosa lição de vida. A educação alimentar pode consti-
tuir-se numa ferramenta valiosa para aprimorar a capacidade
de discernir e desenvolver a honestidade, que acompanha o
desenvolvimento dos vários tipos de maturidade psicológica.
CONTROLE
Liderar não é controlar.
Os filhos que demonstram liderança nos dão grande sa-
tisfação. Os líderes de fato, no entanto, são raros. Grande parte
daqueles que têm essa capacidade tende a ser controladora,
tirana, agressiva, autoritária. Usam dessa capacidade inata para
controlar os demais e exercer sua influência de forma a se so-
bressair e levar vantagens.
No conjunto de tendências e predisposições inatas, uns
gostam de controlar e outros de ser controlados. A melhor sala
de aula para estudá-la é o lar. Na relação e nas brincadeiras entre
irmãos, é possível identificar cada um dos tipos. Nas escolas e na
relação com os amigos, também é possível observar tendências
e predisposições à tirania, ao ciúme ou a ser controlado e até
manipulado por outros.
As crianças da nova geração tendem a liderar com natu-
ralidade e carisma. Dependendo da forma como foram criadas,
119
AMÉRICO CANHOTO
podem tornar-se controladoras, não por maldade, mas apenas
para satisfazer suas necessidades afetivas.
Sentir ciúme também é um tipo de medo
de perder o controle.
Sentir ciúme demonstra que pretendemos ser donos de
uma pessoa ou controlar alguém, o que, quase sempre, nos leva
a relacionamentos pouco satisfatórios ou sofridos. Muitos dos
controladores ou daqueles que se permitem ser controlados
são aqueles que receberam uma educação distorcida, em que
foram ressaltadas as tendências inatas, sem terem sido mu-
nidos de meios de trabalhá-las para o seu bem-estar e felici-
dade do próximo.
MANIPULAÇÃO
Aquele que manipula alguém usa de artifícios para ex-
plorar a falta de soberania emocional alheia. Muitas vezes,
bebês e crianças choram sem razão apenas para atrair a atenção
de seus pais. Trata-se de um mecanismo inconsciente desen-
volvido por eles, por intermédio do qual manipulam os adultos.
Basta que o expediente funcione algumas vezes para que fique
gravado em sua mente como a melhor forma de atrair depressa
a atenção dos pais.
Essa tendência pode ser inata e reativada pela convivência
com adultos que agem dessa forma em seus relacionamentos.
120
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Quando adultas essas crianças poderão se tornar hábeis mani-
puladores. Entre as da nova geração, o senso inato de justiça
impede que sejam permeáveis a essa influência negativa. Quase
sempre superam esse tipo de influência se advinda de seus pais
ou de adultos que as cercam.
Elas são doces criaturas,
desde que seus desejos sejam atendidos.
Existem crianças que nos manipulam com facilidade,
porque estão conscientes de nossas fraquezas: algumas vezes,
sua saúde é precária, mesmo sob tratamento médico intensivo,
outras vezes sentem dores em toda parte ou então se mantêm
debilitadas para provocar piedade. Diante do seu estado, seus
pais sentem-se impossibilitados de dizer um não a elas. São
crianças manipuladoras por excelência.
Pequenos descuidos na educação
que causam acidentes evolutivos.
Destacamos algumas formas que os pais encontram para
manipular os filhos, com a intenção de obter melhores resultados
em sua educação: aumento da mesada quando as notas esco-
lares melhoram; prêmio em dinheiro para celebrar a medalha
conquistada na competição esportiva; oferta de guloseima se a
criança "raspar" o prato na hora da refeição. Esses exemplos de
manipulação se tornaram tão comuns e corriqueiros que não
121
AMÉRICO CANHOTO
nos apercebemos de quanto são perniciosos no desenvolvimento
da maturidade em todos os sentidos.
CHANTAGEM
A chantagem se diferencia da manipulação pela ameaça
implícita ou explícita que carrega consigo. Exemplo de mani-
pulação: pedimos ao nosso filho que vá à padaria comprar pão
e o gratificamos com o troco da transação, ou permitimos que
também compre um sorvete.
A atitude de premiar a criança por tarefa executada é
um tipo de manipulação. Se, para comprar o sorvete, a criança
recebe como condição trazer o pão, é chantagem. A criança
que deseja um brinquedo do irmão e exige-o como prêmio para
ficar de boca calada e não contar aos pais que o outro quebrou
determinado objeto ou deixou de fazer algo que lhe foi pedido
está usando de chantagem para alcançar seus fins.
Os manipuladores enveredam facilmente pelo caminho
da chantagem. Adultos que aprenderam a manipular a família,
recorrendo a ocasionais distúrbios de saúde, por vezes recorrem
a ameaças de suicídio caso seus desejos não sejam atendidos.
Esse comportamento mórbido encontra raízes na infância.
Mesmo que a criança esteja doente, não devemos nos
sentir obrigados a satisfazer todas as suas vontades. Atendê-las,
sim, mas de acordo com suas necessidades e merecimento. Pro-
blemas de saúde devem ser entendidos como sábias providências
da natureza para reajustar nosso procedimento. Entendê-los
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PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
assim e transmitir essa verdade aos nossos filhos é o dever de
pais conscientes de seu papel de educadores.
A tentativa de controlar ou manipular
não raro termina em chantagem com
danosas conseqüências para todos.
Tal e qual os perigosos vícios do tabagismo e do alcoolis-
mo, o hábito de chantagear começa com uma atitude ino-
cente. Como muitas pessoas costumam dizer: "Apenas um gole
ou uma tragada não vai fazer mal...". A chantagem nem precisa
ser descoberta para que o chantagista resgate seu erro: a inse-
gurança, o medo de ser descoberto transforma a vida dele num
caos. A criança da nova geração não recorre à chantagem para
obter o que deseja, o que, de nenhuma forma, desobriga seus
pais de espelharem uma conduta isenta desse mal.
CULTURA DAS PEQUENAS MENTIRAS
Mentir, faltar com a verdade, pode ser uma tendência da
criança. Em outros casos, o vício pode ter sido adquirido nas rela-
ções familiares. Na família em que se mente com facilidade, uma
criança poderá imitar esse comportamento e tornar-se exímia em
falsear a verdade. Outra, criada sofrendo as mesmas influências,
poderá não ser capaz de mentir com tanta desenvoltura.
As tendências inatas nos aproximam ou nos afastam dos
vícios. É fundamental que os pais conheçam as tendências
123
AMÉRICO CANHOTO
dos filhos para ajudá-los a superá-las, caso sejam negativas.
Como não somos criaturas angelicais, tenhamos em mente
nossas próprias tendências, e lutemos, com todas as nossas
forças e recursos disponíveis, para superá-las. "Conheça a ver-
dade e a verdade vos libertará"*, afirmou Jesus.
Crianças da nova geração
são péssimas mentirosas...
Fomos treinados para pensar uma coisa e dizer ou fazer
outra. A automatização dessa atitude nos leva, sem pestanejar,
a faltar com a verdade e correr o risco de não mais distinguir
entre o que é verdade e o que é mentira. A compreensão do
abismo que as separa pode tornar-se difícil para o mentiroso
compulsivo. É um vício que, a exemplo dos demais, quando
identificado, exige todo nosso empenho para erradicá-lo de
nossa alma. Descobrir quando uma criança progressista está
mentindo é muito fácil, pois fica estampado no seu rosto.
Crianças que vivem no mundo da fantasia
têm predisposição para mentir.
Muitas crianças copiam dos adultos a técnica de tratar as
pessoas de forma interesseira. Algumas delas, desde muito cedo,
tornam-se exímias nisso. São maledicentes e até caluniadoras,
*João, 8:31,32. (RE.)
124
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
tal e qual aprenderam com os familiares e com as pessoas com as
quais convivem.
Automatizar esse padrão de atitudes leva muitas pessoas
a usar a mentira sempre como arma para atingir seus objetivos
e desejos de forma até consciente. Para o mentiroso contumaz,
a verdade pode tornar-se uma arma contundente, usada apenas
para ferir e magoar, pois fala a verdade para arrogar-se no papel
de justiceiro.
A criança progressista, diante dos professores ou de seus
familiares, geralmente se expressa de forma espontânea. Diz a
verdade sem camuflar seus sentimentos ou distorcer a realidade
com o objetivo de favorecer seus interesses. Ela fala o que
sente de forma clara e verdadeira, o que, para ela, é tão normal
quanto respirar.
PERDA DE AUTORIDADE
Filhos malcriados e agressivos
A perda de autoridade é uma ocorrência globalizada. É
fruto do sistema em que vivemos e da sucessão de descuidos na
relação entre pais e filhos. Em primeiro lugar, é preciso en-
tender que autoridade não se delega nem se impõe: é uma con-
quista moral.
As crianças progressistas obedecem com alegria a pessoas
que revelam honestidade e sensatez em seus propósitos, mas não
se rendem àqueles que desejam impor-se sem méritos para tanto.
125
AMÉRICO CANHOTO
Angústia e medo tornam as crianças
agressivas como mecanismo de defesa.
O sistema torna crianças e jovens mais angustiados a
cada dia, com medo de tudo, como de não darem conta de
viver conforme o que se espera deles, não serem amados, não
possuírem isto ou aquilo, de serem tachados de fracassados. As
más-criações e a agressividade de muitas crianças decorrera
apenas de uma reação defensiva diante da autoridade imposta
pelo medo, o que faz com que percam o senso de seus limites.
Obtida pelo poder da força,
a autoridade não se sustenta
por muito tempo.
Criaturas atordoadas e desorientadas que mentem, usam
da chantagem e falam de forma desordenada, são incapazes de
exercer autoridade. Aquele que pretende impor sua autoridade
deve inspirar confiança e conquistar o respeito daqueles que
vai liderar. Se não formos capazes de agir assim, perderemos
a autoridade e deveremos nos empenhar em recuperá-la mu-
dando nosso padrão de atitudes. O primeiro passo é reconhecer,
diante de nossos filhos e familiares, que agimos mal tentando
dominá-los pela força. Apontarmos os próprios erros e nossa
disposição em corrigi-los vai, em primeira instância, surpreen-
dê-los favoravelmente. Quem sabe alguém comente: "Até que
enfim caiu na real...".
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PENSAMENTO MÁGICO
Por muitos anos, no período da infância, fomos incen-
tivados a brincar de "faz-de-conta". Na idade adulta, incons-
cientemente, queremos continuar a brincar com os outros,
fantasiando isto ou aquilo. Causamos dissabores e prejuízos,
mas ignoramos os resultados negativos de nossas ações, prefe-
rindo viver no mundo da imaginação, onde a realidade é fruto
da nossa vontade.
A falta de maturidade cria o falso conceito de que a vida
do homem adulto é um vale de lágrimas, um lugar muito ruim
para se viver. Pensando assim, procuramos poupar nossos filhos
e criamos para eles um mundo de fantasias, isolando-os numa
redoma na qual estejam protegidos de todos os males.
A criança da nova geração se esquiva de situações como
essa e pergunta a si mesma: "Por que não posso assumir res-
ponsabilidades?". Dessa forma, rejeita a proteção exagerada e
desagrada aos pais, que não entendem sua rejeição e sentem-se
preteridos, pois enxergam nos filhos criaturas ingratas que não
merecem seu amor.
A educação formal cultiva a falsa crença de que a criança
só pensa em brincadeiras e jogos e que não se preocupa com
o que ocorre a sua volta e no mundo. Teima-se em mantê-la
presa ao pensamento mágico para depois reclamar que esperam
que nós, os pais, resolvamos todos seus problemas.
As mudanças planetárias estão acontecendo em ritmo
acelerado. O sistema escolar deve se adaptar às necessidades
AMÉRICO CANHOTO
de hoje, caso contrário o número de desequilibrados e alienados
aumentará até um patamar insuportável para a sociedade. Se
insistirmos em não educarmos nossos filhos para a realidade,
no futuro deveremos lançar ao espaço uma placa sinalizando
"Bem-vindos ao Hospício Terra", para alertar os irmãos, visi-
tantes de outras galáxias...
Mudar o referencial de ensino é fácil,
basta apenas boa vontade para fazê-lo.
E perfeitamente possível mostrar de forma simples, lógica
e clara os milagres que podemos fazer em nosso favor. Temos a
capacidade de pensar, sentir, decidir, escolher, agir e trans-
formar. Para nós, tudo é possível, na hora e no momento certo.
Infelizmente, insistimos em resolver nossos problemas aper-
tando botões mágicos como nos casos seguintes, tão comuns
em meu consultório:
"Doutor, meu filho não come frutas nem verduras e le-
gumes. Só aceita guloseimas. O senhor não poderia receitar
um remédio para curá-lo?"
"Ajude-me, doutor. Estou desanimada. Levei meu filho
para vários médicos e nenhum deles foi capaz de curar sua
bronquite."
"Estou decepcionado. Levei meu filho ao psicólogo du-
rante um ano e ele não mudou quase nada."
"Não sei o que me acontece. Não como nada e não con-
sigo emagrecer."
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PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
CRIAÇÃO DE PARADOXOS
Por que fazemos questão de
ocultar nossas verdadeiras intenções
e complicamos tanto a vida?
Chegamos ao máximo de esconder nossas intenções de
nós mesmos e, para isso, o tempo todo inventamos desculpas
e justificativas as mais absurdas. Quando queremos uma coisa
e dizemos outra, criamos um conflito que vai prejudicar a nós
mesmos e às pessoas. Muitas vezes, esses conflitos criam sistemas
de crenças que serão repassados de geração a geração. Parte
dos postulados que norteiam e sustentam muitos dos nossos
paradigmas educacionais foi assim originado. Somos vítimas e
reféns das crenças que nos afastam do Criador.
O egoísmo doentio, o orgulho exacerbado, a ignorância
voluntária e principalmente a preguiça de pensar são os pilares
dos paradoxos humanos que as crianças da nova geração tanto
rejeitam. Até para as demais crianças, percebem-se esses in-
convenientes.
O máximo do paradoxo
é o conceito de aproveitar a vida.
Talvez esse seja nosso descuido mais perigoso, aquele
cujo resultado mais nos assusta: a morte. O conceito de vida e
morte é um paradoxo se tomarmos uma opinião usual de que
129
AMÉRICO CANHOTO
viver bem ou aproveitar a vida é entregar-nos aos vícios e pra-
zeres, praticar excessos de toda ordem, ou seja, correr para os
braços da tão temida morte. Esse desatino que tentamos a todo
custo tornar rotineiros criou a moderna sociedade das pessoas
movidas a "Omeprazol", "Viagra", "Paroxetina" etc.
O conceito do
que é o bem e o mal
está distorcido.
O que hoje parece um grande mal amanhã pode se
mostrar um grande bem. Um ditado popular diz, aliás, que "há
males que vêm para bem". No entanto, o que a maioria das
pessoas não quer perceber é que o bem não precisa do mal para
se identificar como bem.
Escolhas erradas
precisam ser repensadas
e não reforçadas.
Um exemplo concreto e prático: não seria necessária a
doença, um mal, para que as pessoas cultivassem a saúde, um
bem, caso resolvessem pensar, analisar, discernir. A escolha que
se mostra inadequada à natureza permite que o mal, a doença,
sirva de material de estudo para atingirmos o bem, a saúde. 0
que se vê, no entanto, é a persistência da escolhas erradas, que
agravam os males.
130
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Excesso de limites
As crianças de hoje vivem num mundo que lhes impõe
muitos limites inadequados e incoerentes. Expliquemos: o es-
paço doméstico ficou limitado, os lares estão repletos de quin-
quilharias e elas mal conseguem se movimentar em sua própria
casa. Vivemos gritando com elas: "Cuidado!", "Não mexa!",
"Tire a mão daí", "Não pode"... O "não", colocado como uma
ordem de comando pronunciada sem maiores explicações,
deixa de ser absorvido pela criança, que não percebe a di-
ferença entre o sim e o não. Nós, adultos, concentrados em
nossos afazeres, nos dispensamos de dar maiores explicações
às crianças, negando a elas o direito de entender o porquê de
nossas ordens. É uma falha que precisamos corrigir.
Como livrar a educação
dos paradoxos?
A família necessita ser reestruturada, e sua forma de ge-
renciamento, modernizar-se. É fundamental definir e reciclar a
visão de mundo dos integrantes para trabalhar em equipe com
metas claras e objetivos definidos. Alguém precisa chamar para
si a responsabilidade de gerenciar as mudanças.
Os pais devem definir sua condição. A busca de respostas
para algumas questões é urgente: "Quem somos nós e o que fa-
zemos aqui?"; "Quem sou eu e quais são meus deveres?"; "Quem
é meu filho, e o qual é o meu papel com relação a ele?".
131
AMÉRICO CANHOTO
Somente a evolução ativa e participativa é capaz de eli-
minar ou aliviar o antagonismo que se forma entre os membros
da família. Queremos controlar os outros sem controlar a pró-
pria vida. Pais e mães disputam o poder usando os mais infantis
e absurdos sistemas de controle e a criança fica perdida entre o
fogo cruzado dos interesses deles.
Os paradoxos devem ser desmontados passo a passo. Para
isso, precisamos desenvolver a transparência, a simplicidade, a
honestidade e a clareza de intenções. As respostas às questões
formuladas pelas crianças devem ser sempre claras, diretas e
verdadeiras. Quando os pais não souberem responder aos filhos,
devem deixar claro seu desconhecimento a respeito do assunto
e convidar a criança para juntos buscarem explicações.
A criança não deve ser poupada de nenhum assunto do
qual seja capaz de participar; claro que segundo a sua capaci-
dade de discernimento. Esse padrão positivo de atitude leva à
eliminação progressiva do pensamento mágico, tão danoso ao
adulto que o cultivou no período da infância com a ajuda da
família. Não devemos dramatizar situações, mas sim expor as
ocorrências sem exagerar os fatos, apresentando-os de forma
sucinta. Essas regras tão simples beneficiam a todas as crianças,
indistintamente.
VÍCIOS
Os pais se encarregam de viciar os filhos desde seu nasci
mento. O primeiro vício é fisiológico: alimentação. O egoísmo
132
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
e o orgulho das pessoas as levam a fazer com que seus filhos
sejam maiores e mais fortes que os dos outros. Quem não ouviu
um diálogo parecido com este:
"- Nossa, que grande e esperto é o seu filho! Quantos
meses ele tem?
- Cinco!
- Nossa, parece que ele já tem um ano. O que você dá
para ele comer?"
Para atender à vaidade dos pais, a criança é desrespeitada,
obrigada a alimentar-se em demasia, muito além de suas neces-
sidades, "para ficar forte". Um dos problemas mais comuns nos
dias de hoje, causado pelos pais, é a obesidade infantil.
Alguns pais projetam seus desejos e necessidades nos
filhos e não lhes oferecem os alimentos adequados de que eles
próprios não gostam - e dizem que amam seus filhos tornando
sua vida mais açucarada...
Um bom exemplo dessa conduta é o paladar doce, que
atrai a maioria dos pais. Por que evitam alimentos azedos,
amargos, picantes ou mesmo sem sabor? Que motivos levam o
adulto a preparar a mamadeira ou o suco segundo suas prefe-
rências e não de acordo com as necessidades de seus filhos?
Descontadas as tendências inatas, observadas na pri-
meira infância, os vícios são adquiridos mais por influência do
meio familiar do que pela força dos desatinos cometidos em
outras existências. É desnecessário nos alongarmos quanto à
influência dos adultos. Sabemos que a criança poderá copiar
seus hábitos, seus vícios. Pais que fumam, consomem bebidas
133
AMÉRICO CANHOTO
alcoólicas, alimentam-se com exagero estão levando seus filhos
para o mesmo caminho.
Além das influências familiares que induzem ao hábito
da bebida alcoólica e do cigarro, não podemos deixar de men-
cionar o poder da mídia, que veicula mensagens que induzem
a consumir o que é danoso à saúde. Como não é possível evitar
que as crianças sejam expostas a esses comerciais, devemos ex-
plicar, sempre com palavras simples e diretas, o mal que esses
produtos causam à saúde. Essas explicações devem ser acompa-
nhadas de exemplos e comparações.
INVERSÃO DE METAS E SUAS
CONSEQÜÊNCIAS
No plano das relações humanas
Muitas vezes somos induzidos a contentar os outros para
recebermos recompensas. A frustração é certa, pois agradar não
deve ser meta, mas a conseqüência da forma correta de agir.
Quem age com correção certamente vai satisfazer àqueles que
o rodeiam. As crianças da nova geração não se preocupam em
agradar às pessoas: simplesmente agem conforme sua vontade e
visão de mundo.
Na vida profissional
Muitas pessoas sentem-se frustradas no exercício pro-
fissional, pois fazem o que não gostam. Na maioria dos casos,
134
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
escolheram a profissão porque lhes parecia a mais rendosa. O
cometimento desse erro é muito generalizado nos dias de hoje
e ainda é, por vezes, agravado pela influência dos pais. Quando
reconhecemos que o ganho financeiro é a conseqüência de um
trabalho profissional bem desenvolvido, realizado com amor
e dedicação, nós nos desvinculamos da escolha interesseira
daquele momento. Essa é a orientação correta que devemos
passar aos filhos: a escolha profissional deve ser movida pelos
talentos e habilidades e não visar apenas ao enriquecimento.
Dieta para emagrecer
A reeducação alimentar deve ser uma tarefa contínua,
cujo objetivo é viver mais e com boa qualidade. Perder o ex-
cesso de peso é apenas conseqüência natural desse trabalho.
Desde cedo, muitos pais influenciam mal os filhos, demons-
trando sua exagerada preocupação com dietas, o que deve ser
evitado. A melhor dieta é aquela que atende às necessidades
do organismo. A criança deve aprender a ouvir o corpo e a
dialogar com ele, pois o corpo fala, mas, às vezes, ele não se faz
ouvir nem mesmo por intermédio de manifestações como a dor,
febre, vômitos, coceiras.
Bloqueio do efeito das más escolhas
O atual sistema de medicina inverte causa e efeito. Gasta-
mos, por exemplo, tempo e dinheiro combatendo febre, espirros,
135
AMÉRICO CANHOTO
tosse, coceiras, sistemas de defesa do organismo como se fossem
doenças. Confundimos a cura com o bloqueio temporário de
sintomas e depois ingerimos remédios em cascata, um para blo-
quear o efeito colateral de outro, tudo na tentativa de eliminar
os sintomas (ou avisos de que algo vai mal). Devemos buscar,
com o médico de nossa confiança, as causas dos males que nos
afligem e não apenas medicamentos para amenizar os efeitos da
doença. Nossos filhos devem ser educados de forma a entender
essa necessidade: a cura depende da erradicação do mal.
Busca de solução para problemas
materiais na religião
Em geral, as pessoas buscam na religião a solução para
seus problemas materiais. As crianças da nova geração cos-
tumam pensar de forma mais lógica: esses problemas podem
servir de alavanca para a espiritualização. Reflitam sobre as pa-
lavras de Jesus: "Felizes os aflitos"*. Poucas religiões resistem a
sua racionalidade.
PROJEÇÃO DE FRUSTRAÇÕES
O tempo todo
projetamos nos outros o
que nos incomoda.
* Mateus, 5: 4. (N.E.)
136
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Sem percebermos, até porque não paramos para pensar,
como se faz necessário, projetamos nos filhos frustrações emo-
cionais de realização profissional e afetivas. Tentamos interferir
na vida e no futuro deles para compensar nossos desequilíbrios.
Pais que se sentem frustrados na profissão tentam de
todas as formas convencer os filhos para que sigam caminhos
diferentes dos deles. Outros, pouco felizes na vida em família,
tentam induzir os filhos a não constituir família.
Frustrações podem ser aprendidas.
As crianças aprendem com os pais a ser amargas, derro-
tistas, desconfiadas, frustradas. Que tipo de atitudes inspira-
mos com nossa conduta? Se nos convencermos de que estamos
projetando nossas frustrações nelas e que, com isso, podemos
prejudicá-las, o passo seguinte é reverter esse quadro. Não
devemos nos culpar ou sentir remorso pelo que já aconteceu:
mudemos nossa conduta. Aqueles que nos cercam perceberão
nossa transformação, que falará mais alto que os atos anteriores,
que, pouco a pouco, serão esquecidos.
A projeção de frustrações
induz ao controle e à chantagem.
Descuidados, podemos projetar nos filhos a realização
daquilo que gostaríamos de ter sido ou feito, sem perguntar-
lhes se é isso realmente o que eles desejam. Com a intenção de
137
AMÉRICO CANHOTO
convencê-los, pais mais afoitos e negligentes quanto ao futuro
dos filhos os pressionam para alcançar seus objetivos: "Se você
passar no vestibular, ganha um automóvel zero quilômetro".
Nosso estilo de vida contribui para manter o pensamento
mágico peculiar da criança na vida adulta, que gera desequilí-
brio entre fantasia e realidade, frustrações, mágoas etc. Tentamos
amenizar decepções e fracassos usando os filhos para conseguirem
realizar nossos próprios desejos e suprirem nossas necessidades.
A projeção na prática de esportes
Pais orgulhosos e frustrados costumam fazer sombra aos
filhos em competições esportivas ou escolares: às vezes pagam
aos filhos para ganhar títulos ou medalhas. Quase sempre esse
"toma lá dá cá" torna-se, por parte dos pais, uma forma dissimu-
lada de compensar a própria falta de confiança em si mesmo.
Muitas crianças da nova geração passam a sentir aversão
pela prática esportiva quando são obrigadas a competir sob
pressão dos pais. Para elas, o importante não é vencer, mas sim
participar da competição. Quando vitoriosas, não dão muita im-
portância ao destaque conquistado. Sentem-se constrangidas
diante da fama e não consideram seu feito digno de elogios.
A escolha da profissão
As crianças da nova geração preferem escolher o que
querem fazer. Sempre. Por intuição, quase sabem o papel
138
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
que vieram desempenhar. Sendo assim, não tente induzi-las a
seguir uma profissão que não desejem. Se forçadas a isso, po-
derão adotar a profissão de "filho" e, de forma consciente, só
farão o que der muito prazer... A nossa missão é ajudar nossos
filhos a escolher o melhor para eles. Para serem bem-sucedidos,
basta observarmos suas aptidões e proporcionar-lhes condições
de desenvolverem seus talentos. O mais virá por acréscimo.
Projeções e vinganças afetivas
Por influência do "efeito espelho", as pessoas costumam
projetar nos filhos as mágoas, decepções, necessidades não
satisfeitas do cônjuge ou de outra pessoa da família apenas
porque são muito parecidos na forma de ser. Não se projete
afetivamente na criança progressista, pois, sem maldade al-
guma, ela vai dizer-lhe tantas verdades que sua auto-estima
poderá ficar abalada.
Projeção da própria personalidade
Exemplo: o ciumento que projeta, além de insegurança e
desejo de posse, sua propensão para trair; e que, caso interesses
novos surjam, usa vários tipos de desculpas e justificativas. A
psicologia explica bem isso, e qualquer um de nós, todos os
dias, tem à frente inúmeras provas do mecanismo da projeção:
basta ter olhos de ver e ouvidos de ouvir - não se trata apenas
âe traições afetivas.
139
AMÉRICO CANHOTO
Possibilidade do mecanismo
de projeção ser útil
Na natureza, tudo tem sua polaridade complementar. Não
há nem bem nem mal definitivo. Como disse o sábio Lavoisier:
"nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".
O mecanismo de projeção pode tornar-se uma ferra-
menta para o autoconhecimento. Observemos as caracterís-
ticas que mais detestamos nas pessoas e estaremos observando
a nós mesmos, como se nossa imagem se refletisse num espelho.
Talvez leve um bom tempo até admitirmos algumas facetas da
nossa personalidade, mas se trata de um processo de grande
utilidade para nossa evolução.
PADRONIZAÇÃO j
Tentar padronizar o ser humano é uma forma de controlar,
manipular, dominar, explorar. Cada criatura é um ser único e
desrespeitar sua natureza traz conseqüências desastrosas não
apenas para aquele a quem prejudicamos, mas também para
a coletividade.
Estas são algumas das tentativas de padronização da
criança:
• Enquadrá-la na média estatística de peso e altura;
• Padronizar sua alimentação;
• Vesti-la de acordo com o que está na moda;
140
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
• Comparar o temperamento e o comportamento entre
irmãos;
• Uniformizar seu aprendizado escolar;
• Ditar sua forma de comportamento.
Quem fugir dos padrões impostos
pela sociedade é marginalizado.
Se, de alguma forma, a criança é diferente da maioria,
ela deixa de ser considerada normal e provavelmente será re-
jeitada pela família e pela sociedade. Em família, quem ousa
infringir os padrões é considerado ovelha negra. Quem se
descuida em observar as normas sociais, tão superficiais e
sujeitas aos modismos, é considerado mal-educado. Aquele
que contradiz os poderosos do momento (ou da hora) é ro-
tulado de agitador.
As crianças da nova geração não toleram ser pressio-
nadas ou induzidas. Perdem o entusiasmo pela vida quando
suas potencialidades são bloqueadas, tornando-se impedidas
de criar, de exercer seu papel e seus direitos e, principalmente,
de cumprir seus deveres - o que para elas é a razão de sua
existência.
EM BUSCA DE PRIVILÉGIOS
Desde cedo, aprendemos a
conquistar regalias e privilégios.
141
AMÉRICO CANHOTO
Esse aprendizado costuma iniciar-se na vida familiar. A
criança percebe que aqueles que ousam lutar para fazer valer
seus direitos não são bem vistos, até porque são mais difíceis de
serem controlados. Logo, incorpora a seu sistema de crenças
que é muito melhor, para sua tranqüilidade, pleitear mordo-
mias e privilégios que dar murro em ponta de faca e exigir que
seus direitos sejam respeitados.
Nossa sociedade ainda sofre com uma grande quanti-
dade de "folgados", pois geração após geração criamos uma
sociedade cujos valores éticos e morais se baseiam na busca
de privilégios de uns em detrimento de outros. Bem-vindas
sejam as crianças progressistas, por natureza as defensoras da
justiça, que, dia a dia, contribuem para derrubar os privilégios
da legião de folgados, parasitas que assolam o planeta. Ouvi
dia desses um comentário interessante num debate no qual um
dos participantes afirmou que o brasileiro de forma geral não é
muito fã de direitos, pois eles precisam ser exercidos, quando,
na verdade, gostamos mais de privilégios, daí a corrida intensa
aos concursos para o serviço público...
De quem é a
maior responsabilidade?
O estado de coisas que estamos enfrentando foi gerado
pela ausência de regras e regimentos claros a serem cumpridos.
Na vida em família, todos querem ter direitos, mas ninguém
deseja assumir responsabilidades. É lógico que a criança educada
142
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
por pessoas que agem dessa forma seja pobre em cidadania. A
nação é o reflexo da vida familiar de seus cidadãos.
Se assistir a noticiários faz parte de sua rotina, convide seu
filho, se ele tiver idade para isso, para servir de comentarista.
Ficará surpreso com suas observações. Observe a seriedade
de suas colocações. As crianças progressistas são analistas por
natureza, observam e se preocupam com o que está aconte-
cendo com as pessoas: são solidárias por excelência. É nosso
dever reforçar seu comportamento, incentivá-las a agir com
cidadania.
Em vez de nos determos na crítica fácil às autoridades,
por que não ingressarmos num partido político e nos enga-
jarmos em causas que beneficiem a comunidade? As crianças
da nova geração admiram pais que escrevem para revistas e
jornais, dão sugestões, manifestam apoio a iniciativas que me-
recem louvor, participam de uma ONG, são colaboradores vo-
luntários de hospitais, escolas... Esse é o pai que vai cativar esse
filho: um cidadão participativo.
CULTIVO DO MEIO-TERMO
Na natureza não
existe meio-termo, as coisas
ou são ou não são.
Fazemos questão de criar confusão entre equilíbrio e
meio-termo. Mesmo porque o equilíbrio é dinâmico e não
143
AMÉRICO CANHOTO
estático. Imagine um sujeito balançando na corda bamba.
Sua estabilidade (seu equilíbrio) depende de seus movimentos.
Nesta dimensão de polaridades, todas as experiências
possíveis têm de ser vividas e dominadas - esquerda e direita,
bem e mal, superior e inferior, alto e baixo, claro e escuro - uma
a uma, passo a passo, momento a momento.
Como exemplo: a polaridade entre alegria e tristeza. 0
ponto de equilíbrio é a serenidade. Uma pessoa serena não é
alguém metade alegre e metade triste. Apenas domina muito
bem a situação em que predomina a emoção tristeza e, da mesma
forma, a alegria. Não se apresenta depressivo nem eufórico.
A evolução exige determinação.
Optar pela moderação no combate aos vícios e às defi-
ciências do caráter é condenar-se a um sofrimento prolongado.
Precisamos ser fortes e decididos. Nossas decisões perante o que
devemos mudar devem ser balizadas pela clareza de propósitos
e firmeza para colocá-las em prática. As crianças progressistas
agem assim, são firmes e decididas quando firmam seus propó-
sitos e a sociedade lhes permite colocá-los em prática.
Se temos dúvidas em relação à necessidade de mudar
nosso comportamento, é preciso antes de tudo buscar esclare-
cimento. A percepção do que é bom ou não para nós deve ser
clara, lógica, inteligente, bem definida.
A moderação é necessária no trato com as pessoas tanto
como regra de boa educação ou civilidade quanto como um
144
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
motivo extremamente lógico. A interferência na vida alheia é
como uma assinatura numa promissória em branco: impor algo
a alguém ou decidir pelo outro é um descuido fenomenal.
As crianças da nova geração têm uma visão tão clara
disso que, por vezes, podem ser chamadas de pessoas de poucos
sentimentos. Quando convidadas a opinar sobre a vida alheia,
falam das próprias experiências, expõem suas idéias, mas evitam
ser diretos e dar o "prato feito" que a maioria das pessoas deseja:
uma solução servida na bandeja.
"Deixem as crianças vir a mim."*
A criança não tem meio-termo: ou quer ou não quer, ou
é ou não é. Ela tem a saudável tendência de ir fundo nas coisas,
embora o adulto tente, a todo custo, mudar sua atitude, ensi-
nando-a a pedir desculpas para tudo, a arranjar justificativas tão
tolas quanto inúteis. "Oito ou oitenta", esse comportamento é
saudável para a criança, pois acelera o aprendizado e a ajuda a
progredir. Deve ser incentivado pelos pais para que aprenda o
verdadeiro sentido do caminho do meio, não o da mediocri-
dade, do mediano. As crianças da nova geração são muito mais
definidas: boas ou más. Vamos exemplificar: se impomos nosso
credo religioso a essas crianças progressistas, elas nos farão as
mais diversas perguntas para inteirar-se da nossa crença. Pais
impacientes se incomodam com crianças assim, porque não
* Marcos, 8: 14. (N.E.)
145
AMÉRICO CANHOTO
sabem como responder a suas perguntas. As da nova geração
estão sempre receptivas para aprender e nossa função é selecio-
nar o material pedagógico e ensinar-lhes.
ACEITAÇÃO DAS INJUSTIÇAS
A injustiça é transitória.
Os fatos que num determinado momento nos parecem
injustos são na verdade a conseqüência de nossas atitudes do
pretérito. Trata-se de simples retorno, explicado pela Lei de
Ação e Reação. No mundo de expiação e provas, a vida em
família é pontuada por dificuldades e aparentes injustiças.
Os adultos geralmente exercem sua liderança por impo-
sição da sua vontade. Entre os pais, isso ocorre quando um diz
que não pode e o outro permite. Quando um penaliza e o outro
libera. Na maior parte das famílias, há uma disputa pelo afeto e
poder camuflada ou explícita entre pais/mães e outros membros
do grupo. A criança está submetida a inúmeras situações de in-
justiça que os adultos não percebem, pois estão contaminados
pelo vírus das desculpas e das justificativas; claro que a persistên-
cia dela vai afetar-lhe a personalidade e muitas vezes a colheita
dos pais nesta mesma existência é o asilo, o quartinho do fundo...
Evidente que todas as situações são reversíveis e temporárias,
desde que façamos as correções necessárias em tempo hábil.
A gente vai levando...
146
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Progredimos sempre, pois essa é a lei, mas o fazemos
geralmente de forma passiva. Na relação entre pais e filhos,
quando vivemos de forma descuidada, somos comandados pelo
subconsciente. Como a vida em família é um conjunto de espe-
lhos, um filho que lembra um possível adversário é tratado de
forma diferente dos outros (quem na qualidade de pai e mãe já
está atento a isso?).
Vamos ver como isso ocorre na prática: um pai é soli-
citado para decidir algo que diz respeito ao filho que se parece
muito com sua sogra, com a qual não mantém boas relações.
Com certeza, será rigoroso em seu julgamento. Caso fosse outro
filho, mais parecido com ele mesmo, sua atitude poderia ser
oposta. Essa ocorrência é mais comum do que imaginamos...
Ainda não somos bons
para julgarmos a nós mesmos.
Costumamos esquecer que o sujeito que está sendo
julgado também se julga. Quase sempre absolve a si mesmo.
Quando condenado por outrem, considera a sentença par-
cial ou muito rigorosa. Esse ainda é o nosso caso, na etapa
evolutiva na qual nos encontramos. Somos generosos quando
lavramos a sentença em favor do réu, se estivermos, ao mesmo
tempo, sentados no banco dos réus, porém, excelentes advo-
gados de defesa em causa própria. Esse é o nosso comporta-
mento rotineiro não apenas no lar, mas onde quer que nos
encontremos.
147
AMÉRICO CANHOTO
Uma criança que sofre essa influência naturalmente le-
vará para a vida adulta esse padrão de comportamento. Sempre
vai puxar a sardinha para a sua brasa, custe o que custar. Cabe
aos pais rever o modo de julgar a si mesmos. Estamos sendo por
demais generosos a nosso favor e rigorosos para com o próximo?
Nossos filhos nos observam e copiam nosso modo de agir.
DEMASIADA EXPOSIÇÃO À AÇÃO
DA MÍDIA
O livre-arbítrio é uma ferramenta
perigosa para quem não pensa
ou pensa pouco e mal.
Toda escolha tem um preço e gera um conjunto de bene-
fícios e prejuízos. Usamos os recursos que escolhemos. Quanto
mais poderoso é o recurso à nossa disposição, maior será o risco
de um eventual dano. Esse é o caso da utilização da energia nu-
clear. Trata-se de um recurso poderoso, mas capaz de produzir
prejuízos de grande monta se mal utilizado.
A grande expansão dos meios de comunicação de massa
criou a possibilidade de influenciar e manipular o ser humano
de uma forma como nunca vista. Se grande parte do que somos
aprendemos na infância, a exposição continuada aos meios de
comunicação de massa - comprometidos com a audiência con-
quistada a qualquer preço, que usa e abusa da violência, que
explora o sexo, a ignorância e o sensacionalismo - contribui
148
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
para a formação de pessoas desajustadas, alienadas, pobres em
valores éticos, despudoradas e violentas.
Controlar a exposição da criança
diante da ação da mídia
A verdade é que nós, adultos, somos pouco honestos em
nossas intenções. O chavão "faça o que digo, mas não o que
faço" é coerente com as atitudes dos pais ao querer selecionar o
conteúdo dos desenhos e programas infantis, mas antes mesmo
que as crianças durmam assistir a filmes e programas recheados
de violência e temperados com erotismo, sexo explícito etc. En-
quanto a situação não ficar crítica, não tomaremos nenhuma
atitude para modificar as coisas. Muitos, porém, mesmo sendo
capazes de discernir e avaliar os riscos a que as crianças estão
expostas, sobretudo à influência da televisão, nada fazem para
mudar. Primeiro porque adoram o que desejam evitar que seja
repassado a seus filhos e segundo porque a televisão é como
uma babá eletrônica, capaz de hipnotizá-los de tal forma que as
crianças dão um pouco de sossego aos pais...
Nem toda criança exposta à ação da mídia
se tornará problemática.
Estudos confiáveis mostram que boa parte das pessoas per-
manece em torno de quatro horas diárias em frente ao aparelho
de televisão. Ao ficar tão exposta, a criança pode aprender a ser
149
AMÉRICO CANHOTO
falsa, violenta, oportunista, mentirosa, traidora; também pode
aprender a comer sem ter fome, comprar o que não precisa, en-
dividar-se e dar calote, fumar e beber, usar drogas, seqüestrar,
roubar, ficar doente e até matar.
É claro que atribuir a culpa de todo o mal que assola o
mundo à influência dos programas de televisão é uma atitude
equivocada. No entanto, é urgente avaliar: quem está mais
presente na vida de nossos filhos? Nós ou a TV? Buscamos de-
sesperadamente recursos para comprar as de maior tamanho,
de tela plana ou com outras novidades de mercado, mas quanto
tempo e recursos uso para tornar-me um pai ou mãe de melhor
qualidade? Claro que cada criança vai incorporar o que estiver
disponível.
ENTRETENIMENTOS PERIGOSOS
Até pouco tempo atrás, nossas vidas eram compostas
mais de atividades corporais do que mentais e emocionais.
Hoje, algumas pessoas têm 95 por cento destas atividades e
cinco por cento daquelas. Lógico que um desastre inevitável se
avizinha no horizonte de nossas vidas. Quando a mente falha
nas escolhas, o corpo padece. O que se chama hoje de lazer ou
entretenimento causa sérios problemas à saúde e, a médio prazo,
é capaz de comprometer nossa própria existência.
O corpo não tem vida própria
nem é capaz de discernir.
150
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
O tão falado estresse crônico é um leão que foi colocado
na nossa frente e que não ataca nem vai embora. Entretanto,
sua simples presença desencadeia em nosso organismo um ritual
de ataque e defesa por meio dos hormônios e outras substân-
cias. Ora, quando assistimos a um programa de TV - um filme
de ação, suspense, terror ou drama, uma partida de futebol, um
noticiário -, o corpo físico não é capaz de detectar que estamos
presenciando uma realidade virtual; é mais um leão psicológico
que trazemos para engrossar o bando que já nos ameaça. Claro
que, diante disso, nosso corpo físico reage como se tudo aquilo
fosse verdade, produz hormônios e substâncias relacionadas
com as emoções que estamos sentindo, despertadas pelo que
acontece na tela.
Assim, é desencadeado um processo de ataque e defesa
que faz parte do nosso instinto de sobrevivência, o qual, nessas
ocasiões, ordena aos órgãos que despejem na circulação sanguínea
adrenalina, cortisol, vasopressina etc. Jesus bem que tentou nos
avisar: somente a verdade (realidade) vos libertará...
Alerta:
nossas crianças estão em perigo.
Com conteúdo baseado no erotismo e na violência, os
games atingem uma faixa etária cada vez mais próxima da in-
fância. O estrago causado por esses jogos em breve será monu-
mental. Por causa deles, as crianças estão correndo o risco de
sofrer depressão, angústia, desejo de suicídio, pânico e doenças.
AMÉRICO CANHOTO
Óbvio que não só em razão disso, também, em especial, pelo
sistema educacional como um todo.
Nossas mentes estão intoxicadas
por tanta informação.
Para as crianças da nova geração, é fácil evitar o excesso
de informações que tanto mal causa à maioria das pessoas. Basta
observar o comportamento delas em casa, na sala de aula ou
em outros lugares. Quando se sentem incomodadas, alheiam-se
e ocupam seu pensamento com suas prioridades. Desligam-se,
simplesmente.
