GUYTON
& HALL
T R A T A D O D E
FISIOLOGIA
MÉDICA
HALL
TRADUÇAO DA 12° EDIÇÃO
AVISO LEGAL
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12- E D I Ç Ã O
Tratado de Fisiologia Médica
John E. Hall, Ph.D.
Arthur C. Guyton Professor and Chair
Department of Physiology and Biophysics
Associate Vice Chancellor for Research
University of Mississippi Medicai Center
Jackson, Mississippi
SAUNDERS
© 2011 Elsevier Editora Ltda.
Tradução autorizada do idioma inglês da edição publicada por Saunders - um selo editorial Elsevier Inc.
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998.
Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios
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ISBN: 978-85-352-4980-4
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This edition of Guyton and Hall Textbook of Medicai Physiology, 12th edition, by John E. Hall is published by arrangement with Elsevier Inc. ISBN:
978-1-4160-4574-8
Adaptação da Capa Original
Folio Design Ltda.
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NOTA
O conhecimento médico está em permanente mudança. Os cuidados normais de segurança devem ser seguidos, mas, como as
novas pesquisas e a experiência clínica ampliam nosso conhecimento, alterações no tratamento e na terapia à base de fármacos
podem ser necessárias ou apropriadas. Os leitores são aconselhados a checar informações mais atuais dos produtos, fornecidas
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conhecimento do paciente, determinar as dosagens e o melhor tratamento para cada um indivíduo. Nem o editor nem o autor
assumem qualquer responsabilidade por eventual dano ou perda a pessoas ou a propriedade originada por esta publicação.
O Editor
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
H184t
Hall, John E. (John Edward), 1946-
Tratado de Fisiologia Médica [recurso eletrônico] / John E. Hall; [tradução Alcides Marinho Junior ... et
al.]. - Rio de Janeiro : Elsevier, 2011. recurso digital: il.
Tradução de: Textbook of medicai physiology Formato: Flash
Requisitos do sistema: Adobe Flash Player
Modo de acesso: World Wide Web
ISBN 978-85-352-4980-4 (recurso eletrônico)
1. Fisiologia humana. 2. Fisiopatologia. 3. Livros eletrônicos. I. Título.
11-6293.
23.09.11 29.09.11
CDD: 612
CDU: 612
029997
Revisão Científica e Tradução
Revisão Científica
Charles Alfred Esbérard (in memóriam)
Doutor, Livre-Docente em Fisiologia pela Universidade do Rio de Janeiro - Uni-Rio Prof. Emérito em
Fisiologia da UFES
Professor Titular em Fisiologia da Faculdade de Medicina de Petrópolis
Professor Titular em Farmacologia da Universidade Federal Fluminense - Aposentado
Professor Titular em Fisiologia da Universidade do Rio de Janeiro - Uni-Rio - Aposentado
Tradução
Alcides Marinho Junior
Professor Titular de Fisiologia do Curso de Medicina e Farmácia da Universidade Iguaçu (UNIG)
Alexandre Vianna Aldighieri Soares
Especialista em Clínica Médica e Endocrinologia
Andréa Delcorso
Tradutora formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Bárbara de Alencar Leão Martins
Médica Oncologista
Claudia Coana
Tradutora
Débora Sitnik
Residente em Clínica Médica - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(FMUSP)
Diego Alfaro
Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pós-graduado em Acupuntura pelo Instituto
de Acupuntura do Rio de Janeiro
Douglas Arthur Omena Futuro
Médico Especialista em Ortopedia
v
Revisão Científica e Tradução
Fabiana Buassaly
Médica Veterinária
Hermínio de Mattos Filho
Especialista em Oftalmologia pela Associação Médica Brasileira, PUC-RJ Membro Titular do Conselho
Brasileiro de Oftalmologia Membro Internacional da Academia Americana de Oftalmologia
Leonardo Allevato Magalhães
Mestrando em Ciência da Motricidade Humana na Universidade Castelo Branco
Luísa Sá Barreto Pimentel
Mestranda em Neurofarmacologia pela UFRJ
Manoela D'Almeida Sande
Tradutora
Marcela Jardim Gomes Elias
Mestre em Farmacologia e Química Medicinal
Maria Inês Corrêa Nascimento
Bacharel em Letras (Tradução Bilíngue) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ)
Michelle Gralle Botelho
Especialista em Dermatologia pela Associação Médica Brasileira
Residência em Dermatologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Doutorado em Química Biológica pelo Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ
Nelson Gomes de Oliveira
Médico do Trabalho Aposentado da Petrobras
Raimundo Rodrigues Santos
Especialista em Neurologia e Neurocirurgia
Mestre em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Roberto Mogami
Professor Adjunto de Radiologia da UERJ Membro Titular do Colégio Brasileiro de Radiologia Médico
Radiologista do Hospital Raphael de Paula Souza/MS
Sérgio Rachman
Especialista em Psiquiatria pela Associação Médica Brasileira
Médico Psiquiatra do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo
Solange Castro Affeche
Pós-Doutorado em Fisiologia Celular e Biologia Molecular pela Université Louis Pasteur, França Doutora em
Ciências (Fisiologia Humana) pela USP
Pesquisadora do Laboratório de Farmacologia do Instituto Butantan, São Paulo
Valdir de Souza Pinto
Mestre em Infectologia e Saúde Pública pela Coordenação dos Institutos de Pesquisa da Secretaria de Estado da Saúde de
São Paulo/Instituto de Infectologia Emílio Ribas
Vilma Ribeiro de Souza Varga
Graduada em Ciências Médicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Residência Médica em Neurologia Clínica no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo
vi
À
Minha Família
Por seu apoio incondicional, sua paciência, compreensão e amor
A
Arthur C. Guyton
Por sua pesquisa criativa e inovadora
Por sua dedicação à educação
Por demonstrar alegria e gosto pela fisiologia
E por servir como exemplo e inspiração
(página deixada intencionalmente em branco)
Prefácio
A primeira edição do Tratado de Fisiologia Médica foi escrita
por Arthur C. Guyton há quase 55 anos. Ao contrário de
muitos livros médicos importantes que frequentemente
apresentam 20 autores ou mais, as primeiras oito edições
deste tratado foram totalmente escritas pelo Dr. Guyton,
com o surgimento previsto de cada nova edição, em
período de aproximadamente 40 anos. O Tratado de
Fisiologia Médica, publicado pela primeira vez em 1956,
rapidamente se tornou best-seller em todo o mundo. O Dr.
Guyton tinha o dom de comunicar idéias complexas de
forma clara e interessante, o que tornou o estudo da
fisiologia divertido. Ele escreveu o livro para ajudar os
estudantes a aprender fisiologia, e não para impressionar
seus colegas de profissão.
Trabalhei com o Dr. Guyton por quase 30 anos e tive o
privilégio de escrever partes da 9- e da 10a edições. Após a
trágica morte do Dr. Guyton em um acidente
automobilístico, em 2003, assumi a responsabilidade de
concluir a ll3 edição.
Com relação à 12- edição do Tratado de Fisiologia Médica,
segui a mesma meta das edições anteriores - explicar, em
linguagem compreensível pelos estudantes, como os
diferentes tecidos, órgãos e células do corpo humano
atuam em conjunto para a manutenção da vida.
Essa tarefa foi desafiadora e estimulante, já que nosso
conhecimento rapidamente crescente da fisiologia continua
a elucidar novos mistérios das funções corpóreas. Avanços
na fisiologia celular e molecular tornaram possível explicar
muitos princípios fisiológicos na terminologia das ciências
moleculares e físicas, em vez de apenas em uma série de
separados e inexplicáveis fenômenos biológicos.
O Tratado de Fisiologia Médica, todavia, não é um livro de
referência que tenta ser um compêndio dos mais recentes
avanços da fisiologia. Este é um livro que continua a
tradição de ser escrito para estudantes. A obra focaliza os
princípios básicos da fisiologia necessários para iniciar uma
carreira nas profissões das áreas da saúde, como medicina,
odontologia e enfermagem, bem como de pós-graduação
nas ciências biológicas e nas áreas de saúde. Ele poderá ser
útil para clínicos e profissionais das áreas da saúde que
desejem fazer revisão dos princípios básicos, necessários à
compreensão da fisiopatologia das doenças humanas.
Tentei manter a mesma organização uniforme que se
mostrou útil aos estudantes no passado e garantir suficiente
abrangência do livro, a ponto de os estudantes desejarem
utilizá-lo no futuro como base para suas carreiras
profissionais.
Espero que este livro transmita a grandiosidade do
corpo humano e de suas funções diversas e ainda estimule
os alunos a estudarem a fisiologia por toda a sua carreira. A
fisiologia corresponde ao elo entre as ciências básicas e a
medicina. O grande encanto da fisiologia está em sua
integração das funções individuais dos diferentes tecidos,
órgãos e células do corpo em um todo funcional, o corpo
humano. Na verdade, o corpo humano é muito mais do que
a soma de suas partes, mas a vida depende, sobretudo, de
sua funcionalidade total, não apenas da atuação das partes
corpóreas, isoladas umas das outras.
Isso nos traz uma questão importante: como são
coordenados os órgãos e os sistemas distintos para manter o
funcionamento adequado de todo o corpo? Felizmente,
nossos corpos são dotados de vasta rede de controles por
feedback que alcançam os balanços necessários sem os quais
não seríamos capazes de sobreviver. O termo home- ostasia é
empregado, pelos fisiologistas, para descrever esse alto
nível de controle corporal interno. Nos estados patológicos,
os balanços funcionais são, muitas vezes, gravemente
interrompidos, prejudicando a homeostasia. Mesmo
quando um só distúrbio atinge o seu limite, todo o corpo
perde sua capacidade de sobrevivência. Uma das metas
deste livro, portanto, é enfatizar a eficácia e a perfeição dos
mecanismos de homeostasia do corpo, bem como
apresentar suas funções anormais nos processos
patológicos.
Outra meta é ser o mais objetivo e preciso possível.
Sugestões e críticas de muitos fisiologistas, estudantes e
clínicos, em todo o mundo, foram analisadas e, por fim,
utilizadas para avaliar a precisão real e efetiva, bem como a
harmonia do livro. Mesmo assim, erros de classificação
podem ocorrer, devido à grande quantidade de
informações; então, eu gostaria de pedir a todos os leitores
que enviem suas anotações caso encontrem erro ou
inexatidão dos dados. Assim como os fisiologistas
reconhecem a importância do feedback para o
funcionamento adequado do corpo humano, penso que
ofeedback/vetovno dos lei
Prefácio
tores é igualmente importante para a melhoria progressiva
de um livro de fisiologia. Às muitas pessoas que já
ajudaram, envio meus sinceros agradecimentos.
Uma breve explicação a respeito de alguns aspectos da
12a edição se faz necessária. Embora muitos dos capítulos
tenham sido revisados, incluindo novos princípios da
fisiologia, o livro foi rigorosamente monitorado quanto à
limitação de seu volume, para que ele possa ser utilizado
com eficiência nos cursos de fisiologia pelos estudantes de
medicina e da área da saúde. Muitas das figuras também
foram reproduzidas e, atualmente, estão em cores. Além
disso, foram selecionadas novas referências,
principalmente, por sua descrição dos princípios
fisiológicos, pela qualidade de suas próprias referências e
por sua fácil acessibilidade.
As bibliografias selecionadas, ao fim de cada capítulo,
contêm referências de artigos publicados nas revistas
científicas mais recentes que podem ser acessadas,
gratuitamente, no site da internet PubMed, em
http://www. ncbi.nlm.nih.gov/sites/entrez/. O uso
dessas referências, bem como das referências cruzadas
obtidas por esse meio, pode dar ao estudante cobertura
quase completa de todo o campo da fisiologia. O esforço
para ser o mais conciso possível necessitou, infelizmente,
uma apresentação mais simplificada e dogmática de
muitos problemas fisiológicos do que se desejaria em
outras circunstâncias. Contudo, a bibliografia pode ser
usada para conhecer melhor as controvérsias e as
perguntas, ainda sem resposta que permanecem na
compreensão das diferentes funções do corpo humano, na
saúde e na doença.
Outro ponto importante é o de que o texto foi impresso
em dois tamanhos. O texto em corpo normal constitui a
informação fisiológica fundamental, que vai ser necessá
ria ao estudante em virtualmente todas as suas atividades e
em seus estudos médicos.
O texto em tipo menor, geralmente com retícula bege,
trata de vários assuntos: primeiro, informações anatômicas,
químicas ou outras que são necessárias para a discussão
imediata, mas que a maioria dos estudantes vai adquirir
em outros cursos; segundo, informações fisiológicas com
importância especial para certos campos da medicina
clínica, e, terceiro, informações que serão valiosas para os
estudantes que desejam estudar em maior profundidade
determinados mecanismos fisiológicos.
Quero expressar meus sinceros agradecimentos a
muitas pessoas que ajudaram na preparação deste livro,
inclusive meus colegas do Department of Physiology and
Biophysics da University of Mississippi Medicai Center,
que forneceram sugestões valiosas. Os docentes de nossa
faculdade e uma breve descrição das pesquisas e atividades
educacionais do departamento podem ser encontrados em
http://physiology.umc.edu. Também estou agradecido a
Stephanie Lucas e Courtney Horton Graham, por seus
excelentes trabalhos de secretaria, a Michael Schenk e
Walter (Kyle) Cunningham, por seus elegantes trabalhos
artísticos, e a William Schmidt, Rebecca Gruliow, Frank
Morales e a toda equipe da Elsevier Saunders, por sua
excelência continuada de editoração e produção.
Por fim, tenho enorme dívida com o Dr. Arthur Guyton,
pelo grande privilégio de ter colaborado na elaboração do
Tratado de Fisiologia Médica, pela notável carreira na
fisiologia, por sua amizade e pela inspiração conferida a
todos que o conheceram.
John E. Hall
x
Sumário
UNIDADE I
Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia
Geral
CAPÍTULO 1
Organização Funcional do Corpo Humano e
Controle do "Meio Interno" 3
As Células como Unidades Vivas do Corpo 3 Líquido
Extracelular- O “Meio Interno" 3
Mecanismos “Homeostáticos" dos Principais
Sistemas Funcionais 4
Resumo - Automaticidade do Corpo 9 CAPÍTULO 2
A Célula e suas Funções 11
Organização da Célula 11 Estrutura Física da Célula
12
Comparação da Célula Animal com Formas
Pré-celulares deVida 18
Sistemas Funcionais da Célula 18 Locomoção Celular
24
CAPÍTULO 3
Controle Genético da Síntese de Proteínas, do
Funcionamento Celular e da Reprodução Celular
27
Genes no Núcleo Celular 27
O Código do DNA no Núcleo Celular é Transferido
para um Código de RNA no Citoplasma Celular - O
Processo de Transcrição 29
Síntese de Outras Substâncias na Célula 35
Controle da Função do Gene e da Atividade
Bioquímica nas Células 35
O Sistema Genético - DNA também Controla a
Reprodução Celular 37
Diferenciação Celular 40
Apoptose - Morte Programada das Células 40
Câncer 40
UNIDADE
Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
CAPÍTULO 4
O Transporte de Substâncias através das
Membranas Celulares 45
A Barreira Lipídica da Membrana Celular e as
Proteínas de Transporte da Membrana Celular 45
Difusão 46
"Transporte Ativo" de Substâncias através das
Membranas 53
CAPÍTULO 5
Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação 59
Física Básica dos Potenciais de Membrana 59
Medida do Potencial de Membrana 60
Potencial de Repouso das Membranas dos Nervos 61
Potencial de Ação dos Nervos 63
Os Papéis de Outros íons no Potencial de Ação 66
Propagação do Potencial de Ação 67
Restabelecimento dos Gradientes lônicos do Sódio e
do Potássio após o Término do Potencial de Ação - A
Importância do Metabolismo Energético 68
O Platô em Alguns Potenciais de Ação 68
Ritmicidade de Alguns Tecidos Excitáveis - Descarga
Repetitiva 69
Características Especiais da Transmissão dos Sinais
nos Troncos Nervosos 70
Excitação - O Processo de Geração do Potencial de
Ação 70
Registro dos Potenciais de Membrana e dos
Potenciais de Ação 72
CAPÍTULO 6
Contração do Músculo Esquelético 73
Anatomia Fisiológica do Músculo Esquelético 73
Mecanismo Geral da Contração Muscular 76
Mecanismo Molecular da Contração Muscular 74
XI
Sumário
Energética da Contração Muscular 80
Características da Contração do Músculo como um
Todo 81
CAPÍTULO 7
Excitação do Músculo Esquelético: Transmissão
Neuromuscular e Acoplamento Excitação-
Contração 87
Transmissão dos Impulsos das Terminações Nervosas
para as Fibras Musculares Esqueléticas: A Junção
Neuromuscular 87
Biologia Molecular da Formação e da Liberação de
Acetilcolina 90
Fármacos que Reforçam ou Bloqueiam a Transmissão
na Junção Neuromuscular 90
Miastenia Graves Causa Paralisia Muscular 91
Potencial de Ação Muscular 91 Acoplamento
Excitação-Contração 89
CAPÍTULO 8
Excitação e Contração do Músculo Liso 95
Contração do Músculo Liso 95
Controles Nervoso e Hormonal da Contração do
Músculo Liso 98
CAPÍTULO 9
O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba
e a Função das Valvas Cardíacas 107
Fisiologia do Músculo Cardíaco 107 O Ciclo Cardíaco
111
Relação entre os Sons Cardíacos e o Bombeamento
Cardíaco 114
Produção de Trabalho pelo Coração 114
Energia Química Necessária para a Contração
Cardíaca: O Uso de Oxigênio pelo Coração 116
Regulação do Bombeamento Cardíaco 116 CAPÍTULO
10
Excitação Rítmica do Coração 121
O Sistema Excitatório e Condutor Especializado do
Coração 121
Controle da Excitação e da Condução no Coração 124
CAPÍTULO 11
O Eletrocardiograma Normal 129
Características do Eletrocardiograma Normal 129
Métodos para o Registro de Eletrocardiogramas 131
Aparelho para Registro com Pena Inscritora 126
O Fluxo da Corrente em Redor do Coração durante o
Ciclo Cardíaco 132
Derivações Eletrocardiográficas 133 CAPÍTULO 12
Interpretação Eletrocardiográfica das
Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo
Sanguíneo Coronariano: Análise Vetorial 137
Princípios da Análise Vetorial dos Eletrocardiogramas
137
Análise Vetorial do Eletrocardiograma Normal 139
Eixo Elétrico Médio do QRS Ventricular- e seu
Significado 142
Condições Que Causam Voltagens Anormais do
Complexo QRS 145
Padrões Prolongados e Bizarros do Complexo QRS
146 Corrente de Lesão 146 Anormalidades da OndaT
150
CAPÍTULO 13
Arritmias Cardíacas e sua Interpretação
Eletrocardiográfica 153
Ritmos Sinusais Anormais 153
Ritmos Anormais que Decorrem de Bloqueio dos
Sinais Cardíacos nas Vias de Condução Intracardíacas
154
Contrações Prematuras 156 Taquicardia Paroxística
158 Fibrilação Ventricular 159 Fibrilação Atrial 162
Flutter Atrial 163 Parada Cardíaca 163
CAPÍTULO 14
Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão,
Fluxo e Resistência 167
Características Físicas da Circulação 167 Princípios
Básicos da Função Circulatória 168 Inter-relações
Entre Pressão, Fluxo e Resistência 169
CAPÍTULO 15
Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas
Arterial e Venoso 177
Distensibilidade Vascular 177 Pulsações da Pressão
Arterial 178 Veias e suas Funções 182
XII
Sumário
CAPÍTULO 16
A Microcirculação e o Sistema Linfático: Trocas
Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa 187
Estrutura da Microcirculação e do Sistema Capilar 187
Fluxo de Sangue nos Capilares - Vasomotilidade 188
Trocas de Água, Nutrientes e Outras Substâncias entre
o Sangue e o Líquido Intersticial 189
Interstício e o Líquido Intersticial 190
A Filtração do Líquido pelos Capilares É Determinada
pelas Pressões Osmóticas e Hidrostáticas e Coloidais e
também pelo Coeficiente de Filtração Capilar 191
Sistema Linfático 196
CAPÍTULO 17
Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos
Tecidos 201
Controle Local do Fluxo Sanguíneo em Resposta às
Necessidades Teciduais 201
Mecanismos de Controle do Fluxo Sanguíneo 201
Controle Humoral da Circulação 209
CAPÍTULO 18
Regulação Nervosa da Circulação e o Controle
Rápido da Pressão Arterial 213
Regulação Nervosa da Circulação 213
O Papel do Sistema Nervoso no Controle Rápido da
Pressão Arterial 217
Características Especiais do Controle Nervoso da
Pressão Arterial 222
CAPÍTULO 19
O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da
Pressão Arterial e na Hipertensão: O Sistema
Integrado de Regulação da Pressão Arterial 225
Sistema Rim-Líquidos Corporais para o Controle da
Pressão Arterial 225
O Sistema Renina-Angiotensina: Seu Papel no
Controle da Pressão Arterial 232
Resumo do Sistema Integrado e Multifacetado para a
Regulação da Pressão Arterial 239
CAPÍTULO 20
Débito Cardíaco, Retorno Venoso e suas
Regulações 241
Valores Normais para o Débito Cardíaco em Repouso
e durante a Atividade 241
Controle do Débito Cardíaco pelo Retorno Venoso -
Papel do Mecanismo de Frank-Starling do Coração
241
Débitos Cardíacos Patologicamente Altos ou Baixos
244
Débito Cardíaco Aumentado Causado pela Redução
da Resistência Periférica Total 244
Métodos de Medida do Débito Cardíaco 252
CAPÍTULO 21
Fluxo Sanguíneo pelos Músculos e o Débito
Cardíaco durante o Exercício; a Circulação
Coronariana e a Cardiopatia Isquêmica 255
Regulação do Fluxo Sanguíneo no Músculo
Esquelético durante o Exercício 255
Circulação Coronariana 258
CAPÍTULO 22 Insuficiência Cardíaca 267
Dinâmica Circulatória na Insuficiência Cardíaca 267
Insuficiência Cardíaca Unilateral 271
Insuficiência Cardíaca de Baixo Débito - Choque
Cardiogênico 271
Edema em Pacientes com Insuficiência Cardíaca 272
Reserva Cardíaca 274
CAPÍTULO 23
Valvas e Bulhas Cardíacas; Dinâmica dos Defeitos
Cardíacos Valvulares e Congênitos 279
Bulhas Cardíacas 279
Dinâmica Circulatória Anormal nas Valvulopatias 282
Dinâmica Circulatória Anormal nos Defeitos Cardíacos
Congênitos 283
Utilização da Circulação Extracorpórea durante
Cirurgias Cardíacas 286
Hipertrofia Cardíaca nas Cardiopatias Valvulares e
Congênitas 286
CAPÍTULO 24
Choque Circulatório e Fisiologia do seu
Tratamento 289
Causas Fisiológicas do Choque 289
Choque Causado por Hipovolemia - Choque
Hemorrágico 290
Choque Neurogênico - Aumento da Capacidade
Vascular 296
Choque Anafilático e Choque Histamínico 296
Choque Séptico 296
Fisiologia do Tratamento do Choque 297 Parada
Circulatória 298
xm
Sumário
UNIDADE V
Os Líquidos Corporais e os Rins
CAPÍTULO 25
Os Compartimentos dos Líquidos Corporais:
Líquidos Extracelular e Intracelular; Líquido
Intersticial e Edema 303
Entrada e Saída de Líquidos São Balanceadas nas
Condições Estáveis 303
Compartimentos de Líquidos Corporais 304
Compartimento de Líquido Extracelular 305 Volume
Sanguíneo 305
Constituintes dos Líquidos Extracelular e Intracelular
305
Medidas dos Volumes dos Líquidos Corpóreos nos
Diferentes Compartimentos do Corpo - o Princípio
Indicador-Diluição 307
Determinação do Volume de Diferentes
Comporatimentos Líquidos Corporais 307
Regulação da Troca de Líquidos e Equilíbrio Osmótico
Entre os Líquidos Intracelular e Extracelular 308
Princípios Básicos da Osmose e da Pressão Osmótica
296
O Equilíbrio Osmótico É Mantido entre os Líquidos
Intracelular e Extracelular 310
Volume e Osmolalidade dos Líquidos Extracelular e
Intracelular em Estados Anormais 311
Glicose e Outras Soluções Administradas com Objetivo
Nutricional 313
Anormalidades Clínicas da Regulação do Volume de
Líquidos: Hiponatremia e Hipernatremia 313
Edema: Excesso de Líquido nos Tecidos 315 Líquidos
nos "Espaços em Potencial” do Corpo 319
CAPÍTULO 26
Formação da Urina pelos Rins: I. Filtração
Glomerular, Fluxo Sanguíneo Renal e seus
Controles 321
Múltiplas Funções dos Rins 321 Anatomia Fisiológica
dos Rins 322 Micção 324
Anatomia Fisiológica da Bexiga 324
Transporte da Urina do Rim à Bexiga pelos Ureteres
327
Enchimento da Bexiga eTônus da Parede Vesical; o
Cistometrograma 327
Reflexo da Micção 327 Anormalidades da Micção 328
A Formação da Urina Resulta da Filtração Glomerular,
Reabsorção Tubular e Secreção Tubular 329
Filtração Glomerular - a Primeira Etapa na Formação
da Urina 330
Determinantes da FG 332 Fluxo Sanguíneo Renal 334
Controle Fisiológico da Filtração Glomerular e do
Fluxo Sanguíneo Renal 336
Autorregulação daTFG e Fluxo Sanguíneo Renal 323
CAPÍTULO 27
Formação da Urina pelos Rins: II. Reabsorção e
Secreção Tubulares 341
Reabsorção e Secreção pelos Túbulos Renais 341
A Reabsorção Tubular Inclui Mecanismos Passivos e
Ativos 341
Reabsorção e Secreção ao Longo de Porções
Diferentes do Néfron 347
Regulação da Reabsorção Tubular 353
Uso de Métodos de Depuração para Quantificar a
Função Renal 358
CAPÍTULO 28
Concentração e Diluição da Urina; Regulação da
Osmolaridade e da Concentração de Sódio do
Líquido Extracelular 363
Os Rins Excretam o Excesso de Água pela Produção de
Urina Diluída 363
Os Rins Conservam Água Excretando Urina
Concentrada 365
Quantificação da Concentração e Diluição de Urina
pelos Rins: "Água Livre" e Depurações Osmolares 372
Distúrbios da Capacidade de Concentração Urinária
373
Controle da Osmolaridade e da Concentração de
Sódio do Líquido Extracelular 373
Sistema de Feedback Osmorreceptor-ADH 374
A Importância da Sede no Controle da Osmolaridade
e da Concentração de Sódio do Líquido Extracelular
376
Mecanismo de Apetite pelo Sal para o Controle do
Volume e da Concentração de Sódio no Líquido
Extracelular 379
CAPÍTULO 29
Regulação Renal de Potássio, Cálcio, Fosfato e
Magnésio; Integração dos Mecanismos Renais para
o Controle dos Volumes do Sangue e do Líquido
Extracelular 381
Regulação da Concentração de Potássio no Líquido
Extracelular e Excreção de Potássio 381
Controle da Excreção Renal de Cálcio e da
Concentração de íon Cálcio Extracelular 387
Controle da Excreção Renal de Magnésio e da
Concentração do íon Magnésio Extracelular 390
xiv
Sumário
Integração dos Mecanismos Renais para o Controle do
Líquido Extracelular 390
A Importância da Natriurese por Pressão e da Diurese
por Pressão na Manutenção do Balanço de Sódio e
Água no Corpo 391
Distribuição do Líquido Extracelular entre os Espaços
Intersticiais e o Sistema Vascular 393
Fatores Nervosos e Hormonais Responsáveis pelo
Aumento da Eficiência do Controle por Feedback do
Rim-Líquidos Corporais 394
Respostas Integradas às Alterações na Ingestão de
Sódio 397
Condições que Causam Grandes Aumentos dos
Volumes de Sangue e de Líquido Extracelular 397
Condições que Causam Grandes Aumentos do Volume
de Líquido Extracelular, mas com Volume Sanguíneo
Normal 398
CAPÍTULO 30 Regulação Acidobásica 401
A Concentração do H+
É Precisamente Regulada 401
Ácidos e Bases - Definições e Significados 401
Defesas contra Variações na Concentração do H+
:
Tampões, Pulmões e Rins 402
Tamponamento de H+
nos Líquidos Corporais 403
Sistema-Tampão do Bicarbonato 403
Sistema-Tampão Fosfato 405
As Proteínas São Importantes Tampões Intracelulares
405
Regulação Respiratória do Balanço Acidobásico 406
Controle Renal do Balanço Acidobásico 407
Secreção de H+
e Reabsorção de HC03~ pelos Túbulos
Renais 408
A Combinação de Excesso de H+
com Tampões
Fosfato e Amônia noTúbulo Gera “Novo"
HCO3-4IO
Quantificando a Excreção Acidobásica Renal 412
Correção Renal da Acidose - Maior Excreção de H+
e
Adição de HC03~ ao Líquido Extracelular 413
Correção Renal da Alcalose - Diminuição da Secreção
Tubular de H+
e Aumento da Excreção de HCOs-414
Causas Clínicas dos Distúrbios Acidobásicos 415
Tratamento da Acidose ou da Alcalose 416
Medidas Clínicas de Análise dos Distúrbios
Acidobásicos 416
CAPÍTULO 31
Doenças Renais e Diuréticos 419
Diuréticos e seus Mecanismos de Ação 419 Doenças
Renais 421
Insuficiência Renal Aguda 421
Insuficiência Renal Crônica: Redução Irreversível no
Número de Néfrons Funcionais 424
Distúrbios Tubulares Específicos 430
Tratamento da Insuficiência Renal por Transplante ou
Diálise com um Rim Artificial 432
UNIDADE VI
Células Sanguíneas, Imunidade e
Coagulação Sanguínea
CAPÍTULO 32
Hemácias, Anemia e Policitemia 437
Hemácias (Eritrócitos) 437 Anemias 444 Policitemia
445
CAPÍTULO 33
Resistência do Corpo à Infecção: I. Leucócitos,
Granulócitos, Sistema Monocítico-Macrofágico e
Inflamação 447
Leucócitos (Glóbulos Brancos) 447
Neutrófilos e Macrófagos Fazem a Defesa contra as
Infecções 449
O Sistema Celular Monocítico-Macrofágico (Sistema
Reticuloendotelial) 450
Inflamação: O Papel dos Neutrófilos e Macrófagos 452
Eosinófilos 454
Basófilos 455
Leucopenia 455
As Leucemias 456
CAPÍTULO 34
Resistência do Corpo à Infecção: II. Imunidade e
Imunidade Inata a Alergia 457
Imunidade Adquirida (Adaptativa) 457 Alergia e
Hipersensibilidade 467
CAPÍTULO 35
Tipos Sanguíneos; Transfusão; Transplante de
Tecidos e de Órgãos 469
A Antigenicidade Causa Reações Imunes do Sangue
469
Tipos Sanguíneos ABO 469 Tipos Sanguíneos Rh 471
Transplante de Tecidos e Órgãos 471
CAPÍTULO 36
Hemostasia e Coagulação Sanguínea 475
Eventos na Hemostasia 475
xv
Sumário
Constrição Vascular 475
Mecanismo da Coagulação Sanguínea 477
Condições que Causam Sangramento Excessivo em
Humanos 482
Condições Tromboembólicas no Ser Humano 483
Anticoagulantes para Uso Clínico 484 Testes de
Coagulação Sanguínea 485
CAPÍTULO 3 7 Ventilação Pulmonar 489
Mecânica da Ventilação Pulmonar 489 Volumes e
Capacidades Pulmonares 493
A Ventilação-Minuto É Igual à Frequência Respiratória
Vezes o Volume Corrente 494
Ventilação Alveolar 495 Funções das Vias Respiratórias
496
CAPÍTULO 38
Circulação Pulmonar, Edema Pulmonar, Líquido
Pleural 501
Anatomia Fisiológica do Sistema Circulatório
Pulmonar 501
Pressões no Sistema Pulmonar 501 Volume Sanguíneo
dos Pulmões 502
O Fluxo de Sangue pelos Pulmões e sua Distribuição
503
Efeito dos Gradientes de Pressão Hidrostática nos
Pulmões sobre o Fluxo Sanguíneo Regional Pulmonar
503
Dinâmica Capilar Pulmonar 505 Líquido na Cavidade
Pleural 507
CAPÍTULO 39
Princípios Físicos das Trocas Gasosas; Difusão de
Oxigênio e Dióxido de Carbono através da
Membrana Respiratória 509
Física da Difusão Gasosa e das Pressões Parciais dos
Gases 509
As Composições do Ar Alveolar e do Ar Atmosférico
São Diferentes 511
Difusão de Gases através da Membrana Respiratória
513
CAPÍTULO 40
Transporte de Oxigênio e Dióxido de Carbono no
Sangue e nos Líquidos Teciduais 502
Transporte de Oxigênio dos Pulmões para os Tecidos
Corporais 519
Difusão do Oxigênio dos Alvéolos para o Sangue
Capilar Pulmonar 519
Transporte de Dióxido de Carbono no Sangue 526
Quando o Oxigênio se Liga à Hemoglobina, o
Dióxido de Carbono é Liberado (Efeito Haldane)
Aumentando o Transporte de COz 511
Proporção das Trocas Respiratórias 529 CAPÍTULO
41
Regulação da Respiração 531
Centro Respiratório 531 Controle Químico da
Respiração 533
Sistema Quimiorreceptor Periférico para o Controle
da Atividade Respiratória - O Papel do Oxigênio no
Controle Respiratório 535
Regulação da Respiração Durante o Exercício Físico
537
Outros Fatores Influenciam a Respiração 538
CAPÍTULO 42
Insuficiência Respiratória - Fisiopatologia,
Diagnóstico, Terapia com Oxigênio 541
Métodos Úteis para o Estudo das Anormalidades
Respiratórias 541
Fisiopatologias de Anormalidades Pulmonares
Específicas 543
Hipóxia e Terapia com Oxigênio 547
Hipercapnia - Excesso de Dióxido de Carbono nos
Líquidos Corporais 548
Respiração Artificial 549
UNIDADE VIII
Fisiologia da Aviação, do Espaço Aéreo e do
Mergulho em Alto Mar
CAPÍTULO 43
Fisiologia da Aviação, das Altas Altitudes e da
Fisiologia Espacial 553
Efeitos da Baixa Pressão de Oxigênio sobre o Corpo
553
Efeitos das Forças de Aceleração sobre o Corpo em
Fisiologia Aeroespacial 557
"Clima Artificial” na Espaçonave Vedada 559
Imponderabilidade no Espaço 559
CAPÍTULO 44
Fisiologia de Mergulho Marítimo Profundo e
Outras Condições Hiperbáricas 561
Efeitos das Altas Pressões Parciais de Gases
Individuais sobre o Organismo 561
xvi
Sumário
Mergulho Autônomo (com SCUBA: Self-contained
Underwater Breathing Apparatus) 565
Problemas Fisiológicos Especiais em Submarinos 566
Oxigenoterapia Hiperbárica 566
UNIDADE IX
O Sistema Nervoso: A. Princípios Gerais e
Fisiologia Sensorial
CAPÍTULO 45
Organização do Sistema Nervoso Central, Funções
Básicas das Sinapses e Neurotransmissores 571
Plano Geral do Sistema Nervoso 571
Principais Níveis Funcionais do Sistema Nervoso
Central 573
Comparação do Sistema Nervoso com um
Computador 574
Sinapses do Sistema Nervoso Central 574
Algumas Características Especiais da Transmissão
Sináptica 586
CAPÍTULO 46
Receptores Sensoriais e Circuitos Neuronais para o
Processamento das Informações 589
Tipos de Receptores Sensoriais e os Estímulos que
Detectam 589
Transdução dos Estímulos Sensoriais em Impulsos
Nervosos 590
Fibras Nervosas que Transmitem Diferentes Tipos de
Sinais e sua Classificação Fisiológica 593
Transmissão de Sinais de Diferentes Intensidades
pelos Tratos Nervosos - Somação Espacial e Temporal
594
Transmissão e Processamento dos Sinais em
Grupamentos Neuronais 595
Instabilidade e Estabilidade de Circuitos Neuronais
599 CAPÍTULO 47
Sensações Somáticas: I. Organização Geral, as
Sensações de Tato e de Posição Corporal 603
Classificação das Sensações Somáticas 603 Detecção e
Transmissão das Sensações Táteis 603
Vias Sensoriais para a Transmissão dos Sinais
Somáticos até o Sistema Nervoso Central 605
Sistema da Coluna Dorsal-Lemnisco Mediai 605
Sistema Anterolateral 605
Transmissão no Sistema da Coluna Dorsal-Lemnisco
Mediai 605
Interpretação da Intensidade do Estímulo Sensorial
611
Avaliação da Intensidade do Estímulo 612
Transmissão dos Sinais Sensoriais Menos Críticos na
Via Anterolateral 613
Anatomia da Via Anterolateral 613
Alguns Aspectos Especiais da Função
Somatossensorial 614
CAPÍTULO 48
Sensações Somáticas: II. Dor, Cefaleia e Sensações
Térmicas 617
Tipos de Dor e suas Qualidades - Dor Rápida e Dor
Lenta 617
Receptores para Dor e sua Estimulação 617
Vias Duplas para a Transmissão dos Sinais Dolorosos
ao Sistema Nervoso Central 618
Sistema de Supressão da Dor ("Analgesia") no
Encéfalo e na Medula Espinhal 621
Dor Referida 622 Dor Visceral 622
Algumas Anormalidades Clínicas da Dor e Outras
Sensações Somáticas 624
Cefaleia 625 Sensações Térmicas 626
UNIDADE X
O Sistema Nervoso: B. Os Órgãos Especiais
dos Sentidos
CAPÍTULO 49
O Olho: I. Óptica da Visão 631
Princípios Físicos da Óptica 631 Refração da Luz 631
Aplicação dos Princípios Refrativos às Lentes 631
Distância Focal de uma Lente 632
Formação de uma Imagem por Lente Convexa 633
Medida do Poder Refrativo de uma Lente-“Dioptria"
633
Óptica do Olho 634 Oftalmoscópio 640
Sistema de Líquidos do Olho - Líquido Intraocular 640
CAPÍTULO 50
O Olho: II. Funções Receptora e Neural da Retina
645
Anatomia e Função dos Elementos Estruturais da
Retina 645
Fotoquímica da Visão 647 Visão Colorida 651 Função
Neural da Retina 653
XVII
Sumário
CAPÍTULO 51
O Olho: III. Neurofisiologia Central da Visão 659
Vias Visuais 659
Organização e Função do Córtex Visual 660
Padrões Neuronais de Estimulação durante Análise da
Imagem Visual 662
Campos Visuais; Perimetria 663 Movimentos Oculares
e seu Controle 664
Controle Autônomo da Acomodação e da Abertura
Pupilar 667
CAPÍTULO 52 O Sentido da Audição 671
Membrana Timpânica e o Sistema Ossicular 671
Cóclea 672
Mecanismos Auditivos Centrais 677 Anormalidades da
Audição 680
CAPÍTULO 53
Os Sentidos Químicos - Gustação e Olfação 683
Sentido da Gustação 683 Sentido da Olfação 687
UNIDADE XI
O Sistema Nervoso: C.Neurofisiologia Motora
e Integrativa
CAPÍTULO 54
Funções Motoras da Medula Espinhal; os Reflexos
Espinhais 693
Organização das Funções Motoras da Medula
Espinhal 693
Receptores Sensoriais Musculares - Fusos Musculares
e Órgãos Tendisonos de Golgi - E suas Funções no
Controle Muscular 695
Reflexo Flexor e Reflexo de Retirada 700 Reflexo
Extensor Cruzado 701 Inibição Recíproca e Inervação
Recíproca 702 Reflexos Posturais e Locomoção 702
Reflexo de Coçar 703
Reflexos Espinhais que Provocam Espasmo Muscular
703
Reflexos Autônomos da Medula Espinhal 703
Transecção da Medula Espinhal e Choque Espinhal
704
CAPÍTULO 55
Controle Cortical e do Tronco Cerebral da Função
Motora 705
Córtex Motor e Trato Corticoespinhal 705
Papel do Tronco Cerebral no Controle da Função
Motora 711
Sensações Vestibulares e Manutenção do Equilíbrio
713
Funções dos Núcleos do Tronco Cerebral no Controle
de Movimentos Estereotipados e Subconscientes 717
CAPÍTULO 56
Contribuições do Cerebelo e dos Núcleos da Base
para o Controle Motor Global 719
O Cerebelo e suas Funções Motoras 719 Gânglios da
Base - Suas Funções Motoras 728
Integração Entre as Partes do Sistema Total de
Controle Motor 733
CAPÍTULO 57
Córtex Cerebral, Funções Intelectuais do Cérebro,
Aprendizado e Memória 735
Anatomia Fisiológica do Córtex Cerebral 735 Funções
de Áreas Corticais Específicas 736
Função do Cérebro na Comunicação - a Linguagem
Aferente e a Linguagem Eferente 742
Função do Corpo Caloso e da Comissura Anterior para
Transmitir Pensamentos, Memórias, Treinamento e
Outras Informações entre os Dois Hemisférios
Cerebrais 743
Pensamentos, Consciência e Memória 744 CAPÍTULO
58
Mecanismos Comportamentais e Motivacionais
do Cérebro - O Sistema Límbico e o Hipotálamo
749
Sistemas de Ativação e Motivação do Cérebro 749
Sistema Límbico 752
Anatomia Funcional do Sistema Límbico; Posição-
chave do Hipotálamo 752
Hipotálamo, a Principal Região para Controle do
Sistema Límbico 753
Funções Específicas de Outras Partes do Sistema
Límbico 757
CAPÍTULO 59
Estados da Atividade Cerebral - Sono, Ondas
Cerebrais, Epilepsia, Psicoses 761
Sono 761 Epilepsia 765
Comportamento Psicótico e Demência - Papéis de
Sistemas Neurotransmissores Específicos 767
Esquizofrenia - Função Possivelmente Exagerada de
Parte do Sistema Dopaminérgico 767
XVIII
Sumário
CAPÍTULO 60
O Sistema Nervoso Autônomo e a Medula Adrenal
771
Organização Geral do Sistema Nervoso Autônomo
771
Anatomia Fisiológica do Sistema Nervoso
Parassimpático 772
Características Básicas da Função Simpática e
Parassimpática 773
Reflexos Autônomos 780
Estimulação de Órgãos Discretos em Algumas
Circunstâncias e Estimulação em Massa em Outras
Circunstâncias pelos Sistemas Simpático e
Parassimpático 780
Farmacologia do Sistema Nervoso Autônomo 782
CAPÍTULO 61
Fluxo Sanguíneo Cerebral, Líquido
Cefalorraquidiano e Metabolismo Cerebral 785
Fluxo Sanguíneo Cerebral 785 Sistema do Líquido
Cefalorraquidiano 788 Metabolismo Cerebral 792
UNIDADE XII
Fisiologia Gastrointestinal
CAPÍTULO 62
Princípios Gerais da Função Gastrointestinal -
Motilidade, Controle Nervoso e Circulação
Sanguínea 795
Princípios Gerais da Motilidade Gastrointestinal 795
Controle Neural da Função Gastrointestinal- Sistema
Nervoso Entérico 797
Tipos Funcionais de Movimentos no Trato
Gastrointestinal 801
Fluxo Sanguíneo Gastrointestinal - "Circulação
Esplâncnica” 802
CAPÍTULO 63
Propulsão e Mistura dos Alimentos no Trato
Alimentar 805
Ingestão de Alimentos 805 Funções Motoras do
Estômago 807 Movimentos do Intestino Delgado 810
Movimentos do Cólon 812
Outros Reflexos Autônomos que Afetam a Atividade
Intestinal 814
CAPÍTULO 64
Funções Secretoras do Trato Alimentar 815
Princípios Gerais da Secreção no Trato Alimentar 815
Secreção de Saliva 817
Secreção Esofágica 819
Secreção Gástrica 819
Secreção Pancreática
823
Secreção da Bile pelo Fígado; Funções da Árvore Biliar
825
Secreções do Intestino Delgado 828
Regulação da Secreção do Intestino Delgado -
Estímulos Locais 806
Secreção d e Muco pelo Intestino Grosso 829
CAPÍTULO 65
Digestão e Absorção no Trato Gastrointestinal 831
Digestão de Diversos Alimentos por Hidrólise 831
Princípios Básicos da Absorção Gastrointestinal 835
Absorção no Intestino Delgado 836 Absorção no
Intestino Grosso: Formação de Fezes 839
CAPÍTULO 66
Fisiologia dos Distúrbios Gastrointestinais 841
Distúrbios da Deglutição e do Esôfago 841 Distúrbios
do Estômago 841 Distúrbios do Intestino Delgado 843
Distúrbios do Intestino Grosso 844 Distúrbios Gerais
do Trato Gastrointestinal 845
E
Metabolismo eTermorregulação
CAPÍTULO 67
Metabolismo dos Carboidratos e Formação do
Trifosfato de Adenosina 851
Papel Central da Glicose no Metabolismo dos
Carboidratos 852
Transporte da Glicose através da Membrana Celular
852
O Glicogênio É Armazenado no Fígado e nos Músculos
853
Liberação de Energia da Molécula de Glicose pela Via
Glicolítica 854
Liberação de Energia da Glicose pela Via da Pentose
Fosfato 859
Formação de Carboidratos a partir de Proteínas e
Lipídios - "Gliconeogênese" 860
Glicose Sanguínea 839 CAPÍTULO 68
Metabolismo dos Lipídios 861
Transporte de Lipídios nos Líquidos Corporais 861
Depósitos de Gordura 864
xix
Sumário
Uso deTriglicerídeos como Fonte de Energia:
Formação doTrifosfato deAdenosina 864
Regulação da Liberação de Energia dosTriglicerídeos
867
Fosfolipídios e Colesterol 868 Aterosclerose 870
CAPÍTULO 69
Metabolismo das Proteínas 875
Propriedades Básicas 875
Transporte e Armazenamento dos Aminoácidos 875
Papéis Funcionais das Proteínas Plasmáticas 877
Regulação Hormonal do Metabolismo Proteico 880
CAPÍTULO 70 O Fígado como Órgão 881
Anatomia e Fisiologia do Fígado 881 Os Sistemas
Vascular e Linfático do Fígado 882 Funções
Metabólicas do Fígado 883
Dosagem da Bilirrubina Biliarcomo um Instrumento
Diagnóstico Clínico 884
CAPÍTULO 71
Balanços Dietéticos; Regulação da Alimentação;
Obesidade e Inanição; Vitaminas e Minerais 887
Em Condições Estáveis a Ingestão e o Gasto
Energético Estão em Equilíbrio 887
Balanços Dietéticos 887
Regulação da Ingestão Alimentar e do
Armazenamento de Energia 889
Obesidade 894
inanição, Anorexia e Caquexia 897 Inanição 897
Vitaminas 898 Metabolismo Mineral 901
CAPÍTULO 72
Energética Celular e o Metabolismo Basal 905
O Trifosfato de Adenosina (ATP) Atua no
Metabolismo como "Moeda Metabólica” 905
Controle da Liberação Energética na Célula 907
Metabolismo Corporal Total e a Intensidade do
Metabolismo 908
Metabolismo Energético - Fatores que Influenciam o
Débito Energético 909
CAPÍTULO 73
Temperatura Corporal, Regulação da Temperatura
e Febre 913
Temperaturas Corporais Normais 913
A Temperatura Corporal é Controlada pelo Balanço
entre a Produção e a Perda de Calor 913
Regulação da Temperatura Corporal - O Papel do
Hipotálamo 917
Anormalidades da Regulação da Temperatura
Corporal 922
UNIDADE XIV
Endocrinologia e
Reprodução CAPÍTULO 74
Introdução à Endocrinologia 927
Coordenação das Funções Corporais por Mensageiros
Químicos 927
Estrutura Química e Síntese de Hormônios 928
Secreção Hormonal, Transporte e Depuração de
Hormônios do Sangue 931
Controle por Feedback da Secreção Hormonal 931
Mecanismos de Ação dos Hormônios 932
Medida das Concentrações de Hormônios no Sangue
938
CAPÍTULO 75
Hormônios Hipofisários e seu Controle pelo
Hipotálamo 941
A Hipófise e sua Relação com o Hipotálamo 941 O
Hipotálamo Controla a Secreção Hipofisária 942
Funções Fisiológicas do Hormônio do Crescimento
945
Hipófise Posterior e Sua Relação com o Hipotálamo
951
CAPÍTULO 76
Hormônios Metabólicos da Tireoide 955
Síntese e Secreção dos Hormônios Metabólicos
Tireoidianos 955
Efeitos Fisiológicos dos Hormônios Tireoidianos 958
Regulação da Secreção de Hormônio Tireoidiano 962
Doenças da Tireoide 964
CAPÍTULO 77
Hormônios Adrenocorticais 969
Síntese e Secreção dos Hormônios Adrenocorticais
969
Funções dos Mineralocorticoides-Aldosterona 972
Possíveis Ações Não genômicas da Aldosterona e
Outros Hormônios Esteroides 950
Funções dos Glicocorticoides 976
Androgênios Adrenais 983
Anormalidades da Secreção Adrenocortical 983
xx
Sumário
CAPÍTULO 78
Insulina, Glucagon e Diabetes Mellitus 987
A Insulina e seus Efeitos Metabólicos 987 O Glucagon
e suas Funções 996
A Somatostatina Inibe a Secreção de Glucagon e de
Insulina 998
Resumo da Regulação da Glicose Sanguínea 998
Diabetes Mellitus 999
CAPÍTULO 79
Paratormônio, Calcitonina, Metabolismo de Cálcio
e Fosfato, Vitamina D, Ossos e Dentes 1005
Visão Geral da Regulação de Cálcio e Fosfato no
Líquido Extracelular e no Plasma 1005
Osso e sua Relação Com o Cálcio e o Fosfato
Extracelulares 1007
Vitamina D 1011 Paratormônio 1013 Calcitonina 1016
Resumo do Controle da Concentração do Cálcio
lônico 1017
Fisiopatologia do Paratormônio, da Vitamina D e da
Osteopatia 1018
Fisiologia dos Dentes 1020 CAPÍTULO 80
Funções Reprodutivas e Hormonais Masculinas (e
Função da Glândula Pineal) 1025
Anatomia Fisiológica dos Órgãos Sexuais Masculinos
1025
Espermatogênese 1025 Ato Sexual Masculino 1030
Testosterona e Outros Hormônios Sexuais Masculinos
1032
Anormalidades da Função Sexual Masculina 1037
Disfunção Erétil no Homem 1038
Glândula Pineal - Sua Função no Controle da
Fertilidade Sazonal em Alguns Animais 1039
CAPÍTULO 81
Fisiologia Feminina Antes da Gravidez e
Hormônios Femininos 1041
Anatomia Fisiológica dos Órgãos Sexuais Femininos
1041
Sistema Hormonal Feminino 1041
Ciclo Ovariano Mensal; Função dos Hormônios
Gonadotrópicos 1042
Funções dos Hormônios Ovarianos - Estradiol e
Progesterona 1045
Regulação do Ritmo Mensal Feminino - Interação
Entre os Hormônios Ovarianos e Hipotalâmicos-
Hipofisários 1050
Anormalidades da Secreção pelos Ovários 1054 O
Ato Sexual Feminino 1054 Fertilidade Feminina
1055
CAPÍTULO 82 Gestação e Lactação 1059
Maturação e Fertilização do Óvulo 1059
Nutrição Inicial do Embrião 1061
Função da Placenta 1061
Fatores Hormonais na Gravidez 1063
Resposta do Corpo Materno à Gravidez 1066
Parto 1068
Lactação 1070
CAPÍTULO 83
Fisiologia Fetal e Neonatal 1075
Crescimento e Desenvolvimento Funcional do Feto
1075
Desenvolvimento dos Sistemas de Órgãos 1075
Ajustes do Bebê à Vida Extrauterina 1077
Problemas Funcionais Especiais do Recém-nascido
1080
Problemas Especiais da Prematuridade 1083
Crescimento e Desenvolvimento da Criança 1084
UNIDADE XV
Fisiologia do Esporte
CAPÍTULO 84 Fisiologia do Esporte 1089
Músculos em Exercício 1089
Respiração no Exercício 1061
O Sistema Cardiovascular no Exercício 1096
Calor Corporal no Exercício 1098
Líquidos Corporais e Sal no Exercício 1099
Drogas e Atletas 1099
A Forma Física Prolonga a Vida 1099
índice 1102
XXI
(página deixada intencionalmente em branco)
Introdução à Fisiologia: A Célula
e Fisiologia Geral
1. Organização Funcional do Corpo Humano e
Controle do "Meio Interno"
2. A Célula e suas Funções
3. Controle Genético da Síntese de Proteínas,
do Funcionamento Celular e da Reprodução
Celular
(página deixada intencionalmente em branco)
CAPÍTULO 1
Organização Funcional do Corpo Humano e
Controle do “Meio Interno”
O objetivo da fisiologia é
explicar os fatores físicos e
químicos que são respon-
sáveis pela origem, pelo de-
senvolvimento e pela pro-
gressão da vida. Cada tipo
de
vida, desde um vírus sim-
ples até a mais alta árvore ou o complicado ser humano,
tem suas próprias características funcionais. Portanto,
o vasto campo da fisiologia pode ser dividido em fisio-
logia virótica, fisiologia bacteriana, fisiologia celular,
fisiologia vegetal, fisiologia humana e diversas outras
subdivisões.
Fisiologia Humana. Na fisiologia humana, tentamos
explicar as características e os mecanismos específicos do
corpo humano que fazem dele um ser vivo. O próprio fato
de nos mantermos vivos é o resultado de complexos
sistemas de controle, porque a fome nos faz procurar por
alimento e porque o medo nos faz buscar refúgio. Sensações
de frio nos fazem procurar calor. Outras forças nos levam a
buscar o companheirismo e a reprodução. Assim, o ser
humano é, em muitos aspectos, como um autômato, e o fato
de sermos seres com sensações, sentimentos e culturas é
parte dessa sequência automática da vida; esses atributos
especiais nos permitem existir sob condições amplamente
variáveis.
As Células como Unidades Vivas do Corpo
A unidade viva básica do organismo é a célula. Cada órgão
é agregado de muitas células diferentes, mantidas unidas
por estruturas de suporte intercelular.
Cada tipo de célula é especialmente adaptado para
realizar uma ou algumas funções determinadas. Por
exemplo, as hemácias que totalizam 25 trilhões em cada ser
humano transportam oxigênio dos pulmões para os tecidos.
Embora as hemácias sejam as mais abundantes que
qualquer outro tipo de célula no corpo, existem cerca de 75
trilhões de células de outros tipos que realizam funções
diferentes das hemácias. O corpo inteiro, portanto, contém
cerca de 100 trilhões de células.
Embora as diversas células do corpo sejam acentua-
damente diferentes umas das outras, todas têm certas
características básicas comuns. Por exemplo, em todas as
células, o oxigênio reage com carboidratos, gorduras e
proteínas para liberar a energia necessária para o seu
funcionamento. Os mecanismos químicos gerais de
transformação de nutrientes em energia são, basicamente,
os mesmos em todas as células, e todas as células liberam
produtos finais de suas reações químicas nos líquidos que
as banham.
Quase todas as células também têm a capacidade de
reproduzir células adicionais de seu próprio tipo.
Felizmente, quando células de determinado tipo são
destruídas por uma ou outra causa, as células restantes do
mesmo tipo, nas condições normais, geram novas células
para suprir sua reposição.
Líquido Extracelular — O "Meio Interno"
Cerca de 60% do corpo humano adulto é composto por
líquidos, principalmente, uma solução aquosa de íons e
outras substâncias. Embora a maior parte desse líquido
esteja dentro das células e seja chamado de líquido
intracelular, cerca de um terço se encontra nos espaços fora
das células e é chamado de líquido extracelular. Este líquido
extracelular está em movimento constante por todo o
corpo. Ele é rapidamente transportado no sangue
circulante e em seguida misturado no sangue pelos
líquidos teciduais, por difusão, através das paredes dos
capilares.
No líquido extracelular estão os íons e nutrientes
necessários para manter a vida celular. Dessa forma, todas
as células vivem, essencialmente, no mesmo ambiente — o
líquido extracelular. Por esse motivo, o líquido extracelular
é, também, chamado de meio interno do corpo, ou milieu
intérieur, termo introduzido, há mais de 100 anos, pelo
grande fisiologista francês do século XIX, Claude Bernard.
As células podem viver, crescer e executar suas funções
especiais enquanto as concentrações adequadas de
oxigênio, glicose, íons, aminoácidos, lipídios e outros
constituintes estiverem disponíveis nesse ambiente interno.
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Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
Diferenças entre os Líquidos Extracelular e
Intracelular. O líquido extracelular contém grandes
quantidades de sódio, cloreto e íons bicarbonato mais os
nutrientes para as células, como oxigênio, glicose, ácidos
graxos e aminoácidos. Também contém dióxido de carbono que
é transportado das células para os pulmões para ser
excretado, além de outros produtos de excreção celulares,
que são transportados para os rins para serem eliminados.
O líquido intracelular difere significativamente do
líquido extracelular; por exemplo, ele contém grandes
quantidades de íons potássio, magnésio e fosfato, em vez dos
íons sódio e cloreto, encontrados no líquido extracelular.
Mecanismos especiais para o transporte de íons, através
das membranas celulares, mantêm as diferenças de
concentração iônicas entre os líquidos extracelulares e
intracelulares. Esses processos de transporte serão
discutidos no Capítulo 4.
Mecanismos "Homeostáticos” dos
Principais Sistemas Funcionais
Homeostasia
O termo homeostasia é usado, pelos fisiologistas, para
definir a manutenção de condições quase constantes no meio
interno. Todos os órgãos e tecidos do corpo humano
executam funções que contribuem para manter essas
condições relativamente constantes. Por exemplo, os
pulmões proveem oxigênio ao líquido extracelular para
repor o oxigênio utilizado pelas células, os rins mantêm
constantes as concentrações de íons e o sistema
gastrointestinal fornece os nutrientes.
Grande parte deste texto trata da maneira pela qual
cada órgão ou tecido contribui para a homeostasia. Para
começar essa discussão, os diferentes sistemas funcionais
do corpo e suas contribuições para a homeostasia são
esboçados neste capítulo; depois, delinearemos,
brevemente, a teoria básica dos sistemas de controle do
organismo que permitem que os sistemas funcionais
operem em suporte um do outro.
Sistema de Transporte e de Mistura do Líquido
Extracelular — O Sistema Circulatório do Sangue
O líquido extracelular é transportado para todas as partes
do corpo em dois estágios. O primeiro é a movimentação
do sangue pelo corpo, nos vasos sanguíneos, e o segundo é
a movimentação de líquido entre os capilares sanguíneos e
os espaços intercelulares entre as células dos tecidos.
A Figura 1-1 mostra esquematicamente a circulação
sanguínea. Todo o sangue na circulação percorre todo o
circuito circulatório, em média, uma vez a cada minuto,
quando o corpo está em repouso e até por seis vezes por
minuto, quando a pessoa está extremamente ativa.
Quando o sangue passa pelos capilares sanguíneos,
também ocorre troca contínua do líquido extracelular entre
a parte plasmática do sangue e o líquido intersticial
Pulmões
g.
Figura 1-1 Organização geral do sistema circulatório.
que preenche os espaços intercelulares. Esse processo é
mostrado na Figura 1-2. As paredes dos capilares são
permeáveis à maioria das moléculas no plasma do sangue,
com exceção das grandes moléculas das proteínas plas-
máticas demasiado grandes para passar com facilidade
através dos capilares. Portanto, grandes quantidades de
líquido e de seus constituintes dissolvidos se difundem em
ambas as direções, entre o sangue e os espaços dos tecidos,
como mostrado pelas setas. Esse processo de difusão é
causado pelo movimento cinético das moléculas no plasma
e no líquido intersticial. Isto é, o líquido e as moléculas
dissolvidas estão em movimento contínuo, em todas as
direções no plasma e no líquido nos espaços intercelulares,
bem como através dos poros capilares. Poucas células estão
localizadas a mais de 50 micrômetros de um capilar, o que
assegura a difusão de qualquer substância dos capilares
para as células em poucos segundos. Assim, o líquido
extracelular, em todas as partes do corpo — tanto no
plasma quanto no fluido intersticial — está continuamente
sendo misturado, mantendo homogeneidade quase
completa do líquido extracelular no corpo.
4
Capítulo 1 Organização Funcional do Corpo Humano e Controle do “Meio interno”
Figura 1-2 Difusão de fluido e de constituintes dissolvidos,
através das paredes dos capilares e dos espaços intersticiais.
Origem dos Nutrientes do Fluido Extracelular
Sistema Respiratório. A Figura 1-1 mostra que a cada
vez que o sangue passa pelo corpo, ele flui também pelos
pulmões. O sangue capta, nos alvéolos, o oxigênio
necessário para as células. A membrana entre os alvéolos e
o lúmen dos capilares pulmonares, a membrana alveolar, tem
apenas 0,4 a 2,0 micrômetros de espessura, e o oxigênio se
difunde, rapidamente, por movimento molecular, pelos
poros dessa membrana, para o sangue da mesma maneira
que a água e os íons se difundem através das paredes dos
capilares dos tecidos.
Remoção dos Produtos Finais do Metabolismo
Remoção do Dióxido de Carbono pelos Pulmões.
Ao mesmo tempo em que o sangue capta o oxigênio nos
pulmões, o dióxido de carbono é liberado do sangue para os
alvéolos pulmonares; o movimento respiratório do ar para
dentro e para fora dos pulmões carrega o dióxido de
carbono para a atmosfera. O dióxido de carbono é o mais
abundante de todos os produtos finais do metabolismo.
Rins. A passagem do sangue pelos rins remove do
plasma a maior parte das outras substâncias, além do
dióxido de carbono, que não são necessárias para as
células. Essas substâncias incluem diferentes produtos
finais do metabolismo celular, tais como a ureia e o ácido
úrico; também incluem o excesso de íons e de água dos
alimentos que podem ter se acumulado no líquido
extracelular.
Os rins realizam sua função primeiramente por filtrar
grandes quantidades de plasma através dos glomérulos
para os túbulos e depois reabsorve para o sangue aquelas
substâncias necessárias ao corpo, tais como glicose,
aminoácidos, quantidades adequadas de água e muitos dos
íons. A maioria das outras substâncias que não são
necessárias para o organismo, principalmente os produtos
metabólicos finais como a ureia, é pouco reabsorvida e
passa pelos túbulos renais para a urina.
Trato Gastrointestinal. O material não digerido que
entra no trato gastrointestinal e parte dos resíduos não
aproveitáveis do metabolismo são eliminados nas fezes.
Trato Gastrointestinal. Grande parte do sangue
bombeado pelo coração também flui através das paredes
do trato gastrointestinal. Aí, diferentes nutrientes
dissolvidos, incluindo carboidratos, ácidos graxos e
aminoácidos, são absorvidos, do alimento ingerido para o
líquido extracelular no sangue.
Fígado e Outros Órgãos que Realizam Funções
Primordialmente Metabólicas. Nem todas as substâncias
absorvidas pelo trato gastrointestinal podem ser usadas na
forma absorvida pelas células. O fígado altera, qui-
micamente, muitas dessas substâncias para formas mais
utilizáveis, e outros tecidos do corpo — células adiposas,
mucosa gastrointestinal, rins e glândulas endócrinas —
contribuem para modificar as substâncias absorvidas ou as
armazenam até que sejam necessárias. O fígado também
elimina alguns resíduos produzidos no organismo e
substâncias tóxicas que são ingeridos.
Sistema Musculoesquelético. Como o sistema mus-
culoesquelético contribui para a homeostasia? A resposta é
óbvia e simples: Se não existissem os músculos, o corpo não
poderia se mover para o local adequado, no devido tempo,
para obter os alimentos necessários para a nutrição. O
sistema musculoesquelético também proporciona
mobilidade para proteção contra ambientes adversos, sem
a qual todo o organismo com seus mecanismos
homeostáticos poderia ser instantaneamente destruído.
Fígado. Entra as funções do fígado está a
desintoxicação ou a remoção de muitas drogas e químicas
que são ingeridas. O fígado secreta várias dessas perdas em
bile para ser, por fim, eliminadas nas fezes.
Regulação das Funções Corporais
Sistema Nervoso. O sistema nervoso é composto de
três partes principais: a parte de aferência sensorial, o sistema
nervoso central (ou parte integrativa) e a parte de eferência
motora. Os receptores sensoriais detectam o estado do corpo
ou o estado do meio ambiente. Por exemplo, os receptores
na pele informam o organismo quando um objeto toca a
pele em qualquer ponto. Os olhos são órgãos sensoriais que
dão a imagem visual do ambiente. Os ouvidos também são
órgãos sensoriais. O sistema nervoso central é composto do
cérebro e da medula espinhal. O cérebro pode armazenar
informações, gerar pensamentos, criar ambição e
determinar as reações do organismo em resposta às
sensações. Os sinais apropriados são, então, transmitidos
através da eferência motora do sistema nervoso para
executar os desígnios da pessoa.
Um importante segmento do sistema nervoso é
chamado de sistema autônomo. Ele opera em um nível
subconsciente e controla muitas funções dos órgãos
internos, incluindo o nível de atividade de bombeamento
pelo coração, movimentos do trato gastrointestinal e
secreção de muitas das glândulas do corpo.
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Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
Sistema Hormonal. Existem no corpo oito principais
glândulas endócrinas que secretam substâncias químicas
chamadas hormônios. Os hormônios são transportados no
líquido extracelular para todas as partes do corpo para
participar da regulação da função celular. Por exemplo, o
hormônio da tireoide aumenta a velocidade da maioria das
reações químicas em todas as células, contribuindo assim
para estabelecer o ritmo da atividade corporal. A insulina
controla o metabolismo da glicose; hormônios
adrenocorticoides controlam o metabolismo dos íons sódio,
potássio, e o metabolismo proteico; e o hormônio
paratireóideo controla o cálcio e o fosfato dos ossos. Assim,
os hormônios formam um sistema para a regulação que
complementa o sistema nervoso. O sistema nervoso regula
muitas atividades musculares e secretórias do organismo,
enquanto o sistema hormonal regula muitas funções
metabólicas.
Proteção do Corpo
Sistema Imune. O sistema imune é composto pelos
glóbulos brancos, pelas células teciduais derivadas dos
glóbulos brancos, pelo timo, pelos linfonodos e pelos vasos
linfáticos que protegem o corpo contra patógenos, como as
bactérias, os vírus, os parasitas e os fungos. O sistema
imune supre o corpo com mecanismo que lhe permite
(1) distinguir suas próprias células das células e
substâncias estranhas e (2) destruir os invasores por
fagocitose ou pela produção de leucócitos sensibilizados, ou
por proteínas especializadas (p. ex., anticorpos) que
destroem ou neutralizam os invasores.
Sistema Integumentar. A pele e seus diversos
apêndices (fâneros), incluindo os pelos, as unhas, as
glândulas e várias outras estruturas, cobrem, acolchoam e
protegem os tecidos e os órgãos do corpo e, em geral,
formam o limite entre o meio interno do corpo e o mundo
externo. O sistema integumentar é também importante na
regulação da temperatura corporal e na excreção das
escórias, criando a interface sensorial entre o corpo e seu
ambiente externo. A pele, em geral, representa cerca de 12%
a 15% do peso corporal.
Reprodução
Às vezes, a reprodução não é considerada uma função
homeostática. Entretanto, ela realmente contribui para a
homeostasia através da geração de novos seres em
substituição dos que estão morrendo. Isto pode parecer um
uso pouco rigoroso do termo homeostasia, mas ilustra, em
última análise, que essencialmente todas as estruturas do
corpo são organizadas para manter a automaticidade e a
continuidade da vida.
Sistemas de Controle do Corpo
O corpo humano tem milhares de sistemas de controle. O
mais intrincado deles é o sistema de controle gené
tico que opera em todas as células para o controle das
funções intra e extracelular. Esse assunto é discutido no
Capítulo 3.
Muitos outros sistemas de controle operam dentro dos
órgãos para controlar funções de partes individuais desses
órgãos; outros ainda operam por todo o corpo para controlar
as inter-relações entre os órgãos. Por exemplo, o sistema
respiratório, operando em associação com o sistema
nervoso, regula a concentração de dióxido de carbono no
líquido extracelular. O fígado e o pâncreas regulam a
concentração de glicose no líquido extracelular, e os rins
regulam as concentrações de hidrogênio, sódio, potássio,
fosfato e de outros íons no líquido extracelular.
Exemplos de Mecanismos de Controle
Regulação das Concentrações de Oxigênio e
Dióxido de Carbono no Líquido Extracelular. Pelo fato
de o oxigênio ser uma das principais substâncias
necessárias para as reações químicas nas células, o
organismo dispõe de mecanismo especial de controle para
manter a concentração de oxigênio quase constante no
líquido extracelular. Esse mecanismo depende,
principalmente, das características químicas da
hemoglobina, presente em todas as hemácias. A
hemoglobina combina-se com o oxigênio, durante a
passagem do sangue pelos pulmões. Quando o sangue
passa pelos capilares dos tecidos, a hemoglobina, devido à
sua alta afinidade química pelo oxigênio, não o libera para
o líquido tecidual se já houver oxigênio demais no local.
Mas, se a concentração de oxigênio estiver baixa demais, a
quantidade suficiente é liberada para restabelecer a
concentração adequada. Portanto, a regulação da
concentração de oxigênio nos tecidos depende,
principalmente, das características químicas da própria
hemoglobina. Essa regulação é chamada de função de
tamponamento do oxigênio pela hemoglobina.
A concentração de dióxido de carbono no líquido
extracelular é regulada de forma muito diferente. O
dióxido de carbono é o principal produto final das reações
oxidativas nas células. Se todo o dióxido de carbono,
formado nas células, se acumulasse continuamente nos
líquidos teciduais, todas as reações que fornecem energia
às células cessariam. Porém, concentração mais alta que o
normal de dióxido de carbono no sangue excita o centro
respiratório, fazendo com que a pessoa respire rápida e
profundamente. Isso aumenta a expiração de dióxido de
carbono e, portanto, remove o excesso do gás do sangue e
dos líquidos teciduais. Este processo continua até que a
concentração volte ao normal.
Regulação da Pressão Sanguínea Arterial. Vários
sistemas contribuem para a regulação da pressão
sanguínea arterial. Um deles, o sistema barorreceptor, é
simples e excelente exemplo de mecanismo de controle de
ação rápida. Nas paredes da região de bifurcação das
artérias carótidas, no pescoço e também no arco da aorta,
no tórax, encontram-se vários receptores nervosos,
chamados barorreceptores, estimulados pelo estiramento da
parede arterial. Quando a pressão arterial sobe demais,
6
Capítulo 1
os barorreceptores enviam salvas de impulsos nervosos
para o tronco cerebral. Aí, esses impulsos inibem o centro
vasomotor que, por sua vez, diminui o número de impulsos
transmitidos por esse centro, por meio do sistema nervoso
simpático, para o coração e vasos sanguíneos. A redução
desses impulsos ocasiona a diminuição da atividade de
bombeamento do coração e, também, a dilatação dos vasos
sanguíneos periféricos, permitindo o aumento do fluxo
sanguíneo pelos vasos. Ambos os efeitos diminuem a
pressão arterial, trazendo-a de volta ao valor normal.
Inversamente, pressão arterial abaixo do normal reduz
o estímulo dos receptores de estiramento, permitindo ao
centro vasomotor atividade mais alta, causando, assim,
vasoconstrição e aumento do bombeamento cardíaco, com
elevação da pressão arterial de volta ao normal.
Organização Funcional do Corpo Humano e Controle do "Meio Interno”
ou mais vezes em relação à normal, provavelmente o
músculo cardíaco será gravemente deprimido. Também,
quando a concentração de íons cálcio cai abaixo da metade
da normal, o indivíduo provavelmente apresentará
contração tetânica dos músculos do corpo por causa da
geração espontânea de excesso de impulsos nervosos nos
nervos periféricos. Quando a concentração de glicose cai
abaixo da metade da normal, o indivíduo, geralmente,
desenvolve irritabilidade mental extrema e, às vezes, até
mesmo convulsões.
Esses exemplos devem dar uma ideia da necessidade e
da extrema importância do grande número de sistemas de
controle que mantêm o corpo funcionando na saúde; a
ausência de qualquer um desses controles pode resultar em
mau funcionamento sério do corpo ou em morte.
Faixas Normais e Características Físicas de Importantes
Constituintes do Líquido Extracelular
A Tabela 1-1 relaciona alguns dos constituintes e as
características físicas mais importantes do líquido
extracelular e seus valores normais, faixas normais e limites
máximos tolerados sem causar óbito. Observe como é
estreita a faixa normal de cada um. Valores fora dessas
faixas são, em geral, causados por doenças.
Mais importantes são os limites além dos quais as
anormalidades podem causar a morte. Por exemplo,
aumento da temperatura corpórea de apenas 11°F (7°C)
acima da normal pode levar a círculo vicioso de aumento
do metabolismo celular que destrói as células. Observe
também a estreita faixa do balanço no corpo, com valor
normal de pH de 7,4 e valores letais com apenas 0,5
unidade de pH acima ou abaixo do normal. Outro fator
importante é a concentração de íons potássio, pois quando
ela cai para menos de um terço da normal, o indivíduo
provavelmente apresenta paralisia em consequência da
incapacidade dos nervos de conduzir impulsos.
Alternativamente, se a concentração de íons potássio
aumentar para duas
Características dos Sistemas de Controle
Os exemplos mencionados anteriormente de mecanismos
de controle homeostáticos são apenas alguns dos milhares
que existem no corpo, todos os quais com certas
características em comum. Essas características são
explicadas nesta seção.
Natureza de Feedback Negativo da Maioria
dos Sistemas de Controle
A maioria dos sistemas de controle do organismo age por
feedback negativo, o que pode ser bem explicado pela revisão
de alguns dos sistemas de controle homeostáticos
mencionados antes. Na regulação da concentração de
dióxido de carbono, a alta concentração do gás no líquido
extracelular aumenta a ventilação pulmonar. Isso, por sua
vez, diminui a concentração de dióxido de carbono no
líquido extracelular, pois os pulmões eliminam maiores
quantidades de dióxido de carbono do organismo. Em
outras palavras, a alta concentração de dióxido de carbono
desencadeia eventos que diminuem a concentração até a
normal, o que é negativo para o estímulo inicial.
Inversamente,
Tabela 1-1 Constituintes Importantes e Características Físicas do Fluido Extracelular
Valor Normal Faixa Normal Limite Aproximado não Letal em
Curto Prazo
Unidade
Oxigênio 40 35-45 10-1.000 mmHg
Dióxido de carbono 40 35-45 5-80 mmHg
íon sódio 142 138-146 115-175 mmol/L
íon potássio 4,2 3,8-5,0 1,5-9,0 mmol/L
íon cálcio 1,2 1,0-1,4 0,5-2,0 mmol/L
íon cloreto 108 103-112 70-130 mmol/L
íon bicarbonato 28 24-32 8-45 mmol/L
Glicose 85 75-95 20-1.500 mg/dL
Temperatura corpórea 98,4 (37,0) 98-98,8 (37,0) 65-110 (18,3-43,3) °F (°C)
Ácido-básico 7,4 7,3-7,5 6,9-8,0 pH
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Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
a queda na concentração de dióxido de carbono produz
feedback para aumentar a concentração. Essa resposta
também é negativa em relação ao estímulo inicial.
Nos mecanismos de regulação da pressão arterial, a
pressão elevada causa uma série de reações que promovem
a redução da pressão, ou pressão baixa faz com que uma
série de reações promova a elevação da pressão. Em ambos
os casos, esses efeitos são negativos em relação ao estímulo
inicial.
Portanto, em geral, se algum fator se torna excessivo ou
deficiente, um sistema de controle inicia um feedback
negativo que consiste em série de alterações que
restabelecem o valor médio do fator, mantendo, assim, a
homeostasia.
"Ganho" do Sistema de Controle. O grau de eficiência
com que um sistema de controle mantém as condições
constantes é determinado pelo ganho do feedback negativo.
Por exemplo, vamos assumir que grande volume de sangue
seja transfundido em pessoa cujo sistema de controle de
pressão pelo barorreceptor não esteja funcionando, e a
pressão arterial sobe do nível normal, de 100 mmHg, para
175 mmHg. Então, suponhamos que o mesmo volume de
sangue seja injetado na mesma pessoa, quando o sistema
barorreceptor estiver funcionando, e, desta vez, a pressão
sobe por apenas 25 mmHg. Assim, o sistema de controle
por feedback provocou “correção” de -50 mmHg — ou seja,
de 175 mmHg para 125 mmHg. Permanece aumento de
pressão de +25 mmHg, chamado de “erro”, o que significa
que o sistema de controle não é 100% eficaz na prevenção
da alteração. O ganho do sistema é, então, calculado pela
seguinte fórmula:
_ , Correção
Ganho = —-—-—
Erro
Portanto, no exemplo do sistema barorreceptor, a
correção é de -50 mmHg e o erro remanescente é de +25
mmHg. Assim, o ganho do sistema barorreceptor de uma
pessoa, para o controle da pressão arterial, é -50 divididos
por +25, ou -2. Ou seja, distúrbio que aumenta ou diminui a
pressão arterial o faz com apenas um terço da que ocorreria
se esse sistema de controle não estivesse presente.
Os ganhos de alguns outros sistemas de controle
fisiológicos são muito maiores do que o do sistema
barorreceptor. Por exemplo, o ganho do sistema que
controla a temperatura interna do corpo, quando a pessoa é
exposta a clima moderadamente frio, é de
aproximadamente -33. Portanto, o sistema de controle da
temperatura é muito mais eficiente do que o sistema
barorreceptor de controle da pressão.
O Feedback Positivo Pode, Às Vezes, Causar Círculos
Viciosos e Morte
Podemos perguntar: por que, essencialmente, a maioria dos
sistemas de controle do organismo opera por feedback
negativo ao invés de por feedback positivo? Se
considerarmos a natureza do feedback positivo
imediatamente percebemos que o feedback positivo não leva
à estabilidade mas sim à instabilidade e, em alguns casos, à
morte.
A Figura 1-3 mostra exemplo no qual pode ocorrer a
morte potfeedback positivo. Essa figura representa a eficácia
do bombeamento cardíaco, mostrando que o coração de ser
humano saudável bombeia cerca de 5 litros de sangue por
minuto. Se a pessoa, subitamente, perde 2 litros de sangue,
a quantidade de sangue no corpo cai para nível muito baixo,
insuficiente para que o coração bombeie eficientemente. Em
consequência, a pressão arterial cai e o fluxo de sangue para
o músculo cardíaco pelos vasos coronários diminui. Isso
resulta em enfraquecimento do coração, diminuindo ainda
mais o bombeamento, com mais diminuição do fluxo
sanguíneo coronariano e, ainda mais, enfraquecimento do
coração; o ciclo se repete várias vezes até que ocorra a
morte. Observe que cada ciclo no feedback resulta em maior
enfraquecimento do coração. Em outras palavras, o
estímulo inicial causa mais estímulo, que é o feedback
positivo.
O feedback positivo é mais conhecido como “círculo
vicioso”, mas um feedback positivo moderado pode ser
superado pelos mecanismos de controle de feedback negativo
do corpo, e o círculo vicioso não se desenvolve. Por
exemplo, se a pessoa do exemplo mencionado antes tivesse
sangrado apenas 1 litro em vez de 2 litros, os mecanismos
normais de feedback negativo para controle do débito
cardíaco e da pressão arterial superariam o feedback positivo,
e a pessoa se recuperaria, conforme mostra a curva
pontilhada da Figura 1-3.
O Feedback Positivo Pode, Às Vezes, Ser Útil. Em
alguns casos, o corpo usa o feedback positivo em seu favor. A
coagulação sanguínea é exemplo de uso útil do feedback
positivo. Quando um vaso sanguíneo se rompe e começa a
se formar um coágulo, múltiplas enzimas, cha-
Figura 1-3 Recuperação do bombeamento cardíaco causado
por feedback negativo após remoção de 1 litro de sangue da
circulação. A morte é causada por feedback positivo quando 2
litros de sangue são removidos.
8
Capítulo 1 Organização Funcional do Corpo Humano e Controle do “Meio Interno”
madas de fatores de coagulação, são ativadas no interior do
próprio coágulo. Algumas dessas enzimas agem sobre
outras enzimas inativas no sangue imediatamente
adjacente, causando assim mais coagulação sanguínea. Esse
processo continua até que o orifício no vaso seja fechado, e o
sangramento cesse. Ocasionalmente, esse mecanismo pode
sair do controle e causar a formação de coágulos
indesejados. Na verdade, é isso que inicia a maioria dos
ataques cardíacos agudos, causados por coágulo que
começa na superfície interna de placa aterosclerótica em
artéria coronária e cresce até a obstrução dessa artéria.
O parto é outro caso em que o feedback positivo
desempenha papel valioso. Quando as contrações ute- rinas
ficam suficientemente fortes para que a cabeça do bebê
comece a empurrar o colo uterino, o estiramento do colo
envia sinais através do músculo uterino para o corpo do
útero, causando contrações ainda mais fortes. Assim, as
contrações uterinas estiram o colo, e esse estiramento causa
contrações mais intensas. Quando este processo fica
suficientemente poderoso, o bebê nasce. Se não forem
suficientemente poderosas, as contrações cessam e somente
após alguns dias elas recomeçam.
Outro uso importante do feedback positivo é na geração
de sinais nervosos. Quando a membrana de fibra nervosa é
estimulada, ocorre ligeiro vazamento de íons sódio, pelos
canais de sódio, na membrana do nervo, para o interior da
fibra. Os íons sódio que entram na fibra mudam então o
potencial da membrana, o que, por sua vez, causa maior
abertura dos canais, mais alteração de potencial e ainda
maior abertura de canais, e assim por diante. Assim, o leve
vazamento se torna explosão de sódio que entra na fibra
nervosa, criando o potencial de ação do nervo. Esse
potencial de ação, por sua vez, faz com que a corrente
elétrica flua ao longo da fibra, tanto no exterior quanto no
interior dela, dando início a outros potenciais de ação. Esse
processo continua ininterruptamente até que o sinal
nervoso chegue à extremidade da fibra.
Nos casos em que o feedback positivo é útil, o próprio
feedback positivo é parte de processo geral de feedback
negativo. Por exemplo, no caso de coagulação sanguínea, o
processo de coagulação por feedback positivo é processo de
feedback negativo para a manutenção do volume normal de
sangue. Também, o feedback positivo que causa sinais
nervosos permite que os nervos participem de milhares de
sistemas de controle nervosos por feedback negativo.
Tipos Mais Complexos de Sistemas de Controle —
Controle Adaptativo
Mais adiante neste livro, quando estivermos estudando
o sistema nervoso, veremos que este sistema contém grande
número de mecanismos de controle interconec- tados.
Alguns são simples sistemas de feedback, parecidos com os
que já foram discutidos. Muitos não o são. Por exemplo,
alguns movimentos do corpo ocorrem tão rapidamente que
não há tempo suficiente para que os sinais nervosos
percorram todo o caminho da periferia
do corpo até o cérebro e, então, novamente voltem à
periferia para controlar o movimento. Portanto, o cérebro
usa o princípio, chamado de controle por feed-forward, para
provocar as necessárias contrações musculares. Isto é, os
sinais nervosos sensoriais das partes que se movem
informam o cérebro se o movimento é realizado
corretamente. Se não, o cérebro corrige os sinais de
feed-forward que envia aos músculos na próxima vez que o
movimento for necessário. Se maiores correções forem
ainda necessárias, elas serão feitas nos movimentos
subsequentes. Isto é chamado de controle adaptativo. O
controle adaptativo, de certa forma, é um feedback negativo
retardado.
Dessa forma, pode-se perceber o quanto podem ser
complexos os sistemas corporais de controle de feedback. A
vida de uma pessoa depende de todos eles. Portanto,
grande parte deste livro é dedicada à discussão destes
mecanismos vitais.
o
>
Resumo —Automaticidade do Corpo
A finalidade deste capítulo é a de destacar, em primeiro
lugar, a organização geral do corpo e, em segundo lugar, os
meios pelos quais as diferentes partes do corpo operam em
harmonia. Em suma, o corpo é na verdade uma sociedade de
cerca de 100 trilhões de células, organizadas em estruturas
funcionais distintas, algumas das quais são chamadas de
órgãos. Cada estrutura funcional contribui com sua parcela
para a manutenção das condições home- ostáticas no
líquido extracelular que é chamado de meio interno.
Enquanto as condições normais forem mantidas nesse meio
interno, as células do corpo continuam vivendo e
funcionando adequadamente. Cada célula se beneficia da
homeostasia e contribui com sua parcela para a sua
manutenção. Essa interação recíproca proporciona a
automaticidade contínua do corpo, até que um ou mais
sistemas funcionais percam sua capacidade de contribuir
com sua parcela da função. Quando isso acontece, todas as
células do corpo sofrem. Disfunção extrema leva à morte;
disfunção moderada leva à doença.
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10
CAPÍTULO 2
A Célula e suas Funções
Cada um dos 100 trilhões
de células do ser humano
é estrutura viva que pode
sobreviver por meses ou
vários anos, desde que os
líquidos que as banham con-
tenham os nutrientes ade-
quados. Para compreender a função dos órgãos e de
outras estruturas do corpo, é essencial que primeiro
entendamos a organização básica da célula e as funções
das partes que a compõem.
' ii9h
Organização da Célula
A célula típica, observada por microscopia óptica, é
mostrada na Figura 2-1. Suas duas principais partes são o
núcleo e o citoplasma. O núcleo é separado do cito- plasma
pela membrana nuclear, e o citoplasma é separado dos
líquidos circundantes pela membrana celular, também
chamada membrana plasmática.
As diferentes substâncias que formam a célula são,
coletivamente, chamadas de protoplasma. O protoplasma é
composto, em sua grande maioria, de cinco substâncias
básicas: água, eletrólitos, proteínas, lipídios e carboidratos.
Agua. O principal meio líquido da célula é a água,
presente na maioria das células, exceto nas células de
gordura, na concentração de 70% a 85%. Muitas das
espécies químicas celulares estão dissolvidas na água.
Outras ficam suspensas nela, como partículas sólidas.
Ocorrem reações químicas entre os produtos químicos
dissolvidos ou nas superfícies das partículas suspensas ou
das membranas.
lons. Os íons mais importantes na célula são potássio,
magnésio, fosfato, sulfato, bicarbonato, e, em menores
quantidades, sódio, cloreto e cálcio. Eles serão discutidos,
mais detalhadamente, no Capítulo 4, que considera as
inter-relações entre os líquidos intra e extracelular.
Os íons são os componentes inorgânicos para as reações
celulares. Eles são necessários também para a ope
ração de alguns dos mecanismos de controle celular. Por
exemplo, íons que agem na membrana celular são
necessários para a transmissão de impulsos eletroquímicos
nos nervos e fibras musculares.
Proteínas. Depois da água, as substâncias mais
abundantes, na maioria das células, são as proteínas que
normalmente constituem 10% a 20% da massa celular. Elas
podem ser divididas em dois tipos: proteínas estruturais e
proteínas funcionais.
As proteínas estruturais estão presentes na célula,
principalmente, na forma de longos filamentos que são
polímeros de muitas moléculas individuais de proteínas.
Tais filamentos intracelulares formam microtúbulos e estes
formam os “citoesqueletos” de organelas celulares, como
cílios, axônios de neurônios, fusos mitóticos de células em
mitose, e a rede de finos tubos filamentares que mantêm as
partes do citoplasma e do nucleoplasma em seus
respectivos espaços. Extracelularmente, as proteínas
fibrilares são encontradas principalmente nas fibras de
colágeno e elastina do tecido conjuntivo e nas paredes dos
vasos sanguíneos, nos tendões, nos ligamentos e em outras
estruturas.
As proteínas funcionais são um tipo de proteína
totalmente diferente, normalmente composta de
combinações de poucas moléculas na forma
túbulo-globular. Essas proteínas são principalmente
enzimas da célula e, ao contrário das proteínas fibrilares, em
geral, são móveis no líquido celular. Muitas delas aderem
às estruturas membranosas dentro da célula. As enzimas
entram em
Citoplasma
Nucleoplasma
Núcleo
Figura 2-1 Estrutura da célula vista por microscopia óptica.
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A
Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
contato direto com outras substâncias no líquido celular e,
dessa forma, catalisam reações químicas intracelulares
específicas. Por exemplo, as reações químicas que clivam a
glicose em compostos menores e depois os combinam com
oxigênio para formar dióxido de carbono e água, suprindo
ao mesmo tempo energia para o funcionamento celular, são
todas catalisadas por diversas enzimas proteicas.
Lipídios. Os lipídios são diversos tipos de substâncias
agrupadas por suas propriedades comuns de solubili- dade
em solventes de gordura. Os lipídios especialmente
importantes são os fosfolipídios e o colesterol, que juntos
constituem cerca de 2% do total da massa celular. A sig-
nificância dos fosfolipídios e do colesterol é que eles são
solúveis principalmente em água e, portanto, são usados
para formar a membrana celular e as membranas
intracelulares que separam os diferentes compartimentos
da célula.
Além dos fosfolipídios e do colesterol, algumas células
contêm grandes quantidades de triglicerídios, também
chamados gordura neutra. Nos adipócitos, os triglicerídios
geralmente são responsáveis por até 95% da massa celular.
A gordura armazenada nessas células representa a
principal reserva de nutrientes energéticos do corpo que,
posteriormente, pode ser usada para fornecer energia em
qualquer parte do corpo, conforme necessário.
Carboidratos. Os carboidratos têm pouca função
estrutural na célula, exceto como partes das moléculas de
glicoproteínas, mas desempenham o papel principal na
nutrição da célula. A maioria das células humanas não
mantém grandes reservas de carboidratos; essa quantidade,
em geral, fica em torno de 1% de sua massa total mas
aumenta para até 3% nas células musculares e,
eventualmente, até 6% nas células hepáticas. Entretanto, o
carboidrato na forma de glicose dissolvida está sempre
presente no líquido extracelular, prontamente disponível
para as células. Também, pequena quantidade de
carboidrato é sempre armazenada nas células na forma
âeglico- gênio, que é um polímero insolúvel da glicose e que
pode ser despolimerizado e utilizado com rapidez para
suprir as necessidades energéticas das células.
Estrutura Física da Célula
A célula não é simplesmente um saco de líquido, enzimas e
substâncias químicas; ela também contém estruturas físicas
altamente organizadas, chamadas organelas intracelulares. A
natureza física de cada organela é tão importante quanto os
constituintes químicos da célula para a função celular. Por
exemplo, sem uma das organelas, as mitocôndrias, mais de
95% da liberação de energia dos nutrientes na célula
cessariam imediatamente. As organelas mais importantes e
outras estruturas da célula são mostradas na Figura 2-2.
Estruturas Membranosas da Célula
A maioria das organelas da célula é delimitada por
membranas compostas primariamente por lipídios e por
proteínas. Essas membranas incluem a membrana celular, a
membrana nuclear, a membrana do retículo endoplas- mático, e as
membranas das mitocôndrias, dos lisosso- mos e do complexo de
Golgi.
Os lipídios das membranas formam barreira que
impede o movimento de água e substâncias hidrosso- lúveis
de um compartimento da célula para outro, pois a água não
é solúvel em lipídios. Entretanto, moléculas de proteína nas
membranas, em geral, penetram completamente na
membrana, formando vias especializadas, contendo, em sua
maioria, poros para a passagem de substâncias específicas
através da membrana. Também, muitas outras proteínas da
membrana são enzimas que catalisam uma série de
diferentes reações químicas, discutidas aqui e nos capítulos
subsequentes.
Membrana Celular
A membrana celular (também chamada membrana pias-
mática), que envolve a célula, é estrutura fina, flexível e
elástica, de 7,5 a 10 nanômetros de espessura. É composta
quase totalmente por proteínas e por lipídios. A
composição aproximada é a seguinte: proteínas, 55%;
fosfolipídios, 25%; colesterol, 13%; outros lipídios, 4%; e
carboidratos, 3%.
A Barreira Lipídica da Membrana Celular Impede a
Penetração de Água. A Figura 2-3 mostra a estrutura da
membrana celular. Sua estrutura básica é a bicamada lipídica,
um fino filme, formado por dupla camada de lipídios —
cada camada com espessura de apenas uma molécula —
contínua por toda a superfície da célula. Dispersas nesse
filme lipídico existem grandes moléculas de proteína
globulares.
A dupla camada lipídica básica é composta por
moléculas de fosfolipídios. Uma extremidade da molécula
de fos- folipídio é solúvel em água; ou seja, é hidrofílica. A
outra extremidade é solúvel apenas em lipídios; ou seja, é
hidro- fóbica. A extremidade do fosfolipídio com fosfato é
hidrofílica, e a extremidade com ácido graxo é hidrofóbica.
Pelo fato de as partes hidrofóbicas das moléculas de
fosfolipídio serem repelidas pela água mas, se atraírem
entre si, elas espontaneamente se dispõem no interior da
membrana, conforme mostra a Figura 2-3. As partes
hidrofílicas com fosfato constituem as duas superfícies da
membrana celular completa, em contato com a água
intracelular na superfície interna da membrana, e com a
água extracelular na superfície externa.
A camada lipídica, no meio da membrana, é
impermeável às substâncias hidrossolúveis comuns, como
íons, glicose e ureia. Inversamente, as substâncias lipossolú-
veis, como oxigênio, dióxido de carbono e álcool, podem
entrar nessa parte da membrana com facilidade.
As moléculas de colesterol na membrana também têm
natureza lipídica, pois seu núcleo esteroide é muito
lipossolúvel. Essas moléculas, em certo sentido, estão dis-
12
Capítulo 2 A Célula e suas Funções
Cromossomos e DNA
Mitocôndria Retículo Retículo Microfilamentos
endoplasmático endoplasmático
granular liso
(agranular)
Centríolos
Grânulos de
secreção
Microtúbulos
Membrana
nuclear
Complexo
de Golgi
Membrana
celular
Nucléolo
Glicogênio
Ribossomos
Lisossomo
Figura 2-2 Reconstrução de célula típica, mostrando as organelas internas no citoplasma e no núcleo.
solvidas na bicamada da membrana. Elas contribuem,
principalmente, para a determinação do grau de
permeabilidade (ou impermeabilidade) da dupla camada
aos constituintes hidrossolúveis dos líquidos corpóreos. O
colesterol regula muito a fluidez da membrana.
Proteínas Integrais e Periféricas da Membrana
Celular. A Figura 2-3 também mostra massas globulares
flutuando na bicamada lipídica. São proteínas de
membrana, muitas das quais são glicoproteínas. Existem
dois tipos de proteínas da membrana celular: as proteínas
integrais, que atravessam toda a membrana, e as proteínas
periféricas, ancoradas à superfície da membrana e não a
penetram.
Muitas das proteínas integrais formam canais (ou poros)
pelos quais as moléculas de água e substâncias
hidrossolúveis, principalmente os íons, podem se difundir
entre os líquidos extra e intracelular. Esses canais,
formados por proteínas, também apresentam propriedades
seletivas, permitindo a difusão preferencial de algumas
substâncias em relação a outras.
Outras proteínas integrais agem como proteínas car-
readoras para o transporte de substâncias que, do contrário,
não poderiam penetrar na dupla camada lipídica.
Às vezes, elas podem até transportar substâncias na
direção oposta a dos seus gradientes eletroquímicos para a
difusão, o que é chamado de “transporte ativo”. Outras
ainda agem como enzimas.
Proteínas integrais da membrana também podem servir
como receptores para substâncias químicas hidrossolúveis,
tais como hormônios peptídios, que não penetram
facilmente na membrana celular. A interação dos
receptores da membrana celular com ligantes específicos,
que se ligam ao receptor, causa alterações estruturais na
proteína receptora. Isso, por sua vez, estimula a atividade
enzimática da parte intracelular da proteína ou induz
interações entre o receptor e as proteínas do citoplasma que
agem como segundos mensageiros, transmitindo assim o
sinal da parte extracelular do receptor para o interior da
célula. Dessa maneira, as proteínas integrais atravessando a
membrana celular constituem um meio de transmitir
informações sobre o ambiente para o interior da célula.
Moléculas das proteínas periféricas são,
frequentemente, ligadas às proteínas integrais. Essas
proteínas periféricas funcionam quase sempre como
enzimas ou como controladores do transporte de
substâncias através dos “poros” da membrana celular.
13
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Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
Carboidrato
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Bicamada
lipídica
Proteína
periférica
Líquido
intracelular
Citoplasma
Proteína integral
Líquido
extracelular
Proteína integral
Figura 2-3 Estrutura da membrana celular, mostrando que ela é composta principalmente de uma bicamada lipídica de moléculas de
fosfo- lipídio, mas com grandes números de moléculas de proteína projetando-se na membrana.Também, carboidratos estão ligados às
moléculas de proteína no exterior da membrana, e moléculas de proteína adicionais encontram-se no interior. (Redesenhada de Lodish
HF, Rothman JE:The assembly of cell membranes. Sei Am 240:48,1979. Copyright George V. Kevin.)
Carboidratos da Membrana — O “Glicocálice"
Celular. Os carboidratos na membrana ocorrem, quase
invariavelmente, em combinação com proteínas ou lipí-
dios, na forma de glicoproteínas ou glicolipídios. Na verdade,
muitas das proteínas integrais são glicoproteínas, e cerca
de um décimo das moléculas de lipídios da membrana é
composto por glicolipídios. As porções “glico” dessas
moléculas quase invariavelmente se estendem para fora da
célula, na superfície externa da membrana celular. Muitos
outros compostos de carboidrato, chamados proteoglicanos
— que são principalmente carboidratos ligados ao núcleo
de pequenas proteínas —, estão frouxamente ligados
também à superfície externa da célula. Dessa forma, toda a
superfície externa da célula, em geral, apresenta
revestimento frouxo de carboidrato, chamado glicocálice.
Os domínios de carboidratos, ligados à superfície
externa da célula, exercem várias funções importantes:
(1) Muitos deles têm carga elétrica negativa, o que dá à
maioria das células uma superfície negativamente
carregada que repele ânions. (2) O glicocálice de algumas
células se une ao glicocálice de outras, assim fixando as
células umas às outras. (3) Muitos dos carboidratos agem
como receptores para a ligação de hormônios, tais como
a insulina; quando a ligação se dá, a combinação ativa as
proteínas internas acopladas que, por sua vez, ativam
cascata de enzimas intracelulares. (4) Alguns domínios de
carboidratos participam de reações imunes, como discutido
no Capítulo 34.
O Citoplasma e Suas Organelas
O citoplasma contém partículas dispersas, minúsculas e
grandes, e organelas. A parte líquida e transparente do
citoplasma, onde as partículas ficam dispersas, é chamada
citosol; contém, principalmente, proteínas dissolvidas,
eletrólitos e glicose.
Dispersos no citoplasma encontram-se os glóbulos de
gordura neutra, grânulos de glicogênio, ribossomos,
vesículas secretórias, e cinco organelas especialmente
importantes: o retículo endoplasmático, o complexo de Golgi, as
mitocôndrias, os lisossomos e os peroxissomos.
Retículo Endoplasmático
A Figura 2-2 mostra rede de estruturas vesiculares,
tubulares e achatadas no citoplasma; é o retículo
endoplasmático. Os túbulos e vesículas se interconectam.
Suas paredes também são constituídas por membranas
com
14
dupla camada lipídica, com grande quantidade de
proteínas, similares às da membrana celular. A área total
dessas estruturas, em algumas células — por exemplo, nas
células hepáticas —, pode ser de até 30 ou 40 vezes a área
da membrana celular.
A estrutura detalhada de pequena porção do retí- culo
endoplasmático é mostrada na Figura 2-4. O espaço interno
dos túbulos e das vesículas é cheio de matriz endo-
plasmática, meio aquoso que é diferente do líquido do
citosol, externo ao retículo endoplasmático. Micrografias
eletrônicas mostram que o espaço interno do retículo
endoplasmático é conectado com o espaço entre as duas
superfícies da membrana nuclear.
As substâncias, formadas em algumas partes da célula,
entram no espaço do retículo endoplasmático e são, então,
conduzidas para outras partes da célula. Também, a vasta
área da superfície desse retículo e os múltiplos sistemas de
enzima anexados às suas membranas fornecem a
maquinaria para grande parte das funções metabólicas da
célula.
Ribossomos e Retículo Endoplasmático Granular.
Ancoradas na superfície externa de muitas partes do
retículo endoplasmático estão numerosas partículas
granulares e minúsculas, chamadas de ribossomos. Onde os
ribossomos estão presentes, o retículo é chamado de retículo
endoplasmático granular. Os ribossomos são compostos por
mistura de RNA e de proteínas, e funcionam na síntese de
novas moléculas de proteínas na célula, como discutido,
mais adiante, neste capítulo e no Capítulo 3.
Retículo Endoplasmático Agranular. Parte do retículo
endoplasmático não contém ribossomos. Essa parte é
chamada de retículo endoplasmático agranular, ou liso. O
retículo agranular serve para a síntese de substâncias
lipídicas e para outros processos das células, promovidos
pelas enzimas intrarreticulares.
Complexo de Golgi
O complexo de Golgi, mostrado na Figura 2-5, está
intimamente relacionado com o retículo endoplasmático.
Ele tem membranas parecidas com as do retículo
endoplasmático agranular. Normalmente, é composto por
quatro ou mais camadas de vesículas fechadas, finas e
achatadas, empilhadas e dispostas na vizinhança de um
dos lados do núcleo. Esse complexo ocorre,
destacadamente, em células secretórias, localizado no polo
da célula por onde se dá a secreção.
O complexo de Golgi funciona em associação ao
retículo endoplasmático. Conforme mostra a Figura 2-5,
pequenas “vesículas de transporte” (também chamadas de
vesículas do retículo endoplasmático, ou vesículas RE)
destacam-se do retículo endoplasmático e, logo depois, se
fundem com o complexo de Golgi. As substâncias contidas
nas vesículas RE são transportadas do retículo
endoplasmático para o complexo de Golgi. As substâncias
transportadas são então processadas no complexo de Golgi
para formar lisossomos, vesículas secretórias e outros
componentes citoplasmáticos, discutidos mais adiante
neste capítulo.
Capítulo 2 A Célula e suas Funções
Figura 2-4 Estrutura do retículo endoplasmático. (Modificada de
DeRobertis EDP, Saez FA, DeRobertis EMF: Cell Biology, 6th ed.
Philadelphia:WB Saunders, 1975.)
Matriz
Retículo
endoplasmático
granular
Retículo
endoplasmático
agranular
Vesículas de Golgi
Complexo de
Golgi
Vesículas RE
Retículo
endoplasmático
Figura 2-5 Complexo de Golgi típico e sua relação com o
retículo endoplasmático (RE) e com o núcleo.
Lisossomos
Os lisossomos, mostrados na Figura 2-2, são organelas
vesiculares que se formam separando-se do complexo de
Golgi e, depois, se dispersando pelo citoplasma. Os
lisossomos constituem um sistema digestivo intracelular que
permite que a célula digira (1) estruturas celulares
danificadas, (2) partículas de alimentos que foram
ingeridos pela célula, e (3) materiais indesejados, tais como
bactérias. O lisossomo é muito diferente nos diversos tipos
de células, mas geralmente tem diâmetro de 250 a 750
nanô- metros. É cercado por membrana de dupla camada
lipídica e contém grande número de pequenos grânulos, de
5 a 8 nanômetros de diâmetro, que são agregados proteicos,
com até 40 diferentes enzimas da classe das hidrolases
(digestivas). Uma enzima hidrolítica é capaz de quebrar
15
Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
composto orgânico em duas ou mais partes, combinando o
hidrogênio de uma molécula de água com uma parte
hidroxila do composto da molécula de água com a outra
parte do composto. Assim, a proteína é hidrolisada para
formar aminoácidos, o glicogênio é hidrolisado para
formar a glicose e os lipídios são hidrolisados para formar
ácidos graxos e glicerol.
Comumente, a membrana que circunda o lisossomo
evita que as enzimas hidrolíticas, nele contidas, entrem em
contato com outras substâncias na célula e, portanto,
impede suas ações digestivas. Entretanto, algumas
condições da célula rompem as membranas de alguns dos
lisossomos, permitindo a liberação das enzimas digestivas.
Essas enzimas então clivam as substâncias orgânicas com
as quais entram em contato em moléculas pequenas
altamente difundíveis, tais como aminoácidos e glicose.
Algumas das funções mais específicas dos lisossomos serão
discutidas mais adiante neste capítulo.
Peroxissomos
Os peroxissomos são fisicamente parecidos com os
lisossomos, mas diferentes em dois aspectos importantes.
Primeiro, acredita-se que eles sejam formados por
autorreplicação (ou talvez por brotamento do retículo
endoplasmático liso) e não pelo complexo de Golgi. Em
segundo lugar, eles contêm oxidases em vez de hidrola-
ses. Diversas oxidases são capazes de combinar oxigênio
com íons hidrogênio derivados de diferentes substâncias
químicas intracelulares para formar o peróxido de
hidrogênio (H202). O peróxido de hidrogênio é substância
altamente oxidante e usado em combinação com a catalase,
outra oxidase presente em grande quantidade nos
peroxissomos, para oxidar muitas substâncias que
poderíam de outra forma ser tóxicas para a célula. Por
exemplo, cerca de metade do álcool que uma pessoa bebe é
eliminada pelos peroxissomos das células hepá- ticas desta
maneira.
Vesículas Secretórias
Uma das importantes funções de várias células é a secreção
de substâncias químicas específicas. Quase todas essas
substâncias secretadas são formadas pelo sistema
reticuloendoplasmático-complexo de Golgi, sendo, então,
liberadas pelo complexo de Golgi no citoplasma, na forma
de vesículas de armazenamento, chamadas de vesículas
secretórias ou grânulos secretários. A Figura 2-6 mostra
vesículas secretórias típicas nas células acinares
pancreáticas; essas vesículas armazenam proteínas que são
proenzimas (enzimas que ainda não foram ativadas). As
proenzimas são secretadas, posteriormente, através da
membrana celular apical no dueto pancreático e daí para o
duodeno, onde se tornam ativas e realizam funções
digestivas sobre o alimento no trato intestinal.
Mitocôndrias
As mitocôndrias, mostradas nas Figuras 2-2 e 2-7, são
chamadas de “casa de força” da célula. Sem elas, as célu
las seriam incapazes de extrair energia suficiente dos
nutrientes e essencialmente todas as funções celulares
cessariam.
As mitocôndrias estão presentes em todas as áreas
citoplasmáticas de cada célula, mas o número total por
célula varia de menos de 100 até vários milhares,
dependendo da quantidade de energia necessária para a
célula. Além disso, as mitocôndrias estão concentradas nas
porções da célula responsáveis pela maior parte do seu
metabolismo energético. Também variam de tamanho e de
forma. Umas têm apenas algumas centenas de nanôme-
tros de diâmetro e forma globular, enquanto outras são
alongadas — chegam a 1 micrômetro de diâmetro e 7
micrômetros de comprimento; outras ainda são
ramificadas e filamentares.
A estrutura básica da mitocôndria, mostrada na Figura
2-7, é composta principalmente de duas membranas, cada
uma formada por bicamada lipídica e proteínas: uma
membrana externa e uma membrana interna. Diversas dobras
da membrana interna formam as cristas nas quais estão as
enzimas oxidativas. Além disso, a cavidade interna da
mitocôndria é preenchida por uma matriz que contém
grandes quantidades de enzimas dissolvidas, necessárias
para a extração de energia dos nutrien-
Grânulos
secretórios
Figura 2-6 Grânulos secretórios (vesículas secretórias) em
células acinares do pâncreas.
Membrana externa
Membrana interna
Cristas Matriz
Câmara intermédia
Enzimas para
a fosforilação
oxidativa
Figura 2-7 Estrutura da mitocôndria. (Modificada de DeRobertis
EDP, Saez FA, DeRobertis EMF: Cell Biology, 6th ed. Philadelphia:
WB Saunders, 1975.)
16
tes. Essas enzimas operam em associação com as enzimas
oxidativas nas membranas, oxidando os nutrientes,
formando dióxido de carbono e água e ao mesmo tempo
liberando energia. A energia liberada é usada para
sintetizar a substância de “alta energia”, chamada de
trifosfato de adenosina (ATP). O ATP é, então, transportado
para fora da mitocôndria e se difunde pela célula para
liberar sua própria energia onde ela for necessária para
realizar as funções celulares. Os detalhes químicos da
formação de ATP pela mitocôndria são fornecidos no
Capítulo 67, mas algumas das funções básicas do ATP na
célula são apresentadas mais adiante neste capítulo.
As mitocôndrias são autorreplicantes, o que significa
que uma mitocôndria pode formar uma segunda, uma
terceira, e assim por diante, onde na célula houver
necessidade de maiores quantidades de ATP. De fato, a
mitocôndria contém DNA similar ao encontrado no núcleo
da célula. No Capítulo 3 veremos que o DNA é a substância
química básica do núcleo que controla a repli- cação da
célula. O DNA da mitocôndria desempenha um papel
similar, controlando a replicação da própria mitocôndria.
Citoesqueleto Celular — Filamentos e Estruturas
Tubulares da Célula
As proteínas fibrilares da célula estão geralmente
organizadas em filamentos ou túbulos. As moléculas
precursoras de proteína são sintetizadas pelos ribossomos
no citoplasma. As moléculas precursoras então se polimeri-
zam para formar fdamentos. Como um exemplo, grandes
quantidades de filamentos de actina geralmente ocorrem
na zona mais externa do citoplasma, chamada de ecto-
plasma, e formam um suporte elástico para a membrana
celular. Também, em células musculares, os filamentos de
actina e miosina são organizados em uma máquina con-
trátil especial que é a base da contração muscular, como
discutiremos detalhadamente no Capítulo 6.
Um tipo especial de filamento rígido, composto por
moléculas de tubulina polimerizadas, é usado em todas as
células para construir estruturas tubulares muito fortes, os
microtúbulos. A Figura 2-8 mostra microtúbulos típicos que
foram isolados do flagelo de espermatozóide.
Outro exemplo de microtúbulo é a estrutura esquelética
tubular no centro de cada cílio que se projeta do citoplasma
da célula para a ponta do cílio. Essa estrutura será discutida
adiante, neste capítulo, e é ilustrada na Figura
2- 17. Também, tanto os centríolos quanto o fuso mitó-
tico da célula em mitose são compostos por microtúbulos
rígidos.
A função primária dos microtúbulos, assim, é a de
formar o citoesqueleto, proporcionando estruturas rígidas
para certas partes de células.
Núcleo
O núcleo é o centro de controle da célula. Resumidamente,
o núcleo contém grande quantidade de DNA, que são os
genes. Os genes determinam as características das proteí
Capítulo 2 A Célula e suas Funções
nas da célula, incluindo as proteínas estruturais, como
também as enzimas intracelulares, que controlam as
atividades citoplasmáticas e nucleares.
Os genes também controlam e promovem a reprodução
da própria célula. Os genes primeiro se replicam para
formar dois conjuntos idênticos de genes; depois, a célula
se divide, por processo especial, chamado mitose, para
formar duas células-filhas, e cada uma delas recebe um dos
dois conjuntos de genes. Todas essas atividades do núcleo
serão detalhadamente consideradas no próximo capítulo.
Infelizmente, a aparência do núcleo ao microscópio não
fornece muitas pistas sobre os mecanismos pelos quais
realiza suas atividades de controle. A Figura 2-9 mostra a
aparência do núcleo na interfase (o período entre as
mitoses) ao microscópio óptico, revelando a coloração
escura da cromatina dispersa pelo nucleoplasma. Durante a
mitose, a cromatina se organiza na forma de cromossomos
altamente estruturados, que podem então ser identificados
pelo microscópio óptico, conforme ilustrado no próximo
capítulo.
a
>
Figura 2-8 Microtúbulos separados do flagelo de um
espermatozóide. (De Wolstenholme GEW, 0’Connor M, e the
publisher, JA Churchill, 1967. Figura 4, página 314. Copyright
Novartis Foundation, antiga Ciba Foundation.)
17
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Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
Membrana Nuclear
A membrana nuclear, também chamada envelope nuclear, é na
verdade constituída por duas membranas, cada uma com a
bicamada lipídica uma por dentro da outra. A membrana
externa é contínua com o retículo endoplasmático do
citoplasma celular, e o espaço entre as duas membranas
nucleares é contínuo com o espaço interno do retículo
endoplasmático, como mostrado na Figura 2-9.
A membrana nuclear é vazada por vários milhares de
poros nucleares. Grandes complexos de moléculas de
proteínas estão ancorados às bordas dos poros, de forma
que a área central de cada poro tem apenas cerca de 9 nanô-
metros de diâmetro. Esse tamanho é suficientemente
grande para permitir que moléculas de peso molecular de
até 44.000 passem através deles com razoável facilidade.
Nucléolos e Formação de Ribossomos
Os núcleos da maioria das células contêm uma ou mais
estruturas com afinidade pelos corantes usados em
microscopia, chamadas nucléolos. O nucléolo,
diferentemente da maioria das outras organelas discutidas
aqui, não tem membrana delimitadora. Ele é,
simplesmente, um acúmulo de grande quantidade de RNA
e proteínas dos tipos encontrados nos ribossomos. O
nucléolo fica consideravelmente maior quando a célula está
ativa, sintetizando proteínas.
A formação dos nucléolos (e dos ribossomos, no
citoplasma fora do núcleo) começa no núcleo. Primeiro,
genes específicos de DNA, nos cromossomos, promovem a
síntese de RNA. Parte dele é armazenada nos nucléolos,
mas a maior parte é transportada para o citoplasma, pelos
poros nucleares. No citoplasma, o RNA, em conjunto com
proteínas específicas, forma ribossomos “maduros” que
desempenham papel essencial na formação das proteínas
citoplasmáticas, como discutiremos mais profundamente
no Capítulo 3.
Comparação da Célula Animal com Formas
Pré-celulares de Vida
nas células de mamíferos e ele é capaz de se autorreprodu-
zir sob condições adequadas. Assim, o vírus propaga sua
linhagem de geração para geração e é, portanto, estrutura
viva da mesma forma que a célula e o ser humano são
estruturas vivas.
Com a evolução da vida, outras substâncias químicas,
além do ácido nucleico e das proteínas, se tornaram partes
integrantes do organismo, e funções especializadas
começaram a se desenvolver em diferentes partes do vírus.
Formou-se membrana ao redor do vírus e, dentro da
membrana, apareceu matriz fluida. Substâncias químicas
especializadas se desenvolveram no fluido para realizar
funções especiais; muitas enzimas proteicas pareciam ser
capazes de catalisar reações químicas e, portanto,
determinar as atividades do organismo.
Em estágios ainda mais recentes da vida, especialmente
nos estágios riquetsiais e bacterianos, desenvolveram-se
organelas no interior do organismo, representando
estruturas físicas com agregados químicos que realizam
funções mais eficientemente do que as mesmas substâncias
químicas dispersas na matriz fluida.
Por fim, na célula nucleada, desenvolveram-se
organelas ainda mais complexas, sendo a mais importante
delas o próprio núcleo. O núcleo distingue esse tipo de
célula de todas as formas inferiores de vida; o núcleo
proporciona um centro de controle para todas as atividades
celulares e assegura a reprodução exata de novas células,
geração após geração, cada nova célula exatamente com a
mesma estrutura de sua progenitora.
Sistemas Funcionais da Célula
No restante deste capítulo, discutiremos diversos sistemas
funcionais representativos da célula que fazem dela um
organismo vivo.
Ingestão pela Célula — Endocitose
Para uma célula viver, crescer e se reproduzir ela tem de
obter nutrientes e outras substâncias dos líquidos ao seu
A célula é organismo muito complicado que se
desenvolveu por centenas de milhões de anos, depois que a
primeira forma de vida, um organismo similar aos vírus
atuais, apareceu na Terra. A Figura 2-10 mostra os
tamanhos relativos de (1) o menor vírus conhecido, (2) um
vírus grande, (3) uma riquétsia, (4) uma bactéria, e (5) uma
célula nucleada, indicando que a célula tem diâmetro de
aproximadamente 1.000 vezes o do menor vírus e,
portanto, volume de cerca de um bilhão de vezes o do
menor vírus. Correspondentemente, as funções e a
organização anatômica da célula são também muito mais
complexas do que as do vírus.
O constituinte essencial que confere vida ao pequeno
vírus é um ácido nucleico revestido por capa de proteína.
Esse ácido nucleico é composto dos mesmos constituintes
do ácido nucleico básico (DNA ou RNA), encontrados
15 nm - Vírus pequeno
1150 nm - Vírus grande
350 nm - Riquétsia
Bactéria de 1 mm
Célula
Figura 2-10 Comparação dos tamanhos de organismos
pré-celu- lares com o de uma célula média do corpo humano.
18
redor. A maioria das substâncias passa, através da
membrana celular, por difusão e por transporte ativo.
A difusão envolve o transporte através da membrana,
causado pelo movimento aleatório das moléculas da
substância; as substâncias se movem pelos poros da
membrana celular ou, no caso de substâncias lipossolú-
veis, através da matriz lipídica da membrana.
O transporte ativo envolve o carreamento de substância
através da membrana por estrutura proteica física que
atravessa a membrana. Esses mecanismos de transporte
ativo, tão importantes para a função celular, serão
apresentados detalhadamente no Capítulo 4.
Partículas muito grandes entram na célula por meio de
função especializada da membrana celular, chamada
endocitose. As principais formas de endocitose são a
pinocitose e a fagocitose. Pinocitose significa a ingestão de
minúsculas partículas que formam vesículas de líquido
extracelular e por componentes particulados no interior do
citoplasma da célula. Fagocitose significa a ingestão de
grandes partículas, tais como bactérias, células totais ou
partes de tecido em degeneração.
Pinocitose. A pinocitose ocorre continuamente nas
membranas celulares da maioria das células, mas é
especialmente rápida em algumas delas. Por exemplo, ela
ocorre tão rapidamente em macrófagos que cerca de 3% da
membrana total do macrófago são engolfados, na forma de
vesículas, a cada minuto. Mesmo assim, as vesículas
pinocitóticas são muito pequenas — normalmente, apenas
100 a 200 nanômetros de diâmetro — que a maioria delas só
pode ser vista ao microscópio eletrônico.
A pinocitose é o único meio pelo qual a maioria das
grandes macromoléculas, tal como a maior parte das
moléculas de proteína, pode entrar nas células. A
velocidade de formação de vesículas pinocitóticas é
usualmente aumentada quando essas macromoléculas
aderem à membrana celular.
A Figura 2-11 demonstra as etapas sucessivas da
pinocitose de três moléculas de proteína que aderem à
membrana. Essas moléculas, em geral, se ligam a receptores
Proteínas Receptores
C D
Figura 2-11 Mecanismo da pinocitose.
Capítulo 2 A Célula e suas Funções
de proteínas especializados, na superfície da membrana,
que são específicas para o tipo de proteína que será
absorvida. Os receptores, na maioria das vezes, estão
concentrados em pequenas concavidades na superfície
externa da membrana celular, chamadas cavidades
revestidas. Na face interna da membrana celular, abaixo
dessas cavidades, existe uma malha de proteína fibrilar,
chamada clatrina, bem como outras proteínas, incluindo
talvez filamentos contráteis de actina e miosina. Se as
moléculas de proteína se unem aos receptores, as
propriedades da superfície da membrana local se alteram
de tal forma que ocorre invaginação, e as proteínas fibri-
lares, ao redor da abertura da cavidade em invaginação,
fazem com que suas bordas se fechem sobre as proteínas
ligadas aos receptores, engolfando também pequena
quantidade de líquido extracelular. Imediatamente, a parte
invaginada da membrana se destaca da superfície da
célula, formando uma vesícula pinocitótica, no citoplasma da
célula.
O que faz com que a membrana celular passe pelas
deformações necessárias, para formar as vesículas
pinocitóticas, permanece essencialmente um mistério. Esse
processo requer energia do interior da célula suprida pelo
ATP, substância de alta energia, discutida adiante, neste
capítulo. Também requer a presença de íons cálcio no
líquido extracelular que provavelmente reagem com os
filamentos de proteína contráteis abaixo das cavidades
revestidas, para gerar a força para destacar as vesículas da
membrana celular.
Fagocitose. A fagocitose ocorre de forma muito
parecida com a pinocitose, mas envolve partículas grandes
em vez de moléculas. Apenas certas células têm a
capacidade da fagocitose, mais notavelmente os
macrófagos dos tecidos e alguns leucócitos.
A fagocitose se inicia quando uma partícula tal como
bactéria, célula morta, ou resto de tecido se liga a
receptores na superfície do fagócito. No caso das bactérias,
cada uma geralmente está ligada a anticorpo específico, e é
o anticorpo que se liga aos receptores do fagócito,
arrastando a bactéria com ele. Essa intermediação de
anticorpos é chamada de opsonização, discutida nos
Capítulos 33 e 34.
A fagocitose ocorre segundo os seguintes passos:
1. Os receptores da membrana celular se ligam aos ligantes
da superfície da partícula.
2. As bordas da membrana, ao redor dos pontos de
ligação, evaginam em fração de segundo para envolver
toda a partícula; então, progressivamente, mais e mais
receptores da membrana se unem aos ligantes da
partícula. Tudo isso ocorre repentinamente, como um
zíper, para formar a vesícula fagocítica fechada.
3. A actina e outras fibrilas contráteis, no citoplasma,
envolvem a vesícula fagocítica e se contraem ao redor
de sua borda externa, empurrando a vesícula para o
interior.
19
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Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
4. As proteínas contráteis então fecham a abertura da
vesícula tão completamente que ela se separa da
membrana celular, deixando a vesícula no interior da
célula, da mesma maneira como as vesículas
pinocitóticas são formadas.
Digestão de Substâncias Estranhas, Pinocitóticas e
Fagocíticas Dentro da Célula — Função dos
Lisossomos
Quase imediatamente após o aparecimento de uma
vesícula pinocitótica ou fagocítica no interior da célula, um
ou mais lisossomos se ligam à vesícula e lançam suas
hidrolases ácidas no interior da vesícula, como mostra a
Figura 2-12. Assim, uma vesícula digestiva é formada no
citoplasma da célula, na qual as hidrolases vesiculares
começam a hidrolisar as proteínas, carboidratos, lipídios e
outras substâncias da vesícula. Os produtos da digestão são
pequenas moléculas de aminoácidos, glicose, fosfatos e
outros, que podem se difundir, através da membrana da
vesícula, para o citoplasma. O que sobra da vesícula
digestiva, chamado corpo residual, representa substâncias
indigeríveis. Na maior parte dos casos, esse corpo residual
é finalmente excretado pela membrana celular pelo
processo da exocitose que é essencialmente o oposto da
endocitose.
Dessa forma, as vesículas pinocitóticas e fagocíticas
contendo lisossomos podem ser chamadas de órgãos
digestivos das células.
Regressão dos Tecidos e Autólise das Células.
Certos tecidos corporais podem com frequência regredir
até tamanho menor. Por exemplo, isso ocorre com o útero
depois da gravidez, nos músculos durante longos períodos
de inatividade, e nas glândulas mamárias, ao final da
lactação. Os lisossomos são responsáveis por grande parte
dessa regressão. O mecanismo pelo qual a falta de
atividade do tecido faz com que os lisossomos aumentem
sua atividade é desconhecido.
Figura 2-12 Digestão de substâncias nas vesículas pinocitóticas
ou fagocíticas por enzimas derivadas dos lisossomos.
Outro papel especial dos lisossomos é a remoção das
células danificadas ou partes danificadas das células dos
tecidos. Danos celulares — causados por calor, frio, trauma,
produtos químicos ou qualquer outro fator — induzem os
lisossomos a se romper. As hidrolases liberadas
imediatamente começam a digerir as substâncias orgânicas
adjacentes. Se o dano for leve, apenas parte da célula é
removida, seguida por seu reparo. Se o dano for grave,
toda a célula é digerida, processo chamado de autólise.
Dessa maneira, a célula é completamente removida e nova
célula, do mesmo tipo, é normalmente formada por
reprodução mitótica de célula adjacente, em substituição à
antiga.
Os lisossomos também contêm agentes bactericidas que
podem matar bactérias fagocitadas, antes que possam
causar danos celulares. Esses agentes incluem: (1) lisozima,
que dissolve a membrana celular da bactéria; (2) lisoferrina,
que liga o ferro e outras substâncias, antes que possam
promover o crescimento bacteriano; e (3) ácido, em pH de
aproximadamente 5,0, que ativa as hidrolases e inativa os
sistemas metabólicos das bactérias.
Síntese e Formação de Estruturas Celulares pelo
Retículo Endoplasmático e Complexo de Golgi
Funções Específicas do Retículo Endoplasmático
A extensão do retículo endoplasmático e do complexo de
Golgi nas células secretórias já foi destacada. Essas
estruturas são formadas principalmente por membranas de
bicamada lipídica, similar à da membrana celular, e suas
paredes são revestidas por enzimas proteicas que catalisam
a síntese de muitas substâncias necessárias para a célula.
A maioria das sínteses começa no retículo
endoplasmático. Os produtos formados nele são então
transferidos para o complexo de Golgi, onde são
novamente processados, antes de serem liberados no
citoplasma. Mas primeiramente devemos destacar os
produtos específicos que são sintetizados nas partes
específicas do retículo endoplasmático e do complexo de
Golgi.
Proteínas São Formadas pelo Retículo
Endoplasmático Granular. A porção granular do retículo
endoplasmático é caracterizada por grande número de
ribossomos ancorados às superfícies externas da
membrana do retículo endoplasmático. Como discutido no
Capítulo 3, as moléculas de proteína são sintetizadas no
interior da estrutura dos ribossomos. Os ribossomos
lançam algumas das moléculas de proteína sintetizadas
diretamente no citosol, mas também transferem muito mais
através da parede do retículo endoplasmático para o
interior das vesículas e túbulos endoplasmáticos, isto é,
para a matriz endoplasmática.
Síntese de Lipídios pelo Retículo Endoplasmático
Liso. O retículo endoplasmático também sintetiza lipídios,
especialmente os fosfolipídios e o colesterol. Estes são
rapidamente incorporados à bicamada lipídica do próprio
retículo endoplasmático, fazendo com que ele fique mais
extenso. Isto ocorre principalmente na parte lisa do retículo
endoplasmático.
20
Capítulo 2 A Célula e suas Funções
Para que o retículo endoplasmático não cresça desme-
suradamente, pequenas vesículas, chamadas vesículas RE
ou vesículas de transporte, continuamente se destacam do
retículo liso; a maioria dessas vesículas migra com muita
rapidez para o complexo de Golgi.
Outras Funções do Retículo Endoplasmático. Outras
funções significativas do retículo endoplasmático,
especialmente do retículo liso, incluem as seguintes:
1. Ele fornece as enzimas que controlam a quebra do
glicogênio, quando ocorre demanda por energia.
2. Ele fornece grande número de enzimas que são capazes
de desintoxicar substâncias, tais como fármacos, que
poderiam danificar as células. A desintoxicação se dá
por coagulação, oxidação, hidrólise, conjugação com o
ácido glicurônico, e por outras maneiras.
Funções Específicas do Complexo de Golgi
Funções Sintéticas do Complexo de Golgi. Embora a
principal função do complexo de Golgi seja o
processamento adicional de substâncias já formadas no
retículo endoplasmático, ele também tem a capacidade de
sintetizar certos carboidratos que não são formados no
retículo endoplasmático. Isso é particularmente válido para
a formação de grandes polímeros de sacarídeos ligados a
pequenas quantidades de proteína; os exemplos mais
importantes incluem o ácido hialurônico e o sulfato de
condroitina.
Algumas das diversas funções do ácido hialurônico e do
sulfato de condroitina no corpo são as seguintes: (1) eles são
os principais componentes dos proteoglicanos, secretados
no muco e em outras secreções glandulares;
(2) eles são os principais componentes da matriz no exterior
das células, nos espaços intersticiais, agindo como
enchimentos entre as fibras de colágeno e as células; (3) eles
são os principais componentes da matriz orgânica, tanto
das cartilagens quanto dos ossos; e (4) são importantes nas
atividades celulares, incluindo a migração e a proliferação.
Processamento de Secreções Endoplasmáticas pelo
Complexo de Golgi — Formação de Vesículas. A Figura
2-13 resume as principais funções do retículo
endoplasmático e do complexo de Golgi. À medida que as
substâncias são formadas no retículo endoplasmático,
especialmente as proteínas, elas são transportadas pelos
túbulos para as partes do retículo endoplasmático liso mais
próximas do complexo de Golgi. Nesse ponto, pequenas
vesículas de transporte, compostas de pequenos envelopes de
retículo endoplasmático liso, continuamente se destacam e
se difundem para a camada mais profunda do complexo de
Golgi. Nas vesículas, estão as proteínas sintetizadas e
outros produtos do retículo endoplasmático.
As vesículas de transporte rapidamente se fundem com
o complexo de Golgi e lançam as substâncias que contêm
nos espaços vesiculares do complexo de Golgi. Aí, porções
adicionais de carboidratos são acrescenta
das às secreções. Outra importante função do complexo de
Golgi é compactar as secreções do retículo endoplasmático
em pacotes muito concentrados. À medida que as secreções
passam para as camadas mais externas do complexo de
Golgi, a compactação e o processamento continuam. Por
fim, tanto vesículas grandes, quanto pequenas continuam
se destacando do complexo de Golgi, carregando com elas
as substâncias secretórias compactadas e, por sua vez, as
vesículas se difundem por toda a célula.
Para dar ideia da velocidade desses processos: quando
célula glandular é exposta a aminoácidos radioativos,
moléculas de proteína radioativas recém-formadas podem
ser detectadas no retículo endoplasmático granular dentro
de 3 a 5 minutos. Em 20 minutos, proteínas recém-
formadas já estão presentes no complexo de Golgi e, após 1
ou 2 horas, proteínas radioativas são secretadas pela célula.
Tipos de Vesículas Formadas pelo Complexo de
Golgi —Vesículas Secretórias e Lisossomos. Em célula
intensamente secretora, as vesículas, formadas pelo
complexo de Golgi, são principalmente vesículas secretórias
contendo substâncias proteicas para serem secretadas pela
superfície da membrana celular. Essas vesículas secretórias
primeiro se difundem para a membrana celular, depois se
fundem com ela e lançam suas substâncias para o exterior
pelo mecanismo da exocitose. A exocitose, na maior parte
dos casos, é estimulada pela entrada de íons cálcio na
célula; os íons cálcio interagem com a membrana vesicu-
lar, de forma ainda não bem compreendida, e causam sua
fusão com a membrana celular, seguida pela exocitose —
isto é, a abertura da vesícula para o exterior e extrusão dos
conteúdos.
Algumas vesículas entretanto são destinadas ao uso
intracelular.
Formação de Formação Vesículas
granular liso
Figura 2-13 Formação de proteínas, lipídios e vesículas celulares
pelo retículo endoplasmático e pelo complexo de Golgi.
21
Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
Uso das Vesículas Intracelulares para Repor as
Membranas Celulares. Algumas das vesículas
intracelulares, formadas pelo complexo de Golgi, se
fundem com a membrana celular ou com as membranas de
estruturas intracelulares, tais como as das mitocôndrias ou
mesmo do retículo endoplasmático. Isso aumenta a área
dessas membranas e, dessa forma, repõe as membranas
conforme elas vão sendo consumidas. Por exemplo, a
membrana celular perde muito de seus componentes cada
vez que forma vesícula pinocitótica ou fagocítica, e as
membranas vesiculares do complexo de Golgi
continuamente repõem a membrana celular.
Em suma, o sistema membranoso do retículo
endoplasmático e do complexo de Golgi representa órgão
altamente metabólico, capaz de formar novas estruturas
intracelulares, bem como substâncias a serem secretadas
pela célula.
Extração de Energia dos Nutrientes — Função
das Mitocôndrias
As principais substâncias, das quais a célula extrai energia,
são os nutrientes que reagem quimicamente com o oxigênio
— carboidratos, gorduras e proteínas. No corpo humano,
essencialmente, todos os carboidratos são convertidos em
glicose pelo trato digestivo e pelo fígado, antes de
alcançarem outras células do corpo. Da mesma forma, as
proteínas são convertidas em aminoácidos, e as gorduras em
ácidos graxos. A Figura 2-14 mostra o oxigênio e os
alimentos — glicose, ácidos graxos e aminoácidos — todos
entrando na célula. Na célula, os alimentos reagem
quimicamente com o oxigênio, sob a influência de enzimas
que controlam as reações e canalizam a energia liberada na
direção apropriada. Os detalhes de todas essas funções
digestivas e metabólicas são apresentados nos Capítulos 62
a 72.
Acido pirúvico
Ãcid<y  ^
acetoacético
Acetil-CoA 'r
Glicose
Ácidos
graxos
Aminoácidos
2ADP 2ATP
36 ADP
36 ATP
Mitocôndria
Membrana
celular
Citoplasma
Figura 2-14 Formação de trifosfato de adenosina (ATP) na
célula, mostrando que a maior parte do ATP é formada nas
mitocôndrias. ADP, difosfato de adenosina.
Resumidamente, quase todas essas reações oxidativas
ocorrem nas mitocôndrias, e a energia liberada é usada
para formar o composto de alta energia, o A TP. O ATP, e
não os nutrientes originais, é usado pela célula para ener-
gizar quase todas as reações metabólicas intracelulares
subsequentes.
Características Funcionais do ATP
Ribose
Trifosfato de adenosina
O ATP é nucleotídeo composto de (1) base nitrogenada,
adenina, (2) açúcar pentose, ribose, e (3) três radicais fosfato.
Os dois últimos radicais fosfato são conectados com o
restante da molécula pelas chamadas ligações fosfato de alta
energia, representadas na fórmula mostrada anterior mente
pelo símbolo ~. Sob as condições físicas e químicas do corpo,
cada uma dessas ligações de alta energia contém cerca de
12.000 calorias de energia por mol de ATP, o que é muitas
vezes maior do que a energia armazenada em ligação
química usual; daí a origem do termo ligação de alta energia.
A ligação fosfato de alta energia é muito lábil, de forma que
pode ser cindida instantaneamente sempre que energia for
necessária para promover outras reações intracelulares.
Quando o ATP libera sua energia, um radical de ácido
fosfórico se separa, formando o difosfato de adenosina (ADP).
Essa energia liberada é usada para energizar muitas outras
funções da célula, como por exemplo a síntese de
substâncias e a contração muscular.
Para reconstituir o ATP celular que foi consumido, a
energia, derivada dos nutrientes celulares, é usada para
recombinar o ADP e o ácido fosfórico, formando de novo o
ATP, e todo o processo se repete indefinidamente. Por essas
características, o ATP é chamado de moeda de energia da
célula, pois ele pode ser gasto e se refazer continuamente
em períodos de apenas alguns minutos.
Processos Químicos na Formação de ATP — O Papel
das Mitocôndrias. À medida que entra na célula, a glicose
é submetida às enzimas no citoplasma que a convertem em
ácido pirúvico (processo chamado glicólisé). Pequena
quantidade de ADP é transformada em ATP pela energia
liberada durante essa conversão, mas essa quantidade é
responsável por menos de 5% do metabolismo energético
total da célula.
22
Cerca de 95% da formação do ATP na célula ocorrem
nas mitocôndrias. O ácido pirúvico, derivado dos carboi-
dratos, ácidos graxos dos lipídios, e aminoácidos das
proteínas são convertidos no composto acetil-CoA, na
matriz das mitocôndrias. Esse composto, por sua vez, é
processado (para fins de extração de sua energia) por outra
série de enzimas na matriz das mitocôndrias; essa
sequência de reações químicas é chamada de ciclo do ácido
cítrico ou ciclo de Krebs. Essas reações químicas são tão
importantes que serão explicadas detalhadamente no
Capítulo 67.
No ciclo do ácido cítrico, a acetil-CoA é clivada em suas
partes componentes, átomos de hidrogênio e dióxido de
carbono. O dióxido de carbono se difunde para fora das
mitocôndrias e eventualmente para fora da célula; por fim,
é excretado do corpo pelos pulmões.
Os átomos de hidrogênio, de modo inverso, são muito
reativos e se combinam instantaneamente com o oxigênio
que se difundiu para as mitocôndrias que liberam
quantidade enorme de energia, usada pelas mitocôndrias
para converter grande quantidade do ADP em ATP. Essas
reações são complexas, requerendo a participação de
grandes números de enzimas proteicas, situadas nas dobras
da membrana interna das mitocôndrias, proje- tando-se para
a matriz mitocondrial. O evento inicial é a remoção de um
elétron do átomo de hidrogênio, o que o converte a íon
hidrogênio. O evento final é a combinação dos íons
hidrogênio com o oxigênio para formar água, com
liberação de enorme quantidade de energia para grandes
proteínas globulares, chamadas ATP-sintetase, que se
projetam das dobras das membranas mitocon- driais. Por
fim, a enzima ATP-sintetase usa a energia dos íons
hidrogênio para converter ADP em ATP. O ATP
recém-formado é transportado para fora da mito- côndria,
para todas as partes do citoplasma e do nucleo- plasma da
célula, onde sua energia é usada para múltiplas funções
celulares.
Esse processo geral de formação de ATP é chamado de
mecanismo quimiosmótico. Os detalhes químicos e físicos
desse mecanismo são apresentados no Capítulo 67, e
muitas das funções metabólicas do ATP, no corpo, são
apresentadas em detalhes nos Capítulos 67 a 71.
Usos do ATP no Funcionamento Celular. A energia
do ATP é usada para promover três grandes categorias de
funções celulares: (1) transporte de substâncias através das
membranas da célula, (2) síntese de componentes químicos
pela célula, e (3) função mecânica. Esses usos do ATP são
ilustrados pelos exemplos da Figura 2-15: (1) para fornecer
energia para o transporte do sódio através da membrana
celular, (2) para promover a síntese de proteínas pelos
ribossomos, e (3) para suprir a energia necessária para a
contração muscular.
Além do transporte do sódio pela membrana, a energia
do ATP é necessária para o transporte dos íons potássio,
íons cálcio, íons magnésio, íons fosfato, íons cloreto, íons
urato, íons hidrogênio e de muitos outros íons e de
diversas substâncias orgânicas pela membrana. O
transporte pela membrana é tão importante para o
funcionamento celular que algumas células — as células
tubulares
Capítulo 2 A Célula e suas Funções
renais, por exemplo — usam até 80% do ATP que formam
somente para essa finalidade.
Além de sintetizar proteínas, as células sintetizam fos-
folipídios, colesterol, purinas, pirimidinas e série de outras
substâncias. A síntese de quase todos os compostos
químicos requer energia. Por exemplo, uma só molécula de
proteína pode ser composta por vários milhares de
aminoácidos, unidos uns aos outros por ligações
peptídicas; a formação de cada uma dessas ligações requer
energia derivada do rompimento de quatro ligações de alta
energia; assim, diversos milhares de moléculas de ATP têm
de liberar energia para cada molécula de proteína formada.
De fato, algumas células usam até 75% de todo o ATP que
formam simplesmente para sintetizar novos compostos
químicos, especialmente moléculas de proteína; isso é
especialmente verdadeiro durante a fase de crescimento
das células.
O último dos principais usos do ATP é o de fornecer
energia para células especiais realizarem trabalho
mecânico. Veremos, no Capítulo 6, que cada contração da
fibra muscular requer gasto de enorme quantidade de
energia do ATP. Outras células realizam trabalho mecânico
de outras formas, especialmente por movimentos ciliares e
ameboides, descritos mais adiante neste capítulo. A fonte de
energia para todos esses tipos de trabalhos mecânicos é o
ATP.
Em suma, o ATP está sempre disponível para liberar
rapidamente e quase explosivamente sua energia onde for
necessário na célula. Para repor o ATP, usado pela célula,
reações químicas muito mais lentas quebram carboidra-
tos, gorduras e proteínas e usam a energia derivada para
formar novamente ATP. Mais de 95% desse ATP é formado
nas mitocôndrias; por isso as mitocôndrias são chamadas
de “casas de força” da célula.
a
>
Figura 2-15 Uso de trifosfato de adenosina (ATP) (formado nas
mitocôndrias), para fornecer energia para as três principais
funções celulares: transporte pela membrana, síntese proteica e
contração muscular. ADP, difosfato de adenosina.
23
U
N
Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
Locomoção Celular
De longe, o tipo mais importante de movimento que ocorre
no corpo é o das células musculares nos músculos
esquelético, cardíaco e liso que constituem quase 50% de
toda a massa corpórea. As funções especializadas dessas
células são discutidas nos Capítulos 6 a 9. Dois outros tipos
de movimentos — a locomoção ameboide e o movimento ciliar
— ocorrem em outras células.
Movimento Ameboide
O movimento ameboide é o movimento de toda a célula,
em relação às suas adjacências, como o movimento dos
leucócitos nos tecidos. Ele recebe esse nome pelo fato de as
amebas se moverem dessa maneira; as amebas
constituíram excelente modelo para o estudo deste
fenômeno.
Tipicamente, a locomoção ameboide começa com a
projeção de um pseudópodo por uma extremidade da célula.
O pseudópodo se projeta para fora do corpo celular e se
adere ao tecido adjacente. O restante da célula é então
puxado na direção ao pseudópodo. A Figura 2-16
demonstra esse processo, mostrando célula alongada em
cuja extremidade direita ocorre a projeção de pseudópodo.
A membrana dessa extremidade da célula está
continuamente se movendo para diante, e a membrana na
extremidade esquerda a segue à medida que a célula se
move.
Mecanismo da Locomoção Ameboide. A Figura 2-16
mostra o princípio geral do movimento ameboide.
Basicamente, ele resulta da formação contínua de nova
membrana celular na extremidade do pseudópodo e da
absorção contínua da membrana nas partes médias e
traseiras da célula. Dois outros efeitos também são
essenciais para o movimento de avanço da célula. O
primeiro efeito é a aderência do pseudópodo aos tecidos
circundantes, de forma a se fixar, enquanto o restante do
corpo celular é puxado para a frente, em direção ao ponto
de adesão. Essa aderência é efetuada por receptores protei-
cos que revestem o interior das vesículas exocitóticas.
Quando as vesículas se tornam parte da membrana do
pseudópodo, elas se evertem, expondo seu interior, de
Movimento da célula
Endocitose
Figura 2-16 Movimento ameboide de uma célula.
modo que seus receptores proeminam para o exterior e
aderem aos ligantes dos tecidos circundantes.
Na extremidade oposta da célula, os receptores se
soltam de seus ligantes e formam novas vesículas endocitó-
ticas. Então, dentro da célula, essas vesículas se movem em
direção à extremidade anterior do pseudópodo onde são
usadas para formar nova membrana na região.
O segundo efeito essencial para a locomoção é o
suprimento da energia necessária para puxar o corpo
celular, em direção ao pseudópodo. Experiências sugerem
o seguinte como explicação: no citoplasma de todas as
células encontra-se a quantidade moderada a grande da
proteína actina. Muito da actina está na forma de moléculas
isoladas que não servem ao movimento; entretanto, elas se
polimerizam para formar rede de filamentos, e a malha se
contrai quando as actinas interagem com a miosina, proteína
que se liga à actina. Todo o processo é energizado pelo
composto de alta energia, o ATP. Isso é o que acontece no
pseudópodo de célula em movimento, na qual a malha de
filamentos de actina se forma de novo no pseudópodo em
expansão. Também ocorre contração no ectoplasma do
corpo celular, onde a malha preexistente de actina está
presente sob a membrana celular.
Tipos de Células Que Apresentam Locomoção
Ameboide. As células mais comuns, com locomoção
ameboide, no corpo humano são os leucócitos, quando se
movem do sangue em direção aos tecidos para formar
macrófagos teciduais. Outros tipos de células também podem
se mover por locomoção ameboide, sob certas
circunstâncias. Por exemplo, os fibroblastos se movem para
área danificada para ajudar a reparar o dano, e mesmo as
células germinativas da pele, embora, em geral, sejam
completamente sésseis, se movem em direção a uma área
cortada para reparar a lesão. Por fim, a locomoção celular é
especialmente importante no desenvolvimento do embrião
e do feto, após a fertilização do óvulo. Por exemplo, as
células embrionárias com frequência migram para longe de
seus locais de origem para novas áreas, durante o
desenvolvimento de estruturas especiais.
Controle da Locomoção Ameboide — Quimiota-
xia. O iniciador mais importante da locomoção ameboide é
o processo chamado quimiotaxia. Ele resulta do
aparecimento de certas substâncias químicas nos tecidos.
Qualquer substância química que faz com que a
quimiotaxia ocorra é chamada substância quimiotática. A
maioria das células com locomoção ameboide se move em
direção à fonte da substância quimiotática — isto é, de área
com menor concentração em direção à área de maior
concentração — o que é chamado de quimiotaxia positiva.
Algumas células se distanciam da fonte, o que é chamado
quimiotaxia negativa.
Mas como a quimiotaxia controla a direção da
locomoção ameboide? Embora a resposta não seja
completa, sabe-se que o lado da célula mais exposto à
substância quimiotática desenvolve alterações na
membrana que causam a protrusão pseudopódica.
24
Cílios e Movimentos Ciliares
O segundo tipo de movimento celular, o movimento ciliar, é
movimento similar ao batimento dos cílios, nas superfícies
das células. Isso ocorre em apenas dois locais do corpo
humano: nas superfícies das vias aéreas do sistema
respiratório e na superfície interna das trompas uterinas
(trompas de Falópio) do trato reprodutivo. Na cavidade
nasal e nas vias aéreas inferiores, o movimento de
batimento dos cílios faz com que a camada de muco se
mova com velocidade de aproximadamente 1 cm/min em
direção à faringe, limpando dessa forma continuamente
essas vias do muco e de partículas a ela aderidas. Nas
trompas uterinas, os cílios causam o lento movimento de
fluido do óstio da trompa uterina para a cavidade uterina;
esse movimento de fluido transporta o óvulo do ovário
para o útero.
Como mostra a Figura 2-17, o cílio tem a aparência de
pelo com ponta afilada, reto ou curvo, que se projeta por 2
a 4 micrômetros da superfície da célula. Geralmente muitos
cílios se projetam de uma mesma célula — por exemplo,
existem até 200 cílios na superfície de cada célula epitelial,
nas vias respiratórias. O cílio é recoberto
Figura 2-17 Estrutura e função dos cílios. (Modificada de Satir P:
Cilia. Sei Am 204:108, 1961. Copyright Donald Garber: Executor
do estado de Bunji Tagawa.)
Capítulo 2 A Célula e suas Funções
por prolongamento da membrana celular e é sustentado
por 11 microtúbulos — nove túbulos duplos localizados na
periferia do cílio, e dois túbulos simples do centro — como
mostrado na seção transversa, na Figura 2-17. Cada cílio
cresce de estrutura que se localiza imediatamente abaixo da
membrana celular, chamada corpo basal do cílio.
O flagelo do esperma é parecido com o cílio; na verdade,
ele tem, praticamente, o mesmo tipo de estrutura e o
mesmo tipo de mecanismo contrátil. O flagelo, entretanto, é
mais longo e se move em ondas quase sinusoi- dais, em vez
de em movimentos de batimento.
No inserto na Figura 2-17, mostra-se o movimento do
cílio. O cílio se move para a frente com batimentos súbitos e
rápidos, de 10 a 20 vezes por segundo, encurvando-se
acentuadamente no ponto de inserção da superfície celular.
Então, ele se move para trás lentamente, para a posição
inicial. O movimento rápido de impulso para a frente de
batimento empurra o fluido adjacente à célula na direção
em que o cílio se move; o movimento lento, de arrasto, para
trás, não tem quase qualquer efeito no movimento do
fluido. Como consequência, o fluido é continuamente
impulsionado na direção do batimento rápido para a
frente. Como a maioria das células ciliadas tem grande
número de cílios em suas superfícies e como todos os cílios
são orientados na mesma direção, este é modo eficaz de
mover o fluido de parte da superfície para outra.
Mecanismo do Movimento Ciliar. Embora nem todos
os aspectos do movimento ciliar estejam esclarecidos, o que
sabemos de fato é o seguinte: primeiro, os nove túbulos
duplos e os dois túbulos simples estão ligados uns aos
outros por complexo de ligamentos cruzados de proteínas;
esse complexo de túbulos e ligamentos cruzados é
chamado axonema. Segundo, mesmo após a remoção da
membrana e da destruição de outros elementos do cílio
preservando o axonema, o cílio pode ainda bater sob
condições adequadas. Terceiro, há duas condições
necessárias para o batimento contínuo do axonema após a
remoção de outras estruturas do cílio: (1) a disponibilidade
de ATP e (2) condições iônicas apropriadas, especialmente
concentrações apropriadas de magnésio e cálcio. Quarto,
durante o movimento do cílio para a frente, os túbulos
duplos na borda frontal do cílio deslizam para fora, em
direção à ponta do cílio, enquanto os da borda posterior
permanecem no lugar. Quinto, múltiplos braços da
proteína dineína, que tem atividade enzi- mática da ATPase,
se projetam de cada túbulo duplo em direção ao túbulo
duplo adjacente.
Dadas essas informações básicas, determinou-se que a
liberação de energia do ATP em contato com os braços de
dineína faz com que as cabeças desses braços se
“desloquem” rapidamente ao longo da superfície do túbulo
duplo adjacente. Se, nos túbulos frontais, o movimento é de
extensão enquanto os túbulos posteriores permanecem
estacionários, ocorrerá inclinação do cílio.
O modo pelo qual a contração dos cílios é controlada
não é conhecido. Os cílios de algumas células genetica-
25
Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
mente anormais não contêm os dois túbulos simples
centrais, e esses cílios não batem. Portanto, supõe-se que
algum sinal, talvez eletroquímico, seja transmitido ao longo
desses dois túbulos centrais para ativar os braços de
dineína.
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26
CAPÍTULO 3
Controle Genético da Síntese de
Proteínas, do Funcionamento Celular
e da Reprodução Celular
Q
uase todos sabem que
os genes, localizados nos
núcleos de todas as célu-
las do corpo, controlam a
hereditariedade dos pais
para os filhos, mas a maio-
ria das pessoas não percebe
que estes mesmos genes também controlam o funciona-
mento de todas as células do corpo. Os genes controlam
a função celular, determinando quais substâncias são sin-
tetizadas pela célula — quais estruturas, quais enzimas,
quais substâncias químicas.
A Figura 3-1 mostra o esquema geral do controle
genético. Cada gene, que é o ácido nucleico chamado ácido
desoxirribonucleico (DNA), controla automaticamente a
formação de outro ácido nucleico, o ácido ribonucleico (RNA);
esse RNA, disseminado na célula, controla a formação de
proteína específica. Todo o processo, da transcrição do
código genético, no núcleo, até a tradução do código do RNA
e a formação de proteínas nas células citoplasmáticas é
muitas vezes referido como a expressão do gene.
Como existem cerca de 30.000 genes diferentes em cada
célula, é teoricamente possível formar número muito
grande de proteínas celulares diferentes.
Algumas das proteínas celulares são proteínas estruturais
que, em associação com vários lipídios e carboidratos,
formam as estruturas das diversas organelas intracelulares
discutidas no Capítulo 2. Entretanto, a maioria das
proteínas é de enzimas que catalisam as diferentes reações
químicas nas células. Por exemplo, as enzimas promovem
todas as reações oxidativas que fornecem energia para a
célula e a síntese de todas as substâncias químicas da célula,
tais como lipídios, glicogênio e trifosfato de adenosina
(ATP).
Genes no Núcleo Celular
No núcleo celular, grande número de genes está ligado,
extremidade com extremidade, nas moléculas
extremamente longas do DNA, com estrutura de dupla
hélice e com pesos moleculares medidos em bilhões.
Segmento
muito curto de tal molécula é mostrado na Figura 3-2. Essa
molécula é constituída por vários compostos químicos,
ligados em padrão regular; detalhes serão explicados nos
próximos parágrafos.
Blocos Básicos de Construção do DNA. A Figura
3-3 mostra os componentes químicos básicos envolvidos na
formação do DNA. Incluem: (1) ácido fosfórico, (2) o açúcar
chamado desoxirribose e (3) quatro bases nitro- genadas
(duas purinas, a adenina e a guanina, e duas pirimidinas, a
timina e a citosina). O ácido fosfórico e a desoxirribose
formam as duas fitas helicoidais que são o esqueleto da
molécula de DNA, e as bases nitrogenadas ficam entre as
duas fitas, conectando-as, como ilustrado na Figura 3-6.
Nucleotídeos. O primeiro estágio na formação do
DNA é a combinação de molécula de ácido fosfórico,
molécula de desoxirribose e uma das quatro bases para
formar o nucleotídeo acídico. Quatro nucleotídeos distintos
são,
r
Membrana Envelope
plasmática nuclear
^ /
Núcleo
= DNA IT
ranscrição
do DNA
--------RNA
X Ligação de
RNA
V
Ribossomos
T ransporte
de RNA
Tradução do
RNA mensageiro
Proteína
Citosol
Gene (DNA)
T ranscrição
Formação de RNA
T radução
Formação de proteína
Estrutura
celular
Enzimas
celulares
Função celular
Figura 3-1 Esquema geral para o controle da função celular
pelos genes.
27
U
N
I
D
A
Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
Figura 3-2 A estrutura em hélice de dupla fita do gene. As fitas
externas são compostas de ácido fosfórico e do açúcar desoxir-
ribose. As moléculas internas que conectam os dois filamentos
da hélice são as bases purina e pirimidina; elas determinam o
"código” do gene.
portanto, formados, um para cada uma das quatro bases: os
ácidos desoxiadenílico, desoxitimidílico, desoxiguanílico e
desoxicitidílico. A Figura 3-4 mostra a estrutura química do
ácido desoxiadenílico, e a Figura 3-5 mostra os símbolos
para os quatro nucleotídeos que formam o DNA.
Organização dos Nucleotídeos para Formar Duas
Fitas de DNA Frouxamente Interligadas Entre Si. A
Figura 3-6 mostra o modo como os múltiplos nucleotí
deos se ligam para formar as duas fitas de DNA. As duas
fitas são, por sua vez, frouxamente ligadas entre si por
ligações cruzadas fracas, ilustradas na Figura 3-6 pelas
linhas tracejadas centrais. Observe que o esqueleto de cada
filamento de DNA é composto por alternação de moléculas
de ácido fosfórico e de desoxirribose. As bases purínicas e
pirimidínicas estão fixadas às laterais das moléculas de
desoxirribose. As duas fitas de DNA são mantidas unidas
por meio de pontes de hidrogênio (linhas tracejadas) entre as
bases. Mas, observe o seguinte:
1. Cada base purínica adenina do filamento sempre se une
à base pirimidínica timina do outro filamento, e
2. Cada base purínica guanina sempre se une à base
pirimidínica citosina.
Dessa forma, na Figura 3-6, a sequência de pares
complementares de bases é CG, CG, GC, TA, CG, TA, GC,
AT e AT. Como as pontes de hidrogênio são ligações
relativamente fracas, as duas fitas podem se separar
facilmente, e o fazem muitas vezes no curso de suas
funções na célula.
Para se obter a estrutura tridimensional do DNA da
Figura 3-6, deve-se tomar as duas extremidades das
cadeias e torcê-las em hélice. Dez pares de nucleotídeos
compõem cada volta completa da hélice na molécula de
DNA, como mostra a Figura 3-2.
Figura 3-3 Os blocos básicos de construção do DNA.
28
Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular
Código Genético
A importância do DNA reside em sua capacidade de
controlar a formação de proteínas pela célula. Ele o faz por
meio do chamado código genético. Quando as duas fitas de
moléculas de DNA são separadas, as bases de purina e
pirimidina se projetam de cada lado da fita de DNA, como
mostrado no alto da Figura 3-7. São essas bases que
formam o código genético.
O código genético consiste em sucessivos “tripletos” de
bases — isto é, cada três bases sucessivas é uma palavra do
código. Os tripletos sucessivos controlam a sequência de
aminoácidos na molécula de proteína que é sintetizada
pela célula. Observe, na Figura 3-6, a fita superior de DNA:
lendo-se da esquerda para a direita, tem-se o código
genético GGC, AGA, CTT, os tripletos são separados pelas
setas. Seguindo-se esse código genético, nas Figuras 3-7 e
3-8, vê-se que esses três tripletos são, respectivamente,
responsáveis pela inserção sucessiva dos três aminoácidos
— prolina, serina e ácido glutâmico — na molécula de
proteína em formação.
O Código do DNA no Núcleo Celular É
Transferido para o Código de RNA, no
Citoplasma Celular — O Processo de
Transcrição
Fosfato
O
N
Adenina
N
/ N
H—C
,^C. C —
H
H H o- 1
H-O-P—O—C—C
/ C—H Desoxirribose
O
H
H
V^c—H
4 H
I
H
Pelo fato de o DNA estar localizado no núcleo da célula,
enquanto a maioria das funções da célula é realizada no
citoplasma, deve haver algum modo pelo qual os genes do
núcleo controlem as reações químicas do citoplasma. Isso
envolve a intermediação de outro tipo de ácido nucleico, o
RNA, cuja formação é controlada pelo DNA do núcleo.
Como mostra a Figura 3-7, o código é transferido para o
RNA; esse processo é chamado transcrição. O RNA, por
sua vez, se difunde do núcleo através dos poros nucleares
para o compartimento citoplasmático, onde controla a
síntese de proteínas.
Figura 3-4 Ácido desoxiadenílico, um dos nucleotídeos que
formam o DNA.
A
I
P—D-
Ácido desoxiadenílico
T
P—D-
Ácido desoxitimidílico
— P-D— — P—D—
Ácido desoxiguanílico Ácido desoxicitidílico
Figura 3-5 Símbolos dos quatro nucleotídeos que se combinam
para formar o DNA. Cada nucleotídeo contém ácido fosfórico
(P), desoxirribose (D) e uma das quatro bases de nucleotídeos:
A, adenina; T, timina; G, guanina; ou C, citosina.
Síntese de RNA
Durante a síntese do RNA, as duas fitas da molécula de
DNA se separam temporariamente; uma das fitas é usada
como molde para a síntese da molécula de RNA. Os
tripletos de código no DNA são transcritos para tripletos
do código complementar (chamados códons) no RNA; esses
códons por sua vez controlarão a sequência de
aminoácidos na proteína a ser sintetizada no citoplasma
celular.
Blocos Básicos de Construção de RNA. Os blocos
básicos de construção do RNA são praticamente os
mesmos dos de DNA, exceto por duas diferenças. A
primeira é que o açúcar desoxirribose não é usado na
formação do RNA. Em seu lugar está outro açúcar, de
composição ligeiramente diferente, a ribose, que contém
íon hidroxila extra ligado à estrutura do anel de ribose. A
segunda é que a timina é substituída por outra pirimidina,
a uracila.
Formação dos Nucleotídeos de RNA. Os blocos
básicos da construção de RNA formam nucleotídeos de
-d—a—d-a—d-a
0 0 0
I I I
I I I
I I I
C C G
I
P—D—P—D—P—D
d—a—d—a—d—a I
I I
V O V
I I I
I I I
I I I
T C T
P-D—P-D—P—D
d—a—d—a—d—a—d
I
0 11
I I I
I I I
I I I
G A A
I I I
P—D—P—D—P—D-
Figura 3-6 Organização dos nucleotídeos
desoxirribose na dupla fita de DNA.
29
U
N
I
D
A
D
E
Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
Figura 3-7 Combinação de nucleotídeos da ribose
com
fita de DNA para formar molécula de RNA que
carrega
o código genético do gene para o citoplasma. A
enzima
RNA polimerase se move ao longo da fita de DNA e
forma a molécula de RNA.
Fita de DNA
I
-O
I
0
.
I
-Q
I
Q
_
I
-Q
I
C
L
-O
i
C
L
-Q
I
0
.
I
-o
I
C
L
I
-Cl
I
d—a—d—a—d—
i i
I I I I I I I —
0 9 0 V 0 V 0
I
i í



 I
I
I
I
-o
-o
-o
-c
-o
-c
-o-

R—P—R—P—R—
P—R—P—R—P—R—P—R Molécula de RNA
J /
 Trifosfato

RNA-po imerase
Figura 3-8 Parte de uma molécula de RNA mostrando três
"códons” de RNA — CCG, UCU e GAA — que controlam a
inserção dos aminoácidos prolina, serina e ácido glutâmico,
respectivamente, à cadeia de RNA em formação.
CCG
I I
P—R—P—R—P—R
UCU
I I I
P—R—P—R—P—R
GAA
I I
P-R—P—R—P-R-
Prolina Serina 11 Ácido glutâmico
RNA, exatamente como descrito antes para o DNA. Aí
novamente quatro nucleotídeos distintos são usados na
formação do RNA. Esses nucleotídeos contêm as bases
adenina, guanina, citosina e uracila. Observe que são as
mesmas bases do DNA, exceto pela uracila no RNA e a
timina no DNA.
“Ativação” dos Nucleotídeos de RNA. O próximo
passo na síntese do RNA é a “ativação” dos nucleotídeos de
RNA por uma enzima, a RNA-polimerase. Isso ocorre pela
adição a cada nucleotídeo de dois radicais de fosfato extra,
para formar trifosfatos (mostrados na Figura 3-7 pelos dois
nucleotídeos de RNA na extremidade direita, durante a
formação da cadeia de RNA). Estes últimos dois fosfatos
combinam-se com o nucleotídeo por ligações fosfato de alta
energia, derivadas do ATP da célula.
O resultado desse processo de ativação é que grandes
quantidades de energia do ATP estão disponíveis em cada
nucleotídeo, e essa energia é usada para promover as
reações químicas que adicionam cada novo nucleotídeo ao
final da cadeia de RNA.
Montagem da Cadeia de RNA com os Nucleotídeos
Ativados Usando a Fita de DNA como Molde — O
Processo de "Transcrição"
A montagem da molécula de RNA se dá do modo
mostrado na Figura 3-7, sob a influência da enzima, a RNA-
polimerase. Ela é proteína grande que tem muitas das
propriedades funcionais necessárias para a formação da
molécula de RNA. São elas:
1. Na fita de DNA, no início de cada gene, existe sequência
de nucleotídeos chamada promotor. A RNA-polimerase
tem estrutura complementar apropriada, que reconhece
esse promotor e se liga a ele. Esse é o passo essencial
para se iniciar a formação da molécula de RNA.
2. Após se ligar ao promotor, a RNA-polimerase causa o
desenrolamento de cerca de duas voltas da hélice de
DNA e a separação, na região desenrolada, das duas
fitas.
3. Então, a polimerase se move ao longo da fita de DNA,
desenrolando temporariamente e separando as duas
fitas de DNA a cada etapa de seu movimento.
Conforme cada estágio do movimento, a polimerase
adiciona novo nucleotídeo ativado ao final da cadeia de
RNA em formação, segundo os seguintes passos:
a. Primeiro, ela forma a ponte de hidrogênio entre a
base seguinte no filamento de DNA e a base do
nucleotídeo de RNA.
b. Então, um por vez, a polimerase cliva dois dos três
fosfatos de cada um dos nucleotídeos de RNA,
liberando grande quantidade de energia das ligações
de fosfato; essa energia é usada para formar a ligação
covalente entre o fosfato restante, no nucleotídeo, e a
ribose no final da cadeia de RNA em formação.
c. Quando a RNA-polimerase atinge o fim do gene de
DNA, ela encontra nova sequência de nucleotídeos
de DNA chamada sequência de terminação de cadeia-,
esta faz com que a polimerase e a recém- formada
cadeia de RNA se separem da fita de DNA. A
polimerase, então, pode ser reutilizada
sucessivamente para formar outras cadeias de RNA.
d. Conforme o novo filamento de RNA é formado, as
fracas pontes de hidrogênio com a fita de DNA se
rompem, pois o DNA tem grande afinidade para se
religar à fita complementar de DNA. Assim, a cadeia
de RNA se solta do DNA e é liberada no
nucleoplasma.
Dessa forma, o código presente no filamento de DNA é
transmitido de forma complementar para a cadeia de RNA.
As bases de nucleotídeos de ribose sempre se combinam
com as bases de desoxirribose como se segue:
30
Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular
Base no DNA Base no RNA
guanina ............................................................................... citosina
citosina................................................................................. guanina
adenina................................................................................ uracila
timina ................................................................................... adenina
Quatro Tipos Diferentes de RNA. Cada tipo de RNA
desempenha papel independente e inteiramente diferente
na formação de proteínas:
1. RNA mensageiro (mRNA) que leva o código genético para
o citoplasma para controlar o tipo de proteína formada.
2. RNA de transferência (tRNA) que transporta os ami-
noácidos ativados para os ribossomos; os aminoá- cidos
serão utilizados na montagem da molécula de
4. MicroRNA (miRNA) que são moléculas de fita única de
RNA de 21 a 23 nucleotídeos que regulam a transcrição
gênica e a tradução.
RNA Mensageiro — Os Códons
As moléculas de mRNA são longas fitas únicas de RNA,
localizadas no citoplasma. Essas moléculas são compostas
por várias centenas a vários milhares de nucleotídeos de
RNA em fitas não pareadas, e contêm códons que são
exatamente complementares aos tripletos de código dos
genes de DNA. A Figura 3-8 mostra pequeno segmento de
molécula de RNA mensageiro. Seus códons são CCG, UCU
e GAA. Esses são os códons para os aminoácidos prolina,
serina e ácido glutâmico. A transcrição desses códons da
molécula de DNA para a molécula de RNA é demonstrada
na Figura 3-7.
proteína. Códons de RNA para os Diferentes Aminoácidos.
3. RNA ribossômico que, com cerca de 75 proteínas dife- A Tabela 3-1 lista os códons de RNA para os 22 aminoá- rentes, forma os
ribossomos, as estruturas físicas e quí- cidos que formam as moléculas de proteína. Observe que micas nas quais as moléculas
de proteína são formadas. a maioria dos aminoácidos é representada por mais de
Tabela 3-1 Códons de RNA para Aminoácidos e para Iniciar e Parar
Aminoácido
Ácido aspártico GAU
Códons de RNA
GAC
Ácido glutâmico GAA GAG
Alanina GCU GCC GCA GCG
Arginina CGU CGC CGA CGG AGA AGG
Asparagina AAU AAC
Cisteína UGU UGC
Fenilalanina UUU UUC
Glutamina CAA CAG
Glicina GGU GGC GGA GGG
Histidina CAU CAC
Iniciar (IC) AUG
Isoleucina AUU AUC AUA
Leucina CUU CUC CUA CUG UUA UUG
Lisina AAA AAG
Metionina AUG
Parar (TC) UAA UAG UGA
Prolina CCU CCC CCA CCG
Serina UCU UCC UCA UCG AGC AGU
Tirosina UAU UAC
Treonina ACU ACC ACA ACG
Triptofano UGG
Valina GUU GUC GUA GUG
31
U
N
I
D
A
Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
um códon; um dos códons corresponde ao sinal “comece a
fabricar a molécula de proteína”, e três códons representam
a mensagem “pare de produzir a molécula de proteína”.
Na Tabela 3-1, estes dois tipos de códons são chamados IC,
que significa “códon de iniciação de cadeia”, e TC, que
significa “códons de término da cadeia”.
RNA de Transferência — Os Anticódons
Outro tipo de RNA com papel essencial na síntese de
proteínas é o tRNA, pois ele transfere as moléculas de ami-
noácidos para as moléculas de proteínas que estão em
processo de síntese. Cada tipo de tRNA se liga
especificamente com um dos 20 aminoácidos que serão
incorporados às proteínas. O tRNA, portanto, age como um
carreador para transportar tipo específico de aminoá- cido
para os ribossomos, onde as moléculas de proteína estão se
formando. Nos ribossomos, cada tipo específico reconhece
códon determinado no mRNA (descrito adiante) e entrega
o aminoácido no local adequado da cadeia da molécula de
proteína em formação.
O RNA de transferência, com apenas cerca de 80
nucleotídeos, é molécula relativamente pequena em
comparação com o mRNA. Ele é cadeia de nucleotídeos
com dobras que lhe dão a aparência de folha de trevo,
parecida com o mostrado na Figura 3-9. Em uma
extremidade da molécula existe sempre o ácido adenílico; o
aminoácido transportado se liga a grupo hidroxila da
ribose do ácido adenílico.
Como a função do tRNA é levar o aminoácido
específico à cadeia de proteína em formação, é essencial
que cada tipo de tRNA tenha especificidade para
determinado códon no mRNA. O código específico no
tRNA que permite que ele reconheça um códon específico é
novamente um tripleto de bases de nucleotídeos chamado
de anticódon. Ele se localiza aproximadamente no meio da
molécula de tRNA (mostrado na parte inferior da con-
Mensageiro
Ribossomo a
Ribossomo
Movimento do RNA
Figura 3-9 Fita de RNA mensageiro se move por dois
ribossomos. Para cada "códon" que passa, um aminoácido é
adicionado à crescente cadeia de proteína, que é mostrada no
ribossomo à direita. A molécula de RNA de transferência
transporta aminoácido específico à proteína em formação.
figuração em forma de trevo na Figura 3-9). Durante a
formação da molécula de proteína, as bases do anticódon se
ligam frouxamente por pontes de hidrogênio com as bases
do códon do mRNA. Dessa forma, os respectivos
aminoácidos são alinhados uns após os outros ao longo da
cadeia de mRNA, estabelecendo-se, assim, a sequência
adequada de aminoácidos na molécula de proteína em
formação.
RNA Ribossômico
O terceiro tipo de RNA na célula é o RNA ribossômico; ele
representa cerca de 60% do ribossomo. O restante do
ribossomo é formado por proteína; existem cerca de 75
tipos de proteínas que são tanto proteínas estruturais
quanto enzimas, necessárias para a síntese das moléculas
de proteína.
O ribossomo é a estrutura física no citoplasma na qual
as moléculas de proteína são realmente sintetizadas.
Porém, ele sempre funciona em associação com outros dois
tipos de RNA: o tRNA, que transporta aminoácidos para o
ribossomo, para serem incorporados na molécula de
proteína em formação, e o mRNA, que fornece a informação
necessária para o sequenciamento dos aminoácidos, na
ordem correta, para cada tipo específico de proteína.
Assim, o ribossomo age como uma fábrica, na qual as
moléculas de proteína são formadas.
Formação dos Ribossomos no Nucléolo. Os genes
para a formação de RNA ribossômico estão localizados em
cinco pares de cromossomos no núcleo, e cada um destes
cromossomos contém muitas duplicações desses genes,
pois grandes quantidades de RNA ribossômico são
necessárias para a função celular.
À medida que o RNA ribossômico se forma, ele é
acumulado no nucléolo, estrutura especializada adjacente
aos cromossomos. Quando grande quantidade de RNA
ribossômico é sintetizada, como ocorre em células que
produzem grande quantidade de proteína, o nucléolo é
estrutura grande, enquanto nas células que sintetizam
poucas proteínas o nucléolo eventualmente nem é visto. O
RNA ribossômico é especialmente processado no nucléolo,
onde se liga às “proteínas ribossômicas” para formar
produtos de condensação granular que são subu- nidades
primordiais dos ribossomos. Essas subunidades são então
liberadas do nucléolo e transportadas através dos grandes
poros do envelope nuclear para quase todas as partes do
citoplasma. No citoplasma, as subunidades são montadas
para formar ribossomos maduros e funcionais. Portanto, as
proteínas são formadas no citoplasma da célula, e não no
núcleo celular, pois o núcleo não contém ribossomos
maduros.
MicroRNA
Um quarto tipo de RNA na célula é o miRNA. São
fragmentos curtos de fita única de RNA (21 a 23
nucleotídeos), que regulam a expressão gênica (Fig. 3-10).
Os miRNAs são decodificados do DNA transcrito de genes,
mas não
32
Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular
são traduzidos em proteínas e, assim, são comumente
denominados RNA não codificado. Os miRNAs são
transformados pela célula em moléculas que são
complementares ao mRNA e agem para diminuir a
expressão gênica. A formação de miRNAs envolve
processamento especial de precursor primário mais longo
dos RNAs, denominado pri-miRNAs, que são os primeiros
transcritos do gene. Os pri-miRNAs são transformados, no
núcleo da célula pelo complexo microprocessador em
pré-miRNAs, que consiste em uma estrutura haste-alça
com 70 nucle- otídeos. Esses pri-miRNAs são, então,
posteriormente transformados no citoplasma por uma
enzima cortadora específica, que ajuda a montar um complexo
silenciador induzido por RNA (RISC) e gera miRNAs.
Figura 3-10 Regulação da expressão gênica por microRNA
(miRNA). O miRNA primário (pri-miRNA), o primeiro a ser
transcrito no gene processado no núcleo celular, pelo complexo
microprocessador, em pré-miRNA. Esses pré-miRNAs são então
transformados no citoplasma, pela cortadora, enzima que ajuda
a montar o complexo silenciador induzido por RNA (RISC) e gera
miRNAs. Os miRNAs regulam a expressão gênica se ligando a
região complementar do RNA e reprimindo tradução ou
promovendo a degradação do mRNA, antes que este possa ser
traduzido pelo ribossomo.
Os miRNAs regulam a expressão gênica por se ligar à
região complementar do RNA e promovem repressão da
tradução, ou degradação do mRNA, antes que este possa
ser traduzido pelo ribossomo. Acredita-se que os miRNAs
têm papel importante na regulação normal da função
celular, e alterações das funções do miRNA foram
associadas com doenças como câncer e doenças cardíacas.
Outro tipo de microRNA é o de baixa interferência
(siRNA), também chamado RNA silenciador ou RNA de
pouca interferência. Os siRNAs são moléculas curtas, de
dupla fita de RNA, com 20 a 25 nucleotídeos de
comprimento, que interfere na expressão de genes
específicos. Geralmente, os siRNAs se referem a miRNAs
sintéticos e podem ser administrados para silenciar a
expressão de genes específicos. Eles são projetados para
evitar a transformação nuclear pelo complexo
microprocessador e, após o siRNA entrar no citoplasma, ele
ativa os complexos silenciadores RISC, impedindo a
tradução do mRNA. Os siRNAs podem ser adaptados a
qualquer sequência específica do gene. Por conta disso, eles
podem ser usados para impedir a tradução de qualquer
mRNA e, por consequência, a expressão por qualquer gene
pelo qual a sequência de nucleotídeo é conhecida. Alguns
pesquisadores propuseram que os siRNAs podem se tornar
úteis como ferramenta terapêutica para silenciar genes que
contribuem na patofisiologia de doenças.
a
>
Formação de Proteínas nos Ribossomos —
O Processo de ‘‘Tradução”
Quando a molécula de RNA mensageiro entra em contato
com um ribossomo, a fita de RNA passa através do
ribossomo, começando por uma extremidade
predeterminada, especificada por uma sequência de bases,
chamada códon de “iniciação de cadeia”. Então, como
mostra a Figura 3-9, enquanto o RNA mensageiro atravessa
o ribossomo, a molécula de proteína é formada — o
processo chamado tradução. Assim, o ribossomo lê os
códons do RNA mensageiro, semelhante à leitura de fita
por meio da cabeça de reprodução de gravador. Então,
quando o códon de “parada” (ou de “terminação de
cadeia”) passa pelo ribossomo, o fim da molécula de
proteína é sinalizado e a molécula é liberada no citoplasma.
Polirribossomos. Uma só molécula de RNA mensageiro
pode formar moléculas de proteína em vários ribossomos
ao mesmo tempo, pois a extremidade inicial do filamento
de RNA pode passar para ribossomos sucessivos, depois de
deixar o primeiro, como mostrado na parte inferior
esquerda da Figura 3-9 e na Figura 3-11. As moléculas de
proteína estão em diferentes estágios de desenvolvimento,
em cada ribossomo. Consequentemente, agrupamentos de
ribossomos ocorrem com frequência, com três a 10
ribossomos simultaneamente ligados a uma só molécula de
RNA mensageiro. Esses agrupamentos são chamados de
polirribossomos.
É especialmente importante observar que o RNA
mensageiro pode originar molécula de proteína em
qualquer ribossomo; isto é, não há especificidade dos
33
U
N
Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
Figura 3-11 Estrutura física dos ri-
bossomos e sua relação funcional
com o RNA mensageiro, RNA de
transferência e retículo endoplas-
mático, durante a formação de
moléculas de proteína. (Cortesia do
Dr. Don W. Fawcett, Montana.)
grande
RNA de
transferência
RNA
mensageiro
Subunidade
pequena-
Ribossomo
/ dT yJ
Subunidade
Aminoacido £ Ret(cu|0 «e Cade£de í,
endoplasmático polipeptídios
ribossomos para determinados tipos de proteína. O
ribossomo é simplesmente o local físico no qual as reações
químicas ocorrem.
Muitos Ribossomos Aderem ao Retículo
Endoplasmático. No Capítulo 2, foi observado que muitos
ribossomos aderem ao retículo endoplasmático. Isso ocorre
porque as extremidades iniciais de muitas moléculas de
proteína em formação têm sequências de ami- noácidos
que se ligam imediatamente a locais receptores específicos
no retículo endoplasmático; isso faz com que essas
moléculas atravessem a parede e entrem na matriz do
retículo endoplasmático, o que dá aparência granular a
essas partes do retículo onde as proteínas estão sendo
formadas e introduzidas na matriz do retículo.
A Figura 3-11 mostra a relação funcional do RNA
mensageiro com os ribossomos e o modo pelo qual os
ribossomos se ancoram à membrana do retículo
endoplasmático. Observe o processo de tradução do
mesmo filamento de RNA ocorrendo em vários ribossomos
ao mesmo tempo. Observe também as cadeias recém-for-
madas de polipeptídios (proteína) atravessando a
membrana do retículo endoplasmático e entrando na
matriz endoplasmática.
Deve-se ainda observar que, exceto nas células
glandulares, onde são formadas grandes quantidades de
vesículas secretórias contendo proteínas, a maioria das
proteínas sintetizadas pelos ribossomos é liberada
diretamente no citosol em vez de no retículo
endoplasmático. Essas proteínas são enzimas e proteínas
estruturais internas da célula.
Passos Químicos na Síntese de Proteínas. Alguns
dos eventos químicos que ocorrem na síntese da molécula
de proteína são mostrados na Figura 3-12. Essa figura
mostra reações representativas para três aminoá- cidos
distintos, AAX, AA2 e AA2Ü. Os estágios das reações são os
seguintes: (1) Cada aminoácido é ativado por processo
químico, no qual o ATP se combina com o aminoácido para
formar o complexo monofosfato de adenosina com o aminoácido,
cedendo duas ligações de fosfato de alta energia no
processo. (2) O aminoácido ativado, com excesso de
energia, combina-se com o RNA de transferência específico para
formar o complexo aminoácido-tRNA e ao mesmo tempo libera
o monofosfato de adenosina.
(3) O RNA de transferência, que carrega o complexo-
aminoácido, então, faz contato com a molécula de RNA
mensageiro no ribossomo, onde o anticódon do RNA de
Figura 3-12 Eventos químicos na formação de uma
molécula de proteína.
Aminoácido
Aminoácido ativado
Complexo RNA-aminoacil
RNA mensageiro
AA1 AA2
>
>
■o
O
+ + +
ATP

ATP

ATP
♦
AMP —AA., AMP-AA2 AMP-AA20
+ + +
tRNA1
+
tRNAp
C
tRNA20
T
tRNA1 — AA.,
tRNA2
—AA2
tRNA20 — AA20
+
GCC UGU AAU CAU CGU AUG GUU GCC
UGU AAU CAU CGU AUG GUU
Complexo entre tRNA, I
r+
1
r+
1
i—f- l 1
r—f-
RNA mensageiro 33
Z
33
Z
33
Z
3
z
3
z
33
Z
33
Z
e aminoácido > >
OI
1
>
03
1
>
CD
1
>
IV)
1
_>
CO
1
&
o
|
t
i
cn
i
CO
1 i
to
s
to
Cadeia de proteína
|GTP|GTP| GTP |GTP|GTP|GTP|GTP
AA.,—AA5—AA3 — AAg—AA2—AA13 AA20
34
Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular
transferência se une temporariamente ao códon específico
do RNA mensageiro, assim alinhando o aminoácido na
sequência apropriada para formar a molécula de proteína.
Então, sob a influência da enzima peptidiltrans- ferase (uma
das proteínas no ribossomo), são formadas ligações peptídicas
entre os sucessivos aminoácidos, com crescimento
progressivo da cadeia de proteína. Esses eventos químicos
requerem energia de duas ligações adicionais de fosfato de
alta energia, totalizando quatro ligações de alta energia
para cada aminoácido adicionado à cadeia de proteínas.
Assim, a síntese de proteínas é um dos processos que mais
consomem energia na célula.
Ligação Peptídica. Os sucessivos aminoácidos na
cadeia de proteínas combinam-se entre si segundo a reação
típica:
NH2 O H R
I II II
R - C - C - O H + H - N - C - COOH ------------ ►
NH2 O H R
I II I I
R - C - C - N - C - COOH + HzO
Nessa reação química, um radical hidroxila (OH-) é
removido do radical COOH do primeiro aminoácido, e um
hidrogênio (H+) é removido do grupo NH2 do outro
aminoácido. Esses se combinam para formar água, e os dois
locais reativos restantes, nos dois aminoácidos sucessivos,
se ligam um ao outro, resultando em molécula única. Esse
processo é chamado de ligação peptídica. Para cada
aminoácido acrescentado, uma nova ligação peptídica é
formada.
Síntese de Outras Substâncias na Célula
Milhares de enzimas proteicas, formadas do modo descrito
antes, controlam essencialmente todas as outras reações
químicas que ocorrem nas células. Essas enzimas
promovem a síntese de lipídios, glicogênio, purinas, piri-
midinas, e de centenas de outras substâncias. Discutiremos
muitos desses processos de síntese, relacionados ao
metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas, nos
Capítulos 67 a 69. É por meio de todas essas substâncias que
as diversas funções das células são realizadas.
Controle da Função do Gene e da Atividade
Bioquímica nas Células
Da nossa discussão até aqui, fica claro que os genes
controlam tanto as funções físicas quanto químicas das
células. Entretanto, o grau de ativação dos respectivos
genes deve ser também controlado; caso contrário, algumas
partes da célula poderiam crescer demasiadamente ou
algumas reações químicas exageradas poderiam até matar a
célula. Cada célula tem mecanismos potentes de
feedback interno para o controle que mantém as diversas
operações funcionais da célula coordenadas. Para cada gene
(aproximadamente 30.000 genes no total), existe pelo menos
um desses mecanismos de feedback.
Existem basicamente dois métodos pelos quais as
atividades bioquímicas na célula são controladas: (1)
regulação genética, na qual o grau de ativação dos genes e a
formação de produtos genéticos são controlados, e (2)
regulação enzimática, na qual os níveis de atividade das
enzimas já formadas na célula são controlados.
Regulação Gênica
A regulação gênica, ou regulação da expressão gênica cobre o
processo inteiro da transcrição do código genético, no
núcleo, à formação de proteínas no citoplasma. A regulação
da expressão gênica fornece a todos os organismos vivos a
capacidade de responder a mudanças ambientais. Nos
animais que apresentam diversos tipos celulares, teciduais e
órgãos, a regulação diferenciada da expressão gênica
também permite aos vários distintos tipos celulares no
corpo realizar suas funções especializadas. Apesar de o
miócito cardíaco conter o mesmo código genético de célula
do epitélio tubular renal, muitos genes são expressados nas
células cardíacas que não o são nas células renais. A medida
mais válida da “expressão” gênica é se (e quanto) de
produtos do gene (proteínas) são produzidos, pois as
proteínas executam funções celulares especificadas pelos
seus genes. A regulação da expressão gênica pode ocorrer
em qualquer etapa das vias de transcrição, fabricação de
RNA e tradução.
O Controle da Expressão Gênica pelos Promotores.
A síntese das proteínas celulares é processo complexo que
se inicia com a transcrição do DNA em RNA. A transcrição
do DNA é controlada por elementos regu- latórios
encontrados no promotor do gene (Fig. 3-13). Nos
eucariotas, que inclui todos os mamíferos, o promotor basal
consiste em sequência de 7 bases (TATAAAA),
Gromatina
condensada
* ■’
Jusante
Fatores de
transcrição
Inibidores
da transcrição
RNA-polimerase 2
Elementos
promotores Promotor basal
proximais
Figura 3-13 Gene transcricionalem células eucarióticas.
Disposição complexa de módulos de múltiplos potenciadores
emaranhados, intercalados, com elementos isoladores que
podem estar localizados tanto acima quanto abaixo do promotor
basal contendo a caixa TATA (TATA), elementos promotores
proximais (elementos responsivos, RE) e sequências iniciadoras
(INR).
35
Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
denominada caixa TATA, o sítio de ligação para a proteína de
ligação TA TA (TBP) e para série de outros fatores de
transcrição, coletivamente denominados complexo IID de
fatores de transcrição. Somando-se ao complexo IID dos
fatores de transcrição, essa região é onde o fator de
transcrição IIB se liga a polimerase 2 dos DNA e RNA, para
facilitar a transcrição de DNA em RNA. Esse promotor
basal é encontrado em todos os genes codificadores de
proteínas e a polimerase deve se ligar com o promotor
basal antes que inicie seu deslocamento ao longo da fita de
DNA e sintetize RNA. O promotor a jusante está localizado
acima e mais afastado do sítio do início da transcrição e
contém vários sítios de ligação para fatores de transcrição
positivos e negativos que podem afetar a transcrição por
interações com as proteínas ligadas ao promotor basal. A
estrutura e o sítio de ligação do fator de transcrição no
promotor a jusante variam de gene para gene, para dar
origem a diferentes padrões de expressão de genes, em
diferentes tecidos.
A transcrição de genes em eucariotas é também
influenciada por potenciadores, que são regiões do DNA que
podem se ligar a fatores de transcrição. Os potenciadores
podem estar localizados a grandes distâncias do gene onde
atuam ou até em cromossomo diferente. Eles podem estar
localizados antes ou depois do gene que regulam. Apesar
de os potenciadores poderem estar localizados a grandes
distâncias do seu gene-alvo, eles podem estar
relativamente próximos, quando o DNA é enrolado no
núcleo. Estima-se que existem 110.000 potenciadores de
sequências de genes no genoma humano.
Na organização do cromossomo, é importante separar
genes ativos que estão sendo transcritos dos genes que são
reprimidos. Isso pode ser desafiador, pois múltiplos genes
podem estar localizados bem próximos no cromossomo.
Isso é realizado pelos cromossomos isola- dores. Esses
isoladores são sequências de genes que formam barreira,
para que um gene específico seja isolado de influências
transcricionais dos genes adjacentes. Os isoladores podem
variar muito na sua sequência de DNA e nas proteínas que
a eles se ligam. O modo pelo qual a atividade do isolador
pode ser modulada é pela metilação do DNA. Esse é o caso
do gene do fator de crescimento semelhante à insulina de
mamífero II (IGF-2). O alelo da mãe contém isolador entre o
potenciador e o promotor do gene que permite a ligação do
repressor transcricional. Entretanto, a sequência paterna do
DNA é metilada de tal forma que impeça o repressor
transcricional de se ligar ao potenciador e o gene do IGF-2 é
expresso da cópia paterna do gene.
Outros Mecanismos de Controle da Transcrição
pelo Promotor. Variações no mecanismo básico de
controle do promotor foram rapidamente descobertas nas
últimas 2 décadas. Sem entrar em detalhes, listamos
algumas delas:
1. O promotor frequentemente é controlado por fatores
de transcrição localizados em algum lugar do genoma.
Isto é, o gene regulador codifica a proteína reguladora
que por sua vez age como substância ativadora ou
repressora da transcrição.
2. Ocasionalmente, muitos promotores diferentes são
controlados, a um só tempo, pela mesma proteína
reguladora. Em alguns casos, a mesma proteína
reguladora funciona como ativador para um promotor e
como repressor para outro.
3. Algumas proteínas são controladas, não no ponto de
início da transcrição na fita de DNA, mas, mais adiante,
ao longo da fita. Às vezes, o controle não se dá nem
mesmo na fita de DNA em si, mas durante o
processamento das moléculas de RNA no núcleo, antes
de serem liberadas para o citoplasma; raramente, o
controle pode ocorrer no processo de formação da
proteína no citoplasma, durante a tradução do RNA
pelos ribossomos.
4. Em células nucleadas, o DNA nuclear está empaco- tado
em unidades estruturais, os cromossomos. Em cada
cromossomo, o DNA se enrola ao redor de pequenas
proteínas chamadas histonas, que por sua vez são
mantidas firmemente unidas, em estado compactado,
por outras proteínas diferentes. Enquanto o DNA
estiver no estado compactado, ele não forma RNA.
Entretanto, diversos mecanismos de controle
recentemente descobertos podem fazer com que
determinadas áreas dos cromossomos se
descompactem, de forma que a transcrição parcial do
RNA possa ocorrer. Mesmo assim, fatores de transcrição
específicos controlam a efetiva velocidade de
transcrição pelo promotor no cromossomo. Assim,
hierarquias ainda mais altas de controle são
empregadas para estabelecer a devida função celular.
Adicionalmente, sinais no exterior da célula, tais como
alguns dos hormônios do organismo, podem ativar
áreas cromossômicas específicas e fatores específicos de
transcrição, controlando dessa forma a maquinaria
química do funcionamento da célula.
Como existem mais de 30.000 diferentes genes em cada
célula humana, não é surpreendente o grande número de
formas pelas quais a atividade genética pode ser
controlada. Os sistemas de controle de genes são
especialmente importantes para o controle de
concentrações intracelulares de aminoácidos, de derivados
de aminoácidos e de substratos intermediários e produtos
do metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas.
Controle da Função Intracelular pela Regulação
Enzimática
Além do controle da função celular pela regulação
genética, algumas atividades celulares são controladas por
inibidores ou ativadores intracelulares que agem
diretamente sobre enzimas intracelulares específicas. Dessa
forma, a regulação enzimática representa segunda
categoria de mecanismos pelos quais as funções
bioquímicas das células podem ser controladas.
36
Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular
Inibição Enzimática. Algumas substâncias químicas
formadas na célula têm efeitos diretos de feedback que
inibem os sistemas de enzimas que as sintetizam. Quase
sempre o produto sintetizado age na primeira enzima da
sequência, em vez de nas enzimas subsequentes; em geral, o
produto se liga diretamente à enzima, causando
alostericamente alteração conformacional que a inativa.
Pode-se com facilidade reconhecer a importância de
desativar a primeira enzima: isso evita a formação de
produtos intermediários que não seriam usados.
A inibição enzimática é outro exemplo de controle por
feedback negativo; é responsável pelo controle das
concentrações intracelulares de diversos aminoácidos, puri-
nas, pirimidinas, vitaminas e outras substâncias.
Ativação Enzimática. Enzimas que estão normalmente
inativas podem ser ativadas quando necessárias. Exemplo
disso ocorre quando da depleção dos estoques celulares de
ATP. Nesse caso, quantidade considerável de monofosfato
de adenosina cíclico (AMPc) começa a ser formada como
produto da quebra do ATP; a presença deste AMPc, por sua
vez, de imediato ativa a enzima fosforilase que cliva a
glicogênio fosforilase, liberando moléculas de glicose que
são rapidamente metaboliza- das, fornecendo energia para
repor os estoques de ATP. Assim, o AMPc age como um
ativador para a enzima fosforilase e dessa forma participa
do controle da concentração intracelular de ATP.
Outro exemplo interessante de inibição e ativação
enzimáticas ocorre na formação de purinas e pirimidinas.
Compostos desses grupos são necessários para a célula, em
quantidades aproximadamente iguais, para a formação de
DNA e RNA. Quando as purinas são formadas, elas inibem
as enzimas que são necessárias para a sua formação
adicional. Entretanto, elas ativam as enzimas para a
formação de pirimidinas. Inversamente, as pirimidinas
inibem suas próprias enzimas, mas ativam as enzimas da
purina. Dessa maneira, ocorre interação contínua dos
sistemas de síntese dessas duas substâncias, e o resultado é
a quantidade igual das duas substâncias nas células, a
qualquer tempo.
Resumo. Em suma, existem dois métodos principais
pelos quais as células controlam as proporções e
quantidades adequadas dos diferentes constituintes
celulares:
(1) o mecanismo de regulação genética e (2) o mecanismo
de regulação enzimática. Os genes podem ser ativados ou
inibidos, e, da mesma forma, os sistemas enzimáti- cos
podem ser ativados ou inibidos. Esses mecanismos
reguladores geralmente funcionam como sistemas de
controle por feedback que monitoram continuamente a
composição bioquímica da célula e fazem correções quando
necessário. Mas, ocasionalmente, substâncias externas à
célula (especialmente, alguns dos hormônios discutidos ao
longo deste texto) também controlam as reações
bioquímicas intracelulares, ativando ou inibindo um ou
mais sistemas de controle intracelulares.
O Sistema Genético-DNA Também
Controla a Reprodução Celular
A reprodução celular é outro exemplo do papel ubíquo que
o sistema genético-DNA exerce em todos os processos da
vida. Os genes e seus mecanismos reguladores determinam
as características de crescimento das células e, também,
quando ou se essas células se dividirão para formar novas
células. Dessa forma, o sistema genético controla cada
estágio do desenvolvimento do ser humano, do ovo, uma
só célula fertilizada, até o organismo completo e
funcionante. Assim, se existe algum tema central da vida,
esse é o sistema genético-DNA.
Ciclo de Vida da Célula. O ciclo de vida de célula é o
período desde a reprodução celular até a próxima
reprodução da célula. Quando células de mamíferos não
são inibidas e se reproduzem o mais rápido que podem, esse
ciclo de vida pode ser de apenas 10 a 30 horas. É encerrado
por série de eventos físicos distintos, denominados mitose,
que causam a divisão da célula em duas novas
células-filhas. Os eventos da mitose são mostrados na
Figura 3-14 e são descritos mais adiante. O estágio de
Centrômero Cromossomo
Figura 3-14 Estágios da reprodução celular. A, B e C, Prófase. D,
Prometáfase. E, Metáfase. F, Anáfase. G e H.Telófase. (De
Margaret C. Gladbach, Propriedade de Mary E. e DanTodd,
Kansas.)
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Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
mitose, porém, dura cerca de 30 minutos, de forma que
mais de 95% do ciclo de vida das células de reprodução
rápida são representados pelo intervalo entre as mitoses,
chamado de interfase.
Exceto em condições especiais de rápida reprodução
celular, fatores inibitórios quase sempre tornam lento ou
cessam o ciclo de vida da célula. Portanto, diferentes
células do corpo têm períodos do ciclo de vida que variam
de 10 horas, para células da medula óssea altamente
estimuladas, até o período de duração da vida do corpo
humano para a maioria das células nervosas.
A Reprodução Celular Começa com a Replicação do
DNA
Assim como em quase todos os outros eventos importantes
na célula, a reprodução começa no próprio núcleo. O
primeiro passo é a replicação (duplicação) de todo o DNA dos
cromossomos. Somente depois disso é que a mitose pode
ocorrer.
O DNA começa a se duplicar cerca de 5 a 10 horas antes
da mitose, e se completa em 4 a 8 horas. O resultado da
duplicação é a formação de duas réplicas idênticas de todo o
DNA. Essas réplicas vão ser o DNA das duas células-filhas
que serão formadas pela mitose. Depois da replicação do
DNA, ocorre outro período, de 1 a 2 horas, antes do início
abrupto da mitose. Mesmo durante esse período, alterações
preliminares que levarão ao processo mitótico começam a
ocorrer.
Eventos Químicos e Físicos da Replicação de
DNA. O DNA é replicado de maneira muito semelhante à
forma que o RNA é transcrito do DNA, exceto por algumas
importantes diferenças:
1. Ambas as fitas de DNA em cada cromossomo são
replicadas não apenas uma delas.
2. Ambas as fitas inteiras da hélice de DNA são replicadas
de ponta a ponta, em vez de pequenas porções dela,
como ocorre na transcrição do RNA.
3. As principais enzimas para a replicação do DNA
formam o complexo de múltiplas enzimas chamado
DNA- polimerase que é comparável à RNA-polimerase.
Ela se adere e se move ao longo da fita molde de DNA,
enquanto outra enzima, a DNA-ligase, catalisa a ligação
dos sucessivos nucleotídeos do DNA uns aos outros,
usando ligações fosfato de alta energia para energizar
essas ligações.
4. A formação de cada nova fita de DNA ocorre
simultaneamente em centenas de segmentos ao longo
de cada uma das fitas da hélice, até que toda ela seja
replicada. Então, as extremidades das subunidades são
unidas pela enzima DNA-ligase.
5. Cada fita de DNA recém-formada permanece aderida
por pontes de hidrogênio ao filamento de DNA
original, que serviu como molde. As duas fitas então se
enrolam em hélice.
6. Como as hélices de DNA em cada cromossomo têm
aproximadamente 6 centímetros de comprimento e
milhões de voltas da hélice, seria impossível para as
duas hélices de DNA recém-formadas se desenrolarem
se não houvesse um mecanismo especial. Isto é
conseguido por meio de enzimas que periodicamente
cortam cada hélice ao longo de seu comprimento, giram
cada segmento o suficiente para causar a separação e
depois emendam a hélice. Assim, as duas novas hélices
ficam desenroladas.
Reparo de DNA, "Leitura de Prova" de DNA e
"Mutação. Durante mais ou menos uma hora, entre a
replicação do DNA e o início da mitose, existe período de
reparo bastante ativo e de “leitura de prova” das fitas de
DNA. Onde nucleotídeos inapropriados foram pareados
aos nucleotídeos da fita molde original, enzimas especiais
cortam as áreas defeituosas e as substituem por
nucleotídeos complementares adequados. Isso é feito pelas
mesmas DNA-polimerases e DNA-ligases que são usadas
na replicação. O processo de reparação é chamado de
leitura de prova do DNA.
Como consequência do reparo e da leitura de prova, o
processo de transcrição raramente comete um erro.
Quando existe erro, tem-se uma mutação. A mutação causa
a formação de proteína anormal na célula, substituindo a
proteína necessária, geralmente levando ao funcionamento
anormal da célula e, às vezes, até mesmo à morte celular.
Contudo, devido ao fato de existirem 30.000 ou mais genes
no genoma humano e de que o período de uma geração
humana é de cerca de 30 anos, seriam esperadas até 10 ou
mais mutações na passagem do genoma dos pais para o
filho. Como proteção extra, entretanto, cada genoma
humano contém dois conjuntos distintos de cromossomos
com genes quase idênticos. Assim, um gene funcional de
cada par está quase sempre disponível para o filho, a
despeito das mutações.
Cromossomos e Suas Replicações
As hélices de DNA, no núcleo, são empacotadas nos
cromossomos. A célula humana contém 46 cromossomos,
dispostos em 23 pares. No par, a maioria dos genes em um
dos cromossomos é idêntica ou quase idêntica aos genes do
outro cromossomo; portanto, geralmente se pode afirmar
que os genes existem em pares, embora nem sempre seja
este o caso.
Além do DNA, existe grande quantidade de proteínas
no cromossomo, entre as quais predominam diversas
moléculas pequenas de historias, com cargas elétricas
positivas. As histonas são organizadas em grande número
de estruturas em forma de carretei. Pequenos segmentos da
hélice de DNA se enrolam sequencialmente nessas
estruturas.
As estruturas de histona desempenham papel
importante na regulação da atividade do DNA, pois
enquanto o DNA estiver bem empacotado ele não poderá
funcionar como molde para a formação de RNA ou para a
replicação de novo DNA. Algumas das proteínas
reguladoras são capazes de afrouxar o empacotamento do
DNA
38
Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular
pelas histonas do DNA e assim permitir que pequenos
segmentos formem RNA.
Várias outras proteínas, além das histonas, também são
componentes importantes dos cromossomos, funcionando
como proteínas estruturais cromossômicas e, quando
associadas à maquinaria de regulação genética, como
ativadores, inibidores e enzimas.
A replicação completa dos cromossomos ocorre poucos
minutos após a replicação das hélices de DNA ser
concluída; as novas hélices de DNA reúnem novas
moléculas necessárias de proteína. Os dois cromossomos
recém-for- mados permanecem aderidos um ao outro (até o
momento da mitose) no ponto chamado centrômero,
localizado próximo aos seus centros. Esses cromossomos
duplicados, porém ainda aderidos, são chamados de
cromátides.
Prometáfase. Durante este estágio (Fig. 3-14D), os
espinhos de microtúbulos crescendo da áster fragmentam o
envelope nuclear. Ao mesmo tempo, múltiplos
microtúbulos da áster aderem às cromátides nos centrô-
meros, região em que os pares de cromátides ainda estão
ligados entre si; os túbulos, então, puxam uma cromátide de
cada par em direção a um polo celular e sua parceira para o
polo oposto.
Metáfase. Durante a metáfase (Fig. 3-14E), as duas
ásteres do aparelho mitótico são empurradas, separan-
do-se. Acredita-se que isto ocorra porque os espinhos
microtubulares das duas ásteres, onde eles se interdigitam
para formar o fuso mitótico, se empurram e se separam.
Existem motivos para se acreditar que minúsculas molé-
a
>
cuias de proteína contráteis, chamadas “motores molecu
Mitose Celular
O processo próprio pelo qual a célula se divide em duas
novas células é chamado mitose. Uma vez que cada
cromossomo tenha sido duplicado para formar as duas
cromátides em muitas células, a mitose segue
automaticamente em questão de 1 ou 2 horas.
Aparelho Mitótico: Função dos Centríolos. Um
dos primeiros eventos da mitose ocorre no citoplasma,
durante a última parte da interfase, em torno de pequenas
estruturas denominadas centríolos. Como mostra a Figura
3- 14, dois pares de centríolos ficam juntos, próximos a
um dos polos do núcleo. Esses centríolos, como o DNA e os
cromossomos, também foram replicados durante a
interfase, geralmente logo antes da replicação do DNA.
Cada centríolo é pequeno corpo cilíndrico de cerca de 0,4
micrômetro de comprimento e de 0,15 micrômetro de
diâmetro; consiste principalmente em nove estruturas
tubulares paralelas, organizadas em forma de cilindro. Os
dois centríolos de cada par formam ângulos retos entre si.
Cada par de centríolos, juntamente com o material peri-
centriolar aderido, é chamado de centrossomo.
Pouco antes que a mitose ocorra, os dois pares de
centríolos começam a se separar um do outro. Isto é
causado pela polimerização de microtúbulos de proteína
que crescem entre os respectivos pares de centríolos e por
fim os separa. Ao mesmo tempo, outros microtúbulos
crescem radialmente de cada par de centríolos, formando
estrela espinhosa, denominada áster, em cada extremidade
da célula. Alguns dos espinhos da áster penetram na
membrana nuclear e ajudam a separar os dois conjuntos de
cromátides durante a mitose. O complexo de microtúbulos,
que se estende entre os dois novos pares de centríolos, é
chamado de fuso, e o conjunto completo de microtúbulos
mais os dois pares de centríolos são chamados aparelho
mitótico.
Prófase. O primeiro estágio da mitose, chamado pró-
fase, é mostrado na Figura 3-14A, B e C. Enquanto o fuso
está se formando, os cromossomos do núcleo (que na
interfase consistem em fitas frouxamente enroladas) se
condensam em cromossomos bem definidos.
lares”, talvez compostas da proteína actina, se estendam
entre os respectivos fusos e, em uma ação de andar (ste-
pping) semelhante à que ocorre no músculo, fazem os
espinhos deslizar um sobre o outro em direções opostas.
Simultaneamente, as cromátides são firmemente puxadas
pelos microtúbulos a elas aderidos para o próprio centro da
célula, alinhando-se para formar a placa equatorial do fuso
mitótico.
Anáfase. Durante esta fase (Fig. 3-14F), as duas
cromátides de cada cromossomo são separadas no
centrômero. Todos os 46 pares de cromátides são
separados, formando dois conjuntos distintos de 46
cromossomos- filhos. Um desses conjuntos é puxado em
direção a uma áster mitótica, e o outro é puxado em direção
à outra áster, enquanto os dois polos da célula em divisão
são empurrados, separando-os ainda mais.
Telófase. Na telófase (Fig. 3-14G e H), os dois conjuntos
de cromossomos-filhos estão completamente separados.
Então, o aparelho mitótico se dissolve, e nova membrana
nuclear se desenvolve ao redor de cada conjunto de
cromossomos. Essa membrana é formada de partes do
retículo endoplasmático que já estão presentes no
citoplasma. Logo após, a célula se divide em duas metades
entre os dois núcleos. Isso é causado pela formação de anel
contrátil de microfdamentos, compostos de actina e
provavelmente de miosina (as duas proteínas contráteis dos
músculos) na região em que a célula se dividirá, e que acaba
por separá-las nas duas células-filhas.
Controle do Crescimento e da Reprodução Celular
Sabemos que certas células crescem e se reproduzem
sempre, tais como as células da medula óssea que formam
as células sanguíneas, as células das camadas germi-
nativas da pele e as do epitélio do intestino. Muitas outras
células, entretanto, tais como as células de músculo liso,
podem não se reproduzir por muitos anos. Umas poucas
células, tais como os neurônios e a maioria das células do
músculo estriado, não se reproduzem durante a vida inteira
da pessoa, exceto durante o período original de vida fetal.
39
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Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
Em certos tecidos, a insuficiência de alguns tipos de
células faz com que elas cresçam e se reproduzam
rapidamente até que sua quantidade seja novamente
apropriada. Por exemplo, em alguns animais jovens, sete
oitavos do fígado podem ser removidos cirurgicamente, e
as células remanescentes crescerão e se dividirão até que a
massa hepática retorne ao normal. O mesmo ocorre em
muitas células glandulares e na maioria das células da
medula óssea, do tecido subcutâneo, do epitélio intestinal e
quase em qualquer outro tecido, com exceção das células
muito diferenciadas, como as nervosas e musculares.
Sabemos pouco sobre os mecanismos que mantêm o
número adequado dos diferentes tipos de células no corpo.
Entretanto, experimentos demonstraram pelo menos três
formas pelas quais o crescimento pode ser controlado.
Primeiro, o crescimento geralmente é controlado por fatores
de crescimento que advêm de outras partes do corpo.
Alguns deles circulam no sangue, mas outros se originam
nos tecidos adjacentes. Por exemplo, as células epiteliais de
algumas glândulas, como o pâncreas, não conseguem
crescer sem o fator de crescimento derivado do tecido
conjuntivo da própria glândula. Segundo, a maioria das
células normais para de crescer quando não existe mais
espaço para o crescimento. Isso ocorre quando as células
crescem em culturas de tecidos; elas crescem até entrarem
em contato com objeto sólido e então o crescimento cessa.
Terceiro, células em cultura geralmente param de crescer
quando minúsculas quantidades de suas próprias
secreções se acumulam no meio de cultura. Isso também
poderia constituir meio de controle de crescimento por
feedback negativo.
Regulação do Tamanho da Célula. O tamanho da
célula é determinado, quase que totalmente, pela
quantidade de DNA funcionante no núcleo. Se a replicação
do DNA não ocorre, a célula cresce até determinado
tamanho e nele permanece. Inversamente, é possível, pelo
uso do composto colchicina, prevenir a formação do fuso
mitótico e assim evitar a mitose, embora a replicação do
DNA continue. Neste caso, o núcleo contém quantidade de
DNA maior que a normal, e a célula cresce
proporcionalmente mais. Presume-se que isso resulte
simplesmente do aumento de produção de RNA e de
proteínas celulares que por sua vez fazem com que a célula
fique maior.
Diferenciação Celular
Característica especial do crescimento e da divisão
celulares é a diferenciação celular, que significa alterações nas
propriedades físicas e funcionais das células, à medida que
elas proliferam no embrião, para formar diferentes
estruturas e órgãos corpóreos. A descrição de experimento
especialmente interessante que ajuda a explicar esses
processos é dada a seguir.
Quando o núcleo de uma célula da mucosa intestinal de
sapo é cirurgicamente implantado em óvulo de sapo do
qual o núcleo original foi removido, o resultado
é geralmente a formação de sapo normal. Isto demonstra
que mesmo a célula da mucosa intestinal, que é célula bem
diferenciada, carrega toda a informação genética necessária
para o desenvolvimento de todas as estruturas necessárias
para o corpo do sapo.
Portanto, fica claro que a diferenciação resulta não da
perda de genes, mas da repressão seletiva de diferentes
promotores genéticos. Na verdade, micrografias eletrônicas
sugerem que alguns segmentos das hélices de DNA
enrolados ao redor de núcleos de histona podem ficar tão
condensados que não mais se desenrolam para formar
moléculas de RNA. Explicação para isso é a seguinte:
supõe-se que o genoma celular comece, em determinado
estágio da diferenciação celular, a produzir proteína
reguladora que reprime para sempre dado grupo de genes.
Os genes reprimidos nunca mais funcionam.
Independentemente do mecanismo, células humanas
maduras produzem de 8.000 a 10.000 proteínas, em vez das
possíveis 30.000 ou mais se todos os genes estivessem
ativos.
Experimentos embriológicos mostram que certas células
do embrião controlam a diferenciação de células adjacentes.
Por exemplo, o mesoderma córdico primordial é chamado de
organizador primário do embrião por formar foco ao redor do
qual o embrião se desenvolve. Ela se diferencia em eixo
mesoderma axial, que contém somitos segmentalmente
organizados e, como resultado de induções nos tecidos
circundantes, causa a formação de essencialmente todos os
órgãos do corpo.
Outro exemplo de indução ocorre quando as vesículas
do olho em desenvolvimento entram em contato com o
ectoderma da cabeça e fazem com que o ectoderma se
espesse em uma placa do cristalino, que se dobra para
dentro para formar o cristalino ocular. Assim, grande parte
do embrião se desenvolve em decorrência de tais induções,
uma parte do corpo afetando outra.
Assim, embora nosso entendimento da diferenciação de
células ainda seja incompleto, conhecemos muitos dos
mecanismos de controle pelos quais a diferenciação pode
ocorrer.
Apoptose — Morte Programada
das Células
Os 100 trilhões de células do corpo são membros de uma
comunidade altamente organizada na qual o número total
de células é regulado, não apenas pelo controle da
intensidade da divisão celular, mas também pelo controle
da intensidade da morte celular. Quando as células não são
mais necessárias ou se tornam ameaça para o organismo,
elas cometem algo como suicídio, que é a morte celular
programada ou apoptose. Esse processo envolve cascata
proteolítica específica que faz com que a célula murche e
condense, desmontando seu citoesqueleto e alterando sua
superfície celular de forma que célula fagocítica ao seu
redor, um macrófago, por exemplo, possa aderir à
membrana celular e digerir a célula.
40
Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular
Em contraste com a morte programada, as células que
morrem em consequência de uma lesão aguda geralmente
incham e se rompem, devido à perda de integridade da
membrana celular, processo chamado necrose celular. As
células necróticas espalham seu conteúdo, causando
inflamação e lesão das células ao seu redor. A apoptose,
entretanto, é a morte ordenada da célula que resulta da
desmontagem e fagocitose da célula antes que ocorra
qualquer vazamento de seu conteúdo, e as células ao redor
normalmente permanecem saudáveis.
A apoptose é iniciada pela ativação da família de pro-
teases chamada caspases. Estas enzimas são sintetizadas e
armazenadas na célula como pró-caspases inativas. Os
mecanismos de ativação das caspases são complexos, mas,
uma vez ativadas, as enzimas clivam e ativam outras pró-
caspases, deflagrando a cascata que rapidamente quebra as
proteínas da célula. A célula então se desmonta, e seus
restos são rapidamente digeridos pelas células fagocíticas
na região.
Quantidade imensa de apoptose ocorre em tecidos que
estão sendo remodelados durante o desenvolvimento.
Mesmo nos humanos adultos, bilhões de células morrem a
cada hora em tecidos como o intestino e a medula óssea e
são substituídas por novas células. A morte programada
das células entretanto é normalmente equilibrada pela
formação de células novas em adultos saudáveis. Do
contrário, os tecidos do corpo encolheriam ou cresce- riam
excessivamente. Estudos recentes sugerem que
anormalidades na apoptose podem desempenhar papel-
chave em doenças neurodegenerativas, tais como o mal de
Alzheimer, bem como no câncer e em distúrbios auto-
imunes. Alguns medicamentos que têm sido utilizados
com sucesso na quimioterapia parecem induzir a apoptose
das células cancerosas.
Câncer
O câncer é causado em todos, ou em quase todos os casos,
por mutação ou por alguma outra ativação anormal de genes
que controlam o crescimento e a mitose celulares. Os genes
anormais são chamados de oncogenes. Até 100 diferentes
oncogenes já foram descobertos.
Também presentes em todas as células estão os an-
tioncogenes, que suprimem a ativação de oncogenes
específicos. Portanto, a perda ou a inativação de anti-
oncogenes podem permitir a ativação de oncogenes que
levam ao câncer.
Apenas reduzida fração das células que passem por
mutação no corpo leva ao câncer. Existem várias razões
para isto. Em primeiro lugar, a maioria das células
alteradas tem capacidade menor de sobrevivência do que
as células normais e simplesmente morrem. Em segundo
lugar, apenas poucas dessas células alteradas que
conseguem sobreviver se tornam cancerosas, pois mesmo a
maioria das células mutantes ainda tem controles de
feedback normais que previnem o crescimento excessivo.
Em terceiro lugar, as células potencialmente cancerosas
são frequentemente destruídas pelo sistema imune do
organismo, antes que formem um tumor. Isso ocorre da
seguinte maneira: a maioria das células mutantes forma
proteínas anormais em consequência de seus genes
alterados, e essas proteínas ativam o sistema imune do
corpo, e este forma anticorpos ou linfócitos sensibilizados
que reagem contra as células cancerosas, destruindo-as. A
reação imune é evidenciada pelo fato de que as pessoas
cujos sistemas imunes foram suprimidos por
medicamentos imunossupressores após transplante de rins
ou de coração têm probabilidade de desenvolver câncer
multiplicado por cinco.
Em quarto lugar, em geral, diversos oncogenes devem
ser ativados simultaneamente para causar câncer. Por
exemplo, um desses genes poderia promover a rápida
reprodução de linhagem de células, mas o câncer ocorre
porque não existe gene mutante para formar os vasos
sanguíneos necessários.
Mas o que causa a alteração dos genes? Considerando
que vários trilhões de novas células são formados a cada
ano, nos humanos, pergunta melhor seria “Por que nem
todos nós desenvolvemos milhões ou bilhões de células
mutantes cancerosas?” A resposta é a incrível precisão com
que as moléculas de DNA cromossômico são replicadas em
cada célula antes que a mitose ocorra, e também o processo
de leitura de prova que corta e repara filamentos de DNA
anormais antes que o processo mitótico prossiga. Contudo,
a despeito de todos esses sistemas de segurança
estabelecidos na evolução, provavelmente uma célula
recém-formada, em alguns milhões, ainda tem
características mutantes significativas.
Assim, como as mutações ocorrem ao acaso, pode-se
supor que grande número de cânceres é o resultado do
acaso.
Entretanto, a probabilidade de mutações pode ser
aumentada muitas vezes quando o organismo é exposto a
fatores químicos, físicos ou biológicos, incluindo os
seguintes:
1. É bem sabido que a radiação ionizante, como raios X, raios
gama e radiação emitida por substâncias radioativas, e
mesmo por luz ultravioleta, pode predispor o indivíduo
ao câncer. Os íons formados nas células de tecidos sob a
influência de tal radiação são altamente reativos e
podem romper os filamentos de DNA, causando
diversas mutações.
2. Certas substâncias químicas aumentam a probabilidade
de mutações. Descobriu-se, há muito tempo, que vários
derivados do corante de anilina podem causar câncer,
de forma que trabalhadores da indústria química que
produzem essas substâncias, se não estiverem
protegidos, têm predisposição maior para o câncer.
Substâncias químicas que podem causar mutação são
chamadas de carcinógenos. Os carcinógenos que
atualmente causam o maior número de mortes são os
da fumaça do cigarro. Eles causam cerca de um quarto
de todas as mortes por câncer.
o
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Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral
3. Irritantes físicos também podem levar ao câncer, tais
como a abrasão contínua dos revestimentos do trato
intestinal por alguns tipos de alimentos. O dano aos
tecidos leva à rápida substituição mitótica das células.
Quanto mais frequente a mitose, maior a probabilidade
de mutação.
4. Em muitas famílias, existe forte tendência hereditária ao
câncer. Isso resulta do fato de que a maioria dos
cânceres requer não apenas uma mutação, mas duas ou
mais para que surja o tumor. Nas famílias que são
particularmente predispostas ao câncer, presume-se que
um ou mais genes cancerosos já se encontrem alterados
no genoma herdado. Portanto, muito menos mutações
adicionais são necessárias para o crescimento do câncer.
5. Em animais de laboratório, certos tipos de vírus podem
causar alguns tipos de câncer, incluindo a leucemia. Isso
acontece por uma de duas maneiras. No caso de vírus
de DNA, a fita de DNA do vírus pode se inserir
diretamente em um dos cromossomos e, dessa forma,
causar mutação que leva ao câncer. No caso de vírus de
RNA, alguns deles carregam consigo a enzima chamada
transcriptase reversa, que faz com que o DNA seja
transcrito do RNA. O DNA transcrito então se insere no
genoma da célula do animal, levando ao câncer.
Características Invasivas da Célula Cancerosa.
As principais diferenças entre a célula cancerosa e a célula
normal são as seguintes: (1) A célula cancerosa não respeita
os limites normais de crescimento celular; a razão é que
essas células presumivelmente não requerem todos os
fatores de crescimento que são necessários para o
crescimento de células normais. (2) As células cancerosas
geralmente aderem umas às outras muito menos do que as
células normais. Portanto, elas tendem a vagar pelos
tecidos e entrar na corrente sanguínea, pela qual são
transportadas para todo o corpo, onde formam focos de
crescimento canceroso. (3) Alguns cânceres também
produzem fatores angiogênicos que fazem com que novos
vasos sanguíneos cresçam no tumor, suprindo os nutrientes
necessários para o crescimento do câncer.
Por Que as Células Cancerosas Matam?
A resposta a esta pergunta normalmente é simples. O
tecido canceroso compete com os tecidos normais pelos
nutrientes. Pelo fato de as células cancerosas proliferarem
continuamente, seu número se multiplica dia após dia; as
células cancerosas logo demandam praticamente todos os
nutrientes disponíveis para o organismo ou para uma parte
essencial do corpo. Como consequência, os tecidos normais
gradualmente morrem por desnutrição.
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42
Fisiologia da Membrana,
Nervo e Músculo
4. O Transporte de Substâncias através
das Membranas Celulares
5. Potenciais de Membrana e Potenciais
de Ação
6. Contração do Músculo Esquelético
7. Excitação do Músculo Esquelético:
Transmissão Neuromuscular e Acoplamento
Excitação-Contração
8. Excitação e Contração do Músculo Liso
(página deixada intencionalmente em branco)
CAPÍTULO 4
O Transporte de Substâncias através
das Membranas Celulares
A Figura 4-1 apresenta as
concentrações aproximadas
dos eletrólitos importan-
tes e de outras substâncias
nos líquidos extracelular
e intracelular. Note que o
líquido extracelular contém
grande quantidade de sódio, mas somente pequena quan-
tidade de potássio. O oposto é exatamente válido para o
líquido intracelular. O líquido extracelular contém também
grande quantidade de íons cloreto, ao passo que o líquido
intracelular contém quantidade muito pequena. Porém, as
concentrações de fosfato e de proteínas no líquido intra-
celular, são consideravelmente maiores do que no líquido
extracelular. Essas diferenças são muito importantes para
a vida das células. O propósito deste capítulo é explicar
como essas diferenças são produzidas pelos mecanismos
de transporte das membranas celulares.
A Barreira Lipídica da Membrana Celular e
as Proteínas de Transporte da Membrana
Celular
A estrutura da membrana que reveste externamente cada
célula do corpo é discutida no Capítulo 2 e mostrada nas
Figuras 2-3 e 4-2. Essa membrana consiste quase que
inteiramente em uma bicamada lipídica, contendo também
grande número de moléculas de proteínas incrustadas nos
lipídios, muitas delas penetrando por toda a espessura da
membrana, como mostra a Figura 4-2.
A bicamada lipídica não é miscível nos líquidos extra e
intracelular. Assim, ela constitui barreira para os
movimentos das moléculas de água e de substâncias
hidros- solúveis, entre os compartimentos dos líquidos
intra e extracelular es. Todavia, como demonstrado na
Figura 4-2 pela seta da extrema esquerda, algumas
substâncias podem atravessar essa bicamada lipídica
dispersando-se, de modo direto, através da substância
lipídica; isso ocorre principalmente com substâncias
lipossolúveis, como descrito adiante.
As moléculas de proteína na membrana apresentam
propriedades totalmente diferentes para o transporte de
substâncias. Suas estruturas moleculares interrompem a
continuidade da bicamada lipídica, representando via
alternativa através da membrana celular. Em sua maioria,
as substâncias proteicas por essa razão podem funcionar
como proteínas transportadoras. Diferentes proteínas
funcionam de modos distintos. Algumas contêm espaços
aquosos por toda a extensão da molécula, permitindo o
livre movimento da água, bem como de íons ou de
moléculas selecionados; elas são referidas como proteínas
canais. Outras, conhecidas como proteínas transportadoras, se
ligam às moléculas ou aos íons a serem transportados;
alterações estruturais nas moléculas da proteína, então,
movem a substância através dos interstícios da proteína até
o outro lado da membrana. Tanto as proteínas canais como
as proteínas transportadoras são, via de regra,
extremamente seletivas para os tipos de moléculas ou de
íons que será permitido atravessar a membrana.
LIQUIDO
EXTRACELULAR
Na+ -
K+...
Ca++
Mg++
ci-~
HCO;
■— 142 mEq/L —
4 mEq/L ------
— 2,4 mEq/L —
----1,2 mEq/L —
■— 103 mEq/L
-
— 28 mEq/L —
—- 4 mEq/L ------
— 1 mEq/L ------
Glicose ----------90 mg/dl--------
Aminoácidos --- 30 mg/dl-------
Fosfatos
SO| -—
Colesterol
Fosfolipídios
Gordura neutra I
LIQUIDO
INTRACELULAR
■ 10
mEq/L 140
mEq/L
■0,0001 mEq/L
■58 mEq/L
■ 4 mEq/L
-10 mEq/L -75
mEq/L -2 mEq/L
■ 0 a 20
mg/dL
■ 200 mg/dL
?
0,5 g/dl ----------- 2 a 95 g/dL
P02--------
PC02 —
PH --------
Proteínas
35 mm Hg ......
46 mm Hg ......
7,4 ..............
20 mm Hg ?
50 mm Hg ?
7,0
2 g/dl -----
(5 mEq/L)
-—16g/dL
(40 mEq/L)
Figura 4-1 Composição química dos líquidos extracelular e
intracelular.
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Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
Proteína Proteínas transportadoras
simples facilitada
V------------------- V------------------- ' V ------------v-----------'
Difusão Transporte ativo
Figura 4-2 Vias de transporte através da membrana celular e
seus mecanismos básicos de transporte.
"Difusão" Versus "Transporte Ativo.” O
transporte através da membrana celular, tanto diretamente,
através da bicamada lipídica, como por meio de proteínas,
ocorre por um de dois processos básicos: difusão ou
transporte ativo.
Embora existam muitas variações desses mecanismos
básicos, difusão significa o movimento molecular aleatório
de substâncias, molécula a molécula, através dos espaços
intramoleculares da membrana ou em combinação com
proteína transportadora. A energia causadora da difusão é
a energia da movimentação cinética normal da matéria.
Como contraste, transporte ativo significa o movimento
dos íons ou de outras substâncias, através da membrana
em combinação com uma proteína transportadora, de
modo tal que a proteína transportadora faz com que a
substância se mova em direção oposta à de um gradiente
de energia, como passando de um estado de baixa
concentração para um estado de alta concentração. Esse
movimento requer uma fonte adicional de energia, além da
energia cinética. A seguir é apresentada uma explicação
mais detalhada da física básica e da físico-química desses
dois processos.
Difusão
Todas as moléculas e íons no corpo, inclusive as moléculas
de água e as substâncias dissolvidas nos líquidos corporais,
estão em constante movimento, cada partícula movendo-se
por seu percurso distinto. A movimentação dessas
partículas é o que os físicos chamam de “calor” — quanto
maior a movimentação, maior a temperatura — e o
movimento nunca cessa, sob qualquer circunstância, a não
ser na temperatura do zero absoluto. Quando a molécula
em movimento, A, se aproxima da molécula estacionária,
B, a força eletrostática e outras forças nucleares da
molécula A repelem a molécula B, transferindo parte da
energia do movimento da molécula A para a molécula B.
Consequentemente, a molécula B ganha energia cinética do
movimento, enquanto a molécula A passa a se mover mais
lentamente, perdendo parte de sua energia cinética. Desse
modo, como mostrado na Figura 4-3, em solução
Figura 4-3 Difusão de moléculas em fluidos durante um
milésimo de segundo.
uma só molécula colide violentamente com as outras
moléculas, primeiro em uma direção, e depois em outra, e
assim por diante, sempre aleatoriamente, colidindo
milhares de vezes a cada segundo. Esse movimento
contínuo de moléculas umas contra as outras nos líquidos
ou nos gases é chamado difusão.
Os íons difundem-se da mesma maneira que as
moléculas inteiras, e até mesmo partículas coloidais em
suspensão se difundem de modo semelhante, a não ser
pelo fato da dispersão dos coloides ser bem mais lenta do
que a das substâncias moleculares, por eles serem maiores.
Difusão através da Membrana Celular
A difusão através da membrana celular é dividida em dois
subtipos, chamados difusão simples e difusão facilitada. A
difusão simples significa que o movimento cinético das
moléculas ou dos íons ocorre através de abertura na
membrana ou através dos espaços intermoleculares, sem
que ocorra qualquer interação com as proteínas
transportadoras da membrana. A intensidade da difusão é
determinada pela quantidade de substância disponível,
pela velocidade do movimento cinético, e pelo número e
tamanho das aberturas na membrana, pelas quais as
moléculas e os íons podem se mover.
A difusão facilitada requer a interação com uma
proteína transportadora. A proteína transportadora ajuda a
passagem das moléculas ou dos íons, através da
membrana, por meio de ligação química com eles,
transportan- do-os dessa forma em movimento de vaivém
— como o de ponte aérea — através da membrana.
A difusão simples pode ocorrer através da membrana
celular por duas vias: (1) pelos interstícios da bicamada
lipídica, no caso da substância que se difunde ser lipos-
solúvel, e (2) pelos canais aquosos que penetram por toda a
espessura da membrana, por meio de alguma das grandes
proteínas transportadoras, como mostrados à esquerda da
Figura 4-2.
Difusão das Substâncias Lipossolúveis Através da
Bicamada Lipídica. Um dos fatores mais importantes que
determinam quão rapidamente a substância se difunde
pela bicamada lipídica é a lipossolubilidade dessa substância.
As lipossolubilidades do oxigênio, do nitrogê
46
Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares
nio, do dióxido de carbono e do álcool, por exemplo, são
altas; assim, todas elas podem se dissolver diretamente na
bicamada lipídica e se difundir através da membrana
celular, do mesmo modo como ocorre a difusão para
solutos hidrossolúveis nas soluções aquosas. Por razões
óbvias, a velocidade de difusão de cada uma dessas
substâncias através da membrana é diretamente
proporcional à sua lipossolubilidade. De modo especial,
grandes quantidades de oxigênio podem ser transportadas
dessa maneira; por essa razão, o oxigênio pode ser levado
para o interior das células quase como se não existisse a
membrana celular.
Difusão das Moléculas de Água e de Outras
Moléculas Insolúveis em Lipídios pelos Canais
Proteicos.
Ainda que a água seja extremamente insolúvel nos lipídios
da membrana, ela passa com facilidade pelos canais das
moléculas de proteínas que penetram por toda a espessura
das membranas. A rapidez com que as moléculas de água
podem se deslocar através da maioria das membranas
celulares é impressionante. Como exemplo, a quantidade
total de água que se difunde em cada direção pelas
membranas das hemácias, a cada segundo, é cerca de 100
vezes maior que o volume da própria hemácia.
Outras moléculas insolúveis em lipídios podem passar
pelos canais dos poros das proteínas do mesmo modo que
as moléculas de água, caso sejam hidrossolúveis e
suficientemente pequenas. Todavia, à medida que suas
dimensões aumentam, sua penetração diminui acentua-
damente. Por exemplo, o diâmetro da molécula da ureia é
somente 20% maior que o da água, e mesmo assim sua
penetração, através dos poros da membrana celular, é cerca
de 1.000 vezes menor que a da água. Ainda assim,
considerando-se a incrível velocidade de penetração da
água, essa intensidade da penetração da ureia ainda
permite o rápido transporte da ureia através da membrana
em poucos minutos.
Difusão pelos Canais Proteicos e as "Comportas”
Desses Canais
As reconstruções tridimensionais computadorizadas dos
canais proteicos demonstraram vias tubulares por toda a
espessura da membrana entre os líquidos extra e
intracelular. Por conseguinte, substâncias podem se
deslocar por difusão simples diretamente através desses
canais de um lado ao outro da membrana.
Os poros são compostos por proteínas integrais da
membrana celular que formam tubos abertos através da
membrana e que ficam sempre abertos. No entanto, o
diâmetro do poro e sua carga elétrica fornecem seletividade
que permite a passagem de somente algumas moléculas.
Por exemplo, poros proteicos, denominados aquaporinas ou
canais de água, permitem a passagem rápida de água através
da membrana celular, mas excluem outras moléculas. Já
foram encontrados pelo menos 13 tipos diferentes de
aquaporinas em várias células do corpo humano. As
aquaporinas têm um poro estreito que permite a difusão de
moléculas dagua através da membrana em fila única. O
poro é muito estreito para per
mitir a passagem de qualquer outro íon hidratado. Como
discutido nos Capítulos 29 e 75, a densidade de algumas
aquaporinas (p. ex., aquaporina-2), nas membranas
celulares, não é estática, mas pode ser alterada em
diferentes condições fisiológicas.
As proteínas canais são distinguidas por duas
características importantes: (1) elas, em geral, são
seletivamente permeáveis a certas substâncias, e (2) muitos
dos canais podem ser abertos ou fechados por comportas
que são reguladas por sinais elétricos (canais dependentes de
voltagem) ou químicos que se ligam a proteínas do canal
(icanais dependentes de ligantes).
Permeabilidade Seletiva das Proteínas Canais.
Muitas das proteínas canais são altamente seletivas para o
transporte de um ou mais íons ou moléculas específicas.
Isso resulta das características do canal propriamente dito,
como seu diâmetro, sua forma, e a natureza das cargas
elétricas e das ligações químicas ao longo de suas
superfícies internas.
Canais de potássio permitem a passagem de íons
potássio, através da membrana celular, aproximadamente
1.0 vezes mais facilmente do que permitem íons sódio.
Esse alto grau de seletividade porém não pode ser
explicado inteiramente pelo diâmetro molecular dos íons, já
que os íons potássio são levemente maiores do que os de
sódio. Qual é o mecanismo para essa notável seletividade
iônica? Essa pergunta foi parcialmente respondida quando
a estrutura do canal de potássio de uma bactéria foi
determinada por cristalografia de raios X. Foi descoberto
que os canais de potássio têm a estrutura tetramérica,
consistindo em quatro subunidades protei- cas idênticas,
envolvendo o poro central (Fig. 4-4). No topo do poro do
canal existem alças que formam fütro de seletividade estreita.
Revestindo o filtro de seletividade encontram-se oxigênios
carbonílicos. Quando íons potássio hidratado entram no
filtro de seletividade, eles interagem com os oxigênios
carbonílicos e perdem a maioria das suas moléculas de
água ligadas, permitindo a passagem dos íons potássio
desidratados pelo canal. Os oxigênios carbonílicos estão
muito afastados porém para permitir que eles interajam de
perto com os íons sódio menores e que são, portanto,
eficazmente excluídos pelo filtro de seletividade na
passagem pelo poro.
Acredita-se que os diferentes filtros de seletividade
para os vários tipos de canais iônicos são determinantes, em
grande parte, na especificidade do canal para cátions ou
ânions, ou para íons particulares, tais como Na+, K+ e Ca++,
que ganham acesso ao canal.
Uma das mais importantes proteínas canais, o
conhecido canal de sódio, tem apenas 0,3 por 0,5 nanômetro
de diâmetro mas, o que é mais importante, a superfície
interna desse canal tem forte carga negativa, como mostrado
pelos sinais negativos no interior da proteína canal no
painel superior da Figura 4-5. Essas fortes cargas negativas
podem puxar os íons sódio desidratados para dentro desses
canais, na verdade afastando os íons sódio das moléculas
de água que os hidratam. Uma vez
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Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
Alça do poro
Exterior
Hélice do poro
Exterior
Interior
Comporta i
fechada K+
J Comporta
i aberta
K+
Figura 4-5 Transporte de íons sódio e potássio através das
proteínas canais. Também são mostradas as mudanças
conformacionais nas moléculas de proteína para abrir e fechar as
“comportas" dos canais.
Figura 4-4 A estrutura do canal de potássio. O canal é composto
por quatro subunidades (apenas duas são mostradas), cada uma
com duas hélices transmembrana. O estreito filtro de
seletividade é formado pelas alças do poro e os oxigênios
carbonílicos forram os muros do filtro de seletividade, formando
sítios para a ligação transiente dos íons desidratados de
potássio. A interação dos íons potássio com os oxigênios
carbonílicos faz com que os íons potássio percam as moléculas
de água ligadas, permitindo a passagem dos íons potássio
desidratados pelo poro.
no canal, os íons sódio se dispersam em qualquer direção,
de acordo com as leis usuais de difusão. Desse modo, o
canal de sódio é especificamente seletivo para a passagem
de íons sódio.
As Comportas das Proteínas Canais. As comportas
das proteínas canais fornecem meio para controlar a
permeabilidade iônica dos canais. Isso é mostrado nos dois
painéis da Figura 4-5 para os controles da seletividade dos
íons potássio e sódio. Acredita-se que algumas dessas
comportas sejam extensões da molécula, como se fossem
comportas, semelhantes às das proteínas transportadoras
que podem ocluir a abertura do canal ou podem ser
removidas dessa abertura por alteração da conformação da
própria molécula de proteína.
A abertura e o fechamento desses canais podem ser
controlados por dois modos:
1. Por variações da voltagem. Neste caso, a conformação
molecular do canal ou das suas ligações químicas reage
ao potencial elétrico através da membrana celular. Por
exemplo, no painel superior da Figura 4-5, se existir
forte carga negativa no lado interno da membrana
celular, presumivelmente as aberturas externas do canal
do sódio permanecerão fechadas; de modo inverso, se o
lado interno da membrana perdesse sua
carga negativa, essas aberturas poderiam de modo
abrupto se abrir, permitindo que grande quantidade de
sódio entrasse na célula, passando pelos poros de sódio.
Esse é o mecanismo básico para a geração de potenciais
de ação nas fibras nervosas responsáveis pelos sinais
nervosos. No painel inferior da Figura 4-5, as comportas
para o potássio ficam localizadas na extremidade
intracelular dos canais de potássio e se abrem quando a
parte interna da membrana celular fica positivamente
carregada. A abertura desses canais é responsável, em
parte, pelo término do potencial de ação, como
discutido com mais detalhes no Capítulo 5.
2. Por controle químico (por ligantes). Algumas comportas
das proteínas canais dependem da ligação de
substâncias químicas (ou ligante) com a proteína; isso
causa alteração conformacional da proteína ou de suas
ligações químicas na molécula da proteína que abre ou
fecha sua comporta. Esse tipo é conhecido como controle
químico ou como controle por ligante. Um dos mais
importantes exemplos de controle químico é o efeito da
acetilcolina no chamado canal de acetilco- lina. A
acetilcolina abre a comporta desse canal, formando
poro negativamente carregado, com diâmetro de cerca
de 0,65 nanômetro, que permite a passagem de
moléculas sem carga ou de íons positivos menores que
seu diâmetro. Esse tipo de comporta é extremamente
importante para a transmissão dos sinais nervosos de
célula nervosa para outra (Cap. 45) e das células
nervosas para as células musculares, para causar a
contração muscular (Cap. 7).
Estado Aberto Versus Estado Fechado dos Canais
com Controle. A Figura 4-6A mostra a característica
especialmente interessante da maioria dos canais con-
48
Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares
trolados por voltagem. Essa figura mostra dois registros da
corrente elétrica que flui por canal único (isolado) de sódio,
sob gradiente de potência aproximado de 25 mili- volts,
através da membrana. Observe que o canal conduz ou não
conduz corrente elétrica, ou seja, é do tipo “tudo ou nada”.
Isto é, a comporta do canal abre de estalo e em seguida
fecha também de estalo, com cada período do estado aberto
do canal durando apenas fração de milisse- gundo a vários
milissegundos. Isso demonstra a extrema rapidez com que
as alterações podem ocorrer durante a abertura e o
fechamento das comportas moleculares dos canais
moleculares da proteína. Em determinado potencial de
voltagem, o canal pode permanecer fechado por todo o
tempo, ou por quase todo o tempo, enquanto em outro
nível de voltagem pode permanecer aberto por todo o
tempo, ou por quase todo o tempo. Em voltagens
intermediárias, como mostradas na figura, o canal tende a
abrir e fechar subitamente de modo intermitente,
resultando em fluxo médio da corrente que se situa entre os
valores mínimo e máximo.
Método da Fixação de Placa (Patch-Clamp) para
Registrara Corrente lônica que Flui por Canal. Pode-se
indagar como é possível registrar a corrente iônica que flui
pelos canais proteicos, como mostrado na Figura
4- 6Â. Isso foi realizado pelo método da “fixação de
placa” (patch-clamp), ilustrado na Figura 4-65. De forma
muito simplificada, micropipeta com diâmetro de apenas 1
ou 2 micrômetros é colocada sobre a parte externa da
membrana celular. Em seguida, é feita sucção pela pipeta
para aspirar a membrana contra a ponta da pipeta. Isso cria
uma selagem entre a ponta da pipeta e a membrana celular.
O resultado é placa diminuta de membrana que se “fixa”
na ponta da pipeta, por onde o fluxo de corrente elétrica
pode ser registrado.
Alternativamente, como mostrado à direita na Figura
4-65, a pequena placa de membrana celular na ponta da
pipeta pode ser removida da célula. A pipeta com a placa
selada é então colocada em solução livre. Isso permite que
as voltagens dentro da micropipeta e na solução externa
possam ser modificadas à vontade — isto é, a voltagem é
“fixada” (clamped) em determinado valor.
Foi possível a obtenção de placas suficientemente
pequenas para conter só um canal único proteico na
membrana a ser estudada. Por meio da variação da
concentração de diferentes íons, bem como da voltagem
através da membrana, pode-se determinar as características
do transporte do canal isolado e também as propriedades
de suas comportas.
Difusão Facilitada
A difusão facilitada é também conhecida como difusão
mediada por transportador, porque a substância que é
transportada por esse processo se difunde através da
membrana usando uma proteína transportadora específica
para auxiliar. Isto é, o transportador/ízd//ta a difusão da
substância para o outro lado.
w
0
0
o
Q.
E
C
O
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CL
A
“Placa” de
membran
a
Canal de sódio abertc
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i
Milissegundos
Gravador
Figura 4-64, Registro do fluxo de corrente por um canal de
sódio, dependente da voltagem isolado, demonstrando o
princípio "tudo ou nada" da abertura e do fechamento do canal.
B, O método de “fixação de placas" {patch-clamp) para o registro
do fluxo corrente por canal proteico isolado. À esquerda, o
registro é realizado em “placa" da membrana celular viva. À
direita, o registro é em placa de membrana retirada da célula.
A difusão facilitada difere, de modo importante, da
difusão simples pelo seguinte modo: apesar de a
velocidade da difusão simples, através de um canal aberto,
aumentar em proporção direta à concentração da
substância difusora, na difusão facilitada a velocidade da
difusão tende a um máximo, designado como Vmáx, à
medida que a concentração da substância difusora
aumenta. Essa diferença entre a difusão simples e a difusão
facilitada é demonstrada na Figura 4-7. Essa figura mostra
que, enquanto a concentração da substância difusora
aumenta, a inten-
49
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A
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
sidade da difusão simples continua a aumentar
proporcionalmente, mas na difusão facilitada a velocidade
da difusão não pode aumentar acima do nível do V , .
O que limita a velocidade da difusão facilitada? A
resposta provável é o mecanismo ilustrado na Figura 4-8.
Essa figura mostra a proteína transportadora com poro
suficientemente grande para transportar a molécula
específica por parte de seu trajeto. Mostra também um
“receptor” de ligação na parte interna da proteína
transportadora. A molécula a ser transportada entra no
poro e se liga. Então, em fração de segundo, ocorre
alteração conformacional ou química na proteína
transportadora, de forma que o poro agora se abre para o
lado oposto da membrana. Em razão da ligação do receptor
ser fraca, a movimentação térmica da molécula ligada faz
com que esta se separe e seja liberada no lado oposto da
membrana. A velocidade com que moléculas podem ser
trans-
Figura 4-7 Efeito da concentração de substância sobre a
velocidade de difusão através da membrana, por difusão simples
e por difusão facilitada. A figura mostra que a difusão facilitada
tende para uma velocidade máxima, chamada V ..
r • max
Molécula
transportada
Local de ligação
mmm
mmm
mmm
mmm Liberação
da ligação
Figura 4-8 Mecanismo postulado para a difusão facilitada.
portadas por esse mecanismo nunca pode ser maior do que
a velocidade com que a molécula de proteína
transportadora pode se alterar entre suas duas
conformações. Não obstante, note especificamente que esse
mecanismo permite que a molécula transportada se mova
— ou seja, “se difunda”— em qualquer direção através da
membrana.
Entre as substâncias mais importantes que atravessam a
membrana das células por difusão facilitada estão a glicose
e a maioria dos aminoácidos. No caso da glicose, pelo menos
cinco moléculas transportadoras já foram descobertas em
vários tecidos. Algumas delas podem também transportar
vários outros monossacarídeos com estruturas semelhantes
à da glicose, incluindo a galactose e a fru- tose. Uma delas,
a molécula transportadora de glicose 4 (GLUT4), é ativada
pela insulina, que pode aumentar em 10 a 20 vezes a
velocidade da difusão facilitada da glicose nos tecidos
sensíveis à insulina. Esse é o principal mecanismo pelo qual
a insulina controla o uso da glicose pelo organismo, como
discutido no Capítulo 78.
Fatores Que Afetam a Velocidade Efetiva
da Difusão
Até agora, já ficou evidente que muitas substâncias podem
se difundir através da membrana celular. O que em geral é
mais importante é a velocidade efetiva da difusão da
substância em determinada direção desejada. Essa
velocidade efetiva é determinada por diversos fatores.
A Intensidade da Difusão Efetiva É Proporcional à
Diferença de Concentração através da Membrana. A
Figura 4-9A mostra a membrana celular com a substância
com maior concentração no lado externo e concentração
mais baixa no lado interno. A velocidade com que a
substância vai se difundir para o lado interno é proporcional
à concentração das moléculas no lado externo, porque essa
concentração determina quantas moléculas atingem a parte
externa da membrana a cada segundo. Ao contrário, a
velocidade com que as moléculas se difundem para o lado
externo é proporcional à sua concentração no lado interno da
membrana. Por essa razão, a velocidade efetiva da difusão
para dentro da célula é proporcional à concentração
externa menos a concentração interna, ou:
Difusão efetiva (Ce - Q)
onde Ce é a concentração externa e C . é a concentração
interna.
Efeito do Potencial Elétrico da Membrana sobre a
Difusão dos íons — O "Potencial de Nernst”. Se
um potencial elétrico for aplicado através da membrana,
como mostrado na Figura 4-9B, a carga elétrica dos íons faz
com que eles se movam através da membrana mesmo que
não exista diferença de concentração para provocar esse
movimento. Assim, no painel esquerdo da Figura 4-95, a
concentração iônica negativa é a mesma em ambos os lados
da membrana, mas aplicou-se carga
50
Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares
D
Figura 4-9 Efeito da diferença de concentração (Á), diferença do
potencial elétrico que afetam os íons negativos (fi), e da
diferença de pressão (C) para causar a difusão das moléculas e
íons através da membrana celular.
positiva ao lado direito da membrana e carga negativa ao
lado esquerdo, criando gradiente elétrico através da
membrana. A carga positiva atrai os íons negativos, ao
passo que a carga negativa os repele. Assim, a difusão
efetiva ocorre da esquerda para a direita. Depois de algum
tempo, grandes quantidades de íons negativos se moveram
para a direita, criando a condição mostrada no painel
direito da Figura 4-95, no qual se desenvolveu diferença da
concentração iônica na direção oposta à diferença de
potencial elétrico. Agora, a diferença de concentração tende
a mover os íons para a esquerda, enquanto a diferença
elétrica tende a movê-los para a direita. Quando a diferença
da concentração aumenta o bastante, os dois efeitos se
contrabalançam. Na temperatura normal do corpo (37°C), a
diferença elétrica que vai contrabalançar dada diferença de
concentração de íons univalentes — como íons sódio (Na+)
— pode ser determinada pela fórmula a seguir, chamada
equação de Nernst:
FEM (em milivolts) = ± 61 log —
C2
na qual FEM é a força eletromotriz (voltagem) entre o lado
1 e o lado 2 da membrana, Q é a concentração no lado 1, e
C2 é a concentração no lado 2. Essa equação é
extremamente importante para a compreensão da
transmissão dos impulsos nervosos e é discutida com mais
detalhes no Capítulo 5.
