| 24 | Economia >                                             ZERO HORA > TERÇA | 14 | AGOSTO | 2007




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                                                  sobrevivência
       TEXTOS: SEBASTIÃO RIBEIRO e TATIANA CRUZ
                 FOTOS: GENARO JONER



        Quando um funcionário
      de uma empresa senta-se
      à mesa do Velho Coração
      para comer feijão e arroz e
      experimentar a carne assada
      na churrasqueira dos Paesi,
      faz girar um dos maiores
      motores de empregos na
      área de serviços do país.
      O ramo da alimentação
      é o terceiro que mais
      emprega formalmente no
      setor terciário. Só em Porto
      Alegre, estima o Sindicato
      da Hotelaria e Gastronomia
      da Capital, são quase 59 mil
      trabalhadores nos cerca de 5
      mil estabelecimentos.
        Por trás do prédio                                               os 12 anos, Laion      Laion transita desde a




                                             A
                                                                         Santos já podia ser
      número 226 da Rua                                                  visto entre as me-
                                                                                                pré-adolescência entre as
      Simão Kappel, no                                                   sas do restauran-      mesas do Velho Coração
                                                                         te Velho Coração.
      bairro Navegantes, em                                              Com essa idade, em
                                                                                                e hoje (detalhe), aos 20
      Porto Alegre, orbitam                                              1999, ele começou      anos, cultiva a fama de
                                                                         a trabalhar na casa
      personagens importantes                                                 do bairro Na-
                                                                                                bom guri entre os donos do
      não apenas para                                                         vegantes, indi-   restaurante. Mesmo assim,
                                                                              cado por um
      a manutenção                                                           primo que era
                                                                                                não conseguiu realizar o
      do negócio de                                                         funcionário, mas    sonho de comprar a casa onde morava até a última
                                                                          teve de sair. Desde
      Adriano, Adriane e                                               menino, acostumou-
                                                                                                quarta-feira com a mulher, Ionice, e a filhinha Emily.
      Jovilde Paesi, mas para toda                se com a vida de servir bebida, ir a banco    Agora vivem de favor, provisoriamente, com parentes.
                                                  pagar contas, abastecer o freezer. Nesses
      a economia popular.                         oito anos, ganhou experiência, carteira as-
        No terceiro e último dia                  sinada, salário mínimo e maturidade.          vessa sem dó as frestas da madeira que          Se depender de sua história, Laion sairá
                                                     Com uma pele negra e lisa e dentes         faz as vezes de parede da moradia. Ainda      desta. Até agora, sempre soube enfrentar as