O problema delas é sua dificuldade para estabelecer os
próprios limites. Sempre avançam, por vezes além da conta. Se,
por exemplo, aprenderam a gostar do videogame, são capazes
de jogar horas sem parar. Esse tipo de comportamento - mer-
gulhar fundo - é uma das características que mais observamos
nelas. Em geral, comportam-se quase sempre assim. Enquanto
a maioria das pessoas vive na superfície de suas experiências,
as crianças da nova geração exploram suas profundezas, o que
nem sempre pode trazer bons resultados.
152
Somos criaturas
em aperfeiçoamento,
a caminho da perfeição.
A educação é um processo
contínuo de aprendizado.
Parte das nossas limitações
de hoje representam
o resultado das nossas
escolhas do passado.
FAMILIA: OFICINA
ONDE APRENDEMOS
A ARTE DE AMAR
REESTRUTURAÇÃO DA FAMÍLIA
Hora de resgatar compromissos.
Emboraosrelacionamentos sejam movidos por in-
teresses antagônicos, são valiosas oportunidades de evolução:
seu aproveitamento depende apenas da boa vontade dos en-
volvidos. Mas somente a educação planejada segundo padrões
mais espiritualizados será capaz de criar uma filosofia de geren-
ciamento adequada à vida em família e desenvolver a solida-
riedade que se assemelha ao comportamento que é comum às
crianças da nova geração.
É hora de iniciar esse processo se desejamos fazer parte
do mundo de regeneração, o que nos é imprescindível. Educar
essas crianças progressistas que recebemos na condição de filhos
é a oportunidade que se nos apresenta para, junto deles, ganhar-
mos um inestimável impulso evolutivo. Podemos nos perguntar:
"Como educar criaturas tão diferentes de nós, que não levam em
conta nossas opiniões, questionam nossas idéias e abalam nossas
convicções com tão poucas palavras?". É um desafio e tanto.
Reestruturar a família é um projeto o qual, como qual-
quer outro, exige um coordenador capacitado. Como já vimos,
o método (adotado por muitos chefes de família) "faça o que eu
Reengenharia das relações
familiares
155
AMÉRICO CANHOTO
digo, mas não faça o que eu faço" já demonstrou que não fun-
ciona. Não se trata de simplesmente dizer "de agora em diante,
aqui em casa, a coisa vai funcionar desta maneira". Esse tipo
de afirmação mata, no nascedouro, a iniciativa que desejar-
mos implantar, simplesmente porque se trata de uma medida
imposta.
Outro exemplo a ser evitado: "Agora as coisas vão mu-
dar de verdade". Se houver uma criança da nova geração na
família, ela será a primeira a questionar as mudanças e revelar
a pouca capacidade de quem as sugeriu.
Sejamos os primeiros a nos engajar no processo de mu-
dança e a tomar o remédio que iremos receitar. Não haverá
necessidade de que estejamos curados para dar início às trans-
formações. O importante é deixar claro aos familiares que esta-
mos procurando mudar, mas ainda sujeitos a erros. Na condição
de coordenadores da melhoria devemos manifestar confiança
em nossa proposta.
Reengenharia da família:
mandamentos do gerente
• Respeitar a individualidade. Cada um tem sua própria
personalidade: só vai mudar por sua própria vontade
ou por esforço pessoal.
• Agir com indulgência. É fundamental não provocar
desentendimentos. Vale lembrar que estamos tentando
melhorar a vida em família e não piorá-la.
156
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
• Aprender a ouvir antes de falar.
• Não impor metas ou mudanças.
• Conscientizar-se da importância de sua missão.
• Deixar claro que as mudanças estão sendo feitas porque
a família merece uma vida melhor e mais saudável.
• Reconhecer as próprias falhas e fazer o que está a seu
alcance para corrigi-las.
• Anotar os comentários dos familiares, em especial
quando manifestarem descontentamento. Nessas oca-
siões, quando perdemos o controle do consciente, reve-
lamos quem realmente somos.
• Evitar criticar o errado ou o malfeito. Elogiar o certo.
• Não esperar retribuição ou elogios pelos seus esforços
(para evitar frustração).
Fase I - Estudo do que deve
ser mudado
Quando nossas expectativas não se cumprem, é hora de
mudar. Na primeira fase do processo, é preciso identificar o que
precisa ser mudado. Depois, formar uma equipe e treiná-la para
buscar as mudanças. Delegar tarefas. Reavaliar o que se atingiu
das metas. Recomeçar.
Além disso, deve ser feita a reavaliação do conjunto
de metas e objetivos que movimentam a família, assim como
a avaliação dos recursos disponíveis e dos que podem ser
buscados.
157
AMÉRICO CANHOTO
Exemplo para ilustrar: determinada família está priori-
zando a busca de recursos financeiros para construir uma casa.
Para isso, determinados gastos com lazer são cortados; além
disso, os pais tornam-se mais ausentes na relação com os filhos,
até que o rendimento escolar de um deles diminui tanto a ponto
de chamar a atenção, ou um outro passe a consumir cigarros,
bebidas ou maconha. É um sinal de alarme que indica a neces-
sidade de reavaliar prioridades e até as metas.
Fase II - Formar a equipe
E fundamental engajar a família nos objetivos comuns, e
isso não se consegue só com teorias. O projeto deve ser o mais
simples possível e claro para que as resistências às mudanças
sejam mínimas. É preciso criar objetivos comuns que interessem
a todos ou à maioria dos familiares.
Fase III - Delegar tarefas
Faz-se necessário distribuir tarefas e delegar responsa-
bilidades.
Fase IV - Reavaliar
Reavaliações periódicas são imprescindíveis. Deixar o
barco correr, ou seja, ignorar o que está acontecendo, é um
descuido que, no futuro, trará problemas.
158
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
MODERNIZAÇÃO DA FORMA DE
GERENCIAR A VIDA FAMILIAR
Não basta mudar a estrutura das regras e das metas da
vida em família, é preciso aplicar uma metodologia para a con-
tinuidade das mudanças.
Família: oficina onde
aprendemos a arte de amar.
Como instituição, a família vem sendo gerida como um
ajuntamento de pessoas, em que manda e desmanda quem
detém o poder econômico, quem é mais forte, autoritário ou
sabe manipular com mais competência.
Vejamos se não é esse nosso caso. A condição de provedor
da casa não nos dá o direito de agir, em relação aos nossos fa-
miliares, como se fossem nossos servos. O lar não é apenas um
aglomerado de pessoas que vivem sob o mesmo teto: somos
espíritos compromissados, reunidos pela divina providência
que nos enseja no aprendizado do amor.
Metas
Devemos idealizar metas e objetivos comuns, e o grupo
familiar deve participar dessa busca. Na teoria, parece óbvio.
Na prática, freqüentemente, não é o que ocorre. Mudar a di-
nâmica das relações é uma das metas mais importantes para a
reestruturação da vida familiar.
159
AMÉRICO CANHOTO
Na maior parte das vezes, a competição entre os fami-
liares é intensa, lembra uma guerra não declarada. O compor-
tamento dos irmãos é comparado pelos pais, que os estimulam
a sobrepujar-se um ao outro. Muitas famílias podem ser compa-
radas a times de futebol famosos que montam esquadrões e não
ganham nada, porque cada um dos craques vive apenas para
seu lucro pessoal; um não serve o outro porque todos querem
estar no topo da mídia.
No período da infância e da adolescência, as crianças
destacam de forma nua e crua sem muitos enfeites e disfarces
as características das outras com a intenção de diminuí-las
ou até de agredi-las: ridicularizam o cabelo, a altura, o peso,
a estética (formato do nariz, das orelhas), a falta de aptidão
dos colegas para algumas tarefas, gerando animosidade e
enfrentamentos. Esse tipo de comportamento foi absorvido
por intermédio dos adultos que fazem isso o tempo todo de
forma dissimulada.
Por causa da forma descuidada com que vivemos, a vio-
lência verbal entre irmãos acaba sendo estimulada, sem querer,
de modo inconseqüente. Descuidados, às vezes até nos diver-
timos com a grosseria desse bombardeio verbal. Uma das metas
da reciclagem como educadores é eliminar esse tipo de com-
portamento. Em primeiro lugar, evitar fazer comparações, as
quais, inevitavelmente, desmerecem alguém. Se presenciarmos
diálogos que tenham por objetivo menosprezar alguém, procu-
remos destacar um aspecto positivo dessa pessoa. Façamos o
contraponto e observemos a atitude do grupo.
160
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Normas
O grupo familiar deve possuir um conjunto de normas
de convivência e de comportamento que sejam objetivas,
claras e lógicas para serem seguidas por todos sem exceção.
No momento de compor a família, as regras da casa devem ser
discutidas em todos os detalhes. É claro que alguém sempre
tem de ceder em seus pontos de vista quando as idéias e a vi-
são de grupo são muito diferentes ou antagônicas. Se, porém,
apenas um cede, a união está irremediavelmente condenada
ao fracasso.
Deixar para criar normas ou resolver pendências e pro-
blemas apenas quando estes surgem é uma das causas da fa-
lência da família. Preocupar-se em mudar a forma de educar
os filhos apenas quando nos causam problemas e dificuldades
é plantar preocupações: "Primeiro, vamos esperar o problema.
Depois vamos pensar na solução".
Pais que agem dessa forma estão sempre às voltas com
dificuldades. Não perceberam que o objetivo da educação é
nos ajudar a evitar situações de dificuldade. Uma boa educa-
ção alimentar, por exemplo, evita transtornos digestivos. A
educação física que corrige a postura, exercita os músculos e
ajuda a queimar calorias consumidas em excesso coloca-nos
a salvo de vários inconvenientes. A educação espiritual apro-
xima-nos de Deus, desperta nossa sensibilidade para a frater-
nidade e liberta-nos do egoísmo, do excesso de preocupações
com a vida material.
161
AMÉRICO CANHOTO
O papel de cada um
Nossos familiares devem saber o papel que lhes cabe na
reestruturação da família para que os objetivos sejam atingidos.
Para tanto, os deveres e as obrigações de cada um devem ser
bem definidos. As crianças da nova geração têm uma noção
muito clara de quais são seus deveres e, quando os adultos per-
mitem, assumem suas responsabilidades com naturalidade.
Devemos evitar repetir os erros de mães que poupam seus
filhos das tarefas domésticas, mas, na idade adulta, jogam neles
a culpa de seus problemas de saúde, supostamente causados
pela sobrecarga de trabalho no lar. Essa atitude provoca sérios
transtornos nos relacionamentos familiares, causando traumas
que, por vezes, as pessoas carregam durante toda a existência.
A definição de tarefas nos dá a oportunidade de par-
ticipar. Membros participativos podem suprir a ausência de
outros. Se a esposa, encarregada da alimentação da família,
adoece, um dos familiares, preparado para executar essa tarefa,
assume a responsabilidade sem a necessidade de ser pressio-
nado para executá-la, e assim por diante.
As reavaliações são importantes
Certamente, iremos encontrar algumas dificuldades.
Para discutir como enfrentá-las e tomar decisões, nada melhor
do que realizar reuniões familiares, que devem ser promovidas
não apenas para resolver problemas, mas para evitá-los.
162
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Algumas famílias desenvolveram o saudável hábito de
estudar o Evangelho no lar e aproveitam esse momento tão
especial para, por intermédio da leitura e dos comentários a
respeito dela, promover uma reciclagem dos hábitos familiares.
Vale ressaltar que essas reuniões em torno do Evangelho não
têm por objetivo acusar, muito menos menosprezar alguém au-
sente. Trata-se de uma saudável oportunidade para, a partir
dos ensinamentos de Jesus, adequar-nos a uma nova forma de
entender aqueles que nos rodeiam, respeitá-los e perdoá-los
de suas faltas. As páginas espelham lições de amor, fraternidade
e caridade, o que mais necessitamos para viver melhor.
No corre-corre da vida moderna, um mural ajuda. Um
painel colocado na cozinha, por exemplo, é muito prático. Pro-
curemos ajudar nossos familiares em suas tarefas escrevendo
lembretes breves e amistosos. Da nossa parte, sejamos re-
ceptivos a esse correio fraterno: "Obrigado pelo lembrete!",
"Se não fosse você, eu teria esquecido", podemos anotar em
retribuição; e na era eletrônica um arquivo reservado no com-
putador, de uso comum e no qual todos possam expressar sua
opinião, é de grande valia. No entanto, o diálogo, o contato
físico, a carícia e as relações humanas são insubstituíveis.
Estudo dos conflitos
De nossa atual condição evolutiva, decorrem os conflitos
que enfrentamos na vida familiar. O hábito do diálogo, ainda tão
pouco cultivado, é ferramenta útil tanto para prevenir quanto
163
AMÉRICO CANHOTO
para resolver problemas observados. Por mais polêmica que seja
uma questão, deve ser esmiuçada e debatida em família. Todos
devem participar. Nessas ocasiões, quando incentivadas a ma-
nifestar-se, as crianças da nova geração costumam surpreender
ao apresentar soluções geniais para problemas aparentemente
considerados insolúveis.
RECICLAGEM DO EDUCADOR
O tempo todo, e em qualquer lugar onde nos encon-
trarmos, somos educadores. Para que os resultados dos nossos
esforços em prol de uma vida familiar melhor sejam mais pro-
dutivos, é preciso nos capacitarmos para as tarefas que nos
aguardam. É necessário rever e atualizar nossos conhecimentos.
Se até os professores precisam de reciclagem contínua, por que
nós, pais, conscientes de nossa condição de educadores, nos
omitimos quanto a essa tão necessária providência?
Há muitas formas de atualizar nossos conhecimentos:
uma delas, a mais prática, é por intermédio de bons livros. Outro
recurso são os meios eletrônicos: com facilidade, podemos de-
senvolver nossas próprias pesquisas e trocar impressões com as
pessoas interessadas, como nós, no bem-estar da família. Cursos,
seminários e palestras também são de grande valia. Exigem um
dispêndio financeiro, mas, sem dúvida, é um dinheiro muito
bem aplicado...
Os educadores são, acima de tudo, semeadores.
164
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
É lógico que não basta oferecer condições adequadas de
educação. É preciso que o educando seja receptivo. Cabe aos
envolvidos na educação motivar a criança para que não des-
perdice essa valiosa oportunidade de crescimento.
Alguns passos que os pais devem dar:
• Avaliar a importância do filho em sua vida. Esta é uma
prioridade? Ou vem após seu trabalho profissional e
sua vida amorosa, familiar e social?
• Admitir a necessidade de melhorar a si mesmo, o que
exige o desenvolvimento de uma virtude: a humildade.
• Evitar julgar os outros. Aprender a calar-se.
• Assumir os próprios erros. Evitar culpar os outros ou
envolvê-los em seus fracassos.
• Riscar do seu dicionário as expressões "sorte", "falta de
sorte" ou "destino" - conceitos criados pelo homem para
justificar sua incompetência em fazer suas escolhas.
• Estudar. Debater. Assistir a palestras. Se necessário,
buscar ajuda profissional.
ESCOLA DE PAIS
São raras as pessoas preparadas
para serem pais.
Em geral, ingressamos na fase adulta despreparados para
assumir responsabilidades ou mesmo discerni-las. A razão dessa
165
AMÉRICO CANHOTO
ocorrência generalizada é que não fomos preparados para
tanto. Algumas escolas particulares e da rede pública voltaram
suas preocupações nesse sentido: realizam reuniões periódicas
com a intenção de engajar os pais no processo educativo. Não
se trata de encontros nos quais apenas se discutem o desenvolvi-
mento dos alunos e seu comportamento escolar, mas também de
motivação a pais e mestres para, juntos, atingirem um objetivo:
educar com qualidade.
É de se lamentar que aqueles pais que mais necessitam
comparecer a essas reuniões, cujos filhos estão vivendo sérias
dificuldades, não participem desses encontros tão importantes
para o bem comum. Em geral, são pais que não se esforçam para
superar os problemas que estão enfrentando. Acomodam-se
e relegam a educação dos filhos a suas menores preocupações.
Acreditam que pagar as contas, suprir as necessidades básicas
da família e, vez por outra, cobrar providências seja o suficiente.
Vão despertar dessa acomodação quando o filho for reprovado
ou expulso da escola, cometer algum delito ou tornar-se depen-
dente de drogas. Nunca é tarde para exercer nossa condição de
pais, mas lembremo-nos do dito popular: "E melhor prevenir
do que remediar".
Faz-se necessário ter humildade para aceitar que estamos
despreparados para exercer nossa condição de pais-educadores.
Entender nossa limitação e buscar nos adaptar ao que se es-
pera de nós é dever de cada um. Pais e professores devem se
empenhar no seu contínuo aperfeiçoamento. Escola, família e
sociedade devem trabalhar em conjunto.
166
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
EDUCAÇÃO COMPARTILHADA
Compartilhar é dividir sem cobrar ou exigir.
Compartilhar é dividir o que possuímos. Se não rece-
bemos educação conveniente, como compartilhar algo que não
possuímos? Pais descuidados com a vida repassam essa atitude
para os filhos. Reconhecer nossas limitações é despertar para
a educação continuada. Por outro lado, ter ciência de nosso
despreparo e permanecer de braços cruzados será desperdiçar
nossos talentos e nos condenar a viver com a culpa e o remorso.
Aprender é tentar.
O erro é apenas um acidente de percurso.
Alguns pais procuram fugir de suas responsabilidades ao
transferir a educação dos filhos a outras pessoas. No futuro, a
vida lhes ensinará quanto essa decisão foi responsável pelas
amarguras e desilusões que podem vir a colher. Existem aqueles
que se confessam incompetentes para educar e agem dessa forma
apregoando sua condição de inabilitados, como se essa atitude
pudesse retirar-lhes sua responsabilidade nos possíveis desdobra-
mentos dolorosos.
A realidade é bem outra: pais nessa condição, mas que
aprendem a educar com os próprios erros e persistem em ajudar
seus filhos a evoluir, obtêm resultados muito superiores àqueles
que delegam sua responsabilidade a parentes ou profissionais.
167
AMÉRICO CANHOTO
Compartilhar não é ditar ordens
ou fazer discursos.
Compartilhar é um exercício de sabedoria, no qual é pre-
ciso engajar a criança e motivá-la a aprender conosco. Ela deve
ser estimulada a raciocinar, decidir e, depois, arcar com as con-
seqüências de suas escolhas. Devemos permitir que ela experi-
mente as conseqüências de seu aprendizado, poupando-a de
comentários negativos: "Eu sabia que isso ia acontecer"; "Eu
bem que avisei..."
Nossa atitude educativa é ajudá-la. Dessa forma, con-
quistaremos sua confiança: a criança enxergará em nós um
amigo, um parceiro, não um promotor público a acusá-la a
toda hora... É claro que devemos alertá-la para as escolhas
que está fazendo:
"Meu filho, venha cá: já passei por isso. Fiz a mesma coisa
que você está fazendo. Quer saber o que aconteceu comigo?"
Nossa experiência de vida, se transmitida por intermédio
de exemplos, será levada em consideração. As crianças em
geral adoram ser educadas com um mínimo de inteligência,
amor e respeito. Impor nossa pretensa sabedoria é uma simples
perda de tempo.
A ARTE DE EDUCAR
Reciclar nossas crenças deve ser um exercício diário e
sistemático para que automatizemos essa disposição em nosso
168
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
inconsciente. Somente dessa forma seremos capazes de res-
ponder a uma pergunta que um dia poderemos fazer a nós
mesmos: "Onde foi que eu errei?". Identificado o engano, de-
vemos tratar de corrigi-lo.
Em benefício da família, podemos perguntar a nossos
filhos - antes que os problemas surjam - se estamos sabendo
lidar com eles.
Educar com alegria e prazer
Parte dos conceitos que adotamos no dia-a-dia foi incorpo-
rado da cultura e do meio onde vivemos: todos os dias ouvimos
dizer que ter filhos e educá-los é uma tarefa difícil, que é loucura
ter mais do que um. Se dermos crédito a essas crenças, seremos
prejudicados em nosso propósito de nos tornar eficientes edu-
cadores daqueles a quem a divina providência nos entregou.
Ao contrário, ter filhos é extremamente gratificante.
Nós nos sentimos realizados e recompensados em saber que
lhes proporcionamos a oportunidade de reencarnar por nosso
intermédio. As dificuldades que enfrentamos para criá-los e
educá-los são as mesmas que temos em todos os empreendi-
mentos nos quais nos engajamos. A dedicação, a perseverança,
o trabalho e a determinação nos auxiliarão a superar todas
as barreiras.
Toda criança tem um sonho secreto:
ter pais palhaços...
169
AMÉRICO CANHOTO
As crianças merecem nossa atenção, o tempo todo, sempre
que possível. Quanto maior for o tempo do qual dispusermos
para ficar a seu lado, melhor para elas e para nós. Se o fizermos
com disposição e alegria, conseguiremos cativá-las: elas se sen-
tirão à vontade em nossa companhia. Música, teatro e bons
livros ajudam a aproximar as crianças dos pais. Mesmo aquelas
mais resistentes e resmungonas não resistem às brincadeiras
saudáveis que podemos criar.
Improvisar uma comédia, um teatrinho no qual os per-
sonagens sejam os próprios familiares vai provocar reações hi-
lariantes. Experimente também, depois de assistir a um filme
ou peça de teatro, perguntar a seu filho qual dos personagens
parece mais com você. As novas crianças adoram esse tipo de
brincadeira. Suas reações são imediatas: elas têm o poder de
envolver outras crianças e os resultados serão os mais anima-
dores possíveis.
Impor é desrespeitar
Exercitar o uso da liberdade é nosso grande desafio.
Quem pensa com clareza e persevera em suas considerações
não aceita imposições sem sentido claro, lógico. A educação à
moda antiga, que cultivava em excesso a prerrogativa do poder
- "é assim porque eu quero" ou "porque sim" -, esgotou-se...
Pessoas com inteligência acima da média resistem a imposições
discutíveis (como as leis humanas que não se integram com-
pletamente às leis da evolução). A primeira e natural reação
170
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
dessas pessoas é boicotar a imposição de forma velada, mais
comum, daquela às claras. Preferimos receber sugestões que
sejam adequadas a cumprir ordens sem sentido. Nossos filhos
acatarão muito melhor nossas ordens se as transmitirmos como
instruções simples e raciocinadas. Isso não significa perda da
autoridade, mas brandura no seu exercício. Recorrer a comen-
tários mordazes, do tipo "Quem pode manda, quem não pode
obedece", simplesmente afasta de nós aqueles que poderiam
ser nossos aliados na reestruturação do lar. Precisamos en-
tender que a verdadeira liderança não é conquistada pela
força, mas pelo carisma. A história da humanidade está repleta
de exemplos que comprovam essa afirmação.
As pessoas mais maduras (não importa a idade cronoló-
gica) tendem a resistir à intolerância, à prepotência e à falta
de coerência. A condição de educador exige a habilidade de
dar ordens entendidas como razoáveis. As crianças que estão
nascendo por toda parte são resistentes à voz de comando
autoritária, ditatorial.
Falar menos e agir mais
A didática do falar muito e não agir de acordo leva a
um desastre educativo. Quando a criança descobre que há no
mundo muitas pessoas além dela, começa a buscar seu limite e
desenvolve uma natural tendência de contrariar o que o adulto
tenta impor apenas para manter o poder. Neste mundo cada
vez mais interativo, inclusive por causa da ajuda da mídia, a
171
AMÉRICO CANHOTO
criança descobre que o poder pode ser exercido sem o uso de
nenhum tipo de força...
Quando o adulto é incapaz de se fazer obedecer, perde as
estribeiras e agride verbalmente a criança. Alguns pais alegam
a necessidade de "dar uns tapas" nos filhos para discipliná-los.
É comum presenciarmos a reação de crianças tratadas dessa
forma em público: gritam e esperneiam, para constrangimento
dos pais. Costumam também adoecer, como forma de revidar
a agressão recebida.
Pais descuidados usam a contradição
como recurso pedagógico.
Alguns pais usam de um paradoxo destruidor: falam
para a criança fazer o que não desejam, ou seja, dizem o con-
trário do que esperam dela. Essa prática absurda dá resultados
por pouco tempo e causa sérios transtornos. A criança deve
receber ordens claras e não viver, desde cedo, num mundo de
contradições.
A falta de honestidade não é só roubar alguma coisa,
ludibriar para tirar proveito ou enganar alguém. Mais do que
isso, é pensar uma coisa, dizer outra e agir de forma diversa.
Esse comportamento, além de contraditório, é desonesto.
Por exemplo, quando ajudamos nossos filhos a fazer a
lição de casa, somos movidos pelo desejo de incentivá-los a es-
tudar ou estamos preocupados que eles sejam reprovados e nos
causem constrangimento diante da família e dos amigos? Se
172
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
nossos filhos estudam numa escola particular, nós os ajudamos
pensando no dinheiro que vamos desperdiçar caso sejam re-
provados? A criança que, nos primeiros anos de estudo, recebe
esse tipo de ajuda dos pais, no futuro poderá enfrentar dificul-
dades na vida afetiva, social e profissional. A ajuda que recebeu
não foi prestada com amor, pois escondia outras motivações.
Tudo por amor.
Aprendemos e repassamos esse modelo de comporta-
mento sem questioná-lo. Não se trata de incapacidade de nossa
parte, e sim receio de assumir uma postura responsável, de en-
frentar a realidade dos fatos. E, assim, vamos levando a vida
enganando a nós mesmos. Agimos com segundas intenções, as
quais camuflamos de nós mesmos. As crianças da nova gera-
ção são sensíveis a esse tipo de situação e sofrem mais quando
são vítimas de pais que agem dessa forma. Vale a pena reciclar
nosso conceito de amor, que é tão misturado com apego, sen-
timento de posse...
Averdade acimadetudo
Neste contexto, da educação infantil até a universidade,
aprendemos a fazer pequenas trapaças cujas conseqüências um
dia nos atingirão. Boa parte da desordem em nossas relações
sociais e até mesmo entre as nações se deve a esse expediente,
falsear com a verdade.
173
AMÉRICO CANHOTO
A arte de ficar calado deve ser exercida. Se não soubermos
o que dizer, é melhor calar. Vale mais admitir nossa ignorância e
calar. Pais que recorrem a meias-verdades deseducam os filhos.
Neste mundo, mentimos demais. Durante um único dia,
a maior parte das pessoas vive mais na mentira do que na
verdade. Algumas mentem tanto que automatizam esse com-
portamento e não conseguem mais distinguir entre o que é
verdade ou não. Confundem realidade com ilusão e, nesse
contexto, a verdade é a expressão da verdadeira intenção e a
mentira é a que tem intenção de enganar, ludibriar.
Viver fora da verdade prejudica a criança
da nova geração.
As crianças em geral são sinceras e espontâneas. Falam o
que estão sentindo e transmitem suas impressões com sinceri-
dade. Quando educadas por pais que lhes ensinam as chamadas
mentiras convenientes, ou sociais, confundem-se. As da nova
geração, em especial, sofrem mais quando pressionadas a agir
dessa forma. Um exemplo bem corriqueiro: toca o telefone, a
criança atende. O pai não quer atender e manda dizer que não
está. Uma tempestade desaba no lar quando ela, ao telefone,
responde: "Meu pai mandou dizer que não está" e desliga o
aparelho. A transparência automática da criança progressista
incomoda os pais.
Se desejamos a felicidade e a harmonia familiar, deve-
mos abolir o hábito de usar e abusar das segundas intenções.
174
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Na presença de nossos filhos ou longe deles, deixemos de lado
esse tipo de expediente, para o qual não existem justificativas.
Certamente estaremos remando contra a maré: a maioria das
pessoas emprega a fala de acordo com suas conveniências.
Um desafio: provar aos nossos filhos
que eles podem ser diferentes
Devemos incentivar nossos filhos a serem diferentes da
maioria das crianças no aspecto do uso da ética e da moral.
Não se trata de inspirar neles o espírito de competição, mas
sim do desenvolvimento do senso crítico, da postura ética e do
autoconhecimento. Sejamos nós a ensiná-los quanto os pre-
conceitos são perigosos para sua formação e como é importante
amparar, socorrer, perdoar, compreender e conviver com os
outros sem impor condições ou exigências...
Nenhum conhecimento pode
ser aplicado sem esforço.
Falar apenas não adianta. Falar uma coisa e fazer outra
é pior ainda. É preciso que se permita à criança viver a si-
tuação para que a experiência seja repetida quantas vezes seja
necessário para que seja arquivada no seu subconsciente e se
automatize como um impulso, uma tendência.
Chega de brincar de faz-de-conta. Os pais não devem
perder tempo e recursos em busca de remédios miraculosos
175
AMÉRICO CANHOTO
para mudar os hábitos dos filhos. Tudo se faz com conhecimento
e trabalho sob a ação do tempo.
Quando observamos e avaliamos algo, não devemos ter
medo de fazer errado. É errando e acertando que aprendemos.
O cuidado a tomar é não aplicar de forma imediata as opiniões
alheias sem avaliá-las, sejam de quem for.
Preocupo-me quando vejo pais em busca de botões má-
gicos para apertar. Remédios que tornem as crianças mais obe-
dientes, submissas, cordatas, inteligentes, éticas. Ou quando
buscam profissionais que sejam capazes de "abrir a cabeça" da
criança para mudar seu comportamento. Nossa preocupação
deve ser com o futuro dessas crianças, rotuladas de problemá-
ticas por pais que abrem mão do desenvolvimento da compe-
tência delas. Um mínimo de conhecimento e uma pitada de
maturidade somada a boa vontade são suficientes para começar
a reverter esse quadro.
Aprender a dar tempo ao tempo
Nem sempre, nesta existência, ceifamos o que plantamos,
pois é possível colher os frutos que semeamos num futuro mais
remoto. É mais acertado aprender a nos concentrar no que se-
meamos no subconsciente de nossos filhos - bons hábitos, con-
ceitos verdadeiros, valores morais - e nos despreocupar com a
colheita dessa semeadura. Os bons frutos virão a seu tempo, o
que independerá da nossa vontade. Vivemos num mundo que
funciona rapidamente, tipo fast, em que somos cobrados a fazer
176
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
tudo para ontem e também, é claro, cobramos de nós mesmos,
dos outros e da vida um retorno rápido, que satisfaça nossos
interesses e expectativas.
As pessoas não mudam do dia para a noite.
É impossível modificar em alguns meses o que foi assi-
milado em anos de ensinamento inadequado, muito menos
as tendências, impulsos e compulsões que trazemos ao nascer.
Não bastam algumas palavras e tentativas para que, num piscar
de olhos, alguém se modifique para melhor.
Não devemos nos preocupar com a mudança de hábitos
e atitudes dos filhos, mas ensinar-lhes e exemplificar a postura
correta, o padrão adequado de conduta. Quando eles irão co-
locar nossos ensinamentos em prática já está além da nossa res-
ponsabilidade. Vamos limitar nossas cobranças a nós mesmos,
cobrar mudanças do próximo é falta de bom senso. Quem gosta
de ouvir: "Quando é que você vai parar de reclamar?"; "Ainda
não aprendeu o que eu ensinei?"; ou "Será que só depois da
minha morte você vai dar valor para minha opinião?"...
Seres humanos não são robôs.
Não há botões para apertar. Nem fórmulas mágicas para
padronizá-los. Crianças são espíritos que recebemos para enca-
minhar na vida. Cada uma é um desafio único para nosso pro-
gresso. Muito se fala em aprender a lidar com as diferenças, mas
177
AMÉRICO CANHOTO
como podemos aceitá-las se não aceitamos que nossos filhos
sejam diferentes? Comecemos, em nosso lar, a viver as diferenças
com bom humor e alegria.
Não basta adquirir conhecimento, é preciso
cultivar a boa vontade para aplicá-lo.
Como e onde aprender? Teoria sem prática é como a fé
sem obras. Estudar, ler e informar-se são práticas importantes,
pois sempre acrescentam algo, embora, ao final de uma palestra
ou de um curso, sintamos dificuldade para colocar a teoria na
prática. Não podemos nos intimidar diante das dificuldades e
das aflições que venhamos a enfrentar.
Bem-aventuradas a dor e a aflição
que obrigam a evoluir.
O sofrimento impulsiona nossa evolução. A dor nos ajuda
a não incorrer nos mesmos erros. A criança deve ser educada
a aprender com o sofrimento que já está em andamento - uma
das nossas metas é exatamente provar à criança que sofrer para
aprender é desnecessário.
Quando uma criança impulsiva e agressiva é contrariada,
perde o controle e quebra um brinquedo ou um objeto qual-
quer. O melhor a fazer é não repor o brinquedo ou o objeto
danificado. Ao sofrer a perda, a criança refletirá sobre a neces-
sidade de mudar seu comportamento.
178
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Quer evitar que a criança peça tudo
aos gritos ou chorando?
E simples: jamais lhe dê algo ou atenda a seus desejos en-
quanto ela não falar baixo, com respeito; deixe claro que, cho-
rando ou gritando, ela não vai conseguir nada.
Os pais nunca devem desistir de ajudar os filhos. Apenas
é preciso que fique bem claro que ajudar não é fazer a tarefa do
outro nem tentar controlar sua vida. Fechar as portas e cortar re-
lações indica prepotência e falta de caridade. Atitudes que não
devem ser confundidas com disciplina e severidade. Se desistirmos
de ajudar um filho, ele pode desistir de querer continuar vivendo.
Não há regras para amar
Os pais devem fazer tudo do jeito mais fácil, alegre e praze-
roso. Ao ouvirmos: "Como é difícil educar os filhos", vamos pensar
"Eu também já cometi esse engano". Aceitar nossos filhos como
eles são é a melhor atitude da nossa parte, assim como respeitar
seu modo de ser revela nosso bom senso e humildade. Esse é o
maior, mais simples e eficaz ato de amor que podemos ofertar.
Dizer sempre sim,
qualquer um é capaz.
Agradar aos filhos não deve ser nossa meta. É preciso dis-
cernimento e clareza de intenções para dizer um "não". Os pais
179
AMÉRICO CANHOTO
têm de aprender a desenvolver a competência para dizer não
na hora certa. Respeitar não é fazer as vontades e o gosto de
quem quer que seja. Em lares estruturados, as normas da casa
são justas, simples, claras e eficientes.
LEIS BÁSICAS DA VIDA: ENSINO
OBRIGATÓRIO
Diz o bom senso que devemos conhecer
as leis do lugar onde nos encontramos
ou para onde vamos.
Para que a qualidade de sua vida seja mais adequada, a
criança precisa ser auxiliada a conhecer as leis divinas. Nesse
caso, as da nova geração levam vantagem, pois nascem conhe-
cendo a legislação divina de forma intuitiva. Elas enfrentam
sérios problemas quando os adultos as impedem de agir em con-
formidade com essas leis. Essa repressão gera um conflito psico-
lógico capaz de conduzi-las a distúrbios afetivos, emocionais, de
comportamento social e até a doenças. Por sua vez, elas tentarão,
a todo custo, provar que os adultos estão equivocados.
Entender e aplicar
a Lei de Causa e Efeito
E preciso permitir que a criança sinta integralmente os
efeitos de suas escolhas até que aprenda que a Lei de Ação e
180
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Reação é inevitável. Poucas vezes, o adulto assume a responsa-
bilidade sobre os efeitos de seus atos e escolhas menos felizes,
pois não foi educado para isso.
No mundo em transição em que vivemos, daqui para a
frente, raras vezes as pessoas vão conseguir levar alguma mentira
para o túmulo: se tinha pernas curtas, doravante nem pernas
mais terá... Será cada vez mais fácil provar aos nossos filhos que
o crime não compensa, que a era dos espertalhões está no fim...
E não apenas pensar para fugir da dor, do sofrimento e
dos problemas. Prevenir é revelar sabedoria. A nova criança
entende com incrível clareza a necessidade de prevenir. O
processo educativo exige erradicar o mal, que é a verdadeira
prevenção. Muitas pessoas imaginam que prevenir é cercar-se
de medicamentos que aliviam os sintomas causados por seus
vícios. Não se trata disso. Exageram na alimentação, fumam,
consomem bebidas alcoólicas e depois recorrem à assistência
médica para amenizar os efeitos dos vícios.
Responsabilizar-se pelas próprias
escolhas
Aquele que, o tempo todo, culpa os outros, as situações,
os acontecimentos ou até Deus pelo que lhe acontece ainda é
181
AMÉRICO CANHOTO
um arremedo de humano. Para evoluir, a criança deve apren-
der a não culpar os outros pelo mal que causou a si mesma.
As crianças da nova geração
não culpam os outros.
A criança progressista não vive se desculpando nem
usando de justificativas para evitar suas obrigações. Dá o que
fazer para conseguir que essa criança peça desculpas - ela gosta
de fazê-lo com mudança de atitudes e não apenas verbalizando;
para ela é difícil entender como os outros não fazem o mesmo.
Caridade, caminho de evolução
É um descuido levar a criança a crer que só o sofrimento
nos ajuda a evoluir. Devemos incentivá-la a praticar o bem e ser
solidária, indulgente e fraterna. É obrigação dos pais deixar
claro aos filhos que só se alcança a felicidade praticando o bem ao
próximo. Eles devem ser ensinados a perdoar sempre, pois é uma
atitude inteligente e não apenas um comportamento ético, moral
ou religioso. Na exata medida em que nos capacitamos a perdoar,
receberemos dos outros o mesmo sentimento. É preciso que se en-
tenda com absoluta clareza a lógica do perdão. Não se deve pedi-lo
apenas como hábito, para não nos viciar em desculpas, mantendo
porém um padrão repetitivo e inadequado de comportamento.
Vale a pena lembrar que ninguém suporta pessoas que
vivem abusando de segundas intenções por muito tempo. A
182
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
atitude de viver com clareza e transparência para muitos parece
impossível de ser colocada em prática, mas não é e pode ser
aprendida com as crianças da nova geração que nos rodeiam.
Para isso, é preciso que respeitemos as condições e o momento
das pessoas. Nosso dever é fazer nossa parte: perdoar.
Lei de justiça
As crianças progressistas têm um
adequado senso de justiça, uma de suas
características mais marcantes.
Somos interdependentes. Ao pensar e escolher, criamos
nosso destino. Construímos o futuro e também interferimos na
vida das pessoas. Quanto mais forte for a relação afetiva do outro
para conosco e menor sua soberania emocional, mais nossas
escolhas vão causar distúrbios nele. Nossas atitudes afetam os
outros tanto de forma positiva quanto negativa.
Lei de retorno
A criança deve ser auxiliada a perceber que todos os pen-
samentos que emitimos retornam até nós. Familiarizada com
essa lei, ela desenvolverá soberania emocional para entender
que o momento presente de cada um tem tudo a ver com seu
passado, que não adianta fugir das lições a serem aprendidas
nem das reparações exigidas.
183
AMÉRICO CANHOTO
A simples percepção de que o presente decorre das es-
colhas passadas não pode servir de justificativa para permane-
cermos inertes sob pena de prejudicarmos nossa qualidade de
vida futura. Muito menos devemos cruzar os braços perante as
dificuldades do próximo, imaginar que ele merece ou precisa
viver aquela experiência integralmente.
As crianças progressistas intuitivamente sabem disso e
nunca perdem a chance de ser úteis: sentem-se compelidos a
ajudar os mais necessitados, evitando porém envolver-se nos
seus sofrimentos. Elas sabem da necessidade de desenvolver a so-
berania emocional que nos capacita a pensar melhor para encon-
trar formas mais simples de resolver os problemas do presente.
Lei de sintonia
Quando pensamos, emitimos ondas eletromagnéticas
que compõem um padrão vibratório particular e entramos em
sintonia com padrões vibratórios semelhantes. As crianças pro-
gressistas, embora nascendo por toda parte, ainda são minoria
e tendem a sentir-se incompreendidas e isoladas. Mesmo assim,
em geral, têm reações positivas e tendem a agrupar-se para
melhor desempenhar sua missão.
Lei da relatividade
Os fenômenos que regem a vida obedecem à lei da re-
latividade no tempo e no espaço. É fácil e necessário ajudar
184
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
a criança a usar a lei da relatividade na interpretação dos
acontecimentos. Tudo tem seu momento próprio de desen-
volvimento: algumas pessoas compreendem essa lei mais fa-
cilmente do que outras.
As crianças da nova geração não se deixam apressar tanto
pelas situações nem pelas pessoas. Na maior parte das vezes,
são confundidas com hiperativas: executam muitas tarefas ao
mesmo tempo, mas dão conta delas e são capazes de terminar
todas com boa qualidade. O mesmo não ocorre com o hi-
per ativo, que não é capaz de terminar aquilo que começou e
quando o faz suas tarefas são mal-executadas.
Lei de progresso
Tudo no universo é regido segundo as leis de Deus. Na
equação seqüencial da evolução, a constante é o resultado das
escolhas anteriores ou do passado. A variável capaz de mudar
o resultado (o futuro) é a liberdade de pensar, criar ou interferir
no presente.
Um detalhe importante que ignoramos freqüentemente é
que somos responsáveis por nossas criações. Progredir, sim, mas
com a liberdade regulada pela responsabilidade, esse é nosso
destino. O respeito ou desrespeito a essa lei transforma o pro-
gresso humano em atitude ativa ou passiva. A criança da nova
geração é bem ativa e determinada. Se você negar algo que ela
deseje fazer, prepare-se para explicar bem os motivos: se não
forem lógicos, a birra é certa, e ela vai continuar insistindo.
185
AMÉRICO CANHOTO
Sistemas de crença
Crer ou deixar de acreditar nas leis de Deus não as modi-
ficam, apenas alteram as ocorrências que estamos vivenciando.
A criança deve compreender se ela acredita ou não em algo, no
entanto isso não muda a realidade das coisas e dos fatos.
Tratando-se da fé religiosa, se os pais conseguissem ao
menos fazer com que as crianças assimilassem a lei mosaica
"Não tomarás em vão o nome do Senhor, teu Deus"*, daríamos
um grande passo na direção da paz. Para que a criança seja capaz
de assimilar suas responsabilidades, é preciso que o adulto dê
o exemplo e evite repetir refrões do tipo: "Deus quis assim!";
"Essa é a vontade de Deus"; "Deus sabe o que faz"; "Estamos
nas mãos de Deus"...
Para as famílias que se guiam pelo Evangelho, apenas duas
das leis nele contidas são aplicadas ao dia-a-dia e suficientes
para que progridam com o mínimo de sofrimento:
"Vigiem e rezem."**
A criança deve aprender a vigiar a si mesma - seu modo
de pensar, sentir e agir - e entender que não deve perder tempo
e energia para vigiar os outros; isso, entre outras coisas, é falta
de consideração. Sempre que se possa relacionar uma situação
* Êxodo, 20: 7. (N.E.)
** Mateus, 26: 41. (N.E.)
186
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
desagradável vivida pela criança que tenha sido criada com a
ajuda de uma característica da sua personalidade, essa chance
não pode ser desperdiçada. Por exemplo, a impaciência que
traz consigo a demora, a complicação; a ira que a leva a atirar
e até quebrar objetos...
"Ame o seu próximo como a si mesmo."*
Esse postulado tão sintético e tão amplo abrange tanto a
Lei de Ação e Reação quanto a lei da interatividade que regula
a vida de relações. A lei da caridade é uma das mais importantes
matérias no curso de educação humana.