Efeito da Diferença de Pressão Através da
Membrana. Algumas vezes, diferenças consideráveis de
pressão se desenvolvem entre os dois lados de membrana
difusível. Isso ocorre por exemplo na membrana capilar
sanguínea, em todos os tecidos do corpo. A pressão é de
cerca de 20 mmHg, maior dentro do capilar do que fora.
Pressão na verdade significa a soma de todas as forças
das diferentes moléculas que se chocam com a determinada
área de superfície em certo instante. Então, quando a
pressão é maior em um lado da membrana do que no outro
lado, isso significa que a soma de todas as forças das
moléculas se chocando contra o canal em um lado da
membrana é maior que do outro lado. Na maioria das
vezes, isso é causado por grande número de moléculas se
chocando a cada segundo com um dos lados da membrana
do que no outro lado. O resultado é quantidade maior de
energia disponível para causar o movimento efetivo das
moléculas do lado de alta pressão para o lado de menor
pressão. Esse efeito é demonstrado na Figura 4-9C, que
mostra pistão desenvolvendo alta pressão de um lado do
“poro” desse modo fazendo com que mais moléculas se
choquem contra um lado do poro e assim mais moléculas
“se difundam” para o outro lado.
O
>
Osmose Através de Membranas Seletivamente
Permeáveis — "Difusão Efetiva" de Água
De longe, a substância mais abundante que se difunde
através da membrana celular é a água. A água se difunde
usualmente nas duas direções, através da membrana das
hemácias, a cada segundo, em volume correspondente a
cerca de 100 vezes 0 volume da própria célula. Todavia, nas
condições normais, a quantidade que se difunde nas duas
direções é tão precisamente balanceada que o movimento
efetivo da água é zero. Consequentemente, o volume da
célula permanece constante. Entretanto, sob certas
circunstâncias, pode-se desenvolver diferença da
concentração da água através da membrana, do mesmo
modo como as diferenças de concentração podem ocorrer
para outras substâncias. Quando isso ocorre, passa a existir
movimento efetivo de água através da membrana celular,
fazendo com que a célula inche ou encolha, dependendo da
direção do movimento da água. Esse processo efetivo de
movimento da água causado por sua diferença de
concentração é denominado osmose.
Para dar exemplo de osmose, vamos assumir as
condições mostradas na Figura 4-10, com água pura de um
lado da membrana celular e solução de cloreto de sódio do
outro lado. As moléculas de água passam facilmente
através da membrana celular para o outro lado, enquanto
os íons sódio e cloreto só passam com dificuldade. Assim, a
solução de cloreto de sódio é na verdade uma mistura de
moléculas de água permeáveis e de íons sódio e cloreto não
permeáveis, sendo a membrana tida como seletivamente
permeável para a água, mas bem menos para os íons sódio e
cloreto. Contudo, a presença do sódio e do cloreto deslocou
parte das moléculas de água do lado da membrana, no qual
estão presentes esses íons, e por con-
51
U
N
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
Água Solução de NaCI
Osmose
Figura 4-10 A osmose na membrana celular, quando solução de
cloreto de sódio é colocada em um lado da membrana e água é
colocada do outro lado.
seguinte reduziu a concentração de moléculas de água para
menos do que a concentração da água pura. Como
resultado, no exemplo da Figura 4-10, mais moléculas de
água se chocam com os canais do lado esquerdo, onde está
a água pura, do que do lado direito, onde a concentração
de água foi reduzida. Dessa maneira, o movimento efetivo
de água ocorre da esquerda para a direita — ou seja, ocorre
osmose da água pura para a solução de cloreto de sódio.
Pressão Osmótica
Se na Figura 4-10 fosse aplicada pressão sobre a solução de
cloreto de sódio, a osmose da água para essa solução
poderia diminuir, parar, ou até mesmo se inverter. A
quantidade exata de pressão necessária para interromper a
osmose é conhecida como pressão osmótica da solução de
cloreto de sódio.
O princípio de diferença de pressão contrária à osmose
é demonstrado na Figura 4-11, que mostra a membrana
seletivamente permeável separando duas colunas de
líquido, uma contendo água pura e a outra contendo a
solução de água e qualquer soluto que não possa penetrar a
membrana. A osmose de água da coluna B para a coluna A
faz com que o nível do líquido nas colunas fique cada vez
mais diferente até que eventualmente a diferença de
pressão desenvolvida entre os dois lados da membrana seja
suficientemente intensa para se opor ao efeito osmótico. A
diferença de pressão através da membrana nesse ponto é
igual à pressão osmótica da solução que contém o soluto
não difusível.
A Importância do Número das Partículas Osmóticas
(Concentração Molar) na Determinação da Pressão
Osmótica. A pressão osmótica exercida pelas partículas
em solução, sejam elas moléculas ou íons, é determinada
pelo número dessas partículas por unidade de volume de
líquido, e não pela massa das partículas. A razão para isso é
que cada partícula em solução, independentemente de sua
massa, exerce em média a mesma quantidade de
Membrana
semipermeável
9
9
9 •
Figura 4-11 Demonstração da pressão osmótica causada por
osmose em membrana semipermeável.
pressão contra a membrana. Isto é, partículas grandes com
mais massa (m) do que as pequenas partículas se movem
com velocidade menor (v). As partículas pequenas
movem-se com maior velocidade, de modo tal que suas
energias cinéticas médias (k) determinadas pela equação
mv2
k =-----
2
são as mesmas para cada pequena partícula, bem como
para cada partícula maior. Consequentemente, o fator que
determina a pressão osmótica de uma solução é a
concentração da solução em termos de número de
partículas (que é o mesmo que a concentração molar, no caso
de molécula não dissociada), e não em termos de massa do
soluto.
"Osmolalidade" — O Osmol. Para expressar a
concentração da solução em termos do número de
partículas, a unidade chamada osmol é usada no lugar de
gramas.
Um osmol é o peso de 1 molécula grama de soluto
osmoticamente ativo. Desse modo, 180 gramas de glicose,
que correspondem a 1 molécula grama de glicose,
equivalem a 1 osmol de glicose porque a glicose não se
dissocia em íons. Caso um soluto se dissocie em dois íons, 1
molécula grama desse soluto vai corresponder a 2 osmóis,
porque o número de partículas osmoticamente ativas é
agora duas vezes maior do que para o soluto não
dissociado. Assim, quando totalmente dissociado, 1
molécula grama de cloreto de sódio, 58,5 gramas, é igual a 2
osmóis.
Nesse caso, a solução que contém 1 osmol de soluto,
dissolvido em cada quilograma de água, é conhecida por ter
osmolalidade de 1 osmol por quilograma, e a solução com
1/1.000 osmol dissolvido por quilograma tem
osmolalidade de 1 miliosmol por quilograma. A
osmolalidade
52
Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares
normal dos líquidos extra e intracelular é de cerca de 300
miliosmois por quilograma de água.
Relação entre a Osmolalidade e a Pressão Osmótica.
Na temperatura normal do corpo, 37°C, a concentração de 1
osmol por litro vai causar 19.300 mmHg de pressão
osmótica da solução. Da mesma maneira, a concentração de
1 miliosmol por litro é equivalente a 19,3 mmHg de pressão
osmótica. Ao se multiplicar esse valor pela concentração de
300 miliosmois dos líquidos do corpo, obtém-se a pressão
osmótica total dos líquidos corporais, calculada como
sendo de 5.790 mmHg. O valor medido é, no entanto, em
média de cerca de 5.500 mmHg. A razão para essa
diferença é que muitos dos íons nos líquidos do corpo,
como os íons sódio e cloreto, são muito atraídos uns pelos
outros; consequentemente, eles não podem se mover de
forma intimamente livre sem qualquer restrição nesses
líquidos e gerar sua pressão osmótica potencial total. Por
essa razão, em média, a pressão osmótica real dos líquidos
corporais fica em cerca de 0,93 vez o valor calculado.
O Termo "Osmolaridade". Osmolaridade é a concentração
osmolar expressa em osmóis por litro de solução, em vez de
osmóis por quilograma de água. Apesar de, em termos precisos,
serem os osmóis por quilograma de água (osmolalidade) que
determinam a pressão osmótica para soluções diluídas, como as
existentes no corpo, a diferença quantitativa entre a osmolalidade e
a osmolaridade é de menos de 1%. Em razão de ser bem mais
prático medir a osmolaridade do que a osmolalidade, ela é mais
utilizada na maioria dos estudos fisiológicos.
“Transporte Ativo” de Substâncias através das
Membranas
Às vezes, é necessária grande concentração de uma
substância no líquido intracelular, embora o líquido
extrace- lular só a contenha em baixa concentração. Isso é
válido, por exemplo, para os íons potássio. De modo
contrário, é importante manter baixas concentrações de
outros íons dentro das células, mesmo que sua
concentração no líquido extracelular seja alta. Isto é
especialmente válido para os íons sódio. Nenhum desses
dois efeitos pode ocorrer por difusão simples, porque a
difusão simples com o passar do tempo equilibra a
concentração nos dois lados da membrana. Assim, alguma
fonte de energia deve causar maior deslocamento dos íons
potássio para o interior da célula e deslocamento mais
intenso dos íons sódio para fora das células. Quando a
membrana celular transporta as moléculas ou íons “para
cima” contra um gradiente de concentração (ou “para
cima”, contra um gradiente elétrico ou de pressão), o
processo é chamado de transporte ativo.
As diversas substâncias que são ativamente
transportadas através das membranas de pelo menos
algumas células incluem muitos íons (sódio, potássio,
cálcio, ferro, hidrogênio, cloreto, urato), vários açúcares
diferentes e a maioria dos aminoácidos.
Transporte Ativo Primário e Transporte Ativo
Secundário. O transporte ativo é dividido em dois tipos,
de acordo com a fonte de energia usada para causar o
transporte: o transporte ativo primário e o transporte ativo
secundário. No transporte ativo primário, a energia é
derivada diretamente da degradação do trifosfato de
adenosina (ATP) ou de qualquer outro composto de fosfato
com alta energia. No transporte ativo secundário, a energia
é derivada secundariamente da energia armazenada na
forma de diferentes concentrações iônicas de substâncias
moleculares secundárias ou iônicas entre os dois lados da
membrana da célula, gerada originaria- mente por
transporte ativo primário. Nos dois casos, o transporte
depende de proteínas transportadoras que penetram por toda
a membrana celular, como ocorre na difusão facilitada.
Entretanto, no transporte ativo, as proteínas
transportadoras funcionam de modo distinto das da
difusão facilitada, pois são capazes de transferir energia
para a substância transportada para movê-la contra o
gradiente eletroquímico. A seguir, estão alguns exemplos
de transporte ativo primário e transporte ativo secundário,
com explanações mais detalhadas dos seus princípios de
funcionamento.
Transporte Ativo Primário
Bomba de Sódio-Potássio
Entre as substâncias que são transportadas por transporte
ativo primário estão o sódio, o potássio, o cálcio, o
hidrogênio, o cloreto e alguns outros íons.
O mecanismo de transporte ativo mais estudado em
seus detalhes é a bomba de sódio-potássio (.Na+-K+), processo
de transporte que bombeia íons sódio para fora, através da
membrana celular de todas as células, e ao mesmo tempo
bombeia íons potássio de fora para dentro. Essa bomba é a
responsável pela manutenção das diferenças de
concentração entre o sódio e o potássio através da
membrana celular, bem como pelo estabelecimento da
voltagem elétrica negativa dentro das células. De fato, o
Capítulo 5 mostra que essa bomba é também a base para a
função nervosa, transmitindo sinais nervosos por todo o
sistema nervoso.
A Figura 4-12 mostra os componentes físicos básicos da
bomba de Na+-I<+. A proteína transportadora é complexo de
duas proteínas globulares distintas: a maior é chamada
subunidade a, com peso molecular em torno de 100.000, e a
menor é chamada subunidade (3, com peso molecular em
torno de 55.000. Apesar de a função da proteína menor não
ser conhecida (a não ser que talvez fixe esse complexo
proteico à membrana lipídica), a maior proteína
(subunidade a) apresenta três características específicas,
importantes para o funcionamento da bomba:
1. Ela contém três locais receptores para a ligação de íons sódio
na porção da proteína que se projeta para dentro da
célula.
2. Ela contém dois locais receptores para os íons potássio na
sua porção externa.
53
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
Figura 4-12 Mecanismo postulado para a bomba de sódio-po-
tássio. ADP, difosfato de adenosina; ATP, trifosfato de
adenosina; Pi, íon fosfato.
3. A porção interna dessa proteína, perto do local de
ligação do sódio, tem atividade ATPase.
Quando dois íons potássio se ligam à parte externa da
proteína transportadora e três íons sódio se ligam à parte
interna, a função de ATPase da proteína é ativada. Isso
então cliva uma molécula de ATP, dividindo-a em difosfato
de adenosina (ADP) e liberando uma ligação fosfato de alta
energia. Acredita-se que essa energia liberada cause
alteração química e conformacional da molécula da
proteína transportadora, extrudando os três íons sódio
para fora e os dois íons potássio para dentro.
Assim como outras enzimas, a bomba de Na+-I<+
ATPase pode funcionar de forma inversa. Caso os
gradientes eletroquímicos para o Na+ e o I<+ sejam
experimentalmente aumentados o suficiente, de forma tal
que a energia armazenada em seus gradientes seja maior
que a energia química da hidrólise da ATP, esses íons vão
reduzir seus gradientes de concentrações e a bomba de
Na+-I<+ vai sintetizar o ATP a partir do ADP e do fosfato. A
forma fosforilada da bomba de Na+-I<+, por conseguinte,
pode tanto doar seu fosfato para o ADP para produzir ATP
quanto usar a energia para mudar sua estrutura e bombear
o Na+ para fora da célula e o I<+ para dentro da célula. As
concentrações relativas de ATP, ADP e fosfato, assim como
os gradientes eletroquímicos de Na+ e K+, determinam a
direção da reação das enzimas. Para algumas células, como
as células nervosas eletricamente ativas, 60% a 70% das
necessidades de energia das células talvez sejam
direcionados para bombear o Na+ para fora da célula, e o
K+ para dentro.
A Bomba de Na+
-K+
É Importante para o Controle do
Volume Celular. Uma das mais importantes funções da
bomba de Na+-I<+ é controlar o volume de cada célula. Sem
a função dessa bomba, a maioria das células do corpo
incharia até estourar. O mecanismo para controlar o
volume celular é o seguinte: dentro da célula, existe grande
número de proteínas e de outras moléculas orgânicas que
não podem sair das células. Em sua maioria tem carga
negativa, atraindo grande número de potássio, sódio e
outros íons positivos. Todas essas moléculas e íons vão
provocar a osmose de água para o interior da célula. A
menos que essa osmose seja interrompida, a célula irá
inchar até estourar. O mecanismo normal para impedir que
isso ocorra é o da bomba de Na+-I<+. Note de novo que esse
mecanismo bombeia três íons Na+ para fora da célula a
cada dois íons de K+ que são bombeados para o interior da
célula. A membrana também é bem menos permeável aos
íons e sódio do que aos íons potássio; desse modo, uma vez
que os íons sódio estão do lado de fora, eles apresentam
forte tendência a permanecerem ali. Portanto, isso
representa perda real de íons para fora da célula, o que
inicia a osmose da água para fora da célula.
Caso a célula comece a inchar por alguma razão, isso
automaticamente ativa a bomba de Na+-I<+, transferindo
ainda mais íons para fora da célula e, consequentemente,
carregando mais água com eles. Por essa razão, a bomba de
Na+-I<+exerce o papel de vigilância contínua para manter o
volume normal da célula.
Natureza Eletrogênica da Bomba de Na+
-K+
. O fato de a
bomba de Na+-K+ transferir três íons Na+ para o exterior da célula e
ao mesmo tempo dois íons K+ para o seu interior significa que na
realidade apenas uma carga positiva é transportada do interior da
célula para o exterior, a cada ciclo da bomba. Isso resulta em
positividade do lado externo da célula, mas cria déficit interno de
íons positivos. Consequentemente, diz-se que o bombeamento de
Na+-K+ é eletrogênico por produzir potencial elétrico através da
membrana celular. Como discutido no Capítulo 5, esse potencial
elétrico é requisito básico nas fibras musculares e nervosas para a
transmissão dos sinais musculares e nervosos.
Transporte Ativo Primário dos íons Cálcio
Outro mecanismo importante de transporte ativo primário
é o da bomba de cálcio. Os íons cálcio são nas condições
normais mantidos em concentração extremamente baixa no
citosol intracelular de virtualmente todas as células do
corpo, concentração essa que é cerca de
10.0 vezes menor do que existe no líquido extracelular.
Essa situação resulta em grande parte do transporte ativo
primário por duas bombas de cálcio. Uma está na
membrana celular, transportando cálcio para o exterior. A
outra bombeia os íons cálcio para dentro de uma ou mais
orga- nelas vesiculares intracelulares da célula, como o
retículo sarcoplasmático das células musculares e as
mitocôndrias de todas as células. Em cada um desses casos,
a proteína transportadora atravessa a membrana e atua
como enzima ATPase, tendo a mesma capacidade de clivar
o ATP como a ATPase da proteína transportadora do
sódio. A diferença é que essa proteína contém local de
ligação extremamente específico para o cálcio, em vez de
para o sódio.
Transporte Ativo Primário dos íons Hidrogênio
Em dois locais do corpo, o transporte ativo primário dos
íons hidrogênio é importante: (1) nas glândulas gástricas
do estômago e (2) nos túbulos distais finais e nos duetos
coletores corticais dos rins.
54
Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares
Nas glândulas gástricas, as células parietais das camadas
mais profundas apresentam o mecanismo ativo primário
mais potente para transportar os íons hidrogênio de
qualquer parte do corpo. Ele é a base para a secreção de
ácido clorídrico das secreções digestivas do estômago. Nas
extremidades secretoras das células parietais da glândula
gástrica, a concentração de íons hidrogênio aumenta por
até um milhão de vezes, sendo então liberada no estômago,
junto com íons cloreto, para formar o ácido clorídrico.
Nos túbulos renais existem células intercaladas especiais,
nos túbulos distais finais e nos duetos coletores corticais
que também transportam íons hidrogênio por transporte
ativo primário. Nesse caso, grandes quantidades de íons
hidrogênio são secretadas do sangue para a urina, para
promover a eliminação do excesso de íons hidrogênio dos
líquidos corporais. Os íons hidrogênio podem ser
secretados na urina contra gradiente de concentração de
cerca de 900 vezes.
Energética do Transporte Ativo Primário
A quantidade de energia necessária para transportar
ativamente a substância através da membrana é
determinada pela concentração da substância durante o
transporte. Comparada com a energia necessária para
concentrar a substância por 10 vezes, para poder
concentrá-la em 100 vezes será preciso duas vezes mais
energia, e para concentrá-la 1.000 vezes será preciso três
vezes mais energia. Em outras palavras, a energia
necessária é proporcional ao logaritmo do grau de
concentração da substância, como expresso pela seguinte
fórmula:
Ci
Energia (em calorias por osmol) = 1.400 log —
C2
Desse modo, em termos de calorias, a quantidade de
energia necessária para concentrar 1 osmol de uma
substância por 10 vezes é de cerca de 1.400 calorias; para
concentrá-la por 100 vezes, 2.800 calorias. Pode-se notar
que o consumo de energia para concentrar substâncias no
interior das células ou para remover substâncias das células
contra o gradiente de concentração pode ser muito grande.
Algumas células, como as que revestem os túbulos renais e
várias outras células glandulares, consomem, apenas para
essas atividades, cerca de 90% de sua energia.
Transporte Ativo Secundário — Cotransporte
e Contratransporte
Quando o sódio é transportado para fora da célula, por
transporte ativo primário, em geral cria-se grande
gradiente de concentração dos íons sódio, através da
membrana celular — alta concentração fora da célula e
concentração interna muito baixa. Esse gradiente
representa reservatório de energia porque o excesso de
sódio, do lado de fora da membrana celular, está sempre
tentando se difundir para o interior. Sob condições
apropriadas, essa energia da difusão do sódio pode
empurrar outras substâncias, junto com o sódio, através da
membrana
celular. Esse fenômeno é referido como cotransporte-, é
forma de transporte ativo secundário.
Para o sódio levar consigo outras substâncias, é
necessário um mecanismo de ligação. Esse mecanismo é
realizado por meio de outra proteína transportadora na
membrana celular. O transportador, neste caso, atua como
local de ligação para o íon sódio e para a substância a ser
cotransportada. Uma vez que ambos estejam ligados, o
gradiente de energia do íon sódio faz com que o íon sódio e
a outra substância a ser transportada entrem para o interior
da célula.
No contratransporte, os íons sódio tentam outra vez se
difundir para o interior da célula devido a seu grande
gradiente de concentração. Entretanto, dessa vez a
substância a ser transportada está na parte interna da célula
e deve ser transportada para o lado externo. Por essa razão,
o íon sódio se liga à proteína transportadora onde se projeta
para o exterior da membrana, enquanto a substância a ser
contratransportada se liga à projeção da proteína
transportadora no interior da célula. Uma vez que ambos já
se ligaram, ocorre alteração conformacional, e a energia
liberada pelo sódio, em sua difusão para dentro da célula,
faz com que a outra substância seja transportada para o
exterior.
Cotransporte de Glicose e Aminoácidos junto com os
íons Sódio
A glicose e muitos aminoácidos são transportados para
dentro das células contra grandes gradientes de
concentração; o mecanismo para isso é em sua totalidade o
de cotransporte, como mostra a Figura 4-13. Note que a
proteína transportadora tem dois locais de ligação em seu
lado externo, um para o sódio e outro para a glicose.
Também, a concentração dos íons sódio é muito alta no
lado externo e muito baixa no lado interno da membrana, o
que fornece energia para o transporte. Uma propriedade
especial da proteína transportadora é que a alteração
conformacional, para permitir que o sódio se movimente
para o interior, não ocorre até que a molécula da glicose
também se ligue. Quando ambos estão ligados, a alteração
conformacional se dá de forma automática, com o sódio e a
glicose sendo transportados para o interior da
Na+
Glicose
Figura 4-13 Mecanismo postulado para o cotransporte de
sódio- glicose.
55
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
célula ao mesmo tempo. Por isso, esse é o mecanismo de
cotransporte sódio-glicose. Cotransportadores de sódio-
glicose são mecanismos especialmente importantes no
transporte da glicose através do epitélio de células renais e
intestinais, como discutido nos Capítulos 27 e 65.
O cotransporte de sódio dos aminoácidos ocorre da mesma
maneira que para a glicose, exceto pelo fato de que dele
participa conjunto diferente de proteínas transportadoras.
Até o presente, já foram identificadas cinco proteínas
transportadoras de aminoácidos, cada uma delas sendo
responsável pelo transporte de subgrupo de aminoácidos
com características moleculares específicas.
O cotransporte do sódio da glicose e dos aminoácidos
ocorre de modo especial nas células epiteliais do trato
intestinal e dos túbulos renais, para promover a absorção
dessas substâncias pelo sangue, como discutido em
capítulos adiante.
Outro importante mecanismo de cotransporte em pelo
menos algumas células inclui o cotransporte dos íons
cloreto, íons iodo, íons ferro e íons urato.
Contratransporte de Sódio e dos íons Cálcio
e Hidrogênio
Dois importantes mecanismos de contratransporte
(transporte na direção oposta à do íon primário) são os con-
tratransportes de sódio-cálcio e de sódio-hidrogênio (Fig. 4-14).
O contratransporte de sódio-cálcio ocorre através de
todas ou quase todas as membranas celulares, com os íons
sódio se movendo para o interior e os íons cálcio para o
exterior, ambos ligados à mesma proteína transportadora
no modo de contratransporte. Isso acontece em adição ao
transporte ativo primário de cálcio que ocorre em algumas
células.
O contratransporte de sódio-hidrogênio ocorre em
vários tecidos. Exemplo especialmente importante é o que
ocorre nos túbulos proximais dos rins, onde os íons sódio se
movem do lúmen dos túbulos para o interior da célula
tubular, enquanto os íons hidrogênio são contratranspor-
tados para o lúmen dos túbulos. Como mecanismo para
concentrar os íons hidrogênio, o contratransporte sódio-
hidrogênio é bem menos potente que o transporte ativo
primário dos íons hidrogênio pelos túbulos renais mais
distais que é extremamente potente, mas pode transportar
quantidade muito grande de íons hidrogênio, sendo
Figura 4-14 Contratransporte dependente de sódio de íons de
cálcio e hidrogênio.
assim etapa importante no controle dos íons hidrogênio nos
líquidos corporais, como discutido em detalhes no Capítulo
30.
Transporte Ativo Através das Camadas Celulares
Em vários locais do corpo, as substâncias devem ser
transportadas através de toda a espessura das camadas de
células, em vez de simplesmente através da membrana
celular. Esse tipo de transporte ocorre através dos epité- lios
(1) intestinal, (2) tubular renal, (3) de todas as glândulas
exócrinas, (4) da vesícula biliar e (5) da membrana do plexo
coroide do cérebro e de outras membranas.
O mecanismo básico de transporte de uma substância
através da camada celular é (1) transporte ativo através da
membrana celular de um lado das células transportadoras
nas camadas e, então, (2) difusão simples ou difusão facilitada
através da membrana no lado oposto da célula.
A Figura 4-15 mostra o mecanismo para o transporte
dos íons sódio através da camada epitelial dos intestinos, da
vesícula biliar e dos túbulos renais. Essa figura mostra que
as células epiteliais são fortemente conectadas perto de seus
polos luminais, por meio de junções chamadas “beijos”. A
borda em escova da superfície luminal das células é
permeável tanto aos íons sódio quanto à água. Assim, o
sódio e a água se difundem prontamente do lúmen para o
interior da célula. Então, nas membranas basais e laterais da
célula, os íons sódio são ativamente transportados para o
líquido extracelular do tecido con- juntivo circundante e
para os vasos sanguíneos. Isso cria forte gradiente de
concentração para os íons sódio através dessas membranas,
que por sua vez provoca osmose da água. Desse modo, o
transporte ativo dos íons sódio, pelas superfícies
basolaterais das células epiteliais, resulta em transporte não
apenas dos íons sódio mas também da água.
Esses são os mecanismos pelos quais a maioria dos
nutrientes, dos íons e de outras substâncias é absorvida
para o sangue pelo intestino; eles também são o modo como
as mesmas substâncias são reabsorvidas do filtrado
glomerular pelos túbulos renais.
Borda em Membrana
escova basal
Figura 4-15 Mecanismo básico do transporte ativo através de
camadas celulares.
56
Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares
Por todo este texto, existem vários exemplos dos
diferentes tipos de transporte discutidos neste capítulo.
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57
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CAPITULO 5
O
>
Potenciais de Membrana e
Potenciais de Ação
Existem potenciais elétricos
através das membranas de
praticamente todas as cé-
lulas do corpo. Além disso,
algumas células, como as
células nervosas e as dos
músculos, são capazes de
gerar impulsos eletroquímicos que se modificam com
grande rapidez em suas membranas, e esses impulsos
são usados para transmitir sinais por toda a membrana
dos nervos e músculos. Ainda, em outros tipos de célu-
las, como por exemplo as células glandulares, os macró-
fagos e as células ciliadas, alterações locais dos potenciais
de membrana também ativam muitas funções celulares.
A presente discussão é sobre os potenciais de membrana
gerados tanto durante o repouso quanto durante a ativi-
dade das células nervosas e musculares.
Física Básica dos Potenciais de Membrana
Potenciais de Membrana Causados pela Difusão
"Potencial de Difusão" Causado pela Diferença
entre as Concentrações lônicas nas Duas Faces da
Membrana. Na Figura 5-1A, a concentração de potássio é
maior na face interna da membrana da fibra nervosa, mas
bastante baixa na sua face externa. Vamos então assumir que
a membrana nesse instante é permeável aos íons potássio e
a mais nenhum outro íon. Por causa do alto gradiente de
concentração do potássio, de dentro para fora, existe forte
tendência para que maior número de íons potássio se
difunda para fora através da membrana. Quando o fazem,
eles levam cargas elétricas positivas para o exterior,
criando assim eletropositividade da face externa da
membrana e eletronegatividade na interna, por causa dos
ânions negativos que permanecem no interior, não se
difundindo para fora com o potássio. Em cerca de um
milissegundo, a diferença de potencial entre as partes
interna e externa, chamada potencial de difusão, passa a ser
suficientemente grande para bloquear a difusão efetiva do
potássio para o exterior, apesar do alto gradiente de
concentração dos íons potássio. Nas fibras nervosas
normais de mamíferos, a diferença necessária de poten
cial é de cerca de 94 milivolts, com negatividade na face interna da
membrana.
A Figura 5-15 mostra o mesmo fenômeno que a Figura
5-1 A, só que dessa vez com alta concentração de íons sódio
fora da membrana e baixa quantidade de sódio dentro. Esses
íons têm também carga positiva. Nesse instante, a
membrana é muito permeável aos íons sódio, mas
impermeável a todos os outros íons. A difusão dos íons
sódio positivamente carregados para a parte interna cria
potencial de membrana com polaridade oposta à da Figura
5-L4, com negatividade externa e positividade interna.
Novamente, o potencial de membrana aumenta o
suficiente, dentro de milissegundos, para bloquear a
difusão efetiva dos íons sódio para dentro; entretanto a esse
tempo nas fibras nervosas de mamíferos, o potencial fica em
torno de 61 milivolts, positivo dentro da fibra.
Desse modo, nas duas partes da Figura 5-1, vê-se que as
diferenças entre as concentrações iônicas nos dois lados de
membrana seletivamente permeável podem, sob condições
apropriadas, criar potencial de membrana. Nas seções
seguintes deste capítulo, mostraremos que
POTENCIAIS DE DIFUSÃO
(Ânions)" Fibra nervosa (Ânions)" Fibra nervosa
(Ânions)- +
+
* (Ânions) + - + -
+
+ VHÀA + - + -
K+ K+
Na+
Na+
:+
+
«S _ X
+ - + -
+ — —+ - + + -
(-94 mV) + (+61 mV) + -
+ - -+ - + + -
+ - -+ - + + -
A B
Figura 5-1 A, O estabelecimento do potencial de "difusão”
através da membrana da fibra nervosa causado pela difusão dos
íons potássio de dentro da célula para fora, através da
membrana que só é seletivamente permeável ao potássio. B, O
estabelecimento do "potencial de difusão” quando a membrana
da fibra nervosa só é permeável aos íons sódio. Note que o
potencial de membrana interno é negativo quando os íons
potássio se difundem e positivo quando os íons sódio se
difundem, em razão dos gradientes de concentração opostos
desses dois íons.
59
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
muitas variações rápidas dos potenciais de membrana,
durante a transmissão dos impulsos nervosos e
musculares, resultam da ocorrência dessas rápidas
variações dos potenciais de difusão.
Relação do Potencial de Difusão com a Diferença
de Concentração — O Potencial de Nernst. O valor do
potencial de difusão, em toda a membrana, que se opõe
exatamente ao da difusão efetiva de um íon em particular
através da membrana é conhecido como potencial de Nernst
para esse íon, termo já introduzido no Capítulo
4. A grandeza desse potencial de Nernst é determinada
pela proporção entre as concentrações desse íon específico
nos dois lados da membrana. Quanto maior essa
proporção, maior será a tendência para que o íon se
difunda em uma direção, e, por conseguinte, maior o
potencial de Nernst necessário para evitar difusão efetiva
adicional. A equação a seguir, chamada equação de Nernst,
pode ser usada para o cálculo do potencial de Nernst para
qualquer íon univalente na temperatura normal do corpo
de 98,6°F (37°C):
... u. x , . Concentração interna
FEM (milivolts) = ± 61 x log ------------- -----------
Concentração externa
onde FEM é a força eletromotriz.
Quando se usa essa fórmula, assume-se em geral que o
potencial no líquido extracelular, por fora da membrana,
permanece no potencial zero, e o potencial de Nernst é o
potencial no lado interno da membrana. Também o sinal do
potencial é positivo (+) se o íon, difundindo-se de dentro
para fora, for íon negativo, e negativo (-) se o íon for
positivo. Dessa maneira, quando a concentração dos íons
positivos de potássio na parte interna for 10 vezes maior
que na parte externa, o log de 10 é 1, de modo que o
potencial de Nernst é calculado como -61 milivolts no lado
interno da membrana.
Cálculo do Potencial de Difusão Quando a Membrana
É Permeável a Vários íons Diferentes
Quando a membrana é permeável a vários íons diferentes,
o potencial de difusão que se desenvolve depende de três
fatores: (1) a polaridade das cargas elétricas de cada íon,
(2) a permeabilidade da membrana (P) para cada íon, e (3)
as concentrações (C) dos respectivos íons no lado interno (i)
e no lado externo (e) da membrana. Assim, a seguinte
fórmula, referida como equação de Goldman, ou como equação
de Goldman-Hodgkin-Katz, dá o potencial calculado do lado
interno da membrana quando dois íons positivos
univalentes, sódio (Na+) e potássio (K+), e um íon
univalente negativo, cloreto (Cl-), estão envolvidos.
FEM (milivolts)
C
NaV>
Na+
+Q/*V +Ca~0
P
CT
= -61 x log ------------------------------
CNao^Na+ + Qo*V +Ql7^Ct“
Vamos estudar a importância e o significado dessa
equação. Primeiro, os íons sódio, potássio e cloreto são os
íons mais importantes envolvidos no desenvolvimento
dos potenciais de membrana nas fibras musculares e
nervosas, bem como nas células neuronais do sistema
nervoso. O gradiente de concentração de cada um desses
íons, através da membrana, ajuda a determinar a voltagem
do potencial de membrana.
Segundo, o grau de importância de cada um desses íons
na determinação da voltagem é proporcional à
permeabilidade da membrana para cada íon em particular.
Isto é, se a membrana tiver permeabilidade zero para os
íons potássio e cloreto, o potencial de membrana passa a
ser totalmente dominado pelo gradiente de concentração
dos íons sódio, e o potencial resultante será igual ao
potencial de Nernst para o sódio. O mesmo acontece para
cada um dos outros dois íons, se a membrana só for
seletivamente permeável para um ou para outro.
Terceiro, gradiente positivo de concentração iônica de
dentro para fora da membrana causa eletronegatividade no
lado de dentro da membrana. A razão para isso é que o
excesso de íons positivos se difunde de fora quando sua
concentração é maior dentro do que fora. Isso leva cargas
positivas para fora, mas deixa os ânions negativos não
difusíveis na parte interna, criando assim
eletronegatividade na parte interna. O efeito oposto ocorre
quando existe gradiente para íon negativo. Isto é, o
gradiente de íon cloreto, da parte externa para a parte interna,
causa eletronegatividade dentro da célula porque o íon
cloreto, com cargas negativas, se difunde para dentro,
deixando os íons positivos não difusíveis do lado de fora.
Quarto, como explicado adiante, a permeabilidade dos
canais de sódio e potássio passa por rápidas alterações
durante a transmissão dos impulsos nervosos, enquanto a
permeabilidade dos canais de cloreto não tem grandes
alterações durante esse processo. Assim, rápidas alterações
da permeabilidade do sódio e do potássio são
primariamente responsáveis pela transmissão de sinais nos
neurônios, o que é o objeto do restante deste capítulo.
Medida do Potencial de Membrana
O método para medir o potencial de membrana é simples
na teoria mas em geral complicado na prática, em razão das
pequenas dimensões da maioria das fibras. A Figura
5- 2 mostra pequena pipeta cheia com solução
eletrolítica. A pipeta é introduzida através da membrana
celular para
0 interior da fibra. Então, outro eletródio, chamado “ele-
tródio indiferente” é colocado no líquido extracelular, e a
diferença potencial entre as partes interna e externa da
fibra é medida usando-se voltímetro apropriado. Esse vol-
tímetro é aparelho eletrônico altamente sofisticado capaz
de medir voltagens muito pequenas, apesar da resistência
extremamente alta ao fluxo elétrico da ponta da micropi-
peta, com um lúmen de diâmetro geralmente menor que
1 micrômetro e resistência maior que 1 milhão de ohms.
Para registrar as rápidas alterações do potencial de
membrana durante a transmissão dos impulsos nervosos, o
microeletródio é conectado a osciloscópio, como explicado
adiante neste capítulo.
60
A parte inferior da Figura 5-2 mostra o potencial elétrico
que é medido em cada ponto ou próximo da membrana da
fibra nervosa, começando do lado esquerdo da figura e
passando para o direito. Enquanto o eletródio está na face
externa da membrana, o registro do potencial é zero, que é
o potencial do líquido extracelular. Então, conforme o
eletródio registrador passa através da área de variação da
voltagem na membrana celular (chamada camada do dipolo
elétrico), o potencial diminui abruptamente para -90
milivolts. Ao se mover o microeletródio para o centro da
fibra, o potencial permanece no nível constante de -90
milivolts, mas volta de novo a zero no instante em que
passa através da membrana para o lado oposto da fibra.
Para criar um potencial negativo no lado interno da
membrana, só devem ser transportados para o exterior
suficientes íons positivos para desenvolver a camada do
dipolo elétrico na própria membrana. Todos os íons que
permanecem dentro da fibra nervosa podem ser positivos
ou negativos, como mostra o painel superior da Figura 5-3.
Por essa razão, número inacreditavelmente pequeno
Figura 5-2 Medida do potencial de membrana da fibra nervosa
usando um microeletrodo.
Fibra nervosa
+ - + + — + - + — + + - + + - + + — + - + — +
+ - + + _ + + — + - + — + + - + + - + + — + -
+ — + + - + + - + + — + - + — + + - +
Figura 5-3 A distribuição dos íons com cargas positivas e
negativas no líquido extracelular em volta da fibra nervosa e no
líquido dentro da fibra; observe o alinhamento das cargas
negativas ao longo da superfície interna da membrana e das
cargas positivas pela superfície externa. O painel inferior mostra
as alterações abruptas no potencial de membrana que ocorrem
nas membranas nos dois lados da fibra.
Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação
de íons precisa ser transferido através da membrana para
estabelecer o “potencial de repouso” normal de -90
milivolts dentro da fibra nervosa; isso significa que
somente 1/3.000.000 a 1/100.000.000 da carga positiva total
dentro da fibra precisa ser transferido. Também, número
igualmente pequeno de íons positivos, movendo-se de fora
para dentro da fibra pode inverter o potencial de -90
milivolts para o máximo de +35 milivolts, dentro de apenas
1/10.000 de segundo. A rápida alternância de íons, dessa
maneira, causa os sinais nervosos discutidos nas seções
seguintes deste capítulo.
Potencial de Repouso das Membranas
dos Nervos
O potencial de repouso das membranas das fibras nervosas
mais calibrosas, quando não estão transmitindo sinais
nervosos, é de cerca de -90 milivolts. Isto é, o potencial
dentro da fibra é 90 milivolts mais negativo do que o
potencial no líquido extracelular, do lado de fora da fibra.
Nos próximos parágrafos, iremos explicar todos os fatores
que determinam esse nível do potencial de repouso mas,
antes disso, precisamos descrever as propriedades de
transporte da membrana nervosa em repouso para o sódio
e para o potássio e explicar os fatores que determinam o
valor do potencial de repouso.
Transporte Ativo dos íons Sódio e Potássio
Através da Membrana — A Bomba de
Sódio-Potássio (Na+
-K+
). Primeiro, vamos recordar do
Capítulo 4 que todas as membranas celulares do corpo
contêm potente bomba de Na+-I<+ que transporta
continuamente íons sódio para fora da célula, e íons
potássio para dentro da célula, como ilustrado no lado
esquerdo na Figura 5-4. Além disso, note que essa é uma
bomba eletrogênica porque mais cargas positivas são
bombeadas para fora que para dentro (três íons Na+para
fora, a cada dois íons K+ para dentro), deixando déficit real
de íons positivos na parte de dentro; isso gera o potencial
negativo, no lado de dentro das membranas celulares.
Exterior
3Na+
2K+
Na+ K+
Canais de
“vazamento” K+
Figura 5-4 Características funcionais da bomba de Na+
-K+
e os
canais de "vasamento" de K+
. ADP, difosfato de adenosina; ATP,
tri- fosfato de adenosina. Os canais de "vasamento" de K+
também se ligam aos canais de vasamento de Na+
.
61
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
A bomba de Na+-I<+ produz também grande gradiente
de concentração para o sódio e para o potássio, através da
membrana nervosa em repouso. Esses gradientes são os
seguintes:
Na+
(externo): 142
mEq/L Na+
(interno): 14
mEq/L
K+
(externo): 4 mEq/L
K+
(interno): 140 mEq/L
As proporções entre esses dois íons respectivos, de
dentro para fora, são:
Na4 /Na+ - n 1
Na+
K+
142 mEq/L 4 mEq/L
—C^—
Na+
14 mEq/L
(+61 mV)
oooo
K+
140 mEq/L
(-94 mV)
K+
., /K+
w = 35,0
interno externo
Vazamento do Potássio e do Sódio, através da
Membrana Nervosa. A parte direita da Figura 5-4
mostra a proteína de canal, algumas vezes conhecida por
“domínio de duplo poro”, canal de potássio ou canal de
“vazamento” de potássio (K+), na fibra nervosa, por onde o
potássio pode vazar mesmo na célula em repouso. A
estrutura básica dos canais de potássio foi descrita no
Capítulo 4 (Fig. 4-4). Esses canais de vazamento de I<+
podem também vazar quantidades mínimas de íons sódio,
mas são muito mais permeáveis aos íons potássio que aos
íons sódio, nas condições normais, cerca de 100 vezes mais
permeáveis. Como discutido adiante, esse diferencial na
permeabilidade é um fator-chave na determinação do nível
do potencial de repouso normal da membrana.
Origem do Potencial de Repouso Normal
da Membrana
A Figura 5-5 mostra os fatores importantes para o
estabelecimento do potencial de repouso normal da
membrana em -90 milivolts. Eles são descritos a seguir.
Contribuição do Potencial de Difusão do Potássio.
Na Figura 5-5A, admite-se que o único movimento iônico
através da membrana é o de difusão dos íons potássio,
como demonstrado pelos canais abertos entre os símbolos
de potássio (K+) dentro e fora da membrana. Devido à alta
proporção dos íons potássio dentro e fora, 35:1, o potencial
de Nernst correspondente a essa proporção é de -94
milivolts, porque o logaritmo de 35 é 1,54 que, multiplicado
por -61 milivolts, resulta em -94 milivolts. Portanto, se os
íons potássio fossem os únicos fatores causadores do
potencial de repouso, o potencial de repouso, dentro da fibra,
seria igual a -94 milivolts, como mostra a figura.
Contribuição da Difusão do Sódio através da
Membrana Nervosa. A Figura 5-5B mostra a adição da
pequena permeabilidade da membrana nervosa aos íons
C
Na+
^<-
142 mEq/L
4 mEq/L
(Ânions)"
+
+
Difusão
+
bomba
+
+
+
+
Difusão
+
bomba
+
+
+
+
+
+
ANa.
14 mEq/L
K+
140 mEq/L
(-90 mV)
(Ânions)'
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
Figura 5-5 O estabelecimento do potencial de repouso da
membrana nas fibras nervosas sob três condições: A, quando o
potencial de membrana é causado somente pela difusão do
potássio; B, quando o potencial de membrana é causado pela
difusão de ambos os íons, potássio e sódio; e C, quando o
potencial de membrana é causado tanto pela difusão dos íons
potássio e sódio mais o bombeamento desses dois íons pela
bomba de Na+
-K+
.
sódio, causada pela difusão diminuta dos íons sódio, pelos
canais de extravasamento de Na+-I<+. A proporção entre os
íons sódio através da membrana, de dentro para fora, é de
0,1, o que corresponde ao potencial calculado de Nernst no
lado de dentro da membrana de +61 milivolts. Mas
também é mostrado, na Figura 5-5B, o potencial de Nernst
para a difusão do potássio, que é de -94 milivolts. Como
eles interagem entre si, qual será o potencial resultante?
Essas perguntas podem ser respondidas pela equação de
Goldman descrita anteriormente. Intuitivamente, pode-se
observar que se a membrana for muito permeável ao
potássio, mas apenas levemente permeável ao sódio, é
lógico que a difusão do potássio contribuirá muito mais
para o potencial de membrana do que para a difusão do
sódio. Na fibra nervosa normal, a permeabilidade da
membrana ao potássio é cerca de 100 vezes maior do que
62
a permeabilidade ao sódio. Ao usar este valor na equação
de Goldman, será obtido o potencial do lado de dentro da
membrana de -86 milivolts que se aproxima do potencial
de potássio mostrado na figura.
Contribuição da Bomba de Na+
-K+
. Na Figura 5-5C,
a bomba Na+-I<+ é mostrada contribuindo adicionalmente
para o potencial de repouso. Nessa figura, ocorre bom-
beamento contínuo de três íons sódio para o exterior para
cada dois íons potássio bombeados para o lado interno da
membrana. O fato de mais íons sódio serem bombeados
para fora do que íons potássio para dentro produz perda
contínua de cargas positivas pelo lado interno da
membrana; isso cria grau adicional de negatividade (em
torno de -4 milivolts adicionais) no lado interno, além da
produzida pela difusão. Por essa razão, como mostra a
Figura 5-5C, o potencial de membrana efetivo, com todos
esses fatores atuantes ao mesmo tempo, é de cerca de -90
milivolts.
Em resumo, os potenciais de difusão causados pela
difusão do sódio e do potássio atuando isoladamente
produziríam potencial de membrana de cerca de -86
milivolts, quase todo determinado pela difusão do
potássio. Então, -4 milivolts adicionais são somados ao
potencial de membrana pela bomba eletrogênica contínua
de Na+-I<+, resultando no potencial de membrana efetivo
de -90 milivolts.
Potencial de Ação dos Nervos
Os sinais nervosos são transmitidos por potenciais de ação
que são rápidas alterações do potencial de membrana que
se propagam com grande velocidade por toda a membrana
da fibra nervosa. Cada potencial de ação começa por
alteração súbita do potencial de membrana normal
negativo para um potencial positivo, terminando então
com retorno quase tão rápido para o potencial negativo.
Para conduzir o sinal nervoso, o potencial de ação se
desloca ao longo da fibra nervosa até sua extremidade
final.
O painel superior da Figura 5-6 mostra as alterações que
ocorrem na membrana durante o potencial de ação, com a
transferência de cargas positivas para o interior da fibra, no
seu início, e o retorno das cargas positivas para o exterior, a
seu término. O painel inferior mostra graficamente as
sucessivas alterações do potencial de membrana por
poucos décimos de milésimos de segundo, ilustrando o
início explosivo do potencial de ação e sua quase idêntica
recuperação.
Os estágios sucessivos do potencial de ação são
descritos a seguir.
Estágio de Repouso. É o potencial de repouso da
membrana, antes do início do potencial de ação. Diz-se que
a membrana está “polarizada” durante esse estágio, em
razão do potencial de membrana de -90 milivolts negativo
existente.
Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação
Milissegundos
Figura 5-6 Potencial de ação típico registrado pelo método
mostrado no painel superior da figura.
Estágio de Despolarização. A esse tempo, a
membrana fica subitamente muito permeável aos íons
sódio, permitindo que grande número de íons sódio
positivamente carregados se difunda para o interior do
axônio. O estado normal de “polarização” de -90 milivolts
é, de imediato, neutralizado pelo influxo dos íons sódio
com carga positiva, com o potencial aumentando
rapidamente para valor positivo. Isso é referido como
despolarização. Nas fibras nervosas de maior calibre, o
grande excesso dos íons sódio positivos que se deslocam
para o interior da fibra faz com que o potencial de
membrana “ultrapasse” {overshoot) rapidamente o nível
zero e torne-se positivo. Em algumas fibras delgadas, bem
como em muitos neurônios do sistema central, o potencial
de membrana simplesmente se aproxima do nível zero, não
o ultrapassando para chegar ao estado positivo.
Estágio de Repolarização. Em alguns décimos de
milésimos de segundo após a membrana ter ficado muito
permeável aos íons sódio, os canais de sódio começam a se
fechar, e os canais de potássio se abrem mais que o normal.
Então, a rápida difusão dos íons potássio para o exterior
restabelece o potencial de repouso negativo da membrana.
Isso é referido como repolarização da membrana.
Para explicar com mais detalhes os fatores causadores
da depolarização e da repolarização, descreveremos as
características especiais dos dois outros tipos de canais
63
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
de transporte através das membranas nervosas: os canais
de sódio e potássio regulados pela voltagem.
Os Canais de Sódio e Potássio Regulados pela
Voltagem
O agente necessário para provocar a depolarização e a
repolarização da membrana nervosa durante o potencial de
ação é o canal de sódio regulado pela voltagem. O canal de
potássio regulado pela voltagem também tem participação
importante por aumentar a rapidez da repolarização da
membrana. Esses dois canais regulados pela voltagem atuam de
forma adicional com a bomba de Na+-IC e com os canais de
vazamento de K+-Na+.
O Canal de Sódio Regulado pela Voltagem — Ativação
e Inativação do Canal
O painel superior da Figura 5-7 mostra o canal de sódio
regulado pela voltagem em três estados distintos. Esse
canal tem duas comportas — uma perto da abertura externa
do canal, referida como comporta de ativação, e a outra perto
da abertura interna do canal, referida como comporta de
inativação. A parte superior esquerda da figura mostra o
estado dessas duas comportas na membrana normal em
repouso, quando o potencial de membrana é -90 milivolts.
Nessa condição, a comporta de ativação está fechada,
impedindo a entrada, por menor que seja, de íons sódio
para o interior da fibra, por esses canais de sódio.
Ativação do Canal de Sódio. Quando o potencial de
membrana se torna menos negativo que durante o estado
de repouso, aumentando de -90 milivolts até zero, ele
atinge a voltagem — em geral, de cerca de -70 a -50 mili-
Comporta de
ativação Na+
Comporta
de inativação
Repouso
(-90 mV)
Filtro de
Na+
seletividade Na+
' f
Ativado
(-90 a +35 mV)
Inativado
(+35 a -90 mV,
demorado)
K+
Repouso
(-90 mV)
Interior
Ativação lenta
(+35 a -90 mV)
Figura 5-7 Características dos canais regulados pela voltagem
de sódio (acima) e potássio (abaixo), mostrando sucessivas
ativações e inativações dos canais de sódio e a ativação
demorada dos canais de potássio, quando o potencial de
membrana foi alterado do valor normal negativo de repouso
para um valor positivo.
volts —, o que provoca alteração conformacional abrupta
da comporta de ativação, fazendo com que o canal fique
totalmente aberto. Essa condição é referida como estado
ativado-, durante esse estado, os íons sódio podem entrar
pelo canal, aumentando a permeabilidade da membrana ao
sódio por 500 a 5.000 vezes.
Inativação do Canal de Sódio. A parte superior
direita da Figura 5-7 mostra o terceiro estado do canal de
sódio. O mesmo aumento da voltagem que faz com que a
comporta seja ativada também faz com que essa comporta
seja inativada. A comporta é desativada em poucos
décimos de milésimos de segundo após ter sido ativada.
Isto é, a alteração conformacional que provoca o
fechamento da comporta de ativação é processo mais lento
que a alteração conformacional que abre a comporta de
ativação. Assim, após o canal de sódio ter permanecido
aberto por alguns décimos de milésimos de segundo, o
canal é inativado e se fecha, e os íons sódio não podem
atravessar a membrana. Nesse momento, o potencial de
membrana começa a retornar ou se aproximar de seu
estado normal de repouso, que é o processo de
repolarização.
Outra característica importante do processo de
inativação do canal de sódio é que a comporta inativada só
vai reabrir quando o potencial de membrana retornar ou se
aproximar do potencial de repouso na condição original.
Por essa razão, usualmente não é possível para o canal de
sódio voltar a abrir sem que a fibra nervosa seja primeiro
repolarizada.
O Canal de Potássio Regulado pela Voltagem
e sua Ativação
O painel inferior da Figura 5-7 mostra o canal de potássio
regulado pela voltagem em dois estados: durante o estado
de repouso (à esquerda), e durante o final de um potencial
de ação (à direita). Durante o estado de repouso, a
comporta do canal de potássio está fechada, e os íons
potássio são impedidos de passar por esse canal para o
exterior. Quando o potencial de membrana aumenta de -90
milivolts para zero essa variação da voltagem provoca a
abertura conformacional da comporta, permitindo
aumento da difusão de potássio para fora, por meio desses
canais. Entretanto, devido ao pequeno retardo na abertura
dos canais de potássio, em sua maioria eles só abrem
exatamente no mesmo momento em que os canais de sódio
estão começando a se fechar em função de sua inativação.
Assim, a redução da entrada de sódio na célula e o
aumento simultâneo da saída de potássio da célula fazem
com que o processo de repolarização seja acelerado,
levando à completa recuperação do potencial de repouso
da membrana dentro de poucos décimos de milésimos de
segundo.
Método de Pesquisa para Medir o Efeito da
Voltagem sobre a Abertura e o Fechamento dos
Canais Controlados por Voltagem — O "Grampo da
Voltagem’’. A pesquisa original que levou ao entendimento
quantitativo dos canais de potássio e de sódio foi tão engenhosa
que os cientistas res-
64
ponsáveis, Hodgkin e Huxley, ganharam o Prêmio Nobel. A
essência desses estudos é mostrada nas Figuras 5-8 e 5-9.
A Figura 5-8 mostra a montagem experimental, chamada de
grampo de voltagem (ou fixação da voltagem), utilizada para
medir os fluxos iônicos pelos diferentes canais. Para se usar essa
montagem, dois eletródios são inseridos na fibra nervosa. Um
deles é para medir a voltagem do potencial de membrana, e o
outro é para conduzir corrente elétrica para dentro ou para fora da
fibra nervosa. Essa montagem é utilizada da seguinte maneira: o
pesquisador decide qual a voltagem que ele deseja estabelecer
dentro da fibra nervosa. O componente eletrônico da montagem é
então ajustado para a voltagem desejada, e isso automaticamente
injeta eletricidade positiva ou negativa por meio do eletrodo de
corrente, na intensidade que seja necessária para fixar a voltagem,
como medida pelo eletródio de voltagem, no nível estabelecido
pelo operador. Quando o potencial de membrana é
repentinamente alterado por esse grampo de voltagem, de -90
milivolts para zero, os canais de potássio e sódio regulados pela
voltagem se abrem, e os íons sódio e potássio começam a fluir por
esses canais. Para contrabalançar os efeitos desses fluxos iônicos
sobre os valores fixados da voltagem intracelular, corrente elétrica
é injetada automaticamente por meio dos eletródios do grampo de
voltagem, para manter a voltagem intracelular constante no nível
zero que é necessário. Para isso, a corrente injetada deve ser igual,
só que
Figura 5-8 O método do “grampo de voltagem" para estudar o
fluxo dos íons através de um canal específico.
Canal de Na+
Figura 5-9 Alterações típicas da condutância dos canais dos
íons e de sódio e potássio, quando o potencial de membrana
aumenta, abruptamente, do valor de repouso normal de -90
milivolts para o valor positivo de +10 milivolts por 2
milissegundos. Essa figura mostra que os canais de sódio abrem
(ativados) e em seguida fecham (inativados), antes do final
desses 2 milissegundos, enquanto os canais de potássio só
abrem (ativados) com velocidade bem mais lenta do que a da
abertura dos canais de sódio.
Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação
com polaridade oposta ao fluxo efetivo de corrente que flui pelos
canais. Para se medir a intensidade do fluxo que está ocorrendo a
cada instante, o eletródio de corrente é conectado a osciloscópio
que registra o fluxo de corrente, como mostra a tela do
osciloscópio na Figura 5-8. Por fim, o pesquisador altera as
concentrações iônicas intra e extracelula- res para valores
diferentes dos normais e repete a medida. Isso pode ser feito
facilmente quando se usam fibras nervosas bastante calibrosas,
obtidas de alguns invertebrados, de modo especial o axônio
gigante da lula que em alguns desses animais pode ter 1 milímetro
de diâmetro. Quando o sódio é o único íon permeante nas soluções
intra e extracelular do axônio da lula, o grampo de voltagem só
mede o fluxo de corrente pelos canais de sódio. Quando o potássio
é o único íon permeante, só é medido o fluxo de corrente pelos
canais de potássio.
Outra maneira de se estudar o fluxo iônico por meio de tipo
individual de canal é pelo bloqueio de um tipo de canal por vez.
Por exemplo, os canais de sódio podem ser bloqueados pela toxina
chamada tetrodotoxina, aplicando-a na parte externa da
membrana celular, onde a comporta de ativação do sódio está
situada. Alternativamente, o íon tetraetilamô- nio bloqueia os
canais de potássio quando aplicado no interior da fibra nervosa.
A Figura 5-9 mostra as variações típicas da condutância dos
canais de sódio e potássio regulados pela voltagem, quando o
potencial de membrana é repentinamente alterado pelo uso do
grampo de voltagem, de -90 milivolts para +10 milivolts, e, então,
2 milissegundos depois, de volta para -90 milivolts. Note a
abertura abrupta dos canais de sódio (o estágio de ativação) em
pequena fração de milissegundo, após o potencial de membrana
ser elevado para o valor positivo. Entretanto, durante os próximos
milissegundos, os canais de sódio automaticamente se fecham (o
estágio de inativação).
Note a abertura (ativação) dos canais de potássio. Eles se abrem
lentamente, atingindo seu estado de abertura total somente depois
que os canais de sódio se tenham fechado quase completamente.
Além disso, uma vez tendo ocorrido a abertura dos canais de
potássio, eles permanecem abertos durante todo potencial positivo
de membrana e não se fecham de novo até que o potencial de
membrana retorne a valor negativo.
Resumo dos Eventos Causadores do Potencial
de Ação
A Figura 5-10 resume os eventos sequenciais que ocorrem
durante e logo após o potencial de ação. A parte de baixo
da figura mostra as alterações na condutância da
membrana para os íons sódio e potássio. Durante o período
de repouso, antes que o potencial de ação se inicie, a
condutância para os íons potássio é cerca de 50 a 100 vezes
maior que a condutância para os íons sódio. Isso é causado
pelo maior vazamento dos íons potássio que dos íons sódio
pelos canais de vazamento. Todavia, com o
desencadeamento do potencial de ação, o canal de sódio
instantaneamente é ativado, permitindo aumento de até
5.000 vezes da condutância do sódio. Então, o processo de
inativação fecha os canais de sódio em fração de
milissegundo. O desencadeamento do potencial de ação
65
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
(O
Figura 5-10 Alterações da condutância de sódio e potássio
durante o curso do potencial de ação. A condutância do sódio
aumenta por vários milhares de vezes durante os estágios
iniciais do potencial de ação, enquanto a condutância do
potássio só aumenta cerca de 30 vezes durante os estágios
finais do potencial de ação e por um pequeno período após.
(Essas curvas foram construídas da teoria apresentada em
artigos por Hodgkin e Huxley, mas transpostas do axônio da lula
para se aplicar ao potencial de membrana das fibras nervosas
mais grossas dos mamíferos.)
causa também a regulação pela voltagem da abertura dos
canais de potássio, fazendo com que ela ocorra mais
lentamente, em fração de milissegundo após a abertura dos
canais de sódio. Ao final do potencial de ação, o retorno do
potencial de membrana ao estado negativo faz com que os
canais de potássio se fechem novamente, voltando a seu
estado original mas, de novo, somente após retardo
adicional de um milissegundo ou mais.
A parte do meio da Figura 5-10 mostra a proporção
entre as condutâncias do sódio e do potássio a cada
instante, durante o potencial de ação, e logo acima é
mostrado o potencial de ação propriamente dito. Durante a
parte inicial do potencial de ação, a proporção entre as
condutâncias do sódio e potássio aumenta por mais de
1.0 vezes. Por isso, muito mais íons sódio fluem para o
interior da fibra do que os íons potássio para o exterior.
Essa é a causa de o potencial de membrana ficar positivo no
início do potencial de ação. Em seguida, os canais de sódio
começam a se fechar, e os canais de potássio a se abrir, de
modo que a proporção entre as condutâncias varia para o
predomínio da condutância do potássio, aumentando em
muito a condutância do potássio e reduzindo a
condutância do sódio. Isso permite perda muito rápida dos
íons potássio para o exterior mas, virtualmente, fluxo nulo
de íons sódio para o interior. Consequentemente, o
potencial de ação rapidamente retorna ao seu nível basal.
Os Papéis de Outros íons no Potencial de Ação
Até este ponto, consideramos apenas a participação dos íons sódio
e potássio na geração do potencial de ação. Pelo menos dois outros
tipos de íons devem ser considerados: os ânions negativos e os íons
cálcio.
íons (Ânions) Impermeantes com Carga Negativa
no Interior do Axônio. Nos axônios existem muitos íons com
carga negativa que não podem passar pelos canais da membrana.
Dentre eles estão os ânions das proteínas moleculares e de muitos
compostos orgânicos de fosfato, compostos de sulfato e assim por
diante. Como esses íons não podem sair do axônio, qualquer déficit
de íons positivos, no lado de dentro da membrana, cria excesso
desses ânions impermeantes negativos. Por conseguinte, esses íons
impermeantes negativos são responsáveis pela carga negativa
dentro da fibra, quando existe déficit efetivo de íons potássio com
carga positiva e outros íons positivos.
íons Cálcio. A membrana de quase todas as células do corpo
contém a bomba de cálcio semelhante à bomba de sódio, e o cálcio,
em algumas células, junto com (ou no lugar do) sódio, causa a
maior parte do potencial de ação. Como a bomba de sódio, a bomba
de cálcio transporta os íons cálcio do interior da membrana celular
para o exterior (ou para o retículo endoplasmático da célula),
criando gradiente iônico de cálcio de cerca de 10.000 vezes. Isso
deixa concentração celular de íons cálcio em torno de 10“7 molar,
em contraste com a concentração externa de cerca de 10-3 molar.
Além disso, existem canais de cálcio regulados pela voltagem.
Visto que a concentração do íon cálcio é mais de 10.000 vezes maior
no líquido extracelular que no líquido intracelular, existe imenso
gradiente de difusão para o fluxo passivo de cálcio para a célula.
Esses canais são ligeiramente permeáveis aos íons sódio e aos íons
cálcio, mas sua permeabilidade para os íons cálcio é cerca de 1.000
vezes maior que para os íons sódio, nas condições fisiológicas
normais. Quando se abrem, em resposta a estímulo que despolariza
a membrana celular, os íons cálcio fluem para o interior da célula.
A principal função dos canais de cálcio regulados pela voltagem
é a de contribuir para a fase de despolarização do potencial de ação,
em algumas células. Todavia, a regulação dos canais de cálcio é
lenta, levando 10 a 20 vezes mais tempo que a ativação dos canais
de sódio. Por essa razão, eles com frequência são chamados de
canais lentos, em contraste com os canais de sódio, chamados
canais rápidos. Por isso, a abertura dos canais de sódio produz
despolarização mais prolongada, enquanto a dos canais de sódio
promove o início dos potenciais de ação.
Os canais de cálcio são muito numerosos no músculo cardíaco e
no músculo liso. Na verdade, em alguns tipos de músculo liso, os
canais rápidos de sódio são bastante raros, de forma que o potencial
de ação ocorre quase exclusivamente pela ativação dos lentos
canais de cálcio.
Permeabilidade Aumentada dos Canais de Sódio Quando
Ocorre Déficit de íons Cálcio. A concentração dos íons cálcio, no
líquido extracelular, também exerce intenso efeito sobre o valor da
voltagem em que os canais de sódio são ativados. Quando ocorre
déficit de íons cálcio, os canais de sódio são ativados (abertos) por
pequeno aumento do potencial de membrana de seu valor normal,
valor ainda muito negativo. Por conseguinte, a fibra nervosa fica
muito
66
excitável, algumas vezes descarregando repetitivamente sem
qualquer estímulo, em vez de permanecer no estado de repouso.
Na realidade, a concentração de íons cálcio precisa diminuir
apenas por 50% abaixo do normal antes que ocorra descarga
espontânea em alguns nervos periféricos, causando geralmente
“tetania” muscular. Isso por vezes pode ser letal, devido à
contração tetânica dos músculos respiratórios.
O modo provável pelo qual os íons cálcio afetam os canais de
sódio é o seguinte: esses íons parecem se ligar à superfície externa
dos canais de sódio das moléculas de proteína. A carga positiva
dos íons cálcio, por sua vez, altera o estado elétrico da própria
proteína do canal de sódio, e desse modo altera o nível da
voltagem necessário para abrir o canal de sódio.
Início do Potencial de Ação
Até este ponto, explicamos a alteração da permeabilidade
da membrana ao sódio e ao potássio, bem como o
desenvolvimento do potencial de ação propriamente dito,
mas ainda não explicamos como se origina esse potencial
de ação. A resposta é bastante simples.
Círculo Vicioso de Feedback Positivo Abre os Canais
de Sódio. Primeiro, contanto que a membrana da fibra
nervosa permaneça sem ser perturbada, nenhum potencial
de ação ocorre no nervo normal. Entretanto, caso ocorra
qualquer evento capaz de provocar o aumento inicial do
potencial de membrana de -90 milivolts para o nível zero, a
própria voltagem crescente causa a abertura de vários
canais de sódio regulados pela voltagem. Isso permite o
influxo rápido de íons sódio, resultando em maior aumento
do potencial de membrana e, consequentemente, abrindo
mais canais regulados pela voltagem e permitindo fluxo
mais intenso de íons sódio para o interior da fibra. Esse
processo é círculo vicioso de feedback positivo que, uma vez
que esse feedback seja suficientemente intenso, continua até
que todos os canais de sódio regulados pela voltagem
tenham sido ativados (abertos). Então, em outra fração de
milissegundo, o aumento do potencial de membrana causa
o fechamento dos canais de sódio e a abertura dos canais de
potássio, e o potencial de ação termina.
O Limiar para o Início do Potencial de Ação. O
potencial de ação só vai ocorrer se o aumento inicial do
potencial de membrana for suficientemente intenso para
gerar o feedback positivo descrito no parágrafo anterior. Isso
ocorre quando o número de íons Na+ que entram na fibra
fica maior que o número de íons IC que sai da fibra. O
aumento repentino do potencial de membrana, entre 15 e
30 milivolts em geral, é necessário. Assim, qualquer
aumento abrupto do potencial de membrana de fibra
nervosa calibrosa de -90 milivolts para cerca de -65
milivolts usualmente provoca o explosivo desenvolvimento
do potencial de ação. Esse nível de -65 milivolts é referido
como o limiar para a estimulação.
Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação
Propagação do Potencial de Ação
Nos parágrafos precedentes, discutimos o potencial de
ação como ocorre em um ponto da membrana. Contudo,
um potencial de ação, provocado em qualquer parte da
membrana excitável em geral excita as porções adjacentes
da membrana, resultando na propagação do potencial de
ação por toda a membrana. Esse mecanismo é demonstrado
na Figura 5-11. A Figura 5-1L4 mostra fibra nervosa em
repouso normal, e a Figura 5-115 mostra a fibra nervosa
que foi estimulada na sua porção central — isto é, essa
região repentinamente desenvolve permeabilidade
aumentada para o sódio. As setas mostram o “circuito
local” do fluxo de corrente das áreas despolarizadas da
membrana para as áreas adjacentes da membrana em
repouso. Isto é, cargas elétricas positivas são levadas pelos
íons sódio que se difundem para o interior, através das
membranas despolarizadas e, então, por muitos milímetros
em ambas as direções, ao longo do interior do axônio. Essas
cargas positivas aumentam a voltagem por cerca de 1 a 3
milímetros pelo interior das grandes fibras mielinizadas até
valor maior que o da voltagem limiar para o
desencadeamento do potencial de ação. Como
consequência, os canais de sódio nessas novas áreas
imediatamente se abrem, como mostra a Figura 5-11C e D,
e o explosivo potencial de ação se propaga. Essas novas
áreas despolarizadas produzem, por sua vez, outros
circuitos locais de fluxo de corrente, nas áreas adjacentes da
membrana, causando progressivamente mais e mais
despolarização. Assim, o processo de despolarização
percorre todo o comprimento da fibra.
A
+ + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +
+ + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +
+ + + + + + + + + + + + + + +
+ + +
-0-00-0---------------------------------------------------------------
— + + + +
O /->
— + + + + —
-0-00-0-
+ + + + + + + + + -1- --- + + + + + + + +
/*■>
++
oo-o-o-o—o—o—o-o—O-O-O-CH>O-O—o—o-++
D
—++++++++++++++++++—
- - + + + + + + + + + + + + + + + + + + —
00000000000000- 0000-
+ + - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
•++
Figura 5-11 Propagação do potencial de ação em ambas as
direções pela fibra condutora.
67
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
Essa transmissão do processo de despolarização, por fibra
nervosa ou muscular, é referida como impulso nervoso ou
muscular.
Direção da Propagação. Como demonstrado na
Figura 5-11, a membrana excitável não tem direção única de
propagação, mas o potencial de ação trafega em todas as
direções, afastando-se da região estimulada — mesmo por
todas as ramificações da fibra nervosa — até que toda a
membrana tenha sido despolarizada.
Princípio do Tudo ou Nada. Uma vez em que o
potencial de ação foi gerado em algum lugar da membrana
da fibra normal, o processo de despolarização trafega por
toda a membrana, se as condições forem adequadas, ou não
se propaga de qualquer modo, se as condições não forem
adequadas. Isso é conhecido como princípio do tudo ou nada,
e se aplica a todos os tecidos excitáveis normais.
Ocasionalmente, o potencial de ação atinge região da
membrana que não gera voltagem suficiente para estimular
a área seguinte da membrana. Quando isso ocorre, a
propagação da despolarização é interrompida. Por
conseguinte, para que ocorra propagação contínua do
impulso, a proporção entre o potencial de ação e o limiar de
excitação deve ser sempre maior que 1. Este requisito
“maior que 1” é referido como fator de segurança para a
propagação.
Restabelecimento dos Gradientes lônicos do
Sódio e do Potássio após o Término do Potencial
de Ação —A Importância do Metabolismo
Energético
A transmissão de cada potencial de ação ao longo da fibra
nervosa reduz muito pouco a diferença de concentração de
sódio e potássio dentro e fora da membrana, devido à
difusão para o interior dos íons sódio durante a
despolarização, e pela difusão para o exterior dos íons
potássio durante a repolarização. Para um só potencial de
ação, esse efeito é tão pequeno que não pode ser medido.
Na verdade, 100.000 a 50 milhões de impulsos podem ser
transmitidos por fibras nervosas calibrosas antes que as
diferenças de concentração atinjam o ponto em que cessa a
condução dos potenciais de ação. Ainda assim, com o
passar do tempo, é necessário o restabelecimento das
diferenças de concentração entre o sódio e o potássio na
membrana. Isso é realizado pela ação da bomba de Na+-I<+,
da mesma maneira como descrita acima, neste capítulo,
para o estabelecimento original do potencial de repouso.
Ou seja, os íons sódio que se difundiram para o interior da
célula, durante o potencial de ação, e os íons potássio que se
difundiram para o exterior devem retornar aos seus estados
originais pela bomba de Na+-IC. Como essa bomba requer
energia para seu funcionamento, essa “recarga” da fibra
nervosa é processo metabólico ativo, usando energia
derivada do trifosfato de adenosina (ATP) do sistema de
energia da célula. A Figura 5-12 mostra que
a fibra nervosa produz excesso de calor durante a recarga
que é uma medida do consumo de energia, quando a
frequência dos impulsos nervosos aumenta.
Característica especial da bomba da Na+-K+ ATPase é
que o grau de sua atividade é intensamente estimulado
quando ocorre acúmulo excessivo de íons sódio no interior
da membrana celular. Na verdade, a atividade da bomba
aumenta aproximadamente em proporção à terceira
potência da concentração intracelular do sódio. Isto é,
enquanto a concentração interna de sódio aumenta por 10 a
20 mEq/L, a atividade da bomba não apenas duplica, mas
aumenta por cerca de oito vezes. Portanto, é fácil de
entender como o processo de “recarga” da fibra nervosa
pode ser posto rapidamente em ação, toda vez que as
diferenças de concentrações dos íons sódio e potássio,
através da membrana, comecem a “diminuir”.
O Platô em Alguns Potenciais de Ação
Em alguns casos, a membrana estimulada não se repola-
riza imediatamente após a despolarização; ao contrário, o
potencial permanece como platô perto do pico do potencial
em ponta, por vários milissegundos e somente então é que
se inicia a repolarização. Esse platô é mostrado na Figura
5-13; pode-se ver facilmente que o platô prolonga muito o
período de despolarização. Esse tipo de potencial de ação
ocorre nas fibras musculares do coração, onde o platô dura
por período de 0,2 a 0,3 segundo e faz com que a contração
dos músculos do coração dure por esse mesmo período de
tempo.
A causa do platô é combinação de vários fatores.
Primeiro, no músculo do coração, dois tipos de canais
participam do processo de despolarização: (1) os canais
usuais de sódio, regulados pela voltagem, conhecidos
como canais rápidos, e (2) os canais de cálcio-sódio
regulados pela voltagem, conhecidos como canais lentos. A
abertura dos canais rápidos causa a parte em ponta (.spike)
do potencial de ação, enquanto a morosa e prolongada
abertura dos canais lentos de cálcio-sódio permite
principalmente o influxo de íons cálcio para a fibra,
Figura 5-12 Produção de calor pela fibra nervosa em repouso
e com aumento progressivo da frequência de estimulação.
68
Segundos
Figura 5-13 Potencial de ação (em milivolts) de fibra de
Purkinje do coração, mostrando um “platô".
Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação
Potenciais
Condutância de ação
Figura 5-14 Potenciais de ação rítmicos (em milivolts)
semelhantes aos registrados no centro de controle rítmico do
coração. Note suas relações com a condutância do potássio e
com o estado de hiperpolarização.
sendo também responsável, em grande parte, pelo platô do
potencial de ação.
O segundo fator que pode ser parcialmente responsável
pelo platô é que a abertura dos canais de potássio
regulados pela voltagem é mais lenta do que a usual, em
geral só se abrindo de modo completo até o final do platô.
Isso retarda o retorno do potencial de membrana a seu
valor negativo normal de -80 a -90 milivolts.
Ritmicidade de Alguns Tecidos Excitáveis —
Descarga Repetitiva
Descargas repetitivas espontâneas ocorrem normalmente
no coração, na maior parte dos músculos lisos, e em muitos
neurônios do sistema nervoso central. Essas descargas
rítmicas causam (1) o batimento ritmado do coração, (2) o
peristaltismo rítmico dos intestinos e (3) alguns eventos
neuronais, como o controle ritmado da respiração.
Quase todos os outros tecidos excitáveis podem
descarregar repetitivamente se o limiar de excitabilidade
dos tecidos celulares for suficientemente reduzido. Por
exemplo, mesmo as fibras nervosas mais calibrosas e as
fibras dos músculos esqueléticos que são normalmente
muito estáveis descarregam de forma repetitiva quando
colocadas em solução contendo a substância veratrina ou
quando a concentração dos íons cálcio cai abaixo de valor
crítico; em ambos os casos, elas aumentam a
permeabilidade da membrana ao sódio.
O Processo de Reexcitação Necessário para a
Ritmicidade Espontânea. Para que ocorra a ritmicidade
espontânea, a membrana, mesmo em seu estado natural,
deve ser suficientemente permeável aos íons sódio (ou aos
íons cálcio e sódio, pelos canais lentos de cálcio-sódio) para
permitir a despolarização automática da membrana.
Assim, a Figura 5-14 mostra que o potencial de “repouso”
da membrana no centro de controle do ritmo cardíaco é de
somente -60 a -70 milivolts. Essa não é voltagem negativa
suficiente para
manter os canais de sódio e cálcio totalmente fechados. Por
essa razão, a seguinte sequência ocorre: (1) alguns íons
sódio e cálcio fluem para o interior; (2) isso aumenta a
voltagem da membrana na direção positiva, o que aumenta
ainda mais a permeabilidade da membrana; (3) ainda mais
íons fluem para dentro, e (4) a permeabilidade aumenta
mais e mais, até que o potencial de ação é gerado. Então, ao
final do potencial de ação, a membrana se repolariza. Após
outro retardo de alguns milissegundos ou segundos, a
excitabilidade espontânea causa nova despolarização, e
novo potencial de ação ocorre espontaneamente. Esse ciclo
continua ininterruptamente, causando a excitação rítmica
autoinduzida dos tecidos excitáveis.
Por que a membrana do centro de controle do coração
não se despolariza imediatamente após ter se repola-
rizado, em vez de retardar, por quase um segundo, antes
do início do próximo potencial de ação? A resposta pode
ser encontrada pela observação da curva rotulada como
“condutância do potássio” na Figura 5-14. Ela mostra que,
perto do término de cada potencial de ação e persistindo
por um breve período após, a membrana torna-se mais
permeável aos íons potássio. O aumento do efluxo dos íons
potássio transfere número enorme de cargas positivas para
fora da membrana, deixando o interior da fibra muito mais
negativo do que deveria acontecer. Essa condição continua
por cerca de 1 segundo, após o término do potencial de
ação antecedente, e desse modo desloca o potencial de
membrana para valor mais próximo do potencial de Nernst
para o potássio. Esse é o estado referido como
hiperpolarização, mostrado também na Figura 5-14.
Enquanto persistir esse estado, a autorre- excitação não vai
ocorrer. Mas a condutância excessiva de potássio (e o
estado de hiperpolarização) desaparece gradualmente,
como mostrado na figura, depois que cada potencial de
ação termina, permitindo então que o potencial de
membrana aumente de novo até seu limiar de excitação.
Então de repente ocorre novo potencial de ação e o
processo acontece outra vez e assim por diante.
69
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
Características Especiais da Transmissão dos Sinais
nos Troncos Nervosos
Fibras Nervosas Mielinizadas e Amielinizadas. A
Figura 5-15 mostra corte transversal de típico nervo pequeno,
revelando muitas fibras nervosas calibrosas que constituem a maior
parte da área desse corte transversal. Entretanto, olhar mais
cuidadoso revela grande número de fibras muito delgadas
localizadas entre as fibras mais grossas. As fibras calibrosas são
mielinizadas, e as mais delgadas são amielinizadas. A maioria
dos troncos nervosos contém cerca de duas vezes mais fibras
amielinizadas do que fibras mielinizadas.
A Figura 5-16 mostra fibra mielinizada típica. A parte central da
fibra é o axônio, e a membrana do axônio é a membrana que de
fato conduz o potencial de ação. O axônio é cheio em sua parte
central por axoplasma, que é líquido intracelular víscido. Em volta
do axônio existe a bainha de mielina, que é frequentemente mais
espessa que o próprio axônio. A cada 1 a 3 milímetros da extensão
da bainha de mielina existe um nodo de Ranvier.
A bainha de mielina é depositada em torno do axônio pelas
células de Schwann da seguinte maneira: a membrana das células
de Schwann primeiro envolve o axônio. Em seguida, as células de
Schwann giram muitas vezes em torno do axônio, formando
camadas múltiplas de membrana celular de Schwann, contendo a
substância lipídica esfingomielina. Essa substância é excelente
isolante elétrico, reduzindo o fluxo iônico através da membrana por
cerca de 5.000 vezes. Na junção entre duas células de Schwann
sucessivas, ao longo do axônio, existe área não isolada, com
comprimento de 2 a 3 micrômetros, por onde os íons ainda podem
passar facilmente através da membrana do axônio, do líquido
extracelular para o intracelular, dentro do axônio. Essa área forma o
nodo de Ranvier.
Condução "Saltatória" de Nodo a Nodo nas Fibras
Mielinizadas. Mesmo que quase nenhum íon possa fluir através
das grossas bainhas de mielina dos nervos mielinizados, eles
podem passar com facilidade através dos nodos de Ranvier. Assim,
potenciais de ação só ocorrem nos nodos de Ranvier. Os
potenciais de ação são então conduzidos de nodo para nodo, como
mostra a Figura 5-17; esse tipo de condução é chamado condução
saltatória. Ou seja, a corrente elétrica flui pelo líquido extracelular
que circunda a parte externa da bainha de mielina, assim como pelo
axoplasma dentro do axônio, de nodo a nodo, excitando os nodos
sucessivos, um após o outro. Desse modo, os impulsos nervosos
saltam ao longo da fibra nervosa, o que dá origem ao termo
“saltatória”.
A condução saltatória é de grande valor por duas razões.
Primeira, ao fazer com que o processo de despolarização pule
longos trechos ao longo do eixo da fibra nervosa, esse mecanismo
aumenta a velocidade da transmissão nervosa nas fibras
mielinizadas por cinco a 50 vezes. Segunda, a condução saltatória
conserva energia para o axônio porque somente os nodos se
despolarizam, permitindo talvez perda apenas de íons até 100
vezes menor da que seria necessária e, por conseguinte, requerendo
metabolismo menos intenso para restabelecer as diferenças de
concentração de sódio e potássio através da membrana, após série
de impulsos nervosos.
Ainda outra característica da condução saltatória nas fibras
mielinizadas mais grossas é a seguinte: o excelente isolamento
produzido pela membrana de mielina e a redução de 50 vezes da
capacitância dessa membrana permitem que a repolariza- ção
ocorra com transferência muito pequena de íons.
Figura 5-15 Corte transversal de pequeno tronco nervoso
contendo fibras mielinizadas e amielinizadas.
Velocidade de Condução nas Fibras Nervosas. A
velocidade de condução dos potenciais de ação nas fibras nervosas
varia do mínimo de 0,25 m/s nas fibras amielínicas mais delgadas,
até o máximo de 100 m/s (o comprimento de um campo de futebol
em um segundo) nas fibras mielinizadas mais calibrosas.
Excitação — O Processo de Geração do Potencial
de Ação
Basicamente, qualquer fator que promova a difusão de grande
número de íons sódio para o interior da célula pode desencadear a
abertura regenerativa automática dos canais de sódio. Isso pode
resultar de distúrbio mecânico da membrana, de efeitos químicos
na membrana, ou da passagem de eletricidade através da
membrana. Todos esses são utilizados, em pontos distintos do
corpo, para fazer surgir o potencial de ação muscular ou nervoso: a
pressão mecânica para excitar as terminações sensoriais nervosas
na pele, os neurotransmissores químicos para transmitir sinais de
um neurônio para o próximo no cérebro, e a corrente elétrica para
transmitir sinais entre as sucessivas células musculares no coração
e no intestino. Para o propósito de compreender o processo da
excitação, começaremos discutindo os princípios da estimulação
elétrica.
Excitação da Fibra Nervosa por um Eletrodo
Metálico com Carga Negativa. O meio usual para excitar
um nervo ou músculo nos laboratórios experimentais é aplicar
eletricidade à superfície do nervo ou do músculo, por meio de dois
pequenos eletródios, um dos quais tem carga negativa e o outro
carga positiva. Quando isso é feito, a membrana excitável é
estimulada no eletródio negativo.
A causa desse efeito é a seguinte: lembre-se de que o potencial
de ação é iniciado pela abertura dos canais de sódio regulados pela
voltagem. Posteriormente, maior número desses canais é aberto
pela redução da voltagem elétrica normal de repouso através da
membrana. Isto é, a corrente negativa do eletródio diminui a
voltagem do lado de fora da membrana até valor negativo
próximo à voltagem do poten-
70
Axônio
Bainha
de mielina
C
itoplasma
da célula
de Schwann
Núcleo da célula
de Schwann
Nodo de Ranvier
Figura 5-16 Função da célula de Schwann no isolamento das
fibras nervosas. A, Revestimento da membrana da célula de
Schwann, em torno de um axônio calibroso para formar a bainha
de mielina da fibra nervosa mielinizada.6, Revestimento parcial
da membrana e do citoplasma da célula de Schwann em torno
de várias fibras nervosas amielinizadas (mostrado em corte
transversal). [A, Modificado de Leeson TS, Leeson R: Histology.
Philadelphia: WB Saunders,1979.)
ciai negativo dentro da fibra. Isso reduz a voltagem elétrica através
da membrana, permitindo que os canais de sódio se abram,
resultando no potencial de ação. De modo contrário, no eletródio
positivo, a injeção de cargas positivas no lado externo da membrana
nervosa aumenta a diferença de voltagem através da membrana em
vez de reduzi-la. Isso causa o estado de hiperpolarização que na
verdade diminui a excitabilidade da fibra, em vez de causar o
potencial de ação.
O Limiar para a Excitação e o “Potencial Local
Agudo". Estímulo negativo fraco pode não ser suficiente para
excitar a fibra. Todavia, quando a voltagem do estímulo é
aumentada, atinge-se valor no qual ocorre excitação. A Figura 5-18
mostra o efeito de estímulos aplicados sucessivamente, de
intensidade progressivamente crescente. Um estímulo muito fraco
no ponto A faz com que o potencial de membrana varie de -90 para
-85 milivolts, mas essa não é a alteração suficiente para que o
processo regenerativo automático do potencial de ação se
desenvolva. No ponto B, o estímulo é maior mas de novo a
intensidade ainda não é suficiente. Contudo, esse estímulo modifica
o potencial de membrana local, por período de 1 milissegundo ou
mais após esses dois estímulos fracos. Essas alterações dos
potenciais locais são referidas como potenciais locais agudos, e
quando deixam de desencadear o potencial de ação, elas são
designadas como potenciais subliminares agudos.
Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação
Bainha de mielina Axoplasma Nodo de Ranvier
..............
fe .....................
J v w L
^.................... *r=.
. ------------ ^
i A A r
---------- -------------------------- .............
1 2 3
Figura 5-17 Condução saltatória pelo axônio mielinizado. O
fluxo de corrente elétrica de nodo a nodo é indicado pelas setas.
Figura 5-18 Efeito de voltagens crescentes do estímulo para
produzir um potencial de ação. Note o desenvolvimento de
"potenciais sublimiares agudos" quando os estímulos estão
abaixo do valor limiar necessário para produzir um potencial de
ação.
No ponto C da Figura 5-18, o estímulo é ainda mais intenso.
Agora o potencial local atingiu nitidamente o nível necessário para
a produção do potencial de ação, conhecido por nível limiar, mas o
potencial de ação só ocorre após pequeno “período latente”. No
ponto D, o estímulo é ainda mais forte, o potencial agudo local é
também mais intenso, e o potencial de ação ocorre em menos tempo
do que o período latente.
Assim, essa figura mostra que até mesmo estímulos muito fracos
causam alteração local do potencial da membrana, mas a amplitude
do potencial local deve aumentar até o nível limiar para que seja
produzido o potencial de ação.
"Período Refratário" após o Potencial de Ação,
durante o Qual um Novo Estímulo não Pode Ser
Evocado
Novo potencial de ação não pode ocorrer na fibra excitável
enquanto a membrana ainda estiver despolarizada pelo potencial
de ação precedente. A razão para isso é que logo após o potencial
de ação ser desencadeado, os canais de sódio (ou canais de cálcio,
ou ambos) ficam inativos, e qualquer quantidade de sinal
excitatório aplicado a esses canais nesse momento não vai abrir as
comportas de inativação. A única condição que permitirá sua
reabertura é o retorno do potencial de membrana ao valor original,
ou próximo disso, do potencial de repouso da membrana. Então,
em pequena fração de segundo, as comportas de inativação dos
canais se abrem, e novo potencial de ação pode ser iniciado.
71
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
O período durante o qual o segundo potencial de ação não pode
ser produzido mesmo com estímulo muito intenso é designado
como período refratário absoluto. Esse período para as fibras
nervosas mielinizadas mais calibrosas é de cerca de 1/2.500
segundo. Portanto, pode-se prontamente calcular que esse tipo de
fibra pode transmitir cerca de no máximo 2.500 impulsos por
segundo.
Inibição da Excitabilidade —
"Estabilizadores" e Anestésicos Locais
Em contraste com os fatores que aumentam a excitabilidade
nervosa, ainda outros, conhecidos como fatores estabilizadores da
membrana, podem diminuir a excitabilidade. Por exemplo, alta
concentração de íons cálcio no líquido extra- celular diminui a
permeabilidade para os íons sódio, ao mesmo tempo reduzindo a
excitabilidade. Por essa razão, os íons cálcio são ditos serem
“estabilizadores”.
Anestésicos Locais. Entre os estabilizadores mais importantes
estão as muitas substâncias usadas clinicamente como anestésicos
locais, incluindo a procaína e a tetracaína. A maioria desses agentes
atua diretamente sobre as comportas de ativação dos canais de
sódio, dificultando de forma muito acentuada a abertura dessas
comportas, e, desse modo, reduzindo a excitabilidade da
membrana. Quando a excitabilidade tiver diminuído de modo que a
proporção entre a intensidade do potencial de ação e o limiar da
excitabilidade (conhecida como o “fator de segurança”) fique
reduzida para menos de 1,0, os impulsos nervosos deixam de passar
pelos nervos anestesiados.
Registro dos Potenciais de Membrana e
dos Potenciais de Ação
O Osciloscópio de Raios Catódicos. No começo deste
capítulo, destacamos que o potencial de membrana varia de forma
extremamente rápida durante o curso do potencial de ação. Na
verdade, a maior parte do complexo do potencial de ação, nas fibras
nervosas mais grossas, ocorre em menos de 1/1.000 segundo. Em
algumas figuras deste capítulo, mostrou-se medidor elétrico
registrando essas alterações do potencial. Entretanto, deve ser
compreendido que qualquer medidor capaz de registrar a grande
maioria dos potenciais de ação deve ser capaz de responder
extremamente rápido. Para objetivos práticos, o único tipo comum
de medidor capaz de responder corretamente às rápidas variações
do potencial de membrana é o osciloscópio de raios catódicos.
A Figura 5-19 mostra os componentes básicos do osciloscópio de
raios catódicos. O tubo de raios catódicos é composto basicamente
por um canhão de elétrons e por tela fluorescente contra a qual os
elétrons são disparados. Onde os elétrons atingem a superfície da
tela, o material fluorescente brilha. Caso o feixe de elétron seja
movido pela tela, o local da luz brilhante também se movimenta e
traça linha fluorescente na tela.
Além do canhão de elétrons e da superfície fluorescente, o tubo
de raios catódicos contém dois conjuntos de placas eletricamente
carregadas — um conjunto posicionado nos dois lados do feixe de
elétron e o outro conjunto posicionado acima e abaixo desse feixe.
Um circuito eletrônico de controle apropriado modifica a voltagem
dessas placas, de forma que o feixe de elétron possa ser deslocado
para cima
Potencial de
ação registrado Placas Canhão
Figura 5-19 Osciloscópio de raios catódicos para registro de
potenciais de ação transitórios.
e para baixo, em resposta aos sinais elétricos vindos dos eletródios
de registro nos nervos. O feixe de elétrons também varre
horizontalmente a tela com velocidade constante, determinada
por circuito eletrônico interno do osciloscópio. Esse conjunto
produz o registro na face do tubo de raios catódicos na figura,
fornecendo uma linha de tempo no eixo horizontal e a variação da
voltagem dos eletródios dos nervos mostrada no eixo vertical.
Note que na extremidade esquerda do registro ocorre o pequeno
artefato do estímulo causado pelo estímulo elétrico, usado para
desencadear o potencial de ação nervoso. Em seguida, para a
direita, aparece o registro do potencial de ação propriamente dito.
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Vacher H, Mohapatra DP, Trimmer JS: Localization and targeting of volt-
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88:1407, 2008
72
CAPÍTULO 6
Contração do Músculo Esquelético
Cerca de 40% do corpo é
composto por músculo es-
quelético, e talvez outros
10% por músculo liso e car-
díaco. Alguns dos princí-
pios básicos da contração
se aplicam a todos esses
diferentes tipos de músculos. Neste capítulo, a função do
músculo esquelético é considerada como tema principal;
as funções específicas do músculo liso são discutidas no
Capítulo 8, e as do músculo cardíaco, no Capítulo 9.
Anatomia Fisiológica do Músculo
Esquelético
Fibra do Músculo Esquelético
A Figura 6-1 mostra a organização do músculo esquelético,
demonstrando que todos esses músculos são compostos
por numerosas fibras, com diâmetro de 10 a 80
micrômetros. Cada uma dessas fibras é formada por subu-
nidades sucessivamente ainda menores, também
mostradas na Figura 6-1 e descritas nos parágrafos
seguintes.
Na maioria dos músculos esqueléticos, cada fibra se
prolonga por todo o comprimento do músculo. Exceto por
2% das fibras, cada uma em geral é inervada por apenas
uma terminação nervosa, situada perto do meio da fibra.
O Sarcolema É a Membrana Delgada que Reveste a
Fibra Muscular Esquelética. O sarcolema é a membrana
celular da fibra muscular. O sarcolema consiste de
verdadeira membrana celular, chamada membrana
plasmática, e com revestimento de fina camada de material
polissa- carídeo contendo muitas fibrilas colágenas
delgadas. Em cada extremidade da fibra muscular, essa
camada superficial do sarcolema funde-se com uma fibra
do tendão. A fibra do tendão, por sua vez, se agrupa em
feixes para formar os tendões dos músculos que se inserem
nos ossos.
Miofibrilas São Compostas por Filamentos de Acti-
na e de Miosina. Cada fibra muscular contém centenas a
milhares de miofibrilas, demonstradas pelos pequenos
pontos abertos no corte transversal da Figura 6-1C. Cada
miofibrila (Fig. 6-lD e E) é composta por cerca de 1.500
filamentos de miosina adjacentes e por 3.000 filamentos de
actina, longas moléculas de proteínas polimeriza- das
responsáveis pelas contrações reais musculares. Isso pode
ser visto no corte longitudinal da micrografia eletrônica da
Figura 6-2 e representado diagramaticamente na Figura 6-1,
partes E a L. Os filamentos mais espessos nesse diagrama
são miosina, e os filamentos mais finos são actina.
Note na Figura 6-l£ que os filamentos de miosina e
actina estão parcialmente interdigitados, fazendo com que a
miofibrila alterne faixas escuras e claras, como ilustrado na
Figura 6-2. As faixas claras só contêm filamentos de actina,
sendo conhecidas como faixas I, por serem isotrópicas à luz
polarizada. As faixas escuras contêm filamentos de miosina,
assim como as extremidades dos filamentos de actina, onde
se superpõem aos de miosina, sendo chamadas de faixas A,
por serem anisotrópicas à luz polarizada. Note, também, as
pequenas projeções laterais dos filamentos de miosina na
Figura 6-l£ e L. Essas projeções são as pontes cruzadas. E são
as interações entre os filamentos de actina e as pontes
cruzadas que causam as contrações.
A Figura 6-1E mostra também que as extremidades dos
filamentos de actina estão ligadas ao chamado disco Z.
Desse disco, esses filamentos se estendem em ambas as
direções para se interdigitarem com os filamentos de
miosina. O disco Z composto por proteína filmentosa
diferente dos filamentos de actina e miosina cruza
transversalmente toda a miofibrila e igualmente de forma
transversa de miofibrila para miofibrila, conectando as
miofibrilas umas às outras, por toda fibra muscular. Por
essa razão, a fibra muscular, em sua espessura, apresenta
faixas claras e escuras, como o fazem as miofibrilas
individuais. Essas faixas dão aos músculos esqueléticos e
cardíacos sua aparência estriada.
O segmento da miofibrila (ou de toda a fibra muscular)
situado entre dois discos Z sucessivos é referido como
sarcômero. Quando a fibra muscular está contraída, como
mostra a parte inferior da Figura 6-5, o comprimento do
sarcômero é de cerca de 2 micrômetros. Nesse
comprimento, os filamentos de actina se sobrepõem com-
73
U
N
I
D
A
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
MÚSCULO ESQUELETICO
Meromiosina Meromiosina
leve pesada
Figura 6-1 Organização do músculo esquelético do nível macroscópio ao molecular. As letras F,G,H e / são cortes transversais nos
níveis indicados.
74
Figura 6-2 Micrografía eletrônica das miofibrilas musculares
mostrando detalhadamente a organização dos filamentos de
actina e miosina. Note as mitocôndrias situadas entre as
miofibrilas. (De Fawcet DW:The Cell. Philadelphia: WB Saunders,
1981.)
pletamente aos filamentos de miosina, e as pontas dos
filamentos de actina estão quase começando a se sobrepor.
Será visto adiante que nesse comprimento o músculo é
capaz de gerar sua força máxima de contração.
Moléculas Filamentosas deTitina Mantêm os
Filamentos de Miosina em seus Lugares. O
posicionamento lado a lado dos filamentos de miosina e
actina é difícil de ser mantido. Essa manutenção é realizada
pelo grande número de moléculas filamentares da proteína
chamada titina (Fig. 6-3). Cada molécula de titina tem peso
molecular de cerca de 3 milhões, o que faz dela a maior
molécula de proteína no corpo. Também por ser filamentar
é muito flexível. Essa flexibilidade das moléculas de titina
atua como arcabouço que mantém os filamentos de
miosina e actina em seus lugares, de modo que a
maquinaria contrátil possa entrar em ação. Uma
extremidade da molécula de titina é elástica, estando fixada
ao disco Z, atuando como mola e variando seu
comprimento conforme o sarcômero contrai e relaxa. A
outra parte da molécula de titina a ancora nos filamentos
grossos de miosina. A própria molécula de titina também
parece
Figura 6-3 Organização das proteínas no sarcômero. Cada
molécula de titina se estende do disco Z até a linha M. Parte da
molécula de titina está intimamente associada ao filamento
grosso de miosina, enquanto o resto da molécula é flexível e
varia seu comprimento com a contração e o relaxamento do
sarcômero.
Figura 6-4 Retículo sarcoplasmático nos espaços extracelulares
entre as miofibrilas mostrando o sistema longitudinal, paralelo
às miofibrilas. São mostrados também em corte transversal os
túbulos T (setas) que levam ao exterior da membrana das fibras e
que são importantes condutores do sinal elétrico para o interior
da fibra muscular. (De Fawcet DW:The Cell. Philadelphia: WB
Saunders, 1981.)
servir como molde para a formação inicial de partes dos
filamentos contráteis do sarcômero, em especial para os
filamentos de miosina.
O Sarcoplasma É o Líquido Intracelular Entre as
Miofibrilas. As numerosas miofibrilas de cada fibra
muscular ficam em suspensão, lado a lado, na fibra
muscular. Os espaços entre as miofibrilas são preenchidos
pelo líquido intracelular conhecido como sarcoplasma,
contendo grande quantidade de potássio, magnésio e
fosfato, além de múltiplas enzimas proteicas. Também está
presente nessa substância número imenso de mitocôndrias,
situadas paralelas às miofibrilas. Elas fornecem às
miofibrilas que se contraem grande quantidade de energia,
na forma de trifosfato e adenosina (ATP), formado pelas
mitocôndrias.
O Retículo Sarcoplasmático É o Retículo Endo-
plasmático Especializado do Músculo Esquelético.
Também no sarcoplasma circundando as miofibrilas de
cada fibra muscular existe retículo extenso (Fig. 6-4),
referido como retículo sarcoplasmático. Esse retículo tem
organização especial que é extremamente importante para
o controle da contração muscular, como discutido no
Capítulo 7. Os tipos de fibras musculares com contração
muito rápida apresentam retículos sarcoplasmáticos
especialmente muito extensos.
Mecanismo Geral da Contração Muscular
O início e a execução da contração muscular ocorrem nas
seguintes etapas:
1. Os potenciais de ação cursam pelo nervo motor até suas
terminações nas fibras musculares.
75
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
2. Em cada terminação, o nervo secreta pequena
quantidade da substância neurotransmissora
acetilcolina.
3. A acetilcolina age em área local da membrana da fibra
muscular para abrir múltiplos canais de cátion,
“regulados pela acetilcolina” por meio de moléculas de
proteína que flutuam na membrana.
4. A abertura dos canais regulados pela acetilcolina
permite a difusão de grande quantidade de íons sódio
para o lado interno da membrana das fibras
musculares. Isso causa despolarização local que, por
sua vez, produz a abertura de canais de sódio,
dependentes da voltagem. Isso desencadeia o potencial
de ação na membrana.
5. O potencial de ação se propaga por toda a membrana da
fibra muscular do mesmo modo como o potencial de
ação cursa pela membrana das fibras nervosas.
6. O potencial de ação despolariza a membrana muscular,
e grande parte da eletricidade do potencial de ação flui
pelo centro da fibra muscular. Aí, ela faz com que o
retículo sarcoplasmático libere grande quantidade de
íons cálcio armazenados nesse retículo.
7. Os íons cálcio ativam as forças atrativas entre os
filamentos de miosina e actina, fazendo com que
deslizem ao lado um do outro, que é o processo
contrátil.
8. Após fração de segundo, os íons cálcio são bombeados
de volta para o retículo sarcoplasmático pela bomba de
Ca++ da membrana, onde permanecem armazenados até
que novo potencial de ação muscular se inicie; essa
remoção dos íons cálcio das miofibrilas faz com que a
contração muscular cesse.
Agora será descrito o mecanismo molecular do
processo de contração muscular.
Mecanismo Molecular da Contração
Muscular
Mecanismo de Deslizamento dos Filamentos da
Contração Muscular. A Figura 6-5 demonstra o
mecanismo básico da contração muscular. Ela mostra o
estado relaxado de um sarcômero (na parte superior) e o
estado contraído (na parte inferior). No estado relaxado, as
extremidades dos filamentos de actina que se estendem de
dois discos Z sucessivos mal se sobrepõem. Inversamente,
no estado contraído, esses filamentos de actina são
tracionados por entre os filamentos de miosina, de forma
que suas extremidades se sobrepõem, umas às outras, em
sua extensão máxima. Também os discos Z foram
tracionados pelos filamentos de actina até as extremidades
dos filamentos de miosina. Desse modo, a contração
muscular ocorre por mecanismo de deslizamento dos
filamentos.
Mas, o que faz com que os filamentos de actina
deslizem por entre os filamentos de miosina? Isso resulta
da força gerada pela interação das pontes cruzadas dos
filamentos de miosina com os filamentos de actina. Em con-
A
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A.
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Contraído
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Figura 6-5 Estados contraídos e relaxados da miofibrila
mostrando (acima) o deslizamento dos filamentos de actina
(rosa), pelos espaços entre os filamentos de miosina (vermelho)
e (abaixo) puxando as membranas Z umas contra as outras.
dições de repouso, essas forças estão inativas. Mas quando
um potencial de ação passa pela fibra muscular ele faz com
que o retículo sarcoplasmático libere grande quantidade de
íons cálcio, que rapidamente circulam pelas miofibrilas. Os
íons cálcio, por sua vez, ativam as forças entre os
filamentos de miosina e de actina, e a contração se inicia.
Mas, energia é necessária para que o processo de contração
continue. Essa energia deriva das ligações de alta energia
da molécula de ATP que é degradada ao difosfato de
adenosina (ADP) para liberar energia. Nas próximas
seções, descrevemos o que é conhecido sobre os detalhes
desse processo molecular de contração.
Características Moleculares dos Filamentos
Contráteis
Os Filamentos de Miosina São Compostos por
Múltiplas Moléculas de Miosina. Cada uma das
moléculas de miosina, mostradas na Figura 6-6A, tem peso
molecular em torno de 480.000. A Figura 6-6B mostra uma
molécula isolada; a Figura 6-6B mostra a disposição de
muitas moléculas para formar os filamentos de miosina,
bem como a interação desses filamentos com um dos lados
das extremidades de dois filamentos de actina.
A molécula de miosina (Fig. 6-6Â) é composta por seis
cadeias polipeptídicas — duas cadeias pesadas, cada uma
com peso molecular em torno de 200.000, e quatro cadeias
leves, com peso molecular em torno de 20.000 cada. As duas
cadeias pesadas se espiralam uma com a outra, para formar
dupla hélice, chamada cauda ou haste da molécula de
miosina. Uma ponta de cada uma dessas cadeias é dobrada
para um dos lados, formando a estrutura polipeptídica
globular chamada cabeça da miosina. Assim, existem duas
cabeças livres na extremidade livre da molécula de miosina
de dupla hélice. As quatro cadeias leves também fazem
parte da cabeça da miosina, duas para cada cabeça. Essas
cadeias leves ajudam a regular o funcionamento da cabeça
durante a contração muscular.
76
Cabeça
Filamento de miosina
Figura 6-6 A, Molécula de miosina. B, Combinação de muitas
moléculas de miosina para formar o filamento de miosina. São
mostrados também milhares de pontes cruzadas de miosina e
interações entre as cabeças das pontes com os filamentos
adjacentes de actina.
O filamento de miosina é formado por 200 ou mais
moléculas individuais de miosina. A região central de um
desses filamentos é mostrada na Figura 6-6B, exibindo as
caudas das moléculas de miosina se agrupando em feixes
para formar o corpo do filamento, enquanto muitas cabeças
das moléculas se projetam para fora nos lados do corpo.
Também partes do corpo de cada molécula de miosina
estão penduradas nas partes laterais, junto com as cabeças,
formando assim um braço que estende a cabeça para fora do
corpo, como mostra a figura. As projeções dos braços e das
cabeças formam as pontes cruzadas. Cada ponte cruzada é
flexível em dois locais, designados como dobradiças — um
na junção entre o braço e o corpo do filamento de miosina,
e o outro no ponto de ligação da cabeça ao braço. Os braços
móveis permitem que as cabeças sejam estendidas,
afastando-se do corpo do filamento de miosina, ou seja,
aproximadas do corpo. Já as cabeças móveis participam
sucessivamente do processo real da contração, discutido
nas seções seguintes.
O comprimento total de cada filamento de miosina é
uniforme, quase que exato 1,6 micrômetro. Note,
entretanto, que não existem cabeças com pontes cruzadas
bem no centro do filamento de miosina, por distância de
cerca de 0,2 micrômetro, porque os braços móveis se
estendem para longe do centro.
Agora, para completar o quadro, o próprio filamento de
miosina é retorcido de forma que cada par sucessivo de
pontes cruzadas é axialmente deslocado do par anterior
por 120 graus. Isso assegura a extensão das pontes
cruzadas em todas as direções em torno de um filamento.
Atividade da ATPase da Cabeça de Miosina. Outra
característica da cabeça da miosina, fundamental para
Capítulo 6 Contração do Músculo Esquelético
contração muscular, é sua função como enzima A TPase.
Como explicado adiante, essa propriedade permite que a
cabeça clive o ATP e utilize a energia derivada das ligações
de alta energia do fosfato do ATP para energizar o processo
de contração.
Os Filamentos de Actina São Compostos por
Actina, Tropomiosina e Troponina. A viga mestra do
filamento de actina é o filamento duplo e de duas
moléculas de proteína F actina, representadas pelos dois
filamentos de cor mais clara na Figura 6-7. Esses dois
filamentos se enroscam, em forma de hélice, de modo
semelhante ao que ocorre com as moléculas de miosina.
Cada filamento em dupla hélice da actina F é composto
por moléculas de actina G polimerizadas, cada uma com peso
molecular em torno de 42.000. Ligada a cada molécula de
actina G existe uma molécula de ADP. Acredita-se que
essas moléculas de ADP sejam os locais ativos, nos
filamentos de actina com as quais interagem as pontes
cruzadas dos filamentos de miosina para produzir a
contração muscular. Os locais ativos nos dois filamentos na
dupla hélice de actina F são alternados, fazendo com que
por todo o filamento de actina exista um local ativo a cada
2,7 nanômetros.
Cada filamento de actina tem comprimento em torno de
1 micrômetro. A base dos filamentos de actina está
fortemente inserida nos discos Z; as extremidades dos
filamentos projetam-se em ambas as direções para ficarem
nos espaços entre as moléculas de miosina, como mostrado
na Figura 6-5.
As Moléculas de Tropomiosina. Os filamentos de
actina contêm também outra proteína, a tropomiosina. Cada
molécula de tropomiosina tem peso molecular de
70.0 e comprimento de 40 nanômetros. Essas moléculas
estão espiraladas nos sulcos da dupla hélice da actina F.
Durante o período de repouso, as moléculas de
tropomiosina recobrem os locais ativos de filamento de
actina, de forma a impedir que ocorra atração entre os
filamentos de actina e de miosina para produzir contração.
A Troponina e Seu Papel na Contração Muscular.
Ligado intermitentemente aos lados das moléculas de
tropomiosina existe ainda outro tipo de molécula de
proteína, referida como troponina. Ela é na realidade
complexo de três subunidades proteicas frouxamente
ligadas,
Locais ativos Complexo de troponina
Figura 6-7 Filamento de actina, composto por dois filamentos
heli- coidais de moléculas de actina-F e dois filamentos de
moléculas de tropomiosina que se encaixam nos sulcos entre os
filamentos de actina. Ligado a uma extremidade de cada
molécula de tropomiosina está o complexo de troponina que
inicia a contração.
77
U
N
I
D
A
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
cada uma com participação específica na regulação da
contração muscular. Uma das subunidades (troponina I)
tem forte afinidade com a actina, outra (troponina T) com a
tropomiosina e a terceira (troponina C) com os íons cálcio.
Admite-se que esse complexo seja responsável pela ligação
da tropomiosina com a actina. Acredita-se que a forte
afinidade da troponina pelos íons cálcio seja o evento que
desencadeia o processo da contração, como explicado na
próxima seção.
A Interação de um Filamento de Miosina com Dois
Filamentos de Actina e com os íons Cálcio para Causar
a Contração
Inibição do Filamento de Actina pelo Complexo Tro-
ponina-Tropomiosina; Ativação pelos íons Cálcio. O
filamento puro de actina, na falta do complexo troponi-
na-tropomiosina (mas em presença de íons magnésio e de
ATP), se liga instantânea e fortemente às cabeças das
moléculas de miosina. Então, se o complexo troponina-
tropomiosina for adicionado ao filamento de actina, a união
entre a miosina e a actina não ocorre. Por isso, acredita-se
que os locais ativos do filamento normal de actina no
músculo em repouso sejam inibidos ou fisicamente
recobertos pelo complexo troponina-tropomiosina. Assim,
esses locais não podem se ligar às cabeças dos filamentos
de miosina para produzir a contração. Antes que a
contração possa ocorrer, os efeitos inibidores do complexo
troponina-tropomiosina devem ser inibidos.
Essa situação nos leva ao papel dos íons cálcio. Em
presença de grande quantidade de íons cálcio, os efeitos
inibidores do complexo troponina-tropomiosina são por
sua vez inibidos. O mecanismo dessa inibição não é
conhecido, mas uma das sugestões é a seguinte: quando os
íons cálcio se ligam à troponina C, cada uma dessas
moléculas pode se ligar fortemente a até quatro íons cálcio,
o complexo de troponina supostamente passa por alteração
conformacional que de algum modo traciona, com grande
intensidade, a molécula de tropomiosina, deslocando-a
para o fundo do sulco entre os dois filamentos de actina.
Isto “descobre” os locais ativos da actina, permitindo desse
modo que atraiam as pontes cruzadas das cabeças da
miosina, fazendo com que a contração prossiga. Mesmo
sendo mecanismo hipotético, ele enfatiza que a relação
normal entre o complexo troponina- tropomiosina com a
actina é alterada pelos íons cálcio, criando nova condição
que leva à contração.
A Interação Entre o Filamento de Actina "Ativado" e
as Pontes Cruzadas de Miosina —A Teoria de "Ir para
Diante” (Walk-Along) da Contração. Tão logo os
filamentos de actina são ativados pelos íons cálcio, as
pontes cruzadas das cabeças dos filamentos de miosina são
atraídas pelos locais ativos do filamento de actina, o que de
alguma maneira produz a contração. Embora o modo
preciso como essa interação entre as pontes cruzadas e a
actina produz contração ainda seja em parte teórico,
hipótese para a qual existem consideráveis evidências é a
teoria do “ir para diante” (walk-along) (ou teoria da “catraca”
[ratchet]) da contração.
A Figura 6-8 demonstra esse mecanismo postulado de ir
para diante para a contração. A figura mostra as cabeças de
duas pontes cruzadas se ligando e se desligando dos locais
ativos de filamento de actina. Postula-se que quando a
cabeça se liga ao local ativo, essa ligação provoca ao mesmo
tempo profundas alterações nas forças intramoleculares
entre a cabeça e o braço dessas pontes cruzadas. O novo
alinhamento de forças faz com que a cabeça se incline em
direção ao braço e leve com ela o filamento de actina. Essa
inclinação da cabeça é chamada de força de deslocamento ou
movimento de força (power stroke). Então, imediatamente
após a inclinação, a cabeça de forma automática se separa
do local ativo. Em seguida, retorna para sua direção
estendida. Nessa posição, ela se combina com novo local
ativo, situado mais adiante no filamento de actina; então a
cabeça volta a se inclinar para efetuar novo movimento de
força, e o filamento de actina move outro passo. Desse
modo, as pontes cruzadas das cabeças se inclinam para a
frente e para trás, passo a passo, ao longo do filamento de
actina, puxando as extremidades livres de dois filamentos
sucessivos de actina em direção ao centro do filamento de
miosina.
Acredita-se que cada uma das pontes cruzadas atue de
forma independente das demais, cada uma se ligando e
puxando em ciclo contínuo e repetitivo. Assim, quanto
maior o número de pontes cruzadas ligadas ao filamento de
actina a qualquer tempo, maior será teoricamente a força da
contração.
ATP como Fonte de Energia para a Contração —
Eventos Químicos na Movimentação das Cabeças de
Miosina.
Quando um músculo se contrai, é realizado trabalho com
necessidade de energia. Grandes quantidades de ATP são
degradadas, formando ADP durante o processo da
contração; quanto maior a quantidade de trabalho realizada
pelo músculo, maior a quantidade de ATP degradada, o
que é referido como efeito Fenn. Acredita-se que esse efeito
ocorra na seguinte sequência:
1. Antes do início da contração, as pontes cruzadas das
cabeças se ligam ao ATP. A atividade da ATPase das
cabeças de miosina imediatamente cliva o ATP, mas
deixa o ADP e o íon fosfato como produtos dessa
divagem ainda ligados à cabeça. Nessa etapa, a
conformação da cabeça é tal que se estende
perpendicularmente
Filamentos
< ---------- Movimento Locais ativos de actina
Filamentos de miosina
Figura 6-8 Mecanismo de “ir para diante" para contração dos
músculos.
78
Capítulo 6 Contração do Músculo Esquelético
em direção ao filamento de actina, só que ainda não está
ligada à actina.
2. Quando o complexo troponina-tropomiosina se liga aos
íons cálcio, os locais ativos no filamento de actina são
descobertos, e as cabeças de miosina então se ligam a
eles, como mostra a Figura 6-8.
3. A ligação entre a ponte cruzada da cabeça e o local ativo
no filamento de actina causa alteração confor- macional
da cabeça, fazendo com que se incline em direção ao
braço da ponte cruzada. Essa alteração gera um
movimento de força para puxar o filamento de actina. A
energia que ativa o movimento de força é a energia já
armazenada, como uma mola “engatilhada”, pela
alteração conformacional que ocorreu na cabeça quando
as moléculas de ATP foram clivadas.
4. Uma vez em que a cabeça da ponte cruzada esteja
inclinada, isso permite a liberação do ADP e do íon
fosfato que estavam ligados à cabeça. No local onde foi
liberado o ADP, nova molécula de ATP se liga. A
ligação desse novo ATP causa o desligamento da cabeça
pela actina.
5. Após a cabeça ter sido desligada da actina, a nova
molécula de ATP é clivada para que seja iniciado novo
ciclo, levando a novo movimento de força. Ou seja, a
energia volta a “engatilhar” a cabeça em sua posição
perpendicular, pronta para começar o novo ciclo do
movimento de força.
6. Quando a cabeça engatilhada (com a energia
armazenada derivada da divagem do ATP) se liga a
novo local ativo no filamento de actina, ela descarrega e
de novo fornece outro movimento de força.
Desse modo, o processo ocorre sucessivamente até que
os filamentos de actina puxem a membrana Z contra as
extremidades dos filamentos de miosina, ou até que a carga
sobre os músculos fique demasiadamente forte para que
ocorra mais tração.
O Grau de Superposição dos Filamentos de Actina
e de Miosina Determina a Tensão que É
Desenvolvida pelo Músculo que se Contrai
A Figura 6-9 mostra o efeito do comprimento do sarcô-
mero e do grau de sobreposição dos filamentos de mio-
sina-actina sobre a tensão ativa desenvolvida pela fibra
muscular em contração. À direita, em preto, são mostrados
diferentes graus de sobreposição dos filamentos de miosina
e actina em diversos comprimentos do sarcô- mero. No
ponto D do diagrama, os filamentos de actina foram
puxados por toda sua extensão até a extremidade do
filamento de miosina, sem nenhuma sobreposição de
actina-miosina. Nesse ponto, a tensão desenvolvida pelo
músculo ativado é zero. Então, à medida que o sarcômero
encurta e os filamentos de actina começam a se sobrepor
aos filamentos de miosina, a tensão aumenta
progressivamente até o comprimento de sarcômero
diminuir para cerca de 2,2 micrômetros. Nesse ponto, os
filamentos de actina já estão sobrepostos a todas as pontes
cruzadas dos
ttttW—H+ttH
Comprimento do sarcômero (micrômetros)
Figura 6-9 Diagrama do comprimento-tensão para sarcômero
único totalmente contraído, mostrando a força máxima de
contração quando o sarcômero tem 2,0 a 2,2 micrômetros de
comprimento. No lado superior direito estão as posições
relativas dos filamentos de actina e miosina em diferentes
comprimentos do sarcômero do ponto A ao ponto D.
(Modificada de Gordon AM, Huxley AF, Julian FJ:The
length-tension diagram of single striated muscle fibers.J Physiol
171:28P, 1964.)
filamentos de miosina, mas ainda não atingiram o centro
do filamento de miosina. Mesmo com encurtamento
adicional, o sarcômero mantém tensão máxima até que o
ponto B seja atingido, o que ocorre quando o sarcômero
encurta até 2 micrômetros. Nesse ponto, as extremidades
dos dois filamentos de actina começam a se sobrepor além
da sobreposição dos filamentos de miosina. Como o
comprimento do sarcômero cai de 2 micrômetros para 1,65
micrômetro no ponto A, a força da contração é reduzida
rapidamente. Nesse ponto, os dois discos Z do sarcômero
entram em contato com as extremidades dos filamentos de
miosina. Então, como as contrações prosseguem com
comprimentos do sarcômero cada vez menores, as
extremidades dos filamentos de miosina são enrugadas e,
como mostra a figura, a força da contração se aproxima do
zero, mas todo o sarcômero está agora contraído até seu
menor comprimento.
Efeito do Comprimento Muscular sobre a Força de
Contração do Músculo Intacto Total. A curva superior
da Figura 6-10 é semelhante à curva da Figura 6-9, mas a
curva na Figura 6-10 retrata a tensão do músculo intacto
total, e não de apenas a da fibra muscular única. O músculo
em sua totalidade contém grande quantidade de tecido
conjuntivo; também os sarcômeros, em partes diferentes do
músculo, nem sempre se contraem do mesmo grau. Por
essa razão, a curva tem dimensões algo diferentes das
curvas mostradas para a fibra muscular individual, mas
exibe a mesma forma geral para a inclinação, na faixa
normal de contração, como se observa na Figura 6-10.
Note, na Figura 6-10, que quando o músculo está no seu
comprimento normal de repouso, que corresponde ao
comprimento do sarcômero de cerca de 2 micrômetros, o
músculo se contrai quando ativado com sua força máxima
de contração. Todavia, o aumento da tensão que ocorre
79
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
Variação normal da contração
Comprimento
Figura 6-10 Relação do comprimento muscular com a tensão,
tanto antes quanto durante a contração muscular.
Contração oposta à carga (kg)
Figura 6-11 Relação entre a carga e a velocidade da contração
do músculo esquelético com secção transversa de 1 centímetro
quadrado e comprimento de 8 centímetros.
durante essa contração, chamada tensão ativa, diminui com
o estiramento do músculo além de seu comprimento
normal — ou seja, até comprimentos do sarcômero maiores
do que 2,2 micrômetros. Isso é demonstrado pela
diminuição do tamanho da seta na figura, nos tamanhos
maiores que o normal do músculo.
Relação entre a Velocidade de Contração e a Carga
O músculo esquelético se contrai extremamente rápido quando
está contraído sem qualquer carga — para estado de contração
total em torno de 0,1 segundo para o músculo médio. Quando é
aplicada carga, a velocidade de contração fica progressivamente
menor à medida que a carga aumenta, como mostra a Figura 6-11.
Ou seja, quando a carga é aumentada até valor igual à força
máxima que o músculo pode exercer, a velocidade de contração é
zero, não ocorrendo alguma contração, apesar da fibra muscular
ter sido ativada.
Essa velocidade decrescente da contração com carga é causada
pelo fato de a carga, na contração do músculo, ser uma força
inversa que se opõe à força contrátil, causada pela contração do
músculo. Portanto, a força efetiva, disponível para causar a
velocidade de encurtamento, é de modo correspondente reduzida.
Energética da Contração Muscular
Rendimento do Trabalho durante a Contração
Muscular
Quando o músculo se contrai contra uma carga, ele realiza
trabalho. Isso significa que a energia é transferida do
músculo para a carga externa, para levantar um objeto até a
maior altura ou para superar a resistência ao movimento.
Em termos matemáticos, o trabalho é definido pela
seguinte equação:
T = C x D
na qual T é o rendimento do trabalho, C é a carga, e D é a
distância do movimento contra a carga. A energia
necessária para se realizar trabalho é derivada de reações
químicas nas células musculares durante a contração,
conforme descrito nas próximas seções.
Fontes de Energia para a Contração Muscular
Já foi visto que a contração muscular depende da energia
fornecida pelo ATP. A maior parte dessa energia é
necessária para ativar o mecanismo de ir para diante (walk-
along), pelo qual as pontes cruzadas puxam os filamentos
de actina, mas pequenas quantidades são necessárias para
(1) o bombeamento dos íons cálcio do sarcoplasma para o
retículo sarcoplasmático quando cessa a contração, e
(2) o bombeamento dos íons sódio e potássio, através da
membrana da fibra muscular, para manter o ambiente
iônico apropriado para a propagação do potencial de ação
das fibras musculares.
A concentração de ATP na fibra muscular em torno de 4
milimolar é suficiente para manter a contração total por, no
máximo, 1 a 2 segundos. O ATP é clivado para formar
ADP, o que transfere a energia das moléculas de ATP para
o mecanismo da contração da fibra muscular. Então, como
descrito no Capítulo 2, o ADP é refosforilado para formar
novo ATP, em outra fração de segundo, o que permite que
o músculo continue sua contração. Existem muitas fontes
de energia para essa refosforilação.
A primeira fonte de energia que é utilizada para
reconstituir o ATP é a substância fosfocreatina, que
transporta uma ligação fosfato de alta energia similar às
ligações do ATP. As ligações fosfato de alta energia da
fosfocreatina têm teor de energia livre pouco maior que
cada ligação do ATP, o que é discutido com mais detalhes
nos Capítulos 67 e 72. Assim, a fosfocreatina é clivada
instantaneamente, e sua energia liberada causa a ligação de
novo íon fosfato ao ADP, para reconstituir o ATP.
Entretanto, a quantidade total de fosfocreatina na fibra
muscular é também muito pequena — apenas cerca de
cinco vezes maior que a quantidade de ATP. Por isso, a
energia combinada do ATP armazenado e da fosfocreatina,
no músculo, é capaz de manter a contração muscular
máxima por apenas 5 a 8 segundos.
80
A segunda fonte importante de energia, que é utilizada
para reconstituir o ATP e a fosfocreatina, é a “glicólise” do
glicogênio previamente armazenado nas células musculares.
O rápido desdobramento enzimático do glicogênio a ácidos
pirúvico e lático libera energia que é utilizada para
converter o ADP em ATP; o ATP pode então ser utilizado
diretamente para energizar contrações musculares
adicionais e também para reconstituir as reservas de
fosfocreatina.
A importância desse mecanismo de glicólise é dupla.
Primeiro, as reações glicolíticas podem ocorrer mesmo na
ausência de oxigênio, de forma que a contração muscular
pode ser mantida por muitos segundos e muitas vezes por
mais do que 1 minuto, mesmo quando o oxigênio liberado
pelo sangue não estiver disponível. Segundo, a velocidade
de formação do ATP pelo processo glicolí- tico é cerca de
2,5 vezes mais rápida do que a formação do ATP, em
resposta à reação dos nutrientes celulares com o oxigênio.
Entretanto, como muitos produtos finais da glicólise se
acumulam nas células musculares, a glicólise perde
também sua capacidade de sustentar a contração muscular
máxima após 1 minuto.
A terceira e última fonte de energia é o metabolismo
oxidativo. Isso significa combinar o oxigênio com os
produtos finais da glicólise e com vários outros nutrientes
celulares, para liberar ATP. Mais de 95% de toda a energia
usada pelos músculos para a contração mantida por longo
tempo são derivados dessa fonte. Os nutrientes alimentares
consumidos são carboidratos, gorduras e proteínas. Para a
atividade muscular máxima extremamente longa — por
período de várias horas —, a maior proporção de energia,
de longe, vem da gordura, mas, por período de 2 a 4 horas,
a metade da energia vem dos carboidratos armazenados.
Os mecanismos detalhados desse processo energético
são discutidos nos Capítulos 67 a 72. Além disso, a
importância dos diferentes mecanismos de liberação de
energia, durante o desempenho de diferentes esportes, é
discutida no Capítulo 84, sobre a fisiologia esportiva.
Eficiência da Contração Muscular. A eficiência de uma máquina
ou de um motor é calculada conforme o percentual de energia
fornecida que é convertida em trabalho, em vez de calor. O
percentual da quantidade de energia fornecida ao músculo (a
energia química dos nutrientes) que pode ser convertida em
trabalho, mesmo sob as melhores condições, é menor que 25%,
com o restante se transformando em calor. A razão para essa baixa
eficiência é que cerca da metade da energia dos nutrientes é
perdida durante a formação do ATP, e mesmo assim somente 40%
a 45% da energia do ATP pode ser posteriormente convertida em
trabalho.
A eficiência máxima só pode ser conseguida quando a
contração muscular ocorre com velocidade moderada. Se o
músculo se contrair lentamente ou sem qualquer movimento,
pequenas quantidades do calor de manutenção são liberadas
durante a contração, mesmo que pouco ou nenhum trabalho seja
realizado, fazendo com que a eficiência da conversão diminua a
zero. De modo inverso, se a
Capítulo 6 Contração do Músculo Esquelético
contração for muito rápida, grande quantidade de energia é usada
para superar a fricção viscosa no próprio músculo, o que também
reduz a eficiência da contração. Geralmente ocorre eficiência
máxima quando a velocidade da contração fica em torno de 30%
da máxima.
Características da Contração do Músculo Como
um Todo
Muitas características da contração muscular podem ser
demonstradas pela produção de um abalo muscular (muscle
twitch). Este pode ser produzido por meio da excitação elétrica
instantânea do nervo muscular ou por breve estímulo elétrico,
originando contração breve e abrupta que dura fração de segundo.
Contração Isométrica versus Isotônica. A contração
muscular é dita isométrica quando o músculo não encurta durante
contração, e isotônica quando encurta, mas sua tensão permanece
constante por toda a contração. Sistemas para registrar os dois
tipos de contração muscular são mostrados na Figura 6-12.
No sistema isométrico, o músculo se contrai contra um
transdutor de força sem que ocorra encurtamento do músculo,
como mostrado no lado direito da Figura 6-12. No sistema
isotônico, o músculo se encurta contra carga fixa; esse sistema está
ilustrado no lado esquerdo da figura, onde se pode observar o
músculo levantando peso. As características das contrações
isotônicas dependem da carga contra a qual o músculo se contrai,
além da inércia da carga. Entretanto, o sistema isométrico em
termos estritos só registra a variação da força da própria contração
muscular. Por isso, o sistema isométrico é comumente mais
utilizado quando se comparam as características funcionais dos
diferentes tipos de músculo.
Características dos Abalos Isométricos
Registrados em Diferentes Músculos. O corpo humano
contém músculos esqueléticos com dimensões muito diferentes —
desde o músculo estapédio muito pequeno no ouvido médio,
medindo somente uns poucos milímetros de comprimento e um
milímetro ou mais de diâmetro, até o grande músculo quadrí-
ceps, meio milhão de vezes maior que o estapédio. Além disso, as
fibras podem ser tão delgadas quanto 10 micrô- metros de
diâmetro, ou tão grossas quanto 80 micrômetros. Por fim, a
energética da contração muscular varia consideravelmente entre
os diferentes músculos. Por isso, não é sur-
Eletrodos de
estimulação
Transdutor
eletrônico
de força Para registro
eletrônico
Sistema isométrico
Figura 6-12 Sistemas isotônico e isométrico para registro das
contrações musculares.
81
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
preendente que as características mecânicas da contração muscular
sejam diferentes entre os diversos músculos.
A Figura 6-13 mostra o registro das contrações isométri- cas de
três tipos de músculo esquelético: um músculo ocular, com
contração isométrica de menos do que 1/50 segundo; o músculo
gastrocnêmio, com duração da contração de cerca de 1/15
segundo; e o músculo sóleo, com duração da contração de cerca de
1/5 segundo. É interessante que essas durações da contração sejam
adaptadas para as funções dos respectivos músculos. Os
movimentos oculares devem ser extremamente rápidos para que
possa ser mantida a fixação dos olhos nos objetos específicos para
garantir a acuidade visual. O músculo gastrocnêmio deve se
contrair com velocidade moderadamente alta, para permitir o
movimento dos membros com velocidade suficiente para a corrida
e para o salto, e o músculo sóleo tem como função principal a
contração lenta para o suporte contínuo e por longo período do
corpo contra a gravidade.
Fibras Musculares Rápidas versus Fibras Lentas.
Como discutido mais detalhadamente no Capítulo 84, sobre a
fisiologia dos esportes, cada músculo do corpo é composto por
mistura das chamadas fibras musculares rápidas e lentas, além
das fibras com diferentes gradações entre estes dois extremos. Os
músculos que reagem rapidamente, como o tibial anterior, são
compostos em sua maior parte por fibras “rápidas” com apenas
pequeno número da variedade lenta. Inversamente, músculos que
respondem lentamente, mas com contração prolongada, como o
sóleo, são compostos na maior parte por fibras “lentas”. As
diferenças entre esses dois tipos de fibras são descritas a seguir.
Fibras Lentas (Tipo 1, Músculo Vermelho). (1) Fibras
menores. (2) Também inervados por fibras nervosas pequenas. (3)
Sistema dos vasos sanguíneos e dos capilares mais extensos, para
suprir quantidades extras de oxigênio. (4) Número de
mitocôndrias muito elevado também para dar suporte aos altos
níveis de metabolismo oxidativo. (5) As fibras contêm grande
quantidade de mioglobina, proteína que contém ferro, semelhante
à hemoglobina nas hemácias. A mioglobina se combina com o
oxigênio e o armazena até que ele seja necessário; isso faz também
com que o transporte de oxigênio para as mitocôndrias seja
acelerado. A mioglobina dá ao músculo lento sua aparência
avermelhada e o nome de músculo vermelho.
Figura 6-13 Duração das contrações isométricas para
diferentes tipos de músculo esquelético de mamíferos,
mostrando o período latente entre o potencial de ação
(despolarização) e a contração muscular.
Fibras Rápidas (Tipo 2, Músculo Branco). (1) Fibras grandes
para grande força de contração. (2) Retículo sarcoplasmático muito
extenso, para a rápida liberação dos íons cálcio para desencadear a
contração. (3) Grande quantidade de enzimas glicolíticas, para a
rápida liberação de energia pelo processo glicolítico. (4) Suprimento
de sangue menos extenso devido ao metabolismo oxidativo ter
importância secundária. (5) Menor número de mitocôndrias
também porque o metabolismo oxidativo é secundário. Ao déficit
de mioglobina vermelha no músculo rápido damos o nome de
músculo branco.
Mecânica da Contração do Músculo Esquelético
Unidade Motora -Todas as Fibras Musculares São
Inervadas por uma Só Fibra Nervosa. Cada motoneurônio que
sai da medula espinhal inerva múltiplas fibras musculares, e essa
quantidade depende do tipo de músculo. Todas as fibras
musculares inervadas por uma só fibra nervosa formam uma
unidade motora. Em geral, pequenos músculos que devem reagir
rapidamente e nos quais o controle deve ser preciso têm mais fibras
nervosas e menos fibras musculares (p. ex., apenas duas ou três
fibras musculares por unidade motora, em alguns dos músculos da
laringe). Inversamente, grandes músculos que não necessitam de
controle fino, como o músculo sóleo, podem ter muitas fibras
musculares em uma unidade motora. O número médio para todos
os músculos do corpo é questionável, mas boa suposição seria em
torno de 80 a 100 fibras musculares por unidade motora.
As fibras musculares de cada unidade motora não estão
agrupadas no músculo, mas se misturam com outras unidades
motoras como microgrupos de três a 15 fibras. Essa interpenetração
permite que unidades motores distintas se contraiam em suporte às
outras, e não como segmentos individuais.
Contrações Musculares com Forças Diferentes — Somação
das Forças. Somação significa a soma de abalos individuais, para
aumentar a intensidade da contração total. A somação ocorre por
dois meios: (1) pelo aumento do número de unidades motoras que
se contraem ao mesmo tempo, referido como somação por fibras
múltiplas, e (2) pelo aumento da frequência de contração, que é
referido como somação por frequência e pode levar à tetanização.
Somação por Fibras Múltiplas. Quando o sistema
nervoso central envia um sinal fraco para que o músculo se contraia,
as menores unidades motoras do músculo podem ser estimuladas
em preferência às unidades motoras maiores. Então, à medida que a
força do sinal aumenta, unidades motoras cada vez maiores
começam a ser também excitadas, com as maiores unidades motoras
apresentando 50 vezes mais força contrátil que as unidades
menores. Isso é conhecido como o princípio do tamanho. Esse
fenômeno é importante, pois permite a gradação da força muscular
durante contração fraca que ocorre em pequenas etapas, uma vez
que essas etapas ficam progressivamente maiores quando grande
quantidade de força é necessária. A razão para esse princípio do
tamanho é que as pequenas unidades motoras são inervadas por
pequenas fibras nervosas motoras, e os pequenos moto- neurônios
na medula espinhal são mais excitáveis que os maiores, sendo
naturalmente excitados primeiro.
Outra importante característica da somação por múltiplas fibras
é que as diferentes unidades motoras são ativa-
82
das de forma assincrônica pela medula espinhal, de forma que a
contração ocorre alternadamente entre as diferentes unidades
motoras, uma após a outra, e desse modo produz contração suave e
regular até mesmo sob baixas frequências dos sinais nervosos.
Somação por Frequência e Tetanização. A Figura
6-14 mostra os princípios da somação por frequência e da
tetanização. O lado esquerdo mostra contrações musculares
individuais sucedendo-se uma após a outra, com baixa frequência
de estimulação. Em seguida, à medida que essa frequência vai
aumentando, alcança-se um ponto onde cada nova contração ocorre
antes que a anterior termine. Como resultado, a segunda contração
é parcialmente somada à anterior, de forma que a força total da
contração aumenta progressivamente com o aumento da
frequência. Quando a frequência atinge um nível crítico, as
contrações sucessivas eventualmente ficam tão rápidas que se
fundem, e a contração total do músculo aparenta ser
completamente uniforme e contínua, como mostra a figura. Isso é
referido como tetanização. Com frequência pouco maior, a força da
contração atinge sua capacidade máxima, de modo que qualquer
aumento adicional da frequência além desse ponto não exerce
novos efeitos para aumentar a força contrátil. Isso ocorre porque
quantidades suficientes de íons cálcio são mantidas no sar-
coplasma muscular mesmo entre os potenciais de ação, de modo
que o estado contrátil total é mantido, sem que seja permitido
nenhum grau de relaxamento entre os potenciais de ação.
Força Máxima da Contração. A força máxima da contração
tetânica de músculo em atividade em seu comprimento muscular
normal é em torno do valor médio de 3 a 4 kg por centímetro
quadrado (cm2) de músculo. Dado que o músculo quadríceps pode
ter até 40 cm2 em seu ventre, até cerca de 363 kg de tensão podem
ser aplicados ao tendão patelar. Assim, pode-se facilmente entender
como é possível para o músculo arrancar seus tendões de suas
inserções ósseas.
Alterações da Força dos Músculos no Início da Contração
— O Efeito da Escada (Treppe). Quando um músculo começa a se
contrair, após longo período de repouso, sua força inicial de
contração pode ser tão pequena quanto a metade de sua força após
10 a 50 contrações musculares seguintes. Isso quer dizer que a força
da contração aumenta até atingir um platô, fenômeno conhecido
por efeito da escada ou treppe.
Ainda que todas as possibilidades da causa do efeito da escada
não sejam conhecidas, acredita-se que ele seja cau-
Frequência da estimulação (vezes por segundo)
Figura 6-14 Frequência da somação e tetanização.
Capítulo 6 Contração do Músculo Esquelético
sado primariamente pelo aumento dos íons cálcio no citosol,
devido à liberação contínua de mais e mais íons cálcio pelo retículo
sarcoplasmático a cada potencial de ação do músculo e à falha do
sarcoplasma de recaptar imediatamente esses íons.
Tônus do Músculo Esquelético. Mesmo quando os músculos
estão em repouso, em geral eles ainda apresentam certa tensão.
Essa tensão é conhecida como tônus muscular. Como
normalmente a fibra muscular esquelética não se contrai sem que
ocorra um potencial de ação para estimulá-la, o tônus do músculo
esquelético resulta inteiramente de baixa frequência de impulsos
nervosos vindos da medula espinhal. Esses impulsos, por sua vez,
são controlados em parte por sinais transmitidos pelo cérebro para
o motoneu- rônio anterior da medula espinhal, e em parte por
sinais originados nos fusos musculares, localizados no próprio
músculo. A discussão sobre as relações dos fusos musculares e o
funcionamento da medula espinhal é encontrada no Capítulo 54.
Fadiga Muscular. Contrações musculares fortes, perdurando
por período prolongado, levam ao bem conhecido estado de
fadiga muscular. Estudos em atletas mostraram que a fadiga
muscular aumenta em proporção quase direta com a intensidade
da depleção do glicogênio muscular. Assim, os efeitos da fadiga
surgem em grande parte da incapacidade contrátil e do processo
metabólico das fibras musculares de continuar a manter a mesma
quantidade de trabalho. Entretanto, experimentos mostraram que
também a transmissão dos sinais nervosos pela junção
neuromuscular, discutida no Capítulo 7, pode diminuir pelo
menos por pequena quantidade, após intensa e prolongada
atividade muscular, e desse modo diminuir a contração muscular.
A interrupção do fluxo sanguíneo durante a contração do músculo
leva à fadiga muscular quase total em 1 a 2 minutos, devido à
perda do suprimento de nutrientes, especialmente de oxigênio.
Sistemas de Alavancas do Corpo. Os músculos atuam pela
aplicação de tensão em seus pontos de inserção nos ossos, e os
ossos por sua vez formam vários tipos de sistemas de alavancas. A
Figura 6-15 mostra o sistema de alavanca que é ativado pelo
músculo bíceps para levantar o antebraço. Se
Figura 6-15 Sistema de alavanca ativado pelo músculo bíceps.
83
U
N
I
D
A
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
assumirmos que um músculo bíceps grande tenha área de secção
transversa de 15 cm2, a força máxima de sua contração seria de
cerca de 136 kg. Quando o antebraço está em ângulo reto com o
braço, o tendão do bíceps está inserido cerca de 5 cm à frente do
fulcro no cotovelo, e o comprimento total da alavanca do antebraço
é de cerca de 35 cm. Nesse caso, a quantidade de potência de
levantamento pelo bíceps na mão seria somente um sétimo da força
muscular de 136 kg ou mais precisamente de cerca de 19,5 kg.
Quando o braço é totalmente estendido, o tendão do bíceps fica a
muito menos que os 5 cm à frente do fulcro, e a força para o
movimento da mão para diante é muito menor que 19,5 kg.
Em resumo, a análise dos sistemas de alavancas do corpo
depende do conhecimento (1) do ponto da inserção muscular, (2) da
distância do fulcro da alavanca, (3) do comprimento do braço da
alavanca, e (4) da posição da alavanca. Muitos tipos de movimento
são requeridos no corpo, alguns deles exigindo grande força, e
outros exigindo grandes extensões de movimento. Por essa razão,
existem muitos tipos diferentes de músculo; alguns longos e que se
contraem por longa distância; alguns curtos, mas com grandes
áreas de secção transversa, e capazes de fornecer força extrema de
contração por curtas distâncias. O estudo dos diferentes tipos de
músculos dos sistemas de alavanca e de seus movimentos é
conhecido por cinesiologia, sendo um importante componente
científico da fisioanatomia humana.
"Posicionamento” das Partes do Corpo para a Contração
dos Músculos Agonistas e Antagonistas em Lados Opostos
de uma Articulação — "Coativação” dos Músculos
Antagonistas. Praticamente, todos os movimentos do corpo são
causados por contrações simultâneas dos músculos agonistas e
antagonistas nos lados opostos da articulação. Isso é referido como
coativação dos músculos agonistas e antagonistas, sendo regulado
pelos centros de controle motor do cérebro e da medula espinhal.
A posição de cada parte separada do corpo, como um braço ou
uma perna, é determinada pelos graus relativos de contração dos
grupos musculares agonistas e antagonistas. Por exemplo, vamos
assumir que um braço ou perna deve ser colocado em posição
média de seu alcance. Para isso, os músculos agonistas e
antagonistas recebem praticamente a mesma intensidade de
excitação. Lembre-se de que o músculo estirado se contrai com mais
força que um músculo não estirado, como demonstrado na Figura
6-10, mostrando força máxima para a contração no comprimento
funcional total do músculo e quase nenhuma força de contração na
metade do comprimento normal. Desse modo, o músculo estirado
em um dos lados da articulação pode se contrair com muito mais
força que o músculo não estirado do lado oposto. À medida que o
braço ou a perna se move para a posição média, a força dos
músculos mais longos diminui, enquanto nos músculos mais curtos
aumenta até que as duas forças fiquem iguais. Nesse momento, o
movimento do braço ou da perna cessa. Assim, pela variação da
relação entre os diferentes graus de ativação dos músculos
agonistas e antagonistas, o sistema nervoso determina o
posicionamento do braço ou da perna.
Vamos aprender, no Capítulo 54, que o sistema nervoso motor
tem mecanismos adicionais importantes para compensar as
diferentes cargas musculares quando dirige esse processo de
posicionamento.
Remodelação do Músculo para se Ajustar à sua
Função
Todos os músculos do corpo são continuamente remodelados para
se ajustar às funções que são requeridas deles. Seus diâmetros
podem ser alterados, seus comprimentos podem ser alterados,
suas forças podem ser alteradas, seus suprimentos vasculares
podem ser alterados e até mesmo suas fibras musculares, mesmo
que discretamente, podem ser alteradas. Esse processo de
remodelação é em geral bastante rápido, durando no máximo
poucas semanas. Na verdade, experimentos em animais
mostraram que as proteínas contráteis, em alguns dos menores e
mais ativos músculos, podem ser substituídas no curto período de
2 semanas.
Hipertofria e Atrofia Musculares. Quando a massa muscular
total aumenta, isso é referido como hipertrofia muscular. Quando
a massa muscular diminui, o processo é referido como atrofia
muscular.
Virtualmente, toda hipertrofia muscular resulta do aumento do
número dos filamentos de actina e de miosina em cada fibra
muscular, produzindo aumento dessa fibra; isso é designado
simplesmente por fibra hipertrofiada. Hipertrofia em grau muito
maior ocorre quando o músculo trabalha contra a carga durante o
processo contrátil. Apenas poucas e fortes contrações a cada dia
são necessárias para causar hipertrofia significativa, dentro de 6 a
10 semanas.
A maneira pela qual as contrações vigorosas levam à hipertrofia
não é conhecida. O que é sabido, entretanto, é que a intensidade da
síntese das proteínas contráteis no músculo é bem maior quando a
hipertrofia está se desenvolvendo, gerando também aumento
progressivo dos filamentos de actina e de miosina nas miofibrilas
com frequência aumentando por até 50%. Por sua vez, observou-se
que algumas miofibrilas de forma independente se dividem nos
músculos hipertrofiados para formar novas miofibrilas, mas o
quanto isso é importante para a hipertrofia muscular usual ainda
não é conhecido.
Junto com o aumento crescente do tamanho das miofibrilas, o
sistema enzimático que fornece energia também aumenta. Isso é
especialmente válido para as enzimas para a glicólise,
possibilitando o rápido suprimento de energia durante as curtas e
vigorosas contrações musculares.
Quando um músculo fica sem uso por muitas semanas, a
intensidade de degradação das proteínas contráteis é muito mais
rápida do que a intensidade de sua reposição. Disso resulta a
atrofia muscular. A via parece ser responsável pela parte da
degradação, ocorrendo em músculo em atrofia é a via
ubiquitina-proteasoma, dependente de ATP. Proteasomas são
grandes complexos de proteínas que degradam outras proteínas,
danificadas ou desnecessárias por proteólise, a reação química que
desfaz as ligações peptídicas. A ubiqui- tina é proteína respiratória
que basicamente marca as células que serão destinadas à
destruição pelos proteasomas.
Ajuste do Comprimento dos Músculos. Outro tipo de
hipertrofia ocorre em geral quando os músculos estão mais
estirados além do comprimento normal. Esse esti- ramento
excessivo faz com que novos sarcômeros sejam
adicionados às extremidades das fibras musculares por
onde são ligadas aos tendões. De fato, novos sarcômeros
podem ser adicionados tão rapidamente quanto vários a
cada minuto nos músculos novos em desenvolvimento,
ilustrando assim a rapidez desse tipo de hipertrofia.
84
Inversamente, quando o músculo permanece
continuamente mais curto do que seu tamanho normal, os
sar- cômeros das extremidades das fibras musculares
podem desaparecer. É por esse processo que os músculos
são continuamente remodelados para que possam ter o
tamanho apropriado para a contração muscular adequada.
Hiperplasia das Fibras Musculares. Sob raras
circunstâncias de geração de força muscular extrema,
observou-se que o número real de fibras musculares
aumentou (mas apenas por alguns pontos percentuais),
independentemente do processo de hipertrofia. Esse
aumento do número de fibras musculares é referido como
hiperplasia da fibra. Quando ocorre, o mecanismo é a divisão
linear das fibras previamente aumentadas.
Efeitos da Desnervação Muscular. Quando um
músculo é privado de seu suprimento nervoso, deixa de
receber os sinais contráteis necessários para manter as
dimensões normais do músculo. Como resultado, o
processo de atrofia começa imediatamente. Após 2 meses,
mudanças degenerativas começam também a aparecer nas
próprias fibras musculares. Caso o suprimento nervoso
para o músculo seja restabelecido rapidamente, a
recuperação total do músculo pode ocorrer em 3 meses,
mas depois desse tempo a capacidade de restabelecimento
funcional do músculo até o normal começa a diminuir com
o passar do tempo, desaparecendo definitivamente após
decorridos 1 a 2 anos.
No estágio final da atrofia de desnervação, a maioria
das fibras musculares é destruída e substituída por tecido
fibroso e gorduroso. As fibras que ainda persistem são
compostas por longas membranas celulares com
alinhamento de pequenos núcleos, mas com pouca ou
nenhuma propriedade contrátil ou capacidade
regenerativa das miofibrilas caso o nervo cresça
novamente.
O tecido fibroso que substitui as fibras musculares
durante a atrofia causada pela desnervação tem também a
tendência de continuar a se encurtar por vários meses, o
que é conhecido por contratura. Assim, um dos problemas
mais importantes da fisioterapia consiste em evitar que os
músculos em atrofia venham a desenvolver contraturas
debilitantes ou deformantes. Isso é conseguido por meio de
exercícios diários de alongamento dos músculos ou pelo
uso de aparelhos que mantenham os músculos estirados
durante o processo de atrofia.
Recuperação da Contração Muscular na
Poliomielite: Desenvolvimento de Unidades
Macromotoras. Quando algumas, porém não todas fibras
nervosas do músculo são destruídas, como ocorre usualmente nos
casos de poliomielite, as fibras nervosas remanescentes se
ramificam para formar novos axônios, que então vão inervar
muitas das fibras musculares paralisadas. Esse tipo de reação
forma grandes unidades motoras, referidas como unidades
macromotoras, podendo ter até cinco vezes o número normal de
fibras mus-
Capítulo 6 Contração do Músculo Esquelético
culares para cada motoneurônio da medula espinhal. Isso reduz a
eficiência e a finura do controle que a pessoa tem sobre seus
músculos, mas permite que os músculos voltem a ter a
possibilidade de variar sua força.
Rigidez Cadavérica (Rigor Mortis)
Algumas horas após a morte, todos os músculos do corpo entram
no estado de contratura, conhecido como “rigidez cadavérica”
(ou rigor mortis)-, ou seja, os músculos se contraem e ficam
rígidos mesmo sem potenciais de ação. Essa rigidez resulta da
perda de todo ATP que é necessário para a separação das pontes
cruzadas dos filamentos de actina durante o processo de
relaxamento. Os músculos permanecem rígidos até que as
proteínas musculares degenerem em torno de 15 a 25 horas, o que
provavelmente resulta da autólise causada pelas enzimas
liberadas pelos lisossomas. Todos esses eventos ocorrem mais
rapidamente nas temperaturas mais altas.
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85
(página deixada intencionalmente em branco)
CAPÍTULO 7
Excitação do Músculo Esquelético:
Transmissão Neuromuscular e
Acoplamento Excitação-Contração
Transmissão dos
Impulsos das
Terminações Nervosas
para as Fibras
Musculares
Esqueléticas:
A Junção
Neuromuscular
As fibras musculares esqueléticas são inervadas por
grandes fibras nervosas mielinizadas que se originam nos
grandes neurônios motores nos cornos anteriores da
medula espinhal. Como destacado no Capítulo 6, cada fibra
nervosa, depois de penetrar no feixe muscular,
normalmente se ramifica e estimula de três a várias
centenas de fibras musculares esqueléticas. Cada
terminação nervosa faz uma junção, chamada junção
neuromuscular, com a fibra muscular próxima de sua porção
média. O potencial de ação, iniciado na fibra muscular pelo
sinal nervoso, viaja em ambas as direções até as
extremidades da fibra muscular. Com exceção de cerca de
2% das fibras musculares, existe apenas uma dessas junções
por fibra muscular.
Anatomia Fisiológica da Junção Neuromuscular
— A Placa Motora. A Figura 7-LA e B mostra a junção
neuromuscular de grande fibra nervosa mielinizada com
uma fibra muscular esquelética. A fibra nervosa forma
complexo de terminais nervosos ramificados que se inva-
ginam na superfície extracelular da fibra muscular. Toda a
estrutura é chamada de placa motora. Ela é recoberta por
uma ou mais células de Schwann que a isolam dos líquidos
circunjacentes.
A Figura 7-1C mostra um esquema de micrografia
eletrônica da junção entre um terminal de um axônio e a
membrana da fibra muscular. A membrana invaginada é
chamada de goteira sináptica ou canaleta sináptica, e o espaço
entre o terminal e a membrana da fibra é chamado de espaço
sináptico ou fenda sináptica. Este espaço tem de 20 a 30
nanômetros de largura. No fundo da goteira encontram-se
numerosas pequenas dobras da membrana muscular,
chamadas de fendas subneurais, que aumentam em muito a
área de superfície na qual o transmissor sináptico pode
agir.
No terminal axonal há muitas mitocôndrias que
fornecem trifosfato de adenosina (ATP), a fonte de energia
que é usada para a síntese de um transmissor excitatório, a
acetilcolina. A acetilcolina, por sua vez, excita a membrana
da fibra muscular. A acetilcolina é sintetizada no
citoplasma do terminal, mas é absorvida rapidamente por
muitas pequenas vesículas sinápticas, cerca de 300.000, as
quais se encontram normalmente nos terminais de uma
única placa motora. No espaço sináptico há grandes
quantidades da enzima acetilcolinesterase, que destrói a
aceticolina alguns milissegundos depois que ela foi
liberada das vesículas sinápticas.
Secreção de Acetilcolina pelos Terminais
Nervosos
Quando um impulso nervoso atinge a junção
neuromuscular, cerca de 125 vesículas de acetilcolina são
liberadas dos terminais no espaço sináptico. Alguns dos
detalhes deste mecanismo podem ser vistos na Figura 7-2,
que mostra uma imagem expandida de um espaço
sináptico, com a membrana neural acima e a membrana
muscular e suas fendas subneurais abaixo.
Na superfície interna da membrana neural estão as
barras densas lineares, mostradas em corte transversal na
Figura 7-2. Nos dois lados de cada barra densa estão
partículas proteicas que penetram na membrana neural;
são os canais de cálcio controlados por voltagem. Quando o
potencial de ação se propaga para o terminal, esses canais
se abrem e permitem que os íons cálcio se difundam do
espaço sináptico para o interior do terminal nervoso.
Considera-se que os íons cálcio, por sua vez, exerçam
atração sobre as vesículas de acetilcolina, puxando-as para
a membrana neural adjacente às barras densas. As
vesículas se fundem então com a membrana neural e
lançam a acetilcolina no espaço sináptico, pelo processo da
exocitose.
Embora alguns dos detalhes previamente mencionados
sejam especulativos, sabe-se que o estímulo efetivo que
causa a liberação da acetilcolina das vesículas é a entrada
dos íons cálcio e que a acetilcolina das vesículas é esvaziada
através da membrana neural adjacente às barras densas.
87
U
N
I
D
A
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
Figura 7-1 Diferentes perspecti-
vas da placa motora. A, Corte
lon-
gitudinal através da placa
motora.
B, Visão da superfície da placa
motora. C, Aspecto na microgra-
fia eletrônica do ponto de con-
tato entre um terminal isolado
de um axônio e a membrana da
fibra muscular. (Redesenhada de
Fawcett DW, conforme modifi-
cação de Couteaux R, in Bloom
W, Fawcett DW: A Textbook
ot Histology. Philadelphia: WB
Saunders, 1986.)
Bainha de Axônio
Fendas subneurais
Vesículas sinápticas
Terminal axonal na
goteira sináptica
Locais de Membrana Vesículas
Barra densa
Canais
de cálcio
Lâmina basal
e
Figura 7-2 Liberação de acetilcolina das vesículas sinápticas na
membrana neural da junção neuromuscular. Observe a
proximidade entre os locais de liberação na membrana neural
para os receptores de acetilcolina na membrana muscular, nas
aberturas das fendas subneurais.
Efeito da Acetilcolina na Membrana Pós-sináptica
da Fibra Muscular para Abrir os Canais lônicos. A
Figura 7-2 mostra também muitos receptores de acetilcolina
na membrana da fibra muscular; são os canais iônicos
controlados pela acetilcolina, e se localizam quase inteira
mente próximos às aberturas das fendas subneurais,
situadas imediatamente abaixo das áreas de barras densas,
onde a acetilcolina é lançada no espaço sináptico.
Cada receptor é complexo proteico com peso molecular
total de 275.000. O complexo é composto por cinco
subunidades proteicas, duas proteínas alfa e uma de cada
uma das proteínas beta, delta e gama. Essas moléculas
proteicas penetram por toda a extensão da membrana,
situando-se lado a lado em círculo para formar o canal
tubular, ilustrado na Figura 7-3. O canal mantém-se
fechado, como mostrado na parte A da figura, até que duas
moléculas de acetilcolina se liguem às duas subunidades
proteicas alfa. Isso provoca alteração conformacional que
abre o canal, como mostrado na parte B da figura.
O canal regulado pela acetilcolina tem diâmetro de
cerca de 0,65 nanômetro, grande o suficiente para permitir
que íons positivos importantes — sódio (Na+), potássio
(K+) e cálcio (Ca++) — se movimentem facilmente pela
abertura. Porém, íons negativos, tais como os íons cloreto,
não passam pelo canal devido às fortes cargas negativas na
abertura do canal que repelem esses íons negativos.
Na prática, muitos mais íons sódio fluem pelos canais
regulados pela acetilcolina do que quaisquer outros íons,
por duas razões. Primeira, existem apenas dois íons
positivos em alta concentração: os íons sódio, no líquido
extracelular e os íons potássio, no líquido intracelular.
Segunda, o potencial muito negativo do lado de dentro da
membrana muscular, -80 a -90 milivolts, puxa os íons
88
Capítulo 7 Excitação do Músculo Esquelético:Transmissão Neuromuscular e Acoplamento Excitação-Contração
B
Figura 7-3 Canal colinérgico. A, Estado fechado. B, Depois que a
acetilcolina (Ach) se ligou e uma alteração de conformação abriu o
canal, permitindo que íons sódio penetrassem na fibra muscular e
estimulassem a contração. Observe as cargas negativas na abertura do
canal que impedem a passagem de íons negativos como o cloreto.
sódio com carga positiva para o interior da fibra e
simultaneamente se opõe ao efluxo dos íons potássio com
carga positiva.
Como mostrado na Figura 7-3B, o principal efeito da
abertura dos canais controlados pela acetilcolina é permitir
que grande número de íons sódio entre na fibra, levando
com eles grande número de cargas positivas. Isso provoca
alteração potencial local positiva, no lado interno da
membrana da fibra muscular, chamado potencial da placa
motora. Por sua vez, esse potencial da placa motora inicia
um potencial de ação que se propaga ao longo da
membrana muscular, causando a contração muscular.
Destruição da Acetilcolina Liberada pela Acetilco-
linesterase. A acetilcolina, uma vez liberada no espaço
sináptico, continua a ativar os receptores de acetilcolina
enquanto esta persistir nesse espaço. Entretanto, ela é
removida rapidamente por dois modos: (1) A maior parte
da acetilcolina é destruída pela enzima aceticolinesterase
Figura 7-4 Potenciais de placa motora (em milivolts). A, Potencial
de placa motora de pequena amplitude, registrado em um músculo
curarizado, insuficiente para desencadear um potencial de ação. B,
Potencial de placa motora normal, desencadeando um potencial de
ação muscular. C, Potencial de placa motora reduzido em amplitude
pela toxina botulínica, que diminui a liberação de acetilcolina na placa
motora; o potencial é insuficiente para desencadear um potencial de
ação muscular.
que está ligada principalmente à camada esponjosa do
tecido conjuntivo fino que preenche o espaço sináptico,
entre o terminal nervoso pré-sináptico e a membrana
muscular pós-sináptica. (2) Pequena quantidade de
acetilcolina se difunde para fora do espaço sináptico, e
assim deixa de estar disponível para agir sobre a
membrana da fibra muscular.
O tempo reduzido em que a acetilcolina se mantém no
espaço sináptico — alguns milissegundos, se tanto — é
normalmente suficiente para excitar a fibra muscular. A
rápida remoção da acetilcolina evita a reexcitação
continuada do músculo, depois que a fibra muscular se
recuperou de seu potencial de ação inicial.
Potencial da Placa Motora e Excitação da Fibra
Muscular Esquelética. O influxo de íons sódio para a fibra
muscular quando os canais colinérgicos se abrem causa
variação do potencial elétrico no interior da fibra, no local da
placa motora, para aumentar na direção positiva, por 50 a 75
milivolts, criando um potencial local chamado potencial da
placa motora. Relembre, do Capítulo 5, que aumento súbito
no potencial da membrana nervosa de mais de 20 a 30
milivolts é normalmente suficiente para iniciar a abertura
de mais e mais canais de sódio, iniciando assim um
potencial de ação na membrana da fibra muscular.
A Figura 7-4 mostra o princípio pelo qual um potencial
da placa motora inicia o potencial de ação. Essa figura
mostra três potenciais da placa motora. Os potenciais da
placa motora A e C são muito fracos para desencadear um
potencial de ação; porém, produzem fracas alterações
locais de voltagem na placa motora, como registrados na
figura. Em contraste, o potencial da placa motora B é de
amplitude maior e faz com que número suficiente de canais
de sódio se abra, de forma que o efeito autorrege- nerativo
de mais e mais íons sódio fluindo para o interior da fibra
inicie um potencial de ação. A baixa amplitude
89
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
do potencial da placa motora no ponto A foi causada por
envenenamento da fibra muscular com curare, fár- maco
que bloqueia o efeito controlador da acetilcolina sobre os
canais colinérgicos competindo pelos receptores da
acetilcolina. A baixa amplitude do potencial da placa
motora no ponto C resultou do efeito da toxina botulí- nica,
veneno bacteriano que diminui a quantidade de
acetilcolina liberada pelos terminais nervosos.
Fator de Segurança para a Transmissão na Junção
Neuromuscular; Fadiga da Junção. Ordinariamente,
cada impulso que chega à junção neuromuscular provoca
potencial da placa motora de amplitude três vezes maior
que o necessário para estimular a fibra muscular. Portanto,
a junção neuromuscular normal tem alto fator de segurança.
No entanto, a estimulação da fibra nervosa com frequências
maiores que 100 vezes por segundo, por vários minutos,
com frequência diminui tanto o número de vesículas de
acetilcolina que os impulsos não são mais transmitidos à
fibra muscular. Isso é chamado de fadiga da junção
neuromuscular, e é o mesmo efeito que causa a fadiga no
sistema nervoso central quando as sinapses são
superexcitadas. Em condições normais de funcionamento,
raramente ocorre fadiga mensurável da junção
neuromuscular e mesmo assim apenas nos níveis mais
exaustivos de atividade muscular.
Biologia Molecular da Formação e da
Liberação de Acetilcolina
Como a junção neuromuscular é grande o suficiente para ser
estudada com facilidade, ela é uma das poucas sinapses do sistema
nervoso cujos detalhes da transmissão química foram bem
estudados. A formação e a liberação da acetilcolina nessa junção
ocorrem nos seguintes estágios:
1. Pequenas vesículas, com tamanho de cerca de 40 nanô- metros,
são formadas pelo aparelho de Golgi no corpo celular do
neurônio motor, na medula espinhal. Essas vesículas são então
transportadas pelo axoplasma, que “flui” pelo interior do
axônio, desde o corpo celular, na medula espinhal, até a junção
neuromuscular, nas terminações das fibras nervosas periféricas.
Cerca de 300.000 dessas pequenas vesículas se acumulam nos
terminais nervosos da única placa motora do músculo
esquelético.
2. A acetilcolina é sintetizada no citosol do terminal da fibra
nervosa e é imediatamente transportada através das
membranas das vesículas para seu interior, onde é armazenada
em forma altamente concentrada, com cerca de 10.000
moléculas de acetilcolina em cada vesícula.
3. Quando um potencial de ação chega ao terminal nervoso, ele
abre muitos canais de cálcio na membrana do terminal nervoso,
uma vez que esse terminal tem canais de cálcio controlados por
voltagem. Como resultado, a concentração do íon cálcio, no
interior do terminal, aumenta por cerca de 100 vezes, o que por
sua vez aumenta a velocidade de fusão das vesículas de
acetilcolina com a membrana do terminal por cerca de 10.000
vezes. Essa fusão faz com que muitas das vesículas se rompam,
permitindo a exocitose da acetilcolina para espaço sináptico.
Cerca de
125 vesículas são submetidas à exocitose a cada potencial de
ação. Depois de alguns milissegundos, a acetilcolina é clivada
pela acetilcolinesterase em íon acetato e em colina, e a colina é
reabsorvida ativamente pelo terminal neural e usada para
formar nova acetilcolina. Essa sequência de eventos ocorre em
período de 5 a 10 milissegundos.
4. O número de vesículas disponíveis na terminação nervosa é
suficiente para permitir a transmissão de apenas algumas
centenas de impulsos do nervo para o músculo. Portanto, para a
função contínua da junção neuromuscular, novas vesículas
precisam ser reformadas rapidamente. Em alguns segundos
após cada potencial de ação ter terminado, “pequenas
invaginações” aparecem na membrana do terminal nervoso,
causadas por proteínas contráteis na terminação nervosa,
especialmente a proteína clatrina; essa proteína está associada à
membrana nas áreas de fusão das vesículas originais. Em cerca
de 20 segundos, as proteínas se contraem e formam as
invaginações, que se separam para o lado interior da membrana,
e se transformam então em novas vesículas. Dentro de poucos
segundos mais, a acetilcolina é transportada para o interior
dessas vesículas e elas estão prontas para um novo ciclo de
liberação de acetilcolina.
Fármacos que Reforçam ou Bloqueiam a Transmissão
na Junção Neuromuscular
Fármacos que Estimulam a Fibra Muscular por
Ação Semelhante à da Acetilcolina. Muitas substâncias,
incluindo a metacolina, o carbacol e a nicotina, têm o mesmo efeito
que a acetilcolina sobre o músculo. A diferença entre esses fármacos
e a acetilcolina é que elas não são destruídas pela colinesterase ou
são destruídas tão lentamente que sua ação frequentemente persiste
por muitos minutos ou várias horas. Os fármacos atuam
provocando áreas localizadas de despo- larização da membrana da
fibra muscular na placa motora, onde estão localizados os
receptores de acetilcolina. Assim, a cada vez que a fibra muscular se
recupera de uma contração, essas áreas despolarizadas em virtude
do vazamento de íons iniciam novo potencial de ação, levando
dessa forma a estado de espasmo muscular.
Fármacos que Estimulam a Junção
Neuromuscular, Ina- tivando a Acetilcolinesterase.
Três fármacos, particularmente bem conhecidos, neostigmina,
fisostigmina e fluorofosfato de di-isopropil, inativam a
acetilcolinesterase nas sinapses, de forma que ela não mais hidrolisa
a acetilcolina. Dessa maneira, a cada impulso nervoso sucessivo,
mais acetilcolina se acumula e estimula repetidamente a fibra
muscular. Isso provoca espasmo muscular, mesmo quando poucos
impulsos nervosos alcançam o músculo. Infelizmente, isto também
pode causar morte por espasmo da laringe que sufoca o indivíduo.
A neoestigmina e a fisoestigmina se combinam com a
acetilcolinesterase para inativá-la por até várias horas, depois do
que elas se deslocam para que a esterase recupere sua atividade. De
forma inversa, o fluorofostato de di-isopropil, que funciona como
potente gás venenoso para os “nervos”, inativa a acetilcolinesterase
por semanas, o que o torna veneno particularmente letal.
Fármacos que Bloqueiam a Transmissão na
Junção Neuromuscular. O grupo de fármacos conhecidos
como fármacos curariformes pode impedir a passagem dos impul-
90
Capítulo 7 Excitação do Músculo Esquelético:Transmissão Neuromuscular e Acoplamento Excitação-Contração
sos da terminação nervosa para o músculo. Por exemplo, a
D-tubocurarina bloqueia a ação da acetilcolina nos receptores de
acetilcolina da fibra muscular, evitando assim o aumento da
permeabilidade dos canais de membrana muscular, suficiente para
iniciar o potencial de ação.
Miastenia Grave Causa Paralisia Muscular
A miastenia grave, que ocorre em cerca de uma em cada 20.000
pessoas, causa paralisia muscular devido à incapacidade das
junções neuromusculares transmitirem sinais suficientes das fibras
nervosas para as fibras musculares. Patologicamente, anticorpos
que atacam receptores de acetilcolina foram demonstrados no
sangue da maioria dos pacientes com miastenia grave. Assim,
acredita-se que a miastenia grave seja doença autoimune na qual
os pacientes desenvolveram anticorpos que bloqueiam ou
destroem seus próprios receptores para acetilcolina, na membrana
pós- sináptica da junção neuromuscular.
Qualquer que seja a causa, os potenciais da placa motora que
ocorrem nas fibras musculares são na maior parte muito fracos
para iniciar a abertura dos canais de sódio regulados pela
voltagem, de modo que a despolarização da fibra muscular não
ocorre. Se a doença for intensa o suficiente, o paciente morre de
paralisia — em particular, paralisia dos músculos respiratórios. Os
efeitos da doença podem ser melhorados por várias horas com
administração de neos- tigmina ou de algum outro fármaco
anticolinesterásico, que provoque o acúmulo de quantidades
maiores de acetilcolina que a normal no espaço sináptico. Em
alguns minutos, algumas das pessoas paralisadas podem recobrar
a atividade motora quase normal, até que nova dose de
neostigmina seja requerida poucas horas depois.
Potencial de Ação Muscular
Quase tudo o que foi discutido no Capítulo 5, com relação à
iniciação e à condução dos potenciais de ação nas fibras
nervosas, se aplica igualmente às fibras musculares
esqueléticas, exceto por diferenças quantitativas. Alguns
dos aspectos quantitativos dos potenciais musculares são
os seguintes:
1. Potencial de repouso da membrana: cerca de -80 a -90
milivolts nas fibras musculares esqueléticas — o mesmo
das grandes fibras nervosas mielinizadas.
de contração muscular, a corrente tem de penetrar
profundamente na fibra muscular até as proximidades das
miofibrilas. Isso se dá pela propagação dos potenciais de
ação pelos túbulos transversos (túbulos T), que penetram a
fibra muscular, de um lado a outro, como ilustrado na
Figura 7-5. Os potenciais de ação no túbulo T provocam
liberação de íons cálcio no interior da fibra muscular, na
vizinhança imediata das miofibrilas, e esses íons cálcio
causam então a contração. Este processo é chamado de
acoplamento excitação-contração.
Acoplamento Excitação-Contração
Túbulo Transverso — Sistema Retículo
Sarcoplasmático
A Figura 7-5 mostra miofibrilas circundadas pelo sistema
túbulos T-retículo sarcoplasmático. Os túbulos T são muito
pequenos e cursam transversalmente às miofibrilas. Eles
começam na membrana celular e penetram por toda a fibra
muscular. Não está demonstrado na figura o fato de que
esses túbulos se ramificam e formam planos inteiros de
túbulos T se entrelaçando entre as miofibrilas. Além disso,
os túbulos T se abrem para o exterior, no ponto de origem, como uma
invaginação da membrana celular. Dessa forma, eles se
comunicam com o líquido extracelular circundante da fibra
muscular, tendo eles próprios líquido extracelular em seu
lúmen. Em outras palavras, os túbulos T são de fato
extensões internas da membrana celular. Assim, quando
um potencial de ação se propaga pela membrana da fibra
muscular, a alteração do potencial também se propaga ao
longo dos túbulos T para o interior da fibra muscular. As
correntes elétricas que circundam esses túbulos T então
provocam a contração muscular.
A Figura 7-5 também mostra o retículo sarcoplasmático em
amarelo. Ele é composto por duas partes principais: (1)
grandes câmaras, denominadas cisternas terminais, que
fazem contato com os túbulos T, e (2) longos túbulos
longitudinais que circundam todas as superfícies das
miofibrilas que realmente se contraem.
Liberação dos íons Cálcio pelo Retículo
Sarcoplasmático
2. Duração do potencial de ação: 1 a 5 milissegundos no
músculo esquelético — cerca de cinco vezes mais
prolongado que nos grandes nervos mielinizados.
3. Velocidade de condução: 3 a 5 m/s — cerca de 1/13 da
velocidade de condução nas grandes fibras nervosas
mielinizadas que excitam o músculo esquelético.
Propagação do Potencial de Ação para o Interior
da Fibra Muscular por Meio dos "Túbulos
Transversos”
A fibra muscular esquelética é tão grande que o potencial
de ação na superfície quase não provoca fluxo de corrente
no interior da fibra. Contudo, para causar o máximo
Uma das características especiais do retículo
sarcoplasmático é que no interior de seus túbulos
vesiculares existe excesso de íons cálcio em alta
concentração, e muitos desses íons são liberados de cada
vesícula quando um potencial de ação ocorre em túbulo T
adjacente.
As Figuras 7-6 e 7-7 mostram que o potencial de ação do
túbulo T provoca fluxo de corrente para as cisternas do
retículo sarcoplasmático no ponto em que tocam o túbulo T.
À medida que o potencial de ação progride pelo túbulo T, a
variação da voltagem é detectada pelos receptores de
di-idropiridina, ligados aos canais de liberação de cálcio —
também chamados receptores de canal de rianodina —nas
cisternas adjacentes do retículo sar-
91
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
Sarcolema
Cisternas
terminais
Túbulo
transverso
Mitocôndria
Retículo
sarcoplasmático
Túbulo
transverso
Sarcotúbulos
Figura 7-5 Sistema túbulo transverso (T)-retículo sarcoplasmático. Observe que os túbulosT se comunicam com a parte externa da
membrana celular e, profundamente na fibra muscular, cada túbulo T se situa adjacente às extremidades dos túbulos longitudinais do
retículo sarcoplasmático que circundam as miofibrilas que de fato contraem. Esta ilustração foi desenhada do músculo de sapo que tem
um túbulo T por sarcômero localizado na linha Z. Um arranjo similar é encontrado no músculo cardíaco dos mamíferos; porém, o
músculo esquelético dos mamíferos tem dois túbulosT por sarcômero localizados nas junções das bandas A-l.
Figura 7-6 Acoplamento excitação-contração no músculo
esquelético. O painel superior mostra um potencial de ação no
túbulo T, que causa alteração conformacional no receptor sensor
de voltagem da di-idropiridina (DHP), abrindo os canais de
liberação de Ca++
nas cisternas terminais do retículo
sarcoplasmático, permitindo a rápida difusão do Ca++
para o
sarcoplasma e iniciando a contração. Durante a repolarização
(painel inferior) a alteração conformacional do receptor DHP fecha
os canais de liberação de Ca++
e o Ca++
é transportado do
sarcoplasma para o retículo sarcoplasmático, por bomba de cálcio
dependente de ATP.
Repolarização
92
Capítulo 7 Excitação do Músculo Esquelético:Transmissão Neuromuscular e Acoplamento Excitação-Contração
Figura 7-7 Acoplamento excitação-contração no músculo, mostrando (1) um potencial de ação que causa a liberação de íons cálcio
do retículo sarcoplasmático e, em seguida, (2) recaptação dos íons cálcio por uma bomba de cálcio.
coplasmático (Fig. 7-6). A ativação dos receptores de
di-idropiridina desencadeia a abertura dos canais de
liberação de cálcio das cisternas e em seus túbulos
longitudinais associados. Esses canais permanecem abertos
por poucos milissegundos, liberando cálcio para o sarco-
plasma que banha as miofibrilas e causando a contração,
como discutido no Capítulo 6.
A Bomba de Cálcio Remove os íons Cálcio do
Líquido Miofibrilar, depois da Contração. Uma vez
liberados dos túbulos sarcoplasmáticos, os íons cálcio se
difundem nos espaços entre as miofibrilas, provocando a
contração muscular que permanece enquanto a
concentração do íon continua elevada. Porém, uma bomba
de cálcio continuamente ativada, localizada nas paredes do
retículo sarcoplasmático, bombeia os íons cálcio para longe
das miofibrilas, de volta para os túbulos sarcoplasmáticos
(Fig. 7-6). Essa bomba pode concentrar os íons cálcio por
cerca de 10.000 vezes dentro dos túbulos. Além disso,
dentro do retículo existe proteína, chamada calsequestrina,
que pode quelar o cálcio, possibilitando o acúmulo do íon
em quantidade até 40 vezes maior que a quantidade
correspondente ao cálcio livre.
“Pulso" Excitatório de íons Cálcio. A concentração
normal de íons cálcio, no estado de repouso (< 10“7 molar),
no citosol que banha as miofibrilas é muito baixa para
provocar contração. Portanto, o complexo troponina-
tropomiosina mantém os filamentos actínicos inibidos e o
músculo no estado relaxado.
Inversamente, a excitação do túbulo T e do sistema
retículo sarcoplasmático provoca liberação de íons cálcio
suficiente para aumentar a concentração no líquido
miofibrilar para até 2 x 10“4 molar, aumento de 500 vezes,
que é cerca de 10 vezes o nível necessário para provocar
a contração muscular máxima. Em seguida, a bomba de
cálcio reduz outra vez a concentração dos íons cálcio. A
duração total desse “pulso” de cálcio, na fibra muscular
esquelética, é de cerca 1/20 de segundo, embora possa ser
muito maior em algumas fibras e muito menor em outras.
(No músculo cardíaco, o pulso de cálcio dura um terço de
segundo, por causa da longa duração do potencial de ação
cardíaco.)
Durante esse pulso de cálcio, ocorre a contração
muscular. Para a contração persistir sem interrupção por
longos intervalos, uma série de pulsos de cálcio tem de ser
iniciada por série contínua de potenciais de ação
repetitivos, como discutido no Capítulo 6.
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94
CAPITU LO 8
O
>
Excitação e Contração do
Músculo Liso
Contração do
Músculo Liso
Nos Capítulos 6 e 7, discu-
tiu-se o músculo esquelé-
tico. Discutiremos agora o
músculo liso, que é com-
posto por fibras bem menores — usualmente com diâ-
metros de 1 a 5 micrômetros e comprimentos de apenas
20 a 500 micrômetros. As fibras musculares esqueléticas
são até 30 vezes maiores no diâmetro e centenas de vezes
mais longas. Muitos dos mesmos princípios de contra-
ção se aplicam tanto ao músculo liso quanto ao músculo
esquelético. O mais importante é que essencialmente as
mesmas forças de atração entre os filamentos de miosina
e de actina causam a contração tanto no músculo liso
quanto no músculo esquelético; porém, o arranjo físico
interno das fibras musculares lisas é diferente.
Tipos de Músculos Lisos
O músculo liso de cada órgão se distingue dos da maioria
dos outros órgãos por vários aspectos: (1) dimensões
físicas, (2) organização em feixes ou folhetos, (3) resposta a
diferentes tipos de estímulos, (4) características da inerva-
ção e (5) função. Porém, com o propósito de simplificação,
o músculo liso pode ser dividido em dois grandes tipos,
que são mostrados na Figura 8-1: músculo liso multiuni- tário
e músculo liso unitário (ou de unidade única).
Músculo Liso Multiunitário. Este tipo de músculo liso
é composto por fibras musculares separadas e discretas.
Cada fibra opera independentemente das outras e, com
frequência, é inervada por uma só terminação nervosa,
como ocorre com as fibras musculares esqueléticas. Além
disso, as superfícies externas dessas fibras, como as das
fibras musculares esqueléticas, são recobertas por fina
camada de substância semelhante à da membrana basal,
uma mistura de colágeno e glicoproteínas que isola as
fibras umas das outras.
A característica mais importante das fibras musculares
lisas multiunitárias é que cada fibra se contrai
independentemente das outras, e o controle é exercido
principalmente
por sinais nervosos. Em contraste, a maior parte do
controle do músculo liso unitário é exercida por estímulos
não nervosos. Alguns exemplos de músculo liso
multiunitário são o músculo ciliar do olho, o músculo da
íris do olho e os músculos piloeretores que causam a ereção
dos pelos quando estimulados pelo sistema nervoso
simpático.
Músculo Liso Unitário. Este tipo é também chamado
de músculo liso sincicial ou músculo liso visceral. O termo
“unitário” provoca confusão porque não significa fibras
musculares isoladas. Ao contrário, significa massa de
centenas a milhares de fibras musculares lisas que se
contraem ao mesmo tempo, como uma só unidade. As
fibras estão em geral dispostas em folhetos ou feixes, e suas
membranas celulares são aderidas entre si, em múltiplos
pontos, de forma que a força gerada em uma fibra
muscular pode ser transmitida à seguinte. Além disso, as
membranas celulares são ligadas por muitas junções
comunicantes, pelas quais os íons podem fluir livremente de
uma célula para a seguinte, de forma que os potenciais de
ação ou o simples fluxo de íons, sem potenciais de ação,
podem passar de uma fibra para a seguinte e fazer com que
se contraiam em conjunto. Esse tipo de músculo
j
---------- - ----------
Pequena artéria
B Músculo liso unitário
Figura 8-1 Músculo liso multiunitário (A) e unitário (fi).
95
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
liso é também conhecido como músculo liso sincicial, por
causa das interconexões entre as fibras. Ele é também
chamado de músculo liso visceral porque é encontrado nas
paredes da maioria das vísceras do corpo, incluindo o trato
gastrointestinal, os duetos biliares, os ureteres, o útero e
muitos vasos sanguíneos.
Mecanismo Contrátil no Músculo Liso
Base Química para a Contração do Músculo Liso
O músculo liso contémfilamentos de actina e de miosina, com
características químicas semelhantes às dos filamentos de
actina e miosina do músculo esquelético, mas não contém o
complexo de troponina normal que é necessário para o
controle da contração do músculo esquelético; o
mecanismo de controle da contração é diferente nos dois
tipos de músculos. Isto é discutido em detalhes adiante,
neste capítulo.
Os estudos químicos mostraram que os filamentos de
actina e miosina, derivados do músculo liso, interagem uns
com os outros de modo semelhante ao que se dá no
músculo esquelético. Em ambos os tipos de músculos, o
processo contrátil é ativado por íons cálcio, e o trifosfato de
adenosina (ATP) é degradado a difosfato de adenosina
(ADP) para fornecer energia para a contração.
Existem, entretanto, importantes diferenças entre a
organização física do músculo liso e do músculo
esquelético, bem como diferenças no acoplamento
excitação- contração, controle do processo contrátil pelos
íons cálcio, duração da contração e quantidade de energia
necessária para a contração.
Base Física para a Contração do Músculo Liso
O músculo liso não tem a mesma disposição estriada dos
filamentos de actina e miosina encontrados no músculo
esquelético. Em vez disso, as técnicas de micrografia
eletrônica sugerem a organização física mostrada na Figura
8-2. Essa figura mostra grande número de filamentos de
actina ligados aos chamados corpos densos. Alguns desses
corpos estão ligados à membrana celular. Outros estão
dispersos no interior da célula. Alguns dos corpos densos,
na membrana de células adjacentes, estão conectados por
pontes de proteína intercelular. É principalmente por essas
conexões que a força da contração é transmitida de célula a
célula.
Entre os filamentos de actina na fibra muscular estão os
filamentos de miosina. Estes apresentam um diâmetro mais
de duas vezes maior que os filamentos de actina. Nas
micrografias eletrônicas encontram-se usualmente cinco a
10 vezes mais filamentos de actina que filamentos de
miosina.
À direita na Figura 8-2 está a estrutura hipotética de
unidade contrátil individual na célula do músculo liso,
mostrando grande número de filamentos de actina
irradiando-se de dois corpos densos; as extremidades
desses filamentos se superpõem a filamento de miosina,
localizado a meio caminho entre os corpos densos. Essa
unidade contrátil é semelhante à unidade contrátil do
Figura 8-2 Estrutura física do músculo liso. A fibra acima à
esquerda mostra filamentos de actina se irradiando dos corpos
densos. A fibra abaixo à esquerda e o diagrama à direita
mostram a relação entre filamentos de miosina e de actina.
músculo esquelético, porém sem a regularidade de sua
estrutura deste; de fato, os corpos densos do músculo liso
desempenham o mesmo papel que os discos Z no músculo
esquelético.
Existe outra diferença: a maioria dos filamentos de
miosina apresenta as chamadas pontes cruzadas “com
polarização lateral” disposta de forma que as pontes de um
lado se curvam em uma direção e as do outro lado dobram
na direção oposta. Isso permite que a miosina puxe os
filamentos de actina em uma direção de um lado, enquanto
simultaneamente puxa na direção oposta outros filamentos
de actina, no outro lado. O valor dessa disposição é que ela
permite que as células do músculo liso se contraiam por até
80% de seu comprimento, ao contrário do músculo
esquelético, nos quais as fibras estão limitadas à contração
de menos de 30%.
96
Capítulo 8 Excitação e Contração do Músculo Liso
Comparação entre a Contração do Músculo Liso e a
Contração do Músculo Esquelético
Enquanto a maioria dos músculos esqueléticos contrai e
relaxa rapidamente, a maior parte da contração do músculo
liso é uma contração tônica prolongada, durando às vezes
horas ou até mesmo dias. Portanto, espera-se que tanto as
características físicas quanto as químicas do músculo liso
difiram das do músculo esquelético. A seguir, algumas das
diferenças são discutidas.
Baixa Frequência de Ciclos das Pontes Cruzadas de
Miosina. A frequência dos ciclos das pontes cruzadas de
miosina no músculo liso — isto é, sua ligação com a actina,
seguida por desligamento e religamento para o novo ciclo
— é muito, muito mais baixa no músculo liso que no
músculo esquelético; de fato, a frequência é de 1/10 a
1/300 da do músculo esquelético. Ainda assim, acredita-se
que a fração de tempo em que as pontes cruzadas se mantêm
ligadas aos filamentos de actina, que é fator importante na
determinação da força de contração, seja bastante
aumentada no músculo liso. Possível razão para a baixa
frequência dos ciclos é que as cabeças das pontes cruzadas
apresentam menos atividade de ATPase do que no
músculo esquelético, de forma que a degradação do ATP,
que energiza os movimentos das cabeças das pontes
cruzadas, é reduzida com a correspondente baixa
velocidade dos ciclos.
Baixa Energia Necessária para Manter a Contração
do Músculo Liso. Apenas 1/10 a 1/300 da energia do
músculo esquelético são necessários para manter a mesma
tensão de contração no músculo liso. Acredita-se que isso
também seja o resultado do longo ciclo de conexão e
desconexão das pontes cruzadas e porque apenas uma
molécula de ATP é necessária para cada ciclo, a despeito de
sua duração.
Essa parcimônia na utilização de energia pelo músculo
liso é de muita importância para a economia energética
total do corpo porque órgãos como os intestinos, bexiga
urinária, vesícula biliar e outras vísceras com frequência
mantêm por tempo indefinido contração muscular tônica.
Lentidão do Início da Contração e do Relaxamento
do Tecido Muscular Liso Total. O tecido muscular liso
típico começa a contrair 50 a 100 milissegundos depois de
excitado, alcança a contração plena em cerca de 0,5
segundo e depois a força contrátil declina em 1 a 2
segundos, com tempo total de contração de 1 a 3 segundos.
Isto é cerca de 30 vezes mais prolongado, em média, que
uma só contração de uma fibra muscular esquelética.
Porém, como existem muitos tipos de músculo liso, a
contração de alguns tipos pode ser tão breve quanto 0,2
segundo ou tão prolongada quanto 30 segundos.
O lento início da contração do músculo liso, bem como
sua contração prolongada, são causados pela lentidão da
conexão e da desconexão das pontes cruzadas com os
filamentos de actina. Além disso, o início da contração, em
resposta aos íons cálcio, é muito mais lento que no músculo
esquelético, como discutido adiante.
A Força Máxima da Contração Geralmente É Maior
no Músculo Liso do que no Músculo Esquelético. A
despeito da quantidade relativamente pequena de
filamentos de miosina no músculo liso, e a despeito do
longo ciclo de tempo das pontes cruzadas, o máximo da
força de contração do músculo liso é frequentemente maior
que o do músculo esquelético — tão grande quanto 4 a 6
kg/cm2 de área transversa do músculo liso, em comparação
com 3 a 4 kg, no músculo esquelético. A grande força da
contração do músculo liso resulta do período prolongado
de conexão das pontes cruzadas de miosina com os
filamentos de actina.
O Mecanismo de "Trava” Facilita a Manutenção
Prolongada das Contrações do Músculo Liso. Uma vez
que o músculo liso tenha desenvolvido contração completa,
a quantidade de excitação continuada pode ser usualmente
reduzida a bem menos que o nível inicial e ainda assim o
músculo mantém sua força de contração. Além disso, a
energia consumida, para manter a contração, é
frequentemente minúscula, às vezes tão pouco quanto
1/300 da energia necessária para sustentar contração
comparável no músculo esquelético. Isso é chamado de
mecanismo de “trava” (ou cremalheira).
A importância do mecanismo de trava é que ele pode
manter a contração tônica prolongada no músculo liso por
horas com o uso de pouca energia. É necessário pequeno
sinal excitatório continuado das fibras nervosas ou de
fontes hormonais.
Estresse-Relaxamento do Músculo Liso. Outra
importante característica do músculo liso, especialmente
do tipo unitário visceral de muitos órgãos ocos, é sua
capacidade de restabelecer quase a mesmaforça original de
contração, segundos ou minutos depois de ter sido
alongado ou encurtado. Por exemplo, aumento súbito do
volume de líquido na bexiga urinária, distendendo o
músculo liso na parede do órgão, provoca aumento
imediato da pressão na bexiga. Entretanto, nos seguintes 15
segundos a 1 minuto, apesar do estiramento continuado da
parede da bexiga, a pressão retorna quase que exatamente
ao nível original. Então, quando o volume é aumentado por
outra etapa, o mesmo efeito ocorre outra vez.
Ao contrário, quando o volume é subitamente
diminuído, a pressão cai drasticamente no início, mas se
eleva ao nível original ou a valores muito próximos dele,
em alguns segundos ou minutos. Esses fenômenos são
chamados de estresse-relaxamento e estresse-relaxamento
reverso. Sua importância é que, exceto por curtos períodos
de tempo, eles permitem que o órgão oco mantenha quase a
mesma pressão no interior de seu lúmen, a despeito de
grandes e prolongadas alterações no volume.
Regulação da Contração pelos íons Cálcio
Como é verdade, para o músculo esquelético, o estímulo
inicial para a contração do músculo liso é o aumento
intracelular dos íons cálcio. Este aumento pode ser
causado, nos diferentes tipos de músculos lisos, por
estimulação nervosa da fibra muscular lisa, estimulação
hormonal,
97
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
estiramento da fibra ou, até mesmo, alteração química no
ambiente da fibra.
O músculo liso não contém troponina, a proteína
reguladora que é ativada pelos íons cálcio para provocar a
contração no músculo esquelético. Em vez disso, a
contração do músculo liso é ativada por mecanismo
inteiramente diferente, descrito a seguir.
Combinação dos íons Cálcio com a Calmodulina
para Ativar a Miosina Quinase e a Fosforilação da
Cabeça da Miosina. Em vez da troponina, as células
musculares lisas contêm outra proteína reguladora,
chamada calmodulina (Fig. 8-3). Embora essa proteína seja
similar à troponina, o modo pelo qual ela inicia a contração
é diferente do da troponina. A calmodulina o faz ativando
as pontes cruzadas da miosina. Essa ativação e a contração
subsequente ocorrem na seguinte sequência:
1. Os íons cálcio se ligam à calmodulina.
2. O complexo calmodulina-cálcio em seguida se une à
miosina e ativa a miosina-quinase, enzima fosfolativa.
3. Uma das cadeias leves de cada cabeça de miosina,
chamada cadeia reguladora, é fosforilada em resposta a
essa miosina-quinase. Quando essa cadeia não está fos-
Cc
Externo ‘
V*
[ ------------------------
--
-- 1
I ------
r
DO ^
a++
lio > L/c
T
>
^—Calmodulina
Ca++
- Calmodulina
Ativa
MLCK
Inativa
.MLCK
Fosfatase
MLC MLC
Fosforilada Desfosforilada
l l
Contração Relaxamento
Figura 8-3 A concentração intracelular do íon cálcio [Ca++
]
aumenta quando o Ca++
entra na célula pelos canais de cálcio da
membrana celular ou do retículo sarcoplasmático (RS). O Ca++
se
liga a calmodulina para formar o complexo cálcio-cal- modulina
que em seguida ativa a cinase das cadeias leves da miosina do
músculo. Quando a concentração de Ca++
diminui, devido ao
bombeamento para fora da célula, o processo é revertido e a
miosina fosfatase remove o fosfato da MLC, causando
relaxamento.
forilada, o ciclo de conexão-desconexão da cabeça da
miosina com o filamento de actina não ocorre. Porém,
quando a cadeia reguladora é fosforilada, a cabeça
adquire a capacidade de se ligar repetidamente com o
filamento de actina e de desenvolver os ciclos de
“trações” intermitentes, o mesmo que ocorre no
músculo esquelético, e dessa forma provoca a contração
muscular.
A Miosina Fosfatase É Importante para o Fim da
Contração. Quando a concentração de íons cálcio cai
abaixo de seu nível crítico, o processo mencionado adiante
é revertido, exceto pela fosforilação da cabeça da miosina.
A desfosforilação é catalisada por outra enzima, a fosfatase
da miosina (Fig. 8-3), localizada nos líquidos da célula
muscular lisa que cliva o fosfato da cadeia leve reguladora.
Dessa forma, o ciclo se interrompe e a contração cessa. O
tempo necessário para o relaxamento da contração
muscular é portanto determinado, em grande parte, pela
quantidade de fosfatase de miosina ativa na célula.
Possível Mecanismo para a Regulação do Fenômeno
de Trava
Devido à importância do fenômeno de trava e por ele
permitir a manutenção a longo prazo do tônus, em muitos
órgãos com músculo liso, sem grande dispêndio de
energia, muitas tentativas têm sido feitas para explicá-lo.
Entre os muitos mecanismos que foram postulados, um
dos mais simples é o seguinte.
Quando as enzimas miosina-quinase e miosinofosfa-
tase das cabeças da miosina estão ambas muito ativadas, a
frequência dos ciclos das cabeças de miosina e a velocidade
de contração ficam aumentadas. Em seguida, com a
redução da ativação dessas enzimas, a frequência dos ciclos
diminui; porém ao mesmo tempo sua desativação permite
que as cabeças de miosina se mantenham ligadas ao
filamento de actina por fração cada vez mais longa da
proporção do ciclo. Portanto, o número de cabeças ligadas
ao filamento de actina em qualquer momento permanece
grande. Como o número de cabeças ligadas à actina
determina a força estática da contração, a tensão é mantida
ou “travada”; pouca energia é usada pelo músculo, porque
o ATP não é degradado à ADP, exceto na rara ocasião em
que a cabeça se desconecta.
Controles Nervoso e Hormonal da
Contração do Músculo Liso
Embora as fibras musculares esqueléticas sejam
estimuladas exclusivamente pelo sistema nervoso, o
músculo liso pode ser estimulado a contrair-se por
múltiplos tipos de sinais: pelos sinais nervosos, por
estímulo hormonal, por estiramento do músculo e de
várias outras maneiras. A razão principal para essa
diferença é que a membrana do músculo liso contém
muitos tipos de receptores pro-
98
teicos que podem iniciar o processo contrátil. Outros
receptores proteicos inibem a contração do músculo liso, o
que é outra diferença em relação ao músculo esquelético.
Nesta seção, discutimos o controle nervoso da contração do
músculo liso, seguido pelo controle hormonal e outros
modos de controle.
Junções Neuromusculares do Músculo Liso
Anatomia Fisiológica das Junções Neuromusculares
do Músculo Liso. As junções neuromusculares dos tipos
altamente estruturados das fibras do músculo esquelético
não ocorrem no músculo liso. Ao contrário, as fibras nervosas
autônomas que inervam o músculo liso geralmente se
ramificam difusamente na extremidade superior do folheto
de fibras musculares, como demonstrado na Figura 8-4. Na
maioria dos casos, essas fibras não fazem contato direto
com a membrana celular das fibras musculares lisas, mas
formam as chamadas junções difusas que secretam a
substância transmissora na matriz que recobre o músculo
liso, frequentemente alguns nanô- metros a alguns
micrômetros distantes das células musculares; a substância
transmissora se difunde então para as células. Além disso,
onde há muitas camadas de células musculares, as fibras
nervosas inervam frequentemente apenas a camada
externa. A excitação muscular passa dessa camada externa
para as internas, por condução do potencial de ação pela
massa muscular ou por difusão da substância transmissora.
Os axônios que inervam as fibras musculares lisas não
apresentam a ramificação típica e as terminações do tipo
que ocorre na placa motora nas fibras musculares
esqueléticas. Nas fibras lisas, a maioria dos terminais
axonais finos apresenta múltiplas varicosidades, distribuídas
ao longo de seus eixos. Nesses pontos, as células de Schwann
que envelopam os axônios são interrompidas para que a
substância transmissora possa ser secretada através das
paredes das varicosidades. Nas varicosidades,
encontram-se vesículas similares às encontradas na placa
motora do músculo esquelético que contém substância
transmissora. Porém, diferentemente das vesículas das
junções musculares esqueléticas, que sempre contêm
acetilcolina, as vesículas das terminações das fibras ner-
Junções
comunicantes
Varicosidades
Visceral Multiunitário
Figura 8-4 Inervação do músculo liso.
Capítulo 8 Excitação e Contração do Músculo Liso
vosas autônomas contêm acetilcolina em algumas fibras e
norepinefrina em outras — e ocasionalmente também outras
substâncias.
Em poucos casos, particularmente no músculo liso do
tipo multiunitário, as varicosidades estão separadas da
membrana da célula muscular por 20 a 30 nanômetros — a
mesma largura da fenda sináptica que ocorre na junção
muscular esquelética. Essas são chamadas junções de contato
e funcionam de modo parecido à da junção neuro-
muscular no músculo esquelético; a rapidez da contração
dessas fibras musculares lisas é consideravelmente maior
que a das fibras estimuladas pelas junções difusas.
Substâncias Transmissoras Excitatórias e Inibitó-
rias Secretadas na Junção Neuromuscular do Músculo
Liso. As substâncias transmissoras mais importantes
secretadas pelos nervos autônomos que inervam o músculo
liso são a acetilcolina e a norepinefrina, porém elas nunca são
secretadas pela mesma fibra nervosa. A acetilcolina é uma
substância transmissora excitatória para as fibras do
músculo liso em alguns órgãos, porém um transmissor
inibitório para o músculo liso em outros. Quando a
acetilcolina excita uma fibra muscular, a norepinefrina
ordinariamente a inibe. Ao contrário, quando a acetilcolina
inibe uma fibra, a norepinefrina usualmente a excita.
Mas qual o porquê destas respostas diferentes? A
resposta é que tanto a acetilcolina quanto a norepinefrina
excitam ou inibem o músculo liso inicialmente ligan- do-se
a receptores proteicos na superfície da membrana da célula
muscular. Alguns dos receptores proteicos são receptores
excitatórios, enquanto outros são receptores inibitórios. Assim,
o tipo de receptor determina se o músculo liso será inibido
ou excitado e também determina qual dos dois
transmissores, acetilcolina ou norepinefrina, causa
excitação ou inibição. Estes receptores são discutidos com
mais detalhes no Capítulo 60, sobre a função do sistema
nervoso autônomo.
Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação no
Músculo Liso
Potenciais de Membrana no Músculo Liso. A
voltagem quantitativa de potencial de membrana do
músculo liso depende da situação momentânea do
músculo. No estado normal de repouso, o potencial
intracelular é cerca -50 a -60 milivolts, que é cerca de 30
milivolts menos negativo que no músculo esquelético.
Potenciais de Ação no Músculo Liso Unitário. Os
potenciais de ação ocorrem no músculo liso unitário (tal
como o músculo visceral) do mesmo modo que no músculo
esquelético. Eles não ocorrem normalmente em muitos, se
não na maioria, dos músculos lisos do tipo multiunitário,
como se discute em seção subsequente.
Os potenciais de ação do músculo liso visceral ocorrem
em uma de duas formas: (1) potenciais em ponta ou
(2) potenciais de ação com platôs.
99
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
Potenciais em Ponta. Os potenciais de ação em ponta
típicos, como os observados no músculo esquelético,
ocorrem na maior parte dos tipos de músculo liso unitário.
A duração desse tipo de potencial de ação é de 10 a 50
milissegundos, como mostrado na Figura 8-5A. Tais
potenciais de ação podem ser desencadeados de vários
modos, por exemplo pela estimulação elétrica, pela ação de
hormônios sobre o músculo liso, pela ação de substâncias
transmissoras das fibras nervosas, pelo estiramento, ou
como resultado da geração espontânea na própria fibra
muscular, como discutiremos adiante.
Potenciais de Ação com Platôs. A Figura 8-5C mostra
o potencial de ação de músculo liso com platô. O início
desse potencial de ação é semelhante ao do potencial em
ponta. Entretanto, em vez da rápida repolarização da
membrana da fibra muscular, a repolarização é retardada
por várias centenas a até 1.000 milissegundos (1 segundo).
A importância do platô é que ele pode estar associado à
contração prolongada que ocorre em alguns tipos de
músculo liso, como o ureter, o útero, em certas condições, e
certos tipos de músculo liso vascular. (Este tipo de
potencial de ação também é observado nas fibras
musculares cardíacas que apresentam período prolongado
de contração, como discutido nos Capítulos 9 e 10.)
Os Canais de Cálcio São Importantes na Geração
do Potencial de Ação do Músculo Liso. A membrana
celular do músculo liso apresenta muito mais canais de
A Milissegundos B Segundos
°1
«
õ
>
-25-
i
-50-
---------1-------- 1 -------1-------- 1 ------- 1 ----
0 0,1 0,2 0,3 0,4
C Segundos
Figura 8-5 A, Potencial de ação típico do músculo liso (potencial
em ponta) desencadeado por estímulo externo. B, Potenciais em
ponta repetitivos, desencadeados por ondas elétricas rítmicas
que ocorrem espontaneamente no músculo liso da parede
intestinal. C, Potencial de ação com platô, registrado em fibra
muscular lisa do útero.
cálcio controlados por voltagem que o músculo esquelético,
porém poucos canais de sódio controlados por voltagem.
Dessa forma, o sódio participa pouco na geração do
potencial de ação na maioria dos músculos lisos.
Inversamente, o fluxo de íons cálcio, para o interior da fibra
é o principal responsável pelo potencial de ação. Isso ocorre
do mesmo modo autorregenerativo que o dos canais de
sódio nas fibras nervosas e nas fibras musculares
esqueléticas. Entretanto, os canais de cálcio se abrem muito
mais lentamente que os canais de sódio, e permanecem
abertos por tempo muito maior. Esse fato é o que provoca,
em larga medida, o platô prolongado do potencial de ação
de algumas fibras musculares lisas.
Outro importante aspecto da entrada dos íons cálcio nas
células durante o potencial de ação é que este íon age
diretamente sobre o mecanismo contrátil do músculo liso
para provocar a contração. Assim, o cálcio realiza duas
tarefas de uma só vez.
Potenciais de Onda Lenta no Músculo Liso Unitário
Podem Levar à Geração Espontânea de Potenciais de
Ação. Alguns músculos lisos são autoexcitatórios, isto é, os
potenciais de ação se originam nas próprias células
musculares lisas sem estímulo extrínseco. Esses potenciais
de ação estão frequentemente associados a ritmo em onda
lenta básico do potencial de membrana. A onda lenta típica,
em músculo liso visceral do intestino, é mostrada na Figura
8-5B. A onda lenta não é o potencial de ação, isto é, ela não
é processo autorregenerativo que se propaga
progressivamente pelas membranas das fibras musculares.
A onda lenta é propriedade local das fibras musculares
lisas que compõem a massa muscular.
A causa do ritmo em onda lenta é desconhecida. Uma
hipótese é que as ondas lentas sejam causadas pelo
aumento e pela diminuição do bombeamento de íons
positivos (provavelmente, íons sódio) para fora da
membrana da fibra muscular; isto é, o potencial de
membrana fica mais negativo quando o sódio é bombeado
rapidamente e menos negativo quando a bomba de sódio é
menos ativa. Outra hipótese é que a condutância, dada
pelos canais iônicos, aumente e diminua ritmicamente.
A importância das ondas lentas é que quando elas têm
amplitude suficiente podem iniciar potenciais de ação. As
próprias ondas lentas não causam contração muscular.
Porém, quando o pico do potencial de onda negativo
dentro da face interna da membrana celular aumenta, na
direção positiva, de -60 para cerca de -35 milivolts (o limiar
aproximado para provocar os potenciais de ação, na
maioria dos músculos lisos viscerais), o potencial de ação
se desenvolve e se propaga pela massa muscular e a
contração então ocorre. A Figura 8-5B demonstra esse
efeito, mostrando que a cada pico de onda lenta ocorrem
um ou mais potenciais de ação. Essas sequências
repetitivas de potenciais de ação desencadeiam a contração
rítmica da massa muscular lisa. Assim, as ondas lentas são
chamadas de ondas marca-passo. No Capítulo 62, veremos
que esse tipo de atividade marca-passo controla as
contrações rítmicas do intestino.
100
Excitação de Músculo Liso Visceral pelo Estira-
mento Muscular. Quando o músculo liso visceral
(unitário) é estirado o suficiente, usualmente são gerados
potenciais de ação espontâneos. Eles resultam da
combinação de (1) potenciais de onda lenta normais e (2)
diminuição da negatividade do potencial de membrana,
causada pelo próprio estiramento. Essa resposta ao estira-
mento faz com que a parede do intestino quando estirada
excessivamente se contraia automática e ritmicamente. Por
exemplo, quando o intestino está muito distendido, pelo
conteúdo intestinal, as contrações automáticas locais
formam frequentemente ondas peristálticas que movem o
conteúdo para fora da região distendida, usualmente em
direção ao ânus.
Despolarização do Músculo Liso Multiunitário Sem
Potenciais de Ação
As fibras musculares lisas do músculo multiunitário (tais
como o músculo da íris do olho ou o músculo piloeretor de
cada pelo) se contraem principalmente em resposta aos
estímulos nervosos. As terminações nervosas secre- tam
acetilcolina, no caso de alguns músculos lisos mul-
tiunitários, e norepinefrina, no caso de outros. Em ambos
os casos, as substâncias transmissoras provocam
despolarização da membrana da musculatura lisa e isso
por sua vez provoca a contração. Potenciais de ação,
usualmente, não se desenvolvem; a razão é que as fibras
são muito pequenas para gerar o potencial de ação. (Para
que potenciais de ação sejam desencadeados no músculo liso
unitário visceral, 30 a 40 fibras musculares lisas têm de ser
desporalizadas, simultaneamente, antes que aconteça um
potencial de ação autopropagado.) Nas pequenas células
musculares lisas, mesmo sem potencial de ação, a
despolarização local (chamada de potencial juncionat),
causada pela substância neurotransmissora, propaga-se
“eletroto- nicamente” por toda a fibra, o que basta para
causar a contração muscular.
Efeito dos Fatores Teciduais Locais e dos
Hormônios para Causar Contração do Músculo
Liso, Sem Potenciais de Ação
Muitas das contrações da fibra muscular lisa são iniciadas
por fatores estimuladores que agem diretamente sobre a
maquinaria contrátil do músculo liso, sem potenciais de
ação. Os dois tipos de fatores estimuladores não nervosos e
não associados a potencial de ação que estão
frequentemente envolvidos são (1) fatores químicos
teciduais locais e (2) vários hormônios.
Contração do Músculo Liso em Resposta a Fatores
Químicos Teciduais Locais. No Capítulo 17, discutimos o
controle da contração das arteríolas, meta-arteríolas e dos
esfíncteres pré-capilares. Os menores desses vasos têm
pouca ou nenhuma inervação. Ainda assim, o músculo liso
é muito contrátil, respondendo rapidamente às alterações
nas condições químicas locais no líquido intersticial
circundante.
Capítulo 8 Excitação e Contração do Músculo Liso
No estado normal de repouso, muitos desses pequenos
vasos sanguíneos permanecem contraídos. Porém, quando
é necessário fluxo sanguíneo extra para o tecido, múltiplos
fatores podem relaxar a parede do vaso, permitindo assim
o aumento do fluxo. Dessa maneira, potente sistema local
de controle por feedback controla o fluxo sanguíneo para a
área tecidual. Alguns dos fatores de controle específicos são
os seguintes:
1. A falta de oxigênio nos tecidos locais causa relaxamento
do músculo liso e, portanto, vasodilatação.
2. O excesso de dióxido de carbono causa vasodilatação.
3. O aumento na concentração de íons hidrogênio provoca
vasodilatação.
Adenosina, ácido lático, aumento na concentração de
íons potássio, diminuição na concentração dos íons cálcio e
aumento da temperatura corporal podem causar
vasodilatação local.
m
Efeitos dos Hormônios na Contração do Músculo
Liso. Muitos hormônios que circulam no sangue afeta em
algum grau a contração do músculo liso, e alguns
apresentam efeitos intensos. Entre os mais importantes
desses são norepinefrina, epinefrina, acetilcolina, angio- tensina,
endotelina, vasopressina, oxitocina, serotonina e histamina.
Um hormônio causa contração de um músculo liso
quando a membrana da célula muscular contém receptores
excitatórios controlados por hormônio. Ao contrário, o
hormônio provoca inibição se a membrana contiver
receptores inibitórios para o hormônio.
Mecanismos de Excitação ou Inibição do Músculo
Liso por Hormônios ou Fatores Teciduais Locais.
Alguns receptores hormonais na membrana do músculo
liso abrem canais para íons sódio ou cálcio e despolari- zam
a membrana, como ocorre após a estimulação nervosa.
Algumas vezes, o resultado é potencial de ação, ou a
amplificação de potenciais de ação que já estão ocorrendo.
Em outros casos, a despolarização ocorre sem potenciais de
ação, e essa despolarização permite que íons cálcio entrem
na célula, o que promove a contração.
A inibição, ao contrário, ocorre quando o hormônio (ou
outro fator tecidual) fecha os canais de sódio ou de cálcio e evita
o influxo desses íons positivos; a inibição também ocorre
quando canais de potássio normalmente fechados são abertos,
permitindo que os íons potássio se difundam para fora da
célula. Essas duas ações aumentam o grau de negatividade
no interior da célula muscular, estado chamado de
hiperpolarização, que inibe fortemente a contração muscular.
Algumas vezes a contração ou a inibição do músculo
liso é iniciada pelos hormônios sem causar qualquer
alteração direta do potencial de membrana. Nesses casos, o
hormônio pode ativar um receptor de membrana que não
abre os canais iônicos, mas que causa alteração interna na
fibra muscular, tal como a liberação de íons cálcio do
retículo sarcoplasmático intracelular; o
101
Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo
cálcio então induz a contração. Para inibir a contração,
outros mecanismos receptores ativam as enzimas ade- nilato
ciclase ou guanilato ciclase na membrana celular; as porções
dos receptores que fazem protrusão para o interior das
células estão acopladas a essas enzimas, levando à
formação do monofostato de adenosina cíclico (AMPc) ou
monofostato de guanosina cíclico (GMPc), chamados de
segundos mensageiros. O AMPc ou GMPc têm muitos efeitos,
um dos quais é o de alterar o grau de fosforilação de várias
enzimas que indiretamente inibem a contração. A bomba
que move os íons cálcio, do sarco- plasma para o retículo
sarcoplasmático, é ativada, bem como a bomba, na
membrana celular que move os íons cálcio para fora da
própria célula; esses efeitos reduzem a concentração de
íons cálcio no sarcoplasma, inibindo a contração.
Os músculos lisos apresentam considerável diversidade
no modo como iniciam sua contração ou o relaxamento, em
resposta a diferentes hormônios, neurotransmissores e
outras substâncias. Em alguns casos, a mesma substância
pode causar relaxamento ou contração dos músculos lisos
em diferentes localizações. Por exemplo, a norepi- nefrina
inibe a contração do músculo liso no intestino, porém
estimula a contração do músculo liso nos vasos sanguíneos.
Fonte dos íons Cálcio que Provocam Contração
Através da Membrana Celular e a partir do Retículo
Sarcoplasmático
Embora o processo contrátil no músculo liso como no
músculo esquelético seja ativado pelos íons cálcio, a fonte
dos íons cálcio é diferente. Diferença importante é que o
retículo sarcoplasmático, que fornece todos os íons cálcio
para a contração muscular esquelética, é pouco
desenvolvido na maioria dos músculos lisos. Ao contrário,
a maioria dos íons cálcio que provocam a contração entra
na célula muscular a partir do líquido extracelular no
momento do potencial de ação ou de outros estímulos. A
concentração de íons cálcio no líquido extracelular é maior
que IO-3 molar, em comparação com menos de 10“7 molar
no interior da célula muscular lisa; isso causa rápida
difusão dos íons do líquido extracelular para a célula
quando os canais de cálcio se abrem. O tempo necessário
para a difusão é em média 200 a 300 milisse- gundos e é
chamado de período de latência, antes que a contração
comece. Este período de latência é cerca de 50 vezes maior
no músculo liso em contração do que no músculo
esquelético.
Papel do Retículo Sarcoplasmático do Músculo
Liso.
A Figura 8-6 mostra vários túbulos sarcoplasmáticos pouco
desenvolvidos que se situam próximo à membrana celular,
em algumas células musculares lisas maiores. Pequenas
invaginações da membrana celular, chamadas cavéolas,
fazem contato com as superfícies desses túbulos. As
cavéolas sugerem um análogo rudimentar do sistema de
túbulos transversos do músculo esquelético.
Figura 8-6 Túbulos sarcoplasmáticos em grande fibra muscular
lisa mostrando suas relações com invaginações na membrana
celular, chamadas cavéolas.
Quando um potencial de ação é transmitido para as
cavéolas, acredita-se que ele provoque a liberação de íons
cálcio dos túbulos sarcoplasmáticos com que fazem
contato, da mesma maneira que os potenciais de ação nos
túbulos transversos no músculo esquelético provocam a
liberação dos íons cálcio dos túbulos sarcoplasmáticos
longitudinais no músculo esquelético. Em geral, quanto
mais extenso o retículo sarcoplasmático na fibra muscular
lisa, mais rapidamente ela se contrai.
O Efeito na Contração do Músculo Liso Depende
da Alteração da Concentração Extracelular do íon
Cálcio. Embora as alterações na concentração do íon cálcio
no líquido extracelular em relação à normal tenham pouco
efeito sobre a força de contração do músculo esquelético,
isto não é verdadeiro para a maior parte dos músculos
lisos. Quando a concentração dos íons cálcio, no líquido
extracelular, cai a cerca de 1/3 a 1/10 do normal, a
contração do músculo liso usualmente cessa. Portanto, a
força de contração do músculo liso é muito dependente da
concentração do íon cálcio no líquido extracelular.
Uma Bomba de Cálcio É Necessária para Causar
Relaxamento do Músculo Liso. Para provocar o
relaxamento do músculo liso, depois da contração, os íons
cálcio têm de ser removidos dos líquidos intracelulares.
Essa remoção é efetuada por bomba de cálcio que bombeia os
íons cálcio para fora da fibra muscular lisa de volta para o
líquido extracelular ou para o retículo sarcoplasmático, se
presente. Essa bomba é de ação lenta, em comparação com
a bomba de ação rápida do retículo sarcoplasmático no
músculo esquelético. Portanto, uma só contração do
músculo liso dura geralmente segundos em vez de
centésimos a décimos de segundo, como ocorre no músculo
esquelético.
102
Referências
Veja também as referências dos Capítulos 5 e 6.
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103
(página deixada intencionalmente em branco)
O Coração
9. O Músculo Cardíaco; o Coração como uma
Bomba e a Função dasValvas Cardíacas
10. Excitação Rítmica do Coração
11. O Eletrocardiograma Normal
12. Interpretação Eletrocardiográfica das
Anormalidades do Músculo Cardíaco e do
Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Veto
ri a l
13. Arritmias Cardíacas e sua Interpretação
Eletrocardiográfica
(página deixada intencionalmente em branco)
CAPÍTULO 9
O Músculo Cardíaco; o Coração como uma
Bomba e a Função das Valvas Cardíacas
Com este capítulo, come-
çaremos a discussão do
coração e do sistema cir-
culatório. O coração, ilus-
trado na Figura 9-1, é na
verdade formado por duas
bombas distintas: o coração
direito, que bombeia o sangue para os pulmões, e o cora-
ção esquerdo, que bombeia o sangue para os órgãos peri-
féricos. Por sua vez, cada um desses corações é bomba
pulsátil de duas câmaras, composta por um átrio e um
ventrículo. Cada átrio é fraca bomba de escova (primer
pump) para o ventrículo, ajudando a propelir o sangue
para seu interior. Os ventrículos, por sua vez, fornecem
a força de bombeamento principal que propele o sangue
através (1) da circulação pulmonar, partindo do ventrí-
culo direito, ou (2) da circulação periférica, do ventrículo
esquerdo.
Mecanismos especiais no coração promovem a sucessão
contínua de contrações cardíacas, chamadas ritmo cardíaco,
transmitindo potenciais de ação pelo músculo cardíaco,
causando os batimentos rítmicos do coração. Esse controle
rítmico será explicado no Capítulo 10. Neste capítulo,
explicaremos como o coração atua como bomba,
começando com as características especiais do coração em
si.
* % i •
Fisiologia do Músculo Cardíaco
O coração é composto por três tipos principais de músculo:
o músculo atrial, o músculo ventricular e as fibras
especializadas excitatórias e condutoras. Os tipos atrial e
ventricular de músculo contraem-se quase como os
músculos esqueléticos, mas com duração muito maior da
contração. As fibras excitatórias e de condução no entanto
só se contraem fracamente por conterem poucas fibras
contráteis, mas apresentam descargas elétricas rítmicas
automáticas, na forma de potenciais de ação, ou fazem a
condução desses potenciais de ação pelo coração,
representando sistema excitatório que controla os
batimentos rítmicos.
Anatomia Fisiológica do Músculo Cardíaco
A Figura 9-2 mostra a histologia típica do miocárdio,
demonstrando como fibras musculares cardíacas se
dispõem em malha ou treliça com as fibras se dividindo, se
recombinando e, de novo, se separando. Pode-se também
imediatamente observar a partir dessa figura que o
músculo cardíaco é estriado, como um típico músculo
esquelético. Além disso, o músculo cardíaco contém
miofibrilas típicas, com filamentos de actina e miosina, quase
idênticos aos encontrados nos músculos esqueléticos; esses
filamentos se dispõem lado a lado e deslizam juntos
durante as contrações, como ocorre nos músculos
esqueléticos (Capítulo 6). Mas em relação a outras
características o músculo cardíaco difere bastante do
esquelético, como veremos.
O Miocárdio como um Sincício. As áreas escuras que
cruzam as fibras miocárdicas na Figura 9-2 são referidas
como discos intercalados; elas são na verdade membranas
celulares que separam as células miocárdicas umas das
outras. Isto é, as fibras do músculo cardíaco são feitas
CABEÇA E EXTREMIDADE SUPERIOR
Veia cava
superior
Átrio direito Valva
pulmonar
Valva tricúspide
Ventrículo direito
Veia cava inferior
Aorta
Artéria pulmonar
Pulmões
T~
Veia pulmonar
Atrio esquerdo
Valva mitral
Valva aórtica
Ventrículo
esquerdo
TRONCO E EXTREMIDADE INFERIOR
Figura 9-1 Estrutura do coração e fluxo do sangue pelas câmaras
e valvas cardíacas.
107
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Unidade III O Coração
Figura 9-2 Caráter "sincicial” interconectando as fibras
musculares cardíacas.
de muitas células individuais, conectadas em série e em
paralelo umas com as outras.
Em cada disco intercalado, as membranas celulares se
fundem entre si, de modo a formarem junções “comuni-
cantes” permeáveis (gap junctions) que permitem rápida
difusão, quase totalmente livre, dos íons. Assim, do ponto
de vista funcional, os íons se movem com facilidade pelo
fluido intracelular, ao longo do eixo longitudinal das fibras
miocárdicas, com os potenciais de ação se propagando
facilmente de uma célula muscular cardíaca para outra,
através dos discos intercalados. Dessa forma, o miocárdio
forma sincício de muitas células musculares cardíacas, no
qual as células estão tão interconectadas que, quando uma
delas é excitada, o potencial de ação se espalha para todas,
propagando-se de célula a célula pela treliça de
interconexões.
O coração é na verdade composto por dois sincícios; o
sincício atrial, que forma as paredes dos dois átrios, e o
sincício ventricular, que forma as paredes dos ventrículos.
Os átrios são separados dos ventrículos por tecido fibroso
que circunda as aberturas das valvas atrioventriculares
(A-V), entre os átrios e os ventrículos. Normalmente, os
potenciais não atravessam essa barreira fibrosa para atingir
diretamente os ventrículos a partir do sincício atrial. Em
vez disso, eles são conduzidos por meio de sistema
especializado de condução, chamado feixe A-V, o feixe de
fibras condutoras, com alguns milímetros de diâmetro,
discutido em detalhes no Capítulo 10.
Essa divisão do músculo cardíaco em dois sincícios
funcionais permite que os átrios se contraiam pouco antes
da contração ventricular, o que é importante para a
eficiência do bombeamento cardíaco.
Potenciais de Ação no Músculo Cardíaco
O potencial de ação, registrado na fibra ventricular cardíaca
mostrado na Figura 9-3, tem em média 105 mili- volts, o
que significa que o potencial intracelular passa de valor
muito negativo, por volta de -85 milivolts entre os
batimentos, para valor ligeiramente positivo, em torno de
+20 milivolts, durante cada batimento. Após o potencial
Figura 9-3 Potenciais de ação rítmicos (em milivolts) de fibra de
Purkinje e de fibra muscular ventricular registrados por meio de
microeletrodos.
em ponta (spike) inicial, a membrana permanece despo-
larizada durante cerca de 0,2 segundo, exibindo um platô,
como mostrado na figura, ao qual se segue repolarização
abrupta. A presença desse platô no potencial de ação faz a
contração muscular ventricular durar até 15 vezes mais que
as contrações observadas no músculo esquelético.
O Que Causa o Potencial de Ação Prolongado e o
Platô? Neste ponto, deve-se perguntar: Por que o potencial
de ação miocárdico é tão longo, e por que ele apresenta o
platô, enquanto o do músculo esquelético não o tem? As
respostas biofísicas básicas a essas questões foram
apresentadas no Capítulo 5, mas serão resumidas também
aqui.
Pelo menos, duas grandes diferenças nas características
das membranas dos músculos cardíaco e esquelético
explicam o potencial de ação prolongado e o platô
encontrado no miocárdio. Primeiro, o potencial de ação do
músculo esquelético é causado quase que inteiramente pela
súbita abertura de grande quantidade dos chamados canais
rápidos de sódio, o que permite que número imenso de íons
sódio entre nas fibras do músculo esquelético vindo do
líquido extracelular. Esses canais são denominados
“rápidos” porque permanecem abertos apenas por alguns
milésimos de segundo e então se fecham de modo abrupto.
Ao final desse fechamento, ocorre a repolarização, e o
potencial de ação termina dentro de aproximadamente um
milissegundo.
No músculo cardíaco, o potencial de ação é originado pela
abertura de canais de dois tipos: (1) os mesmos canais
rápidos de sódio, tais quais nos músculos esqueléticos, e
(2) grupo completamente diferente de canais, os canais
lentos de cálcio que também são referidos como canais de
cálcio-sódio. Essa segunda população de canais difere dos
canais de sódio rápidos por serem mais lentos para se abrir,
e mais importante por continuarem abertos por vários
décimos de segundo. Durante esse tempo, grande
108
Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas
quantidade de íons cálcio e sódio penetra nas fibras mio-
cárdicas por esses canais mantendo o prolongado período
de despolarização, causando o platô do potencial de ação.
Além disso, os íons cálcio, entrando durante a fase de platô,
ativam o processo da contração muscular, diferentemente
dos íons cálcio que causam as contrações dos músculos
esqueléticos originados do retículo sarcoplas- mático
intracelular.
A segunda grande diferença entre os dois tipos
musculares em questão, que ajuda a explicar o potencial de
ação prolongado e o platô, é que imediatamente após o
início do potencial de ação a permeabilidade da membrana
celular miocárdica aos íons potássio diminui
aproximadamente por cinco vezes, efeito que não ocorre
nos músculos esqueléticos. Essa permeabilidade reduzida
ao potássio pode ser o resultado do influxo excessivo de
cálcio pelos canais de cálcio-sódio. Independentemente da
causa, a redução da permeabilidade ao potássio diminui a
saída dos íons potássio com carga positiva durante o platô
do potencial de ação e assim impede o retorno rápido do
potencial de ação para seu nível basal. Quando os canais de
cálcio-sódio lentos se fecham, ao final de 0,2-0,3 segundo, e
cessa o influxo de cálcio e sódio, a permeabilidade da
membrana aos íons potássio aumenta rapidamente; essa
perda rápida de potássio do interior da fibra provoca o
retorno imediato do potencial de membrana da fibra em
seu nível de repouso, encerrando assim o potencial de ação.
Velocidade da Condução do Sinal no Miocárdio. A
velocidade de condução do sinal excitatório do potencial de
ação, tanto nas fibras musculares atriais como nas ventriculares,
é de cerca de 0,3 a 0,5 m/s, ou aproximadamente 1/250 da
velocidade nas fibras nervosas mais calibrosas, ou ao redor
de 1/10 da velocidade nas fibras musculares esqueléticas.
A velocidade de condução no sistema condutor
especializado do coração — as fibras de Purkinje — chega a 4
m/s na maior parte do sistema, o que permite condução
razoavelmente rápida do sinal excitatório pelas diferentes
porções do sistema, como veremos no Capítulo 10.
Período Refratário do Miocárdio. O músculo
cardíaco, como todos os tecidos excitáveis, é refratário à
rees- timulação durante o potencial de ação. Assim, o
período refratário do coração é o intervalo de tempo
durante o qual o impulso cardíaco normal não pode
reexcitar área já excitada do miocárdio, como mostrado à
esquerda da Figura 9-4. O período refratário normal do
ventrí- culo é de 0,25 a 0,30 segundo, o que equivale
aproximadamente à duração do prolongado platô do
potencial de ação. Existe ainda o período refratário relativo de
cerca de 0,05 segundo, durante o qual é mais difícil excitar
o músculo do que nas condições normais, mas que ainda
assim pode ser excitado por impulso excitatório mais
intenso, como demonstrado pela contração “prematura” no
segundo exemplo da Figura 9-4. O período refratário do
músculo atrial é bem mais curto que o dos ventrículos
(cerca de 0,15 segundo para os átrios, comparado a 0,25 a
0,30 segundo para os ventrículos).
Segundos
Figura 9-4 Força da contração muscular ventricular mostrando
ainda a duração do período refratário e do período refratário
relativo, além dos efeitos de contração prematura. Note que as
contrações prematuras não produzem somação das ondas,
como observado no músculo esquelético.
Acoplamento Excitação-Contração — a Função
dos íons Cálcio e dos Túbulos
Transversos
O termo “acoplamento excitação-contração” refere-se ao
mecanismo pelo qual o potencial de ação provoca a
contração das miofibrilas. Isso já foi discutido para os
músculos esqueléticos no Capítulo 7. Mais uma vez,
existem diferenças desse mecanismo no miocárdio, que têm
efeitos importantes sobre as características das contrações
cardíacas.
Assim como no músculo esquelético, quando o
potencial de ação cursa pela membrana do miocárdio, o
potencial de ação se difunde para o interior da fibra
muscular, passando ao longo das membranas dos túbulos
transversos (T). O potencial dos túbulos T, por sua vez, age
nas membranas dos túbulos sarcoplasmáticos longitudinais
para causar a liberação de íons cálcio pelo retículo sarco-
plasmático no sarcoplasma muscular. Após alguns
milésimos de segundo, esses íons cálcio se dispersam para
as miofibrilas, quando catalisam as reações químicas que
promovem o deslizamento, um contra o outro, dos
filamentos de miosina e actina, produzindo assim a
contração muscular.
Até este ponto, o mecanismo de acoplamento
excitação-contração é o mesmo encontrado no músculo
esquelético, mas existe um segundo efeito muito diferente.
Além dos íons cálcio, liberados das cisternas do retículo
sarcoplasmático para o sarcoplasma, grande quantidade de
íons cálcio adicionais também se difunde para o
sarcoplasma, partindo dos próprios túbulos T no momento
do potencial de ação por canais dependentes de voltagem
na membrana de túbulos T (Fig. 9-5). A entrada de cálcio
ativa canais de liberação de cálcio, também chamados canais de
receptores de rianodina, na membrana do retículo
sarcoplasmático, o que desencadeia a liberação de cálcio
para o sarcoplasma. Em seguida, íons cálcio no
sarcoplasma interagem com a troponina para iniciar a
formação de pontes cruzadas (cross-bridges) e contração,
pelo mesmo princípio básico descrito para o músculo
esquelético no Capítulo 6.
109
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Unidade III O Coração
Fluido
extracelular
Ca++
Na+
y_______ i y -------- V
ííl
ATP
r
Contração
<
§
Relaxamento
pelo Ca++
Figura 9-5 Mecanismo de acoplamento excitação-contração e relaxamento do músculo cardíaco.
Sem esse cálcio adicional dos túbulos T, a força da
contração miocárdica ficaria consideravelmente reduzida,
pois o retículo sarcoplasmático do miocárdio é menos
desenvolvido que o do músculo esquelético e não
armazena cálcio suficiente para produzir a contração
completa. Por outro lado, os túbulos T do músculo cardíaco
têm diâmetro cinco vezes maior que os túbulos do músculo
esquelético, o que equivale a volume 25 vezes maior. Além
disso, no interior dos túbulos T existe em grande
quantidade mucopolissacarídeos com carga ele-
tronegativa que se ligam a íons cálcio, também em grande
quantidade mantendo-os sempre disponíveis para se
difundirem pelo interior das fibras do miocárdio, quando
ocorre o potencial de ação nos túbulos T.
A força da contração cardíaca depende muito da
concentração de íons cálcio nos líquidos extracelulares. Na
verdade, coração colocado em solução livre de cálcio
rapidamente para de bater. A razão para isso é que as
aberturas dos túbulos T passam diretamente através da
membrana da célula miocárdica para o espaço extracelular,
ao redor das células, permitindo que esse mesmo líquido
extracelular presente no interstício miocárdico circule pelos
próprios túbulos T. Consequentemente, a quantidade de
íons cálcio, no sistema de túbulos T (isto é, a
disponibilidade de íons cálcio para ocasionar a contração
cardíaca), depende em grande parte da concentração de
íons cálcio no líquido extracelular.
À guisa de comparação, a força da contração do
músculo esquelético quase não é afetada por mudanças
moderadas da concentração de cálcio no líquido
extracelular, pois as contrações desses músculos são
causadas quase inteiramente pelos íons cálcio liberados
pelo retículo sarcoplasmático no interior das fibras
musculares esqueléticas.
Ao final do platô do potencial de ação cardíaco, o
influxo de íons cálcio para o músculo cardíaco é
bruscamente interrompido, e os íons cálcio no sarcoplasma
são rapidamente bombeados de volta para fora das fibras
musculares, tanto para o retículo sarcoplasmático como
para o líquido extracelular dos túbulos T. O transporte de
cálcio de volta para o retículo sarcoplasmático é realizado
com o auxílio de bomba de cálcio-ATPase (Fig. 9-5). Os íons
cálcio são removidos da célula também por trocador de
sódio-cálcio. O sódio que entra na célula durante essa troca
é então transportado para fora da célula pela bomba de
sódio-potássio-ATPase. Como resultado, a contração cessa
até que ocorra novo potencial de ação.
Duração da Contração. O músculo cardíaco começa a se contrair
poucos milissegundos após o potencial de ação ter início e
continua a se contrair por alguns milissegundos após o final desse
potencial de ação. Assim, a duração da contração do miocárdio é
principalmente função da duração do potencial de ação, incluindo
o platô — por volta de 0,2 segundo, no músculo atrial, e 0,3
segundo, no músculo ventricular.
110
Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas
O Ciclo Cardíaco
O conjunto dos eventos cardíacos que ocorre entre o início
de um batimento e o início do próximo é denominado ciclo
cardíaco. Cada ciclo é iniciado pela geração espontânea de
potencial de ação no nodo sinusal, como será explicado no
Capítulo 10. Esse nodo está situado na parede lateral
superior do átrio direito, próximo da abertura da veia cava
superior, e o potencial de ação se difunde desse ponto
rapidamente por ambos os átrios e, depois, por meio do
feixe A-V para os ventrículos. Em virtude dessa disposição
especial do sistema de condução, ocorre retardo de mais de
0,1 segundo na passagem do impulso cardíaco dos átrios
para os ventrículos. Isso permite que os átrios se contraiam
antes dos ventrículos, bombeando assim sangue para o
interior dos ventrículos antes do começo da forte contração
ventricular. Assim, os átrios agem como bomba de escova
para os ventrículos; e os ventrículos por sua vez fornecem a
fonte principal de força para propelir o sangue pelo sistema
vascular do corpo.
Diástole e Sístole
O ciclo cardíaco consiste no período de relaxamento,
chamado diástole, durante o qual o coração se enche de
sangue, seguido pelo período de contração, chamado
sístole.
A duração total do ciclo cardíaco, incluindo a sístole e
diástole, é a recíproca da frequência cardíaca. Por exemplo,
se a frequência cardíaca é de 72 batimentos/min, a duração
do ciclo cardíaco é de 1/72 batimentos/min —
aproximadamente 0,0139 minuto por batimento, ou 0,833
segundo por batimento.
A Figura 9-6 mostra os diversos eventos que ocorrem no
lado esquerdo do coração durante o ciclo cardíaco. As três
curvas superiores mostram as variações da pressão na
aorta no ventrículo esquerdo e no átrio esquerdo,
respectivamente. A quarta curva representa as variações do
volume ventricular esquerdo; a quinta, o eletrocar-
diograma; e a sexta, um fonocardiograma, que é o registro
dos sons produzidos pelo coração — principalmente pelas
válvulas cardíacas — durante o bombeamento. É
especialmente importante que o leitor estude bem os
detalhes dessa figura e entenda as causas de todos os
eventos ilustrados.
Efeito da Frequência Cardíaca na Duração do Ciclo
Cardíaco. Quando a frequência cardíaca aumenta, a
duração de cada ciclo cardíaco diminui, incluindo as fases
de contração e relaxamento. A duração do potencial de
ação e o período de contração (sístole) também diminui,
mas não por percentual tão alto quanto na fase de
relaxamento (diástole). Na frequência cardíaca normal de
72 batimentos/min, a sístole abrange aproximadamente 0,4
de todo o ciclo cardíaco. Quando a frequência cardíaca é
três vezes maior que a normal, a sístole é aproximadamente
0,65 do ciclo cardíaco inteiro. Isso significa que o coração,
em frequência muito rápida, não permanece relaxado
tempo suficiente para permitir o enchimento completo das
câmaras cardíacas antes da próxima contração.
Relação do Eletrocardiograma com o Ciclo
Cardíaco
O eletrocardiograma da Figura 9-6 mostra as ondas P, Q, R,
S e T, que serão discutidas nos Capítulos 11, 12 e 13.
Relaxamento
isovolumétric
o
Figura 9-6 Eventos do ciclo cardíaco para o funcionamento do ventrículo esquerdo, mostrando as variações na pressão do átrio
esquerdo, na pressão do ventrículo esquerdo, na pressão da aorta, no volume ventricular, no eletrocardiograma e no fonocardiograma.
111
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Unidade III O Coração
Elas são voltagens elétricas geradas pelo coração e
registradas pelo eletrocardiógrafo na superfície do corpo.
A onda P é causada pela disseminação da despolari- zação
pelos átrios, e isso é seguido pela contração atrial, que
causa aumento discreto na curva de pressão imediatamente
após a onda P eletrocardiográfica.
Passado mais ou menos 0,16 segundo após o início da
onda P, as ondas QRS surgem como resultado da despola-
rização elétrica dos ventrículos, o que inicia a contração
ventricular e faz com que a pressão ventricular comece a
aumentar, como ilustrado na figura. Portanto, o complexo
QRS se inicia pouco antes do início da sístole ventricular.
Finalmente, vê-se a onda T ventricular no eletrocar-
diograma. Ela representa o estágio de repolarização dos
ventrículos quando suas fibras musculares começam a
relaxar. Portanto, a onda T surge pouco antes do final da
contração ventricular.
Função dos Átrios como Bombas de Escova
Normalmente, o sangue flui de forma contínua, vindo das
grandes veias para os átrios; cerca de 80% do sangue fluem
diretamente dos átrios para os ventrículos, mesmo antes da
contração atrial. Então, essa contração representa os 20%
adicionais para acabar de encher os ventrículos. Desse
modo, os átrios funcionam simplesmente como bomba de
escova {primer pump), que melhora a eficácia do
bombeamento ventricular por no máximo 20%. Entretanto,
o coração pode continuar operando, na maioria das
circunstâncias, mesmo sem esses 20% a mais de eficiência,
pois ele normalmente tem capacidade de bombear de 300%
a 400% a mais de sangue do que o necessário para o corpo,
nas condições de repouso. Assim, quando os átrios deixam
de funcionar a diferença dificilmente será notada, a menos
que a pessoa se exercite; sinais agudos de insuficiência
cardíaca podem por vezes então aparecer, principalmente
falta de ar.
Variações da Pressão nos Átrios — Ondas a, cev . Na curva da
pressão atrial, mostrada na Figura 9-6, observam-se três pequenas
elevações da pressão, denominadas ondas a, cev da pressão atrial.
A onda a é causada pela contração atrial. Normalmente, a
pressão atrial direita aumenta por 4 a 6 mmHg durante a
contração atrial, e a pressão atrial esquerda sobe por 7 a 8 mmHg.
A onda c ocorre quando os ventrículos começam a se contrair;
ela é causada, em parte, pelo ligeiro refluxo de sangue para os
átrios, no início da contração ventricular, mas principalmente pelo
abaulamento para trás das valvas A-V em direção aos átrios, em
virtude da pressão crescente nos ventrículos.
A onda v ocorre perto do final da contração ventricular; ela
resulta do lento fluxo de sangue das veias para os átrios, enquanto
as valvas A-V estão fechadas durante a contração dos ventrículos.
Então, quando essa contração termina, as valvas A-V se abrem,
permitindo que esse sangue atrial armazenado flua rapidamente
para os ventrículos, causando o desaparecimento da onda v.
Função dos Ventrículos como Bombas
Enchimento dos Ventrículos durante a Diástole.
Durante a sístole ventricular, grande quantidade de sangue
se acumula nos átrios direito e esquerdo, uma vez que as
valvas A-V estão fechadas. Dessa maneira, assim que a
sístole termina e as pressões ventriculares retornam aos
baixos valores diastólicos, as pressões moderadamente
altas que se desenvolveram nos átrios durante a sístole
ventricular forçam de imediato as valvas A-V a se abrirem,
como mostrado pelo aumento do volume ventricular
esquerdo na Figura 9-6. Esse é o chamado período de
enchimento rápido ventricular.
O período de enchimento rápido ocorre
aproximadamente durante o primeiro terço da diástole.
Durante o segundo terço, quantidade pequena de sangue
nas condições normais flui para os ventrículos, sendo esse o
sangue que continua a chegar aos átrios, vindo das veias,
fluindo diretamente para os ventrículos.
Durante o último terço da diástole, os átrios se
contraem, dando impulso adicional ao fluxo sanguíneo
para os ventrículos; isso responde por mais ou menos 20%
do enchimento ventricular total em cada ciclo cardíaco.
Esvaziamento Ventricular durante a Sístole
Período de Contração Isovolumétrica (Isométrica).
Imediatamente após o início da contração ventricular, a
pressão ventricular sobe, de modo abrupto, como mostrado
na Figura 9-6, fazendo com que as valvas A-V se fechem. É
necessário mais 0,02 a 0,03 segundo para que o ventrículo
gere pressão suficiente para empurrar e abrir as válvulas
semilunares (aórtica e pulmonar) contra a pressão nas
artérias aorta e pulmonar. Portanto, durante esse período
os ventrículos estão se contraindo mas não ocorre
esvaziamento. Esse é o chamado período de contração
isovolumétrica ou isométrica, significando que a tensão
aumenta no músculo, mas ocorre pouco ou nenhum
encurtamento das fibras musculares.
Período de Ejeção. Quando a pressão no interior do
ventrículo esquerdo aumenta até pouco acima de 80 mmHg
(e a pressão do ventrículo direito, pouco acima de 8
mmHg), a pressão ventricular força a abertura das valvas
semilunares. Imediatamente, o sangue começa a ser
lançado para diante, para as artérias, e cerca de 70% do seu
esvaziamento ocorrem durante o primeiro terço do período
de ejeção, e os 30% restantes do esvaziamento nos outros
dois terços do período. Assim, o primeiro terço é o
chamado período de ejeção rápida, e os demais dois terços,
período de ejeção lenta.
Período de Relaxamento Isovolumétrico
(Isométrico).
Ao final da sístole, o relaxamento ventricular começa de
modo repentino, fazendo com que as pressões intraven-
triculares direita e esquerda diminuam rapidamente. As
altas pressões nas artérias distendidas que acabaram de ser
cheias com o sangue vindo dos ventrículos contraídos
voltam a empurrar o sangue de volta para os ventrículos,
causando o fechamento das valvas aórtica e pulmonar.
Durante mais 0,03 a 0,06 segundo, o músculo ventricu-
112
Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas
lar continua a relaxar, mesmo que o volume não se altere,
originando o período de relaxamento isovolumétrico ou
isométrico. Durante esse período, as pressões intraventri-
culares diminuem rapidamente de volta aos valores dias-
tólicos. É então que as valvas A-V se abrem para iniciar
novo ciclo de bombeamento ventricular.
Volume Diastólico Final, Volume Sistólico Final e
Débito Sistólico. Durante a diástole, o enchimento normal
dos ventrículos aumenta o volume de cada um deles para
110 ou 120 mL. Esse volume é chamado volume diastólico
final. Então, à medida que os ventrículos se esvaziam
durante a sístole, o volume diminui por aproximadamente
70 mL, o que é chamado de débito sistólico (stroke volume). A
quantidade restante em cada ventrí- culo, de 40 a 50 mL, é
chamada volume sistólico final. A fração do volume final
diastólico que é impulsionada (ejetada) é denominada
fração de ejeção — e normalmente equivale a 60%.
Quando o coração se contrai fortemente, o volume
sistólico final pode chegar a volumes tão baixos quanto 10 a
20 mL. Da mesma maneira, quando grandes quantidades
de sangue chegam aos ventrículos durante a diástole, os
volumes diastólicos finais podem chegar a 150 ou 180 mL
no coração saudável. Pela capacidade de aumentar o
volume diastólico final e de diminuir o volume sistólico
final, o débito sistólico resultante pode ser aumentado até
valores acima do dobro do normal.
Funcionamento das Valvas
Valvas Atrioventriculares. As valvas A- V (tricúspide e
mitral) evitam o refluxo de sangue dos ventrículos para os
átrios durante a sístole, e as valvas semilunares {pulmonar e
aórtica) impedem o refluxo da aorta e das artérias
pulmonares para os ventrículos durante a diástole. Essas
valvas, mostradas na Figura 9-7 para o ventrículo
esquerdo, abrem e fecham passivamente. Isto é, elas se
Figura 9-7 Valvas mitral e aórtica (as valvas do ventrículo
esquerdo).
fecham quando o gradiente de pressão retrógrada força o
sangue de volta, e se abrem quando o gradiente de pressão
para diante leva o sangue à frente. Por razões anatômicas
para se fecharem, as valvas A-V, finas e membrano- sas
quase não requerem pressão retrógrada, enquanto as
semilunares muito mais pesadas requerem fluxo
retrógrado rápido por alguns milissegundos.
Função dos Músculos Papilares. A Figura 9-7 mostra
também os músculos papilares ligados aos folhetos das
valvas A-V pelas cordas tendíneas. Os músculos papilares
contraem-se ao mesmo tempo que as paredes dos
ventrículos, mas ao contrário do que seria esperado não
ajudam as valvas a se fechar. Em vez disso, eles puxam as
extremidades das valvas em direção aos ventrículos para
evitar que as valvas sejam muito abauladas para trás, em
direção aos átrios, durante a contração ventricular. Se uma
corda tendínea se romper, ou um dos músculos papilares
ficar paralisado, a valva se abaúla muito para trás durante a
sístole, às vezes tanto que permite grave refluxo, resultando
em insuficiência cardíaca grave ou até mesmo letal.
Valvas das Artérias Pulmonar e Aórtica. As valvas
semilunares aórtica e pulmonar funcionam de modo
diferente das valvas A-V. Primeiro, as altas pressões nas
artérias, ao final da sístole, fazem com que as valvas sejam
impelidas, de modo repentino, de volta à posição fechada,
de forma muito diferente do fechamento mais suave das
valvas A-V. Segundo, por terem aberturas menores, a
velocidade da ejeção do sangue através das valvas aórtica e
pulmonar é muito maior que pelas valvas A-V, bem
maiores. Além disso, por causa da abertura e do fluxo
rápidos, as extremidades das valvas semilunares são
sujeitas a abrasões mecânicas muito maiores do que as
valvas A-V. Finalmente, as valvas A-V são contidas pela
cordoalha tendínea, o que não ocorre com as semilunares. É
claro, a partir da anatomia das valvas aórtica e pulmonar
(como mostrado pela representação da valva aórtica, na
parte de baixo da Fig. 9-7), que elas devem ser constituídas
por tecido fibroso especialmente forte, mas ainda assim
muito flexível para suportar o estresse físico adicional.
Curva da Pressão Aórtica
Quando o ventrículo esquerdo se contrai, a pressão
ventricular aumenta rapidamente até que a valva aórtica se
abra. Então, após sua abertura, a pressão no ventrículo se
eleva bem mais lentamente, como mostrado na Figura 9-6,
pois o sangue já flui de imediato do ventrículo para a aorta
e de lá para as artérias sistêmicas de distribuição.
A entrada de sangue nas artérias faz com que suas
paredes sejam distendidas, e a pressão sobe para
aproximadamente 120 mmHg.
Em seguida, ao final da sístole, quando o ventrículo
esquerdo para de ejetar sangue e a valva aórtica se fecha, as
paredes elásticas das artérias mantêm a pressão elevada
nessas artérias mesmo durante a diástole.
A chamada incisura ocorre na curva de pressão aórtica
no momento em que a valva aórtica se fecha. Ela é cau-
113
Unidade III O Coração
sada pelo breve período de fluxo sanguíneo retrógrado,
imediatamente antes do fechamento valvar, seguido pela
cessação abrupta desse refluxo.
Após o fechamento da valva aórtica, a pressão na aorta
cai vagarosamente durante a diástole, pois o sangue
armazenado nas artérias distendidas flui de forma
contínua para os vasos periféricos, até retornar às veias.
Antes que o ventrículo se contraia de novo, a pressão
aórtica, nas condições normais, cai para cerca de 80 mmHg
(pressão diastólica), o que equivale a dois terços da pressão
máxima de 120 mmHg (pressão sistólica), que é medida na
aorta durante a contração ventricular.