      da série sobre o restaurante                brancos bem alinhados, Laion tem cara de      que precária, era a casa que Laion sonhava    dificuldades da vida. Com esforço, concilia
      Velho Coração, você vai                     bom guri. É assim que os donos do restau-     comprar em parcelas mensais de R$ 100 e       o salário de apenas R$ 450, mais os R$ 20
                                                  rante e os cliente o vêem. Para o garçom      depois reformar, para dar mais dignidade      semanais que a companheira ganha para
      conhecer a pasta de plástico                faz-tudo, ter começado a trabalhar cedo       à vida em família.                            levar a filha de uma vizinha à creche, com
      onde a auxiliar de cozinha                  contribuiu para essa fama.                      Um sonho interrompido na última             os gastos domésticos.
                                                     – Eu moro em vila e vejo muitos proble-    quarta-feira, quando a prima vendeu a ca-       Para sustentar a mulher e a filha, Laion
      Jane guarda um dos                          mas. É droga, é crime... Começar a traba-     sa, à vista, para outro comprador, obrigan-   gasta R$ 70 de rancho mensal num ataca-
      segredos para fazer compras                 lhar cedo me ajudou a ver o mundo como        do a família do garçom a deixar o lugar. A    do da cidade. Carnes, pães e outras neces-
                                                  ele é e não me envolver – acredita.           saída para Laion foi espalhar seus perten-    sidades diárias são compradas em um ar-
      e descobrir como o garçom                      Crescer, para Laion, também significou     ces – incluindo o fogão, os sofás puídos e    mazém. As fraldas de Emily saem por cerca
      Laion consegue arranjar                     sair de casa aos 17 anos para viver com a     a TV 29 polegadas, comprada por 12 par-       de R$ 25 por mês. E ainda tem as roupas “e
                                                  mulher, Ionice, e ter uma filha cedo, cha-    celas de R$ 50 – entre parentes e amigos.     outras besteirinhas para a neném”.
      dinheiro para se divertir                   mada Emily, de um ano e um mês. E, des-       O pai, a cunhada e um vizinho guardam           Apesar de tudo isso, ainda sobra di-
      com a mulher. Vai saber no                  de a semana passada, encarar o peso de        os móveis e dão abrigo enquanto a família     nheiro para se divertir. Umas três vezes
                                                  não ter um lar.                               não encontra um novo lar.                     por mês, a família janta em uma pizzaria
      que o jovem Fernando gasta                     O casebre de 35 metros quadrados onde        – Fiquei desesperado – desabafa Laion.      na Avenida Cristóvão Colombo, onde o
      seu salário e acompanhar                    os três viviam era emprestado por uma           Ontem, em contato com uma funcio-           rodízio custa R$ 12 por pessoa, e uma vez
                                                  prima de Ionice. Para chegar ao local, é      nária do Departamento Municipal de            por mês o casal sai para dançar pagode,
      o destino que o biscateiro                  preciso entrar em um dos becos da Vila        Habitação (Demhab), ele teria recebido a      em barzinhos do centro de Porto Alegre
      Milton dá às sobras do Velho                Areia, no bairro Navegantes, a três quadras   promessa de ganhar telhas e madeira para      ou em uma danceteria que cobra ingresso
                                                  do restaurante. Em dias de chuva, o chão      erguer uma nova casa ao lado da que teve      de R$ 25, para mulheres, e de R$ 35, para
      Coração.                                    batido fica encharcado, a umidade atra-       de deixar.                                    homens.
Data Publicação : 14/08/2007