De geração em geração, somos mestres em repassar con-
ceitos importantes de forma descuidada segundo nossos in-
teresses. Costumamos fazer de conta que não sabemos o que
podemos e o que devemos fazer em benefício das pessoas. Claro
que a criança copia o adulto e sente apenas dó ou pena dos
deserdados da sorte: raramente é ensinada a trabalhar em favor
do próximo.
Esse é um descuido que pode levar a sofrimentos desne-
cessários. No dia de hoje, podemos possuir muito, mas amanhã
é possível que nos encontremos em dificuldade. Nesse caso,
não nos contentemos em saber que se apiedam dos nossos so-
frimentos. Vamos querer receber ajuda. No momento em que a
Terra vive uma grande transição, não podemos fechar os olhos
* Levítico, 19: 18. (N.E.)
187
AMÉRICO CANHOTO
a essa possibilidade: quando precisarmos de ajuda, seremos so-
corridos segundo nosso merecimento.
Mas, afinal, o que é caridade?
Doar o que para nós não tem mais utilidade ou contri-
buir com algum dinheiro em favor de uma boa causa é um bom
começo para iniciar a criança na arte da caridade. No entanto,
nada substitui a caridade do convívio fraterno: o sorriso com-
preensivo, a palavra de alento endereçada a quem perdeu a
esperança. Os indivíduos progressistas são bons amigos e con-
selheiros, mesmo quando crianças, a seu modo, são capazes de
expressar amor e solidariedade ao próximo.
188
A criança precisa de
nosso ajuda para perceber
que somos interdependentes
e que o espaço de uma
pessoa e o conjunto de
seus direitos terminam n o
momento em que começam
os do próximo.
ALGUNS
DISTÚRBIOS DO
COMPORTAMENTO
PODERIAM SER
EVITADOS SE
NÓS, ADULTOS,
PRESTÁSSEMOS
MAIS ATENÇÃO
ÀS CRIANÇAS,
ANALISANDO SUAS
ATITUDES, IMPULSOS E
TENDÊNCIAS NATURAIS
Se a educação fosse orientada também para o
lado prático da vida - as necessidades do cotidiano -, a maior
parte dos problemas que nos atingem na idade adulta seria evi-
tada ou não assumiria proporções capazes de prejudicar nossa
qualidade de vida.
Na saúde
"Essa criança vive doente."
Costumamos reclamar e muito das doenças da infância.
Pouco ou nada aprendemos com elas. Entre outros descuidos
causados por nossa educação deficiente, não estamos prepa-
rados para observar as tendências inatas da criança para adoecer,
nem sabemos diferenciá-las daquelas que se originam de seus
hábitos ou de seu estilo de vida, ocasionados por vícios ou ma-
nifestações emocionais.
Entender a origem e a causa das doenças, bem como seu
tratamento e cura, faz parte de uma complexa cultura, repassada
de geração a geração. Muitas pessoas atribuem as doenças à
falta de sorte, ao destino de cada um, e acreditam nessas cren-
dices, sofrendo suas conseqüências.
Observamos que nossos pequenos descuidos, agravados
por doenças crônicas, como diabete, rinite, sinusite, asma,
bronquite, hipertensão, câncer, displasias, gastrite, causam
repercussões cada vez maiores. Caso continuemos a viver sob
a ação desses paradigmas - superstições sem fundamento -,
191
AMÉRICO CANHOTO
nossas crianças podem enfrentar muitos riscos. É dever dos
pais buscar entender por que os filhos sofrem a ação de deter-
minados males e as causas de sua enfermidade.
Nos hábitos
Os hábitos são transmitidos de uma geração a outra. O
que era considerado bom para a saúde hoje pode ser nocivo e
até perigoso. Repetindo o que ouvimos de nossos pais, criaremos
filhos glutões, futuros candidatos à obesidade e diabete:
"Esse menino é bom de boca:
come bem e quer comer a toda hora!"
"Se ele quiser, dou; afinal, quanto
mais se come, mais saúde se tem."
"Se você comer tudo,
vai ganhar aquela sobremesa gostosa."
Esses e muitos outros pequenos e saborosos descuidos le-
vam os filhos a ter um futuro com problemas de saúde.
Pequenos descuidos contribuem para criar viciados em
refrigerantes, estimulantes e até álcool:
"Deixa ele experimentar,
um pouquinho só não faz mal."
192
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Muitos adultos, que não imaginam o alcance desse tipo
de atitude, divertem-se com a reação do bebê ao ingerir um
gole de refrigerante... Pequenos descuidos ajudam a criar fu-
turos insones, desmemoriados, míopes, sedentários:
"Pelo menos, enquanto ele assiste
à televisão nos deixa em paz."
"Videogame é bom para ativar os reflexos..."
No comportamento
Alguns distúrbios do comportamento poderiam ser evi-
tados se nós, adultos, prestássemos mais atenção às crianças,
analisando suas atitudes, impulsos e tendências naturais. Para
receber atenção, as crianças manifestam comportamentos es-
tranhos. Nem sempre elas têm problemas; muitas vezes, o de-
sajuste está na relação familiar. Se os pais não perceberem a
razão de suas atitudes, a tendência será gravar esses padrões no
inconsciente e manifestá-los quando adultos.
"Esconde essas coisas que
o filho de fulano vem vindo."
Crianças que não param, que mexem em tudo, que in-
vadem sem cerimônia o espaço dos outros nem sempre são
hiperativos. As vezes, apenas copiam a conduta dos pais.
193
AMÉRICO CANHOTO
"Não suporto o choro dessa criança."
Uma criança que se habitua a usar as lágrimas para obter
o que deseja tende a ser um adulto inseguro, manipulador e
depressivo.
"Nossa filha já está com outro.
Os jovens são assim mesmo:
não querem compromisso."
Alguns anos depois, a jovem volúvel torna-se uma adulta
inconseqüente. Ninguém consegue ajudá-la: pula de um ana-
lista para o outro...
Na afetividade
"Minha filhinha é muito ciumenta,
não divide nada com ninguém."
Crianças que agem assim enfrentam sérios problemas
conjugais.
"Que menino bravo,
não aceita nem o carinho da mãe."
O menino arredio aos carinhos dos pais provavelmente
enfrentará muitas decepções em seus relacionamentos afetivos.
194
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Nas tendências emocionais
"Essa criança tem medo até
da própria sombra."
Sem perceber, alguém diagnosticou um surto futuro de
síndrome do pânico.
"Esse bebê tem um ar triste."
Se dermos mais atenção a essa criança, no futuro existirá
um depressivo a menos.
"É uma criança
meiga e carinhosa, mas
que tem mania de arranhar
e de puxar os cabelos."
No adulto, esse tipo de comportamento é diagnosticado
como transtorno bipolar.
"Nunca vi criança tão ansiosa,
fica roxa de tanto chorar."
Crianças inquietas, impacientes e com distúrbios da an-
siedade devem ser preservadas de estímulos intensos e persis-
tentes. Não precisam, necessariamente, de medicação.
195
AMÉRICO CANHOTO
Na vida social
Na vida social, crianças que apresentam distúrbios devem
ser vigiadas mais de perto, especialmente as agressivas e com
ímpetos para a violência. A manifestação mais agressiva e vio-
lenta desse comportamento é observada na infância, quando
a criança agride os irmãos ou até mesmo os pais. A criança
aprenderá a conter-se, mas continuará agressiva, com ten-
dência para ser violenta. Sob certos estímulos, poderá causar
sérios prejuízos, os quais, muitas vezes, não conseguirá inde-
nizar nesta existência...
"Cuidado que lá vem o terror,
essa criança bate em todo mundo."
Mais tarde: "Fulano perdeu a cabeça e cometeu esse
desatino".
Na qualidade de vida
"Essas crianças de hoje estão ligadas no 220;
não param um segundo."
"Essa criança é demais,
tem energia para dar e vender;
não sei como consegue dar conta
de tanta coisa ao mesmo tempo."
196
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Anos depois: "Fulano? Travou, está com estresse agudo,
não consegue fazer mais nada".
"Que criança linda: é gordinha e grande."
Mais tarde: "Está fazendo tratamento para emagrecer.
Até agora, não deu resultado".
"Ela engorda fácil,
mas também emagrece logo."
Mais à frente, é uma adulta que sofre as conseqüências
do efeito sanfona (engorda e emagrece, engorda e emagrece).
Na aprendizagem
"Essa criança é muito curiosa,
não se distrai com um brinquedo
nem por cinco minutos."
"Seu filho tem problemas
na alfabetização porque não é
capaz de se concentrar."
Mais tarde: "Sabe o fulano, perdeu o emprego de novo.
Ele é muito desligado. Tudo o que ele fizer deve ser conferido,
pois comete cada erro..."
197
" A MUDANÇA DE
PEQUENAS COISAS NA
VIDA DA CRIANÇA
É MUITO IMPORTANTE
PARA SEU BEM-ESTAR
RECURSOS DE GRANDE UTILIDADE
Diário da criança
Nada melhor para acompanhar a evolução da
criança. Ao lado dos álbuns de fotografias, um bom caderno
para fazer anotações. Além de registrar tendências e ocorrên-
cias relativas ao desenvolvimento da criança, será possível
comparar as fases e acompanhar seu progresso.
Disciplina na rotina
Alinhar nossa rotina ao ritmo biológico preserva a inte-
gridade do corpo e da mente. Precisamos estabelecer horários
para nos alimentar, dormir, praticar esportes, atividades físicas
etc. Vez por outra, podemos quebrar a rotina. Dispensá-la,
porém, nunca! Aqueles que não têm horário vivem ao sabor
dos acontecimentos e causam a si mesmos sérios comprome-
timentos de saúde.
Atividade física
Brincar é coisa muito séria: a criança necessita de ati-
vidades lúdicas que envolvam também o trabalho corporal.
A vida sedentária e a dieta inadequada são grandes causa-
dores dos problemas de saúde da criança, prejudicando seu
desenvolvimento.
199
AMÉRICO CANHOTO
Realização de coisas diferentes
A mudança de pequenas coisas na vida da criança é
muito importante para seu bem-estar. Por exemplo, mudar o
trajeto que costumamos fazer nas andanças diárias, buscar en-
sinar coisas novas, servir alimentos diferentes, levá-la a outros
ambientes, incentivá-la a fazer novas amizades... Inovar é pre-
ciso, pois a criança necessita sempre de novos estímulos.
Desenvolvimento da espiritualidade
Quando conseguirmos separar religião de religiosidade,
muitas de nossas posturas e atitudes mudarão por completo. É
importante estimular a religiosidade das crianças sem aprisio-
ná-las em dogmas religiosos.
Os pais devem evitar críticas às religiões. As crianças
tendem para o aprendizado e a aceitação das diferenças com
naturalidade e respeito, especialmente as da nova geração,
que são muito curiosas e indagadoras. Seu senso crítico é mais
apurado. Por vezes, manifestam percepções mediúnicas desde
a infância.
Geralmente, os pais ignoram que a mediunidade nos per-
mite ver e conversar com espíritos, invisíveis para a maioria das
pessoas, mas perfeitamente reais para outras. É o caso de muitas
crianças que, durante horas, conversam e brincam com ami-
guinhos invisíveis. O conhecimento da vida espiritual ajuda pais
e filhos a entender melhor o mundo que os rodeia, inclusive o
200
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
outro lado da vida. Vale a pena evitar dizer à criança que uma
experiência vivida é imaginação dela, pois para quem tem vi-
dência as situações são bem reais. Nesses casos, o melhor é buscar
ajuda e conversar naturalmente com a criança a esse respeito.
Aprendendo a compartilhar
Substituir presentes de aniversário por alimentos a serem
doados deveria entrar na moda. O hábito de festejar momentos
importantes junto a crianças hospitalizadas ou residentes em
creches e orfanatos deveria ser estimulado pela família.
É comum pessoas pouco vigilantes tecerem críticas aos
menos favorecidos que se encontram na condição de pedintes
como se eles fossem preguiçosos ou aproveitadores. Outras de-
senvolvem nas crianças um sentimento nefasto de dó, como
se essas pessoas fossem deserdadas da sorte. As duas posturas
são inadequadas.
O correto é explicar à criança os verdadeiros motivos das
desigualdades: dizer que nem sempre estão relacionados com a
Lei de Causa e Efeito, pois muitas vezes a condição é de prova,
com metas de desenvolvimento de qualidades morais.
Ainda se vêem poucas crianças dedicando-se a trabalhos
voluntários, talvez porque não sejam estimuladas ou muitas
vezes sejam impedidas a engajar-se nessas tarefas. As da nova
geração colocam-se sempre à disposição desde que os adultos
permitam. A tarefa voluntária favorece o desenvolvimento da
responsabilidade pelo compromisso assumido.
201
AMÉRICO CANHOTO
Começo e fim
Felizes das pessoas que na infância tiveram alguém que as
ensinou que tudo deve ter começo, meio e fim. Aquelas que
desde cedo começam tudo e não terminam nada tendem ao
fracasso em muitos aspectos de sua vida. Uma relação comum
entre começar muitas coisas e terminar poucas acontece com a
obesidade, por exemplo. Caso perceba esse tipo de comporta-
mento na criança, crie para ela exercícios simples que tenham
começo, meio e fim.
Aprendendo a fazer amigos
Está provado que pessoas com muitos amigos vivem mais
e melhor. Somos seres gregários e nascemos para compartilhar
experiências. Crianças que gostam de isolar-se são um indica-
tivo de que possuem problemas afetivos e devem e podem ser
solucionados antes de causar maiores danos. Observemos o
comportamento dos amigos de nossos filhos. Eles podem nos
dar pistas das tendências ou carências de nossos filhos. Não se
trata de julgar nem determinar com quem nossos filhos devem
conviver, mas observar por quem eles sentem afinidade.
Treinando o ouvido
A arte de ouvir é pouco cultivada em nosso meio: todos
querem apenas falar. Daí a tendência para a gritaria. Poucos
202
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
adultos se dispõem a ouvir a criança. Todos falam ao mesmo
tempo ou interrompem a fala do outro. Aprender a ouvir é
uma das formas de diminuir um pouco o desenvolvimento da
tendência para a hiper atividade, cada vez mais comum nos dias
de hoje.
O hábito de ouvir música ajuda a criança a desenvolver
sua sensibilidade. Melhor ainda se for estimulada a aprender a
tocar um instrumento.
Aprendendo a meditar
Nossas mentes tornam-se cada vez mais inquietas sob
tantos estímulos. Não é à toa que a ansiedade e o medo causam
muitos distúrbios na saúde das pessoas. Nenhum remédio é me-
lhor para superar esse mal que serenar a mente. A meditação e a
ioga ajudam no relaxamento, na respiração e no alongamento.
Assumindo responsabilidades
Muito se comenta a respeito da falta de senso de respon-
sabilidade de alguns adultos. Muitos, porém, foram estimulados
a sê-lo. Para modificar esse quadro, é importante que os pais
aprendam a delegar tarefas domésticas para as crianças em re-
gime de rodízio se a família for constituída de vários filhos. O
erro começa cedo: poucos guardam os brinquedos após o uso,
muitos nunca tiveram estímulo nem para lavar um copo ou um
prato usado por eles mesmos.
Considerações finais
roteiros e receitas mágicas na arte de educar e que, em vez
disso, receberam material para novos questionamentos. Re-
petições de conceitos foram inevitáveis, algumas tendo sido
propositais, devido à sua importância em nossas vidas, pois
quando falamos de uma educação boa e saudável para as pró-
ximas gerações não podemos perder de vista a reeducação dos
adultos e da sociedade.
Desejamos que tenham incorporado em sua visão de
mundo que não educamos de forma direta e definitiva, mas
que participamos do processo e podemos tornar a tarefa mais
fácil e eficiente. Claro que nesse processo pode ocorrer desper-
dício de talentos, conhecimento e tempo, além de enganos,
erros e acertos. Isso é lógico e normal, porém é preciso cui-
dado para não banalizar o conformismo disfarçado de nor-
malidade: "Hoje em dia é assim mesmo". A soma de pequenos
descuidos sempre conduz a grandes problemas. Que os alertas
tenham atingido seu objetivo sem provocar culpa nem remorso.
não ter decepcionado os que esperavam
204
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Quantos de nós podemos nos considerar pais e mães de qua-
lidade, pessoas que não cometem descuidos ou faltas? Como
nos sentimos? O saldo até o presente momento foi positivo?
Mesmo que não tenha sido, isso não tem tanta importância
assim; errar faz parte da arte de aprender. Para ficarmos em
paz, basta que tentemos corrigir-nos a cada novo momento,
oportunidade e conhecimento.
Não é difícil transformar pequenos descuidos em grandes
lições. Para trilhar esse caminho em segurança e alegria, não
devemos nos comparar com as outras pessoas usando os filhos
como parâmetros. Aqueles que empreendem esse pequeno des-
cuido - considerar-se bons ou maus pais apenas porque seus
filhos são bem-vistos ou malvistos - caem em armadilhas pre-
paradas por eles mesmos.
Muitos se imaginam pouco competentes porque seus
filhos são considerados problemáticos pela sociedade, quando,
na verdade, estão fazendo o melhor que podem para superar
suas tendências negativas e imperfeições.
O bom mestre é aquele que consegue motivar um aluno
displicente e recuperá-lo. Não educamos nossos filhos para os
olhos do mundo, mas para que sejam felizes e realizados. Por
menor que seja o progresso obtido, será uma vitória do amor.
Se, após a leitura deste livro, algumas pessoas se cons-
cientizarem de que a arte de educar os filhos é dinâmica, par-
ticipante e não passiva - outro pequeno engano é deixar as
coisas como estão para ver como ficam -, nós nos daremos por
realizados.
205
AMÉRICO CANHOTO
Na condição de país, qual é
nossa função?
Somos provedores de educação e fornecemos material di-
dático para que nossos filhos se eduquem. Não se trata apenas
de matriculá-los na escola mais cara ou inscrevê-los em dispen-
diosos cursos. O que importa é nossa postura: o exemplo vivo
que estamos transmitindo, além de nosso padrão de atitudes.
O que fica retido no subconsciente da criança são os
exemplos que damos ao corrigir nossas atitudes todos os dias.
É dessa forma que lhes iremos inspirar confiança. Quando se
trata de lidar com as crianças da nova geração, é bom admitir
que temos muito para melhorar em nós mesmos. Não adianta
tentar esconder nossas falhas de caráter, pois de um jeito ou de
outro elas sabem disso.
Permitindo o aprendizado
Outro ponto importante a destacar: com urgência, de-
vemos permitir que a criança aprenda! Esse alerta pode até
parecer um despropósito, mas não é, porque, na prática, não
permitimos que elas aprendam. O tempo todo enchemos sua
cabeça de teorias, saturamos seus ouvidos com falatório tão
sem sentido quanto fora de hora e impedimos que aprendam
de fato, por conta delas mesmas...
Não lhes permitimos ter experiências simples, como a de
vestir a roupa que deseja, usar ou calçar o sapato que escolheu.
206
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Alegamos que não combina ou está fora de moda. Sempre a
mesma preocupação: o que os outros vão pensar? Assim im-
pedimos que as crianças desenvolvam a capacidade de cuidar
de si mesmas e de aprender a responsabilizar-se pelos próprios
atos. As desculpas para essa nossa atitude, que tolhe suas ini-
ciativas e impede sua evolução, são tão variadas quanto in-
compreensíveis. O aprendizado não existe sem a prática. Para
capacitar-nos, devemos vivenciar a experiência do simples em
direção ao complexo.
Valores éticos
De que modo passar valores éticos é outra dúvida. É ver-
dade que ainda não é fácil transmiti-los: o que a sociedade ainda
mais valoriza é o possuir, ter boa aparência a qualquer custo,
não importando o preço a pagar. O diferencial de qualidade é
não transformar essa realidade num anestésico da consciência.
Se a maioria das pessoas está agindo errado, na contramão
das leis divinas, expliquemos aos nossos filhos quais serão, no
futuro, as conseqüências dessas atitudes e quanto elas serão
prejudicadas.
Outra dúvida: qual a diferença entre a boa e a má edu-
cação? A rigor não há boa ou má educação, pois cada um apenas
pode oferecer o que de fato dispõe. Em geral, recebemos uma
educação voltada apenas à instrução e aos olhos da sociedade.
Nossos antepassados nos deram educação por amor. Nossos
pais fizeram o que estava a seu alcance. Quanto a nós, tenhamos
207
AMÉRICO CANHOTO
em mente que, no passado, fizemos o possível de acordo com
nossos conhecimentos e crenças.
Cuidado com o corpo e a alma
Qual a melhor receita para bem educar? Qual o melhor
caminho para educar na vida contemporânea? Receitas prontas
não existem, além de que cada caso é um caso. É o nosso esforço
pessoal que vai determinar o que é melhor para cada criança.
Recorrer à meditação é muito proveitoso. Quando meditamos,
serenamos a mente e elevamos o pensamento. Um dia, quem
sabe, a meditação seja ensinada em nossas escolas, o que será
de grande proveito para o progresso da humanidade.
O ensinamento de Jesus, vigiar e orar, deve acompanhar
cada passo dos pais. A leitura e o estudo do Evangelho no lar
trazem benefícios tão significativos que devemos considerá-los
indispensáveis. Retirar o Evangelho da estante, abri-lo e in-
centivar seu estudo é obrigação dos pais. Bicicletas, esteiras e
outros utensílios úteis para manter a boa forma física devem
também ser resgatados dos quartos onde foram esquecidos,
para serem utilizados pela família.
Sementeira
Educar filhos é como trabalhar numa sementeira. Aos
pais, cabe escolher as melhores sementes disponíveis e se-
meá-las. A colheita dependerá de muitos outros fatores.
2 0 8
PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S
Aqueles que encontraram um propósito para a própria exis-
tência e conseguiram superar com serenidade os eventuais
fracassos, perdas e rompimentos, com certeza receberam uma
boa educação.
Muitos já disseram que, para educar, é preciso amar e,
para instruir, bastam o conhecimento e a técnica. Recordemos
apenas que o conceito de amar envolve o de respeitar e cuidar
sem controlar nem impor condições.
E preciso muita atenção da nossa parte para nos cons-
cientizarmos da importância do papel dos pais para, um dia,
com o dever cumprido, alcançarmos a paz.
Ao terminar a leitura deste livro, talvez você tenha ficado com algumas dúvidas e per-
guntas a fazer, o que é um bom sinal. Sinal de que está em busca de explicações para a
vida. Todas as respostas que você precisa estão nas Obras Básicas de Allan Kardec.
Se você gostou deste livro, o que acha de fazer com que outras pessoas venham a
conhecê-lo também? Poderia comentá-lo com aquelas do seu relacionamento, dar de
presente a alguém que talvez esteja precisando ou até mesmo emprestar àquele que não
tem condições de comprá-lo. O importante é a divulgação da boa leitura, principalmente
a da literatura espírita. Entre nessa corrente!
Compartilhemos nosso aprendizado
uns com os outros.
209
Bibliografia
CANHOTO, Américo. Saúde ou doença: a escolha é sua. São
Paulo: Petit Editora, 2006.
. Quem ama cuida. São Paulo: Petit Editora, 2007.
. Educar para um mundo novo. São José do Rio Preto,
SP: Editora Ativa, 2002.
. A reforma íntima começa no berço. Santo André:
Editora EBM, 2004.
GARDNER, Howard. Inteligências múltiplas: a teoria na prática.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2002.
STEINER, Claude e PERRY, Paul. Educação emocional. Rio de
Janeiro: Objetiva, 1998.
210
Em Pequenos descuidos, grandes problemas,
aprendemos com Américo Canhoto - médico
de família há trinta anos, dirigente espírita e
escritor - como exercer com sucesso nosso papel de
pais: podemos e devemos evitar que nossos filhos
sofram dores, aflições e doenças! Prático, Canhoto
ensina como ajudar aqueles a quem tanto amamos a
se desenvolverem mais preparados para viver nesta
época de transição. Descubra agora mesmo como isso
é possível, tornando-se um educador da nova geração,
que veio para transformar a Terra num mundo melhor.

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Pequenos descuidos grandes problemas américo canhoto

  • 1. PEQUENOS DESCUIDOS GRANDESPROBLEMAS Somos associados da Fundação Abrinq pelos direitos da criança. Nossos fornecedores uniram-se a nós e não utilizam mão-de-obra infantil ou trabalho irregular de adolescentes.
  • 2. Pequenos Descuidos, Grandes Problemas Copyright by © Petit Editora e Distribuidora Ltda., 2008 1-3-08-5.000 Direção editorial: Flávio Machado Assistente editorial: Dirce Yukie Yamamoto Colaboração: Afonso Moreira Jr. Chefe de arte: Mareio da Silva Barreto Capa: Júlia Machado Foto da capa: Marcelo Kura Diagramação: Ricardo Brito Revisão: Mareia Nunes Auxiliar de revisão: Adriana Maria Cláudio Fotolito da capa e impressão: S E R M O G R A F - Artes Gráficas e Editora Ltda. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Canhoto, Américo. Pequenos descuidos, grandes problemas / Américo Canhoto. - São Paulo : Petit, 2008. ISBN 978-85-7253-162-7 1. Crianças - Criação 2. Cuidados 3. Educação de crianças 4. Espiritismo - Filosofia 5. Pais e filhos I. Título. 08-00462 CDD: 133.901 índices para catálogo sistemático: 1. Educação de filhos : Doutrina Espírita 133.901 Direitos autorais reservados. E proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio, salvo com autorização da Editora. (Lei na 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.) Traduções somente com autorização por escrito da Editora. Impresso no Brasil, no verão de 2008. Prezado leitor (a), Caso encontre neste livro alguma parte que acredita que vai interessar ou mesmo ajudar outras pessoas e decida distribuí-la por meio da internet ou outro meio, nunca deixe de mencionar a fonte, pois assim estará preservando os direitos do autor e conseqüentemente contribuindo para uma ótima divulgação do livro.
  • 3. PEQUENOS DESCUIDOS GRANDES PROBLEMAS Américo Canhoto e d i t o r a Rua Atuai, 383/389 - Vila Esperança/Penha C E P 03646-000 - Sáo Paulo - SP Fone: (Oxxll) 2684-6000 Endereço para correspondência: Caixa Postal 67545 - Ag. Almeida L i m a 03102-970 - São Paulo - SP www.petit.com.br | [email protected]
  • 4. Outros livros de sucesso do mesmo autor: — Saúde ou doença: a escolha é sua — Chegando à casa espírita — Quem ama cuida
  • 5. O tempo todo e em qualquer lugar onde nos encontrarmos, somos educadores. Para que os resultados dos nossos esforços em prol de uma vida familiar melhor sejam mais produtivos, é preciso nos capacitarmos para as tarefas que nos aguardam.
  • 6. Sumário Apresentação 11 Um espectador privilegiado 11 Considerações iniciais 21 As crianças da nova geração 27 Nosso ponto de vista 28 Abordagem de questões 31 Parte 1: A educação deve visar desenvolver a capacidade de discernir 36 Questionamentos 37 Quem somos nós? 37 Quem sou eu? 50 Quem é a criança? 53 Quem é o educador? 57 Quem é o educando? 59 A responsabilidade da mídia 60 Qual é o método pedagógico mais adequado? 61 A quem se destina a educação? 63 7
  • 7. AMÉRICO CANHOTO Parte 2: Relação familiar envolve compromisso... 66 O papel da família 67 Mudança de DNA 70 O que é a família? 70 A forma como a família é constituída 74 Parte 3: Planejar e gerenciar a vida em família é uma conquista espiritual 76 Qualidade das relações na vida em família 77 Separação e abandono 80 Parte 4: Os pais não são responsáveis pelos filhos, estão responsáveis 82 Causas da falência da família 83 Maneira de gerenciar 86 Ausência da mãe 87 Herança educacional 88 Educação íntima precária 90 Maturidade dos familiares 91 Senso de responsabilidade dos pais 93 Falta de diálogo 95 Conflitos 100 Parte 5: Não há pessoa mais desconhecida para nós do que nós mesmos 104 Descuidos comuns na educação 105 Educar para a vida 108 8
  • 8. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Falta de limite 110 Tentativa de domínio pelo medo 116 Senso de honestidade dos pais 117 Controle 119 Manipulação 120 Chantagem 122 Cultura das pequenas mentiras 123 Perda de autoridade 125 Pensamento mágico 127 Criação de paradoxos 129 Vícios 132 Inversão de metas e suas conseqüências 134 Projeção de frustrações 136 Padronização 140 Em busca de privilégios 141 Cultivo do meio-termo 143 Aceitação das injustiças 146 Demasiada exposição à ação da mídia 148 Entretenimentos perigosos 150 Parte 6: Família: oficina onde aprendemos a arte de amar 154 Reestruturação da família 155 Modernização da forma de gerenciar a vida familiar .159 Reciclagem do educador 164 Escola de pais 165 Educação compartilhada 167 9
  • 9. AMÉRICO CANHOTO A arte de educar 168 Leis básicas da vida: ensino obrigatório 180 Parte 7: Alguns distúrbios do comportamento poderiam ser evitados se nós, adultos, prestássemos mais atenção às crianças, analisando suas atitudes, impulsos e tendências naturais 190 Parte 8: A mudança de pequenas coisas na vida da criança é muito importante para seu bem-estar 198 Recursos de grande utilidade 199 Considerações finais 204 Bibliografia 210 10
  • 10. Apresentação vivendo uma fase de transição acelerada. A Terra encaminha-se a passos largos para ser um mundo de re- generação, no qual haverá a predominância do bem. Por assim dizer, trata-se de delicada cirurgia cósmica que desperta a aten- ção e o interesse de todos aqueles que trabalham em prol da paz e da harmonia do universo. Espíritos de outros lugares e dimensões estão vindo até nós e reencarnando por toda parte do orbe terrestre, entre os quais estão as chamadas crianças da nova geração. UM ESPECTADOR PRIVILEGIADO Desde 1977, na condição de médico de família, acom- panhei o nascimento e o desenvolvimento de muitas crianças. Hoje tenho a alegria de atender os filhos daqueles a quem con- sidero "minhas crianças". Ao longo desses anos, sou testemunha do quanto o de- senvolvimento dessas crianças tem sido acelerado. Costumo co- mentar com seus pais que, mal saem do útero, já estão querendo II
  • 11. AMÉRICO CANHOTO saber onde estão e quem se encontra a seu redor. Brincando, digo que em breve vão nascer falando. Até recentemente, atribuía esse desenvolvimento acele- rado ao nosso estilo de vida, aos estímulos de todo o tipo que nos alcançam. Pouco a pouco, mudei de idéia, porque essa explicação me pareceu insuficiente. Considerei também que não estamos preparados para mudanças tão rápidas, mas sim confusos diante de tanta precocidade. Observei que, a princípio, os pais geralmente ficam des- lumbrados com o filho, pequeno gênio que fazem questão de exibir, e destacam suas habilidades. Esse deslumbramento, no entanto, dura pouco: descobrem que essa criaturinha tem idéias próprias, não aceita ordens, enfrenta os adultos de igual para igual e, às vezes, até parece que lê pensamentos, além de manipular as pessoas com extrema facilidade, lembrando-nos de Gremlins, de Steven Spielberg. Assistam ao filme e percebam a analogia. Nele fica patente o que ocorre quando uma regra muito simples não é respeitada. Ao longo dos anos, tenho observado a angústia de pais que se sentem perdidos na educação dos filhos, até mesmo de crianças que se enquadram nos padrões normais de compor- tamento. Essa angústia é ainda maior quando recebem uma da nova geração para encaminhar na vida. Nesse caso, as dificul- dades dos pais são ainda maiores. O que fazer? Onde buscar soluções? Muito tenho lido e ouvido falar sobre a necessidade ur- gente de desenvolver-se uma nova pedagogia, adequada às 12
  • 12. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S novas crianças. Concordo, mas não acredito na eficácia de ne- nhuma solução enquanto nós, adultos, não nos reeducarmos. É hora de reavaliar nossos paradigmas. Para a maioria dos pais, educadores e profissionais da área da saúde, a criança da nova geração é um problema, quando, na verdade, ela é parte da solução da maioria de nossos proble- mas. Por intermédio delas, que não aceitam as imposições da atualidade, somos forçados a mudar para melhor, o que acelera nossa evolução... Geralmente sou questionado por causa desse posiciona- mento - querem saber de onde tirei estas idéias. Elas estão fun- damentadas na experiência de uma vida dedicada à saúde do próximo. Essa experiência, que é bem modesta, inclui o atendi- mento clínico a famílias, participação em projetos relacionados à área de educação e ainda 14 anos de vivência cotidiana em berçário e escola de educação infantil. Além do conhecimento científico que busco atualizar, tenho aproveitado inúmeras ex- periências profissionais que a vida me proporcionou e que me ajudaram a crescer. Na medida do possível, desejo compartilhar meu aprendi- zado com todos aqueles que, de boa vontade, tenham interesse em aprimorar-se para ajudar a melhorar o mundo em que vive- mos. Nesse sentido, ministro palestras e seminários, promovo oficinas culturais, escrevo artigos e livros. Denominei esse meu esforço de projeto "Educar para um Mundo Novo". Seu objetivo básico é repensar a educação e integrar os adultos para que, com as crianças, possam reciclar seus conhecimentos. 13
  • 13. AMÉRICO CANHOTO É minha intenção promover um debate em torno da natureza das crianças de hoje, cuja educação é considerada um problema de difícil solução. Essas crianças se apresentam muito diferenciadas daquelas que as antecederam. Não nos preparamos para recebê-las, embora essa nova geração tenha sido anunciada há muito tempo... Esse despreparo é ainda mais agravado pela nossa dificuldade em aceitar o que é novo, o que é diferente do que já conhecemos. Inseguros, rejeitamos quaisquer inovações e estagnamos. Por comodismo, adotamos a opinião da maioria, fazendo o mesmo que os outros, des- preocupados se isto é o certo ou o errado. Seguir a maioria é o nosso álibi. Este livro é uma tentativa de fazer uma reflexão sobre a necessidade de mudar essa postura. É o resultado do trabalho de muitos anos, no qual inserimos a questão das crianças da nova geração, com o objetivo de esclarecer a que vieram, ana- lisando-as livres de preconceitos e misticismo. As crianças de hoje não são gênios nem seres iluminados, apenas trazem consigo certas habilidades e um grande potencial a ser desenvolvido. A questão é: o que vamos ensinar a elas? Neste livro, não vou me deter na análise das crianças da nova geração; meu objetivo é abranger todas as crianças. Para tanto, acredito que devemos nos preparar para educá-las, 14
  • 14. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S reformulando nosso modo de ser e de entender a vida. Estou certo de que educamos a partir do nosso exemplo, já que sim- plesmente compartilhamos aquilo que somos e o que sabemos. Pretendo estabelecer um diálogo com aqueles que admi- tem que a educação de hoje é falha e precisa mudar. Desejamos o melhor para nossos filhos: saúde, alegria, paz, prosperidade... Procuramos educá-los para que sejam os melhores, os mais sau- dáveis, os mais felizes entre outras crianças. Mas estamos fa- dados a não atingir nosso objetivo porque ainda não sabemos o que é a felicidade, a saúde, a paz, a prosperidade e a harmonia. Precisamos rever os conceitos, buscar a verdade, e a verdade nos libertará das dores, da aflição e da ignorância. Todo cuidado é pouco: não podemos projetar nos filhos a realização de nossos desejos e expectativas. Não será por intermédio deles que vamos nos livrar de nossas frustrações. E um devaneio pretender que nossas fantasias que não conseguimos vivenciar realizem-se por intermédio de nossos filhos. Eles têm seu próprio caminho: o que devemos fazer é prepará-los e incentivá-los para conquistar seus ideais. Fomos, porém, educados para viver num mundo de ilu- sões e aparências, povoado de valores que flutuam ao sabor dos desejos e interesses do momento. Ou seja, estamos perdidos. Em relação aos nossos filhos, caso não mudemos nosso modo 15
  • 15. AMÉRICO CANHOTO de viver e entender as coisas como elas são, seremos cegos a guiar cegos*, como nos alertou Jesus. Toda criança necessita de cuidados, atenção, respeito e amor. Estamos cercados de objetos e utensílios descartáveis, o que gera hábitos consumistas, bem como uma cultura da su- perficialidade do "usar e jogar fora". Quando alguma coisa ou alguém não nos interessa mais ou não nos satisfaz na medida de nossos interesses, nós o descartamos. Esse modo de agir contaminou nossas relações: quando alguém não corresponde às nossas expectativas, é refratário à nossa autoridade, não buscamos entender suas razões. Acusamos os jovens de rebeldes e problemáticos, quando, na verdade, a rebeldia está em nós mesmos por não aceitá-los como nossos iguais e entender que apenas reencarnamos antes deles... Desde Sócrates e Platão, os filósofos da Antiguidade se detiveram diante das dificuldades de relacionamento entre as gerações. Se amamos nossos filhos, devemos demonstrar esse amor, cercando-os não apenas com cuidados, mas tam- bém dando ouvido a eles, além de respeitar seu modo de ver as coisas. Poucos estão preparados para as grandes mudanças que a Terra já está vivendo nos dias de hoje e que, com o passar * Mateus, 15: 14. (Nota do Editor) 16
  • 16. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S dos dias, serão ainda maiores e mais drásticas. A maioria dos pais, acomodados ou sentindo-se incapazes de educar os filhos, repassa essa responsabilidade para a escola. Esse é um grande erro, sobre o qual vamos nos deter, em busca da renovação de atitudes. Educar exige preparo, reciclagem rápida e contínua. E necessário que os pais se preparem para receber os filhos com consciência para obter sucesso em sua educação. Não se trata da educação ideal, pois não há filhos ou pais ideais. Existe apenas a realidade de cada um. O método informal de "ir levando a vida para ver no que dá" já provou sua ineficácia. Hoje, para atingir um padrão de qualidade melhor, é pre- ciso que tenhamos metas a serem alcançadas e que busquemos os recursos necessários para atingi-las. Essa providência é in- teressante em especial na formação da nova geração, pois ela não aceita imposições nem regras que não sejam obedecidas por todos. É importante aprender a arte de compartilhar, e não apenas ditar regras. Quando percebermos que educamos mais por meio de nossas atitudes, ficará mais fácil entender que não se pode con- trolar o aprendizado de outra pessoa, não é esse nosso papel. 17
  • 17. AMÉRICO CANHOTO Desse momento em diante, nós nos sentiremos aliviados, pois tiraremos dos ombros um pesado e indevido encargo: o controle do destino do próximo. A educação compartilhada ajuda a definir o papel de todos. Nela, destaca-se a função de cada um, seu papel espe- cífico. Os pais, a família, a escola, a sociedade, todos têm fun- ções interdependentes. Inclusive, a própria criança. Se as expectativas de uma educação de boa qualidade serão ou não atendidas, dependerá de uma série de fatores que, embora se complementem, são independentes. Definir direitos, tarefas e funções é um passo inicial importante. A análise do papel que cada um cumpriu bem ou mal interessa apenas a quem o revisa. E a inteligência determina que essa reavaliação deve constituir apenas uma revisão de metas, sem o cultivo de sofrimentos. Também não adianta "jogar a toalha" e gritar: "Não sei mais o que fazer!". Não há como de- sistir: os filhos são para toda a existência... Vamos apenas relembrar alguns erros que, de tão comuns nem mais os percebemos nas lides do dia-a-dia, mas que po- derão, no futuro, pela sua repetição, causar muita dor e sofri- mento tanto para os adultos quanto para as crianças. Aproveitamos para reforçar um alerta a respeito da tran- sição que estamos vivendo: de alguns anos para cá, tudo anda cada vez mais célere, inclusive a Lei de Ação e Reação. Em outros tempos era possível reparar ou consertar os estragos que cometíamos com relativa tranqüilidade. Mas, atualmente, o espaço entre a causa e o efeito está diminuindo cada vez mais. 18
  • 18. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Caso continuemos a teimar em continuar presos aos mesmos padrões, o risco de não haver tempo hábil para as correções é grande. Para mim, o mais interessante, depois de estudar detidamente as características da nova geração, foi descobrir que preencho muitas delas. Se eu tivesse essas infor- mações antes, será que minha vida teria sido diferente? Que o azul, que é a cor do nosso planeta visto do alto, nos envolva a todos na oportunidade deste diálogo aberto. Sejam bem-vindos! Américo Canhoto 19
  • 19. Considerações iniciais termos e às concepções empregados no decorrer do livro, acha- mos por bem apresentar alguns que já conhecem e que ouvirão muito daqui em diante. Deixo claro que não concordo nem discordo inteiramente de nenhum deles, mas, a partir deles, tentaremos formatar nossa própria forma de ver, sentir e agir. 0 objetivo deste livro é provocar no leitor a atitude de duvidar, criticar, vivenciar e utilizar o que for possível e perti- nente, com um único intuito: proporcionar a saúde e a felici- dade de seus filhos. Nossas crenças não mudam as leis que regem a vida cós- mica. Tanto faz crer ou deixar de crer nelas, tudo continua sendo como deve ser: simples, igualitário ou divinamente per- feito. Um dia iremos amadurecer e deixar de bancar deuses em defesa de interesses próprios. Apenas para servir de parâmetro aos leitores: nas minhas convicções religiosas, já fui católico de berço e de "vestir a camisa"; depois, apenas por não aceitar nenhum tipo de dogma, conheci e vivenciei a prática de muitas outras; o que gostaria de dividir com o leitor fique posicionado em relação aos 21
  • 20. AMÉRICO CANHOTO os leitores: nenhuma consegue ofender minha convicção de que devemos ser atuantes e amorosos. O conceito de nova geração está acima de dogmas e de qualquer sistema de crenças, é uma realidade com a qual devemos aprender a conviver. Devo admitir, por exercício de humildade, que o con- tato com o conceito de nova geração preencheu várias lacunas nas minhas dúvidas e questionamentos sobre tão interessante assunto e forneceu-me para compartilhar com os pais dessas crianças uma nova abordagem, muito diferente dos antigos paradigmas educacionais. A pedagogia de valores, anunciada por Jesus e outros e formulada em parâmetros educacionais por Egidio Vecchio, re- vela inúmeros pontos em comum com nossa visão sobre como participar da educação das crianças de hoje e de amanhã - pois a base é a mesma - e reforça a idéia de estarmos a caminho de uma educação mais adequada aos novos tempos. Vivemos numa época cada vez mais acelerada e com fortes marcas de ação inteligente nas transformações que se operam; o que, por si só, já explica uma parte das saudáveis mudanças. Nos livros da Codificação Espírita, há muitos convites à refle- xão a esse respeito: algumas dessas mudanças já são bem claras e inquestionáveis; já outras necessitam de mais tempo para que cada um de nós possa tirar suas próprias conclusões. Lê-se em A Gênese, no capítulo 11: "Logo que um mundo tem chegado a um de seus pe- ríodos de transformação, a fim de ascender na hierarquia dos 22
  • 21. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S mundos, operam-se mutações na sua população encarnada e desencarnada. É quando se dão as grandes emigrações e imigra- ções. Mas, ao mesmo tempo que os maus se afastam do mundo em que habitavam, Espíritos melhores aí os substituem, vindos quer da erraticidade, concernente a esse mundo, quer de um mundo menos adiantado, que mereceram abandonar (...)." "São às vezes parciais essas mutações, isto é, circunscritas a um povo, a uma raça; doutras vezes, são gerais, quando chega para o globo o período de renovação." Comentário: embora as crianças de hoje sejam dife- rentes das antecessoras, vale a pena aguardar mais fatos e o decorrer do tempo. Em A Gênese, capítulo 18, lê-se: Perturbação "Onde nos parece haver perturbações, o que há são mo- vimentos parciais e isolados, que se nos afiguram irregulares apenas porque circunscrita é a nossa visão. Se lhes pudéssemos abarcar o conjunto, veríamos que tais irregularidades são apenas aparentes e que se harmonizam com o todo." Mundo de regeneração "Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso é que somente a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados. 23
  • 22. AMÉRICO CANHOTO Havendo chegado o tempo, grande emigração se verifica dos que a habitam: a dos que praticam o mal pelo mal, ainda não tocados pelo sentimento do bem, os quais, já não sendo dignos do planeta transformado, serão excluídos, porque, senão, lhe ocasionariam de novo perturbação e confusão e constitui- riam obstáculo ao progresso (...) Substituí-los-ão Espíritos melhores, que farão reinarem em seu seio a justiça, a paz e a fraternidade. A Terra, no dizer dos Espíritos, não terá de transformar-se por meio de um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual geração desapare- cerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança alguma na ordem natural das coisas." Comentário: provavelmente, a geração atual desapa- recerá por meio de doenças, pois as crianças estão pulando as doenças dos adultos e indo diretamente para as de idosos. Lê-se ainda em A Gênese, capítulo 18: "(...) uma parte dos Espíritos que encarnavam na Terra aí não mais tornarão a encarnar. Em cada criança que nascer, em vez de um espírito atra- sado e inclinado ao mal, que antes nela encarnaria, virá um Espírito mais adiantado e propenso ao bem. Assim, decepcionados ficarão os que contem ver a trans- formação operar-se por efeitos sobrenaturais e maravilhosos. (...) a nova geração se distingue por inteligência e razão geralmente precoces, juntas ao sentimento inato do bem e a 24
  • 23. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S crenças espiritualistas, o que constitui sinal indubitável de certo grau de adiantamento anterior. Não se comporá exclusivamente de Espíritos eminente- mente superiores, mas dos que, já tendo progredido, se acham predispostos a assimilar todas as idéias progressistas e aptos a secundar o movimento de regeneração. E muito simples o modo por que se opera a transformação, sendo, como se vê, todo ele de ordem moral, sem se afastar em nada das leis da natureza. Assim, segundo suas disposições naturais, os Espíritos encarnados formarão duas categorias: de um lado os retardatá- rios, que partem; de outro, os progressistas, que chegam." Comentário: os retardatários refletem a grande maioria chamada normal; já os progressistas podem ser as crianças hoje rotuladas de problemáticas - apenas por perturbarem a velha ordem dos interesses em vigor. Continuando o estudo do livro A Gênese, de Allan Kardec, ainda no capítulo 18: Desencarnações coletivas: progresso "As grandes partidas coletivas, entretanto, não têm por único fim ativar as saídas; têm igualmente o de transformar mais rapidamente o espírito da massa, livrando-a das más influências, e o de dar maior ascendente às idéias novas. 25
  • 24. AMÉRICO CANHOTO Os flagelos destruidores apenas destroem corpos, não atin- gem o Espírito; ativam o movimento de vaivém entre o mundo corporal e o mundo espiritual e, por conseguinte, o movimento progressivo dos Espíritos encarnados e desencarnados. Os incrédulos rirão destas coisas e as qualificarão de quimé- ricas; mas, digam o que disserem, não fugirão à lei comum (...)•" Comentário: de acordo com o resultado de nossas observações diárias ao longo do tempo, estamos convencidos de que, graças ao sistema de educação vigente, grande número de espíritos - hoje na condição de crianças - terá existência muito curta por causa dos efeitos do estresse crônico, o qual é a marca registrada da antiga geração. Allan Kardec, em A Gênese, capítulo 18, continua com o estudo dessa questão: Regeneração da humanidade "A época atual é de transição; já se misturam os elementos das duas gerações. Quem estiver de fora assistirá à partida de uma e à chegada de outra (...). Tudo se concluirá com a geração que se vai, e a que lhe suceder elevará novo edifício, que as subseqüentes consolidarão e completarão." Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, encontra-se o seguinte comentário: 26