As curvas de pressão no ventrículo direito e na artéria
pulmonar são semelhantes às obtidas no ventrículo
esquerdo e na aorta, a não ser pelos valores das pressões de
apenas um sexto dos valores dos equivalentes esquerdos,
como será discutido no Capítulo 14.
Relação entre os Sons Cardíacos e o Bombeamento
Cardíaco
Ao auscultar o coração com o estetoscópio, não se ouve a abertura
das valvas, por ser processo relativamente vagaroso e que
normalmente não produz sons. Porém, quando essas valvas se
fecham, os folhetos valvares e os líquidos que as banham vibram
sob a influência da variação abrupta da pressão, originando sons
que se disseminam em todas as direções do tórax.
Quando os ventrículos se contraem, ouve-se primeiro o som
causado pelo fechamento das valvas A-V. Essa vibração tem
timbre baixo e duração relativamente longa, e é chamada de
primeiro som cardíaco (ou primeira bulha). Quando as valvas
aórtica e pulmonar se fecham, ao final da sístole, ouve-se rápido
estalido por elas se fecharem rapidamente e os tecidos
circundantes vibrarem por curto período. Esse é então o segundo
som cardíaco (segunda bulha). As causas precisas dos sons
cardíacos serão discutidas em detalhes no Capítulo 23, em relação
à ausculta dos sons com o estetoscópio.
Produção de Trabalho pelo Coração
O trabalho sistólico do coração (stroke work output) é a
quantidade de energia que o coração converte em trabalho a cada
batimento, ao bombear o sangue para as artérias. O trabalho
sistólico-minuto (minute work output) é a quantidade total de
energia convertida em trabalho em 1 minuto, ou seja, o resultado
do trabalho produzido multiplicado pelo número de batimentos
por minuto (ou frequência cardíaca).
A produção cardíaca de trabalho tem dois componentes. O
primeiro que consome a maior parte da energia é utilizado para
propelir o sangue do sistema venoso, de baixas pressões, para o
arterial, de pressões elevadas. Esse é referido como trabalho
volume-pressão ou trabalho externo. O segundo componente que
consome quantidade mínima de energia é utilizado para acelerar o
sangue até sua velocidade de ejeção, pelas valvas aórtica e
pulmonar (vencer a inércia). Esse é o componente de energia
cinética do fluxo sanguíneo da produção de trabalho pelo coração.
A produção externa de trabalho pelo ventrículo direito tem
normalmente um sexto do valor medido no ventrículo esquerdo
por causa das diferenças de seis vezes entre as pressões diastólicas
dos dois ventrículos. A produção de trabalho adicional de cada
ventrículo, necessária para criar a energia cinética do fluxo
sanguíneo, é proporcional à massa de sangue ejetado, multiplicada
pelo quadrado da velocidade de ejeção.
Geralmente, a produção de trabalho do ventrículo esquerdo
necessária para criar a energia cinética do fluxo sanguíneo é de
apenas, aproximadamente, 1% da produção de trabalho total do
ventrículo e, assim, é ignorado no cálculo do resultado da produção
de trabalho total. Mas, em certas circunstâncias anormais, como na
estenose aórtica, em que o sangue flui com grande velocidade pela
valva estenosada, mais de 50% do trabalho total produzido pode
ser despendido para gerar a energia cinética do fluxo sanguíneo.
Análise Gráfica do Bombeamento Ventricular
A Figura 9-8 apresenta diagrama que é útil, principalmente, para
explicar a mecânica do bombeamento do ventrículo esquerdo. Os
componentes mais importantes desse diagrama são as duas curvas
denominadas “pressão diastólica” e “pressão sistólica”. Elas são
curvas da relação volume-pressão.
A curva de pressão diastólica é determinada pelo enchimento
do coração com volumes progressivamente crescentes de sangue,
medindo-se então a pressão diastólica imediatamente antes do
início da contração ventricular, que é a chamada pressão diastólica
final do ventrículo.
A curva de pressão sistólica é determinada pela medida da
pressão sistólica, durante a contração ventricular, para cada volume
de enchimento.
Observa-se que, até que o volume do ventrículo não contraído
ultrapasse o valor de 150 mL, a pressão “diastólica” não chega a
aumentar muito. Desse modo, até esse volume, o sangue pode fluir
facilmente do átrio para o ventrículo. Acima de 150 mL, a pressão
diastólica ventricular sobe rapidamente, em parte por causa do
tecido fibroso cardíaco, que não se dis-
Figura 9-8 Relação entre o volume do ventrículo esquerdo e a
pressão intraventricular durante a sístole e a diástole. Também
mostrado pelas linhas vermelhas espessas, é o "diagrama
volume-pressão”, retratando as variações do volume e da
pressão intraventriculares durante o ciclo cardíaco normal. EW,
trabalho externo efetivo.
114
Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas
Figura 9-9 "Diagrama de volume-pressão”, de-
monstrando mudanças no volume e pressão
intraventricular durante um ciclo cardíaco
simples
(linha vermelha). A área sombreada representa
rede de trabalho externo (EW) produzida pelo
ventrículo esquerdo durante o ciclo cardíaco.
tenderá mais, e em parte porque o pericárdio que envolve o coração
está praticamente em seu limite de volume.
Durante a contração ventricular, a pressão “sistólica” se eleva,
mesmo com volumes ventriculares baixos, e atinge o máximo com
volumes entre 150 e 170 mL. A partir daí, à medida que o volume
aumenta ainda mais, a pressão sistólica na realidade diminui sob
certas condições, como demonstrado pela porção descendente da
curva na Figura 9-8, pois, com grandes volumes como esses, os
filamentos de actina e miosina das fibras do músculo cardíaco
ficam afastados o suficiente para que a força da contração de cada
fibra seja menor que a ótima.
Vale reparar, de modo especial nessa figura, que a pressão
sistólica máxima para o ventrículo esquerdo normal fica entre 250 e
300 mmHg, mas isso pode variar bastante em função da força
cardíaca de cada pessoa e do grau de estímulo pela inervação
cardíaca. Para o ventrículo direito normal, a pressão sistólica
máxima fica entre 60 e 80 mmHg.
"Diagrama Volume-Pressão" durante o Ciclo Cardíaco; O
Trabalho Cardíaco. As linhas vermelhas na Figura 9-8 formam a
alça denominada diagrama volume-pressão do ciclo cardíaco para
o funcionamento normal do ventrículo esquerdo. Uma versão mais
detalhada da alça é mostrada na Figura 9-9. Essa alça é dividida em
quatro fases:
Fase I: Período de enchimento. Essa fase do diagrama inicia-se
com volume ventricular de aproximadamente 50 mL e pressão
diastólica de 2 a 3 mmHg. A quantidade de sangue que permanece
no coração, 50 mL, após a sístole anterior é chamada volume
sistólico final. À medida que o sangue venoso flui do átrio
esquerdo para o ventrículo, o volume ventricular normalmente
sobe para cerca de 120 mL, sendo esse o volume diastólico final, ou
seja, um aumento de 70 mL. Portanto, essa primeira fase é
representada pela linha “I” do diagrama volume-pressão, do ponto
A ao ponto B, com o
aumento de volume atingindo 120 mL, e a pressão diastólica
subindo para cerca de 5 a 7 mmHg.
Fase II: Período de contração isovolumétrica. Durante a
contração isovolumétrica, o volume do ventrículo não se altera pois
todas as válvulas estão fechadas. No entanto, a pressão no interior
do ventrículo aumenta até igualar a pressão na aorta, no valor de
aproximadamente 80 mmHg, como indicado pelo ponto C.
Fase III: Período de ejeção. Durante a ejeção, a pressão sistólica
aumenta ainda mais, uma vez que o ventrículo continua a se
contrair. Ao mesmo tempo, o volume do ventrículo diminui, pois a
valva aórtica agora já está aberta e o sangue flui do interior do
ventrículo para a aorta. Assim, a linha “III” ou “período de ejeção”
representa as mudanças do volume e da pressão sistólica durante
esse período de ejeção.
Fase IV: Período de relaxamento isovolumétrico. Ao final do
período de ejeção (ponto D), a válvula aórtica se fecha, e a pressão
ventricular retorna ao valor da pressão diastólica. A linha “IV”
demonstra essa diminuição da pressão intraventricular sem que
ocorra variação do volume. Assim, o ventrículo retorna ao ponto de
partida, com cerca de 50 mL de sangue residuais em seu interior e
sob pressão atrial de 2 a 3 mmHg.
O leitor bem familiarizado com os princípios de física
reconhecerá que a área delimitada por esse diagrama funcional
volume-pressão (área sombreada, demarcada como EW) representa
a produção efetiva de trabalho externo (net externai work output)
do ventrículo durante o ciclo de contração. Em estudos
experimentais da contração cardíaca, esse diagrama é empregado
para calcular a produção de trabalho pelo coração.
Quando o coração bombeia grandes quantidades de sangue, a
área do diagrama de trabalho se alarga muito. Ou seja, ela se
estende muito para a direita, pois o ventrículo se enche com mais
sangue durante a diástole; e se eleva mais, pois o
115
Unidade III O Coração
ventrículo se contrai com maior pressão; e normalmente se
prolonga mais para a esquerda, pois o ventrículo se contrai até
volume menor — especialmente se o ventrículo for estimulado à
maior atividade pelo sistema nervoso simpático.
Conceitos de Pré-carga e Pós-carga. Ao avaliar as
propriedades contráteis do coração, é importante
especificar o grau de tensão do músculo quando ele começa
a se contrair, que é a chamada pré-carga, e especificar a
carga contra a qual o músculo exerce sua força contrátil,
chamada pós-carga.
Para a contração cardíaca, a pré-carga é geralmente
considerada como a pressão diastólica final quando o
ventrículo está cheio.
A pós-carga do ventrículo é a pressão na aorta à saída do
ventrículo. Na Figura 9-8, isto corresponde à pressão
sistólica, descrita na fase III do diagrama volume-pressão.
(Às vezes, a pós-carga é praticamente considerada como a
resistência da circulação, em lugar da pressão.)
A importância dos conceitos de pré-carga e pós-carga é
atribuída principalmente ao fato de que, em muitas
condições funcionais anormais do coração ou da circulação,
a pressão durante o enchimento do ventrículo (pré- carga),
a pressão arterial contra a qual o ventrículo deve exercer a
contração (a pós-carga), ou ambas, podem estar seriamente
alteradas em relação ao normal.
Energia Química Necessária para a Contração
Cardíaca: O Uso de Oxigênio pelo Coração
O miocárdio, assim como os músculos esqueléticos, utiliza energia
química para realizar o trabalho de contração. Aproximadamente
70% a 90% dessa energia geralmente deriva do metabolismo
oxidativo dos ácidos graxos, com cerca de 10% a 30% vindo de
outros nutrientes, especialmente lactato e glicose. Assim, a
intensidade (ou velocidade) do consumo de oxigênio pelo coração
é medida excelente da energia química liberada enquanto o
coração realiza seu trabalho. As diferentes reações químicas que
liberam essa energia serão discutidas nos Capítulos 67 e 68.
Estudos experimentais mostraram que o consumo de oxigênio
do coração e o gasto de energia química durante a contração estão
diretamente relacionados à área sombreada total na Figura 9-8.
Essa porção sombreada consiste no trabalho externo (EW), como
explicado antes, e uma porção adicional chamada de energia
potencial, rotulado de PE. A energia potencial representa o
trabalho adicional que pode- ria ser realizado pela contração do
ventrículo se o ventrículo devesse esvaziar completamente todo o
sangue na sua câmara, a cada contração.
O consumo de oxigênio também tem sido demonstrado ser
quase proporcional à tensão que ocorre no músculo cardíaco
durante a contração, multiplicada pela duração do tempo que a
contração persiste, chamada de índice tensão-tempo. Pela tensão
ser alta quando a pressão sistólica é alta, correspondentemente
mais oxigênio é usado. Igualmente, quantidade maior de energia
química é gasta mesmo na pressão sistólica normal quando o
ventrículo direito é anormalmente dilatado por conta da tensão do
músculo cardíaco, durante
a contração, é proporcional à pressão vezes o diâmetro do
ventrículo. Isso se torna especialmente importante na insuficiência
cardíaca, quando o ventrículo cardíaco está dilatado e
paradoxalmente a quantidade de energia química, requerida para
determinada quantidade de rendimento de trabalho, é maior,
embora o coração esteja em insuficiência.
Eficiência da Contração Cardíaca. Durante a contração do
músculo cardíaco, a maior parte da energia química
consumida é convertida em calor e, em menor proporção,
em trabalho. A proporção entre a produção de trabalho e a
energia química total consumida é denominada eficiência de
contração cardíaca ou simplesmente eficiência cardíaca. A
eficiência máxima para o coração normal oscila entre 20% e
25%. Na insuficiência cardíaca, essa eficiência pode cair até
5% a 10%.
Regulação do Bombeamento Cardíaco
Quando a pessoa se encontra em repouso, o coração
bombeia apenas 4 a 6 litros de sangue por minuto. Durante
o exercício intenso, pode ser necessário que esse coração
bombeie de quatro a sete vezes essa quantidade. Os meios
básicos de regulação do volume bombeado são (1)
regulação cardíaca intrínseca, em resposta às variações no
aporte do volume sanguíneo em direção ao coração e
(2) controle da frequência cardíaca e da força de
bombeamento pelo sistema nervoso autonômico.
Regulação Intrínseca do Bombeamento Cardíaco
— o Mecanismo de Frank-Starling
No Capítulo 20, veremos que, na maioria das condições, a
quantidade de sangue bombeada pelo coração a cada
minuto em geral é determinada pelo volume de sangue que
chega ao coração pelas veias, o chamado retorno venoso.
Cada tecido periférico do corpo controla seu fluxo local de
sangue, e todos os fluxos locais se combinam e retornam
pelas veias para o átrio direito, compondo o retorno venoso.
O coração, por sua vez automaticamente bombeia esse
sangue que chegou até ele para as artérias, para que volte a
circular ao longo do circuito.
Essa capacidade intrínseca do coração de se adaptar a
volumes crescentes de afluxo sanguíneo é conhecida como
mecanismo cardíaco de Frank-Starling, em homenagem a Otto
Frank e Ernest Starling, dois grandes fisio- logistas do
século passado. Basicamente, o mecanismo de
Frank-Starling afirma que quanto mais o miocárdio for
distendido durante o enchimento, maior será a força da
contração e maior será a quantidade de sangue bombeada
para a aorta. Ou, em outras palavras: Dentro de limites
fisiológicos, o coração bombeia todo o sangue que a ele retorna
pelas veias.
Qual a Explicação do Mecanismo de Frank-Starling?
Quando quantidade adicional de sangue chega aos ventrí-
culos, o músculo cardíaco é mais distendido. Isso por sua
vez leva o músculo a se contrair com força aumentada,
116
Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas
pois os filamentos de miosina e actina ficam dispostos em
ponto mais próximo do grau ideal de superposição para a
geração de força. Assim, o ventrículo em função de seu
enchimento otimizado automaticamente bombeia mais
sangue para as artérias.
Essa capacidade do músculo distendido de se contrair
com maior produção de trabalho até seu comprimento
ideal é característica de todos os músculos estriados, como
já vimos no Capítulo 6, e não somente do miocárdio.
Quando ocorre aumento do volume de sangue, existe
ainda mais um mecanismo que amplifica o bombeamento,
além do efeito extremamente importante do aumento de
volume do miocárdio. A distensão das paredes do átrio
esquerdo aumenta diretamente a frequência cardíaca por
10% a 20%; isso também ajuda a aumentar a quantidade de
sangue bombeada a cada minuto, apesar dessa
contribuição ser bem mais modesta que a do mecanismo de
Frank-Starling.
Curvas de Função Ventricular
díaco. Ou seja, enquanto os ventrículos se enchem em
resposta a maiores pressões atriais, o volume de cada
ventrículo e a força da contração cardíaca também se
elevam, levando o coração a bombear maiores quantidades
de sangue para as artérias.
Controle do Coração pela Inervação Simpática e
Parassimpática
A eficácia do bombeamento cardíaco é também controlada
pelos nervos simpáticos e parassimpáticos (vagos) que
inervam de forma abundante o coração, como mostrado na
Figura 9-12. Para determinados níveis de pressão atrial, a
quantidade de sangue bombeada a cada minuto (o débito
cardíaco) com frequência pode ser aumentada por mais de
100% pelo estímulo simpático. E, por outro lado, o débito
pode ser diminuído até zero, ou quase zero, por estímulo
vagai (parassimpático).
Mecanismos de Excitação Cardíaca pelos Nervos
Simpáticos. Estímulos simpáticos potentes podem
aumentar a frequência cardíaca em pessoas adultas jovens,
Uma das melhores maneiras de expressar a capacidade
funcional dos ventrículos para bombear o sangue é por
meio das curvas de função ventricular, como mostrado nas
Figuras 9-10 e 9-11. A Figura 9-10 apresenta tipo de curva
denominada curva do trabalho sistólico. Repare que, à
medida que a pressão atrial aumenta em qualquer dos
lados do coração, o trabalho sistólico desse mesmo lado
também aumenta, até alcançar seu limite de capacidade de
bombeamento ventricular.
A Figura 9-11 mostra outro tipo de curva de função
ventricular, chamada curva do volume ventricular. As duas
curvas dessa figura representam a função de ambos os
ventrículos do coração humano, baseadas em dados
extrapolados a partir de animais inferiores. Quando se
elevam as pressões atriais esquerda e direita, o volume
ventricular por minuto respectivo também aumenta.
Assim, as curvas de função ventricular são outra maneira
de representar o mecanismo de Frank-Starling car
Figura 9-11 Curvas aproximadas do débito volumétrico
ventricular normal para os ventrículos direito e esquerdo de
corações humanos normais em repouso, conforme dados
extrapolados a partir de dados obtidos de cães e de humanos.
Trabalho sistólico Trabalho sistólico
Pressão média
de átrio esquerdo
(mmHg)
Pressão média
de átrio direito
(mmHg)
Figura 9-10 Curvas de função ventricular esquerda registrada
em cães, apresentando o trabalho sistólico ventricular como
função das pressões médias dos átrios direito e esquerdo.
(Curvas reconstruídas a partir de dados em Sarnoff SJ:
Myocardial contractility as described by ventricular function
curves. Physiol Rev 35:107, 1955.)
Figura 9-12 Inervação simpática e parassimpática do coração.
(Os nervos vagos cardíacos são nervos parassimpáticos.)
117
U
N
I
D
A
Unidade III O Coração
desde seu valor normal de 70 batimentos/min até 180 a 200
e raramente até 250 batimentos/min. Além disso, estímulos
simpáticos aumentam a força da contração cardíaca até o
dobro da normal, aumentando desse modo o volume
bombeado de sangue e aumentando sua pressão de ejeção.
Portanto, a estimulação simpática com frequência é capaz
de aumentar o débito cardíaco até seu dobro ou triplo, além
do aumento do débito, originado pelo mecanismo de
Frank-Starling, como já discutido.
Por outro lado, a inibição dos nervos simpáticos pode
diminuir moderadamente o bombeamento cardíaco da
seguinte maneira: sob circunstâncias normais, as fibras
nervosas simpáticas do coração têm descarga contínua,
mas em baixa frequência suficiente para manter o
bombeamento cerca de 30% acima do que seria sem a
presença de estímulo simpático. Assim, quando a atividade
do sistema nervoso simpático é deprimida até valores
abaixo do normal, ocorre a diminuição da frequência
cardíaca e da força de contração muscular ventricular,
diminuindo dessa forma o bombeamento cardíaco por até
30% abaixo do normal.
Estimulação Parassimpática (Vagai) do Miocárdio.
A forte estimulação das fibras nervosas parassimpáticas
dos nervos vagos do coração pode chegar a parar os
batimentos por alguns segundos, mas então o coração
usualmente “escapa” e volta a bater entre 20 e 40 vezes por
minuto, enquanto o estímulo parassimpático continuar.
Ainda mais, um estímulo vagai forte pode diminuir a força
de contração miocárdica por 20% a 30%.
As fibras vagais estão dispersas, em grande parte, pelos
átrios e muito pouco nos ventrículos, onde realmente
ocorre a geração da força de contração. Isso explica o fato
da estimulação vagai reduzir principalmente a frequência
cardíaca e não diminuir de modo acentuado a força de
contração. Mesmo assim, a combinação dos efeitos da
redução importante da frequência, com leve diminuição da
força de contração, pode diminuir o bombeamento
ventricular em 50% ou mais.
Efeito dos Estímulos Simpáticos e Parassimpáticos
na Curva da Função Cardíaca. A Figura 9-13 mostra
quatro curvas de função cardíaca. Elas são semelhantes às
curvas de função ventricular da Figura 9-11. Entretanto,
elas representam o funcionamento do coração como um
todo e não de um ventrículo isolado; elas mostram também
a relação entre a pressão do átrio direito no influxo ao
coração direito e o débito cardíaco na saída do sangue do
ventrículo esquerdo para a aorta.
As curvas da Figura 9-13 demonstram que, para
qualquer pressão atrial inicial, o débito cardíaco sobe
durante os maiores estímulos simpáticos e cai durante
estímulos parassimpáticos intensos. Essas variações do
débito, resultantes da estimulação do sistema nervoso
autônomo, resultam tanto das variações da frequência cardíaca
como das variações da força contrátil do coração, pois ambas se
alteram em resposta ao estímulo nervoso.
Figura 9-13 Efeitos de diferentes graus de estimulação
simpática e parassimpática sobre a curva de débito cardíaca.
Efeito dos íons Potássio e Cálcio
no Funcionamento Cardíaco
Na discussão dos potenciais de membranas, no Capítulo 5,
foi ressaltado que os íons potássio têm efeito acentuado
sobre os potenciais das membranas, e, no Capítulo 6, vimos
que os íons cálcio têm participação especialmente
importante na ativação do processo de contração muscular.
Desse modo, é de se esperar que a concentração de cada um
desses íons nos líquidos extracelulares tenha efeitos
importantes sobre o bombeamento cardíaco.
Efeitos dos íons Potássio. O excesso de potássio nos
líquidos extracelulares pode fazer com que o coração se
dilate e fique flácido, além de diminuir a frequência dos
batimentos. Grandes quantidades podem vir a bloquear a
condução do impulso cardíaco dos átrios para os
ventrículos pelo feixe A-V. A elevação da concentração de
potássio para apenas 8 a 12 mEq/L — duas a três vezes o
valor normal — pode provocar fraqueza tão acentuada e
ritmo de batimentos tão anormal que chegam a ser fatais.
Esses efeitos resultam, em parte, do fato da alta
concentração de potássio nos líquidos extracelulares
diminuir o potencial de repouso das membranas das fibras
miocárdicas, como explicado no Capítulo 5. Isto é, a alta
concentração de potássio, no fluido extracelular, despo-
lariza parcialmente a membrana celular, deixando o
potencial de membrana menos negativo. À medida que o
potencial de membrana diminui, a intensidade do potencial
de ação também diminui, o que faz as contrações do
coração serem progressivamente mais fracas.
Efeito dos íons Cálcio. O excesso de íons cálcio causa
efeitos quase opostos aos dos íons potássio, induzindo o
coração a produzir contrações espásticas. A causa disso é o
efeito direto dos íons cálcio na deflagração do processo
contrátil cardíaco, como explicado acima neste capítulo.
118
Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas
Figura 9-14 Constância do débito cardíaco até o valor da
pressão de 160 mmHg. Apenas quando a pressão arterial
aumenta além desse limite normal ocorre queda significativa do
débito cardíaco, em decorrência dessa sobrecarga de pressão.
O Aumento da Pressão Arterial (até Certo Limite)
não Reduz o Débito Cardíaco
Note pela Figura 9-14 que o aumento da pressão na aorta
não reduz o débito cardíaco até que se atinja o valor de
pressão arterial média de 160 mmHg. Em outras palavras,
isso equivale a dizer que, durante o funcionamento
cardíaco normal, com pressões sistólicas arteriais normais
(entre 80 e 140 mmHg), a determinação do débito cardíaco
é feita quase inteiramente pela facilidade com que o fluxo
sanguíneo se escoa através dos tecidos corpóreos que, por
sua vez, controlam o retorno venoso do sangue ao coração.
Esse é o principal assunto a ser abordado no Capítulo 20.
Referências
o
>
Por outro lado, a deficiência dos íons cálcio causa fla-
cidez cardíaca, semelhante à causada pelo aumento do
potássio. Felizmente, porém, os níveis de íons cálcio no
sangue normalmente são mantidos dentro de faixa bem
estreita. Assim, os efeitos cardíacos das concentrações
anormais de cálcio raramente se apresentam como uma
preocupação clínica.
Efeito da Temperatura no Funcionamento
Cardíaco
A temperatura corporal aumentada, como ocorre quando
alguém tem febre, provoca aumento muito importante da
frequência cardíaca às vezes até ao dobro do valor normal.
A diminuição da temperatura provoca queda da
frequência, caindo até a poucos batimentos por minuto,
quando a pessoa está próxima à morte por hipotermia, com
a temperatura corpórea entre 15° e 21°C. Provavelmente,
isso é decorrente do fato de o calor aumentar a
permeabilidade das membranas do músculo cardíaco aos
íons que controlam a frequência cardíaca, com resultante
aceleração do processo de autoestimulação.
Em geral, a força contrátil do coração é temporariamente
melhorada por aumentos moderados da temperatura,
como o que acontece durante o exercício, mas elevações
prolongadas da temperatura exaurem os sistemas
metabólicos do coração e podem acabar causando
fraqueza. Portanto, o funcionamento ótimo do coração
depende em grande parte do controle adequado da
temperatura corporal por seus mecanismos de controle,
explicados no Capítulo 73.
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119
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N
(página deixada intencionalmente em branco)
CAPÍTULO 10
Excitação Rítmica do Coração
O coração é dotado de sis-
tema especial para (1) gerar
impulsos elétricos rítmicos
que causam contrações rít-
micas do miocárdio e (2)
conduzir esses impulsos
rapidamente por todo o co-
ração. Quando esse sistema funciona normalmente, os
átrios se contraem aproximadamente um sexto de se-
gundo antes da contração ventricular, o que permite o
enchimento dos ventrículos, antes de bombearem o
sangue para os pulmões e para a circulação periférica.
Outra característica especial desse sistema é que ele
faz com que as diferentes porções do ventrículo se con-
traiam quase simultaneamente, o que é essencial para
gerar pressão, com o máximo de eficiência, nas câmaras
ventriculares.
Esse sistema rítmico e condutor do coração é suscetível
a danos por doenças cardíacas, especialmente à isquemia
dos tecidos cardíacos, por causa de circulação coronária
deficiente. O resultado com frequência é ritmo cardíaco
bizarro ou sequências anormais e contrações das câmaras
cardíacas, podendo muitas vezes afetar gravemente a
eficiência do bombeamento cardíaco, chegando até a causar
morte.
O Sistema Excitatório e Condutor Especializado
do Coração
A Figura 10-1 mostra o sistema especializado condutor e
excitatório do coração que controla as contrações. A figura
mostra o nodo sinusal (também chamado nodo sinoatrial
ou nodo S-A), no qual são gerados os impulsos rítmicos
normais; as vias internodais que conduzem os impulsos do
nodo sinusal ao nodo atrioventricular (nodo A-V); o
próprio nodo A-V, no qual os impulsos vindo dos átrios
são retardados antes de passar para os ventrículos; o feixe
A-V, que conduz os impulsos dos átrios para os
ventrículos, e os ramos direito e esquerdo do feixe de fibras
de Purkinje, que conduzem os impulsos cardíacos para
todas as partes dos ventrículos.
Nodo Sinusal (Sinoatrial)
O nodo sinusal (também denominado nodo sinoatrial) é uma
faixa pequena, achatada e elipsoide, de músculo cardíaco
especializado, com aproximadamente 3 milímetros de
largura por 15 milímetros de comprimento e 1 milímetro de
espessura. Está situado na parede posterolateral superior
do átrio direito, imediatamente abaixo e pouco lateral à
abertura da veia cava superior. As fibras desse nodo quase
não têm filamentos musculares contráteis, e tem cada uma
apenas 3 a 5 micrômetros de diâmetro, diferindo dos 10 a
15 micrômetros de diâmetro das fibras atriais musculares
que as circundam. Entretanto, as fibras do nodo sinusal se
conectam diretamente às fibras musculares atriais, de
modo que qualquer potencial de ação que se inicie no nodo
sinusal se difunde de imediato para a parede do músculo
atrial.
Ritmicidade Elétrica Automática das Fibras
Sinusais
Algumas fibras cardíacas têm a capacidade de autoexci-
tação, processo que pode causar descarga automática
rítmica e, consequentemente, contrações rítmicas. Isso é de
modo especial válido para as fibras do sistema condutor
especializado cardíaco, incluindo as fibras do nodo sinusal.
Por essa razão, o nodo sinusal controla normalmente a
frequência dos batimentos de todo o coração, como
veremos adiante neste capítulo. Primeiro, descreveremos
essa ritmicidade automática.
Mecanismos da Ritmicidade do Nodo Sinusal. A
Figura 10-2 mostra potenciais de ação, registrados no
interior de fibra do nodo sinusal, de três batimentos
cardíacos e como comparação apenas um potencial de ação
de fibra muscular ventricular. Note que entre as descargas
o “potencial de repouso da membrana” da fibra sinusal tem
negatividade de aproximadamente -55 a -60 milivolts,
comparada com -85 a -90 milivolts da fibra muscular
ventricular. A explicação para essa menor negatividade é
que as membranas celulares das fibras sinusais são por
natureza mais permeáveis ao cálcio e ao sódio, e as cargas
positivas desses íons que cruzam a membrana neutralizam
boa parte da negatividade intracelular.
121
U
N
I
D
A
Unidade III O Coração
Nodo
sinusal
Vias
internodais
Nodo A-V
Feixe A-V
Ramo
esquerdo
Ramo
direito
Figura 10-1 O nodo sinusal e o sistema de Purkinje do
coração, mostrando ainda o nodo A-V, as vias atriais internodais
e os ramos ventriculares.
Segundos
Figura 10-2 Descarga rítmica de fibra do nodo sinusal.
Comparação do potencial de ação do nodo sinusal com o de
fibra muscular ventricular.
Antes de tentar explicar a ritmicidade das fibras no-
dais sinusais, vamos relembrar o que foi discutido nos
Capítulos 5 e 9, mostrando que o miocárdio apresenta três
tipos de canais iônicos nas suas membranas que
desempenham papéis importantes para deflagrar as
variações da voltagem do potencial de ação. Eles são: (1)
canais rápidos de sódio, (2) canais lentos de sódio-cálcio e (3)
canais de potássio.
A abertura dos canais rápidos de sódio, durante poucos
décimos de milésimos de segundo, já é responsável pelo
potencial em ponta rápido do potencial de ação, observado
no músculo ventricular por causa da entrada rápida de
íons sódio positivos para o interior da fibra. Em seguida, o
“platô” do potencial de ação ventricular é originado em
sua grande parte pela abertura mais vagarosa dos canais de
sódio-cálcio lentos, durando aproximadamente 0,3
segundo. Por fim, a abertura dos canais de potássio
permite a difusão de grandes quantidades de íons positivos
de potássio para o exterior da fibra mus
cular, trazendo o potencial de membrana de volta a seu
nível de repouso.
Entretanto, existe diferença no funcionamento desses
canais nas fibras do nodo sinusal, pois o seu valor “de
repouso” é bem menos negativo — apenas -55 mili- volts
na fibra nodal, em lugar dos -90 milivolts na fibra muscular
ventricular. Nesse valor de -55 milivolts, os canais rápidos
de sódio já foram em sua maioria “inati- vados” o que
significa que ficaram bloqueados. A causa disso é que, a
qualquer momento em que o potencial da membrana esteja
menos negativo que os -55 milivolts, por mais do que
poucos milissegundos, as comportas de inativação na
membrana celular que fecham os canais de sódio se fecham
e assim se mantêm. Dessa maneira, só os canais lentos de
sódio-cálcio podem se abrir (isto é, serem “ativados”) e
assim deflagrar o potencial de ação. Como resultado, o
potencial de ação nodal atrial ocorre mais lentamente que o
potencial de ação do músculo ventricular. Além disso,
depois de ocorrer o potencial de ação, a volta do potencial
para seu estado negativo também ocorre lentamente,
diferentemente do retorno abrupto nas fibras ventriculares.
Autoexcitação das Fibras do Nodo Sinusal. Em
virtude da alta concentração de íons sódio no líquido
extracelu- lar por fora da fibra nodal, além do número
razoável de canais de sódio já abertos, os íons positivos de
sódio tendem a vazar para o interior dessas células. É por
isso que, entre os batimentos cardíacos, o influxo de sódio
positivamente carregado provoca lento aumento do
potencial de membrana de repouso em direção aos valores
positivos. Assim, como mostrado na Figura 10-2, o
potencial “de repouso” gradualmente aumenta e fica
menos negativo entre dois batimentos cardíacos. Quando o
potencial atinge o limiar de voltagem de cerca de -40
milivolts, os canais sódio-cálcio são “ativados” originando
o potencial de ação. Portanto, basicamente é o vazamento
inerente das fibras do nodo sinusal que causa a
autoexcitação.
Por que esse vazamento de íons sódio e cálcio não faz
com que essas fibras permaneçam continuamente des-
polarizadas? A resposta é que dois eventos que acontecem
durante o potencial de ação evitam que isso ocorra.
Primeiro, os canais sódio-cálcio se inativam (i. e., se fecham)
dentro de 100 a 150 milissegundos após sua abertura, e
segundo nesse mesmo tempo grande número de canais de
potássio se abre. Assim, o influxo de íons positivos (cálcio e
sódio) cessa, enquanto ao mesmo tempo, grandes
quantidades de íons positivos de potássio se difundem
para o exterior da fibra. Esses dois efeitos nega- tivam o
potencial de membrana que volta a seu valor de repouso e,
portanto, põe fim ao potencial de ação. Na sequência, os
canais de potássio permanecem abertos por mais alguns
décimos de segundo, permitindo temporariamente a saída
de cargas positivas do interior da célula, resultando em
excesso de negatividade dentro da fibra; esse fenômeno se
chama hiperpolarização. O estado de hiperpolarização leva
de início os valores do potencial de membrana “de
repouso” até cerca de -55 a -60 milivolts, quando termina o
potencial de ação.
122
Capítulo 10 Excitação Rítmica do Coração
Por que esse estado de hiperpolarização não se mantém
permanentemente? A explicação é que pelos próximos
décimos de segundo, após o fim do potencial de ação, cada
vez mais canais de potássio vão progressivamente se
fechando. O vazamento das cargas de sódio e cálcio para o
interior da célula mais uma vez desequilibra e ultrapassa o
efluxo de cargas de potássio, fazendo com que o potencial
“de repouso” se eleve mais uma vez para, por fim, atingir o
limiar de descarga do potencial, em torno de -40 milivolts.
E então todo o processo se reinicia: a autoexcitação causa o
potencial de ação, a recuperação do potencial de ação, a
elevação do potencial “de repouso” até o disparo e
finalmente a reexcitação que deflagra mais um ciclo. Esse
processo continua indefinidamente durante a vida de cada
pessoa.
As Vias Internodais e a Transmissão do Impulso
Cardíaco pelos Átrios
As extremidades das fibras do nodo sinusal conectam-se
diretamente ao tecido muscular atrial circundante. Assim,
potenciais de ação originados no nodo sinusal se propagam
para diante por essas fibras musculares atriais. Desse
modo, o potencial de ação se espalha por toda a massa
muscular atrial e, por fim, até o nodo A-V. A velocidade de
condução na maior parte do músculo atrial é de cerca de 0,3
m/s, mas a condução é mais rápida, de até 1 m/s em
diversas pequenas faixas de tecido atrial. Uma delas,
denominada banda interatrial anterior, cursa pelas paredes
anteriores dos átrios, alcançando o átrio esquerdo.
Adicionalmente, três outras pequenas faixas teciduais se
curvam pelas paredes anterior, lateral e posterior dos
átrios, terminando no nodo A-V. Elas estão representadas
nas Figuras 10-1 e 10-3 e são denominadas respectivamente
vias internodais anterior, média e posterior. A causa da maior
velocidade de condução nessas faixas é a presença de fibras
condutoras especializadas. Essas fibras se assemelham às
“fibras de Purkinje” ventriculares, de condução ainda mais
rápida, que serão discutidas adiante.
O Nodo Atrioventricular e o Retardo da Condução
do Impulso dos Átrios para os Ventrículos
O sistema condutor atrial é organizado de tal modo que o
impulso cardíaco não se propague dos átrios aos
ventrículos muito rapidamente; esse retardo permite que os
átrios se contraiam e esvaziem seu conteúdo nos
ventrículos antes que comece a contração ventricular. Os
responsáveis por esse retardo da transmissão para os
ventrículos são principalmente o nodo A-V e suas fibras
condutoras adjacentes.
O nodo A-V está situado na parede posterior do átrio
direito, imediatamente atrás da valva tricúspide, como
mostrado na Figura 10-1. A Figura 10-3 mostra diagrama
das diversas porções desse nodo, além das suas conexões
com as fibras das vias internodais atriais aferentes, e para
sua saída o feixe A-V. A figura também mostra os
intervalos de tempo aproximados, em frações de segundo,
Figura 10-3 Organização do nodo A-V. Os números
representam o intervalo de tempo desde a origem do impulso
no nodo sinusal. Os valores foram extrapolados para corações
humanos.
entre o início do impulso cardíaco no nodo sinusal, e a sua
subsequente chegada ao sistema do nodo A-V. Repare que
o impulso após percorrer as vias internodais atinge o nodo
A-V cerca de 0,03 segundo após sua origem sinusal. Então
ocorre retardo de cerca de 0,09 segundo no próprio nodo
A-V, antes que o impulso alcance a porção penetrante do
feixe A-V, pelo qual atinge os ventrículos. Retardo final, de
cerca de 0,04 segundo, ocorre nesse feixe penetrante, que é
composto por múltiplos e delgados fascículos que
atravessam o tecido fibroso que separa os átrios dos
ventrículos.
Assim, o retardo total no nodo A-V e no sistema do
feixe A-V é de aproximadamente 0,13 segundo. Isso,
somado ao retardo de 0,03 segundo, desde o nodo sinusal
até o nodo A-V, resulta em 0,16 segundo de retardo antes
que o impulso excitatório chegue finalmente ao tecido
contrátil ventricular.
Causa da Condução Lenta. A condução lenta, nas
fibras transicionais, nodais e do feixe penetrante A-V, é
explicada em grande parte pelo reduzido número de
junções comunicantes {gap junctions) entre as sucessivas
células das vias de condução, de modo que existe grande
resistência para a passagem de íons excitatórios de uma
fibra condutora para a próxima. Desse modo, é fácil
perceber por que cada célula é sucessivamente mais lenta
em sua ativação.
Transmissão Rápida no Sistema de Purkinje
Ventricular
A condução do nodo A-V, pelo feixe A-V, para os
ventrículos é feita pelas fibras de Purkinje especializadas.
Exceto em sua porção inicial, onde atravessam a barreira
fibrosa
123
Unidade III O Coração
A-V, elas têm características funcionais que são
praticamente opostas às das fibras do nodo A-V. São fibras
muito calibrosas, mesmo maiores que as fibras musculares
normais do ventrículo, e conduzem potenciais de ação com
velocidade de 1,5 a 4,0 m/s, cerca de seis vezes maior que a
do músculo ventricular comum e 150 vezes maior que a
velocidade de algumas das fibras do nodo A-V. Isso
permite a transmissão quase instantânea do impulso
cardíaco por todo o restante do músculo ventricular.
A transmissão rápida dos potenciais de ação, pelas
fibras de Purkinje, é creditada à permeabilidade muito alta
das junções comunicantes nos discos intercalados, entre as
sucessivas células que constituem as fibras de Purkinje.
Dessa maneira, os íons são facilmente transmitidos de uma
célula à próxima, aumentando a velocidade de
transmissão. As fibras de Purkinje também contêm muito
poucas miofibrilas, o que significa que elas pouco ou nada
se contraem durante a transmissão do impulso.
Transmissão Unidirecional pelo Feixe A-V. Uma
característica especial do feixe A-V é a incapacidade, exceto
em estados anormais, dos potenciais de ação de serem
conduzidos retrogradamente para os átrios a partir dos
ventrículos. Isso impede a reentrada de impulsos cardíacos
por essa via, dos ventrículos para os átrios, permitindo
apenas condução anterógrada dos átrios para os
ventrículos.
Além disso, deve ser lembrado que, exceto pelas fibras
do feixe A-V, os átrios e os ventrículos são completamente
separados por barreira fibrosa contínua, parte da qual é
mostrada na Figura 10-3. Essa barreira normalmente
funciona como isolante para evitar a passagem do impulso
dos átrios para os ventrículos por qualquer via que não a
anterógrada pelo próprio feixe A-V. (Em casos muito raros,
parte anormal do músculo atravessa a barreira fibrosa em
mais um ponto, além do feixe A-V. Nesses casos, o impulso
cardíaco pode reentrar nos átrios a partir dos ventrículos e
causar arritmias graves.)
A Distribuição das Fibras de Purkinje nos
Ventrículos — Os Ramos Direito e Esquerdo. Após
atravessar o tecido fibroso entre os átrios e os ventrículos, a
porção distai do feixe A-V se prolonga para baixo, pelo
septo interventri- cular por 5 a 15 milímetros em direção ao
ápice cardíaco, como mostrado nas Figuras 10-1 e 10-3.
Nesse ponto, o feixe se divide nos ramos direito e esquerdo
do feixe que cursam pelo endocárdio respectivamente nos
dois lados do septo ventricular. Cada ramo se dirige para o
ápice cardíaco progressivamente dividindo-se em ramos
cada vez menores. Esses ramos por sua vez se dispersam
lateralmente em torno de cada câmara ventricular e
retornam em direção à base do coração. As extremidades
finais das fibras de Purkinje penetram o miocárdio por
cerca de um terço da sua espessura e, por fim, ficam
contínuas com as fibras musculares do coração.
Do momento em que o impulso cardíaco atinge os
ramos no septo ventricular, até alcançar as extremidades
das fibras de Purkinje, o tempo total despendido é de
apenas 0,03 segundo em média. Assim, uma vez que o
estímulo tenha atingido o sistema condutor de Purkinje,
ele se dispersa de modo quase imediato por toda a massa
muscular dos ventrículos.
Transmissão do Impulso Cardíaco pelo Músculo
Ventricular
Uma vez tendo atingida a extremidade final das fibras de
Purkinje, o impulso é transmitido para toda a massa
muscular ventricular pelas próprias fibras musculares. A
velocidade dessa transmissão é de apenas 0,3 a 0,5 m/s, um
sexto da das fibras de Purkinje.
O músculo cardíaco se enrola em torno das cavidades
cardíacas em espiral dupla, com septos fibrosos entre as
camadas espiraladas; portanto, o impulso cardíaco não é
necessariamente conduzido diretamente para fora para a
camada mais superficial do coração, mas, ao contrário,
passa por sobre angulações em direção à superfície,
acompanhando a direção das espirais. Por causa disso, a
transmissão do impulso da superfície endocárdica até a
superfície epicárdica leva mais 0,03 segundo,
aproximadamente igual ao tempo necessário para a
transmissão do impulso por toda a porção ventricular do
sistema de Purkinje. Assim, o tempo total de transmissão
do impulso cardíaco, desde o início dos ramos
ventriculares até a última fibra miocárdica no coração
normal é de aproximadamente 0,06 segundo.
Resumo da Dispersão do Impulso Cardíaco
ao Longo do Coração
A Figura 10-4 mostra de forma resumida a transmissão do
impulso cardíaco no coração humano. Os números da
figura representam os intervalos de tempo em frações de
segundo entre a origem do estímulo, no nodo sinu- sal, e
sua chegada em cada ponto respectivo do coração. Note
que o impulso se espalha com velocidade moderada pelos
átrios, mas tem retardo de mais de 0,1 segundo na região
do nodo A-V antes de atingir o feixe A-V no septo. Uma
vez atingido esse ponto, ele se espalha muito rapidamente
por meio das fibras de Purkinje para toda a superfície
endocárdica dos ventrículos. Em seguida, o impulso mais
uma vez se espalha com menor rapidez pelo músculo
ventricular até as superfícies epicárdicas.
É extremamente importante que o estudante aprenda
em detalhes o trajeto do impulso cardíaco pelo coração e os
tempos precisos de sua chegada a cada parte do coração em
separado, pois o conhecimento detalhado desse processo é
essencial para a compreensão da eletrocardio- grafia,
discutida nos Capítulos 11 a 13.
Controle da Excitação e da Condução no
Coração
O Nodo Sinusal como Marca-passo Cardíaco
A esta altura do que já foi discutido sobre a gênese e a
transmissão do impulso cardíaco, nota-se que o impulso
normalmente se origina no nodo sinoatrial. Em certas
condições anormais isso não acontece. Algumas outras
124
Figura 10-4 Transmissão do impulso cardíaco pelo coração,
mostrando o tempo de aparecimento nas diferentes partes do
órgão (em frações de segundo, após o aparecimento inicial no
nodo sinoatrial).
partes do coração também podem apresentar excitação
intrínseca rítmica do mesmo modo que as fibras do nodo
sinusal; isso é de modo particular verdadeiro para as fibras
do nodo A-V e as de Purkinje.
As fibras do nodo A-V, quando não estimuladas a partir
de local externo, emitem descargas intrínsecas rítmicas,
com frequência aproximada de 40 a 60 vezes por minuto, e
as fibras de Purkinje têm frequência de descarga entre 15 e
40 vezes por minuto. Esses valores diferem dos da
frequência normal do nodo sinusal, de 70 a 80 vezes por
minuto.
A questão a ser respondida é: por que o nodo sinusal
controla a ritmicidade cardíaca, e não o nodo A-V ou as
fibras de Purkinje? A resposta se baseia no fato de que a
descarga do nodo sinusal é consideravelmente mais rápida
que a autoexcitação natural do nodo A-V e das fibras de
Purkinje. A cada descarga sinusal, seu impulso é
conduzido para o nodo A-V e para as fibras de Purkinje,
causando assim a descarga de suas membranas excitáveis.
Mas o nodo sinusal pode de novo atingir seu limiar antes
que o nodo A-V ou as fibras de Purkinje atinjam seus
próprios limiares de autoexcitação. Portanto, o novo
estímulo sinusal descarrega o nodo A-V e as fibras de
Purkinje antes que suas autoexcitações ocorram.
Assim, o nodo sinusal controla o batimento cardíaco
porque sua frequência de descargas rítmicas é mais alta
que a de qualquer outra porção do coração. Portanto, o
nodo sinusal é praticamente sempre o marca-passo do
coração normal.
Marca-passos Anormais — Marca-passo "Ectópico".
Ocasionalmente, alguma outra parte do coração desen
Capítulo 10 Excitação Rítmica do Coração
volve frequência de descargas rítmicas mais rápidas que a
do nodo sinusal. Por exemplo, isso às vezes acontece no
nodo A-V ou nas fibras de Purkinje quando um deles fica
anormal. Nesses casos, o marca-passo passa a ser o nodo
A-V ou as fibras de Purkinje excitadas. Sob certas condições
mais raras, um local no músculo atrial ou ven- tricular
desenvolve excitabilidade excessiva e passa a ser o
marca-passo.
Um marca-passo em qualquer lugar que não o nodo
sinusal é referido como marca-passo “ectópico”. O marca-
passo ectópico produz sequências anormais da contração
das diferentes partes do coração e pode comprometer de
modo significativo o bombeamento.
Outra causa de troca do marca-passo é o bloqueio da
condução do impulso cardíaco do nodo sinusal para as
demais porções do coração. O novo marca-passo, então,
mais frequentemente se situa no nodo A-V ou nas porções
penetrantes do feixe A-V a caminho dos ventrículos.
Quando ocorre bloqueio A-V — ou seja, quando o
impulso cardíaco falha em passar dos átrios para os
ventrículos pelo sistema nodal e pelo feixe A-V —, os átrios
continuam a se contrair com a frequência normal do nodo
sinoatrial, enquanto novo marca-passo geralmente se
desenvolve no sistema ventricular de Purkinje, conduzindo
o músculo ventricular a novas frequências, entre 15 e 40
batimentos por minuto. Após bloqueio A-V repentino, o
sistema de Purkinje não inicia imediatamente a emissão de
impulsos, mas apenas após o intervalo de 5 a 20 segundos,
pois antes do bloqueio as fibras de Purkinje estavam
“sobrepujadas” (overdriven) pelos rápidos impulsos
sinusais e se encontravam consequentemente em estado de
supressão. Durante esses 5 a 20 segundos, os ventrículos
não bombeiam sangue, e a pessoa desmaia após 4 a 5
segundos, em virtude da falta de fluxo sanguíneo para o
cérebro. Essa retomada tardia dos batimentos cardíacos é
chamada síndrome de Stokes-Adams. Se esse período de
atraso se prolongar muito, pode ocasionar a morte.
O Papel das Fibras de Purkinje na Sincronia
da Contração do Músculo Ventricular
Fica claro, a partir da nossa descrição do sistema de
Purkinje, que normalmente o impulso cardíaco chega a
quase todas as porções do coração dentro de pequeno
intervalo de tempo, excitando a primeira fibra muscular
ventricular apenas 0,03 a 0,06 segundo antes de excitar o
último cardiomiócito ventricular. Isso faz com que todas as
porções musculares dos dois ventrículos iniciem sua
contração praticamente ao mesmo tempo e em seguida se
mantenham contraídos por mais 0,3 segundo.
O bombeamento eficaz de ambos os ventrículos
depende dessa contração sincrônica. Se o impulso cardíaco
tiver de ser conduzido lentamente pelos ventrículos, boa
parte da massa muscular irá se contrair antes da massa
restante; nesse caso, o efeito global do bombeamento ficará
bastante prejudicado. Na realidade, em alguns casos de
debilidade cardíaca, muitos dos quais serão dis-
125
Unidade III O Coração
cutidos nos Capítulos 12 e 13, ocorre transmissão lenta, e a
eficácia do bombeamento pode ficar reduzida por até 20% a
30%.
Controle da Ritmicidade Cardíaca e Condução de
Impulsos pelos Nervos Cardíacos: os Nervos
Simpáticos e Parassimpáticos
O coração recebe inervação pelos nervos simpáticos e pelos
parassimpáticos, como mostrado na Figura 9-10 do
Capítulo 9. Os nervos parassimpáticos (vagos)
distribuem-se majoritariamente para os nodos S-A e A-V,
pouco menos para a musculatura atrial e muito pouco para
o músculo ventricular. Os nervos simpáticos, por outro
lado, distribuem-se por todas as porções do coração com
forte representação no músculo ventricular, bem como em
outras áreas.
A Estimulação Parassimpática (Vagai) Pode Reduzir
ou até Mesmo Bloquear o Ritmo e a Condução — o
"Escape Ventricular". A estimulação da inervação
parassimpática do coração (nervos vagos) provoca
liberação do hormônio acetilcolina pelas terminações vagais.
Esse hormônio tem dois efeitos principais sobre o coração.
Primeiro, ele diminui o ritmo do nodo sinusal e, segundo,
ele reduz a excitabilidade das fibras juncionais A-V entre a
musculatura atrial e o nodo A-V, lentificando assim a
transmissão do impulso cardíaco para os ventrículos.
A estimulação vagai, leve a moderada, reduz a
frequência cardíaca frequentemente até cerca da metade do
valor normal. E a estimulação intensa dos vagos pode
interromper por completo a excitação rítmica do nodo
sinusal ou pode bloquear a transmissão do impulso
cardíaco dos átrios para os ventrículos pelo nodo A-V. Em
ambos os casos, os sinais excitatórios não são conduzidos
para os ventrículos. O batimento ventricular é
interrompido por 5 a 20 segundos, mas então algum ponto
das fibras de Purkinje, mais comumente na porção septal
interventricular do feixe A-V, desenvolve ritmo próprio,
causando contração ventricular na frequência de 15 a 40
batimentos por minuto. Esse fenômeno é denominado
escape ventricular.
Mecanismo dos Efeitos Vagais. A liberação de
acetilcolina pelas terminações vagais aumenta muito a
permeabilidade da membrana aos íons potássio,
permitindo o rápido vazamento desse íon para fora das
fibras condu- toras. Isso provoca aumento da negatividade
no interior das células, efeito esse conhecido como
hiperpolariza- ção, que torna esses tecidos excitáveis muito
menos excitáveis, como explicado no Capítulo 5.
No nodo sinusal, o estado de hiperpolarização baixa o
potencial “de repouso” da membrana das fibras sinusais
até nível consideravelmente mais negativo que o usual,
entre -65 e -75 milivolts, em lugar dos -55 a -60 mili- volts
normais. Portanto, a subida inicial do potencial de
membrana sinusal, devida ao influxo de sódio e cálcio,
exige muito mais tempo para atingir o potencial limiar para
a excitação. Isso reduz em muito a frequência da
ritmicidade dessas fibras sinusais. Se o estímulo vagai for
suficientemente intenso, é possível interromper por
completo a autoexcitação desse nodo.
No nodo A-V, o estado de hiperpolarização provocado
pela estimulação vagai faz com que fique mais difícil para
as pequenas fibras atriais que chegam ao nodo gerarem
eletricidade suficiente para excitar as fibras nodais.
Portanto, o fator de segurança para a transmissão do
impulso cardíaco pelas fibras transicionais para as fibras do
nodo A-V diminui. A redução moderada simplesmente
retarda a condução do estímulo, mas a redução mais
intensa bloqueia completamente esse processo.
Efeito da Estimulação Simpática sobre o Ritmo
Cardíaco e a Condução. A estimulação simpática causa
essencialmente efeitos opostos aos observados no coração
pela estimulação parassimpática, como se segue. Primeiro,
aumentando a frequência de descargas do nodo sinusal.
Segundo, aumentando a velocidade da condução, bem
como a excitabilidade em todas as porções do coração.
Terceiro, aumentando muito a força de contração de toda a
musculatura cardíaca, tanto atrial como ventricular, como
discutido no Capítulo 9.
Em resumo, o estímulo simpático aumenta a atividade
global do coração. A estimulação máxima pode
praticamente triplicar a frequência cardíaca e duplicar a
força de contração.
Mecanismo do Efeito Simpático. A estimulação
simpática leva à liberação do hormônio norepinefrina pelas
terminações nervosas. A norepinefrina por sua vez
estimula os receptores adrenérgicos beta-1 mediadores do
efeito sobre a frequência cardíaca. O mecanismo preciso
pelo qual a estimulação adrenérgica beta-1 atua sobre as
fibras musculares do coração ainda não está totalmente
esclarecido, mas acredita-se que aumente a permeabilidade
das fibras aos íons sódio e cálcio. No nodo sinusal, o
aumento da permeabilidade sódio-cálcio torna o potencial
de repouso mais positivo, provocando também aumento da
inclinação da elevação do potencial de membrana durante
a diástole em direção ao nível limiar de autoexcitação,
acelerando esse processo e, portanto, aumentando a
frequência cardíaca.
No nodo A-V e nos feixes A-V, o aumento da
permeabilidade ao sódio-cálcio torna mais fácil para o
potencial de ação excitar as porções sucessivas do sistema
condutor, reduzindo o tempo de condução entre os átrios e
os ventrículos.
O aumento da permeabilidade aos íons cálcio é no
mínimo parcialmente responsável pelo aumento da força
de contração do miocárdio, sob a influência de estímulo
simpático, já que o cálcio desempenha potente papel na
excitação e nos processos contráteis das miofibrilas.
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127
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N
I
D
A
(página deixada intencionalmente em branco)
CAPÍTULO 11
O Eletrocardiograma Normal
Quando o impulso cardía-
co passa através do cora-
ção, uma corrente elétrica
também se propaga do
coração para os tecidos adja-
centes que o circundam. E
pequena parte da corrente
se propaga até a superfície do corpo. Se eletrodos forem
colocados sobre a pele, em lados opostos do coração, será
possível registrar os potenciais elétricos gerados por essa
corrente: esse registro é conhecido como eletrocardio-
grama. A Figura 11-1 mostra o registro de dois batimen-
tos cardíacos de um eletrocardiograma normal.
Características do Eletrocardiograma
Normal
O eletrocardiograma normal (Fig. 11-1) é composto pela
onda P, pelo complexo QRS e pela onda T. O complexo
QRS apresenta com frequência mas não sempre três ondas
distintas: a onda Q, a onda R e a onda S.
A onda P é produzida pelos potenciais elétricos gerados
quando os átrios se despolarizam, antes de a contração
atrial começar. O complexo QRS é produzido pelos
potenciais gerados quando os ventrículos se despolarizam
antes de sua contração, isto é, enquanto a onda de
despolarização se propaga pelos ventrículos. Portanto,
tanto a onda P como os componentes do complexo QRS são
ondas de despolarização.
A onda T é produzida pelos potenciais gerados,
enquanto os ventrículos se restabelecem do estado de
despolarização. Esse processo no músculo ventricular
normalmente ocorre 0,25 a 0,35 segundo após a sua
despolarização, e a onda T é conhecida como onda de re-
polarização.
Assim, o eletrocardiograma é formado por ondas de
despolarização e por ondas de repolarização. Os princípios
da despolarização e da repolarização foram discutidos no
Capítulo 5. A distinção entre as ondas de despolarização e
as ondas de repolarização é tão importante na
eletrocardiografia que esclarecimento adicional se faz
necessário.
Ondas de Despolarização versus Ondas de
Repolarização
A Figura 11-2 mostra uma fibra muscular única do coração
em quatro fases diferentes do processo de despolarização e
de repolarização. Nessa figura, a cor vermelha indica a
despolarização. Durante a despolarização, o potencial
negativo normal presente no interior da fibra se inverte,
ficando levemente positivo no interior, e negativo no
exterior.
Átrios Ventrículos
129
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A
Unidade III O Coração
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++++++++++++++++ +
a
D ++++++++++++++++
~^—
Onda de
repolarização
C.
0,30 segundo
J
Figura 11-2 Registro da onda de despolarização (A e B) e da
onda de repolarização (C e D) de fibra muscular do coração.
Na Figura 11-2A, a despolarização representada pelas
cargas positivas vermelhas, no interior, e pelas cargas
negativas vermelhas, no exterior da fibra, está se
deslocando da esquerda para a direita. A primeira metade
da fibra já se despolarizou, enquanto a metade restante
ainda está polarizada. Entretanto, o eletrodo esquerdo,
situado no exterior da fibra, está em área negativa, e o
eletrodo direito está em área positiva; isso faz com que o
aparelho registre valor positivo. À direita da fibra
muscular, é mostrado o registro das variações que ocorrem
no potencial entre os dois eletrodos como mostra o aparelho
registrador de alta velocidade. Na Figura 11-2A, observe
que, quando a despolarização alcança a metade do
comprimento da fibra, o registro sobe até o valor positivo
máximo.
Na Figura 11-25, a despolarização já se estendeu por
toda a fibra muscular, e o registro à direita retornou à linha
de base zero porque ambos os eletrodos estão agora em
áreas igualmente negativas. A onda completa é uma onda
de despolarização, pois resulta da propagação da
despolarização ao longo da membrana da fibra muscular.
A Figura 11-2C mostra metade do trecho da mesma
fibra muscular já repolarizada. A positividade está
retornando para o lado externo da fibra. Nesse momento, o
eletrodo esquerdo está em área positiva, e o eletrodo direito
em área negativa. A polaridade agora é oposta à mostrada
na Figura 11-2A. Como consequência, o registro mostrado à
direita fica negativo.
Na Figura 11-2D, a fibra muscular se repolarizou
completamente, e ambos os eletrodos estão agora em áreas
Figura 11 -3 Acima, Potencial de ação monofásico de fibra do
músculo ventricular durante a função cardíaca normal,
mostrando a despolarização rápida, seguida pela repolarização
lenta, durante a fase de platô, e pela repolarização rápida, já
próximo do final do processo. Abaixo, Registro
eletrocardiográfico feito simultaneamente.
positivas, de modo que não existe diferença de potencial
entre eles para ser registrada. Assim, no registro à direita o
potencial retorna novamente ao zero. Essa onda negativa
completa é uma onda de repolarização porque resulta da
propagação da repolarização, ao longo da membrana da
fibra muscular.
Relação entre o Potencial de Ação Monofásico do
Músculo Ventricular e as Ondas QRS e T do Eletrocar-
diograma Padrão. O potencial de ação monofásico do
músculo ventricular, discutido no Capítulo 10, dura
normalmente de 0,25 a 0,35 segundo. A parte superior da
Figura 11-3 mostra um potencial de ação monofásico
registrado por um microeletrodo inserido no interior de
uma fibra muscular única ventricular. A deflexão inicial,
ascendente e íngreme desse potencial de ação é produzida
pela despolarização, e o retorno do potencial à linha de
base é causado pela repolarização.
Na parte inferior da figura, observa-se o registro
eletrocardiográfico simultâneo desse mesmo ventrículo,
que mostra as ondas QRS surgindo no início do potencial
de ação monofásico e a onda T aparecendo no final.
Observe, sobretudo, que nenhum potencial é registrado no
eletrocardiograma quando o músculo ventricular está
completamente polarizado ou completamente despolari- zado.
Somente quando o músculo está em parte polarizado e em
parte despolarizado é que a corrente flui de uma parte dos
ventrículos para outra e, consequentemente, flui também
até a superfície do corpo, permitindo o registro
eletrocardiográfico.
Relação entre a Contração Atrial e a Ventricular e
as Ondas do Eletrocardiograma
Antes que a contração do músculo possa ocorrer, é preciso
que a despolarização se propague pelo músculo para
iniciar os processos químicos da contração. Voltando à
Figura 11-1: a onda P ocorre no início da contração dos
átrios, e o complexo QRS de ondas ocorre no início da
contração dos ventrículos. Os ventrículos permanecem
130
contraídos até que a repolarização tenha ocorrido, ou seja,
até o final da onda T.
Os átrios se repolarizam cerca de 0,15 a 0,20 segundo,
após o término da onda P. Quase nesse mesmo instante, o
complexo QRS está sendo registrado no eletrocardio-
grama. Como consequência, a onda de repolarização atrial
conhecida como onda T atrial, é em geral encoberta pelo
complexo QRS que é muito maior. Por essa razão,
raramente se observa uma onda T atrial no ele-
trocardiograma.
A onda de repolarização ventricular é a onda T do ele-
trocardiograma normal. Normalmente, a repolarização do
músculo ventricular começa em algumas fibras, cerca de
0,20 segundo após o início da onda de despolarização (o
complexo QRS), mas em muitas outras fibras demora até
0,35 segundo. Assim, o processo de repolarização
ventricular se estende por período longo, cerca de 0,15
segundo. Por isso, a onda T do eletrocardiograma normal é
uma onda de longa duração, mas sua voltagem é
consideravelmente menor que a voltagem do complexo
QRS, em parte por causa de sua duração prolongada.
Calibração da Voltagem e do
Tempo do Eletrocardiograma
Todos os registros eletrocardiográficos são feitos com
linhas de calibração apropriadas no papel de registro. Essas
linhas de calibração já podem estar traçadas no papel, como
ocorre quando se utilizam aparelhos com pena inscritora,
ou são registradas no papel ao mesmo tempo em que o
eletrocardiograma é registrado, como ocorre nos
eletrocardiógrafos de tipo fotográfico.
Como mostrado na Figura 11-1, as linhas de calibração
horizontais do eletrocardiograma padrão estão dispostas
de tal modo que cada 10 linhas horizontais correspondem a
1 milivolt, as linhas horizontais acima da linha de base
indicam valores positivos, e as que estão abaixo da linha de
base indicam valores negativos.
As linhas verticais do eletrocardiograma são as linhas
de calibração do tempo. Um eletrocardiograma típico tem
velocidade de impressão de 25 milímetros por segundo,
embora às vezes sejam usadas velocidades maiores.
Portanto, cada 25 milímetros na direção horizontal
correspondem a 1 segundo, e cada segmento de 5
milímetros, indicado por linhas verticais escuras,
representa 0,20 segundo. Os intervalos de 0,20 segundo
estão, por sua vez, divididos em cinco intervalos menores
por linhas finas, e cada um desses intervalos menores
corresponde a 0,04 segundo.
Voltagens Normais do Eletrocardiograma. As
voltagens das ondas registradas no eletrocardiograma
normal dependem da maneira pela qual os eletrodos são
postos em contato com a superfície do corpo e de quão
próximos eles estão do coração. Quando um eletrodo é
colocado diretamente sobre os ventrículos e um segundo
eletrodo é colocado em outro lugar do corpo, distante do
coração, a voltagem do complexo QRS pode atingir 3 a 4
milivolts. Mesmo essa voltagem sendo pequena, quando
compa
Capítulo 11 O Eletrocardiograma Normal
rada com o potencial de ação monofásico de 110 milivolts
registrado diretamente na membrana da fibra muscular
cardíaca. Quando eletrocardiogramas são registrados por
eletrodos colocados nos dois braços ou em um braço e uma
perna, a voltagem do complexo QRS é geralmente de 1,0 a
1,5 milivolt desde o pico da onda R até o ponto mais baixo
da onda S. Já a voltagem da onda P permanece entre 0,1 e
0,3 milivolt, e a da onda T fica entre 0,2 e 0,3 milivolt.
Intervalo P-Q ou P-R. O tempo decorrido entre o início
da onda P e o início do complexo QRS corresponde ao
intervalo entre o começo da estimulação elétrica dos átrios
e o começo da estimulação dos ventrículos. Esse período é
denominado intervalo P-Q. O intervalo P-Q normal é de
cerca de 0,16 segundo. (Com frequência, esse intervalo é
chamado intervalo P-R, porque é comum a onda Q estar
ausente.)
Intervalo Q-T. A contração do ventrículo dura
aproximadamente do início da onda Q (ou da onda R,
quando a onda Q está ausente) até o final da onda T. Esse
período é denominado intervalo Q-T e tem normalmente
cerca de 0,35 segundo.
Determinação da Frequência dos Batimentos
Cardíacos por meio do Eletrocardiograma. A frequência
dos batimentos cardíacos pode ser determinada com
facilidade no eletrocardiograma, visto que a frequência
cardíaca corresponde ao inverso do intervalo de tempo
entre dois batimentos cardíacos sucessivos. Se, de acordo
com as linhas de calibração do tempo, o intervalo entre
dois batimentos for de 1 segundo, a frequência cardíaca
será de 60 batimentos por minuto. O intervalo de tempo
normal entre dois complexos QRS sucessivos de adulto é
de cerca de 0,83 segundo, o que corresponde a uma
frequência cardíaca de 60/0,83 vezes por minuto, ou 72
batimentos por minuto.
Métodos para o Registro
de Eletrocardiogramas
Às vezes, as correntes elétricas geradas pelo músculo
cardíaco durante cada batimento do coração alteram os
potenciais elétricos e as polaridades, nos respectivos lados
do coração, em menos de 0,01 segundo. Por essa razão, é
essencial que qualquer aparelho para registro de
eletrocardiogramas seja capaz de responder rapidamente a
essas variações dos potenciais.
Aparelhos para Registro de Eletrocardiógrafos
Muitos eletrocardiógrafos clínicos modernos utilizam
sistemas computadorizados e monitores eletrônicos, ao
passo que outros usam registrador com pena inscritora que
grava o eletrocardiograma diretamente sobre a folha de
papel em movimento. Às vezes, a pena inscritora consiste
em um tubo fino com uma das extremidades conectada a
um reservatório de tinta e a outra, a extremidade
registradora, conectada a um poderoso sistema
131
Unidade III O Coração
eletromagnético, capaz de mover a pena de baixo para cima
com alta velocidade. À medida que o papel se move para
frente, a pena registra o eletrocardiograma. O movimento
da pena é controlado por amplificadores eletrônicos
apropriados, ligados a eletrodos eletrocardiográficos
colocados no paciente.
Outros sistemas de registro com pena inscritora
utilizam papéis especiais e um estilete inscritor que não
necessita de tinta. Um desses tipos de papel fica preto
quando exposto ao calor, e o próprio estilete é aquecido por
corrente elétrica que flui por sua ponta. Existe outro tipo de
papel que fica preto quando uma corrente elétrica flui da
ponta do estilete, atravessa o papel e chega aos ele- tródios
colocados por baixo do papel. Nesse processo, a ponta do
estilete deixa uma linha preta no ponto onde toca o papel.
O Fluxo da Corrente ao Redor do Coração
durante o Ciclo Cardíaco
Registro de Potenciais Elétricos de uma Massa de
Músculo Cardíaco Sincicial Parcialmente
Despolarizada
A Figura 11-4 mostra uma massa sincicial de músculo
cardíaco que recebeu um estímulo na região central. Antes
da estimulação, a parte externa das células musculares
estava positiva, e a parte interna, negativa. Pelas razões
apresentadas no Capítulo 5, durante a discussão sobre os
potenciais de membrana, assim que uma área do sincício
cardíaco fica despolarizada, cargas negativas escapam para
o lado externo das fibras musculares des- polarizadas,
tornando essa parte da superfície eletrone- gativa,
conforme representado pelos sinais negativos da Figura
11-4. O restante da superfície do coração ainda polarizado é
representado pelos sinais positivos. Por isso, quando o
terminal negativo de um medidor é conectado à área de
despolarização e o terminal positivo é conectado a uma das
áreas ainda polarizadas, como mostrado à direita na figura,
o registro é positivo.
Figura 11-4 Desenvolvimento de potenciais instantâneos na
superfície de uma massa de músculo cardíaco despolarizada na
região central.
A Figura 11-4 também mostra as leituras de dois outros
medidores com terminais em posições diferentes da
anterior. Esse assunto deve ser estudado cuidadosamente,
e o leitor deve ser capaz de explicar as causas das leituras
de cada medidor. Pelo fato de a despolarização se propagar
em todas as direções pelo coração, as diferenças de
potencial mostradas na figura só persistem por poucos
milésimos de segundo, e as medições da voltagem real só
podem ser realizadas com aparelho para registros de alta
velocidade.
O Fluxo das Correntes Elétricas no Tórax ao Redor
do Coração
A Figura 11-5 mostra o músculo ventricular dentro do
tórax. Mesmo os pulmões, que estão em sua maior parte
cheios de ar, conduzem eletricidade em grau
surpreendente, e os líquidos presentes nos outros tecidos
que circundam o coração conduzem eletricidade ainda com
maior facilidade. Portanto, o coração está de fato suspenso
em meio condutor. Quando parte dos ventrículos se
despolariza e, como consequência, fica eletronegativa em
relação ao restante, a corrente elétrica flui da área
despolarizada para a área polarizada por meio de grandes
curvas, como pode ser observado na figura.
Vale lembrar aqui o que foi discutido sobre o sistema de
Purkinje no Capítulo 10. O impulso cardíaco chega
primeiro ao septo ventricular e, logo em seguida, se
propaga para as superfícies internas da parte restante dos
ventrículos, como mostram as áreas vermelhas e os sinais
Figura 11-5 Fluxo da corrente no tórax ao redor dos ventrículos
parcialmente despolarizados.
132
negativos da Figura 11-5. Isso faz com que a parte interna
dos ventrículos fique eletronegativa, e as paredes externas
dos ventrículos, eletropositivas, com a corrente elétrica
fluindo pelos líquidos que banham os ventrículos,
seguindo percursos elípticos, como mostrados pelas setas
curvas da figura. Se for calculada algebricamente a média
de todas as linhas do fluxo da corrente (as linhas elípticas),
será constatado que o fluxo médio da corrente é negativo em
direção à base do coração e positivo em direção ao ápice.
Durante a maior parte do restante do processo de des-
polarização, a corrente também continua a fluir nessa
mesma direção, enquanto a despolarização se propaga da
superfície do endocárdio para o exterior do órgão pela
massa do músculo ventricular. Em seguida, pouco antes de
a despolarização completar seu curso pelos ventrículos, a
direção média do fluxo da corrente se inverte durante cerca
de 0,01 segundo, fluindo do ápice ventricular em direção à
base, pois as paredes externas dos ventrículos, situadas
junto à base do coração, são a última parte desse órgão a ser
despolarizada.
Assim, nos ventrículos normais, a corrente flui das
áreas negativas para as áreas positivas, principalmente da
base do coração para o ápice, durante quase todo o ciclo de
despolarização, exceto bem próximo do final do processo.
E, se um aparelho medidor for conectado a eletrodos
posicionados na superfície do corpo, como mostrado na
Figura 11-5, o eletrodo que estiver mais próximo da base
ficará negativo, ao passo que o eletrodo que estiver mais
próximo do ápice ficará positivo, e o aparelho medidor
mostrará registro positivo no eletrocardiograma.
Derivações Eletrocardiográficas
As Três Derivações Bipolares dos Membros
A Figura 11-6 mostra as conexões elétricas entre os
membros do paciente e o eletrocardiógrafo, para obtenção
dos registros eletrocardiográficos das chamadas derivações
bipolares padrão (ou standard) dos membros. O termo
“bipolar” quer dizer que o eletrocardiograma é registrado
por dois eletrodos posicionados em lados diferentes do
coração — neste caso, nos membros. Assim, uma
“derivação” não é um só fio conectado ao corpo, mas a
combinação de dois fios e seus eletrodos para formar um
circuito completo entre o corpo e o eletrocardiógrafo. Em
cada exemplo, o eletrocardiógrafo está representado por
aparelho elétrico de medida, embora o verdadeiro
eletrocardiógrafo seja um aparelho registrador de alta
velocidade, associado a uma tira de papel em movimento.
Derivação I. No registro da derivação I dos membros, o
terminal negativo do eletrocardiógrafo é conectado ao
braço direito, e o terminal positivo, ao braço esquerdo.
Portanto, quando a área pela qual o braço direito se une ao
tórax está eletronegativa, em relação à área pela qual o
braço esquerdo se une ao tórax, o eletrocardiógrafo registra
valor positivo, isto é, valor situado acima da linha de
Capítulo 11 O Eletrocardiograma Normal
Figura 11-6 Disposição convencional dos eletrodos para o
registro das derivações eletrocardiográficas padrão. O triângulo
de Einthoven está sobreposto ao tórax.
voltagem zero do eletrocardiograma. Quando ocorre o
oposto, o eletrocardiógrafo registra valor situado abaixo da
linha.
Derivação II. Para registrar a derivação II dos membros,
o terminal negativo do eletrocardiógrafo é conectado ao
braço direito, e o terminal positivo, à perna esquerda.
Portanto, quando o braço direito está negativo em relação à
perna esquerda, o eletrocardiógrafo exibe registro positivo.
Derivação III. Para registrar a derivação III dos
membros, o terminal negativo do eletrocardiógrafo é
conectado ao braço esquerdo, e o terminal positivo, à perna
esquerda. Isso significa que o eletrocardiógrafo apresentará
registro positivo quando o braço esquerdo estiver negativo
em relação à perna esquerda.
Triângulo de Einthoven. Na Figura 11-6, um triângulo,
denominado triângulo de Einthoven, está traçado ao redor da
área do coração. Essa figura geométrica mostra que os dois
braços e a perna esquerda formam os ápices de um
triângulo que circunda o coração. Os dois ápices da parte
superior do triângulo representam os pontos pelos quais os
dois braços se conectam eletricamente aos líquidos situados
ao redor do coração, e o ápice inferior
133
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A
Unidade III O Coração
é o ponto pelo qual a perna esquerda se conecta a esses
líquidos.
Lei de Einthoven. A lei de Einthoven afirma que, se os
potenciais elétricos de duas das três derivações eletro-
cardiográficas bipolares dos membros forem conhecidos
em um dado momento, o potencial elétrico da terceira
derivação poderá ser determinado matematicamente pela
simples soma dos dois primeiros. Note, entretanto, que os
sinais positivo e negativo das diferentes derivações
precisam ser levados em consideração quando a soma for
realizada.
Por exemplo, suponha-se que, momentaneamente,
como mostrado na Figura 11-6, o braço direito apresente
-0,2 milivolt (negativo) em relação ao potencial médio do
corpo, o braço esquerdo apresente +0,3 milivolt (positivo) e
a perna esquerda apresente +1,0 milivolt (positivo). Ao
observarmos os medidores da figura, veremos que a
derivação I registra potencial positivo de +0,5 milivolt,
porque essa é a diferença entre -0,2 milivolt do braço
direito e +0,3 milivolt do braço esquerdo. De modo
semelhante, a derivação III registra potencial positivo de
+0,7 milivolt, e a derivação II registra potencial positivo de
+1,2 milivolt, porque essas são as diferenças instantâneas
de potencial entre os respectivos pares de membros.
Agora, note que a soma das voltagens das derivações I e
III é igual à voltagem da derivação II, ou seja, 0,5 mais 0,7
são iguais a 1,2. Matematicamente, esse princípio,
denominado lei de Einthoven, é válido em dado momento
enquanto os três eletrocardiogramas bipolares “padrão”
estão sendo registrados.
Eletrocardiogramas Normais, Registrados pelas Três
Derivações Bipolares Padrão dos Membros. A Figura
11- 7 mostra os registros dos eletrocardiogramas nas
derivações I, II e III. É óbvio que os eletrocardiogramas,
obtidos por essas três derivações, são semelhantes entre si,
porque todos eles registram ondas P e T positivas, e a parte
principal do complexo QRS também é positiva.
Figura 11-7 Eletrocardiogramas normais, registrados das três
derivações eletrocardiográficas padrão.
Quando se analisam os três eletrocardiogramas, é
possível mostrar, por meio de medidas cuidadosas e da
observação adequada das polaridades, que, em dado
momento, a soma dos potenciais nas derivações I e III é
igual ao potencial na derivação II, demonstrando assim a
validade da lei de Einthoven.
Pelo fato de os registros obtidos pelas derivações
bipolares dos membros serem semelhantes entre si, não
importa muito qual derivação está sendo registrada
quando se quer diagnosticar diferentes arritmias cardíacas,
pois o diagnóstico das arritmias depende principalmente
das relações temporais entre as diferentes ondas do ciclo
cardíaco. Mas, quando se busca diagnosticar lesão no
músculo atrial ou ventricular ou no sistema de condução
de Purkinje, é muito importante saber quais derivações
estão sendo registradas, pois as anormalidades da
contração do músculo cardíaco ou da condução do impulso
cardíaco alteram muito os padrões de algumas derivações,
porém podem não afetar outras. A interpretação
eletrocardiográfica desses dois tipos de distúrbios —
miopatias cardíacas e arritmias cardíacas — é discutida
separadamente nos Capítulos 12 e 13.
As Derivações Torácicas (Derivações Precordiais)
Com frequência, os eletrocardiogramas são registrados
pela colocação de eletrodo na superfície anterior do tórax,
diretamente sobre o coração, em um dos pontos mostrados
na Figura 11-8. Esse eletrodo é conectado ao terminal
positivo do eletrocardiógrafo, e o eletrodo negativo,
denominado eletrodo indiferente, é conectado,
simultaneamente, ao braço direito, ao braço esquerdo e à
perna esquerda, por meio de resistências elétricas iguais,
como mostrado na mesma figura. Em geral, faz-se o
registro de seis derivações torácicas padrão, uma por vez,
na parede anterior do tórax, colocando-se o eletrodo torá-
cico de forma sequencial nos seis pontos mostrados no
diagrama. Os diferentes registros são conhecidos como
derivações VI, V2, V3, V4, V5 e V6.
A Figura 11-9 mostra eletrocardiogramas de coração
saudável, registrados por essas seis derivações torácicas
padrão. Pelo fato de as superfícies do coração estarem
próximas da parede do tórax, cada derivação torácica
registra principalmente o potencial elétrico da musculatura
cardíaca situada imediatamente abaixo do eletrodo. Por
essa razão, anormalidades relativamente pequenas dos
ventrí- culos, em especial na parede ventricular anterior,
podem provocar alterações acentuadas nos
eletrocardiogramas registrados pelas derivações torácicas
individuais.
Nas derivações VI e V2, os registros do complexo QRS
do coração normal são, na maioria das vezes, negativos
porque, como mostrado na Figura 11-8, o eletrodo torá-
cico dessas derivações está mais próximo da base cardíaca
que do ápice, e a base do coração permanece eletronega-
tiva durante a maior parte do processo de despolarização
ventricular. De modo oposto, nas derivações V4, V5 e V6,
os complexos QRS são em sua maior parte positivos,
porque o eletrodo torácico dessas derivações está mais pró-
134
Figura 11-8 Conexões do corpo com o eletrocardiógrafo para
o registro das derivações torácicas. BE, braço esquerdo; BD,
braço direito.
ximo do ápice do coração que permanece eletropositivo
durante a maior parte da despolarização.
As Derivações Unipolares Aumentadas
dos Membros
Outro sistema de derivações muito utilizado consiste na
derivação unipolar aumentada dos membros. Nesse tipo de
registro, dois dos membros são conectados ao termi
Capítulo 11 O Eletrocardiograma Normal
Vi V2 V6
Figura 11-9 Eletrocardiogramas normais registrados pelas seis
derivações torácicas padrão.
Figura 11-10 Eletrocardiogramas normais registrados pelas
três derivações unipolares aumentadas dos membros.
nal negativo do eletrocardiógrafo por meio de resistências
elétricas, e o terceiro membro é conectado ao terminal
positivo. Quando o terminal positivo está no braço direito,
a derivação é denominada aVR; quando está no braço
esquerdo, aVL; e quando está na perna esquerda, aVF.
A Figura 11-10 mostra registros normais das derivações
unipolares aumentadas dos membros. Eles são
semelhantes aos registros das derivações padrão dos
membros, com exceção do registro da derivação aVR, que é
invertido. (Por que ocorre essa inversão? Estude as
conexões das polaridades com o eletrocardiógrafo para
determinar o motivo dessa inversão.)
Referências
Veja as referências do Capítulo 13.
135
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(página deixada intencionalmente em branco)
CAPÍTULO 12
Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades
do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo
Coronariano: Análise Vetorial
Pela discussão do Capítu-
lo 10, sobre a transmissão
do impulso pelo coração,
é óbvio que qualquer varia-
ção desse padrão de trans-
missão pode causar poten-
ciais elétricos anormais em
volta do coração e consequentemente alterar os forma-
tos das ondas no eletrocardiograma. Por essa razão, mui-
tas anormalidades sérias do músculo cardíaco podem ser
diagnosticadas pela análise dos contornos das ondas, nas
diferentes derivações eletrocardiográficas.
Princípios da Análise Vetorial
dos Eletrocardiogramas
Uso de Vetores para Representar Potenciais
Elétricos
Antes de poder compreender como as anormalidades
cardíacas afetam os contornos do eletrocardiograma,
deve-se inicialmente estar totalmente familiarizado com os
conceitos de vetores e de análise vetorial, aplicados aos
potenciais elétricos dentro e em volta do coração.
Várias vezes, no Capítulo 11, foi apontado que as
correntes cardíacas seguem em direção particular pelo
coração, em dado momento, durante o ciclo cardíaco. Um
vetor é uma seta que aponta na direção do potencial
elétrico, gerado pelo fluxo de corrente, com a ponta voltada
para a direção positiva. Também, por convenção, o
comprimento da seta é traçado em proporção à voltagem do
potencial.
Vetor "Resultante" no Coração em Qualquer
Momento Dado. A Figura 12-1 mostra, pela área
sombreada e os sinais negativos, a despolarização do septo
ventricu- lar e de partes das paredes endocárdicas apicais
dos dois ventrículos. Nesse momento da excitação cardíaca,
a corrente elétrica segue entre as áreas despolarizadas,
dentro do coração, e as áreas não despolarizadas fora do
coração, como indicado pelas longas setas elípticas.
Alguma corrente também segue por dentro das câmaras
cardíacas diretamente das áreas despolarizadas em direção
às áreas ainda polarizadas. No geral, muito mais corrente
segue
para baixo, da base dos ventrículos em direção ao ápice, do
que para cima. Portanto, o vetor somado do potencial,
gerado nesse instante particular, chamado vetor instantâneo
médio, é representado pela longa seta preta, traçada pelo
centro dos ventrículos, na direção da base para o ápice.
Além disso, como a corrente somada tem quantidade
considerável, o potencial é grande, e o vetor é longo.
A Direção de um Vetor É Definida em Termos
de Graus
Quando um vetor está exatamente na horizontal e
direcionado para o lado esquerdo da pessoa, diz-se que ele
está na direção de 0 grau, como mostrado na Figura 12-2.
Desse ponto de referência zero, a escala dos vetores gira em
sentido horário: quando o vetor é vertical e vem de cima
para baixo, tem a direção de +90°; quando se estende do
lado esquerdo ao direito da pessoa, ele tem a direção de
+180°; e quando vai de baixo para cima, tem a direção de
-90° (ou +270).
No coração normal, a direção usual do vetor durante a
propagação da onda de despolarização pelos ventrículos,
chamado vetor QRS médio, é por volta de +59°, que é
representado pelo vetor A, traçado do centro da Figura
12- 2 na direção +59°. Isso significa que, durante a maior
Figura 12-1 Vetor médio de ventrículos parcialmente despola-
rizados.
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D
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Unidade III O Coração
Figura 12-2 Vetores traçados para representar potenciais de
vários corações diferentes, e o "eixo" do potencial (expresso em
graus) para cada coração.
parte da onda de despolarização, o ápice do coração
permanece positivo em relação à base, como discutido
adiante, neste capítulo.
Eixo para Cada Derivação Bipolar Padrão e Cada
Derivação Unipolar dos Membros
No Capítulo 11, as três derivações bipolares padrão e as
três derivações unipolares dos membros foram descritas.
Cada derivação é, de fato, um par de eletródios conectados
ao corpo em lados opostos do coração, e a direção do
eletródio negativo para o eletródio positivo é chamada
“eixo” da derivação. A derivação I é registrada por dois
eletródios colocados, respectivamente, em um dos braços.
Como os eletródios ficam exatamente na direção
horizontal, com o eletródio positivo na esquerda, o eixo da
derivação I é de 0 grau.
Para registrar a derivação II, os eletródios são colocados
no braço direito e na perna. O braço direito se liga ao tronco
em seu limite superior direito, e a perna esquerda, no limite
inferior esquerdo. Portanto, a direção dessa derivação é
cerca de +60°.
Por análise semelhante, pode ser visto que a derivação
III tem eixo de cerca de +120°; a derivação aVR, +210°; aVF,
+90°; e aVL, -30°. As direções dos eixos de todas essas
derivações estão mostradas na Figura 12-3, que é referida
como sistema de referência hexagonal. As polaridades dos
eletródios são mostradas pelos sinais de mais e de menos
na figura. O leitor deve aprender esses eixos e suas polaridades
particularmente para as derivações bipolares dos membros /, II e
III, para compreender o restante deste capítulo.
Análise Vetorial dos Potenciais Registrados em
Diferentes Derivações
Agora que já discutimos, primeiro, as convenções para
representar os potenciais cardíacos por meio de vetores
Figura 12-3 Eixos das três derivações bipolares e das três
derivações unipolares.
e, segundo, os eixos das derivações, é possível usá-los em
conjunto para determinar o potencial instantâneo que será
registrado no eletrocardiograma em cada derivação para
dado vetor cardíaco, como se segue.
A Figura 12-4 mostra um coração parcialmente des-
polarizado; o vetor A representa a direção média
instantânea do fluxo de corrente nos ventrículos. Nesse
caso, a direção do vetor é +55°, e a voltagem do potencial,
representada pelo comprimento do vetor A, é de 2
milivolts. Abaixo, no diagrama do coração, o vetor A é
mostrado de novo, com uma linha traçada para representar
o eixo da derivação I, na direção de 0 grau. Para determinar
quanto da voltagem do vetor A será registrado na
derivação I, é traçada uma linha perpendicular ao eixo da
derivação I, da ponta do vetor A ao eixo da derivação I, e
um chamado vetor projetado (B) é marcado ao longo do eixo
da derivação I. A seta desse vetor projetado aponta na
direção da extremidade positiva do eixo da derivação I, o
que significa que o registro no eletrocardiograma da
derivação I é positivo. E a voltagem instantânea registrada
será igual ao tamanho de B dividido pelo tamanho de A
vezes 2 milivolts ou cerca de 1 milivolt.
Figura 12-4 Determinação do vetor projetado B ao longo do
eixo da derivação I quando o vetor A representa o potencial
instantâneo dos ventrículos.
138
Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Vetorial
A Figura 12-5 mostra outro exemplo de análise vetorial.
Nesse exemplo, o vetor A representa o potencial elétrico e
seu eixo em dado momento durante a despola- rização
ventricular, em coração onde o lado esquerdo se
despolariza mais rápido que o direito. Nesse caso, o vetor
instantâneo tem a direção de 100°, e sua voltagem é de
novo 2 milivolts. Para determinar o potencial realmente
registrado na derivação I, traça-se uma linha
perpendicular, da ponta do vetor A ao eixo da derivação I, e
encon- tra-se o vetor projetado B. O vetor B é muito
pequeno e, nesse exemplo, fica na direção negativa,
indicando que nesse instante particular o registro na
derivação I será negativo (abaixo da linha zero no
eletrocardiograma), e a voltagem registrada será pequena,
cerca de -0,3 milivolts. Essa figura demonstra que, quando o
vetor cardíaco está em direção praticamente perpendicular ao eixo
da derivação, a voltagem registrada no eletrocardiograma dessa
derivação será muito baixa. Por sua vez, quando o vetor cardíaco
tem quase o mesmo eixo da derivação, praticamente toda a
voltagem do vetor será registrada.
Análise Vetorial dos Potenciais nas Três Derivações
Bipolares Padronizadas dos Membros. Na Figura 12-6, o
vetor A representa o potencial elétrico instantâneo de
coração parcialmente despolarizado. Para determinar o
potencial registrado nesse instante no eletrocardiograma,
para cada uma das três derivações bipolares padronizadas
dos membros, linhas perpendiculares (as linhas tracejadas)
são traçadas da ponta do vetor A para as três linhas
representando os eixos das três diferentes derivações
padronizadas, como mostrado na figura. O vetor projetado
B representa o potencial registrado nesse instante na
derivação I, o vetor projetado C representa o potencial na
derivação II, e o vetor projetado D representa o potencial na
derivação III. Em todos eles, o registro no
eletrocardiograma é positivo — ou seja, acima da linha zero
— porque os vetores projetados apontam nas direções
positivas, ao longo dos eixos, de todas as derivações. O
potencial no eixo I (vetor B) é cerca da metade do poten
cial real no coração (vetor A); na derivação II (vetor C), é
quase igual ao do coração; e na derivação III (vetor D) é
cerca de um terço do coração.
Análise idêntica pode ser usada para determinar os
potenciais registrados nas derivações aumentadas dos
membros; a diferença é que os respectivos eixos das
derivações aumentadas (Fig. 12-3) são usados no lugar dos
eixos das derivações bipolares padronizadas dos membros,
usados na Figura 12-6.
Análise Vetorial do Eletrocardiograma Normal
Vetores que Ocorrem a Intervalos Sucessivos
Durante a Despolarização dos Ventrículos —
o Complexo QRS
Quando o impulso cardíaco chega aos ventrículos pelo
feixe atrioventricular, a primeira parte dos ventrículos a se
despolarizar é a superfície endocárdica esquerda do septo.
Então, a despolarização se espalha rapidamente para
atingir ambas as superfícies endocárdicas do septo, como
demonstrado pela porção sombreada do ventrículo, na
Figura 12-7A. Depois, a despolarização se espalha ao longo
das superfícies endocárdicas do restante dos dois
ventrículos, como mostrado na Figura 12-75 e C. Por fim,
ela se espalha pelo músculo ventricular, até a superfície
externa do coração, como mostrado progressivamente na
Figura 12-7C, D eE.
Em cada estágio na Figura 12-7, partes A a E, o potencial
elétrico médio instantâneo dos ventrículos é representado
pelo vetor vermelho, sobreposto ao ventrículo em cada
painel da figura. Cada um desses vetores é então analisado
pelo método descrito na seção anterior, para determinar as
voltagens que serão registradas a cada instante em cada
uma das três derivações eletrocardiográfi- cas
padronizadas. À direita, em cada figura, é mostrado o
desenvolvimento progressivo do complexo QRS ele-
trocardiográfico. Tenha em mente que vetor positivo em
Figura 12-5 Determinação do vetor projetado B ao longo do
eixo da derivação I quando o vetor A representa o potencial
instantâneo dos ventrículos.
Figura 12-6 Determinação dos vetores projetados nas
derivações I, II e III quando o vetor A representa o potencial
instantâneo nos ventrículos.
139
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Unidade III O Coração
Figura 12-7 As áreas sombreadas dos ventrículos estão despolarizadas (-); as áreas não sombreadas ainda estão polarizadas (+). Os
vetores ventriculares e os complexos QRS, 0,01 segundo após o início da despolarização ventricular (A); 0,02 segundo depois do início
da des- polarização (6); 0,035 segundo depois do início da despolarização (C); 0,05 segundo depois do início da despolarização (D); e
depois que a despolarização dos ventrículos se completou, 0,06 segundo depois do início (£).
uma derivação terá registro acima da linha zero no ele-
trocardiograma, ao passo que vetor negativo terá registro abaixo
da linha zero.
Antes de continuarmos com considerações adicionais
da análise vetorial, é essencial que essa análise dos vetores
normais sucessivos, apresentada na Figura 12-7, seja
entendida. Cada uma dessas análises deve ser estudada
detalhadamente pelo procedimento exposto aqui. Um
pequeno resumo dessa sequência vem a seguir.
Na Figura 12-7A, o músculo ventricular apenas
começou a ser despolarizado, representando um instante
de cerca de 0,01 segundo depois do início da
despolarização. Nesse momento, o vetor é pequeno porque
apenas pequena porção dos ventrículos — o septo — está
des- polarizada. Portanto, todas as voltagens
eletrocardiográ- ficas são baixas e registradas para a direita
do músculo ventricular em cada uma das derivações. A
voltagem na derivação II é maior que as voltagens nas
derivações I e III
porque o vetor cardíaco se estende, de forma
preponderante, na mesma direção que o eixo da derivação
II.
Na Figura 12-75, que representa cerca de 0,02 segundo
após o início da despolarização, o vetor cardíaco é grande
porque muito da massa muscular ventricular já se des-
polarizou. Portanto, as voltagens em todas as derivações
eletrocardiográficas aumentaram.
Na Figura 12-7C, cerca de 0,035 segundo depois do
início da despolarização, o vetor cardíaco está ficando
menor, e as voltagens eletrocardiográficas registradas estão
menores porque o lado externo do ápice do coração está
agora eletronegativo, neutralizando grande parte da
positividade nas outras superfícies epicárdicas do coração.
Também, o eixo do vetor está começando a girar para
0 lado esquerdo do tórax porque o ventrículo esquerdo se
despolariza pouco mais lentamente que o direito. Por
conseguinte, a proporção entre as voltagens da derivação
1 e da derivação III está aumentando.
140
Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano:AnáliseVetorial
Na Figura 12-7D, cerca de 0,05 segundo depois do início
da despolarização, o vetor cardíaco aponta na direção da
base do ventrículo esquerdo, e é curto porque apenas uma
porção muito pequena do músculo ventricular ainda está
polarizada. Por causa da direção do vetor nesse momento,
as voltagens registradas nas derivações II e III são ambas
negativas — isto é, abaixo da linha zero —, enquanto a
voltagem na derivação I ainda é positiva.
Na Figura 12-7£, cerca de 0,06 segundo depois do início
da despolarização, toda a massa muscular ventricular está
despolarizada e, então, nenhuma corrente flui em torno do
coração, e nenhum potencial elétrico é gerado. O vetor
passa a ser zero, e as voltagens em todas as derivações são
zeradas.
Assim, os complexos QRS são completados nas três
derivações bipolares padronizadas dos membros.
Às vezes, o complexo QRS apresenta pequena
depressão negativa em seu início, em uma ou mais das
derivações, o que não é mostrado na Figura 12-7; essa
depressão é a onda Q. Quando ela ocorre, é devida à
despolarização inicial do lado esquerdo do septo, antes do
lado direito, que cria um fraco vetor da esquerda para a
direita por fração de segundo, antes que o usual vetor
base-para-ápice ocorra. A maior deflexão positiva,
mostrada na Figura 12-7, é a onda R, e a deflexão final
negativa é a onda S.
Eletrocardiograma durante a Repolarização —
a OndaT
Depois de o músculo ventricular ter sido despolarizado, a
repolarização começa, cerca de 0,15 segundo após, e
continua até se completar em cerca de 0,35 segundo. Essa
repolarização causa a onda T no eletrocardiograma.
Como o septo e as áreas endocárdicas do músculo
ventricular se despolarizam primeiro, parece lógico que
essas áreas deveríam se repolarizar também em primeiro
lugar. No entanto, isso não é o usual porque o septo e as
outras áreas endocárdicas têm período de contração mais
longo que a maior parte das superfícies externas do
coração. Portanto, a maior porção da massa muscular
ventricular a se repolarizar primeiro é toda a superfície externa
dos ventrículos, especialmente perto do ápice do coração. As áreas
endocárdicas normalmente se repola- rizam por último.
Postula-se que essa sequência de repolarização seja causada
pela alta pressão sanguínea dentro dos ventrículos durante
a contração, o que reduz muito o fluxo sanguíneo
coronariano para o endocárdio, retardando assim a
repolarização das áreas endocárdicas.
Como as superfícies apicais externas dos ventrículos se
repolarizam antes das superfícies internas, a extremidade
positiva do vetor ventricular resultante, durante a
repolarização, é na direção do ápice do coração. Como
consequência, a onda T normal em todas as derivações bipolares
dos membros é positiva que é também a polaridade da maioria dos
complexos QRS normais.
Na Figura 12-8, cinco estágios da repolarização dos
ventrículos estão representados pelo aumento progressivo
das áreas claras — as áreas repolarizadas. Em cada estágio,
o vetor se estende da base do coração em dire-
A __ n____ ___ zx
A _z:___ ___ z.
in —=---------- =—■"——-x—
Figura 12-8 Geração da onda T durante a repolarização dos
ventrículos, mostrando também a análise vetorial do primeiro
estágio da repolarização. O tempo total decorrido, desde o
início da onda T até seu término, é de aproximadamente 0,15
segundo.
ção ao ápice, até desaparecer no último estágio. Primeiro, o
vetor é relativamente pequeno porque a área de
repolarização é pequena. Depois, o vetor fica maior em
virtude dos graus maiores de repolarização. Por fim, o
vetor volta a ficar menor porque as áreas de despolarização
que ainda persistem são tão pequenas que a quantidade
total de fluxo de corrente fica muito pequena. Essas
variações demonstram também que o vetor é máximo
quando cerca da metade do coração está no estado
polarizado, e cerca da metade está despolarizada.
As variações nos eletrocardiogramas das três
derivações padronizadas dos membros, durante a
repolarização, são representadas abaixo de cada um dos
ventrículos, mostrando os estágios progressivos da
repolarização. Assim, após cerca de 0,15 segundo, o tempo
necessário para que todo o processo aconteça, é gerada a
onda T do eletrocardiograma.
Despolarização dos Átrios — a Onda P
A despolarização dos átrios começa no nodo sinusal e se
espalha em todas as direções pelos átrios. Por isso, o ponto
original de eletronegatividade nos átrios fica,
aproximadamente, no ponto de entrada da veia cava
superior, onde está situado o nodo sinusal: a direção da
despolarização inicial é mostrada pelo vetor preto, na
Figura 12-9. Além disso, o vetor permanece em geral nessa
direção durante todo o processo da despolarização atrial
normal. Como essa direção é usualmente na direção
positiva dos eixos das três derivações bipolares
padronizadas dos membros padrão I, II e III, os
eletrocardiogramas registrados nos átrios durante a
despolarização são também, em geral, positivos em todas
essas derivações, como mostrados na Figura 12-9. Esse
registro da despolarização atrial é conhecido como onda P
atrial.
141
Unidade III O Coração
Figura 12-9 Despolarização dos átrios e geração da onda P,
mostrando o vetor máximo dos átrios e os vetores resultantes
nas três derivações padrão. À direita são mostradas as ondas P
eT atriais. SA, nodo sinoatrial.
Repolarização dos Átrios — a Onda T Atrial. A
propagação da despolarização pelo músculo atrial é muito
mais lenta que nos ventrículos porque os átrios não têm
sistema de Purkinje para a condução rápida do sinal de
despolarização. Assim, a musculatura ao redor do nodo
sinusal fica despolarizada por longo tempo, antes que a
musculatura nas partes distais dos átrios o seja. Por isso, a
área nos átrios que também se repolariza primeiro é a região do
nodo sinusal, a área que originalmente tinha se despolarizado
primeiro. Assim, quando a repolarização começa, a região
em volta do nodo sinusal fica positiva em relação ao
restante dos átrios. Portanto, o vetor de repolarização atrial
é o oposto em relação ao vetor de despolarização. (Note que isso é
contrário ao que ocorre nos ventrículos.) Assim, como
mostrado à direita, na Figura 12-9, a chamada onda T atrial
vem cerca de 0,15 segundo depois da onda P atrial, mas
essa onda T ocorre no lado oposto da linha zero de
referência da onda P; isto é, usualmente ela é negativa em
vez de positiva nas três derivações bipolares padronizadas
dos membros.
No eletrocardiograma normal, a onda T atrial ocorre
quase ao mesmo tempo que o complexo QRS dos
ventrículos. Assim, ela é quase sempre totalmente
obscurecida pelo grande complexo QRS ventricular, apesar
de que, em alguns estados muito anormais, ela realmente
apareça no registro do eletrocardiograma.
Ve t o rca rd i ogra m a
Notou-se, na discussão até este ponto, que o vetor do fluxo
da corrente pelo coração varia rapidamente à medida que o
impulso se espalha pelo miocárdio. Ele varia por dois
aspectos: primeiro, o vetor aumenta e diminui de tamanho,
em virtude da voltagem crescente e decrescente do vetor.
Segundo, o vetor muda de direção, por causa das variações
da direção média do potencial elétrico originário do
coração. O chamado vetorcardiograma mostra essas
variações em diferentes tempos durante o ciclo cardíaco,
como representado na Figura 12-10.
Figura 12-10 Vetorcardiogramas de QRS eT.
No grande vetorcardiograma da Figura 12-10, o ponto 5
é o ponto de referência zero-, esse ponto é a extremidade
negativa de todos os vetores que se sucedem. Enquanto o
músculo cardíaco fica polarizado entre os batimentos
cardíacos, a extremidade positiva do vetor permanece no
ponto zero por não existir potencial elétrico vetorial.
Entretanto, tão logo a corrente comece a fluir pelos
ventrículos, no início da despolarização ventricular a
extremidade positiva do vetor sai do ponto de referência
zero.
Quando o septo é despolarizado primeiro o vetor se
estende para baixo em direção ao ápice dos ventrículos,
mas é relativamente fraco, gerando assim a primeira
porção do vetorcardiograma ventricular, como mostrado
pela extremidade positiva do vetor 1. À medida que mais
músculo ventricular é despolarizado, o vetor fica mais e
mais forte, em geral pouco se desviando para um lado.
Assim, o vetor 2 da Figura 12-10 representa o estado de
despolarização dos ventrículos cerca de 0,02 segundo
depois do vetor 1. Após mais 0,02 segundo, o vetor 3
representa o potencial, e o vetor 4 ocorre em mais 0,01
segundo. Finalmente, os ventrículos ficam totalmente
despolariza- dos, e o vetor volta de novo ao valor zero,
como mostrado no ponto 5.
A figura elíptica, gerada pelas extremidades positivas
dos vetores, é referida como vetorcardiograma do QRS.
Vetorcardiogramas podem ser registrados em osciloscó-
pio, conectando os eletródios na superfície do pescoço e do
abdome inferior às placas verticais do osciloscópio e
conectando os eletródios na superfície torácica de cada lado
do coração às placas horizontais. Quando o vetor varia, o
ponto de luz na tela do osciloscópio segue o percurso da
extremidade positiva do vetor, inscrevendo desse modo o
vetorcardiograma no visor do osciloscópio.
Eixo Elétrico Médio do QRS Ventricular — e
seu Significado
O vetorcardiograma, durante a despolarização ventricular
(o vetorcardiograma do QRS), mostrado na Figura 12-10,
142
Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano:AnáliseVetorial
é de um coração normal. Note nesse vetorcardiograma que
a direção predominante dos vetores dos ventrículos
durante a despolarização é em direção ao ápice do coração.
Isto é, durante a maior parte do ciclo de despolarização
ventricular, a direção do potencial elétrico (negativo para
positivo) é da base dos ventrículos para o ápice. Essa
direção predominante do potencial durante a
despolarização é referida como eixo elétrico médio dos
ventrículos. O eixo elétrico médio dos ventrículos normais é
de 59°. Em muitas condições patológicas cardíacas, essa
direção se altera de modo pronunciado, às vezes, até para
polos opostos do coração.
Determinação do Eixo Elétrico pelas Derivações
Eletrocardiográficas Padronizadas
Na prática clínica, usualmente se estima o eixo elétrico do
coração por meio das derivações eletrocardiográficas
bipolares padronizadas dos membros, em vez de pelo
vetorcardiograma. A Figura 12-11 apresenta o método para
se fazer isso. Depois de registrar as derivações
padronizadas, determinam-se o potencial e a polaridade
resultantes nos registros das derivações I e III. Na derivação
I da Figura 12-11, o registro é positivo, e na derivação III, o
registro é preponderantemente positivo, mas negativo
durante parte do ciclo. Se alguma parte do registro for
negativa, esse potencial negativo será subtraído da parte positiva
do potencial para determinar o potencial resultante (ou efetivo)
para essa derivação, como mostrado pela seta à direita do
complexo QRS, na derivação III. Em seguida, cada
potencial resultante, para as derivações I e III, é marcado
nos eixos das respectivas derivações, com a base do
potencial no ponto de interseção dos eixos, como mostrado
na Figura 12-11.
Se o potencial resultante da derivação I for positivo, ele
será marcado, com direção positiva, ao longo da linha que
representa a derivação I. Inversamente, se esse potencial for
negativo, ele será marcado na direção negativa. Também
para a derivação III, o potencial resultante é representado
com sua base no ponto de interseção e, se positivo, é
marcado na direção positiva, ao longo da
Figura 12-11 Determinação do eixo elétrico médio dos
ventrículos por meio de duas derivações eletrocardiográficas
(derivações I e III).
linha representando a derivação III. E, se for negativo, será
marcado na direção negativa.
Para determinar o vetor do potencial elétrico
ventricular médio total do QRS, traçam-se linhas
perpendiculares (as linhas tracejadas na figura), pelas
pontas das derivações I e III, respectivamente. O ponto de
interseção dessas duas linhas perpendiculares representa,
por análise vetorial, a ponta do vetor QRS médio nos
ventrículos, e o ponto de interseção dos eixos das
derivações I e III representa a extremidade negativa do
vetor médio. Assim, o vetor QRS médio é traçado entre esses
dois pontos. O potencial médio aproximado gerado pelos
ventrículos durante a despolarização é representado pelo
comprimento desse vetor QRS médio, e o eixo elétrico
médio é representado pela direção do vetor médio. Assim,
a orientação do eixo elétrico médio dos ventrículos
normais, como determinada na Figura 12-11, é de 59°
positivos (+59°).
Condições Ventriculares Anormais que Causam
Desvio de Eixo
Apesar de o eixo elétrico médio dos ventrículos ser em
geral por volta de 59°, esse eixo pode se desviar mesmo no
coração normal de cerca de 20° até cerca de 100°. As causas
das variações normais são, em sua maior parte, diferenças
anatômicas do sistema de distribuição de Purkinje ou da
própria musculatura dos diferentes corações. Entretanto,
várias condições cardíacas anormais podem causar desvio
do eixo, além dos limites normais, como se segue.
Mudança da Posição do Coração no Tórax. Se o
coração está angulado para a esquerda, o eixo elétrico
médio do coração também é desviado para a esquerda. Esse
desvio ocorre (1) ao final de expiração profunda, (2)
quando a pessoa se deita, porque o conteúdo abdominal faz
pressão para cima, contra o diafragma e (3) de forma
relativamente frequente em pessoas obesas, cujos
diafragmas, via de regra, exercem pressão para cima, contra
o coração todo o tempo, devido ao aumento da adiposidade
visceral.
Analogamente, a angulação do coração para a direita
causa o desvio do eixo elétrico médio dos ventrículos para a
direita. Isso ocorre (1) ao final de inspiração profunda, (2)
quando a pessoa se levanta, e, (3) usualmente, nas pessoas
altas e longilíneas cujos corações pendem.
Hipertrofia de um Ventrículo. Quando um ventrí-
culo apresenta hipertrofia acentuada, o eixo do coração é
desviado na direção do ventrículo hipertrofiado por duas razões.
Primeira, existe quantidade muito maior de músculo no
lado hipertrofiado do coração, em relação ao outro lado, e
isso faz com que ocorra geração maior de potencial elétrico
nesse lado. Segunda, é necessário mais tempo para que a
onda de despolarização passe pelo ventrículo hipertrofiado
que pelo ventrículo normal. Consequentemente, o
ventrículo normal é despolarizado muito antes que o
ventrículo hipertrofiado, e isso causa grande vetor do lado
normal do coração para o lado hiper-
143
Unidade III O Coração
trofiado, que permanece com forte carga positiva. Assim, o
eixo se desvia em direção ao ventrículo hipertrofiado.
Análise Vetorial do Desvio de Eixo para a Esquerda
em Decorrência da Hipertrofia do Ventrículo Esquerdo.
A Figura 12-12 mostra as três derivações eletrocadio-
gráficas bipolares padronizadas dos membros. A análise
vetorial demonstra desvio à esquerda do eixo, apontando
na direção de -15°. Esse é um eletrocardiograma típico,
causado pelo aumento de massa muscular do ventrículo
esquerdo. Nesse caso, o desvio do eixo foi causado por
hipertensão (alta pressão sanguínea arterial), que fez o
ventrículo esquerdo se hipertrofiar para poder bombear
sangue contra a pressão arterial sistêmica elevada. Ocorre
quadro semelhante de desvio do eixo para a esquerda
quando o ventrículo esquerdo se hipertrofia, como
resultado de estenose valvar aórtica, regurgitação valvar aór-
tica ou várias condições cardíacas congênitas, nas quais o
ventrículo esquerdo aumenta, enquanto o ventrículo
direito permanece com tamanho relativamente normal.
Análise Vetorial do Desvio de Eixo para a Direita em
Decorrência da Hipertrofia do Ventrículo Direito. O
eletrocardiograma da Figura 12-13 mostra desvio
acentuado do eixo para a direita, para eixo elétrico de 170°,
que é 111° à direita do eixo ventricular médio do QRS de
59°. O desvio do eixo para a direita, mostrado nessa figura,
foi causado por hipertrofia do ventrículo direito, resultante
de estenose valvar pulmonar congênita. O desvio do eixo para
a direita também pode ocorrer em outras condições
cardíacas congênitas, causadoras de hipertrofia do
ventrículo direito, como a tetralogia de Fallot e o defeito do
septo interventricular.
Bloqueio de Ramo Causa Desvio de Eixo.
Normalmente, as paredes laterais dos dois ventrículos se
des- polarizam quase ao mesmo instante, porque os ramos
esquerdo e direito do sistema de Purkinje transmitem o
impulso cardíaco, de forma quase simultânea, para as
III
III
Figura 12-12 Desvio do eixo para a esquerda em um coração
hipertenso (ventrículo esquerdo hipertrófico). Note também o
complexo QRS discretamente alargado.
duas paredes ventriculares. Como resultado, os potenciais
gerados pelos dois ventrículos (nos dois lados opostos do
coração) quase se neutralizam mutuamente. Mas, se um
dos maiores ramos dos feixes estiver bloqueado, o impulso
cardíaco se espalhará pelo ventrículo normal muito antes
do que pelo outro. Assim, a despolarização dos dois
ventrículos fica muito longe de ser simultânea, e os
potenciais de despolarização não se neutralizam
mutuamente. Como consequência, ocorre desvio do eixo
como se segue.
Análise Vetorial do Desvio do Eixo para a Esquerda
no Bloqueio de Ramo Esquerdo. Quando o ramo
esquerdo é bloqueado, a despolarização cardíaca se
espalha pelo ventrículo direito com rapidez duas ou três
vezes maior que pelo ventrículo esquerdo.
Consequentemente, grande porção do ventrículo esquerdo
permanece polarizada por até 0,1 segundo após o
ventrículo direito ter sido totalmente despolarizado.
Assim, o ventrículo direito passa a ser eletronegativo,
enquanto o ventrículo esquerdo permanece eletropositivo
durante a maior parte do processo de despolarização, e um
grande vetor se projeta do ventrículo direito na direção do
ventrículo esquerdo. Em outras palavras, ocorre desvio
acentuado do eixo para a esquerda, de cerca de -50°,
porque a extremidade positiva do vetor aponta na direção
do ventrículo esquerdo. Isso é mostrado na Figura 12-14,
que apresenta um típico desvio do eixo para a esquerda,
resultante de bloqueio do ramo esquerdo.
III
Figura 12-13 Eletrocardiograma de alta voltagem em estenose
de valva pulmonar congênita com hipertrofia ventricular direita.
Também podem ser vistos o intenso desvio do eixo para a
direita e o complexo QRS discretamente prolongado.
144
Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano:AnáliseVetorial
Além do desvio do eixo, devido à lentidão da condução
do impulso quando o sistema de Purkinje está bloqueado, a
duração do complexo QRS é muito prolongada, em
decorrência da extrema lentidão da despolarização no lado
afetado do coração. Pode-se ver isso ao notar a largura
excessiva das ondas QRS na Figura 12-14. Isso é discutido
com mais detalhes adiante, neste capítulo. Esse complexo
QRS extremamente prolongado diferencia o bloqueio de
ramo do desvio causado por hipertrofia.
Análise Vetorial do Desvio do Eixo para a Direita no
Bloqueio de Ramo Direito. Quando o ramo direito é
bloqueado, o ventrículo esquerdo é despolarizado muito
mais rápido que o ventrículo direito; então, o lado
esquerdo dos ventrículos fica eletronegativo até 0,1
segundo antes do direito. Assim, se desenvolve grande
vetor, com sua extremidade negativa na direção do
ventrículo esquerdo e sua extremidade positiva na direção
do ventrículo direito. Em outras palavras, ocorre intenso
desvio do eixo para a direita. Na Figura 12-15, é mostrado
um desvio de eixo para a direita causado por bloqueio do
ramo direito, e seu vetor é analisado, nessa mesma figura,
com eixo de cerca de 105°, no lugar dos 59° normais, e
complexo QRS alargado, decorrente da condução lenta.
Condições que Causam Voltagens Anormais
do Complexo QRS
Voltagem Aumentada nas Derivações Bipolares
Padronizadas dos Membros
Em condições normais, as voltagens nas três derivações
bipolares padronizadas dos membros, medidas do pico da
onda R ao fundo da onda S, variam entre 0,5 e 2,0 mili-
volts, com a derivação III usualmente registrando a
voltagem mínima, e a derivação II, a máxima. Entretanto,
essas relações não são invariáveis, mesmo para o coração
normal. Em geral, quando a soma das voltagens de todos
os complexos QRS nas três derivações padrão é maior que 4
milivolts, considera-se que o paciente apresenta
eletrocardiograma de alta voltagem.
Com muita frequência a causa dos complexos QRS de
alta voltagem é o aumento da massa muscular do coração
que usualmente resulta de hipertrofia do músculo em
resposta à carga excessiva sobre uma parte do coração ou a
outra. Por exemplo, o ventrículo direito se hipertrofia
quando tem de bombear sangue por valva pulmonar
estenosada, e o ventrículo esquerdo se hipertrofia nos casos
de hipertensão arterial. A quantidade aumentada de
músculo provoca geração de quantidade aumentada de
eletricidade em volta do coração. Como resultado, os
potenciais elétricos, registrados nas derivações eletro-
cardiográficas, são muito maiores que os normais, como
mostrado nas Figuras 12-12 e 12-13.
Voltagem Diminuída no Eletrocardiograma
Voltagem Diminuída Causada por Miopatia
Cardíaca.
Uma das causas mais comuns de voltagem diminuída do
complexo QRS é série de antigos infartos miocárdicos que
resultam em massa muscular diminuída. Isso também faz
com que a onda de despolarização se espalhe de forma
lenta pelos ventrículos e impeça que grandes porções do
coração fiquem maciçamente despolarizadas ao mesmo
tempo. Consequentemente, essa condição causa
alargamento do complexo QRS, além da diminuição de
voltagem. A Figura 12-16 mostra típico eletrocardiograma
de baixa voltagem com alargamento do complexo QRS, que
é comum após múltiplos infartos miocárdicos pequenos
terem causado atrasos locais da condução de impulso e
voltagens reduzidas, devido à perda de massa muscular
dos ventrículos.
Voltagem Diminuída Causada por Condições
Circundantes do Coração. Uma das causas mais
importantes de voltagem diminuída nas derivações
eletrocardiográficas é a presença de líquido no pericárdio.
Como o líquido extracelular conduz as correntes elétricas
com muita
Figura 12-14 Desvio do eixo para a esquerda causado por
bloqueio do ramo esquerdo. Note também o complexo QRS
muito prolongado.
Figura 12-15 Desvio do eixo para a direita causado por bloqueio
do ramo direito. Note também o complexo QRS muito
prolongado.
145
U
N
I
D
A
Unidade III O Coração
II
III
Figura 12-16 Eletrocardiograma de baixa voltagem secundário à
lesão local dos ventrículos, causada por infarto miocárdico
prévio.
Complexo QRS Prolongado Decorrente
de Bloqueio do Sistema de Purkinje
Quando as fibras de Purkinje são bloqueadas, o impulso
cardíaco deve ser conduzido pelo músculo ventricular,
em vez de pela via do sistema de Purkinje. Isso diminui a
velocidade da condução do impulso a cerca de um terço
do normal. Assim, quando ocorre bloqueio completo de
um dos ramos, a duração do complexo QRS usualmente
aumenta para 0,14 segundo ou ainda mais.
Em geral, o complexo QRS é considerado anormal-
mente longo quando dura mais de 0,09 segundo; quando
ele dura mais de 0,12 segundo, o prolongamento é quase
certamente causado por bloqueio patológico em algum
ponto do sistema de condução ventricular, como mos-
trado nos eletrocardiogramas de bloqueio de ramo, nas
Figuras 12-14 e 12-15.
facilidade, grande proporção da eletricidade gerada pelo
coração é conduzida de uma parte do coração para a outra
pelo líquido pericárdico. Assim, essa efusão efetivamente
produz “curto-circuito” dos potenciais elétricos cardíacos,
diminuindo as voltagens eletrocardiográficas que atingem
as superfícies externas do corpo. O derrame pleural menos
frequentemente também pode criar “curto- circuito” da
eletricidade em volta do coração, de modo que as voltagens
na superfície do corpo e nos eletrocardiogramas fiquem
diminuídas.
O enfisema pulmonar pode diminuir os potenciais
eletrocardiográficos, mas por razão diferente do derrame
pericárdico. No enfisema pulmonar, a condução da
corrente elétrica pelos pulmões é muito diminuída por
causa da quantidade excessiva de ar nos pulmões. Além
disso, a cavidade torácica aumenta, e os pulmões tendem a
envolver o coração em maior grau que o normal. Como
resultado, os pulmões agem como isolante para impedir a
dispersão da voltagem elétrica cardíaca para a superfície do
corpo, e isso produz potenciais eletrocardiográficos
diminuídos nas várias derivações.
Padrões Prolongados e Bizarros
do Complexo QRS
Complexo QRS Prolongado como Resultado de
Hipertrofia ou Dilatação Cardíaca
O complexo QRS perdura enquanto a despolarização
continua a se espalhar pelos ventrículos — isto é, enquanto
parte dos ventrículos está despolarizada e o restante ainda
está polarizado. Por conseguinte, a condução prolongada do
impulso pelos ventrículos sempre causa o prolongamento
do complexo QRS. Esse prolongamento em geral ocorre
quando um ou ambos os ventrículos estão hipertrofiados
ou dilatados em virtude do percurso mais longo que o
impulso tem de percorrer. O complexo QRS normal dura
de 0,06 a 0,08 segundo, enquanto, na hipertrofia ou
dilatação do ventrículo direito ou esquerdo, o complexo
QRS pode estar prolongado por até 0,09 a 0,12 segundo.
Condições que Causam Complexos QRS Bizarros
Padrões bizarros do complexo QRS, na maioria das vezes,
são causados por duas condições: (1) destruição do
músculo cardíaco em várias áreas do sistema ventricular,
com substituição desse músculo por tecido cica- tricial, e (2)
múltiplos bloqueios pequenos e locais da condução do
impulso em vários pontos do sistema de Purkinje. Como
resultado, a condução do impulso cardíaco passa a ser
irregular, causando rápidas inversões das voltagens e
desvios de eixo. Isso geralmente causa picos duplos ou até
mesmo triplos em algumas das derivações
eletrocardiográficas, como as mostradas na Figura 12-14.
Corrente de Lesão
Muitas anormalidades cardíacas distintas, em especial as
que lesam o próprio músculo cardíaco, fazem com que, em
geral, parte do coração permaneça parcial ou totalmente
despolarizada durante todo o tempo. Quando isso ocorre, a
corrente flui entre as áreas despolarizadas por patologias e
as normalmente polarizadas, mesmo entre os batimentos
cardíacos. Essa condição é referida como corrente de lesão.
Note principalmente que a parte lesada do coração é negativa,
porque essa é a parte que é despolarizada e lança cargas negativas
nos líquidos circundantes, enquanto a polaridade do resto do
coração é neutra ou positiva.
Algumas anormalidades causadoras de corrente de
lesão são (1) trauma mecânico, que, às vezes, faz com que as
membranas celulares permaneçam tão permeáveis que não
permitem que ocorra a repolarização; (2) processos infecciosos
que lesam as membranas musculares; e (3) isquemia de áreas
do músculo cardíaco, causada por oclusões coronarianas locais,
que é de longe a causa mais comum de corrente de lesão no
coração. Durante a isquemia, nutrientes suficientes no
sangue coronariano não ficam disponíveis para o músculo
cardíaco para manter a polarização normal das membranas
celulares.
146
Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Vetorial
Efeito da Corrente de Lesão no Complexo QRS
Na Figura 12-17, pequena área na base do ventrículo
esquerdo foi recentemente infartada (perda do fluxo
sanguíneo coronariano). Assim, durante o intervalo T-P —
isto é, quando o músculo ventricular normal está
totalmente polarizado —, ainda flui uma corrente negativa
anormal da área infartada na base do ventrículo esquerdo e
que se espalha para o restante dos ventrículos.
O vetor dessa “corrente de lesão”, como mostrado no
primeiro coração na Figura 12-17, está na direção de cerca
de 125°, com a base do vetor, a extremidade negativa, voltada
para o músculo lesado. Como mostrado na parte inferior da
figura, mesmo antes do início do complexo QRS, esse vetor
produz registro inicial na derivação I abaixo da linha de potencial
zero, porque o vetor projetado da corrente de lesão na
derivação I aponta na direção da extremidade negativa do
eixo da derivação I. Na derivação II, o registro é acima da
linha porque o vetor projetado aponta de forma
predominante para a extremidade positiva da derivação.
Na derivação III, o vetor projetado aponta na mesma
direção que a extremidade positiva da derivação III, de
modo que o registro é positivo. Além disso, como o vetor
fica quase exatamente na direção do eixo da derivação III, a
voltagem da corrente de lesão na derivação III é muito
maior que nas derivações I ou II.
À medida que o coração continua em seu processo
normal de despolarização, o septo é despolarizado
primeiro; em seguida, a despolarização se espalha para
baixo, em direção ao ápice, e para trás, em direção às bases
dos ventrículos. A última porção dos ventrículos a ser
totalmente despolarizada é a base do ventrículo direito,
porque a base do ventrículo esquerdo já está total e
permanentemente
despolarizada. Por análise vetorial, os estágios sucessivos
da geração do eletrocardiograma, pela propagação da onda
de despolarização pelos ventrículos, podem ser
construídos graficamente, como demonstrados na parte
inferior da Figura 12-17.
Quando o coração fica totalmente despolarizado, ao
final do processo de despolarização (como observado no
estágio próximo ao final, na Fig. 12-17), todo o músculo
ventricular está no estado negativo. Portanto, nesse
instante do eletrocardiograma, nenhuma corrente flui dos
ventrículos para os eletródios do eletrocardiógrafo, porque
agora tanto o músculo cardíaco lesado como o músculo que
se contrai estão despolarizados.
Depois, à medida que ocorre a repolarização, todo o
coração por fim se repolariza, exceto a área de
despolarização permanente, na base lesada do ventrículo
esquerdo. Assim, a repolarização produz o reaparecimento
da corrente de lesão em todas as derivações, como
mostrado na extrema direita da Figura 12-17.
O Ponto J — O Potencial de Referência Zero para
Analisar Corrente de Lesão
Pode-se pensar que os eletrocardiógrafos, para registro dos
eletrocardiogramas, poderíam determinar quando não
existe corrente fluindo em torno do coração. Entretanto,
muitas correntes extras existem no corpo, como correntes
decorrentes dos “potenciais da pele” e das diferenças de
concentrações iônicas nos diferentes líquidos do corpo.
Assim, quando dois eletródios são conectados entre os
braços ou entre um braço e uma perna, essas correntes
extras fazem com que seja impossível predeterminar o
nível exato de referência zero no eletrocardiograma.
Área lesada
Corrente "/
de lesão < ^ -f -h—=»W-JVQ
J
~1 ~1-N~Vr>
±Aif>
' i
►
Corrente
de lesão
Figura 12-17 Efeito da corrente de lesão no eletrocardiograma.
147
U
N
I
D
A
Unidade III O Coração
Por essas razões, o procedimento seguinte deve ser
usado para determinar o nível de potencial zero: primeiro,
verifica-se o ponto exato em que a onda de despolariza- ção acaba
de completar sua passagem pelo coração, o que ocorre ao final
do complexo QRS. Exatamente nesse ponto, todas as partes
dos ventrículos se tornaram des- polarizadas, incluindo
tanto as partes lesadas como as normais; assim, não existe
fluxo de corrente em volta do coração. Mesmo a corrente de
lesão desaparece nesse ponto. Assim, o potencial do
eletrocardiograma nesse instante está no zero. Esse ponto é
conhecido como ponto no eletrocardiograma, como
mostrado na Figura 12-18.
Então, para análise do eixo elétrico do potencial de
lesão, causado pela corrente de lesão, é traçada uma linha
horizontal no eletrocardiograma para cada derivação no
nível do ponto J. Essa linha horizontal é o nível de potencial
zero no eletrocardiograma, referência para a medida de
todos os potenciais causados por correntes de lesão.
Uso do Ponto J para Determinar o Eixo do Potencial
de Lesão. A Figura 12-18 mostra eletrocardiogramas
(derivações I e III) de coração lesado. Ambos os registros
mostram potenciais de lesão. Em outras palavras, o ponto J
de cada um desses eletrocardiogramas não está na mesma
linha que o segmento T-P. Na figura, foi traçada uma linha
horizontal passando pelo ponto J para representar o nível
de voltagem zero em cada um desses registros. O potencial
de lesão em cada derivação é a diferença entre a voltagem
do eletrocardiograma, imediatamente antes do
aparecimento da onda P, e o nível de voltagem zero,
determinado pelo ponto }. Na derivação I, a voltagem
registrada do potencial de lesão está acima do nível de
potencial zero e é, portanto, positiva. Ao contrá-
+
III
Figura 12-18 Ponto J como potencial de referência zero dos
eletrocardiogramas nas derivações I e III. Também, na parte
inferior da figura, é mostrado o método para determinar o eixo
do potencial de lesão.
rio, na derivação III, o potencial de lesão está abaixo do
nível de voltagem zero e, portanto, é negativo.
Na parte superior da Figura 12-18, estão representados
nas coordenadas dessas derivações os respectivos
potenciais de lesão nas derivações I e III, e o vetor
resultante do potencial de lesão para toda a massa
muscular ventricular é determinado por análise vetorial
como descrito. Nesse caso, o vetor resultante se estende do
lado direito dos ventrículos, na direção esquerda, e
ligeiramente para cima, com eixo de cerca de -30°. Se esse
vetor para o potencial de lesão for colocado diretamente
sobre os ventrículos, a extremidade negativa do vetor apontará
na direção da área permanentemente despolarizada e “lesada” dos
ventrículos. No exemplo mostrado na Figura 12-18, a área
lesada estaria na parede lateral do ventrículo direito.
Obviamente, essa análise é complexa. Entretanto, é
essencial que o estudante retorne a ela até entendê-la
completamente. Nenhum outro aspecto da análise ele-
trocardiográfica é mais importante.
Isquemia Coronariana como Causa do Potencial de
Lesão
A insuficiência do fluxo sanguíneo para o músculo
cardíaco diminui o metabolismo das células musculares
por três processos: (1) falta de oxigênio, (2) acúmulo
excessivo de dióxido de carbono e (3) falta de nutrientes.
Consequentemente, a repolarização das membranas
musculares não pode ocorrer nas áreas de isquemia
coronariana grave. Em geral, o músculo cardíaco não morre
porque o fluxo de sangue é suficiente para manter a vida
do músculo, ainda que não seja suficiente para permitir a
repolarização de suas membranas. Enquanto esse estado
persistir, um potencial de lesão continua a fluir durante o
tempo diastólico (o segmento T-P) de cada ciclo cardíaco.
Ocorre isquemia extrema do músculo cardíaco depois
de oclusão coronária, e forte corrente de lesão flui da área
infartada dos ventrículos durante o intervalo T-P entre os
batimentos cardíacos, como mostrado nas Figuras 12-19 e
12-20. Assim, um dos aspectos diagnósticos mais
importantes dos eletrocardiogramas registrados após
trombose coronariana aguda é a corrente de lesão.
Infarto Agudo da Parede Anterior. A Figura 12-19
mostra o eletrocardiograma nas três derivações bipolares
padronizadas dos membros e em uma derivação torácica
(derivação V2), registrado em paciente com infarto agudo
da parede anterior do miocárdio. O aspecto diagnóstico
mais importante desse eletrocardiograma é o grande
potencial de lesão na derivação torácica V2. Se for traçada a
linha horizontal do potencial zero pelo ponto J nesse
eletrocardiograma, será encontrado um forte potencial de
lesão negativo durante o intervalo T-P, significando que o
eletródio torácico na parte anterior do coração está em área
de potencial fortemente negativo. Em outras palavras, a
extremidade negativa do vetor do potencial de lesão nesse
coração está contra a parede torácica anterior. Isso significa
que a corrente de lesão está emanando da parede anterior
dos ventrículos, o que diagnostica essa condição como
infarto da parede anterior.
148
Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano:AnáliseVetorial
Figura 12-20 Potencial de lesão em infarto agudo da parte api- cal
da parede posterior.
V2
Figura 12-19 Corrente de lesão em infarto agudo da parede
anterior. Note o intenso potencial de lesão na derivação V2.
Analisando-se os potenciais de lesão, nas derivações I e
III, encontra-se um potencial negativo na derivação I e um
potencial positivo na derivação III. Isso significa que o
vetor resultante do potencial de lesão no coração está em
cerca de +150°, com a extremidade negativa apontando
para o ventrículo esquerdo e a extremidade positiva
apontando para o ventrículo direito. Portanto, nesse
eletrocardiograma em particular, a corrente de lesão está
vindo principalmente do ventrículo esquerdo e da parede
anterior do coração. Assim, conclui-se que esse infarto da
parede anterior quase certamente foi causado por trombose
do ramo descendente anterior da artéria coronária
esquerda.
Infarto da Parede Posterior. A Figura 12-20 mostra as
três derivações bipolares padrão dos membros e uma
derivação torácica (derivação V ) de paciente com infarto
da parede posterior. O principal aspecto diagnóstico desse
eletrocardiograma está também na derivação torácica. Se
for traçada uma linha de referência de potencial zero pelo
ponto J nessa derivação, fica de pronto aparente que,
durante o intervalo T-P, o potencial da corrente de lesão é
positivo. Isso significa que a extremidade positiva do vetor
está na direção da parede torácica anterior, e a extremidade
negativa (extremidade lesada do vetor) aponta para fora da
parede torácica. Em outras palavras, a corrente de lesão
está vindo da parte de trás do coração, oposta à parede
torácica anterior, que é a razão para que esse tipo de
eletrocardiograma seja a base para diagnosticar infarto da
parede posterior.
Se forem analisados os potenciais de lesão nas
derivações II e III da Figura 12-20, estará aparente que o
potencial de lesão é negativo em ambas as derivações.
Por análise vetorial, como mostrado na figura, vê-se que o
vetor resultante do potencial de lesão é de cerca de -95°,
com a extremidade negativa apontando para baixo e a
extremidade positiva apontando para cima. Assim, devido
ao fato de o infarto, como indicado na derivação torácica, se
encontrar na parede posterior do coração e, como indicado
pelos potenciais de lesão nas derivações II e III, estar na
porção apical do coração, infere-se que esse infarto está
perto do ápice, na parede posterior do ventrículo esquerdo.
Infarto em Outras Partes do Coração. Pelos mesmos
procedimentos demonstrados nas discussões anteriores
dos infartos das paredes anterior e posterior, é possível
determinar o local de qualquer área infartada causadora de
corrente de lesão, independentemente de qual parte do
coração está envolvida. Fazendo tais análises veto- riais,
deve ser lembrado que a extremidade positiva do vetor do
potencial de lesão aponta na direção do músculo cardíaco normal,
e a extremidade negativa aponta na direção da porção lesada do
coração que está gerando a corrente de lesão.
Recuperação da Trombose Coronariana Aguda. A
Figura 12-21 mostra a derivação torácica V3 de paciente
com infarto agudo de parede posterior, demonstrando as
variações no eletrocardiograma a partir do dia do ataque, 1
semana depois, 3 semanas depois e, finalmente, 1 ano
depois. Por esse eletrocardiograma, pode-se ver que o
potencial de lesão é forte, imediatamente após o ataque
agudo (segmento T-P deslocado positivamente em relação
ao segmento S-T). Entretanto, após cerca de 1 semana, o
potencial de lesão diminuiu consideravelmente e, depois
de 3 semanas, não existe mais. Depois disso, o
eletrocardiograma não se altera muito durante o ano
seguinte. Esse é o padrão usual de recuperação de infarto
agudo do miocárdio de grau moderado, mostrando que o
novo fluxo sanguíneo coronariano colateral se desen-
149
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Unidade III O Coração
Figura 12-21 Recuperação do miocárdio após infarto moderado
da parede posterior, mostrando o desaparecimento do potencial
de lesão que está presente no primeiro dia depois do infarto e
ainda presente, de forma discreta, após 1 semana.
volve o suficiente para restabelecer nutrição apropriada
para a maior parte da área infartada.
Inversamente, em alguns pacientes com infarto do
miocárdio, a área infartada nunca volta a desenvolver um
aporte sanguíneo coronariano adequado. Geralmente,
parte do músculo cardíaco morre, mas se o músculo não
morrer ele continuará a mostrar um potencial de lesão
enquanto a isquemia persistir, particularmente durante o
exercício, quando o coração está sobrecarregado.
Infarto Miocárdico Antigo Recuperado. A Figura 12-22
mostra as derivações I e III depois de infarto anterior e as
derivações I e III depois de infarto posterior, cerca de 1 ano
depois do ataque agudo. Os registros mostram o que
poderiam ser chamadas de configurações “ideais” do
complexo QRS nesses tipos de infarto miocárdico
recuperado. Em geral, desenvolve-se a onda Q no início do
complexo QRS na derivação I no infarto anterior por causa
da perda de massa muscular na parede anterior do
ventrículo esquerdo, ao passo que, no infarto posterior, a
onda Q se desenvolve na derivação III pela perda de
músculo na parte apical posterior do ventrículo.
Essas configurações não são certamente encontradas em
todos os casos de infarto cardíaco antigo. Perda local de
músculo e pontos locais de bloqueio na condução do sinal
cardíaco podem causar padrões de QRS muito bizarros (p.
ex., ondas Q especialmente proeminentes), voltagem
reduzida e alargamento do QRS.
Corrente de Lesão na Angina Pectoris. “Angina pec-
toris” significa dor vinda do coração, sentida nas regiões
Anteriores
III
Posteriores
111
Figura 12-22 Eletrocardiogramas de infarto das paredes
anteriores e posteriores que ocorreram há cerca de 1 ano,
mostrando a onda Q na derivação I no infarto de parede
anterior e a onda Q na derivação III no infarto da parede posterior.
peitorais do tórax superior. Essa dor usualmente se irradia
para o lado esquerdo do pescoço e para baixo, no braço
esquerdo. Tipicamente, a dor é causada por isquemia
moderada do coração. Em geral, a dor não é sentida
enquanto a pessoa está em repouso, mas logo que ela
sobrecarrega o coração a dor aparece.
Às vezes, aparece potencial de lesão no eletrocar-
diograma durante uma crise grave de angina pectoris,
porque a insuficiência coronariana passa a ser
suficientemente intensa para impedir a repolarização
adequada de algumas áreas do coração durante a diástole.
Anormalidades da OndaT
Antes, neste capítulo, foi apontado que a onda T é
normalmente positiva em todas as derivações bipolares
padrão dos membros e que isso é causado pela
repolarização do ápice e das superfícies externas dos
ventrículos, antes das superfícies intraventriculares. Isto é,
a onda T fica anormal quando não ocorre a sequência
normal da repolarização. Vários fatores podem alterar essa
sequência de repolarização.
Efeito da Condução Lenta da Onda de
Despolarização nas Características da Onda T
Voltando para a Figura 12-14, nota-se que o complexo QRS
é considerado alargado (prolongado). A razão para esse
alargamento é o retardo da condução no ventrículo esquerdo,
resultante do bloqueio do ramo esquerdo. Isso faz com que
o ventrículo esquerdo fique despolarizado cerca de 0,08
segundo após a despolarização do ventrículo direito, o que
dá grande vetor QRS médio para a esquerda. Entretanto, os
períodos refratários das massas musculares ventriculares
esquerda e direita não são muito diferentes uns dos outros.
Portanto, o ventrículo direito começa a se repolarizar muito
antes do ventrículo esquerdo; isso causa forte positividade
no ventrículo direito e negatividade no ventrículo
esquerdo, no momento em que a onda T está se
desenvolvendo. Em outras palavras, o eixo médio da onda
T está agora desviado para a direita, o que é contrário ao eixo
elétrico médio do complexo QRS no mesmo
eletrocardiograma. Assim, quando a condução do impulso
de despolarização pelos ventrículos é muito retardada, a
onda T tem quase sempre polaridade oposta à do complexo
QRS.
Despolarização Encurtada em Porções do Músculo
Ventricular como Causa de Anormalidades da
OndaT
Se a base dos ventrículos tiver período de despolarização
anormalmente curto, isto é, um potencial de ação
encurtado, a repolarização dos ventrículos não começará
no ápice como ocorre normalmente. Em vez disso, a base
dos ventrículos se repolarizaria antes do ápice, e o vetor de
repolarização apontaria do ápice em direção à base do
coração, oposto ao vetor padrão de repolariza-
150
Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Vetorial
Figura 12-23 Onda T invertida, resultante de isquemia leve no
ápice dos ventrículos.
ção. Consequentemente, a onda T em todas as três
derivações padrão seria negativa, em vez de positiva.
Assim, o simples fato de que a base dos ventrículos tem
período encurtado de despolarização é suficiente para
causar mudanças pronunciadas na onda T, até mesmo a
ponto de alterar toda a polaridade da onda T, como
mostrado na Figura 12-23.
Isquemia leve é de longe a causa mais comum de
encurtamento da despolarização do músculo cardíaco, por
aumentar o fluxo de corrente pelos canais de potássio.
Quando a isquemia ocorre em apenas uma área do coração,
o período de despolarização dessa área diminui sem
proporção às outras áreas. Como resultado, podem ocorrer
alterações definidas da onda T. A isquemia pode resultar
de oclusão coronariana progressiva crônica; oclusão
coronariana aguda; ou insuficiência coronariana relativa,
como a que ocorre durante o exercício.
Modo de detectar insuficiência coronariana leve é fazer
o paciente se exercitar e registrar o eletrocardio- grama,
reparando quando ocorrem alterações das ondas T. Essas
alterações das ondas T não precisam ser específicas, porque
qualquer alteração na onda T, em qualquer derivação —
inversão, por exemplo, ou onda bifásica —,
é em geral evidência suficiente de que alguma parte do
músculo ventricular está com período de despolarização
desproporcional ao resto do coração, causado por
insuficiência coronariana de leve a moderada.
Efeito de Digitálicos na Onda T. Como discutido no
Capítulo 22, os digitálicos são fármacos que podem ser
usados na insuficiência coronariana para aumentar a força
da contração muscular cardíaca. Mas, quando são
ministradas superdosagens de digitálicos, a duração da
despolarização em parte dos ventrículos pode ficar
aumentada, desproporcionalmente às outras partes. Como
resultado, mudanças inespecíficas, como inversão da onda
T ou ondas T bifásicas, podem ocorrer em uma ou mais
derivações eletrocardiográficas. A onda T bifásica, causada
por administração excessiva de digitálicos, é mostrada na
Figura 12-24. Assim, alterações da onda T durante
administração de digitálicos são, em geral, os sinais mais
precoces de intoxicação digitálica.
Referências
Veja as referências do Capítulo 13.
151
U
N
I
D
A
(página deixada intencionalmente em branco)
C A P Í T U L O 1 3
Arritmias Cardíacas e sua Interpretação
Eletrocardiográfica
Alguns dos tipos mais preo-
cupantes de mau funciona-
mento cardíaco ocorrem
não em decorrência de mús-
culo cardíaco anormal, mas
como resultado de ritmo
cardíaco anormal. Por exem-
plo, algumas vezes o batimento dos átrios não é coorde-
nado com o batimento dos ventrículos; assim, os átrios
já não funcionam como bombas de escorva para os ven-
trículos.
A finalidade deste capítulo é a de discutir a fisiolo- gia
das arritmias cardíacas comuns e seus efeitos sobre o
bombeamento cardíaco, bem como seu diagnóstico por
eletrocardiografia. As causas das arritmias cardíacas
geralmente são combinações das seguintes anormalidades
da ritmicidade-sistema de condução do coração:
1. Ritmicidade anormal do marca-passo.
2. Mudança do marca-passo do nodo sinusal para outro
ponto do coração.
3. Bloqueios, em diferentes pontos, da propagação do
impulso no coração.
4. Vias anormais de transmissão dos impulsos no coração.
5. Geração espontânea de impulsos falsos em quase
qualquer parte do coração.
Ritmos Sinusais Anormais
Taquicardia
O termo “taquicardia” significa frequência cardíaca rápida,
geralmente definida no adulto como acima de 100
batimentos/min. O eletrocardiograma, registrado em
paciente com taquicardia, é mostrado na Figura 13-1. Esse
eletrocardiograma é normal, exceto que a frequência
cardíaca determinada pelos intervalos de tempo entre os
complexos QRS é de cerca de 150 por minuto, em lugar dos
normais 72 por minuto.
Algumas causas da taquicardia incluem aumento da
temperatura corporal, estimulação do coração pelos nervos
simpáticos ou patologias tóxicas do coração.
A frequência cardíaca aumenta cerca de 10
batimentos/min para cada grau Farenheit (18 batimentos
por grau Celsius) de aumento da temperatura corporal, até
a temperatura em torno de (105° F) 40,5°C; acima desse
valor, a frequência cardíaca pode diminuir em virtude da
debilidade progressiva do músculo cardíaco em
decorrência da febre. A febre causa taquicardia porque o
aumento da temperatura aumenta a intensidade do
metabolismo do nodo sinusal, que por sua vez aumenta, de
forma direta, sua excitabilidade e a frequência de seu ritmo.
Muitos fatores podem fazer que o sistema nervoso
simpático excite o coração, como discutido em muitos
pontos deste texto. Por exemplo, quando o paciente perde
sangue e entra no estado de choque ou de semi- choque, a
estimulação reflexa simpática do coração costuma
aumentar a frequência cardíaca para 150 a 180
batimentos/min.
O simples enfraquecimento do miocárdio geralmente
aumenta a frequência cardíaca porque o coração
enfraquecido não bombeia sangue para a árvore arterial
com intensidade normal, e isso desencadeia reflexos
simpáticos para aumentar a frequência cardíaca.
Bradicardia
O termo “bradicardia” significa frequência cardíaca lenta,
em geral definida como menos de 60 batimentos/min. A
bradicardia é demonstrada pelo eletrocardiograma da
Figura 13-2.
Figura 13-1 Taquicardia sinusal (derivação I).
Figura 13-2 Bradicardia sinusal (derivação III).
153
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Unidade III O Coração
Bradicardia em Atletas. O coração do atleta é maior e
consideravelmente mais forte que o de pessoa normal, o
que permite que o coração do atleta bombeie grande débito
sistólico por batimento, até mesmo durante os períodos de
repouso. Quando o atleta está em repouso, quantidades
excessivas de sangue bombeadas para a árvore arterial a
cada batimento, desencadeiam reflexos circulatórios de
feedback ou outros efeitos para provocar a bradicardia.
Estimulação Vagai como Causa de Bradicardia.
Qualquer reflexo circulatório que estimule o nervo vago
causa liberação de acetilcolina pelas terminações vagais no
coração, produzindo assim efeito parassimpático. Talvez, o
exemplo mais notável disso ocorra em pacientes com
síndrome do seio carotídeo. Nesses pacientes, os receptores de
pressão (barorreceptores), na região do seio carotídeo das
paredes da artéria carótida, são excessivamente sensíveis.
Portanto, até pressão externa leve no pescoço desencadeia
forte reflexo barorreceptor com intensos efeitos vagais da
acetilcolina sobre o coração, incluindo bradicardia extrema.
Na verdade, algumas vezes esse reflexo é tão potente que na
realidade para o coração por 5 a 10 segundos.
Arritmia Sinusal
A Figura 13-3 mostra registro de cardiotacômetro da
frequência cardíaca, a princípio durante respiração normal
e depois (na segunda metade do registro) durante
respiração profunda. O cardiotacômetro é um instrumento
que registra, pela altura dos potenciais em ponta (spi- kes)
sucessivos, a duração do intervalo entre os complexos QRS
sucessivos no eletrocardiograma. Observe, nesse registro,
que a frequência cardíaca aumentou e diminuiu por não
mais que 5% durante a respiração calma (metade esquerda
do registro). Depois, durante a respiração profunda, a
frequência cardíaca aumentou e diminuiu a cada ciclo
respiratório por até 30%.
A arritmia sinusal pode decorrer de qualquer das
muitas condições circulatórias que alteram as forças dos
sinais dos nervos simpáticos e parassimpáticos para o nodo
sinusal do coração. No tipo “respiratório” de arritmia
sinusal, como mostrado na Figura 13-3, isso resulta
principalmente do “transbordamento” (spilloverj de sinais,
do centro respiratório bulbar para o centro vaso- motor
adjacente, durante os ciclos inspiratório e expi- ratório da
respiração. Os sinais de transbordamento causam
alternância entre aumento e diminuição do número de
impulsos transmitidos pelos nervos simpáticos e vago para
o coração.
60
70
80
100
12
0
Figura 13-3 Arritmia sinusal, registrada por cardiotacômetro. À
esquerda está o registro quando o indivíduo estava respirando
normalmente; à direita, quando respirava profundamente.
Ritmos Anormais que Decorrem de Bloqueio dos
Sinais Cardíacos nas Vias de Condução
Intracardíacas
Bloqueio Sinoatrial
Em raros casos, o impulso do nodo sinusal é bloqueado
antes de entrar no músculo atrial. Esse fenômeno é
apresentado na Figura 13-4, que mostra a interrupção
abrupta das ondas P com a resultante parada dos átrios. No
entanto, os ventrículos assumem novo ritmo pela geração
espontânea do impulso, geralmente no nodo
atrioventricular (A-V); assim, a frequência do complexo
QRS-T ventricu- lar fica mais lenta, mas sem se alterar de
outras maneiras.
Bloqueio Atrioventricular
O único meio pelo qual os impulsos normalmente podem
passar dos átrios para os ventrículos é pelo feixe A-V,
também conhecido como feixe de His. As condições que
podem diminuir a frequência da condução dos impulsos
por esse feixe ou bloquear de forma total essa condução são
as seguintes:
1. A isquemia do nodo A-V ou das fibras do feixe A-V muitas
vezes retarda ou bloqueia a condução dos átrios para os
ventrículos. A insuficiência coronariana pode causar
isquemia do nodo A-V e do feixe A-V, do mesmo modo
que pode causar isquemia do miocárdio.
2. A compressão do feixe A-V, por tecido cicatricial ou por
partes calcificadas do coração, pode deprimir ou
bloquear a condução dos átrios para os ventrículos.
3. A inflamação do nodo A-V ou do feixe A-V pode deprimir a
condutividade dos átrios para os ventrículos. A
inflamação resulta frequentemente de diferentes tipos
de miocardite, causados por exemplo por difteria ou
febre reumática.
4. Estimulação extrema do coração pelos nervos vagos, em raros
casos bloqueia a condução de impulsos pelo nodo A-V.
Essa excitação vagai ocasionalmente resulta da forte
estimulação dos barorreceptores em pessoas com
síndrome do seio carotídeo, já discutida em relação à
bradicardia.
Bloqueio Atrioventricular Incompleto
Intervalo P-R (ou P-Q) Prolongado — Bloqueio de
Primeiro Grau. O intervalo usual de tempo entre o início da
onda P e o início do complexo QRS é de cerca de 0,16
segundo, quando o coração está batendo na frequên-
Bloqueio SA
!!:! !!!!
!!!!
Figura 13-4 Bloqueio nodal sinoatrial com ritmo nodal A-V
durante o período de bloqueio (derivação III).
154
Capítulo 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica
cia normal. Esse chamado intervalo P-R geralmente fica
mais curto com batimentos cardíacos mais rápidos e mais
longos com batimentos cardíacos mais lentos. Em geral,
quando o intervalo P-R aumenta por mais de 0,20 segundo,
diz-se que o intervalo P-R é prolongado e que o paciente
tem bloqueio atrioventricular incompleto de primeiro grau.
A Figura 13-5 mostra eletrocardiograma com intervalo
P-R prolongado; o intervalo nesse caso é de cerca de 0,30
segundo, em vez de 0,20 ou menos, que é o normal. Desse
modo, o bloqueio de primeiro grau é definido como o
retardo de condução dos átrios para os ventrículos, mas não
como bloqueio real da condução. O intervalo P-R quase
nunca aumenta acima de 0,35 a 0,45 segundo porque, com
essa duração, a condução pelo feixe A-V ficaria deprimida
de tal modo que cessaria inteiramente. Uma maneira de
determinar a gravidade de algumas doenças cardíacas —
por exemplo, a cardiopatia reumática aguda — é a medida do
intervalo P-R.
Bloqueio de Segundo Grau. Quando a condução do
feixe A-V fica suficientemente lenta para aumentar o
intervalo P-R para 0,25 a 0,45 segundo, o potencial de ação
algumas vezes é forte o suficiente para atravessar o feixe até
os ventrículos e outras vezes não o é. Nesse caso, ocorrerá a
onda P atrial, mas não a onda QRS-T, e se diz que há
“batimentos bloqueados” (perdidos) dos ventrículos. Essa
patologia é chamada bloqueio cardíaco de segundo grau.
A Figura 13-6 mostra intervalos P-R de 0,30 segundo,
além de batimento ventricular bloqueado em decorrência
de falha de condução dos átrios para os ventrículos.
Por vezes, batimentos alternados dos ventrículos são
bloqueados; assim, se desenvolve “ritmo 2:1” com os átrios
batendo duas vezes mais que cada batimento dos
ventrículos. Em outras vezes, desenvolvem-se ritmos de 3:2
ou 3:1.
Bloqueio A-V Completo (Bloqueio de Terceiro
Grau). Quando a patologia causadora da condução anor-
Figura 13-5 Intervalo P-R prolongado, causado por bloqueio
A-V de primeiro grau (derivação II).
Batimento bloqueado
Figura 13-6 Bloqueio A-V de segundo grau mostrando falha
ocasional dos ventrículos de receber os sinais excitatórios
(derivação V3).
mal no nodo A-V ou no feixe A-V é grave, ocorre bloqueio
completo do impulso dos átrios para os ventrículos. Nesse
caso, os ventrículos estabelecem espontaneamente seu
próprio sinal, em geral originado no nodo A-V ou no feixe
A-V. Portanto, as ondas P se dissociam dos complexos
QRS-T, como mostrado na Figura 13-7. Observe que a
frequência do ritmo dos átrios nesse eletrocardiograma é de
cerca de 100 batimentos por minuto, enquanto & frequência
dos batimentos ventriculares é inferior a 40 por minuto. Além
disso, não existe relação entre o ritmo das ondas P e o dos
complexos QRS-T, porque os ventrículos “escaparam” do
controle pelos átrios e estão batendo em sua própria
frequência natural, controlados mais frequentemente por
sinais rítmicos gerados no nodo A-V ou no feixe A-V.
Síndrome de Stokes-Adams — Escape Ventricular.
Em alguns pacientes com bloqueio A-V, o bloqueio total
vem e vai, isto é, impulsos são conduzidos dos átrios para
os ventrículos por certo tempo e depois, subitamente, os
impulsos não mais são conduzidos. A duração do bloqueio
pode ser de alguns segundos, alguns minutos, algumas
horas ou até semanas ou mais antes que a condução
reapareça. Essa patologia ocorre em corações com isque-
mia limítrofe (borderline) do sistema de condução.
A cada vez que é interrompida a condução A-V, os
ventrículos frequentemente não iniciam seus próprios
batimentos até depois de um retardo de 5 a 30 segundos.
Isso resulta do fenômeno chamado supressão por sobremar-
cha (overdrive). Isso significa que a excitabilidade
ventricular está a princípio em estado de supressão porque
os ventrículos estavam sendo ativados pelos átrios com
frequência maior que a frequência natural de seu ritmo. No
entanto, depois de alguns segundos, alguma parte do
sistema de Purkinje, além do bloqueio em geral na parte
distai do nodo A-V adiante do ponto bloqueado no nodo
ou no feixe A-V, começa a gerar descargas rítmicas, na
frequência de 15 a 40 vezes por minuto, atuando como
marca-passo dos ventrículos. Isso é chamado de escape
ventricular.
Como o cérebro não pode permanecer ativo por mais de
4 a 7 segundos sem irrigação sanguínea, a maioria dos
pacientes desmaia alguns segundos depois de ocorrido o
bloqueio completo porque o coração não bombeia sangue
por 5 a 30 segundos até que os ventrículos “escapem”.
Depois do escape, contudo, os ventrículos com batimentos
lentos geralmente bombeiam sangue suficiente para
permitir a recuperação rápida do desmaio e depois
sustentar a pessoa. Esses desmaios periódicos são
conhecidos como síndrome de Stokes-Adams.
Figura 13-7 Bloqueio A-V completo (derivação II).
155
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Unidade III O Coração
Ocasionalmente, a duração do intervalo de parada ven-
tricular no início do bloqueio completo é longa o bastante
para ser prejudicial à saúde do paciente ou até causar a
morte. Consequentemente, a maioria desses pacientes
recebe um marca-passo artificial, pequeno estimulador
elétrico operado por bateria, implantado sob a pele e com
eletródios usualmente conectados ao ventrículo direito.
Esse marca-passo produz impulsos rítmicos contínuos que
assumem o controle dos ventrículos.
Bloqueio Intraventricular Incompleto —
Alternância Elétrica
A maioria dos mesmos fatores que podem causar bloqueio
A-V também pode bloquear a condução de impulsos no
sistema de Purkinje ventricular periférico. A Figura 13-8
mostra a patologia conhecida como alternância elétrica, que
resulta de bloqueio intraventricular parcial de batimentos
cardíacos alternados. Esse eletro- cardiograma mostra
também taquicardia (frequência cardíaca rápida), que
provavelmente foi a razão para ter ocorrido o bloqueio,
porque quando a frequência cardíaca é rápida pode não ser
possível para algumas partes do sistema de Purkinje se
recuperar do período refratário anterior com rapidez
suficiente para responder a todos os batimentos cardíacos
sucessivos. De igual modo, muitas patologias que
deprimem o coração, como isquemia, miocardite ou
intoxicação por digitálicos, podem causar bloqueio
intraventricular incompleto, resultando em alternância
elétrica.
Contrações Prematuras
A contração prematura do coração é a que ocorre antes do
tempo em que se esperaria uma contração normal. Essa
patologia é chamada de extrassistolia, batimento prematuro ou
batimento ectópico.
Causas das Contrações Prematuras. A maioria das
contrações prematuras (extrassístoles) decorre de focos
ectópicos no coração que produzem impulsos anormais em
tempos diferentes durante o ritmo cardíaco. As causas
possíveis dos focos ectópicos são: (1) áreas locais de
isquemia; (2) pequenas placas calcificadas em diferentes
pontos no coração que comprimem o músculo cardíaco
adjacente, de modo que algumas das fibras são irritadas;
(3) irritação tóxica do nodo A-V, do sistema de Purkinje ou
do miocárdio, o que é causado por fármacos, nicotina
Figura 13-8 Bloqueio intraventricular parcial — "alternância
elétrica" (derivação III).
ou cafeína. A iniciação mecânica das contrações
prematuras também é frequente durante cateterização
cardíaca; costuma ocorrer grande número de contrações
prematuras quando o cateter entra no ventrículo direito e
pressiona o endocárdio.
Contrações Prematuras Atriais
A Figura 13-9 mostra extrassístole atrial única. A onda P
desse batimento ocorreu cedo demais no ciclo cardíaco; o
intervalo P-R encurta, indicando que a origem ectópica do
batimento está nos átrios perto do nodo A-V. De igual
modo, o intervalo entre a contração prematura e a
contração seguinte está prolongado, o que é chamado pausa
compensatória. Uma das razões para isso é que a contração
prematura se originou no átrio, a alguma distância do nodo
sinusal, e o impulso teve de percorrer parte considerável do
músculo atrial antes de atingir o nodo sinusal.
Consequentemente, o nodo sinusal descarregou
tardiamente no ciclo prematuro, e isso fez com que a
descarga seguinte do nodo sinusal também aparecesse
mais tarde.
Com frequência, ocorrem contrações prematuras atriais
em pessoas saudáveis. Na verdade, costumam ocorrer em
atletas, cujo coração está em condição muito saudável.
Patologias tóxicas leves decorrentes de fatores como
tabagismo, falta de sono, ingestão excessiva de café,
alcoolismo e uso de vários medicamentos também podem
desencadear essas contrações prematuras.
Déficit do Pulso. Quando o coração se contrai antes do
tempo previsto, os ventrículos não terão se enchido
normalmente de sangue, e o débito sistólico nessa
contração é diminuído, deprimido ou quase ausente.
Portanto, a onda de pulso que passa para as artérias
periféricas depois de contração prematura pode ser tão
fraca que não seja sentida na artéria radial. Desse modo,
ocorre déficit no número de pulsações radiais em
comparação com o número real de contrações do coração.
Contrações Prematuras do Nodo A-V
ou no Feixe A-V
A Figura 13-10 mostra uma contração prematura que se
originou no nodo A-V ou no feixe A-V. A onda P está
faltando no registro eletrocardiográfico da contração
prematura. Em vez disso, a onda P aparece sobreposta ao
complexo QRS-T porque o impulso cardíaco seguiu
percurso retrógrado para os átrios, ao mesmo tempo em
que se dirigiu para os ventrículos; essa onda P altera pouco
o complexo QRS-T, mas a própria onda P não pode ser dis-
Batimento prematuro
Figura 13-9 Batimento prematuro atrial (derivação I).
156
Capítulo 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica
tinguida como tal. Em geral, as contrações prematuras do
nodo A-V têm o mesmo significado e causas que as
contrações prematuras atriais.
Contrações Prematuras Ventriculares
O eletrocardiograma da Figura 13-11 mostra uma série de
contrações prematuras ventriculares (PCVs), alternan-
do-se com contrações normais. As PCVs produzem efeitos
específicos no eletrocardiograma:
1. O complexo QRS, em geral, fica muito prolongado. A
razão é que o impulso é conduzido principalmente pelo
músculo ventricular, com condução muito lenta, e não
pelo sistema de Purkinje.
2. O complexo QRS tem voltagem elevada pelas seguintes
razões: quando o impulso normal cursa pelo coração,
passa por ambos os ventrículos de modo quase
simultâneo; consequentemente, no coração normal, as
ondas de despolarização dos dois lados do coração
— em grande parte, com polaridade oposta entre eles
— neutralizam parcialmente umas às outras no
eletrocardiograma. Quando ocorre a PCV, o impulso
quase
Figura 13-10 Contração prematura nodal A-V (derivação III).
Figura 13-11 Contrações prematuras ventriculares (PCVs)
representadas pelos grandes complexos QRS-T anormais
(derivações II e III). O eixo das contrações prematuras é marcado
de acordo com os princípios da análise vetorial explicados no
Capítulo 12; ele mostra a origem da PCV perto da base dos
ventrículos.
sempre vai apenas em uma direção, assim não ocorre
esse efeito de neutralização, e todo um lado do ven-
trículo ou sua extremidade fica despolarizado à frente
do outro; isso gera grandes potenciais elétricos, como
mostrado nas PCVs na Figura 13-11.
3. Após quase todas as PCVs, a onda T tem a polaridade de
potencial elétrico exatamente oposta à do complexo
QRS porque a condução lenta do impulso pelo músculo
cardíaco faz com que as fibras musculares que se
despolarizam primeiro também repolarizem primeiro.
Algumas PCVs são relativamente benignas em seus
efeitos sobre o bombeamento global pelo coração; elas
podem decorrer de fatores tais como cigarros, ingestão
excessiva de café, falta de sono, vários estados tóxicos leves
e até irritabilidade emocional. Inversamente, muitas outras
PCVs decorrem de impulsos desgarrados ou sinais
reentrantes originados em torno das bordas de áreas
infartadas ou isquêmicas no coração. A presença dessas
PCVs deve ser considerada com seriedade. As estatísticas
mostram que as pessoas com número significativo de PCVs
têm probabilidade muito mais alta que a normal de
desenvolver fibrilação ventricular letal, presumivelmente
desencadeada por uma das PCVs. Isso é verdade
principalmente quando as PCVs ocorrem durante o
período vulnerável para causar fibrilação, exatamente ao
final da onda T, quando os ventrículos estão saindo da
refratarie- dade, como ainda será explicado neste capítulo.
Análise Vetorial da Origem de Contração Prematura
Ventricular Ectópica. No Capítulo 12 foram explicados os
princípios da análise vetorial. Aplicando esses princípios,
pode-se determinar pelo eletrocardiograma na Figura 13-11
o ponto de origem da PCV. Observe que os potenciais das
contrações prematuras, nas derivações II e III, são ambos
fortemente positivos. Colocando esses potenciais nos
gráficos das derivações II e III e resolvendo por análise
vetorial para o vetor QRS médio no coração, encontra-se
que o vetor dessa contração prematura tem sua
extremidade negativa (origem) na base do coração e sua
extremidade positiva apontando para o ápice. Desse modo,
a primeira parte do coração a se despolari- zar durante a
contração prematura fica perto da base dos ventrículos,
que, portanto, é o local do foco ectópico.
Distúrbios da Repolarização Cardíaca - A Síndro-
me do Longo QT. Lembre-se de que a onda Q
corresponde à despolarização ventricular, enquanto a onda
T corresponde à repolarização ventricular. O intervalo Q-T
é o intervalo de tempo entre a ponta de Q e o término da
onda T. Distúrbios que retardem a repolarização do
músculo ventricular após o potencial de ação causam
potenciais de ação prolongados e, por conseguinte, longos
intervalos QT no eletrocardiograma, condição que é
chamada síndrome do longo QT (SLQT).
A razão principal de preocupação com a SLQT é que a
repolarização retardada do músculo ventricular aumenta
157
Unidade III O Coração
a suscetibilidade da pessoa para desenvolver as arritmias
ventriculares conhecidas como torsades de pointes, o que
literalmente significa “torcer as pontas”. Esse tipo de arrit-
mia tem as características mostradas na Figura 13-12. A
forma do complexo QRS pode variar com o passar do
tempo, com o início da arritmia seguindo contração
prematura, pausa e outra contração prematura com longo
intervalo QT, que pode desencadear arritmias, taquicar- dia
e, em certos casos, fibrilação ventricular.
Distúrbios da repolarização cardíaca que levam à SLQT
podem ser hereditários ou adquiridos. As formas
congênitas da SLQT são distúrbios decorrentes de
mutações nos genes dos canais de sódio ou de potássio.
Pelo menos 10 mutações distintas desses genes, todas
causadoras de grau variável do prolongamento Q-T, já
foram identificadas.
Mais comuns são as formas adquiridas da SLQT,
associadas a distúrbios eletrolíticos do plasma, como a
hipomagnesemia, a hipocalemia e a hipocalcemia, ou à
administração de doses exageradas de fármacos antiarrít-
micos, como a quinidina, e de alguns antibióticos, como as
fluroquinolonas ou a eritromicina, que prolongam o
intervalo Q-T.
Embora algumas pessoas com SLQT não apresentem
outros sintomas importantes (além do prolongamento do
intervalo Q-T), outros apresentam desmaios e arritmias
ventriculares que podem ser desencadeadas pelo exercício
físico, por emoções fortes, como medo ou ira, ou quando
alarmadas por barulho. As arritmias ventriculares,
associadas à SLQT, podem em alguns casos evoluir para a
fibrilação ventricular e morte súbita.
Despolarização prematura
O tratamento da SLQT pode incluir o sulfato de
magnésia, para a SLQT aguda, e para a SLQT de longa
duração podem ser usados medicamentos antiarrítmicos,
como os bloqueadores beta-adrenérgicos ou a implantação
cirúrgica de desfibrilador cardíaco.
Taquicardia Paroxística
Ocasionalmente, algumas anormalidades em diferentes
partes do coração, incluindo os átrios, o sistema de
Purkinje ou os ventrículos, podem causar descarga rítmica
rápida de impulsos que se propagam em todas as direções
pelo coração. Acredita-se que isso seja causado mais
frequentemente por vias de feedback com movimento
circular reentrante que controlam a autorreex- citação
repetida local. Devido ao ritmo rápido do foco irritável,
esse foco passa a ser o marca-passo cardíaco.
O termo “paroxístico” significa que a frequência
cardíaca fica muito rápida nos paroxismos, começando de
forma súbita e durando segundos, minutos, horas ou muito
mais. Por fim, o paroxismo geralmente termina tão
subitamente como começou, com o marca-passo cardíaco
voltando de modo instantâneo para o nodo sinusal.
A taquicardia paroxística pode ser interrompida
quando se desencadeia um reflexo vagai. Um tipo de
reflexo vagai que, por vezes, é produzido com essa
finalidade é o de pressionar o pescoço nas regiões dos seios
carotí- deos, o que pode causar reflexo vagai forte o
suficiente para fazer cessar o paroxismo. Também podem
ser usados vários medicamentos. Dois fármacos usados
com
Despolarizações prematuras repetidas
Torsades de pointes
Pausa
Pós-pausa Pós-pausa
Figura 13-12 Desenvolvimento de arritmia, na síndrome do longo QT (SLQT). Quando o potencial de ação do músculo ventricular é
prolongado pela repolarização retardada, uma despolarização prematura (linha tracejada na figura superior esquerda) pode ocorrer
antes de completada a repolarização. Despolarizações prematuras repetidas (figura superior direita) podem levar a múltiplas
despolarizações em certas circunstâncias. Nas torsades de pointes (figura inferior), batimentos ventriculares prematuros levam a pausas,
a prolongamento pós- pausa do intervalo Q-T e arritmias. (Modificado de Murray KT, Roden, DM: Disorders of cardiac repolarization:
the long QT syndromes; in Crawford MG, DiMarco JP [eds]: Cardiology. London: Mosby, 2001.)
158
Capítulo 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica
frequência são a quinidina e a lidocaína, que deprimem o
aumento normal da permeabilidade ao sódio da membrana
do músculo cardíaco durante a geração do potencial de
ação, bloqueando assim a descarga rítmica do ponto focal
que está causando a crise paroxística.
Taquicardia Paroxística Atrial
A Figura 13-13 mostra no meio do registro súbito aumento
da frequência cardíaca, de cerca de 95 para cerca de 150
batimentos por minuto. Por estudo detalhado do
eletrocardiograma, durante os batimentos cardíacos
rápidos, vê-se a onda P antes de cada complexo QRS-T, e
essa onda P está parcialmente sobreposta à onda T normal
do batimento precedente. Isso indica que a origem dessa
taquicardia paroxística é no átrio, mas, como a onda P tem
forma anormal, a origem não fica perto do nodo sinusal.
Taquicardia Paroxística Nodal A-V. A taquicardia
paroxística geralmente resulta de ritmo aberrante de que
participa o nodo A-V. Isso nas condições usuais causa
complexos QRS-T quase normais, mas ondas P totalmente
ausentes ou obscuras.
As taquicardias paroxísticas atriais ou nodais A-V, as
chamadas taquicardias supraventriculares, geralmente
ocorrem em pessoas jovens e saudáveis e decorrem da
predisposição para taquicardia depois da adolescência. Em
geral, a taquicardia supraventricular assusta de forma
muito intensa a pessoa, podendo causar fraqueza durante o
paroxismo, mas só raramente advém algum mal
permanente pela crise.
Taquicardia Paroxística Ventricular
A Figura 13-14 mostra típico paroxismo breve de
taquicardia ventricular. O eletrocardiograma da
taquicardia paroxística ventricular tem o aspecto de série
de contrações prematuras ventriculares que ocorrem, uma
após a outra, sem qualquer batimento normal intercalado.
A taquicardia paroxística ventricular usualmente é
patologia grave por duas razões. Primeira, esse tipo de
taquicardia geralmente não ocorre, a menos que esteja
presente lesão isquêmica considerável nos ventrículos.
Figura 13-13 Taquicardia paroxística atrial — início no meio do
registro (derivação I).
Figura 13-14 Taquicardia paroxística ventricular (derivação III).
Segunda, a taquicardia ventricular com frequência inicia a
patologia letal defibrilação ventricular, em virtude da
estimulação repetida rápida do músculo ventricular, como
discutido no tópico seguinte.
Algumas vezes, a intoxicação pela terapia cardíaca com
digitálicos produz focos irritáveis que levam à taquicardia
ventricular. Inversamente, a quinidina, que aumenta o
período refratário e o limiar para excitação do músculo
cardíaco, pode ser usada para bloquear focos irritáveis que
cause taquicardia ventricular.
Fibrilação Ventricular
A mais grave de todas as arritmias cardíacas é a fibrilação
ventricular que, se não interrompida dentro de 1 a 3
minutos, é quase invariavelmente fatal. A fibrilação
ventricular decorre de impulsos cardíacos frenéticos na
massa do músculo ventricular, estimulando primeiro uma
parte do músculo ventricular e depois outra, e outra e
finalmente voltando para reexcitar o mesmo músculo
ventricular vezes e vezes repetidas — jamais parando.
Quando isso acontece, muitas partes pequenas do músculo
ventricular se contraem ao mesmo tempo, enquanto, de
igual modo, muitas outras partes se relaxam. Dessa forma,
nunca ocorre contração coordenada de todo o músculo
ventricular a um só tempo, o que é necessário para o ciclo
de bombeamento do coração. Apesar do movimento
maciço de sinais estimulatórios por toda parte dos
ventrículos, as câmaras ventriculares não aumentam de
volume nem se contraem, mas permanecem no estágio
indeterminado de contração parcial, e o bombeamento fica
ausente ou a ser feito em quantidades desprezíveis.
Portanto, depois que a fibrilação começa ocorre
inconsciência, em 4 a 5 segundos, por falta de fluxo
sanguíneo para o cérebro, e a morte irrecuperável de
tecidos começa a ocorrer em todo o corpo dentro de alguns
minutos.
Múltiplos fatores podem desencadear a fibrilação
ventricular — pode ocorrer de a pessoa ter batimento
cardíaco normal no momento, mas, um segundo mais
tarde, os ventrículos estarem em fibrilação. Os que têm
probabilidade especial para desencadear a fibrilação são:
(1) choque elétrico súbito do coração ou (2) isquemia do
músculo cardíaco, de seu sistema de condução
especializado ou de ambos.
Fenômenos de Reentrada — "Movimentos
Circulares”, a Base para a Fibrilação Ventricular
Quando o impulso cardíaco normal no coração normal
percorre a extensão dos ventrículos, ele não tem para onde
ir porque todo o músculo ventricular está refratário e não
mais pode conduzir o impulso. Portanto, esse impulso
cessa, e o coração aguarda novo potencial de ação surgir no
nodo sinusal atrial.
Em algumas circunstâncias, contudo, essa sequência
normal de eventos não ocorre. Portanto, expliquemos, de
modo mais completo, as condições de fundo que podem
159
Unidade III O Coração
iniciar a reentrada e levar aos “movimentos em círculo” que
por sua vez causam a fibrilação ventricular.
A Figura 13-15 mostra várias pequenas tiras de músculo
cardíaco que foram cortadas na forma de círculos. Se uma
dessas tiras for estimulada na posição de 12 horas, para que o
impulso só passe em uma direção, o impulso irá se propagar
progressivamente em torno do círculo até retornar à
posição de 12 horas. Se as fibras musculares que foram
estimuladas antes ainda estiverem no estado refratário, o
impulso então cessará nesse ponto, porque o músculo
refratário não poderá transmitir o segundo impulso. Mas
existem três condições que podem fazer com que esse
impulso continue a percorrer o círculo, isto é, a causar a
“reentrada” do impulso no músculo que já foi excitado. Isso
é chamado de “movimento em círculo”.
Na primeira, se a via em torno do círculo for longa demais,
no momento em que o impulso retorna à posição de 12
horas, o músculo inicialmente estimulado já não estará
refratário, e o impulso continuará em torno do círculo,
repetitivamente.
Na segunda, se o comprimento da via permanecer
constante, mas a velocidade de condução diminuir o suficiente,
ocorrerá aumento do tempo para que o impulso retorne à
posição de 12 horas. Então, o músculo inicialmente
estimulado pode estar fora do estado refratário, e o impulso
pode continuar em torno do círculo repetidas vezes.
Na terceira, o período refratário do músculo pode ficar muito
mais curto. Nesse caso, o impulso também poderá continuar
sempre em torno do círculo.
Todas essas patologias ocorrem em diferentes estados
patológicos do coração humano: (1) Tipicamente, existe via
mais longa nos corações dilatados. (2) A diminuição da
velocidade de condução muitas vezes decorre de: (a)
bloqueio do sistema de Purkinje, (b) isquemia do músculo,
(c) níveis altos de potássio, ou (d) muitos outros fatores. (3)
Comumente, existe período refratário mais curto, em
resposta a vários medicamentos, como a epinefrina, ou
depois de estimulação elétrica repetitiva. Desse modo, em
muitos distúrbios cardíacos a reentrada pode causar
padrões anormais de contração cardíaca ou ritmos car
VIA NORMAL
Figura 13-15 Movimento em círculo mostrando a aniquilação do
impulso na via curta e a continuação da propagação do impulso
na via longa.
díacos anormais que ignoram os efeitos do marca-passo do
nodo sinusal.
Mecanismo de Reação em Cadeia na Fibrilação
Na fibrilação ventricular, veem-se muitas pequenas ondas
contráteis distintas propagando-se ao mesmo tempo em
diferentes direções pelo músculo cardíaco. Os impulsos
reentrantes na fibrilação não são simplesmente impulso
único que se propaga em círculo, como mostrado na Figura
13-15. Ao contrário, degeneram para série de múltiplas
frentes de onda, com o aspecto de “reação em cadeia”. Um
dos melhores modos de explicar esse processo na fibrilação
é descrever o início da fibrilação por choque elétrico,
causada por corrente elétrica alternada de 60 ciclos.
Fibrilação Causada por Corrente Alternada de 60
Ciclos. No ponto central dos ventrículos do coração A, na
Figura 13-16, é aplicado estímulo elétrico de 60 ciclos por
meio de eletródio estimulador. O primeiro ciclo do
estímulo elétrico causa onda de despolarização que se
propaga em todas as direções, deixando todo o músculo
abaixo dos eletródios no estado refratário. Depois de cerca
de 0,25 segundo, parte desse músculo começa a sair do
estado refratário. Algumas partes saem da refra- tariedade
antes das outras partes. Esse estado dos eventos é
representado no coração A por muitas áreas mais claras
que representam músculo cardíaco excitável e por áreas
escuras que representam músculo ainda refratário. Agora,
continuando os estímulos de 60 ciclos pelos eletródios, é
possível fazer com que os impulsos só prossigam em
determinadas direções pelo coração, mas não por todas
elas. Desse modo, no coração A, certos impulsos caminham
por distâncias curtas até que cheguem a áreas refratárias do
coração, onde são bloqueados. Mas outros impulsos
passam por entre as áreas refratárias e continuam em sua
progressão pelas áreas excitáveis. Depois ocorrem vários
eventos em rápida sucessão, todos simultâneos, resultando
no estado de fibrilação.
Ponto de
estimulação
Figura 13-16 A, Início de fibrilação no coração quando estão
presentes focos de musculatura refratária. B, Continuação da
propagação do impulso fibrilatório no ventrículo em fibrilação.
160
Capítulo 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica
Primeiro, o bloqueio dos impulsos em algumas
direções, mas a transmissão bem-sucedida em outras
direções cria uma das condições necessárias para o
desenvolvimento do sinal reentrante — isto é, a transmissão
de algumas das ondas de despolarização no coração apenas em
algumas direções, mas não em outras.
Segundo, a estimulação rápida do coração causa duas
alterações no próprio músculo cardíaco, ambas predis-
ponentes do movimento de círculo: (1) A velocidade de
condução pelo músculo cardíaco diminui, o que permite
período de tempo mais longo para os impulsos
percorrerem o coração. (2) O período refratário do músculo é
encurtado, permitindo a reentrada do impulso no músculo
cardíaco previamente excitado, dentro de tempo menor do
que o normal.
Terceiro, uma das características mais importantes da
fibrilação é a divisão de impulsos, como mostrado no coração
A. Quando uma onda de despolarização chega à área
refratária no coração, ela se divide para os dois lados da
área refratária. Desse modo, um só impulso passa a ser
duplo. Depois, quando cada um deles chega a outra área
refratária também se divide para formar mais dois
impulsos. Desse modo, muitas novas frentes de ondas
estão continuamente sendo formadas no coração por
reações em cadeia progressivas, até que por fim existam
muitas ondas pequenas de despolarização, progredindo
em muitas direções ao mesmo tempo. Além disso, esse
padrão irregular da progressão dos impulsos abre muitas
vias cheias de curvas para que os impulsos progridam, alongando
muito a via de condução, que é uma das condições que mantêm a
fibrilação. Também resulta em padrão irregular contínuo de
áreas refratárias irregulares no coração.
Pode-se com facilidade ver quando um círculo vicioso
foi iniciado: cada vez mais impulsos são formados; estes
causam mais e mais áreas de músculo refratário, e essas
áreas refratárias produzem cada vez mais divisão dos
impulsos. Portanto, a qualquer momento em que uma área
do músculo cardíaco sai da refratariedade, um impulso
está muito perto para reentrar nessa área.
O coração B, na Figura 13-16, mostra o estado final que
se desenvolve na fibrilação. Aí podem-se ver muitos
impulsos se dirigindo em todas as direções, alguns se
dividindo e aumentando o número de impulsos, enquanto
outros são bloqueados por áreas refratárias. De fato, um
choque elétrico isolado durante esse período vulnerável
pode com frequência provocar um padrão irregular de
impulsos que se propagam em múltiplas direções,
passando em torno das áreas refratárias do músculo,
levando à fibrilação.
Eletrocardiograma na Fibrilação Ventricular
Na fibrilação ventricular, o eletrocardiograma é bizarro
(Fig. 13-17) e comumente não mostra tendência para ritmo
regular de qualquer tipo. Durante os primeiros segundos
da fibrilação ventricular, massas de músculo relativamente
grandes se contraem simultaneamente, o que causa ondas
grosseiras irregulares no eletrocardiograma. Depois de
mais alguns segundos, as contrações grosseiras dos ven-
trículos desaparecem, e o eletrocardiograma muda para
Figura 13-17 Fibrilação ventricular (derivação II).
novo padrão de ondas muito irregulares e com baixa
voltagem. Desse modo, nenhum padrão eletrocardiográfico
repetitivo pode ser atribuído à fibrilação ventricular. Em
seu lugar, o músculo ventricular se contrai, com até 30 a 50
pequenas áreas musculares por vez, e os potenciais ele-
trocardiográficos mudam constante e espasmodicamente
porque as correntes elétricas no coração fluem primeiro em
uma direção e, em seguida, em outra, quase nunca
repetindo qualquer ciclo específico.
A voltagem das ondas no eletrocardiograma da
fibrilação ventricular em geral é de cerca de 0,5 milivolt,
quando a fibrilação ventricular se inicia, mas diminui
rapidamente, de modo que depois de 20 a 30 segundos
usualmente é de apenas 0,2 a 0,3 milivolt. Voltagens
diminutas de 0,1 milivolt ou menos podem ser registradas,
por 10 minutos ou mais, depois que começa a fibrilação
ventricular. Como já destacado, visto não ocorrer
bombeamento de sangue durante a fibrilação ventricular o
estado é letal, a menos que interrompido por alguma
terapia heróica como ele- trochoque imediato do coração,
conforme explicado no tópico a seguir.
Desfibrilação dos Ventrículos por Eletrochoque
Embora a voltagem moderada de corrente alternada
aplicada diretamente nos ventrículos os leve quase
invariavelmente à fibrilação, a corrente elétrica alternada
de alta voltagem que passa pelos ventrículos, por fração de
segundo, pode fazer cessar a fibrilação por lançar todo o
músculo ventricular na refratariedade ao mesmo tempo.
Isso se consegue fazendo-se com que corrente intensa passe
através do tórax por meio de grandes eletródios colocados
em dois lados do coração. A corrente penetra na maioria
das fibras dos ventrículos ao mesmo tempo, estimulando
desse modo essencialmente todas as partes dos ventrículos
no mesmo instante e fazendo com que todas fiquem
refratárias. Cessam todos os potenciais de ação, e o coração
fica parado por 3 a 5 segundos voltando a se contrair em
seguida, geralmente com o nodo sinu- sal ou alguma outra
parte do coração passando a ser o marca-passo. No entanto,
o mesmo foco reentrante que originalmente jogara os
ventrículos na fibrilação ainda costuma estar presente, caso
em que a fibrilação pode recomeçar imediatamente.
Quando são aplicados eletródios diretamente nos dois
lados do coração, a fibrilação geralmente pode ser
interrompida usando 110 volts de corrente alternada de 60
ciclos, aplicada por 0,1 segundo, ou 1.000 volts de corrente
direta, aplicada por alguns milésimos de segundo. Quando
aplicado por dois eletródios na parede torácica, como
mostrado na Figura 13-18, o procedimento habi-
161
Unidade III O Coração
Vários milhares de volts
Figura 13-18 Aplicação de corrente elétrica ao tórax para
interromper a fibrilação ventricular.
tual é carregar um grande capacitor elétrico, com vários
milhares de volts, e em seguida fazer com que o capacitor
descarregue por alguns milésimos de segundo pelos ele-
tródios e pelo coração.
Bombeamento Manual do Coração (Ressuscitação
Cardiorrespiratória) como Auxiliar da Desfibrilação
A menos que seja desfibrilado em 1 minuto, após o início
da fibrilação o coração em geral estará fraco demais para
ser revivido por desfibrilação, em virtude da falta de
nutrição pelo fluxo sanguíneo coronariano. No entanto,
ainda é possível reviver o coração por bombeamento
manual (compressões manuais intermitentes) preliminar,
para desfibrilá-lo mais tarde. Por esse método, pequenas
quantidades de sangue são lançadas na aorta, com reins-
talação da irrigação coronariana. Depois de alguns minutos
de bombeamento manual, muitas vezes pode-se fazer a
desfibrilação elétrica. Na verdade, corações em fibrilação
têm sido bombeados manualmente por até 90 minutos,
seguidos por desfibrilação elétrica bem-sucedida.
A técnica para bombear o coração sem abrir o peito
consiste em golpes intermitentes de pressão sobre a parede
torácica, junto com respiração artificial. Isso e mais a
desfibrilação é designado como ressuscitação
cardiorrespiratória ou RCR.
A falta de fluxo sanguíneo para o cérebro por mais de 5
a 8 minutos provoca geralmente comprometimento mental
permanente ou até destruição de tecido cerebral. Mesmo
que o coração seja revivido, a pessoa pode morrer dos
efeitos da lesão cerebral ou pode viver com permanente
comprometimento mental.
Fibrilação Atrial
Lembre-se de que, exceto para a via de condução pelo feixe
A-V, a massa muscular atrial é separada da massa
muscular ventricular por tecido fibroso. Portanto, a
fibrilação ventricular costuma ocorrer sem fibrilação atrial.
Da mesma forma, costuma ocorrer fibrilação nos átrios sem
fibrilação ventricular (o que é mostrado à direita, na Fig.
13-20).
O mecanismo da fibrilação atrial é idêntico ao da
fibrilação ventricular, exceto que o processo ocorre
somente na massa muscular atrial, em lugar de na massa
ventricular. Causa frequente de fibrilação atrial é o
aumento do volume atrial, decorrente de lesões valvares
cardíacas que impedem os átrios de se esvaziarem
adequadamente nos ventrículos ou de insuficiência
ventricular com acúmulo excessivo de sangue no átrio. As
paredes atriais dilatadas criam condições ideais de via de
condução longa, bem como de condução lenta, ambas
predisponentes da fibrilação atrial.
Características do Bombeamento pelos Átrios
durante a Fibrilação Atrial. Pelas mesmas razões por
que os ventrículos não bombearão sangue durante a
fibrilação ventricular, também os átrios não bombeiam
sangue na fibrilação atrial. Portanto, os átrios passam a ser
inúteis como bombas de escorva para os ventrículos. Ainda
assim, o sangue flui passivamente dos átrios e vai para os
ventrículos, e a eficiência do bombeamento ventricular
diminui apenas por 20% a 30%. Por conseguinte, em
comparação com a letalidade da fibrilação ventricular, a
pessoa pode viver meses ou até anos com fibrilação atrial,
embora com redução da eficiência do bombeamento global
do coração.
Eletrocardiograma na Fibrilação Atrial. A Figura
13- 19 mostra o eletrocardiograma durante a fibrilação
atrial. Numerosas ondas pequenas de despolarização se
propagam em todas as direções pelos átrios durante a
fibrilação atrial. Como as ondas são fracas, e muitas delas
têm polaridade oposta em qualquer momento dado, quase
se neutralizam eletricamente de maneira completa nos
casos usuais. Assim, no eletrocardiograma pode-se não ver
as ondas P dos átrios, ou apenas ver um registro ondulado
fino de voltagem muito baixa com alta frequência.
Inversamente, os complexos QRS-T são normais, a menos
que exista alguma patologia dos ventrículos, mas seu ritmo
é irregular, como será explicado a seguir.
Irregularidade do Ritmo Ventricular durante a
Fibrilação Atrial. Quando os átrios estão em fibrilação, os
impulsos chegam vindos do músculo atrial ao nodo A-V
com alta frequência, mas também de forma irre-
Figura 13-19 Fibrilação atrial (derivação I). As ondas que
podem ser vistas são complexos QRS e ondas T ventriculares.
162
Capítulo 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica
guiar. Como o nodo A-V não transmitirá um segundo
impulso por cerca de 0,35 segundo depois do anterior,
deverá decorrer, pelo menos, 0,35 segundo entre a
contração ventricular e a seguinte. Então ocorre intervalo
adicional mas variável de 0 a 0,6 segundo antes que um dos
impulsos fibrilatórios atriais irregulares atinja o nodo A-V.
Desse modo, o intervalo entre sucessivas contrações
ventriculares varia entre o mínimo de cerca de 0,35
segundo e o máximo de cerca de 0,95 segundo, resultando
em batimento cardíaco muito irregular. De fato, essa
irregularidade, demonstrada pelo espaçamento variável
dos batimentos cardíacos no eletrocardiograma da Figura
13-19, é um dos achados clínicos usados para diagnosticar
essa patologia. De igual modo, em virtude da alta
frequência dos impulsos fibrilatórios dos átrios, o ven-
trículo é estimulado à frequência cardíaca acelerada em
geral entre 125 e 150 batimentos por minuto.
Tratamento da Fibrilação Atrial por Eletrocho-
que. Da mesma maneira que a fibrilação ventricular pode
ser convertida para o ritmo normal pelo eletro- choque,
também a fibriação atrial pode ser convertida pelo mesmo
processo. O procedimento é essencialmente o mesmo que
para a conversão da fibrilação ventricular — passagem de
forte choque elétrico único pelo coração, que lança todo o
coração na refratariedade por alguns segundos; o ritmo
normal com frequência reaparece se o coração for capaz disso.
Flutter Atrial
O flutter atrial é mais uma patologia causada pelo
movimento em círculo nos átrios. É diferente da fibrilação
atrial, pois o sinal elétrico se propaga como onda grande e
única, sempre pelo mesmo percurso, repetitivamente pela
massa muscular atrial como mostrado à esquerda na Figura
13-20. O flutter atrial produz aceleração da frequência de
contração dos átrios, em geral entre 200 e 350 batimentos
por minuto. No entanto, como um lado dos átrios está se
contraindo enquanto o outro lado está relaxando, a
quantidade de sangue bombeada pelos átrios é pequena.
Além disso, os sinais chegam ao nodo A-V de
Figura 13-20 Vias de propagação dos impulsos no flutter atrial
e na fibrilação atrial.
Figura 13-21 Flutter atrial — ritmo atrioventricular 2:1 e 3:1
(derivação I).
modo rápido demais para que todos passem para os ven-
trículos, porque os períodos refratários do nodo A-V e do
feixe A-V são longos demais para só permitir a transmissão
de apenas pequena fração dos sinais atriais. Assim,
usualmente ocorrem dois a três batimentos atriais para cada
batimento ventricular.
A Figura 13-21 mostra um eletrocardiograma típico de
flutter atrial. As ondas P são fortes em virtude da contração
de massas musculares semicoordenadas. No entanto,
observa-se no registro que o complexo QRS-T só segue uma
onda P atrial apenas uma vez a cada dois a três batimentos
dos átrios, originando um ritmo 2:1 ou 3:1.
Parada Cardíaca
Uma anormalidade grave final do sistema de ritmicidade-
condução cardíaco é a parada cardíaca. Ela resulta da
cessação de todos os sinais elétricos de controle no coração.
Significa que não existe qualquer ritmo espontâneo.
A parada cardíaca pode ocorrer principalmente durante
anestesia profunda, quando muitos pacientes desenvolvem
intensa hipoxia devida à respiração inadequada. A hipoxia
impede que as fibras musculares e as fibras de condução
cardíacas possam manter os diferenciais normais de
concentração de eletrólitos através de suas membranas, e
sua excitabilidade pode ser tão afetada que a ritmicidade
automática desaparece.
Na maioria dos casos de parada cardíaca por anestesia,
a ressuscitação cardiorrespiratória prolongada (muitos
minutos ou até horas) tem muito sucesso em restabelecer o
ritmo cardíaco normal. Em alguns pacientes, doença grave
do miocárdio pode causar parada cardíaca permanente ou
semipermanente, o que pode causar a morte. Para tratar
essa condição, têm sido usados com sucesso impulsos
elétricos rítmicos de um marca-passo cardíaco eletrônico
implantado para manter os pacientes vivos por meses a anos.
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164
A Circulação
14. Visão Geral da Circulação; Biofísica da
Pressão, Fluxo e Resistência
15. Distensibilidade Vascular e Funções dos
Sistemas Arterial e Venoso
16. A Microcirculação e o Sistema Linfático:
Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo
de Linfa
17. Controle Local e Humoral do Fluxo
Sanguíneo dos Tecidos
18. Regulação Nervosa da Circulação e o
Controle Rápido da Pressão Arterial
19. O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo
da Pressão Arterial e na Hipertensão: O
Sistema Integrado de Regulação da Pressão
Arterial
20. Débito Cardíaco, Retorno Venoso e suas
Regulações
21. Fluxo Sanguíneo pelos Músculos e o Débito
Cardíaco durante o Exercício; a Circulação
Coronária e a Cardiopatia Isquêmica
22. Insuficiência Cardíaca
23. Valvas e Bulhas Cardíacas; Defeitos
Cardíacos Valvulares e Congênitos
24. Choque Circulatório e seu Tratamento
U
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A
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E
(página deixada intencionalmente em branco)
C A P Í T U L O 1 4
Visão Geral da Circulação; Biofísica da
Pressão, Fluxo e Resistência
A função da circulação é a
de
suprir as necessidades dos
tecidos corporais — trans-
portar até eles os nutrien-
tes, eliminar os produtos do
metabolismo, levar hormô-
nios de parte do corpo para
a outra e, de modo geral, manter o ambiente apropriado
em todos os líquidos teciduais do organismo para que as
células sobrevivam e funcionem de maneira ótima.
A intensidade do fluxo sanguíneo que passa por muitos
tecidos é controlada sobretudo em resposta às suas
necessidades de nutrientes. Em alguns órgãos, como os
rins, a circulação serve para outras funções. Por exemplo, o
fluxo sanguíneo para os rins está muito além de suas
necessidades metabólicas e está relacionado à sua função
excretora, o que demanda que grande volume de sangue
seja filtrado a cada minuto.
O coração e os vasos sanguíneos, por sua vez, são
controlados para produzir o débito cardíaco e a pressão
arterial necessários para gerar o fluxo sanguíneo teci- dual
requerido. Quais são os mecanismos de controle do volume
e do fluxo sanguíneo, e como se relacionam com todas as
outras funções da circulação? Estes são alguns dos tópicos e
questões que discutiremos nesta seção sobre a circulação.
Características Físicas da Circulação
A circulação, ilustrada na Figura 14-1, divide-se em
circulação sistêmica e circulação pulmonar. Como a circulação
sistêmica promove o fluxo sanguíneo para todos os tecidos
corporais, exceto para os pulmões, é também chamada
grande circulação ou circulação periférica.
Partes Funcionais da Circulação. Antes de discutir
os detalhes da função circulatória, é importante entender o
papel de cada parte da circulação.
A função das artérias é a de transportar sangue sob alta
pressão para os tecidos. Por esse motivo, têm fortes paredes
vasculares, e nelas o sangue flui em alta velocidade.
As arteríolas são os pequenos ramos finais do sistema
arterial; elas agem como condutos de controle pelos quais o
sangue é liberado para os capilares. Elas têm forte parede
muscular, capaz de ocluir completamente os vasos ou com
seu relaxamento dilatá-los, multiplicando seu diâmetro,
sendo capaz dessa forma de alterar muito o fluxo
sanguíneo em cada tecido em resposta à sua necessidade.
A função dos capilares é a troca de líquidos, nutrientes,
eletrólitos, hormônios e outras substâncias entre o sangue e
o líquido intersticial. Para exercer essa função, as paredes
capilares são muito finas e têm numerosos minúsculos
poros capilares permeáveis à água e outras pequenas
substâncias moleculares.
As vênulas coletam o sangue dos capilares e de forma
gradual coalescem, formando veias progressivamente
maiores.
As veias funcionam como condutos para o transporte de
sangue das vênulas de volta ao coração; além disso, atuam
como importante reservatório de sangue extra. Como a
pressão no sistema venoso é muito baixa, as paredes das
veias são finas. Mesmo assim, são suficientemente
musculares para se contrair e expandir, agindo como
reservatório controlável para o sangue extra de pequeno ou
grande volume, de acordo com as necessidades da
circulação.
Volumes de Sangue nas Diferentes Partes da
Circulação. A Figura 14-1 apresenta uma visão geral da
circulação e enumera a porcentagem do volume sanguíneo
total contida nos principais segmentos da circulação. Por
exemplo, cerca de 84% do volume sanguíneo corporal total
estão contidos na circulação sistêmica, e 16%, no coração e
nos pulmões. Dos 84% na circulação sistêmica, 64% estão
nas veias, 13% nas artérias e 7% nas arteríolas e capilares
sistêmicos. O coração contém 7% do sangue, e os vasos
pulmonares, 9%.
O mais surpreendente é o baixo volume sanguíneo nos
capilares. É neles, entretanto, que ocorre a função mais
importante da circulação: a difusão de substâncias do
sangue para os tecidos e vice-versa. Essa função é discutida
em detalhes no Capítulo 16.
167
U
N
I
D
A
Unidade IV A Circulação
Circulação pulmonar - 9 % Q -
Veia cava
superior ■
• Aorta
Veia cava
inferior-
Circulação
sistêmica - 84%
Veias, vênulas / e
seios / venosos —
64% c ___________ V
Vasos
sistêmicos
Coração - 7%
■Artérias -13%
-Arteríolas
e
■capilares -7%
Figura 14-1 Distribuição do sangue (como porcentagem do
sangue total) nas diferentes partes do sistema circulatório.
Áreas de Secção Transversal e Velocidades do
Fluxo Sanguíneo. Se todos os vasos sistêmicos de cada tipo
fossem colocados lado a lado, suas áreas totais aproximadas
de secção transversa média no ser humano seriam as
seguintes:
Vaso Área de Secção Trar
Aorta 2,5
Pequenas artérias 20
Arteríolas 40
Capilares 2.500
Vênulas 250
Pequenas veias 80
Veias cavas 8
Desse modo, em condições de repouso, a velocidade
média na aorta é de 33 cm/s, mas nos capilares é de apenas
1/1.000 desse valor, ou cerca de 0,3 mm/s. Entretanto,
como os capilares têm comprimento típico de apenas 0,3 a 1
milímetro, o sangue permanece neles por apenas 1 a 3
segundos. Esse curto tempo é surpreendente porque toda a
difusão de nutrientes alimentares e eletrólitos que ocorre
através das paredes capilares deve ocorrer nesse intervalo
reduzido de tempo.
Pressões nas Diversas Partes da Circulação. Como o
coração bombeia continuamente sangue para a aorta, a
pressão média nesse vaso é alta, cerca de 100 mmHg. Além
disso, como o bombeamento cardíaco é pulsátil, a pressão
arterial alterna entre a pressão sistólica de 120 mmHg e a
pressão diastólica de 80 mmHg, como mostrado no lado
esquerdo da Figura 14-2.
À medida que o sangue flui pela circulação sistêmica, sua
pressão média cai progressivamente para cerca de 0 mmHg
ao atingir o final das veias cavas, que deságuam no átrio
direito do coração.
A pressão nos capilares sistêmicos varia entre valores
elevados, como 35 mmHg, próximos à extremidade arte-
riolar, e valores baixos, chegando a 10 mmHg, próximos à
extremidade venosa, mas a pressão “funcional” média na
maioria dos leitos vasculares é de cerca de 17 mmHg, valor
suficientemente baixo para que pouco plasma flua através
dos minúsculos poros das paredes capilares, embora os
nutrientes possam se difundir com muita facilidade através
desses mesmos poros para as células teci- duais
circundantes.
Note, na porção mais à direita da Figura 14-2, as
pressões respectivas nas diferentes partes da circulação
pulmonar. Nas arteríolas pulmonares, a pressão é pulsátil
como na aorta, mas a pressão é muito menor: a pressão
arterial pulmonar sistólica média é de cerca de 25 mmHg, e a
pressão diastólica, de 8 mmHg, com pressão arterial
pulmonar média de 16 mmHg. A pressão capilar pulmonar
média é de apenas 7 mmHg. Ainda assim, o fluxo
sanguíneo total que passa pelos pulmões a cada minuto é o
mesmo que o da circulação sistêmica. As baixas pressões
do sistema pulmonar estão de acordo com as necessidades
dos pulmões, que consistem basicamente em expor o
sangue dos capilares pulmonares ao oxigênio e aos outros
gases alveolares.
Note em particular as áreas de secção transversa muito
maiores das veias em relação às artérias, em média cerca de
quatro vezes maiores que suas correspondentes. Isso
explica a grande capacidade de armazenamento de sangue
no sistema venoso, em comparação ao sistema arterial.
Como o mesmo fluxo de volume de sangue (F) deve
passar por todo segmento da circulação a cada minuto, a
velocidade do fluxo sanguíneo (v) é inversamente
proporcional à área de secção transversa vascular (A):
v = F/A
Princípios Básicos da Função Circulatória
Embora os detalhes da circulação sejam complexos,
existem três princípios básicos subjacentes a todas as suas
funções.
1. A intensidade (ou velocidade) do fluxo sanguíneo
para cada tecido corporal é quase sempre
controlada precisamente em relação às
necessidades te- ciduais. Quando os tecidos estão
ativos, precisam de grande incremento do suprimento
de nutrientes e, portanto, de fluxo sanguíneo muito
maior — ocasio-
168
Capítulo 14 Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência
Figura 14-2 Pressões sanguíneas normais nas diferentes partes do sistema circulatório, quando a pessoa está na posição horizontal.
nalmente até 20 a 30 vezes o de repouso. Ainda assim, o
coração nas condições normais não pode aumentar seu
débito por mais que quatro a sete vezes maior que os
dos valores de repouso. Assim, não é possível
simplesmente aumentar o fluxo sanguíneo em todas as
partes do corpo quando um tecido particular demanda
fluxo aumentado. Em vez disso, os microvasos em cada
tecido monitoram, de modo contínuo, as necessidades
teciduais, tais como a disponibilidade de oxigênio e de
outros nutrientes e o acúmulo de dióxido de carbono e
outros produtos do metabolismo; estes, por sua vez,
agem diretamente sobre os vasos sanguíneos locais,
dilatando-os ou contraindo-os para controlar o fluxo
sanguíneo local de forma precisa e até o nível necessário
para a atividade do tecido. Além disso, o controle
neural da circulação, pelo sistema nervoso central e os
hormônios, age como mais um mecanismo para a
regulação do fluxo sanguíneo tecidual.
2. O débito cardíaco é controlado principalmente pela
soma de todos os fluxos teciduais locais. Depois de
fluir por um tecido, o sangue retorna de imediato pelas
veias para o coração. Este responde de forma
automática ao aumento da chegada de sangue,
bombeando-o imediatamente de volta para as artérias.
Assim, o coração age como autômato, respondendo às
demandas dos tecidos. Entretanto, com frequência
precisa de auxílio na forma de sinais nervosos especiais,
que o fazem bombear a quantidade necessária de fluxo
sanguíneo.
3. A regulação da pressão arterial é geralmente
independente do fluxo sanguíneo local ou do
débito cardíaco. O sistema circulatório tem sistema
extensivo de controle da pressão sanguínea arterial. Por
exemplo, se em qualquer momento a pressão cair
significativamente abaixo do nível normal de cerca de
100 mmHg, conjunto de reflexos nervosos desencadeia
em poucos segundos diversas alterações circulatórias
para normalizar a pressão. Os sinais nervosos agem
especialmente (a) aumentando a força do bom-
beamento cardíaco, (b) causando constrição dos
grandes reservatórios venosos, para levar mais sangue
para
o coração, e (c) causando constrição generalizada da
maioria das arteríolas em todo o corpo, de modo que
maior quantidade de sangue se acumula nas grandes
artérias, aumentando a pressão arterial. Então, ao longo
de períodos mais prolongados de horas ou dias os rins
desempenham papel adicional fundamental no controle
pressórico, tanto pela secreção de hormônios
controladores da pressão como pela regulação do
volume sanguíneo.
Assim, em resumo, as necessidades dos tecidos
individuais são supridas de forma específica pela
circulação. No restante deste capítulo, começaremos a
discutir os detalhes básicos do gerenciamento do fluxo
sanguíneo tecidual e do controle do débito cardíaco e da
pressão arterial.
Inter-relações da Pressão, Fluxo e
Resistência
O fluxo sanguíneo por um vaso é determinado por dois
fatores: (1) a diferença de pressão sanguínea entre as duas
extremidades do vaso, também por vezes referida como
“gradiente de pressão” ao longo do vaso, que é a força que
impulsiona o sangue pelo vaso, e (2) o impedimento ao
fluxo sanguíneo pelo vaso, ou resistência vascular. A Figura
14-3 mostra essas relações em um segmento de vaso
sanguíneo, localizado em qualquer parte do sistema
circulatório.
Px representa a pressão na origem do vaso; na outra
extremidade, a pressão é P2. A resistência ocorre como
resultado do atrito entre o sangue em movimento e o
endotélio intravascular em todo o interior do vaso. O fluxo
pelo vaso pode ser calculado pela seguinte fórmula, que é
chamada de lei de Ohm:
na qual F é o fluxo sanguíneo, AP é a diferença de pressão
(P1 - P2) entre as duas extremidades do vaso e R é a
resistência. A fórmula define que o fluxo sanguíneo ocorre
169
Unidade IV A Circulação
„ _ Gradiente de pressão-------- -- „
P! ^ P2 Fluxo
Figura 14-3 Inter-relações entre pressão, resistência e fluxo
sanguíneo.
em proporção direta à diferença de pressão, mas
inversamente proporcional à resistência.
Note que é a diferença de pressão entre as duas
extremidades do vaso e não a pressão absoluta em seu
interior que determina a intensidade/velocidade do fluxo.
Por exemplo, se a pressão em ambas as extremidades do
vaso for de 100 mmHg, mas se não houver diferença entre
elas, não haverá fluxo apesar de existir pressão de 100
mmHg.
A lei de Ohm, representada pela Equação 1, expressa a
mais importante de todas as relações que o leitor precisa
entender para compreender a hemodinâmica da circulação.
Em virtude da extrema importância dessa equação, o leitor
deve também estar familiarizado com suas outras formas
algébricas:
AP = F X R
AP
R =---
F
Fluxo Sanguíneo
Fluxo sanguíneo significa a quantidade de sangue que
passa por determinado ponto da circulação durante certo
intervalo de tempo. Via de regra, o fluxo sanguíneo é
expresso em mililitros por minuto ou litros por minuto, mas
pode ser expresso em mililitros por segundo ou quaisquer
outras unidades de fluxo e tempo.
O fluxo sanguíneo total na circulação de adulto em
repouso é de cerca de 5.000 mL/min. Isso é referido como
débito cardíaco, por ser a quantidade de sangue bombeada
pelo coração para a aorta, a cada minuto.
Métodos para a Medida do Fluxo Sanguíneo.
Muitos aparelhos mecânicos e eletromecânicos podem ser
inseridos em série em vaso sanguíneo ou, em alguns casos,
aplicados ao exterior do vaso, para medir seu fluxo. Esses
aparelhos são chamados fluxômetros.
Fluxômetro Eletromagnético. Um dos mais
importantes aparelhos para a medida do fluxo sanguíneo
sem a abertura do vaso é o fluxômetro eletromagnético;
seus princípios estão ilustrados na Figura 14-4. A Figura
14-4A demonstra a geração de força eletromotiva
(voltagem elétrica) em um fio que é movido rapidamente
na direção transversa, ao longo de campo magnético. Esse é
o conhecido princípio para a produção de eletricidade por
gerador elétrico. A Figura 14-4B mostra o mesmo princípio,
aplicado à geração de força eletromotiva no sangue que se
move por campo eletromagnético. Neste caso, o vaso
sanguíneo é colocado entre os polos de forte ímã, e
eletrodos são posicionados nos dois lados do vaso,
perpendiculares às linhas de força magnética. Quando o
sangue flui pelo vaso, é gerada voltagem elétrica
proporcional à intensidade/velocidade do fluxo sanguíneo
entre os dois eletrodos, registrada por voltímetro
apropriado ou outro aparelho eletrônico de registro. A
Figura 14-4C mostra uma “sonda” verdadeira, que é
posicionada em um vaso calibroso para registrar o seu
fluxo sanguíneo. A sonda contém o forte ímã e os
eletródios.
Vantagem especial do fluxômetro eletromagnético é sua
capacidade de registrar as variações do fluxo em menos de
1/100 de segundo, permitindo o registro preciso de
variações pulsáteis do fluxo, bem como o fluxo estável.
£ >Ã /
-Resistência-
c
Figura 14-4 Fluxômetro eletromagnético mostrando a geração de voltagem elétrica no fio ao passar por campo eletromagnético (A);
geração de voltagem elétrica em eletródio sobre vaso sanguíneo quando o vaso é colocado sob forte campo magnético (fí); e moderna
sonda fluxométrica eletromagnética para implantação crônica ao redor de vasos sanguíneos (C).
170
Capítulo 14
Fluxômetro Doppler Ultrassônico. Outro tipo de flu-
xômetro que pode ser posicionado no exterior do vaso e
que apresenta muitas das vantagens do fluxômetro
eletromagnético é o fluxômetro Doppler ultrassônico,
mostrado na Figura 14-5. Um diminuto cristal piezoelétrico
é montado em uma extremidade, na parede do aparelho.
Esse cristal, quando energizado por aparelho eletrônico
apropriado, transmite sinais ultrassônicos na frequência de
muitas centenas de milhares de ciclos por segundo, no
sentido do fluxo sanguíneo. Parte do som é refletida pelos
eritrócitos no sangue em movimento. As ondas ultrassôni-
cas refletidas retornam dos eritrócitos para o cristal. Essas
ondas refletidas têm frequência mais baixa que as ondas
transmitidas porque os eritrócitos estão se afastando do
cristal transmissor. Esse é o efeito Doppler. (É o mesmo efeito
percebido quando uma ambulância se aproxima e passa
tocando sua sirene. Uma vez que a sirene passa e se afasta,
seu som se torna subitamente muito mais grave que o
ouvido quando a ambulância se aproximava.)
No fluxômetro mostrado na Figura 14-5, a onda ultras-
sônica de alta frequência é interrompida de modo
intermitente, e a onda refletida é captada de volta pelo
cristal e amplificada muitas vezes pelo aparelho eletrônico.
Outra parte do aparelho determina a diferença de
frequência entre a onda transmitida e a refletida,
determinando assim a velocidade do fluxo sanguíneo.
Contanto que o diâmetro do vaso sanguíneo não mude, as
alterações no fluxo sanguíneo no vaso são relacionadas às
alterações na velocidade do fluxo.
Da mesma forma que o fluxômetro eletromagnético, o
fluxômetro Doppler ultrassônico é capaz de registrar as
rápidas variações pulsáteis no fluxo, bem como o fluxo
estável.
Fluxo Laminar do Sangue nos Vasos. Quando o
sangue flui de forma estável por vaso sanguíneo longo e
uniforme, ele se organiza em linhas de corrente, com
camadas de sangue equidistantes da parede do vaso. Além
disso, a porção mais central do sangue permanece no
centro do vaso. Esse tipo de fluxo é chamado laminar e é o
oposto do fluxo turbulento, que consiste em sangue correndo
em todas as direções do vaso e se misturando
continuamente em seu interior, como discutido mais
adiante.
Perfil Parabólico de Velocidade durante o Fluxo
Laminar. Quando ocorre fluxo laminar, a velocidade do
fluxo pelo centro do vaso é muito maior que próximo
transmitida refletida
Figura 14-5 Fluxômetro Doppler
ultrassônico.
Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência
às paredes. Isso é mostrado na Figura 14-6. Na Figura
14- 6A, o vaso contém dois líquidos; o da esquerda está
colorido por pigmento, e o da direita é um líquido claro,
mas não há fluxo no vaso. Quando os líquidos começam a
fluir, desenvolve-se interface parabólica entre eles, como
mostrado 1 segundo depois na Figura 14-65; a porção de
líquido adjacente à parede do vaso praticamente não se
moveu, a porção pouco mais afastada da parede se moveu
por pequena distância, e a porção no centro do vaso se
moveu por longa distância. Esse efeito é chamado “perfil
parabólico da velocidade do fluxo sanguíneo”.
O perfil parabólico ocorre porque as moléculas de
líquido que tocam a parede se movem lentamente em
virtude da aderência com o endotélio. A camada seguinte
de moléculas desliza sobre a primeira, a terceira camada
desliza sobre a segunda, a quarta sobre a terceira, e assim
por diante. Portanto, o líquido no meio do vaso pode se
mover rapidamente porque existem muitas camadas de
moléculas deslizantes entre o meio do vaso e a parede;
assim, cada camada em direção ao centro flui
progressivamente mais rápido que as camadas externas.
O
>
Fluxo Sanguíneo Turbulento sob Certas Condições.
Quando a intensidade do fluxo sanguíneo é muito elevada,
ou quando o sangue passa por obstrução no vaso, por
ângulo fechado ou por superfície áspera, o fluxo pode ficar
turbulento ou desordenado em vez de laminar (Fig. 14-6C).
Fluxo turbulento significa que o sangue flui na direção
longitudinal e na direção perpendicular, geralmente
formando redemoinhos semelhantes aos vistos em pontos de
obstrução de um rio com forte correnteza.
Quando ocorrem redemoinhos, a resistência ao fluxo de
sangue é muito maior que no fluxo laminar por
provocarem grande aumento do atrito total do fluxo no
vaso.
A tendência à ocorrência de fluxo turbulento é de modo
direto proporcional à velocidade do fluxo sanguíneo, ao
diâmetro do vaso e à densidade do sangue, e inversamente
proporcional à viscosidade do sangue, o que é
representado pela seguinte equação:
Figura 14-6 A, Dois líquidos (um tingido de vermelho, o outro
límpido) antes do início do fluxo; B, os mesmos líquidos, 1
segundo após o início do fluxo; C, fluxo turbulento, com
elementos do fluxo se movendo em padrão desordenado.
171
U
N
Unidade IV A Circulação
em que Re é o número de Reynolds, que é a medida da
tendência para a ocorrência de turbilhonamento; v é a
velocidade média do fluxo sanguíneo (em centímetros/
segundo); d é o diâmetro do vaso (em centímetros); p é a
densidade; e r a viscosidade (em poise). A viscosidade do
sangue é normalmente de cerca de 1/30 poise, e a
densidade é apenas pouco maior que 1. Quando o número
de Reynolds aumenta acima de 200 a 400, ocorre fluxo
turbulento em alguns ramos dos vasos, que se extingue em
suas porções mais lisas. Entretanto, quando o número de
Reynolds aumenta acima de aproximadamente 2.000,
ocorre turbulência mesmo em vasos retos e lisos.
O número de Reynolds para o fluxo no sistema vascular
normalmente sobe para 200 a 400 nas grandes artérias; por
isso, quase sempre ocorre algum fluxo turbulento nos
ramos desses vasos. Nas porções proximais da aorta e da
artéria pulmonar, esse número pode chegar a muitos
milhares durante a fase rápida de ejeção dos ventrí- culos;
isso provoca turbulência considerável na aorta e na artéria
pulmonar proximais, em locais em que há condições
apropriadas para a turbulência: (1) alta velocidade de fluxo
sanguíneo, (2) natureza pulsátil do fluxo, (3) alteração
súbita do diâmetro do vaso, e (4) grande diâmetro.
Entretanto, em vasos pequenos, o número de Reynolds
quase nunca é alto o suficiente para causar turbulência.
Pressão Sanguínea
Medidas Padronizadas de Pressão. A pressão
sanguínea é quase sempre medida em milímetros de
mercúrio (mmHg) porque o manômetro de mercúrio tem
sido usado como referência padrão para a medida da
pressão, desde sua invenção em 1846 por Poiseuille. Na
verdade, a pressão sanguínea representa a força exercida pelo
sangue contra qualquer unidade de área da parede vascular.
Quando dizemos que a pressão em um vaso é de 50 mmHg,
isso significa que a força exercida é suficiente para
impulsionar a coluna de mercúrio até a altura de 50
milímetros contra a gravidade. Se a pressão for de 100
mmHg, será capaz de impulsionar a coluna de mercúrio até
100 milímetros.
Ocasionalmente, a pressão é medida em centímetros de
água (cm H20). A pressão de 10 cm H^O é suficiente para
elevar contra a gravidade uma coluna de água a 10
centímetros de altura. Um milímetro de mercúrio exerce pressão
igual a 1,36 cm de água, porque o peso específico do mercúrio
é 13,6 vezes maior que o da água, e 1 centímetro é 10 vezes
maior que um milímetro.
Métodos de Alta Precisão para a Medida da Pressão
Sanguínea. O mercúrio no manômetro de mercúrio tem tanta
inércia que não pode subir e descer rapidamente. Por isso, embora
seja excelente para o registro de pressões estáticas, não pode
responder a alterações pressóricas que ocorram com frequência
maior que um ciclo a cada 2 a 3 segundos. Quando se deseja
registrar pressões com variações rápidas, é necessário algum outro
tipo de aparelho para a medida da pressão. A Figura 14-7
demonstra os princípios básicos de
três transdutores eletrônicos de pressão usados comumente para
converter a pressão sanguínea e/ou rápidas alterações de pressão
em sinais elétricos e, então, registrá-los em gravador elétrico de
alta velocidade. Todos esses transdutores utilizam fina membrana
metálica muito esticada, que forma uma das paredes da câmara de
líquido. Esta, por sua vez, fica conectada por meio de agulha ou
cateter, e é inserida no vaso sanguíneo no qual a pressão vai ser
medida. Quando a pressão se eleva, a membrana fica ligeiramente
convexa, e, quando a pressão é reduzida, ela retorna à sua posição
de repouso.
Na Figura 14-7A, uma simples placa de metal é colocada a
alguns centésimos de centímetro acima da membrana. A
membrana ao se abaular se aproxima da placa, aumentando a
capacitância elétrica entre elas; essa alteração da capaci- tância é
registrada por sistema eletrônico.
Na Figura 14-75, um pequeno cilindro de metal está apoiado
sobre a membrana; ele pode ser deslocado para cima e entrar no
espaço central de bobina elétrica. O movimento do metal para
dentro da bobina aumenta sua indutância, o que também pode ser
registrado eletronicamente.
Finalmente, na Figura 14-7C, um fio de resistência muito fino é
conectado à membrana. Quando esse fio está mais esticado, sua
resistência aumenta; quando menos esticado, sua resistência
diminui. Essas alterações também podem ser registradas por
sistema eletrônico.
Os sinais elétricos do transdutor são enviados para o
amplificador e para o aparelho de registro adequado. Com alguns
desses sistemas de registro de alta fidelidade, foi possível registrar
ciclos de pressão com frequências de até 500 ciclos por segundo.
Os aparelhos de uso comum são capazes de registrar variações
pressóricas que ocorrem em 20 a 100 ciclos por segundo da
maneira mostrada no papel de registro na Figura 14-7C.
Resistência ao Fluxo Sanguíneo
Unidades de Resistência. A resistência é o
impedimento ao fluxo sanguíneo pelo vaso, mas não pode
ser medida por qualquer meio direto; em vez disso deve
ser calculada pelas medidas do fluxo e da diferença de
pressão entre dois pontos no vaso. Se a diferença de
pressão entre esses dois pontos for de 1 mmHg e o fluxo for
de 1 mL/s, a resistência é designada como uma unidade de
resistência periférica, usualmente abreviada como URP.
Expressão de Resistência em Unidades CGS. Ocasionalmente,
uma unidade física básica, chamada de CGS (centímetros, gramas,
segundos), é usada para expressar a resistência. Essa unidade é o
dinas/cm5. A resistência nessas unidades pode ser calculada pela
seguinte fórmula:
R
dina
^
cm5
J
1.333 X
mmHg
mL/s
Resistência Vascular Periférica Total e Resistência
Vascular Pulmonar Total. A intensidade do fluxo
sanguíneo em todo o sistema circulatório é igual à do
sangue bombeado pelo coração — isto é, ao débito
cardíaco. No humano adulto, seu valor é de
aproximadamente 100 mL/s. A diferença de pressão entre
as artérias e veias sis-
172
Capítulo 14
Figura 14-7 Princípio de três tipos de transdutores eletrônicos
para o registro de pressões sanguíneas rapidamente variáveis
(explicados no texto).
têmicas é de cerca de 100 mmHg. Portanto, a resistência de
toda a circulação sistêmica, chamada de resistência periférica
total, é de cerca de 100/100, ou 1 unidade de resistência
periférica (URP).
Nas condições em que todos os vasos sanguíneos do
corpo ficam fortemente contraídos, a resistência periférica
total ocasionalmente aumenta até 4 URP. Por sua vez,
quando os vasos ficam muito dilatados, a resistência pode
cair para valores muito baixos, como 0,2 URP.
No sistema pulmonar, a pressão arterial pulmonar
média é de 16 mmHg, e a pressão atrial esquerda média é
de 2 mmHg, o que resulta em diferença de pressão de 14
mm. Portanto, quando o débito cardíaco está normal, em
cerca de 100 mL/s, a resistência vascular pulmonar total
calculada é de cerca de 0,14 URP (em torno de um sétimo
da circulação sistêmica).
“Condutância" do Sangue no Vaso e sua Relação
com a Resistência. A condutância é a medida do fluxo
sanguíneo por um vaso sob dada diferença de pressão. Ela
é, em geral, expressa em mililitros por segundo por
milímetro de mercúrio de pressão, mas pode ser expressa
em litros por segundo por milímetro de mercúrio ou em
quaisquer outras unidades de fluxo sanguíneo e pressão.
É evidente que a condutância é a recíproca exata da
resistência, de acordo com a seguinte equação:
1
Condutância =-----------
Resistência
Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência
d = 1
P = 100
mmHg
d = 2
C
d = 4
1 mL/min
1 16 mL/min
VA
%
256 mL/min
Figura 14-8 A, Demonstração do efeito do diâmetro do vaso
sobre o fluxo sanguíneo. B, Anéis concêntricos de sangue
fluindo em diferentes velocidades; quanto mais longe da parede
vascular, mais rápido é o fluxo.
Variações muito Pequenas no Diâmetro do Vaso
Podem Alterar Acentuadamente sua Condutância!
Pequenas variações do diâmetro do vaso provocam
grandes alterações em sua capacidade de conduzir sangue
quando o fluxo sanguíneo é laminar. Isso é demonstrado
pelo experimento ilustrado na Figura 14-8A, que apresenta
três vasos com diâmetros relativos de 1, 2 e 4, mas com a
mesma diferença de pressão de 100 mmHg entre as duas
extremidades. Embora os diâmetros desses vasos só
aumentem por apenas quatro vezes, os fluxos
correspondentes são de 1,16 e 256 mL/min, ou seja,
aumentam por 256 vezes. Por conseguinte, a condutância
do vaso aumenta em proporção direta à quarta potência do
diâmetro, de acordo com a seguinte fórmula:
Condutância Diâmetro4
Lei de Poiseuille. Esse grande aumento da condutância com o
aumento do diâmetro, pode ser explicado pela observação da
Figura 14-85, que mostra secções transversas de vaso com grande
diâmetro e outro com pequeno. Os anéis concêntricos dentro dos
vasos indicam que a velocidade do fluxo em cada anel é diferente
da dos anéis adjacentes, em virtude do fluxo laminar, como
discutido anteriormente neste capítulo. Ou seja, o sangue no anel
que toca a parede do vaso praticamente não flui por causa da sua
aderência ao endotélio vascular. O anel seguinte de sangue, em
direção ao centro, desliza sobre o primeiro e, portanto, flui mais
rápido. O terceiro, quarto, quinto e sexto anéis da mesma forma
fluem em velocidades progressivamente maiores. Assim, o sangue
mais próximo à parede vascular flui em velocidade baixa,
enquanto o sangue no meio do vaso flui muito mais rapidamente.
No vaso de pequeno calibre, em essência, todo o sangue está
contíguo à parede; assim, a corrente central do fluxo sanguíneo
muito rápido simplesmente não existe. Integrando-se as
velocidades de todos os anéis concêntricos do fluxo sanguíneo e
multiplicando-as pelas áreas dos anéis, pode-se derivar a seguinte
fórmula, conhecida como a lei de Poiseuille:
_
7üÁPr4
8r|1
173
U
N
I
D
A
Unidade IV A Circulação
em que F é a velocidade/intensidade do fluxo sanguíneo; AP é a
diferença de pressão entre as extremidades do vaso; r, o raio do
vaso; 1, seu comprimento; e T| a viscosidade do sangue.
Note de forma particular nessa equação que a velocidade/
intensidade do fluxo sanguíneo é diretamente proporcional à
quarta potência do raio do vaso, o que mostra mais uma vez que o
diâmetro do vaso (que corresponde a duas vezes o raio) é muito
mais importante que todos os demais fatores na determinação de
sua velocidade/intensidade de fluxo sanguíneo.
Importância da "Lei da Quarta Potência" do
Diâmetro do Vaso na Determinação da Resistência
Arteriolar. Na circulação sistêmica, cerca de dois terços da
resistência sistêmica total ao fluxo sanguíneo consistem de
resistência arteriolar que ocorre nas delgadas arteríolas. Os
diâmetros internos das arteríolas são muito variáveis, de 4
a 25 micrômetros. Entretanto, suas fortes paredes
vasculares permitem que esse diâmetro se altere de forma
acentuada muitas vezes, por até quatro vezes. Pela lei da
quarta potência, discutida acima, que relaciona o fluxo
sanguíneo ao diâmetro do vaso, pode-se ver que o aumento
de quatro vezes no diâmetro do vaso pode aumentar o
fluxo por 256 vezes. Portanto, a lei da quarta potência
possibilita que as arteríolas, respondendo a sinais nervosos
ou a sinais químicos teciduais locais, com apenas pequenas
alterações de seu diâmetro, interrompam de modo quase
total o fluxo sanguíneo ou, no outro extremo, o aumentem
enormemente. De fato, foram registradas variações por
mais de 100 vezes do fluxo sanguíneo em diferentes áreas
teciduais, entre os limites de constrição ou dilatação
arteriolar máxima.
Resistência ao Fluxo Sanguíneo em Circuitos
Vasculares em Série ou em Paralelo. O sangue
bombeado pelo coração flui da região de alta pressão da
circulação sistêmica (i. e., a aorta) para a de baixa pressão
(/. e., veia cava), pelos muitos quilômetros de vasos
sanguíneos dispostos em série ou em paralelo. As artérias,
as arteríolas, os capilares, as vênulas e as veias estão
coletivamente dispostos em série. Quando os vasos são
dispostos em série, o fluxo por cada vaso é o mesmo, e a
resistência total ao fluxo sanguíneo (Rtotal) é igual à soma
das resistências de cada vaso:
Rtotal= Ri + R2 + R3 + R4 •••
A resistência vascular periférica total é, portanto, igual
à soma das resistências das artérias, arteríolas, capilares,
vênulas e veias. No exemplo mostrado na Figura 14-9A, a
resistência vascular total é igual à soma de R: e R2.
Os vasos sanguíneos se ramificam extensamente,
formando circuitos paralelos que irrigam muitos órgãos e
tecidos do corpo com sangue. Essa disposição em paralelo
permite que cada tecido regule seu próprio fluxo sanguíneo
em grande parte de modo independente do fluxo por
outros tecidos.
Nos vasos sanguíneos dispostos em paralelo (Fig.
14- 95), a resistência total ao fluxo é expressa como:
1 1 1 1 1
_ _j_ _|_ •••
Rtotal R1 R2 R3 R4
É óbvio que, para dado gradiente de pressão,
quantidade muito maior de sangue fluirá por esse sistema
paralelo do que por qualquer um dos vasos sanguíneos
individuais. Portanto, a resistência total é muito menor que
a de qualquer vaso sanguíneo isolado. O fluxo por vaso
paralelo, na Figura 14-95, é determinado pelo gradiente de
pressão e por sua própria resistência, e não pela resistência
dos outros vasos sanguíneos paralelos. Entretanto, o
aumento da resistência de qualquer um dos vasos aumenta
a resistência vascular total.
Pode parecer paradoxal que a adição de vasos
sanguíneos a um circuito reduza a resistência vascular
total. Muitos vasos sanguíneos paralelos, no entanto,
facilitam o fluxo de sangue pelo circuito porque cada um
representa nova via, ou condutância, para o fluxo sanguíneo.
A condutância total (Ctotal) para o fluxo sanguíneo é a soma
das condutâncias de cada via paralela:
Ctotal = Cl + C 2 + C 3 + C 4 - - -
Por exemplo, as circulações do cérebro, do rim, do
músculo, do trato gastrintestinal, da pele e das coronárias
estão dispostas em paralelo, e cada tecido contribui para a
condutância geral da circulação sistêmica. O fluxo
sanguíneo por cada tecido é fração do fluxo sanguíneo total
(débito cardíaco) e é determinado pela resistência
(recíproca da condutância) ao fluxo do tecido, bem como
pelo gradiente de pressão. Portanto, a amputação de
membro ou a remoção cirúrgica de um rim também
remove um circuito paralelo e reduz a condutância
vascular e o fluxo sanguíneo total (/. e., o débito cardíaco),
enquanto aumentam a resistência vascular periférica total.
Efeito do Hematócrito e da Viscosidade do Sangue
sobre a Resistência Vascular e o Fluxo Sanguíneo
Note-se de modo particular que outro dos fatores
importantes na equação de Poiseuille é a viscosidade do
sangue. Quanto maior a viscosidade, menor é o fluxo pelo
vaso, se todos os demais fatores permanecerem constantes.
Além disso, a viscosidade do sangue normal é cerca de três
vezes maior que a da água.
Mas, o que torna o sangue tão viscoso? Em essência, é o
grande número de eritrócitos em suspensão, cada um
Figura 14-9 Resistências vasculares: A, em série, e B, em paralelo.
174
Capítulo 14
exercendo forças friccionais contra células adjacentes e contra a
parede do vaso sanguíneo.
Hematócrito. A proporção do sangue, representada
pelos glóbulos vermelhos, é chamada hematócrito. Portanto,
se a pessoa tem hematócrito de 40, isso significa que 40%
de seu volume sanguíneo são formados por células e o
restante consiste em plasma. O hematócrito médio, em
homens adultos, é de cerca de 42 e, em mulheres, de
aproximadamente 38, em média. Esses valores são muito
variáveis, dependendo da presença de anemia, do grau de
atividade corporal e da altitude na qual a pessoa reside.
Essas alterações são discutidas em relação aos eritrócitos e
sua função de transporte de oxigênio, no Capítulo 32.
O hematócrito é determinado pela centrifugação do
sangue em tubo calibrado, como mostrado na Figura 14-10.
A calibração permite a leitura direta da porcentagem de
células.
Efeito do Hematócrito sobre a Viscosidade do
Sangue. A viscosidade do sangue aumenta de forma
acentuada à medida que o hematócrito se eleva, como
mostrado na Figura 14-11. A viscosidade do sangue total,
com hematócrito normal, é de aproximadamente 3; isso
significa que, para impulsionar o sangue pelo vaso, é
necessária pressão três vezes maior do que para
impulsionar água pelo mesmo vaso. Quando o
hematócrito sobe para 60 ou 70, o que frequentemente
ocorre na policitemia, a viscosidade sanguínea pode ser até
10 vezes maior que a da água, e seu fluxo pelos vasos fica
muito reduzido.
Outros fatores que afetam a viscosidade do sangue são
a concentração e os tipos de proteínas no plasma; contudo,
por provocarem efeitos tão menos potentes que o
hematócrito, não representam considerações significativas
na maioria dos estudos hemodinâmicos. A viscosi-
Normal Anemia Policitemia
Figura 14-10 Hematócrito em pessoa saudável (normal) e em
pacientes com anemia e policitemia.
Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência
dade do plasma sanguíneo é aproximadamente 1,5 vez
maior que a da água.
Efeitos da Pressão sobre a Resistência Vascular e
Fluxo Sanguíneo Tecidual
A "Autorregulação" Atenua o Efeito da Pressão
Arterial no Fluxo Sanguíneo no Tecido. Pela discussão
até agora, seria esperado que o aumento da pressão arterial
provocasse aumento proporcional do fluxo sanguíneo pelos
vários tecidos corporais. Entretanto, o efeito da pressão
arterial sobre o fluxo sanguíneo em muitos tecidos é, em
geral, bem menor que o que se poderia esperar, como
mostrado na Figura 14-12. Isso ocorre porque o aumento da
pressão arterial não aumenta só a força que impulsiona o
sangue pelos vasos, mas ao mesmo tempo inicia aumentos
compensatórios da resistência vascular
Figura 14-11 Efeito do hematócrito sobre a viscosidade
sanguínea. (Viscosidade da água = 1.)
Figura 14-12 Efeito das variações da pressão arterial, durante
período de vários minutos, no fluxo sanguíneo em tecido como
o músculo esquelético. Note que entre as pressões de 70 e 175
mmHg o fluxo sanguíneo é “autorregulado". A linha azul mostra
o efeito da estimulação dos nervos simpáticos ou
vasoconstrição por hormônios como norepinefrina, angiotensina
II, vasopressina ou endotelina nessa relação. O fluxo sanguíneo
tecidual reduzido é raramente mantido por mais algumas horas,
devido à ativação de mecanismos autorregulatórios locais que
eventualmente retornam o fluxo sanguíneo para a direção
normal.
175
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D
A
Unidade IV A Circulação
em poucos segundos pela ativação dos mecanismos de
controle locais discutidos no Capítulo 17. Inversamente,
com reduções na pressão arterial, a maior parte da
resistência vascular é reduzida de imediato, na maioria dos
tecidos, e o fluxo sanguíneo é mantido relativamente
constante. A capacidade de cada tecido de ajustar sua
resistência vascular e de manter o fluxo sanguíneo normal
durante alterações na pressão arterial entre cerca de 70 e
175 mmHg é denominada autorregulação.
Note na Figura 14-12 que as variações do fluxo
sanguíneo podem ser causadas por forte estimulação
simpática, que contrai os vasos sanguíneos. Da mesma
maneira, hormônios vasoconstritores, tais como
norepinefrina, angio- tensina II, vasopressina ou endotelina,
podem também reduzir o fluxo sanguíneo, pelo menos
transientemente.
Variações do fluxo sanguíneo tecidual raramente
duram mais de algumas poucas horas, mesmo quando
elevações da pressão arterial ou níveis aumentados de
vasoconstritores são mantidos. A razão da relativa
constância do fluxo sanguíneo é que os mecanismos
autorre- gulatórios locais de cada tecido eventualmente
superam a maior parte dos efeitos vasoconstritores, de
maneira a prover fluxo sanguíneo apropriado às demandas
do tecido.
Relação Pressão-Fluxo em Leitos Vasculares
Passivos. Em vasos sanguíneos isolados ou em tecidos que
não apresentam autorregulação, variações da pressão
arterial podem ter efeitos importantes sobre o fluxo
sanguíneo. Na verdade, o efeito da pressão no fluxo
sanguíneo pode ser maior do que a prevista pela equação
de Poiseuille, como mostrado pelas curvas ascendentes na
Figura 14-13. A razão para isso é que pressão arterial
aumentada não somente aumenta a força que empurra o
sangue pelos vasos, como também distende os vasos
elásticos, diminuindo na realidade a resistência vascular.
Reciprocamente, a diminuição da pressão arterial em vasos
sanguíneos passivos aumenta a resistência, à medida que
os vasos elásticos gradualmente colapsam devido à pressão
distensora reduzida. Quando a pressão cai abaixo do nível
crítico, denominado pressão crítica de
Pressão arterial (mmHg)
Figura 14-13 Efeito da pressão arterial sobre o fluxo sanguíneo
em vaso passivo, sob diferentes graus de tônus vascular causados
pelo aumento ou diminuição da estimulação simpática.
fechamento, o fluxo cessa à medida que os vasos sanguíneos
colapsam por completo.
Estimulação simpática e outros vasoconstritores podem
alterar a relação passiva entre pressão e fluxo, mostrada na
Figura 14-13. Assim, a inibição da atividade simpática
provoca grandes dilatações nos vasos, podendo aumentar o
fluxo sanguíneo por duas vezes ou mais. Por outro lado,
estímulo simpático muito forte pode contrair os vasos a tal
ponto que o fluxo sanguíneo ocasionalmente se reduz a zero
por alguns segundos, apesar da alta pressão arterial.
Na realidade, existem poucas condições fisiológicas nas
quais um tecido exiba a relação passiva entre pressão e
fluxo, mostrada na Figura 14-13. Mesmo em tecidos que não
autorregulam efetivamente o fluxo sanguíneo, durante
variações agudas na pressão arterial, o fluxo sanguíneo é
regulado de acordo com as necessidades do tecido quando
as alterações da pressão se mantêm, como discutido no
Capítulo 17.
Referências
Veja as referências do Capítulo 15.
176
CAPÍTULO 15
Distensibilidade Vascular e Funções
dos Sistemas Arterial e Venoso
Distensibilidade
Vascular
Característica importante do
sistema vascular é a de que
todos os vasos sanguíneos
são distensíveis. A natureza
elástica das artérias permite que acomodem o débito pul-
sátil do coração, impedindo os extremos de pressão das
pulsações. Isso faz com que o fluxo sanguíneo para os
pequenos vasos teciduais seja uniforme e contínuo.
As veias são por larga margem os vasos mais
distensíveis do sistema. Até mesmo pequenos aumentos da
pressão venosa fazem com que as veias armazenem 0,5 a
1,0 litro de sangue a mais. Por isso, as veias têm a função de
reservatório para o armazenamento de grande quantidade
de sangue que pode ser utilizado, quando for necessário,
em qualquer outra parte da circulação.
Unidades de Distensibilidade Vascular. A
distensibilidade vascular é normalmente expressa como a
fração de aumento do volume para cada milímetro de
mercúrio de aumento da pressão de acordo com a seguinte
fórmula:
Distensibilidade _ ________Aumento do volume ______
vascular Aumento da pressão X Volume
original
Em outras palavras, se 1 mmHg fizer com que o vaso que
antes continha 10 mililitros de sangue aumente seu volume
por 1 mililitro, a distensibilidade é de 0,1 por mmHg, ou
10% por mmHg.
Diferenças das Distensibilidades das Artérias e
Veias. Anatomicamente, as paredes das artérias são muito
mais fortes que as das veias. Consequentemente, as veias,
em média, são cerca de oito vezes mais distensíveis que as
artérias, isto é, determinado aumento de pressão provoca
aumento oito vezes maior no volume sanguíneo em uma
veia que em artéria de diâmetro comparável.
Na circulação pulmonar, as distensibilidades das veias
pulmonares são semelhantes às da circulação sistêmica.
Entretanto, as artérias pulmonares normalmente operam
sob pressões que correspondem a um sexto das do sis
tema arterial sistêmico, com distensibilidades
correspondentes, ou seja, cerca de seis vezes maiores que as
das artérias sistêmicas.
Complacência Vascular (ou Capacitância Vascular)
Em estudos hemodinâmicos é usualmente muito mais
importante conhecer a quantidade total de sangue que pode
ser armazenada em determinada região da circulação para
cada mmHg de aumento da pressão do que conhecer as
distensibilidades dos vasos individuais. Esse valor é
referido como complacência ou capacitância do respectivo
leito vascular; ou seja,
, „ . , Aumento do volume
Complacência vascular = ---------------------
Aumento da pressão
Complacência e distensibilidade são bastante diferentes.
Vaso muito distensível que apresente pequeno volume
pode ser muito menos complacente que o vaso muito
menos distensível que apresente grande volume porque a
complacência é igual à distensibilidade multiplicada pelo volume.
A complacência de veia sistêmica é cerca de 24 vezes
maior que a de sua artéria correspondente, porque é cerca
de oito vezes mais distensível e apresenta volume cerca de
três vezes maior ( 8 x 3 = 24).
Curvas de Volume-Pressão das Circulações Arterial
e Venosa
Método conveniente de expressar a relação entre pressão e
volume em um vaso ou em qualquer parte da circulação é
pelo uso da chamada curva de volume-pressão. Na Figura
15- 1, as curvas contínuas vermelha e azul representam,
respectivamente, as curvas de volume-pressão dos sistemas
arterial e venoso sistêmicos normais, demonstrando que
quando o sistema arterial do adulto médio (incluindo todas
as grandes artérias, pequenas artérias e arteríolas) está
cheio, com 700 mililitros de sangue, a pressão arterial
média é de 100 mmHg, mas quando está com apenas 400
mililitros de sangue a pressão cai a zero.
Em todo o sistema venoso sistêmico, o volume em geral
varia de 2.000 a 3.500 mililitros, e é necessária variação de
muitas centenas de mililitros para que a pressão
177
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Unidade IV A Circulação
Volume (ml_)
Figura 15-1 "Curvas de volume-pressão" das circulações
arterial e venosa sistêmicas, mostrando o efeito da estimulação
ou da inibição dos nervos simpáticos sobre o sistema
circulatório.
venosa se altere por apenas 3 a 5 mmHg. Isso explica
fundamentalmente em grande parte por que se pode trans-
fundir até meio litro de sangue, em poucos minutos, para
pessoa saudável sem que ocorra qualquer grande alteração
na função circulatória.
Efeito da Estimulação ou da Inibição Simpática
sobre as Relações de Volume-Pressão dos Sistemas
Arterial e Venoso. Na Figura 15-1, são também
demonstrados os efeitos da excitação ou da inibição dos
nervos simpáticos sobre as curvas de volume-pressão. É
evidente que o aumento do tônus da musculatura lisa
vascular, causado pela estimulação simpática, aumenta a
pressão das artérias ou das veias em cada volume,
enquanto a inibição simpática diminui a pressão sob cada
volume. O controle vascular dos vasos, pelo sistema
nervoso simpático, é meio eficiente de diminuir as
dimensões de um segmento da circulação, dessa forma
transferindo, consequentemente, sangue para outros
segmentos. Por exemplo, o aumento do tônus vascular ao
longo da circulação sistêmica frequentemente faz com que
grande volume de sangue seja desviado para o coração, o
que constitui um dos principais métodos que o organismo
utiliza para aumentar o bombeamento cardíaco.
O controle simpático da capacitância vascular é
também muito importante durante as hemorragias. O
aumento do tônus simpático, especialmente nas veias,
reduz os calibres dos vasos de tal forma que a função
circulatória permanece quase normal, mesmo com a perda
de até 25% do volume sanguíneo total.
Complacência Tardia (Estresse-Relaxamento)
dos Vasos
O termo “complacência tardia” ou retardada significa que
o vaso submetido a aumento de volume apresenta logo de
início grande aumento da pressão, mas o estiramento
tardio progressivo do músculo liso na parede vascular
permite que a pressão retorne ao normal dentro de minutos
Figura 15-2 Efeito sobre a pressão intravascular da injeção de
volume de sangue em segmento venoso e depois da remoção
do sangue em excesso, demonstrando o princípio da
complacência tardia.
ou horas. Esse efeito é mostrado na Figura 15-2. Nessa
figura, a pressão é registrada em pequeno segmento de
veia ocluída em ambas as extremidades. Um volume
adicional de sangue é subitamente injetado até que a
pressão suba de 5 para 12 mmHg. Mesmo que qualquer
fração do sangue seja removida após a injeção, a pressão
começa a cair de imediato e se aproxima de 9 mmHg, após
vários minutos. Em outras palavras, o volume de sangue
injetado provoca a distensão elástica imediata da veia, mas
então suas fibras musculares lisas começam pouco a pouco
a “engatinhar” (creep) para maior comprimento, e suas
tensões diminuem na mesma proporção de modo
correspondente. Esse efeito é característico de todos os
tecidos musculares lisos, referido como estresse-relaxamento,
explicado no Capítulo 8.
A complacência tardia é mecanismo importante pelo
qual a circulação pode acomodar sangue adicional quando
necessário, como após transfusão excessivamente
volumosa. A complacência tardia, no sentido oposto, é um
dos modos como a circulação se ajusta de forma automática
após período de minutos a horas de diminuição do volume
sanguíneo, como o que ocorre depois de hemorragias
graves.
Pulsações da Pressão Arterial
Cada batimento cardíaco faz com que nova onda de sangue
chegue às artérias. Se não fosse pela distensibilidade do
sistema arterial, todo esse novo volume de sangue teria de
fluir pelos vasos sanguíneos periféricos, quase
instantaneamente, apenas durante a sístole cardíaca, e não
ocorrería fluxo durante a diástole. Entretanto,
normalmente a complacência da árvore arterial reduz os
pulsos de pressão, de modo que quase não ocorrem pulsos
quando o sangue atinge os capilares; assim, o fluxo
sanguíneo tecidual é essencialmente contínuo, com
pulsações muito pequenas.
Registro típico dos pulsos de pressão na raiz da aorta é
mostrado na Figura 15-3. No adulto jovem saudável, a
178
Capítulo 15
Declínio diastólico
Elevação exponencial
lenta até Incisura (pode ser distorcido
Segundos
Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso
o
1(
0
(
A
in
0)
160'
120'
80-I
JK
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O)
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W
120-
22 80'
40-
0-
:AA
Normal
Persistência do
canal arterial
Insuficiência
aórtica
Figura 15-4 Curvas de pressão de pulso aórtica na
arteriosclerose, na estenose aórtica, na persistência do canal
arterial e na insuficiência aórtica.
Figura 15-3 Curva do pulso de pressão na aorta ascendente.
pressão no pico de cada pulso chamada de pressão sis- tólica,
é de cerca de 120 mmHg; no ponto mais baixo de cada
pulso, chamado pressão diastólica, cai para cerca de 80
mmHg. A diferença entre essas duas pressões de
aproximadamente 40 mmHg é chamada pressão de pulso.
Dois fatores principais afetam a pressão de pulso: (1) o
débito sistólico cardíaco e (2) a complacência (distensibilidade
total) da árvore arterial. Um terceiro fator, menos
importante, é o caráter da ejeção do coração durante a
sístole.