Prato do dia (final) (série), Alimento, Alimentação, Restaurante de bairro: ganha-pão, trabalho e renda
na economia popular

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Série Restaurante Popular (6)

  • 1. | 24 | Economia > ZERO HORA > TERÇA | 14 | AGOSTO | 2007 Menu de sobrevivência TEXTOS: SEBASTIÃO RIBEIRO e TATIANA CRUZ FOTOS: GENARO JONER Quando um funcionário de uma empresa senta-se à mesa do Velho Coração para comer feijão e arroz e experimentar a carne assada na churrasqueira dos Paesi, faz girar um dos maiores motores de empregos na área de serviços do país. O ramo da alimentação é o terceiro que mais emprega formalmente no setor terciário. Só em Porto Alegre, estima o Sindicato da Hotelaria e Gastronomia da Capital, são quase 59 mil trabalhadores nos cerca de 5 mil estabelecimentos. Por trás do prédio os 12 anos, Laion Laion transita desde a A Santos já podia ser número 226 da Rua visto entre as me- pré-adolescência entre as Simão Kappel, no sas do restauran- mesas do Velho Coração te Velho Coração. bairro Navegantes, em Com essa idade, em e hoje (detalhe), aos 20 Porto Alegre, orbitam 1999, ele começou anos, cultiva a fama de a trabalhar na casa personagens importantes do bairro Na- bom guri entre os donos do não apenas para vegantes, indi- restaurante. Mesmo assim, cado por um a manutenção primo que era não conseguiu realizar o do negócio de funcionário, mas sonho de comprar a casa onde morava até a última teve de sair. Desde Adriano, Adriane e menino, acostumou- quarta-feira com a mulher, Ionice, e a filhinha Emily. Jovilde Paesi, mas para toda se com a vida de servir bebida, ir a banco Agora vivem de favor, provisoriamente, com parentes. pagar contas, abastecer o freezer. Nesses a economia popular. oito anos, ganhou experiência, carteira as- No terceiro e último dia sinada, salário mínimo e maturidade. vessa sem dó as frestas da madeira que Se depender de sua história, Laion sairá Com uma pele negra e lisa e dentes faz as vezes de parede da moradia. Ainda desta. Até agora, sempre soube enfrentar as da série sobre o restaurante brancos bem alinhados, Laion tem cara de que precária, era a casa que Laion sonhava dificuldades da vida. Com esforço, concilia Velho Coração, você vai bom guri. É assim que os donos do restau- comprar em parcelas mensais de R$ 100 e o salário de apenas R$ 450, mais os R$ 20 rante e os cliente o vêem. Para o garçom depois reformar, para dar mais dignidade semanais que a companheira ganha para conhecer a pasta de plástico faz-tudo, ter começado a trabalhar cedo à vida em família. levar a filha de uma vizinha à creche, com onde a auxiliar de cozinha contribuiu para essa fama. Um sonho interrompido na última os gastos domésticos. – Eu moro em vila e vejo muitos proble- quarta-feira, quando a prima vendeu a ca- Para sustentar a mulher e a filha, Laion Jane guarda um dos mas. É droga, é crime... Começar a traba- sa, à vista, para outro comprador, obrigan- gasta R$ 70 de rancho mensal num ataca- segredos para fazer compras lhar cedo me ajudou a ver o mundo como do a família do garçom a deixar o lugar. A do da cidade. Carnes, pães e outras neces- ele é e não me envolver – acredita. saída para Laion foi espalhar seus perten- sidades diárias são compradas em um ar- e descobrir como o garçom Crescer, para Laion, também significou ces – incluindo o fogão, os sofás puídos e mazém. As fraldas de Emily saem por cerca Laion consegue arranjar sair de casa aos 17 anos para viver com a a TV 29 polegadas, comprada por 12 par- de R$ 25 por mês. E ainda tem as roupas “e mulher, Ionice, e ter uma filha cedo, cha- celas de R$ 50 – entre parentes e amigos. outras besteirinhas para a neném”. dinheiro para se divertir mada Emily, de um ano e um mês. E, des- O pai, a cunhada e um vizinho guardam Apesar de tudo isso, ainda sobra di- com a mulher. Vai saber no de a semana passada, encarar o peso de os móveis e dão abrigo enquanto a família nheiro para se divertir. Umas três vezes não ter um lar. não encontra um novo lar. por mês, a família janta em uma pizzaria que o jovem Fernando gasta O casebre de 35 metros quadrados onde – Fiquei desesperado – desabafa Laion. na Avenida Cristóvão Colombo, onde o seu salário e acompanhar os três viviam era emprestado por uma Ontem, em contato com uma funcio- rodízio custa R$ 12 por pessoa, e uma vez prima de Ionice. Para chegar ao local, é nária do Departamento Municipal de por mês o casal sai para dançar pagode, o destino que o biscateiro preciso entrar em um dos becos da Vila Habitação (Demhab), ele teria recebido a em barzinhos do centro de Porto Alegre Milton dá às sobras do Velho Areia, no bairro Navegantes, a três quadras promessa de ganhar telhas e madeira para ou em uma danceteria que cobra ingresso do restaurante. Em dias de chuva, o chão erguer uma nova casa ao lado da que teve de R$ 25, para mulheres, e de R$ 35, para Coração. batido fica encharcado, a umidade atra- de deixar. homens.
  • 2. Data Publicação : 14/08/2007 Prato do dia (final) (série), Alimento, Alimentação, Restaurante de bairro: ganha-pão, trabalho e renda na economia popular