  • 25. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S "Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas em seu verda- deiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos." AS CRIANÇAS DA NOVA GERAÇÃO Considero nesta abordagem o entrelaçamento das duas gerações citadas: de retardatários e progressistas. Para fins con- ceituais, distingo a geração progressista entre "reformadores" e "sábios", mas não as tendências de cada um deles: • A precocidade é sua marca registrada; • Necessitam de disciplina coerente; • Viciam-se com facilidade; • No geral, são mais bonitas que as gerações anteriores; • Seu potencial dos vários tipos de inteligência supera o das antigas crianças; • Necessitam de adultos emocionalmente estáveis e se- guros ao seu redor; • Não aceitam autoridade por imposição; • Dizem o que pensam e só fazem o que desejam; • São mais práticos; • São manipuladores ao lado de adultos inseguros; • São vulneráveis à aceleração: instáveis, apresentam déficit de atenção seletiva e, por isso, se lembram apenas do que lhes interessa. 27
  • 26. AMÉRICO CANHOTO NOSSO PONTO DE VISTA Convidado a participar de seminários sobre educação, tenho deixado claro o meu ponto de vista, baseado em estudos e observações de pacientes que atendi ao longo do exercício clínico como médico-orientador de famílias. Nesse trabalho, tenho a certeza absoluta de que tenho o amparo de mentores amigos e espíritos benfeitores, que me intuem sugestões a serem transmitidas aos que me procuram todos os dias em busca de alívio para dores e sofrimentos. Ao longo deste livro, apresentarei minha forma parti- cular de ver e de perceber as reações e posturas da criança da nova geração e das demais, embasado na experiência de um trabalho profissional de muitos anos. Por vezes, poderá parecer que contradigo a opinião de outros estudiosos, mas, ao final, veremos que apenas as repito ou mesmo as com- plemento. Minha visão de mundo sofre a cada dia novas inter- venções. Já a espinha dorsal, base das minhas convicções, encontra fundamento no livro A Gênese, de Allan Kardec, especialmente nos capítulos 11, 17 e 18. Resguardo a intenção deste escrito: pequenos descuidos tornam-se no futuro grandes problemas quando a educação é conduzida sem planejamento. Vamos nos ater ao tema, na tentativa de adquirir disciplina, que é virtude fundamental do espírito que busca alçar vôo da terceira dimensão, mundo este onde nos encontramos, para as outras. 28
  • 27. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Apenas para compor o quadro dos diferentes tipos de crianças da atualidade, com a intenção de facilitar seu en- tendimento, identificaremos as crianças em grupos distintos, embora separar gerações seja tão complicado quanto distinguir distúrbios psicológicos (neurose, psicose, personalidade psico- pática, transtorno bipolar etc.). As gerações têm idéias e pontos de vistas diferentes, às vezes opostos. Como o momento é de transição, confun- dem-se e misturam-se os elementos de duas gerações milenares. A mudança, que se dava de forma gradativa, atualmente está em sua fase final, na qual atingirá o clímax determinado pelo nosso comportamento: o estresse crônico, que levará ao desencarne milhões de pessoas cada vez mais rapidamente, sem necessidade de que ocorram desastres físicos, climáticos e geográficos. Apenas para exemplificar: cada vez mais, as crianças vão sofrer doenças próprias dos idosos como diabete, enfarte, acidente vascular ce- rebral, câncer de todos os tipos, depressão, angústia, pânico... Geração antiga Podemos enquadrar na geração antiga a quase totalidade daqueles que hoje rotulamos de pessoas "normais", adaptadas aos padrões contemporâneos. Os "normais" não são espíritos propensos ao mal, mas sim tendenciosos à ausência do bem e aos vícios cada vez mais degradantes. Além disso, estão cen- trados em si mesmos, nos seus interesses pessoais e familiares ou grupais. Não são, portanto, nem bons nem maus. 29
  • 28. AMÉRICO CANHOTO Predominam neles orgulho, inveja, egoísmo, narcisismo, intolerância e impaciência. Deles é que a Terra precisa ser ex- purgada, pois se obstinam em não se emendar. São pessoas que fazem questão de acreditar em sorte, azar, destino, sobrena- tural, alimentos diet e light* e crêem que "um pouquinho só não faz mal", no "beba com moderação", "fume com moderação", "use camisinha em relações suspeitas" e por aí afora... Geração transitória Por estarem mais amadurecidos, apesar de suas imper- feições, muitos partem cada vez mais rapidamente. Os "normais" acelerados, ou melhor, os que estão subme- tidos ao processo de aceleração da última fase da atual transição planetária, são basicamente as crianças que sofrem fortemente a pressão da angústia, do pânico, da depressão e doenças como o câncer. Por meio de nossos livros e palestras, estimulamos as pes- soas a pensar e desenvolver o raciocínio crítico revelado por Jesus quando nos afirmou que somente a verdade nos libertará**. Pais, mestres e cidadãos adeptos dos vários sistemas de crenças e de todas as origens sociais devem com urgência re- ciclar sua visão de mundo para entender, dentre outras coisas, * Inúmeros produtos rotulados de diet e light contêm mais calorias que os normais e não apresentam informações sobre os efeitos colaterais dos produtos químicos nos rótulos. Acho importante lembrar disso porque sei que, quando confiamos que um produto não é prejudicial, costumamos usá-lo sem critério. (Nota do Autor) **]oão, 8:31,32. (RE.) 30
  • 29. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S que de fato existe uma Lei de Ação e Reação e que o que gera nossa realidade são nossos atos. Nova geração Caracteriza-se por pessoas dotadas, desde o nascimento, de potencialidades acima da média, muito mais propensas ao bem, porém ainda suscetíveis de buscá-lo por meio da visão de mundo dos "normais". Cabendo-lhe fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por sua inteligência e razão geralmente precoce, bem como por sentimento inato de religiosidade des- provido de dogmatismo. ABORDAGEM DE QUESTÕES A educação ainda sofre de um mal crônico: a falfa de planejamento. Falta-nos compreensão do que seja educar. Para a maior parte das pessoas, educar um filho é ditar-lhe regras ou propor- cionar-lhe um banco escolar sobre o qual atravessará boa parte de sua vida para receber a instrução formal. As informações adquiridas nas salas de aula nem sem- pre serão verdadeiras ou úteis e, o que é pior, pouco serão utilizadas... 31
  • 30. AMÉRICO CANHOTO Na vivência descuidada, pequenos deslizes tornam-se graves e dolorosos problemas. O estilo "levar a vida e sobreviver do jeito que dá", sem parar para pensar e planejar, é absorvido pela criança e enten- dido como se fosse um comportamento "normal". Esse modo de agir, que é repassado de geração a geração, nos mantém pri- sioneiros, dependentes de favores. Conceitos e valores errôneos, reforçados e repassados de uma geração a outra, hoje transmitidos com mais inten- sidade pela mídia, acabam por gerar mentira, oportunismo, agressividade, calúnia, maledicência, orgulho, inveja, traição, intolerância. A educação deveria nos estimular a desenvolver pa- ciência, tolerância, respeito, simplicidade, senso de ética e de justiça, qualidades muito valorizadas na teoria, mas pouco cul- tivadas na prática. Exemplo: quando pedimos a uma criança que vá ao mercado comprar alguma coisa, não devemos pro- por-lhe que compre uma guloseima com o troco para executar essa tarefa. Um dia, condicionada por esse comportamento - toma lá, dá cá - poderá freqüentar os noticiários como de- putado, presidente, senador ou policial, por exemplo, adepto do suborno. Quem não conhece o popular refrão dos pais que come- tem erros: "Não foi isso o que eu ensinei!"? Um dia, em algum lugar, teremos de prestar contas à própria consciência do que
  • 31. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S oferecemos aos que a divina providência nos confiou como filhos, ou mesmo àqueles que estão sob nossa responsabilidade. Até há alguns anos, o sistema educacional, com todas as dificuldades, dava a impressão de funcionar a contento. No entanto, nesta fase de transição planetária, ficam evidentes suas deficiências. Geração após geração, nós nos apegamos obsessivamente às sensações. Os hábitos alimentares podem servir de exemplo tanto à obsessão quanto à lentidão em nos reciclarmos. Mudam muito pouco de uma geração a outra sob circunstâncias bem diferenciadas. A avó que parou no tempo premia todos os dias os netos com guloseimas, esquecida de que na sua infância eram ofe- recidas apenas em ocasiões especiais. Dessa forma, isso não causava danos à saúde daqueles que as recebiam. Analisemos nossa tendência para consumir carboidratos (contidos no arroz e no feijão, por exemplo). Antigamente, predominava o trabalho braçal. Na atualidade, mesmo os que levam uma vida de pouco ou nenhum uso do corpo conservam os hábitos herdados dos antepassados: alimentam-se além de suas necessidades. 0 resultado é o aumento da incidência de diabete em todas as idades e da obesidade infantil, presente em crianças de 33
  • 32. AMÉRICO CANHOTO todas as classes sociais, a ponto de tornar-se um sério problema de saúde pública. As crianças consomem de tudo, sem nenhum controle. Os pais se omitem por ignorância ou comodismo. Os poucos que se preocupam em mudar a sistemática da alimentação discursam para uma platéia surda. Nenhum recurso vai eliminar miraculosamente as con- seqüências de anos de má alimentação. Minha intenção não é simplesmente criticar, muito menos apontar erros para despertar culpas e remorsos, mas de alertar o leitor para que faça as ne- cessárias mudanças nos seus hábitos, as quais vão beneficiá-lo e servir de exemplo não apenas para seus filhos, mas para todas as pessoas que o rodeiam. Nossa contribuição é ofertar material para reflexão, tes- tado entre as quatro paredes de um consultório e fora dele, para que a sucessão de pequenos descuidos, ao longo de uma vida, não se transforme num problema grave, de lenta e dolo- rida resolução. 34
  • 33. A reestruturação da família começa com o aprendizado do diálogo. É fundamental cultivar o hábito de conversar sobre temas importantes e inteligentes, mas com bom humor. A alegria cativa as pessoas, torna o diálogo mais agradável e atraente.
  • 34. A EDUCAÇÃO DEVE VISAR DESENVOLVER A CAPACIDADE DE DISCERNIR
  • 35. QUESTIONAMENTOS Esclarecendo dúvidas 0métodoque indicamos é o mais simples e na- tural possível: duvidar e, em seguida, refletir (experimentação e reavaliação periódica). O material pedagógico são as coisas e os fatos mais simples do dia-a-dia. O roteiro mais fácil a ser se- guido é o sistema de reestruturação usado em muitas empresas: metas, projetos, reposicionamento constante, reavaliação dos recursos e objetivos. 0 primeiro passo da reestruturação íntima e familiar é abordar algumas questões: "Quem somos nós?; O que fazemos aqui?; Quem é minha família?; Quem são meus filhos?; O que é educar?; Qual o melhor método de educação?; Quem é o educador?; Quem é o educando?; Quando termina o processo educativo?; De quem é a responsabilidade da educação?". QUEM SOMOS NÓS? Viver nos dias de hoje parece algo complicado, difícil e caro. Gastamos grande parte do nosso tempo e conhecimento para ganhar dinheiro e por vezes custear a educação dos filhos. Vez ou outra somos obrigados a nos deparar com jornais e re- vistas que apresentam gráficos e pesquisas de quanto custa um filho e sua educação (leia-se instrução). Essas reportagens servem de estímulo para que muitas pessoas evitem ter filhos. 37
  • 36. AMÉRICO CANHOTO Confundimos educação com simples treinamento e instru- ção. Desembolsamos uma fortuna para que nossos filhos perma- neçam na escola boa parte de suas vidas para aprender coisas sem muita utilidade prática. Claro que num mundo onde a tecnologia se torna cada vez mais importante, alguns conhecimentos são necessários, mas não podemos nos esquecer de outros aspectos que nos caracterizam como pessoas sadias e felizes. Muitas vezes, nessas instituições de ensino, eles são cobrados em demasia por resultados que não conseguem alcançar, para depois, fracas- sados, caírem em depressão, angústia existencial ou pânico. Onde falhamos? Desperdiçamos ensinamentos que a vida nos apresenta no cotidiano de nossa existência, talvez por serem ofertados de graça pela divina providência - não os valorizamos. Qual a razão dessa atitude? A crise na educação, em grande parte, tem sua origem no desconhecimento de quem somos e qual a nossa função. Entre nós e os animais irracionais, há muitas semelhanças e algumas diferenças... Os animais, guiados pelos instintos, não têm problemas para comer, saciar a sede, respirar, urinar, evacuar. Qual é a razão da inapetência, da constipação intestinal, da asma, da insónia de nossas crianças? Estou certo de que a origem de todos 38
  • 37. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S esses males encontra-se no tipo de educação que recebemos e que transmitimos aos nossos filhos. Mesmo que estes já tenham desaprendido de dormir, respirar, comer e até evacuar - o que não ocone com os animais, caso contrário não sobreviveriam -, mesmo assim, se os educarmos corretamente, fazendo-os en- tender o que é o corpo humano, como funciona, quais são suas necessidades, os problemas que poderão advir dos nossos maus hábitos alimentares e comportamentais poderão ser sanados. Os instintos guiam o animal, que pode ser domado ou trei- nado, e suas emoções parecem ser primárias. A mais evidente di- ferença entre racionais e irracionais é a capacidade de pensar de forma contínua. Nós, os racionais, pensamos, sentimos e somos capazes de agir; portanto, em teoria, podemos nos educar. A educação deve visar desenvolver a capacidade de discernir. Pensar/sentir/agir é um processo que deve estar sempre integrado, embora às vezes pensemos uma coisa, digamos outra e ajamos de forma discordante, pois quer queiramos quer não, nossas ações provocam reações e, ao recebê-las, devemos dis- cernir se continuamos agindo da mesma forma ou mudamos nosso modo de nos comportarmos. Se pretendemos educar nossos filhos, em vez de apenas treiná-los, é preciso, em primeiro lugar, que fique bem claro para eles que suas ações vão gerar efeitos muito além da imaginação, pois não há apelação no caso da propagação dos seus efeitos. 39
  • 38. AMÉRICO CANHOTO Desculpas ou pedidos de perdão sem que, ao mesmo tempo, bus- quemos reparar os erros cometidos não resolvem. É certo, porém, que podemos consertar o mal que causarmos a nós mesmos e aos outros. Enquanto não o fizermos, aliás, essa dívida permanecerá gravada em nossa consciência. Algumas escolhas trazem prazer, outras carregam dor: o tempo encarrega-se de revelar o que semeamos... A dor e o sofrimento são causados por escolhas erradas. A repetição crônica desses erros revela que estamos nos ne- gando a evoluir. A educação, nesse sentido, pode ser o fator determinante de nossa mudança. A criança da nova geração, por exemplo, é mais receptiva a entender a necessidade de mudanças. Se lhe explicarmos o que precisa fazer para ser feliz e se dar bem na vida, embasados em argumentos bem fundamentados, ela vai, em primeira ins- tância, refletir sobre nossas afirmações. Por exemplo: "Estou com vontade de comer bombom, por que não posso comer todos os que estão na caixa?" Se disser a ela que ficará com dor de barriga ou algo parecido, ela pode dizer que não se importa. Cabe a nós, adultos, provar-lhe o contrário não a medicando quando resolver fazer esse experimento... O modo de pensar cria nossa realidade: é necessário idealizar o que desejamos para nós. 40
  • 39. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S O pensamento contínuo é uma forma de energia que tem o poder de deslocar elétrons de suas órbitas. O ato de pensar cria e movimenta correntes eletromagnéticas e faz fluir a vida. Vivemos na atmosfera fluídica gerada por nossos pensamentos. Desde que nosso pensamento seja voltado para o bem, emitido com intensidade - com fervor, com fé -, e seguido de ação, poderá realizar-se, pois na terceira dimensão a força do pensa- mento necessita de atitudes concretas de trabalho. Quando pensamos, criamos a nossa realidade. E interagimos com a realidade dos outros, criando vínculos. Como a intenção deste livro é oferecer um novo olhar sobre a educação de nossas crianças, vale lembrar que elas po- dem ser afetadas pelo pensamento dos adultos. Exemplo: se os pais pensam continuamente que seu filho é incapaz, incompe- tente para aprender, dependendo da intensidade do seu modo de pensar, ele poderá vir a sê-lo, especialmente se vier acom- panhado de palavras e atitudes. Se tal assertiva vale para o pensamento negativo, ao qual nos referimos, vale também para o positivo. Se afirmarmos que existem virtudes em nossos filhos e os imaginarmos manifestando esses sentimentos, estaremos contribuindo para semear o bem e a felicidade em suas vidas. No consultório, atendo algumas crianças que adoecem com mais freqüência do que outras e demoram mais para atingir a cura. Na condição de médico de família, descubro 41
  • 40. AMÉRICO CANHOTO que em casos como esse geralmente algum familiar está en- frentando um conflito que envolve doença, perda ou medo da morte. Noutras vezes, há uma guerra não declarada entre pais e filhos, uma disputa para ver quem manda mais. Colocar uma criança da nova geração sob tal pressão é desastroso para a família, pois ela tira proveito da situação, manipula os pais e pode até provocar a falência da família, sem que o deseje, pois necessita mais do que as outras de segurança afetiva. Algumas crianças, além disso, têm medo ou pavor de ir ao médico. Na maioria das vezes, esse pânico é resultado do pensa- mento de pais ou familiares, contaminado com o "vírus" do medo, do apego, da insegurança, da falta de soberania emocional. A criança não tem capacidade para se proteger dessa projeção mental de seus familiares, que por sua vez imaginam que ela esteja doente ou tenha algum problema. Esse pensa- mento negativo a envolve e contribui para que desenvolva o temor pelo médico, que vai acompanhá-la por toda vida se não for capaz de enfrentá-lo. Com a finalidade de manipular os filhos, muitos pais usam da visita ao médico como punição: "Se continuar assim, vou levá-lo ao médico. Você vai ver o que é bom!". Se a crian- ça muda seu comportamento, influenciada pela ameaça, pre- miam-na com o adiamento indefinido da ida ao consultório: "Como você está bonzinho, não vamos ao médico neste mês". Esse tipo de atitude, contudo, é altamente prejudicial. Pode agravar problemas que, em tempo hábil, seriam facilmente 42
  • 41. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S extirpados. Os pais e familiares devem mudar seu pensamento: o médico é um facilitador da saúde. Atende a criança com carinho e a ajuda, segundo suas possibilidades, a viver melhor. A criança da nova geração não abre mão da liberdade. Pensar permite escolhas: é a liberdade que nos permite o livre-arbítrio. Quando desejar impor limites ou regras para uma criança da nova geração, deixe em aberto uma ou várias alter- nativas para que ela possa exercitar sua capacidade de escolha entre aquilo que lhe é permitido. Elas têm uma consciência inata de que pensar e escolher é exercitar a liberdade que tanto ansiamos. Quando presenciam a atitude passiva de seus pais, que aceitam os males que os ator- mentam sem esboçar reações, impacientam-se. Perguntam a si mesmas: "Porque meus pais abrem mão da liberdade de escolher a felicidade? Por que se recusam a perceber que não escolher, se acomodar, também é uma forma de fazer uma escolha?". Nos dias de hoje, a grande maioria das pessoas não pensa para não ter de escolher, como se isso fosse possível. Delegam as escolhas corriqueiras a outros e imaginam, assim, esquivar-se de arcar com as conseqüências, porém pequenos descuidos levam a grandes problemas (aos quais, pela Lei de Ação e Reação, res- ponderão no futuro...). Um exemplo disso, bem característico, é a postura descuidada dos adultos diante da bula dos remédios. "Para que lê-las? Por que perder tempo com aquele papelzinho 4 3
  • 42. AMÉRICO CANHOTO impresso com letras tão pequenas? Se o médico receitou, é ele quem deve lê-la, não eu". Essas pessoas recusam-se a encarar os dados que constam da bula. Ler esse impresso significa inteirar-se dos males que nos afligem e entender a ação medicamentosa, além de conhecer os efeitos colaterais da medicação e sua composição. O mesmo ocorre na educação de nossos filhos. Assim como transferimos para o médico a responsabilidade total de nos devolver a saúde, agimos da mesma forma em relação à educação de nossos filhos. Jogamos a responsabilidade para a escola. Não nos dispomos a ler o programa do curso e muito menos a tomar conhecimento da bibliografia que será utili- zada. Matriculamos a criança, compramos o material escolar e o uniforme, enchemos sua mochila com alimentos indus- trializados e, se estiver ao nosso alcance, contratamos o trans- porte que vai levá-la à escola e trazê-la de volta ao lar. Essa é a nossa parte! Os alunos parecem batatas quentes atiradas aos professores. A criança progressista - carente de afetividade e apoio familiar e consciente das obrigações de seus pais para com elas - pode perceber o que está por trás da atitude dos adultos: o desejo de livrar-se do encargo de educá-la e até de conviver com ela, pois sua forma questionadora de ser lhes tira o sossego. Tem dificuldade em aceitar a educação que lhe é imposta e causa algumas dificuldades aos pais e educadores. Como po- demos observar, a Lei de Ação e Reação funciona de forma acelerada: pais que se recusam a dar aos filhos a maior riqueza a 44
  • 43. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S seu alcance - a educação - são vítimas do sistema, repassando o que receberam; porém a atitude de alguns beira à omissão. Criada num ambiente onde não é permitido experimentar para aprender, a criança recusa-se a crescer. Muitas crianças recusam-se a alcançar a maturidade psicológica (mental, emocional e afetiva) e mantêm de forma acintosa posturas que não correspondem a sua idade. Essa ati- tude não é simplesmente birra, é o reflexo do comportamento de seus pais. E fruto da educação que apenas despeja informa- ções em sua cabeça. Geração após geração, não se permite à criança a li- berdade de escolha. Quando, eventualmente, os adultos lhe permitem isso, quase sempre ela é impedida de arcar com as conseqüências, o que retarda significativamente alcançar a maturidade psicológica. Quais seriam os motivos principais que levam os pais a impedir que a criança exercite a capacidade de pensar antes de escolher, tornando-as incapazes de suportar os efeitos de suas escolhas? Onde e com quem as crianças aprendem a desenvolver esse padrão de atitudes pouco responsável? Meditem. No de- correr deste livro, descobriremos respostas para essa questão. A educação também deve desenvolver a capacidade de sentir. 45
  • 44. AMÉRICO CAN» Perante as situações que vivenciamos, experimentamos emoções e sentimentos que retomam ao corpo como sensações, que devemos tentar interpretar. Quando nos recusamos a fazê-lo, nós as materializamos como doenças. Se porventura nos causam prazer, dizemos que são emoções boas. Se nos provocam dor ou sofrimento, nós as classificamos como emoções ruins. Chamam a isso de inteligência emocional. Como é fácil perceber, nossa in- teligência emocional deixa muito a desejar, isso é cada vez mais visível no dia-a-dia, em que, por exemplo, algumas pessoas não conseguem parar de chorar sem motivo aparentemente lógico para quem está de fora, para o observador. Somos seres interdependentes, então permutamos emoções e sentimentos. Em teoria, somos capazes de controlar a forma como as emoções e os sentimentos dos outros podem nos afetar mas não é o que se observa na prática: por exemplo, se num grupo de pessoas há uma muito irritada, logo todos estarão discutindo sem saber a razão. Poucas pessoas usam a razão para filtrar e também para permitir quais energias podem ou não afetá-las. Essa capacidade é entendida como a soberania da razão sobre a emoção, uma conquista espiritual ainda ao alcance de poucas pessoas. A dificuldade que temos para lidar com as emoções na maioria das vezes nos causa problemas. Essa con- fusão emocional é mais uma conseqüência da educação que recebemos. Não permitimos que a criança enfrente emoções que rotulamos de inadequadas. 46
  • 45. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S A criança está com raiva do irmão que lhe quebrou o brinquedo e sua reação é dar-lhe uns tapas. Presenciando a cena, dizemos à criança que o "Papai do Céu" está zangado, muito zangado com ela, porque cometeu um "pecado". Não lhe explicamos com lógica e clareza que a sua atitude foi egoísta, que ela precisa aprender a partilhar seus pertences eque agredir o irmão pode lhe causar, mais tarde, o retorno da mesma dor para que aprenda a só fazer aos outros o que deseja para si. Na condição de pais, de acordo com as possibilidades de entendimento de nossos filhos, devemos ensinar-lhes as conseqüências de suas reações. É importante ajudá-los a controlar as emoções e a discernir suas atitudes. Observar seu comportamento durante as brincadeiras e jogos infantis e corrigir seu comportamento intempestivo é nosso dever. Devemos contribuir para que superem sentimentos inatos que desde cedo se manifestam em suas atitudes: ciúme, in- veja, egoísmo... Ensinemos a eles que Deus não castiga nin- guém, nem sai por aí distribuindo prêmios. Temos aquilo que merecemos. Quando não se explica com honestidade, simplicidade e clareza, a criança não é capaz de elaborar suas emoções, até porque tem dificuldade em distinguir se está triste, magoada, decepcionada, com raiva ou ódio. Ela depende do adulto para desenvolver essa habilidade, mas com ele apenas aprende a fingir, camuflar suas emoções. Mais tarde, na idade adulta, ela poderá colher as conseqüências dessa indiscriminação: doenças 47
  • 46. AMÉRICO CANHOTO as mais diversas, alimentadas por mágoas acumuladas, ressen- timento, impaciência, ansiedade desvairada... Soberania emocional As crianças da nova geração são portadoras de soberania emocional mais desenvolvida que a nossa e capazes de elaborar as emoções com objetividade, além de serem muito amorosas. No entanto, não sofrem por causa das pessoas: auxiliam espon- taneamente, sem se deter na contemplação de suas dores. Por assim dizer, são verdadeiras ONGs ambulantes... Re- gistre bem isso, se for o caso, para entender as atitudes humani- tárias de seu filho progressista, as quais certamente despertarão a incompreensão das pessoas "comuns", incapazes ainda de praticar a caridade que Jesus nos ensinou, ou seja, tratar o pró- ximo como gostaríamos de ser tratados. Pensar, sentir, analisar, decidir e agir. Essa é a seqüência do pensamento contínuo. Discernir se o resultado das escolhas foi correto é o passo seguinte. Reformular ou não a escolha inicial é direito e dever de cada um. Normalmente, o adulto projeta-se na criança e acaba impedindo que pense e sinta por si mesma. Determina o que ela deve fazer e como reagir. Quando ela se rebela contra essa atitude, quase sempre a reação dos adultos não é das mais agra- dáveis. A seqüência à qual me referi é tão clara, lógica e natural que a criança da nova geração revolta-se quando é impedida 48
  • 47. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S de executá-la. Quando proibida de agir segundo seus impulsos mais progressistas, sua reação natural é não aceitar o que vigo- ra no sistema. As crianças da nova geração têm um faro aguçado para descobrir quem somos nós. Nosso sistema de crenças é que vai nos conduzir na dire- ção do progresso. Para acelerar essa caminhada, é fundamental ouvir a todos e analisar as opiniões alheias, sejam elas de origem religiosa, filosófica ou científica. De posse das informações co- lhidas, devemos analisá-las e tomar nossas próprias decisões. Nisso se resume a fé raciocinada. Caso não paremos para refletir com isenção sobre aquilo que nos alcança, estaremos presos a dogmas, convenções e preconceitos, e nossas escolhas poderão ser desastrosas. É importante estarmos sempre dispos- tos a ouvir, refletir, meditar e, se necessário, debater com as pessoas nossas dúvidas, até nos sentirmos bem. Os adultos "normais" evitam discutir alguns temas e, quando o fazem, querem impor seus pontos de vista. As crian- ças da nova geração adoram aprender e, boa parte delas, diz com naturalidade que somos espíritos eternos em aprendizado contínuo e que esta existência é apenas uma aula breve, duran- te a qual teremos tempo para refazer algumas lições malfeitas no passado. Sem que ninguém lhes diga, lá no fundo de sua alma, elas têm a intuição de que parar para refletir a respeito de quem so- 49
  • 48. AMÉRICO CANHOTO mos e o que fazemos aqui é o passo inicial para conquistarmos calma, paz e alegria de viver. QUEM SOU EU? Não estou me referindo à data e ao local de nascimento e a outras informações óbvias a nosso respeito, tais como nú- meros de documentos etc. Responder a essa pergunta implica olhar para dentro de nós e, então, observar nosso comporta- mento e atitudes e "mapear" nosso íntimo. Esse reconheci- mento da alma exige boa vontade e um esforço perseverante. Poucos de nós nos dispomos a despender nosso tempo nessa aventura. A maioria das pessoas desconhece sua na- tureza. Vivem apenas para comer, beber, consumir... Fogem do desconhecido porque ignoram sua natureza e temem que lhes cause sofrimento. Andam sem rumo pela vida, ao sa- bor das oportunidades, e padecem de angústia e inquietação crônicas. Podemos iniciar desde já o processo de autoconhe- cimento com base na análise de nossos pensamentos. Des- tacamos alguns deles, muito comuns a todos nós, os quais transcrevo a seguir. "Não quero nem pensar..." "Não aprendi a escolher por mim mesmo..." "Se todos fazem assim, por que preciso ser diferente? "Quem sou eu para mudar?" "Nem imagino o que vim fazer nesta existência..." 50
  • 49. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S "Ignoro quem sou..." "Nem imagino como explicar as ocorrências do meu dia-a-dia..." "Não consigo parar para pensar nisso tudo..." "Nem imagino o que fazer para educar melhor meus filhos..." Pensamentos tão desencontrados como esses revelam que é tempo de reformular o modo de ser. Se esse é o seu caso, as crianças pertencentes à nova geração que eventualmente forem seus filhos lhes serão de grande ajuda. Diferentes de nós, elas nascem com a intuição do papel que vão desempenhar nesta existência; possuem uma visão mais clara do próprio po- tencial; detêm relativa consciência daquilo que querem e não abrem mão de seus valores. Conheço crianças progressistas que, com menos de dez anos, dizem aos pais que parem de trabalhar tanto, pois não querem herdar seu dinheiro nem suas propriedades. "Não quero ser como vocês", dizem aos pais, abrindo-lhes os olhos para o péssimo exemplo que estão dando: concentração de seus esforços apenas na conquista de bens materiais. Será possível recuperar o tempo perdido e as oportunidades de autoconhecimento? Sim, sempre é possível, e quem manifesta essa intenção já atingiu uma condição mínima de maturidade e discernimento que vai ajudá-lo a conhecer melhor a si mesmo, descobrir a 51
  • 50. AMÉRICO CANHOTO natureza do seu eu. Será admitido no "clube" das pessoas que buscam progredir sem a ajuda do sofrimento. "A quem muito foi dado, muito será pedido"*, disse Jesus. Descobrir quem sou e qual minha missão no mundo pa- rece uma tarefa difícil, quase impossível, mas não é. Quando sei com clareza quem sou e o que faço aqui, adquiro equilíbrio para conquistar minhas metas e meus sonhos. Esse passo inicial deverá ser dado ainda na infância, pois é possível auxiliar a criança a descobrir seu potencial, suas predisposições, tendên- cias e impulsos inatos sem ferir os direitos do próximo. Quando os adultos que nos cercam na infância colaboram para o nosso processo de autodescoberta, torna-se mais fácil identificar o que viemos fazer nesta existência. Se não receber- mos esse auxílio, ainda não é o fim do mundo, pois sempre será possível analisar nossa condição: fatos ocorridos conosco, de que forma interagimos com as pessoas que nos cercam... Cada situação ou acontecimento que já vivemos ou estamos vivendo pode tornar-se uma oportunidade de aprendizado e um sinal de mudanças de rumo na vida afetiva ou profissional. Ajudar a criança na descoberta do projeto de sua exis- tência é uma das razões de vivermos em família. É a essência da arte de educar. Mas como educar? Como veremos a seguir, * Lucas, 12:8. (N.E.) 52
  • 51. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S educar é compartilhar com a criança o aprendizado que já adquirimos. De preferência discursando menos e exemplifi- cando mais. Caso tenhamos uma criança progressista na família, podemos solicitar-lhe que nos ajude a educá-la. Para tanto, basta analisar com carinho e humildade suas opiniões sobre quem somos e como nos comportamos. Procuremos refletir sobre suas considerações e, a partir delas, reformular nosso modo de ser. QUEM É A CRIANÇA? A criança é um ser eterno em evolução. Ela não é um boneco ou um bichinho de estimação. Pa- rece incrível ter de dizer isso, mas algumas pessoas estão tão entretidas com seus filhos, a ponto de esquecer que eles não foram criados para o seu deleite, mas para viverem sua própria existência, de forma independente mesmo que sob tutela. E preciso recordar quem somos e o que fazemos aqui e refletir sobre isso. Nossos pais nos deram a oportunidade bioló- gica de reencarnar para aprender e progredir. Fazemos o nosso papel dando essa mesma possibilidade aos nossos filhos. Os pais não são meros reprodutores, seu dever vai além: é fundamental que participem ativamente da construção do ser que receberam em seus braços. Não devem criá-los com mimos 5 3
  • 52. AMÉRICO CANHOTO ou destacar suas habilidades para exibi-los aos amigos e conhe- cidos ou, ao contrário, escondê-los se não nasceram de acordo com suas expectativas... Faz-se necessário estudar nosso filho para compreendê-lo. É importante analisar suas tendências, impulsos e comporta- mento desde a vida uterina até onde for possível, sem intenção de julgar, criticar ou controlar; além de colaborar para o de- senvolvimento de suas potencialidades, ajudar a mudar carac- terísticas inatas conforme colocamos em nosso livro A reforma íntima começa no berço, "com paciência e muito amor". Mesmo seres diferenciados como as crianças da nova ge- ração sofrem a influência do meio em que são criadas. Tanto podem ser bem-sucedidas quanto experimentar quedas fantás- ticas. Quanto maior o potencial, claro que maior é o risco a que nos expomos. Ao nascer, não somos páginas em branco. Para os "normais", é difícil perceber que, ao nascer, tra- zemos impulsos, tendências e predisposições inatas, algumas muito marcantes, denominadas por alguns de índole e classifi- cadas de boa ou ruim. Uma das funções da educação é ajudar a criança a discernir sobre a própria índole e corrigir as tendên- cias inadequadas. Anote a espécie de comportamento de seus filhos. Faça um esforço para registrar esse comportamento e analisar seu 54
  • 53. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S desenvolvimento. Observe também o modo de agir de outras crianças, evitando julgá-las ou dar palpites a seus pais, mesmo quando solicitado. Como não estamos inseridos no seu con- texto familiar, torna-se difícil e arriscado opinar sobre a vida alheia: cuidemos de nossos próprios filhos. A criança deve ser estudada o tempo todo. Viver é educar-se, dia e noite. Cabe ao adulto estudar a criança para ajudá-la a esboçar seu projeto de vida, ajustado às suas necessidades evolutivas. A execução desse projeto e o seu sucesso também dependem da ação dos pais. Quer queiramos, quer não, somos seus mentores encarnados; em nenhuma hipótese, podemos abandoná-los à própria sorte. A maior parte das dificuldades existenciais encontra sua origem nos problemas mal resolvidos na época da infância. Somos criaturas vivendo em permanente evolução. Ao nascer, trazemos um conjunto de tendências e predisposições, que vão nos proporcionar paz e felicidade, e outras, por sua vez, nos causarão infelicidade e dor. Desde a infância, precisamos nos educar para enfrentar o prazer e a dor, que serão uma constante em nossas existências, pois se trata de uma necessidade evolutiva, já que reencarnamos num mundo de expiação e provas. 55
  • 54. AMÉRICO CANHOTO Por incrível que possa parecer, a educação formal não contribui para vencermos as más tendências. Além dos im- pulsos, tendências e predisposições que trazemos ao nascer, ou- tros são incorporados, decorrentes do contato com a família e a sociedade. Quantos casos de depressão, pânico, roubos, trai- ções e mortes serão evitados quando a educação compreender o estudo e a superação das tendências inatas? Os benefícios serão incalculáveis para toda a humanidade... A reforma íntima começa no berço. Mudar algumas tendências inatas de uma criança bem pequena é muito mais fácil e simples do que as de uma criança maior ou de um adulto. Isso é mais do que lógico. Por exemplo, como ajudar um bebê impaciente e mandão? Isso é possível re- tardando seus desejos. Demore o máximo para satisfazer suas vontades (não suas necessidades básicas) para que entenda que não é "dono do mundo" e que nesta vida nada vai ser conseguido no berro. Se os pais se dispuserem a tanto, devem entender que a criança maior tem o direito de participar ati- vamente dessa transformação; só discursar não adianta. Além disso, os adultos devem compartilhar com ela sua própria ree- ducação ou reforma íntima. Pais e educadores ficam em polvorosa quando a criança exige que essa transformação seja feita de acordo com seu modo de entender as coisas, do seu jeito. As crianças da nova geração não abrem mão de suas prerrogativas. 56
  • 55. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S QUEM É O EDUCADOR? Na escola da vida, cada qual oferece o que possui. Os pais são os educadores e os filhos os educandos. O entendimento dessa questão, porém, amplia-se quando nos conscientizamos de que somos todos espíritos em evolução: aprendemos uns com os outros. No convívio com os filhos, ensinamos e aprendemos de acordo com as circunstâncias e necessidades. Muitos pais, contudo, assumem a condição de "doutores da lei", certos de que são verdadeiros mestres, cabendo aos filhos seguir-lhes os passos. Outros cometem o desatino dos desatinos: terceirizam a educação dos filhos, transferindo-a para insti- tuições e pessoas ainda menos credenciadas que eles mesmos. Por incrível que possa parecer, pais com pouca instrução mas dotados de amor e boa vontade tornam-se educadores de qua- lidade e outros, muito instruídos - em grande parte por como- dismo ou omissão -, deixam a desejar no papel de educadores. Os acontecimentos do dia-a-dia são lições de vida. Nessa escola, o tempo todo, somos educadores e educandos. Pais de boa vontade são aqueles que ensinam a partir do próprio exemplo. Dia desses, atendi em meu consultório um 57
  • 56. AMÉRICO CANHOTO adolescente, ali conduzido pelo pai. Uma raridade, pois quase sempre é a mãe a levar os filhos ao médico. Num determinado momento, o garoto foi questionado pelo pai quanto a seu gosto musical: "Doutor, ele fica horas e horas ouvindo música sem pé nem cabeça em alto volume e in- comoda até os vizinhos". A resposta do jovem foi interessante. Dirigiu seu olhar em minha direção e comentou: "Nunca meus pais me ensinaram a ter bom gosto musical. Nem sei do que eles gostam. Foi com meus amigos que aprendi a gostar dessas músicas. Coloco o som no último volume para abafar a gritaria deles com meus irmãos". Acredito que, depois dessa consulta, alguma coisa mudou no lar desse jovem. No mínimo, seus pais entenderam a neces- sidade de partilhar com os filhos suas preferências musicais. A criança também é um educador. O adulto deve aprender a interagir com a criança, permutando ensinamentos; mas, para que isso se realize, é preciso iniciar um diálogo construtivo. Diálogo construtivo? Do que se trata? A criança deve ser ensinada a assumir seu papel de educador perante as outras crianças, os adultos e os próprios pais. Como começar? Pelo básico, permita que a criança fale, não a interrompa nem tente convencê-la com meros discursos. Antes de tudo, não a interrompa, ouça o que tem a dizer. 58
  • 57. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Trate-a de igual para igual. Use de argumentos e não tente persuadi-la, pressionando-a para que faça o que você acha correto. Explique o que considera bom e útil para ela. Faça-se entender com brandura, não eleve seu tom de voz e, acima de tudo, seja paciente. As crianças da nova geração são educadores natos. Muitas são donas de uma capacidade de discernir e de um bom senso que supera o de muitos adultos. Seus pais devem acatar suas ponderações, elogiá-las e verbalizar sua gratidão - seja na vida em família, seja na escola, seja na relação social. Essa atitude pode aguçar ainda mais sua intuição e fazer aflorar uma sabedoria milenar. As que nos incomodam com perguntas, exigindo explicações lógicas, e por vezes detalhadas, e não se convencem quando damos respostas superficiais são pedras preciosas que recebemos da divina providência, a qual nos incumbiu de lapidá-las com amor. QUEM É O EDUCANDO? Todos nós somos educandos... O período da infância do ser humano é o maior dentre todos os mamíferos do planeta. A criança é uma verdadeira 59
  • 58. AMÉRICO CANHOTO "esponja", capaz de absorver as influências do meio em que se desenvolve. Dessa forma, a maior parte do padrão atual de atitudes dos adultos é um aprendizado recebido no período da infância. Os pais que desejem assumir a condição de verdadeiros educadores devem posicionar-se junto de seus filhos não como sábios e donos da verdade, mas como modestos aprendizes. A RESPONSABILIDADE DA MÍDIA Educar é interagir. O comportamento dos nossos filhos pode influenciar outras crianças. Devemos conscientizá-los disso, destacando a importância de agirem corretamente, sempre com a intenção voltada para o bem comum. Cumpre-nos alertá-los de que somos observados por olhos invisíveis, atentos aos nossos atos. É incontável o núme- ro de mentes que captam nossos pensamentos, uma vez que estamos conectados espiritualmente uns aos outros em rede, on-line... Influenciamos e somos influenciados o tempo todo, um processo que vai muito além da nossa imaginação. Paulo de Tarso nos alertou nesse sentido: "Portanto, estamos rodeados dessa grande nuvem de testemunhas. Dei- xemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra em nós. Corramos com perseverança na corrida, man- tendo os olhos fixos em Jesus, que tanto incentivou a fé. Em 60
  • 59. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S troca da alegria que lhe era proposta, ele se submeteu à cruz, e se assentou à direita do trono de Deus"*.Vale dizer, é preciso vigiar nossas atitudes, pois somos responsáveis pela influência que viermos a causar aos outros. QUAL É O MÉTODO PEDAGÓGICO MAIS ADEQUADO? A criança necessita fazer as coisas do seu jeito para aprender. Na relação entre pais e filhos, um método pedagógico essencial é o exemplo. Mil palavras não valem uma atitude. Mas milhares de palavras e exemplos não rendem os frutos da própria experiência. Especialmente para as crianças com as particularidades da nova geração, isso é vital. Elas têm de fazer as coisas do jeito delas para aprender. O papel do adulto inteligente é criar-lhes limites e per- mitir que o aprendizado prossiga sem interferências autoritárias. Porque vivemos de forma descuidada, o "método pedagógico" mais usado é o da contradição: faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço... Se o que observamos no dia-a-dia é um grande número de mal-educados em todos os sentidos, é cada vez mais evidente que os recursos pedagógicos da atualidade não são eficientes. * Carta aos hebreus, 12: 1, 2. (N.E.) 61
  • 60. AMÉRICO CANHOTO É urgente que se permita à criança experimentar os frutos das próprias escolhas. Na dúvida sobre o que fazer, deixe o acontecimento fluir. Quando não temos domínio sobre algo é melhor não interferir. Apenas é preciso observar, analisar, para agir quando estivermos seguros de nossas ações. Ofereçamos à criança o que temos de melhor: compreensão, carinho, autoridade moral, honestidade de propósitos, humildade, cuidados e respeito. Com certeza a criança aprenderá que deve agir assim em reciprocidade e quando agimos com tolerância e amor, o retorno é maravilhoso, especialmente entre as crianças da nova geração, que passam a desenvolver seu potencial com maior desenvoltura. Somos o modelo. Como pais, devemos nos matricular na "Universidade da Reestruturação da Personalidade". Para que nos tornemos bons exemplos ou modelos, é preciso colocar sempre o foco de nossa consciência no bem. Nossos filhos aprenderão a fazer o mesmo. Ao enaltecermos e valorizarmos suas qualidades, eles vão copiar nossa forma de agir. Se analisarmos com honestidade de propósito as qualidades que lhes faltam, é possível ajudá-los a conquistá-las. Evitando destacar seus defeitos - atitude que só vai contribuir para reforçá-los ainda mais -, seremos capazes 62
  • 61. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S de colaborar para que suas qualidades se evidenciem, incenti- vando-os a prosseguir no seu aprendizado. A QUEM SE DESTINA A EDUCAÇÃO? Somente o humano terráqueo pode ser educado? A educação cósmica destina-se a todos os habitantes do universo, sem distinção, conforme fica bem claro na Codifi- cação por meio do livro A Gênese. Quem dentre nós é um ET? Tanto quem não deseja aprender quanto aquele que ainda não despertou para a necessidade de educar-se serão igualmente beneficiados. Algumas pessoas se educam segundo a própria vontade e da forma que escolheram, outras são educadas compulsoria- mente segundo a Lei de Ação e Reação. Como diz o ditado, "se não for pelo amor, será pela dor". A opção da nova ge- ração, quando lhe permitem, é aprender usando a lógica e a experimentação: não gostam de modelos teóricos, regimentos e enquadramentos. A educação pode ser tanto passiva quanto ativa. A educação pode ser aplicada de forma ativa ou passiva. De forma passiva, nós nos educamos desenvolvendo a inteli- gência e a maturidade psicológica para evitar o sofrimento e a 63
  • 62. AMÉRICO CANHOTO dor. Na forma ativa de educar-se, aprendemos por opção pró- pria, pelo desejo espontâneo de evoluir. Cabe ao candidato a mestre - pais, educadores, adultos de maneira geral - provar a seus alunos que é mais fácil, prático e inteligente mudar por opção própria do que sob a pressão da Lei de Causa e Efeito. Aprimorar esse padrão de atitude vai nos qualificar para o papel de educadores. 6 4
  • 63. Educar também é permitir à criança descobrir seus próprios limites.