Em geral, quanto maior o débito sistólico, maior será a
quantidade de sangue que deve ser acomodada na árvore
arterial a cada batimento, e portanto maiores serão o
aumento e a queda de pressão durante a sístole e a diás-
tole, resultando em maior pressão de pulso. Por sua vez,
quanto menor for a complacência do sistema arterial, maior
será o aumento da pressão, provocado por um dado
volume de sangue bombeado em cada batimento para as
artérias. Por exemplo, como mostrado nas curvas centrais
da linha de cima da Figura 15-4, a pressão de pulso na
velhice aumenta até duas vezes o normal porque as artérias
ficaram endurecidas pela arteriosclerose e assim são
relativamente não complacentes.
Efetivamente, a pressão de pulso é determinada, em
termos aproximados, pela razão entre o débito sistólico e a
complacência da árvore arterial. Qualquer condição da
circulação que afete um desses dois fatores também afetará
a pressão de pulso.
Pressão de Pulso = débito sistólico/complacência
arterial
Traçados Anormais de Pressão de Pulso
Algumas condições da circulação além de alterarem a
pressão de pulso provocam traçados anormais de suas ondas.
A estenose aórtica, a persistência do canal arterial e a
insuficiência aórtica são algumas das condições
especialmente notáveis, e são mostradas na Figura 15-4.
Na estenose valvar aórtica, o diâmetro da abertura da
valva aórtica é significativamente reduzido, e a pressão de
pulso aórtica fica bastante diminuída em virtude da
redução do fluxo sanguíneo que é ejetado pela valva
estenótica.
Na persistência do canal arterial, a metade ou mais do
sangue bombeado para a aorta pelo ventrículo esquerdo
flui imediatamente de volta, pelo canal (ou dueto) arterial
que permanece aberto, para a artéria pulmonar e vasos
sanguíneos pulmonares, fazendo com que a pressão
diastólica caia para valores muito baixos antes do
batimento cardíaco seguinte.
Na insuficiência aórtica, a valva aórtica está ausente ou
não se fecha de modo completo. Assim, após cada
batimento, o sangue bombeado para a aorta flui
imediatamente de volta para o ventrículo esquerdo. Isso
resulta em queda da pressão aórtica entre os batimentos
cardíacos até atingir o valor zero. Além disso, não aparece a
incisura no traçado do pulso aórtico porque não ocorre o
fechamento da valva aórtica.
Transmissão dos Pulsos de Pressão para as Artérias
Periféricas
Quando o coração ejeta sangue para a aorta durante a
sístole, apenas a porção proximal da aorta é inicialmente
distendida porque a inércia do sangue impede seu
movimento súbito por todo o trajeto até a periferia.
Entretanto, o aumento da pressão na aorta proximal supera
com muita rapidez essa inércia, e a onda de distensão é
transmitida distalmente ao longo da aorta, como
demonstrado na Figura 15-5. Isso é chamado transmissão do
pulso de pressão para as artérias.
A velocidade da transmissão do pulso de pressão na
aorta normal é de 3 a 5 m/s; nos grandes ramos arteriais, de
7 a 10 m/s; e nas pequenas artérias, de 15 a 35 m/s. Em
geral, quanto maior a complacência de cada segmento
vascular, menor será a velocidade, o que explica a lenta
transmissão na aorta e a transmissão muito mais rápida nas
artérias distais que são muito menos complacentes.
179
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A
Unidade IV A Circulação
Na aorta, a velocidade de transmissão do pulso de pressão
é 15 ou mais vezes maior que a velocidade do fluxo
sanguíneo porque o pulso de pressão é simplesmente uma
onda de pressão em movimento, que envolve pouco
movimento total de sangue no sentido distai.
Amortecimento dos Pulsos de Pressão nas
Pequenas Artérias, nas Arteríolas e nos Capilares. A
Figura
15- 6 mostra alterações típicas dos traçados dos pulsos
de pressão, à medida que se deslocam para os vasos
periféricos. Note-se de modo especial que nas três curvas
inferiores a intensidade do pulso fica menor nas pequenas
artérias, nas arteríolas e especialmente nos capilares. De
fato, somente quando os pulsos aórticos são muito grandes
ou quando as arteríolas estão muito dilatadas é possível
observar pulsos nos capilares.
Essa diminuição progressiva dos pulsos na periferia é
chamada de amortecimento dos pulsos de pressão. Existem
duas causas para este efeito: (1) a resistência ao movimento
do sangue pelos vasos e (2) a complacência dos vasos. A
resistência amortece os pulsos porque pequena quantidade
de sangue deve se mover para adiante, na onda de pulso,
para distender o segmento seguinte do vaso; quanto maior
a resistência, maior será a dificuldade para que isso ocorra.
A complacência amortece os pulsos porque quanto mais
complacente for o vaso, maior será a quantidade de sangue
necessária na onda de pulso para provocar aumento na
pressão. Assim, o grau de amortecimento é quase diretamente
proporcional ao produto da resistência pela complacência.
Métodos Clínicos para as Medidas das Pressões
Sistólica e Diastólica
Não é razoável usar aparelhos que utilizem a inserção de
agulhas nas artérias para a medida rotineira da pressão
arterial em pacientes humanos, embora esses métodos
sejam ocasionalmente usados quando são necessários
estudos especiais. Em vez disso, o clínico determina as
pressões sistólica e diastólica por métodos indiretos,
geralmente pelo método auscultatório.
Método Auscultatório. A Figura 15-7 demonstra o
método auscultatório para determinar as pressões arteriais
sistólica e diastólica. Um estetoscópio é posicionado sobre a
artéria braquial, e um manguito é inflado sobre a parte
superior do braço. Enquanto o manguito comprimir o
braço com pressão demasiado baixa, sendo incapaz de
fechar a artéria, não serão ouvidos sons pelo estetoscópio
sobre ela. Entretanto, quando a pressão do manguito for
suficiente para fechar a artéria durante parte do ciclo da
pressão arterial, poderá ser ouvido som a cada pulsação.
Estes sons são conhecidos como sons de Korotkoff, em
homenagem a Nikolai Korotkoff, físico russo que os
descreveu em 1905.
Acredita-se que os sons de Korotkoff sejam provocados
principalmente pela ejeção de sangue pelo vaso
parcialmente ocluído e por vibrações da parede do vaso. O
jato de sangue provoca turbulência no vaso após o man-
Figura 15-5 Estágios progressivos na transmissão do pulso de
pressão ao longo da aorta.
Tempo (segundos)
Figura 15-6 Alterações nas curvas dos pulsos de pressão, à
medida que a onda passa em direção aos vasos menores.
guito, o que desencadeia vibrações ouvidas por meio do
estetoscópio.
Ao determinar a pressão arterial pelo método
auscultatório, a pressão no manguito é inicialmente
elevada acima da pressão arterial sistólica. Enquanto a
pressão do manguito for maior que a pressão sistólica, a
artéria braquial permanecerá colapsada, de modo que não
ocorrerá ejeção de sangue para a parte inferior da artéria,
em nenhuma
180
Capítulo 15 Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso
Figura 15-8 Alterações das pressões sistólica, diastólica e
média com a idade. As áreas sombreadas mostram as faixas
normais aproximadas.
Figura 15-7 Método auscultatório para a medida das pressões
arteriais sistólica e diastólica.
passando a ser menos secos e adquirindo característica
mais rítmica e áspera. Então, por fim, quando a pressão no
manguito cai próxima à pressão diastólica e os sons
repentinamente mudam para uma qualidade abafada
(ponto C, Fig. 15-7). A pressão manométrica quando os
sons de Korotkoff são alterados para a qualidade abafada e
essa pressão é aproximadamente igual à pressão diastólica,
embora superestime a pressão diastólica determinada por
cateter intra-arterial direto. À medida que a pressão de
manguito cai alguns mmHg, a artéria não é mais fechada
durante a diástole, o que significa que o fator essencial
causador dos sons (o jato de sangue pela artéria
comprimida) não está mais presente. Portanto, os sons
desaparecem completamente. Muitos médicos acreditam
que a pressão na qual os sons de Korotkoff desaparecem
completamente deve ser usada como a pressão diastólica,
exceto em situações em que o desaparecimento dos sons
não pode ser determinado com segurança, pois os sons
ainda são audíveis mesmo depois do esvaziamento
completo do manguito. Por exemplo, em pacientes com fís-
tulas intravenosas para hemodiálise ou com insuficiência
da aorta, os sons de Korotkoff podem ser ouvidos após
esvaziamento completo do manguito.
O método auscultatório para a determinação das
pressões sistólica e diastólica não é inteiramente preciso,
mas em geral fornece valores com erros menores que 10%
em relação à medida direta, com cateteres inseridos em
artérias.
parte do ciclo de pressão. Portanto, não serão ouvidos sons
de Korotkoff na artéria distai inferior. Em seguida,
contudo, a pressão do manguito é gradualmente reduzida.
Imediatamente antes que a pressão no manguito caia
abaixo da pressão sistólica (ponto B, Fig. 15-7), o sangue
começa a fluir pela artéria, abaixo do manguito, durante o
pico de pressão sistólica, e é possível ouvir sons secos como
se fossem pancadas na artéria braquial em sincronia com os
batimentos cardíacos. Assim que esses sons começam a ser
ouvidos, o nível de pressão indicado pelo manômetro
conectado ao manguito equivale à pressão sistólica.
À medida que a pressão no manguito é ainda mais
reduzida, a qualidade dos sons de Korotkoff se altera,
Pressões Arteriais Normais Medidas pelo Método
Auscultatório. A Figura 15-8 demonstra as pressões
arteriais sistólicas e diastólicas, aproximadamente normais,
em diferentes idades. O aumento progressivo da pressão
com a idade resulta dos efeitos do envelhecimento sobre os
mecanismos de controle da pressão sanguínea. Veremos,
no Capítulo 19, que os rins são os principais responsáveis
por essa regulação a longo prazo da pressão arterial, e se
sabe que os rins apresentam alterações definitivas com a
idade, especialmente após os 50 anos.
Ligeiro aumento adicional da pressão sistólica
geralmente ocorre após os 60 anos de idade. Isso resulta da
distensibilidade reduzida ou “endurecimento” das arté
181
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Unidade IV A Circulação
rias, que é com frequência resultado da arteriosclerose. O
efeito final é pico sistólico de pressão com aumento
considerável da pressão de pulso, conforme já explicado.
Pressão Arterial Média. A pressão arterial média é a
média das pressões arteriais medidas a cada milissegundo
durante certo intervalo de tempo. Ela não é igual à média
entre as pressões sistólica e diastólica porque, nas
frequências normais, maior fração do ciclo cardíaco é usada
na diástole do que é na sístole; assim, a pressão arterial
permanece mais próxima à diastólica que à sistólica durante
a maior parte do ciclo cardíaco. Portanto, a pressão
diastólica determina cerca de 60% da pressão arterial
média, e a pressão sistólica, 40%. Note, na Figura 15-8, que a
pressão arterial média (a linha verde contínua) em todas as
idades está mais próxima da pressão diastólica que da
sistólica. Porém, nas frequências cardíacas muito altas, a
diástole abrange fração menor do ciclo cardíaco, e a pressão
arterial média se aproxima mais da média das pressões
sistólica e diastólica.
Veias e suas Funções
Durante anos, as veias foram consideradas nada mais que
vias de passagem para o fluxo de sangue para o coração,
mas agora é evidente que realizam outras funções especiais,
que são necessárias para a função circulatória.
Especialmente importante é sua capacidade de se contrair e
relaxar e, portanto, de armazenar pequenas ou grandes
quantidades de sangue e de torná-lo disponível quando
necessário ao restante da circulação. As veias periféricas
também podem impulsionar o sangue para adiante pela
chamada bomba venosa, e são até mesmo capazes de regular
o débito cardíaco, função extremamente importante que é
descrita em detalhes no Capítulo 20.
Pressões Venosas — Pressão Atrial Direita (Pressão
Venosa Central) e Pressões Venosas Periféricas
Para entender as diversas funções das veias é necessário
inicialmente conhecer alguns aspectos sobre a pressão em
seu interior e seus determinantes.
O sangue de todas as veias sistêmicas flui para o átrio
direito do coração; por isso, a pressão no átrio direito é
referida como pressão venosa central.
A pressão atrial direita é regulada pelo balanço entre
(1) a capacidade do coração de bombear o sangue para fora do
átrio e ventrículo direitos para os pulmões e (2) a tendência do
sangue de fluir das veias periféricas para o átrio direito. Se o
coração direito estiver bombeando fortemente, a pressão
atrial direita diminui. Ao contrário, a fraqueza do coração
eleva a pressão atrial direita. Além disso, qualquer efeito
que cause o rápido influxo de sangue para o átrio direito,
vindo das veias periféricas, eleva a pressão atrial direita.
Alguns dos fatores que podem aumentar esse retorno
venoso (e, portanto, aumentar a pressão atrial direita) são
(1) aumento do volume san
guíneo, (2) aumento do tônus de grandes vasos em todo o
corpo, resultando em aumento das pressões venosas
periféricas, e (3) dilatação das arteríolas, que diminui a
resistência periférica e permite o rápido fluxo de sangue
das artérias para as veias.
Os mesmos fatores que regulam a pressão atrial direita
também contribuem para a regulação do débito cardíaco
porque a quantidade de sangue bombeada pelo coração
depende tanto da sua capacidade de bombeamento quanto
da tendência do sangue para fluir para o coração, vindo dos
vasos periféricos. Assim, discutiremos a regulação da
pressão atrial direita muito mais detalhadamente no
Capítulo 20, relacionando-a à regulação do débito cardíaco.
A pressão atrial direita normal é de cerca de 0 mmHg,
semelhante à pressão atmosférica ao redor do corpo. Ela
pode aumentar para 20 a 30 mmHg em condições muito
anormais, como (1) insuficiência cardíaca grave ou
(2) após transfusão de grande volume de sangue, o que
aumenta muito o volume sanguíneo total e faz com que
grande quantidade de sangue tenda a fluir dos vasos
periféricos para o coração.
O limite inferior para a pressão atrial direita, em geral, é
de cerca de -3 a -5 mmHg, abaixo da pressão atmosférica.
Essa é também a pressão na cavidade torácica que circunda
o coração. A pressão atrial direita se aproxima desses
valores inferiores, quando o bombeamento cardíaco é
excepcionalmente vigoroso ou quando o fluxo de sangue
para o coração vindo dos vasos periféricos fica muito
reduzido, como ocorre após hemorragia grave.
Resistência Venosa e Pressão Venosa Periférica
As grandes veias apresentam resistência tão pequena ao
fluxo sanguíneo quando estão distendidas que seu valor se
aproxima de zero praticamente não tendo importância.
Entretanto, como demonstrado na Figura 15-9, a maioria
das grandes veias que entra no tórax é comprimida em
muitos pontos pelos tecidos adjacentes, de modo que o
fluxo sanguíneo fica comprometido nesses pontos. Por
exemplo, as veias dos braços são comprimidas por suas
grandes angulações sobre a primeira costela. Além disso, a
pressão nas veias do pescoço frequentemente se reduz a
níveis tão baixos que a pressão atmosférica, no exterior do
pescoço, faz com que essas veias sejam colapsadas. Por fim,
as veias que passam pelo abdômen são muitas vezes
comprimidas por diferentes órgãos e pela pressão
intra-abdominal; assim, em geral ficam pelo menos
parcialmente colapsadas, adquirindo formatos ovoides ou
em fenda. Por esses motivos, as grandes veias de fato em geral
oferecem alguma resistência ao fluxo sanguíneo e, por isso, a
pressão nas pequenas veias mais periféricas, na pessoa
deitada, é geralmente +4 a +6 mmHg maior que a pressão
atrial direita.
Efeito da Elevada Pressão Atrial Direita sobre a
Pressão Venosa Periférica. Quando a pressão atrial direita
sobe acima de seu valor normal de 0 mmHg, o sangue
começa a se acumular nas grandes veias. Isso distende
182
Capítulo 15 Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso
as veias, e até mesmo seus pontos de colapso se abrem
quando a pressão atrial direita aumenta acima de +4 a +6
mmHg. À medida que a pressão atrial direita se eleva ainda
mais, é produzido aumento correspondente da pressão
venosa periférica nos membros e demais partes do corpo.
Como o coração deve estar enfraquecido para causar
aumento tão grande na pressão atrial direita, chegando a +4
a +6 mmHg, a elevação da pressão venosa periférica não é
perceptível nos estágios iniciais da insuficiência cardíaca.
Efeito da Pressão Intra-abdominal sobre as Pressões
Venosas dos Membros Inferiores. A pressão média na
cavidade abdominal de pessoa deitada é, nas condições
normais, de +6 mmHg, mas pode se elevar para +15 a +30
mmHg, como resultado de gravidez, grandes tumores,
obesidade abdominal ou excesso de líquido (chamado
“ascite”) na cavidade abdominal. Quando a pressão intra-
abdominal se eleva, a pressão nas veias das pernas tem de se
elevar acima da pressão abdominal para que as veias
abdominais se abram e permitam que o sangue flua das
pernas para o coração. Portanto, se a pressão
intra-abdominal for de +20 mmHg, a mais baixa pressão
possível nas veias femorais será também de +20 mmHg.
Efeito da Pressão Gravitacional sobre a Pressão Venosa
Em qualquer quantidade de água exposta ao ar, a pressão na
superfície é igual à pressão atmosférica, mas se eleva por 1
mmHg a cada 13,6 milímetros abaixo da superfície. Essa
pressão resulta do peso da água e por isso é chamada de
pressão gravitacional ou pressão hidrostática.
A pressão gravitacional também ocorre no sistema
vascular do ser humano, em virtude do peso do sangue nos
vasos, como mostrado na Figura 15-10. Quando a pessoa
está em pé, a pressão no átrio direito permanece em cerca de
0 mmHg porque o coração bombeia para as
Colapso
por
pressão
atmosférica
no pescoço
Colapso
na costela
Colapso axilar
Pressão
intratorácic
a = -4
mmHg
Colapso por
pressão
abdominal
artérias qualquer excesso de sangue que tenda a se
acumular. Entretanto, no adulto que esteja em pé e
absolutamente estático, a pressão nas veias dos pés é de cerca
de +90 mmHg simplesmente pelo peso gravitacional do
sangue nas veias entre o coração e os pés. As pressões
venosas em outros níveis do corpo têm valores
proporcionais, entre 0 e 90 mmHg.
Nas veias dos braços, a pressão no nível da primeira
costela é, em geral, de cerca de +6 mmHg por causa da
compressão da veia subclávia ao passar sobre essa costela. A
pressão gravitacional ao longo do braço é determinada pela
distância abaixo do nível dessa costela. Assim, se a diferença
gravitacional entre o nível da costela e da mão é de +29
mmHg, essa pressão gravitacional é adicionada à pressão de
+6 mmHg causada pela compressão da veia ao passar pela
costela, perfazendo pressão total de +35 mmHg nas veias da
mão.
As veias do pescoço de pessoa em pé ficam quase
completamente colapsadas em todo o trajeto até o crânio,
em virtude da pressão atmosférica no exterior do pescoço.
Esse colapso faz com que a pressão nessas veias permaneça
em zero em toda sua extensão. Isso ocorre porque qualquer
tendência da pressão subir acima desse nível abre as veias e
permite que a pressão caia novamente a zero, devido ao
fluxo de sangue. Ao contrário,
Figura 15-9 Pontos de compressão que tendem a colapsar as
veias que entrem no tórax.
Figura 15-10 Efeito da pressão gravitacional sobre as pressões
venosas em todo o corpo na pessoa em pé.
183
Unidade IV A Circulação
qualquer tendência de a pressão venosa no pescoço cair
abaixo de zero colapsa ainda mais as veias, provocando
maior aumento na resistência, o que de novo faz com que a
pressão retorne a zero.
As veias no interior do crânio, por outro lado, estão em
câmara não colapsável (a cavidade craniana) e, portanto,
não podem entrar em colapso. Consequentemente, podem
ocorrer pressões negativas nos seios durais da cabeça-, na posição
ortostática, a pressão venosa no seio sagital na parte
superior do cérebro é de cerca de -10 mmHg, por causa da
“sucção” hidrostática entre a parte superior e a base do
crânio. Portanto, se o seio sagital for aberto durante uma
cirurgia, pode ocorrer sucção de ar para o sistema venoso; o
ar pode até mesmo ser levado para baixo, causando
embolia no coração, o que pode ser fatal.
Efeito do Fator Gravitacional sobre as Pressões
Arteriais e Demais Pressões. O fator gravitacional
também afeta as pressões nas artérias periféricas e
capilares, além de apresentar efeitos sobre as veias. Por
exemplo, a pessoa em pé que apresenta pressão arterial
média de 100 mmHg, na região do coração, tem pressão
arterial nos pés de cerca de 190 mmHg. Portanto, quando
afirmamos que a pressão arterial é de 100 mmHg, isso em
geral significa que essa é a pressão em nível gravitacional
do coração, mas não necessariamente em outras partes dos
vasos arteriais.
Válvulas Venosas e a "Bomba Venosa": seus Efeitos
sobre a Pressão Venosa
Se as veias não tivessem válvulas, o efeito da pressão
gravitacional faria com que a pressão venosa nos pés fosse
sempre de +90 mmHg no adulto em posição ortostática.
Entretanto, cada vez que as pernas são movimentadas, a
contração dos músculos comprime as veias localizadas no
interior ou adjacentes aos músculos, o que ejeta o sangue
para adiante para fora das veias. Contudo, as válvulas das
veias, ilustradas na Figura 15-11, estão dispostas de modo
que o único sentido possível do fluxo sanguíneo venoso
seja em direção ao coração. Consequentemente, cada vez
que uma pessoa move as pernas ou até mesmo ten- siona
seus músculos, certa quantidade de sangue venoso é
propelida em direção ao coração. Esse sistema de bom-
beamento é referido como “bomba venosa” ou “bomba
muscular” e é tão eficiente que, sob circunstâncias
habituais, a pressão venosa nos pés do adulto enquanto
caminha permanece abaixo de +20 mmHg.
Se a pessoa fica em pé, mas completamente imóvel,
parada, a bomba venosa não funciona, e as pressões
venosas na parte inferior das pernas aumentam para o
valor gravitacional total de 90 mmHg em cerca de 30
segundos. As pressões nos capilares também aumentam
muito, fazendo com que o líquido saia do sistema
circulatório para os espaços teciduais. Como resultado, as
pernas ficam inchadas, e o volume sanguíneo diminui. De
fato, a pessoa pode perder entre 10% e 20% do volume
sanguíneo do sistema circulatório após perma-
Veia profunda
necer absolutamente imóvel, estática, em pé, por 15 a 30
minutos, o que frequentemente ocorre quando um soldado
recebe a ordem de permanecer em posição de sentido.
A Incompetência das Válvulas Venosas Provoca
Veias “Varicosas". As válvulas do sistema venoso muitas
vezes ficam “incompetentes”, chegando às vezes a ser
destruídas. Isso é de modo especial muito frequente
quando as veias são excessivamente distendidas por alta
pressão venosa que dure semanas ou meses, como ocorre
na gravidez ou quando a pessoa passa a maior parte do
tempo em pé. A distensão das veias aumenta suas áreas de
seção transversa, mas os folhetos das válvulas não
aumentam de tamanho. Portanto, os folhetos passam a ficar
incapazes de se fechar completamente. Quando isso ocorre,
a pressão nas veias das pernas aumenta muito em virtude
da falência da bomba venosa, o que aumenta ainda mais o
calibre das veias e, por fim, destrói de forma total a função
das válvulas. Assim, o indivíduo desenvolve “veias
varicosas”, caracterizadas por grandes protrusões bolho-
sas das veias sob a pele de toda a perna, principalmente nas
regiões mais inferiores.
Quando pessoas com veias varicosas permanecem de pé
por mais de alguns minutos, as pressões capilares e
venosas ficam muito altas, e a saída de líquido dos
capilares provoca edema nas pernas. Esse edema, por sua
vez, impede a difusão adequada de nutrientes dos capilares
para as células musculares e cutâneas; assim, os músculos
ficam doloridos e fracos, e a pele frequentemente se torna
gangrenosa e ulcerada. O melhor tratamento para essa
condição é a elevação contínua das pernas em nível no
mínimo tão alto quanto o do coração. Bandagens apertadas
sobre as pernas podem contribuir consideravelmente para
a prevenção do edema e suas sequelas.
184
Capítulo 15 Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso
Estimativa Clínica da Pressão Venosa. A pressão venosa
pode com frequência ser estimada simplesmente pela observação
do grau de distensão das veias periféricas — especialmente as
veias do pescoço. Por exemplo, na posição sentada as veias do
pescoço nunca estão distendidas na pessoa normal em repouso.
Entretanto, quando a pressão atrial direita aumenta para +10
mmHg, as veias na parte inferior do pescoço começam a se
distender; quando a pressão atrial atinge +15 mmHg, na prática
todas as veias do pescoço estão distendidas.
Medida Direta da Pressão Venosa e da Pressão Atrial Direita
A pressão venosa também pode ser medida com facilidade pela
inserção de agulha conectada a medidor de pressão diretamente
na veia. O único meio pelo qual a pressão atrial direita pode ser
medida com precisão é a introdução de um cateter pelas veias
periféricas até o átrio direito. As pressões medidas por esses
cateteres venosos centrais são usadas quase rotineiramente em
alguns tipos de pacientes cardíacos internados para permitir a
avaliação constante da capacidade de bombeamento do coração.
Nível de Referência para a Medida da Pressão Venosa e de
Outras Pressões Circulatórias
Nas discussões até aqui, frequentemente afirmamos que a pressão
atrial direita é de 0 mmHg, e a pressão arterial, de 100 mmHg, mas
não citamos o nível gravitacional no sistema circulatório a que essa
pressão se refere. Existe ponto no sistema circulatório no qual os
fatores pressóricos gravi- tacionais, causados por alterações da
posição do corpo de pessoa saudável, não afetam em geral a
medida da pressão por mais de 1 a 2 mmHg. Esse ponto é próximo
ao nível da valva tricúspide, como mostrado pelo cruzamento dos
eixos na Figura 15-12. Por isso, todas as medidas de pressões
circulatórias discutidas neste texto se referem a esse nível, que é
chamado de nível de referência para a medida da pressão.
Essa ausência de efeitos gravitacionais ocorre na valva
tricúspide porque o coração automaticamente impede alterações
gravitacionais significativas da pressão nesse ponto da seguinte
maneira:
Se a pressão na valva tricúspide se elevar mesmo pouco acima
da normal, o preenchimento do ventrículo direito
Ventrículo direito
Figura 15-12 Ponto de referência para a medida das pressões
circulatórias (localizado próximo à valva tricúspide).
será maior, fazendo com que o coração bombeie sangue com maior
rapidez e assim diminua a pressão na valva tricúspide até o valor
médio normal. Por sua vez, se a pressão cair, o ventrículo deixará
de ser adequadamente cheio, seu bombeamento diminuirá e o
sangue será represado no sistema venoso até que a pressão, o nível
da valva tricúspide, se normalize. Em outras palavras, o coração
age como um contrar- regulador por feedback da pressão na
valva tricúspide.
Quando a pessoa está em decúbito dorsal, a valva tricúspide se
localiza quase exatamente a 60% da espessura do tórax, acima das
costas. Esse é o nível de referência da pressão zero para a pessoa
deitada.
Função de Reservatório de Sangue das Veias
Como apontado no Capítulo 14, mais de 60% do sangue no
sistema circulatório fica em geral nas veias. Por esse motivo
e, também por causa da grande complacência venosa,
diz-se que o sistema venoso atua como um reservatório de
sangue para a circulação.
Quando o organismo perde sangue e a pressão arterial
começa a cair, são desencadeados sinais nervosos pelos
seios carotídeos e pelas outras áreas sensíveis à pressão do
sistema circulatório, como discutido no Capítulo 18. Esses
sinais, por sua vez, fazem com que o encéfalo e a medula
espinhal emitam sinais nervosos, principalmente por meio
dos nervos simpáticos para as veias, provocando sua
constrição. Isso compensa o baixo fluxo no sistema
circulatório provocado pela perda de sangue. De fato,
mesmo após a perda de até 20% do volume sanguíneo total,
o sistema circulatório muitas vezes funciona de maneira
praticamente normal devido a essa função de reservatório
variável das veias.
Reservatórios Sanguíneos Específicos. Determinadas
partes do sistema circulatório são tão extensas e/ou
complacentes que são chamadas de “reservatórios
sanguíneos específicos de sangue”. Elas incluem (1) o baço
que, em alguns casos, pode diminuir seu tamanho a ponto
de liberar até 100 mililitros de sangue para outras áreas da
circulação; (2) o fígado, cujos seios podem liberar muitas
centenas de mililitros de sangue para o restante da
circulação; (3) as grandes veias abdominais, que podem
contribuir com até 300 mililitros; e (4) o plexo venoso sob a
pele, que também pode contribuir com muitas centenas de
mililitros. O coração e os pulmões, embora não sejam parte
do sistema de reservatórios venosos sistêmicos, também
devem ser considerados reservatórios de sangue. O
tamanho do coração, por exemplo, diminui durante o
estímulo simpático e dessa forma pode contribuir com 50 a
100 mililitros de sangue; os pulmões podem contribuir com
outros 100 a 200 mililitros quando as pressões pulmonares
diminuem até baixos valores.
Baço como um Reservatório para os Eritrócitos.
A Figura 15-13 mostra que o baço apresenta duas áreas
separadas para o armazenamento de sangue: os seios
venosos e a polpa. Os seios podem ficar inchados, bem
185
Unidade IV A Circulação
Polpa
Capilares
Seios venosos
Veia
Artéria
Figura 15-13 Estruturas funcionais do baço. (Cortesia do Dr. Don
W. Fawcett, Montana.)
como qualquer outra parte do sistema venoso, e armazenar
todos os componentes sanguíneos.
Na polpa esplênica, os capilares são tão permeáveis que
todo o sangue, incluindo os eritrócitos, atravessa as
paredes dos capilares passando para a trama trabecular e
formando a polpa vermelha. Os eritrócitos são aprisionados
pelas trabéculas, enquanto o plasma flui para os seios
venosos e daí, para a circulação geral. Consequentemente,
a polpa vermelha do baço é reservatório especial que contém
grande quantidade concentrada de eritrócitos. Esses eritrócitos
podem ser lançados na circulação geral quando o sistema
nervoso simpático é excitado, o que provoca a contração do
baço e de seus vasos. Até 50 mililitros de eritrócitos
concentrados podem ser liberados para a circulação,
aumentando em 1% a 2% o hematócrito.
Em outras áreas da polpa esplênica, existem ilhotas de
leucócitos, que são coletivamente chamadas de polpa branca.
Nesse local, são produzidas células linfoides semelhantes
às produzidas nos linfonodos. Essas células fazem parte do
sistema imune do organismo, descrito no Capítulo 34.
Função de Limpeza do Sangue do Baço — Remoção
de Células Velhas
As células sanguíneas ao passarem pela polpa esplênica são muito
comprimidas antes de penetrar nos seios. Por conseguinte, é de se
esperar que os frágeis eritrócitos não suportem o traumatismo. Por
esse motivo, grande parte da destruição dos eritrócitos no
organismo ocorre no baço. Após a rup
tura dessas células, a hemoglobina e o estroma celular liberados
são digeridos pelas células reticuloendoteliais do baço, e os
produtos da digestão são na maior parte reutilizados pelo corpo
como nutrientes muitas vezes para a formação de novas células.
Células Reticuloendoteliais do Baço
A polpa do baço contém muitas células fagocíticas
reticuloendoteliais de grande tamanho, assim como os seios
venosos. Essas células funcionam como parte do sistema de
limpeza do sangue, agindo em conjunto com o sistema semelhante
nos seios venosos do fígado. Quando o sangue é invadido por
agentes infecciosos, as células reticuloendoteliais do baço
removem rapidamente os detritos celulares, as bactérias, os
parasitas e outros. Além disso, em muitos processos infecciosos
crônicos, o baço aumenta de volume, cresce da mesma maneira
que os linfonodos e realiza sua função de limpeza com ainda
maior avidez.
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186
CAPÍTULO 16
A Microcirculação e o Sistema Linfático: Trocas
Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa
Na microcirculação ocorre
a principal função do sis-
tema circulatório: o trans-
porte de nutrientes para
os tecidos e a remoção dos
produtos da excreção celu-
lar. As pequenas arteríolas
controlam o fluxo sanguíneo para cada tecido, e as con-
dições locais nos tecidos, por sua vez, controlam o diâ-
metro das arteríolas. Assim, cada tecido na maioria dos
casos controla seu próprio fluxo sanguíneo, de acordo
com suas próprias necessidades, conforme discutido no
Capítulo 17.
As paredes dos capilares são extremamente delgadas,
formadas por camada única de células endoteliais muito
permeáveis. Desse modo, pode ocorrer intercâmbio
rápido e fácil de água, nutrientes e excrementos celulares
entre os tecidos e o sangue circulante.
A circulação periférica em todo o corpo contém apro-
ximadamente 10 bilhões de capilares, com superfície
total estimada entre 500 e 700 metros quadrados (cerca
de um oitavo da área de um campo de futebol). De fato,
só muito raramente alguma célula funcional do orga-
nismo se encontra a mais de 20 a 30 micrômetros de um
capilar.
Estrutura da Microcirculação e do Sistema Capilar
A microcirculação de cada órgão está organizada, de forma
específica, para atender às suas necessidades. Em geral,
cada artéria nutriente que penetra em um órgão se ramifica
por seis e oito vezes antes que seus ramos fiquem
suficientemente pequenos para serem chamados arteríolas
que, em geral, têm diâmetros internos de apenas 10 a 15
micrômetros. As arteríolas então se ramificam de novo por
mais duas a cinco vezes, atingindo diâmetros de 5 a 9
micrômetros em suas porções terminais, de onde suprem o
sangue para os capilares.
As arteríolas são muito musculares, podendo alterar
por muitas vezes seu diâmetro. As metarteríolas (as
arteríolas terminais) não têm revestimento muscular contí
nuo; ao contrário, as fibras musculares lisas circundam os
vasos em pontos intermitentes, como mostrado na Figura
16- 1 pelos pontos pretos nos lados da metarteríola.
No ponto onde cada capilar verdadeiro se origina da
metarteríola, uma fibra muscular lisa circunda em geral o
capilar. Essa fibra muscular forma o esfíncter pré-capilar que
pode abrir e fechar a entrada do capilar.
As vênulas são maiores que as arteríolas e têm
revestimento muscular muito mais fraco. Contudo, a
pressão nas vênulas é muito menor que nas arteríolas,
assim as primeiras ainda podem se contrair de forma
considerável, apesar da fraca musculatura.
Essa estrutura típica do leito capilar não é encontrada
em todas as partes do corpo; embora disposição semelhante
possa servir para os mesmos propósitos. O mais importante
é o fato de que as metarteríolas e os esfínc- teres
pré-capilares estão em contato íntimo com os tecidos que
irrigam. Por conseguinte, as condições locais dos tecidos —
as concentrações de nutrientes, produtos finais do
metabolismo, íons hidrogênio e assim por diante — podem
causar efeitos diretos sobre os vasos, no controle do fluxo
sanguíneo local, em cada pequena região tecidual.
Estrutura da Parede Capilar. A Figura 16-2 mostra a
estrutura ultramicroscópica de células endoteliais típicas na
parede capilar encontradas na maioria dos órgãos do
corpo, especialmente nos músculos e no tecido con- juntivo.
Note que a parede é composta por camada unice-
Figura 16-1 Estrutura do leito capilar mesentérico. (Redesenhado
de Zweifach BW: Factors Regulating Blood Pressure. New York:
Josiah Macy, Jr., Foundation, 1950.)
187
U
N
I
D
A
Unidade IV A Circulação
Membrana
basal
Fenda
intercelular
Célula
endotelial
uai iai
vesicular??
Caveolina
jj Fosfolipídio
jj Esfingolipídio
Colesterol
Figura 16-2 Estrutura da parede capilar. Note especialmente a
fenda intercelular na junção entre células endoteliais adjacentes;
acredita-se que a maior parte das substâncias hidrossolúveis se
difunda através da membrana capilar por essas fendas.
Pequenas invaginações membranares, denominadas cavéolas,
são acreditadas terem papel no transporte de macromoléculas
através da membrana celular. As cavéolas contêm caveolinas,
proteínas que interagem com colesterol e polimerizam para
formar as cavéolas.
lular de células endoteliais e é circundada por membrana
basal fina no lado externo do capilar. A espessura total da
parede capilar é de apenas cerca de 0,5 micrômetro. O
diâmetro interno do capilar é de 4 a 9 micrômetros, justo o
necessário para que os eritrócitos e outras células
sanguíneas possam passar por ele.
"Poros" na Membrana Capilar. A Figura 16-2
mostra duas pequenas vias de passagem ligando o interior
do capilar ao exterior. Uma delas é a fenda intercelular, que é
o fino canal curvado na parte inferior da figura entre
células endoteliais adjacentes. Cada fenda é interrompida
periodicamente por curtas cadeias de proteínas aderidas
que mantêm as células endoteliais unidas, mas entre essas
cadeias o líquido pode se difundir livremente pela fenda. A
fenda nas condições normais apresenta largura uniforme
de cerca de 6 a 7 nanômetros (60 a 70 ângs- trons), o que é
pouco menor que o diâmetro da molécula da proteína
albumina.
Como as fendas intercelulares se localizam somente nas
margens das células endoteliais, elas representam nada
mais que 1/1.000 da superfície total da parede capilar.
Entretanto, a velocidade/intensidade da movimentação
térmica das moléculas de água, de outros íons
hidrossolúveis e dos pequenos solutos é tão rápida que
essas substâncias podem se difundir facilmente entre o
interior e o exterior dos capilares através das fendas
intercelulares.
Nas células endoteliais, existem muitas vesículas plas-
malêmicas diminutas, também chamadas de cavéolas
(pequenas cavidades). Estas são formadas a partir de oli-
gômeros de proteínas chamadas caveolinas que estão
associadas a moléculas de colesterol e esfingolipídeos. Apesar
de a função precisa das cavéolas ainda não ser clara,
acredita-se que elas desempenham papel na endo- citose (o
processo no qual a célula engolfa material de fora da célula)
e transcitose de macromoléculas através das células
endoteliais. As cavéolas, na superfície celular, parecem
captar pequenas porções de plasma ou de líquido extra-
celular, contendo proteínas plasmáticas. Essas vesículas
podem se mover lentamente através da célula endotelial.
Algumas dessas vesículas podem coalescer formando
canais vesiculares por toda a espessura da célula endotelial,
como mostrado na Figura 16-2.
Existem Tipos Especiais de "Poros” nos Capilares
de Certos Órgãos. Os “poros” nos capilares de alguns
órgãos apresentam características especiais que se adaptam
às necessidades peculiares desses órgãos. Algumas dessas
características são as seguintes:
1. No cérebro, as junções entre as células endoteliais
capilares são, em sua maior parte, junções “oclusivas”
(tight junctions) que só permitem a passagem de
moléculas extremamente pequenas, tais como água,
oxigênio e dióxido de carbono para dentro ou fora dos
tecidos cerebrais.
2. No fígado, ocorre o oposto. As fendas entre as células
endoteliais capilares são muito abertas, de modo que
quase todas as substâncias dissolvidas no plasma,
incluindo proteínas plasmáticas, podem passar do
sangue para os tecidos hepáticos.
3. Os poros, nas membranas capilares gastrintestinais,
apresentam tamanhos intermediários entre os poros
dos músculos e os do fígado.
4. Nos glomérulos capilares renais, muitas pequenas
aberturas ovais, chamadas fenestrações, atravessam pelo
meio as células endoteliais, de modo que enormes
quantidades de substâncias iônicas e moleculares muito
pequenas (e não as grandes moléculas das proteínas
plasmáticas) podem ser filtradas pelos glomérulos sem
ter de passar pelas fendas entre as células endoteliais.
Fluxo de Sangue nos Capilares — Vasomotilidade
O sangue, em geral, não flui de modo contínuo pelos
capilares. Ao contrário, o fluxo é intermitente, ocorrendo
ou sendo interrompido a cada poucos segundos ou
minutos. A causa dessa intermitência é o fenômeno
chamado de vasomotilidade, que consiste na contração
intermitente das metarteríolas e dos esfíncteres
pré-capilares (e, às vezes, até mesmo das pequenas
arteríolas).
188
Capítulo 16 A Microcirculação e o Sistema Linfátíco:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa
Regulação da Vasomotilidade. O fator mais
importante entre os já identificados para a determinação do
grau de abertura e fechamento das metarteríolas e dos
esfíncteres pré-capilares é a concentração de oxigênio nos
tecidos. Quando a intensidade do consumo de oxigênio
pelos tecidos é tão grande que sua concentração de
oxigênio cai abaixo da normal, os períodos intermitentes de
fluxo sanguíneo capilar ocorrem com maior frequência, e a
duração de cada período aumenta, permitindo desse modo
que o sangue capilar transporte maior quantidade de
oxigênio (bem como de outros nutrientes) para os tecidos.
Esse efeito, junto com muitos outros fatores que controlam
o fluxo sanguíneo tecidual local, é discutido no Capítulo 17.
Função Média do Sistema Capilar
Apesar de o fluxo sanguíneo por cada capilar ser
intermitente, existem tantos capilares nos tecidos que seu
funcionamento é a média do funcionamento de todos os
capilares individuais, ou seja, existe intensidade média de
fluxo sanguíneo em cada leito capilar tecidual, pressão capilar
média nos capilares e transferência média de substâncias entre
o sangue dos capilares e o líquido intersticial que os
circunda. No restante deste capítulo, estaremos
preocupados com essas médias, embora devamos nos
lembrar de que as funções médias são na realidade as
funções de literalmente bilhões de capilares individuais,
cada um atuando de forma intermitente em resposta às
condições locais dos tecidos.
Trocas de Água, Nutrientes e Outras Substâncias
entre o Sangue e o Líquido Intersticial
Difusão através da Membrana Capilar
O meio mais importante de transferência de substâncias
entre o plasma e o líquido intersticial é a difusão. A Figura
16- 3 ilustra esse processo, mostrando que, à medida
que o sangue flui ao longo do lúmen capilar, enorme
quantidade de moléculas de água e de partículas
dissolvidas se difunde para dentro e para fora, através da
parede capilar, provocando mistura contínua do líquido
intersticial e do plasma. A difusão resulta da movimentação
térmica das moléculas de água e das substâncias dissolvidas no
líquido-, as diferentes moléculas e os íons se movem
inicialmente em uma direção e, a seguir, em outra, se
deslocando aleatoriamente em todas as direções.
Substâncias Lipossolúveis Podem se Difundir
diretamente através das Membranas Celulares do En-
dotélio Capilar. Se a substância for lipossolúvel, ela pode
se difundir diretamente através das membranas celulares
do capilar sem ter de atravessar os poros. Essas substâncias
incluem o oxigênio e o dióxido de carbono. Como essas
substâncias podem permear todas as regiões da membrana
capilar, suas intensidades/velocidades de
Extremidade arterial Capilar sanguíneo Extremidade venosa
o
>
Figura 16-3 Difusão de moléculas de líquido e de substâncias
dissolvidas entre o capilar e os espaços do líquido intersticial.
transporte através da membrana capilar são muitas vezes
maiores que as de substâncias lipoinsolúveis, como íons
sódio e glicose, que só podem atravessar a membrana
passando pelos poros.
Substâncias Hidrossolúveis, não Lipossolúveis, se
Difundem através de "Poros" Intercelulares na
Membrana Capilar. Muitas substâncias, necessárias para
os tecidos, são solúveis em água, mas não podem cruzar as
membranas lipídicas das células endoteliais; essas
substâncias incluem as próprias moléculas de água, os íons
sódio, íons cloreto e glicose. Apesar de não mais que 1/1.000
da superfície dos capilares ser representada pelas fendas
intercelulares endoteliais, a velocidade da movimentação
térmica molecular pelas fendas é tão grande que mesmo
essa pequena área é suficiente para permitir a enorme
difusão de água e substâncias hidrossolúveis. Para que se
tenha ideia da velocidade com que essas substâncias se
difundem, a intensidade da difusão de moléculas de água, através
da membrana capilar, é cerca de 80 vezes maior que a do fluxo
linear do próprio plasma ao longo do capilar, ou seja, a água do
plasma é trocada com a água do líquido intersticial 80 vezes
antes que o plasma possa fluir por toda a extensão do
capilar.
Efeito do Tamanho Molecular sobre a Passagem
através dos Poros. A largura das fendas intercelulares
capilares, de 6 a 7 nanômetros, é cerca de 20 vezes maior
que o diâmetro da molécula de água, que é a menor
molécula entre as que normalmente cruzam os poros
capilares. Por sua vez, os diâmetros das moléculas das
proteínas plasmáticas são ligeiramente maiores que a
largura dos poros. Outras substâncias, como íons sódio,
íons cloreto, glicose e ureia, apresentam diâmetros
intermediários. Por conseguinte, a permeabilidade dos
poros capilares para as diferentes substâncias varia de
acordo com seus diâmetros moleculares.
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N
Unidade IV A Circulação
A Tabela 16-1 apresenta as permeabilidades relativas
dos poros capilares no músculo esquelético para
substâncias habitualmente encontradas, demonstrando,
por exemplo, que a permeabilidade das moléculas de
glicose é igual a 0,6 vez a das moléculas de água, enquanto
a permeabilidade de moléculas de albumina é
extremamente pequena, de apenas 1/1.000 em relação às
moléculas de água.
Neste ponto, é preciso um alerta. Os capilares, em
vários tecidos, apresentam grandes diferenças de suas
permeabilidades. Por exemplo, as membranas dos
capilares sinusoides hepáticos são tão permeáveis que até
mesmo as proteínas plasmáticas passam livremente por
suas paredes, quase que com tanta facilidade quanto a água
e outras substâncias. Além disso, a permeabilidade da
membrana glomerular renal, para a água e os eletró- litos, é
cerca de 500 vezes maior que a permeabilidade dos
capilares musculares, o que não ocorre em relação às
proteínas, cujas permeabilidades são muito pequenas,
assim como em outros órgãos e tecidos. Quando
estudarmos esses diferentes órgãos mais adiante neste
texto, deverá ficar claro o motivo por que alguns tecidos
precisam de graus muito maiores de permeabilidade
capilar que outros — no fígado, por exemplo — essa
permeabilidade é necessária para transferir enormes
quantidades de nutrientes entre o sangue e as células do
parênquima hepático, e, nos rins, para permitir a filtração
de grandes quantidades de líquido para a formação da
urina.
Efeito da Diferença de Concentração sobre a
Intensidade Efetiva da Difusão através da Membrana
Capilar. A intensidade “efetiva” de difusão de uma
substância, através de qualquer membrana, é proporcional
à sua diferença de concentração entre os dois lados da
membrana. Isto é, quanto maior a diferença entre as
concentrações de qualquer substância entre os dois lados
da membrana capilar, maior será o movimento total da
subs
Tabela 16-1 Permeabilidade Relativa dos Poros Capilares
do Músculo Esquelético a Moléculas de Diferentes
Tamanhos
Substância Peso Molecular Permeabilida
de
Água 18 1,00
NaCl 58,5 0,96
Ureia 60 0,8
Glicose 180 0,6
Sacarose 342 0,4
Inulina 5.000 0,2
Mioglobina 17.600 0,03
Flemoglobina 68.000 0,01
Albumina 69.000 0,001
Dados extraídos de Pappenheimer JR: Passage of molecules through
capillary walls. Physiol Rev 33:387,1953.
tância em uma das direções. Por exemplo, a concentração
de oxigênio no sangue capilar é, nas condições normais,
maior que no líquido intersticial. Portanto, grande
quantidade de oxigênio normalmente se move do sangue
para os tecidos. Ao contrário, a concentração de dióxido de
carbono é maior nos tecidos que no sangue, o que faz com
que o excesso de dióxido de carbono se mova para o
sangue, sendo eliminado dos tecidos.
As intensidades da difusão através das membranas
capilares da maioria das substâncias nutricionalmente
importantes são tão grandes que mesmo pequenas
diferenças de concentração são suficientes para provocar o
transporte adequado entre o plasma e o líquido intersticial.
Por exemplo, a porcentagem da concentração de oxigênio
no líquido intersticial, imediatamente por fora do capilar, é
apenas ligeiramente superior que a concentração no
plasma; ainda assim, essa pequena diferença faz com que
quantidade suficiente de oxigênio se mova do sangue para
os espaços intersticiais, fornecendo todo o oxigênio
necessário para o metabolismo tecidual, com frequência
chegando a muitos litros de oxigênio por minuto, durante
os estados muito ativos do organismo.
Interstício e o Líquido Intersticial
Cerca de um sexto do volume corporal total consiste em
espaços entre as células que são, em seu conjunto, referidos
como o interstício. O líquido nesses espaços é o líquido
intersticial.
A estrutura do interstício é mostrada na Figura 16-4.
Esse espaço contém dois tipos principais de estruturas
sólidas: (1) feixes de fibras de colágeno e (2) füamentos de
proteoglicanos. Os primeiros estendem-se por longas
distâncias pelo interstício. São extremamente fortes
Capilar
Filamentos de
proteoglicano
s
Feixes de fibras
de colágeno
Vesículas
de
líquido
livre
Correntes
de líquido
livre
Figura 16-4 Estrutura do interstício. Existem filamentos de
proteoglicanos em todos os pontos nos espaços entre os feixes
de fibras de colágeno. Vesículas de líquido livre e pequena
quantidade de líquido livre na forma de correntes podem
ocorrer ocasionalmente.
190
Capítulo 16 A Microcirculação e o Sistema Linfático:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa
e assim fornecem a maior parte da força tensional dos
tecidos. Os filamentos de proteoglicanos, entretanto, são
moléculas espiraladas ou retorcidas, extremamente finas,
compostas por cerca de 98% de ácido hialurô- nico e 2% de
proteínas. Essas moléculas são tão delgadas que não
podem ser vistas ao microscópio óptico e são difíceis de ser
demonstradas até mesmo ao microscópio eletrônico.
Entretanto, formam trama de delicados filamentos
reticulares, descritos como “pila em arbusto” (,brush pile).
"Gel” no Interstício. O líquido no interstício é
derivado da filtração e da difusão pelos capilares. Ele
contém praticamente os mesmos constituintes que o
plasma, exceto por concentrações muito menores de
proteínas porque estas não passam com facilidade pelos
poros capilares. O líquido intersticial fica retido
principalmente em diminutos espaços entre os filamentos
de proteoglicanos. Essa combinação de filamentos de
proteoglicanos e líquido retido entre eles tem a
característica de um gel, sendo assim chamada de gel
tecidual.
Em virtude do grande número de filamentos de
proteoglicanos, o líquido tem dificuldade em fluir pelo gel
tecidual. Ao contrário, ele essencialmente se difunde através
do gel; ou seja, ele se move, molécula a molécula, de um
lugar para outro por movimentação térmica cinética em
vez de haver grande número de moléculas se movendo em
conjunto.
A velocidade da difusão pelo gel é de 95% a 99%, em
relação à difusão livre pelo líquido. Nas curtas distâncias
entre os capilares e as células teciduais, essa difusão
permite o rápido transporte pelo interstício, não apenas de
moléculas de água, mas também de eletrólitos, nutrientes
de baixo peso molecular, produtos da excreção celular,
oxigênio, dióxido de carbono etc.
é possível observar o fluxo pelo interstício de pequenas
correntes, em geral cursando ao longo das superfícies das
fibras de colágeno ou das células.
A quantidade de líquido “livre” presente nos tecidos
normais é pequena, usualmente menor que 1%. Por sua vez,
quando os tecidos desenvolvem edema, essas pequenas
porções e correntes de líquido livre se expandem de modo muito
acentuado, até que a metade ou mais do líquido do edema
passe a ser líquido livre, independente dos filamentos de
proteoglicanos.
A Filtração do Líquido pelos Capilares É
Determinada pelas Pressões Osmóticas
Hidrostáticas e Coloidais e Também pelo
Coeficiente de Filtração Capilar
A pressão hidrostática, nos capilares, tende a forçar o
líquido e as substâncias nele dissolvidas através dos poros
capilares para os espaços intersticiais. Por sua vez, a
pressão osmótica, gerada pelas proteínas plasmáticas
(chamada de pressão coloidosmótica), tende a fazer com que o
líquido se movimente por osmose dos espaços intersticiais
para o sangue. Essa pressão osmótica, exercida pelas
proteínas plasmáticas, impede normalmente a perda
significativa de líquido do sangue para os espaços
intersticiais.
Outro fator importante é o sistema linfático, que traz de
volta para a circulação pequenas quantidades de proteínas
e de líquido em excesso que extravasam do sangue para os
espaços intersticiais. No restante deste capítulo,
discutiremos os mecanismos que controlam em conjunto a
filtração capilar e a função do fluxo linfático para regular os
volumes respectivos do plasma e do líquido intersticial.
Líquido "Livre” no Interstício. Embora quase todo o
líquido no interstício nas condições normais esteja retido
no gel tecidual, por vezes, também ocorrem pequenas
correntes de líquido “livre” e pequenas vesículas de líquido livre,
o que significa líquido sem moléculas de proteoglicanos, e
que assim pode se mover livremente. Quando se injeta
pigmento no sangue circulante, frequentemente
Forças Osmóticas Hidrostáticas e Coloidais
Determinam o Movimento de Líquido através da
Membrana Capilar. A Figura 16-5 mostra as quatro
forças primárias que determinam se o líquido se moverá do
sangue para o líquido intersticial ou no sentido inverso.
Essas forças, chamadas de “forças de Starling” em
homenagem ao fisiologista que primeiro demonstrou sua
importância, são:
t 
Pressão do líquido
intersticial
Pressão coloidosmótica
do líquido intersticial
(PIÍ) (nii)
Figura 16-5 As forças da pressão do líquido e pressão
coloidosmótica atuam sobre a membrana capilar, tendendo a
mover o líquido para fora ou para dentro dos poros da
membrana.
A pressão capilar (Pc), que tende a forçar o líquido para
fora através da membrana capilar.
A pressão do líquido intersticial (Pli), que tende a forçar o
líquido para dentro através da membrana capilar quando
a Pli for positiva, mas, para fora, quando a Pli for
negativa.
A pressão coloidosmótica plasmática capilar (TTp), que
tende a provocar a osmose de líquido para dentro,
através da membrana capilar.
A pressão coloidosmótica do líquido intersticial (Elli), que
tende a provocar osmose de líquido para fora através da
membrana capilar.
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D
A
Unidade IV A Circulação
Se a soma dessas forças — a pressão efetiva de filtração —
for positiva, ocorrerá filtração de líquido pelos capilares. Se a
soma for negativa, ocorrerá absorção de líquido. A pressão
efetiva de filtração (PEF) é calculada por:
PEF = Pc-pu-np + nii
Como discutido, a PEF é ligeiramente positiva nas
condições normais, resultando em filtração de líquido pelos
capilares para o espaço intersticial na maioria dos órgãos. A
intensidade da filtração de líquido no tecido também é
determinada pelo número e pelo tamanho dos poros em
cada capilar, bem como pelo número de capilares pelos
quais o sangue flui. Esses fatores são, em geral, expressos
como coeficiente de filtração capilar (I<f). Kf é, portanto, uma
medida da capacidade das membranas capilares de filtrar
água sob dada PEF e é usualmente expresso por mL/min
por mmHg da pressão efetiva de filtração.
A intensidade/velocidade da filtração de líquido
capilar é, então, determinada por:
Filtração = Kf x PEF
Nas próximas seções, discutiremos cada uma dessas forças
que determinam a intensidade da filtração de líquido
capilar.
Pressão Hidrostática Capilar
Foram usados vários métodos experimentais para estimar a
pressão hidrostática capilar: (1) canulação direta por
micropipeta dos capilares, que obteve pressão capilar média
de cerca de 25 mmHg, em alguns tecidos como o músculo
esquelético e o intestino e (2) medida funcional indireta da
pressão capilar, que obteve pressão capilar média de 17
mmHg nesses tecidos.
Método da Micropipeta para a Medida da Pressão
Capilar. Para medir a pressão capilar por canulação, uma
pipeta microscópica de vidro é inserida diretamente no
capilar, e a pressão é medida por micromanômetro.
Usando-se esse método, mediram-se as pressões em
capilares de tecidos expostos de animais e em grandes alças
capilares do eponíquio na base das unhas em humanos.
Essas medidas deram pressões de 30 a 40 mmHg nas
extremidades arteriais dos capilares, 10 a 15 mmHg nas
extremidades veno- sas, e cerca de 25 mmHg na porção
intermediária.
Em alguns capilares, tais como os capilares glomeru- lares
dos rins, a pressão medida pelo método de micropipeta é
muito maior, com média de aproximadamente 60 mmHg.
Os capilares peritubulares dos rins, em contraste, têm pressão
hidrostática com média de aproximadamente 13 mmHg.
Assim, as pressões hidrostáticas dos capilares em diferentes
tecidos são altamente variáveis, dependendo do tecido e da
condição fisiológica.
Método Isogravimétrico para a Medida Indireta da
Pressão Capilar “Funcional". A Figura 16-6 ilustra o
método isogravimétrico para estimar indiretamente a
pressão capilar. Essa figura mostra um segmento de
intestino suspenso em um dos braços de balança
gravimétrica.
100 50 0
Pressão arterial - pressão venosa
Figura 16-6 Método isogravimétrico para a medida da pressão
capilar.
O sangue é perfundido pelos vasos sanguíneos da parede
do intestino. Quando a pressão arterial é reduzida, a
diminuição resultante da pressão capilar permite que a
pressão osmótica das proteínas do plasma provoque a
absorção de líquido para fora da parede intestinal,
reduzindo o peso do intestino. Isso provoca a
movimentação imediata do braço da balança. Para impedir
essa diminuição do peso, a pressão venosa é aumentada o
suficiente para superar o efeito da diminuição na pressão
arterial. Em outras palavras, a pressão capilar é mantida
constante enquanto, ao mesmo tempo, (1) a pressão arterial
é diminuída e (2) a pressão venosa é aumentada.
No gráfico, na parte inferior da figura, são mostradas as
alterações nas pressões arterial e venosa que mantêm
constante o peso do intestino. As linhas arterial e venosa
encontram-se no valor de 17 mmHg. Portanto, a pressão
capilar deve ter permanecido nesse mesmo nível durante
as manobras; caso contrário, teria ocorrido filtração ou
absorção de líquido através das paredes capilares. Assim,
de maneira indireta, a pressão capilar “funcional” nesse
tecido é medida como sendo de cerca de 17 mmHg.
192
Capítulo 16 A Microcirculação e o Sistema Linfático:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa
É evidente que o método isogravimétrico, que
determina a pressão capilar que balanceia exatamente
todas as forças que tendem a mover o líquido para dentro
ou para fora dos capilares dá valor mais baixo quando
comparado com a pressão capilar medida direta com a
micropipeta. Razão importante para isso é que a filtração
do líquido capilar não é exatamente balanceada com o
líquido de reabsorção, na maior parte dos tecidos. O
líquido que é filtrado em excesso ao que é reabsorvido é
carregado pelos vasos linfáticos na maior parte dos tecidos.
Nos capilares glomerulares dos rins, grande parte do
líquido, aproximadamente 125 mL/min, é filtrada
continuamente.
Pressão Hidrostática do Líquido Intersticial
Existem muitos métodos para se medir a pressão
hidrostática do líquido intersticial, e cada um deles dá
valores ligeiramente diferentes dependendo do método
usado e do tecido onde a pressão é medida. No tecido
subcutâneo frouxo, a pressão do líquido intersticial,
medida por diferentes métodos, geralmente é alguns
milímetros de mercúrio abaixo da pressão atmosférica, ou
seja, os valores são referidos como pressão negativa do líquido
intersticial. Em outros tecidos, cercados por cápsulas, tais
como os rins, a pressão intersticial é geralmente positiva
(maior do que a pressão atmosférica). Os métodos mais
utilizados são (1) a canulação direta dos tecidos por
micropipeta, (2) a medida da pressão por meio de cápsulas
perfuradas implantadas, e (3) a medida da pressão por
meio de pavios de algodão inseridos no tecido.
Medida da Pressão do Líquido Intersticial por Micropipeta.
O mesmo tipo de micropipeta, utilizado para a medida da pressão
capilar, pode ser usado em alguns tecidos para a medida da
pressão do líquido intersticial. A ponta da micropipeta tem
aproximadamente 1 micrômetro de diâmetro, mas ainda assim é
20 vezes maior, ou mais, que o tamanho dos espaços entre os
filamentos de proteoglicanos do interstício. Portanto, a pressão é
provavelmente medida em região com líquido livre.
As primeiras pressões medidas pelo método da micropipeta
variavam de -1 a +2 mmHg, mas em geral eram ligeiramente
positivas. Com a experiência e com a melhora dos equipamentos
para a realização dessas medidas, as pressões obtidas mais
recentemente foram em média de -2 mmHg, fornecendo valores
médios de pressão em tecidos frouxos, como a pele, ligeiramente
menores que a pressão atmosférica.
Medida da Pressão de Líquido Intersticial Livre em
Cápsulas Ocas Perfuradas Implantadas. A pressão no líquido
intersticial livre medida por esse método, usando-se cápsulas de 2
cm de diâmetro no tecido subcutâneo normal frouxo, é, em média,
de -6 mmHg, mas com cápsulas menores os valores não são muito
diferentes dos -2 mmHg medidos pela micropipeta.
Pressões do Líquido Intersticial em Tecidos
Circundados por Estruturas Rígidas
Alguns tecidos do corpo são cercados por estruturas
rígidas, como a caixa craniana ao redor do encéfalo, a forte
cápsula fibrosa ao redor do rim, as bainhas fibrosas ao
redor dos músculos e a esclera em torno do olho. Na
maioria desses tecidos, independentemente do método
usado para a medida, as pressões do líquido intersticial são
positivas. Entretanto, essas pressões são ainda assim quase
sempre menores que as exercidas sobre o exterior dos
tecidos pelas estruturas que os contêm. Por exemplo, a
pressão do líquido cerebrospinal em torno do encéfalo de
um animal deitado de lado é, em média, de +10 mmHg,
enquanto a pressão do líquido intersticial do cérebro é, em
média, de +4 a +6 mmHg. Nos rins, a pressão capsular ao
redor do rim é, em média, de +13 mmHg, mas foram
relatadas pressões do líquido intersticial renal de cerca de +6
mmHg. Assim, se nos lembrarmos que a pressão exercida
sobre a pele é a pressão atmosférica, considerada como a
pressão zero, é possível formular uma regra geral de que a
pressão normal do líquido intersticial é, em geral, vários
milímetros de mercúrio negativa em relação à que circunda
cada tecido.
A Pressão Verdadeira do Líquido Intersticial no Tecido
Subcutâneo Frouxo É Subatmosférica?
O conceito de que a pressão do líquido intersticial é
subatmosférica em alguns tecidos do corpo ou em sua
maioria foi concebido a partir de observações clínicas que
não podiam ser explicadas pelo conceito anterior de que
era sempre positiva. Algumas das observações pertinentes
são as seguintes:
1. Quando enxerto cutâneo é implantado em superfície
côncava do corpo, como na órbita após a remoção do
olho, tende a ocorrer coleção de líquido sob o enxerto
antes que a pele fique aderida à órbita. Além disso, a
pele tende a se encurtar, o que faz com que ela seja
puxada para fora da concavidade. Entretanto, alguma
força negativa sob a pele causa a absorção do líquido e,
em geral, literalmente puxa a pele de volta para a
concavidade.
2. É necessário menos de 1 mmHg de pressão positiva
para injetar grande volume de líquido nos tecidos
subcutâneos, como sob a pálpebra inferior, no espaço
axilar e no escroto. Volumes de líquido,
aproximadamente mais de 100 vezes maiores que o
normalmente presente no espaço intersticial quando
injetados nessas áreas não provocam aumento maior
que 2 mmHg de pressão positiva. Essas observações são
importantes, pois esses tecidos não contêm fibras
suficientemente fortes capazes de impedir o acúmulo de
líquido, de modo que algum outro mecanismo, como
um sistema de baixa complacência, deve existir para
impedi-lo.
3. Na maioria das cavidades naturais do corpo, onde há
líquido livre em equilíbrio dinâmico com os líquidos
intersticiais que o cercam, as pressões medidas foram
negativas, entre elas:
Espaço intrapleural: -8 mmHg
Espaços sinoviais nas articulações: -4 a -6 mmHg
Espaço epidural: -4 a -6 mmHg
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Unidade IV A Circulação
4. A cápsula implantada para a medida da pressão do
líquido intersticial pode ser usada para registrar suas
alterações dinâmicas. Essas alterações são
aproximadamente as que ocorrem quando (1) a pressão
arterial é aumentada ou diminuída, (2) se injeta líquido
no espaço tecidual circundante, ou (3) agente coloi-
dosmótico muito concentrado é injetado no sangue para
absorver líquido dos espaços teciduais. É improvável
que essas alterações dinâmicas possam ser registradas
com tanta precisão, a menos que a pressão da cápsula
esteja muito próxima da pressão intersticial verdadeira.
Resumo — O Valor Médio para a Pressão Negativa
do Líquido Intersticial no Tecido Subcutâneo Frouxo.
Embora os diferentes métodos mencionados produzam
valores pressóricos ligeiramente diferentes do líquido
intersticial, existe atualmente a crença geral entre os fisio-
logistas de que a verdadeira pressão no tecido subcutâneo
frouxo seja ligeiramente menos subatmosférica, com valor
médio de -3 mmHg.
O Bombeamento pelo Sistema Linfático É a Causa
Básica da Pressão Negativa do Líquido Intersticial
O sistema linfático será discutido adiante, neste capítulo,
mas precisamos entender neste ponto o papel básico que
ele desempenha na determinação da pressão do líquido
intersticial. O sistema linfático é “lixeiro” (scavenger) que
remove o excesso de líquido, proteínas, detritos orgânicos e
outros materiais dos espaços teciduais. Normalmente,
quando o líquido penetra nos capilares linfáticos terminais,
as paredes dos vasos linfáticos se contraem, de forma
automática, por alguns segundos e bombeiam o líquido
para a circulação sanguínea. Esse processo cria a ligeira
pressão negativa, medida nos líquidos dos espaços
intersticiais.
Pressão Coloidosmótica do Plasma
As Proteínas Plasmáticas Causam a Pressão
Coloidosmótica. Na discussão básica sobre pressão
osmótica, no Capítulo 4, ressaltou-se que somente as
moléculas ou íons que não são capazes de passar pelos
poros da membrana semipermeável exercem pressão
osmótica. Como as proteínas são os únicos constituintes
dissolvidos no plasma e nos líquidos intersticiais que não
atravessam facilmente os poros capilares, são elas as
responsáveis pelas pressões osmóticas nos dois lados da
membrana capilar. Para distinguir essa pressão osmótica da
que ocorre na membrana celular, a primeira é chamada de
pressão coloidosmótica ou pressão oncótica. O termo pressão
“coloidosmótica” deriva do fato de que uma solução de
proteínas se assemelha à solução coloidal, apesar de ser na
verdade solução molecular verdadeira.
Valores Normais da Pressão Coloidosmótica do
Plasma. A pressão coloidosmótica do plasma humano
normal é de, em média, 28 mmHg; 19 mm são causados
por efeitos moleculares das proteínas dissolvidas e 9 mm
pelo efeito Donnan — isto é, pressão osmótica adicional
causada pelo sódio, potássio e outros cátions mantidos no
plasma pelas proteínas.
Efeito das Diferentes Proteínas Plasmáticas sobre a
Pressão Coloidosmótica. As proteínas plasmáticas
representam mistura contendo albumina, com peso molecular
médio de 69.000; globulinas, 140.000; e fibrinogênio, 400.000.
Assim,
1 grama de globulina contém apenas a metade do número de
moléculas que um grama de albumina, e 1 grama de fibrinogênio
contém apenas um sexto do número de moléculas de um grama de
albumina. É importante relembrar, pela discussão sobre pressão
osmótica, no Capítulo 4, que essa pressão é determinada pelo
número de moléculas dissolvidas no líquido, e não por sua massa.
Portanto, quando corrigido em relação ao número de moléculas
em vez da massa, o quadro seguinte dá as concentrações relativas
de massa (g/dL) dos diferentes tipos de proteínas no plasma
normal e suas respectivas contribuições para a pressão
coloidosmótica total do plasma (Ilp).
g/dL Ilp (mmHg)
Albumina 4,5 21,8
Globulinas 2,5 6,0
Fibrinogênio 02 02
Total 7,3 28,0
Assim, cerca de 80% da pressão coloidosmótica total do plasma
resultam da fração de albumina, 20% das globulinas e
praticamente 0% do fibrinogênio. Assim, do ponto de vista da
dinâmica dos líquidos nos capilares e tecidos, a albumina é o fator
mais importante.
Pressão Coloidosmótica do Líquido Intersticial
Embora o tamanho do poro capilar típico seja menor que as
dimensões das moléculas das proteínas plasmáticas, nem
todos os poros são iguais, de modo que pequena
quantidade de proteínas plasmáticas extravasa por eles
para os espaços intersticiais e por transcitose em pequenas
vesículas.
A quantidade total de proteína, nos 12 litros do líquido
intersticial corporal total, é ligeiramente maior que a
quantidade de proteína no próprio plasma; mas, como esse
volume é quatro vezes maior que o do plasma, a
concentração média de proteína no líquido intersticial é, em
geral, de apenas 40% em relação ao plasma, ou cerca de 3
g/dL. Quantitativamente, nota-se que a pressão
coloidosmótica média do líquido intersticial com essa
concentração de proteína é de cerca de 8 mmHg.
Trocas de Líquido através da Membrana Capilar
Agora que foram discutidos os diferentes fatores que
afetam o movimento de líquido através da membrana
capilar, é possível considerá-los em conjunto e observar
como o sistema capilar mantém a distribuição normal do
volume de líquido entre o plasma e o interstício.
194
Capítulo 16 A Microcirculação e o Sistema Linfático:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa
A pressão média nas extremidades arteriais dos
capilares é 15 a 25 mmHg maior que nas extremidades
venosas. Por causa dessa diferença, o líquido é “filtrado”
para fora dos capilares, nas extremidades arteriais, mas nas
extremidades venosas o líquido é reabsorvido de volta para
os capilares. Assim, pequena quantidade de líquido na
realidade “flui” pelos tecidos das extremidades arteriais
para as extremidades venosas dos capilares. A dinâmica
desse fluxo é discutida adiante.
Análise das Forças que Provocam a Filtração na
Extremidade Arterial do Capilar. As médias aproximadas
das forças que operam na extremidade arterial do capilar,
provocando o movimento de líquido através da membrana
capilar, são as seguintes:
mmHg
Forças que tendem a mover o líquido para fora:
Pressão capilar (extremidade arterial do capilar) 30
Pressão negativa do líquido livre intersticial 3
Pressão coloidosmótica do líquido intersticial 8
FORÇA TOTAL PARA FORA 41
Forças que tendem a mover o líquido para dentro:
Pressão coloidosmótica do plasma 28
FORÇA TOTAL PARA DENTRO 28
Resultante das forças:
Para fora 41
Para dentro 28
FORÇA EFETIVA PARA FORA 13
(NA EXTREMIDADE ARTERIAL)
Assim, a soma das forças na extremidade arterial do
capilar resulta em pressão efetiva de fütração de 13 mmHg,
tendendo a mover o líquido para fora dos poros capilares.
Essa pressão de filtração de 13 mmHg faz com que, em
média, cerca de 1/200 do plasma no sangue que flui seja
filtrado para fora das extremidades arteriais dos capilares
para os espaços intersticiais cada vez que o sangue passa
pelos capilares.
Análise da Reabsorção na Extremidade Venosa do
Capilar. A baixa pressão sanguínea na extremidade venosa
do capilar altera o balanço das forças em favor da absorção,
da seguinte maneira:
mmHg
Forças que tendem a mover o líquido para dentro:
Pressão coloidosmótica do plasma 28
FORÇA TOTAL PARA DENTRO 28
Forças que tendem a mover o líquido para dentro:
Pressão capilar (extremidade venosa do capilar) 10
Pressão negativa do líquido livre intersticial 3
Pressão coloidosmótica do líquido intersticial 8
FORÇA TOTAL PARA FORA 21
Resultante das forças:
Para dentro 28
Para fora 21
FORÇA EFETIVA PARA DENTRO 7
(NA EXTREMIDADE VENOSA)
Assim, a força que faz com que o líquido se mova para
dentro do capilar, de 28 mmHg, é maior que a que se opõe à
reabsorção, de 21 mmHg. A diferença de 7 mmHg é a
pressão efetiva de reabsorção nas extremidades venosas dos
capilares. Essa pressão de reabsorção é consideravelmente
menor que a pressão de filtração na extremidade arterial,
mas lembre-se de que os capilares venosos são mais
numerosos e mais permeáveis que os arteriais, de modo
que é necessária menor pressão de reabsorção para
provocar o movimento de líquido para dentro do capilar.
A pressão de reabsorção faz com que cerca de nove
décimos do líquido que foi filtrado para fora nas
extremidades arteriais sejam reabsorvidos nas
extremidades venosas. O décimo restante flui para os vasos
linfáticos, por onde retorna para o sangue circulante.
Equilíbrio de Starling para a Troca Capilar
Ernest H. Starling ressaltou há mais de um século que, sob
condições normais, existe estado próximo ao equilíbrio na
maioria dos capilares. Isto é, a quantidade de líquido
filtrado para fora, nas extremidades arteriais dos capilares,
é quase exatamente igual ao líquido que retorna à
circulação por absorção. O ligeiro desequilíbrio existente é
responsável pelo líquido que finalmente retorna para a
circulação pelos linfáticos.
O quadro seguinte demonstra os princípios do
equilíbrio de Starling. Nesse quadro são apresentadas as
médias das pressões nas extremidades arteriais e venosas
dos capilares para determinar a pressão capilar funcional
média, em toda sua extensão, calculada como 17,3 mmHg.
mmHg
Média das forças que tendem a mover o líquido para fora:
Pressão capilar média 17,3
Pressão negativa do líquido livre intersticial 3,0
Pressão coloidosmótica do líquido intersticial 8£
FORÇA TOTAL PARA FORA 28,3
Média das forças que tendem a mover o líquido para
dentro:
Pressão coloidosmótica do plasma 28,0
FORÇA TOTAL PARA DENTRO 28,0
Resultante das médias das forças:
Para fora 28,3
Para dentro 28,0
FORÇA EFETIVA PARA FORA 0,3
Assim, em relação à circulação capilar total, nota-se
estado próximo ao equilíbrio entre as forças totais de
filtração, de 28,3 mmHg, e a força total de reabsorção, de
28,0 mmHg. O pequeno desequilíbrio de forças, de
195
Unidade IV A Circulação
0,3 mmHg, faz com que a filtração de líquido para os
espaços intersticiais seja ligeiramente maior que a reab-
sorção. Esse ligeiro excesso de filtração é chamado de
filtração efetiva, que consiste no líquido que deve retornar
para a circulação pelos linfáticos. A intensidade normal da
filtração efetiva em todo o corpo, não incluindo os rins, é de
apenas 2 mL/min.
Coeficiente de Filtração. No exemplo anterior, a falha
no balanceamento total médio de 0,3 mmHg nas forças
atuantes nas membranas capilares provoca filtração efetiva
de líquido de 2 mL/min em todo o corpo. Expressando
essa filtração, por cada milímetro de mercúrio de falha de
balanceamento, encontra-se a intensidade da filtração
efetiva de 6,67 mL/min de líquido por mmHg, em todo o
corpo. Esse valor é chamado coeficiente de filtração capilar
corporal total.
O coeficiente de filtração também pode ser expresso em
relação a partes separadas do corpo, em termos da
intensidade da filtração por minuto por mmHg por 100
gramas de tecido. Nesses termos, o coeficiente de filtração
do tecido médio é de cerca de 0,01 mL/min/mmHg/100 g
de tecido. Entretanto, em virtude das diferenças extremas
na permeabilidade dos sistemas capilares nos diferentes
tecidos, esse coeficiente varia por mais de 100 vezes entre
os vários tecidos. É muito pequeno no cérebro e no
músculo, moderadamente grande no tecido subcutâneo,
grande no intestino, e extremo no fígado e nos gloméru- los
renais, onde os poros são muito numerosos ou muito
abertos. Da mesma forma, a permeação de proteínas
através das membranas capilares varia de modo muito
amplo. A concentração de proteína no líquido intersticial
dos músculos é de cerca de 1,5 g/dL; no tecido subcutâneo,
2 g/dL; no intestino, 4 g/dL; e no fígado, 6 g/dL.
Efeito da Falha de Balanceamento Anormal
das Forças na Membrana Capilar
Se a pressão capilar média aumentar acima de 17 mmHg, a
força efetiva que tende a produzir filtração de líquido para
os espaços teciduais aumenta. Assim, aumento de 20
mmHg da pressão capilar média provoca aumento da
pressão de filtração efetiva de 0,3 mmHg para 20,3 mmHg,
o que resulta em filtração efetiva de líquido para os espaços
intersticiais 68 vezes maior que a normal. Para impedir o
acúmulo de excesso de líquido nesses espaços, seria
necessário fluxo de líquido 68 vezes maior que o normal
para o sistema linfático, o que é duas a cinco vezes maior
que a capacidade total dos linfáticos. Como consequência,
o líquido tenderia a se acumular nos espaços intersticiais
resultando em edema.
Por sua vez, se a pressão capilar cair a valor muito
baixo, ocorrerá reabsorção efetiva de líquido pelos
capilares em vez de filtração, e o volume sanguíneo
aumentará à custa do volume de líquido intersticial. Esses
efeitos da falha de balanceamento na membrana capilar,
em relação ao desenvolvimento de diferentes tipos de
edema, são discutidos no Capítulo 25.
Sistema Linfático
O sistema linfático representa a via acessória por meio da
qual o líquido pode fluir dos espaços intersticiais para o
sangue. É importante notar que os linfáticos transportam
para fora dos espaços teciduais proteínas e grandes
partículas que não podem ser removidas por absorção
direta pelos capilares sanguíneos. Esse retorno da proteína
para o sangue dos espaços intersticiais é função essencial,
sem a qual morreriamos em cerca de 24 horas.
Canais Linfáticos do Corpo
Quase todos os tecidos corporais têm canais linfáticos especiais
que drenam o excesso de líquido diretamente dos espaços
intersticiais. As exceções incluem as porções superficiais da pele, o
sistema nervoso central, o endomísio dos músculos e os ossos.
Entretanto, mesmo esses tecidos têm canais minúsculos, referidos
como pré-linfáticos, pelos quais o líquido intersticial pode fluir;
esse líquido é, por fim, drenado para vasos linfáticos ou, no caso
do encéfalo, para o líquido cerebrospinal e dele diretamente de
volta ao sangue.
Em essência, todos os vasos linfáticos da parte inferior do corpo
escoam-se por fim para o dueto torácico que, por sua vez, se escoa
para o sistema venoso de sangue, na junção da veia jugular interna
esquerda com a veia subclávia esquerda, como mostra a Figura
16-7.
A linfa do lado esquerdo da cabeça, do braço esquerdo e de
partes da região torácica também penetra o dueto torácico antes de
se escoar nas veias.
A linfa do lado direito da cabeça e pescoço, braço direito e partes
do hemitórax direito segue pelo dueto linfático direito (muito
menor que o dueto torácico), que se escoa no sistema venoso de
sangue, na junção da veia subclávia com a veia jugular interna
direita.
Capilares Linfáticos Terminais e sua
Permeabilidade. A maior parte do líquido filtrado nas
extremidades arteriais dos capilares sanguíneos flui por entre as
células sendo finalmente reabsorvido de volta pelas
extremidades venosas dos capilares sanguíneos-, entretanto, em
média cerca de um décimo do líquido segue para os
capilares linfáticos e retorna ao sangue pelo sistema linfático,
em vez de fazê-lo pelos capilares venosos. O volume total
dessa linfa é normalmente de apenas 2 a 3 litros por dia.
O líquido que retorna à circulação pelos linfáticos é
extremamente importante por conter substâncias de alto
peso molecular, tais como proteínas que não podem ser
absorvidas dos tecidos por qualquer outra via, embora
possam entrar nos capilares linfáticos quase sem
impedimentos. Isso ocorre por causa da estrutura especial
dos capilares linfáticos, mostrada na Figura 16-8. Essa
figura mostra as células endoteliais do capilar linfático
presas por filamentos de ancoragem ao tecido conjuntivo que
o circunda. Nas junções entre as células endoteliais
adjacentes, a borda de uma célula se sobrepõe à borda da
célula seguinte, de modo que a borda sobreposta fica livre
para se dobrar para dentro, formando assim uma válvula
minúscula que se abre para o interior do capilar linfático. O
líquido intersticial, junto com as partículas
196
Capítulo 16 A Mícrocirculação e o Sistema Linfático:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa
Massas de linfócitos
e macrófagos
Capilar
sanguíneo
Célula
tecidual
Vaso
linfátic
o
Capilar
linfático
Líquido
intersticial
Linfonodos cervica
Linfonodo-sentinel
Veia subclávia
Dueto linfático
direi
— Dueto torácico -
Linfonodos —
axilares
Cisterna do quilo
Linfonodos
abdominais
Linfonodos
inguinais
Linfonodos periféric
Figura 16-7 Sistema linfático.
suspensas, pode pressionar e abrir a válvula, fluindo
diretamente para o capilar linfático. Entretanto, esse
líquido tem dificuldade para deixar o capilar uma vez que
tenha entrado porque qualquer refluxo fecha a válvula.
Assim, os linfáticos têm válvulas nas extremidades dos
capilares linfáticos terminais, bem como válvulas ao longo
de seus vasos mais grossos até o ponto em que se escoam
para a circulação sanguínea.
Formação da Linfa
A linfa é derivada do líquido intersticial que flui para os
linfáticos. Por isso, logo após entrar nos linfáticos
terminais, ela apresenta praticamente a mesma composição
que o líquido intersticial.
A concentração de proteína no líquido intersticial da
maioria dos tecidos é de, em média, cerca de 2 g/dL, e a da
linfa que flui desses tecidos é próxima a esse valor. No
fígado, a linfa formada no fígado apresenta concentração
elevada de proteína de 6 g/dL, e a linfa formada nos
intestinos tem concentração de proteína de 3 a 4 g/dL.
Como cerca de dois terços de toda a linfa são, em condições
normais, derivados do fígado e dos intestinos, a linfa do
dueto torácico, que é a mistura da linfa de todas as partes
do corpo, tem em geral concentração de proteínas de 3 a 5
g/dL.
O sistema linfático é também uma das principais vias de
absorção de nutrientes vindos do trato gastrintestinal, em
especial para a absorção de praticamente todos os lipí- dios
dos alimentos, como discutido no Capítulo 65. De fato,
após refeição rica em gorduras, a linfa do dueto torácico
chega a conter por vezes até 1% a 2% de lipídios.
Por fim, mesmo grandes partículas, como bactérias,
podem passar através das células endoteliais e entrar nos
capilares linfáticos e desse modo chegar à linfa. À medida
que a linfa passa pelos linfonodos, essas partículas são
quase inteiramente removidas e destruídas, como
discutido no Capítulo 33.
Intensidade do Fluxo Linfático
Cerca de 100 mililitros de linfa fluem por hora pelo dueto
torácico do humano em repouso, e aproximadamente
outros 20 mililitros fluem para a circulação a cada hora por
outros canais, perfazendo o total estimado do fluxo
linfático de cerca de 120 mL/h, ou 2 a 3 litros por dia.
Efeito da Pressão do Líquido Intersticial sobre o
Fluxo Linfático. A Figura 16-9 mostra o efeito de diferentes
níveis de pressão do líquido intersticial sobre o fluxo
linfático medido em patas de cães. Note que o fluxo
linfático normal é muito pequeno, com pressões do líquido
197
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D
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Unidade IV A Circulação
Figura 16-8 Estrutura especial dos capilares linfáticos permitindo
a passagem de substâncias de alto peso molecular para a linfa.
PT (mmHg)
Figura 16-9 Relação entre a pressão do líquido intersticial e o
fluxo linfático na perna de cão. Note que o fluxo linfático atinge
o máximo quando a pressão intersticial P se eleva ligeiramente
acima da pressão atmosférica (0 mmHg). (Cortesia de Drs. Harry
Gibson e Aubrey Taylor.)
intersticial abaixo do valor normal de -6 mmHg. Então, à
medida que a pressão aumenta para 0 mmHg (pressão
atmosférica), o fluxo aumenta por mais de 20 vezes. Por
conseguinte, qualquer fator que aumente a pressão do
líquido intersticial também aumenta o fluxo linfático se os
vasos linfáticos estiverem funcionando normalmente. Esses
fatores incluem:
♦ Pressão hidrostática capilar elevada
♦ Pressão coloidosmótica diminuída do plasma
♦ Pressão coloidosmótica aumentada do líquido
intersticial
♦ Permeabilidade aumentada dos capilares
Todos esses fatores fazem com que o balanceamento
das trocas de líquido na membrana capilar sanguínea
favoreça o movimento de líquido para o interstício, dessa
forma aumentando ao mesmo tempo o volume e a pressão
do líquido intersticial e o fluxo linfático.
Entretanto, note na Figura 16-9 que quando a pressão
do líquido intersticial fica 1 a 2 mmHg maior que a pressão
atmosférica (> 0 mmHg), o fluxo linfático para de
aumentar, mesmo sob pressões maiores. Isso ocorre porque
o aumento da pressão tecidual não somente aumenta a
entrada de líquido para os capilares linfáticos, mas
comprime também as superfícies externas dos grandes
linfáticos, impedindo o fluxo de linfa. Sob pressões
maiores, esses dois fatores se contrabalançam de forma
quase exata; assim, se atinge o que é chamado “intensi-
dade/velocidade máxima do fluxo linfático”, representada
pelo platô superior na Figura 16-9.
A Bomba Linfática Aumenta o Fluxo de Linfa. Todos
os canais linfáticos têm válvulas; válvulas típicas são
mostradas na Figura 16-10, nos linfáticos coletores que
drenam os linfáticos capilares.
Filmagens de vasos linfáticos expostos em animais e em
humanos demonstram que, quando o linfático coletor ou
vaso linfático maior é estirado pelo líquido, o músculo liso
na parede desse vaso se contrai automaticamente. Além
disso, cada segmento do vaso linfático entre válvulas
sucessivas funciona como uma bomba automática isolada,
ou seja, mesmo o pequeno enchimento de um segmento
provoca sua contração, e o líquido é bombeado pela
válvula para o segmento linfático seguinte. Isso enche o
segmento subsequente, e após alguns segundos este
também se contrai; esse processo ocorre ao longo de todo o
vaso linfático, até que o líquido finalmente se escoe na
circulação sanguínea. Em vasos linfáticos muito grandes
como o dueto torácico, essa bomba linfática pode gerar
grandes pressões de até 50 a 100 mmHg.
Bombeamento Causado pela Compressão
Intermitente Externa dos Linfáticos. Além do
bombeamento causado pela contração intermitente
intrínseca das paredes dos vasos linfáticos, qualquer fator
externo que comprima o vaso linfático também de modo
intermitente pode provocar o bombeamento. Em ordem de
importância, esses fatores são:
♦ Contração dos músculos esqueléticos circundantes
♦ Movimento de partes do corpo
♦ Pulsações de artérias adjacentes aos linfáticos
♦ Compressão dos tecidos por objetos externos ao corpo
A bomba linfática fica muito ativa durante o exercício,
frequentemente aumentando o fluxo linfático por 10 a 30
vezes. Ao contrário, durante períodos de repouso, o fluxo
linfático é extremamente lento, quase nulo.
Bomba Capilar Linfática. O capilar linfático terminal
também é capaz de bombear linfa, além do bombeamento
realizado pelos vasos linfáticos maiores. Como explicado
neste capítulo, as paredes dos capilares linfáticos aderem
firmemente às células do tecido circundante por meio de
filamentos de ancoragem. Assim, cada vez que o excesso
198
Capítulo 16 A Microcirculação e o Sistema Linfático:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa
Figura 16-10 Estrutura de capilares linfáticos e um linfático coletor mostrando também válvulas linfáticas.
de líquido chega ao tecido e faz com que ele se inche, os
filamentos de ancoragem puxam a parede do capilar
linfático, e o líquido flui para o terminal linfático pelas
junções entre as células endoteliais. Então, quando o tecido
é comprimido, a pressão no interior do capilar aumenta e
faz com que as bordas sobrepostas das células endoteliais
se fechem como válvulas. Por esse motivo, a pressão
empurra a linfa para frente em direção ao linfático coletor
em vez de para trás, em direção às junções celulares.
As células endoteliais do capilar linfático também
contêm alguns filamentos contráteis de actomiosina. Em
alguns tecidos animais (p. ex., a asa do morcego),
observou-se que esses filamentos provocam a contração
rítmica dos capilares linfáticos, da mesma forma que ocorre
com muitos dos pequenos vasos sanguíneos e linfáticos
maiores. Por isso, é provável que pelo menos parte do
bombeamento resulte da contração das células endoteliais
dos capilares linfáticos, além da contração dos linfáticos
musculares maiores.
Resumo dos Fatores que Determinam o Fluxo
Linfático. Pela discussão anterior, é possível notar que os
dois fatores principais determinativos do fluxo linfático são
(1) a pressão do líquido intersticial e (2) a atividade da
bomba linfática. Portanto, podemos afirmar que de modo
geral a intensidade do fluxo linfático é determinada pelo produto
da pressão do líquido intersticial pela atividade da bomba linfática.
O Papel do Sistema Linfático no Controle da
Concentração de Proteína, do Volume e da
Pressão do Líquido Intersticial
Já está claro que o sistema linfático funciona como um
“mecanismo de transbordamento” (overflow) para devolver
à circulação o excesso de proteína e de líquido nos espaços
teciduais. Portanto, desempenha também papel central no
controle (1) da concentração de proteínas, (2) do volume e
(3) da pressão do líquido intersticial. Vamos explicar como
esses fatores interagem.
Em primeiro lugar, lembre-se de que pequena
quantidade de proteínas extravasa continuamente dos
capilares
sanguíneos para o interstício. Somente quantidade muito
pequena, se ocorrer, da proteína extravasada retorna à
circulação pelas extremidades venosas dos capilares
sanguíneos. Por isso, essa proteína tende a se acumular no
líquido intersticial, o que aumenta a pressão coloidosmó-
tica dos líquidos intersticiais.
Além disso, o aumento da pressão coloidosmótica do
líquido intersticial desloca o balanço das forças na
membrana do capilar sanguíneo em favor da filtração de
líquido para o interstício. Assim, efetivamente ocorre a
translo- cação osmótica de líquido causada pela proteína
para fora da parede capilar em direção ao interstício,
aumentando o volume e a pressão do líquido intersticial.
Por fim, a elevação da pressão do líquido intersticial
provoca grande aumento da intensidade do fluxo linfático,
como já explicado. Isso por sua vez elimina o líquido
intersticial e a proteína em excesso que se acumularam nos
espaços.
Assim, uma vez que a concentração de proteína no
líquido intersticial atinge certo nível e provoca aumento
comparável do volume e da pressão do líquido intersticial,
o retorno da proteína e do líquido pelo sistema linfático
passa a ser suficientemente grande para contrabalancear
com precisão a intensidade do extravasamento de proteína
e de líquido para o interstício pelos capilares sanguíneos.
Por conseguinte, os valores quantitativos de todos esses
fatores atingem equilíbrio estável (steady State)-, eles
permanecerão balanceados nesses níveis até que alguma
coisa altere a intensidade do extravasamento da proteína e
do líquido pelos capilares sanguíneos.
Significado da Pressão Negativa do Líquido
Intersticial como Forma de Manter os Tecidos
Unidos
Tradicionalmente, assumiu-se que os diferentes tecidos do
corpo são mantidos unidos de forma integral pelas fibras
do tecido conjuntivo. Entretanto, em muitas partes do
corpo, as fibras de tecido conjuntivo são muito fracas ou até
mesmo ausentes. Isso ocorre de modo particular nos
pontos onde os tecidos deslizam uns sobre os outros, como
a pele que desliza sobre o dorso da mão
199
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N
I
D
A
Unidade IV A Circulação
ou sobre a face. Contudo, mesmo nesses lugares, os tecidos
são mantidos unidos pela pressão negativa do líquido
intersticial, que é na verdade um vácuo parcial. Quando os
tecidos perdem sua pressão negativa, ocorre acúmulo de
líquido nos espaços, resultando na condição chamada
edema. Isto é discutido no Capítulo 25.
Referências
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200
CAPÍTULO 17
Controle Local e Humoral do Fluxo
Sanguíneo dos Tecidos
** 3 t Controle Local do
Ti Fluxo Sanguíneo
i %
1 ^ em Resposta às
Necessidades
11
i
r
Teciduais
Um dos princípios mais
fundamentais da função circulatória é a capacidade de cada
tecido controlar seu próprio fluxo sanguíneo em proporção
às suas necessidades metabólicas.
Quais são as necessidades específicas dos tecidos em
relação ao fluxo sanguíneo? Existem muitas respostas para
essa pergunta, incluindo:
1. O suprimento de oxigênio aos tecidos.
2. O suprimento de outros nutrientes, como glicose, ami-
noácidos e ácidos graxos.
3. A remoção de dióxido de carbono dos tecidos.
4. A remoção de íons hidrogênio dos tecidos.
5. A manutenção de concentrações apropriadas de outros
íons nos tecidos.
6. O transporte de vários hormônios e outras substâncias
para os diferentes tecidos.
Certos órgãos apresentam necessidades especiais. Por
exemplo, o fluxo sanguíneo para a pele determina a perda
de calor do corpo, ajudando assim a controlar a
temperatura corporal. Já o fornecimento de quantidades
adequadas de plasma sanguíneo aos rins permite que eles
excretem os produtos do metabolismo corporal e regulem
os volumes e eletrólitos do líquido corporal.
Veremos que a maioria desses fatores exerce graus
extremos de controle local do fluxo sanguíneo e que
diferentes tecidos exercem diferentes níveis de importância
nesses fatores no controle do fluxo sanguíneo.
Variações no Fluxo Sanguíneo em Diferentes
Tecidos e Órgãos. Note na Tabela 17-1 o enorme fluxo
sanguíneo em alguns órgãos — por exemplo, muitas
centenas mL/min, por 100 g de tecido, na tireoide ou nas
suprarrenais e o fluxo sanguíneo total de 1.350 mL/min
pelo fígado, o que representa 95 mL/min/100 g de tecido
hepático.
Note também o fluxo sanguíneo extremamente
volumoso pelos rins — 1.100 mL/min. Esse fluxo extremo é
necessário para que os rins realizem sua função de eliminar
do sangue os produtos do metabolismo.
Por sua vez, é surpreendente o baixo fluxo sanguíneo
para todos os músculos inativos do corpo perfazendo o total
de apenas 750 mL/min, embora os músculos constituam
entre 30% e 40% da massa corporal total. No estado de
repouso, a atividade metabólica dos músculos é muito
baixa, bem como de seu fluxo sanguíneo de apenas 4 mL/
min/100 g. Entretanto, durante o exercício intenso, a
atividade metabólica dos músculos pode aumentar por
mais de 60 vezes, e o fluxo sanguíneo por 20 vezes, até
valores muito altos de até 16.000 mL/min no leito vascular
muscular total (ou 80 mL/min/100 g de músculo).
Importância do Controle do Fluxo Sanguíneo
pelos Tecidos Locais. Pode-se fazer a pergunta simples:
por que não permitir fluxo sanguíneo muito grande a
qualquer tempo por todos os tecidos do corpo, sempre
suficiente para suprir as necessidades teciduais,
independentemente do nível de atividade do tecido? A
resposta é igualmente simples: para fazê-lo, seria
necessário fluxo sanguíneo muito maior do que o coração
pode bombear.
Experimentos mostram que o fluxo sanguíneo para
cada tecido é usualmente mantido no nível mínimo
suficiente para suprir as suas necessidades — nem mais,
nem menos. Por exemplo, nos tecidos em que a
necessidade mais importante é a oferta de oxigênio, o fluxo
sanguíneo é sempre mantido em nível apenas ligeiramente
acima do necessário para manter a oxigenação completa do
tecido, mas não mais que isso. Controlando o fluxo
sanguíneo local de modo tão preciso, os tecidos quase
nunca passam por deficiência nutricional de oxigênio, e a
carga de trabalho do coração é mantida no menor nível
possível.
Mecanismos de Controle do Fluxo
Sanguíneo
O controle local do fluxo sanguíneo pode ser dividido em
duas fases: (1) controle agudo e (2) controle a longo prazo.
201
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A
Unidade IV A Circulação
Tabela 17-1 Fluxo Sanguíneo em Diferentes Órgãos e Tecidos
sob Condições Basais
Porcentagem
de Débito
Cardíaco
mL/min
mL/min/
100 g de
Peso
Tecidual
Cérebro 14 700 50
Coração 4 200 70
Brônquios 2 100 25
Rins 22 1.100 360
Fígado 27 1.350 95
Porta (21) 1.050
Arterial (6) 300
Músculo (estado
inativo)
15 750 4
Osso 5 250 3
Pele (tempo frio) 6 300 3
Tireoide
1
50
160
Supra rrenais 0,5 25 300
Outros tecidos 3,5 175 1,3
Total 100,0 5.000
O controle agudo é realizado por meio de rápidas
variações da vasodilatação ou da vasoconstrição local das
arteríolas, metarteríolas e esfmeteres pré-capilares,
ocorrendo em segundos ou minutos para permitir a
manutenção muito rápida do fluxo sanguíneo tecidual local
apropriado.
O controle a longo prazo, entretanto, consiste em
variações lentas e controladas do fluxo ao longo de dias,
semanas, ou até mesmo meses. Em geral, essas variações
resultam no melhor controle do fluxo em proporção às
necessidades teciduais. Essas variações ocorrem como
resultado de aumento ou diminuição nas dimensões físicas
e no número de vasos sanguíneos que suprem os tecidos.
Controle Agudo do Fluxo Sanguíneo Local
Efeito do Metabolismo Tecidual sobre o Fluxo
Sanguíneo Local. A Figura 17-1 mostra o efeito
aproximado agudo sobre o fluxo sanguíneo do aumento da
intensidade metabólica de tecido localizado, como o
músculo esquelético. Note que o aumento por oito vezes do
metabolismo aumenta agudamente o fluxo sanguíneo por
cerca de quatro vezes.
Regulação Aguda do Fluxo Sanguíneo Local
quando a Disponibilidade de Oxigênio é Alterada. Um
dos
nutrientes metabólicos mais necessários é o oxigênio.
Quando a disponibilidade de oxigênio para os tecidos
diminui, como acontece (1) nas grandes altitudes, como
no topo de montanha, (2) na pneumonia, (3) na intoxicação
por monóxido de carbono (que impede a hemoglobina de
transportar oxigênio), ou (4) na intoxicação por cianeto
(que impede os tecidos de utilizar oxigênio), o fluxo
sanguíneo pelo tecido aumenta intensamente. A Figura
17-2 mostra que, quando a saturação arterial de oxigênio
diminui para cerca de 25% do normal, o fluxo sanguíneo
pela pata isolada de cão aumenta cerca de três vezes; ou
seja, o fluxo sanguíneo aumenta quase até o limiar, mas não
o suficiente para compensar a menor quantidade de
oxigênio no sangue, quase mantendo dessa forma
suprimento relativamente constante de oxigênio para os
tecidos.
A intoxicação por cianeto, ao impedir o tecido local de
utilizar oxigênio de forma total, pode provocar aumento
por até sete vezes do fluxo sanguíneo local, demonstrando
assim o efeito extremo da deficiência de oxigênio sobre o
aumento do fluxo sanguíneo.
Existem duas teorias básicas para a regulação do fluxo
sanguíneo local quando a intensidade do metabolismo
tecidual ou a disponibilidade de oxigênio se alteram. Elas
são as teorias (1) da vasodilatação e (2) da falta de oxigênio.
Intensidade do metabolismo (x normal)
Figura 17-1 Efeito do aumento do metabolismo sobre o fluxo
sanguíneo tecidual.
Saturação de oxigênio arterial
(porcentagem)
Figura 17-2 Efeito da redução da saturação de oxigênio
arterial sobre o fluxo sanguíneo na pata isolada de um cão.
202
Capítulo 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos
Teoria da Vasodilatação para a Regulação Aguda
do Fluxo Sanguíneo Local — Possível Papel Especial da
Adenosina. De acordo com essa teoria, quanto maior a
intensidade do metabolismo ou menor a disponibilidade
de oxigênio ou de outros nutrientes para o tecido, maior
será a intensidade/velocidade de formação de substâncias
vasodilatadoras pelas células teciduais. Acredita-se assim
que as substâncias vasodilatadoras se difundam pelos tecidos
até os esfíncteres pré-capilares, metarterío- las e arteríolas,
causando dilatação. Algumas das diferentes substâncias
vasodilatadoras que foram sugeridas são a adenosina, o
dióxido de carbono, os compostos fosfatados de adenosina, a
histamina, os íons potássio e os íons hidrogênio.
As substâncias vasodilatadoras podem ser liberadas
pelo tecido em resposta à deficiência de oxigênio. Por
exemplo, experimentos mostraram que a redução do
oxigênio disponível pode provocar tanto a liberação de
adenosina quanto de ácido lático (contendo íons
hidrogênio) nos espaços entre as células teciduais; essas
substâncias então causam intensa vasodilatação aguda e,
portanto, são responsáveis, ao menos em parte, pela
regulação local do fluxo sanguíneo. Substâncias
vasodilatadoras, tais como dióxido de carbono, ácido lático
e íons potássio, tendem a aumentar nos tecidos quando o
fluxo sanguíneo é diminuído e o metabolismo celular
continua na mesma intensidade, ou quando o metabolismo
celular é subitamente aumentado. À medida que a
concentração dos metabó- litos vasodilatadores aumenta,
isso causa vasodilatação das arteríolas, aumentando o fluxo
sanguíneo tecidual e levando de volta ao normal a
concentração tecidual dos metabólitos.
Muitos fisiologistas acreditam que a adenosina é
importante vasodilatador local para o controle do fluxo
sanguíneo local. Por exemplo, quantidades diminutas de
adenosina são liberadas pelas células do músculo cardíaco,
quando o fluxo sanguíneo coronariano fica muito baixo, o
que provoca vasodilatação local suficiente para que o fluxo
sanguíneo coronariano retorne ao normal. Além disso, o
aumento da atividade do coração e de seu metabolismo
produz maior utilização de oxigênio, seguida por (1)
diminuição da concentração de oxigênio nas células do
músculo cardíaco com (2) a consequente degradação de
trifosfato de adenosina (ATP), o que (3) aumenta a
liberação de adenosina. Acredita-se que grande parte dessa
adenosina escoe para fora das células miocárdicas para
provocar a vasodilatação coronariana resultando no
aumento do fluxo sanguíneo coronariano para suprir as
demandas nutricionais aumentadas do coração ativo.
Embora com evidências experimentais menos claras,
muitos fisiologistas sugeriram que esse mesmo mecanismo
da adenosina seja importante controlador do fluxo
sanguíneo no músculo esquelético e em muitos outros
tecidos, além do coração. Tem sido difícil, no entanto,
provar que sejam de fato formadas quantidades suficientes
de qualquer substância vasodilatadora isolada, incluindo a
adenosina, nos tecidos que produzem o aumento medido
do fluxo sanguíneo. É provável que
a combinação de vários vasodilatadores diferentes
liberados pelos tecidos contribua para a regulação do fluxo
sanguíneo.
Teoria da Falta de Oxigênio para o Controle Local
do Fluxo Sanguíneo. Embora a teoria da vasodilatação
seja amplamente aceita, diversos fatos fundamentais
fizeram com que outros fisiologistas favorecessem outra
teoria, que pode ser chamada de teoria da falta de oxigênio ou
mais precisamente de teoria da falta de nutrientes (porque
outros nutrientes, além do oxigênio, estão envolvidos). O
oxigênio (bem como outros nutrientes) é necessário como
um dos nutrientes metabólicos que provocam a contração
do músculo vascular. Assim, na ausência de quantidades
adequadas de oxigênio, é razoável a crença de que os vasos
sanguíneos de forma simples relaxariam, resultando
naturalmente em dilatação. Além disso, o aumento da
utilização de oxigênio pelos tecidos, como resultado do
metabolismo mais intenso, teoricamente diminuiría a
disponibilidade de oxigênio para as fibras musculares lisas
nos vasos sanguíneos locais, o que por sua vez também
causaria vasodilatação local.
O mecanismo pelo qual atuaria a teoria da falta de
oxigênio é mostrado na Figura 17-3. Essa figura mostra
uma unidade tecidual, consistindo de metarteríola com
ramo capilar único e seu tecido circunjacente. Na origem
do capilar, existe o esfíncter pré-capilar, e ao redor da
metarteríola existem diversas outras fibras musculares
lisas. Observando-se um tecido como esse ao microscópio
— por exemplo, a asa de morcego — é possível notar que
normalmente os esfíncteres pré-capilares estão
completamente abertos ou fechados. O número de
esfíncteres pré-capilares abertos, a qualquer momento, é
quase proporcional às necessidades nutricionais do tecido.
Os esfíncteres pré-capilares e as metarteríolas abrem e
fecham de forma cíclica muitas vezes por minuto; a
duração das fases abertas é proporcional às necessida-
Figura 17-3 Diagrama de unidade tecidual para a explicação do
controle local agudo por feedback do fluxo sanguíneo,
mostrando metarteríola passando pelo tecido e seu ramo capilar
com seu esfíncter pré-capilar para o controle do fluxo sanguíneo
capilar.
203
Unidade IV A Circulação
des metabólicas de oxigênio pelos tecidos. A abertura e o
fechamento cíclicos são chamados de vasomotilidade.
Vamos explicar como a concentração de oxigênio no
tecido local poderia regular o fluxo sanguíneo por essa
área. Como o músculo liso precisa de oxigênio para
permanecer contraído, pode-se assumir que a força de
contração dos esfíncteres aumentaria após o aumento da
concentração de oxigênio. Consequentemente, quando a
concentração de oxigênio no tecido se elevasse acima de
certo nível, os esfíncteres pré-capilares e as metarteríolas
supostamente fechariam até que as células teciduais
consumissem o excesso de oxigênio. Mas quando o excesso
de oxigênio fosse consumido e sua concentração caísse o
suficiente, os esfíncteres se abriríam de novo reiniciando o
ciclo.
Assim, com base nos dados disponíveis, tanto a teoria
das substâncias vasodilatadoras quanto a teoria da falta de
oxigênio poderíam explicar a regulação local aguda do fluxo
sanguíneo em resposta às necessidades metabólicas
teciduais. Provavelmente, a verdade reside em uma
combinação dos dois mecanismos.
Possível Papel de Outros Nutrientes além do
Oxigênio no Controle Local do Fluxo Sanguíneo. Sob
condições especiais, demonstrou-se que a falta de glicose
no sangue que perfunde os tecidos pode provocar
vasodilatação tecidual local. Também é possível que esse
mesmo efeito ocorra quando outros nutrientes, tais como
aminoácidos ou ácidos graxos, estejam deficientes, embora
isso não tenha sido adequadamente estudado. Além disso,
a vasodilatação ocorre na deficiência vitamí- nica do
beribéri, na qual o paciente apresenta deficiência do
complexo de vitaminas B tiamina, niacina e ribofla- vina.
Nessa doença, o fluxo sanguíneo vascular periférico com
frequência aumenta por duas a três vezes em quase todas
as partes do corpo. Como todas essas vitaminas são
necessárias para a fosforilação induzida pelo oxigênio que
é necessária para a produção de ATP nas células teciduais,
é possível entender como sua deficiência pode levar à
diminuição da capacidade contrátil do músculo liso e por
conseguinte à vasodilatação local.
Exemplos Especiais do Controle "Metabólico" Agudo
Local do Fluxo Sanguíneo
Os mecanismos descritos até agora para o controle local do
fluxo sanguíneo são referidos como “mecanismos
metabólicos” porque todos eles funcionam em resposta às
necessidades metabólicas teciduais. Dois exemplos
adicionais do controle metabólico local do fluxo sanguíneo
são a hiperemia reativa e a hiperemia ativa.
Hiperemia Reativa. Quando a irrigação sanguínea para
um tecido é bloqueada pelo período de alguns segundos a
até 1 hora ou mais e então é desbloqueada, o fluxo
sanguíneo pelo tecido em geral aumenta imediatamente
para até quatro a sete vezes o normal; esse fluxo
aumentado persiste por alguns segundos, se o bloqueio
durou apenas alguns segundos, mas às vezes continua por
muitas horas,
se o fluxo sanguíneo foi bloqueado por uma hora ou mais.
Esse fenômeno é chamado de hiperemia reativa.
A hiperemia reativa é outra manifestação do
mecanismo de regulação “metabólica” local do fluxo
sanguíneo; ou seja, a ausência de fluxo põe em ação todos
os fatores que provocam a vasodilatação. Após curtos
períodos de oclusão vascular, o fluxo sanguíneo adicional
durante a hiperemia reativa se mantém por período
suficiente para repor quase exatamente o déficit tecidual de
oxigênio que ocorreu durante o período de oclusão. Esse
mecanismo enfatiza a íntima conexão entre a regulação
local do fluxo sanguíneo e a oferta de oxigênio e de outros
nutrientes aos tecidos.
Hiperemia Ativa. Quando qualquer tecido se torna
muito ativo, como ocorre no músculo durante o exercício,
na glândula gastrointestinal durante período de
hipersecreção, ou até mesmo no cérebro, durante atividade
mental rápida, a intensidade do fluxo sanguíneo pelos
tecidos aumenta. Mais uma vez, pela simples aplicação dos
princípios básicos do controle local do fluxo sanguíneo, é
possível entender facilmente essa hiperemia ativa. O
aumento do metabolismo local faz com que as células
consumam nutrientes no líquido tecidual de forma rápida e
também liberem grande quantidade de substâncias
vasodilatadoras. O resultado é a dilatação dos vasos
sanguíneos locais e, portanto, o aumento do fluxo
sanguíneo local. Desse modo, o tecido ativo recebe os
nutrientes adicionais necessários para manter seu novo
nível funcional. Como ressaltado anteriormente, a
hiperemia ativa no músculo esquelético pode aumentar o
fluxo sanguíneo muscular local por até 20 vezes durante o
exercício intenso.
“Autorregulação" do Fluxo Sanguíneo quando a
Pressão Arterial É Variada — Mecanismos
“Metabólicos" e “Miogênicos"
Em qualquer tecido do corpo, a elevação rápida da pressão
arterial provoca o aumento imediato do fluxo sanguíneo.
Entretanto, após menos de 1 minuto, o fluxo sanguíneo na
maioria dos tecidos retorna praticamente a seu nível
normal, embora a pressão arterial seja mantida elevada.
Essa normalização é referida como “autorregulação” do
fluxo sanguíneo. Após a ocorrência da autorregulação, o
fluxo sanguíneo local na maioria dos tecidos se
correlaciona à pressão arterial de modo aproximado, de
acordo com a curva contínua “aguda” mostrada na Figura
17-4. Note que, entre as pressões arteriais de cerca de 70
mmHg e de 175 mmHg, o fluxo sanguíneo aumenta por
apenas 20% a 30%, embora a pressão arterial aumente por
150%.
Por quase um século, duas teorias foram propostas para
explicar esse mecanismo de autorregulação aguda. Elas
foram chamadas de (1) teoria metabólica e (2) teoria
miogênica.
A teoria metabólica pode ser facilmente entendida pela
aplicação dos princípios básicos da regulação local do fluxo
sanguíneo, discutida nas seções anteriores. Assim, quando
a pressão arterial fica muito alta, o excesso
204
Capítulo 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos
Figura 17-4 Efeito de diferentes níveis de pressão arterial sobre
o fluxo sanguíneo pelo músculo. A curva vermelha contínua
mostra o efeito quando a pressão arterial é elevada durante
alguns minutos. A curva verde tracejada mostra o efeito quando
a pressão é elevada lentamente ao longo de muitas semanas.
de fluxo fornece oxigênio em demasia, além de muitos
outros nutrientes, aos tecidos e “elimina” os vasodilata-
dores liberados pelos tecidos. Esses nutrientes
(especialmente o oxigênio) e níveis reduzidos de
vasodilatadores provocam então a constrição dos vasos
sanguíneos e o retorno do fluxo para valores próximos aos
normais, apesar da pressão aumentada.
A teoria miogênica, entretanto, sugere que outro
mecanismo, não relacionado ao metabolismo tecidual, seja
a explicação do fenômeno da autorregulação. Essa teoria é
baseada na observação de que o estiramento súbito de
pequenos vasos sanguíneos provoca a contração do
músculo liso da parede vascular. Por isso, propôs-se que a
alta pressão arterial ao estirar o vaso provoca sua
constrição vascular reativa, que reduz o fluxo sanguíneo
para valor próximo ao normal. Ao contrário, sob baixas
pressões, o nível de estiramento do vaso é menor, de modo
que o músculo liso relaxa, reduzindo a resistência vascular
e ajudando o fluxo a voltar ao normal.
A resposta miogênica é inerente ao músculo liso
vascular, podendo ocorrer na ausência de influências
neurológicas ou hormonais. Ela é mais pronunciada nas
arteríolas, mas pode ocorrer também nas artérias, vênulas,
veias e até mesmo nos vasos linfáticos. A contração
miogênica é desencadeada pela despolarização vascular
induzida pelo estiramento, que aumenta rapidamente o
movimento dos íons cálcio do líquido extracelular para as
células, provocando sua contração. Variações da pressão
vascular podem também abrir ou fechar outros canais
iônicos que influenciam a contração dos vasos. Os
mecanismos precisos pelos quais as variações da pressão
provocam a abertura ou o fechamento de canais iônicos
vasculares ainda não são conhecidos, mas provavelmente
envolvem efeitos mecânicos da pressão sobre as proteínas
extracelula- res que são ligadas a elementos do
citoesqueleto da parede vascular ou aos próprios canais
iônicos.
O mecanismo miogênico parece ser importante na
prevenção do estiramento excessivo do vaso sanguíneo
quando a pressão sanguínea aumenta. Entretanto, o papel
do mecanismo miogênico na regulação do fluxo sanguíneo
não está claro porque esse mecanismo, sensível à pressão,
não pode detectar de forma direta as variações do fluxo
sanguíneo tecidual. De fato, os fatores metabó- licos
parecem ser mais importantes que o mecanismo miogênico
em circunstâncias onde as demandas meta- bólicas
teciduais estão significativamente aumentadas, como
durante o exercício muscular vigoroso, que pode provocar
enorme aumento do fluxo sanguíneo no músculo
esquelético.
Mecanismos Especiais para o Controle Agudo do Fluxo
Sanguíneo nos Tecidos Específicos
Embora os mecanismos gerais de controle local do fluxo
sanguíneo discutidos até agora estejam presentes em quase
todos os tecidos do corpo, mecanismos diferentes atuam
em algumas áreas especiais. Todos os mecanismos são
discutidos ao longo deste texto em relação a órgãos
específicos, mas dois mecanismos dignos de nota são os
seguintes:
1. Nos rins, o controle do fluxo sanguíneo depende em
grande parte do mecanismo referido como feedback
tubuloglomerular, no qual a composição do líquido no
início do túbulo distai é detectada por estrutura epite-
lial do túbulo distai, chamada mácula densa. Ela está
situada na região onde o túbulo distai passa adjacente
às arteríolas aferentes e eferentes, no aparelho justa-
glomerular do néfron. Quando quantidade excessiva de
líquido é filtrada pelo glomérulo para o sistema tubular,
sinais de feedback da mácula densa provocam a
constrição das arteríolas aferentes, reduzindo assim o
fluxo sanguíneo renal e a filtração glomerular para
níveis normais ou próximos a eles. Os detalhes desse
mecanismo são discutidos no Capítulo 26.
2. No cérebro, além do controle do fluxo sanguíneo pela
concentração de oxigênio tecidual, as concentrações de
dióxido de carbono e de íons hidrogênio têm papéis
proeminentes. Aumento em qualquer um desses fatores
dilata os vasos cerebrais e permite a rápida eliminação
do excesso de dióxido de carbono e dos íons hidrogênio
dos tecidos cerebrais. Esse mecanismo é importante
porque o nível da excitabilidade cerebral é muito dependente
do controle preciso da concentração do dióxido de carbono e
dos íons hidrogênio. Esse mecanismo especial de controle
do fluxo sanguíneo cerebral é discutido no Capítulo 61.
3. Na pele, o controle do fluxo sanguíneo está intimamente
relacionado à regulação da temperatura corporal. O
fluxo cutâneo e subcutâneo regula a perda calórica do
corpo pela medida do fluxo do coração do núcleo para a
superfície do corpo, onde ocorre a perda para o
ambiente. O fluxo sanguíneo pela pele é controlado em
grande parte pelo sistema nervoso central por meio dos
nervos simpáticos, como discutido no Capítulo 73.
Apesar do fluxo sanguíneo da pele ser de
aproximadamente 3 mL/min/100 g de tecido em
205
U
N
I
D
A
Unidade IV A Circulação
ambiente frio, podem ocorrer grandes mudanças nos
valores quando necessário. Quando os seres humanos
são expostos ao aquecimento do corpo, o fluxo
sanguíneo da pele pode aumentar muitas vezes para
níveis tão elevados como 7a 8 L/min no corpo inteiro.
Quando a temperatura do corpo é reduzida, o fluxo
sanguíneo diminui, caindo para pouco acima de zero
em temperaturas muito baixas. Mesmo com intensa
vasoconstrição, o fluxo sanguíneo da pele é geralmente
grande o suficiente para atender as demandas
metabólicas básicas da pele.
Controle do Fluxo Sanguíneo Tecidual pelos Fatores
de Relaxamento e de Constrição Derivados do
Endotélio
As células endoteliais que revestem os vasos sanguíneos
sintetizam diversas substâncias que, quando liberadas,
podem afetar o grau de relaxamento ou de contração da
parede arterial. Para muitos desses fatores de relaxamento
e de constrição derivados do endotélio, o entendimento dos
papéis fisiológicos estão apenas no início, e sua aplicação
clínica na maior parte dos casos ainda não foi
desenvolvida.
Óxido Nítrico — Um Vasodilatador Liberado por
Células Endoteliais Saudáveis. O óxido nítrico (NO) é o
mais importante dos fatores de relaxamento derivados do
endotélio. Ele é gás lipofílico, liberado por células
endoteliais em resposta a uma variedade de estímulos
químicos e físicos. As enzimas óxido nítrico-sintetases (NOS)
das células endoteliais sintetizam NO a partir da arginina e
oxigênio, e pela redução de nitratos inorgânicos. Depois da
difusão para fora da célula endotelial, o NO tem uma
meia-vida no sangue de cerca de 6 segundos e age
principalmente nos tecidos locais onde é liberado. O NO
ativa guanilato-ciclases solúveis nas células vasculares do
músculo liso (Fig. 17-5), resultando na conversão de
guanosina trifosfato cíclica solúvel (cGTP) em guanosina
monofosfato cíclica (cGMP) e ativação da proteinocinase
dependente de GMP (PKG), com ações intensas que causam
relaxamento dos vasos sanguíneos.
Quando o sangue flui pelas artérias e arteríolas isso
provoca estresse por cisalhamento das células endoteliais
devido ao tracionamento viscoso do sangue contra as
paredes vasculares. Esse cisalhamento distorce as células
endoteliais na direção do fluxo, provocando aumento
significativo da liberação de NO que então relaxa os vasos
sanguíneos. Esse efeito é benéfico, pois os mecanismos
metabólicos locais para controle de fluxo sanguíneo
tecidual dilatam principalmente artérias muito pequenas e
arteríolas em cada tecido. No entanto, quando o fluxo de
sangue por parte microvascular da circulação aumenta,
isso secundariamente estimula a liberação de NO de vasos
mais largos devido ao fluxo aumentado e tensão de
cisalhamento em vasos. A liberação de NO aumenta os
diâmetros dos maiores vasos sanguíneos proximais,
quando o fluxo sanguíneo microvascular aumenta distal-
mente. Sem tal resposta, a eficácia do controle local do
fluxo sanguíneo seria reduzida porque parte importante da
resistência ao fluxo sanguíneo ocorre nas pequenas artérias
proximais.
A síntese e liberação de NO pelas células endoteliais
também são estimuladas por alguns vasoconstritores, tais
como angiotensina II que se liga a receptores específicos nas
células endoteliais. O aumento da liberação de NO protege
da vasoconstrição excessiva.
Quando as células endoteliais são danificadas por
hipertensão crônica ou aterosclerose, a síntese
comprometida de NO pode contribuir para a
vasoconstrição excessiva e piora da hipertensão e do dano
endotelial que, se não tratados, podem eventualmente
causar injúria e dano vascular em tecidos vulneráveis tais
como coração, rins e cérebro.
Mesmo antes da descoberta do NO, médicos usavam
nitroglicerina, nitratos de amilo, e outros derivados de
nitrato para tratar pacientes com angina pectoris,
Sangue
Figura 17-5 Enzima óxido nítrico sintetase (eNOS) em células endoteliais sintetizam óxido nítrico (NO) a partir da arginina e de
oxigênio. O NO ativa a guanilato ciclase solúvel nas células vasculares do músculo liso, resultando na conversão da guanosina trifosfato
cíclica (cGTP) em guanosina monofosfato cíclica (cGMP) que por fim causa relaxamento dos vasos sanguíneos.
206
Capítulo 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos
dor peitoral intensa causada por isquemia do músculo
cardíaco. Esses medicamentos quando clivados quimi-
camente liberam NO e provocam dilatação dos vasos
sanguíneos por todo o corpo, incluindo os vasos
sanguíneos coronarianos.
Outras aplicações importantes da fisiologia e da
farmacologia do NO são o desenvolvimento e usos clínicos
de fármacos (p. ex., sildenafil), que inibem afosfodiestera-
se-5 (PDE-5) específica para cGMP, enzima que degrada
cGMP. Pela diminuição da degradação de cGMP, os
inibidores da PDE-5 prolongam eficazmente as ações do
NO para causar vasodilatação. O primeiro uso clínico dos
inibidores da PDE-5 é no tratamento da disfunção eré- til. A
ereção peniana é causada por impulsos nos nervos
parassimpáticos pelos nervos pélvicos até o pênis, onde os
neurotransmissores acetilcolina e NO são liberados.
Prevenindo a degradação de NO, os inibidores da PDE-5
aumentam a dilatação dos vasos sanguíneos no pênis e
ajudam na ereção, como discutido no Capítulo 80.
Endotelina — Um Poderoso Vasoconstritor Liberado
pelo Endotélio Danificado. Células endoteliais também
liberam substâncias vasoconstritoras. A mais importante
delas é a endotelina, grande peptídeo com 21 aminoáci- dos
que requer apenas quantidades da ordem de nano- gramas
para causar forte vasoconstrição. Essa substância está
presente nas células endoteliais de todas ou da maioria dos
vasos sanguíneos, mas aumenta muito quando os vasos são
lesados. O estímulo usual para sua liberação é o dano ao
endotélio, tais como o causado pelo esmagamento do
tecido ou injeção de agente químico traumatizante no vaso
sanguíneo. Após dano grave ao vaso sanguíneo, a liberação
de endotelina local e a vasoconstrição subsequente
auxiliam a prevenção de hemorragia extensa das artérias
com até 5 milímetros de diâmetro que podem ter sido
rompidas por lesão por esmagamento.
Também se acredita que o aumento da liberação de
endotelina contribui para a vasoconstrição quando o
endotélio é lesado pela hipertensão. Fármacos que
bloqueiam receptores de endotelina têm sido usados no
tratamento de hipertensão pulmonar, mas geralmente não
têm sido utilizados para reduzir a pressão arterial em
pacientes com hipertensão arterial sistêmica.
Regulação do Fluxo Sanguíneo a Longo Prazo
Até este ponto, a maioria dos mecanismos de regulação
local do fluxo sanguíneo que discutimos age dentro de
poucos segundos a alguns minutos após a alteração das
condições locais dos tecidos. Entretanto, mesmo após a
ativação total desses mecanismos, o fluxo sanguíneo em
geral só aumenta apenas por cerca de três quartos do
necessário para suprir precisamente as demandas
adicionais dos tecidos. Por exemplo, quando a pressão
arterial, de forma abrupta, aumenta de 100 para 150
mmHg, o fluxo sanguíneo aumenta quase
instantaneamente por cerca de 100%. Então, após 30
segundos a 2 minutos, o fluxo volta a diminuir para cerca
de 10% a 15% acima do valor original. Isso ilustra a rapidez
dos mecanismos agu
dos para a regulação local do fluxo sanguíneo, mas ao
mesmo tempo demonstra que a regulação não é completa
porque ainda persiste excesso de 10% a 15% de aumento do
fluxo sanguíneo.
Entretanto, ao longo de horas, dias e semanas, uma
forma a longo prazo da regulação local do fluxo sanguíneo
se desenvolve sobreposta ao controle agudo. Essa
regulação a longo prazo é controle muito mais completo de
fluxo de sangue. No exemplo mencionado antes se a
pressão arterial permanecer indefinidamente em 150
mmHg após algumas semanas, o fluxo sanguíneo pelos
tecidos se ajustará de forma gradual quase até a
normalidade. Na Figura 17-4, a curva verde tracejada
demonstra a extrema eficácia dessa regulação local do fluxo
sanguíneo a longo prazo. Note que, uma vez que a
regulação a longo prazo teve tempo para ocorrer, as
variações a longo prazo na pressão arterial entre 50 e 250
mmHg exercem pequeno efeito sobre a intensidade do
fluxo sanguíneo local.
A regulação do fluxo sanguíneo a longo prazo é
especialmente importante quando as demandas
metabólicas do tecido se alteram. Assim, se o tecido passa a
ser cronicamente hiperativo e, portanto, precisar de
quantidades maiores de oxigênio e de outros nutrientes, as
arteríolas e os vasos capilares em geral aumentarão em
número e em tamanho após algumas semanas para suprir
as necessidades do tecido — a menos que o sistema
circulatório tenha ficado patológico ou muito envelhecido
para responder.
Mecanismo de Regulação a Longo Prazo —
Alteração na "VascularizaçãoTecidual"
O mecanismo de regulação do fluxo sanguíneo local a
longo prazo consiste em grande parte na alteração da
vascularização dos tecidos. Por exemplo, se o metabolismo
no tecido é aumentado por período prolongado, a
vascularização aumenta, processo em geral denominado
angiogênese; se o metabolismo for reduzido, a
vascularização diminui. A Figura 17-6 mostra o grande
aumento no número de capilares no músculo tibialis
anterior de rato estimulado eletricamente para contrair por
curto período de tempo, diariamente durante 30 dias,
comparado com o músculo não estimulado da outra perna
do animal.
Assim, ocorre verdadeira reconstrução física da vas-
culatura do tecido para atender às demandas dos tecidos.
Essa reconstrução ocorre rapidamente (em alguns dias) nos
animais jovens. Também ocorre com muita rapidez em
tecidos novos em crescimento, como os tecidos cicatriciais
ou cancerosos; entretanto, ocorre mais lentamente em
tecidos velhos e bem estabelecidos. Assim, o tempo
necessário para que a regulação a longo prazo ocorra pode
ser de apenas alguns dias, no neonato, até meses, nos
idosos. Além disso, o grau final de resposta é muito maior
nos tecidos jovens que nos envelhecidos, de modo que no
neonato a vascularização se ajustará até compensar
exatamente as necessidades de fluxo sanguíneo do tecido,
enquanto, em tecidos mais velhos, a vascularização
frequentemente permanece muito abaixo das necessidades
teciduais.
207
U
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A
Unidade IV A Circulação
Figura 17-6 Grande aumento no número de capilares {pontos
brancos) no músculo tibial anterior de rato que foi estimulado
eletricamente a contrair por curtos períodos de tempo
diariamente por 30 dias (fi), comparado com músculo não
estimulado (A). Os 30 dias de estímulo elétrico intermitente
converteram as fibras predominantemente de contração rápida
e glicolítica do músculo tibial anterior para uma de contração
predominantemente lenta e oxidativa do músculo com número
de capilares aumentado e diâmetro das fibras diminuído, como
mostrado. (Foto cedida por Dr.Thomas Adair.)
O Papel do Oxigênio na Regulação a Longo Prazo. O
oxigênio é importante não apenas para o controle agudo do
fluxo sanguíneo local, mas também para o controle a longo
prazo. Um exemplo dessa importância é a vascu- larização
aumentada nos tecidos de animais que vivem em altas
altitudes, onde o oxigênio atmosférico é baixo. Um
segundo exemplo é representado por fetos de galinha
incubados sob baixo oxigênio, que têm condutividade dos
vasos sanguíneos teciduais até duas vezes maiores que a
normal. Esse mesmo efeito é também dramaticamente
demonstrado em bebês humanos prematuros mantidos em
tendas de oxigênio por razões terapêuticas. O excesso de
oxigênio provoca a interrupção quase imediata do
crescimento vascular na retina dos olhos do bebê
prematuro, chegando a causar degeneração de alguns dos
pequenos vasos formados. Então, quando o lactente é
retirado da
tenda de oxigênio, ocorre hipercrescimento explosivo de
novos vasos para compensar a súbita diminuição na oferta
de oxigênio; de fato, o hipercrescimento é frequentemente
tão intenso que os vasos retinianos crescem para fora da
retina em direção ao humor vítreo do olho, e por fim
provoca cegueira. (Essa condição é chamada de fibro- plasia
retrolenticular.)
A Importância do Fator de Crescimento do
Endotélio Vascular na Formação de Novos Vasos
Sanguíneos
Identificaram-se mais de dúzia de fatores que aumentam o
crescimento de novos vasos sanguíneos, quase todos
pequenos peptídeos. Três desses fatores foram mais bem
caracterizados e consistem no fator de crescimento do endotélio
vascular (FCEV), fator de crescimento de fibro- blastos e
angiogenina; todos eles foram isolados de tecidos com
irrigação sanguínea inadequada. Presume-se que a
deficiência de oxigênio tecidual ou de outros nutrientes, ou
de ambos, leve à formação de fatores de crescimento
vascular (também chamados de “fatores angiogênicos”).
Essencialmente todos os fatores angiogênicos
promovem o crescimento de novos vasos da mesma
maneira. Eles fazem com que novos vasos brotem de outros
vasos pequenos. O primeiro passo é a dissolução da
membrana basal das células endoteliais no local do
brotamento. A isso se segue a rápida reprodução de novas
células endoteliais emergindo da parede vascular como
cordões que se estendem em direção à fonte do fator
angiogênico. As células em cada cordão continuam a se
dividir e em pouco tempo se curvam formando tubo. A
seguir, o tubo se conecta a outro tubo, brotando de outro
vaso doador (outra arteríola ou vênula) e forma alça
capilar, pela qual o sangue começa a fluir. Se o fluxo for
suficientemente intenso, as células musculares lisas por fim
invadem a parede; assim alguns dos novos vasos crescem e
formam novas arteríolas ou vênulas, ou talvez até mesmo
vasos maiores. Assim, a angiogênese explica o modo como
fatores metabólicos em tecidos locais podem provocar o
crescimento de novos vasos.
Algumas outras substâncias, como alguns hormônios
esteroides, exercem precisamente o efeito oposto sobre
pequenos vasos sanguíneos, causando por vezes a
dissolução das células vasculares e o desaparecimento dos
vasos. Assim, os vasos sanguíneos podem ser desfeitos
quando não são necessários. Peptídeos produzidos nos
tecidos também podem bloquear o crescimento de novos
vasos sanguíneos. Por exemplo, a angiostatina, fragmento
da proteína plasminogênio, é inibidor natural da
angiogênese. Endostatina é outro peptídeo antiangiogênico,
que é derivada da quebra do colágeno do tipo XVII. Apesar
de a função fisiológica precisa dessas substâncias
antiangiogênicas ainda serem desconhecidas, há grande
interesse em seus usos potenciais na interrupção do
crescimento de vasos em células tumorais e assim prevenir
o grande aumento de fluxo sanguíneo necessário para
manter o suprimento de nutrientes de tumores de
crescimento rápido.
208
Capítulo 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos
A Vascularização É Determinada pela Necessidade
Máxima de Fluxo Sanguíneo, e não pela Necessidade
Média.
Característica especialmente importante do controle
vascular a longo prazo é o fato de que a vascularização é
determinada em sua maior parte pelo nível máximo de fluxo
sanguíneo necessário, e não pela necessidade média. Por
exemplo, durante o exercício intenso, a necessidade
corporal total de fluxo sanguíneo muitas vezes aumenta
por até seis a oito vezes o fluxo sanguíneo de repouso. Esse
grande excesso de fluxo pode não ser necessário por mais
de alguns minutos a cada dia. Todavia, mesmo essa curta
necessidade pode fazer com que quantidade suficiente de
FCEV seja formada pelos músculos para aumentar sua
vascularização até os níveis necessários. Se não fosse por
essa capacidade, cada vez que a pessoa tentasse realizar
exercício intenso, os músculos não receberiam os nutrientes
necessários, em especial o oxigênio e simplesmente não
seriam capazes de se contrair.
Entretanto, após o desenvolvimento de vascularização
adicional, os novos vasos sanguíneos normalmente
permanecem contraídos, só se abrindo para permitir o
fluxo extra quando estímulos locais apropriados, como a
falta de oxigênio, estímulos nervosos vasodilatadores ou
outros estímulos ativarem o fluxo adicional necessário.
Desenvolvimento de Circulação Colateral —
Um Fenômeno a Longo Prazo da Regulação Local
do Fluxo Sanguíneo
camente pela multiplicação de novos vasos ao longo de
período de semanas a meses.
O exemplo mais importante do desenvolvimento de
vasos sanguíneos colaterais ocorre após trombose de uma
das artérias coronárias. Quase todas as pessoas, após os 60
anos de idade, já tiveram ao menos um dos ramos menores
dos vasos coronarianos bloqueado ou pelo menos ocluído
em parte. Ainda assim, a maioria das pessoas jamais nota
esse fato, devido ao desenvolvimento de colaterais que é
rápido o suficiente para impedir a lesão miocárdica. Os
graves ataques cardíacos só acontecem nas situações em
que a insuficiência coronariana ocorre tão rápida ou tão
gravemente que os colaterais não chegam a se desenvolver.
Controle Humoral da Circulação
O controle humoral da circulação é feito por substâncias
secretadas ou absorvidas pelos líquidos corporais — como
hormônios e fatores produzidos localmente. Algumas
dessas substâncias são formadas por glândulas especiais e
transportadas pelo sangue por todo o corpo. Outras são
formadas em tecidos locais, só causando efeitos
circulatórios locais. Entre os fatores humorais mais
importantes que afetam a função circulatória, encon-
tram-se os seguintes.
Quando uma artéria ou veia é bloqueada em praticamente
qualquer tecido do corpo, em geral novo canal vascular se
desenvolve ao redor do bloqueio e permite pelo menos
nova irrigação parcial de sangue para o tecido afetado. O
primeiro estágio nesse processo é a dilatação de pequenas
alças vasculares que já conectavam o vaso acima do
bloqueio ao vaso abaixo. Essa dilatação ocorre no primeiro
ou segundo minuto, indicando que a dilatação é
provavelmente mediada por fatores metabólicos que
relaxam as fibras musculares dos pequenos vasos
envolvidos. Após essa abertura inicial dos vasos colaterais,
o fluxo sanguíneo frequentemente ainda é menos de um
quarto do necessário para suprir todas as demandas
teciduais. Entretanto nas horas seguintes ocorre maior
abertura; assim, após 1 dia, a metade das necessidades
teciduais já pode ser suprida e, após poucos dias, o fluxo de
sangue é em geral suficiente para suprir sua totalidade.
Os vasos colaterais continuam a crescer por muitos
meses após o bloqueio, formando quase sempre pequenos
canais colaterais múltiplos, em vez de grande vaso único.
Nas condições de repouso, o fluxo sanguíneo em geral
retorna até níveis muito próximos do normal, mas os novos
canais raramente ficam suficientemente grandes para
suprir o fluxo sanguíneo necessário durante atividades
físicas extenuantes. Assim, o desenvolvimento de vasos
colaterais segue os princípios habituais do controle local do
fluxo sanguíneo agudo e a longo prazo; o primeiro, pela
rápida dilatação metabólica, seguido croni
Agentes Vasoconstritores
Norepinefrina e Epinefrina. A norepinefrina é
hormônio vasoconstritor especialmente potente; a epinefrina
é menos potente, e em alguns tecidos causa até mesmo
vasodilatação leve. (Exemplo especial da vasodi- latação
causada pela epinefrina é a das artérias coronárias durante
o aumento da atividade cardíaca.)
Quando o sistema nervoso simpático é estimulado em
quase todas, ou em todas as partes do corpo durante
estresse ou exercício, as terminações nervosas simpáticas
nos tecidos individuais liberam norepinefrina, que excita o
coração e contrai as veias e arteríolas. Além disso, os nervos
simpáticos que suprem as medulas adrenais fazem com que
essas glândulas secretem tanto norepinefrina quanto
epinefrina no sangue. Esses hormônios então circulam por
todas as áreas do corpo e provocam praticamente os
mesmos efeitos sobre a circulação que a estimulação
simpática direta, formando assim sistema duplo de
controle: (1) estimulação nervosa direta e (2) efeitos
indiretos da norepinefrina e/ou epinefrina pelo sangue
circulante.
Angiotensina II. A angiotensina II é outra potente
substância vasoconstritora. Até mesmo um milionésimo de
grama pode aumentar a pressão arterial do ser humano por
50 mmHg ou mais.
O efeito da angiotensina II é o de contrair de forma
muito intensa as pequenas arteríolas. Se isso ocorrer em
área tecidual isolada, o fluxo sanguíneo para essa área
poderá ser intensamente reduzido. Entretanto, a verda-
209
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Unidade IV A Circulação
deira importância da angiotensina II reside no fato de que
em condições normais ela age ao mesmo tempo em muitas
arteríolas do corpo, aumentando a resistência periférica total,
elevando dessa forma a pressão arterial. Assim, esse
hormônio tem papel integral na regulação da pressão
arterial, como discutido em detalhes no Capítulo 19.
Vasopressina. A vasopressina, também chamada
hormônio antidiurético, tem efeito vasoconstritor ainda mais
intenso que a angiotensina II, sendo uma das substâncias
constritoras vasculares mais potentes do organismo. Ela é
formada nas células nervosas do hipotálamo no cérebro
(Caps. 28 e 75), mas é em seguida transportada por axô-
nios nervosos até a hipófise posterior, de onde é por fim
secretada no sangue.
É evidente que a vasopressina poderia exercer efeitos
muito intensos sobre a função circulatória. Entretanto,
normalmente apenas quantidades diminutas de
vasopressina são secretadas; assim, a maioria dos fisiologis-
tas chegou a acreditar que ela tivesse pequeno papel no
controle vascular. Contudo, experimentos demonstraram
que a concentração de vasopressina no sangue circulante
após hemorragia grave pode aumentar o suficiente para
elevar a pressão arterial por até 60 mmHg. Em muitos
casos, esse aumento pode isoladamente normalizar, de
modo quase total a pressão arterial.
A vasopressina tem a função principal de aumentar
muito a reabsorção de água pelos túbulos renais de volta
para o sangue (discutido no Cap. 28) e assim auxiliar no
controle do volume de líquido corporal. Esse é o motivo
pelo qual esse hormônio é também chamado de hormônio
antidiurético.
Agentes Vasodilatadores
Bradicinina. Diversas substâncias chamadas cininas
provocam intensa vasodilatação quando formadas no
sangue e nos líquidos teciduais de alguns órgãos.
As cininas são pequenos polipeptídeos clivados por
enzimas proteolíticas das alfa2-globulinas, no plasma ou
nos líquidos teciduais. Enzima proteolítica com
importância especial para esse propósito é a calicreína,
presente no sangue e nos líquidos teciduais em forma
inativa. Ela é ativada pela maceração do sangue, por
inflamação teci- dual ou por outros efeitos químicos ou
físicos semelhantes no sangue ou nos tecidos. Ao ser
ativada, a calicreína age imediatamente sobre a
alfa2-globulina, liberando a cinina chamada calidina que é
então convertida por enzimas teciduais em bradicinina.
Uma vez formada, a bradicinina persiste por apenas alguns
minutos, pois ela é inativada pela enzima carboxipeptidase
ou pela enzima conversora, a mesma que desempenha papel
essencial na ativação da angiotensina, como discutido no
Capítulo 19. A calicreína ativada é destruída por um
inibidor de calicreína, também presente nos líquidos
corporais.
A bradicinina provoca intensa dilatação arteriolar e
aumento da permeabilidade capilar. Por exemplo, a injeção de 1
micrograma de bradicinina na artéria braquial de
pessoa aumenta o fluxo sanguíneo do braço por seis vezes,
e mesmo quantidades menores quando injetadas
localmente nos tecidos podem provocar edema acentuado,
resultante do aumento de tamanho dos poros capilares.
Existem razões para se acreditar que as cininas
desempenham papéis especiais na regulação do fluxo
sanguíneo e no extravasamento capilar de líquidos nos
tecidos inflamados. Acredita-se também que a bradicinina
tenha papel normal na regulação do fluxo sanguíneo da
pele, bem como nas glândulas salivares e gastrointestinais.
Histamina. A histamina é liberada em praticamente
todos os tecidos corporais se o tecido for lesado ou se
tornar inflamado, ou se passar por reação alérgica. A maior
parte da histamina deriva de mastócitos nos tecidos lesados
e de basófilos no sangue.
A histamina exerce potente efeito vasodilatador nas
arteríolas e, como a bradicinina, tem a capacidade de
aumentar muito a porosidade capilar, permitindo o
extravasamento de líquido e de proteínas plasmáticas para
os tecidos. Em muitas condições patológicas, a intensa
dilatação arteriolar e o aumento da porosidade capilar
produzidos pela histamina fazem com que enorme
quantidade de líquido extravase da circulação para os
tecidos, causando edema. Os efeitos vasodilatadores locais
e produtores de edema da histamina são especialmente
proeminentes durante reações alérgicas, como discutidos
no Capítulo 34.
Controle Vascular por íons e Outros Fatores
Químicos
Muitos íons e outros fatores químicos diferentes podem
dilatar ou contrair os vasos sanguíneos locais. A maioria
tem pequena função na regulação geral da circulação, mas
alguns efeitos específicos são:
1. Aumento da concentração de íons cálcio provoca
vasoconstrição. Isso resulta do efeito geral do cálcio de
estimular a contração do músculo liso, como discutido
no Capítulo 8.
2. Aumento da concentração de íons potássio, dentro da
variação fisiológica, provoca vasodilatação. Isso resulta
da capacidade dos íons potássio de inibir a contração do
músculo liso.
3. Aumento da concentração de íons magnésio provoca
intensa vasodilatação porque os íons magnésio inibem a
contração do músculo liso.
4. Aumento da concentração de íons hidrogênio
(diminuição do pH) provoca a dilatação das arteríolas.
Ao contrário, a ligeira diminuição da concentração de
íons hidrogênio provoca constrição arteriolar.
5. Os ânions com efeitos significativos sobre os vasos
sanguíneos são o acetato e o citrato, e ambos provocam
graus leves de vasodilatação.
6. Aumento da concentração de dióxido de carbono provoca
vasodilatação moderada na maioria dos tecidos, mas
vasodilatação acentuada no cérebro. Além disso,
210
Capítulo 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos
o dióxido de carbono no sangue agindo sobre o centro
vasomotor do cérebro exerce intenso efeito indireto,
transmitido pelo sistema nervoso vasoconstritor
simpático, causando vasoconstrição generalizada em
todo
Referências
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o corpo.
Grande Parte dos Vasodilatadores e Vasoconstri-
tores Exerce Pouco Efeito a Longo Prazo no Fluxo
Sanguíneo, a Menos que Alterem a Intensidade Me-
tabólica dos Tecidos. Na maioria dos casos, o fluxo
sanguíneo tecidual e o débito cardíaco (a soma do fluxo em
todos os tecidos do corpo) não são substancialmente
alterados, exceto por um dia ou dois em estudos
experimentais, quando há infusão crônica de grandes
quantidades de vasoconstritores potentes, tais como
angiotensina II ou vasodilatadores, como a bradicinina. Por
que o fluxo sanguíneo não é alterado significativamente na
maioria dos tecidos, mesmo na presença de grandes
quantidades dessas substâncias vasoativas?
Para responder essa questão, devemos retornar para
um dos princípios fundamentais da função circulatória que
discutimos antes — a capacidade de cada tecido de
autorregular seu próprio fluxo sanguíneo de acordo com
suas necessidades metabólicas e outras funções tecidu- ais.
A administração de vasoconstrictores potentes, tais como
angiotensina II, pode causar diminuição transitória no
fluxo sanguíneo e no débito cardíaco, mas normalmente
tem pouco efeito a longo prazo se não alterar a intensidade
metabólica dos tecidos. Da mesma forma, a
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maioria dos vasodilatadores causa apenas mudanças de
curta duração no fluxo sanguíneo tecidual e no débito
cardíaco se não alterar o metabolismo do tecido. Portanto, o
fluxo sanguíneo é geralmente regulado de acordo com as
necessidades específicas do tecido, desde que a pressão
arterial seja adequada para perfusão desses tecidos.
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211
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(página deixada intencionalmente em branco)
CAPÍTULO 18
Regulação Nervosa da Circulação e o
Controle Rápido da Pressão Arterial
Regulação Nervosa
da Circulação
Como discutido no Capítu-
lo 17, o ajuste do fluxo san-
guíneo nos tecidos e órgãos
do corpo ocorre em sua
maior parte por meio de mecanismos locais de controle.
Discutiremos neste capítulo que o controle nervoso da
circulação tem funções mais globais, como a redistribui-
ção do fluxo sanguíneo para diferentes áreas do corpo,
aumentando ou diminuindo a atividade de bombeamento
do coração, e realizando o controle muito rápido da pres-
são arterial sistêmica.
O controle nervoso da circulação é feito quase
inteiramente por meio do sistema nervoso autônomo. O
funcionamento total desse sistema é apresentado no
Capítulo 60, e esse tópico foi também introduzido no
Capítulo 17. Para a presente discussão, consideraremos as
características anatômicas e funcionais específicas
adicionais, o que será feito a seguir.
Sistema Nervoso Autônomo
O componente mais importante de longe do sistema
nervoso autônomo na regulação da circulação é certamente
o sistema nervoso simpático. O sistema nervoso paras- simpático,
no entanto, contribui de modo importante para a regulação
da função cardíaca, como descreveremos adiante, neste
capítulo.
tribuídos para a vasculatura das áreas periféricas. As vias
precisas dessas fibras na medula espinhal e nas cadeias
simpáticas são discutidas no Capítulo 60.
Inervação Simpática dos Vasos Sanguíneos. A
Figura 18-2 mostra a distribuição das fibras nervosas
simpáticas para os vasos sanguíneos, demonstrando que na
maioria dos tecidos todos os vasos, exceto os capilares, são
inervados. Os esfíncteres pré-capilares e metarterío- las são
inervados em alguns tecidos como nos vasos sanguíneos
mesentéricos, embora sua inervação simpática não seja em
geral tão densa como nas pequenas artérias, arteríolas e
veias.
A inervação das pequenas artérias e das arteríolas permite
a estimulação simpática para aumentar a resistência ao fluxo
sanguíneo e, portanto, diminuir a velocidade do fluxo pelos
tecidos.
A inervação dos vasos maiores, em particular das veias,
torna possível para a estimulação simpática diminuir seu
volume. Isso pode impulsionar o sangue para o coração e
assim ter um papel importante na regulação do
bombeamento cardíaco, como explicaremos adiante neste e
nos capítulos subsequentes.
Fibras Nervosas Simpáticas para o Coração. As
fibras simpáticas também se dirigem diretamente para o
coração, como mostrado na Figura 18-1 e discutido também
no Capítulo 9. É importante lembrar que a estimulação
simpática aumenta acentuadamente a atividade cardíaca,
tanto pelo aumento da frequência cardíaca quanto pelo
aumento da força e do volume de seu bombeamento.
Sistema Nervoso Simpático. A Figura 18-1 mostra a
anatomia do controle circulatório pelo sistema nervoso
simpático. Fibras nervosas vasomotoras simpáticas saem
da medula espinhal pelos nervos espinhais torácicos e pelo
primeiro ou dois primeiros nervos lombares. A seguir,
passam imediatamente para as cadeias simpáticas, situadas
nos dois lados da coluna vertebral. Daí, seguem para a
circulação por meio de duas vias: (1) por nervos simpáticos
específicos que inervam principalmente a vasculatura das
vísceras intestinais e do coração, como mostrado no lado
direito da Figura 18-1, e (2) quase imediatamente para os
segmentos periféricos dos nervos espinhais, dis
Controle Parassimpático da Função Cardíaca,
Especialmente a Frequência Cardíaca. Embora o sistema
nervoso parassimpático seja extremamente importante para
muitas outras funções autônomas do corpo, como o
controle das múltiplas ações gastrintestinais, ele
desempenha apenas papel secundário na regulação da
função vascular na maioria dos tecidos. Seu efeito
circulatório mais importante é o controle da frequência
cardíaca pelas fibras nervosas parassimpáticas para o coração
nos nervos vagos, representados na Figura 18-1 pela linha
vermelha tracejada que parte do bulbo diretamente para o
coração.
213
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Unidade IV A Circulação
Vasos
sanguíneos
Vago
Coração
Vasos
sanguíneos
Figura 18-1 Anatomia do controle nervoso simpático da circulação. A linha vermelha tracejada representa o nervo vago, que leva sinais
parassimpáticos para o coração.
Os efeitos da estimulação parassimpática sobre a função
cardíaca foram discutidos de forma detalhada no Capítulo
9. Essa estimulação provoca principalmente acentuada
diminuição da frequência cardíaca e redução ligeira da
contratilidade do músculo cardíaco.
Sistema Vasoconstritor Simpático e seu Controle pelo
Sistema Nervoso Central
Os nervos simpáticos contêm inúmeras fibras nervosas
vasoconstritoras e apenas algumas fibras vasodilatadoras.
As fibras vasoconstritoras estão distribuídas para todos os
segmentos da circulação, embora mais para alguns tecidos
que outros. O efeito vasoconstritor simpático é
especialmente intenso nos rins, nos intestinos, no baço e na
pele, e muito menos potente no músculo esquelético e no
cérebro.
Centro Vasomotor no Cérebro e seu Controle pelo
Sistema Vasoconstritor. A área bilateral referida como
centro vasomotor está situada no bulbo, em sua substância
reticular e no terço inferior da ponte, como mostrado
nas Figuras 18-1 e 18-3. Esse centro transmite impulsos
parassimpáticos por meio dos nervos vagos até o coração, e
impulsos simpáticos, pela medula espinhal e pelos nervos
simpáticos periféricos, para praticamente todas as artérias,
arteríolas e veias do corpo.
Embora a organização completa do centro vasomotor
ainda seja incerta, foi possível demonstrar por
experimentos algumas de suas áreas importantes:
1. Área vasoconstritor a bilateral, situada nas partes ante-
rolaterais do bulbo superior. Os neurônios que se
originam dessa área distribuem suas fibras por todos os
níveis da medula espinhal, onde excitam os neurônios
vasoconstritores pré-ganglionares do sistema nervoso
simpático.
2. Área vasodilatadora bilateral, situada nas partes ante-
rolaterais da metade inferior do bulbo. As fibras desses
neurônios se projetam para cima, até a área vasocons-
tritora descrita; elas inibem sua atividade vasoconstri-
tora, causando assim vasodilatação.
214
Capítulo 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial
Artérias
CENTRO
VASOMOTOR
Orbital
Motora Substância
Mesencéfalo
Temporal
Ponte
Bulbo
VASODILATADORAS
VASOCONSTRITORAS
Figura 18-3 Áreas do cérebro com participação importante na
regulação nervosa da circulação. As linhas tracejadas
representam vias inibitórias.
3. Área sensorial bilateral situada no trato solitário, nas
porções posterolaterais do bulbo e da ponte inferior. Os
neurônios dessa área recebem sinais nervosos sen-
soriais do sistema circulatório, principalmente por meio
dos nervos vago e glossofaríngeo, e seus sinais ajudam a
controlar as atividades das áreas vasoconstri- tora e
vasodilatadora do centro vasomotor, realizando assim o
controle “reflexo” de muitas funções circulatórias.
Exemplo é o reflexo barorreceptor para o controle da
pressão arterial que descreveremos adiante, neste
capítulo.
A Constrição Parcial Contínua dos Vasos Sanguíneos
É Normalmente Causada pelo Tônus Vasoconstritor
Simpático. Em condições normais, a área vasocons- tritora
do centro vasomotor transmite continuamente sinais para
as fibras nervosas vasoconstritoras simpáticas em todo o
corpo, provocando a despolarização repetitiva dessas
fibras, com frequência de cerca de meio a
dois impulsos por segundo. Essa despolarização contínua é
referida como tônus vasoconstritor simpático. Esses impulsos
normalmente mantêm o estado parcial de contração dos
vasos sanguíneos, chamado tônus vasomotor.
A Figura 18-4 demonstra o significado do tônus
vasoconstritor. No experimento dessa figura, foi
administrada anestesia espinhal total do animal, que
bloqueou toda a transmissão dos impulsos nervosos
simpáticos da medula para a periferia. Como resultado, a
pressão arterial caiu de 100 para 50 mmHg, demonstrando
o efeito da perda do tônus vasoconstritor em todo o corpo.
Alguns minutos depois, uma pequena quantidade do
hormônio norepi- nefrina foi injetada no sangue (a
norepinefrina é a principal substância hormonal
vasoconstritora secretada pelas terminações das fibras
nervosas vasoconstritoras simpáticas em todo o corpo).
Quando o hormônio injetado foi transportado pelo sangue
para os vasos sanguíneos, estes novamente se contraíram e
a pressão arterial aumentou até nível ainda maior que o
normal durante 1 a 3 minutos, até a degradação da
norepinefrina.
Controle da Atividade Cardíaca pelo Centro
Vasomotor. O centro vasomotor ao mesmo tempo em que
controla a constrição vascular regula também a atividade
cardíaca. Suas porções laterais transmitem impulsos
excitatórios por meio das fibras nervosas simpáticas para o
coração, quando há necessidade de elevar a frequência
cardíaca e a contratilidade. Por sua vez, quando é
necessário reduzir o bombeamento cardíaco, a porção
mediai do centro vasomotor envia sinais para os núcleos
dorsais dos nervos vagos adjacentes, que então transmitem
impulsos parassimpáticos pelos nervos vagos para o
coração, diminuindo a frequência cardíaca e a
contratilidade. Dessa forma, o centro vasomotor pode
aumentar ou diminuir a atividade cardíaca. A frequência e
a força da contração cardíaca aumentam quando ocorre
vaso- constrição e diminuem quando esta é inibida.
Controle do Centro Vasomotor por Centros
Nervosos Superiores. Grande número de pequenos
neurônios situados ao longo da substância reticular da ponte,
do mesencéfalo e do diencéfalo pode excitar ou inibir o centro
vasomotor. Essa substância reticular é representada, na
Figura 18-3, pela região de coloração rosa. Em geral, os
neurônios nas partes mais laterais e superiores da
substância reticular provocam excitação, enquanto as
porções mais mediais e inferiores causam inibição.
O hipotálamo tem participação especial no controle do
sistema vasoconstritor, por poder exercer potentes efeitos
excitatórios ou inibitórios sobre o centro vasomotor. As
porções posterolaterais do hipotálamo causam
principalmente excitação, enquanto a porção anterior pode
causar excitação ou inibição leves, de acordo com a parte
precisa do hipotálamo anterior que é estimulada.
Muitas partes do córtex cerebral também podem excitar
ou inibir o centro vasomotor. A estimulação do córtex motor,
por exemplo, excita o centro vasomotor por meio de
impulsos descendentes transmitidos para o hipo-
215
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Unidade IV A Circulação
Figura 18-4 Efeito da anestesia espinhal total sobre a pressão arterial, mostrando a acentuada redução na pressão resultante da perda
do “tônus vasomotor”.
tálamo, e então para o centro vasomotor. Além disso, a
estimulação do lobo temporal anterior, das áreas orbitais do
córtex frontal, da parte anterior do giro cingulado, da amígdala,
do septo e do hipocampo pode excitar ou inibir o centro
vasomotor, dependendo das regiões estimuladas precisas
dessas áreas e da intensidade do estímulo. Assim, diversas
áreas basais dispersas pelo encéfalo podem afetar
profundamente a função cardiovascular.
Norepinefrina — A Substância Transmissora da
Vasoconstrição Simpática. A substância secretada pelas
terminações dos nervos vasoconstritores consiste quase
inteiramente em norepinefrina, que age diretamente sobre
os receptores alfa-adrenérgicos da musculatura vascular lisa,
causando vasoconstrição, como discutido no Capítulo 60.
Medulas Adrenais e sua Relação com o Sistema
Vaso- constritor Simpático. Ao mesmo tempo em que os
impulsos simpáticos são transmitidos para os vasos
sanguíneos, também o são para as medulas adrenais,
provocando a secreção tanto de epinefrina quanto de
norepinefrina no sangue circulante. Esses dois hormônios são
transportados pela corrente sanguínea para todas as partes
do corpo, onde agem de modo direto sobre todos os vasos
sanguíneos, causando geralmente vasoconstrição. Em
alguns tecidos, a epinefrina provoca vasodilatação, já que
ela também tem um efeito estimulador “beta”-adrenér-
gico que dilata os vasos em vez de contraí-los, como
discutido no Capítulo 60.
Sistema Vasodilatador Simpático e seu Controle pelo
Sistema Nervoso Central. Os nervos simpáticos para os
músculos esqueléticos contêm fibras vasodilatadoras além das
constritoras. Em alguns animais, como o gato, essas fibras
dilatadoras liberam em suas terminações acetilco-
lina, e não norepinefrina, embora se acredite que nos pri- matas o
efeito vasodilatador seja causado pela epinefrina, que excita os
receptores beta-adrenérgicos na vasculatura muscular.
A via de controle pelo sistema nervoso central do sistema
vasodilatador é demonstrada pelas linhas tracejadas na Figura 18-3.
A principal área do cérebro que controla esse sistema é o
hipotálamo anterior.
A Possível Insignificância do Sistema Vasodilatador
Simpático. Existem dúvidas sobre a importância da participação
do sistema vasodilatador simpático no controle da circulação nos
seres humanos porque o bloqueio completo dos nervos simpáticos
para os músculos praticamente não afeta a capacidade desses
músculos de controlar o próprio fluxo sanguíneo em resposta às
suas necessidades. Ainda assim, alguns experimentos sugerem que
o sistema vasodilatador simpático provoca a vasodilatação inicial
nos músculos esqueléticos no início do exercício, para permitir o
aumento antecipatório do fluxo sanguíneo antes mesmo que os
músculos precisem de nutrientes adicionais.
Desmaio Emocional — Síncope Vasovagal. Reação vaso-
dilatadora particularmente interessante ocorre em pessoas que
apresentam intensos distúrbios emocionais que provocam desmaio.
Nesse caso, o sistema vasodilatador muscular fica ativado, e ao
mesmo tempo o centro vagai cardioini- bitório transmite fortes
sinais para o coração, diminuindo de modo acentuado a frequência
cardíaca. A pressão arterial cai rapidamente, o que reduz o fluxo
sanguíneo para o cérebro, fazendo com que o indivíduo perca a
consciência. Esse efeito global é chamado de síncope vasovagal. O
desmaio emocional se inicia com pensamentos perturbadores no
córtex cerebral. A via segue então provavelmente para o centro
vasodilatador do hipotálamo anterior, próximo aos centros vagais
do bulbo, para o coração, pelos nervos vagos e também pela
medula espinhal, para os nervos simpáticos vasodilatadores dos
músculos.
216
Capítulo 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial
O Papel do Sistema Nervoso no Controle Rápido
da Pressão Arterial
Uma das mais importantes funções do controle nervoso da
circulação é sua capacidade de causar aumentos rápidos da
pressão arterial. Para isso, todas as funções vaso-
constritoras e cardioaceleradoras do sistema nervoso
simpático são estimuladas simultaneamente. Ao mesmo
tempo, ocorre a inibição recíproca de sinais inibitórios
parassimpáticos vagais para o coração. Assim, ocorrem a
um só tempo três importantes alterações, cada uma
ajudando a elevar a pressão arterial. Essas alterações são as
seguintes:
1. A grande maioria das arteríolas da circulação sistêmica se
contrai, o que aumenta muito a resistência periférica
total, aumentando assim a pressão arterial.
2. As veias em especial se contraem fortemente (embora os outros
grandes vasos da circulação também o façam), o que desloca
sangue para fora dos grandes vasos sanguíneos
periféricos, em direção ao coração, aumentando o
volume nas câmaras cardíacas. O esti- ramento do
coração então aumenta intensamente a força dos
batimentos, bombeando maior quantidade de sangue, o
que também eleva a pressão arterial.
3. Por fim, o próprio coração é diretamente estimulado pelo
sistema nervoso autônomo, aumentando ainda mais o
bombeamento cardíaco. Grande parte desse aumento é
provocada pela elevação da frequência cardíaca que às
vezes atinge valor três vezes maior que o normal. Além
disso, sinais nervosos simpáticos exercem efeito direto
importante, aumentando a força contrátil do músculo
cardíaco, o que também aumenta a capacidade do
coração de bombear maiores volumes de sangue.
Durante estimulação simpática intensa, o coração pode
bombear cerca de duas vezes mais sangue que nas
condições normais, o que contribui ainda mais para a
elevação aguda da pressão arterial.
Rapidez do Controle Nervoso da Pressão
Arterial.
Característica especialmente importante do controle
nervoso da pressão arterial é a rapidez de sua resposta, que
se inicia em poucos segundos e com frequência duplica a
pressão em 5 a 10 segundos. Ao contrário, a inibição súbita
da estimulação cardiovascular nervosa pode reduzir a
pressão arterial até a metade da normal em 10 a 40
segundos. Portanto, o controle nervoso da pressão arterial é
certamente o mais rápido de todos os mecanismos de
controle pressórico.
Aumento da Pressão Arterial Durante o Exercício
Muscular e Outras Formas de Estresse
Exemplo importante da capacidade do sistema nervoso de
aumentar a pressão arterial é o aumento da pressão que
ocorre durante o exercício muscular. Durante o exercício
intenso, os músculos requerem fluxo sanguíneo muito
aumentado. Parte desse aumento resulta de vasodi-
latação local, causada pela intensificação do metabolismo
das células musculares, como explicado no Capítulo 17.
Aumento adicional resulta da elevação simultânea da
pressão arterial em toda a circulação, causada pela
estimulação simpática durante o exercício. Quando o
exercício é vigoroso, a pressão arterial quase sempre se
eleva por cerca de 30% a 40%, o que aumenta o fluxo
sanguíneo para quase o dobro.
O aumento da pressão arterial durante o exercício
resulta, em sua maior parte, do seguinte efeito: ao mesmo
tempo em que as áreas motoras do cérebro são ativadas
para produzir o exercício, a maior parte do sistema de
ativação reticular do tronco cerebral é também ativada,
aumentando de forma acentuada a estimulação das áreas
vasoconstritoras e cardioaceleradoras do centro vasomo-
tor. Esses efeitos aumentam instantaneamente a pressão
arterial para se adequar à maior atividade muscular.
Em muitos outros tipos de estresse além do exercício
muscular pode ocorrer elevação na pressão. Por exemplo,
durante o medo extremo, a pressão arterial às vezes
aumenta até 75 a 100 mmHg, em poucos segundos. Essa é a
chamada reação de alarme, que gera um excesso de pressão
arterial que pode suprir imediatamente o fluxo sanguíneo
para os músculos do corpo que precisem responder de
forma instantânea para fugir de algum perigo.
Mecanismos Reflexos para a Manutenção da
Pressão Arterial Normal
Além das funções do exercício e do estresse do sistema
nervoso autônomo, para elevar a pressão arterial existem
muitos mecanismos subconscientes especiais de controle
nervoso que operam simultaneamente para manter a
pressão arterial em seus valores normais ou próximos
deles. Quase todos são mecanismos reflexos de feedback
negativo que explicaremos nas próximas seções.
O Sistema Barorreceptor de Controle da Pressão
Arterial — Reflexos Barorreceptores
O reflexo barorreceptor é o mais conhecido dos mecanismos
nervosos de controle da pressão arterial. Basicamente, esse
reflexo é desencadeado por receptores de estira- mento,
referidos como barorreceptores ou pressorecep- tores,
localizados em pontos específicos das paredes de diversas
grandes artérias sistêmicas. O aumento da pressão arterial
estira os barorreceptores, fazendo com que transmitam
sinais para o sistema nervoso central. Sinais de “feedback”
são então enviados de volta pelo sistema nervoso
autônomo para a circulação, reduzindo a pressão arterial
até seu nível normal.
Anatomia Fisiológica dos Barorreceptores e sua Iner-
vação. Os barorreceptores são terminações nervosas do tipo
em buquê localizadas nas paredes das artérias; são
estimuladas pelo estiramento. Nas paredes de
praticamente todas as grandes artérias nas regiões torácica
e cervical existem poucos barorreceptores; contudo, como
mostrado na Figura 18-5, os barorreceptores são
extremamente abundantes (1) na parede de cada artéria
caró-
217
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Unidade IV A Circulação
Nervo glossofaríngeo
Nervo de
Hering
Corpo carotídeo
Seio carotídeo
Nervo vago
Barorreceptores aórticos
Figura 18-5 O sistema barorreceptor de controle da pressão
arterial.
tida interna, pouco acima da bifurcação carotídea, na área
conhecida como seio carotídeo e (2) na parede do arco
aórtico.
A Figura 18-5 mostra que os sinais dos “barorreceptores
carotídeos” são transmitidos pelos nervos de Hering para os
nervos glossofaríngeos na região cervical superior, e daí para
o trato solitário na região bulbar do tronco encefálico. Sinais
dos “barorreceptores aórticos” no arco da aorta são
transmitidos pelos nervos vagos para o mesmo trato solitário
do bulbo.
Resposta dos Barorreceptores à Pressão Arterial. A
Figura 18-6 mostra o efeito de diferentes níveis de pressão
arterial sobre a frequência dos impulsos pelo nervo de
Hering do seio carotídeo. Note que os barorreceptores do
seio carotídeo não são estimulados pelas pressões entre 0 e
50 a 60 mmHg, mas acima desses níveis respondem de
modo progressivamente mais rápido, atingindo o máximo
em torno de 180 mmHg. As respostas dos barorreceptores
aórticos são semelhantes às dos receptores carotídeos,
exceto pelo fato de operarem em geral em níveis de pressão
arterial cerca de 30 mmHg mais elevados.
Note especialmente que na faixa normal de pressão em
que operam de cerca de 100 mmHg, mesmo ligeira
alteração da pressão causa forte variação do sinal do baror-
reflexo, reajustando a pressão arterial de volta ao normal.
Assim, o mecanismo de feedback dos barorreceptores
funciona com maior eficácia na faixa de pressão em que ele
é mais necessário.
Figura 18-6 Ativação dos barorreceptores em diferentes níveis
de pressão arterial. Al, variação dos impulsos dos seios
carotídeos por segundo; AP, variação da pressão arterial em
mmHg.
Os barorreceptores respondem rapidamente às
alterações da pressão arterial; de fato, a frequência dos
impulsos aumenta em fração de segundo durante cada
sístole e diminui novamente durante a diástole. Além
disso, os barorreceptores respondem com muito mais rapidez
às variações da pressão que à pressão estável, ou seja, se a
pressão arterial média é de 150 mmHg, mas em dado
momento aumentar rapidamente a frequência da
transmissão de impulsos pode ser até duas vezes maior que
quando a pressão está estacionária, em 150 mmHg.
Reflexo Circulatório Desencadeado pelos
Barorreceptores. Depois que os sinais dos barorreceptores
chegaram ao trato solitário do bulbo, sinais secundários
inibem o centro vasoconstritor bulbar e excitam o centro
parassimpático vagai. Os efeitos finais são (1) vaso- dilatação
das veias e das arteríolas em todo o sistema circulatório
periférico e (2) diminuição da frequência cardíaca e da força da
contração cardíaca. Desse modo, a excitação dos
barorreceptores por altas pressões nas artérias provoca a
diminuição reflexa da pressão arterial, devido à redução da
resistência periférica e do débito cardíaco. Ao contrário, a
baixa pressão tem efeitos opostos, provocando a elevação
reflexa da pressão de volta ao normal.
A Figura 18-7 demonstra uma típica alteração reflexa da
pressão arterial, causada pela oclusão das duas artérias
carótidas comuns. Isso reduz a pressão nos seios
carotídeos, resultando na diminuição dos sinais dos
barorreceptores e menor efeito inibitório sobre o centro
vasomotor, que passa a ser então muito mais ativo que o
normal, fazendo com que a pressão arterial aumente e
permaneça elevada durante os 10 minutos em que as
carótidas permanecem obstruídas. A remoção da oclusão
permite que a pressão nos seios carotídeos se eleve, e o
reflexo dos seios carotídeos provoca então a queda
imediata da pressão aórtica até nível ligeiramente abaixo
do normal, como supercompensação reflexa, seguida pelo
retorno ao normal 1 minuto depois.
218
Capítulo 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial
Figura 18-7 Efeito reflexo típico do seio carotídeo sobre a
pressão arterial aórtica, causado pelo pinçamento das duas
artérias carótidas comuns (após vagotomia bilateral).
Função dos Barorreceptores durante Variações da
Postura Corporal. A capacidade dos barorreceptores de
manter a pressão arterial relativamente constante na parte
superior do corpo é importante quando a pessoa fica em pé,
após ter ficado deitada. Imediatamente após a mudança de
posição, a pressão arterial, na cabeça e na parte superior do
corpo, tende a diminuir, e a acentuada redução dessa
pressão poderia provocar a perda da consciência. Contudo,
a queda da pressão nos barorreceptores provoca reflexo
imediato, resultando em forte descarga simpática em todo
o corpo, o que minimiza a queda da pressão na cabeça e na
parte superior do corpo.
Função de "Tamponamento" Pressórico do Sistema de
Controle dos Barorreceptores. Como o sistema dos
barorreceptores se opõe aos aumentos ou diminuições da
pressão arterial, ele é chamado sistema de tamponamento
pressórico, e os nervos dos barorreceptores são chamados
nervos tampões.
A Figura 18-8 mostra a importância dessa função de
tamponamento dos barorreceptores. A parte superior da
figura mostra o registro da pressão arterial de cão normal
durante 2 horas, e a parte inferior mostra o registro da
pressão arterial de cão cujos nervos barorreceptores dos
seios carotídeos e da aorta foram removidos. Note a
extrema variabilidade da pressão do cão desnervado,
causada por eventos simples durante o dia, tais como
deitar, ficar em pé, excitação, alimentação, defecação e
ruídos.
A Figura 18-9 mostra as distribuições da frequência da
pressão arterial média, registrada durante 24 horas no cão
normal e no desnervado. Note que, quando os
barorreceptores estavam funcionando normalmente, a
pressão arterial média permaneceu restrita à estreita faixa
entre 85 e 115 mmHg, durante todo o dia — de fato,
durante a maior parte do tempo ela se manteve exatamente
em 100 mmHg. Ao contrário, após a desnervação dos
barorreceptores, a curva de distribuição da frequência se
alargou como a curva inferior da figura, demonstrando que
a variação pressórica aumentou 2,5 vezes, muitas vezes
NORMAL
200 -i , ..................................................................
Figura 18-8 Registro durante 2 horas da pressão arterial em
cão normal (acima) e no mesmo cão (abaixo) várias semanas
após a desnervação dos barorreceptores. (Redesenhada de
Cowley, AW Jr, Liard JF, Guyton AC: Role of baroreceptor reflex
in daily control of arterial blood pressure and other variables in
dogs. Circ Res 32:564, 1973. Com a permissão da American
Heart Association, Inc.)
caindo para 50 mmHg ou se elevando até 160 mmHg.
Assim, é possível perceber a extrema variabilidade da
pressão na ausência do sistema barorreceptor arterial.
Em resumo, a função primária do sistema barorreceptor
arterial consiste em reduzir a variação minuto a minuto da
pressão arterial para um terço da que seria se esse sistema
não existisse.
Os Barorreceptores São Importantes para a Regulação a
Longo Prazo da Pressão Arterial? Embora os
barorreceptores arteriais executem controle rigoroso
momento a momento da pressão arterial, sua importância
na regulação a longo prazo é controversa. A razão pela
qual os barorreceptores foram considerados por alguns
fisio- logistas relativamente pouco importantes na
regulação crônica da pressão arterial consiste no fato de
que eles tendem a se reprogramar para o nível de pressão ao
qual estão expostos após 1 a 2 dias, isto é, se a pressão
arterial se elevar do valor normal de 100 mmHg para 160
mmHg, de início ocorrerá descarga com frequência muito
alta de impulsos. Dentro de alguns minutos, a frequência
dos impulsos diminui consideravelmente para, em
seguida, reduzir-se cada vez mais lentamente por 1 a 2
dias, ao final dos quais retorna quase ao normal, apesar da
manutenção da pressão em 160 mmHg. Ao contrário,
quando a pressão arterial cai para um nível muito baixo, os
barorreceptores inicialmente não transmitem impulsos,
mas de
219
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Unidade IV A Circulação
Figura 18-9 Curvas de distribuição da frequência da pressão
arterial, em período de 24 horas em cão normal e no mesmo cão
várias semanas após desnervação dos barorreceptores.
(Redesenhada de Cowley, AW Jr, Liard JF, Cuyton AC: Role of
baroreceptor reflex in daily control of arterial blood pressure and
other variables in dogs. Circ Res 32:564,1973. Com a permissão
da American Heart Association, Inc.)
modo gradual, ao longo de 1 a 2 dias, a frequência dos
impulsos barorreceptores retorna ao nível de controle.
Essa “reprogramação” dos barorreceptores pode
atenuar sua potência como sistema de controle para a
correção de distúrbios que tendam a alterar a pressão
arterial por períodos mais longos que poucos dias. Estudos
experimentais, entretanto, sugeriram que os
barorreceptores não se reprogramam de forma total,
podendo assim contribuir para a regulação a longo prazo
da pressão arterial, especialmente por influenciarem a
atividade nervosa simpática nos rins. Por exemplo, durante
elevações prolongadas na pressão arterial, os reflexos
barorreceptores podem mediar diminuições da atividade
nervosa simpática renal que promove a excreção
aumentada de sódio e água, o que por sua vez causa
diminuição gradual do volume sanguíneo e ajuda a
restaurar a pressão ao normal. Assim, a regulação a longo
prazo da pressão arterial média pelos barorreceptores
necessita de interação com sistemas adicionais,
principalmente com o sistema de controle rim-líquidos
corporais-pressão (juntamente com seus mecanismos
nervosos e hormonais), discutidos nos Capítulos 19 e 29.
Controle da Pressão Arterial pelos Quimiorreceptores
Carotídeos e Aórticos — Efeito da Falta de Oxigênio sobre a
Pressão Arterial. Existe um reflexo quimiorrecep- tor,
intimamente associado ao sistema de controle pressó- rico
barorreceptor, operando da mesma maneira que este, a não
ser pelo fato da resposta ser desencadeada por
quimiorreceptores em vez de por receptores de estiramento.
Os quimiorreceptores são células sensíveis à falta de
oxigênio e ao excesso de dióxido de carbono e de íons
hidrogênio. Eles estão situados em diversos pequenos
órgãos quimiorreceptores, com dimensões de cerca de 2
milímetros (dois corpos carotídeos localizados na bifurcação
de cada artéria carótida comum e geralmente um a três
corpos aórticos adjacentes à aorta). Os quimiorreceptores
excitam fibras nervosas que, junto com as fibras
barorreceptoras, passam pelos nervos de Hering e pelos
nervos vagos, dirigindo-se para o centro vasomotor do
tronco encefálico.
Cada corpo carotídeo ou aórtico recebe abundante fluxo
sanguíneo por meio de pequena artéria nutriente; assim, os
quimiorreceptores estão sempre em íntimo contato com o
sangue arterial. Quando a pressão arterial cai abaixo do
nível crítico, os quimiorreceptores são estimulados porque
a redução do fluxo sanguíneo provoca a redução dos níveis
de oxigênio e o acúmulo de dióxido de carbono e de íons
hidrogênio que não são removidos pela circulação.
Os sinais transmitidos pelos quimiorreceptores excitam
o centro vasomotor, e este eleva a pressão arterial de volta
ao normal. Entretanto, o reflexo quimiorrecep- tor não é
controlador potente da pressão arterial, até que esta caia
abaixo de 80 mmHg. Portanto, apenas sob pressões mais
baixas é que esse reflexo passa a ser importante para ajudar
a prevenir quedas ainda maiores da pressão arterial.
Os quimiorreceptores são discutidos em muito mais
detalhes no Capítulo 41, em relação ao controle respiratório,
no qual têm participação muito mais importante do que no
controle da pressão sanguínea.
Reflexos Atriais e das Artérias Pulmonares Que
Regulam a Pressão Arterial. Os átrios e as artérias
pulmonares têm em suas paredes receptores de
estiramento referidos como receptores de baixa pressão, que
são semelhantes aos receptores de estiramento das grandes
artérias sistêmicas. Esses receptores de baixa pressão
desempenham papel importante, especialmente ao
minimizarem as variações da pressão arterial, em resposta
às alterações do volume sanguíneo. Por exemplo, se 300
mililitros de sangue forem subitamente infundidos em cão
com todos os receptores intactos, a pressão arterial se eleva
por apenas cerca de 15 mmHg. Se os barorreceptores arteriais
forem desnervados, a pressão se eleva por cerca de 40
mmHg. Se os receptores de baixa pressão também forem
desnervados, a pressão arterial se eleva por cerca de 100
mmHg.
Assim, pode-se ver que apesar dos receptores de baixa
pressão na artéria pulmonar e nos átrios não serem capazes
de detectar a pressão arterial sistêmica, eles detectam
elevações simultâneas nas áreas de baixa pressão da
circulação, causadas pelo aumento do volume sanguíneo,
desencadeando reflexos paralelos aos reflexos
barorreceptores, para tornar o sistema total dos reflexos
mais potente para o controle da pressão arterial.
Reflexos Atriais que Ativam os Rins — O "Reflexo de
Volume". O estiramento dos átrios também provoca dila-
tação reflexa significativa das arteríolas aferentes renais.
Sinais são também transmitidos simultaneamente dos
átrios para o hipotálamo, para diminuir a secreção de
hormônio antidiurético (HAD). A resistência arteriolar
aferente diminuída nos rins provoca a elevação da pres
220
Capítulo 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial
são capilar glomerular, com o resultante aumento da fil-
tração de líquido pelos túbulos renais. A diminuição do
HAD reduz a absorção de água dos túbulos. A combinação
desses dois efeitos — aumento da filtração glomerular e
diminuição da reabsorção de líquido — aumenta a perda
de líquido pelos rins e reduz o volume sanguíneo
aumentado de volta aos valores normais. (Veremos
também no Capítulo 19 que o estiramento atrial, causado
pelo aumento do volume sanguíneo, desencadeia efeito
hormonal nos rins — a liberação do peptídeo natriuré- tico
atrial — que contribui ainda mais para a excreção de
líquido na urina e a normalização do volume sanguíneo.)
Todos esses mecanismos que tendem a normalizar o
volume sanguíneo, após sobrecarga, atuam indiretamente
como controladores de pressão, bem como do volume,
porque o excesso do volume aumenta o débito cardíaco e,
portanto, provoca elevação da pressão arterial. Esse
mecanismo reflexo do volume é discutido de novo no
Capítulo 29, junto com outros mecanismos de controle do
volume sanguíneo.
Reflexo Atrial de Controle da Frequência Cardíaca (o
Reflexo de Bainbridge). O aumento da pressão atrial
provoca também aumento da frequência cardíaca às vezes
por até 75%. Pequena parte desse aumento é causada pelo
efeito direto do aumento do volume atrial que estira o
nódulo sinusal: foi ressaltado, no Capítulo 10, que esse
estiramento direto pode elevar a frequência cardíaca por
até 15%. Aumento adicional por 40% a 60% da frequência é
causado por reflexo nervoso chamado reflexo de Bainbridge.
Os receptores de estiramento dos átrios que desencadeiam
o reflexo de Bainbridge transmitem seus sinais aferentes
por meio dos nervos vagos para o bulbo. Em seguida, os
sinais eferentes são transmitidos de volta pelos nervos
vagos e simpáticos, aumentando a frequência cardíaca e a
força de contração. Assim, esse reflexo ajuda a impedir o
acúmulo de sangue nas veias, nos átrios e na circulação
pulmonar.
Resposta Isquêmica do Sistema Nervoso Central —
Controle da Pressão Arterial pelo Centro
Vasomotor do Cérebro em Resposta à Diminuição
do Fluxo Sanguíneo Cerebral
A maior parte do controle nervoso da pressão sanguínea é
realizada por reflexos que se originam nos barorrecep-
tores, nos quimiorreceptores e nos receptores de baixa
pressão situados na circulação periférica, fora do cérebro.
Entretanto, quando o fluxo sanguíneo para o centro
vasomotor no tronco encefálico inferior diminui o
suficiente para causar deficiência nutricional — ou seja,
provocando isquemia cerebral —, os neurônios
vasoconstrito- res e cardioaceleradores no centro
vasomotor respondem de modo direto à isquemia, ficando
fortemente excitados. Quando isso ocorre, a pressão
arterial sistêmica frequentemente se eleva até os níveis
máximos do bombeamento cardíaco. Acredita-se que esse
efeito seja causado pela incapacidade do fluxo lento de
sangue de eliminar o dióxido de carbono do centro
vasomotor do tronco ence
fálico: sob baixos níveis de fluxo sanguíneo, no centro
vasomotor, a concentração local de dióxido de carbono
aumenta de modo acentuado, exercendo efeito
extremamente potente na estimulação das áreas de controle
nervoso vasomotor simpático no bulbo.
É possível que outros fatores, como a formação de ácido
lático e de outras substâncias ácidas no centro vasomotor,
também contribuam para a acentuada estimulação e para a
elevação da pressão arterial. Esse aumento em resposta à
isquemia cerebral é referido como resposta isquêmica do
sistema nervoso central (SNC).
O efeito isquêmico sobre a atividade vasomotora pode
elevar a pressão arterial média de maneira espantosa por
até 10 minutos a níveis muito elevados de até 250 mmHg. O
grau de vasoconstrição simpática, causado pela intensa isquemia
cerebral, é com frequência tão elevado que alguns dos vasos
periféricos ficam quase ou totalmente obstruídos. Os rins, por
exemplo, muitas vezes interrompem de forma total a
produção de urina, devido à constrição arteriolar renal em
resposta à descarga simpática. Portanto, a resposta isquêmica
do SNC é um dos mais importantes ativadores do sistema vaso-
constritor simpático.
A Importância da Resposta Isquêmica do SNC
como Regulador da Pressão Arterial. Apesar da
intensidade da resposta isquêmica do SNC, ela não é
significativa até que a pressão arterial caia bem abaixo da
normal, até níveis de 60 mmHg ou menos, atingindo seu
maior grau de estimulação sob pressões de 15 a 20 mmHg.
Portanto, ela não é um dos mecanismos normais de
regulação da pressão arterial. Ao contrário, ela atua na
maioria das vezes como sistema de emergência de controle da
pressão que age muito rápida e intensamente para impedir maior
diminuição da pressão arterial, quando o fluxo sanguíneo cerebral
diminui até valor muito próximo do nível letal. Esse mecanismo
pode ser considerado como a “última cartada” no controle
da pressão.
Reação de Cushing ao Aumento da Pressão no
Encéfalo. A reação de Cushing é tipo especial de resposta
isquêmica do SNC, resultante do aumento da pressão do
líquido cefalorraquidiano (LCR) ao redor do cérebro na
caixa craniana. Por exemplo, quando a pressão do LCR
aumenta até se igualar à pressão arterial, ocorre a
compressão de todo o cérebro, bem como de suas artérias,
bloqueando o suprimento sanguíneo cerebral. Isso inicia a
resposta isquêmica do SNC que provoca elevação da
pressão arterial. Quando a pressão arterial aumenta até
ficar maior que a pressão do LCR, o sangue passa
novamente a fluir pelos vasos cerebrais, aliviando a
isquemia. Usualmente, a pressão sanguínea atinge novo
nível de equilíbrio ligeiramente maior que a pressão do
LCR, permitindo o restabelecimento do fluxo sanguíneo
pelo encéfalo. A reação de Cushing ajuda a proteger os
centros vitais do encéfalo da perda de nutrição, nos casos
em que a pressão do LCR se eleva o suficiente para
comprimir as artérias cerebrais.
221
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A
Unidade IV A Circulação
Características Especiais do Controle
Nervoso da Pressão Arterial
Papel dos Nervos e Músculos Esqueléticos no
Aumento do Débito Cardíaco e da Pressão
Arterial
Embora a maior parte do controle nervoso rápido da
circulação seja realizada pelo sistema nervoso autônomo,
existem pelo menos duas condições nas quais os nervos e
os músculos esqueléticos têm participações importantes
nas respostas circulatórias.
Reflexo da Compressão Abdominal. Quando é
produzido o reflexo barorreceptor ou quimiorreceptor,
sinais nervosos são transmitidos ao mesmo tempo pelos
nervos esqueléticos para os músculos esqueléticos do
corpo, em especial para os músculos abdominais. Isso
provoca a compressão de todos os reservatórios venosos do
abdômen, ajudando a translocar seu sangue em direção ao
coração, que passa a dispor de maior volume para
bombear. Essa resposta geral é chamada de reflexo da
compressão abdominal. O efeito resultante sobre a circulação
é o mesmo causado pelos impulsos vasoconstritores
simpáticos ao comprimirem as veias: aumento do débito
cardíaco e da pressão arterial. O reflexo da compressão
abdominal é provavelmente muito mais importante do que
se acreditava no passado porque bem se sabe que pessoas
cujos músculos esqueléticos foram paralisados têm
tendência muito maior de apresentar episódios de
hipotensão que pessoas com músculos normais.
Aumento do Débito Cardíaco e da Pressão Arterial
Causado pela Contração da Musculatura Esquelética
durante o Exercício. Quando os músculos esqueléticos se
contraem durante o exercício, comprimem os vasos
sanguíneos em todo o corpo. Até mesmo a antecipação do
exercício enrijece os músculos, comprimindo assim os
vasos nos músculos e no abdômen. O efeito resultante é a
translocação de sangue dos vasos periféricos para o coração
e os pulmões e, portanto, aumento do débito cardíaco. Esse
é efeito essencial que ajuda a aumentar por cinco a sete
vezes o débito cardíaco, como ocorre às vezes durante o
exercício muito intenso. Esse aumento, por sua vez, é
ingrediente essencial para o aumento da pressão arterial
durante o exercício que, em geral, se eleva da média normal
de 100 mmHg para 130 a 160 mmHg.
Ondas Respiratórias na Pressão Arterial
Em cada ciclo respiratório, a pressão arterial usualmente
aumenta e diminui por 4 a 6 mmHg, de forma ondulante,
provocando as ondas respiratórias da pressão arterial. As
ondas resultam de vários efeitos diferentes, alguns tendo
natureza reflexa, como os seguintes:
1. Muitos dos “sinais respiratórios”, produzidos pelo
centro respiratório do bulbo, “extravasam” para o
centro
vasomotor a cada ciclo respiratório.
2. Cada vez que a pessoa inspira, a pressão na cavidade
torácica fica mais negativa, fazendo com que os vasos
sanguíneos no tórax se expandam. Isso reduz a
quantidade de sangue que retorna para o lado esquerdo
do coração, e assim diminui momentaneamente o
débito cardíaco e a pressão arterial.
3. As variações da pressão causadas nos vasos torácicos
pela respiração podem excitar receptores de estira-
mento vasculares e atriais.
Embora seja difícil analisar as relações exatas de todos
esses fatores causadores das ondas respiratórias da pressão
o resultado final durante a respiração normal é, em geral,
aumento da pressão arterial durante a parte inicial da
expiração, e diminuição no restante do ciclo respiratório.
Durante a respiração profunda, a pressão sanguínea pode
aumentar e diminuir por até 20 mmHg em cada ciclo
respiratório.
Ondas “Vasomotoras" da Pressão Arterial —
Oscilação dos Sistemas de Controle Reflexo da
Pressão
Frequentemente, durante o registro da pressão arterial de
animal, nota-se, além das pequenas ondas de pressão
causadas pela respiração, ondas muito maiores —
ocasionalmente com até 10 a 40 mmHg — que aumentam e
diminuem mais lentamente que as ondas respiratórias. A
duração de cada ciclo varia de 26 segundos no cão
anestesiado, a 7 a 10 segundos no ser humano não
anestesiado. Essas ondas são referidas como ondas
vasomotoras ou “ondas de Mayer”. Tais registros são
mostrados na Figura
18- 10, demonstrando a elevação e diminuição cíclica da
pressão arterial.
A causa das ondas vasomotoras é a “oscilação reflexa”
de um ou mais mecanismos nervosos de controle da
pressão, entre os quais citamos a seguir.
Oscilação dos Reflexos Barorreceptor e
Quimiorreceptor. As ondas vasomotoras da Figura 18-105
são com frequência observadas nos registros experimentais
de pressão, embora sejam em geral muito menos intensas
que as mostradas na figura. Elas são causadas, em sua
maior parte, por oscilação do reflexo barorreceptor, isto é, a
alta pressão excita os barorreceptores; isso então inibe o
sistema nervoso simpático e reduz a pressão alguns
segundos depois. A diminuição da pressão, por sua vez,
O) 200 -
X
E
160 -
E. 120 -
o 80 -
1(0
V)
<n
40 -
Ü 0 -
Q.
l l l l l l l l l l l l l l l l l l . . . . . . . . . . . . H U I . . . . . . . . . . .
B
Figura 18-10 A, Ondas vasomotoras causadas pela oscilação
da resposta isquêmica do SNC. B, Ondas vasomotoras causadas
pela oscilação do reflexo barorreceptor.
222
Capítulo 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial
reduz a estimulação de barorreceptores e permite que o
centro vasomotor fique de novo ativo, elevando a pressão.
A resposta não é instantânea, sendo retardada por até
alguns segundos. Essa pressão elevada inicia então outro
ciclo, e a oscilação se mantém.
O reflexo quimiorreceptor também pode oscilar, gerando o
mesmo tipo de ondas. Esse reflexo, em geral, oscila ao
mesmo tempo que o reflexo barorreceptor. Provavelmente,
ele desempenha o papel principal na geração das ondas
vasomotoras, quando a pressão arterial está na faixa entre
40 e 80 mmHg porque nesses baixos valores o controle da
circulação pelos quimiorreceptores circulatórios torna-se
potente, enquanto o controle pelos barorreceptores está
mais fraco.
Oscilação da Resposta Isquêmica do SNC. O registro
na Figura 18-lO.A resultou da oscilação do mecanismo de
controle isquêmico da pressão pelo SNC. Nesse
experimento, a pressão do LCR foi elevada para 160
mmHg, o que comprimiu os vasos cerebrais e iniciou a
resposta da pressão isquêmica do SNC para 200 mmHg.
Quando a pressão arterial atingiu esse valor elevado, a
isquemia cerebral foi aliviada, e o sistema nervoso
simpático foi inativado. Como resultado, a pressão arterial
caiu rapidamente para valor muito mais baixo, provocando
de novo isquemia cerebral. Esta, por sua vez, iniciou nova
elevação na pressão. A isquemia foi novamente aliviada, e
a pressão caiu mais uma vez. Esse processo se repetiu de
forma cíclica enquanto a pressão do LCR permaneceu
elevada.
Desse modo, qualquer mecanismo reflexo de controle
da pressão pode oscilar se a intensidade do “feedback” for
forte o suficiente e se houver retardo entre a excitação do
receptor de pressão e a subsequente resposta pressó- rica.
As ondas vasomotoras têm considerável importância
teórica, pois demonstram que os reflexos nervosos que
controlam a pressão arterial obedecem aos mesmos
princípios aplicáveis aos sistemas mecânicos e elétricos de
controle. Por exemplo, se a resposta do feedback for
muito intensa no mecanismo de direção do piloto
automático de um avião, e também houver retardo no
tempo de resposta desse mecanismo, o avião oscilará para
lá e para cá, em vez de seguir um curso retilíneo.
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223
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N
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D
A
(página deixada intencionalmente em branco)
CAPÍTULO 19
Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da
Pressão Arterial e na Hipertensão: O Sistema
Integrado de Regulação da Pressão Arterial
O controle a curto prazo da
pressão arterial pelo siste-
ma nervoso simpático, como
discutido no Capítulo 18,
ocorre em grande parte por
meio dos efeitos do sistema
nervoso sobre a resistên-
cia e capacitância vasculares periféricas totais e também
sobre a capacidade de bombeamento do coração.
O corpo, no entanto, tem também potentes mecanismos
para a regulação da pressão arterial ao longo de semanas e
meses. Esse controle a longo prazo da pressão arterial está
intimamente relacionado à homeostasia do volume de
líquido corporal, determinado pelo balanço entre a
ingestão e a eliminação de líquido. Para a sobre- vida a
longo prazo, a ingestão e a eliminação de líquido devem ser
precisamente balanceadas; essa tarefa é realizada por
múltiplos controles nervosos e hormonais e por sistemas de
controle local nos rins, que regulam sua excreção de sal e
água. Neste capítulo discutiremos esses sistemas renais —
de controle do líquido corporal, que têm participação
dominante na regulação a longo prazo da pressão
sanguínea.
Sistema Rim-Líquidos Corporais para o Controle
da Pressão Arterial
O sistema rim-líquidos corporais para o controle da
pressão arterial atua lenta mas poderosamente como se
segue: se o volume sanguíneo aumenta e a capacitância
vascular não é alterada, a pressão arterial se elevará
também. Essa elevação faz com que os rins excretem o
volume excessivo, normalizando assim a pressão.
Na história filogenética do desenvolvimento animal,
esse sistema rim-líquidos corporais de controle da pressão
é muito antigo. Ele está totalmente operante em um dos
vertebrados mais inferiores, a lampreia. Esse animal tem
baixa pressão arterial, de apenas 8 a 14 mmHg, que
aumenta quase em proporção direta ao seu volume
sanguíneo. A lampreia ingere continuamente água salgada
que é incorporada a seu sangue, aumentando o volume
sanguíneo e a pressão arterial. Contudo, quando a pres
são aumenta em demasia, o rim simplesmente excreta o
volume excessivo pela urina, reduzindo a pressão. Sob
baixas pressões, o rim excreta menos líquido do que é
ingerido. Assim, como a lampreia continua a ingerir água, o
volume de líquido extracelular, volume sanguíneo e
pressão são de novo aumentados.
Ao longo das eras, esse mecanismo primitivo de
controle da pressão sobreviveu no ser humano quase como
na lampreia; no ser humano, o débito urinário de água e de
sal é tão sensível às alterações da pressão quanto na
lampreia, se não mais. De fato, a elevação da pressão
arterial no ser humano por apenas alguns mmHg pode
duplicar o débito renal de água, o que é chamado de diurese
de pressão, bem como duplicar a eliminação de sal, o que é
chamado de natriurese de pressão.
No ser humano, o sistema rim-líquidos corporais, como
na lampreia, é mecanismo fundamental para o controle a
longo prazo da pressão arterial. Entretanto, ao longo dos
estágios da evolução, esse sistema recebeu muitos
refinamentos, e o controle se tornou muito mais preciso no
ser humano. Um refinamento especialmente importante,
como discutiremos adiante, foi a adição do mecanismo da
renina-angiotensina.
Quantificação da Diurese de Pressão como Base
para o Controle da Pressão Arterial
A Figura 19-1 mostra o efeito médio aproximado de
diferentes níveis de pressão arterial sobre o volume do
débito urinário no rim isolado, demonstrando seu aumento
acentuado quando a pressão se eleva. Esse aumento é o
fenômeno da diurese de pressão. A curva nessa figura é
referida como curva do débito urinário renal ou curva da função
renal. No ser humano, sob pressão arterial de 50 mmHg, o
débito urinário é praticamente nulo. Sob 100 mmHg, seu
valor é normal, e sob 200 mmHg é cerca de seis a oito vezes
maior que o normal. Além disso, o aumento da pressão
arterial não eleva apenas o débito urinário, mas provoca
também aumento aproximadamente igual da eliminação de
sódio, que é o fenômeno da natriurese de pressão.
Experimento Demonstrando o Sistema Rim-Líqui-
dos Corporais para a Regulação da Pressão Arterial.
A Figura 19-2 mostra os resultados de experimento em
225
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Unidade IV A Circulação
Pressão arterial (mmHg)
Figura 19-1 Curva típica do débito urinário renal, medido em
rim isolado perfundido, mostrando a diurese de pressão quando
a pressão arterial se eleva acima do normal.
Figura 19-2 Aumentos do débito cardíaco, do débito urinário e
da pressão arterial, causados pelo aumento no volume
sanguíneo em cães cujos mecanismos nervosos de controle da
pressão foram bloqueados. Esta figura mostra o retorno da
pressão arterial ao normal após cerca de 1 hora de perda de
líquido pela urina. (Cortesia do Dr.William Dobbs.)
cães que tiveram todos os mecanismos reflexos de controle
da pressão bloqueados. Então, a pressão arterial foi
subitamente elevada pela infusão intravenosa de 400 mL de
sangue. Note a elevação rápida do débito cardíaco para
cerca de duas vezes o normal e o aumento da pressão
arterial média para 205 mmHg, 115 mmHg acima do nível
de repouso. Na curva central, é mostrado o efeito dessa
elevação da pressão sobre o débito urinário, que aumentou
por 12 vezes. Junto com essa enorme perda de líquido na
urina, o débito cardíaco e a pressão arterial retornaram ao
normal na hora seguinte. Assim, é possível
Figura 19-3 Análise da regulação da pressão arterial pela
equali- zação da “curva de débito renal" com a “curva de
ingestão de sal e de água". O ponto de equilíbrio representa o
nível no qual a pressão arterial será regulada. (A pequena
quantidade de sal e água perdida por vias não renais será
ignorada nesta e em outras figuras semelhantes neste capítulo.)
notar a extrema capacidade dos rins de eliminar líquido
corporal em resposta à alta pressão arterial, e por esse
modo normalizá-la.
Controle da Pressão Arterial pelo Mecanismo
Rim-Líquidos Corporais - Característica de “Resposta
por Feedback Quase Infinito". A Figura 19-3 mostra o
método gráfico que pode ser usado para analisar o controle
da pressão arterial pelo sistema rim-líquidos corporais.
Essa análise se baseia em duas curvas distintas que se
cruzam: (1) a curva do débito renal de água e sal, em
resposta à elevação da pressão arterial, que é a mesma
curva de débito renal mostrada na Figura 19-1 e (2) a linha
que representa a ingestão total de água e de sal.
Durante período prolongado, o débito de água e de sal
deve se igualar à ingestão. Além disso, o único ponto no
gráfico da Figura 19-3 no qual o débito se iguala à ingestão
é onde as duas curvas se cruzam, referido como ponto de
equilíbrio. Agora, vejamos o que acontece se a pressão
arterial fica acima ou abaixo do ponto de equilíbrio.
Inicialmente, admita-se que a pressão arterial se eleve
para 150 mmHg. Nesse nível, o débito renal de água e sal é
cerca de três vezes maior que a ingestão. Portanto, o corpo
perde líquido, e o volume sanguíneo e a pressão arterial
diminuem. Além disso, esse “balanço negativo” de líquido
não cessará até que a pressão caia até atingir precisamente o
ponto de equilíbrio. De fato, mesmo quando a pressão
arterial é apenas 1 mmHg maior que a do ponto de
equilíbrio, ainda ocorre perda de água e de sal pouco maior
que a ingestão, de modo que a pressão continua a cair por
mais 1 mmHg, até que por fim retorne ao valor preciso do ponto
de equilíbrio.
Se a pressão arterial cair abaixo do ponto de equilíbrio, a
ingestão de água e de sal passa a ser maior que o débito.
Portanto, o volume do líquido corporal aumenta junto com
o volume sanguíneo, e a pressão arterial se eleva de novo
até atingir precisamente o ponto de equilíbrio. Esse retorno
da pressão arterial sempre ao ponto de equilíbrio é o princípio da
resposta por feedback quase
226
Capítulo 19 O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão
infinito para a regulação da pressão arterial pelo
mecanismo rim-líquidos corporais.
Dois Determinantes do Nível da Pressão Arterial a
Longo Prazo. Na Figura 19-3 é possível ver que dois
fatores básicos determinam o nível da pressão arterial a
longo prazo, o que será explicado a seguir.
Desde que as duas curvas, representando (1) o débito
renal de sal e de água e (2) a ingestão de sal e de água
permaneçam de modo preciso como estão na Figura 19-3, a
pressão arterial média por fim se ajustará em 100 mmHg,
que é o nível da pressão arterial representado pelo ponto
de equilíbrio nessa figura. Além disso, existem apenas dois
modos pelos quais a pressão desse ponto de equilíbrio
pode variar do nível de 100 mmHg. Um deles é pelo
deslocamento do nível de pressão da curva do débito renal
de sal e de água; o outro é a modificação do nível da curva
de ingestão de sal e de água. Assim, simplificada- mente, os
dois determinantes principais do nível da pressão arterial a
longo prazo são:
do normal. Consequentemente, pode-se afirmar que, se a
curva de débito renal se deslocar para novo nível de
pressão, a pressão arterial também seguirá para esse novo
nível em poucos dias.
A Figura 19-45 mostra como a alteração do nível de
ingestão de sal e de água também pode influenciar a
pressão arterial. Nesse caso, o nível de ingestão aumentou
quatro vezes, e o ponto de equilíbrio foi deslocado para o
nível de pressão de 160 mmHg, 60 mmHg acima do valor
normal. Ao contrário do caso anterior, a diminuição do
nível de ingestão reduziria a pressão arterial.
Assim, é impossível alterar a pressão arterial média a longo
prazo sem alterar um ou os dois determinantes básicos da
pressão arterial a longo prazo — (1) o nível de ingestão de
sal e de água ou (2) o grau do deslocamento da curva de
função renal ao longo do eixo de pressão. Entretanto, se
qualquer um desses determinantes for alterado, percebe-se
que a pressão arterial é regulada em novo nível, onde as
duas novas curvas se cruzam.
O
>
1. O grau de desvio da pressão na curva do débito renal de
água e de sal.
2. O nível de ingestão de água e de sal.
O funcionamento desses dois determinantes de controle
da pressão arterial é mostrado na Figura 19-4. Na Figura
19-4A, alguma anormalidade renal causou o deslocamento
de 50 mmHg da curva de débito renal na direção das altas
pressões (para a direita). Note que o ponto de equilíbrio
também se deslocou para 50 mmHg acima
Figura 19-4 Duas maneiras pelas quais a pressão arterial pode
ser elevada. A, pelo deslocamento da curva de débito renal para
a direita, em direção a novo nível de pressão ou B, pelo
aumento da ingestão de sal e água.
A Curva de Débito Renal Crônico É Muito Mais
íngreme do que a Curva Aguda. Característica
importante da natriurese da pressão (e diurese da pressão)
é que variações crônicas da pressão arterial, com duração
de dias ou meses, exercem efeito muito maior no débito
renal de sal e água do que o observado durante variações
agudas da pressão (Fig. 19-5). Assim, quando os rins estão
funcionando normalmente, a curva do débito renal crônico é
bem mais íngreme do que a curva aguda.
Os efeitos potentes do aumento crônico da pressão
arterial no débito urinário são porque a pressão aumentada
tem efeitos, não apenas hemodinâmicos diretos na excreção
renal como também efeitos indiretos, mediados por
alterações nervosas e hormonais que ocorrem quando a
pressão sanguínea é aumentada. Por exemplo, a pressão
Figura 19-5 Curvas de débito renal agudo e crônico. Sob
condições estáveis (steady-state conditions), a eliminação de sal
e água é igual à ingestão de sal e água. A e B representam os
pontos de equilíbrio para regulação de longo prazo da pressão
arterial quando a ingestão de sal é normal ou seis vezes maior
do que a normal, respectivamente. Por causa da inclinação da
curva de débito renal crônico, o aumento da ingestão de sal
causa somente pequenas mudanças na pressão arterial. Em
pessoas com a função renal comprometida, a inclinação da
curva de débito renal pode diminuir similarmente à curva aguda,
resultando em aumento da sensibilidade da pressão arterial a
mudanças na ingestão de sal.
227
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Unidade IV A Circulação
arterial aumentada diminui a atividade do sistema nervoso
simpático e de vários hormônios, tais como angio- tensina
II e aldosterona que tendem a reduzir a excreção renal de
sal e de água. A atividade reduzida desses sistemas
antinatriuréticos, portanto, amplifica a eficácia da natriurese
e da diurese de pressão no aumento da excreção de sal e
água, durante aumentos crônicos na pressão arterial (veja
Capítulos 27 e 29 para discussão mais aprofundada).
Inversamente, quando a pressão arterial é reduzida, o
sistema nervoso simpático é ativado, e a formação de
hormônios antinatriuréticos é aumentada, somando-se ao
efeito direto na redução da pressão de diminuir o débito
renal de água e sal. Essa combinação de efeitos diretos da
pressão, nos rins, e efeitos indiretos da pressão, no sistema
nervoso simpático e vários sistemas hormonais, tornam a
natriurese e diurese da pressão extremamente potentes no
controle de longa duração da pressão arterial e do volume
dos fluidos corporais.
A importância da influência nervosa e hormonal na
natriurese da pressão é especialmente evidente durante
alterações crônicas da ingestão de sódio. Se os rins e os
mecanismos nervosos e hormonais estão funcionando
normalmente, aumentos crônicos da ingestão de sal e de
água, para valores até seis vezes maiores do que o normal,
geralmente estão associados apenas com pequenos
aumentos da pressão arterial. Note que o equilíbrio da
pressão sanguínea no ponto B da curva é
aproximadamente o mesmo do ponto A, o ponto de
equilíbrio da ingestão normal de sal. Inversamente, a
diminuição da ingestão de sódio e água para valores abaixo
de um sexto do normal tipicamente tem efeito muito baixo
na pressão arterial. Assim, dizem que muitas pessoas são
insensíveis ao sal porque grandes variações na ingestão de
sal não alteram a pressão sanguínea por mais do que
alguns mmHg.
Indivíduos com danos renais ou com secreção excessiva
de hormônios antinatriuréticos, tais como angioten- sina II
ou aldosterona, no entanto, podem ser sensíveis ao sal com
curva de débito renal atenuada similar à curva aguda
mostrada na Figura 19-5. Nesses casos, mesmo aumentos
moderados na ingestão de sal podem causar aumentos
significativos da pressão arterial.
Alguns dos fatores incluem perda de néfrons funcionais
devido a lesão renal ou formação excessiva de hormônios
antinatriuréticos, tais como angiotensina II ou aldosterona.
Por exemplo, a redução cirúrgica da massa renal ou lesão
do rim, devido à hipertensão, diabetes, e diversas doenças
renais, todos causam maior sensibilidade às alterações da
ingestão de sal. Nesses casos, aumentos maiores do que o
normal na pressão arterial são necessários para elevar o
débito renal o suficiente para manter o balanço entre
ingestão e eliminação de sal e água.
Existem algumas evidências de que a alta ingestão de
sal a longo prazo durando por muitos anos pode de fato
lesar os rins e eventualmente tornar a pressão sanguínea
mais sensível ao sal. Iremos discutir a sensibilidade da
pressão sanguínea ao sal em pacientes com hipertensão
mais adiante, neste capítulo.
Incapacidade da Resistência Periférica Total
Aumentada de Elevar a Pressão Arterial a Longo Prazo
se a Ingestão de Líquido e a Função Renal não se
Alterarem
Este é o momento para que o leitor perceba se realmente
entendeu o mecanismo rim-líquidos corporais para o
controle da pressão arterial. Relembrando a equação básica
que afirma que — a pressão arterial é igual ao débito cardíaco
multiplicado pela resistência periférica total —, fica evidente
que aumento na resistência periférica total deveria elevar a
pressão arterial. De fato, quando a resistência periférica total se
eleva deforma aguda, a pressão arterial aumenta de imediato.
Entretanto, se os rins continuarem a funcionar
normalmente, a elevação aguda da pressão arterial em geral
não é mantida. Ao contrário, retorna ao normal em cerca de
um dia. Por quê?
A resposta para essa pergunta é a seguinte: o aumento
da resistência nos vasos sanguíneos em qualquer parte do
corpo exceto nos rins, não altera o ponto de equilíbrio do
controle da pressão sanguínea que é ditado pelos rins (Figs.
19-3 e 19-4). Ao contrário, os rins começam de imediato a
responder à alta pressão arterial, provocando diurese e
natriurese de pressão. Após algumas horas, grande
quantidade de sal e de água é eliminada pelo corpo, e esse
processo se mantém até que a pressão arterial retorne ao
nível do ponto de equilíbrio. Nesse ponto, a pressão arterial
é normalizada e o volume de líquido extracelular e de
sangue diminui para níveis abaixo do normal.
Como prova do princípio de que alterações da
resistência periférica total não afetam o nível da pressão
arterial a longo prazo se a função renal não for alterada,
estude cuidadosamente a Figura 19-6. Essa figura mostra os
valores aproximados do débito cardíaco e da pressão
arterial em diferentes condições clínicas, nas quais a
resistência periférica total a longo prazo está muito menor ou
muito maior que a normal, mas a excreção renal de sal e de
água está normal. Note que em todas essas diferentes
condições clínicas a pressão arterial está precisamente
normal.
É necessária atenção neste momento em nossa
discussão. Muitas vezes, quando a resistência periférica
total aumenta, ela também aumenta a resistência vascular
intrarrenal ao mesmo tempo, o que altera a função dos rins,
podendo causar hipertensão por deslocar a curva de função
renal para nível mais alto de pressão, do modo mostrado na
Figura 19-4A. Veremos um exemplo dessa situação adiante,
neste capítulo, quando discutirmos a hipertensão causada
por mecanismos vasoconstritores. Entretanto, o aumento da
resistência renal é o fator causai, e não a resistência periférica
total elevada — distinção muito importante.
O Aumento do Volume de Líquido Pode Elevar a
Pressão Arterial por Aumentar o Débito Cardíaco ou a
Resistência Periférica Total
O mecanismo geral pelo qual o aumento do volume do
líquido extracelular pode elevar a pressão arterial, se a
capacidade vascular não for aumentada ao mesmo tempo,
228
Capítulo 19 O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão
Figura 19-6 Relações da resistência periférica total com os
níveis da pressão arterial a longo prazo e do débito cardíaco em
diferentes anormalidades clínicas. Nessas condições, os rins
estavam funcionando normalmente. Note que a alteração da
resistência periférica total em todo o corpo provocou diferentes
mudanças iguais e opostas no débito cardíaco, mas em todas as
situações não afetou a pressão arterial. (Redesenhada de Guyton
AC: Arterial Pressure and Hypertension. Philadelphia:WB
Saunders, 1980.)
é mostrado na Figura 19-7. Os eventos sequenciais são:
(1) elevação do volume do líquido extracelular, (2)
elevação do volume sanguíneo, (3) aumento da pressão
média de enchimento da circulação, que (4) aumenta o
retorno venoso para o coração, (5) aumentando o débito
cardíaco, que (6) aumenta a pressão arterial. A elevação da
pressão arterial, por sua vez, aumenta a excreção real de sal
e água e pode fazer voltar para quase normal o volume do
líquido extracelular, se a função renal estiver normal.
Note em especial nesse esquema os dois modos pelos
quais o aumento no débito cardíaco pode elevar a pressão
arterial. Um deles é o efeito direto do débito cardíaco sobre
a pressão, e o outro é efeito indireto que eleva a resistência
vascular periférica total, por meio da autorre- gulação do
fluxo sanguíneo. O segundo efeito será explicado a seguir.
Relembrando o Capítulo 17, notamos que, quando
sangue em excesso flui pelo tecido, a vasculatura tecidual
local se contrai, normalizando o fluxo sanguíneo. Esse
fenômeno é referido como “autorregulação” significando
simplesmente a regulação do fluxo sanguíneo pelo próprio
tecido. Quando o aumento do volume sanguíneo eleva o
débito cardíaco, o fluxo sanguíneo se eleva em todos os
tecidos do corpo; assim, esse mecanismo de autorregulação
contrai os vasos sanguíneos em todo o corpo. Isso, por sua
vez, eleva a resistência periférica total.
Por fim, como a pressão arterial é igual ao débito cardíaco
multiplicado pela resistência periférica total, o aumento
secundário desta, resultante do mecanismo de
autorregulação, contribui de forma importante para a
■ «>-^Aumento do volume do líquido extracelular

Aumento do volume sanguíneo

Aumento da pressão média de enchimento circulatório

Aumento do retorno venoso de sangue para o coração

Aumento do débito cardíaco

Autorregulação

Aumento da resistência
periférica total
I /
Aumento da pressão arterial

Aumento do débito urinário
■
Figura 19-7 Estágios sequenciais pelos quais o aumento do
volume do líquido extracelular eleva a pressão arterial. Note
especialmente que o aumento do débito cardíaco produz tanto
um efeito direto de elevação da pressão arterial, como efeito
indireto pelo aumento primeiro da resistência periférica total.
elevação da pressão arterial. Por exemplo, aumento de
apenas 5% a 10% do débito cardíaco pode elevar a pressão
arterial do valor médio normal de 100 mmHg para até 150
mmHg. De fato, o aumento discreto do débito cardíaco não
é com muita frequência mensurável.
A Importância do Sal (NaCl) no Mecanismo
Rim-Líquidos Corporais para o Controle da Pressão
Arterial
Embora a discussão até este ponto tenha enfatizado a
importância do volume de líquido na regulação da pressão
arterial, estudos experimentais mostraram que o aumento
da ingestão de sal tem probabilidade muito maior de elevar
a pressão arterial que o aumento da ingestão de água. Isso
ocorre porque a água pura é normalmente excretada pelos
rins com quase a mesma rapidez com que é ingerida, o que
não ocorre com o sal. O acúmulo de sal no corpo também
eleva de modo indireto o volume de líquido extracelular
por dois motivos básicos:
1. Quando ocorre excesso de sal no líquido extracelular, a
osmolalidade do líquido aumenta, o que estimula o
centro da sede no encéfalo, fazendo com que a pessoa
beba quantidade maior de água para normalizar a
concentração extracelular de sal. Isso aumenta o volume
do líquido extracelular.
229
U
N
I
D
A
Unidade IV A Circulação
2. O aumento da osmolalidade causado pelo sal em
excesso no líquido extracelular estimula também o
mecanismo secretor do hipotálamo-hipófise posterior,
que passa a liberar maior quantidade de hormônio
antidiurético. (Isso é discutido no Cap. 28.) Esse
hormônio então faz com que os rins reabsorvam
quantidade muito aumentada de água pelos túbulos
renais, reduzindo o volume excretado de urina e
elevando o volume do líquido extracelular.
Assim, por essas razões importantes, a quantidade de
sal acumulada no corpo é o principal determinante do
volume do líquido extracelular. Como apenas pequenos
aumentos do volume do líquido extracelular e do sangue
podem com frequência aumentar muito a pressão arterial,
se a capacidade vascular não aumentar ao mesmo tempo, o
acúmulo extra de pequena quantidade de sal no corpo
pode levar a aumento considerável da pressão.
Como discutido antes, o aumento da ingestão de sal, na
ausência da função renal comprometida ou formação
excessiva de hormônios antinatriuréticos em geral não
aumenta muito a pressão arterial, pois os rins rapidamente
eliminam o excesso de sal e o volume sanguíneo
dificilmente é alterado.
A Hipertensão Crônica (Pressão Sanguínea Alta) É
Causada pelo Déficit de Excreção Renal de Líquido
Quando se afirma que a pessoa tem hipertensão crônica (ou
“pressão alta”), isso significa que sua pressão arterial média é
maior que o limite superior da medida aceita como normal.
A pressão arterial média acima de 110 mmHg (o valor
normal é de cerca de 90 mmHg) é considerada
hipertensiva. (Esse nível de pressão média ocorre quando a
pressão sanguínea diastólica é maior que aproximadamente
90 mmHg e a pressão sistólica é maior que 135 mmHg.) Na
hipertensão grave, a pressão arterial média pode se elevar
para 150 a 170 mmHg, com pressão diastólica de até 130
mmHg e pressão sistólica atingindo ocasionalmente até 250
mmHg.
Mesmo a elevação moderada da pressão arterial leva à
redução da expectativa de vida. Sob pressões
extremamente altas — pressões arteriais médias 50% ou
mais acima do normal —, a expectativa de vida é de poucos
anos, a menos que a pessoa seja tratada adequadamente.
Os efeitos letais da hipertensão ocorrem por três modos
principais:
1. O trabalho cardíaco excessivo leva à insuficiência
cardíaca e à doença coronariana precoces,
frequentemente causando a morte por ataque cardíaco.
2. A alta pressão frequentemente lesa vaso sanguíneo
cerebral importante, causando a morte de grandes
partes do cérebro, o que constitui o infarto cerebral.
Clinicamente, ele é chamado de “acidente vascular
cerebral” (AVC). Conforme a parte afetada do cérebro,
o AVC pode provocar paralisia, demência, cegueira ou
muitos outros distúrbios cerebrais graves.
3. A pressão alta quase sempre lesa os rins, produzindo
muitas áreas de destruição renal e por fim insuficiência
renal, uremia e morte.
O estudo de tipo de hipertensão, chamado de
“hipertensão por sobrecarga de volume” foi crucial para o
entendimento do papel do mecanismo rim-líquidos
corporais para a regulação da pressão arterial. A
hipertensão por sobrecarga de volume é causada pelo
acúmulo de líquido extracelular no corpo, e alguns
exemplos são relatados a seguir.
Hipertensão Experimental por Sobrecarga de
Volume Causada pela Redução da Massa Renal e pelo
Aumento Simultâneo na Ingestão de Sal. A Figura 19-8
mostra experimento típico que demonstra a hipertensão
por sobrecarga de volume em grupo de cães com remoção
de 70% de sua massa renal. No primeiro círculo branco da
curva, os dois polos de um dos rins foram removidos, e, no
segundo círculo branco, todo o rim oposto foi removido,
deixando os animais com apenas 30% de massa renal
normal. Note que a remoção dessa massa renal elevou a
pressão arterial por apenas 6 mmHg em média. Então, os
cães receberam solução salina em vez de água para beber.
Como a solução salina não satisfaz a sede, os cães ingeriram
volume duas a quatro vezes maior que o normal, e após
alguns dias a pressão arterial média aumentou para cerca
de 40 mmHg acima do normal. Após 2 semanas, os cães
receberam água normal em vez da solução salina; e a
pressão se normalizou dentro de 2 dias. Por fim, ao final do
experimento, os cães receberam novamente a solução
salina, e dessa vez a pressão aumentou com rapidez muito
maior e para nível ainda mais elevado porque os cães
haviam aprendido a tolerar a solução salina e, portanto,
beberam muito mais. Assim, o experimento demonstra a
hipertensão por sobrecarga de volume.
Se o leitor considerar de novo os determinantes básicos
da regulação da pressão arterial a longo prazo, poderá de
imediato entender por que ocorreu hipertensão no
experimento de sobrecarga de volume da Figura 19-8.
Inicialmente, a redução da massa renal para 30% da normal
reduziu muito a capacidade dos rins de excretar sal e água.
Assim, essas substâncias se acumularam no corpo e em
poucos dias elevaram a pressão arterial até o nível
suficiente para excretar o excesso ingerido de sal e água.
Alterações Sequenciais da Função Circulatória
durante o Desenvolvimento de Hipertensão por
Sobrecarga de Volume. É especialmente instrutivo
estudar as alterações sequenciais da função circulatória
durante o desenvolvimento progressivo da hipertensão por
sobrecarga de volume. A Figura 19-9 mostra essas
alterações. Aproximadamente, uma semana antes do ponto
“0” a massa renal havia sido reduzida para apenas 30% do
normal. Então, nesse ponto a ingestão de sal e água foi
aumentada para cerca de seis vezes o normal e mantida
subsequentemente nesse nível. O efeito agudo foi o
aumento do volume de líquido extracelular, do volume
230
Capítulo 19 O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão
Dias
Figura 19-8 Efeito médio sobre a pressão arterial da ingestão de solução salina a 0,9% em vez de água em quatro cães com 70% de
seu tecido renal removido. (Redesenhada de Langston JB, Guyton AC, Douglas BH, et al: Effect of changes in salt intake on arterial
pressure and renal function in partially nephrectomized dogs. Circ Res 12:508,1963. Com a permissão da American Heart Association,
Inc.)
sanguíneo e do débito cardíaco para 20% a 40% acima do
normal. Ao mesmo tempo, a pressão arterial começou a se
elevar, mas inicialmente não tanto quanto o volume de
líquido e o débito cardíaco. A razão para essa elevação mais
lenta da pressão arterial pode ser entendida pela análise da
curva da resistência periférica total que mostra diminuição
inicial. Essa diminuição foi causada pelo mecanismo
barorreceptor, discutido no Capítulo 18, que tentou
impedir a elevação da pressão. Entretanto, após 2 a 4 dias,
os barorreceptores se adaptaram e não foram mais capazes
de impedir o aumento da pressão. Nesse momento, a
pressão arterial havia se elevado ao máximo devido ao
aumento do débito cardíaco, embora a resistência periférica
total ainda estivesse em nível quase normal.
Após essas alterações agudas iniciais nas variáveis
circulatórias, alterações secundárias mais prolongadas
ocorreram nas semanas seguintes. Entre elas, foi de modo
especialmente importante o aumento progressivo da
resistência periférica total, ao mesmo tempo em que o débito
cardíaco se reduziu praticamente ao normal, em grande parte
como resultado do mecanismo de autorre- gulação do fluxo
sanguíneo a longo prazo, discutido em detalhes no Capítulo
17 e no início deste capítulo. Ou seja, depois que a grande
elevação do débito cardíaco produziu a hipertensão, o fluxo
sanguíneo excessivo pelos tecidos provocou a constrição
progressiva das arteríolas locais, retornando então os fluxos
sanguíneos locais em todos os tecidos do corpo, e também o
débito cardíaco aos valores normais, enquanto provocava
simultaneamente a elevação secundária da resistência periférica
total.
Note também que os volumes do líquido extracelular e
do sangue retornaram praticamente ao normal junto com a
redução do débito cardíaco. Isso resultou de dois fatores:
primeiro, porque o aumento na resistência arte- riolar
reduziu a pressão capilar, permitindo que o líquido
nos espaços teciduais fosse reabsorvido para o sangue.
Segundo, porque a pressão arterial elevada fez com que os
rins excretassem o excesso de líquido que se havia
acumulado de início no corpo.
Por fim, vamos considerar o estado final da circulação,
várias semanas após o início da sobrecarga de volume.
Encontramos os seguintes efeitos:
1. Hipertensão.
2. Aumento acentuado da resistência periférica total.
3. Normalização quase total do volume do líquido
extracelular, do volume sanguíneo e do débito cardíaco.
Por conseguinte, pode-se dividir a hipertensão por
sobrecarga de volume em dois estágios sequenciais
distintos: o primeiro resulta do aumento do volume de
líquido, causando elevação do débito cardíaco. Essa
elevação medeia a hipertensão. O segundo é caracterizado
pela alta pressão arterial e alta resistência periférica total,
com retorno do débito cardíaco para níveis tão próximos
do normal que as técnicas habituais de medida com
frequência não conseguem detectar qualquer elevação de
seu valor.
Assim, o aumento da resistência periférica total na
hipertensão por sobrecarga de volume ocorre após o
desenvolvimento da hipertensão e, portanto, é secundário a
ela e não a sua causa.
Hipertensão por Sobrecarga de Volume em Pacientes
que não Têm Rins, mas que São Mantidos por Rins
Artificiais
Quando um paciente é mantido sob terapia de substituição
renal, é especialmente importante manter seu volume de
líquido corporal no nível normal — ou seja, é importante
remover quantidade apropriada de água e sal, cada
231
U
N
I
D
A
Unidade IV A Circulação
^ 150
« 3? 140
W ^ * u rr
</> a> c 130
fl) ç
£ « E, 120 110
O-1 --------------1 -------1 -------1 -------1 -------1--------1--------1--------]—
0 2 4 6 8 10 12 14
Dias
Figura 19-9 Alterações progressivas em variáveis importantes do
sistema circulatório durante as primeiras semanas de hipertensão
por sobrecarga de volume. Note especialmente o aumento inicial
do débito cardíaco como a causa básica da hipertensão.
Subsequentemente, o mecanismo de autorregulação retorna o
débito cardíaco quase ao normal enquanto causa ao mesmo
tempo aumento secundário da resistência periférica total.
(Modificada de Guyton AC: Arterial Pressure and Hypertension.
Philadelphia: WB Saunders, 1980.)
vez que o paciente é dialisado. Se isso não for feito, e se
permite que o volume do líquido extracelular aumente, isso
resulta de modo quase invariável em hipertensão,
precisamente, do modo demonstrado na Figura 19-9, isto é,
o débito cardíaco de início aumenta, causando hipertensão.
Então, o mecanismo de autorregulação normaliza o débito
cardíaco, enquanto provoca aumento secundário da
resistência periférica total. Assim, ao final, a hipertensão
causada é do tipo de alta resistência periférica.
Hipertensão Causada por Aldosteronismo Primário
Outro tipo de hipertensão, por sobrecarga de volume, é
causado por excesso de aldosterona no corpo ou
ocasionalmente por excesso de outros tipos de esteroides.
Pequeno tumor em uma das glândulas adrenais por vezes
secreta grande quantidade de aldosterona, condição
referida como “aldosteronismo primário”. Como discutido
nos Capítulos 27 e 29, a aldosterona aumenta a intensidade
da reabsorção de sal e de água pelos túbulos renais,
reduzindo sua eliminação na urina e aumentando o volume
do sangue e do líquido extracelular. Consequentemente, a
hipertensão se desenvolve. Além disso, se a ingestão de
sal for aumentada ao mesmo tempo, a hipertensão fica
ainda mais intensa. Se a condição persistir por meses ou
anos, a pressão arterial excessiva com muita frequência
causa alterações patológicas nos rins, fazendo-os reter
ainda mais sal e água além do que é retido pela ação direta
da aldosterona. Assim, a hipertensão frequentemente
termina por atingir níveis letais.
Mais uma vez, nos estágios iniciais desse tipo de
hipertensão, o débito cardíaco está aumentado, mas nos
estágios mais avançados fica normal, enquanto a
resistência periférica total é aumentada de forma
secundária, como explicado antes neste capítulo, em
relação à hipertensão primária por sobrecarga de volume.
O Sistema Renina-Angiotensina: Seu Papel no
Controle da Pressão Arterial
Além da capacidade dos rins de controlar a pressão arterial
por meio de alterações do volume do líquido extracelular,
os rins têm também outro potente mecanismo de controle
da pressão, chamado sistema renina-angiotensina.
A renina é enzima proteica liberada pelos rins quando a
pressão arterial cai para níveis muito baixos. Sua resposta
consiste em elevar a pressão arterial de diversos modos,
contribuindo para a correção da queda inicial da pressão.
Componentes do Sistema Renina-Angiotensina
A Figura 19-10 mostra as etapas funcionais pelas quais o
sistema renina-angiotensina contribui para a regulação da
pressão arterial.
A renina é sintetizada e armazenada em forma inativa
chamada pró-renina nas células justaglomerulares (células JG)
dos rins. Essas são células musculares lisas modificadas,
situadas nas paredes das arteríolas aferen- tes imediatamente
proximais aos glomérulos. Quando a pressão arterial cai,
reações intrínsecas dos rins fazem com que muitas das
moléculas de pró-renina nas células JG sejam clivadas,
liberando renina. A maior parte da renina é liberada no
sangue que perfunde os rins para circular pelo corpo
inteiro. Entretanto, pequenas quantidades de renina
permanecem nos líquidos locais dos rins onde exercem
diversas funções intrarrenais.
A renina é enzima, e não substância vasoativa. Como
mostrado no esquema da Figura 19-10, ela age enzima-
ticamente sobre outra proteína plasmática, a globulina
referida como substrato de renina (ou angiotensinogênio),
liberando peptídeo com 10 aminoácidos, a angiotensina I. A
angiotensina I tem ligeiras propriedades vasoconstrito- ras,
mas não suficientes para causar alterações significativas na
função circulatória. A renina persiste no sangue por 30
minutos a 1 hora e continua a causar a formação de
angiotensina durante todo esse tempo.
Alguns segundos após a formação de angiotensina I,
dois aminoácidos adicionais são removidos da
angiotensina I, formando o peptídeo de oito aminoácidos
angio-
232
Capítulo 19
Redução da
pressão arterial
*
Renina (rins)
f
Substrato de
renina
(angiotensinogêni
o)
Angiotensina I
I
Enzima
convers
ora
(pulmõ
es)
Angiotensina II
O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão
Figura 19-11 Efeito compensador da pressão do sistema vaso-
constritor de renina-angiotensina após hemorragia intensa.
(Desenhada de experimentos do Dr. Royce Brough.)
/ vvç
/  (Ir
Angiotensinase
(Inativada)
Retenção renal Vasoconstrição
de sal e água
 /
Aumento da pressão arterial
Figura 19-10 Mecanismo vasoconstritor da renina-angiotensina
para o controle da pressão arterial.
tensina II. Essa conversão ocorre em grande parte nos
pulmões, enquanto o sangue flui por seus pequenos vasos
catalisados pela enzima conversora de angiotensina presente
no endotélio dos vasos pulmonares. Outros tecidos, tais
como rins e vasos sanguíneos, também contêm enzimas
conversoras e, portanto, formam localmente angiotensina
II.
A angiotensina II é vasoconstritor extremamente
potente, afetando também a função circulatória por outros
modos. Entretanto, ela persiste no sangue por apenas 1 ou 2
minutos por ser rapidamente inativada por múltiplas
enzimas sanguíneas e teciduais, coletivamente chamadas
de angiotensinases.
Durante sua permanência no sangue, a angiotensina II
exerce dois efeitos principais capazes de aumentar a
pressão arterial. O primeiro, a vasoconstrição em muitas áreas
do corpo, ocorre com muita rapidez. A vasoconstrição ocorre
de modo muito intenso nas arteríolas e com intensidade
muito menor nas veias. A constrição das arteríolas aumenta
a resistência periférica total, elevando dessa forma a
pressão arterial, como mostrado na parte inferior do
esquema da Figura 19-10. Além disso, a leve constrição das
veias promove o aumento do retorno venoso do sangue
para o coração, contribuindo para o maior bombeamento
cardíaco contra a pressão elevada.
O segundo meio principal pelo qual a angiotensina II
eleva a pressão arterial é a diminuição da excreção de sal e de
água pelos rins. Isso eleva lentamente o volume do líquido
extracelular, o que aumenta a pressão arterial durante as
horas e dias subsequentes. Esse efeito a longo
prazo, agindo pelo mecanismo de controle do volume do
líquido extracelular, é ainda mais potente que a
vasoconstrição aguda na elevação eventual da pressão
arterial.
Rapidez e Intensidade da Resposta da Pressão
Vasoconstritora ao Sistema Renina-Angiotensina
A Figura 19-11 mostra experimento típico, demonstrando o
efeito da hemorragia sobre a pressão arterial em duas
condições distintas: (1) com funcionamento do sistema
renina-angiotensina e (2) sem seu funcionamento (o
sistema foi interrompido por anticorpo bloqueador de
renina). Note que, após a hemorragia — suficiente para
causar diminuição da pressão arterial para 50 mmHg —, a
pressão arterial se elevou novamente para 83 mmHg
quando o sistema renina-angiotensina estava funcional. Ao
contrário, elevou-se apenas para 60 mmHg quando o
sistema estava bloqueado. Isso demonstra que o sistema
renina-angiotensina é suficientemente potente para elevar
a pressão arterial, no mínimo, até a metade do normal
alguns minutos após hemorragia intensa. Portanto, em
alguns casos, esse pode ser mecanismo salvador da vida
para o corpo, em especial no choque circulatório.
Note também que o sistema vasoconstritor renina-
angiotensina precisa de cerca de 20 minutos para ser
ativado. Desse modo, seu controle da pressão arterial é
mais lento que os reflexos nervosos e o sistema simpático
norepinefrina-epinefrina.
Efeito da Angiotensina II, nos Rins, Causando Retenção
de Sal e de Água — Meio Importante para o Controle
da Pressão Arterial a Longo Prazo
A angiotensina II faz com que os rins retenham sal e água
por dois meios principais:
1. Atuando diretamente sobre os rins para provocar
retenção de sal e de água.
2. Fazendo com que as glândulas adrenais secretem al-
dosterona que, por sua vez, aumenta a reabsorção de sal
e de água pelos túbulos renais.
Assim, quando quantidades excessivas de angiotensina
II circulam no sangue, todo o mecanismo renal a longo
233
U
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I
D
A
Unidade IV A Circulação
prazo para o controle dos líquidos corporais é
automaticamente ajustado para manter a pressão arterial
acima da normal.
Mecanismos dos Efeitos Renais Diretos da
Angioten- sina II Causadores da Retenção Renal de Sal
e de Água.
A angiotensina exerce diversos efeitos diretos que fazem
com que os rins retenham sal e água. Um deles é a cons-
trição das arteríolas renais, o que diminui o fluxo
sanguíneo pelos rins. O lento fluxo sanguíneo reduz a
pressão nos capilares peritubulares, provocando a rápida
reab- sorção de líquido pelos túbulos. A angiotensina II tem
também importantes ações diretas sobre as próprias células
tubulares para aumentar a reabsorção de sal e de água. O
resultado total desses efeitos é significativo reduzindo às
vezes o débito urinário para menos que um quinto do
normal.
Estimulação da Secreção de Aldosterona pela
Angiotensina II e o Efeito da Aldosterona no Aumento
da Retenção de Sal e de Água pelos Rins. A angiotensina
II é também um dos mais potentes estimuladores da
secreção de aldosterona pelas glândulas adrenais, como
discutiremos em relação à regulação dos líquidos
corporais, no Capítulo 29, e em relação à função das
glândulas adrenais, no Capítulo 77. Assim, quando o
sistema renina-angiotensina é ativado, a intensidade da
secreção de aldosterona em geral também aumenta; uma
importante função subsequente da aldosterona é a de
causar aumento acentuado da reabsorção de sódio pelos
túbulos renais, elevando sua concentração no líquido
extracelular. Essa elevação então causa a retenção de água
como explicado antes, aumentando o volume do líquido
extracelular e provocando de forma secundária maior
elevação da pressão arterial a longo prazo.
Desse modo, tanto o efeito direto da angiotensina sobre
os rins quanto seu efeito por meio da aldosterona são
importantes no controle da pressão arterial a longo prazo.
Entretanto, pesquisa em nosso laboratório sugeriu que o
efeito direto da angiotensina, sobre os rins, seja talvez três
ou mais vezes mais potente que o efeito indireto por meio
da aldosterona — embora este seja o mais conhecido.
Análise Quantitativa das Alterações da Pressão
Arterial Causadas pela Angiotensina II. A Figura 19-12
mostra a análise quantitativa do efeito da angiotensina sobre o
controle da pressão arterial. Essa figura mostra duas curvas de
débito renal, bem como a linha representativa no nível normal da
ingestão de sódio. A curva da esquerda foi obtida em cães cujo
sistema renina-angiotensina havia sido bloqueado pelo fármaco
inibidor da enzima conversora de angiotensina que bloqueia a
conversão de angiotensina I em angiotensina II. A curva da direita
foi obtida em cães infundidos continuamente com angiotensina II
em nível cerca de 2,5 vezes maior que o normal de formação de
angiotensina no sangue. Note o desvio da curva de débito renal
para níveis mais elevados de pressão sob a influência da
angiotensina II. Esse desvio é causado pelos efeitos diretos da
angiotensina II sobre os rins e pelo efeito indireto por meio da
secreção de aldosterona, conforme já explicado.
Níveis sanguíneos de
^ angiotensina (x normal) }
Figura 19-12 Efeito de dois níveis sanguíneos de angiotensina
II sobre a curva do débito renal, mostrando a regulação da
pressão arterial no ponto de equilíbrio de 75 mmHg, quando o
nível de angiotensina II está baixo, e de 115 mmHg e quando o
nível de angiotensina II está alto.
Por fim, note os dois pontos de equilíbrio, o primeiro na
ausência de angiotensina, correspondendo à pressão arterial de 75
mmHg, e o segundo, sob níveis elevados de angiotensina,
correspondente à pressão arterial de 115 mmHg. Como
consequência, a retenção de sal e de água causada pela
angiotensina pode ter efeito potente de provocar a elevação
crônica da pressão arterial.
O Papel do Sistema Renina-Angiotensina na
Manutenção da Pressão Arterial Normal Apesar de
Grandes Variações na Ingestão de Sal
Uma das mais importantes funções do sistema
renina-angiotensina é a de permitir que a pessoa ingira
quantidades muito pequenas ou muito grandes de sal, sem
apresentar grandes variações do volume do líquido
extracelular ou da pressão arterial. Essa função é explicada
pelo esquema da Figura 19-13, que mostra o efeito inicial
do aumento da ingestão de sal como sendo o de elevar o
volume do líquido extracelular que por sua vez aumenta a
pressão arterial. Então, a pressão arterial elevada aumenta
o fluxo sanguíneo pelos rins, além de outros efeitos, reduz
a secreção de renina para nível muito mais baixo, e provoca
sequencialmente a redução da retenção renal de sal e água,
a quase normalização do volume do líquido extracelular, e
por fim a quase normalização da pressão arterial. Assim, o
sistema renina-angiotensina é mecanismo de feedback
automático que contribui para a manutenção da pressão
arterial em níveis próximos aos normais, mesmo quando a
ingestão de sal é aumentada. Ao contrário, quando a
ingestão de sal diminui para abaixo da normal ocorrem
efeitos opostos.
Para enfatizar a eficácia do sistema renina-angiotensina no
controle da pressão arterial quando o sistema fun-
234
Capítulo 19
Aumento da ingestão de sal
l
Aumento do volume extracelular
I
Aumento da pressão arterial
I
Redução da renina e angiotensina
I
O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão
Constrição da artéria renal Constrição removida
Redução da retenção renal de sal e água
Retorno do volume extracelular praticamente ao normal
I
Retorno da pressão arterial praticamente ao normal
Figura 19-13 Eventos sequenciais por meio dos quais a
ingestão de sal aumenta a pressão arterial, mas a redução por
feed- back da atividade do sistema renina-angiotensina
praticamente a normaliza.
ciona normalmente, a pressão se eleva por não mais do que
4 a 6 mmHg em resposta ao aumento de 50 vezes na
ingestão de sal. Ao contrário, quando esse sistema é
bloqueado, o mesmo aumento da ingestão de sal provoca
aumento 10 vezes maior da pressão, muitas vezes por até
50 a 60 mmHg.
Tipos de Hipertensão em que Ocorre Participação
da Angiotensina: Hipertensão Causada por Tumor
Secretor de Renina ou por Infusão de Angiotensina
II
Ocasionalmente, ocorre tumor das células justaglome-
rulares (células JG) secretoras de renina, secretando enorme
quantidade dessa substância; consequentemente é formada
quantidade igualmente grande de angiotensina
II. Em todos os pacientes nos quais isto ocorreu, desen-
volveu-se hipertensão grave. Além disso, quando grande
quantidade de angiotensina II é infundida continuamente
em animais durante dias ou semanas, também se
desenvolve grave hipertensão a longo prazo.
Já notamos que a angiotensina II pode elevar a pressão
arterial por duas maneiras:
1. Pela constrição das arteríolas em todo o organismo,
aumentando assim a resistência periférica total e a
pressão arterial; esse efeito ocorre segundos após o
início da infusão de angiotensina.
2. Por meio da retenção renal de sal e água; após alguns
dias, isso também provoca hipertensão, sendo essa a
principal causa da continuação da pressão elevada a
longo prazo.
Hipertensão de Goldblatt de “Rim Único". Quando
um dos rins é removido e um constritor é colocado na
Figura 19-14 Efeito do pinçamento unilateral da artéria renal
após a remoção do rim contralateral. Note as alterações da
pressão arterial sistêmica, da pressão da artéria renal distai ao
pinçamento e a secreção de renina. A hipertensão resultante é
chamada de hipertensão de "rim-único" de Goldblatt.
artéria renal do rim remanescente, como mostrado na
Figura 19-14, o efeito imediato é a pressão muito diminuída
na artéria renal além do constritor, como indicado pela
linha tracejada na figura. Então, após segundos a minutos,
a pressão arterial sistêmica começa a se elevar, o que
continua a acontecer durante muitos dias. A pressão em
geral aumenta rapidamente na primeira hora, o que é
seguido por elevação adicional mais lenta durante os dias
seguintes. Quando a pressão arterial sistêmica atinge seu
novo nível estável, a pressão arterial renal (a curva
tracejada na figura) estará praticamente normalizada. A
hipertensão provocada por esse meio é designada como
hipertensão de Goldblatt de “rim único”, em homenagem ao
Dr. Harry Goldblatt, que foi o primeiro a estudar as
características quantitativas importantes da hipertensão
causada por constrição da artéria renal.
A elevação inicial da pressão arterial na hipertensão de
Goldblatt é causada pelo mecanismo vasoconstri-
235
U
N
I
D
A
Unidade IV A Circulação
tor da renina-angiotensina, isto é, devido ao baixo fluxo
sanguíneo pelo rim após a constrição aguda da artéria
renal, grande quantidade de renina é secretada pelo rim,
como mostrado pela curva mais inferior da Figura 19-14,
isto aumenta a angiotensina II e a aldosterona no sangue. A
angiotensina, por sua vez, eleva de forma aguda a pressão
arterial. A secreção de renina aumenta até seu máximo
depois de cerca de 1 hora, mas praticamente se normaliza
após 5 a 7 dias porque a pressão arterial renal também se
elevou até o normal, assim o rim não está mais isquêmico.
A segunda elevação da pressão arterial é causada pela
retenção de sal e de água pelo rim isquêmico (que também
é estimulado pela angiotensina II e pela aldosterona). Em 5
a 7 dias, o volume do líquido corporal terá aumentado o
suficiente para elevar a pressão arterial até seu novo nível
estável. O valor quantitativo desse novo nível da pressão é
determinado pelo grau de constrição da artéria renal, isto é,
a pressão aórtica deve se elevar até que a pressão arterial
distai ao constritor seja suficiente para provocar débito
urinário normal.
Cenário similar ocorre em pacientes com estenose da
artéria renal de único rim remanescente, como ocorre
algumas vezes após a pessoa receber um rim
transplantado. Também, aumentos funcionais ou
fisiológicos da resistência de arteríolas renais, devido à
aterosclerose ou aos níveis excessivos de vasoconstritores,
podem causar hipertensão pelos mesmos mecanismos da
constrição da principal artéria renal.
Hipertensão de Goldblatt de "Dois Rins". A
hipertensão também pode ocorrer quando a artéria de
apenas um rim é comprimida, enquanto a artéria do outro
rim é mantida normal. Essa hipertensão resulta do seguinte
mecanismo: o rim com constritor secreta renina e também
retém sal e água, devido à diminuição de sua pressão
arterial renal. Então, o rim oposto “normal” retém sal e
água devido à renina produzida pelo rim isquêmico. Essa
renina provoca a formação de angiotensina II e de
aldosterona, que circulam para o rim oposto e provocam
retenção de sal e água. Assim, ambos os rins por diferentes
razões passam a ser retentores de sal e de água, com o
consequente desenvolvimento de hipertensão.
A contrapartida clínica da hipertensão de Goldblatt de
“dois rins” ocorre quando existe estenose de uma só artéria
renal, por exemplo causada por aterosclerose em pessoa
que tem dois rins.
Hipertensão Causada por Rins Doentes que Se-
cretam Cronicamente Renina. Com frequência, áreas
focais em um ou em ambos os rins ficam patologicamente
isquêmicas devido a constrições vasculares locais,
enquanto outras áreas dos rins estão normais. Quando isso
ocorre, efeitos quase idênticos aos da hipertensão de
Goldblatt de dois rins se desenvolvem, isto é, o tecido focal
isquêmico secreta renina, que, por sua vez, agindo por
meio da formação de angiotensina II, faz com que a massa
renal remanescente retenha sal e água. De fato,
uma das causas mais comuns de hipertensão renal
especialmente em pessoas idosas é essa doença renal isquê-
mica focal.
Outros Tipos de Hipertensão Causados por
Combinações de Sobrecarga de Volume e de
Vasoconstrição
Hipertensão na Parte Superior do Corpo Causada por Coarc-
tação da Aorta. Um dentre alguns milhares de bebês nasce com
constrição ou bloqueio patológico da aorta em ponto distai aos
ramos arteriais aórticos para a cabeça e braços, mas proximal às
artérias renais, condição chamada de coarc- tação da aorta.
Quando isso ocorre, o fluxo sanguíneo para a parte inferior do
corpo é transportado por múltiplas pequenas artérias colaterais na
parede corporal com muita resistência vascular entre a aorta
superior e a inferior. Como consequência, a pressão arterial na
parte superior do corpo pode ser 40% a 50% mais alta que na parte
inferior.
O mecanismo para essa hipertensão da parte superior do corpo
é quase idêntico ao da hipertensão de Goldblatt de rim único, isto
é, quando um constritor é posicionado na aorta acima das artérias
renais, a pressão sanguínea em ambos os rins inicialmente cai, a
renina é secretada, angiotensina e aldosterona são formadas e
ocorre hipertensão na parte superior do corpo. A pressão arterial
na parte inferior do corpo, no nível dos rins, aumenta quase
aproximadamente até a normal, mas a alta pressão persiste na
parte superior. Os rins não estão mais isquêmicos, assim a secreção
de renina e a formação de angiotensina e de aldosterona retornam
ao normal. Assim, na coarctação da aorta, a pressão arterial na
parte inferior do corpo é, em geral, quase normal, enquanto a
pressão na parte superior é muito mais elevada que o normal.
O Papel da Autorregulação na Hipertensão Causada pela
Coarctação da Aorta. Característica significativa da hipertensão
causada pela coarctação da aorta é o fato de que o fluxo sanguíneo
para os braços, onde a pressão pode ser 40% a 60% acima da
normal, é praticamente normal. Além disso, o fluxo sanguíneo
pelas pernas, onde a pressão não está elevada também é quase
exatamente a normal. Como isso é possível com a pressão na parte
superior do corpo 40% a 60% maior que na parte inferior? A
resposta não está em possíveis diferenças das substâncias
vasoconstritoras no sangue das duas partes do corpo porque o
mesmo sangue flui por ambas as áreas. Da mesma forma, o
sistema nervoso inerva as duas áreas da circulação de modo
similar, assim não existem razões para se acreditar que ocorram
diferenças no controle nervoso dos vasos sanguíneos. A única
resposta razoável é que a autorregulação a longo prazo se
desenvolve de modo tão completo que os mecanismos de
controle do fluxo sanguíneo compensam quase 100% das
diferenças de pressão. O resultado é que, tanto na área de alta
pressão, quanto na de baixa pressão, o fluxo sanguíneo local é
controlado quase precisamente de acordo com as necessidades
teciduais e não de acordo com o nível da pressão. A importância
dessas observações consiste em demonstrar quão completo pode
ser o processo de autorregulação a longo prazo.
Hipertensão na Pré-eclâmpsia (Toxemia Gravídica).
Aproximadamente 5% a 10% das mulheres grávidas desenvolvem
a síndrome conhecida como pré-eclâmpsia (chamada também
236
Capítulo 19 O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão
toxemia gravídica). Uma das manifestações da pré-eclâmp- sia é
a hipertensão que, em geral, desaparece após o parto. Embora as
causas precisas da pré-eclâmpsia não sejam completamente
compreendidas, acredita-se que a isquemia da placenta e a
liberação subsequente de fatores tóxicos tenham participação na
geração de muitas das manifestações desse distúrbio, incluindo a
hipertensão materna. As substâncias liberadas pela placenta
isquêmica, por sua vez, provocam a disfunção de células
endoteliais vasculares em todo o corpo, incluindo os vasos
sanguíneos renais. Essa disfunção endo- telial diminui a
secreção de óxido nítrico e de outras substâncias
vasodilatadoras, causando vasoconstrição, redução da intensidade
de filtração de líquido pelos glomérulos para os túbulos renais,
comprometimento da natriurese renal por pressão e
desenvolvimento de hipertensão.
Outra anormalidade patológica, capaz de contribuir para a
hipertensão, na pré-eclâmpsia é o espessamento das membranas
glomerulares renais (talvez causado por processo autoimune) que
também reduz a filtração glomerular de líquido. Por motivos
óbvios, a pressão arterial necessária para a formação normal de
urina fica elevada, e o nível da pressão arterial a longo prazo fica
elevado de forma correspondente. Essas pacientes têm maior
tendência a apresentar graus mais elevados de hipertensão quando
ingerem quantidade excessiva de sal.
Hipertensão Neurogênica. A hipertensão neurogênica
aguda pode ser causada pela forte estimulação do sistema
nervoso simpático. Por exemplo, quando a pessoa se torna
excitada por qualquer razão ou durante estados de ansiedade, o
sistema simpático fica excessivamente ativo, resultando em
vasoconstrição periférica generalizada e hipertensão aguda.
Hipertensão Neurogênica Aguda Causada pela Secção dos
Nervos Barorreceptores. Ocorre outro tipo de hipertensão
neurogênica aguda quando os nervos que partem dos
barorreceptores são cortados ou quando o trato solitário no bulbo é
destruído bilateralmente (essa é a área onde os nervos dos
barorreceptores carotídeos e aórticos se conectam com o tronco
cerebral). A interrupção súbita dos sinais nervosos normais que
partem dos barorreceptores tem o mesmo efeito sobre os
mecanismos nervosos de controle da pressão que a redução súbita
da pressão arterial na aorta e na carótida, isto é, a perda do efeito
inibitório normal sobre o centro vasomotor causada pelos sinais
nervosos normais dos barorreceptores permite que o centro
vasomotor fique subitamente muito ativo e a pressão arterial média
aumente de 100 mmHg para até 160 mmHg. A pressão se
normaliza após 2 dias porque a resposta do centro vasomotor, à
ausência dos sinais dos barorreceptores, se dissipa, o que é
chamado de “reajuste” central do mecanismo de controle
barorreceptor da pressão. Assim, a hipertensão neurogênica
causada pela secção dos nervos barorreceptores é em grande parte
do tipo agudo e não crônico.
Causas Genéticas da Hipertensão. Observou-se hipertensão
hereditária espontânea em diversos tipos de animais, incluindo
diferentes cepas de ratos, coelhos e uma de cães. Na cepa de ratos
mais estudada, a cepa Okamoto, espontaneamente hipertensa,
existem evidências de que no desenvolvimento precoce da
hipertensão o sistema nervoso simpático está consideravelmente
mais ativo que nos ratos normais. Nos estágios finais desse tipo de
hipertensão, foram notadas alterações estruturais nos néfrons dos
rins:
(1) aumento da resistência arterial renal pré-glomerular e
(2) redução da permeabilidade das membranas glomerulares.
Essas alterações estruturais também poderíam cont
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  • 1. GUYTON & HALL T R A T A D O D E FISIOLOGIA MÉDICA HALL TRADUÇAO DA 12° EDIÇÃO
  • 2. AVISO LEGAL Caso esta Obra na versão impressa possua quaisquer materiais complementares, tais como: CDs e/ou DVDs ou recursos on-line, estes serão disponibilizados na versão adquirida a partir da Biblioteca Digital através do ícone "Recursos Extras" dentro da própria Biblioteca Digital.
  • 3. 12- E D I Ç Ã O Tratado de Fisiologia Médica John E. Hall, Ph.D. Arthur C. Guyton Professor and Chair Department of Physiology and Biophysics Associate Vice Chancellor for Research University of Mississippi Medicai Center Jackson, Mississippi SAUNDERS
  • 4. © 2011 Elsevier Editora Ltda. Tradução autorizada do idioma inglês da edição publicada por Saunders - um selo editorial Elsevier Inc. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros. ISBN: 978-85-352-4980-4 Copyright © 2011, 2006, 2000, 1996, 1991, 1986, 1981,1976, 1966, 1961, 1956 by Saunders, an imprint of Elsevier Inc. This edition of Guyton and Hall Textbook of Medicai Physiology, 12th edition, by John E. Hall is published by arrangement with Elsevier Inc. ISBN: 978-1-4160-4574-8 Adaptação da Capa Original Folio Design Ltda. Editoração Eletrônica Rosane Guedes Elsevier Editora Ltda. Conhecimento sem Fronteiras Rua Sete de Setembro, nolll - 16<, andar 20050-006 - Centro - Rio de Janeiro - RJ Rua Quintana, a>753 - 8» andar 04569-011 - Brooklin - São Paulo - SP Serviço de Atendimento ao Cliente 0800 026 53 40 [email protected] Conheça nosso catálogo completo: cadastre-se em www.elsevier.com.br para ter acesso a conteúdos e serviços exclusivos e receber informações sobre nossos lançamentos e promoções. NOTA O conhecimento médico está em permanente mudança. Os cuidados normais de segurança devem ser seguidos, mas, como as novas pesquisas e a experiência clínica ampliam nosso conhecimento, alterações no tratamento e na terapia à base de fármacos podem ser necessárias ou apropriadas. Os leitores são aconselhados a checar informações mais atuais dos produtos, fornecidas pelos fabricantes de cada fármaco a ser administrado, para verificar a dose recomendada, o método e a duração da administração e as contraindicações. É responsabilidade do médico, com base na sua experiência e contando com o conhecimento do paciente, determinar as dosagens e o melhor tratamento para cada um indivíduo. Nem o editor nem o autor assumem qualquer responsabilidade por eventual dano ou perda a pessoas ou a propriedade originada por esta publicação. O Editor CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ H184t Hall, John E. (John Edward), 1946- Tratado de Fisiologia Médica [recurso eletrônico] / John E. Hall; [tradução Alcides Marinho Junior ... et al.]. - Rio de Janeiro : Elsevier, 2011. recurso digital: il. Tradução de: Textbook of medicai physiology Formato: Flash Requisitos do sistema: Adobe Flash Player Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-352-4980-4 (recurso eletrônico) 1. Fisiologia humana. 2. Fisiopatologia. 3. Livros eletrônicos. I. Título. 11-6293. 23.09.11 29.09.11 CDD: 612 CDU: 612 029997
  • 5. Revisão Científica e Tradução Revisão Científica Charles Alfred Esbérard (in memóriam) Doutor, Livre-Docente em Fisiologia pela Universidade do Rio de Janeiro - Uni-Rio Prof. Emérito em Fisiologia da UFES Professor Titular em Fisiologia da Faculdade de Medicina de Petrópolis Professor Titular em Farmacologia da Universidade Federal Fluminense - Aposentado Professor Titular em Fisiologia da Universidade do Rio de Janeiro - Uni-Rio - Aposentado Tradução Alcides Marinho Junior Professor Titular de Fisiologia do Curso de Medicina e Farmácia da Universidade Iguaçu (UNIG) Alexandre Vianna Aldighieri Soares Especialista em Clínica Médica e Endocrinologia Andréa Delcorso Tradutora formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Bárbara de Alencar Leão Martins Médica Oncologista Claudia Coana Tradutora Débora Sitnik Residente em Clínica Médica - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Diego Alfaro Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pós-graduado em Acupuntura pelo Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro Douglas Arthur Omena Futuro Médico Especialista em Ortopedia v
  • 6. Revisão Científica e Tradução Fabiana Buassaly Médica Veterinária Hermínio de Mattos Filho Especialista em Oftalmologia pela Associação Médica Brasileira, PUC-RJ Membro Titular do Conselho Brasileiro de Oftalmologia Membro Internacional da Academia Americana de Oftalmologia Leonardo Allevato Magalhães Mestrando em Ciência da Motricidade Humana na Universidade Castelo Branco Luísa Sá Barreto Pimentel Mestranda em Neurofarmacologia pela UFRJ Manoela D'Almeida Sande Tradutora Marcela Jardim Gomes Elias Mestre em Farmacologia e Química Medicinal Maria Inês Corrêa Nascimento Bacharel em Letras (Tradução Bilíngue) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) Michelle Gralle Botelho Especialista em Dermatologia pela Associação Médica Brasileira Residência em Dermatologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Doutorado em Química Biológica pelo Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ Nelson Gomes de Oliveira Médico do Trabalho Aposentado da Petrobras Raimundo Rodrigues Santos Especialista em Neurologia e Neurocirurgia Mestre em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Roberto Mogami Professor Adjunto de Radiologia da UERJ Membro Titular do Colégio Brasileiro de Radiologia Médico Radiologista do Hospital Raphael de Paula Souza/MS Sérgio Rachman Especialista em Psiquiatria pela Associação Médica Brasileira Médico Psiquiatra do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo Solange Castro Affeche Pós-Doutorado em Fisiologia Celular e Biologia Molecular pela Université Louis Pasteur, França Doutora em Ciências (Fisiologia Humana) pela USP Pesquisadora do Laboratório de Farmacologia do Instituto Butantan, São Paulo Valdir de Souza Pinto Mestre em Infectologia e Saúde Pública pela Coordenação dos Institutos de Pesquisa da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo/Instituto de Infectologia Emílio Ribas Vilma Ribeiro de Souza Varga Graduada em Ciências Médicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Residência Médica em Neurologia Clínica no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo vi
  • 7. À Minha Família Por seu apoio incondicional, sua paciência, compreensão e amor A Arthur C. Guyton Por sua pesquisa criativa e inovadora Por sua dedicação à educação Por demonstrar alegria e gosto pela fisiologia E por servir como exemplo e inspiração
  • 9. Prefácio A primeira edição do Tratado de Fisiologia Médica foi escrita por Arthur C. Guyton há quase 55 anos. Ao contrário de muitos livros médicos importantes que frequentemente apresentam 20 autores ou mais, as primeiras oito edições deste tratado foram totalmente escritas pelo Dr. Guyton, com o surgimento previsto de cada nova edição, em período de aproximadamente 40 anos. O Tratado de Fisiologia Médica, publicado pela primeira vez em 1956, rapidamente se tornou best-seller em todo o mundo. O Dr. Guyton tinha o dom de comunicar idéias complexas de forma clara e interessante, o que tornou o estudo da fisiologia divertido. Ele escreveu o livro para ajudar os estudantes a aprender fisiologia, e não para impressionar seus colegas de profissão. Trabalhei com o Dr. Guyton por quase 30 anos e tive o privilégio de escrever partes da 9- e da 10a edições. Após a trágica morte do Dr. Guyton em um acidente automobilístico, em 2003, assumi a responsabilidade de concluir a ll3 edição. Com relação à 12- edição do Tratado de Fisiologia Médica, segui a mesma meta das edições anteriores - explicar, em linguagem compreensível pelos estudantes, como os diferentes tecidos, órgãos e células do corpo humano atuam em conjunto para a manutenção da vida. Essa tarefa foi desafiadora e estimulante, já que nosso conhecimento rapidamente crescente da fisiologia continua a elucidar novos mistérios das funções corpóreas. Avanços na fisiologia celular e molecular tornaram possível explicar muitos princípios fisiológicos na terminologia das ciências moleculares e físicas, em vez de apenas em uma série de separados e inexplicáveis fenômenos biológicos. O Tratado de Fisiologia Médica, todavia, não é um livro de referência que tenta ser um compêndio dos mais recentes avanços da fisiologia. Este é um livro que continua a tradição de ser escrito para estudantes. A obra focaliza os princípios básicos da fisiologia necessários para iniciar uma carreira nas profissões das áreas da saúde, como medicina, odontologia e enfermagem, bem como de pós-graduação nas ciências biológicas e nas áreas de saúde. Ele poderá ser útil para clínicos e profissionais das áreas da saúde que desejem fazer revisão dos princípios básicos, necessários à compreensão da fisiopatologia das doenças humanas. Tentei manter a mesma organização uniforme que se mostrou útil aos estudantes no passado e garantir suficiente abrangência do livro, a ponto de os estudantes desejarem utilizá-lo no futuro como base para suas carreiras profissionais. Espero que este livro transmita a grandiosidade do corpo humano e de suas funções diversas e ainda estimule os alunos a estudarem a fisiologia por toda a sua carreira. A fisiologia corresponde ao elo entre as ciências básicas e a medicina. O grande encanto da fisiologia está em sua integração das funções individuais dos diferentes tecidos, órgãos e células do corpo em um todo funcional, o corpo humano. Na verdade, o corpo humano é muito mais do que a soma de suas partes, mas a vida depende, sobretudo, de sua funcionalidade total, não apenas da atuação das partes corpóreas, isoladas umas das outras. Isso nos traz uma questão importante: como são coordenados os órgãos e os sistemas distintos para manter o funcionamento adequado de todo o corpo? Felizmente, nossos corpos são dotados de vasta rede de controles por feedback que alcançam os balanços necessários sem os quais não seríamos capazes de sobreviver. O termo home- ostasia é empregado, pelos fisiologistas, para descrever esse alto nível de controle corporal interno. Nos estados patológicos, os balanços funcionais são, muitas vezes, gravemente interrompidos, prejudicando a homeostasia. Mesmo quando um só distúrbio atinge o seu limite, todo o corpo perde sua capacidade de sobrevivência. Uma das metas deste livro, portanto, é enfatizar a eficácia e a perfeição dos mecanismos de homeostasia do corpo, bem como apresentar suas funções anormais nos processos patológicos. Outra meta é ser o mais objetivo e preciso possível. Sugestões e críticas de muitos fisiologistas, estudantes e clínicos, em todo o mundo, foram analisadas e, por fim, utilizadas para avaliar a precisão real e efetiva, bem como a harmonia do livro. Mesmo assim, erros de classificação podem ocorrer, devido à grande quantidade de informações; então, eu gostaria de pedir a todos os leitores que enviem suas anotações caso encontrem erro ou inexatidão dos dados. Assim como os fisiologistas reconhecem a importância do feedback para o funcionamento adequado do corpo humano, penso que ofeedback/vetovno dos lei
  • 10. Prefácio tores é igualmente importante para a melhoria progressiva de um livro de fisiologia. Às muitas pessoas que já ajudaram, envio meus sinceros agradecimentos. Uma breve explicação a respeito de alguns aspectos da 12a edição se faz necessária. Embora muitos dos capítulos tenham sido revisados, incluindo novos princípios da fisiologia, o livro foi rigorosamente monitorado quanto à limitação de seu volume, para que ele possa ser utilizado com eficiência nos cursos de fisiologia pelos estudantes de medicina e da área da saúde. Muitas das figuras também foram reproduzidas e, atualmente, estão em cores. Além disso, foram selecionadas novas referências, principalmente, por sua descrição dos princípios fisiológicos, pela qualidade de suas próprias referências e por sua fácil acessibilidade. As bibliografias selecionadas, ao fim de cada capítulo, contêm referências de artigos publicados nas revistas científicas mais recentes que podem ser acessadas, gratuitamente, no site da internet PubMed, em http://www. ncbi.nlm.nih.gov/sites/entrez/. O uso dessas referências, bem como das referências cruzadas obtidas por esse meio, pode dar ao estudante cobertura quase completa de todo o campo da fisiologia. O esforço para ser o mais conciso possível necessitou, infelizmente, uma apresentação mais simplificada e dogmática de muitos problemas fisiológicos do que se desejaria em outras circunstâncias. Contudo, a bibliografia pode ser usada para conhecer melhor as controvérsias e as perguntas, ainda sem resposta que permanecem na compreensão das diferentes funções do corpo humano, na saúde e na doença. Outro ponto importante é o de que o texto foi impresso em dois tamanhos. O texto em corpo normal constitui a informação fisiológica fundamental, que vai ser necessá ria ao estudante em virtualmente todas as suas atividades e em seus estudos médicos. O texto em tipo menor, geralmente com retícula bege, trata de vários assuntos: primeiro, informações anatômicas, químicas ou outras que são necessárias para a discussão imediata, mas que a maioria dos estudantes vai adquirir em outros cursos; segundo, informações fisiológicas com importância especial para certos campos da medicina clínica, e, terceiro, informações que serão valiosas para os estudantes que desejam estudar em maior profundidade determinados mecanismos fisiológicos. Quero expressar meus sinceros agradecimentos a muitas pessoas que ajudaram na preparação deste livro, inclusive meus colegas do Department of Physiology and Biophysics da University of Mississippi Medicai Center, que forneceram sugestões valiosas. Os docentes de nossa faculdade e uma breve descrição das pesquisas e atividades educacionais do departamento podem ser encontrados em http://physiology.umc.edu. Também estou agradecido a Stephanie Lucas e Courtney Horton Graham, por seus excelentes trabalhos de secretaria, a Michael Schenk e Walter (Kyle) Cunningham, por seus elegantes trabalhos artísticos, e a William Schmidt, Rebecca Gruliow, Frank Morales e a toda equipe da Elsevier Saunders, por sua excelência continuada de editoração e produção. Por fim, tenho enorme dívida com o Dr. Arthur Guyton, pelo grande privilégio de ter colaborado na elaboração do Tratado de Fisiologia Médica, pela notável carreira na fisiologia, por sua amizade e pela inspiração conferida a todos que o conheceram. John E. Hall x
  • 11. Sumário UNIDADE I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral CAPÍTULO 1 Organização Funcional do Corpo Humano e Controle do "Meio Interno" 3 As Células como Unidades Vivas do Corpo 3 Líquido Extracelular- O “Meio Interno" 3 Mecanismos “Homeostáticos" dos Principais Sistemas Funcionais 4 Resumo - Automaticidade do Corpo 9 CAPÍTULO 2 A Célula e suas Funções 11 Organização da Célula 11 Estrutura Física da Célula 12 Comparação da Célula Animal com Formas Pré-celulares deVida 18 Sistemas Funcionais da Célula 18 Locomoção Celular 24 CAPÍTULO 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular 27 Genes no Núcleo Celular 27 O Código do DNA no Núcleo Celular é Transferido para um Código de RNA no Citoplasma Celular - O Processo de Transcrição 29 Síntese de Outras Substâncias na Célula 35 Controle da Função do Gene e da Atividade Bioquímica nas Células 35 O Sistema Genético - DNA também Controla a Reprodução Celular 37 Diferenciação Celular 40 Apoptose - Morte Programada das Células 40 Câncer 40 UNIDADE Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo CAPÍTULO 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares 45 A Barreira Lipídica da Membrana Celular e as Proteínas de Transporte da Membrana Celular 45 Difusão 46 "Transporte Ativo" de Substâncias através das Membranas 53 CAPÍTULO 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação 59 Física Básica dos Potenciais de Membrana 59 Medida do Potencial de Membrana 60 Potencial de Repouso das Membranas dos Nervos 61 Potencial de Ação dos Nervos 63 Os Papéis de Outros íons no Potencial de Ação 66 Propagação do Potencial de Ação 67 Restabelecimento dos Gradientes lônicos do Sódio e do Potássio após o Término do Potencial de Ação - A Importância do Metabolismo Energético 68 O Platô em Alguns Potenciais de Ação 68 Ritmicidade de Alguns Tecidos Excitáveis - Descarga Repetitiva 69 Características Especiais da Transmissão dos Sinais nos Troncos Nervosos 70 Excitação - O Processo de Geração do Potencial de Ação 70 Registro dos Potenciais de Membrana e dos Potenciais de Ação 72 CAPÍTULO 6 Contração do Músculo Esquelético 73 Anatomia Fisiológica do Músculo Esquelético 73 Mecanismo Geral da Contração Muscular 76 Mecanismo Molecular da Contração Muscular 74 XI
  • 12. Sumário Energética da Contração Muscular 80 Características da Contração do Músculo como um Todo 81 CAPÍTULO 7 Excitação do Músculo Esquelético: Transmissão Neuromuscular e Acoplamento Excitação- Contração 87 Transmissão dos Impulsos das Terminações Nervosas para as Fibras Musculares Esqueléticas: A Junção Neuromuscular 87 Biologia Molecular da Formação e da Liberação de Acetilcolina 90 Fármacos que Reforçam ou Bloqueiam a Transmissão na Junção Neuromuscular 90 Miastenia Graves Causa Paralisia Muscular 91 Potencial de Ação Muscular 91 Acoplamento Excitação-Contração 89 CAPÍTULO 8 Excitação e Contração do Músculo Liso 95 Contração do Músculo Liso 95 Controles Nervoso e Hormonal da Contração do Músculo Liso 98 CAPÍTULO 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas 107 Fisiologia do Músculo Cardíaco 107 O Ciclo Cardíaco 111 Relação entre os Sons Cardíacos e o Bombeamento Cardíaco 114 Produção de Trabalho pelo Coração 114 Energia Química Necessária para a Contração Cardíaca: O Uso de Oxigênio pelo Coração 116 Regulação do Bombeamento Cardíaco 116 CAPÍTULO 10 Excitação Rítmica do Coração 121 O Sistema Excitatório e Condutor Especializado do Coração 121 Controle da Excitação e da Condução no Coração 124 CAPÍTULO 11 O Eletrocardiograma Normal 129 Características do Eletrocardiograma Normal 129 Métodos para o Registro de Eletrocardiogramas 131 Aparelho para Registro com Pena Inscritora 126 O Fluxo da Corrente em Redor do Coração durante o Ciclo Cardíaco 132 Derivações Eletrocardiográficas 133 CAPÍTULO 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Vetorial 137 Princípios da Análise Vetorial dos Eletrocardiogramas 137 Análise Vetorial do Eletrocardiograma Normal 139 Eixo Elétrico Médio do QRS Ventricular- e seu Significado 142 Condições Que Causam Voltagens Anormais do Complexo QRS 145 Padrões Prolongados e Bizarros do Complexo QRS 146 Corrente de Lesão 146 Anormalidades da OndaT 150 CAPÍTULO 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica 153 Ritmos Sinusais Anormais 153 Ritmos Anormais que Decorrem de Bloqueio dos Sinais Cardíacos nas Vias de Condução Intracardíacas 154 Contrações Prematuras 156 Taquicardia Paroxística 158 Fibrilação Ventricular 159 Fibrilação Atrial 162 Flutter Atrial 163 Parada Cardíaca 163 CAPÍTULO 14 Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência 167 Características Físicas da Circulação 167 Princípios Básicos da Função Circulatória 168 Inter-relações Entre Pressão, Fluxo e Resistência 169 CAPÍTULO 15 Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso 177 Distensibilidade Vascular 177 Pulsações da Pressão Arterial 178 Veias e suas Funções 182 XII
  • 13. Sumário CAPÍTULO 16 A Microcirculação e o Sistema Linfático: Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa 187 Estrutura da Microcirculação e do Sistema Capilar 187 Fluxo de Sangue nos Capilares - Vasomotilidade 188 Trocas de Água, Nutrientes e Outras Substâncias entre o Sangue e o Líquido Intersticial 189 Interstício e o Líquido Intersticial 190 A Filtração do Líquido pelos Capilares É Determinada pelas Pressões Osmóticas e Hidrostáticas e Coloidais e também pelo Coeficiente de Filtração Capilar 191 Sistema Linfático 196 CAPÍTULO 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos 201 Controle Local do Fluxo Sanguíneo em Resposta às Necessidades Teciduais 201 Mecanismos de Controle do Fluxo Sanguíneo 201 Controle Humoral da Circulação 209 CAPÍTULO 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial 213 Regulação Nervosa da Circulação 213 O Papel do Sistema Nervoso no Controle Rápido da Pressão Arterial 217 Características Especiais do Controle Nervoso da Pressão Arterial 222 CAPÍTULO 19 O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão: O Sistema Integrado de Regulação da Pressão Arterial 225 Sistema Rim-Líquidos Corporais para o Controle da Pressão Arterial 225 O Sistema Renina-Angiotensina: Seu Papel no Controle da Pressão Arterial 232 Resumo do Sistema Integrado e Multifacetado para a Regulação da Pressão Arterial 239 CAPÍTULO 20 Débito Cardíaco, Retorno Venoso e suas Regulações 241 Valores Normais para o Débito Cardíaco em Repouso e durante a Atividade 241 Controle do Débito Cardíaco pelo Retorno Venoso - Papel do Mecanismo de Frank-Starling do Coração 241 Débitos Cardíacos Patologicamente Altos ou Baixos 244 Débito Cardíaco Aumentado Causado pela Redução da Resistência Periférica Total 244 Métodos de Medida do Débito Cardíaco 252 CAPÍTULO 21 Fluxo Sanguíneo pelos Músculos e o Débito Cardíaco durante o Exercício; a Circulação Coronariana e a Cardiopatia Isquêmica 255 Regulação do Fluxo Sanguíneo no Músculo Esquelético durante o Exercício 255 Circulação Coronariana 258 CAPÍTULO 22 Insuficiência Cardíaca 267 Dinâmica Circulatória na Insuficiência Cardíaca 267 Insuficiência Cardíaca Unilateral 271 Insuficiência Cardíaca de Baixo Débito - Choque Cardiogênico 271 Edema em Pacientes com Insuficiência Cardíaca 272 Reserva Cardíaca 274 CAPÍTULO 23 Valvas e Bulhas Cardíacas; Dinâmica dos Defeitos Cardíacos Valvulares e Congênitos 279 Bulhas Cardíacas 279 Dinâmica Circulatória Anormal nas Valvulopatias 282 Dinâmica Circulatória Anormal nos Defeitos Cardíacos Congênitos 283 Utilização da Circulação Extracorpórea durante Cirurgias Cardíacas 286 Hipertrofia Cardíaca nas Cardiopatias Valvulares e Congênitas 286 CAPÍTULO 24 Choque Circulatório e Fisiologia do seu Tratamento 289 Causas Fisiológicas do Choque 289 Choque Causado por Hipovolemia - Choque Hemorrágico 290 Choque Neurogênico - Aumento da Capacidade Vascular 296 Choque Anafilático e Choque Histamínico 296 Choque Séptico 296 Fisiologia do Tratamento do Choque 297 Parada Circulatória 298 xm
  • 14. Sumário UNIDADE V Os Líquidos Corporais e os Rins CAPÍTULO 25 Os Compartimentos dos Líquidos Corporais: Líquidos Extracelular e Intracelular; Líquido Intersticial e Edema 303 Entrada e Saída de Líquidos São Balanceadas nas Condições Estáveis 303 Compartimentos de Líquidos Corporais 304 Compartimento de Líquido Extracelular 305 Volume Sanguíneo 305 Constituintes dos Líquidos Extracelular e Intracelular 305 Medidas dos Volumes dos Líquidos Corpóreos nos Diferentes Compartimentos do Corpo - o Princípio Indicador-Diluição 307 Determinação do Volume de Diferentes Comporatimentos Líquidos Corporais 307 Regulação da Troca de Líquidos e Equilíbrio Osmótico Entre os Líquidos Intracelular e Extracelular 308 Princípios Básicos da Osmose e da Pressão Osmótica 296 O Equilíbrio Osmótico É Mantido entre os Líquidos Intracelular e Extracelular 310 Volume e Osmolalidade dos Líquidos Extracelular e Intracelular em Estados Anormais 311 Glicose e Outras Soluções Administradas com Objetivo Nutricional 313 Anormalidades Clínicas da Regulação do Volume de Líquidos: Hiponatremia e Hipernatremia 313 Edema: Excesso de Líquido nos Tecidos 315 Líquidos nos "Espaços em Potencial” do Corpo 319 CAPÍTULO 26 Formação da Urina pelos Rins: I. Filtração Glomerular, Fluxo Sanguíneo Renal e seus Controles 321 Múltiplas Funções dos Rins 321 Anatomia Fisiológica dos Rins 322 Micção 324 Anatomia Fisiológica da Bexiga 324 Transporte da Urina do Rim à Bexiga pelos Ureteres 327 Enchimento da Bexiga eTônus da Parede Vesical; o Cistometrograma 327 Reflexo da Micção 327 Anormalidades da Micção 328 A Formação da Urina Resulta da Filtração Glomerular, Reabsorção Tubular e Secreção Tubular 329 Filtração Glomerular - a Primeira Etapa na Formação da Urina 330 Determinantes da FG 332 Fluxo Sanguíneo Renal 334 Controle Fisiológico da Filtração Glomerular e do Fluxo Sanguíneo Renal 336 Autorregulação daTFG e Fluxo Sanguíneo Renal 323 CAPÍTULO 27 Formação da Urina pelos Rins: II. Reabsorção e Secreção Tubulares 341 Reabsorção e Secreção pelos Túbulos Renais 341 A Reabsorção Tubular Inclui Mecanismos Passivos e Ativos 341 Reabsorção e Secreção ao Longo de Porções Diferentes do Néfron 347 Regulação da Reabsorção Tubular 353 Uso de Métodos de Depuração para Quantificar a Função Renal 358 CAPÍTULO 28 Concentração e Diluição da Urina; Regulação da Osmolaridade e da Concentração de Sódio do Líquido Extracelular 363 Os Rins Excretam o Excesso de Água pela Produção de Urina Diluída 363 Os Rins Conservam Água Excretando Urina Concentrada 365 Quantificação da Concentração e Diluição de Urina pelos Rins: "Água Livre" e Depurações Osmolares 372 Distúrbios da Capacidade de Concentração Urinária 373 Controle da Osmolaridade e da Concentração de Sódio do Líquido Extracelular 373 Sistema de Feedback Osmorreceptor-ADH 374 A Importância da Sede no Controle da Osmolaridade e da Concentração de Sódio do Líquido Extracelular 376 Mecanismo de Apetite pelo Sal para o Controle do Volume e da Concentração de Sódio no Líquido Extracelular 379 CAPÍTULO 29 Regulação Renal de Potássio, Cálcio, Fosfato e Magnésio; Integração dos Mecanismos Renais para o Controle dos Volumes do Sangue e do Líquido Extracelular 381 Regulação da Concentração de Potássio no Líquido Extracelular e Excreção de Potássio 381 Controle da Excreção Renal de Cálcio e da Concentração de íon Cálcio Extracelular 387 Controle da Excreção Renal de Magnésio e da Concentração do íon Magnésio Extracelular 390 xiv
  • 15. Sumário Integração dos Mecanismos Renais para o Controle do Líquido Extracelular 390 A Importância da Natriurese por Pressão e da Diurese por Pressão na Manutenção do Balanço de Sódio e Água no Corpo 391 Distribuição do Líquido Extracelular entre os Espaços Intersticiais e o Sistema Vascular 393 Fatores Nervosos e Hormonais Responsáveis pelo Aumento da Eficiência do Controle por Feedback do Rim-Líquidos Corporais 394 Respostas Integradas às Alterações na Ingestão de Sódio 397 Condições que Causam Grandes Aumentos dos Volumes de Sangue e de Líquido Extracelular 397 Condições que Causam Grandes Aumentos do Volume de Líquido Extracelular, mas com Volume Sanguíneo Normal 398 CAPÍTULO 30 Regulação Acidobásica 401 A Concentração do H+ É Precisamente Regulada 401 Ácidos e Bases - Definições e Significados 401 Defesas contra Variações na Concentração do H+ : Tampões, Pulmões e Rins 402 Tamponamento de H+ nos Líquidos Corporais 403 Sistema-Tampão do Bicarbonato 403 Sistema-Tampão Fosfato 405 As Proteínas São Importantes Tampões Intracelulares 405 Regulação Respiratória do Balanço Acidobásico 406 Controle Renal do Balanço Acidobásico 407 Secreção de H+ e Reabsorção de HC03~ pelos Túbulos Renais 408 A Combinação de Excesso de H+ com Tampões Fosfato e Amônia noTúbulo Gera “Novo" HCO3-4IO Quantificando a Excreção Acidobásica Renal 412 Correção Renal da Acidose - Maior Excreção de H+ e Adição de HC03~ ao Líquido Extracelular 413 Correção Renal da Alcalose - Diminuição da Secreção Tubular de H+ e Aumento da Excreção de HCOs-414 Causas Clínicas dos Distúrbios Acidobásicos 415 Tratamento da Acidose ou da Alcalose 416 Medidas Clínicas de Análise dos Distúrbios Acidobásicos 416 CAPÍTULO 31 Doenças Renais e Diuréticos 419 Diuréticos e seus Mecanismos de Ação 419 Doenças Renais 421 Insuficiência Renal Aguda 421 Insuficiência Renal Crônica: Redução Irreversível no Número de Néfrons Funcionais 424 Distúrbios Tubulares Específicos 430 Tratamento da Insuficiência Renal por Transplante ou Diálise com um Rim Artificial 432 UNIDADE VI Células Sanguíneas, Imunidade e Coagulação Sanguínea CAPÍTULO 32 Hemácias, Anemia e Policitemia 437 Hemácias (Eritrócitos) 437 Anemias 444 Policitemia 445 CAPÍTULO 33 Resistência do Corpo à Infecção: I. Leucócitos, Granulócitos, Sistema Monocítico-Macrofágico e Inflamação 447 Leucócitos (Glóbulos Brancos) 447 Neutrófilos e Macrófagos Fazem a Defesa contra as Infecções 449 O Sistema Celular Monocítico-Macrofágico (Sistema Reticuloendotelial) 450 Inflamação: O Papel dos Neutrófilos e Macrófagos 452 Eosinófilos 454 Basófilos 455 Leucopenia 455 As Leucemias 456 CAPÍTULO 34 Resistência do Corpo à Infecção: II. Imunidade e Imunidade Inata a Alergia 457 Imunidade Adquirida (Adaptativa) 457 Alergia e Hipersensibilidade 467 CAPÍTULO 35 Tipos Sanguíneos; Transfusão; Transplante de Tecidos e de Órgãos 469 A Antigenicidade Causa Reações Imunes do Sangue 469 Tipos Sanguíneos ABO 469 Tipos Sanguíneos Rh 471 Transplante de Tecidos e Órgãos 471 CAPÍTULO 36 Hemostasia e Coagulação Sanguínea 475 Eventos na Hemostasia 475 xv
  • 16. Sumário Constrição Vascular 475 Mecanismo da Coagulação Sanguínea 477 Condições que Causam Sangramento Excessivo em Humanos 482 Condições Tromboembólicas no Ser Humano 483 Anticoagulantes para Uso Clínico 484 Testes de Coagulação Sanguínea 485 CAPÍTULO 3 7 Ventilação Pulmonar 489 Mecânica da Ventilação Pulmonar 489 Volumes e Capacidades Pulmonares 493 A Ventilação-Minuto É Igual à Frequência Respiratória Vezes o Volume Corrente 494 Ventilação Alveolar 495 Funções das Vias Respiratórias 496 CAPÍTULO 38 Circulação Pulmonar, Edema Pulmonar, Líquido Pleural 501 Anatomia Fisiológica do Sistema Circulatório Pulmonar 501 Pressões no Sistema Pulmonar 501 Volume Sanguíneo dos Pulmões 502 O Fluxo de Sangue pelos Pulmões e sua Distribuição 503 Efeito dos Gradientes de Pressão Hidrostática nos Pulmões sobre o Fluxo Sanguíneo Regional Pulmonar 503 Dinâmica Capilar Pulmonar 505 Líquido na Cavidade Pleural 507 CAPÍTULO 39 Princípios Físicos das Trocas Gasosas; Difusão de Oxigênio e Dióxido de Carbono através da Membrana Respiratória 509 Física da Difusão Gasosa e das Pressões Parciais dos Gases 509 As Composições do Ar Alveolar e do Ar Atmosférico São Diferentes 511 Difusão de Gases através da Membrana Respiratória 513 CAPÍTULO 40 Transporte de Oxigênio e Dióxido de Carbono no Sangue e nos Líquidos Teciduais 502 Transporte de Oxigênio dos Pulmões para os Tecidos Corporais 519 Difusão do Oxigênio dos Alvéolos para o Sangue Capilar Pulmonar 519 Transporte de Dióxido de Carbono no Sangue 526 Quando o Oxigênio se Liga à Hemoglobina, o Dióxido de Carbono é Liberado (Efeito Haldane) Aumentando o Transporte de COz 511 Proporção das Trocas Respiratórias 529 CAPÍTULO 41 Regulação da Respiração 531 Centro Respiratório 531 Controle Químico da Respiração 533 Sistema Quimiorreceptor Periférico para o Controle da Atividade Respiratória - O Papel do Oxigênio no Controle Respiratório 535 Regulação da Respiração Durante o Exercício Físico 537 Outros Fatores Influenciam a Respiração 538 CAPÍTULO 42 Insuficiência Respiratória - Fisiopatologia, Diagnóstico, Terapia com Oxigênio 541 Métodos Úteis para o Estudo das Anormalidades Respiratórias 541 Fisiopatologias de Anormalidades Pulmonares Específicas 543 Hipóxia e Terapia com Oxigênio 547 Hipercapnia - Excesso de Dióxido de Carbono nos Líquidos Corporais 548 Respiração Artificial 549 UNIDADE VIII Fisiologia da Aviação, do Espaço Aéreo e do Mergulho em Alto Mar CAPÍTULO 43 Fisiologia da Aviação, das Altas Altitudes e da Fisiologia Espacial 553 Efeitos da Baixa Pressão de Oxigênio sobre o Corpo 553 Efeitos das Forças de Aceleração sobre o Corpo em Fisiologia Aeroespacial 557 "Clima Artificial” na Espaçonave Vedada 559 Imponderabilidade no Espaço 559 CAPÍTULO 44 Fisiologia de Mergulho Marítimo Profundo e Outras Condições Hiperbáricas 561 Efeitos das Altas Pressões Parciais de Gases Individuais sobre o Organismo 561 xvi
  • 17. Sumário Mergulho Autônomo (com SCUBA: Self-contained Underwater Breathing Apparatus) 565 Problemas Fisiológicos Especiais em Submarinos 566 Oxigenoterapia Hiperbárica 566 UNIDADE IX O Sistema Nervoso: A. Princípios Gerais e Fisiologia Sensorial CAPÍTULO 45 Organização do Sistema Nervoso Central, Funções Básicas das Sinapses e Neurotransmissores 571 Plano Geral do Sistema Nervoso 571 Principais Níveis Funcionais do Sistema Nervoso Central 573 Comparação do Sistema Nervoso com um Computador 574 Sinapses do Sistema Nervoso Central 574 Algumas Características Especiais da Transmissão Sináptica 586 CAPÍTULO 46 Receptores Sensoriais e Circuitos Neuronais para o Processamento das Informações 589 Tipos de Receptores Sensoriais e os Estímulos que Detectam 589 Transdução dos Estímulos Sensoriais em Impulsos Nervosos 590 Fibras Nervosas que Transmitem Diferentes Tipos de Sinais e sua Classificação Fisiológica 593 Transmissão de Sinais de Diferentes Intensidades pelos Tratos Nervosos - Somação Espacial e Temporal 594 Transmissão e Processamento dos Sinais em Grupamentos Neuronais 595 Instabilidade e Estabilidade de Circuitos Neuronais 599 CAPÍTULO 47 Sensações Somáticas: I. Organização Geral, as Sensações de Tato e de Posição Corporal 603 Classificação das Sensações Somáticas 603 Detecção e Transmissão das Sensações Táteis 603 Vias Sensoriais para a Transmissão dos Sinais Somáticos até o Sistema Nervoso Central 605 Sistema da Coluna Dorsal-Lemnisco Mediai 605 Sistema Anterolateral 605 Transmissão no Sistema da Coluna Dorsal-Lemnisco Mediai 605 Interpretação da Intensidade do Estímulo Sensorial 611 Avaliação da Intensidade do Estímulo 612 Transmissão dos Sinais Sensoriais Menos Críticos na Via Anterolateral 613 Anatomia da Via Anterolateral 613 Alguns Aspectos Especiais da Função Somatossensorial 614 CAPÍTULO 48 Sensações Somáticas: II. Dor, Cefaleia e Sensações Térmicas 617 Tipos de Dor e suas Qualidades - Dor Rápida e Dor Lenta 617 Receptores para Dor e sua Estimulação 617 Vias Duplas para a Transmissão dos Sinais Dolorosos ao Sistema Nervoso Central 618 Sistema de Supressão da Dor ("Analgesia") no Encéfalo e na Medula Espinhal 621 Dor Referida 622 Dor Visceral 622 Algumas Anormalidades Clínicas da Dor e Outras Sensações Somáticas 624 Cefaleia 625 Sensações Térmicas 626 UNIDADE X O Sistema Nervoso: B. Os Órgãos Especiais dos Sentidos CAPÍTULO 49 O Olho: I. Óptica da Visão 631 Princípios Físicos da Óptica 631 Refração da Luz 631 Aplicação dos Princípios Refrativos às Lentes 631 Distância Focal de uma Lente 632 Formação de uma Imagem por Lente Convexa 633 Medida do Poder Refrativo de uma Lente-“Dioptria" 633 Óptica do Olho 634 Oftalmoscópio 640 Sistema de Líquidos do Olho - Líquido Intraocular 640 CAPÍTULO 50 O Olho: II. Funções Receptora e Neural da Retina 645 Anatomia e Função dos Elementos Estruturais da Retina 645 Fotoquímica da Visão 647 Visão Colorida 651 Função Neural da Retina 653 XVII
  • 18. Sumário CAPÍTULO 51 O Olho: III. Neurofisiologia Central da Visão 659 Vias Visuais 659 Organização e Função do Córtex Visual 660 Padrões Neuronais de Estimulação durante Análise da Imagem Visual 662 Campos Visuais; Perimetria 663 Movimentos Oculares e seu Controle 664 Controle Autônomo da Acomodação e da Abertura Pupilar 667 CAPÍTULO 52 O Sentido da Audição 671 Membrana Timpânica e o Sistema Ossicular 671 Cóclea 672 Mecanismos Auditivos Centrais 677 Anormalidades da Audição 680 CAPÍTULO 53 Os Sentidos Químicos - Gustação e Olfação 683 Sentido da Gustação 683 Sentido da Olfação 687 UNIDADE XI O Sistema Nervoso: C.Neurofisiologia Motora e Integrativa CAPÍTULO 54 Funções Motoras da Medula Espinhal; os Reflexos Espinhais 693 Organização das Funções Motoras da Medula Espinhal 693 Receptores Sensoriais Musculares - Fusos Musculares e Órgãos Tendisonos de Golgi - E suas Funções no Controle Muscular 695 Reflexo Flexor e Reflexo de Retirada 700 Reflexo Extensor Cruzado 701 Inibição Recíproca e Inervação Recíproca 702 Reflexos Posturais e Locomoção 702 Reflexo de Coçar 703 Reflexos Espinhais que Provocam Espasmo Muscular 703 Reflexos Autônomos da Medula Espinhal 703 Transecção da Medula Espinhal e Choque Espinhal 704 CAPÍTULO 55 Controle Cortical e do Tronco Cerebral da Função Motora 705 Córtex Motor e Trato Corticoespinhal 705 Papel do Tronco Cerebral no Controle da Função Motora 711 Sensações Vestibulares e Manutenção do Equilíbrio 713 Funções dos Núcleos do Tronco Cerebral no Controle de Movimentos Estereotipados e Subconscientes 717 CAPÍTULO 56 Contribuições do Cerebelo e dos Núcleos da Base para o Controle Motor Global 719 O Cerebelo e suas Funções Motoras 719 Gânglios da Base - Suas Funções Motoras 728 Integração Entre as Partes do Sistema Total de Controle Motor 733 CAPÍTULO 57 Córtex Cerebral, Funções Intelectuais do Cérebro, Aprendizado e Memória 735 Anatomia Fisiológica do Córtex Cerebral 735 Funções de Áreas Corticais Específicas 736 Função do Cérebro na Comunicação - a Linguagem Aferente e a Linguagem Eferente 742 Função do Corpo Caloso e da Comissura Anterior para Transmitir Pensamentos, Memórias, Treinamento e Outras Informações entre os Dois Hemisférios Cerebrais 743 Pensamentos, Consciência e Memória 744 CAPÍTULO 58 Mecanismos Comportamentais e Motivacionais do Cérebro - O Sistema Límbico e o Hipotálamo 749 Sistemas de Ativação e Motivação do Cérebro 749 Sistema Límbico 752 Anatomia Funcional do Sistema Límbico; Posição- chave do Hipotálamo 752 Hipotálamo, a Principal Região para Controle do Sistema Límbico 753 Funções Específicas de Outras Partes do Sistema Límbico 757 CAPÍTULO 59 Estados da Atividade Cerebral - Sono, Ondas Cerebrais, Epilepsia, Psicoses 761 Sono 761 Epilepsia 765 Comportamento Psicótico e Demência - Papéis de Sistemas Neurotransmissores Específicos 767 Esquizofrenia - Função Possivelmente Exagerada de Parte do Sistema Dopaminérgico 767 XVIII
  • 19. Sumário CAPÍTULO 60 O Sistema Nervoso Autônomo e a Medula Adrenal 771 Organização Geral do Sistema Nervoso Autônomo 771 Anatomia Fisiológica do Sistema Nervoso Parassimpático 772 Características Básicas da Função Simpática e Parassimpática 773 Reflexos Autônomos 780 Estimulação de Órgãos Discretos em Algumas Circunstâncias e Estimulação em Massa em Outras Circunstâncias pelos Sistemas Simpático e Parassimpático 780 Farmacologia do Sistema Nervoso Autônomo 782 CAPÍTULO 61 Fluxo Sanguíneo Cerebral, Líquido Cefalorraquidiano e Metabolismo Cerebral 785 Fluxo Sanguíneo Cerebral 785 Sistema do Líquido Cefalorraquidiano 788 Metabolismo Cerebral 792 UNIDADE XII Fisiologia Gastrointestinal CAPÍTULO 62 Princípios Gerais da Função Gastrointestinal - Motilidade, Controle Nervoso e Circulação Sanguínea 795 Princípios Gerais da Motilidade Gastrointestinal 795 Controle Neural da Função Gastrointestinal- Sistema Nervoso Entérico 797 Tipos Funcionais de Movimentos no Trato Gastrointestinal 801 Fluxo Sanguíneo Gastrointestinal - "Circulação Esplâncnica” 802 CAPÍTULO 63 Propulsão e Mistura dos Alimentos no Trato Alimentar 805 Ingestão de Alimentos 805 Funções Motoras do Estômago 807 Movimentos do Intestino Delgado 810 Movimentos do Cólon 812 Outros Reflexos Autônomos que Afetam a Atividade Intestinal 814 CAPÍTULO 64 Funções Secretoras do Trato Alimentar 815 Princípios Gerais da Secreção no Trato Alimentar 815 Secreção de Saliva 817 Secreção Esofágica 819 Secreção Gástrica 819 Secreção Pancreática 823 Secreção da Bile pelo Fígado; Funções da Árvore Biliar 825 Secreções do Intestino Delgado 828 Regulação da Secreção do Intestino Delgado - Estímulos Locais 806 Secreção d e Muco pelo Intestino Grosso 829 CAPÍTULO 65 Digestão e Absorção no Trato Gastrointestinal 831 Digestão de Diversos Alimentos por Hidrólise 831 Princípios Básicos da Absorção Gastrointestinal 835 Absorção no Intestino Delgado 836 Absorção no Intestino Grosso: Formação de Fezes 839 CAPÍTULO 66 Fisiologia dos Distúrbios Gastrointestinais 841 Distúrbios da Deglutição e do Esôfago 841 Distúrbios do Estômago 841 Distúrbios do Intestino Delgado 843 Distúrbios do Intestino Grosso 844 Distúrbios Gerais do Trato Gastrointestinal 845 E Metabolismo eTermorregulação CAPÍTULO 67 Metabolismo dos Carboidratos e Formação do Trifosfato de Adenosina 851 Papel Central da Glicose no Metabolismo dos Carboidratos 852 Transporte da Glicose através da Membrana Celular 852 O Glicogênio É Armazenado no Fígado e nos Músculos 853 Liberação de Energia da Molécula de Glicose pela Via Glicolítica 854 Liberação de Energia da Glicose pela Via da Pentose Fosfato 859 Formação de Carboidratos a partir de Proteínas e Lipídios - "Gliconeogênese" 860 Glicose Sanguínea 839 CAPÍTULO 68 Metabolismo dos Lipídios 861 Transporte de Lipídios nos Líquidos Corporais 861 Depósitos de Gordura 864 xix
  • 20. Sumário Uso deTriglicerídeos como Fonte de Energia: Formação doTrifosfato deAdenosina 864 Regulação da Liberação de Energia dosTriglicerídeos 867 Fosfolipídios e Colesterol 868 Aterosclerose 870 CAPÍTULO 69 Metabolismo das Proteínas 875 Propriedades Básicas 875 Transporte e Armazenamento dos Aminoácidos 875 Papéis Funcionais das Proteínas Plasmáticas 877 Regulação Hormonal do Metabolismo Proteico 880 CAPÍTULO 70 O Fígado como Órgão 881 Anatomia e Fisiologia do Fígado 881 Os Sistemas Vascular e Linfático do Fígado 882 Funções Metabólicas do Fígado 883 Dosagem da Bilirrubina Biliarcomo um Instrumento Diagnóstico Clínico 884 CAPÍTULO 71 Balanços Dietéticos; Regulação da Alimentação; Obesidade e Inanição; Vitaminas e Minerais 887 Em Condições Estáveis a Ingestão e o Gasto Energético Estão em Equilíbrio 887 Balanços Dietéticos 887 Regulação da Ingestão Alimentar e do Armazenamento de Energia 889 Obesidade 894 inanição, Anorexia e Caquexia 897 Inanição 897 Vitaminas 898 Metabolismo Mineral 901 CAPÍTULO 72 Energética Celular e o Metabolismo Basal 905 O Trifosfato de Adenosina (ATP) Atua no Metabolismo como "Moeda Metabólica” 905 Controle da Liberação Energética na Célula 907 Metabolismo Corporal Total e a Intensidade do Metabolismo 908 Metabolismo Energético - Fatores que Influenciam o Débito Energético 909 CAPÍTULO 73 Temperatura Corporal, Regulação da Temperatura e Febre 913 Temperaturas Corporais Normais 913 A Temperatura Corporal é Controlada pelo Balanço entre a Produção e a Perda de Calor 913 Regulação da Temperatura Corporal - O Papel do Hipotálamo 917 Anormalidades da Regulação da Temperatura Corporal 922 UNIDADE XIV Endocrinologia e Reprodução CAPÍTULO 74 Introdução à Endocrinologia 927 Coordenação das Funções Corporais por Mensageiros Químicos 927 Estrutura Química e Síntese de Hormônios 928 Secreção Hormonal, Transporte e Depuração de Hormônios do Sangue 931 Controle por Feedback da Secreção Hormonal 931 Mecanismos de Ação dos Hormônios 932 Medida das Concentrações de Hormônios no Sangue 938 CAPÍTULO 75 Hormônios Hipofisários e seu Controle pelo Hipotálamo 941 A Hipófise e sua Relação com o Hipotálamo 941 O Hipotálamo Controla a Secreção Hipofisária 942 Funções Fisiológicas do Hormônio do Crescimento 945 Hipófise Posterior e Sua Relação com o Hipotálamo 951 CAPÍTULO 76 Hormônios Metabólicos da Tireoide 955 Síntese e Secreção dos Hormônios Metabólicos Tireoidianos 955 Efeitos Fisiológicos dos Hormônios Tireoidianos 958 Regulação da Secreção de Hormônio Tireoidiano 962 Doenças da Tireoide 964 CAPÍTULO 77 Hormônios Adrenocorticais 969 Síntese e Secreção dos Hormônios Adrenocorticais 969 Funções dos Mineralocorticoides-Aldosterona 972 Possíveis Ações Não genômicas da Aldosterona e Outros Hormônios Esteroides 950 Funções dos Glicocorticoides 976 Androgênios Adrenais 983 Anormalidades da Secreção Adrenocortical 983 xx
  • 21. Sumário CAPÍTULO 78 Insulina, Glucagon e Diabetes Mellitus 987 A Insulina e seus Efeitos Metabólicos 987 O Glucagon e suas Funções 996 A Somatostatina Inibe a Secreção de Glucagon e de Insulina 998 Resumo da Regulação da Glicose Sanguínea 998 Diabetes Mellitus 999 CAPÍTULO 79 Paratormônio, Calcitonina, Metabolismo de Cálcio e Fosfato, Vitamina D, Ossos e Dentes 1005 Visão Geral da Regulação de Cálcio e Fosfato no Líquido Extracelular e no Plasma 1005 Osso e sua Relação Com o Cálcio e o Fosfato Extracelulares 1007 Vitamina D 1011 Paratormônio 1013 Calcitonina 1016 Resumo do Controle da Concentração do Cálcio lônico 1017 Fisiopatologia do Paratormônio, da Vitamina D e da Osteopatia 1018 Fisiologia dos Dentes 1020 CAPÍTULO 80 Funções Reprodutivas e Hormonais Masculinas (e Função da Glândula Pineal) 1025 Anatomia Fisiológica dos Órgãos Sexuais Masculinos 1025 Espermatogênese 1025 Ato Sexual Masculino 1030 Testosterona e Outros Hormônios Sexuais Masculinos 1032 Anormalidades da Função Sexual Masculina 1037 Disfunção Erétil no Homem 1038 Glândula Pineal - Sua Função no Controle da Fertilidade Sazonal em Alguns Animais 1039 CAPÍTULO 81 Fisiologia Feminina Antes da Gravidez e Hormônios Femininos 1041 Anatomia Fisiológica dos Órgãos Sexuais Femininos 1041 Sistema Hormonal Feminino 1041 Ciclo Ovariano Mensal; Função dos Hormônios Gonadotrópicos 1042 Funções dos Hormônios Ovarianos - Estradiol e Progesterona 1045 Regulação do Ritmo Mensal Feminino - Interação Entre os Hormônios Ovarianos e Hipotalâmicos- Hipofisários 1050 Anormalidades da Secreção pelos Ovários 1054 O Ato Sexual Feminino 1054 Fertilidade Feminina 1055 CAPÍTULO 82 Gestação e Lactação 1059 Maturação e Fertilização do Óvulo 1059 Nutrição Inicial do Embrião 1061 Função da Placenta 1061 Fatores Hormonais na Gravidez 1063 Resposta do Corpo Materno à Gravidez 1066 Parto 1068 Lactação 1070 CAPÍTULO 83 Fisiologia Fetal e Neonatal 1075 Crescimento e Desenvolvimento Funcional do Feto 1075 Desenvolvimento dos Sistemas de Órgãos 1075 Ajustes do Bebê à Vida Extrauterina 1077 Problemas Funcionais Especiais do Recém-nascido 1080 Problemas Especiais da Prematuridade 1083 Crescimento e Desenvolvimento da Criança 1084 UNIDADE XV Fisiologia do Esporte CAPÍTULO 84 Fisiologia do Esporte 1089 Músculos em Exercício 1089 Respiração no Exercício 1061 O Sistema Cardiovascular no Exercício 1096 Calor Corporal no Exercício 1098 Líquidos Corporais e Sal no Exercício 1099 Drogas e Atletas 1099 A Forma Física Prolonga a Vida 1099 índice 1102 XXI
  • 23. Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral 1. Organização Funcional do Corpo Humano e Controle do "Meio Interno" 2. A Célula e suas Funções 3. Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular
  • 25. CAPÍTULO 1 Organização Funcional do Corpo Humano e Controle do “Meio Interno” O objetivo da fisiologia é explicar os fatores físicos e químicos que são respon- sáveis pela origem, pelo de- senvolvimento e pela pro- gressão da vida. Cada tipo de vida, desde um vírus sim- ples até a mais alta árvore ou o complicado ser humano, tem suas próprias características funcionais. Portanto, o vasto campo da fisiologia pode ser dividido em fisio- logia virótica, fisiologia bacteriana, fisiologia celular, fisiologia vegetal, fisiologia humana e diversas outras subdivisões. Fisiologia Humana. Na fisiologia humana, tentamos explicar as características e os mecanismos específicos do corpo humano que fazem dele um ser vivo. O próprio fato de nos mantermos vivos é o resultado de complexos sistemas de controle, porque a fome nos faz procurar por alimento e porque o medo nos faz buscar refúgio. Sensações de frio nos fazem procurar calor. Outras forças nos levam a buscar o companheirismo e a reprodução. Assim, o ser humano é, em muitos aspectos, como um autômato, e o fato de sermos seres com sensações, sentimentos e culturas é parte dessa sequência automática da vida; esses atributos especiais nos permitem existir sob condições amplamente variáveis. As Células como Unidades Vivas do Corpo A unidade viva básica do organismo é a célula. Cada órgão é agregado de muitas células diferentes, mantidas unidas por estruturas de suporte intercelular. Cada tipo de célula é especialmente adaptado para realizar uma ou algumas funções determinadas. Por exemplo, as hemácias que totalizam 25 trilhões em cada ser humano transportam oxigênio dos pulmões para os tecidos. Embora as hemácias sejam as mais abundantes que qualquer outro tipo de célula no corpo, existem cerca de 75 trilhões de células de outros tipos que realizam funções diferentes das hemácias. O corpo inteiro, portanto, contém cerca de 100 trilhões de células. Embora as diversas células do corpo sejam acentua- damente diferentes umas das outras, todas têm certas características básicas comuns. Por exemplo, em todas as células, o oxigênio reage com carboidratos, gorduras e proteínas para liberar a energia necessária para o seu funcionamento. Os mecanismos químicos gerais de transformação de nutrientes em energia são, basicamente, os mesmos em todas as células, e todas as células liberam produtos finais de suas reações químicas nos líquidos que as banham. Quase todas as células também têm a capacidade de reproduzir células adicionais de seu próprio tipo. Felizmente, quando células de determinado tipo são destruídas por uma ou outra causa, as células restantes do mesmo tipo, nas condições normais, geram novas células para suprir sua reposição. Líquido Extracelular — O "Meio Interno" Cerca de 60% do corpo humano adulto é composto por líquidos, principalmente, uma solução aquosa de íons e outras substâncias. Embora a maior parte desse líquido esteja dentro das células e seja chamado de líquido intracelular, cerca de um terço se encontra nos espaços fora das células e é chamado de líquido extracelular. Este líquido extracelular está em movimento constante por todo o corpo. Ele é rapidamente transportado no sangue circulante e em seguida misturado no sangue pelos líquidos teciduais, por difusão, através das paredes dos capilares. No líquido extracelular estão os íons e nutrientes necessários para manter a vida celular. Dessa forma, todas as células vivem, essencialmente, no mesmo ambiente — o líquido extracelular. Por esse motivo, o líquido extracelular é, também, chamado de meio interno do corpo, ou milieu intérieur, termo introduzido, há mais de 100 anos, pelo grande fisiologista francês do século XIX, Claude Bernard. As células podem viver, crescer e executar suas funções especiais enquanto as concentrações adequadas de oxigênio, glicose, íons, aminoácidos, lipídios e outros constituintes estiverem disponíveis nesse ambiente interno. 3 U N I D A
  • 26. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Diferenças entre os Líquidos Extracelular e Intracelular. O líquido extracelular contém grandes quantidades de sódio, cloreto e íons bicarbonato mais os nutrientes para as células, como oxigênio, glicose, ácidos graxos e aminoácidos. Também contém dióxido de carbono que é transportado das células para os pulmões para ser excretado, além de outros produtos de excreção celulares, que são transportados para os rins para serem eliminados. O líquido intracelular difere significativamente do líquido extracelular; por exemplo, ele contém grandes quantidades de íons potássio, magnésio e fosfato, em vez dos íons sódio e cloreto, encontrados no líquido extracelular. Mecanismos especiais para o transporte de íons, através das membranas celulares, mantêm as diferenças de concentração iônicas entre os líquidos extracelulares e intracelulares. Esses processos de transporte serão discutidos no Capítulo 4. Mecanismos "Homeostáticos” dos Principais Sistemas Funcionais Homeostasia O termo homeostasia é usado, pelos fisiologistas, para definir a manutenção de condições quase constantes no meio interno. Todos os órgãos e tecidos do corpo humano executam funções que contribuem para manter essas condições relativamente constantes. Por exemplo, os pulmões proveem oxigênio ao líquido extracelular para repor o oxigênio utilizado pelas células, os rins mantêm constantes as concentrações de íons e o sistema gastrointestinal fornece os nutrientes. Grande parte deste texto trata da maneira pela qual cada órgão ou tecido contribui para a homeostasia. Para começar essa discussão, os diferentes sistemas funcionais do corpo e suas contribuições para a homeostasia são esboçados neste capítulo; depois, delinearemos, brevemente, a teoria básica dos sistemas de controle do organismo que permitem que os sistemas funcionais operem em suporte um do outro. Sistema de Transporte e de Mistura do Líquido Extracelular — O Sistema Circulatório do Sangue O líquido extracelular é transportado para todas as partes do corpo em dois estágios. O primeiro é a movimentação do sangue pelo corpo, nos vasos sanguíneos, e o segundo é a movimentação de líquido entre os capilares sanguíneos e os espaços intercelulares entre as células dos tecidos. A Figura 1-1 mostra esquematicamente a circulação sanguínea. Todo o sangue na circulação percorre todo o circuito circulatório, em média, uma vez a cada minuto, quando o corpo está em repouso e até por seis vezes por minuto, quando a pessoa está extremamente ativa. Quando o sangue passa pelos capilares sanguíneos, também ocorre troca contínua do líquido extracelular entre a parte plasmática do sangue e o líquido intersticial Pulmões g. Figura 1-1 Organização geral do sistema circulatório. que preenche os espaços intercelulares. Esse processo é mostrado na Figura 1-2. As paredes dos capilares são permeáveis à maioria das moléculas no plasma do sangue, com exceção das grandes moléculas das proteínas plas- máticas demasiado grandes para passar com facilidade através dos capilares. Portanto, grandes quantidades de líquido e de seus constituintes dissolvidos se difundem em ambas as direções, entre o sangue e os espaços dos tecidos, como mostrado pelas setas. Esse processo de difusão é causado pelo movimento cinético das moléculas no plasma e no líquido intersticial. Isto é, o líquido e as moléculas dissolvidas estão em movimento contínuo, em todas as direções no plasma e no líquido nos espaços intercelulares, bem como através dos poros capilares. Poucas células estão localizadas a mais de 50 micrômetros de um capilar, o que assegura a difusão de qualquer substância dos capilares para as células em poucos segundos. Assim, o líquido extracelular, em todas as partes do corpo — tanto no plasma quanto no fluido intersticial — está continuamente sendo misturado, mantendo homogeneidade quase completa do líquido extracelular no corpo. 4
  • 27. Capítulo 1 Organização Funcional do Corpo Humano e Controle do “Meio interno” Figura 1-2 Difusão de fluido e de constituintes dissolvidos, através das paredes dos capilares e dos espaços intersticiais. Origem dos Nutrientes do Fluido Extracelular Sistema Respiratório. A Figura 1-1 mostra que a cada vez que o sangue passa pelo corpo, ele flui também pelos pulmões. O sangue capta, nos alvéolos, o oxigênio necessário para as células. A membrana entre os alvéolos e o lúmen dos capilares pulmonares, a membrana alveolar, tem apenas 0,4 a 2,0 micrômetros de espessura, e o oxigênio se difunde, rapidamente, por movimento molecular, pelos poros dessa membrana, para o sangue da mesma maneira que a água e os íons se difundem através das paredes dos capilares dos tecidos. Remoção dos Produtos Finais do Metabolismo Remoção do Dióxido de Carbono pelos Pulmões. Ao mesmo tempo em que o sangue capta o oxigênio nos pulmões, o dióxido de carbono é liberado do sangue para os alvéolos pulmonares; o movimento respiratório do ar para dentro e para fora dos pulmões carrega o dióxido de carbono para a atmosfera. O dióxido de carbono é o mais abundante de todos os produtos finais do metabolismo. Rins. A passagem do sangue pelos rins remove do plasma a maior parte das outras substâncias, além do dióxido de carbono, que não são necessárias para as células. Essas substâncias incluem diferentes produtos finais do metabolismo celular, tais como a ureia e o ácido úrico; também incluem o excesso de íons e de água dos alimentos que podem ter se acumulado no líquido extracelular. Os rins realizam sua função primeiramente por filtrar grandes quantidades de plasma através dos glomérulos para os túbulos e depois reabsorve para o sangue aquelas substâncias necessárias ao corpo, tais como glicose, aminoácidos, quantidades adequadas de água e muitos dos íons. A maioria das outras substâncias que não são necessárias para o organismo, principalmente os produtos metabólicos finais como a ureia, é pouco reabsorvida e passa pelos túbulos renais para a urina. Trato Gastrointestinal. O material não digerido que entra no trato gastrointestinal e parte dos resíduos não aproveitáveis do metabolismo são eliminados nas fezes. Trato Gastrointestinal. Grande parte do sangue bombeado pelo coração também flui através das paredes do trato gastrointestinal. Aí, diferentes nutrientes dissolvidos, incluindo carboidratos, ácidos graxos e aminoácidos, são absorvidos, do alimento ingerido para o líquido extracelular no sangue. Fígado e Outros Órgãos que Realizam Funções Primordialmente Metabólicas. Nem todas as substâncias absorvidas pelo trato gastrointestinal podem ser usadas na forma absorvida pelas células. O fígado altera, qui- micamente, muitas dessas substâncias para formas mais utilizáveis, e outros tecidos do corpo — células adiposas, mucosa gastrointestinal, rins e glândulas endócrinas — contribuem para modificar as substâncias absorvidas ou as armazenam até que sejam necessárias. O fígado também elimina alguns resíduos produzidos no organismo e substâncias tóxicas que são ingeridos. Sistema Musculoesquelético. Como o sistema mus- culoesquelético contribui para a homeostasia? A resposta é óbvia e simples: Se não existissem os músculos, o corpo não poderia se mover para o local adequado, no devido tempo, para obter os alimentos necessários para a nutrição. O sistema musculoesquelético também proporciona mobilidade para proteção contra ambientes adversos, sem a qual todo o organismo com seus mecanismos homeostáticos poderia ser instantaneamente destruído. Fígado. Entra as funções do fígado está a desintoxicação ou a remoção de muitas drogas e químicas que são ingeridas. O fígado secreta várias dessas perdas em bile para ser, por fim, eliminadas nas fezes. Regulação das Funções Corporais Sistema Nervoso. O sistema nervoso é composto de três partes principais: a parte de aferência sensorial, o sistema nervoso central (ou parte integrativa) e a parte de eferência motora. Os receptores sensoriais detectam o estado do corpo ou o estado do meio ambiente. Por exemplo, os receptores na pele informam o organismo quando um objeto toca a pele em qualquer ponto. Os olhos são órgãos sensoriais que dão a imagem visual do ambiente. Os ouvidos também são órgãos sensoriais. O sistema nervoso central é composto do cérebro e da medula espinhal. O cérebro pode armazenar informações, gerar pensamentos, criar ambição e determinar as reações do organismo em resposta às sensações. Os sinais apropriados são, então, transmitidos através da eferência motora do sistema nervoso para executar os desígnios da pessoa. Um importante segmento do sistema nervoso é chamado de sistema autônomo. Ele opera em um nível subconsciente e controla muitas funções dos órgãos internos, incluindo o nível de atividade de bombeamento pelo coração, movimentos do trato gastrointestinal e secreção de muitas das glândulas do corpo. 5 U N I D A
  • 28. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Sistema Hormonal. Existem no corpo oito principais glândulas endócrinas que secretam substâncias químicas chamadas hormônios. Os hormônios são transportados no líquido extracelular para todas as partes do corpo para participar da regulação da função celular. Por exemplo, o hormônio da tireoide aumenta a velocidade da maioria das reações químicas em todas as células, contribuindo assim para estabelecer o ritmo da atividade corporal. A insulina controla o metabolismo da glicose; hormônios adrenocorticoides controlam o metabolismo dos íons sódio, potássio, e o metabolismo proteico; e o hormônio paratireóideo controla o cálcio e o fosfato dos ossos. Assim, os hormônios formam um sistema para a regulação que complementa o sistema nervoso. O sistema nervoso regula muitas atividades musculares e secretórias do organismo, enquanto o sistema hormonal regula muitas funções metabólicas. Proteção do Corpo Sistema Imune. O sistema imune é composto pelos glóbulos brancos, pelas células teciduais derivadas dos glóbulos brancos, pelo timo, pelos linfonodos e pelos vasos linfáticos que protegem o corpo contra patógenos, como as bactérias, os vírus, os parasitas e os fungos. O sistema imune supre o corpo com mecanismo que lhe permite (1) distinguir suas próprias células das células e substâncias estranhas e (2) destruir os invasores por fagocitose ou pela produção de leucócitos sensibilizados, ou por proteínas especializadas (p. ex., anticorpos) que destroem ou neutralizam os invasores. Sistema Integumentar. A pele e seus diversos apêndices (fâneros), incluindo os pelos, as unhas, as glândulas e várias outras estruturas, cobrem, acolchoam e protegem os tecidos e os órgãos do corpo e, em geral, formam o limite entre o meio interno do corpo e o mundo externo. O sistema integumentar é também importante na regulação da temperatura corporal e na excreção das escórias, criando a interface sensorial entre o corpo e seu ambiente externo. A pele, em geral, representa cerca de 12% a 15% do peso corporal. Reprodução Às vezes, a reprodução não é considerada uma função homeostática. Entretanto, ela realmente contribui para a homeostasia através da geração de novos seres em substituição dos que estão morrendo. Isto pode parecer um uso pouco rigoroso do termo homeostasia, mas ilustra, em última análise, que essencialmente todas as estruturas do corpo são organizadas para manter a automaticidade e a continuidade da vida. Sistemas de Controle do Corpo O corpo humano tem milhares de sistemas de controle. O mais intrincado deles é o sistema de controle gené tico que opera em todas as células para o controle das funções intra e extracelular. Esse assunto é discutido no Capítulo 3. Muitos outros sistemas de controle operam dentro dos órgãos para controlar funções de partes individuais desses órgãos; outros ainda operam por todo o corpo para controlar as inter-relações entre os órgãos. Por exemplo, o sistema respiratório, operando em associação com o sistema nervoso, regula a concentração de dióxido de carbono no líquido extracelular. O fígado e o pâncreas regulam a concentração de glicose no líquido extracelular, e os rins regulam as concentrações de hidrogênio, sódio, potássio, fosfato e de outros íons no líquido extracelular. Exemplos de Mecanismos de Controle Regulação das Concentrações de Oxigênio e Dióxido de Carbono no Líquido Extracelular. Pelo fato de o oxigênio ser uma das principais substâncias necessárias para as reações químicas nas células, o organismo dispõe de mecanismo especial de controle para manter a concentração de oxigênio quase constante no líquido extracelular. Esse mecanismo depende, principalmente, das características químicas da hemoglobina, presente em todas as hemácias. A hemoglobina combina-se com o oxigênio, durante a passagem do sangue pelos pulmões. Quando o sangue passa pelos capilares dos tecidos, a hemoglobina, devido à sua alta afinidade química pelo oxigênio, não o libera para o líquido tecidual se já houver oxigênio demais no local. Mas, se a concentração de oxigênio estiver baixa demais, a quantidade suficiente é liberada para restabelecer a concentração adequada. Portanto, a regulação da concentração de oxigênio nos tecidos depende, principalmente, das características químicas da própria hemoglobina. Essa regulação é chamada de função de tamponamento do oxigênio pela hemoglobina. A concentração de dióxido de carbono no líquido extracelular é regulada de forma muito diferente. O dióxido de carbono é o principal produto final das reações oxidativas nas células. Se todo o dióxido de carbono, formado nas células, se acumulasse continuamente nos líquidos teciduais, todas as reações que fornecem energia às células cessariam. Porém, concentração mais alta que o normal de dióxido de carbono no sangue excita o centro respiratório, fazendo com que a pessoa respire rápida e profundamente. Isso aumenta a expiração de dióxido de carbono e, portanto, remove o excesso do gás do sangue e dos líquidos teciduais. Este processo continua até que a concentração volte ao normal. Regulação da Pressão Sanguínea Arterial. Vários sistemas contribuem para a regulação da pressão sanguínea arterial. Um deles, o sistema barorreceptor, é simples e excelente exemplo de mecanismo de controle de ação rápida. Nas paredes da região de bifurcação das artérias carótidas, no pescoço e também no arco da aorta, no tórax, encontram-se vários receptores nervosos, chamados barorreceptores, estimulados pelo estiramento da parede arterial. Quando a pressão arterial sobe demais, 6
  • 29. Capítulo 1 os barorreceptores enviam salvas de impulsos nervosos para o tronco cerebral. Aí, esses impulsos inibem o centro vasomotor que, por sua vez, diminui o número de impulsos transmitidos por esse centro, por meio do sistema nervoso simpático, para o coração e vasos sanguíneos. A redução desses impulsos ocasiona a diminuição da atividade de bombeamento do coração e, também, a dilatação dos vasos sanguíneos periféricos, permitindo o aumento do fluxo sanguíneo pelos vasos. Ambos os efeitos diminuem a pressão arterial, trazendo-a de volta ao valor normal. Inversamente, pressão arterial abaixo do normal reduz o estímulo dos receptores de estiramento, permitindo ao centro vasomotor atividade mais alta, causando, assim, vasoconstrição e aumento do bombeamento cardíaco, com elevação da pressão arterial de volta ao normal. Organização Funcional do Corpo Humano e Controle do "Meio Interno” ou mais vezes em relação à normal, provavelmente o músculo cardíaco será gravemente deprimido. Também, quando a concentração de íons cálcio cai abaixo da metade da normal, o indivíduo provavelmente apresentará contração tetânica dos músculos do corpo por causa da geração espontânea de excesso de impulsos nervosos nos nervos periféricos. Quando a concentração de glicose cai abaixo da metade da normal, o indivíduo, geralmente, desenvolve irritabilidade mental extrema e, às vezes, até mesmo convulsões. Esses exemplos devem dar uma ideia da necessidade e da extrema importância do grande número de sistemas de controle que mantêm o corpo funcionando na saúde; a ausência de qualquer um desses controles pode resultar em mau funcionamento sério do corpo ou em morte. Faixas Normais e Características Físicas de Importantes Constituintes do Líquido Extracelular A Tabela 1-1 relaciona alguns dos constituintes e as características físicas mais importantes do líquido extracelular e seus valores normais, faixas normais e limites máximos tolerados sem causar óbito. Observe como é estreita a faixa normal de cada um. Valores fora dessas faixas são, em geral, causados por doenças. Mais importantes são os limites além dos quais as anormalidades podem causar a morte. Por exemplo, aumento da temperatura corpórea de apenas 11°F (7°C) acima da normal pode levar a círculo vicioso de aumento do metabolismo celular que destrói as células. Observe também a estreita faixa do balanço no corpo, com valor normal de pH de 7,4 e valores letais com apenas 0,5 unidade de pH acima ou abaixo do normal. Outro fator importante é a concentração de íons potássio, pois quando ela cai para menos de um terço da normal, o indivíduo provavelmente apresenta paralisia em consequência da incapacidade dos nervos de conduzir impulsos. Alternativamente, se a concentração de íons potássio aumentar para duas Características dos Sistemas de Controle Os exemplos mencionados anteriormente de mecanismos de controle homeostáticos são apenas alguns dos milhares que existem no corpo, todos os quais com certas características em comum. Essas características são explicadas nesta seção. Natureza de Feedback Negativo da Maioria dos Sistemas de Controle A maioria dos sistemas de controle do organismo age por feedback negativo, o que pode ser bem explicado pela revisão de alguns dos sistemas de controle homeostáticos mencionados antes. Na regulação da concentração de dióxido de carbono, a alta concentração do gás no líquido extracelular aumenta a ventilação pulmonar. Isso, por sua vez, diminui a concentração de dióxido de carbono no líquido extracelular, pois os pulmões eliminam maiores quantidades de dióxido de carbono do organismo. Em outras palavras, a alta concentração de dióxido de carbono desencadeia eventos que diminuem a concentração até a normal, o que é negativo para o estímulo inicial. Inversamente, Tabela 1-1 Constituintes Importantes e Características Físicas do Fluido Extracelular Valor Normal Faixa Normal Limite Aproximado não Letal em Curto Prazo Unidade Oxigênio 40 35-45 10-1.000 mmHg Dióxido de carbono 40 35-45 5-80 mmHg íon sódio 142 138-146 115-175 mmol/L íon potássio 4,2 3,8-5,0 1,5-9,0 mmol/L íon cálcio 1,2 1,0-1,4 0,5-2,0 mmol/L íon cloreto 108 103-112 70-130 mmol/L íon bicarbonato 28 24-32 8-45 mmol/L Glicose 85 75-95 20-1.500 mg/dL Temperatura corpórea 98,4 (37,0) 98-98,8 (37,0) 65-110 (18,3-43,3) °F (°C) Ácido-básico 7,4 7,3-7,5 6,9-8,0 pH 7 U N I D A
  • 30. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral a queda na concentração de dióxido de carbono produz feedback para aumentar a concentração. Essa resposta também é negativa em relação ao estímulo inicial. Nos mecanismos de regulação da pressão arterial, a pressão elevada causa uma série de reações que promovem a redução da pressão, ou pressão baixa faz com que uma série de reações promova a elevação da pressão. Em ambos os casos, esses efeitos são negativos em relação ao estímulo inicial. Portanto, em geral, se algum fator se torna excessivo ou deficiente, um sistema de controle inicia um feedback negativo que consiste em série de alterações que restabelecem o valor médio do fator, mantendo, assim, a homeostasia. "Ganho" do Sistema de Controle. O grau de eficiência com que um sistema de controle mantém as condições constantes é determinado pelo ganho do feedback negativo. Por exemplo, vamos assumir que grande volume de sangue seja transfundido em pessoa cujo sistema de controle de pressão pelo barorreceptor não esteja funcionando, e a pressão arterial sobe do nível normal, de 100 mmHg, para 175 mmHg. Então, suponhamos que o mesmo volume de sangue seja injetado na mesma pessoa, quando o sistema barorreceptor estiver funcionando, e, desta vez, a pressão sobe por apenas 25 mmHg. Assim, o sistema de controle por feedback provocou “correção” de -50 mmHg — ou seja, de 175 mmHg para 125 mmHg. Permanece aumento de pressão de +25 mmHg, chamado de “erro”, o que significa que o sistema de controle não é 100% eficaz na prevenção da alteração. O ganho do sistema é, então, calculado pela seguinte fórmula: _ , Correção Ganho = —-—-— Erro Portanto, no exemplo do sistema barorreceptor, a correção é de -50 mmHg e o erro remanescente é de +25 mmHg. Assim, o ganho do sistema barorreceptor de uma pessoa, para o controle da pressão arterial, é -50 divididos por +25, ou -2. Ou seja, distúrbio que aumenta ou diminui a pressão arterial o faz com apenas um terço da que ocorreria se esse sistema de controle não estivesse presente. Os ganhos de alguns outros sistemas de controle fisiológicos são muito maiores do que o do sistema barorreceptor. Por exemplo, o ganho do sistema que controla a temperatura interna do corpo, quando a pessoa é exposta a clima moderadamente frio, é de aproximadamente -33. Portanto, o sistema de controle da temperatura é muito mais eficiente do que o sistema barorreceptor de controle da pressão. O Feedback Positivo Pode, Às Vezes, Causar Círculos Viciosos e Morte Podemos perguntar: por que, essencialmente, a maioria dos sistemas de controle do organismo opera por feedback negativo ao invés de por feedback positivo? Se considerarmos a natureza do feedback positivo imediatamente percebemos que o feedback positivo não leva à estabilidade mas sim à instabilidade e, em alguns casos, à morte. A Figura 1-3 mostra exemplo no qual pode ocorrer a morte potfeedback positivo. Essa figura representa a eficácia do bombeamento cardíaco, mostrando que o coração de ser humano saudável bombeia cerca de 5 litros de sangue por minuto. Se a pessoa, subitamente, perde 2 litros de sangue, a quantidade de sangue no corpo cai para nível muito baixo, insuficiente para que o coração bombeie eficientemente. Em consequência, a pressão arterial cai e o fluxo de sangue para o músculo cardíaco pelos vasos coronários diminui. Isso resulta em enfraquecimento do coração, diminuindo ainda mais o bombeamento, com mais diminuição do fluxo sanguíneo coronariano e, ainda mais, enfraquecimento do coração; o ciclo se repete várias vezes até que ocorra a morte. Observe que cada ciclo no feedback resulta em maior enfraquecimento do coração. Em outras palavras, o estímulo inicial causa mais estímulo, que é o feedback positivo. O feedback positivo é mais conhecido como “círculo vicioso”, mas um feedback positivo moderado pode ser superado pelos mecanismos de controle de feedback negativo do corpo, e o círculo vicioso não se desenvolve. Por exemplo, se a pessoa do exemplo mencionado antes tivesse sangrado apenas 1 litro em vez de 2 litros, os mecanismos normais de feedback negativo para controle do débito cardíaco e da pressão arterial superariam o feedback positivo, e a pessoa se recuperaria, conforme mostra a curva pontilhada da Figura 1-3. O Feedback Positivo Pode, Às Vezes, Ser Útil. Em alguns casos, o corpo usa o feedback positivo em seu favor. A coagulação sanguínea é exemplo de uso útil do feedback positivo. Quando um vaso sanguíneo se rompe e começa a se formar um coágulo, múltiplas enzimas, cha- Figura 1-3 Recuperação do bombeamento cardíaco causado por feedback negativo após remoção de 1 litro de sangue da circulação. A morte é causada por feedback positivo quando 2 litros de sangue são removidos. 8
  • 31. Capítulo 1 Organização Funcional do Corpo Humano e Controle do “Meio Interno” madas de fatores de coagulação, são ativadas no interior do próprio coágulo. Algumas dessas enzimas agem sobre outras enzimas inativas no sangue imediatamente adjacente, causando assim mais coagulação sanguínea. Esse processo continua até que o orifício no vaso seja fechado, e o sangramento cesse. Ocasionalmente, esse mecanismo pode sair do controle e causar a formação de coágulos indesejados. Na verdade, é isso que inicia a maioria dos ataques cardíacos agudos, causados por coágulo que começa na superfície interna de placa aterosclerótica em artéria coronária e cresce até a obstrução dessa artéria. O parto é outro caso em que o feedback positivo desempenha papel valioso. Quando as contrações ute- rinas ficam suficientemente fortes para que a cabeça do bebê comece a empurrar o colo uterino, o estiramento do colo envia sinais através do músculo uterino para o corpo do útero, causando contrações ainda mais fortes. Assim, as contrações uterinas estiram o colo, e esse estiramento causa contrações mais intensas. Quando este processo fica suficientemente poderoso, o bebê nasce. Se não forem suficientemente poderosas, as contrações cessam e somente após alguns dias elas recomeçam. Outro uso importante do feedback positivo é na geração de sinais nervosos. Quando a membrana de fibra nervosa é estimulada, ocorre ligeiro vazamento de íons sódio, pelos canais de sódio, na membrana do nervo, para o interior da fibra. Os íons sódio que entram na fibra mudam então o potencial da membrana, o que, por sua vez, causa maior abertura dos canais, mais alteração de potencial e ainda maior abertura de canais, e assim por diante. Assim, o leve vazamento se torna explosão de sódio que entra na fibra nervosa, criando o potencial de ação do nervo. Esse potencial de ação, por sua vez, faz com que a corrente elétrica flua ao longo da fibra, tanto no exterior quanto no interior dela, dando início a outros potenciais de ação. Esse processo continua ininterruptamente até que o sinal nervoso chegue à extremidade da fibra. Nos casos em que o feedback positivo é útil, o próprio feedback positivo é parte de processo geral de feedback negativo. Por exemplo, no caso de coagulação sanguínea, o processo de coagulação por feedback positivo é processo de feedback negativo para a manutenção do volume normal de sangue. Também, o feedback positivo que causa sinais nervosos permite que os nervos participem de milhares de sistemas de controle nervosos por feedback negativo. Tipos Mais Complexos de Sistemas de Controle — Controle Adaptativo Mais adiante neste livro, quando estivermos estudando o sistema nervoso, veremos que este sistema contém grande número de mecanismos de controle interconec- tados. Alguns são simples sistemas de feedback, parecidos com os que já foram discutidos. Muitos não o são. Por exemplo, alguns movimentos do corpo ocorrem tão rapidamente que não há tempo suficiente para que os sinais nervosos percorram todo o caminho da periferia do corpo até o cérebro e, então, novamente voltem à periferia para controlar o movimento. Portanto, o cérebro usa o princípio, chamado de controle por feed-forward, para provocar as necessárias contrações musculares. Isto é, os sinais nervosos sensoriais das partes que se movem informam o cérebro se o movimento é realizado corretamente. Se não, o cérebro corrige os sinais de feed-forward que envia aos músculos na próxima vez que o movimento for necessário. Se maiores correções forem ainda necessárias, elas serão feitas nos movimentos subsequentes. Isto é chamado de controle adaptativo. O controle adaptativo, de certa forma, é um feedback negativo retardado. Dessa forma, pode-se perceber o quanto podem ser complexos os sistemas corporais de controle de feedback. A vida de uma pessoa depende de todos eles. Portanto, grande parte deste livro é dedicada à discussão destes mecanismos vitais. o > Resumo —Automaticidade do Corpo A finalidade deste capítulo é a de destacar, em primeiro lugar, a organização geral do corpo e, em segundo lugar, os meios pelos quais as diferentes partes do corpo operam em harmonia. Em suma, o corpo é na verdade uma sociedade de cerca de 100 trilhões de células, organizadas em estruturas funcionais distintas, algumas das quais são chamadas de órgãos. Cada estrutura funcional contribui com sua parcela para a manutenção das condições home- ostáticas no líquido extracelular que é chamado de meio interno. Enquanto as condições normais forem mantidas nesse meio interno, as células do corpo continuam vivendo e funcionando adequadamente. Cada célula se beneficia da homeostasia e contribui com sua parcela para a sua manutenção. Essa interação recíproca proporciona a automaticidade contínua do corpo, até que um ou mais sistemas funcionais percam sua capacidade de contribuir com sua parcela da função. Quando isso acontece, todas as células do corpo sofrem. Disfunção extrema leva à morte; disfunção moderada leva à doença. Referências Adolph EF: Physiological adaptations: hypertrophies and superfunctions, Am Sei 60:608, 1972. Bernard C: Lectures on the Phenomena of Life Common to Animais and Plants, Springfield, IL, 1974, Charles CThomas. Cannon WB: The Wisdom of the Body, New York, 1932,WW Norton. Chien S: Mechanotransduction and endothelial cell homeostasis: the wis- dom of the cell, Am J Physiol Heart Circ Physiol 292.-H1209, 2007. 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  • 32. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Gao Q, Horvath TL: Neuronal control of energy homeostasis, FEBS Lett 582:132,2008. Guyton AC: Arterial Pressure and Hypertension, Philadelphia, 1980, WB Saunders. Guyton AC, Jones CE, Coleman TG: Cardiac Output and Its Regulation, Philadelphia, 1973, WB Saunders. Guyton AC, Taylor AE, Granger HJ: Dynamics and Control of the Body Fluids, Philadelphia, 1975,WB Saunders. Herman MA, Kahn BB: Glucose transport and sensing in the maintenance of glucose homeostasis and metabolic harmonyj Clin Invest 116:1767, 2006. Krahe R, Gabbiani F: Burst firing in sensory systems, Nat Rev Neurosci 5:13, 2004. Orgel LE:The origin of life on the earth, Sei Am 271:76,1994. Quarles LD: Endocrine functions of bone in mineral metabolism regulation, J Clin Invest 118:3820, 2008. Smith HW: From Fish to Philosopher, New York, 1961, Doubleday. Tjian R: Molecular machines that control genes, Sei Am 272:54,1995. 10
  • 33. CAPÍTULO 2 A Célula e suas Funções Cada um dos 100 trilhões de células do ser humano é estrutura viva que pode sobreviver por meses ou vários anos, desde que os líquidos que as banham con- tenham os nutrientes ade- quados. Para compreender a função dos órgãos e de outras estruturas do corpo, é essencial que primeiro entendamos a organização básica da célula e as funções das partes que a compõem. ' ii9h Organização da Célula A célula típica, observada por microscopia óptica, é mostrada na Figura 2-1. Suas duas principais partes são o núcleo e o citoplasma. O núcleo é separado do cito- plasma pela membrana nuclear, e o citoplasma é separado dos líquidos circundantes pela membrana celular, também chamada membrana plasmática. As diferentes substâncias que formam a célula são, coletivamente, chamadas de protoplasma. O protoplasma é composto, em sua grande maioria, de cinco substâncias básicas: água, eletrólitos, proteínas, lipídios e carboidratos. Agua. O principal meio líquido da célula é a água, presente na maioria das células, exceto nas células de gordura, na concentração de 70% a 85%. Muitas das espécies químicas celulares estão dissolvidas na água. Outras ficam suspensas nela, como partículas sólidas. Ocorrem reações químicas entre os produtos químicos dissolvidos ou nas superfícies das partículas suspensas ou das membranas. lons. Os íons mais importantes na célula são potássio, magnésio, fosfato, sulfato, bicarbonato, e, em menores quantidades, sódio, cloreto e cálcio. Eles serão discutidos, mais detalhadamente, no Capítulo 4, que considera as inter-relações entre os líquidos intra e extracelular. Os íons são os componentes inorgânicos para as reações celulares. Eles são necessários também para a ope ração de alguns dos mecanismos de controle celular. Por exemplo, íons que agem na membrana celular são necessários para a transmissão de impulsos eletroquímicos nos nervos e fibras musculares. Proteínas. Depois da água, as substâncias mais abundantes, na maioria das células, são as proteínas que normalmente constituem 10% a 20% da massa celular. Elas podem ser divididas em dois tipos: proteínas estruturais e proteínas funcionais. As proteínas estruturais estão presentes na célula, principalmente, na forma de longos filamentos que são polímeros de muitas moléculas individuais de proteínas. Tais filamentos intracelulares formam microtúbulos e estes formam os “citoesqueletos” de organelas celulares, como cílios, axônios de neurônios, fusos mitóticos de células em mitose, e a rede de finos tubos filamentares que mantêm as partes do citoplasma e do nucleoplasma em seus respectivos espaços. Extracelularmente, as proteínas fibrilares são encontradas principalmente nas fibras de colágeno e elastina do tecido conjuntivo e nas paredes dos vasos sanguíneos, nos tendões, nos ligamentos e em outras estruturas. As proteínas funcionais são um tipo de proteína totalmente diferente, normalmente composta de combinações de poucas moléculas na forma túbulo-globular. Essas proteínas são principalmente enzimas da célula e, ao contrário das proteínas fibrilares, em geral, são móveis no líquido celular. Muitas delas aderem às estruturas membranosas dentro da célula. As enzimas entram em Citoplasma Nucleoplasma Núcleo Figura 2-1 Estrutura da célula vista por microscopia óptica. 11 U N I D A
  • 34. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral contato direto com outras substâncias no líquido celular e, dessa forma, catalisam reações químicas intracelulares específicas. Por exemplo, as reações químicas que clivam a glicose em compostos menores e depois os combinam com oxigênio para formar dióxido de carbono e água, suprindo ao mesmo tempo energia para o funcionamento celular, são todas catalisadas por diversas enzimas proteicas. Lipídios. Os lipídios são diversos tipos de substâncias agrupadas por suas propriedades comuns de solubili- dade em solventes de gordura. Os lipídios especialmente importantes são os fosfolipídios e o colesterol, que juntos constituem cerca de 2% do total da massa celular. A sig- nificância dos fosfolipídios e do colesterol é que eles são solúveis principalmente em água e, portanto, são usados para formar a membrana celular e as membranas intracelulares que separam os diferentes compartimentos da célula. Além dos fosfolipídios e do colesterol, algumas células contêm grandes quantidades de triglicerídios, também chamados gordura neutra. Nos adipócitos, os triglicerídios geralmente são responsáveis por até 95% da massa celular. A gordura armazenada nessas células representa a principal reserva de nutrientes energéticos do corpo que, posteriormente, pode ser usada para fornecer energia em qualquer parte do corpo, conforme necessário. Carboidratos. Os carboidratos têm pouca função estrutural na célula, exceto como partes das moléculas de glicoproteínas, mas desempenham o papel principal na nutrição da célula. A maioria das células humanas não mantém grandes reservas de carboidratos; essa quantidade, em geral, fica em torno de 1% de sua massa total mas aumenta para até 3% nas células musculares e, eventualmente, até 6% nas células hepáticas. Entretanto, o carboidrato na forma de glicose dissolvida está sempre presente no líquido extracelular, prontamente disponível para as células. Também, pequena quantidade de carboidrato é sempre armazenada nas células na forma âeglico- gênio, que é um polímero insolúvel da glicose e que pode ser despolimerizado e utilizado com rapidez para suprir as necessidades energéticas das células. Estrutura Física da Célula A célula não é simplesmente um saco de líquido, enzimas e substâncias químicas; ela também contém estruturas físicas altamente organizadas, chamadas organelas intracelulares. A natureza física de cada organela é tão importante quanto os constituintes químicos da célula para a função celular. Por exemplo, sem uma das organelas, as mitocôndrias, mais de 95% da liberação de energia dos nutrientes na célula cessariam imediatamente. As organelas mais importantes e outras estruturas da célula são mostradas na Figura 2-2. Estruturas Membranosas da Célula A maioria das organelas da célula é delimitada por membranas compostas primariamente por lipídios e por proteínas. Essas membranas incluem a membrana celular, a membrana nuclear, a membrana do retículo endoplas- mático, e as membranas das mitocôndrias, dos lisosso- mos e do complexo de Golgi. Os lipídios das membranas formam barreira que impede o movimento de água e substâncias hidrosso- lúveis de um compartimento da célula para outro, pois a água não é solúvel em lipídios. Entretanto, moléculas de proteína nas membranas, em geral, penetram completamente na membrana, formando vias especializadas, contendo, em sua maioria, poros para a passagem de substâncias específicas através da membrana. Também, muitas outras proteínas da membrana são enzimas que catalisam uma série de diferentes reações químicas, discutidas aqui e nos capítulos subsequentes. Membrana Celular A membrana celular (também chamada membrana pias- mática), que envolve a célula, é estrutura fina, flexível e elástica, de 7,5 a 10 nanômetros de espessura. É composta quase totalmente por proteínas e por lipídios. A composição aproximada é a seguinte: proteínas, 55%; fosfolipídios, 25%; colesterol, 13%; outros lipídios, 4%; e carboidratos, 3%. A Barreira Lipídica da Membrana Celular Impede a Penetração de Água. A Figura 2-3 mostra a estrutura da membrana celular. Sua estrutura básica é a bicamada lipídica, um fino filme, formado por dupla camada de lipídios — cada camada com espessura de apenas uma molécula — contínua por toda a superfície da célula. Dispersas nesse filme lipídico existem grandes moléculas de proteína globulares. A dupla camada lipídica básica é composta por moléculas de fosfolipídios. Uma extremidade da molécula de fos- folipídio é solúvel em água; ou seja, é hidrofílica. A outra extremidade é solúvel apenas em lipídios; ou seja, é hidro- fóbica. A extremidade do fosfolipídio com fosfato é hidrofílica, e a extremidade com ácido graxo é hidrofóbica. Pelo fato de as partes hidrofóbicas das moléculas de fosfolipídio serem repelidas pela água mas, se atraírem entre si, elas espontaneamente se dispõem no interior da membrana, conforme mostra a Figura 2-3. As partes hidrofílicas com fosfato constituem as duas superfícies da membrana celular completa, em contato com a água intracelular na superfície interna da membrana, e com a água extracelular na superfície externa. A camada lipídica, no meio da membrana, é impermeável às substâncias hidrossolúveis comuns, como íons, glicose e ureia. Inversamente, as substâncias lipossolú- veis, como oxigênio, dióxido de carbono e álcool, podem entrar nessa parte da membrana com facilidade. As moléculas de colesterol na membrana também têm natureza lipídica, pois seu núcleo esteroide é muito lipossolúvel. Essas moléculas, em certo sentido, estão dis- 12
  • 35. Capítulo 2 A Célula e suas Funções Cromossomos e DNA Mitocôndria Retículo Retículo Microfilamentos endoplasmático endoplasmático granular liso (agranular) Centríolos Grânulos de secreção Microtúbulos Membrana nuclear Complexo de Golgi Membrana celular Nucléolo Glicogênio Ribossomos Lisossomo Figura 2-2 Reconstrução de célula típica, mostrando as organelas internas no citoplasma e no núcleo. solvidas na bicamada da membrana. Elas contribuem, principalmente, para a determinação do grau de permeabilidade (ou impermeabilidade) da dupla camada aos constituintes hidrossolúveis dos líquidos corpóreos. O colesterol regula muito a fluidez da membrana. Proteínas Integrais e Periféricas da Membrana Celular. A Figura 2-3 também mostra massas globulares flutuando na bicamada lipídica. São proteínas de membrana, muitas das quais são glicoproteínas. Existem dois tipos de proteínas da membrana celular: as proteínas integrais, que atravessam toda a membrana, e as proteínas periféricas, ancoradas à superfície da membrana e não a penetram. Muitas das proteínas integrais formam canais (ou poros) pelos quais as moléculas de água e substâncias hidrossolúveis, principalmente os íons, podem se difundir entre os líquidos extra e intracelular. Esses canais, formados por proteínas, também apresentam propriedades seletivas, permitindo a difusão preferencial de algumas substâncias em relação a outras. Outras proteínas integrais agem como proteínas car- readoras para o transporte de substâncias que, do contrário, não poderiam penetrar na dupla camada lipídica. Às vezes, elas podem até transportar substâncias na direção oposta a dos seus gradientes eletroquímicos para a difusão, o que é chamado de “transporte ativo”. Outras ainda agem como enzimas. Proteínas integrais da membrana também podem servir como receptores para substâncias químicas hidrossolúveis, tais como hormônios peptídios, que não penetram facilmente na membrana celular. A interação dos receptores da membrana celular com ligantes específicos, que se ligam ao receptor, causa alterações estruturais na proteína receptora. Isso, por sua vez, estimula a atividade enzimática da parte intracelular da proteína ou induz interações entre o receptor e as proteínas do citoplasma que agem como segundos mensageiros, transmitindo assim o sinal da parte extracelular do receptor para o interior da célula. Dessa maneira, as proteínas integrais atravessando a membrana celular constituem um meio de transmitir informações sobre o ambiente para o interior da célula. Moléculas das proteínas periféricas são, frequentemente, ligadas às proteínas integrais. Essas proteínas periféricas funcionam quase sempre como enzimas ou como controladores do transporte de substâncias através dos “poros” da membrana celular. 13 U N I D A
  • 36. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Carboidrato ít I , llr i Bicamada lipídica Proteína periférica Líquido intracelular Citoplasma Proteína integral Líquido extracelular Proteína integral Figura 2-3 Estrutura da membrana celular, mostrando que ela é composta principalmente de uma bicamada lipídica de moléculas de fosfo- lipídio, mas com grandes números de moléculas de proteína projetando-se na membrana.Também, carboidratos estão ligados às moléculas de proteína no exterior da membrana, e moléculas de proteína adicionais encontram-se no interior. (Redesenhada de Lodish HF, Rothman JE:The assembly of cell membranes. Sei Am 240:48,1979. Copyright George V. Kevin.) Carboidratos da Membrana — O “Glicocálice" Celular. Os carboidratos na membrana ocorrem, quase invariavelmente, em combinação com proteínas ou lipí- dios, na forma de glicoproteínas ou glicolipídios. Na verdade, muitas das proteínas integrais são glicoproteínas, e cerca de um décimo das moléculas de lipídios da membrana é composto por glicolipídios. As porções “glico” dessas moléculas quase invariavelmente se estendem para fora da célula, na superfície externa da membrana celular. Muitos outros compostos de carboidrato, chamados proteoglicanos — que são principalmente carboidratos ligados ao núcleo de pequenas proteínas —, estão frouxamente ligados também à superfície externa da célula. Dessa forma, toda a superfície externa da célula, em geral, apresenta revestimento frouxo de carboidrato, chamado glicocálice. Os domínios de carboidratos, ligados à superfície externa da célula, exercem várias funções importantes: (1) Muitos deles têm carga elétrica negativa, o que dá à maioria das células uma superfície negativamente carregada que repele ânions. (2) O glicocálice de algumas células se une ao glicocálice de outras, assim fixando as células umas às outras. (3) Muitos dos carboidratos agem como receptores para a ligação de hormônios, tais como a insulina; quando a ligação se dá, a combinação ativa as proteínas internas acopladas que, por sua vez, ativam cascata de enzimas intracelulares. (4) Alguns domínios de carboidratos participam de reações imunes, como discutido no Capítulo 34. O Citoplasma e Suas Organelas O citoplasma contém partículas dispersas, minúsculas e grandes, e organelas. A parte líquida e transparente do citoplasma, onde as partículas ficam dispersas, é chamada citosol; contém, principalmente, proteínas dissolvidas, eletrólitos e glicose. Dispersos no citoplasma encontram-se os glóbulos de gordura neutra, grânulos de glicogênio, ribossomos, vesículas secretórias, e cinco organelas especialmente importantes: o retículo endoplasmático, o complexo de Golgi, as mitocôndrias, os lisossomos e os peroxissomos. Retículo Endoplasmático A Figura 2-2 mostra rede de estruturas vesiculares, tubulares e achatadas no citoplasma; é o retículo endoplasmático. Os túbulos e vesículas se interconectam. Suas paredes também são constituídas por membranas com 14
  • 37. dupla camada lipídica, com grande quantidade de proteínas, similares às da membrana celular. A área total dessas estruturas, em algumas células — por exemplo, nas células hepáticas —, pode ser de até 30 ou 40 vezes a área da membrana celular. A estrutura detalhada de pequena porção do retí- culo endoplasmático é mostrada na Figura 2-4. O espaço interno dos túbulos e das vesículas é cheio de matriz endo- plasmática, meio aquoso que é diferente do líquido do citosol, externo ao retículo endoplasmático. Micrografias eletrônicas mostram que o espaço interno do retículo endoplasmático é conectado com o espaço entre as duas superfícies da membrana nuclear. As substâncias, formadas em algumas partes da célula, entram no espaço do retículo endoplasmático e são, então, conduzidas para outras partes da célula. Também, a vasta área da superfície desse retículo e os múltiplos sistemas de enzima anexados às suas membranas fornecem a maquinaria para grande parte das funções metabólicas da célula. Ribossomos e Retículo Endoplasmático Granular. Ancoradas na superfície externa de muitas partes do retículo endoplasmático estão numerosas partículas granulares e minúsculas, chamadas de ribossomos. Onde os ribossomos estão presentes, o retículo é chamado de retículo endoplasmático granular. Os ribossomos são compostos por mistura de RNA e de proteínas, e funcionam na síntese de novas moléculas de proteínas na célula, como discutido, mais adiante, neste capítulo e no Capítulo 3. Retículo Endoplasmático Agranular. Parte do retículo endoplasmático não contém ribossomos. Essa parte é chamada de retículo endoplasmático agranular, ou liso. O retículo agranular serve para a síntese de substâncias lipídicas e para outros processos das células, promovidos pelas enzimas intrarreticulares. Complexo de Golgi O complexo de Golgi, mostrado na Figura 2-5, está intimamente relacionado com o retículo endoplasmático. Ele tem membranas parecidas com as do retículo endoplasmático agranular. Normalmente, é composto por quatro ou mais camadas de vesículas fechadas, finas e achatadas, empilhadas e dispostas na vizinhança de um dos lados do núcleo. Esse complexo ocorre, destacadamente, em células secretórias, localizado no polo da célula por onde se dá a secreção. O complexo de Golgi funciona em associação ao retículo endoplasmático. Conforme mostra a Figura 2-5, pequenas “vesículas de transporte” (também chamadas de vesículas do retículo endoplasmático, ou vesículas RE) destacam-se do retículo endoplasmático e, logo depois, se fundem com o complexo de Golgi. As substâncias contidas nas vesículas RE são transportadas do retículo endoplasmático para o complexo de Golgi. As substâncias transportadas são então processadas no complexo de Golgi para formar lisossomos, vesículas secretórias e outros componentes citoplasmáticos, discutidos mais adiante neste capítulo. Capítulo 2 A Célula e suas Funções Figura 2-4 Estrutura do retículo endoplasmático. (Modificada de DeRobertis EDP, Saez FA, DeRobertis EMF: Cell Biology, 6th ed. Philadelphia:WB Saunders, 1975.) Matriz Retículo endoplasmático granular Retículo endoplasmático agranular Vesículas de Golgi Complexo de Golgi Vesículas RE Retículo endoplasmático Figura 2-5 Complexo de Golgi típico e sua relação com o retículo endoplasmático (RE) e com o núcleo. Lisossomos Os lisossomos, mostrados na Figura 2-2, são organelas vesiculares que se formam separando-se do complexo de Golgi e, depois, se dispersando pelo citoplasma. Os lisossomos constituem um sistema digestivo intracelular que permite que a célula digira (1) estruturas celulares danificadas, (2) partículas de alimentos que foram ingeridos pela célula, e (3) materiais indesejados, tais como bactérias. O lisossomo é muito diferente nos diversos tipos de células, mas geralmente tem diâmetro de 250 a 750 nanô- metros. É cercado por membrana de dupla camada lipídica e contém grande número de pequenos grânulos, de 5 a 8 nanômetros de diâmetro, que são agregados proteicos, com até 40 diferentes enzimas da classe das hidrolases (digestivas). Uma enzima hidrolítica é capaz de quebrar 15
  • 38. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral composto orgânico em duas ou mais partes, combinando o hidrogênio de uma molécula de água com uma parte hidroxila do composto da molécula de água com a outra parte do composto. Assim, a proteína é hidrolisada para formar aminoácidos, o glicogênio é hidrolisado para formar a glicose e os lipídios são hidrolisados para formar ácidos graxos e glicerol. Comumente, a membrana que circunda o lisossomo evita que as enzimas hidrolíticas, nele contidas, entrem em contato com outras substâncias na célula e, portanto, impede suas ações digestivas. Entretanto, algumas condições da célula rompem as membranas de alguns dos lisossomos, permitindo a liberação das enzimas digestivas. Essas enzimas então clivam as substâncias orgânicas com as quais entram em contato em moléculas pequenas altamente difundíveis, tais como aminoácidos e glicose. Algumas das funções mais específicas dos lisossomos serão discutidas mais adiante neste capítulo. Peroxissomos Os peroxissomos são fisicamente parecidos com os lisossomos, mas diferentes em dois aspectos importantes. Primeiro, acredita-se que eles sejam formados por autorreplicação (ou talvez por brotamento do retículo endoplasmático liso) e não pelo complexo de Golgi. Em segundo lugar, eles contêm oxidases em vez de hidrola- ses. Diversas oxidases são capazes de combinar oxigênio com íons hidrogênio derivados de diferentes substâncias químicas intracelulares para formar o peróxido de hidrogênio (H202). O peróxido de hidrogênio é substância altamente oxidante e usado em combinação com a catalase, outra oxidase presente em grande quantidade nos peroxissomos, para oxidar muitas substâncias que poderíam de outra forma ser tóxicas para a célula. Por exemplo, cerca de metade do álcool que uma pessoa bebe é eliminada pelos peroxissomos das células hepá- ticas desta maneira. Vesículas Secretórias Uma das importantes funções de várias células é a secreção de substâncias químicas específicas. Quase todas essas substâncias secretadas são formadas pelo sistema reticuloendoplasmático-complexo de Golgi, sendo, então, liberadas pelo complexo de Golgi no citoplasma, na forma de vesículas de armazenamento, chamadas de vesículas secretórias ou grânulos secretários. A Figura 2-6 mostra vesículas secretórias típicas nas células acinares pancreáticas; essas vesículas armazenam proteínas que são proenzimas (enzimas que ainda não foram ativadas). As proenzimas são secretadas, posteriormente, através da membrana celular apical no dueto pancreático e daí para o duodeno, onde se tornam ativas e realizam funções digestivas sobre o alimento no trato intestinal. Mitocôndrias As mitocôndrias, mostradas nas Figuras 2-2 e 2-7, são chamadas de “casa de força” da célula. Sem elas, as célu las seriam incapazes de extrair energia suficiente dos nutrientes e essencialmente todas as funções celulares cessariam. As mitocôndrias estão presentes em todas as áreas citoplasmáticas de cada célula, mas o número total por célula varia de menos de 100 até vários milhares, dependendo da quantidade de energia necessária para a célula. Além disso, as mitocôndrias estão concentradas nas porções da célula responsáveis pela maior parte do seu metabolismo energético. Também variam de tamanho e de forma. Umas têm apenas algumas centenas de nanôme- tros de diâmetro e forma globular, enquanto outras são alongadas — chegam a 1 micrômetro de diâmetro e 7 micrômetros de comprimento; outras ainda são ramificadas e filamentares. A estrutura básica da mitocôndria, mostrada na Figura 2-7, é composta principalmente de duas membranas, cada uma formada por bicamada lipídica e proteínas: uma membrana externa e uma membrana interna. Diversas dobras da membrana interna formam as cristas nas quais estão as enzimas oxidativas. Além disso, a cavidade interna da mitocôndria é preenchida por uma matriz que contém grandes quantidades de enzimas dissolvidas, necessárias para a extração de energia dos nutrien- Grânulos secretórios Figura 2-6 Grânulos secretórios (vesículas secretórias) em células acinares do pâncreas. Membrana externa Membrana interna Cristas Matriz Câmara intermédia Enzimas para a fosforilação oxidativa Figura 2-7 Estrutura da mitocôndria. (Modificada de DeRobertis EDP, Saez FA, DeRobertis EMF: Cell Biology, 6th ed. Philadelphia: WB Saunders, 1975.) 16
  • 39. tes. Essas enzimas operam em associação com as enzimas oxidativas nas membranas, oxidando os nutrientes, formando dióxido de carbono e água e ao mesmo tempo liberando energia. A energia liberada é usada para sintetizar a substância de “alta energia”, chamada de trifosfato de adenosina (ATP). O ATP é, então, transportado para fora da mitocôndria e se difunde pela célula para liberar sua própria energia onde ela for necessária para realizar as funções celulares. Os detalhes químicos da formação de ATP pela mitocôndria são fornecidos no Capítulo 67, mas algumas das funções básicas do ATP na célula são apresentadas mais adiante neste capítulo. As mitocôndrias são autorreplicantes, o que significa que uma mitocôndria pode formar uma segunda, uma terceira, e assim por diante, onde na célula houver necessidade de maiores quantidades de ATP. De fato, a mitocôndria contém DNA similar ao encontrado no núcleo da célula. No Capítulo 3 veremos que o DNA é a substância química básica do núcleo que controla a repli- cação da célula. O DNA da mitocôndria desempenha um papel similar, controlando a replicação da própria mitocôndria. Citoesqueleto Celular — Filamentos e Estruturas Tubulares da Célula As proteínas fibrilares da célula estão geralmente organizadas em filamentos ou túbulos. As moléculas precursoras de proteína são sintetizadas pelos ribossomos no citoplasma. As moléculas precursoras então se polimeri- zam para formar fdamentos. Como um exemplo, grandes quantidades de filamentos de actina geralmente ocorrem na zona mais externa do citoplasma, chamada de ecto- plasma, e formam um suporte elástico para a membrana celular. Também, em células musculares, os filamentos de actina e miosina são organizados em uma máquina con- trátil especial que é a base da contração muscular, como discutiremos detalhadamente no Capítulo 6. Um tipo especial de filamento rígido, composto por moléculas de tubulina polimerizadas, é usado em todas as células para construir estruturas tubulares muito fortes, os microtúbulos. A Figura 2-8 mostra microtúbulos típicos que foram isolados do flagelo de espermatozóide. Outro exemplo de microtúbulo é a estrutura esquelética tubular no centro de cada cílio que se projeta do citoplasma da célula para a ponta do cílio. Essa estrutura será discutida adiante, neste capítulo, e é ilustrada na Figura 2- 17. Também, tanto os centríolos quanto o fuso mitó- tico da célula em mitose são compostos por microtúbulos rígidos. A função primária dos microtúbulos, assim, é a de formar o citoesqueleto, proporcionando estruturas rígidas para certas partes de células. Núcleo O núcleo é o centro de controle da célula. Resumidamente, o núcleo contém grande quantidade de DNA, que são os genes. Os genes determinam as características das proteí Capítulo 2 A Célula e suas Funções nas da célula, incluindo as proteínas estruturais, como também as enzimas intracelulares, que controlam as atividades citoplasmáticas e nucleares. Os genes também controlam e promovem a reprodução da própria célula. Os genes primeiro se replicam para formar dois conjuntos idênticos de genes; depois, a célula se divide, por processo especial, chamado mitose, para formar duas células-filhas, e cada uma delas recebe um dos dois conjuntos de genes. Todas essas atividades do núcleo serão detalhadamente consideradas no próximo capítulo. Infelizmente, a aparência do núcleo ao microscópio não fornece muitas pistas sobre os mecanismos pelos quais realiza suas atividades de controle. A Figura 2-9 mostra a aparência do núcleo na interfase (o período entre as mitoses) ao microscópio óptico, revelando a coloração escura da cromatina dispersa pelo nucleoplasma. Durante a mitose, a cromatina se organiza na forma de cromossomos altamente estruturados, que podem então ser identificados pelo microscópio óptico, conforme ilustrado no próximo capítulo. a > Figura 2-8 Microtúbulos separados do flagelo de um espermatozóide. (De Wolstenholme GEW, 0’Connor M, e the publisher, JA Churchill, 1967. Figura 4, página 314. Copyright Novartis Foundation, antiga Ciba Foundation.) 17 U N
  • 40. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Membrana Nuclear A membrana nuclear, também chamada envelope nuclear, é na verdade constituída por duas membranas, cada uma com a bicamada lipídica uma por dentro da outra. A membrana externa é contínua com o retículo endoplasmático do citoplasma celular, e o espaço entre as duas membranas nucleares é contínuo com o espaço interno do retículo endoplasmático, como mostrado na Figura 2-9. A membrana nuclear é vazada por vários milhares de poros nucleares. Grandes complexos de moléculas de proteínas estão ancorados às bordas dos poros, de forma que a área central de cada poro tem apenas cerca de 9 nanô- metros de diâmetro. Esse tamanho é suficientemente grande para permitir que moléculas de peso molecular de até 44.000 passem através deles com razoável facilidade. Nucléolos e Formação de Ribossomos Os núcleos da maioria das células contêm uma ou mais estruturas com afinidade pelos corantes usados em microscopia, chamadas nucléolos. O nucléolo, diferentemente da maioria das outras organelas discutidas aqui, não tem membrana delimitadora. Ele é, simplesmente, um acúmulo de grande quantidade de RNA e proteínas dos tipos encontrados nos ribossomos. O nucléolo fica consideravelmente maior quando a célula está ativa, sintetizando proteínas. A formação dos nucléolos (e dos ribossomos, no citoplasma fora do núcleo) começa no núcleo. Primeiro, genes específicos de DNA, nos cromossomos, promovem a síntese de RNA. Parte dele é armazenada nos nucléolos, mas a maior parte é transportada para o citoplasma, pelos poros nucleares. No citoplasma, o RNA, em conjunto com proteínas específicas, forma ribossomos “maduros” que desempenham papel essencial na formação das proteínas citoplasmáticas, como discutiremos mais profundamente no Capítulo 3. Comparação da Célula Animal com Formas Pré-celulares de Vida nas células de mamíferos e ele é capaz de se autorreprodu- zir sob condições adequadas. Assim, o vírus propaga sua linhagem de geração para geração e é, portanto, estrutura viva da mesma forma que a célula e o ser humano são estruturas vivas. Com a evolução da vida, outras substâncias químicas, além do ácido nucleico e das proteínas, se tornaram partes integrantes do organismo, e funções especializadas começaram a se desenvolver em diferentes partes do vírus. Formou-se membrana ao redor do vírus e, dentro da membrana, apareceu matriz fluida. Substâncias químicas especializadas se desenvolveram no fluido para realizar funções especiais; muitas enzimas proteicas pareciam ser capazes de catalisar reações químicas e, portanto, determinar as atividades do organismo. Em estágios ainda mais recentes da vida, especialmente nos estágios riquetsiais e bacterianos, desenvolveram-se organelas no interior do organismo, representando estruturas físicas com agregados químicos que realizam funções mais eficientemente do que as mesmas substâncias químicas dispersas na matriz fluida. Por fim, na célula nucleada, desenvolveram-se organelas ainda mais complexas, sendo a mais importante delas o próprio núcleo. O núcleo distingue esse tipo de célula de todas as formas inferiores de vida; o núcleo proporciona um centro de controle para todas as atividades celulares e assegura a reprodução exata de novas células, geração após geração, cada nova célula exatamente com a mesma estrutura de sua progenitora. Sistemas Funcionais da Célula No restante deste capítulo, discutiremos diversos sistemas funcionais representativos da célula que fazem dela um organismo vivo. Ingestão pela Célula — Endocitose Para uma célula viver, crescer e se reproduzir ela tem de obter nutrientes e outras substâncias dos líquidos ao seu A célula é organismo muito complicado que se desenvolveu por centenas de milhões de anos, depois que a primeira forma de vida, um organismo similar aos vírus atuais, apareceu na Terra. A Figura 2-10 mostra os tamanhos relativos de (1) o menor vírus conhecido, (2) um vírus grande, (3) uma riquétsia, (4) uma bactéria, e (5) uma célula nucleada, indicando que a célula tem diâmetro de aproximadamente 1.000 vezes o do menor vírus e, portanto, volume de cerca de um bilhão de vezes o do menor vírus. Correspondentemente, as funções e a organização anatômica da célula são também muito mais complexas do que as do vírus. O constituinte essencial que confere vida ao pequeno vírus é um ácido nucleico revestido por capa de proteína. Esse ácido nucleico é composto dos mesmos constituintes do ácido nucleico básico (DNA ou RNA), encontrados 15 nm - Vírus pequeno 1150 nm - Vírus grande 350 nm - Riquétsia Bactéria de 1 mm Célula Figura 2-10 Comparação dos tamanhos de organismos pré-celu- lares com o de uma célula média do corpo humano. 18
  • 41. redor. A maioria das substâncias passa, através da membrana celular, por difusão e por transporte ativo. A difusão envolve o transporte através da membrana, causado pelo movimento aleatório das moléculas da substância; as substâncias se movem pelos poros da membrana celular ou, no caso de substâncias lipossolú- veis, através da matriz lipídica da membrana. O transporte ativo envolve o carreamento de substância através da membrana por estrutura proteica física que atravessa a membrana. Esses mecanismos de transporte ativo, tão importantes para a função celular, serão apresentados detalhadamente no Capítulo 4. Partículas muito grandes entram na célula por meio de função especializada da membrana celular, chamada endocitose. As principais formas de endocitose são a pinocitose e a fagocitose. Pinocitose significa a ingestão de minúsculas partículas que formam vesículas de líquido extracelular e por componentes particulados no interior do citoplasma da célula. Fagocitose significa a ingestão de grandes partículas, tais como bactérias, células totais ou partes de tecido em degeneração. Pinocitose. A pinocitose ocorre continuamente nas membranas celulares da maioria das células, mas é especialmente rápida em algumas delas. Por exemplo, ela ocorre tão rapidamente em macrófagos que cerca de 3% da membrana total do macrófago são engolfados, na forma de vesículas, a cada minuto. Mesmo assim, as vesículas pinocitóticas são muito pequenas — normalmente, apenas 100 a 200 nanômetros de diâmetro — que a maioria delas só pode ser vista ao microscópio eletrônico. A pinocitose é o único meio pelo qual a maioria das grandes macromoléculas, tal como a maior parte das moléculas de proteína, pode entrar nas células. A velocidade de formação de vesículas pinocitóticas é usualmente aumentada quando essas macromoléculas aderem à membrana celular. A Figura 2-11 demonstra as etapas sucessivas da pinocitose de três moléculas de proteína que aderem à membrana. Essas moléculas, em geral, se ligam a receptores Proteínas Receptores C D Figura 2-11 Mecanismo da pinocitose. Capítulo 2 A Célula e suas Funções de proteínas especializados, na superfície da membrana, que são específicas para o tipo de proteína que será absorvida. Os receptores, na maioria das vezes, estão concentrados em pequenas concavidades na superfície externa da membrana celular, chamadas cavidades revestidas. Na face interna da membrana celular, abaixo dessas cavidades, existe uma malha de proteína fibrilar, chamada clatrina, bem como outras proteínas, incluindo talvez filamentos contráteis de actina e miosina. Se as moléculas de proteína se unem aos receptores, as propriedades da superfície da membrana local se alteram de tal forma que ocorre invaginação, e as proteínas fibri- lares, ao redor da abertura da cavidade em invaginação, fazem com que suas bordas se fechem sobre as proteínas ligadas aos receptores, engolfando também pequena quantidade de líquido extracelular. Imediatamente, a parte invaginada da membrana se destaca da superfície da célula, formando uma vesícula pinocitótica, no citoplasma da célula. O que faz com que a membrana celular passe pelas deformações necessárias, para formar as vesículas pinocitóticas, permanece essencialmente um mistério. Esse processo requer energia do interior da célula suprida pelo ATP, substância de alta energia, discutida adiante, neste capítulo. Também requer a presença de íons cálcio no líquido extracelular que provavelmente reagem com os filamentos de proteína contráteis abaixo das cavidades revestidas, para gerar a força para destacar as vesículas da membrana celular. Fagocitose. A fagocitose ocorre de forma muito parecida com a pinocitose, mas envolve partículas grandes em vez de moléculas. Apenas certas células têm a capacidade da fagocitose, mais notavelmente os macrófagos dos tecidos e alguns leucócitos. A fagocitose se inicia quando uma partícula tal como bactéria, célula morta, ou resto de tecido se liga a receptores na superfície do fagócito. No caso das bactérias, cada uma geralmente está ligada a anticorpo específico, e é o anticorpo que se liga aos receptores do fagócito, arrastando a bactéria com ele. Essa intermediação de anticorpos é chamada de opsonização, discutida nos Capítulos 33 e 34. A fagocitose ocorre segundo os seguintes passos: 1. Os receptores da membrana celular se ligam aos ligantes da superfície da partícula. 2. As bordas da membrana, ao redor dos pontos de ligação, evaginam em fração de segundo para envolver toda a partícula; então, progressivamente, mais e mais receptores da membrana se unem aos ligantes da partícula. Tudo isso ocorre repentinamente, como um zíper, para formar a vesícula fagocítica fechada. 3. A actina e outras fibrilas contráteis, no citoplasma, envolvem a vesícula fagocítica e se contraem ao redor de sua borda externa, empurrando a vesícula para o interior. 19 U N I D A D E
  • 42. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral 4. As proteínas contráteis então fecham a abertura da vesícula tão completamente que ela se separa da membrana celular, deixando a vesícula no interior da célula, da mesma maneira como as vesículas pinocitóticas são formadas. Digestão de Substâncias Estranhas, Pinocitóticas e Fagocíticas Dentro da Célula — Função dos Lisossomos Quase imediatamente após o aparecimento de uma vesícula pinocitótica ou fagocítica no interior da célula, um ou mais lisossomos se ligam à vesícula e lançam suas hidrolases ácidas no interior da vesícula, como mostra a Figura 2-12. Assim, uma vesícula digestiva é formada no citoplasma da célula, na qual as hidrolases vesiculares começam a hidrolisar as proteínas, carboidratos, lipídios e outras substâncias da vesícula. Os produtos da digestão são pequenas moléculas de aminoácidos, glicose, fosfatos e outros, que podem se difundir, através da membrana da vesícula, para o citoplasma. O que sobra da vesícula digestiva, chamado corpo residual, representa substâncias indigeríveis. Na maior parte dos casos, esse corpo residual é finalmente excretado pela membrana celular pelo processo da exocitose que é essencialmente o oposto da endocitose. Dessa forma, as vesículas pinocitóticas e fagocíticas contendo lisossomos podem ser chamadas de órgãos digestivos das células. Regressão dos Tecidos e Autólise das Células. Certos tecidos corporais podem com frequência regredir até tamanho menor. Por exemplo, isso ocorre com o útero depois da gravidez, nos músculos durante longos períodos de inatividade, e nas glândulas mamárias, ao final da lactação. Os lisossomos são responsáveis por grande parte dessa regressão. O mecanismo pelo qual a falta de atividade do tecido faz com que os lisossomos aumentem sua atividade é desconhecido. Figura 2-12 Digestão de substâncias nas vesículas pinocitóticas ou fagocíticas por enzimas derivadas dos lisossomos. Outro papel especial dos lisossomos é a remoção das células danificadas ou partes danificadas das células dos tecidos. Danos celulares — causados por calor, frio, trauma, produtos químicos ou qualquer outro fator — induzem os lisossomos a se romper. As hidrolases liberadas imediatamente começam a digerir as substâncias orgânicas adjacentes. Se o dano for leve, apenas parte da célula é removida, seguida por seu reparo. Se o dano for grave, toda a célula é digerida, processo chamado de autólise. Dessa maneira, a célula é completamente removida e nova célula, do mesmo tipo, é normalmente formada por reprodução mitótica de célula adjacente, em substituição à antiga. Os lisossomos também contêm agentes bactericidas que podem matar bactérias fagocitadas, antes que possam causar danos celulares. Esses agentes incluem: (1) lisozima, que dissolve a membrana celular da bactéria; (2) lisoferrina, que liga o ferro e outras substâncias, antes que possam promover o crescimento bacteriano; e (3) ácido, em pH de aproximadamente 5,0, que ativa as hidrolases e inativa os sistemas metabólicos das bactérias. Síntese e Formação de Estruturas Celulares pelo Retículo Endoplasmático e Complexo de Golgi Funções Específicas do Retículo Endoplasmático A extensão do retículo endoplasmático e do complexo de Golgi nas células secretórias já foi destacada. Essas estruturas são formadas principalmente por membranas de bicamada lipídica, similar à da membrana celular, e suas paredes são revestidas por enzimas proteicas que catalisam a síntese de muitas substâncias necessárias para a célula. A maioria das sínteses começa no retículo endoplasmático. Os produtos formados nele são então transferidos para o complexo de Golgi, onde são novamente processados, antes de serem liberados no citoplasma. Mas primeiramente devemos destacar os produtos específicos que são sintetizados nas partes específicas do retículo endoplasmático e do complexo de Golgi. Proteínas São Formadas pelo Retículo Endoplasmático Granular. A porção granular do retículo endoplasmático é caracterizada por grande número de ribossomos ancorados às superfícies externas da membrana do retículo endoplasmático. Como discutido no Capítulo 3, as moléculas de proteína são sintetizadas no interior da estrutura dos ribossomos. Os ribossomos lançam algumas das moléculas de proteína sintetizadas diretamente no citosol, mas também transferem muito mais através da parede do retículo endoplasmático para o interior das vesículas e túbulos endoplasmáticos, isto é, para a matriz endoplasmática. Síntese de Lipídios pelo Retículo Endoplasmático Liso. O retículo endoplasmático também sintetiza lipídios, especialmente os fosfolipídios e o colesterol. Estes são rapidamente incorporados à bicamada lipídica do próprio retículo endoplasmático, fazendo com que ele fique mais extenso. Isto ocorre principalmente na parte lisa do retículo endoplasmático. 20
  • 43. Capítulo 2 A Célula e suas Funções Para que o retículo endoplasmático não cresça desme- suradamente, pequenas vesículas, chamadas vesículas RE ou vesículas de transporte, continuamente se destacam do retículo liso; a maioria dessas vesículas migra com muita rapidez para o complexo de Golgi. Outras Funções do Retículo Endoplasmático. Outras funções significativas do retículo endoplasmático, especialmente do retículo liso, incluem as seguintes: 1. Ele fornece as enzimas que controlam a quebra do glicogênio, quando ocorre demanda por energia. 2. Ele fornece grande número de enzimas que são capazes de desintoxicar substâncias, tais como fármacos, que poderiam danificar as células. A desintoxicação se dá por coagulação, oxidação, hidrólise, conjugação com o ácido glicurônico, e por outras maneiras. Funções Específicas do Complexo de Golgi Funções Sintéticas do Complexo de Golgi. Embora a principal função do complexo de Golgi seja o processamento adicional de substâncias já formadas no retículo endoplasmático, ele também tem a capacidade de sintetizar certos carboidratos que não são formados no retículo endoplasmático. Isso é particularmente válido para a formação de grandes polímeros de sacarídeos ligados a pequenas quantidades de proteína; os exemplos mais importantes incluem o ácido hialurônico e o sulfato de condroitina. Algumas das diversas funções do ácido hialurônico e do sulfato de condroitina no corpo são as seguintes: (1) eles são os principais componentes dos proteoglicanos, secretados no muco e em outras secreções glandulares; (2) eles são os principais componentes da matriz no exterior das células, nos espaços intersticiais, agindo como enchimentos entre as fibras de colágeno e as células; (3) eles são os principais componentes da matriz orgânica, tanto das cartilagens quanto dos ossos; e (4) são importantes nas atividades celulares, incluindo a migração e a proliferação. Processamento de Secreções Endoplasmáticas pelo Complexo de Golgi — Formação de Vesículas. A Figura 2-13 resume as principais funções do retículo endoplasmático e do complexo de Golgi. À medida que as substâncias são formadas no retículo endoplasmático, especialmente as proteínas, elas são transportadas pelos túbulos para as partes do retículo endoplasmático liso mais próximas do complexo de Golgi. Nesse ponto, pequenas vesículas de transporte, compostas de pequenos envelopes de retículo endoplasmático liso, continuamente se destacam e se difundem para a camada mais profunda do complexo de Golgi. Nas vesículas, estão as proteínas sintetizadas e outros produtos do retículo endoplasmático. As vesículas de transporte rapidamente se fundem com o complexo de Golgi e lançam as substâncias que contêm nos espaços vesiculares do complexo de Golgi. Aí, porções adicionais de carboidratos são acrescenta das às secreções. Outra importante função do complexo de Golgi é compactar as secreções do retículo endoplasmático em pacotes muito concentrados. À medida que as secreções passam para as camadas mais externas do complexo de Golgi, a compactação e o processamento continuam. Por fim, tanto vesículas grandes, quanto pequenas continuam se destacando do complexo de Golgi, carregando com elas as substâncias secretórias compactadas e, por sua vez, as vesículas se difundem por toda a célula. Para dar ideia da velocidade desses processos: quando célula glandular é exposta a aminoácidos radioativos, moléculas de proteína radioativas recém-formadas podem ser detectadas no retículo endoplasmático granular dentro de 3 a 5 minutos. Em 20 minutos, proteínas recém- formadas já estão presentes no complexo de Golgi e, após 1 ou 2 horas, proteínas radioativas são secretadas pela célula. Tipos de Vesículas Formadas pelo Complexo de Golgi —Vesículas Secretórias e Lisossomos. Em célula intensamente secretora, as vesículas, formadas pelo complexo de Golgi, são principalmente vesículas secretórias contendo substâncias proteicas para serem secretadas pela superfície da membrana celular. Essas vesículas secretórias primeiro se difundem para a membrana celular, depois se fundem com ela e lançam suas substâncias para o exterior pelo mecanismo da exocitose. A exocitose, na maior parte dos casos, é estimulada pela entrada de íons cálcio na célula; os íons cálcio interagem com a membrana vesicu- lar, de forma ainda não bem compreendida, e causam sua fusão com a membrana celular, seguida pela exocitose — isto é, a abertura da vesícula para o exterior e extrusão dos conteúdos. Algumas vesículas entretanto são destinadas ao uso intracelular. Formação de Formação Vesículas granular liso Figura 2-13 Formação de proteínas, lipídios e vesículas celulares pelo retículo endoplasmático e pelo complexo de Golgi. 21
  • 44. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Uso das Vesículas Intracelulares para Repor as Membranas Celulares. Algumas das vesículas intracelulares, formadas pelo complexo de Golgi, se fundem com a membrana celular ou com as membranas de estruturas intracelulares, tais como as das mitocôndrias ou mesmo do retículo endoplasmático. Isso aumenta a área dessas membranas e, dessa forma, repõe as membranas conforme elas vão sendo consumidas. Por exemplo, a membrana celular perde muito de seus componentes cada vez que forma vesícula pinocitótica ou fagocítica, e as membranas vesiculares do complexo de Golgi continuamente repõem a membrana celular. Em suma, o sistema membranoso do retículo endoplasmático e do complexo de Golgi representa órgão altamente metabólico, capaz de formar novas estruturas intracelulares, bem como substâncias a serem secretadas pela célula. Extração de Energia dos Nutrientes — Função das Mitocôndrias As principais substâncias, das quais a célula extrai energia, são os nutrientes que reagem quimicamente com o oxigênio — carboidratos, gorduras e proteínas. No corpo humano, essencialmente, todos os carboidratos são convertidos em glicose pelo trato digestivo e pelo fígado, antes de alcançarem outras células do corpo. Da mesma forma, as proteínas são convertidas em aminoácidos, e as gorduras em ácidos graxos. A Figura 2-14 mostra o oxigênio e os alimentos — glicose, ácidos graxos e aminoácidos — todos entrando na célula. Na célula, os alimentos reagem quimicamente com o oxigênio, sob a influência de enzimas que controlam as reações e canalizam a energia liberada na direção apropriada. Os detalhes de todas essas funções digestivas e metabólicas são apresentados nos Capítulos 62 a 72. Acido pirúvico Ãcid<y ^ acetoacético Acetil-CoA 'r Glicose Ácidos graxos Aminoácidos 2ADP 2ATP 36 ADP 36 ATP Mitocôndria Membrana celular Citoplasma Figura 2-14 Formação de trifosfato de adenosina (ATP) na célula, mostrando que a maior parte do ATP é formada nas mitocôndrias. ADP, difosfato de adenosina. Resumidamente, quase todas essas reações oxidativas ocorrem nas mitocôndrias, e a energia liberada é usada para formar o composto de alta energia, o A TP. O ATP, e não os nutrientes originais, é usado pela célula para ener- gizar quase todas as reações metabólicas intracelulares subsequentes. Características Funcionais do ATP Ribose Trifosfato de adenosina O ATP é nucleotídeo composto de (1) base nitrogenada, adenina, (2) açúcar pentose, ribose, e (3) três radicais fosfato. Os dois últimos radicais fosfato são conectados com o restante da molécula pelas chamadas ligações fosfato de alta energia, representadas na fórmula mostrada anterior mente pelo símbolo ~. Sob as condições físicas e químicas do corpo, cada uma dessas ligações de alta energia contém cerca de 12.000 calorias de energia por mol de ATP, o que é muitas vezes maior do que a energia armazenada em ligação química usual; daí a origem do termo ligação de alta energia. A ligação fosfato de alta energia é muito lábil, de forma que pode ser cindida instantaneamente sempre que energia for necessária para promover outras reações intracelulares. Quando o ATP libera sua energia, um radical de ácido fosfórico se separa, formando o difosfato de adenosina (ADP). Essa energia liberada é usada para energizar muitas outras funções da célula, como por exemplo a síntese de substâncias e a contração muscular. Para reconstituir o ATP celular que foi consumido, a energia, derivada dos nutrientes celulares, é usada para recombinar o ADP e o ácido fosfórico, formando de novo o ATP, e todo o processo se repete indefinidamente. Por essas características, o ATP é chamado de moeda de energia da célula, pois ele pode ser gasto e se refazer continuamente em períodos de apenas alguns minutos. Processos Químicos na Formação de ATP — O Papel das Mitocôndrias. À medida que entra na célula, a glicose é submetida às enzimas no citoplasma que a convertem em ácido pirúvico (processo chamado glicólisé). Pequena quantidade de ADP é transformada em ATP pela energia liberada durante essa conversão, mas essa quantidade é responsável por menos de 5% do metabolismo energético total da célula. 22
  • 45. Cerca de 95% da formação do ATP na célula ocorrem nas mitocôndrias. O ácido pirúvico, derivado dos carboi- dratos, ácidos graxos dos lipídios, e aminoácidos das proteínas são convertidos no composto acetil-CoA, na matriz das mitocôndrias. Esse composto, por sua vez, é processado (para fins de extração de sua energia) por outra série de enzimas na matriz das mitocôndrias; essa sequência de reações químicas é chamada de ciclo do ácido cítrico ou ciclo de Krebs. Essas reações químicas são tão importantes que serão explicadas detalhadamente no Capítulo 67. No ciclo do ácido cítrico, a acetil-CoA é clivada em suas partes componentes, átomos de hidrogênio e dióxido de carbono. O dióxido de carbono se difunde para fora das mitocôndrias e eventualmente para fora da célula; por fim, é excretado do corpo pelos pulmões. Os átomos de hidrogênio, de modo inverso, são muito reativos e se combinam instantaneamente com o oxigênio que se difundiu para as mitocôndrias que liberam quantidade enorme de energia, usada pelas mitocôndrias para converter grande quantidade do ADP em ATP. Essas reações são complexas, requerendo a participação de grandes números de enzimas proteicas, situadas nas dobras da membrana interna das mitocôndrias, proje- tando-se para a matriz mitocondrial. O evento inicial é a remoção de um elétron do átomo de hidrogênio, o que o converte a íon hidrogênio. O evento final é a combinação dos íons hidrogênio com o oxigênio para formar água, com liberação de enorme quantidade de energia para grandes proteínas globulares, chamadas ATP-sintetase, que se projetam das dobras das membranas mitocon- driais. Por fim, a enzima ATP-sintetase usa a energia dos íons hidrogênio para converter ADP em ATP. O ATP recém-formado é transportado para fora da mito- côndria, para todas as partes do citoplasma e do nucleo- plasma da célula, onde sua energia é usada para múltiplas funções celulares. Esse processo geral de formação de ATP é chamado de mecanismo quimiosmótico. Os detalhes químicos e físicos desse mecanismo são apresentados no Capítulo 67, e muitas das funções metabólicas do ATP, no corpo, são apresentadas em detalhes nos Capítulos 67 a 71. Usos do ATP no Funcionamento Celular. A energia do ATP é usada para promover três grandes categorias de funções celulares: (1) transporte de substâncias através das membranas da célula, (2) síntese de componentes químicos pela célula, e (3) função mecânica. Esses usos do ATP são ilustrados pelos exemplos da Figura 2-15: (1) para fornecer energia para o transporte do sódio através da membrana celular, (2) para promover a síntese de proteínas pelos ribossomos, e (3) para suprir a energia necessária para a contração muscular. Além do transporte do sódio pela membrana, a energia do ATP é necessária para o transporte dos íons potássio, íons cálcio, íons magnésio, íons fosfato, íons cloreto, íons urato, íons hidrogênio e de muitos outros íons e de diversas substâncias orgânicas pela membrana. O transporte pela membrana é tão importante para o funcionamento celular que algumas células — as células tubulares Capítulo 2 A Célula e suas Funções renais, por exemplo — usam até 80% do ATP que formam somente para essa finalidade. Além de sintetizar proteínas, as células sintetizam fos- folipídios, colesterol, purinas, pirimidinas e série de outras substâncias. A síntese de quase todos os compostos químicos requer energia. Por exemplo, uma só molécula de proteína pode ser composta por vários milhares de aminoácidos, unidos uns aos outros por ligações peptídicas; a formação de cada uma dessas ligações requer energia derivada do rompimento de quatro ligações de alta energia; assim, diversos milhares de moléculas de ATP têm de liberar energia para cada molécula de proteína formada. De fato, algumas células usam até 75% de todo o ATP que formam simplesmente para sintetizar novos compostos químicos, especialmente moléculas de proteína; isso é especialmente verdadeiro durante a fase de crescimento das células. O último dos principais usos do ATP é o de fornecer energia para células especiais realizarem trabalho mecânico. Veremos, no Capítulo 6, que cada contração da fibra muscular requer gasto de enorme quantidade de energia do ATP. Outras células realizam trabalho mecânico de outras formas, especialmente por movimentos ciliares e ameboides, descritos mais adiante neste capítulo. A fonte de energia para todos esses tipos de trabalhos mecânicos é o ATP. Em suma, o ATP está sempre disponível para liberar rapidamente e quase explosivamente sua energia onde for necessário na célula. Para repor o ATP, usado pela célula, reações químicas muito mais lentas quebram carboidra- tos, gorduras e proteínas e usam a energia derivada para formar novamente ATP. Mais de 95% desse ATP é formado nas mitocôndrias; por isso as mitocôndrias são chamadas de “casas de força” da célula. a > Figura 2-15 Uso de trifosfato de adenosina (ATP) (formado nas mitocôndrias), para fornecer energia para as três principais funções celulares: transporte pela membrana, síntese proteica e contração muscular. ADP, difosfato de adenosina. 23 U N
  • 46. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Locomoção Celular De longe, o tipo mais importante de movimento que ocorre no corpo é o das células musculares nos músculos esquelético, cardíaco e liso que constituem quase 50% de toda a massa corpórea. As funções especializadas dessas células são discutidas nos Capítulos 6 a 9. Dois outros tipos de movimentos — a locomoção ameboide e o movimento ciliar — ocorrem em outras células. Movimento Ameboide O movimento ameboide é o movimento de toda a célula, em relação às suas adjacências, como o movimento dos leucócitos nos tecidos. Ele recebe esse nome pelo fato de as amebas se moverem dessa maneira; as amebas constituíram excelente modelo para o estudo deste fenômeno. Tipicamente, a locomoção ameboide começa com a projeção de um pseudópodo por uma extremidade da célula. O pseudópodo se projeta para fora do corpo celular e se adere ao tecido adjacente. O restante da célula é então puxado na direção ao pseudópodo. A Figura 2-16 demonstra esse processo, mostrando célula alongada em cuja extremidade direita ocorre a projeção de pseudópodo. A membrana dessa extremidade da célula está continuamente se movendo para diante, e a membrana na extremidade esquerda a segue à medida que a célula se move. Mecanismo da Locomoção Ameboide. A Figura 2-16 mostra o princípio geral do movimento ameboide. Basicamente, ele resulta da formação contínua de nova membrana celular na extremidade do pseudópodo e da absorção contínua da membrana nas partes médias e traseiras da célula. Dois outros efeitos também são essenciais para o movimento de avanço da célula. O primeiro efeito é a aderência do pseudópodo aos tecidos circundantes, de forma a se fixar, enquanto o restante do corpo celular é puxado para a frente, em direção ao ponto de adesão. Essa aderência é efetuada por receptores protei- cos que revestem o interior das vesículas exocitóticas. Quando as vesículas se tornam parte da membrana do pseudópodo, elas se evertem, expondo seu interior, de Movimento da célula Endocitose Figura 2-16 Movimento ameboide de uma célula. modo que seus receptores proeminam para o exterior e aderem aos ligantes dos tecidos circundantes. Na extremidade oposta da célula, os receptores se soltam de seus ligantes e formam novas vesículas endocitó- ticas. Então, dentro da célula, essas vesículas se movem em direção à extremidade anterior do pseudópodo onde são usadas para formar nova membrana na região. O segundo efeito essencial para a locomoção é o suprimento da energia necessária para puxar o corpo celular, em direção ao pseudópodo. Experiências sugerem o seguinte como explicação: no citoplasma de todas as células encontra-se a quantidade moderada a grande da proteína actina. Muito da actina está na forma de moléculas isoladas que não servem ao movimento; entretanto, elas se polimerizam para formar rede de filamentos, e a malha se contrai quando as actinas interagem com a miosina, proteína que se liga à actina. Todo o processo é energizado pelo composto de alta energia, o ATP. Isso é o que acontece no pseudópodo de célula em movimento, na qual a malha de filamentos de actina se forma de novo no pseudópodo em expansão. Também ocorre contração no ectoplasma do corpo celular, onde a malha preexistente de actina está presente sob a membrana celular. Tipos de Células Que Apresentam Locomoção Ameboide. As células mais comuns, com locomoção ameboide, no corpo humano são os leucócitos, quando se movem do sangue em direção aos tecidos para formar macrófagos teciduais. Outros tipos de células também podem se mover por locomoção ameboide, sob certas circunstâncias. Por exemplo, os fibroblastos se movem para área danificada para ajudar a reparar o dano, e mesmo as células germinativas da pele, embora, em geral, sejam completamente sésseis, se movem em direção a uma área cortada para reparar a lesão. Por fim, a locomoção celular é especialmente importante no desenvolvimento do embrião e do feto, após a fertilização do óvulo. Por exemplo, as células embrionárias com frequência migram para longe de seus locais de origem para novas áreas, durante o desenvolvimento de estruturas especiais. Controle da Locomoção Ameboide — Quimiota- xia. O iniciador mais importante da locomoção ameboide é o processo chamado quimiotaxia. Ele resulta do aparecimento de certas substâncias químicas nos tecidos. Qualquer substância química que faz com que a quimiotaxia ocorra é chamada substância quimiotática. A maioria das células com locomoção ameboide se move em direção à fonte da substância quimiotática — isto é, de área com menor concentração em direção à área de maior concentração — o que é chamado de quimiotaxia positiva. Algumas células se distanciam da fonte, o que é chamado quimiotaxia negativa. Mas como a quimiotaxia controla a direção da locomoção ameboide? Embora a resposta não seja completa, sabe-se que o lado da célula mais exposto à substância quimiotática desenvolve alterações na membrana que causam a protrusão pseudopódica. 24
  • 47. Cílios e Movimentos Ciliares O segundo tipo de movimento celular, o movimento ciliar, é movimento similar ao batimento dos cílios, nas superfícies das células. Isso ocorre em apenas dois locais do corpo humano: nas superfícies das vias aéreas do sistema respiratório e na superfície interna das trompas uterinas (trompas de Falópio) do trato reprodutivo. Na cavidade nasal e nas vias aéreas inferiores, o movimento de batimento dos cílios faz com que a camada de muco se mova com velocidade de aproximadamente 1 cm/min em direção à faringe, limpando dessa forma continuamente essas vias do muco e de partículas a ela aderidas. Nas trompas uterinas, os cílios causam o lento movimento de fluido do óstio da trompa uterina para a cavidade uterina; esse movimento de fluido transporta o óvulo do ovário para o útero. Como mostra a Figura 2-17, o cílio tem a aparência de pelo com ponta afilada, reto ou curvo, que se projeta por 2 a 4 micrômetros da superfície da célula. Geralmente muitos cílios se projetam de uma mesma célula — por exemplo, existem até 200 cílios na superfície de cada célula epitelial, nas vias respiratórias. O cílio é recoberto Figura 2-17 Estrutura e função dos cílios. (Modificada de Satir P: Cilia. Sei Am 204:108, 1961. Copyright Donald Garber: Executor do estado de Bunji Tagawa.) Capítulo 2 A Célula e suas Funções por prolongamento da membrana celular e é sustentado por 11 microtúbulos — nove túbulos duplos localizados na periferia do cílio, e dois túbulos simples do centro — como mostrado na seção transversa, na Figura 2-17. Cada cílio cresce de estrutura que se localiza imediatamente abaixo da membrana celular, chamada corpo basal do cílio. O flagelo do esperma é parecido com o cílio; na verdade, ele tem, praticamente, o mesmo tipo de estrutura e o mesmo tipo de mecanismo contrátil. O flagelo, entretanto, é mais longo e se move em ondas quase sinusoi- dais, em vez de em movimentos de batimento. No inserto na Figura 2-17, mostra-se o movimento do cílio. O cílio se move para a frente com batimentos súbitos e rápidos, de 10 a 20 vezes por segundo, encurvando-se acentuadamente no ponto de inserção da superfície celular. Então, ele se move para trás lentamente, para a posição inicial. O movimento rápido de impulso para a frente de batimento empurra o fluido adjacente à célula na direção em que o cílio se move; o movimento lento, de arrasto, para trás, não tem quase qualquer efeito no movimento do fluido. Como consequência, o fluido é continuamente impulsionado na direção do batimento rápido para a frente. Como a maioria das células ciliadas tem grande número de cílios em suas superfícies e como todos os cílios são orientados na mesma direção, este é modo eficaz de mover o fluido de parte da superfície para outra. Mecanismo do Movimento Ciliar. Embora nem todos os aspectos do movimento ciliar estejam esclarecidos, o que sabemos de fato é o seguinte: primeiro, os nove túbulos duplos e os dois túbulos simples estão ligados uns aos outros por complexo de ligamentos cruzados de proteínas; esse complexo de túbulos e ligamentos cruzados é chamado axonema. Segundo, mesmo após a remoção da membrana e da destruição de outros elementos do cílio preservando o axonema, o cílio pode ainda bater sob condições adequadas. Terceiro, há duas condições necessárias para o batimento contínuo do axonema após a remoção de outras estruturas do cílio: (1) a disponibilidade de ATP e (2) condições iônicas apropriadas, especialmente concentrações apropriadas de magnésio e cálcio. Quarto, durante o movimento do cílio para a frente, os túbulos duplos na borda frontal do cílio deslizam para fora, em direção à ponta do cílio, enquanto os da borda posterior permanecem no lugar. Quinto, múltiplos braços da proteína dineína, que tem atividade enzi- mática da ATPase, se projetam de cada túbulo duplo em direção ao túbulo duplo adjacente. Dadas essas informações básicas, determinou-se que a liberação de energia do ATP em contato com os braços de dineína faz com que as cabeças desses braços se “desloquem” rapidamente ao longo da superfície do túbulo duplo adjacente. Se, nos túbulos frontais, o movimento é de extensão enquanto os túbulos posteriores permanecem estacionários, ocorrerá inclinação do cílio. O modo pelo qual a contração dos cílios é controlada não é conhecido. Os cílios de algumas células genetica- 25
  • 48. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral mente anormais não contêm os dois túbulos simples centrais, e esses cílios não batem. Portanto, supõe-se que algum sinal, talvez eletroquímico, seja transmitido ao longo desses dois túbulos centrais para ativar os braços de dineína. Referências Alberts B, Johnson A, Lewis J, et al: Molecular Biology ofthe Cell, 6th ed, New York, 2007, Garland Science. Bonifacino JS, Glick BS: The mechanisms of vesicle budding and fusion, Cell 116:153, 2004. Chacinska A, Koehler CM, Milenkovic D, LithgowT, Pfanner N: Importing mitochondrial proteins: machineries and mechanisms, Cell 138:628, 2009. Cohen AW, Hnasko R, Schubert W, Lisanti MP: Role of caveolae and caveo- lins in health and disease, Physiol Rev 84:1341, 2004. Danial NN, Korsmeyer SJ: Cell death: criticai control points, Cell 116:205, 2004. Droge W: Free radicais in the physiological control of cell function, Physiol Rev 82:47, 2002. Edidin M: Lipids on the frontier: a century of cell-membrane bilayers, Nat Rev Mol Cell Biol 4:414, 2003. Ginger ML, Portman N, McKean PG: Swimming with protists: perception, motility and flagellum assembly, Nat Rev Microbiol 6:838, 2008. Grant BD, Donaldson JG: Pathways and mechanisms of endocytic recy- cling, Nat Rev Mol Cell Biol 10:597, 2009. Güttinger S, Laurell E, Kutay U: Orchestrating nuclear envelope disassem- bly and reassembly during mitosis, Nat Rev Mol Cell Biol 10:178,2009. Hamill OP, Martinac B: Molecular basis of mechanotransduction in living cells, Physiol Rev 81:685, 2001. Hock MB, Kralli A:Transcriptional control of mitochondrial biogenesis and function, Annu Rev Physiol 71:177, 2009. Liesa M, Palacín M, Zorzano A: Mitochondrial dynamics in mammalian health and disease, Physiol Rev 89:799, 2009. Mattaj IW: Sorting out the nuclear envelope from the endoplasmic reticu- lum, Nat Rev Mol Cell Biol 5:65, 2004. Parton RG, Simons K:The multiple faces of caveolae, Nat Rev Mol Cell Biol 8:185, 2007. Raiborg C, Stenmark H: The ESCRT machinery in endosomal sorting of ubiquitylated membrane proteins, Nature 458:445, 2009. RidleyAJ, Schwartz MA, Burridge K, et al: Cell migration: integratingsignals from front to back, Science 302:1704, 2003. Saftig P, Klumperman J: Lysosome biogenesis and lysosomal membrane proteins: trafficking meets function, Nat Rev Mol Cell Biol 10:623, 2009. Scarpulla RüTranscriptional paradigms in mammalian mitochondrial biogenesis and function, Physiol Rev 88:611, 2008. Stenmark H: Rab GTPases as coordinators of vesicle traffic, Nat Rev Mol Cell Biol 10:513, 2009. Traub LM:Tickets to ride: selecting cargo for clathrin-regulated internaliza- tion, Nat Rev Mol Cell Biol 10:583, 2009. Vereb G, Szollosi J, Matko J, et al: Dynamic, yet structured: the cell membrane three decades after the Singer-Nicolson model, Proc Natl Acad Sei USA 100:8053,2003. 26
  • 49. CAPÍTULO 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular Q uase todos sabem que os genes, localizados nos núcleos de todas as célu- las do corpo, controlam a hereditariedade dos pais para os filhos, mas a maio- ria das pessoas não percebe que estes mesmos genes também controlam o funciona- mento de todas as células do corpo. Os genes controlam a função celular, determinando quais substâncias são sin- tetizadas pela célula — quais estruturas, quais enzimas, quais substâncias químicas. A Figura 3-1 mostra o esquema geral do controle genético. Cada gene, que é o ácido nucleico chamado ácido desoxirribonucleico (DNA), controla automaticamente a formação de outro ácido nucleico, o ácido ribonucleico (RNA); esse RNA, disseminado na célula, controla a formação de proteína específica. Todo o processo, da transcrição do código genético, no núcleo, até a tradução do código do RNA e a formação de proteínas nas células citoplasmáticas é muitas vezes referido como a expressão do gene. Como existem cerca de 30.000 genes diferentes em cada célula, é teoricamente possível formar número muito grande de proteínas celulares diferentes. Algumas das proteínas celulares são proteínas estruturais que, em associação com vários lipídios e carboidratos, formam as estruturas das diversas organelas intracelulares discutidas no Capítulo 2. Entretanto, a maioria das proteínas é de enzimas que catalisam as diferentes reações químicas nas células. Por exemplo, as enzimas promovem todas as reações oxidativas que fornecem energia para a célula e a síntese de todas as substâncias químicas da célula, tais como lipídios, glicogênio e trifosfato de adenosina (ATP). Genes no Núcleo Celular No núcleo celular, grande número de genes está ligado, extremidade com extremidade, nas moléculas extremamente longas do DNA, com estrutura de dupla hélice e com pesos moleculares medidos em bilhões. Segmento muito curto de tal molécula é mostrado na Figura 3-2. Essa molécula é constituída por vários compostos químicos, ligados em padrão regular; detalhes serão explicados nos próximos parágrafos. Blocos Básicos de Construção do DNA. A Figura 3-3 mostra os componentes químicos básicos envolvidos na formação do DNA. Incluem: (1) ácido fosfórico, (2) o açúcar chamado desoxirribose e (3) quatro bases nitro- genadas (duas purinas, a adenina e a guanina, e duas pirimidinas, a timina e a citosina). O ácido fosfórico e a desoxirribose formam as duas fitas helicoidais que são o esqueleto da molécula de DNA, e as bases nitrogenadas ficam entre as duas fitas, conectando-as, como ilustrado na Figura 3-6. Nucleotídeos. O primeiro estágio na formação do DNA é a combinação de molécula de ácido fosfórico, molécula de desoxirribose e uma das quatro bases para formar o nucleotídeo acídico. Quatro nucleotídeos distintos são, r Membrana Envelope plasmática nuclear ^ / Núcleo = DNA IT ranscrição do DNA --------RNA X Ligação de RNA V Ribossomos T ransporte de RNA Tradução do RNA mensageiro Proteína Citosol Gene (DNA) T ranscrição Formação de RNA T radução Formação de proteína Estrutura celular Enzimas celulares Função celular Figura 3-1 Esquema geral para o controle da função celular pelos genes. 27 U N I D A
  • 50. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Figura 3-2 A estrutura em hélice de dupla fita do gene. As fitas externas são compostas de ácido fosfórico e do açúcar desoxir- ribose. As moléculas internas que conectam os dois filamentos da hélice são as bases purina e pirimidina; elas determinam o "código” do gene. portanto, formados, um para cada uma das quatro bases: os ácidos desoxiadenílico, desoxitimidílico, desoxiguanílico e desoxicitidílico. A Figura 3-4 mostra a estrutura química do ácido desoxiadenílico, e a Figura 3-5 mostra os símbolos para os quatro nucleotídeos que formam o DNA. Organização dos Nucleotídeos para Formar Duas Fitas de DNA Frouxamente Interligadas Entre Si. A Figura 3-6 mostra o modo como os múltiplos nucleotí deos se ligam para formar as duas fitas de DNA. As duas fitas são, por sua vez, frouxamente ligadas entre si por ligações cruzadas fracas, ilustradas na Figura 3-6 pelas linhas tracejadas centrais. Observe que o esqueleto de cada filamento de DNA é composto por alternação de moléculas de ácido fosfórico e de desoxirribose. As bases purínicas e pirimidínicas estão fixadas às laterais das moléculas de desoxirribose. As duas fitas de DNA são mantidas unidas por meio de pontes de hidrogênio (linhas tracejadas) entre as bases. Mas, observe o seguinte: 1. Cada base purínica adenina do filamento sempre se une à base pirimidínica timina do outro filamento, e 2. Cada base purínica guanina sempre se une à base pirimidínica citosina. Dessa forma, na Figura 3-6, a sequência de pares complementares de bases é CG, CG, GC, TA, CG, TA, GC, AT e AT. Como as pontes de hidrogênio são ligações relativamente fracas, as duas fitas podem se separar facilmente, e o fazem muitas vezes no curso de suas funções na célula. Para se obter a estrutura tridimensional do DNA da Figura 3-6, deve-se tomar as duas extremidades das cadeias e torcê-las em hélice. Dez pares de nucleotídeos compõem cada volta completa da hélice na molécula de DNA, como mostra a Figura 3-2. Figura 3-3 Os blocos básicos de construção do DNA. 28
  • 51. Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular Código Genético A importância do DNA reside em sua capacidade de controlar a formação de proteínas pela célula. Ele o faz por meio do chamado código genético. Quando as duas fitas de moléculas de DNA são separadas, as bases de purina e pirimidina se projetam de cada lado da fita de DNA, como mostrado no alto da Figura 3-7. São essas bases que formam o código genético. O código genético consiste em sucessivos “tripletos” de bases — isto é, cada três bases sucessivas é uma palavra do código. Os tripletos sucessivos controlam a sequência de aminoácidos na molécula de proteína que é sintetizada pela célula. Observe, na Figura 3-6, a fita superior de DNA: lendo-se da esquerda para a direita, tem-se o código genético GGC, AGA, CTT, os tripletos são separados pelas setas. Seguindo-se esse código genético, nas Figuras 3-7 e 3-8, vê-se que esses três tripletos são, respectivamente, responsáveis pela inserção sucessiva dos três aminoácidos — prolina, serina e ácido glutâmico — na molécula de proteína em formação. O Código do DNA no Núcleo Celular É Transferido para o Código de RNA, no Citoplasma Celular — O Processo de Transcrição Fosfato O N Adenina N / N H—C ,^C. C — H H H o- 1 H-O-P—O—C—C / C—H Desoxirribose O H H V^c—H 4 H I H Pelo fato de o DNA estar localizado no núcleo da célula, enquanto a maioria das funções da célula é realizada no citoplasma, deve haver algum modo pelo qual os genes do núcleo controlem as reações químicas do citoplasma. Isso envolve a intermediação de outro tipo de ácido nucleico, o RNA, cuja formação é controlada pelo DNA do núcleo. Como mostra a Figura 3-7, o código é transferido para o RNA; esse processo é chamado transcrição. O RNA, por sua vez, se difunde do núcleo através dos poros nucleares para o compartimento citoplasmático, onde controla a síntese de proteínas. Figura 3-4 Ácido desoxiadenílico, um dos nucleotídeos que formam o DNA. A I P—D- Ácido desoxiadenílico T P—D- Ácido desoxitimidílico — P-D— — P—D— Ácido desoxiguanílico Ácido desoxicitidílico Figura 3-5 Símbolos dos quatro nucleotídeos que se combinam para formar o DNA. Cada nucleotídeo contém ácido fosfórico (P), desoxirribose (D) e uma das quatro bases de nucleotídeos: A, adenina; T, timina; G, guanina; ou C, citosina. Síntese de RNA Durante a síntese do RNA, as duas fitas da molécula de DNA se separam temporariamente; uma das fitas é usada como molde para a síntese da molécula de RNA. Os tripletos de código no DNA são transcritos para tripletos do código complementar (chamados códons) no RNA; esses códons por sua vez controlarão a sequência de aminoácidos na proteína a ser sintetizada no citoplasma celular. Blocos Básicos de Construção de RNA. Os blocos básicos de construção do RNA são praticamente os mesmos dos de DNA, exceto por duas diferenças. A primeira é que o açúcar desoxirribose não é usado na formação do RNA. Em seu lugar está outro açúcar, de composição ligeiramente diferente, a ribose, que contém íon hidroxila extra ligado à estrutura do anel de ribose. A segunda é que a timina é substituída por outra pirimidina, a uracila. Formação dos Nucleotídeos de RNA. Os blocos básicos da construção de RNA formam nucleotídeos de -d—a—d-a—d-a 0 0 0 I I I I I I I I I C C G I P—D—P—D—P—D d—a—d—a—d—a I I I V O V I I I I I I I I I T C T P-D—P-D—P—D d—a—d—a—d—a—d I 0 11 I I I I I I I I I G A A I I I P—D—P—D—P—D- Figura 3-6 Organização dos nucleotídeos desoxirribose na dupla fita de DNA. 29 U N I D A D E
  • 52. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Figura 3-7 Combinação de nucleotídeos da ribose com fita de DNA para formar molécula de RNA que carrega o código genético do gene para o citoplasma. A enzima RNA polimerase se move ao longo da fita de DNA e forma a molécula de RNA. Fita de DNA I -O I 0 . I -Q I Q _ I -Q I C L -O i C L -Q I 0 . I -o I C L I -Cl I d—a—d—a—d— i i I I I I I I I — 0 9 0 V 0 V 0 I i í I I I I -o -o -o -c -o -c -o- R—P—R—P—R— P—R—P—R—P—R—P—R Molécula de RNA J / Trifosfato RNA-po imerase Figura 3-8 Parte de uma molécula de RNA mostrando três "códons” de RNA — CCG, UCU e GAA — que controlam a inserção dos aminoácidos prolina, serina e ácido glutâmico, respectivamente, à cadeia de RNA em formação. CCG I I P—R—P—R—P—R UCU I I I P—R—P—R—P—R GAA I I P-R—P—R—P-R- Prolina Serina 11 Ácido glutâmico RNA, exatamente como descrito antes para o DNA. Aí novamente quatro nucleotídeos distintos são usados na formação do RNA. Esses nucleotídeos contêm as bases adenina, guanina, citosina e uracila. Observe que são as mesmas bases do DNA, exceto pela uracila no RNA e a timina no DNA. “Ativação” dos Nucleotídeos de RNA. O próximo passo na síntese do RNA é a “ativação” dos nucleotídeos de RNA por uma enzima, a RNA-polimerase. Isso ocorre pela adição a cada nucleotídeo de dois radicais de fosfato extra, para formar trifosfatos (mostrados na Figura 3-7 pelos dois nucleotídeos de RNA na extremidade direita, durante a formação da cadeia de RNA). Estes últimos dois fosfatos combinam-se com o nucleotídeo por ligações fosfato de alta energia, derivadas do ATP da célula. O resultado desse processo de ativação é que grandes quantidades de energia do ATP estão disponíveis em cada nucleotídeo, e essa energia é usada para promover as reações químicas que adicionam cada novo nucleotídeo ao final da cadeia de RNA. Montagem da Cadeia de RNA com os Nucleotídeos Ativados Usando a Fita de DNA como Molde — O Processo de "Transcrição" A montagem da molécula de RNA se dá do modo mostrado na Figura 3-7, sob a influência da enzima, a RNA- polimerase. Ela é proteína grande que tem muitas das propriedades funcionais necessárias para a formação da molécula de RNA. São elas: 1. Na fita de DNA, no início de cada gene, existe sequência de nucleotídeos chamada promotor. A RNA-polimerase tem estrutura complementar apropriada, que reconhece esse promotor e se liga a ele. Esse é o passo essencial para se iniciar a formação da molécula de RNA. 2. Após se ligar ao promotor, a RNA-polimerase causa o desenrolamento de cerca de duas voltas da hélice de DNA e a separação, na região desenrolada, das duas fitas. 3. Então, a polimerase se move ao longo da fita de DNA, desenrolando temporariamente e separando as duas fitas de DNA a cada etapa de seu movimento. Conforme cada estágio do movimento, a polimerase adiciona novo nucleotídeo ativado ao final da cadeia de RNA em formação, segundo os seguintes passos: a. Primeiro, ela forma a ponte de hidrogênio entre a base seguinte no filamento de DNA e a base do nucleotídeo de RNA. b. Então, um por vez, a polimerase cliva dois dos três fosfatos de cada um dos nucleotídeos de RNA, liberando grande quantidade de energia das ligações de fosfato; essa energia é usada para formar a ligação covalente entre o fosfato restante, no nucleotídeo, e a ribose no final da cadeia de RNA em formação. c. Quando a RNA-polimerase atinge o fim do gene de DNA, ela encontra nova sequência de nucleotídeos de DNA chamada sequência de terminação de cadeia-, esta faz com que a polimerase e a recém- formada cadeia de RNA se separem da fita de DNA. A polimerase, então, pode ser reutilizada sucessivamente para formar outras cadeias de RNA. d. Conforme o novo filamento de RNA é formado, as fracas pontes de hidrogênio com a fita de DNA se rompem, pois o DNA tem grande afinidade para se religar à fita complementar de DNA. Assim, a cadeia de RNA se solta do DNA e é liberada no nucleoplasma. Dessa forma, o código presente no filamento de DNA é transmitido de forma complementar para a cadeia de RNA. As bases de nucleotídeos de ribose sempre se combinam com as bases de desoxirribose como se segue: 30
  • 53. Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular Base no DNA Base no RNA guanina ............................................................................... citosina citosina................................................................................. guanina adenina................................................................................ uracila timina ................................................................................... adenina Quatro Tipos Diferentes de RNA. Cada tipo de RNA desempenha papel independente e inteiramente diferente na formação de proteínas: 1. RNA mensageiro (mRNA) que leva o código genético para o citoplasma para controlar o tipo de proteína formada. 2. RNA de transferência (tRNA) que transporta os ami- noácidos ativados para os ribossomos; os aminoá- cidos serão utilizados na montagem da molécula de 4. MicroRNA (miRNA) que são moléculas de fita única de RNA de 21 a 23 nucleotídeos que regulam a transcrição gênica e a tradução. RNA Mensageiro — Os Códons As moléculas de mRNA são longas fitas únicas de RNA, localizadas no citoplasma. Essas moléculas são compostas por várias centenas a vários milhares de nucleotídeos de RNA em fitas não pareadas, e contêm códons que são exatamente complementares aos tripletos de código dos genes de DNA. A Figura 3-8 mostra pequeno segmento de molécula de RNA mensageiro. Seus códons são CCG, UCU e GAA. Esses são os códons para os aminoácidos prolina, serina e ácido glutâmico. A transcrição desses códons da molécula de DNA para a molécula de RNA é demonstrada na Figura 3-7. proteína. Códons de RNA para os Diferentes Aminoácidos. 3. RNA ribossômico que, com cerca de 75 proteínas dife- A Tabela 3-1 lista os códons de RNA para os 22 aminoá- rentes, forma os ribossomos, as estruturas físicas e quí- cidos que formam as moléculas de proteína. Observe que micas nas quais as moléculas de proteína são formadas. a maioria dos aminoácidos é representada por mais de Tabela 3-1 Códons de RNA para Aminoácidos e para Iniciar e Parar Aminoácido Ácido aspártico GAU Códons de RNA GAC Ácido glutâmico GAA GAG Alanina GCU GCC GCA GCG Arginina CGU CGC CGA CGG AGA AGG Asparagina AAU AAC Cisteína UGU UGC Fenilalanina UUU UUC Glutamina CAA CAG Glicina GGU GGC GGA GGG Histidina CAU CAC Iniciar (IC) AUG Isoleucina AUU AUC AUA Leucina CUU CUC CUA CUG UUA UUG Lisina AAA AAG Metionina AUG Parar (TC) UAA UAG UGA Prolina CCU CCC CCA CCG Serina UCU UCC UCA UCG AGC AGU Tirosina UAU UAC Treonina ACU ACC ACA ACG Triptofano UGG Valina GUU GUC GUA GUG 31 U N I D A
  • 54. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral um códon; um dos códons corresponde ao sinal “comece a fabricar a molécula de proteína”, e três códons representam a mensagem “pare de produzir a molécula de proteína”. Na Tabela 3-1, estes dois tipos de códons são chamados IC, que significa “códon de iniciação de cadeia”, e TC, que significa “códons de término da cadeia”. RNA de Transferência — Os Anticódons Outro tipo de RNA com papel essencial na síntese de proteínas é o tRNA, pois ele transfere as moléculas de ami- noácidos para as moléculas de proteínas que estão em processo de síntese. Cada tipo de tRNA se liga especificamente com um dos 20 aminoácidos que serão incorporados às proteínas. O tRNA, portanto, age como um carreador para transportar tipo específico de aminoá- cido para os ribossomos, onde as moléculas de proteína estão se formando. Nos ribossomos, cada tipo específico reconhece códon determinado no mRNA (descrito adiante) e entrega o aminoácido no local adequado da cadeia da molécula de proteína em formação. O RNA de transferência, com apenas cerca de 80 nucleotídeos, é molécula relativamente pequena em comparação com o mRNA. Ele é cadeia de nucleotídeos com dobras que lhe dão a aparência de folha de trevo, parecida com o mostrado na Figura 3-9. Em uma extremidade da molécula existe sempre o ácido adenílico; o aminoácido transportado se liga a grupo hidroxila da ribose do ácido adenílico. Como a função do tRNA é levar o aminoácido específico à cadeia de proteína em formação, é essencial que cada tipo de tRNA tenha especificidade para determinado códon no mRNA. O código específico no tRNA que permite que ele reconheça um códon específico é novamente um tripleto de bases de nucleotídeos chamado de anticódon. Ele se localiza aproximadamente no meio da molécula de tRNA (mostrado na parte inferior da con- Mensageiro Ribossomo a Ribossomo Movimento do RNA Figura 3-9 Fita de RNA mensageiro se move por dois ribossomos. Para cada "códon" que passa, um aminoácido é adicionado à crescente cadeia de proteína, que é mostrada no ribossomo à direita. A molécula de RNA de transferência transporta aminoácido específico à proteína em formação. figuração em forma de trevo na Figura 3-9). Durante a formação da molécula de proteína, as bases do anticódon se ligam frouxamente por pontes de hidrogênio com as bases do códon do mRNA. Dessa forma, os respectivos aminoácidos são alinhados uns após os outros ao longo da cadeia de mRNA, estabelecendo-se, assim, a sequência adequada de aminoácidos na molécula de proteína em formação. RNA Ribossômico O terceiro tipo de RNA na célula é o RNA ribossômico; ele representa cerca de 60% do ribossomo. O restante do ribossomo é formado por proteína; existem cerca de 75 tipos de proteínas que são tanto proteínas estruturais quanto enzimas, necessárias para a síntese das moléculas de proteína. O ribossomo é a estrutura física no citoplasma na qual as moléculas de proteína são realmente sintetizadas. Porém, ele sempre funciona em associação com outros dois tipos de RNA: o tRNA, que transporta aminoácidos para o ribossomo, para serem incorporados na molécula de proteína em formação, e o mRNA, que fornece a informação necessária para o sequenciamento dos aminoácidos, na ordem correta, para cada tipo específico de proteína. Assim, o ribossomo age como uma fábrica, na qual as moléculas de proteína são formadas. Formação dos Ribossomos no Nucléolo. Os genes para a formação de RNA ribossômico estão localizados em cinco pares de cromossomos no núcleo, e cada um destes cromossomos contém muitas duplicações desses genes, pois grandes quantidades de RNA ribossômico são necessárias para a função celular. À medida que o RNA ribossômico se forma, ele é acumulado no nucléolo, estrutura especializada adjacente aos cromossomos. Quando grande quantidade de RNA ribossômico é sintetizada, como ocorre em células que produzem grande quantidade de proteína, o nucléolo é estrutura grande, enquanto nas células que sintetizam poucas proteínas o nucléolo eventualmente nem é visto. O RNA ribossômico é especialmente processado no nucléolo, onde se liga às “proteínas ribossômicas” para formar produtos de condensação granular que são subu- nidades primordiais dos ribossomos. Essas subunidades são então liberadas do nucléolo e transportadas através dos grandes poros do envelope nuclear para quase todas as partes do citoplasma. No citoplasma, as subunidades são montadas para formar ribossomos maduros e funcionais. Portanto, as proteínas são formadas no citoplasma da célula, e não no núcleo celular, pois o núcleo não contém ribossomos maduros. MicroRNA Um quarto tipo de RNA na célula é o miRNA. São fragmentos curtos de fita única de RNA (21 a 23 nucleotídeos), que regulam a expressão gênica (Fig. 3-10). Os miRNAs são decodificados do DNA transcrito de genes, mas não 32
  • 55. Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular são traduzidos em proteínas e, assim, são comumente denominados RNA não codificado. Os miRNAs são transformados pela célula em moléculas que são complementares ao mRNA e agem para diminuir a expressão gênica. A formação de miRNAs envolve processamento especial de precursor primário mais longo dos RNAs, denominado pri-miRNAs, que são os primeiros transcritos do gene. Os pri-miRNAs são transformados, no núcleo da célula pelo complexo microprocessador em pré-miRNAs, que consiste em uma estrutura haste-alça com 70 nucle- otídeos. Esses pri-miRNAs são, então, posteriormente transformados no citoplasma por uma enzima cortadora específica, que ajuda a montar um complexo silenciador induzido por RNA (RISC) e gera miRNAs. Figura 3-10 Regulação da expressão gênica por microRNA (miRNA). O miRNA primário (pri-miRNA), o primeiro a ser transcrito no gene processado no núcleo celular, pelo complexo microprocessador, em pré-miRNA. Esses pré-miRNAs são então transformados no citoplasma, pela cortadora, enzima que ajuda a montar o complexo silenciador induzido por RNA (RISC) e gera miRNAs. Os miRNAs regulam a expressão gênica se ligando a região complementar do RNA e reprimindo tradução ou promovendo a degradação do mRNA, antes que este possa ser traduzido pelo ribossomo. Os miRNAs regulam a expressão gênica por se ligar à região complementar do RNA e promovem repressão da tradução, ou degradação do mRNA, antes que este possa ser traduzido pelo ribossomo. Acredita-se que os miRNAs têm papel importante na regulação normal da função celular, e alterações das funções do miRNA foram associadas com doenças como câncer e doenças cardíacas. Outro tipo de microRNA é o de baixa interferência (siRNA), também chamado RNA silenciador ou RNA de pouca interferência. Os siRNAs são moléculas curtas, de dupla fita de RNA, com 20 a 25 nucleotídeos de comprimento, que interfere na expressão de genes específicos. Geralmente, os siRNAs se referem a miRNAs sintéticos e podem ser administrados para silenciar a expressão de genes específicos. Eles são projetados para evitar a transformação nuclear pelo complexo microprocessador e, após o siRNA entrar no citoplasma, ele ativa os complexos silenciadores RISC, impedindo a tradução do mRNA. Os siRNAs podem ser adaptados a qualquer sequência específica do gene. Por conta disso, eles podem ser usados para impedir a tradução de qualquer mRNA e, por consequência, a expressão por qualquer gene pelo qual a sequência de nucleotídeo é conhecida. Alguns pesquisadores propuseram que os siRNAs podem se tornar úteis como ferramenta terapêutica para silenciar genes que contribuem na patofisiologia de doenças. a > Formação de Proteínas nos Ribossomos — O Processo de ‘‘Tradução” Quando a molécula de RNA mensageiro entra em contato com um ribossomo, a fita de RNA passa através do ribossomo, começando por uma extremidade predeterminada, especificada por uma sequência de bases, chamada códon de “iniciação de cadeia”. Então, como mostra a Figura 3-9, enquanto o RNA mensageiro atravessa o ribossomo, a molécula de proteína é formada — o processo chamado tradução. Assim, o ribossomo lê os códons do RNA mensageiro, semelhante à leitura de fita por meio da cabeça de reprodução de gravador. Então, quando o códon de “parada” (ou de “terminação de cadeia”) passa pelo ribossomo, o fim da molécula de proteína é sinalizado e a molécula é liberada no citoplasma. Polirribossomos. Uma só molécula de RNA mensageiro pode formar moléculas de proteína em vários ribossomos ao mesmo tempo, pois a extremidade inicial do filamento de RNA pode passar para ribossomos sucessivos, depois de deixar o primeiro, como mostrado na parte inferior esquerda da Figura 3-9 e na Figura 3-11. As moléculas de proteína estão em diferentes estágios de desenvolvimento, em cada ribossomo. Consequentemente, agrupamentos de ribossomos ocorrem com frequência, com três a 10 ribossomos simultaneamente ligados a uma só molécula de RNA mensageiro. Esses agrupamentos são chamados de polirribossomos. É especialmente importante observar que o RNA mensageiro pode originar molécula de proteína em qualquer ribossomo; isto é, não há especificidade dos 33 U N
  • 56. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Figura 3-11 Estrutura física dos ri- bossomos e sua relação funcional com o RNA mensageiro, RNA de transferência e retículo endoplas- mático, durante a formação de moléculas de proteína. (Cortesia do Dr. Don W. Fawcett, Montana.) grande RNA de transferência RNA mensageiro Subunidade pequena- Ribossomo / dT yJ Subunidade Aminoacido £ Ret(cu|0 «e Cade£de í, endoplasmático polipeptídios ribossomos para determinados tipos de proteína. O ribossomo é simplesmente o local físico no qual as reações químicas ocorrem. Muitos Ribossomos Aderem ao Retículo Endoplasmático. No Capítulo 2, foi observado que muitos ribossomos aderem ao retículo endoplasmático. Isso ocorre porque as extremidades iniciais de muitas moléculas de proteína em formação têm sequências de ami- noácidos que se ligam imediatamente a locais receptores específicos no retículo endoplasmático; isso faz com que essas moléculas atravessem a parede e entrem na matriz do retículo endoplasmático, o que dá aparência granular a essas partes do retículo onde as proteínas estão sendo formadas e introduzidas na matriz do retículo. A Figura 3-11 mostra a relação funcional do RNA mensageiro com os ribossomos e o modo pelo qual os ribossomos se ancoram à membrana do retículo endoplasmático. Observe o processo de tradução do mesmo filamento de RNA ocorrendo em vários ribossomos ao mesmo tempo. Observe também as cadeias recém-for- madas de polipeptídios (proteína) atravessando a membrana do retículo endoplasmático e entrando na matriz endoplasmática. Deve-se ainda observar que, exceto nas células glandulares, onde são formadas grandes quantidades de vesículas secretórias contendo proteínas, a maioria das proteínas sintetizadas pelos ribossomos é liberada diretamente no citosol em vez de no retículo endoplasmático. Essas proteínas são enzimas e proteínas estruturais internas da célula. Passos Químicos na Síntese de Proteínas. Alguns dos eventos químicos que ocorrem na síntese da molécula de proteína são mostrados na Figura 3-12. Essa figura mostra reações representativas para três aminoá- cidos distintos, AAX, AA2 e AA2Ü. Os estágios das reações são os seguintes: (1) Cada aminoácido é ativado por processo químico, no qual o ATP se combina com o aminoácido para formar o complexo monofosfato de adenosina com o aminoácido, cedendo duas ligações de fosfato de alta energia no processo. (2) O aminoácido ativado, com excesso de energia, combina-se com o RNA de transferência específico para formar o complexo aminoácido-tRNA e ao mesmo tempo libera o monofosfato de adenosina. (3) O RNA de transferência, que carrega o complexo- aminoácido, então, faz contato com a molécula de RNA mensageiro no ribossomo, onde o anticódon do RNA de Figura 3-12 Eventos químicos na formação de uma molécula de proteína. Aminoácido Aminoácido ativado Complexo RNA-aminoacil RNA mensageiro AA1 AA2 > > ■o O + + + ATP ATP ATP ♦ AMP —AA., AMP-AA2 AMP-AA20 + + + tRNA1 + tRNAp C tRNA20 T tRNA1 — AA., tRNA2 —AA2 tRNA20 — AA20 + GCC UGU AAU CAU CGU AUG GUU GCC UGU AAU CAU CGU AUG GUU Complexo entre tRNA, I r+ 1 r+ 1 i—f- l 1 r—f- RNA mensageiro 33 Z 33 Z 33 Z 3 z 3 z 33 Z 33 Z e aminoácido > > OI 1 > 03 1 > CD 1 > IV) 1 _> CO 1 & o | t i cn i CO 1 i to s to Cadeia de proteína |GTP|GTP| GTP |GTP|GTP|GTP|GTP AA.,—AA5—AA3 — AAg—AA2—AA13 AA20 34
  • 57. Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular transferência se une temporariamente ao códon específico do RNA mensageiro, assim alinhando o aminoácido na sequência apropriada para formar a molécula de proteína. Então, sob a influência da enzima peptidiltrans- ferase (uma das proteínas no ribossomo), são formadas ligações peptídicas entre os sucessivos aminoácidos, com crescimento progressivo da cadeia de proteína. Esses eventos químicos requerem energia de duas ligações adicionais de fosfato de alta energia, totalizando quatro ligações de alta energia para cada aminoácido adicionado à cadeia de proteínas. Assim, a síntese de proteínas é um dos processos que mais consomem energia na célula. Ligação Peptídica. Os sucessivos aminoácidos na cadeia de proteínas combinam-se entre si segundo a reação típica: NH2 O H R I II II R - C - C - O H + H - N - C - COOH ------------ ► NH2 O H R I II I I R - C - C - N - C - COOH + HzO Nessa reação química, um radical hidroxila (OH-) é removido do radical COOH do primeiro aminoácido, e um hidrogênio (H+) é removido do grupo NH2 do outro aminoácido. Esses se combinam para formar água, e os dois locais reativos restantes, nos dois aminoácidos sucessivos, se ligam um ao outro, resultando em molécula única. Esse processo é chamado de ligação peptídica. Para cada aminoácido acrescentado, uma nova ligação peptídica é formada. Síntese de Outras Substâncias na Célula Milhares de enzimas proteicas, formadas do modo descrito antes, controlam essencialmente todas as outras reações químicas que ocorrem nas células. Essas enzimas promovem a síntese de lipídios, glicogênio, purinas, piri- midinas, e de centenas de outras substâncias. Discutiremos muitos desses processos de síntese, relacionados ao metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas, nos Capítulos 67 a 69. É por meio de todas essas substâncias que as diversas funções das células são realizadas. Controle da Função do Gene e da Atividade Bioquímica nas Células Da nossa discussão até aqui, fica claro que os genes controlam tanto as funções físicas quanto químicas das células. Entretanto, o grau de ativação dos respectivos genes deve ser também controlado; caso contrário, algumas partes da célula poderiam crescer demasiadamente ou algumas reações químicas exageradas poderiam até matar a célula. Cada célula tem mecanismos potentes de feedback interno para o controle que mantém as diversas operações funcionais da célula coordenadas. Para cada gene (aproximadamente 30.000 genes no total), existe pelo menos um desses mecanismos de feedback. Existem basicamente dois métodos pelos quais as atividades bioquímicas na célula são controladas: (1) regulação genética, na qual o grau de ativação dos genes e a formação de produtos genéticos são controlados, e (2) regulação enzimática, na qual os níveis de atividade das enzimas já formadas na célula são controlados. Regulação Gênica A regulação gênica, ou regulação da expressão gênica cobre o processo inteiro da transcrição do código genético, no núcleo, à formação de proteínas no citoplasma. A regulação da expressão gênica fornece a todos os organismos vivos a capacidade de responder a mudanças ambientais. Nos animais que apresentam diversos tipos celulares, teciduais e órgãos, a regulação diferenciada da expressão gênica também permite aos vários distintos tipos celulares no corpo realizar suas funções especializadas. Apesar de o miócito cardíaco conter o mesmo código genético de célula do epitélio tubular renal, muitos genes são expressados nas células cardíacas que não o são nas células renais. A medida mais válida da “expressão” gênica é se (e quanto) de produtos do gene (proteínas) são produzidos, pois as proteínas executam funções celulares especificadas pelos seus genes. A regulação da expressão gênica pode ocorrer em qualquer etapa das vias de transcrição, fabricação de RNA e tradução. O Controle da Expressão Gênica pelos Promotores. A síntese das proteínas celulares é processo complexo que se inicia com a transcrição do DNA em RNA. A transcrição do DNA é controlada por elementos regu- latórios encontrados no promotor do gene (Fig. 3-13). Nos eucariotas, que inclui todos os mamíferos, o promotor basal consiste em sequência de 7 bases (TATAAAA), Gromatina condensada * ■’ Jusante Fatores de transcrição Inibidores da transcrição RNA-polimerase 2 Elementos promotores Promotor basal proximais Figura 3-13 Gene transcricionalem células eucarióticas. Disposição complexa de módulos de múltiplos potenciadores emaranhados, intercalados, com elementos isoladores que podem estar localizados tanto acima quanto abaixo do promotor basal contendo a caixa TATA (TATA), elementos promotores proximais (elementos responsivos, RE) e sequências iniciadoras (INR). 35
  • 58. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral denominada caixa TATA, o sítio de ligação para a proteína de ligação TA TA (TBP) e para série de outros fatores de transcrição, coletivamente denominados complexo IID de fatores de transcrição. Somando-se ao complexo IID dos fatores de transcrição, essa região é onde o fator de transcrição IIB se liga a polimerase 2 dos DNA e RNA, para facilitar a transcrição de DNA em RNA. Esse promotor basal é encontrado em todos os genes codificadores de proteínas e a polimerase deve se ligar com o promotor basal antes que inicie seu deslocamento ao longo da fita de DNA e sintetize RNA. O promotor a jusante está localizado acima e mais afastado do sítio do início da transcrição e contém vários sítios de ligação para fatores de transcrição positivos e negativos que podem afetar a transcrição por interações com as proteínas ligadas ao promotor basal. A estrutura e o sítio de ligação do fator de transcrição no promotor a jusante variam de gene para gene, para dar origem a diferentes padrões de expressão de genes, em diferentes tecidos. A transcrição de genes em eucariotas é também influenciada por potenciadores, que são regiões do DNA que podem se ligar a fatores de transcrição. Os potenciadores podem estar localizados a grandes distâncias do gene onde atuam ou até em cromossomo diferente. Eles podem estar localizados antes ou depois do gene que regulam. Apesar de os potenciadores poderem estar localizados a grandes distâncias do seu gene-alvo, eles podem estar relativamente próximos, quando o DNA é enrolado no núcleo. Estima-se que existem 110.000 potenciadores de sequências de genes no genoma humano. Na organização do cromossomo, é importante separar genes ativos que estão sendo transcritos dos genes que são reprimidos. Isso pode ser desafiador, pois múltiplos genes podem estar localizados bem próximos no cromossomo. Isso é realizado pelos cromossomos isola- dores. Esses isoladores são sequências de genes que formam barreira, para que um gene específico seja isolado de influências transcricionais dos genes adjacentes. Os isoladores podem variar muito na sua sequência de DNA e nas proteínas que a eles se ligam. O modo pelo qual a atividade do isolador pode ser modulada é pela metilação do DNA. Esse é o caso do gene do fator de crescimento semelhante à insulina de mamífero II (IGF-2). O alelo da mãe contém isolador entre o potenciador e o promotor do gene que permite a ligação do repressor transcricional. Entretanto, a sequência paterna do DNA é metilada de tal forma que impeça o repressor transcricional de se ligar ao potenciador e o gene do IGF-2 é expresso da cópia paterna do gene. Outros Mecanismos de Controle da Transcrição pelo Promotor. Variações no mecanismo básico de controle do promotor foram rapidamente descobertas nas últimas 2 décadas. Sem entrar em detalhes, listamos algumas delas: 1. O promotor frequentemente é controlado por fatores de transcrição localizados em algum lugar do genoma. Isto é, o gene regulador codifica a proteína reguladora que por sua vez age como substância ativadora ou repressora da transcrição. 2. Ocasionalmente, muitos promotores diferentes são controlados, a um só tempo, pela mesma proteína reguladora. Em alguns casos, a mesma proteína reguladora funciona como ativador para um promotor e como repressor para outro. 3. Algumas proteínas são controladas, não no ponto de início da transcrição na fita de DNA, mas, mais adiante, ao longo da fita. Às vezes, o controle não se dá nem mesmo na fita de DNA em si, mas durante o processamento das moléculas de RNA no núcleo, antes de serem liberadas para o citoplasma; raramente, o controle pode ocorrer no processo de formação da proteína no citoplasma, durante a tradução do RNA pelos ribossomos. 4. Em células nucleadas, o DNA nuclear está empaco- tado em unidades estruturais, os cromossomos. Em cada cromossomo, o DNA se enrola ao redor de pequenas proteínas chamadas histonas, que por sua vez são mantidas firmemente unidas, em estado compactado, por outras proteínas diferentes. Enquanto o DNA estiver no estado compactado, ele não forma RNA. Entretanto, diversos mecanismos de controle recentemente descobertos podem fazer com que determinadas áreas dos cromossomos se descompactem, de forma que a transcrição parcial do RNA possa ocorrer. Mesmo assim, fatores de transcrição específicos controlam a efetiva velocidade de transcrição pelo promotor no cromossomo. Assim, hierarquias ainda mais altas de controle são empregadas para estabelecer a devida função celular. Adicionalmente, sinais no exterior da célula, tais como alguns dos hormônios do organismo, podem ativar áreas cromossômicas específicas e fatores específicos de transcrição, controlando dessa forma a maquinaria química do funcionamento da célula. Como existem mais de 30.000 diferentes genes em cada célula humana, não é surpreendente o grande número de formas pelas quais a atividade genética pode ser controlada. Os sistemas de controle de genes são especialmente importantes para o controle de concentrações intracelulares de aminoácidos, de derivados de aminoácidos e de substratos intermediários e produtos do metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas. Controle da Função Intracelular pela Regulação Enzimática Além do controle da função celular pela regulação genética, algumas atividades celulares são controladas por inibidores ou ativadores intracelulares que agem diretamente sobre enzimas intracelulares específicas. Dessa forma, a regulação enzimática representa segunda categoria de mecanismos pelos quais as funções bioquímicas das células podem ser controladas. 36
  • 59. Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular Inibição Enzimática. Algumas substâncias químicas formadas na célula têm efeitos diretos de feedback que inibem os sistemas de enzimas que as sintetizam. Quase sempre o produto sintetizado age na primeira enzima da sequência, em vez de nas enzimas subsequentes; em geral, o produto se liga diretamente à enzima, causando alostericamente alteração conformacional que a inativa. Pode-se com facilidade reconhecer a importância de desativar a primeira enzima: isso evita a formação de produtos intermediários que não seriam usados. A inibição enzimática é outro exemplo de controle por feedback negativo; é responsável pelo controle das concentrações intracelulares de diversos aminoácidos, puri- nas, pirimidinas, vitaminas e outras substâncias. Ativação Enzimática. Enzimas que estão normalmente inativas podem ser ativadas quando necessárias. Exemplo disso ocorre quando da depleção dos estoques celulares de ATP. Nesse caso, quantidade considerável de monofosfato de adenosina cíclico (AMPc) começa a ser formada como produto da quebra do ATP; a presença deste AMPc, por sua vez, de imediato ativa a enzima fosforilase que cliva a glicogênio fosforilase, liberando moléculas de glicose que são rapidamente metaboliza- das, fornecendo energia para repor os estoques de ATP. Assim, o AMPc age como um ativador para a enzima fosforilase e dessa forma participa do controle da concentração intracelular de ATP. Outro exemplo interessante de inibição e ativação enzimáticas ocorre na formação de purinas e pirimidinas. Compostos desses grupos são necessários para a célula, em quantidades aproximadamente iguais, para a formação de DNA e RNA. Quando as purinas são formadas, elas inibem as enzimas que são necessárias para a sua formação adicional. Entretanto, elas ativam as enzimas para a formação de pirimidinas. Inversamente, as pirimidinas inibem suas próprias enzimas, mas ativam as enzimas da purina. Dessa maneira, ocorre interação contínua dos sistemas de síntese dessas duas substâncias, e o resultado é a quantidade igual das duas substâncias nas células, a qualquer tempo. Resumo. Em suma, existem dois métodos principais pelos quais as células controlam as proporções e quantidades adequadas dos diferentes constituintes celulares: (1) o mecanismo de regulação genética e (2) o mecanismo de regulação enzimática. Os genes podem ser ativados ou inibidos, e, da mesma forma, os sistemas enzimáti- cos podem ser ativados ou inibidos. Esses mecanismos reguladores geralmente funcionam como sistemas de controle por feedback que monitoram continuamente a composição bioquímica da célula e fazem correções quando necessário. Mas, ocasionalmente, substâncias externas à célula (especialmente, alguns dos hormônios discutidos ao longo deste texto) também controlam as reações bioquímicas intracelulares, ativando ou inibindo um ou mais sistemas de controle intracelulares. O Sistema Genético-DNA Também Controla a Reprodução Celular A reprodução celular é outro exemplo do papel ubíquo que o sistema genético-DNA exerce em todos os processos da vida. Os genes e seus mecanismos reguladores determinam as características de crescimento das células e, também, quando ou se essas células se dividirão para formar novas células. Dessa forma, o sistema genético controla cada estágio do desenvolvimento do ser humano, do ovo, uma só célula fertilizada, até o organismo completo e funcionante. Assim, se existe algum tema central da vida, esse é o sistema genético-DNA. Ciclo de Vida da Célula. O ciclo de vida de célula é o período desde a reprodução celular até a próxima reprodução da célula. Quando células de mamíferos não são inibidas e se reproduzem o mais rápido que podem, esse ciclo de vida pode ser de apenas 10 a 30 horas. É encerrado por série de eventos físicos distintos, denominados mitose, que causam a divisão da célula em duas novas células-filhas. Os eventos da mitose são mostrados na Figura 3-14 e são descritos mais adiante. O estágio de Centrômero Cromossomo Figura 3-14 Estágios da reprodução celular. A, B e C, Prófase. D, Prometáfase. E, Metáfase. F, Anáfase. G e H.Telófase. (De Margaret C. Gladbach, Propriedade de Mary E. e DanTodd, Kansas.) 37 U N I D A D E
  • 60. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral mitose, porém, dura cerca de 30 minutos, de forma que mais de 95% do ciclo de vida das células de reprodução rápida são representados pelo intervalo entre as mitoses, chamado de interfase. Exceto em condições especiais de rápida reprodução celular, fatores inibitórios quase sempre tornam lento ou cessam o ciclo de vida da célula. Portanto, diferentes células do corpo têm períodos do ciclo de vida que variam de 10 horas, para células da medula óssea altamente estimuladas, até o período de duração da vida do corpo humano para a maioria das células nervosas. A Reprodução Celular Começa com a Replicação do DNA Assim como em quase todos os outros eventos importantes na célula, a reprodução começa no próprio núcleo. O primeiro passo é a replicação (duplicação) de todo o DNA dos cromossomos. Somente depois disso é que a mitose pode ocorrer. O DNA começa a se duplicar cerca de 5 a 10 horas antes da mitose, e se completa em 4 a 8 horas. O resultado da duplicação é a formação de duas réplicas idênticas de todo o DNA. Essas réplicas vão ser o DNA das duas células-filhas que serão formadas pela mitose. Depois da replicação do DNA, ocorre outro período, de 1 a 2 horas, antes do início abrupto da mitose. Mesmo durante esse período, alterações preliminares que levarão ao processo mitótico começam a ocorrer. Eventos Químicos e Físicos da Replicação de DNA. O DNA é replicado de maneira muito semelhante à forma que o RNA é transcrito do DNA, exceto por algumas importantes diferenças: 1. Ambas as fitas de DNA em cada cromossomo são replicadas não apenas uma delas. 2. Ambas as fitas inteiras da hélice de DNA são replicadas de ponta a ponta, em vez de pequenas porções dela, como ocorre na transcrição do RNA. 3. As principais enzimas para a replicação do DNA formam o complexo de múltiplas enzimas chamado DNA- polimerase que é comparável à RNA-polimerase. Ela se adere e se move ao longo da fita molde de DNA, enquanto outra enzima, a DNA-ligase, catalisa a ligação dos sucessivos nucleotídeos do DNA uns aos outros, usando ligações fosfato de alta energia para energizar essas ligações. 4. A formação de cada nova fita de DNA ocorre simultaneamente em centenas de segmentos ao longo de cada uma das fitas da hélice, até que toda ela seja replicada. Então, as extremidades das subunidades são unidas pela enzima DNA-ligase. 5. Cada fita de DNA recém-formada permanece aderida por pontes de hidrogênio ao filamento de DNA original, que serviu como molde. As duas fitas então se enrolam em hélice. 6. Como as hélices de DNA em cada cromossomo têm aproximadamente 6 centímetros de comprimento e milhões de voltas da hélice, seria impossível para as duas hélices de DNA recém-formadas se desenrolarem se não houvesse um mecanismo especial. Isto é conseguido por meio de enzimas que periodicamente cortam cada hélice ao longo de seu comprimento, giram cada segmento o suficiente para causar a separação e depois emendam a hélice. Assim, as duas novas hélices ficam desenroladas. Reparo de DNA, "Leitura de Prova" de DNA e "Mutação. Durante mais ou menos uma hora, entre a replicação do DNA e o início da mitose, existe período de reparo bastante ativo e de “leitura de prova” das fitas de DNA. Onde nucleotídeos inapropriados foram pareados aos nucleotídeos da fita molde original, enzimas especiais cortam as áreas defeituosas e as substituem por nucleotídeos complementares adequados. Isso é feito pelas mesmas DNA-polimerases e DNA-ligases que são usadas na replicação. O processo de reparação é chamado de leitura de prova do DNA. Como consequência do reparo e da leitura de prova, o processo de transcrição raramente comete um erro. Quando existe erro, tem-se uma mutação. A mutação causa a formação de proteína anormal na célula, substituindo a proteína necessária, geralmente levando ao funcionamento anormal da célula e, às vezes, até mesmo à morte celular. Contudo, devido ao fato de existirem 30.000 ou mais genes no genoma humano e de que o período de uma geração humana é de cerca de 30 anos, seriam esperadas até 10 ou mais mutações na passagem do genoma dos pais para o filho. Como proteção extra, entretanto, cada genoma humano contém dois conjuntos distintos de cromossomos com genes quase idênticos. Assim, um gene funcional de cada par está quase sempre disponível para o filho, a despeito das mutações. Cromossomos e Suas Replicações As hélices de DNA, no núcleo, são empacotadas nos cromossomos. A célula humana contém 46 cromossomos, dispostos em 23 pares. No par, a maioria dos genes em um dos cromossomos é idêntica ou quase idêntica aos genes do outro cromossomo; portanto, geralmente se pode afirmar que os genes existem em pares, embora nem sempre seja este o caso. Além do DNA, existe grande quantidade de proteínas no cromossomo, entre as quais predominam diversas moléculas pequenas de historias, com cargas elétricas positivas. As histonas são organizadas em grande número de estruturas em forma de carretei. Pequenos segmentos da hélice de DNA se enrolam sequencialmente nessas estruturas. As estruturas de histona desempenham papel importante na regulação da atividade do DNA, pois enquanto o DNA estiver bem empacotado ele não poderá funcionar como molde para a formação de RNA ou para a replicação de novo DNA. Algumas das proteínas reguladoras são capazes de afrouxar o empacotamento do DNA 38
  • 61. Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular pelas histonas do DNA e assim permitir que pequenos segmentos formem RNA. Várias outras proteínas, além das histonas, também são componentes importantes dos cromossomos, funcionando como proteínas estruturais cromossômicas e, quando associadas à maquinaria de regulação genética, como ativadores, inibidores e enzimas. A replicação completa dos cromossomos ocorre poucos minutos após a replicação das hélices de DNA ser concluída; as novas hélices de DNA reúnem novas moléculas necessárias de proteína. Os dois cromossomos recém-for- mados permanecem aderidos um ao outro (até o momento da mitose) no ponto chamado centrômero, localizado próximo aos seus centros. Esses cromossomos duplicados, porém ainda aderidos, são chamados de cromátides. Prometáfase. Durante este estágio (Fig. 3-14D), os espinhos de microtúbulos crescendo da áster fragmentam o envelope nuclear. Ao mesmo tempo, múltiplos microtúbulos da áster aderem às cromátides nos centrô- meros, região em que os pares de cromátides ainda estão ligados entre si; os túbulos, então, puxam uma cromátide de cada par em direção a um polo celular e sua parceira para o polo oposto. Metáfase. Durante a metáfase (Fig. 3-14E), as duas ásteres do aparelho mitótico são empurradas, separan- do-se. Acredita-se que isto ocorra porque os espinhos microtubulares das duas ásteres, onde eles se interdigitam para formar o fuso mitótico, se empurram e se separam. Existem motivos para se acreditar que minúsculas molé- a > cuias de proteína contráteis, chamadas “motores molecu Mitose Celular O processo próprio pelo qual a célula se divide em duas novas células é chamado mitose. Uma vez que cada cromossomo tenha sido duplicado para formar as duas cromátides em muitas células, a mitose segue automaticamente em questão de 1 ou 2 horas. Aparelho Mitótico: Função dos Centríolos. Um dos primeiros eventos da mitose ocorre no citoplasma, durante a última parte da interfase, em torno de pequenas estruturas denominadas centríolos. Como mostra a Figura 3- 14, dois pares de centríolos ficam juntos, próximos a um dos polos do núcleo. Esses centríolos, como o DNA e os cromossomos, também foram replicados durante a interfase, geralmente logo antes da replicação do DNA. Cada centríolo é pequeno corpo cilíndrico de cerca de 0,4 micrômetro de comprimento e de 0,15 micrômetro de diâmetro; consiste principalmente em nove estruturas tubulares paralelas, organizadas em forma de cilindro. Os dois centríolos de cada par formam ângulos retos entre si. Cada par de centríolos, juntamente com o material peri- centriolar aderido, é chamado de centrossomo. Pouco antes que a mitose ocorra, os dois pares de centríolos começam a se separar um do outro. Isto é causado pela polimerização de microtúbulos de proteína que crescem entre os respectivos pares de centríolos e por fim os separa. Ao mesmo tempo, outros microtúbulos crescem radialmente de cada par de centríolos, formando estrela espinhosa, denominada áster, em cada extremidade da célula. Alguns dos espinhos da áster penetram na membrana nuclear e ajudam a separar os dois conjuntos de cromátides durante a mitose. O complexo de microtúbulos, que se estende entre os dois novos pares de centríolos, é chamado de fuso, e o conjunto completo de microtúbulos mais os dois pares de centríolos são chamados aparelho mitótico. Prófase. O primeiro estágio da mitose, chamado pró- fase, é mostrado na Figura 3-14A, B e C. Enquanto o fuso está se formando, os cromossomos do núcleo (que na interfase consistem em fitas frouxamente enroladas) se condensam em cromossomos bem definidos. lares”, talvez compostas da proteína actina, se estendam entre os respectivos fusos e, em uma ação de andar (ste- pping) semelhante à que ocorre no músculo, fazem os espinhos deslizar um sobre o outro em direções opostas. Simultaneamente, as cromátides são firmemente puxadas pelos microtúbulos a elas aderidos para o próprio centro da célula, alinhando-se para formar a placa equatorial do fuso mitótico. Anáfase. Durante esta fase (Fig. 3-14F), as duas cromátides de cada cromossomo são separadas no centrômero. Todos os 46 pares de cromátides são separados, formando dois conjuntos distintos de 46 cromossomos- filhos. Um desses conjuntos é puxado em direção a uma áster mitótica, e o outro é puxado em direção à outra áster, enquanto os dois polos da célula em divisão são empurrados, separando-os ainda mais. Telófase. Na telófase (Fig. 3-14G e H), os dois conjuntos de cromossomos-filhos estão completamente separados. Então, o aparelho mitótico se dissolve, e nova membrana nuclear se desenvolve ao redor de cada conjunto de cromossomos. Essa membrana é formada de partes do retículo endoplasmático que já estão presentes no citoplasma. Logo após, a célula se divide em duas metades entre os dois núcleos. Isso é causado pela formação de anel contrátil de microfdamentos, compostos de actina e provavelmente de miosina (as duas proteínas contráteis dos músculos) na região em que a célula se dividirá, e que acaba por separá-las nas duas células-filhas. Controle do Crescimento e da Reprodução Celular Sabemos que certas células crescem e se reproduzem sempre, tais como as células da medula óssea que formam as células sanguíneas, as células das camadas germi- nativas da pele e as do epitélio do intestino. Muitas outras células, entretanto, tais como as células de músculo liso, podem não se reproduzir por muitos anos. Umas poucas células, tais como os neurônios e a maioria das células do músculo estriado, não se reproduzem durante a vida inteira da pessoa, exceto durante o período original de vida fetal. 39 U N
  • 62. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral Em certos tecidos, a insuficiência de alguns tipos de células faz com que elas cresçam e se reproduzam rapidamente até que sua quantidade seja novamente apropriada. Por exemplo, em alguns animais jovens, sete oitavos do fígado podem ser removidos cirurgicamente, e as células remanescentes crescerão e se dividirão até que a massa hepática retorne ao normal. O mesmo ocorre em muitas células glandulares e na maioria das células da medula óssea, do tecido subcutâneo, do epitélio intestinal e quase em qualquer outro tecido, com exceção das células muito diferenciadas, como as nervosas e musculares. Sabemos pouco sobre os mecanismos que mantêm o número adequado dos diferentes tipos de células no corpo. Entretanto, experimentos demonstraram pelo menos três formas pelas quais o crescimento pode ser controlado. Primeiro, o crescimento geralmente é controlado por fatores de crescimento que advêm de outras partes do corpo. Alguns deles circulam no sangue, mas outros se originam nos tecidos adjacentes. Por exemplo, as células epiteliais de algumas glândulas, como o pâncreas, não conseguem crescer sem o fator de crescimento derivado do tecido conjuntivo da própria glândula. Segundo, a maioria das células normais para de crescer quando não existe mais espaço para o crescimento. Isso ocorre quando as células crescem em culturas de tecidos; elas crescem até entrarem em contato com objeto sólido e então o crescimento cessa. Terceiro, células em cultura geralmente param de crescer quando minúsculas quantidades de suas próprias secreções se acumulam no meio de cultura. Isso também poderia constituir meio de controle de crescimento por feedback negativo. Regulação do Tamanho da Célula. O tamanho da célula é determinado, quase que totalmente, pela quantidade de DNA funcionante no núcleo. Se a replicação do DNA não ocorre, a célula cresce até determinado tamanho e nele permanece. Inversamente, é possível, pelo uso do composto colchicina, prevenir a formação do fuso mitótico e assim evitar a mitose, embora a replicação do DNA continue. Neste caso, o núcleo contém quantidade de DNA maior que a normal, e a célula cresce proporcionalmente mais. Presume-se que isso resulte simplesmente do aumento de produção de RNA e de proteínas celulares que por sua vez fazem com que a célula fique maior. Diferenciação Celular Característica especial do crescimento e da divisão celulares é a diferenciação celular, que significa alterações nas propriedades físicas e funcionais das células, à medida que elas proliferam no embrião, para formar diferentes estruturas e órgãos corpóreos. A descrição de experimento especialmente interessante que ajuda a explicar esses processos é dada a seguir. Quando o núcleo de uma célula da mucosa intestinal de sapo é cirurgicamente implantado em óvulo de sapo do qual o núcleo original foi removido, o resultado é geralmente a formação de sapo normal. Isto demonstra que mesmo a célula da mucosa intestinal, que é célula bem diferenciada, carrega toda a informação genética necessária para o desenvolvimento de todas as estruturas necessárias para o corpo do sapo. Portanto, fica claro que a diferenciação resulta não da perda de genes, mas da repressão seletiva de diferentes promotores genéticos. Na verdade, micrografias eletrônicas sugerem que alguns segmentos das hélices de DNA enrolados ao redor de núcleos de histona podem ficar tão condensados que não mais se desenrolam para formar moléculas de RNA. Explicação para isso é a seguinte: supõe-se que o genoma celular comece, em determinado estágio da diferenciação celular, a produzir proteína reguladora que reprime para sempre dado grupo de genes. Os genes reprimidos nunca mais funcionam. Independentemente do mecanismo, células humanas maduras produzem de 8.000 a 10.000 proteínas, em vez das possíveis 30.000 ou mais se todos os genes estivessem ativos. Experimentos embriológicos mostram que certas células do embrião controlam a diferenciação de células adjacentes. Por exemplo, o mesoderma córdico primordial é chamado de organizador primário do embrião por formar foco ao redor do qual o embrião se desenvolve. Ela se diferencia em eixo mesoderma axial, que contém somitos segmentalmente organizados e, como resultado de induções nos tecidos circundantes, causa a formação de essencialmente todos os órgãos do corpo. Outro exemplo de indução ocorre quando as vesículas do olho em desenvolvimento entram em contato com o ectoderma da cabeça e fazem com que o ectoderma se espesse em uma placa do cristalino, que se dobra para dentro para formar o cristalino ocular. Assim, grande parte do embrião se desenvolve em decorrência de tais induções, uma parte do corpo afetando outra. Assim, embora nosso entendimento da diferenciação de células ainda seja incompleto, conhecemos muitos dos mecanismos de controle pelos quais a diferenciação pode ocorrer. Apoptose — Morte Programada das Células Os 100 trilhões de células do corpo são membros de uma comunidade altamente organizada na qual o número total de células é regulado, não apenas pelo controle da intensidade da divisão celular, mas também pelo controle da intensidade da morte celular. Quando as células não são mais necessárias ou se tornam ameaça para o organismo, elas cometem algo como suicídio, que é a morte celular programada ou apoptose. Esse processo envolve cascata proteolítica específica que faz com que a célula murche e condense, desmontando seu citoesqueleto e alterando sua superfície celular de forma que célula fagocítica ao seu redor, um macrófago, por exemplo, possa aderir à membrana celular e digerir a célula. 40
  • 63. Capítulo 3 Controle Genético da Síntese de Proteínas, do Funcionamento Celular e da Reprodução Celular Em contraste com a morte programada, as células que morrem em consequência de uma lesão aguda geralmente incham e se rompem, devido à perda de integridade da membrana celular, processo chamado necrose celular. As células necróticas espalham seu conteúdo, causando inflamação e lesão das células ao seu redor. A apoptose, entretanto, é a morte ordenada da célula que resulta da desmontagem e fagocitose da célula antes que ocorra qualquer vazamento de seu conteúdo, e as células ao redor normalmente permanecem saudáveis. A apoptose é iniciada pela ativação da família de pro- teases chamada caspases. Estas enzimas são sintetizadas e armazenadas na célula como pró-caspases inativas. Os mecanismos de ativação das caspases são complexos, mas, uma vez ativadas, as enzimas clivam e ativam outras pró- caspases, deflagrando a cascata que rapidamente quebra as proteínas da célula. A célula então se desmonta, e seus restos são rapidamente digeridos pelas células fagocíticas na região. Quantidade imensa de apoptose ocorre em tecidos que estão sendo remodelados durante o desenvolvimento. Mesmo nos humanos adultos, bilhões de células morrem a cada hora em tecidos como o intestino e a medula óssea e são substituídas por novas células. A morte programada das células entretanto é normalmente equilibrada pela formação de células novas em adultos saudáveis. Do contrário, os tecidos do corpo encolheriam ou cresce- riam excessivamente. Estudos recentes sugerem que anormalidades na apoptose podem desempenhar papel- chave em doenças neurodegenerativas, tais como o mal de Alzheimer, bem como no câncer e em distúrbios auto- imunes. Alguns medicamentos que têm sido utilizados com sucesso na quimioterapia parecem induzir a apoptose das células cancerosas. Câncer O câncer é causado em todos, ou em quase todos os casos, por mutação ou por alguma outra ativação anormal de genes que controlam o crescimento e a mitose celulares. Os genes anormais são chamados de oncogenes. Até 100 diferentes oncogenes já foram descobertos. Também presentes em todas as células estão os an- tioncogenes, que suprimem a ativação de oncogenes específicos. Portanto, a perda ou a inativação de anti- oncogenes podem permitir a ativação de oncogenes que levam ao câncer. Apenas reduzida fração das células que passem por mutação no corpo leva ao câncer. Existem várias razões para isto. Em primeiro lugar, a maioria das células alteradas tem capacidade menor de sobrevivência do que as células normais e simplesmente morrem. Em segundo lugar, apenas poucas dessas células alteradas que conseguem sobreviver se tornam cancerosas, pois mesmo a maioria das células mutantes ainda tem controles de feedback normais que previnem o crescimento excessivo. Em terceiro lugar, as células potencialmente cancerosas são frequentemente destruídas pelo sistema imune do organismo, antes que formem um tumor. Isso ocorre da seguinte maneira: a maioria das células mutantes forma proteínas anormais em consequência de seus genes alterados, e essas proteínas ativam o sistema imune do corpo, e este forma anticorpos ou linfócitos sensibilizados que reagem contra as células cancerosas, destruindo-as. A reação imune é evidenciada pelo fato de que as pessoas cujos sistemas imunes foram suprimidos por medicamentos imunossupressores após transplante de rins ou de coração têm probabilidade de desenvolver câncer multiplicado por cinco. Em quarto lugar, em geral, diversos oncogenes devem ser ativados simultaneamente para causar câncer. Por exemplo, um desses genes poderia promover a rápida reprodução de linhagem de células, mas o câncer ocorre porque não existe gene mutante para formar os vasos sanguíneos necessários. Mas o que causa a alteração dos genes? Considerando que vários trilhões de novas células são formados a cada ano, nos humanos, pergunta melhor seria “Por que nem todos nós desenvolvemos milhões ou bilhões de células mutantes cancerosas?” A resposta é a incrível precisão com que as moléculas de DNA cromossômico são replicadas em cada célula antes que a mitose ocorra, e também o processo de leitura de prova que corta e repara filamentos de DNA anormais antes que o processo mitótico prossiga. Contudo, a despeito de todos esses sistemas de segurança estabelecidos na evolução, provavelmente uma célula recém-formada, em alguns milhões, ainda tem características mutantes significativas. Assim, como as mutações ocorrem ao acaso, pode-se supor que grande número de cânceres é o resultado do acaso. Entretanto, a probabilidade de mutações pode ser aumentada muitas vezes quando o organismo é exposto a fatores químicos, físicos ou biológicos, incluindo os seguintes: 1. É bem sabido que a radiação ionizante, como raios X, raios gama e radiação emitida por substâncias radioativas, e mesmo por luz ultravioleta, pode predispor o indivíduo ao câncer. Os íons formados nas células de tecidos sob a influência de tal radiação são altamente reativos e podem romper os filamentos de DNA, causando diversas mutações. 2. Certas substâncias químicas aumentam a probabilidade de mutações. Descobriu-se, há muito tempo, que vários derivados do corante de anilina podem causar câncer, de forma que trabalhadores da indústria química que produzem essas substâncias, se não estiverem protegidos, têm predisposição maior para o câncer. Substâncias químicas que podem causar mutação são chamadas de carcinógenos. Os carcinógenos que atualmente causam o maior número de mortes são os da fumaça do cigarro. Eles causam cerca de um quarto de todas as mortes por câncer. o > 41 U N
  • 64. Unidade I Introdução à Fisiologia: A Célula e Fisiologia Geral 3. Irritantes físicos também podem levar ao câncer, tais como a abrasão contínua dos revestimentos do trato intestinal por alguns tipos de alimentos. O dano aos tecidos leva à rápida substituição mitótica das células. Quanto mais frequente a mitose, maior a probabilidade de mutação. 4. Em muitas famílias, existe forte tendência hereditária ao câncer. Isso resulta do fato de que a maioria dos cânceres requer não apenas uma mutação, mas duas ou mais para que surja o tumor. Nas famílias que são particularmente predispostas ao câncer, presume-se que um ou mais genes cancerosos já se encontrem alterados no genoma herdado. Portanto, muito menos mutações adicionais são necessárias para o crescimento do câncer. 5. Em animais de laboratório, certos tipos de vírus podem causar alguns tipos de câncer, incluindo a leucemia. Isso acontece por uma de duas maneiras. No caso de vírus de DNA, a fita de DNA do vírus pode se inserir diretamente em um dos cromossomos e, dessa forma, causar mutação que leva ao câncer. No caso de vírus de RNA, alguns deles carregam consigo a enzima chamada transcriptase reversa, que faz com que o DNA seja transcrito do RNA. O DNA transcrito então se insere no genoma da célula do animal, levando ao câncer. Características Invasivas da Célula Cancerosa. As principais diferenças entre a célula cancerosa e a célula normal são as seguintes: (1) A célula cancerosa não respeita os limites normais de crescimento celular; a razão é que essas células presumivelmente não requerem todos os fatores de crescimento que são necessários para o crescimento de células normais. (2) As células cancerosas geralmente aderem umas às outras muito menos do que as células normais. Portanto, elas tendem a vagar pelos tecidos e entrar na corrente sanguínea, pela qual são transportadas para todo o corpo, onde formam focos de crescimento canceroso. (3) Alguns cânceres também produzem fatores angiogênicos que fazem com que novos vasos sanguíneos cresçam no tumor, suprindo os nutrientes necessários para o crescimento do câncer. Por Que as Células Cancerosas Matam? A resposta a esta pergunta normalmente é simples. O tecido canceroso compete com os tecidos normais pelos nutrientes. Pelo fato de as células cancerosas proliferarem continuamente, seu número se multiplica dia após dia; as células cancerosas logo demandam praticamente todos os nutrientes disponíveis para o organismo ou para uma parte essencial do corpo. Como consequência, os tecidos normais gradualmente morrem por desnutrição. Referências Alberts B, Johnson A, Lewis J, et al: Molecular Biology ofthe Cell, ed 5, New York, 2008, Garland Science. Aranda A, Pascal A: Nuclear hormone receptors and gene expression, Physiol Rev 81:1269, 2001. Brodersen P, Voinnet O: Revisiting the principies of microRNA target rec- ognition and mode of action, NatRevMol CellBiol 10:141, 2009. 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  • 65. Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo 4. O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares 5. Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação 6. Contração do Músculo Esquelético 7. Excitação do Músculo Esquelético: Transmissão Neuromuscular e Acoplamento Excitação-Contração 8. Excitação e Contração do Músculo Liso
  • 67. CAPÍTULO 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares A Figura 4-1 apresenta as concentrações aproximadas dos eletrólitos importan- tes e de outras substâncias nos líquidos extracelular e intracelular. Note que o líquido extracelular contém grande quantidade de sódio, mas somente pequena quan- tidade de potássio. O oposto é exatamente válido para o líquido intracelular. O líquido extracelular contém também grande quantidade de íons cloreto, ao passo que o líquido intracelular contém quantidade muito pequena. Porém, as concentrações de fosfato e de proteínas no líquido intra- celular, são consideravelmente maiores do que no líquido extracelular. Essas diferenças são muito importantes para a vida das células. O propósito deste capítulo é explicar como essas diferenças são produzidas pelos mecanismos de transporte das membranas celulares. A Barreira Lipídica da Membrana Celular e as Proteínas de Transporte da Membrana Celular A estrutura da membrana que reveste externamente cada célula do corpo é discutida no Capítulo 2 e mostrada nas Figuras 2-3 e 4-2. Essa membrana consiste quase que inteiramente em uma bicamada lipídica, contendo também grande número de moléculas de proteínas incrustadas nos lipídios, muitas delas penetrando por toda a espessura da membrana, como mostra a Figura 4-2. A bicamada lipídica não é miscível nos líquidos extra e intracelular. Assim, ela constitui barreira para os movimentos das moléculas de água e de substâncias hidros- solúveis, entre os compartimentos dos líquidos intra e extracelular es. Todavia, como demonstrado na Figura 4-2 pela seta da extrema esquerda, algumas substâncias podem atravessar essa bicamada lipídica dispersando-se, de modo direto, através da substância lipídica; isso ocorre principalmente com substâncias lipossolúveis, como descrito adiante. As moléculas de proteína na membrana apresentam propriedades totalmente diferentes para o transporte de substâncias. Suas estruturas moleculares interrompem a continuidade da bicamada lipídica, representando via alternativa através da membrana celular. Em sua maioria, as substâncias proteicas por essa razão podem funcionar como proteínas transportadoras. Diferentes proteínas funcionam de modos distintos. Algumas contêm espaços aquosos por toda a extensão da molécula, permitindo o livre movimento da água, bem como de íons ou de moléculas selecionados; elas são referidas como proteínas canais. Outras, conhecidas como proteínas transportadoras, se ligam às moléculas ou aos íons a serem transportados; alterações estruturais nas moléculas da proteína, então, movem a substância através dos interstícios da proteína até o outro lado da membrana. Tanto as proteínas canais como as proteínas transportadoras são, via de regra, extremamente seletivas para os tipos de moléculas ou de íons que será permitido atravessar a membrana. LIQUIDO EXTRACELULAR Na+ - K+... Ca++ Mg++ ci-~ HCO; ■— 142 mEq/L — 4 mEq/L ------ — 2,4 mEq/L — ----1,2 mEq/L — ■— 103 mEq/L - — 28 mEq/L — —- 4 mEq/L ------ — 1 mEq/L ------ Glicose ----------90 mg/dl-------- Aminoácidos --- 30 mg/dl------- Fosfatos SO| -— Colesterol Fosfolipídios Gordura neutra I LIQUIDO INTRACELULAR ■ 10 mEq/L 140 mEq/L ■0,0001 mEq/L ■58 mEq/L ■ 4 mEq/L -10 mEq/L -75 mEq/L -2 mEq/L ■ 0 a 20 mg/dL ■ 200 mg/dL ? 0,5 g/dl ----------- 2 a 95 g/dL P02-------- PC02 — PH -------- Proteínas 35 mm Hg ...... 46 mm Hg ...... 7,4 .............. 20 mm Hg ? 50 mm Hg ? 7,0 2 g/dl ----- (5 mEq/L) -—16g/dL (40 mEq/L) Figura 4-1 Composição química dos líquidos extracelular e intracelular. 45 U N I D A
  • 68. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Proteína Proteínas transportadoras simples facilitada V------------------- V------------------- ' V ------------v-----------' Difusão Transporte ativo Figura 4-2 Vias de transporte através da membrana celular e seus mecanismos básicos de transporte. "Difusão" Versus "Transporte Ativo.” O transporte através da membrana celular, tanto diretamente, através da bicamada lipídica, como por meio de proteínas, ocorre por um de dois processos básicos: difusão ou transporte ativo. Embora existam muitas variações desses mecanismos básicos, difusão significa o movimento molecular aleatório de substâncias, molécula a molécula, através dos espaços intramoleculares da membrana ou em combinação com proteína transportadora. A energia causadora da difusão é a energia da movimentação cinética normal da matéria. Como contraste, transporte ativo significa o movimento dos íons ou de outras substâncias, através da membrana em combinação com uma proteína transportadora, de modo tal que a proteína transportadora faz com que a substância se mova em direção oposta à de um gradiente de energia, como passando de um estado de baixa concentração para um estado de alta concentração. Esse movimento requer uma fonte adicional de energia, além da energia cinética. A seguir é apresentada uma explicação mais detalhada da física básica e da físico-química desses dois processos. Difusão Todas as moléculas e íons no corpo, inclusive as moléculas de água e as substâncias dissolvidas nos líquidos corporais, estão em constante movimento, cada partícula movendo-se por seu percurso distinto. A movimentação dessas partículas é o que os físicos chamam de “calor” — quanto maior a movimentação, maior a temperatura — e o movimento nunca cessa, sob qualquer circunstância, a não ser na temperatura do zero absoluto. Quando a molécula em movimento, A, se aproxima da molécula estacionária, B, a força eletrostática e outras forças nucleares da molécula A repelem a molécula B, transferindo parte da energia do movimento da molécula A para a molécula B. Consequentemente, a molécula B ganha energia cinética do movimento, enquanto a molécula A passa a se mover mais lentamente, perdendo parte de sua energia cinética. Desse modo, como mostrado na Figura 4-3, em solução Figura 4-3 Difusão de moléculas em fluidos durante um milésimo de segundo. uma só molécula colide violentamente com as outras moléculas, primeiro em uma direção, e depois em outra, e assim por diante, sempre aleatoriamente, colidindo milhares de vezes a cada segundo. Esse movimento contínuo de moléculas umas contra as outras nos líquidos ou nos gases é chamado difusão. Os íons difundem-se da mesma maneira que as moléculas inteiras, e até mesmo partículas coloidais em suspensão se difundem de modo semelhante, a não ser pelo fato da dispersão dos coloides ser bem mais lenta do que a das substâncias moleculares, por eles serem maiores. Difusão através da Membrana Celular A difusão através da membrana celular é dividida em dois subtipos, chamados difusão simples e difusão facilitada. A difusão simples significa que o movimento cinético das moléculas ou dos íons ocorre através de abertura na membrana ou através dos espaços intermoleculares, sem que ocorra qualquer interação com as proteínas transportadoras da membrana. A intensidade da difusão é determinada pela quantidade de substância disponível, pela velocidade do movimento cinético, e pelo número e tamanho das aberturas na membrana, pelas quais as moléculas e os íons podem se mover. A difusão facilitada requer a interação com uma proteína transportadora. A proteína transportadora ajuda a passagem das moléculas ou dos íons, através da membrana, por meio de ligação química com eles, transportan- do-os dessa forma em movimento de vaivém — como o de ponte aérea — através da membrana. A difusão simples pode ocorrer através da membrana celular por duas vias: (1) pelos interstícios da bicamada lipídica, no caso da substância que se difunde ser lipos- solúvel, e (2) pelos canais aquosos que penetram por toda a espessura da membrana, por meio de alguma das grandes proteínas transportadoras, como mostrados à esquerda da Figura 4-2. Difusão das Substâncias Lipossolúveis Através da Bicamada Lipídica. Um dos fatores mais importantes que determinam quão rapidamente a substância se difunde pela bicamada lipídica é a lipossolubilidade dessa substância. As lipossolubilidades do oxigênio, do nitrogê 46
  • 69. Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares nio, do dióxido de carbono e do álcool, por exemplo, são altas; assim, todas elas podem se dissolver diretamente na bicamada lipídica e se difundir através da membrana celular, do mesmo modo como ocorre a difusão para solutos hidrossolúveis nas soluções aquosas. Por razões óbvias, a velocidade de difusão de cada uma dessas substâncias através da membrana é diretamente proporcional à sua lipossolubilidade. De modo especial, grandes quantidades de oxigênio podem ser transportadas dessa maneira; por essa razão, o oxigênio pode ser levado para o interior das células quase como se não existisse a membrana celular. Difusão das Moléculas de Água e de Outras Moléculas Insolúveis em Lipídios pelos Canais Proteicos. Ainda que a água seja extremamente insolúvel nos lipídios da membrana, ela passa com facilidade pelos canais das moléculas de proteínas que penetram por toda a espessura das membranas. A rapidez com que as moléculas de água podem se deslocar através da maioria das membranas celulares é impressionante. Como exemplo, a quantidade total de água que se difunde em cada direção pelas membranas das hemácias, a cada segundo, é cerca de 100 vezes maior que o volume da própria hemácia. Outras moléculas insolúveis em lipídios podem passar pelos canais dos poros das proteínas do mesmo modo que as moléculas de água, caso sejam hidrossolúveis e suficientemente pequenas. Todavia, à medida que suas dimensões aumentam, sua penetração diminui acentua- damente. Por exemplo, o diâmetro da molécula da ureia é somente 20% maior que o da água, e mesmo assim sua penetração, através dos poros da membrana celular, é cerca de 1.000 vezes menor que a da água. Ainda assim, considerando-se a incrível velocidade de penetração da água, essa intensidade da penetração da ureia ainda permite o rápido transporte da ureia através da membrana em poucos minutos. Difusão pelos Canais Proteicos e as "Comportas” Desses Canais As reconstruções tridimensionais computadorizadas dos canais proteicos demonstraram vias tubulares por toda a espessura da membrana entre os líquidos extra e intracelular. Por conseguinte, substâncias podem se deslocar por difusão simples diretamente através desses canais de um lado ao outro da membrana. Os poros são compostos por proteínas integrais da membrana celular que formam tubos abertos através da membrana e que ficam sempre abertos. No entanto, o diâmetro do poro e sua carga elétrica fornecem seletividade que permite a passagem de somente algumas moléculas. Por exemplo, poros proteicos, denominados aquaporinas ou canais de água, permitem a passagem rápida de água através da membrana celular, mas excluem outras moléculas. Já foram encontrados pelo menos 13 tipos diferentes de aquaporinas em várias células do corpo humano. As aquaporinas têm um poro estreito que permite a difusão de moléculas dagua através da membrana em fila única. O poro é muito estreito para per mitir a passagem de qualquer outro íon hidratado. Como discutido nos Capítulos 29 e 75, a densidade de algumas aquaporinas (p. ex., aquaporina-2), nas membranas celulares, não é estática, mas pode ser alterada em diferentes condições fisiológicas. As proteínas canais são distinguidas por duas características importantes: (1) elas, em geral, são seletivamente permeáveis a certas substâncias, e (2) muitos dos canais podem ser abertos ou fechados por comportas que são reguladas por sinais elétricos (canais dependentes de voltagem) ou químicos que se ligam a proteínas do canal (icanais dependentes de ligantes). Permeabilidade Seletiva das Proteínas Canais. Muitas das proteínas canais são altamente seletivas para o transporte de um ou mais íons ou moléculas específicas. Isso resulta das características do canal propriamente dito, como seu diâmetro, sua forma, e a natureza das cargas elétricas e das ligações químicas ao longo de suas superfícies internas. Canais de potássio permitem a passagem de íons potássio, através da membrana celular, aproximadamente 1.0 vezes mais facilmente do que permitem íons sódio. Esse alto grau de seletividade porém não pode ser explicado inteiramente pelo diâmetro molecular dos íons, já que os íons potássio são levemente maiores do que os de sódio. Qual é o mecanismo para essa notável seletividade iônica? Essa pergunta foi parcialmente respondida quando a estrutura do canal de potássio de uma bactéria foi determinada por cristalografia de raios X. Foi descoberto que os canais de potássio têm a estrutura tetramérica, consistindo em quatro subunidades protei- cas idênticas, envolvendo o poro central (Fig. 4-4). No topo do poro do canal existem alças que formam fütro de seletividade estreita. Revestindo o filtro de seletividade encontram-se oxigênios carbonílicos. Quando íons potássio hidratado entram no filtro de seletividade, eles interagem com os oxigênios carbonílicos e perdem a maioria das suas moléculas de água ligadas, permitindo a passagem dos íons potássio desidratados pelo canal. Os oxigênios carbonílicos estão muito afastados porém para permitir que eles interajam de perto com os íons sódio menores e que são, portanto, eficazmente excluídos pelo filtro de seletividade na passagem pelo poro. Acredita-se que os diferentes filtros de seletividade para os vários tipos de canais iônicos são determinantes, em grande parte, na especificidade do canal para cátions ou ânions, ou para íons particulares, tais como Na+, K+ e Ca++, que ganham acesso ao canal. Uma das mais importantes proteínas canais, o conhecido canal de sódio, tem apenas 0,3 por 0,5 nanômetro de diâmetro mas, o que é mais importante, a superfície interna desse canal tem forte carga negativa, como mostrado pelos sinais negativos no interior da proteína canal no painel superior da Figura 4-5. Essas fortes cargas negativas podem puxar os íons sódio desidratados para dentro desses canais, na verdade afastando os íons sódio das moléculas de água que os hidratam. Uma vez 47 U N I D A
  • 70. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Alça do poro Exterior Hélice do poro Exterior Interior Comporta i fechada K+ J Comporta i aberta K+ Figura 4-5 Transporte de íons sódio e potássio através das proteínas canais. Também são mostradas as mudanças conformacionais nas moléculas de proteína para abrir e fechar as “comportas" dos canais. Figura 4-4 A estrutura do canal de potássio. O canal é composto por quatro subunidades (apenas duas são mostradas), cada uma com duas hélices transmembrana. O estreito filtro de seletividade é formado pelas alças do poro e os oxigênios carbonílicos forram os muros do filtro de seletividade, formando sítios para a ligação transiente dos íons desidratados de potássio. A interação dos íons potássio com os oxigênios carbonílicos faz com que os íons potássio percam as moléculas de água ligadas, permitindo a passagem dos íons potássio desidratados pelo poro. no canal, os íons sódio se dispersam em qualquer direção, de acordo com as leis usuais de difusão. Desse modo, o canal de sódio é especificamente seletivo para a passagem de íons sódio. As Comportas das Proteínas Canais. As comportas das proteínas canais fornecem meio para controlar a permeabilidade iônica dos canais. Isso é mostrado nos dois painéis da Figura 4-5 para os controles da seletividade dos íons potássio e sódio. Acredita-se que algumas dessas comportas sejam extensões da molécula, como se fossem comportas, semelhantes às das proteínas transportadoras que podem ocluir a abertura do canal ou podem ser removidas dessa abertura por alteração da conformação da própria molécula de proteína. A abertura e o fechamento desses canais podem ser controlados por dois modos: 1. Por variações da voltagem. Neste caso, a conformação molecular do canal ou das suas ligações químicas reage ao potencial elétrico através da membrana celular. Por exemplo, no painel superior da Figura 4-5, se existir forte carga negativa no lado interno da membrana celular, presumivelmente as aberturas externas do canal do sódio permanecerão fechadas; de modo inverso, se o lado interno da membrana perdesse sua carga negativa, essas aberturas poderiam de modo abrupto se abrir, permitindo que grande quantidade de sódio entrasse na célula, passando pelos poros de sódio. Esse é o mecanismo básico para a geração de potenciais de ação nas fibras nervosas responsáveis pelos sinais nervosos. No painel inferior da Figura 4-5, as comportas para o potássio ficam localizadas na extremidade intracelular dos canais de potássio e se abrem quando a parte interna da membrana celular fica positivamente carregada. A abertura desses canais é responsável, em parte, pelo término do potencial de ação, como discutido com mais detalhes no Capítulo 5. 2. Por controle químico (por ligantes). Algumas comportas das proteínas canais dependem da ligação de substâncias químicas (ou ligante) com a proteína; isso causa alteração conformacional da proteína ou de suas ligações químicas na molécula da proteína que abre ou fecha sua comporta. Esse tipo é conhecido como controle químico ou como controle por ligante. Um dos mais importantes exemplos de controle químico é o efeito da acetilcolina no chamado canal de acetilco- lina. A acetilcolina abre a comporta desse canal, formando poro negativamente carregado, com diâmetro de cerca de 0,65 nanômetro, que permite a passagem de moléculas sem carga ou de íons positivos menores que seu diâmetro. Esse tipo de comporta é extremamente importante para a transmissão dos sinais nervosos de célula nervosa para outra (Cap. 45) e das células nervosas para as células musculares, para causar a contração muscular (Cap. 7). Estado Aberto Versus Estado Fechado dos Canais com Controle. A Figura 4-6A mostra a característica especialmente interessante da maioria dos canais con- 48
  • 71. Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares trolados por voltagem. Essa figura mostra dois registros da corrente elétrica que flui por canal único (isolado) de sódio, sob gradiente de potência aproximado de 25 mili- volts, através da membrana. Observe que o canal conduz ou não conduz corrente elétrica, ou seja, é do tipo “tudo ou nada”. Isto é, a comporta do canal abre de estalo e em seguida fecha também de estalo, com cada período do estado aberto do canal durando apenas fração de milisse- gundo a vários milissegundos. Isso demonstra a extrema rapidez com que as alterações podem ocorrer durante a abertura e o fechamento das comportas moleculares dos canais moleculares da proteína. Em determinado potencial de voltagem, o canal pode permanecer fechado por todo o tempo, ou por quase todo o tempo, enquanto em outro nível de voltagem pode permanecer aberto por todo o tempo, ou por quase todo o tempo. Em voltagens intermediárias, como mostradas na figura, o canal tende a abrir e fechar subitamente de modo intermitente, resultando em fluxo médio da corrente que se situa entre os valores mínimo e máximo. Método da Fixação de Placa (Patch-Clamp) para Registrara Corrente lônica que Flui por Canal. Pode-se indagar como é possível registrar a corrente iônica que flui pelos canais proteicos, como mostrado na Figura 4- 6Â. Isso foi realizado pelo método da “fixação de placa” (patch-clamp), ilustrado na Figura 4-65. De forma muito simplificada, micropipeta com diâmetro de apenas 1 ou 2 micrômetros é colocada sobre a parte externa da membrana celular. Em seguida, é feita sucção pela pipeta para aspirar a membrana contra a ponta da pipeta. Isso cria uma selagem entre a ponta da pipeta e a membrana celular. O resultado é placa diminuta de membrana que se “fixa” na ponta da pipeta, por onde o fluxo de corrente elétrica pode ser registrado. Alternativamente, como mostrado à direita na Figura 4-65, a pequena placa de membrana celular na ponta da pipeta pode ser removida da célula. A pipeta com a placa selada é então colocada em solução livre. Isso permite que as voltagens dentro da micropipeta e na solução externa possam ser modificadas à vontade — isto é, a voltagem é “fixada” (clamped) em determinado valor. Foi possível a obtenção de placas suficientemente pequenas para conter só um canal único proteico na membrana a ser estudada. Por meio da variação da concentração de diferentes íons, bem como da voltagem através da membrana, pode-se determinar as características do transporte do canal isolado e também as propriedades de suas comportas. Difusão Facilitada A difusão facilitada é também conhecida como difusão mediada por transportador, porque a substância que é transportada por esse processo se difunde através da membrana usando uma proteína transportadora específica para auxiliar. Isto é, o transportador/ízd//ta a difusão da substância para o outro lado. w 0 0 o Q. E C O o o CL A “Placa” de membran a Canal de sódio abertc * m «WttA 1W iLuL* tiàÀfcu i Milissegundos Gravador Figura 4-64, Registro do fluxo de corrente por um canal de sódio, dependente da voltagem isolado, demonstrando o princípio "tudo ou nada" da abertura e do fechamento do canal. B, O método de “fixação de placas" {patch-clamp) para o registro do fluxo corrente por canal proteico isolado. À esquerda, o registro é realizado em “placa" da membrana celular viva. À direita, o registro é em placa de membrana retirada da célula. A difusão facilitada difere, de modo importante, da difusão simples pelo seguinte modo: apesar de a velocidade da difusão simples, através de um canal aberto, aumentar em proporção direta à concentração da substância difusora, na difusão facilitada a velocidade da difusão tende a um máximo, designado como Vmáx, à medida que a concentração da substância difusora aumenta. Essa diferença entre a difusão simples e a difusão facilitada é demonstrada na Figura 4-7. Essa figura mostra que, enquanto a concentração da substância difusora aumenta, a inten- 49 U N I D A
  • 72. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo sidade da difusão simples continua a aumentar proporcionalmente, mas na difusão facilitada a velocidade da difusão não pode aumentar acima do nível do V , . O que limita a velocidade da difusão facilitada? A resposta provável é o mecanismo ilustrado na Figura 4-8. Essa figura mostra a proteína transportadora com poro suficientemente grande para transportar a molécula específica por parte de seu trajeto. Mostra também um “receptor” de ligação na parte interna da proteína transportadora. A molécula a ser transportada entra no poro e se liga. Então, em fração de segundo, ocorre alteração conformacional ou química na proteína transportadora, de forma que o poro agora se abre para o lado oposto da membrana. Em razão da ligação do receptor ser fraca, a movimentação térmica da molécula ligada faz com que esta se separe e seja liberada no lado oposto da membrana. A velocidade com que moléculas podem ser trans- Figura 4-7 Efeito da concentração de substância sobre a velocidade de difusão através da membrana, por difusão simples e por difusão facilitada. A figura mostra que a difusão facilitada tende para uma velocidade máxima, chamada V .. r • max Molécula transportada Local de ligação mmm mmm mmm mmm Liberação da ligação Figura 4-8 Mecanismo postulado para a difusão facilitada. portadas por esse mecanismo nunca pode ser maior do que a velocidade com que a molécula de proteína transportadora pode se alterar entre suas duas conformações. Não obstante, note especificamente que esse mecanismo permite que a molécula transportada se mova — ou seja, “se difunda”— em qualquer direção através da membrana. Entre as substâncias mais importantes que atravessam a membrana das células por difusão facilitada estão a glicose e a maioria dos aminoácidos. No caso da glicose, pelo menos cinco moléculas transportadoras já foram descobertas em vários tecidos. Algumas delas podem também transportar vários outros monossacarídeos com estruturas semelhantes à da glicose, incluindo a galactose e a fru- tose. Uma delas, a molécula transportadora de glicose 4 (GLUT4), é ativada pela insulina, que pode aumentar em 10 a 20 vezes a velocidade da difusão facilitada da glicose nos tecidos sensíveis à insulina. Esse é o principal mecanismo pelo qual a insulina controla o uso da glicose pelo organismo, como discutido no Capítulo 78. Fatores Que Afetam a Velocidade Efetiva da Difusão Até agora, já ficou evidente que muitas substâncias podem se difundir através da membrana celular. O que em geral é mais importante é a velocidade efetiva da difusão da substância em determinada direção desejada. Essa velocidade efetiva é determinada por diversos fatores. A Intensidade da Difusão Efetiva É Proporcional à Diferença de Concentração através da Membrana. A Figura 4-9A mostra a membrana celular com a substância com maior concentração no lado externo e concentração mais baixa no lado interno. A velocidade com que a substância vai se difundir para o lado interno é proporcional à concentração das moléculas no lado externo, porque essa concentração determina quantas moléculas atingem a parte externa da membrana a cada segundo. Ao contrário, a velocidade com que as moléculas se difundem para o lado externo é proporcional à sua concentração no lado interno da membrana. Por essa razão, a velocidade efetiva da difusão para dentro da célula é proporcional à concentração externa menos a concentração interna, ou: Difusão efetiva (Ce - Q) onde Ce é a concentração externa e C . é a concentração interna. Efeito do Potencial Elétrico da Membrana sobre a Difusão dos íons — O "Potencial de Nernst”. Se um potencial elétrico for aplicado através da membrana, como mostrado na Figura 4-9B, a carga elétrica dos íons faz com que eles se movam através da membrana mesmo que não exista diferença de concentração para provocar esse movimento. Assim, no painel esquerdo da Figura 4-95, a concentração iônica negativa é a mesma em ambos os lados da membrana, mas aplicou-se carga 50
  • 73. Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares D Figura 4-9 Efeito da diferença de concentração (Á), diferença do potencial elétrico que afetam os íons negativos (fi), e da diferença de pressão (C) para causar a difusão das moléculas e íons através da membrana celular. positiva ao lado direito da membrana e carga negativa ao lado esquerdo, criando gradiente elétrico através da membrana. A carga positiva atrai os íons negativos, ao passo que a carga negativa os repele. Assim, a difusão efetiva ocorre da esquerda para a direita. Depois de algum tempo, grandes quantidades de íons negativos se moveram para a direita, criando a condição mostrada no painel direito da Figura 4-95, no qual se desenvolveu diferença da concentração iônica na direção oposta à diferença de potencial elétrico. Agora, a diferença de concentração tende a mover os íons para a esquerda, enquanto a diferença elétrica tende a movê-los para a direita. Quando a diferença da concentração aumenta o bastante, os dois efeitos se contrabalançam. Na temperatura normal do corpo (37°C), a diferença elétrica que vai contrabalançar dada diferença de concentração de íons univalentes — como íons sódio (Na+) — pode ser determinada pela fórmula a seguir, chamada equação de Nernst: FEM (em milivolts) = ± 61 log — C2 na qual FEM é a força eletromotriz (voltagem) entre o lado 1 e o lado 2 da membrana, Q é a concentração no lado 1, e C2 é a concentração no lado 2. Essa equação é extremamente importante para a compreensão da transmissão dos impulsos nervosos e é discutida com mais detalhes no Capítulo 5. Efeito da Diferença de Pressão Através da Membrana. Algumas vezes, diferenças consideráveis de pressão se desenvolvem entre os dois lados de membrana difusível. Isso ocorre por exemplo na membrana capilar sanguínea, em todos os tecidos do corpo. A pressão é de cerca de 20 mmHg, maior dentro do capilar do que fora. Pressão na verdade significa a soma de todas as forças das diferentes moléculas que se chocam com a determinada área de superfície em certo instante. Então, quando a pressão é maior em um lado da membrana do que no outro lado, isso significa que a soma de todas as forças das moléculas se chocando contra o canal em um lado da membrana é maior que do outro lado. Na maioria das vezes, isso é causado por grande número de moléculas se chocando a cada segundo com um dos lados da membrana do que no outro lado. O resultado é quantidade maior de energia disponível para causar o movimento efetivo das moléculas do lado de alta pressão para o lado de menor pressão. Esse efeito é demonstrado na Figura 4-9C, que mostra pistão desenvolvendo alta pressão de um lado do “poro” desse modo fazendo com que mais moléculas se choquem contra um lado do poro e assim mais moléculas “se difundam” para o outro lado. O > Osmose Através de Membranas Seletivamente Permeáveis — "Difusão Efetiva" de Água De longe, a substância mais abundante que se difunde através da membrana celular é a água. A água se difunde usualmente nas duas direções, através da membrana das hemácias, a cada segundo, em volume correspondente a cerca de 100 vezes 0 volume da própria célula. Todavia, nas condições normais, a quantidade que se difunde nas duas direções é tão precisamente balanceada que o movimento efetivo da água é zero. Consequentemente, o volume da célula permanece constante. Entretanto, sob certas circunstâncias, pode-se desenvolver diferença da concentração da água através da membrana, do mesmo modo como as diferenças de concentração podem ocorrer para outras substâncias. Quando isso ocorre, passa a existir movimento efetivo de água através da membrana celular, fazendo com que a célula inche ou encolha, dependendo da direção do movimento da água. Esse processo efetivo de movimento da água causado por sua diferença de concentração é denominado osmose. Para dar exemplo de osmose, vamos assumir as condições mostradas na Figura 4-10, com água pura de um lado da membrana celular e solução de cloreto de sódio do outro lado. As moléculas de água passam facilmente através da membrana celular para o outro lado, enquanto os íons sódio e cloreto só passam com dificuldade. Assim, a solução de cloreto de sódio é na verdade uma mistura de moléculas de água permeáveis e de íons sódio e cloreto não permeáveis, sendo a membrana tida como seletivamente permeável para a água, mas bem menos para os íons sódio e cloreto. Contudo, a presença do sódio e do cloreto deslocou parte das moléculas de água do lado da membrana, no qual estão presentes esses íons, e por con- 51 U N