  • 65. O PAPEL DA FAMÍLIA A base d a civilização está fixada num dos microcosmos mais importantes da evolução: a família. Sua eficácia ou não como agente educador depende da forma como foi constituída. Quando estudamos a educação, não podemos deixar de dar um destaque especial à família. É entre nossos familiares, no período da infância, que formamos nossa personalidade e fixamos padrões de comportamento que vão nos acompanhar por toda a existência. De muitas maneiras, espelhamos a qualidade das pessoas que nos são mais próximas. Para compreender melhor a importância da vida familiar na construção da personalidade da criança, imaginemos, por exemplo, que ela seja um computador. Seu inconsciente, que seria o disco rígido, é o arquivo de registro de antigas expe- riências. O subconsciente é a memória periférica, o que está sendo executado no momento, que tanto pode ser salvo no arquivo principal ou ir para a lixeira. O foco da consciência ou do consciente é a tela. Imaginemos que todos os periféricos estão ligados. Na criança, comparada grosso modo a um computador, um equipamento que funciona tal e qual um scanner ligado 24 horas por dia é o subconsciente, o que faz com que ela capte tudo o que se passa a seu redor. Esse mecanismo de captação, 6 7
  • 66. AMÉRICO CANHOTO tão operante na criança, interfere e molda até o padrão dos seus caracteres físicos. Basta observar como as crianças ado- tadas, desde muito pequenas assemelham-se a seus pais adotivos, mesmo quando são de outra etnia. Claro que a estrutura familiar ainda deixa muito a de- sejar no cumprimento de tão importante papel - a formação da criança -, especialmente no que se refere aos aspectos que envolvem a ética e a moral segundo as leis da evolução. Obser- vamos vários fatores limitadores dessa função: nossas relações ainda são percebidas e sentidas segundo uma relação limitada à materialidade. O conhecimento das leis de evolução, além de precário, é pouco praticado na vida em família, restringindo sua influência na formação do caráter da criança. "Já cumpri meu papel de pai, meus filhos já estão criados e formados." "Desisto, meu filho não tem jeito..." Ouvimos afirmações como essas todos os dias ou somos nós mesmos que as pronunciamos. Precisamos entender que, nesta existência, um filho será sempre nosso filho e que não podemos renegar as responsabilidades que temos para com ele, nunca, daí não importar a idade cronológica dele. Nas bandas deste universo, a família é a oficina que a divina providência constituiu para nos conduzir, passo a passo, existência após outra, rumo à felicidade e à perfeição. A relação entre pais e filhos é um compromisso que se estende além do tempo e do espaço. 68
  • 67. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Não importa a idade de nossos filhos, muito menos onde se encontrem. Nesta existência, na condição de pais, estamos incumbidos de auxiliar seu desenvolvimento. Somos, por assim dizer, seus mentores encarnados, anjos guardiões, guias, como queiram. Não podemos nos isentar dessa responsabilidade. Essa relação é um poderoso instrumento, capaz de nos ajudar, pais e filhos, a desenvolver a capacidade de amar. Se nos cabe educar um filho problemático, não vamos desanimar diante das dificuldades e muito menos renegar nosso compro- misso. Se o que buscamos são informações, métodos e roteiros que nos auxiliem nessa tarefa, as informações expostas neste livro serão de grande utilidade. Fique bem claro que não disponho de fórmulas mágicas ou panaceias capazes de resolver quaisquer problemas. Desejo partilhar a experiência de uma vida dedicada à família e o farei com isenção e transparência, usando de todos os recursos ao meu alcance, sem falsear com a verdade. A maioria das pessoas está colecionando pequenos descuidos e ainda não sentiu as conseqüências de suas atitudes. Habituados a não parar para pensar e questionar, come- temos todos os dias pequenos descuidos que vão se avolu- mando... Atualmente, nós nos descuidamos da educação de nossos filhos para mais tarde enfrentar problemas angustiantes. 69
  • 68. AMÉRICO CANHOTO O descaso de hoje pode causar sérios e dolorosos pesadelos que nem médicos ou terapeutas renomados poderão resolver de pronto. Vale, portanto, empenhar o melhor de nós em prol de nossos filhos: esta é nossa missão! MUDANÇA DE DNA Modernas teorias provam que o meio ambiente afeta profundamente a membrana das células, alterando a estrutura do nosso DNA. No entanto, antes mesmo de receber essa in- formação, já cansamos de comprová-la no dia-a-dia. No consultório, atendo várias famílias que têm filhos adotados, os quais absorvem, por assim dizer, ao longo dos anos, o fenótipo dos pais, ou seja, tornam-se muito parecidos com eles em todos os sentidos. Depois da adoção, conhecidos nossos tiveram filhos con- sanguíneos e percebe-se, embora isso pareça incrível, que os adotados são até mais parecidos com os pais... Casais, que estão juntos há muitos anos, por vezes aparentam tantas semelhanças que até parecem irmãos consanguíneos; se observamos fotogra- fias antigas dessas pessoas, veremos que, no passado, as seme- lhanças não existiam. O QUE É A FAMÍLIA? Quando influenciamos alguém a tomar uma atitude, criamos compromissos para o futuro. 70
  • 69. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Do conjunto de atitudes do passado, originaram-se as famílias do presente. Não fazemos parte de nossa família por acaso. Essa filia- ção não é um mero acidente de percurso: faz parte da lei da interatividade. Estamos juntos daqueles com quem nos compete, nesta existência, conviver para nos reeducar, aprender ou até mesmo realizar alguma tarefa em conjunto. "O que fiz para nascer nesta família?" é uma pergunta pertinente: estamos com aqueles que serão nossos professores nesta existência, para os quais exerce- remos o mesmo papel, ou estaremos ombreando com amigos para executar projetos construtivos que foram combinados no plano espiritual. Relação familiar envolve compromisso. Os integrantes de uma família sentem-se, intuitivamente, mais ou menos compromissados uns com os outros. Tanto mais forte será o vínculo familiar quanto maior a capacidade dos seus integrantes de responsabilizar-se uns pelos outros. A união familiar depende da condição evolutiva dos envolvidos. Pode ser correta, saudável, alegre e feliz ou inadequada, doentia e sofredora. As crianças progressistas são mais resolvidas e indepen- dentes na relação familiar. Sentem a importância de fazer parte desse grupo, daí precisam sentir apoio na companhia de seus
  • 70. AMÉRICO CANHOTO familiares; pois elas fazem tudo o que está a seu alcance para que a tarefa combinada seja realizada. Não perdem tempo, auxiliam e socorrem aqueles que estão do seu lado, amparam de coração, sem, no entanto, envolver-se emocionalmente no problema ou na dor do próximo. Sabem que fazem parte do grupamento familiar no qual se encontram por razões trans- cendentais. Aceitam essa realidade - embora nem sempre sejam tão bem-aceitos por seus familiares. A formação da família pode ser planejada? Sem dúvida, pois para isso estamos neste mundo. Estamos aptos para tal empreitada. Um dia, em algum lugar do passado, nós nos tornamos capazes de planejar, até certo ponto, a cons- tituição familiar. Claro que a execução dessa tarefa depende da qualidade dos relacionamentos que construímos no passado, do grau de maturidade daqueles que estão envolvidos conosco e da ca- pacitação que desenvolvemos. Ainda não temos consciência plena dessa responsabilidade nem do que advém de nossa inse- gurança em relação à formação da família. Escolhidos aqueles que vão participar do nosso grupo, não é possível romper o vínculo. Como diz a música: "Não adianta querer me abandonar, pois vou te encontrar por aí". Não adianta fugir, abandonar, se 72
  • 71. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S separar. Um dia, retomaremos ao convívio daqueles que hou- vemos por bem nos separar. Boa parte dos grupos familiares de hoje - envolvidos em dores, dificuldades e sofrimentos - são os retardatários de on- tem, aqueles que fugiram dos compromissos assumidos, ima- ginando-se liberados de um período de convivência que não satisfazia suas expectativas. Para a maioria das pessoas, consideradas "normais", não cumprir com a palavra é comum. O mesmo não ocorre com a nova geração, que não entende nem aceita a negação de res- ponsabilidades, o uso de subterfúgios para escapar de compro- missos assumidos. Ao contrário, cobra fidelidade daqueles que a cercam e, por sua vez, não quebra comprometimentos. Quando enfrentam embargos na caminhada, são bem francos: revelam suas dificuldades, prontos a negociar. Costumam ser fiéis a sentimentos, interessados no bem-estar das pessoas que fazem parte de seu universo afetivo. São livros abertos, não conseguem camuflar seu estado de alma positivo ou negativo. A criança da nova geração apresenta a marcante carac- terística de fazer, sem esforço, espontaneamente, uma leitura exata dos sentimentos e desejos das pessoas. Se é criada num ambiente de hipocrisia, logo passará a manipular as pessoas sem manifestar sentimento de culpa: simplesmente entra no jogo para ganhar. Com facilidade, a criança da nova geração aprende a "dançar conforme a música". 73
  • 72. AMÉRICO CANHOTO Na dança da vida, ela é uma excelente dançarina, seja qual for o ritmo imposto a ela. Trocando em miúdos: se perceber que é impossível usar seu senso ético-moral e sua aprimorada visão de justiça, ela vai atuar segundo as regras e valores do grupo em que está inserida. Por uma questão de sobrevivência, vai se adequar ao meio, o que não significa a perda de suas conquistas espirituais. Ao enfrentar esse tipo de situação, ela sente um forte impulso de deixar a vida física, um risco de desastre iminente. Se uma criança da nova geração disser que está cansada da vida, fique de olho "para mantê-la na aula até soar o sinal"... A FORMA COMO A FAMÍLIA É CONSTITUÍDA Podemos dizer que uma parte das famílias da atualidade for- mou-se segundo a lei de atração e sintonia sob a batuta da Lei de Ação e Reação. Pois ela é a força motriz que ainda nos aglutina. Nós nos aproximamos de nossos familiares graças aos compro- metimentos do passado, originados geralmente por nossos atos impensados e transgressões cometidas contra as leis divinas. Algumas, por merecimento espiritual de seus integrantes e amparadas por benfeitores do mundo maior, demonstram co- locar em prática um planejamento que se esboçou do outro lado da vida. São auxiliadas por aqueles que já fizeram parte delas e que, agora em melhor condição evolutiva, estão em condição de ampará-las espiritualmente. 74
  • 73. Para educar uma criança, é fundamental não só termos consciência de quem somos, mas também capacidade de nos responsabilizar por nós mesmos, pelo nosso corpo, pelas nossas escolhas.
  • 74. PLANEJAR E GERENCIAR A VIDA EM FAMÍLIA É UMA CONQUISTA ESPIRITUAL
  • 75. QUALIDADE DAS RELAÇÕES NA VIDA EM FAMÍLIA E inegável que até certo ponto somos fruto do meio ambiente em que nascemos e fomos criados, o que é compro- vado por recentes descobertas da ciência; o cientista Bruce H. Lipton deixa isso bem claro no seu livro A biologia da crença. Os nascidos em famílias mais bem planejadas e administradas têm mais chances e oportunidades de receber uma educação de melhor qualidade, mas esse não é o caso da maioria que habita o nosso planeta. Em que ponto estamos na escala evolutiva? Entre os animais, a relação entre pais e suas crias sempre obedece ao padrão que predomina na espécie. Além do ins- tinto, o mecanismo do relacionamento familiar entre os homens compreende a ação das emoções, a manifestação do amor ou do egoísmo. Existe amor entre pais e filhos quando há responsabili- dade e respeito. O egoísmo prevalece quando buscamos satis- fazer interesses ou desejamos controlar o próximo. A criança da nova geração, por exemplo, adora ser cuidada e necessita, como todos, de amor, mas não suporta os excessos da afetividade em que a soberania emocional não exista. Na escala evolutiva, estamos no estágio da experimen- tação da razão e do sentimento. Ainda incapazes de controlar 77
  • 76. AMÉRICO CANHOTO nossos sentimentos, confundimos amor com a posse do ser amado e desperdiçamos, muitas vezes, uma convivência que, de outra forma, seria muito produtiva e gratificante. Em nossas relações familiares, ainda predomina a desigualdade no trato afetivo. Entre nós, existem aqueles que nos causam sensações desconfortáveis. Essa sensação explica-se pelo entendimento da sintonia e afinidades genéticas e energéticas. A qualidade da relação familiar pode ser de simpatia ou de antipatia, geradas no passado e no presente. A vida familiar, quando sadia e harmoniosa, transforma a antipatia em sim- patia e amplia o amor e o entendimento que já existem entre aqueles que são afins. A criança da nova geração, sem que ninguém peça, é capaz de cuidar de seus irmãos, de pessoas idosas e de todas aquelas que necessitem de cuidados especiais. Presta essa ajuda com absoluta naturalidade e não gosta de ser elogiada por isso. Manifesta estranheza quando percebe que as pessoas não agem assim, espontaneamente. Na condição de facilitadoras de nossa passagem para o mundo de regeneração, as crianças da nova geração não têm dívidas espirituais para com seus familiares, nem vieram a este mundo para expiar culpas do passado. Estão, na verdade, provando sua capacidade de servir ao próximo. Servem de 78
  • 77. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S mediadoras entre seus familiares e contribuem para salvar uniões conjugais e aproximar a parentela. Reconheço que tenho problemas familiares. O que devo fazer? Quando as relações familiares não andam bem, é ne- cessário humildade para reconhecer isso e buscar ajuda. As crianças progressistas são excelentes conselheiras e ajudam a restabelecer a harmonia conjugal e familiar. Precocemente, manifestam com naturalidade sugestões de grande valor. Obser- vadoras e intuitivas, identificam com clareza os problemas que estão minando a união familiar e sugerem medidas práticas que podem evitar o pior. Em sintonia com seus pais e irmãos, elas auxiliam pra- zerosamente, sem cobrar gratidão ou gratificações por sua intervenção. Com a ajuda deles e daqueles que se dispuserem a nos auxiliar, devemos planejar o gerenciamento da vida em comum. Se não for possível eliminar todos os pontos de atrito, certamente ficará ao nosso alcance minorar essas ocorrências. Uma família que faliu em existência anterior e que se reúne em nova encarnação tem grandes probabilidades de ser feliz, não obstante as dificuldades acumuladas a enfrentar. Planejar e gerenciar a vida em família é uma conquista do homem. 79
  • 78. AMÉRICO CANHOTO O animal irracional manifesta o impulso instintivo da ma- ternidade e da paternidade, inerentes à perpetuação da espécie. O ser humano acrescenta ao instinto, presente em sua constitui- ção, a emoção, a inteligência e a conseqüência de suas escolhas. Quem deseja de fato "humanizar-se" e libertar-se dos instintos primários deve conscientizar-se das responsabilidades que nos cabem quando geramos um filho. O papel de pais bio- lógicos ou adotivos é valiosa oportunidade de crescimento es- piritual, desde que o exerçamos de acordo com as prerrogativas que nos foram delegadas na espiritualidade ou que decidimos no momento presente - oportunidades de adoção surgem e quem quer as aproveita. SEPARAÇÃO E ABANDONO Muitas pessoas se acham merecedoras de toda a felici- dade do mundo e, para alcançá-la, fazem o próximo sofrer sob o jugo dos seus desejos. Um dia, podem sofrer a conseqüência do seu egoísmo, pois reencarnarão para vivenciar experiências junto daqueles que manipularam no passado. O resultado dessas uniões dependerá do livre-arbítrio na ocasião. A cada dia, aumenta o número de separações: famílias problemáticas se desfazem por toda parte. São uniões estabe- lecidas ao sabor das paixões, cujos integrantes se frustram diante das dificuldades que são incapazes de enfrentar porque não amadureceram seu entendimento do que seja, realmente, um grupamento familiar. Esperam daqueles que os cercam a 80
  • 79. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S satisfação de seus desejos egoístas e quando suas expectativas são frustradas rompem os compromissos. A nova geração jamais abandona seus filhos, mesmo que tenha sido desamparada no período da infância. Ela manifesta um senso de responsabilidade muito desen- volvido. Valoriza a união familiar e faz o que está a seu alcance para sustentá-la. Mesmo quando separada do cônjuge, não se omite diante dos deveres assumidos. Se porventura foi abando- nada no período da infância ou sofreu o descaso dos pais, não guarda mágoas ou rancores daqueles que a privaram de uma vida melhor. Supera o sofrimento relegando-o ao esquecimento. São pais devotados, generosos, conscientes de seus deveres e obrigações, exercidas com prazer. Vibram com a felicidade dos filhos, mas não se prendem a eles nem se permitem aprisionar-se nos excessos da afetividade. 81
  • 80. PARTE 4 OS PAIS NÃO SÃO RESPONSÁVEIS PELOS FILHOS, ESTÃO RESPONSÁVEIS
  • 81. CAUSAS DA FALÊNCIA DA FAMÍLIA Formar uma família é um empreendimento como outro qualquer. Seadotarmosuma visão empresarial da família, conscientes do nosso compromisso com a Lei de Ação e Reação, a possibilidade de sucesso do nosso empreendimento familiar será ainda maior. O lar assemelha-se a uma companhia que exige administração, planejamento e gerenciamento. Tal qual uma empresa, não pode ser entregue ao acaso ou a mãos iná- beis, caso em que estará condenada à falência. Quando uma empresa "quebra", todos aqueles que fazem parte dela sofrem as conseqüências. Quando uma família nau- fraga no mar da vida, contribui para aumentar o número de de- pressivos e dos que se drogam para dormir ou para acordar, além do vício do tabagismo, do alcoolismo e do sexo sem amor. As maiores vítimas desse desastre são os órfãos de pais vivos, mas separados, que muitas vezes sofrem o fogo cruzado disparado por seus familiares... Esse tipo de ambiente, deprimente e opres- sivo, é muito prejudicial ao desenvolvimento da nova geração. As empresas que planejam o empreendimento antes de iniciar suas atividades e que, diante das dificuldades, buscam se ajustar aos desafios quase sempre alcançam um relativo sucesso. E comum, muitas vezes, saltarem do prejuízo para a lucrati- vidade. Fazem por merecer o lucro que obtêm, fruto de um trabalho de equipe. 83
  • 82. AMÉRICO CANHOTO Por outro lado, as famílias estruturadas que se adaptam diante das dificuldades e as enfrentam com disposição ganham a paz, a harmonia, a relativa felicidade, a saúde, o crescimento espiritual dos seus integrantes e a melhoria do padrão de matu- ridade psicológica de todos bem como a continuidade da vida em comum. Como se inicia a maioria dos empreendimentos familiares? A força de atração básica é o magnetismo da energia sexual ou o instinto de perpetuação da espécie. A pressão social também exerce uma ação considerável na opção de formação de uma família, além do medo de ficar só, ser conhecido como uma pessoa problemática, solitária e frustrada. Tudo indica que a maioria das famílias inicia-se por essas razões. A fase de incubação da família é o namoro e o noivado. Na atualidade, os problemas costumam aparecer já nessa etapa, quando fazemos nossas escolhas ao acaso, ao sabor de paixões passageiras. Até poucos anos atrás, as crises mais fortes e ca- pazes de acabar com a relação surgiam por volta dos cinco anos de relacionamento. Não estou sugerindo que sejamos frios e calculistas na escolha do parceiro com o qual iremos dividir nossas res- ponsabilidades familiares, mas que busquemos analisar quais serão nossas possibilidades de sucesso ao lado desta ou da- quela pessoa. 84
  • 83. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Raramente, porém, nessa época da vida, nos aproximamos para elaborar planos ou desenvolver metas de vida conjugal e de como criar os filhos, se a opção for tê-los. Nossos encontros visam apenas usufruir de momentos prazerosos, quando o mais adequado seria planejar o empreendimento familiar nessa fase. Quantas dores e desilusões serão poupadas se discutirmos o dia de amanhã embasados na realidade, sem perder de vista as necessidades práticas de uma vida em comum. É necessário o estudo lógico e racional das possíveis difi- culdades que iremos enfrentar e instituir um programa de metas comuns para sanar contratempos e evitar problemas antes que surjam no horizonte de nossas vidas. Vários fatores contribuem para que a família não se consolide ou não progrida segundo nossas expectativas. Alguns fatores, isolados ou conjugados a outros, podem frustrar o desejo de encontrar a felicidade familiar. Vejamos alguns deles: • Falta de clareza nos objetivos do casal, que não tem certeza dos motivos pelos quais se atraíram, da ex- pectativa desse casamento e muito menos do desejo de trabalhar em equipe para esse empreendimento. • Ausência de maturidade psicológica (mental, afetiva, emocional) do casal. 85
  • 84. AMÉRICO CANHOTO • Visão romanceada do que seja a vida familiar: depositar no cônjuge expectativas de satisfação de necessidades pessoais. • Falta de transparência e dissimulação da personalidade. • Pouca honestidade de propósitos e falta de diálogo. • Camuflagem de interesses pessoais. • Interferências externas: rota de colisão entre familiares. • Excessiva dependência emocional e financeira da família. MANEIRA DE GERENCIAR j A cada dia que passa, a aceleração dos acontecimentos expõe de maneira nua e crua nossas dificuldades íntimas e desgasta relacionamentos pouco sólidos. Quando estudamos as relações familiares, esse fato evidencia-se. No passado não muito distante, as atribuições de cada um eram mais ou menos definidas. Direitos e obri- gações eram mais delineados, mas nem sempre justos, porém bem mais definidos. O papel que cada um desempenhava em família era bem mais claro, o que facilitava a cobrança de responsabilidades e a suposta eficiência da organização familiar. Nos dias de hoje, a família sofre uma crise global. Na maior parte dos países onde a cultura do consumo prevalece, o papel do homem é de mero provedor de recursos para a manutenção do lar. A mulher, em relação ao homem, é mais 86
  • 85. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S sobrecarregada por tarefas e comprometimentos que, muitas vezes, a impedem de exercer plenamente o papel de mãe. Momento de transição Muitas foram as aquisições feitas no campo dos direitos pessoais e da relação familiar com ênfase nos direitos da mulher e da criança. Vivemos numa época de rápidas transformações, mas nossa capacidade de mudar com rapidez tem limites es- treitos; isso nos deixa um pouco perdidos. Se os papéis familiares estão embaralhados, basta rede- fini-los para que cada qual cumpra com seus deveres e exerça seus direitos. Acrescente-se que os valores sociais hoje mudam muito depressa. Muitas pessoas estão desorientadas e não sabem como se comportar diante das mudanças. Resultado desse caó- tico estado de coisas: as crianças apresentam sérios problemas psicológicos e de comportamento. Para mudar esse panorama, peça ajuda às crianças da nova geração de sua família. Felizes daqueles que têm uma criança progressista reconhecida como tal, com permissão dos pais para opinar e agir para melhorar a vida familiar. AUSÊNCIA DA MÃE As mães estão cada vez mais afastadas dos filhos. Essa convivência, tão necessária para a harmonia da família, está cada vez mais escassa. Está provado que a ausência da mãe 87
  • 86. AMÉRICO CANHOTO é um mal ainda maior do que a do pai no dia-a-dia da família. Muitas mulheres murmuram: "Filhos? Seria melhor não tê-los". Cabe perguntar: e os compromissos assumidos na espirituali- dade? Adiar o pagamento de dívidas implica acumular novos débitos... HERANÇA EDUCACIONAL Tal pai, tal filho... Além da instrução básica, faz parte da educação - para aqueles que têm acesso a ela - a cultura geral, as noções de etiqueta e de elegância. Predomina, porém, o conceito de boa educação baseado no "verniz social": pessoas são elogiadas como bem-educadas se usam o tom de voz correto, dizem bom-dia, boa-tarde, sorriem, escutam os outros com atenção etc. Pouca atenção prestamos na postura ético-moral das pes- soas nas atividades do dia-a-dia; como disse o Mestre, a árvore se conhece pelos frutos*. Mesmo assim, a todo instante, nós nos deparamos com adultos bem-nutridos e instruídos cujo comportamento deixa muito a desejar: desacatam as pessoas, empurram-nas em filas, metem-se na conversa dos outros, não respeitam as leis de trânsito e muito menos as normas e os regulamentos em geral. Com quem aprenderam a se comportar assim? * Mateus, 12: 33. (N.E.) 88
  • 87. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S A nova geração não aceita esse tipo de comportamento e como sempre diz o que pensa e sente é malvista e tratada como criança mal-educada e problemática. Esse é um dos motivos que a leva a isolar-se com certa freqüência ou manifestar com- portamento extravagante se comparada com as normais. Boa educação ou falta dela é fruto de aprendizado. A criança incorpora o que aprendeu na convivência com os adultos de sua família mais facilmente do que o que leu em livros ou em sala de aula. Ela assimila, deste modo, a falta de educação de pais que falam palavrões, agridem e menosprezam os outros e tentam sempre impor, não importa de que forma, sua vontade. Mentem, subornam, maldizem. É claro que a edu- cação da rua ou do meio social (relações sociais, TV e mídia) influencia e muito, principalmente aqueles cujos pais ou mães são ausentes. No ambiente daqueles que trabalham na área da saúde, a falta de educação das pessoas é mais do que evidente. O con- vênio médico - uma espécie de "revendedor" da saúde - al- terou de vez a relação entre médico e paciente, mas teve seu lado educativo: nivelou as classes sociais, já que todos dão ao médico o mesmo ganho. O descontentamento com essa instituição - o plano de saúde - é generalizado, e muitas vezes dirigido, injusta- mente, àqueles que se encarregam de recepcionar os pacientes, sobre os quais se descarregam as insatisfações acumuladas. 89
  • 88. AMÉRICO CANHOTO EDUCAÇÃO ÍNTIMA PRECÁRIA Nós nos comprazemos em imaginar que nossa personali- dade é herdada dos pais e que nosso caráter é imutável. Com freqüência, ouvimos ou comentamos: "Eu sou assim mesmo, o que fazer?"; "Nasci assim"; "Sou, mas quem não é?"; "Ser bom e honesto para quê?". Num mundo onde os espertos estão cada vez mais ricos e poderosos, a salvo da justiça dos homens, esse questionamento é compreensível, mas não nossa adesão à maioria, que se deixa corromper com certa facilidade, pois está comprometida com suas necessidades mais imediatas. Na busca desenfreada pelo poder, pela riqueza e pelo prestígio, se esse for nosso caso, estamos influenciando aqueles que são nossos filhos, que vão repetir os mesmos padrões de comportamento assim que atin- girem a fase adulta. Estamos criando hoje os egoístas e até cor- ruptos e corruptores de amanhã... A criança que se desenvolve numa família onde as pessoas apenas se educam sob a ação do sofrimento também será uma forte candidata a fazer o mesmo. Sem parâmetros, poderá mani- festar desde jovem a falta de responsabilidade e não amadurecer emocionalmente, pois irá culpar os outros pelas conseqüências e dissabores que se originarem de sua própria conduta. E, o que é ainda pior, tenderá a repassar esse padrão de comportamento aos filhos, desencadeando um processo que não tem fim... "É isto que você aprende na escola: palavrão", dizem alguns pais, quando escutam deles palavras inconvenientes. 90
  • 89. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S É mais provável que tenha aprendido o palavrão com o pai ou a mãe, nos engarrafamentos de trânsito, em seus comentários sobre parentes ou governantes. Se essa criança for progressista, talvez responda: "Não foi com o professor que aprendi esse pa- lavrão. Foi com você!". MATURIDADE DOS FAMILIARES Quer queiramos, quer não, interferimos na vida do pró- ximo para beneficiá-lo ou prejudicá-lo. Na vida em família, in- fluenciamos muito mais do que imaginamos. A pouca maturidade que se revela em nossas atitudes irradia-se por meio de pensamentos desorientados, afeta a atmos- fera fluídica do nosso lar e contribui, decisivamente, para pre- judicar a todos, indistintamente. Poluímos o mundo em vez de contribuir para saneá-lo dos males que estão causando tantos prejuízos. Está ao nosso alcance reverter esse quadro, usar nosso potencial para o bem-estar da nossa família, a partir da qual vamos melhorar o mundo. A imaturidade também pode ser aprendida? As crianças da nova geração nascem vacinadas contra a imaturidade cognitiva, afetiva, emocional e social. Se prestar- mos mais atenção em seu comportamento, perceberemos que é possível apressar nosso amadurecimento, imitando-as. Viver 91
  • 90. AMÉRICO CANHOTO novas experiências é o caminho que nos conduz a um estado adequado de maturidade. Essas crianças buscam experiência. Querem e necessitam da prática, não se acomodam na contemplação da teoria. In- teressam-se por saber como isso ou aquilo funciona e, se for preciso, desmontam um equipamento para conhecer seu meca- nismo. Logo em seguida, tentam fazê-lo funcionar... Ao presenciar cenas como essa, muitos pais chamam os filhos de destruidores e, por alguma morosidade em pensar, de- sequilibram-se emocionalmente e agem em descontrole, reve- lando sua falta de preparo para educar. Pais imaturos ensinam os filhos a fugir de situações que os ajudariam a obter melhor discernimento, a partir de uma análise a respeito, tornando-se assim pessoas com mais matu- ridade em todos os aspectos. Transmitem o medo e a preguiça de pensar e de agir e assim atemorizam os filhos, que se retraem diante da vida. Se esse for nosso caso, é hora de despertar. Ao agir assim, impedimos o progresso daqueles que recebemos como discípulos. Que mestre seremos se impedirmos nossos filhos de fazerem suas próprias descobertas? Devemos, ao contrário, incentivar neles a busca pela perfeição e impulsioná-los na direção de seus ideais. Se eles não os tiverem, sejamos nós seus auxiliares na busca de metas e objetivos. Superproteção também é uma forma de impedir a maturidade. 92
  • 91. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Um dos pequenos descuidos - mas também causadores de sérias conseqüências -, na vida em família, é a superproteção. 0 excesso de cuidados impede que a criança experimente e seja capaz de avaliar cada experiência de modo a selecionar o que é e o que não é adequado. Em especial, no caso das crianças da nova geração, a superproteção é um sério prejuízo ao desenvolvimento de sua personalidade. Poderá causar desvios de conduta que vão pre- judicar a família e, conseqüentemente, a sociedade. A família é uma escola de desenvolvimento de maturidade. A criança recebe forte impulso educacional de seus fa- miliares, desde que seus pais já tenham aprendido a dominar e combater o medo, a preguiça de pensar e de agir. Pais com esse entendimento, cientes de que os filhos precisam viver suas pró- prias experiências, são capazes de contribuir significativamente para a educação dos filhos, evitando cercear suas iniciativas. SENSO DE RESPONSABILIDADE DOS PAIS Ter filhos e não cuidar deles nem respeitá-los é um grande desastre perante o Criador e a lei de progresso. Esse tipo de comportamento acarreta comprometimentos espirituais que vamos carregar durante um bom tempo, até nos dispormos a ressarcir aqueles que prejudicamos, reparando nossos erros; 93
  • 92. AMÉRICO CANHOTO claro que segundo o conhecimento já disponível para cada um naquele momento. Os pais não são responsáveis pelos filhos, estão responsáveis. Ser implica algo definitivo, estar é temporário. A respon- sabilidade definitiva é sempre do próprio indivíduo e limitada a ele no tempo e no espaço. As crianças da nova geração trazem consigo a consciência dessa realidade e revelam, em seus atos, a consciência disso. Responsabiliáade espelha maturidade. E comum confundirmos responsabilidade e controle. Estar responsável por alguém não é controlar ou manipular-lhe a vida. Antes de tudo, é cuidar para que possa viver as próprias experiências e com elas aprenda a discernir. Pessoas que têm sua vida controlada por outras não desen- volvem a responsabilidade por si mesmas e pelo próximo. Podem também copiar a tendência de controlar os outros, acreditan- do-se responsáveis por eles, um verdadeiro círculo vicioso. Convidamos o leitor a uma reflexão profunda sobre essa questão. Controles exagerados impedem a criança de experi- mentar vivências que podem contribuir para o seu desenvol- vimento. Protegê-las sim, mas evitar fazê-las caminhar com nossos pés... 94
  • 93. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S FALTA DE DIÁLOGO Ver, ouvir, sentir, raciocinar para depois nos expressar. Ainda não procedemos assim. Falamos sem pensar, não conseguimos ouvir e muito menos nos comunicamos com aque- les que estão ao nosso redor. Verbalizamos nossas insatisfações sem medir conseqüências. A providência divina dotou a criança, contudo, de uma válvula de escape fantástica para evitar que a verborragia a prejudique: quando criada em ambientes de pessoas que não primam pelo uso da lógica e do bom senso, ela se defende fácil - todos os discursos sem sentido, e por isso mesmo emitidos aos gritos, entram por um ouvido e saem pelo outro. Muitos pais que levam os filhos a especialistas achando que eles estão ficando surdos devem, com urgência, reavaliar o modo de se expressar e procurar ajuda psicológica para mudar sua postura. A comunicação deficiente também é aprendida? Num passado não muito distante, um dos inimigos do diá- logo em família era a grosseria. Ouvíamos com freqüência: "Quem manda aqui sou eu!"; "Calem a boca". Poucos ousavam retrucar e, os que o faziam eram, muitas vezes, vítimas da violência. 9 5
  • 94. AMÉRICO CANHOTO Infelizmente ainda restam resquícios desse tipo de com- portamento, embora as pessoas sejam mais comedidas ao mani- festá-lo. Um novo adversário do diálogo em família instalou-se em nossos lares: a televisão. Hipnotiza as pessoas durante horas e horas, prendendo sua atenção. O monólogo televisivo é uma verdadeira lavagem cerebral: empobrece a cultura das pessoas e embota o raciocínio. Nas famílias, há uma competição evidente ou camuflada para ver quem é capaz de controlar o próximo, não importa de que forma. Em geral, as pessoas procuram, a qualquer custo, impoi seu ponto de vista a respeito de qualquer assunto. Quase sempre, o conteúdo das conversas em família são cobranças, exigências, reclamações... Quando um dos litigantes está "cheio de razão", o diálogo torna-se um monólogo e a parte perdedora fica à es- preita de uma oportunidade para dar o troco. A criança progressista não perde tempo na tentativa de convencer seus familiares, seja do que for. Quando percebe que o interlocutor não tem condição de compreendê-la, cala-se. Por instinto, sabe que não deve perder tempo nem energia para impor suas idéias. - Criada nesse clima, a criança leva para a escola a forma de dialogar aprendida em casa e vai impor seus pontos de vista aos amiguinhos. Quando não consegue incuti-los por meio i 96
  • 95. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S argumentos, impõe-os no tapa. É claro que as outras crianças vão revidar. Quando retornam ao lar apresentando os resultados desse "diálogo" - arranhões, ferimentos, uniforme rasgado -, os pais, não imaginando que são eles os culpados dessa ocor- rência, dirigem-se ferozes aos responsáveis pela escola para culpá-los pelo que aconteceu. As crianças da nova geração são pacíficas, mas, depen- dendo da situação que estão enfrentando, mudam de com- portamento e tornam-se agressivas. É nessa condição que são consideradas, por pais e professores, crianças mais problemá- ticas que as outras. Soluções ao alcance de todos Algumas crianças resolvem as diferenças de opinião de maneira inteligente: admitem quando estão erradas e aceitam a opinião das pessoas sempre que percebem que estão com a razão. Se essa capacidade nelas for inata, de qualquer forma precisam dos pais para incentivar esse tipo de comportamento, tão proveitoso para sua evolução. Nunca é demais lembrar: ensinamos mais pelo nosso comportamento. Sejamos receptivos ao diálogo. Aprendamos a ouvir nossos familiares, mesmo que, por antecipação, saibamos que discordamos de seu modo de pensar. Nessas ocasiões, podemos procurar expor nossas idéias sem desrespeitar aqueles que pensam de outra forma. Usemos de lógica, argumentação clara, baseada em fatos. Se mesmo 9 7
  • 96. AMÉRICO CANHOTO assim não os convencermos, evitemos nos exaltar diante de sua resistência. "O tempo é o senhor da razão", afirmou Mareei Proust, escritor francês de grande notoriedade. Vamos deixar que o tempo se incumba de revelar quem estava com a razão. "Quem não se comunica se trumbica", disse um progressista muito bem-humorado que já se foi... A reestruturação da família começa com o aprendizado do diálogo. É fundamental cultivar o hábito de conversar sobre temas importantes e inteligentes, mas com bom humor. A alegria cativa as pessoas, torna o diálogo mais agradável e atraente. Conversar é uma arte e, como tal, apura-se quando nos dispomos a fazer o melhor que está ao nosso alcance. Sem receios, a criança precisa aprender a expor seus pontos de vista. Por vivermos tão ocupados, nós nos negamos a ouvir as crianças, até mesmo aquela que vive dentro de nós. Quantas vezes desejamos rir e brincar com elas, o que faz bem para nossa saúde física e espiritual, e não nos permitimos nem por um instante parar para ganhar fôlego e continuar nossos afa- zeres com nova disposição? Por causa desse comportamento, as crianças passam a nos contrariar em tudo o que lhes seja possível apenas para chamar 9 8
  • 97. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S nossa atenção, porque não as ouvimos, nem lhes permitimos a liberdade de expressão. Essa é a origem desse comportamento inconveniente. É como se elas nos dissessem: "Olhe, eu existo, quero conversar". Adultos costumam tomar decisões e fazer escolhas pela criança sem sequer se darem ao trabalho de co- nhecer sua opinião. Em geral, o adulto acha que tem coisas mais importantes a fazer do que responder às perguntas de seus filhos. Experi- mente conversar com a criança como o faz com os adultos. Com certeza vai se surpreender. As crianças não gostam de ser rejeitadas - e quem gosta de ser tratado assim? Caso tenha a oportunidade de dialogar com uma criança da nova geração, ficará encantado. Nosso sistema de crenças nos diz que a criança só se preocupa com brincadeiras. A criança educada num ambiente onde seus familiares não a escutam e que sempre tomam decisões sem consultá-la não aprenderá a escutar e respeitar escolhas e opiniões alheias. Nas famílias em que o diálogo não existe e tudo é im- posto sem explicação, reinam a desarmonia e a insatisfação. Se essa é nossa atitude, está na hora de mudar. O diálogo não diminui a autoridade dos pais, muito ao contrário: dá respaldo a ela e fortalece a união familiar. Na condição de pais, muitas vezes ouvimos reclama- ções como esta dos filhos: "Você não me deixa fazer isso, 99
  • 98. AMÉRICO CANHOTO mas na casa de meu amigo os pais dele deixam ele fazer". Preocupados com nossas ocupações rotineiras, geralmente nem damos atenção às suas palavras. Nesse caso - como nos demais -, devemos dar à criança uma resposta lógica e clara: "Os pais do seu amiguinho pensam diferente de nós. As con- dições deles são diferentes das nossas. Eles acham que isso é certo, nós pensamos de outro jeito". Se, por exemplo, em vez de oferecermos "salgadinhos" e outros alimentos industrializados aos nossos filhos, dermos frutas, estaremos certamente remando contra a maré. A mídia prega exatamente o contrário... Mas quem está certo? Se a ali- mentação natural faz bem para a saúde de nossos filhos, devemos não só explicar-lhes sobre o funcionamento do corpo humano, como também do malefício causado por produtos impregnados de conservantes e outras substâncias químicas. No livro Quem ama cuida, propomos considerar o ato de nos alimentarmos como recurso pedagógico da mais alta importância. Não percamos de vista o exemplo da água que corre no leito de um rio, contornando as pedras que encontra pelo ca- minho. Com o tempo, vai modificar sua forma: "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura". CONFLITOS j Complicamos demais nossa existência ao criar con- flitos desnecessários. Uma criança educada num ambiente em que existem conflitos, explícitos ou não, sempre tende a 100
  • 99. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S copiar esse tipo de atitude. Um detalhe que não deve ser igno- rado é que ela capta conflitos não verbalizados irradiados pelo pensamento. Essa capacidade inata da criança não tem nada de so- brenatural. Nela o subconsciente é muito ativo. Esse é um dos motivos que explicam a forte inteligência intuitiva da criança. Crianças que têm medo da escuridão ou de dormir, pois se queixam de pesadelos, podem estar sendo vítimas das vibrações negativas irradiadas pelo pensamento de seus pais e familiares, transmutando-os em sensações e sentimentos. Insistem na presença dos pais junto do seu leito, os quais, na maioria das vezes, se irritam com esse pedido e as prejudicam ainda mais com seu comportamento não verbalizado mas di- fundido no espaço. Crianças da nova geração não gostam de competições: não se preocupam em provar nada aos outros, apenas a si mesmas. Nesta sociedade competitiva, as crianças são educadas para ser as melhores, para superar seus colegas, o que, para nós, buscadores da paz, não deixa de ser um paradoxo e os paradoxos contribuem de forma decisiva para também ali- mentar conflitos íntimos. Pregam-se a ética e a fraternidade entre as pessoas, mas a sociedade incentiva a disputa e a competição. 101
  • 100. AMÉRICO CANHOTO De acordo com nossas convicções, é importante demons- trar aos nossos filhos que, se for necessário competir por algu- ma coisa, isso deve ser feito com ética e respeito àqueles que, ao nosso lado, buscam alcançar o mesmo objetivo. Se alcan- çarmos vitória, não devemos menosprezar os perdedores, mas dividir a alegria com eles. 102
  • 101. Nas famílias em que o diálogo não existe e tudo é imposto sem explicação, reinam a desarmonia e a insatisfação. Se essa é a nossa atitude, está na hora de mudar.