  • 74. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Água Solução de NaCI Osmose Figura 4-10 A osmose na membrana celular, quando solução de cloreto de sódio é colocada em um lado da membrana e água é colocada do outro lado. seguinte reduziu a concentração de moléculas de água para menos do que a concentração da água pura. Como resultado, no exemplo da Figura 4-10, mais moléculas de água se chocam com os canais do lado esquerdo, onde está a água pura, do que do lado direito, onde a concentração de água foi reduzida. Dessa maneira, o movimento efetivo de água ocorre da esquerda para a direita — ou seja, ocorre osmose da água pura para a solução de cloreto de sódio. Pressão Osmótica Se na Figura 4-10 fosse aplicada pressão sobre a solução de cloreto de sódio, a osmose da água para essa solução poderia diminuir, parar, ou até mesmo se inverter. A quantidade exata de pressão necessária para interromper a osmose é conhecida como pressão osmótica da solução de cloreto de sódio. O princípio de diferença de pressão contrária à osmose é demonstrado na Figura 4-11, que mostra a membrana seletivamente permeável separando duas colunas de líquido, uma contendo água pura e a outra contendo a solução de água e qualquer soluto que não possa penetrar a membrana. A osmose de água da coluna B para a coluna A faz com que o nível do líquido nas colunas fique cada vez mais diferente até que eventualmente a diferença de pressão desenvolvida entre os dois lados da membrana seja suficientemente intensa para se opor ao efeito osmótico. A diferença de pressão através da membrana nesse ponto é igual à pressão osmótica da solução que contém o soluto não difusível. A Importância do Número das Partículas Osmóticas (Concentração Molar) na Determinação da Pressão Osmótica. A pressão osmótica exercida pelas partículas em solução, sejam elas moléculas ou íons, é determinada pelo número dessas partículas por unidade de volume de líquido, e não pela massa das partículas. A razão para isso é que cada partícula em solução, independentemente de sua massa, exerce em média a mesma quantidade de Membrana semipermeável 9 9 9 • Figura 4-11 Demonstração da pressão osmótica causada por osmose em membrana semipermeável. pressão contra a membrana. Isto é, partículas grandes com mais massa (m) do que as pequenas partículas se movem com velocidade menor (v). As partículas pequenas movem-se com maior velocidade, de modo tal que suas energias cinéticas médias (k) determinadas pela equação mv2 k =----- 2 são as mesmas para cada pequena partícula, bem como para cada partícula maior. Consequentemente, o fator que determina a pressão osmótica de uma solução é a concentração da solução em termos de número de partículas (que é o mesmo que a concentração molar, no caso de molécula não dissociada), e não em termos de massa do soluto. "Osmolalidade" — O Osmol. Para expressar a concentração da solução em termos do número de partículas, a unidade chamada osmol é usada no lugar de gramas. Um osmol é o peso de 1 molécula grama de soluto osmoticamente ativo. Desse modo, 180 gramas de glicose, que correspondem a 1 molécula grama de glicose, equivalem a 1 osmol de glicose porque a glicose não se dissocia em íons. Caso um soluto se dissocie em dois íons, 1 molécula grama desse soluto vai corresponder a 2 osmóis, porque o número de partículas osmoticamente ativas é agora duas vezes maior do que para o soluto não dissociado. Assim, quando totalmente dissociado, 1 molécula grama de cloreto de sódio, 58,5 gramas, é igual a 2 osmóis. Nesse caso, a solução que contém 1 osmol de soluto, dissolvido em cada quilograma de água, é conhecida por ter osmolalidade de 1 osmol por quilograma, e a solução com 1/1.000 osmol dissolvido por quilograma tem osmolalidade de 1 miliosmol por quilograma. A osmolalidade 52
  • 75. Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares normal dos líquidos extra e intracelular é de cerca de 300 miliosmois por quilograma de água. Relação entre a Osmolalidade e a Pressão Osmótica. Na temperatura normal do corpo, 37°C, a concentração de 1 osmol por litro vai causar 19.300 mmHg de pressão osmótica da solução. Da mesma maneira, a concentração de 1 miliosmol por litro é equivalente a 19,3 mmHg de pressão osmótica. Ao se multiplicar esse valor pela concentração de 300 miliosmois dos líquidos do corpo, obtém-se a pressão osmótica total dos líquidos corporais, calculada como sendo de 5.790 mmHg. O valor medido é, no entanto, em média de cerca de 5.500 mmHg. A razão para essa diferença é que muitos dos íons nos líquidos do corpo, como os íons sódio e cloreto, são muito atraídos uns pelos outros; consequentemente, eles não podem se mover de forma intimamente livre sem qualquer restrição nesses líquidos e gerar sua pressão osmótica potencial total. Por essa razão, em média, a pressão osmótica real dos líquidos corporais fica em cerca de 0,93 vez o valor calculado. O Termo "Osmolaridade". Osmolaridade é a concentração osmolar expressa em osmóis por litro de solução, em vez de osmóis por quilograma de água. Apesar de, em termos precisos, serem os osmóis por quilograma de água (osmolalidade) que determinam a pressão osmótica para soluções diluídas, como as existentes no corpo, a diferença quantitativa entre a osmolalidade e a osmolaridade é de menos de 1%. Em razão de ser bem mais prático medir a osmolaridade do que a osmolalidade, ela é mais utilizada na maioria dos estudos fisiológicos. “Transporte Ativo” de Substâncias através das Membranas Às vezes, é necessária grande concentração de uma substância no líquido intracelular, embora o líquido extrace- lular só a contenha em baixa concentração. Isso é válido, por exemplo, para os íons potássio. De modo contrário, é importante manter baixas concentrações de outros íons dentro das células, mesmo que sua concentração no líquido extracelular seja alta. Isto é especialmente válido para os íons sódio. Nenhum desses dois efeitos pode ocorrer por difusão simples, porque a difusão simples com o passar do tempo equilibra a concentração nos dois lados da membrana. Assim, alguma fonte de energia deve causar maior deslocamento dos íons potássio para o interior da célula e deslocamento mais intenso dos íons sódio para fora das células. Quando a membrana celular transporta as moléculas ou íons “para cima” contra um gradiente de concentração (ou “para cima”, contra um gradiente elétrico ou de pressão), o processo é chamado de transporte ativo. As diversas substâncias que são ativamente transportadas através das membranas de pelo menos algumas células incluem muitos íons (sódio, potássio, cálcio, ferro, hidrogênio, cloreto, urato), vários açúcares diferentes e a maioria dos aminoácidos. Transporte Ativo Primário e Transporte Ativo Secundário. O transporte ativo é dividido em dois tipos, de acordo com a fonte de energia usada para causar o transporte: o transporte ativo primário e o transporte ativo secundário. No transporte ativo primário, a energia é derivada diretamente da degradação do trifosfato de adenosina (ATP) ou de qualquer outro composto de fosfato com alta energia. No transporte ativo secundário, a energia é derivada secundariamente da energia armazenada na forma de diferentes concentrações iônicas de substâncias moleculares secundárias ou iônicas entre os dois lados da membrana da célula, gerada originaria- mente por transporte ativo primário. Nos dois casos, o transporte depende de proteínas transportadoras que penetram por toda a membrana celular, como ocorre na difusão facilitada. Entretanto, no transporte ativo, as proteínas transportadoras funcionam de modo distinto das da difusão facilitada, pois são capazes de transferir energia para a substância transportada para movê-la contra o gradiente eletroquímico. A seguir, estão alguns exemplos de transporte ativo primário e transporte ativo secundário, com explanações mais detalhadas dos seus princípios de funcionamento. Transporte Ativo Primário Bomba de Sódio-Potássio Entre as substâncias que são transportadas por transporte ativo primário estão o sódio, o potássio, o cálcio, o hidrogênio, o cloreto e alguns outros íons. O mecanismo de transporte ativo mais estudado em seus detalhes é a bomba de sódio-potássio (.Na+-K+), processo de transporte que bombeia íons sódio para fora, através da membrana celular de todas as células, e ao mesmo tempo bombeia íons potássio de fora para dentro. Essa bomba é a responsável pela manutenção das diferenças de concentração entre o sódio e o potássio através da membrana celular, bem como pelo estabelecimento da voltagem elétrica negativa dentro das células. De fato, o Capítulo 5 mostra que essa bomba é também a base para a função nervosa, transmitindo sinais nervosos por todo o sistema nervoso. A Figura 4-12 mostra os componentes físicos básicos da bomba de Na+-I<+. A proteína transportadora é complexo de duas proteínas globulares distintas: a maior é chamada subunidade a, com peso molecular em torno de 100.000, e a menor é chamada subunidade (3, com peso molecular em torno de 55.000. Apesar de a função da proteína menor não ser conhecida (a não ser que talvez fixe esse complexo proteico à membrana lipídica), a maior proteína (subunidade a) apresenta três características específicas, importantes para o funcionamento da bomba: 1. Ela contém três locais receptores para a ligação de íons sódio na porção da proteína que se projeta para dentro da célula. 2. Ela contém dois locais receptores para os íons potássio na sua porção externa. 53
  • 76. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Figura 4-12 Mecanismo postulado para a bomba de sódio-po- tássio. ADP, difosfato de adenosina; ATP, trifosfato de adenosina; Pi, íon fosfato. 3. A porção interna dessa proteína, perto do local de ligação do sódio, tem atividade ATPase. Quando dois íons potássio se ligam à parte externa da proteína transportadora e três íons sódio se ligam à parte interna, a função de ATPase da proteína é ativada. Isso então cliva uma molécula de ATP, dividindo-a em difosfato de adenosina (ADP) e liberando uma ligação fosfato de alta energia. Acredita-se que essa energia liberada cause alteração química e conformacional da molécula da proteína transportadora, extrudando os três íons sódio para fora e os dois íons potássio para dentro. Assim como outras enzimas, a bomba de Na+-I<+ ATPase pode funcionar de forma inversa. Caso os gradientes eletroquímicos para o Na+ e o I<+ sejam experimentalmente aumentados o suficiente, de forma tal que a energia armazenada em seus gradientes seja maior que a energia química da hidrólise da ATP, esses íons vão reduzir seus gradientes de concentrações e a bomba de Na+-I<+ vai sintetizar o ATP a partir do ADP e do fosfato. A forma fosforilada da bomba de Na+-I<+, por conseguinte, pode tanto doar seu fosfato para o ADP para produzir ATP quanto usar a energia para mudar sua estrutura e bombear o Na+ para fora da célula e o I<+ para dentro da célula. As concentrações relativas de ATP, ADP e fosfato, assim como os gradientes eletroquímicos de Na+ e K+, determinam a direção da reação das enzimas. Para algumas células, como as células nervosas eletricamente ativas, 60% a 70% das necessidades de energia das células talvez sejam direcionados para bombear o Na+ para fora da célula, e o K+ para dentro. A Bomba de Na+ -K+ É Importante para o Controle do Volume Celular. Uma das mais importantes funções da bomba de Na+-I<+ é controlar o volume de cada célula. Sem a função dessa bomba, a maioria das células do corpo incharia até estourar. O mecanismo para controlar o volume celular é o seguinte: dentro da célula, existe grande número de proteínas e de outras moléculas orgânicas que não podem sair das células. Em sua maioria tem carga negativa, atraindo grande número de potássio, sódio e outros íons positivos. Todas essas moléculas e íons vão provocar a osmose de água para o interior da célula. A menos que essa osmose seja interrompida, a célula irá inchar até estourar. O mecanismo normal para impedir que isso ocorra é o da bomba de Na+-I<+. Note de novo que esse mecanismo bombeia três íons Na+ para fora da célula a cada dois íons de K+ que são bombeados para o interior da célula. A membrana também é bem menos permeável aos íons e sódio do que aos íons potássio; desse modo, uma vez que os íons sódio estão do lado de fora, eles apresentam forte tendência a permanecerem ali. Portanto, isso representa perda real de íons para fora da célula, o que inicia a osmose da água para fora da célula. Caso a célula comece a inchar por alguma razão, isso automaticamente ativa a bomba de Na+-I<+, transferindo ainda mais íons para fora da célula e, consequentemente, carregando mais água com eles. Por essa razão, a bomba de Na+-I<+exerce o papel de vigilância contínua para manter o volume normal da célula. Natureza Eletrogênica da Bomba de Na+ -K+ . O fato de a bomba de Na+-K+ transferir três íons Na+ para o exterior da célula e ao mesmo tempo dois íons K+ para o seu interior significa que na realidade apenas uma carga positiva é transportada do interior da célula para o exterior, a cada ciclo da bomba. Isso resulta em positividade do lado externo da célula, mas cria déficit interno de íons positivos. Consequentemente, diz-se que o bombeamento de Na+-K+ é eletrogênico por produzir potencial elétrico através da membrana celular. Como discutido no Capítulo 5, esse potencial elétrico é requisito básico nas fibras musculares e nervosas para a transmissão dos sinais musculares e nervosos. Transporte Ativo Primário dos íons Cálcio Outro mecanismo importante de transporte ativo primário é o da bomba de cálcio. Os íons cálcio são nas condições normais mantidos em concentração extremamente baixa no citosol intracelular de virtualmente todas as células do corpo, concentração essa que é cerca de 10.0 vezes menor do que existe no líquido extracelular. Essa situação resulta em grande parte do transporte ativo primário por duas bombas de cálcio. Uma está na membrana celular, transportando cálcio para o exterior. A outra bombeia os íons cálcio para dentro de uma ou mais orga- nelas vesiculares intracelulares da célula, como o retículo sarcoplasmático das células musculares e as mitocôndrias de todas as células. Em cada um desses casos, a proteína transportadora atravessa a membrana e atua como enzima ATPase, tendo a mesma capacidade de clivar o ATP como a ATPase da proteína transportadora do sódio. A diferença é que essa proteína contém local de ligação extremamente específico para o cálcio, em vez de para o sódio. Transporte Ativo Primário dos íons Hidrogênio Em dois locais do corpo, o transporte ativo primário dos íons hidrogênio é importante: (1) nas glândulas gástricas do estômago e (2) nos túbulos distais finais e nos duetos coletores corticais dos rins. 54
  • 77. Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares Nas glândulas gástricas, as células parietais das camadas mais profundas apresentam o mecanismo ativo primário mais potente para transportar os íons hidrogênio de qualquer parte do corpo. Ele é a base para a secreção de ácido clorídrico das secreções digestivas do estômago. Nas extremidades secretoras das células parietais da glândula gástrica, a concentração de íons hidrogênio aumenta por até um milhão de vezes, sendo então liberada no estômago, junto com íons cloreto, para formar o ácido clorídrico. Nos túbulos renais existem células intercaladas especiais, nos túbulos distais finais e nos duetos coletores corticais que também transportam íons hidrogênio por transporte ativo primário. Nesse caso, grandes quantidades de íons hidrogênio são secretadas do sangue para a urina, para promover a eliminação do excesso de íons hidrogênio dos líquidos corporais. Os íons hidrogênio podem ser secretados na urina contra gradiente de concentração de cerca de 900 vezes. Energética do Transporte Ativo Primário A quantidade de energia necessária para transportar ativamente a substância através da membrana é determinada pela concentração da substância durante o transporte. Comparada com a energia necessária para concentrar a substância por 10 vezes, para poder concentrá-la em 100 vezes será preciso duas vezes mais energia, e para concentrá-la 1.000 vezes será preciso três vezes mais energia. Em outras palavras, a energia necessária é proporcional ao logaritmo do grau de concentração da substância, como expresso pela seguinte fórmula: Ci Energia (em calorias por osmol) = 1.400 log — C2 Desse modo, em termos de calorias, a quantidade de energia necessária para concentrar 1 osmol de uma substância por 10 vezes é de cerca de 1.400 calorias; para concentrá-la por 100 vezes, 2.800 calorias. Pode-se notar que o consumo de energia para concentrar substâncias no interior das células ou para remover substâncias das células contra o gradiente de concentração pode ser muito grande. Algumas células, como as que revestem os túbulos renais e várias outras células glandulares, consomem, apenas para essas atividades, cerca de 90% de sua energia. Transporte Ativo Secundário — Cotransporte e Contratransporte Quando o sódio é transportado para fora da célula, por transporte ativo primário, em geral cria-se grande gradiente de concentração dos íons sódio, através da membrana celular — alta concentração fora da célula e concentração interna muito baixa. Esse gradiente representa reservatório de energia porque o excesso de sódio, do lado de fora da membrana celular, está sempre tentando se difundir para o interior. Sob condições apropriadas, essa energia da difusão do sódio pode empurrar outras substâncias, junto com o sódio, através da membrana celular. Esse fenômeno é referido como cotransporte-, é forma de transporte ativo secundário. Para o sódio levar consigo outras substâncias, é necessário um mecanismo de ligação. Esse mecanismo é realizado por meio de outra proteína transportadora na membrana celular. O transportador, neste caso, atua como local de ligação para o íon sódio e para a substância a ser cotransportada. Uma vez que ambos estejam ligados, o gradiente de energia do íon sódio faz com que o íon sódio e a outra substância a ser transportada entrem para o interior da célula. No contratransporte, os íons sódio tentam outra vez se difundir para o interior da célula devido a seu grande gradiente de concentração. Entretanto, dessa vez a substância a ser transportada está na parte interna da célula e deve ser transportada para o lado externo. Por essa razão, o íon sódio se liga à proteína transportadora onde se projeta para o exterior da membrana, enquanto a substância a ser contratransportada se liga à projeção da proteína transportadora no interior da célula. Uma vez que ambos já se ligaram, ocorre alteração conformacional, e a energia liberada pelo sódio, em sua difusão para dentro da célula, faz com que a outra substância seja transportada para o exterior. Cotransporte de Glicose e Aminoácidos junto com os íons Sódio A glicose e muitos aminoácidos são transportados para dentro das células contra grandes gradientes de concentração; o mecanismo para isso é em sua totalidade o de cotransporte, como mostra a Figura 4-13. Note que a proteína transportadora tem dois locais de ligação em seu lado externo, um para o sódio e outro para a glicose. Também, a concentração dos íons sódio é muito alta no lado externo e muito baixa no lado interno da membrana, o que fornece energia para o transporte. Uma propriedade especial da proteína transportadora é que a alteração conformacional, para permitir que o sódio se movimente para o interior, não ocorre até que a molécula da glicose também se ligue. Quando ambos estão ligados, a alteração conformacional se dá de forma automática, com o sódio e a glicose sendo transportados para o interior da Na+ Glicose Figura 4-13 Mecanismo postulado para o cotransporte de sódio- glicose. 55
  • 78. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo célula ao mesmo tempo. Por isso, esse é o mecanismo de cotransporte sódio-glicose. Cotransportadores de sódio- glicose são mecanismos especialmente importantes no transporte da glicose através do epitélio de células renais e intestinais, como discutido nos Capítulos 27 e 65. O cotransporte de sódio dos aminoácidos ocorre da mesma maneira que para a glicose, exceto pelo fato de que dele participa conjunto diferente de proteínas transportadoras. Até o presente, já foram identificadas cinco proteínas transportadoras de aminoácidos, cada uma delas sendo responsável pelo transporte de subgrupo de aminoácidos com características moleculares específicas. O cotransporte do sódio da glicose e dos aminoácidos ocorre de modo especial nas células epiteliais do trato intestinal e dos túbulos renais, para promover a absorção dessas substâncias pelo sangue, como discutido em capítulos adiante. Outro importante mecanismo de cotransporte em pelo menos algumas células inclui o cotransporte dos íons cloreto, íons iodo, íons ferro e íons urato. Contratransporte de Sódio e dos íons Cálcio e Hidrogênio Dois importantes mecanismos de contratransporte (transporte na direção oposta à do íon primário) são os con- tratransportes de sódio-cálcio e de sódio-hidrogênio (Fig. 4-14). O contratransporte de sódio-cálcio ocorre através de todas ou quase todas as membranas celulares, com os íons sódio se movendo para o interior e os íons cálcio para o exterior, ambos ligados à mesma proteína transportadora no modo de contratransporte. Isso acontece em adição ao transporte ativo primário de cálcio que ocorre em algumas células. O contratransporte de sódio-hidrogênio ocorre em vários tecidos. Exemplo especialmente importante é o que ocorre nos túbulos proximais dos rins, onde os íons sódio se movem do lúmen dos túbulos para o interior da célula tubular, enquanto os íons hidrogênio são contratranspor- tados para o lúmen dos túbulos. Como mecanismo para concentrar os íons hidrogênio, o contratransporte sódio- hidrogênio é bem menos potente que o transporte ativo primário dos íons hidrogênio pelos túbulos renais mais distais que é extremamente potente, mas pode transportar quantidade muito grande de íons hidrogênio, sendo Figura 4-14 Contratransporte dependente de sódio de íons de cálcio e hidrogênio. assim etapa importante no controle dos íons hidrogênio nos líquidos corporais, como discutido em detalhes no Capítulo 30. Transporte Ativo Através das Camadas Celulares Em vários locais do corpo, as substâncias devem ser transportadas através de toda a espessura das camadas de células, em vez de simplesmente através da membrana celular. Esse tipo de transporte ocorre através dos epité- lios (1) intestinal, (2) tubular renal, (3) de todas as glândulas exócrinas, (4) da vesícula biliar e (5) da membrana do plexo coroide do cérebro e de outras membranas. O mecanismo básico de transporte de uma substância através da camada celular é (1) transporte ativo através da membrana celular de um lado das células transportadoras nas camadas e, então, (2) difusão simples ou difusão facilitada através da membrana no lado oposto da célula. A Figura 4-15 mostra o mecanismo para o transporte dos íons sódio através da camada epitelial dos intestinos, da vesícula biliar e dos túbulos renais. Essa figura mostra que as células epiteliais são fortemente conectadas perto de seus polos luminais, por meio de junções chamadas “beijos”. A borda em escova da superfície luminal das células é permeável tanto aos íons sódio quanto à água. Assim, o sódio e a água se difundem prontamente do lúmen para o interior da célula. Então, nas membranas basais e laterais da célula, os íons sódio são ativamente transportados para o líquido extracelular do tecido con- juntivo circundante e para os vasos sanguíneos. Isso cria forte gradiente de concentração para os íons sódio através dessas membranas, que por sua vez provoca osmose da água. Desse modo, o transporte ativo dos íons sódio, pelas superfícies basolaterais das células epiteliais, resulta em transporte não apenas dos íons sódio mas também da água. Esses são os mecanismos pelos quais a maioria dos nutrientes, dos íons e de outras substâncias é absorvida para o sangue pelo intestino; eles também são o modo como as mesmas substâncias são reabsorvidas do filtrado glomerular pelos túbulos renais. Borda em Membrana escova basal Figura 4-15 Mecanismo básico do transporte ativo através de camadas celulares. 56
  • 79. Capítulo 4 O Transporte de Substâncias através das Membranas Celulares Por todo este texto, existem vários exemplos dos diferentes tipos de transporte discutidos neste capítulo. Referências Agre P, Kozono D: Aquaporin water channels: molecular mechanisms for human diseases, FEBS Lett 555:72,2003. Ashcroft FM: From molecule to malady, Nature 440:440, 2006. Benos DJ, Stanton BA: Functional domains within the degenerin/epithe- lial sodium channel (Deg/ENaC) superfamily of ion channels,J Physiol 520:631, 1999. Benziane B, Chibalin AV: Frontiers: skeletal muscle sodium pump regulation: a translocation paradigm, AmJ Physiol Endocrinol Metab 295:E553,2008. Biel M, Wahl-Schott C, Michalakis S, Zong X: Hyperpolarization-activated cation channels: from genes to function, Physiol Rev 89:847, 2009. Blaustein MP, Zhang J, Chen L, et al:The pump, the exchanger, and endoge- nous ouabain: signaling mechanisms that link salt retention to hyper- tension, Hypertension 53:291, 2009. Brõer S:Amino acid transport across mammalian intestinal and renal epi- thelia, Physiol Rev 88:249,2008. DeCoursey TE: Voltage-gated proton channels: what's next? J Physiol 586:5305, 2008. Decoursey TE: Voltage-gated proton channels and other proton transfer pathways, Physiol Rev 83:475, 2003. DiPolo R, Beaugé L: Sodium/calcium exchanger: influence of metabolic regulation on ion carrier interactions, Physiol Rev 86:155, 2006. Drummond HAJernigan NL, Grifoni SC: Sensingtension:epithelial sodium channel/acid-sensing ion channel proteins in cardiovascular homeosta- sis, Hypertension 51:1265,2008. Gadsby DC: Ion channels versus ion pumps: the principal difference, in principie, NatRevMol Cell Biol 10:344, 2009. JentschTJ, SteinV.Weinreich F, ZdebikAA: Molecularstructure and physio- logical function of chloride channels, Physiol Rev 82:503, 2002. Kaupp UB, Seifert R: Cyclic nucleotide-gated ion channels, Physiol Rev 82:769, 2002. King LS, Kozono D, Agre P: From structure to disease: the evolving tale of aquaporin biology, NatRevMol Cell Biol 5:687, 2004. Kleyman TR, Carattino MD, Hughey RP: ENaC at the cutting edge: regulation of epithelial sodium channels by proteases,JBiol Chem 284:20447, 2009. Mazzochi C, Benos DJ, Smith PR: Interaction of epithelial ion channels with the actin-based cytoskeleton, Am J Physiol Renal Physiol 291 :F1113, 2006. Peres A, Giovannardi S, Bossi E, Fesce R: Electrophysiological insights into the mechanism of ion-coupled cotransporters, News Physiol Sei 19:80, 2004. Russell JM: Sodium-potassium-chloride cotransport, Physiol Rev 80:211, 2000. Shin JM, Munson K, Vagin O, Sachs G: The gastric HK-ATPase: structure, function, and inhibition, Pflugers Arch 457:609, 2009. Tian J, Xie ZJ: The Na-K-ATPase and calcium-signaling microdomains, Physiology (Bethesda) 23:205, 2008. 57
  • 81. CAPITULO 5 O > Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação Existem potenciais elétricos através das membranas de praticamente todas as cé- lulas do corpo. Além disso, algumas células, como as células nervosas e as dos músculos, são capazes de gerar impulsos eletroquímicos que se modificam com grande rapidez em suas membranas, e esses impulsos são usados para transmitir sinais por toda a membrana dos nervos e músculos. Ainda, em outros tipos de célu- las, como por exemplo as células glandulares, os macró- fagos e as células ciliadas, alterações locais dos potenciais de membrana também ativam muitas funções celulares. A presente discussão é sobre os potenciais de membrana gerados tanto durante o repouso quanto durante a ativi- dade das células nervosas e musculares. Física Básica dos Potenciais de Membrana Potenciais de Membrana Causados pela Difusão "Potencial de Difusão" Causado pela Diferença entre as Concentrações lônicas nas Duas Faces da Membrana. Na Figura 5-1A, a concentração de potássio é maior na face interna da membrana da fibra nervosa, mas bastante baixa na sua face externa. Vamos então assumir que a membrana nesse instante é permeável aos íons potássio e a mais nenhum outro íon. Por causa do alto gradiente de concentração do potássio, de dentro para fora, existe forte tendência para que maior número de íons potássio se difunda para fora através da membrana. Quando o fazem, eles levam cargas elétricas positivas para o exterior, criando assim eletropositividade da face externa da membrana e eletronegatividade na interna, por causa dos ânions negativos que permanecem no interior, não se difundindo para fora com o potássio. Em cerca de um milissegundo, a diferença de potencial entre as partes interna e externa, chamada potencial de difusão, passa a ser suficientemente grande para bloquear a difusão efetiva do potássio para o exterior, apesar do alto gradiente de concentração dos íons potássio. Nas fibras nervosas normais de mamíferos, a diferença necessária de poten cial é de cerca de 94 milivolts, com negatividade na face interna da membrana. A Figura 5-15 mostra o mesmo fenômeno que a Figura 5-1 A, só que dessa vez com alta concentração de íons sódio fora da membrana e baixa quantidade de sódio dentro. Esses íons têm também carga positiva. Nesse instante, a membrana é muito permeável aos íons sódio, mas impermeável a todos os outros íons. A difusão dos íons sódio positivamente carregados para a parte interna cria potencial de membrana com polaridade oposta à da Figura 5-L4, com negatividade externa e positividade interna. Novamente, o potencial de membrana aumenta o suficiente, dentro de milissegundos, para bloquear a difusão efetiva dos íons sódio para dentro; entretanto a esse tempo nas fibras nervosas de mamíferos, o potencial fica em torno de 61 milivolts, positivo dentro da fibra. Desse modo, nas duas partes da Figura 5-1, vê-se que as diferenças entre as concentrações iônicas nos dois lados de membrana seletivamente permeável podem, sob condições apropriadas, criar potencial de membrana. Nas seções seguintes deste capítulo, mostraremos que POTENCIAIS DE DIFUSÃO (Ânions)" Fibra nervosa (Ânions)" Fibra nervosa (Ânions)- + + * (Ânions) + - + - + + VHÀA + - + - K+ K+ Na+ Na+ :+ + «S _ X + - + - + — —+ - + + - (-94 mV) + (+61 mV) + - + - -+ - + + - + - -+ - + + - A B Figura 5-1 A, O estabelecimento do potencial de "difusão” através da membrana da fibra nervosa causado pela difusão dos íons potássio de dentro da célula para fora, através da membrana que só é seletivamente permeável ao potássio. B, O estabelecimento do "potencial de difusão” quando a membrana da fibra nervosa só é permeável aos íons sódio. Note que o potencial de membrana interno é negativo quando os íons potássio se difundem e positivo quando os íons sódio se difundem, em razão dos gradientes de concentração opostos desses dois íons. 59
  • 82. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo muitas variações rápidas dos potenciais de membrana, durante a transmissão dos impulsos nervosos e musculares, resultam da ocorrência dessas rápidas variações dos potenciais de difusão. Relação do Potencial de Difusão com a Diferença de Concentração — O Potencial de Nernst. O valor do potencial de difusão, em toda a membrana, que se opõe exatamente ao da difusão efetiva de um íon em particular através da membrana é conhecido como potencial de Nernst para esse íon, termo já introduzido no Capítulo 4. A grandeza desse potencial de Nernst é determinada pela proporção entre as concentrações desse íon específico nos dois lados da membrana. Quanto maior essa proporção, maior será a tendência para que o íon se difunda em uma direção, e, por conseguinte, maior o potencial de Nernst necessário para evitar difusão efetiva adicional. A equação a seguir, chamada equação de Nernst, pode ser usada para o cálculo do potencial de Nernst para qualquer íon univalente na temperatura normal do corpo de 98,6°F (37°C): ... u. x , . Concentração interna FEM (milivolts) = ± 61 x log ------------- ----------- Concentração externa onde FEM é a força eletromotriz. Quando se usa essa fórmula, assume-se em geral que o potencial no líquido extracelular, por fora da membrana, permanece no potencial zero, e o potencial de Nernst é o potencial no lado interno da membrana. Também o sinal do potencial é positivo (+) se o íon, difundindo-se de dentro para fora, for íon negativo, e negativo (-) se o íon for positivo. Dessa maneira, quando a concentração dos íons positivos de potássio na parte interna for 10 vezes maior que na parte externa, o log de 10 é 1, de modo que o potencial de Nernst é calculado como -61 milivolts no lado interno da membrana. Cálculo do Potencial de Difusão Quando a Membrana É Permeável a Vários íons Diferentes Quando a membrana é permeável a vários íons diferentes, o potencial de difusão que se desenvolve depende de três fatores: (1) a polaridade das cargas elétricas de cada íon, (2) a permeabilidade da membrana (P) para cada íon, e (3) as concentrações (C) dos respectivos íons no lado interno (i) e no lado externo (e) da membrana. Assim, a seguinte fórmula, referida como equação de Goldman, ou como equação de Goldman-Hodgkin-Katz, dá o potencial calculado do lado interno da membrana quando dois íons positivos univalentes, sódio (Na+) e potássio (K+), e um íon univalente negativo, cloreto (Cl-), estão envolvidos. FEM (milivolts) C NaV> Na+ +Q/*V +Ca~0 P CT = -61 x log ------------------------------ CNao^Na+ + Qo*V +Ql7^Ct“ Vamos estudar a importância e o significado dessa equação. Primeiro, os íons sódio, potássio e cloreto são os íons mais importantes envolvidos no desenvolvimento dos potenciais de membrana nas fibras musculares e nervosas, bem como nas células neuronais do sistema nervoso. O gradiente de concentração de cada um desses íons, através da membrana, ajuda a determinar a voltagem do potencial de membrana. Segundo, o grau de importância de cada um desses íons na determinação da voltagem é proporcional à permeabilidade da membrana para cada íon em particular. Isto é, se a membrana tiver permeabilidade zero para os íons potássio e cloreto, o potencial de membrana passa a ser totalmente dominado pelo gradiente de concentração dos íons sódio, e o potencial resultante será igual ao potencial de Nernst para o sódio. O mesmo acontece para cada um dos outros dois íons, se a membrana só for seletivamente permeável para um ou para outro. Terceiro, gradiente positivo de concentração iônica de dentro para fora da membrana causa eletronegatividade no lado de dentro da membrana. A razão para isso é que o excesso de íons positivos se difunde de fora quando sua concentração é maior dentro do que fora. Isso leva cargas positivas para fora, mas deixa os ânions negativos não difusíveis na parte interna, criando assim eletronegatividade na parte interna. O efeito oposto ocorre quando existe gradiente para íon negativo. Isto é, o gradiente de íon cloreto, da parte externa para a parte interna, causa eletronegatividade dentro da célula porque o íon cloreto, com cargas negativas, se difunde para dentro, deixando os íons positivos não difusíveis do lado de fora. Quarto, como explicado adiante, a permeabilidade dos canais de sódio e potássio passa por rápidas alterações durante a transmissão dos impulsos nervosos, enquanto a permeabilidade dos canais de cloreto não tem grandes alterações durante esse processo. Assim, rápidas alterações da permeabilidade do sódio e do potássio são primariamente responsáveis pela transmissão de sinais nos neurônios, o que é o objeto do restante deste capítulo. Medida do Potencial de Membrana O método para medir o potencial de membrana é simples na teoria mas em geral complicado na prática, em razão das pequenas dimensões da maioria das fibras. A Figura 5- 2 mostra pequena pipeta cheia com solução eletrolítica. A pipeta é introduzida através da membrana celular para 0 interior da fibra. Então, outro eletródio, chamado “ele- tródio indiferente” é colocado no líquido extracelular, e a diferença potencial entre as partes interna e externa da fibra é medida usando-se voltímetro apropriado. Esse vol- tímetro é aparelho eletrônico altamente sofisticado capaz de medir voltagens muito pequenas, apesar da resistência extremamente alta ao fluxo elétrico da ponta da micropi- peta, com um lúmen de diâmetro geralmente menor que 1 micrômetro e resistência maior que 1 milhão de ohms. Para registrar as rápidas alterações do potencial de membrana durante a transmissão dos impulsos nervosos, o microeletródio é conectado a osciloscópio, como explicado adiante neste capítulo. 60
  • 83. A parte inferior da Figura 5-2 mostra o potencial elétrico que é medido em cada ponto ou próximo da membrana da fibra nervosa, começando do lado esquerdo da figura e passando para o direito. Enquanto o eletródio está na face externa da membrana, o registro do potencial é zero, que é o potencial do líquido extracelular. Então, conforme o eletródio registrador passa através da área de variação da voltagem na membrana celular (chamada camada do dipolo elétrico), o potencial diminui abruptamente para -90 milivolts. Ao se mover o microeletródio para o centro da fibra, o potencial permanece no nível constante de -90 milivolts, mas volta de novo a zero no instante em que passa através da membrana para o lado oposto da fibra. Para criar um potencial negativo no lado interno da membrana, só devem ser transportados para o exterior suficientes íons positivos para desenvolver a camada do dipolo elétrico na própria membrana. Todos os íons que permanecem dentro da fibra nervosa podem ser positivos ou negativos, como mostra o painel superior da Figura 5-3. Por essa razão, número inacreditavelmente pequeno Figura 5-2 Medida do potencial de membrana da fibra nervosa usando um microeletrodo. Fibra nervosa + - + + — + - + — + + - + + - + + — + - + — + + - + + _ + + — + - + — + + - + + - + + — + - + — + + - + + - + + — + - + — + + - + Figura 5-3 A distribuição dos íons com cargas positivas e negativas no líquido extracelular em volta da fibra nervosa e no líquido dentro da fibra; observe o alinhamento das cargas negativas ao longo da superfície interna da membrana e das cargas positivas pela superfície externa. O painel inferior mostra as alterações abruptas no potencial de membrana que ocorrem nas membranas nos dois lados da fibra. Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação de íons precisa ser transferido através da membrana para estabelecer o “potencial de repouso” normal de -90 milivolts dentro da fibra nervosa; isso significa que somente 1/3.000.000 a 1/100.000.000 da carga positiva total dentro da fibra precisa ser transferido. Também, número igualmente pequeno de íons positivos, movendo-se de fora para dentro da fibra pode inverter o potencial de -90 milivolts para o máximo de +35 milivolts, dentro de apenas 1/10.000 de segundo. A rápida alternância de íons, dessa maneira, causa os sinais nervosos discutidos nas seções seguintes deste capítulo. Potencial de Repouso das Membranas dos Nervos O potencial de repouso das membranas das fibras nervosas mais calibrosas, quando não estão transmitindo sinais nervosos, é de cerca de -90 milivolts. Isto é, o potencial dentro da fibra é 90 milivolts mais negativo do que o potencial no líquido extracelular, do lado de fora da fibra. Nos próximos parágrafos, iremos explicar todos os fatores que determinam esse nível do potencial de repouso mas, antes disso, precisamos descrever as propriedades de transporte da membrana nervosa em repouso para o sódio e para o potássio e explicar os fatores que determinam o valor do potencial de repouso. Transporte Ativo dos íons Sódio e Potássio Através da Membrana — A Bomba de Sódio-Potássio (Na+ -K+ ). Primeiro, vamos recordar do Capítulo 4 que todas as membranas celulares do corpo contêm potente bomba de Na+-I<+ que transporta continuamente íons sódio para fora da célula, e íons potássio para dentro da célula, como ilustrado no lado esquerdo na Figura 5-4. Além disso, note que essa é uma bomba eletrogênica porque mais cargas positivas são bombeadas para fora que para dentro (três íons Na+para fora, a cada dois íons K+ para dentro), deixando déficit real de íons positivos na parte de dentro; isso gera o potencial negativo, no lado de dentro das membranas celulares. Exterior 3Na+ 2K+ Na+ K+ Canais de “vazamento” K+ Figura 5-4 Características funcionais da bomba de Na+ -K+ e os canais de "vasamento" de K+ . ADP, difosfato de adenosina; ATP, tri- fosfato de adenosina. Os canais de "vasamento" de K+ também se ligam aos canais de vasamento de Na+ . 61
  • 84. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo A bomba de Na+-I<+ produz também grande gradiente de concentração para o sódio e para o potássio, através da membrana nervosa em repouso. Esses gradientes são os seguintes: Na+ (externo): 142 mEq/L Na+ (interno): 14 mEq/L K+ (externo): 4 mEq/L K+ (interno): 140 mEq/L As proporções entre esses dois íons respectivos, de dentro para fora, são: Na4 /Na+ - n 1 Na+ K+ 142 mEq/L 4 mEq/L —C^— Na+ 14 mEq/L (+61 mV) oooo K+ 140 mEq/L (-94 mV) K+ ., /K+ w = 35,0 interno externo Vazamento do Potássio e do Sódio, através da Membrana Nervosa. A parte direita da Figura 5-4 mostra a proteína de canal, algumas vezes conhecida por “domínio de duplo poro”, canal de potássio ou canal de “vazamento” de potássio (K+), na fibra nervosa, por onde o potássio pode vazar mesmo na célula em repouso. A estrutura básica dos canais de potássio foi descrita no Capítulo 4 (Fig. 4-4). Esses canais de vazamento de I<+ podem também vazar quantidades mínimas de íons sódio, mas são muito mais permeáveis aos íons potássio que aos íons sódio, nas condições normais, cerca de 100 vezes mais permeáveis. Como discutido adiante, esse diferencial na permeabilidade é um fator-chave na determinação do nível do potencial de repouso normal da membrana. Origem do Potencial de Repouso Normal da Membrana A Figura 5-5 mostra os fatores importantes para o estabelecimento do potencial de repouso normal da membrana em -90 milivolts. Eles são descritos a seguir. Contribuição do Potencial de Difusão do Potássio. Na Figura 5-5A, admite-se que o único movimento iônico através da membrana é o de difusão dos íons potássio, como demonstrado pelos canais abertos entre os símbolos de potássio (K+) dentro e fora da membrana. Devido à alta proporção dos íons potássio dentro e fora, 35:1, o potencial de Nernst correspondente a essa proporção é de -94 milivolts, porque o logaritmo de 35 é 1,54 que, multiplicado por -61 milivolts, resulta em -94 milivolts. Portanto, se os íons potássio fossem os únicos fatores causadores do potencial de repouso, o potencial de repouso, dentro da fibra, seria igual a -94 milivolts, como mostra a figura. Contribuição da Difusão do Sódio através da Membrana Nervosa. A Figura 5-5B mostra a adição da pequena permeabilidade da membrana nervosa aos íons C Na+ ^<- 142 mEq/L 4 mEq/L (Ânions)" + + Difusão + bomba + + + + Difusão + bomba + + + + + + ANa. 14 mEq/L K+ 140 mEq/L (-90 mV) (Ânions)' + + + + + + + + + + + + + + + + + + + Figura 5-5 O estabelecimento do potencial de repouso da membrana nas fibras nervosas sob três condições: A, quando o potencial de membrana é causado somente pela difusão do potássio; B, quando o potencial de membrana é causado pela difusão de ambos os íons, potássio e sódio; e C, quando o potencial de membrana é causado tanto pela difusão dos íons potássio e sódio mais o bombeamento desses dois íons pela bomba de Na+ -K+ . sódio, causada pela difusão diminuta dos íons sódio, pelos canais de extravasamento de Na+-I<+. A proporção entre os íons sódio através da membrana, de dentro para fora, é de 0,1, o que corresponde ao potencial calculado de Nernst no lado de dentro da membrana de +61 milivolts. Mas também é mostrado, na Figura 5-5B, o potencial de Nernst para a difusão do potássio, que é de -94 milivolts. Como eles interagem entre si, qual será o potencial resultante? Essas perguntas podem ser respondidas pela equação de Goldman descrita anteriormente. Intuitivamente, pode-se observar que se a membrana for muito permeável ao potássio, mas apenas levemente permeável ao sódio, é lógico que a difusão do potássio contribuirá muito mais para o potencial de membrana do que para a difusão do sódio. Na fibra nervosa normal, a permeabilidade da membrana ao potássio é cerca de 100 vezes maior do que 62
  • 85. a permeabilidade ao sódio. Ao usar este valor na equação de Goldman, será obtido o potencial do lado de dentro da membrana de -86 milivolts que se aproxima do potencial de potássio mostrado na figura. Contribuição da Bomba de Na+ -K+ . Na Figura 5-5C, a bomba Na+-I<+ é mostrada contribuindo adicionalmente para o potencial de repouso. Nessa figura, ocorre bom- beamento contínuo de três íons sódio para o exterior para cada dois íons potássio bombeados para o lado interno da membrana. O fato de mais íons sódio serem bombeados para fora do que íons potássio para dentro produz perda contínua de cargas positivas pelo lado interno da membrana; isso cria grau adicional de negatividade (em torno de -4 milivolts adicionais) no lado interno, além da produzida pela difusão. Por essa razão, como mostra a Figura 5-5C, o potencial de membrana efetivo, com todos esses fatores atuantes ao mesmo tempo, é de cerca de -90 milivolts. Em resumo, os potenciais de difusão causados pela difusão do sódio e do potássio atuando isoladamente produziríam potencial de membrana de cerca de -86 milivolts, quase todo determinado pela difusão do potássio. Então, -4 milivolts adicionais são somados ao potencial de membrana pela bomba eletrogênica contínua de Na+-I<+, resultando no potencial de membrana efetivo de -90 milivolts. Potencial de Ação dos Nervos Os sinais nervosos são transmitidos por potenciais de ação que são rápidas alterações do potencial de membrana que se propagam com grande velocidade por toda a membrana da fibra nervosa. Cada potencial de ação começa por alteração súbita do potencial de membrana normal negativo para um potencial positivo, terminando então com retorno quase tão rápido para o potencial negativo. Para conduzir o sinal nervoso, o potencial de ação se desloca ao longo da fibra nervosa até sua extremidade final. O painel superior da Figura 5-6 mostra as alterações que ocorrem na membrana durante o potencial de ação, com a transferência de cargas positivas para o interior da fibra, no seu início, e o retorno das cargas positivas para o exterior, a seu término. O painel inferior mostra graficamente as sucessivas alterações do potencial de membrana por poucos décimos de milésimos de segundo, ilustrando o início explosivo do potencial de ação e sua quase idêntica recuperação. Os estágios sucessivos do potencial de ação são descritos a seguir. Estágio de Repouso. É o potencial de repouso da membrana, antes do início do potencial de ação. Diz-se que a membrana está “polarizada” durante esse estágio, em razão do potencial de membrana de -90 milivolts negativo existente. Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação Milissegundos Figura 5-6 Potencial de ação típico registrado pelo método mostrado no painel superior da figura. Estágio de Despolarização. A esse tempo, a membrana fica subitamente muito permeável aos íons sódio, permitindo que grande número de íons sódio positivamente carregados se difunda para o interior do axônio. O estado normal de “polarização” de -90 milivolts é, de imediato, neutralizado pelo influxo dos íons sódio com carga positiva, com o potencial aumentando rapidamente para valor positivo. Isso é referido como despolarização. Nas fibras nervosas de maior calibre, o grande excesso dos íons sódio positivos que se deslocam para o interior da fibra faz com que o potencial de membrana “ultrapasse” {overshoot) rapidamente o nível zero e torne-se positivo. Em algumas fibras delgadas, bem como em muitos neurônios do sistema central, o potencial de membrana simplesmente se aproxima do nível zero, não o ultrapassando para chegar ao estado positivo. Estágio de Repolarização. Em alguns décimos de milésimos de segundo após a membrana ter ficado muito permeável aos íons sódio, os canais de sódio começam a se fechar, e os canais de potássio se abrem mais que o normal. Então, a rápida difusão dos íons potássio para o exterior restabelece o potencial de repouso negativo da membrana. Isso é referido como repolarização da membrana. Para explicar com mais detalhes os fatores causadores da depolarização e da repolarização, descreveremos as características especiais dos dois outros tipos de canais 63
  • 86. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo de transporte através das membranas nervosas: os canais de sódio e potássio regulados pela voltagem. Os Canais de Sódio e Potássio Regulados pela Voltagem O agente necessário para provocar a depolarização e a repolarização da membrana nervosa durante o potencial de ação é o canal de sódio regulado pela voltagem. O canal de potássio regulado pela voltagem também tem participação importante por aumentar a rapidez da repolarização da membrana. Esses dois canais regulados pela voltagem atuam de forma adicional com a bomba de Na+-IC e com os canais de vazamento de K+-Na+. O Canal de Sódio Regulado pela Voltagem — Ativação e Inativação do Canal O painel superior da Figura 5-7 mostra o canal de sódio regulado pela voltagem em três estados distintos. Esse canal tem duas comportas — uma perto da abertura externa do canal, referida como comporta de ativação, e a outra perto da abertura interna do canal, referida como comporta de inativação. A parte superior esquerda da figura mostra o estado dessas duas comportas na membrana normal em repouso, quando o potencial de membrana é -90 milivolts. Nessa condição, a comporta de ativação está fechada, impedindo a entrada, por menor que seja, de íons sódio para o interior da fibra, por esses canais de sódio. Ativação do Canal de Sódio. Quando o potencial de membrana se torna menos negativo que durante o estado de repouso, aumentando de -90 milivolts até zero, ele atinge a voltagem — em geral, de cerca de -70 a -50 mili- Comporta de ativação Na+ Comporta de inativação Repouso (-90 mV) Filtro de Na+ seletividade Na+ ' f Ativado (-90 a +35 mV) Inativado (+35 a -90 mV, demorado) K+ Repouso (-90 mV) Interior Ativação lenta (+35 a -90 mV) Figura 5-7 Características dos canais regulados pela voltagem de sódio (acima) e potássio (abaixo), mostrando sucessivas ativações e inativações dos canais de sódio e a ativação demorada dos canais de potássio, quando o potencial de membrana foi alterado do valor normal negativo de repouso para um valor positivo. volts —, o que provoca alteração conformacional abrupta da comporta de ativação, fazendo com que o canal fique totalmente aberto. Essa condição é referida como estado ativado-, durante esse estado, os íons sódio podem entrar pelo canal, aumentando a permeabilidade da membrana ao sódio por 500 a 5.000 vezes. Inativação do Canal de Sódio. A parte superior direita da Figura 5-7 mostra o terceiro estado do canal de sódio. O mesmo aumento da voltagem que faz com que a comporta seja ativada também faz com que essa comporta seja inativada. A comporta é desativada em poucos décimos de milésimos de segundo após ter sido ativada. Isto é, a alteração conformacional que provoca o fechamento da comporta de ativação é processo mais lento que a alteração conformacional que abre a comporta de ativação. Assim, após o canal de sódio ter permanecido aberto por alguns décimos de milésimos de segundo, o canal é inativado e se fecha, e os íons sódio não podem atravessar a membrana. Nesse momento, o potencial de membrana começa a retornar ou se aproximar de seu estado normal de repouso, que é o processo de repolarização. Outra característica importante do processo de inativação do canal de sódio é que a comporta inativada só vai reabrir quando o potencial de membrana retornar ou se aproximar do potencial de repouso na condição original. Por essa razão, usualmente não é possível para o canal de sódio voltar a abrir sem que a fibra nervosa seja primeiro repolarizada. O Canal de Potássio Regulado pela Voltagem e sua Ativação O painel inferior da Figura 5-7 mostra o canal de potássio regulado pela voltagem em dois estados: durante o estado de repouso (à esquerda), e durante o final de um potencial de ação (à direita). Durante o estado de repouso, a comporta do canal de potássio está fechada, e os íons potássio são impedidos de passar por esse canal para o exterior. Quando o potencial de membrana aumenta de -90 milivolts para zero essa variação da voltagem provoca a abertura conformacional da comporta, permitindo aumento da difusão de potássio para fora, por meio desses canais. Entretanto, devido ao pequeno retardo na abertura dos canais de potássio, em sua maioria eles só abrem exatamente no mesmo momento em que os canais de sódio estão começando a se fechar em função de sua inativação. Assim, a redução da entrada de sódio na célula e o aumento simultâneo da saída de potássio da célula fazem com que o processo de repolarização seja acelerado, levando à completa recuperação do potencial de repouso da membrana dentro de poucos décimos de milésimos de segundo. Método de Pesquisa para Medir o Efeito da Voltagem sobre a Abertura e o Fechamento dos Canais Controlados por Voltagem — O "Grampo da Voltagem’’. A pesquisa original que levou ao entendimento quantitativo dos canais de potássio e de sódio foi tão engenhosa que os cientistas res- 64
  • 87. ponsáveis, Hodgkin e Huxley, ganharam o Prêmio Nobel. A essência desses estudos é mostrada nas Figuras 5-8 e 5-9. A Figura 5-8 mostra a montagem experimental, chamada de grampo de voltagem (ou fixação da voltagem), utilizada para medir os fluxos iônicos pelos diferentes canais. Para se usar essa montagem, dois eletródios são inseridos na fibra nervosa. Um deles é para medir a voltagem do potencial de membrana, e o outro é para conduzir corrente elétrica para dentro ou para fora da fibra nervosa. Essa montagem é utilizada da seguinte maneira: o pesquisador decide qual a voltagem que ele deseja estabelecer dentro da fibra nervosa. O componente eletrônico da montagem é então ajustado para a voltagem desejada, e isso automaticamente injeta eletricidade positiva ou negativa por meio do eletrodo de corrente, na intensidade que seja necessária para fixar a voltagem, como medida pelo eletródio de voltagem, no nível estabelecido pelo operador. Quando o potencial de membrana é repentinamente alterado por esse grampo de voltagem, de -90 milivolts para zero, os canais de potássio e sódio regulados pela voltagem se abrem, e os íons sódio e potássio começam a fluir por esses canais. Para contrabalançar os efeitos desses fluxos iônicos sobre os valores fixados da voltagem intracelular, corrente elétrica é injetada automaticamente por meio dos eletródios do grampo de voltagem, para manter a voltagem intracelular constante no nível zero que é necessário. Para isso, a corrente injetada deve ser igual, só que Figura 5-8 O método do “grampo de voltagem" para estudar o fluxo dos íons através de um canal específico. Canal de Na+ Figura 5-9 Alterações típicas da condutância dos canais dos íons e de sódio e potássio, quando o potencial de membrana aumenta, abruptamente, do valor de repouso normal de -90 milivolts para o valor positivo de +10 milivolts por 2 milissegundos. Essa figura mostra que os canais de sódio abrem (ativados) e em seguida fecham (inativados), antes do final desses 2 milissegundos, enquanto os canais de potássio só abrem (ativados) com velocidade bem mais lenta do que a da abertura dos canais de sódio. Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação com polaridade oposta ao fluxo efetivo de corrente que flui pelos canais. Para se medir a intensidade do fluxo que está ocorrendo a cada instante, o eletródio de corrente é conectado a osciloscópio que registra o fluxo de corrente, como mostra a tela do osciloscópio na Figura 5-8. Por fim, o pesquisador altera as concentrações iônicas intra e extracelula- res para valores diferentes dos normais e repete a medida. Isso pode ser feito facilmente quando se usam fibras nervosas bastante calibrosas, obtidas de alguns invertebrados, de modo especial o axônio gigante da lula que em alguns desses animais pode ter 1 milímetro de diâmetro. Quando o sódio é o único íon permeante nas soluções intra e extracelular do axônio da lula, o grampo de voltagem só mede o fluxo de corrente pelos canais de sódio. Quando o potássio é o único íon permeante, só é medido o fluxo de corrente pelos canais de potássio. Outra maneira de se estudar o fluxo iônico por meio de tipo individual de canal é pelo bloqueio de um tipo de canal por vez. Por exemplo, os canais de sódio podem ser bloqueados pela toxina chamada tetrodotoxina, aplicando-a na parte externa da membrana celular, onde a comporta de ativação do sódio está situada. Alternativamente, o íon tetraetilamô- nio bloqueia os canais de potássio quando aplicado no interior da fibra nervosa. A Figura 5-9 mostra as variações típicas da condutância dos canais de sódio e potássio regulados pela voltagem, quando o potencial de membrana é repentinamente alterado pelo uso do grampo de voltagem, de -90 milivolts para +10 milivolts, e, então, 2 milissegundos depois, de volta para -90 milivolts. Note a abertura abrupta dos canais de sódio (o estágio de ativação) em pequena fração de milissegundo, após o potencial de membrana ser elevado para o valor positivo. Entretanto, durante os próximos milissegundos, os canais de sódio automaticamente se fecham (o estágio de inativação). Note a abertura (ativação) dos canais de potássio. Eles se abrem lentamente, atingindo seu estado de abertura total somente depois que os canais de sódio se tenham fechado quase completamente. Além disso, uma vez tendo ocorrido a abertura dos canais de potássio, eles permanecem abertos durante todo potencial positivo de membrana e não se fecham de novo até que o potencial de membrana retorne a valor negativo. Resumo dos Eventos Causadores do Potencial de Ação A Figura 5-10 resume os eventos sequenciais que ocorrem durante e logo após o potencial de ação. A parte de baixo da figura mostra as alterações na condutância da membrana para os íons sódio e potássio. Durante o período de repouso, antes que o potencial de ação se inicie, a condutância para os íons potássio é cerca de 50 a 100 vezes maior que a condutância para os íons sódio. Isso é causado pelo maior vazamento dos íons potássio que dos íons sódio pelos canais de vazamento. Todavia, com o desencadeamento do potencial de ação, o canal de sódio instantaneamente é ativado, permitindo aumento de até 5.000 vezes da condutância do sódio. Então, o processo de inativação fecha os canais de sódio em fração de milissegundo. O desencadeamento do potencial de ação 65
  • 88. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo (O Figura 5-10 Alterações da condutância de sódio e potássio durante o curso do potencial de ação. A condutância do sódio aumenta por vários milhares de vezes durante os estágios iniciais do potencial de ação, enquanto a condutância do potássio só aumenta cerca de 30 vezes durante os estágios finais do potencial de ação e por um pequeno período após. (Essas curvas foram construídas da teoria apresentada em artigos por Hodgkin e Huxley, mas transpostas do axônio da lula para se aplicar ao potencial de membrana das fibras nervosas mais grossas dos mamíferos.) causa também a regulação pela voltagem da abertura dos canais de potássio, fazendo com que ela ocorra mais lentamente, em fração de milissegundo após a abertura dos canais de sódio. Ao final do potencial de ação, o retorno do potencial de membrana ao estado negativo faz com que os canais de potássio se fechem novamente, voltando a seu estado original mas, de novo, somente após retardo adicional de um milissegundo ou mais. A parte do meio da Figura 5-10 mostra a proporção entre as condutâncias do sódio e do potássio a cada instante, durante o potencial de ação, e logo acima é mostrado o potencial de ação propriamente dito. Durante a parte inicial do potencial de ação, a proporção entre as condutâncias do sódio e potássio aumenta por mais de 1.0 vezes. Por isso, muito mais íons sódio fluem para o interior da fibra do que os íons potássio para o exterior. Essa é a causa de o potencial de membrana ficar positivo no início do potencial de ação. Em seguida, os canais de sódio começam a se fechar, e os canais de potássio a se abrir, de modo que a proporção entre as condutâncias varia para o predomínio da condutância do potássio, aumentando em muito a condutância do potássio e reduzindo a condutância do sódio. Isso permite perda muito rápida dos íons potássio para o exterior mas, virtualmente, fluxo nulo de íons sódio para o interior. Consequentemente, o potencial de ação rapidamente retorna ao seu nível basal. Os Papéis de Outros íons no Potencial de Ação Até este ponto, consideramos apenas a participação dos íons sódio e potássio na geração do potencial de ação. Pelo menos dois outros tipos de íons devem ser considerados: os ânions negativos e os íons cálcio. íons (Ânions) Impermeantes com Carga Negativa no Interior do Axônio. Nos axônios existem muitos íons com carga negativa que não podem passar pelos canais da membrana. Dentre eles estão os ânions das proteínas moleculares e de muitos compostos orgânicos de fosfato, compostos de sulfato e assim por diante. Como esses íons não podem sair do axônio, qualquer déficit de íons positivos, no lado de dentro da membrana, cria excesso desses ânions impermeantes negativos. Por conseguinte, esses íons impermeantes negativos são responsáveis pela carga negativa dentro da fibra, quando existe déficit efetivo de íons potássio com carga positiva e outros íons positivos. íons Cálcio. A membrana de quase todas as células do corpo contém a bomba de cálcio semelhante à bomba de sódio, e o cálcio, em algumas células, junto com (ou no lugar do) sódio, causa a maior parte do potencial de ação. Como a bomba de sódio, a bomba de cálcio transporta os íons cálcio do interior da membrana celular para o exterior (ou para o retículo endoplasmático da célula), criando gradiente iônico de cálcio de cerca de 10.000 vezes. Isso deixa concentração celular de íons cálcio em torno de 10“7 molar, em contraste com a concentração externa de cerca de 10-3 molar. Além disso, existem canais de cálcio regulados pela voltagem. Visto que a concentração do íon cálcio é mais de 10.000 vezes maior no líquido extracelular que no líquido intracelular, existe imenso gradiente de difusão para o fluxo passivo de cálcio para a célula. Esses canais são ligeiramente permeáveis aos íons sódio e aos íons cálcio, mas sua permeabilidade para os íons cálcio é cerca de 1.000 vezes maior que para os íons sódio, nas condições fisiológicas normais. Quando se abrem, em resposta a estímulo que despolariza a membrana celular, os íons cálcio fluem para o interior da célula. A principal função dos canais de cálcio regulados pela voltagem é a de contribuir para a fase de despolarização do potencial de ação, em algumas células. Todavia, a regulação dos canais de cálcio é lenta, levando 10 a 20 vezes mais tempo que a ativação dos canais de sódio. Por essa razão, eles com frequência são chamados de canais lentos, em contraste com os canais de sódio, chamados canais rápidos. Por isso, a abertura dos canais de sódio produz despolarização mais prolongada, enquanto a dos canais de sódio promove o início dos potenciais de ação. Os canais de cálcio são muito numerosos no músculo cardíaco e no músculo liso. Na verdade, em alguns tipos de músculo liso, os canais rápidos de sódio são bastante raros, de forma que o potencial de ação ocorre quase exclusivamente pela ativação dos lentos canais de cálcio. Permeabilidade Aumentada dos Canais de Sódio Quando Ocorre Déficit de íons Cálcio. A concentração dos íons cálcio, no líquido extracelular, também exerce intenso efeito sobre o valor da voltagem em que os canais de sódio são ativados. Quando ocorre déficit de íons cálcio, os canais de sódio são ativados (abertos) por pequeno aumento do potencial de membrana de seu valor normal, valor ainda muito negativo. Por conseguinte, a fibra nervosa fica muito 66
  • 89. excitável, algumas vezes descarregando repetitivamente sem qualquer estímulo, em vez de permanecer no estado de repouso. Na realidade, a concentração de íons cálcio precisa diminuir apenas por 50% abaixo do normal antes que ocorra descarga espontânea em alguns nervos periféricos, causando geralmente “tetania” muscular. Isso por vezes pode ser letal, devido à contração tetânica dos músculos respiratórios. O modo provável pelo qual os íons cálcio afetam os canais de sódio é o seguinte: esses íons parecem se ligar à superfície externa dos canais de sódio das moléculas de proteína. A carga positiva dos íons cálcio, por sua vez, altera o estado elétrico da própria proteína do canal de sódio, e desse modo altera o nível da voltagem necessário para abrir o canal de sódio. Início do Potencial de Ação Até este ponto, explicamos a alteração da permeabilidade da membrana ao sódio e ao potássio, bem como o desenvolvimento do potencial de ação propriamente dito, mas ainda não explicamos como se origina esse potencial de ação. A resposta é bastante simples. Círculo Vicioso de Feedback Positivo Abre os Canais de Sódio. Primeiro, contanto que a membrana da fibra nervosa permaneça sem ser perturbada, nenhum potencial de ação ocorre no nervo normal. Entretanto, caso ocorra qualquer evento capaz de provocar o aumento inicial do potencial de membrana de -90 milivolts para o nível zero, a própria voltagem crescente causa a abertura de vários canais de sódio regulados pela voltagem. Isso permite o influxo rápido de íons sódio, resultando em maior aumento do potencial de membrana e, consequentemente, abrindo mais canais regulados pela voltagem e permitindo fluxo mais intenso de íons sódio para o interior da fibra. Esse processo é círculo vicioso de feedback positivo que, uma vez que esse feedback seja suficientemente intenso, continua até que todos os canais de sódio regulados pela voltagem tenham sido ativados (abertos). Então, em outra fração de milissegundo, o aumento do potencial de membrana causa o fechamento dos canais de sódio e a abertura dos canais de potássio, e o potencial de ação termina. O Limiar para o Início do Potencial de Ação. O potencial de ação só vai ocorrer se o aumento inicial do potencial de membrana for suficientemente intenso para gerar o feedback positivo descrito no parágrafo anterior. Isso ocorre quando o número de íons Na+ que entram na fibra fica maior que o número de íons IC que sai da fibra. O aumento repentino do potencial de membrana, entre 15 e 30 milivolts em geral, é necessário. Assim, qualquer aumento abrupto do potencial de membrana de fibra nervosa calibrosa de -90 milivolts para cerca de -65 milivolts usualmente provoca o explosivo desenvolvimento do potencial de ação. Esse nível de -65 milivolts é referido como o limiar para a estimulação. Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação Propagação do Potencial de Ação Nos parágrafos precedentes, discutimos o potencial de ação como ocorre em um ponto da membrana. Contudo, um potencial de ação, provocado em qualquer parte da membrana excitável em geral excita as porções adjacentes da membrana, resultando na propagação do potencial de ação por toda a membrana. Esse mecanismo é demonstrado na Figura 5-11. A Figura 5-1L4 mostra fibra nervosa em repouso normal, e a Figura 5-115 mostra a fibra nervosa que foi estimulada na sua porção central — isto é, essa região repentinamente desenvolve permeabilidade aumentada para o sódio. As setas mostram o “circuito local” do fluxo de corrente das áreas despolarizadas da membrana para as áreas adjacentes da membrana em repouso. Isto é, cargas elétricas positivas são levadas pelos íons sódio que se difundem para o interior, através das membranas despolarizadas e, então, por muitos milímetros em ambas as direções, ao longo do interior do axônio. Essas cargas positivas aumentam a voltagem por cerca de 1 a 3 milímetros pelo interior das grandes fibras mielinizadas até valor maior que o da voltagem limiar para o desencadeamento do potencial de ação. Como consequência, os canais de sódio nessas novas áreas imediatamente se abrem, como mostra a Figura 5-11C e D, e o explosivo potencial de ação se propaga. Essas novas áreas despolarizadas produzem, por sua vez, outros circuitos locais de fluxo de corrente, nas áreas adjacentes da membrana, causando progressivamente mais e mais despolarização. Assim, o processo de despolarização percorre todo o comprimento da fibra. A + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + -0-00-0--------------------------------------------------------------- — + + + + O /-> — + + + + — -0-00-0- + + + + + + + + + -1- --- + + + + + + + + /*■> ++ oo-o-o-o—o—o—o-o—O-O-O-CH>O-O—o—o-++ D —++++++++++++++++++— - - + + + + + + + + + + + + + + + + + + — 00000000000000- 0000- + + - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - •++ Figura 5-11 Propagação do potencial de ação em ambas as direções pela fibra condutora. 67
  • 90. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Essa transmissão do processo de despolarização, por fibra nervosa ou muscular, é referida como impulso nervoso ou muscular. Direção da Propagação. Como demonstrado na Figura 5-11, a membrana excitável não tem direção única de propagação, mas o potencial de ação trafega em todas as direções, afastando-se da região estimulada — mesmo por todas as ramificações da fibra nervosa — até que toda a membrana tenha sido despolarizada. Princípio do Tudo ou Nada. Uma vez em que o potencial de ação foi gerado em algum lugar da membrana da fibra normal, o processo de despolarização trafega por toda a membrana, se as condições forem adequadas, ou não se propaga de qualquer modo, se as condições não forem adequadas. Isso é conhecido como princípio do tudo ou nada, e se aplica a todos os tecidos excitáveis normais. Ocasionalmente, o potencial de ação atinge região da membrana que não gera voltagem suficiente para estimular a área seguinte da membrana. Quando isso ocorre, a propagação da despolarização é interrompida. Por conseguinte, para que ocorra propagação contínua do impulso, a proporção entre o potencial de ação e o limiar de excitação deve ser sempre maior que 1. Este requisito “maior que 1” é referido como fator de segurança para a propagação. Restabelecimento dos Gradientes lônicos do Sódio e do Potássio após o Término do Potencial de Ação —A Importância do Metabolismo Energético A transmissão de cada potencial de ação ao longo da fibra nervosa reduz muito pouco a diferença de concentração de sódio e potássio dentro e fora da membrana, devido à difusão para o interior dos íons sódio durante a despolarização, e pela difusão para o exterior dos íons potássio durante a repolarização. Para um só potencial de ação, esse efeito é tão pequeno que não pode ser medido. Na verdade, 100.000 a 50 milhões de impulsos podem ser transmitidos por fibras nervosas calibrosas antes que as diferenças de concentração atinjam o ponto em que cessa a condução dos potenciais de ação. Ainda assim, com o passar do tempo, é necessário o restabelecimento das diferenças de concentração entre o sódio e o potássio na membrana. Isso é realizado pela ação da bomba de Na+-I<+, da mesma maneira como descrita acima, neste capítulo, para o estabelecimento original do potencial de repouso. Ou seja, os íons sódio que se difundiram para o interior da célula, durante o potencial de ação, e os íons potássio que se difundiram para o exterior devem retornar aos seus estados originais pela bomba de Na+-IC. Como essa bomba requer energia para seu funcionamento, essa “recarga” da fibra nervosa é processo metabólico ativo, usando energia derivada do trifosfato de adenosina (ATP) do sistema de energia da célula. A Figura 5-12 mostra que a fibra nervosa produz excesso de calor durante a recarga que é uma medida do consumo de energia, quando a frequência dos impulsos nervosos aumenta. Característica especial da bomba da Na+-K+ ATPase é que o grau de sua atividade é intensamente estimulado quando ocorre acúmulo excessivo de íons sódio no interior da membrana celular. Na verdade, a atividade da bomba aumenta aproximadamente em proporção à terceira potência da concentração intracelular do sódio. Isto é, enquanto a concentração interna de sódio aumenta por 10 a 20 mEq/L, a atividade da bomba não apenas duplica, mas aumenta por cerca de oito vezes. Portanto, é fácil de entender como o processo de “recarga” da fibra nervosa pode ser posto rapidamente em ação, toda vez que as diferenças de concentrações dos íons sódio e potássio, através da membrana, comecem a “diminuir”. O Platô em Alguns Potenciais de Ação Em alguns casos, a membrana estimulada não se repola- riza imediatamente após a despolarização; ao contrário, o potencial permanece como platô perto do pico do potencial em ponta, por vários milissegundos e somente então é que se inicia a repolarização. Esse platô é mostrado na Figura 5-13; pode-se ver facilmente que o platô prolonga muito o período de despolarização. Esse tipo de potencial de ação ocorre nas fibras musculares do coração, onde o platô dura por período de 0,2 a 0,3 segundo e faz com que a contração dos músculos do coração dure por esse mesmo período de tempo. A causa do platô é combinação de vários fatores. Primeiro, no músculo do coração, dois tipos de canais participam do processo de despolarização: (1) os canais usuais de sódio, regulados pela voltagem, conhecidos como canais rápidos, e (2) os canais de cálcio-sódio regulados pela voltagem, conhecidos como canais lentos. A abertura dos canais rápidos causa a parte em ponta (.spike) do potencial de ação, enquanto a morosa e prolongada abertura dos canais lentos de cálcio-sódio permite principalmente o influxo de íons cálcio para a fibra, Figura 5-12 Produção de calor pela fibra nervosa em repouso e com aumento progressivo da frequência de estimulação. 68
  • 91. Segundos Figura 5-13 Potencial de ação (em milivolts) de fibra de Purkinje do coração, mostrando um “platô". Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação Potenciais Condutância de ação Figura 5-14 Potenciais de ação rítmicos (em milivolts) semelhantes aos registrados no centro de controle rítmico do coração. Note suas relações com a condutância do potássio e com o estado de hiperpolarização. sendo também responsável, em grande parte, pelo platô do potencial de ação. O segundo fator que pode ser parcialmente responsável pelo platô é que a abertura dos canais de potássio regulados pela voltagem é mais lenta do que a usual, em geral só se abrindo de modo completo até o final do platô. Isso retarda o retorno do potencial de membrana a seu valor negativo normal de -80 a -90 milivolts. Ritmicidade de Alguns Tecidos Excitáveis — Descarga Repetitiva Descargas repetitivas espontâneas ocorrem normalmente no coração, na maior parte dos músculos lisos, e em muitos neurônios do sistema nervoso central. Essas descargas rítmicas causam (1) o batimento ritmado do coração, (2) o peristaltismo rítmico dos intestinos e (3) alguns eventos neuronais, como o controle ritmado da respiração. Quase todos os outros tecidos excitáveis podem descarregar repetitivamente se o limiar de excitabilidade dos tecidos celulares for suficientemente reduzido. Por exemplo, mesmo as fibras nervosas mais calibrosas e as fibras dos músculos esqueléticos que são normalmente muito estáveis descarregam de forma repetitiva quando colocadas em solução contendo a substância veratrina ou quando a concentração dos íons cálcio cai abaixo de valor crítico; em ambos os casos, elas aumentam a permeabilidade da membrana ao sódio. O Processo de Reexcitação Necessário para a Ritmicidade Espontânea. Para que ocorra a ritmicidade espontânea, a membrana, mesmo em seu estado natural, deve ser suficientemente permeável aos íons sódio (ou aos íons cálcio e sódio, pelos canais lentos de cálcio-sódio) para permitir a despolarização automática da membrana. Assim, a Figura 5-14 mostra que o potencial de “repouso” da membrana no centro de controle do ritmo cardíaco é de somente -60 a -70 milivolts. Essa não é voltagem negativa suficiente para manter os canais de sódio e cálcio totalmente fechados. Por essa razão, a seguinte sequência ocorre: (1) alguns íons sódio e cálcio fluem para o interior; (2) isso aumenta a voltagem da membrana na direção positiva, o que aumenta ainda mais a permeabilidade da membrana; (3) ainda mais íons fluem para dentro, e (4) a permeabilidade aumenta mais e mais, até que o potencial de ação é gerado. Então, ao final do potencial de ação, a membrana se repolariza. Após outro retardo de alguns milissegundos ou segundos, a excitabilidade espontânea causa nova despolarização, e novo potencial de ação ocorre espontaneamente. Esse ciclo continua ininterruptamente, causando a excitação rítmica autoinduzida dos tecidos excitáveis. Por que a membrana do centro de controle do coração não se despolariza imediatamente após ter se repola- rizado, em vez de retardar, por quase um segundo, antes do início do próximo potencial de ação? A resposta pode ser encontrada pela observação da curva rotulada como “condutância do potássio” na Figura 5-14. Ela mostra que, perto do término de cada potencial de ação e persistindo por um breve período após, a membrana torna-se mais permeável aos íons potássio. O aumento do efluxo dos íons potássio transfere número enorme de cargas positivas para fora da membrana, deixando o interior da fibra muito mais negativo do que deveria acontecer. Essa condição continua por cerca de 1 segundo, após o término do potencial de ação antecedente, e desse modo desloca o potencial de membrana para valor mais próximo do potencial de Nernst para o potássio. Esse é o estado referido como hiperpolarização, mostrado também na Figura 5-14. Enquanto persistir esse estado, a autorre- excitação não vai ocorrer. Mas a condutância excessiva de potássio (e o estado de hiperpolarização) desaparece gradualmente, como mostrado na figura, depois que cada potencial de ação termina, permitindo então que o potencial de membrana aumente de novo até seu limiar de excitação. Então de repente ocorre novo potencial de ação e o processo acontece outra vez e assim por diante. 69
  • 92. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Características Especiais da Transmissão dos Sinais nos Troncos Nervosos Fibras Nervosas Mielinizadas e Amielinizadas. A Figura 5-15 mostra corte transversal de típico nervo pequeno, revelando muitas fibras nervosas calibrosas que constituem a maior parte da área desse corte transversal. Entretanto, olhar mais cuidadoso revela grande número de fibras muito delgadas localizadas entre as fibras mais grossas. As fibras calibrosas são mielinizadas, e as mais delgadas são amielinizadas. A maioria dos troncos nervosos contém cerca de duas vezes mais fibras amielinizadas do que fibras mielinizadas. A Figura 5-16 mostra fibra mielinizada típica. A parte central da fibra é o axônio, e a membrana do axônio é a membrana que de fato conduz o potencial de ação. O axônio é cheio em sua parte central por axoplasma, que é líquido intracelular víscido. Em volta do axônio existe a bainha de mielina, que é frequentemente mais espessa que o próprio axônio. A cada 1 a 3 milímetros da extensão da bainha de mielina existe um nodo de Ranvier. A bainha de mielina é depositada em torno do axônio pelas células de Schwann da seguinte maneira: a membrana das células de Schwann primeiro envolve o axônio. Em seguida, as células de Schwann giram muitas vezes em torno do axônio, formando camadas múltiplas de membrana celular de Schwann, contendo a substância lipídica esfingomielina. Essa substância é excelente isolante elétrico, reduzindo o fluxo iônico através da membrana por cerca de 5.000 vezes. Na junção entre duas células de Schwann sucessivas, ao longo do axônio, existe área não isolada, com comprimento de 2 a 3 micrômetros, por onde os íons ainda podem passar facilmente através da membrana do axônio, do líquido extracelular para o intracelular, dentro do axônio. Essa área forma o nodo de Ranvier. Condução "Saltatória" de Nodo a Nodo nas Fibras Mielinizadas. Mesmo que quase nenhum íon possa fluir através das grossas bainhas de mielina dos nervos mielinizados, eles podem passar com facilidade através dos nodos de Ranvier. Assim, potenciais de ação só ocorrem nos nodos de Ranvier. Os potenciais de ação são então conduzidos de nodo para nodo, como mostra a Figura 5-17; esse tipo de condução é chamado condução saltatória. Ou seja, a corrente elétrica flui pelo líquido extracelular que circunda a parte externa da bainha de mielina, assim como pelo axoplasma dentro do axônio, de nodo a nodo, excitando os nodos sucessivos, um após o outro. Desse modo, os impulsos nervosos saltam ao longo da fibra nervosa, o que dá origem ao termo “saltatória”. A condução saltatória é de grande valor por duas razões. Primeira, ao fazer com que o processo de despolarização pule longos trechos ao longo do eixo da fibra nervosa, esse mecanismo aumenta a velocidade da transmissão nervosa nas fibras mielinizadas por cinco a 50 vezes. Segunda, a condução saltatória conserva energia para o axônio porque somente os nodos se despolarizam, permitindo talvez perda apenas de íons até 100 vezes menor da que seria necessária e, por conseguinte, requerendo metabolismo menos intenso para restabelecer as diferenças de concentração de sódio e potássio através da membrana, após série de impulsos nervosos. Ainda outra característica da condução saltatória nas fibras mielinizadas mais grossas é a seguinte: o excelente isolamento produzido pela membrana de mielina e a redução de 50 vezes da capacitância dessa membrana permitem que a repolariza- ção ocorra com transferência muito pequena de íons. Figura 5-15 Corte transversal de pequeno tronco nervoso contendo fibras mielinizadas e amielinizadas. Velocidade de Condução nas Fibras Nervosas. A velocidade de condução dos potenciais de ação nas fibras nervosas varia do mínimo de 0,25 m/s nas fibras amielínicas mais delgadas, até o máximo de 100 m/s (o comprimento de um campo de futebol em um segundo) nas fibras mielinizadas mais calibrosas. Excitação — O Processo de Geração do Potencial de Ação Basicamente, qualquer fator que promova a difusão de grande número de íons sódio para o interior da célula pode desencadear a abertura regenerativa automática dos canais de sódio. Isso pode resultar de distúrbio mecânico da membrana, de efeitos químicos na membrana, ou da passagem de eletricidade através da membrana. Todos esses são utilizados, em pontos distintos do corpo, para fazer surgir o potencial de ação muscular ou nervoso: a pressão mecânica para excitar as terminações sensoriais nervosas na pele, os neurotransmissores químicos para transmitir sinais de um neurônio para o próximo no cérebro, e a corrente elétrica para transmitir sinais entre as sucessivas células musculares no coração e no intestino. Para o propósito de compreender o processo da excitação, começaremos discutindo os princípios da estimulação elétrica. Excitação da Fibra Nervosa por um Eletrodo Metálico com Carga Negativa. O meio usual para excitar um nervo ou músculo nos laboratórios experimentais é aplicar eletricidade à superfície do nervo ou do músculo, por meio de dois pequenos eletródios, um dos quais tem carga negativa e o outro carga positiva. Quando isso é feito, a membrana excitável é estimulada no eletródio negativo. A causa desse efeito é a seguinte: lembre-se de que o potencial de ação é iniciado pela abertura dos canais de sódio regulados pela voltagem. Posteriormente, maior número desses canais é aberto pela redução da voltagem elétrica normal de repouso através da membrana. Isto é, a corrente negativa do eletródio diminui a voltagem do lado de fora da membrana até valor negativo próximo à voltagem do poten- 70
  • 93. Axônio Bainha de mielina C itoplasma da célula de Schwann Núcleo da célula de Schwann Nodo de Ranvier Figura 5-16 Função da célula de Schwann no isolamento das fibras nervosas. A, Revestimento da membrana da célula de Schwann, em torno de um axônio calibroso para formar a bainha de mielina da fibra nervosa mielinizada.6, Revestimento parcial da membrana e do citoplasma da célula de Schwann em torno de várias fibras nervosas amielinizadas (mostrado em corte transversal). [A, Modificado de Leeson TS, Leeson R: Histology. Philadelphia: WB Saunders,1979.) ciai negativo dentro da fibra. Isso reduz a voltagem elétrica através da membrana, permitindo que os canais de sódio se abram, resultando no potencial de ação. De modo contrário, no eletródio positivo, a injeção de cargas positivas no lado externo da membrana nervosa aumenta a diferença de voltagem através da membrana em vez de reduzi-la. Isso causa o estado de hiperpolarização que na verdade diminui a excitabilidade da fibra, em vez de causar o potencial de ação. O Limiar para a Excitação e o “Potencial Local Agudo". Estímulo negativo fraco pode não ser suficiente para excitar a fibra. Todavia, quando a voltagem do estímulo é aumentada, atinge-se valor no qual ocorre excitação. A Figura 5-18 mostra o efeito de estímulos aplicados sucessivamente, de intensidade progressivamente crescente. Um estímulo muito fraco no ponto A faz com que o potencial de membrana varie de -90 para -85 milivolts, mas essa não é a alteração suficiente para que o processo regenerativo automático do potencial de ação se desenvolva. No ponto B, o estímulo é maior mas de novo a intensidade ainda não é suficiente. Contudo, esse estímulo modifica o potencial de membrana local, por período de 1 milissegundo ou mais após esses dois estímulos fracos. Essas alterações dos potenciais locais são referidas como potenciais locais agudos, e quando deixam de desencadear o potencial de ação, elas são designadas como potenciais subliminares agudos. Capítulo 5 Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação Bainha de mielina Axoplasma Nodo de Ranvier .............. fe ..................... J v w L ^.................... *r=. . ------------ ^ i A A r ---------- -------------------------- ............. 1 2 3 Figura 5-17 Condução saltatória pelo axônio mielinizado. O fluxo de corrente elétrica de nodo a nodo é indicado pelas setas. Figura 5-18 Efeito de voltagens crescentes do estímulo para produzir um potencial de ação. Note o desenvolvimento de "potenciais sublimiares agudos" quando os estímulos estão abaixo do valor limiar necessário para produzir um potencial de ação. No ponto C da Figura 5-18, o estímulo é ainda mais intenso. Agora o potencial local atingiu nitidamente o nível necessário para a produção do potencial de ação, conhecido por nível limiar, mas o potencial de ação só ocorre após pequeno “período latente”. No ponto D, o estímulo é ainda mais forte, o potencial agudo local é também mais intenso, e o potencial de ação ocorre em menos tempo do que o período latente. Assim, essa figura mostra que até mesmo estímulos muito fracos causam alteração local do potencial da membrana, mas a amplitude do potencial local deve aumentar até o nível limiar para que seja produzido o potencial de ação. "Período Refratário" após o Potencial de Ação, durante o Qual um Novo Estímulo não Pode Ser Evocado Novo potencial de ação não pode ocorrer na fibra excitável enquanto a membrana ainda estiver despolarizada pelo potencial de ação precedente. A razão para isso é que logo após o potencial de ação ser desencadeado, os canais de sódio (ou canais de cálcio, ou ambos) ficam inativos, e qualquer quantidade de sinal excitatório aplicado a esses canais nesse momento não vai abrir as comportas de inativação. A única condição que permitirá sua reabertura é o retorno do potencial de membrana ao valor original, ou próximo disso, do potencial de repouso da membrana. Então, em pequena fração de segundo, as comportas de inativação dos canais se abrem, e novo potencial de ação pode ser iniciado. 71
  • 94. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo O período durante o qual o segundo potencial de ação não pode ser produzido mesmo com estímulo muito intenso é designado como período refratário absoluto. Esse período para as fibras nervosas mielinizadas mais calibrosas é de cerca de 1/2.500 segundo. Portanto, pode-se prontamente calcular que esse tipo de fibra pode transmitir cerca de no máximo 2.500 impulsos por segundo. Inibição da Excitabilidade — "Estabilizadores" e Anestésicos Locais Em contraste com os fatores que aumentam a excitabilidade nervosa, ainda outros, conhecidos como fatores estabilizadores da membrana, podem diminuir a excitabilidade. Por exemplo, alta concentração de íons cálcio no líquido extra- celular diminui a permeabilidade para os íons sódio, ao mesmo tempo reduzindo a excitabilidade. Por essa razão, os íons cálcio são ditos serem “estabilizadores”. Anestésicos Locais. Entre os estabilizadores mais importantes estão as muitas substâncias usadas clinicamente como anestésicos locais, incluindo a procaína e a tetracaína. A maioria desses agentes atua diretamente sobre as comportas de ativação dos canais de sódio, dificultando de forma muito acentuada a abertura dessas comportas, e, desse modo, reduzindo a excitabilidade da membrana. Quando a excitabilidade tiver diminuído de modo que a proporção entre a intensidade do potencial de ação e o limiar da excitabilidade (conhecida como o “fator de segurança”) fique reduzida para menos de 1,0, os impulsos nervosos deixam de passar pelos nervos anestesiados. Registro dos Potenciais de Membrana e dos Potenciais de Ação O Osciloscópio de Raios Catódicos. No começo deste capítulo, destacamos que o potencial de membrana varia de forma extremamente rápida durante o curso do potencial de ação. Na verdade, a maior parte do complexo do potencial de ação, nas fibras nervosas mais grossas, ocorre em menos de 1/1.000 segundo. Em algumas figuras deste capítulo, mostrou-se medidor elétrico registrando essas alterações do potencial. Entretanto, deve ser compreendido que qualquer medidor capaz de registrar a grande maioria dos potenciais de ação deve ser capaz de responder extremamente rápido. Para objetivos práticos, o único tipo comum de medidor capaz de responder corretamente às rápidas variações do potencial de membrana é o osciloscópio de raios catódicos. A Figura 5-19 mostra os componentes básicos do osciloscópio de raios catódicos. O tubo de raios catódicos é composto basicamente por um canhão de elétrons e por tela fluorescente contra a qual os elétrons são disparados. Onde os elétrons atingem a superfície da tela, o material fluorescente brilha. Caso o feixe de elétron seja movido pela tela, o local da luz brilhante também se movimenta e traça linha fluorescente na tela. Além do canhão de elétrons e da superfície fluorescente, o tubo de raios catódicos contém dois conjuntos de placas eletricamente carregadas — um conjunto posicionado nos dois lados do feixe de elétron e o outro conjunto posicionado acima e abaixo desse feixe. Um circuito eletrônico de controle apropriado modifica a voltagem dessas placas, de forma que o feixe de elétron possa ser deslocado para cima Potencial de ação registrado Placas Canhão Figura 5-19 Osciloscópio de raios catódicos para registro de potenciais de ação transitórios. e para baixo, em resposta aos sinais elétricos vindos dos eletródios de registro nos nervos. O feixe de elétrons também varre horizontalmente a tela com velocidade constante, determinada por circuito eletrônico interno do osciloscópio. Esse conjunto produz o registro na face do tubo de raios catódicos na figura, fornecendo uma linha de tempo no eixo horizontal e a variação da voltagem dos eletródios dos nervos mostrada no eixo vertical. Note que na extremidade esquerda do registro ocorre o pequeno artefato do estímulo causado pelo estímulo elétrico, usado para desencadear o potencial de ação nervoso. Em seguida, para a direita, aparece o registro do potencial de ação propriamente dito. Referências Alberts B, Johnson A, Lewis J, et al: Molecular Biology ofthe Cell, ed 3, New York, 2008, Garland Science. Biel M, Wahl-Schott C, Michalakis S, Zong X: Hyperpolarization-activated cation channels: from genes to function, Physiol Rev 89:847, 2009. Blaesse P, Airaksinen MS, Rivera C, Kaila K: Cation-chloride cotransporters and neuronal function, Neuron 61:820, 2009. Dai S, Hall DD, Hell JW: Supramolecular assemblies and localized regula- tion of voltage-gated ion channels, Physiol Rev 89:411, 2009. Hodgkin AL, HuxleyAF: Quantitative description of membrane current and its application to conduction and excitation in nerve, J Physiol (Lond) 117:500, 1952. 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  • 95. CAPÍTULO 6 Contração do Músculo Esquelético Cerca de 40% do corpo é composto por músculo es- quelético, e talvez outros 10% por músculo liso e car- díaco. Alguns dos princí- pios básicos da contração se aplicam a todos esses diferentes tipos de músculos. Neste capítulo, a função do músculo esquelético é considerada como tema principal; as funções específicas do músculo liso são discutidas no Capítulo 8, e as do músculo cardíaco, no Capítulo 9. Anatomia Fisiológica do Músculo Esquelético Fibra do Músculo Esquelético A Figura 6-1 mostra a organização do músculo esquelético, demonstrando que todos esses músculos são compostos por numerosas fibras, com diâmetro de 10 a 80 micrômetros. Cada uma dessas fibras é formada por subu- nidades sucessivamente ainda menores, também mostradas na Figura 6-1 e descritas nos parágrafos seguintes. Na maioria dos músculos esqueléticos, cada fibra se prolonga por todo o comprimento do músculo. Exceto por 2% das fibras, cada uma em geral é inervada por apenas uma terminação nervosa, situada perto do meio da fibra. O Sarcolema É a Membrana Delgada que Reveste a Fibra Muscular Esquelética. O sarcolema é a membrana celular da fibra muscular. O sarcolema consiste de verdadeira membrana celular, chamada membrana plasmática, e com revestimento de fina camada de material polissa- carídeo contendo muitas fibrilas colágenas delgadas. Em cada extremidade da fibra muscular, essa camada superficial do sarcolema funde-se com uma fibra do tendão. A fibra do tendão, por sua vez, se agrupa em feixes para formar os tendões dos músculos que se inserem nos ossos. Miofibrilas São Compostas por Filamentos de Acti- na e de Miosina. Cada fibra muscular contém centenas a milhares de miofibrilas, demonstradas pelos pequenos pontos abertos no corte transversal da Figura 6-1C. Cada miofibrila (Fig. 6-lD e E) é composta por cerca de 1.500 filamentos de miosina adjacentes e por 3.000 filamentos de actina, longas moléculas de proteínas polimeriza- das responsáveis pelas contrações reais musculares. Isso pode ser visto no corte longitudinal da micrografia eletrônica da Figura 6-2 e representado diagramaticamente na Figura 6-1, partes E a L. Os filamentos mais espessos nesse diagrama são miosina, e os filamentos mais finos são actina. Note na Figura 6-l£ que os filamentos de miosina e actina estão parcialmente interdigitados, fazendo com que a miofibrila alterne faixas escuras e claras, como ilustrado na Figura 6-2. As faixas claras só contêm filamentos de actina, sendo conhecidas como faixas I, por serem isotrópicas à luz polarizada. As faixas escuras contêm filamentos de miosina, assim como as extremidades dos filamentos de actina, onde se superpõem aos de miosina, sendo chamadas de faixas A, por serem anisotrópicas à luz polarizada. Note, também, as pequenas projeções laterais dos filamentos de miosina na Figura 6-l£ e L. Essas projeções são as pontes cruzadas. E são as interações entre os filamentos de actina e as pontes cruzadas que causam as contrações. A Figura 6-1E mostra também que as extremidades dos filamentos de actina estão ligadas ao chamado disco Z. Desse disco, esses filamentos se estendem em ambas as direções para se interdigitarem com os filamentos de miosina. O disco Z composto por proteína filmentosa diferente dos filamentos de actina e miosina cruza transversalmente toda a miofibrila e igualmente de forma transversa de miofibrila para miofibrila, conectando as miofibrilas umas às outras, por toda fibra muscular. Por essa razão, a fibra muscular, em sua espessura, apresenta faixas claras e escuras, como o fazem as miofibrilas individuais. Essas faixas dão aos músculos esqueléticos e cardíacos sua aparência estriada. O segmento da miofibrila (ou de toda a fibra muscular) situado entre dois discos Z sucessivos é referido como sarcômero. Quando a fibra muscular está contraída, como mostra a parte inferior da Figura 6-5, o comprimento do sarcômero é de cerca de 2 micrômetros. Nesse comprimento, os filamentos de actina se sobrepõem com- 73 U N I D A
  • 96. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo MÚSCULO ESQUELETICO Meromiosina Meromiosina leve pesada Figura 6-1 Organização do músculo esquelético do nível macroscópio ao molecular. As letras F,G,H e / são cortes transversais nos níveis indicados. 74
  • 97. Figura 6-2 Micrografía eletrônica das miofibrilas musculares mostrando detalhadamente a organização dos filamentos de actina e miosina. Note as mitocôndrias situadas entre as miofibrilas. (De Fawcet DW:The Cell. Philadelphia: WB Saunders, 1981.) pletamente aos filamentos de miosina, e as pontas dos filamentos de actina estão quase começando a se sobrepor. Será visto adiante que nesse comprimento o músculo é capaz de gerar sua força máxima de contração. Moléculas Filamentosas deTitina Mantêm os Filamentos de Miosina em seus Lugares. O posicionamento lado a lado dos filamentos de miosina e actina é difícil de ser mantido. Essa manutenção é realizada pelo grande número de moléculas filamentares da proteína chamada titina (Fig. 6-3). Cada molécula de titina tem peso molecular de cerca de 3 milhões, o que faz dela a maior molécula de proteína no corpo. Também por ser filamentar é muito flexível. Essa flexibilidade das moléculas de titina atua como arcabouço que mantém os filamentos de miosina e actina em seus lugares, de modo que a maquinaria contrátil possa entrar em ação. Uma extremidade da molécula de titina é elástica, estando fixada ao disco Z, atuando como mola e variando seu comprimento conforme o sarcômero contrai e relaxa. A outra parte da molécula de titina a ancora nos filamentos grossos de miosina. A própria molécula de titina também parece Figura 6-3 Organização das proteínas no sarcômero. Cada molécula de titina se estende do disco Z até a linha M. Parte da molécula de titina está intimamente associada ao filamento grosso de miosina, enquanto o resto da molécula é flexível e varia seu comprimento com a contração e o relaxamento do sarcômero. Figura 6-4 Retículo sarcoplasmático nos espaços extracelulares entre as miofibrilas mostrando o sistema longitudinal, paralelo às miofibrilas. São mostrados também em corte transversal os túbulos T (setas) que levam ao exterior da membrana das fibras e que são importantes condutores do sinal elétrico para o interior da fibra muscular. (De Fawcet DW:The Cell. Philadelphia: WB Saunders, 1981.) servir como molde para a formação inicial de partes dos filamentos contráteis do sarcômero, em especial para os filamentos de miosina. O Sarcoplasma É o Líquido Intracelular Entre as Miofibrilas. As numerosas miofibrilas de cada fibra muscular ficam em suspensão, lado a lado, na fibra muscular. Os espaços entre as miofibrilas são preenchidos pelo líquido intracelular conhecido como sarcoplasma, contendo grande quantidade de potássio, magnésio e fosfato, além de múltiplas enzimas proteicas. Também está presente nessa substância número imenso de mitocôndrias, situadas paralelas às miofibrilas. Elas fornecem às miofibrilas que se contraem grande quantidade de energia, na forma de trifosfato e adenosina (ATP), formado pelas mitocôndrias. O Retículo Sarcoplasmático É o Retículo Endo- plasmático Especializado do Músculo Esquelético. Também no sarcoplasma circundando as miofibrilas de cada fibra muscular existe retículo extenso (Fig. 6-4), referido como retículo sarcoplasmático. Esse retículo tem organização especial que é extremamente importante para o controle da contração muscular, como discutido no Capítulo 7. Os tipos de fibras musculares com contração muito rápida apresentam retículos sarcoplasmáticos especialmente muito extensos. Mecanismo Geral da Contração Muscular O início e a execução da contração muscular ocorrem nas seguintes etapas: 1. Os potenciais de ação cursam pelo nervo motor até suas terminações nas fibras musculares. 75
  • 98. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo 2. Em cada terminação, o nervo secreta pequena quantidade da substância neurotransmissora acetilcolina. 3. A acetilcolina age em área local da membrana da fibra muscular para abrir múltiplos canais de cátion, “regulados pela acetilcolina” por meio de moléculas de proteína que flutuam na membrana. 4. A abertura dos canais regulados pela acetilcolina permite a difusão de grande quantidade de íons sódio para o lado interno da membrana das fibras musculares. Isso causa despolarização local que, por sua vez, produz a abertura de canais de sódio, dependentes da voltagem. Isso desencadeia o potencial de ação na membrana. 5. O potencial de ação se propaga por toda a membrana da fibra muscular do mesmo modo como o potencial de ação cursa pela membrana das fibras nervosas. 6. O potencial de ação despolariza a membrana muscular, e grande parte da eletricidade do potencial de ação flui pelo centro da fibra muscular. Aí, ela faz com que o retículo sarcoplasmático libere grande quantidade de íons cálcio armazenados nesse retículo. 7. Os íons cálcio ativam as forças atrativas entre os filamentos de miosina e actina, fazendo com que deslizem ao lado um do outro, que é o processo contrátil. 8. Após fração de segundo, os íons cálcio são bombeados de volta para o retículo sarcoplasmático pela bomba de Ca++ da membrana, onde permanecem armazenados até que novo potencial de ação muscular se inicie; essa remoção dos íons cálcio das miofibrilas faz com que a contração muscular cesse. Agora será descrito o mecanismo molecular do processo de contração muscular. Mecanismo Molecular da Contração Muscular Mecanismo de Deslizamento dos Filamentos da Contração Muscular. A Figura 6-5 demonstra o mecanismo básico da contração muscular. Ela mostra o estado relaxado de um sarcômero (na parte superior) e o estado contraído (na parte inferior). No estado relaxado, as extremidades dos filamentos de actina que se estendem de dois discos Z sucessivos mal se sobrepõem. Inversamente, no estado contraído, esses filamentos de actina são tracionados por entre os filamentos de miosina, de forma que suas extremidades se sobrepõem, umas às outras, em sua extensão máxima. Também os discos Z foram tracionados pelos filamentos de actina até as extremidades dos filamentos de miosina. Desse modo, a contração muscular ocorre por mecanismo de deslizamento dos filamentos. Mas, o que faz com que os filamentos de actina deslizem por entre os filamentos de miosina? Isso resulta da força gerada pela interação das pontes cruzadas dos filamentos de miosina com os filamentos de actina. Em con- A ■ A. V I z 1 1 I I I 1 1 1 1 1 1 1 1 1 H H 4 H ♦44444 4 l l l l l l l 11111 1 r m i m 1 1 1 1 H r i H H i i i i i i i i i II H III u n i u HH Hl l l l l l l l l l l l l l l l"H-H" H" -l-H-H-H l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l H4HH l l l l l l l H I I H I l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l Relaxado 1 A A _____________A ________ i A. r z YA Z HH-SÍl l l l l l l l l l l l l l H-H I HH I !■ Contraído u n i u i i i i i i i HIIHI l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l l I H I I H Figura 6-5 Estados contraídos e relaxados da miofibrila mostrando (acima) o deslizamento dos filamentos de actina (rosa), pelos espaços entre os filamentos de miosina (vermelho) e (abaixo) puxando as membranas Z umas contra as outras. dições de repouso, essas forças estão inativas. Mas quando um potencial de ação passa pela fibra muscular ele faz com que o retículo sarcoplasmático libere grande quantidade de íons cálcio, que rapidamente circulam pelas miofibrilas. Os íons cálcio, por sua vez, ativam as forças entre os filamentos de miosina e de actina, e a contração se inicia. Mas, energia é necessária para que o processo de contração continue. Essa energia deriva das ligações de alta energia da molécula de ATP que é degradada ao difosfato de adenosina (ADP) para liberar energia. Nas próximas seções, descrevemos o que é conhecido sobre os detalhes desse processo molecular de contração. Características Moleculares dos Filamentos Contráteis Os Filamentos de Miosina São Compostos por Múltiplas Moléculas de Miosina. Cada uma das moléculas de miosina, mostradas na Figura 6-6A, tem peso molecular em torno de 480.000. A Figura 6-6B mostra uma molécula isolada; a Figura 6-6B mostra a disposição de muitas moléculas para formar os filamentos de miosina, bem como a interação desses filamentos com um dos lados das extremidades de dois filamentos de actina. A molécula de miosina (Fig. 6-6Â) é composta por seis cadeias polipeptídicas — duas cadeias pesadas, cada uma com peso molecular em torno de 200.000, e quatro cadeias leves, com peso molecular em torno de 20.000 cada. As duas cadeias pesadas se espiralam uma com a outra, para formar dupla hélice, chamada cauda ou haste da molécula de miosina. Uma ponta de cada uma dessas cadeias é dobrada para um dos lados, formando a estrutura polipeptídica globular chamada cabeça da miosina. Assim, existem duas cabeças livres na extremidade livre da molécula de miosina de dupla hélice. As quatro cadeias leves também fazem parte da cabeça da miosina, duas para cada cabeça. Essas cadeias leves ajudam a regular o funcionamento da cabeça durante a contração muscular. 76
  • 99. Cabeça Filamento de miosina Figura 6-6 A, Molécula de miosina. B, Combinação de muitas moléculas de miosina para formar o filamento de miosina. São mostrados também milhares de pontes cruzadas de miosina e interações entre as cabeças das pontes com os filamentos adjacentes de actina. O filamento de miosina é formado por 200 ou mais moléculas individuais de miosina. A região central de um desses filamentos é mostrada na Figura 6-6B, exibindo as caudas das moléculas de miosina se agrupando em feixes para formar o corpo do filamento, enquanto muitas cabeças das moléculas se projetam para fora nos lados do corpo. Também partes do corpo de cada molécula de miosina estão penduradas nas partes laterais, junto com as cabeças, formando assim um braço que estende a cabeça para fora do corpo, como mostra a figura. As projeções dos braços e das cabeças formam as pontes cruzadas. Cada ponte cruzada é flexível em dois locais, designados como dobradiças — um na junção entre o braço e o corpo do filamento de miosina, e o outro no ponto de ligação da cabeça ao braço. Os braços móveis permitem que as cabeças sejam estendidas, afastando-se do corpo do filamento de miosina, ou seja, aproximadas do corpo. Já as cabeças móveis participam sucessivamente do processo real da contração, discutido nas seções seguintes. O comprimento total de cada filamento de miosina é uniforme, quase que exato 1,6 micrômetro. Note, entretanto, que não existem cabeças com pontes cruzadas bem no centro do filamento de miosina, por distância de cerca de 0,2 micrômetro, porque os braços móveis se estendem para longe do centro. Agora, para completar o quadro, o próprio filamento de miosina é retorcido de forma que cada par sucessivo de pontes cruzadas é axialmente deslocado do par anterior por 120 graus. Isso assegura a extensão das pontes cruzadas em todas as direções em torno de um filamento. Atividade da ATPase da Cabeça de Miosina. Outra característica da cabeça da miosina, fundamental para Capítulo 6 Contração do Músculo Esquelético contração muscular, é sua função como enzima A TPase. Como explicado adiante, essa propriedade permite que a cabeça clive o ATP e utilize a energia derivada das ligações de alta energia do fosfato do ATP para energizar o processo de contração. Os Filamentos de Actina São Compostos por Actina, Tropomiosina e Troponina. A viga mestra do filamento de actina é o filamento duplo e de duas moléculas de proteína F actina, representadas pelos dois filamentos de cor mais clara na Figura 6-7. Esses dois filamentos se enroscam, em forma de hélice, de modo semelhante ao que ocorre com as moléculas de miosina. Cada filamento em dupla hélice da actina F é composto por moléculas de actina G polimerizadas, cada uma com peso molecular em torno de 42.000. Ligada a cada molécula de actina G existe uma molécula de ADP. Acredita-se que essas moléculas de ADP sejam os locais ativos, nos filamentos de actina com as quais interagem as pontes cruzadas dos filamentos de miosina para produzir a contração muscular. Os locais ativos nos dois filamentos na dupla hélice de actina F são alternados, fazendo com que por todo o filamento de actina exista um local ativo a cada 2,7 nanômetros. Cada filamento de actina tem comprimento em torno de 1 micrômetro. A base dos filamentos de actina está fortemente inserida nos discos Z; as extremidades dos filamentos projetam-se em ambas as direções para ficarem nos espaços entre as moléculas de miosina, como mostrado na Figura 6-5. As Moléculas de Tropomiosina. Os filamentos de actina contêm também outra proteína, a tropomiosina. Cada molécula de tropomiosina tem peso molecular de 70.0 e comprimento de 40 nanômetros. Essas moléculas estão espiraladas nos sulcos da dupla hélice da actina F. Durante o período de repouso, as moléculas de tropomiosina recobrem os locais ativos de filamento de actina, de forma a impedir que ocorra atração entre os filamentos de actina e de miosina para produzir contração. A Troponina e Seu Papel na Contração Muscular. Ligado intermitentemente aos lados das moléculas de tropomiosina existe ainda outro tipo de molécula de proteína, referida como troponina. Ela é na realidade complexo de três subunidades proteicas frouxamente ligadas, Locais ativos Complexo de troponina Figura 6-7 Filamento de actina, composto por dois filamentos heli- coidais de moléculas de actina-F e dois filamentos de moléculas de tropomiosina que se encaixam nos sulcos entre os filamentos de actina. Ligado a uma extremidade de cada molécula de tropomiosina está o complexo de troponina que inicia a contração. 77 U N I D A
  • 100. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo cada uma com participação específica na regulação da contração muscular. Uma das subunidades (troponina I) tem forte afinidade com a actina, outra (troponina T) com a tropomiosina e a terceira (troponina C) com os íons cálcio. Admite-se que esse complexo seja responsável pela ligação da tropomiosina com a actina. Acredita-se que a forte afinidade da troponina pelos íons cálcio seja o evento que desencadeia o processo da contração, como explicado na próxima seção. A Interação de um Filamento de Miosina com Dois Filamentos de Actina e com os íons Cálcio para Causar a Contração Inibição do Filamento de Actina pelo Complexo Tro- ponina-Tropomiosina; Ativação pelos íons Cálcio. O filamento puro de actina, na falta do complexo troponi- na-tropomiosina (mas em presença de íons magnésio e de ATP), se liga instantânea e fortemente às cabeças das moléculas de miosina. Então, se o complexo troponina- tropomiosina for adicionado ao filamento de actina, a união entre a miosina e a actina não ocorre. Por isso, acredita-se que os locais ativos do filamento normal de actina no músculo em repouso sejam inibidos ou fisicamente recobertos pelo complexo troponina-tropomiosina. Assim, esses locais não podem se ligar às cabeças dos filamentos de miosina para produzir a contração. Antes que a contração possa ocorrer, os efeitos inibidores do complexo troponina-tropomiosina devem ser inibidos. Essa situação nos leva ao papel dos íons cálcio. Em presença de grande quantidade de íons cálcio, os efeitos inibidores do complexo troponina-tropomiosina são por sua vez inibidos. O mecanismo dessa inibição não é conhecido, mas uma das sugestões é a seguinte: quando os íons cálcio se ligam à troponina C, cada uma dessas moléculas pode se ligar fortemente a até quatro íons cálcio, o complexo de troponina supostamente passa por alteração conformacional que de algum modo traciona, com grande intensidade, a molécula de tropomiosina, deslocando-a para o fundo do sulco entre os dois filamentos de actina. Isto “descobre” os locais ativos da actina, permitindo desse modo que atraiam as pontes cruzadas das cabeças da miosina, fazendo com que a contração prossiga. Mesmo sendo mecanismo hipotético, ele enfatiza que a relação normal entre o complexo troponina- tropomiosina com a actina é alterada pelos íons cálcio, criando nova condição que leva à contração. A Interação Entre o Filamento de Actina "Ativado" e as Pontes Cruzadas de Miosina —A Teoria de "Ir para Diante” (Walk-Along) da Contração. Tão logo os filamentos de actina são ativados pelos íons cálcio, as pontes cruzadas das cabeças dos filamentos de miosina são atraídas pelos locais ativos do filamento de actina, o que de alguma maneira produz a contração. Embora o modo preciso como essa interação entre as pontes cruzadas e a actina produz contração ainda seja em parte teórico, hipótese para a qual existem consideráveis evidências é a teoria do “ir para diante” (walk-along) (ou teoria da “catraca” [ratchet]) da contração. A Figura 6-8 demonstra esse mecanismo postulado de ir para diante para a contração. A figura mostra as cabeças de duas pontes cruzadas se ligando e se desligando dos locais ativos de filamento de actina. Postula-se que quando a cabeça se liga ao local ativo, essa ligação provoca ao mesmo tempo profundas alterações nas forças intramoleculares entre a cabeça e o braço dessas pontes cruzadas. O novo alinhamento de forças faz com que a cabeça se incline em direção ao braço e leve com ela o filamento de actina. Essa inclinação da cabeça é chamada de força de deslocamento ou movimento de força (power stroke). Então, imediatamente após a inclinação, a cabeça de forma automática se separa do local ativo. Em seguida, retorna para sua direção estendida. Nessa posição, ela se combina com novo local ativo, situado mais adiante no filamento de actina; então a cabeça volta a se inclinar para efetuar novo movimento de força, e o filamento de actina move outro passo. Desse modo, as pontes cruzadas das cabeças se inclinam para a frente e para trás, passo a passo, ao longo do filamento de actina, puxando as extremidades livres de dois filamentos sucessivos de actina em direção ao centro do filamento de miosina. Acredita-se que cada uma das pontes cruzadas atue de forma independente das demais, cada uma se ligando e puxando em ciclo contínuo e repetitivo. Assim, quanto maior o número de pontes cruzadas ligadas ao filamento de actina a qualquer tempo, maior será teoricamente a força da contração. ATP como Fonte de Energia para a Contração — Eventos Químicos na Movimentação das Cabeças de Miosina. Quando um músculo se contrai, é realizado trabalho com necessidade de energia. Grandes quantidades de ATP são degradadas, formando ADP durante o processo da contração; quanto maior a quantidade de trabalho realizada pelo músculo, maior a quantidade de ATP degradada, o que é referido como efeito Fenn. Acredita-se que esse efeito ocorra na seguinte sequência: 1. Antes do início da contração, as pontes cruzadas das cabeças se ligam ao ATP. A atividade da ATPase das cabeças de miosina imediatamente cliva o ATP, mas deixa o ADP e o íon fosfato como produtos dessa divagem ainda ligados à cabeça. Nessa etapa, a conformação da cabeça é tal que se estende perpendicularmente Filamentos < ---------- Movimento Locais ativos de actina Filamentos de miosina Figura 6-8 Mecanismo de “ir para diante" para contração dos músculos. 78
  • 101. Capítulo 6 Contração do Músculo Esquelético em direção ao filamento de actina, só que ainda não está ligada à actina. 2. Quando o complexo troponina-tropomiosina se liga aos íons cálcio, os locais ativos no filamento de actina são descobertos, e as cabeças de miosina então se ligam a eles, como mostra a Figura 6-8. 3. A ligação entre a ponte cruzada da cabeça e o local ativo no filamento de actina causa alteração confor- macional da cabeça, fazendo com que se incline em direção ao braço da ponte cruzada. Essa alteração gera um movimento de força para puxar o filamento de actina. A energia que ativa o movimento de força é a energia já armazenada, como uma mola “engatilhada”, pela alteração conformacional que ocorreu na cabeça quando as moléculas de ATP foram clivadas. 4. Uma vez em que a cabeça da ponte cruzada esteja inclinada, isso permite a liberação do ADP e do íon fosfato que estavam ligados à cabeça. No local onde foi liberado o ADP, nova molécula de ATP se liga. A ligação desse novo ATP causa o desligamento da cabeça pela actina. 5. Após a cabeça ter sido desligada da actina, a nova molécula de ATP é clivada para que seja iniciado novo ciclo, levando a novo movimento de força. Ou seja, a energia volta a “engatilhar” a cabeça em sua posição perpendicular, pronta para começar o novo ciclo do movimento de força. 6. Quando a cabeça engatilhada (com a energia armazenada derivada da divagem do ATP) se liga a novo local ativo no filamento de actina, ela descarrega e de novo fornece outro movimento de força. Desse modo, o processo ocorre sucessivamente até que os filamentos de actina puxem a membrana Z contra as extremidades dos filamentos de miosina, ou até que a carga sobre os músculos fique demasiadamente forte para que ocorra mais tração. O Grau de Superposição dos Filamentos de Actina e de Miosina Determina a Tensão que É Desenvolvida pelo Músculo que se Contrai A Figura 6-9 mostra o efeito do comprimento do sarcô- mero e do grau de sobreposição dos filamentos de mio- sina-actina sobre a tensão ativa desenvolvida pela fibra muscular em contração. À direita, em preto, são mostrados diferentes graus de sobreposição dos filamentos de miosina e actina em diversos comprimentos do sarcô- mero. No ponto D do diagrama, os filamentos de actina foram puxados por toda sua extensão até a extremidade do filamento de miosina, sem nenhuma sobreposição de actina-miosina. Nesse ponto, a tensão desenvolvida pelo músculo ativado é zero. Então, à medida que o sarcômero encurta e os filamentos de actina começam a se sobrepor aos filamentos de miosina, a tensão aumenta progressivamente até o comprimento de sarcômero diminuir para cerca de 2,2 micrômetros. Nesse ponto, os filamentos de actina já estão sobrepostos a todas as pontes cruzadas dos ttttW—H+ttH Comprimento do sarcômero (micrômetros) Figura 6-9 Diagrama do comprimento-tensão para sarcômero único totalmente contraído, mostrando a força máxima de contração quando o sarcômero tem 2,0 a 2,2 micrômetros de comprimento. No lado superior direito estão as posições relativas dos filamentos de actina e miosina em diferentes comprimentos do sarcômero do ponto A ao ponto D. (Modificada de Gordon AM, Huxley AF, Julian FJ:The length-tension diagram of single striated muscle fibers.J Physiol 171:28P, 1964.) filamentos de miosina, mas ainda não atingiram o centro do filamento de miosina. Mesmo com encurtamento adicional, o sarcômero mantém tensão máxima até que o ponto B seja atingido, o que ocorre quando o sarcômero encurta até 2 micrômetros. Nesse ponto, as extremidades dos dois filamentos de actina começam a se sobrepor além da sobreposição dos filamentos de miosina. Como o comprimento do sarcômero cai de 2 micrômetros para 1,65 micrômetro no ponto A, a força da contração é reduzida rapidamente. Nesse ponto, os dois discos Z do sarcômero entram em contato com as extremidades dos filamentos de miosina. Então, como as contrações prosseguem com comprimentos do sarcômero cada vez menores, as extremidades dos filamentos de miosina são enrugadas e, como mostra a figura, a força da contração se aproxima do zero, mas todo o sarcômero está agora contraído até seu menor comprimento. Efeito do Comprimento Muscular sobre a Força de Contração do Músculo Intacto Total. A curva superior da Figura 6-10 é semelhante à curva da Figura 6-9, mas a curva na Figura 6-10 retrata a tensão do músculo intacto total, e não de apenas a da fibra muscular única. O músculo em sua totalidade contém grande quantidade de tecido conjuntivo; também os sarcômeros, em partes diferentes do músculo, nem sempre se contraem do mesmo grau. Por essa razão, a curva tem dimensões algo diferentes das curvas mostradas para a fibra muscular individual, mas exibe a mesma forma geral para a inclinação, na faixa normal de contração, como se observa na Figura 6-10. Note, na Figura 6-10, que quando o músculo está no seu comprimento normal de repouso, que corresponde ao comprimento do sarcômero de cerca de 2 micrômetros, o músculo se contrai quando ativado com sua força máxima de contração. Todavia, o aumento da tensão que ocorre 79
  • 102. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Variação normal da contração Comprimento Figura 6-10 Relação do comprimento muscular com a tensão, tanto antes quanto durante a contração muscular. Contração oposta à carga (kg) Figura 6-11 Relação entre a carga e a velocidade da contração do músculo esquelético com secção transversa de 1 centímetro quadrado e comprimento de 8 centímetros. durante essa contração, chamada tensão ativa, diminui com o estiramento do músculo além de seu comprimento normal — ou seja, até comprimentos do sarcômero maiores do que 2,2 micrômetros. Isso é demonstrado pela diminuição do tamanho da seta na figura, nos tamanhos maiores que o normal do músculo. Relação entre a Velocidade de Contração e a Carga O músculo esquelético se contrai extremamente rápido quando está contraído sem qualquer carga — para estado de contração total em torno de 0,1 segundo para o músculo médio. Quando é aplicada carga, a velocidade de contração fica progressivamente menor à medida que a carga aumenta, como mostra a Figura 6-11. Ou seja, quando a carga é aumentada até valor igual à força máxima que o músculo pode exercer, a velocidade de contração é zero, não ocorrendo alguma contração, apesar da fibra muscular ter sido ativada. Essa velocidade decrescente da contração com carga é causada pelo fato de a carga, na contração do músculo, ser uma força inversa que se opõe à força contrátil, causada pela contração do músculo. Portanto, a força efetiva, disponível para causar a velocidade de encurtamento, é de modo correspondente reduzida. Energética da Contração Muscular Rendimento do Trabalho durante a Contração Muscular Quando o músculo se contrai contra uma carga, ele realiza trabalho. Isso significa que a energia é transferida do músculo para a carga externa, para levantar um objeto até a maior altura ou para superar a resistência ao movimento. Em termos matemáticos, o trabalho é definido pela seguinte equação: T = C x D na qual T é o rendimento do trabalho, C é a carga, e D é a distância do movimento contra a carga. A energia necessária para se realizar trabalho é derivada de reações químicas nas células musculares durante a contração, conforme descrito nas próximas seções. Fontes de Energia para a Contração Muscular Já foi visto que a contração muscular depende da energia fornecida pelo ATP. A maior parte dessa energia é necessária para ativar o mecanismo de ir para diante (walk- along), pelo qual as pontes cruzadas puxam os filamentos de actina, mas pequenas quantidades são necessárias para (1) o bombeamento dos íons cálcio do sarcoplasma para o retículo sarcoplasmático quando cessa a contração, e (2) o bombeamento dos íons sódio e potássio, através da membrana da fibra muscular, para manter o ambiente iônico apropriado para a propagação do potencial de ação das fibras musculares. A concentração de ATP na fibra muscular em torno de 4 milimolar é suficiente para manter a contração total por, no máximo, 1 a 2 segundos. O ATP é clivado para formar ADP, o que transfere a energia das moléculas de ATP para o mecanismo da contração da fibra muscular. Então, como descrito no Capítulo 2, o ADP é refosforilado para formar novo ATP, em outra fração de segundo, o que permite que o músculo continue sua contração. Existem muitas fontes de energia para essa refosforilação. A primeira fonte de energia que é utilizada para reconstituir o ATP é a substância fosfocreatina, que transporta uma ligação fosfato de alta energia similar às ligações do ATP. As ligações fosfato de alta energia da fosfocreatina têm teor de energia livre pouco maior que cada ligação do ATP, o que é discutido com mais detalhes nos Capítulos 67 e 72. Assim, a fosfocreatina é clivada instantaneamente, e sua energia liberada causa a ligação de novo íon fosfato ao ADP, para reconstituir o ATP. Entretanto, a quantidade total de fosfocreatina na fibra muscular é também muito pequena — apenas cerca de cinco vezes maior que a quantidade de ATP. Por isso, a energia combinada do ATP armazenado e da fosfocreatina, no músculo, é capaz de manter a contração muscular máxima por apenas 5 a 8 segundos. 80
  • 103. A segunda fonte importante de energia, que é utilizada para reconstituir o ATP e a fosfocreatina, é a “glicólise” do glicogênio previamente armazenado nas células musculares. O rápido desdobramento enzimático do glicogênio a ácidos pirúvico e lático libera energia que é utilizada para converter o ADP em ATP; o ATP pode então ser utilizado diretamente para energizar contrações musculares adicionais e também para reconstituir as reservas de fosfocreatina. A importância desse mecanismo de glicólise é dupla. Primeiro, as reações glicolíticas podem ocorrer mesmo na ausência de oxigênio, de forma que a contração muscular pode ser mantida por muitos segundos e muitas vezes por mais do que 1 minuto, mesmo quando o oxigênio liberado pelo sangue não estiver disponível. Segundo, a velocidade de formação do ATP pelo processo glicolí- tico é cerca de 2,5 vezes mais rápida do que a formação do ATP, em resposta à reação dos nutrientes celulares com o oxigênio. Entretanto, como muitos produtos finais da glicólise se acumulam nas células musculares, a glicólise perde também sua capacidade de sustentar a contração muscular máxima após 1 minuto. A terceira e última fonte de energia é o metabolismo oxidativo. Isso significa combinar o oxigênio com os produtos finais da glicólise e com vários outros nutrientes celulares, para liberar ATP. Mais de 95% de toda a energia usada pelos músculos para a contração mantida por longo tempo são derivados dessa fonte. Os nutrientes alimentares consumidos são carboidratos, gorduras e proteínas. Para a atividade muscular máxima extremamente longa — por período de várias horas —, a maior proporção de energia, de longe, vem da gordura, mas, por período de 2 a 4 horas, a metade da energia vem dos carboidratos armazenados. Os mecanismos detalhados desse processo energético são discutidos nos Capítulos 67 a 72. Além disso, a importância dos diferentes mecanismos de liberação de energia, durante o desempenho de diferentes esportes, é discutida no Capítulo 84, sobre a fisiologia esportiva. Eficiência da Contração Muscular. A eficiência de uma máquina ou de um motor é calculada conforme o percentual de energia fornecida que é convertida em trabalho, em vez de calor. O percentual da quantidade de energia fornecida ao músculo (a energia química dos nutrientes) que pode ser convertida em trabalho, mesmo sob as melhores condições, é menor que 25%, com o restante se transformando em calor. A razão para essa baixa eficiência é que cerca da metade da energia dos nutrientes é perdida durante a formação do ATP, e mesmo assim somente 40% a 45% da energia do ATP pode ser posteriormente convertida em trabalho. A eficiência máxima só pode ser conseguida quando a contração muscular ocorre com velocidade moderada. Se o músculo se contrair lentamente ou sem qualquer movimento, pequenas quantidades do calor de manutenção são liberadas durante a contração, mesmo que pouco ou nenhum trabalho seja realizado, fazendo com que a eficiência da conversão diminua a zero. De modo inverso, se a Capítulo 6 Contração do Músculo Esquelético contração for muito rápida, grande quantidade de energia é usada para superar a fricção viscosa no próprio músculo, o que também reduz a eficiência da contração. Geralmente ocorre eficiência máxima quando a velocidade da contração fica em torno de 30% da máxima. Características da Contração do Músculo Como um Todo Muitas características da contração muscular podem ser demonstradas pela produção de um abalo muscular (muscle twitch). Este pode ser produzido por meio da excitação elétrica instantânea do nervo muscular ou por breve estímulo elétrico, originando contração breve e abrupta que dura fração de segundo. Contração Isométrica versus Isotônica. A contração muscular é dita isométrica quando o músculo não encurta durante contração, e isotônica quando encurta, mas sua tensão permanece constante por toda a contração. Sistemas para registrar os dois tipos de contração muscular são mostrados na Figura 6-12. No sistema isométrico, o músculo se contrai contra um transdutor de força sem que ocorra encurtamento do músculo, como mostrado no lado direito da Figura 6-12. No sistema isotônico, o músculo se encurta contra carga fixa; esse sistema está ilustrado no lado esquerdo da figura, onde se pode observar o músculo levantando peso. As características das contrações isotônicas dependem da carga contra a qual o músculo se contrai, além da inércia da carga. Entretanto, o sistema isométrico em termos estritos só registra a variação da força da própria contração muscular. Por isso, o sistema isométrico é comumente mais utilizado quando se comparam as características funcionais dos diferentes tipos de músculo. Características dos Abalos Isométricos Registrados em Diferentes Músculos. O corpo humano contém músculos esqueléticos com dimensões muito diferentes — desde o músculo estapédio muito pequeno no ouvido médio, medindo somente uns poucos milímetros de comprimento e um milímetro ou mais de diâmetro, até o grande músculo quadrí- ceps, meio milhão de vezes maior que o estapédio. Além disso, as fibras podem ser tão delgadas quanto 10 micrô- metros de diâmetro, ou tão grossas quanto 80 micrômetros. Por fim, a energética da contração muscular varia consideravelmente entre os diferentes músculos. Por isso, não é sur- Eletrodos de estimulação Transdutor eletrônico de força Para registro eletrônico Sistema isométrico Figura 6-12 Sistemas isotônico e isométrico para registro das contrações musculares. 81
  • 104. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo preendente que as características mecânicas da contração muscular sejam diferentes entre os diversos músculos. A Figura 6-13 mostra o registro das contrações isométri- cas de três tipos de músculo esquelético: um músculo ocular, com contração isométrica de menos do que 1/50 segundo; o músculo gastrocnêmio, com duração da contração de cerca de 1/15 segundo; e o músculo sóleo, com duração da contração de cerca de 1/5 segundo. É interessante que essas durações da contração sejam adaptadas para as funções dos respectivos músculos. Os movimentos oculares devem ser extremamente rápidos para que possa ser mantida a fixação dos olhos nos objetos específicos para garantir a acuidade visual. O músculo gastrocnêmio deve se contrair com velocidade moderadamente alta, para permitir o movimento dos membros com velocidade suficiente para a corrida e para o salto, e o músculo sóleo tem como função principal a contração lenta para o suporte contínuo e por longo período do corpo contra a gravidade. Fibras Musculares Rápidas versus Fibras Lentas. Como discutido mais detalhadamente no Capítulo 84, sobre a fisiologia dos esportes, cada músculo do corpo é composto por mistura das chamadas fibras musculares rápidas e lentas, além das fibras com diferentes gradações entre estes dois extremos. Os músculos que reagem rapidamente, como o tibial anterior, são compostos em sua maior parte por fibras “rápidas” com apenas pequeno número da variedade lenta. Inversamente, músculos que respondem lentamente, mas com contração prolongada, como o sóleo, são compostos na maior parte por fibras “lentas”. As diferenças entre esses dois tipos de fibras são descritas a seguir. Fibras Lentas (Tipo 1, Músculo Vermelho). (1) Fibras menores. (2) Também inervados por fibras nervosas pequenas. (3) Sistema dos vasos sanguíneos e dos capilares mais extensos, para suprir quantidades extras de oxigênio. (4) Número de mitocôndrias muito elevado também para dar suporte aos altos níveis de metabolismo oxidativo. (5) As fibras contêm grande quantidade de mioglobina, proteína que contém ferro, semelhante à hemoglobina nas hemácias. A mioglobina se combina com o oxigênio e o armazena até que ele seja necessário; isso faz também com que o transporte de oxigênio para as mitocôndrias seja acelerado. A mioglobina dá ao músculo lento sua aparência avermelhada e o nome de músculo vermelho. Figura 6-13 Duração das contrações isométricas para diferentes tipos de músculo esquelético de mamíferos, mostrando o período latente entre o potencial de ação (despolarização) e a contração muscular. Fibras Rápidas (Tipo 2, Músculo Branco). (1) Fibras grandes para grande força de contração. (2) Retículo sarcoplasmático muito extenso, para a rápida liberação dos íons cálcio para desencadear a contração. (3) Grande quantidade de enzimas glicolíticas, para a rápida liberação de energia pelo processo glicolítico. (4) Suprimento de sangue menos extenso devido ao metabolismo oxidativo ter importância secundária. (5) Menor número de mitocôndrias também porque o metabolismo oxidativo é secundário. Ao déficit de mioglobina vermelha no músculo rápido damos o nome de músculo branco. Mecânica da Contração do Músculo Esquelético Unidade Motora -Todas as Fibras Musculares São Inervadas por uma Só Fibra Nervosa. Cada motoneurônio que sai da medula espinhal inerva múltiplas fibras musculares, e essa quantidade depende do tipo de músculo. Todas as fibras musculares inervadas por uma só fibra nervosa formam uma unidade motora. Em geral, pequenos músculos que devem reagir rapidamente e nos quais o controle deve ser preciso têm mais fibras nervosas e menos fibras musculares (p. ex., apenas duas ou três fibras musculares por unidade motora, em alguns dos músculos da laringe). Inversamente, grandes músculos que não necessitam de controle fino, como o músculo sóleo, podem ter muitas fibras musculares em uma unidade motora. O número médio para todos os músculos do corpo é questionável, mas boa suposição seria em torno de 80 a 100 fibras musculares por unidade motora. As fibras musculares de cada unidade motora não estão agrupadas no músculo, mas se misturam com outras unidades motoras como microgrupos de três a 15 fibras. Essa interpenetração permite que unidades motores distintas se contraiam em suporte às outras, e não como segmentos individuais. Contrações Musculares com Forças Diferentes — Somação das Forças. Somação significa a soma de abalos individuais, para aumentar a intensidade da contração total. A somação ocorre por dois meios: (1) pelo aumento do número de unidades motoras que se contraem ao mesmo tempo, referido como somação por fibras múltiplas, e (2) pelo aumento da frequência de contração, que é referido como somação por frequência e pode levar à tetanização. Somação por Fibras Múltiplas. Quando o sistema nervoso central envia um sinal fraco para que o músculo se contraia, as menores unidades motoras do músculo podem ser estimuladas em preferência às unidades motoras maiores. Então, à medida que a força do sinal aumenta, unidades motoras cada vez maiores começam a ser também excitadas, com as maiores unidades motoras apresentando 50 vezes mais força contrátil que as unidades menores. Isso é conhecido como o princípio do tamanho. Esse fenômeno é importante, pois permite a gradação da força muscular durante contração fraca que ocorre em pequenas etapas, uma vez que essas etapas ficam progressivamente maiores quando grande quantidade de força é necessária. A razão para esse princípio do tamanho é que as pequenas unidades motoras são inervadas por pequenas fibras nervosas motoras, e os pequenos moto- neurônios na medula espinhal são mais excitáveis que os maiores, sendo naturalmente excitados primeiro. Outra importante característica da somação por múltiplas fibras é que as diferentes unidades motoras são ativa- 82
  • 105. das de forma assincrônica pela medula espinhal, de forma que a contração ocorre alternadamente entre as diferentes unidades motoras, uma após a outra, e desse modo produz contração suave e regular até mesmo sob baixas frequências dos sinais nervosos. Somação por Frequência e Tetanização. A Figura 6-14 mostra os princípios da somação por frequência e da tetanização. O lado esquerdo mostra contrações musculares individuais sucedendo-se uma após a outra, com baixa frequência de estimulação. Em seguida, à medida que essa frequência vai aumentando, alcança-se um ponto onde cada nova contração ocorre antes que a anterior termine. Como resultado, a segunda contração é parcialmente somada à anterior, de forma que a força total da contração aumenta progressivamente com o aumento da frequência. Quando a frequência atinge um nível crítico, as contrações sucessivas eventualmente ficam tão rápidas que se fundem, e a contração total do músculo aparenta ser completamente uniforme e contínua, como mostra a figura. Isso é referido como tetanização. Com frequência pouco maior, a força da contração atinge sua capacidade máxima, de modo que qualquer aumento adicional da frequência além desse ponto não exerce novos efeitos para aumentar a força contrátil. Isso ocorre porque quantidades suficientes de íons cálcio são mantidas no sar- coplasma muscular mesmo entre os potenciais de ação, de modo que o estado contrátil total é mantido, sem que seja permitido nenhum grau de relaxamento entre os potenciais de ação. Força Máxima da Contração. A força máxima da contração tetânica de músculo em atividade em seu comprimento muscular normal é em torno do valor médio de 3 a 4 kg por centímetro quadrado (cm2) de músculo. Dado que o músculo quadríceps pode ter até 40 cm2 em seu ventre, até cerca de 363 kg de tensão podem ser aplicados ao tendão patelar. Assim, pode-se facilmente entender como é possível para o músculo arrancar seus tendões de suas inserções ósseas. Alterações da Força dos Músculos no Início da Contração — O Efeito da Escada (Treppe). Quando um músculo começa a se contrair, após longo período de repouso, sua força inicial de contração pode ser tão pequena quanto a metade de sua força após 10 a 50 contrações musculares seguintes. Isso quer dizer que a força da contração aumenta até atingir um platô, fenômeno conhecido por efeito da escada ou treppe. Ainda que todas as possibilidades da causa do efeito da escada não sejam conhecidas, acredita-se que ele seja cau- Frequência da estimulação (vezes por segundo) Figura 6-14 Frequência da somação e tetanização. Capítulo 6 Contração do Músculo Esquelético sado primariamente pelo aumento dos íons cálcio no citosol, devido à liberação contínua de mais e mais íons cálcio pelo retículo sarcoplasmático a cada potencial de ação do músculo e à falha do sarcoplasma de recaptar imediatamente esses íons. Tônus do Músculo Esquelético. Mesmo quando os músculos estão em repouso, em geral eles ainda apresentam certa tensão. Essa tensão é conhecida como tônus muscular. Como normalmente a fibra muscular esquelética não se contrai sem que ocorra um potencial de ação para estimulá-la, o tônus do músculo esquelético resulta inteiramente de baixa frequência de impulsos nervosos vindos da medula espinhal. Esses impulsos, por sua vez, são controlados em parte por sinais transmitidos pelo cérebro para o motoneu- rônio anterior da medula espinhal, e em parte por sinais originados nos fusos musculares, localizados no próprio músculo. A discussão sobre as relações dos fusos musculares e o funcionamento da medula espinhal é encontrada no Capítulo 54. Fadiga Muscular. Contrações musculares fortes, perdurando por período prolongado, levam ao bem conhecido estado de fadiga muscular. Estudos em atletas mostraram que a fadiga muscular aumenta em proporção quase direta com a intensidade da depleção do glicogênio muscular. Assim, os efeitos da fadiga surgem em grande parte da incapacidade contrátil e do processo metabólico das fibras musculares de continuar a manter a mesma quantidade de trabalho. Entretanto, experimentos mostraram que também a transmissão dos sinais nervosos pela junção neuromuscular, discutida no Capítulo 7, pode diminuir pelo menos por pequena quantidade, após intensa e prolongada atividade muscular, e desse modo diminuir a contração muscular. A interrupção do fluxo sanguíneo durante a contração do músculo leva à fadiga muscular quase total em 1 a 2 minutos, devido à perda do suprimento de nutrientes, especialmente de oxigênio. Sistemas de Alavancas do Corpo. Os músculos atuam pela aplicação de tensão em seus pontos de inserção nos ossos, e os ossos por sua vez formam vários tipos de sistemas de alavancas. A Figura 6-15 mostra o sistema de alavanca que é ativado pelo músculo bíceps para levantar o antebraço. Se Figura 6-15 Sistema de alavanca ativado pelo músculo bíceps. 83 U N I D A
  • 106. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo assumirmos que um músculo bíceps grande tenha área de secção transversa de 15 cm2, a força máxima de sua contração seria de cerca de 136 kg. Quando o antebraço está em ângulo reto com o braço, o tendão do bíceps está inserido cerca de 5 cm à frente do fulcro no cotovelo, e o comprimento total da alavanca do antebraço é de cerca de 35 cm. Nesse caso, a quantidade de potência de levantamento pelo bíceps na mão seria somente um sétimo da força muscular de 136 kg ou mais precisamente de cerca de 19,5 kg. Quando o braço é totalmente estendido, o tendão do bíceps fica a muito menos que os 5 cm à frente do fulcro, e a força para o movimento da mão para diante é muito menor que 19,5 kg. Em resumo, a análise dos sistemas de alavancas do corpo depende do conhecimento (1) do ponto da inserção muscular, (2) da distância do fulcro da alavanca, (3) do comprimento do braço da alavanca, e (4) da posição da alavanca. Muitos tipos de movimento são requeridos no corpo, alguns deles exigindo grande força, e outros exigindo grandes extensões de movimento. Por essa razão, existem muitos tipos diferentes de músculo; alguns longos e que se contraem por longa distância; alguns curtos, mas com grandes áreas de secção transversa, e capazes de fornecer força extrema de contração por curtas distâncias. O estudo dos diferentes tipos de músculos dos sistemas de alavanca e de seus movimentos é conhecido por cinesiologia, sendo um importante componente científico da fisioanatomia humana. "Posicionamento” das Partes do Corpo para a Contração dos Músculos Agonistas e Antagonistas em Lados Opostos de uma Articulação — "Coativação” dos Músculos Antagonistas. Praticamente, todos os movimentos do corpo são causados por contrações simultâneas dos músculos agonistas e antagonistas nos lados opostos da articulação. Isso é referido como coativação dos músculos agonistas e antagonistas, sendo regulado pelos centros de controle motor do cérebro e da medula espinhal. A posição de cada parte separada do corpo, como um braço ou uma perna, é determinada pelos graus relativos de contração dos grupos musculares agonistas e antagonistas. Por exemplo, vamos assumir que um braço ou perna deve ser colocado em posição média de seu alcance. Para isso, os músculos agonistas e antagonistas recebem praticamente a mesma intensidade de excitação. Lembre-se de que o músculo estirado se contrai com mais força que um músculo não estirado, como demonstrado na Figura 6-10, mostrando força máxima para a contração no comprimento funcional total do músculo e quase nenhuma força de contração na metade do comprimento normal. Desse modo, o músculo estirado em um dos lados da articulação pode se contrair com muito mais força que o músculo não estirado do lado oposto. À medida que o braço ou a perna se move para a posição média, a força dos músculos mais longos diminui, enquanto nos músculos mais curtos aumenta até que as duas forças fiquem iguais. Nesse momento, o movimento do braço ou da perna cessa. Assim, pela variação da relação entre os diferentes graus de ativação dos músculos agonistas e antagonistas, o sistema nervoso determina o posicionamento do braço ou da perna. Vamos aprender, no Capítulo 54, que o sistema nervoso motor tem mecanismos adicionais importantes para compensar as diferentes cargas musculares quando dirige esse processo de posicionamento. Remodelação do Músculo para se Ajustar à sua Função Todos os músculos do corpo são continuamente remodelados para se ajustar às funções que são requeridas deles. Seus diâmetros podem ser alterados, seus comprimentos podem ser alterados, suas forças podem ser alteradas, seus suprimentos vasculares podem ser alterados e até mesmo suas fibras musculares, mesmo que discretamente, podem ser alteradas. Esse processo de remodelação é em geral bastante rápido, durando no máximo poucas semanas. Na verdade, experimentos em animais mostraram que as proteínas contráteis, em alguns dos menores e mais ativos músculos, podem ser substituídas no curto período de 2 semanas. Hipertofria e Atrofia Musculares. Quando a massa muscular total aumenta, isso é referido como hipertrofia muscular. Quando a massa muscular diminui, o processo é referido como atrofia muscular. Virtualmente, toda hipertrofia muscular resulta do aumento do número dos filamentos de actina e de miosina em cada fibra muscular, produzindo aumento dessa fibra; isso é designado simplesmente por fibra hipertrofiada. Hipertrofia em grau muito maior ocorre quando o músculo trabalha contra a carga durante o processo contrátil. Apenas poucas e fortes contrações a cada dia são necessárias para causar hipertrofia significativa, dentro de 6 a 10 semanas. A maneira pela qual as contrações vigorosas levam à hipertrofia não é conhecida. O que é sabido, entretanto, é que a intensidade da síntese das proteínas contráteis no músculo é bem maior quando a hipertrofia está se desenvolvendo, gerando também aumento progressivo dos filamentos de actina e de miosina nas miofibrilas com frequência aumentando por até 50%. Por sua vez, observou-se que algumas miofibrilas de forma independente se dividem nos músculos hipertrofiados para formar novas miofibrilas, mas o quanto isso é importante para a hipertrofia muscular usual ainda não é conhecido. Junto com o aumento crescente do tamanho das miofibrilas, o sistema enzimático que fornece energia também aumenta. Isso é especialmente válido para as enzimas para a glicólise, possibilitando o rápido suprimento de energia durante as curtas e vigorosas contrações musculares. Quando um músculo fica sem uso por muitas semanas, a intensidade de degradação das proteínas contráteis é muito mais rápida do que a intensidade de sua reposição. Disso resulta a atrofia muscular. A via parece ser responsável pela parte da degradação, ocorrendo em músculo em atrofia é a via ubiquitina-proteasoma, dependente de ATP. Proteasomas são grandes complexos de proteínas que degradam outras proteínas, danificadas ou desnecessárias por proteólise, a reação química que desfaz as ligações peptídicas. A ubiqui- tina é proteína respiratória que basicamente marca as células que serão destinadas à destruição pelos proteasomas. Ajuste do Comprimento dos Músculos. Outro tipo de hipertrofia ocorre em geral quando os músculos estão mais estirados além do comprimento normal. Esse esti- ramento excessivo faz com que novos sarcômeros sejam adicionados às extremidades das fibras musculares por onde são ligadas aos tendões. De fato, novos sarcômeros podem ser adicionados tão rapidamente quanto vários a cada minuto nos músculos novos em desenvolvimento, ilustrando assim a rapidez desse tipo de hipertrofia. 84
  • 107. Inversamente, quando o músculo permanece continuamente mais curto do que seu tamanho normal, os sar- cômeros das extremidades das fibras musculares podem desaparecer. É por esse processo que os músculos são continuamente remodelados para que possam ter o tamanho apropriado para a contração muscular adequada. Hiperplasia das Fibras Musculares. Sob raras circunstâncias de geração de força muscular extrema, observou-se que o número real de fibras musculares aumentou (mas apenas por alguns pontos percentuais), independentemente do processo de hipertrofia. Esse aumento do número de fibras musculares é referido como hiperplasia da fibra. Quando ocorre, o mecanismo é a divisão linear das fibras previamente aumentadas. Efeitos da Desnervação Muscular. Quando um músculo é privado de seu suprimento nervoso, deixa de receber os sinais contráteis necessários para manter as dimensões normais do músculo. Como resultado, o processo de atrofia começa imediatamente. Após 2 meses, mudanças degenerativas começam também a aparecer nas próprias fibras musculares. Caso o suprimento nervoso para o músculo seja restabelecido rapidamente, a recuperação total do músculo pode ocorrer em 3 meses, mas depois desse tempo a capacidade de restabelecimento funcional do músculo até o normal começa a diminuir com o passar do tempo, desaparecendo definitivamente após decorridos 1 a 2 anos. No estágio final da atrofia de desnervação, a maioria das fibras musculares é destruída e substituída por tecido fibroso e gorduroso. As fibras que ainda persistem são compostas por longas membranas celulares com alinhamento de pequenos núcleos, mas com pouca ou nenhuma propriedade contrátil ou capacidade regenerativa das miofibrilas caso o nervo cresça novamente. O tecido fibroso que substitui as fibras musculares durante a atrofia causada pela desnervação tem também a tendência de continuar a se encurtar por vários meses, o que é conhecido por contratura. Assim, um dos problemas mais importantes da fisioterapia consiste em evitar que os músculos em atrofia venham a desenvolver contraturas debilitantes ou deformantes. Isso é conseguido por meio de exercícios diários de alongamento dos músculos ou pelo uso de aparelhos que mantenham os músculos estirados durante o processo de atrofia. Recuperação da Contração Muscular na Poliomielite: Desenvolvimento de Unidades Macromotoras. Quando algumas, porém não todas fibras nervosas do músculo são destruídas, como ocorre usualmente nos casos de poliomielite, as fibras nervosas remanescentes se ramificam para formar novos axônios, que então vão inervar muitas das fibras musculares paralisadas. Esse tipo de reação forma grandes unidades motoras, referidas como unidades macromotoras, podendo ter até cinco vezes o número normal de fibras mus- Capítulo 6 Contração do Músculo Esquelético culares para cada motoneurônio da medula espinhal. Isso reduz a eficiência e a finura do controle que a pessoa tem sobre seus músculos, mas permite que os músculos voltem a ter a possibilidade de variar sua força. Rigidez Cadavérica (Rigor Mortis) Algumas horas após a morte, todos os músculos do corpo entram no estado de contratura, conhecido como “rigidez cadavérica” (ou rigor mortis)-, ou seja, os músculos se contraem e ficam rígidos mesmo sem potenciais de ação. Essa rigidez resulta da perda de todo ATP que é necessário para a separação das pontes cruzadas dos filamentos de actina durante o processo de relaxamento. Os músculos permanecem rígidos até que as proteínas musculares degenerem em torno de 15 a 25 horas, o que provavelmente resulta da autólise causada pelas enzimas liberadas pelos lisossomas. Todos esses eventos ocorrem mais rapidamente nas temperaturas mais altas. Referências Allen DG, Lamb GD, Westerblad H: Skeletal muscle fatigue: cellular mecha- nisms, Physiol Rev 88:287,2008. 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  • 109. CAPÍTULO 7 Excitação do Músculo Esquelético: Transmissão Neuromuscular e Acoplamento Excitação-Contração Transmissão dos Impulsos das Terminações Nervosas para as Fibras Musculares Esqueléticas: A Junção Neuromuscular As fibras musculares esqueléticas são inervadas por grandes fibras nervosas mielinizadas que se originam nos grandes neurônios motores nos cornos anteriores da medula espinhal. Como destacado no Capítulo 6, cada fibra nervosa, depois de penetrar no feixe muscular, normalmente se ramifica e estimula de três a várias centenas de fibras musculares esqueléticas. Cada terminação nervosa faz uma junção, chamada junção neuromuscular, com a fibra muscular próxima de sua porção média. O potencial de ação, iniciado na fibra muscular pelo sinal nervoso, viaja em ambas as direções até as extremidades da fibra muscular. Com exceção de cerca de 2% das fibras musculares, existe apenas uma dessas junções por fibra muscular. Anatomia Fisiológica da Junção Neuromuscular — A Placa Motora. A Figura 7-LA e B mostra a junção neuromuscular de grande fibra nervosa mielinizada com uma fibra muscular esquelética. A fibra nervosa forma complexo de terminais nervosos ramificados que se inva- ginam na superfície extracelular da fibra muscular. Toda a estrutura é chamada de placa motora. Ela é recoberta por uma ou mais células de Schwann que a isolam dos líquidos circunjacentes. A Figura 7-1C mostra um esquema de micrografia eletrônica da junção entre um terminal de um axônio e a membrana da fibra muscular. A membrana invaginada é chamada de goteira sináptica ou canaleta sináptica, e o espaço entre o terminal e a membrana da fibra é chamado de espaço sináptico ou fenda sináptica. Este espaço tem de 20 a 30 nanômetros de largura. No fundo da goteira encontram-se numerosas pequenas dobras da membrana muscular, chamadas de fendas subneurais, que aumentam em muito a área de superfície na qual o transmissor sináptico pode agir. No terminal axonal há muitas mitocôndrias que fornecem trifosfato de adenosina (ATP), a fonte de energia que é usada para a síntese de um transmissor excitatório, a acetilcolina. A acetilcolina, por sua vez, excita a membrana da fibra muscular. A acetilcolina é sintetizada no citoplasma do terminal, mas é absorvida rapidamente por muitas pequenas vesículas sinápticas, cerca de 300.000, as quais se encontram normalmente nos terminais de uma única placa motora. No espaço sináptico há grandes quantidades da enzima acetilcolinesterase, que destrói a aceticolina alguns milissegundos depois que ela foi liberada das vesículas sinápticas. Secreção de Acetilcolina pelos Terminais Nervosos Quando um impulso nervoso atinge a junção neuromuscular, cerca de 125 vesículas de acetilcolina são liberadas dos terminais no espaço sináptico. Alguns dos detalhes deste mecanismo podem ser vistos na Figura 7-2, que mostra uma imagem expandida de um espaço sináptico, com a membrana neural acima e a membrana muscular e suas fendas subneurais abaixo. Na superfície interna da membrana neural estão as barras densas lineares, mostradas em corte transversal na Figura 7-2. Nos dois lados de cada barra densa estão partículas proteicas que penetram na membrana neural; são os canais de cálcio controlados por voltagem. Quando o potencial de ação se propaga para o terminal, esses canais se abrem e permitem que os íons cálcio se difundam do espaço sináptico para o interior do terminal nervoso. Considera-se que os íons cálcio, por sua vez, exerçam atração sobre as vesículas de acetilcolina, puxando-as para a membrana neural adjacente às barras densas. As vesículas se fundem então com a membrana neural e lançam a acetilcolina no espaço sináptico, pelo processo da exocitose. Embora alguns dos detalhes previamente mencionados sejam especulativos, sabe-se que o estímulo efetivo que causa a liberação da acetilcolina das vesículas é a entrada dos íons cálcio e que a acetilcolina das vesículas é esvaziada através da membrana neural adjacente às barras densas. 87 U N I D A
  • 110. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Figura 7-1 Diferentes perspecti- vas da placa motora. A, Corte lon- gitudinal através da placa motora. B, Visão da superfície da placa motora. C, Aspecto na microgra- fia eletrônica do ponto de con- tato entre um terminal isolado de um axônio e a membrana da fibra muscular. (Redesenhada de Fawcett DW, conforme modifi- cação de Couteaux R, in Bloom W, Fawcett DW: A Textbook ot Histology. Philadelphia: WB Saunders, 1986.) Bainha de Axônio Fendas subneurais Vesículas sinápticas Terminal axonal na goteira sináptica Locais de Membrana Vesículas Barra densa Canais de cálcio Lâmina basal e Figura 7-2 Liberação de acetilcolina das vesículas sinápticas na membrana neural da junção neuromuscular. Observe a proximidade entre os locais de liberação na membrana neural para os receptores de acetilcolina na membrana muscular, nas aberturas das fendas subneurais. Efeito da Acetilcolina na Membrana Pós-sináptica da Fibra Muscular para Abrir os Canais lônicos. A Figura 7-2 mostra também muitos receptores de acetilcolina na membrana da fibra muscular; são os canais iônicos controlados pela acetilcolina, e se localizam quase inteira mente próximos às aberturas das fendas subneurais, situadas imediatamente abaixo das áreas de barras densas, onde a acetilcolina é lançada no espaço sináptico. Cada receptor é complexo proteico com peso molecular total de 275.000. O complexo é composto por cinco subunidades proteicas, duas proteínas alfa e uma de cada uma das proteínas beta, delta e gama. Essas moléculas proteicas penetram por toda a extensão da membrana, situando-se lado a lado em círculo para formar o canal tubular, ilustrado na Figura 7-3. O canal mantém-se fechado, como mostrado na parte A da figura, até que duas moléculas de acetilcolina se liguem às duas subunidades proteicas alfa. Isso provoca alteração conformacional que abre o canal, como mostrado na parte B da figura. O canal regulado pela acetilcolina tem diâmetro de cerca de 0,65 nanômetro, grande o suficiente para permitir que íons positivos importantes — sódio (Na+), potássio (K+) e cálcio (Ca++) — se movimentem facilmente pela abertura. Porém, íons negativos, tais como os íons cloreto, não passam pelo canal devido às fortes cargas negativas na abertura do canal que repelem esses íons negativos. Na prática, muitos mais íons sódio fluem pelos canais regulados pela acetilcolina do que quaisquer outros íons, por duas razões. Primeira, existem apenas dois íons positivos em alta concentração: os íons sódio, no líquido extracelular e os íons potássio, no líquido intracelular. Segunda, o potencial muito negativo do lado de dentro da membrana muscular, -80 a -90 milivolts, puxa os íons 88
  • 111. Capítulo 7 Excitação do Músculo Esquelético:Transmissão Neuromuscular e Acoplamento Excitação-Contração B Figura 7-3 Canal colinérgico. A, Estado fechado. B, Depois que a acetilcolina (Ach) se ligou e uma alteração de conformação abriu o canal, permitindo que íons sódio penetrassem na fibra muscular e estimulassem a contração. Observe as cargas negativas na abertura do canal que impedem a passagem de íons negativos como o cloreto. sódio com carga positiva para o interior da fibra e simultaneamente se opõe ao efluxo dos íons potássio com carga positiva. Como mostrado na Figura 7-3B, o principal efeito da abertura dos canais controlados pela acetilcolina é permitir que grande número de íons sódio entre na fibra, levando com eles grande número de cargas positivas. Isso provoca alteração potencial local positiva, no lado interno da membrana da fibra muscular, chamado potencial da placa motora. Por sua vez, esse potencial da placa motora inicia um potencial de ação que se propaga ao longo da membrana muscular, causando a contração muscular. Destruição da Acetilcolina Liberada pela Acetilco- linesterase. A acetilcolina, uma vez liberada no espaço sináptico, continua a ativar os receptores de acetilcolina enquanto esta persistir nesse espaço. Entretanto, ela é removida rapidamente por dois modos: (1) A maior parte da acetilcolina é destruída pela enzima aceticolinesterase Figura 7-4 Potenciais de placa motora (em milivolts). A, Potencial de placa motora de pequena amplitude, registrado em um músculo curarizado, insuficiente para desencadear um potencial de ação. B, Potencial de placa motora normal, desencadeando um potencial de ação muscular. C, Potencial de placa motora reduzido em amplitude pela toxina botulínica, que diminui a liberação de acetilcolina na placa motora; o potencial é insuficiente para desencadear um potencial de ação muscular. que está ligada principalmente à camada esponjosa do tecido conjuntivo fino que preenche o espaço sináptico, entre o terminal nervoso pré-sináptico e a membrana muscular pós-sináptica. (2) Pequena quantidade de acetilcolina se difunde para fora do espaço sináptico, e assim deixa de estar disponível para agir sobre a membrana da fibra muscular. O tempo reduzido em que a acetilcolina se mantém no espaço sináptico — alguns milissegundos, se tanto — é normalmente suficiente para excitar a fibra muscular. A rápida remoção da acetilcolina evita a reexcitação continuada do músculo, depois que a fibra muscular se recuperou de seu potencial de ação inicial. Potencial da Placa Motora e Excitação da Fibra Muscular Esquelética. O influxo de íons sódio para a fibra muscular quando os canais colinérgicos se abrem causa variação do potencial elétrico no interior da fibra, no local da placa motora, para aumentar na direção positiva, por 50 a 75 milivolts, criando um potencial local chamado potencial da placa motora. Relembre, do Capítulo 5, que aumento súbito no potencial da membrana nervosa de mais de 20 a 30 milivolts é normalmente suficiente para iniciar a abertura de mais e mais canais de sódio, iniciando assim um potencial de ação na membrana da fibra muscular. A Figura 7-4 mostra o princípio pelo qual um potencial da placa motora inicia o potencial de ação. Essa figura mostra três potenciais da placa motora. Os potenciais da placa motora A e C são muito fracos para desencadear um potencial de ação; porém, produzem fracas alterações locais de voltagem na placa motora, como registrados na figura. Em contraste, o potencial da placa motora B é de amplitude maior e faz com que número suficiente de canais de sódio se abra, de forma que o efeito autorrege- nerativo de mais e mais íons sódio fluindo para o interior da fibra inicie um potencial de ação. A baixa amplitude 89
  • 112. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo do potencial da placa motora no ponto A foi causada por envenenamento da fibra muscular com curare, fár- maco que bloqueia o efeito controlador da acetilcolina sobre os canais colinérgicos competindo pelos receptores da acetilcolina. A baixa amplitude do potencial da placa motora no ponto C resultou do efeito da toxina botulí- nica, veneno bacteriano que diminui a quantidade de acetilcolina liberada pelos terminais nervosos. Fator de Segurança para a Transmissão na Junção Neuromuscular; Fadiga da Junção. Ordinariamente, cada impulso que chega à junção neuromuscular provoca potencial da placa motora de amplitude três vezes maior que o necessário para estimular a fibra muscular. Portanto, a junção neuromuscular normal tem alto fator de segurança. No entanto, a estimulação da fibra nervosa com frequências maiores que 100 vezes por segundo, por vários minutos, com frequência diminui tanto o número de vesículas de acetilcolina que os impulsos não são mais transmitidos à fibra muscular. Isso é chamado de fadiga da junção neuromuscular, e é o mesmo efeito que causa a fadiga no sistema nervoso central quando as sinapses são superexcitadas. Em condições normais de funcionamento, raramente ocorre fadiga mensurável da junção neuromuscular e mesmo assim apenas nos níveis mais exaustivos de atividade muscular. Biologia Molecular da Formação e da Liberação de Acetilcolina Como a junção neuromuscular é grande o suficiente para ser estudada com facilidade, ela é uma das poucas sinapses do sistema nervoso cujos detalhes da transmissão química foram bem estudados. A formação e a liberação da acetilcolina nessa junção ocorrem nos seguintes estágios: 1. Pequenas vesículas, com tamanho de cerca de 40 nanô- metros, são formadas pelo aparelho de Golgi no corpo celular do neurônio motor, na medula espinhal. Essas vesículas são então transportadas pelo axoplasma, que “flui” pelo interior do axônio, desde o corpo celular, na medula espinhal, até a junção neuromuscular, nas terminações das fibras nervosas periféricas. Cerca de 300.000 dessas pequenas vesículas se acumulam nos terminais nervosos da única placa motora do músculo esquelético. 2. A acetilcolina é sintetizada no citosol do terminal da fibra nervosa e é imediatamente transportada através das membranas das vesículas para seu interior, onde é armazenada em forma altamente concentrada, com cerca de 10.000 moléculas de acetilcolina em cada vesícula. 3. Quando um potencial de ação chega ao terminal nervoso, ele abre muitos canais de cálcio na membrana do terminal nervoso, uma vez que esse terminal tem canais de cálcio controlados por voltagem. Como resultado, a concentração do íon cálcio, no interior do terminal, aumenta por cerca de 100 vezes, o que por sua vez aumenta a velocidade de fusão das vesículas de acetilcolina com a membrana do terminal por cerca de 10.000 vezes. Essa fusão faz com que muitas das vesículas se rompam, permitindo a exocitose da acetilcolina para espaço sináptico. Cerca de 125 vesículas são submetidas à exocitose a cada potencial de ação. Depois de alguns milissegundos, a acetilcolina é clivada pela acetilcolinesterase em íon acetato e em colina, e a colina é reabsorvida ativamente pelo terminal neural e usada para formar nova acetilcolina. Essa sequência de eventos ocorre em período de 5 a 10 milissegundos. 4. O número de vesículas disponíveis na terminação nervosa é suficiente para permitir a transmissão de apenas algumas centenas de impulsos do nervo para o músculo. Portanto, para a função contínua da junção neuromuscular, novas vesículas precisam ser reformadas rapidamente. Em alguns segundos após cada potencial de ação ter terminado, “pequenas invaginações” aparecem na membrana do terminal nervoso, causadas por proteínas contráteis na terminação nervosa, especialmente a proteína clatrina; essa proteína está associada à membrana nas áreas de fusão das vesículas originais. Em cerca de 20 segundos, as proteínas se contraem e formam as invaginações, que se separam para o lado interior da membrana, e se transformam então em novas vesículas. Dentro de poucos segundos mais, a acetilcolina é transportada para o interior dessas vesículas e elas estão prontas para um novo ciclo de liberação de acetilcolina. Fármacos que Reforçam ou Bloqueiam a Transmissão na Junção Neuromuscular Fármacos que Estimulam a Fibra Muscular por Ação Semelhante à da Acetilcolina. Muitas substâncias, incluindo a metacolina, o carbacol e a nicotina, têm o mesmo efeito que a acetilcolina sobre o músculo. A diferença entre esses fármacos e a acetilcolina é que elas não são destruídas pela colinesterase ou são destruídas tão lentamente que sua ação frequentemente persiste por muitos minutos ou várias horas. Os fármacos atuam provocando áreas localizadas de despo- larização da membrana da fibra muscular na placa motora, onde estão localizados os receptores de acetilcolina. Assim, a cada vez que a fibra muscular se recupera de uma contração, essas áreas despolarizadas em virtude do vazamento de íons iniciam novo potencial de ação, levando dessa forma a estado de espasmo muscular. Fármacos que Estimulam a Junção Neuromuscular, Ina- tivando a Acetilcolinesterase. Três fármacos, particularmente bem conhecidos, neostigmina, fisostigmina e fluorofosfato de di-isopropil, inativam a acetilcolinesterase nas sinapses, de forma que ela não mais hidrolisa a acetilcolina. Dessa maneira, a cada impulso nervoso sucessivo, mais acetilcolina se acumula e estimula repetidamente a fibra muscular. Isso provoca espasmo muscular, mesmo quando poucos impulsos nervosos alcançam o músculo. Infelizmente, isto também pode causar morte por espasmo da laringe que sufoca o indivíduo. A neoestigmina e a fisoestigmina se combinam com a acetilcolinesterase para inativá-la por até várias horas, depois do que elas se deslocam para que a esterase recupere sua atividade. De forma inversa, o fluorofostato de di-isopropil, que funciona como potente gás venenoso para os “nervos”, inativa a acetilcolinesterase por semanas, o que o torna veneno particularmente letal. Fármacos que Bloqueiam a Transmissão na Junção Neuromuscular. O grupo de fármacos conhecidos como fármacos curariformes pode impedir a passagem dos impul- 90
  • 113. Capítulo 7 Excitação do Músculo Esquelético:Transmissão Neuromuscular e Acoplamento Excitação-Contração sos da terminação nervosa para o músculo. Por exemplo, a D-tubocurarina bloqueia a ação da acetilcolina nos receptores de acetilcolina da fibra muscular, evitando assim o aumento da permeabilidade dos canais de membrana muscular, suficiente para iniciar o potencial de ação. Miastenia Grave Causa Paralisia Muscular A miastenia grave, que ocorre em cerca de uma em cada 20.000 pessoas, causa paralisia muscular devido à incapacidade das junções neuromusculares transmitirem sinais suficientes das fibras nervosas para as fibras musculares. Patologicamente, anticorpos que atacam receptores de acetilcolina foram demonstrados no sangue da maioria dos pacientes com miastenia grave. Assim, acredita-se que a miastenia grave seja doença autoimune na qual os pacientes desenvolveram anticorpos que bloqueiam ou destroem seus próprios receptores para acetilcolina, na membrana pós- sináptica da junção neuromuscular. Qualquer que seja a causa, os potenciais da placa motora que ocorrem nas fibras musculares são na maior parte muito fracos para iniciar a abertura dos canais de sódio regulados pela voltagem, de modo que a despolarização da fibra muscular não ocorre. Se a doença for intensa o suficiente, o paciente morre de paralisia — em particular, paralisia dos músculos respiratórios. Os efeitos da doença podem ser melhorados por várias horas com administração de neos- tigmina ou de algum outro fármaco anticolinesterásico, que provoque o acúmulo de quantidades maiores de acetilcolina que a normal no espaço sináptico. Em alguns minutos, algumas das pessoas paralisadas podem recobrar a atividade motora quase normal, até que nova dose de neostigmina seja requerida poucas horas depois. Potencial de Ação Muscular Quase tudo o que foi discutido no Capítulo 5, com relação à iniciação e à condução dos potenciais de ação nas fibras nervosas, se aplica igualmente às fibras musculares esqueléticas, exceto por diferenças quantitativas. Alguns dos aspectos quantitativos dos potenciais musculares são os seguintes: 1. Potencial de repouso da membrana: cerca de -80 a -90 milivolts nas fibras musculares esqueléticas — o mesmo das grandes fibras nervosas mielinizadas. de contração muscular, a corrente tem de penetrar profundamente na fibra muscular até as proximidades das miofibrilas. Isso se dá pela propagação dos potenciais de ação pelos túbulos transversos (túbulos T), que penetram a fibra muscular, de um lado a outro, como ilustrado na Figura 7-5. Os potenciais de ação no túbulo T provocam liberação de íons cálcio no interior da fibra muscular, na vizinhança imediata das miofibrilas, e esses íons cálcio causam então a contração. Este processo é chamado de acoplamento excitação-contração. Acoplamento Excitação-Contração Túbulo Transverso — Sistema Retículo Sarcoplasmático A Figura 7-5 mostra miofibrilas circundadas pelo sistema túbulos T-retículo sarcoplasmático. Os túbulos T são muito pequenos e cursam transversalmente às miofibrilas. Eles começam na membrana celular e penetram por toda a fibra muscular. Não está demonstrado na figura o fato de que esses túbulos se ramificam e formam planos inteiros de túbulos T se entrelaçando entre as miofibrilas. Além disso, os túbulos T se abrem para o exterior, no ponto de origem, como uma invaginação da membrana celular. Dessa forma, eles se comunicam com o líquido extracelular circundante da fibra muscular, tendo eles próprios líquido extracelular em seu lúmen. Em outras palavras, os túbulos T são de fato extensões internas da membrana celular. Assim, quando um potencial de ação se propaga pela membrana da fibra muscular, a alteração do potencial também se propaga ao longo dos túbulos T para o interior da fibra muscular. As correntes elétricas que circundam esses túbulos T então provocam a contração muscular. A Figura 7-5 também mostra o retículo sarcoplasmático em amarelo. Ele é composto por duas partes principais: (1) grandes câmaras, denominadas cisternas terminais, que fazem contato com os túbulos T, e (2) longos túbulos longitudinais que circundam todas as superfícies das miofibrilas que realmente se contraem. Liberação dos íons Cálcio pelo Retículo Sarcoplasmático 2. Duração do potencial de ação: 1 a 5 milissegundos no músculo esquelético — cerca de cinco vezes mais prolongado que nos grandes nervos mielinizados. 3. Velocidade de condução: 3 a 5 m/s — cerca de 1/13 da velocidade de condução nas grandes fibras nervosas mielinizadas que excitam o músculo esquelético. Propagação do Potencial de Ação para o Interior da Fibra Muscular por Meio dos "Túbulos Transversos” A fibra muscular esquelética é tão grande que o potencial de ação na superfície quase não provoca fluxo de corrente no interior da fibra. Contudo, para causar o máximo Uma das características especiais do retículo sarcoplasmático é que no interior de seus túbulos vesiculares existe excesso de íons cálcio em alta concentração, e muitos desses íons são liberados de cada vesícula quando um potencial de ação ocorre em túbulo T adjacente. As Figuras 7-6 e 7-7 mostram que o potencial de ação do túbulo T provoca fluxo de corrente para as cisternas do retículo sarcoplasmático no ponto em que tocam o túbulo T. À medida que o potencial de ação progride pelo túbulo T, a variação da voltagem é detectada pelos receptores de di-idropiridina, ligados aos canais de liberação de cálcio — também chamados receptores de canal de rianodina —nas cisternas adjacentes do retículo sar- 91
  • 114. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Sarcolema Cisternas terminais Túbulo transverso Mitocôndria Retículo sarcoplasmático Túbulo transverso Sarcotúbulos Figura 7-5 Sistema túbulo transverso (T)-retículo sarcoplasmático. Observe que os túbulosT se comunicam com a parte externa da membrana celular e, profundamente na fibra muscular, cada túbulo T se situa adjacente às extremidades dos túbulos longitudinais do retículo sarcoplasmático que circundam as miofibrilas que de fato contraem. Esta ilustração foi desenhada do músculo de sapo que tem um túbulo T por sarcômero localizado na linha Z. Um arranjo similar é encontrado no músculo cardíaco dos mamíferos; porém, o músculo esquelético dos mamíferos tem dois túbulosT por sarcômero localizados nas junções das bandas A-l. Figura 7-6 Acoplamento excitação-contração no músculo esquelético. O painel superior mostra um potencial de ação no túbulo T, que causa alteração conformacional no receptor sensor de voltagem da di-idropiridina (DHP), abrindo os canais de liberação de Ca++ nas cisternas terminais do retículo sarcoplasmático, permitindo a rápida difusão do Ca++ para o sarcoplasma e iniciando a contração. Durante a repolarização (painel inferior) a alteração conformacional do receptor DHP fecha os canais de liberação de Ca++ e o Ca++ é transportado do sarcoplasma para o retículo sarcoplasmático, por bomba de cálcio dependente de ATP. Repolarização 92
  • 115. Capítulo 7 Excitação do Músculo Esquelético:Transmissão Neuromuscular e Acoplamento Excitação-Contração Figura 7-7 Acoplamento excitação-contração no músculo, mostrando (1) um potencial de ação que causa a liberação de íons cálcio do retículo sarcoplasmático e, em seguida, (2) recaptação dos íons cálcio por uma bomba de cálcio. coplasmático (Fig. 7-6). A ativação dos receptores de di-idropiridina desencadeia a abertura dos canais de liberação de cálcio das cisternas e em seus túbulos longitudinais associados. Esses canais permanecem abertos por poucos milissegundos, liberando cálcio para o sarco- plasma que banha as miofibrilas e causando a contração, como discutido no Capítulo 6. A Bomba de Cálcio Remove os íons Cálcio do Líquido Miofibrilar, depois da Contração. Uma vez liberados dos túbulos sarcoplasmáticos, os íons cálcio se difundem nos espaços entre as miofibrilas, provocando a contração muscular que permanece enquanto a concentração do íon continua elevada. Porém, uma bomba de cálcio continuamente ativada, localizada nas paredes do retículo sarcoplasmático, bombeia os íons cálcio para longe das miofibrilas, de volta para os túbulos sarcoplasmáticos (Fig. 7-6). Essa bomba pode concentrar os íons cálcio por cerca de 10.000 vezes dentro dos túbulos. Além disso, dentro do retículo existe proteína, chamada calsequestrina, que pode quelar o cálcio, possibilitando o acúmulo do íon em quantidade até 40 vezes maior que a quantidade correspondente ao cálcio livre. “Pulso" Excitatório de íons Cálcio. A concentração normal de íons cálcio, no estado de repouso (< 10“7 molar), no citosol que banha as miofibrilas é muito baixa para provocar contração. Portanto, o complexo troponina- tropomiosina mantém os filamentos actínicos inibidos e o músculo no estado relaxado. Inversamente, a excitação do túbulo T e do sistema retículo sarcoplasmático provoca liberação de íons cálcio suficiente para aumentar a concentração no líquido miofibrilar para até 2 x 10“4 molar, aumento de 500 vezes, que é cerca de 10 vezes o nível necessário para provocar a contração muscular máxima. Em seguida, a bomba de cálcio reduz outra vez a concentração dos íons cálcio. A duração total desse “pulso” de cálcio, na fibra muscular esquelética, é de cerca 1/20 de segundo, embora possa ser muito maior em algumas fibras e muito menor em outras. (No músculo cardíaco, o pulso de cálcio dura um terço de segundo, por causa da longa duração do potencial de ação cardíaco.) Durante esse pulso de cálcio, ocorre a contração muscular. Para a contração persistir sem interrupção por longos intervalos, uma série de pulsos de cálcio tem de ser iniciada por série contínua de potenciais de ação repetitivos, como discutido no Capítulo 6. Referências Veja também as referências dos Capítulos 5 e 6. Brown RH Jr: Dystrophin-associated proteins and the muscular dystro- phies, Annu Rev Med 48:457,1997. Chaudhuri A, Behan PO: Fatigue in neurological disorders, Lancet 363:978, 2004. Cheng H, Lederer WJ: Calcium sparks, Physiol Rev 88:1491, 2008. Engel AG, Ohno K, Shen XM, Sine SM: Congenital myasthenic syndromes: multiple molecular targets at the neuromuscular junction, Ann N Y AcadSci 998:138,2003. Fagerlund MJ, Eriksson LI: Current concepts in neuromuscular transmission, BrJAnaesth 103:108,2009. Haouzi P, Chenuel B, Huszczuk A: Sensing vascular distension in skeletal muscle by slow conducting afferent fibers: neurophysiological basis and implication for respiratory control, JAppl Physiol 96:407, 2004. Hirsch NP: Neuromuscular junction in health and disease, BrJAnaesth 99:132,2007. Keesey JC: Clinicai evaluation and management of myasthenia gravis, Muscle Nerve 29:484, 2004. Korkut C, BudnikV: WNTs tune up the neuromuscular junction, Nat Rev Neurosci 10:627, 2009. Leite JF, Rodrigues-Pinguet N, Lester HA: Insights into channel function via channel dysfunctionj Clin Invest 111:436, 2003. Meriggioli MN, Sanders DB: Autoimmune myasthenia gravis: emerg- ing clinicai and biological heterogeneity, Lancet Neurol 8:475, 2009. 93 U N I D A
  • 116. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Rekling JC, Funk GD, Bayliss DA, et al: Synaptic control of motoneuronal excitability, Physiol Rev 80:767, 2000. Rosenberg PB: Calcium entry in skeletal muscle, J Physiol 587:3149, 2009. Toyoshima C, Nomura H, Sugita Y: Structural basis of ion pumping by Ca2+ - ATPase of sarcoplasmic reticulum, FEBS Lett 555:106,2003. Van der Kloot W, Molgo J: Quantal acetylcholine release at the vertebrate neuromuscular junction, Physiol Rev 74:899,1994. Vincent A: Unraveling the pathogenesis of myasthenia gravis, Nat Rev Immunol 10:797, 2002. Vincent A, McConville J, Farrugia ME, et al:Antibodies in myasthenia gravis and related disorders, Ann N YAcadSei 998:324, 2003. 94
  • 117. CAPITU LO 8 O > Excitação e Contração do Músculo Liso Contração do Músculo Liso Nos Capítulos 6 e 7, discu- tiu-se o músculo esquelé- tico. Discutiremos agora o músculo liso, que é com- posto por fibras bem menores — usualmente com diâ- metros de 1 a 5 micrômetros e comprimentos de apenas 20 a 500 micrômetros. As fibras musculares esqueléticas são até 30 vezes maiores no diâmetro e centenas de vezes mais longas. Muitos dos mesmos princípios de contra- ção se aplicam tanto ao músculo liso quanto ao músculo esquelético. O mais importante é que essencialmente as mesmas forças de atração entre os filamentos de miosina e de actina causam a contração tanto no músculo liso quanto no músculo esquelético; porém, o arranjo físico interno das fibras musculares lisas é diferente. Tipos de Músculos Lisos O músculo liso de cada órgão se distingue dos da maioria dos outros órgãos por vários aspectos: (1) dimensões físicas, (2) organização em feixes ou folhetos, (3) resposta a diferentes tipos de estímulos, (4) características da inerva- ção e (5) função. Porém, com o propósito de simplificação, o músculo liso pode ser dividido em dois grandes tipos, que são mostrados na Figura 8-1: músculo liso multiuni- tário e músculo liso unitário (ou de unidade única). Músculo Liso Multiunitário. Este tipo de músculo liso é composto por fibras musculares separadas e discretas. Cada fibra opera independentemente das outras e, com frequência, é inervada por uma só terminação nervosa, como ocorre com as fibras musculares esqueléticas. Além disso, as superfícies externas dessas fibras, como as das fibras musculares esqueléticas, são recobertas por fina camada de substância semelhante à da membrana basal, uma mistura de colágeno e glicoproteínas que isola as fibras umas das outras. A característica mais importante das fibras musculares lisas multiunitárias é que cada fibra se contrai independentemente das outras, e o controle é exercido principalmente por sinais nervosos. Em contraste, a maior parte do controle do músculo liso unitário é exercida por estímulos não nervosos. Alguns exemplos de músculo liso multiunitário são o músculo ciliar do olho, o músculo da íris do olho e os músculos piloeretores que causam a ereção dos pelos quando estimulados pelo sistema nervoso simpático. Músculo Liso Unitário. Este tipo é também chamado de músculo liso sincicial ou músculo liso visceral. O termo “unitário” provoca confusão porque não significa fibras musculares isoladas. Ao contrário, significa massa de centenas a milhares de fibras musculares lisas que se contraem ao mesmo tempo, como uma só unidade. As fibras estão em geral dispostas em folhetos ou feixes, e suas membranas celulares são aderidas entre si, em múltiplos pontos, de forma que a força gerada em uma fibra muscular pode ser transmitida à seguinte. Além disso, as membranas celulares são ligadas por muitas junções comunicantes, pelas quais os íons podem fluir livremente de uma célula para a seguinte, de forma que os potenciais de ação ou o simples fluxo de íons, sem potenciais de ação, podem passar de uma fibra para a seguinte e fazer com que se contraiam em conjunto. Esse tipo de músculo j ---------- - ---------- Pequena artéria B Músculo liso unitário Figura 8-1 Músculo liso multiunitário (A) e unitário (fi). 95
  • 118. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo liso é também conhecido como músculo liso sincicial, por causa das interconexões entre as fibras. Ele é também chamado de músculo liso visceral porque é encontrado nas paredes da maioria das vísceras do corpo, incluindo o trato gastrointestinal, os duetos biliares, os ureteres, o útero e muitos vasos sanguíneos. Mecanismo Contrátil no Músculo Liso Base Química para a Contração do Músculo Liso O músculo liso contémfilamentos de actina e de miosina, com características químicas semelhantes às dos filamentos de actina e miosina do músculo esquelético, mas não contém o complexo de troponina normal que é necessário para o controle da contração do músculo esquelético; o mecanismo de controle da contração é diferente nos dois tipos de músculos. Isto é discutido em detalhes adiante, neste capítulo. Os estudos químicos mostraram que os filamentos de actina e miosina, derivados do músculo liso, interagem uns com os outros de modo semelhante ao que se dá no músculo esquelético. Em ambos os tipos de músculos, o processo contrátil é ativado por íons cálcio, e o trifosfato de adenosina (ATP) é degradado a difosfato de adenosina (ADP) para fornecer energia para a contração. Existem, entretanto, importantes diferenças entre a organização física do músculo liso e do músculo esquelético, bem como diferenças no acoplamento excitação- contração, controle do processo contrátil pelos íons cálcio, duração da contração e quantidade de energia necessária para a contração. Base Física para a Contração do Músculo Liso O músculo liso não tem a mesma disposição estriada dos filamentos de actina e miosina encontrados no músculo esquelético. Em vez disso, as técnicas de micrografia eletrônica sugerem a organização física mostrada na Figura 8-2. Essa figura mostra grande número de filamentos de actina ligados aos chamados corpos densos. Alguns desses corpos estão ligados à membrana celular. Outros estão dispersos no interior da célula. Alguns dos corpos densos, na membrana de células adjacentes, estão conectados por pontes de proteína intercelular. É principalmente por essas conexões que a força da contração é transmitida de célula a célula. Entre os filamentos de actina na fibra muscular estão os filamentos de miosina. Estes apresentam um diâmetro mais de duas vezes maior que os filamentos de actina. Nas micrografias eletrônicas encontram-se usualmente cinco a 10 vezes mais filamentos de actina que filamentos de miosina. À direita na Figura 8-2 está a estrutura hipotética de unidade contrátil individual na célula do músculo liso, mostrando grande número de filamentos de actina irradiando-se de dois corpos densos; as extremidades desses filamentos se superpõem a filamento de miosina, localizado a meio caminho entre os corpos densos. Essa unidade contrátil é semelhante à unidade contrátil do Figura 8-2 Estrutura física do músculo liso. A fibra acima à esquerda mostra filamentos de actina se irradiando dos corpos densos. A fibra abaixo à esquerda e o diagrama à direita mostram a relação entre filamentos de miosina e de actina. músculo esquelético, porém sem a regularidade de sua estrutura deste; de fato, os corpos densos do músculo liso desempenham o mesmo papel que os discos Z no músculo esquelético. Existe outra diferença: a maioria dos filamentos de miosina apresenta as chamadas pontes cruzadas “com polarização lateral” disposta de forma que as pontes de um lado se curvam em uma direção e as do outro lado dobram na direção oposta. Isso permite que a miosina puxe os filamentos de actina em uma direção de um lado, enquanto simultaneamente puxa na direção oposta outros filamentos de actina, no outro lado. O valor dessa disposição é que ela permite que as células do músculo liso se contraiam por até 80% de seu comprimento, ao contrário do músculo esquelético, nos quais as fibras estão limitadas à contração de menos de 30%. 96
  • 119. Capítulo 8 Excitação e Contração do Músculo Liso Comparação entre a Contração do Músculo Liso e a Contração do Músculo Esquelético Enquanto a maioria dos músculos esqueléticos contrai e relaxa rapidamente, a maior parte da contração do músculo liso é uma contração tônica prolongada, durando às vezes horas ou até mesmo dias. Portanto, espera-se que tanto as características físicas quanto as químicas do músculo liso difiram das do músculo esquelético. A seguir, algumas das diferenças são discutidas. Baixa Frequência de Ciclos das Pontes Cruzadas de Miosina. A frequência dos ciclos das pontes cruzadas de miosina no músculo liso — isto é, sua ligação com a actina, seguida por desligamento e religamento para o novo ciclo — é muito, muito mais baixa no músculo liso que no músculo esquelético; de fato, a frequência é de 1/10 a 1/300 da do músculo esquelético. Ainda assim, acredita-se que a fração de tempo em que as pontes cruzadas se mantêm ligadas aos filamentos de actina, que é fator importante na determinação da força de contração, seja bastante aumentada no músculo liso. Possível razão para a baixa frequência dos ciclos é que as cabeças das pontes cruzadas apresentam menos atividade de ATPase do que no músculo esquelético, de forma que a degradação do ATP, que energiza os movimentos das cabeças das pontes cruzadas, é reduzida com a correspondente baixa velocidade dos ciclos. Baixa Energia Necessária para Manter a Contração do Músculo Liso. Apenas 1/10 a 1/300 da energia do músculo esquelético são necessários para manter a mesma tensão de contração no músculo liso. Acredita-se que isso também seja o resultado do longo ciclo de conexão e desconexão das pontes cruzadas e porque apenas uma molécula de ATP é necessária para cada ciclo, a despeito de sua duração. Essa parcimônia na utilização de energia pelo músculo liso é de muita importância para a economia energética total do corpo porque órgãos como os intestinos, bexiga urinária, vesícula biliar e outras vísceras com frequência mantêm por tempo indefinido contração muscular tônica. Lentidão do Início da Contração e do Relaxamento do Tecido Muscular Liso Total. O tecido muscular liso típico começa a contrair 50 a 100 milissegundos depois de excitado, alcança a contração plena em cerca de 0,5 segundo e depois a força contrátil declina em 1 a 2 segundos, com tempo total de contração de 1 a 3 segundos. Isto é cerca de 30 vezes mais prolongado, em média, que uma só contração de uma fibra muscular esquelética. Porém, como existem muitos tipos de músculo liso, a contração de alguns tipos pode ser tão breve quanto 0,2 segundo ou tão prolongada quanto 30 segundos. O lento início da contração do músculo liso, bem como sua contração prolongada, são causados pela lentidão da conexão e da desconexão das pontes cruzadas com os filamentos de actina. Além disso, o início da contração, em resposta aos íons cálcio, é muito mais lento que no músculo esquelético, como discutido adiante. A Força Máxima da Contração Geralmente É Maior no Músculo Liso do que no Músculo Esquelético. A despeito da quantidade relativamente pequena de filamentos de miosina no músculo liso, e a despeito do longo ciclo de tempo das pontes cruzadas, o máximo da força de contração do músculo liso é frequentemente maior que o do músculo esquelético — tão grande quanto 4 a 6 kg/cm2 de área transversa do músculo liso, em comparação com 3 a 4 kg, no músculo esquelético. A grande força da contração do músculo liso resulta do período prolongado de conexão das pontes cruzadas de miosina com os filamentos de actina. O Mecanismo de "Trava” Facilita a Manutenção Prolongada das Contrações do Músculo Liso. Uma vez que o músculo liso tenha desenvolvido contração completa, a quantidade de excitação continuada pode ser usualmente reduzida a bem menos que o nível inicial e ainda assim o músculo mantém sua força de contração. Além disso, a energia consumida, para manter a contração, é frequentemente minúscula, às vezes tão pouco quanto 1/300 da energia necessária para sustentar contração comparável no músculo esquelético. Isso é chamado de mecanismo de “trava” (ou cremalheira). A importância do mecanismo de trava é que ele pode manter a contração tônica prolongada no músculo liso por horas com o uso de pouca energia. É necessário pequeno sinal excitatório continuado das fibras nervosas ou de fontes hormonais. Estresse-Relaxamento do Músculo Liso. Outra importante característica do músculo liso, especialmente do tipo unitário visceral de muitos órgãos ocos, é sua capacidade de restabelecer quase a mesmaforça original de contração, segundos ou minutos depois de ter sido alongado ou encurtado. Por exemplo, aumento súbito do volume de líquido na bexiga urinária, distendendo o músculo liso na parede do órgão, provoca aumento imediato da pressão na bexiga. Entretanto, nos seguintes 15 segundos a 1 minuto, apesar do estiramento continuado da parede da bexiga, a pressão retorna quase que exatamente ao nível original. Então, quando o volume é aumentado por outra etapa, o mesmo efeito ocorre outra vez. Ao contrário, quando o volume é subitamente diminuído, a pressão cai drasticamente no início, mas se eleva ao nível original ou a valores muito próximos dele, em alguns segundos ou minutos. Esses fenômenos são chamados de estresse-relaxamento e estresse-relaxamento reverso. Sua importância é que, exceto por curtos períodos de tempo, eles permitem que o órgão oco mantenha quase a mesma pressão no interior de seu lúmen, a despeito de grandes e prolongadas alterações no volume. Regulação da Contração pelos íons Cálcio Como é verdade, para o músculo esquelético, o estímulo inicial para a contração do músculo liso é o aumento intracelular dos íons cálcio. Este aumento pode ser causado, nos diferentes tipos de músculos lisos, por estimulação nervosa da fibra muscular lisa, estimulação hormonal, 97
  • 120. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo estiramento da fibra ou, até mesmo, alteração química no ambiente da fibra. O músculo liso não contém troponina, a proteína reguladora que é ativada pelos íons cálcio para provocar a contração no músculo esquelético. Em vez disso, a contração do músculo liso é ativada por mecanismo inteiramente diferente, descrito a seguir. Combinação dos íons Cálcio com a Calmodulina para Ativar a Miosina Quinase e a Fosforilação da Cabeça da Miosina. Em vez da troponina, as células musculares lisas contêm outra proteína reguladora, chamada calmodulina (Fig. 8-3). Embora essa proteína seja similar à troponina, o modo pelo qual ela inicia a contração é diferente do da troponina. A calmodulina o faz ativando as pontes cruzadas da miosina. Essa ativação e a contração subsequente ocorrem na seguinte sequência: 1. Os íons cálcio se ligam à calmodulina. 2. O complexo calmodulina-cálcio em seguida se une à miosina e ativa a miosina-quinase, enzima fosfolativa. 3. Uma das cadeias leves de cada cabeça de miosina, chamada cadeia reguladora, é fosforilada em resposta a essa miosina-quinase. Quando essa cadeia não está fos- Cc Externo ‘ V* [ ------------------------ -- -- 1 I ------ r DO ^ a++ lio > L/c T > ^—Calmodulina Ca++ - Calmodulina Ativa MLCK Inativa .MLCK Fosfatase MLC MLC Fosforilada Desfosforilada l l Contração Relaxamento Figura 8-3 A concentração intracelular do íon cálcio [Ca++ ] aumenta quando o Ca++ entra na célula pelos canais de cálcio da membrana celular ou do retículo sarcoplasmático (RS). O Ca++ se liga a calmodulina para formar o complexo cálcio-cal- modulina que em seguida ativa a cinase das cadeias leves da miosina do músculo. Quando a concentração de Ca++ diminui, devido ao bombeamento para fora da célula, o processo é revertido e a miosina fosfatase remove o fosfato da MLC, causando relaxamento. forilada, o ciclo de conexão-desconexão da cabeça da miosina com o filamento de actina não ocorre. Porém, quando a cadeia reguladora é fosforilada, a cabeça adquire a capacidade de se ligar repetidamente com o filamento de actina e de desenvolver os ciclos de “trações” intermitentes, o mesmo que ocorre no músculo esquelético, e dessa forma provoca a contração muscular. A Miosina Fosfatase É Importante para o Fim da Contração. Quando a concentração de íons cálcio cai abaixo de seu nível crítico, o processo mencionado adiante é revertido, exceto pela fosforilação da cabeça da miosina. A desfosforilação é catalisada por outra enzima, a fosfatase da miosina (Fig. 8-3), localizada nos líquidos da célula muscular lisa que cliva o fosfato da cadeia leve reguladora. Dessa forma, o ciclo se interrompe e a contração cessa. O tempo necessário para o relaxamento da contração muscular é portanto determinado, em grande parte, pela quantidade de fosfatase de miosina ativa na célula. Possível Mecanismo para a Regulação do Fenômeno de Trava Devido à importância do fenômeno de trava e por ele permitir a manutenção a longo prazo do tônus, em muitos órgãos com músculo liso, sem grande dispêndio de energia, muitas tentativas têm sido feitas para explicá-lo. Entre os muitos mecanismos que foram postulados, um dos mais simples é o seguinte. Quando as enzimas miosina-quinase e miosinofosfa- tase das cabeças da miosina estão ambas muito ativadas, a frequência dos ciclos das cabeças de miosina e a velocidade de contração ficam aumentadas. Em seguida, com a redução da ativação dessas enzimas, a frequência dos ciclos diminui; porém ao mesmo tempo sua desativação permite que as cabeças de miosina se mantenham ligadas ao filamento de actina por fração cada vez mais longa da proporção do ciclo. Portanto, o número de cabeças ligadas ao filamento de actina em qualquer momento permanece grande. Como o número de cabeças ligadas à actina determina a força estática da contração, a tensão é mantida ou “travada”; pouca energia é usada pelo músculo, porque o ATP não é degradado à ADP, exceto na rara ocasião em que a cabeça se desconecta. Controles Nervoso e Hormonal da Contração do Músculo Liso Embora as fibras musculares esqueléticas sejam estimuladas exclusivamente pelo sistema nervoso, o músculo liso pode ser estimulado a contrair-se por múltiplos tipos de sinais: pelos sinais nervosos, por estímulo hormonal, por estiramento do músculo e de várias outras maneiras. A razão principal para essa diferença é que a membrana do músculo liso contém muitos tipos de receptores pro- 98
  • 121. teicos que podem iniciar o processo contrátil. Outros receptores proteicos inibem a contração do músculo liso, o que é outra diferença em relação ao músculo esquelético. Nesta seção, discutimos o controle nervoso da contração do músculo liso, seguido pelo controle hormonal e outros modos de controle. Junções Neuromusculares do Músculo Liso Anatomia Fisiológica das Junções Neuromusculares do Músculo Liso. As junções neuromusculares dos tipos altamente estruturados das fibras do músculo esquelético não ocorrem no músculo liso. Ao contrário, as fibras nervosas autônomas que inervam o músculo liso geralmente se ramificam difusamente na extremidade superior do folheto de fibras musculares, como demonstrado na Figura 8-4. Na maioria dos casos, essas fibras não fazem contato direto com a membrana celular das fibras musculares lisas, mas formam as chamadas junções difusas que secretam a substância transmissora na matriz que recobre o músculo liso, frequentemente alguns nanô- metros a alguns micrômetros distantes das células musculares; a substância transmissora se difunde então para as células. Além disso, onde há muitas camadas de células musculares, as fibras nervosas inervam frequentemente apenas a camada externa. A excitação muscular passa dessa camada externa para as internas, por condução do potencial de ação pela massa muscular ou por difusão da substância transmissora. Os axônios que inervam as fibras musculares lisas não apresentam a ramificação típica e as terminações do tipo que ocorre na placa motora nas fibras musculares esqueléticas. Nas fibras lisas, a maioria dos terminais axonais finos apresenta múltiplas varicosidades, distribuídas ao longo de seus eixos. Nesses pontos, as células de Schwann que envelopam os axônios são interrompidas para que a substância transmissora possa ser secretada através das paredes das varicosidades. Nas varicosidades, encontram-se vesículas similares às encontradas na placa motora do músculo esquelético que contém substância transmissora. Porém, diferentemente das vesículas das junções musculares esqueléticas, que sempre contêm acetilcolina, as vesículas das terminações das fibras ner- Junções comunicantes Varicosidades Visceral Multiunitário Figura 8-4 Inervação do músculo liso. Capítulo 8 Excitação e Contração do Músculo Liso vosas autônomas contêm acetilcolina em algumas fibras e norepinefrina em outras — e ocasionalmente também outras substâncias. Em poucos casos, particularmente no músculo liso do tipo multiunitário, as varicosidades estão separadas da membrana da célula muscular por 20 a 30 nanômetros — a mesma largura da fenda sináptica que ocorre na junção muscular esquelética. Essas são chamadas junções de contato e funcionam de modo parecido à da junção neuro- muscular no músculo esquelético; a rapidez da contração dessas fibras musculares lisas é consideravelmente maior que a das fibras estimuladas pelas junções difusas. Substâncias Transmissoras Excitatórias e Inibitó- rias Secretadas na Junção Neuromuscular do Músculo Liso. As substâncias transmissoras mais importantes secretadas pelos nervos autônomos que inervam o músculo liso são a acetilcolina e a norepinefrina, porém elas nunca são secretadas pela mesma fibra nervosa. A acetilcolina é uma substância transmissora excitatória para as fibras do músculo liso em alguns órgãos, porém um transmissor inibitório para o músculo liso em outros. Quando a acetilcolina excita uma fibra muscular, a norepinefrina ordinariamente a inibe. Ao contrário, quando a acetilcolina inibe uma fibra, a norepinefrina usualmente a excita. Mas qual o porquê destas respostas diferentes? A resposta é que tanto a acetilcolina quanto a norepinefrina excitam ou inibem o músculo liso inicialmente ligan- do-se a receptores proteicos na superfície da membrana da célula muscular. Alguns dos receptores proteicos são receptores excitatórios, enquanto outros são receptores inibitórios. Assim, o tipo de receptor determina se o músculo liso será inibido ou excitado e também determina qual dos dois transmissores, acetilcolina ou norepinefrina, causa excitação ou inibição. Estes receptores são discutidos com mais detalhes no Capítulo 60, sobre a função do sistema nervoso autônomo. Potenciais de Membrana e Potenciais de Ação no Músculo Liso Potenciais de Membrana no Músculo Liso. A voltagem quantitativa de potencial de membrana do músculo liso depende da situação momentânea do músculo. No estado normal de repouso, o potencial intracelular é cerca -50 a -60 milivolts, que é cerca de 30 milivolts menos negativo que no músculo esquelético. Potenciais de Ação no Músculo Liso Unitário. Os potenciais de ação ocorrem no músculo liso unitário (tal como o músculo visceral) do mesmo modo que no músculo esquelético. Eles não ocorrem normalmente em muitos, se não na maioria, dos músculos lisos do tipo multiunitário, como se discute em seção subsequente. Os potenciais de ação do músculo liso visceral ocorrem em uma de duas formas: (1) potenciais em ponta ou (2) potenciais de ação com platôs. 99
  • 122. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo Potenciais em Ponta. Os potenciais de ação em ponta típicos, como os observados no músculo esquelético, ocorrem na maior parte dos tipos de músculo liso unitário. A duração desse tipo de potencial de ação é de 10 a 50 milissegundos, como mostrado na Figura 8-5A. Tais potenciais de ação podem ser desencadeados de vários modos, por exemplo pela estimulação elétrica, pela ação de hormônios sobre o músculo liso, pela ação de substâncias transmissoras das fibras nervosas, pelo estiramento, ou como resultado da geração espontânea na própria fibra muscular, como discutiremos adiante. Potenciais de Ação com Platôs. A Figura 8-5C mostra o potencial de ação de músculo liso com platô. O início desse potencial de ação é semelhante ao do potencial em ponta. Entretanto, em vez da rápida repolarização da membrana da fibra muscular, a repolarização é retardada por várias centenas a até 1.000 milissegundos (1 segundo). A importância do platô é que ele pode estar associado à contração prolongada que ocorre em alguns tipos de músculo liso, como o ureter, o útero, em certas condições, e certos tipos de músculo liso vascular. (Este tipo de potencial de ação também é observado nas fibras musculares cardíacas que apresentam período prolongado de contração, como discutido nos Capítulos 9 e 10.) Os Canais de Cálcio São Importantes na Geração do Potencial de Ação do Músculo Liso. A membrana celular do músculo liso apresenta muito mais canais de A Milissegundos B Segundos °1 « õ > -25- i -50- ---------1-------- 1 -------1-------- 1 ------- 1 ---- 0 0,1 0,2 0,3 0,4 C Segundos Figura 8-5 A, Potencial de ação típico do músculo liso (potencial em ponta) desencadeado por estímulo externo. B, Potenciais em ponta repetitivos, desencadeados por ondas elétricas rítmicas que ocorrem espontaneamente no músculo liso da parede intestinal. C, Potencial de ação com platô, registrado em fibra muscular lisa do útero. cálcio controlados por voltagem que o músculo esquelético, porém poucos canais de sódio controlados por voltagem. Dessa forma, o sódio participa pouco na geração do potencial de ação na maioria dos músculos lisos. Inversamente, o fluxo de íons cálcio, para o interior da fibra é o principal responsável pelo potencial de ação. Isso ocorre do mesmo modo autorregenerativo que o dos canais de sódio nas fibras nervosas e nas fibras musculares esqueléticas. Entretanto, os canais de cálcio se abrem muito mais lentamente que os canais de sódio, e permanecem abertos por tempo muito maior. Esse fato é o que provoca, em larga medida, o platô prolongado do potencial de ação de algumas fibras musculares lisas. Outro importante aspecto da entrada dos íons cálcio nas células durante o potencial de ação é que este íon age diretamente sobre o mecanismo contrátil do músculo liso para provocar a contração. Assim, o cálcio realiza duas tarefas de uma só vez. Potenciais de Onda Lenta no Músculo Liso Unitário Podem Levar à Geração Espontânea de Potenciais de Ação. Alguns músculos lisos são autoexcitatórios, isto é, os potenciais de ação se originam nas próprias células musculares lisas sem estímulo extrínseco. Esses potenciais de ação estão frequentemente associados a ritmo em onda lenta básico do potencial de membrana. A onda lenta típica, em músculo liso visceral do intestino, é mostrada na Figura 8-5B. A onda lenta não é o potencial de ação, isto é, ela não é processo autorregenerativo que se propaga progressivamente pelas membranas das fibras musculares. A onda lenta é propriedade local das fibras musculares lisas que compõem a massa muscular. A causa do ritmo em onda lenta é desconhecida. Uma hipótese é que as ondas lentas sejam causadas pelo aumento e pela diminuição do bombeamento de íons positivos (provavelmente, íons sódio) para fora da membrana da fibra muscular; isto é, o potencial de membrana fica mais negativo quando o sódio é bombeado rapidamente e menos negativo quando a bomba de sódio é menos ativa. Outra hipótese é que a condutância, dada pelos canais iônicos, aumente e diminua ritmicamente. A importância das ondas lentas é que quando elas têm amplitude suficiente podem iniciar potenciais de ação. As próprias ondas lentas não causam contração muscular. Porém, quando o pico do potencial de onda negativo dentro da face interna da membrana celular aumenta, na direção positiva, de -60 para cerca de -35 milivolts (o limiar aproximado para provocar os potenciais de ação, na maioria dos músculos lisos viscerais), o potencial de ação se desenvolve e se propaga pela massa muscular e a contração então ocorre. A Figura 8-5B demonstra esse efeito, mostrando que a cada pico de onda lenta ocorrem um ou mais potenciais de ação. Essas sequências repetitivas de potenciais de ação desencadeiam a contração rítmica da massa muscular lisa. Assim, as ondas lentas são chamadas de ondas marca-passo. No Capítulo 62, veremos que esse tipo de atividade marca-passo controla as contrações rítmicas do intestino. 100
  • 123. Excitação de Músculo Liso Visceral pelo Estira- mento Muscular. Quando o músculo liso visceral (unitário) é estirado o suficiente, usualmente são gerados potenciais de ação espontâneos. Eles resultam da combinação de (1) potenciais de onda lenta normais e (2) diminuição da negatividade do potencial de membrana, causada pelo próprio estiramento. Essa resposta ao estira- mento faz com que a parede do intestino quando estirada excessivamente se contraia automática e ritmicamente. Por exemplo, quando o intestino está muito distendido, pelo conteúdo intestinal, as contrações automáticas locais formam frequentemente ondas peristálticas que movem o conteúdo para fora da região distendida, usualmente em direção ao ânus. Despolarização do Músculo Liso Multiunitário Sem Potenciais de Ação As fibras musculares lisas do músculo multiunitário (tais como o músculo da íris do olho ou o músculo piloeretor de cada pelo) se contraem principalmente em resposta aos estímulos nervosos. As terminações nervosas secre- tam acetilcolina, no caso de alguns músculos lisos mul- tiunitários, e norepinefrina, no caso de outros. Em ambos os casos, as substâncias transmissoras provocam despolarização da membrana da musculatura lisa e isso por sua vez provoca a contração. Potenciais de ação, usualmente, não se desenvolvem; a razão é que as fibras são muito pequenas para gerar o potencial de ação. (Para que potenciais de ação sejam desencadeados no músculo liso unitário visceral, 30 a 40 fibras musculares lisas têm de ser desporalizadas, simultaneamente, antes que aconteça um potencial de ação autopropagado.) Nas pequenas células musculares lisas, mesmo sem potencial de ação, a despolarização local (chamada de potencial juncionat), causada pela substância neurotransmissora, propaga-se “eletroto- nicamente” por toda a fibra, o que basta para causar a contração muscular. Efeito dos Fatores Teciduais Locais e dos Hormônios para Causar Contração do Músculo Liso, Sem Potenciais de Ação Muitas das contrações da fibra muscular lisa são iniciadas por fatores estimuladores que agem diretamente sobre a maquinaria contrátil do músculo liso, sem potenciais de ação. Os dois tipos de fatores estimuladores não nervosos e não associados a potencial de ação que estão frequentemente envolvidos são (1) fatores químicos teciduais locais e (2) vários hormônios. Contração do Músculo Liso em Resposta a Fatores Químicos Teciduais Locais. No Capítulo 17, discutimos o controle da contração das arteríolas, meta-arteríolas e dos esfíncteres pré-capilares. Os menores desses vasos têm pouca ou nenhuma inervação. Ainda assim, o músculo liso é muito contrátil, respondendo rapidamente às alterações nas condições químicas locais no líquido intersticial circundante. Capítulo 8 Excitação e Contração do Músculo Liso No estado normal de repouso, muitos desses pequenos vasos sanguíneos permanecem contraídos. Porém, quando é necessário fluxo sanguíneo extra para o tecido, múltiplos fatores podem relaxar a parede do vaso, permitindo assim o aumento do fluxo. Dessa maneira, potente sistema local de controle por feedback controla o fluxo sanguíneo para a área tecidual. Alguns dos fatores de controle específicos são os seguintes: 1. A falta de oxigênio nos tecidos locais causa relaxamento do músculo liso e, portanto, vasodilatação. 2. O excesso de dióxido de carbono causa vasodilatação. 3. O aumento na concentração de íons hidrogênio provoca vasodilatação. Adenosina, ácido lático, aumento na concentração de íons potássio, diminuição na concentração dos íons cálcio e aumento da temperatura corporal podem causar vasodilatação local. m Efeitos dos Hormônios na Contração do Músculo Liso. Muitos hormônios que circulam no sangue afeta em algum grau a contração do músculo liso, e alguns apresentam efeitos intensos. Entre os mais importantes desses são norepinefrina, epinefrina, acetilcolina, angio- tensina, endotelina, vasopressina, oxitocina, serotonina e histamina. Um hormônio causa contração de um músculo liso quando a membrana da célula muscular contém receptores excitatórios controlados por hormônio. Ao contrário, o hormônio provoca inibição se a membrana contiver receptores inibitórios para o hormônio. Mecanismos de Excitação ou Inibição do Músculo Liso por Hormônios ou Fatores Teciduais Locais. Alguns receptores hormonais na membrana do músculo liso abrem canais para íons sódio ou cálcio e despolari- zam a membrana, como ocorre após a estimulação nervosa. Algumas vezes, o resultado é potencial de ação, ou a amplificação de potenciais de ação que já estão ocorrendo. Em outros casos, a despolarização ocorre sem potenciais de ação, e essa despolarização permite que íons cálcio entrem na célula, o que promove a contração. A inibição, ao contrário, ocorre quando o hormônio (ou outro fator tecidual) fecha os canais de sódio ou de cálcio e evita o influxo desses íons positivos; a inibição também ocorre quando canais de potássio normalmente fechados são abertos, permitindo que os íons potássio se difundam para fora da célula. Essas duas ações aumentam o grau de negatividade no interior da célula muscular, estado chamado de hiperpolarização, que inibe fortemente a contração muscular. Algumas vezes a contração ou a inibição do músculo liso é iniciada pelos hormônios sem causar qualquer alteração direta do potencial de membrana. Nesses casos, o hormônio pode ativar um receptor de membrana que não abre os canais iônicos, mas que causa alteração interna na fibra muscular, tal como a liberação de íons cálcio do retículo sarcoplasmático intracelular; o 101
  • 124. Unidade II Fisiologia da Membrana, Nervo e Músculo cálcio então induz a contração. Para inibir a contração, outros mecanismos receptores ativam as enzimas ade- nilato ciclase ou guanilato ciclase na membrana celular; as porções dos receptores que fazem protrusão para o interior das células estão acopladas a essas enzimas, levando à formação do monofostato de adenosina cíclico (AMPc) ou monofostato de guanosina cíclico (GMPc), chamados de segundos mensageiros. O AMPc ou GMPc têm muitos efeitos, um dos quais é o de alterar o grau de fosforilação de várias enzimas que indiretamente inibem a contração. A bomba que move os íons cálcio, do sarco- plasma para o retículo sarcoplasmático, é ativada, bem como a bomba, na membrana celular que move os íons cálcio para fora da própria célula; esses efeitos reduzem a concentração de íons cálcio no sarcoplasma, inibindo a contração. Os músculos lisos apresentam considerável diversidade no modo como iniciam sua contração ou o relaxamento, em resposta a diferentes hormônios, neurotransmissores e outras substâncias. Em alguns casos, a mesma substância pode causar relaxamento ou contração dos músculos lisos em diferentes localizações. Por exemplo, a norepi- nefrina inibe a contração do músculo liso no intestino, porém estimula a contração do músculo liso nos vasos sanguíneos. Fonte dos íons Cálcio que Provocam Contração Através da Membrana Celular e a partir do Retículo Sarcoplasmático Embora o processo contrátil no músculo liso como no músculo esquelético seja ativado pelos íons cálcio, a fonte dos íons cálcio é diferente. Diferença importante é que o retículo sarcoplasmático, que fornece todos os íons cálcio para a contração muscular esquelética, é pouco desenvolvido na maioria dos músculos lisos. Ao contrário, a maioria dos íons cálcio que provocam a contração entra na célula muscular a partir do líquido extracelular no momento do potencial de ação ou de outros estímulos. A concentração de íons cálcio no líquido extracelular é maior que IO-3 molar, em comparação com menos de 10“7 molar no interior da célula muscular lisa; isso causa rápida difusão dos íons do líquido extracelular para a célula quando os canais de cálcio se abrem. O tempo necessário para a difusão é em média 200 a 300 milisse- gundos e é chamado de período de latência, antes que a contração comece. Este período de latência é cerca de 50 vezes maior no músculo liso em contração do que no músculo esquelético. Papel do Retículo Sarcoplasmático do Músculo Liso. A Figura 8-6 mostra vários túbulos sarcoplasmáticos pouco desenvolvidos que se situam próximo à membrana celular, em algumas células musculares lisas maiores. Pequenas invaginações da membrana celular, chamadas cavéolas, fazem contato com as superfícies desses túbulos. As cavéolas sugerem um análogo rudimentar do sistema de túbulos transversos do músculo esquelético. Figura 8-6 Túbulos sarcoplasmáticos em grande fibra muscular lisa mostrando suas relações com invaginações na membrana celular, chamadas cavéolas. Quando um potencial de ação é transmitido para as cavéolas, acredita-se que ele provoque a liberação de íons cálcio dos túbulos sarcoplasmáticos com que fazem contato, da mesma maneira que os potenciais de ação nos túbulos transversos no músculo esquelético provocam a liberação dos íons cálcio dos túbulos sarcoplasmáticos longitudinais no músculo esquelético. Em geral, quanto mais extenso o retículo sarcoplasmático na fibra muscular lisa, mais rapidamente ela se contrai. O Efeito na Contração do Músculo Liso Depende da Alteração da Concentração Extracelular do íon Cálcio. Embora as alterações na concentração do íon cálcio no líquido extracelular em relação à normal tenham pouco efeito sobre a força de contração do músculo esquelético, isto não é verdadeiro para a maior parte dos músculos lisos. Quando a concentração dos íons cálcio, no líquido extracelular, cai a cerca de 1/3 a 1/10 do normal, a contração do músculo liso usualmente cessa. Portanto, a força de contração do músculo liso é muito dependente da concentração do íon cálcio no líquido extracelular. Uma Bomba de Cálcio É Necessária para Causar Relaxamento do Músculo Liso. Para provocar o relaxamento do músculo liso, depois da contração, os íons cálcio têm de ser removidos dos líquidos intracelulares. Essa remoção é efetuada por bomba de cálcio que bombeia os íons cálcio para fora da fibra muscular lisa de volta para o líquido extracelular ou para o retículo sarcoplasmático, se presente. Essa bomba é de ação lenta, em comparação com a bomba de ação rápida do retículo sarcoplasmático no músculo esquelético. Portanto, uma só contração do músculo liso dura geralmente segundos em vez de centésimos a décimos de segundo, como ocorre no músculo esquelético. 102
  • 125. Referências Veja também as referências dos Capítulos 5 e 6. Andersson KE, Arner A: Pharmacology of the lower urinary tract: basis for current and future treatments of urinary incontinence, Physiol Rev 84:935, 2004. Berridge MJ: Smooth muscle cell calcium activation mechanisms,J Physiol 586:5047, 2008. Blaustein MP, Lederer WJ: Sodium/calcium exchange: its physiological implications, Physiol Rev 79:763,1999. Cheng H, Lederer WJ: Calcium sparks, Physiol Rev 88:1491, 2008. Davis MJ, Hill MA: Signaling mechanisms underlying the vascular myo- genic response, Physiol Rev 79:387,1999. Drummond HA, Grifoni SC, Jernigan NLA: New trick for an old dogma: ENaC proteins as mechanotransducers in vascular smooth muscle, Physiology (Bethesda) 23:23, 2008. Harnett KM, Biancani P: Calcium-dependent and calcium-independent contractions in smooth muscles.AmJ Med 115(Suppl 3A):24S, 2003. Hilgers RH, Webb RC: Molecular aspects of arterial smooth muscle con- traction: focus on Rho, Exp Biol Med (Maywood) 230:829, 2005. House SJ, Potier M, Bisaillon J, Singer HA, Trebak M: The non-excitable smooth muscle: calcium signaling and phenotypic switching during vascular disease, PflugersArch 456:769, 2008. Capítulo 8 Excitação e Contração do Músculo Liso Huizinga JD, Lammers WJ: Cut peristalsis is governed by a multitude of cooperating mechanisms, Am J Physiol Gastrointest Liver Physiol 296:G 1,2009. Kuriyama H, Kitamura K, Itoh T, Inoue R: Physiological features of visceral smooth muscle cells, with special reference to receptors and ion chan- nels, Physiol Rev 78:811,1998. Morgan KG, Gangopadhyay SS: Cross-bridge regulation by thin filament- associated proteins, JAppl Physiol 91:953, 2001. Somlyo AP, Somlyo AV: Ca2+ sensitivity of smooth muscle and nonmuscle myosin II: modulated by G proteins, kinases, and myosin phosphatase, Physiol Rev 83:1325, 2003. Stephens NL: Airway smooth muscle, Lung 179:333, 2001. Touyz RM:Transient receptor potential melastatin 6 and 7 channels, mag- nesium transport, and vascular biology: implications in hypertension, Am J Physiol Heart Circ Physiol 294: H1103, 2008. Walker JS, Wingard CJ, Murphy RA: Energetics of crossbridge phospho- rylation and contraction in vascular smooth muscle, Hypertension 23:1106, 1994. Wamhoff BR, Bowles DK, Owens GK: Excitation-transcription coupling in arterial smooth muscle, Circ Res 98:868, 2006. Webb RC: Smooth muscle contraction and relaxation, Adv Physiol Educ 27:201,2003. 103
  • 127. O Coração 9. O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função dasValvas Cardíacas 10. Excitação Rítmica do Coração 11. O Eletrocardiograma Normal 12. Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Veto ri a l 13. Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica
  • 129. CAPÍTULO 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas Com este capítulo, come- çaremos a discussão do coração e do sistema cir- culatório. O coração, ilus- trado na Figura 9-1, é na verdade formado por duas bombas distintas: o coração direito, que bombeia o sangue para os pulmões, e o cora- ção esquerdo, que bombeia o sangue para os órgãos peri- féricos. Por sua vez, cada um desses corações é bomba pulsátil de duas câmaras, composta por um átrio e um ventrículo. Cada átrio é fraca bomba de escova (primer pump) para o ventrículo, ajudando a propelir o sangue para seu interior. Os ventrículos, por sua vez, fornecem a força de bombeamento principal que propele o sangue através (1) da circulação pulmonar, partindo do ventrí- culo direito, ou (2) da circulação periférica, do ventrículo esquerdo. Mecanismos especiais no coração promovem a sucessão contínua de contrações cardíacas, chamadas ritmo cardíaco, transmitindo potenciais de ação pelo músculo cardíaco, causando os batimentos rítmicos do coração. Esse controle rítmico será explicado no Capítulo 10. Neste capítulo, explicaremos como o coração atua como bomba, começando com as características especiais do coração em si. * % i • Fisiologia do Músculo Cardíaco O coração é composto por três tipos principais de músculo: o músculo atrial, o músculo ventricular e as fibras especializadas excitatórias e condutoras. Os tipos atrial e ventricular de músculo contraem-se quase como os músculos esqueléticos, mas com duração muito maior da contração. As fibras excitatórias e de condução no entanto só se contraem fracamente por conterem poucas fibras contráteis, mas apresentam descargas elétricas rítmicas automáticas, na forma de potenciais de ação, ou fazem a condução desses potenciais de ação pelo coração, representando sistema excitatório que controla os batimentos rítmicos. Anatomia Fisiológica do Músculo Cardíaco A Figura 9-2 mostra a histologia típica do miocárdio, demonstrando como fibras musculares cardíacas se dispõem em malha ou treliça com as fibras se dividindo, se recombinando e, de novo, se separando. Pode-se também imediatamente observar a partir dessa figura que o músculo cardíaco é estriado, como um típico músculo esquelético. Além disso, o músculo cardíaco contém miofibrilas típicas, com filamentos de actina e miosina, quase idênticos aos encontrados nos músculos esqueléticos; esses filamentos se dispõem lado a lado e deslizam juntos durante as contrações, como ocorre nos músculos esqueléticos (Capítulo 6). Mas em relação a outras características o músculo cardíaco difere bastante do esquelético, como veremos. O Miocárdio como um Sincício. As áreas escuras que cruzam as fibras miocárdicas na Figura 9-2 são referidas como discos intercalados; elas são na verdade membranas celulares que separam as células miocárdicas umas das outras. Isto é, as fibras do músculo cardíaco são feitas CABEÇA E EXTREMIDADE SUPERIOR Veia cava superior Átrio direito Valva pulmonar Valva tricúspide Ventrículo direito Veia cava inferior Aorta Artéria pulmonar Pulmões T~ Veia pulmonar Atrio esquerdo Valva mitral Valva aórtica Ventrículo esquerdo TRONCO E EXTREMIDADE INFERIOR Figura 9-1 Estrutura do coração e fluxo do sangue pelas câmaras e valvas cardíacas. 107 U N I D A
  • 130. Unidade III O Coração Figura 9-2 Caráter "sincicial” interconectando as fibras musculares cardíacas. de muitas células individuais, conectadas em série e em paralelo umas com as outras. Em cada disco intercalado, as membranas celulares se fundem entre si, de modo a formarem junções “comuni- cantes” permeáveis (gap junctions) que permitem rápida difusão, quase totalmente livre, dos íons. Assim, do ponto de vista funcional, os íons se movem com facilidade pelo fluido intracelular, ao longo do eixo longitudinal das fibras miocárdicas, com os potenciais de ação se propagando facilmente de uma célula muscular cardíaca para outra, através dos discos intercalados. Dessa forma, o miocárdio forma sincício de muitas células musculares cardíacas, no qual as células estão tão interconectadas que, quando uma delas é excitada, o potencial de ação se espalha para todas, propagando-se de célula a célula pela treliça de interconexões. O coração é na verdade composto por dois sincícios; o sincício atrial, que forma as paredes dos dois átrios, e o sincício ventricular, que forma as paredes dos ventrículos. Os átrios são separados dos ventrículos por tecido fibroso que circunda as aberturas das valvas atrioventriculares (A-V), entre os átrios e os ventrículos. Normalmente, os potenciais não atravessam essa barreira fibrosa para atingir diretamente os ventrículos a partir do sincício atrial. Em vez disso, eles são conduzidos por meio de sistema especializado de condução, chamado feixe A-V, o feixe de fibras condutoras, com alguns milímetros de diâmetro, discutido em detalhes no Capítulo 10. Essa divisão do músculo cardíaco em dois sincícios funcionais permite que os átrios se contraiam pouco antes da contração ventricular, o que é importante para a eficiência do bombeamento cardíaco. Potenciais de Ação no Músculo Cardíaco O potencial de ação, registrado na fibra ventricular cardíaca mostrado na Figura 9-3, tem em média 105 mili- volts, o que significa que o potencial intracelular passa de valor muito negativo, por volta de -85 milivolts entre os batimentos, para valor ligeiramente positivo, em torno de +20 milivolts, durante cada batimento. Após o potencial Figura 9-3 Potenciais de ação rítmicos (em milivolts) de fibra de Purkinje e de fibra muscular ventricular registrados por meio de microeletrodos. em ponta (spike) inicial, a membrana permanece despo- larizada durante cerca de 0,2 segundo, exibindo um platô, como mostrado na figura, ao qual se segue repolarização abrupta. A presença desse platô no potencial de ação faz a contração muscular ventricular durar até 15 vezes mais que as contrações observadas no músculo esquelético. O Que Causa o Potencial de Ação Prolongado e o Platô? Neste ponto, deve-se perguntar: Por que o potencial de ação miocárdico é tão longo, e por que ele apresenta o platô, enquanto o do músculo esquelético não o tem? As respostas biofísicas básicas a essas questões foram apresentadas no Capítulo 5, mas serão resumidas também aqui. Pelo menos, duas grandes diferenças nas características das membranas dos músculos cardíaco e esquelético explicam o potencial de ação prolongado e o platô encontrado no miocárdio. Primeiro, o potencial de ação do músculo esquelético é causado quase que inteiramente pela súbita abertura de grande quantidade dos chamados canais rápidos de sódio, o que permite que número imenso de íons sódio entre nas fibras do músculo esquelético vindo do líquido extracelular. Esses canais são denominados “rápidos” porque permanecem abertos apenas por alguns milésimos de segundo e então se fecham de modo abrupto. Ao final desse fechamento, ocorre a repolarização, e o potencial de ação termina dentro de aproximadamente um milissegundo. No músculo cardíaco, o potencial de ação é originado pela abertura de canais de dois tipos: (1) os mesmos canais rápidos de sódio, tais quais nos músculos esqueléticos, e (2) grupo completamente diferente de canais, os canais lentos de cálcio que também são referidos como canais de cálcio-sódio. Essa segunda população de canais difere dos canais de sódio rápidos por serem mais lentos para se abrir, e mais importante por continuarem abertos por vários décimos de segundo. Durante esse tempo, grande 108
  • 131. Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas quantidade de íons cálcio e sódio penetra nas fibras mio- cárdicas por esses canais mantendo o prolongado período de despolarização, causando o platô do potencial de ação. Além disso, os íons cálcio, entrando durante a fase de platô, ativam o processo da contração muscular, diferentemente dos íons cálcio que causam as contrações dos músculos esqueléticos originados do retículo sarcoplas- mático intracelular. A segunda grande diferença entre os dois tipos musculares em questão, que ajuda a explicar o potencial de ação prolongado e o platô, é que imediatamente após o início do potencial de ação a permeabilidade da membrana celular miocárdica aos íons potássio diminui aproximadamente por cinco vezes, efeito que não ocorre nos músculos esqueléticos. Essa permeabilidade reduzida ao potássio pode ser o resultado do influxo excessivo de cálcio pelos canais de cálcio-sódio. Independentemente da causa, a redução da permeabilidade ao potássio diminui a saída dos íons potássio com carga positiva durante o platô do potencial de ação e assim impede o retorno rápido do potencial de ação para seu nível basal. Quando os canais de cálcio-sódio lentos se fecham, ao final de 0,2-0,3 segundo, e cessa o influxo de cálcio e sódio, a permeabilidade da membrana aos íons potássio aumenta rapidamente; essa perda rápida de potássio do interior da fibra provoca o retorno imediato do potencial de membrana da fibra em seu nível de repouso, encerrando assim o potencial de ação. Velocidade da Condução do Sinal no Miocárdio. A velocidade de condução do sinal excitatório do potencial de ação, tanto nas fibras musculares atriais como nas ventriculares, é de cerca de 0,3 a 0,5 m/s, ou aproximadamente 1/250 da velocidade nas fibras nervosas mais calibrosas, ou ao redor de 1/10 da velocidade nas fibras musculares esqueléticas. A velocidade de condução no sistema condutor especializado do coração — as fibras de Purkinje — chega a 4 m/s na maior parte do sistema, o que permite condução razoavelmente rápida do sinal excitatório pelas diferentes porções do sistema, como veremos no Capítulo 10. Período Refratário do Miocárdio. O músculo cardíaco, como todos os tecidos excitáveis, é refratário à rees- timulação durante o potencial de ação. Assim, o período refratário do coração é o intervalo de tempo durante o qual o impulso cardíaco normal não pode reexcitar área já excitada do miocárdio, como mostrado à esquerda da Figura 9-4. O período refratário normal do ventrí- culo é de 0,25 a 0,30 segundo, o que equivale aproximadamente à duração do prolongado platô do potencial de ação. Existe ainda o período refratário relativo de cerca de 0,05 segundo, durante o qual é mais difícil excitar o músculo do que nas condições normais, mas que ainda assim pode ser excitado por impulso excitatório mais intenso, como demonstrado pela contração “prematura” no segundo exemplo da Figura 9-4. O período refratário do músculo atrial é bem mais curto que o dos ventrículos (cerca de 0,15 segundo para os átrios, comparado a 0,25 a 0,30 segundo para os ventrículos). Segundos Figura 9-4 Força da contração muscular ventricular mostrando ainda a duração do período refratário e do período refratário relativo, além dos efeitos de contração prematura. Note que as contrações prematuras não produzem somação das ondas, como observado no músculo esquelético. Acoplamento Excitação-Contração — a Função dos íons Cálcio e dos Túbulos Transversos O termo “acoplamento excitação-contração” refere-se ao mecanismo pelo qual o potencial de ação provoca a contração das miofibrilas. Isso já foi discutido para os músculos esqueléticos no Capítulo 7. Mais uma vez, existem diferenças desse mecanismo no miocárdio, que têm efeitos importantes sobre as características das contrações cardíacas. Assim como no músculo esquelético, quando o potencial de ação cursa pela membrana do miocárdio, o potencial de ação se difunde para o interior da fibra muscular, passando ao longo das membranas dos túbulos transversos (T). O potencial dos túbulos T, por sua vez, age nas membranas dos túbulos sarcoplasmáticos longitudinais para causar a liberação de íons cálcio pelo retículo sarco- plasmático no sarcoplasma muscular. Após alguns milésimos de segundo, esses íons cálcio se dispersam para as miofibrilas, quando catalisam as reações químicas que promovem o deslizamento, um contra o outro, dos filamentos de miosina e actina, produzindo assim a contração muscular. Até este ponto, o mecanismo de acoplamento excitação-contração é o mesmo encontrado no músculo esquelético, mas existe um segundo efeito muito diferente. Além dos íons cálcio, liberados das cisternas do retículo sarcoplasmático para o sarcoplasma, grande quantidade de íons cálcio adicionais também se difunde para o sarcoplasma, partindo dos próprios túbulos T no momento do potencial de ação por canais dependentes de voltagem na membrana de túbulos T (Fig. 9-5). A entrada de cálcio ativa canais de liberação de cálcio, também chamados canais de receptores de rianodina, na membrana do retículo sarcoplasmático, o que desencadeia a liberação de cálcio para o sarcoplasma. Em seguida, íons cálcio no sarcoplasma interagem com a troponina para iniciar a formação de pontes cruzadas (cross-bridges) e contração, pelo mesmo princípio básico descrito para o músculo esquelético no Capítulo 6. 109 U N I D A
  • 132. Unidade III O Coração Fluido extracelular Ca++ Na+ y_______ i y -------- V ííl ATP r Contração < § Relaxamento pelo Ca++ Figura 9-5 Mecanismo de acoplamento excitação-contração e relaxamento do músculo cardíaco. Sem esse cálcio adicional dos túbulos T, a força da contração miocárdica ficaria consideravelmente reduzida, pois o retículo sarcoplasmático do miocárdio é menos desenvolvido que o do músculo esquelético e não armazena cálcio suficiente para produzir a contração completa. Por outro lado, os túbulos T do músculo cardíaco têm diâmetro cinco vezes maior que os túbulos do músculo esquelético, o que equivale a volume 25 vezes maior. Além disso, no interior dos túbulos T existe em grande quantidade mucopolissacarídeos com carga ele- tronegativa que se ligam a íons cálcio, também em grande quantidade mantendo-os sempre disponíveis para se difundirem pelo interior das fibras do miocárdio, quando ocorre o potencial de ação nos túbulos T. A força da contração cardíaca depende muito da concentração de íons cálcio nos líquidos extracelulares. Na verdade, coração colocado em solução livre de cálcio rapidamente para de bater. A razão para isso é que as aberturas dos túbulos T passam diretamente através da membrana da célula miocárdica para o espaço extracelular, ao redor das células, permitindo que esse mesmo líquido extracelular presente no interstício miocárdico circule pelos próprios túbulos T. Consequentemente, a quantidade de íons cálcio, no sistema de túbulos T (isto é, a disponibilidade de íons cálcio para ocasionar a contração cardíaca), depende em grande parte da concentração de íons cálcio no líquido extracelular. À guisa de comparação, a força da contração do músculo esquelético quase não é afetada por mudanças moderadas da concentração de cálcio no líquido extracelular, pois as contrações desses músculos são causadas quase inteiramente pelos íons cálcio liberados pelo retículo sarcoplasmático no interior das fibras musculares esqueléticas. Ao final do platô do potencial de ação cardíaco, o influxo de íons cálcio para o músculo cardíaco é bruscamente interrompido, e os íons cálcio no sarcoplasma são rapidamente bombeados de volta para fora das fibras musculares, tanto para o retículo sarcoplasmático como para o líquido extracelular dos túbulos T. O transporte de cálcio de volta para o retículo sarcoplasmático é realizado com o auxílio de bomba de cálcio-ATPase (Fig. 9-5). Os íons cálcio são removidos da célula também por trocador de sódio-cálcio. O sódio que entra na célula durante essa troca é então transportado para fora da célula pela bomba de sódio-potássio-ATPase. Como resultado, a contração cessa até que ocorra novo potencial de ação. Duração da Contração. O músculo cardíaco começa a se contrair poucos milissegundos após o potencial de ação ter início e continua a se contrair por alguns milissegundos após o final desse potencial de ação. Assim, a duração da contração do miocárdio é principalmente função da duração do potencial de ação, incluindo o platô — por volta de 0,2 segundo, no músculo atrial, e 0,3 segundo, no músculo ventricular. 110
  • 133. Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas O Ciclo Cardíaco O conjunto dos eventos cardíacos que ocorre entre o início de um batimento e o início do próximo é denominado ciclo cardíaco. Cada ciclo é iniciado pela geração espontânea de potencial de ação no nodo sinusal, como será explicado no Capítulo 10. Esse nodo está situado na parede lateral superior do átrio direito, próximo da abertura da veia cava superior, e o potencial de ação se difunde desse ponto rapidamente por ambos os átrios e, depois, por meio do feixe A-V para os ventrículos. Em virtude dessa disposição especial do sistema de condução, ocorre retardo de mais de 0,1 segundo na passagem do impulso cardíaco dos átrios para os ventrículos. Isso permite que os átrios se contraiam antes dos ventrículos, bombeando assim sangue para o interior dos ventrículos antes do começo da forte contração ventricular. Assim, os átrios agem como bomba de escova para os ventrículos; e os ventrículos por sua vez fornecem a fonte principal de força para propelir o sangue pelo sistema vascular do corpo. Diástole e Sístole O ciclo cardíaco consiste no período de relaxamento, chamado diástole, durante o qual o coração se enche de sangue, seguido pelo período de contração, chamado sístole. A duração total do ciclo cardíaco, incluindo a sístole e diástole, é a recíproca da frequência cardíaca. Por exemplo, se a frequência cardíaca é de 72 batimentos/min, a duração do ciclo cardíaco é de 1/72 batimentos/min — aproximadamente 0,0139 minuto por batimento, ou 0,833 segundo por batimento. A Figura 9-6 mostra os diversos eventos que ocorrem no lado esquerdo do coração durante o ciclo cardíaco. As três curvas superiores mostram as variações da pressão na aorta no ventrículo esquerdo e no átrio esquerdo, respectivamente. A quarta curva representa as variações do volume ventricular esquerdo; a quinta, o eletrocar- diograma; e a sexta, um fonocardiograma, que é o registro dos sons produzidos pelo coração — principalmente pelas válvulas cardíacas — durante o bombeamento. É especialmente importante que o leitor estude bem os detalhes dessa figura e entenda as causas de todos os eventos ilustrados. Efeito da Frequência Cardíaca na Duração do Ciclo Cardíaco. Quando a frequência cardíaca aumenta, a duração de cada ciclo cardíaco diminui, incluindo as fases de contração e relaxamento. A duração do potencial de ação e o período de contração (sístole) também diminui, mas não por percentual tão alto quanto na fase de relaxamento (diástole). Na frequência cardíaca normal de 72 batimentos/min, a sístole abrange aproximadamente 0,4 de todo o ciclo cardíaco. Quando a frequência cardíaca é três vezes maior que a normal, a sístole é aproximadamente 0,65 do ciclo cardíaco inteiro. Isso significa que o coração, em frequência muito rápida, não permanece relaxado tempo suficiente para permitir o enchimento completo das câmaras cardíacas antes da próxima contração. Relação do Eletrocardiograma com o Ciclo Cardíaco O eletrocardiograma da Figura 9-6 mostra as ondas P, Q, R, S e T, que serão discutidas nos Capítulos 11, 12 e 13. Relaxamento isovolumétric o Figura 9-6 Eventos do ciclo cardíaco para o funcionamento do ventrículo esquerdo, mostrando as variações na pressão do átrio esquerdo, na pressão do ventrículo esquerdo, na pressão da aorta, no volume ventricular, no eletrocardiograma e no fonocardiograma. 111 U N I D A
  • 134. Unidade III O Coração Elas são voltagens elétricas geradas pelo coração e registradas pelo eletrocardiógrafo na superfície do corpo. A onda P é causada pela disseminação da despolari- zação pelos átrios, e isso é seguido pela contração atrial, que causa aumento discreto na curva de pressão imediatamente após a onda P eletrocardiográfica. Passado mais ou menos 0,16 segundo após o início da onda P, as ondas QRS surgem como resultado da despola- rização elétrica dos ventrículos, o que inicia a contração ventricular e faz com que a pressão ventricular comece a aumentar, como ilustrado na figura. Portanto, o complexo QRS se inicia pouco antes do início da sístole ventricular. Finalmente, vê-se a onda T ventricular no eletrocar- diograma. Ela representa o estágio de repolarização dos ventrículos quando suas fibras musculares começam a relaxar. Portanto, a onda T surge pouco antes do final da contração ventricular. Função dos Átrios como Bombas de Escova Normalmente, o sangue flui de forma contínua, vindo das grandes veias para os átrios; cerca de 80% do sangue fluem diretamente dos átrios para os ventrículos, mesmo antes da contração atrial. Então, essa contração representa os 20% adicionais para acabar de encher os ventrículos. Desse modo, os átrios funcionam simplesmente como bomba de escova {primer pump), que melhora a eficácia do bombeamento ventricular por no máximo 20%. Entretanto, o coração pode continuar operando, na maioria das circunstâncias, mesmo sem esses 20% a mais de eficiência, pois ele normalmente tem capacidade de bombear de 300% a 400% a mais de sangue do que o necessário para o corpo, nas condições de repouso. Assim, quando os átrios deixam de funcionar a diferença dificilmente será notada, a menos que a pessoa se exercite; sinais agudos de insuficiência cardíaca podem por vezes então aparecer, principalmente falta de ar. Variações da Pressão nos Átrios — Ondas a, cev . Na curva da pressão atrial, mostrada na Figura 9-6, observam-se três pequenas elevações da pressão, denominadas ondas a, cev da pressão atrial. A onda a é causada pela contração atrial. Normalmente, a pressão atrial direita aumenta por 4 a 6 mmHg durante a contração atrial, e a pressão atrial esquerda sobe por 7 a 8 mmHg. A onda c ocorre quando os ventrículos começam a se contrair; ela é causada, em parte, pelo ligeiro refluxo de sangue para os átrios, no início da contração ventricular, mas principalmente pelo abaulamento para trás das valvas A-V em direção aos átrios, em virtude da pressão crescente nos ventrículos. A onda v ocorre perto do final da contração ventricular; ela resulta do lento fluxo de sangue das veias para os átrios, enquanto as valvas A-V estão fechadas durante a contração dos ventrículos. Então, quando essa contração termina, as valvas A-V se abrem, permitindo que esse sangue atrial armazenado flua rapidamente para os ventrículos, causando o desaparecimento da onda v. Função dos Ventrículos como Bombas Enchimento dos Ventrículos durante a Diástole. Durante a sístole ventricular, grande quantidade de sangue se acumula nos átrios direito e esquerdo, uma vez que as valvas A-V estão fechadas. Dessa maneira, assim que a sístole termina e as pressões ventriculares retornam aos baixos valores diastólicos, as pressões moderadamente altas que se desenvolveram nos átrios durante a sístole ventricular forçam de imediato as valvas A-V a se abrirem, como mostrado pelo aumento do volume ventricular esquerdo na Figura 9-6. Esse é o chamado período de enchimento rápido ventricular. O período de enchimento rápido ocorre aproximadamente durante o primeiro terço da diástole. Durante o segundo terço, quantidade pequena de sangue nas condições normais flui para os ventrículos, sendo esse o sangue que continua a chegar aos átrios, vindo das veias, fluindo diretamente para os ventrículos. Durante o último terço da diástole, os átrios se contraem, dando impulso adicional ao fluxo sanguíneo para os ventrículos; isso responde por mais ou menos 20% do enchimento ventricular total em cada ciclo cardíaco. Esvaziamento Ventricular durante a Sístole Período de Contração Isovolumétrica (Isométrica). Imediatamente após o início da contração ventricular, a pressão ventricular sobe, de modo abrupto, como mostrado na Figura 9-6, fazendo com que as valvas A-V se fechem. É necessário mais 0,02 a 0,03 segundo para que o ventrículo gere pressão suficiente para empurrar e abrir as válvulas semilunares (aórtica e pulmonar) contra a pressão nas artérias aorta e pulmonar. Portanto, durante esse período os ventrículos estão se contraindo mas não ocorre esvaziamento. Esse é o chamado período de contração isovolumétrica ou isométrica, significando que a tensão aumenta no músculo, mas ocorre pouco ou nenhum encurtamento das fibras musculares. Período de Ejeção. Quando a pressão no interior do ventrículo esquerdo aumenta até pouco acima de 80 mmHg (e a pressão do ventrículo direito, pouco acima de 8 mmHg), a pressão ventricular força a abertura das valvas semilunares. Imediatamente, o sangue começa a ser lançado para diante, para as artérias, e cerca de 70% do seu esvaziamento ocorrem durante o primeiro terço do período de ejeção, e os 30% restantes do esvaziamento nos outros dois terços do período. Assim, o primeiro terço é o chamado período de ejeção rápida, e os demais dois terços, período de ejeção lenta. Período de Relaxamento Isovolumétrico (Isométrico). Ao final da sístole, o relaxamento ventricular começa de modo repentino, fazendo com que as pressões intraven- triculares direita e esquerda diminuam rapidamente. As altas pressões nas artérias distendidas que acabaram de ser cheias com o sangue vindo dos ventrículos contraídos voltam a empurrar o sangue de volta para os ventrículos, causando o fechamento das valvas aórtica e pulmonar. Durante mais 0,03 a 0,06 segundo, o músculo ventricu- 112
  • 135. Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas lar continua a relaxar, mesmo que o volume não se altere, originando o período de relaxamento isovolumétrico ou isométrico. Durante esse período, as pressões intraventri- culares diminuem rapidamente de volta aos valores dias- tólicos. É então que as valvas A-V se abrem para iniciar novo ciclo de bombeamento ventricular. Volume Diastólico Final, Volume Sistólico Final e Débito Sistólico. Durante a diástole, o enchimento normal dos ventrículos aumenta o volume de cada um deles para 110 ou 120 mL. Esse volume é chamado volume diastólico final. Então, à medida que os ventrículos se esvaziam durante a sístole, o volume diminui por aproximadamente 70 mL, o que é chamado de débito sistólico (stroke volume). A quantidade restante em cada ventrí- culo, de 40 a 50 mL, é chamada volume sistólico final. A fração do volume final diastólico que é impulsionada (ejetada) é denominada fração de ejeção — e normalmente equivale a 60%. Quando o coração se contrai fortemente, o volume sistólico final pode chegar a volumes tão baixos quanto 10 a 20 mL. Da mesma maneira, quando grandes quantidades de sangue chegam aos ventrículos durante a diástole, os volumes diastólicos finais podem chegar a 150 ou 180 mL no coração saudável. Pela capacidade de aumentar o volume diastólico final e de diminuir o volume sistólico final, o débito sistólico resultante pode ser aumentado até valores acima do dobro do normal. Funcionamento das Valvas Valvas Atrioventriculares. As valvas A- V (tricúspide e mitral) evitam o refluxo de sangue dos ventrículos para os átrios durante a sístole, e as valvas semilunares {pulmonar e aórtica) impedem o refluxo da aorta e das artérias pulmonares para os ventrículos durante a diástole. Essas valvas, mostradas na Figura 9-7 para o ventrículo esquerdo, abrem e fecham passivamente. Isto é, elas se Figura 9-7 Valvas mitral e aórtica (as valvas do ventrículo esquerdo). fecham quando o gradiente de pressão retrógrada força o sangue de volta, e se abrem quando o gradiente de pressão para diante leva o sangue à frente. Por razões anatômicas para se fecharem, as valvas A-V, finas e membrano- sas quase não requerem pressão retrógrada, enquanto as semilunares muito mais pesadas requerem fluxo retrógrado rápido por alguns milissegundos. Função dos Músculos Papilares. A Figura 9-7 mostra também os músculos papilares ligados aos folhetos das valvas A-V pelas cordas tendíneas. Os músculos papilares contraem-se ao mesmo tempo que as paredes dos ventrículos, mas ao contrário do que seria esperado não ajudam as valvas a se fechar. Em vez disso, eles puxam as extremidades das valvas em direção aos ventrículos para evitar que as valvas sejam muito abauladas para trás, em direção aos átrios, durante a contração ventricular. Se uma corda tendínea se romper, ou um dos músculos papilares ficar paralisado, a valva se abaúla muito para trás durante a sístole, às vezes tanto que permite grave refluxo, resultando em insuficiência cardíaca grave ou até mesmo letal. Valvas das Artérias Pulmonar e Aórtica. As valvas semilunares aórtica e pulmonar funcionam de modo diferente das valvas A-V. Primeiro, as altas pressões nas artérias, ao final da sístole, fazem com que as valvas sejam impelidas, de modo repentino, de volta à posição fechada, de forma muito diferente do fechamento mais suave das valvas A-V. Segundo, por terem aberturas menores, a velocidade da ejeção do sangue através das valvas aórtica e pulmonar é muito maior que pelas valvas A-V, bem maiores. Além disso, por causa da abertura e do fluxo rápidos, as extremidades das valvas semilunares são sujeitas a abrasões mecânicas muito maiores do que as valvas A-V. Finalmente, as valvas A-V são contidas pela cordoalha tendínea, o que não ocorre com as semilunares. É claro, a partir da anatomia das valvas aórtica e pulmonar (como mostrado pela representação da valva aórtica, na parte de baixo da Fig. 9-7), que elas devem ser constituídas por tecido fibroso especialmente forte, mas ainda assim muito flexível para suportar o estresse físico adicional. Curva da Pressão Aórtica Quando o ventrículo esquerdo se contrai, a pressão ventricular aumenta rapidamente até que a valva aórtica se abra. Então, após sua abertura, a pressão no ventrículo se eleva bem mais lentamente, como mostrado na Figura 9-6, pois o sangue já flui de imediato do ventrículo para a aorta e de lá para as artérias sistêmicas de distribuição. A entrada de sangue nas artérias faz com que suas paredes sejam distendidas, e a pressão sobe para aproximadamente 120 mmHg. Em seguida, ao final da sístole, quando o ventrículo esquerdo para de ejetar sangue e a valva aórtica se fecha, as paredes elásticas das artérias mantêm a pressão elevada nessas artérias mesmo durante a diástole. A chamada incisura ocorre na curva de pressão aórtica no momento em que a valva aórtica se fecha. Ela é cau- 113