  • 102. NÃO HÁ PESSOA MAIS DESCONHECIDA PARA NÓS DO QUE NÓS MESMOS
  • 103. DESCUIDOS COMUNS NA EDUCAÇÃO Desenvolvimento de muitas caras. ça a ser autêntica. Ao contrário do que muitos afirmam, ela não é um livro em branco; traz de outras existências tendên- cia atualidade faz surgir também um problema: quanto mais precoce, maior a capacidade de ocultar verdadeiros sentimen- tos e camuflar convicções. Muitos pais acham isso lindo e se vangloriam da esperteza de seus filhos por essa capacidade de dissimulação. Foram educados dessa forma, instruídos a não manifestar suas opiniões com clareza e honestidade, mas sim de acordo com as conveniências. A aceleração do ritmo de vida nos dias de hoje contribui para as crianças perderem, cada vez mais cedo, sua candura e transparência. Voltando à analogia com o computador, é como se tivessem um scanner muito mais avançado do que o das ge- rações anteriores: as crianças copiam, com incrível facilidade e qualidade, o modo de conduta dos adultos, em especial, até certa idade, a de seus pais. Praticamente, quase todos nós fomos treinados a ter "muitas caras" e desenvolver vários papéis de acordo com nos- sas conveniências. Não nos consideramos hipócritas por essa atitude, porque esse modo de nos conduzirmos faz parte de nosso entendimento da vida social. importantes tarefas dos pais é ajudar a crian cias, impulsos e predisposições. A precocidade das crianças 105
  • 104. AMÉRICO CANHOTO A atitude de camuflar intenções é considerada normal. Estamos certos de que se não agirmos assim, não conse- guiremos o que desejamos nem seremos capazes de nos rela- cionarmos com as pessoas. Esse padrão de atitudes nos leva a uma visão deturpada de nós mesmos: não sabemos exatamente quem somos. Nós nos ajustamos conforme a situação para satisfa- zermos nossos desejos e interesses. Quando percebemos que os outros fazem o mesmo, reclamamos e os acusamos de falsos e hipócritas. Sempre que ouvem nossas reclamações em relação às atitudes das pessoas, as crianças da nova geração não he- sitam em comentar: "Você faz muito pior". Esse é um problema muito antigo. Na Grécia Antiga, Sócrates (470 a.C.-399 d.C.) já nos alertava: "Conhece-te a ti mesmo". Criamos muitas "personalidades-esconderijo" para esconder partes de nós mesmos, tanto para levar vantagem sobre os outros quanto pelo medo de sermos rejeitados. Na convivência familiar é que iremos revelar quem real- mente somos, aquilo que pensamos e o que desejamos para nós mesmos. Geralmente somos bem objetivos e até contundentes: "Eu sou assim mesmo. Quem manda aqui sou eu. Os incomo- dados que se mudem". Não há pessoa mais desconhecida para nós do que nós mesmos. 106
  • 105. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Como ajudar a criança a ser ela mesma Antes que nossos filhos aprendam conosco e com as pessoas a moldar seu comportamento de acordo com as con- veniências do momento, devemos observá-los para ver o que estão ocultando. Com a utilização de certos estímulos, a criança manifesta seu verdadeiro "eu" e responde de acordo com suas verdadeiras intenções. Conhecendo-a melhor, va- mos ajudá-la a superar suas imperfeições, e compartilhando com ela nossa reforma íntima, para que faça o mesmo dentro das suas possibilidades e desejos, vamos facilitar-lhe o auto- conhecimento. Por conveniência, muitas vezes as crianças comportam-se de acordo com as expectativas de seus pais, não porque acei- taram de bom grado suas orientações, mas porque percebe- ram que lhes obedecer é uma forma de viver bem com eles, receber afetividade, aceitação e até prêmios pelo seu bom comportamento. Agem assim na infância e atravessam a vida adotando o mesmo padrão de comportamento. Na idade adulta, agem de acordo com as expectativas das pessoas às quais lhes é conveniente corresponder. Trans- formam-se em criaturas angustiadas porque estão o tempo todo a imaginar o que devem falar e como devem se com- portar. Agem assim inconscientemente, porque - voltando à comparação com o funcionamento do computador - é o pro- grama que estão executando. 107
  • 106. AMÉRICO CANHOTO Certos comportamentos colocados em evidência Cometemos o erro de tapar o sol com a peneira em determinadas situações e assim desperdiçamos muitas opor- tunidades de ajudar a criança a refletir. Por exemplo: diante de uma que está contrariada, buscamos quase sempre acal- má-la desviando seu interesse do que provocou a revolta. A experiência indica que essa não é a forma mais correta de educá-la: quando possível, devemos deixá-la entregue a si mesma, observando até onde vai sua birra. Ao sentir que não é capaz de mudar a situação agindo assim, terá apren- dido uma lição. Caso sua manifestação de raiva cause dano a algum brin- quedo ou a si mesma, perceberá que o prejuízo de tal compor- tamento aumentou ainda mais sua insatisfação e sofrimento. A importância da lição será ainda maior. Crianças que vivem tal experiência percebem quanto essa atitude lhes é inconve- niente e mudam, por si mesmas, seu modo de proceder. EDUCAR PARA A VIDA Talvez para fugirmos de nós mesmos e da resolução das dificuldades íntimas, sejamos levados a cuidar da vida dos outros, tentando controlá-los. Nós nos iludimos, porém, ao tentar colocar a culpa no meio externo, quando as coisas não correm segundo nossos desejos e expectativas.
  • 107. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Ao focalizar a atenção nos outros, perdemos contato com nosso mundo interior. Esse padrão de atitude cria uma situação cada vez mais insustentável: não temos consciência nem de cinco ou dez por cento do que pensamos, sentimos e fazemos. Somos seres que mais reagimos aos estímulos externos do que agimos por nossa própria iniciativa. Para educar uma criança, é fundamental não só termos consciência de quem somos, mas também capacidade de nos responsabilizar por nós mesmos, pelo nosso corpo, pelas nossas escolhas. Caso contrário, nossa contribuição será muito pe- quena para sua educação; ou até a prejudicaremos por transmi- tir-lhe conceitos errôneos e danosos a seu desenvolvimento. Não importa se a educação que recebemos de nossos pais seja, em grande parte, a responsável pelo nosso modo de agir. Não devemos acusá-los: eles nos deram aquilo que acreditavam que fosse o melhor para nós. É nosso dever, sim, reciclar hábitos, libertar-nos de con- ceitos ultrapassados e ampliar nossa visão do mundo. A urgência dessa providência deve ser ainda maior se tivermos filhos. Quando desejar mostrar ou ensinar algo a uma criança da nova geração, nunca a compare com outras crianças. Não peça a ela que proceda de uma forma que você mesmo não adota para si. Pais que procuram libertar-se de seus vícios, adequar seu comportamento e superar suas imperfeições são 109
  • 108. AMÉRICO CANHOTO observados pelos filhos, embora não o percebam. Em especial, a criança progressista repara nesse esforço, que a motiva a fazer o mesmo. Não há como ser pais perfeitos; precisamos, sim, demonstrar, pelo nosso esforço, que estamos buscando nossa melhora interior. FALTA DE LIMITE Quais são os limites de uma criança? Até onde ela pode ir? Quando se fala que alguém desconhece seus limites, poderá vir à nossa mente a imagem da criança que mexe em tudo, que está sempre em busca de alguma coisa que não sabe bem o que é nem onde se encontra. Essa criança é conhecida por hiperativa. A primeira vista, temos até a impressão de que se trata de uma criança que ignora por completo até onde pode ir e que tenha sido mal-educada por seus pais. Na verdade, ela sabe seus limites, mas tem dificuldade em adaptá-los aos dos outros. Quando invadem nossos domínios, geralmente culpamos seus pais, acusando-os de omissão ou irresponsabilidade diante de seu comportamento, que imaginamos poder corrigir a partir de medidas severas. É fundamental impor-lhes limites e fazê-las entender até onde podem ir sem prejudicar o próximo. Não obteremos resul- tados práticos se impusermos limitações sem ao menos justificar, com clareza, a razão de nossa medida disciplinar.
  • 109. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Quando invadimos o espaço das crianças da nova geração, elas se sentem à vontade para agir da mesma forma conosco. Essa atitude, vista por alguns como uma retaliação por parte delas, não tem, conforme é possível observar, essa conotação. Para elas, é como se estivéssemos permitindo que façam o mesmo conosco. Muitas crianças nascem com um impulso muito forte para o egocentrismo. Sentem-se o centro do universo. Chegam ao mundo sentindo-se donas dele. O que mais importa para elas é a satisfação de seus desejos e necessidades. Uma vez identificados, necessitam de uma atenção redobrada para entenderem quais são seus limites. E importante aproveitar todas as oportunidades para conscientizá-las disso. A maior parte das crianças incorpora com naturalidade seus limites, o que não acontece com as egocêntricas. Faz-se necessário nosso empenho em demonstrar-lhes que seus direitos terminam onde começam os das pessoas. De forma intuitiva, as progressistas não se sentem as donas do mundo. Quando criadas sem que lhes sejam impostos limites e disciplina, porém, usam indiscriminadamente seu potencial. Daí em diante, salve-se quem puder... Vão causar danos e transtornos como todo aquele que não foi educado para viver em sociedade. Até onde vai a responsabilidade dos pais? Pode parecer um paradoxo, mas algumas crianças apren- dem rapidamente com seus pais a não ter limites, mesmo que 111
  • 110. AMÉRICO CANHOTO essa tendência não seja nelas uma predisposição - esse é o caso de algumas crianças progressistas. Algumas crianças que não reconhecem nenhum limite podem ter sido criadas e, portanto, influenciadas, por pais ego- cêntricos. Outras são filhas de pais acomodados que não apren- deram a dizer "não" com medo de perder o afeto delas. Agir sem limites, por parte da criança, pode ser ainda uma reação dela ao excesso de controle dos pais. Nesse caso, a atitude dos pais - preocupados em demasia em controlar os filhos - poderá ter sua origem em resguardar a família de comentários negativos sobre o modo de proceder de seus rebentos. Como determinar limites? Basta querer, pois querer é poder. Os pais devem impor limites aos filhos. Delegar essa tarefa a terceiros é comprometer sua educação. Mas não basta querer; é preciso saber querer. É necessário dispor de elementos que nos auxiliem nessa decisão. Um deles é estudar as necessidades da criança. Necessidade de respeitar limites Educar também é permitir à criança descobrir seus pró- prios limites. Por exemplo: uma criança prepara-se para escalar o sofá. Nós a prevenimos de que poderá se machucar. Ela não nos dá ouvidos, sobe até onde lhe permitem suas forças e desaba. 112
  • 111. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Mais do que depressa, a amparamos e evitamos que sofra as conseqüências de sua desobediência. Nesse caso, entramos em contradição com nossa afirmação ("Cuidado, você pode cair e se machucar"). Por conseguinte, a criança não levará a sério nossas próximas advertências. Se, ao contrário, considerarmos que o risco da queda é insignificante e permitirmos que ela desabe, a confirmação da nossa "pro- fecia" vai ensiná-la que existem limites a respeitar e que nós, seus pais, podemos auxiliá-la a reconhecê-los. Experiências como essas devem ser aproveitadas, desde, é claro, que não ofereçam risco para a integridade física da criança. Conhecedora da Lei de Ação e Reação - "Faço isso e acontece aquilo do qual meus pais me preveniram" - a criança amadurece, aprende a confiar em seus pais, confiança essa que vai perdurar no decurso de sua existência. Crianças sem noção de limites, adultos prepotentes e displicentes. Se pretendermos impor limites, deveremos, por nossa vez, aprender a respeitá-los. Quase todos os pais de uma forma ou de outra ensinam que existem limites aos filhos. A falha deles está em exemplificar aquilo que ensinam a eles: "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". Crianças criadas por adultos que se comportam de forma a desrespeitar os limites alheios são fortes candidatos a se trans- formarem em adultos prepotentes e indisciplinados. Quando 113
  • 112. AMÉRICO CANHOTO se fala em estabelecer limites para uma criança, muitos ima- ginam tratar-se apenas da imposição de regras de convivência, da etiqueta social. Esse é, na verdade, o primeiro passo desse aprendizado. Embora seja importante, a ele se sobrepõe o en- sinamento moral de que devemos respeitar o próximo como gostaríamos que nos respeitassem. Descobrir até onde é possível ir é um aprendizado de amor. Quem conhece seus limites aprende a respeitar. Quem ama cuida e quem ama respeita. Amar não é satisfazer os de- sejos daqueles que nos são caros. Se de fato amamos alguém, desejamos o melhor para essa pessoa. Se necessário for, para o bem de quem amamos, nós nos prontificamos a negar aquilo que nos pedem ou esperam de nós. Atender aos desejos dos filhos, com a intenção de ca- tivá-los, é prestar-lhes uma péssima lição de vida. Por várias razões, muitos pais agem dessa forma. Alguns, ausentes do lar, tentam suprir o vazio de sua presença com presentes e mimos de toda a espécie. Outros, embora sua presença ao lado dos filhos seja constante, pretendem, ao agir assim, firmar seu do- mínio sobre eles. Os motivos são diversos, mas nenhum deles é desculpa para esse procedimento. Negar aos filhos aquilo que for inconveniente à sua saúde física ou espiritual é dever de pais educadores.
  • 113. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Escolhas do passado, limitações de hoje Somos criaturas em processo de aperfeiçoamento, a ca- minho da perfeição. A educação é um processo contínuo de aprendizado. Parte das nossas limitações de hoje representa o resultado das nossas escolhas do passado. Quando me refiro ao passado, nele incluo experiências de outras existências, inseparáveis de nossa condição espiritual. Precisamos conhecer nossos limites. Pouca atenção se dá ao aprendizado dos limites de cada um. Esse é um problema da atualidade: a falta de bom senso generalizada leva a um es- tresse crônico. Em todos os sentidos, o nível de tolerância da maioria é zero. Estresse crônico, a criança em perigo Gostaria de estar errado, mas a leitura que é possível fazer dos efeitos do estresse crônico sobre nossas crianças é assustadora. Pequenos descuidos que estejamos cometendo devem levar boa parte delas a uma existência muito breve. Não me preocupo tanto com as crianças da nova geração, pois seu senso de limites as faz mais protegidas do que as de- mais. Elas observam que os pais estão sempre correndo atrás de recursos para pagar a melhor escola, que as sobrecarrega de lições inúteis; que os pais não medem esforços para custear 115
  • 114. AMÉRICO CANHOTO terapeutas que elas não necessitam, pois não estão doentes; que se esforçam para adquirir o melhor plano de saúde para os filhos, quando, na realidade, quem precisa cuidar melhor da saúde são eles mesmos. Sentem o desagrado da mãe diante do pai, que vive gritando para impor sua autoridade junto da es- posa e dos filhos. Pragmática, a criança progressista racionaliza: "Por que fazer o que estão mandando? Para ficar igual a eles? De jeito nenhum, estou fora...". Nesse caso, ela não sofre as conseqüências do estresse familiar. Torna-se alheia à autoridade paterna e isola-se de seus familiares criando um sistema de pro- teção emocional particular. Limites de convivência A criança precisa de nossa ajuda para perceber que somos interdependentes e que o espaço de uma pessoa e o conjunto de seus direitos terminam no momento em que começam os do próximo. Da mesma forma que não toleramos que nosso espaço seja invadido e nossos direitos desrespeitados, e, se tal oconer, lutaremos para evitá-lo, essa será a mesma reação das pessoas. TENTATIVA DE DOMÍNIO PELO MEDO Não cometa o erro de tentar dominar uma criança progressista atemorizando-a ou despertando sentimentos de culpa nela. 116
  • 115. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Certas condutas são tão repetitivas que assumem ares de normalidade. Desde os primórdios da civilização, tentamos dominar os outros infundindo o medo, inimigo do progresso humano. De forma descuidada, causamos medo nas crianças para que nos obedeçam. Medo de escuro, de médico, de injeção, do bicho-papão... As letras das músicas infantis são tenebrosas. Mesmo que algumas crianças consigam superar o medo, mesmo assim, essa impressão marcada em sua infância poderá tornar-se um entrave em sua vida e limitar-lhes o futuro, impedindo que vivam experiências e realizações. Crianças corajosas como as progressistas incomodam as pessoas. O medo, embora sirva como uma trava de proteção a determinadas situações, não deve ser usado para barganhar, nem reforçado, sob pena de graves dificuldades futuras. SENSO DE HONESTIDADE DOS PAIS Quando protegemos as crianças em excesso, impedimos que vivenciem suas próprias experiências. Com a desculpa de protegê-las para que não se frustrem nem sofram, camuflamos a verdadeira razão de nossa atitude, que é o medo de sofrermos ou nos frustrarmos diante de seus fracassos. Precisamos ser honestos conosco mesmos, permitindo que usufruam os benefícios de suas vitórias e as lições de suas derrotas, partilhando dos sentimentos advindos dessas situações.
  • 116. AMÉRICO CANHOTO Além do amor incondicional, outra necessidade vital na educação das crianças da nova geração é a honestidade de pro- pósitos dos pais. Não minta. Para a maioria das pessoas, camu- flar desejos ou intenções é um fato corriqueiro. Estas crianças, porém, captam nossas verdadeiras intenções e reagem a elas. Para educá-las, é fundamental agir com transparência. Parte do comportamento incoerente é aprendida. Os vícios ou excessos que cometemos representam uma falta de honestidade íntima. Por exemplo: quando nos ali- mentamos com algo que sabemos de antemão que nos causa mal-estar, estamos sendo desonestos conosco mesmos, pois em seguida recorreremos a um medicamento que nos auxilie a reparar os efeitos causados pelo alimento. Grande parte dos acontecimentos presentes da nossa vida é conseqüência da Lei de Ação e Reação. Depois de aprender essa lição e agir honestamente conosco mesmos, vamos poder ensinar nossos filhos a agir corretamente. Pais que se enfastiam durante as refeições e que depois buscam alívio nos medica- mentos disponíveis para essa necessidade ensinam os filhos a agir desonestamente para consigo mesmos. No consultório, observo que as crianças da nova geração entendem melhor que as outras o mal que eventualmente causa- ram a si mesmas, seja pela ingestão de um determinado alimento prejudicial à sua constituição, seja por excessos alimentares. 118
  • 117. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Entendem o que aconteceu como o resultado de uma escolha errada e evitam reincidir nisso. Para elas, o desconforto que lhes causou a experiência é proveitosa lição de vida. A educação alimentar pode consti- tuir-se numa ferramenta valiosa para aprimorar a capacidade de discernir e desenvolver a honestidade, que acompanha o desenvolvimento dos vários tipos de maturidade psicológica. CONTROLE Liderar não é controlar. Os filhos que demonstram liderança nos dão grande sa- tisfação. Os líderes de fato, no entanto, são raros. Grande parte daqueles que têm essa capacidade tende a ser controladora, tirana, agressiva, autoritária. Usam dessa capacidade inata para controlar os demais e exercer sua influência de forma a se so- bressair e levar vantagens. No conjunto de tendências e predisposições inatas, uns gostam de controlar e outros de ser controlados. A melhor sala de aula para estudá-la é o lar. Na relação e nas brincadeiras entre irmãos, é possível identificar cada um dos tipos. Nas escolas e na relação com os amigos, também é possível observar tendências e predisposições à tirania, ao ciúme ou a ser controlado e até manipulado por outros. As crianças da nova geração tendem a liderar com natu- ralidade e carisma. Dependendo da forma como foram criadas, 119
  • 118. AMÉRICO CANHOTO podem tornar-se controladoras, não por maldade, mas apenas para satisfazer suas necessidades afetivas. Sentir ciúme também é um tipo de medo de perder o controle. Sentir ciúme demonstra que pretendemos ser donos de uma pessoa ou controlar alguém, o que, quase sempre, nos leva a relacionamentos pouco satisfatórios ou sofridos. Muitos dos controladores ou daqueles que se permitem ser controlados são aqueles que receberam uma educação distorcida, em que foram ressaltadas as tendências inatas, sem terem sido mu- nidos de meios de trabalhá-las para o seu bem-estar e felici- dade do próximo. MANIPULAÇÃO Aquele que manipula alguém usa de artifícios para ex- plorar a falta de soberania emocional alheia. Muitas vezes, bebês e crianças choram sem razão apenas para atrair a atenção de seus pais. Trata-se de um mecanismo inconsciente desen- volvido por eles, por intermédio do qual manipulam os adultos. Basta que o expediente funcione algumas vezes para que fique gravado em sua mente como a melhor forma de atrair depressa a atenção dos pais. Essa tendência pode ser inata e reativada pela convivência com adultos que agem dessa forma em seus relacionamentos. 120
  • 119. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Quando adultas essas crianças poderão se tornar hábeis mani- puladores. Entre as da nova geração, o senso inato de justiça impede que sejam permeáveis a essa influência negativa. Quase sempre superam esse tipo de influência se advinda de seus pais ou de adultos que as cercam. Elas são doces criaturas, desde que seus desejos sejam atendidos. Existem crianças que nos manipulam com facilidade, porque estão conscientes de nossas fraquezas: algumas vezes, sua saúde é precária, mesmo sob tratamento médico intensivo, outras vezes sentem dores em toda parte ou então se mantêm debilitadas para provocar piedade. Diante do seu estado, seus pais sentem-se impossibilitados de dizer um não a elas. São crianças manipuladoras por excelência. Pequenos descuidos na educação que causam acidentes evolutivos. Destacamos algumas formas que os pais encontram para manipular os filhos, com a intenção de obter melhores resultados em sua educação: aumento da mesada quando as notas esco- lares melhoram; prêmio em dinheiro para celebrar a medalha conquistada na competição esportiva; oferta de guloseima se a criança "raspar" o prato na hora da refeição. Esses exemplos de manipulação se tornaram tão comuns e corriqueiros que não 121
  • 120. AMÉRICO CANHOTO nos apercebemos de quanto são perniciosos no desenvolvimento da maturidade em todos os sentidos. CHANTAGEM A chantagem se diferencia da manipulação pela ameaça implícita ou explícita que carrega consigo. Exemplo de mani- pulação: pedimos ao nosso filho que vá à padaria comprar pão e o gratificamos com o troco da transação, ou permitimos que também compre um sorvete. A atitude de premiar a criança por tarefa executada é um tipo de manipulação. Se, para comprar o sorvete, a criança recebe como condição trazer o pão, é chantagem. A criança que deseja um brinquedo do irmão e exige-o como prêmio para ficar de boca calada e não contar aos pais que o outro quebrou determinado objeto ou deixou de fazer algo que lhe foi pedido está usando de chantagem para alcançar seus fins. Os manipuladores enveredam facilmente pelo caminho da chantagem. Adultos que aprenderam a manipular a família, recorrendo a ocasionais distúrbios de saúde, por vezes recorrem a ameaças de suicídio caso seus desejos não sejam atendidos. Esse comportamento mórbido encontra raízes na infância. Mesmo que a criança esteja doente, não devemos nos sentir obrigados a satisfazer todas as suas vontades. Atendê-las, sim, mas de acordo com suas necessidades e merecimento. Pro- blemas de saúde devem ser entendidos como sábias providências da natureza para reajustar nosso procedimento. Entendê-los 122
  • 121. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S assim e transmitir essa verdade aos nossos filhos é o dever de pais conscientes de seu papel de educadores. A tentativa de controlar ou manipular não raro termina em chantagem com danosas conseqüências para todos. Tal e qual os perigosos vícios do tabagismo e do alcoolis- mo, o hábito de chantagear começa com uma atitude ino- cente. Como muitas pessoas costumam dizer: "Apenas um gole ou uma tragada não vai fazer mal...". A chantagem nem precisa ser descoberta para que o chantagista resgate seu erro: a inse- gurança, o medo de ser descoberto transforma a vida dele num caos. A criança da nova geração não recorre à chantagem para obter o que deseja, o que, de nenhuma forma, desobriga seus pais de espelharem uma conduta isenta desse mal. CULTURA DAS PEQUENAS MENTIRAS Mentir, faltar com a verdade, pode ser uma tendência da criança. Em outros casos, o vício pode ter sido adquirido nas rela- ções familiares. Na família em que se mente com facilidade, uma criança poderá imitar esse comportamento e tornar-se exímia em falsear a verdade. Outra, criada sofrendo as mesmas influências, poderá não ser capaz de mentir com tanta desenvoltura. As tendências inatas nos aproximam ou nos afastam dos vícios. É fundamental que os pais conheçam as tendências 123
  • 122. AMÉRICO CANHOTO dos filhos para ajudá-los a superá-las, caso sejam negativas. Como não somos criaturas angelicais, tenhamos em mente nossas próprias tendências, e lutemos, com todas as nossas forças e recursos disponíveis, para superá-las. "Conheça a ver- dade e a verdade vos libertará"*, afirmou Jesus. Crianças da nova geração são péssimas mentirosas... Fomos treinados para pensar uma coisa e dizer ou fazer outra. A automatização dessa atitude nos leva, sem pestanejar, a faltar com a verdade e correr o risco de não mais distinguir entre o que é verdade e o que é mentira. A compreensão do abismo que as separa pode tornar-se difícil para o mentiroso compulsivo. É um vício que, a exemplo dos demais, quando identificado, exige todo nosso empenho para erradicá-lo de nossa alma. Descobrir quando uma criança progressista está mentindo é muito fácil, pois fica estampado no seu rosto. Crianças que vivem no mundo da fantasia têm predisposição para mentir. Muitas crianças copiam dos adultos a técnica de tratar as pessoas de forma interesseira. Algumas delas, desde muito cedo, tornam-se exímias nisso. São maledicentes e até caluniadoras, *João, 8:31,32. (RE.) 124
  • 123. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S tal e qual aprenderam com os familiares e com as pessoas com as quais convivem. Automatizar esse padrão de atitudes leva muitas pessoas a usar a mentira sempre como arma para atingir seus objetivos e desejos de forma até consciente. Para o mentiroso contumaz, a verdade pode tornar-se uma arma contundente, usada apenas para ferir e magoar, pois fala a verdade para arrogar-se no papel de justiceiro. A criança progressista, diante dos professores ou de seus familiares, geralmente se expressa de forma espontânea. Diz a verdade sem camuflar seus sentimentos ou distorcer a realidade com o objetivo de favorecer seus interesses. Ela fala o que sente de forma clara e verdadeira, o que, para ela, é tão normal quanto respirar. PERDA DE AUTORIDADE Filhos malcriados e agressivos A perda de autoridade é uma ocorrência globalizada. É fruto do sistema em que vivemos e da sucessão de descuidos na relação entre pais e filhos. Em primeiro lugar, é preciso en- tender que autoridade não se delega nem se impõe: é uma con- quista moral. As crianças progressistas obedecem com alegria a pessoas que revelam honestidade e sensatez em seus propósitos, mas não se rendem àqueles que desejam impor-se sem méritos para tanto. 125
  • 124. AMÉRICO CANHOTO Angústia e medo tornam as crianças agressivas como mecanismo de defesa. O sistema torna crianças e jovens mais angustiados a cada dia, com medo de tudo, como de não darem conta de viver conforme o que se espera deles, não serem amados, não possuírem isto ou aquilo, de serem tachados de fracassados. As más-criações e a agressividade de muitas crianças decorrera apenas de uma reação defensiva diante da autoridade imposta pelo medo, o que faz com que percam o senso de seus limites. Obtida pelo poder da força, a autoridade não se sustenta por muito tempo. Criaturas atordoadas e desorientadas que mentem, usam da chantagem e falam de forma desordenada, são incapazes de exercer autoridade. Aquele que pretende impor sua autoridade deve inspirar confiança e conquistar o respeito daqueles que vai liderar. Se não formos capazes de agir assim, perderemos a autoridade e deveremos nos empenhar em recuperá-la mu- dando nosso padrão de atitudes. O primeiro passo é reconhecer, diante de nossos filhos e familiares, que agimos mal tentando dominá-los pela força. Apontarmos os próprios erros e nossa disposição em corrigi-los vai, em primeira instância, surpreen- dê-los favoravelmente. Quem sabe alguém comente: "Até que enfim caiu na real...". 126
  • 125. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S 127 PENSAMENTO MÁGICO Por muitos anos, no período da infância, fomos incen- tivados a brincar de "faz-de-conta". Na idade adulta, incons- cientemente, queremos continuar a brincar com os outros, fantasiando isto ou aquilo. Causamos dissabores e prejuízos, mas ignoramos os resultados negativos de nossas ações, prefe- rindo viver no mundo da imaginação, onde a realidade é fruto da nossa vontade. A falta de maturidade cria o falso conceito de que a vida do homem adulto é um vale de lágrimas, um lugar muito ruim para se viver. Pensando assim, procuramos poupar nossos filhos e criamos para eles um mundo de fantasias, isolando-os numa redoma na qual estejam protegidos de todos os males. A criança da nova geração se esquiva de situações como essa e pergunta a si mesma: "Por que não posso assumir res- ponsabilidades?". Dessa forma, rejeita a proteção exagerada e desagrada aos pais, que não entendem sua rejeição e sentem-se preteridos, pois enxergam nos filhos criaturas ingratas que não merecem seu amor. A educação formal cultiva a falsa crença de que a criança só pensa em brincadeiras e jogos e que não se preocupa com o que ocorre a sua volta e no mundo. Teima-se em mantê-la presa ao pensamento mágico para depois reclamar que esperam que nós, os pais, resolvamos todos seus problemas. As mudanças planetárias estão acontecendo em ritmo acelerado. O sistema escolar deve se adaptar às necessidades
  • 126. AMÉRICO CANHOTO de hoje, caso contrário o número de desequilibrados e alienados aumentará até um patamar insuportável para a sociedade. Se insistirmos em não educarmos nossos filhos para a realidade, no futuro deveremos lançar ao espaço uma placa sinalizando "Bem-vindos ao Hospício Terra", para alertar os irmãos, visi- tantes de outras galáxias... Mudar o referencial de ensino é fácil, basta apenas boa vontade para fazê-lo. E perfeitamente possível mostrar de forma simples, lógica e clara os milagres que podemos fazer em nosso favor. Temos a capacidade de pensar, sentir, decidir, escolher, agir e trans- formar. Para nós, tudo é possível, na hora e no momento certo. Infelizmente, insistimos em resolver nossos problemas aper- tando botões mágicos como nos casos seguintes, tão comuns em meu consultório: "Doutor, meu filho não come frutas nem verduras e le- gumes. Só aceita guloseimas. O senhor não poderia receitar um remédio para curá-lo?" "Ajude-me, doutor. Estou desanimada. Levei meu filho para vários médicos e nenhum deles foi capaz de curar sua bronquite." "Estou decepcionado. Levei meu filho ao psicólogo du- rante um ano e ele não mudou quase nada." "Não sei o que me acontece. Não como nada e não con- sigo emagrecer." 128
  • 127. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S CRIAÇÃO DE PARADOXOS Por que fazemos questão de ocultar nossas verdadeiras intenções e complicamos tanto a vida? Chegamos ao máximo de esconder nossas intenções de nós mesmos e, para isso, o tempo todo inventamos desculpas e justificativas as mais absurdas. Quando queremos uma coisa e dizemos outra, criamos um conflito que vai prejudicar a nós mesmos e às pessoas. Muitas vezes, esses conflitos criam sistemas de crenças que serão repassados de geração a geração. Parte dos postulados que norteiam e sustentam muitos dos nossos paradigmas educacionais foi assim originado. Somos vítimas e reféns das crenças que nos afastam do Criador. O egoísmo doentio, o orgulho exacerbado, a ignorância voluntária e principalmente a preguiça de pensar são os pilares dos paradoxos humanos que as crianças da nova geração tanto rejeitam. Até para as demais crianças, percebem-se esses in- convenientes. O máximo do paradoxo é o conceito de aproveitar a vida. Talvez esse seja nosso descuido mais perigoso, aquele cujo resultado mais nos assusta: a morte. O conceito de vida e morte é um paradoxo se tomarmos uma opinião usual de que 129
  • 128. AMÉRICO CANHOTO viver bem ou aproveitar a vida é entregar-nos aos vícios e pra- zeres, praticar excessos de toda ordem, ou seja, correr para os braços da tão temida morte. Esse desatino que tentamos a todo custo tornar rotineiros criou a moderna sociedade das pessoas movidas a "Omeprazol", "Viagra", "Paroxetina" etc. O conceito do que é o bem e o mal está distorcido. O que hoje parece um grande mal amanhã pode se mostrar um grande bem. Um ditado popular diz, aliás, que "há males que vêm para bem". No entanto, o que a maioria das pessoas não quer perceber é que o bem não precisa do mal para se identificar como bem. Escolhas erradas precisam ser repensadas e não reforçadas. Um exemplo concreto e prático: não seria necessária a doença, um mal, para que as pessoas cultivassem a saúde, um bem, caso resolvessem pensar, analisar, discernir. A escolha que se mostra inadequada à natureza permite que o mal, a doença, sirva de material de estudo para atingirmos o bem, a saúde. 0 que se vê, no entanto, é a persistência da escolhas erradas, que agravam os males. 130
  • 129. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Excesso de limites As crianças de hoje vivem num mundo que lhes impõe muitos limites inadequados e incoerentes. Expliquemos: o es- paço doméstico ficou limitado, os lares estão repletos de quin- quilharias e elas mal conseguem se movimentar em sua própria casa. Vivemos gritando com elas: "Cuidado!", "Não mexa!", "Tire a mão daí", "Não pode"... O "não", colocado como uma ordem de comando pronunciada sem maiores explicações, deixa de ser absorvido pela criança, que não percebe a di- ferença entre o sim e o não. Nós, adultos, concentrados em nossos afazeres, nos dispensamos de dar maiores explicações às crianças, negando a elas o direito de entender o porquê de nossas ordens. É uma falha que precisamos corrigir. Como livrar a educação dos paradoxos? A família necessita ser reestruturada, e sua forma de ge- renciamento, modernizar-se. É fundamental definir e reciclar a visão de mundo dos integrantes para trabalhar em equipe com metas claras e objetivos definidos. Alguém precisa chamar para si a responsabilidade de gerenciar as mudanças. Os pais devem definir sua condição. A busca de respostas para algumas questões é urgente: "Quem somos nós e o que fa- zemos aqui?"; "Quem sou eu e quais são meus deveres?"; "Quem é meu filho, e o qual é o meu papel com relação a ele?". 131
  • 130. AMÉRICO CANHOTO Somente a evolução ativa e participativa é capaz de eli- minar ou aliviar o antagonismo que se forma entre os membros da família. Queremos controlar os outros sem controlar a pró- pria vida. Pais e mães disputam o poder usando os mais infantis e absurdos sistemas de controle e a criança fica perdida entre o fogo cruzado dos interesses deles. Os paradoxos devem ser desmontados passo a passo. Para isso, precisamos desenvolver a transparência, a simplicidade, a honestidade e a clareza de intenções. As respostas às questões formuladas pelas crianças devem ser sempre claras, diretas e verdadeiras. Quando os pais não souberem responder aos filhos, devem deixar claro seu desconhecimento a respeito do assunto e convidar a criança para juntos buscarem explicações. A criança não deve ser poupada de nenhum assunto do qual seja capaz de participar; claro que segundo a sua capaci- dade de discernimento. Esse padrão positivo de atitude leva à eliminação progressiva do pensamento mágico, tão danoso ao adulto que o cultivou no período da infância com a ajuda da família. Não devemos dramatizar situações, mas sim expor as ocorrências sem exagerar os fatos, apresentando-os de forma sucinta. Essas regras tão simples beneficiam a todas as crianças, indistintamente. VÍCIOS Os pais se encarregam de viciar os filhos desde seu nasci mento. O primeiro vício é fisiológico: alimentação. O egoísmo 132
  • 131. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S e o orgulho das pessoas as levam a fazer com que seus filhos sejam maiores e mais fortes que os dos outros. Quem não ouviu um diálogo parecido com este: "- Nossa, que grande e esperto é o seu filho! Quantos meses ele tem? - Cinco! - Nossa, parece que ele já tem um ano. O que você dá para ele comer?" Para atender à vaidade dos pais, a criança é desrespeitada, obrigada a alimentar-se em demasia, muito além de suas neces- sidades, "para ficar forte". Um dos problemas mais comuns nos dias de hoje, causado pelos pais, é a obesidade infantil. Alguns pais projetam seus desejos e necessidades nos filhos e não lhes oferecem os alimentos adequados de que eles próprios não gostam - e dizem que amam seus filhos tornando sua vida mais açucarada... Um bom exemplo dessa conduta é o paladar doce, que atrai a maioria dos pais. Por que evitam alimentos azedos, amargos, picantes ou mesmo sem sabor? Que motivos levam o adulto a preparar a mamadeira ou o suco segundo suas prefe- rências e não de acordo com as necessidades de seus filhos? Descontadas as tendências inatas, observadas na pri- meira infância, os vícios são adquiridos mais por influência do meio familiar do que pela força dos desatinos cometidos em outras existências. É desnecessário nos alongarmos quanto à influência dos adultos. Sabemos que a criança poderá copiar seus hábitos, seus vícios. Pais que fumam, consomem bebidas 133
  • 132. AMÉRICO CANHOTO alcoólicas, alimentam-se com exagero estão levando seus filhos para o mesmo caminho. Além das influências familiares que induzem ao hábito da bebida alcoólica e do cigarro, não podemos deixar de men- cionar o poder da mídia, que veicula mensagens que induzem a consumir o que é danoso à saúde. Como não é possível evitar que as crianças sejam expostas a esses comerciais, devemos ex- plicar, sempre com palavras simples e diretas, o mal que esses produtos causam à saúde. Essas explicações devem ser acompa- nhadas de exemplos e comparações. INVERSÃO DE METAS E SUAS CONSEQÜÊNCIAS No plano das relações humanas Muitas vezes somos induzidos a contentar os outros para recebermos recompensas. A frustração é certa, pois agradar não deve ser meta, mas a conseqüência da forma correta de agir. Quem age com correção certamente vai satisfazer àqueles que o rodeiam. As crianças da nova geração não se preocupam em agradar às pessoas: simplesmente agem conforme sua vontade e visão de mundo. Na vida profissional Muitas pessoas sentem-se frustradas no exercício pro- fissional, pois fazem o que não gostam. Na maioria dos casos, 134
  • 133. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S escolheram a profissão porque lhes parecia a mais rendosa. O cometimento desse erro é muito generalizado nos dias de hoje e ainda é, por vezes, agravado pela influência dos pais. Quando reconhecemos que o ganho financeiro é a conseqüência de um trabalho profissional bem desenvolvido, realizado com amor e dedicação, nós nos desvinculamos da escolha interesseira daquele momento. Essa é a orientação correta que devemos passar aos filhos: a escolha profissional deve ser movida pelos talentos e habilidades e não visar apenas ao enriquecimento. Dieta para emagrecer A reeducação alimentar deve ser uma tarefa contínua, cujo objetivo é viver mais e com boa qualidade. Perder o ex- cesso de peso é apenas conseqüência natural desse trabalho. Desde cedo, muitos pais influenciam mal os filhos, demons- trando sua exagerada preocupação com dietas, o que deve ser evitado. A melhor dieta é aquela que atende às necessidades do organismo. A criança deve aprender a ouvir o corpo e a dialogar com ele, pois o corpo fala, mas, às vezes, ele não se faz ouvir nem mesmo por intermédio de manifestações como a dor, febre, vômitos, coceiras. Bloqueio do efeito das más escolhas O atual sistema de medicina inverte causa e efeito. Gasta- mos, por exemplo, tempo e dinheiro combatendo febre, espirros, 135
  • 134. AMÉRICO CANHOTO tosse, coceiras, sistemas de defesa do organismo como se fossem doenças. Confundimos a cura com o bloqueio temporário de sintomas e depois ingerimos remédios em cascata, um para blo- quear o efeito colateral de outro, tudo na tentativa de eliminar os sintomas (ou avisos de que algo vai mal). Devemos buscar, com o médico de nossa confiança, as causas dos males que nos afligem e não apenas medicamentos para amenizar os efeitos da doença. Nossos filhos devem ser educados de forma a entender essa necessidade: a cura depende da erradicação do mal. Busca de solução para problemas materiais na religião Em geral, as pessoas buscam na religião a solução para seus problemas materiais. As crianças da nova geração cos- tumam pensar de forma mais lógica: esses problemas podem servir de alavanca para a espiritualização. Reflitam sobre as pa- lavras de Jesus: "Felizes os aflitos"*. Poucas religiões resistem a sua racionalidade. PROJEÇÃO DE FRUSTRAÇÕES O tempo todo projetamos nos outros o que nos incomoda. * Mateus, 5: 4. (N.E.) 136
  • 135. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Sem percebermos, até porque não paramos para pensar, como se faz necessário, projetamos nos filhos frustrações emo- cionais de realização profissional e afetivas. Tentamos interferir na vida e no futuro deles para compensar nossos desequilíbrios. Pais que se sentem frustrados na profissão tentam de todas as formas convencer os filhos para que sigam caminhos diferentes dos deles. Outros, pouco felizes na vida em família, tentam induzir os filhos a não constituir família. Frustrações podem ser aprendidas. As crianças aprendem com os pais a ser amargas, derro- tistas, desconfiadas, frustradas. Que tipo de atitudes inspira- mos com nossa conduta? Se nos convencermos de que estamos projetando nossas frustrações nelas e que, com isso, podemos prejudicá-las, o passo seguinte é reverter esse quadro. Não devemos nos culpar ou sentir remorso pelo que já aconteceu: mudemos nossa conduta. Aqueles que nos cercam perceberão nossa transformação, que falará mais alto que os atos anteriores, que, pouco a pouco, serão esquecidos. A projeção de frustrações induz ao controle e à chantagem. Descuidados, podemos projetar nos filhos a realização daquilo que gostaríamos de ter sido ou feito, sem perguntar- lhes se é isso realmente o que eles desejam. Com a intenção de 137
  • 136. AMÉRICO CANHOTO convencê-los, pais mais afoitos e negligentes quanto ao futuro dos filhos os pressionam para alcançar seus objetivos: "Se você passar no vestibular, ganha um automóvel zero quilômetro". Nosso estilo de vida contribui para manter o pensamento mágico peculiar da criança na vida adulta, que gera desequilí- brio entre fantasia e realidade, frustrações, mágoas etc. Tentamos amenizar decepções e fracassos usando os filhos para conseguirem realizar nossos próprios desejos e suprirem nossas necessidades. A projeção na prática de esportes Pais orgulhosos e frustrados costumam fazer sombra aos filhos em competições esportivas ou escolares: às vezes pagam aos filhos para ganhar títulos ou medalhas. Quase sempre esse "toma lá dá cá" torna-se, por parte dos pais, uma forma dissimu- lada de compensar a própria falta de confiança em si mesmo. Muitas crianças da nova geração passam a sentir aversão pela prática esportiva quando são obrigadas a competir sob pressão dos pais. Para elas, o importante não é vencer, mas sim participar da competição. Quando vitoriosas, não dão muita im- portância ao destaque conquistado. Sentem-se constrangidas diante da fama e não consideram seu feito digno de elogios. A escolha da profissão As crianças da nova geração preferem escolher o que querem fazer. Sempre. Por intuição, quase sabem o papel 138
  • 137. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S que vieram desempenhar. Sendo assim, não tente induzi-las a seguir uma profissão que não desejem. Se forçadas a isso, po- derão adotar a profissão de "filho" e, de forma consciente, só farão o que der muito prazer... A nossa missão é ajudar nossos filhos a escolher o melhor para eles. Para serem bem-sucedidos, basta observarmos suas aptidões e proporcionar-lhes condições de desenvolverem seus talentos. O mais virá por acréscimo. Projeções e vinganças afetivas Por influência do "efeito espelho", as pessoas costumam projetar nos filhos as mágoas, decepções, necessidades não satisfeitas do cônjuge ou de outra pessoa da família apenas porque são muito parecidos na forma de ser. Não se projete afetivamente na criança progressista, pois, sem maldade al- guma, ela vai dizer-lhe tantas verdades que sua auto-estima poderá ficar abalada. Projeção da própria personalidade Exemplo: o ciumento que projeta, além de insegurança e desejo de posse, sua propensão para trair; e que, caso interesses novos surjam, usa vários tipos de desculpas e justificativas. A psicologia explica bem isso, e qualquer um de nós, todos os dias, tem à frente inúmeras provas do mecanismo da projeção: basta ter olhos de ver e ouvidos de ouvir - não se trata apenas âe traições afetivas. 139
  • 138. AMÉRICO CANHOTO Possibilidade do mecanismo de projeção ser útil Na natureza, tudo tem sua polaridade complementar. Não há nem bem nem mal definitivo. Como disse o sábio Lavoisier: "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". O mecanismo de projeção pode tornar-se uma ferra- menta para o autoconhecimento. Observemos as caracterís- ticas que mais detestamos nas pessoas e estaremos observando a nós mesmos, como se nossa imagem se refletisse num espelho. Talvez leve um bom tempo até admitirmos algumas facetas da nossa personalidade, mas se trata de um processo de grande utilidade para nossa evolução. PADRONIZAÇÃO j Tentar padronizar o ser humano é uma forma de controlar, manipular, dominar, explorar. Cada criatura é um ser único e desrespeitar sua natureza traz conseqüências desastrosas não apenas para aquele a quem prejudicamos, mas também para a coletividade. Estas são algumas das tentativas de padronização da criança: • Enquadrá-la na média estatística de peso e altura; • Padronizar sua alimentação; • Vesti-la de acordo com o que está na moda; 140
  • 139. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S • Comparar o temperamento e o comportamento entre irmãos; • Uniformizar seu aprendizado escolar; • Ditar sua forma de comportamento. Quem fugir dos padrões impostos pela sociedade é marginalizado. Se, de alguma forma, a criança é diferente da maioria, ela deixa de ser considerada normal e provavelmente será re- jeitada pela família e pela sociedade. Em família, quem ousa infringir os padrões é considerado ovelha negra. Quem se descuida em observar as normas sociais, tão superficiais e sujeitas aos modismos, é considerado mal-educado. Aquele que contradiz os poderosos do momento (ou da hora) é ro- tulado de agitador. As crianças da nova geração não toleram ser pressio- nadas ou induzidas. Perdem o entusiasmo pela vida quando suas potencialidades são bloqueadas, tornando-se impedidas de criar, de exercer seu papel e seus direitos e, principalmente, de cumprir seus deveres - o que para elas é a razão de sua existência. EM BUSCA DE PRIVILÉGIOS Desde cedo, aprendemos a conquistar regalias e privilégios. 141
  • 140. AMÉRICO CANHOTO Esse aprendizado costuma iniciar-se na vida familiar. A criança percebe que aqueles que ousam lutar para fazer valer seus direitos não são bem vistos, até porque são mais difíceis de serem controlados. Logo, incorpora a seu sistema de crenças que é muito melhor, para sua tranqüilidade, pleitear mordo- mias e privilégios que dar murro em ponta de faca e exigir que seus direitos sejam respeitados. Nossa sociedade ainda sofre com uma grande quanti- dade de "folgados", pois geração após geração criamos uma sociedade cujos valores éticos e morais se baseiam na busca de privilégios de uns em detrimento de outros. Bem-vindas sejam as crianças progressistas, por natureza as defensoras da justiça, que, dia a dia, contribuem para derrubar os privilégios da legião de folgados, parasitas que assolam o planeta. Ouvi dia desses um comentário interessante num debate no qual um dos participantes afirmou que o brasileiro de forma geral não é muito fã de direitos, pois eles precisam ser exercidos, quando, na verdade, gostamos mais de privilégios, daí a corrida intensa aos concursos para o serviço público... De quem é a maior responsabilidade? O estado de coisas que estamos enfrentando foi gerado pela ausência de regras e regimentos claros a serem cumpridos. Na vida em família, todos querem ter direitos, mas ninguém deseja assumir responsabilidades. É lógico que a criança educada 142
  • 141. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S por pessoas que agem dessa forma seja pobre em cidadania. A nação é o reflexo da vida familiar de seus cidadãos. Se assistir a noticiários faz parte de sua rotina, convide seu filho, se ele tiver idade para isso, para servir de comentarista. Ficará surpreso com suas observações. Observe a seriedade de suas colocações. As crianças progressistas são analistas por natureza, observam e se preocupam com o que está aconte- cendo com as pessoas: são solidárias por excelência. É nosso dever reforçar seu comportamento, incentivá-las a agir com cidadania. Em vez de nos determos na crítica fácil às autoridades, por que não ingressarmos num partido político e nos enga- jarmos em causas que beneficiem a comunidade? As crianças da nova geração admiram pais que escrevem para revistas e jornais, dão sugestões, manifestam apoio a iniciativas que me- recem louvor, participam de uma ONG, são colaboradores vo- luntários de hospitais, escolas... Esse é o pai que vai cativar esse filho: um cidadão participativo. CULTIVO DO MEIO-TERMO Na natureza não existe meio-termo, as coisas ou são ou não são. Fazemos questão de criar confusão entre equilíbrio e meio-termo. Mesmo porque o equilíbrio é dinâmico e não 143
  • 142. AMÉRICO CANHOTO estático. Imagine um sujeito balançando na corda bamba. Sua estabilidade (seu equilíbrio) depende de seus movimentos. Nesta dimensão de polaridades, todas as experiências possíveis têm de ser vividas e dominadas - esquerda e direita, bem e mal, superior e inferior, alto e baixo, claro e escuro - uma a uma, passo a passo, momento a momento. Como exemplo: a polaridade entre alegria e tristeza. 0 ponto de equilíbrio é a serenidade. Uma pessoa serena não é alguém metade alegre e metade triste. Apenas domina muito bem a situação em que predomina a emoção tristeza e, da mesma forma, a alegria. Não se apresenta depressivo nem eufórico. A evolução exige determinação. Optar pela moderação no combate aos vícios e às defi- ciências do caráter é condenar-se a um sofrimento prolongado. Precisamos ser fortes e decididos. Nossas decisões perante o que devemos mudar devem ser balizadas pela clareza de propósitos e firmeza para colocá-las em prática. As crianças progressistas agem assim, são firmes e decididas quando firmam seus propó- sitos e a sociedade lhes permite colocá-los em prática. Se temos dúvidas em relação à necessidade de mudar nosso comportamento, é preciso antes de tudo buscar esclare- cimento. A percepção do que é bom ou não para nós deve ser clara, lógica, inteligente, bem definida. A moderação é necessária no trato com as pessoas tanto como regra de boa educação ou civilidade quanto como um 144
  • 143. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S motivo extremamente lógico. A interferência na vida alheia é como uma assinatura numa promissória em branco: impor algo a alguém ou decidir pelo outro é um descuido fenomenal. As crianças da nova geração têm uma visão tão clara disso que, por vezes, podem ser chamadas de pessoas de poucos sentimentos. Quando convidadas a opinar sobre a vida alheia, falam das próprias experiências, expõem suas idéias, mas evitam ser diretos e dar o "prato feito" que a maioria das pessoas deseja: uma solução servida na bandeja. "Deixem as crianças vir a mim."* A criança não tem meio-termo: ou quer ou não quer, ou é ou não é. Ela tem a saudável tendência de ir fundo nas coisas, embora o adulto tente, a todo custo, mudar sua atitude, ensi- nando-a a pedir desculpas para tudo, a arranjar justificativas tão tolas quanto inúteis. "Oito ou oitenta", esse comportamento é saudável para a criança, pois acelera o aprendizado e a ajuda a progredir. Deve ser incentivado pelos pais para que aprenda o verdadeiro sentido do caminho do meio, não o da mediocri- dade, do mediano. As crianças da nova geração são muito mais definidas: boas ou más. Vamos exemplificar: se impomos nosso credo religioso a essas crianças progressistas, elas nos farão as mais diversas perguntas para inteirar-se da nossa crença. Pais impacientes se incomodam com crianças assim, porque não * Marcos, 8: 14. (N.E.) 145
  • 144. AMÉRICO CANHOTO sabem como responder a suas perguntas. As da nova geração estão sempre receptivas para aprender e nossa função é selecio- nar o material pedagógico e ensinar-lhes. ACEITAÇÃO DAS INJUSTIÇAS A injustiça é transitória. Os fatos que num determinado momento nos parecem injustos são na verdade a conseqüência de nossas atitudes do pretérito. Trata-se de simples retorno, explicado pela Lei de Ação e Reação. No mundo de expiação e provas, a vida em família é pontuada por dificuldades e aparentes injustiças. Os adultos geralmente exercem sua liderança por impo- sição da sua vontade. Entre os pais, isso ocorre quando um diz que não pode e o outro permite. Quando um penaliza e o outro libera. Na maior parte das famílias, há uma disputa pelo afeto e poder camuflada ou explícita entre pais/mães e outros membros do grupo. A criança está submetida a inúmeras situações de in- justiça que os adultos não percebem, pois estão contaminados pelo vírus das desculpas e das justificativas; claro que a persistên- cia dela vai afetar-lhe a personalidade e muitas vezes a colheita dos pais nesta mesma existência é o asilo, o quartinho do fundo... Evidente que todas as situações são reversíveis e temporárias, desde que façamos as correções necessárias em tempo hábil. A gente vai levando... 146
  • 145. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Progredimos sempre, pois essa é a lei, mas o fazemos geralmente de forma passiva. Na relação entre pais e filhos, quando vivemos de forma descuidada, somos comandados pelo subconsciente. Como a vida em família é um conjunto de espe- lhos, um filho que lembra um possível adversário é tratado de forma diferente dos outros (quem na qualidade de pai e mãe já está atento a isso?). Vamos ver como isso ocorre na prática: um pai é soli- citado para decidir algo que diz respeito ao filho que se parece muito com sua sogra, com a qual não mantém boas relações. Com certeza, será rigoroso em seu julgamento. Caso fosse outro filho, mais parecido com ele mesmo, sua atitude poderia ser oposta. Essa ocorrência é mais comum do que imaginamos... Ainda não somos bons para julgarmos a nós mesmos. Costumamos esquecer que o sujeito que está sendo julgado também se julga. Quase sempre absolve a si mesmo. Quando condenado por outrem, considera a sentença par- cial ou muito rigorosa. Esse ainda é o nosso caso, na etapa evolutiva na qual nos encontramos. Somos generosos quando lavramos a sentença em favor do réu, se estivermos, ao mesmo tempo, sentados no banco dos réus, porém, excelentes advo- gados de defesa em causa própria. Esse é o nosso comporta- mento rotineiro não apenas no lar, mas onde quer que nos encontremos. 147
  • 146. AMÉRICO CANHOTO Uma criança que sofre essa influência naturalmente le- vará para a vida adulta esse padrão de comportamento. Sempre vai puxar a sardinha para a sua brasa, custe o que custar. Cabe aos pais rever o modo de julgar a si mesmos. Estamos sendo por demais generosos a nosso favor e rigorosos para com o próximo? Nossos filhos nos observam e copiam nosso modo de agir. DEMASIADA EXPOSIÇÃO À AÇÃO DA MÍDIA O livre-arbítrio é uma ferramenta perigosa para quem não pensa ou pensa pouco e mal. Toda escolha tem um preço e gera um conjunto de bene- fícios e prejuízos. Usamos os recursos que escolhemos. Quanto mais poderoso é o recurso à nossa disposição, maior será o risco de um eventual dano. Esse é o caso da utilização da energia nu- clear. Trata-se de um recurso poderoso, mas capaz de produzir prejuízos de grande monta se mal utilizado. A grande expansão dos meios de comunicação de massa criou a possibilidade de influenciar e manipular o ser humano de uma forma como nunca vista. Se grande parte do que somos aprendemos na infância, a exposição continuada aos meios de comunicação de massa - comprometidos com a audiência con- quistada a qualquer preço, que usa e abusa da violência, que explora o sexo, a ignorância e o sensacionalismo - contribui 148
  • 147. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S para a formação de pessoas desajustadas, alienadas, pobres em valores éticos, despudoradas e violentas. Controlar a exposição da criança diante da ação da mídia A verdade é que nós, adultos, somos pouco honestos em nossas intenções. O chavão "faça o que digo, mas não o que faço" é coerente com as atitudes dos pais ao querer selecionar o conteúdo dos desenhos e programas infantis, mas antes mesmo que as crianças durmam assistir a filmes e programas recheados de violência e temperados com erotismo, sexo explícito etc. En- quanto a situação não ficar crítica, não tomaremos nenhuma atitude para modificar as coisas. Muitos, porém, mesmo sendo capazes de discernir e avaliar os riscos a que as crianças estão expostas, sobretudo à influência da televisão, nada fazem para mudar. Primeiro porque adoram o que desejam evitar que seja repassado a seus filhos e segundo porque a televisão é como uma babá eletrônica, capaz de hipnotizá-los de tal forma que as crianças dão um pouco de sossego aos pais... Nem toda criança exposta à ação da mídia se tornará problemática. Estudos confiáveis mostram que boa parte das pessoas per- manece em torno de quatro horas diárias em frente ao aparelho de televisão. Ao ficar tão exposta, a criança pode aprender a ser 149
  • 148. AMÉRICO CANHOTO falsa, violenta, oportunista, mentirosa, traidora; também pode aprender a comer sem ter fome, comprar o que não precisa, en- dividar-se e dar calote, fumar e beber, usar drogas, seqüestrar, roubar, ficar doente e até matar. É claro que atribuir a culpa de todo o mal que assola o mundo à influência dos programas de televisão é uma atitude equivocada. No entanto, é urgente avaliar: quem está mais presente na vida de nossos filhos? Nós ou a TV? Buscamos de- sesperadamente recursos para comprar as de maior tamanho, de tela plana ou com outras novidades de mercado, mas quanto tempo e recursos uso para tornar-me um pai ou mãe de melhor qualidade? Claro que cada criança vai incorporar o que estiver disponível. ENTRETENIMENTOS PERIGOSOS Até pouco tempo atrás, nossas vidas eram compostas mais de atividades corporais do que mentais e emocionais. Hoje, algumas pessoas têm 95 por cento destas atividades e cinco por cento daquelas. Lógico que um desastre inevitável se avizinha no horizonte de nossas vidas. Quando a mente falha nas escolhas, o corpo padece. O que se chama hoje de lazer ou entretenimento causa sérios problemas à saúde e, a médio prazo, é capaz de comprometer nossa própria existência. O corpo não tem vida própria nem é capaz de discernir. 150
  • 149. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S O tão falado estresse crônico é um leão que foi colocado na nossa frente e que não ataca nem vai embora. Entretanto, sua simples presença desencadeia em nosso organismo um ritual de ataque e defesa por meio dos hormônios e outras substân- cias. Ora, quando assistimos a um programa de TV - um filme de ação, suspense, terror ou drama, uma partida de futebol, um noticiário -, o corpo físico não é capaz de detectar que estamos presenciando uma realidade virtual; é mais um leão psicológico que trazemos para engrossar o bando que já nos ameaça. Claro que, diante disso, nosso corpo físico reage como se tudo aquilo fosse verdade, produz hormônios e substâncias relacionadas com as emoções que estamos sentindo, despertadas pelo que acontece na tela. Assim, é desencadeado um processo de ataque e defesa que faz parte do nosso instinto de sobrevivência, o qual, nessas ocasiões, ordena aos órgãos que despejem na circulação sanguínea adrenalina, cortisol, vasopressina etc. Jesus bem que tentou nos avisar: somente a verdade (realidade) vos libertará... Alerta: nossas crianças estão em perigo. Com conteúdo baseado no erotismo e na violência, os games atingem uma faixa etária cada vez mais próxima da in- fância. O estrago causado por esses jogos em breve será monu- mental. Por causa deles, as crianças estão correndo o risco de sofrer depressão, angústia, desejo de suicídio, pânico e doenças.
  • 150. AMÉRICO CANHOTO Óbvio que não só em razão disso, também, em especial, pelo sistema educacional como um todo. Nossas mentes estão intoxicadas por tanta informação. Para as crianças da nova geração, é fácil evitar o excesso de informações que tanto mal causa à maioria das pessoas. Basta observar o comportamento delas em casa, na sala de aula ou em outros lugares. Quando se sentem incomodadas, alheiam-se e ocupam seu pensamento com suas prioridades. Desligam-se, simplesmente. O problema delas é sua dificuldade para estabelecer os próprios limites. Sempre avançam, por vezes além da conta. Se, por exemplo, aprenderam a gostar do videogame, são capazes de jogar horas sem parar. Esse tipo de comportamento - mer- gulhar fundo - é uma das características que mais observamos nelas. Em geral, comportam-se quase sempre assim. Enquanto a maioria das pessoas vive na superfície de suas experiências, as crianças da nova geração exploram suas profundezas, o que nem sempre pode trazer bons resultados. 152
  • 151. Somos criaturas em aperfeiçoamento, a caminho da perfeição. A educação é um processo contínuo de aprendizado. Parte das nossas limitações de hoje representam o resultado das nossas escolhas do passado.
  • 153. REESTRUTURAÇÃO DA FAMÍLIA Hora de resgatar compromissos. Emboraosrelacionamentos sejam movidos por in- teresses antagônicos, são valiosas oportunidades de evolução: seu aproveitamento depende apenas da boa vontade dos en- volvidos. Mas somente a educação planejada segundo padrões mais espiritualizados será capaz de criar uma filosofia de geren- ciamento adequada à vida em família e desenvolver a solida- riedade que se assemelha ao comportamento que é comum às crianças da nova geração. É hora de iniciar esse processo se desejamos fazer parte do mundo de regeneração, o que nos é imprescindível. Educar essas crianças progressistas que recebemos na condição de filhos é a oportunidade que se nos apresenta para, junto deles, ganhar- mos um inestimável impulso evolutivo. Podemos nos perguntar: "Como educar criaturas tão diferentes de nós, que não levam em conta nossas opiniões, questionam nossas idéias e abalam nossas convicções com tão poucas palavras?". É um desafio e tanto. Reestruturar a família é um projeto o qual, como qual- quer outro, exige um coordenador capacitado. Como já vimos, o método (adotado por muitos chefes de família) "faça o que eu Reengenharia das relações familiares 155
  • 154. AMÉRICO CANHOTO digo, mas não faça o que eu faço" já demonstrou que não fun- ciona. Não se trata de simplesmente dizer "de agora em diante, aqui em casa, a coisa vai funcionar desta maneira". Esse tipo de afirmação mata, no nascedouro, a iniciativa que desejar- mos implantar, simplesmente porque se trata de uma medida imposta. Outro exemplo a ser evitado: "Agora as coisas vão mu- dar de verdade". Se houver uma criança da nova geração na família, ela será a primeira a questionar as mudanças e revelar a pouca capacidade de quem as sugeriu. Sejamos os primeiros a nos engajar no processo de mu- dança e a tomar o remédio que iremos receitar. Não haverá necessidade de que estejamos curados para dar início às trans- formações. O importante é deixar claro aos familiares que esta- mos procurando mudar, mas ainda sujeitos a erros. Na condição de coordenadores da melhoria devemos manifestar confiança em nossa proposta. Reengenharia da família: mandamentos do gerente • Respeitar a individualidade. Cada um tem sua própria personalidade: só vai mudar por sua própria vontade ou por esforço pessoal. • Agir com indulgência. É fundamental não provocar desentendimentos. Vale lembrar que estamos tentando melhorar a vida em família e não piorá-la. 156
  • 155. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S • Aprender a ouvir antes de falar. • Não impor metas ou mudanças. • Conscientizar-se da importância de sua missão. • Deixar claro que as mudanças estão sendo feitas porque a família merece uma vida melhor e mais saudável. • Reconhecer as próprias falhas e fazer o que está a seu alcance para corrigi-las. • Anotar os comentários dos familiares, em especial quando manifestarem descontentamento. Nessas oca- siões, quando perdemos o controle do consciente, reve- lamos quem realmente somos. • Evitar criticar o errado ou o malfeito. Elogiar o certo. • Não esperar retribuição ou elogios pelos seus esforços (para evitar frustração). Fase I - Estudo do que deve ser mudado Quando nossas expectativas não se cumprem, é hora de mudar. Na primeira fase do processo, é preciso identificar o que precisa ser mudado. Depois, formar uma equipe e treiná-la para buscar as mudanças. Delegar tarefas. Reavaliar o que se atingiu das metas. Recomeçar. Além disso, deve ser feita a reavaliação do conjunto de metas e objetivos que movimentam a família, assim como a avaliação dos recursos disponíveis e dos que podem ser buscados. 157
  • 156. AMÉRICO CANHOTO Exemplo para ilustrar: determinada família está priori- zando a busca de recursos financeiros para construir uma casa. Para isso, determinados gastos com lazer são cortados; além disso, os pais tornam-se mais ausentes na relação com os filhos, até que o rendimento escolar de um deles diminui tanto a ponto de chamar a atenção, ou um outro passe a consumir cigarros, bebidas ou maconha. É um sinal de alarme que indica a neces- sidade de reavaliar prioridades e até as metas. Fase II - Formar a equipe E fundamental engajar a família nos objetivos comuns, e isso não se consegue só com teorias. O projeto deve ser o mais simples possível e claro para que as resistências às mudanças sejam mínimas. É preciso criar objetivos comuns que interessem a todos ou à maioria dos familiares. Fase III - Delegar tarefas Faz-se necessário distribuir tarefas e delegar responsa- bilidades. Fase IV - Reavaliar Reavaliações periódicas são imprescindíveis. Deixar o barco correr, ou seja, ignorar o que está acontecendo, é um descuido que, no futuro, trará problemas. 158
  • 157. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S MODERNIZAÇÃO DA FORMA DE GERENCIAR A VIDA FAMILIAR Não basta mudar a estrutura das regras e das metas da vida em família, é preciso aplicar uma metodologia para a con- tinuidade das mudanças. Família: oficina onde aprendemos a arte de amar. Como instituição, a família vem sendo gerida como um ajuntamento de pessoas, em que manda e desmanda quem detém o poder econômico, quem é mais forte, autoritário ou sabe manipular com mais competência. Vejamos se não é esse nosso caso. A condição de provedor da casa não nos dá o direito de agir, em relação aos nossos fa- miliares, como se fossem nossos servos. O lar não é apenas um aglomerado de pessoas que vivem sob o mesmo teto: somos espíritos compromissados, reunidos pela divina providência que nos enseja no aprendizado do amor. Metas Devemos idealizar metas e objetivos comuns, e o grupo familiar deve participar dessa busca. Na teoria, parece óbvio. Na prática, freqüentemente, não é o que ocorre. Mudar a di- nâmica das relações é uma das metas mais importantes para a reestruturação da vida familiar. 159
  • 158. AMÉRICO CANHOTO Na maior parte das vezes, a competição entre os fami- liares é intensa, lembra uma guerra não declarada. O compor- tamento dos irmãos é comparado pelos pais, que os estimulam a sobrepujar-se um ao outro. Muitas famílias podem ser compa- radas a times de futebol famosos que montam esquadrões e não ganham nada, porque cada um dos craques vive apenas para seu lucro pessoal; um não serve o outro porque todos querem estar no topo da mídia. No período da infância e da adolescência, as crianças destacam de forma nua e crua sem muitos enfeites e disfarces as características das outras com a intenção de diminuí-las ou até de agredi-las: ridicularizam o cabelo, a altura, o peso, a estética (formato do nariz, das orelhas), a falta de aptidão dos colegas para algumas tarefas, gerando animosidade e enfrentamentos. Esse tipo de comportamento foi absorvido por intermédio dos adultos que fazem isso o tempo todo de forma dissimulada. Por causa da forma descuidada com que vivemos, a vio- lência verbal entre irmãos acaba sendo estimulada, sem querer, de modo inconseqüente. Descuidados, às vezes até nos diver- timos com a grosseria desse bombardeio verbal. Uma das metas da reciclagem como educadores é eliminar esse tipo de com- portamento. Em primeiro lugar, evitar fazer comparações, as quais, inevitavelmente, desmerecem alguém. Se presenciarmos diálogos que tenham por objetivo menosprezar alguém, procu- remos destacar um aspecto positivo dessa pessoa. Façamos o contraponto e observemos a atitude do grupo. 160
  • 159. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Normas O grupo familiar deve possuir um conjunto de normas de convivência e de comportamento que sejam objetivas, claras e lógicas para serem seguidas por todos sem exceção. No momento de compor a família, as regras da casa devem ser discutidas em todos os detalhes. É claro que alguém sempre tem de ceder em seus pontos de vista quando as idéias e a vi- são de grupo são muito diferentes ou antagônicas. Se, porém, apenas um cede, a união está irremediavelmente condenada ao fracasso. Deixar para criar normas ou resolver pendências e pro- blemas apenas quando estes surgem é uma das causas da fa- lência da família. Preocupar-se em mudar a forma de educar os filhos apenas quando nos causam problemas e dificuldades é plantar preocupações: "Primeiro, vamos esperar o problema. Depois vamos pensar na solução". Pais que agem dessa forma estão sempre às voltas com dificuldades. Não perceberam que o objetivo da educação é nos ajudar a evitar situações de dificuldade. Uma boa educa- ção alimentar, por exemplo, evita transtornos digestivos. A educação física que corrige a postura, exercita os músculos e ajuda a queimar calorias consumidas em excesso coloca-nos a salvo de vários inconvenientes. A educação espiritual apro- xima-nos de Deus, desperta nossa sensibilidade para a frater- nidade e liberta-nos do egoísmo, do excesso de preocupações com a vida material. 161
  • 160. AMÉRICO CANHOTO O papel de cada um Nossos familiares devem saber o papel que lhes cabe na reestruturação da família para que os objetivos sejam atingidos. Para tanto, os deveres e as obrigações de cada um devem ser bem definidos. As crianças da nova geração têm uma noção muito clara de quais são seus deveres e, quando os adultos per- mitem, assumem suas responsabilidades com naturalidade. Devemos evitar repetir os erros de mães que poupam seus filhos das tarefas domésticas, mas, na idade adulta, jogam neles a culpa de seus problemas de saúde, supostamente causados pela sobrecarga de trabalho no lar. Essa atitude provoca sérios transtornos nos relacionamentos familiares, causando traumas que, por vezes, as pessoas carregam durante toda a existência. A definição de tarefas nos dá a oportunidade de par- ticipar. Membros participativos podem suprir a ausência de outros. Se a esposa, encarregada da alimentação da família, adoece, um dos familiares, preparado para executar essa tarefa, assume a responsabilidade sem a necessidade de ser pressio- nado para executá-la, e assim por diante. As reavaliações são importantes Certamente, iremos encontrar algumas dificuldades. Para discutir como enfrentá-las e tomar decisões, nada melhor do que realizar reuniões familiares, que devem ser promovidas não apenas para resolver problemas, mas para evitá-los. 162
  • 161. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Algumas famílias desenvolveram o saudável hábito de estudar o Evangelho no lar e aproveitam esse momento tão especial para, por intermédio da leitura e dos comentários a respeito dela, promover uma reciclagem dos hábitos familiares. Vale ressaltar que essas reuniões em torno do Evangelho não têm por objetivo acusar, muito menos menosprezar alguém au- sente. Trata-se de uma saudável oportunidade para, a partir dos ensinamentos de Jesus, adequar-nos a uma nova forma de entender aqueles que nos rodeiam, respeitá-los e perdoá-los de suas faltas. As páginas espelham lições de amor, fraternidade e caridade, o que mais necessitamos para viver melhor. No corre-corre da vida moderna, um mural ajuda. Um painel colocado na cozinha, por exemplo, é muito prático. Pro- curemos ajudar nossos familiares em suas tarefas escrevendo lembretes breves e amistosos. Da nossa parte, sejamos re- ceptivos a esse correio fraterno: "Obrigado pelo lembrete!", "Se não fosse você, eu teria esquecido", podemos anotar em retribuição; e na era eletrônica um arquivo reservado no com- putador, de uso comum e no qual todos possam expressar sua opinião, é de grande valia. No entanto, o diálogo, o contato físico, a carícia e as relações humanas são insubstituíveis. Estudo dos conflitos De nossa atual condição evolutiva, decorrem os conflitos que enfrentamos na vida familiar. O hábito do diálogo, ainda tão pouco cultivado, é ferramenta útil tanto para prevenir quanto 163
  • 162. AMÉRICO CANHOTO para resolver problemas observados. Por mais polêmica que seja uma questão, deve ser esmiuçada e debatida em família. Todos devem participar. Nessas ocasiões, quando incentivadas a ma- nifestar-se, as crianças da nova geração costumam surpreender ao apresentar soluções geniais para problemas aparentemente considerados insolúveis. RECICLAGEM DO EDUCADOR O tempo todo, e em qualquer lugar onde nos encon- trarmos, somos educadores. Para que os resultados dos nossos esforços em prol de uma vida familiar melhor sejam mais pro- dutivos, é preciso nos capacitarmos para as tarefas que nos aguardam. É necessário rever e atualizar nossos conhecimentos. Se até os professores precisam de reciclagem contínua, por que nós, pais, conscientes de nossa condição de educadores, nos omitimos quanto a essa tão necessária providência? Há muitas formas de atualizar nossos conhecimentos: uma delas, a mais prática, é por intermédio de bons livros. Outro recurso são os meios eletrônicos: com facilidade, podemos de- senvolver nossas próprias pesquisas e trocar impressões com as pessoas interessadas, como nós, no bem-estar da família. Cursos, seminários e palestras também são de grande valia. Exigem um dispêndio financeiro, mas, sem dúvida, é um dinheiro muito bem aplicado... Os educadores são, acima de tudo, semeadores. 164
  • 163. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S É lógico que não basta oferecer condições adequadas de educação. É preciso que o educando seja receptivo. Cabe aos envolvidos na educação motivar a criança para que não des- perdice essa valiosa oportunidade de crescimento. Alguns passos que os pais devem dar: • Avaliar a importância do filho em sua vida. Esta é uma prioridade? Ou vem após seu trabalho profissional e sua vida amorosa, familiar e social? • Admitir a necessidade de melhorar a si mesmo, o que exige o desenvolvimento de uma virtude: a humildade. • Evitar julgar os outros. Aprender a calar-se. • Assumir os próprios erros. Evitar culpar os outros ou envolvê-los em seus fracassos. • Riscar do seu dicionário as expressões "sorte", "falta de sorte" ou "destino" - conceitos criados pelo homem para justificar sua incompetência em fazer suas escolhas. • Estudar. Debater. Assistir a palestras. Se necessário, buscar ajuda profissional. ESCOLA DE PAIS São raras as pessoas preparadas para serem pais. Em geral, ingressamos na fase adulta despreparados para assumir responsabilidades ou mesmo discerni-las. A razão dessa 165
  • 164. AMÉRICO CANHOTO ocorrência generalizada é que não fomos preparados para tanto. Algumas escolas particulares e da rede pública voltaram suas preocupações nesse sentido: realizam reuniões periódicas com a intenção de engajar os pais no processo educativo. Não se trata de encontros nos quais apenas se discutem o desenvolvi- mento dos alunos e seu comportamento escolar, mas também de motivação a pais e mestres para, juntos, atingirem um objetivo: educar com qualidade. É de se lamentar que aqueles pais que mais necessitam comparecer a essas reuniões, cujos filhos estão vivendo sérias dificuldades, não participem desses encontros tão importantes para o bem comum. Em geral, são pais que não se esforçam para superar os problemas que estão enfrentando. Acomodam-se e relegam a educação dos filhos a suas menores preocupações. Acreditam que pagar as contas, suprir as necessidades básicas da família e, vez por outra, cobrar providências seja o suficiente. Vão despertar dessa acomodação quando o filho for reprovado ou expulso da escola, cometer algum delito ou tornar-se depen- dente de drogas. Nunca é tarde para exercer nossa condição de pais, mas lembremo-nos do dito popular: "E melhor prevenir do que remediar". Faz-se necessário ter humildade para aceitar que estamos despreparados para exercer nossa condição de pais-educadores. Entender nossa limitação e buscar nos adaptar ao que se es- pera de nós é dever de cada um. Pais e professores devem se empenhar no seu contínuo aperfeiçoamento. Escola, família e sociedade devem trabalhar em conjunto. 166
  • 165. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S EDUCAÇÃO COMPARTILHADA Compartilhar é dividir sem cobrar ou exigir. Compartilhar é dividir o que possuímos. Se não rece- bemos educação conveniente, como compartilhar algo que não possuímos? Pais descuidados com a vida repassam essa atitude para os filhos. Reconhecer nossas limitações é despertar para a educação continuada. Por outro lado, ter ciência de nosso despreparo e permanecer de braços cruzados será desperdiçar nossos talentos e nos condenar a viver com a culpa e o remorso. Aprender é tentar. O erro é apenas um acidente de percurso. Alguns pais procuram fugir de suas responsabilidades ao transferir a educação dos filhos a outras pessoas. No futuro, a vida lhes ensinará quanto essa decisão foi responsável pelas amarguras e desilusões que podem vir a colher. Existem aqueles que se confessam incompetentes para educar e agem dessa forma apregoando sua condição de inabilitados, como se essa atitude pudesse retirar-lhes sua responsabilidade nos possíveis desdobra- mentos dolorosos. A realidade é bem outra: pais nessa condição, mas que aprendem a educar com os próprios erros e persistem em ajudar seus filhos a evoluir, obtêm resultados muito superiores àqueles que delegam sua responsabilidade a parentes ou profissionais. 167
  • 166. AMÉRICO CANHOTO Compartilhar não é ditar ordens ou fazer discursos. Compartilhar é um exercício de sabedoria, no qual é pre- ciso engajar a criança e motivá-la a aprender conosco. Ela deve ser estimulada a raciocinar, decidir e, depois, arcar com as con- seqüências de suas escolhas. Devemos permitir que ela experi- mente as conseqüências de seu aprendizado, poupando-a de comentários negativos: "Eu sabia que isso ia acontecer"; "Eu bem que avisei..." Nossa atitude educativa é ajudá-la. Dessa forma, con- quistaremos sua confiança: a criança enxergará em nós um amigo, um parceiro, não um promotor público a acusá-la a toda hora... É claro que devemos alertá-la para as escolhas que está fazendo: "Meu filho, venha cá: já passei por isso. Fiz a mesma coisa que você está fazendo. Quer saber o que aconteceu comigo?" Nossa experiência de vida, se transmitida por intermédio de exemplos, será levada em consideração. As crianças em geral adoram ser educadas com um mínimo de inteligência, amor e respeito. Impor nossa pretensa sabedoria é uma simples perda de tempo. A ARTE DE EDUCAR Reciclar nossas crenças deve ser um exercício diário e sistemático para que automatizemos essa disposição em nosso 168
  • 167. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S inconsciente. Somente dessa forma seremos capazes de res- ponder a uma pergunta que um dia poderemos fazer a nós mesmos: "Onde foi que eu errei?". Identificado o engano, de- vemos tratar de corrigi-lo. Em benefício da família, podemos perguntar a nossos filhos - antes que os problemas surjam - se estamos sabendo lidar com eles. Educar com alegria e prazer Parte dos conceitos que adotamos no dia-a-dia foi incorpo- rado da cultura e do meio onde vivemos: todos os dias ouvimos dizer que ter filhos e educá-los é uma tarefa difícil, que é loucura ter mais do que um. Se dermos crédito a essas crenças, seremos prejudicados em nosso propósito de nos tornar eficientes edu- cadores daqueles a quem a divina providência nos entregou. Ao contrário, ter filhos é extremamente gratificante. Nós nos sentimos realizados e recompensados em saber que lhes proporcionamos a oportunidade de reencarnar por nosso intermédio. As dificuldades que enfrentamos para criá-los e educá-los são as mesmas que temos em todos os empreendi- mentos nos quais nos engajamos. A dedicação, a perseverança, o trabalho e a determinação nos auxiliarão a superar todas as barreiras. Toda criança tem um sonho secreto: ter pais palhaços... 169
  • 168. AMÉRICO CANHOTO As crianças merecem nossa atenção, o tempo todo, sempre que possível. Quanto maior for o tempo do qual dispusermos para ficar a seu lado, melhor para elas e para nós. Se o fizermos com disposição e alegria, conseguiremos cativá-las: elas se sen- tirão à vontade em nossa companhia. Música, teatro e bons livros ajudam a aproximar as crianças dos pais. Mesmo aquelas mais resistentes e resmungonas não resistem às brincadeiras saudáveis que podemos criar. Improvisar uma comédia, um teatrinho no qual os per- sonagens sejam os próprios familiares vai provocar reações hi- lariantes. Experimente também, depois de assistir a um filme ou peça de teatro, perguntar a seu filho qual dos personagens parece mais com você. As novas crianças adoram esse tipo de brincadeira. Suas reações são imediatas: elas têm o poder de envolver outras crianças e os resultados serão os mais anima- dores possíveis. Impor é desrespeitar Exercitar o uso da liberdade é nosso grande desafio. Quem pensa com clareza e persevera em suas considerações não aceita imposições sem sentido claro, lógico. A educação à moda antiga, que cultivava em excesso a prerrogativa do poder - "é assim porque eu quero" ou "porque sim" -, esgotou-se... Pessoas com inteligência acima da média resistem a imposições discutíveis (como as leis humanas que não se integram com- pletamente às leis da evolução). A primeira e natural reação 170
  • 169. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S dessas pessoas é boicotar a imposição de forma velada, mais comum, daquela às claras. Preferimos receber sugestões que sejam adequadas a cumprir ordens sem sentido. Nossos filhos acatarão muito melhor nossas ordens se as transmitirmos como instruções simples e raciocinadas. Isso não significa perda da autoridade, mas brandura no seu exercício. Recorrer a comen- tários mordazes, do tipo "Quem pode manda, quem não pode obedece", simplesmente afasta de nós aqueles que poderiam ser nossos aliados na reestruturação do lar. Precisamos en- tender que a verdadeira liderança não é conquistada pela força, mas pelo carisma. A história da humanidade está repleta de exemplos que comprovam essa afirmação. As pessoas mais maduras (não importa a idade cronoló- gica) tendem a resistir à intolerância, à prepotência e à falta de coerência. A condição de educador exige a habilidade de dar ordens entendidas como razoáveis. As crianças que estão nascendo por toda parte são resistentes à voz de comando autoritária, ditatorial. Falar menos e agir mais A didática do falar muito e não agir de acordo leva a um desastre educativo. Quando a criança descobre que há no mundo muitas pessoas além dela, começa a buscar seu limite e desenvolve uma natural tendência de contrariar o que o adulto tenta impor apenas para manter o poder. Neste mundo cada vez mais interativo, inclusive por causa da ajuda da mídia, a 171