  • 136. Unidade III O Coração sada pelo breve período de fluxo sanguíneo retrógrado, imediatamente antes do fechamento valvar, seguido pela cessação abrupta desse refluxo. Após o fechamento da valva aórtica, a pressão na aorta cai vagarosamente durante a diástole, pois o sangue armazenado nas artérias distendidas flui de forma contínua para os vasos periféricos, até retornar às veias. Antes que o ventrículo se contraia de novo, a pressão aórtica, nas condições normais, cai para cerca de 80 mmHg (pressão diastólica), o que equivale a dois terços da pressão máxima de 120 mmHg (pressão sistólica), que é medida na aorta durante a contração ventricular. As curvas de pressão no ventrículo direito e na artéria pulmonar são semelhantes às obtidas no ventrículo esquerdo e na aorta, a não ser pelos valores das pressões de apenas um sexto dos valores dos equivalentes esquerdos, como será discutido no Capítulo 14. Relação entre os Sons Cardíacos e o Bombeamento Cardíaco Ao auscultar o coração com o estetoscópio, não se ouve a abertura das valvas, por ser processo relativamente vagaroso e que normalmente não produz sons. Porém, quando essas valvas se fecham, os folhetos valvares e os líquidos que as banham vibram sob a influência da variação abrupta da pressão, originando sons que se disseminam em todas as direções do tórax. Quando os ventrículos se contraem, ouve-se primeiro o som causado pelo fechamento das valvas A-V. Essa vibração tem timbre baixo e duração relativamente longa, e é chamada de primeiro som cardíaco (ou primeira bulha). Quando as valvas aórtica e pulmonar se fecham, ao final da sístole, ouve-se rápido estalido por elas se fecharem rapidamente e os tecidos circundantes vibrarem por curto período. Esse é então o segundo som cardíaco (segunda bulha). As causas precisas dos sons cardíacos serão discutidas em detalhes no Capítulo 23, em relação à ausculta dos sons com o estetoscópio. Produção de Trabalho pelo Coração O trabalho sistólico do coração (stroke work output) é a quantidade de energia que o coração converte em trabalho a cada batimento, ao bombear o sangue para as artérias. O trabalho sistólico-minuto (minute work output) é a quantidade total de energia convertida em trabalho em 1 minuto, ou seja, o resultado do trabalho produzido multiplicado pelo número de batimentos por minuto (ou frequência cardíaca). A produção cardíaca de trabalho tem dois componentes. O primeiro que consome a maior parte da energia é utilizado para propelir o sangue do sistema venoso, de baixas pressões, para o arterial, de pressões elevadas. Esse é referido como trabalho volume-pressão ou trabalho externo. O segundo componente que consome quantidade mínima de energia é utilizado para acelerar o sangue até sua velocidade de ejeção, pelas valvas aórtica e pulmonar (vencer a inércia). Esse é o componente de energia cinética do fluxo sanguíneo da produção de trabalho pelo coração. A produção externa de trabalho pelo ventrículo direito tem normalmente um sexto do valor medido no ventrículo esquerdo por causa das diferenças de seis vezes entre as pressões diastólicas dos dois ventrículos. A produção de trabalho adicional de cada ventrículo, necessária para criar a energia cinética do fluxo sanguíneo, é proporcional à massa de sangue ejetado, multiplicada pelo quadrado da velocidade de ejeção. Geralmente, a produção de trabalho do ventrículo esquerdo necessária para criar a energia cinética do fluxo sanguíneo é de apenas, aproximadamente, 1% da produção de trabalho total do ventrículo e, assim, é ignorado no cálculo do resultado da produção de trabalho total. Mas, em certas circunstâncias anormais, como na estenose aórtica, em que o sangue flui com grande velocidade pela valva estenosada, mais de 50% do trabalho total produzido pode ser despendido para gerar a energia cinética do fluxo sanguíneo. Análise Gráfica do Bombeamento Ventricular A Figura 9-8 apresenta diagrama que é útil, principalmente, para explicar a mecânica do bombeamento do ventrículo esquerdo. Os componentes mais importantes desse diagrama são as duas curvas denominadas “pressão diastólica” e “pressão sistólica”. Elas são curvas da relação volume-pressão. A curva de pressão diastólica é determinada pelo enchimento do coração com volumes progressivamente crescentes de sangue, medindo-se então a pressão diastólica imediatamente antes do início da contração ventricular, que é a chamada pressão diastólica final do ventrículo. A curva de pressão sistólica é determinada pela medida da pressão sistólica, durante a contração ventricular, para cada volume de enchimento. Observa-se que, até que o volume do ventrículo não contraído ultrapasse o valor de 150 mL, a pressão “diastólica” não chega a aumentar muito. Desse modo, até esse volume, o sangue pode fluir facilmente do átrio para o ventrículo. Acima de 150 mL, a pressão diastólica ventricular sobe rapidamente, em parte por causa do tecido fibroso cardíaco, que não se dis- Figura 9-8 Relação entre o volume do ventrículo esquerdo e a pressão intraventricular durante a sístole e a diástole. Também mostrado pelas linhas vermelhas espessas, é o "diagrama volume-pressão”, retratando as variações do volume e da pressão intraventriculares durante o ciclo cardíaco normal. EW, trabalho externo efetivo. 114
  • 137. Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas Figura 9-9 "Diagrama de volume-pressão”, de- monstrando mudanças no volume e pressão intraventricular durante um ciclo cardíaco simples (linha vermelha). A área sombreada representa rede de trabalho externo (EW) produzida pelo ventrículo esquerdo durante o ciclo cardíaco. tenderá mais, e em parte porque o pericárdio que envolve o coração está praticamente em seu limite de volume. Durante a contração ventricular, a pressão “sistólica” se eleva, mesmo com volumes ventriculares baixos, e atinge o máximo com volumes entre 150 e 170 mL. A partir daí, à medida que o volume aumenta ainda mais, a pressão sistólica na realidade diminui sob certas condições, como demonstrado pela porção descendente da curva na Figura 9-8, pois, com grandes volumes como esses, os filamentos de actina e miosina das fibras do músculo cardíaco ficam afastados o suficiente para que a força da contração de cada fibra seja menor que a ótima. Vale reparar, de modo especial nessa figura, que a pressão sistólica máxima para o ventrículo esquerdo normal fica entre 250 e 300 mmHg, mas isso pode variar bastante em função da força cardíaca de cada pessoa e do grau de estímulo pela inervação cardíaca. Para o ventrículo direito normal, a pressão sistólica máxima fica entre 60 e 80 mmHg. "Diagrama Volume-Pressão" durante o Ciclo Cardíaco; O Trabalho Cardíaco. As linhas vermelhas na Figura 9-8 formam a alça denominada diagrama volume-pressão do ciclo cardíaco para o funcionamento normal do ventrículo esquerdo. Uma versão mais detalhada da alça é mostrada na Figura 9-9. Essa alça é dividida em quatro fases: Fase I: Período de enchimento. Essa fase do diagrama inicia-se com volume ventricular de aproximadamente 50 mL e pressão diastólica de 2 a 3 mmHg. A quantidade de sangue que permanece no coração, 50 mL, após a sístole anterior é chamada volume sistólico final. À medida que o sangue venoso flui do átrio esquerdo para o ventrículo, o volume ventricular normalmente sobe para cerca de 120 mL, sendo esse o volume diastólico final, ou seja, um aumento de 70 mL. Portanto, essa primeira fase é representada pela linha “I” do diagrama volume-pressão, do ponto A ao ponto B, com o aumento de volume atingindo 120 mL, e a pressão diastólica subindo para cerca de 5 a 7 mmHg. Fase II: Período de contração isovolumétrica. Durante a contração isovolumétrica, o volume do ventrículo não se altera pois todas as válvulas estão fechadas. No entanto, a pressão no interior do ventrículo aumenta até igualar a pressão na aorta, no valor de aproximadamente 80 mmHg, como indicado pelo ponto C. Fase III: Período de ejeção. Durante a ejeção, a pressão sistólica aumenta ainda mais, uma vez que o ventrículo continua a se contrair. Ao mesmo tempo, o volume do ventrículo diminui, pois a valva aórtica agora já está aberta e o sangue flui do interior do ventrículo para a aorta. Assim, a linha “III” ou “período de ejeção” representa as mudanças do volume e da pressão sistólica durante esse período de ejeção. Fase IV: Período de relaxamento isovolumétrico. Ao final do período de ejeção (ponto D), a válvula aórtica se fecha, e a pressão ventricular retorna ao valor da pressão diastólica. A linha “IV” demonstra essa diminuição da pressão intraventricular sem que ocorra variação do volume. Assim, o ventrículo retorna ao ponto de partida, com cerca de 50 mL de sangue residuais em seu interior e sob pressão atrial de 2 a 3 mmHg. O leitor bem familiarizado com os princípios de física reconhecerá que a área delimitada por esse diagrama funcional volume-pressão (área sombreada, demarcada como EW) representa a produção efetiva de trabalho externo (net externai work output) do ventrículo durante o ciclo de contração. Em estudos experimentais da contração cardíaca, esse diagrama é empregado para calcular a produção de trabalho pelo coração. Quando o coração bombeia grandes quantidades de sangue, a área do diagrama de trabalho se alarga muito. Ou seja, ela se estende muito para a direita, pois o ventrículo se enche com mais sangue durante a diástole; e se eleva mais, pois o 115
  • 138. Unidade III O Coração ventrículo se contrai com maior pressão; e normalmente se prolonga mais para a esquerda, pois o ventrículo se contrai até volume menor — especialmente se o ventrículo for estimulado à maior atividade pelo sistema nervoso simpático. Conceitos de Pré-carga e Pós-carga. Ao avaliar as propriedades contráteis do coração, é importante especificar o grau de tensão do músculo quando ele começa a se contrair, que é a chamada pré-carga, e especificar a carga contra a qual o músculo exerce sua força contrátil, chamada pós-carga. Para a contração cardíaca, a pré-carga é geralmente considerada como a pressão diastólica final quando o ventrículo está cheio. A pós-carga do ventrículo é a pressão na aorta à saída do ventrículo. Na Figura 9-8, isto corresponde à pressão sistólica, descrita na fase III do diagrama volume-pressão. (Às vezes, a pós-carga é praticamente considerada como a resistência da circulação, em lugar da pressão.) A importância dos conceitos de pré-carga e pós-carga é atribuída principalmente ao fato de que, em muitas condições funcionais anormais do coração ou da circulação, a pressão durante o enchimento do ventrículo (pré- carga), a pressão arterial contra a qual o ventrículo deve exercer a contração (a pós-carga), ou ambas, podem estar seriamente alteradas em relação ao normal. Energia Química Necessária para a Contração Cardíaca: O Uso de Oxigênio pelo Coração O miocárdio, assim como os músculos esqueléticos, utiliza energia química para realizar o trabalho de contração. Aproximadamente 70% a 90% dessa energia geralmente deriva do metabolismo oxidativo dos ácidos graxos, com cerca de 10% a 30% vindo de outros nutrientes, especialmente lactato e glicose. Assim, a intensidade (ou velocidade) do consumo de oxigênio pelo coração é medida excelente da energia química liberada enquanto o coração realiza seu trabalho. As diferentes reações químicas que liberam essa energia serão discutidas nos Capítulos 67 e 68. Estudos experimentais mostraram que o consumo de oxigênio do coração e o gasto de energia química durante a contração estão diretamente relacionados à área sombreada total na Figura 9-8. Essa porção sombreada consiste no trabalho externo (EW), como explicado antes, e uma porção adicional chamada de energia potencial, rotulado de PE. A energia potencial representa o trabalho adicional que pode- ria ser realizado pela contração do ventrículo se o ventrículo devesse esvaziar completamente todo o sangue na sua câmara, a cada contração. O consumo de oxigênio também tem sido demonstrado ser quase proporcional à tensão que ocorre no músculo cardíaco durante a contração, multiplicada pela duração do tempo que a contração persiste, chamada de índice tensão-tempo. Pela tensão ser alta quando a pressão sistólica é alta, correspondentemente mais oxigênio é usado. Igualmente, quantidade maior de energia química é gasta mesmo na pressão sistólica normal quando o ventrículo direito é anormalmente dilatado por conta da tensão do músculo cardíaco, durante a contração, é proporcional à pressão vezes o diâmetro do ventrículo. Isso se torna especialmente importante na insuficiência cardíaca, quando o ventrículo cardíaco está dilatado e paradoxalmente a quantidade de energia química, requerida para determinada quantidade de rendimento de trabalho, é maior, embora o coração esteja em insuficiência. Eficiência da Contração Cardíaca. Durante a contração do músculo cardíaco, a maior parte da energia química consumida é convertida em calor e, em menor proporção, em trabalho. A proporção entre a produção de trabalho e a energia química total consumida é denominada eficiência de contração cardíaca ou simplesmente eficiência cardíaca. A eficiência máxima para o coração normal oscila entre 20% e 25%. Na insuficiência cardíaca, essa eficiência pode cair até 5% a 10%. Regulação do Bombeamento Cardíaco Quando a pessoa se encontra em repouso, o coração bombeia apenas 4 a 6 litros de sangue por minuto. Durante o exercício intenso, pode ser necessário que esse coração bombeie de quatro a sete vezes essa quantidade. Os meios básicos de regulação do volume bombeado são (1) regulação cardíaca intrínseca, em resposta às variações no aporte do volume sanguíneo em direção ao coração e (2) controle da frequência cardíaca e da força de bombeamento pelo sistema nervoso autonômico. Regulação Intrínseca do Bombeamento Cardíaco — o Mecanismo de Frank-Starling No Capítulo 20, veremos que, na maioria das condições, a quantidade de sangue bombeada pelo coração a cada minuto em geral é determinada pelo volume de sangue que chega ao coração pelas veias, o chamado retorno venoso. Cada tecido periférico do corpo controla seu fluxo local de sangue, e todos os fluxos locais se combinam e retornam pelas veias para o átrio direito, compondo o retorno venoso. O coração, por sua vez automaticamente bombeia esse sangue que chegou até ele para as artérias, para que volte a circular ao longo do circuito. Essa capacidade intrínseca do coração de se adaptar a volumes crescentes de afluxo sanguíneo é conhecida como mecanismo cardíaco de Frank-Starling, em homenagem a Otto Frank e Ernest Starling, dois grandes fisio- logistas do século passado. Basicamente, o mecanismo de Frank-Starling afirma que quanto mais o miocárdio for distendido durante o enchimento, maior será a força da contração e maior será a quantidade de sangue bombeada para a aorta. Ou, em outras palavras: Dentro de limites fisiológicos, o coração bombeia todo o sangue que a ele retorna pelas veias. Qual a Explicação do Mecanismo de Frank-Starling? Quando quantidade adicional de sangue chega aos ventrí- culos, o músculo cardíaco é mais distendido. Isso por sua vez leva o músculo a se contrair com força aumentada, 116
  • 139. Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas pois os filamentos de miosina e actina ficam dispostos em ponto mais próximo do grau ideal de superposição para a geração de força. Assim, o ventrículo em função de seu enchimento otimizado automaticamente bombeia mais sangue para as artérias. Essa capacidade do músculo distendido de se contrair com maior produção de trabalho até seu comprimento ideal é característica de todos os músculos estriados, como já vimos no Capítulo 6, e não somente do miocárdio. Quando ocorre aumento do volume de sangue, existe ainda mais um mecanismo que amplifica o bombeamento, além do efeito extremamente importante do aumento de volume do miocárdio. A distensão das paredes do átrio esquerdo aumenta diretamente a frequência cardíaca por 10% a 20%; isso também ajuda a aumentar a quantidade de sangue bombeada a cada minuto, apesar dessa contribuição ser bem mais modesta que a do mecanismo de Frank-Starling. Curvas de Função Ventricular díaco. Ou seja, enquanto os ventrículos se enchem em resposta a maiores pressões atriais, o volume de cada ventrículo e a força da contração cardíaca também se elevam, levando o coração a bombear maiores quantidades de sangue para as artérias. Controle do Coração pela Inervação Simpática e Parassimpática A eficácia do bombeamento cardíaco é também controlada pelos nervos simpáticos e parassimpáticos (vagos) que inervam de forma abundante o coração, como mostrado na Figura 9-12. Para determinados níveis de pressão atrial, a quantidade de sangue bombeada a cada minuto (o débito cardíaco) com frequência pode ser aumentada por mais de 100% pelo estímulo simpático. E, por outro lado, o débito pode ser diminuído até zero, ou quase zero, por estímulo vagai (parassimpático). Mecanismos de Excitação Cardíaca pelos Nervos Simpáticos. Estímulos simpáticos potentes podem aumentar a frequência cardíaca em pessoas adultas jovens, Uma das melhores maneiras de expressar a capacidade funcional dos ventrículos para bombear o sangue é por meio das curvas de função ventricular, como mostrado nas Figuras 9-10 e 9-11. A Figura 9-10 apresenta tipo de curva denominada curva do trabalho sistólico. Repare que, à medida que a pressão atrial aumenta em qualquer dos lados do coração, o trabalho sistólico desse mesmo lado também aumenta, até alcançar seu limite de capacidade de bombeamento ventricular. A Figura 9-11 mostra outro tipo de curva de função ventricular, chamada curva do volume ventricular. As duas curvas dessa figura representam a função de ambos os ventrículos do coração humano, baseadas em dados extrapolados a partir de animais inferiores. Quando se elevam as pressões atriais esquerda e direita, o volume ventricular por minuto respectivo também aumenta. Assim, as curvas de função ventricular são outra maneira de representar o mecanismo de Frank-Starling car Figura 9-11 Curvas aproximadas do débito volumétrico ventricular normal para os ventrículos direito e esquerdo de corações humanos normais em repouso, conforme dados extrapolados a partir de dados obtidos de cães e de humanos. Trabalho sistólico Trabalho sistólico Pressão média de átrio esquerdo (mmHg) Pressão média de átrio direito (mmHg) Figura 9-10 Curvas de função ventricular esquerda registrada em cães, apresentando o trabalho sistólico ventricular como função das pressões médias dos átrios direito e esquerdo. (Curvas reconstruídas a partir de dados em Sarnoff SJ: Myocardial contractility as described by ventricular function curves. Physiol Rev 35:107, 1955.) Figura 9-12 Inervação simpática e parassimpática do coração. (Os nervos vagos cardíacos são nervos parassimpáticos.) 117 U N I D A
  • 140. Unidade III O Coração desde seu valor normal de 70 batimentos/min até 180 a 200 e raramente até 250 batimentos/min. Além disso, estímulos simpáticos aumentam a força da contração cardíaca até o dobro da normal, aumentando desse modo o volume bombeado de sangue e aumentando sua pressão de ejeção. Portanto, a estimulação simpática com frequência é capaz de aumentar o débito cardíaco até seu dobro ou triplo, além do aumento do débito, originado pelo mecanismo de Frank-Starling, como já discutido. Por outro lado, a inibição dos nervos simpáticos pode diminuir moderadamente o bombeamento cardíaco da seguinte maneira: sob circunstâncias normais, as fibras nervosas simpáticas do coração têm descarga contínua, mas em baixa frequência suficiente para manter o bombeamento cerca de 30% acima do que seria sem a presença de estímulo simpático. Assim, quando a atividade do sistema nervoso simpático é deprimida até valores abaixo do normal, ocorre a diminuição da frequência cardíaca e da força de contração muscular ventricular, diminuindo dessa forma o bombeamento cardíaco por até 30% abaixo do normal. Estimulação Parassimpática (Vagai) do Miocárdio. A forte estimulação das fibras nervosas parassimpáticas dos nervos vagos do coração pode chegar a parar os batimentos por alguns segundos, mas então o coração usualmente “escapa” e volta a bater entre 20 e 40 vezes por minuto, enquanto o estímulo parassimpático continuar. Ainda mais, um estímulo vagai forte pode diminuir a força de contração miocárdica por 20% a 30%. As fibras vagais estão dispersas, em grande parte, pelos átrios e muito pouco nos ventrículos, onde realmente ocorre a geração da força de contração. Isso explica o fato da estimulação vagai reduzir principalmente a frequência cardíaca e não diminuir de modo acentuado a força de contração. Mesmo assim, a combinação dos efeitos da redução importante da frequência, com leve diminuição da força de contração, pode diminuir o bombeamento ventricular em 50% ou mais. Efeito dos Estímulos Simpáticos e Parassimpáticos na Curva da Função Cardíaca. A Figura 9-13 mostra quatro curvas de função cardíaca. Elas são semelhantes às curvas de função ventricular da Figura 9-11. Entretanto, elas representam o funcionamento do coração como um todo e não de um ventrículo isolado; elas mostram também a relação entre a pressão do átrio direito no influxo ao coração direito e o débito cardíaco na saída do sangue do ventrículo esquerdo para a aorta. As curvas da Figura 9-13 demonstram que, para qualquer pressão atrial inicial, o débito cardíaco sobe durante os maiores estímulos simpáticos e cai durante estímulos parassimpáticos intensos. Essas variações do débito, resultantes da estimulação do sistema nervoso autônomo, resultam tanto das variações da frequência cardíaca como das variações da força contrátil do coração, pois ambas se alteram em resposta ao estímulo nervoso. Figura 9-13 Efeitos de diferentes graus de estimulação simpática e parassimpática sobre a curva de débito cardíaca. Efeito dos íons Potássio e Cálcio no Funcionamento Cardíaco Na discussão dos potenciais de membranas, no Capítulo 5, foi ressaltado que os íons potássio têm efeito acentuado sobre os potenciais das membranas, e, no Capítulo 6, vimos que os íons cálcio têm participação especialmente importante na ativação do processo de contração muscular. Desse modo, é de se esperar que a concentração de cada um desses íons nos líquidos extracelulares tenha efeitos importantes sobre o bombeamento cardíaco. Efeitos dos íons Potássio. O excesso de potássio nos líquidos extracelulares pode fazer com que o coração se dilate e fique flácido, além de diminuir a frequência dos batimentos. Grandes quantidades podem vir a bloquear a condução do impulso cardíaco dos átrios para os ventrículos pelo feixe A-V. A elevação da concentração de potássio para apenas 8 a 12 mEq/L — duas a três vezes o valor normal — pode provocar fraqueza tão acentuada e ritmo de batimentos tão anormal que chegam a ser fatais. Esses efeitos resultam, em parte, do fato da alta concentração de potássio nos líquidos extracelulares diminuir o potencial de repouso das membranas das fibras miocárdicas, como explicado no Capítulo 5. Isto é, a alta concentração de potássio, no fluido extracelular, despo- lariza parcialmente a membrana celular, deixando o potencial de membrana menos negativo. À medida que o potencial de membrana diminui, a intensidade do potencial de ação também diminui, o que faz as contrações do coração serem progressivamente mais fracas. Efeito dos íons Cálcio. O excesso de íons cálcio causa efeitos quase opostos aos dos íons potássio, induzindo o coração a produzir contrações espásticas. A causa disso é o efeito direto dos íons cálcio na deflagração do processo contrátil cardíaco, como explicado acima neste capítulo. 118
  • 141. Capítulo 9 O Músculo Cardíaco; o Coração como uma Bomba e a Função das Valvas Cardíacas Figura 9-14 Constância do débito cardíaco até o valor da pressão de 160 mmHg. Apenas quando a pressão arterial aumenta além desse limite normal ocorre queda significativa do débito cardíaco, em decorrência dessa sobrecarga de pressão. O Aumento da Pressão Arterial (até Certo Limite) não Reduz o Débito Cardíaco Note pela Figura 9-14 que o aumento da pressão na aorta não reduz o débito cardíaco até que se atinja o valor de pressão arterial média de 160 mmHg. Em outras palavras, isso equivale a dizer que, durante o funcionamento cardíaco normal, com pressões sistólicas arteriais normais (entre 80 e 140 mmHg), a determinação do débito cardíaco é feita quase inteiramente pela facilidade com que o fluxo sanguíneo se escoa através dos tecidos corpóreos que, por sua vez, controlam o retorno venoso do sangue ao coração. Esse é o principal assunto a ser abordado no Capítulo 20. Referências o > Por outro lado, a deficiência dos íons cálcio causa fla- cidez cardíaca, semelhante à causada pelo aumento do potássio. Felizmente, porém, os níveis de íons cálcio no sangue normalmente são mantidos dentro de faixa bem estreita. Assim, os efeitos cardíacos das concentrações anormais de cálcio raramente se apresentam como uma preocupação clínica. Efeito da Temperatura no Funcionamento Cardíaco A temperatura corporal aumentada, como ocorre quando alguém tem febre, provoca aumento muito importante da frequência cardíaca às vezes até ao dobro do valor normal. A diminuição da temperatura provoca queda da frequência, caindo até a poucos batimentos por minuto, quando a pessoa está próxima à morte por hipotermia, com a temperatura corpórea entre 15° e 21°C. Provavelmente, isso é decorrente do fato de o calor aumentar a permeabilidade das membranas do músculo cardíaco aos íons que controlam a frequência cardíaca, com resultante aceleração do processo de autoestimulação. Em geral, a força contrátil do coração é temporariamente melhorada por aumentos moderados da temperatura, como o que acontece durante o exercício, mas elevações prolongadas da temperatura exaurem os sistemas metabólicos do coração e podem acabar causando fraqueza. Portanto, o funcionamento ótimo do coração depende em grande parte do controle adequado da temperatura corporal por seus mecanismos de controle, explicados no Capítulo 73. Bers DM: Altered cardiac myocyte Ca regulation in heart failure, Physiology (Bethesda) 21:380, 2006. Bers DM: Calcium cycling and signaling in cardiac myocytes, Annu Rev Physiol 70:23, 2008. Brette F, Orchard C: T-tubule function in mammalian cardiac myocytes, CircRes 92:1182,2003. Chantler PD, Lakatta EG, Najjar SS: Arterial-ventricular coupling: mecha- nistic insights into cardiovascular performance at rest and during exer- óse.JAppl Physiol 105:1342, 2008. Cheng H, Lederer WJ: Calcium sparks, Physiol Rev 88:1491, 2008. Clancy CE, Kass RS: Defective cardiac ion channels: from mutations to clinicai syndromes, J Clin Invest 110:1075, 2002. Couchonnal LF, Anderson ME:The role of calmodulin kinase II in myocar- dial physiology and disease, Physiology (Bethesda) 23:151, 2008. Fuchs F, Smith SH: Calcium, cross-bridges, and the Frank-Starling relation- ship, News Physiol Sei 16:5, 2001. Guyton AC: Determination of cardiac output by equating venous retum curves with cardiac response curves, Physiol Rev 35:123,1955. Guyton AC, Jones CE, Coleman TG: Circulatory Physiology: Cardiac Output and Its Regulation, 2nd ed, Philadelphia, 1973, WB Saunders. Kang M, Chung KY.Walker JW: G-protein coupled receptor signaling in myo- cardium: not for the faint of heart, Physiology (Bethesda) 22:174,2007. Knaapen P, Germans T, Knuuti J, et al: Myocardial energetic and efficiency: current status of the noninvasive approach, Circulation 115:918,2007. Mangoni ME, Nargeot J: Genesis and regulation of the heart automaticity, Physiol Rev 88:919, 2008. Korzick DH: Regulation of cardiac excitation-contraction coupling: a cel- lular update, Adv Physiol Educ 27:192,2003. Olson EN: A decade of discoveries in cardiac biology, NatMed 10:467,2004. Rudy Y, Ackerman MJ, Bers DM, et al: Systems approach to understanding electromechanical activity in the human heart: a National Heart, Lung, and Blood Institute workshop summary, Circulation 118:1202, 2008. Saks V, Dzeja P, Schlattner U, et al: Cardiac System bioenergeties: metabolic basis of the Frank-Starling law,J Physiol 571:253, 2006. Sarnoff SJ: Myocardial contractility as described by ventricular function curves, Physiol Rev 35:107,1955. Starling EH: The Linacre Lecture on the Law of the Heart, London, 1918, Longmans Green. 119 U N
  • 143. CAPÍTULO 10 Excitação Rítmica do Coração O coração é dotado de sis- tema especial para (1) gerar impulsos elétricos rítmicos que causam contrações rít- micas do miocárdio e (2) conduzir esses impulsos rapidamente por todo o co- ração. Quando esse sistema funciona normalmente, os átrios se contraem aproximadamente um sexto de se- gundo antes da contração ventricular, o que permite o enchimento dos ventrículos, antes de bombearem o sangue para os pulmões e para a circulação periférica. Outra característica especial desse sistema é que ele faz com que as diferentes porções do ventrículo se con- traiam quase simultaneamente, o que é essencial para gerar pressão, com o máximo de eficiência, nas câmaras ventriculares. Esse sistema rítmico e condutor do coração é suscetível a danos por doenças cardíacas, especialmente à isquemia dos tecidos cardíacos, por causa de circulação coronária deficiente. O resultado com frequência é ritmo cardíaco bizarro ou sequências anormais e contrações das câmaras cardíacas, podendo muitas vezes afetar gravemente a eficiência do bombeamento cardíaco, chegando até a causar morte. O Sistema Excitatório e Condutor Especializado do Coração A Figura 10-1 mostra o sistema especializado condutor e excitatório do coração que controla as contrações. A figura mostra o nodo sinusal (também chamado nodo sinoatrial ou nodo S-A), no qual são gerados os impulsos rítmicos normais; as vias internodais que conduzem os impulsos do nodo sinusal ao nodo atrioventricular (nodo A-V); o próprio nodo A-V, no qual os impulsos vindo dos átrios são retardados antes de passar para os ventrículos; o feixe A-V, que conduz os impulsos dos átrios para os ventrículos, e os ramos direito e esquerdo do feixe de fibras de Purkinje, que conduzem os impulsos cardíacos para todas as partes dos ventrículos. Nodo Sinusal (Sinoatrial) O nodo sinusal (também denominado nodo sinoatrial) é uma faixa pequena, achatada e elipsoide, de músculo cardíaco especializado, com aproximadamente 3 milímetros de largura por 15 milímetros de comprimento e 1 milímetro de espessura. Está situado na parede posterolateral superior do átrio direito, imediatamente abaixo e pouco lateral à abertura da veia cava superior. As fibras desse nodo quase não têm filamentos musculares contráteis, e tem cada uma apenas 3 a 5 micrômetros de diâmetro, diferindo dos 10 a 15 micrômetros de diâmetro das fibras atriais musculares que as circundam. Entretanto, as fibras do nodo sinusal se conectam diretamente às fibras musculares atriais, de modo que qualquer potencial de ação que se inicie no nodo sinusal se difunde de imediato para a parede do músculo atrial. Ritmicidade Elétrica Automática das Fibras Sinusais Algumas fibras cardíacas têm a capacidade de autoexci- tação, processo que pode causar descarga automática rítmica e, consequentemente, contrações rítmicas. Isso é de modo especial válido para as fibras do sistema condutor especializado cardíaco, incluindo as fibras do nodo sinusal. Por essa razão, o nodo sinusal controla normalmente a frequência dos batimentos de todo o coração, como veremos adiante neste capítulo. Primeiro, descreveremos essa ritmicidade automática. Mecanismos da Ritmicidade do Nodo Sinusal. A Figura 10-2 mostra potenciais de ação, registrados no interior de fibra do nodo sinusal, de três batimentos cardíacos e como comparação apenas um potencial de ação de fibra muscular ventricular. Note que entre as descargas o “potencial de repouso da membrana” da fibra sinusal tem negatividade de aproximadamente -55 a -60 milivolts, comparada com -85 a -90 milivolts da fibra muscular ventricular. A explicação para essa menor negatividade é que as membranas celulares das fibras sinusais são por natureza mais permeáveis ao cálcio e ao sódio, e as cargas positivas desses íons que cruzam a membrana neutralizam boa parte da negatividade intracelular. 121 U N I D A
  • 144. Unidade III O Coração Nodo sinusal Vias internodais Nodo A-V Feixe A-V Ramo esquerdo Ramo direito Figura 10-1 O nodo sinusal e o sistema de Purkinje do coração, mostrando ainda o nodo A-V, as vias atriais internodais e os ramos ventriculares. Segundos Figura 10-2 Descarga rítmica de fibra do nodo sinusal. Comparação do potencial de ação do nodo sinusal com o de fibra muscular ventricular. Antes de tentar explicar a ritmicidade das fibras no- dais sinusais, vamos relembrar o que foi discutido nos Capítulos 5 e 9, mostrando que o miocárdio apresenta três tipos de canais iônicos nas suas membranas que desempenham papéis importantes para deflagrar as variações da voltagem do potencial de ação. Eles são: (1) canais rápidos de sódio, (2) canais lentos de sódio-cálcio e (3) canais de potássio. A abertura dos canais rápidos de sódio, durante poucos décimos de milésimos de segundo, já é responsável pelo potencial em ponta rápido do potencial de ação, observado no músculo ventricular por causa da entrada rápida de íons sódio positivos para o interior da fibra. Em seguida, o “platô” do potencial de ação ventricular é originado em sua grande parte pela abertura mais vagarosa dos canais de sódio-cálcio lentos, durando aproximadamente 0,3 segundo. Por fim, a abertura dos canais de potássio permite a difusão de grandes quantidades de íons positivos de potássio para o exterior da fibra mus cular, trazendo o potencial de membrana de volta a seu nível de repouso. Entretanto, existe diferença no funcionamento desses canais nas fibras do nodo sinusal, pois o seu valor “de repouso” é bem menos negativo — apenas -55 mili- volts na fibra nodal, em lugar dos -90 milivolts na fibra muscular ventricular. Nesse valor de -55 milivolts, os canais rápidos de sódio já foram em sua maioria “inati- vados” o que significa que ficaram bloqueados. A causa disso é que, a qualquer momento em que o potencial da membrana esteja menos negativo que os -55 milivolts, por mais do que poucos milissegundos, as comportas de inativação na membrana celular que fecham os canais de sódio se fecham e assim se mantêm. Dessa maneira, só os canais lentos de sódio-cálcio podem se abrir (isto é, serem “ativados”) e assim deflagrar o potencial de ação. Como resultado, o potencial de ação nodal atrial ocorre mais lentamente que o potencial de ação do músculo ventricular. Além disso, depois de ocorrer o potencial de ação, a volta do potencial para seu estado negativo também ocorre lentamente, diferentemente do retorno abrupto nas fibras ventriculares. Autoexcitação das Fibras do Nodo Sinusal. Em virtude da alta concentração de íons sódio no líquido extracelu- lar por fora da fibra nodal, além do número razoável de canais de sódio já abertos, os íons positivos de sódio tendem a vazar para o interior dessas células. É por isso que, entre os batimentos cardíacos, o influxo de sódio positivamente carregado provoca lento aumento do potencial de membrana de repouso em direção aos valores positivos. Assim, como mostrado na Figura 10-2, o potencial “de repouso” gradualmente aumenta e fica menos negativo entre dois batimentos cardíacos. Quando o potencial atinge o limiar de voltagem de cerca de -40 milivolts, os canais sódio-cálcio são “ativados” originando o potencial de ação. Portanto, basicamente é o vazamento inerente das fibras do nodo sinusal que causa a autoexcitação. Por que esse vazamento de íons sódio e cálcio não faz com que essas fibras permaneçam continuamente des- polarizadas? A resposta é que dois eventos que acontecem durante o potencial de ação evitam que isso ocorra. Primeiro, os canais sódio-cálcio se inativam (i. e., se fecham) dentro de 100 a 150 milissegundos após sua abertura, e segundo nesse mesmo tempo grande número de canais de potássio se abre. Assim, o influxo de íons positivos (cálcio e sódio) cessa, enquanto ao mesmo tempo, grandes quantidades de íons positivos de potássio se difundem para o exterior da fibra. Esses dois efeitos nega- tivam o potencial de membrana que volta a seu valor de repouso e, portanto, põe fim ao potencial de ação. Na sequência, os canais de potássio permanecem abertos por mais alguns décimos de segundo, permitindo temporariamente a saída de cargas positivas do interior da célula, resultando em excesso de negatividade dentro da fibra; esse fenômeno se chama hiperpolarização. O estado de hiperpolarização leva de início os valores do potencial de membrana “de repouso” até cerca de -55 a -60 milivolts, quando termina o potencial de ação. 122
  • 145. Capítulo 10 Excitação Rítmica do Coração Por que esse estado de hiperpolarização não se mantém permanentemente? A explicação é que pelos próximos décimos de segundo, após o fim do potencial de ação, cada vez mais canais de potássio vão progressivamente se fechando. O vazamento das cargas de sódio e cálcio para o interior da célula mais uma vez desequilibra e ultrapassa o efluxo de cargas de potássio, fazendo com que o potencial “de repouso” se eleve mais uma vez para, por fim, atingir o limiar de descarga do potencial, em torno de -40 milivolts. E então todo o processo se reinicia: a autoexcitação causa o potencial de ação, a recuperação do potencial de ação, a elevação do potencial “de repouso” até o disparo e finalmente a reexcitação que deflagra mais um ciclo. Esse processo continua indefinidamente durante a vida de cada pessoa. As Vias Internodais e a Transmissão do Impulso Cardíaco pelos Átrios As extremidades das fibras do nodo sinusal conectam-se diretamente ao tecido muscular atrial circundante. Assim, potenciais de ação originados no nodo sinusal se propagam para diante por essas fibras musculares atriais. Desse modo, o potencial de ação se espalha por toda a massa muscular atrial e, por fim, até o nodo A-V. A velocidade de condução na maior parte do músculo atrial é de cerca de 0,3 m/s, mas a condução é mais rápida, de até 1 m/s em diversas pequenas faixas de tecido atrial. Uma delas, denominada banda interatrial anterior, cursa pelas paredes anteriores dos átrios, alcançando o átrio esquerdo. Adicionalmente, três outras pequenas faixas teciduais se curvam pelas paredes anterior, lateral e posterior dos átrios, terminando no nodo A-V. Elas estão representadas nas Figuras 10-1 e 10-3 e são denominadas respectivamente vias internodais anterior, média e posterior. A causa da maior velocidade de condução nessas faixas é a presença de fibras condutoras especializadas. Essas fibras se assemelham às “fibras de Purkinje” ventriculares, de condução ainda mais rápida, que serão discutidas adiante. O Nodo Atrioventricular e o Retardo da Condução do Impulso dos Átrios para os Ventrículos O sistema condutor atrial é organizado de tal modo que o impulso cardíaco não se propague dos átrios aos ventrículos muito rapidamente; esse retardo permite que os átrios se contraiam e esvaziem seu conteúdo nos ventrículos antes que comece a contração ventricular. Os responsáveis por esse retardo da transmissão para os ventrículos são principalmente o nodo A-V e suas fibras condutoras adjacentes. O nodo A-V está situado na parede posterior do átrio direito, imediatamente atrás da valva tricúspide, como mostrado na Figura 10-1. A Figura 10-3 mostra diagrama das diversas porções desse nodo, além das suas conexões com as fibras das vias internodais atriais aferentes, e para sua saída o feixe A-V. A figura também mostra os intervalos de tempo aproximados, em frações de segundo, Figura 10-3 Organização do nodo A-V. Os números representam o intervalo de tempo desde a origem do impulso no nodo sinusal. Os valores foram extrapolados para corações humanos. entre o início do impulso cardíaco no nodo sinusal, e a sua subsequente chegada ao sistema do nodo A-V. Repare que o impulso após percorrer as vias internodais atinge o nodo A-V cerca de 0,03 segundo após sua origem sinusal. Então ocorre retardo de cerca de 0,09 segundo no próprio nodo A-V, antes que o impulso alcance a porção penetrante do feixe A-V, pelo qual atinge os ventrículos. Retardo final, de cerca de 0,04 segundo, ocorre nesse feixe penetrante, que é composto por múltiplos e delgados fascículos que atravessam o tecido fibroso que separa os átrios dos ventrículos. Assim, o retardo total no nodo A-V e no sistema do feixe A-V é de aproximadamente 0,13 segundo. Isso, somado ao retardo de 0,03 segundo, desde o nodo sinusal até o nodo A-V, resulta em 0,16 segundo de retardo antes que o impulso excitatório chegue finalmente ao tecido contrátil ventricular. Causa da Condução Lenta. A condução lenta, nas fibras transicionais, nodais e do feixe penetrante A-V, é explicada em grande parte pelo reduzido número de junções comunicantes {gap junctions) entre as sucessivas células das vias de condução, de modo que existe grande resistência para a passagem de íons excitatórios de uma fibra condutora para a próxima. Desse modo, é fácil perceber por que cada célula é sucessivamente mais lenta em sua ativação. Transmissão Rápida no Sistema de Purkinje Ventricular A condução do nodo A-V, pelo feixe A-V, para os ventrículos é feita pelas fibras de Purkinje especializadas. Exceto em sua porção inicial, onde atravessam a barreira fibrosa 123
  • 146. Unidade III O Coração A-V, elas têm características funcionais que são praticamente opostas às das fibras do nodo A-V. São fibras muito calibrosas, mesmo maiores que as fibras musculares normais do ventrículo, e conduzem potenciais de ação com velocidade de 1,5 a 4,0 m/s, cerca de seis vezes maior que a do músculo ventricular comum e 150 vezes maior que a velocidade de algumas das fibras do nodo A-V. Isso permite a transmissão quase instantânea do impulso cardíaco por todo o restante do músculo ventricular. A transmissão rápida dos potenciais de ação, pelas fibras de Purkinje, é creditada à permeabilidade muito alta das junções comunicantes nos discos intercalados, entre as sucessivas células que constituem as fibras de Purkinje. Dessa maneira, os íons são facilmente transmitidos de uma célula à próxima, aumentando a velocidade de transmissão. As fibras de Purkinje também contêm muito poucas miofibrilas, o que significa que elas pouco ou nada se contraem durante a transmissão do impulso. Transmissão Unidirecional pelo Feixe A-V. Uma característica especial do feixe A-V é a incapacidade, exceto em estados anormais, dos potenciais de ação de serem conduzidos retrogradamente para os átrios a partir dos ventrículos. Isso impede a reentrada de impulsos cardíacos por essa via, dos ventrículos para os átrios, permitindo apenas condução anterógrada dos átrios para os ventrículos. Além disso, deve ser lembrado que, exceto pelas fibras do feixe A-V, os átrios e os ventrículos são completamente separados por barreira fibrosa contínua, parte da qual é mostrada na Figura 10-3. Essa barreira normalmente funciona como isolante para evitar a passagem do impulso dos átrios para os ventrículos por qualquer via que não a anterógrada pelo próprio feixe A-V. (Em casos muito raros, parte anormal do músculo atravessa a barreira fibrosa em mais um ponto, além do feixe A-V. Nesses casos, o impulso cardíaco pode reentrar nos átrios a partir dos ventrículos e causar arritmias graves.) A Distribuição das Fibras de Purkinje nos Ventrículos — Os Ramos Direito e Esquerdo. Após atravessar o tecido fibroso entre os átrios e os ventrículos, a porção distai do feixe A-V se prolonga para baixo, pelo septo interventri- cular por 5 a 15 milímetros em direção ao ápice cardíaco, como mostrado nas Figuras 10-1 e 10-3. Nesse ponto, o feixe se divide nos ramos direito e esquerdo do feixe que cursam pelo endocárdio respectivamente nos dois lados do septo ventricular. Cada ramo se dirige para o ápice cardíaco progressivamente dividindo-se em ramos cada vez menores. Esses ramos por sua vez se dispersam lateralmente em torno de cada câmara ventricular e retornam em direção à base do coração. As extremidades finais das fibras de Purkinje penetram o miocárdio por cerca de um terço da sua espessura e, por fim, ficam contínuas com as fibras musculares do coração. Do momento em que o impulso cardíaco atinge os ramos no septo ventricular, até alcançar as extremidades das fibras de Purkinje, o tempo total despendido é de apenas 0,03 segundo em média. Assim, uma vez que o estímulo tenha atingido o sistema condutor de Purkinje, ele se dispersa de modo quase imediato por toda a massa muscular dos ventrículos. Transmissão do Impulso Cardíaco pelo Músculo Ventricular Uma vez tendo atingida a extremidade final das fibras de Purkinje, o impulso é transmitido para toda a massa muscular ventricular pelas próprias fibras musculares. A velocidade dessa transmissão é de apenas 0,3 a 0,5 m/s, um sexto da das fibras de Purkinje. O músculo cardíaco se enrola em torno das cavidades cardíacas em espiral dupla, com septos fibrosos entre as camadas espiraladas; portanto, o impulso cardíaco não é necessariamente conduzido diretamente para fora para a camada mais superficial do coração, mas, ao contrário, passa por sobre angulações em direção à superfície, acompanhando a direção das espirais. Por causa disso, a transmissão do impulso da superfície endocárdica até a superfície epicárdica leva mais 0,03 segundo, aproximadamente igual ao tempo necessário para a transmissão do impulso por toda a porção ventricular do sistema de Purkinje. Assim, o tempo total de transmissão do impulso cardíaco, desde o início dos ramos ventriculares até a última fibra miocárdica no coração normal é de aproximadamente 0,06 segundo. Resumo da Dispersão do Impulso Cardíaco ao Longo do Coração A Figura 10-4 mostra de forma resumida a transmissão do impulso cardíaco no coração humano. Os números da figura representam os intervalos de tempo em frações de segundo entre a origem do estímulo, no nodo sinu- sal, e sua chegada em cada ponto respectivo do coração. Note que o impulso se espalha com velocidade moderada pelos átrios, mas tem retardo de mais de 0,1 segundo na região do nodo A-V antes de atingir o feixe A-V no septo. Uma vez atingido esse ponto, ele se espalha muito rapidamente por meio das fibras de Purkinje para toda a superfície endocárdica dos ventrículos. Em seguida, o impulso mais uma vez se espalha com menor rapidez pelo músculo ventricular até as superfícies epicárdicas. É extremamente importante que o estudante aprenda em detalhes o trajeto do impulso cardíaco pelo coração e os tempos precisos de sua chegada a cada parte do coração em separado, pois o conhecimento detalhado desse processo é essencial para a compreensão da eletrocardio- grafia, discutida nos Capítulos 11 a 13. Controle da Excitação e da Condução no Coração O Nodo Sinusal como Marca-passo Cardíaco A esta altura do que já foi discutido sobre a gênese e a transmissão do impulso cardíaco, nota-se que o impulso normalmente se origina no nodo sinoatrial. Em certas condições anormais isso não acontece. Algumas outras 124
  • 147. Figura 10-4 Transmissão do impulso cardíaco pelo coração, mostrando o tempo de aparecimento nas diferentes partes do órgão (em frações de segundo, após o aparecimento inicial no nodo sinoatrial). partes do coração também podem apresentar excitação intrínseca rítmica do mesmo modo que as fibras do nodo sinusal; isso é de modo particular verdadeiro para as fibras do nodo A-V e as de Purkinje. As fibras do nodo A-V, quando não estimuladas a partir de local externo, emitem descargas intrínsecas rítmicas, com frequência aproximada de 40 a 60 vezes por minuto, e as fibras de Purkinje têm frequência de descarga entre 15 e 40 vezes por minuto. Esses valores diferem dos da frequência normal do nodo sinusal, de 70 a 80 vezes por minuto. A questão a ser respondida é: por que o nodo sinusal controla a ritmicidade cardíaca, e não o nodo A-V ou as fibras de Purkinje? A resposta se baseia no fato de que a descarga do nodo sinusal é consideravelmente mais rápida que a autoexcitação natural do nodo A-V e das fibras de Purkinje. A cada descarga sinusal, seu impulso é conduzido para o nodo A-V e para as fibras de Purkinje, causando assim a descarga de suas membranas excitáveis. Mas o nodo sinusal pode de novo atingir seu limiar antes que o nodo A-V ou as fibras de Purkinje atinjam seus próprios limiares de autoexcitação. Portanto, o novo estímulo sinusal descarrega o nodo A-V e as fibras de Purkinje antes que suas autoexcitações ocorram. Assim, o nodo sinusal controla o batimento cardíaco porque sua frequência de descargas rítmicas é mais alta que a de qualquer outra porção do coração. Portanto, o nodo sinusal é praticamente sempre o marca-passo do coração normal. Marca-passos Anormais — Marca-passo "Ectópico". Ocasionalmente, alguma outra parte do coração desen Capítulo 10 Excitação Rítmica do Coração volve frequência de descargas rítmicas mais rápidas que a do nodo sinusal. Por exemplo, isso às vezes acontece no nodo A-V ou nas fibras de Purkinje quando um deles fica anormal. Nesses casos, o marca-passo passa a ser o nodo A-V ou as fibras de Purkinje excitadas. Sob certas condições mais raras, um local no músculo atrial ou ven- tricular desenvolve excitabilidade excessiva e passa a ser o marca-passo. Um marca-passo em qualquer lugar que não o nodo sinusal é referido como marca-passo “ectópico”. O marca- passo ectópico produz sequências anormais da contração das diferentes partes do coração e pode comprometer de modo significativo o bombeamento. Outra causa de troca do marca-passo é o bloqueio da condução do impulso cardíaco do nodo sinusal para as demais porções do coração. O novo marca-passo, então, mais frequentemente se situa no nodo A-V ou nas porções penetrantes do feixe A-V a caminho dos ventrículos. Quando ocorre bloqueio A-V — ou seja, quando o impulso cardíaco falha em passar dos átrios para os ventrículos pelo sistema nodal e pelo feixe A-V —, os átrios continuam a se contrair com a frequência normal do nodo sinoatrial, enquanto novo marca-passo geralmente se desenvolve no sistema ventricular de Purkinje, conduzindo o músculo ventricular a novas frequências, entre 15 e 40 batimentos por minuto. Após bloqueio A-V repentino, o sistema de Purkinje não inicia imediatamente a emissão de impulsos, mas apenas após o intervalo de 5 a 20 segundos, pois antes do bloqueio as fibras de Purkinje estavam “sobrepujadas” (overdriven) pelos rápidos impulsos sinusais e se encontravam consequentemente em estado de supressão. Durante esses 5 a 20 segundos, os ventrículos não bombeiam sangue, e a pessoa desmaia após 4 a 5 segundos, em virtude da falta de fluxo sanguíneo para o cérebro. Essa retomada tardia dos batimentos cardíacos é chamada síndrome de Stokes-Adams. Se esse período de atraso se prolongar muito, pode ocasionar a morte. O Papel das Fibras de Purkinje na Sincronia da Contração do Músculo Ventricular Fica claro, a partir da nossa descrição do sistema de Purkinje, que normalmente o impulso cardíaco chega a quase todas as porções do coração dentro de pequeno intervalo de tempo, excitando a primeira fibra muscular ventricular apenas 0,03 a 0,06 segundo antes de excitar o último cardiomiócito ventricular. Isso faz com que todas as porções musculares dos dois ventrículos iniciem sua contração praticamente ao mesmo tempo e em seguida se mantenham contraídos por mais 0,3 segundo. O bombeamento eficaz de ambos os ventrículos depende dessa contração sincrônica. Se o impulso cardíaco tiver de ser conduzido lentamente pelos ventrículos, boa parte da massa muscular irá se contrair antes da massa restante; nesse caso, o efeito global do bombeamento ficará bastante prejudicado. Na realidade, em alguns casos de debilidade cardíaca, muitos dos quais serão dis- 125
  • 148. Unidade III O Coração cutidos nos Capítulos 12 e 13, ocorre transmissão lenta, e a eficácia do bombeamento pode ficar reduzida por até 20% a 30%. Controle da Ritmicidade Cardíaca e Condução de Impulsos pelos Nervos Cardíacos: os Nervos Simpáticos e Parassimpáticos O coração recebe inervação pelos nervos simpáticos e pelos parassimpáticos, como mostrado na Figura 9-10 do Capítulo 9. Os nervos parassimpáticos (vagos) distribuem-se majoritariamente para os nodos S-A e A-V, pouco menos para a musculatura atrial e muito pouco para o músculo ventricular. Os nervos simpáticos, por outro lado, distribuem-se por todas as porções do coração com forte representação no músculo ventricular, bem como em outras áreas. A Estimulação Parassimpática (Vagai) Pode Reduzir ou até Mesmo Bloquear o Ritmo e a Condução — o "Escape Ventricular". A estimulação da inervação parassimpática do coração (nervos vagos) provoca liberação do hormônio acetilcolina pelas terminações vagais. Esse hormônio tem dois efeitos principais sobre o coração. Primeiro, ele diminui o ritmo do nodo sinusal e, segundo, ele reduz a excitabilidade das fibras juncionais A-V entre a musculatura atrial e o nodo A-V, lentificando assim a transmissão do impulso cardíaco para os ventrículos. A estimulação vagai, leve a moderada, reduz a frequência cardíaca frequentemente até cerca da metade do valor normal. E a estimulação intensa dos vagos pode interromper por completo a excitação rítmica do nodo sinusal ou pode bloquear a transmissão do impulso cardíaco dos átrios para os ventrículos pelo nodo A-V. Em ambos os casos, os sinais excitatórios não são conduzidos para os ventrículos. O batimento ventricular é interrompido por 5 a 20 segundos, mas então algum ponto das fibras de Purkinje, mais comumente na porção septal interventricular do feixe A-V, desenvolve ritmo próprio, causando contração ventricular na frequência de 15 a 40 batimentos por minuto. Esse fenômeno é denominado escape ventricular. Mecanismo dos Efeitos Vagais. A liberação de acetilcolina pelas terminações vagais aumenta muito a permeabilidade da membrana aos íons potássio, permitindo o rápido vazamento desse íon para fora das fibras condu- toras. Isso provoca aumento da negatividade no interior das células, efeito esse conhecido como hiperpolariza- ção, que torna esses tecidos excitáveis muito menos excitáveis, como explicado no Capítulo 5. No nodo sinusal, o estado de hiperpolarização baixa o potencial “de repouso” da membrana das fibras sinusais até nível consideravelmente mais negativo que o usual, entre -65 e -75 milivolts, em lugar dos -55 a -60 mili- volts normais. Portanto, a subida inicial do potencial de membrana sinusal, devida ao influxo de sódio e cálcio, exige muito mais tempo para atingir o potencial limiar para a excitação. Isso reduz em muito a frequência da ritmicidade dessas fibras sinusais. Se o estímulo vagai for suficientemente intenso, é possível interromper por completo a autoexcitação desse nodo. No nodo A-V, o estado de hiperpolarização provocado pela estimulação vagai faz com que fique mais difícil para as pequenas fibras atriais que chegam ao nodo gerarem eletricidade suficiente para excitar as fibras nodais. Portanto, o fator de segurança para a transmissão do impulso cardíaco pelas fibras transicionais para as fibras do nodo A-V diminui. A redução moderada simplesmente retarda a condução do estímulo, mas a redução mais intensa bloqueia completamente esse processo. Efeito da Estimulação Simpática sobre o Ritmo Cardíaco e a Condução. A estimulação simpática causa essencialmente efeitos opostos aos observados no coração pela estimulação parassimpática, como se segue. Primeiro, aumentando a frequência de descargas do nodo sinusal. Segundo, aumentando a velocidade da condução, bem como a excitabilidade em todas as porções do coração. Terceiro, aumentando muito a força de contração de toda a musculatura cardíaca, tanto atrial como ventricular, como discutido no Capítulo 9. Em resumo, o estímulo simpático aumenta a atividade global do coração. A estimulação máxima pode praticamente triplicar a frequência cardíaca e duplicar a força de contração. Mecanismo do Efeito Simpático. A estimulação simpática leva à liberação do hormônio norepinefrina pelas terminações nervosas. A norepinefrina por sua vez estimula os receptores adrenérgicos beta-1 mediadores do efeito sobre a frequência cardíaca. O mecanismo preciso pelo qual a estimulação adrenérgica beta-1 atua sobre as fibras musculares do coração ainda não está totalmente esclarecido, mas acredita-se que aumente a permeabilidade das fibras aos íons sódio e cálcio. No nodo sinusal, o aumento da permeabilidade sódio-cálcio torna o potencial de repouso mais positivo, provocando também aumento da inclinação da elevação do potencial de membrana durante a diástole em direção ao nível limiar de autoexcitação, acelerando esse processo e, portanto, aumentando a frequência cardíaca. No nodo A-V e nos feixes A-V, o aumento da permeabilidade ao sódio-cálcio torna mais fácil para o potencial de ação excitar as porções sucessivas do sistema condutor, reduzindo o tempo de condução entre os átrios e os ventrículos. O aumento da permeabilidade aos íons cálcio é no mínimo parcialmente responsável pelo aumento da força de contração do miocárdio, sob a influência de estímulo simpático, já que o cálcio desempenha potente papel na excitação e nos processos contráteis das miofibrilas. Referências Barbuti A, DiFrancesco D: Control of cardiac rate by “funny” channels in health and disease, Ann N YAcadSei 1123:213, 2008. 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  • 149. Chien KR, Domian IJ, Parker KK: Cardiogenesis and the complex biology of regenerative cardiovascular medicine, Science 322:1494, 2008. Dobrzynski H, Boyett MR, Anderson RH: New insights into pacemaker activity: promoting understanding of sick sinus syndrome, Circulation 115:1921,2007. James TN: Structure and function of the sinus node, AV node and His bun- dle of the human heart: part I—structure, Prog Cardiovasc Dis 45:235, 2002. James TN: Structure and function of the sinus node,AV node and His bun- dle of the human heart: part II—function, Prog Cardiovasc Dis 45:327, 2003. Kléber AG, Rudy Y: Basic mechanisms of cardiac impulse propagation and associated arrhythmias, Physiol Rev 84:431, 2004. Lakatta EG, Vinogradova TM, Maltsev VA: The missing link in the mystery of normal automaticity of cardiac pacemaker cells, Ann NYAcad Sei 1123:41,2008. Capítulo 10 Excitação Rítmica do Coração Leclercq C, Hare JM: Ventricular resynchronization: current State of the art, Circulation 109:296, 2004. Mangoni ME, Nargeot J: Genesis and regulation of the heart automaticity, Physiol Rev 88:919, 2008. Mazgalev TN, Ho SY, Anderson RH: Anatomic-electrophysiological cor- relations concerning the pathways for atrioventricular conduction, Circulation 103:2660, 2001. Schram G, Pourrier M, Melnyk P, et al: Differential distribution of cardiac ion channel expression as a basis for regional specialization in electrical function, CircRes 90:939, 2002. Yasuma F, Hayano J: Respiratory sinus arrhythmia: why does the heartbeat synchronize with respiratory rhythm? Chest 125:683, 2004. 127 U N I D A
  • 151. CAPÍTULO 11 O Eletrocardiograma Normal Quando o impulso cardía- co passa através do cora- ção, uma corrente elétrica também se propaga do coração para os tecidos adja- centes que o circundam. E pequena parte da corrente se propaga até a superfície do corpo. Se eletrodos forem colocados sobre a pele, em lados opostos do coração, será possível registrar os potenciais elétricos gerados por essa corrente: esse registro é conhecido como eletrocardio- grama. A Figura 11-1 mostra o registro de dois batimen- tos cardíacos de um eletrocardiograma normal. Características do Eletrocardiograma Normal O eletrocardiograma normal (Fig. 11-1) é composto pela onda P, pelo complexo QRS e pela onda T. O complexo QRS apresenta com frequência mas não sempre três ondas distintas: a onda Q, a onda R e a onda S. A onda P é produzida pelos potenciais elétricos gerados quando os átrios se despolarizam, antes de a contração atrial começar. O complexo QRS é produzido pelos potenciais gerados quando os ventrículos se despolarizam antes de sua contração, isto é, enquanto a onda de despolarização se propaga pelos ventrículos. Portanto, tanto a onda P como os componentes do complexo QRS são ondas de despolarização. A onda T é produzida pelos potenciais gerados, enquanto os ventrículos se restabelecem do estado de despolarização. Esse processo no músculo ventricular normalmente ocorre 0,25 a 0,35 segundo após a sua despolarização, e a onda T é conhecida como onda de re- polarização. Assim, o eletrocardiograma é formado por ondas de despolarização e por ondas de repolarização. Os princípios da despolarização e da repolarização foram discutidos no Capítulo 5. A distinção entre as ondas de despolarização e as ondas de repolarização é tão importante na eletrocardiografia que esclarecimento adicional se faz necessário. Ondas de Despolarização versus Ondas de Repolarização A Figura 11-2 mostra uma fibra muscular única do coração em quatro fases diferentes do processo de despolarização e de repolarização. Nessa figura, a cor vermelha indica a despolarização. Durante a despolarização, o potencial negativo normal presente no interior da fibra se inverte, ficando levemente positivo no interior, e negativo no exterior. Átrios Ventrículos 129 U N I D A
  • 152. Unidade III O Coração B cíT" r£T Q + + + + + +++■+"+ + +■+■+ + + ± ± ± ± + + ++++++++++ .J n±T~ + a + despolarização Z1 +++++++++ +++++++++ cET ++++++ ++++++_+_ j + CÍT” ++++++++++++++++ + a D ++++++++++++++++ ~^— Onda de repolarização C. 0,30 segundo J Figura 11-2 Registro da onda de despolarização (A e B) e da onda de repolarização (C e D) de fibra muscular do coração. Na Figura 11-2A, a despolarização representada pelas cargas positivas vermelhas, no interior, e pelas cargas negativas vermelhas, no exterior da fibra, está se deslocando da esquerda para a direita. A primeira metade da fibra já se despolarizou, enquanto a metade restante ainda está polarizada. Entretanto, o eletrodo esquerdo, situado no exterior da fibra, está em área negativa, e o eletrodo direito está em área positiva; isso faz com que o aparelho registre valor positivo. À direita da fibra muscular, é mostrado o registro das variações que ocorrem no potencial entre os dois eletrodos como mostra o aparelho registrador de alta velocidade. Na Figura 11-2A, observe que, quando a despolarização alcança a metade do comprimento da fibra, o registro sobe até o valor positivo máximo. Na Figura 11-25, a despolarização já se estendeu por toda a fibra muscular, e o registro à direita retornou à linha de base zero porque ambos os eletrodos estão agora em áreas igualmente negativas. A onda completa é uma onda de despolarização, pois resulta da propagação da despolarização ao longo da membrana da fibra muscular. A Figura 11-2C mostra metade do trecho da mesma fibra muscular já repolarizada. A positividade está retornando para o lado externo da fibra. Nesse momento, o eletrodo esquerdo está em área positiva, e o eletrodo direito em área negativa. A polaridade agora é oposta à mostrada na Figura 11-2A. Como consequência, o registro mostrado à direita fica negativo. Na Figura 11-2D, a fibra muscular se repolarizou completamente, e ambos os eletrodos estão agora em áreas Figura 11 -3 Acima, Potencial de ação monofásico de fibra do músculo ventricular durante a função cardíaca normal, mostrando a despolarização rápida, seguida pela repolarização lenta, durante a fase de platô, e pela repolarização rápida, já próximo do final do processo. Abaixo, Registro eletrocardiográfico feito simultaneamente. positivas, de modo que não existe diferença de potencial entre eles para ser registrada. Assim, no registro à direita o potencial retorna novamente ao zero. Essa onda negativa completa é uma onda de repolarização porque resulta da propagação da repolarização, ao longo da membrana da fibra muscular. Relação entre o Potencial de Ação Monofásico do Músculo Ventricular e as Ondas QRS e T do Eletrocar- diograma Padrão. O potencial de ação monofásico do músculo ventricular, discutido no Capítulo 10, dura normalmente de 0,25 a 0,35 segundo. A parte superior da Figura 11-3 mostra um potencial de ação monofásico registrado por um microeletrodo inserido no interior de uma fibra muscular única ventricular. A deflexão inicial, ascendente e íngreme desse potencial de ação é produzida pela despolarização, e o retorno do potencial à linha de base é causado pela repolarização. Na parte inferior da figura, observa-se o registro eletrocardiográfico simultâneo desse mesmo ventrículo, que mostra as ondas QRS surgindo no início do potencial de ação monofásico e a onda T aparecendo no final. Observe, sobretudo, que nenhum potencial é registrado no eletrocardiograma quando o músculo ventricular está completamente polarizado ou completamente despolari- zado. Somente quando o músculo está em parte polarizado e em parte despolarizado é que a corrente flui de uma parte dos ventrículos para outra e, consequentemente, flui também até a superfície do corpo, permitindo o registro eletrocardiográfico. Relação entre a Contração Atrial e a Ventricular e as Ondas do Eletrocardiograma Antes que a contração do músculo possa ocorrer, é preciso que a despolarização se propague pelo músculo para iniciar os processos químicos da contração. Voltando à Figura 11-1: a onda P ocorre no início da contração dos átrios, e o complexo QRS de ondas ocorre no início da contração dos ventrículos. Os ventrículos permanecem 130
  • 153. contraídos até que a repolarização tenha ocorrido, ou seja, até o final da onda T. Os átrios se repolarizam cerca de 0,15 a 0,20 segundo, após o término da onda P. Quase nesse mesmo instante, o complexo QRS está sendo registrado no eletrocardio- grama. Como consequência, a onda de repolarização atrial conhecida como onda T atrial, é em geral encoberta pelo complexo QRS que é muito maior. Por essa razão, raramente se observa uma onda T atrial no ele- trocardiograma. A onda de repolarização ventricular é a onda T do ele- trocardiograma normal. Normalmente, a repolarização do músculo ventricular começa em algumas fibras, cerca de 0,20 segundo após o início da onda de despolarização (o complexo QRS), mas em muitas outras fibras demora até 0,35 segundo. Assim, o processo de repolarização ventricular se estende por período longo, cerca de 0,15 segundo. Por isso, a onda T do eletrocardiograma normal é uma onda de longa duração, mas sua voltagem é consideravelmente menor que a voltagem do complexo QRS, em parte por causa de sua duração prolongada. Calibração da Voltagem e do Tempo do Eletrocardiograma Todos os registros eletrocardiográficos são feitos com linhas de calibração apropriadas no papel de registro. Essas linhas de calibração já podem estar traçadas no papel, como ocorre quando se utilizam aparelhos com pena inscritora, ou são registradas no papel ao mesmo tempo em que o eletrocardiograma é registrado, como ocorre nos eletrocardiógrafos de tipo fotográfico. Como mostrado na Figura 11-1, as linhas de calibração horizontais do eletrocardiograma padrão estão dispostas de tal modo que cada 10 linhas horizontais correspondem a 1 milivolt, as linhas horizontais acima da linha de base indicam valores positivos, e as que estão abaixo da linha de base indicam valores negativos. As linhas verticais do eletrocardiograma são as linhas de calibração do tempo. Um eletrocardiograma típico tem velocidade de impressão de 25 milímetros por segundo, embora às vezes sejam usadas velocidades maiores. Portanto, cada 25 milímetros na direção horizontal correspondem a 1 segundo, e cada segmento de 5 milímetros, indicado por linhas verticais escuras, representa 0,20 segundo. Os intervalos de 0,20 segundo estão, por sua vez, divididos em cinco intervalos menores por linhas finas, e cada um desses intervalos menores corresponde a 0,04 segundo. Voltagens Normais do Eletrocardiograma. As voltagens das ondas registradas no eletrocardiograma normal dependem da maneira pela qual os eletrodos são postos em contato com a superfície do corpo e de quão próximos eles estão do coração. Quando um eletrodo é colocado diretamente sobre os ventrículos e um segundo eletrodo é colocado em outro lugar do corpo, distante do coração, a voltagem do complexo QRS pode atingir 3 a 4 milivolts. Mesmo essa voltagem sendo pequena, quando compa Capítulo 11 O Eletrocardiograma Normal rada com o potencial de ação monofásico de 110 milivolts registrado diretamente na membrana da fibra muscular cardíaca. Quando eletrocardiogramas são registrados por eletrodos colocados nos dois braços ou em um braço e uma perna, a voltagem do complexo QRS é geralmente de 1,0 a 1,5 milivolt desde o pico da onda R até o ponto mais baixo da onda S. Já a voltagem da onda P permanece entre 0,1 e 0,3 milivolt, e a da onda T fica entre 0,2 e 0,3 milivolt. Intervalo P-Q ou P-R. O tempo decorrido entre o início da onda P e o início do complexo QRS corresponde ao intervalo entre o começo da estimulação elétrica dos átrios e o começo da estimulação dos ventrículos. Esse período é denominado intervalo P-Q. O intervalo P-Q normal é de cerca de 0,16 segundo. (Com frequência, esse intervalo é chamado intervalo P-R, porque é comum a onda Q estar ausente.) Intervalo Q-T. A contração do ventrículo dura aproximadamente do início da onda Q (ou da onda R, quando a onda Q está ausente) até o final da onda T. Esse período é denominado intervalo Q-T e tem normalmente cerca de 0,35 segundo. Determinação da Frequência dos Batimentos Cardíacos por meio do Eletrocardiograma. A frequência dos batimentos cardíacos pode ser determinada com facilidade no eletrocardiograma, visto que a frequência cardíaca corresponde ao inverso do intervalo de tempo entre dois batimentos cardíacos sucessivos. Se, de acordo com as linhas de calibração do tempo, o intervalo entre dois batimentos for de 1 segundo, a frequência cardíaca será de 60 batimentos por minuto. O intervalo de tempo normal entre dois complexos QRS sucessivos de adulto é de cerca de 0,83 segundo, o que corresponde a uma frequência cardíaca de 60/0,83 vezes por minuto, ou 72 batimentos por minuto. Métodos para o Registro de Eletrocardiogramas Às vezes, as correntes elétricas geradas pelo músculo cardíaco durante cada batimento do coração alteram os potenciais elétricos e as polaridades, nos respectivos lados do coração, em menos de 0,01 segundo. Por essa razão, é essencial que qualquer aparelho para registro de eletrocardiogramas seja capaz de responder rapidamente a essas variações dos potenciais. Aparelhos para Registro de Eletrocardiógrafos Muitos eletrocardiógrafos clínicos modernos utilizam sistemas computadorizados e monitores eletrônicos, ao passo que outros usam registrador com pena inscritora que grava o eletrocardiograma diretamente sobre a folha de papel em movimento. Às vezes, a pena inscritora consiste em um tubo fino com uma das extremidades conectada a um reservatório de tinta e a outra, a extremidade registradora, conectada a um poderoso sistema 131
  • 154. Unidade III O Coração eletromagnético, capaz de mover a pena de baixo para cima com alta velocidade. À medida que o papel se move para frente, a pena registra o eletrocardiograma. O movimento da pena é controlado por amplificadores eletrônicos apropriados, ligados a eletrodos eletrocardiográficos colocados no paciente. Outros sistemas de registro com pena inscritora utilizam papéis especiais e um estilete inscritor que não necessita de tinta. Um desses tipos de papel fica preto quando exposto ao calor, e o próprio estilete é aquecido por corrente elétrica que flui por sua ponta. Existe outro tipo de papel que fica preto quando uma corrente elétrica flui da ponta do estilete, atravessa o papel e chega aos ele- tródios colocados por baixo do papel. Nesse processo, a ponta do estilete deixa uma linha preta no ponto onde toca o papel. O Fluxo da Corrente ao Redor do Coração durante o Ciclo Cardíaco Registro de Potenciais Elétricos de uma Massa de Músculo Cardíaco Sincicial Parcialmente Despolarizada A Figura 11-4 mostra uma massa sincicial de músculo cardíaco que recebeu um estímulo na região central. Antes da estimulação, a parte externa das células musculares estava positiva, e a parte interna, negativa. Pelas razões apresentadas no Capítulo 5, durante a discussão sobre os potenciais de membrana, assim que uma área do sincício cardíaco fica despolarizada, cargas negativas escapam para o lado externo das fibras musculares des- polarizadas, tornando essa parte da superfície eletrone- gativa, conforme representado pelos sinais negativos da Figura 11-4. O restante da superfície do coração ainda polarizado é representado pelos sinais positivos. Por isso, quando o terminal negativo de um medidor é conectado à área de despolarização e o terminal positivo é conectado a uma das áreas ainda polarizadas, como mostrado à direita na figura, o registro é positivo. Figura 11-4 Desenvolvimento de potenciais instantâneos na superfície de uma massa de músculo cardíaco despolarizada na região central. A Figura 11-4 também mostra as leituras de dois outros medidores com terminais em posições diferentes da anterior. Esse assunto deve ser estudado cuidadosamente, e o leitor deve ser capaz de explicar as causas das leituras de cada medidor. Pelo fato de a despolarização se propagar em todas as direções pelo coração, as diferenças de potencial mostradas na figura só persistem por poucos milésimos de segundo, e as medições da voltagem real só podem ser realizadas com aparelho para registros de alta velocidade. O Fluxo das Correntes Elétricas no Tórax ao Redor do Coração A Figura 11-5 mostra o músculo ventricular dentro do tórax. Mesmo os pulmões, que estão em sua maior parte cheios de ar, conduzem eletricidade em grau surpreendente, e os líquidos presentes nos outros tecidos que circundam o coração conduzem eletricidade ainda com maior facilidade. Portanto, o coração está de fato suspenso em meio condutor. Quando parte dos ventrículos se despolariza e, como consequência, fica eletronegativa em relação ao restante, a corrente elétrica flui da área despolarizada para a área polarizada por meio de grandes curvas, como pode ser observado na figura. Vale lembrar aqui o que foi discutido sobre o sistema de Purkinje no Capítulo 10. O impulso cardíaco chega primeiro ao septo ventricular e, logo em seguida, se propaga para as superfícies internas da parte restante dos ventrículos, como mostram as áreas vermelhas e os sinais Figura 11-5 Fluxo da corrente no tórax ao redor dos ventrículos parcialmente despolarizados. 132
  • 155. negativos da Figura 11-5. Isso faz com que a parte interna dos ventrículos fique eletronegativa, e as paredes externas dos ventrículos, eletropositivas, com a corrente elétrica fluindo pelos líquidos que banham os ventrículos, seguindo percursos elípticos, como mostrados pelas setas curvas da figura. Se for calculada algebricamente a média de todas as linhas do fluxo da corrente (as linhas elípticas), será constatado que o fluxo médio da corrente é negativo em direção à base do coração e positivo em direção ao ápice. Durante a maior parte do restante do processo de des- polarização, a corrente também continua a fluir nessa mesma direção, enquanto a despolarização se propaga da superfície do endocárdio para o exterior do órgão pela massa do músculo ventricular. Em seguida, pouco antes de a despolarização completar seu curso pelos ventrículos, a direção média do fluxo da corrente se inverte durante cerca de 0,01 segundo, fluindo do ápice ventricular em direção à base, pois as paredes externas dos ventrículos, situadas junto à base do coração, são a última parte desse órgão a ser despolarizada. Assim, nos ventrículos normais, a corrente flui das áreas negativas para as áreas positivas, principalmente da base do coração para o ápice, durante quase todo o ciclo de despolarização, exceto bem próximo do final do processo. E, se um aparelho medidor for conectado a eletrodos posicionados na superfície do corpo, como mostrado na Figura 11-5, o eletrodo que estiver mais próximo da base ficará negativo, ao passo que o eletrodo que estiver mais próximo do ápice ficará positivo, e o aparelho medidor mostrará registro positivo no eletrocardiograma. Derivações Eletrocardiográficas As Três Derivações Bipolares dos Membros A Figura 11-6 mostra as conexões elétricas entre os membros do paciente e o eletrocardiógrafo, para obtenção dos registros eletrocardiográficos das chamadas derivações bipolares padrão (ou standard) dos membros. O termo “bipolar” quer dizer que o eletrocardiograma é registrado por dois eletrodos posicionados em lados diferentes do coração — neste caso, nos membros. Assim, uma “derivação” não é um só fio conectado ao corpo, mas a combinação de dois fios e seus eletrodos para formar um circuito completo entre o corpo e o eletrocardiógrafo. Em cada exemplo, o eletrocardiógrafo está representado por aparelho elétrico de medida, embora o verdadeiro eletrocardiógrafo seja um aparelho registrador de alta velocidade, associado a uma tira de papel em movimento. Derivação I. No registro da derivação I dos membros, o terminal negativo do eletrocardiógrafo é conectado ao braço direito, e o terminal positivo, ao braço esquerdo. Portanto, quando a área pela qual o braço direito se une ao tórax está eletronegativa, em relação à área pela qual o braço esquerdo se une ao tórax, o eletrocardiógrafo registra valor positivo, isto é, valor situado acima da linha de Capítulo 11 O Eletrocardiograma Normal Figura 11-6 Disposição convencional dos eletrodos para o registro das derivações eletrocardiográficas padrão. O triângulo de Einthoven está sobreposto ao tórax. voltagem zero do eletrocardiograma. Quando ocorre o oposto, o eletrocardiógrafo registra valor situado abaixo da linha. Derivação II. Para registrar a derivação II dos membros, o terminal negativo do eletrocardiógrafo é conectado ao braço direito, e o terminal positivo, à perna esquerda. Portanto, quando o braço direito está negativo em relação à perna esquerda, o eletrocardiógrafo exibe registro positivo. Derivação III. Para registrar a derivação III dos membros, o terminal negativo do eletrocardiógrafo é conectado ao braço esquerdo, e o terminal positivo, à perna esquerda. Isso significa que o eletrocardiógrafo apresentará registro positivo quando o braço esquerdo estiver negativo em relação à perna esquerda. Triângulo de Einthoven. Na Figura 11-6, um triângulo, denominado triângulo de Einthoven, está traçado ao redor da área do coração. Essa figura geométrica mostra que os dois braços e a perna esquerda formam os ápices de um triângulo que circunda o coração. Os dois ápices da parte superior do triângulo representam os pontos pelos quais os dois braços se conectam eletricamente aos líquidos situados ao redor do coração, e o ápice inferior 133 U N I D A
  • 156. Unidade III O Coração é o ponto pelo qual a perna esquerda se conecta a esses líquidos. Lei de Einthoven. A lei de Einthoven afirma que, se os potenciais elétricos de duas das três derivações eletro- cardiográficas bipolares dos membros forem conhecidos em um dado momento, o potencial elétrico da terceira derivação poderá ser determinado matematicamente pela simples soma dos dois primeiros. Note, entretanto, que os sinais positivo e negativo das diferentes derivações precisam ser levados em consideração quando a soma for realizada. Por exemplo, suponha-se que, momentaneamente, como mostrado na Figura 11-6, o braço direito apresente -0,2 milivolt (negativo) em relação ao potencial médio do corpo, o braço esquerdo apresente +0,3 milivolt (positivo) e a perna esquerda apresente +1,0 milivolt (positivo). Ao observarmos os medidores da figura, veremos que a derivação I registra potencial positivo de +0,5 milivolt, porque essa é a diferença entre -0,2 milivolt do braço direito e +0,3 milivolt do braço esquerdo. De modo semelhante, a derivação III registra potencial positivo de +0,7 milivolt, e a derivação II registra potencial positivo de +1,2 milivolt, porque essas são as diferenças instantâneas de potencial entre os respectivos pares de membros. Agora, note que a soma das voltagens das derivações I e III é igual à voltagem da derivação II, ou seja, 0,5 mais 0,7 são iguais a 1,2. Matematicamente, esse princípio, denominado lei de Einthoven, é válido em dado momento enquanto os três eletrocardiogramas bipolares “padrão” estão sendo registrados. Eletrocardiogramas Normais, Registrados pelas Três Derivações Bipolares Padrão dos Membros. A Figura 11- 7 mostra os registros dos eletrocardiogramas nas derivações I, II e III. É óbvio que os eletrocardiogramas, obtidos por essas três derivações, são semelhantes entre si, porque todos eles registram ondas P e T positivas, e a parte principal do complexo QRS também é positiva. Figura 11-7 Eletrocardiogramas normais, registrados das três derivações eletrocardiográficas padrão. Quando se analisam os três eletrocardiogramas, é possível mostrar, por meio de medidas cuidadosas e da observação adequada das polaridades, que, em dado momento, a soma dos potenciais nas derivações I e III é igual ao potencial na derivação II, demonstrando assim a validade da lei de Einthoven. Pelo fato de os registros obtidos pelas derivações bipolares dos membros serem semelhantes entre si, não importa muito qual derivação está sendo registrada quando se quer diagnosticar diferentes arritmias cardíacas, pois o diagnóstico das arritmias depende principalmente das relações temporais entre as diferentes ondas do ciclo cardíaco. Mas, quando se busca diagnosticar lesão no músculo atrial ou ventricular ou no sistema de condução de Purkinje, é muito importante saber quais derivações estão sendo registradas, pois as anormalidades da contração do músculo cardíaco ou da condução do impulso cardíaco alteram muito os padrões de algumas derivações, porém podem não afetar outras. A interpretação eletrocardiográfica desses dois tipos de distúrbios — miopatias cardíacas e arritmias cardíacas — é discutida separadamente nos Capítulos 12 e 13. As Derivações Torácicas (Derivações Precordiais) Com frequência, os eletrocardiogramas são registrados pela colocação de eletrodo na superfície anterior do tórax, diretamente sobre o coração, em um dos pontos mostrados na Figura 11-8. Esse eletrodo é conectado ao terminal positivo do eletrocardiógrafo, e o eletrodo negativo, denominado eletrodo indiferente, é conectado, simultaneamente, ao braço direito, ao braço esquerdo e à perna esquerda, por meio de resistências elétricas iguais, como mostrado na mesma figura. Em geral, faz-se o registro de seis derivações torácicas padrão, uma por vez, na parede anterior do tórax, colocando-se o eletrodo torá- cico de forma sequencial nos seis pontos mostrados no diagrama. Os diferentes registros são conhecidos como derivações VI, V2, V3, V4, V5 e V6. A Figura 11-9 mostra eletrocardiogramas de coração saudável, registrados por essas seis derivações torácicas padrão. Pelo fato de as superfícies do coração estarem próximas da parede do tórax, cada derivação torácica registra principalmente o potencial elétrico da musculatura cardíaca situada imediatamente abaixo do eletrodo. Por essa razão, anormalidades relativamente pequenas dos ventrí- culos, em especial na parede ventricular anterior, podem provocar alterações acentuadas nos eletrocardiogramas registrados pelas derivações torácicas individuais. Nas derivações VI e V2, os registros do complexo QRS do coração normal são, na maioria das vezes, negativos porque, como mostrado na Figura 11-8, o eletrodo torá- cico dessas derivações está mais próximo da base cardíaca que do ápice, e a base do coração permanece eletronega- tiva durante a maior parte do processo de despolarização ventricular. De modo oposto, nas derivações V4, V5 e V6, os complexos QRS são em sua maior parte positivos, porque o eletrodo torácico dessas derivações está mais pró- 134
  • 157. Figura 11-8 Conexões do corpo com o eletrocardiógrafo para o registro das derivações torácicas. BE, braço esquerdo; BD, braço direito. ximo do ápice do coração que permanece eletropositivo durante a maior parte da despolarização. As Derivações Unipolares Aumentadas dos Membros Outro sistema de derivações muito utilizado consiste na derivação unipolar aumentada dos membros. Nesse tipo de registro, dois dos membros são conectados ao termi Capítulo 11 O Eletrocardiograma Normal Vi V2 V6 Figura 11-9 Eletrocardiogramas normais registrados pelas seis derivações torácicas padrão. Figura 11-10 Eletrocardiogramas normais registrados pelas três derivações unipolares aumentadas dos membros. nal negativo do eletrocardiógrafo por meio de resistências elétricas, e o terceiro membro é conectado ao terminal positivo. Quando o terminal positivo está no braço direito, a derivação é denominada aVR; quando está no braço esquerdo, aVL; e quando está na perna esquerda, aVF. A Figura 11-10 mostra registros normais das derivações unipolares aumentadas dos membros. Eles são semelhantes aos registros das derivações padrão dos membros, com exceção do registro da derivação aVR, que é invertido. (Por que ocorre essa inversão? Estude as conexões das polaridades com o eletrocardiógrafo para determinar o motivo dessa inversão.) Referências Veja as referências do Capítulo 13. 135 U N I D A
  • 159. CAPÍTULO 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Vetorial Pela discussão do Capítu- lo 10, sobre a transmissão do impulso pelo coração, é óbvio que qualquer varia- ção desse padrão de trans- missão pode causar poten- ciais elétricos anormais em volta do coração e consequentemente alterar os forma- tos das ondas no eletrocardiograma. Por essa razão, mui- tas anormalidades sérias do músculo cardíaco podem ser diagnosticadas pela análise dos contornos das ondas, nas diferentes derivações eletrocardiográficas. Princípios da Análise Vetorial dos Eletrocardiogramas Uso de Vetores para Representar Potenciais Elétricos Antes de poder compreender como as anormalidades cardíacas afetam os contornos do eletrocardiograma, deve-se inicialmente estar totalmente familiarizado com os conceitos de vetores e de análise vetorial, aplicados aos potenciais elétricos dentro e em volta do coração. Várias vezes, no Capítulo 11, foi apontado que as correntes cardíacas seguem em direção particular pelo coração, em dado momento, durante o ciclo cardíaco. Um vetor é uma seta que aponta na direção do potencial elétrico, gerado pelo fluxo de corrente, com a ponta voltada para a direção positiva. Também, por convenção, o comprimento da seta é traçado em proporção à voltagem do potencial. Vetor "Resultante" no Coração em Qualquer Momento Dado. A Figura 12-1 mostra, pela área sombreada e os sinais negativos, a despolarização do septo ventricu- lar e de partes das paredes endocárdicas apicais dos dois ventrículos. Nesse momento da excitação cardíaca, a corrente elétrica segue entre as áreas despolarizadas, dentro do coração, e as áreas não despolarizadas fora do coração, como indicado pelas longas setas elípticas. Alguma corrente também segue por dentro das câmaras cardíacas diretamente das áreas despolarizadas em direção às áreas ainda polarizadas. No geral, muito mais corrente segue para baixo, da base dos ventrículos em direção ao ápice, do que para cima. Portanto, o vetor somado do potencial, gerado nesse instante particular, chamado vetor instantâneo médio, é representado pela longa seta preta, traçada pelo centro dos ventrículos, na direção da base para o ápice. Além disso, como a corrente somada tem quantidade considerável, o potencial é grande, e o vetor é longo. A Direção de um Vetor É Definida em Termos de Graus Quando um vetor está exatamente na horizontal e direcionado para o lado esquerdo da pessoa, diz-se que ele está na direção de 0 grau, como mostrado na Figura 12-2. Desse ponto de referência zero, a escala dos vetores gira em sentido horário: quando o vetor é vertical e vem de cima para baixo, tem a direção de +90°; quando se estende do lado esquerdo ao direito da pessoa, ele tem a direção de +180°; e quando vai de baixo para cima, tem a direção de -90° (ou +270). No coração normal, a direção usual do vetor durante a propagação da onda de despolarização pelos ventrículos, chamado vetor QRS médio, é por volta de +59°, que é representado pelo vetor A, traçado do centro da Figura 12- 2 na direção +59°. Isso significa que, durante a maior Figura 12-1 Vetor médio de ventrículos parcialmente despola- rizados. 137 U N I D A
  • 160. Unidade III O Coração Figura 12-2 Vetores traçados para representar potenciais de vários corações diferentes, e o "eixo" do potencial (expresso em graus) para cada coração. parte da onda de despolarização, o ápice do coração permanece positivo em relação à base, como discutido adiante, neste capítulo. Eixo para Cada Derivação Bipolar Padrão e Cada Derivação Unipolar dos Membros No Capítulo 11, as três derivações bipolares padrão e as três derivações unipolares dos membros foram descritas. Cada derivação é, de fato, um par de eletródios conectados ao corpo em lados opostos do coração, e a direção do eletródio negativo para o eletródio positivo é chamada “eixo” da derivação. A derivação I é registrada por dois eletródios colocados, respectivamente, em um dos braços. Como os eletródios ficam exatamente na direção horizontal, com o eletródio positivo na esquerda, o eixo da derivação I é de 0 grau. Para registrar a derivação II, os eletródios são colocados no braço direito e na perna. O braço direito se liga ao tronco em seu limite superior direito, e a perna esquerda, no limite inferior esquerdo. Portanto, a direção dessa derivação é cerca de +60°. Por análise semelhante, pode ser visto que a derivação III tem eixo de cerca de +120°; a derivação aVR, +210°; aVF, +90°; e aVL, -30°. As direções dos eixos de todas essas derivações estão mostradas na Figura 12-3, que é referida como sistema de referência hexagonal. As polaridades dos eletródios são mostradas pelos sinais de mais e de menos na figura. O leitor deve aprender esses eixos e suas polaridades particularmente para as derivações bipolares dos membros /, II e III, para compreender o restante deste capítulo. Análise Vetorial dos Potenciais Registrados em Diferentes Derivações Agora que já discutimos, primeiro, as convenções para representar os potenciais cardíacos por meio de vetores Figura 12-3 Eixos das três derivações bipolares e das três derivações unipolares. e, segundo, os eixos das derivações, é possível usá-los em conjunto para determinar o potencial instantâneo que será registrado no eletrocardiograma em cada derivação para dado vetor cardíaco, como se segue. A Figura 12-4 mostra um coração parcialmente des- polarizado; o vetor A representa a direção média instantânea do fluxo de corrente nos ventrículos. Nesse caso, a direção do vetor é +55°, e a voltagem do potencial, representada pelo comprimento do vetor A, é de 2 milivolts. Abaixo, no diagrama do coração, o vetor A é mostrado de novo, com uma linha traçada para representar o eixo da derivação I, na direção de 0 grau. Para determinar quanto da voltagem do vetor A será registrado na derivação I, é traçada uma linha perpendicular ao eixo da derivação I, da ponta do vetor A ao eixo da derivação I, e um chamado vetor projetado (B) é marcado ao longo do eixo da derivação I. A seta desse vetor projetado aponta na direção da extremidade positiva do eixo da derivação I, o que significa que o registro no eletrocardiograma da derivação I é positivo. E a voltagem instantânea registrada será igual ao tamanho de B dividido pelo tamanho de A vezes 2 milivolts ou cerca de 1 milivolt. Figura 12-4 Determinação do vetor projetado B ao longo do eixo da derivação I quando o vetor A representa o potencial instantâneo dos ventrículos. 138
  • 161. Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Vetorial A Figura 12-5 mostra outro exemplo de análise vetorial. Nesse exemplo, o vetor A representa o potencial elétrico e seu eixo em dado momento durante a despola- rização ventricular, em coração onde o lado esquerdo se despolariza mais rápido que o direito. Nesse caso, o vetor instantâneo tem a direção de 100°, e sua voltagem é de novo 2 milivolts. Para determinar o potencial realmente registrado na derivação I, traça-se uma linha perpendicular, da ponta do vetor A ao eixo da derivação I, e encon- tra-se o vetor projetado B. O vetor B é muito pequeno e, nesse exemplo, fica na direção negativa, indicando que nesse instante particular o registro na derivação I será negativo (abaixo da linha zero no eletrocardiograma), e a voltagem registrada será pequena, cerca de -0,3 milivolts. Essa figura demonstra que, quando o vetor cardíaco está em direção praticamente perpendicular ao eixo da derivação, a voltagem registrada no eletrocardiograma dessa derivação será muito baixa. Por sua vez, quando o vetor cardíaco tem quase o mesmo eixo da derivação, praticamente toda a voltagem do vetor será registrada. Análise Vetorial dos Potenciais nas Três Derivações Bipolares Padronizadas dos Membros. Na Figura 12-6, o vetor A representa o potencial elétrico instantâneo de coração parcialmente despolarizado. Para determinar o potencial registrado nesse instante no eletrocardiograma, para cada uma das três derivações bipolares padronizadas dos membros, linhas perpendiculares (as linhas tracejadas) são traçadas da ponta do vetor A para as três linhas representando os eixos das três diferentes derivações padronizadas, como mostrado na figura. O vetor projetado B representa o potencial registrado nesse instante na derivação I, o vetor projetado C representa o potencial na derivação II, e o vetor projetado D representa o potencial na derivação III. Em todos eles, o registro no eletrocardiograma é positivo — ou seja, acima da linha zero — porque os vetores projetados apontam nas direções positivas, ao longo dos eixos, de todas as derivações. O potencial no eixo I (vetor B) é cerca da metade do poten cial real no coração (vetor A); na derivação II (vetor C), é quase igual ao do coração; e na derivação III (vetor D) é cerca de um terço do coração. Análise idêntica pode ser usada para determinar os potenciais registrados nas derivações aumentadas dos membros; a diferença é que os respectivos eixos das derivações aumentadas (Fig. 12-3) são usados no lugar dos eixos das derivações bipolares padronizadas dos membros, usados na Figura 12-6. Análise Vetorial do Eletrocardiograma Normal Vetores que Ocorrem a Intervalos Sucessivos Durante a Despolarização dos Ventrículos — o Complexo QRS Quando o impulso cardíaco chega aos ventrículos pelo feixe atrioventricular, a primeira parte dos ventrículos a se despolarizar é a superfície endocárdica esquerda do septo. Então, a despolarização se espalha rapidamente para atingir ambas as superfícies endocárdicas do septo, como demonstrado pela porção sombreada do ventrículo, na Figura 12-7A. Depois, a despolarização se espalha ao longo das superfícies endocárdicas do restante dos dois ventrículos, como mostrado na Figura 12-75 e C. Por fim, ela se espalha pelo músculo ventricular, até a superfície externa do coração, como mostrado progressivamente na Figura 12-7C, D eE. Em cada estágio na Figura 12-7, partes A a E, o potencial elétrico médio instantâneo dos ventrículos é representado pelo vetor vermelho, sobreposto ao ventrículo em cada painel da figura. Cada um desses vetores é então analisado pelo método descrito na seção anterior, para determinar as voltagens que serão registradas a cada instante em cada uma das três derivações eletrocardiográfi- cas padronizadas. À direita, em cada figura, é mostrado o desenvolvimento progressivo do complexo QRS ele- trocardiográfico. Tenha em mente que vetor positivo em Figura 12-5 Determinação do vetor projetado B ao longo do eixo da derivação I quando o vetor A representa o potencial instantâneo dos ventrículos. Figura 12-6 Determinação dos vetores projetados nas derivações I, II e III quando o vetor A representa o potencial instantâneo nos ventrículos. 139 U N I D A
  • 162. Unidade III O Coração Figura 12-7 As áreas sombreadas dos ventrículos estão despolarizadas (-); as áreas não sombreadas ainda estão polarizadas (+). Os vetores ventriculares e os complexos QRS, 0,01 segundo após o início da despolarização ventricular (A); 0,02 segundo depois do início da des- polarização (6); 0,035 segundo depois do início da despolarização (C); 0,05 segundo depois do início da despolarização (D); e depois que a despolarização dos ventrículos se completou, 0,06 segundo depois do início (£). uma derivação terá registro acima da linha zero no ele- trocardiograma, ao passo que vetor negativo terá registro abaixo da linha zero. Antes de continuarmos com considerações adicionais da análise vetorial, é essencial que essa análise dos vetores normais sucessivos, apresentada na Figura 12-7, seja entendida. Cada uma dessas análises deve ser estudada detalhadamente pelo procedimento exposto aqui. Um pequeno resumo dessa sequência vem a seguir. Na Figura 12-7A, o músculo ventricular apenas começou a ser despolarizado, representando um instante de cerca de 0,01 segundo depois do início da despolarização. Nesse momento, o vetor é pequeno porque apenas pequena porção dos ventrículos — o septo — está des- polarizada. Portanto, todas as voltagens eletrocardiográ- ficas são baixas e registradas para a direita do músculo ventricular em cada uma das derivações. A voltagem na derivação II é maior que as voltagens nas derivações I e III porque o vetor cardíaco se estende, de forma preponderante, na mesma direção que o eixo da derivação II. Na Figura 12-75, que representa cerca de 0,02 segundo após o início da despolarização, o vetor cardíaco é grande porque muito da massa muscular ventricular já se des- polarizou. Portanto, as voltagens em todas as derivações eletrocardiográficas aumentaram. Na Figura 12-7C, cerca de 0,035 segundo depois do início da despolarização, o vetor cardíaco está ficando menor, e as voltagens eletrocardiográficas registradas estão menores porque o lado externo do ápice do coração está agora eletronegativo, neutralizando grande parte da positividade nas outras superfícies epicárdicas do coração. Também, o eixo do vetor está começando a girar para 0 lado esquerdo do tórax porque o ventrículo esquerdo se despolariza pouco mais lentamente que o direito. Por conseguinte, a proporção entre as voltagens da derivação 1 e da derivação III está aumentando. 140
  • 163. Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano:AnáliseVetorial Na Figura 12-7D, cerca de 0,05 segundo depois do início da despolarização, o vetor cardíaco aponta na direção da base do ventrículo esquerdo, e é curto porque apenas uma porção muito pequena do músculo ventricular ainda está polarizada. Por causa da direção do vetor nesse momento, as voltagens registradas nas derivações II e III são ambas negativas — isto é, abaixo da linha zero —, enquanto a voltagem na derivação I ainda é positiva. Na Figura 12-7£, cerca de 0,06 segundo depois do início da despolarização, toda a massa muscular ventricular está despolarizada e, então, nenhuma corrente flui em torno do coração, e nenhum potencial elétrico é gerado. O vetor passa a ser zero, e as voltagens em todas as derivações são zeradas. Assim, os complexos QRS são completados nas três derivações bipolares padronizadas dos membros. Às vezes, o complexo QRS apresenta pequena depressão negativa em seu início, em uma ou mais das derivações, o que não é mostrado na Figura 12-7; essa depressão é a onda Q. Quando ela ocorre, é devida à despolarização inicial do lado esquerdo do septo, antes do lado direito, que cria um fraco vetor da esquerda para a direita por fração de segundo, antes que o usual vetor base-para-ápice ocorra. A maior deflexão positiva, mostrada na Figura 12-7, é a onda R, e a deflexão final negativa é a onda S. Eletrocardiograma durante a Repolarização — a OndaT Depois de o músculo ventricular ter sido despolarizado, a repolarização começa, cerca de 0,15 segundo após, e continua até se completar em cerca de 0,35 segundo. Essa repolarização causa a onda T no eletrocardiograma. Como o septo e as áreas endocárdicas do músculo ventricular se despolarizam primeiro, parece lógico que essas áreas deveríam se repolarizar também em primeiro lugar. No entanto, isso não é o usual porque o septo e as outras áreas endocárdicas têm período de contração mais longo que a maior parte das superfícies externas do coração. Portanto, a maior porção da massa muscular ventricular a se repolarizar primeiro é toda a superfície externa dos ventrículos, especialmente perto do ápice do coração. As áreas endocárdicas normalmente se repola- rizam por último. Postula-se que essa sequência de repolarização seja causada pela alta pressão sanguínea dentro dos ventrículos durante a contração, o que reduz muito o fluxo sanguíneo coronariano para o endocárdio, retardando assim a repolarização das áreas endocárdicas. Como as superfícies apicais externas dos ventrículos se repolarizam antes das superfícies internas, a extremidade positiva do vetor ventricular resultante, durante a repolarização, é na direção do ápice do coração. Como consequência, a onda T normal em todas as derivações bipolares dos membros é positiva que é também a polaridade da maioria dos complexos QRS normais. Na Figura 12-8, cinco estágios da repolarização dos ventrículos estão representados pelo aumento progressivo das áreas claras — as áreas repolarizadas. Em cada estágio, o vetor se estende da base do coração em dire- A __ n____ ___ zx A _z:___ ___ z. in —=---------- =—■"——-x— Figura 12-8 Geração da onda T durante a repolarização dos ventrículos, mostrando também a análise vetorial do primeiro estágio da repolarização. O tempo total decorrido, desde o início da onda T até seu término, é de aproximadamente 0,15 segundo. ção ao ápice, até desaparecer no último estágio. Primeiro, o vetor é relativamente pequeno porque a área de repolarização é pequena. Depois, o vetor fica maior em virtude dos graus maiores de repolarização. Por fim, o vetor volta a ficar menor porque as áreas de despolarização que ainda persistem são tão pequenas que a quantidade total de fluxo de corrente fica muito pequena. Essas variações demonstram também que o vetor é máximo quando cerca da metade do coração está no estado polarizado, e cerca da metade está despolarizada. As variações nos eletrocardiogramas das três derivações padronizadas dos membros, durante a repolarização, são representadas abaixo de cada um dos ventrículos, mostrando os estágios progressivos da repolarização. Assim, após cerca de 0,15 segundo, o tempo necessário para que todo o processo aconteça, é gerada a onda T do eletrocardiograma. Despolarização dos Átrios — a Onda P A despolarização dos átrios começa no nodo sinusal e se espalha em todas as direções pelos átrios. Por isso, o ponto original de eletronegatividade nos átrios fica, aproximadamente, no ponto de entrada da veia cava superior, onde está situado o nodo sinusal: a direção da despolarização inicial é mostrada pelo vetor preto, na Figura 12-9. Além disso, o vetor permanece em geral nessa direção durante todo o processo da despolarização atrial normal. Como essa direção é usualmente na direção positiva dos eixos das três derivações bipolares padronizadas dos membros padrão I, II e III, os eletrocardiogramas registrados nos átrios durante a despolarização são também, em geral, positivos em todas essas derivações, como mostrados na Figura 12-9. Esse registro da despolarização atrial é conhecido como onda P atrial. 141
  • 164. Unidade III O Coração Figura 12-9 Despolarização dos átrios e geração da onda P, mostrando o vetor máximo dos átrios e os vetores resultantes nas três derivações padrão. À direita são mostradas as ondas P eT atriais. SA, nodo sinoatrial. Repolarização dos Átrios — a Onda T Atrial. A propagação da despolarização pelo músculo atrial é muito mais lenta que nos ventrículos porque os átrios não têm sistema de Purkinje para a condução rápida do sinal de despolarização. Assim, a musculatura ao redor do nodo sinusal fica despolarizada por longo tempo, antes que a musculatura nas partes distais dos átrios o seja. Por isso, a área nos átrios que também se repolariza primeiro é a região do nodo sinusal, a área que originalmente tinha se despolarizado primeiro. Assim, quando a repolarização começa, a região em volta do nodo sinusal fica positiva em relação ao restante dos átrios. Portanto, o vetor de repolarização atrial é o oposto em relação ao vetor de despolarização. (Note que isso é contrário ao que ocorre nos ventrículos.) Assim, como mostrado à direita, na Figura 12-9, a chamada onda T atrial vem cerca de 0,15 segundo depois da onda P atrial, mas essa onda T ocorre no lado oposto da linha zero de referência da onda P; isto é, usualmente ela é negativa em vez de positiva nas três derivações bipolares padronizadas dos membros. No eletrocardiograma normal, a onda T atrial ocorre quase ao mesmo tempo que o complexo QRS dos ventrículos. Assim, ela é quase sempre totalmente obscurecida pelo grande complexo QRS ventricular, apesar de que, em alguns estados muito anormais, ela realmente apareça no registro do eletrocardiograma. Ve t o rca rd i ogra m a Notou-se, na discussão até este ponto, que o vetor do fluxo da corrente pelo coração varia rapidamente à medida que o impulso se espalha pelo miocárdio. Ele varia por dois aspectos: primeiro, o vetor aumenta e diminui de tamanho, em virtude da voltagem crescente e decrescente do vetor. Segundo, o vetor muda de direção, por causa das variações da direção média do potencial elétrico originário do coração. O chamado vetorcardiograma mostra essas variações em diferentes tempos durante o ciclo cardíaco, como representado na Figura 12-10. Figura 12-10 Vetorcardiogramas de QRS eT. No grande vetorcardiograma da Figura 12-10, o ponto 5 é o ponto de referência zero-, esse ponto é a extremidade negativa de todos os vetores que se sucedem. Enquanto o músculo cardíaco fica polarizado entre os batimentos cardíacos, a extremidade positiva do vetor permanece no ponto zero por não existir potencial elétrico vetorial. Entretanto, tão logo a corrente comece a fluir pelos ventrículos, no início da despolarização ventricular a extremidade positiva do vetor sai do ponto de referência zero. Quando o septo é despolarizado primeiro o vetor se estende para baixo em direção ao ápice dos ventrículos, mas é relativamente fraco, gerando assim a primeira porção do vetorcardiograma ventricular, como mostrado pela extremidade positiva do vetor 1. À medida que mais músculo ventricular é despolarizado, o vetor fica mais e mais forte, em geral pouco se desviando para um lado. Assim, o vetor 2 da Figura 12-10 representa o estado de despolarização dos ventrículos cerca de 0,02 segundo depois do vetor 1. Após mais 0,02 segundo, o vetor 3 representa o potencial, e o vetor 4 ocorre em mais 0,01 segundo. Finalmente, os ventrículos ficam totalmente despolariza- dos, e o vetor volta de novo ao valor zero, como mostrado no ponto 5. A figura elíptica, gerada pelas extremidades positivas dos vetores, é referida como vetorcardiograma do QRS. Vetorcardiogramas podem ser registrados em osciloscó- pio, conectando os eletródios na superfície do pescoço e do abdome inferior às placas verticais do osciloscópio e conectando os eletródios na superfície torácica de cada lado do coração às placas horizontais. Quando o vetor varia, o ponto de luz na tela do osciloscópio segue o percurso da extremidade positiva do vetor, inscrevendo desse modo o vetorcardiograma no visor do osciloscópio. Eixo Elétrico Médio do QRS Ventricular — e seu Significado O vetorcardiograma, durante a despolarização ventricular (o vetorcardiograma do QRS), mostrado na Figura 12-10, 142
  • 165. Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano:AnáliseVetorial é de um coração normal. Note nesse vetorcardiograma que a direção predominante dos vetores dos ventrículos durante a despolarização é em direção ao ápice do coração. Isto é, durante a maior parte do ciclo de despolarização ventricular, a direção do potencial elétrico (negativo para positivo) é da base dos ventrículos para o ápice. Essa direção predominante do potencial durante a despolarização é referida como eixo elétrico médio dos ventrículos. O eixo elétrico médio dos ventrículos normais é de 59°. Em muitas condições patológicas cardíacas, essa direção se altera de modo pronunciado, às vezes, até para polos opostos do coração. Determinação do Eixo Elétrico pelas Derivações Eletrocardiográficas Padronizadas Na prática clínica, usualmente se estima o eixo elétrico do coração por meio das derivações eletrocardiográficas bipolares padronizadas dos membros, em vez de pelo vetorcardiograma. A Figura 12-11 apresenta o método para se fazer isso. Depois de registrar as derivações padronizadas, determinam-se o potencial e a polaridade resultantes nos registros das derivações I e III. Na derivação I da Figura 12-11, o registro é positivo, e na derivação III, o registro é preponderantemente positivo, mas negativo durante parte do ciclo. Se alguma parte do registro for negativa, esse potencial negativo será subtraído da parte positiva do potencial para determinar o potencial resultante (ou efetivo) para essa derivação, como mostrado pela seta à direita do complexo QRS, na derivação III. Em seguida, cada potencial resultante, para as derivações I e III, é marcado nos eixos das respectivas derivações, com a base do potencial no ponto de interseção dos eixos, como mostrado na Figura 12-11. Se o potencial resultante da derivação I for positivo, ele será marcado, com direção positiva, ao longo da linha que representa a derivação I. Inversamente, se esse potencial for negativo, ele será marcado na direção negativa. Também para a derivação III, o potencial resultante é representado com sua base no ponto de interseção e, se positivo, é marcado na direção positiva, ao longo da Figura 12-11 Determinação do eixo elétrico médio dos ventrículos por meio de duas derivações eletrocardiográficas (derivações I e III). linha representando a derivação III. E, se for negativo, será marcado na direção negativa. Para determinar o vetor do potencial elétrico ventricular médio total do QRS, traçam-se linhas perpendiculares (as linhas tracejadas na figura), pelas pontas das derivações I e III, respectivamente. O ponto de interseção dessas duas linhas perpendiculares representa, por análise vetorial, a ponta do vetor QRS médio nos ventrículos, e o ponto de interseção dos eixos das derivações I e III representa a extremidade negativa do vetor médio. Assim, o vetor QRS médio é traçado entre esses dois pontos. O potencial médio aproximado gerado pelos ventrículos durante a despolarização é representado pelo comprimento desse vetor QRS médio, e o eixo elétrico médio é representado pela direção do vetor médio. Assim, a orientação do eixo elétrico médio dos ventrículos normais, como determinada na Figura 12-11, é de 59° positivos (+59°). Condições Ventriculares Anormais que Causam Desvio de Eixo Apesar de o eixo elétrico médio dos ventrículos ser em geral por volta de 59°, esse eixo pode se desviar mesmo no coração normal de cerca de 20° até cerca de 100°. As causas das variações normais são, em sua maior parte, diferenças anatômicas do sistema de distribuição de Purkinje ou da própria musculatura dos diferentes corações. Entretanto, várias condições cardíacas anormais podem causar desvio do eixo, além dos limites normais, como se segue. Mudança da Posição do Coração no Tórax. Se o coração está angulado para a esquerda, o eixo elétrico médio do coração também é desviado para a esquerda. Esse desvio ocorre (1) ao final de expiração profunda, (2) quando a pessoa se deita, porque o conteúdo abdominal faz pressão para cima, contra o diafragma e (3) de forma relativamente frequente em pessoas obesas, cujos diafragmas, via de regra, exercem pressão para cima, contra o coração todo o tempo, devido ao aumento da adiposidade visceral. Analogamente, a angulação do coração para a direita causa o desvio do eixo elétrico médio dos ventrículos para a direita. Isso ocorre (1) ao final de inspiração profunda, (2) quando a pessoa se levanta, e, (3) usualmente, nas pessoas altas e longilíneas cujos corações pendem. Hipertrofia de um Ventrículo. Quando um ventrí- culo apresenta hipertrofia acentuada, o eixo do coração é desviado na direção do ventrículo hipertrofiado por duas razões. Primeira, existe quantidade muito maior de músculo no lado hipertrofiado do coração, em relação ao outro lado, e isso faz com que ocorra geração maior de potencial elétrico nesse lado. Segunda, é necessário mais tempo para que a onda de despolarização passe pelo ventrículo hipertrofiado que pelo ventrículo normal. Consequentemente, o ventrículo normal é despolarizado muito antes que o ventrículo hipertrofiado, e isso causa grande vetor do lado normal do coração para o lado hiper- 143
  • 166. Unidade III O Coração trofiado, que permanece com forte carga positiva. Assim, o eixo se desvia em direção ao ventrículo hipertrofiado. Análise Vetorial do Desvio de Eixo para a Esquerda em Decorrência da Hipertrofia do Ventrículo Esquerdo. A Figura 12-12 mostra as três derivações eletrocadio- gráficas bipolares padronizadas dos membros. A análise vetorial demonstra desvio à esquerda do eixo, apontando na direção de -15°. Esse é um eletrocardiograma típico, causado pelo aumento de massa muscular do ventrículo esquerdo. Nesse caso, o desvio do eixo foi causado por hipertensão (alta pressão sanguínea arterial), que fez o ventrículo esquerdo se hipertrofiar para poder bombear sangue contra a pressão arterial sistêmica elevada. Ocorre quadro semelhante de desvio do eixo para a esquerda quando o ventrículo esquerdo se hipertrofia, como resultado de estenose valvar aórtica, regurgitação valvar aór- tica ou várias condições cardíacas congênitas, nas quais o ventrículo esquerdo aumenta, enquanto o ventrículo direito permanece com tamanho relativamente normal. Análise Vetorial do Desvio de Eixo para a Direita em Decorrência da Hipertrofia do Ventrículo Direito. O eletrocardiograma da Figura 12-13 mostra desvio acentuado do eixo para a direita, para eixo elétrico de 170°, que é 111° à direita do eixo ventricular médio do QRS de 59°. O desvio do eixo para a direita, mostrado nessa figura, foi causado por hipertrofia do ventrículo direito, resultante de estenose valvar pulmonar congênita. O desvio do eixo para a direita também pode ocorrer em outras condições cardíacas congênitas, causadoras de hipertrofia do ventrículo direito, como a tetralogia de Fallot e o defeito do septo interventricular. Bloqueio de Ramo Causa Desvio de Eixo. Normalmente, as paredes laterais dos dois ventrículos se des- polarizam quase ao mesmo instante, porque os ramos esquerdo e direito do sistema de Purkinje transmitem o impulso cardíaco, de forma quase simultânea, para as III III Figura 12-12 Desvio do eixo para a esquerda em um coração hipertenso (ventrículo esquerdo hipertrófico). Note também o complexo QRS discretamente alargado. duas paredes ventriculares. Como resultado, os potenciais gerados pelos dois ventrículos (nos dois lados opostos do coração) quase se neutralizam mutuamente. Mas, se um dos maiores ramos dos feixes estiver bloqueado, o impulso cardíaco se espalhará pelo ventrículo normal muito antes do que pelo outro. Assim, a despolarização dos dois ventrículos fica muito longe de ser simultânea, e os potenciais de despolarização não se neutralizam mutuamente. Como consequência, ocorre desvio do eixo como se segue. Análise Vetorial do Desvio do Eixo para a Esquerda no Bloqueio de Ramo Esquerdo. Quando o ramo esquerdo é bloqueado, a despolarização cardíaca se espalha pelo ventrículo direito com rapidez duas ou três vezes maior que pelo ventrículo esquerdo. Consequentemente, grande porção do ventrículo esquerdo permanece polarizada por até 0,1 segundo após o ventrículo direito ter sido totalmente despolarizado. Assim, o ventrículo direito passa a ser eletronegativo, enquanto o ventrículo esquerdo permanece eletropositivo durante a maior parte do processo de despolarização, e um grande vetor se projeta do ventrículo direito na direção do ventrículo esquerdo. Em outras palavras, ocorre desvio acentuado do eixo para a esquerda, de cerca de -50°, porque a extremidade positiva do vetor aponta na direção do ventrículo esquerdo. Isso é mostrado na Figura 12-14, que apresenta um típico desvio do eixo para a esquerda, resultante de bloqueio do ramo esquerdo. III Figura 12-13 Eletrocardiograma de alta voltagem em estenose de valva pulmonar congênita com hipertrofia ventricular direita. Também podem ser vistos o intenso desvio do eixo para a direita e o complexo QRS discretamente prolongado. 144
  • 167. Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano:AnáliseVetorial Além do desvio do eixo, devido à lentidão da condução do impulso quando o sistema de Purkinje está bloqueado, a duração do complexo QRS é muito prolongada, em decorrência da extrema lentidão da despolarização no lado afetado do coração. Pode-se ver isso ao notar a largura excessiva das ondas QRS na Figura 12-14. Isso é discutido com mais detalhes adiante, neste capítulo. Esse complexo QRS extremamente prolongado diferencia o bloqueio de ramo do desvio causado por hipertrofia. Análise Vetorial do Desvio do Eixo para a Direita no Bloqueio de Ramo Direito. Quando o ramo direito é bloqueado, o ventrículo esquerdo é despolarizado muito mais rápido que o ventrículo direito; então, o lado esquerdo dos ventrículos fica eletronegativo até 0,1 segundo antes do direito. Assim, se desenvolve grande vetor, com sua extremidade negativa na direção do ventrículo esquerdo e sua extremidade positiva na direção do ventrículo direito. Em outras palavras, ocorre intenso desvio do eixo para a direita. Na Figura 12-15, é mostrado um desvio de eixo para a direita causado por bloqueio do ramo direito, e seu vetor é analisado, nessa mesma figura, com eixo de cerca de 105°, no lugar dos 59° normais, e complexo QRS alargado, decorrente da condução lenta. Condições que Causam Voltagens Anormais do Complexo QRS Voltagem Aumentada nas Derivações Bipolares Padronizadas dos Membros Em condições normais, as voltagens nas três derivações bipolares padronizadas dos membros, medidas do pico da onda R ao fundo da onda S, variam entre 0,5 e 2,0 mili- volts, com a derivação III usualmente registrando a voltagem mínima, e a derivação II, a máxima. Entretanto, essas relações não são invariáveis, mesmo para o coração normal. Em geral, quando a soma das voltagens de todos os complexos QRS nas três derivações padrão é maior que 4 milivolts, considera-se que o paciente apresenta eletrocardiograma de alta voltagem. Com muita frequência a causa dos complexos QRS de alta voltagem é o aumento da massa muscular do coração que usualmente resulta de hipertrofia do músculo em resposta à carga excessiva sobre uma parte do coração ou a outra. Por exemplo, o ventrículo direito se hipertrofia quando tem de bombear sangue por valva pulmonar estenosada, e o ventrículo esquerdo se hipertrofia nos casos de hipertensão arterial. A quantidade aumentada de músculo provoca geração de quantidade aumentada de eletricidade em volta do coração. Como resultado, os potenciais elétricos, registrados nas derivações eletro- cardiográficas, são muito maiores que os normais, como mostrado nas Figuras 12-12 e 12-13. Voltagem Diminuída no Eletrocardiograma Voltagem Diminuída Causada por Miopatia Cardíaca. Uma das causas mais comuns de voltagem diminuída do complexo QRS é série de antigos infartos miocárdicos que resultam em massa muscular diminuída. Isso também faz com que a onda de despolarização se espalhe de forma lenta pelos ventrículos e impeça que grandes porções do coração fiquem maciçamente despolarizadas ao mesmo tempo. Consequentemente, essa condição causa alargamento do complexo QRS, além da diminuição de voltagem. A Figura 12-16 mostra típico eletrocardiograma de baixa voltagem com alargamento do complexo QRS, que é comum após múltiplos infartos miocárdicos pequenos terem causado atrasos locais da condução de impulso e voltagens reduzidas, devido à perda de massa muscular dos ventrículos. Voltagem Diminuída Causada por Condições Circundantes do Coração. Uma das causas mais importantes de voltagem diminuída nas derivações eletrocardiográficas é a presença de líquido no pericárdio. Como o líquido extracelular conduz as correntes elétricas com muita Figura 12-14 Desvio do eixo para a esquerda causado por bloqueio do ramo esquerdo. Note também o complexo QRS muito prolongado. Figura 12-15 Desvio do eixo para a direita causado por bloqueio do ramo direito. Note também o complexo QRS muito prolongado. 145 U N I D A
  • 168. Unidade III O Coração II III Figura 12-16 Eletrocardiograma de baixa voltagem secundário à lesão local dos ventrículos, causada por infarto miocárdico prévio. Complexo QRS Prolongado Decorrente de Bloqueio do Sistema de Purkinje Quando as fibras de Purkinje são bloqueadas, o impulso cardíaco deve ser conduzido pelo músculo ventricular, em vez de pela via do sistema de Purkinje. Isso diminui a velocidade da condução do impulso a cerca de um terço do normal. Assim, quando ocorre bloqueio completo de um dos ramos, a duração do complexo QRS usualmente aumenta para 0,14 segundo ou ainda mais. Em geral, o complexo QRS é considerado anormal- mente longo quando dura mais de 0,09 segundo; quando ele dura mais de 0,12 segundo, o prolongamento é quase certamente causado por bloqueio patológico em algum ponto do sistema de condução ventricular, como mos- trado nos eletrocardiogramas de bloqueio de ramo, nas Figuras 12-14 e 12-15. facilidade, grande proporção da eletricidade gerada pelo coração é conduzida de uma parte do coração para a outra pelo líquido pericárdico. Assim, essa efusão efetivamente produz “curto-circuito” dos potenciais elétricos cardíacos, diminuindo as voltagens eletrocardiográficas que atingem as superfícies externas do corpo. O derrame pleural menos frequentemente também pode criar “curto- circuito” da eletricidade em volta do coração, de modo que as voltagens na superfície do corpo e nos eletrocardiogramas fiquem diminuídas. O enfisema pulmonar pode diminuir os potenciais eletrocardiográficos, mas por razão diferente do derrame pericárdico. No enfisema pulmonar, a condução da corrente elétrica pelos pulmões é muito diminuída por causa da quantidade excessiva de ar nos pulmões. Além disso, a cavidade torácica aumenta, e os pulmões tendem a envolver o coração em maior grau que o normal. Como resultado, os pulmões agem como isolante para impedir a dispersão da voltagem elétrica cardíaca para a superfície do corpo, e isso produz potenciais eletrocardiográficos diminuídos nas várias derivações. Padrões Prolongados e Bizarros do Complexo QRS Complexo QRS Prolongado como Resultado de Hipertrofia ou Dilatação Cardíaca O complexo QRS perdura enquanto a despolarização continua a se espalhar pelos ventrículos — isto é, enquanto parte dos ventrículos está despolarizada e o restante ainda está polarizado. Por conseguinte, a condução prolongada do impulso pelos ventrículos sempre causa o prolongamento do complexo QRS. Esse prolongamento em geral ocorre quando um ou ambos os ventrículos estão hipertrofiados ou dilatados em virtude do percurso mais longo que o impulso tem de percorrer. O complexo QRS normal dura de 0,06 a 0,08 segundo, enquanto, na hipertrofia ou dilatação do ventrículo direito ou esquerdo, o complexo QRS pode estar prolongado por até 0,09 a 0,12 segundo. Condições que Causam Complexos QRS Bizarros Padrões bizarros do complexo QRS, na maioria das vezes, são causados por duas condições: (1) destruição do músculo cardíaco em várias áreas do sistema ventricular, com substituição desse músculo por tecido cica- tricial, e (2) múltiplos bloqueios pequenos e locais da condução do impulso em vários pontos do sistema de Purkinje. Como resultado, a condução do impulso cardíaco passa a ser irregular, causando rápidas inversões das voltagens e desvios de eixo. Isso geralmente causa picos duplos ou até mesmo triplos em algumas das derivações eletrocardiográficas, como as mostradas na Figura 12-14. Corrente de Lesão Muitas anormalidades cardíacas distintas, em especial as que lesam o próprio músculo cardíaco, fazem com que, em geral, parte do coração permaneça parcial ou totalmente despolarizada durante todo o tempo. Quando isso ocorre, a corrente flui entre as áreas despolarizadas por patologias e as normalmente polarizadas, mesmo entre os batimentos cardíacos. Essa condição é referida como corrente de lesão. Note principalmente que a parte lesada do coração é negativa, porque essa é a parte que é despolarizada e lança cargas negativas nos líquidos circundantes, enquanto a polaridade do resto do coração é neutra ou positiva. Algumas anormalidades causadoras de corrente de lesão são (1) trauma mecânico, que, às vezes, faz com que as membranas celulares permaneçam tão permeáveis que não permitem que ocorra a repolarização; (2) processos infecciosos que lesam as membranas musculares; e (3) isquemia de áreas do músculo cardíaco, causada por oclusões coronarianas locais, que é de longe a causa mais comum de corrente de lesão no coração. Durante a isquemia, nutrientes suficientes no sangue coronariano não ficam disponíveis para o músculo cardíaco para manter a polarização normal das membranas celulares. 146
  • 169. Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Vetorial Efeito da Corrente de Lesão no Complexo QRS Na Figura 12-17, pequena área na base do ventrículo esquerdo foi recentemente infartada (perda do fluxo sanguíneo coronariano). Assim, durante o intervalo T-P — isto é, quando o músculo ventricular normal está totalmente polarizado —, ainda flui uma corrente negativa anormal da área infartada na base do ventrículo esquerdo e que se espalha para o restante dos ventrículos. O vetor dessa “corrente de lesão”, como mostrado no primeiro coração na Figura 12-17, está na direção de cerca de 125°, com a base do vetor, a extremidade negativa, voltada para o músculo lesado. Como mostrado na parte inferior da figura, mesmo antes do início do complexo QRS, esse vetor produz registro inicial na derivação I abaixo da linha de potencial zero, porque o vetor projetado da corrente de lesão na derivação I aponta na direção da extremidade negativa do eixo da derivação I. Na derivação II, o registro é acima da linha porque o vetor projetado aponta de forma predominante para a extremidade positiva da derivação. Na derivação III, o vetor projetado aponta na mesma direção que a extremidade positiva da derivação III, de modo que o registro é positivo. Além disso, como o vetor fica quase exatamente na direção do eixo da derivação III, a voltagem da corrente de lesão na derivação III é muito maior que nas derivações I ou II. À medida que o coração continua em seu processo normal de despolarização, o septo é despolarizado primeiro; em seguida, a despolarização se espalha para baixo, em direção ao ápice, e para trás, em direção às bases dos ventrículos. A última porção dos ventrículos a ser totalmente despolarizada é a base do ventrículo direito, porque a base do ventrículo esquerdo já está total e permanentemente despolarizada. Por análise vetorial, os estágios sucessivos da geração do eletrocardiograma, pela propagação da onda de despolarização pelos ventrículos, podem ser construídos graficamente, como demonstrados na parte inferior da Figura 12-17. Quando o coração fica totalmente despolarizado, ao final do processo de despolarização (como observado no estágio próximo ao final, na Fig. 12-17), todo o músculo ventricular está no estado negativo. Portanto, nesse instante do eletrocardiograma, nenhuma corrente flui dos ventrículos para os eletródios do eletrocardiógrafo, porque agora tanto o músculo cardíaco lesado como o músculo que se contrai estão despolarizados. Depois, à medida que ocorre a repolarização, todo o coração por fim se repolariza, exceto a área de despolarização permanente, na base lesada do ventrículo esquerdo. Assim, a repolarização produz o reaparecimento da corrente de lesão em todas as derivações, como mostrado na extrema direita da Figura 12-17. O Ponto J — O Potencial de Referência Zero para Analisar Corrente de Lesão Pode-se pensar que os eletrocardiógrafos, para registro dos eletrocardiogramas, poderíam determinar quando não existe corrente fluindo em torno do coração. Entretanto, muitas correntes extras existem no corpo, como correntes decorrentes dos “potenciais da pele” e das diferenças de concentrações iônicas nos diferentes líquidos do corpo. Assim, quando dois eletródios são conectados entre os braços ou entre um braço e uma perna, essas correntes extras fazem com que seja impossível predeterminar o nível exato de referência zero no eletrocardiograma. Área lesada Corrente "/ de lesão < ^ -f -h—=»W-JVQ J ~1 ~1-N~Vr> ±Aif> ' i ► Corrente de lesão Figura 12-17 Efeito da corrente de lesão no eletrocardiograma. 147 U N I D A
  • 170. Unidade III O Coração Por essas razões, o procedimento seguinte deve ser usado para determinar o nível de potencial zero: primeiro, verifica-se o ponto exato em que a onda de despolariza- ção acaba de completar sua passagem pelo coração, o que ocorre ao final do complexo QRS. Exatamente nesse ponto, todas as partes dos ventrículos se tornaram des- polarizadas, incluindo tanto as partes lesadas como as normais; assim, não existe fluxo de corrente em volta do coração. Mesmo a corrente de lesão desaparece nesse ponto. Assim, o potencial do eletrocardiograma nesse instante está no zero. Esse ponto é conhecido como ponto no eletrocardiograma, como mostrado na Figura 12-18. Então, para análise do eixo elétrico do potencial de lesão, causado pela corrente de lesão, é traçada uma linha horizontal no eletrocardiograma para cada derivação no nível do ponto J. Essa linha horizontal é o nível de potencial zero no eletrocardiograma, referência para a medida de todos os potenciais causados por correntes de lesão. Uso do Ponto J para Determinar o Eixo do Potencial de Lesão. A Figura 12-18 mostra eletrocardiogramas (derivações I e III) de coração lesado. Ambos os registros mostram potenciais de lesão. Em outras palavras, o ponto J de cada um desses eletrocardiogramas não está na mesma linha que o segmento T-P. Na figura, foi traçada uma linha horizontal passando pelo ponto J para representar o nível de voltagem zero em cada um desses registros. O potencial de lesão em cada derivação é a diferença entre a voltagem do eletrocardiograma, imediatamente antes do aparecimento da onda P, e o nível de voltagem zero, determinado pelo ponto }. Na derivação I, a voltagem registrada do potencial de lesão está acima do nível de potencial zero e é, portanto, positiva. Ao contrá- + III Figura 12-18 Ponto J como potencial de referência zero dos eletrocardiogramas nas derivações I e III. Também, na parte inferior da figura, é mostrado o método para determinar o eixo do potencial de lesão. rio, na derivação III, o potencial de lesão está abaixo do nível de voltagem zero e, portanto, é negativo. Na parte superior da Figura 12-18, estão representados nas coordenadas dessas derivações os respectivos potenciais de lesão nas derivações I e III, e o vetor resultante do potencial de lesão para toda a massa muscular ventricular é determinado por análise vetorial como descrito. Nesse caso, o vetor resultante se estende do lado direito dos ventrículos, na direção esquerda, e ligeiramente para cima, com eixo de cerca de -30°. Se esse vetor para o potencial de lesão for colocado diretamente sobre os ventrículos, a extremidade negativa do vetor apontará na direção da área permanentemente despolarizada e “lesada” dos ventrículos. No exemplo mostrado na Figura 12-18, a área lesada estaria na parede lateral do ventrículo direito. Obviamente, essa análise é complexa. Entretanto, é essencial que o estudante retorne a ela até entendê-la completamente. Nenhum outro aspecto da análise ele- trocardiográfica é mais importante. Isquemia Coronariana como Causa do Potencial de Lesão A insuficiência do fluxo sanguíneo para o músculo cardíaco diminui o metabolismo das células musculares por três processos: (1) falta de oxigênio, (2) acúmulo excessivo de dióxido de carbono e (3) falta de nutrientes. Consequentemente, a repolarização das membranas musculares não pode ocorrer nas áreas de isquemia coronariana grave. Em geral, o músculo cardíaco não morre porque o fluxo de sangue é suficiente para manter a vida do músculo, ainda que não seja suficiente para permitir a repolarização de suas membranas. Enquanto esse estado persistir, um potencial de lesão continua a fluir durante o tempo diastólico (o segmento T-P) de cada ciclo cardíaco. Ocorre isquemia extrema do músculo cardíaco depois de oclusão coronária, e forte corrente de lesão flui da área infartada dos ventrículos durante o intervalo T-P entre os batimentos cardíacos, como mostrado nas Figuras 12-19 e 12-20. Assim, um dos aspectos diagnósticos mais importantes dos eletrocardiogramas registrados após trombose coronariana aguda é a corrente de lesão. Infarto Agudo da Parede Anterior. A Figura 12-19 mostra o eletrocardiograma nas três derivações bipolares padronizadas dos membros e em uma derivação torácica (derivação V2), registrado em paciente com infarto agudo da parede anterior do miocárdio. O aspecto diagnóstico mais importante desse eletrocardiograma é o grande potencial de lesão na derivação torácica V2. Se for traçada a linha horizontal do potencial zero pelo ponto J nesse eletrocardiograma, será encontrado um forte potencial de lesão negativo durante o intervalo T-P, significando que o eletródio torácico na parte anterior do coração está em área de potencial fortemente negativo. Em outras palavras, a extremidade negativa do vetor do potencial de lesão nesse coração está contra a parede torácica anterior. Isso significa que a corrente de lesão está emanando da parede anterior dos ventrículos, o que diagnostica essa condição como infarto da parede anterior. 148
  • 171. Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano:AnáliseVetorial Figura 12-20 Potencial de lesão em infarto agudo da parte api- cal da parede posterior. V2 Figura 12-19 Corrente de lesão em infarto agudo da parede anterior. Note o intenso potencial de lesão na derivação V2. Analisando-se os potenciais de lesão, nas derivações I e III, encontra-se um potencial negativo na derivação I e um potencial positivo na derivação III. Isso significa que o vetor resultante do potencial de lesão no coração está em cerca de +150°, com a extremidade negativa apontando para o ventrículo esquerdo e a extremidade positiva apontando para o ventrículo direito. Portanto, nesse eletrocardiograma em particular, a corrente de lesão está vindo principalmente do ventrículo esquerdo e da parede anterior do coração. Assim, conclui-se que esse infarto da parede anterior quase certamente foi causado por trombose do ramo descendente anterior da artéria coronária esquerda. Infarto da Parede Posterior. A Figura 12-20 mostra as três derivações bipolares padrão dos membros e uma derivação torácica (derivação V ) de paciente com infarto da parede posterior. O principal aspecto diagnóstico desse eletrocardiograma está também na derivação torácica. Se for traçada uma linha de referência de potencial zero pelo ponto J nessa derivação, fica de pronto aparente que, durante o intervalo T-P, o potencial da corrente de lesão é positivo. Isso significa que a extremidade positiva do vetor está na direção da parede torácica anterior, e a extremidade negativa (extremidade lesada do vetor) aponta para fora da parede torácica. Em outras palavras, a corrente de lesão está vindo da parte de trás do coração, oposta à parede torácica anterior, que é a razão para que esse tipo de eletrocardiograma seja a base para diagnosticar infarto da parede posterior. Se forem analisados os potenciais de lesão nas derivações II e III da Figura 12-20, estará aparente que o potencial de lesão é negativo em ambas as derivações. Por análise vetorial, como mostrado na figura, vê-se que o vetor resultante do potencial de lesão é de cerca de -95°, com a extremidade negativa apontando para baixo e a extremidade positiva apontando para cima. Assim, devido ao fato de o infarto, como indicado na derivação torácica, se encontrar na parede posterior do coração e, como indicado pelos potenciais de lesão nas derivações II e III, estar na porção apical do coração, infere-se que esse infarto está perto do ápice, na parede posterior do ventrículo esquerdo. Infarto em Outras Partes do Coração. Pelos mesmos procedimentos demonstrados nas discussões anteriores dos infartos das paredes anterior e posterior, é possível determinar o local de qualquer área infartada causadora de corrente de lesão, independentemente de qual parte do coração está envolvida. Fazendo tais análises veto- riais, deve ser lembrado que a extremidade positiva do vetor do potencial de lesão aponta na direção do músculo cardíaco normal, e a extremidade negativa aponta na direção da porção lesada do coração que está gerando a corrente de lesão. Recuperação da Trombose Coronariana Aguda. A Figura 12-21 mostra a derivação torácica V3 de paciente com infarto agudo de parede posterior, demonstrando as variações no eletrocardiograma a partir do dia do ataque, 1 semana depois, 3 semanas depois e, finalmente, 1 ano depois. Por esse eletrocardiograma, pode-se ver que o potencial de lesão é forte, imediatamente após o ataque agudo (segmento T-P deslocado positivamente em relação ao segmento S-T). Entretanto, após cerca de 1 semana, o potencial de lesão diminuiu consideravelmente e, depois de 3 semanas, não existe mais. Depois disso, o eletrocardiograma não se altera muito durante o ano seguinte. Esse é o padrão usual de recuperação de infarto agudo do miocárdio de grau moderado, mostrando que o novo fluxo sanguíneo coronariano colateral se desen- 149 U N I D A D
  • 172. Unidade III O Coração Figura 12-21 Recuperação do miocárdio após infarto moderado da parede posterior, mostrando o desaparecimento do potencial de lesão que está presente no primeiro dia depois do infarto e ainda presente, de forma discreta, após 1 semana. volve o suficiente para restabelecer nutrição apropriada para a maior parte da área infartada. Inversamente, em alguns pacientes com infarto do miocárdio, a área infartada nunca volta a desenvolver um aporte sanguíneo coronariano adequado. Geralmente, parte do músculo cardíaco morre, mas se o músculo não morrer ele continuará a mostrar um potencial de lesão enquanto a isquemia persistir, particularmente durante o exercício, quando o coração está sobrecarregado. Infarto Miocárdico Antigo Recuperado. A Figura 12-22 mostra as derivações I e III depois de infarto anterior e as derivações I e III depois de infarto posterior, cerca de 1 ano depois do ataque agudo. Os registros mostram o que poderiam ser chamadas de configurações “ideais” do complexo QRS nesses tipos de infarto miocárdico recuperado. Em geral, desenvolve-se a onda Q no início do complexo QRS na derivação I no infarto anterior por causa da perda de massa muscular na parede anterior do ventrículo esquerdo, ao passo que, no infarto posterior, a onda Q se desenvolve na derivação III pela perda de músculo na parte apical posterior do ventrículo. Essas configurações não são certamente encontradas em todos os casos de infarto cardíaco antigo. Perda local de músculo e pontos locais de bloqueio na condução do sinal cardíaco podem causar padrões de QRS muito bizarros (p. ex., ondas Q especialmente proeminentes), voltagem reduzida e alargamento do QRS. Corrente de Lesão na Angina Pectoris. “Angina pec- toris” significa dor vinda do coração, sentida nas regiões Anteriores III Posteriores 111 Figura 12-22 Eletrocardiogramas de infarto das paredes anteriores e posteriores que ocorreram há cerca de 1 ano, mostrando a onda Q na derivação I no infarto de parede anterior e a onda Q na derivação III no infarto da parede posterior. peitorais do tórax superior. Essa dor usualmente se irradia para o lado esquerdo do pescoço e para baixo, no braço esquerdo. Tipicamente, a dor é causada por isquemia moderada do coração. Em geral, a dor não é sentida enquanto a pessoa está em repouso, mas logo que ela sobrecarrega o coração a dor aparece. Às vezes, aparece potencial de lesão no eletrocar- diograma durante uma crise grave de angina pectoris, porque a insuficiência coronariana passa a ser suficientemente intensa para impedir a repolarização adequada de algumas áreas do coração durante a diástole. Anormalidades da OndaT Antes, neste capítulo, foi apontado que a onda T é normalmente positiva em todas as derivações bipolares padrão dos membros e que isso é causado pela repolarização do ápice e das superfícies externas dos ventrículos, antes das superfícies intraventriculares. Isto é, a onda T fica anormal quando não ocorre a sequência normal da repolarização. Vários fatores podem alterar essa sequência de repolarização. Efeito da Condução Lenta da Onda de Despolarização nas Características da Onda T Voltando para a Figura 12-14, nota-se que o complexo QRS é considerado alargado (prolongado). A razão para esse alargamento é o retardo da condução no ventrículo esquerdo, resultante do bloqueio do ramo esquerdo. Isso faz com que o ventrículo esquerdo fique despolarizado cerca de 0,08 segundo após a despolarização do ventrículo direito, o que dá grande vetor QRS médio para a esquerda. Entretanto, os períodos refratários das massas musculares ventriculares esquerda e direita não são muito diferentes uns dos outros. Portanto, o ventrículo direito começa a se repolarizar muito antes do ventrículo esquerdo; isso causa forte positividade no ventrículo direito e negatividade no ventrículo esquerdo, no momento em que a onda T está se desenvolvendo. Em outras palavras, o eixo médio da onda T está agora desviado para a direita, o que é contrário ao eixo elétrico médio do complexo QRS no mesmo eletrocardiograma. Assim, quando a condução do impulso de despolarização pelos ventrículos é muito retardada, a onda T tem quase sempre polaridade oposta à do complexo QRS. Despolarização Encurtada em Porções do Músculo Ventricular como Causa de Anormalidades da OndaT Se a base dos ventrículos tiver período de despolarização anormalmente curto, isto é, um potencial de ação encurtado, a repolarização dos ventrículos não começará no ápice como ocorre normalmente. Em vez disso, a base dos ventrículos se repolarizaria antes do ápice, e o vetor de repolarização apontaria do ápice em direção à base do coração, oposto ao vetor padrão de repolariza- 150
  • 173. Capítulo 12 Interpretação Eletrocardiográfica das Anormalidades do Músculo Cardíaco e do Fluxo Sanguíneo Coronariano: Análise Vetorial Figura 12-23 Onda T invertida, resultante de isquemia leve no ápice dos ventrículos. ção. Consequentemente, a onda T em todas as três derivações padrão seria negativa, em vez de positiva. Assim, o simples fato de que a base dos ventrículos tem período encurtado de despolarização é suficiente para causar mudanças pronunciadas na onda T, até mesmo a ponto de alterar toda a polaridade da onda T, como mostrado na Figura 12-23. Isquemia leve é de longe a causa mais comum de encurtamento da despolarização do músculo cardíaco, por aumentar o fluxo de corrente pelos canais de potássio. Quando a isquemia ocorre em apenas uma área do coração, o período de despolarização dessa área diminui sem proporção às outras áreas. Como resultado, podem ocorrer alterações definidas da onda T. A isquemia pode resultar de oclusão coronariana progressiva crônica; oclusão coronariana aguda; ou insuficiência coronariana relativa, como a que ocorre durante o exercício. Modo de detectar insuficiência coronariana leve é fazer o paciente se exercitar e registrar o eletrocardio- grama, reparando quando ocorrem alterações das ondas T. Essas alterações das ondas T não precisam ser específicas, porque qualquer alteração na onda T, em qualquer derivação — inversão, por exemplo, ou onda bifásica —, é em geral evidência suficiente de que alguma parte do músculo ventricular está com período de despolarização desproporcional ao resto do coração, causado por insuficiência coronariana de leve a moderada. Efeito de Digitálicos na Onda T. Como discutido no Capítulo 22, os digitálicos são fármacos que podem ser usados na insuficiência coronariana para aumentar a força da contração muscular cardíaca. Mas, quando são ministradas superdosagens de digitálicos, a duração da despolarização em parte dos ventrículos pode ficar aumentada, desproporcionalmente às outras partes. Como resultado, mudanças inespecíficas, como inversão da onda T ou ondas T bifásicas, podem ocorrer em uma ou mais derivações eletrocardiográficas. A onda T bifásica, causada por administração excessiva de digitálicos, é mostrada na Figura 12-24. Assim, alterações da onda T durante administração de digitálicos são, em geral, os sinais mais precoces de intoxicação digitálica. Referências Veja as referências do Capítulo 13. 151 U N I D A
  • 175. C A P Í T U L O 1 3 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica Alguns dos tipos mais preo- cupantes de mau funciona- mento cardíaco ocorrem não em decorrência de mús- culo cardíaco anormal, mas como resultado de ritmo cardíaco anormal. Por exem- plo, algumas vezes o batimento dos átrios não é coorde- nado com o batimento dos ventrículos; assim, os átrios já não funcionam como bombas de escorva para os ven- trículos. A finalidade deste capítulo é a de discutir a fisiolo- gia das arritmias cardíacas comuns e seus efeitos sobre o bombeamento cardíaco, bem como seu diagnóstico por eletrocardiografia. As causas das arritmias cardíacas geralmente são combinações das seguintes anormalidades da ritmicidade-sistema de condução do coração: 1. Ritmicidade anormal do marca-passo. 2. Mudança do marca-passo do nodo sinusal para outro ponto do coração. 3. Bloqueios, em diferentes pontos, da propagação do impulso no coração. 4. Vias anormais de transmissão dos impulsos no coração. 5. Geração espontânea de impulsos falsos em quase qualquer parte do coração. Ritmos Sinusais Anormais Taquicardia O termo “taquicardia” significa frequência cardíaca rápida, geralmente definida no adulto como acima de 100 batimentos/min. O eletrocardiograma, registrado em paciente com taquicardia, é mostrado na Figura 13-1. Esse eletrocardiograma é normal, exceto que a frequência cardíaca determinada pelos intervalos de tempo entre os complexos QRS é de cerca de 150 por minuto, em lugar dos normais 72 por minuto. Algumas causas da taquicardia incluem aumento da temperatura corporal, estimulação do coração pelos nervos simpáticos ou patologias tóxicas do coração. A frequência cardíaca aumenta cerca de 10 batimentos/min para cada grau Farenheit (18 batimentos por grau Celsius) de aumento da temperatura corporal, até a temperatura em torno de (105° F) 40,5°C; acima desse valor, a frequência cardíaca pode diminuir em virtude da debilidade progressiva do músculo cardíaco em decorrência da febre. A febre causa taquicardia porque o aumento da temperatura aumenta a intensidade do metabolismo do nodo sinusal, que por sua vez aumenta, de forma direta, sua excitabilidade e a frequência de seu ritmo. Muitos fatores podem fazer que o sistema nervoso simpático excite o coração, como discutido em muitos pontos deste texto. Por exemplo, quando o paciente perde sangue e entra no estado de choque ou de semi- choque, a estimulação reflexa simpática do coração costuma aumentar a frequência cardíaca para 150 a 180 batimentos/min. O simples enfraquecimento do miocárdio geralmente aumenta a frequência cardíaca porque o coração enfraquecido não bombeia sangue para a árvore arterial com intensidade normal, e isso desencadeia reflexos simpáticos para aumentar a frequência cardíaca. Bradicardia O termo “bradicardia” significa frequência cardíaca lenta, em geral definida como menos de 60 batimentos/min. A bradicardia é demonstrada pelo eletrocardiograma da Figura 13-2. Figura 13-1 Taquicardia sinusal (derivação I). Figura 13-2 Bradicardia sinusal (derivação III). 153 U N I D A
  • 176. Unidade III O Coração Bradicardia em Atletas. O coração do atleta é maior e consideravelmente mais forte que o de pessoa normal, o que permite que o coração do atleta bombeie grande débito sistólico por batimento, até mesmo durante os períodos de repouso. Quando o atleta está em repouso, quantidades excessivas de sangue bombeadas para a árvore arterial a cada batimento, desencadeiam reflexos circulatórios de feedback ou outros efeitos para provocar a bradicardia. Estimulação Vagai como Causa de Bradicardia. Qualquer reflexo circulatório que estimule o nervo vago causa liberação de acetilcolina pelas terminações vagais no coração, produzindo assim efeito parassimpático. Talvez, o exemplo mais notável disso ocorra em pacientes com síndrome do seio carotídeo. Nesses pacientes, os receptores de pressão (barorreceptores), na região do seio carotídeo das paredes da artéria carótida, são excessivamente sensíveis. Portanto, até pressão externa leve no pescoço desencadeia forte reflexo barorreceptor com intensos efeitos vagais da acetilcolina sobre o coração, incluindo bradicardia extrema. Na verdade, algumas vezes esse reflexo é tão potente que na realidade para o coração por 5 a 10 segundos. Arritmia Sinusal A Figura 13-3 mostra registro de cardiotacômetro da frequência cardíaca, a princípio durante respiração normal e depois (na segunda metade do registro) durante respiração profunda. O cardiotacômetro é um instrumento que registra, pela altura dos potenciais em ponta (spi- kes) sucessivos, a duração do intervalo entre os complexos QRS sucessivos no eletrocardiograma. Observe, nesse registro, que a frequência cardíaca aumentou e diminuiu por não mais que 5% durante a respiração calma (metade esquerda do registro). Depois, durante a respiração profunda, a frequência cardíaca aumentou e diminuiu a cada ciclo respiratório por até 30%. A arritmia sinusal pode decorrer de qualquer das muitas condições circulatórias que alteram as forças dos sinais dos nervos simpáticos e parassimpáticos para o nodo sinusal do coração. No tipo “respiratório” de arritmia sinusal, como mostrado na Figura 13-3, isso resulta principalmente do “transbordamento” (spilloverj de sinais, do centro respiratório bulbar para o centro vaso- motor adjacente, durante os ciclos inspiratório e expi- ratório da respiração. Os sinais de transbordamento causam alternância entre aumento e diminuição do número de impulsos transmitidos pelos nervos simpáticos e vago para o coração. 60 70 80 100 12 0 Figura 13-3 Arritmia sinusal, registrada por cardiotacômetro. À esquerda está o registro quando o indivíduo estava respirando normalmente; à direita, quando respirava profundamente. Ritmos Anormais que Decorrem de Bloqueio dos Sinais Cardíacos nas Vias de Condução Intracardíacas Bloqueio Sinoatrial Em raros casos, o impulso do nodo sinusal é bloqueado antes de entrar no músculo atrial. Esse fenômeno é apresentado na Figura 13-4, que mostra a interrupção abrupta das ondas P com a resultante parada dos átrios. No entanto, os ventrículos assumem novo ritmo pela geração espontânea do impulso, geralmente no nodo atrioventricular (A-V); assim, a frequência do complexo QRS-T ventricu- lar fica mais lenta, mas sem se alterar de outras maneiras. Bloqueio Atrioventricular O único meio pelo qual os impulsos normalmente podem passar dos átrios para os ventrículos é pelo feixe A-V, também conhecido como feixe de His. As condições que podem diminuir a frequência da condução dos impulsos por esse feixe ou bloquear de forma total essa condução são as seguintes: 1. A isquemia do nodo A-V ou das fibras do feixe A-V muitas vezes retarda ou bloqueia a condução dos átrios para os ventrículos. A insuficiência coronariana pode causar isquemia do nodo A-V e do feixe A-V, do mesmo modo que pode causar isquemia do miocárdio. 2. A compressão do feixe A-V, por tecido cicatricial ou por partes calcificadas do coração, pode deprimir ou bloquear a condução dos átrios para os ventrículos. 3. A inflamação do nodo A-V ou do feixe A-V pode deprimir a condutividade dos átrios para os ventrículos. A inflamação resulta frequentemente de diferentes tipos de miocardite, causados por exemplo por difteria ou febre reumática. 4. Estimulação extrema do coração pelos nervos vagos, em raros casos bloqueia a condução de impulsos pelo nodo A-V. Essa excitação vagai ocasionalmente resulta da forte estimulação dos barorreceptores em pessoas com síndrome do seio carotídeo, já discutida em relação à bradicardia. Bloqueio Atrioventricular Incompleto Intervalo P-R (ou P-Q) Prolongado — Bloqueio de Primeiro Grau. O intervalo usual de tempo entre o início da onda P e o início do complexo QRS é de cerca de 0,16 segundo, quando o coração está batendo na frequên- Bloqueio SA !!:! !!!! !!!! Figura 13-4 Bloqueio nodal sinoatrial com ritmo nodal A-V durante o período de bloqueio (derivação III). 154
  • 177. Capítulo 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica cia normal. Esse chamado intervalo P-R geralmente fica mais curto com batimentos cardíacos mais rápidos e mais longos com batimentos cardíacos mais lentos. Em geral, quando o intervalo P-R aumenta por mais de 0,20 segundo, diz-se que o intervalo P-R é prolongado e que o paciente tem bloqueio atrioventricular incompleto de primeiro grau. A Figura 13-5 mostra eletrocardiograma com intervalo P-R prolongado; o intervalo nesse caso é de cerca de 0,30 segundo, em vez de 0,20 ou menos, que é o normal. Desse modo, o bloqueio de primeiro grau é definido como o retardo de condução dos átrios para os ventrículos, mas não como bloqueio real da condução. O intervalo P-R quase nunca aumenta acima de 0,35 a 0,45 segundo porque, com essa duração, a condução pelo feixe A-V ficaria deprimida de tal modo que cessaria inteiramente. Uma maneira de determinar a gravidade de algumas doenças cardíacas — por exemplo, a cardiopatia reumática aguda — é a medida do intervalo P-R. Bloqueio de Segundo Grau. Quando a condução do feixe A-V fica suficientemente lenta para aumentar o intervalo P-R para 0,25 a 0,45 segundo, o potencial de ação algumas vezes é forte o suficiente para atravessar o feixe até os ventrículos e outras vezes não o é. Nesse caso, ocorrerá a onda P atrial, mas não a onda QRS-T, e se diz que há “batimentos bloqueados” (perdidos) dos ventrículos. Essa patologia é chamada bloqueio cardíaco de segundo grau. A Figura 13-6 mostra intervalos P-R de 0,30 segundo, além de batimento ventricular bloqueado em decorrência de falha de condução dos átrios para os ventrículos. Por vezes, batimentos alternados dos ventrículos são bloqueados; assim, se desenvolve “ritmo 2:1” com os átrios batendo duas vezes mais que cada batimento dos ventrículos. Em outras vezes, desenvolvem-se ritmos de 3:2 ou 3:1. Bloqueio A-V Completo (Bloqueio de Terceiro Grau). Quando a patologia causadora da condução anor- Figura 13-5 Intervalo P-R prolongado, causado por bloqueio A-V de primeiro grau (derivação II). Batimento bloqueado Figura 13-6 Bloqueio A-V de segundo grau mostrando falha ocasional dos ventrículos de receber os sinais excitatórios (derivação V3). mal no nodo A-V ou no feixe A-V é grave, ocorre bloqueio completo do impulso dos átrios para os ventrículos. Nesse caso, os ventrículos estabelecem espontaneamente seu próprio sinal, em geral originado no nodo A-V ou no feixe A-V. Portanto, as ondas P se dissociam dos complexos QRS-T, como mostrado na Figura 13-7. Observe que a frequência do ritmo dos átrios nesse eletrocardiograma é de cerca de 100 batimentos por minuto, enquanto & frequência dos batimentos ventriculares é inferior a 40 por minuto. Além disso, não existe relação entre o ritmo das ondas P e o dos complexos QRS-T, porque os ventrículos “escaparam” do controle pelos átrios e estão batendo em sua própria frequência natural, controlados mais frequentemente por sinais rítmicos gerados no nodo A-V ou no feixe A-V. Síndrome de Stokes-Adams — Escape Ventricular. Em alguns pacientes com bloqueio A-V, o bloqueio total vem e vai, isto é, impulsos são conduzidos dos átrios para os ventrículos por certo tempo e depois, subitamente, os impulsos não mais são conduzidos. A duração do bloqueio pode ser de alguns segundos, alguns minutos, algumas horas ou até semanas ou mais antes que a condução reapareça. Essa patologia ocorre em corações com isque- mia limítrofe (borderline) do sistema de condução. A cada vez que é interrompida a condução A-V, os ventrículos frequentemente não iniciam seus próprios batimentos até depois de um retardo de 5 a 30 segundos. Isso resulta do fenômeno chamado supressão por sobremar- cha (overdrive). Isso significa que a excitabilidade ventricular está a princípio em estado de supressão porque os ventrículos estavam sendo ativados pelos átrios com frequência maior que a frequência natural de seu ritmo. No entanto, depois de alguns segundos, alguma parte do sistema de Purkinje, além do bloqueio em geral na parte distai do nodo A-V adiante do ponto bloqueado no nodo ou no feixe A-V, começa a gerar descargas rítmicas, na frequência de 15 a 40 vezes por minuto, atuando como marca-passo dos ventrículos. Isso é chamado de escape ventricular. Como o cérebro não pode permanecer ativo por mais de 4 a 7 segundos sem irrigação sanguínea, a maioria dos pacientes desmaia alguns segundos depois de ocorrido o bloqueio completo porque o coração não bombeia sangue por 5 a 30 segundos até que os ventrículos “escapem”. Depois do escape, contudo, os ventrículos com batimentos lentos geralmente bombeiam sangue suficiente para permitir a recuperação rápida do desmaio e depois sustentar a pessoa. Esses desmaios periódicos são conhecidos como síndrome de Stokes-Adams. Figura 13-7 Bloqueio A-V completo (derivação II). 155 U N I D A
  • 178. Unidade III O Coração Ocasionalmente, a duração do intervalo de parada ven- tricular no início do bloqueio completo é longa o bastante para ser prejudicial à saúde do paciente ou até causar a morte. Consequentemente, a maioria desses pacientes recebe um marca-passo artificial, pequeno estimulador elétrico operado por bateria, implantado sob a pele e com eletródios usualmente conectados ao ventrículo direito. Esse marca-passo produz impulsos rítmicos contínuos que assumem o controle dos ventrículos. Bloqueio Intraventricular Incompleto — Alternância Elétrica A maioria dos mesmos fatores que podem causar bloqueio A-V também pode bloquear a condução de impulsos no sistema de Purkinje ventricular periférico. A Figura 13-8 mostra a patologia conhecida como alternância elétrica, que resulta de bloqueio intraventricular parcial de batimentos cardíacos alternados. Esse eletro- cardiograma mostra também taquicardia (frequência cardíaca rápida), que provavelmente foi a razão para ter ocorrido o bloqueio, porque quando a frequência cardíaca é rápida pode não ser possível para algumas partes do sistema de Purkinje se recuperar do período refratário anterior com rapidez suficiente para responder a todos os batimentos cardíacos sucessivos. De igual modo, muitas patologias que deprimem o coração, como isquemia, miocardite ou intoxicação por digitálicos, podem causar bloqueio intraventricular incompleto, resultando em alternância elétrica. Contrações Prematuras A contração prematura do coração é a que ocorre antes do tempo em que se esperaria uma contração normal. Essa patologia é chamada de extrassistolia, batimento prematuro ou batimento ectópico. Causas das Contrações Prematuras. A maioria das contrações prematuras (extrassístoles) decorre de focos ectópicos no coração que produzem impulsos anormais em tempos diferentes durante o ritmo cardíaco. As causas possíveis dos focos ectópicos são: (1) áreas locais de isquemia; (2) pequenas placas calcificadas em diferentes pontos no coração que comprimem o músculo cardíaco adjacente, de modo que algumas das fibras são irritadas; (3) irritação tóxica do nodo A-V, do sistema de Purkinje ou do miocárdio, o que é causado por fármacos, nicotina Figura 13-8 Bloqueio intraventricular parcial — "alternância elétrica" (derivação III). ou cafeína. A iniciação mecânica das contrações prematuras também é frequente durante cateterização cardíaca; costuma ocorrer grande número de contrações prematuras quando o cateter entra no ventrículo direito e pressiona o endocárdio. Contrações Prematuras Atriais A Figura 13-9 mostra extrassístole atrial única. A onda P desse batimento ocorreu cedo demais no ciclo cardíaco; o intervalo P-R encurta, indicando que a origem ectópica do batimento está nos átrios perto do nodo A-V. De igual modo, o intervalo entre a contração prematura e a contração seguinte está prolongado, o que é chamado pausa compensatória. Uma das razões para isso é que a contração prematura se originou no átrio, a alguma distância do nodo sinusal, e o impulso teve de percorrer parte considerável do músculo atrial antes de atingir o nodo sinusal. Consequentemente, o nodo sinusal descarregou tardiamente no ciclo prematuro, e isso fez com que a descarga seguinte do nodo sinusal também aparecesse mais tarde. Com frequência, ocorrem contrações prematuras atriais em pessoas saudáveis. Na verdade, costumam ocorrer em atletas, cujo coração está em condição muito saudável. Patologias tóxicas leves decorrentes de fatores como tabagismo, falta de sono, ingestão excessiva de café, alcoolismo e uso de vários medicamentos também podem desencadear essas contrações prematuras. Déficit do Pulso. Quando o coração se contrai antes do tempo previsto, os ventrículos não terão se enchido normalmente de sangue, e o débito sistólico nessa contração é diminuído, deprimido ou quase ausente. Portanto, a onda de pulso que passa para as artérias periféricas depois de contração prematura pode ser tão fraca que não seja sentida na artéria radial. Desse modo, ocorre déficit no número de pulsações radiais em comparação com o número real de contrações do coração. Contrações Prematuras do Nodo A-V ou no Feixe A-V A Figura 13-10 mostra uma contração prematura que se originou no nodo A-V ou no feixe A-V. A onda P está faltando no registro eletrocardiográfico da contração prematura. Em vez disso, a onda P aparece sobreposta ao complexo QRS-T porque o impulso cardíaco seguiu percurso retrógrado para os átrios, ao mesmo tempo em que se dirigiu para os ventrículos; essa onda P altera pouco o complexo QRS-T, mas a própria onda P não pode ser dis- Batimento prematuro Figura 13-9 Batimento prematuro atrial (derivação I). 156
  • 179. Capítulo 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica tinguida como tal. Em geral, as contrações prematuras do nodo A-V têm o mesmo significado e causas que as contrações prematuras atriais. Contrações Prematuras Ventriculares O eletrocardiograma da Figura 13-11 mostra uma série de contrações prematuras ventriculares (PCVs), alternan- do-se com contrações normais. As PCVs produzem efeitos específicos no eletrocardiograma: 1. O complexo QRS, em geral, fica muito prolongado. A razão é que o impulso é conduzido principalmente pelo músculo ventricular, com condução muito lenta, e não pelo sistema de Purkinje. 2. O complexo QRS tem voltagem elevada pelas seguintes razões: quando o impulso normal cursa pelo coração, passa por ambos os ventrículos de modo quase simultâneo; consequentemente, no coração normal, as ondas de despolarização dos dois lados do coração — em grande parte, com polaridade oposta entre eles — neutralizam parcialmente umas às outras no eletrocardiograma. Quando ocorre a PCV, o impulso quase Figura 13-10 Contração prematura nodal A-V (derivação III). Figura 13-11 Contrações prematuras ventriculares (PCVs) representadas pelos grandes complexos QRS-T anormais (derivações II e III). O eixo das contrações prematuras é marcado de acordo com os princípios da análise vetorial explicados no Capítulo 12; ele mostra a origem da PCV perto da base dos ventrículos. sempre vai apenas em uma direção, assim não ocorre esse efeito de neutralização, e todo um lado do ven- trículo ou sua extremidade fica despolarizado à frente do outro; isso gera grandes potenciais elétricos, como mostrado nas PCVs na Figura 13-11. 3. Após quase todas as PCVs, a onda T tem a polaridade de potencial elétrico exatamente oposta à do complexo QRS porque a condução lenta do impulso pelo músculo cardíaco faz com que as fibras musculares que se despolarizam primeiro também repolarizem primeiro. Algumas PCVs são relativamente benignas em seus efeitos sobre o bombeamento global pelo coração; elas podem decorrer de fatores tais como cigarros, ingestão excessiva de café, falta de sono, vários estados tóxicos leves e até irritabilidade emocional. Inversamente, muitas outras PCVs decorrem de impulsos desgarrados ou sinais reentrantes originados em torno das bordas de áreas infartadas ou isquêmicas no coração. A presença dessas PCVs deve ser considerada com seriedade. As estatísticas mostram que as pessoas com número significativo de PCVs têm probabilidade muito mais alta que a normal de desenvolver fibrilação ventricular letal, presumivelmente desencadeada por uma das PCVs. Isso é verdade principalmente quando as PCVs ocorrem durante o período vulnerável para causar fibrilação, exatamente ao final da onda T, quando os ventrículos estão saindo da refratarie- dade, como ainda será explicado neste capítulo. Análise Vetorial da Origem de Contração Prematura Ventricular Ectópica. No Capítulo 12 foram explicados os princípios da análise vetorial. Aplicando esses princípios, pode-se determinar pelo eletrocardiograma na Figura 13-11 o ponto de origem da PCV. Observe que os potenciais das contrações prematuras, nas derivações II e III, são ambos fortemente positivos. Colocando esses potenciais nos gráficos das derivações II e III e resolvendo por análise vetorial para o vetor QRS médio no coração, encontra-se que o vetor dessa contração prematura tem sua extremidade negativa (origem) na base do coração e sua extremidade positiva apontando para o ápice. Desse modo, a primeira parte do coração a se despolari- zar durante a contração prematura fica perto da base dos ventrículos, que, portanto, é o local do foco ectópico. Distúrbios da Repolarização Cardíaca - A Síndro- me do Longo QT. Lembre-se de que a onda Q corresponde à despolarização ventricular, enquanto a onda T corresponde à repolarização ventricular. O intervalo Q-T é o intervalo de tempo entre a ponta de Q e o término da onda T. Distúrbios que retardem a repolarização do músculo ventricular após o potencial de ação causam potenciais de ação prolongados e, por conseguinte, longos intervalos QT no eletrocardiograma, condição que é chamada síndrome do longo QT (SLQT). A razão principal de preocupação com a SLQT é que a repolarização retardada do músculo ventricular aumenta 157
  • 180. Unidade III O Coração a suscetibilidade da pessoa para desenvolver as arritmias ventriculares conhecidas como torsades de pointes, o que literalmente significa “torcer as pontas”. Esse tipo de arrit- mia tem as características mostradas na Figura 13-12. A forma do complexo QRS pode variar com o passar do tempo, com o início da arritmia seguindo contração prematura, pausa e outra contração prematura com longo intervalo QT, que pode desencadear arritmias, taquicar- dia e, em certos casos, fibrilação ventricular. Distúrbios da repolarização cardíaca que levam à SLQT podem ser hereditários ou adquiridos. As formas congênitas da SLQT são distúrbios decorrentes de mutações nos genes dos canais de sódio ou de potássio. Pelo menos 10 mutações distintas desses genes, todas causadoras de grau variável do prolongamento Q-T, já foram identificadas. Mais comuns são as formas adquiridas da SLQT, associadas a distúrbios eletrolíticos do plasma, como a hipomagnesemia, a hipocalemia e a hipocalcemia, ou à administração de doses exageradas de fármacos antiarrít- micos, como a quinidina, e de alguns antibióticos, como as fluroquinolonas ou a eritromicina, que prolongam o intervalo Q-T. Embora algumas pessoas com SLQT não apresentem outros sintomas importantes (além do prolongamento do intervalo Q-T), outros apresentam desmaios e arritmias ventriculares que podem ser desencadeadas pelo exercício físico, por emoções fortes, como medo ou ira, ou quando alarmadas por barulho. As arritmias ventriculares, associadas à SLQT, podem em alguns casos evoluir para a fibrilação ventricular e morte súbita. Despolarização prematura O tratamento da SLQT pode incluir o sulfato de magnésia, para a SLQT aguda, e para a SLQT de longa duração podem ser usados medicamentos antiarrítmicos, como os bloqueadores beta-adrenérgicos ou a implantação cirúrgica de desfibrilador cardíaco. Taquicardia Paroxística Ocasionalmente, algumas anormalidades em diferentes partes do coração, incluindo os átrios, o sistema de Purkinje ou os ventrículos, podem causar descarga rítmica rápida de impulsos que se propagam em todas as direções pelo coração. Acredita-se que isso seja causado mais frequentemente por vias de feedback com movimento circular reentrante que controlam a autorreex- citação repetida local. Devido ao ritmo rápido do foco irritável, esse foco passa a ser o marca-passo cardíaco. O termo “paroxístico” significa que a frequência cardíaca fica muito rápida nos paroxismos, começando de forma súbita e durando segundos, minutos, horas ou muito mais. Por fim, o paroxismo geralmente termina tão subitamente como começou, com o marca-passo cardíaco voltando de modo instantâneo para o nodo sinusal. A taquicardia paroxística pode ser interrompida quando se desencadeia um reflexo vagai. Um tipo de reflexo vagai que, por vezes, é produzido com essa finalidade é o de pressionar o pescoço nas regiões dos seios carotí- deos, o que pode causar reflexo vagai forte o suficiente para fazer cessar o paroxismo. Também podem ser usados vários medicamentos. Dois fármacos usados com Despolarizações prematuras repetidas Torsades de pointes Pausa Pós-pausa Pós-pausa Figura 13-12 Desenvolvimento de arritmia, na síndrome do longo QT (SLQT). Quando o potencial de ação do músculo ventricular é prolongado pela repolarização retardada, uma despolarização prematura (linha tracejada na figura superior esquerda) pode ocorrer antes de completada a repolarização. Despolarizações prematuras repetidas (figura superior direita) podem levar a múltiplas despolarizações em certas circunstâncias. Nas torsades de pointes (figura inferior), batimentos ventriculares prematuros levam a pausas, a prolongamento pós- pausa do intervalo Q-T e arritmias. (Modificado de Murray KT, Roden, DM: Disorders of cardiac repolarization: the long QT syndromes; in Crawford MG, DiMarco JP [eds]: Cardiology. London: Mosby, 2001.) 158
  • 181. Capítulo 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica frequência são a quinidina e a lidocaína, que deprimem o aumento normal da permeabilidade ao sódio da membrana do músculo cardíaco durante a geração do potencial de ação, bloqueando assim a descarga rítmica do ponto focal que está causando a crise paroxística. Taquicardia Paroxística Atrial A Figura 13-13 mostra no meio do registro súbito aumento da frequência cardíaca, de cerca de 95 para cerca de 150 batimentos por minuto. Por estudo detalhado do eletrocardiograma, durante os batimentos cardíacos rápidos, vê-se a onda P antes de cada complexo QRS-T, e essa onda P está parcialmente sobreposta à onda T normal do batimento precedente. Isso indica que a origem dessa taquicardia paroxística é no átrio, mas, como a onda P tem forma anormal, a origem não fica perto do nodo sinusal. Taquicardia Paroxística Nodal A-V. A taquicardia paroxística geralmente resulta de ritmo aberrante de que participa o nodo A-V. Isso nas condições usuais causa complexos QRS-T quase normais, mas ondas P totalmente ausentes ou obscuras. As taquicardias paroxísticas atriais ou nodais A-V, as chamadas taquicardias supraventriculares, geralmente ocorrem em pessoas jovens e saudáveis e decorrem da predisposição para taquicardia depois da adolescência. Em geral, a taquicardia supraventricular assusta de forma muito intensa a pessoa, podendo causar fraqueza durante o paroxismo, mas só raramente advém algum mal permanente pela crise. Taquicardia Paroxística Ventricular A Figura 13-14 mostra típico paroxismo breve de taquicardia ventricular. O eletrocardiograma da taquicardia paroxística ventricular tem o aspecto de série de contrações prematuras ventriculares que ocorrem, uma após a outra, sem qualquer batimento normal intercalado. A taquicardia paroxística ventricular usualmente é patologia grave por duas razões. Primeira, esse tipo de taquicardia geralmente não ocorre, a menos que esteja presente lesão isquêmica considerável nos ventrículos. Figura 13-13 Taquicardia paroxística atrial — início no meio do registro (derivação I). Figura 13-14 Taquicardia paroxística ventricular (derivação III). Segunda, a taquicardia ventricular com frequência inicia a patologia letal defibrilação ventricular, em virtude da estimulação repetida rápida do músculo ventricular, como discutido no tópico seguinte. Algumas vezes, a intoxicação pela terapia cardíaca com digitálicos produz focos irritáveis que levam à taquicardia ventricular. Inversamente, a quinidina, que aumenta o período refratário e o limiar para excitação do músculo cardíaco, pode ser usada para bloquear focos irritáveis que cause taquicardia ventricular. Fibrilação Ventricular A mais grave de todas as arritmias cardíacas é a fibrilação ventricular que, se não interrompida dentro de 1 a 3 minutos, é quase invariavelmente fatal. A fibrilação ventricular decorre de impulsos cardíacos frenéticos na massa do músculo ventricular, estimulando primeiro uma parte do músculo ventricular e depois outra, e outra e finalmente voltando para reexcitar o mesmo músculo ventricular vezes e vezes repetidas — jamais parando. Quando isso acontece, muitas partes pequenas do músculo ventricular se contraem ao mesmo tempo, enquanto, de igual modo, muitas outras partes se relaxam. Dessa forma, nunca ocorre contração coordenada de todo o músculo ventricular a um só tempo, o que é necessário para o ciclo de bombeamento do coração. Apesar do movimento maciço de sinais estimulatórios por toda parte dos ventrículos, as câmaras ventriculares não aumentam de volume nem se contraem, mas permanecem no estágio indeterminado de contração parcial, e o bombeamento fica ausente ou a ser feito em quantidades desprezíveis. Portanto, depois que a fibrilação começa ocorre inconsciência, em 4 a 5 segundos, por falta de fluxo sanguíneo para o cérebro, e a morte irrecuperável de tecidos começa a ocorrer em todo o corpo dentro de alguns minutos. Múltiplos fatores podem desencadear a fibrilação ventricular — pode ocorrer de a pessoa ter batimento cardíaco normal no momento, mas, um segundo mais tarde, os ventrículos estarem em fibrilação. Os que têm probabilidade especial para desencadear a fibrilação são: (1) choque elétrico súbito do coração ou (2) isquemia do músculo cardíaco, de seu sistema de condução especializado ou de ambos. Fenômenos de Reentrada — "Movimentos Circulares”, a Base para a Fibrilação Ventricular Quando o impulso cardíaco normal no coração normal percorre a extensão dos ventrículos, ele não tem para onde ir porque todo o músculo ventricular está refratário e não mais pode conduzir o impulso. Portanto, esse impulso cessa, e o coração aguarda novo potencial de ação surgir no nodo sinusal atrial. Em algumas circunstâncias, contudo, essa sequência normal de eventos não ocorre. Portanto, expliquemos, de modo mais completo, as condições de fundo que podem 159
  • 182. Unidade III O Coração iniciar a reentrada e levar aos “movimentos em círculo” que por sua vez causam a fibrilação ventricular. A Figura 13-15 mostra várias pequenas tiras de músculo cardíaco que foram cortadas na forma de círculos. Se uma dessas tiras for estimulada na posição de 12 horas, para que o impulso só passe em uma direção, o impulso irá se propagar progressivamente em torno do círculo até retornar à posição de 12 horas. Se as fibras musculares que foram estimuladas antes ainda estiverem no estado refratário, o impulso então cessará nesse ponto, porque o músculo refratário não poderá transmitir o segundo impulso. Mas existem três condições que podem fazer com que esse impulso continue a percorrer o círculo, isto é, a causar a “reentrada” do impulso no músculo que já foi excitado. Isso é chamado de “movimento em círculo”. Na primeira, se a via em torno do círculo for longa demais, no momento em que o impulso retorna à posição de 12 horas, o músculo inicialmente estimulado já não estará refratário, e o impulso continuará em torno do círculo, repetitivamente. Na segunda, se o comprimento da via permanecer constante, mas a velocidade de condução diminuir o suficiente, ocorrerá aumento do tempo para que o impulso retorne à posição de 12 horas. Então, o músculo inicialmente estimulado pode estar fora do estado refratário, e o impulso pode continuar em torno do círculo repetidas vezes. Na terceira, o período refratário do músculo pode ficar muito mais curto. Nesse caso, o impulso também poderá continuar sempre em torno do círculo. Todas essas patologias ocorrem em diferentes estados patológicos do coração humano: (1) Tipicamente, existe via mais longa nos corações dilatados. (2) A diminuição da velocidade de condução muitas vezes decorre de: (a) bloqueio do sistema de Purkinje, (b) isquemia do músculo, (c) níveis altos de potássio, ou (d) muitos outros fatores. (3) Comumente, existe período refratário mais curto, em resposta a vários medicamentos, como a epinefrina, ou depois de estimulação elétrica repetitiva. Desse modo, em muitos distúrbios cardíacos a reentrada pode causar padrões anormais de contração cardíaca ou ritmos car VIA NORMAL Figura 13-15 Movimento em círculo mostrando a aniquilação do impulso na via curta e a continuação da propagação do impulso na via longa. díacos anormais que ignoram os efeitos do marca-passo do nodo sinusal. Mecanismo de Reação em Cadeia na Fibrilação Na fibrilação ventricular, veem-se muitas pequenas ondas contráteis distintas propagando-se ao mesmo tempo em diferentes direções pelo músculo cardíaco. Os impulsos reentrantes na fibrilação não são simplesmente impulso único que se propaga em círculo, como mostrado na Figura 13-15. Ao contrário, degeneram para série de múltiplas frentes de onda, com o aspecto de “reação em cadeia”. Um dos melhores modos de explicar esse processo na fibrilação é descrever o início da fibrilação por choque elétrico, causada por corrente elétrica alternada de 60 ciclos. Fibrilação Causada por Corrente Alternada de 60 Ciclos. No ponto central dos ventrículos do coração A, na Figura 13-16, é aplicado estímulo elétrico de 60 ciclos por meio de eletródio estimulador. O primeiro ciclo do estímulo elétrico causa onda de despolarização que se propaga em todas as direções, deixando todo o músculo abaixo dos eletródios no estado refratário. Depois de cerca de 0,25 segundo, parte desse músculo começa a sair do estado refratário. Algumas partes saem da refra- tariedade antes das outras partes. Esse estado dos eventos é representado no coração A por muitas áreas mais claras que representam músculo cardíaco excitável e por áreas escuras que representam músculo ainda refratário. Agora, continuando os estímulos de 60 ciclos pelos eletródios, é possível fazer com que os impulsos só prossigam em determinadas direções pelo coração, mas não por todas elas. Desse modo, no coração A, certos impulsos caminham por distâncias curtas até que cheguem a áreas refratárias do coração, onde são bloqueados. Mas outros impulsos passam por entre as áreas refratárias e continuam em sua progressão pelas áreas excitáveis. Depois ocorrem vários eventos em rápida sucessão, todos simultâneos, resultando no estado de fibrilação. Ponto de estimulação Figura 13-16 A, Início de fibrilação no coração quando estão presentes focos de musculatura refratária. B, Continuação da propagação do impulso fibrilatório no ventrículo em fibrilação. 160
  • 183. Capítulo 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica Primeiro, o bloqueio dos impulsos em algumas direções, mas a transmissão bem-sucedida em outras direções cria uma das condições necessárias para o desenvolvimento do sinal reentrante — isto é, a transmissão de algumas das ondas de despolarização no coração apenas em algumas direções, mas não em outras. Segundo, a estimulação rápida do coração causa duas alterações no próprio músculo cardíaco, ambas predis- ponentes do movimento de círculo: (1) A velocidade de condução pelo músculo cardíaco diminui, o que permite período de tempo mais longo para os impulsos percorrerem o coração. (2) O período refratário do músculo é encurtado, permitindo a reentrada do impulso no músculo cardíaco previamente excitado, dentro de tempo menor do que o normal. Terceiro, uma das características mais importantes da fibrilação é a divisão de impulsos, como mostrado no coração A. Quando uma onda de despolarização chega à área refratária no coração, ela se divide para os dois lados da área refratária. Desse modo, um só impulso passa a ser duplo. Depois, quando cada um deles chega a outra área refratária também se divide para formar mais dois impulsos. Desse modo, muitas novas frentes de ondas estão continuamente sendo formadas no coração por reações em cadeia progressivas, até que por fim existam muitas ondas pequenas de despolarização, progredindo em muitas direções ao mesmo tempo. Além disso, esse padrão irregular da progressão dos impulsos abre muitas vias cheias de curvas para que os impulsos progridam, alongando muito a via de condução, que é uma das condições que mantêm a fibrilação. Também resulta em padrão irregular contínuo de áreas refratárias irregulares no coração. Pode-se com facilidade ver quando um círculo vicioso foi iniciado: cada vez mais impulsos são formados; estes causam mais e mais áreas de músculo refratário, e essas áreas refratárias produzem cada vez mais divisão dos impulsos. Portanto, a qualquer momento em que uma área do músculo cardíaco sai da refratariedade, um impulso está muito perto para reentrar nessa área. O coração B, na Figura 13-16, mostra o estado final que se desenvolve na fibrilação. Aí podem-se ver muitos impulsos se dirigindo em todas as direções, alguns se dividindo e aumentando o número de impulsos, enquanto outros são bloqueados por áreas refratárias. De fato, um choque elétrico isolado durante esse período vulnerável pode com frequência provocar um padrão irregular de impulsos que se propagam em múltiplas direções, passando em torno das áreas refratárias do músculo, levando à fibrilação. Eletrocardiograma na Fibrilação Ventricular Na fibrilação ventricular, o eletrocardiograma é bizarro (Fig. 13-17) e comumente não mostra tendência para ritmo regular de qualquer tipo. Durante os primeiros segundos da fibrilação ventricular, massas de músculo relativamente grandes se contraem simultaneamente, o que causa ondas grosseiras irregulares no eletrocardiograma. Depois de mais alguns segundos, as contrações grosseiras dos ven- trículos desaparecem, e o eletrocardiograma muda para Figura 13-17 Fibrilação ventricular (derivação II). novo padrão de ondas muito irregulares e com baixa voltagem. Desse modo, nenhum padrão eletrocardiográfico repetitivo pode ser atribuído à fibrilação ventricular. Em seu lugar, o músculo ventricular se contrai, com até 30 a 50 pequenas áreas musculares por vez, e os potenciais ele- trocardiográficos mudam constante e espasmodicamente porque as correntes elétricas no coração fluem primeiro em uma direção e, em seguida, em outra, quase nunca repetindo qualquer ciclo específico. A voltagem das ondas no eletrocardiograma da fibrilação ventricular em geral é de cerca de 0,5 milivolt, quando a fibrilação ventricular se inicia, mas diminui rapidamente, de modo que depois de 20 a 30 segundos usualmente é de apenas 0,2 a 0,3 milivolt. Voltagens diminutas de 0,1 milivolt ou menos podem ser registradas, por 10 minutos ou mais, depois que começa a fibrilação ventricular. Como já destacado, visto não ocorrer bombeamento de sangue durante a fibrilação ventricular o estado é letal, a menos que interrompido por alguma terapia heróica como ele- trochoque imediato do coração, conforme explicado no tópico a seguir. Desfibrilação dos Ventrículos por Eletrochoque Embora a voltagem moderada de corrente alternada aplicada diretamente nos ventrículos os leve quase invariavelmente à fibrilação, a corrente elétrica alternada de alta voltagem que passa pelos ventrículos, por fração de segundo, pode fazer cessar a fibrilação por lançar todo o músculo ventricular na refratariedade ao mesmo tempo. Isso se consegue fazendo-se com que corrente intensa passe através do tórax por meio de grandes eletródios colocados em dois lados do coração. A corrente penetra na maioria das fibras dos ventrículos ao mesmo tempo, estimulando desse modo essencialmente todas as partes dos ventrículos no mesmo instante e fazendo com que todas fiquem refratárias. Cessam todos os potenciais de ação, e o coração fica parado por 3 a 5 segundos voltando a se contrair em seguida, geralmente com o nodo sinu- sal ou alguma outra parte do coração passando a ser o marca-passo. No entanto, o mesmo foco reentrante que originalmente jogara os ventrículos na fibrilação ainda costuma estar presente, caso em que a fibrilação pode recomeçar imediatamente. Quando são aplicados eletródios diretamente nos dois lados do coração, a fibrilação geralmente pode ser interrompida usando 110 volts de corrente alternada de 60 ciclos, aplicada por 0,1 segundo, ou 1.000 volts de corrente direta, aplicada por alguns milésimos de segundo. Quando aplicado por dois eletródios na parede torácica, como mostrado na Figura 13-18, o procedimento habi- 161
  • 184. Unidade III O Coração Vários milhares de volts Figura 13-18 Aplicação de corrente elétrica ao tórax para interromper a fibrilação ventricular. tual é carregar um grande capacitor elétrico, com vários milhares de volts, e em seguida fazer com que o capacitor descarregue por alguns milésimos de segundo pelos ele- tródios e pelo coração. Bombeamento Manual do Coração (Ressuscitação Cardiorrespiratória) como Auxiliar da Desfibrilação A menos que seja desfibrilado em 1 minuto, após o início da fibrilação o coração em geral estará fraco demais para ser revivido por desfibrilação, em virtude da falta de nutrição pelo fluxo sanguíneo coronariano. No entanto, ainda é possível reviver o coração por bombeamento manual (compressões manuais intermitentes) preliminar, para desfibrilá-lo mais tarde. Por esse método, pequenas quantidades de sangue são lançadas na aorta, com reins- talação da irrigação coronariana. Depois de alguns minutos de bombeamento manual, muitas vezes pode-se fazer a desfibrilação elétrica. Na verdade, corações em fibrilação têm sido bombeados manualmente por até 90 minutos, seguidos por desfibrilação elétrica bem-sucedida. A técnica para bombear o coração sem abrir o peito consiste em golpes intermitentes de pressão sobre a parede torácica, junto com respiração artificial. Isso e mais a desfibrilação é designado como ressuscitação cardiorrespiratória ou RCR. A falta de fluxo sanguíneo para o cérebro por mais de 5 a 8 minutos provoca geralmente comprometimento mental permanente ou até destruição de tecido cerebral. Mesmo que o coração seja revivido, a pessoa pode morrer dos efeitos da lesão cerebral ou pode viver com permanente comprometimento mental. Fibrilação Atrial Lembre-se de que, exceto para a via de condução pelo feixe A-V, a massa muscular atrial é separada da massa muscular ventricular por tecido fibroso. Portanto, a fibrilação ventricular costuma ocorrer sem fibrilação atrial. Da mesma forma, costuma ocorrer fibrilação nos átrios sem fibrilação ventricular (o que é mostrado à direita, na Fig. 13-20). O mecanismo da fibrilação atrial é idêntico ao da fibrilação ventricular, exceto que o processo ocorre somente na massa muscular atrial, em lugar de na massa ventricular. Causa frequente de fibrilação atrial é o aumento do volume atrial, decorrente de lesões valvares cardíacas que impedem os átrios de se esvaziarem adequadamente nos ventrículos ou de insuficiência ventricular com acúmulo excessivo de sangue no átrio. As paredes atriais dilatadas criam condições ideais de via de condução longa, bem como de condução lenta, ambas predisponentes da fibrilação atrial. Características do Bombeamento pelos Átrios durante a Fibrilação Atrial. Pelas mesmas razões por que os ventrículos não bombearão sangue durante a fibrilação ventricular, também os átrios não bombeiam sangue na fibrilação atrial. Portanto, os átrios passam a ser inúteis como bombas de escorva para os ventrículos. Ainda assim, o sangue flui passivamente dos átrios e vai para os ventrículos, e a eficiência do bombeamento ventricular diminui apenas por 20% a 30%. Por conseguinte, em comparação com a letalidade da fibrilação ventricular, a pessoa pode viver meses ou até anos com fibrilação atrial, embora com redução da eficiência do bombeamento global do coração. Eletrocardiograma na Fibrilação Atrial. A Figura 13- 19 mostra o eletrocardiograma durante a fibrilação atrial. Numerosas ondas pequenas de despolarização se propagam em todas as direções pelos átrios durante a fibrilação atrial. Como as ondas são fracas, e muitas delas têm polaridade oposta em qualquer momento dado, quase se neutralizam eletricamente de maneira completa nos casos usuais. Assim, no eletrocardiograma pode-se não ver as ondas P dos átrios, ou apenas ver um registro ondulado fino de voltagem muito baixa com alta frequência. Inversamente, os complexos QRS-T são normais, a menos que exista alguma patologia dos ventrículos, mas seu ritmo é irregular, como será explicado a seguir. Irregularidade do Ritmo Ventricular durante a Fibrilação Atrial. Quando os átrios estão em fibrilação, os impulsos chegam vindos do músculo atrial ao nodo A-V com alta frequência, mas também de forma irre- Figura 13-19 Fibrilação atrial (derivação I). As ondas que podem ser vistas são complexos QRS e ondas T ventriculares. 162
  • 185. Capítulo 13 Arritmias Cardíacas e sua Interpretação Eletrocardiográfica guiar. Como o nodo A-V não transmitirá um segundo impulso por cerca de 0,35 segundo depois do anterior, deverá decorrer, pelo menos, 0,35 segundo entre a contração ventricular e a seguinte. Então ocorre intervalo adicional mas variável de 0 a 0,6 segundo antes que um dos impulsos fibrilatórios atriais irregulares atinja o nodo A-V. Desse modo, o intervalo entre sucessivas contrações ventriculares varia entre o mínimo de cerca de 0,35 segundo e o máximo de cerca de 0,95 segundo, resultando em batimento cardíaco muito irregular. De fato, essa irregularidade, demonstrada pelo espaçamento variável dos batimentos cardíacos no eletrocardiograma da Figura 13-19, é um dos achados clínicos usados para diagnosticar essa patologia. De igual modo, em virtude da alta frequência dos impulsos fibrilatórios dos átrios, o ven- trículo é estimulado à frequência cardíaca acelerada em geral entre 125 e 150 batimentos por minuto. Tratamento da Fibrilação Atrial por Eletrocho- que. Da mesma maneira que a fibrilação ventricular pode ser convertida para o ritmo normal pelo eletro- choque, também a fibriação atrial pode ser convertida pelo mesmo processo. O procedimento é essencialmente o mesmo que para a conversão da fibrilação ventricular — passagem de forte choque elétrico único pelo coração, que lança todo o coração na refratariedade por alguns segundos; o ritmo normal com frequência reaparece se o coração for capaz disso. Flutter Atrial O flutter atrial é mais uma patologia causada pelo movimento em círculo nos átrios. É diferente da fibrilação atrial, pois o sinal elétrico se propaga como onda grande e única, sempre pelo mesmo percurso, repetitivamente pela massa muscular atrial como mostrado à esquerda na Figura 13-20. O flutter atrial produz aceleração da frequência de contração dos átrios, em geral entre 200 e 350 batimentos por minuto. No entanto, como um lado dos átrios está se contraindo enquanto o outro lado está relaxando, a quantidade de sangue bombeada pelos átrios é pequena. Além disso, os sinais chegam ao nodo A-V de Figura 13-20 Vias de propagação dos impulsos no flutter atrial e na fibrilação atrial. Figura 13-21 Flutter atrial — ritmo atrioventricular 2:1 e 3:1 (derivação I). modo rápido demais para que todos passem para os ven- trículos, porque os períodos refratários do nodo A-V e do feixe A-V são longos demais para só permitir a transmissão de apenas pequena fração dos sinais atriais. Assim, usualmente ocorrem dois a três batimentos atriais para cada batimento ventricular. A Figura 13-21 mostra um eletrocardiograma típico de flutter atrial. As ondas P são fortes em virtude da contração de massas musculares semicoordenadas. No entanto, observa-se no registro que o complexo QRS-T só segue uma onda P atrial apenas uma vez a cada dois a três batimentos dos átrios, originando um ritmo 2:1 ou 3:1. Parada Cardíaca Uma anormalidade grave final do sistema de ritmicidade- condução cardíaco é a parada cardíaca. Ela resulta da cessação de todos os sinais elétricos de controle no coração. Significa que não existe qualquer ritmo espontâneo. A parada cardíaca pode ocorrer principalmente durante anestesia profunda, quando muitos pacientes desenvolvem intensa hipoxia devida à respiração inadequada. A hipoxia impede que as fibras musculares e as fibras de condução cardíacas possam manter os diferenciais normais de concentração de eletrólitos através de suas membranas, e sua excitabilidade pode ser tão afetada que a ritmicidade automática desaparece. Na maioria dos casos de parada cardíaca por anestesia, a ressuscitação cardiorrespiratória prolongada (muitos minutos ou até horas) tem muito sucesso em restabelecer o ritmo cardíaco normal. Em alguns pacientes, doença grave do miocárdio pode causar parada cardíaca permanente ou semipermanente, o que pode causar a morte. Para tratar essa condição, têm sido usados com sucesso impulsos elétricos rítmicos de um marca-passo cardíaco eletrônico implantado para manter os pacientes vivos por meses a anos. Referências Antzelevitch C: Role of spatial dispersion of repolarization in inherited and acquired sudden cardiac death syndromes, Am J Physiol Heart Circ Physiol 293:1-12024, 2007. Awad MM, Calkins H, Judge DP: Mechanisms of disease: molecular genet- ics of arrhythmogenic right ventricular dysplasia/cardiomyopathy, Nat Clin Pract Cardiovasc Med 5:258, 2008. Barbuti A, DiFrancesco D: Control of cardiac rate by "funny" channels in health and disease, Ann N YAcadSei 1123:213, 2008. Cheng H, Lederer WJ: Calcium sparks, Physiol Rev 88:1491, 2008. Dobrzynski H, Boyett MR, Anderson RH: New insights into pacemaker activity: promoting understanding of sick sinus syndrome, Circulation 115:1921,200 7. 163 U N I D A
  • 186. Unidade III O Coração Elizari MV, Acunzo RS, Ferreiro M: Hemiblocks revisited, Circulation 115:1154, 2007. Jalife J: Ventricular fibrillation: mechanisms of initiation and maintenance. Annu Rev Physiol 62:25, 2000. Lubitz SA, Fischer A, Fuster V: Catheter ablation for atrial fibrillation, BMJ 336:819, 2008. Maron BJ: Sudden death in young athletes. N Engl J Med 349:1064, 2003. Morita H, Wu J, Zipes DP: The QT syndromes: long and short, Lancet 372:750, 2008. Murray KT, Roden DM: Disorders of cardiac repolarization: the long QT syndromes. In Crawford MG, DiMarco JP, editors: Cardiology, London, 2001, Mosby. Myerburg RJ: Implantable cardioverter-defibrillators after myocardial infarction, N EnglJ Med 359:2245, 2008. Passman R, Kadish A: Sudden death prevention with implantable devices, Circulation 116:561,2007. Roden DM: Drug-induced prolongation of the QT interval. N Engl J Med 350:1013, 2004. Sanguinetti MC:Tristani-Firouzi M: hERG potassium channels and cardiac arrhythmia, Nature 440:463, 2006. Swynghedauw B, Baillard C, Milliez P: The long QT interval is not only inherited but is also linked to cardiac hypertrophy. J Mol Med 81:336, 2003. Wang K,Asinger RW, Marriott HJ: ST-segment elevation in conditions other than acute myocardial infarction. N EnglJ Med 349:2128, 2003. Zimetbaum PJ, Josephson ME: Use of the electrocardiogram in acute myocardial infarction. N EnglJ Med 348:933, 2003. 164
  • 187. A Circulação 14. Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência 15. Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso 16. A Microcirculação e o Sistema Linfático: Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa 17. Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos 18. Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial 19. O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão: O Sistema Integrado de Regulação da Pressão Arterial 20. Débito Cardíaco, Retorno Venoso e suas Regulações 21. Fluxo Sanguíneo pelos Músculos e o Débito Cardíaco durante o Exercício; a Circulação Coronária e a Cardiopatia Isquêmica 22. Insuficiência Cardíaca 23. Valvas e Bulhas Cardíacas; Defeitos Cardíacos Valvulares e Congênitos 24. Choque Circulatório e seu Tratamento U N I D A D E
  • 189. C A P Í T U L O 1 4 Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência A função da circulação é a de suprir as necessidades dos tecidos corporais — trans- portar até eles os nutrien- tes, eliminar os produtos do metabolismo, levar hormô- nios de parte do corpo para a outra e, de modo geral, manter o ambiente apropriado em todos os líquidos teciduais do organismo para que as células sobrevivam e funcionem de maneira ótima. A intensidade do fluxo sanguíneo que passa por muitos tecidos é controlada sobretudo em resposta às suas necessidades de nutrientes. Em alguns órgãos, como os rins, a circulação serve para outras funções. Por exemplo, o fluxo sanguíneo para os rins está muito além de suas necessidades metabólicas e está relacionado à sua função excretora, o que demanda que grande volume de sangue seja filtrado a cada minuto. O coração e os vasos sanguíneos, por sua vez, são controlados para produzir o débito cardíaco e a pressão arterial necessários para gerar o fluxo sanguíneo teci- dual requerido. Quais são os mecanismos de controle do volume e do fluxo sanguíneo, e como se relacionam com todas as outras funções da circulação? Estes são alguns dos tópicos e questões que discutiremos nesta seção sobre a circulação. Características Físicas da Circulação A circulação, ilustrada na Figura 14-1, divide-se em circulação sistêmica e circulação pulmonar. Como a circulação sistêmica promove o fluxo sanguíneo para todos os tecidos corporais, exceto para os pulmões, é também chamada grande circulação ou circulação periférica. Partes Funcionais da Circulação. Antes de discutir os detalhes da função circulatória, é importante entender o papel de cada parte da circulação. A função das artérias é a de transportar sangue sob alta pressão para os tecidos. Por esse motivo, têm fortes paredes vasculares, e nelas o sangue flui em alta velocidade. As arteríolas são os pequenos ramos finais do sistema arterial; elas agem como condutos de controle pelos quais o sangue é liberado para os capilares. Elas têm forte parede muscular, capaz de ocluir completamente os vasos ou com seu relaxamento dilatá-los, multiplicando seu diâmetro, sendo capaz dessa forma de alterar muito o fluxo sanguíneo em cada tecido em resposta à sua necessidade. A função dos capilares é a troca de líquidos, nutrientes, eletrólitos, hormônios e outras substâncias entre o sangue e o líquido intersticial. Para exercer essa função, as paredes capilares são muito finas e têm numerosos minúsculos poros capilares permeáveis à água e outras pequenas substâncias moleculares. As vênulas coletam o sangue dos capilares e de forma gradual coalescem, formando veias progressivamente maiores. As veias funcionam como condutos para o transporte de sangue das vênulas de volta ao coração; além disso, atuam como importante reservatório de sangue extra. Como a pressão no sistema venoso é muito baixa, as paredes das veias são finas. Mesmo assim, são suficientemente musculares para se contrair e expandir, agindo como reservatório controlável para o sangue extra de pequeno ou grande volume, de acordo com as necessidades da circulação. Volumes de Sangue nas Diferentes Partes da Circulação. A Figura 14-1 apresenta uma visão geral da circulação e enumera a porcentagem do volume sanguíneo total contida nos principais segmentos da circulação. Por exemplo, cerca de 84% do volume sanguíneo corporal total estão contidos na circulação sistêmica, e 16%, no coração e nos pulmões. Dos 84% na circulação sistêmica, 64% estão nas veias, 13% nas artérias e 7% nas arteríolas e capilares sistêmicos. O coração contém 7% do sangue, e os vasos pulmonares, 9%. O mais surpreendente é o baixo volume sanguíneo nos capilares. É neles, entretanto, que ocorre a função mais importante da circulação: a difusão de substâncias do sangue para os tecidos e vice-versa. Essa função é discutida em detalhes no Capítulo 16. 167 U N I D A
  • 190. Unidade IV A Circulação Circulação pulmonar - 9 % Q - Veia cava superior ■ • Aorta Veia cava inferior- Circulação sistêmica - 84% Veias, vênulas / e seios / venosos — 64% c ___________ V Vasos sistêmicos Coração - 7% ■Artérias -13% -Arteríolas e ■capilares -7% Figura 14-1 Distribuição do sangue (como porcentagem do sangue total) nas diferentes partes do sistema circulatório. Áreas de Secção Transversal e Velocidades do Fluxo Sanguíneo. Se todos os vasos sistêmicos de cada tipo fossem colocados lado a lado, suas áreas totais aproximadas de secção transversa média no ser humano seriam as seguintes: Vaso Área de Secção Trar Aorta 2,5 Pequenas artérias 20 Arteríolas 40 Capilares 2.500 Vênulas 250 Pequenas veias 80 Veias cavas 8 Desse modo, em condições de repouso, a velocidade média na aorta é de 33 cm/s, mas nos capilares é de apenas 1/1.000 desse valor, ou cerca de 0,3 mm/s. Entretanto, como os capilares têm comprimento típico de apenas 0,3 a 1 milímetro, o sangue permanece neles por apenas 1 a 3 segundos. Esse curto tempo é surpreendente porque toda a difusão de nutrientes alimentares e eletrólitos que ocorre através das paredes capilares deve ocorrer nesse intervalo reduzido de tempo. Pressões nas Diversas Partes da Circulação. Como o coração bombeia continuamente sangue para a aorta, a pressão média nesse vaso é alta, cerca de 100 mmHg. Além disso, como o bombeamento cardíaco é pulsátil, a pressão arterial alterna entre a pressão sistólica de 120 mmHg e a pressão diastólica de 80 mmHg, como mostrado no lado esquerdo da Figura 14-2. À medida que o sangue flui pela circulação sistêmica, sua pressão média cai progressivamente para cerca de 0 mmHg ao atingir o final das veias cavas, que deságuam no átrio direito do coração. A pressão nos capilares sistêmicos varia entre valores elevados, como 35 mmHg, próximos à extremidade arte- riolar, e valores baixos, chegando a 10 mmHg, próximos à extremidade venosa, mas a pressão “funcional” média na maioria dos leitos vasculares é de cerca de 17 mmHg, valor suficientemente baixo para que pouco plasma flua através dos minúsculos poros das paredes capilares, embora os nutrientes possam se difundir com muita facilidade através desses mesmos poros para as células teci- duais circundantes. Note, na porção mais à direita da Figura 14-2, as pressões respectivas nas diferentes partes da circulação pulmonar. Nas arteríolas pulmonares, a pressão é pulsátil como na aorta, mas a pressão é muito menor: a pressão arterial pulmonar sistólica média é de cerca de 25 mmHg, e a pressão diastólica, de 8 mmHg, com pressão arterial pulmonar média de 16 mmHg. A pressão capilar pulmonar média é de apenas 7 mmHg. Ainda assim, o fluxo sanguíneo total que passa pelos pulmões a cada minuto é o mesmo que o da circulação sistêmica. As baixas pressões do sistema pulmonar estão de acordo com as necessidades dos pulmões, que consistem basicamente em expor o sangue dos capilares pulmonares ao oxigênio e aos outros gases alveolares. Note em particular as áreas de secção transversa muito maiores das veias em relação às artérias, em média cerca de quatro vezes maiores que suas correspondentes. Isso explica a grande capacidade de armazenamento de sangue no sistema venoso, em comparação ao sistema arterial. Como o mesmo fluxo de volume de sangue (F) deve passar por todo segmento da circulação a cada minuto, a velocidade do fluxo sanguíneo (v) é inversamente proporcional à área de secção transversa vascular (A): v = F/A Princípios Básicos da Função Circulatória Embora os detalhes da circulação sejam complexos, existem três princípios básicos subjacentes a todas as suas funções. 1. A intensidade (ou velocidade) do fluxo sanguíneo para cada tecido corporal é quase sempre controlada precisamente em relação às necessidades te- ciduais. Quando os tecidos estão ativos, precisam de grande incremento do suprimento de nutrientes e, portanto, de fluxo sanguíneo muito maior — ocasio- 168
  • 191. Capítulo 14 Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência Figura 14-2 Pressões sanguíneas normais nas diferentes partes do sistema circulatório, quando a pessoa está na posição horizontal. nalmente até 20 a 30 vezes o de repouso. Ainda assim, o coração nas condições normais não pode aumentar seu débito por mais que quatro a sete vezes maior que os dos valores de repouso. Assim, não é possível simplesmente aumentar o fluxo sanguíneo em todas as partes do corpo quando um tecido particular demanda fluxo aumentado. Em vez disso, os microvasos em cada tecido monitoram, de modo contínuo, as necessidades teciduais, tais como a disponibilidade de oxigênio e de outros nutrientes e o acúmulo de dióxido de carbono e outros produtos do metabolismo; estes, por sua vez, agem diretamente sobre os vasos sanguíneos locais, dilatando-os ou contraindo-os para controlar o fluxo sanguíneo local de forma precisa e até o nível necessário para a atividade do tecido. Além disso, o controle neural da circulação, pelo sistema nervoso central e os hormônios, age como mais um mecanismo para a regulação do fluxo sanguíneo tecidual. 2. O débito cardíaco é controlado principalmente pela soma de todos os fluxos teciduais locais. Depois de fluir por um tecido, o sangue retorna de imediato pelas veias para o coração. Este responde de forma automática ao aumento da chegada de sangue, bombeando-o imediatamente de volta para as artérias. Assim, o coração age como autômato, respondendo às demandas dos tecidos. Entretanto, com frequência precisa de auxílio na forma de sinais nervosos especiais, que o fazem bombear a quantidade necessária de fluxo sanguíneo. 3. A regulação da pressão arterial é geralmente independente do fluxo sanguíneo local ou do débito cardíaco. O sistema circulatório tem sistema extensivo de controle da pressão sanguínea arterial. Por exemplo, se em qualquer momento a pressão cair significativamente abaixo do nível normal de cerca de 100 mmHg, conjunto de reflexos nervosos desencadeia em poucos segundos diversas alterações circulatórias para normalizar a pressão. Os sinais nervosos agem especialmente (a) aumentando a força do bom- beamento cardíaco, (b) causando constrição dos grandes reservatórios venosos, para levar mais sangue para o coração, e (c) causando constrição generalizada da maioria das arteríolas em todo o corpo, de modo que maior quantidade de sangue se acumula nas grandes artérias, aumentando a pressão arterial. Então, ao longo de períodos mais prolongados de horas ou dias os rins desempenham papel adicional fundamental no controle pressórico, tanto pela secreção de hormônios controladores da pressão como pela regulação do volume sanguíneo. Assim, em resumo, as necessidades dos tecidos individuais são supridas de forma específica pela circulação. No restante deste capítulo, começaremos a discutir os detalhes básicos do gerenciamento do fluxo sanguíneo tecidual e do controle do débito cardíaco e da pressão arterial. Inter-relações da Pressão, Fluxo e Resistência O fluxo sanguíneo por um vaso é determinado por dois fatores: (1) a diferença de pressão sanguínea entre as duas extremidades do vaso, também por vezes referida como “gradiente de pressão” ao longo do vaso, que é a força que impulsiona o sangue pelo vaso, e (2) o impedimento ao fluxo sanguíneo pelo vaso, ou resistência vascular. A Figura 14-3 mostra essas relações em um segmento de vaso sanguíneo, localizado em qualquer parte do sistema circulatório. Px representa a pressão na origem do vaso; na outra extremidade, a pressão é P2. A resistência ocorre como resultado do atrito entre o sangue em movimento e o endotélio intravascular em todo o interior do vaso. O fluxo pelo vaso pode ser calculado pela seguinte fórmula, que é chamada de lei de Ohm: na qual F é o fluxo sanguíneo, AP é a diferença de pressão (P1 - P2) entre as duas extremidades do vaso e R é a resistência. A fórmula define que o fluxo sanguíneo ocorre 169
  • 192. Unidade IV A Circulação „ _ Gradiente de pressão-------- -- „ P! ^ P2 Fluxo Figura 14-3 Inter-relações entre pressão, resistência e fluxo sanguíneo. em proporção direta à diferença de pressão, mas inversamente proporcional à resistência. Note que é a diferença de pressão entre as duas extremidades do vaso e não a pressão absoluta em seu interior que determina a intensidade/velocidade do fluxo. Por exemplo, se a pressão em ambas as extremidades do vaso for de 100 mmHg, mas se não houver diferença entre elas, não haverá fluxo apesar de existir pressão de 100 mmHg. A lei de Ohm, representada pela Equação 1, expressa a mais importante de todas as relações que o leitor precisa entender para compreender a hemodinâmica da circulação. Em virtude da extrema importância dessa equação, o leitor deve também estar familiarizado com suas outras formas algébricas: AP = F X R AP R =--- F Fluxo Sanguíneo Fluxo sanguíneo significa a quantidade de sangue que passa por determinado ponto da circulação durante certo intervalo de tempo. Via de regra, o fluxo sanguíneo é expresso em mililitros por minuto ou litros por minuto, mas pode ser expresso em mililitros por segundo ou quaisquer outras unidades de fluxo e tempo. O fluxo sanguíneo total na circulação de adulto em repouso é de cerca de 5.000 mL/min. Isso é referido como débito cardíaco, por ser a quantidade de sangue bombeada pelo coração para a aorta, a cada minuto. Métodos para a Medida do Fluxo Sanguíneo. Muitos aparelhos mecânicos e eletromecânicos podem ser inseridos em série em vaso sanguíneo ou, em alguns casos, aplicados ao exterior do vaso, para medir seu fluxo. Esses aparelhos são chamados fluxômetros. Fluxômetro Eletromagnético. Um dos mais importantes aparelhos para a medida do fluxo sanguíneo sem a abertura do vaso é o fluxômetro eletromagnético; seus princípios estão ilustrados na Figura 14-4. A Figura 14-4A demonstra a geração de força eletromotiva (voltagem elétrica) em um fio que é movido rapidamente na direção transversa, ao longo de campo magnético. Esse é o conhecido princípio para a produção de eletricidade por gerador elétrico. A Figura 14-4B mostra o mesmo princípio, aplicado à geração de força eletromotiva no sangue que se move por campo eletromagnético. Neste caso, o vaso sanguíneo é colocado entre os polos de forte ímã, e eletrodos são posicionados nos dois lados do vaso, perpendiculares às linhas de força magnética. Quando o sangue flui pelo vaso, é gerada voltagem elétrica proporcional à intensidade/velocidade do fluxo sanguíneo entre os dois eletrodos, registrada por voltímetro apropriado ou outro aparelho eletrônico de registro. A Figura 14-4C mostra uma “sonda” verdadeira, que é posicionada em um vaso calibroso para registrar o seu fluxo sanguíneo. A sonda contém o forte ímã e os eletródios. Vantagem especial do fluxômetro eletromagnético é sua capacidade de registrar as variações do fluxo em menos de 1/100 de segundo, permitindo o registro preciso de variações pulsáteis do fluxo, bem como o fluxo estável. £ >Ã / -Resistência- c Figura 14-4 Fluxômetro eletromagnético mostrando a geração de voltagem elétrica no fio ao passar por campo eletromagnético (A); geração de voltagem elétrica em eletródio sobre vaso sanguíneo quando o vaso é colocado sob forte campo magnético (fí); e moderna sonda fluxométrica eletromagnética para implantação crônica ao redor de vasos sanguíneos (C). 170
  • 193. Capítulo 14 Fluxômetro Doppler Ultrassônico. Outro tipo de flu- xômetro que pode ser posicionado no exterior do vaso e que apresenta muitas das vantagens do fluxômetro eletromagnético é o fluxômetro Doppler ultrassônico, mostrado na Figura 14-5. Um diminuto cristal piezoelétrico é montado em uma extremidade, na parede do aparelho. Esse cristal, quando energizado por aparelho eletrônico apropriado, transmite sinais ultrassônicos na frequência de muitas centenas de milhares de ciclos por segundo, no sentido do fluxo sanguíneo. Parte do som é refletida pelos eritrócitos no sangue em movimento. As ondas ultrassôni- cas refletidas retornam dos eritrócitos para o cristal. Essas ondas refletidas têm frequência mais baixa que as ondas transmitidas porque os eritrócitos estão se afastando do cristal transmissor. Esse é o efeito Doppler. (É o mesmo efeito percebido quando uma ambulância se aproxima e passa tocando sua sirene. Uma vez que a sirene passa e se afasta, seu som se torna subitamente muito mais grave que o ouvido quando a ambulância se aproximava.) No fluxômetro mostrado na Figura 14-5, a onda ultras- sônica de alta frequência é interrompida de modo intermitente, e a onda refletida é captada de volta pelo cristal e amplificada muitas vezes pelo aparelho eletrônico. Outra parte do aparelho determina a diferença de frequência entre a onda transmitida e a refletida, determinando assim a velocidade do fluxo sanguíneo. Contanto que o diâmetro do vaso sanguíneo não mude, as alterações no fluxo sanguíneo no vaso são relacionadas às alterações na velocidade do fluxo. Da mesma forma que o fluxômetro eletromagnético, o fluxômetro Doppler ultrassônico é capaz de registrar as rápidas variações pulsáteis no fluxo, bem como o fluxo estável. Fluxo Laminar do Sangue nos Vasos. Quando o sangue flui de forma estável por vaso sanguíneo longo e uniforme, ele se organiza em linhas de corrente, com camadas de sangue equidistantes da parede do vaso. Além disso, a porção mais central do sangue permanece no centro do vaso. Esse tipo de fluxo é chamado laminar e é o oposto do fluxo turbulento, que consiste em sangue correndo em todas as direções do vaso e se misturando continuamente em seu interior, como discutido mais adiante. Perfil Parabólico de Velocidade durante o Fluxo Laminar. Quando ocorre fluxo laminar, a velocidade do fluxo pelo centro do vaso é muito maior que próximo transmitida refletida Figura 14-5 Fluxômetro Doppler ultrassônico. Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência às paredes. Isso é mostrado na Figura 14-6. Na Figura 14- 6A, o vaso contém dois líquidos; o da esquerda está colorido por pigmento, e o da direita é um líquido claro, mas não há fluxo no vaso. Quando os líquidos começam a fluir, desenvolve-se interface parabólica entre eles, como mostrado 1 segundo depois na Figura 14-65; a porção de líquido adjacente à parede do vaso praticamente não se moveu, a porção pouco mais afastada da parede se moveu por pequena distância, e a porção no centro do vaso se moveu por longa distância. Esse efeito é chamado “perfil parabólico da velocidade do fluxo sanguíneo”. O perfil parabólico ocorre porque as moléculas de líquido que tocam a parede se movem lentamente em virtude da aderência com o endotélio. A camada seguinte de moléculas desliza sobre a primeira, a terceira camada desliza sobre a segunda, a quarta sobre a terceira, e assim por diante. Portanto, o líquido no meio do vaso pode se mover rapidamente porque existem muitas camadas de moléculas deslizantes entre o meio do vaso e a parede; assim, cada camada em direção ao centro flui progressivamente mais rápido que as camadas externas. O > Fluxo Sanguíneo Turbulento sob Certas Condições. Quando a intensidade do fluxo sanguíneo é muito elevada, ou quando o sangue passa por obstrução no vaso, por ângulo fechado ou por superfície áspera, o fluxo pode ficar turbulento ou desordenado em vez de laminar (Fig. 14-6C). Fluxo turbulento significa que o sangue flui na direção longitudinal e na direção perpendicular, geralmente formando redemoinhos semelhantes aos vistos em pontos de obstrução de um rio com forte correnteza. Quando ocorrem redemoinhos, a resistência ao fluxo de sangue é muito maior que no fluxo laminar por provocarem grande aumento do atrito total do fluxo no vaso. A tendência à ocorrência de fluxo turbulento é de modo direto proporcional à velocidade do fluxo sanguíneo, ao diâmetro do vaso e à densidade do sangue, e inversamente proporcional à viscosidade do sangue, o que é representado pela seguinte equação: Figura 14-6 A, Dois líquidos (um tingido de vermelho, o outro límpido) antes do início do fluxo; B, os mesmos líquidos, 1 segundo após o início do fluxo; C, fluxo turbulento, com elementos do fluxo se movendo em padrão desordenado. 171 U N
  • 194. Unidade IV A Circulação em que Re é o número de Reynolds, que é a medida da tendência para a ocorrência de turbilhonamento; v é a velocidade média do fluxo sanguíneo (em centímetros/ segundo); d é o diâmetro do vaso (em centímetros); p é a densidade; e r a viscosidade (em poise). A viscosidade do sangue é normalmente de cerca de 1/30 poise, e a densidade é apenas pouco maior que 1. Quando o número de Reynolds aumenta acima de 200 a 400, ocorre fluxo turbulento em alguns ramos dos vasos, que se extingue em suas porções mais lisas. Entretanto, quando o número de Reynolds aumenta acima de aproximadamente 2.000, ocorre turbulência mesmo em vasos retos e lisos. O número de Reynolds para o fluxo no sistema vascular normalmente sobe para 200 a 400 nas grandes artérias; por isso, quase sempre ocorre algum fluxo turbulento nos ramos desses vasos. Nas porções proximais da aorta e da artéria pulmonar, esse número pode chegar a muitos milhares durante a fase rápida de ejeção dos ventrí- culos; isso provoca turbulência considerável na aorta e na artéria pulmonar proximais, em locais em que há condições apropriadas para a turbulência: (1) alta velocidade de fluxo sanguíneo, (2) natureza pulsátil do fluxo, (3) alteração súbita do diâmetro do vaso, e (4) grande diâmetro. Entretanto, em vasos pequenos, o número de Reynolds quase nunca é alto o suficiente para causar turbulência. Pressão Sanguínea Medidas Padronizadas de Pressão. A pressão sanguínea é quase sempre medida em milímetros de mercúrio (mmHg) porque o manômetro de mercúrio tem sido usado como referência padrão para a medida da pressão, desde sua invenção em 1846 por Poiseuille. Na verdade, a pressão sanguínea representa a força exercida pelo sangue contra qualquer unidade de área da parede vascular. Quando dizemos que a pressão em um vaso é de 50 mmHg, isso significa que a força exercida é suficiente para impulsionar a coluna de mercúrio até a altura de 50 milímetros contra a gravidade. Se a pressão for de 100 mmHg, será capaz de impulsionar a coluna de mercúrio até 100 milímetros. Ocasionalmente, a pressão é medida em centímetros de água (cm H20). A pressão de 10 cm H^O é suficiente para elevar contra a gravidade uma coluna de água a 10 centímetros de altura. Um milímetro de mercúrio exerce pressão igual a 1,36 cm de água, porque o peso específico do mercúrio é 13,6 vezes maior que o da água, e 1 centímetro é 10 vezes maior que um milímetro. Métodos de Alta Precisão para a Medida da Pressão Sanguínea. O mercúrio no manômetro de mercúrio tem tanta inércia que não pode subir e descer rapidamente. Por isso, embora seja excelente para o registro de pressões estáticas, não pode responder a alterações pressóricas que ocorram com frequência maior que um ciclo a cada 2 a 3 segundos. Quando se deseja registrar pressões com variações rápidas, é necessário algum outro tipo de aparelho para a medida da pressão. A Figura 14-7 demonstra os princípios básicos de três transdutores eletrônicos de pressão usados comumente para converter a pressão sanguínea e/ou rápidas alterações de pressão em sinais elétricos e, então, registrá-los em gravador elétrico de alta velocidade. Todos esses transdutores utilizam fina membrana metálica muito esticada, que forma uma das paredes da câmara de líquido. Esta, por sua vez, fica conectada por meio de agulha ou cateter, e é inserida no vaso sanguíneo no qual a pressão vai ser medida. Quando a pressão se eleva, a membrana fica ligeiramente convexa, e, quando a pressão é reduzida, ela retorna à sua posição de repouso. Na Figura 14-7A, uma simples placa de metal é colocada a alguns centésimos de centímetro acima da membrana. A membrana ao se abaular se aproxima da placa, aumentando a capacitância elétrica entre elas; essa alteração da capaci- tância é registrada por sistema eletrônico. Na Figura 14-75, um pequeno cilindro de metal está apoiado sobre a membrana; ele pode ser deslocado para cima e entrar no espaço central de bobina elétrica. O movimento do metal para dentro da bobina aumenta sua indutância, o que também pode ser registrado eletronicamente. Finalmente, na Figura 14-7C, um fio de resistência muito fino é conectado à membrana. Quando esse fio está mais esticado, sua resistência aumenta; quando menos esticado, sua resistência diminui. Essas alterações também podem ser registradas por sistema eletrônico. Os sinais elétricos do transdutor são enviados para o amplificador e para o aparelho de registro adequado. Com alguns desses sistemas de registro de alta fidelidade, foi possível registrar ciclos de pressão com frequências de até 500 ciclos por segundo. Os aparelhos de uso comum são capazes de registrar variações pressóricas que ocorrem em 20 a 100 ciclos por segundo da maneira mostrada no papel de registro na Figura 14-7C. Resistência ao Fluxo Sanguíneo Unidades de Resistência. A resistência é o impedimento ao fluxo sanguíneo pelo vaso, mas não pode ser medida por qualquer meio direto; em vez disso deve ser calculada pelas medidas do fluxo e da diferença de pressão entre dois pontos no vaso. Se a diferença de pressão entre esses dois pontos for de 1 mmHg e o fluxo for de 1 mL/s, a resistência é designada como uma unidade de resistência periférica, usualmente abreviada como URP. Expressão de Resistência em Unidades CGS. Ocasionalmente, uma unidade física básica, chamada de CGS (centímetros, gramas, segundos), é usada para expressar a resistência. Essa unidade é o dinas/cm5. A resistência nessas unidades pode ser calculada pela seguinte fórmula: R dina ^ cm5 J 1.333 X mmHg mL/s Resistência Vascular Periférica Total e Resistência Vascular Pulmonar Total. A intensidade do fluxo sanguíneo em todo o sistema circulatório é igual à do sangue bombeado pelo coração — isto é, ao débito cardíaco. No humano adulto, seu valor é de aproximadamente 100 mL/s. A diferença de pressão entre as artérias e veias sis- 172
  • 195. Capítulo 14 Figura 14-7 Princípio de três tipos de transdutores eletrônicos para o registro de pressões sanguíneas rapidamente variáveis (explicados no texto). têmicas é de cerca de 100 mmHg. Portanto, a resistência de toda a circulação sistêmica, chamada de resistência periférica total, é de cerca de 100/100, ou 1 unidade de resistência periférica (URP). Nas condições em que todos os vasos sanguíneos do corpo ficam fortemente contraídos, a resistência periférica total ocasionalmente aumenta até 4 URP. Por sua vez, quando os vasos ficam muito dilatados, a resistência pode cair para valores muito baixos, como 0,2 URP. No sistema pulmonar, a pressão arterial pulmonar média é de 16 mmHg, e a pressão atrial esquerda média é de 2 mmHg, o que resulta em diferença de pressão de 14 mm. Portanto, quando o débito cardíaco está normal, em cerca de 100 mL/s, a resistência vascular pulmonar total calculada é de cerca de 0,14 URP (em torno de um sétimo da circulação sistêmica). “Condutância" do Sangue no Vaso e sua Relação com a Resistência. A condutância é a medida do fluxo sanguíneo por um vaso sob dada diferença de pressão. Ela é, em geral, expressa em mililitros por segundo por milímetro de mercúrio de pressão, mas pode ser expressa em litros por segundo por milímetro de mercúrio ou em quaisquer outras unidades de fluxo sanguíneo e pressão. É evidente que a condutância é a recíproca exata da resistência, de acordo com a seguinte equação: 1 Condutância =----------- Resistência Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência d = 1 P = 100 mmHg d = 2 C d = 4 1 mL/min 1 16 mL/min VA % 256 mL/min Figura 14-8 A, Demonstração do efeito do diâmetro do vaso sobre o fluxo sanguíneo. B, Anéis concêntricos de sangue fluindo em diferentes velocidades; quanto mais longe da parede vascular, mais rápido é o fluxo. Variações muito Pequenas no Diâmetro do Vaso Podem Alterar Acentuadamente sua Condutância! Pequenas variações do diâmetro do vaso provocam grandes alterações em sua capacidade de conduzir sangue quando o fluxo sanguíneo é laminar. Isso é demonstrado pelo experimento ilustrado na Figura 14-8A, que apresenta três vasos com diâmetros relativos de 1, 2 e 4, mas com a mesma diferença de pressão de 100 mmHg entre as duas extremidades. Embora os diâmetros desses vasos só aumentem por apenas quatro vezes, os fluxos correspondentes são de 1,16 e 256 mL/min, ou seja, aumentam por 256 vezes. Por conseguinte, a condutância do vaso aumenta em proporção direta à quarta potência do diâmetro, de acordo com a seguinte fórmula: Condutância Diâmetro4 Lei de Poiseuille. Esse grande aumento da condutância com o aumento do diâmetro, pode ser explicado pela observação da Figura 14-85, que mostra secções transversas de vaso com grande diâmetro e outro com pequeno. Os anéis concêntricos dentro dos vasos indicam que a velocidade do fluxo em cada anel é diferente da dos anéis adjacentes, em virtude do fluxo laminar, como discutido anteriormente neste capítulo. Ou seja, o sangue no anel que toca a parede do vaso praticamente não flui por causa da sua aderência ao endotélio vascular. O anel seguinte de sangue, em direção ao centro, desliza sobre o primeiro e, portanto, flui mais rápido. O terceiro, quarto, quinto e sexto anéis da mesma forma fluem em velocidades progressivamente maiores. Assim, o sangue mais próximo à parede vascular flui em velocidade baixa, enquanto o sangue no meio do vaso flui muito mais rapidamente. No vaso de pequeno calibre, em essência, todo o sangue está contíguo à parede; assim, a corrente central do fluxo sanguíneo muito rápido simplesmente não existe. Integrando-se as velocidades de todos os anéis concêntricos do fluxo sanguíneo e multiplicando-as pelas áreas dos anéis, pode-se derivar a seguinte fórmula, conhecida como a lei de Poiseuille: _ 7üÁPr4 8r|1 173 U N I D A
  • 196. Unidade IV A Circulação em que F é a velocidade/intensidade do fluxo sanguíneo; AP é a diferença de pressão entre as extremidades do vaso; r, o raio do vaso; 1, seu comprimento; e T| a viscosidade do sangue. Note de forma particular nessa equação que a velocidade/ intensidade do fluxo sanguíneo é diretamente proporcional à quarta potência do raio do vaso, o que mostra mais uma vez que o diâmetro do vaso (que corresponde a duas vezes o raio) é muito mais importante que todos os demais fatores na determinação de sua velocidade/intensidade de fluxo sanguíneo. Importância da "Lei da Quarta Potência" do Diâmetro do Vaso na Determinação da Resistência Arteriolar. Na circulação sistêmica, cerca de dois terços da resistência sistêmica total ao fluxo sanguíneo consistem de resistência arteriolar que ocorre nas delgadas arteríolas. Os diâmetros internos das arteríolas são muito variáveis, de 4 a 25 micrômetros. Entretanto, suas fortes paredes vasculares permitem que esse diâmetro se altere de forma acentuada muitas vezes, por até quatro vezes. Pela lei da quarta potência, discutida acima, que relaciona o fluxo sanguíneo ao diâmetro do vaso, pode-se ver que o aumento de quatro vezes no diâmetro do vaso pode aumentar o fluxo por 256 vezes. Portanto, a lei da quarta potência possibilita que as arteríolas, respondendo a sinais nervosos ou a sinais químicos teciduais locais, com apenas pequenas alterações de seu diâmetro, interrompam de modo quase total o fluxo sanguíneo ou, no outro extremo, o aumentem enormemente. De fato, foram registradas variações por mais de 100 vezes do fluxo sanguíneo em diferentes áreas teciduais, entre os limites de constrição ou dilatação arteriolar máxima. Resistência ao Fluxo Sanguíneo em Circuitos Vasculares em Série ou em Paralelo. O sangue bombeado pelo coração flui da região de alta pressão da circulação sistêmica (i. e., a aorta) para a de baixa pressão (/. e., veia cava), pelos muitos quilômetros de vasos sanguíneos dispostos em série ou em paralelo. As artérias, as arteríolas, os capilares, as vênulas e as veias estão coletivamente dispostos em série. Quando os vasos são dispostos em série, o fluxo por cada vaso é o mesmo, e a resistência total ao fluxo sanguíneo (Rtotal) é igual à soma das resistências de cada vaso: Rtotal= Ri + R2 + R3 + R4 ••• A resistência vascular periférica total é, portanto, igual à soma das resistências das artérias, arteríolas, capilares, vênulas e veias. No exemplo mostrado na Figura 14-9A, a resistência vascular total é igual à soma de R: e R2. Os vasos sanguíneos se ramificam extensamente, formando circuitos paralelos que irrigam muitos órgãos e tecidos do corpo com sangue. Essa disposição em paralelo permite que cada tecido regule seu próprio fluxo sanguíneo em grande parte de modo independente do fluxo por outros tecidos. Nos vasos sanguíneos dispostos em paralelo (Fig. 14- 95), a resistência total ao fluxo é expressa como: 1 1 1 1 1 _ _j_ _|_ ••• Rtotal R1 R2 R3 R4 É óbvio que, para dado gradiente de pressão, quantidade muito maior de sangue fluirá por esse sistema paralelo do que por qualquer um dos vasos sanguíneos individuais. Portanto, a resistência total é muito menor que a de qualquer vaso sanguíneo isolado. O fluxo por vaso paralelo, na Figura 14-95, é determinado pelo gradiente de pressão e por sua própria resistência, e não pela resistência dos outros vasos sanguíneos paralelos. Entretanto, o aumento da resistência de qualquer um dos vasos aumenta a resistência vascular total. Pode parecer paradoxal que a adição de vasos sanguíneos a um circuito reduza a resistência vascular total. Muitos vasos sanguíneos paralelos, no entanto, facilitam o fluxo de sangue pelo circuito porque cada um representa nova via, ou condutância, para o fluxo sanguíneo. A condutância total (Ctotal) para o fluxo sanguíneo é a soma das condutâncias de cada via paralela: Ctotal = Cl + C 2 + C 3 + C 4 - - - Por exemplo, as circulações do cérebro, do rim, do músculo, do trato gastrintestinal, da pele e das coronárias estão dispostas em paralelo, e cada tecido contribui para a condutância geral da circulação sistêmica. O fluxo sanguíneo por cada tecido é fração do fluxo sanguíneo total (débito cardíaco) e é determinado pela resistência (recíproca da condutância) ao fluxo do tecido, bem como pelo gradiente de pressão. Portanto, a amputação de membro ou a remoção cirúrgica de um rim também remove um circuito paralelo e reduz a condutância vascular e o fluxo sanguíneo total (/. e., o débito cardíaco), enquanto aumentam a resistência vascular periférica total. Efeito do Hematócrito e da Viscosidade do Sangue sobre a Resistência Vascular e o Fluxo Sanguíneo Note-se de modo particular que outro dos fatores importantes na equação de Poiseuille é a viscosidade do sangue. Quanto maior a viscosidade, menor é o fluxo pelo vaso, se todos os demais fatores permanecerem constantes. Além disso, a viscosidade do sangue normal é cerca de três vezes maior que a da água. Mas, o que torna o sangue tão viscoso? Em essência, é o grande número de eritrócitos em suspensão, cada um Figura 14-9 Resistências vasculares: A, em série, e B, em paralelo. 174
  • 197. Capítulo 14 exercendo forças friccionais contra células adjacentes e contra a parede do vaso sanguíneo. Hematócrito. A proporção do sangue, representada pelos glóbulos vermelhos, é chamada hematócrito. Portanto, se a pessoa tem hematócrito de 40, isso significa que 40% de seu volume sanguíneo são formados por células e o restante consiste em plasma. O hematócrito médio, em homens adultos, é de cerca de 42 e, em mulheres, de aproximadamente 38, em média. Esses valores são muito variáveis, dependendo da presença de anemia, do grau de atividade corporal e da altitude na qual a pessoa reside. Essas alterações são discutidas em relação aos eritrócitos e sua função de transporte de oxigênio, no Capítulo 32. O hematócrito é determinado pela centrifugação do sangue em tubo calibrado, como mostrado na Figura 14-10. A calibração permite a leitura direta da porcentagem de células. Efeito do Hematócrito sobre a Viscosidade do Sangue. A viscosidade do sangue aumenta de forma acentuada à medida que o hematócrito se eleva, como mostrado na Figura 14-11. A viscosidade do sangue total, com hematócrito normal, é de aproximadamente 3; isso significa que, para impulsionar o sangue pelo vaso, é necessária pressão três vezes maior do que para impulsionar água pelo mesmo vaso. Quando o hematócrito sobe para 60 ou 70, o que frequentemente ocorre na policitemia, a viscosidade sanguínea pode ser até 10 vezes maior que a da água, e seu fluxo pelos vasos fica muito reduzido. Outros fatores que afetam a viscosidade do sangue são a concentração e os tipos de proteínas no plasma; contudo, por provocarem efeitos tão menos potentes que o hematócrito, não representam considerações significativas na maioria dos estudos hemodinâmicos. A viscosi- Normal Anemia Policitemia Figura 14-10 Hematócrito em pessoa saudável (normal) e em pacientes com anemia e policitemia. Visão Geral da Circulação; Biofísica da Pressão, Fluxo e Resistência dade do plasma sanguíneo é aproximadamente 1,5 vez maior que a da água. Efeitos da Pressão sobre a Resistência Vascular e Fluxo Sanguíneo Tecidual A "Autorregulação" Atenua o Efeito da Pressão Arterial no Fluxo Sanguíneo no Tecido. Pela discussão até agora, seria esperado que o aumento da pressão arterial provocasse aumento proporcional do fluxo sanguíneo pelos vários tecidos corporais. Entretanto, o efeito da pressão arterial sobre o fluxo sanguíneo em muitos tecidos é, em geral, bem menor que o que se poderia esperar, como mostrado na Figura 14-12. Isso ocorre porque o aumento da pressão arterial não aumenta só a força que impulsiona o sangue pelos vasos, mas ao mesmo tempo inicia aumentos compensatórios da resistência vascular Figura 14-11 Efeito do hematócrito sobre a viscosidade sanguínea. (Viscosidade da água = 1.) Figura 14-12 Efeito das variações da pressão arterial, durante período de vários minutos, no fluxo sanguíneo em tecido como o músculo esquelético. Note que entre as pressões de 70 e 175 mmHg o fluxo sanguíneo é “autorregulado". A linha azul mostra o efeito da estimulação dos nervos simpáticos ou vasoconstrição por hormônios como norepinefrina, angiotensina II, vasopressina ou endotelina nessa relação. O fluxo sanguíneo tecidual reduzido é raramente mantido por mais algumas horas, devido à ativação de mecanismos autorregulatórios locais que eventualmente retornam o fluxo sanguíneo para a direção normal. 175 U N I D A
  • 198. Unidade IV A Circulação em poucos segundos pela ativação dos mecanismos de controle locais discutidos no Capítulo 17. Inversamente, com reduções na pressão arterial, a maior parte da resistência vascular é reduzida de imediato, na maioria dos tecidos, e o fluxo sanguíneo é mantido relativamente constante. A capacidade de cada tecido de ajustar sua resistência vascular e de manter o fluxo sanguíneo normal durante alterações na pressão arterial entre cerca de 70 e 175 mmHg é denominada autorregulação. Note na Figura 14-12 que as variações do fluxo sanguíneo podem ser causadas por forte estimulação simpática, que contrai os vasos sanguíneos. Da mesma maneira, hormônios vasoconstritores, tais como norepinefrina, angio- tensina II, vasopressina ou endotelina, podem também reduzir o fluxo sanguíneo, pelo menos transientemente. Variações do fluxo sanguíneo tecidual raramente duram mais de algumas poucas horas, mesmo quando elevações da pressão arterial ou níveis aumentados de vasoconstritores são mantidos. A razão da relativa constância do fluxo sanguíneo é que os mecanismos autorre- gulatórios locais de cada tecido eventualmente superam a maior parte dos efeitos vasoconstritores, de maneira a prover fluxo sanguíneo apropriado às demandas do tecido. Relação Pressão-Fluxo em Leitos Vasculares Passivos. Em vasos sanguíneos isolados ou em tecidos que não apresentam autorregulação, variações da pressão arterial podem ter efeitos importantes sobre o fluxo sanguíneo. Na verdade, o efeito da pressão no fluxo sanguíneo pode ser maior do que a prevista pela equação de Poiseuille, como mostrado pelas curvas ascendentes na Figura 14-13. A razão para isso é que pressão arterial aumentada não somente aumenta a força que empurra o sangue pelos vasos, como também distende os vasos elásticos, diminuindo na realidade a resistência vascular. Reciprocamente, a diminuição da pressão arterial em vasos sanguíneos passivos aumenta a resistência, à medida que os vasos elásticos gradualmente colapsam devido à pressão distensora reduzida. Quando a pressão cai abaixo do nível crítico, denominado pressão crítica de Pressão arterial (mmHg) Figura 14-13 Efeito da pressão arterial sobre o fluxo sanguíneo em vaso passivo, sob diferentes graus de tônus vascular causados pelo aumento ou diminuição da estimulação simpática. fechamento, o fluxo cessa à medida que os vasos sanguíneos colapsam por completo. Estimulação simpática e outros vasoconstritores podem alterar a relação passiva entre pressão e fluxo, mostrada na Figura 14-13. Assim, a inibição da atividade simpática provoca grandes dilatações nos vasos, podendo aumentar o fluxo sanguíneo por duas vezes ou mais. Por outro lado, estímulo simpático muito forte pode contrair os vasos a tal ponto que o fluxo sanguíneo ocasionalmente se reduz a zero por alguns segundos, apesar da alta pressão arterial. Na realidade, existem poucas condições fisiológicas nas quais um tecido exiba a relação passiva entre pressão e fluxo, mostrada na Figura 14-13. Mesmo em tecidos que não autorregulam efetivamente o fluxo sanguíneo, durante variações agudas na pressão arterial, o fluxo sanguíneo é regulado de acordo com as necessidades do tecido quando as alterações da pressão se mantêm, como discutido no Capítulo 17. Referências Veja as referências do Capítulo 15. 176
  • 199. CAPÍTULO 15 Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso Distensibilidade Vascular Característica importante do sistema vascular é a de que todos os vasos sanguíneos são distensíveis. A natureza elástica das artérias permite que acomodem o débito pul- sátil do coração, impedindo os extremos de pressão das pulsações. Isso faz com que o fluxo sanguíneo para os pequenos vasos teciduais seja uniforme e contínuo. As veias são por larga margem os vasos mais distensíveis do sistema. Até mesmo pequenos aumentos da pressão venosa fazem com que as veias armazenem 0,5 a 1,0 litro de sangue a mais. Por isso, as veias têm a função de reservatório para o armazenamento de grande quantidade de sangue que pode ser utilizado, quando for necessário, em qualquer outra parte da circulação. Unidades de Distensibilidade Vascular. A distensibilidade vascular é normalmente expressa como a fração de aumento do volume para cada milímetro de mercúrio de aumento da pressão de acordo com a seguinte fórmula: Distensibilidade _ ________Aumento do volume ______ vascular Aumento da pressão X Volume original Em outras palavras, se 1 mmHg fizer com que o vaso que antes continha 10 mililitros de sangue aumente seu volume por 1 mililitro, a distensibilidade é de 0,1 por mmHg, ou 10% por mmHg. Diferenças das Distensibilidades das Artérias e Veias. Anatomicamente, as paredes das artérias são muito mais fortes que as das veias. Consequentemente, as veias, em média, são cerca de oito vezes mais distensíveis que as artérias, isto é, determinado aumento de pressão provoca aumento oito vezes maior no volume sanguíneo em uma veia que em artéria de diâmetro comparável. Na circulação pulmonar, as distensibilidades das veias pulmonares são semelhantes às da circulação sistêmica. Entretanto, as artérias pulmonares normalmente operam sob pressões que correspondem a um sexto das do sis tema arterial sistêmico, com distensibilidades correspondentes, ou seja, cerca de seis vezes maiores que as das artérias sistêmicas. Complacência Vascular (ou Capacitância Vascular) Em estudos hemodinâmicos é usualmente muito mais importante conhecer a quantidade total de sangue que pode ser armazenada em determinada região da circulação para cada mmHg de aumento da pressão do que conhecer as distensibilidades dos vasos individuais. Esse valor é referido como complacência ou capacitância do respectivo leito vascular; ou seja, , „ . , Aumento do volume Complacência vascular = --------------------- Aumento da pressão Complacência e distensibilidade são bastante diferentes. Vaso muito distensível que apresente pequeno volume pode ser muito menos complacente que o vaso muito menos distensível que apresente grande volume porque a complacência é igual à distensibilidade multiplicada pelo volume. A complacência de veia sistêmica é cerca de 24 vezes maior que a de sua artéria correspondente, porque é cerca de oito vezes mais distensível e apresenta volume cerca de três vezes maior ( 8 x 3 = 24). Curvas de Volume-Pressão das Circulações Arterial e Venosa Método conveniente de expressar a relação entre pressão e volume em um vaso ou em qualquer parte da circulação é pelo uso da chamada curva de volume-pressão. Na Figura 15- 1, as curvas contínuas vermelha e azul representam, respectivamente, as curvas de volume-pressão dos sistemas arterial e venoso sistêmicos normais, demonstrando que quando o sistema arterial do adulto médio (incluindo todas as grandes artérias, pequenas artérias e arteríolas) está cheio, com 700 mililitros de sangue, a pressão arterial média é de 100 mmHg, mas quando está com apenas 400 mililitros de sangue a pressão cai a zero. Em todo o sistema venoso sistêmico, o volume em geral varia de 2.000 a 3.500 mililitros, e é necessária variação de muitas centenas de mililitros para que a pressão 177 U N I D A
  • 200. Unidade IV A Circulação Volume (ml_) Figura 15-1 "Curvas de volume-pressão" das circulações arterial e venosa sistêmicas, mostrando o efeito da estimulação ou da inibição dos nervos simpáticos sobre o sistema circulatório. venosa se altere por apenas 3 a 5 mmHg. Isso explica fundamentalmente em grande parte por que se pode trans- fundir até meio litro de sangue, em poucos minutos, para pessoa saudável sem que ocorra qualquer grande alteração na função circulatória. Efeito da Estimulação ou da Inibição Simpática sobre as Relações de Volume-Pressão dos Sistemas Arterial e Venoso. Na Figura 15-1, são também demonstrados os efeitos da excitação ou da inibição dos nervos simpáticos sobre as curvas de volume-pressão. É evidente que o aumento do tônus da musculatura lisa vascular, causado pela estimulação simpática, aumenta a pressão das artérias ou das veias em cada volume, enquanto a inibição simpática diminui a pressão sob cada volume. O controle vascular dos vasos, pelo sistema nervoso simpático, é meio eficiente de diminuir as dimensões de um segmento da circulação, dessa forma transferindo, consequentemente, sangue para outros segmentos. Por exemplo, o aumento do tônus vascular ao longo da circulação sistêmica frequentemente faz com que grande volume de sangue seja desviado para o coração, o que constitui um dos principais métodos que o organismo utiliza para aumentar o bombeamento cardíaco. O controle simpático da capacitância vascular é também muito importante durante as hemorragias. O aumento do tônus simpático, especialmente nas veias, reduz os calibres dos vasos de tal forma que a função circulatória permanece quase normal, mesmo com a perda de até 25% do volume sanguíneo total. Complacência Tardia (Estresse-Relaxamento) dos Vasos O termo “complacência tardia” ou retardada significa que o vaso submetido a aumento de volume apresenta logo de início grande aumento da pressão, mas o estiramento tardio progressivo do músculo liso na parede vascular permite que a pressão retorne ao normal dentro de minutos Figura 15-2 Efeito sobre a pressão intravascular da injeção de volume de sangue em segmento venoso e depois da remoção do sangue em excesso, demonstrando o princípio da complacência tardia. ou horas. Esse efeito é mostrado na Figura 15-2. Nessa figura, a pressão é registrada em pequeno segmento de veia ocluída em ambas as extremidades. Um volume adicional de sangue é subitamente injetado até que a pressão suba de 5 para 12 mmHg. Mesmo que qualquer fração do sangue seja removida após a injeção, a pressão começa a cair de imediato e se aproxima de 9 mmHg, após vários minutos. Em outras palavras, o volume de sangue injetado provoca a distensão elástica imediata da veia, mas então suas fibras musculares lisas começam pouco a pouco a “engatinhar” (creep) para maior comprimento, e suas tensões diminuem na mesma proporção de modo correspondente. Esse efeito é característico de todos os tecidos musculares lisos, referido como estresse-relaxamento, explicado no Capítulo 8. A complacência tardia é mecanismo importante pelo qual a circulação pode acomodar sangue adicional quando necessário, como após transfusão excessivamente volumosa. A complacência tardia, no sentido oposto, é um dos modos como a circulação se ajusta de forma automática após período de minutos a horas de diminuição do volume sanguíneo, como o que ocorre depois de hemorragias graves. Pulsações da Pressão Arterial Cada batimento cardíaco faz com que nova onda de sangue chegue às artérias. Se não fosse pela distensibilidade do sistema arterial, todo esse novo volume de sangue teria de fluir pelos vasos sanguíneos periféricos, quase instantaneamente, apenas durante a sístole cardíaca, e não ocorrería fluxo durante a diástole. Entretanto, normalmente a complacência da árvore arterial reduz os pulsos de pressão, de modo que quase não ocorrem pulsos quando o sangue atinge os capilares; assim, o fluxo sanguíneo tecidual é essencialmente contínuo, com pulsações muito pequenas. Registro típico dos pulsos de pressão na raiz da aorta é mostrado na Figura 15-3. No adulto jovem saudável, a 178
  • 201. Capítulo 15 Declínio diastólico Elevação exponencial lenta até Incisura (pode ser distorcido Segundos Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso o 1( 0 ( A in 0) 160' 120' 80-I JK Normal O) E160 -| E, W 120- 22 80' 40- 0- :AA Normal Persistência do canal arterial Insuficiência aórtica Figura 15-4 Curvas de pressão de pulso aórtica na arteriosclerose, na estenose aórtica, na persistência do canal arterial e na insuficiência aórtica. Figura 15-3 Curva do pulso de pressão na aorta ascendente. pressão no pico de cada pulso chamada de pressão sis- tólica, é de cerca de 120 mmHg; no ponto mais baixo de cada pulso, chamado pressão diastólica, cai para cerca de 80 mmHg. A diferença entre essas duas pressões de aproximadamente 40 mmHg é chamada pressão de pulso. Dois fatores principais afetam a pressão de pulso: (1) o débito sistólico cardíaco e (2) a complacência (distensibilidade total) da árvore arterial. Um terceiro fator, menos importante, é o caráter da ejeção do coração durante a sístole. Em geral, quanto maior o débito sistólico, maior será a quantidade de sangue que deve ser acomodada na árvore arterial a cada batimento, e portanto maiores serão o aumento e a queda de pressão durante a sístole e a diás- tole, resultando em maior pressão de pulso. Por sua vez, quanto menor for a complacência do sistema arterial, maior será o aumento da pressão, provocado por um dado volume de sangue bombeado em cada batimento para as artérias. Por exemplo, como mostrado nas curvas centrais da linha de cima da Figura 15-4, a pressão de pulso na velhice aumenta até duas vezes o normal porque as artérias ficaram endurecidas pela arteriosclerose e assim são relativamente não complacentes. Efetivamente, a pressão de pulso é determinada, em termos aproximados, pela razão entre o débito sistólico e a complacência da árvore arterial. Qualquer condição da circulação que afete um desses dois fatores também afetará a pressão de pulso. Pressão de Pulso = débito sistólico/complacência arterial Traçados Anormais de Pressão de Pulso Algumas condições da circulação além de alterarem a pressão de pulso provocam traçados anormais de suas ondas. A estenose aórtica, a persistência do canal arterial e a insuficiência aórtica são algumas das condições especialmente notáveis, e são mostradas na Figura 15-4. Na estenose valvar aórtica, o diâmetro da abertura da valva aórtica é significativamente reduzido, e a pressão de pulso aórtica fica bastante diminuída em virtude da redução do fluxo sanguíneo que é ejetado pela valva estenótica. Na persistência do canal arterial, a metade ou mais do sangue bombeado para a aorta pelo ventrículo esquerdo flui imediatamente de volta, pelo canal (ou dueto) arterial que permanece aberto, para a artéria pulmonar e vasos sanguíneos pulmonares, fazendo com que a pressão diastólica caia para valores muito baixos antes do batimento cardíaco seguinte. Na insuficiência aórtica, a valva aórtica está ausente ou não se fecha de modo completo. Assim, após cada batimento, o sangue bombeado para a aorta flui imediatamente de volta para o ventrículo esquerdo. Isso resulta em queda da pressão aórtica entre os batimentos cardíacos até atingir o valor zero. Além disso, não aparece a incisura no traçado do pulso aórtico porque não ocorre o fechamento da valva aórtica. Transmissão dos Pulsos de Pressão para as Artérias Periféricas Quando o coração ejeta sangue para a aorta durante a sístole, apenas a porção proximal da aorta é inicialmente distendida porque a inércia do sangue impede seu movimento súbito por todo o trajeto até a periferia. Entretanto, o aumento da pressão na aorta proximal supera com muita rapidez essa inércia, e a onda de distensão é transmitida distalmente ao longo da aorta, como demonstrado na Figura 15-5. Isso é chamado transmissão do pulso de pressão para as artérias. A velocidade da transmissão do pulso de pressão na aorta normal é de 3 a 5 m/s; nos grandes ramos arteriais, de 7 a 10 m/s; e nas pequenas artérias, de 15 a 35 m/s. Em geral, quanto maior a complacência de cada segmento vascular, menor será a velocidade, o que explica a lenta transmissão na aorta e a transmissão muito mais rápida nas artérias distais que são muito menos complacentes. 179 U N I D A