  • 170. AMÉRICO CANHOTO criança descobre que o poder pode ser exercido sem o uso de nenhum tipo de força... Quando o adulto é incapaz de se fazer obedecer, perde as estribeiras e agride verbalmente a criança. Alguns pais alegam a necessidade de "dar uns tapas" nos filhos para discipliná-los. É comum presenciarmos a reação de crianças tratadas dessa forma em público: gritam e esperneiam, para constrangimento dos pais. Costumam também adoecer, como forma de revidar a agressão recebida. Pais descuidados usam a contradição como recurso pedagógico. Alguns pais usam de um paradoxo destruidor: falam para a criança fazer o que não desejam, ou seja, dizem o con- trário do que esperam dela. Essa prática absurda dá resultados por pouco tempo e causa sérios transtornos. A criança deve receber ordens claras e não viver, desde cedo, num mundo de contradições. A falta de honestidade não é só roubar alguma coisa, ludibriar para tirar proveito ou enganar alguém. Mais do que isso, é pensar uma coisa, dizer outra e agir de forma diversa. Esse comportamento, além de contraditório, é desonesto. Por exemplo, quando ajudamos nossos filhos a fazer a lição de casa, somos movidos pelo desejo de incentivá-los a es- tudar ou estamos preocupados que eles sejam reprovados e nos causem constrangimento diante da família e dos amigos? Se 172
  • 171. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S nossos filhos estudam numa escola particular, nós os ajudamos pensando no dinheiro que vamos desperdiçar caso sejam re- provados? A criança que, nos primeiros anos de estudo, recebe esse tipo de ajuda dos pais, no futuro poderá enfrentar dificul- dades na vida afetiva, social e profissional. A ajuda que recebeu não foi prestada com amor, pois escondia outras motivações. Tudo por amor. Aprendemos e repassamos esse modelo de comporta- mento sem questioná-lo. Não se trata de incapacidade de nossa parte, e sim receio de assumir uma postura responsável, de en- frentar a realidade dos fatos. E, assim, vamos levando a vida enganando a nós mesmos. Agimos com segundas intenções, as quais camuflamos de nós mesmos. As crianças da nova gera- ção são sensíveis a esse tipo de situação e sofrem mais quando são vítimas de pais que agem dessa forma. Vale a pena reciclar nosso conceito de amor, que é tão misturado com apego, sen- timento de posse... Averdade acimadetudo Neste contexto, da educação infantil até a universidade, aprendemos a fazer pequenas trapaças cujas conseqüências um dia nos atingirão. Boa parte da desordem em nossas relações sociais e até mesmo entre as nações se deve a esse expediente, falsear com a verdade. 173
  • 172. AMÉRICO CANHOTO A arte de ficar calado deve ser exercida. Se não soubermos o que dizer, é melhor calar. Vale mais admitir nossa ignorância e calar. Pais que recorrem a meias-verdades deseducam os filhos. Neste mundo, mentimos demais. Durante um único dia, a maior parte das pessoas vive mais na mentira do que na verdade. Algumas mentem tanto que automatizam esse com- portamento e não conseguem mais distinguir entre o que é verdade ou não. Confundem realidade com ilusão e, nesse contexto, a verdade é a expressão da verdadeira intenção e a mentira é a que tem intenção de enganar, ludibriar. Viver fora da verdade prejudica a criança da nova geração. As crianças em geral são sinceras e espontâneas. Falam o que estão sentindo e transmitem suas impressões com sinceri- dade. Quando educadas por pais que lhes ensinam as chamadas mentiras convenientes, ou sociais, confundem-se. As da nova geração, em especial, sofrem mais quando pressionadas a agir dessa forma. Um exemplo bem corriqueiro: toca o telefone, a criança atende. O pai não quer atender e manda dizer que não está. Uma tempestade desaba no lar quando ela, ao telefone, responde: "Meu pai mandou dizer que não está" e desliga o aparelho. A transparência automática da criança progressista incomoda os pais. Se desejamos a felicidade e a harmonia familiar, deve- mos abolir o hábito de usar e abusar das segundas intenções. 174
  • 173. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Na presença de nossos filhos ou longe deles, deixemos de lado esse tipo de expediente, para o qual não existem justificativas. Certamente estaremos remando contra a maré: a maioria das pessoas emprega a fala de acordo com suas conveniências. Um desafio: provar aos nossos filhos que eles podem ser diferentes Devemos incentivar nossos filhos a serem diferentes da maioria das crianças no aspecto do uso da ética e da moral. Não se trata de inspirar neles o espírito de competição, mas sim do desenvolvimento do senso crítico, da postura ética e do autoconhecimento. Sejamos nós a ensiná-los quanto os pre- conceitos são perigosos para sua formação e como é importante amparar, socorrer, perdoar, compreender e conviver com os outros sem impor condições ou exigências... Nenhum conhecimento pode ser aplicado sem esforço. Falar apenas não adianta. Falar uma coisa e fazer outra é pior ainda. É preciso que se permita à criança viver a si- tuação para que a experiência seja repetida quantas vezes seja necessário para que seja arquivada no seu subconsciente e se automatize como um impulso, uma tendência. Chega de brincar de faz-de-conta. Os pais não devem perder tempo e recursos em busca de remédios miraculosos 175
  • 174. AMÉRICO CANHOTO para mudar os hábitos dos filhos. Tudo se faz com conhecimento e trabalho sob a ação do tempo. Quando observamos e avaliamos algo, não devemos ter medo de fazer errado. É errando e acertando que aprendemos. O cuidado a tomar é não aplicar de forma imediata as opiniões alheias sem avaliá-las, sejam de quem for. Preocupo-me quando vejo pais em busca de botões má- gicos para apertar. Remédios que tornem as crianças mais obe- dientes, submissas, cordatas, inteligentes, éticas. Ou quando buscam profissionais que sejam capazes de "abrir a cabeça" da criança para mudar seu comportamento. Nossa preocupação deve ser com o futuro dessas crianças, rotuladas de problemá- ticas por pais que abrem mão do desenvolvimento da compe- tência delas. Um mínimo de conhecimento e uma pitada de maturidade somada a boa vontade são suficientes para começar a reverter esse quadro. Aprender a dar tempo ao tempo Nem sempre, nesta existência, ceifamos o que plantamos, pois é possível colher os frutos que semeamos num futuro mais remoto. É mais acertado aprender a nos concentrar no que se- meamos no subconsciente de nossos filhos - bons hábitos, con- ceitos verdadeiros, valores morais - e nos despreocupar com a colheita dessa semeadura. Os bons frutos virão a seu tempo, o que independerá da nossa vontade. Vivemos num mundo que funciona rapidamente, tipo fast, em que somos cobrados a fazer 176
  • 175. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S tudo para ontem e também, é claro, cobramos de nós mesmos, dos outros e da vida um retorno rápido, que satisfaça nossos interesses e expectativas. As pessoas não mudam do dia para a noite. É impossível modificar em alguns meses o que foi assi- milado em anos de ensinamento inadequado, muito menos as tendências, impulsos e compulsões que trazemos ao nascer. Não bastam algumas palavras e tentativas para que, num piscar de olhos, alguém se modifique para melhor. Não devemos nos preocupar com a mudança de hábitos e atitudes dos filhos, mas ensinar-lhes e exemplificar a postura correta, o padrão adequado de conduta. Quando eles irão co- locar nossos ensinamentos em prática já está além da nossa res- ponsabilidade. Vamos limitar nossas cobranças a nós mesmos, cobrar mudanças do próximo é falta de bom senso. Quem gosta de ouvir: "Quando é que você vai parar de reclamar?"; "Ainda não aprendeu o que eu ensinei?"; ou "Será que só depois da minha morte você vai dar valor para minha opinião?"... Seres humanos não são robôs. Não há botões para apertar. Nem fórmulas mágicas para padronizá-los. Crianças são espíritos que recebemos para enca- minhar na vida. Cada uma é um desafio único para nosso pro- gresso. Muito se fala em aprender a lidar com as diferenças, mas 177
  • 176. AMÉRICO CANHOTO como podemos aceitá-las se não aceitamos que nossos filhos sejam diferentes? Comecemos, em nosso lar, a viver as diferenças com bom humor e alegria. Não basta adquirir conhecimento, é preciso cultivar a boa vontade para aplicá-lo. Como e onde aprender? Teoria sem prática é como a fé sem obras. Estudar, ler e informar-se são práticas importantes, pois sempre acrescentam algo, embora, ao final de uma palestra ou de um curso, sintamos dificuldade para colocar a teoria na prática. Não podemos nos intimidar diante das dificuldades e das aflições que venhamos a enfrentar. Bem-aventuradas a dor e a aflição que obrigam a evoluir. O sofrimento impulsiona nossa evolução. A dor nos ajuda a não incorrer nos mesmos erros. A criança deve ser educada a aprender com o sofrimento que já está em andamento - uma das nossas metas é exatamente provar à criança que sofrer para aprender é desnecessário. Quando uma criança impulsiva e agressiva é contrariada, perde o controle e quebra um brinquedo ou um objeto qual- quer. O melhor a fazer é não repor o brinquedo ou o objeto danificado. Ao sofrer a perda, a criança refletirá sobre a neces- sidade de mudar seu comportamento. 178
  • 177. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Quer evitar que a criança peça tudo aos gritos ou chorando? E simples: jamais lhe dê algo ou atenda a seus desejos en- quanto ela não falar baixo, com respeito; deixe claro que, cho- rando ou gritando, ela não vai conseguir nada. Os pais nunca devem desistir de ajudar os filhos. Apenas é preciso que fique bem claro que ajudar não é fazer a tarefa do outro nem tentar controlar sua vida. Fechar as portas e cortar re- lações indica prepotência e falta de caridade. Atitudes que não devem ser confundidas com disciplina e severidade. Se desistirmos de ajudar um filho, ele pode desistir de querer continuar vivendo. Não há regras para amar Os pais devem fazer tudo do jeito mais fácil, alegre e praze- roso. Ao ouvirmos: "Como é difícil educar os filhos", vamos pensar "Eu também já cometi esse engano". Aceitar nossos filhos como eles são é a melhor atitude da nossa parte, assim como respeitar seu modo de ser revela nosso bom senso e humildade. Esse é o maior, mais simples e eficaz ato de amor que podemos ofertar. Dizer sempre sim, qualquer um é capaz. Agradar aos filhos não deve ser nossa meta. É preciso dis- cernimento e clareza de intenções para dizer um "não". Os pais 179
  • 178. AMÉRICO CANHOTO têm de aprender a desenvolver a competência para dizer não na hora certa. Respeitar não é fazer as vontades e o gosto de quem quer que seja. Em lares estruturados, as normas da casa são justas, simples, claras e eficientes. LEIS BÁSICAS DA VIDA: ENSINO OBRIGATÓRIO Diz o bom senso que devemos conhecer as leis do lugar onde nos encontramos ou para onde vamos. Para que a qualidade de sua vida seja mais adequada, a criança precisa ser auxiliada a conhecer as leis divinas. Nesse caso, as da nova geração levam vantagem, pois nascem conhe- cendo a legislação divina de forma intuitiva. Elas enfrentam sérios problemas quando os adultos as impedem de agir em con- formidade com essas leis. Essa repressão gera um conflito psico- lógico capaz de conduzi-las a distúrbios afetivos, emocionais, de comportamento social e até a doenças. Por sua vez, elas tentarão, a todo custo, provar que os adultos estão equivocados. Entender e aplicar a Lei de Causa e Efeito E preciso permitir que a criança sinta integralmente os efeitos de suas escolhas até que aprenda que a Lei de Ação e 180
  • 179. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Reação é inevitável. Poucas vezes, o adulto assume a responsa- bilidade sobre os efeitos de seus atos e escolhas menos felizes, pois não foi educado para isso. No mundo em transição em que vivemos, daqui para a frente, raras vezes as pessoas vão conseguir levar alguma mentira para o túmulo: se tinha pernas curtas, doravante nem pernas mais terá... Será cada vez mais fácil provar aos nossos filhos que o crime não compensa, que a era dos espertalhões está no fim... E não apenas pensar para fugir da dor, do sofrimento e dos problemas. Prevenir é revelar sabedoria. A nova criança entende com incrível clareza a necessidade de prevenir. O processo educativo exige erradicar o mal, que é a verdadeira prevenção. Muitas pessoas imaginam que prevenir é cercar-se de medicamentos que aliviam os sintomas causados por seus vícios. Não se trata disso. Exageram na alimentação, fumam, consomem bebidas alcoólicas e depois recorrem à assistência médica para amenizar os efeitos dos vícios. Responsabilizar-se pelas próprias escolhas Aquele que, o tempo todo, culpa os outros, as situações, os acontecimentos ou até Deus pelo que lhe acontece ainda é 181
  • 180. AMÉRICO CANHOTO um arremedo de humano. Para evoluir, a criança deve apren- der a não culpar os outros pelo mal que causou a si mesma. As crianças da nova geração não culpam os outros. A criança progressista não vive se desculpando nem usando de justificativas para evitar suas obrigações. Dá o que fazer para conseguir que essa criança peça desculpas - ela gosta de fazê-lo com mudança de atitudes e não apenas verbalizando; para ela é difícil entender como os outros não fazem o mesmo. Caridade, caminho de evolução É um descuido levar a criança a crer que só o sofrimento nos ajuda a evoluir. Devemos incentivá-la a praticar o bem e ser solidária, indulgente e fraterna. É obrigação dos pais deixar claro aos filhos que só se alcança a felicidade praticando o bem ao próximo. Eles devem ser ensinados a perdoar sempre, pois é uma atitude inteligente e não apenas um comportamento ético, moral ou religioso. Na exata medida em que nos capacitamos a perdoar, receberemos dos outros o mesmo sentimento. É preciso que se en- tenda com absoluta clareza a lógica do perdão. Não se deve pedi-lo apenas como hábito, para não nos viciar em desculpas, mantendo porém um padrão repetitivo e inadequado de comportamento. Vale a pena lembrar que ninguém suporta pessoas que vivem abusando de segundas intenções por muito tempo. A 182
  • 181. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S atitude de viver com clareza e transparência para muitos parece impossível de ser colocada em prática, mas não é e pode ser aprendida com as crianças da nova geração que nos rodeiam. Para isso, é preciso que respeitemos as condições e o momento das pessoas. Nosso dever é fazer nossa parte: perdoar. Lei de justiça As crianças progressistas têm um adequado senso de justiça, uma de suas características mais marcantes. Somos interdependentes. Ao pensar e escolher, criamos nosso destino. Construímos o futuro e também interferimos na vida das pessoas. Quanto mais forte for a relação afetiva do outro para conosco e menor sua soberania emocional, mais nossas escolhas vão causar distúrbios nele. Nossas atitudes afetam os outros tanto de forma positiva quanto negativa. Lei de retorno A criança deve ser auxiliada a perceber que todos os pen- samentos que emitimos retornam até nós. Familiarizada com essa lei, ela desenvolverá soberania emocional para entender que o momento presente de cada um tem tudo a ver com seu passado, que não adianta fugir das lições a serem aprendidas nem das reparações exigidas. 183
  • 182. AMÉRICO CANHOTO A simples percepção de que o presente decorre das es- colhas passadas não pode servir de justificativa para permane- cermos inertes sob pena de prejudicarmos nossa qualidade de vida futura. Muito menos devemos cruzar os braços perante as dificuldades do próximo, imaginar que ele merece ou precisa viver aquela experiência integralmente. As crianças progressistas intuitivamente sabem disso e nunca perdem a chance de ser úteis: sentem-se compelidos a ajudar os mais necessitados, evitando porém envolver-se nos seus sofrimentos. Elas sabem da necessidade de desenvolver a so- berania emocional que nos capacita a pensar melhor para encon- trar formas mais simples de resolver os problemas do presente. Lei de sintonia Quando pensamos, emitimos ondas eletromagnéticas que compõem um padrão vibratório particular e entramos em sintonia com padrões vibratórios semelhantes. As crianças pro- gressistas, embora nascendo por toda parte, ainda são minoria e tendem a sentir-se incompreendidas e isoladas. Mesmo assim, em geral, têm reações positivas e tendem a agrupar-se para melhor desempenhar sua missão. Lei da relatividade Os fenômenos que regem a vida obedecem à lei da re- latividade no tempo e no espaço. É fácil e necessário ajudar 184
  • 183. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S a criança a usar a lei da relatividade na interpretação dos acontecimentos. Tudo tem seu momento próprio de desen- volvimento: algumas pessoas compreendem essa lei mais fa- cilmente do que outras. As crianças da nova geração não se deixam apressar tanto pelas situações nem pelas pessoas. Na maior parte das vezes, são confundidas com hiperativas: executam muitas tarefas ao mesmo tempo, mas dão conta delas e são capazes de terminar todas com boa qualidade. O mesmo não ocorre com o hi- per ativo, que não é capaz de terminar aquilo que começou e quando o faz suas tarefas são mal-executadas. Lei de progresso Tudo no universo é regido segundo as leis de Deus. Na equação seqüencial da evolução, a constante é o resultado das escolhas anteriores ou do passado. A variável capaz de mudar o resultado (o futuro) é a liberdade de pensar, criar ou interferir no presente. Um detalhe importante que ignoramos freqüentemente é que somos responsáveis por nossas criações. Progredir, sim, mas com a liberdade regulada pela responsabilidade, esse é nosso destino. O respeito ou desrespeito a essa lei transforma o pro- gresso humano em atitude ativa ou passiva. A criança da nova geração é bem ativa e determinada. Se você negar algo que ela deseje fazer, prepare-se para explicar bem os motivos: se não forem lógicos, a birra é certa, e ela vai continuar insistindo. 185
  • 184. AMÉRICO CANHOTO Sistemas de crença Crer ou deixar de acreditar nas leis de Deus não as modi- ficam, apenas alteram as ocorrências que estamos vivenciando. A criança deve compreender se ela acredita ou não em algo, no entanto isso não muda a realidade das coisas e dos fatos. Tratando-se da fé religiosa, se os pais conseguissem ao menos fazer com que as crianças assimilassem a lei mosaica "Não tomarás em vão o nome do Senhor, teu Deus"*, daríamos um grande passo na direção da paz. Para que a criança seja capaz de assimilar suas responsabilidades, é preciso que o adulto dê o exemplo e evite repetir refrões do tipo: "Deus quis assim!"; "Essa é a vontade de Deus"; "Deus sabe o que faz"; "Estamos nas mãos de Deus"... Para as famílias que se guiam pelo Evangelho, apenas duas das leis nele contidas são aplicadas ao dia-a-dia e suficientes para que progridam com o mínimo de sofrimento: "Vigiem e rezem."** A criança deve aprender a vigiar a si mesma - seu modo de pensar, sentir e agir - e entender que não deve perder tempo e energia para vigiar os outros; isso, entre outras coisas, é falta de consideração. Sempre que se possa relacionar uma situação * Êxodo, 20: 7. (N.E.) ** Mateus, 26: 41. (N.E.) 186
  • 185. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S desagradável vivida pela criança que tenha sido criada com a ajuda de uma característica da sua personalidade, essa chance não pode ser desperdiçada. Por exemplo, a impaciência que traz consigo a demora, a complicação; a ira que a leva a atirar e até quebrar objetos... "Ame o seu próximo como a si mesmo."* Esse postulado tão sintético e tão amplo abrange tanto a Lei de Ação e Reação quanto a lei da interatividade que regula a vida de relações. A lei da caridade é uma das mais importantes matérias no curso de educação humana. De geração em geração, somos mestres em repassar con- ceitos importantes de forma descuidada segundo nossos in- teresses. Costumamos fazer de conta que não sabemos o que podemos e o que devemos fazer em benefício das pessoas. Claro que a criança copia o adulto e sente apenas dó ou pena dos deserdados da sorte: raramente é ensinada a trabalhar em favor do próximo. Esse é um descuido que pode levar a sofrimentos desne- cessários. No dia de hoje, podemos possuir muito, mas amanhã é possível que nos encontremos em dificuldade. Nesse caso, não nos contentemos em saber que se apiedam dos nossos so- frimentos. Vamos querer receber ajuda. No momento em que a Terra vive uma grande transição, não podemos fechar os olhos * Levítico, 19: 18. (N.E.) 187
  • 186. AMÉRICO CANHOTO a essa possibilidade: quando precisarmos de ajuda, seremos so- corridos segundo nosso merecimento. Mas, afinal, o que é caridade? Doar o que para nós não tem mais utilidade ou contri- buir com algum dinheiro em favor de uma boa causa é um bom começo para iniciar a criança na arte da caridade. No entanto, nada substitui a caridade do convívio fraterno: o sorriso com- preensivo, a palavra de alento endereçada a quem perdeu a esperança. Os indivíduos progressistas são bons amigos e con- selheiros, mesmo quando crianças, a seu modo, são capazes de expressar amor e solidariedade ao próximo. 188
  • 187. A criança precisa de nosso ajuda para perceber que somos interdependentes e que o espaço de uma pessoa e o conjunto de seus direitos terminam n o momento em que começam os do próximo.
  • 188. ALGUNS DISTÚRBIOS DO COMPORTAMENTO PODERIAM SER EVITADOS SE NÓS, ADULTOS, PRESTÁSSEMOS MAIS ATENÇÃO ÀS CRIANÇAS, ANALISANDO SUAS ATITUDES, IMPULSOS E TENDÊNCIAS NATURAIS
  • 189. Se a educação fosse orientada também para o lado prático da vida - as necessidades do cotidiano -, a maior parte dos problemas que nos atingem na idade adulta seria evi- tada ou não assumiria proporções capazes de prejudicar nossa qualidade de vida. Na saúde "Essa criança vive doente." Costumamos reclamar e muito das doenças da infância. Pouco ou nada aprendemos com elas. Entre outros descuidos causados por nossa educação deficiente, não estamos prepa- rados para observar as tendências inatas da criança para adoecer, nem sabemos diferenciá-las daquelas que se originam de seus hábitos ou de seu estilo de vida, ocasionados por vícios ou ma- nifestações emocionais. Entender a origem e a causa das doenças, bem como seu tratamento e cura, faz parte de uma complexa cultura, repassada de geração a geração. Muitas pessoas atribuem as doenças à falta de sorte, ao destino de cada um, e acreditam nessas cren- dices, sofrendo suas conseqüências. Observamos que nossos pequenos descuidos, agravados por doenças crônicas, como diabete, rinite, sinusite, asma, bronquite, hipertensão, câncer, displasias, gastrite, causam repercussões cada vez maiores. Caso continuemos a viver sob a ação desses paradigmas - superstições sem fundamento -, 191
  • 190. AMÉRICO CANHOTO nossas crianças podem enfrentar muitos riscos. É dever dos pais buscar entender por que os filhos sofrem a ação de deter- minados males e as causas de sua enfermidade. Nos hábitos Os hábitos são transmitidos de uma geração a outra. O que era considerado bom para a saúde hoje pode ser nocivo e até perigoso. Repetindo o que ouvimos de nossos pais, criaremos filhos glutões, futuros candidatos à obesidade e diabete: "Esse menino é bom de boca: come bem e quer comer a toda hora!" "Se ele quiser, dou; afinal, quanto mais se come, mais saúde se tem." "Se você comer tudo, vai ganhar aquela sobremesa gostosa." Esses e muitos outros pequenos e saborosos descuidos le- vam os filhos a ter um futuro com problemas de saúde. Pequenos descuidos contribuem para criar viciados em refrigerantes, estimulantes e até álcool: "Deixa ele experimentar, um pouquinho só não faz mal." 192
  • 191. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Muitos adultos, que não imaginam o alcance desse tipo de atitude, divertem-se com a reação do bebê ao ingerir um gole de refrigerante... Pequenos descuidos ajudam a criar fu- turos insones, desmemoriados, míopes, sedentários: "Pelo menos, enquanto ele assiste à televisão nos deixa em paz." "Videogame é bom para ativar os reflexos..." No comportamento Alguns distúrbios do comportamento poderiam ser evi- tados se nós, adultos, prestássemos mais atenção às crianças, analisando suas atitudes, impulsos e tendências naturais. Para receber atenção, as crianças manifestam comportamentos es- tranhos. Nem sempre elas têm problemas; muitas vezes, o de- sajuste está na relação familiar. Se os pais não perceberem a razão de suas atitudes, a tendência será gravar esses padrões no inconsciente e manifestá-los quando adultos. "Esconde essas coisas que o filho de fulano vem vindo." Crianças que não param, que mexem em tudo, que in- vadem sem cerimônia o espaço dos outros nem sempre são hiperativos. As vezes, apenas copiam a conduta dos pais. 193
  • 192. AMÉRICO CANHOTO "Não suporto o choro dessa criança." Uma criança que se habitua a usar as lágrimas para obter o que deseja tende a ser um adulto inseguro, manipulador e depressivo. "Nossa filha já está com outro. Os jovens são assim mesmo: não querem compromisso." Alguns anos depois, a jovem volúvel torna-se uma adulta inconseqüente. Ninguém consegue ajudá-la: pula de um ana- lista para o outro... Na afetividade "Minha filhinha é muito ciumenta, não divide nada com ninguém." Crianças que agem assim enfrentam sérios problemas conjugais. "Que menino bravo, não aceita nem o carinho da mãe." O menino arredio aos carinhos dos pais provavelmente enfrentará muitas decepções em seus relacionamentos afetivos. 194
  • 193. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Nas tendências emocionais "Essa criança tem medo até da própria sombra." Sem perceber, alguém diagnosticou um surto futuro de síndrome do pânico. "Esse bebê tem um ar triste." Se dermos mais atenção a essa criança, no futuro existirá um depressivo a menos. "É uma criança meiga e carinhosa, mas que tem mania de arranhar e de puxar os cabelos." No adulto, esse tipo de comportamento é diagnosticado como transtorno bipolar. "Nunca vi criança tão ansiosa, fica roxa de tanto chorar." Crianças inquietas, impacientes e com distúrbios da an- siedade devem ser preservadas de estímulos intensos e persis- tentes. Não precisam, necessariamente, de medicação. 195
  • 194. AMÉRICO CANHOTO Na vida social Na vida social, crianças que apresentam distúrbios devem ser vigiadas mais de perto, especialmente as agressivas e com ímpetos para a violência. A manifestação mais agressiva e vio- lenta desse comportamento é observada na infância, quando a criança agride os irmãos ou até mesmo os pais. A criança aprenderá a conter-se, mas continuará agressiva, com ten- dência para ser violenta. Sob certos estímulos, poderá causar sérios prejuízos, os quais, muitas vezes, não conseguirá inde- nizar nesta existência... "Cuidado que lá vem o terror, essa criança bate em todo mundo." Mais tarde: "Fulano perdeu a cabeça e cometeu esse desatino". Na qualidade de vida "Essas crianças de hoje estão ligadas no 220; não param um segundo." "Essa criança é demais, tem energia para dar e vender; não sei como consegue dar conta de tanta coisa ao mesmo tempo." 196
  • 195. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Anos depois: "Fulano? Travou, está com estresse agudo, não consegue fazer mais nada". "Que criança linda: é gordinha e grande." Mais tarde: "Está fazendo tratamento para emagrecer. Até agora, não deu resultado". "Ela engorda fácil, mas também emagrece logo." Mais à frente, é uma adulta que sofre as conseqüências do efeito sanfona (engorda e emagrece, engorda e emagrece). Na aprendizagem "Essa criança é muito curiosa, não se distrai com um brinquedo nem por cinco minutos." "Seu filho tem problemas na alfabetização porque não é capaz de se concentrar." Mais tarde: "Sabe o fulano, perdeu o emprego de novo. Ele é muito desligado. Tudo o que ele fizer deve ser conferido, pois comete cada erro..." 197
  • 196. " A MUDANÇA DE PEQUENAS COISAS NA VIDA DA CRIANÇA É MUITO IMPORTANTE PARA SEU BEM-ESTAR
  • 197. RECURSOS DE GRANDE UTILIDADE Diário da criança Nada melhor para acompanhar a evolução da criança. Ao lado dos álbuns de fotografias, um bom caderno para fazer anotações. Além de registrar tendências e ocorrên- cias relativas ao desenvolvimento da criança, será possível comparar as fases e acompanhar seu progresso. Disciplina na rotina Alinhar nossa rotina ao ritmo biológico preserva a inte- gridade do corpo e da mente. Precisamos estabelecer horários para nos alimentar, dormir, praticar esportes, atividades físicas etc. Vez por outra, podemos quebrar a rotina. Dispensá-la, porém, nunca! Aqueles que não têm horário vivem ao sabor dos acontecimentos e causam a si mesmos sérios comprome- timentos de saúde. Atividade física Brincar é coisa muito séria: a criança necessita de ati- vidades lúdicas que envolvam também o trabalho corporal. A vida sedentária e a dieta inadequada são grandes causa- dores dos problemas de saúde da criança, prejudicando seu desenvolvimento. 199
  • 198. AMÉRICO CANHOTO Realização de coisas diferentes A mudança de pequenas coisas na vida da criança é muito importante para seu bem-estar. Por exemplo, mudar o trajeto que costumamos fazer nas andanças diárias, buscar en- sinar coisas novas, servir alimentos diferentes, levá-la a outros ambientes, incentivá-la a fazer novas amizades... Inovar é pre- ciso, pois a criança necessita sempre de novos estímulos. Desenvolvimento da espiritualidade Quando conseguirmos separar religião de religiosidade, muitas de nossas posturas e atitudes mudarão por completo. É importante estimular a religiosidade das crianças sem aprisio- ná-las em dogmas religiosos. Os pais devem evitar críticas às religiões. As crianças tendem para o aprendizado e a aceitação das diferenças com naturalidade e respeito, especialmente as da nova geração, que são muito curiosas e indagadoras. Seu senso crítico é mais apurado. Por vezes, manifestam percepções mediúnicas desde a infância. Geralmente, os pais ignoram que a mediunidade nos per- mite ver e conversar com espíritos, invisíveis para a maioria das pessoas, mas perfeitamente reais para outras. É o caso de muitas crianças que, durante horas, conversam e brincam com ami- guinhos invisíveis. O conhecimento da vida espiritual ajuda pais e filhos a entender melhor o mundo que os rodeia, inclusive o 200
  • 199. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S outro lado da vida. Vale a pena evitar dizer à criança que uma experiência vivida é imaginação dela, pois para quem tem vi- dência as situações são bem reais. Nesses casos, o melhor é buscar ajuda e conversar naturalmente com a criança a esse respeito. Aprendendo a compartilhar Substituir presentes de aniversário por alimentos a serem doados deveria entrar na moda. O hábito de festejar momentos importantes junto a crianças hospitalizadas ou residentes em creches e orfanatos deveria ser estimulado pela família. É comum pessoas pouco vigilantes tecerem críticas aos menos favorecidos que se encontram na condição de pedintes como se eles fossem preguiçosos ou aproveitadores. Outras de- senvolvem nas crianças um sentimento nefasto de dó, como se essas pessoas fossem deserdadas da sorte. As duas posturas são inadequadas. O correto é explicar à criança os verdadeiros motivos das desigualdades: dizer que nem sempre estão relacionados com a Lei de Causa e Efeito, pois muitas vezes a condição é de prova, com metas de desenvolvimento de qualidades morais. Ainda se vêem poucas crianças dedicando-se a trabalhos voluntários, talvez porque não sejam estimuladas ou muitas vezes sejam impedidas a engajar-se nessas tarefas. As da nova geração colocam-se sempre à disposição desde que os adultos permitam. A tarefa voluntária favorece o desenvolvimento da responsabilidade pelo compromisso assumido. 201
  • 200. AMÉRICO CANHOTO Começo e fim Felizes das pessoas que na infância tiveram alguém que as ensinou que tudo deve ter começo, meio e fim. Aquelas que desde cedo começam tudo e não terminam nada tendem ao fracasso em muitos aspectos de sua vida. Uma relação comum entre começar muitas coisas e terminar poucas acontece com a obesidade, por exemplo. Caso perceba esse tipo de comporta- mento na criança, crie para ela exercícios simples que tenham começo, meio e fim. Aprendendo a fazer amigos Está provado que pessoas com muitos amigos vivem mais e melhor. Somos seres gregários e nascemos para compartilhar experiências. Crianças que gostam de isolar-se são um indica- tivo de que possuem problemas afetivos e devem e podem ser solucionados antes de causar maiores danos. Observemos o comportamento dos amigos de nossos filhos. Eles podem nos dar pistas das tendências ou carências de nossos filhos. Não se trata de julgar nem determinar com quem nossos filhos devem conviver, mas observar por quem eles sentem afinidade. Treinando o ouvido A arte de ouvir é pouco cultivada em nosso meio: todos querem apenas falar. Daí a tendência para a gritaria. Poucos 202
  • 201. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S adultos se dispõem a ouvir a criança. Todos falam ao mesmo tempo ou interrompem a fala do outro. Aprender a ouvir é uma das formas de diminuir um pouco o desenvolvimento da tendência para a hiper atividade, cada vez mais comum nos dias de hoje. O hábito de ouvir música ajuda a criança a desenvolver sua sensibilidade. Melhor ainda se for estimulada a aprender a tocar um instrumento. Aprendendo a meditar Nossas mentes tornam-se cada vez mais inquietas sob tantos estímulos. Não é à toa que a ansiedade e o medo causam muitos distúrbios na saúde das pessoas. Nenhum remédio é me- lhor para superar esse mal que serenar a mente. A meditação e a ioga ajudam no relaxamento, na respiração e no alongamento. Assumindo responsabilidades Muito se comenta a respeito da falta de senso de respon- sabilidade de alguns adultos. Muitos, porém, foram estimulados a sê-lo. Para modificar esse quadro, é importante que os pais aprendam a delegar tarefas domésticas para as crianças em re- gime de rodízio se a família for constituída de vários filhos. O erro começa cedo: poucos guardam os brinquedos após o uso, muitos nunca tiveram estímulo nem para lavar um copo ou um prato usado por eles mesmos.
  • 202. Considerações finais roteiros e receitas mágicas na arte de educar e que, em vez disso, receberam material para novos questionamentos. Re- petições de conceitos foram inevitáveis, algumas tendo sido propositais, devido à sua importância em nossas vidas, pois quando falamos de uma educação boa e saudável para as pró- ximas gerações não podemos perder de vista a reeducação dos adultos e da sociedade. Desejamos que tenham incorporado em sua visão de mundo que não educamos de forma direta e definitiva, mas que participamos do processo e podemos tornar a tarefa mais fácil e eficiente. Claro que nesse processo pode ocorrer desper- dício de talentos, conhecimento e tempo, além de enganos, erros e acertos. Isso é lógico e normal, porém é preciso cui- dado para não banalizar o conformismo disfarçado de nor- malidade: "Hoje em dia é assim mesmo". A soma de pequenos descuidos sempre conduz a grandes problemas. Que os alertas tenham atingido seu objetivo sem provocar culpa nem remorso. não ter decepcionado os que esperavam 204
  • 203. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Quantos de nós podemos nos considerar pais e mães de qua- lidade, pessoas que não cometem descuidos ou faltas? Como nos sentimos? O saldo até o presente momento foi positivo? Mesmo que não tenha sido, isso não tem tanta importância assim; errar faz parte da arte de aprender. Para ficarmos em paz, basta que tentemos corrigir-nos a cada novo momento, oportunidade e conhecimento. Não é difícil transformar pequenos descuidos em grandes lições. Para trilhar esse caminho em segurança e alegria, não devemos nos comparar com as outras pessoas usando os filhos como parâmetros. Aqueles que empreendem esse pequeno des- cuido - considerar-se bons ou maus pais apenas porque seus filhos são bem-vistos ou malvistos - caem em armadilhas pre- paradas por eles mesmos. Muitos se imaginam pouco competentes porque seus filhos são considerados problemáticos pela sociedade, quando, na verdade, estão fazendo o melhor que podem para superar suas tendências negativas e imperfeições. O bom mestre é aquele que consegue motivar um aluno displicente e recuperá-lo. Não educamos nossos filhos para os olhos do mundo, mas para que sejam felizes e realizados. Por menor que seja o progresso obtido, será uma vitória do amor. Se, após a leitura deste livro, algumas pessoas se cons- cientizarem de que a arte de educar os filhos é dinâmica, par- ticipante e não passiva - outro pequeno engano é deixar as coisas como estão para ver como ficam -, nós nos daremos por realizados. 205
  • 204. AMÉRICO CANHOTO Na condição de país, qual é nossa função? Somos provedores de educação e fornecemos material di- dático para que nossos filhos se eduquem. Não se trata apenas de matriculá-los na escola mais cara ou inscrevê-los em dispen- diosos cursos. O que importa é nossa postura: o exemplo vivo que estamos transmitindo, além de nosso padrão de atitudes. O que fica retido no subconsciente da criança são os exemplos que damos ao corrigir nossas atitudes todos os dias. É dessa forma que lhes iremos inspirar confiança. Quando se trata de lidar com as crianças da nova geração, é bom admitir que temos muito para melhorar em nós mesmos. Não adianta tentar esconder nossas falhas de caráter, pois de um jeito ou de outro elas sabem disso. Permitindo o aprendizado Outro ponto importante a destacar: com urgência, de- vemos permitir que a criança aprenda! Esse alerta pode até parecer um despropósito, mas não é, porque, na prática, não permitimos que elas aprendam. O tempo todo enchemos sua cabeça de teorias, saturamos seus ouvidos com falatório tão sem sentido quanto fora de hora e impedimos que aprendam de fato, por conta delas mesmas... Não lhes permitimos ter experiências simples, como a de vestir a roupa que deseja, usar ou calçar o sapato que escolheu. 206
  • 205. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Alegamos que não combina ou está fora de moda. Sempre a mesma preocupação: o que os outros vão pensar? Assim im- pedimos que as crianças desenvolvam a capacidade de cuidar de si mesmas e de aprender a responsabilizar-se pelos próprios atos. As desculpas para essa nossa atitude, que tolhe suas ini- ciativas e impede sua evolução, são tão variadas quanto in- compreensíveis. O aprendizado não existe sem a prática. Para capacitar-nos, devemos vivenciar a experiência do simples em direção ao complexo. Valores éticos De que modo passar valores éticos é outra dúvida. É ver- dade que ainda não é fácil transmiti-los: o que a sociedade ainda mais valoriza é o possuir, ter boa aparência a qualquer custo, não importando o preço a pagar. O diferencial de qualidade é não transformar essa realidade num anestésico da consciência. Se a maioria das pessoas está agindo errado, na contramão das leis divinas, expliquemos aos nossos filhos quais serão, no futuro, as conseqüências dessas atitudes e quanto elas serão prejudicadas. Outra dúvida: qual a diferença entre a boa e a má edu- cação? A rigor não há boa ou má educação, pois cada um apenas pode oferecer o que de fato dispõe. Em geral, recebemos uma educação voltada apenas à instrução e aos olhos da sociedade. Nossos antepassados nos deram educação por amor. Nossos pais fizeram o que estava a seu alcance. Quanto a nós, tenhamos 207
  • 206. AMÉRICO CANHOTO em mente que, no passado, fizemos o possível de acordo com nossos conhecimentos e crenças. Cuidado com o corpo e a alma Qual a melhor receita para bem educar? Qual o melhor caminho para educar na vida contemporânea? Receitas prontas não existem, além de que cada caso é um caso. É o nosso esforço pessoal que vai determinar o que é melhor para cada criança. Recorrer à meditação é muito proveitoso. Quando meditamos, serenamos a mente e elevamos o pensamento. Um dia, quem sabe, a meditação seja ensinada em nossas escolas, o que será de grande proveito para o progresso da humanidade. O ensinamento de Jesus, vigiar e orar, deve acompanhar cada passo dos pais. A leitura e o estudo do Evangelho no lar trazem benefícios tão significativos que devemos considerá-los indispensáveis. Retirar o Evangelho da estante, abri-lo e in- centivar seu estudo é obrigação dos pais. Bicicletas, esteiras e outros utensílios úteis para manter a boa forma física devem também ser resgatados dos quartos onde foram esquecidos, para serem utilizados pela família. Sementeira Educar filhos é como trabalhar numa sementeira. Aos pais, cabe escolher as melhores sementes disponíveis e se- meá-las. A colheita dependerá de muitos outros fatores. 2 0 8
  • 207. PEQUENOS DESCUIDOS, G R A N D E S P R O B L E M A S Aqueles que encontraram um propósito para a própria exis- tência e conseguiram superar com serenidade os eventuais fracassos, perdas e rompimentos, com certeza receberam uma boa educação. Muitos já disseram que, para educar, é preciso amar e, para instruir, bastam o conhecimento e a técnica. Recordemos apenas que o conceito de amar envolve o de respeitar e cuidar sem controlar nem impor condições. E preciso muita atenção da nossa parte para nos cons- cientizarmos da importância do papel dos pais para, um dia, com o dever cumprido, alcançarmos a paz. Ao terminar a leitura deste livro, talvez você tenha ficado com algumas dúvidas e per- guntas a fazer, o que é um bom sinal. Sinal de que está em busca de explicações para a vida. Todas as respostas que você precisa estão nas Obras Básicas de Allan Kardec. Se você gostou deste livro, o que acha de fazer com que outras pessoas venham a conhecê-lo também? Poderia comentá-lo com aquelas do seu relacionamento, dar de presente a alguém que talvez esteja precisando ou até mesmo emprestar àquele que não tem condições de comprá-lo. O importante é a divulgação da boa leitura, principalmente a da literatura espírita. Entre nessa corrente! Compartilhemos nosso aprendizado uns com os outros. 209
  • 208. Bibliografia CANHOTO, Américo. Saúde ou doença: a escolha é sua. São Paulo: Petit Editora, 2006. . Quem ama cuida. São Paulo: Petit Editora, 2007. . Educar para um mundo novo. São José do Rio Preto, SP: Editora Ativa, 2002. . A reforma íntima começa no berço. Santo André: Editora EBM, 2004. GARDNER, Howard. Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2002. STEINER, Claude e PERRY, Paul. Educação emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998. 210
  • 209. Em Pequenos descuidos, grandes problemas, aprendemos com Américo Canhoto - médico de família há trinta anos, dirigente espírita e escritor - como exercer com sucesso nosso papel de pais: podemos e devemos evitar que nossos filhos sofram dores, aflições e doenças! Prático, Canhoto ensina como ajudar aqueles a quem tanto amamos a se desenvolverem mais preparados para viver nesta época de transição. Descubra agora mesmo como isso é possível, tornando-se um educador da nova geração, que veio para transformar a Terra num mundo melhor.