  • 202. Unidade IV A Circulação Na aorta, a velocidade de transmissão do pulso de pressão é 15 ou mais vezes maior que a velocidade do fluxo sanguíneo porque o pulso de pressão é simplesmente uma onda de pressão em movimento, que envolve pouco movimento total de sangue no sentido distai. Amortecimento dos Pulsos de Pressão nas Pequenas Artérias, nas Arteríolas e nos Capilares. A Figura 15- 6 mostra alterações típicas dos traçados dos pulsos de pressão, à medida que se deslocam para os vasos periféricos. Note-se de modo especial que nas três curvas inferiores a intensidade do pulso fica menor nas pequenas artérias, nas arteríolas e especialmente nos capilares. De fato, somente quando os pulsos aórticos são muito grandes ou quando as arteríolas estão muito dilatadas é possível observar pulsos nos capilares. Essa diminuição progressiva dos pulsos na periferia é chamada de amortecimento dos pulsos de pressão. Existem duas causas para este efeito: (1) a resistência ao movimento do sangue pelos vasos e (2) a complacência dos vasos. A resistência amortece os pulsos porque pequena quantidade de sangue deve se mover para adiante, na onda de pulso, para distender o segmento seguinte do vaso; quanto maior a resistência, maior será a dificuldade para que isso ocorra. A complacência amortece os pulsos porque quanto mais complacente for o vaso, maior será a quantidade de sangue necessária na onda de pulso para provocar aumento na pressão. Assim, o grau de amortecimento é quase diretamente proporcional ao produto da resistência pela complacência. Métodos Clínicos para as Medidas das Pressões Sistólica e Diastólica Não é razoável usar aparelhos que utilizem a inserção de agulhas nas artérias para a medida rotineira da pressão arterial em pacientes humanos, embora esses métodos sejam ocasionalmente usados quando são necessários estudos especiais. Em vez disso, o clínico determina as pressões sistólica e diastólica por métodos indiretos, geralmente pelo método auscultatório. Método Auscultatório. A Figura 15-7 demonstra o método auscultatório para determinar as pressões arteriais sistólica e diastólica. Um estetoscópio é posicionado sobre a artéria braquial, e um manguito é inflado sobre a parte superior do braço. Enquanto o manguito comprimir o braço com pressão demasiado baixa, sendo incapaz de fechar a artéria, não serão ouvidos sons pelo estetoscópio sobre ela. Entretanto, quando a pressão do manguito for suficiente para fechar a artéria durante parte do ciclo da pressão arterial, poderá ser ouvido som a cada pulsação. Estes sons são conhecidos como sons de Korotkoff, em homenagem a Nikolai Korotkoff, físico russo que os descreveu em 1905. Acredita-se que os sons de Korotkoff sejam provocados principalmente pela ejeção de sangue pelo vaso parcialmente ocluído e por vibrações da parede do vaso. O jato de sangue provoca turbulência no vaso após o man- Figura 15-5 Estágios progressivos na transmissão do pulso de pressão ao longo da aorta. Tempo (segundos) Figura 15-6 Alterações nas curvas dos pulsos de pressão, à medida que a onda passa em direção aos vasos menores. guito, o que desencadeia vibrações ouvidas por meio do estetoscópio. Ao determinar a pressão arterial pelo método auscultatório, a pressão no manguito é inicialmente elevada acima da pressão arterial sistólica. Enquanto a pressão do manguito for maior que a pressão sistólica, a artéria braquial permanecerá colapsada, de modo que não ocorrerá ejeção de sangue para a parte inferior da artéria, em nenhuma 180
  • 203. Capítulo 15 Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso Figura 15-8 Alterações das pressões sistólica, diastólica e média com a idade. As áreas sombreadas mostram as faixas normais aproximadas. Figura 15-7 Método auscultatório para a medida das pressões arteriais sistólica e diastólica. passando a ser menos secos e adquirindo característica mais rítmica e áspera. Então, por fim, quando a pressão no manguito cai próxima à pressão diastólica e os sons repentinamente mudam para uma qualidade abafada (ponto C, Fig. 15-7). A pressão manométrica quando os sons de Korotkoff são alterados para a qualidade abafada e essa pressão é aproximadamente igual à pressão diastólica, embora superestime a pressão diastólica determinada por cateter intra-arterial direto. À medida que a pressão de manguito cai alguns mmHg, a artéria não é mais fechada durante a diástole, o que significa que o fator essencial causador dos sons (o jato de sangue pela artéria comprimida) não está mais presente. Portanto, os sons desaparecem completamente. Muitos médicos acreditam que a pressão na qual os sons de Korotkoff desaparecem completamente deve ser usada como a pressão diastólica, exceto em situações em que o desaparecimento dos sons não pode ser determinado com segurança, pois os sons ainda são audíveis mesmo depois do esvaziamento completo do manguito. Por exemplo, em pacientes com fís- tulas intravenosas para hemodiálise ou com insuficiência da aorta, os sons de Korotkoff podem ser ouvidos após esvaziamento completo do manguito. O método auscultatório para a determinação das pressões sistólica e diastólica não é inteiramente preciso, mas em geral fornece valores com erros menores que 10% em relação à medida direta, com cateteres inseridos em artérias. parte do ciclo de pressão. Portanto, não serão ouvidos sons de Korotkoff na artéria distai inferior. Em seguida, contudo, a pressão do manguito é gradualmente reduzida. Imediatamente antes que a pressão no manguito caia abaixo da pressão sistólica (ponto B, Fig. 15-7), o sangue começa a fluir pela artéria, abaixo do manguito, durante o pico de pressão sistólica, e é possível ouvir sons secos como se fossem pancadas na artéria braquial em sincronia com os batimentos cardíacos. Assim que esses sons começam a ser ouvidos, o nível de pressão indicado pelo manômetro conectado ao manguito equivale à pressão sistólica. À medida que a pressão no manguito é ainda mais reduzida, a qualidade dos sons de Korotkoff se altera, Pressões Arteriais Normais Medidas pelo Método Auscultatório. A Figura 15-8 demonstra as pressões arteriais sistólicas e diastólicas, aproximadamente normais, em diferentes idades. O aumento progressivo da pressão com a idade resulta dos efeitos do envelhecimento sobre os mecanismos de controle da pressão sanguínea. Veremos, no Capítulo 19, que os rins são os principais responsáveis por essa regulação a longo prazo da pressão arterial, e se sabe que os rins apresentam alterações definitivas com a idade, especialmente após os 50 anos. Ligeiro aumento adicional da pressão sistólica geralmente ocorre após os 60 anos de idade. Isso resulta da distensibilidade reduzida ou “endurecimento” das arté 181 U N I D A
  • 204. Unidade IV A Circulação rias, que é com frequência resultado da arteriosclerose. O efeito final é pico sistólico de pressão com aumento considerável da pressão de pulso, conforme já explicado. Pressão Arterial Média. A pressão arterial média é a média das pressões arteriais medidas a cada milissegundo durante certo intervalo de tempo. Ela não é igual à média entre as pressões sistólica e diastólica porque, nas frequências normais, maior fração do ciclo cardíaco é usada na diástole do que é na sístole; assim, a pressão arterial permanece mais próxima à diastólica que à sistólica durante a maior parte do ciclo cardíaco. Portanto, a pressão diastólica determina cerca de 60% da pressão arterial média, e a pressão sistólica, 40%. Note, na Figura 15-8, que a pressão arterial média (a linha verde contínua) em todas as idades está mais próxima da pressão diastólica que da sistólica. Porém, nas frequências cardíacas muito altas, a diástole abrange fração menor do ciclo cardíaco, e a pressão arterial média se aproxima mais da média das pressões sistólica e diastólica. Veias e suas Funções Durante anos, as veias foram consideradas nada mais que vias de passagem para o fluxo de sangue para o coração, mas agora é evidente que realizam outras funções especiais, que são necessárias para a função circulatória. Especialmente importante é sua capacidade de se contrair e relaxar e, portanto, de armazenar pequenas ou grandes quantidades de sangue e de torná-lo disponível quando necessário ao restante da circulação. As veias periféricas também podem impulsionar o sangue para adiante pela chamada bomba venosa, e são até mesmo capazes de regular o débito cardíaco, função extremamente importante que é descrita em detalhes no Capítulo 20. Pressões Venosas — Pressão Atrial Direita (Pressão Venosa Central) e Pressões Venosas Periféricas Para entender as diversas funções das veias é necessário inicialmente conhecer alguns aspectos sobre a pressão em seu interior e seus determinantes. O sangue de todas as veias sistêmicas flui para o átrio direito do coração; por isso, a pressão no átrio direito é referida como pressão venosa central. A pressão atrial direita é regulada pelo balanço entre (1) a capacidade do coração de bombear o sangue para fora do átrio e ventrículo direitos para os pulmões e (2) a tendência do sangue de fluir das veias periféricas para o átrio direito. Se o coração direito estiver bombeando fortemente, a pressão atrial direita diminui. Ao contrário, a fraqueza do coração eleva a pressão atrial direita. Além disso, qualquer efeito que cause o rápido influxo de sangue para o átrio direito, vindo das veias periféricas, eleva a pressão atrial direita. Alguns dos fatores que podem aumentar esse retorno venoso (e, portanto, aumentar a pressão atrial direita) são (1) aumento do volume san guíneo, (2) aumento do tônus de grandes vasos em todo o corpo, resultando em aumento das pressões venosas periféricas, e (3) dilatação das arteríolas, que diminui a resistência periférica e permite o rápido fluxo de sangue das artérias para as veias. Os mesmos fatores que regulam a pressão atrial direita também contribuem para a regulação do débito cardíaco porque a quantidade de sangue bombeada pelo coração depende tanto da sua capacidade de bombeamento quanto da tendência do sangue para fluir para o coração, vindo dos vasos periféricos. Assim, discutiremos a regulação da pressão atrial direita muito mais detalhadamente no Capítulo 20, relacionando-a à regulação do débito cardíaco. A pressão atrial direita normal é de cerca de 0 mmHg, semelhante à pressão atmosférica ao redor do corpo. Ela pode aumentar para 20 a 30 mmHg em condições muito anormais, como (1) insuficiência cardíaca grave ou (2) após transfusão de grande volume de sangue, o que aumenta muito o volume sanguíneo total e faz com que grande quantidade de sangue tenda a fluir dos vasos periféricos para o coração. O limite inferior para a pressão atrial direita, em geral, é de cerca de -3 a -5 mmHg, abaixo da pressão atmosférica. Essa é também a pressão na cavidade torácica que circunda o coração. A pressão atrial direita se aproxima desses valores inferiores, quando o bombeamento cardíaco é excepcionalmente vigoroso ou quando o fluxo de sangue para o coração vindo dos vasos periféricos fica muito reduzido, como ocorre após hemorragia grave. Resistência Venosa e Pressão Venosa Periférica As grandes veias apresentam resistência tão pequena ao fluxo sanguíneo quando estão distendidas que seu valor se aproxima de zero praticamente não tendo importância. Entretanto, como demonstrado na Figura 15-9, a maioria das grandes veias que entra no tórax é comprimida em muitos pontos pelos tecidos adjacentes, de modo que o fluxo sanguíneo fica comprometido nesses pontos. Por exemplo, as veias dos braços são comprimidas por suas grandes angulações sobre a primeira costela. Além disso, a pressão nas veias do pescoço frequentemente se reduz a níveis tão baixos que a pressão atmosférica, no exterior do pescoço, faz com que essas veias sejam colapsadas. Por fim, as veias que passam pelo abdômen são muitas vezes comprimidas por diferentes órgãos e pela pressão intra-abdominal; assim, em geral ficam pelo menos parcialmente colapsadas, adquirindo formatos ovoides ou em fenda. Por esses motivos, as grandes veias de fato em geral oferecem alguma resistência ao fluxo sanguíneo e, por isso, a pressão nas pequenas veias mais periféricas, na pessoa deitada, é geralmente +4 a +6 mmHg maior que a pressão atrial direita. Efeito da Elevada Pressão Atrial Direita sobre a Pressão Venosa Periférica. Quando a pressão atrial direita sobe acima de seu valor normal de 0 mmHg, o sangue começa a se acumular nas grandes veias. Isso distende 182
  • 205. Capítulo 15 Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso as veias, e até mesmo seus pontos de colapso se abrem quando a pressão atrial direita aumenta acima de +4 a +6 mmHg. À medida que a pressão atrial direita se eleva ainda mais, é produzido aumento correspondente da pressão venosa periférica nos membros e demais partes do corpo. Como o coração deve estar enfraquecido para causar aumento tão grande na pressão atrial direita, chegando a +4 a +6 mmHg, a elevação da pressão venosa periférica não é perceptível nos estágios iniciais da insuficiência cardíaca. Efeito da Pressão Intra-abdominal sobre as Pressões Venosas dos Membros Inferiores. A pressão média na cavidade abdominal de pessoa deitada é, nas condições normais, de +6 mmHg, mas pode se elevar para +15 a +30 mmHg, como resultado de gravidez, grandes tumores, obesidade abdominal ou excesso de líquido (chamado “ascite”) na cavidade abdominal. Quando a pressão intra- abdominal se eleva, a pressão nas veias das pernas tem de se elevar acima da pressão abdominal para que as veias abdominais se abram e permitam que o sangue flua das pernas para o coração. Portanto, se a pressão intra-abdominal for de +20 mmHg, a mais baixa pressão possível nas veias femorais será também de +20 mmHg. Efeito da Pressão Gravitacional sobre a Pressão Venosa Em qualquer quantidade de água exposta ao ar, a pressão na superfície é igual à pressão atmosférica, mas se eleva por 1 mmHg a cada 13,6 milímetros abaixo da superfície. Essa pressão resulta do peso da água e por isso é chamada de pressão gravitacional ou pressão hidrostática. A pressão gravitacional também ocorre no sistema vascular do ser humano, em virtude do peso do sangue nos vasos, como mostrado na Figura 15-10. Quando a pessoa está em pé, a pressão no átrio direito permanece em cerca de 0 mmHg porque o coração bombeia para as Colapso por pressão atmosférica no pescoço Colapso na costela Colapso axilar Pressão intratorácic a = -4 mmHg Colapso por pressão abdominal artérias qualquer excesso de sangue que tenda a se acumular. Entretanto, no adulto que esteja em pé e absolutamente estático, a pressão nas veias dos pés é de cerca de +90 mmHg simplesmente pelo peso gravitacional do sangue nas veias entre o coração e os pés. As pressões venosas em outros níveis do corpo têm valores proporcionais, entre 0 e 90 mmHg. Nas veias dos braços, a pressão no nível da primeira costela é, em geral, de cerca de +6 mmHg por causa da compressão da veia subclávia ao passar sobre essa costela. A pressão gravitacional ao longo do braço é determinada pela distância abaixo do nível dessa costela. Assim, se a diferença gravitacional entre o nível da costela e da mão é de +29 mmHg, essa pressão gravitacional é adicionada à pressão de +6 mmHg causada pela compressão da veia ao passar pela costela, perfazendo pressão total de +35 mmHg nas veias da mão. As veias do pescoço de pessoa em pé ficam quase completamente colapsadas em todo o trajeto até o crânio, em virtude da pressão atmosférica no exterior do pescoço. Esse colapso faz com que a pressão nessas veias permaneça em zero em toda sua extensão. Isso ocorre porque qualquer tendência da pressão subir acima desse nível abre as veias e permite que a pressão caia novamente a zero, devido ao fluxo de sangue. Ao contrário, Figura 15-9 Pontos de compressão que tendem a colapsar as veias que entrem no tórax. Figura 15-10 Efeito da pressão gravitacional sobre as pressões venosas em todo o corpo na pessoa em pé. 183
  • 206. Unidade IV A Circulação qualquer tendência de a pressão venosa no pescoço cair abaixo de zero colapsa ainda mais as veias, provocando maior aumento na resistência, o que de novo faz com que a pressão retorne a zero. As veias no interior do crânio, por outro lado, estão em câmara não colapsável (a cavidade craniana) e, portanto, não podem entrar em colapso. Consequentemente, podem ocorrer pressões negativas nos seios durais da cabeça-, na posição ortostática, a pressão venosa no seio sagital na parte superior do cérebro é de cerca de -10 mmHg, por causa da “sucção” hidrostática entre a parte superior e a base do crânio. Portanto, se o seio sagital for aberto durante uma cirurgia, pode ocorrer sucção de ar para o sistema venoso; o ar pode até mesmo ser levado para baixo, causando embolia no coração, o que pode ser fatal. Efeito do Fator Gravitacional sobre as Pressões Arteriais e Demais Pressões. O fator gravitacional também afeta as pressões nas artérias periféricas e capilares, além de apresentar efeitos sobre as veias. Por exemplo, a pessoa em pé que apresenta pressão arterial média de 100 mmHg, na região do coração, tem pressão arterial nos pés de cerca de 190 mmHg. Portanto, quando afirmamos que a pressão arterial é de 100 mmHg, isso em geral significa que essa é a pressão em nível gravitacional do coração, mas não necessariamente em outras partes dos vasos arteriais. Válvulas Venosas e a "Bomba Venosa": seus Efeitos sobre a Pressão Venosa Se as veias não tivessem válvulas, o efeito da pressão gravitacional faria com que a pressão venosa nos pés fosse sempre de +90 mmHg no adulto em posição ortostática. Entretanto, cada vez que as pernas são movimentadas, a contração dos músculos comprime as veias localizadas no interior ou adjacentes aos músculos, o que ejeta o sangue para adiante para fora das veias. Contudo, as válvulas das veias, ilustradas na Figura 15-11, estão dispostas de modo que o único sentido possível do fluxo sanguíneo venoso seja em direção ao coração. Consequentemente, cada vez que uma pessoa move as pernas ou até mesmo ten- siona seus músculos, certa quantidade de sangue venoso é propelida em direção ao coração. Esse sistema de bom- beamento é referido como “bomba venosa” ou “bomba muscular” e é tão eficiente que, sob circunstâncias habituais, a pressão venosa nos pés do adulto enquanto caminha permanece abaixo de +20 mmHg. Se a pessoa fica em pé, mas completamente imóvel, parada, a bomba venosa não funciona, e as pressões venosas na parte inferior das pernas aumentam para o valor gravitacional total de 90 mmHg em cerca de 30 segundos. As pressões nos capilares também aumentam muito, fazendo com que o líquido saia do sistema circulatório para os espaços teciduais. Como resultado, as pernas ficam inchadas, e o volume sanguíneo diminui. De fato, a pessoa pode perder entre 10% e 20% do volume sanguíneo do sistema circulatório após perma- Veia profunda necer absolutamente imóvel, estática, em pé, por 15 a 30 minutos, o que frequentemente ocorre quando um soldado recebe a ordem de permanecer em posição de sentido. A Incompetência das Válvulas Venosas Provoca Veias “Varicosas". As válvulas do sistema venoso muitas vezes ficam “incompetentes”, chegando às vezes a ser destruídas. Isso é de modo especial muito frequente quando as veias são excessivamente distendidas por alta pressão venosa que dure semanas ou meses, como ocorre na gravidez ou quando a pessoa passa a maior parte do tempo em pé. A distensão das veias aumenta suas áreas de seção transversa, mas os folhetos das válvulas não aumentam de tamanho. Portanto, os folhetos passam a ficar incapazes de se fechar completamente. Quando isso ocorre, a pressão nas veias das pernas aumenta muito em virtude da falência da bomba venosa, o que aumenta ainda mais o calibre das veias e, por fim, destrói de forma total a função das válvulas. Assim, o indivíduo desenvolve “veias varicosas”, caracterizadas por grandes protrusões bolho- sas das veias sob a pele de toda a perna, principalmente nas regiões mais inferiores. Quando pessoas com veias varicosas permanecem de pé por mais de alguns minutos, as pressões capilares e venosas ficam muito altas, e a saída de líquido dos capilares provoca edema nas pernas. Esse edema, por sua vez, impede a difusão adequada de nutrientes dos capilares para as células musculares e cutâneas; assim, os músculos ficam doloridos e fracos, e a pele frequentemente se torna gangrenosa e ulcerada. O melhor tratamento para essa condição é a elevação contínua das pernas em nível no mínimo tão alto quanto o do coração. Bandagens apertadas sobre as pernas podem contribuir consideravelmente para a prevenção do edema e suas sequelas. 184
  • 207. Capítulo 15 Distensibilidade Vascular e Funções dos Sistemas Arterial e Venoso Estimativa Clínica da Pressão Venosa. A pressão venosa pode com frequência ser estimada simplesmente pela observação do grau de distensão das veias periféricas — especialmente as veias do pescoço. Por exemplo, na posição sentada as veias do pescoço nunca estão distendidas na pessoa normal em repouso. Entretanto, quando a pressão atrial direita aumenta para +10 mmHg, as veias na parte inferior do pescoço começam a se distender; quando a pressão atrial atinge +15 mmHg, na prática todas as veias do pescoço estão distendidas. Medida Direta da Pressão Venosa e da Pressão Atrial Direita A pressão venosa também pode ser medida com facilidade pela inserção de agulha conectada a medidor de pressão diretamente na veia. O único meio pelo qual a pressão atrial direita pode ser medida com precisão é a introdução de um cateter pelas veias periféricas até o átrio direito. As pressões medidas por esses cateteres venosos centrais são usadas quase rotineiramente em alguns tipos de pacientes cardíacos internados para permitir a avaliação constante da capacidade de bombeamento do coração. Nível de Referência para a Medida da Pressão Venosa e de Outras Pressões Circulatórias Nas discussões até aqui, frequentemente afirmamos que a pressão atrial direita é de 0 mmHg, e a pressão arterial, de 100 mmHg, mas não citamos o nível gravitacional no sistema circulatório a que essa pressão se refere. Existe ponto no sistema circulatório no qual os fatores pressóricos gravi- tacionais, causados por alterações da posição do corpo de pessoa saudável, não afetam em geral a medida da pressão por mais de 1 a 2 mmHg. Esse ponto é próximo ao nível da valva tricúspide, como mostrado pelo cruzamento dos eixos na Figura 15-12. Por isso, todas as medidas de pressões circulatórias discutidas neste texto se referem a esse nível, que é chamado de nível de referência para a medida da pressão. Essa ausência de efeitos gravitacionais ocorre na valva tricúspide porque o coração automaticamente impede alterações gravitacionais significativas da pressão nesse ponto da seguinte maneira: Se a pressão na valva tricúspide se elevar mesmo pouco acima da normal, o preenchimento do ventrículo direito Ventrículo direito Figura 15-12 Ponto de referência para a medida das pressões circulatórias (localizado próximo à valva tricúspide). será maior, fazendo com que o coração bombeie sangue com maior rapidez e assim diminua a pressão na valva tricúspide até o valor médio normal. Por sua vez, se a pressão cair, o ventrículo deixará de ser adequadamente cheio, seu bombeamento diminuirá e o sangue será represado no sistema venoso até que a pressão, o nível da valva tricúspide, se normalize. Em outras palavras, o coração age como um contrar- regulador por feedback da pressão na valva tricúspide. Quando a pessoa está em decúbito dorsal, a valva tricúspide se localiza quase exatamente a 60% da espessura do tórax, acima das costas. Esse é o nível de referência da pressão zero para a pessoa deitada. Função de Reservatório de Sangue das Veias Como apontado no Capítulo 14, mais de 60% do sangue no sistema circulatório fica em geral nas veias. Por esse motivo e, também por causa da grande complacência venosa, diz-se que o sistema venoso atua como um reservatório de sangue para a circulação. Quando o organismo perde sangue e a pressão arterial começa a cair, são desencadeados sinais nervosos pelos seios carotídeos e pelas outras áreas sensíveis à pressão do sistema circulatório, como discutido no Capítulo 18. Esses sinais, por sua vez, fazem com que o encéfalo e a medula espinhal emitam sinais nervosos, principalmente por meio dos nervos simpáticos para as veias, provocando sua constrição. Isso compensa o baixo fluxo no sistema circulatório provocado pela perda de sangue. De fato, mesmo após a perda de até 20% do volume sanguíneo total, o sistema circulatório muitas vezes funciona de maneira praticamente normal devido a essa função de reservatório variável das veias. Reservatórios Sanguíneos Específicos. Determinadas partes do sistema circulatório são tão extensas e/ou complacentes que são chamadas de “reservatórios sanguíneos específicos de sangue”. Elas incluem (1) o baço que, em alguns casos, pode diminuir seu tamanho a ponto de liberar até 100 mililitros de sangue para outras áreas da circulação; (2) o fígado, cujos seios podem liberar muitas centenas de mililitros de sangue para o restante da circulação; (3) as grandes veias abdominais, que podem contribuir com até 300 mililitros; e (4) o plexo venoso sob a pele, que também pode contribuir com muitas centenas de mililitros. O coração e os pulmões, embora não sejam parte do sistema de reservatórios venosos sistêmicos, também devem ser considerados reservatórios de sangue. O tamanho do coração, por exemplo, diminui durante o estímulo simpático e dessa forma pode contribuir com 50 a 100 mililitros de sangue; os pulmões podem contribuir com outros 100 a 200 mililitros quando as pressões pulmonares diminuem até baixos valores. Baço como um Reservatório para os Eritrócitos. A Figura 15-13 mostra que o baço apresenta duas áreas separadas para o armazenamento de sangue: os seios venosos e a polpa. Os seios podem ficar inchados, bem 185
  • 208. Unidade IV A Circulação Polpa Capilares Seios venosos Veia Artéria Figura 15-13 Estruturas funcionais do baço. (Cortesia do Dr. Don W. Fawcett, Montana.) como qualquer outra parte do sistema venoso, e armazenar todos os componentes sanguíneos. Na polpa esplênica, os capilares são tão permeáveis que todo o sangue, incluindo os eritrócitos, atravessa as paredes dos capilares passando para a trama trabecular e formando a polpa vermelha. Os eritrócitos são aprisionados pelas trabéculas, enquanto o plasma flui para os seios venosos e daí, para a circulação geral. Consequentemente, a polpa vermelha do baço é reservatório especial que contém grande quantidade concentrada de eritrócitos. Esses eritrócitos podem ser lançados na circulação geral quando o sistema nervoso simpático é excitado, o que provoca a contração do baço e de seus vasos. Até 50 mililitros de eritrócitos concentrados podem ser liberados para a circulação, aumentando em 1% a 2% o hematócrito. Em outras áreas da polpa esplênica, existem ilhotas de leucócitos, que são coletivamente chamadas de polpa branca. Nesse local, são produzidas células linfoides semelhantes às produzidas nos linfonodos. Essas células fazem parte do sistema imune do organismo, descrito no Capítulo 34. Função de Limpeza do Sangue do Baço — Remoção de Células Velhas As células sanguíneas ao passarem pela polpa esplênica são muito comprimidas antes de penetrar nos seios. Por conseguinte, é de se esperar que os frágeis eritrócitos não suportem o traumatismo. Por esse motivo, grande parte da destruição dos eritrócitos no organismo ocorre no baço. Após a rup tura dessas células, a hemoglobina e o estroma celular liberados são digeridos pelas células reticuloendoteliais do baço, e os produtos da digestão são na maior parte reutilizados pelo corpo como nutrientes muitas vezes para a formação de novas células. Células Reticuloendoteliais do Baço A polpa do baço contém muitas células fagocíticas reticuloendoteliais de grande tamanho, assim como os seios venosos. Essas células funcionam como parte do sistema de limpeza do sangue, agindo em conjunto com o sistema semelhante nos seios venosos do fígado. Quando o sangue é invadido por agentes infecciosos, as células reticuloendoteliais do baço removem rapidamente os detritos celulares, as bactérias, os parasitas e outros. Além disso, em muitos processos infecciosos crônicos, o baço aumenta de volume, cresce da mesma maneira que os linfonodos e realiza sua função de limpeza com ainda maior avidez. Referências Badeer HS: Hemodynamics for medicai students. Am J Physiol (AdvPhysiol Educ) 25:44, 2001. Guyton AC: ArterialPressure andHypertension. Philadelphia: WB Saunders, 1980. Guyton AC, Jones CE: Central venous pressure: physiological significance and clinicai implications. Am HeartJ 86:431,1973. Guyton AC, Jones CE, Coleman TG: Circulatory Physiology: Cardiac Output andIts Regulation. Philadelphia: WB Saunders, 1973. Hall JE: Integration and regulation of cardiovascular function. AmJPhysiol [Adv Physiol Educ) 22:S174,1999. Hicks JW, Badeer HS: Gravity and the circulation: “open” vs. "closed" Systems. AmJPhysiol 262:R725-R732,1992. Jones DW, Appel LJ, Sheps SG, et al: Measuring blood pressure accurately: New and persistent challengesJAMA 289:1027, 2003. Kass DA: Ventricular arterial stiffening: integrating the pathophysiology, Hypertension 46:185, 2005. Kurtz TW, Griffin KA, Bidani AK, et al: Recommendations for blood pressure measurement in humans and experimental animais. Part 2: Blood pressure measurement in experimental animais: a statement for pro- fessionals from the Subcommittee of Professional and Public Education of the American Heart Association Council on High Blood Pressure Research, Hypertension 45:299, 2005. 0'Rourke MF, Nichols WW: Aortic diameter, aortic stiffness, and wave reflection increase with age and isolated systolic hypertension, Hypertension 45:652, 2005. Laurent S, Boutouyrie P, Lacolley P: Structural and genetic bases of arterial stiffness, Hypertension 45:1050, 2005. Pickering TG, Hall JE, Appel LJ, et al: Recommendations for blood pressure measurement in humans and experimental animais: Part 1: blood pressure measurement in humans: a statement for professionals from the Subcommittee of Professional and Public Education of the American Heart Association Council on High Blood Pressure Research, Hypertension 45:142, 2005. Wilkinson IB, Franklin SS, Cockcroft JR: Nitric oxide and the regulation of large artery stiffness: from physiology to pharmacology, Hypertension 44:112, 2004. 186
  • 209. CAPÍTULO 16 A Microcirculação e o Sistema Linfático: Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa Na microcirculação ocorre a principal função do sis- tema circulatório: o trans- porte de nutrientes para os tecidos e a remoção dos produtos da excreção celu- lar. As pequenas arteríolas controlam o fluxo sanguíneo para cada tecido, e as con- dições locais nos tecidos, por sua vez, controlam o diâ- metro das arteríolas. Assim, cada tecido na maioria dos casos controla seu próprio fluxo sanguíneo, de acordo com suas próprias necessidades, conforme discutido no Capítulo 17. As paredes dos capilares são extremamente delgadas, formadas por camada única de células endoteliais muito permeáveis. Desse modo, pode ocorrer intercâmbio rápido e fácil de água, nutrientes e excrementos celulares entre os tecidos e o sangue circulante. A circulação periférica em todo o corpo contém apro- ximadamente 10 bilhões de capilares, com superfície total estimada entre 500 e 700 metros quadrados (cerca de um oitavo da área de um campo de futebol). De fato, só muito raramente alguma célula funcional do orga- nismo se encontra a mais de 20 a 30 micrômetros de um capilar. Estrutura da Microcirculação e do Sistema Capilar A microcirculação de cada órgão está organizada, de forma específica, para atender às suas necessidades. Em geral, cada artéria nutriente que penetra em um órgão se ramifica por seis e oito vezes antes que seus ramos fiquem suficientemente pequenos para serem chamados arteríolas que, em geral, têm diâmetros internos de apenas 10 a 15 micrômetros. As arteríolas então se ramificam de novo por mais duas a cinco vezes, atingindo diâmetros de 5 a 9 micrômetros em suas porções terminais, de onde suprem o sangue para os capilares. As arteríolas são muito musculares, podendo alterar por muitas vezes seu diâmetro. As metarteríolas (as arteríolas terminais) não têm revestimento muscular contí nuo; ao contrário, as fibras musculares lisas circundam os vasos em pontos intermitentes, como mostrado na Figura 16- 1 pelos pontos pretos nos lados da metarteríola. No ponto onde cada capilar verdadeiro se origina da metarteríola, uma fibra muscular lisa circunda em geral o capilar. Essa fibra muscular forma o esfíncter pré-capilar que pode abrir e fechar a entrada do capilar. As vênulas são maiores que as arteríolas e têm revestimento muscular muito mais fraco. Contudo, a pressão nas vênulas é muito menor que nas arteríolas, assim as primeiras ainda podem se contrair de forma considerável, apesar da fraca musculatura. Essa estrutura típica do leito capilar não é encontrada em todas as partes do corpo; embora disposição semelhante possa servir para os mesmos propósitos. O mais importante é o fato de que as metarteríolas e os esfínc- teres pré-capilares estão em contato íntimo com os tecidos que irrigam. Por conseguinte, as condições locais dos tecidos — as concentrações de nutrientes, produtos finais do metabolismo, íons hidrogênio e assim por diante — podem causar efeitos diretos sobre os vasos, no controle do fluxo sanguíneo local, em cada pequena região tecidual. Estrutura da Parede Capilar. A Figura 16-2 mostra a estrutura ultramicroscópica de células endoteliais típicas na parede capilar encontradas na maioria dos órgãos do corpo, especialmente nos músculos e no tecido con- juntivo. Note que a parede é composta por camada unice- Figura 16-1 Estrutura do leito capilar mesentérico. (Redesenhado de Zweifach BW: Factors Regulating Blood Pressure. New York: Josiah Macy, Jr., Foundation, 1950.) 187 U N I D A
  • 210. Unidade IV A Circulação Membrana basal Fenda intercelular Célula endotelial uai iai vesicular?? Caveolina jj Fosfolipídio jj Esfingolipídio Colesterol Figura 16-2 Estrutura da parede capilar. Note especialmente a fenda intercelular na junção entre células endoteliais adjacentes; acredita-se que a maior parte das substâncias hidrossolúveis se difunda através da membrana capilar por essas fendas. Pequenas invaginações membranares, denominadas cavéolas, são acreditadas terem papel no transporte de macromoléculas através da membrana celular. As cavéolas contêm caveolinas, proteínas que interagem com colesterol e polimerizam para formar as cavéolas. lular de células endoteliais e é circundada por membrana basal fina no lado externo do capilar. A espessura total da parede capilar é de apenas cerca de 0,5 micrômetro. O diâmetro interno do capilar é de 4 a 9 micrômetros, justo o necessário para que os eritrócitos e outras células sanguíneas possam passar por ele. "Poros" na Membrana Capilar. A Figura 16-2 mostra duas pequenas vias de passagem ligando o interior do capilar ao exterior. Uma delas é a fenda intercelular, que é o fino canal curvado na parte inferior da figura entre células endoteliais adjacentes. Cada fenda é interrompida periodicamente por curtas cadeias de proteínas aderidas que mantêm as células endoteliais unidas, mas entre essas cadeias o líquido pode se difundir livremente pela fenda. A fenda nas condições normais apresenta largura uniforme de cerca de 6 a 7 nanômetros (60 a 70 ângs- trons), o que é pouco menor que o diâmetro da molécula da proteína albumina. Como as fendas intercelulares se localizam somente nas margens das células endoteliais, elas representam nada mais que 1/1.000 da superfície total da parede capilar. Entretanto, a velocidade/intensidade da movimentação térmica das moléculas de água, de outros íons hidrossolúveis e dos pequenos solutos é tão rápida que essas substâncias podem se difundir facilmente entre o interior e o exterior dos capilares através das fendas intercelulares. Nas células endoteliais, existem muitas vesículas plas- malêmicas diminutas, também chamadas de cavéolas (pequenas cavidades). Estas são formadas a partir de oli- gômeros de proteínas chamadas caveolinas que estão associadas a moléculas de colesterol e esfingolipídeos. Apesar de a função precisa das cavéolas ainda não ser clara, acredita-se que elas desempenham papel na endo- citose (o processo no qual a célula engolfa material de fora da célula) e transcitose de macromoléculas através das células endoteliais. As cavéolas, na superfície celular, parecem captar pequenas porções de plasma ou de líquido extra- celular, contendo proteínas plasmáticas. Essas vesículas podem se mover lentamente através da célula endotelial. Algumas dessas vesículas podem coalescer formando canais vesiculares por toda a espessura da célula endotelial, como mostrado na Figura 16-2. Existem Tipos Especiais de "Poros” nos Capilares de Certos Órgãos. Os “poros” nos capilares de alguns órgãos apresentam características especiais que se adaptam às necessidades peculiares desses órgãos. Algumas dessas características são as seguintes: 1. No cérebro, as junções entre as células endoteliais capilares são, em sua maior parte, junções “oclusivas” (tight junctions) que só permitem a passagem de moléculas extremamente pequenas, tais como água, oxigênio e dióxido de carbono para dentro ou fora dos tecidos cerebrais. 2. No fígado, ocorre o oposto. As fendas entre as células endoteliais capilares são muito abertas, de modo que quase todas as substâncias dissolvidas no plasma, incluindo proteínas plasmáticas, podem passar do sangue para os tecidos hepáticos. 3. Os poros, nas membranas capilares gastrintestinais, apresentam tamanhos intermediários entre os poros dos músculos e os do fígado. 4. Nos glomérulos capilares renais, muitas pequenas aberturas ovais, chamadas fenestrações, atravessam pelo meio as células endoteliais, de modo que enormes quantidades de substâncias iônicas e moleculares muito pequenas (e não as grandes moléculas das proteínas plasmáticas) podem ser filtradas pelos glomérulos sem ter de passar pelas fendas entre as células endoteliais. Fluxo de Sangue nos Capilares — Vasomotilidade O sangue, em geral, não flui de modo contínuo pelos capilares. Ao contrário, o fluxo é intermitente, ocorrendo ou sendo interrompido a cada poucos segundos ou minutos. A causa dessa intermitência é o fenômeno chamado de vasomotilidade, que consiste na contração intermitente das metarteríolas e dos esfíncteres pré-capilares (e, às vezes, até mesmo das pequenas arteríolas). 188
  • 211. Capítulo 16 A Microcirculação e o Sistema Linfátíco:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa Regulação da Vasomotilidade. O fator mais importante entre os já identificados para a determinação do grau de abertura e fechamento das metarteríolas e dos esfíncteres pré-capilares é a concentração de oxigênio nos tecidos. Quando a intensidade do consumo de oxigênio pelos tecidos é tão grande que sua concentração de oxigênio cai abaixo da normal, os períodos intermitentes de fluxo sanguíneo capilar ocorrem com maior frequência, e a duração de cada período aumenta, permitindo desse modo que o sangue capilar transporte maior quantidade de oxigênio (bem como de outros nutrientes) para os tecidos. Esse efeito, junto com muitos outros fatores que controlam o fluxo sanguíneo tecidual local, é discutido no Capítulo 17. Função Média do Sistema Capilar Apesar de o fluxo sanguíneo por cada capilar ser intermitente, existem tantos capilares nos tecidos que seu funcionamento é a média do funcionamento de todos os capilares individuais, ou seja, existe intensidade média de fluxo sanguíneo em cada leito capilar tecidual, pressão capilar média nos capilares e transferência média de substâncias entre o sangue dos capilares e o líquido intersticial que os circunda. No restante deste capítulo, estaremos preocupados com essas médias, embora devamos nos lembrar de que as funções médias são na realidade as funções de literalmente bilhões de capilares individuais, cada um atuando de forma intermitente em resposta às condições locais dos tecidos. Trocas de Água, Nutrientes e Outras Substâncias entre o Sangue e o Líquido Intersticial Difusão através da Membrana Capilar O meio mais importante de transferência de substâncias entre o plasma e o líquido intersticial é a difusão. A Figura 16- 3 ilustra esse processo, mostrando que, à medida que o sangue flui ao longo do lúmen capilar, enorme quantidade de moléculas de água e de partículas dissolvidas se difunde para dentro e para fora, através da parede capilar, provocando mistura contínua do líquido intersticial e do plasma. A difusão resulta da movimentação térmica das moléculas de água e das substâncias dissolvidas no líquido-, as diferentes moléculas e os íons se movem inicialmente em uma direção e, a seguir, em outra, se deslocando aleatoriamente em todas as direções. Substâncias Lipossolúveis Podem se Difundir diretamente através das Membranas Celulares do En- dotélio Capilar. Se a substância for lipossolúvel, ela pode se difundir diretamente através das membranas celulares do capilar sem ter de atravessar os poros. Essas substâncias incluem o oxigênio e o dióxido de carbono. Como essas substâncias podem permear todas as regiões da membrana capilar, suas intensidades/velocidades de Extremidade arterial Capilar sanguíneo Extremidade venosa o > Figura 16-3 Difusão de moléculas de líquido e de substâncias dissolvidas entre o capilar e os espaços do líquido intersticial. transporte através da membrana capilar são muitas vezes maiores que as de substâncias lipoinsolúveis, como íons sódio e glicose, que só podem atravessar a membrana passando pelos poros. Substâncias Hidrossolúveis, não Lipossolúveis, se Difundem através de "Poros" Intercelulares na Membrana Capilar. Muitas substâncias, necessárias para os tecidos, são solúveis em água, mas não podem cruzar as membranas lipídicas das células endoteliais; essas substâncias incluem as próprias moléculas de água, os íons sódio, íons cloreto e glicose. Apesar de não mais que 1/1.000 da superfície dos capilares ser representada pelas fendas intercelulares endoteliais, a velocidade da movimentação térmica molecular pelas fendas é tão grande que mesmo essa pequena área é suficiente para permitir a enorme difusão de água e substâncias hidrossolúveis. Para que se tenha ideia da velocidade com que essas substâncias se difundem, a intensidade da difusão de moléculas de água, através da membrana capilar, é cerca de 80 vezes maior que a do fluxo linear do próprio plasma ao longo do capilar, ou seja, a água do plasma é trocada com a água do líquido intersticial 80 vezes antes que o plasma possa fluir por toda a extensão do capilar. Efeito do Tamanho Molecular sobre a Passagem através dos Poros. A largura das fendas intercelulares capilares, de 6 a 7 nanômetros, é cerca de 20 vezes maior que o diâmetro da molécula de água, que é a menor molécula entre as que normalmente cruzam os poros capilares. Por sua vez, os diâmetros das moléculas das proteínas plasmáticas são ligeiramente maiores que a largura dos poros. Outras substâncias, como íons sódio, íons cloreto, glicose e ureia, apresentam diâmetros intermediários. Por conseguinte, a permeabilidade dos poros capilares para as diferentes substâncias varia de acordo com seus diâmetros moleculares. 189 U N
  • 212. Unidade IV A Circulação A Tabela 16-1 apresenta as permeabilidades relativas dos poros capilares no músculo esquelético para substâncias habitualmente encontradas, demonstrando, por exemplo, que a permeabilidade das moléculas de glicose é igual a 0,6 vez a das moléculas de água, enquanto a permeabilidade de moléculas de albumina é extremamente pequena, de apenas 1/1.000 em relação às moléculas de água. Neste ponto, é preciso um alerta. Os capilares, em vários tecidos, apresentam grandes diferenças de suas permeabilidades. Por exemplo, as membranas dos capilares sinusoides hepáticos são tão permeáveis que até mesmo as proteínas plasmáticas passam livremente por suas paredes, quase que com tanta facilidade quanto a água e outras substâncias. Além disso, a permeabilidade da membrana glomerular renal, para a água e os eletró- litos, é cerca de 500 vezes maior que a permeabilidade dos capilares musculares, o que não ocorre em relação às proteínas, cujas permeabilidades são muito pequenas, assim como em outros órgãos e tecidos. Quando estudarmos esses diferentes órgãos mais adiante neste texto, deverá ficar claro o motivo por que alguns tecidos precisam de graus muito maiores de permeabilidade capilar que outros — no fígado, por exemplo — essa permeabilidade é necessária para transferir enormes quantidades de nutrientes entre o sangue e as células do parênquima hepático, e, nos rins, para permitir a filtração de grandes quantidades de líquido para a formação da urina. Efeito da Diferença de Concentração sobre a Intensidade Efetiva da Difusão através da Membrana Capilar. A intensidade “efetiva” de difusão de uma substância, através de qualquer membrana, é proporcional à sua diferença de concentração entre os dois lados da membrana. Isto é, quanto maior a diferença entre as concentrações de qualquer substância entre os dois lados da membrana capilar, maior será o movimento total da subs Tabela 16-1 Permeabilidade Relativa dos Poros Capilares do Músculo Esquelético a Moléculas de Diferentes Tamanhos Substância Peso Molecular Permeabilida de Água 18 1,00 NaCl 58,5 0,96 Ureia 60 0,8 Glicose 180 0,6 Sacarose 342 0,4 Inulina 5.000 0,2 Mioglobina 17.600 0,03 Flemoglobina 68.000 0,01 Albumina 69.000 0,001 Dados extraídos de Pappenheimer JR: Passage of molecules through capillary walls. Physiol Rev 33:387,1953. tância em uma das direções. Por exemplo, a concentração de oxigênio no sangue capilar é, nas condições normais, maior que no líquido intersticial. Portanto, grande quantidade de oxigênio normalmente se move do sangue para os tecidos. Ao contrário, a concentração de dióxido de carbono é maior nos tecidos que no sangue, o que faz com que o excesso de dióxido de carbono se mova para o sangue, sendo eliminado dos tecidos. As intensidades da difusão através das membranas capilares da maioria das substâncias nutricionalmente importantes são tão grandes que mesmo pequenas diferenças de concentração são suficientes para provocar o transporte adequado entre o plasma e o líquido intersticial. Por exemplo, a porcentagem da concentração de oxigênio no líquido intersticial, imediatamente por fora do capilar, é apenas ligeiramente superior que a concentração no plasma; ainda assim, essa pequena diferença faz com que quantidade suficiente de oxigênio se mova do sangue para os espaços intersticiais, fornecendo todo o oxigênio necessário para o metabolismo tecidual, com frequência chegando a muitos litros de oxigênio por minuto, durante os estados muito ativos do organismo. Interstício e o Líquido Intersticial Cerca de um sexto do volume corporal total consiste em espaços entre as células que são, em seu conjunto, referidos como o interstício. O líquido nesses espaços é o líquido intersticial. A estrutura do interstício é mostrada na Figura 16-4. Esse espaço contém dois tipos principais de estruturas sólidas: (1) feixes de fibras de colágeno e (2) füamentos de proteoglicanos. Os primeiros estendem-se por longas distâncias pelo interstício. São extremamente fortes Capilar Filamentos de proteoglicano s Feixes de fibras de colágeno Vesículas de líquido livre Correntes de líquido livre Figura 16-4 Estrutura do interstício. Existem filamentos de proteoglicanos em todos os pontos nos espaços entre os feixes de fibras de colágeno. Vesículas de líquido livre e pequena quantidade de líquido livre na forma de correntes podem ocorrer ocasionalmente. 190
  • 213. Capítulo 16 A Microcirculação e o Sistema Linfático:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa e assim fornecem a maior parte da força tensional dos tecidos. Os filamentos de proteoglicanos, entretanto, são moléculas espiraladas ou retorcidas, extremamente finas, compostas por cerca de 98% de ácido hialurô- nico e 2% de proteínas. Essas moléculas são tão delgadas que não podem ser vistas ao microscópio óptico e são difíceis de ser demonstradas até mesmo ao microscópio eletrônico. Entretanto, formam trama de delicados filamentos reticulares, descritos como “pila em arbusto” (,brush pile). "Gel” no Interstício. O líquido no interstício é derivado da filtração e da difusão pelos capilares. Ele contém praticamente os mesmos constituintes que o plasma, exceto por concentrações muito menores de proteínas porque estas não passam com facilidade pelos poros capilares. O líquido intersticial fica retido principalmente em diminutos espaços entre os filamentos de proteoglicanos. Essa combinação de filamentos de proteoglicanos e líquido retido entre eles tem a característica de um gel, sendo assim chamada de gel tecidual. Em virtude do grande número de filamentos de proteoglicanos, o líquido tem dificuldade em fluir pelo gel tecidual. Ao contrário, ele essencialmente se difunde através do gel; ou seja, ele se move, molécula a molécula, de um lugar para outro por movimentação térmica cinética em vez de haver grande número de moléculas se movendo em conjunto. A velocidade da difusão pelo gel é de 95% a 99%, em relação à difusão livre pelo líquido. Nas curtas distâncias entre os capilares e as células teciduais, essa difusão permite o rápido transporte pelo interstício, não apenas de moléculas de água, mas também de eletrólitos, nutrientes de baixo peso molecular, produtos da excreção celular, oxigênio, dióxido de carbono etc. é possível observar o fluxo pelo interstício de pequenas correntes, em geral cursando ao longo das superfícies das fibras de colágeno ou das células. A quantidade de líquido “livre” presente nos tecidos normais é pequena, usualmente menor que 1%. Por sua vez, quando os tecidos desenvolvem edema, essas pequenas porções e correntes de líquido livre se expandem de modo muito acentuado, até que a metade ou mais do líquido do edema passe a ser líquido livre, independente dos filamentos de proteoglicanos. A Filtração do Líquido pelos Capilares É Determinada pelas Pressões Osmóticas Hidrostáticas e Coloidais e Também pelo Coeficiente de Filtração Capilar A pressão hidrostática, nos capilares, tende a forçar o líquido e as substâncias nele dissolvidas através dos poros capilares para os espaços intersticiais. Por sua vez, a pressão osmótica, gerada pelas proteínas plasmáticas (chamada de pressão coloidosmótica), tende a fazer com que o líquido se movimente por osmose dos espaços intersticiais para o sangue. Essa pressão osmótica, exercida pelas proteínas plasmáticas, impede normalmente a perda significativa de líquido do sangue para os espaços intersticiais. Outro fator importante é o sistema linfático, que traz de volta para a circulação pequenas quantidades de proteínas e de líquido em excesso que extravasam do sangue para os espaços intersticiais. No restante deste capítulo, discutiremos os mecanismos que controlam em conjunto a filtração capilar e a função do fluxo linfático para regular os volumes respectivos do plasma e do líquido intersticial. Líquido "Livre” no Interstício. Embora quase todo o líquido no interstício nas condições normais esteja retido no gel tecidual, por vezes, também ocorrem pequenas correntes de líquido “livre” e pequenas vesículas de líquido livre, o que significa líquido sem moléculas de proteoglicanos, e que assim pode se mover livremente. Quando se injeta pigmento no sangue circulante, frequentemente Forças Osmóticas Hidrostáticas e Coloidais Determinam o Movimento de Líquido através da Membrana Capilar. A Figura 16-5 mostra as quatro forças primárias que determinam se o líquido se moverá do sangue para o líquido intersticial ou no sentido inverso. Essas forças, chamadas de “forças de Starling” em homenagem ao fisiologista que primeiro demonstrou sua importância, são: t Pressão do líquido intersticial Pressão coloidosmótica do líquido intersticial (PIÍ) (nii) Figura 16-5 As forças da pressão do líquido e pressão coloidosmótica atuam sobre a membrana capilar, tendendo a mover o líquido para fora ou para dentro dos poros da membrana. A pressão capilar (Pc), que tende a forçar o líquido para fora através da membrana capilar. A pressão do líquido intersticial (Pli), que tende a forçar o líquido para dentro através da membrana capilar quando a Pli for positiva, mas, para fora, quando a Pli for negativa. A pressão coloidosmótica plasmática capilar (TTp), que tende a provocar a osmose de líquido para dentro, através da membrana capilar. A pressão coloidosmótica do líquido intersticial (Elli), que tende a provocar osmose de líquido para fora através da membrana capilar. 191 U N I D A
  • 214. Unidade IV A Circulação Se a soma dessas forças — a pressão efetiva de filtração — for positiva, ocorrerá filtração de líquido pelos capilares. Se a soma for negativa, ocorrerá absorção de líquido. A pressão efetiva de filtração (PEF) é calculada por: PEF = Pc-pu-np + nii Como discutido, a PEF é ligeiramente positiva nas condições normais, resultando em filtração de líquido pelos capilares para o espaço intersticial na maioria dos órgãos. A intensidade da filtração de líquido no tecido também é determinada pelo número e pelo tamanho dos poros em cada capilar, bem como pelo número de capilares pelos quais o sangue flui. Esses fatores são, em geral, expressos como coeficiente de filtração capilar (I<f). Kf é, portanto, uma medida da capacidade das membranas capilares de filtrar água sob dada PEF e é usualmente expresso por mL/min por mmHg da pressão efetiva de filtração. A intensidade/velocidade da filtração de líquido capilar é, então, determinada por: Filtração = Kf x PEF Nas próximas seções, discutiremos cada uma dessas forças que determinam a intensidade da filtração de líquido capilar. Pressão Hidrostática Capilar Foram usados vários métodos experimentais para estimar a pressão hidrostática capilar: (1) canulação direta por micropipeta dos capilares, que obteve pressão capilar média de cerca de 25 mmHg, em alguns tecidos como o músculo esquelético e o intestino e (2) medida funcional indireta da pressão capilar, que obteve pressão capilar média de 17 mmHg nesses tecidos. Método da Micropipeta para a Medida da Pressão Capilar. Para medir a pressão capilar por canulação, uma pipeta microscópica de vidro é inserida diretamente no capilar, e a pressão é medida por micromanômetro. Usando-se esse método, mediram-se as pressões em capilares de tecidos expostos de animais e em grandes alças capilares do eponíquio na base das unhas em humanos. Essas medidas deram pressões de 30 a 40 mmHg nas extremidades arteriais dos capilares, 10 a 15 mmHg nas extremidades veno- sas, e cerca de 25 mmHg na porção intermediária. Em alguns capilares, tais como os capilares glomeru- lares dos rins, a pressão medida pelo método de micropipeta é muito maior, com média de aproximadamente 60 mmHg. Os capilares peritubulares dos rins, em contraste, têm pressão hidrostática com média de aproximadamente 13 mmHg. Assim, as pressões hidrostáticas dos capilares em diferentes tecidos são altamente variáveis, dependendo do tecido e da condição fisiológica. Método Isogravimétrico para a Medida Indireta da Pressão Capilar “Funcional". A Figura 16-6 ilustra o método isogravimétrico para estimar indiretamente a pressão capilar. Essa figura mostra um segmento de intestino suspenso em um dos braços de balança gravimétrica. 100 50 0 Pressão arterial - pressão venosa Figura 16-6 Método isogravimétrico para a medida da pressão capilar. O sangue é perfundido pelos vasos sanguíneos da parede do intestino. Quando a pressão arterial é reduzida, a diminuição resultante da pressão capilar permite que a pressão osmótica das proteínas do plasma provoque a absorção de líquido para fora da parede intestinal, reduzindo o peso do intestino. Isso provoca a movimentação imediata do braço da balança. Para impedir essa diminuição do peso, a pressão venosa é aumentada o suficiente para superar o efeito da diminuição na pressão arterial. Em outras palavras, a pressão capilar é mantida constante enquanto, ao mesmo tempo, (1) a pressão arterial é diminuída e (2) a pressão venosa é aumentada. No gráfico, na parte inferior da figura, são mostradas as alterações nas pressões arterial e venosa que mantêm constante o peso do intestino. As linhas arterial e venosa encontram-se no valor de 17 mmHg. Portanto, a pressão capilar deve ter permanecido nesse mesmo nível durante as manobras; caso contrário, teria ocorrido filtração ou absorção de líquido através das paredes capilares. Assim, de maneira indireta, a pressão capilar “funcional” nesse tecido é medida como sendo de cerca de 17 mmHg. 192
  • 215. Capítulo 16 A Microcirculação e o Sistema Linfático:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa É evidente que o método isogravimétrico, que determina a pressão capilar que balanceia exatamente todas as forças que tendem a mover o líquido para dentro ou para fora dos capilares dá valor mais baixo quando comparado com a pressão capilar medida direta com a micropipeta. Razão importante para isso é que a filtração do líquido capilar não é exatamente balanceada com o líquido de reabsorção, na maior parte dos tecidos. O líquido que é filtrado em excesso ao que é reabsorvido é carregado pelos vasos linfáticos na maior parte dos tecidos. Nos capilares glomerulares dos rins, grande parte do líquido, aproximadamente 125 mL/min, é filtrada continuamente. Pressão Hidrostática do Líquido Intersticial Existem muitos métodos para se medir a pressão hidrostática do líquido intersticial, e cada um deles dá valores ligeiramente diferentes dependendo do método usado e do tecido onde a pressão é medida. No tecido subcutâneo frouxo, a pressão do líquido intersticial, medida por diferentes métodos, geralmente é alguns milímetros de mercúrio abaixo da pressão atmosférica, ou seja, os valores são referidos como pressão negativa do líquido intersticial. Em outros tecidos, cercados por cápsulas, tais como os rins, a pressão intersticial é geralmente positiva (maior do que a pressão atmosférica). Os métodos mais utilizados são (1) a canulação direta dos tecidos por micropipeta, (2) a medida da pressão por meio de cápsulas perfuradas implantadas, e (3) a medida da pressão por meio de pavios de algodão inseridos no tecido. Medida da Pressão do Líquido Intersticial por Micropipeta. O mesmo tipo de micropipeta, utilizado para a medida da pressão capilar, pode ser usado em alguns tecidos para a medida da pressão do líquido intersticial. A ponta da micropipeta tem aproximadamente 1 micrômetro de diâmetro, mas ainda assim é 20 vezes maior, ou mais, que o tamanho dos espaços entre os filamentos de proteoglicanos do interstício. Portanto, a pressão é provavelmente medida em região com líquido livre. As primeiras pressões medidas pelo método da micropipeta variavam de -1 a +2 mmHg, mas em geral eram ligeiramente positivas. Com a experiência e com a melhora dos equipamentos para a realização dessas medidas, as pressões obtidas mais recentemente foram em média de -2 mmHg, fornecendo valores médios de pressão em tecidos frouxos, como a pele, ligeiramente menores que a pressão atmosférica. Medida da Pressão de Líquido Intersticial Livre em Cápsulas Ocas Perfuradas Implantadas. A pressão no líquido intersticial livre medida por esse método, usando-se cápsulas de 2 cm de diâmetro no tecido subcutâneo normal frouxo, é, em média, de -6 mmHg, mas com cápsulas menores os valores não são muito diferentes dos -2 mmHg medidos pela micropipeta. Pressões do Líquido Intersticial em Tecidos Circundados por Estruturas Rígidas Alguns tecidos do corpo são cercados por estruturas rígidas, como a caixa craniana ao redor do encéfalo, a forte cápsula fibrosa ao redor do rim, as bainhas fibrosas ao redor dos músculos e a esclera em torno do olho. Na maioria desses tecidos, independentemente do método usado para a medida, as pressões do líquido intersticial são positivas. Entretanto, essas pressões são ainda assim quase sempre menores que as exercidas sobre o exterior dos tecidos pelas estruturas que os contêm. Por exemplo, a pressão do líquido cerebrospinal em torno do encéfalo de um animal deitado de lado é, em média, de +10 mmHg, enquanto a pressão do líquido intersticial do cérebro é, em média, de +4 a +6 mmHg. Nos rins, a pressão capsular ao redor do rim é, em média, de +13 mmHg, mas foram relatadas pressões do líquido intersticial renal de cerca de +6 mmHg. Assim, se nos lembrarmos que a pressão exercida sobre a pele é a pressão atmosférica, considerada como a pressão zero, é possível formular uma regra geral de que a pressão normal do líquido intersticial é, em geral, vários milímetros de mercúrio negativa em relação à que circunda cada tecido. A Pressão Verdadeira do Líquido Intersticial no Tecido Subcutâneo Frouxo É Subatmosférica? O conceito de que a pressão do líquido intersticial é subatmosférica em alguns tecidos do corpo ou em sua maioria foi concebido a partir de observações clínicas que não podiam ser explicadas pelo conceito anterior de que era sempre positiva. Algumas das observações pertinentes são as seguintes: 1. Quando enxerto cutâneo é implantado em superfície côncava do corpo, como na órbita após a remoção do olho, tende a ocorrer coleção de líquido sob o enxerto antes que a pele fique aderida à órbita. Além disso, a pele tende a se encurtar, o que faz com que ela seja puxada para fora da concavidade. Entretanto, alguma força negativa sob a pele causa a absorção do líquido e, em geral, literalmente puxa a pele de volta para a concavidade. 2. É necessário menos de 1 mmHg de pressão positiva para injetar grande volume de líquido nos tecidos subcutâneos, como sob a pálpebra inferior, no espaço axilar e no escroto. Volumes de líquido, aproximadamente mais de 100 vezes maiores que o normalmente presente no espaço intersticial quando injetados nessas áreas não provocam aumento maior que 2 mmHg de pressão positiva. Essas observações são importantes, pois esses tecidos não contêm fibras suficientemente fortes capazes de impedir o acúmulo de líquido, de modo que algum outro mecanismo, como um sistema de baixa complacência, deve existir para impedi-lo. 3. Na maioria das cavidades naturais do corpo, onde há líquido livre em equilíbrio dinâmico com os líquidos intersticiais que o cercam, as pressões medidas foram negativas, entre elas: Espaço intrapleural: -8 mmHg Espaços sinoviais nas articulações: -4 a -6 mmHg Espaço epidural: -4 a -6 mmHg 193 U N I D A
  • 216. Unidade IV A Circulação 4. A cápsula implantada para a medida da pressão do líquido intersticial pode ser usada para registrar suas alterações dinâmicas. Essas alterações são aproximadamente as que ocorrem quando (1) a pressão arterial é aumentada ou diminuída, (2) se injeta líquido no espaço tecidual circundante, ou (3) agente coloi- dosmótico muito concentrado é injetado no sangue para absorver líquido dos espaços teciduais. É improvável que essas alterações dinâmicas possam ser registradas com tanta precisão, a menos que a pressão da cápsula esteja muito próxima da pressão intersticial verdadeira. Resumo — O Valor Médio para a Pressão Negativa do Líquido Intersticial no Tecido Subcutâneo Frouxo. Embora os diferentes métodos mencionados produzam valores pressóricos ligeiramente diferentes do líquido intersticial, existe atualmente a crença geral entre os fisio- logistas de que a verdadeira pressão no tecido subcutâneo frouxo seja ligeiramente menos subatmosférica, com valor médio de -3 mmHg. O Bombeamento pelo Sistema Linfático É a Causa Básica da Pressão Negativa do Líquido Intersticial O sistema linfático será discutido adiante, neste capítulo, mas precisamos entender neste ponto o papel básico que ele desempenha na determinação da pressão do líquido intersticial. O sistema linfático é “lixeiro” (scavenger) que remove o excesso de líquido, proteínas, detritos orgânicos e outros materiais dos espaços teciduais. Normalmente, quando o líquido penetra nos capilares linfáticos terminais, as paredes dos vasos linfáticos se contraem, de forma automática, por alguns segundos e bombeiam o líquido para a circulação sanguínea. Esse processo cria a ligeira pressão negativa, medida nos líquidos dos espaços intersticiais. Pressão Coloidosmótica do Plasma As Proteínas Plasmáticas Causam a Pressão Coloidosmótica. Na discussão básica sobre pressão osmótica, no Capítulo 4, ressaltou-se que somente as moléculas ou íons que não são capazes de passar pelos poros da membrana semipermeável exercem pressão osmótica. Como as proteínas são os únicos constituintes dissolvidos no plasma e nos líquidos intersticiais que não atravessam facilmente os poros capilares, são elas as responsáveis pelas pressões osmóticas nos dois lados da membrana capilar. Para distinguir essa pressão osmótica da que ocorre na membrana celular, a primeira é chamada de pressão coloidosmótica ou pressão oncótica. O termo pressão “coloidosmótica” deriva do fato de que uma solução de proteínas se assemelha à solução coloidal, apesar de ser na verdade solução molecular verdadeira. Valores Normais da Pressão Coloidosmótica do Plasma. A pressão coloidosmótica do plasma humano normal é de, em média, 28 mmHg; 19 mm são causados por efeitos moleculares das proteínas dissolvidas e 9 mm pelo efeito Donnan — isto é, pressão osmótica adicional causada pelo sódio, potássio e outros cátions mantidos no plasma pelas proteínas. Efeito das Diferentes Proteínas Plasmáticas sobre a Pressão Coloidosmótica. As proteínas plasmáticas representam mistura contendo albumina, com peso molecular médio de 69.000; globulinas, 140.000; e fibrinogênio, 400.000. Assim, 1 grama de globulina contém apenas a metade do número de moléculas que um grama de albumina, e 1 grama de fibrinogênio contém apenas um sexto do número de moléculas de um grama de albumina. É importante relembrar, pela discussão sobre pressão osmótica, no Capítulo 4, que essa pressão é determinada pelo número de moléculas dissolvidas no líquido, e não por sua massa. Portanto, quando corrigido em relação ao número de moléculas em vez da massa, o quadro seguinte dá as concentrações relativas de massa (g/dL) dos diferentes tipos de proteínas no plasma normal e suas respectivas contribuições para a pressão coloidosmótica total do plasma (Ilp). g/dL Ilp (mmHg) Albumina 4,5 21,8 Globulinas 2,5 6,0 Fibrinogênio 02 02 Total 7,3 28,0 Assim, cerca de 80% da pressão coloidosmótica total do plasma resultam da fração de albumina, 20% das globulinas e praticamente 0% do fibrinogênio. Assim, do ponto de vista da dinâmica dos líquidos nos capilares e tecidos, a albumina é o fator mais importante. Pressão Coloidosmótica do Líquido Intersticial Embora o tamanho do poro capilar típico seja menor que as dimensões das moléculas das proteínas plasmáticas, nem todos os poros são iguais, de modo que pequena quantidade de proteínas plasmáticas extravasa por eles para os espaços intersticiais e por transcitose em pequenas vesículas. A quantidade total de proteína, nos 12 litros do líquido intersticial corporal total, é ligeiramente maior que a quantidade de proteína no próprio plasma; mas, como esse volume é quatro vezes maior que o do plasma, a concentração média de proteína no líquido intersticial é, em geral, de apenas 40% em relação ao plasma, ou cerca de 3 g/dL. Quantitativamente, nota-se que a pressão coloidosmótica média do líquido intersticial com essa concentração de proteína é de cerca de 8 mmHg. Trocas de Líquido através da Membrana Capilar Agora que foram discutidos os diferentes fatores que afetam o movimento de líquido através da membrana capilar, é possível considerá-los em conjunto e observar como o sistema capilar mantém a distribuição normal do volume de líquido entre o plasma e o interstício. 194
  • 217. Capítulo 16 A Microcirculação e o Sistema Linfático:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa A pressão média nas extremidades arteriais dos capilares é 15 a 25 mmHg maior que nas extremidades venosas. Por causa dessa diferença, o líquido é “filtrado” para fora dos capilares, nas extremidades arteriais, mas nas extremidades venosas o líquido é reabsorvido de volta para os capilares. Assim, pequena quantidade de líquido na realidade “flui” pelos tecidos das extremidades arteriais para as extremidades venosas dos capilares. A dinâmica desse fluxo é discutida adiante. Análise das Forças que Provocam a Filtração na Extremidade Arterial do Capilar. As médias aproximadas das forças que operam na extremidade arterial do capilar, provocando o movimento de líquido através da membrana capilar, são as seguintes: mmHg Forças que tendem a mover o líquido para fora: Pressão capilar (extremidade arterial do capilar) 30 Pressão negativa do líquido livre intersticial 3 Pressão coloidosmótica do líquido intersticial 8 FORÇA TOTAL PARA FORA 41 Forças que tendem a mover o líquido para dentro: Pressão coloidosmótica do plasma 28 FORÇA TOTAL PARA DENTRO 28 Resultante das forças: Para fora 41 Para dentro 28 FORÇA EFETIVA PARA FORA 13 (NA EXTREMIDADE ARTERIAL) Assim, a soma das forças na extremidade arterial do capilar resulta em pressão efetiva de fütração de 13 mmHg, tendendo a mover o líquido para fora dos poros capilares. Essa pressão de filtração de 13 mmHg faz com que, em média, cerca de 1/200 do plasma no sangue que flui seja filtrado para fora das extremidades arteriais dos capilares para os espaços intersticiais cada vez que o sangue passa pelos capilares. Análise da Reabsorção na Extremidade Venosa do Capilar. A baixa pressão sanguínea na extremidade venosa do capilar altera o balanço das forças em favor da absorção, da seguinte maneira: mmHg Forças que tendem a mover o líquido para dentro: Pressão coloidosmótica do plasma 28 FORÇA TOTAL PARA DENTRO 28 Forças que tendem a mover o líquido para dentro: Pressão capilar (extremidade venosa do capilar) 10 Pressão negativa do líquido livre intersticial 3 Pressão coloidosmótica do líquido intersticial 8 FORÇA TOTAL PARA FORA 21 Resultante das forças: Para dentro 28 Para fora 21 FORÇA EFETIVA PARA DENTRO 7 (NA EXTREMIDADE VENOSA) Assim, a força que faz com que o líquido se mova para dentro do capilar, de 28 mmHg, é maior que a que se opõe à reabsorção, de 21 mmHg. A diferença de 7 mmHg é a pressão efetiva de reabsorção nas extremidades venosas dos capilares. Essa pressão de reabsorção é consideravelmente menor que a pressão de filtração na extremidade arterial, mas lembre-se de que os capilares venosos são mais numerosos e mais permeáveis que os arteriais, de modo que é necessária menor pressão de reabsorção para provocar o movimento de líquido para dentro do capilar. A pressão de reabsorção faz com que cerca de nove décimos do líquido que foi filtrado para fora nas extremidades arteriais sejam reabsorvidos nas extremidades venosas. O décimo restante flui para os vasos linfáticos, por onde retorna para o sangue circulante. Equilíbrio de Starling para a Troca Capilar Ernest H. Starling ressaltou há mais de um século que, sob condições normais, existe estado próximo ao equilíbrio na maioria dos capilares. Isto é, a quantidade de líquido filtrado para fora, nas extremidades arteriais dos capilares, é quase exatamente igual ao líquido que retorna à circulação por absorção. O ligeiro desequilíbrio existente é responsável pelo líquido que finalmente retorna para a circulação pelos linfáticos. O quadro seguinte demonstra os princípios do equilíbrio de Starling. Nesse quadro são apresentadas as médias das pressões nas extremidades arteriais e venosas dos capilares para determinar a pressão capilar funcional média, em toda sua extensão, calculada como 17,3 mmHg. mmHg Média das forças que tendem a mover o líquido para fora: Pressão capilar média 17,3 Pressão negativa do líquido livre intersticial 3,0 Pressão coloidosmótica do líquido intersticial 8£ FORÇA TOTAL PARA FORA 28,3 Média das forças que tendem a mover o líquido para dentro: Pressão coloidosmótica do plasma 28,0 FORÇA TOTAL PARA DENTRO 28,0 Resultante das médias das forças: Para fora 28,3 Para dentro 28,0 FORÇA EFETIVA PARA FORA 0,3 Assim, em relação à circulação capilar total, nota-se estado próximo ao equilíbrio entre as forças totais de filtração, de 28,3 mmHg, e a força total de reabsorção, de 28,0 mmHg. O pequeno desequilíbrio de forças, de 195
  • 218. Unidade IV A Circulação 0,3 mmHg, faz com que a filtração de líquido para os espaços intersticiais seja ligeiramente maior que a reab- sorção. Esse ligeiro excesso de filtração é chamado de filtração efetiva, que consiste no líquido que deve retornar para a circulação pelos linfáticos. A intensidade normal da filtração efetiva em todo o corpo, não incluindo os rins, é de apenas 2 mL/min. Coeficiente de Filtração. No exemplo anterior, a falha no balanceamento total médio de 0,3 mmHg nas forças atuantes nas membranas capilares provoca filtração efetiva de líquido de 2 mL/min em todo o corpo. Expressando essa filtração, por cada milímetro de mercúrio de falha de balanceamento, encontra-se a intensidade da filtração efetiva de 6,67 mL/min de líquido por mmHg, em todo o corpo. Esse valor é chamado coeficiente de filtração capilar corporal total. O coeficiente de filtração também pode ser expresso em relação a partes separadas do corpo, em termos da intensidade da filtração por minuto por mmHg por 100 gramas de tecido. Nesses termos, o coeficiente de filtração do tecido médio é de cerca de 0,01 mL/min/mmHg/100 g de tecido. Entretanto, em virtude das diferenças extremas na permeabilidade dos sistemas capilares nos diferentes tecidos, esse coeficiente varia por mais de 100 vezes entre os vários tecidos. É muito pequeno no cérebro e no músculo, moderadamente grande no tecido subcutâneo, grande no intestino, e extremo no fígado e nos gloméru- los renais, onde os poros são muito numerosos ou muito abertos. Da mesma forma, a permeação de proteínas através das membranas capilares varia de modo muito amplo. A concentração de proteína no líquido intersticial dos músculos é de cerca de 1,5 g/dL; no tecido subcutâneo, 2 g/dL; no intestino, 4 g/dL; e no fígado, 6 g/dL. Efeito da Falha de Balanceamento Anormal das Forças na Membrana Capilar Se a pressão capilar média aumentar acima de 17 mmHg, a força efetiva que tende a produzir filtração de líquido para os espaços teciduais aumenta. Assim, aumento de 20 mmHg da pressão capilar média provoca aumento da pressão de filtração efetiva de 0,3 mmHg para 20,3 mmHg, o que resulta em filtração efetiva de líquido para os espaços intersticiais 68 vezes maior que a normal. Para impedir o acúmulo de excesso de líquido nesses espaços, seria necessário fluxo de líquido 68 vezes maior que o normal para o sistema linfático, o que é duas a cinco vezes maior que a capacidade total dos linfáticos. Como consequência, o líquido tenderia a se acumular nos espaços intersticiais resultando em edema. Por sua vez, se a pressão capilar cair a valor muito baixo, ocorrerá reabsorção efetiva de líquido pelos capilares em vez de filtração, e o volume sanguíneo aumentará à custa do volume de líquido intersticial. Esses efeitos da falha de balanceamento na membrana capilar, em relação ao desenvolvimento de diferentes tipos de edema, são discutidos no Capítulo 25. Sistema Linfático O sistema linfático representa a via acessória por meio da qual o líquido pode fluir dos espaços intersticiais para o sangue. É importante notar que os linfáticos transportam para fora dos espaços teciduais proteínas e grandes partículas que não podem ser removidas por absorção direta pelos capilares sanguíneos. Esse retorno da proteína para o sangue dos espaços intersticiais é função essencial, sem a qual morreriamos em cerca de 24 horas. Canais Linfáticos do Corpo Quase todos os tecidos corporais têm canais linfáticos especiais que drenam o excesso de líquido diretamente dos espaços intersticiais. As exceções incluem as porções superficiais da pele, o sistema nervoso central, o endomísio dos músculos e os ossos. Entretanto, mesmo esses tecidos têm canais minúsculos, referidos como pré-linfáticos, pelos quais o líquido intersticial pode fluir; esse líquido é, por fim, drenado para vasos linfáticos ou, no caso do encéfalo, para o líquido cerebrospinal e dele diretamente de volta ao sangue. Em essência, todos os vasos linfáticos da parte inferior do corpo escoam-se por fim para o dueto torácico que, por sua vez, se escoa para o sistema venoso de sangue, na junção da veia jugular interna esquerda com a veia subclávia esquerda, como mostra a Figura 16-7. A linfa do lado esquerdo da cabeça, do braço esquerdo e de partes da região torácica também penetra o dueto torácico antes de se escoar nas veias. A linfa do lado direito da cabeça e pescoço, braço direito e partes do hemitórax direito segue pelo dueto linfático direito (muito menor que o dueto torácico), que se escoa no sistema venoso de sangue, na junção da veia subclávia com a veia jugular interna direita. Capilares Linfáticos Terminais e sua Permeabilidade. A maior parte do líquido filtrado nas extremidades arteriais dos capilares sanguíneos flui por entre as células sendo finalmente reabsorvido de volta pelas extremidades venosas dos capilares sanguíneos-, entretanto, em média cerca de um décimo do líquido segue para os capilares linfáticos e retorna ao sangue pelo sistema linfático, em vez de fazê-lo pelos capilares venosos. O volume total dessa linfa é normalmente de apenas 2 a 3 litros por dia. O líquido que retorna à circulação pelos linfáticos é extremamente importante por conter substâncias de alto peso molecular, tais como proteínas que não podem ser absorvidas dos tecidos por qualquer outra via, embora possam entrar nos capilares linfáticos quase sem impedimentos. Isso ocorre por causa da estrutura especial dos capilares linfáticos, mostrada na Figura 16-8. Essa figura mostra as células endoteliais do capilar linfático presas por filamentos de ancoragem ao tecido conjuntivo que o circunda. Nas junções entre as células endoteliais adjacentes, a borda de uma célula se sobrepõe à borda da célula seguinte, de modo que a borda sobreposta fica livre para se dobrar para dentro, formando assim uma válvula minúscula que se abre para o interior do capilar linfático. O líquido intersticial, junto com as partículas 196
  • 219. Capítulo 16 A Mícrocirculação e o Sistema Linfático:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa Massas de linfócitos e macrófagos Capilar sanguíneo Célula tecidual Vaso linfátic o Capilar linfático Líquido intersticial Linfonodos cervica Linfonodo-sentinel Veia subclávia Dueto linfático direi — Dueto torácico - Linfonodos — axilares Cisterna do quilo Linfonodos abdominais Linfonodos inguinais Linfonodos periféric Figura 16-7 Sistema linfático. suspensas, pode pressionar e abrir a válvula, fluindo diretamente para o capilar linfático. Entretanto, esse líquido tem dificuldade para deixar o capilar uma vez que tenha entrado porque qualquer refluxo fecha a válvula. Assim, os linfáticos têm válvulas nas extremidades dos capilares linfáticos terminais, bem como válvulas ao longo de seus vasos mais grossos até o ponto em que se escoam para a circulação sanguínea. Formação da Linfa A linfa é derivada do líquido intersticial que flui para os linfáticos. Por isso, logo após entrar nos linfáticos terminais, ela apresenta praticamente a mesma composição que o líquido intersticial. A concentração de proteína no líquido intersticial da maioria dos tecidos é de, em média, cerca de 2 g/dL, e a da linfa que flui desses tecidos é próxima a esse valor. No fígado, a linfa formada no fígado apresenta concentração elevada de proteína de 6 g/dL, e a linfa formada nos intestinos tem concentração de proteína de 3 a 4 g/dL. Como cerca de dois terços de toda a linfa são, em condições normais, derivados do fígado e dos intestinos, a linfa do dueto torácico, que é a mistura da linfa de todas as partes do corpo, tem em geral concentração de proteínas de 3 a 5 g/dL. O sistema linfático é também uma das principais vias de absorção de nutrientes vindos do trato gastrintestinal, em especial para a absorção de praticamente todos os lipí- dios dos alimentos, como discutido no Capítulo 65. De fato, após refeição rica em gorduras, a linfa do dueto torácico chega a conter por vezes até 1% a 2% de lipídios. Por fim, mesmo grandes partículas, como bactérias, podem passar através das células endoteliais e entrar nos capilares linfáticos e desse modo chegar à linfa. À medida que a linfa passa pelos linfonodos, essas partículas são quase inteiramente removidas e destruídas, como discutido no Capítulo 33. Intensidade do Fluxo Linfático Cerca de 100 mililitros de linfa fluem por hora pelo dueto torácico do humano em repouso, e aproximadamente outros 20 mililitros fluem para a circulação a cada hora por outros canais, perfazendo o total estimado do fluxo linfático de cerca de 120 mL/h, ou 2 a 3 litros por dia. Efeito da Pressão do Líquido Intersticial sobre o Fluxo Linfático. A Figura 16-9 mostra o efeito de diferentes níveis de pressão do líquido intersticial sobre o fluxo linfático medido em patas de cães. Note que o fluxo linfático normal é muito pequeno, com pressões do líquido 197 U N I D A
  • 220. Unidade IV A Circulação Figura 16-8 Estrutura especial dos capilares linfáticos permitindo a passagem de substâncias de alto peso molecular para a linfa. PT (mmHg) Figura 16-9 Relação entre a pressão do líquido intersticial e o fluxo linfático na perna de cão. Note que o fluxo linfático atinge o máximo quando a pressão intersticial P se eleva ligeiramente acima da pressão atmosférica (0 mmHg). (Cortesia de Drs. Harry Gibson e Aubrey Taylor.) intersticial abaixo do valor normal de -6 mmHg. Então, à medida que a pressão aumenta para 0 mmHg (pressão atmosférica), o fluxo aumenta por mais de 20 vezes. Por conseguinte, qualquer fator que aumente a pressão do líquido intersticial também aumenta o fluxo linfático se os vasos linfáticos estiverem funcionando normalmente. Esses fatores incluem: ♦ Pressão hidrostática capilar elevada ♦ Pressão coloidosmótica diminuída do plasma ♦ Pressão coloidosmótica aumentada do líquido intersticial ♦ Permeabilidade aumentada dos capilares Todos esses fatores fazem com que o balanceamento das trocas de líquido na membrana capilar sanguínea favoreça o movimento de líquido para o interstício, dessa forma aumentando ao mesmo tempo o volume e a pressão do líquido intersticial e o fluxo linfático. Entretanto, note na Figura 16-9 que quando a pressão do líquido intersticial fica 1 a 2 mmHg maior que a pressão atmosférica (> 0 mmHg), o fluxo linfático para de aumentar, mesmo sob pressões maiores. Isso ocorre porque o aumento da pressão tecidual não somente aumenta a entrada de líquido para os capilares linfáticos, mas comprime também as superfícies externas dos grandes linfáticos, impedindo o fluxo de linfa. Sob pressões maiores, esses dois fatores se contrabalançam de forma quase exata; assim, se atinge o que é chamado “intensi- dade/velocidade máxima do fluxo linfático”, representada pelo platô superior na Figura 16-9. A Bomba Linfática Aumenta o Fluxo de Linfa. Todos os canais linfáticos têm válvulas; válvulas típicas são mostradas na Figura 16-10, nos linfáticos coletores que drenam os linfáticos capilares. Filmagens de vasos linfáticos expostos em animais e em humanos demonstram que, quando o linfático coletor ou vaso linfático maior é estirado pelo líquido, o músculo liso na parede desse vaso se contrai automaticamente. Além disso, cada segmento do vaso linfático entre válvulas sucessivas funciona como uma bomba automática isolada, ou seja, mesmo o pequeno enchimento de um segmento provoca sua contração, e o líquido é bombeado pela válvula para o segmento linfático seguinte. Isso enche o segmento subsequente, e após alguns segundos este também se contrai; esse processo ocorre ao longo de todo o vaso linfático, até que o líquido finalmente se escoe na circulação sanguínea. Em vasos linfáticos muito grandes como o dueto torácico, essa bomba linfática pode gerar grandes pressões de até 50 a 100 mmHg. Bombeamento Causado pela Compressão Intermitente Externa dos Linfáticos. Além do bombeamento causado pela contração intermitente intrínseca das paredes dos vasos linfáticos, qualquer fator externo que comprima o vaso linfático também de modo intermitente pode provocar o bombeamento. Em ordem de importância, esses fatores são: ♦ Contração dos músculos esqueléticos circundantes ♦ Movimento de partes do corpo ♦ Pulsações de artérias adjacentes aos linfáticos ♦ Compressão dos tecidos por objetos externos ao corpo A bomba linfática fica muito ativa durante o exercício, frequentemente aumentando o fluxo linfático por 10 a 30 vezes. Ao contrário, durante períodos de repouso, o fluxo linfático é extremamente lento, quase nulo. Bomba Capilar Linfática. O capilar linfático terminal também é capaz de bombear linfa, além do bombeamento realizado pelos vasos linfáticos maiores. Como explicado neste capítulo, as paredes dos capilares linfáticos aderem firmemente às células do tecido circundante por meio de filamentos de ancoragem. Assim, cada vez que o excesso 198
  • 221. Capítulo 16 A Microcirculação e o Sistema Linfático:Trocas Capilares, Líquido Intersticial e Fluxo de Linfa Figura 16-10 Estrutura de capilares linfáticos e um linfático coletor mostrando também válvulas linfáticas. de líquido chega ao tecido e faz com que ele se inche, os filamentos de ancoragem puxam a parede do capilar linfático, e o líquido flui para o terminal linfático pelas junções entre as células endoteliais. Então, quando o tecido é comprimido, a pressão no interior do capilar aumenta e faz com que as bordas sobrepostas das células endoteliais se fechem como válvulas. Por esse motivo, a pressão empurra a linfa para frente em direção ao linfático coletor em vez de para trás, em direção às junções celulares. As células endoteliais do capilar linfático também contêm alguns filamentos contráteis de actomiosina. Em alguns tecidos animais (p. ex., a asa do morcego), observou-se que esses filamentos provocam a contração rítmica dos capilares linfáticos, da mesma forma que ocorre com muitos dos pequenos vasos sanguíneos e linfáticos maiores. Por isso, é provável que pelo menos parte do bombeamento resulte da contração das células endoteliais dos capilares linfáticos, além da contração dos linfáticos musculares maiores. Resumo dos Fatores que Determinam o Fluxo Linfático. Pela discussão anterior, é possível notar que os dois fatores principais determinativos do fluxo linfático são (1) a pressão do líquido intersticial e (2) a atividade da bomba linfática. Portanto, podemos afirmar que de modo geral a intensidade do fluxo linfático é determinada pelo produto da pressão do líquido intersticial pela atividade da bomba linfática. O Papel do Sistema Linfático no Controle da Concentração de Proteína, do Volume e da Pressão do Líquido Intersticial Já está claro que o sistema linfático funciona como um “mecanismo de transbordamento” (overflow) para devolver à circulação o excesso de proteína e de líquido nos espaços teciduais. Portanto, desempenha também papel central no controle (1) da concentração de proteínas, (2) do volume e (3) da pressão do líquido intersticial. Vamos explicar como esses fatores interagem. Em primeiro lugar, lembre-se de que pequena quantidade de proteínas extravasa continuamente dos capilares sanguíneos para o interstício. Somente quantidade muito pequena, se ocorrer, da proteína extravasada retorna à circulação pelas extremidades venosas dos capilares sanguíneos. Por isso, essa proteína tende a se acumular no líquido intersticial, o que aumenta a pressão coloidosmó- tica dos líquidos intersticiais. Além disso, o aumento da pressão coloidosmótica do líquido intersticial desloca o balanço das forças na membrana do capilar sanguíneo em favor da filtração de líquido para o interstício. Assim, efetivamente ocorre a translo- cação osmótica de líquido causada pela proteína para fora da parede capilar em direção ao interstício, aumentando o volume e a pressão do líquido intersticial. Por fim, a elevação da pressão do líquido intersticial provoca grande aumento da intensidade do fluxo linfático, como já explicado. Isso por sua vez elimina o líquido intersticial e a proteína em excesso que se acumularam nos espaços. Assim, uma vez que a concentração de proteína no líquido intersticial atinge certo nível e provoca aumento comparável do volume e da pressão do líquido intersticial, o retorno da proteína e do líquido pelo sistema linfático passa a ser suficientemente grande para contrabalancear com precisão a intensidade do extravasamento de proteína e de líquido para o interstício pelos capilares sanguíneos. Por conseguinte, os valores quantitativos de todos esses fatores atingem equilíbrio estável (steady State)-, eles permanecerão balanceados nesses níveis até que alguma coisa altere a intensidade do extravasamento da proteína e do líquido pelos capilares sanguíneos. Significado da Pressão Negativa do Líquido Intersticial como Forma de Manter os Tecidos Unidos Tradicionalmente, assumiu-se que os diferentes tecidos do corpo são mantidos unidos de forma integral pelas fibras do tecido conjuntivo. Entretanto, em muitas partes do corpo, as fibras de tecido conjuntivo são muito fracas ou até mesmo ausentes. Isso ocorre de modo particular nos pontos onde os tecidos deslizam uns sobre os outros, como a pele que desliza sobre o dorso da mão 199 U N I D A
  • 222. Unidade IV A Circulação ou sobre a face. Contudo, mesmo nesses lugares, os tecidos são mantidos unidos pela pressão negativa do líquido intersticial, que é na verdade um vácuo parcial. Quando os tecidos perdem sua pressão negativa, ocorre acúmulo de líquido nos espaços, resultando na condição chamada edema. Isto é discutido no Capítulo 25. Referências Dejana E: Endothelial cell-cell junctions: happy together. NatRevMol Cell Biol 5:261,2004. Gashev AA: Physiologic aspects of lymphatic contractile function: current perspectives. Ann N YAcadSei 979:178, 2002. Gratton JP, Bernatchez P, Sessa WC: Caveolae and caveolins in the cardio- vascular System, CircRes 94:1408, 2004. Guyton AC: Concept of negative interstitial pressure based on pressures in implanted perforated capsules. CircRes 12:399,1963. Guyton AC: Interstitial fluid pressure: II. Pressure-volume curves of interstitial space. CircRes 16:452,1965. Guyton AC, Granger HJ, Taylor AE: Interstitial fluid pressure. Physiol Rev 51:527, 1971. Michel CC, Curry FE: Microvascular permeability. Physiol Rev 79:703,1999. Mehta D, Malik AB: Signaling mechanisms regulating endothelial permeability, Physiol Rev 86:279, 2006. Miyasaka M, Tanaka T: Lymphocyte trafficking across high endothelial venules: dogmas and enigmas. Nat Rev Immunol 4:360, 2004. Parker JC: Hydraulic conductance of lung endothelial phenotypes and Starling safety factors against edema, Am J Physiol Lung Cell Mol Physiol 2921378, 2007. Parker JC,Townsley Ml: Physiological determinants of the pulmonary fil- tration coefficient, Am J Physiol Lung Cell Mol Physiol 2951235, 2008. Predescu SA, Predescu DN, Malik AB: Molecular determinants of endothelial transcytosis and their role in endothelial permeability, AmJ Physiol Lung Cell Mol Physiol 2931823, 2007. Oliver G: Lymphatic vasculature development. Nat Rev Immunol 4:35, 2004. Taylor AE, Granger DN: Exchange of macromolecules across the microcir- culation. In: Renkin EM, Michel CC (eds): Handbook of Physiology. Sec. 2, Vol. IV. Bethesda, MD: American Physiological Society, 1984, p. 467. 200
  • 223. CAPÍTULO 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos ** 3 t Controle Local do Ti Fluxo Sanguíneo i % 1 ^ em Resposta às Necessidades 11 i r Teciduais Um dos princípios mais fundamentais da função circulatória é a capacidade de cada tecido controlar seu próprio fluxo sanguíneo em proporção às suas necessidades metabólicas. Quais são as necessidades específicas dos tecidos em relação ao fluxo sanguíneo? Existem muitas respostas para essa pergunta, incluindo: 1. O suprimento de oxigênio aos tecidos. 2. O suprimento de outros nutrientes, como glicose, ami- noácidos e ácidos graxos. 3. A remoção de dióxido de carbono dos tecidos. 4. A remoção de íons hidrogênio dos tecidos. 5. A manutenção de concentrações apropriadas de outros íons nos tecidos. 6. O transporte de vários hormônios e outras substâncias para os diferentes tecidos. Certos órgãos apresentam necessidades especiais. Por exemplo, o fluxo sanguíneo para a pele determina a perda de calor do corpo, ajudando assim a controlar a temperatura corporal. Já o fornecimento de quantidades adequadas de plasma sanguíneo aos rins permite que eles excretem os produtos do metabolismo corporal e regulem os volumes e eletrólitos do líquido corporal. Veremos que a maioria desses fatores exerce graus extremos de controle local do fluxo sanguíneo e que diferentes tecidos exercem diferentes níveis de importância nesses fatores no controle do fluxo sanguíneo. Variações no Fluxo Sanguíneo em Diferentes Tecidos e Órgãos. Note na Tabela 17-1 o enorme fluxo sanguíneo em alguns órgãos — por exemplo, muitas centenas mL/min, por 100 g de tecido, na tireoide ou nas suprarrenais e o fluxo sanguíneo total de 1.350 mL/min pelo fígado, o que representa 95 mL/min/100 g de tecido hepático. Note também o fluxo sanguíneo extremamente volumoso pelos rins — 1.100 mL/min. Esse fluxo extremo é necessário para que os rins realizem sua função de eliminar do sangue os produtos do metabolismo. Por sua vez, é surpreendente o baixo fluxo sanguíneo para todos os músculos inativos do corpo perfazendo o total de apenas 750 mL/min, embora os músculos constituam entre 30% e 40% da massa corporal total. No estado de repouso, a atividade metabólica dos músculos é muito baixa, bem como de seu fluxo sanguíneo de apenas 4 mL/ min/100 g. Entretanto, durante o exercício intenso, a atividade metabólica dos músculos pode aumentar por mais de 60 vezes, e o fluxo sanguíneo por 20 vezes, até valores muito altos de até 16.000 mL/min no leito vascular muscular total (ou 80 mL/min/100 g de músculo). Importância do Controle do Fluxo Sanguíneo pelos Tecidos Locais. Pode-se fazer a pergunta simples: por que não permitir fluxo sanguíneo muito grande a qualquer tempo por todos os tecidos do corpo, sempre suficiente para suprir as necessidades teciduais, independentemente do nível de atividade do tecido? A resposta é igualmente simples: para fazê-lo, seria necessário fluxo sanguíneo muito maior do que o coração pode bombear. Experimentos mostram que o fluxo sanguíneo para cada tecido é usualmente mantido no nível mínimo suficiente para suprir as suas necessidades — nem mais, nem menos. Por exemplo, nos tecidos em que a necessidade mais importante é a oferta de oxigênio, o fluxo sanguíneo é sempre mantido em nível apenas ligeiramente acima do necessário para manter a oxigenação completa do tecido, mas não mais que isso. Controlando o fluxo sanguíneo local de modo tão preciso, os tecidos quase nunca passam por deficiência nutricional de oxigênio, e a carga de trabalho do coração é mantida no menor nível possível. Mecanismos de Controle do Fluxo Sanguíneo O controle local do fluxo sanguíneo pode ser dividido em duas fases: (1) controle agudo e (2) controle a longo prazo. 201 U N I D A
  • 224. Unidade IV A Circulação Tabela 17-1 Fluxo Sanguíneo em Diferentes Órgãos e Tecidos sob Condições Basais Porcentagem de Débito Cardíaco mL/min mL/min/ 100 g de Peso Tecidual Cérebro 14 700 50 Coração 4 200 70 Brônquios 2 100 25 Rins 22 1.100 360 Fígado 27 1.350 95 Porta (21) 1.050 Arterial (6) 300 Músculo (estado inativo) 15 750 4 Osso 5 250 3 Pele (tempo frio) 6 300 3 Tireoide 1 50 160 Supra rrenais 0,5 25 300 Outros tecidos 3,5 175 1,3 Total 100,0 5.000 O controle agudo é realizado por meio de rápidas variações da vasodilatação ou da vasoconstrição local das arteríolas, metarteríolas e esfmeteres pré-capilares, ocorrendo em segundos ou minutos para permitir a manutenção muito rápida do fluxo sanguíneo tecidual local apropriado. O controle a longo prazo, entretanto, consiste em variações lentas e controladas do fluxo ao longo de dias, semanas, ou até mesmo meses. Em geral, essas variações resultam no melhor controle do fluxo em proporção às necessidades teciduais. Essas variações ocorrem como resultado de aumento ou diminuição nas dimensões físicas e no número de vasos sanguíneos que suprem os tecidos. Controle Agudo do Fluxo Sanguíneo Local Efeito do Metabolismo Tecidual sobre o Fluxo Sanguíneo Local. A Figura 17-1 mostra o efeito aproximado agudo sobre o fluxo sanguíneo do aumento da intensidade metabólica de tecido localizado, como o músculo esquelético. Note que o aumento por oito vezes do metabolismo aumenta agudamente o fluxo sanguíneo por cerca de quatro vezes. Regulação Aguda do Fluxo Sanguíneo Local quando a Disponibilidade de Oxigênio é Alterada. Um dos nutrientes metabólicos mais necessários é o oxigênio. Quando a disponibilidade de oxigênio para os tecidos diminui, como acontece (1) nas grandes altitudes, como no topo de montanha, (2) na pneumonia, (3) na intoxicação por monóxido de carbono (que impede a hemoglobina de transportar oxigênio), ou (4) na intoxicação por cianeto (que impede os tecidos de utilizar oxigênio), o fluxo sanguíneo pelo tecido aumenta intensamente. A Figura 17-2 mostra que, quando a saturação arterial de oxigênio diminui para cerca de 25% do normal, o fluxo sanguíneo pela pata isolada de cão aumenta cerca de três vezes; ou seja, o fluxo sanguíneo aumenta quase até o limiar, mas não o suficiente para compensar a menor quantidade de oxigênio no sangue, quase mantendo dessa forma suprimento relativamente constante de oxigênio para os tecidos. A intoxicação por cianeto, ao impedir o tecido local de utilizar oxigênio de forma total, pode provocar aumento por até sete vezes do fluxo sanguíneo local, demonstrando assim o efeito extremo da deficiência de oxigênio sobre o aumento do fluxo sanguíneo. Existem duas teorias básicas para a regulação do fluxo sanguíneo local quando a intensidade do metabolismo tecidual ou a disponibilidade de oxigênio se alteram. Elas são as teorias (1) da vasodilatação e (2) da falta de oxigênio. Intensidade do metabolismo (x normal) Figura 17-1 Efeito do aumento do metabolismo sobre o fluxo sanguíneo tecidual. Saturação de oxigênio arterial (porcentagem) Figura 17-2 Efeito da redução da saturação de oxigênio arterial sobre o fluxo sanguíneo na pata isolada de um cão. 202
  • 225. Capítulo 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos Teoria da Vasodilatação para a Regulação Aguda do Fluxo Sanguíneo Local — Possível Papel Especial da Adenosina. De acordo com essa teoria, quanto maior a intensidade do metabolismo ou menor a disponibilidade de oxigênio ou de outros nutrientes para o tecido, maior será a intensidade/velocidade de formação de substâncias vasodilatadoras pelas células teciduais. Acredita-se assim que as substâncias vasodilatadoras se difundam pelos tecidos até os esfíncteres pré-capilares, metarterío- las e arteríolas, causando dilatação. Algumas das diferentes substâncias vasodilatadoras que foram sugeridas são a adenosina, o dióxido de carbono, os compostos fosfatados de adenosina, a histamina, os íons potássio e os íons hidrogênio. As substâncias vasodilatadoras podem ser liberadas pelo tecido em resposta à deficiência de oxigênio. Por exemplo, experimentos mostraram que a redução do oxigênio disponível pode provocar tanto a liberação de adenosina quanto de ácido lático (contendo íons hidrogênio) nos espaços entre as células teciduais; essas substâncias então causam intensa vasodilatação aguda e, portanto, são responsáveis, ao menos em parte, pela regulação local do fluxo sanguíneo. Substâncias vasodilatadoras, tais como dióxido de carbono, ácido lático e íons potássio, tendem a aumentar nos tecidos quando o fluxo sanguíneo é diminuído e o metabolismo celular continua na mesma intensidade, ou quando o metabolismo celular é subitamente aumentado. À medida que a concentração dos metabó- litos vasodilatadores aumenta, isso causa vasodilatação das arteríolas, aumentando o fluxo sanguíneo tecidual e levando de volta ao normal a concentração tecidual dos metabólitos. Muitos fisiologistas acreditam que a adenosina é importante vasodilatador local para o controle do fluxo sanguíneo local. Por exemplo, quantidades diminutas de adenosina são liberadas pelas células do músculo cardíaco, quando o fluxo sanguíneo coronariano fica muito baixo, o que provoca vasodilatação local suficiente para que o fluxo sanguíneo coronariano retorne ao normal. Além disso, o aumento da atividade do coração e de seu metabolismo produz maior utilização de oxigênio, seguida por (1) diminuição da concentração de oxigênio nas células do músculo cardíaco com (2) a consequente degradação de trifosfato de adenosina (ATP), o que (3) aumenta a liberação de adenosina. Acredita-se que grande parte dessa adenosina escoe para fora das células miocárdicas para provocar a vasodilatação coronariana resultando no aumento do fluxo sanguíneo coronariano para suprir as demandas nutricionais aumentadas do coração ativo. Embora com evidências experimentais menos claras, muitos fisiologistas sugeriram que esse mesmo mecanismo da adenosina seja importante controlador do fluxo sanguíneo no músculo esquelético e em muitos outros tecidos, além do coração. Tem sido difícil, no entanto, provar que sejam de fato formadas quantidades suficientes de qualquer substância vasodilatadora isolada, incluindo a adenosina, nos tecidos que produzem o aumento medido do fluxo sanguíneo. É provável que a combinação de vários vasodilatadores diferentes liberados pelos tecidos contribua para a regulação do fluxo sanguíneo. Teoria da Falta de Oxigênio para o Controle Local do Fluxo Sanguíneo. Embora a teoria da vasodilatação seja amplamente aceita, diversos fatos fundamentais fizeram com que outros fisiologistas favorecessem outra teoria, que pode ser chamada de teoria da falta de oxigênio ou mais precisamente de teoria da falta de nutrientes (porque outros nutrientes, além do oxigênio, estão envolvidos). O oxigênio (bem como outros nutrientes) é necessário como um dos nutrientes metabólicos que provocam a contração do músculo vascular. Assim, na ausência de quantidades adequadas de oxigênio, é razoável a crença de que os vasos sanguíneos de forma simples relaxariam, resultando naturalmente em dilatação. Além disso, o aumento da utilização de oxigênio pelos tecidos, como resultado do metabolismo mais intenso, teoricamente diminuiría a disponibilidade de oxigênio para as fibras musculares lisas nos vasos sanguíneos locais, o que por sua vez também causaria vasodilatação local. O mecanismo pelo qual atuaria a teoria da falta de oxigênio é mostrado na Figura 17-3. Essa figura mostra uma unidade tecidual, consistindo de metarteríola com ramo capilar único e seu tecido circunjacente. Na origem do capilar, existe o esfíncter pré-capilar, e ao redor da metarteríola existem diversas outras fibras musculares lisas. Observando-se um tecido como esse ao microscópio — por exemplo, a asa de morcego — é possível notar que normalmente os esfíncteres pré-capilares estão completamente abertos ou fechados. O número de esfíncteres pré-capilares abertos, a qualquer momento, é quase proporcional às necessidades nutricionais do tecido. Os esfíncteres pré-capilares e as metarteríolas abrem e fecham de forma cíclica muitas vezes por minuto; a duração das fases abertas é proporcional às necessida- Figura 17-3 Diagrama de unidade tecidual para a explicação do controle local agudo por feedback do fluxo sanguíneo, mostrando metarteríola passando pelo tecido e seu ramo capilar com seu esfíncter pré-capilar para o controle do fluxo sanguíneo capilar. 203
  • 226. Unidade IV A Circulação des metabólicas de oxigênio pelos tecidos. A abertura e o fechamento cíclicos são chamados de vasomotilidade. Vamos explicar como a concentração de oxigênio no tecido local poderia regular o fluxo sanguíneo por essa área. Como o músculo liso precisa de oxigênio para permanecer contraído, pode-se assumir que a força de contração dos esfíncteres aumentaria após o aumento da concentração de oxigênio. Consequentemente, quando a concentração de oxigênio no tecido se elevasse acima de certo nível, os esfíncteres pré-capilares e as metarteríolas supostamente fechariam até que as células teciduais consumissem o excesso de oxigênio. Mas quando o excesso de oxigênio fosse consumido e sua concentração caísse o suficiente, os esfíncteres se abriríam de novo reiniciando o ciclo. Assim, com base nos dados disponíveis, tanto a teoria das substâncias vasodilatadoras quanto a teoria da falta de oxigênio poderíam explicar a regulação local aguda do fluxo sanguíneo em resposta às necessidades metabólicas teciduais. Provavelmente, a verdade reside em uma combinação dos dois mecanismos. Possível Papel de Outros Nutrientes além do Oxigênio no Controle Local do Fluxo Sanguíneo. Sob condições especiais, demonstrou-se que a falta de glicose no sangue que perfunde os tecidos pode provocar vasodilatação tecidual local. Também é possível que esse mesmo efeito ocorra quando outros nutrientes, tais como aminoácidos ou ácidos graxos, estejam deficientes, embora isso não tenha sido adequadamente estudado. Além disso, a vasodilatação ocorre na deficiência vitamí- nica do beribéri, na qual o paciente apresenta deficiência do complexo de vitaminas B tiamina, niacina e ribofla- vina. Nessa doença, o fluxo sanguíneo vascular periférico com frequência aumenta por duas a três vezes em quase todas as partes do corpo. Como todas essas vitaminas são necessárias para a fosforilação induzida pelo oxigênio que é necessária para a produção de ATP nas células teciduais, é possível entender como sua deficiência pode levar à diminuição da capacidade contrátil do músculo liso e por conseguinte à vasodilatação local. Exemplos Especiais do Controle "Metabólico" Agudo Local do Fluxo Sanguíneo Os mecanismos descritos até agora para o controle local do fluxo sanguíneo são referidos como “mecanismos metabólicos” porque todos eles funcionam em resposta às necessidades metabólicas teciduais. Dois exemplos adicionais do controle metabólico local do fluxo sanguíneo são a hiperemia reativa e a hiperemia ativa. Hiperemia Reativa. Quando a irrigação sanguínea para um tecido é bloqueada pelo período de alguns segundos a até 1 hora ou mais e então é desbloqueada, o fluxo sanguíneo pelo tecido em geral aumenta imediatamente para até quatro a sete vezes o normal; esse fluxo aumentado persiste por alguns segundos, se o bloqueio durou apenas alguns segundos, mas às vezes continua por muitas horas, se o fluxo sanguíneo foi bloqueado por uma hora ou mais. Esse fenômeno é chamado de hiperemia reativa. A hiperemia reativa é outra manifestação do mecanismo de regulação “metabólica” local do fluxo sanguíneo; ou seja, a ausência de fluxo põe em ação todos os fatores que provocam a vasodilatação. Após curtos períodos de oclusão vascular, o fluxo sanguíneo adicional durante a hiperemia reativa se mantém por período suficiente para repor quase exatamente o déficit tecidual de oxigênio que ocorreu durante o período de oclusão. Esse mecanismo enfatiza a íntima conexão entre a regulação local do fluxo sanguíneo e a oferta de oxigênio e de outros nutrientes aos tecidos. Hiperemia Ativa. Quando qualquer tecido se torna muito ativo, como ocorre no músculo durante o exercício, na glândula gastrointestinal durante período de hipersecreção, ou até mesmo no cérebro, durante atividade mental rápida, a intensidade do fluxo sanguíneo pelos tecidos aumenta. Mais uma vez, pela simples aplicação dos princípios básicos do controle local do fluxo sanguíneo, é possível entender facilmente essa hiperemia ativa. O aumento do metabolismo local faz com que as células consumam nutrientes no líquido tecidual de forma rápida e também liberem grande quantidade de substâncias vasodilatadoras. O resultado é a dilatação dos vasos sanguíneos locais e, portanto, o aumento do fluxo sanguíneo local. Desse modo, o tecido ativo recebe os nutrientes adicionais necessários para manter seu novo nível funcional. Como ressaltado anteriormente, a hiperemia ativa no músculo esquelético pode aumentar o fluxo sanguíneo muscular local por até 20 vezes durante o exercício intenso. “Autorregulação" do Fluxo Sanguíneo quando a Pressão Arterial É Variada — Mecanismos “Metabólicos" e “Miogênicos" Em qualquer tecido do corpo, a elevação rápida da pressão arterial provoca o aumento imediato do fluxo sanguíneo. Entretanto, após menos de 1 minuto, o fluxo sanguíneo na maioria dos tecidos retorna praticamente a seu nível normal, embora a pressão arterial seja mantida elevada. Essa normalização é referida como “autorregulação” do fluxo sanguíneo. Após a ocorrência da autorregulação, o fluxo sanguíneo local na maioria dos tecidos se correlaciona à pressão arterial de modo aproximado, de acordo com a curva contínua “aguda” mostrada na Figura 17-4. Note que, entre as pressões arteriais de cerca de 70 mmHg e de 175 mmHg, o fluxo sanguíneo aumenta por apenas 20% a 30%, embora a pressão arterial aumente por 150%. Por quase um século, duas teorias foram propostas para explicar esse mecanismo de autorregulação aguda. Elas foram chamadas de (1) teoria metabólica e (2) teoria miogênica. A teoria metabólica pode ser facilmente entendida pela aplicação dos princípios básicos da regulação local do fluxo sanguíneo, discutida nas seções anteriores. Assim, quando a pressão arterial fica muito alta, o excesso 204
  • 227. Capítulo 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos Figura 17-4 Efeito de diferentes níveis de pressão arterial sobre o fluxo sanguíneo pelo músculo. A curva vermelha contínua mostra o efeito quando a pressão arterial é elevada durante alguns minutos. A curva verde tracejada mostra o efeito quando a pressão é elevada lentamente ao longo de muitas semanas. de fluxo fornece oxigênio em demasia, além de muitos outros nutrientes, aos tecidos e “elimina” os vasodilata- dores liberados pelos tecidos. Esses nutrientes (especialmente o oxigênio) e níveis reduzidos de vasodilatadores provocam então a constrição dos vasos sanguíneos e o retorno do fluxo para valores próximos aos normais, apesar da pressão aumentada. A teoria miogênica, entretanto, sugere que outro mecanismo, não relacionado ao metabolismo tecidual, seja a explicação do fenômeno da autorregulação. Essa teoria é baseada na observação de que o estiramento súbito de pequenos vasos sanguíneos provoca a contração do músculo liso da parede vascular. Por isso, propôs-se que a alta pressão arterial ao estirar o vaso provoca sua constrição vascular reativa, que reduz o fluxo sanguíneo para valor próximo ao normal. Ao contrário, sob baixas pressões, o nível de estiramento do vaso é menor, de modo que o músculo liso relaxa, reduzindo a resistência vascular e ajudando o fluxo a voltar ao normal. A resposta miogênica é inerente ao músculo liso vascular, podendo ocorrer na ausência de influências neurológicas ou hormonais. Ela é mais pronunciada nas arteríolas, mas pode ocorrer também nas artérias, vênulas, veias e até mesmo nos vasos linfáticos. A contração miogênica é desencadeada pela despolarização vascular induzida pelo estiramento, que aumenta rapidamente o movimento dos íons cálcio do líquido extracelular para as células, provocando sua contração. Variações da pressão vascular podem também abrir ou fechar outros canais iônicos que influenciam a contração dos vasos. Os mecanismos precisos pelos quais as variações da pressão provocam a abertura ou o fechamento de canais iônicos vasculares ainda não são conhecidos, mas provavelmente envolvem efeitos mecânicos da pressão sobre as proteínas extracelula- res que são ligadas a elementos do citoesqueleto da parede vascular ou aos próprios canais iônicos. O mecanismo miogênico parece ser importante na prevenção do estiramento excessivo do vaso sanguíneo quando a pressão sanguínea aumenta. Entretanto, o papel do mecanismo miogênico na regulação do fluxo sanguíneo não está claro porque esse mecanismo, sensível à pressão, não pode detectar de forma direta as variações do fluxo sanguíneo tecidual. De fato, os fatores metabó- licos parecem ser mais importantes que o mecanismo miogênico em circunstâncias onde as demandas meta- bólicas teciduais estão significativamente aumentadas, como durante o exercício muscular vigoroso, que pode provocar enorme aumento do fluxo sanguíneo no músculo esquelético. Mecanismos Especiais para o Controle Agudo do Fluxo Sanguíneo nos Tecidos Específicos Embora os mecanismos gerais de controle local do fluxo sanguíneo discutidos até agora estejam presentes em quase todos os tecidos do corpo, mecanismos diferentes atuam em algumas áreas especiais. Todos os mecanismos são discutidos ao longo deste texto em relação a órgãos específicos, mas dois mecanismos dignos de nota são os seguintes: 1. Nos rins, o controle do fluxo sanguíneo depende em grande parte do mecanismo referido como feedback tubuloglomerular, no qual a composição do líquido no início do túbulo distai é detectada por estrutura epite- lial do túbulo distai, chamada mácula densa. Ela está situada na região onde o túbulo distai passa adjacente às arteríolas aferentes e eferentes, no aparelho justa- glomerular do néfron. Quando quantidade excessiva de líquido é filtrada pelo glomérulo para o sistema tubular, sinais de feedback da mácula densa provocam a constrição das arteríolas aferentes, reduzindo assim o fluxo sanguíneo renal e a filtração glomerular para níveis normais ou próximos a eles. Os detalhes desse mecanismo são discutidos no Capítulo 26. 2. No cérebro, além do controle do fluxo sanguíneo pela concentração de oxigênio tecidual, as concentrações de dióxido de carbono e de íons hidrogênio têm papéis proeminentes. Aumento em qualquer um desses fatores dilata os vasos cerebrais e permite a rápida eliminação do excesso de dióxido de carbono e dos íons hidrogênio dos tecidos cerebrais. Esse mecanismo é importante porque o nível da excitabilidade cerebral é muito dependente do controle preciso da concentração do dióxido de carbono e dos íons hidrogênio. Esse mecanismo especial de controle do fluxo sanguíneo cerebral é discutido no Capítulo 61. 3. Na pele, o controle do fluxo sanguíneo está intimamente relacionado à regulação da temperatura corporal. O fluxo cutâneo e subcutâneo regula a perda calórica do corpo pela medida do fluxo do coração do núcleo para a superfície do corpo, onde ocorre a perda para o ambiente. O fluxo sanguíneo pela pele é controlado em grande parte pelo sistema nervoso central por meio dos nervos simpáticos, como discutido no Capítulo 73. Apesar do fluxo sanguíneo da pele ser de aproximadamente 3 mL/min/100 g de tecido em 205 U N I D A
  • 228. Unidade IV A Circulação ambiente frio, podem ocorrer grandes mudanças nos valores quando necessário. Quando os seres humanos são expostos ao aquecimento do corpo, o fluxo sanguíneo da pele pode aumentar muitas vezes para níveis tão elevados como 7a 8 L/min no corpo inteiro. Quando a temperatura do corpo é reduzida, o fluxo sanguíneo diminui, caindo para pouco acima de zero em temperaturas muito baixas. Mesmo com intensa vasoconstrição, o fluxo sanguíneo da pele é geralmente grande o suficiente para atender as demandas metabólicas básicas da pele. Controle do Fluxo Sanguíneo Tecidual pelos Fatores de Relaxamento e de Constrição Derivados do Endotélio As células endoteliais que revestem os vasos sanguíneos sintetizam diversas substâncias que, quando liberadas, podem afetar o grau de relaxamento ou de contração da parede arterial. Para muitos desses fatores de relaxamento e de constrição derivados do endotélio, o entendimento dos papéis fisiológicos estão apenas no início, e sua aplicação clínica na maior parte dos casos ainda não foi desenvolvida. Óxido Nítrico — Um Vasodilatador Liberado por Células Endoteliais Saudáveis. O óxido nítrico (NO) é o mais importante dos fatores de relaxamento derivados do endotélio. Ele é gás lipofílico, liberado por células endoteliais em resposta a uma variedade de estímulos químicos e físicos. As enzimas óxido nítrico-sintetases (NOS) das células endoteliais sintetizam NO a partir da arginina e oxigênio, e pela redução de nitratos inorgânicos. Depois da difusão para fora da célula endotelial, o NO tem uma meia-vida no sangue de cerca de 6 segundos e age principalmente nos tecidos locais onde é liberado. O NO ativa guanilato-ciclases solúveis nas células vasculares do músculo liso (Fig. 17-5), resultando na conversão de guanosina trifosfato cíclica solúvel (cGTP) em guanosina monofosfato cíclica (cGMP) e ativação da proteinocinase dependente de GMP (PKG), com ações intensas que causam relaxamento dos vasos sanguíneos. Quando o sangue flui pelas artérias e arteríolas isso provoca estresse por cisalhamento das células endoteliais devido ao tracionamento viscoso do sangue contra as paredes vasculares. Esse cisalhamento distorce as células endoteliais na direção do fluxo, provocando aumento significativo da liberação de NO que então relaxa os vasos sanguíneos. Esse efeito é benéfico, pois os mecanismos metabólicos locais para controle de fluxo sanguíneo tecidual dilatam principalmente artérias muito pequenas e arteríolas em cada tecido. No entanto, quando o fluxo de sangue por parte microvascular da circulação aumenta, isso secundariamente estimula a liberação de NO de vasos mais largos devido ao fluxo aumentado e tensão de cisalhamento em vasos. A liberação de NO aumenta os diâmetros dos maiores vasos sanguíneos proximais, quando o fluxo sanguíneo microvascular aumenta distal- mente. Sem tal resposta, a eficácia do controle local do fluxo sanguíneo seria reduzida porque parte importante da resistência ao fluxo sanguíneo ocorre nas pequenas artérias proximais. A síntese e liberação de NO pelas células endoteliais também são estimuladas por alguns vasoconstritores, tais como angiotensina II que se liga a receptores específicos nas células endoteliais. O aumento da liberação de NO protege da vasoconstrição excessiva. Quando as células endoteliais são danificadas por hipertensão crônica ou aterosclerose, a síntese comprometida de NO pode contribuir para a vasoconstrição excessiva e piora da hipertensão e do dano endotelial que, se não tratados, podem eventualmente causar injúria e dano vascular em tecidos vulneráveis tais como coração, rins e cérebro. Mesmo antes da descoberta do NO, médicos usavam nitroglicerina, nitratos de amilo, e outros derivados de nitrato para tratar pacientes com angina pectoris, Sangue Figura 17-5 Enzima óxido nítrico sintetase (eNOS) em células endoteliais sintetizam óxido nítrico (NO) a partir da arginina e de oxigênio. O NO ativa a guanilato ciclase solúvel nas células vasculares do músculo liso, resultando na conversão da guanosina trifosfato cíclica (cGTP) em guanosina monofosfato cíclica (cGMP) que por fim causa relaxamento dos vasos sanguíneos. 206
  • 229. Capítulo 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos dor peitoral intensa causada por isquemia do músculo cardíaco. Esses medicamentos quando clivados quimi- camente liberam NO e provocam dilatação dos vasos sanguíneos por todo o corpo, incluindo os vasos sanguíneos coronarianos. Outras aplicações importantes da fisiologia e da farmacologia do NO são o desenvolvimento e usos clínicos de fármacos (p. ex., sildenafil), que inibem afosfodiestera- se-5 (PDE-5) específica para cGMP, enzima que degrada cGMP. Pela diminuição da degradação de cGMP, os inibidores da PDE-5 prolongam eficazmente as ações do NO para causar vasodilatação. O primeiro uso clínico dos inibidores da PDE-5 é no tratamento da disfunção eré- til. A ereção peniana é causada por impulsos nos nervos parassimpáticos pelos nervos pélvicos até o pênis, onde os neurotransmissores acetilcolina e NO são liberados. Prevenindo a degradação de NO, os inibidores da PDE-5 aumentam a dilatação dos vasos sanguíneos no pênis e ajudam na ereção, como discutido no Capítulo 80. Endotelina — Um Poderoso Vasoconstritor Liberado pelo Endotélio Danificado. Células endoteliais também liberam substâncias vasoconstritoras. A mais importante delas é a endotelina, grande peptídeo com 21 aminoáci- dos que requer apenas quantidades da ordem de nano- gramas para causar forte vasoconstrição. Essa substância está presente nas células endoteliais de todas ou da maioria dos vasos sanguíneos, mas aumenta muito quando os vasos são lesados. O estímulo usual para sua liberação é o dano ao endotélio, tais como o causado pelo esmagamento do tecido ou injeção de agente químico traumatizante no vaso sanguíneo. Após dano grave ao vaso sanguíneo, a liberação de endotelina local e a vasoconstrição subsequente auxiliam a prevenção de hemorragia extensa das artérias com até 5 milímetros de diâmetro que podem ter sido rompidas por lesão por esmagamento. Também se acredita que o aumento da liberação de endotelina contribui para a vasoconstrição quando o endotélio é lesado pela hipertensão. Fármacos que bloqueiam receptores de endotelina têm sido usados no tratamento de hipertensão pulmonar, mas geralmente não têm sido utilizados para reduzir a pressão arterial em pacientes com hipertensão arterial sistêmica. Regulação do Fluxo Sanguíneo a Longo Prazo Até este ponto, a maioria dos mecanismos de regulação local do fluxo sanguíneo que discutimos age dentro de poucos segundos a alguns minutos após a alteração das condições locais dos tecidos. Entretanto, mesmo após a ativação total desses mecanismos, o fluxo sanguíneo em geral só aumenta apenas por cerca de três quartos do necessário para suprir precisamente as demandas adicionais dos tecidos. Por exemplo, quando a pressão arterial, de forma abrupta, aumenta de 100 para 150 mmHg, o fluxo sanguíneo aumenta quase instantaneamente por cerca de 100%. Então, após 30 segundos a 2 minutos, o fluxo volta a diminuir para cerca de 10% a 15% acima do valor original. Isso ilustra a rapidez dos mecanismos agu dos para a regulação local do fluxo sanguíneo, mas ao mesmo tempo demonstra que a regulação não é completa porque ainda persiste excesso de 10% a 15% de aumento do fluxo sanguíneo. Entretanto, ao longo de horas, dias e semanas, uma forma a longo prazo da regulação local do fluxo sanguíneo se desenvolve sobreposta ao controle agudo. Essa regulação a longo prazo é controle muito mais completo de fluxo de sangue. No exemplo mencionado antes se a pressão arterial permanecer indefinidamente em 150 mmHg após algumas semanas, o fluxo sanguíneo pelos tecidos se ajustará de forma gradual quase até a normalidade. Na Figura 17-4, a curva verde tracejada demonstra a extrema eficácia dessa regulação local do fluxo sanguíneo a longo prazo. Note que, uma vez que a regulação a longo prazo teve tempo para ocorrer, as variações a longo prazo na pressão arterial entre 50 e 250 mmHg exercem pequeno efeito sobre a intensidade do fluxo sanguíneo local. A regulação do fluxo sanguíneo a longo prazo é especialmente importante quando as demandas metabólicas do tecido se alteram. Assim, se o tecido passa a ser cronicamente hiperativo e, portanto, precisar de quantidades maiores de oxigênio e de outros nutrientes, as arteríolas e os vasos capilares em geral aumentarão em número e em tamanho após algumas semanas para suprir as necessidades do tecido — a menos que o sistema circulatório tenha ficado patológico ou muito envelhecido para responder. Mecanismo de Regulação a Longo Prazo — Alteração na "VascularizaçãoTecidual" O mecanismo de regulação do fluxo sanguíneo local a longo prazo consiste em grande parte na alteração da vascularização dos tecidos. Por exemplo, se o metabolismo no tecido é aumentado por período prolongado, a vascularização aumenta, processo em geral denominado angiogênese; se o metabolismo for reduzido, a vascularização diminui. A Figura 17-6 mostra o grande aumento no número de capilares no músculo tibialis anterior de rato estimulado eletricamente para contrair por curto período de tempo, diariamente durante 30 dias, comparado com o músculo não estimulado da outra perna do animal. Assim, ocorre verdadeira reconstrução física da vas- culatura do tecido para atender às demandas dos tecidos. Essa reconstrução ocorre rapidamente (em alguns dias) nos animais jovens. Também ocorre com muita rapidez em tecidos novos em crescimento, como os tecidos cicatriciais ou cancerosos; entretanto, ocorre mais lentamente em tecidos velhos e bem estabelecidos. Assim, o tempo necessário para que a regulação a longo prazo ocorra pode ser de apenas alguns dias, no neonato, até meses, nos idosos. Além disso, o grau final de resposta é muito maior nos tecidos jovens que nos envelhecidos, de modo que no neonato a vascularização se ajustará até compensar exatamente as necessidades de fluxo sanguíneo do tecido, enquanto, em tecidos mais velhos, a vascularização frequentemente permanece muito abaixo das necessidades teciduais. 207 U N I D A
  • 230. Unidade IV A Circulação Figura 17-6 Grande aumento no número de capilares {pontos brancos) no músculo tibial anterior de rato que foi estimulado eletricamente a contrair por curtos períodos de tempo diariamente por 30 dias (fi), comparado com músculo não estimulado (A). Os 30 dias de estímulo elétrico intermitente converteram as fibras predominantemente de contração rápida e glicolítica do músculo tibial anterior para uma de contração predominantemente lenta e oxidativa do músculo com número de capilares aumentado e diâmetro das fibras diminuído, como mostrado. (Foto cedida por Dr.Thomas Adair.) O Papel do Oxigênio na Regulação a Longo Prazo. O oxigênio é importante não apenas para o controle agudo do fluxo sanguíneo local, mas também para o controle a longo prazo. Um exemplo dessa importância é a vascu- larização aumentada nos tecidos de animais que vivem em altas altitudes, onde o oxigênio atmosférico é baixo. Um segundo exemplo é representado por fetos de galinha incubados sob baixo oxigênio, que têm condutividade dos vasos sanguíneos teciduais até duas vezes maiores que a normal. Esse mesmo efeito é também dramaticamente demonstrado em bebês humanos prematuros mantidos em tendas de oxigênio por razões terapêuticas. O excesso de oxigênio provoca a interrupção quase imediata do crescimento vascular na retina dos olhos do bebê prematuro, chegando a causar degeneração de alguns dos pequenos vasos formados. Então, quando o lactente é retirado da tenda de oxigênio, ocorre hipercrescimento explosivo de novos vasos para compensar a súbita diminuição na oferta de oxigênio; de fato, o hipercrescimento é frequentemente tão intenso que os vasos retinianos crescem para fora da retina em direção ao humor vítreo do olho, e por fim provoca cegueira. (Essa condição é chamada de fibro- plasia retrolenticular.) A Importância do Fator de Crescimento do Endotélio Vascular na Formação de Novos Vasos Sanguíneos Identificaram-se mais de dúzia de fatores que aumentam o crescimento de novos vasos sanguíneos, quase todos pequenos peptídeos. Três desses fatores foram mais bem caracterizados e consistem no fator de crescimento do endotélio vascular (FCEV), fator de crescimento de fibro- blastos e angiogenina; todos eles foram isolados de tecidos com irrigação sanguínea inadequada. Presume-se que a deficiência de oxigênio tecidual ou de outros nutrientes, ou de ambos, leve à formação de fatores de crescimento vascular (também chamados de “fatores angiogênicos”). Essencialmente todos os fatores angiogênicos promovem o crescimento de novos vasos da mesma maneira. Eles fazem com que novos vasos brotem de outros vasos pequenos. O primeiro passo é a dissolução da membrana basal das células endoteliais no local do brotamento. A isso se segue a rápida reprodução de novas células endoteliais emergindo da parede vascular como cordões que se estendem em direção à fonte do fator angiogênico. As células em cada cordão continuam a se dividir e em pouco tempo se curvam formando tubo. A seguir, o tubo se conecta a outro tubo, brotando de outro vaso doador (outra arteríola ou vênula) e forma alça capilar, pela qual o sangue começa a fluir. Se o fluxo for suficientemente intenso, as células musculares lisas por fim invadem a parede; assim alguns dos novos vasos crescem e formam novas arteríolas ou vênulas, ou talvez até mesmo vasos maiores. Assim, a angiogênese explica o modo como fatores metabólicos em tecidos locais podem provocar o crescimento de novos vasos. Algumas outras substâncias, como alguns hormônios esteroides, exercem precisamente o efeito oposto sobre pequenos vasos sanguíneos, causando por vezes a dissolução das células vasculares e o desaparecimento dos vasos. Assim, os vasos sanguíneos podem ser desfeitos quando não são necessários. Peptídeos produzidos nos tecidos também podem bloquear o crescimento de novos vasos sanguíneos. Por exemplo, a angiostatina, fragmento da proteína plasminogênio, é inibidor natural da angiogênese. Endostatina é outro peptídeo antiangiogênico, que é derivada da quebra do colágeno do tipo XVII. Apesar de a função fisiológica precisa dessas substâncias antiangiogênicas ainda serem desconhecidas, há grande interesse em seus usos potenciais na interrupção do crescimento de vasos em células tumorais e assim prevenir o grande aumento de fluxo sanguíneo necessário para manter o suprimento de nutrientes de tumores de crescimento rápido. 208
  • 231. Capítulo 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos A Vascularização É Determinada pela Necessidade Máxima de Fluxo Sanguíneo, e não pela Necessidade Média. Característica especialmente importante do controle vascular a longo prazo é o fato de que a vascularização é determinada em sua maior parte pelo nível máximo de fluxo sanguíneo necessário, e não pela necessidade média. Por exemplo, durante o exercício intenso, a necessidade corporal total de fluxo sanguíneo muitas vezes aumenta por até seis a oito vezes o fluxo sanguíneo de repouso. Esse grande excesso de fluxo pode não ser necessário por mais de alguns minutos a cada dia. Todavia, mesmo essa curta necessidade pode fazer com que quantidade suficiente de FCEV seja formada pelos músculos para aumentar sua vascularização até os níveis necessários. Se não fosse por essa capacidade, cada vez que a pessoa tentasse realizar exercício intenso, os músculos não receberiam os nutrientes necessários, em especial o oxigênio e simplesmente não seriam capazes de se contrair. Entretanto, após o desenvolvimento de vascularização adicional, os novos vasos sanguíneos normalmente permanecem contraídos, só se abrindo para permitir o fluxo extra quando estímulos locais apropriados, como a falta de oxigênio, estímulos nervosos vasodilatadores ou outros estímulos ativarem o fluxo adicional necessário. Desenvolvimento de Circulação Colateral — Um Fenômeno a Longo Prazo da Regulação Local do Fluxo Sanguíneo camente pela multiplicação de novos vasos ao longo de período de semanas a meses. O exemplo mais importante do desenvolvimento de vasos sanguíneos colaterais ocorre após trombose de uma das artérias coronárias. Quase todas as pessoas, após os 60 anos de idade, já tiveram ao menos um dos ramos menores dos vasos coronarianos bloqueado ou pelo menos ocluído em parte. Ainda assim, a maioria das pessoas jamais nota esse fato, devido ao desenvolvimento de colaterais que é rápido o suficiente para impedir a lesão miocárdica. Os graves ataques cardíacos só acontecem nas situações em que a insuficiência coronariana ocorre tão rápida ou tão gravemente que os colaterais não chegam a se desenvolver. Controle Humoral da Circulação O controle humoral da circulação é feito por substâncias secretadas ou absorvidas pelos líquidos corporais — como hormônios e fatores produzidos localmente. Algumas dessas substâncias são formadas por glândulas especiais e transportadas pelo sangue por todo o corpo. Outras são formadas em tecidos locais, só causando efeitos circulatórios locais. Entre os fatores humorais mais importantes que afetam a função circulatória, encon- tram-se os seguintes. Quando uma artéria ou veia é bloqueada em praticamente qualquer tecido do corpo, em geral novo canal vascular se desenvolve ao redor do bloqueio e permite pelo menos nova irrigação parcial de sangue para o tecido afetado. O primeiro estágio nesse processo é a dilatação de pequenas alças vasculares que já conectavam o vaso acima do bloqueio ao vaso abaixo. Essa dilatação ocorre no primeiro ou segundo minuto, indicando que a dilatação é provavelmente mediada por fatores metabólicos que relaxam as fibras musculares dos pequenos vasos envolvidos. Após essa abertura inicial dos vasos colaterais, o fluxo sanguíneo frequentemente ainda é menos de um quarto do necessário para suprir todas as demandas teciduais. Entretanto nas horas seguintes ocorre maior abertura; assim, após 1 dia, a metade das necessidades teciduais já pode ser suprida e, após poucos dias, o fluxo de sangue é em geral suficiente para suprir sua totalidade. Os vasos colaterais continuam a crescer por muitos meses após o bloqueio, formando quase sempre pequenos canais colaterais múltiplos, em vez de grande vaso único. Nas condições de repouso, o fluxo sanguíneo em geral retorna até níveis muito próximos do normal, mas os novos canais raramente ficam suficientemente grandes para suprir o fluxo sanguíneo necessário durante atividades físicas extenuantes. Assim, o desenvolvimento de vasos colaterais segue os princípios habituais do controle local do fluxo sanguíneo agudo e a longo prazo; o primeiro, pela rápida dilatação metabólica, seguido croni Agentes Vasoconstritores Norepinefrina e Epinefrina. A norepinefrina é hormônio vasoconstritor especialmente potente; a epinefrina é menos potente, e em alguns tecidos causa até mesmo vasodilatação leve. (Exemplo especial da vasodi- latação causada pela epinefrina é a das artérias coronárias durante o aumento da atividade cardíaca.) Quando o sistema nervoso simpático é estimulado em quase todas, ou em todas as partes do corpo durante estresse ou exercício, as terminações nervosas simpáticas nos tecidos individuais liberam norepinefrina, que excita o coração e contrai as veias e arteríolas. Além disso, os nervos simpáticos que suprem as medulas adrenais fazem com que essas glândulas secretem tanto norepinefrina quanto epinefrina no sangue. Esses hormônios então circulam por todas as áreas do corpo e provocam praticamente os mesmos efeitos sobre a circulação que a estimulação simpática direta, formando assim sistema duplo de controle: (1) estimulação nervosa direta e (2) efeitos indiretos da norepinefrina e/ou epinefrina pelo sangue circulante. Angiotensina II. A angiotensina II é outra potente substância vasoconstritora. Até mesmo um milionésimo de grama pode aumentar a pressão arterial do ser humano por 50 mmHg ou mais. O efeito da angiotensina II é o de contrair de forma muito intensa as pequenas arteríolas. Se isso ocorrer em área tecidual isolada, o fluxo sanguíneo para essa área poderá ser intensamente reduzido. Entretanto, a verda- 209 U N I D A
  • 232. Unidade IV A Circulação deira importância da angiotensina II reside no fato de que em condições normais ela age ao mesmo tempo em muitas arteríolas do corpo, aumentando a resistência periférica total, elevando dessa forma a pressão arterial. Assim, esse hormônio tem papel integral na regulação da pressão arterial, como discutido em detalhes no Capítulo 19. Vasopressina. A vasopressina, também chamada hormônio antidiurético, tem efeito vasoconstritor ainda mais intenso que a angiotensina II, sendo uma das substâncias constritoras vasculares mais potentes do organismo. Ela é formada nas células nervosas do hipotálamo no cérebro (Caps. 28 e 75), mas é em seguida transportada por axô- nios nervosos até a hipófise posterior, de onde é por fim secretada no sangue. É evidente que a vasopressina poderia exercer efeitos muito intensos sobre a função circulatória. Entretanto, normalmente apenas quantidades diminutas de vasopressina são secretadas; assim, a maioria dos fisiologis- tas chegou a acreditar que ela tivesse pequeno papel no controle vascular. Contudo, experimentos demonstraram que a concentração de vasopressina no sangue circulante após hemorragia grave pode aumentar o suficiente para elevar a pressão arterial por até 60 mmHg. Em muitos casos, esse aumento pode isoladamente normalizar, de modo quase total a pressão arterial. A vasopressina tem a função principal de aumentar muito a reabsorção de água pelos túbulos renais de volta para o sangue (discutido no Cap. 28) e assim auxiliar no controle do volume de líquido corporal. Esse é o motivo pelo qual esse hormônio é também chamado de hormônio antidiurético. Agentes Vasodilatadores Bradicinina. Diversas substâncias chamadas cininas provocam intensa vasodilatação quando formadas no sangue e nos líquidos teciduais de alguns órgãos. As cininas são pequenos polipeptídeos clivados por enzimas proteolíticas das alfa2-globulinas, no plasma ou nos líquidos teciduais. Enzima proteolítica com importância especial para esse propósito é a calicreína, presente no sangue e nos líquidos teciduais em forma inativa. Ela é ativada pela maceração do sangue, por inflamação teci- dual ou por outros efeitos químicos ou físicos semelhantes no sangue ou nos tecidos. Ao ser ativada, a calicreína age imediatamente sobre a alfa2-globulina, liberando a cinina chamada calidina que é então convertida por enzimas teciduais em bradicinina. Uma vez formada, a bradicinina persiste por apenas alguns minutos, pois ela é inativada pela enzima carboxipeptidase ou pela enzima conversora, a mesma que desempenha papel essencial na ativação da angiotensina, como discutido no Capítulo 19. A calicreína ativada é destruída por um inibidor de calicreína, também presente nos líquidos corporais. A bradicinina provoca intensa dilatação arteriolar e aumento da permeabilidade capilar. Por exemplo, a injeção de 1 micrograma de bradicinina na artéria braquial de pessoa aumenta o fluxo sanguíneo do braço por seis vezes, e mesmo quantidades menores quando injetadas localmente nos tecidos podem provocar edema acentuado, resultante do aumento de tamanho dos poros capilares. Existem razões para se acreditar que as cininas desempenham papéis especiais na regulação do fluxo sanguíneo e no extravasamento capilar de líquidos nos tecidos inflamados. Acredita-se também que a bradicinina tenha papel normal na regulação do fluxo sanguíneo da pele, bem como nas glândulas salivares e gastrointestinais. Histamina. A histamina é liberada em praticamente todos os tecidos corporais se o tecido for lesado ou se tornar inflamado, ou se passar por reação alérgica. A maior parte da histamina deriva de mastócitos nos tecidos lesados e de basófilos no sangue. A histamina exerce potente efeito vasodilatador nas arteríolas e, como a bradicinina, tem a capacidade de aumentar muito a porosidade capilar, permitindo o extravasamento de líquido e de proteínas plasmáticas para os tecidos. Em muitas condições patológicas, a intensa dilatação arteriolar e o aumento da porosidade capilar produzidos pela histamina fazem com que enorme quantidade de líquido extravase da circulação para os tecidos, causando edema. Os efeitos vasodilatadores locais e produtores de edema da histamina são especialmente proeminentes durante reações alérgicas, como discutidos no Capítulo 34. Controle Vascular por íons e Outros Fatores Químicos Muitos íons e outros fatores químicos diferentes podem dilatar ou contrair os vasos sanguíneos locais. A maioria tem pequena função na regulação geral da circulação, mas alguns efeitos específicos são: 1. Aumento da concentração de íons cálcio provoca vasoconstrição. Isso resulta do efeito geral do cálcio de estimular a contração do músculo liso, como discutido no Capítulo 8. 2. Aumento da concentração de íons potássio, dentro da variação fisiológica, provoca vasodilatação. Isso resulta da capacidade dos íons potássio de inibir a contração do músculo liso. 3. Aumento da concentração de íons magnésio provoca intensa vasodilatação porque os íons magnésio inibem a contração do músculo liso. 4. Aumento da concentração de íons hidrogênio (diminuição do pH) provoca a dilatação das arteríolas. Ao contrário, a ligeira diminuição da concentração de íons hidrogênio provoca constrição arteriolar. 5. Os ânions com efeitos significativos sobre os vasos sanguíneos são o acetato e o citrato, e ambos provocam graus leves de vasodilatação. 6. Aumento da concentração de dióxido de carbono provoca vasodilatação moderada na maioria dos tecidos, mas vasodilatação acentuada no cérebro. Além disso, 210
  • 233. Capítulo 17 Controle Local e Humoral do Fluxo Sanguíneo dos Tecidos o dióxido de carbono no sangue agindo sobre o centro vasomotor do cérebro exerce intenso efeito indireto, transmitido pelo sistema nervoso vasoconstritor simpático, causando vasoconstrição generalizada em todo Referências AdairTH: Crowth regulation of the vascular System: an emerging roleevi- dence for adenosine. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol 289:R283, 2005. o corpo. Grande Parte dos Vasodilatadores e Vasoconstri- tores Exerce Pouco Efeito a Longo Prazo no Fluxo Sanguíneo, a Menos que Alterem a Intensidade Me- tabólica dos Tecidos. Na maioria dos casos, o fluxo sanguíneo tecidual e o débito cardíaco (a soma do fluxo em todos os tecidos do corpo) não são substancialmente alterados, exceto por um dia ou dois em estudos experimentais, quando há infusão crônica de grandes quantidades de vasoconstritores potentes, tais como angiotensina II ou vasodilatadores, como a bradicinina. Por que o fluxo sanguíneo não é alterado significativamente na maioria dos tecidos, mesmo na presença de grandes quantidades dessas substâncias vasoativas? Para responder essa questão, devemos retornar para um dos princípios fundamentais da função circulatória que discutimos antes — a capacidade de cada tecido de autorregular seu próprio fluxo sanguíneo de acordo com suas necessidades metabólicas e outras funções tecidu- ais. A administração de vasoconstrictores potentes, tais como angiotensina II, pode causar diminuição transitória no fluxo sanguíneo e no débito cardíaco, mas normalmente tem pouco efeito a longo prazo se não alterar a intensidade metabólica dos tecidos. Da mesma forma, a Campbell WB, Falck JR: Arachidonic acid metabolites as endothelium- derived hyperpolarizing factors? Hypertension 49:590,2007. Drummond HA, Grifoni SC, Jernigan NL: A new trick for an old dogma: ENaC proteins as mechanotransducers in vascular smooth muscle, Physiology (Bethesda) 23:23, 2008. Dhaun N, Goddard J, Kohan DE, et al: Role of endothelin-1 in clinicai hypertension: 20 years on, Hypertension 52:452, 2008. Ferrara N, Gerber HP, LeCouter J: The biology ofVEGF and its receptors. NatMed 9:669, 2003. Folkman J:Angiogenesis, Annu RevMed 57:1, 2006. Folkman J: Angiogenesis: an organizing principie for drug discovery? Nat RevDrug Discov 6:273, 2007. Guyton AC, Coleman TG, Granger HJ: Circulation: overall regulation. Annu Rev Physiol 34:13,1972. Hall JE, Brands MW, Henegar JR: Angiotensin II and long-term arterial pressure regulation: the overriding dominance of the kidneyJAm Soc Nephrol 10(Suppl 12):S258,1999. Heerkens EH, Izzard AS, Heagerty AM: Integrins, vascular remodeling, and hypertension, Hypertension 49:1, 2007. Hester RL, Hammer LW: Venular-arteriolar communication in the regulation of blood flow. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol 282:R1280, 2002. Hodnett BL, Hester RL: Regulation of muscle blood flow in obesity, Micro- circulation 14:273, 2007. HorowitzA, Simons M: Branching morphogenesis, CircRes 103:784, 2008. Humphrey JD: Mechanisms of arterial remodeling in hypertension: cou- pled roles of wall shear and intramural stress, Hypertension 52:195, 2008. Jain RK, di Tomaso E, Duda DG, et al: Angiogenesis in brain tumours, Nat Rev Neurosci 8:610, 2007. maioria dos vasodilatadores causa apenas mudanças de curta duração no fluxo sanguíneo tecidual e no débito cardíaco se não alterar o metabolismo do tecido. Portanto, o fluxo sanguíneo é geralmente regulado de acordo com as necessidades específicas do tecido, desde que a pressão arterial seja adequada para perfusão desses tecidos. Keeley EC, Mehrad B, Strieter RM: Chemokines as mediators of neovascu- larization, ArteriosclerThrombVasc Biol 28:1928, 2008. Renkin EM: Control of microcirculation and blood-tissue exchange. In: Renkin EM, Michel CC (eds): Handbook of Physiology, Sec. 2, Vol. IV. Bethesda: American Physiological Society, 1984, p 627. Roman RJ: P-450 metabolites of arachidonic acid in the control of cardio- vascular function. Physiol Rev 82:131, 2002. 211 U N I D A
  • 235. CAPÍTULO 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial Regulação Nervosa da Circulação Como discutido no Capítu- lo 17, o ajuste do fluxo san- guíneo nos tecidos e órgãos do corpo ocorre em sua maior parte por meio de mecanismos locais de controle. Discutiremos neste capítulo que o controle nervoso da circulação tem funções mais globais, como a redistribui- ção do fluxo sanguíneo para diferentes áreas do corpo, aumentando ou diminuindo a atividade de bombeamento do coração, e realizando o controle muito rápido da pres- são arterial sistêmica. O controle nervoso da circulação é feito quase inteiramente por meio do sistema nervoso autônomo. O funcionamento total desse sistema é apresentado no Capítulo 60, e esse tópico foi também introduzido no Capítulo 17. Para a presente discussão, consideraremos as características anatômicas e funcionais específicas adicionais, o que será feito a seguir. Sistema Nervoso Autônomo O componente mais importante de longe do sistema nervoso autônomo na regulação da circulação é certamente o sistema nervoso simpático. O sistema nervoso paras- simpático, no entanto, contribui de modo importante para a regulação da função cardíaca, como descreveremos adiante, neste capítulo. tribuídos para a vasculatura das áreas periféricas. As vias precisas dessas fibras na medula espinhal e nas cadeias simpáticas são discutidas no Capítulo 60. Inervação Simpática dos Vasos Sanguíneos. A Figura 18-2 mostra a distribuição das fibras nervosas simpáticas para os vasos sanguíneos, demonstrando que na maioria dos tecidos todos os vasos, exceto os capilares, são inervados. Os esfíncteres pré-capilares e metarterío- las são inervados em alguns tecidos como nos vasos sanguíneos mesentéricos, embora sua inervação simpática não seja em geral tão densa como nas pequenas artérias, arteríolas e veias. A inervação das pequenas artérias e das arteríolas permite a estimulação simpática para aumentar a resistência ao fluxo sanguíneo e, portanto, diminuir a velocidade do fluxo pelos tecidos. A inervação dos vasos maiores, em particular das veias, torna possível para a estimulação simpática diminuir seu volume. Isso pode impulsionar o sangue para o coração e assim ter um papel importante na regulação do bombeamento cardíaco, como explicaremos adiante neste e nos capítulos subsequentes. Fibras Nervosas Simpáticas para o Coração. As fibras simpáticas também se dirigem diretamente para o coração, como mostrado na Figura 18-1 e discutido também no Capítulo 9. É importante lembrar que a estimulação simpática aumenta acentuadamente a atividade cardíaca, tanto pelo aumento da frequência cardíaca quanto pelo aumento da força e do volume de seu bombeamento. Sistema Nervoso Simpático. A Figura 18-1 mostra a anatomia do controle circulatório pelo sistema nervoso simpático. Fibras nervosas vasomotoras simpáticas saem da medula espinhal pelos nervos espinhais torácicos e pelo primeiro ou dois primeiros nervos lombares. A seguir, passam imediatamente para as cadeias simpáticas, situadas nos dois lados da coluna vertebral. Daí, seguem para a circulação por meio de duas vias: (1) por nervos simpáticos específicos que inervam principalmente a vasculatura das vísceras intestinais e do coração, como mostrado no lado direito da Figura 18-1, e (2) quase imediatamente para os segmentos periféricos dos nervos espinhais, dis Controle Parassimpático da Função Cardíaca, Especialmente a Frequência Cardíaca. Embora o sistema nervoso parassimpático seja extremamente importante para muitas outras funções autônomas do corpo, como o controle das múltiplas ações gastrintestinais, ele desempenha apenas papel secundário na regulação da função vascular na maioria dos tecidos. Seu efeito circulatório mais importante é o controle da frequência cardíaca pelas fibras nervosas parassimpáticas para o coração nos nervos vagos, representados na Figura 18-1 pela linha vermelha tracejada que parte do bulbo diretamente para o coração. 213 U N I D A
  • 236. Unidade IV A Circulação Vasos sanguíneos Vago Coração Vasos sanguíneos Figura 18-1 Anatomia do controle nervoso simpático da circulação. A linha vermelha tracejada representa o nervo vago, que leva sinais parassimpáticos para o coração. Os efeitos da estimulação parassimpática sobre a função cardíaca foram discutidos de forma detalhada no Capítulo 9. Essa estimulação provoca principalmente acentuada diminuição da frequência cardíaca e redução ligeira da contratilidade do músculo cardíaco. Sistema Vasoconstritor Simpático e seu Controle pelo Sistema Nervoso Central Os nervos simpáticos contêm inúmeras fibras nervosas vasoconstritoras e apenas algumas fibras vasodilatadoras. As fibras vasoconstritoras estão distribuídas para todos os segmentos da circulação, embora mais para alguns tecidos que outros. O efeito vasoconstritor simpático é especialmente intenso nos rins, nos intestinos, no baço e na pele, e muito menos potente no músculo esquelético e no cérebro. Centro Vasomotor no Cérebro e seu Controle pelo Sistema Vasoconstritor. A área bilateral referida como centro vasomotor está situada no bulbo, em sua substância reticular e no terço inferior da ponte, como mostrado nas Figuras 18-1 e 18-3. Esse centro transmite impulsos parassimpáticos por meio dos nervos vagos até o coração, e impulsos simpáticos, pela medula espinhal e pelos nervos simpáticos periféricos, para praticamente todas as artérias, arteríolas e veias do corpo. Embora a organização completa do centro vasomotor ainda seja incerta, foi possível demonstrar por experimentos algumas de suas áreas importantes: 1. Área vasoconstritor a bilateral, situada nas partes ante- rolaterais do bulbo superior. Os neurônios que se originam dessa área distribuem suas fibras por todos os níveis da medula espinhal, onde excitam os neurônios vasoconstritores pré-ganglionares do sistema nervoso simpático. 2. Área vasodilatadora bilateral, situada nas partes ante- rolaterais da metade inferior do bulbo. As fibras desses neurônios se projetam para cima, até a área vasocons- tritora descrita; elas inibem sua atividade vasoconstri- tora, causando assim vasodilatação. 214
  • 237. Capítulo 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial Artérias CENTRO VASOMOTOR Orbital Motora Substância Mesencéfalo Temporal Ponte Bulbo VASODILATADORAS VASOCONSTRITORAS Figura 18-3 Áreas do cérebro com participação importante na regulação nervosa da circulação. As linhas tracejadas representam vias inibitórias. 3. Área sensorial bilateral situada no trato solitário, nas porções posterolaterais do bulbo e da ponte inferior. Os neurônios dessa área recebem sinais nervosos sen- soriais do sistema circulatório, principalmente por meio dos nervos vago e glossofaríngeo, e seus sinais ajudam a controlar as atividades das áreas vasoconstri- tora e vasodilatadora do centro vasomotor, realizando assim o controle “reflexo” de muitas funções circulatórias. Exemplo é o reflexo barorreceptor para o controle da pressão arterial que descreveremos adiante, neste capítulo. A Constrição Parcial Contínua dos Vasos Sanguíneos É Normalmente Causada pelo Tônus Vasoconstritor Simpático. Em condições normais, a área vasocons- tritora do centro vasomotor transmite continuamente sinais para as fibras nervosas vasoconstritoras simpáticas em todo o corpo, provocando a despolarização repetitiva dessas fibras, com frequência de cerca de meio a dois impulsos por segundo. Essa despolarização contínua é referida como tônus vasoconstritor simpático. Esses impulsos normalmente mantêm o estado parcial de contração dos vasos sanguíneos, chamado tônus vasomotor. A Figura 18-4 demonstra o significado do tônus vasoconstritor. No experimento dessa figura, foi administrada anestesia espinhal total do animal, que bloqueou toda a transmissão dos impulsos nervosos simpáticos da medula para a periferia. Como resultado, a pressão arterial caiu de 100 para 50 mmHg, demonstrando o efeito da perda do tônus vasoconstritor em todo o corpo. Alguns minutos depois, uma pequena quantidade do hormônio norepi- nefrina foi injetada no sangue (a norepinefrina é a principal substância hormonal vasoconstritora secretada pelas terminações das fibras nervosas vasoconstritoras simpáticas em todo o corpo). Quando o hormônio injetado foi transportado pelo sangue para os vasos sanguíneos, estes novamente se contraíram e a pressão arterial aumentou até nível ainda maior que o normal durante 1 a 3 minutos, até a degradação da norepinefrina. Controle da Atividade Cardíaca pelo Centro Vasomotor. O centro vasomotor ao mesmo tempo em que controla a constrição vascular regula também a atividade cardíaca. Suas porções laterais transmitem impulsos excitatórios por meio das fibras nervosas simpáticas para o coração, quando há necessidade de elevar a frequência cardíaca e a contratilidade. Por sua vez, quando é necessário reduzir o bombeamento cardíaco, a porção mediai do centro vasomotor envia sinais para os núcleos dorsais dos nervos vagos adjacentes, que então transmitem impulsos parassimpáticos pelos nervos vagos para o coração, diminuindo a frequência cardíaca e a contratilidade. Dessa forma, o centro vasomotor pode aumentar ou diminuir a atividade cardíaca. A frequência e a força da contração cardíaca aumentam quando ocorre vaso- constrição e diminuem quando esta é inibida. Controle do Centro Vasomotor por Centros Nervosos Superiores. Grande número de pequenos neurônios situados ao longo da substância reticular da ponte, do mesencéfalo e do diencéfalo pode excitar ou inibir o centro vasomotor. Essa substância reticular é representada, na Figura 18-3, pela região de coloração rosa. Em geral, os neurônios nas partes mais laterais e superiores da substância reticular provocam excitação, enquanto as porções mais mediais e inferiores causam inibição. O hipotálamo tem participação especial no controle do sistema vasoconstritor, por poder exercer potentes efeitos excitatórios ou inibitórios sobre o centro vasomotor. As porções posterolaterais do hipotálamo causam principalmente excitação, enquanto a porção anterior pode causar excitação ou inibição leves, de acordo com a parte precisa do hipotálamo anterior que é estimulada. Muitas partes do córtex cerebral também podem excitar ou inibir o centro vasomotor. A estimulação do córtex motor, por exemplo, excita o centro vasomotor por meio de impulsos descendentes transmitidos para o hipo- 215 U N I D A
  • 238. Unidade IV A Circulação Figura 18-4 Efeito da anestesia espinhal total sobre a pressão arterial, mostrando a acentuada redução na pressão resultante da perda do “tônus vasomotor”. tálamo, e então para o centro vasomotor. Além disso, a estimulação do lobo temporal anterior, das áreas orbitais do córtex frontal, da parte anterior do giro cingulado, da amígdala, do septo e do hipocampo pode excitar ou inibir o centro vasomotor, dependendo das regiões estimuladas precisas dessas áreas e da intensidade do estímulo. Assim, diversas áreas basais dispersas pelo encéfalo podem afetar profundamente a função cardiovascular. Norepinefrina — A Substância Transmissora da Vasoconstrição Simpática. A substância secretada pelas terminações dos nervos vasoconstritores consiste quase inteiramente em norepinefrina, que age diretamente sobre os receptores alfa-adrenérgicos da musculatura vascular lisa, causando vasoconstrição, como discutido no Capítulo 60. Medulas Adrenais e sua Relação com o Sistema Vaso- constritor Simpático. Ao mesmo tempo em que os impulsos simpáticos são transmitidos para os vasos sanguíneos, também o são para as medulas adrenais, provocando a secreção tanto de epinefrina quanto de norepinefrina no sangue circulante. Esses dois hormônios são transportados pela corrente sanguínea para todas as partes do corpo, onde agem de modo direto sobre todos os vasos sanguíneos, causando geralmente vasoconstrição. Em alguns tecidos, a epinefrina provoca vasodilatação, já que ela também tem um efeito estimulador “beta”-adrenér- gico que dilata os vasos em vez de contraí-los, como discutido no Capítulo 60. Sistema Vasodilatador Simpático e seu Controle pelo Sistema Nervoso Central. Os nervos simpáticos para os músculos esqueléticos contêm fibras vasodilatadoras além das constritoras. Em alguns animais, como o gato, essas fibras dilatadoras liberam em suas terminações acetilco- lina, e não norepinefrina, embora se acredite que nos pri- matas o efeito vasodilatador seja causado pela epinefrina, que excita os receptores beta-adrenérgicos na vasculatura muscular. A via de controle pelo sistema nervoso central do sistema vasodilatador é demonstrada pelas linhas tracejadas na Figura 18-3. A principal área do cérebro que controla esse sistema é o hipotálamo anterior. A Possível Insignificância do Sistema Vasodilatador Simpático. Existem dúvidas sobre a importância da participação do sistema vasodilatador simpático no controle da circulação nos seres humanos porque o bloqueio completo dos nervos simpáticos para os músculos praticamente não afeta a capacidade desses músculos de controlar o próprio fluxo sanguíneo em resposta às suas necessidades. Ainda assim, alguns experimentos sugerem que o sistema vasodilatador simpático provoca a vasodilatação inicial nos músculos esqueléticos no início do exercício, para permitir o aumento antecipatório do fluxo sanguíneo antes mesmo que os músculos precisem de nutrientes adicionais. Desmaio Emocional — Síncope Vasovagal. Reação vaso- dilatadora particularmente interessante ocorre em pessoas que apresentam intensos distúrbios emocionais que provocam desmaio. Nesse caso, o sistema vasodilatador muscular fica ativado, e ao mesmo tempo o centro vagai cardioini- bitório transmite fortes sinais para o coração, diminuindo de modo acentuado a frequência cardíaca. A pressão arterial cai rapidamente, o que reduz o fluxo sanguíneo para o cérebro, fazendo com que o indivíduo perca a consciência. Esse efeito global é chamado de síncope vasovagal. O desmaio emocional se inicia com pensamentos perturbadores no córtex cerebral. A via segue então provavelmente para o centro vasodilatador do hipotálamo anterior, próximo aos centros vagais do bulbo, para o coração, pelos nervos vagos e também pela medula espinhal, para os nervos simpáticos vasodilatadores dos músculos. 216
  • 239. Capítulo 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial O Papel do Sistema Nervoso no Controle Rápido da Pressão Arterial Uma das mais importantes funções do controle nervoso da circulação é sua capacidade de causar aumentos rápidos da pressão arterial. Para isso, todas as funções vaso- constritoras e cardioaceleradoras do sistema nervoso simpático são estimuladas simultaneamente. Ao mesmo tempo, ocorre a inibição recíproca de sinais inibitórios parassimpáticos vagais para o coração. Assim, ocorrem a um só tempo três importantes alterações, cada uma ajudando a elevar a pressão arterial. Essas alterações são as seguintes: 1. A grande maioria das arteríolas da circulação sistêmica se contrai, o que aumenta muito a resistência periférica total, aumentando assim a pressão arterial. 2. As veias em especial se contraem fortemente (embora os outros grandes vasos da circulação também o façam), o que desloca sangue para fora dos grandes vasos sanguíneos periféricos, em direção ao coração, aumentando o volume nas câmaras cardíacas. O esti- ramento do coração então aumenta intensamente a força dos batimentos, bombeando maior quantidade de sangue, o que também eleva a pressão arterial. 3. Por fim, o próprio coração é diretamente estimulado pelo sistema nervoso autônomo, aumentando ainda mais o bombeamento cardíaco. Grande parte desse aumento é provocada pela elevação da frequência cardíaca que às vezes atinge valor três vezes maior que o normal. Além disso, sinais nervosos simpáticos exercem efeito direto importante, aumentando a força contrátil do músculo cardíaco, o que também aumenta a capacidade do coração de bombear maiores volumes de sangue. Durante estimulação simpática intensa, o coração pode bombear cerca de duas vezes mais sangue que nas condições normais, o que contribui ainda mais para a elevação aguda da pressão arterial. Rapidez do Controle Nervoso da Pressão Arterial. Característica especialmente importante do controle nervoso da pressão arterial é a rapidez de sua resposta, que se inicia em poucos segundos e com frequência duplica a pressão em 5 a 10 segundos. Ao contrário, a inibição súbita da estimulação cardiovascular nervosa pode reduzir a pressão arterial até a metade da normal em 10 a 40 segundos. Portanto, o controle nervoso da pressão arterial é certamente o mais rápido de todos os mecanismos de controle pressórico. Aumento da Pressão Arterial Durante o Exercício Muscular e Outras Formas de Estresse Exemplo importante da capacidade do sistema nervoso de aumentar a pressão arterial é o aumento da pressão que ocorre durante o exercício muscular. Durante o exercício intenso, os músculos requerem fluxo sanguíneo muito aumentado. Parte desse aumento resulta de vasodi- latação local, causada pela intensificação do metabolismo das células musculares, como explicado no Capítulo 17. Aumento adicional resulta da elevação simultânea da pressão arterial em toda a circulação, causada pela estimulação simpática durante o exercício. Quando o exercício é vigoroso, a pressão arterial quase sempre se eleva por cerca de 30% a 40%, o que aumenta o fluxo sanguíneo para quase o dobro. O aumento da pressão arterial durante o exercício resulta, em sua maior parte, do seguinte efeito: ao mesmo tempo em que as áreas motoras do cérebro são ativadas para produzir o exercício, a maior parte do sistema de ativação reticular do tronco cerebral é também ativada, aumentando de forma acentuada a estimulação das áreas vasoconstritoras e cardioaceleradoras do centro vasomo- tor. Esses efeitos aumentam instantaneamente a pressão arterial para se adequar à maior atividade muscular. Em muitos outros tipos de estresse além do exercício muscular pode ocorrer elevação na pressão. Por exemplo, durante o medo extremo, a pressão arterial às vezes aumenta até 75 a 100 mmHg, em poucos segundos. Essa é a chamada reação de alarme, que gera um excesso de pressão arterial que pode suprir imediatamente o fluxo sanguíneo para os músculos do corpo que precisem responder de forma instantânea para fugir de algum perigo. Mecanismos Reflexos para a Manutenção da Pressão Arterial Normal Além das funções do exercício e do estresse do sistema nervoso autônomo, para elevar a pressão arterial existem muitos mecanismos subconscientes especiais de controle nervoso que operam simultaneamente para manter a pressão arterial em seus valores normais ou próximos deles. Quase todos são mecanismos reflexos de feedback negativo que explicaremos nas próximas seções. O Sistema Barorreceptor de Controle da Pressão Arterial — Reflexos Barorreceptores O reflexo barorreceptor é o mais conhecido dos mecanismos nervosos de controle da pressão arterial. Basicamente, esse reflexo é desencadeado por receptores de estira- mento, referidos como barorreceptores ou pressorecep- tores, localizados em pontos específicos das paredes de diversas grandes artérias sistêmicas. O aumento da pressão arterial estira os barorreceptores, fazendo com que transmitam sinais para o sistema nervoso central. Sinais de “feedback” são então enviados de volta pelo sistema nervoso autônomo para a circulação, reduzindo a pressão arterial até seu nível normal. Anatomia Fisiológica dos Barorreceptores e sua Iner- vação. Os barorreceptores são terminações nervosas do tipo em buquê localizadas nas paredes das artérias; são estimuladas pelo estiramento. Nas paredes de praticamente todas as grandes artérias nas regiões torácica e cervical existem poucos barorreceptores; contudo, como mostrado na Figura 18-5, os barorreceptores são extremamente abundantes (1) na parede de cada artéria caró- 217 U N I D A
  • 240. Unidade IV A Circulação Nervo glossofaríngeo Nervo de Hering Corpo carotídeo Seio carotídeo Nervo vago Barorreceptores aórticos Figura 18-5 O sistema barorreceptor de controle da pressão arterial. tida interna, pouco acima da bifurcação carotídea, na área conhecida como seio carotídeo e (2) na parede do arco aórtico. A Figura 18-5 mostra que os sinais dos “barorreceptores carotídeos” são transmitidos pelos nervos de Hering para os nervos glossofaríngeos na região cervical superior, e daí para o trato solitário na região bulbar do tronco encefálico. Sinais dos “barorreceptores aórticos” no arco da aorta são transmitidos pelos nervos vagos para o mesmo trato solitário do bulbo. Resposta dos Barorreceptores à Pressão Arterial. A Figura 18-6 mostra o efeito de diferentes níveis de pressão arterial sobre a frequência dos impulsos pelo nervo de Hering do seio carotídeo. Note que os barorreceptores do seio carotídeo não são estimulados pelas pressões entre 0 e 50 a 60 mmHg, mas acima desses níveis respondem de modo progressivamente mais rápido, atingindo o máximo em torno de 180 mmHg. As respostas dos barorreceptores aórticos são semelhantes às dos receptores carotídeos, exceto pelo fato de operarem em geral em níveis de pressão arterial cerca de 30 mmHg mais elevados. Note especialmente que na faixa normal de pressão em que operam de cerca de 100 mmHg, mesmo ligeira alteração da pressão causa forte variação do sinal do baror- reflexo, reajustando a pressão arterial de volta ao normal. Assim, o mecanismo de feedback dos barorreceptores funciona com maior eficácia na faixa de pressão em que ele é mais necessário. Figura 18-6 Ativação dos barorreceptores em diferentes níveis de pressão arterial. Al, variação dos impulsos dos seios carotídeos por segundo; AP, variação da pressão arterial em mmHg. Os barorreceptores respondem rapidamente às alterações da pressão arterial; de fato, a frequência dos impulsos aumenta em fração de segundo durante cada sístole e diminui novamente durante a diástole. Além disso, os barorreceptores respondem com muito mais rapidez às variações da pressão que à pressão estável, ou seja, se a pressão arterial média é de 150 mmHg, mas em dado momento aumentar rapidamente a frequência da transmissão de impulsos pode ser até duas vezes maior que quando a pressão está estacionária, em 150 mmHg. Reflexo Circulatório Desencadeado pelos Barorreceptores. Depois que os sinais dos barorreceptores chegaram ao trato solitário do bulbo, sinais secundários inibem o centro vasoconstritor bulbar e excitam o centro parassimpático vagai. Os efeitos finais são (1) vaso- dilatação das veias e das arteríolas em todo o sistema circulatório periférico e (2) diminuição da frequência cardíaca e da força da contração cardíaca. Desse modo, a excitação dos barorreceptores por altas pressões nas artérias provoca a diminuição reflexa da pressão arterial, devido à redução da resistência periférica e do débito cardíaco. Ao contrário, a baixa pressão tem efeitos opostos, provocando a elevação reflexa da pressão de volta ao normal. A Figura 18-7 demonstra uma típica alteração reflexa da pressão arterial, causada pela oclusão das duas artérias carótidas comuns. Isso reduz a pressão nos seios carotídeos, resultando na diminuição dos sinais dos barorreceptores e menor efeito inibitório sobre o centro vasomotor, que passa a ser então muito mais ativo que o normal, fazendo com que a pressão arterial aumente e permaneça elevada durante os 10 minutos em que as carótidas permanecem obstruídas. A remoção da oclusão permite que a pressão nos seios carotídeos se eleve, e o reflexo dos seios carotídeos provoca então a queda imediata da pressão aórtica até nível ligeiramente abaixo do normal, como supercompensação reflexa, seguida pelo retorno ao normal 1 minuto depois. 218
  • 241. Capítulo 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial Figura 18-7 Efeito reflexo típico do seio carotídeo sobre a pressão arterial aórtica, causado pelo pinçamento das duas artérias carótidas comuns (após vagotomia bilateral). Função dos Barorreceptores durante Variações da Postura Corporal. A capacidade dos barorreceptores de manter a pressão arterial relativamente constante na parte superior do corpo é importante quando a pessoa fica em pé, após ter ficado deitada. Imediatamente após a mudança de posição, a pressão arterial, na cabeça e na parte superior do corpo, tende a diminuir, e a acentuada redução dessa pressão poderia provocar a perda da consciência. Contudo, a queda da pressão nos barorreceptores provoca reflexo imediato, resultando em forte descarga simpática em todo o corpo, o que minimiza a queda da pressão na cabeça e na parte superior do corpo. Função de "Tamponamento" Pressórico do Sistema de Controle dos Barorreceptores. Como o sistema dos barorreceptores se opõe aos aumentos ou diminuições da pressão arterial, ele é chamado sistema de tamponamento pressórico, e os nervos dos barorreceptores são chamados nervos tampões. A Figura 18-8 mostra a importância dessa função de tamponamento dos barorreceptores. A parte superior da figura mostra o registro da pressão arterial de cão normal durante 2 horas, e a parte inferior mostra o registro da pressão arterial de cão cujos nervos barorreceptores dos seios carotídeos e da aorta foram removidos. Note a extrema variabilidade da pressão do cão desnervado, causada por eventos simples durante o dia, tais como deitar, ficar em pé, excitação, alimentação, defecação e ruídos. A Figura 18-9 mostra as distribuições da frequência da pressão arterial média, registrada durante 24 horas no cão normal e no desnervado. Note que, quando os barorreceptores estavam funcionando normalmente, a pressão arterial média permaneceu restrita à estreita faixa entre 85 e 115 mmHg, durante todo o dia — de fato, durante a maior parte do tempo ela se manteve exatamente em 100 mmHg. Ao contrário, após a desnervação dos barorreceptores, a curva de distribuição da frequência se alargou como a curva inferior da figura, demonstrando que a variação pressórica aumentou 2,5 vezes, muitas vezes NORMAL 200 -i , .................................................................. Figura 18-8 Registro durante 2 horas da pressão arterial em cão normal (acima) e no mesmo cão (abaixo) várias semanas após a desnervação dos barorreceptores. (Redesenhada de Cowley, AW Jr, Liard JF, Guyton AC: Role of baroreceptor reflex in daily control of arterial blood pressure and other variables in dogs. Circ Res 32:564, 1973. Com a permissão da American Heart Association, Inc.) caindo para 50 mmHg ou se elevando até 160 mmHg. Assim, é possível perceber a extrema variabilidade da pressão na ausência do sistema barorreceptor arterial. Em resumo, a função primária do sistema barorreceptor arterial consiste em reduzir a variação minuto a minuto da pressão arterial para um terço da que seria se esse sistema não existisse. Os Barorreceptores São Importantes para a Regulação a Longo Prazo da Pressão Arterial? Embora os barorreceptores arteriais executem controle rigoroso momento a momento da pressão arterial, sua importância na regulação a longo prazo é controversa. A razão pela qual os barorreceptores foram considerados por alguns fisio- logistas relativamente pouco importantes na regulação crônica da pressão arterial consiste no fato de que eles tendem a se reprogramar para o nível de pressão ao qual estão expostos após 1 a 2 dias, isto é, se a pressão arterial se elevar do valor normal de 100 mmHg para 160 mmHg, de início ocorrerá descarga com frequência muito alta de impulsos. Dentro de alguns minutos, a frequência dos impulsos diminui consideravelmente para, em seguida, reduzir-se cada vez mais lentamente por 1 a 2 dias, ao final dos quais retorna quase ao normal, apesar da manutenção da pressão em 160 mmHg. Ao contrário, quando a pressão arterial cai para um nível muito baixo, os barorreceptores inicialmente não transmitem impulsos, mas de 219 U N I D A
  • 242. Unidade IV A Circulação Figura 18-9 Curvas de distribuição da frequência da pressão arterial, em período de 24 horas em cão normal e no mesmo cão várias semanas após desnervação dos barorreceptores. (Redesenhada de Cowley, AW Jr, Liard JF, Cuyton AC: Role of baroreceptor reflex in daily control of arterial blood pressure and other variables in dogs. Circ Res 32:564,1973. Com a permissão da American Heart Association, Inc.) modo gradual, ao longo de 1 a 2 dias, a frequência dos impulsos barorreceptores retorna ao nível de controle. Essa “reprogramação” dos barorreceptores pode atenuar sua potência como sistema de controle para a correção de distúrbios que tendam a alterar a pressão arterial por períodos mais longos que poucos dias. Estudos experimentais, entretanto, sugeriram que os barorreceptores não se reprogramam de forma total, podendo assim contribuir para a regulação a longo prazo da pressão arterial, especialmente por influenciarem a atividade nervosa simpática nos rins. Por exemplo, durante elevações prolongadas na pressão arterial, os reflexos barorreceptores podem mediar diminuições da atividade nervosa simpática renal que promove a excreção aumentada de sódio e água, o que por sua vez causa diminuição gradual do volume sanguíneo e ajuda a restaurar a pressão ao normal. Assim, a regulação a longo prazo da pressão arterial média pelos barorreceptores necessita de interação com sistemas adicionais, principalmente com o sistema de controle rim-líquidos corporais-pressão (juntamente com seus mecanismos nervosos e hormonais), discutidos nos Capítulos 19 e 29. Controle da Pressão Arterial pelos Quimiorreceptores Carotídeos e Aórticos — Efeito da Falta de Oxigênio sobre a Pressão Arterial. Existe um reflexo quimiorrecep- tor, intimamente associado ao sistema de controle pressó- rico barorreceptor, operando da mesma maneira que este, a não ser pelo fato da resposta ser desencadeada por quimiorreceptores em vez de por receptores de estiramento. Os quimiorreceptores são células sensíveis à falta de oxigênio e ao excesso de dióxido de carbono e de íons hidrogênio. Eles estão situados em diversos pequenos órgãos quimiorreceptores, com dimensões de cerca de 2 milímetros (dois corpos carotídeos localizados na bifurcação de cada artéria carótida comum e geralmente um a três corpos aórticos adjacentes à aorta). Os quimiorreceptores excitam fibras nervosas que, junto com as fibras barorreceptoras, passam pelos nervos de Hering e pelos nervos vagos, dirigindo-se para o centro vasomotor do tronco encefálico. Cada corpo carotídeo ou aórtico recebe abundante fluxo sanguíneo por meio de pequena artéria nutriente; assim, os quimiorreceptores estão sempre em íntimo contato com o sangue arterial. Quando a pressão arterial cai abaixo do nível crítico, os quimiorreceptores são estimulados porque a redução do fluxo sanguíneo provoca a redução dos níveis de oxigênio e o acúmulo de dióxido de carbono e de íons hidrogênio que não são removidos pela circulação. Os sinais transmitidos pelos quimiorreceptores excitam o centro vasomotor, e este eleva a pressão arterial de volta ao normal. Entretanto, o reflexo quimiorrecep- tor não é controlador potente da pressão arterial, até que esta caia abaixo de 80 mmHg. Portanto, apenas sob pressões mais baixas é que esse reflexo passa a ser importante para ajudar a prevenir quedas ainda maiores da pressão arterial. Os quimiorreceptores são discutidos em muito mais detalhes no Capítulo 41, em relação ao controle respiratório, no qual têm participação muito mais importante do que no controle da pressão sanguínea. Reflexos Atriais e das Artérias Pulmonares Que Regulam a Pressão Arterial. Os átrios e as artérias pulmonares têm em suas paredes receptores de estiramento referidos como receptores de baixa pressão, que são semelhantes aos receptores de estiramento das grandes artérias sistêmicas. Esses receptores de baixa pressão desempenham papel importante, especialmente ao minimizarem as variações da pressão arterial, em resposta às alterações do volume sanguíneo. Por exemplo, se 300 mililitros de sangue forem subitamente infundidos em cão com todos os receptores intactos, a pressão arterial se eleva por apenas cerca de 15 mmHg. Se os barorreceptores arteriais forem desnervados, a pressão se eleva por cerca de 40 mmHg. Se os receptores de baixa pressão também forem desnervados, a pressão arterial se eleva por cerca de 100 mmHg. Assim, pode-se ver que apesar dos receptores de baixa pressão na artéria pulmonar e nos átrios não serem capazes de detectar a pressão arterial sistêmica, eles detectam elevações simultâneas nas áreas de baixa pressão da circulação, causadas pelo aumento do volume sanguíneo, desencadeando reflexos paralelos aos reflexos barorreceptores, para tornar o sistema total dos reflexos mais potente para o controle da pressão arterial. Reflexos Atriais que Ativam os Rins — O "Reflexo de Volume". O estiramento dos átrios também provoca dila- tação reflexa significativa das arteríolas aferentes renais. Sinais são também transmitidos simultaneamente dos átrios para o hipotálamo, para diminuir a secreção de hormônio antidiurético (HAD). A resistência arteriolar aferente diminuída nos rins provoca a elevação da pres 220
  • 243. Capítulo 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial são capilar glomerular, com o resultante aumento da fil- tração de líquido pelos túbulos renais. A diminuição do HAD reduz a absorção de água dos túbulos. A combinação desses dois efeitos — aumento da filtração glomerular e diminuição da reabsorção de líquido — aumenta a perda de líquido pelos rins e reduz o volume sanguíneo aumentado de volta aos valores normais. (Veremos também no Capítulo 19 que o estiramento atrial, causado pelo aumento do volume sanguíneo, desencadeia efeito hormonal nos rins — a liberação do peptídeo natriuré- tico atrial — que contribui ainda mais para a excreção de líquido na urina e a normalização do volume sanguíneo.) Todos esses mecanismos que tendem a normalizar o volume sanguíneo, após sobrecarga, atuam indiretamente como controladores de pressão, bem como do volume, porque o excesso do volume aumenta o débito cardíaco e, portanto, provoca elevação da pressão arterial. Esse mecanismo reflexo do volume é discutido de novo no Capítulo 29, junto com outros mecanismos de controle do volume sanguíneo. Reflexo Atrial de Controle da Frequência Cardíaca (o Reflexo de Bainbridge). O aumento da pressão atrial provoca também aumento da frequência cardíaca às vezes por até 75%. Pequena parte desse aumento é causada pelo efeito direto do aumento do volume atrial que estira o nódulo sinusal: foi ressaltado, no Capítulo 10, que esse estiramento direto pode elevar a frequência cardíaca por até 15%. Aumento adicional por 40% a 60% da frequência é causado por reflexo nervoso chamado reflexo de Bainbridge. Os receptores de estiramento dos átrios que desencadeiam o reflexo de Bainbridge transmitem seus sinais aferentes por meio dos nervos vagos para o bulbo. Em seguida, os sinais eferentes são transmitidos de volta pelos nervos vagos e simpáticos, aumentando a frequência cardíaca e a força de contração. Assim, esse reflexo ajuda a impedir o acúmulo de sangue nas veias, nos átrios e na circulação pulmonar. Resposta Isquêmica do Sistema Nervoso Central — Controle da Pressão Arterial pelo Centro Vasomotor do Cérebro em Resposta à Diminuição do Fluxo Sanguíneo Cerebral A maior parte do controle nervoso da pressão sanguínea é realizada por reflexos que se originam nos barorrecep- tores, nos quimiorreceptores e nos receptores de baixa pressão situados na circulação periférica, fora do cérebro. Entretanto, quando o fluxo sanguíneo para o centro vasomotor no tronco encefálico inferior diminui o suficiente para causar deficiência nutricional — ou seja, provocando isquemia cerebral —, os neurônios vasoconstrito- res e cardioaceleradores no centro vasomotor respondem de modo direto à isquemia, ficando fortemente excitados. Quando isso ocorre, a pressão arterial sistêmica frequentemente se eleva até os níveis máximos do bombeamento cardíaco. Acredita-se que esse efeito seja causado pela incapacidade do fluxo lento de sangue de eliminar o dióxido de carbono do centro vasomotor do tronco ence fálico: sob baixos níveis de fluxo sanguíneo, no centro vasomotor, a concentração local de dióxido de carbono aumenta de modo acentuado, exercendo efeito extremamente potente na estimulação das áreas de controle nervoso vasomotor simpático no bulbo. É possível que outros fatores, como a formação de ácido lático e de outras substâncias ácidas no centro vasomotor, também contribuam para a acentuada estimulação e para a elevação da pressão arterial. Esse aumento em resposta à isquemia cerebral é referido como resposta isquêmica do sistema nervoso central (SNC). O efeito isquêmico sobre a atividade vasomotora pode elevar a pressão arterial média de maneira espantosa por até 10 minutos a níveis muito elevados de até 250 mmHg. O grau de vasoconstrição simpática, causado pela intensa isquemia cerebral, é com frequência tão elevado que alguns dos vasos periféricos ficam quase ou totalmente obstruídos. Os rins, por exemplo, muitas vezes interrompem de forma total a produção de urina, devido à constrição arteriolar renal em resposta à descarga simpática. Portanto, a resposta isquêmica do SNC é um dos mais importantes ativadores do sistema vaso- constritor simpático. A Importância da Resposta Isquêmica do SNC como Regulador da Pressão Arterial. Apesar da intensidade da resposta isquêmica do SNC, ela não é significativa até que a pressão arterial caia bem abaixo da normal, até níveis de 60 mmHg ou menos, atingindo seu maior grau de estimulação sob pressões de 15 a 20 mmHg. Portanto, ela não é um dos mecanismos normais de regulação da pressão arterial. Ao contrário, ela atua na maioria das vezes como sistema de emergência de controle da pressão que age muito rápida e intensamente para impedir maior diminuição da pressão arterial, quando o fluxo sanguíneo cerebral diminui até valor muito próximo do nível letal. Esse mecanismo pode ser considerado como a “última cartada” no controle da pressão. Reação de Cushing ao Aumento da Pressão no Encéfalo. A reação de Cushing é tipo especial de resposta isquêmica do SNC, resultante do aumento da pressão do líquido cefalorraquidiano (LCR) ao redor do cérebro na caixa craniana. Por exemplo, quando a pressão do LCR aumenta até se igualar à pressão arterial, ocorre a compressão de todo o cérebro, bem como de suas artérias, bloqueando o suprimento sanguíneo cerebral. Isso inicia a resposta isquêmica do SNC que provoca elevação da pressão arterial. Quando a pressão arterial aumenta até ficar maior que a pressão do LCR, o sangue passa novamente a fluir pelos vasos cerebrais, aliviando a isquemia. Usualmente, a pressão sanguínea atinge novo nível de equilíbrio ligeiramente maior que a pressão do LCR, permitindo o restabelecimento do fluxo sanguíneo pelo encéfalo. A reação de Cushing ajuda a proteger os centros vitais do encéfalo da perda de nutrição, nos casos em que a pressão do LCR se eleva o suficiente para comprimir as artérias cerebrais. 221 U N I D A
  • 244. Unidade IV A Circulação Características Especiais do Controle Nervoso da Pressão Arterial Papel dos Nervos e Músculos Esqueléticos no Aumento do Débito Cardíaco e da Pressão Arterial Embora a maior parte do controle nervoso rápido da circulação seja realizada pelo sistema nervoso autônomo, existem pelo menos duas condições nas quais os nervos e os músculos esqueléticos têm participações importantes nas respostas circulatórias. Reflexo da Compressão Abdominal. Quando é produzido o reflexo barorreceptor ou quimiorreceptor, sinais nervosos são transmitidos ao mesmo tempo pelos nervos esqueléticos para os músculos esqueléticos do corpo, em especial para os músculos abdominais. Isso provoca a compressão de todos os reservatórios venosos do abdômen, ajudando a translocar seu sangue em direção ao coração, que passa a dispor de maior volume para bombear. Essa resposta geral é chamada de reflexo da compressão abdominal. O efeito resultante sobre a circulação é o mesmo causado pelos impulsos vasoconstritores simpáticos ao comprimirem as veias: aumento do débito cardíaco e da pressão arterial. O reflexo da compressão abdominal é provavelmente muito mais importante do que se acreditava no passado porque bem se sabe que pessoas cujos músculos esqueléticos foram paralisados têm tendência muito maior de apresentar episódios de hipotensão que pessoas com músculos normais. Aumento do Débito Cardíaco e da Pressão Arterial Causado pela Contração da Musculatura Esquelética durante o Exercício. Quando os músculos esqueléticos se contraem durante o exercício, comprimem os vasos sanguíneos em todo o corpo. Até mesmo a antecipação do exercício enrijece os músculos, comprimindo assim os vasos nos músculos e no abdômen. O efeito resultante é a translocação de sangue dos vasos periféricos para o coração e os pulmões e, portanto, aumento do débito cardíaco. Esse é efeito essencial que ajuda a aumentar por cinco a sete vezes o débito cardíaco, como ocorre às vezes durante o exercício muito intenso. Esse aumento, por sua vez, é ingrediente essencial para o aumento da pressão arterial durante o exercício que, em geral, se eleva da média normal de 100 mmHg para 130 a 160 mmHg. Ondas Respiratórias na Pressão Arterial Em cada ciclo respiratório, a pressão arterial usualmente aumenta e diminui por 4 a 6 mmHg, de forma ondulante, provocando as ondas respiratórias da pressão arterial. As ondas resultam de vários efeitos diferentes, alguns tendo natureza reflexa, como os seguintes: 1. Muitos dos “sinais respiratórios”, produzidos pelo centro respiratório do bulbo, “extravasam” para o centro vasomotor a cada ciclo respiratório. 2. Cada vez que a pessoa inspira, a pressão na cavidade torácica fica mais negativa, fazendo com que os vasos sanguíneos no tórax se expandam. Isso reduz a quantidade de sangue que retorna para o lado esquerdo do coração, e assim diminui momentaneamente o débito cardíaco e a pressão arterial. 3. As variações da pressão causadas nos vasos torácicos pela respiração podem excitar receptores de estira- mento vasculares e atriais. Embora seja difícil analisar as relações exatas de todos esses fatores causadores das ondas respiratórias da pressão o resultado final durante a respiração normal é, em geral, aumento da pressão arterial durante a parte inicial da expiração, e diminuição no restante do ciclo respiratório. Durante a respiração profunda, a pressão sanguínea pode aumentar e diminuir por até 20 mmHg em cada ciclo respiratório. Ondas “Vasomotoras" da Pressão Arterial — Oscilação dos Sistemas de Controle Reflexo da Pressão Frequentemente, durante o registro da pressão arterial de animal, nota-se, além das pequenas ondas de pressão causadas pela respiração, ondas muito maiores — ocasionalmente com até 10 a 40 mmHg — que aumentam e diminuem mais lentamente que as ondas respiratórias. A duração de cada ciclo varia de 26 segundos no cão anestesiado, a 7 a 10 segundos no ser humano não anestesiado. Essas ondas são referidas como ondas vasomotoras ou “ondas de Mayer”. Tais registros são mostrados na Figura 18- 10, demonstrando a elevação e diminuição cíclica da pressão arterial. A causa das ondas vasomotoras é a “oscilação reflexa” de um ou mais mecanismos nervosos de controle da pressão, entre os quais citamos a seguir. Oscilação dos Reflexos Barorreceptor e Quimiorreceptor. As ondas vasomotoras da Figura 18-105 são com frequência observadas nos registros experimentais de pressão, embora sejam em geral muito menos intensas que as mostradas na figura. Elas são causadas, em sua maior parte, por oscilação do reflexo barorreceptor, isto é, a alta pressão excita os barorreceptores; isso então inibe o sistema nervoso simpático e reduz a pressão alguns segundos depois. A diminuição da pressão, por sua vez, O) 200 - X E 160 - E. 120 - o 80 - 1(0 V) <n 40 - Ü 0 - Q. l l l l l l l l l l l l l l l l l l . . . . . . . . . . . . H U I . . . . . . . . . . . B Figura 18-10 A, Ondas vasomotoras causadas pela oscilação da resposta isquêmica do SNC. B, Ondas vasomotoras causadas pela oscilação do reflexo barorreceptor. 222
  • 245. Capítulo 18 Regulação Nervosa da Circulação e o Controle Rápido da Pressão Arterial reduz a estimulação de barorreceptores e permite que o centro vasomotor fique de novo ativo, elevando a pressão. A resposta não é instantânea, sendo retardada por até alguns segundos. Essa pressão elevada inicia então outro ciclo, e a oscilação se mantém. O reflexo quimiorreceptor também pode oscilar, gerando o mesmo tipo de ondas. Esse reflexo, em geral, oscila ao mesmo tempo que o reflexo barorreceptor. Provavelmente, ele desempenha o papel principal na geração das ondas vasomotoras, quando a pressão arterial está na faixa entre 40 e 80 mmHg porque nesses baixos valores o controle da circulação pelos quimiorreceptores circulatórios torna-se potente, enquanto o controle pelos barorreceptores está mais fraco. Oscilação da Resposta Isquêmica do SNC. O registro na Figura 18-lO.A resultou da oscilação do mecanismo de controle isquêmico da pressão pelo SNC. Nesse experimento, a pressão do LCR foi elevada para 160 mmHg, o que comprimiu os vasos cerebrais e iniciou a resposta da pressão isquêmica do SNC para 200 mmHg. Quando a pressão arterial atingiu esse valor elevado, a isquemia cerebral foi aliviada, e o sistema nervoso simpático foi inativado. Como resultado, a pressão arterial caiu rapidamente para valor muito mais baixo, provocando de novo isquemia cerebral. Esta, por sua vez, iniciou nova elevação na pressão. A isquemia foi novamente aliviada, e a pressão caiu mais uma vez. Esse processo se repetiu de forma cíclica enquanto a pressão do LCR permaneceu elevada. Desse modo, qualquer mecanismo reflexo de controle da pressão pode oscilar se a intensidade do “feedback” for forte o suficiente e se houver retardo entre a excitação do receptor de pressão e a subsequente resposta pressó- rica. As ondas vasomotoras têm considerável importância teórica, pois demonstram que os reflexos nervosos que controlam a pressão arterial obedecem aos mesmos princípios aplicáveis aos sistemas mecânicos e elétricos de controle. Por exemplo, se a resposta do feedback for muito intensa no mecanismo de direção do piloto automático de um avião, e também houver retardo no tempo de resposta desse mecanismo, o avião oscilará para lá e para cá, em vez de seguir um curso retilíneo. Referências Cao WH, Fan W, Morrison SF: Medullary pathways mediating specific sympathetic responses to activation of dorsomedial hypothalamus. Neuroscience 126:229, 2004. Cowley AW Jr: Long-term control of arterial blood pressure, Physiol Rev 72:231,1992. DiBona GF: Physiology in perspective: the wisdom of the body. Neural control of the kidney, Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol 289:R633,2005. Esler M, Lambert G, Brunner-La Rocca HP, et al: Sympathetic nerve activity and neurotransmitter release in humans: translation from pathophysi- ology into clinicai practice.Acta Physiol Scand 177:275, 2003. Freeman R: Clinicai practice. Neurogenic orthostatic hypotension, N Engl JMed 358:615, 2008. Goldstein DS, Robertson D, Esler M, et al: Dysautonomias: clinicai disorders of the autonomic nervous System. Ann InternMed 137:753,2002. Guyton AC: Arterial Pressure and Hypertension. Philadelphia:WB Saunders Co, 1980. Guyenet PG:The sympathetic control of blood pressure, Nat RevNeurosci 7:335, 2006. Joyner MJ: Baroreceptor function during exercise: resetting the record, Exp Physiol 91:27, 2006. LohmeierTE, DwyerTM, Irwin ED, et al: Prolonged activation of the barore- flex abolishes obesity-induced hypertension, Hypertension 49:1307, 2007. Lohmeier TE, Hildebrandt DA, Warren S, et al: Recent insights into the interactions between the baroreflex and the kidneys in hypertension. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol 288:R828,2005. KetchT, Biaggioni I, Robertson R, Robertson D: Four faces of baroreflex fail- ure: hypertensive crisis, volatile hypertension, orthostatic tachycardia, and malignant vagotonia. Circulation 105:2518, 2002. Mifflin SW:What does the brain know about blood pressure? News Physiol Sei 16:266, 2001. Olshansky B, Sabbah HN, Hauptman PJ, et al: Parasympathetic nervous System and heart failure: pathophysiology and potential implications for therapy, Circulation 118:863, 2008. Schultz HD, Li YL, Ding Y: Arterial chemoreceptors and sympathetic nerve activity: implications for hypertension and heart failure, Hypertension 50:6, 2007. Zucker IH: Novel mechanisms of sympathetic regulation outflow in chronic heart failure, Hypertension 48:1005, 2006. 223 U N I D A
  • 247. CAPÍTULO 19 Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão: O Sistema Integrado de Regulação da Pressão Arterial O controle a curto prazo da pressão arterial pelo siste- ma nervoso simpático, como discutido no Capítulo 18, ocorre em grande parte por meio dos efeitos do sistema nervoso sobre a resistên- cia e capacitância vasculares periféricas totais e também sobre a capacidade de bombeamento do coração. O corpo, no entanto, tem também potentes mecanismos para a regulação da pressão arterial ao longo de semanas e meses. Esse controle a longo prazo da pressão arterial está intimamente relacionado à homeostasia do volume de líquido corporal, determinado pelo balanço entre a ingestão e a eliminação de líquido. Para a sobre- vida a longo prazo, a ingestão e a eliminação de líquido devem ser precisamente balanceadas; essa tarefa é realizada por múltiplos controles nervosos e hormonais e por sistemas de controle local nos rins, que regulam sua excreção de sal e água. Neste capítulo discutiremos esses sistemas renais — de controle do líquido corporal, que têm participação dominante na regulação a longo prazo da pressão sanguínea. Sistema Rim-Líquidos Corporais para o Controle da Pressão Arterial O sistema rim-líquidos corporais para o controle da pressão arterial atua lenta mas poderosamente como se segue: se o volume sanguíneo aumenta e a capacitância vascular não é alterada, a pressão arterial se elevará também. Essa elevação faz com que os rins excretem o volume excessivo, normalizando assim a pressão. Na história filogenética do desenvolvimento animal, esse sistema rim-líquidos corporais de controle da pressão é muito antigo. Ele está totalmente operante em um dos vertebrados mais inferiores, a lampreia. Esse animal tem baixa pressão arterial, de apenas 8 a 14 mmHg, que aumenta quase em proporção direta ao seu volume sanguíneo. A lampreia ingere continuamente água salgada que é incorporada a seu sangue, aumentando o volume sanguíneo e a pressão arterial. Contudo, quando a pres são aumenta em demasia, o rim simplesmente excreta o volume excessivo pela urina, reduzindo a pressão. Sob baixas pressões, o rim excreta menos líquido do que é ingerido. Assim, como a lampreia continua a ingerir água, o volume de líquido extracelular, volume sanguíneo e pressão são de novo aumentados. Ao longo das eras, esse mecanismo primitivo de controle da pressão sobreviveu no ser humano quase como na lampreia; no ser humano, o débito urinário de água e de sal é tão sensível às alterações da pressão quanto na lampreia, se não mais. De fato, a elevação da pressão arterial no ser humano por apenas alguns mmHg pode duplicar o débito renal de água, o que é chamado de diurese de pressão, bem como duplicar a eliminação de sal, o que é chamado de natriurese de pressão. No ser humano, o sistema rim-líquidos corporais, como na lampreia, é mecanismo fundamental para o controle a longo prazo da pressão arterial. Entretanto, ao longo dos estágios da evolução, esse sistema recebeu muitos refinamentos, e o controle se tornou muito mais preciso no ser humano. Um refinamento especialmente importante, como discutiremos adiante, foi a adição do mecanismo da renina-angiotensina. Quantificação da Diurese de Pressão como Base para o Controle da Pressão Arterial A Figura 19-1 mostra o efeito médio aproximado de diferentes níveis de pressão arterial sobre o volume do débito urinário no rim isolado, demonstrando seu aumento acentuado quando a pressão se eleva. Esse aumento é o fenômeno da diurese de pressão. A curva nessa figura é referida como curva do débito urinário renal ou curva da função renal. No ser humano, sob pressão arterial de 50 mmHg, o débito urinário é praticamente nulo. Sob 100 mmHg, seu valor é normal, e sob 200 mmHg é cerca de seis a oito vezes maior que o normal. Além disso, o aumento da pressão arterial não eleva apenas o débito urinário, mas provoca também aumento aproximadamente igual da eliminação de sódio, que é o fenômeno da natriurese de pressão. Experimento Demonstrando o Sistema Rim-Líqui- dos Corporais para a Regulação da Pressão Arterial. A Figura 19-2 mostra os resultados de experimento em 225 U N I D A
  • 248. Unidade IV A Circulação Pressão arterial (mmHg) Figura 19-1 Curva típica do débito urinário renal, medido em rim isolado perfundido, mostrando a diurese de pressão quando a pressão arterial se eleva acima do normal. Figura 19-2 Aumentos do débito cardíaco, do débito urinário e da pressão arterial, causados pelo aumento no volume sanguíneo em cães cujos mecanismos nervosos de controle da pressão foram bloqueados. Esta figura mostra o retorno da pressão arterial ao normal após cerca de 1 hora de perda de líquido pela urina. (Cortesia do Dr.William Dobbs.) cães que tiveram todos os mecanismos reflexos de controle da pressão bloqueados. Então, a pressão arterial foi subitamente elevada pela infusão intravenosa de 400 mL de sangue. Note a elevação rápida do débito cardíaco para cerca de duas vezes o normal e o aumento da pressão arterial média para 205 mmHg, 115 mmHg acima do nível de repouso. Na curva central, é mostrado o efeito dessa elevação da pressão sobre o débito urinário, que aumentou por 12 vezes. Junto com essa enorme perda de líquido na urina, o débito cardíaco e a pressão arterial retornaram ao normal na hora seguinte. Assim, é possível Figura 19-3 Análise da regulação da pressão arterial pela equali- zação da “curva de débito renal" com a “curva de ingestão de sal e de água". O ponto de equilíbrio representa o nível no qual a pressão arterial será regulada. (A pequena quantidade de sal e água perdida por vias não renais será ignorada nesta e em outras figuras semelhantes neste capítulo.) notar a extrema capacidade dos rins de eliminar líquido corporal em resposta à alta pressão arterial, e por esse modo normalizá-la. Controle da Pressão Arterial pelo Mecanismo Rim-Líquidos Corporais - Característica de “Resposta por Feedback Quase Infinito". A Figura 19-3 mostra o método gráfico que pode ser usado para analisar o controle da pressão arterial pelo sistema rim-líquidos corporais. Essa análise se baseia em duas curvas distintas que se cruzam: (1) a curva do débito renal de água e sal, em resposta à elevação da pressão arterial, que é a mesma curva de débito renal mostrada na Figura 19-1 e (2) a linha que representa a ingestão total de água e de sal. Durante período prolongado, o débito de água e de sal deve se igualar à ingestão. Além disso, o único ponto no gráfico da Figura 19-3 no qual o débito se iguala à ingestão é onde as duas curvas se cruzam, referido como ponto de equilíbrio. Agora, vejamos o que acontece se a pressão arterial fica acima ou abaixo do ponto de equilíbrio. Inicialmente, admita-se que a pressão arterial se eleve para 150 mmHg. Nesse nível, o débito renal de água e sal é cerca de três vezes maior que a ingestão. Portanto, o corpo perde líquido, e o volume sanguíneo e a pressão arterial diminuem. Além disso, esse “balanço negativo” de líquido não cessará até que a pressão caia até atingir precisamente o ponto de equilíbrio. De fato, mesmo quando a pressão arterial é apenas 1 mmHg maior que a do ponto de equilíbrio, ainda ocorre perda de água e de sal pouco maior que a ingestão, de modo que a pressão continua a cair por mais 1 mmHg, até que por fim retorne ao valor preciso do ponto de equilíbrio. Se a pressão arterial cair abaixo do ponto de equilíbrio, a ingestão de água e de sal passa a ser maior que o débito. Portanto, o volume do líquido corporal aumenta junto com o volume sanguíneo, e a pressão arterial se eleva de novo até atingir precisamente o ponto de equilíbrio. Esse retorno da pressão arterial sempre ao ponto de equilíbrio é o princípio da resposta por feedback quase 226
  • 249. Capítulo 19 O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão infinito para a regulação da pressão arterial pelo mecanismo rim-líquidos corporais. Dois Determinantes do Nível da Pressão Arterial a Longo Prazo. Na Figura 19-3 é possível ver que dois fatores básicos determinam o nível da pressão arterial a longo prazo, o que será explicado a seguir. Desde que as duas curvas, representando (1) o débito renal de sal e de água e (2) a ingestão de sal e de água permaneçam de modo preciso como estão na Figura 19-3, a pressão arterial média por fim se ajustará em 100 mmHg, que é o nível da pressão arterial representado pelo ponto de equilíbrio nessa figura. Além disso, existem apenas dois modos pelos quais a pressão desse ponto de equilíbrio pode variar do nível de 100 mmHg. Um deles é pelo deslocamento do nível de pressão da curva do débito renal de sal e de água; o outro é a modificação do nível da curva de ingestão de sal e de água. Assim, simplificada- mente, os dois determinantes principais do nível da pressão arterial a longo prazo são: do normal. Consequentemente, pode-se afirmar que, se a curva de débito renal se deslocar para novo nível de pressão, a pressão arterial também seguirá para esse novo nível em poucos dias. A Figura 19-45 mostra como a alteração do nível de ingestão de sal e de água também pode influenciar a pressão arterial. Nesse caso, o nível de ingestão aumentou quatro vezes, e o ponto de equilíbrio foi deslocado para o nível de pressão de 160 mmHg, 60 mmHg acima do valor normal. Ao contrário do caso anterior, a diminuição do nível de ingestão reduziria a pressão arterial. Assim, é impossível alterar a pressão arterial média a longo prazo sem alterar um ou os dois determinantes básicos da pressão arterial a longo prazo — (1) o nível de ingestão de sal e de água ou (2) o grau do deslocamento da curva de função renal ao longo do eixo de pressão. Entretanto, se qualquer um desses determinantes for alterado, percebe-se que a pressão arterial é regulada em novo nível, onde as duas novas curvas se cruzam. O > 1. O grau de desvio da pressão na curva do débito renal de água e de sal. 2. O nível de ingestão de água e de sal. O funcionamento desses dois determinantes de controle da pressão arterial é mostrado na Figura 19-4. Na Figura 19-4A, alguma anormalidade renal causou o deslocamento de 50 mmHg da curva de débito renal na direção das altas pressões (para a direita). Note que o ponto de equilíbrio também se deslocou para 50 mmHg acima Figura 19-4 Duas maneiras pelas quais a pressão arterial pode ser elevada. A, pelo deslocamento da curva de débito renal para a direita, em direção a novo nível de pressão ou B, pelo aumento da ingestão de sal e água. A Curva de Débito Renal Crônico É Muito Mais íngreme do que a Curva Aguda. Característica importante da natriurese da pressão (e diurese da pressão) é que variações crônicas da pressão arterial, com duração de dias ou meses, exercem efeito muito maior no débito renal de sal e água do que o observado durante variações agudas da pressão (Fig. 19-5). Assim, quando os rins estão funcionando normalmente, a curva do débito renal crônico é bem mais íngreme do que a curva aguda. Os efeitos potentes do aumento crônico da pressão arterial no débito urinário são porque a pressão aumentada tem efeitos, não apenas hemodinâmicos diretos na excreção renal como também efeitos indiretos, mediados por alterações nervosas e hormonais que ocorrem quando a pressão sanguínea é aumentada. Por exemplo, a pressão Figura 19-5 Curvas de débito renal agudo e crônico. Sob condições estáveis (steady-state conditions), a eliminação de sal e água é igual à ingestão de sal e água. A e B representam os pontos de equilíbrio para regulação de longo prazo da pressão arterial quando a ingestão de sal é normal ou seis vezes maior do que a normal, respectivamente. Por causa da inclinação da curva de débito renal crônico, o aumento da ingestão de sal causa somente pequenas mudanças na pressão arterial. Em pessoas com a função renal comprometida, a inclinação da curva de débito renal pode diminuir similarmente à curva aguda, resultando em aumento da sensibilidade da pressão arterial a mudanças na ingestão de sal. 227 U N
  • 250. Unidade IV A Circulação arterial aumentada diminui a atividade do sistema nervoso simpático e de vários hormônios, tais como angio- tensina II e aldosterona que tendem a reduzir a excreção renal de sal e de água. A atividade reduzida desses sistemas antinatriuréticos, portanto, amplifica a eficácia da natriurese e da diurese de pressão no aumento da excreção de sal e água, durante aumentos crônicos na pressão arterial (veja Capítulos 27 e 29 para discussão mais aprofundada). Inversamente, quando a pressão arterial é reduzida, o sistema nervoso simpático é ativado, e a formação de hormônios antinatriuréticos é aumentada, somando-se ao efeito direto na redução da pressão de diminuir o débito renal de água e sal. Essa combinação de efeitos diretos da pressão, nos rins, e efeitos indiretos da pressão, no sistema nervoso simpático e vários sistemas hormonais, tornam a natriurese e diurese da pressão extremamente potentes no controle de longa duração da pressão arterial e do volume dos fluidos corporais. A importância da influência nervosa e hormonal na natriurese da pressão é especialmente evidente durante alterações crônicas da ingestão de sódio. Se os rins e os mecanismos nervosos e hormonais estão funcionando normalmente, aumentos crônicos da ingestão de sal e de água, para valores até seis vezes maiores do que o normal, geralmente estão associados apenas com pequenos aumentos da pressão arterial. Note que o equilíbrio da pressão sanguínea no ponto B da curva é aproximadamente o mesmo do ponto A, o ponto de equilíbrio da ingestão normal de sal. Inversamente, a diminuição da ingestão de sódio e água para valores abaixo de um sexto do normal tipicamente tem efeito muito baixo na pressão arterial. Assim, dizem que muitas pessoas são insensíveis ao sal porque grandes variações na ingestão de sal não alteram a pressão sanguínea por mais do que alguns mmHg. Indivíduos com danos renais ou com secreção excessiva de hormônios antinatriuréticos, tais como angioten- sina II ou aldosterona, no entanto, podem ser sensíveis ao sal com curva de débito renal atenuada similar à curva aguda mostrada na Figura 19-5. Nesses casos, mesmo aumentos moderados na ingestão de sal podem causar aumentos significativos da pressão arterial. Alguns dos fatores incluem perda de néfrons funcionais devido a lesão renal ou formação excessiva de hormônios antinatriuréticos, tais como angiotensina II ou aldosterona. Por exemplo, a redução cirúrgica da massa renal ou lesão do rim, devido à hipertensão, diabetes, e diversas doenças renais, todos causam maior sensibilidade às alterações da ingestão de sal. Nesses casos, aumentos maiores do que o normal na pressão arterial são necessários para elevar o débito renal o suficiente para manter o balanço entre ingestão e eliminação de sal e água. Existem algumas evidências de que a alta ingestão de sal a longo prazo durando por muitos anos pode de fato lesar os rins e eventualmente tornar a pressão sanguínea mais sensível ao sal. Iremos discutir a sensibilidade da pressão sanguínea ao sal em pacientes com hipertensão mais adiante, neste capítulo. Incapacidade da Resistência Periférica Total Aumentada de Elevar a Pressão Arterial a Longo Prazo se a Ingestão de Líquido e a Função Renal não se Alterarem Este é o momento para que o leitor perceba se realmente entendeu o mecanismo rim-líquidos corporais para o controle da pressão arterial. Relembrando a equação básica que afirma que — a pressão arterial é igual ao débito cardíaco multiplicado pela resistência periférica total —, fica evidente que aumento na resistência periférica total deveria elevar a pressão arterial. De fato, quando a resistência periférica total se eleva deforma aguda, a pressão arterial aumenta de imediato. Entretanto, se os rins continuarem a funcionar normalmente, a elevação aguda da pressão arterial em geral não é mantida. Ao contrário, retorna ao normal em cerca de um dia. Por quê? A resposta para essa pergunta é a seguinte: o aumento da resistência nos vasos sanguíneos em qualquer parte do corpo exceto nos rins, não altera o ponto de equilíbrio do controle da pressão sanguínea que é ditado pelos rins (Figs. 19-3 e 19-4). Ao contrário, os rins começam de imediato a responder à alta pressão arterial, provocando diurese e natriurese de pressão. Após algumas horas, grande quantidade de sal e de água é eliminada pelo corpo, e esse processo se mantém até que a pressão arterial retorne ao nível do ponto de equilíbrio. Nesse ponto, a pressão arterial é normalizada e o volume de líquido extracelular e de sangue diminui para níveis abaixo do normal. Como prova do princípio de que alterações da resistência periférica total não afetam o nível da pressão arterial a longo prazo se a função renal não for alterada, estude cuidadosamente a Figura 19-6. Essa figura mostra os valores aproximados do débito cardíaco e da pressão arterial em diferentes condições clínicas, nas quais a resistência periférica total a longo prazo está muito menor ou muito maior que a normal, mas a excreção renal de sal e de água está normal. Note que em todas essas diferentes condições clínicas a pressão arterial está precisamente normal. É necessária atenção neste momento em nossa discussão. Muitas vezes, quando a resistência periférica total aumenta, ela também aumenta a resistência vascular intrarrenal ao mesmo tempo, o que altera a função dos rins, podendo causar hipertensão por deslocar a curva de função renal para nível mais alto de pressão, do modo mostrado na Figura 19-4A. Veremos um exemplo dessa situação adiante, neste capítulo, quando discutirmos a hipertensão causada por mecanismos vasoconstritores. Entretanto, o aumento da resistência renal é o fator causai, e não a resistência periférica total elevada — distinção muito importante. O Aumento do Volume de Líquido Pode Elevar a Pressão Arterial por Aumentar o Débito Cardíaco ou a Resistência Periférica Total O mecanismo geral pelo qual o aumento do volume do líquido extracelular pode elevar a pressão arterial, se a capacidade vascular não for aumentada ao mesmo tempo, 228
  • 251. Capítulo 19 O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão Figura 19-6 Relações da resistência periférica total com os níveis da pressão arterial a longo prazo e do débito cardíaco em diferentes anormalidades clínicas. Nessas condições, os rins estavam funcionando normalmente. Note que a alteração da resistência periférica total em todo o corpo provocou diferentes mudanças iguais e opostas no débito cardíaco, mas em todas as situações não afetou a pressão arterial. (Redesenhada de Guyton AC: Arterial Pressure and Hypertension. Philadelphia:WB Saunders, 1980.) é mostrado na Figura 19-7. Os eventos sequenciais são: (1) elevação do volume do líquido extracelular, (2) elevação do volume sanguíneo, (3) aumento da pressão média de enchimento da circulação, que (4) aumenta o retorno venoso para o coração, (5) aumentando o débito cardíaco, que (6) aumenta a pressão arterial. A elevação da pressão arterial, por sua vez, aumenta a excreção real de sal e água e pode fazer voltar para quase normal o volume do líquido extracelular, se a função renal estiver normal. Note em especial nesse esquema os dois modos pelos quais o aumento no débito cardíaco pode elevar a pressão arterial. Um deles é o efeito direto do débito cardíaco sobre a pressão, e o outro é efeito indireto que eleva a resistência vascular periférica total, por meio da autorre- gulação do fluxo sanguíneo. O segundo efeito será explicado a seguir. Relembrando o Capítulo 17, notamos que, quando sangue em excesso flui pelo tecido, a vasculatura tecidual local se contrai, normalizando o fluxo sanguíneo. Esse fenômeno é referido como “autorregulação” significando simplesmente a regulação do fluxo sanguíneo pelo próprio tecido. Quando o aumento do volume sanguíneo eleva o débito cardíaco, o fluxo sanguíneo se eleva em todos os tecidos do corpo; assim, esse mecanismo de autorregulação contrai os vasos sanguíneos em todo o corpo. Isso, por sua vez, eleva a resistência periférica total. Por fim, como a pressão arterial é igual ao débito cardíaco multiplicado pela resistência periférica total, o aumento secundário desta, resultante do mecanismo de autorregulação, contribui de forma importante para a ■ «>-^Aumento do volume do líquido extracelular Aumento do volume sanguíneo Aumento da pressão média de enchimento circulatório Aumento do retorno venoso de sangue para o coração Aumento do débito cardíaco Autorregulação Aumento da resistência periférica total I / Aumento da pressão arterial Aumento do débito urinário ■ Figura 19-7 Estágios sequenciais pelos quais o aumento do volume do líquido extracelular eleva a pressão arterial. Note especialmente que o aumento do débito cardíaco produz tanto um efeito direto de elevação da pressão arterial, como efeito indireto pelo aumento primeiro da resistência periférica total. elevação da pressão arterial. Por exemplo, aumento de apenas 5% a 10% do débito cardíaco pode elevar a pressão arterial do valor médio normal de 100 mmHg para até 150 mmHg. De fato, o aumento discreto do débito cardíaco não é com muita frequência mensurável. A Importância do Sal (NaCl) no Mecanismo Rim-Líquidos Corporais para o Controle da Pressão Arterial Embora a discussão até este ponto tenha enfatizado a importância do volume de líquido na regulação da pressão arterial, estudos experimentais mostraram que o aumento da ingestão de sal tem probabilidade muito maior de elevar a pressão arterial que o aumento da ingestão de água. Isso ocorre porque a água pura é normalmente excretada pelos rins com quase a mesma rapidez com que é ingerida, o que não ocorre com o sal. O acúmulo de sal no corpo também eleva de modo indireto o volume de líquido extracelular por dois motivos básicos: 1. Quando ocorre excesso de sal no líquido extracelular, a osmolalidade do líquido aumenta, o que estimula o centro da sede no encéfalo, fazendo com que a pessoa beba quantidade maior de água para normalizar a concentração extracelular de sal. Isso aumenta o volume do líquido extracelular. 229 U N I D A
  • 252. Unidade IV A Circulação 2. O aumento da osmolalidade causado pelo sal em excesso no líquido extracelular estimula também o mecanismo secretor do hipotálamo-hipófise posterior, que passa a liberar maior quantidade de hormônio antidiurético. (Isso é discutido no Cap. 28.) Esse hormônio então faz com que os rins reabsorvam quantidade muito aumentada de água pelos túbulos renais, reduzindo o volume excretado de urina e elevando o volume do líquido extracelular. Assim, por essas razões importantes, a quantidade de sal acumulada no corpo é o principal determinante do volume do líquido extracelular. Como apenas pequenos aumentos do volume do líquido extracelular e do sangue podem com frequência aumentar muito a pressão arterial, se a capacidade vascular não aumentar ao mesmo tempo, o acúmulo extra de pequena quantidade de sal no corpo pode levar a aumento considerável da pressão. Como discutido antes, o aumento da ingestão de sal, na ausência da função renal comprometida ou formação excessiva de hormônios antinatriuréticos em geral não aumenta muito a pressão arterial, pois os rins rapidamente eliminam o excesso de sal e o volume sanguíneo dificilmente é alterado. A Hipertensão Crônica (Pressão Sanguínea Alta) É Causada pelo Déficit de Excreção Renal de Líquido Quando se afirma que a pessoa tem hipertensão crônica (ou “pressão alta”), isso significa que sua pressão arterial média é maior que o limite superior da medida aceita como normal. A pressão arterial média acima de 110 mmHg (o valor normal é de cerca de 90 mmHg) é considerada hipertensiva. (Esse nível de pressão média ocorre quando a pressão sanguínea diastólica é maior que aproximadamente 90 mmHg e a pressão sistólica é maior que 135 mmHg.) Na hipertensão grave, a pressão arterial média pode se elevar para 150 a 170 mmHg, com pressão diastólica de até 130 mmHg e pressão sistólica atingindo ocasionalmente até 250 mmHg. Mesmo a elevação moderada da pressão arterial leva à redução da expectativa de vida. Sob pressões extremamente altas — pressões arteriais médias 50% ou mais acima do normal —, a expectativa de vida é de poucos anos, a menos que a pessoa seja tratada adequadamente. Os efeitos letais da hipertensão ocorrem por três modos principais: 1. O trabalho cardíaco excessivo leva à insuficiência cardíaca e à doença coronariana precoces, frequentemente causando a morte por ataque cardíaco. 2. A alta pressão frequentemente lesa vaso sanguíneo cerebral importante, causando a morte de grandes partes do cérebro, o que constitui o infarto cerebral. Clinicamente, ele é chamado de “acidente vascular cerebral” (AVC). Conforme a parte afetada do cérebro, o AVC pode provocar paralisia, demência, cegueira ou muitos outros distúrbios cerebrais graves. 3. A pressão alta quase sempre lesa os rins, produzindo muitas áreas de destruição renal e por fim insuficiência renal, uremia e morte. O estudo de tipo de hipertensão, chamado de “hipertensão por sobrecarga de volume” foi crucial para o entendimento do papel do mecanismo rim-líquidos corporais para a regulação da pressão arterial. A hipertensão por sobrecarga de volume é causada pelo acúmulo de líquido extracelular no corpo, e alguns exemplos são relatados a seguir. Hipertensão Experimental por Sobrecarga de Volume Causada pela Redução da Massa Renal e pelo Aumento Simultâneo na Ingestão de Sal. A Figura 19-8 mostra experimento típico que demonstra a hipertensão por sobrecarga de volume em grupo de cães com remoção de 70% de sua massa renal. No primeiro círculo branco da curva, os dois polos de um dos rins foram removidos, e, no segundo círculo branco, todo o rim oposto foi removido, deixando os animais com apenas 30% de massa renal normal. Note que a remoção dessa massa renal elevou a pressão arterial por apenas 6 mmHg em média. Então, os cães receberam solução salina em vez de água para beber. Como a solução salina não satisfaz a sede, os cães ingeriram volume duas a quatro vezes maior que o normal, e após alguns dias a pressão arterial média aumentou para cerca de 40 mmHg acima do normal. Após 2 semanas, os cães receberam água normal em vez da solução salina; e a pressão se normalizou dentro de 2 dias. Por fim, ao final do experimento, os cães receberam novamente a solução salina, e dessa vez a pressão aumentou com rapidez muito maior e para nível ainda mais elevado porque os cães haviam aprendido a tolerar a solução salina e, portanto, beberam muito mais. Assim, o experimento demonstra a hipertensão por sobrecarga de volume. Se o leitor considerar de novo os determinantes básicos da regulação da pressão arterial a longo prazo, poderá de imediato entender por que ocorreu hipertensão no experimento de sobrecarga de volume da Figura 19-8. Inicialmente, a redução da massa renal para 30% da normal reduziu muito a capacidade dos rins de excretar sal e água. Assim, essas substâncias se acumularam no corpo e em poucos dias elevaram a pressão arterial até o nível suficiente para excretar o excesso ingerido de sal e água. Alterações Sequenciais da Função Circulatória durante o Desenvolvimento de Hipertensão por Sobrecarga de Volume. É especialmente instrutivo estudar as alterações sequenciais da função circulatória durante o desenvolvimento progressivo da hipertensão por sobrecarga de volume. A Figura 19-9 mostra essas alterações. Aproximadamente, uma semana antes do ponto “0” a massa renal havia sido reduzida para apenas 30% do normal. Então, nesse ponto a ingestão de sal e água foi aumentada para cerca de seis vezes o normal e mantida subsequentemente nesse nível. O efeito agudo foi o aumento do volume de líquido extracelular, do volume 230
  • 253. Capítulo 19 O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão Dias Figura 19-8 Efeito médio sobre a pressão arterial da ingestão de solução salina a 0,9% em vez de água em quatro cães com 70% de seu tecido renal removido. (Redesenhada de Langston JB, Guyton AC, Douglas BH, et al: Effect of changes in salt intake on arterial pressure and renal function in partially nephrectomized dogs. Circ Res 12:508,1963. Com a permissão da American Heart Association, Inc.) sanguíneo e do débito cardíaco para 20% a 40% acima do normal. Ao mesmo tempo, a pressão arterial começou a se elevar, mas inicialmente não tanto quanto o volume de líquido e o débito cardíaco. A razão para essa elevação mais lenta da pressão arterial pode ser entendida pela análise da curva da resistência periférica total que mostra diminuição inicial. Essa diminuição foi causada pelo mecanismo barorreceptor, discutido no Capítulo 18, que tentou impedir a elevação da pressão. Entretanto, após 2 a 4 dias, os barorreceptores se adaptaram e não foram mais capazes de impedir o aumento da pressão. Nesse momento, a pressão arterial havia se elevado ao máximo devido ao aumento do débito cardíaco, embora a resistência periférica total ainda estivesse em nível quase normal. Após essas alterações agudas iniciais nas variáveis circulatórias, alterações secundárias mais prolongadas ocorreram nas semanas seguintes. Entre elas, foi de modo especialmente importante o aumento progressivo da resistência periférica total, ao mesmo tempo em que o débito cardíaco se reduziu praticamente ao normal, em grande parte como resultado do mecanismo de autorre- gulação do fluxo sanguíneo a longo prazo, discutido em detalhes no Capítulo 17 e no início deste capítulo. Ou seja, depois que a grande elevação do débito cardíaco produziu a hipertensão, o fluxo sanguíneo excessivo pelos tecidos provocou a constrição progressiva das arteríolas locais, retornando então os fluxos sanguíneos locais em todos os tecidos do corpo, e também o débito cardíaco aos valores normais, enquanto provocava simultaneamente a elevação secundária da resistência periférica total. Note também que os volumes do líquido extracelular e do sangue retornaram praticamente ao normal junto com a redução do débito cardíaco. Isso resultou de dois fatores: primeiro, porque o aumento na resistência arte- riolar reduziu a pressão capilar, permitindo que o líquido nos espaços teciduais fosse reabsorvido para o sangue. Segundo, porque a pressão arterial elevada fez com que os rins excretassem o excesso de líquido que se havia acumulado de início no corpo. Por fim, vamos considerar o estado final da circulação, várias semanas após o início da sobrecarga de volume. Encontramos os seguintes efeitos: 1. Hipertensão. 2. Aumento acentuado da resistência periférica total. 3. Normalização quase total do volume do líquido extracelular, do volume sanguíneo e do débito cardíaco. Por conseguinte, pode-se dividir a hipertensão por sobrecarga de volume em dois estágios sequenciais distintos: o primeiro resulta do aumento do volume de líquido, causando elevação do débito cardíaco. Essa elevação medeia a hipertensão. O segundo é caracterizado pela alta pressão arterial e alta resistência periférica total, com retorno do débito cardíaco para níveis tão próximos do normal que as técnicas habituais de medida com frequência não conseguem detectar qualquer elevação de seu valor. Assim, o aumento da resistência periférica total na hipertensão por sobrecarga de volume ocorre após o desenvolvimento da hipertensão e, portanto, é secundário a ela e não a sua causa. Hipertensão por Sobrecarga de Volume em Pacientes que não Têm Rins, mas que São Mantidos por Rins Artificiais Quando um paciente é mantido sob terapia de substituição renal, é especialmente importante manter seu volume de líquido corporal no nível normal — ou seja, é importante remover quantidade apropriada de água e sal, cada 231 U N I D A
  • 254. Unidade IV A Circulação ^ 150 « 3? 140 W ^ * u rr </> a> c 130 fl) ç £ « E, 120 110 O-1 --------------1 -------1 -------1 -------1 -------1--------1--------1--------]— 0 2 4 6 8 10 12 14 Dias Figura 19-9 Alterações progressivas em variáveis importantes do sistema circulatório durante as primeiras semanas de hipertensão por sobrecarga de volume. Note especialmente o aumento inicial do débito cardíaco como a causa básica da hipertensão. Subsequentemente, o mecanismo de autorregulação retorna o débito cardíaco quase ao normal enquanto causa ao mesmo tempo aumento secundário da resistência periférica total. (Modificada de Guyton AC: Arterial Pressure and Hypertension. Philadelphia: WB Saunders, 1980.) vez que o paciente é dialisado. Se isso não for feito, e se permite que o volume do líquido extracelular aumente, isso resulta de modo quase invariável em hipertensão, precisamente, do modo demonstrado na Figura 19-9, isto é, o débito cardíaco de início aumenta, causando hipertensão. Então, o mecanismo de autorregulação normaliza o débito cardíaco, enquanto provoca aumento secundário da resistência periférica total. Assim, ao final, a hipertensão causada é do tipo de alta resistência periférica. Hipertensão Causada por Aldosteronismo Primário Outro tipo de hipertensão, por sobrecarga de volume, é causado por excesso de aldosterona no corpo ou ocasionalmente por excesso de outros tipos de esteroides. Pequeno tumor em uma das glândulas adrenais por vezes secreta grande quantidade de aldosterona, condição referida como “aldosteronismo primário”. Como discutido nos Capítulos 27 e 29, a aldosterona aumenta a intensidade da reabsorção de sal e de água pelos túbulos renais, reduzindo sua eliminação na urina e aumentando o volume do sangue e do líquido extracelular. Consequentemente, a hipertensão se desenvolve. Além disso, se a ingestão de sal for aumentada ao mesmo tempo, a hipertensão fica ainda mais intensa. Se a condição persistir por meses ou anos, a pressão arterial excessiva com muita frequência causa alterações patológicas nos rins, fazendo-os reter ainda mais sal e água além do que é retido pela ação direta da aldosterona. Assim, a hipertensão frequentemente termina por atingir níveis letais. Mais uma vez, nos estágios iniciais desse tipo de hipertensão, o débito cardíaco está aumentado, mas nos estágios mais avançados fica normal, enquanto a resistência periférica total é aumentada de forma secundária, como explicado antes neste capítulo, em relação à hipertensão primária por sobrecarga de volume. O Sistema Renina-Angiotensina: Seu Papel no Controle da Pressão Arterial Além da capacidade dos rins de controlar a pressão arterial por meio de alterações do volume do líquido extracelular, os rins têm também outro potente mecanismo de controle da pressão, chamado sistema renina-angiotensina. A renina é enzima proteica liberada pelos rins quando a pressão arterial cai para níveis muito baixos. Sua resposta consiste em elevar a pressão arterial de diversos modos, contribuindo para a correção da queda inicial da pressão. Componentes do Sistema Renina-Angiotensina A Figura 19-10 mostra as etapas funcionais pelas quais o sistema renina-angiotensina contribui para a regulação da pressão arterial. A renina é sintetizada e armazenada em forma inativa chamada pró-renina nas células justaglomerulares (células JG) dos rins. Essas são células musculares lisas modificadas, situadas nas paredes das arteríolas aferen- tes imediatamente proximais aos glomérulos. Quando a pressão arterial cai, reações intrínsecas dos rins fazem com que muitas das moléculas de pró-renina nas células JG sejam clivadas, liberando renina. A maior parte da renina é liberada no sangue que perfunde os rins para circular pelo corpo inteiro. Entretanto, pequenas quantidades de renina permanecem nos líquidos locais dos rins onde exercem diversas funções intrarrenais. A renina é enzima, e não substância vasoativa. Como mostrado no esquema da Figura 19-10, ela age enzima- ticamente sobre outra proteína plasmática, a globulina referida como substrato de renina (ou angiotensinogênio), liberando peptídeo com 10 aminoácidos, a angiotensina I. A angiotensina I tem ligeiras propriedades vasoconstrito- ras, mas não suficientes para causar alterações significativas na função circulatória. A renina persiste no sangue por 30 minutos a 1 hora e continua a causar a formação de angiotensina durante todo esse tempo. Alguns segundos após a formação de angiotensina I, dois aminoácidos adicionais são removidos da angiotensina I, formando o peptídeo de oito aminoácidos angio- 232
  • 255. Capítulo 19 Redução da pressão arterial * Renina (rins) f Substrato de renina (angiotensinogêni o) Angiotensina I I Enzima convers ora (pulmõ es) Angiotensina II O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão Figura 19-11 Efeito compensador da pressão do sistema vaso- constritor de renina-angiotensina após hemorragia intensa. (Desenhada de experimentos do Dr. Royce Brough.) / vvç / (Ir Angiotensinase (Inativada) Retenção renal Vasoconstrição de sal e água / Aumento da pressão arterial Figura 19-10 Mecanismo vasoconstritor da renina-angiotensina para o controle da pressão arterial. tensina II. Essa conversão ocorre em grande parte nos pulmões, enquanto o sangue flui por seus pequenos vasos catalisados pela enzima conversora de angiotensina presente no endotélio dos vasos pulmonares. Outros tecidos, tais como rins e vasos sanguíneos, também contêm enzimas conversoras e, portanto, formam localmente angiotensina II. A angiotensina II é vasoconstritor extremamente potente, afetando também a função circulatória por outros modos. Entretanto, ela persiste no sangue por apenas 1 ou 2 minutos por ser rapidamente inativada por múltiplas enzimas sanguíneas e teciduais, coletivamente chamadas de angiotensinases. Durante sua permanência no sangue, a angiotensina II exerce dois efeitos principais capazes de aumentar a pressão arterial. O primeiro, a vasoconstrição em muitas áreas do corpo, ocorre com muita rapidez. A vasoconstrição ocorre de modo muito intenso nas arteríolas e com intensidade muito menor nas veias. A constrição das arteríolas aumenta a resistência periférica total, elevando dessa forma a pressão arterial, como mostrado na parte inferior do esquema da Figura 19-10. Além disso, a leve constrição das veias promove o aumento do retorno venoso do sangue para o coração, contribuindo para o maior bombeamento cardíaco contra a pressão elevada. O segundo meio principal pelo qual a angiotensina II eleva a pressão arterial é a diminuição da excreção de sal e de água pelos rins. Isso eleva lentamente o volume do líquido extracelular, o que aumenta a pressão arterial durante as horas e dias subsequentes. Esse efeito a longo prazo, agindo pelo mecanismo de controle do volume do líquido extracelular, é ainda mais potente que a vasoconstrição aguda na elevação eventual da pressão arterial. Rapidez e Intensidade da Resposta da Pressão Vasoconstritora ao Sistema Renina-Angiotensina A Figura 19-11 mostra experimento típico, demonstrando o efeito da hemorragia sobre a pressão arterial em duas condições distintas: (1) com funcionamento do sistema renina-angiotensina e (2) sem seu funcionamento (o sistema foi interrompido por anticorpo bloqueador de renina). Note que, após a hemorragia — suficiente para causar diminuição da pressão arterial para 50 mmHg —, a pressão arterial se elevou novamente para 83 mmHg quando o sistema renina-angiotensina estava funcional. Ao contrário, elevou-se apenas para 60 mmHg quando o sistema estava bloqueado. Isso demonstra que o sistema renina-angiotensina é suficientemente potente para elevar a pressão arterial, no mínimo, até a metade do normal alguns minutos após hemorragia intensa. Portanto, em alguns casos, esse pode ser mecanismo salvador da vida para o corpo, em especial no choque circulatório. Note também que o sistema vasoconstritor renina- angiotensina precisa de cerca de 20 minutos para ser ativado. Desse modo, seu controle da pressão arterial é mais lento que os reflexos nervosos e o sistema simpático norepinefrina-epinefrina. Efeito da Angiotensina II, nos Rins, Causando Retenção de Sal e de Água — Meio Importante para o Controle da Pressão Arterial a Longo Prazo A angiotensina II faz com que os rins retenham sal e água por dois meios principais: 1. Atuando diretamente sobre os rins para provocar retenção de sal e de água. 2. Fazendo com que as glândulas adrenais secretem al- dosterona que, por sua vez, aumenta a reabsorção de sal e de água pelos túbulos renais. Assim, quando quantidades excessivas de angiotensina II circulam no sangue, todo o mecanismo renal a longo 233 U N I D A
  • 256. Unidade IV A Circulação prazo para o controle dos líquidos corporais é automaticamente ajustado para manter a pressão arterial acima da normal. Mecanismos dos Efeitos Renais Diretos da Angioten- sina II Causadores da Retenção Renal de Sal e de Água. A angiotensina exerce diversos efeitos diretos que fazem com que os rins retenham sal e água. Um deles é a cons- trição das arteríolas renais, o que diminui o fluxo sanguíneo pelos rins. O lento fluxo sanguíneo reduz a pressão nos capilares peritubulares, provocando a rápida reab- sorção de líquido pelos túbulos. A angiotensina II tem também importantes ações diretas sobre as próprias células tubulares para aumentar a reabsorção de sal e de água. O resultado total desses efeitos é significativo reduzindo às vezes o débito urinário para menos que um quinto do normal. Estimulação da Secreção de Aldosterona pela Angiotensina II e o Efeito da Aldosterona no Aumento da Retenção de Sal e de Água pelos Rins. A angiotensina II é também um dos mais potentes estimuladores da secreção de aldosterona pelas glândulas adrenais, como discutiremos em relação à regulação dos líquidos corporais, no Capítulo 29, e em relação à função das glândulas adrenais, no Capítulo 77. Assim, quando o sistema renina-angiotensina é ativado, a intensidade da secreção de aldosterona em geral também aumenta; uma importante função subsequente da aldosterona é a de causar aumento acentuado da reabsorção de sódio pelos túbulos renais, elevando sua concentração no líquido extracelular. Essa elevação então causa a retenção de água como explicado antes, aumentando o volume do líquido extracelular e provocando de forma secundária maior elevação da pressão arterial a longo prazo. Desse modo, tanto o efeito direto da angiotensina sobre os rins quanto seu efeito por meio da aldosterona são importantes no controle da pressão arterial a longo prazo. Entretanto, pesquisa em nosso laboratório sugeriu que o efeito direto da angiotensina, sobre os rins, seja talvez três ou mais vezes mais potente que o efeito indireto por meio da aldosterona — embora este seja o mais conhecido. Análise Quantitativa das Alterações da Pressão Arterial Causadas pela Angiotensina II. A Figura 19-12 mostra a análise quantitativa do efeito da angiotensina sobre o controle da pressão arterial. Essa figura mostra duas curvas de débito renal, bem como a linha representativa no nível normal da ingestão de sódio. A curva da esquerda foi obtida em cães cujo sistema renina-angiotensina havia sido bloqueado pelo fármaco inibidor da enzima conversora de angiotensina que bloqueia a conversão de angiotensina I em angiotensina II. A curva da direita foi obtida em cães infundidos continuamente com angiotensina II em nível cerca de 2,5 vezes maior que o normal de formação de angiotensina no sangue. Note o desvio da curva de débito renal para níveis mais elevados de pressão sob a influência da angiotensina II. Esse desvio é causado pelos efeitos diretos da angiotensina II sobre os rins e pelo efeito indireto por meio da secreção de aldosterona, conforme já explicado. Níveis sanguíneos de ^ angiotensina (x normal) } Figura 19-12 Efeito de dois níveis sanguíneos de angiotensina II sobre a curva do débito renal, mostrando a regulação da pressão arterial no ponto de equilíbrio de 75 mmHg, quando o nível de angiotensina II está baixo, e de 115 mmHg e quando o nível de angiotensina II está alto. Por fim, note os dois pontos de equilíbrio, o primeiro na ausência de angiotensina, correspondendo à pressão arterial de 75 mmHg, e o segundo, sob níveis elevados de angiotensina, correspondente à pressão arterial de 115 mmHg. Como consequência, a retenção de sal e de água causada pela angiotensina pode ter efeito potente de provocar a elevação crônica da pressão arterial. O Papel do Sistema Renina-Angiotensina na Manutenção da Pressão Arterial Normal Apesar de Grandes Variações na Ingestão de Sal Uma das mais importantes funções do sistema renina-angiotensina é a de permitir que a pessoa ingira quantidades muito pequenas ou muito grandes de sal, sem apresentar grandes variações do volume do líquido extracelular ou da pressão arterial. Essa função é explicada pelo esquema da Figura 19-13, que mostra o efeito inicial do aumento da ingestão de sal como sendo o de elevar o volume do líquido extracelular que por sua vez aumenta a pressão arterial. Então, a pressão arterial elevada aumenta o fluxo sanguíneo pelos rins, além de outros efeitos, reduz a secreção de renina para nível muito mais baixo, e provoca sequencialmente a redução da retenção renal de sal e água, a quase normalização do volume do líquido extracelular, e por fim a quase normalização da pressão arterial. Assim, o sistema renina-angiotensina é mecanismo de feedback automático que contribui para a manutenção da pressão arterial em níveis próximos aos normais, mesmo quando a ingestão de sal é aumentada. Ao contrário, quando a ingestão de sal diminui para abaixo da normal ocorrem efeitos opostos. Para enfatizar a eficácia do sistema renina-angiotensina no controle da pressão arterial quando o sistema fun- 234
  • 257. Capítulo 19 Aumento da ingestão de sal l Aumento do volume extracelular I Aumento da pressão arterial I Redução da renina e angiotensina I O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão Constrição da artéria renal Constrição removida Redução da retenção renal de sal e água Retorno do volume extracelular praticamente ao normal I Retorno da pressão arterial praticamente ao normal Figura 19-13 Eventos sequenciais por meio dos quais a ingestão de sal aumenta a pressão arterial, mas a redução por feed- back da atividade do sistema renina-angiotensina praticamente a normaliza. ciona normalmente, a pressão se eleva por não mais do que 4 a 6 mmHg em resposta ao aumento de 50 vezes na ingestão de sal. Ao contrário, quando esse sistema é bloqueado, o mesmo aumento da ingestão de sal provoca aumento 10 vezes maior da pressão, muitas vezes por até 50 a 60 mmHg. Tipos de Hipertensão em que Ocorre Participação da Angiotensina: Hipertensão Causada por Tumor Secretor de Renina ou por Infusão de Angiotensina II Ocasionalmente, ocorre tumor das células justaglome- rulares (células JG) secretoras de renina, secretando enorme quantidade dessa substância; consequentemente é formada quantidade igualmente grande de angiotensina II. Em todos os pacientes nos quais isto ocorreu, desen- volveu-se hipertensão grave. Além disso, quando grande quantidade de angiotensina II é infundida continuamente em animais durante dias ou semanas, também se desenvolve grave hipertensão a longo prazo. Já notamos que a angiotensina II pode elevar a pressão arterial por duas maneiras: 1. Pela constrição das arteríolas em todo o organismo, aumentando assim a resistência periférica total e a pressão arterial; esse efeito ocorre segundos após o início da infusão de angiotensina. 2. Por meio da retenção renal de sal e água; após alguns dias, isso também provoca hipertensão, sendo essa a principal causa da continuação da pressão elevada a longo prazo. Hipertensão de Goldblatt de “Rim Único". Quando um dos rins é removido e um constritor é colocado na Figura 19-14 Efeito do pinçamento unilateral da artéria renal após a remoção do rim contralateral. Note as alterações da pressão arterial sistêmica, da pressão da artéria renal distai ao pinçamento e a secreção de renina. A hipertensão resultante é chamada de hipertensão de "rim-único" de Goldblatt. artéria renal do rim remanescente, como mostrado na Figura 19-14, o efeito imediato é a pressão muito diminuída na artéria renal além do constritor, como indicado pela linha tracejada na figura. Então, após segundos a minutos, a pressão arterial sistêmica começa a se elevar, o que continua a acontecer durante muitos dias. A pressão em geral aumenta rapidamente na primeira hora, o que é seguido por elevação adicional mais lenta durante os dias seguintes. Quando a pressão arterial sistêmica atinge seu novo nível estável, a pressão arterial renal (a curva tracejada na figura) estará praticamente normalizada. A hipertensão provocada por esse meio é designada como hipertensão de Goldblatt de “rim único”, em homenagem ao Dr. Harry Goldblatt, que foi o primeiro a estudar as características quantitativas importantes da hipertensão causada por constrição da artéria renal. A elevação inicial da pressão arterial na hipertensão de Goldblatt é causada pelo mecanismo vasoconstri- 235 U N I D A
  • 258. Unidade IV A Circulação tor da renina-angiotensina, isto é, devido ao baixo fluxo sanguíneo pelo rim após a constrição aguda da artéria renal, grande quantidade de renina é secretada pelo rim, como mostrado pela curva mais inferior da Figura 19-14, isto aumenta a angiotensina II e a aldosterona no sangue. A angiotensina, por sua vez, eleva de forma aguda a pressão arterial. A secreção de renina aumenta até seu máximo depois de cerca de 1 hora, mas praticamente se normaliza após 5 a 7 dias porque a pressão arterial renal também se elevou até o normal, assim o rim não está mais isquêmico. A segunda elevação da pressão arterial é causada pela retenção de sal e de água pelo rim isquêmico (que também é estimulado pela angiotensina II e pela aldosterona). Em 5 a 7 dias, o volume do líquido corporal terá aumentado o suficiente para elevar a pressão arterial até seu novo nível estável. O valor quantitativo desse novo nível da pressão é determinado pelo grau de constrição da artéria renal, isto é, a pressão aórtica deve se elevar até que a pressão arterial distai ao constritor seja suficiente para provocar débito urinário normal. Cenário similar ocorre em pacientes com estenose da artéria renal de único rim remanescente, como ocorre algumas vezes após a pessoa receber um rim transplantado. Também, aumentos funcionais ou fisiológicos da resistência de arteríolas renais, devido à aterosclerose ou aos níveis excessivos de vasoconstritores, podem causar hipertensão pelos mesmos mecanismos da constrição da principal artéria renal. Hipertensão de Goldblatt de "Dois Rins". A hipertensão também pode ocorrer quando a artéria de apenas um rim é comprimida, enquanto a artéria do outro rim é mantida normal. Essa hipertensão resulta do seguinte mecanismo: o rim com constritor secreta renina e também retém sal e água, devido à diminuição de sua pressão arterial renal. Então, o rim oposto “normal” retém sal e água devido à renina produzida pelo rim isquêmico. Essa renina provoca a formação de angiotensina II e de aldosterona, que circulam para o rim oposto e provocam retenção de sal e água. Assim, ambos os rins por diferentes razões passam a ser retentores de sal e de água, com o consequente desenvolvimento de hipertensão. A contrapartida clínica da hipertensão de Goldblatt de “dois rins” ocorre quando existe estenose de uma só artéria renal, por exemplo causada por aterosclerose em pessoa que tem dois rins. Hipertensão Causada por Rins Doentes que Se- cretam Cronicamente Renina. Com frequência, áreas focais em um ou em ambos os rins ficam patologicamente isquêmicas devido a constrições vasculares locais, enquanto outras áreas dos rins estão normais. Quando isso ocorre, efeitos quase idênticos aos da hipertensão de Goldblatt de dois rins se desenvolvem, isto é, o tecido focal isquêmico secreta renina, que, por sua vez, agindo por meio da formação de angiotensina II, faz com que a massa renal remanescente retenha sal e água. De fato, uma das causas mais comuns de hipertensão renal especialmente em pessoas idosas é essa doença renal isquê- mica focal. Outros Tipos de Hipertensão Causados por Combinações de Sobrecarga de Volume e de Vasoconstrição Hipertensão na Parte Superior do Corpo Causada por Coarc- tação da Aorta. Um dentre alguns milhares de bebês nasce com constrição ou bloqueio patológico da aorta em ponto distai aos ramos arteriais aórticos para a cabeça e braços, mas proximal às artérias renais, condição chamada de coarc- tação da aorta. Quando isso ocorre, o fluxo sanguíneo para a parte inferior do corpo é transportado por múltiplas pequenas artérias colaterais na parede corporal com muita resistência vascular entre a aorta superior e a inferior. Como consequência, a pressão arterial na parte superior do corpo pode ser 40% a 50% mais alta que na parte inferior. O mecanismo para essa hipertensão da parte superior do corpo é quase idêntico ao da hipertensão de Goldblatt de rim único, isto é, quando um constritor é posicionado na aorta acima das artérias renais, a pressão sanguínea em ambos os rins inicialmente cai, a renina é secretada, angiotensina e aldosterona são formadas e ocorre hipertensão na parte superior do corpo. A pressão arterial na parte inferior do corpo, no nível dos rins, aumenta quase aproximadamente até a normal, mas a alta pressão persiste na parte superior. Os rins não estão mais isquêmicos, assim a secreção de renina e a formação de angiotensina e de aldosterona retornam ao normal. Assim, na coarctação da aorta, a pressão arterial na parte inferior do corpo é, em geral, quase normal, enquanto a pressão na parte superior é muito mais elevada que o normal. O Papel da Autorregulação na Hipertensão Causada pela Coarctação da Aorta. Característica significativa da hipertensão causada pela coarctação da aorta é o fato de que o fluxo sanguíneo para os braços, onde a pressão pode ser 40% a 60% acima da normal, é praticamente normal. Além disso, o fluxo sanguíneo pelas pernas, onde a pressão não está elevada também é quase exatamente a normal. Como isso é possível com a pressão na parte superior do corpo 40% a 60% maior que na parte inferior? A resposta não está em possíveis diferenças das substâncias vasoconstritoras no sangue das duas partes do corpo porque o mesmo sangue flui por ambas as áreas. Da mesma forma, o sistema nervoso inerva as duas áreas da circulação de modo similar, assim não existem razões para se acreditar que ocorram diferenças no controle nervoso dos vasos sanguíneos. A única resposta razoável é que a autorregulação a longo prazo se desenvolve de modo tão completo que os mecanismos de controle do fluxo sanguíneo compensam quase 100% das diferenças de pressão. O resultado é que, tanto na área de alta pressão, quanto na de baixa pressão, o fluxo sanguíneo local é controlado quase precisamente de acordo com as necessidades teciduais e não de acordo com o nível da pressão. A importância dessas observações consiste em demonstrar quão completo pode ser o processo de autorregulação a longo prazo. Hipertensão na Pré-eclâmpsia (Toxemia Gravídica). Aproximadamente 5% a 10% das mulheres grávidas desenvolvem a síndrome conhecida como pré-eclâmpsia (chamada também 236
  • 259. Capítulo 19 O Papel dos Rins no Controle a Longo Prazo da Pressão Arterial e na Hipertensão toxemia gravídica). Uma das manifestações da pré-eclâmp- sia é a hipertensão que, em geral, desaparece após o parto. Embora as causas precisas da pré-eclâmpsia não sejam completamente compreendidas, acredita-se que a isquemia da placenta e a liberação subsequente de fatores tóxicos tenham participação na geração de muitas das manifestações desse distúrbio, incluindo a hipertensão materna. As substâncias liberadas pela placenta isquêmica, por sua vez, provocam a disfunção de células endoteliais vasculares em todo o corpo, incluindo os vasos sanguíneos renais. Essa disfunção endo- telial diminui a secreção de óxido nítrico e de outras substâncias vasodilatadoras, causando vasoconstrição, redução da intensidade de filtração de líquido pelos glomérulos para os túbulos renais, comprometimento da natriurese renal por pressão e desenvolvimento de hipertensão. Outra anormalidade patológica, capaz de contribuir para a hipertensão, na pré-eclâmpsia é o espessamento das membranas glomerulares renais (talvez causado por processo autoimune) que também reduz a filtração glomerular de líquido. Por motivos óbvios, a pressão arterial necessária para a formação normal de urina fica elevada, e o nível da pressão arterial a longo prazo fica elevado de forma correspondente. Essas pacientes têm maior tendência a apresentar graus mais elevados de hipertensão quando ingerem quantidade excessiva de sal. Hipertensão Neurogênica. A hipertensão neurogênica aguda pode ser causada pela forte estimulação do sistema nervoso simpático. Por exemplo, quando a pessoa se torna excitada por qualquer razão ou durante estados de ansiedade, o sistema simpático fica excessivamente ativo, resultando em vasoconstrição periférica generalizada e hipertensão aguda. Hipertensão Neurogênica Aguda Causada pela Secção dos Nervos Barorreceptores. Ocorre outro tipo de hipertensão neurogênica aguda quando os nervos que partem dos barorreceptores são cortados ou quando o trato solitário no bulbo é destruído bilateralmente (essa é a área onde os nervos dos barorreceptores carotídeos e aórticos se conectam com o tronco cerebral). A interrupção súbita dos sinais nervosos normais que partem dos barorreceptores tem o mesmo efeito sobre os mecanismos nervosos de controle da pressão que a redução súbita da pressão arterial na aorta e na carótida, isto é, a perda do efeito inibitório normal sobre o centro vasomotor causada pelos sinais nervosos normais dos barorreceptores permite que o centro vasomotor fique subitamente muito ativo e a pressão arterial média aumente de 100 mmHg para até 160 mmHg. A pressão se normaliza após 2 dias porque a resposta do centro vasomotor, à ausência dos sinais dos barorreceptores, se dissipa, o que é chamado de “reajuste” central do mecanismo de controle barorreceptor da pressão. Assim, a hipertensão neurogênica causada pela secção dos nervos barorreceptores é em grande parte do tipo agudo e não crônico. Causas Genéticas da Hipertensão. Observou-se hipertensão hereditária espontânea em diversos tipos de animais, incluindo diferentes cepas de ratos, coelhos e uma de cães. Na cepa de ratos mais estudada, a cepa Okamoto, espontaneamente hipertensa, existem evidências de que no desenvolvimento precoce da hipertensão o sistema nervoso simpático está consideravelmente mais ativo que nos ratos normais. Nos estágios finais desse tipo de hipertensão, foram notadas alterações estruturais nos néfrons dos rins: (1) aumento da resistência arterial renal pré-glomerular e (2) redução da permeabilidade das membranas glomerulares. Essas alterações estruturais também poderíam cont